Anatomy
Betado por That (até o capítulo 5) e Sofia Queirós


Prólogo

Posso pedir para que você fale coisas bonitas e que jure que será, até o final da vida, mesmo sabendo que isso é improvável. Vou dizer eu te amo, todos os dias, muitas vezes ao dia. Ou ficar grudada feito bicho-preguiça em seu corpo por longas horas – até você ter a certeza que seu braço está caindo. Talvez, ainda assim, eu não saia. Vou planejar mil viagens, mil concertos, mil teatros, mil passeios – mesmo que eles não aconteçam. Vou planejar a vida com você, mesmo que essa vida nem exista. Vou ser chata muitas vezes. E, ficarei entediada,mas passa. A única coisa que não passa é o meu sentimento por você.


1° Capítulo

Era por volta das 09h41min da manhã no colégio West Side, no centro de Londres, e o colégio continha o ensino médio e o ensino superior. Era um dos mais requisitados da cidade, e é neste mesmo colégio que estudavam , e eu.
Eu e éramos do segundo ano do ensino médio e era do terceiro ano. Nós nos reuníamos na cafeteria da escola no horário do intervalo, e nesse dia não foi diferente.

- Olhem lá, meninas, o – eu disse, com os olhinhos brilhando.
- , ele é o professor de anatomia da faculdade, está me entendendo? Ele é impossível – disse, me desanimando. Passei a olhar para outro lugar.
- Não tem nada a ver, . Ele é professor, não impossível – começou dizendo – , se você quiser eu te ajudo a conhecer ele.
- Sério? – eu disse com uma cara de espanto, mas espanto para quê, se estava certa?
- Sim. Olha eu converso com ele; eu posso falar que eu tenho uma amiga interessada em fazer medicina e que quer conhecer o laboratório de anatomia.
- Mas eu quero fazer comunicação, – eu disse, como se fosse óbvio.
- Mas ele não precisa saber – disse – Ora, , mentir não mata.
- Ela tem razão - disse.
- Ok, então, fale com ele, e vamos ver no que dará – eu disse, terminando de beber meu frapuccino e depois me dirigindo à sala de aula, seguida pelas minhas amigas.

As aulas passaram muito devagar naquela sexta-feira. Eu estava na aula de português, mas minha cabeça estava em , ou melhor dizendo, professor . Ele é alto, pele clara e seus olhos me encantam. Ele dá aula de anatomia para a turma de enfermagem. A propósito a namorada do meu irmão, , faz enfermagem.
Às 11h40min, a aula acabou. Me despedi das meninas e caminhei até minha casa que não ficava muito longe do colégio. No caminho, pensei no plano de e ri sozinha, não iria dar certo.
Uma semana se passou.
- O quê? – eu perguntei – Me passa logo o MSN dele, então.
- É isso, mesmo , ele disse que será um prazer te ajudar com a anatomia – disse, caindo na gargalhada.
- Ui, sei bem a anatomia dele – disse rindo.
- Ai, meninas, parem. Eu vou falar com ele – eu disse e entrei no MSN. Estávamos em semana de provas, então não teríamos aula naquele período. Eu entrei no MSN e ele estava online; abri a janela de conversação e digitei 'oi'.
- , faz cinco minutos que você está no envia-não-envia – disse – Envia logo esse 'oi'.
- Ok, eu não vou falar com ele – eu disse, fechando a janela de conversação.
- Ah, não, Srta. disse, vindo em direção ao computador – Se você não fala, falo eu... Anda, sai daí e me deixa conversar com ele por você.
- Você ficou louca ou o quê? – eu perguntei.
- Anda logo, é como se eu fosse você. Anda, , sai logo daí – disse, se sentando em meu lugar.
- Eu te ajudo, disse, dando uma longa gargalhada em seguida.
- Ótimas amigas, vocês – eu disse, fazendo bico e cruzando os braços.
- Ótimas, mesmo – disse – Agora, não reclama que eu cuido de tudo.
Eu bufei, mas fiquei quieta, afinal eu queria mesmo ele. A conversa rolou com muitos duplos sentidos, até que eu o convenci de que eu não ficaria com medo de ir ao laboratório. Ou, melhor, a convenceu ele. Às 10h21min eu fui ao laboratório e ele estava me esperando. Abriu a porta e um lindo sorriso.


