Autora: Caáh Marques || Revisão por: Celine (até o capítulo 5) e Gabriella


Prólogo:

Inglaterra, 1827

Era noite na residência dos Rutherford. Lorde del Duffled mal podia lidar com sua ansiedade latente, Lady e Lorde Rutherford tinham ido ao jantar de Sir Wickham e era a oportunidade perfeita para ver Lady Katherine. As luzes da suntuosa mansão estavam apagadas, e tudo o que se ouvia era o silêncio daquela noite fria. apertou os nós dos dedos como para se acalmar, mas era inútil, tinha planejado aquela visita por semanas, desde que Katherine havia declinado o convite para o jantar de Sir Wickham. Sua mãe achava que ele estava em uma sala de jogos famosa em Londres, seu pai não se importava. cobria os ombros largos com uma capa e procurava esconder o rosto com o chapéu exagerado. O mais problemático aspecto de seu plano tinha sido o furto da chave da porta principal.
Em uma de suas visitas oficiais à noiva, ele a surrupiara do mordomo sem que o mesmo desse conta. Não fora a coisa mais simples que já fizera na vida, uma vez que aquele senhor respeitável zelava pela segurança das chaves com muito apreço. Mas enfim conseguira e agora teria o tão esperado momento a sós com sua amada noiva. Só o pensamento nela já fazia vibrar seu coração, não podia esquecer-se daqueles ricos cabelos cor de cobre caindo em cascatas de cachos por seus ombros e seus astutos olhos verdes lhe sorrindo como convite. Não podia mais esperar, tinha que entrar na distinta residência urgentemente. Ciente do risco que corria, tinha se assegurado que os criados da casa já tinham se recolhido antes de se aproximar da porta da frente. Silencioso como um tigre prestes a dar o bote, Lorde del Duffled entrou no enorme salão que servia de entrada para a casa.
Hesitante, vacilou antes de começar a subir a grande escadaria de mármore que se estendia à sua frente. Mesmo com toda a escuridão do local, era possível distinguir o brilho de excitação em seus olhos cinzentos, a expectativa era como uma tensão no ar à sua volta, e até o som da sua própria respiração o sobressaltava. Sua pele estava quente como se uma febre repentina o tivesse atingido. Pisando macio como a mais leve das criaturas, ele chegou ao fim da escadaria, no corredor dos quartos. Surpreso, notou que as luzes de um dos quarto bem ao fim do corredor não tinham sido apagadas, mas sua mente não quis se deter por muito mais tempo; não enquanto ele tinha o cômodo mais irresistível de Londres para entrar. Duvidando que seu peito pudesse suportar as batidas frenéticas de seu coração, abriu lentamente a porta que reconhecia ser da Srta. Rutherford. Sentia suas pernas bambearem e seu coração saltar mais do que deveria enquanto empurrava lentamente a porta do quarto de sua bela noiva. E qual não foi sua confusão quando constatou que sua nobre dama não se encontrava em seu leito? Aturdido pelo fato, ele assumiu que Katherine havia mudado de ideia quanto ao jantar e se propusera a acompanhar os pais. Maldição! Será que não podia ter a sorte de um encontro mais íntimo com a mulher de sua vida? Quão injusta era sua sorte. Tivera tanto trabalho para conseguir furtar as chaves da mansão e sairia de lá do mesmo jeito que entrara, com as mãos vazias e uma vontade exorbitante de encontrar-se com Katherine.
O Lorde olhou mais uma vez para o leito antes de dar meia volta. O quarto mais à frente permanecia com a luz acesa, fato que despertou maior interesse na mente de , agora que descobrira que sua noiva não se encontrava na mansão. Curioso, ele se aproximou da porta e conseguiu distinguir precariamente o que pareciam ser sussurros de prazer. Sentiu o sangue gelar e logo seu coração duplicou a velocidade ao ouvir com clareza uma palavra em especial, “Kathy”, o nome carinhoso que só os íntimos usavam com sua futura esposa saía em murmúrios extasiados de uma boca masculina. Lorde del Duffeld colou seu ouvido à porta entreaberta e teve a certeza de que um homem se controlava para não gemer de forma audível. Sentiu o chão se abrir sob seus pés e, sem pensar sobre o que estava fazendo, empurrou a porta com ferocidade e presenciou a cena que mudaria sua história:
Sua Katherine se encontrava parcialmente nua, apoiada nas coxas de outro homem, com sua cabeça jogada para trás e os lábios entreabertos demonstrando um prazer que jamais vira em seus olhos.
Um sentimento de ira, antes desconhecido, tomou conta de cada célula de seu corpo e cegou seus olhos. Quando deu por si, seu punho atingia repetidamente o maxilar do indivíduo e Katherine gritava de pavor.

***


olhava seu reflexo com satisfação. Sua delicada face não precisava de pintura para ficar formosa, mas ela não podia negar que a luminosa gargantilha de diamantes emprestava radiante brilho à sua expressão. Agitou seus cabelos displicentemente enquanto se recordava do convite.

FLASHBACK:

estava em uma das grandes salas de jogos famosas em Londres, acompanhando Lorde Burton em suas apostas bem sucedidas. Ela sentia os olhares masculinos em sua direção enquanto pedia ao Lorde que a usasse para ter sorte.
- Mas é claro, meu anjo, que é você quem me traz tanta sorte esta noite. – Burton respondia com uma voz enrolada de quem havia exagerado no vinho. fez as contas, aquela noite seria muito desagradável como um todo, mas renderia bons frutos, afinal, ela bem sabia o quanto do dinheiro ganho se tornaria ouro em seu pescoço.
Seu ciclo com Burton estava no fim, uma vez que ela mal conseguia encará-lo sem sentir uma forte náusea. Além disso, ele já estava com ideias formadas em mente para se tornar seu protetor, e isso com certeza não permitiria. Um protetor era a última coisa que queria na vida. Boa parte das cortesãs de Londres a achava completamente insana por ter recusado tantos amantes com intenção de mantê-la, mas Lady Belle, como era conhecida, não deixaria que lhe cortassem as asas. Ela desprezava os homens mais do que aos ratos do esgoto inglês, e a ideia de ser dependente e presa a um deles não podia ser mais repugnante. Por isso, Lady Belle havia criado uma regra para as relações com sua clientela: exclusividade só mediante matrimônio. sabia que nenhum rapaz respeitável poderia tomá-la como esposa, afinal, ninguém poderia arcar com tamanho escândalo.
Quando o tédio que ela sentia se tornou insuportável, uma formidável presença a distraiu. Lady Jacquelyn Lind, dona da mais luxuosa casa de prazer de toda a Inglaterra, se encontrara à sua frente, olhando-a especulativamente. Sua figura era de fato muito bela, apesar de possuir a maturidade de uma senhora, Jacquelyn conservava grande parte de seus atributos, seus cabelos eram dourados e brilhantes, arrumados em um complexo penteado no alto de sua cabeça, seus olhos azuis brilhavam com a esperteza de uma raposa e sua silhueta permanecia a mesma de dez anos atrás, quando estivera no auge de sua carreira. Com um sorriso fechado, típico de sua profissão, Lady Lind deu início à sua entrevista com .
- Srta Jennings, espero que não seja um incômodo abrir mão da companhia do distinto cavalheiro para me conceder uma breve entrevista. – ela falou em tom baixo, deixando implícita uma leve ironia.
- Mas é claro que não é um incômodo. – respondeu no mesmo tom – Tenho certeza de que Lorde Burton está muito entretido.
As duas damas se retiraram, indo para uma mesa no reservado do clube. Sem saber o que esperar, controlou a expectativa, torcendo para que fosse algo de seu interesse. Considerando o grande prestígio que Lady Lind tinha no ramo, era provável que as peripécias de Lady Belle tenham chegado a seus ouvidos, se isso era bom ou ruim, estava prestes a descobrir.
Sem hesitar, Jacquelyn pediu uma dose dupla de whisky e indicou com a cabeça, dando a entender que ela tomaria o mesmo. Não era possível entender exatamente o que a cortesã mais famosa da Inglaterra queria, mas sua primeira demonstração não fora exatamente amigável. Ela só queria demonstrar quem ditava as regras naquela conversa. Lady Lind não sabia, contudo, que não estava lidando com mais uma das meninas iludidas que costumava contratar. A famosa Lady Belle não era famosa só por suas habilidades entre quatro paredes, mas também por ser uma incrível negociante. Quando as bebidas chegaram à mesa, tomou sua dose com um só gole, sem o menor estremecimento, pedindo em seguida uma taça de vinho, que era na realidade a bebida de sua preferência. A expressão surpresa de Jaquelyn foi quase imperceptível, mas a atmosfera entre elas havia mudado sutilmente com essa leve demonstração que tinha dado. Conversariam sim, mas como iguais.
- Pois muito bem, milady, em que posso ser útil? – perguntou afável, mas sem conseguir esconder uma ponta de petulância em sua voz.
- Acredito, senhorita Jennings, que já tenha ouvido falar de mim. – Lind começou com doçura – E tenho a impressão de que também sabe da fama de minha casa.
- Sim, milady, como poderia não saber? Não há uma pessoa em toda a cidade que não tenha ouvido falar da senhora ou da sua casa. Mas não posso dizer que não me surpreendeu seu interesse em uma entrevista comigo. – bebericou o vinho.
- Minha cara, a senhorita deve saber também que seus serviços são muito conhecidos na cidade. Não vejo por que a surpreende meu interesse em conversar, dada a nossa afinidade de ofício. – Jacquelyn fitava como se esperando alguma reação à sua declaração ousada sobre a fama de Lady Belle. Se fosse essa sua intenção, com certeza formidavelmente decepcionada, sorriu indiferente e maliciosamente antes de responder:
- Milady, estou plenamente ciente que desempenho bem o meu papel. No entanto, gostaria que sua senhoria fosse direta no assunto que pretende tratar comigo. Esse diálogo circular não está dando em nada. – novamente levou a taça aos seus lábios, sem dar importância à expressão de desagrado mal disfarçada de Lady Lind. – E eu tenho certeza que o seu tempo também é muito valioso.
- Pois muito bem – o tom de voz da cafetina estava mais frio, apesar da doçura enjoativa ainda existir –, eu ouvi, Srta Jennings, e gostaria que a senhorita me confirmasse: é verdade que não tem interesse em conquistar a estabilidade de um protetor?
- Sim, milady.
- Então acredito que a nossa conversa será muito frutífera e não circular. Tenho uma proposta para a senhorita.
- Então, por favor, me deleite com a sua proposta. – o sorriso cínico de ainda estava estampado em seu rosto.
No entanto, ela não estava assim tão segura em desafiar a senhora das cortesãs, pois algo em seu íntimo dizia que a proposta seria sim interessante para ela. Não era a melhor forma de começar a negociar com alguém, trocando farpas.
- Tenho uma vaga para você em minha casa. Claro que com o seu talento, a senhorita não teria as mesmas condições das outras, mas estaria numa posição privilegiada, tanto no quesito dinheiro, quanto no quesito escolha. A senhorita teria todas as vantagens que conta hoje e mais a certeza de segurança e estabilidade.
não chegou a pensar por um minuto que fosse.
- Agradeço a sua preocupação com a minha segurança, milady, mas não posso aceitar sua generosa oferta. – vendo Lady Lind arregalar os olhos com a resposta direta e sem hesitação, ela continuou – Devo esclarecer meus motivos para não aceitar um protetor, pois são os mesmos que me impedem de aceitar a vossa proposta. Não suporto a ideia de perder qualquer fração de minha liberdade, mesmo que isso signifique uma constante instabilidade. Assim como um protetor me limitaria a dar satisfações sobre minhas escolhas , a proteção de vossa senhoria me limitaria a trabalhar quando e onde a senhora dispusesse, e isso não condiz com a minha realidade.
- Peço que reconsidere, Srta Jennings, não está pesando os fatos de forma racional. – Lady Lind mantinha um controle precário na voz de veludo – Não vai receber nenhuma proposta melhor, eu tenho certeza.
- Se a vossa senhoria me permitir, tenho uma contraproposta a lhe oferecer. – Lady Lind assentiu silenciosamente, dando o espaço para continuar – Eu me proponho a alugar um espaço na sua casa, pagando semanalmente o valor que a senhora julgar justo. Não terei que prestar contas, no entanto, de meus serviços e horários, não devendo comissão ou coisa semelhante.
Lady Lind fez uma careta desgostosa. Não podia negar que a oferta da jovem era, de fato, muito tentadora, além de bem pensada. Por mais que tivesse a liberdade de estipular um preço para um aposento em sua casa, isso nunca chegaria perto do lucro que ela conseguiria com as comissões da bela cortesã. Ainda assim, pensou, sua presença na casa atrairia mais da aristocracia inglesa do que qualquer outra moça. Não tinha o costume de aceitar derrotas com facilidade, mas não via como demovê-la de uma ideia tão boa. Tinha certeza que se não fosse ela a aceitar as condições daquela rapariga obstinada, outra o faria.
- Vejo que a senhorita faz jus aos comentários, minha cara.
- Imagino que isso seja um elogio, milady. – não sabia ao certo se sua ideia maluca tinha convencido a madame, mas esperava secretamente que sim.
Apesar de não ter nenhum problema com sua profissão, nunca gostara de receber seus clientes em casa. Não havia maneira de aplacar o nojo de viver em um lugar tão marcado pela presença dos piores espécimes masculinos que existiam, tampouco era agradável ter sua tranquilidade invadida pelos amantes obcecados. Considerava, há muito tempo, alugar um quarto para prestar seus serviços, mas ninguém alugaria um aposento decente para tal finalidade, e ela com certeza não se submeteria a uma cafetina gananciosa.
- Pois muito bem, senhorita. Aceito suas condições. Vá hoje à minha casa para acertarmos os detalhes e designarmos o quarto.

FIM DO FLASHBACK

Sorrindo com a lembrança, escorregou a escova mais uma vez pelos cabelos cor de avelã. Era sua primeira noite no bordel de Lady Lind. Apesar de sua vasta experiência na área, nunca tinha estreado em uma casa, ou sido o prêmio de um leilão. Hoje, disse Lady Lind, a aristocracia inglesa se digladiaria por uma noite nos braços de Lady Belle.

Capítulo 1
FALLEN ANGEL


era um costumeiro frequentador da casa de prazeres mais famosa de Londres, dirigida por Lady Jacquelyn Lind. O bom nível das garotas o atraía e a luxuosa instalação fazia jus a sua notável nobreza. O bordel estava agitado naquela noite, a expectativa era latente, todos estavam no aguardo do início do leilão. Lady Lind iria exibir sua mais nova aquisição, essa, deveras brilhante entre todas as pérolas que colecionava. Era o que diziam, pelo menos.
Apesar de já ter ouvido falar da tal Lady Belle, por quem todos eram perdidamente obcecados, nunca tivera a oportunidade de dividir o seu leito. Tinha alguma dificuldade em acreditar que a cortesã era tão extraordinária assim. Nobres com algum álcool no sangue tendiam para o exagero. No entanto, nutria uma leve curiosidade pelos atributos da moça e teria de experimentá-la mais cedo ou mais tarde. Não gostava de admitir, mas preferia que tal evento acontecesse mais cedo.
Com um copo de whisky na mão, circulou pelo bordel procurando alguma companhia agradável para esperar o leilão. Sua frequência no salão era tão formidável que algumas garotas tinham se tornado suas amigas, por assim dizer, e gostavam de conversar com ele quando não estavam prestando seus serviços. Hoje, porém, nenhuma parecia estar muito animada. A guerra de egos, imaginou. Não era agradável ter o brilho ofuscado por uma nova joia...
- Mas veja só, que imenso prazer te receber aqui, Lorde Del Duffled. – a voz adocicada da dona da casa interrompeu seus devaneios.
- A senhora está encantadora como sempre, Lady Lind. Vejo que hoje será uma grande noite, os ânimos estão bastante exaltados, não?
- Oh, sim, meu querido. Hoje vamos receber uma das mais conceituadas damas da noite de toda a Inglaterra. – disse, dando um sorrisinho afetado – Devo acreditar que o senhor participará da nossa deliciosa brincadeira, não é mesmo, milorde?
- Talvez, minha senhora. Acredito que posso ter os mesmos serviços em uma brincadeira menos agressiva com meus bolsos. – respondeu com sarcasmo.
- Ora essa, milorde! Não é tão avarento, pois eu lhe conheço. Posso garantir que seu investimento será devidamente recompensado. Não conheço ou ouvi falar de um só cliente de Lady Belle que tenha considerado suas habilidades menos que formidáveis.
- Veremos, minha senhora. Veremos.
- O senhor mudará de ideia quando puser os olhos nela, disso eu estou bem certa. – ela sussurrou convicta – O que vai acontecer agora mesmo. Ela descerá em instantes.
Com uma suave mesura, Jacquelyn se retirou, abrindo espaço na multidão, e se pôs ao pé da escadaria, antes da legião de homens que se aglomerou após o aviso da dona da casa sobre o início dos lances. Não demorou cinco minutos para ele entender do que Lady Lind estava falando sobre pôr os olhos na moça.
Parada no portal da escada, Lady Belle parecia uma visão de outro mundo. Nunca em sua vida havia visto alguém tão... Brilhante. Não havia outra forma de descrevê-la, a cortesã irradiava uma luz própria que podia se comparar com o sol. E sua beleza era tão perfeita que os seus olhos doíam ao fitá-la.
Sua pele cor de marfim tinha o aspecto macio e delicado de uma pétala de rosa e seu corpo bem delineado num vestido azul possuía curvas que fariam perder-se até os anjos. Seu traje não era como os das outras garotas da casa, que mostravam mais do que cobriam, a sensualidade dele estava na sutileza das formas e ela poderia ser facilmente confundida com uma debutante, se estivesse em outro ambiente. Seus cabelos tinham uma cor quente que não poderia ser descrita como castanho. Os reflexos, ora dourados, ora acobreados, das madeixas tornavam difícil a classificação. O mais impressionante na sua figura era, como era de se esperar, sua face, que se compunha graciosamente por um nariz delicado e levemente arrebitado, lábios cheios e avermelhados e os olhos mais incríveis que existiam em todo o mundo. Assim como seus cabelos, seus olhos tinham uma cor difícil de definir, uma cor de ouro líquido com a presença de verde e marrom aqui e ali, os cílios longos e curvados, a linha da sobrancelha harmonizando todo o conjunto. Em uma fração de segundo, ele já estava desejando-a.
Tentou parecer menos abobalhado com a aparência perfeita da jovem, e ela fez o impossível: tornou-se ainda mais bela quando lançou um sorriso majestoso à multidão. Desceu as escadas lentamente, prolongando a tortura dos que a queriam mais perto. No último degrau, ela lançou um olhar ao Lorde Del Duffled, um olhar que não poderia ser de outra coisa que não um desafio. Ele estava estrategicamente posicionado, ainda que o tivesse feito sem querer, e a formosa dama parou bem à sua frente, confirmando mais uma vez que ela não era fruto da sua imaginação (não que ele se achasse capaz de imaginar tamanha perfeição). Com certeza Madame Lind tinha lhe contado da sua descrença sobre o valor de uma noite com ela. Fosse o que fosse, havia um certo divertimento no ouro líquido de seus olhos quando ela o encarou.
não pôde deixar de sentir um leve frio na barriga quando desceu a escadaria. Sabia que Jacquelyn não manteria a discrição sobre sua estreia na casa, mas o que a esperava era um pouco mais do que seria aceitável para a recepção de uma cortesã. Do alto, ela conseguia enxergar o pequeno aglomerado de cavalheiros que a olhavam embasbacados, como se nunca tivessem visto uma mulher na vida. Pobrezinhos... Há alguns minutos, Lady Lind tinha lhe contado que havia um deles que não estaria tão disposto a participar do leilão, um Lorde com fama entre as meninas da casa, que lhe atribuíam todo tipo de requisito para o homem perfeito. duvidava que existisse tal coisa, uma vez que homens não passavam de uma raça intelectual e moralmente inferior, mas estava curiosa com o fato de ele não parecer se importar com a fama de Lady Belle. Surpreendentemente, o espécime de quem Lind havia falado estava ao pé da escada, parecendo muito casual e nada embasbacado. A descrição que ouvira do cavalheiro era precisa, no entanto, não fazia jus à sua aparência excepcional; seus olhos eram de um cinza tormentoso, como se dentro dele houvesse uma tempestade, os ombros largos e definidos eram cobertos pela casaca de seu ducado, os lábios tinham uma curva incomum e sensual que colocou o controle de em xeque. Ora, ele não demoraria a se juntar com os outros parvos que a fitavam, nenhum deles nunca conseguia. Ela viu suas sobrancelhas arquearem com desdém e riu internamente. Ele não sabia onde estava se metendo.
Decidida a provar seu ponto, sorriu para o cavalheiro, que estava prestes a começar a falar, e deu meia volta. Chegou perto da dona da festa e deu o aval para que começassem os lances, depois sentou-se confortavelmente em uma poltrona à margem de todos. Hoje ela seria tão somente do vencedor do leilão, e os demais cavalheiros não teriam a oportunidade nem mesmo de lhe sentir o perfume.
A guerra de loucos começara, pensou. Os lances que eram dados pelos embriagados eram altos e se encontrou diante da perspectiva de ganhar o triplo do que geralmente cobrava pelos seus serviços. Animada com a ideia, ela viu os lances chegarem às três mil libras, sem sinal de cansaço dos concorrentes. Eventualmente, as apostas se tornaram muito dispendiosas e boa parte dos cavalheiros não levavam tal quantia para continuar no páreo. Sobraram dois deles quando os lances estavam nas seis mil libras, e um observou com satisfação, era precisamente o Lorde que duvidara do valor de sua noite. O outro era o muito familiar Crawford.
deu um muxoxo. Como diziam, ele não largava a caça. Por Deus! Já tinha perdido a conta de quantas vezes ela tinha explicado sua regra ao jovem cavalheiro, mas Crawford parecia incapaz de entender o inglês claro. Queria fazê-la sua amante e, entre tantos que queriam o mesmo, era o mais insuportavelmente insistente. O pior de tudo era que tinha até se permitido considerar a proposta. Pior do que um cliente insistente era um cliente insistente que conseguia fazê-la gostar dele. Ela não conseguia resistir aos seus bons modos e à maneira doce e cheia de veneração com que ele a tratava. Ele era o mais generoso homem que jamais conhecera e sempre tentava surpreender com mimos e atenções dignas de uma dama. Ele a cortejava como se ela fosse de fato uma donzela frágil, e isso comovia a , ainda que ela não conseguisse admitir. Nem por isso sua regra preciosa seria quebrada, afinal, ele ainda era um homem, apesar de um pouco mais evoluído que a maioria.
Como imaginara, tinha trazido uma fortuna para o bordel e não haveria chance de alguém superá-lo nos lances.
Crawford estava realmente muito contente consigo mesmo. Aquele duque metido não poria as mãos na sua Lady Belle nem por cima de seu cadáver, e ele estava disposto a gastar o que fosse para tê-la essa noite. Até considerou um lucro ter conseguido esmorecer o duque com o lance de sete mil libras; tinha levado o suficiente para um inglês comum viver a vida inteira para conseguir seu prêmio. Oh, como ele sentia falta de sua menina... Os seus sorrisos inestimáveis e o seu toque mágico, ela o tinha nas mãos, pensou ele, podia ter o que quisesse dele. Se desejasse uma estrela do céu, ele iria buscar... Mas ela, feiticeira que era, queria a única coisa que ele não poderia oferecê-la, por mais que o desejasse: o Matrimônio. “Serei somente sua se for sua esposa, meu querido. Só se for a sua esposa.” Ela dizia, sempre com o cinismo natural que lhe era característico. Ela sabia que ele não podia se submeter a uma união tão escandalosa, e não se importava exatamente na recusa dele em lhe pedir sua mão, isso até a divertia, como se ela soubesse da impossibilidade da situação.
Algumas vezes, ela ficava diferente, vulnerável como uma flor. E era nessas ocasiões que a obsessão de aumentava. Ele adorava conhecer a mulher que havia por baixo da cortesã. Amava sua força e sua obstinação, seu senso de humor e sua inteligência, seu frescor. Essa mulher vulnerável era fascinante e, mesmo quando a escondia debaixo da lasciva Lady Belle, ele conseguia senti-la nos momentos de prazer.
Sem pensar mais, ele seguiu ao encontro de sua doce dama, que o aguardava com uma expressão de censura. Ele sorriu, um sorriso verdadeiro que vinha de dentro do coração dele, pois ia ter aquela noite, que seria tão maravilhosa como todas as outras ao lado dela, noites das quais ele sentia falta. Não podia pensar nas garrafas de rum que esvaziara quando ela pediu para ele deixar de vê-la. Ela não podia dispensá-lo agora, não podia fugir dos sentimentos dele, ela o pertencia e ele era dela.
- Oh, . Sete mil libras? Você enlouqueceu finalmente? – a voz da bela dama era o espelho de sua expressão, a censura impregnada em cada palavra – Tudo isso porque eu disse que era melhor pararmos de nos ver?
- Ah, . Você sempre soube que eu não desistiria. – respondeu sem fraquejar – Você sabe que eu a am...
Os dedos enluvados lhe impediram de continuar a declaração. Ela não acreditava e nunca seria capaz de acreditar em tal absurdo. Os homens não amavam, eles se obcecavam sim, sofriam paixonites passageiras, mas o amor não existia naquela raça, disso ela sabia bem. Tinha descoberto à custa do seu próprio coração, se orgulhava de ter endurecido de tal forma que declarações como essa não a afetassem.
- Tudo bem, , terá o que quer. Mas não faça isso consigo, meu anjo. Só está te magoando. – apesar de não acreditar na veracidade da declaração de , ela sabia que ele acreditava na própria ilusão. – Vamos, anjo, vamos nos recolher.
Tomando seu braço, a conduziu até o andar de cima, ao seu quarto, que tinha a sua cara, apesar de não ser o que ele estava acostumado. Ela tinha arrumado tudo como de costume, o aroma do quarto que só ela conseguia criar, uma mistura quente de mel e avelã que contrastava com o fresco perfume que ela usava. Como ele queria que ela entendesse que ele realmente a amava e que não havia forma de viver sem ela... Ele queria tanto que ela acreditasse. Encarou-a nos olhos, uma coisa arriscada de se fazer, dada a frequência em que ele se afogava naqueles lagos sem fundo – tentou lhe dizer silenciosamente o que sentia. Nada adiantava. Ela continuava insondável com uma expressão compreensiva que lhe colocava louco.
- Droga, ! Por que é incapaz de acreditar em mim? O que há de errado com esse seu coração de pedra? – era sempre assim. Ele acabava se exaltando com sua indiferença impenetrável.
E sempre o acalmava sem palavras. Somente chegou perto dele, sem desgrudar seus olhos dos dele, e lhe depositou um beijo nos lábios. Não fora mais do que um roçar, mas era o suficiente para que a necessidade doentia que ele tinha do seu toque falasse mais alto. Um gemido abafado sinalizou sua rendição enquanto massageava sua têmpora com suavidade. Como sempre, ele enlaçara sua cintura com doçura e acariciara seu corpo com a leveza de uma pluma. Era por isso que ela acabara gostando dele. Essa preocupação que ele tinha em apreciá-la e tocá-la em todas as partes sem pressa, gostava do carinho, de se sentir querida. Não sentia o desejo que ele sentia, mas desfrutava da delicadeza com que era tratada.

***


- Ora, meu caro. Não vejo motivo para estar tão irritado. – Anthony discutia com – A cocote vai continuar lá amanhã, e depois. Essa é a graça das mulheres da noite. Elas estão sempre lá.
Até hoje, se perguntava como era capaz de aturar seu melhor amigo. Ele já lhe dissera dez mil vezes que não estava irritado e que pouco se importava com a nova moça de Lady Lind. Mas ele tinha o irritante hábito de enxergar através de suas expressões e uma maneira nada divertida de expressar suas deduções. Sem lhe conceder uma resposta, ele encheu novamente o copo de whisky.
- Não adianta ficar aí se embebedando, . Amanhã temos um compromisso na câmara dos lordes e você sabe muito bem disso. – disse-lhe, se levantando e retirando o copo das mãos de – Não vai querer dar vexame de novo, certo?
- Anthony, meu querido amigo. Você pode me fazer o favor de me deixar em paz? – esbravejou, alterado – Tenho certeza que a Virgínia está te aguardando em sua casa, com planos muito melhores do que os meus para você. Então, antes que eu te quebre a garrafa de whisky na cabeça, sugiro que vá com a sua esposa.
Ele sabia que nada do que ele dissesse surtiria o efeito desejado em Anthony, e logo percebeu que lembrá-lo da sua linda esposa o deixava completamente insuportável e romântico. Derrotado, sentou-se para ouvir todas as qualidades da maravilhosa mulher de Anthony e também o quanto ele deveria estar agradecido por ele estar ali para impedi-lo de fazer loucuras, ao invés de estar em casa desfrutando da companhia dela. Anthony só deixou a casa com a promessa do mordomo de de que ele levaria o duque direto para os seus aposentos, para que tivesse um sono reparador.
, contudo, não se sentia capaz de pregar os olhos. Algo nos olhos da cortesã lhe era familiar. Algo mexia com ele naquela enigmática mulher. Ele não conseguia nem pensar nisso, mas ela parecia muito com Katherine, não fisicamente, mas ele se sentiu exatamente como costumava se sentir quando sua ex-noiva olhava para ele. Como se um simples olhar pudesse derreter todo o seu corpo e fazê-lo arder por dentro. E isso não era bom. Ele ainda se lembrava da última vez, e se lembrava com uma clareza que dilacerava seu íntimo.

