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Capítulo 1


Meu despertador tocou naquela manhã chuvosa em Londres, eram seis e meia da manhã e tive que acordar. Não havia dormido nada aquela noite como em todas as outras nos últimos três meses. Lizzie teria que fazer um ótimo trabalho para esconder as olheiras roxas embaixo de meus olhos. Mas ela estava acostumada, certo? Levantei-me e me dirigi ao banheiro, encarei-me no espelho e a imagem derrotista que estava comigo há três meses estava ali. Minha aparência era deplorável (novidade), mas eu estava me acostumando, na verdade, o mundo todo estava se acostumando comigo. Minha magreza excessiva era elogio para estilistas, fotógrafos e todos que trabalham no ramo da moda. Eu sou modelo há 7 anos, estou no ranking das 10 modelos mais lindas e bem pagas da Europa. Motivo de orgulho para qualquer garota, certo? Então por que eu não me orgulhava disso? Por que não me sentia viva? Eu estava sendo obrigada a sorrir, desfilar, tirar fotos e tudo o mais, eu não queria aquela vida. Não mais.

Tomei meu banho e em trinta minutos eu estava me vestindo. Coloquei a roupa e peguei um táxi, parei na Starbucks e comprei um café e me dirigi ao estúdio fotográfico. Eu era modelo, lembra? Quando cheguei, Mark, meu empresário e ficante nas horas vagas, veio ao meu encontro.

- Chegou na hora, o que deu em você? - ele me deu um beijo no rosto - Está bem, ?
- Só estou com sono. - Menti. Eu não estava bem, nunca estava bem. - Onde eu começo?
- Antes vamos conversar com a Donatella Versace que veio ao ensaio para ver você. Então sorria. - Ele disse e me guiou para uma sala ao lado do estúdio e Donatella estava lá. Quando me viu se levantou e me deu um abraço.
- Você é realmente linda, a cara da Versace. - Ela disse sorrindo - Escolhemos bem. .
- Obrigada, Donatella, mas não acho que tenho a cara de sua marca. Ela é bem melhor que eu, bem mais bonita que eu e vale muito mais que eu. - Ela deu uma risada, seguido por Mark que riu por educação.
- Não seja modesta, querida. Você nasceu para brilhar.
- A conversa está boa - Mark interrompeu - Mas tem que trabalhar, certo? Lizzie está te esperando junto com Paollo e com Victoria.

Entrei no camarim e Paollo estava escolhendo as roupas do ensaio, Lizzie estava arrumando as maquiagens e Victoria estava limpando as escovas de cabelo. Eles junto com Mark eram minha equipe pessoal. Em desfiles, fotos e afins, eu só trabalhava com eles (vantagem de ser uma modelo rica, famosa e bem paga). Paollo era um homem baixinho, careca, que usava óculos e tinha uma barbicha rala e fininha. Lizzie sempre andava com os cabelos presos e era um pouco menor que eu e Victoria era alta (tinha o meu tamanho) usava umas roupas malucas e tinha o cabelo vermelho em um corte channel. Era uma das minhas melhores amigas.

- Bom dia - eu disse para eles e Lizzie indicou a cadeia à frente dele.
- Bom dia - eles disseram em uníssono, eu retirei meus óculos e Lizzie disse exasperada - O que houve com você? Você está péssima!
- Não dormi direito. - eu disse e os três me olharam, essa desculpa eu usava desde que... bem, faz um tempo.
- Já escolhi sua roupa. - Paollo disse - depois que você se maquiar e arrumar o cabelo, vista-se, tudo bem?
- Sim, Paollo. Como foi a noite de ontem? - eu perguntei. Os três haviam ido a um pub no centro de Londres, nós morávamos aqui, mas viajávamos o tempo todo, então estar em Londres uma semana era motivo de festa.
- Foi perfeita, Victoria dançou até o chão e eu fiquei com um bofe maravilhoso! - ele disse entusiasmado, nos fazendo rir. Não contei? Ele era gay. - Você deveria ter ido, , foi muito legal, o pub estava lotado!
- Eu estava cansada, mas fico feliz por vocês. - eu disse deixando Lizzie me maquiar. Enquanto estava esperando meu celular vibrou e era uma mensagem de Victoria. Estranhei.

Você vive cansada, o que está acontecendo? Estou preocupada com você. xoxo =*

Ela estava percebendo o meu cansaço excessivo, provavelmente depois dessa sessão eu estaria muito mais cansada, mas teria que ir para a agência para acertar tudo, pegar meu cachê, ajudar as outras meninas novas e saber se eu poderia ficar em Londres por mais uns dias. Pensei um pouco o que eu diria para Victoria, eu não poderia me entregar e admitir que tinha problemas.

Trabalhando demais. Só isso, não se preocupe comigo. Estou bem.

Quando Lizzie terminou de fazer minha maquiagem, Victoria assumiu e começou a fazer meu cabelo com um olhar preocupado para mim, eu apenas sorri e não disse nada, não queria perguntas. Quando terminei, Paollo havia deixado as roupas que eu usaria para a locação interna(a que seria agora),porque ainda teria as fotos externas, mas estavam marcadas para outro dia, devido a chuva de hoje.

O ensaio ocorreu naturalmente, eu tirei as fotos sob a supervisão de Mark e Donatella que me olhava concentrada e quando terminou o ensaio eram quase 14:00. Eu havia chegado no estúdio às sete e quinze e saí de lá ás 14:00. Meu estômago roncou alto, eu estava sem comer. No final, Mark me chamou para conversar com Donatella.

- Você estava esplêndida! - ele disse e deu um beijo estalado em minha bochecha - Essa é minha garota!
- Parabéns, , fiz um bom negócio a escolhendo como garota propaganda.
- Imagina, Donatella, eu que fico feliz e realizada por você ter me escolhido como garota Versace - eu dei um sorriso - Com licença, preciso me trocar.

Fui ao camarim, coloquei minha roupa e Lizzie tirou minha maquiagem, abri minha bolsa e peguei um cigarro. Eu não contei? Quando não me sinto mal, fumo um cigarro para me acalmar. Victoria me olhou um pouco brava, ela não aprovava esse meu ato e por isso eu não fumava perto dela. Como não tinha acendido o cigarro, o devolvi ao maço e o coloquei de volta em minha bolsa. Quando tudo estava terminado eu me levantei e estava caminhando para a porta quando senti alguém puxando meu braço. Era Victoria.

- , o que está acontecendo com você?
- Nada, Victoria, eu só estou cansada. - eu disse tentando esconder tudo. - Por quê?
- Vamos almoçar juntas? Precisamos conversar. Por favor, querida.
- Ok, vamos.
Pegamos um táxi e no caminho não conversamos muito, eu tentava imaginar o que ela iria dizer e Victoria apenas observava o movimento na rua. Quando chegamos ao restaurante, sentamos em uma mesa na frente da janela que se via a rua. O restaurante era italiano e o cheiro de comida aumentou minha fome três vezes mais. Fizemos os pedidos e Victoria me encarou.
- E então - ela disse - o que está acontecendo com você?
- Eu já disse que estou bem, Victoria.
- Você acha que me engana? Eu estou notando isso em você, você está desse jeito desde setembro e já estamos em novembro! Você não é assim! O que está acontecendo?
- Victoria... - eu precisava de uma desculpa muito boa, ela me conhecia muito bem. - Eu estou trabalhando demais. Estou exausta.
- Então por que você não pede umas férias?
- Porque eu iria fazer muita gente perder dinheiro e estamos na temporada de ganhar dinheiro, coleções novas e tudo! Essa época é ótima para conseguir dinheiro, que por sinal pagam as suas contas também. - Eu disse um pouco brava, Victoria se retraiu. - Desculpa, eu peguei pesado.
- Pois é, pegou mesmo. - Nesse momento o garçom trouxe nossos pratos. Nem esperei e dei uma garfada no macarrão a minha frente. - Nossa, você estava com fome mesmo! Mas o que eu estou dizendo é que a festeira, divertida, animada sumiu. E eu quero minha melhor amiga de volta! Por que você não conversa com o Mark e pede umas férias depois que acabar essa temporada? Aí quem sabe você viaja com ele? - ela deu um sorriso sacana. - Todo mundo está cansado de saber que ele é louco por você! E ele não é de se jogar fora.
- A questão é que eu não gosto dele. - Eu parei de comer para falar - Ele é bonito e tudo, mas não tem conteúdo, sabe? Ele é meu empresário, não quero misturar as coisas entre nós.
- Mas você já ficou com ele, não já? Por que você não tenta de novo?
- Porque ele é bom pra isso. Só para umas ficadas e nada mais. - Eu levei uma garfada a boca e quando terminei de mastigar eu terminei de falar - E você sabe muito bem que estou melhor sozinha.

Coloquei fim no assunto e Victoria percebeu o meu incomôdo. Ela sabia que Mark era uma boa pessoa, mas que não era pra mim. Ela sabia por quem eu era e sempre fui apaixonada e lembrar dele ainda dóia. Ele jamais iria me perdoar. Por um momento todas as lembranças e emoções que eu senti por ele voltaram e eu pude sentir cada uma. Eu não queria lembrar, mas foi inevitável lembrar o nome dele. .

Despedi-me de Victoria e a vi pegar um táxi, quando vi o carro virar a esquina, abri minha bolsa e peguei meu cigarro. Se minha mãe soubesse que eu fumava ela teria um infarto. Fazia tempo que eu não falava com ela, nem com meu pai, ela nunca reclamou de nada desde que a pensão não atrasasse. Ela morava em Leeds, junto com todas as minhas lembranças. Quando acendi o segundo cigarro, meus olhos já estavam mareados, dei uma tragada longa, apaguei o cigarro, joguei-o no lixo e engoli o choro. Chamei um táxi e rumei para meu apartamento.

Pela janela do táxi vi meu prédio e sorri com a imagem. Eu o havia escolhido porque era ecológico e havia apenas 8 andares. Eu morava na cobertura, tive que trabalhar muito (provavelmente todo o meu dinheiro desses 7 anos trabalhando havia sido usado para comprar meu apartamento), mas tudo valeu a pena e hoje tenho minha casa.

Abri a porta e me deparei com a minha sala aconchegante, eu havia escolhido a dedo cada objeto. Esse apartamento era meu orgulho, meu refúgio de todos os problemas. Dirigi-me ao meu quarto e joguei-me em minha cama. O sorriso de estava em minha mente, a voz dele, por mais distante que estivesse, eu ainda ouvia e junto com ele todos os fantasmas do meu passado rondavam minha mente e me atormentavam. Eu havia conquistado tudo, mas o maior bem que eu poderia ter, o amor, eu não tinha. Levantei-me e tirei minha roupa com raiva e me olhei no espelho, lágrimas banhavam meu rosto cansado e aflito. Eu precisava de um alívio, eu não aguentava mais e uma solução veio em minha cabeça. Eu estava usando esse recurso há três meses, desde que soube que meu pai havia sofrido um ataque cardíaco e eu não poderia ajudá-lo, desde que comecei a me sentir totalmente sozinha nesse mundo. Desde que encontrei na comida um "escape". Entrei em meu banheiro e levantei a tampa do vaso sanitário. Ajoelhei-me na frente dela. E você sabe o que eu fazia há três meses, depois que comia muito, tentando escapar dos meus fantasmas, mas como sou modelo tinha que ter um corpo perfeito. Coloquei o dedo dentro da minha boca e forcei o vômito. Todo o meu almoço eu senti voltando pela minha boca, meus olhos lacrimejavam e eu fitei o vaso sanitário. Todo o meu almoço estava ali. Dei descarga, levantei-me e lavei meu rosto e escovei os dentes. E me senti aliviada, totalmente aliviada. Era errado, mas depois que eu forçava o vômito, me sentia bem provisoriamente. Deitei em minha cama, esperando a leve tontura passar. Essa era a minha rotina há três meses. Comer muito e vomitar depois. Eu estava bulêmica e ninguém sabia.

Capítulo 2


(Coloque pra carregar)

Eu ainda estava tonta e me recuperava da minha "rotina" quando ouvi a campainha tocar. Com um pouco de dificuldade eu levantei da cama e caminhei até a porta, espiei pelo olho mágico e Mark estava parado lá. Ele não era desagradável, pelo contrário, era uma ótima pessoa, mas tinha o dom de aparecer na hora errada. Eu ainda estava de lingerie, saí correndo, coloquei um short e uma camiseta larga e prendi meu cabelo. Respirei fundo e abri a porta.

- , por que demorou? - Ele perguntou sorrindo e entrando em minha casa.
- Eu fui colocar uma roupa. - eu disse sem prestar atenção. Eu o fitava, analisando minhas coisas. - Por que veio?
- Seria melhor ter aberto a porta do jeito que estava - ele me lançou um olhar malicioso, eu apenas o encarei. - Vim te buscar.
- Por quê? - eu disse para ele, ignorando o comentário anterior. Ele ás vezes me cansava. Ele me puxou pela cintura e me deu um selinho. - Mark?
- Você nunca olha sua agenda? - Ele cheirou meu pescoço e tudo aquilo me incomodava - Temos que resolver os assuntos para o desfile da Victoria's Secrets. Você vai desfilar. Eu estou com saudades de você. - Ele disse tentando me beijar, mas eu me esquivei, eu tinha acabado de vomitar, queria ficar sozinha. - O que foi? Vamos recordar os velhos tempos.
- Mark, eu não estou afim. Estou cansada. Me solta. - Eu disse e ele me olhou nos olhos. Ele era lindo, seria o namorado perfeito se eu tivesse consciência.
- É isso mesmo? Honey, eu estou começando a me preocupar com você. Você está pálida. Almoçou? - ele perguntou preocupado comigo e não pude deixar de sorrir.
- Eu almocei, mas eu já disse, estou cansada. Eu preciso mesmo ir? - Eu disse para ele, que riu e se sentou no sofá. Eu não gostava de rejeitá-lo, mas naquele momento a companhia de alguém era a última coisa que eu queria.
- Você precisa ir - ele disse ligando a televisão - afinal, vai saber se o seu empresário/agente não está te roubando? - ele brincou e eu ri - Vai se trocar que eu te espero aqui. Quer um chá?
- Eu quero. - ele se levantou e quando passou por mim eu segurei no braço e me aproximei dele, passei as mãos em volta do pescoço dele e o dei um longo selinho - Desculpa, mas é que estou cansada mesmo.
- Você está se preocupando com isso, ? Eu sinto sua falta, mas eu não sou um maníaco. Eu sei que está cansada, mas você sabe como é. Final de ano é sempre desse jeito. - Ele disse e me abraçou. - Precisamos de férias.
- Eu também queria falar com você sobre isso. Quando eu vou ter umas férias? - eu disse de um jeito suplicante e ele deu uma risada, jogando a cabeça para trás.
- Só deixa passar essa temporada, meu amor, e então nós vamos para o Caribe ou qualquer lugar que você quiser. - ele me deu um beijo longo e eu retribuí com todo o ânimo que eu tinha naquele momento (era muito pouco).
- Como você pode se importar comigo assim? Chega a ser assustador. - eu disse falando a verdade, mas ele entendeu como uma piada e riu novamente.
- Porque eu gosto de você. Já disse isso. - ele me fitou e dei um sorriso sem mostrar os dentes. - Vai se arrumar e daqui a pouco nós saímos. Vou fazer seu chá. - Ele me deu um selinho e foi indo para a cozinha. Quando ele estava quase entrando na cozinha eu dei um grito o chamando, ele se virou: - O que foi?
- Leva pra mim no quarto? - eu disse, fitando-o de um jeito que eu jurava ser malicioso. Ele respirou fundo e disse: - eu levo.

Nem sei por que eu disse aquilo. Talvez fosse por pena dele, ele estava sofrendo há muito tempo por causa de mim. Todo mundo sabia que ele gostava de mim e eu me sentia um lixo por não sentir o mesmo e retribuir o que ele sentia. Vocês podem me chamar de vadia, retardada, o que vocês quiserem, porque eu não tiro a sua razão. Eu sentia que de algum jeito eu tinha que compensá-lo por todo esse esforço que ele fazia por mim. E quando eu digo esforço, não falo só profissionalmente, ele teve que jogar o coração no lixo para me aguentar durante todo esse tempo. E talvez fosse também a falta que fazia. Eu precisava de alguém, o mundo todo achava que eu precisava de alguém e como não tinha mais ele, Mark era a segunda opção.