2° Capítulo

Entrei na sala e fui tomada por um cheiro diferente de todos os outros; acho que era a mistura de formol. Deixei o cheiro de lado e comecei a andar pela sala, observando as peças humanas.
- Então, você gosta de anatomia? – perguntou, se juntando à mim, perto das peças.
- Gosto – menti.
- E já sabe o que vai fazer de faculdade? – ele perguntou, me analisando de cima a baixo.
- Não – comecei , eu estava nervosa e não sabia o que falar –, mas algo relacionado ao corpo humano. Medicina, talvez – sorri fraco.
- Mmm – fez e sorriu, começando a me explicar todo o corpo humano.
Eu escutei tudo atenciosamente, e, sabe que eu até gostei? Pois é, eu confesso que certas coisas eu nem prestei atenção porque estava ocupada demais olhando para ele.
- Bom, acho que tem uma coisa que eu não vou poder te explicar – disse, rindo logo em seguida.
- E por que não? – eu perguntei.
- Porque você ainda é um bebê – ele sussurrou perto do meu ouvido, me fazendo estremecer toda.
- Acho que já sou bem grandinha – respondi firme, e com vergonha, pois já sabia do que se tratava. Eu estava certa, ele puxou uma cadeira para mim e outra para ele, nos sentamos e ele começou a me explicar sobre o sistema reprodutor; eu prestei atenção e fiquei constrangida com algumas perguntas, ao final da explicação...
- E é isso – ele sorriu – Tem alguém que te faça sentir essas emoções que eu acabei de te explicar?
- É... – eu comecei gaguejando, estava muito nervosa, mas era agora ou nunca – Tem.
- E quem é?
- Um que, se você adivinhar, ganha um doce – eu disse, fazendo uma cara de criança e me encostando na bancada.
- Um doce seu ou um doce da lanchonete? – ele perguntou, com um olhar malicioso.
- Você escolhe – eu disse rindo e encarando aqueles olhos lindos.
- Bom... - ele começou - O seu é bem melhor.
- Então, adivinha – eu disse e fiquei esperando uma resposta.
- Ele é do ensino médio ou da faculdade?
- Digamos que ele se encontra neste prédio – respondi, sentindo minha bochecha corar.
- Ele esta próximo de você? – perguntou, chegando mais perto.
- Sim – respondi com a voz falha. Meu Deus, o que é aquele homem? Perfeito demais.
- Bom – ele disse e olhou para trás, parecia que estava procurando algo –, deixe-me ver se não tem mais ninguém nesta sala – ele disse, rindo, e eu fiquei mega vermelha.
- Ah – foi a única coisa que saiu da minha boca. riu e se aproximou.
- Sou eu, não sou? – ele perguntou.
- Aham – eu disse, procurando um buraco para me enfiar, mas ele não deixou; me encarou nos olhos.
- E por que eu?
- Porque é você que eu sempre vejo pelos corredores, porque você é lindo e... - eu comecei a vomitar as palavras; sim, eu estava muito nervosa com toda aquela situação.
- Hey, calma – ele disse, rindo – Você está sendo sincera e isso é bom.
- É, ótimo – eu disse, um pouco irônica – Acho que já vou indo para minha sala, porque...- eu comecei a dizer, mas ele não deixou. Me segurou pelo braço e me puxou pela cintura, selando nossos lábios logo em seguida. Foi uma ótima sensação; seus lábios quentes, sua pele em contato com a minha, seu cheiro. Por um momento, achei que estava sonhando, o ar estava me faltando. Ele encerrou o beijo e me olhou.
- Você sabia que isso iria acontecer, não sabia? – ele perguntou, me olhando com o lábio vermelho e eu não pude deixar de sorrir.
- Sabia – respondi simplesmente, e, na verdade, sabia mesmo. Com a fama dele, acho que qualquer pessoa já sabia.