***


amanheceu com a cama vazia. Não ficara surpreso depois que Lady Belle tinha lhe solicitado o pagamento adiantado, mas mesmo assim, estava ressentido. Esse era o trabalho dela. Não fazia porque correspondia minimamente aos seus sentimentos, fazia porque tinha que fazer. Não entendia como ela conseguia representar tão bem, como ela fazia para preencher o vazio que ficava dentro dele quando ninguém mais era capaz de tal feito.
De início, ele não tinha compreendido por que ela decidira trabalhar no bordel, uma vez que a clientela não hesitava em procura-lá em casa, mas naquele momento lhe ocorrera o motivo. Não veria enxotando-o de sua cama para que fosse descansar em casa, não teria um beijo de despedida terno, não olharia para seu rosto ao despertar. Ela cumprira seu dever e se fora. Estritamente “profissional”. Do seu lado, um pequeno bilhete lhe chamara a atenção. Com a caligrafia fina e inclinada. Inconfundível. abriu a carta sentindo o vazio se apoderar dele indistintamente.

“Meu Anjo,
Espero que compreenda que a natureza das relações na casa de Lady Lind é diferente da que tivemos tantas vezes em minha casa. Não posso me negar a te ver para não te machucar, mas também não alimentarei esperanças de que você possa ser para mim um amante. É duro dizer-lhe isso, mas creio que é necessário. Você é meu cliente, , não será mais do que isso, por mais que seja difícil para nós dois. Se fossem diferentes seus sentimentos, eu adoraria ser sua amiga, mas não posso te dar o que você precisa, e acho que é melhor você parar de me procurar.
Se, contudo, você não seguir o meu conselho, te aviso que será assim daqui pra frente. Farei o que fui paga para fazer e irei embora.
Acredite que isso me dilacera tanto quanto o machuca.
Com as mais sinceras desculpas e o meu carinho,
Jennings.”


Atordoado com a dor, puxou os lençóis para captar o que restava do cheiro de . A tinta meio úmida do papel lhe dizia que ela não saíra há muito. Talvez a encontrasse no coche a caminho de casa. Ele não seria mais do que um cliente... Como ela podia sequer pensar nele como um mero cliente? Depois de tudo o que ele havia lhe contado, tudo o que ela sabia dos seus sentimentos? Como ela podia machucá-lo tão deliberadamente? Ela não sabia com quem estava lidando. Se achava que sua indiferença fria o faria desistir dela, estava redondamente enganada. Se dependesse dele, ninguém mais deitaria naquela cama no bordel. Ela seria só sua, mesmo se fosse pelos meios mais perversos. Isso ele podia garantir.
Levantou-se e se vestiu sem vontade. Tinha um encontro na câmara dos lordes, muito aborrecido por sinal, e não podia faltar. Às vezes, ser da nobreza era levemente desagradável. Mas na maior parte, era realmente muito bom. Com um gosto amargo na boca, ele se foi, mas não por muito tempo. Ele venceria pelo cansaço.


Os encontros dos mais importantes membros da nobreza inglesa eram, no geral, bastante entediantes. A maioria dos jovens lordes não tinha muito interesse em política e queria aproveitar a vida que o dinheiro em abundância lhes proporcionava, além disso, ao contrário do que se pode imaginar, as amizades entre os cavalheiros não eram sequer estreitas e o clima de inveja e especulação tomava conta do ambiente.
Foi nesse ambiente hostil que exibiu suas incríveis olheiras. A noite sem sono deixara marcas no seu rosto bem feito, e é lógico que a especulação rolaria solta depois nos clubes de jogos de Londres. Sem querer pensar muito no assunto que tinha mantido seus sentidos em alerta, se dirigiu ao único ser que, apesar dos pesares, o olhava com alguma afeição. Anthony Liemens, Lorde Burton, o aguardava com o olhar censurador. Era óbvio que Del Duffled não tinha seguido seus conselhos sobre o sono reparador.
- , você está parecendo um trapo velho. Por que não dormiu, homem de Deus? – ele perguntou em voz baixa.
- Eu não sei o que ela tem, Tony. Mas ela me faz pensar em Cath...
- Esse nome é proibido, lembra? Proibido. Não merece sair da sua boca, e se essa moça te faz lembrá-la, isso só pode ser um mau sinal, não acha? – o tom de Tony era tenso, realmente não era nada saudável falar da ex-noiva de . Mesmo depois de todos aqueles anos, Tony ainda podia enxergar o misto de raiva e de dor que o amigo sentia a cada menção da rapariga.
- Acho. Eu tenho bastante certeza que não deveria me meter com essa mulher, mas eu preciso saber como é. Só isso, ela é uma cortesã, afinal de contas, e eu vou ser um cliente a mais. Só isso.
A linha de raciocínio de foi interrompida pela chegada de Crawford, que curiosamente parecia tão acabado quanto o próprio duque. Tinha um aspecto miserável e usava as mesmas roupas da noite anterior. As olheiras não eram tão pronunciadas, mas os olhos tinham uma sombra de um sentimento indefinido, que tornava sua aparência mais deplorável ainda. Sem cumprimentar ninguém, ele se sentou na poltrona que lhe era destinada para esperar o início da sessão. ficou em dúvida se realmente valia pagar sete mil libras para ficar daquele jeito.
Como sempre, a reunião apresentou uma torrente de assuntos fétidos e demorou a passar, deixando tanto o conde quanto o duque impacientes. O finalmente que levara demasiado tempo para ser alcançado aconteceu quando os dois estavam à beira de se debruçar nas escrivaninhas e dormir ali mesmo.
surpreendeu até a si mesmo quando foi conversar com Crawford. Eles nunca antes tinham trocado mais do que duas palavras (com licença). Um impulso de descobrir por que um homem que tinha passado uma noite supostamente maravilhosa (sete mil libras!) estaria com uma aparência tão deplorável quanto à dele própria, que tinha passado a noite se embebedando em seu quarto.
- Bom dia, Crawford. – não havia o tom casual que seria necessário em sua voz. Por algum motivo, ela estava carregada de um sentimento que só conseguia distinguir como cólera.
- Bom dia. – alheio a qualquer indício que a voz do duque podia trazer, só tinha a intenção de ir para a casa o mais rápido possível.
- Vejo que sua noite com Lady Belle foi muito cansativa. – não conseguiu conter as palavras completamente inadequadas que saíam de sua boca.
- Não vejo como isso pode te interessar, Del Duffled. – a menção a por aquele nome que ele tanto desprezava o tirou temporariamente dos seus devaneios de uma forma não muito boa.
- Pois eu te explico. Como fui derrotado pelo senhor ontem, nada mais justo que eu saber o que me espera quando for minha vez no leito da cortesã.
Isso realmente não foi algo muito inteligente para se dizer. Sem que tivesse tempo para registrar o que aconteceria, ele se sentiu atingido por um punho fechado em seu rosto. Se seu reflexo não tivesse sido rápido o bastante, a agressão teria se repetido inúmeras vezes. Com os punhos do cavalheiro presos nas costas, ele não sabia como aquilo tinha acontecido. Parecia improvável uma luta por uma cortesã que trabalhava em uma casa com tanta “rotatividade”. No entanto, as palavras furiosas que saíam da boca do Conde eram bastante reais. - Fique longe dela, Del Duffled. Ela é minha. – ele falou entre dentes – Não ouse se aproximar de .

não podia deixar de se sentir preocupada. Não era certo tratar assim, mesmo ele sendo um homem. Não podia negar que ele tentava podar sua liberdade sem nenhuma consideração, mas ainda assim, ela gostava muito dele e não queria deixá-lo infeliz. Chegou à sua casa temerosa, imaginando qual teria sido sua reação ao bilhete que tinha deixado, se arrependendo um pouco da frieza com que tinha tratado os sentimentos que ele imaginava sentir. Tudo o que ela precisava era de uma banheira cheia de água quente e um bom sono de beleza para voltar à pele de Lady Belle e deixar de se importar com o sentimento de qualquer homem que fosse.
Depois de tomar seu banho revigorante, o sono não parecia estar tendendo a visitá-la. Ficou revirando na cama, tentando inutilmente calar os pensamentos inquietos, que por algum motivo ameaçavam voltar ao passado. Aquele que ela tinha enterrado bem fundo. era em tudo diferente do seu infortúnio, mas ela não conseguia deixar de lembrar o que tinha acontecido da última vez que tinha acreditado nas palavras de um homem. Irritada, sentiu as lágrimas se formando nos olhos novamente e quis que, por um dia, não se sentisse tão acuada e desconfiada. Só que ela não podia, não tinha forças para mudar o que se tornara a sua realidade.
Percebendo que descansar não seria uma opção viável para o estado em que se encontrava, decidiu ir ao banco depositar as sete mil libras que o inconsequente tinha lhe pagado. Arrumou-se rapidamente, com um vestido simples, e saiu na esperança de limpar a mente de todos aqueles pensamentos indesejados.
era muito bem vista no banco de Londres. Isso por que eles mediam as pessoas pela sua fortuna, não pelo seu ofício. Ela era dona de uma das contas mais gordas da instituição e isso dava algum crédito à sua figura, então, dentro da alta sociedade, aquele era o único lugar em que ela era tratada como uma dama. O gerente, Sir Fairmore, sempre a recebia com uma fumegante xícara de chá e biscoitos fresquinhos. O que fazia até apreciar suas visitas. Nem mesmo Sir Fairmore, que estava tão acostumado a receber os espantosamente altos depósitos de , deixou de se surpreender com a quantia que ela trazia dessa vez. Os olhos do senhor arregalaram visivelmente e ele ficou por alguns momentos sem fala. Depois de recusar outro biscoitinho, foi saindo, sentindo que seu humor melhorara um pouco.
Cedo demais. O destino, que não podia deixar de pregar peças nela o tempo todo, fez com que ela encontrasse ninguém menos que Crawford na saída do banco. Ele levava uma saca, provavelmente repleta de dinheiro. Quando seus olhares se cruzaram, sentiu seu coração apertar, estava espantada com a aparência deplorável do cliente. Ele, no entanto, demonstrou alegria em vê-la, como se a frieza de não o atingisse de nenhuma maneira. Um sorriso iluminou a expressão cansada e ele tocou a sua mão, um gesto tão singelo perto do que costumavam fazer, mas assustadoramente íntimo.
- Senti sua falta essa manhã. – ele sussurrou – A cama estava muito vazia sem você me enxotando dela.
- Oh, . Por que você tem que deixar tudo mais complicado? – perguntou em tom de desaprovação. – Não seria mais simples esquecer?
Uma expressão de dor trespassou pela face de Crawford, mais uma vez, ela estava fazendo pouco dos seus sentimentos. Mais uma vez, sua mera presença o arrebatava enquanto ela permanecia na sutil indiferença, era mais doloroso do que ler o bilhete, aquela expressão serena, aquele coração feito de pedra. Quando ela fez menção de sair, o vazio de sempre ameaçou tomar o seu lugar e ele a puxou pelo braço, nutrindo sua vã esperança de que eventualmente ela cederia.
- Você sabe que eu não sou capaz de te esquecer, . Eu já cansei de te explicar que eu amo você.
- E eu já cansei de falar que você não me ama. E enquanto você alimentar essa ilusão, você não vai poder ser feliz, pois eu não posso te dar o que você precisa. – explodiu e logo em seguida se arrependeu, afagando a mão que continuava em seu braço. – Veja, meu anjo, já é tempo de você encontrar uma boa moça e se casar, deixar essa vida boêmia para trás. Me deixar para trás.
Dizendo isso, saiu sem dar chance de resposta ou tempo para qualquer reação. Na carruagem, as lágrimas voltaram aos olhos de , mas dessa vez ela deixou que elas rolassem sobre a face perfeita, na esperança de que sua alma fosse lavada. Não podia estar em piores condições àquela tarde, e duvidava que estaria melhor à noite. Não podia deixar seu coração se enternecer, afinal, se ele realmente a amasse tão desesperadamente, já teria aceitado suas condições.
Quando a noite se aproximou, se arrumou sem a menor vontade e partiu para o bordel. Sabia que ele estaria lá esperando, com a expressão derrotada que lhe cortava o coração. Ela tinha que arrumar alguma forma de impedi-lo de se destruir. Simplesmente não podia compactuar com a sua loucura. Decidida, ela entrou na casa de Lady Lind e foi ter uma conversa com a dona:
- Boa noite, milady.
- Olá, Jennings, o que você precisa? – a cafetina respondeu com o ar atarefado.
- Preciso que organize outro leilão para mim. Na verdade, quero que a senhora organize-o todas as noites.
- Não posso. As outras meninas ficam desvalorizadas. – ela respondeu seca. Essa garotinha já estava colocando as manguinhas de fora na segunda noite? Ora essa, alguém tinha que pôr ordem naquela casa.
- Eu pago para a senhora 20% do lance. É mais do que milady receberia delas juntas.
Lady Lind arregalou os olhos, sem entender nada. Uma das condições de Lady Belle era não pagar comissões a ela, o que ela fazia agora não tinha o menor sentido. Pagar 20%? Quando ela cobrava 45% das outras?
- Minha taxa é 45%, .
- Eu pago 20%. Mas lembre-se que ontem isso significou 1400 libras. Em uma noite. Pense a respeito, Jacquelyn Lind, depois me procure para acertarmos tudo. – fez menção de se retirar, mas foi retida pela voz de Jacquelyn.
- Eu aceito 25% e estaremos combinadas. – ela disse.
- Eu... – hesitou por um momento, antes de responder – Tudo bem, então. 25% do leilão, estamos combinadas?
- Acredito que sim, Srta Jennings. Até quando pretende manter essa situação?
- Até quando for necessário. – respondeu em tom enigmático.
Dizendo isso, se dirigiu ao seu quarto para começar os preparativos da noite, que seria indubitavelmente longa.

Capítulo 2
THE PLAN


não estava com humor para piadas. Infelizmente, seu amigo Anthony não parecia ter se dado conta desse fato. Após a surra sem precedentes que levara do conde, não havia outro assunto que o amigo ficasse tão feliz em abordar de novo e de novo. De fato, era difícil entender como um cavalheiro do porte de Crawford poderia ser tão passional no que dizia respeito àquela dama da noite, e com certeza homens mais espertos já tinham se dado muito mal por dar tamanha importância a uma dama que tinha o tal ofício. A sensatez de , infelizmente, estava muito debilitada depois da simples visão da dama em questão, e a fúria do jovem conde não surtira o efeito desejado. Ao invés de fazê-lo desistir de tê-la em sua cama, só aumentou sua curiosidade sobre o talento da moça e sua vontade de tomá-la em seus braços. Por sorte, Virgínia, a maravilhosa esposa de Anthony, tinha ido encontrá-lo na casa de , pois eles tinham um baile importante naquela noite. Nada que estivesse minimamente interessado em ir. Seu interesse estava no mesmo lugar onde estivera no dia anterior.
Por mais que a sua sensatez tentasse demovê-lo da curiosidade sobre Lady Belle, não conseguia tirar os olhos dela do pensamento, a suave petulância que corroia suas entranhas com a expectativa de algo que ele sequer conhecia. Foi por isso que assim que Anthony se retirou com sua esposa, se aprontou, selou seu mais belo possante e foi para a casa de Lady Lind.

***


A ansiedade não era um sentimento que costumava ter na casa de prazeres, mas o seu estômago estava repleto de borboletas quando ele atravessou o portal em direção ao salão. As cocotes estavam prontas e sorridentes, iluminadas pela sua presença, e o quórum de cavalheiros estava ainda maior do que tinha estado no dia anterior. Ela estava do outro lado do salão, mas não havia nenhum homem próximo. Era ainda mais bonita do que a imagem gravada em sua mente, ainda que lhe parecesse impossível tal fato. Sem pensar sobre o assunto, ele andou até a moça, sem acreditar em sua sorte por ser o único a solicitá-la, imaginando qual era o problema mental de todos os homens que tinham chegado antes.

estava preocupada, sabia que seu plano poderia ser muito arriscado e radical, e era provável que saísse muito lesado. Mas não podia agir de outra maneira, de forma a convencê-lo a desistir dela. Se ela sabia algo sobre homens era que seu ouro valia mais do que a vida de muita gente, quem dirá de suas paixonites imaginárias. Esses pensamentos pessimistas tomavam sua mente quando ela o viu. O famoso duque Del Duffled, resplandecendo em sua jaqueta preta e ajustada, combinada com a alva camisa de linho e arrematada pela elegante gravata prateada de seda, lançava um olhar especulativo para ela, com os olhos cinzentos e intensos como uma tempestade; e, por algum motivo, fazia seu ventre contrair à medida que se aproximava. sorriu nervosa quando ele tomou sua mão com um beijo suave.
- Milady. – disse com sua melhor voz de veludo, roçando os lábios na pele mais macia que ele tinha tocado em sua vida – Está encantadora, Lady Belle.
- Muito obrigada, milorde. Espero que esteja apreciando a noite. – sua voz era de sereia, o enfeitiçava como tudo nela. demorou um instante para se recuperar da beleza da sua voz.
- Acabei de entrar, mas confesso que já estou apreciando imensamente. Milady aceitaria me acompanhar essa noite? – Ele não quis soar tão ansioso, nem fazer o convite tão abruptamente. Sabia que, independentemente de sua ocupação, todas as mulheres apreciavam o flerte, e nada mais era tão efetivo em garantir o prazer futuro do que dar a elas as preliminares corretas. A vontade de tocar em cada parte dela falava mais alto que sua experiência, entretanto.
O sorriso dele era mais do que charmoso, pensou . Um monte de tentação em forma de homem, ele sabia o efeito que tinha sobre qualquer espécime do sexo feminino. Não sabia, contudo, que não podia ser classificada como qualquer espécime em nenhum âmbito. Ele seria mais um tolo aos seus pés, nenhum deles jamais conseguia evitar isso. Dos mais desprezíveis até os mais interessantes, como ele, todos acabavam a entediando em algum momento. Naquela noite, no entanto, não seria possível começar a brincar com ele, tinha problemas muito urgentes com que se preocupar e nada tiraria o foco do seu plano.
- Fico honrada com o convite, milorde. – ela falou com doçura – mas hoje, infelizmente, não estou disponível. Sou o prêmio da noite novamente, tenho que me guardar para o ganhador do leilão, isso é o mais justo. Mas se o senhor for o campeão, nada me fará mais feliz do que ser sua dama essa noite. – Lady Belle deu seu melhor sorriso para o cavalheiro estarrecido à sua frente. – Agora, se o senhor me der licença, preciso ter uma conversa com Lady Lind.

viu a cortesã se afastar deslizando, sem acreditar em seus ouvidos. Não era comum ele se sentir tão completamente rejeitado, muito menos por uma mulher que seria muito bem paga para fazer suas vontades. Ele sabia que era errado querer quebrar alguma coisa só por que não poderia ter Lady Belle (ou , como tinha descoberto de uma forma muito dolorosa) tão facilmente como seu amigo Anthony tinha profetizado, principalmente quando ele poderia ter qualquer outra beldade daquele lugar com um mero estalar de dedos. Mas não conseguia evitar. Não sabia nem se queria evitar. Aquela mulher enigmática conseguia mexer com a sua indiferença tão habilmente criada durante todos aqueles anos.

o viu exatamente na hora em que ele passou pelo portal. Ela sabia que ele estaria lá, tinha certeza absoluta disso, mas tentava se agarrar à esperança de que tivesse entendido o recado dado no banco. Por isso o coração dela apertou quando ele abriu um sorriso radiante ao vê-la. Nada o abalava, parecia que quanto mais ela tentava convencê-lo de que não era nada bom para ele alimentar aquela ilusão tola que tinha, mais a obsessão criava forças. O salão pareceu diminuir, assim como toda a coragem que ela tinha reunido para partir o coração dele de uma vez por todas. Ele nunca lançou sequer um olhar para outra mulher, nem mesmo antes de se obcecar. passava pela casa como se a única pessoa que existisse no mundo fosse ela, seus olhos fixos nos dela da hora que ele a avistou até o momento em que eles ficaram frente a frente.
- , você está encantadora como sempre. – ele imitou Del Duffled ao beijar sua mão com leveza – Senti falta da sua pele durante o dia – ele falou muito baixo, mais para si mesmo do que para ela.
- , por favor... Não torne as coisas mais difíceis do que elas já são. – a voz de saía fraca, entrecortada. Nada de Lady Belle podia ser encontrado naquele tom, sua vulnerabilidade estava à tona. percebeu isto, sem entender a razão da tristeza que havia no olhar da sua amada. Ela puxou a mão abruptamente, como que para evitar o contato com ele.
- O que houve, meu amor? – ele perguntou, sem entender absolutamente nada no comportamento da cortesã.
- Não houve nada. Eu tentei, , tentei te ajudar a entender que o que você sente é passageiro, tentei te mostrar que você pode ser feliz com uma dama da sua classe e que não precisa viver essa vida para sempre. Mas você não compreende, não quer me escutar. Por quê? Não seria mais prudente aceitar e seguir em frente?
- O amor não é prudente, .
- Você não ME AMA! – ela vociferou. Sem ouvir o que ele iria responder, ela correu para seus “aposentos”, chorando.
não sabia o que fazer ou dizer. Nunca tinha visto perder o controle e a postura daquela forma. Até mesmo suas reprimendas eram sempre num tom contido e cauteloso, nunca deixando transparecer muito de suas verdadeiras emoções. Era assustador vê-la daquele jeito, à flor da pele, era perturbador porque a suave indiferença que sempre emanava de parecia esconder muito mais do que ele imaginava. Desorientado, ele a seguiu e adentrou o quarto num repente para ver uma cena que marcaria a sua vida: a mulher por quem era perdidamente apaixonado estava aos pés da cama, chorando copiosamente como uma menina, balbuciando palavras sem sentido, completamente descontrolada.
A dor de ver naquele estado não era explicável. Nada que ele já tivesse sentido se comparava com aquele aperto no peito sufocante, a vontade de sentir a dor no lugar dela, o desespero para consolá-la. Sem hesitar, ele a tomou em um abraço forte e ela se deixou envolver sem resistência, somente meio consciente do que acontecia, enterrou o rosto em seu peito enquanto ele a aninhava calmamente, murmurando palavras de consolo.

vivia aquele momento roubado e errado, consciente do seu erro brutal. Se antes já seria difícil convencer o homem que a abraçava a deixá-la em paz, agora suas chances se aproximavam da impossibilidade. Ele sabia agora, com uma certeza que ela lhe tinha entregado de mão beijada, que ela se importava. Se importava com o que ele fazia com ela, se importava com os sentimentos dele. Esse era o maior erro que uma mulher como ela podia cometer, se eles descobrem que você ainda se importa com alguma coisa, eles usam esse ponto fraco até que você fique esgotada. Mesmo tendo plena consciência de tudo isso, ela se deixou ser consolada por ele. não resistiu ao carinho, não resistiu à expressão de dor que ele tinha por vê-la daquele jeito e tinha que admitir que ela queria mesmo aquele abraço, ela queria aquela sensação de segurança que ele passava a ela, o aconchego dos braços tão bem conhecidos.
O momento foi interrompido pelas batidas insistentes de Lady Lind, que queria saber se ela estava pronta para o leilão. A cafetina estava deveras irritada com o sumiço de , especialmente porque as garotas a viram sumindo com um cavalheiro. Era muita audácia dela exigir que um leilão ocorresse e sabotar o jogo logo em seguida. Se ela achava que estava lidando com um de seus clientes e que Lady Lind lhe faria todas as vontades, estava redondamente enganada.
- ! Os cavalheiros estão à sua espera para o início do Leilão! Será que a vossa senhoria poderia dar o ar da graça aqui fora AGORA?
olhou para , que demonstrava susto. Obviamente ela tinha até se esquecido da encenação que teria que fazer para o leilão, mesmo sabendo que aquele que a abraçava seria o vencedor, sem a menor sombra de dúvidas. Com cuidado, ela se desvencilhou dos braços que a consolavam e foi ver a dona da casa do lado de fora do quarto, fazendo o máximo para que ela não visse a presença em seu aposento.
- Eu só preciso de um minuto para me recompor, milady. Já estarei pronta para começar a noite. – ela falou com o tom condescendente de volta à sua voz.
- Não brinque comigo, Jennings! Eu sei muito bem que tem um cavalheiro em seu quarto. – ela vociferou, visivelmente irritada.
- Ora milady, não se exalte! Nada aconteceu aqui. O cavalheiro já está de saída e eu estou bem certa de que ninguém viu a grande indiscrição do Lorde Crawford.

não achou que tinha experimentado tamanha irritação antes em sua vida. Aquele conde maldito tivera a atenção de Lady Belle desde o momento em que entrara no salão. A presença do crápula parecia até mesmo abalar a serena compostura de . Pelo jeito que se olhavam, existia muito mais do que uma relação de clientela entre os dois. E, por algum motivo, isso incomodava imensamente. Ele teve que controlar seu instinto violento ao vê-lo se aproximar da cortesã e beijar sua mão de seda, mas logo depois foi surpreendido por uma cena extremamente incomum naquele meio. Ela se esquivou da aproximação do cavalheiro demonstrando uma fragilidade quase juvenil e uma expressão de profunda tristeza, que tornou o seu rosto ainda mais perturbadoramente bonito, era tão lindo como um anjo caído, tristonho e brilhante. Essa expressão fez com que algo amarrasse na garganta de , o que não fazia o menor sentido, já que ela era uma mera desconhecida, e ainda por cima uma desconhecida cortesã. Só que era difícil se concentrar nisso enquanto ele via o anjo sair correndo, e um vislumbre do seu choro era perceptível. Sua primeira reação tinha sido segui-la, porém o Conde tinha sido mais rápido (ele já devia estar acostumado com a beleza sobrenatural da dama para ficar tão paralisado com ela quanto ficava, apesar de que a ideia de se acostumar com aquilo parecesse impossível na concepção de ) e subira as escadas ao encontro dela. Novamente, os instintos violentos de foram testados, mas ele não conseguia encontrar nenhuma justificativa válida para quebrar a cara dele naquele momento, por mais que seu corpo não quisesse fazer outra coisa senão isso. Pareceu que uma eternidade havia passado antes de aparecer no topo da escadaria em toda a sua glória, a expressão cuidadosamente vazia tinha voltado à sua face e não havia sinal do conde por ali. Logo em seguida, a dona da casa anunciou o início dos lances e a irritação do duque deu lugar a uma desconfortável expectativa.
Como se tivesse surgido do chão, Crawford apareceu do outro lado do salão, exibindo um ar de frustração que deixou muito satisfeito, embora ele não soubesse explicar bem o porquê.
A noite parecia repetir todos os fatos da noite anterior, e isso era extremamente irritante. Novamente, após algumas tentativas de todo o salão, somente sobraram e Crawford no páreo. Os dois não pareciam ter limites para aumentar os lances, e , que havia se preparado melhor esta noite, achou que até poderia levar a melhor. Ele não tinha a menor noção do tamanho da obsessão do conde pela dama em questão e achava que qualquer homem razoável reconheceria a hora de parar.
O único problema era que com Lady Belle a razão parecia fugir da mente dos dois. Por mais que tivesse dado o melhor do seu bolso para tentar vencer o desafio, a fria obstinação de Crawford tornou inútil seu esforço. Num lance de impressionantes dez mil libras, o conde levou o prêmio da noite mais uma vez, enquanto imitava a frustração da noite anterior.

