
ABC do McFly
História por Camisss | Revisão por Carol Mello
“ As palavras ficam presas na minha mente. Desculpe por eu não ter tempo para sentir como eu me sinto, porque, desde o primeiro dia que você entrou na minha vida, meu tempo gira em torno de você; mas então eu preciso de sua voz... Como a chave para destrancar todo o amor que está preso em mim. Então me diga quando é hora de dizer eu te amo. Tudo o que eu quero é que você compreenda que quando eu pegar na sua mão é porque eu quero. Todos nós nascemos em um mundo de dúvidas, mas não há dúvida. Eu descobri: eu te amo. E eu me sinto solitário por todos os fracassados que nunca vão ter tempo para dizer o que realmente está em suas mentes. Em vez disso, eles apenas escondem. No entanto, eles nunca vão ter alguém como você para guardá-los e ajudar ao longo do caminho... ou dizer-lhes quando é hora de dizer eu te amo. Então me diga quando é hora de dizer eu te amo.”
- Green Day; When it’s time.
A
All about you
Eu procurei na minha vasta mente, durante vários dias, muitas maneiras de como começar a contar essa história. Diante de várias formas de relatar todos os acontecimentos mais emocionantes, mais sórdidos, mais depressivos, não existia nenhuma que pudesse realmente expressar da maneira que eu gostaria. Não existiam formas de narrar de uma maneira positiva ou, ao menos, menos depressiva.
Eu não era um garoto negligente. Sempre me orgulhei do meu jeito de ser. Previsível, comum, simples. Mas esperto. Não esperto numa maneira inteligente de se dizer. Eu não tirava as notas mais altas, e nem gostaria que assim fosse. A meu ver, notas são apenas notas. Coisas passageiras que ninguém se lembrará no futuro – a não ser que você seja Albert Einstein. Não, eu sempre fui mediano. Meu boletim tinha notas vermelhas na maioria das vezes, e quando não tinha, eu certamente pelejava por um ponto a mais para o professor.
Mas eu sempre fui negligente quanto às injúrias do amor.
Uma das coisas que eu sempre procurara sentimentalmente era evitar quaisquer tipos de paixões. As garotas passavam por mim por, no máximo, duas vezes. Eu não gostaria de coisas sérias. Eu não me dispunha a me apaixonar. Apesar de ser um garotinho qualquer no colégio onde estudei, eu era disputado. Não era nada como Ashton Kutcher. Não era um comelão irresistível como ele – não que eu o ache irresistível, que fique claro -, mas eu tinha as minhas “fãs”. E, graças a uma dessas “fãs”, eu não tive meu precioso intocado por muito tempo.
Mas as injúrias do amor costumam aparecer nas horas mais inapropriadas.
Talvez meus relatos não sejam de agrado a todos. Talvez pareça submisso demais, injusto demais, paixonite demais. Mas foi como tudo aconteceu. Foi como tudo começou. E é como tudo irei contar.
Éramos jovens. Adolescentes descuidados e abobalhados. Normais, como qualquer outro jovem de nossa idade. Não consumíamos drogas, exceto a velha e boa cerveja nos churrascos na casa de um dos caras, ou uma boa vodka, tequila e afins quando conseguíamos botar a mão na garrafa. Não éramos alcoólatras, tampouco. Eu não era nerd, como já citei. Não era burro, não era nada. Eu era um aluno do terceiro ano do ensino médio, preparando-me – ou fingindo preparar-me – para ser aceito em alguma universidade. O meu histórico escolar não me garantiria nenhuma das universidades que meus pais tanto sonhavam em me ver ingressar.
Eu não tinha uma banda, não era um garoto popular e não queria ser. Eu era expressamente feliz com os três melhores amigos que poderia ter, e completamente satisfeito com a parte de garotas que tinha para mim. Eu era bem amado, bem cuidado e bem amigo.
poderia discordar disso, mas, ainda assim, eu tinha certeza de como era.
— Onde pensa que vai?
Virei meu pescoço dolorosamente. Um torcicolo maldito havia me pego bem naquela manhã. estava parado atrás de mim, vestindo a usual bermuda escura, com uma camiseta pólo cinza. A expressão em seu rosto denunciava aflição, confusão. Seus olhos denunciavam seu nervosismo contido. Ele precisava explodir, e eu havia sido o escolhido para tomar a bomba.
Como sempre fazíamos um com o outro.
— Eu iria para o banheiro, mas já que precisa de mim, eu posso esperar. — respondi. quase urrou em agradecimento ao ver-me andar em sua direção. Passei um dos meus braços por cima de seu ombro na forma mais animada possível, fingindo um positivismo inexistente. — Vamos, me diga o que aconteceu.
O arrastei para perto da escada que nos levaria aos blocos B, C, D e E. O bloco A era o pátio central, cantina e área externa. Atravessando essa área, um portão manual – é claro – de barras de ferro nos daria passagem às quadras. A escada onde nos encontrávamos ficava completamente desabitada nos tempos livres ou nos intervalos. Todos os alunos preferiam ficar embaixo do sol, comendo, ou ouvindo qualquer coisa no pátio central.
Encostei-me à parede e fez o mesmo, porém ficando com apenas um dos ombros encostado.
— , você é meu amigo há anos... — ele começou, passando a mão livre pelos cabelos e desgrenhando-os. Eu rolei os olhos, assentindo. — Você é o meu melhor amigo e sabe exatamente todas as minhas necessidades. E sabe me aconselhar muito bem.
Eu ri.
— Certo, talvez você não aconselhe muito bem. Mas alguns conselhos fazem sentido. — ele admitiu. Eu assenti novamente, esperando que ele continuasse. quase deu um grito histérico feito uma garotinha, tamanha era sua frustração. — Cara, você precisa fazer a minha fita com a Kate!
— A Kate? — eu ergui a sobrancelha, quase fazendo-a se fundir ao meu cabelo. assentiu desesperado sem olhar em meus olhos. — , a Kate?! Sério?!
— Ora, , não venha com essa cara de “não-acredito-que-você-quer-alguém-como-ela”. Não se esqueça que você já gostou muito de tocar as cordas daquele violão! — eu ri com sua última frase, mas procurei fingir não entender o verdadeiro sentido delas. — Você sabe que ela sabe o que fazer e como fazer.
— Você realmente está tão desesperado assim por sexo?
— E você não está? Não fica um segundo sem comer a com os olhos.
Nós nos calamos de repente. Eu baixei meu olhar para os All Stars surrados que usava, enquanto voltava a bagunçar o cabelo desconfortavelmente. Foi o momento exato em que passou por nós, rindo com Kate ao seu lado, conversando sobre algo que envolvia o próximo show do Green Day. olhou aflito para mim e eu fiz o mesmo. Ambos agradecemos mentalmente por aquele silêncio constrangedor ter vindo no momento em que as duas passaram.
— Pois é... — murmurou quando as garotas se afastaram o suficiente para não nos ouvir. Eu soltei um suspiro longo e pesado, como se tivesse prendido o ar em meus pulmões a partir do momento em que ouvi o nome dela. — Foi mal. — falou por fim.
Eu soltei um longo suspiro antes de dar de ombros. me observava como se eu pudesse explodir a qualquer instante. Acho que meu melhor amigo me imaginava aos prantos, chorando ensandecidamente por causa de . Deveria ter-lhe passado, na mente, diversas formas de como eu reagiria àquele encontro estranho. Eu não o culpava, afinal. Todas as vezes em que eu e acabávamos por cruzar o caminho um do outro, eu acabava tenso. Talvez eu realmente tivesse caído aos prantos se o acontecido tivesse sido alguns dias, ou meses, atrás. O fato é que eu era um novo homem.
Ou talvez eu preferisse pensar dessa maneira.
— Deixa isso pra lá. — respondi simplesmente. arqueou uma sobrancelha. — Eu vou tentar conseguir a Kate para você.
— Sério, cara? — ele perguntou a mim em seu melhor jeito “você é o melhor, dude”. Eu apenas assenti. — Ótimo, então... Vamos sair daqui.
Eu acho que ele simplesmente não gostaria de tocar no assunto que me machucara por tanto tempo. Digamos que, dentre todas as possibilidades de eu me apaixonar, escolhi aquela com a qual nunca deveria ter trocado um simples “Oi”. Eu me lembro perfeitamente bem de quando se matriculou em nosso colégio. Nós cursávamos o primeiro ano do Ensino Médio quando, como se caísse de pára-quedas, a garota aterrissou no meio do ano em nossa sala de aula. Lembro-me perfeitamente de suas vestes no primeiro dia em que a vi: uma calça jeans em tom preto, porém tão desbotado que poderia ser confundido a uma cinza qualquer. Sua camiseta era rasgada na gola, de modo a parecer completamente antiga, e levava a estampa do Nirvana na região dos seios. Os cabelos estavam soltos de uma forma tão rebelde e despreocupada que atraía inveja devido à perfeição.
Ela havia sido a atração principal para os meus olhos.
não estudava comigo naquela época. Devido à re-matrícula, havíamos caído em classes diferentes. Isso não era um problema para mim, já que eu tive a sorte de ter ao meu lado durante todo aquele ano. Quando parou defronte a todos no pequeno palquinho de dez centímetros na frente da sala de aula, eu precisei olhá-lo para checar se eu era o único que levava no rosto aquela expressão vassala. Eu me senti como um bonequinho de pano que estaria ali para qualquer coisa que aquela garota quisesse. E, ao olhar para o rosto de meu amigo, percebi que ele se sentira da mesma maneira.
— Você pode se apresentar. — o professor de História da Arte havia avisado. A garota não pareceu nem um pouco tímida em lançar o seu melhor sorriso galanteador ao homem e a todos os demais.
— . — sua voz encantadora saiu, deixando todos ainda mais paralisados. Se eu não soubesse que Harry Potter é apenas uma ficção, um mundo alternativo, eu diria que era, sem sombra de dúvidas, uma veela¹.
havia sido o comentário da semana. Não só da semana, como do mês, do ano. Era o alvo dos comentários até mesmo hoje em dia. Por onde passávamos, apenas ouvíamos “ é linda, não acha? É estranho que ela tenha vindo para cá no meio do ano letivo!” ou “Ela parece uma miragem aos olhos...”. Eram sempre as mesmas falas, as mesmas expressões assustadas sobre o que ela era, de onde havia vindo e o motivo da vinda. Mas era completamente misteriosa.
Eu consigo me lembrar exatamente do dia em que falei com ela pela primeira vez.
Estávamos sentados, eu e os caras, na área descoberta do pátio da escola. Havia uma mesa feita de cimento, ou algum material parecido, e nós estávamos sentados nela. Meus pés batucavam o assento no ritmo da música que eu ouvia, quando a vi vindo em minha direção. No mesmo instante, arranquei os fones de ouvido, fingindo tentar ouvir o que meus amigos diziam, mas, na verdade, me preparando para falar com ela caso ela se aproximasse mais.
E ela se aproximou.
— Oi, er... ? — ela perguntou com um timbre ousado na voz. Eu arregalei meus olhos em saber que ela sabia meu nome, mas assenti em confirmação. — Hm... Pediram para avisar que a diretora quer falar com você.
E então ela me deu as costas e marchou para o pátio coberto, indo se infiltrar na rodinha de seguidoras que ela conseguira em menos de um dia.
Há várias lembranças que rondam minha cabeça desde o primeiro dia em que nos vimos. Há três anos, nunca trocamos mais do que algumas poucas palavras. Isso é, em minha opinião, um tanto quanto preocupante. Quero dizer, seria totalmente aceitável eu me encontrar perdidamente apaixonado por se nós, ao menos, conversássemos. Mas o fato é que nós não trocamos frases inteiras desde sempre. Raramente nos cumprimentamos com “ois” ou “tchaus”.
É aí que entra a preocupação dos meus queridos e insubstituíveis amigos.
Eu e estávamos, finalmente, na sala de aula. Esse ano nós conseguimos, graças aos telefonemas de nossas mães, sermos matriculados na mesma classe. Eu não poderia me ver mais grato, é claro. Eu odiaria ter de passar mais um ano separado de algum deles. O ano em que estudei com havia sido ótimo, tal como foi com . Mas nada superava nossa diversão quando estudávamos juntos.
e estavam sentados nas carteiras ao fundo da sala, onde sentávamos habitualmente. Como de costume, a sala estava completamente dividida em todos os seus grupos. Na frente, os nerds. Ao fundo, os desencanados (e nós). No meio, os bagunceiros e líderes de torcida. E, abrindo uma nova direção, estava ela. e suas três amigas sentadas tão coladas ao pequeno palco dos professores que, se não as conhecesse há três anos, diria que estavam ali apenas para admirar o professor de História da Arte.
Eu joguei minha mochila no chão ao lado da minha carteira e, em seguida, caí de bunda no assento, soltando um suspiro cansado e desanimado. Meu olhar buscou rapidamente os cabelos rebeldes e maravilhosos de , mirando-os como se fossem uma das sete maravilhas do mundo.
— Você ainda fica assim por ela, ? — ouvi perguntar, apoiando um queixo na mão e o cotovelo na mesa enquanto seu olhar oscilava de para mim. — Quero dizer, faz três anos... E nada aconteceu.
— Não que eu tenha tentado muita coisa também, não é, ? — indaguei.
Meus amigos se juntaram ao meu redor. procurava manter uma expressão neutra, mas eu sabia que ele observava Kate do mesmo jeito que eu estava observando . e , no entanto, observavam-nas como se fossem alienígenas.
— Elas são só garotas problemáticas, mate. — ele voltou a dizer.
— Eu sei. — suspirei.
Nossa rápida observação foi contida no instante em que o professor de História da Arte adentrou a sala. Fingindo nos importarmos muito com sua explicação da matéria completamente inútil, nos recostamos cada um em sua cadeira e nos entretemos de nossas próprias maneiras. Eu sabia que estaria fazendo rabiscos de qualquer coisa possível de se rabiscar em qualquer coisa possível de se rabiscar. estaria olhando para o teto, o ventilador rodando e o ar tremendo. , por sua vez, estaria roendo as unhas ou cutucando sua própria barriga.
Eu estava fazendo o que de melhor sabia fazer: observar .
Eu sei. Eu pareço um obsessivo quando falo assim. Mas minha visão disso tudo é apenas uma e não mudará até o final dessa narrativa. Por mais que eu pareça – e tenha o perfil de – um stalker, eu não poderia, nem se quisesse, deixar de observar aquela garota. Ela era a criaturazinha mais apaixonante que alguém poderia botar os olhos. Eu não era perito em sentimentos, até porque nunca havia me apaixonado. Mas, se havia algo que eu tivesse aprendido desde que conhecera , era que aquela garota arrancava suspiros por onde passava.
Ao menos comigo era assim.
Eu tinha quase certeza de que ela era, de fato, uma veela.
A forma como seus cabelos se balançava maravilhosamente conforme ela se mexia, o modo como seus fios reluziam à luz da sala de aula... O brilho excepcional que seu olhar adquiria quando ela recebia a notícia que alguma banda que gostava estaria em Londres para um show, ou quando ficava sabendo sobre qualquer outra coisa que a deixasse feliz... O sorriso que ela abrangia nos lábios quando estava animada demais com as amigas... O som de sua risada ecoando pelos meus ouvidos quando alguém contava alguma piada ou quando ela simplesmente tinha vontade de gargalhar... A forma como ela se curvava minimamente sobre a carteira para poder fazer suas anotações no caderno impecavelmente organizado... A mania de enrolar uma madeixa de cabelo no dedo indicador quando se concentrava em algo que estava fazendo... O modo como seu calcanhar se chocava ao chão diversas vezes quando ela estava entediada... O jeito com que arranhava as coxas como se estivesse tocando uma guitarra quando ouvia música...
