Verão e férias, duas palavras que normalmente seriam sinônimos de felicidade, mas que para mim, tanto nesse ano quanto em outros anos, significava estudo, falta de escola, mais tempo sendo cobrada pelos meus pais, enfim... Tudo menos felicidade.
Esse ano minhas férias seriam diferentes, eu passaria elas com meu pai, que se divorciou da minha mãe há dois anos, no Rio Grande do Sul. Atualmente eu vivo com a minha mãe, no Rio de Janeiro, vivemos nós duas e minha irmã mais nova (que passará as férias num acampamento infantil). Meus dois irmãos estão viajando pelo mundo, enquanto minha irmã mais velha curte a vida na faculdade (nem preciso dizer que somos completamente diferentes, eu a estudiosa nerd, ela a bonitona da família que vive em festas, mas que mesmo assim se dá bem na escola).
Com o divórcio, meu pai se mudou para o sul do país, onde se casou novamente com uma dona de escola de teatro, uma perua muito animada, mas que me dava nos nervos.
Então, basicamente eu poderia dizer que meu verão se resumiria em eu, , fugindo da peruísse da minha madrasta, tentando não passar o verão em casa estudando (coisa que era quase certo que aconteceria) e, se possível, conseguir um dia, ao menos, conversar com meu pai.
Quando cheguei ao aeroporto, liguei o celular na expectativa de descobrir que meu pai pessoalmente me buscaria, mas em vez disso vi um SMS com o endereço do prédio dele, e uma desculpa esfarrapada, alegando que tanto ele como qualquer outro conhecido meu estaria trabalhando, e por isso eu teria que voltar para casa de táxi.
O taxista era um homem mal humorado. Ao chegar ao prédio, eu pago a bandeira (que dera um valor exorbitante), e tento, sozinha, tirar a mala do táxi. Inicialmente não consigo, mas depois de um forte puxão a mala sai, e eu caio para trás. Ao fazer isso esbarro num menino (mais para homem) moreno, de olhos castanhos, não muito alto...
Capítulo 2
“Desculpa” Balbucio envergonhada e ando rapidamente para o prédio que meu pai vivia. Ao entrar na sala do apartamento do meu pai vejo um papel de parede floral, almofadas coloridas, quadros enormes e cortinas de flores rosa, nem preciso perguntar quem escolheu a decoração. Perguntei para a empregada gorducha, baixinha e velhinha quando meu pai e sua esposa chegariam.
A empregada respondeu apenas: ”Tarde, minha filha, tarde...” Ou seja, eu teria algumas horas sem ter o que fazer naquela casa... Decido, então, tomar um banho, trocar de roupa e descer a rua para ir em um parque ler um livro. Surpreendo-me ao perceber que, enquanto tomava banho, pensava nos olhos expressivos do moreno que eu esbarrara ao chegar à frente do prédio...
Estava quase chegando no parque quando uma forte chuva começou a cair. Eu não poderia voltar para casa naquela forte chuva, nem mesmo ir ao parque, então decidi entrar num café que tinha ali perto e relaxar um pouco... Quando meu capuccino finalmente chegou, vi entrando pela porta principal algumas pessoas, entre elas...
Capítulo 3
Entre as pessoas que entraram estava: uma garota morena, alta, muito bonita, tão bonita quanto uma modelo, uma loira que parecia ter saído de um comercial de xampu, ou do salão de beleza, e por fim dois meninos, um moreno de corpo muito atlético, e um segundo garoto, também de cabelos escuros, mas mais alto e magro, com um penteado propositalmente bagunçado. Eles pareciam o tipo de grupo popular, a qual todos queriam participar, com roupas chiques, caras e da moda, que frequentavam os lugares mais legais e as melhores festas. E, obviamente, o tipo de grupinho que jamais falaria comigo, não que eu me importasse.
Quando acabou meu capuccino vi uma menina entrando no café, ela parecia metida, arrogante, esnobe. Observei-a andar até uma mesa, ela falou algo (que eu não escutei), uma pessoa se levantou e andou até a porta. A pessoa que se levantara era o menino que eu esbarrei a mala, o dos olhos expressivos.
No caminho percebi que ele me observava, ele sorriu ao passar por mim e, por uma fração de segundo, pensei que ele estava interessado em mim. Fiquei com vergonha, baixei o olhar para a mesa e vi meu reflexo no açucareiro, só então percebi que estava com um bigode de leite (capuccino). Fiquei morrendo de vergonha, limpei-me rapidamente e corei. Quando olhei novamente para cima não vi mais o garoto.
Estava na cara que ele não estava interessado em mim, afinal, as minhas experiências passadas com meninos me provaram que eu e o sexo oposto sempre acabava em desastre. Pensando bem, meu único namoro só aconteceu porque o menino perdeu a aposta e, ao descobrir o motivo do interesse dele por mim, acabei o nosso namoro, depois disso sempre fiquei acuada.
Chegando em casa vi meu pai no telefone, ele sorriu para mim e fechou a porta do escritório para não ser perturbado, depois disso andei até o meu quarto. Quando estava quase chegando ao meu quarto vi a minha madrasta, que me abraçou e falou:
"Oi, ."
"Oi" Falei, abraçando-a de volta.
"Espero que a viagem tenha sido boa. O jantar será servido daqui a algumas horas." Ela me falou e entrou para o escritório dela.
No meu quarto abri a cortina pela primeira vez desde que cheguei, e vi que uma festa acontecia no prédio ao lado.
Depois disso, subi o olhar pelas janelas do prédio da frente e vi que a janela em frente a minha estava aberta, nela um menino trocava de roupa, ou melhor, de blusa. Observei-o fazer isso, notei seu corpo atlético, ombros largos... Estava distraída quando ele começou a se virar, mas consegui me esconder a tempo para não ser pega observando-o, infelizmente nesse mesmo instante...
Capítulo 4
Abro a cortina pela primeira vez desde que cheguei. Descubro que da janela do meu quarto dá para ver o pátio do prédio da frente (onde está ocorrendo uma festa). Passando o meu olhar pelas janelas da frente percebo que a janela oposta a minha (ou seja, do mesmo andar, mas no outro prédio) está com a luz acesa. Percebo que há alguém lá dentro e, de repente, esse alguém começa a tirar a roupa, o Allstar e a camisa. É um garoto, de ombros largos, corpo atlético, de costas parece ser bonito.
Estou distraída quando ele começa a se virar, mas consigo me esconder a tempo para não ser pega observando-o, infelizmente nesse mesmo instante...
Capítulo 5
Quando ele começa a se virar eu me abaixo e escondo-me para que ele não me veja, mas nesse instante minha madrasta entra no meu quarto, chamando-me, quase gritando, e ao me ver sentada no chão do quarto ela fala:
"O que você está fazendo aqui? Está se escondendo de alguém?" Ela pergunta, e antes de eu responder, fala: "Eu vim aqui para..."
Ela para de falar, olha pela minha janela e grita (parecendo estar numa feira de peixe):
"! VOCÊ VAI AMANHÃ NA CASA DE TEATRO? ESTOU PRECISANDO DA SUA AJUDA!"
Ao me levantar do chão, vejo que o era o garoto que eu esbarrara com a mala, o garoto da cafeteria e o garoto que eu observava pela janela.
"Sim, D. Lopes, estarei lá as oito horas em ponto. Boa noite." Fala ele educado e acrescenta: "Boa noite, guria cujo o nome eu não sei."
Capítulo 6
Após se despedir o garoto (que eu agora sei que se chama ) saiu do seu quarto, apagando a luz e me deixando com muita vergonha... Eu podia sentir meu rosto ficando vermelho, mas me controlei, não fiz nenhuma atitude impulsiva.
Minha madrasta, que agora era chamada de D.Lopes (nome que antes do divórcio era da minha mãe) olhou-me e disse:
"Você já havia visto o ?"
Respondo que não, mas ela parece não acreditar. Ela então acrescenta: "Vocês seriam ótimos amigos se tivessem a oportunidade de se conhecer... Ou quem sabe até se tornarem algo a mais..." Faço uma cara de incrédula, mas minha madrasta acrescenta: "Não fala nada, ele de feio não tem nada."
Não consigo conter o sorriso, mas não respondo ao comentários dela. Pouco ela sabia que uma garota igual a mim jamais teria chance com alguém como ele.
Seguindo-a até a sala de jantar, rio da ironia que é tê-la como madrasta e ser vizinha do . A atual D. Lopes era o tipo de mulher que meu pai costumava desprezar e criticar e o , o garoto dos filmes que eu sempre pensei ser impossível existir.
Na manhã seguinte acordo com um telefonema da minha madrasta, avisando-me que ela esquecera a bolsa em casa e que precisava que eu a levasse para a garagem, onde o aluno estagiário dela, em 40 minutos, buscaria.