Quando olhou para , logo após ter vencido mais uma vez o leilão da noite, ele não viu censura em seus olhos, nem mesmo a tristeza que estivera lá alguns momentos antes. Tudo o que ele viu foi uma resignação dura, que fez seu coração pesar inconscientemente, como que para preveni-lo de algo. Nada nela fazia o convite para que ele se aproximasse, nenhum sinal de que se importava minimamente com quem teria que dormir naquela noite era emitido por ela. Quando lhe foi falar, tudo o que ela teve coragem de dizer foi: “Parabéns. Espero que você aproveite a sua noite. O que vossa senhoria deseja fazer agora? Algum drink? Jogo? Ou prefere ir direto para os meus aposentos?”. A excessiva formalidade era proposital e sabia disso. Ela estava tentando machucá-lo deliberadamente e estava conseguindo atingir seu objetivo. Ela impôs um distanciamento que nunca tinha experimentado ao seu lado. Mesmo quando ela se recusava a recebê-lo, ele podia sentir que ela se importava de alguma forma, que ela conseguia sentir alguma coisa quando estava ao seu lado. Naquela noite, no entanto, no momento em que entraram em seu quarto, conheceu um lado de que superava tudo o que ele já tinha visto de Lady Belle, uma frieza automática, a sensação de que realmente estava fazendo amor com uma cortesã, alguém que fazia aquilo com qualquer um que pagasse o suficiente. Nenhum carinho usual, nenhum olhar de cumplicidade, absolutamente nada.
O pior de tudo, entretanto, era que, ainda assim, ela era maravilhosa. Somente a satisfação de tê-la nos braços já alimentava o amor que sentia por ela, e mesmo sem emoção, ela sabia exatamente o que fazer e onde tocar para levá-lo ao céu. Mesmo seus movimentos automáticos eram perfeitos; e ainda que ela quisesse negar a ele qualquer tipo de familiaridade, os corpos já se conheciam muito bem. Tudo se encaixava perfeitamente com a facilidade dos amantes experientes que se conheciam tão bem, que era impossível destruir o prazer, ainda que ela estivesse tentando com muito afinco. Nada que ela fazia podia mudar o fato de ele estar dentro dela, sentindo o seu calor e o seu cheiro inconfundível, mesmo ela se esquivando veementemente de todo carinho mais romântico que ele tentasse fazer, ele era capaz de sentir a pele de seda dela contra a sua, e só aquilo era suficiente para fazer valer cada centavo que ele deixaria com ela. Era uma situação realmente muito miserável. se sentia um viciado em uma droga que o destruía mais do que o ópio destruiu tantos ingleses. Eles não trocaram sequer uma palavra. Ele, receoso pelo comportamento estranho da cortesã, não fez suas declarações naquela noite, tentando não contrariá-la. De todos os eventos estranhos que tinham acontecido até aquele momento, o que mais marcou foi o desespero contido no grito de quando ela insistiu que ele não a amava, ela falou isso como se não acreditasse nem na possibilidade de alguém estar apaixonado por ela. Isso não fazia o menor sentido, já que ele nunca tinha conhecido alguém que conseguisse olhar para a beleza dela e sair imune. Era fácil demais amá-la, mesmo com todos os aspectos negativos desse fato, por que ela se comportava como se fosse impossível alguém amá-la? Por que ela se esquivava com tanta certeza de todos que tentavam oferecer qualquer coisa próxima a uma vida a dois? As perguntas se multiplicavam na cabeça de desde a cena fatídica. Essas perguntas o incomodavam mais do que a atitude forçada de , ele podia perceber que ela estava fingindo indiferença, o que quase o levava a pensar que talvez ela se importasse de fato com os sentimentos dele, ainda que não estivesse certa da natureza deles.
Ele sabia que ela não ia hesitar em deixá-lo assim que terminassem, por isso ele se adiantou e deixou as dez mil libras em cima de uma mesinha de canto do quarto; e quando ela adormeceu exausta, só curtiu um breve momento observando o sono tranquilo em que ela parecia estar, aproveitando sua vulnerabilidade momentânea. Dormindo daquela forma, ela parecia muito mais uma menina do que a mulher que acabara de ter nos braços, a expressão suavizada e a respiração ritmada lhe dava um ar infantil. Como sempre, deixá-la foi como arrancar uma parte de si, e a única coisa que o mantinha são era saber que dali a algumas horas ele estaria naquele leito com a mulher que amava.

acordou assustada. Não deveria ter caído no sono, tinha que ter ido embora assim que o serviço para estivesse acabado, para continuar com o seu plano de afastá-lo o máximo possível, para que não valesse mais a pena gastar aquela fortuna com ela. Ela ficou surpresa ao perceber que estava sozinha na cama, que ele já tinha partido. Talvez seja mais fácil que eu imaginei, ela pensou, em um dia ele já saía antes dela, sem se despedir... Realmente, a ilusão dele devia ser muito frágil e demorou a perceber a solução do problema, que era bem simples por sinal: ela tinha que parar de dar a ele o que ele queria. Foi quando ela viu o bilhete que estava ao seu lado no travesseiro que as esperanças recém-formadas foram destruídas. Com medo do que aquela carta poderia conter, não conseguiu abri-la imediatamente. estava conseguindo deixá-la sem chão, do jeito que ele sempre a deixou. Devagar, se levantou da cama, ajeitou a camisola e respirou fundo três vezes para ter coragem de ler o maldito papel. Ela odiava cada célula dela por estar fazendo isso com ele, mas não tinha conseguido da maneira fácil, e ele não deixava outra saída para ela. Suas mãos tremiam visivelmente quando ela abriu o bilhete devagar:

“Minha querida ,

Resolvi sair antes que você acordasse para adiantar a atitude que você mesmo teria. Mas não me interprete mal, meu amor. Eu não quis ser rude, muito menos te magoar como você quer fazer comigo. Só resolvi que te dar esse espaço seria a melhor coisa a fazer, por enquanto. Se você quer que nossa relação seja comercial, tudo bem, eu garantirei minha exclusividade à minha maneira, então.
Por favor, entenda que minha própria existência não faz o menor sentido sem você, e por mais que você não queira acreditar, eu amo você, amo o suficiente para gastar o tempo que for preciso para fazê-la sentir o mesmo por mim. Por mais que você fuja, eu posso perceber que você se importa, e isso me faz sentir esperançoso de que um dia você será minha por sua própria vontade.

Para sempre seu,
Crawford”

Antes de terminar a carta, os olhos de já estavam marejados. Ela não conseguia definir o tamanho da angústia que sentia por não poder acreditar nas palavras de carinho de . Sentia-se cansada e suja, e tudo o que queria era se trancar em sua casa e permanecer lá até que o mundo voltasse a fazer sentido. Ela não podia fazer isso, mas podia se trancar em casa até a noite, pelo menos. Decidida a fazê-lo, ela se aprontou rapidamente e saiu do quarto. Atravessou o hall rapidamente e abriu a porta de saída sem falar com ninguém, ela não fazia questão de ser simpática com suas “colegas”. Quase caiu para trás quando viu que alguém a esperava do lado de fora do bordel. O homem estava de costas, mas ela conseguiu perceber que não se tratava de , o homem de costas era consideravelmente mais alto do que o que estivera na sua cama. E muito mais intimidante.
Ao ouvir a porta da casa se abrir, não estava certo de que era quem tinha saído, por isso hesitou em se virar. No entanto, ele podia sentir um olhar penetrante queimando suas costas e acabou por tomar coragem de encarar quem quer que fosse, pois já tinha visto o conde ir embora muito mais cedo. Ele ficara a noite toda esperando uma oportunidade para conversar com a dama que estava tirando sua paz, ele tinha que ouvir mais de sua voz, tentar descobrir o que havia nela que o hipnotizava tão intensamente. Quando ele a viu, no frescor da manhã, não sabia se teria sucesso em encontrar sua voz e prosseguir com seus planos, porque mais uma vez ele sentiu todo o peso e torpor que sua presença era capaz de lhe causar. Foi ela quem falou primeiro:
- Bom dia milorde. Posso ajudá-lo com alguma coisa? – seu olhar era assustado, ele tinha claramente pego de surpresa. Era isso que ele tinha que aproveitar, esse momento de guarda baixa, para tentar tirar alguma informação, ainda que ele não soubesse qual queria.
- Bom dia, Srta. Jennings. Na verdade, você pode sim me ajudar. Estava esperando-a para ter uma conversa com a senhorita. – falou com um tom que era considerado irresistível por uma boa parte da população feminina da Inglaterra.
- Certo. Sinto informá-lo, milorde, mas só trabalho à noite. – ela falou, já se afastando. a puxou pelo braço, por impulso, e sentiu ondas de calor se espalharem por todo o corpo somente com esse mínimo contato físico com ela.
Foi rápido, mas seu corpo gravou o momento como se ele tivesse acontecido em câmera lenta. Ela estava decidida a ir embora, não podia lidar com mais um maluco, pelo menos, não por enquanto. Mas não era um maluco que a estava esperando, era o Duque. Ele estava com olheiras horríveis e seus olhos de tempestade exibiam um ar cansado, sem dúvida não tinha dormido à noite, ele tinha ficado lá, esperando por ela. Por algum motivo, isso não a deixava em pânico como deveria, o único efeito que surtia era a involuntária contração do ventre, que estranhamente a tomava toda vez que ele estava por perto, e um rubor desconhecido que apareceu em suas bochechas. Quando ele confirmou suas suspeitas, seu corpo respondeu como se estivesse completamente anestesiado. , entretanto, tinha outros planos e não podia deixar que a presença perturbadora do cavalheiro a atrapalhasse, por isso o cortou o mais friamente que pôde. E foi aí que aconteceu. Quando ela se virava para ir embora, ele puxou seu braço, com delicadeza, mas firmemente. Esse mísero toque despertou sensações por todo o seu corpo. Ondas de calor e eletricidade que partiam do ponto onde ele tocava e se espalhavam por todo o seu corpo, como se ela nunca tivesse sido tocada por homem algum antes dele. Seu coração traidor aumentou o compasso enquanto seu cérebro tentava determinar o que estava acontecendo com ela. Por reflexo, ela se virou para ele, libertando-se do toque, para se prender nos olhos dele. Ela viu naqueles olhos cinzentos e brilhantes a surpresa, a mesma que ela sentia. Teria ele sentido a mesma coisa que ela com aquele contato mínimo? Por que o beijo que ele dera em sua mão na noite anterior não tinha causado o mesmo efeito? Todas essas perguntas começaram a se acumular na cabeça de quando, depois do que pareciam ser horas, começou a falar:
- Desculpe se estou sendo inconveniente, mas eu realmente preciso falar com a senhorita, e não é algo relacionado com suas atividades profissionais. – falou com uma coragem que não sentia. Ele não podia pensar em falar daquilo, mas não conseguia acabar com a sua dúvida e isso o estava incomodando tremendamente. – Por favor, deixe-me acompanhá-la até a sua casa?
- Milorde, o que quer tenha a me perguntar poderá esperar até a noite e o senhor sabe onde me encontrar. – ela respondeu em tom definitivo, mas o leve tremor em sua voz a denunciou, dando a deixa que precisava para insistir um pouco mais.
- Por favor, deixe me levá-la em minha carruagem, prometo que não a importunarei, será somente uma inocente carona. – falou, charmoso de uma forma que não deixava outra saída para , além de aceitar o convite.
estava estranhamente consciente de seu corpo, que implorava para ela aceitar o convite do jovem cavalheiro. Que mal faria, afinal? Ela não estava sempre acompanhada pelo pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista) da aristocracia inglesa? O que haveria de mais em aceitar uma simples carona? Ela não conseguia pensar em nada concreto que poderia vir a dar errado numa simples carona naquele momento, mas sua razão tentava avisá-la de que aquele seria um caminho do qual ela não teria forças para voltar.
- Tudo bem então, Milorde. Se insiste tanto...
abriu um sorriso de lado para ela, num convite mudo para entrar na carruagem que se encontrava na frente dos dois. Ainda sem muita certeza do que estava fazendo, ela entrou pela porta que o duque mantinha aberta e esperou que ele se sentasse ao seu lado. Assim que ele o fez, ela entendeu do que se tratava o aviso que sua razão estava tentando lhe dar. A sensação de dormência que tinha se instalado desde que ela o vira até o momento em que ele a tocara não era o pior que ela podia sentir ao lado de . Naquele ambiente fechado e pequeno, os dois corpos ficavam a milímetros de se tocar, ainda que tivesse se certificado de ficar o mais próximo da porta quanto era possível, um estranho magnetismo lutava contra sua consciência em não tocá-lo. Aquilo, sem dúvida, não era normal. E muito menos recomendável, já que ela era o que era.
- Srta. Jennings? – falou, despertando-a de seus devaneios – Você precisa passar o endereço para o cocheiro.
Ela demorou um segundo para entender o que ele dizia e passou o endereço de sua casa para o cocheiro. Logo em seguida, voltou a falar:
- Como eu lhe disse lá fora, tem algo que eu preciso perguntar à senhorita. – ele disse e sua voz não passava de um murmúrio incerto.
- Po-pode perguntar, milorde – respondeu, se concentrando em não tocá-lo como seu corpo implorava.
- Vai parecer estranho, mas eu realmente preciso saber. – ele começou, hesitante em cada palavra – A senhorita conhece a Srta. Katherine Rutherford?
O coração de parou com a pronúncia do nome. Como ele sabia? Era impossível, ninguém nunca tinha chegado a ligá-la a Kathy, pois eram fisicamente muito diferentes. Como ele tinha conseguido juntar os pontos? Não era possível, ele não podia saber de nada. Alguém saber daquilo era desenterrar todo o passado doloroso que ela enterrara há muito tempo e não tinha a menor vontade de se recordar. Todos os seus músculos ficaram retesados com a ideia de ter que falar ou sequer pensar em Kathy.
- Nunca ouvi falar da dama. – mentiu. O problema é que, apesar de ser ardilosa na maior parte das artes de argumentação, nunca tinha sido uma boa mentirosa. Nem mesmo , que não a conhecia, seria capaz de acreditar em uma mentira tão mal contada.
- Certo. Eu devo ter me enganado. Veja, eu não sei por que, mas a senhorita me lembra muito ela. Mesmo vocês sendo completamente diferentes. – ele explicou.
Ela empalidecera assim que ele tinha feito a pergunta. Ficou desestabilizada por vários segundos antes de contar aquela mentira óbvia. estava certo ao relacionar as duas, era claro que elas tinham alguma ligação; e pela reação de , esta não era das melhores. Mas também era claro para que ele não tiraria nada dali. A postura defensiva de estava aparente, assim como a atração entre os dois. Havia uma força sobrenatural puxando seu corpo para o dela e, embora ele não tivesse a menor vontade de impedir essa força de agir ali mesmo, ele tinha dado a sua palavra que não tentaria nada com ela. Não naquele momento.
- Realmente o senhor deve ter se enganado. – voltou a falar, ainda nada convincente.

tinha certeza que sentiria sua falta pela manhã. Não do mesmo jeito torturante que ele sentia falta dela, mas de alguma forma ela teria que sentir. Era incrivelmente difícil, e contra a sua natureza, deixá-la por livre e espontânea vontade, mas tinha que ser assim. Após passar no banco para tirar a quantia de que precisaria naquela noite, ele resolveu dormir pelo resto da tarde, reservando todas as suas forças para encontrar sua amada mais uma vez à noite e ter dela o pedaço que ela não poderia negar do seu amor. Sim, porque ele acreditava que o sentimento brando de afeto que ela dizia tantas vezes sentir por ele se tornaria amor, uma hora ou outra, e ele estava decidido a fazer isso acontecer. De noite, ele se aprontou cedo, com sua melhor casaca de seda, para ver a mulher que alimentava tudo nele. Era uma obsessão que ele não podia controlar, uma necessidade que ele só podia comparar com a que ele tinha por alimentos ou água. Ela era vital para ele, e já estava na hora de ele ser vital para ela também.

Desta vez, ela não estava no salão quando ele chegara. Quem ele viu foi o duque que tinha socado no dia anterior, não havia nenhuma cortesã servindo-o, e seus olhos estavam fixos na escadaria que dava para os quartos. Ele podia sonhar o quanto quisesse e ainda assim não iria tocá-la, pensou . Ela lhe pertencia e não havia nada que aquele duque enxerido pudesse fazer. Não demorou muito para ela aparecer no topo daquela escada em toda a sua glória. Era impressionante como cada vez que ele a olhava, sua beleza teimava em aumentar além do humanamente possível, de modo que seu cérebro nunca tinha uma imagem digna dela gravada, toda vez que ele a via, suas lembranças pareciam não fazer jus a perfeição de seus traços. Lentamente, ela foi até a dona da casa, Lady Lind, e lhe fez algum sinal. Logo em seguida, a cafetina anunciara o início das apostas. ficara sem entender. Os leilões eram costume nas casas no primeiro dia das mulheres. Até acontecer no segundo também, devido ao sucesso do primeiro. Era aceitável. Mas ele sabia que prolongar os leilões por mais do que isso não era rentável para a casa. E então ele começara a entender as intenções de . Afinal, ela também queria vencê-lo pelo cansaço. Ela achava que se a brincadeira ficasse cara demais, desistiria dela. Sempre subestimando os sentimentos dele... Ela não compreendia que ele abriria mão do que fosse necessário para tê-la só para si.
Mais uma vez, ele vencera. E, mais uma vez, o seu oponente era Del Duffled. Essa rotina desgastante se repetiu pelas duas semanas seguintes, com um detalhe: todos os dias de manhã, tinha esperado sair. Ele dormia na carruagem e acordava com o seu criado lhe avisando que o conde já tinha saído, ele sempre saía antes dela. Todos os dias, ele lhe oferecia a carona até em casa. E por mais que quisesse dizer não ao convite, ela não conseguia ser imune ao magnetismo entre os dois. Desde o começo ele cumpria sua promessa de não tocá-la, exceto por alguma ajuda que ele dava para ela sair da carruagem, o suficiente para disparar cargas elétricas por ambos. Mas ele sempre se mostrava fiel à sua palavra e não tentava nada durante as breves viagens. Eles conversavam sobre amenidades, sempre tentando contornar a latente tensão sexual que sempre estava presente. acabou descobrindo que tinha a educação de uma dama e não parecia pertencer àquele mundo da boemia. Sabia falar sobre arte e música e tinha comentários ferinos sobre a política dos Lordes. No entanto, eles não voltaram a falar de Katherine, pois ele sabia que a mera menção daquele nome podia estragar a pouca proximidade que eles tinham adquirido. Mas a dúvida persistia em sua mente, apesar das semelhanças entre as duas serem limitadas. Kathy era muito mais menina do que . tinha um inconfundível jeito de femme fatale, aliado a um senso de humor incrível e uma condescendência digna de qualquer político. começava a entender porque a cortesã se diferenciava tanto das demais, ela o satisfazia sem ao menos tocá-lo, somente com a sua inteligência afiada e o sorriso luminoso. Mesmo debaixo de toda aquela personagem que ela se escondia, era possível perceber alguns aspectos especiais de sua personalidade que o faziam querer sempre saber mais e mais dela.
nunca tinha parado para conversar por tanto tempo com um homem quanto tinha com Lorde Del Duffled. No geral, eles somente faziam o que tinham que fazer e iam embora, ou ficavam jogando e bebendo enquanto ela assistia com o maior entusiasmo fingido do mundo. Era diferente com . E com também. Eles gostavam, ou pareciam gostar de conversar com ela sobre todos os assuntos. E eram inteligentes e estimulantes, como amigos deveriam ser. não sabia ao certo, já que nunca possuíra uma única amizade verdadeira; e tanto quanto só queriam, no fundo, desfrutar de sua companhia na cama.

Na décima quinta noite, parecia mais abatido do que nunca. Seus consultores financeiros tinham o alertado da imprudência de sua brincadeira, que tinha gastado um terço de toda a sua fortuna em duas semanas. Nenhuma propriedade que tinha renderia o suficiente em dois anos para reparar os danos que ele estava fazendo. Ele tinha que conversar com sobre a insanidade que estava cometendo, mas sua frieza persistia desde o dia em que ela chorara em seus braços. Cansado do jogo que ela o obrigara a jogar por aqueles dias, chegou à casa de Lady Lind disposto a dissuadi-la daquele plano perverso para destruí-lo.
Seu humor já estava negro quando ele viu a cena que fez suas vistas avermelharem. No meio do salão estavam e Del Duffled. Eles conversavam animadamente enquanto ela dava a um de seus sorrisos luminosos, aqueles que ela negava a há algum tempo, e ele se inclinava na direção dela, como se para tocá-la. Somente a imagem que se formou na mente de já o fez querer repetir a dose de socos no duque, só que daquela vez ele não tinha nenhuma intenção de parar até que Del Duffled estivesse inconsciente. Cada passo que ele dava em direção ao casal fazia seu estômago revirar e seus punhos se fecharem com mais força. Ele estava fazendo de propósito, mas tinha escolhido a maneira errada de irritá-lo, a maneira mais errada de todas. Quando estava muito perto, o viu. Como se fosse mágica, toda a luminosidade fugiu de sua face, que se distorceu numa expressão de desgosto que tinha se tornado rotineira entre os dois. No entanto, ao notar o estado de espírito homicida de , ela habilmente se colocou entre os dois, assustada, nunca tinha visto aquele brilho avermelhado nos olhos de Crawford, e isso a deixou em pânico. Algo lhe dizia que aquilo não iria acabar bem, e ela teria que fazer alguma coisa antes que tudo explodisse bem na sua frente.
- Boa noite, Lorde Crawford. – ela falou em seu tom mais formal e polido – Nós ainda não iniciamos as atividades, infelizmente. Em que posso ser útil?
tomara o cuidado de exibir o olhar cauteloso para ambos os cavalheiros, tentando evitar o estopim de uma briga no mínimo feia. Uma rápida olhadela na mudança de postura de deixou claro que também não sairia ileso se ali acontecesse um embate.
- . – Crawford começou, tentando controlar a raiva que ameaçava explodir a sala – Acho que é melhor eu conversar com o duque sozinho. E lá fora.
- Ora, , não seja ridículo. O que causou essa expressão tão colérica em você? – perguntou, cínica. – Você sabe que não estamos abertos ainda.
- Então por que o duque está aqui dentro com a senhorita, Jennings? – satirizou a fúria à flor da pele.
- Porque ele é meu amigo, . Cargo que você abriu mão no momento em que decidiu me perseguir. Agora nos dê um tempo e procure confusão em outro lugar.
ficou sem reação diante das palavras de . Ela tinha literalmente dispensado o conde para ficar com ele. Não da maneira que ele queria, é claro, mas foi incrível, e seu ego aumentou milhas por isso. Crawford parecia tão surpreso quanto ele com a reação dela, com a cara de alguém que acabara de ser esbofeteado. Como se o conde sequer existisse, ela se voltou para com um sorriso que não tocava seus olhos.

Capítulo 3
DO NOT THINK IT’S EASY

- Então quer dizer que eu fui promovido a amigo, Srta. Jennings? – perguntou em tom de brincadeira, assim que o conde se retirou com o rabo entre as pernas.
- Não se anime muito, milorde. – respondeu no mesmo tom – Eu falei por falar.
Mas eles sabiam que não era verdade. Eles, na realidade, tinham criado uma intimidade não física, mas psicológica, que era digna de ser chamada de amizade. ainda estava muito distante quando voltou a conversar. Suas respostas passaram a ser monossilábicas e automáticas, o que obviamente significava que a pequena cena com o conde tinha mexido com ela. E isso era algo que incomodava como um pedregulho no sapato. Era ridículo, já que ela tinha literalmente dispensado Crawford para ficar com ele, mas, por algum motivo, intuía que a cortesã não fizera o que fizera por preferir sua companhia. Algo lhe dizia que ela tentara machucar Crawford deliberadamente, e que ele poderia ser qualquer outra pessoa, isso não influenciaria nas reações de . Ele não poderia estar mais correto.
Se alguns minutos antes estava completamente entretida com o charmoso diálogo com o duque, naquele momento ela só conseguia pensar no que estaria fazendo depois daquele golpe baixo que ela aplicara. Nada do que ela lhe falara era mentira, mas a expressão arrasada que ele exibira a fez pensar que talvez ela tivesse exagerado na dose de sinceridade. continuava falando algo sobre a última obra de Jacques Louis David, mas ela simplesmente não conseguia se concentrar em nada. Isso por que seu corpo, como sempre, exigia que ela se jogasse em cima do duque de uma vez por todas, e sua mente estava miseravelmente presa na sua complicada relação com .
- Milorde. – ela começou – Tenho de me aprontar para essa noite, mais tarde nós podemos voltar a este assunto.
- Como queira, Srta. Jennings. Por favor, me chame de , você sabe que eu não gosto destas formalidades. Muito menos agora que nós somos amigos. – gracejou, desejando que o seu charme surtisse efeito pelo menos uma vez naquela mulher.
- Tudo bem então, . Podemos deixar o Srta. Jennings para trás também. – respondeu, se perguntando mentalmente como seria ouvir seu primeiro nome proferido pelo cavalheiro mais interessante com quem já tinha interagido.
- Está ótimo para mim, .
Tudo bem, ela não deveria ter se perguntado nada. Tudo o que acontecia quando estava por perto era novo, e o som da voz dele era como seus olhos, uma tempestade contida. Quando ele disse o seu nome pela primeira vez, essa tempestade pareceu vibrar em seus ouvidos até o fundo do seu corpo, o som mais bonito que ela já tinha ouvido na vida, seu nome parecia sobrenatural quando proferido por aqueles lábios. Ela sentiu suas pernas fraquejarem levemente, pois toda a sua energia estava concentrada em gravar aquela sensação única. Vendo a aparente vertigem da jovem dama, a segurou pelos braços em uma das raras e poderosas interações físicas que ele tinha com .
- ? Você está se sentindo bem? – ele perguntou, tentando ignorar as reações de seu corpo à pele dela.
Era a coisa mais ridícula que ela já tinha sentido em toda a sua vida. Incluindo o amor que ela tinha tido por Kathy. Ele tinha falado o nome dela, só isso. Mesmo sendo naquela voz grave, máscula e doce, era uma simples palavra. Como ela poderia explicar aquela vertigem completamente despropositada que sentia? E mais do que isso, por que ele estava tentando ajudar, sendo que o seu toque só a afundava mais e mais naquele torpor delicioso? Nada daquilo fazia o menor sentido. De repente, ela enxergou o padrão daqueles ataques de atração irresistível que seu corpo tinha. Toda vez que ela baixava a guarda, estava sensibilizada ou ansiosa, toda a carga de desejo que ela sentia pelo duque se intensificava de uma forma física. E isso estava acontecendo com uma frequência assustadoramente alta, graças ao seu desequilíbrio emocional que era causado por . Excelente. Até nisso ele conseguia interferir e tornar a vida dela o inferno na terra. fechou os olhos numa tentativa de concentração, enquanto ainda suportava seu peso nos braços, lentamente o torpor se dissipou, mas o magnetismo persistiu. Quando ela abriu os olhos novamente, os dois corpos estavam perigosamente próximos e a boca de se encontrava na altura dos seus olhos. Tentando se afastar da tentação, ela desviou de sua boca, mas caiu diretamente na tempestade, que não mais exibia preocupação pelo seu mal estar, mas espelhava o desejo quase incontrolável que ela mesma sentia.
- Você está se sentindo bem? – ele repetiu a pergunta num murmúrio quase inaudível, que fez se perder novamente no movimento dos lábios dele.
- Eu, e-estou bem. – Ela balbuciou.
- Posso deixá-la ir se aprontar, então? – antes que eu a agarre e arranque suas roupas aqui mesmo? Ele conseguiu deixar de acrescentar.
- Claro. – ela disse, sem muita certeza.
Era muito difícil soltá-la. Muito mais difícil do que ele pensava que poderia ser. Mas ele, de alguma forma, sabia que seria um erro brutal se aproveitar da vulnerabilidade momentânea de , e por isso obrigou suas mãos a deixarem os braços da dama. O jeito que ela o olhara tinha afetado algo que ele nem sabia que existia dentro de si, o ouro líquido escurecera até uma cor âmbar de topázio com os usuais toques daquele verde selvagem, e estavam mais convidativos do que nunca, tudo o que ele mais queria fazer era mergulhar naquela imensidão e ficar lá enquanto vivesse. Por alguns segundos, ela ainda pareceu confusa, come se estivesse saindo de um transe, mas seu equilíbrio tinha voltado. Num impulso que não sabia de onde tinha saído, ele falou:
- ... O que há entre você e o conde Crawford? Eu já vi muitos homens furiosos, mas nada se compara à expressão dele quando nos viu conversando. Isso sem contar que ele já quase quebrou meu maxilar quando eu mencionei meu interesse por você na câmara dos lordes...
Ela deixou que a pergunta acabasse de vez com qualquer magia que aquele momento possuía.
- Não há nada, . O Conde só tem alguma dificuldade em separar as coisas e isso me incomodou. – a mentira era tão óbvia que ficava difícil acreditar que ela realmente queria convencê-lo daquela versão – De qualquer forma, eu tenho de me apressar, pois logo abriremos e olhe o meu estado deplorável...
- Você está linda. Como sempre. – ele falou sem pensar. Linda nem mesmo chegava perto de uma descrição adequada à beleza dela – Nos vemos mais tarde, então.