Tudo... Tudo naquela maldita garota era malditamente perfeito.
Foi por isso que, quando o sinal tocou nos liberando para cinco minutos livres antes de uma próxima aula começar, os caras me prenderam no canto da sala, observando-me com aquele olhar peculiar que, eu sabia, significava que eu deveria correr.
— Vocês estão me assustando... — eu murmurei, arqueando a sobrancelha. Os três trocaram um olhar rápido antes de resolver falar.
— Cara... Você tem um sério problema com a .
— Eu tenho?
— Sim. — responderam em uníssono.
— Não tenho não. — neguei. riu nasalado.
— É claro que você tem. Não consegue arrancar os malditos olhos dela.
Eu fiquei sem resposta, sabendo que aquilo era verdade.
— Tudo bem, o que sugerem para resolver o meu “sério problema”? — perguntei ironicamente. O olhar trocado entre meus melhores amigos voltou a me assustar.
— Temos algo a lhe propor. — começou, sorrindo ladino. — Esse é o seu último ano aqui. Talvez seja a hora de você tentar tomar alguma atitude com .
— O que você sugere, sr. Eu-sou-o-mestre-com-as-mulheres?
— O que eu sugiro? — ele fez uma pausa para trocar olhares com os outros novamente. Deu uma risada macabra antes de continuar — Você vai chamar para jantar na sua casa hoje à noite. — ele disse como se me cumprimentasse.
— Eu vou o que? — ri.
— Agora.
Veela¹: São criaturas femininas mágicas no mundo alternativo de Hogwarts. Têm poder de enfeitiçar os homens por meio de uma dança sedutora.
B
Broccoli
Meus olhos se arregalaram um pouco, mas eu procurei esconder esse fato dos meus amigos. Eles continuavam me olhando com aquela cara de quem está falando sério, de modo a me assustar ainda mais.
Quero dizer, eles não esperavam que eu realmente fosse falar com e a chamasse para sair, não é?
É, eles esperavam.
— Vocês só podem estar brincando. — falei por fim. Cruzei os braços, olhando fixamente para eles, deixando meus lábios brincarem com um sorriso sarcástico. — Ela é ! Ela jamais aceitaria sair com alguém como eu.
— Realmente, jamais aceitaria. No entanto, se você não fizer isso, nunca vai tirá-la da cabeça. — deu de ombros. Eu o olhei incredulamente.
— Você só pode estar brincando. Sério! — falei, rindo sem humor algum. — Nós mal nos falamos!
— É aí que está! — exclamou , apontando para mim com a palma — Vocês mal se falam, mas isso te impediu de se apaixonar? — arqueou a sobrancelha, desafiando-me.
— São situações completamente diferentes, dude! — eu exclamei, indignado. — Eu não posso controlar meu coração sobre quem ele vai escolher se apaixonar! — eu gesticulava enquanto falava, sabendo que, aos olhos dos outros, deveria estar parecendo um louco.
— Você tem noção do quão gay isso soou? — perguntou, torcendo os lábios.
— Dane-se, ! — eu exclamei. — Não importa quão gay tenha soado, é a verdade e você... — apontei acusadoramente para ele — Sabe muito bem disso.
— Eu não sei de nada. — ele falou simplesmente — Nunca me apaixonei. Já você, está aí, todo bobo, como se não existisse nada no mundo além daquela garota!
— Vocês deveriam me apoiar e me ajudar... — eu murmurei.
— Você quer apoio e ajuda melhor? — interveio, olhando-me com seu olhar mais assustador. — Nós estamos aqui, obrigando você a chamá-la para um jantar... E você só reclama!
— Porque vocês estão me obrigando! Eu não posso convidá-la para sair comigo quando uma resposta negativa tem quase cem por cento de chances de acontecer!
— ... — colocou sua mão sobre minha bochecha, acariciando-a estranhamente. Eu ergui uma sobrancelha, assim como e , o que o fez recuar rapidamente. Ele pigarreou antes de continuar. — Você sabe que nós estamos fazendo isso para o seu bem. Pense: se aceitar sair com você... Você tem uma chance com ela! — ele ergueu a mão fechada no ar como se comemorasse. — Agora, se ela recusar... Então você sabe que tem que esquecê-la.
Eu não tinha saída. Meus amigos estavam certos, apesar de tudo. No entanto, havia algo mais que eu poderia tentar fazer...
— Podemos arrumar um encontro duplo, então. — falei, lançando um olhar significativo para . Ele quase me queimou vivo com a força da mente.
— Nada disso. — ele negou rapidamente, fazendo o máximo para não deixar nada passar notoriamente por e . — Será a sua noite com . Serão só vocês dois. Agora vá chamá-la para jantar na sua casa.
— Tudo bem, tudo bem. — eu respondi, olhando suplicantemente para cada um deles. — Mas não a chamarei agora. No fim da aula, quando ela estiver sozinha e sem as amigas.
— Mas não passa de hoje, . — advertiu. Eu assenti, torcendo para que algo me ajudasse a sair daquela situação.
Por mais que eu quisesse adiar aquilo, eu sabia que não conseguiria. Meus amigos não me deixariam em paz até que eu chamasse para um jantar. A única coisa que se passava pela minha cabeça era o quão estúpido eu pareceria diante de todos quando ela dissesse um “não” na minha cara. Eu confesso que estava esperando pelo pior. Mas, ora, o que você esperaria na minha situação? A garota estuda no meu colégio há três anos e devemos ter nos falado no máximo dez vezes.
Tudo bem, isso é um exagero. Mas mesmo assim, não mudaria o fato de que eu provavelmente tomaria um não no meio do meu orgulho.
Eu ouvi o sinal tocar novamente, e, pela primeira vez na minha vida escolar, agradeci pela aula estar recomeçando. Eu estava me sentindo observado demais pelos caras, e não estava a fim de parecer uma menininha virgem na frente deles. Eu sabia que, quer eu queira, quer não, eles estariam escondidos em algum lugar quando eu fosse falar com . Eu sabia que tomaria um belíssimo sermão se não fizesse o que eles queriam. Eu também sabia que eles estariam ali comigo caso eu precisasse. Eu sabia que, a partir do momento que aquele “não” fosse proferido, eles estariam ali para me abraçar e me consolar. Assim como eu sabia que, se ela dissesse “sim” – claramente, as chances de isso acontecer eram quase nulas -, eles estariam ali para pular no meu ombro, bagunçar meu cabelo e apertar minha bunda gritando “Olha só quem é o garanhão!”.
O professor de literatura era, definitivamente, o meu preferido. Não, eu não cursaria Letras no próximo ano. O que eu tinha em mente era, sem dúvida alguma, uma faculdade mais voltada para exatas. Fórmulas e números não são capazes de confundir. São exatas e diretas, com apenas uma solução. Humanas têm várias respostas, várias saídas e várias conclusões. Isso poderia me assustar mais do que qualquer fórmula matemática. No entanto, o professor de literatura – Marcus era seu nome – era uma ótima pessoa. Carismático e genial, fora ele quem me ajudara com minha decisão universitária. O cara era um romântico assumido, não negava a ninguém todas as loucuras que já havia feito por amor.
Era por isso que, quando a aula terminasse, eu estaria falando com ele.
Eu lancei um olhar para , que apenas riu nasalado e rolou os olhos. Era um maldito, sem dúvidas. Ele sabia muito bem o quanto eu ficaria nervoso em falar com sobre o maldito jantar. Por mais que eu fosse experiente com garotas, eu não era experiente com garotas por quem eu estava completamente apaixonado.
Eu vaguei pela minha mente durante toda a aula. Me perdi, novamente, nos movimentos que fazia. Eu sabia o quão patético era tudo aquilo. Amar uma garota tão intensamente ao ponto de parecer um retardado virgem. Eu sabia que aparentava isso para qualquer um que não me conhecesse. Talvez aparentasse isso até para ela. Eu não sabia como havia chegado àquele ponto. Digo, há três anos, quando a vi, foi inevitável não me sentir hipnotizado. Era “carne nova no pedaço”, como disse . E quando nos falamos a primeira vez, com toda aquela coisa de “a diretora quer te ver”, foi inevitável não ficar meio bobo em ouvir a voz dela sendo proferida diretamente a mim. Mas tudo passou dos limites quando eu comecei a me sentir um bobo com qualquer atitude que ela tomasse, não é? Quero dizer, a garota era uma megera!
Tudo bem, ela não era exatamente uma megera. Digo, sim, ela era. Mas não comigo, exatamente...
era popular. Aquele tipo de garota fresca e nojentinha que vemos em todos os filmes americanos. A que sempre morre primeiro em filmes de terror, porque é burra demais para fazer qualquer coisa fora sexo. Bem, essa era . A fresca nojentinha que morreria primeiro. Ela e suas amigas, Joanna, Lindsay e Kate. As quatro, quando juntas, eram esnobes ao extremo. Na verdade, de qualquer maneira eram esnobes. O que, mais uma vez, reforçava a dúvida em minha mente: fora beleza e algum poder mágico especial, por que eu era apaixonado naquela megera?
Eram o tipo de garotas que, se nada estivesse ao agrado delas, nada aconteceria. Eram as “famosinhas” de todo o colégio. O tipo de garota que você deseja longe, mas, inevitavelmente, sente-se atraído pela beleza exuberante. Era exatamente como eu me sentia. Eu odiava seu jeito abusivo, mas a amava quando era dócil com os outros.
Era uma adaga de dois gumes. Em uma ponta, o meu coração era a mira. Na outra ponta, a minha reputação.
Eu me vi sozinho com o professor quando toda a sala saiu para o pátio. Tomando fôlego e acenando com a cabeça para , e , me dirigi até onde o homem se encontrava e pigarreei, a fim de chamar sua atenção. Ele me olhou curiosamente antes de sorrir amigável.
— Oh, . Você estava um pouco disperso na aula de hoje. — ele disse tranquilamente. Eu dei um sorriso amarelo.
— Me desculpe por isso, Marcus. Eu, hm... — fiz uma pausa, pensando no que, exatamente, eu poderia perguntar a ele. — Eu acho que preciso de uma ajudinha sua.
Ele voltou a olhar para mim, agora mais sério do que nunca. Apontou uma carteira na frente da sala (que seria de Katie ou Joan) e sentou-se na do lado, virando o corpo de frente para mim.
— Pode perguntar. — ele disse paternalmente. Bem, por mais estranho que isso possa ser, Marcus era um ótimo cara para aconselhar. Eu o adorava por isso.
— Bem... — comecei, tentando buscar as palavras em minha mente. — Tem essa garota... Eu gosto dela desde quando entrou no colégio...
— . — ele me cortou. Eu o olhei arregalado, perguntando-me como ele sabia disso. Ele pareceu ler minha mente. — Você não é o primeiro que me vem dizer que gosta de uma garota desde que ela entrou no colégio. Dentre todos que me disseram algo assim, noventa e nove por cento se referiam a . — ele explicou. — Estou certo?
— É, está. — confessei desconfortavelmente. — Você deve saber, então, que ela é uma garota muito difícil e esnobe.
— Oh, não, não! — fui cortado novamente. Arqueei a sobrancelha para ele. — não é esnobe. Ela só é fechada. Só se solta realmente quando tem intimidade com a pessoa. Isso pode, sim, aparentar uma atitude esnobe, mas garanto que não é. — ele explicou novamente. — Você deveria tentar conhecê-la melhor, .
— Esse é o problema, Marcus. Digamos que, hm... Meus amigos me obrigaram a chamá-la para jantar comigo essa noite. Mas eu não sei o que fazer ou como fazer. Quero dizer, é óbvio que ela dirá não.
— Como você pode ter tanta certeza que ela dirá não? — Marcus perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Bem... Ela é ! Por que ela sairia com ?
— Você quer sair com ela, ?
— Não. Digo, é claro que quero! Mas eu tenho medo de ser recusado. — admiti. — Você poderia... Não sei, talvez... Me dar alguma dica?
— Faça com o coração. — ele disse simplesmente, dando de ombros. Eu o olhei estranhamente, esperando pelo resto da frase. — É só isso. — ele afirmou. — Se quer sair com ela, chame-a com o coração. Mostre que se importe. E se ela recusar... Bem, você só precisa conquistá-la.
— Como eu poderia... cCnquistá-la?
— ! — ele exclamou, indignado. — Por Deus, você nunca esteve com uma mulher antes? — eu abri a boca para respondê-lo, mas ele interveio. — Eu não quero realmente saber isso. Continuando... Mostre a ela que se importa. Seduza-a, conquiste-a. Mas, acima de tudo, seja você mesmo. Faça isso com o coração e se saíra muitíssimo bem.
Certo. Fazer com o coração. Chamá-la para sair e, se for recusado, conquistá-la com o coração.
Esse cara está ficando louco?
Quando o sinal para a última aula tocou, eu senti todas as minhas vísceras se revirarem. Era inevitável me imaginar em uma espécie maluca de montanha-russa. Eu sabia que agora seria a hora em que eu deixaria de ser um garoto respeitável (canalha, mas respeitável) e passaria a ser o garoto mais idiota e ridicularizado de todo o colégio. Tomei ar para os pulmões, sentindo-os se inflarem devido ao tanto que puxei e, em uma atitude digna, fui até onde se encontrava.
A garota permaneceu em silêncio, guardando seus pertences na sua bolsa enquanto eu apenas a fitava. Minhas mãos estavam escondidas dentro dos bolsos frontais da minha calça, onde meus dedos se entrelaçavam em uma espécie de figa. Ela parecia não me notar ali e, para minha sorte, suas amigas também não pareciam me notar, já que saíam da classe conversando em um volume altíssimo. Eu me balancei para frente e para trás, como se fosse um João-bobo. Olhei novamente ao redor, percebendo, agora, que estávamos os dois sozinhos na classe. Quando pus meu olhar nela novamente, percebi que ela me encarava duvidosamente.
— Sim? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas maravilhosamente delineadas para mim. Eu podia ver o olhar de desdém dela. Engoli em seco, perguntando-me se deveria levar aquilo adiante. — Precisa de alguma coisa, ?
Eu senti algo estranho no meu coração quando meu apelido saiu de forma graciosa por seus lábios.
— Na verdade, sim. — eu disse sem rodeios. Seria melhor se terminasse logo com aquilo, seja com resposta negativa ou positiva. — Eu sei que pode parecer um tanto estranho isso que vou pedir e tudo o mais, até porque, desde quando você entrou no colégio, nós mal trocamos dez falas, e...
— , seja direto, por favor. — ela rolou os olhos impacientemente.
— Bem, tá certo. Eu... — eu fiz uma pausa. Tirei minhas mãos dos bolsos, entrelaçando-as nervosamente em frente ao meu corpo. Meus dedões faziam movimentos circulares ao redor do seu correspondente, enquanto eu tentava me concentrar nas palavras que diria a ela. Nada me vinha em mente. — Oh, ... — choraminguei, arrependendo-me ao ver a dúvida voltar aos seus olhos. — Certo. — pigarreei. — Eu queria saber se... Se em jantar casa noite essa comigo quer você.