3° Capítulo

Conversamos por um tempo até baterem na porta. Ele me olhou assustado e se dirigiu receoso para abrir a porta.
- Quem será que é? – ele sussurrou.
- Não sei – eu respondi, apesar de que já imaginava pela alta conversa do lado de fora. Olhei para a janela dos fundos e, , fiquei completamente sem reação.
- São suas amigas? – perguntou.
- É... É, eu acho que sim – respondi com vergonha, não podia sair nada de errado, agora.
- Acho melhor você ir, então – ele disse e logo em seguida abriu aquele sorriso que eu tanto gostava.
- Ok, eu... - comecei dizendo – Posso voltar amanhã?
- Deve – ele respondeu, simplesmente abrindo a porta. Eu saí e me deparei com e me olhando com uma cara maliciosa e tentando conter as risadas.
fechou a porta atrás de mim e eu comecei a andar sem esperar pelas meninas.
- ? – me chamou – Pode começar a dizer tudo o que houve lá dentro.
Eu parei e olhei para elas.
- Vocês se pegaram? – perguntou.
- Bom... – eu comecei dizendo, mas fui interrompida por Sebastian, um amigo meu e das meninas, que apareceu na minha frente me dando o maior susto.
- E aí, , quer uma camisinha? – Seb me perguntou, dando uma longa gargalhada logo em seguida.
- SEBASTIAN! – eu gritei com ele e ele riu mais ainda. Percebi que nós conversávamos um pouco mais à frente da sala do e fiquei apavorada com a possibilidade dele ouvir a conversa. Saí correndo.
- Pega ela – ouvi gritando e os três correndo atrás de mim. Entrei no banheiro e elas entraram atrás. Até Seb entrou.
- Sai daqui, Seb – disse, empurrando ele para fora.
- Ok, ok, eu saio. Mas eu vou ficar aqui na porta – Seb disse.
Conversei com as meninas dentro do banheiro (e Seb consequentemente ouviu tudo do lado de fora), expliquei a elas tudo o que fizemos e elas me ouviram com atenção.
- Eu disse que ela não ia dar pra ele, hoje... – começou – Pode dar o meu dinheiro, ;
- Ah, puta que o pariu, viu – respondeu , entregando uma nota de dez reais para . Eu fiquei incrédula, como minhas amigas podiam fazer isso? Amigas!
- Não acredito que vocês fizeram isso – eu disse, encarando as duas, que nem envergonhadas ficaram.
- Ah, linda da nossa vida, é que você estava tão dividida entre seu desejo de sexo e seu medo que a gente achou legal fazer isso, mas, relaxa, se não foi hoje...
- Cala a boca, – eu disse.
- Cuidado, hein, , que quem perde o lacre de segurança não tem selo de qualidade – disse Seb, do lado de fora do banheiro.
- CALA A BOCA, SEBASTIAN – gritamos , eu e .
A semana passou tumultuada devido a grande quantidade de prova, e devido a grande quantidade de beijo que eu recebia do , ou melhor , já que ele insistia que eu o chamasse assim.
- Princesinha, a gente podia sair para jantar hoje. O que você acha? – perguntou , enquanto arrumava uma pilha de provas em cima de sua mesa.
- Não sei, não, , não acho seguro. Se nos virem juntos... – eu respondi e ele virou os olhos.
- Você tem que se arriscar mais – ele respondeu, me dando um beijo na bochecha e voltando a arrumar a pilha de provas em cima da mesa.
Não que eu não me arriscasse, porque eu já estou me arriscando demais ficando com ele, mas, poxa, eu não quero arriscar expor meu sentimentos. Faz três semanas que nós estamos ficando, freqüentemente. Não quero me apaixonar por ele, apesar de que eu tenho certeza que isso será inevitável. Só me resta esperar até que aconteça, se é que já não aconteceu.
Sexta à noite geralmente é um saco, sem nada para fazer a não ser ficar escutando a banda do meu irmão ensaiar por horas. Aliás, eu já falei sobre meu irmão? Sim, eu tenho um irmão. Ele é mais velho do que eu e faz faculdade de Educação Física, apesar de ele gostar mesmo é de música; ele tem uma banda junto com os amigos muito gatos dele; , e David, mas David não se encaixa muito na banda, eles vivem discutindo e acha melhor que ele saia, mas, como dizem, quem não tem cão caça com gato, e como eles ainda não tem ninguém em vista para substituir David, é melhor que ele continue.