Mais tarde... Mais tarde ela teria que deitar com o homem cujo coração estava pisoteando sem piedade. Com um cumprimento curto, ela se retirou, deixando no bar, onde várias das suas colegas se prontificaram a cercá-lo. Não que ela desse a mínima importância para isso. Ela pouco se importava com o que elas faziam ou deixavam de fazer com ele, a raiva que ela estava sentindo era simplesmente um resíduo da irritação que ela sentira de . Por isso que ela queria arrancar todos os fios de cabelo de Melanie, a loura horrorosa que sussurrava em seu ouvido naquele momento. Quando ela entrou no quarto, no entanto, ela descobriu que a paz não seria alcançável naquela noite, e que ela teria que encarar naquele exato momento e não mais tarde.
- Pensei que você nunca viria, . – o tom dele era frio, um que ela nunca tinha ouvido em sua voz antes – Agora toda a brincadeirinha de criança acabou.
Ela tinha mesmo conseguido irritá-lo. Sua petulância deixara de ser graciosa e despertara o que havia de mais negro em . Ele sabia que ela não sentia absolutamente nada por aquele duque do inferno. Tinha certeza de que o que ela tinha feito era medido para magoá-lo sempre mais. Mas tudo tinha limite. Ele a amava sim, mas não era nenhum brinquedinho que ela poderia maltratar daquela maneira.
- Saia daqui agora, Crawford. – disse com uma calma calculada.
- Não. Você vai ter que me explicar agora por que está fazendo tudo isso. Não me venha com a historinha de tentar me fazer entender a impossibilidade do meu amor, porque nem você acredita mais nesta história. Diga-me agora: o que há de errado com você?
Bom, essa era mesmo uma boa pergunta. Uma pergunta que a própria se fazia todos os dias e, ainda assim, não tinha obtido sucesso respondendo a si mesma. Até agora, as coisas erradas que ela tinha certeza que existiam nela podiam ser listadas em três ou quatro pergaminhos. Entretanto, ela sabia que havia algo de errado nela. Não sabia o que era, ou pelo menos tentava não pensar nas coisas que a fariam descobrir. Por isso, quando essa pergunta foi feita em tom cortante e definitivo, não soube o que dizer. Ficou parada e emudecida, esperando a raiva que insistia em não chegar para ela, mas que com certeza estava dominando cada célula do ser de naquela hora.
- Eu disse para sair, . Já terei que te aturar de madrugada – ela falou com desprezo na voz –, me deixe em paz nos poucos momentos em que eu tenho escolha de ficar longe de você, por favor.
- Não seja ridícula, . Você tem tanta paz quanto eu tenho. Você acha que eu não percebo que debaixo da sua indiferença fingida existe algo muito mais profundo? Afinal, que diferença faz se eu te pedir em casamento ou não? Você quer isso porque você sabe que é simplesmente impossível. Assim como você quer me afastar porque você não consegue acreditar que alguém realmente a ama.
Realmente ele poderia ter escolhido melhor as palavras.
- E você é só um menininho mimado que quer exatamente o que não pode ter. Obcecado por mim simplesmente por que eu não te pertenço nem NUNCA vou pertencer. Nunca. Vê se você consegue compreender o que eu estou dizendo, Crawford: eu não te amo, não quero ser sua amante e, enquanto você me perseguir, vou me empenhar para tornar a sua vida o inferno que você faz da minha. Eu já tentei de todas as formas, e se eu tiver que te arruinar para conquistar a minha paz de volta, pode apostar que eu o farei.
Esse era o verdadeiro significado da expressão golpe baixo. Não bastasse o completo desastre em que ela tinha transformado a vida de , ela ainda era capaz de acabar com qualquer respeito próprio que ele ainda conseguia ter com algumas palavras bem colocadas. A raiva que ele sentia era muito mais de si mesmo do que dela, até porque, mesmo naquele momento em que os dois já estavam vermelhos e ofegantes, não havia nada tão belo quanto o olhar irritado dela.
- Me explique, , do que você tem tanto medo?
Desta vez ele tinha acertado em cheio. Se havia algo que dominava a cortesã em todos os momentos da sua vida, essa coisa era o medo. Era um sentimento dominante e incontrolável o medo que ela tinha das pessoas, ou melhor, de se aproximar das pessoas. Foi esse medo que a fez escolher o ofício que tinha. Mas não era culpa dela que a vida tivesse feito com que esse medo crescesse dentro de si como um parasita que se alimenta de cada momento de miserável quebra de confiança. Tudo o que ela acreditara um dia era mentira, simplesmente tudo. Não foi a traição de uma pessoa amada que a tornara aquela pedra de gelo que ela era, mas a traição de todas as pessoas que foram importantes na sua vida, todas que ela deixara se aproximar quebraram o coração dela, até que, de tantas cicatrizes, ele endurecera, endurecera de uma forma que a fazia sentir que assim como ninguém podia amá-la, ela também não conseguia sentir nada por ninguém. Os olhos de marejaram, pois não havia como responder àquela pergunta tão bem elaborada, ela só queria viver em paz, era só isso que procurava, mas ela sabia que ela nunca teria paz ou amor, ou qualquer coisa que requisitasse a cura de seu coração retalhado.
- Eu tenho medo de tudo. – ela falou com a voz embargada – Eu não queria te machucar, , eu só queria que você parasse de me machucar, entende?
A primeira lágrima que caiu em sua face lembrava a uma pérola, que deixava seu rastro no marfim perfeito de seu rosto. Como da outra vez, a angústia por vê-la daquele jeito o tomou como se ele próprio estivesse sofrendo daquela dor que ela demonstrava. E finalmente ele entendeu. Entendeu que era ele quem a fazia tão infeliz, entendeu que ela não repudiava porque queria atingi-lo e fazê-lo infeliz, e sim para se proteger dele e dos sentimentos que ele afirmava ter por ela. Isso a machucava de uma forma que ele não conseguia entender, mas podia enxergar. Era insuportável a ideia de deixá-la pelo tempo que fosse, e disso ele sabia muito bem. Entretanto, ele descobrira que a dor que ele a fazia sentir também era insuportável para ele. A insistência cega em que ele se empenhava estava acabando com os dois e destruindo qualquer vínculo que eles tiveram algum dia. E era mais do que isso. O sofrimento que ela demonstrava naquele momento era mais completamente doloroso do que ficar longe dela, era impossível suportar vê-la chorando daquela forma, com o semblante de tristeza das mais profundas, quando ele tinha conhecido a mais brilhante e vibrante mulher nela, que iluminava sua vida como ninguém no mundo conseguiria. Não era justo roubar a luz da mulher que ele amava, assim como não estava fazendo ninguém feliz. Era muito difícil admitir aquilo, mas ele a amava o suficiente para deixar de machucá-la, mesmo que isso significasse que ele teria de parar de vê-la por um bom tempo. Mesmo sua vida não fazendo o menor sentido sem ela, ele podia ver a essência da mulher por quem ele daria a própria vida se esvaindo, e era tudo por culpa dele, porque ele não sabia resolver aquele medo absurdo que ela tinha de tudo, ele não era capaz de transpor a barreira que ela tinha construído em volta de si.
- Eu estou fazendo isso com você, meu amor, não estou? – perguntou, já sentindo o enorme peso da sua decisão esmagando-lhe o coração.
assentiu em resposta.
- Entendo. Eu não pensei que te fazia tão miserável, . Eu achei que, mesmo sem corresponder totalmente aos meus sentimentos, você podia sentir um pouco da alegria que eu sinto quando estou com você. Perdoe-me por me impor tanto e ser tão incomodamente insistente, eu só pensei em mim. E quem ama não age dessa forma. Eu vou te deixar em paz, meu anjo, porque pior do que suportar a minha dor em deixá-la é ver você tão triste como você parece estar agora. – neste momento, a sua voz começou a tremular com o esforço que ele colocava para proferir as palavras, depressa demais, antes que ele desistisse – Mas não se esqueça de que eu amo você e vou sempre estar esperando, pronto para te ajudar a curar esse problema que não a deixa se aproximar de mim.

Demorou alguns instantes para perceber que ele tinha desistido. Os olhos do conde estavam cheios de lágrimas que não seriam derramadas em público, mas que simbolizavam o quanto era duro fazer o que ele estava fazendo. Ela estava livre dele, livre da sua atenção carinhosa, livre dos seus abraços e beijos, livre das suas declarações. Ela não teve tempo de responder, já que ele saíra antes de seu cérebro digerir toda aquela informação, por isso o pedido desesperado de perdão ficou preso em sua garganta, queimando-a por dentro por ver a única pessoa que se importava com ela ir embora para deixá-la em paz. Pendurada no seu punho, a pulseira de rubis que ele lhe trouxera de uma de suas viagens pesava mais do que chumbo, e menos do que o seu coração de pedra, que jazia satisfeito por afastar outra pessoa com sucesso. O alívio que ela achava que iria sentir com a liberdade não veio, e ela sabia por que: ela não estava livre. Enquanto ela não enfrentasse os fantasmas do seu passado, ela não seria livre. Mas era tão difícil e torturante que não sabia se teria forças para se libertar um dia. Ela voltaria ao seu estado normal de indiferença anestesiada e viveria uma vida sem sentido, era isso que ela tinha escolhido, não? Sim, era isso. E a ironia do destino fazia com que ela se lembrasse das palavras que Kathy tinha lhe dito depois de pisotear seu coração “Ninguém aguenta alguém como você, , com seus complexos de inferioridade e resmungos constantes, então não me culpe!”. Por mais que fosse doloroso de admitir, Katherine não poderia estar mais correta. Ninguém conseguia aguentar, nem ela mesma conseguia. Sem pensar, ela foi até a sua bolsinha, onde guardava o único lembrete do seu passado. Um retrato seu, rasgado. Ele tinha sido feito ao lado de Kathy, mas ela não podia mais olhar o rosto dela, por isso ela o tinha cortado. Ainda era possível distinguir uma mecha dos cabelos vermelhos da desalmada na borda do retrato, se você prestasse bastante atenção. A outra metade da foto tinha sido deixada no quarto fatídico, onde Lady Belle havia nascido.
- ?
O corpo de reconheceu e respondeu imediatamente à voz do duque, que estava parado no batente da porta.
- Olá. – ela disse baixinho, consciente de que ele tinha percebido que havia algo de errado com ela.
Ela estava sentada na beirada na cama, olhando um pedaço de papel rasgado, numa postura infantil. O rosto exibia manchas vermelhas, acusando o choro recente. nunca tinha visto alguém tão adorável em sua tristeza, por isso sentou ao seu lado e, sem medir as consequências do seu ato, lhe deu um abraço de consolo. Sentir o corpo dela moldar-se ao seu tão naturalmente fez seu interior aquecer-se, enquanto as usuais descargas elétricas passavam pelo seu corpo pouco a pouco, mergulhando-os mais uma vez no mar de sensações que era estar perto um do outro. A respiração dela se acalmou aos poucos e ela se aninhou mais perto dele, sentindo o cheiro de chuva e mato que dele emanava. Eles não falaram nada, mantendo aquela atmosfera de mágica e mistério que sempre os cercava. Em algum momento, decidiu que abraçá-la não era suficiente consolo, e começou a acariciar seus cabelos e depois os braços desnudos, vendo-os se arrepiar com o seu toque. O fogo que vinha de dentro dele não cedia enquanto ele deslizava os dedos pela seda de seus cabelos e o veludo da sua pele.
- Eu tenho que avisar a Lady Lind que não haverá leilão hoje. – ela sussurrou, o rosto ainda enterrado no peito de .
- Você explica para ela depois. Melhor, deixe que eu falo que você irá ficar comigo esta noite, ela não terá como negar. – ele respondeu, tentando dar alguma leveza ao ambiente – Ela não resiste ao meu charme.
voltou sua atenção ao papel rasgado nas mãos dela. Era um retrato em que ela parecia muito mais jovem, e sorria de uma forma que ele nunca a tinha visto sorrir, era um sorriso de felicidade, não de divertimento. Sua face, levemente mais arredondada, brilhava como sempre, mas era radiante como o sol de verão, aquecia o seu coração como só o sorriso dos ingênuos podia aquecer.
- Sinto muito, , mas não estou em condições de trabalhar hoje. – ela falou, ainda sem se mexer.
- Ninguém disse que você vai, bela, eu só sugeri uma pequena mentirinha que pode ser contada pelo bem de todos. – respondeu, afagando-lhe os cabelos – Deixe um pobre cavalheiro se vangloriar por estar com a mais bela dama da Inglaterra!
Ela finalmente levantou o rosto e lhe exibiu um meio sorriso com a gracinha. E ele olhou de novo para as jóias fundidas que lhe estavam direcionadas. Seu sorriso morreu na metade do caminho, assim como o dela, pois eles perceberam o quão ruim era aquela ideia de ficarem se olhando tão de perto.
não sabia muito se poderia sobreviver àquele dia. O turbilhão de emoções opostas não parava, e agora ela estava bastante encrencada. O abraço do duque não tinha servido somente para acalmar os seus nervos em frangalhos, como também para despertar aquela atração absurda que ela sentia por ele. Por isso, não tinha sido uma ideia muito boa olhá-lo nos olhos naquele momento, com os dois corpos tão próximos. Imediatamente, ela sentiu sua pele ficar quente como carvão em brasa, e o sangue lhe subiu às faces. A mão de , que estava em seus cabelos, passou ao seu rosto, tocando-lhe a bochecha com a delicadeza de uma pluma, mas a sensação do seu toque era como a marca de um ferro em brasa, queimando, marcando sua pele alva. A outra mão, que lhe acariciava os braços, enlaçou sua cintura com ternura e cuidado, como se qualquer movimento errado pudesse estragar aquele instante.
- Você sente isso? – perguntou, a voz rouca de desejo.
não respondeu de pronto. Lógico que ela sabia o que era isso, mas seu reflexo era sempre negar qualquer coisa que envolvesse ela e sentimento. No entanto, até para ela parecia ridículo negar algo que seu corpo gritava em alto e bom som.
- Sinto, e me assusta muito, . – ela disse num murmúrio quase inaudível.
- Assusta a mim também. – continuou enquanto se aproximava, até que as testas deles se tocaram. – Eu consigo compreender por que todos são tão loucos por você, . Estar assim com você é como tocar o sol. Assustador e deslumbrante.
As mãos inquietas e curiosas de ousaram tocar o rosto de , em um carinho tão suave quanto o que ela tinha recebido. Ele fechou os olhos, satisfeito com a carícia tímida e irresistível, aproximando ainda mais os rostos, até que seus narizes se tocaram e seus hálitos começaram a se confundir.
- Eu entendo agora por que você é o ídolo de todas as cocotes desta casa. Seus talentos vão além do imaginável. – quando respondeu, seus lábios roçaram os dele, lhe despertando uma fome que ela desconhecia.
Aquele leve roçar de lábios, somado ao hálito doce que acariciava a boca de , era mais do que ele podia suportar. Tomado por uma exigência sobrenatural de seu corpo, pressionou seus lábios contra os dela e, de repente, tudo nele pareceu explodir numa alegria incontida e selvagem, além de um alívio que só podia ser encontrado numa volta para o lar. A correspondência era perfeita, a respiração se tornara trivial. Tudo o que existia no mundo era ela, e sua vida seria beijar aquela boca até o fim dos seus dias. Com uma timidez atípica, deu passagem para a sua língua, que explorou cada canto alcançável, lançando brasas por tudo e marcando cada milímetro dela. Ele a beijava com reverência, como se ela fosse algo muito raro ou precioso. Era delicado, porém preciso e firme, e adivinhava tudo o que precisava para tirá-la de seu eixo. Com um gemido de protesto, ela viu seus lábios desgrudarem dos dela para desenhar toda a volta do seu maxilar, o queixo, até lhe alcançar o pescoço, onde a exploração continuou, espalhando seu fogo e suas marcas em todo lugar onde tocava. Impaciente, ela puxou sua boca de volta para si, em um beijo mais exigente e desesperado, sedenta por mais daquela novidade irresistível, implorando para que aquilo pudesse durar mais, de preferência, que pudesse durar por todo o tempo em que estivesse viva. Os corações batiam descontrolados e numa sincronia perfeita, e tudo que aconteceu até ali pareceu completamente sem importância.
Pareceu. Porque infelizmente o que tinha acontecido até ali tinha sim influência sobre , aquela influência nefasta que ela não era capaz de afastar e que a guiava sempre para o caminho da eterna solidão e impenetrável defesa. Durante o beijo incrível, aquela parte dela tinha sido amortecida, só que, de tanto ser alimentada, ela era forte, suficientemente forte para competir com aquela atração absurda que ela sentia por . Com um suspiro de derrota, separou sua boca da dele relutantemente e voltou a encarar seus olhos cinzentos, agora escurecidos com o desejo que aquele beijo tinha atiçado. Sem saber que o momento já tinha sido quebrado, voltou a acariciar a face da cortesã, imaginando como poderia ficar sequer um momento longe dela, agora que descobrira o prazer que ela podia lhe proporcionar com um simples beijo. Ele não notou que tinha voltado a encarnar a personagem que impedia qualquer tipo de aproximação, e por isso não entendeu nada quando ela simplesmente se levantou e saiu do quarto correndo, deixando para trás o seu retrato rasgado.

correu, ignorando os chamados furiosos de Lady Lind, com a intenção de somente parar quando se encontrasse na segurança de sua casa. Enquanto corria, as lágrimas caíam em sua face e sua razão tentava alertá-la da impossibilidade de se chegar a pé em sua residência. Como se ela conseguisse se importar com aquilo. Desde sempre, aquela angústia vivia dentro dela, e de tempos em tempos algo acontecia para desencadear as crises existenciais, normalmente algum vislumbre de Kathy nos bancos, sempre acompanhada dele, ou suas visitas ao cemitério para deixar flores no túmulo da mãe. Todo aquele drama com tivera o mesmo efeito nela e, como se a vida dela não estivesse suficientemente ferrada, ainda lhe aparecia aquele duque do inferno, diretamente para tentá-la.
Quando ela já tinha corrido o suficiente para arruinar seus sapatos e pés, um possante deveras familiar parara à sua frente.
- Deixe me levá-la, . – disse, com a voz de trovão.
- Não é necessário, obrigada. – respondeu, tentando se esquivar do cavalo – , eu preciso ficar sozinha! – ela disse, irritada, quando ele cercou o seu caminho.
- Não seja tão teimosa, bela, dê uma olhadinha no céu.
olhou para o céu, desconcertada. Londres estava quase sempre nublada e com aspecto chuvoso, mas, naquela noite, pesadas nuvens negras anunciavam um temporal além do imaginável.
- Oh, , sem ofensas, mas eu acho que eu prefiro pegar essa chuva. – respondeu, certa de que não era uma ideia aceitável andar atrás dele naquele cavalo, encostando nele.
- Não seja tão impossível, pelo amor de Deus! Prometo-te que não vou fazer nada. Desculpe por aquilo, eu simplesmente não pude me conter. Vamos, eu vou te ajudar a subir – ele respondeu, já descendo da cela.
Quando ia começar outro argumento de protesto, o céu resolveu dar um aviso sonoro do que estava por vir. E o que estava por vir não era lá muito fácil de encarar para uma dama de vestido armado e abissalmente pesado. Antes que ela pudesse pensar em qualquer outra coisa para dizer, a suspendeu o suficiente para que ela se sentasse no cavalo no estilo “dama”, e logo em seguida montou à sua frente. O problema era que aquilo não daria certo para a viagem ultrarrápida que eles teriam que fazer para evitar a chuva. Logo ficou claro para os dois que ela teria que sentar a la “men’s style”. E, para isso, nada de armação podia ser mantida no vestido dela. viu sua expressão de pânico e perguntou:
- Esses negócios que vocês usam não são presos. – e isso ele sabia com a maestria de quem já tinha tirado inúmeros sem o menor esforço. – Vamos, arranque essa coisa que depois eu lhe compro outro.
hesitou, seu cérebro esbravejando: “MÁ IDEIA, MÁ IDEIA”. Mas ela não tinha muita escolha, era aquilo ou uma possível pneumonia. Sem dificuldade, ela retirou a armação e o tule de seu vestido e os deixou cair no chão, junto com a sua sanidade mental. Fechando os olhos, ela envolveu os quadris do duque com as pernas e se apoiou em seus ombros, enquanto todos os seus músculos retesavam de ansiedade para logo depois cantar de felicidade.
- Acho melhor você se prender melhor aí, porque a gente vai ter de correr, correr muito. – falou em tom brincalhão.
- Estou bem assim. Se você demorar mais, de nada vai adiantar essa ceninha. – respondeu com o cinismo típico.
- A Srta é quem decide. – Ele disse, dando uma guinada e se inclinando para frente para aumentar a velocidade.
Não demorou para que percebesse que ele estava falando sério sobre se segurar melhor. Relutante (mentalmente, não fisicamente), ela agarrou a cintura dele e enterrou sua cabeça na nuca do duque. Era torturante tê-lo tão perto depois de descobrir como aquilo tudo podia ser incrível. De repente, ocorreu a que ela tinha sentido mais desejo somente beijando-o do que fazendo tudo o que fazia com seus clientes. O pensamento pecaminoso de como deveria ser continuar de onde eles tinham parado pairava sobre a mente dos dois, tornando o contato íntimo que eles mantinham naquele momento desconfortavelmente insuficiente, torturante e, como sempre, maravilhoso. Num impulso momentâneo, ela pressionou os lábios onde sua cabeça repousava e sentiu o corpo dele estremecer por inteiro.
Foi o suficiente para acender o sul de seu corpo ainda mais e, por consequência, ela se pressionou firmemente contra os quadris de .
tinha prometido não tentar nada, era verdade. No entanto, não estava fazendo questão nenhuma de ajudá-lo com aquela árdua tarefa. Logo após o beijo surpresa que ele recebeu na nuca, a cortesã se pressionou inteira contra ele, de forma que ele podia sentir cada curva daquele corpo perfeito; e a sua ereção, que já não estava das mais confortáveis, se tornou realmente constrangedora. Como se ele tivesse quinze anos de idade. Para sua alegria (ou desespero), eles não demoraram a chegar à residência dela em Mayfair.
- Bem, obrigada. – murmurou quando eles pararam na sua porta da frente – Acho melhor eu ir entrando...
- Tudo bem. – disse, fazendo um grande esforço para não se virar para olhá-la – Nós nos encontramos depois, eu presumo.
desceu do cavalo, se voltando para o cavalheiro novamente.
- Muito obrigada mesmo, , isso foi muito gentil de sua parte. – ela disse com ternura – Boa noite.
Com um sorriso tímido, ela entrou em casa, pronta para desabar no sofá, antes de preparar um banho quente para si, porque pensar em tudo o que estava acontecendo estava simplesmente fora de cogitação. Demorou alguns minutos até ela ouvir o som das galopadas do cavalo de indo embora, e logo depois que isso aconteceu, a tempestade começou. Ela não sabia onde o duque morava, mas esperava que fosse perto, já que a situação do lado de fora não era das melhores.
foi atingido pela chuva logo depois que deixara em casa. Não que ele se importasse com isso. A viagem com a cortesã tinha o deixado quente o suficiente para que toda a água que caía em cima dele evaporasse (metaforicamente, é claro). A sorte dele era que sua casa era bem próxima a dela, no melhor bairro de Londres para se morar, então ele não demorou muito tempo para chegar em casa. Além disso, seu mordomo já o estava esperando com toalhas quentes, já que o cocheiro tinha sido dispensado cedo quando ele resolveu ir atrás de à cavalo.
No bolso de seu casaco, ele levava o retrato de . Ele tinha a intenção de devolvê-lo para ela quando chegassem a casa dela, mas não conseguiu. A tentação de ter como olhá-la o tempo todo era muito grande, e ele resolvera guardá-lo consigo até que conseguisse um retrato mais recente dela.
- Boa noite, Milorde. – Alfred disse – Deixe-me ajudá-lo.
Alfred o ajudou a tirar as botinas encharcadas e o levou para a sala de banhos, onde uma banheira cheia de água quente esperava por ele.

Naquela manhã, acordou imaginando quanto tempo mais ele teria que esperar sem ver . Pegou o retrato que jazia em sua mesa de cabeceira e ficou olhando-o por alguns minutos, absolutamente intrigado pela sua estranha semelhança com Katherine. Ele não saiba bem o porquê, mas naquele retrato o olhar de era muito parecido com o de Kathy, uma semelhança muito mais pronunciada do que a que era percebida naquele momento.
Sem ser anunciado, como era sempre de seu feitio, Anthony entrou em seu quarto. Com toda a sua usual simpatia e conveniência:
- Ouvi dizer que você se deu bem ontem, meu caro. – ele começou, com a sua incrível habilidade de irritar com uma única frase.
- Ouviu errado. – disse, esgotado demais para se exaltar.
- Ah, , não é como se você tivesse que esconder qualquer coisa. Ela é paga para isso e você não é casado. – Anthony gracejou.
- Não aconteceu nada, Anthony. – respondeu, surpreso pela sensação ruim que teve ao ouvir o amigo falar daquela forma de – Eu só a levei para casa.
- Oh, . O que há de errado com você? Você entende que é só pagar para que ela durma com você, sem cortejos. Certo? – Tony falou, preocupado com a sanidade mental do amigo.
- Dê uma olhada nela, Tony. – respondeu, lhe estendendo o retrato.
Assim que Anthony pôs os olhos no papel, ele empalideceu. Era ela. A única com quem ele tinha traído sua amada Virgínia. No retrato, parecia mais jovem, mas era inconfundível. Ele se lembrava muito bem, um mês atrás, quando ela o tinha dispensado do completo desalento em que ficou. Nunca deixara de amar a esposa, mas uma noite de descuido e aquela cortesã tinha ganhado tudo dele, lhe tirando os escrúpulos, a feiticeira tirou-lhe uma quantia muito significativa antes de dar seu ultimato. Ele estava muito familiarizado com seus bons modos, e principalmente com suas inacreditáveis habilidades na arte do amor, por isso sabia que o amigo estava se metendo em encrenca.
- , nós teremos de conversar sobre isso. – Tony disse com pesar – Eu já estive com ela.
Não era exatamente uma coisa difícil de acontecer, isso de conhecer alguém que já estivera com . sabia disso. No entanto, quando ele ouviu o amigo falar que já tocara nela, seu impulso de espancá-lo só foi controlado em nome da longa amizade que eles possuíam. Ele não sabia por que, mas em sua mente era simplesmente errado aceitar que outro já tivesse tocado na cortesã, por mais que ele soubesse da popularidade desta e sua razão tentasse lhe avisar que metade da câmara dos lordes já tinha estado com ela. Pelo menos. Ele não poderia simplesmente espancar metade da aristocracia inglesa. Podia?
- Como assim? – ele disse com uma falsa calma – Antes de você conhecer sua esposa?
- Na verdade, não. Aconteceu mais ou menos um mês atrás. – Tony disse com o tom preocupado – Eu estou te dizendo, , afaste-se dela.
- O que ela fez de tão grave para você ficar tão preocupado, Tony? Ela é uma dama da noite, logo você e eu sabemos do que se trata. – disse, tentando entender qual era o grande problema de usar dos serviços de .
- Sim, nós sabemos. Mas ela é diferente, ! Uma feiticeira que vai se tornar um vício, vai lhe roubar as posses e depois deixá-lo sem mais nem por quê. Isso foi muito bom para mim, que voltei a valorizar a mulher maravilhosa que governa minha casa, mas considerando o seu histórico, eu realmente acho melhor você não se arriscar.
Realmente, o histórico de não era dos melhores, mas quem é que nunca tinha sofrido uma desilusão amorosa? Isso não o tornava incapaz de separar sentimento de atração física irresistível. E ele sabia disso, porque depois de Katherine, ele nunca mais abriria o coração para nenhuma mulher que fosse. Muito menos uma cortesã.
- Acho que o problema era você e sua incapacidade de separar as coisas, Tony. Sua mania de romantizar tudo, como o boêmio frustrado que é. – disse duramente – Eu já aprendi o bastante para não confiar em nenhuma mulher, o que te faz pensar que ela conseguiria me fazer de idiota, Tony?
Anthony soube naquela hora que o amigo já estava perdido. Embora suas palavras tentassem demonstrar sua indiferença, a paixão com que ele defendia a bruxa era notável. Ele teria que fazer alguma coisa para convencer o amigo a se afastar dela. Ele nunca tinha sido a pessoa mais intuitiva do mundo, mas sabia que aquela conexão não faria bem a ninguém.

acordou com um humor bem melhor naquela manhã. Afinal, suas perspectivas para o dia não eram tão ruins. prometera deixá-la em paz, e por mais que lhe partisse o coração ver o estado que o conde tinha ficado, ela sabia que ele superaria e todos ficariam felizes. Ela não ficaria feliz na verdade, mas podia voltar ao estado da confortável indiferença. se levantou e, com a ajuda de sua criada, se vestiu para um passeio no parque. Agora que ela não mais temia que viesse atrás dela por onde quer que fosse, podia voltar a ver a luz do dia em paz, voltar a sua rotina de cavalgadas e leituras, que faziam valer o pouco de alegria que ela podia ter na vida. (Ela tinha descoberto na noite anterior que havia outra forma de sentir alegria, mas não queria pensar sobre aquilo).
- A senhorita está muito mais bonita hoje, milady. – Jane disse enquanto a ajudava a se vestir.
- Obrigada, Jane. Você pode chamar Stuart para selar Harmony e depois tirar o resto do dia de folga. – respondeu amável.
- Muito obrigada, senhorita Jennings!
Poucos empregados da Inglaterra aceitariam trabalhar para uma cortesã. Isso arruinaria as chances deles em qualquer outro emprego. Por isso, tratava seus três funcionários muito bem. Jane era uma mocinha que estivera perto de se perder completamente quando tivera a brilhante idéia de fugir com o moleiro de Hatherfield e acabara sozinha em Londres. O recato da moça não lhe dava muitas opções na vida de rua, então ela acabara sobrevivendo de pequenos furtos. a tinha acolhido após ter sofrido uma tentativa de furto. No começo, fora por pena, mas logo descobrira que Jane fazia muito bem o seu trabalho e era de total confiança quando estava bem vestida e alimentada. Era o mais próximo que tinha de uma amiga.
passou a tarde agradável que tinha planejado naquele dia, uma gota de paz depois de todo o esgotamento pelo qual tinha passado nos últimos tempos, lera Henry Fielding e passeara em sua aquisição mais ambiciosa e querida, Harmony, uma égua de raça, que era o que mais gostava na vida.
Quando voltou para sua casa, estava revigorada, pronta para mais uma noite de trabalho. Mas ao abrir a porta da frente, ela se deparou com uma colérica Lady Lind e soube que seu tormento ainda estava longe de acabar.