Eu olhei para ela, esperançoso e patético. Seus olhos demonstravam uma dúvida diferente da de antes. Então eu percebi que não havia dito nada com nada.
— Desculpe, , mas eu não entendi o que disse. Pode repetir? — ela pediu, voltando a guardar suas coisas na bolsa, certa de que, o que quer que eu fosse falar, não era de tanta importância assim. Eu tomei fôlego novamente.
Me sentia completamente patético.
— Eu queria saber se você quer jantar em casa comigo essa noite. — repeti lentamente, apenas para ter certeza de que eu estava dizendo na ordem “entendível” da coisa.
parou de guardar seu material no mesmo instante, erguendo seus olhos – agora assustados – para fitar os meus. Eu parei de rodar os dedões apenas para cravá-los com força na carne de minhas mãos, sentindo minhas entranhas sumirem de todo o meu tronco.
— Bem, eu... Você me pegou realmente desprevenida hoje, . — ela disse, dando um risinho encabulado. Eu suspirei, tomando o cuidado para que ela não percebesse, desapontado. — Mas... Tudo bem, eu quero.
Não existiam palavras para expressar o quão feliz eu fiquei naquela hora. Se eu pudesse, sairia correndo para todo o colégio apenas para revelar a todos que eu conseguira um encontro com . Eu deixei que um sorriso completamente satisfeito tomasse conta dos meus lábios, bagunçando meu cabelo desajeitadamente com a mão. Era ela quem havia me pegado desprevenido. Eu não esperava por essa resposta.
— Você... Sério? — ela assentiu — Bem... Ótimo! — exclamei, dando uma risada estranha, mas contendo-me rapidamente. — Bem... Que tal às sete e meia?
— Está ótimo. — ela sorriu graciosamente, mostrando todas as suas fileiras de dentes perfeitas e completamente esbranquiçadas. — Eu passo lá às sete e meia.
Era incontável o quão feliz eu estava. Eu havia me pego rindo sozinho e bobamente diversas vezes durante toda aquela tarde. Os caras haviam ido até minha casa para ouvir tudo o que eu tinha a dizer e, quando revelei a resposta de , suas expressões foram impagáveis.
Eu quase me senti mal por saber que eles desacreditavam na minha capacidade e chance o tanto quanto eu desacreditava.
Nós bebemos cerveja por um bom tempo naquela tarde, comemorando pelo meu suposto “sucesso”. Eu mal cabia em mim de pura alegria e excitação. , animador como sempre, precisou me lembrar mais de cinco vezes que aquilo não significava que estaria a fim de mim ou interessada em me beijar. É claro que eu não dei bola. O que realmente importava era que ela havia aceitado meu convite e eu nem ao menos precisara conquistá-la com o coração para isso.
Os caras ficaram em minha casa até, aproximadamente, cinco horas. Foi quando uma luz de algum santo muito prestativo baixou em mim, lembrando-me que eu precisava arrumar a casa e fazer alguma coisa para mim e para comermos. O fator “pais” não seria um problema, já que ambos estavam viajando devido a uma reunião de negócios e, inesperadamente, haviam decidido me deixar sozinho em casa, sem “babá” alguma.
Quando me despedi dos caras, corri escada acima, socando toda e qualquer bagunça para debaixo da minha cama. Eu sabia que minha mãe ma mataria quando chegasse e encontrasse aquilo daquela forma, já que eu não tiraria nada de lá quando fosse embora. Duvidosamente, arranquei de meu guarda-roupa uma bermuda bege que batia até o meio de minhas panturrilhas. Obviamente ela chegava até um pouco mais embaixo, já que vivia despencando de minha cintura. Optei por uma pólo azul-marinha, quase preta, para vestir por cima, e o meu inseparável All Star Converse que, estranhamente, não tinha cadarços. Seria facilmente confundido com um sapato se não fosse pelo tecido meio “jeans” que o revestia em uma estampa listrada que variava de cinza e branco ao vinho e azul jeans. Eu não havia me trocado, porque, obviamente, tomaria um banho antes. Apenas deixei tudo sobre a cadeira do computador e desci as escadas para preparar o jantar.
E então eu percebi que estava completamente ferrado.
Eu não sabia cozinhar. Minha primeira – e única – experiência na cozinha havia sido em uma aula de culinária no colégio, na quinta série, onde fomos aprender a fazer pão. O meu pão havia saído tão duro que foi impossível mordê-lo. Para testar o gosto, se dispôs a passar a língua pelo pão, quase morrendo envenenado devido ao acentuado sabor de ovo podre.
Sim. Ovo podre.
Eu senti algo revirar meu estômago violentamente. O relógio marcava seis horas. O que, diabos, eu faria para comermos? Pedir algo a algum restaurante estava completamente fora de cogitação. Eles demorariam, no mínimo, uma hora para aprontar o jantar e meia hora para entregá-lo. Eu poderia comprar algo instantâneo no mercado na esquina de casa, mas... Cadê o divertimento?
Decidi, portanto, que tentaria fazer algo. Abri meu notebook com pressa e, quando a internet foi conectada, digitei rapidamente no Google algo do tipo “pratos rápidos”. O site me mostrou várias receitas, mas todas pareciam ter ingredientes que eu nunca imaginei existirem. Quando estava quase desistindo e indo até o mercadinho comprar algo, encontrei uma receita prática – para quem sabe cozinhar, é claro – e, digamos, rápida. Olhei os ingredientes em casa, dando graças por ter tudo ali.
Pus a mão na massa. Literalmente, já que macarrão é massa.
Enquanto o macarrão fervia em uma panela, eu deixei os brócolis cozinharem em uma separada. Eu estava seguindo fielmente a receita no site, tento um medo imenso de errar algo e deixar aquela comida intragável. Chequei o relógio pelo que parecia ser a décima vez naquele segundo. Era sete e dez. O meu tempo estava, definitivamente, correndo. Procurei pelo melhor vinho de minha mãe na pequena e simples adega que possuíamos, mas foi em vão. Apenas o que vi ali era uma adega completamente vazia. Nem uma gotinha sequer de álcool para molharmos os lábios.
Corri, desesperado, para a porta da frente de casa. Quando coloquei os pés na rua, rumei até o mercadinho da esquina, encontrando Joca parado em frente à prateleira de vinhos. Por sorte ele estava ali.
— Joca, preciso da sua ajuda! — eu exclamei esbaforido enquanto tentava recuperar o ar para meus pulmões — Um vinho barato e bom pra impressionar uma garota. Rápido, Joca! — pedi.
Joca, obviamente, não se chamava Joca. Seu nome, na verdade, era John Charlie. Mas quem, em sã consciência, acha um nome como John Charlie bonito? Ele não achava e, nos tempos de colégio, foi apelidado de Joca. E, entre o feio e o patético, ele preferiu manter o apelido. Um nome curto, prático e não tão ridículo quanto o nome de batismo. Joca era um homem de, no máximo, trinta anos que dirigia o pequeno estabelecimento da esquina da rua, mais conhecido como “Mercado do Joca”. Era um mercadinho de bairro, com coisas simples. Apenas as de necessidade extrema, como carne, vinho, arroz, sabonete e afins. Eu o adorava. Depois de Marcus, ele era a melhor pessoa para se pedir um conselho.
Principalmente sobre vinhos.
— Bom, tem esse aqui... — ele disse, tirando uma garrafa da enorme adega de vinhos do mercadinho e me estendendo — Eu, particularmente, adoro o sabor. Não é seco, pelo contrário. Nos deixa com água na boca e pedindo por mais. — ele sorriu. — Dez libras.
Dez libras. Uma pechincha.
— Obrigado, Joca!
Eu me dirigi ao caixa, pedindo encarecidamente a um senhor com um carrinho enorme para que me deixasse passar na frente. Ele consentiu, já que eu levava apenas uma garrafa de vinho. Eu cheguei à casa a tempo de desligar o fogão sem ter queimado nada. Despejei o macarrão em uma travessa e joguei os brócolis por cima, não antes de guardar a garrafa de vinho no congelador.
Quando tudo estava perfeitamente pronto, subi às pressas para me trocar. Já era sete e trinta e cinco, portanto eu não teria tempo para um banho. Infelizmente, porque eu estava fedendo a cigarro e cerveja. Vesti rapidamente a roupa que havia separado e calcei o All Star, jogando os cabelos para o lado de um jeito despojado. Eu sabia que estava irresistível.
Esperava ansiosamente que soubesse o mesmo quando me visse.
Eu desci novamente as escadas. Não tinha nada bagunçado no andar debaixo e a sala de jantar só precisava ser organizada. Tirei o enfeite da minha mãe de cima e coloquei descansos para pratos, um de frente para o outro. Peguei dois pratos do melhor jogo de jantar de minha mãe e os coloquei virados para baixo, com os talheres ao lado. Estava tudo perfeitamente arrumado e eu sentia um imenso orgulho de tudo aquilo que havia feito.
Eu queria que os caras estivessem aqui para ver o quão sortudo eu estava sendo.
Chequei mais uma vez a hora no meu relógio de pulso, constatando que era pouco mais de sete e cinquenta. logo estaria em minha casa.
Sozinha.
Comigo.
Em um encontro.
Eu não podia aguentar o quão excitado estava com tudo aquilo. Minha felicidade era abundante.
E então meu celular tocou.
Eu ergui minimamente minha bunda do sofá para poder tirar o celular do bolso. Um número que eu não conhecia estava me ligando. Pensei em ignorar, mas podia ser algo importante, e preferi atender.
Maldito erro.
— Alô? — eu disse assim que levei o telefone ao ouvido. — Quem está falando?
— Hm... Oi, , é a .
Eu arqueei uma sobrancelha.
— ? Como você sabe meu número? — perguntei curioso. Eu não havia lhe passado o número de meu celular quando lhe dei o endereço. — Não está conseguindo encontrar a casa?
— A Kate me passou seu número. — ela murmurou. Eu a ouvi suspirar antes de prosseguir. Meu estômago já se revirava. — Escuta, , aconteceu um imprevisto... Eu não poderei ir.
Bubble wrap
Eu senti o chão desabar.
— Hm... Por quê? — perguntei. Não sabia se gostaria de ouvi-la responder. — Digo, aconteceu algo sério?
— Não, não... Me desculpa, mas eu realmente não posso ir. Olha, preciso desligar. Nos falamos na escola amanhã, ok?
Eu assenti, murmurando alguma coisa qualquer. Desliguei o telefone quando percebi que o mesmo já estava mudo. Minha expressão se fechara completamente. Eu passei da água para o vinho, tornando-me frio e magoado.
Por que eu esperava que tudo desse certo, mesmo?
Suspirando pesadamente, arrastei-me até a cozinha. Peguei um prato fundo dentro do armário e o enchi de macarrão, decidido a comer sozinho. Antes de voltar para a sala, tirei o vinho da geladeira, abrindo-o sem dificuldade alguma. Eu sentei desajeitadamente, procurando manter o equilíbrio para que nem o prato, nem o vinho caíssem no sofá. Apoiei os dois na mesinha de centro que havia ali e peguei o controle da tevê, ligando-a e zarpeando por seus canais. A única coisa que encontrei para assistir, que não fosse patético demais para alguém na minha situação, foi Harry Potter e o Cálice de Fogo.
Estava na cena em que Rony encontrava-se paralisado por ter convidado Fleur Delacour para o Baile de Inverno aos berros, na frente de todos.
Malditos. Nem Harry Potter me deixaria em paz naquele dia?
Desliguei a TV com raiva. Eu entendia muito bem como Rony se sentia. Ridicularizado, patético. Muitos outros adjetivos do tipo. Tão inútil por ter se importado com uma agora, por ter se sentido atraído por uma garota de uma forma tão ridícula que, sem querer, acabou sendo ridicularizado.
Eu sabia que eu seria ridicularizado quando aparecesse na aula no dia seguinte. Eu sabia que deveria estar em algum pub com suas amiguinhas megeras. Tão megeras quanto ela. Tão veelas quanto ela. Eu também sabia que meu coração estava terrivelmente massacrado naquele instante.
Como não estaria, afinal? Eu havia criado uma ilusão tola durante o dia inteiro de que teria, finalmente, um encontro com a garota por quem eu estava perdidamente apaixonado. E, tão rápido quanto me iludi, fui desiludido. Eu me sentia um babaca.
Assim como Rony deveria estar se sentindo.
Peguei a garrafa de vinho e a entornei, fazendo com que o líquido roxo descesse aos montes por minha garganta. Assim que me vi necessitando de ar e um tempo para recompor a garganta, coloquei a garrafa sobre a mesa e peguei o prato com a macarronada e brócolis. Dei uma garfada.
Era a comida mais deliciosa que eu já havia provado na vida.
C
Chills In The Evening
Eu estava acabado e maltratado. Eu havia feito aquilo a mim mesmo, afinal. Me embebedado por ter recebido um belo bolo da garota que eu deveria ter um encontro. “Acabado” me definia muito bem. Eu estava fedendo. Vinho, cerveja e cigarro. E brócolis, é claro. Eu estava suado, já que o vinho havia me deixado com um calor desgraçado. Sentia-me completamente indesejado. Inútil. Banal. Eu estava odiando a mim mesmo naquele momento.
Como não poderia, afinal? Estava bêbado, largado no sofá de casa, assistindo Titanic com um cigarro entre os dedos. Eram quase quatro da manhã e eu não havia ido para cama. Eu não poderia faltar à aula no dia seguinte. Teria um trabalho a ser apresentado com os caras. Digam-me: como diabos vou apresentar um trabalho estando bêbado, acabado, ignorado, dispensado, fedido, sonolento e morto? Porque eu, definitivamente, não tomaria um banho naquele dia.
Não mesmo. De jeito nenhum.
Eu deixei o cigarro pender entre meus lábios enquanto eu dava uma nova tragada. Uma tragada forte, sim. Daquelas que chegam a produzir um ardor na garganta e provocam uma forte tosse.
Eu não me importava de verdade.
Peguei meu celular que fora deixado em cima do sofá desde quando havia me ligado. Eu olhava o protetor de tela: uma foto da garota tirada apenas de perfil. Seus cabelos rebeldes estavam jogados para o lado e, nos lábios, um sorriso quase malicioso os desenhava. O olhar era tão perfeitamente inocente que contrastava com o sorriso impuro.
Completamente doentio e masoquista. Doentio por ser um perseguidor desse porte. Carregar fotos no celular, fitá-la como se fosse o último pedaço de carne do universo, desejá-la como se fosse tudo aquilo que eu poderia querer para mim.
Masoquista por saber que, por mais que, para mim, ela fosse perfeita e única, eu não passava de um nadinha de merda para ela.
Sem pensar em qualquer fato explícito – como a hora que o relógio digital do celular gritava para mim -, disquei os números de . Para completar totalmente a situação já precária, eu não percebi quando o número discado foi o de sua casa.
— Alô? — A voz do outro lado, a qual eu conhecia perfeitamente como a de sua mãe, perguntou roucamente. Eu senti meu estômago congelar, imaginando quão zangada aquela mulher ficaria se eu dissesse quem era e porquê estava ligando. E se percebesse o quão bêbado eu estava. — Alô? — Ela repetiu.
Passou em minha cabeça o fator 'fechar o flip' do celular e fingir que nunca disquei aquele número na vida. No entanto, eu me lembrava que a família tinha identificador e, portanto, meu número seria facilmente reconhecido no dia seguinte. O que não adiaria minha morte.