Depois que eu tomei um banho rápido, queria me livrar de toda a impureza que estava no corpo, mas também a sujeira da minha mente. Antes de sair do banheiro, eu dei uma espiada e Mark estava deitado na minha cama vendo televisão. Respirei fundo antes de abrir e saí do banheiro, caminhando pelo quarto até o closet, dei uma olhada em Mark e ele me olhava sem expressão, como se tivesse levado um susto ou algo assim. Eu apenas ri.

Eu olhei para Mark e disse com a voz mais sexy que eu tinha:
- Cadê meu chá, Mark?
- T-t-toma. - ele me entregou o chá e eu tomei um gole, fui caminhando até a beirada da cama e coloquei a xicara no criado-mudo. Mark ainda me olhava.
- Algum problema? - eu disse e dei uma risada safada, ele riu e se levantou e ficou em minha frente, agarrou minha cintura e me beijou. A língua dele brigava com a minha de um jeito quente, sensual, eu passava as mãos pelas costas e tirei o casaco dele. Ele deu um impulso e nos deitou na cama me deixando por baixo, ele segurou a toalha e ia puxar quando o celular vibrou no bolso da calça.

- O que foi? - ele disse bravo ainda em cima de mim e eu comecei a tentar atrapalhá-lo dando beijos no pescoço dele. - Nós já estamos indo, a está se arrumando.
- Quem é? - eu perguntei baixinho e ele disse: Da Victoria's Secret. Ele terminou e me olhou com um olhar triste - Terminamos outra hora. Eu preciso me trocar. Cinco minutos.
Eu o empurrei e saí para o closet, não sem antes eu ouvir ele reclamar baixo:Outra hora, outra hora.Dei uma risada e entrei no closet

Eu já havia vestido a roupa eu saí do closet pronta. Mark estava na sala, era de se esperar, eu me maquiei levemente e fui até a sala, pegando meu celular. Eu olhei Mark e o chamei, nós saímos e fomos para o local combinado. A reunião foi acertada e junto com Giselle, Isabelli, nós seríamos as principais modelos, ou seja, estaríamos no final. O desfile seria em New York, então eu teria que viajar para lá em uma semana. O cachê foi acertado e Mark aproveitou e dividiu a parte de toda a nossa equipe. Esse era outra coisa que eu gostava no Mark. Ele pensava nos outros, totalmente diferente de mim que só conseguia olhar meu umbigo, tanto que...deixa pra lá. Ele já havia dividido tudo, sabia o quanto cada um receberia. Ficou determinado que a prova da minha lingerie seria quinta-feira desta mesma semana. Durante a conversa serviram para mim várias taças de champagne, eu sou fraca pra bebida. Parei de contar na quinta taça. Saímos de lá quando já estava escurecendo.

- Vamos tomar um café, alguma coisa? - Mark disse e me abraçou de lado, eu me desvencilhei dele e ele me olhou. - O que foi?
- Se importa? - eu abri minha bolsa e peguei meu cigarro e acendi, dei uma tragada longa, soprei a fumaça no rosto dele e comecei a rir.
- Já disse que não pode fumar, isso vai acabar com você, você é modelo, seus dentes vão começar a amarelar e eu sou seu agente. Joga fora esse cigarro, . - ele disse bravo e eu dei mais uma tragada e soprei na cara dele de novo.
- Só até chegar no café, por favor, Mark - eu disse para ele, mas ele chegou até mim e tirou o cigarro, deu uma tragada, apagou o cigarro e jogou no lixo que tinha ali perto. - Mark Collins fuma agora? Meu Deus, como esse mundo é. - eu comecei a rir e chamei um táxi. Eu estava um pouquinho bêbada. Ele ainda me olhava surpreso. Quando o táxi chegou, eu olhei para trás e Mark ainda estava parado - Você não vem?
- Você é louca. Vamos pra sua casa. - ele disse pausadamente, entrando logo depois que eu entrei, eu apenas ri. Eu era muito fraca pra bebida. Quando chegamos a minha casa, eu tirei meus sapatos e Mark fechou a porta, fui até a cozinha e peguei duas shortnecks Heineken na geladeira. Abri as duas e entreguei uma para o Mark. Eu não sabia o que estava fazendo, mas lá dentro da agência eu senti vontade de beber, porque eu queria fazer as coisas sem ter consciência. Meu estômago estava vazio e eu estava bebendo muito, mas eu não me importava, de manhã eu não lembraria de nada. Eu queria esquecer, esquecer que eu era uma vadia sem coração, esquecer de , esquecer que eu estava sozinha. Mark estava ali. Era o que eu precisava: de Mark e bebida.

- Não vai beber? - eu perguntei enquanto me jogava no sofá e olhava para Mark.
- Você não está bem, quantas taças de champagne você bebeu? - ele perguntou, dando um gole em sua cerveja.
- Sei lá, talvez umas sete, oitos. Não importa - eu dei um gole da minha cerveja e levantei, ficando de frente para Mark. - O que importa é o que eu quero agora. E o que eu quero é você.

Eu coloquei a minha shortneck em cima da mesa e ataquei a boca de Mark com a minha, ele se assustou um pouco, mas retribuiu rápido, começou a passar a mão nas minhas costas enquanto eu acariciava sua nuca. Eu tomei impulso e passei as pernas ao redor de Mark, ele me deitou no sofá enquanto me beijava, começou a beijar meu pescoço e eu coloquei minha mão por dentro da camisa dela. Mark se arrepiou um pouco, porque minha mão estava gelada devido a cerveja. Eu levantei a camisa dele e ele a tirou, ficando com seu tórax a mostra, ele tirou a minha e foi descendo os beijos pelo meu toráx, parou perto da calça e me olhou.

- Você tem certeza? - ele disse para mim.
- E eu já tive dúvida alguma vez? - eu disse dando um sorriso sacana.
- É por isso que eu te amo. - ele disse abrindo os botões da minha calça e a puxando para baixo.

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Eu estava sentada na minha cama, olhando Mark dormir ao meu lado. Eu estava apenas com um roupão, porque tinha acabado de sair do banho, estava com uma xícara de chocolate quente na minha mão e chorando baixinho, porque estava com medo de Mark acordar. Como eu poderia ser tão cruel desse jeito? Ele me amava e eu o usava? Eu me sentia um lixo por estar agindo assim, eu não gostava dele, nem um pouco, eu o admirava por ser essa pessoa tão boa que ele era, mas amá-lo? Nem pensar. Como eu era uma vadia. Era isso que eu pensava. Eu tinha pena dele, muita pena, por ele estar sendo um brinquedo para mim.
Durante toda a noite, cada toque dele, cada investida dele, me lembrava apenas de uma coisa, ou melhor, de alguém: . Eu ainda o amava e muito, por isso eu me punia. Porque eu estava ficando com o Mark amando outra pessoa, eu nem sabia se Mark sabia disso (acho que sabia, mas me amava muito para levar isso em consideração), ele era bom demais para sofrer desse jeito, por isso havia tomado aquela decisão. Assim que ele acordasse, eu iria dizer tudo a ele, dizer que eu não sentia nada por ele, enfim, tudo. Saí dos meus devaneios quando ouvi Mark resmungar e coçar os olhos. Ele estava acordado.

- ? - ele disse e me olhou com aqueles olhos negros. - Já acordou?
- Já. Se quiser tomar um banho, eu deixei uma toalha no banheiro. - Eu disse sem o olhar, fitando a parede na minha frente.
- Aconteceu alguma coisa? - ele perguntou desconfiado e se sentou na minha cama. - Tá tudo bem, querida?
- Sim, eu só estou de ressaca - eu disse falando apenas um dos meus problemas. - Vai tomar um banho que eu preparo o café.
Eu disse e simplesmente levantei e saí da cama, indo para a cozinha, deixando um Mark confuso na minha cama.

Eu preparei panquecas com chocolate com chá pra ele e não fiz nada pra mim. Não queria comer, porque mesmo se eu comesse iria tudo para a descarga depois, então para não gastar comida continuei tomando meu chocolate quente. Sentei na cadeira e fiquei lá, bebericando meu chocolate até ouvir Mark chegar na cozinha, apenas com uma toalha enrolado no quadril, secando os cabelos com as mãos. Ele se aproximou de mim e me deu um selinho e se sentou.

- Algum problema? - ele perguntou para mim entre um gole de chá e outro.
- Termine de comer, Mark. - eu disse para ele, deixando subentendido que eu iria falar depois. Ele deu de ombros e começou a comer. Enquanto ele comia, eu apenas o observava e uma vontade de chorar apareceu, fazendo meus olhos arderem, eu me levantei e fiquei olhando a vista através da janela. Quando ele terminou de comer, ele me abraçou por trás e eu fechei os olhos, segurando as lágrimas.

- O que está acontecendo? - ele perguntou no meu ouvido e eu me virei para ele. Era difícil encará-lo assim tão próximo, mas eu tinha que começar de algum jeito.
- Mark, você sabe que eu gosto de você, não sabe? Sabe que eu te considero uma ótima pessoa, não sabe? - e eu não consegui segurar as lágrimas. Ele me abraçou e eu tentei me desvencilhar dele.
- O que foi, querida? - ele disse me encarando preocupado - Fala pra mim, não chora. - ele me abraçou, mas dessa vez eu não recuei.
- Você sabe, não sabe? - eu disse para ele, molhando todo o seu peitoral nu.
- Sei, sei, mas me conta o que foi.
- Mark. - eu dei uma pausa para parar de chorar e o encarei finalmente - Está sendo difícil eu te falar isso. Mas não dá. - eu me afastei dele e fui para a sala, sendo seguida por ele.
- O que não dá, meu anjo? - ele disse terno e isso me deixou com raiva. Ele não poderia me tratar assim tão bem.
- Para de ser tão bom comigo! Eu não mereço nem metade de todo esse carinho e preocupação que você tem comigo. - Eu disse chorando. Ele tentou vir até mim, mas eu estiquei as mãos para frente em um gesto para ele ficar longe. - Será que você não entende? Mark, eu não gosto de você, nunca amei você!
- Agora pegou pesado. - ele disse e se sentou no sofá. - Mas termine, eu te conheço, tem mais coisa pra falar. - Essa calma toda dele me irritou ainda mais. - Para de ser bonzinho! Grita comigo, faz alguma coisa! Não me deixa pior, reage! Mark, eu te fiz de um brinquedo. Eu não quero enganar você. Não mais. - eu disse entre as lágrimas e ele apenas me olhava com um olhar desapontado.
- É ele, não é? - ele disse pra mim, baixo como um sussurro, mas que eu ainda consegui ouvir. - O cara do seu passado, aquele que você ainda ama?
- O que tem ele? - eu disse sem querer me lembrar de .
- É por causa dele que você não sente nada por mim. Não é? - ele levantou e eu achei que ele iria gritar e vir para cima de mim, mas ele apenas ficou em minha frente. - É por causa dele que você não sente nada, ou melhor, sente algo que não te deixa viver. Olha, eu não vou gritar com você, brigar com você porque eu sempre soube. Eu sempre soube de tudo. Eu sei que você o ama, eu sei que você não sente nada por mim a não ser admiração e respeito.
- Sabe? - eu quase caí no chão de espanto. - Como você sabe?
- Porque toda vez que nós transamos você está bêbada e me chama de . - ele disse como se contasse que um copo quebrou.

Eu fiquei estática. Sabe quando você recebe aquela notícia trágica, mas por mais que falem, ela nunca chega ao cérebro? Pois é, eu estava daquele jeito. Eu sentei no sofá, perplexa e só um pensamento me veio a mente: Eu era uma idiota. Uma idiota total. Agora eu chorava e simplesmente não conseguia encarar o homem de cabelos e olhos escuros que estava parado na minha frente.

- Mark... - eu disse para ele e o fitei. - Eu não faço isso.
- Faz, mas você está muito bêbada para notar. - ele disse para mim.
- E por que você nunca disse nada? Por quê?
- Porque eu te amo. Te amo demais para levar isso em consideração, por isso engulo a porra dos meus sentimentos e aproveito a única chance que você me dá para chegar mais perto. - ele disse para mim e um balde de água fria caiu sobre minha cabeça.
- Mark, eu sinto muito. - eu comecei a chorar e o abracei, ele me abraçou de volta. - Me perdoe, por favor, eu sou um monstro! Me desculpa, me desculpa! - eu dizia entre soluços, ele apenas ouvia meu lamento e afagava meus cabelos.
- Para com isso, esse foi um preço que eu tive que pagar, mas já passou, ok? - ele disse para mim, mas eu vi que ele estava chateado - Fica calma. Estou feliz por você ter contado, eu já sabia, mas prefiro ouvir de você. Eu não vou perder meu emprego por isso, vou? - ele disse fazendo uma piada, me fazendo rir um pouco.
- Nunca. - eu dei um beijo na bochecha dele. - Esse emprego vai ser pra sempre seu, ouviu? Eu te proíbo de pedir demissão e me proíbo de te demitir. - eu disse e o abracei. - Me desculpa mesmo.
- Tudo bem, . Chega disso, vamos esquecer isso, ok? - ele dei um beijo na testa. - Bem, eu vou me trocar, não posso ficar desse jeito o dia todo, afinal alguém tem que trabalhar. - ele disse e saiu da sala, me deixando sozinha.

Era difícil assimilar todos os acontecimentos recentes, tudo o que Mark me disse ainda ecoava em meus ouvidos e eu me vi chorando mais uma vez. Eu deveria ter talento para machucar todos a minha volta. E sabe o que é pior? Com certeza estaria vivendo a vida dele, deveria estar com alguém agora e eu estava sozinha, espantando o único cara que poderia me amar como ele me amou. Mas talvez eu merecesse, talvez tudo isso fosse um castigo por ter sido tão egoísta no passado. Eu não merecia ser feliz, essa era a conclusão que eu chegara naquele dia, era isso. Eu não tinha ninguém (literalmente falando), minha vida era apenas de aparências, eu era doente e tudo estava desmoronando. Deixei meu corpo cair no sofá e fechei os olhos. Eu ainda chorava, então minha visão estava embaçada quando Mark ajoelhou em minha frente e disse:
- Vou desmarcar todos os nossos compromissos de hoje, ok? Nós dois precisamos de um tempo, qualquer coisa me liga, ok? Se cuida, honey. - ele deu um beijo em minha testa e saiu pela porta.

E então eu me permitir chorar, deixei que todo o choro acumulado tomasse forma, corri até a cozinha e peguei duas shortnecks de cerveja e vários doces e comecei a comer e a beber compulsivamente enquanto chorava. E bem, vocês já sabem o que viria a seguir.

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's POV

Ainda era difícil conviver com a falta dela, mesmo depois de sete anos, tudo naquele lugar me lembrava dela. Talvez esse tenha sido o motivo de eu não ter ido embora de Leeds, porque aqui ainda era o lugar dela, o lugar que eu tinha esperanças que ela voltaria. O porta-retrato ao lado da minha cama era uma foto nossa, tirada no dia que passamos no parque juntos. Sorri com a lembrança. O violão preto que ela havia me dado estava encostado no pé da minha cama. Ainda tinha a marca pequena que ela tinha deixado nele quando o derrubou no chão e nós brigamos porque ela era muito desastrada. Tudo naquele lugar me lembrava dela. Ela deveria estar muito bem, era famosa, era linda, tinha muito dinheiro, com certeza tinha um namorado rico e famoso. Totalmente o oposto do que eu era. Mas ela tinha que seguir o sonho dela, certo? Eu não era ninguém para impedi-la. Eu jamais poderia fazer isto, porque se fosse o meu sonho que estaria prestes a se realizar, ela não ficaria no caminho. Coloquei meus óculos de sol, espiei pela janela para ver a casa em que ela morava com os pais, ela era minha vizinha da frente. Sorri novamente, por mais que a dor ainda estivesse ali, as memórias felizes ainda faziam meu coração pular e eu ainda tinha a esperança estúpida de que ela voltaria para Leeds, voltaria para mim.