Capítulo 4
COINCIDENCES


- Boa noite, Jennings. – Lady Lind falou com um tom frio e cortante.
- Boa noite, Milady. A que devo esse prazer repentino? – olhou para o seu caseiro, que ainda estava parado em frente à sua porta, atônito. A ideia de presenciar uma briga entre as duas damas parecia estar aterrorizando o pobre rapaz. Não era sem razão, entretanto. O olhar da cafetina podia ser classificado como, no mínimo, perigoso.
- Estou bem certa de que a senhorita sabe do que vim tratar, então essas gentilezas são perfeitamente dispensáveis. – a cafetina respondeu com impaciência. Aparentemente, ela não queria simular uma educação que na verdade não tinha. Seu objetivo ao visitar não era nem um pouco gentil, por isso não havia motivos para que ela fingisse.
- Pois muito bem. – respondeu , encarnando sua melhor personagem no tom irônico – Pode me dizer o que quer. Prometo não usar mais de bons modos com a senhora.
- Você acha que pode brincar comigo, não é, mocinha? Acha que eu sou da sua laia? Que nunca lidei com mulheres burras e arrogantes como você, não é? – Jacquelyn perguntou, aumentando consideravelmente o tom de voz – Pois fique sabendo que não pode. Quero que me esclareça agora o que há entre você e o conde Crawford, e por que você deixou o serviço ontem sem ao menos deixar uma justificativa!
- Acredito que o duque Del Duffled...
- Não me venha com essa historinha mal contada que o duque tentou me contar para livrar essa sua carinha imunda! Eu quero saber, aliás, eu exijo saber o que é que há entre você e lorde Crawford. Eu não vou perder mais clientes por sua culpa!
- Sinto muito, Lind, mas não posso lhe responder. O que acontece entre meus clientes e eu é só da minha conta, e não envolverei ninguém nesta história. – replicou séria e calmamente – Devo desculpas pelo meu comportamento ontem, mas não tive condições de trabalhar. É só isso que a senhora terá de mim.
- Ora essa, sua menina suja e mentirosa. Não admito ser tratada como idiota. Primeiro me pede para organizar esses leilões sem sentido, que fazem os clientes perguntarem se eu estou mancomunada com o Conde, já que ninguém mais ganhou uma noite com a senhorita. Depois boicota o próprio jogo e me faz ficar com cara de idiota quando finalmente alguém diferente ganha aquilo. O que você acha que está fazendo?
- Me perdoe por ontem novamente, senhora. Não poderia ter acontecido. Quanto ao leilão, eu não a obriguei a aceitar a minha proposta nem tampouco fiz com que ganhasse sempre. Não tenho culpa se ele é completamente louco. A senhora teve sua parte do combinado cem por cento das vezes, então não entendo o que há para reclamar a esse respeito. – respondeu em tom baixo, sem perder a postura e com a mesma petulância implícita de sempre – Infelizmente, não fornecerei qualquer detalhe sobre a minha relação com qualquer cliente, inclusive o Conde.
Lady Lind se levantou da poltrona que ocupava num ataque de pura fúria. Sua vontade era arrancar os olhos daquela vagabunda atrevida, para ensiná-la a ter cuidado. Seu criado, no entanto, já estava a postos atrás da vadia, pronto para qualquer ataque. Por isso, tudo o que ela fez foi andar de um lado para o outro no amplo saguão de entrada, espumando em sua raiva. Quando se controlou o suficiente para falar, ela soltou:
- Acho que temos um impasse aqui, senhorita. Quero suas coisas fora de minha casa neste momento. Eu me recuso a permitir que uma pessoa sem qualquer profissionalismo suje o nome de meu estabelecimento.
simplesmente fitou a cafetina sem esboçar qualquer sentimento. Não sabia como deveria se sentir com a declaração não tão inesperada de Lady Lind. Ela sabia que no lugar dela teria feito a mesma coisa, então não pretendia sequer discutir a questão. Por isso, sem decidir o que aquilo realmente significava para ela, assentiu dizendo:
- Como quiser. Mandarei o coche recolher tudo agora mesmo. Agora, se puder me dar licença, a porta da frente é a serventia da casa.
Com um último olhar furioso, Jacquelyn saiu, deixando e Stuart recuperando a calma.
- Me desculpe por isso, Stuart. – disse enquanto se livrava do seu chapéu e de suas luvas – Não precisava ter presenciado tamanha cena. Se puder me fazer o favor de recolher meus pertences no quarto que era alugado na casa dessa descontrolada, eu agradecerei. Não é muito, algumas jóias e mudas de roupas, nada que vá dar muito trabalho.
- Sim, madame. – ele respondeu, ainda meio abobado. – Precisa de mais alguma coisa antes de eu sair?
- Não, meu caro. Eu sei me virar bem, pode ir.
subiu para o seu quarto, desejando mais que tudo que seu banho quente estivesse pronto. No entanto, ela sabia que tinha dado a noite de folga a Jane, por isso teria que fazer tudo sozinha.

***


Jane estava na porta de um boteco de má fama, no centro de Londres. Seu vestido recatado contrastava com a maquiagem excessiva que usara na tentativa de parecer mais atraente para os “cavalheiros” que por ali passavam. De longe, ela avistou um jovem que lhe parecia muito promissor. O cabelo era ralo, mas tinha uma cor dourada atraente, e os olhos apertados pareciam ser de um azul límpido.
Steve viu a moça de longos cabelos castanhos o encarando de longe. Sua aparência era bem comum, mas o interesse faiscava em seus olhos castanhos. Não custava nada se aproximar, ele pensou.
- Boa noite, linda dama. – ele começou, a voz demonstrando a quantidade de álcool que ele tinha consumido – O que faz aqui tão sozinha?
Jane ruborizou intensamente. Adorava ser cortejada... E isso não acontecia com a frequência que ela gostaria. Ficar o dia todo fechada na casa de uma mulher de má fama não era uma imagem muito atraente para os homens, e era só nisso que Jane se sentia capaz de pensar: homens. De tanto conviver com e ver o quanto todos os cavalheiros de Londres caíam aos seus pés, mesmo sabendo a profissão que ela tinha, ou até mesmo por causa dessa profissão, Jane só pensava em ser como sua patroa, ou pelo menos ter um espécime que reparasse em seus encantos.
- Boa noite. – ela respondeu numa timidez fingida. – É minha noite de folga, mas não tive ninguém para sair comigo...
- Ora, pequena, eu posso lhe fazer companhia se quiser. – Steve respondeu, o tom transbordando vulgaridade.
Jane reconheceu o tom de muitos dos cavalheiros que costumavam aparecer na porta de e se sentiu maravilhada por estar causando a mesma reação no desconhecido.
- Mas, senhor – ela voltou a falar melosa –, eu nem mesmo sei o seu nome.
- Steve McLane, e o prazer é todo meu. – Steve replicou, salpicando o rosto de Jane com a saliva cheirando a rum – E qual seria a graça da senhorita?
- Jane Pottie, mas pode me chamar de Jane. – Ela respondeu piscando repetidamente, na tentativa de seduzir Steve.
- Lindo nome, assim como você! Por que não entramos e eu te pago uma bebida? – Steve convidou, estendendo o braço para que ela o acompanhasse.
Jane seguiu Steve pelo bar repleto de homens bêbados e escandalosos, se sentindo a mais bonita das criaturas. Ela imaginava se era assim que os homens faziam quando se dirigiam a em suas noites de trabalho, se eles pagavam suas bebidas também ou se ela cobrava pela companhia que fazia. Steve estava completamente bêbado, falando coisas sem sentido e pagando uma bebida atrás da outra, até que Jane ficou num estado muito parecido. A todo o momento ela sentia a mão de Steve subindo por suas pernas embaixo do bar, e ele a olhava com um misto de fome e desejo que a deixou muito orgulhosa de si mesma. O álcool queimava suas veias, e seus limites, que já não eram muito bem determinados, simplesmente desapareceram. Muito tarde a taverna foi fechada e, ao invés de voltar para a casa, acompanhou Steve até o lugar onde ele morava. Não ficava muito longe de Mayfair, então ela conseguiria voltar para a casa se ele lhe emprestasse um coche ou um cavalo. Não que ela estivesse sequer pensando no que estava fazendo. Eles chegaram a uma grande mansão, mas o fato de Steve ter entrado pela porta dos fundos destruiu qualquer esperança que Jane poderia ter sobre a riqueza do rapaz. Eles riam alto, imersos na bebedeira e sequer pensando na possibilidade de acordar alguém na casa.
Eles deveriam ter dado alguma atenção ao assunto, no entanto. Quando estavam se beijando como se suas próprias vidas dependessem daquilo, um tentando entrar em fusão com o outro, uma das donas da casa desceu, irritada com o barulho despropositado, e os pegou no ato.
- O que raios está acontecendo aqui? – ela perguntou, interrompendo o momento com a voz estridente.
Jane quase caiu para trás. A mulher que a encarava estava furiosa, sem dúvidas, mas ela era uma das pessoas mais bonitas que Jane já tinha visto em toda a sua vida. A pele era clara, mas possuía uma tez dourada e misteriosa, os olhos eram de um verde vívido e os cabelos exibiam um vermelho selvagem. Ela parecia uma fada tirada de alguma história infantil e era de alguma forma familiar, embora Jane não soubesse muito bem por quê.
- Srta. Rutherford, eu não sabia que milady estaria em casa, me perdoe! – Steve começou a se desculpar compulsivamente, a bebedeira sumindo misteriosamente.
- Steve, eu só não vou acordar meu pai para resolver esse assunto porque eu realmente gosto de você. – a moça respondeu com o tom mais controlado – Já lhe dissemos para não trazer desconhecidos para cá! Em todo caso, leve a... Hm... “Moça” para casa, não é seguro para uma mulher ficar na rua uma hora dessas.
- Muito obrigada, Srta. Rutherford! Eu nem sei o que seu pai faria se visse isso! Muito obrigada! Já vou levar Jane. – Steve respondeu, relaxando a postura com o alívio.
A Srta. Rutherford somente rolou os olhos, dando uma piscadela para o criado, e fez sinal para que eles fossem rápidos. Ela não precisou pedir duas vezes. Steve puxou o braço de Jane rudemente e a levou para o cavalo mais próximo.
- Desculpe, Jane. – ele disse enquanto a ajudava a subir no cavalo – Tenho certeza de que teremos tempo para nos conhecermos melhor.
- Ah, sim. Com certeza, meu senhor. – ela respondeu na voz pastosa de álcool – Sua patroa foi muito simpática.
- Sim, a Srta. Katherine é mesmo um doce de garota. Ela sempre me encobriu, desde que nós éramos crianças.

***


- Jane! Você está... – não conseguiu concluir a frase, pois viu quem estava ao lado de sua criada e custou a acreditar nos seus olhos. Não era possível que ele estivesse ali em frente à sua casa, casualmente, como se o destino estivesse pregando peças nela.
Steve era exatamente como se lembrava. O cabelo ralo e amassado, a postura atarracada, os olhos apertados como os de um rato. Sua expressão espelhava a de , a surpresa desagradável era recíproca e nenhum dos dois sabia muito bem o que fazer, ou dizer.
- ? – ele perguntou, se censurando por ter bebido tanto. Ele só podia estar tendo visões...
- Olá, Steve. – respondeu, sinalizando para que Jane, que parecia alterada, entrasse na casa. – Quanto tempo, meu caro.
Então ela não era fruto da imaginação de Steve. Ele realmente estava na frente de Jennings, uma das cortesãs mais famosas da Inglaterra. Não era à toa, ele pensou. Afinal, a única pessoa que ele já tinha visto que se comparava em beleza com era a sua patroa, Srta. Katherine Rutherford, e ela era a donzela mais linda de toda a aristocracia inglesa, ele diria até de toda a corte européia. No entanto, ele tinha que admitir que se incluísse as classes mais baixas naquela equação, o resultado final seria diferente. , que sempre havia tido uma beleza exótica, agora exalava toda a sensualidade e feminilidade que só uma mulher feita poderia exalar. Diferente, mas assustadoramente mais linda do que sempre fora, ela o encarava, esperando algum tipo de reação.
- É verdade, se passou muito tempo. Vejo que está muito bem. – ele respondeu, fazendo uma breve referência à casa – A vida tem suas recompensas, afinal.
deu um sorrisinho de escárnio com a declaração. Como é que ele podia imaginar que uma casa, ainda que do porte da sua, podia compensar tudo o que ela sofrera?
- A vida não, Steve. O trabalho tem. – ela falou, e vendo a cara de deboche que se formou no rosto dele, completou – E muitas vezes, o pior trabalho traz as melhores recompensas.
- Você saberia, não? – Steve disse, completamente recuperado da beleza dela – No final, então, todos acabaram bem. Você, com certeza, nasceu para exercer essa profissão, e a família Rutherford não tem nenhum vínculo com você.
Ele era realmente uma figura. Falava como se tudo que tinha acontecido no passado estivesse compensado pelo fato de ela estar rica. E ela sabia o porquê, ele estava despeitado, sabia que nunca seria mais do que um reles criado mal pago, ainda que a profissão dele fosse muito mais respeitada do que a dela. Como sempre tinha feito, ele escolhia as palavras a dedo para tentar atingi-la e não obtinha sucesso nenhum.
- Muito bem, Steve. Fico feliz de ver que você está bem. Jane está entregue, acho que a troca de memórias já foi mais do que suficiente – falou em tom definitivo – Passar bem.
- Quem diria que aquela doçura toda se transformaria nisso, minha cara... Muito bem. Adeus. – Steve respondeu, já se retirando.
entrou em casa anestesiada. Todo o descanso que ela tinha desfrutado naquele dia foi inutilizado por toda essa situação. A pergunta que insistia em pairar era: como e por que Jane tinha voltado para casa naquele estado e do lado daquele estrupício.
- Jane. – ela chamou numa voz calma, porém séria.
A moça ainda esperava a patroa no corredor que dava para a copa, e ao ouvir seu nome dito naquela voz que ela só usava em situações em que o seu autocontrole estava sendo muito testado, sentiu as pernas tremerem. Chegar bêbada no trabalho, ainda que em um dia de folga, era pedir demais da generosidade de .
- Sim, senhora. – ela disse, sentindo a sobriedade imediata que Steve tinha sentido ao se deparar com a Srta. Rutherford. – Me perdoe, milady, por favor...
- Não estou falando para se desculpar, era sua noite de folga, você pode fazer o que quiser quando está de folga, Jane. – interrompeu o drama desnecessário – O que eu quero que você me esclareça é: como você conheceu este homem. Preciso que me fale isso, por favor.
- Eu estava em um bar. – Jane começou vacilante. Não queria que soubesse os lugares que frequentava – E ele se ofereceu para me comprar bebidas...
- Já entendi tudo. Você se deixou seduzir pelo primeiro estrupício que esbarrou nas suas saias, de novo. – sentenciou em tom de desaprovação – Jane! Você precisa parar de fazer isso. Ou nunca vai encontrar alguém que valha a pena!
Jane pensou que nunca encontraria nenhum pretendente decente sendo criada de uma cortesã, mas era esperta o suficiente para não tornar esses pensamentos públicos. E ela nem teria tempo para tanto. Assim que terminou de dizer a frase, bateram na porta. Jane se empertigou, pronta para abrir, mas a interrompeu e sinalizou para que fosse para o quarto.
Isso por que, se a sua intuição feminina não estivesse falhando, algo que ela raramente fazia, ela sabia muito bem quem a esperava do lado de fora. E sabia muito bem também que não estava pronta para encará-lo naquele momento. Por isso, ela fechou a expressão o máximo que conseguiu, na esperança de que ele entendesse o recado e fosse embora (de preferência, por um bom tempo), e abriu uma fresta da porta somente.
- O que eu posso fazer por você, ? – ela perguntou, cansada.
Ele estava ainda mais bonito do que ela se lembrava. Seus ombros largos eram destacados por uma jaqueta especialmente ajustada e o brilho da lua, que ironicamente tinha dado o ar da graça àquela noite, dava uma cor incrível para seus olhos, que pareciam platina líquida.
- Você ainda me deve o fim de uma conversa sobre obras de artes muito interessantes, se eu me lembro bem. – ele falou jovial – Não vai me convidar para entrar?
Ah, claro. Por que a coisa que mais precisava naquele momento era que a sua casa fosse preenchida pela presença daquele homem incrível. Essa com certeza não era uma boa ideia, nem um pouco boa, na verdade.
- , eu estou cansada. Por que não conversamos outra hora?
- Ora, se não vai me deixar entrar, pelo menos termine essa conversa aqui fora comigo, por favor... – ele disse, fazendo cara de cachorro sem dono. Aquela cara que ele sabia que ninguém conseguia resistir.
olhou para a expressão de coitado de e se deu por vencida. Ele não iria embora enquanto não falasse com ela. Então ela saiu, fechando a porta atrás de si, e colocou as mãos na cintura, numa postura feminina de impaciência.

Oh, como ela conseguia ser assim? Tão linda, tão dolorosamente magnífica? O vestido que usava era o mais simples que já tinha visto nela e também o que ele mais tinha gostado. O tecido verde claro era leve, marcando as curvas perfeitas dela com a dose certa entre discrição e sensualidade, os braços estavam cobertos por várias camadas de renda e musseline, o que deixava o vestido com um ar de recato que contrastava com o decote baixo que ele ostentava. Os cabelos cor de avelã estavam quase soltos, apoiados em um dos seus ombros, e pareciam uma cascata brilhante. A sua leve irritação era tão charmosa quanto excitante e o seu corpo já começava a dar sinais de que ela não estava próxima o suficiente.
- Viu? Não foi assim tão difícil. – ele disse, sorrindo para ela – O que aconteceu para você não trabalhar hoje?
- Bom, por falta de expressão melhor, eu fui, hm, demitida. Lady Lind passou aqui antes do expediente. – explicou, começando a sentir os efeitos da presença dele em seu corpo.
- Nossa, acho que ela não está pensando direito, não é mesmo? Sem você aquele lugar vai perder o brilho. – disse, jogando todo o seu charme para .
- Acho que você era um assíduo frequentador bem antes de eu aparecer por lá, . – replicou.
- Mas depois que você apareceu, ... – disse com uma profundidade que fez o ventre de contrair – Sua luz ofuscou tudo.
Aquilo era uma verdade que não tinha começado a perceber, antes de expressar verbalmente. Ele não tinha olhado para nenhuma outra mulher desde que pusera os olhos nela, porque ela tinha ofuscado tudo o que ele conhecia. Primeiro com a sua beleza inacreditável, depois com a personalidade agridoce, seu riso contagiante, seus olhos multicoloridos, tudo nela tornava as outras mulheres com quem ele já tinha se relacionado comuns. Com uma única exceção: Katherine, que por mais que o tempo tivesse passado, mantinha o misterioso poder de deixar sem palavras toda vez que ele se lembrava dela por descuido.
- Ah, . Você conseguiu toda essa fama e isso é tudo o que você tem? – falou com sarcasmo – Acho que você esqueceu-se de falar isso para a Melanie ontem...
- Jennings com ciúmes, quem diria. – disse com um sorriso provocador.
- Não seja tão convencido, Del Duffled. Por que eu teria ciúmes de você? – perguntou.
- Me responda você, bela. Por que a menção à sua colega? – ele continuou sem perder a pose.
- Simplesmente para mostrar a contradição nas suas palavras anteriores, . – ela replicou vitoriosa. – Agora você vai me explicar essa surpresa tão tardia ou não?
Na verdade, ele não podia. Ele só queria vê-la. Na realidade, ele queria bem mais do que um simples contato visual, mas não podia falar aquilo, porque mesmo ela sendo uma cortesã, não tinha inspiração para dizer a ela aquele tipo de coisa.
- Desculpe. Nem percebi o quanto era tarde, já que eu sempre te via a esse horário nos leilões. – “Aqueles em que você sempre ficava com aquele conde insuportável”, pensou ele – Acho melhor eu me retirar, então.
- Acho que sim. – concordou.
pegou a mão direita dela, apreciando o brilho perolado que a luz da noite dava a sua pele, e pressionou seus lábios no local enquanto as descargas elétricas se espalhavam pelo seu corpo por conta do contato. O beijo foi mais demorado do que o necessário, o que deixou desconcertada com o próprio impulso de puxá-lo para mais perto.
- Boa noite. – Ela disse, tentando dar um fim ao momento.
levantou a face para responder e ir embora, e olhou nos olhos dela. Viu lá um cansaço tão explícito, que ele duvidava que mesmo a noite de sono mais bem dormida pudesse remediar. Ela tinha algo escondido que a sugava de uma forma sobrenatural.
- . – ele começou – Antes de sair, tenho uma coisa para perguntar.
- Oh, , fale logo.
- Você tem certeza de que não conhece Katherine Rutherford? – ele perguntou sabendo qual seria a reação dela, mas sentindo que não podia deixar de perguntar.
- Eu já disse que nunca ouvi falar nela. Nunca! Qual é o seu problema com essa moça? – ela respondeu, empalidecendo e se alterando instantaneamente.
- Ela era minha noiva. E me traiu, eu a vi com outro. E... Eu era tão completamente apaixonado por ela que não sei se um dia vou superar isso. – respondeu sem pensar – E eu não sei como nem por que, mas vejo em você o que eu via nela.
nunca iria entender por que ele tinha respondido à pergunta tão rápida e honestamente, já que aquele era o fato mais doloroso de sua vida e ele jurara nunca mais mencioná-lo.
Oh, meu Deus. Era a única frase que o cérebro de era capaz de formar. Ele era o ex-noivo de Kathy. Ele tinha sido a pessoa que espalhara as boas novas, desgraçara a vida dela. Mesmo que indiretamente, mesmo que sem culpa nenhuma, ele era o responsável por ela ter saído da sua abençoada ignorância. E ele via Kathy nela, toda aquela magia que existia entre os dois era por causa de Kathy. Ela não podia suportar a ideia de lembrar aquela víbora sem alma e sempre se respaldara na óbvia diferença física entre as duas. E agora aquele homem vinha direto do inferno para azucrinar a sua vida e lembrá-la sobre como elas eram parecidas.
- E... Eu não posso. Não quero falar nisso. – falou, desorientada – Vá embora, por favor.
não insistiu dessa vez. Ele não queria mais encará-la naquele momento, o choque que ela demonstrava ao ouvir aquelas palavras era o mesmo que ele sentia por tê-las proferido. Ele deu a volta e correu em direção ao seu cavalo, sem olhar para trás.

***


entrou, seu coração batia tão forte e tão rápido que ela pensou que ele sairia pela sua boca. Ela não queria acreditar no que tinha ouvido, não podia acreditar.
Só tinha de ir para a cama e tentar esquecer tudo o que tinha ouvido naquela noite, era tudo o que ela precisava fazer. Ela subiu as escadas até o seu quarto, tirou o vestido, mantendo somente a anágua. Jogou-se em cima dos lençóis de seda e depois de muito revirar, acabou pegando no sono...
“O salão de baile estava brilhante e lotado. As damas com seus vestidos luxuosos e os cavalheiros com as vestes de gala mais elegantes que já tinha visto. Seu próprio vestido era o mais lindo que já tinha usado. De seda carmim, o modelo ostentava um decote ousado e marcava sua cintura de forma sensual, os detalhes em renda e os drapeados davam o luxo que a ocasião pedia. No entanto, ela não se importava com isso porque ele estava lá. Ele a olhava do outro lado do salão com um sorriso de lado, exalando um charme que fazia suas pernas fraquejarem.
Quando os músicos começaram uma valsa, ele andou em sua direção, ainda sorrindo, as intenções claras como a água.
- Boa noite, Srta. Jennings. – disse com aquela voz de veludo – Posso ter a honra? – perguntou, estendendo o braço.
tomou o braço do duque e sentiu as mãos dele se apoiarem na sua escápula, mandando espasmos de prazer por todo o seu corpo. começou a guiá-la com leveza pela pista de dança, e antes que ela pudesse perceber, eles já estavam perto de uma porta que dava para o jardim mais maravilhoso que ela já tinha visto na vida.
- O que estamos fazendo aqui, ? – perguntou com um recato que não reconhecia.
- Eu preciso ficar um tempo a sós com você. Você pode me permitir essa liberdade? – ele perguntou, fazendo uma cara de coitado que não deixava a outra opção, senão aceitar o convite.
- Você é impossível, Del Duffled. – o censurou, sorrindo.
a puxou delicadamente pelo braço e a guiou jardim adentro. Depois de andar alguns metros, ele parou e a trouxe para si pelo braço que segurava. Suas respirações se encontraram no meio do caminho enquanto os seios de roçaram a frente da jaqueta do duque e os seus olhares se uniram.
- , isso não po... – começou, mas foi silenciada pelos dedos que colocara em seus lábios.
Muito devagar, ele envolveu a cintura dela, aumentando ainda mais a proximidade entre os dois. Depois, desafiando a capacidade de de se sentir entorpecida e enfeitiçada, ele passou a acariciar seu rosto, sem quebrar o contato visual. As descargas elétricas deram lugar ao fogo que passou a percorrer as veias de ambos e pressionou sua boca na testa de , depois percorreu suas bochechas, o desenho do maxilar, até finalmente alcançar os seus lábios, que naquele momento já estava entreabertos, esperando o toque que queriam tão desesperadamente. Os lábios dele eram macios e fortes, se moviam em sincronia perfeita com os dela, o sabor dela era viciante, doce, indescritível, e enquanto a língua de explorava a boca de com ousadia e os corações batiam como se fossem levantar vôo, se tornava uma massa de prazer, derretendo nos braços do homem que ela esperava um dia ser seu.
- Oh, Katherine.... – suplicou.”

- NÃO! – acordou do pesadelo num salto – Sua testa estava molhada de suor e os batimentos estavam completamente descompassados.
Ela nunca mais o veria. Nunca.

***


- Milorde? – a voz de Josh era preocupada, embora não conseguisse entender o porquê.
estava debruçado em uma superfície lisa e fria, a face curiosamente colada no material. Ele estava sonhando com . E no sonho ela admitia que o amor deles era indestrutível, por isso ele amaldiçoava seu mordomo com todas as forças de seu ser. Por que ele tinha que despertá-lo de um sonho tão bom? não abriu os olhos, se concentrando em sua boca, tentando sentir o gosto que estivera lá no sonho. Mas tudo o que ele sentia era o gosto da ressaca em que tinha se metido. Não havia maneira de permanecer sóbrio pensando na promessa que tinha feito ao amor da sua vida. Ele prometera deixá-la em paz. E ele tinha palavra. Então por que ela não o deixava em paz? Por que ficava assombrando todos os seus sonhos, entorpecendo sua mente?
- O que você quer, Josh? – perguntou num tom que anunciava o tipo de humor com que ele tinha acordado.
- Na-nada, meu senhor, só que o senhor está dormindo no bar há mais de uma noite. E se eu não estiver errado, o senhor tem de comparecer ao baile do Sir Wickham. – Josh respondeu num fôlego só, com pressa de se afastar do irritado Lorde Crawford.
Ah, como se já estivesse muito feliz e animado, ainda lhe vem o lembrete desse convite aceitado depois de muita insistência de sua mãe, que insistia em empurrar a filha do Sir Wickham para cima dele. Não que a moça não fosse uma ótima opção para tomar como esposa. Bonita, bem educada e membro da alta sociedade, Lauren Wickham era a mais cortejada debutante daquela temporada. O único problema era que o casamento com a jovem acabaria com qualquer possibilidade que pudesse ter de ficar com . Não que ele sequer cogitasse casar com uma cortesã, mas ele sabia que sendo um homem comprometido, ele teria ainda mais dificuldade em fazer a sua teimosa amada aceitar as condições possíveis para viverem juntos.
se levantou de má vontade, descolando dolorosamente o rosto do vidro de seu bar, e encarou o mordomo com pesar. Tudo o que ele menos queria era sair naquela noite, a não ser que fosse para ir a um lugar muito específico que ele tinha prometido não visitar.
- Josh, não há como escapar desse maldito baile? – questionou.
- Milorde, eu posso falar que o senhor estava indisposto e não pôde ir, mas acho que a Sra. Crawford iria querer cuidar de sua indisposição – Josh respondeu em tom de derrota – Além disso, o compromisso foi marcado com bastante antecedência, o que tornaria uma grande indelicadeza de sua parte se o senhor faltar sem justificativa.
pesou as duas possibilidades. Ficar seria aceitar uma visita demorada e desagradável de sua mãe, criticando sua dieta e seus hábitos de vida, os culpando de sua fingida indisposição; sair seria aguentar uma noite na companhia dos Wickham, desfrutando de boa música e aturando as tentativas de sua mãe de juntá-lo à Lauren. Era uma escolha difícil de fazer, mas Josh já o tinha feito por ele. Do lado de sua banheira cheia de água quente, estavam suas melhores roupas de gala, devidamente engomadas. suspirou derrotado, ele teria que comparecer ao maldito baile.