Era por volta das sete horas da noite; eu estava deitada na cama, pensando nessas últimas semanas com quando o celular tocou, e, adivinha quem era? Sim, era ele.
- Oi, – eu disse com a voz um pouco manhosa. Sinceramente eu não sei porque eu estava assim, mas a verdade é que estava tudo muito confuso.
- Oi, , como você está? – ele perguntou do outro lado da linha. Um pouco nervoso, talvez.
- Estou bem e você?
- Também estou, escute, , você vai ou não jantar comigo, hoje?
- Sinceramente, não pensei nisso – respondi simplesmente.
- – ele disse e respirou fundo – O que custa você ir jantar comigo?
- Se nos verem...
- Não vão nos ver, anda vamos logo.
- Hm, ok. Vou me arrumar, você vem me buscar?
- Sim. Me manda mensagem quando estiver pronta, e me diga seu endereço ok? Beijo - ele disse e desligou.
Ah, só espero que não saia nada errado esta noite.
Me levantei para tomar um banho e escolher minha roupa. Vesti algo que me deixasse com um certo ar de inocência. Coloquei um vestido azul clarinho, curto, sandálias de salto e um casaco por cima. Prendi meu cabelo em um penteado meio solto, peguei minha bolsa e mandei uma mensagem para :
“Estou pronta. Minha rua é West Cooper. Estou te esperando.”
Demorou mais ou menos vinte minutos e estacionou na frente do meu prédio. Desci e lá estava ele; camisa social desabotoada, calça jeans, tênis all star. Nem preciso dizer que ele estava lindo.
- Oi, minha linda – ele disse, abrindo o sorriso que só ele sabia.
- Oi – eu disse, um pouco sem graça – Você está lindo.
- Estou tentando ficar a sua altura – ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo estremecer. Abriu a porta do carro e sorriu.
Durante o caminho, o silêncio reinou dentro do carro, a não ser pela música dos Beatles que tocava bem baixinho, ao fundo. Eu estava nervosa e acho que ele percebeu, aliás, eu percebi que comecei a ficar nervosa perto dele nos últimos dias. Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Cadê aquela garota determinada que foi falar com ele? Na verdade, ela nunca existiu, ou melhor, ela existe, mas não sou eu. Era a .
Chegamos ao Theri’s Massas, ele abriu a porta do carro, me deu a mão e me conduziu até a mesa. Ele estava particularmente agradável aquela noite, o que não estava nada agradável era a quantidade enorme de meninas e mulheres que lançavam olhares para nossa mesa. Algumas cumprimentaram ele e depois se foram.
- Você tem uma grande quantidade de fãs, hein, ? – eu disse, bebendo um gole do meu vinho enquanto esperava nossos pedidos.
- Como você é ciumenta – ele disse brincalhão, me mostrando a língua. Eu apenas sorri.
Eu precisava melhorar, ou melhor, controlar meus ciúmes, mas tente fazer isso quando você tem um caso escondido com seu professor de anatomia sendo que, ainda por cima, ele é o maior galinha da história. Seja lá o que for, eu precisava mudar.