— Er... Eu poderia falar com o ? — Pedi, tentando de maneira vã disfarçar a voz para que ela não me reconhecesse.
— Bem, querido, está, provavelmente, em seu vigésimo sexto sono. — Ela disse com uma voz completamente ácida. Eu engoli em seco. — Ligue amanhã, sim?
— Por favor, senhora . — Pedi, dessa vez, esquecendo de controlar minha voz para torná-la irreconhecível. Eu tinha certeza de que soava um tanto bêbado. — Eu realmente preciso falar com . Você não pode acordá-lo?
— ? — Ela perguntou. —
? — Sua voz se suavizou imediatamente, se tornando um tanto maternal. — Meu querido, aconteceu alguma coisa?
— Eu só... Preciso falar com o ... Desculpe por ter ligado a essa hora. Não prestei atenção no número e...
— Calma, querido, não precisa se desculpar. Vou chamá-lo. — Ela me cortou rapidamente, parecendo um tanto alarmada. — Tem certeza que está bem?
Eu murmurei em afirmação, sabendo o quanto estava mentindo com aquilo. Ouvi algumas portas sendo abertas, seguida de uma reclamação alta. Instantes depois, um “Vai se foder, caralho” seguido de um “ , levante já a bunda dessa cama e atenda ao maldito telefone. E quando falar comigo dessa maneira novamente, ficará de castigo!” e, no instante seguinte, uma porta se fechando novamente. Eu segurei a risada, sabendo que, se risse, não sairia vivo de modo algum.
— Inferno. — Ouvi reclamar ao telefone. — Quem é a alma amaldiçoada que está me ligando às... — Uma pausa. — Caralho, quem em sã consciência liga para alguém às quatro e quinze da manhã?
— É o ... — Eu murmurei, esperando por uma chuva de ofensas.
— Wow, o garanhão da noite! — Ele exclamou. Eu ergui a sobrancelha, reconhecendo perfeitamente o tom animado e safado do meu melhor amigo. — Como foi aí? Ela acabou de sair, não é? Seu brinquedinho se divertiu muito, seu safadão?
— Ela não veio, . — Eu resmunguei, rolando os olhos quase dolorosamente. Dei mais uma tragada no cigarro enquanto o silêncio de não era preenchido.
— Eu... Não fazia ideia. — Ele riu sem graça, e eu podia apostar que estava quase arrancando os fios de seu cabelo. — O que aconteceu? Por que ela não foi?
— Disse que aconteceu alguma porra de imprevisto. — Repeti suas palavras, acrescentando um maravilhoso adjetivo entre elas. suspirou. — Não me deu outra satisfação. Quando me ligou já eram quase oito da noite. Já estava tudo pronto. — Outra pausa. — , eu cozinhei a porra de um macarrão com brócolis!
— Você? — Ele indagou surpreso — Você cozinhou? Cara, e o veneno? Pretendia matá-la?
— Eu comi a travessa toda de macarrão durante a madrugada. — Eu reclamei em uma voz embargada. — Estava bom pra cacete. Segunda vez que ligo o fogão, sendo que a primeira saiu um fiasco, e a megera não aparece. Quão errado isso pode estar?
— Bem... muito. — Ele disse. Eu preferi não comentar que havia feito uma pergunta retórica. — Então você já sabe que deve desistir dela, não é? — Ele perguntou como se fosse algo óbvio. Eu murmurei, consentindo. — Ela não merece o seu sofrimento, dude.
— Eu me impressiono como nós parecemos duas garotinhas virgens que animam torcidas chorando pelo término do namoro. — Eu confessei, suspirando. — Tenho certeza que parecemos alguma daquelas garotas de Meninas Malvadas, fofocando pelo telefone, ou sei lá.
— Cara... Você assistiu Meninas Malvadas? — Ele perguntou com a entonação incrédula.
— Lindsay Lohan e Amanda Seyfried no mesmo filme. Quer algo mais... Sensacional?
— É verdade... — Ele murmurou em concordância. — , o que você está fazendo acordado?
— Bebendo e fumando. — Respondi prontamente. Então olhei para a TV. — E assistindo Titanic.
— Você é um belo merda. — resmungou. — Faz ideia do trabalho que temos que apresentar amanhã?
— Sei. — Resmunguei, arrastando a palavra. — E o que tem?
— Nós precisamos de um dez! — Ele exclamou. — Você não vai nos dar um dez se aparecer bêbado ou de ressaca, fedendo, com sono e morto!
Bem, não teríamos um dez, então...
— Eu vou estar lá amanhã, ... — Murmurei. — Espere e verá.
Eram dez e meia quando acordei.
Acordei, é claro, com o celular tocando irritantemente. Minha primeira reação foi jogá-lo contra a televisão. O feito não foi muito bem pensado, já que, quando percebi o que fiz, levantei-me rapidamente para olhar se havia estragado algum dos dois objetos. Constatando que nada estava ferido, voltei a olhar para o visor do celular, que agora apitava “11 chamadas perdidas”. Entortei os lábios desgostosamente, clicando em visualizar para descobrir que era o inferno humanizado que estava me telefonando.
Meu coração parou, meu queixo caiu e minha alma saiu pela minha boca.
Eu estava completamente morto. Eu sabia que estava, porque eu podia sentir isso. Havia algumas suposições sobre quem podia me matar naquele instante.
Suposição um: meu querido e inseparável melhor amigo, . Aquele que havia perdido uma boa meia hora no telefone para me ouvir falar, e perdido outra meia hora para me lembrar sobre a importância de não perder a aula no dia seguinte.
Suposição dois: meu outro querido e inseparável melhor amigo, . Ele não me cedeu horas de sono no telefone para ouvir minha dor de cotovelo, mas eu sabia que me mataria por perder um compromisso importante.
Suposição três: meu novamente querido e inseparável melhor amigo, . Esse, por mais calmo e tranquilo que fosse, possuía o maior número de chamadas perdidas. Eu sabia que ele não estava mais tão calmo e tranquilo assim.
Suposição quatro: essa não me ligou, mas eu sabia que estaria arqueando as monocelhas de um jeito assustador enquanto rabiscava uma nota baixíssima em um caderninho de professores.
Suposição cinco: eu mesmo, por ter furado com um compromisso importante.
Respirei fundo antes de apertar send e completar a rediscagem até o celular de que, eu sabia, seria o mais calmo deles. O número chamou, chamou, chamou e caiu na caixa postal. Eu me senti um tanto desesperado, já que precisaria tentar os outros números.
me atendeu. Eu ainda não tinha decidido se isso era azar ou sorte.
— Onde diabos você se meteu, seu... — Eu afastei o celular do ouvido, cutucando-o para poder voltar a ouvir. — , caralho, aquele trabalho era importante!
— Eu sei, me desculpe. — Pedi, sabendo que não seria desculpado. — O que o Trevor falou?
— Tiramos seis, ! — Ele exclamou. — Seis! SE-IS!
— Tudo bem, , eu entendi da primeira vez. — Resmunguei.
— Você deveria saber que esse trabalho era importante para nossa nota. Inferno. — Ele resmungou. Eu pensei em falar algo, mas logo o telefone chiou estranhamente.
— Finalmente você deu sinal de vida, não é, ? — A voz de me invadiu. Eu gelei. Ele não estava nada calmo e tranquilo. — A noite foi boa? Foi? Foi melhor do que tirar uma nota boa e se livrar de uma recuperação?
Eu pude ouvir berrar ao fundo algo como “A noite não aconteceu, seu idiota”.
Eu tentei reprimir uma risada, mas eu percebi que não havia risada alguma para ser reprimida.
— , traga a sua bunda peluda pra cá agora e tente falar com Trevor. — pediu. Mas eu tenho certeza que vocês conhecem bem o tipo “pediu-mandou” que alguém furioso “pede” algo. — Pelo amor de Deus.
— Tá bem, tá bem. — Eu balbuciei, enquanto corria atrás de uma bermuda limpa e sem estar fedendo para vestir — Em quinze minutos eu estou aí.
Desliguei o celular e o deixei em cima da mesa, enquanto continuava minha busca pela bermuda. Quando me lembrei que todas estariam, provavelmente, embaixo da cama, optei por usar a que estava no corpo, mesmo. Peguei o maço de cigarros parcialmente vazio que estava sobre a mesa de centro da sala de TV e meu celular, rumando rapidamente para o lado de fora de casa.
O colégio não era tão longe. Eu cheguei em pouco menos de dez minutos. Não por ser perto de casa, mas por ter conseguido uma carona com uma mulher que buzinou para mim. Não me perguntem quem era, porque eu nunca soube. Ela simplesmente decidiu dar uma carona rápida a um adolescente gostoso que viu na rua, e assim o fez. Ouviu atentamente enquanto eu explicava a ela minha dor de cotovelo em um monólogo cansativo e, por incrível que pareça, resolveu me dar algumas dicas. Eu estava farto de dicas, então simplesmente concordava com ela sem ao menos entender o que ela dizia. Acho que ela percebeu minha desfeita, mas não falou nada. Quando saltei do carro na porta do colégio, agradeci a ela com um aceno de cabeça e rumei para dentro do lugar.
Eu sabia que alguma coisa estaria errada ali, mas algo me dizia para não me preocupar muito.
Eu encontrei e rapidamente. não estava por perto. Talvez estivesse conversando com Kate ou alguma coisa parecida, já que isso era um fator necessário para conseguir algo com a megera número dois. correu até mim com os olhos quase saltando das órbitas, tamanha era a sua raiva por ter tirado um seis no trabalho. Eu estiquei as mãos frente ao corpo como quem diz “pare” e, inesperadamente, ele parou.
— Cara, você não faz ideia da bagunça que está isso aqui. — Ele disse, arregalando os olhos em surpresa. — Sério, você tem coragem de aparecer por aqui.
— O quê? O que aconteceu? — Eu perguntei. — Pensei que eu estava sendo obrigado — frisei, olhando para que se aproximava — a vir aqui e falar com Trevor.
— Oh, sim, você foi. — disse, dando de ombros. — Mas isso não tira o fato de que é, realmente, muita coragem sua aparecer por aqui.
— Não teria motivos para eu não ter coragem sem saber exatamente o que está acontecendo, não acham?
Eu fiquei em silêncio por um instante. Meus olhos se perderam em duas garotas atrás de e que, descaradamente, olhavam para mim e cochichavam, seguido de risos e mais risos. Eu suspirei profundamente, fechando os olhos com força, tentando buscar minha paciência interior. Vendo que não seria possível, optei por encarar meus dois amigos.
— Ela andou dizendo alguma coisa, não foi?
Meus amigos se entreolharam, atitude que só piorou meu nervosismo.
— Ela não disse nada. Mas comentou com Kate, Joanna e Lindsay. — deu de ombros. — Você conhece a Lindsay, não?
— Merda. — Eu sussurrei entre dentes.
Corrupted
Balbuciando alguma coisa que nem eu mesmo entendi, rumei rapidamente até a sala de aula. Quando apareci na porta da mesma, algumas pessoas que notaram minha atenção pararam imediatamente com os cochichos, enquanto outras apenas o intensificaram. Eu olhei para cada rosto conhecido, não encontrando quem eu procurava. Meus olhos logo encontraram os de , que se apoiava na carteira onde Kate estava sentada. Eles pareciam estar em uma conversa muito boa até eu ter interrompido com minha chegada triunfal. Os dois me olhavam como se pudessem ter medo do que eu fosse fazer.
— Mate! — exclamou em uma falsa empolgação, andando até mim e pondo uma mão no meu ombro. — Você chegou! Temos que ir falar com Trevor, que tal?
— Que tal você me dizer onde está , ? — Rosnei a ele, que se encolheu imediatamente. Ele olhou para mim parecendo estar amedrontado, e logo seus olhos se focaram em alguém atrás de mim. Eu sorri debochadamente enquanto me virava, dando de cara com e Lindsay. Ambas me observavam surpresas, como se não esperassem me encontrar ali por muito tempo. Eu alternei meu olhar entre as duas, parando, por fim, em . — Olá, ! — Sorri falsamente.
— , você... Você tá aqui, não é? — Ela riu desconsertada, olhando de soslaio para Lindsay, que retribuiu o olhar. — Olha, que tal a gente ir ali e... Conversar?
Eu assenti prontamente, lançando um olhar ameaçador para Lindsay. Eu sempre soube que as amigas de não eram flores dignas de se cheirar, mas nunca pensei que pudessem sair pelo colégio espalhando coisas que diziam respeito à própria amiga também. Eu senti segurar meu antebraço e me puxar para um canto do bloco do nosso ano, onde estava parcialmente vazio. As pessoas ainda pareciam dispersas pelos cantos da escola, o que nos dava um tanto de privacidade em conversar ali. Eu apoiei um ombro na parede, ficando de frente para enquanto a olhava. Eu sabia que ela estava se sentindo intimidada com meu olhar ameaçador.
— Eu não acredito que você já espalhou para as pessoas sobre o bolo que deu em . — Eu exclamei revoltado. se encolheu, assustada, mantendo o olhar baixo. — Você deve estar achando engraçado, não é? Ver alguém como eu me arrastando por você, ou sei lá o que você pensa que enxerga.
— Não, , eu não...
— Quero dizer, eu não me importaria se você tivesse respondido “não” ao invés de me esperançar e desistir depois!
— Me desculpe por ontem... — Ela disse depois de alguns minutos de silêncio — Aconteceu um imprevisto com um amigo e eu precisei ajudá-lo.
— Por que eu deveria acreditar, ? Porque você é a sempre certinha megera? — Ironizei, rolando os olhos. — Teria sido mais fácil se sua amiguinha não tivesse aberto o biquinho para o colégio todo sobre o encontro que nós, supostamente, deveríamos ter para acrescentar mais algumas coisas que ao menos aconteceram!
— Quem? A Lindsay? — Ela perguntou parecendo chocada. Eu assenti, arqueando uma sobrancelha. — Eu não acredito que ela contou algo, ... Você deve estar confundindo. E eu também não contei!
— Não. Ela contou. Ouvi isso do próprio . E não tente livrar a sua pele disso.
— Eu vou falar com ela... Ela não pode ter feito isso. E não vou te forçar a acreditar em mim. Eu estou farta de tentar fazer os outros me enxergarem como realmente devo ser vista. — Ela colocou as mãos na cintura como se tentasse controlar a raiva. Eu sabia que essa era mais uma de suas manias.
— Talvez você devesse se preocupar em saber em quem confiar, antes. — Resmunguei. olhou fundo em meus olhos, como se pudesse enxergar algo que minha alma estivesse escondendo. — Quem você precisou ajudar, ontem?
— Um amigo.
— Que amigo, ? Qual o motivo? Você não poderia ter ligado alguns minutos antes de tudo estar pronto?
— Eu não lhe devo satisfações, . Até onde me lembro, era suposto para termos um encontro. Isso não significa que temos algo. — Ela se exaltou, levando as mãos aos cabelos e fechando os olhos por um momento; ela tentava se controlar. — Olha, eu não estou afim de discutir com você. Sei que está zangado pela minha mancada, mas eu não posso voltar no tempo.
— Você deveria ter me avisado.
— Eu avisei, . — ela rolou os olhos. — Eu te liguei, lembra?
— Deveria ter me avisado antes. — Insisti. Eu sabia que parecia um bebê chorão.