As festas dos Wickham sempre davam o que falar. Somente a nata da nobreza comparecia às reuniões, e a família sempre se demonstrava excelente anfitriã, contratando os melhores músicos e cozinheiros, além de decorar o salão como que para receber o Rei. Mesmo assim, sentia um peso no estômago por ter de estar ali. Não estava em clima para festa e teria que dançar com todas as debutantes presentes para satisfazer sua mãe.
- Veja só que adorável a Srta. Wickham está esta noite, meu filho! – Lady Mildred Crawford começou, usufruindo da pouca paciência de .
- Sim, mamãe, ela está linda! – ele concordou de má vontade.
- Então o que está esperando para anotar seu nome no cartão de danças dela? Vamos logo, , faça-o antes que ele esteja cheio! – a senhora falou, já empurrando o filho na direção de Lauren.
A debutante estava radiante em um vestido rosa bebê, ornado com rendas delicadas e pérolas minúsculas no decote. Os cabelos negros e brilhantes estavam presos num coque meio solto e alguns cachos caíam sobre a sua face, destacando seus olhos azuis. Lauren era a mais cortejada da noite, todos os cavalheiros elegíveis já tinham marcado seus respectivos nomes no cartão de dança. foi, sem vontade, pedir-lhe a honra de uma dança, pois preferia não criar atritos com sua mãe.
- Boa noite, Srta. Wickham. – começou, fazendo uma mesura – Está encantadora esta noite.
Lauren corou violentamente com as palavras. Ela sorriu o mais graciosamente que pôde para responder:
- Boa noite, milorde. Muito obrigada, o senhor também está muito elegante, de fato.
- Eu estava me perguntando... Como está o cartão de danças da senhorita? – continuou, dando corda ao flerte.
- Eu já tinha separado uma dança, esperando que milorde viesse me requisitar a honra. – Lauren respondeu em voz baixa – É a quinta valsa.
- Oh, ora... Isso é ótimo, Srta. Wickham. Esperarei ansioso. – disse, antes de se curvar a bater em retirada.
A quinta valsa chegou cedo demais. não tinha bebido o suficiente para poder usufruir da dança, mas sabia que não havia saída e que seria irremediavelmente rude deixar de cumprir seu convite. Por isso, ele se revestiu de uma pose que não existia e sorriu charmosamente para a dama que o esperava do outro lado do salão. Ele a tomou nos braços para dançar e começou a imaginar como seria ter no lugar dela, dançando num salão brilhante, coberta de jóias e atenções como ela merecia. Ela, com certeza, seria a sensação da sociedade britânica, e ele o homem mais sortudo do mundo, pois a teria ali, nos seus braços, segura e dele. Só dele.

***


se jogou em sua cama, confuso e frustrado. Sua mente se dividia em tentar entender por que tinha se aberto completamente para uma cortesã desconhecida e em se punir por ter voltado a pensar no assunto proibido. Ele não entendia por que motivo a mulher o tirava tanto do sério ao ponto de fazê-lo tomar atitudes que não tomaria normalmente. Sua intenção com aquela visita era bem diferente do que tinha acontecido, era só uma provocação, uma tentativa de, quem sabe, continuar de onde eles tinham parado no dia anterior. Não havia como prever o que tinha acontecido.
Mas ele sabia de um coisa: elas tinham sim uma relação, e ela não era superficial. Era claro que nutria um sentimento muito forte por Kathy e isso era um segredo que a cortesã pretendia guardar para sempre. Só que tinha que entender, ele tinha que descobrir o que havia de comum entre as duas. Por reflexo, ele pegou o retrato de , já se acostumando a olhar sua face inocente a todo o momento. Ele contemplou o rosto dela por algum tempo antes que algo lhe chamasse a atenção. Num cantinho mínimo, próximo ao rasgo do retrato, havia um pedacinho de algo que ele conhecia muito bem. Uma mecha de cabelo vermelho vivo estava pintada, ao lado de .

Capítulo 5
ANNABELLE’S TALE

continuou fitando a foto, estarrecido. Não podia ser. Ele estava completamente obcecado pelas duas mulheres e por isso ficava imaginando coisas, criando hipóteses impensáveis. Mas estava lá, escondido, quase imperceptível... Aquela pequena mecha de cabelo era sua única pista de quem estava ao lado de naquele retrato rasgado. E a cor era tão característica que se tornava difícil dominar a imaginação fértil. Oh, ele precisava de um conhaque. E precisava falar com Anthony, não necessariamente naquela ordem. Sabia que era inadmissível bater a porta de alguém alguns minutos antes do amanhecer, mas era Tony, afinal. O único que seria suficientemente louco para ajudá-lo naquela investigação. Decidido, pegou o casaco, selou o cavalo e foi para a casa do amigo.
Chegando à mansão do Marquês, pôde ver os primeiros raios da manhã despontarem num céu menos encoberto do que costumava ser. Sem a menor cerimônia, ele bateu na porta da frente, sendo atendido quase que imediatamente pelo mordomo que já estava acordado.
- Bom dia, alteza. – ele falou polido. Não demonstrou nenhuma surpresa pelo horário da visita e deu passagem para a entrada de .
Anthony estava dormindo, como era de se esperar, e, por isso, teve que esperar o amigo na sala de chá, o cômodo que Virgínia tinha transformado, tirando de uma vez por todas o bar daquela residência muito respeitável. Era incrível como a presença daquela mulher tinha transformado seu amigo.
Não era só a casa que tinha um aspecto mais acolhedor, o próprio Anthony havia mudado. Claro que ele sempre teria o charme da vida boêmia, mas o jeito que ele olhava para a esposa demonstrava uma devoção que não podia ser encontrada tão facilmente, muito menos num casamento arranjado. secretamente invejava o casamento do amigo, mas não conseguia se imaginar vivendo algo parecido. Sua total falta de confiança no gênero feminino já seria empecilho suficiente, no entanto, ainda havia o gosto particular que ele possuía pelas pessoas erradas para completar a total impossibilidade.
- Bom dia, meu caro. – ouviu a voz de Tony atrás de si – A que devo esse prazer?
Tony estava com as roupas de dormir e aparentava muito bom humor, apesar de nunca ter visto o amigo acordar tão cedo. Ele já tinha se preparado para esperar por muito mais tempo.
- Bom dia, Tony. Eu tenho um assunto para tratar com você... – começou, sem saber muito bem como abordar o assunto. Suas suspeitas pareciam insanas até para os próprios ouvidos – Mas tem de ser em um local mais privado.
Anthony levantou as sobrancelhas sugestivamente, mas não questionou. Dispensou o mordomo e conduziu até o escritório.
- Aqui não seremos incomodados. Pela sua urgência e expressão, acho que estou certo em adivinhar que essa conversa se trata de Lady Belle. – Tony disse, usando mais uma vez o seu poder de entender as expressões de .
ainda não tinha ideia de como explicar para o amigo que achava que conhecia Katherine. Nem ele mesmo sabia de onde havia tirado aquela suspeita, já que não havia nada que ligasse as duas mulheres. Só aquela foto. Mas qualquer outra pessoa que não estivesse procurando uma maneira de relacioná-las tiraria aquela conclusão improvável por conta de uma simples mecha de cabelos? Com certeza não. Mas a reação de à mera menção do nome de Kath era sim, muito mais suspeita. Não era a imaginação que tinha criado a expressão de horror que exibira na noite anterior. E, por algum motivo, ele tinha que saber o que elas tinham em comum.
- É sobre ela sim. – admitiu em voz baixa.
- Certo. E eu devo estar correto também no fato de você não ter seguido meu conselho. Você não vai se afastar dela como eu indiquei, não é verdade?
Seria simples se afastar dela. Se já não estivesse irremediavelmente obcecado pela moça.
- Eu não vou mentir pra você, Anthony. Não vou conseguir tirar essa mulher da minha cabeça até poder tê-la em meus braços. Mas não é sobre isso que eu vim falar.
- Ora, então fale logo, homem. – Tony respondeu, começando a demonstrar alguma apreensão. não costumava usar de delongas para soltar as bombas.
- Tony. Eu... Eu acho que tem alguma coisa a ver com Katherine. – começou, mas não conseguiu continuar. Tony exibia a exata expressão que ele temia: um misto de entendimento, pena e descrença.
- Certo. – Tony incentivou – E por que você tirou essa conclusão?
- Não entenda mal. Eu sei que parece absurdo, porque eu estou obcecado por , mas você precisa ver sob um ângulo neutro para me entender. Eu falei com ela, Tony. Contei minha história... E você precisava ver! A cara que ela fez, de horror, de medo e raiva. Como se... Ela conhecesse a história, sabe?
Anthony continuava encarando como se ele fosse mentalmente prejudicado.
- . Pense bem. Qual seria a sua reação se você fosse ela? Quer dizer, você anda perseguindo a moça, roubou um beijo dela e agora diz pra ela que ela te lembra sua ex-noiva? Eu ficaria aterrorizado no lugar dela também. Você está agindo como um psicopata. – Tony disse num tom paternal.
sabia que nada daquilo faria sentido para alguém que não tivesse visto a cena. Ele precisaria mostrar para ele. Ele teria que falar com na frente dele. Se ele falasse da foto, o amigo iria querer interná-lo.
- Tudo bem. Eu vou te mostrar, Anthony. Hoje eu vou à casa dela e você vai ouvir escondido. E vai saber que o que eu estou te dizendo é verdade.
- Bom dia, senhores. – Virgínia entrou na sala com o mesmo ar revigorado que Tony exibira mais cedo.
entendia porque Anthony era tão apaixonado pela esposa. Ele não se lembrava de ter conhecido criatura mais doce do que Virgínia. Dona de uma beleza clássica, ela impressionou muitos duques, e até príncipes, com seus cabelos cor de ouro e os olhos azuis, mas sua família se decidiu por um marquês boêmio que tinha as finanças mais estáveis da Inglaterra. Foi uma sorte para Tony, e ela se mostrou uma dama exemplar, com todos os atributos que a sociedade almejava, a beleza, o nome, a educação refinada e a sutil submissão. E para completar, a personalidade mais meiga que existia.
- Bom dia, meu amor. – Anthony disse, de repente, sem a tensão que cobria seu rosto alguns momentos antes – veio nos fazer uma visita matinal.
Virgínia sorriu graciosamente para :
- Ora, alteza, nunca vi sua graça acordar tão cedo. Mas vamos, venha para o desjejum. – ela convidou, já se direcionando para a sala de jantar.
olhou com ternura para a quase cunhada, mas não se sentiu tentado a aceitar o convite. Sua mente estava perdida nos olhos multicoloridos e ele ainda precisava de uma boa dose de conhaque para clarear as ideias.
- Obrigada, Sra. Burton. Mas eu vou ter de recusar, tenho assuntos urgentes a tratar na cidade. – falou gentilmente – Anthony, podemos tratar desse assunto mais tarde em minha casa?
- Como quiser, .

***


abriu os olhos sem vontade. O seu novo começo tinha sido completamente arruinado. Não tinha mais onde trabalhar, sua criada estava envolvida com uns dos piores seres que ela conhecia e, para completar, havia o Duque. Ele que era o mais envolvente cavalheiro com quem ela já tinha falado, também era o passaporte dela para um passado que ela tentava esquecer arduamente.

“Inglaterra, 1805

Diziam que Annabelle era a mais bela de todas. Seus olhos dourados já tinham conquistado boa parte da aristocracia inglesa, mas ela queria mais. Ou melhor, ela queria só um.
O maior erro que uma cortesã pode cometer é se apaixonar por um de seus clientes, e Annabelle sabia disso. Só que era mais forte do que ela e, por mais que tentasse, ela não conseguia esquecer lorde Rutherford, tão gentil e cuidadoso. Ele a fazia sentir como uma verdadeira dama. O jeito que ele a tratava era completamente apaixonante.
Por isso, era simplesmente errado que ele estivesse casando com outra pessoa. Ela sabia que ele amava somente a ela e que se tivesse um bom motivo, um motivo maior do que a aprovação da sociedade e de sua família, ele a escolheria. Ela tinha que dar a ele esse motivo.

O cavalheiro estava na sala da casa onde Annabelle trabalhava, esperando por ela. Mal podia esperar para vê-la e acabar de vez com o tormento que era não ter Anna nos braços, a sua pequena princesa, tão preciosa que ele mal conseguia imaginar sua vida sem ela.
Quando ela apareceu no portal, o coração de Rupert disparou como era de se esperar. Os cabelos negros como ébano estavam caindo em cachos em volta do rosto mais perfeito que existia e os olhos dourados emitiam uma luz própria que ia diretamente para o peito de Rupert, o fazendo perder o fôlego. Seu vestido era claro, uma espécie de lilás muito pálido, e se soltava na altura do busto, criando uma imagem fluida e irresistível pelo seu corpo esguio. O sorriso era fechado, mas a alegria que ela sentia em vê-lo lá era perceptível pela ruborização de seu rosto e a pressa em chegar perto dele.
- Não achei que viria. – ela disse, mal contendo o impulso de beijá-lo de pronto.
Seu esforço foi em vão, no entanto. Antes de falar qualquer palavra, Rupert teve que pressionar seus lábios nos dela, somente para ter certeza de que ela era real. O sabor continuava o mesmo, doce, incrível, indescritível. As bocas já se conheciam tão bem, que os movimentos perfeitos e sincronizados já aconteciam sozinhos, nenhum dos dois tinha que pensar sobre o assunto. Anna se perdeu nos braços do homem que amava mais uma vez e Rupert se sentia a criatura mais sortuda do mundo por poder tê-la para si.
- Como você acha que eu vou conseguir passar um dia sem te ver? – ele perguntou ao pé do ouvido dela.
- Eu não sei. Você é que está noivo de outra pessoa. – Anna respondeu, magoada. Ela sabia o que ele iria responder, mas não conseguia evitar. Ele não poderia pertencer a ninguém mais.
- Minha princesa... Eu já te disse que isso não vai mudar nada entre nós. A união é importante para minha família. – Rupert respondeu num tom tranquilo.
- Ela vai dividir o seu leito. Acha que isso vai fazer com que eu me sinta como? – ela sabia que não fazia o menor sentido sentir ciúmes. Afinal, ela era uma cortesã, e antes de conhecer Rupert, sua cama tinha conhecido muitos corpos masculinos.
- Você sabe que eu não a quero. Eu só quero você... E depois que nós tivermos um herdeiro, nem o meu leito ela vai frequentar. – Ele disse, ainda muito calmo.
- Eu poderia te dar um herdeiro. Sou tão fértil quanto aquela filha de marquês. – Anna respondeu emburrada. Tinha que ter um jeito.
Rutherford olhou para a cortesã, temendo pela sanidade mental da moça. Em que lugar da terra um bastardo, filho de uma mulher da vida, poderia ser seu herdeiro? Ela era tudo o que ele precisava para ser feliz, mas não era o bastante. Eles dois sabiam.
- Não torne isso mais difícil, meu amor. Você sabe que não é possível, ninguém entenderia. – Rupert sentenciou em tom definitivo.
Antes que ela pudesse reagir, ele a tomou nos braços em um beijo ainda mais exigente, tirando tudo o que era coerente da mente de Annabelle.
O plano já estava formado na cabeça de Anna. Ela sabia o quanto era arriscado o que ela estava disposta a fazer, mas não conseguia enxergar com clareza, o amor não permitia. Naquela noite, ela não tomara as precauções. Nem nas noites seguintes.”

não queria se levantar da cama. Na verdade, ela não via nenhum motivo para se mexer naquela manhã. Pouco a pouco os seus fantasmas estavam voltando para assombrá-la, e talvez, se ficasse deitada na segurança de seu quarto, os problemas não a encontrassem com tanta facilidade.
Afinal, ela não tinha com o que se preocupar. Seus administradores tinham comprado meia dúzia de propriedades muito produtivas e a falta de emprego não era exatamente um problema. Na verdade, se ela pensasse bem, ela continuava trabalhando por capricho. Para esfregar na cara daquela sociedade hipócrita que ela era o que era porque vendia o seu corpo. Mas estava ficando cada vez mais cansativo manter aquela vida sem rumo, e o envolvimento dela com e Del Duffled era prova suficiente de como ela estava ficando enferrujada.
Talvez fosse melhor que ela parasse de exercer a profissão mais antiga do mundo, já que não tinha mais tanta satisfação em zombar de quem tinha lhe feito mal. Mas o medo da completa solidão sempre reprimira a vontade que tinha de se aposentar. Não que ela não se sentisse sozinha o tempo todo, mas ela tinha que admitir que uma das poucas vantagens do ofício que ela escolhera era a inflação do seu próprio ego. Ainda que ela não sentisse nada por seus clientes (pelo menos não até pouco tempo atrás), sua falta de autoconfiança era amenizada pelo jeito que era tratada, como toda mulher, ela gostava de apreciar os efeitos que produzia no sexo oposto e, mais do que isso, ela se apoiava na opinião de seus clientes para se sentir um pouco melhor consigo mesma.
Por mais que ela não quisesse levantar, e nem tivesse nenhuma obrigação a cumprir naquele dia, ela sabia que o recolhimento a faria pensar mais do que ela estava disposta e, portanto, ela tinha que ocupar o seu tempo da melhor forma possível.
Decidida a se animar, se banhou e desceu para tomar o desjejum. Era uma manhã fresca de maio e o tempo estava propício para uma cavalgada em Harmony.
- Bom dia, milady. – Stuart disse assim que ela chegou ao pé da escadaria – Há algumas correspondências para a senhorita essa manhã, deixo-as na mesa da biblioteca?
- Bom dia, Stuart. Espero que você tenha dormido bem. – respondeu com gentileza – Pode me entregar agora, não quero passar a manhã na biblioteca.
O caseiro entregou as cartas para a patroa e, com uma mesura, se retirou. Havia uma correspondência de seu administrador no Sussex e outra das que ela costumava ignorar, a terceira carta, no entanto, era do, nada mais nada menos, Duque Del Duffled. O papel não era maior do que um bilhete, mas tremeu só de pensar em abri-lo – o que ele queria, pelo amor de Deus? –, embora a sua vaidade e algo mais que ela não conseguia identificar estivessem secretamente satisfeitos com a correspondência. Quando ela abriu finalmente o maldito pedaço de papel, seu coração já estava batendo numa velocidade além do imaginável.

“Minha cara ,
Preciso conversar com a senhorita com urgência. Desculpe por meus modos ontem à noite, prometo-lhe que não se repetirá.
Estarei em sua casa às 21h.
Atenciosamente,
Del Duffled.”

Por alguns segundos, somente encarou o chão, atônita. Afinal, ela não tinha de fato cortado as relações com aquele potencial cliente. Nem achava que conseguiria, por quanto seu plano era nunca mais vê-lo. E “nunca mais” incluía aquela noite. Ela não queria encarar aqueles olhos cinzentos de tempestade outra vez, muito menos se eles demonstrassem o desespero da noite anterior.

“Inglaterra, 1806

O casamento de Rupert Rutherford e Louise de Burgh era o assunto das mais altas rodas da sociedade londrina. Ele, um futuro Conde, e ela, a filha de Henry de Burgh, o Marquês de Hertfordshire. Era o que se chamava de uma união perfeita. A festa de casamento aconteceu em outubro daquele ano e foi o máxime do luxo e requinte. Mesmo as ladies mais críticas da sociedade não puderam falar da decoração suntuosa ou da comida farta.
Mas elas não ficaram insatisfeitas por isso, pois apesar da aparência perfeita, a união já tinha começado em crise. Era de conhecimento público que Rupert Rutherford estava apaixonado por Annabelle, a cortesã mais famosa do país. Isso enfureceu a noiva de tal forma que ela só aceitou continuar com o compromisso depois de muita insistência e pressão de sua família. Louise tinha um temperamento tempestuoso e a aparência de uma fada. Os cabelos vermelhos emolduravam a face de tez dourada e os seus olhos castanhos eram astutos. Ela sabia que se não se prevenisse, perderia o marido para uma simples mulher da vida. Diziam que, por isso, ela exigiu tanto do marido, que ele não encontrava tempo para visitar a tal cortesã. Tamanho esforço obteve resultado. Com menos de dois meses de casados, ela já esperava um filho.
O fato de estar grávida a impediu de requisitar o marido na cama com a mesma frequência. Os médicos não recomendavam tal atitude para a futura condessa.
Foi o suficiente para Rupert voltar a encontrar sua amada. Apesar de se manter arisca no início, Annabelle não conseguiu resistir por muito tempo. O amor que sentia por Rupert era mais forte do que a mágoa por ele ter se casado com aquela bruxa. Os planos da moça não tinham dado certo até então, e ela desconfiava que era estéril. No entanto, em janeiro de 1807, ela descobriu que estava grávida. De início, ela sentia um misto de medo e alegria, que não era descritível.
Somente quando ela contou para Rupert, ela percebeu o tamanho do problema em que ela tinha metido a pobre criança. O homem ficara tão furioso que Anna mal conseguia reconhecê-lo. Ela foi chamada de feiticeira e quase apanhara. Ele não podia ter um filho bastardo de uma prostituta, era o que dizia.
Mesmo assim, ele a amava. E se odiava por não conseguir ficar longe dela e odiava a criança em seu ventre que tinha destruído os seus sonhos tão bem planejados. Durante a gravidez dela, ele a visitava todos os dias, ressentido, mas incapaz de não ficar perto dela. Foi com tristeza e desespero que ele viu sua Anna minguando conforme o tempo passava. Sua estatura frágil não era suficientemente robusta para carregar um ser.
Enquanto isso, sua própria esposa avançava na gravidez com vitalidade e vigor, não demonstrando nenhum dos mal estares relacionados ao estado dela.
No dia 13 de setembro de 1807, nasceu a filha legítima de Rupert Rutherford. O pai a chamou de Katherine. A menina era a cópia da mãe, só possuindo do pai o tom verde forte dos olhos. Louise ficou decepcionada por não ter dado um menino para a linhagem Rutherford, mas logo a graça inata da criança a fez pensar que ela não podia ter tido uma criatura mais adorável do que aquela.
Aconteceu diferente com Annabelle. A moça estava muito fraca e doente quando entrou em trabalho de parto no dia 29 de outubro. Rupert estava com amada a mais ou menos uma semana, passando a noite na casa que tinha lhe dado, sem dar atenção para os protestos da esposa. Partia-lhe o coração ver aquela que era o amor de sua vida definhando daquela maneira. E ela estava tão feliz por poder ter uma criança dele que chegava a ser revoltante sua falta de preocupação consigo mesma. Foi uma tarde muito difícil para Annabelle, sua fraqueza não a ajudava no esforço para ter a criança. Quando Rupert ouviu o choro alto do bebê, já era tarde da noite. Anna estava semidesfalecida, a parteira limpava o bebê de costas para ela.
- Deixe me vê-la. – Anna pediu com o fio de voz – É uma menina, meu amor. A nossa princesinha.
Rupert nem tinha cabeça para olhar para a criança. Annabelle estava claramente morrendo na sua frente.
A parteira levou a criança para a mãe. Annabelle pensou que estava vendo um anjo. Nunca em toda a sua vida ela tinha visto uma criança mais linda e perfeita do que a sua filha.
- Olhe para ela, meu amor. – ela pediu – Não é linda a nossa princesa? – a voz estava fraca e embargada, as lágrimas de alegria e dor banhando o rosto que, ainda pálido e magro, era perfeito.
- Anna, deixe Rose cuidar da criança. Nó precisamos chamar um médico para você. – Rupert falou, mal escondendo o seu desespero.
Anna franziu o cenho com a reação dele. Ele nem tinha olhado para a filha. Um medo muito maior do que a dor gelou sua espinha.
- Rupert. – ela disse seriamente – Olhe para a nossa filha.
Ele fez o que ela pediu. A criança era muito linda, mais bonita até do que a própria mãe, mas só o que ele sentia era desespero. Ele assistia o amor de sua vida escapar por seus dedos e não podia fazer nada sobre aquilo.
- Rupert. – ela chamou novamente – Ela é nossa. O nosso amor está nela. Eu não vou poder vê-la crescer e se tornar a mulher mais adorável de todo o mundo. Mas você vai.
- Claro que vai, minha vida. Vai ficar tudo bem... – Rupert interrompeu, atormentado.
- Eu sei que eu estou indo, amor. Eu posso sentir. Mas eu não posso ir sem te pedir pra cuidar da nossa princesinha. Do fruto do nosso amor. – a voz dela tremia enquanto ela usava toda a força que tinha para continuar falando – Por favor...
Assim que terminou de falar, Anna voltou a olhar para a linda menina em seus braços. Ela sentia suas forças acabarem aos poucos e se sentia muito sonolenta. Mas tinha que aproveitar o pouco tempo que possuía, porque ela nunca tinha se sentido tão alegre em toda a sua vida. A menina já não mais chorava. Tinha se acalmado, aninhada nos braços da mãe, prestes a dormir.
- Anna... – Rupert chamou – Eu vou chamar um médico. Já volto para ficar com você, meu amor.
- Não, Rupert, fique aqui conosco. – Anna respondeu – Não quero ficar longe de você por nem mais um segundo.
O nó na garganta dele ficou mais dolorido à medida que ele via Annabelle demonstrando sonolência. Ela ficou olhando para o bebê em seus braços por mais alguns segundos, enquanto ele, já derrotado, abraçava o corpo frágil como podia.
- O nome dela vai ser . – ela disse, já muito perto do fim – E ela vai saber o quanto eu a amava. Pegue uma caixinha vermelha embaixo da minha cama, meu amor.
Rupert atendeu ao pedido e entregou a caixinha para a Anna. Dentro havia um pingente de ouro em forma de coração, com a expressão “amor eterno”, e um bilhete.
- Dê para ela, sim? – ela pediu, indicando a filha
Nesse momento, ela puxou o rosto dele para perto, e depositou um beijo em seus lábios. Beijá-lo foi a última sensação que teve.”