Pego a bolsa na sala, após arrumar de forma bagunçada meu cabelo num coque estilo pufe. Visto uma camiseta velha, um short jeans ridículo e uma havaiana.
Ao chegar na garagem vejo o assistente da esposa do meu pai e subitamente sinto-me envergonhada e deslocada.
Capítulo 7
De dentro de um carro preto sai uma menina de calça skinny, uma bata simples, mas muito bonita, com um colar ornamentado e salto alto. Ela estava perfeitamente maquiada, com o cabelo preso de forma elegante, mas ao mesmo tempo jovial. Percebo que era a mesma menina morena do café.
"Oi" Ela fala olhando-me de cima a baixo "Eu sou a , você deve ser a , enteada da D. Lopes."
"Oi" Falo, querendo fugir dali.
"Não sabia que o estilo grouge estava na moda no Rio." Ela fala sorrindo.
"Am?" Pergunto sem compreender nada.
"O seu estilo de roupa."Ela fala e acrescenta "Esta na moda no Rio, não é?"
Olho-a e depois para minha roupa, então começo a rir.
"Eu acredito que esse seja o estilo oposto ao que está na moda lá. Eu não estou exatamente seguindo a tendência" Comento.
Ela me olha e começa a rir.
"Olha, se você quiser, eu posso te apresentar para algumas pessoas. Imagino que deve ser muito chato passar as férias inteiras sem conhecer ninguém."
Meu instinto inicial é agradecer , mas dizer que não precisa, afinal ela e os amigos dela não tinham nada a ver comigo. Porém, eu estava completamente tentada a entrar nesse novo mundo, então aceito o convite.
Subo de volta para o apartamento. Lá tomo café e me arrumo para sair com a e seus amigos.
Chegando ao curso de teatro da minha madrasta (local que eu marquei com a ), vejo o no hall de entrada, ao me ver ele fala...
Capítulo 8
Ao me ver o sorri e fala:
"Algum dia terei a honra de saber o seu nome? Afinal, vocêjá sabe o meu."
Fico vermelha e falo ", eu me chamo ."
"Ummm. , tipo ." Ele fala apontando para uma de papel estampada numa propaganda de uma peça de teatro.
"Sim" Falo, mau humorada, já esperando que ele faça uma piadinha.
"Bonito, exótico o seu nome." Ele fala. E sai do hall, deixando-me sozinha.
Segundos depois entra a , seguida de uma menina loira, que usava um vestido rosa estampado, com um lenço muito bonito em estilo "v".
"Você estava falando com o Aguiar?", pergunta a menina de vestido.
Não sei porque, mas prevejo que fiz algo proibido ao falar com ele.
Capítulo 9
"Você estava falando com quem?!" Pergunta a surpresa, logo depois.
"Am... Com meu vizinho." Falo, tentando amenizar um possível problema que terei.
"O é seu vizinho?" Pergunta a segunda garota, que eu ainda não descobri o nome.
"Aham... Qual o problema de eu falar com ele? Afinal, quem puxou assunto foi ele." Falo, já na defensiva.
"Bem, problema não tem, mas é estranho ver o falando com alguém, rindo então é quase que um milagre, mas puxando assunto eu nunca tinha visto." Explica a . "Ah, esqueci de apresentar vocês... , essa é a , e, , essa é a , enteada da D. Lopes."
"Oi" Falo.
"Oi, desculpa, fui grossa com você, mas vê-la falando com o foi uma espécie de choque." Ela se desculpa.
"Ah, não tem problema." Falo e, nessa mesma hora, chegam dois garotos. Um deles abraça a e depois da um selinho nela, e o outro apenas da um "Oi" envergonhado pra , e um beijinho na bochecha. Quando o garoto faz isso a cora na hora, mas acho que ninguém percebeu isso.
"O que não tem problema, Monks?" Fala o garoto moreno alto que deu um beijo na bochecha da .
"A estava falando com o " Fala a . "E eu entrei em choque ao vê-los, então antes mesmo de me apresentar, comecei a interrogá-la." Ela explica.
"Entendeu agora, ?" Pergunta a .
"Entendi, mas estou sem acreditar. O conversando com uma desconhecida... Nunca pensei que esse dia chegaria. Ah, por falar nisso, eu sou o ." Ele fala me dando um beijinho na bochecha (coisa que eu não esperava que ele fizesse).
"Ah, e eu sou o ." Fala também me dando um beijo na bochecha o namorado ou ficante da .
"Então, o que vamos fazer hoje a noite?" Pergunta a .
"Festa!" Falam os garotos ao mesmo tempo.
Festa? Eu não estava vestida para uma festa... Eu nunca sequer fui numa, nem mesmo fui convidada... E pra dizer a verdade, a ideia me dava um medo horrível....
HELP!!!! AHHH! ESTOU FERRADA! OMG! MAMA WHO BORE ME, SAVE ME, PLEASE!
Capítulo 10
Para o meu profundo desespero todos aceitaram ir para a tal festa. Antes de sairmos da escola de teatro, as meninas foram ao banheiro retocar a maquiagem, arrumar o cabelo e etc.
Em determinado momento eu decidi avisar que não iria mais a festa, havia decidido isso enquanto elas se arrumavam.
"Amm... Eu não vou a festa." Comunico.
"Por que não?" Pergunta a .
"Porque..." Começo, mas sou interrompida pela .
"Você não veio até a escola de teatro para que saíssemos juntas e eu lhe apresentasse a algumas pessoas? Ah, e a desculpa de ter hora pra voltar não cola. Eu sei que você está de férias." A falou.
"Sim, mas olha a minha roupa." Falei apontando para a roupa casual que eu usava, um short jeans, uma regata branca e um AllStar mais velho que minha avó, mas que eu amava.
"Verdade, roupa pra festa você não está usando... Mas nada que um acessório não ajude. , dá um jeito no cabelo dela que eu vou buscar umas coisinhas na sala de figurino. Duvido que a D. Lopes se importe que a gente pegue algo. , qual o número do seu pé?" Perguntou a .
"37..." Falei receosa. "Por quê?"
"Você vai ver..." Ela respondeu e minutos depois retornou com uma sandália na mão, um coletinho para eu pôr por cima da bata e um colar comprido muuuuito legal. Segundo ela, isso me deixaria mais arrumada.
Realmente, depois das mãos mágicas da para arrumar meu cabelo, passar máscara para cílios e etc, eu estava realmente muito mais arrumada. E com o toque especial dos acessórios da não havia dúvida que eu estava vestida para uma festa.
Depois dos meninos reclamarem que demoramos muito, pegamos dois táxis em direção ao apartamento de uma menina, que estava dando uma HP (House Party). No primeiro táxi fomos eu, e , no segundo foi o e a .
Ao chegarmos meu coração acelerou. Jamais havia ido numa festa, muito menos numa HP, não imaginava a proporção daquele tipo de festa, muito menos o que aconteceria logo em seguida.
Capítulo 11
Ao entrar no apartamento com as meninas descobri que, ao contrário do que eu imaginava, havia muita gente na festa. A dona da mesma, apesar de não ter me convidado, pareceu não se importar com a minha presença.
Logo que entramos as meninas foram dançar, inicialmente elas insistiram que eu fizesse o mesmo, mas depois de um tempo desistiram, pois eu mantinha a posição firme de não dançar.
Eu estava num canto da sala, que possuía a maiorias das luzes apagadas, e onde casais se agarravam e outros conversavam, quando tudo começou.
Em um lugar reservado, a e o se beijavam enquanto na pista de dança a encarava o , que por sua vez parecia estar prestes a bater num garoto que eu não conhecia. Os dois garotos se encaravam e depois de algumas palavras, empurrões e caretas eles começaram a brigar.
Não sei porque nem como, mas em segundos parecia que a briga havia tomado conta da festa. Todos passaram a discutir e a dona da festa desesperada implorava para que todos se acalmassem, avisando que logo os vizinhos iriam chamar a polícia se a briga não acabasse.
Eu não conseguia nem reagir, apenas olhar. Depois de um tempo surgiu o barulho do carro da polícia e todos começaram a correr. Fui empurrada, quase pisoteada e comecei a ter medo.
Senti-me ser puxada para fora da sala e, logo em seguida, pra fora do apartamento. Ainda sendo puxada por essa pessoa misteriosa desço as escadas corta-fogo, parando apenas na garagem deserta do prédio, onde finalmente vejo quem me ajudava a sair do meio da confusão.
Ao ver que me ajudara assustei-me.
Capítulo 12
O garoto que me puxava era muito parecido com o , admito que no meio daquela escuridão eu realmente achei que fosse ele. Mas quando clareou um pouco percebi que não era o , mas sim um desconhecido.