Eu havia comprado um apartamento no centro da cidade e estava deixando a casa dos meus pais, por isso havia voltado ao meu quarto para pegar minhas coisas, coloquei o porta-retrato na mochila e peguei o violão. Fechei a porta e não olhei para trás. Eu estava começando uma nova fase da minha vida, uma fase em que não estaria mais presente, mandaria toda essa dor e o amor para o inferno e recomeçaria. De verdade. Sem olhar para trás. Sem ela. Se eu aguentei sete anos sem ela, aguentaria mais.

Eu achei que estaria certo, só não sabia que a vida brincaria mais um pouco comigo.

Capítulo 3


Nova York. Meu destino naquela manhã fria, mas sem tantas nuvens, por isso eu não estava com tanto medo. Pedi para Victoria dormir em minha casa. Depois daquele dia com Mark, percebi que enquanto eu contava tudo o que havia acontecido, Victoria franzia o cenho a cada palavra e olhava para um ponto fixo de minha sala. Isso começou a me incomodar, afinal Victoria não era assim. No mínimo ela soltaria exclamações do tipo: "Sério?" ou "Meu Deus, você é louca!", mas ela não o fez. Apenas suspirava enquanto eu falava, como se estivesse decepcionada comigo. Decidi não falar nada se não poderia provocar uma briga que não era necessária, ainda mais na minha situação quando o que mais precisava era de companhia para não enlouquecer e perder os sentidos. Com agitação desse desfile que poderia ajudar a minha carreira a crescer ainda mais, fui obrigada a parar de beber feito louca (como estava fazendo desde o incidente do Mark, que havia sido há duas semanas),parei de fumar - embora os momentos de nervosismos triplicaram - e parei de provocar o vômito, pois precisava de forças para provar os looks do desfile todo dia, dar entrevistas para quatro revistas diferentes sobre "como eu estava me sentindo por ser uma Angel" e todas essas coisas. Em compensação, eu malhava como nunca, conseguia tempo na minha agenda para malhar até cair no chão sem forças, porque eu não poderia engordar.

Meu voo era às seis da manhã, então eu cheguei ás cinco da manhã e Mark, que tinha uns amigos no aeroporto, conseguiu que esperássemos o embarque no carro. Não queríamos ficar esperando no meio de toda aquela gente, até porque paparazzis estavam lá me esperando, porque estavam achando que eu estava com Mark.

Flashback - 4 dias antes

Acordei naquela manhã com meu celular tocando, eu amava o toque que eu havia colocado, mas a partir daquele momento eu passei a odiá-lo com a minha vida. Abri meus olhos assustada e peguei o celular, nem me dei ao trabalho de ver quem era, aquela era minha manhã de folga que eu havia conseguido com tanto esforço.
- O que é? - eu disse brava por ter sido acordada.
- Canal 45. Liga agora e eu sinto muito. - Foi o que Mark disse antes de desligar o telefone na minha cara.

Peguei o controle da televisão e liguei a TV no maldito canal 45. Era um daqueles canais que só falam da vida dos outros. E lá estava eu. Tomei um susto e sentei ereta na cama para assistir o que a repórter falava sobre mim.

"Ao que tudo indica a modelo está saindo com seu agente Mark Collins, testemunhas dizem que viram Mark sair do prédio da modelo semana passada pela manhã em um táxi. Rumores ainda dizem que eles brigaram nesse dia, o que explicaria a saída do agente do apartamento tão cedo. já teve um affaire com o ator Ben Barnes durante alguns meses antes dele ir viajar para gravar um dos filmes da sequência cinematográfica "As crônicas de Nárnia". Desde então nunca foi vista com mais ninguém, o que poderia significar que ela ficou bastante abalada com a separação. Mas e Mark Collins? Poderia ser o mais novo namorado de nossa querida e a tirou da solidão? E se eles brigaram, qual foi o motivo? Aguardaremos por mais notícias. Quem está de affaire novo..."

Desliguei a televisão na hora e me senti invadida completamente e não me senti assim apenas por mim, mas por Mark e Ben também. Eles não tinham nada a ver com isso. Eu e Ben não demos certo, porque ele tinha que viajar e eu também e nossa agenda jamais batia uma com a outra. E eu não fiquei abalada desse jeito! E Mark... Eu não conseguiria olhar para ele depois dessa, ele havia sido exposto de um jeito ridículo! Ainda mais depois do que eu havia feito com ele. Tentei deitar na minha cama e pegar no sono de novo para esquecer, mas não fui capaz de dormir, porque toda vez que eu fechava os olhos a voz da repórter ecoava nos meu ouvidos, lembrando-me do dia que eu queria esquecer."

Flashback - off


Quando deu a hora do embarque, Mark nos guiou para o dentro do aeroporto, estavamos eu, ele, Paollo, Lizzie, Victoria e a irmã de Mark, Roxy, que era uma menina baixinha, tinha os mesmo olhos do irmão, mas os cabelos um pouco mais claros e não parava de falar um segundo. Ela era mais nova que eu, acho que devia ter uns 17 anos e Mark a estava levando para conhecer Nova York, seria uma estadia rápida que iriamos fazer, quatro dias no máximo, mas mesmo assim ela quis ir. Então lá estávamos nós, entrando no aeroporto. Tomei um susto, havia poucos paparazzi. Uns cinco talvez, e alguns fãs. Meninas, é claro.

- , por favor, vem aqui falar com a gente! - Uma delas disse e eu a olhei e me deparei com uma menina baixinha, um pouco gordinha que olhava na minha direção com um olhar aflito. Eu tentei ignorar, mas ela me olhava com tanta aflição que olhei para Mark com um olhar pidão: - Nós estamos sem tempo! - Ele disse tentando não olhar pra mim enquanto me puxava lá pra dentro. Eu o olhei de novo e ele respirou fundo e disse: - Tudo bem, mas é rápido!

Caminhei vitoriosa até ela e ela sorriu quando me viu, já preparando o caderno e a caneta para me dar. Quando cheguei perto ela ficou me olhando abobada por um tempo, eu apenas ri e ela se deu conta de que eu estava mesmo ali. Ela me olhou e disse:
- Você é muito magra! - Eu tentei não notar o espanto na voz dela e apenas sorri sem graça, ela percebeu que tinha feito burrada e deu umas piscadas frenéticas. - Quero dizer, você é magra por natureza! Mas você pode me dar um autógrafo? - ela estendeu e eu assinei rapidamente o papel.
- Prontinho, mas o que faz aqui essa hora? - eu perguntei tentando mudar de assunto.
- Vim ver você! E perguntar sobre o Mark. Não é verdade, é? - Ela me disse e meu sorriso murchou, eu dei um pigarro e respondi com uma sutileza que eu não sabia que tinha.
- Não é verdade, ele é apenas meu amigo! Tenho que ir, foi bom ver você! - Eu dei um sorriso e entrei no aeroporto, sendo seguida por alguns paparazzi que me faziam a mesma pergunta que aquela fã havia feito.

Depois do ocorrido eu e minha equipe embarcamos e fizemos uma viagem tranquila. Quando estávamos - provavelmente - em algum lugar no meio do Oceano Atlântico, a aeromoça passou com o carrinho de comidas e meu estômago deu um salto, e isso me lembrou que eu estava fazendo o desafio onze dias. Ou seja, eu ficava sem comer por onze dias, depois comia por um dia e vomitava de novo. Por sorte, ou azar talvez, aquele era o dia que eu poderia comer... Eu pedi tudo o que havia no cardápio, tanto que Victoria se assustou, mas não comentou nada. Eu pedi o prato principal, os acompanhamentos , a sobremesa e duas shortnecks de Heineken, afinal, eram seis horas até New York, quando eu chegasse lá, teria passado o efeito do álcool.
- Nossa, , você está mesmo com fome. O que aconteceu com o: "Não posso engordar, eu sou uma Angel?" - Ela disse com uma voz afetada tentando me imitar, eu dei uma risada, olhando com insistência para a aeromoça que andava pelo corredor. - Mas agora é sério, por que você vai comer tanto? E duas shortneck? Você é muito extremista! - Ela disse voltando a mexer no tablet dela.
- Eu estou sem comer desde ontem, tá? - eu disse e me arrependi por ter dito isso. - Desde a janta de ontem. - menti.
- Nossa, você nem tomou café? - ela disse sem prestar atenção em mim, olhando para o tablet dela.
- Não deu tempo. - menti de novo, porque havia sobrado muito tempo, mas eu decidi ficar mexendo na internet de manhã. - O que tanto você mexe aí? - eu perguntei tentando ver o que ela estava fazendo.
- Estou lendo um livro. Você deveria ler e aí quebraria o tabu de que modelos são burras. - ela disse me olhando e riu depois, ri junto com ela e era verdade, a maioria das modelos que eu conheci, digamos que o forte delas definitivamente não era intelectual.
- Qual livro? - eu perguntei sem olhá-la, mas seguindo com o olhar o carrinho da aeromoça.
- Querido John. - ela disse ainda lendo.
- Eu já li esse. É lindo, chorei quando o pai dele morre. - eu disse para provocá-la, ela me olhou indignada e eu comecei a rir.
- EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ CONTOU! - Ela começou a me dar tapas no braço e eu ria descontroladamente.
- Desculpa, mas eu não resisti! - eu disse rindo ainda mais, ficamos nessa brincadeira até que nossos pratos chegaram. - Sem conversas agora, ok?
- Você ainda me paga, sua coisa chata! - Ela disse e abandonou seu tablet e começou a comer.

Eu olhava toda aquela comida a minha frente e meu estomago dava voltas e sem pensar duas vezes, eu comecei a comer enquanto tomava minha cerveja. O gosto da comida era tão bom, não sei por que, mas durante esse tempo, o gosto da comida havia ficado mais aparente, a comida havia ficado mais suculenta, como se pedisse para eu não vomitá-la depois (horrível, eu sei, mas era o que parecia), ignorei esses pensamentos e tratei de comer tudo. Eu comia muito rápido e sentia a comida forrar meu estômago. Quando Victoria estava comendo o prato principal, eu estava na sobremesa. Em pouco mais de dez minutos, eu havia terminado todo o meu almoço.
- , você comeu muito rápido! - Victoria disse e eu apenas dei uma risada sem graça, limpando minha boca. - Desse jeito você vai ter dor de estômago.
- Não vou não. - eu disse e me virei para a janela do avião. - Vou tentar descansar um pouco.

Disse para encerrar o assunto, já que eu não queria falar porque não queria que ninguém atrapalhasse meus planos com perguntas e coisas parecidas. A fome havia passado, mas o arrependimento chegou tão rápido como a fome foi embora e eu me senti uns 5 quilos mais gorda. Eu senti a comida pesar, meu corpo ficar mais pesado e de repente o gosto da comida não era tão bom assim, era ruim e me deixava ainda com arrependimento. Dei um gole na pura shortneck de cerveja, já que uma eu havia tomado durante o almoço. Abri minha bolsa, peguei minha nécessaire e rumei para o banheiro com a desculpa de que iria escovar os dentes. Mas de fato eu ia, depois de provocar o vômito e esperar que a tontura passasse.
O banheiro era muito apertado, eu entrei, tranquei a porta e antes comecei a me encarar através do espelho. Eu tinha alguma coisa com espelhos, porque eu sempre me via do jeito que eu era de verdade, uma mulher vazia, perdida, sozinha e gorda. Para não ter que lidar com lágrimas naquele momento e não conseguir me questionar se isso era preciso, abri a nécessaire e peguei minha escova de dente e encostei na úvula, a sineta que fica dentro da boca e nos faz vomitar, já sentindo a comida voltando, passando pela minha boca e caindo no vaso sanitário. Devido ao esforço, meus olhos lacrimejaram e eu chorei. Encostei na parede atrás de mim e encolhi as pernas, já que o banheiro era pequeno. Dei a descarga e enxuguei os restos de lágrimas que ainda restava em meu rosto. Respirei fundo pela última vez e tratei de escovar os dentes e retocar a maquiagem para ninguém perceber. Quando estava escovando os dentes, senti um incomodo na boca, mas ignorei, quando cuspi a pasta na pia, um vestígio de sangue se misturava com a espuma. Achei estranho e cuspi de novo e lá estava o sangue se misturando com a espuma e a saliva. Enxaguei minha boca e a abri para analisá-la na frente do espelho. E olhando, um dos meus dentes do fundo sangrava, a gengiva abaixo dele estava maior do que deveria estar e sangrava também. Tratei de cuspir novamente na pia e mais sangue. Eu não sabia o que estava acontecendo com meus dentes. Eles estavam sangrando e eu não entendi num primeiro momento, mas logo depois me dei conta: eu estava ficando doente. E precisava de ajuda. Mas o pior era que eu não poderia contar. Então, tomei a decisão mais louca que eu já havia feito: ficaria sem comer para não provocar ainda mais problemas ao meu corpo. Eu queria parar, eu precisava parar de comer e vomitar, só assim descartaria hipóteses de sobre o que estava acontecendo comigo. Era triste, doentio, mas era a verdade. Eu não queria perguntas.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ *~~~~~~~~~~~~~~~~~

O dia do desfile havia chegado. Eu acordei cedo naquele dia (bem cedo por sinal). Tudo para me preparar para o grande dia. Eu não havia comido depois do almoço no avião e estava me acostumando com aquilo. Eu, juntamente com a minha equipe, pegamos um táxi e fomos ao local do desfile para fazer a última prova de lingerie e ensaiar a minha entrada e tudo o mais.
O local estava lotado de mulheres absurdamente lindas. Todas com um olhar tenso no rosto. Era minha segunda vez como Angel, e na primeira eu fiquei com o Bra Fantasy, ou seja, a lingerie mais cara da coleção, esse ano a sortuda era a Miranda Kerr. Meu ânimo aumentou um pouco, por mais que eu já estivesse cansada dessa vida de desfiles e tudo o mais, o fato de ser uma Angel e estar em Nova York, a cidade que nunca dorme, fez meus ânimos aumentarem. Aumentou ainda mais quando todas aquelas modelos me olharam juntas, quando eu cheguei ao local. Eu era muito conhecida, não era apenas uma modelo. Eu era A modelo, por assim dizer. Minha carreira era longa, estava no ranking das modelos mais bem pagas da Europa, então todas as modelos me conheciam. Isso era bom, fazia meu ego inflar e me deixava poderosa, como uma super heroína.
Muitas me invejavam, mas o que elas não sabiam era o que eu tive de passar para chegar onde eu estava, o que vi, o que aconteceu comigo. Nunca vou me esquecer aquele dia em que eu vi o quanto as pessoas faziam de tudo para crescer.

Flashback - 6 anos antes.

Acordei com um grito agudo naquela manhã em Londres. Abri meus olhos rapidamente e quando levantei, várias meninas já estavam acordadas com olhares assustados. Caminhei até a sala e Mary, uma menina que morava no apartamento comigo e mais três meninas, estava em pé, olhando para o banheiro. Me aproximei dela.