— Tanto faz. Eu estava pronta para ir até sua casa quando esse amigo me telefonou pedindo ajuda.
— O que ele queria? — Insisti novamente.
rolou os olhos, suspirando pesadamente para manter a calma. Quando abriu a boca para falar, entretanto, não foi para responder minha pergunta:
— Que cheiro péssimo é esse?
Eu gelei.
— Eu, er... Olha, tudo certo se não quer me dar justificativas. Nós não temos nada, como você mesma disse. — Mudei de assunto rapidamente, enquanto dava passos para trás e levava o cheiro de gambá para longe dela. — Vou falar com o Trevor, preciso arrumar a nota. Até depois, .
E me mandei de lá.
D
Down By The Lake
O final de semana havia, finalmente, chegado. Meus pais já estavam em casa. Eu não sabia responder se aquilo era algo bom ou ruim. É claro que adorava tê-los por perto, no entanto eram sempre as mesmas trocas de palavras, ou farpas. Minha mãe havia descoberto meu entulho embaixo da cama e decidira que, se eu quisesse morar sozinho ao completar dezoito anos (ou ter roupas para usar a partir de agora), deveria organizar e lavar minhas próprias roupas. É claro que eu protestei e tentei fazer um acordo.
Pelo menos as roupas limpas eu já tinha garantido. Só precisava de mais um pouco de suborno para a organização.
Ter falado com Trevor foi algo muito difícil, sim. Trevor não era o professor que me considerava alguém responsável. Pelo contrário, aquele homem me expulsaria da cidade se isso coubesse a ele. No entanto, depois de muito bate-papo e uma nova chance de apresentar o trabalho, conseguimos convencê-lo a nos dar um nove. Não era o dez de que precisávamos, mas, pelo menos, seria de melhor ajuda do que o seis que os caras haviam conseguido sem mim. É claro que ainda estava completamente zangado comigo e ainda me olhava macabramente, o que sustentava o medo dentro de mim, mas parecia ter perdoado minha querida (e traiçoeira) mente.
Como era costume, todas as sextas-feiras à noite eram programadas por alguns alunos para uma espécie de “reunião macabra” na praça de Londres. Não me perguntem o que eles faziam naquele lugar, porque eu nunca havia ido a uma única reunião sequer. já, pelo que me lembro, três vezes na companhia de . , no entanto, sempre preferira ficar em minha casa jogando videogame. Somos o que as pessoas chamam de... Caseiros.
Hoje, no entanto, algo em mim me dizia para comparecer àquela reunião. Como todas as sextas-feiras, me convidou novamente para participar daquele encontro. Aceitando minha intuição, e não encontrando nada que tivesse a perder indo até lá, aceitei. Já que , zangado demais para olhar na minha cara, não apareceria em minha casa, eu poderia me divertir com e na praça. A única explicação que tive sobre o que acontecia lá, quando perguntei a , era que rolava muita bebida.
Bebendo bem, que mal tem?
Era aproximadamente cinco da tarde quando buzinou em frente à minha casa. Eu ainda estava apenas de bermuda jeans de lavagem escura, com os cabelos pingando loucamente contra minhas costas e meu tórax, e uma embalagem de desodorante na mão. Eu gritei para minha mãe abrir a porta e deixar subir enquanto banhava-me com o desodorante e, em seguida, o deixava em cima da pia. Voltei ao meu quarto, procurando alguma blusa decente e limpa perdida naquela bagunça.
— Cara, você ainda tá assim? — perguntou quando apareceu à porta. Eu o olhei pelo canto do olho, voltando logo a atenção para o monte de roupas jogados em um canto do quarto. — Você tem certeza que é seguro mexer aí? Pode sair, sei lá... Um basilisco.
— Eu não tenho nada na gaveta. — expliquei. murmurou alguma coisa inaudível e eu permaneci caçando naquele monte. Depois de algum tempo, encontrei uma camiseta vermelha que tinha a costura do avesso. Obviamente, a impressão que todos tinham ao me ver usando aquilo, era que havia vestido a blusa ao contrário quando, na verdade, ela estava correta. — O que acha? — perguntei assim que a vesti.
— Está do avesso, retardado. — apontou, olhando-me como se fosse realmente um retardado. Eu sorri ironicamente, enquanto mostrava a costura correta do outro lado. — Ah. Pegadinha do malandro isso, huh?
Eu ri, balançando a cabeça negativamente. Calcei meu All Star preto e coloquei a carteira e o celular no bolso traseiro da bermuda.
— Vamos? — perguntei. Meu amigo assentiu e, assim, saímos do quarto, rumo ao carro dele. — Tem certeza que aquela “reunião macabra” não é macabra? — perguntei.
— Absoluta. Você tem medo de coisas macabras agora, ? — ele arqueou a sobrancelha, olhando rapidamente para mim.
— Não. Mas as pessoas daquele colégio me botam medo. — dei de ombros. — Por que esse nome?
— Porque eles se reúnem para contar história de terror. — ele disse como se fosse óbvio. Eu assenti. — E, como tudo acontece de noite com a maioria dos presentes bêbados, o negócio ganha um clima mais... Cristal Lake.
— Tudo isso só por causa daquele laguinho bobo? — perguntei — Quero dizer, é óbvio que o lago é artificial. Jason não vai aparecer de repente.
— Por que você está tentando entender aqueles otários, ?
Eu dei de ombros, deixando o carro em silêncio. Incomodado com tal fato, ousei ligar o rádio, deparando-me com uma música do Green Day. e eu nos entreolhamos, rindo com a lembrança que tínhamos da música “Geek Stink Breath”. Como ainda eram cinco da tarde e a reunião começava apenas às sete, nós resolvemos passar em um posto para reabastecer nosso bolso (e porta-malas) de cigarros e cervejas. Assim que ficamos satisfeitos com o número de latinhas, garrafas de cerveja e maços de cigarros, pagamos ao homem e rumamos para a casa de , onde faríamos uma sessão videogame até ficarmos a fim de seguir para a praça.
Chegando lá, atendeu a porta com o maior sorriso abrangendo seu rosto. Eu e nos entreolhamos, confidenciando uma risada em meio à troca de olhares. O dono da casa vestia apenas uma calça jeans larga e chinelos de dedo branco. O cinto estava aberto, mas, graças a deus, o zíper e o botão de sua calça estavam fechados. Ele possuía uma latinha de cerveja em mão e um cigarro na outra.
— Finalmente! — exclamou , dando um passo para o lado para que pudéssemos entrar. — Pensei que fossem demorar mais alguns anos.
— Você já bebeu quantas, ? — perguntei. Lancei um olhar malandro a ele, que me correspondeu com um sorriso sacana. — Você é um puta de um merda bêbado. — ri.
— Como eu disse, vocês demoraram. — ele deu de ombros. — Eu separei Resident Evil para jogarmos.
— Você realmente acha que vai exterminar algum zumbi nesse estado? — jogou-se no sofá, esticando as pernas sobre a mesa de centro — Pegue uma cerveja pra gente, .
— Ei, eu sou fenomenal nesse maldito jogo! — disse indignado. — Vocês dois não são páreo para mim nem se eu estivesse em coma!
— Eu não teria tanta certeza disso se fosse você. — dei de ombros, enquanto ia até a cozinha e tirava duas latinhas do freezer. — Sabe, , eu e temos praticado bastante enquanto você e se esbaldam nessa... Reunião macabra.
— Você diz isso porque nunca foi àquele lugar. — ele retrucou, dando uma golada na latinha – que eu podia apostar que já estava vazia há algum tempo. Voltei para a sala e arremessei uma latinha ao , sentando-me no sofá de dois lugares espaçosamente. — Se fosse, não reclamaria. Iria até gostar.
— Veremos isso hoje.
Passamos um bom tempo massacrando zumbis. Como previsto, não fez nada fora destroçar a si mesmo. Estava tão louco – às cinco e meia da tarde – que apagou no sofá que dividia com , roncando tão alto que chegou a nos assustar. Quero dizer, uma coisa é matar zumbis. Uma coisa totalmente diferente é matar zumbis com um ronco no teu ouvido vindo do nada. Eu e nos assustamos e acabamos por desconcentrar-nos do jogo na fase mais complicada. O resultado não poderia ter sido outro, senão nossa própria aniquilação.
Mas tudo bem. Teríamos muitas oportunidades de salvar o mundo da ameaça zumbi.
Só paramos de jogar quando percebemos o relógio marcar sete e meia. É claro que não nos preocupamos, já que não seríamos os primeiros a chegar. Acordamos com uma sacolejada brusca, já que o garoto realmente parecia estar em coma. Seu susto fora tão grande que, ao abrir os olhos e se deparar com a escuridão da sala, um grito fino saiu por seus lábios enquanto ele se virava no sofá. O problema era que ele se virou para o lado errado e acabou caindo de cara no chão.
Eu nunca passei tão mal por rir.
— Vocês são uns bostas, mesmo. — ele resmungou enquanto tentava se levantar. Apalpou a própria bunda, como se checasse se estava tudo bem. — Rir da desgraça alheia é um pecado, sabia?
— Ficar bêbado também é um. — murmurou entre risos. — De qualquer jeito, o que tem para botar pra dentro, ?
— Rosca. Minha mãe comprou hoje de manhã. — ele deu de ombros. — Estão afim?
— Claro.
Nós o seguimos até a cozinha, onde ele tirou uma rosca de dentro da dispensa e colocou sobre a mesa. Devoramos aquilo em tempo recorde, nos aprontando logo para ir para a praça.
— ... — chamou quando já estávamos no carro. — Acho que tua camiseta está do avesso.
O cigarro voltava a brincar entre meus dedos. Depois de passar pela boca de e , eu pude tragá-lo novamente. Os dois, preguiçosos demais para acender seu próprio cigarro, estavam se fartando do meu mais do que eu mesmo. De qualquer maneira, aquilo não era algo pelo qual eu me importava. Eu não era tão enjoado assim para ter nojo de dividir o cigarro com meus melhores amigos.
Eu não me lembrava muito bem quantas cervejas já havia entornado para dentro do estômago. Só sabia que havia três tipos de bebidas por ali: vodka, trazida pela Cooper – uma garota muito, mas muito gostosa -, tequila, trazida por Scott, o capitão do time de basquete do colégio – e odiado por mim e meu grupo de amigos – e nossas cervejas.
É claro que as cervejas estavam quase intocadas diante àquelas duas outras preciosidades.
Eu e meus amigos, no entanto, não nos importávamos em nos focar na Heineken que havíamos levado. Havia, ao que eu me lembrava, quatro engradados de doze latinhas ainda intocadas, e três de garrafas daquelas menores. É claro que, provavelmente, não tomaríamos tudo aquilo sozinhos; a não ser que quiséssemos entrar em coma alcoólico.
Havia mais uma coisa que me incomodava ali. A praça, na verdade, não era uma praça. Os alunos delinquentes que descobriram aquele lugar haviam o nomeado como praça, apenas para terem uma espécie de “codinome”. O lugar se parecia mais com uma espécie de fazenda abandonada, ou alguma coisa desse tipo. O fato é que o lugar era rodeado por árvores, grama, mato, e mais de cada coisa citada. O que não era de se surpreender, afinal. Eu não conseguiria entender como jovens bagunceiros como os daquele colégio conseguiam farrear em uma praça pública, violando leis do tipo “não beba e não fume se for menor de idade” e praticando o atentado ao pudor tão abertamente sem que nenhum policial aparecesse para dar um belo sermão. Ou multa.
Eu podia entender muito bem por quê o encontro fora nomeado como “Reunião macabra”. Não haveria nome melhor para descrever o que aquele lugar representava: uma série de pontos macabros e assustadores. Afinal, era uma fazenda abandonada!
A fazenda, no entanto, não era de toda assustadora. O casarão abandonado – e, eu aposto, assombrado – ficava apenas como a fachada do lugar. Ninguém em sã consciência se atrevia a entrar naquela casa. O que não era um problema, já que todos ali tinham tudo, menos uma consciência sã. A chapa esquentava quando os pés contornavam a casa e se posicionavam aos fundos dela.
Havia um imenso – quando eu digo imenso, acredite... é imenso – espaço vazio. Não completamente vazio, se é que me entendem. Por ser ermo por tanto tempo – se não me engano, três ou quatro anos -, o lugar deixou a desejar quanto aos cuidados plantios. Aquilo estava parecendo um matagal. As gramíneas, de tão grandes, chegavam a bater no meio das panturrilhas em determinados locais por onde se andava. Haviam feito uma pequena fogueira em uma parte desgastada, onde havia apenas terra, e, em volta, as gramíneas estavam curtas devido ao fato de que todos as pisoteavam naquele espaço. Em alguns pontos – vários – várias árvores velhas e grandes, de troncos realmente grossos, enfeitavam o espaço livre que restava. No chão que rodeava tais árvores, era comum encontrar casais em um amasso maior do que aquele que seria “aconselhável”.
E, é claro, o lago.
Aos fundos, por trás de toda a fumaça da fogueira e das árvores antigas, havia um pequeno, porém bonito, lago. Não era muito visível àquela hora da noite, ainda mais por estar completamente desabitado. No entanto, o brilho das águas me chamou a atenção, mas eu ainda não havia ido até lá. Não, não sou covarde, não tenho medo de escuro. Apenas... Achei desnecessário. Eu conseguia enxergar o lago, já que não estava tão bêbado ao ponto de não vê-lo. O que me livrava de precisar ir até ao longe para apreciá-lo.
Fui cutucado no ombro, despertado de meus devaneios.
— Ela está aqui. — ouvi dizer.
Meu amigo não estava bêbado. Após a soneca no fim da tarde e o tombo épico, não havia botado uma gota de álcool – Ok, duas latinhas de cerveja ele colocou – para dentro da boca. No entanto, pela escassez de álcool no sangue, ele se abastecia da nicotina. A minha nicotina, para variar.
Mas então eu parei para ligar o que ele me dizia. E então eu percebi quem era a “ela” que estava aqui.
Usando um vestido de tecido aparentemente leve num tom verde clarinho, quase desbotado, segurado no corpo por apenas um par de alças muitíssimo finas que se cruzavam nas costas, estava . O vestido lhe marcava os seios, já que sua costura se fazia logo abaixo deles, fazendo-o ter um aspecto de “bata” se não fosse pelo comprimento até o meio das coxas. Dos seios para baixo, o vestido caía solto e, se ela desse um giro rápido no lugar, ele se elevaria em um círculo perfeito. Não era vulgar, muito menos extravagante, como o que eram todos acostumados a ver. Eu nunca a vi vestindo algo fora as roupas que entravam no contexto das normas do colégio, já que nunca saíra com ela ou a vira na rua antes. No entanto, as más línguas sempre comentavam de suas roupas excêntricas. Ela estava simples. Bela, como se fosse angélica. Eu quase poderia ver sua auréola, tamanha era a simplicidade e inocência que ela aparentava em trajar aquele vestido. Seus pés abrigavam apenas uma rasteirinha de couro bege, quase branco, o que, novamente, reforçava o quão inocente ela aparentava.
Seus cabelos, geralmente soltos e rebeldes, estavam presos pela metade. Os fios de suas orelhas para cima se puxavam para trás, formando um nó mal feito e que ameaçava cair a qualquer instante. A parte de baixo estava solta, e dançava por seus ombros quando ela se mexia mais do que deveria. Apesar de toda a escuridão do lugar – exceto pelas chamas iluminadas da fogueira -, eu conseguia enxergar o pequeno delineador preto em suas pálpebras e o brilho labial quase inexistente em seus lábios. Uma gargantilha de prata, constituída por uma estrela de seis pontas como pingente, dançava em seu pescoço magro e completamente convidativo.