"Quem é você?" Perguntei assustada.
"Como fui EU o herói da história, mereço saber seu nome primeiro e quem sabe até um beijo de agradecimento." Ele exigiu.
"Não vou falar nem fazer nada. Não pedi a sua ajuda, portanto não lhe devo nada." Falei e comecei a caminhar em direção ao que parecia ser a porta da garagem.
O garoto então me segurou, fez menção de me agarrar. Eu estava prestes a gritar quando escutei uma voz claramente enraivecida falar:
"Algum problema por aqui, ?"
Capítulo 13
Juro, juro mesmo, que eu nunca pensei que ficaria feliz em ver a minha madrasta. Depois de ser salva por ela, entramos no carro dela, onde levei AQUELA bronca, por vários motivos, entre eles por não ter avisado onde estava indo, não levar o celular, e principalmente por ter ido a um lugar deserto com um completo desconhecido.
"Imagina o que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo? Você deu sorte, o jantar da PUC acabou na hora exata pra eu te salvar." Ela fala.
"Eu teria dado um chute nele." Eu retruco.
Ela ri sarcasticamente e estaciona o carro na garagem do prédio do meu pai. Fico com medo da reação dele ao saber da confusão em que em me meti...
Ao descobrir o que havia acontecido comigo naquela noite, meu pai começa a gritar, esbravejar, xingar e andar de um lado para o outro da sala. Depois, com um ar de desapontado, ele me manda para o meu quarto, onde ficaria de castigo pelo resto da eternidade. Escuto-o e minha madrasta conversando sobre o que deveria ser feito comigo.
Não descubro qual o castigo que receberei, mas algumas horas depois meu pai entra e pede que eu escute-o com atenção.
"Decidi que terei que tomar medidas drásticas com você, afinal não quero vê-la metida em encrenca, ou que vire uma rebelde por completo."
Inicialmente acho-o exagerado, mas depois passo a temer a medida que será tomada.
Capítulo 14
"Para evitar que você fique as férias inteiras em casa ou metida em confusão, você vai fazer aulas de teatro na escola da sua madrasta e depois irá trabalhar lá. O trabalho você pode ver como castigo ou forma de passar o tempo aprendendo algo de útil." Meu pai fala.
"O que? Você pirou! Só pode! Não vou mesmo Vou ligar agora pra minha mãe, ela deve conseguir por juízo nessa sua cabeça. Ajudar na escola até vai, mas aula de teatro é ridículo!" Falo.
", escuta." Ele pede.
"Estou escutando, mas não estou gostando nada das palavras que estão saindo da sua boca. Então escolha-as sabiamente." Aviso, deixando claro o meu mau humor.
"As aulas são para você fazer amizade. O pessoal do teatro é bem legal. Você vai gostar deles. E aposto que no final você vai adorar as aulas." Meu pai fala.
"DUVIDO!" Falo, e logo em seguida pego meu celular e entro no banheiro.
Eu estava certa que minha mãe iria me apoiar, que chamaria meu pai de louco e me salvaria desse castigo. Jurava que ela ia me compreender, mas no dia seguinte, as oito e meia da manha (quase de madrugada), eu estava chegando no curso pra minha primeira aula.
Capítulo 15
Chegando na escola de teatro caminho até a sala aonde eu teria aula. Ao abrir a porta reconheço algumas pessoas (, , e ).
"! Fiquei tão preocupada com você." Comenta a .
"Pois é, não conseguimos achá-la." Comenta a .
"Eu acabei sendo levada até a garagem, onde eu encontrei com a minha madrasta." Resumo para elas.
"Ah, que sorte." Comenta a .
"Nem tanto. Estou de castigo agora. Por isso vou ser obrigada a fazer aula de teatro e ajudar aqui na escola da minha madrasta." Explico.
"Ah, mas aulas de teatro são bem legais, e eu e a trabalhamos aqui, então assim você passa mais tempo com a gente." A fala, sempre sorrindo.
"O que aconteceu ontem com o e aquele garoto?" Pergunto.
"Ah, o garoto é meu ex. Ele é um idiota, daí o foi reclamar com ele, porque o meu ex estava me incomodando... E eles acabaram brigando." Ela me explica.
Nesse instante entra a minha madrasta na sala de aula, seguida de uma pessoa...
Capítulo 16
A pessoa que seguia a minha madrasta era a sua assistente de palco. Naquela semana começaria os ensaios para a peça de teatro do verão. Depois de uma dolorosa aula (teria sido muito legal, se eu não tivesse tanta vergonha de atuar na frente da turma inteira), saio da sala e passo na cantina para buscar uma água. Depois disso dirijo-me ao local onde eu deveria ficar para ajudar a minha madrasta.
Chegando ao local, sou avisada que devo anotar todo o material que chegou para o cenário da peça de teatro, e depois disso, verificar se esta tudo sem defeito.
Pouco a pouco os materiais foram chegando, todos sendo carregados por funcionários. Cadeiras, mesas, figurinos, quadros, cenários, pratos, as coisas mais diversas foram trazidas. Eu estava no tédio por completo, até que fui surpreendida por um objeto inesperado.
Capítulo 17
Um piano (sim, piano! Aquele instrumento musical de cordas que é super pesado, feito com madeira...) é carregado por seis assistentes da escola da minha madrasta, entre eles o (que estava sem camisa, isso mesmo, SEM CAMISA)!
Não sei o que me deixou mais perplexa, o instrumento de cordas ou o (sem camisa). Depois do instrumento ser posto em uma das enormes salas vazias, confiro se o instrumento está direitinho e vou até a cantina (novamente).
No caminho, esbarro no meu vizinho e assistente da minha madrasta, que ainda estava sem camisa.
Capítulo 18
"Desculpa" Falo.
"Está virando um hábito você esbarrar em mim." Fala ele rindo.
Eu sorrio, envergonhada, e então ele comenta:
"Eu não sabia que você iria trabalhar aqui."
"Nem eu." Falo rindo. "Esse é o meu castigo." Comento.
"Ummm, que pena." Ele fala.
", é o seu nome, não é?" Ele pergunta.
"Sim" Respondo, ainda perplexa por ele ainda não ter posto uma camisa.
"Se quiser, eu te levo numa lanchonete aqui perto, que é melhor e mais barata que essa cantina." Ele oferece.
"Eu adoraria" Falo "Mas minha madrasta não vai deixar. Estou de castigo, esqueceu?"
"Deixa que eu falo com ela." Ele fala e minutos depois eu me encontrava em um café perto da escola, na companhia do , isso mesmo, só eu e ele. (OH MY GOD, AO MENOS ELE ESTAVA DE CAMISA).
Capítulo 19
No café/lanchonete, sentamos numa mesa pequena, onde pedimos dois mistos quentes (que eu descobri se chamar torrada no RS) e dois cafés. Ocorreu um breve momento de silêncio, até que eu finalmente decidi tomar coragem e puxar assunto.
"Então, como você começou a trabalhar com a minha madrasta, na escola de teatro?" Pergunto.
"Eu era aluno, ou melhor, ainda sou. Passei a trabalhar lá para retribuir a ajuda que a D. Lopes me deu." Ele me explica.
Fico tentada a perguntar que ajuda foi essa que minha madrasta deu a ele, mas desisto, pois a forma que ele comentou o assunto parecia ser algo sério e muito pessoal.
Ficamos um momento em silêncio, até que ele falou...
Capítulo 20
"Você vai no Planeta Atlântida?"
"Aonde?" Pergunto curiosa.
"No festival de música, no litoral do Rio Grande do Sul." Ele me explica.
"Ummm... Nem sabia que ia ter." Falo, molhando a boca no café. Depois passo um guardanapo na boca e falo "Mas, mesmo que quisesse, duvido que o meu pai fosse me liberar pra ir."
"Se você quiser eu converso com a D. Lopes, ela tem alguns ingressos sobrando pro festival, e esse ano o pessoal do teatro vai junto de van pra praia." Ele me explica.
"Ia ser legal." Comento, imaginando que seria meu primeiro festival de música, a minha primeira viagem sozinha com os amigos e que ele estaria lá comigo.
Retornando a escola recebo uma nova função e sou obrigada a me separar do , que por sua vez sai para auxiliar em outras atividades.
Minha nova tarefa seria ajudar a assistente da minha madrasta a ligar para todos os patrocinadores da peça de teatro, a parte boa de tudo isso era a , pessoa que eu conversava no intervalo das ligações.
Em uma dessas conversas descubro que ela, além de atuar, também cantava e tocava violão.
"Que legal." Comento honestamente. "E você se apresenta?" Pergunto.
"Às vezes toco e canto com os amigos, mas é só isso mesmo." Ela me explica, e logo em seguida retorna ao trabalho.