- Mary, o que aconteceu? - eu perguntei e ela me olhou como se minha voz estivesse a despertado.
- A Sophie... - ela disse. Sophie era outra modelo que vivia conosco. – Alguém colocou cacos de vidros na toalha de rosto dela. Ela está no banheiro com o rosto todo cortado.
- Quem fez isso? Vocês ligaram para a emergência? Oh meu Deus! - eu disse sem acreditar e meus ouvidos captaram um choro baixinho e uma risada maléfica. Nem esperei Mary me responder e corri até o banheiro.
Sophie estava sentada no chão, com Evy (outra menina) ao seu lado e seu rosto sangrava muito, ela chorava e Evy a confortava. Eu a chamei e elas me olharam. O rosto de Sophie estava horrível. Vários cortes em seu rosto, na bochecha, testa, seus lábios estava em carne viva e estava com uma toalha molhada em seu rosto. Eu me abaixei e disse:
- Meu Deus, quem fez isso com você?
- Loraine. - ela disse e meu sangue ferveu. Loraine era a última menina que morava na casa. Morava naquele apartamento bem antes de mim ou as outras e nunca conseguia trabalho como modelo, ganhava o dinheiro para pagar suas despesas, sendo garçonete meio período em um restaurante de esquina. Eu rapidamente levantei e fui até o quarto dela. Ela ria como nunca, sentada em sua cama.
- O que você fez, sua vadia? - eu gritei e ela me olhou com raiva. - Você tem problema? Se ela conseguiu um emprego como modelo, fique feliz por ela! E não atrapalhe a carreira dela! Eu tenho nojo de você, Loraine! Isso não vai ficar assim!
Já me preparava pra ir embora do quarto dela quando senti a mão dela no meu cabelo, me puxando pra baixo. Deu um grito de surpresa e já senti meu corpo batendo no chão do quarto dela. Ela ficou em cima de mim e começou a me dar tapas na cara, eu tentei segurar as mãos dela, mas não consegui.
- Você está achando o que? Hein? - ela disse enquanto me batia e Mary e Evy já vinham em cima de Loraine para tirá-la de cima de mim. - Aqui é assim, você tem que passar por cima dos outros para sobreviver! Acorda, garota, você não vive mais em Leeds!
Mary e Evy a tiraram de cima de mim e eu me levantei e saí do quarto dela, fui ao meu quarto, coloquei meu casaco, voltei ao quarto dela (ela dividia o quarto com Sophie), peguei a bolsa dela e fui ao banheiro.
Sophie ainda estava no chão e quando me viu soltou uma exclamação de espanto e se levantou.
- O que aconteceu, ? - ela disse preocupada - O que aconteceu com seu rosto?
- Seu rosto está pior, vamos para o hospital. Levanta daí. - eu disse para ela e ela levantou. Só percebi que ela estava com a camisola fina e descalça. Fui ao meu quarto, peguei um sapato meu e dei pra ela usar e tirei meu casaco e dei pra ela usar. Eu estava com um pijama normal (calça e camiseta) e coloquei aquelas botas quentinhas de pano.

A história era essa: Sophie havia conseguido um trabalho e Loraine ficou brava porque só ela não conseguia trabalho, a raiva era tanta que ela quebrou um copo e colocou os cacos na toalha de rosto de Sophie, para ela não conseguir o trabalho. Depois daquele dia, eu percebi que o mundo em que eu estava entrando não era cor de rosa, como eu achei que era. Eu achava ter visto tudo até aquele momento. E pela primeira vez, eu senti um arrependimento. Senti vontade de largar tudo, voltar pra Leeds, voltar para os meus pais, voltar para o garoto que eu amava. Ter minha vida normal de volta. Mas era muito tarde e eu não poderia voltar nem naquele momento e muito menos agora.


Flashback - off

E ali estava eu, vivendo meu sonho, pagando o preço por ele e lembrando de tudo. Loraine foi expulsa da agência, Sophie não conseguiu recuperar o trabalho daquele dia, Mary acabou ficando com ele. Sophie ficou com cicatrizes no rosto e ainda deve ter. O fato é que eu nunca mais vi Loraine ou qualquer uma daquelas garotas. Evy foi para Nova York, Sophie voltou para Bolton, para a casa dos pais, Mary foi mandada para a Itália e eu fui mandada para outro apartamento com outras meninas que eu não me lembro o nome, apenas de uma delas, Andrea, que cortou parte do meu cabelo em uma noite e essa Andrea saiu de lá. E voltou pro inferno.

Reconheci algumas modelos que estavam ali: Miranda Kerr, Alessandra Ambrósio, Erin Heatherton e outras. Mark foi ver os assuntos pendentes e junto com Paollo, Victoria e Lizzie eu fui conversar com as modelos. Fui falar com Miranda. Ela estava sentada junto com seu agente e quando me viu abriu um sorriso. Eu me aproximei dela.
- Miranda! Como você está? - eu perguntei e nos abraçando. - Como está Flynn? Ele cresceu, né?
- Estou ótima, ! Flynn está grande, descobrindo o mundo, sabe? Eu e Orlando estamos abismados como ele está crescendo! - Ela disse revelando um sorriso verdadeiro no rosto. - faz tempo que não nos vemos, a última foi na semana de moda em Paris do ano passado! Por que não foi na desse ano, querida?
- Estava fazendo fotos para a campanha da Prada. - eu disse me lembrando da campanha que bateu recordes de vendas. - Está preparada? É sua segunda vez, certo?
- Segunda, eu estou tão nervosa! Vai estar todo mundo me vendo, sabe? E eu sou uma Angel! - ela disse empolgada.
- Eu lembro como foi minha primeira vez em 2009, minha lingerie foi a Bra Fantasy naquele ano! Esse ano é a sua, né? A mais estimada do catálogo! - eu disse para ela que me olhou nervosa. - Mas não fique tão nervosa, você é linda, vai se sair bem.
- Obrigada pelos elogios, você está esplêndida também. Está mais magra? - ela perguntou me analisando e meu ego deu um salto.
- Estava preocupada com o peso e tudo, mas assim que o desfile acabar, eu vou voltar ao normal. - eu disse dando um sorriso, tentando esconder meu nervosismo.
- Mas cuidado, querida, para não pensar muito nisso e sumir! - ela disse rindo e eu a acompanhei por educação. - Eu tenho que ir, vou ver minhas fantasias e o Bra Fantasy. Me deseje sorte!

Ela disse e saiu de perto de mim com um sorriso. Eu sorri de volta e me sentei onde ela estava. Fiquei encarando o chão um pouco até que Victoria veio me buscar para acertar todos os detalhes. Eu apareceria no começo, durante o show do Maroon 5 (aquele Adam era perfeito, tinha que conversar com ele) e um pouco antes de Miranda aparecer por último com o Bra Fantasy. Só depois eu descobri que o que eles tinham me dito sobre eu fechar o evento com Isabeli e Gisele era mentira. Elas não puderam comparecer a esse desfile e eu ficaria pro final, mas não como peça importante. Mas enfim, esse tipo de coisa era normal nesse mundo de desfile.

Ensaiei a tarde toda e consegui conversar com Adam que era uma pessoa muito boa e simpática. Uma "figura" por assim dizer. Era engraçado e tudo mais de bom que você puder imaginar. Conversei com outras meninas, provei as lingeries e aquele dia foi uma loucura e eu adorava aquilo, não deixava minha mente vagar por um terreno perigoso que acabava com minha vida aos poucos. Eu voltaria para o hotel e chegaria a noite (duas horas antes do desfile começar) para me aprontar, deram um tempo para gente relaxar antes de começar a correria.

Eu cheguei pelos fundos junto com minha equipe, porque pela frente estava abarrotado de paparazzi e eu não queria ser vista. Quando entrei já me levaram para o camarim que estava repleto de garotas se vestindo, eu tirei as roupas que usava e coloquei o famoso roupão rosa da Victoria Secret's e fui entregue aos cuidados de maquiadores de lá e cabelereiros da Victoria Secret's. Lizzie e Victoria ficaram chateadas, pois elas queriam me arrumar, mas tínhamos que poupar tempo. Seriam mais de três trocas de lingerie, eu achei que só apareceria três vezes, mas isso não me contaram também. Fazia parte.

Quando já estava pronta e na fila para entrar, meus pensamentos foram para o lugar proibido da minha mente. Eu gostaria que meus pais estivessem lá, apenas para me ver e acenar, gostaria que todo o meu distúrbio alimentar não tivesse começado, eu queria que minha vida tivesse sido diferente. Mas talvez - e eu cheguei a conclusão rápido - se minha vida fosse diferente eu não estaria aonde estava agora e não teria tudo o que tenho.
Os primeiros acordes da primeira música - You make me wanna die (The Pretty Reckless) - começou e a fila começou a andar, as primeiras modelos foram e os aplausos começaram, o nervosismo tomou conta de mim e eu ficava cada vez mais ansiosa.
Havia chegado a minha vez, eu entrei na passarela e todos aplaudiram muito forte, a luz veio em minha direção e eu fiquei cega por uns instantes, mas logo recuperei a visão e a classe, fui desfilando com coragem, sem vergonha ou medo. Eu estava ali, o mundo estava me vendo, a plateia estava amando e eu sorria. Percebi naquele momento que eu não trocaria aquela sensação por nada. Era passageira, mas era gratificante você ver que estava fazendo o trabalho certo e que todos estavam aprovando. Cheguei na ponta da passarela e mandei um beijo para a câmera que estava na frente e voltei a desfilar de volta para o backstage.
Quando entrei já me levaram para trocar de lingerie e no momento seguinte eu estava com uma roupa de super heroína linda. Voltei para a fila e fiquei aguardando a minha vez. Kanye West começou o show e a fila começou a andar novamente. Chegou a minha vez e eu fui caminhando pela passarela, minha capa voava de acordo com meus passos e eu me permiti sorrir novamente. Eu passei por Kanye e ele piscou pra mim e eu sorri de volta. Quando cheguei na ponta, levantei um dos braços mostrando os punhos para o alto, como se eu fosse super heroína. Arranquei aplausos de toda a plateia.
E eu já estava de volta ao backstage, só que agora eu estava com o roupão e sentada em uma das cadeiras terminando minha maquiagem. Eu apareceria novamente, mas na sessão Aquatic Angels, então minha lingerie era toda aquática. Era no show do Maroon 5 que seria depois da seção passion que estava acontecendo, então eu teria um tempo de descansar.
Ouvi Maroon 5 começar a tocar Moves like Jagger e me empolguei, eu adorava aquela música, dei uma espiada e quando Miranda entrou, Orlando levantou e aplaudiu de pé, eu sorri com isso e na mesma hora, isso me lembrou e o quanto eu sentia falta dele e o quanto eu queria que ele estivesse naquela plateia me olhando e sorrindo pra mim.

Eu entrei logo depois de Anne V. e Adam deu um beijo na bochecha dela e eu sorri e toda a plateia vibrou. Eu entrei e já estava começando a me cansar, Adam me olhou, eu abri os braços e eu já estava na ponta, ele fez uma gracinha e eu ri e voltei para o backstage com Moves like Jagger na cabeça. Eu mal cheguei lá atrás e já mandaram eu trocar de roupa que eu iria aparecer depois do show do Kanye junto com Jay-Z. Voltei para a fila e fiquei esperando o show deles acabar para a fila de modelos começar a andar. Era o "Spell on you ", uma parte da coleção que tinha um estilo vintage, inocente e todas essas coisas. Eu seria uma das últimas a aparecer, ou seja, logo depois de mim Miranda apareceria.

Foi a minha vez e eu desfilei, cheguei em frente a câmera e mandei um beijo e logo depois voltei para o backstage e vi Miranda, eu sorri pra ela e ela sorriu pra mim. Eu sentei e tomei um pouco d'água e fiquei esperando. Eu não aparecia no show da Nick Minaj, apenas no final com todas as Angels. Houve o show da Nick Minaj e logo depois todas as Angels entraram juntas. Miranda e Alessandra na frente e eu estava um pouco atrás ao lado de Erin. Ao som de Lady Gaga desfilamos pela última vez, no Victoria Secret's Fashiow Show 2011. E no meio de toda aquela alegria, toda aquela sensação de dever cumprido, eu senti que faltava algo, um pedaço para tudo aquilo ficar realmente bom, porque eu não tinha alguém que me olhava da plateia, não tinha alguém que esperava pela minha ligação sobre como o desfile havia sido, eu estava sozinha no mundo e essa realidade conseguiu devorar toda a alegria que eu sentia naquele momento, deixando apenas um sorriso falso no meu rosto enquanto eu torcia para aquilo tudo acabar rápido.

Capitulo 4


(Inna – Endless (música 1) Simple Plan – Untitled (música 2) - coloque pra carregar e dê play quando ver a notinha! Na ordem, ok?)

Eu ainda estava extasiada por causa do desfile. A adrenalina ainda fluía pelo meu sangue mesmo o desfile tendo acabado. Eu fui para o hotel e pretendia ficar por lá mesmo, mas Victoria, Lizzie, Paollo e Mark me convenceram a ir à After-Party do desfile, para me divertir e dançar até o sol raiar. No começo eu não queria ir, mas depois um ânimo estranho se apossou de mim e eu decidi que iria.
Eu estava no meu quarto de hotel junto com Victoria e Paollo, eles estavam me ajudando a escolher uma roupa. Eu arrumei minha mala e não havia colocado um vestido de festa, apenas alguns mais neutros para o dia. Portanto eu não tinha o que vestir.
- Eu não acredito que você não colocou nenhuma roupa de festa na sua mala! Você é maluca? - Paollo revirava minha mala desesperado, eu estava achando engraçado e Victoria também. - vocês estão achando graças? Olha aqui, eu tento ajudar, mas vocês não me dão opção nenhuma! Vou comprar alguma coisa pra você usar.
- Mas, Paollo, está em cima da hora! - eu disse para ele rindo um pouco. Ele veio na minha direção, olhou-me bravo e disse: - Olha aqui, bitch! Não me venha falar de horário, você vai nessa festa e eu volto já! Vá tomar um banho, porque se eu chegar aqui e você não estiver de banho tomado, maquiada e tudo o mais, eu jogo quando chegarmos em Londres seus sapatos Prada fora! E você sabe que eu jogo!
E saiu porta a fora, batendo o pé nervoso no chão. Eu ri ainda mais e Victoria me acompanhou. Quando o ataque de riso cessou, ela saiu do meu quarto e foi se arrumar, me deixando sozinha. Respirei fundo e tirei minhas roupas e caminhei até o banheiro para tomar um banho relaxante. Liguei meu Ipod e o conectei as caixas de som que eu carregava na bolsa. Liguei e coloquei na sessão de eletrônica para começar a me preparar para a festa. A água estava quente e relaxante e a vontade de ficar no quarto do hotel aumentou um pouco, mas eu queria me divertir, queria voltar a ser quem eu era antes de ter bulimia. A playlist começou com Cascada - Everytime we touch, e logo depois foi para Miracle e assim foi até o final do banho. Eu não lavei o cabelo, porque iria fazer babyliss nas pontas. Saí do banheiro e coloquei um roupão felpudo branco que o hotel disponibilizava e comecei a me arrumar. Prendi o cabelo e fiz minha maquiagem. Depois comecei a fazer babyliss e quando Paollo bateu na minha porta eu já havia terminado o cabelo. Era bem simples, já que eu iria me jogar na balada e não queria ficar me importando com o cabelo.
Quando saí, Paollo estava com uma sacola da Gucci e uma outra de uma loja que eu não conhecia. Ele me olhou e disse:
- Nossa, você está linda e vai ficar ainda mais com o que eu comprei.
- Você não vai se arrumar? - eu perguntei abrindo minha mala e colocando a calcinha, um shortinho preto por baixo e coloquei um sutiã preto tomara-que-caia.
- Me arrumo rápido. Se arrume, vamos juntos. - ele disse e saiu do meu quarto. Eu abri a sacola do vestido e soltei um sorriso bobo. Era perfeito, deixei o vestido de lado e abri a sacola da Gucci, sorrindo ainda mais. Comecei a me trocar e em minutos estava finalmente pronta. O vestido e os sapatos Gucci me deixaram linda! Peguei uma bolsa de mão preta que pendurava no pulso e saí do quarto. Eu estava fechando a porta, quando Mark chegou, parou e me olhou. Eu olhei pra ele e ele estava lindo! Todo de preto com uma roupa típica de After-party.
- Eu estou tão feia assim, Mark? - eu disse e me aproximei dele, ficando em sua frente.
- Se você está feia, eu estou o que? - ele disse brincando e rimos juntos. Ele parou e encarou meu rosto de um jeito que eu não consegui identificar. - Você está linda.
- Obrigada, você também está - eu disse e o silêncio pairou no lugar. Ainda era estranho ficar no mesmo ambiente que ele. - Vamos?
- Claro, Victoria e os outros estão lá embaixo. - ele disse e me guiou para o elevador.