***


estava sem ressaca ou álcool no sangue, pela primeira vez desde que tinha decidido parar de ver . Ele não sabia se aquilo era bom ou ruim, mas estava muito exausto do esforço da noite anterior para se preocupar. Imaginar que era quem dançava em seus braços o ajudou a ser muito mais agradável com Lauren e aquilo tinha deixado sua mãe muito satisfeita. O único problema dessa satisfação da mãe era a visita que ela agendara com a marquesa. Naquela tarde, ele iria começar a cortejar senhorita Wickham oficialmente. Ele sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, teria que se casar com um bom partido. Mas, nos seus planos, isso aconteceria depois que ele já tivesse tudo acertado com .
A senhorita Wickham era uma pretendente tão boa como qualquer outra, com um dote muito atraente assim como seus outros atributos. Lógico que nela faltava o brilho que era intrínseco a , mas ele não esperaria encontrar esse tipo de característica em nenhuma outra mulher.
Por isso, ele se arrumou com ajuda de seu mordomo e foi à casa de Lauren. Encontrou sua mãe no saguão de entrada conversando animadamente com a marquesa. A senhora o recebeu cheia de sorrisos e ele notou que sua mãe já havia utilizado suas qualidades de casamenteira naquele caso. Seria quase impossível escapar, se os outros pretendentes da moça não se apresentassem antes que Vivian Crawford terminasse seu serviço por ali.
Os três se encaminharam para o salão de chá enquanto um criado foi chamar Lauren no jardim.
Se não estivesse completamente encantado por outra mulher, teria ficado muito bem impressionado com a moça. Se no baile ela exibia todo o luxo que era adequado à sua posição, naquela tarde o seu frescor jovem trazia um toque muito interessante para o cenário. Ela usava um vestido amarelo claro, sem muitos detalhes, mas bem marcado na cintura, e com um decote um pouco mais baixo do que o que se esperaria para um vestido de dia. Os cabelos estavam quase soltos, dando um ar natural e angelical cheio de charme. Ela ruborizou intensamente quando viu os Crawford à sua espera para o chá.
Sua mãe tinha claramente mantido a surpresa, pois, de repente, ela se sentiu muito preocupada com a aparência excessivamente casual.
- Boa tarde, milady. – se adiantou com uma reverência – Está encantadora.
Lauren sorriu timidamente enquanto ele lhe tomava a mão para roçar os lábios levemente.
- Boa tarde, milorde. – ela respondeu em tom baixo – Que surpresa agradável.
A marquesa fez sinal para que a mesa fosse posta, logo todos estavam tomando o chá e conversando sobre amenidades diversas. Depois de algum tempo, finalmente ficou muito incomodado com os olhares significativos e insistentes que sua mãe dava para ele, para Lauren e para o lindo jardim da casa, respectivamente. Ele se levantou, fez uma mesura para a marquesa e pediu autorização para dar um passeio pelo jardim com senhorita Wickham.
A moça ruborizou intensamente com o convite, mas pareceu mais do que satisfeita em aceitá-lo. estendeu o braço para Lauren, que apoiou a delicada mão timidamente. Ele pensou em . Sempre que ela apoiava a mão em seu braço para que ele a conduzisse, ele se sentia o homem mais orgulhoso do mundo. Aquele gesto singelo era suficiente para ele sentir que ela o pertencia.
Sua mãe mandou uma dama de companhia logo atrás deles. O dia estava fresco e agradável, e o chá poderia ter sido servido lá fora. No entanto, tinha a impressão de que as mães estavam tentando dar mais privacidade ao potencial casal e armaram para que aquela situação acontecesse. Lauren sorria com os lábios fechados enquanto sentia o cheiro que exalava, de tabaco e alguma colônia muito boa que ela nunca havia sentido antes. Eles continuaram falando sobre os últimos fatos da corte e outros assuntos de que não se lembrava, mas a corte que ele deveria ter feito não aconteceu. Eles pareciam muito mais como amigos conversando do que qualquer outra coisa.
***


Já estava escuro e nem tinha percebido o tempo passando. Não adiantaria fugir de Del Duffled indefinidamente. Ela teria que avisá-lo que não poderiam mais se ver. Esse pensamento, no entanto, não lhe fornecia o alívio que deveria fornecer. Na verdade, ela só conseguia pensar que já estava sentindo falta das caronas que ela recebia todas as manhãs. Mais falta do que era apropriado, porque não fazia muito tempo desde a última vez que eles tinham se visto. Ela tinha escolhido o seu vestido mais coberto para receber o duque, mas sabia que ainda assim se sentiria completamente nua na frente dele, e não do jeito que ela costumava estar na frente de seus clientes. Ele enxergava demais e isso era muito perigoso. Quando deu 21h, ela já tinha gastado o assoalho de seu quarto de tanto andar de um lado para o outro.
era realmente digno da expressão “pontualidade britânica”. Às nove em ponto, ela ouviu o sino da porta da frente e seu coração deu um pulo para parar em sua garganta. Era ele, sem nenhum minuto de atraso. Ela esperou que Jane subisse para anunciá-lo, usando os poucos minutos para adquirir fôlego. Jane não demorou a entrar e anunciou que havia um cavalheiro à sua espera no saguão de entrada. Lógico que havia. torceu os dedos da mão, em mais uma tentativa falha para se acalmar, e desceu as escadas de mármore lentamente, com dificuldade para se lembrar do que tinha que falar para .

estava tão ansioso que dispensou a poltrona que a criada lhe tinha oferecido. A ideia de se sentar parecia repulsiva ao seu estado hiperativo. A visão de descendo uma escadaria, mais uma vez, fez borboletas voarem pelo seu estômago, e seu cérebro continuava sem entender como ela poderia estar muito mais linda do que ele se lembrava da última vez. Estava usando um vestido cinzento e sem graça, mas parecia ainda mais bonita do que na noite anterior.
- Boa noite, . – ele falou com voz de veludo.
- . – ela disse a alguns passos dele. Passos que ele queria eliminar imediatamente.
Ele se aproximou sem dizer nada, até que o espaço entre eles era mínimo e ela quase conseguia distinguir o calor que vinha de seu corpo. O fresco aroma da pele dela enchia os pulmões de impiedosamente e ele já não se recordava qual era seu objetivo. Tony estava espiando pelo vitral do salão, como havia sido combinado, mas não lembrava bem o que eles estavam investigando. Num impulso quase que incontrolável, ele tomou uma das mãos de e beijou demoradamente, apreciando a suavidade de sua pele.
fechou os olhos instintivamente quando a eletricidade entre os dois começou a agir novamente. A boca dele não parecia disposta a desencostar de sua mão e ela não podia reclamar daquilo. Quando ele finalmente concluiu o cumprimento cortês, ela já não tinha assim tanta certeza de que queria parar de vê-lo. Ela tinha bastante certeza, por outro lado, de que queria aqueles lábios em outro lugar naquele exato momento.
- Eu preciso conversar com você. – disse, no mesmo tom profundo em que tinha iniciado a conversa – Mas antes, vou cometer uma indiscrição.
Sem hesitar, envolveu sua cintura, acabando com a pouca distância entre os dois. Olhou profundamente nos olhos multicoloridos, que se derretiam sem demonstrar resistência, e inspirou o perfume que vinha da curva delicada do pescoço, se deixando enfeitiçar pela hipersensibilidade. Uma de suas mãos envolveu a face de anjo, numa carícia delicada, enquanto seus lábios deixavam novas marcas de fogo logo abaixo de sua orelha, mandíbula e bochechas. As pernas dela fraquejaram e ela embrenhou uma mão nos cabelos da nuca dele em busca de apoio, enquanto a outra fazia sua própria exploração por cima da elegante casaca, sentindo os músculos retesados do cavalheiro. Ela tentou jogar a cabeça para trás, instintivamente, mas foi impedida por ele, que a segurou de uma forma que a fez olhar diretamente para a tempestade. Muito lentamente, ele aproximou os lábios dos dela, mas não encostou, somente continuou encarando a cortesã em desafio.

Capítulo 6
BURNING

segurou a respiração. Não era uma reação adequada para a melhor amante de Londres, mas ela se sentia como uma virgem inexperiente diante daquelas novas sensações que lhe proporcionava. Os lábios dele estavam a um centímetro dos dela, dando à palavra tentação um significado muito novo. Sua mão ainda estava apoiada na nuca dele, e ela sentia uma conexão entre os corpos que era difícil de explicar, estava ofegante embora não tivesse feito nenhum tipo de esforço físico. No encontro das respirações, um calor sobrenatural se formava e tomava ambos numa atmosfera mágica, um universo paralelo onde só existiam os dois e o desejo entre eles.
- – ela murmurou com a voz trêmula
- – ele respondeu rouco, usando todo o autocontrole que possuía – Você é tão linda.
A voz dele fez com que o interior de vibrasse violentamente. Não podendo resistir mais nenhum segundo, ela pressionou seus lábios contra os dele. As bocas se movimentaram sincronizada e desesperadamente, como se o tempo que elas tivessem para ficar juntas fosse muito curto em relação ao quanto elas precisavam uma da outra. Finalmente exemplificando o porquê de sua fama, abriu os botões da casaca do duque para poder sentir melhor o peitoral mais próximo da perfeição que ela já tinha visto. O duque, que não estava acostumado com aquele tipo de iniciativa, se impressionou com o efeito que aquelas mãos bem treinadas tinham sobre o seu corpo. Com habilidade profissional, se pressionou contra o corpo de , de forma a sentir sua ereção já latente, enquanto o beijo era interrompido pela necessidade que ele tinha de provar mais da pele dela. Afastando o tecido que cobria o decote dela com certa violência, ele passou a beijar a pele de seu colo, que subia e descia rapidamente.
- Srta. Jennings? – a voz de Jane os interrompeu abruptamente, acabando com atmosfera alternativa em que eles tinham se inserido. – Há um outro senhor à sua procura.
olhou para a moça, desvairada e não recuperada do incidente. Não tinha nem se recobrado da situação inesperada, e o destino já havia preparado outra surpresa não tão agradável para ela. No portal de sua casa estava Anthony Siemens, Lorde Burton. O homem cujo coração ela tinha estraçalhado, como tantos outros antes. Ela achava que ele já a tinha esquecido, voltado para a esposa com a lição aprendida. No entanto, ele estava lá, encarando a situação com uma curiosa expressão de resignação e cansaço, como se ele já estivesse esperando uma cena daquelas. Os olhares dos cavalheiros se encontraram num misto de entendimento e desapontamento, por parte de Anthony, e acanhamento por parte de .
- Boa noite, Srta. Jennings. – ele disse com a voz suave – Desculpe a interrupção, mas eu preciso falar com Del Duffled. Você se importa se usarmos a sua biblioteca?
continuava olhando de um cavalheiro para o outro sem entender absolutamente nada. Como é que Burton poderia saber que estava lá? Toda aquela situação podia ser considerada, no mínimo, estranha.
- Boa noite, milorde. – respondeu – Vocês podem usar a biblioteca, sim. Mas a que devo a honra de ser anfitriã desse encontro?
A ironia era implícita e proposital. Não fazia o menor sentido que eles tivessem marcado qualquer tipo de compromisso na casa dela. Ela não tinha nenhuma ligação com qualquer dos dois, e desejava distância de ambos. olhava para ela, ainda fascinado pelo momento dividido, mas sem entender qual era a intenção de Tony ao entrar daquela maneira. Lógico que ele deveria ter se contido diante da tentação, mas essa ideia lhe parecia ridícula em se tratando de . Não é como se fosse possível olhá-la sem tocá-la.
- Na verdade, a Srta. deveria participar da nossa conversa. Acredito que pode me ajudar a demovê-lo de uma ideia obsessiva que lhe está tomando a mente ultimamente. Ele me contou que vocês são amigos agora. Acredito que a Srta. é a melhor pessoa para me ajudar com isso. – Tony falou perspicaz.
sentiu o gelo se espalhando por suas entranhas. Ele sabia. Sabia de alguma coisa e isso era bastante claro. Mas ele estava, aparentemente, do seu lado na missão de tirar a ideia de ficar com ela da cabeça de . Muito provavelmente pelos mesmos motivos. Será que era possível ele ter descoberto a ligação dela com os Rutherford? Não havia pistas, na verdade. A família nunca a tinha apresentado para a sociedade, e ninguém nunca prestaria atenção numa mera dama de companhia. Ainda mais quando ela era colocada como acompanhante do diamante mais desejado pela sociedade londrina na sua época. Essa falta de visibilidade sempre irritou seus mais profundos instintos, mas ela podia perceber, agora, o quanto aquilo tinha sido importante para o seu sucesso.
- Muito bem, então. – ela decidiu – Vamos.
Os três entraram na porta à esquerda do salão, onde se estendia o corredor que chegava à biblioteca.
Os cavalheiros se posicionaram lado a lado, na frente de como se estivessem prontos para iniciar um interrogatório. Como era de se esperar, as pernas de bambearam com a ideia de ser interrogada.
- Você pode falar, minha cara – Anthony começou, com a voz levemente insolente – para esse cavalheiro insano – ele indicou com a cabeça – que a sua vida nada tem a ver com a vida da Srta. Katherine Rutherford?
Antony olhou cuidadosamente enquanto o rosto da moça mudava de cor. Primeiro ficou muito vermelho, depois pálido como a morte. Agora Anthony conseguia entender o que tinha dito sobre o fato de ele ter de ver para crer. Mesmo sendo ótima atriz para a maior parte das coisas, ela parecia claramente abalada com a menção do assunto, e era óbvio que ela conhecia, e muito bem, a dama em questão.
- Já estou farta de explicar para ele que nunca sequer conheci a dama. Por que ele trouxe o senhor para comprovar tal fato? – disse sem se preocupar em controlar a irritação.
sequer tinha coragem de se manifestar. A cada segundo lhe parecia mais claro que a ligação entre as duas mulheres poderia mudar seu modo de enxergar as coisas. Ele só não sabia se essa mudança seria para o bem ou para o mal. As reações exageradas dela, uma das pessoas mais equilibradas e firas que ele já tinha conhecido, mostravam muito mais do que escondiam. Sua negativa veemente tinha o efeito contrário ao que ela queria causar, e ele estava, naquele momento, muito mais certo de que deveria investigar o caso a fundo.
Anthony e ele trocaram um olhar de compreensão rápido, seu amigo tomando o cuidado de parecer convencido pela negativa de , por mais impossível que aquilo fosse.
- Eu, hm. Desculpe-me, Srta. Jennings. – disse, usando de uma formalidade artificial.

Jane olhava para janela, sem se recuperar do fascínio. Ele era o retrato da perfeição, algo que ela nunca tinha visto. Vestido elegantemente, era obviamente um nobre de primeira linha. Mas além disso, havia algo em Del Duffled, algo que não era comum de se encontrar. Ele tinha olhado para ela. Não pediu para chamar sem antes cumprimentá-la: ele se curvou, como se ela fosse uma dama, e beijou sua mão. Perguntou seu nome. Ele quis saber quem ela era, ele a olhou com aqueles olhos cinzentos e profundos, não ignorou sua existência como a maioria das pessoas fazia.

Quando Jane desceu novamente, ao lado de , a cortesã tinha roubado o olhar do nobre cavalheiro de uma forma irreversível. No momento em que entrou no campo de visão de , os olhos cinzentos se iluminaram, e ele de repente parecia deslocado. Em nenhum momento ele notou a presença de Jane novamente, pois a presença de conectava todos os seus gestos como se ela fosse um ímã. Isso irritou Jane de uma forma muito profunda. Por que ela tinha sempre que ser o centro de todas as atenções? Não havia nada de tão especial nela. Era uma desonrada. Uma mulher da vida, sem qualquer decência, e, ainda assim, todos caíam por ela. Isso sempre tinha incomodado Jane, mas, naquele momento, quando ela tinha roubado o olhar do Del Duffled, seu incômodo era comparável com ódio. A inveja que sempre esteve adormecida pela gratidão, agora começava a se espalhar lentamente pelo seu corpo, a intoxicando, o corpo e a alma.

Ela o queria. Tinha descoberto esse fato no momento em que ele tinha colocado os olhos nela, e ela o teria. Não tinha que pensar muito sobre o assunto, ela só sabia que faria o que fosse necessário para tê-lo.
***




- Ora, meu senhor! Como pode preferir críquete à equitação? - Lauren perguntou a com doçura.
Já faziam duas semanas desde o baile em que havia começado a cortejar Lauren. Eles estavam sentados no gramado do jardim da moça, a dama de companhia colocada à uma distância agradável do casal, aparentemente alimentando os patos do pequeno lago que havia ali. Lauren era tudo o que se esperava de uma dama de nível. Falava francês fluentemente, pintava extraordinariamente bem, e tinha conhecimentos consideráveis de pianoforte e bordado. Além disso, possuía uma personalidade meiga e suave, muito diferente do furacão que representava, e ainda assim, só conseguia pensar na Cortesã. A cada dia, a dor que sentia por não poder ver a amada o corroía por dentro, fazendo-o se afundar cada vez mais em si mesmo. Era impossível, no entanto, ser desagradável com uma criatura tão angelical como Lauren. Ainda que o coração dele estivesse trancado a sete chaves, era difícil não sucumbir a tamanha suavidade.

- Não sou o maior fã de cavalos. A não ser que eu esteja sentado no jóquei, ganhando grandes quantidades de dinheiro longe deles. – ele respondeu descontraído.
Lauren deu um sorriso aberto, completamente à vontade perto do cavalheiro.
- É porque o senhor não conheceu o Aras de minha família. Não existem na Inglaterra cavalos mais fascinantes! – ela respondeu, animando-se.
encarou os olhos da moça. Eles eram de um tom que beirava o azul noite, e brilhavam como se houvessem estrelas dentro de suas íris. Uma garota perfeita, ele pensava. Não havia mais o que pedir de uma mulher para lhe dar um herdeiro, especialmente se ele herdasse os olhos da mãe.
Naquela noite, Mildred Crawford daria um baile em sua casa. estava bastante certo sobre as intenções de sua mãe ao armar a gala. Ela esperava ansiosa pelo momento em que pediria a mão de Lauren, para que a família Crawford pudesse se ver livre, de uma vez por todas, de Jennings. Ás vezes, quando se concentrava bastante, ele conseguia fingir que estava com , e era tão fácil gostar daquela versão tão doce e falsa dela, que ele quase conseguia sentir que ele possuía alguma alegria em seu ser de novo. Apesar de elas serem completamente opostas, de alguma forma ele conseguia conectá-las, e assim, podia apaziguar seu coração. Durante todo aquele tempo, não tinha mandado nenhum tipo de notícias, ou havia aparecido. A dor de acreditar que de fato ela não sentia nada por ele, estava cuidadosamente sufocada pela necessidade de manter as aparências.
A família de Lauren, apesar de demonstrar grande apreço pela união, não ignorava os rumores de que ele havia sido enfeitiçado pela mais famosa cortesã da Inglaterra, e que havia, inclusive, esbanjado imprudentemente sua fortuna com a rapariga. Se ele queria que sua corte fosse bem sucedida, teria que se afastar dos rumores, mantendo a compostura que a alta sociedade julgava perdida. E era claro que tinha se oferecido para levar Lauren ao baile, de forma a estreitar os laços com a moça. Experiências anteriores mostravam que era muito saudável para um casal ficar por um certo tempo dentro de um lugar de espaço limitado, e ele providenciaria que a dama de companhia de Lauren permanecesse no assento próximo à janela, de forma a deixar que os “pombinhos” ficassem juntos.

Não demorou para que anoitecesse. deixou Lauren mais cedo do que costumava, pois sabia como as moças tendiam a demorar para se arrumar para os eventos. A não ser é claro, que a moça em questão fosse , que não precisava de nenhum tempo para parecer um espetáculo da natureza. Ele se arrumou o melhor que pôde, e saiu para encarar o seu destino. Pediria a mão de Lauren naquela noite, e isso selaria o seu fim com a mulher de sua vida, estava assinando a sua desistência definitivamente. Encarou o espelho de cristal de seu quarto, e reconheceu a resignação na sua expressão. Não havia nada mais a fazer, ele tinha que cumprir seus deveres e não podia mais correr atrás do sonho de um tolo apaixonado. E Lauren merecia que ele fosse integralmente dedicado afinal, seria completamente injusto desperdiçar toda a vitalidade que ela tinha, e se ele estava aceitando aquela vida, ele encararia da melhor forma possível.
Na sua cabeceira estava o anel que seu bisavô dera para a sua bisavó. Foi um casamento arranjado, naturalmente, mas o rumor é que eles eram o casal mais apaixonado que já se tinha visto na alta sociedade Britânica. Por isso ele não quis dar o grande rubi para Lauren, a única que seria digna de usá-lo e representar seu significado era exatamente a que não poderia fazê-lo. Ao invés disso, ele tinha contratado o joalheiro mais requisitado de Londres e encomendou um anel de ouro com um diamante perfeito, cercado de pequenas safiras, uma jóia valiosa e delicada, como era sua futura noiva.

***




não se cansava de respirar o ar leve de sua casa no interior. Pela primeira vez em algum tempo, ela tinha algum sossego. Tinha sumido das vistas de Crawford, e ouviu falar que ele estava prestes a pedir uma moça em casamento. Estava feliz com o fato, embora não pudesse negar que um pequeno incômodo a atingia no peito: no final, ela estava certa. Ela sempre soube, mas doía confirmar que o amor mais forte que alguém já dissera sentir por ela era falso. Nada que a abalasse. No entanto, o outro cavalheiro de quem fugira, este sim a abalava profundamente.
Cada lembrança que ela tinha da pele de roçando na sua, por mais reprimida que fosse, sempre voltava a assombrar seus devaneios à menor distração. Ela estava a pouco mais de 15 dias sem vê-lo, especificamente desde quando eles tiveram aquele diálogo extremamente esquisito com Lorde Burton. Cada dia mais ela temia suas reações com relação à ele, e temia a relação que ele tinha com Katherine. Por tantos anos ela conseguiu fingir que aquela cobra nunca tinha feito parte da sua vida, e Del Duffled tinha vindo não só para tirara calma dos seus hormônios, como também para trazer de volta aquele passado morto e enterrado. Nem a distância conseguia tirar a cabeça de dos devaneios constantes sobre aqueles olhos de tempestade que desde o começo surgiram para envolvê-la naquele temporal e desafiá-la a ser mais forte. Ela não queria ser mais forte. Ela queria que ele a encontrasse naquele exato momento e a fizesse esquecer de todos os motivos pelos quais ela não podia se entregar àquela sensação insana que lhe dava.

E vocês sabem o que dizem por aí: cuidado com o que você deseja...

Não tinha sido uma tarefa exatamente fácil, mas tinha descoberto o paradeiro de . Depois de duas semanas sem notícias dela, ele conseguira a informação. Na verdade ele poderia ter conseguido muito antes, se tivesse se lembrado da criada que tinha sido tão amável com ele em sua última visita à cortesã. Tinha falado com Lady Lind, que praticamente o enxotara de sua casa quando percebeu que não lucraria nada com a informação, e depois tentou perguntar às moças da casa. Nenhuma delas demonstrou qualquer simpatia por , e também não puderam (ou não quiseram) lhe ajudar na busca pela moça. Por fim, tinha entrado em contado com Stuart, o caseiro da casa dela, mas a patroa tinha dado ordens expressas sobre o sigilo de sua localização. Foi quando Jane apareceu, na saída da residência de , e deu, sem a menor cerimônia, a localização da casa de campo. Ele queria ter saído naquele exato momento para encontrar a bela dama, mas teve de esperar alguns dias, para colocar tudo em ordem antes de partir, deixando Tony responsável pelas investigações que eles estavam fazendo sobre a origem de .
Não era uma viagem muito longa para se fazer, mas a ansiedade tomava conta de cada célula do corpo de . Ele precisava continuar do ponto em que tinham parado, e redescobrir como era viver em paz. A textura da pele dela perseguia seus sonhos desde aquela noite em que tinha perdido completamente a compostura com ela. E ele não negava que ela era sua nova obsessão. A cada milha percorrida, a ansiedade aumentava exponencialmente e ele mal conseguia conter a vontade de tomá-la nos braços sem se importar como.

Naquela tarde, estava cavalgando energicamente, na tentativa de liberar suas frustrações na adrenalina. O céu começou a escurecer com nuvens carregadas, mas ela não percebeu, pois estava imersa em suas próprias emoções exacerbadas. À medida que o tempo foi fechando, Harmony tentou recuar, mas não permitia. Continuou percorrendo os campos verdejantes, até que a primeira gota, anormalmente grande, atingiu o meio de sua cabeça. E ela não estava exatamente perto de sua casa, ou perto de algum lugar que poderia ser coberto. Não havia criados na sua casa, e ninguém procuraria por ela naquele fim de mundo. olhou para o céu, se dando conta da besteira que tinha feito ao não aceitar a intuição da égua, e como se alguém estivesse brincando com ela, a tempestade começou naquele exato segundo. A água atingia com violência, sem dar tempo para ela descobrir o que fazer, e, de repente, Harmony começou a relinchar e tentar jogar no chão, como ela nunca tinha feito antes. Se bem que nunca tinha cavalgado com ela na chuva antes. Não recia ter sido a ideia mais brilhante. Se arrumando do jeito que pôde, procurou se jogar no chão sem que a égua lhe atingisse com as patas. Atingiu o solo já encharcado com força, enquanto observava Harmony correr apavoradamente para longe.
Seu corpo ressentia a queda, doendo em partes que ela nem sabia que existiam, e ela não tinha ideia de como conseguiria sair daquele lugar. Não conseguia andar direito por conta da dor, e, mesmo que conseguisse, não seria fácil andar todo aquele percurso a pé, debaixo daquela tempestade. Desesperadamente ela se encolheu embaixo da árvore mais próxima, e, rendida e exausta, adormeceu.

avistou a casa de campo de pela tempestade. Todas as luzes estavam apagadas. Se aproximando rapidamente, ele avistou uma égua selada correndo em direção à casa, e sentiu um repentino aperto do peito, um pressentimento de que algo estava muito errado. Pelo que tinha entendido, estaria sozinha na casa. guardou seu próprio cavalo e a égua desesperada do estábulo, e foi bater na porta da casa, sem que a sensação de aperto lhe deixasse.
Ele esperou, mas ninguém atendeu a porta. Estava tudo em silêncio, exceto pelo barulho insistente da tempestade que se arrastava. Num lampejo de intuição soube que não estava em casa. A égua selada era um mal sinal e ele começou a sentir o medo de que alguma coisa acontecesse com no meio daquele temporal. Bateu mais algumas vezes com violência na porta da casa, até que decidiu procurar pelas redondezas, ainda com o pressentimento que a égua a deveria estar carregando.
pegou seu cavalo no estábulo e saiu em busca dela pela estrada que a égua tinha saído. Depois de uma hora, quando a chuva já tinha acalmado, ele a viu. Por entre as gotas da garoa leve que caía naquele momento, ele pôde distinguir a silhueta dela em baixo de uma árvore. Estava desfalecida, completamente molhada e cheia de lama. O coração dele parou de pavor, sem hesitar, ele desceu do cavalo e correu até o local, se debruçando nela, tomado de pânico. Ela ardia. Estava tão quente que tomou um choque ao tomá-la em seus braços.
- ? – ele chamou, o desespero transparecendo em sua voz – O que você fez? ?
De perto ele conseguiu ver rasgos nas mangas de seu vestido, sujos de sangue. Ela estava machucada em vários lugares dos braços. nunca tinha entendido o real significado do medo antes daquele momento. Desesperado com a possibilidade de perder ele a pegou nos braços, rasgou um pedaço do seu vestido, e subiu de volta em seu cavalo, a posicionando em sua frente, e amarrando os dois com o pedaço de pano. Nunca em sua vida uma hora tinha sido tão longa. Durante a breve viagem tinha tremido copiosamente, e sua febre não dava sinais de abrandamento.
Quando chegaram à casa, pegou a chave que estava dentro da bolsa que carregava, e conseguiu entrar. Subiu as escadas o mais rápido que pôde com ela nos braços, e a deitou na cama do único quarto da casa. Ela tinha que ser aquecida, e tinha de ser rapidamente. E isso não aconteceria com aquela roupa encharcada. começou a despi-la com cuidado, concentrado em cuidar para que ela não adoecesse mais seriamente. Ao descobrir o corpo que ele tantas vezes sonhara em ver e sentir, a beleza estonteante de suas formas não conseguia ofuscar a preocupação dele, mas mesmo assim, seu corpo não deixava de responder ao toque da pele de cetim de . E assim ele queimava por dentro da mesma forma que a pele dela queimava em suas mãos. Quando terminou, a cobriu com a colcha da cama, e foi pegar uma camisola no pequeno baú que estava no quarto. Encontrou uma peça delicada de cetim com renda, e vestiu com cuidado. Com alguma dificuldade, conseguiu acender o fogo da lareira do cômodo, acalmando a tremedeira dela.
Desceu correndo na cozinha da aconchegante casa, procurando algo para preparar para quando acordasse. Não que ele soubesse cozinhar o que quer que fosse. Mas ele tentaria. Ferveu algumas batatas, e as colocou para cozinhar com uma carne salgada que encontrou. Depois esquentou água e levou para o quarto, onde permanecia adormecida. Parecia um anjo com as bochechas coradas da febre e os cabelos molhados da chuva espalhados no travesseiro. Estava inquieta, se mexendo durante o sono, como se estivesse tendo um pesadelo. tirou suas roupas molhadas, vestiu a camisa de linho e a calça que tinha levado consigo. Lentamente, ele se deitou ao lado de , acariciando seu rosto, enquanto moldava seu corpo ao dela.
- Você é tão linda – ele murmurava no ouvido dela – e vai ficar bem, eu estou aqui com você.
suspirou, e se aconchegou no peito de , ainda quente. Depois de algumas horas acabou adormecendo também.

acordou no meio da noite, com a voz de gritando. Ele pensou que ela estava provavelmente tendo um ataque de raiva por ele estar lá, mas logo sentiu que ela continuava ao seu lado, se contorcendo.
- Não, Kathy. – ela falava em seu delírio – você não podia...
a abraçou, alarmado pela volta da febre alta.
- Shh, está tudo bem, anjo, eu estou aqui com você... – ele murmurava a embalando, tentando acalmá-la.
- ? – ela perguntou de repente. gelou pensando que ela tinha acordado, mas ela estava sonhando com ele também.
- , fique longe dela. É uma cobra, , uma cobra! – ela falava alto – Fique perto de mim, ...
- Eu estou aqui – disse em seu ouvido – estou aqui, , cuidando de você.
Novamente suspirou, se tranquilizando e se acomodando nos braços de , enquanto ele acariciava seu rosto e cabelos, completamente fascinado e apavorado. Ela tinha que ficar bem, ou ele não saberia o que fazer. E ela estava sonhando com ele. sabia que não podia ficar feliz quando ela estava tão mal, mas nunca tinha gostado tanto de ouvir seu nome. E mais do que tudo, ele tinha a confirmação que precisava.

“Estava queimando. Tudo nela queimava, e Katherine continuava rindo, e o abraçando. Toda a dor que sentia não se comparava com o ódio pela meia irmã naquele momento. Ela tinha lhe tirado a única coisa que ela já tivera. Ela poderia ter qualquer um, mas tinha escolhido o que mais machucaria . Por que? Se ela estava noiva, por que ela queria o plebeu infeliz que tinha dito ser apaixonado por ?
Seu corpo não parava de arder, numa dor nunca antes sentida, e Katherine olhou para ela, com o ódio transbordando em seu olhar.
- Você é só uma criada, querida. – ela dizia, fria como gelo – E eu vou sempre ter o que eu quero. Sempre.
Quando piscou, o lugar de Edward tinha sido ocupado por outra pessoa. Del Duffled estava com Katherine, mas não a abraçava como Edward tinha feito. olhou para , sem emoção.
- Kathy, você não podia! – gritava – Não podia se aproximar dele também!
A ardência no seu corpo parecia ceder um pouco, quando ela chamou .
- ? - ela gritou – Fique longe dela, , ela é uma cobra, uma cobra! Fique perto de mim...
Neste momento lançou um olhar de puro desprezo para Katherine, e foi em direção a , a tomando nos braços com ternura, fazendo a dor passar.
- Eu estou aqui – disse em seu ouvido – estou aqui, , cuidando de você.”


nunca tinha se sentido daquela maneira. Uma ternura que ele não tinha conhecido antes o tomou por completo, e ele soube que estava perdido. Por que não era obsessão o que ele sentia por . Era amor.