Fico a me lembrar da época que eu tocava e cantava com meus irmãos, e depois comecei a pensar na pequena banda que tive, nos sonhos que construí... A banda que eu tivera foi com meu ex-namorado, que descobri ser um panaca que estava comigo apenas por causa de uma aposta.
Estava distraída quando minha madrasta entrou na secretaria da escola.
"" Ela me chamou. "Você já pode ir para casa e se quiser, o pode te dar carona."
Penso em recusar a carona, dizer que é desnecessário, mas quando o meu vizinho entra na secretaria não contenho-me.
E é assim que pela primeira vez...
Capítulo 21
No carro do , a caminho de casa, pela primeira vez em meses eu estava realmente me divertindo. No music player do carro dele tocava uma música, que eu distraída, passei a cantar e batucar junto. Bastou isso para ele começar a cantar junto comigo.
"Você canta bem." Ele comenta, deixando-me envergonhada e, com isso, vermelha.
"Obrigada, você também canta bem." Eu comento.
Ficamos em silêncio, apenas ouvindo a música e olhando para frente. Uma vez eu ousei olhá-lo e ao fazer isso, percebi que ele me olhava também.
Quando chegamos ao prédio, me viro para me despedir dele e agradecer a carona, ele faz o mesmo na mesma hora (obviamente para apenas se despedir).
Fico, então, completamente tonta com o que acontece a seguir.
Capítulo 22
me deixa tonta, sem chão, ao me beijar na bochecha (não foi na boca, mas foi tão inesperado quanto).
"Tchau, obrigada pela carona." Falo e caminho até o portão do prédio. Mas, antes de entrar, olho para trás e vejo que ele me observava também.
Entro em casa e percebo que não havia ninguém lá. Ando até meu quarto, ligo o computador e decido pesquisar sobre o festival que o comentara a respeito. Estava querendo arranjar assunto para conversar com ele e me atualizar sobre o local onde eu estava.
Quando o meu vizinho comentara sobre o Planeta Atlântida, eu não imaginava o tamanho do festival. Descubro que uma das atrações seria o cantor jamaicano Bruno Mars. Fico me imaginando ouvindo Talking to the Moon na companhia do .
Pensando nessa música e sonhando, decido olhar a lua pela janela e, ao fazer isso, vejo o na janela dele. Ele olhava para a lua também e, ao baixar o olhar e me ver, ele sorri. Logo em seguida ele sai da janela. Segundo depois, ele retorna e coloca uma folha de papel colada no vidro. Nesse cartaz havia escrito:
"I'm talking to the moon... Sabia que o Bruno Mras estará no Planeta? Você tem que ir no show dele para agradecer a música que ele compôs para você."
Começo a rir pelo comentário do , e pelo fato de estarmos pensando na mesma coisa. Pego uma folha de papel e escrevo, entrando na brincadeira dele:
"Sim, eu sei que ele estará lá, acabei de pesquisar sobre o festival. Agora só falta você conversar com a minha madrasta e ela com meu pai. Se eles deixarem eu vou certo no Planeta.”
Ficamos aproximadamente uma hora conversando na janela. Em determinado momento ele sai da janela e retorna com um pote de biscoitos de chocolate. Ele fica me tentando, deixando-me com fome. Eu, então, saio da janela e retorno com um prato de macarrão. Ficamos nessa brincadeira por um tempo, conversamos sobre o festival, e ele pega o violão para tocar e eu cantar.
Paro apenas de falar com o quando escuto a voz rouca e grave (como sempre) do meu pai chamando-me. Escrevo para o que tenho que ir e desejo-o boa noite. Quando retorno ao quarto a cortina dele está fechada, impedindo-me de ver se ele esta por lá ou não.
Passam-se duas semanas de trabalho, aulas (que eu estava começando a gostar) e encontros a noite na janela para conversar com o .
Descobri um pouco mais sobre a vida dele, por exemplo: o péssimo gosto de time de futebol (flamengo? caramba, me decepcionou), o talento para natação dele e a habilidade de preparar lasanha congelada (olha com é difícil: põe no micro-ondas e depois come! Estou até agora sem palavras. HAHAHAHA).
Cada vez mais o festival se aproximava, faltava menos de duas semanas e meu coração se acelerava cada vez mais. Meu pai permitira que fosse ao festival, mas até o dia da viagem eu permaneceria de castigo, e quando retornasse teria que continuar ajudando na escola e frequentando as aulas.
Num sábado pela manha, estou andando pelos materiais da peça de teatro do verão, quando me deparo com o piano. Fico a encará-lo por um tempo, sento-me de frente para ele, e pela primeira vez desde o divórcio dos meus pais toco uma música, animo-me e começo a cantar ao mesmo tempo.
Escuto alguns passos se aproximando e então paro de tocar. Quem aparece logo em seguida é o , que olha-me e depois para o instrumento de cordas. Depois disso ele fala:
"Você toca piano?" A pergunta sai com um tom de espanto no meio.
"Tocava." Falo. Lembrando-me da promessa que fiz. Voltaria a tocar piano apenas quando meus pais ficassem juntos novamente.
"Por que parou?" Ele me pergunta.
"Por causa de uma promessa." Eu respondo.
senta-se ao meu lado, tira uma mecha do meu cabelo da frente do meu rosto e fala:
"Você deveria quebrar essa promessa, o jeito que você toca e canta é surpreendente."
Olho-o e percebo que seus olhos estavam vidrados nos meus, sinto-me ficar mais próxima dele, e ele de mim. Nossos lábios estavam quase se tocando quando escuto passos se aproximando.
Ao escutar esse barulho nos apartamos. sai, me deixando sozinha, apenas eu e o instrumento de cordas. Ficamos um pouco afastados um do outro até o dia do festival de música, onde tudo mudou.
Capítulo 23
Desde o dia do piano, havia se passado uma semana. Na van, a caminho do Planeta Atlântida, eu ouvia meus amigos rindo, gargalhando, cantando e batucando.
Na frente íamos eu e o , atrás , , a Rai, e mais atrás o (que naquele dia, finalmente se declararia para ) e a (que sonhava em ficar com o no festival).
Ao chegarmos ao nosso destino, vejo que muitas pessoas conhecem o , ele é simpático com todos, e no meio de cumprimentos e apresentações ele fala algo para mim:
"Existem cinco coisas que acontecem com todos no planeta, as duas primeiras você já viveu."
"Deixe-me adivinhar, ser apresentada à várias pessoas e vir ao evento com os amigos." Comento.
"Certo." ele fala e acrescenta "A terceira e a quarta são as próximas. Uma delas é enfrentar a fila do evento e a outra..."
Ele é interrompido por pessoas que passavam pela fila jogando água em todos, com pistolinhas de brinquedo.
"Ah, se molhar." comento.
"Certo" ele fala.
Passamos os próximos shows relativamente juntos. O show de encerramento seria do Bruno Mars.
Antes do jamaicano começar seu show, finalmente criou coragem para beijar a , que por sua vez retribuiu o beijo.
No final do show do Bruno Mars eu já estava exausta. Já havia me esquivado de três caras que pediram para ficar comigo (eu notei que nesses momentos o ficou enciumado).
Quando o show do jamaicano estava no final eu decidi perguntar qual era a quinta coisa que acontecia no evento.
"Isso..." Ele então me beijou quando Talking to the Moon começou a tocar...
O beijo foi... lento, seguro, apaixonado, de tirar o fôlego, deixar as pernas bambas, tão bom que me deixou nas nuvens, e justamente por isso eu até agora não compreendi o porque eu fiz o que fiz.
O beijo me deixou tão bamba que eu perdi a noção do que estava fazendo, do tempo e da razão. A única coisa que eu consegui fazer foi sair correndo. Saí correndo, isso mesmo, fugi do , do Planeta, de tudo.
Eu fiz isso porque não queria me machucar novamente, me apaixonar e quebrar a cara logo em seguida. De forma alguma eu queria admitir que o mexera comigo como ninguém havia antes.
Eu não posso, não quero, e não vou sentir aquele amor incondicional, aquela paixão sem limites, afinal, já sei que sentir isso só leva ao desespero, à tristeza e à solidão.
Parei apenas quando percebi que estava perdida. Então, para poder retornar a Porto Alegre, pedi auxílio para uma senhora que encontrava-se sentada no centrinho da cidade. Ela me explicou como chegar a rodoviária da cidade e eu, ao chegar lá, apenas mandei um sms para , avisando que um imprevisto surgiu e que eu estava retornando a capital.