O pub nova iorquino que eles haviam escolhido era um dos mais chiques, caros e mais bem frequentados de Nova York. Estava repleto de gente famosa, Miranda estava lá, vi Beyoncé junto com Jay-Z, Anne V estava junto com Adam, eles namoravam, depois Victoria me contou. Um garçom passou e eu já peguei o Martini que estava na bandeja e tomei em alguns goles, bem devagar, queria sentir o gosto do Martini em minha boca. Em minutos eu estava sozinha naquele pub gigante, meus amigos haviam saído pra passear e eu fiquei sozinha, me sentei em uma mesinha e fiquei lá olhando o movimento do pub. Avistei Victoria conversando com um carinha e sorri inconsciente. Era bom ver que alguém estava feliz.
Fui até o bar e pedi ao barman uma dica de um drink e ele me deu um Margueritta e eu tomei bem devagar. Tocava uma música de batida bem forte e eu me mexia de leve na cadeira, ainda não estava bêbada o bastante pra me jogar na pista de dança. Fiquei um bom tempo no bar tomando Marguerittas e Martinis, um atrás do outro e eu já estava um pouco zonza, mas nada muito forte. Pedi para o barman uma batida de vodca e frutas e ele fez uma dose e colocou na taça a minha frente e eu continuei a beber essa batida, logo depois eu tomei uma caipirinha, aquela bebida brasileira de limão que me deixou ainda mais solta. Eu era um pouco fraca pra bebida e não estava tão equilibrada. Até que eu pedi uma shortceck de Heineken - minha bebida preferida - e levantei confiante até a pista.

(Coloque a música 1 pra tocar)

O começo da música de Inna me fez remexer inteira, eu adorava aquela mulher! Eu mexia meus quadris de acordo com a batida e levantava meus braços para o alto. A música me envolvia e eu já não conseguia definir rosto ou vozes, apenas a música. Eu sorria e tomava a minha bebida e minha cerveja acabou. Me concentrei e um garçom passava ao meu lado com alguma bebida, peguei rapidamente e comecei a tomar rápido e já havia terminado. Larguei a taça e a shortneck numa mesa alheia e voltei a dançar. Inna ainda tocava e eu me sentia livre, feliz - mesmo que temporariamente - eu girei, me desequilibrei e quase caí, mas alguém me segurou e me empurrou de volta pra pista e eu dei risada. Outro garçom passou com outra bebida e eu logo peguei da bandeja, virei em um gole e coloquei na bandeja novamente. Eu comecei a dançar mais rápido, num ritmo frenético e nem me dei conta que eu era a que mais chamava atenção no pub. Todos olhavam pra mim - assim disse Victoria quando me contou tudo depois - eu comecei a descer até o chão e caí. Comecei a rir e alguém me levantou, rasgando a barra do meu vestido.
- Ei, olha o que você fez! - eu disse brava e tentei achar a pessoa para brigar, mas eu não conseguia distinguir nada a minha frente, eu via apenas vultos e agora a música incomodava meus ouvidos. Coloquei a mão em meus ouvidos e tentei sair do meio de todo mundo, mas não consegui, porque me empurraram de volta – Ei, me deixa sair!! - eu gritei, mas parecia que ninguém me ouvia. Eu ouvia a música agora mais alta e risada mais altas e comecei a tentar sair. Minha garganta começou a arder e eu senti o vômito chegando a minha boca. Eu tentei correr e sair dali do meio e empurrei alguém que reclamou - Eu preciso sair daqui! - Não consegui chegar até o banheiro e vomitei ali mesmo, inundando o chão com o vômito e todos me olharam com nojo, eu nem consegui falar alguma coisa ou sair correndo, porque eu vomitei de novo, só que dessa vez eu vomitei sangue e aquilo me assustou. Dei um grito de horror e meus olhos estavam cheio de lágrimas. Vomitei de novo e saiu mais sangue ainda.
Olhei pra frente e tentei pedir ajuda pra alguém, mas todos estavam ocupados me olhando com nojo, tentei falar, mas minha voz não saiu e eu senti uma fraqueza repentina, tentei me manter forte e caminhar até o banheiro, mas nem cheguei perto disso. Caí no chão, tentei levantar, mas meus braços e pernas não tinham força nenhuma, a música parecia mais alta e irritava meus ouvidos ainda mais. Tentei tampar meus ouvidos, mas meus braços não tinham forças nem pra isso e eu achei estranho. Alguém passou e eu segurei a perna dessa pessoa - era um homem - levantei meu olhar e Adam Levine me olhava assustado.
- , o que aconteceu? - ele se abaixou e me segurou pelos ombros - Você está gelada, ai meu Deus! Alguém ajuda, abra os olhos, olhe pra mim! - Adam disse e eu já me sentia ainda mais fraca. - Você vomitou sangue? Meu Deus, o que está acontecendo! ALGUÉM, POR FAVOR!
- Adam... - eu disse e ele me olhou - Não grita, por favor, eu to bem...
- Bem? Você é maluca, está bêbada! - ele disse e vi Anne V se aproximando de mim.
- O que aconteceu, Adam? - ela perguntou me olhando e eu estava ainda mais fraca, estava sentindo muito frio. - , você está branca! Vou ligar pra ambulância e procurar o agente dela. - ela disse e saiu correndo com o celular no ouvido.
- , olha pra mim, conversa comigo, não desmaia! - Adam disse e eu via o rosto dele embaçado e consegui ver por cima do ombro dele várias pessoas ao redor olhando.
- Eu estou com frio... - eu disse pra ele e ele me apertou contra o corpo dele. - Adam... eu...

Não consegui terminar a frase porque o torpor - aquela sensação "boa" de êxtase - chegou e mandou o frio embora e eu apaguei ali nos braços de Adam.

Mark's POV

Era um pouco difícil ter que conviver com depois do que aconteceu. Mas o que eu podia fazer? Obrigá-la a me amar? Não, obrigado, eu não era esse tipo de cara. Eu a amava muito e por isso respeitava a escolha dela, de amar e querer ficar com o cara do passado dela. Uma escolha ridícula, eu sei, afinal até parece que ela voltaria a encontrá-lo um dia, mas ela é pessoa mais teimosa que eu conheço, então... seria desse jeito. Eu estava sentado em uma mesa, bebericando minha bebida que era um drink qualquer, quando Victoria me viu e sentou ao meu lado.
- Por que não está se divertindo? - ela perguntou e dei um gole da minha bebida e depois sorriu - Não se importa, né?
- Lógico que não, né? - eu disse pra ela. - Eu te conheço faz muito tempo, não tenho nojo de você, Vic.
- Bom mesmo - ela disse e sorriu de novo, 'Taí uma pessoa que não para de sorrir por um minuto. - Mas você não respondeu a minha pergunta.
- E qual era a pergunta, Vic? - eu perguntei e finalizei a bebida no meu copo.
- Por que você não está se divertindo? - ela repetiu a pergunta e se aproximou mais de mim para ouvir.
- Eu estou. Bebendo. O dia de hoje cansou e eu não queria estar aqui. - eu disse e ela pegou dois Martinis e me entregou um. - Obrigado.
- Por nada. também não queria vir, mas... - ela parou quando se deu conta que havia falado dela. – Ai, Mark, desculpa é que eu não queria que você lembrasse e ficasse mal e tudo o mais.
- Vic, relaxa, tá tudo bem agora. - eu disse para não deixá-la preocupada, mas ela estava certa. Lembrar dela não era bom.
- Cadê a Roxy? - ela perguntou sobre a minha irmã e eu me dei conta de que ela tinha sumido.
- Deve estar por aí, falando com alguém. - eu disse despreocupado.
- Quem é você e o que fez com Mark Collins? - ela disse brincando e eu a olhei tentando entender - Até um tempo atrás, você manteria sua irmã do seu lado o tempo inteiro, porque ela é a sua "irmãzinha" - ela disse fazendo aspas no ar quando disse irmãzinha.
E eu me dei conta do que ela disse. Eu havia mudado e muito. Um tempo atrás eu estaria atrás de Vitoria e não teria trazido minha irmã. Mas com o fora que eu levei, parei de ser idiota e trouxe minha irmã pra ela se divertir. Eu não era um cara revoltado, aprendi a aceitar a rejeição bem - desde que meu pai abandonou minha mãe depois que a Roxy nasceu - então era pra eu aceitar bem a rejeição de . Mas sabe-se lá o por que a vida resolveu curtir com a minha cara e me deixou revoltado com isso. Afinal, eu dediquei sete anos da minha vida a ela e o que eu consegui? Algumas transas bêbadas e nada mais. Porra, eu sou ser humano também! Eu amo, sofro, não é só ela que sente tudo isso!
- Ela precisava crescer - eu respondi secamente e vi Victoria abaixar a cabeça. - Desculpa, Vic - eu disse e coloquei minhas mãos em seu rosto - Eu estou cansado, eu só queria estar no meu quarto do hotel, tomando uísque e ouvindo Beatles. Não gosto de te tratar mal. Olha pra mim. - eu disse quando percebi que ela evitava me encarar. - Desculpa, Vic. O que foi? Não chora!
Eu disse enxugando a lágrima solitária que descia pelo rosto de Victoria e percebi o quanto ela era linda daquele jeito, com as luzes do pub batendo em seu rosto - como a aurora boreal - e aqueles olhos bem definidos pelo delineador preto a faziam ainda mais linda.
- Não é por isso, Mark - ela disse evitando me olhar nos olhos e eu ainda estava com as mãos em seu rosto - É que eu não gosto de te ver assim. é minha amiga e ela sabe o que faz. Mas eu não consigo de ver assim. Triste, isso me deixa triste também. - ela disse me acertando em cheio. Ao menos alguém se importava comigo. - Porque eu...

Ela não terminou de falar porque Anne V bateu em meu ombro desesperada. Eu tirei minhas mãos do rosto dela e encarei Anne V preocupada. Ela estava chorando com um celular na mão. Deu uma olhada na situação que tinha atrapalhado, mas não demorou muito e disse as palavras que mudariam a minha noite - e talvez a minha vida - pra sempre.

- desmaiou, precisamos levá-la ao hospital agora!!

's POV

(Coloque pra tocar a música 2.)

Senti meu corpo sendo carregado e colocado em uma espécie de cama e então essa cama começou a andar rápido e percebi que era uma maca. Ouvi a voz de Mark dizendo: O que aconteceu com ela? A maca ia rápido e em instantes eu senti o ar gélido da noite e alguns flashes de luz que logo percebi que eram muitos. Ouvi gente gritando - muitos por sinal, e logo vi que eram fotógrafos. Um solavanco e eu estava dentro de alguma coisa - a ambulância - e a porta se fechou.
- Querida, está me ouvindo? - Uma mulher disse e era a paramédica - Se você pode me ouvir aperte a minha mão.
Eu apertei a mão dela com toda a força que eu tinha, mas era muito pouca e fiquei com medo de ela não ter sentido e apertei novamente.
-Isso, querida, eu senti. Você está sendo levada para o hospital agora, tudo bem? Tente abrir os olhos e fique calma. - ela disse e percebi que tinha a voz doce. Tentei puxar o ar, mas meus pulmões não estavam conseguindo e entrei em pânico, eu tentei puxar algum ar, mas não consegui e já sentia a falta dele invadindo cada célula do meu corpo e entrei em desespero. Rapidamente, outro paramédico colocou uma bomba de ar e começou a apertar, tentando fazer ar chegar aos meus pulmões, mas não estava adiantando. A paramédica da voz doce mediu minha pulsação com um estetoscópio e disse: Está acelerada, mas ela não está respirando, não pare! Eu tentava abrir meus olhos, mas não conseguia e o medo aumentou. O paramédico apertava a bomba de ar freneticamente e a outra paramédica me ligava ao soro, furando meu braço.
A ambulância começou a parar e ouvi a paramédica dizendo: Ela esta tendo Fibrilação Ventricular o coração dela está muito rápido! Abre logo essa porta! Ela gritou e percebi que havia mais médicos do lado de fora, quando me tiraram da ambulância percebi que estava chovendo, não era tão forte, mas os pingos viam rápido a minha pele. Rapidamente eu entrei no hospital, pois consegui abris os olhos.

Me arrependi e fechei novamente porque a luz branca e forte me cegou por uns minutos. Quando abri novamente - agora acostumada com a luz - eu vi o rosto de uma médica (deveria ter a minha idade) e ela me olhou, sorriu e gritou: Ela abriu os olhos! Batimentos cardíacos? Ela perguntou e um outro respondeu, mas eu não prestei atenção. Vi uma porta abrir e eu entrei na sala, acompanhada pela equipe médica - que deveria ter mais de oito pessoas - eles me colocaram em outra maca que tinha uma luz em cima que me cegou novamente. A bomba de ar que o paramédico havia colocado me ajudava a respirar, mas ainda me faltava ar. Senti meu vestido sendo puxado para baixo e aqueles plugs que médicos colocam para medir a frequência cardíaca estavam por todo o meu peito e começou apitar muito rápido. Eu tentava puxar o ar e não conseguia. Meu corpo começou a formigar, primeiro os dedos e um segundo depois eu já não os sentia, os braços e pernas eu também não os sentia mais. Minha gengiva estava dormente e meus olhos começaram a perder o foco e ouvi uma voz ao longe que dizia: Ela está tendo uma parada cardiorrespiratória, peguem o desfibrilador! Agora! Meu corpo começou a ficar dormente e eu não sentia mais nada, senti um tranco e o barulho do desfibrilador carregando e a carga elétrica passando pelo meu corpo. O bip que vinha da máquina que media meu coração estava ficando fraco e ouvi alguém dizendo: Não podemos perdê-la! Carregue de novo, voltagem de 50! Agora! E outro tranco.
Meus pensamentos iam a mil por hora e tudo o que eu consegui pensar foi: O que eu fiz comigo mesma? Eu estava morrendo e por minha culpa! Não seria uma morte digna, eu morreria por bulimia e por ter bebido demais. Que grande merda! "O que estava acontecendo comigo? O que eu havia feito? "Eu não poderia morrer, mas, infelizmente, como veio com rapidez, esse pensamento de reação foi embora e me senti morrendo aos poucos.

Então tudo começou a ficar silencioso e uma sensação aconchegante dominou todo o meu corpo, esquentou-o e eu já não ouvia mais nada. Tudo o que vivi até aquele momento passou pela minha mente, rostos, para ser mais exata. Meu rosto quando eu tinha 6 anos apareceu, depois quando eu tinha 10, quando eu tinha 12, quando eu tinha 16, o rosto de minha mãe - o jeito bom que eu lembrava dela, não o jeito acusador, mas o jeito terno que me olhava raramente - , o rosto do meu pai, de Mark, Victoria, Paollo, Lizzie. E um rosto que eu achei que não iria aparecer estava ali na minha mente. com o seu típico sorrisinho de canto e seus olhos penetrantes estavam ali. Do jeito que eu me lembrava que ele era, o jeito cativante, misterioso e apaixonante. O jeito de ser. Eu te amo, . Com essa última lembrança dele entreguei-me a escuridão da morte e percebi que morrer não era tudo aquilo que todo mundo dizia. Eu tinha o rosto do homem que eu amava em minha mente, eu tive a vida que toda garota sonhou, todos os problemas acabariam, a vergonha que minha mãe sentia de mim, a bulimia, a frustação por não conseguir amar Mark. Tudo acabaria naquele momento. Então aceitei minha sentença. Iria descansar como eu sempre quis. Dormir pra sempre.

How could this happen to me?
I've made my mistakes
Got nowhere to run
The night goes on
As I'm fading away
I'm sick of this life
I just wanna scream
How could this happen to me?


Capítulo 5


(Música do capítulo, coloque para carregar e dê play quando ver a notinha)

Eu abri meus olhos. A cegueira instantânea não me assustou, mas sim o silêncio. Aquele silêncio mórbido, frio. Assim que meus olhos se acostumaram eu os abri novamente para ver que estava no hospital. Sim, aquela noite havia sido real. Mas parecia que eu tinha sobrevivido. O quarto em que eu estava era de um branco que irritava os olhos, mas novamente eu não ouvia nada. Ninguém passando pelos corredores, nenhuma enfermeira ou médico passando. Nada. Eu estava com a camisola do hospital e não estava com nenhum fio nos braços. Eu me sentia vazia, como se não tivesse nada dentro de mim, nem um coração batendo.
Tomei coragem e coloquei meus pés no chão, sentindo minha pele quente em contato com o chão frio. Analisei o quarto e me dei conta de que eu estava sozinha. Apenas minha alma conturbada estava ali. Talvez Mark estivesse na cantina do hospital ou no hotel. Dei de ombros e me levantei, espreguiçando e ouvindo o estalar dos meus ossos. Guiei meu corpo até a porta e virei a maçaneta, esperando que tivesse alguém ali.
Novamente tudo estava quieto. O hospital estava vazio e eu estranhei. Apenas eu estava ali. Comecei a caminhar pelo andar onde eu estava em busca de alguém, mas não encontrei outra alma viva, apenas eu. Não desisti de procurar e só parei quando estava cansada e me apoiei na parede e coloquei a mão no peito para tentar regularizar minha respiração. Foi quando vi a porta que estava bem em minha frente.
Era a porta para a cobertura e a ideia de sumir até lá se instalou em minha mente e, antes que eu pudesse pensar em rejeitar, eu já me encontrava subindo os degraus. Eu queria voltar, mas minha mente perturbada me fazia subir ainda mais. E então outra porta. Eu a empurrei e a luz do sol de fim de tarde me cegou, fazendo com que eu levasse minhas mãos aos olhos automaticamente.