Ela estava perfeita. Mas, aos meus olhos, ela se tornava um espelho dos anjos.
Pena que, apesar da imagem angelical, um demônio habitava seu ser.
— Você consegue acreditar em quão linda ela está? — comentou, comendo-a com os olhos. Eu o olhei de modo repreensivo. — O quê? Ela está, mesmo, cara.
— Tanto faz. — dei de ombros, voltando a beber minha cerveja. Após engolir o líquido, emendei: — Eu não acho que seja apenas você quem a está comendo com os olhos por aqui. — e apontei para , que parecia completamente abobado com a imagem da garota à sua frente, tal como Scott e os outros rapazes daquele lugar.
— Essa garota é um perigo para a sanidade masculina. — ele comentou, eu assenti. — É perigoso ser assim, tão bela.
— É... — eu deixei o que quer que fosse dizer no ar quando a vi se aproximando de mim. Ela andava a passos normais que, aos meus olhos, pareciam slow motion. Eu me sentia patético observando-a daquela maneira tão descarada – comendo-a com os olhos, assim como os outros garotos, eu odiava admitir – e quase babando pela sua imagem tão perfeita. Quando ela pôs-se defronte a mim, pigarreou, dando alguma desculpa qualquer para sair dali, não sem antes comê-la com os olhos uma última vez.
— Oi, . — ela disse casualmente, alargando um sorriso tímido tão maravilhoso que, se eu não estivesse me considerando levemente alcoolizado, certamente não teria desculpas para o balançar de minhas pernas. — Não sabia que costumava frequentar a fazenda. Nunca o vi por aqui.
— Eu não costumo. — respondi com a voz rouca. Pigarreei, dando mais um gole em minha cerveja. — É a primeira vez que venho.
Ela arqueou a sobrancelha rapidamente, pressionando os lábios um contra o outro. Eu repeti seu gesto, no entanto, tinha certeza de que ficara muito melhor nela.
— Olha, sobre hoje cedo... — ela começou, olhando para baixo momentaneamente e voltando o olhar para mim logo em seguida. — Lind não falou nada a ninguém... Ela me jurou.
— Bem, se não foi ela, só pode ter sido uma pessoa, . — eu pressionei os lábios novamente, mas, dessa vez, de uma maneira muito mais irônica.
— Por que desconfia tanto assim de mim? — ela me olhou quase suplicadamente. Foi a minha vez de arquear a sobrancelha.
— Não é como se eu tivesse muitos exemplos de boas atitudes suas para me basear, não é?
Ela ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Eu coloquei uma mão no bolso. Só então me lembrei do cigarro aceso entre meus dedos.
— Merda! — exclamei, retirando a mão dali rapidamente e, num ato mecânico, derrubando o cigarro no chão. — Merda! — repeti frustrado.
— Não queimou... — murmurou, observando o bolso da bermuda enquanto eu batia a mão para tentar tirar qualquer faísca. — , não está queimado.
— Sei que não queimou, eu estou vendo, ok? Mas me machucou. — enalteci ignorante. arqueou a sobrancelha.
— Eu... Falo com você depois, ok?
Eu não respondi. me olhou mais uma vez por cima dos ombros enquanto se afastava, e eu apenas continuei batendo em meu bolso igual um retardado.
— Não tem nada lá dentro. — deu de ombros ao que saía do casarão, dando de cara com uma multidão de pessoas olhando, apreensivos, para ele. — Por que estão todos me olhando assim, cara?
— Bem, é que você é a primeira pessoa “não-bêbada” a entrar nisso aí e sair com a sanidade intacta. — Danna Cooper, a gostosa da vodka, explicou. — Como você teve coragem?
— Ora, vocês não acreditavam que isso seria assombrado realmente, ou acreditavam? — ele perguntou com óbvia indignação. — Digo, é só uma casa abandonada.
— Bom, ninguém nunca entrou aí para saber mesmo. — Danna retrucou. — Corre o boato de que houve um assassinato terrível aí.
— Eu entrei. — ele sorriu vitoriosamente — E não vi nada demais. — deu de ombros, dando as costas à garota.
, em um momento estou-sem-ter-o-que-fazer, decidiu que seria legal dar uma de aventureiro. Juntando todo sua indiferença e cinismo sobre o que as pessoas diziam sobre aquela casa, adentrou a mesma como se estivesse entrando em sua própria residência. A princípio, os únicos que viram aquilo haviam sido eu e que, depois de uma sessão de amassos com Sarah, decidiu que seria legal se juntar aos amigos. À medida que demorava dentro daquela residência e eu e aparentávamos mais “babaquismo” ao olhar fixamente para a abertura da casa, as pessoas foram se aglomerando, buscando informações que poderiam, ou não, dar uma animada na noite.
E foi assim que quase todos os participantes daquela Reunião macabra se juntaram nas portas dos fundos da casa para observar surgir de lá de dentro como se nunca estivera mais entediado.
— O que tinha lá dentro? — perguntou, bêbado demais para entender que não havia nenhum tipo de poltergeist querendo revolucionar o mundo à favor dos espíritos.
— Chão rangendo, poeira, cortinas rasgadas e mofo. — ele deu de ombros. — Nada que nunca tenhamos visto antes. Principalmente na casa de , quando seus pais viajam.
— Obrigado pela parte que me toca. — revirei os olhos.
— Eu nem comecei a tocar ainda, meu amor.
Eu preferi ignorar o comentário infantil e prepotente com mais um revirar de olhos. Entornei minha nova latinha de cerveja apenas para descobrir que ela não continha mais nenhuma gota de álcool. Decidi, portanto, buscar mais uma.
— Vou pegar cerveja. — falei, enquanto já me virava e punha-me a caminhar para onde os isopores estavam — Volto já.
No caminho, levei a mão ao bolso traseiro, tirando meu maço de cigarros que, incrivelmente, não havia acabado. Tudo bem aquele ser o segundo maço em... Duas horas? De qualquer maneira, ele ainda tinha, no mínimo, cinco fumos. Bati com o maço na palma da mão para que um dos cigarros caísse e, assim feito, o levei a boca. Acendi rapidamente e guardei o isqueiro na carteira de cigarros, guardando este em meu bolso novamente.
Assim que tinha minha latinha em mãos, caminhei de volta para o lado de meus amigos. No entanto, antes que pudesse chegar até eles, uma movimentação estranha perto do lago me chamou a atenção.
Ok. Vamos deixar uma coisa muito bem esclarecida aqui: eu não sou um garoto curioso, ninfomaníaco, nem nada assim. Por mais que aquela movimentação me lembrasse muito bem dois corpos juntos, ainda estava em um ângulo estranho demais para confirmar tal pensamento. Foi por isso que, notando que aquela movimentação se tornava realmente estranha, desviei meu caminho para perto do lago antes mesmo de chegar a três metros de meus amigos.
Para minha sorte – ou azar, é você quem sabe -, havia uma árvore de tronco grosso o suficiente para que eu pudesse me tornar invisível se me escondesse ali. Portanto, assim que me vi próximo aos vultos e à árvore, escondi-me atrás dela.
Foi então que a fúria e a desconsideração me atingiu em cheio. Eu senti o chão se abrir abaixo de mim e uma mão puxar-me para o inferno, como se para me castigar ainda mais. Várias coisas se passaram por minha mente naquele instante – fora ciúmes; foi quando tive uma ideia que, a princípio, pareceu-me ridícula. Porém, conforme os segundos passavam, ela apenas vinha a agradar-me mais. Entregando-me à tentação, tirei o celular que – graças a não sei o quê – eu havia levado e, apertando alguns poucos botões, tirei uma foto.
Down Goes Another One
O maldito celular estava com o maldito flash ligado. Assim que eu vi aquele lampejo de luz indecente saindo do aparelho ligado à minha mão, encolhi-me quase que instantaneamente atrás daquele tronco. Eu segurava o celular tão forte que tinha medo de poder quebrá-lo.
— Você viu isso? — a voz de irrompeu em meio ao silêncio. — Digo, esse flash?
— Eu não vi nada. — Scott respondeu. Eu não gostaria de ouvir a voz embargada dele naquele momento. — Volta aqui, !
— Não! Eu vi um flash saindo daqui, Scott, eu vou olhar o que é! — eu podia perceber a voz dela cada vez mais próxima. Meu estômago congelou no exato momento, apenas esperando pela descoberta e pelo que aconteceria depois dela.
Mas a descoberta não veio.
Ao invés de um grito de ao me ver ali, o grito que todos foram capazes de ouvir veio de perto das chamas da fogueira.
— O que aconteceu? — perguntou, alarmada, correndo de volta até Scott. Eu suspirei aliviado. — O que, diabos, está acontecendo?!
— Eu não sei! — Scott exclamou. — Volta aqui e vamos terminar com isso, .
— Eu não tenho nada a terminar com você, Scott. — e, dito isso, os passos de se tornaram cada vez mais distantes, tais como os de Scott.
Eu esperei por alguns instantes antes de espiar pelo tronco e perceber que não havia mais ninguém ali. Olhei para a foto em meu celular, onde era visivelmente engolida pela goela babona de Scott com direito a uma mão boba na bunda.
Você deve estar se perguntando o que eu faria com aquela foto. Bem, uma coisa eu poderia garantir sem temor: nada bom.
Salvei a foto no celular. Entretanto, quando estava pronto para correr de volta ao fuzuê que a região da fogueira havia se tornado, ouvi o barulho de farfalhar de folhas. Parei abruptamente, virando-me para o pequeno matagal que se estendia às minhas costas. Um grupo de folhas de uma moita chacoalhava incessantemente. Estava prestes a checar o quê, ou quem, estava fazendo aquilo, quando um gato se esquivou para fora da moita e pôs-se a desfilar para longe dali, não sem antes lançar-me um olhar superior. Rolei os olhos e, rapidamente, corri até onde os outros estavam. Logo avistei e , e, como se nunca tivesse saído dali, bebi um gole de minha cerveja. Os dois olharam para mim com sorrisos no rosto, o que me fez arquear a sobrancelha.
— O que diabos aconteceu aqui? Que grito foi aquele?
— Oh, foi só Danna colocando um trompa na boca e virando litros e litros de tequila. — ele deu de ombros.
— Ok, e por que o grito?
— Porque ela vomitou tudo depois de, o que, três goles? — ele riu sarcasticamente. estava, definitivamente, precisando de uma bebida para acalmar os nervos. — Foi engraçado.
— É, deve ter sido... — murmurei. — Será que eu posso conversar com os dois?
— Você já não está fazendo isso? — olhou para mim como se tentasse avaliar minha loucura. Eu dei-lhe um olhar podre, que ele logo fez questão de repelir.
— Será que eu posso conversar com os dois longe daqui? — repeti, acrescentando agora o que provavelmente não havia pegado no subentendido.
— Você pode nos contar no caminho para casa. — falou, tirando as chaves do carro de do bolso e girando-as entre o dedo. — Acho que já deu ficar por aqui hoje.
Eu concordei silenciosamente e, mesmo com protestos de um bêbado, seguimos para fora daquele lugar. Quando já estávamos dentro do carro – dirigia, já que era o único com condições o suficiente para isso -, resolvi tirar o celular do bolso e mostrá-los a foto. O primeiro a ver, pelo canto dos olhos e rapidamente, foi . Ele me lançou um olhar de dúvida tão rápido quanto o de curiosidade antes de voltar a atenção à rua, sem falar nada. Entreguei, depois, o celular a . Este encarou a foto por alguns segundos antes de finalmente exteriorizar seus pensamentos.
— Caralho, como a é gostosa. — ele falou com a voz arrastada. Eu rolei os olhos, puxando violentamente o celular da mão dele e guardando-o novamente no bolso. — Onde você conseguiu isso?
— Onde você acha, otário? — perguntei indignado. soltou um resmungo qualquer e cruzou os braços, emburrado demais para falar novamente.
— O que você pretende fazer com isso, ? — me perguntou. Eu o odiava quando me chamava de . Era pior até mesmo do que ouvir minha mãe me chamando assim. Estranhamente, minha mãe preferia me chamar de quando estava amorosa, e de quando estava com muita, muita raiva, tal como quando descobriu minhas roupas embaixo da cama. , no entanto, aparentava um tom tão ameaçador que o simples fato de olhá-lo era algo fora de questão. — Eu teria cuidado com algo assim. — ele completou.
— Bem, eu pensei em algo. — dei de ombros, olhando-o rapidamente pelo canto dos olhos. — Lembra quando o pai de a viu com um garoto, dois anos atrás?
— Sim...
— Lembra o que ele lhe disse?
— Aonde você quer chegar, ?
Eu suspirei. Contar meu plano a seria difícil.
— Eu sei o quanto você não apoiará isso, mas... — suspirei novamente — Eu vou mandar essa foto ao pai de .
— O que? — ele exclamou, me olhando indignado. — , isso é sério! O pai dela vai deixá-la, o quê, trinta e cinco anos de castigo? Você sabe o quanto aquele homem é ciumento quanto à filha!
— Mas... , eu estou cansado dela. — confessei. — Conversou comigo hoje como se esperasse algo de mim, uma atitude, um beijo, qualquer coisa... E, no instante seguinte, estava aos amassos com Scott? Ela merece, sim, uma punição.
— Você é quem mais sairá perdendo. — ele falou, suspirando ruidosamente. — Se ela for trancada em uma masmorra, como você espera ter chances de desenvolver algo?
— Isso faz parte do plano. — eu sorri de canto, convencido com tudo o que já havia planejado. — É só deixar comigo.
— Sim, oh, Mestre Jedi, como você pretende liberá-la das masmorras depois disso? Vai utilizar do seu poder de persuasão máxima? — ele ironizou, tratando-me como um completo idiota.
— Eu já tenho tudo em mente, . — disse de maneira seca, não me importando se estava sendo rude demais. estava estranho.
— É você quem sabe. — ele deu de ombros. — Como pretende mandar a foto para os pais dela sem que te reconheçam?
— , ... Você esqueceu que o pai dela trabalha com o meu? — eu ri enviesadamente — Eu só preciso invadir o computador de meu pai e descobrir o e-mail do sr. . Depois disso, tudo tranquilo.
— Eu ainda acho arriscado e, sem dúvidas, sacana. — ele falou. — Se ela descobrir, jamais conseguirá algo com .
— Ela não vai descobrir. — afirmei. — Agora chega desse assunto. Estou com uma puta dor de cabeça.
— ? — falou do banco de trás, se mostrando acordado.
— O que?
— Você poderia enviar essa foto pro meu e-mail também?
A casa silenciosa me dava calafrios.
Não me perguntem o por quê... Ela simplesmente dava.
Eram duas e meia da manhã. Eu havia me trancado no quarto desde quando havia chegado a casa, apenas para dar a impressão de que iria dormir. Na verdade, eu só estava esperando que meus pais pegassem no sono para, então, eu poder invadir o notebook de meu pai. Por sorte, a porta do meu quarto não rangia ao abrir.
Eu chequei rapidamente o quarto dos meus pais, ouvindo o ronco monstruoso dele e vendo minha mãe parecendo uma múmia, enrolada em tantas cobertas. Entrei em passos mais do que silenciosos e, abaixando-me rapidamente, peguei a maleta de couro onde meu pai levava o notebook de trabalho. Saí do quarto na ponta dos pés com o corpo ainda curvado, como se pudesse acordá-los se me mantivesse ereto.