Eu consegui evitar encontrar com o pelos próximo dias, mas foi inevitável encontrá-lo cinco dias depois do evento, quando estávamos, eu e ele, no banco de trás da minha madrasta, apenas separados pela minha bolsa colocada, propositalmente, entre nós. Na parte da frente do carro estava a esposa do meu pai e a sua assistente de palco. Enquanto na parte de trás estávamos eu, , minha bolsa e um enorme desconforto. Quando faltava metade do caminho para chegarmos em casa, minha madrasta avisou que precisaria fazer uma parada rápida numa loja. Com isso ela e assistente saíram do carro, deixando-me a sós com o . A minha vontade foi de gritar, sair correndo atrás dela, ou até mesmo chorar. Estive evitando ficar a sós com ele há dias e agora estava presa dentro daquele automóvel.
Assim que as duas saíram virou-se para mim, encarando-me por debaixo daqueles óculos de sol, que deixavam-no muito sexy. Ele depois de me encarar por uns dois segundos, que mais pareceram anos, falou:
"Precisamos conversar."
E antes que eu pudesse protestar ele acrescentou:
"Você não queria ficar comigo? Por que se esse é o problema, bastava ter me avisado." Ele fala, um pouco magoado.
"Eu queria..." Confesso.
"Então por que fugiu?" Pergunta-me ele.
"Porque eu cansei de me machucar." Explico, sentindo as lágrimas escorrerem por debaixo dos meus óculos de sol.
"Quem disse que eu iria te machucar?" Ele me pergunta.
", eu já vivi o bastante, ou melhor, mais que o suficiente para saber que toda vez que eu gosto de alguém eu saio machucada no final." Explico a ele.
", você parece uma velha falando assim."Ele fala rindo, e depois acrescenta "E, na boa, eu não fiz nada que possa levar você a crer que eu irei te machucar. Ou fiz?" Ele me pergunta.
Antes de eu ter a chance de respondê-lo, ele acrescenta:
"Você tem que me dar uma chance, ou melhor, se dar uma chance, só assim você vai descobrir se será feliz ou não. Caso contrário, você passara a sua vida imaginando o que teria acontecido."
Eu olho-o, penso em como ele era atencioso comigo, como era divertido, carismático, engraçado, atencioso comigo e com todos. Lembro-me da forma dele agir, sempre com boa índole, e então eu acabo não resistindo mais, beijo ele.
Nosso beijo começa lento, inicialmente vamos com calma, mas aos poucos vamos dando vazão ao desejo, a ansiedade, o desejo e a saudade.
Estávamos nos beijando a quase dez minutos, eu acho, quando escuto um "toc, toc". Eu e paramos de nos beijar, eu encaro-o e, com muito medo, olho a janela.
Na janela, estava a minha madrasta, com uma cara de "eu sabia que isso ia acontecer no minuto que eu deixasse vocês sozinhos...". Ela sorri para gente, com um olhar malicioso, o que me faz corar, e entra no carro. vai branco feito papel ao meu lado, sem falar uma palavra sequer. Fomos calados o caminho inteiro, apenas trocando olhares de vez em quando e às vezes deixando que nossas mãos se tocassem.
Depois de nos deixar na rua do prédio, a esposa do meu pai foi levar a sua assistente em casa.
"Então..." Começa o .
"Então?" Eu pergunto, com uma vontade louca de começar a rir ou fazer qualquer outra coisa idiotia.
"Você resolveu me dar uma chance ou vai fugir novamente?" Ele me pergunta.
Eu me aproximo dele, pego na sua mão e dou um beijo de leve nos lábios dele, depois disso falo:
"Vou ficar aqui com você, morrendo de medo, mas vou nos dar uma chance".
Ele sorri e me puxa para um beijo. Caminhamos até em casa de mão dadas. Separamos-nos apenas quando ele chega ao prédio dele, que é antes do meu, damos um beijo de despedida e ele entra em casa.
Eu, ao chegar no meu quarto, vou direto para a janela, com o desejo de ver se ele estava no quarto dele.
Mas, em vez disso, eu vi outra coisa, algo que me deixou sem palavras...
Capítulo 24
Na janela havia um cartaz, nele estava escrito os seguintes dizeres em letra de forma:
", vamos sair juntos amanhã? Podemos nos encontrar depois da Escola de Teatro, o que acha?"
Achei tão fofo o que ele fez, que fiquei toda boba. Era algo romântico e ao mesmo tempo imprevisível, algo que me impressionou tanto que eu quase surtei. Decido entrar na brincadeira e digito:
"Me diz o local e a hora que eu vou."
Ele escreve num outro papel a data, hora, local e o resto dos detalhes. Depois disso, se despede de mim e sai do quarto. Saio do quarto com as pernas tremendo de nervosismo, e algum tempo depois minha madrasta retorna para casa. Eu fico muito aliviada e contente por ela não comentar nada sobre o acontecido do dia com o meu pai. Fico ainda mais contente em não ter que responder nenhuma pergunta dela sobre o acontecido, afinal minha vida e a do era só nossa e de mais ninguém.
Quando estou me preparando para dormir, lembro-me de um detalhe muito importante. Eu não tinha a menor ideia que roupa usar num encontro, e muito menos opção de roupa mais arrumada para sair. Eu precisava de roupa nova e de ajuda! Mando uma mensagem para e a com os dizeres: "S.O.S".
Na mesma hora elas me respondem, perguntando o que havia acontecido. Respondo que estou bem, mas que precisava da ajuda delas para fazer compras. As duas estranham o meu pedido e perguntam qual a ocasião.
Então, nesse instante, fico na dúvida. Devo manter meu relacionamento com o em segredo, ou devo contar tudo a elas?
Quando encontro-me com elas no shopping já esperava e já havia me preparado, para um banho de perguntas. Ou devo chamar de interrogatório policial?
"Então vocês já ficaram?" Pergunta a .
"Sim... HEHEHEHE. Mas, não conta pra ninguém. Quero ir com calma, não gosto de ter gente se metendo, e até o momento nem estamos namorando." Explico para as minhas duas amigas.
"Ok, ok..." Fala a . "Mas você vai nos contar alguns detalhes, e depois desse encontro tu vais me ligar para contar TUDO!" Pede-me ela.
Ao mesmo tempo que eu queria manter o segredo e não queria contar nada a ninguém, eu desejava poder dividir tudo com alguma amiga. Poder pedir opinião e mostrar minha ansiedade e felicidade para alguém. Decido optar por...
Capítulo 25
"Ok, o que vocês querem saber?" Pergunto, desistindo de resistir ao interrogatório.
"O primeiro beijo, como foi, quando foi, conta tudo." Pede a .
"Como foi o pedido pro primeiro encontro?" Pergunta a .
Conto para as duas tudo, o primeiro beijo no Planeta, como eu fugi dele logo em seguida. O dia anterior no carro, o bilhete na janela. Nossas conversas noturnas pela janela dos quartos...
Conto a elas o que iríamos fazer naquele dia e qual seria o programa.
"A gente vai ao cinema do bairro Moinhos de Ventos e depois ele prometeu me levar na melhor trotaria de Torta de sorvete da cidade." Eu conto.
"Ah, sério? Estou sem palavras." Comenta a .
"Why?" Pergunto com um pouco de medo.
"O cinema do Moinhos é, sem dúvida, o mais romântico, e quanto a ele levá-la a torta de sorvete só demonstra como ele se preocupa em mostrar a cidade para você (que é de fora) e para as coisas que agradam a ele." Explica a .
"E tem mais." Avisa-me a . "Ele está te levando no bairro mais romântico da cidade, além de um dos mais chiques. Ou seja, ele quer impressioná-la. No dia que o Mica me levar para comer por lá ou passear eu até me caso com ele." Ela fala rindo.
Depois dessa divertida saída com as meninas, eu saio apressada para voltar para casa e me arrumar. Decido sair com um vestido leve, bem verão, mas bonito, com uma sapatilha dourada e o cabelo solto, mas com os cachos bem definidos.
O encontro com o é...
Capítulo 26
Ao chegar no cinema vejo o me esperando na frente da bilheteria. Ao me ver, ele sorri e caminha até o local onde eu estava.
"Oi" Falo.
"Oi" Ele fala sorridente. E me beija na bochecha. Aos poucos vamos virando o rosto, até que os nossos lábios se encostaram. Com isso nos beijamos.
Na hora de comprar o ingresso fico admirada com a gentileza dele, pois o paga o ingresso para mim e depois vai até aquelas lojas de comidas próxima das salas de cinema e paga a pipoca, o meu Ice Tea.
Na sala de cinema, o fofo ainda me oferece o casaco dele. Durante o filme, se eu não estava ficando com ele, eu o observava, e se não era nenhuma dessas coisas eu estava sonhando acordada. Para que, no caso dele me perguntar algo sobre o filme, eu não pagar mico, decidi antes de sair de casa pesquisar sobre o filme. Quem atuara bem, quem era que personagem e informações importantes sobre a trama.