O vento frio soprou e eu me encolhi um pouco, já que estava com a camisola do hospital. A luz do pôr-do-sol banhava meu corpo e eu me senti um pouco viva. Vasculhei com os olhos e encontrei alguém. Soltei uma exclamação de felicidade e me aproximei. Era uma criança, parecia ter uns 6 anos e estava sentada no parapeito do prédio com os pés pendurados ao vento, como se ela não fosse cair. Eu me aproximei e quando fui tocar o seu ombro, ela disse:
- Que bom que acordou, querida. Estava preocupada com você, mia bella. - ela disse e eu me assustei. Apenas meu pai me chamava assim, isso quando eu tinha uns 6 anos. - Sente-se aqui.
- Não é perigoso? - eu me vi perguntando e logo eu era a criança dali.
- Não, é bem seguro. Você não vai cair. - ela disse para mim e quando me dei conta, estava sentada, balançando meus pés ao seu lado.

Ela me olhou e eu me espantei. A semelhança que tínhamos era muito grande. Era como se fosse eu mais nova. Tudo aquilo me assustou, mas decidi ignorar, ela me devia respostas.
- Onde estão os outros? - eu perguntei, fitando o pôr-do-sol, tentando não olhá-la.
- Vivendo suas vidas.Eles se esqueceram o quanto a vista é bonita aqui de cima. Estão tão acostumadas a viver suas vidas que se esquecem que tem vida aqui em cima. E que pode ser muito bela. - ela disse filosofando e só agora eu prestei atenção em sua voz, era doce, calma, voz de criança.
- Onde estão Mark, Victoria e os outros?
- Já disse, mia bella. Vivendo suas vidas. - ela repetiu o apelido e aquilo me incomodou.
- Como você sabe esse apelido?
- Sei coisas sobre você que nem você mesma imagina que conhece. - ela me disse calmamente antes de me olhar com um olhar triste. - O que aconteceu com você, querida? O que você fez conosco? Tínhamos tantos planos... - ela abaixou a cabeça e começou a chorar. - Olhe para você... O que você fez, ??

E então eu sabia de onde eu a conhecia. Ela era eu! Eu quando tinha seis e tinha sonhos. Me assustei e arregalei os olhos e eles se encheram de lágrimas. Então eu estava morta! Só podia ser isso. Como eu estava conversando comigo mesma? E a outra eu, tendo seis anos! SEIS ANOS! Nem pude surtar mais um pouco, porque ela (ou melhor, eu) voltou a falar.
- Tínhamos tantos planos, lembra? - ela disse com um sorriso triste, me fitando. - E você realizou o maior deles! Parabéns, mia bella! - ela sorriu verdadeiramente, para depois murchar o sorriso. - Mas a custa do que? Onde estão papai e mamãe agora? Você os abandonou!
- Ei, não fale isso! - eu disse para ela brava. - Eu não os abandonei! Mamãe disse para eu não voltar! Você a conhece, sabe como ela é! Não me culpe por isso, eu cheguei aonde cheguei sem eles e estou melhor assim! - Melhor? Olhe para você! Você está quase morrendo, !!!

E eu me permiti olhar-me para tomar outro susto. Minhas mãos estavam esqueléticas, apenas osso e pele. Passei a mão pelo rosto e sentia cada osso sob minha pele, minhas pernas estavam esqueléticas e eu sentia minhas costelas ao passar o dedo sobre o tórax.
- E tudo para que? - ela gritou e seus rostinho de criança estava com raiva e ela estava em pé no parapeito do prédio - e logo depois eu estava em pé também. - Você estragou nossa vida! Abandonou nossos pais, nosso amor, nossos amigos! Você se abandonou! - e o rostinho infantil ficou triste. - Eu sinto muito querida. Muito mesmo. - E ela disse bem baixinho, próximo ao meu ouvido: - Está na hora de acordar, mia bella.

E a mão dela empurrou meu tórax para trás e eu me vi caindo do prédio, eu tentei me segurar na borda, mas meus braços esqueléticos não tinham forças. E a última coisa que eu vi foi o rosto do meu eu criança oprimindo um choro. E então eu acordei.


- Ela acordou, ela acordou! - Foi o que eu ouvi. Então tudo aquilo havia sido um sonho. - Desliguem as máquinas, coloquem a máscara de ar! Agora! - Levantaram minha cabeça e colocaram a máscara de oxigênio em mim. - Achei que tínhamos te perdido! , consegue me ouvir? Se consegue, aperte minha mão. Por favor! - Uma voz feminina disse e senti a mão dela segurar a minha e eu a apertei. - Isso! Assim mesmo. Você está no hospital da Cidade de Nova York. Está viva!

Ela disse e então eu me dei conta do que havia acontecido comigo. Eu quase havia tirado minha vida. Minha vida! Abri meus olhos e a luz branca me fez fechá-los, mas eu os abri logo em seguida. Fitei todos que estavam a minha volta. Havia umas oito pessoas. Todos me olhavam com uma misto de felicidade e preocupação. Todos haviam tentado salvar minha vida quando nem eu mesma ligava pra ela. Tentei sorrir como forma de agradecimento, mas deve ter saído uma careta horrível, já que todos riram.
E eu comecei a chorar profundamente. Não me importei que estavam todos me olhando, eu era um ser humano. Eu chorava, colocando todos meus medos, frustrações e sentimentos para fora. E eu não me sentia mais totalmente vazia. Ao menos o sentimento de querer recomeçar nascia aos poucos. Ele estava ali, ainda pequeno, mas a cada vez que eu soluçava ele crescia. Eu não ia falhar novamente, não ia morrer, não ia permitir que uma doença levasse minha vida embora. Eu ia lutar! Eu ia vencer, afinal eu nasci pra isso! Sou uma vencedora!

- Não precisa chorar, querida! - A médica que tinha a minha idade disse - Agora está tudo bem! Nós vamos te levar para o seu quarto e você vai descansar e amanhã conversamos, tudo bem? Você tem muita sorte, querida.
E só pude dizer a única palavra - e talvez o único ser - que me veio a cabeça e que me deu mais uma chance de continuar a fazer a coisa certa, que me deu a oportunidade de poder ficar mais um pouco viva: - Deus.
Ela me olhou e sorriu, arrumando o soro e jogando uma manta em cima de mim, levando-me para o quarto.

E naquela noite eu percebi que minha vida não precisaria acabar limitada como estava sendo. Eu não precisava ter uma vida apenas de aparências. Eu estava viva! VIVA! Não jogaria mais minha vida pela janela, não cederia assim tão fácil. Deus havia me dado mais uma oportunidade para arrumar tudo que eu quebrei e deixei pra trás. Ele havia me dado mais uma chance.

'POV

Meu apartamento no centro da cidade já estava arrumado, quero dizer, ainda tinha que colocar as coisas nos armários, roupas, essas coisas, por isso, naquele dia acordei cedo para terminar tudo isso.
Tomei café e liguei a televisão, apenas para não ficar naquele silêncio horrível que eu nunca gostei. Sentei no sofá tomando coragem para começar a mexer nas coisas e meu olhar pairou em uma caixa. Minha mãe havia escrito do lado de fora: Lembranças e eu a estava evitando desde que cheguei ao apartamento, porque o conteúdo me lembraria uma pessoa que eu não queria lembrar.
Afastei o pensamento e tratei de ligar a secretária eletrônica para ver se assim eu me distraía. Me sentei em um dos bancos que tinha no balcão e comecei a ouvir.

Você tem 2 novas mensagens.
1ª Mensagem: Oi, filho! É a mamãe! Como você está? Vem almoçar aqui esse final de semana, aproveite e traga suas roupas pra mamãe lavar! Quero saber como está sua vida nova! Tá se alimentando direito? Tá tomando banho? Você não está fazendo festinhas com gente estranha, está? Olha aqui, , se você estiver fazendo essas festas, você vai ver a fúria da tua mãe! OUVIU BEM? Estou com saudades, querido, ligue pra mamãe, ok? Te amo e seu pai tá falando pra você vir pra cá, ele quer te ensinar alguma coisa que eu não sei o que é. Vem logo, tá? Mamãe te ama.
Piiiiiiiiiii

2ª Mensagem: Fala aee, dude! Como você tá? Finalmente largou de ser frouxo e saiu da casa da mãe, né? Tomou vergonha na cara! Então, tá na hora de fazer HPs!!! Paaaaaarty! Me liga quando der, talvez eu venha pra Leeds semana que vem! Tchau, vadia!
Piiiiiii. Você não tem mais mensagens.


Uma mensagem da minha mãe, sempre foi protetora e sempre se preocupou comigo - ainda mais porque eu era filho único - e a segunda mensagem é do idiota do meu melhor amigo, Josh Hale. Ele é meu melhor amigo desde a quarta série quando a gente se conheceu enquanto destruíamos a fiação da sala de aula - quase fomos expulsos, nossos pais tiveram que pagar outra fiação da sala - e desde então somos amigos. Ele estava nos momentos mais loucos, engraçados e tristes da minha vida. Enfim, deixa eu parar com esse papo meio gay.
Comecei a arrumar as coisas, guardei as roupas, coloquei as sujas em um saco para levar pra lavanderia (o que? Você achou que eu ia levar pra minha mãe lavar, né? Eu não sou tão mimado assim) e depois de duas horas eu havia terminado de arrumar tudo, uma película de suor estava em meu rosto e costas e eu peguei um pouco de água gelada da geladeira e me joguei no sofá. E agora encarava a última caixa. Aquela caixa com as lembranças.

(Dê play)

Ajoelhei-me em frente a caixa e ainda a fitava com um pouco de receio e não entendia o por quê de ter tanto medo. Era uma parte de mim, certo? Levantei as tampas e vi troféus do time de futebol da escola, anuários, e peguei o do ano de 2002, o ano mais feliz da minha vida. Sentei, coloquei-o em meu colo e comecei a folhear.
A página do time de futebol e lá estava eu, ao lado de Josh - eu era o quarterback e Josh era o recebedor da bola - sorridente com o troféu do campeonato em minhas mãos. Passei as folhas e vi as líderes de torcidas, essa página não me interessava. Havia apenas a capitã delas - Audrey Robbins - que eu havia namorado, até que chegou ao colégio e me fez enxergar o que era realmente beleza, doçura e delicadeza.
Folheando mais um pouco, parei na página do teatro e lá estava ela. Na primeira fila ao lado de Audrey - que competia com por atenção, mas no teatro sempre acabava em segundo plano, já que minha menina era a melhor - e ao lado de estava , melhor amiga de e que já foi namorada de Josh. Naquela época, tudo era tão perfeito, tão puro, apenas eu e minha menina. Sem nenhum problema.

Respirei fundo, prendendo as emoções dentro de mim, elas não poderiam sair, porque isso acabaria com todo o meu autocontrole, que consegui durante sete anos. Eu não queria admitir, mas ainda sentia alguma coisa por ela. Poderia estar fraco, mas ainda assim estava lá. Contei até 10 e estava um pouco melhor e, infelizmente, comecei a prestar atenção no que passava na televisão. Péssima decisão.

"A modelo internacional foi internada na noite anterior no hospital regional de Nova York, devido ao fato de ter sofrido uma parada cardiorespiratória.A modelo estava na After-Party do desfile da marca Victoria's Secret. Testemunhas dizem que a modelo havia bebido demais e por isso teve um principio de overdose de álcool. estava muito fraca e seus exames constaram anemia profunda e anorexia. ainda está internada e sem previsão de alta. Aguardaremos mais notícias."

Eu estava estático. Ainda estava processando tudo o que eu ouvia. Durante a reportagem, fotos de apareceram, algumas de quando ela estava bem, em desfiles, e outras do dia em que ela passou mal: ela em cima da maca, sendo retirada da boate. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu me permiti chorar. Minha menina estava morrendo e eu não pude fazer nada. Eu estava longe e ela estava sozinha, perdida, sem pais, ou até amigos verdadeiros. Eu queria estar lá, queria poder abraçá-la e levar toda a dor embora, fugir para um lugar longe onde existisse apenas eu, ela e a paz. Mas eu não podia. Ela estava em New York. E eu em Leeds e pela primeira vez me senti impotente. Minha menina...



Capítulo 6


Meu segredo seria revelado. Tudo acabado, toda a proteção seria destroçada em uma única seção com a psicóloga. Eu ainda estava em New York, internada fazia dois dias e toda a comunidade de paparazzi do mundo inteiro estava acampada na frente do hospital e eu ainda pensava o que eu iria dizer para eles. Meu tablet estava ao meu colo com uma página totalmente em branco, pronta para ser preenchida com a explicação de tudo e eu não sabia o que escrever. Não sabia o que poderia dizer para explicar tudo sem me expor ainda mais.
Desliguei o tablet e comecei a encarar o teto. Em anos eu não tinha um momento desses, de poder ficar sem fazer nada ou pensar em nada, porque sempre algum fantasma do passado ou uma preocupação ficava ali, me atormentando. Peguei meu celular na mesinha de cabeceira e fiquei encarando o visor. A vontade de ligar para ele me invadiu como sempre acontecia, mas agora com mais intensidade. Será que ele sabia do que havia acontecido? Será que meus pais sabiam? O número da casa dele eu ainda lembrava, mas não deveria ser o mesmo número de sete anos atrás, ou era?
Disquei os primeiro números e respirei fundo. Era a decisão mais estúpida e a mais saudável que eu estava tomando até agora. Terminei o número e meu dedo pairou no botão de ligar. Nesse momento, a porta se rompeu e uma Victoria e um Mark entraram todos felizes com presentes nas mãos. Desliguei o telefone e coloquei de volta na mesinha de cabeceira.
- Vocês vieram me ver! - eu disse feliz, sendo abraçado por Victoria que me deu um beijo no rosto. - Por que não vieram antes?
- Nós viemos - Mark disse e me abraçou e deu um beijo na minha testa - mas você estava apagada por sedativos. Como você está?
- Pela primeira vez me sentindo viva. - eu disse com sinceridade - Sei lá, parece que depois de tudo o que aconteceu eu "acordei" pra vida de fato. Eu queria pedir desculpas pra vocês.
- Pelo que? - Mark disse abraçando Victoria de lado e eu estranhei, mas ignorei.
- Por ter causado tudo isso. Eu não tinha mais controle, quando eu dei por mim eu estava a caminho do hospital quase morrendo. - meus olhos se encheram de lágrimas - Eu fiz muita coisa errada na minha vida e a pior delas é que eu posso prejudicar vocês, a carreira de vocês e tudo o mais. Desculpa.
- Para com isso, ! - Victoria disse - Não precisa se desculpar de nada, honey - honey? - É a vida, certo? Agora você tem que seguir em frente. Antes que eu esqueça, Ben Barnes ligou pra saber de você.
- Quando?
- Ontem à noite. Ele está aqui em New York para resolver algumas coisas e disse que passaria aqui hoje por volta das três da tarde. Então fique pronta. - ela disse para mim e eu ri. Victoria nunca era disso, geralmente era Mark que fazia isso.
- A psicóloga do hospital vai vir aqui daqui a pouco. - Mark disse para mim - Tenta contar tudo pra ela, tá? Mandamos trazê-la de Londres para cá.
- Mas, Mark, é muito dinheiro? Temos dinheiro pra pagar todos esses gastos? - eu perguntei já que não tinha ideia do quanto eu tinha na minha conta bancária, só sabia que passava dos seis dígitos.
- Eu já falei com seu contador e tem como. Fica tranquila, você não confia em mim, não? No seu agente/contador/motorista/amigo? - ele disse e rimos. - Temos que ir, precisamos falar o New York Times e o The Sun sobre o que aconteceu. Essa é a pior parte.
- Temos que ir, querida. - Victoria disse e me abraçou. - Qualquer coisa liga, tá? Mais tarde Paollo e Lizzie passam aqui pra te ver. Lizzie está aos prantos preocupada com você.
- Ela deve estar surtando. - eu disse abaixando a cabeça - E Paollo também. - Para com isso, honey! - Mark disse - Não fica se sentindo culpada, isso é um problema e problemas acontecem, certo? - ele me abraçou e se virou para Victoria. – Vamos, querida.
Eles se despediram e saíram pela porta. Fiquei encarando a porta antes de prestar atenção nos presentes que eles haviam trazido para mim. Abri a sacola que Victoria havia me dado e sorri. Era um diário e junto com um cartão tinha um pequeno bilhete.