Assim que me vi no andar de baixo da casa, rumei para o escritório onde meu pai se trancava durante quase a noite toda para fazer relatórios sobre alguma coisa qualquer. Abri a porta da saleta – que rangeu – e, quando a fechei – rangendo novamente, é claro -, sentei-me em sua cadeira giratória de couro, abrindo o notebook sobre a mesa. Meu celular e cabo USB foram conectados rapidamente e, assim, passei a foto para a área de trabalho do notebook. É claro que eu a excluiria depois.
Existe apenas uma coisa boa em saber a senha do e-mail pessoal do seu pai: você pode entrar para fazer qualquer coisa que ele nunca ficará sabendo.
Procurei pela caixa de entrada de seu e-mail por qualquer e-mail enviado pelo pai de e, depois de alguns minutos, o encontrei. Era um e-mail informal, dizendo respeito a alguma corrente que não se devia ser quebrada.
Eu acho incrível como adultos acreditam nisso.
Copiei o endereço de e-mail e, ágil como o Ligeirinho, criei um e-mail “fake” para mim. Digitei qualquer coisa, mesmo. E então, como última tarefa, anexei a foto ao e-mail destinado ao sr. , com a seguinte mensagem:
Achei que você deveria saber das coisas que sua filha anda fazendo fora de casa.
Não precisei escrever nada mais do que isso. Sem cumprimentos, sem despedidas, sem qualquer coisa que pudesse me fazer descoberto.
E então, eu enviei.
E
Easy Way Out
Fazia uma semana desde que não era vista fora de casa. O único lugar que lhe era permitido frequentar era o colégio, e dali direito para casa.
Eu não me sentia culpado. Nem um pouco, para ser franco. Depois de tanto me prender a um sentimento do qual meu coração constantemente se queixava, vê-la frustrada constantemente com aquele castigo terrível e a dúvida de quem havia a denunciado era um tanto quanto reconfortante. É claro que eu não era, e não sou, uma pessoa má. Mesmo gostando de vê-la sofrendo dessa maneira sem poder se divertir com suas amiguinhas e Scott, eu tinha em mente um modo de tirá-la de casa. Eu havia pensado em exatamente tudo o que era necessário para que nada ocorresse de maneira errada.
Era sexta-feira novamente, e não estava na aula. Provavelmente tivera um momento rebeldia com seus pais e decidira não comparecer. Eu a entendia completamente; já havia feito isso diversas vezes. No entanto, mesmo sem vê-la naquela manhã chuvosa, nada poderia interromper meus planos e minha criatividade. É claro que quando e descobriram sobre minhas intenções, vieram com diversos tópicos negativos sobre aquilo tudo; eu não dei ouvidos.
E me seguia como se eu fosse desaparecer magicamente em sua frente.
— Você tem certeza, dude? — perguntou-me pela milionésima vez, enquanto seus pés tentavam acompanhar os meus para fora daquele colégio. — Você sabe que pode acabar levando uma surra; se não acabar morto primeiro.
— Eu tenho tudo sob controle, . — respondi. segurou meu ombro e puxou-me de frente para ele. Eu arqueei uma sobrancelha enquanto o fitava desafiadoramente. — Já disse que está tudo tranquilo.
— Você não sabe o que faz, . — murmurou ele, revirando os olhos. Eu suspirei. — Se descobrir o que você aprontou, pode dizer adeus a qualquer esperança de tê-la. — eu abri a boca para questioná-lo e defender meu lugar, mas não deixou que eu prosseguisse. — Você sabe muito bem que foi errado o que fez. Pode até tentar dar uma de salvador da donzela, mas vai ser assim para sempre?
— O único modo de ela descobrir o que realmente aconteceu para seu pai saber sobre o beijo é você ou os caras contarem. — avisei, cerrando os olhos — Vocês vão contar?
— Você sabe que não faríamos isso. — revirou os olhos novamente, bufando duas vezes antes de prosseguir. — Você é que sabe, . Mas não corra até mim arrependido quando tentar arrancar o seu brinquedinho.
Eu crispei os lábios, mas não o respondi. Ao invés disso, dei-lhe as costas e segui meu caminho pelo estacionamento de alunos do colégio.
Eu não tinha um carro; meus pais, amados e eternos, se recusavam a comprar um para mim enquanto não completasse meus dezoito anos. No entanto, por estar próximo de tal idade, os velhos tinham a bondade no coração de me emprestar o carro quando um deles ficava vago. Como minha querida mãe havia, novamente, viajado a trabalho, meu pai deixara que eu usasse seu carro.
Não demorei muito tempo até que desse a partida no carro e rumasse para a casa de . Eu não possuía dúvidas de que seu pai estaria em casa naquele horário, principalmente por ser período de almoço, mas eu tinha um plano em mente. Era óbvio que eu não teria enviado aquela fatídica foto para o homem se não tivesse um plano arquitetado em mente. Caso contrário, estaria privando a mim mesmo de vê-la por perto em outro lugar que não a escola.
Em menos de vinte minutos, encontrava-me à frente de sua casa. Eu nunca havia ido até lá antes, mas sabia onde minha garota morava.
Minha garota. Eu realmente preciso parar de ser tão doentio assim.
Desliguei o carro e guardei a chave no bolso da calça assim que desci do automóvel. Coloquei as mãos nos bolsos frontais, figurando meu melhor olhar de bom garoto, antes de sair em direção à campainha e apertá-la, voltando a guardar a mão no bolso. Não esperei muito tempo até que um senhor de aproximadamente quarenta e cinco anos entreabrisse a porta, me olhando pela pequena fresta que a corrente que a prendia permitia.
Ele arqueou a sobrancelha e pigarreou.
— Quem é você?
— , senhor. — sorri simpaticamente, convencido de que estava passando uma imagem de bom moço; eu estava errado, no entanto.
— O que está fazendo aqui? — perguntou rispidamente. Antes que eu pudesse responder, entretanto, o homem interveio — Se veio ver minha filha, saiba que está terminantemente proibida de sair até que tenha aprendido o que receberá quando se aventurar com um rapaz qualquer. Aliás, o rapaz com quem minha filha se agarrou no outro dia é você?
Eu pisquei algumas vezes, deixando meus lábios levemente entreabertos. Aquele homem era muito pior do que eu havia esperado; não estava contando com aquela rigidez toda.
— Não, senhor. — respondi assim que recobrei a consciência do que estava fazendo ali. — De modo algum. Eu estou aqui porque foi passado um trabalho de Sociologia essa manhã e foi sorteada como minha dupla. Gostaria de avisá-la e, quem sabe, começar com a pesquisa.
O homem ponderou por um segundo, encarando-me no fundo dos olhos. Senti-me completamente desarmado sobre aquele olhar ameaçador.
— Qual o tema desse trabalho? — voltou a perguntar; sua voz não aparentava a rudez de antes.
— Consumismo. — respondi a primeira palavra que surgiu à minha mente. Literalmente. Se a primeira coisa fosse “sexo selvagem com a ”, eu provavelmente teria dito isso, o que teria custado minha preciosa vida. — O trabalho é para a semana que vem, portanto pensei que pudéssemos começá-lo hoje.
— Tudo bem. — disse ele, após alguns poucos segundos. — Você pode entrar. Podem fazer esse trabalho na sala de estar, que fica exatamente ao lado do meu escritório de trabalho. — alertou, soando incrivelmente ameaçador.
— Senhor, desculpe-me a implicância, mas o professor pediu que fizéssemos um vídeo sobre o assunto. — repliquei antes que o homem fechasse a porta na minha cara para arrancar aquela correntinha e dar-me passagem para sua casa.
— Tenho certeza que o vídeo pode ser gravado na minha sala de estar, como já propus.
— Desculpe, mas não. — retruquei, começando a sentir-me desconfortável com aquela situação. — A verdade é que pensei que pudéssemos entrevistar algumas pessoas sobre sua opinião a respeito do consumismo e os males que ele pode vir a causar. E não podemos entrevistar pessoas na sua sala de estar.
O olhar lançado a mim fez-me congelar, estremecendo em seguida. Eu sentia os joelhos bambearem como se pudessem se partir a qualquer instante, levando-me ao chão. Por sorte, no entanto, o senhor apenas balançou a cabeça para cima e para baixo, murmurando um “Ok” e, inesperadamente, batendo a porta à minha cara.
Fiquei por um momento parado, estático, observando a porta branca com relevos que formavam um retângulo inscrito em seu formato. Aquele homem era assustador; sua aparência alimentava imaginações tortuosas, dignas de alguém como o criador de “Jogos Mortais” ou “Sexta-feira 13”. Os cabelos ralos, quase inexistentes, juntos com o filete de barba negra com um bigode digno de italiano apenas reforçavam a imagem assustadora que possuía.
Recobrando os sentidos, então, assenti para o nada com a cabeça e dei as costas à porta, que se mantinha trancada. Andei em direção ao carro, pensando no quão estúpido havia sido e quão falho meu plano fora arquitetado. Entretanto, antes que eu pudesse abrir a porta do veículo e arrancar os pneus para fora daquela rua, completamente convicto de que meu discurso não havia enganado o pai de , o barulho da porta sendo aberta chamou minha atenção. Virei-me para a porta e ali estava ela, vestindo um short jeans branco e curto, deixando suas pernas torneadas e maravilhosas à mostra, enquanto seu tronco trajava uma camiseta estilo polo na cor amarela clara. Os cabelos estavam soltos, mas sua franja estava presa para trás pelos óculos aviador que ela erguera à cabeça.
Eu pisquei duas vezes, admirando a visão bela que surgira à minha frente. segurou seu próprio cotovelo com o braço, encolhendo-se como se estivesse intimidada. Dando um sorriso tímido, aproximou-se do carro e entrou no lado do passageiro, sem dizer uma palavra sequer.
Fiquei indignado, mas não disse nada; apenas entrei no carro e dei a partida.
— Então... — começou ela, quando afastamo-nos da rua de sua casa. — Aonde vamos para fazer esse trabalho?
— Não vamos a lugar algum. — respondi, deixando que um sorriso se formasse no canto de meus lábios.
— Mas... O trabalho é para a semana que vem, não? Não acho que meu pai me deixará sair novamente para concluí-lo.
— Não existe trabalho algum, . — olhei para ela com o canto dos olhos, logo voltando a atenção à rua nada movimentada. — Foi apenas uma desculpa para te arrancar de lá. Sei que você está farta de permanecer como uma prisioneira.
Senti o olhar de sobre mim, analisando-me com os olhos frisados. Ela, então, baixou os óculos e, pigarreando, voltou a olhar para frente.
— Obrigada, então. — agradeceu, parecendo incomodada. — Por tirar-me de lá. Não sei se aguentaria mais tempo naquele lugar. Meu pai está me enlouquecendo e minha mãe concorda com tudo o que ele diz.
— Por nada. Já passei pela sua situação nos meus treze anos. Meus pais me deixaram sem liberdade por um mês, foi realmente um inferno.
— O que você fez para ficar trancafiado? — perguntou-me, curiosa.
— Coloquei álcool na garrafa térmica de café da sala dos professores. Digamos que eles descobriram um gosto um pouco diferente.
— E como descobriram que havia sido você?
— Eu não pude deixar de rir quando a diretora adentrou a sala exigindo que alguém confessasse o crime. — dei de ombros, sorrindo abertamente enquanto a lembrança invadia minha mente. — Havia sido um desafio proposto por . Ele sempre teve gosto por péssimas ideias. Fui suspenso por três dias, trancafiado por um mês.
— É incrível que não tenham lhe expulsado. — admirou-se, um sorriso crescendo em seus lábios, também. — Não acredito que tenha perdido esse acontecimento!
— Você perdeu várias coisas engraçadas. — contei, deixando que um riso escapasse por meus lábios. Virei a direção para fazer uma curva fechada, pisando no freio quando percebi o movimento mais intenso da rua que entrávamos. — Meu grupo de amigos nunca bateu bem das ideias. sempre foi o pior. Aquela carinha de nerd imaculado é completamente disfarce. Ele é um demônio em forma de bom aluno.
— Preciso saber das histórias! — exclamou ela, olhando para mim novamente. — Talvez ele possa me ajudar a sair de algumas enrascadas, também!
— Ele não consegue sair nem de suas próprias confusões, quanto mais te aconselhar a sair de alguma. — avisei, balançando a cabeça negativamente. — sempre se dava mal. É incrível que ele não tenha sido expulso do colégio.
— Ok, eu definitivamente preciso saber sobre cada história que vocês aprontaram juntos. — admitiu ela, concordando com a cabeça. Depois sua atenção prendeu-se novamente à rua, e eu pude ver sua sobrancelha se arqueando lentamente. — Aonde vamos, ? Não conheço esse caminho.
Eu sorri ainda mais abertamente antes de responder.
— Estamos indo a um clube. É sexta-feira, afinal. Um bom dia para beber uma cerveja e nadar.
— Mas, , eu não tenho biquíni. Nadar com roupas está fora de cogitação — olhei sugestivamente para ela, arqueando uma sobrancelha maliciosamente — Sem roupas também!
— Tudo bem, existe uma loja para emergências lá. — comentei — Eu posso pagar por um biquíni para você.
— Não é necessário...
— E você pretende nadar como? — indaguei, observando-a. Ela permaneceu muda. — Eu pago. E não se preocupe em me pagar depois.
Ela não tentou negar, apenas assentiu com a cabeça. Menos desconfortável e mais descontraída, sentiu-se livre para ligar o rádio, e assim o fez. A estação em que havia sido deixada tocava apenas músicas country, uma preferência incompreendida de meu pai. fez uma careta quando reconheceu os acordes de alguma coisa qualquer, sussurrando algo como “Essa música é terrível!”, e zarpou pelas outras estações. Sintonizando, então, em uma rádio mais escutada pelos adolescentes, tivemos o carro preenchido pela voz de uma banda americana que eu não me lembrava o nome, mas tinha uma vocalista muito gostosa que representou um papel em “Gossip Girl”.
Não que eu assista “Gossip Girl”, mas eu a vi na TV enquanto mudava os canais.
A música falava sobre algo ou alguém estar longe demais. Eu nunca havia escutado, mas era legal e tinha uma melodia aproveitável. A voz daquela cantora era muito boa e nada enjoativa.
Quando, por fim, avistamos a portaria que nos daria acesso ao clube, diminuí o volume do som e pincei minha carteira do bolso traseiro. O porteiro sorriu simpático, enquanto eu procurava pela carteirinha que nos daria acesso ao clube. Assim que o cartão foi avaliado pelo homem e passado em um leitor magnético, a barra à nossa frente se levantou e eu segui com o carro até o estacionamento para sócios.
Nós descemos do carro e logo se juntou ao meu lado, entrelaçando seu braço ao meu enquanto, com a outra mão, eu acionava o alarme. Seguimos em direção à ponte que nos levaria às piscinas e, também, à pequena lojinha de conveniência para aqueles que tinham emergências, como toalhas, óculos, protetor solar e qualquer outra coisa. logo foi abordada por uma atendente que trajava um uniforme da loja que, a meu ver, parecia ser quente, e perdeu-se em meio aos cabides de biquínis que havia ao canto. Ela logo se trancou em um provador e, dois minutos depois, reapareceu trajando um biquíni vermelho sangue com bolinhas brancas, bem parecido com o vestido da Minnie, namorada do Mickey. Por mais boba que fosse a escolha, o biquíni tivera um caimento perfeito para ela, contrastando com sua pele extremamente pálida.