Saindo do cinema, já de noite, andamos até a torta de sorvete, onde começamos a conversar. Descobri que, assim como eu, ele possuía irmão, que os pais eram divorciados e, para a minha enorme surpresa, ele era carioca. Descubro também que a garota que eu vira com ele no café, no primeiro dia, era a ex-namorada dele. E ainda descubro o péssimo gosto dele para times, o era do Flamengo! ECA!
No caminho para casa o me pede algo...
"." Ele me chama "Me promete uma coisa? Que você jamais vai duvidar do meu amor por você."
"PRO-PRO-Prometo." Falo.
"Você gosta de mim?" Ele me pergunta.
"Gosto." Falo, estranhamente segura.
"Você quer namorar comigo?" Ele me pergunta.
Namorar? Caramba. Fico sem reação. Não esperava isso. Eu gostava dele, até demais. Mas eu sabia que quando o verão acabasse eu iria embora de Porto Alegre, que nosso namoro acabaria. E tudo seria esquecido, que eu seria apenas mais uma na vida dele. Mas, mesmo com tudo isso, eu decidi namorá-lo.
A partir desse dia eu passei a fazer as aulas de teatro pela manhã, depois ajudava com as meninas na escola de teatro e próximo das 16 horas eu saia com o . , , e , além de alguns amigos próximo dele, sabiam do nosso namoro. Apresentei o para o meu pai, mostrei-o para minha mãe via Skype e aos meus irmãos. Fui apresentada ao irmão dele e para mãe dele.
Minha vida parecia estar perfeita. Até que tudo mudou. Foi apenas quando tudo aconteceu que eu percebi como o era um desconhecido para mim. Até hoje não sei o motivo para ele ser tão quieto, como ele é tão popular, mas ao mesmo tempo tão reservado. O que rola de mistério na família dele, ou seja, não sei nada de pessoal dele.
Capítulo 27
(A partir desse capitulo quem narra é o )
POV
Desde o primeiro dia que eu vi a , percebi que ela era diferente das demais garotas, ela era peculiar. Ao mesmo tempo em que era bonita, ela também não era vaidosa ou metida, era independente, mas desengonçada, inteligente e divertida. Magra, mas não raquítica, gostava de comer, mas não era uma porca.
Depois do nosso primeiro beijo, que eu demorara horas imaginando e planejando como seria, ela fugiu de mim. No nosso segundo beijo quem tomara a iniciativa fora ela. Mas até então eu achava que o pior de tudo havia sido o pedido de namoro, que ela demorara um tempo para responder. Para o meu profundo desespero, o pior mesmo foi conhecer o pai dela e os dois irmãos, que me fizeram um enorme interrogatório. Felizmente, no final de tudo, a família dela me aceitou bem.
Uma vez namorando, passamos quase todos os dias juntos. Saíamos da escola de teatro por volta das 16 horas e passeávamos, às vezes sozinhos, às vezes acompanhados. Eu apresentei-a aos meus amigos mais antigos e próximos, e à minha família (minha mãe adorou a , chamou-a para sair com ela, me dava conselhos para que eu não perdesse aquela menina maravilhosa...). Quando fui apresentado ao pai dela, pensei que seria a coisa mais difícil que eu faria, mas estava errado.
Meu primo carioca estava na cidade com a namorada dele, então, desejando apresentá-lo à minha namorada, marquei de irmos os quatro num parque. Nesse dia, tudo, tudo mesmo, deu errado.
Estava esperando a num parque, junto com meu primo e sua namorada, quando recebi a seguinte mensagem:
"Pode parar de fingir. Não sou idiota, eu sei que acabou o que nunca começou." Olho o número e vejo que é da minha namorada, ou talvez, pelo que parecia, a minha futura ex-namorada. Decido esperar até o dia seguinte para falar com ela. Chegando à escola de teatro sou avisado que a não estava na cidade, muito menos na escola. Ela havia ido à Gramado passar o dia.
Pergunto ao e ao , que estavam na escola, e que eram amigos dela, o motivo pelo qual ela estava chateada comigo.
e respondem-me que desconheciam o motivo da estar chateada, mas comentaram que a e a deviam estar cientes da situação.
Saio atrás das duas meninas. A primeira que eu encontro é a morena, que sempre fora a mais compreensiva entre as duas meninas.
", por favor, me fala o que há de errado com a ." Peço, de uma forma que mais parecia um suplico.
", não se faça de bobo." Fala a sem nem mesmo me olhar na cara.
Logo em seguida aparece a , ela me vê e logo fala:
"Na boa, na boa mesmo. Como você ousou fazer aquilo com a ? Você foi baixo, um porco, sujo, podre, cafajeste, para não usar palavras de baixo calão." Ela fala, e em seguida acrescenta "Você não merece a , afinal, ela é boa demais pra você."
"Eu o que?" Pergunto, espantado.
"Ah, santa paciência!" Exclama a , que começa a se virar para sair de perto de mim, seguida pela brava loirinha .
"Eu nem sei o que eu fiz!" Falo bem alto, para que todos ouvissem.
Saio da escola e caminho pelo parque, penso em tudo que acontecera, nos bons momentos que tive com ela, nos passeios que fizemos no parque que agora eu passeava acompanhado apenas da melancolia. Não consigo compreender o que fiz de errado.
Desisto de abordá-la pela janela nos dias seguintes, afinal, a dela vivia fechada, e nas vezes que eu via frestas de luz no quarto, a cortina encontrava-se completamente fechada.
Depois de uma semana tentando descobrir o que eu havia feito de errado, finalmente descubro o que aconteceu de verdade. Na verdade, descubro que quem sofrera a traição havia sido eu.
Capítulo 28
Estou entrando em casa, junto com o Guga, depois de uma semana de fim de namoro, quando escuto meu primo e a sua namorada conversando.
"Estou até agora sem acreditar que a ex do é a panaca da ." Comenta a namorada do meu primo, rindo.
"Somos dois. Lembra aquela vez que eu fingi gostar dela e até namorei de mentirinha com ela, por causa de uma aposta que eu perdi? E que no final ela descobriu tudo e ficou tão sem graça que até mudou de escola?" Pergunta meu primo, gargalhando.
"Impossível esquecer. O melhor foi a cara de humilhada que ela fez ao descobri tudo." Conta a garota.
"Mas o deu sorte. Ela está bem gata agora." Fala o idiota.
Antes que eles falassem mais uma palavra sequer, eu entro na sala gritando:
"Quem é panaca? Repete, seu idiota! Então a culpa do fim do meu namoro é sua? Eu compreendi direito?"
Antes mesmo de ele responde, eu parti pra cima dele. Se não fosse pelo Guga, que me segurara, eu teria quebrado os dentes do maldito.
Resolvido o mistério que cercava o motivo da basicamente me odiar, decidi tomar medidas drásticas.
Eu fiz questão de explicar todo o acontecido para a minha mãe, pois apenas assim ela me deixaria expulsar meu primo e sua namorada da minha casa. Tomada essas providências, saí a procura do e do . Contei a eles tudo o que descobri e pedi que eles avisassem sobre o mal entendido para as meninas, que provavelmente falariam com a .
Logo depois de fazer isso, saí atrás da . Fui ao prédio dela, ao local onde ela adorava tomar café, às livrarias preferidas, e etc, mas em nenhum desses lugares eu achei-a.
Mantive minha janela sempre aberta, cuidando para ver se havia movimento no quarto dela, fato que não aconteceu. No dia seguinte, ao chegar à escola de teatro, sou chamado pela D. Lopes, que exigia minha presença na sala dela.
A madrasta da minha ex namorada estava sentada, com os olhos inchados (de chorar). Ela me pede para sentar e fala três palavras e um artigo que me deixam sem chão:
"A está desaparecida."
A está desaparecida. A está desaparecida! Repetindo, a , SIM, A , está desaparecida. Essa frase ficou ecoando na minha cabeça por um bom tempo.
"Como?" Pergunto, ainda tonto.
"Ela não retornou da escola de teatro ontem a noite, apenas mandou um SMS avisando que dormiria fora de casa. Imaginei que ela estivesse com você, mas ao vê-lo chegar sozinho na escola pude compreender que não estava." Ela me explica, tentando falar da forma mais calma e clara possível.
Fico calado por um tempo. Penso na possibilidade de ela ter passado a noite com outro homem, mas lembro-me que estávamos falando da , uma pessoa que não tomava decisões precipitadas, ao menos era isso que eu achava. Então, depois de alguns minutos em silêncio, eu falo:
"Posso ajudar em alguma coisa?"
"Se quiser, eu dou um dia de folga para você ajudar nas buscas da ." Ela fala e depois acrescenta. "A polícia só vai começar a procurar ela depois de 48 horas."
Sem respondê-la, saio da sala correndo. Vou rapidamente até meu carro e começo a percorrer a cidade, à procura da .