Acho que agora você precisa disso. Escreva o que você quiser, você merece desabafar, mesmo que seja com um simples diário. Eu te amo, querida.


Peguei a chavinha e abri o cadeado e várias folhas brancas se mostravam livres para mim. Victoria sabia escolher presentes. O tranquei novamente e o deixei em cima do meu tablet. O presente de Mark eram orquideas, com um bilhete que, antes de eu terminar de ler, já estava chorando.

Honey, seja bem vinda ao nosso encontro. Estávamos com saudade da sua alegria, do seu sorriso e principalmente dos nossos abraços. Estamos te aguardando. Um beijo. Mark. Te amamos.


Mark era realmente uma pessoa boa. Mesmo com tudo o que eu fiz pra ele - me arrependo amargamente por causa disso - ele ainda me compra flores e me deixa um recado desse. Eu o amava. De um jeito que amigo ama amigo. Eu amava a todos que faziam parte da minha vida naquele momento. Eu só poderia agradecer a Deus por Ele ter me dado uma nova chance.
E eu então eu lembrei dos meus pais. Como será que eles estavam agora? Eu não tinha notícias deles fazia muito tempo. Só soube deles quando aquilo aconteceu. E aquela notícia não me ajudou em nada. Eu precisava saber deles, a filha rebelde precisava ter ao menos um contato para seguir em frente e a verdade é que eu sempre senti falta deles. Falta de conversar com meu pai, brigar com minha mãe, tocar piano enquanto meu pai ficava com os olhos fechados ouvindo e minha mãe passando roupa. Sentia falta da minha vida normal e pacata em Leeds, que por mais que eu julgasse ou sofresse, era a vida perfeita pra mim. Eu tinha meus sonhos, eu queria lutar por eles, mas se tivesse que escolher entre ficar em Leeds ou ir para Londres agora, eu escolheria Leeds.
Peguei meu tablet e sabia o que dizer. Sabia o que publicaria no meu site.

"Aqui é a , ou simplesmente , dando explicações, porque o que aconteceu deixou vocês preocupados assim como eu fiquei. Antes de mais nada, não fiz nada disso para me promover ou coisa parecida, pelo contrário, tentei esconder meus problemas o máximo que consegui, mas isso quase me custou a vida. Então vim aqui dar explicações diretas. Eu sofro de bulimia nervosa. Tenho essa doença há mais de três meses e estava entrando em um quadro anoréxico. Estava bebendo demais e comendo de menos e isso estava me matando, mas eu não conseguia parar, era minha única fórmula de escape: a bebida, comer e vomitar. Fiquem tranquilos, meu tratamento eu começo hoje - inclusive, estou esperando os médicos chegarem. Fãs e amigos, me desculpem por toda a preocupação, prometo que vou me cuidar a partir de agora. Logo mais nos encontramos.
Com amor,
.


Explicações feitas, mandaria para o Mark para ele ver se estava tudo certo e desliguei meu tablet. Liguei a televisão e comecei a zapear os canais em busca de algo interessante para ver, mas nem tive tempo, pois a porta do quarto se abriu e uma médica entrou. Parecia que tinha a minha idade, tinha os cabelos castanhos na altura dos ombros, presos em um rabo de cavalo baixo. Ela me lembrava muito a mim mesma, provavelmente se eu não fosse modelo, teria feito medicina.
- Olá - ela disse estendo a mão e eu a apertei - Eu me chamo Angêla Holt. Lembra de mim?
- Claro que sim - eu disse saindo um sorriso e logo algumas lágrimas umedeceram meus olhos. - Você salvou a minha vida naquela noite. Eu não tive tempo para agradecer, então... Obrigada! - eu disse entre sorrisos e lágrimas e ela deu um sorriso. Eu a abracei e apertei bem forte, mostrando que estava realmente grata.
- Não precisa agradecer, querida. Mas como você está? Está sentindo alguma dor ou coisa parecida? Já se alimentou?
- Eu só estou um pouco cansada ainda, mas estou bem. E eu já comi. - eu disse.
- Mas você comeu muita quantidade, pouca, ou na medida?
- Normal. - eu disse, mas menti. Eu tinha comido muito pouco e tinha jogado o resto da comida fora. Eu ainda estava paranoica com o meu peso.
- Tem certeza? - ela disse me olhando e eu apenas afirmei com a cabeça. - Vou ouvir os batimentos do seu coração e todos esses exames.
Ela fez todos os exames que tinha que fazer e disse no final:
- Daqui a pouco vai vir uma enfermeira tirar o seu sangue, ok? Eu volto mais tarde.
Se despediu com um sorriso e saiu do quarto, me deixando sozinha.

'POV

Coloque pra carregar e dê play quando ver o nome da música.

Eu estava em choque. Minha mente se recusava a processar todas aquelas informações de uma vez só. Eu chorava profundamente e aquela ferida que eu achei que tinha cicatrizado se abriu novamente com uma dor ainda maior, arrasando tudo dentro de mim. Eu achei que estava recuperado, achei que poderia voltar a viver, mas eu estava errado, muito errado, por sinal. Os sentimentos por ela ainda estavam ali, talvez mais forte do que nunca e muito mais maduro do que antes. Hoje eu consigo perceber o que eu não consegui há sete anos: aquele era o sonho dela. E ela sabia que teriam consequências, sabia que isso poderia acontecer. Mas mesmo assim, eu não conseguia parar de pensar que se eu estivesse por perto, nada disso teria acontecido.
Enxuguei os resquícios de lágrimas e levantei da cama, naquele dia meio feio de Leeds. Abri a janela e o vento frio da manhã invadiu meu quarto e os pelos dos meus braços se arrepiaram, respirei aquele ar e decidi que faria alguma coisa. Eu tinha que fazer algo a respeito. Era de que eu estava falando. A mulher que - por mais estúpido que eu seja por isso - amava.
Tomei um banho e comi uma fruta, peguei o carro e fui em direção à casa dos meus pais. Só ali é que eu conseguiria fazer alguma coisa. Liguei o som alto e os acordes de I Want To Hold Your Hand dos Beatles fizeram com que eu sentisse uma pontada no coração. Respirei fundo e apertei minhas mãos no volante, de modo que as pontas dos meus dedos ficaram brancas por alguns segundos.
Não consegui me controlar e voltei a chorar. A batida poderia ser agitadinha, mas a letra falava muito ao meu coração. E o pior era que o rosto dela estava em minha mente, fazendo eu me sentir ainda pior. Ela estava bem longe de mim, sofrendo, sabe-se lá o porquê, e eu não podia fazer nada! NADA! E isso me matava cada vez mais.
Avistei a casa dos meus pais enquanto virava a esquina e também vi a casa dos pais dela,era na frente da minha e acho que isso contribuiu pra que eu vivesse a época mais feliz de toda a minha vida.
Estacionei o carro em frente à garagem dos meus pais, saí do carro e fiquei parada encarando a casa dos pais dela. O amarelo claro que antes era brilhoso, estava agora desbotado com manchas pretas perto do telhado, com marcas da chuva de ontem. O jardim que há tempos eram bem cuidados, com várias flores - que eu vivia roubando alguma para dar à - não existia mais, apenas um grama verde mal cuidada. Era como se a casa tivesse morrido depois que ela se foi.
Os pais dela, que antes eram um casal feliz, hoje saíam apenas para colocar o lixo para fora e não recebiam mais visitas ou davam festas como antigamente. Tudo ali acabou quando ela foi embora sem olhar para trás.
Dei as costas e entrei na casa da minha mãe, que tinha um ar quente comparado ao do lado de fora. O cheiro de ovos com bacon vinha da cozinha e eu deixei meu casaco no cabideiro perto da porta e fui em direção à cozinha.
Meu pai estava sentado na mesa da cozinha, lendo o jornal, tomando uma xícara de chá quente, enquanto minha mãe estava no fogão cozinhando. Meu pai me viu e abriu um sorriso.
- Filho! - ele disse se levantando e me dando um abraço - O que faz aqui tão cedo?
- Olá, querido! - Minha mãe disse cozinhando – Já já te dou um abraço, tenho que cozinhar para o folgado do seu pai.
- Não diga isso, querida, você ama cozinhar para mim que eu sei! - ele disse e todos rimos, minha mãe veio, me abraçou e pegou uma caneca e um prato e colocou na mesa e eu me sentei.
- O que está fazendo aqui? Veio passar o dia? - meu pai repetiu a pergunta e eu o olhei enquanto me servia de chá.
- Vocês souberam o que aconteceu? - eu perguntei para conseguir fazer a linha de pensamento. - Com a ?
- Não, o que? - minha mãe se virou para me encarar.
- Ela está internada em um hospital com anorexia nervosa e bulimia. - eu disse segurando o choro e dando um gole de chá para não ter que encará-los.
- Meu Deus! - Minha mãe disse e olhou para o meu pai que estava com um semblante triste - Cecile deve estar arrasada!
- E Vincent também. - Meu pai disse e olhou para mim - E você, como está em relação a tudo isso?
- Vocês sabem... - eu não escondia nada deles. - Eu ainda gosto dela e isso não é novidade. - eu dei uma pausa - E a pior parte é não poder estar lá, perto, para poder fazer alguma coisa.
- Não sinta isso, filho - minha mãe disse sendo compreensiva - ela sabia de todos os riscos, se dispôs a corrê-los. Entenda isso. - ela se aproximou e dei um beijo no topo da minha cabeça. - E deixa eu adivinhar? Você veio aqui para falar com os pais dela, certo?
- Certo. - Meu pai me olhou com um olhar repreensivo - Vocês podem achar loucura, mas eu preciso saber se eles sabem de alguma coisa. É impossível que eles não saibam, sei lá, alguém da equipe deve ter avisado aos pais ou coisa parecida.
- Olha, , Cecile disse que o único contato que ela tem com a filha é a pensão que ela manda por mês que, por sinal, nunca faltou. Nunca me disse se já recebeu cartas, telefonemas ou coisa parecida. Talvez eles nem saibam e você sabe como Vincent tem o coração fraco.
- Eu não tinha pensado nisso. - eu revelei e fiquei preocupado. Vincent, o pai de , tem o coração bem fraco e teve um infarto há pouco mais de três meses.
- Mas, mãe, eu preciso saber de alguma coisa! - eu disse um pouco mais alto. - Sete anos sem saber de nada sobre ela e quando eu sei não é uma boa notícia! Tem noção do quanto isso dói?
- Filho - meu pai começou a dizer de um jeito calmo - faça isso. Mas tenha em mente uma coisa: o que você ouvir de Cecile ou de Vincent pode te desanimar. Você sabe o que aconteceu.

E realmente eu sabia o que tinha acontecido com a família de . Os motivos que levaram uma família feliz virar uma família desestruturada que fez minha menina ir embora. Eu não poderia chegar do nada na casa de Cecile e perguntar sobre a filha "ingrata" que eles tinham, mas que nunca deixou de mandar dinheiro para eles. Meu pai foi trabalhar e eu fiquei com minha mãe naquele sábado chuvoso.

Era quase meio-dia e eu estava entediado, toquei todas as músicas que eu conhecia no violão, conversei com a minha mãe sobre meu trabalho e quando tudo isso acabou eu não tinha nada para fazer. Josh estava dormindo e eu não queria incomodá-lo. Então lembrei de alguém que sabia de tudo o que tinha acontecido, que poderia me ouvir e que eu tinha certeza que sabia de alguma coisa: .

- Mãe, você ainda tem o telefone dos ? - eu perguntei enquanto fuçava na mesinha do telefone em busca da agenda.
- Tenho sim, toda quarta-feira à tarde temos um chá na casa deles, só para senhoras. Por quê? - ela perguntou da cozinha enquanto fazia o almoço.
- Porque eu preciso falar com a filha deles. . Ela mora com eles ainda?
- Não, querido. Está morando em BradFord junto com umas amigas. - ela disse e na mesma hora eu encontrei o telefone.
- Já achei, mãe. - Disse e disquei o número, chamou um tempo e a voz de uma mulher atendeu.
- Alô? - ela disse e eu tentei identificar a voz.
- Senhora ? - eu chutei.
- Eu mesma. Quem fala? - ela perguntou e eu acertei meu chute!
- Aqui é o filho de Denise , . A está?
- Olá, querido! - ela disse mostrando entusiasmo agora que sabia quem era. - Está sim, mas está dormindo. Quando ela acordar, peço para ela te ligar, tá?
- Tá ok. Obrigada, senhora .
- Imagina, mande um beijo para sua mãe. - Ela disse e desligou. Agora era só esperar.

Meu pai voltou do trabalho, ele tinha uma oficina de carros e voltou todo sujo de graxa, minha mãe logo o mandou tomar banho. Almoçamos e nada da ligar e eu estava ficando preocupado. Será que a mãe dela havia dado o recado?
Eu mal pensei nisso e o telefone tocou e eu fui correndo atender.
- Alô? - eu disse esperançoso.
- ? - A voz fina de disse e eu sorri.
- ! Graças a Deus eu consegui falar com você. Como você está?
- Eu estou bem, mas não consigo entender. Por que você me ligou? Minha mãe disse que você havia ligado mais cedo.
- É, eu liguei. Eu precisava conversar com você. Vamos ao café do centro? - eu disse para ela.
- O Josh vai? - ela perguntou receosa e eu lembrei que eles haviam namorado, mas terminaram e desde então eles não se falavam.
- Não, ele está trabalhando em Wakefield. Vem pra Leeds duas vezes ao mês.
- Menos mal. Mas aconteceu alguma coisa? - ela perguntou preocupada.
- Aconteceu. Mas não foi comigo. Quer que eu te busque?
- Por favor. Passa daqui a meia hora. Sabe onde eu moro? - ela perguntou atenciosa.
- Sei. E obrigada, , acho que você é a única que pode me ajudar agora.

A casa de era grande, uma mansão, por assim dizer. O pai dela era dono de umas das indústrias que se instalaram em Leeds na década de 50, consequentemente era um negocio de família, passado de pai para filho. Eu cheguei, buzinei e fiquei esperando do lado de fora da casa, até ela sair andando e parar a minha frente.
- Você mudou. - ela disse e sorriu. - Está mais bonito. Espero que ainda não ande com o Josh. - ela fez uma piadinha e me abraçou.
- Vou te decepcionar. Eu ainda converso com o Josh. - eu disse e abri a porta pra ela entrar. Quando eu me sentei ela mexia no rádio. - Por que você não volta a falar com ele? Só por educação.
- O assunto dessa conversa não sou eu. - ela disse um pouco grossa e deu pra ver que falar sobre aquilo ainda a incomodava. - Mas...
- . - eu disse e ela me olhou como se soubesse. - Você ficou sabendo do que aconteceu?
- Fiquei. Ela é louca. Eu tentei falar com ela, contatei o agente dela, mas não deu certo. - ela disse naturalmente.
- Como assim? E não me avisa! - eu disse indignado.
- Você sumiu. Eu não converso com você há anos e quer que eu te ligue do nada, avisando? Mas eu tentei, logo quando eu vi a notícia pela internet na noite do ocorrido, eu entrei no site dela e vi que tinha telefone para contato. Eu liguei no dia seguinte, um tal de Mark Collins atendeu e disse que naquele momento ele não poderia passar nenhuma notícia sobre a . Acho que foi um dos momentos em que eu mais chorei na minha vida. - ela disse encarando a paisagem pela janela.
- Comigo foi a mesma coisa. - eu disse compartilhando a minha dor para ela ver que não estava sozinha.