Capítulo 7
BETRAYED

Jane olhava para o espelho, ainda insatisfeita. Faltava alguma coisa na produção. No seu pescoço pendia uma pesada gargantilha de ouro com pedras coloridas que ela sequer conhecia o nome. Ela nunca via utilizando a jóia, embora considerasse uma das mais belas que a patroa possuía. Era tanto disperdício.... Jane também estava com o vestido mais lindo de Val. Era um de veludo púrpura, bem ajustado ao corpo, e dono de um decote poderoso. Tinha sido presente de um dos clientes de , que o considerava vulgar além da medida. Nunca o tinha usado, embora Jane tivesse certeza que a peça valia uma pequena fortuna.
Hoje a noite era dela. Finalmente, depois de muito pensar, repensar e refletir ela tinha conseguido arquitetar um plano consideravelmente inteligente para conseguir . Steve. Era estranho ela não ter percebido antes, mas era claro agora, que Steve e se conheceram em circunstâncias de desentendimento, e era óbvio que eles preferiam manter aquela relação em segredo. Ela notara o ressentimento latente na breve conversa que eles tiveram quando ele a trouxera em casa. Então, para conseguir alguma vantagem sobre a cortesã ela preciva de informações, de preferência informações bem comprometedoras que dessem a Jane algum poder de persuasão sobre . Com a ajuda da cortesã seria muito simples trazer para ela, uma vez que o cavalheiro parecia enfeitiçado por ela, assim como qualquer homem que colocava os olhos na mulher. Por isso, aquela noite era muito especial. Jane havia marcado um encontro com Steve. Encontro esse que marcaria o pontapé inicial do seu plano de conquista de Del Duffled.
Ás 21 horas em ponto, Jane estava na entrada da taverna onde tinha marcado o encontro. O lugar estava imundo como ela se lembrava, mas hoje parecia o melhor lugar no mundo. Ela espiou a entrada do estabelecimento e o viu de primeira. Sentado no bar, a figura atracada do sujeito se debruçava sobre uma generosa caneca de cerveja. Jane sorriu. De repente ele pareceu uma presa fácil demais... Jane passou as mãos pela saia do vestido mais uma vez, para ter certeza de que estava perfeita, e fez a sua entrada.
Ela nunca tinha chamado muita atenção dos homens, por isso, quando os olhares masculinos da taverna se voltaram para ela (mais especificamente para o decote quase indecente dela), Jane sentiu as borboletas se multiplicarem prazerosamente em seu estômago. Steve, inclusive, parecia engasgado com o rum, e a despia com o olhar sem nenhum pudor.
- Boa noite, Srta. Pottie – ele disse com a voz repleta de malícia – É um prazer te ver novamente.
Jane deu um sorriso fechado sugestivo, enquanto ele não parecia ser capaz de encará-la sem desviar o olhar para o seu decote. Estava tudo dentro do arquitetado. Como era incrível o poder da sedução... Ela entendia por que a patroa não se importava com o que a sociedade dizia dela. O poder que vinha junto com a sedução, de controle da situação, era muito tentador.
- Boa noite, meu senhor. Fico muito feliz que tenha aceitado vir esta noite – Jane respondeu se sentando ao lado dele.
- O prazer é todo meu, Srta. Posso pagar-lhe uma bebida? – Steve sorriu, os dentes tortos fazendo a expressão se parecer mais com uma careta do que com qualquer outra coisa.
- Eu ficaria encantada...
A noite se passou como Jane tinha planejado. O serviçal estava suficientemente embriagado e ela completamente sóbria. Ele tinha lhe pagado várias bebidas, mas ela sempre enchia o copo dele com a sua própria bebida quando ele não estava prestando atenção, e quanto mais bêbado ele ficava, mais fácil seria de tirar informações dele. Quando a taverna estava fechando, Steve já tinha deixado suas intenções claras, tocando Jane de todas as formas aceitáveis em público, e naquele momento tudo o que ela precisava fazer era esperar pelo convite que era certo.
- Srta. Pottie.... – Steve começou, a voz pastosa de álcool – Você não quer me acompanhar?
- Por que não, não é mesmo? Fomos interrompidos da outra vez, temos alguns assuntos para terminar – Jane respondeu manhosamente, arrancando outro sorriso-careta de Steve.
Após uma viagem curta e quase desastrosa de cavalo, eles chegaram à mansão Rutherford. A ansiedade de Jane era crescente, e Steve estava quase a possuindo ali mesmo. Silenciosamente, eles entraram no opulento casarão pela portas dos fundos, após terem deixado o cavalo emprestado no estábulo. Steve a beijava como se a vida dele dependesse daquilo, o hálito grosso de álcool, e a libido megalomaníaca. Jane tinha cada movimento calculado. Não cederia demais, mas manteria o jogo para que ele se interessasse. Se ela tinha feito tudo corretamente, ele estava tão embriagado que não conseguiria se lembrar da conversa que teriam no dia seguinte. Quando eles chegaram aos aposentos de Steve, Jane não pôde deixar de notar que ele tinha mais do que um simples quarto de serviçal, e que os aposentos eram maiores até do que seriam os de um mordomo. O quarto espaçoso tinha uma sala de banho própria, e uma cama grande, de aparência confortável. A mobília era simples, mas estava tudo lá: escrivaninha, guarda roupas, criado mudo. Se tornou claro para Jane que ele tinha uma posição relativamente boa dentro daquela casa. Fez esta anotação mental, intuindo que poderia lhe ser útil no futuro, e prosseguiu com os seus planos.
- Steve – ela chamou com a voz suave – eu queria saber de algo antes de continuarmos.
Steve levantou a cabeça de seu pescoço para dizer molemente:
- O que você quiser, minha rainha....
- Você já foi cliente da minha patroa? – ela começou na fingida inocência
Steve olhou para ela como se fosse ela quem estava completamente embriagada. De fato, era uma das mulheres mais bonitas que ele já tinha visto, mas por algum motivo ele nunca tinha pensado nela desta maneira. A hostilidade entre os dois era tão pura e aguçada, que não havia espaço para nenhuma tensão sexual entre os dois. E, além disso, embora ele detestasse admitir, ele duvidava que teria dinheiro suficiente para pagar uma noite com a cortesã.
- Não – ele balbuciou – Por que a pergunta, minha linda?
- Vocês pareciam se conhecer aquele dia quando você me levou em casa... – ela continuou enquanto dava leves beijos no pescoço dele.
- Ah, sim, eu a conheço a muito tempo. Ela trabalhava aqui... – Steve murmurou em resposta, enquanto puxava apressadamente a corda de seu espartilho.
Jane se afastou estrategicamente, e empurrou Steve na cama. Apesar da afobação, ele estava apresentando sinais de sonolência. Exatamente o estado que ela precisava...
- É mesmo? Nossa, mas eu pensei que ela sempre tivesse sido...Bem você sabe. – Jane continuou acariciando o tórax dele vagarosamente.
- Não. Mas ela sempre esteve destinada a ser, assim como a biscate da mãe dela – ele respondeu, com a raiva transparecendo na voz.
Jane percebera que tinha tocado num ponto sensível. Steve estava completamente sonolento, e para a alegria dela, não conseguiria “terminar” o que tinha começado. Como ele não lembraria de nada, ela poderia fingir que tinha acontecido, de fato, algo entre eles e assim manter aquela fonte que tinha se revelado mais preciosa do que ela imaginava. Por esse motivo ela continuou acariciando de leve o tórax dele, e despejou beijos por todo o seu pescoço enquanto os dois deitavam. Como era de se esperar, depois de alguns minutos de amassos confusos, ele já tinha caído no sono. Jane se deitou do lado dele sorrindo. Se em uma noite ela tinha conseguido tanta coisa, imagina se ela continuasse... O que com toda a certeza ela iria fazer...

Estava feito. era, agora um homem comprometido. Pedira a mão de Lauren na festa, mediante todas as formalidades requisitadas. Ela ficara encantada com o anel que ele tinha mandado fazer para ela. Sua mãe tivera um breve momento de perplexidade quando notara que aquele não era o rubi dos Crawford, mas disfarçou sua reação com maestria. Aliás, pareciam que as mulheres eram educadas de forma a disfarçar cada um de seus sentimentos e reações. Especialmente aquela que ainda tirava seu sono e sua paz.não saia da memória de , por mais que ele tentasse, por mais que desejasse esquecê-la de uma vez por todas, ela o assombrava cada vez mais, não lhe dando um minuto de descanso, dormindo ou acordado. Jennings permeava tantos suas noites inquietas quanto seus dias monótonos. Ele não tinha notícias da cortesã há tempos, e suspeitava que ela não estava na cidade. Se lembrava que ela gostava de passar tempo em sua casa de campo, embora nunca tivesse estado lá com ela. fechou os olhos com força, tentando afugentar as imagens do sorriso dela que se misturava desconfortavelmente com as feições de sua noiva. Sua noiva.
Ele tinha que se aprontar para mais um encontro oficial com a noiva. Ele iria acompanhá-la em um jantar com sua família, e não tinha a menor vontade de fazê-lo. Ele sabia que Lauren merecia mais, era linda e perfeita para o papel de esposa e mãe de seus herdeiros, e, por mais que lhe fossem enfadonhas as obrigações de noivo que tinha assumido, ele as tentaria fazer da melhor forma possível.
Por isso, ele se revestiu de uma disposição que não possuía, se arrumou rapidamente com ajuda de seu mordomo, e foi buscar a noiva em sua casa. Lauren estava adorável como sempre. Vestia um lindo modelo amarelo claro, fluido e elegante, adornado com musselina branca, o que acentuava o ar angelical da dama. Quando viu seu noivo, ela deu um sorriso tímido, mas radiante, e corou fortemente com o beijo que ele depositara em sua mão, como uma senhorita recatada deveria reagir. Perfeita. Seus olhos azuis noite o examinaram com satisfação, e ele se sentiu mais leve. Ela realmente gostava dele, e estava disposta a dividir uma vida com ele.
O jantar se passou normalmente, sem matar de tédio como ele esperava. Quando se juntou às damas na sala de chá, no entanto, ele foi atingido por algo que não esperava. Estava olhando distraído o belo sorriso de sua noiva, quando ouviu a menção a Ela. Não precisou de mais nada para que sua atenção fosse capturada de maneira inevitável.
- Ela fisgou outro dos nossos – dizia venenosamente Lady Hamerson, conhecida fofoqueira das altas rodas – Lady Belle enfeitiçou Lorde Del Duffled dessa vez. O contador de meu marido disse que o cavalheiro a estava procurando como um louco...
As mulheres em volta riram conspiratoriamente. O sangue de subiu como mágica, e a idéia de alguém com era repulsiva e ele não tinha se dado tempo para pensar sobre o assunto. Claro que ela já devia estar com vários outros homens, e isso lhe parecia nojento também, no entanto, pressentia que o Del Duffled representava maior “perigo” do que os outros... Afinal, como ela mesma tinha colocado, eles eram amigos, e ela... Bem, ela sorria para ele o sorriso de , não de Lady Belle. Ele sabia a diferença tão bem que doía lembrar, e machucava ainda mais fundo a noção de que aquele sorriso era dado à outra pessoa que não ele. Lauren encarava suas mudanças de cor atentamente. À primeira menção daquela prostituta ele tinha ficado branco como a morte, e depois vermelho vivo, e naquele momento apresentava feições de quem poderia cometer um homicídio naquele exato momento. Lauren se enfureceu. Aquela mulher mexia profundamente com seu noivo, ainda que todos dissessem a ela que eles tinham parado de se encontrar antes mesmo de ele ter começado a cortejá-la, mas ela sentia e sua intuição feminina raramente falhava. Ela podia distinguir o forte vínculo que ele alimentava com a bloody prostitute, estava nos olhos do noivo, e ele não podia esconder. Era claro que Lauren lembrava a maldita cortesã de alguma maneira, e ela sabia disso por que algumas vezes, enquanto eles conversavam, ou dançavam ele a olhava diferente, o que geralmente era um olhar de branda admiração se tornava por um segundo ou dois a mais total devoção, e depois ele voltava a polidez anterior. A natureza pacífica de Lauren não a permitia reagir como gostaria frente àquela ameaça que a rapariga representava, mas a demonstração pública de afetação de seu noivo era demais para se aturar calada.
- Está tudo bem, milorde? – ela se aproximou e perguntou suavemente
- Sim?.. Oh, sim está tudo bem, minha querida. – respondeu, saindo do transe
- Parece que milorde viu um fantasma ou algo parecido – ela insistiu, como que para desafiá-lo a comentar a fofoca de Lady Hamerson.
- Deve ser impressão sua, minha cara. – ele disse, ainda distraído – Eu gostaria de partir, se a Srta não se importar...
- Eu também estou cansada. Acho que será bom nos retirarmos... – Lauren replicou contrariada.
Eles se despediram dos anfitriões, e foram para a carruagem de em silêncio. sentia uma agitação incomum na noiva e sabia que tinha demonstrado sua perturbação com a fofoca que tinha escutado sobre . Ele tinha que ser mais cuidadoso, afinal, Lauren não podia ser machucada naquela história trágica. Ele tinha que arrumar uma forma de não deixar que aquilo a atingisse. Ele estava divagando sobre o assunto quando foi pego de surpresa. Lauren o puxou levemente pela lapela da casaca e o beijou. Era um beijo tímido, um mero encontro de lábios, era claro que ela não sabia o que estava fazendo. E nem poderia saber. Uma dama de respeito como ela não se daria ao desfrute antes do casamento.
Suavemente retribuiu o beijo, acariciando levemente os lábios dela, enquanto entrelaçava seus dedos nos dela. Seria muito frustrante se ele se afastasse daquela iniciativa dela, e se eles fossem passar o resto da vida juntos, ele teria que aprender a apreciar os momentos íntimos entre eles.
Se Lauren soubesse que seria tão incrível, ela teria tentado a manobra antes. A havia envolvido delicadamente, e algo se aquecia no âmago dela. Instintivamente ela abriu os lábios, dando passagem para a língua dele, que passou a dançar com a dele numa sincronia que ela não sabia que conhecia. As mãos dele afagavam as suas, num carinho irresistível. Em questão de segundos ela sentiu o coração palpitante, e a respiração ofegante. Era maravilhoso, magnífico e....Eles chegaram em sua casa. se afastou com cuidado, exibindo um sorriso fechado. Lauren nunca percebia que o sorriso de não chegava aos olhos dele. Ela estava extasiada demais para perceber o quê de resignação que seu noivo exibia.
- Boa noite, Lauren – ele disse, a chamando pela primeira vez pelo primeiro nome, e lhe dando um beijo na mão.
- Boa noite – ela respondeu, desacreditada que sua voz ainda existia.
Lauren saiu da carruagem ajudada pelo cocheiro. se viu sozinho no veículo e sentiu o seu disfarce cair imediatamente. O seu coração, que mal tinha uma cicatriz completa, começou a sangrar de novo. Ele sabia. Simplesmente sabia que estava com o duque, e isso o irritava, e machucava e humilhava de tantas formas diferentes que ele não se sentia capaz de descrever. Como ele podia viver uma vida toda sob aquela tortura? Não seria capaz de amar Lauren. Respeitar, admirar, gostar, sim. Mas amar... Aquela sensação indescritível que tinha a mera lembrança de Lerie, ah, isso ele não poderia sentir por mais ninguém. E estava cada vez mais difícil manter sua promessa de ficar afastado.
olhava . E a febre ia e voltava, com eventuais alucinações, e ele não podia agradecer mais por a ter encontrado, se não ele nem queria saber o que teria acontecido. Naquele momento ela estava tranqüila, embalada nos braços dele e ele não conseguia tirar os olhos dela. Mas seu olhar era de preocupação. Já era para a febre ter baixado, e não conhecia nenhum médico naquela região. Ele teria que levá-la para Londres, mas como? Supunha que haveria alguma maneira de alugar um coche naquela região, mas teria que esperar acordar, de qualquer forma, não poderia deixá-la sozinha enquanto estivesse inconsciente, ela poderia ir embora quando acordasse, ou passar mal sem ninguém para ajudar. Não. Ele teria que acorda-la, dar lhe algo para comer e sair para alugar um coche, afinal sua mãe sempre dizia que não era bom brincar com febre alta. Eles tinham que ir para Londres o mais rápido possível.
Lentamente, ele a acomodou na cama, e se debruçou sobre ela, murmurando seu nome docemente. Acariciou o seu rosto, todos os seus sentidos alertas para as descargas elétricas que insistiam em percorrer tudo o que tocava a pele dela, mesmo naquelas condições. Beijou a testa dela, enquanto a chamava um pouco mais alto, e ela abriu aqueles olhos incríveis para ele.
- ? – ela murmurou, quase sem voz – Eu estou sonhando? – Completou confusa.
Quando ela fez menção de se levantar, se apoiando nos braços e caiu de novo, parecia ter descartado a possibilidade de estar sonhando, pois ela acabou não tendo sucesso nos esforços, e ficou na mesma posição.
- O que aconteceu? O que raios você está fazendo aqui? – começou, após ter se lembrado de que estava em sua casa de campo, onde ninguém deveria encontrá-la.
estava tão feliz por vê-la acordada e com o humor ácido de sempre que nem se importou em apontar a óbvia ingratidão dela. Ele a abraçou, sem conseguir ser suficiente delicado, o que arrancou um pequeno gemido dela, ao ouvi-la afrouxou o aperto, mas não soltou. Parecia difícil manter qualquer distância naquele momento.
- ! – praguejou tentando se desvencilhar do abraço – Ei, eu posso saber o que está acontecendo aqui? – e num lapso de memória, ela gritou do jeito que pôde – Harmony? Onde está ela? Ela está bem?
Certo. Ela estava lá, com mais ou menos uns 40 graus de febre, mal conseguindo falar ou se mexer. Provavelmente com uma pneumonia daquelas, e a primeira coisa que ela se lembrava de perguntar era sobre a égua que tinha causado tudo aquilo? Lady Belle era realmente uma mulher estranha. E fascinante.
- A égua está perfeitamente bem, no estábulo – começou – O mesmo não pode ser dito de você, ... Está com febre desde ontem, e sua garganta claramente não está bem.
respirou com alívio por um momento antes de responder:
- Sobre isso. Você ainda não me explicou, meu caro senhor. O que raios está fazendo aqui? – ela replicou irritada, ignorando o alerta de sobre seu estado de saúde.
-Você sabe como são as coisas, minha cara senhorita... Eu estava passeando pela região e resolvi procurar uma donzela em perigo para salvar. E te encontrei. Não que você faça o tipo donzela em perigo, mas é o que havia para mim ontem. – ironizou, e viu esboçar um sorriso.
- Muito engraçado, . Agora me fale, como conseguiu me encontrar? – respondeu, mais descontraída.
E mais consciente da proximidade entre os dois, e do magnetismo que aquilo representava. Será que nem mesmo como uma moribunda, que era o que ela estava se sentindo naquele momento com dores por todo o corpo, ela não poderia ser imune ao poder de sedução daquele cavalheiro? Mas a vida era uma mulher da vida, como ela, e não tinha coração, como ela não deveria ter também para tornar tudo mais fácil.
- Foi simples. Você resolveu sumir da minha vida, eu não aceitei esse absurdo sem tamanho, e usei os meus contatos para conseguir o endereço do seu recanto. Agora você já pode me agradecer por ter te tirado da chuva, cuidado de você, enfim, basicamente por ter salvado sua vida... – respondeu sorrindo abertamente.
Ela estava emburrada sobre alguma coisa, mas a eletricidade entre eles estava ainda mais forte agora que ela finalmente estava acordada. Os olhos multicoloridos estavam focados em algo muito interessante na parede atrás dele. Ó, céus, estava envergonhada! Ele teria soltado uma gargalhada se não temesse por sua vida. Não achava que podia subestimar , ainda que ela mal conseguisse se levantar da cama. Ao invés de tentar provocar a fúria no anjo emburrado, ele completou:
- Tudo bem, Srta., podemos acertar essa conta mais tarde. Só que você realmente está doente. Será que pode agir racionalmente e me deixar levá-la para Londres, onde a civilização habita?
lançou um olhar mortal para ele. Elas não precisava de cuidados, nunca tinha precisado. Ela queria enterrar a cabeça no buraco mais próximo, por que não podia suportar a idéia de que tinha bancado a mocinha em perigo. Foi muita estupidez ter ido tão longe num dia que não estava nem um pouco claro. Essa estupidez estava custando muito caro. Embora seus hormônios não parecessem perceber que ela estava doente, o resto de seu corpo parecia bem consciente da situação. Tudo doía, e as dores de ter passado tanto tempo deitada e de provavelmente estar com uma gripe forte se misturavam, transformando a posição em que se encontrava quase intolerável. Mas mais do que tudo aquilo, ela se sentia exposta ao máximo com Del Duffled em seu quarto cuidando dela. Ó, ela não conseguia exprimir nem para si mesma em quantos níveis aquilo estava errado. Primeiro, ele não deveria saber da existência daquele lugar, segundo, todas as fibras do ser dela estavam gritando de alegria em vê-lo enquanto aquela parte chata do seu cérebro entrava em um colapso nervoso, terceiro, ele a estava vendo completamente arruinada. Imaginava como ela deveria parecer após uma chuva torrencial e...
- Espere um minuto aí – ela falou, mal controlando a raiva contida nas palavras dela, anunciava o que estava por vir – Você tirou minha roupa?
Sim, ela estava sendo irracional. Sim, pelo menos metade dos cavalheiros da aristocracia da Inglaterra já tinha feito o mesmo, e por motivos muito menos nobres. Mas a idéia de que ele a viu nua, e ela nem estava consciente para presenciar tal fato, fazia seu estômago revirar de frustração.
- Você esperava que eu assistisse você morrer de frio? Não faça um grande caso disso, por favor. Temos um problema muito mais sério aqui, Temos que cuidar de você. – tentou colocar alguma racionalidade de volta naquela conversa sem sentido – Agora, eu esquentei água para você se banhar, se conseguir. Eu vou tentar arranjar um coche para irmos para Londres ainda hoje.
- Oh, , eu positivamente vou te matar quando estiver em condições para isso. Eu não preciso que você tome conta de mim. – ela respirou fundo, algo que não deveria ter sido tão doloroso para o seu diafragma e continuou – Mas eu vou aceitar a carona para Londres, não vou conseguir ir cavalgando, de qualquer maneira.
Ela parou, e, finalmente olhou para ele com a atenção que ele merecia, e oh, ele estava realmente muito lindo. Não que isso fosse uma novidade, mas ele estava assim, meio desalinhado, com a camisa de linho aberta até quase a metade, exibindo um pedaço do que ela considerava ser a maior tentação já conhecida pela humanidade. Ela se viu molhando os lábios instintivamente, e nem percebeu que ele tinha visto.
Ela está doente, está doente e precisa ficar bem, não precisa de você querendo devorá-la agora mesmo, repetia para si mesmo. Mas não era uma tarefa fácil se impedir de atender os pedidos mudos que os olhos dela faziam. E autocontrole não era uma das maiores qualidades de Dan, então ele resolveu sabiamente que seria melhor fazer o que tinha dito, e procurar um coche para irem a Londres o mais rápido possível. Com essa convicção ele desviou o olhar com alguma dificuldade e pegou sua mão num beijo delicado, marcando a fogo a pele dela:
- Agora eu vou enquanto você tenta se arrumar. Eu te ajudo quando eu voltar, tudo bem? – ele disse se levantando.
- Tudo bem – murmurou em resposta.
demorou um pouco para encontrar algum vestígio de civilização por ali, mas acabou tendo sucesso. Achou uma hospedagem que alugava coches em condições deploráveis, mas que pareciam seguros. Seria muito engraçado que alguém visse um duque saindo daquele negócio velho. Não que ele se importasse minimamente com aquilo. Após pagar uma quantia abusiva por aquela velharia, e se certificar que o cocheiro estaria na casa de a tempo, ele voltou, mais rápido do que o que seria sensato, para verificar se tudo continuava bem com ela. Ele não tinha dado muita atenção para as suas mais recentes descobertas de sentimentos, e não achava que isso poderia ser feito tão rapidamente. Especialmente quando os dois tinham uma longa viagem juntos, lado a lado, numa carruagem pequena e precária.
Quando ele chegou novamente na casa, estava na sala, de pé, abatida e aparentemente esperando por ele. Ela usava um vestido rosa claro, muito simples que aderia às formas do seu corpo perfeitamente. Os cabelos, agora cuidados, caíam pelos seus ombros em ondas impressionantes, com aqueles reflexos avermelhados no tom de avelã. Ela estava positivamente testando a capacidade de de se controlar perto dela. Ela não tinha a menor misericórdia dele, e até o seu nariz avermelhado da provável gripe, era adorável aos olhos dele.
- Vejo que você se virou muito bem sem a ajuda de um cavalheiro sem jeito – brincou, tentando quebrar a atmosfera tensa do ambiente.
sorriu timidamente, e se aproximou um passo dele, o magnetismo exercendo poder sobre ela sem piedade.
- Eu sempre me cuidei sozinha. É só uma gripe mais forte – ela explicou – Você conseguiu uma carruagem para nós?
- Claro que sim, . Você está falando com um duque – ele ironizou novamente – Sim eu consegui uma madeira velha que eu espero que seja capaz de nos levar até Londres sem nos matar antes...
sorriu mais abertamente, e deu mais um passo na direção dela, tornando a distância entre os dois menor do que 30 cm, a eletricidade voltando a fazer presença no ambiente. fez menção de tocá-la no rosto, mas hesitou. Não seria capaz de parar por ali, isso era bem certo. Então a melhor coisa a fazer era não praticar mais masoquismo do que ele deveria.
- Se você não se importa eu vou tomar um banho rápido antes de irmos. A carruagem deve estar aqui em meia hora – ele disse e subiu as escadas para o quarto.
O coche chegou no tempo previsto, o que aumentou ligeiramente a confiança de de que chegariam vivos na cidade. Depois de embarcar toda a bagagem de , eles se acomodaram, tomando o cuidado de não se tocarem. Mas era um esforço inútil, pois a cada irregularidade do solo a carruagem balançava de forma a pressionar levemente os corpos, criando um contato físico quase insuportável de tão insuficiente. parecia exausta, e depois de pouco tempo de viagem adormeceu. Como seria fácil de se prever no caso de , em uma das balançadas da carruagem, a cortesã caiu em seu peito adormecida. E ele não podia fazer nada, a não ser aninhá-la lá e acariciar o seu cabelo, certo? Pelo menos é o que ele dizia para si mesmo.
Depois da viagem mais torturante e satisfatória que já tinha tido na vida, eles chegaram finalmente à cidade. E ele a deixaria em casa, sob os cuidados de sua dama de companhia, e ela ficaria bem. Era uma pena que ele não estivesse muito animado com a perspectiva de acordá-la e ter que soltá-la e não poder ficar com ela depois.
- Chegamos ao endereço que milorde me deu – o cocheiro falou com um marcante sotaque escocês
- Muito obrigada meu senhor. Vou deixar a dama descansar um pouco mais enquanto desembarcamos a bagagem, sim?
a acomodou com cuidado do banco da carruagem , e saiu para ajudar o cocheiro. Assim que colocou os pés no chão, se viu em frente da última pessoa que queria ver naquele momento.
- O que o traz aqui, Del Duffled? – Crawford perguntou, a fúria personificada inserida em cada palavra.

Continua...


Nota da Autora (30.11.2012): Finalmente!!!! Gente do céu, eu acho que eu nunca tive uma crise criativa tão tensa na minha vida. Foi difícil fazer esse capítulo sair e ele não tem muito amor... Desculpa por isso, pessoal, mas é que eu tinha que dar um gás no que vocês podem considerar uma problemática muito importante nessa história maluca. Sério. E podem ficar tranqüilas que a cortesã vai sarar rapidamente ahahahahahahaha. Agora o caso é, o conde está mesmo noivo gente, mas parece que ele não vai desistir assim tão fácil da cortesã, não é mesmo? Se preparem para o próximo capítulo que é muito importante para história, embora não tenha muito mais amor do que esse. Só que é o seguinte, eu juro mesmo que vou tentar fazer uma att dupla com o capítulo 8 e 9 por que GENTEM o 9 vai ser tenso demáz. Todas na expectativa por que eu já tenho o 8 pela metade e o 9 planejado, então pode ser que eu consiga finalmente fazer uma att dupla =D Ainda mais agora que eu estou de férias. Muito importante comentar aqui o seguinte fato: TIVEMOS SÉCSO DELENA TODAS CHORA DE EMOÇÃO. Sóri mundo, sóri Stelenas, mas foi hot e todas ama. Desculpa a tietagem gente.
Eu guardei todos os seus comentários lindos maravilhosos e perfeitos em pdf, só que aí meu PC me trollou e eu perdi o HD =(. Então estou em depressão e não posso responder os da última att. Eu responderia os novos, mas vou esperar para responder depois dessa att, para ser justa com as outras meninas.
GENTE! fizemos (eu e a linda da Jú), uma página no fb para o meu bebê! Lá eu posto spoilers e notícias sobre a minha vida ou morte. E uma ou duas besteiras, nada que vá amolar a timeline de ninguém, então se alguém tiver interesse curte aqui ó: http://www.facebook.com/ACortesaFanfic?ref=hl
Bem é isso. Quem quiser falar com a doida aqui, é só mandar um email para crmarques_@hotmail.com.
Beijos e cheiros, lindezas!

Nota da Beta: Caso encontre algum erro, não use a caixa de comentários, entre em contato comigo pelo twitter ou por e-mail. Quer saber quando essa fic vai atualizar? Fique de olho aqui.

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