Depois de andar pelo centro, pela zona norte, leste e oeste, decido ir até um local que eu havia planejado levar a para conhecer. Eu vou até Ipanema, zona sul da cidade, muito distante das nossas casas e da escola de teatro.
Ao chegar no bairro sou surpreendido com a visão da , sentada, olhando o Guaíba, chorando. Estaciono o carro e ando até ela. Ao me sentar ao lado dela no banco, ela me olha, mas não fala nada.
"Oi" Eu falo, meio temeroso.
"Oi" Ela responde, com os olhos vidrados no rio.
"Tudo bem?" Pergunto, mesmo sabendo, ou imaginando, a resposta.
"Já estive melhor. E você?" Ela me pergunta.
"Também já estive melhor, bem melhor." Comento.
"Quer carona para voltar pra casa?" Ofereço, sem coragem de conversar com ela sobre o nosso relacionamento mau acabado.
"Vou ter que voltar para casa em algum momento, não é?" Ela fala, aceitando a carona.
Vamos calados no carro, sem ouvir música ou conversar. Quando estamos quase chegando em casa, finalmente crio coragem para puxar O assunto com ela (relacionamento).
Mas antes de ter a chance de falar qualquer coisa, sou surpreendido pelo gesto da .
A , sem aviso algum, quando o sinal fechou, ela simplesmente me abraçou chorando.
", o que houve?" Pergunto preocupado, feliz com o abraço e em choque (tudo ao mesmo tempo).
Ela para de me abraçar e retorna a olhar para a janela do carro, enxugando as lágrimas.
"Olha." Eu começo a falar. "Eu sei que você deve estar pensando que eu havia armado com o meu primo para te enganar, mas eu juro que eu não sabia de nada. Descobri que ele havia feito tudo aquilo com você essa semana, e assim que descobri expulsei-o de casa." Falo para ela.
A não me responde, permanece apenas encarando a janela.
"Você vai ficar apenas calada? Não vai me responder nada?" Pergunto, começando a ficar irritado.
Silêncio, foi tudo que eu obtive em resposta.
"Eu não sou o único que devo me desculpar, sabia?" Começo a falar."Afinal, você acabou comigo sem nem mesmo me dar a chance de falar nada, e depois não aceitou nenhuma ligação minha, não quis ouvir minhas desculpas e ficou me evitando." Eu quase grito essa última parte.
A me olha, encara-me por um tempinho, e então, finalmente, fala:
", eu cansei de sofrer. Saí de casa porque não aguentava mais ver a minha madrasta e meu pai brigando, todos os dias, e me fazendo lembrar da briga dos meus pais antes do divórcio. Eu sofri demais com meus pais e ainda tive que aguentar o sofrimento e a humilhação que a aposta do seu primo me causou. Então, me fala uma coisa apenas, você jura que não estava me enganando?" Ela pede, com um olhar de rendição, exaustão.
Admito que fico com pena dela. Imagino todo o sofrimento que ela teve que aguentar.
"Eu juro que não sabia de nada. Nunca soube. Só descobri tudo essa semana. Juro que meu sentimento por você é o mais verdadeiro possível." Afirmo.
"Desculpa ter duvidado de você." Ela fala, depois de um tempo em silêncio. "O que aconteceu foi que quanto mais eu pensava na gente, mais eu percebia que não conhecia nada de pessoal a seu respeito." Ela fala.
"Como assim?" Pergunto.
"Ah, sei lá. Eu até hoje não sei com o que exatamente a minha madrasta lhe ajudou, não sei nada sobre seu pai... Enfim, não sei nada de pessoal seu." Ela fala.
Olho-a e reflito por um tempo. Ela tinha razão, jamais havia dito nada para ela, tudo que ela sabia todos os demais também sabiam, mas a diferença era que a era a minha namorada, os outros eram apenas amigos ou conhecidos.
"Vamos avisar a D. Lopes que eu achei você e a gente pode ir para minha casa, onde eu irei te contar tudo a meu respeito. Mas, já vou avisando, não quero que você passe a sentir pena de mim." Aviso.
"Ok, mas antes disso tem uma coisa que eu estava louca pra fazer." Ela fala sorrindo levemente. E assim que eu parei num sinal ela me beijou.
Depois de ligar para a madrasta dela, fomos para a minha casa, onde, sozinhos, eu contei tudo a ela.
Capítulo 29
Chegando na minha casa fomos para o meu quarto, pela primeira vez a sós, e lá eu contei a ela tudo.
"Eu vou resumir, pode ser?" Pergunto.
"Pode." Ela responde, se sentando ao meu lado na minha cama. E assim eu começo a contar como dois anos atrás meus pais se separaram. Explico a ela que na verdade meu pai abandonou minha mãe de um dia para o outro, sem avisar ninguém, sem se despedir de mim. Naquela época ele era como um herói aos meus olhos, mas deixou de ser assim que nos abandonou. Com essa forte mudança na minha vida eu pirei.
Nesse momento a pega na minha mão e segura-a com força. Eu paro por um segundo, dou um beijo na testa dela, e continuo:
"A D. Lopes havia tomado a direção da escola de teatro, onde eu já estudava a menos de um mês quando tudo aconteceu. Não sei porque, mas ela gostou de mim. Me ajudou a superar essa barra toda, e mais, me salvou de virar um rebelde desenfreado."
Dou mais uma pausa e continuo:
"Eu era muito descontraído, vivia pelas festas, amigos e garotas antes do meu pai sumir. Na verdade, eu era mais um canalha que qualquer outra coisa, eu vivia pelas minhas necessidades e desejos, mas ao mesmo tempo sempre fui um bom amigo. Sempre cuidei muito da minha mãe, mas só depois de tudo que passamos é que eu comecei a dar o devido valor à ela. Depois do meu pai nos abandonar, eu amadureci, fiquei mais pé no chão, mas ao mesmo tempo fiquei menos social, menos simpático. Você foi a primeira pessoa desconhecida com quem eu conversei." Conto a ela. "Acho que eu gostei de você desde aquele momento na rua, quando você esbarrou em mim."
Ela sorri e fala, passando a mão, levemente, nos cabelos:
"Acho que depois dessa enorme confissão é a minha vez de falar sobre a minha vida pessoal, sobre a minha tragédia grega, ou o que for que seja. Contar o motivo pelo qual eu parei de tocar o piano, porque vim passar férias aqui, em vez de ficar no Rio de Janeiro, uma cidade muito mais agradável que aqui no verão."
Quando a disse que iria me contar a história dela eu fiquei feliz, realmente desejava saber mais sobre ela, mas, ao mesmo tempo, temia as informações que receberia.
"O motivo para eu ter vindo para Porto Alegre é, basicamente, porque eu não suportava mais ser humilhada no Rio de Janeiro. Imaginei que se eu viesse para o sul eu fugiria de tudo isso." Ela faz uma pausa, respira fundo, e logo em seguida retorna a falar:
"O meu namoro com o seu primo acabou mais ou menos duas semanas antes das férias de meio de ano. Eu estava me sentindo tão idiota e solitária, além de humilhada, que pedi aos meus pais para trocar de escola. Mesmo tomando essa atitude, meu passado me perseguia. Eu sempre fui a garota estranha, nerd, mas naquele momento eu era mais que isso, eu era a garota bobona que se apaixonara pelo garoto popular, e que, na frente de todos, foi enganada por ele e seus amigos."
Enquanto ela falava isso, eu ficava cada vez mais com ódio do meu primo. Ele era culpado pelos traumas da , pela tristeza e humilhação dela. O pior de tudo é que eu tinha certeza que, quando ela retornasse ao Rio, ele iria se vingar de mim atacando-a. Para a minha enorme surpresa ela ainda tinha mais coisas para contar.
"Bem, se não bastasse a escola ser um inferno, ainda havia todo o caso da minha mãe. Ela sempre fora exigente e um tanto depressiva, mas depois do divórcio ela se tornou uma tirana, que só conseguia viver às custas da minha vida e da dos meus irmãos. Coitada, perdeu o foco na vida dela. Foi no primeiro ano do divórcio que eu prometi (a mim mesmo) que só tocaria o piano novamente quando meus pais ficassem juntos. Eu prometi isso porque, quando eu era criança, eu e meus irmãos tocávamos junto com meus pais e cantávamos todos juntos. O piano, ao meu ver, era a forma de reunir a família. Depois do divórcio isso acabou." Ela me explica.
"Mas você tocou na escola de teatro." Lembro-a.
"Toquei, mas foi a primeira vez desde o dia que eu fiz a promessa. Eu confesso que desde aquele dia eu venho com vontade de tocar novamente, mas sempre que tento fico com vontade de chorar." Ela me explica.