Fomos o caminho inteiro até o café sem trocar uma palavra, a dor dissipada no ar, falava por nós. Chegamos e sentamos em uma mesa qualquer e fizemos nossos pedidos. pediu um frapuccino e eu fiquei no café puro mesmo. O silêncio reinou um pouco até que eu comecei a falar.
- Você quer tentar de novo? - eu disse para ela que fitava o próprio café.
- Ligar para o agente dela? Não sei se ainda dá, você sabe, está muito recente o que aconteceu com ela.
- Não custa tentar, né? - eu disse com um pouco de esperança. Ela tirou o celular da bolsa e colocou na minha frente.
- Liga. Você não tem nada a perder mesmo. - ela disse e voltou a beber o frapuccino.

Eu liguei, começou a chamar e um homem atendeu.
- Mark Collins falando.
- Oi, eu queria falar com a . - eu disse um pouco nervoso.
- não irá dar nenhuma entrevista por enquanto.
- Mas não é entrevista, eu queria falar com ela.
- Tá legal, você é fã, amigo distante, o que? - ele disse um pouco cansado e eu me irritei.
- Ex-namorado dela. . Ela está? - Então é você! - ele disse surpreso. - Espera um momento, vou ver se ela está acordada. Ai meu Deus, vai ficar feliz se souber disso!

Esperei alguns segundos e logo em seguida Mark voltou.
- Desculpa, , ela está na terapia, mas deixe o seu número, ela te liga quando acabar. - ele tinha uma empolgação na voz.
- Claro, anota aí. - eu passei o telefone. - Não esqueça de avisar, tá? E pode falar pra ela que eu estou com saudade?
- Claro que falo, você não sabe o quanto ela ficará feliz! Tchau, !

Eu encarei com um pequeno sorriso no rosto e ela me olhava aflita.
- E então? - ela disse.
- Eu não consegui falar com ela - eu dei uma pausa e murchou. - Ela estava na terapia, mas o agente dela sabia quem eu era e pegou meu telefone pra ela ligar depois.
- Isso é muito bom! - Helen levantou e me abraçou - finalmente vamos conseguir falar com ela! Eu esperei muito tempo por isso.
- Eu também.
- Por que você nunca ligou pra ela, ou mandou um email, ou uma carta? - Helen perguntou me encarando.
- Porque quando ela terminou comigo, ela disse que não era para eu procurá-la, assim seria mais fácil nós esquecermos um do outro.
- Como você é burro, ! Você não sabe que quando a mulher fala isso é pra você ir atrás? - ela disse num tom indignado.
- E eu ia saber? Eu a respeitei o tempo todo, me ferrei com isso, mas eu fiz! E outra coisa, eu sei que ela não queria que eu ficasse atrás. Ela disse para eu continuar a viver. - Me veio na mente o dia em que ela terminou comigo. - Você falou com ela?
- Falei. - disse um pouco triste. - Ela ainda me ligava logo depois que ela foi embora... Passou um tempo e não ligou mais.
- E o que vocês falavam? Ela falava de mim? - eu perguntei com medo da resposta.
- E como falava. Falava que se arrependia de ter te deixado, que sentia sua falta, que ainda te amava e que se pudesse teria levado você junto. E também falava que queria voltar pra casa, que não aguentava mais tanta competição. Ela sofreu muito pra chegar aonde chegou hoje.
- Ela disse isso de mim? Então por que ela foi embora? A vida não era o bastante pra ela? - eu perguntei nervoso.
- Você sabia muito bem o que ela passava na casa dela. Você lembra de tudo, não é? - ela disse e eu me lembrei.
- Como me lembro, diversas vezes, ela ia dormir em casa porque na casa dela ela não conseguia dormir.
- Me lembro muito bem. E era o sonho dela. Desde os catorze anos, ela ia escondida até BradFord, que era onde tinha a agência de modelo mais próxima. Eu ia com ela às vezes.
- Ela me contou a história, até que pediram a autorização dos pais dela e ela não tinha e vocês voltaram para a casa arrasadas - ela riu com a lembrança e eu ri me lembrando de como me contou. - Posso te fazer uma pergunta, ?
- Pode. - ela disse dando de ombros.
- O que aconteceu entre você e Josh ainda te afeta?
- O que aconteceu entre você e a ainda te afeta? - ela repetiu a minha pergunta.
- Você sabe que sim. - eu disse para ela - mas e você? Te afeta?
- Muito. - ela abaixou a cabeça - O jeito que vocês terminaram foi de um jeito limpo, honesto. O jeito que eu e Josh terminamos foi de um jeito sujo, horrível e desonesto. Ele me traiu. Na minha festa de 18 anos. Você estava lá.
- Eu sei disso, mas sei lá, eu sei que dói, mas você não deveria sentir raiva dele. Eu vi em algum lugar que a raiva é pior quando substitui o amor.
- Olha, , eu não vim aqui pra você defender seu amigo, então pode parar com isso! Eu odeio o Josh, com todas as minhas forças! - ela dizia com lágrimas nos olhos.
- Desculpa. - Só isso que me veio a cabeça e demos uma pausa na conversa.
- Tudo bem, eu que peço desculpas. Eu exagerei um pouco. Mas o que to querendo dizer é que eu fiquei muito machucada e ainda estou. Eu o amava!
- Amava ou ainda ama? - eu fiz essa pergunta para saber o que ela pensava.
- Me leva pra casa? - ela disse suplicante. - Eu estou cansada.
- Claro, só vou pagar a conta. - eu disse e me levantei da mesa, antes que ela viesse com a história do dividir as despesas.

Parei na frente da casa de e a olhei, ela fitava a janela. Na volta pra casa nós não havíamos conversado. Não tinha o que falar, com certeza a pergunta que eu havia feito por último a deixou abalada. me olhou e deu um sorriso triste.
- Você está certo. - ela disse e eu a olhei. - Eu ainda o amo. Eu sei que ele não sente o mesmo, mas eu ainda o amo. Eu estaria disposta a perdoá-lo, mas meu orgulho é maior que isso. Eu dei tudo à ele, , e ele fez aquilo comigo. - Ela agora chorava enquanto falava. - Eu tento seguir em frente, por isso me mudei para BradFord, bem longe daqui, bem longe dele. Para voltar a viver. Assim como a fez. Eu não tiro a razão dela. Ela fez a coisa certa em falar pra você não ligar. E você fez a coisa certa em não ligar. Mesmo que a dor tenha sido três vezes pior, é mais fácil você lidar com ela quando o causador da tua dor está longe. - ela me olhou com os olhos úmidos e disse por final: - Ligue para ela. Ela precisa muito de você agora. - Dei um beijo no meu rosto e se virou para sair quando eu lembrei:
- Josh se arrepende todos os dias por ter feito aquilo. Eu não estou dizendo para defendê-lo ou coisa parecida. Eu estava lá, eu vi o sofrimento dele durante todo esse tempo. Ele ainda se arrepende e me disse uma vez que se pudesse apagar alguma coisa do passado dele, apagaria o erro que ele cometeu com você.
Ela me olhou e sem dizer nada saiu do carro.

Cheguei em casa e tomei um banho, ainda esperando a ligação. Eu estava ansioso, teria notícias da minha menina. Tem noção do quanto é bom ter essa certeza? Digo, quase certeza, mas ainda assim estava valendo. Era umas cinco horas quando deixei a em casa, então não era muito tarde quando a campainha tocou e eu saí preguiçosamente do sofá para atender a porta. E tomei um susto. Uma figura loira estava parada me olhando com um olhar curioso, muito diferente do meu que estava mais para espantado, surpreso, tudo menos curioso.
- Quanto tempo, . - ela disse com aquela voz um pouco esganiçada.
- Audrey Robbins??

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'S POV

A psicóloga entrou e se revelou uma mulher baixinha, com óculos de leitura e cabelos pretos. Ela sorriu e se sentou em uma cadeira ao lado de minha cama.
- Tudo bom, ? - ela estendeu a mão e eu a apertei. - Eu sou a doutora Elena Pierce. Eu estou aqui para te ajudar. - ela deu um sorriso meigo.
- Obrigada. - foi a única coisa que eu consegui dizer para ela que me aparentava ser aquelas pessoas que vão até o fim para descobrir alguma coisa.
- Durante nossas sessões, nós vamos trabalhar o seu comportamento em relação a tudo isso e buscar uma maneira de te ajudar a sair de tudo, ok? Quero que saiba que eu não estou aqui pra te forçar a falar alguma coisa. Você só fala se você quiser.

Eu a fitei e por um momento me senti acuada. Eu queria falar, queria contar o que eu estava sentindo, mas alguma coisa me travava. Eu tinha vergonha de contar como tudo aconteceu, tinha vergonha de falar em voz alta o meu problema. Eu estava com medo de me expor. Essa era a grande realidade, eu tinha medo de falar o que eu sentia, porque por muito tempo eu vivi assim. Sem poder dizer nada, vivendo rodeada de segredos, abdicando minhas vontades para poder trabalhar. Era a minha vida.
Olhei o dia do lado de fora da janela e não sei o porquê, pensei em meu pai. Ele não iria querer que eu não dissesse nada. Ele sempre dizia: Se tiver que falar, fale. E se não puder falar, use a música. Ela falará por você. Era por ele que eu tinha que lutar, caso quisesse vê-lo novamente.

- Eu sei. - eu disse com um pouco de vergonha - E estou disposta a contar tudo. Eu preciso me curar, Elena. - eu disse para a mulher que me olhava. - Eu tenho que me curar e só vou conseguir falando.
- Esse já um grande passo. - ela sorriu para mim. - O que você quer falar? Sou toda ouvidos.
- Tem tanta coisa... - eu dei uma pausa pensando - Eu vivi tanta coisa que é difícil escolher. Escolhe você.
- Que ta começarmos com... - ela fitou o caderno que tinha em mãos - O início de tudo. Como começou a doença?
- Bem... - eu disse um pouco receosa, mas depois respirei fundo e me decidi. - Começou há três meses...

Flashback três meses antes

Mais uma sessão de fotos e eu já não aguentava mais. Aquela quarta-feira estava sendo puxada e o pior era que naquele final de semana eu não teria folga. Viajaria na sexta à noite para Bogotá, para uma sessão de fotos para uma marca Latina e só voltaria terça-feira. Acha que acabou? Depois daria uma pausa de dois dias e logo os trabalhos voltariam. Eu estava feliz com isso, todo esse trabalho me rendia muito dinheiro, mas me rendia muito estresse e cansaço.
Estava guardando minhas coisas, já havia me arrumado para ir almoçar quando Mark chegou perto de mim e sentou na cadeira ao meu lado. Ele tinha uma expressão triste e vazia e eu me preocupei.
- O que foi, Mark? - eu perguntei enquanto passava uma cama de rímel.
- , eu sinto muito. Muito mesmo. - ele disse com uma expressão ainda mais triste.
- O que aconteceu, Mark? - Agora a preocupação tomava conta de cada célula minha. – Fala, Mark!
- O seu pai... - ele disse baixinho. - Ele teve uma parada cardíaca.

Eu não conseguia respirar e automaticamente meus olhos se encheram de lágrimas e a culpa invadiu meu corpo. Eu estava distante, não o via fazia quase oito anos e eu deixei isso acontecer. A culpa era minha. Toda minha e eu não podia fazer nada. Não aguentei e deixei que o choro saísse junto com um grito de dor que fulminou meu peito. Mark me abraçou, mas eu recuei, me levantei e saí porta afora do estúdio. Eu ouvia os gritos dele, mas não parei de correr e peguei um táxi. Eu ainda chorava e o motorista me olhava um pouco assustado.
Cheguei em casa e ainda chorava. A dor era enorme, era como se ele tivesse falecido ou coisa parecida. Era agonizante e por mais que eu deixasse o choro sair ele não aliviava, pelo contrário, fazia eu me sentir pior. Corri até a cozinha e peguei todo o conteúdo alcoólico que tinha por lá e trouxe até a sala, voltei e peguei todo tipo de comida que tinha e levei até a sala também.
Bebi e comi até não poder mais e quando dei por mim, o céu estava escuro e eu havia comido muito. O remorso me acertou em cheio, juntamente com a dor de cabeça da ressaca e eu corri até meu quarto e me atirei na cama.
Eu não conseguia me lembrar o que havia acontecido para eu chegar naquele estado. Tentei me lembrar, mas minha cabeça doía e pesava muito. Forcei mais minhas lembranças e fragmentos de tudo apareceram. Meu pai havia tido uma parada cardíaca. Eu voltei a chorar e me senti pesada. Toda aquela comida não havia me feito bem e eu me sentia gorda.

Eu ouvi histórias dessas garotas que fazem o que eu iria fazer naquele momento. Eu fitava o vaso sanitário com uma certa curiosidade, o arrependimento de ter pensado nisso me envolveu e eu saí do banheiro. Sentei em minha cama e passei a pensar em tudo. Seria só uma vez, certo? E eu precisava de um alívio, uma válvula de escape. Mandei o medo pro inferno e voltei ao banheiro.

Flashback OFF.


- Então tudo começou por causa do seu pai? - Elena disse calma e compreensiva e eu confirmei com a cabeça - Você se sentiu culpada por que não estava perto dele?
- Sim. Eu nunca fui uma boa filha, Elena. Sempre fui muito independente e isso o deixava louco! Nunca fui de ser mandada e eu estava longe. - meus olhos estavam cheio de lágrimas - Ele ficou doente e eu não pude fazer nada, não fui visitar, nem nada.
- Por que você não foi visitá-lo? Você poderia dar um tempo no seu trabalho, não poderia? - Elena perguntou me encarando.
- Porque o jeito que eu saí de casa não me deu o direito de voltar. Nem pra uma visita. Não é tão simples como parece.
- Como você saiu de casa? - ela perguntou e eu me senti invadida. Acho que ela percebeu meu incomodo, porque logo reparou: - Você só diz se você quiser, é claro.
- Não quero fala disso agora. - Essa ferida ainda estava muito aberta. - Desculpa, mas é que eu ainda não estou pronta para falar.
- Se você quiser, podemos parar a sessão. - Ela disse compreensiva.
- Podemos mesmo? - eu disse com um pouco de esperança - Não é por mal, ou coisa parecida, mas eu já falei demais. Preciso pensar. E me alimentar. - eu fiz uma piadinha e nós duas rimos. - Você pode voltar amanhã?
- Claro, amanhã nesse mesmo horário eu estarei aqui. Você foi muito boa hoje, .Temos que dar um passo de cada vez mesmo. Sem adiantar as coisas. Você tem o seu tempo e eu vou respeitá-lo. Tenha uma boa noite.

E saiu da sala, fiquei encarando a porta por uns instantes, antes dela se romper com um Mark sorridente, seguido por uma Victoria saltitante. Eu comecei a rir os vendo e a alegria deles me contagiou muito.

- O que foi, gente? - eu disse com um sorriso de quem não estava entendo nada.
- , ele ligou pra você! - Victoria disse muito feliz.
- Ele quem? - eu disse sem entender nada ainda mais.
- . Ele te ligou hoje! - Mark disse rápido.

Eu perdi meu ar naquele momento. Ele havia ligado. Seria uma nova chance??

Continua...


N/a(15/04/2012): Não me matem, ok? Desculpa pela demora, eu sei que foi mancada, mas é que a minha imaginação estava com preguiça esses tempos, mas eu consegui terminar. Como foi a páscoa de vocês? Comeram bastante chocolate, amores? hahaha É isso, amores. Próximo capítulo já está elaborado e vou tentar mandar mais rápido, tá? Qualquer coisa passem no meu twitter, se tiverem alguma dúvida e comentem lá pra eu saber o que vocês estão achando da fiction!
Beijo e fiquem com Deus! xoxo

Nota da Beta: Hey, pessoa! Só pra avisar que se você encontrar qualquer erro na fic pode entrar em contato comigo por e-mail. E não custa nada deixar um comentário pra fazer uma autora feliz, porque ela merece.
Letii