Ela fez uma pose complementada com um biquinho e uma piscadela, fazendo-me rir.
— O que achou? — perguntou, ensaiando poses à frente do espelho.
— Ficou ótimo em você. — respondi.
Ela sorriu e entrou novamente no provador, saindo de lá vestindo suas roupas e escondendo algo em suas mãos. Não consegui ver o que era, mas não me importei com isso. Fomos ao caixa, onde paguei pelo biquíni e saí da loja. Percebi que não me seguia e retrocedi, vendo-a colocar aquilo que levava em uma sacola oferecida pela vendedora.
— O que está guardando? — perguntei, arqueando as sobrancelhas.
— Minhas roupas íntimas, oras. Espera que eu saia carregando-as por aí para que qualquer um as veja?
Eu ri, assentindo com a cabeça enquanto saíamos juntos para o sol da uma hora. A piscina nos esperava com suas águas aquecidas e o sol, mesmo que fraco para um dia de verão, nos esperava pronto para queimar nossas peles.
Everybody Knows
se esticava em uma espreguiçadeira, virando sua posição de barriga para baixo em relação ao sol. Cruzou seus braços na frente do rosto e apoiou seu queixo ali, enquanto alcançava, com os lábios, o canudo vermelho e branco do copo de sua batida.
Eu sabia disso tudo, porque estava tendo uma vista privilegiada naquele canto da piscina.
Mas não era a única coisa em que eu estava reparando. Eu era capaz de enxergar os outros caras que a secavam como se fosse o último pedaço de carne no meio de uma alcateia imensa. , no entanto, não se dignava a olhar nos olhos de nenhum deles quando esses passavam e faziam seus comentários dignos de prisão perpétua. Seu olhar permanecia vidrado na revista que pedira emprestada a uma mulher no quiosque ao lado e seus únicos movimentos de cabeça eram aqueles que seguiam as linhas das matérias.
E, incrivelmente, eu não estava me incomodando com toda essa observação mútua para cima de .
De certa forma, tê-la “resgatado” de seu pai acabou sendo tudo aquilo que eu precisava. Seu ânimo para comigo, somado às risadas e ao conforto que ela adquirira ao meu lado, somaram pontos ao meu favor. Aquilo fora exatamente o que ela precisara para ter uma aproximação maior de mim e acabar me conhecendo de um jeito melhor do que contavam as más línguas.
E, novamente, eu nem precisei usufruir do meu coração. Talvez tivesse utilizado um pouco da parte maldosa e congelada ao condená-la pelo resto da vida em uma prisão domiciliar por causa de uma foto, mas a parte quente e pulsante sabia que aquilo fora algo para seu próprio bem. Ou o meu.
Só fui desperto de meus enleios quando um barulho de algo se chocando contra a água mais milhões de gotas se chocando contra meu rosto foi propagado no ar. Fechei os olhos com força, protegendo-me da enchente que entraria em meus olhos, e só os abri quando senti duas mãos pequenas e delicadas postando-se em meus ombros. Depois, o par de pernas se entrelaçou em minha cintura, apertando-me contra seu corpo, enquanto um beijo estalado e molhado era depositado em minha bochecha esquerda.
Eu ri, divertido, segurando nas panturrilhas de enquanto ela se impulsionava para frente para que eu andasse pela piscina com ela em minhas costas. Rolando os olhos e sentindo-me bobo, puxei uma boa quantidade de ar e submergi o necessário para que ambos estivéssemos submersos. Então, usando apenas do esforço de minhas pernas, já que minhas mãos seguravam as de , desloquei-nos para o outro lado da piscina, emergindo sempre que cutucasse meus ombros.
E a cada emergida, um novo beijo estalado na bochecha.
Eu tinha toda a certeza do mundo de que aparentava ser patético para qualquer um que visse minha situação. Porque, é claro, o sorriso que se abria em meu rosto sempre que um novo beijo era depositado tão próximo de meus lábios era evidente. Era o que eu sempre quisera, afinal; estar em um programa com , abraçado a ela, beijando-a. A única diferença era que sempre desejei que o beijo fosse em meus lábios.
Quando chegamos à outra margem – a piscina era enorme, mesmo -, relaxei meus braços para que pudesse voltar a ficar em pé. Ela o fez, logo encostando-se de barriga à borda da piscina, virando seu rosto lentamente para o lado para que pudesse me fitar. Eu repeti seu gesto, porém mantive-me com apenas um ombro encostado à borda. Nós nos encarávamos sem pudor algum – de minha parte, pelo menos -, até que seus olhos oscilaram até meus lábios, ombros, peitoral e, por fim, de volta aos meus olhos.
Vi naquele exato momento que o que fizera deveria ter passado despercebido, já que, ao notar meu sorriso de canto para a avaliação que dera em mim, suas bochechas coraram ainda mais do que o sol já havia tomado o cuidado de fazer. Ela sorriu sem graça e eu, avaliando minhas alternativas, mantive o olhar sobre ela e o sorriso no rosto enquanto eu erguia minha mão aos meus cabelos e os bagunçava.
Por fim, decidi mandar qualquer dúvida à merda. Estávamos ali, não estávamos? Ela me dera os sinais para o que fazer agora, e eu os acataria com prazer.
Extingui os dois palmos de distância que havia entre nós quando nos separamos, dando um impulso com o pé até que estivesse frente a frente com ela, que, agora, encostava suas costas na borda da piscina. Suas mãos se espalmaram em meu peito, deslizando lentamente até meus ombros e, então, de volta ao peito. Seu olhar desviou-se para lá por alguns segundos, acompanhando seus movimentos, mas voltara aos meus olhos no momento seguinte. Eu, então, depositei uma mão em sua cintura, puxando-a como uma boneca de pano para perto de mim, juntando nossos corpos seminus. Minha outra mão deslizou por baixo de seus cabelos até atingirem sua nuca, fazendo um leve carinho por ali enquanto ainda a olhava; dessa vez, os olhos que oscilavam eram os meus, de seus próprios olhos até seus lábios cheios e entreabertos, apenas aguardando pelo momento em que sentiriam os meus.
Deixei minha cabeça pender para um lado, fazendo o mesmo movimento para o oposto logo em seguida, ponderando qual posição seria a melhor para começarmos logo com aquilo. Então levei meu rosto para perto do seu, deslizando a ponta de meu nariz pela sua bochecha bem lentamente, sentindo-a enrijecer. Depois de brincar um pouco em sua bochecha apenas para sentir, mais do que ver, sua reação, finalmente fui em direção a seus lábios...
— Ora, ora, ora... — empurrou-me de leve para trás, afastando-me dela antes que pudesse sequer raciocinar o que diabos estava acontecendo. — e... !
Foi então que reconheci aquela voz inegavelmente desagradável. Um sorriso totalmente sarcástico se abriu em meus lábios no mesmo instante, enquanto eu via o rapaz de cabelos negros e olhos verdes agachar-se à beira da piscina, exatamente onde eu e estávamos antes, analisando a mim e a ela. O sorriso em seus lábios brincava entre a maldade e o divertimento. Ele decidiu por fitar a mim.
— Fazia um bom tempo que não aparecia por aqui, não é, ? — perguntou Mark, forçando um tom gozado em meu apelido, desprezando-o completamente. o olhava como se imaginasse quem aquele ser desagradável poderia ser. — O que aconteceu, huh? Ficou com medo de me encarar de frente?
— Não seja tolo, Mark. — eu respondi, adotando um tom ainda mais irônico e sarcástico em minhas palavras. — Eu jamais poderia te encarar de costas. Mesmo depois de fazer o colegial três anos a mais do que as pessoas comuns fazem, ainda não aprendeu a controlar a gramática?
— Você entendeu o meu ponto, . — retrucou ele, rispidamente. — Teve medo de aparecer por aqui depois que acabei com você e seus amiguinhos idiotas. Como estão eles, afinal? Já estão conseguindo se olhar no espelho sem ter vontade de se matar?
— Não compreendo por que eu teria medo de reaparecer aqui para quebrar a sua fuça mais uma vez, Mark. — rebati. — E nem meus amiguinhos idiotas. Sabe muitíssimo bem que nós quatro damos conta de todo o grupinho que você chama de amigos.
O olhar de Mark oscilou entre a derrota, mas logo voltou ao sarcasmo. Então fitou , que se mantinha parada ao meu lado, olhando-nos sem entender uma palavra sequer. Ele sorriu de uma maneira galante – ou, pelo menos, tentou, já que eu não acho sorrisos masculinos galantes, a não ser o meu.
— Ouvi falar muito de você, . — começou ele, jogando os cabelos negros para o lado com apenas um movimento de cabeça. — Coisas muito boas. É verdade que estava se atracando com Scott naquela velha fazenda abandonada? No meio de todos, mesmo, safadinha?
O ódio ferveu em minhas veias.
— Muito bem, Mark, se você quer briga, brigue comigo. — ordenei, indo até a borda da piscina e, com impulso dos braços, saindo dela. Posicionei-me de frente para Mark, que olhava abismado para minha velocidade em sair da água para defendê-la; ele se ergueu do chão, também. — Você não ofenderá na minha frente sem sair daqui com alguns dentes faltando.
Mark soltou uma risada como “ô-ho-ho-ho” antes de apontar para mim e curvar o corpo para frente por um momento. Ele não era tão mais alto que eu. Para dizer a verdade, éramos praticamente do mesmo tamanho, com exceção de um ou dois centímetros.
— E é você quem arrancará os meus dentes, ? — indagou, irônico, gargalhando em deboche. — Você não é capaz para tanto.
— Você quer pagar para ver, Mark?
— Já chega! — exclamou , que ainda estava dentro da piscina. — Chega! , vamos sair daqui.
— Ele a ofendeu, .
— Não importa. Nem ao menos o conheço para me sentir ofendida. Vamos sair daqui. — pediu ela mais uma vez.
Relutante, assenti, sem olhar em seus olhos; ainda estavam repletos de fúria para que fossem direcionados a ela. Com um último sorriso irônico a Mark, disse:
— Não se preocupe, Mark, eu e meus amigos voltaremos para lhe dizer um oi.
Vir-me-ei para e lhe estiquei a mão, esperando pela dela; assim que a tive, puxei-a para fora da piscina e, passando um braço sobre seus ombros de maneira possessiva – muito possessiva -, saímos daquele canto da piscina, voltando para nosso quiosque.
Meu celular tocou assim que nos sentamos. Olhei o nome no identificador de chamadas, vendo que me ligava.
— Alô?
— ? É o . — ele não precisaria se identificar, eu já havia olhado no identificador de chamadas. — Onde você está, dude?
— Estou no clube...
— O velho clube do outro lado da cidade? O que costumávamos frequentar semanalmente? — indagou, sem deixar-me continuar.
— Sim, esse mesmo.
— Cara, faz tempo que não vamos até aí... Desde toda aquela confusão com Mark. — lembrou-se. Seguiu-se um instante de silêncio até que ele voltasse a falar. — Mark está aí? Acho que ele não parou de frequentar o clube, já que seu pai é acionista.
— Está. Já me deu as graças de sua honorável presença.
— Anda arrogante como sempre foi? Não aprendeu como se comportar, mesmo depois de toda aquela surra?
— Pessoas como Mark nunca aprendem, ... — filosofei, olhando de esguelha para , que voltara a se espreguiçar na espreguiçadeira. — Olha, , foi uma conversa realmente interessante, mas...
— Por que não nos chamou para ir até aí com você? — perguntou ele, sem deixar-me terminar o que ia dizer novamente. Rolei os olhos.
— Porque eu não estava exatamente planejando vir até aqui. Foi algo de momento.
— Não importa, estamos indo.
— Estamos? — repeti, duvidando. — Quem “estamos”?
— Oras! Eu, e ! Vamos pegar o carro e chegaremos aí em quinze minutos.
— Olha, ok, , não vai dar... Sabe... Eu não estou sozinho aqui.
— É óbvio que não, seu bobinho, o clube não abriria apenas para você.
— Não, , você não entendeu! — ri sem humor, levando a mão livre aos meus cabelos e bagunçando-os, sem saber como explicar aquilo de uma maneira sutil sem ter me ouvindo. — Eu estou... Com alguém aqui. Entende?
— Quem? Não me diga que você está pegando mais alguma menininha do colégio para suprir as necessidades que não supriu!
— ! — exclamei, passando a mão pelos cabelos nervosamente. — Estou com ela aqui. — sussurrei.
— O quê? Está o quê?
— Céus. — reclamei, revirando os olhos. — Preste atenção, . Eu. Estou. Com. Ela. Aqui.
Um segundo se silêncio se colocou entre mim e , até que um “Oh!” arrastado e gritado fosse pronunciado por ele.
Estranho, se eu não soubesse que ele estava fazendo isso por causa da minha notícia.
— Oh! Entendi! Você está com diarreia!
— , passe o celular para o ! Agora!
resmungou um “por quêêêêêê?”, mas deu-se por vencido quando esbravejei novamente. Logo, surgiu ao celular.
— Fala, dude. O que foi? Está com diarreia? Quer alguma coisa?
— Eu quero que vocês parem de ligar e não venham para o clube! — sussurrei calmamente, tentando fazê-lo entender.
— Por que, mate? Está tão ruim assim?
— Caralho, , eu não estou com diarreia! — sussurrei a última palavra, já que não poderia ouvi-la. — Estou com ela aqui!
— CARALHO! — exclamou . — Espere, dude, vou colocar no viva-voz!
Um segundo se passou até que eu ouvisse e exclamarem “Oi, !” e , por sua vez, acrescentar um “de novo!” ao fim de seu cumprimento.
— Certo, agora repita isso, . — pediu .
— Eu estou com ela aqui no clube, então não venham para cá nos atrapalhar! Pelo amor de alguma coisa, , explique ao que eu não disse que estou com diarreia. — rolei os olhos.
— está com no clube. — ouvi dizer, e então um novo “Oh!” arrastado de .
— Ela está de biquíni, ? Ela é gostosa? — perguntou ele.
— , eu quase quebrei a cara de Mark por isso. Cuidado com o modo ao que se refere a ela. — avisei.
— Ela não descobriu, então, que foi você quem enviou a foto para o pai dela? — perguntou , tendo a concordância de .
— Você não espera que eu fale disso ao telefone, não é? — perguntei retoricamente. Eles assentiram mesmo assim. — Olha, mais tarde poderemos sair, não é? Aí eu explico tudo.
— Na fazenda, como da última vez? — perguntou .
— Pode ser.
— !
me chamara. Olhei para ela, sorrindo, vendo-a sorrir de volta para mim.
— Vamos jogar tênis comigo? — pediu. — Faz anos que não jogo, e fiquei com vontade agora que vi a quadra! Será que tem raquetes disponíveis?
— Creio que sim, . — comentei, assentindo com a cabeça. — Claro que eu jogo. — e, então, direcionando-me ao celular, disse: — Nos falamos mais tarde, guys.
A última coisa que ouvi, antes de desligar o celular, foi exclamando novamente “Então ele realmente não está com diarreia?”
Continua...
Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail, não utilizem a caixa de comentários. Obrigada, espero que gostem da fic. XX