Eu abraço-a no instante que uma lágrima se forma no olho dela. Abraço-a para mostrar que ela não estava mais sozinha, que havia alguém que protegeria ela, que compreendia a dor que ela sentia, que a amava de verdade. Era minha forma de demonstrar que podíamos confiar um no outro.
"Vamos superar nossos traumas juntos." Falo para ela, ainda abraçando-a.
Aproveitamos a ausência da minha mãe e da peste do meu irmão para passarmos a noite juntos. Naquela noite nós...
Capítulo 30
POV
Não imaginava que o passara por tudo aquilo, mas ficava feliz em saber sobre a vida dele, além de poder dividir com alguém minha história (coisa que eu só fizera para a e pra , depois de muita insistência delas, quando acabei o namoro com o ).
Eu estava apavorada. Aceitara passar a noite na casa do , meu namorado, completamente sozinha...
Preciso dizer mais alguma coisa? (Detesto quando começo a falar comigo mesma, mas nesse momento ligar pra minha mãe e falar que eu estava a sós com o não era uma boa ideia, nem ligar pra meus irmãos ou para as meninas...). Eu admito estar, em parte, muito feliz e animada, e que desejava passar a noite com ele, afinal o era meu namorado (como é bom falar isso), e ele era uma das pessoas que eu mais confiava, então não havia problema. Apenas com ele eu me sentia segura.
Na hora do jantar, fui surpreendida pelo , que se mostrara um excelente cozinheiro.
Depois de jantarmos, fomos assistir um filme. Aproveitei a desculpa que estava frio para passar o filme inteiro abraçada nele, mas a verdade era que eu queria apenas ficar coladinha nele.
Quando o filme acabou, estava na hora de dormir, afinal no dia seguinte teríamos que trabalhar na escola de teatro e eu tinha aula de atuação às oito e meia da manhã.
Mas, na hora de dormir, surgiu algumas questões não planejadas: nós dormiríamos juntos? Eu usaria que roupa para dormir? Iríamos realmente dormir ou ele planejava algo mais?
Meio sem graça, para não dizer completamente, eu perguntei ao :
", com que roupa eu vou dormir?" Falo, sentindo minhas bochechas ficarem mais vermelhas.
Ele me olha, sorri sem graça, e fala:
"Se preferir dormir na sua casa eu compreendo." Ele me responde, já imaginando que eu não queria dormir na casa dele.
"Não! Eu quero dormir com você!" Falo isso, e assim que acabo a frase penso: "Puts, falei de tal forma que mais parece que eu quero outra coisa."
fica me encarando, meio surpreso, mas, ao mesmo tempo, sorrindo. Então, para evitar qualquer mal entendido, eu decido reformular a frase.
"Am, o que eu quero dizer é que... Eu quero dormir aqui na sua casa."
Ele me olha e, depois de uma risadinha sem graça, fala:
"Você se importa de dormir com a minha camisa?"
"Claro que não." Respondo.
Claro que não MESMO, afinal, tudo que eu mais queria era dormir sentindo o cheirinho dele.
Depois de trocar de roupa e escovar os dentes, fui para o quarto do , vestindo a camisa dele. Chegando lá, vejo-o deitado num finíssimo colchão no chão. Ele estava, na hora que eu entrei, olhando vidrado para o teto (coisa mais estranha impossível). Olhei-o, e depois para cama de casal, arrumadinha e fofinha. Respirei fundo e falei:
"..." Respirei novamente. "Dorme na cama comigo". Peço e acrescento: "No chão é horrível".
Ele finalmente me olha e fala:
", se eu me deitar com você não poderei me responsabilizar pelos meus atos."
POV
Quando a saiu do meu quarto para ir trocar de roupa (tirar a dela e colocar apenas a minha blusa), eu deitei-me no chão (por cima do colchão), com os olhos vidrados no teto, para que eu não visse a entrando apenas com a minha camisa e ficasse (mais) tentado.
Infelizmente, minha namorada, ao entrar no meu quarto e me ver deitado no chão, resolve falar:
"..." Ela me chama com uma voz doce, "Dorme na cama comigo". Pede, e acrescenta: "No chão é horrível".
Indo contra todos os meus planos de alto conservação, olho-a (tendo a visão mais que perfeita dela com as pernas de fora, usando apenas a minha camiseta, que acentuava ainda mais o corpo dela) e falo, com a maior força do mundo:
", se eu me deitar com você não poderei me responsabilizar pelos meus atos." Explico.
Ela me olha, fica com um olhar pensativo por um tempo, e depois fala:
"Eu prefiro arriscar a vê-lo dormindo aí nesse colchão desconfortável."
Essa frase me pegou desprevenido, com isso...
Capítulo 31
Depois da falar:
"Eu prefiro arriscar a vê-lo dormindo aí nesse colchão desconfortável."
Ela caminha até onde eu estava deitado, senta-se ao meu lado e calmamente fala:
", eu confio em você. E para falar a verdade, tenho mais medo de perdê-lo do que de passar a noite com você."
Eu olhei-a e falei:
", eu só não quero que você pense que é obrigada a fazer algo comigo só porque está dormindo aqui. Eu quero que a noite seja tão boa para você quanto será para mim."
Minha namorada se aproxima mais de mim e sussurra no meu ouvido com a voz um pouco falha:
"A gente pode ver até aonde eu tenho coragem de ir."
Quando ela fala isso, eu paro de resistir. Beijo-a com tremenda intensidade e calor. Levanto-a do chão e ela amarra as pernas (desnudas) na minha cintura, e eu ando com ela até a minha cama de casal. Deito-a lentamente na cama e, quando paramos de nos beijar, ela morde meu lábio, puxando-o com delicadeza e me deixando ainda mais desejoso.
Paro de beijá-la e fico a observá-la.
", o que foi?" Ela fala mexendo no meu cabelo e passando a outra mão levemente pelo meu rosto.
"Estava só admirando você." Comento. "Já disse que você é linda?" Pergunto.
cora levemente e mexe a cabeça, fazendo com que seus cachos fiquem ainda mais espalhados pela cama. Depois disso ela fala:
"A pessoa bela do nosso relacionamento é você..."
"Discordo." Falo e, antes de ela ter a chance de responder, eu começo a beijar o pescoço dela. Dou uma leve mordidinha nela e depois um chupão (não tão leve).
O clima vai esquentando, a vai criando confiança e coragem. Ela passa a mão na minha barriga, provocando-me, e desce até a beira da calça, repetindo esse movimento várias vezes, deixando-me enlouquecido e fazendo-a ficar muito satisfeita com o meu desejo completamente aparente.
Quando o clima começa a ficar quente demais (em outras palavras, eu apenas de cueca e ela só de calcinha e sutiã), eu paro de beijá-la por um instante (ao fazer isso percebi que a boca dela estava inchada e avermelhada).
", você tem certeza que quer continuar?" Eu pergunto, desejando que a resposta seja positiva. Afinal, um não dela me deixaria sem reação.
"Não..." Ela começa. "Não tem nada que eu queira mais." Ela responde rindo.
Eu agarro-a para beijá-la e deito por cima dela. Pouco a pouco o que antes vestíamos estava no chão. E assim passamos nossa primeira noite juntos, a primeira vez que a se atreve a fazer algo com um homem.
Devo admitir que essa foi a melhor noite da minha vida. Quando acordei na manhã seguinte, eu me encontrava admirando a beleza dela. dormia com um olhar de anjo nos meus braços, havíamos dormido de conchinha, usando apenas (APENAS, NADA POR BAIXO) minha camiseta.
Ela demorou algum tempo para acordar, eu diria uns vinte minutos. Quando acordou, olhou-me sorrindo e falou:
"Bom dia, lindo."
Eu dei um beijo de leve nela e disse: "Bom dia".
Infelizmente, uma semana depois, a tinha que ir embora e por isso eu me encontrava no aeroporto da cidade, junto com a família dela e seus amigos.
A retornaria à Porto Alegre em julho, nas férias de inverno. Torcíamos para que o namoro resistisse ao tempo e à distância. Eu temia pelo que poderia acontecer a ela no Rio, afinal, o meu primo estaria lá, mas isso era o de menos. Antes de ela ir embora eu precisava contar a ela uma coisa. Pedi para falar a sós com ela e, num local reservado do aeroporto, eu disse:
", eu tenho que confessar uma coisa. Lembra que você pediu para eu nunca mentir para você?"
"Lembro..." Ela responde. "Por que?" Pergunta.
"Porque a verdade é que eu menti para você." Falo.
Continua...
Nota da Beta: Hey, pessoa! Só pra avisar que se você encontrar qualquer erro na fic pode entrar em contato comigo por e-mail ou pelo twitter. E não custa nada deixar um comentário pra fazer uma autora feliz, porque ela merece.
Letii