- Você podia vir pro meu apartamento, hoje, . O que você acha? – ele disse, me lançando um olhar malicioso, e eu sabia muito bem o que ele queria. Eu não estava pronta.
- Não, , hoje não – eu disse com a voz baixinha, como se dissesse apenas para mim mesma.
- Hm, você enrola demais, – ele disse e logo em seguida rolou os olhos.
- Desse jeito, parece ser só sexo o que você quer – eu respondi , percebendo que minha voz se elevou um tom.
- Shiu, fala baixo. E não é nada disso, . Eu me importo com você, mesmo que você não acredite.
Não respondi nada nessa hora. Será que ele realmente se importava? Não sei, aliás, não sei de mais nada. Fiquei quieta por uns instantes quando o toque do meu celular cortou nosso silêncio. Era meu irmão.
- Oi, - eu disse.
- , onde você está? – me perguntou praticamente gritando, devido à música alta ao fundo. Ele devia estar ensaiando com a banda.
- Estou com um amigo, por quê?
- Vem pra casa, então, . As meninas estão aqui e vamos fazer um jantar, você vem?
- Eu já jantei. De qualquer forma eu vou, não quero que vocês coloquem fogo na minha casa – eu disse, mas na verdade essa era uma ótima desculpa para não ir ao apartamento do .
- Essa casa também é minha, maninha – disse, dispersando meus pensamentos.
- E? – eu disse – Daqui a meia hora eu chego em casa, tchau – dizendo isso, desliguei e passei a encarar um tanto que observador à minha frente.
- Quer que eu te leve para casa? – perguntou, enquanto pegava sua carteira, provavelmente para pagar a conta.
- Não precisa – eu disse – Vou de táxi.
- Não senhora, eu te levo, ok? – ele disse.
- Ok.
pagou a conta e me levou em casa. O silêncio dessa vez foi enlouquecedor. Depois de uns 20 minutos, nós chegamos. Ele saiu do carro ainda em silêncio e abriu a porta para mim.
- Obrigada – eu disse, abaixando a cabeça pronta para entrar em casa e pronta para que ele me dissesse alguma coisa, também.
- De nada – ele respondeu simplesmente, um pouco irritado talvez, e arrancou com o carro. Não olhei para trás, apenas entrei.
- ! – , minha cunhada, gritou logo que eu entrei.
- Até que enfim, onde você estava? – me perguntou.
- Jantando com um amigo – respondi e percebi com os olhos esbugalhados. Pelo jeito ela sabia com qual amigo eu estava.
- Oi, , tudo bem? – eu a cumprimentei com um jogo de olhar para que ela entendesse que eu explicaria tudo a ela depois.
- Tudo – ela disse - Vamos para a cozinha? A está tentando fazer um purê de batatas.
- OMG, não deixem que isso aconteça! – berrou da sala. Ele era o baixista da banda do meu irmão, McFly.
- , olá – eu disse, berrando para que ele me ouvisse.
- Oi, ! Vem cá, estou em um campeonato de vídeo game com o – ele disse. A propósito, era o vocalista da banda. Ele era o mais velho de todos e o mais responsável também; na opinião dele a banda precisava de outro vocalista, mas até agora ninguém tinha se manifestado a favor, e nem contra.
- Já vou, . Vou subir primeiro, tirar essa roupa e ajudar a na cozinha – eu disse, começando subir as escadas.
- Eu vou com você – disse, toda feliz - Faz tempo que não conversamos, estou cheia de provas e não tenho tido muito tempo pra nada.
- Eu que o diga – respondeu, se dirigindo a cozinha.
- Hm, por que você não vai com o um pouquinho, ? – eu disse – Meu irmão anda sentindo sua falta.
- Ok, depois conversamos, então – disse, indo para a cozinha.
Subi as escadas pensando em toda minha noite, ou quase noite, que eu tive com o . Eu estava cansada e um pouco perdida. Será que eu estava agindo de maneira errada? Perguntei a mim mesma, mas quem respondeu foi outra pessoa.
- Está, sim – disse atrás de mim, fechando a porta do meu quarto.
- ! Meu Deus, que susto – eu disse, tacando um travesseiro nela – e pare de responder meus questionamentos à minha consciência.
- Eu sei que sua consciência concorda comigo – ela disse séria, sentando-se na minha cama.
- Talvez – eu disse, tirando meu vestido e colocando um shorts jeans e uma camiseta do Dream Theater. Prendi meu cabelo em um coque alto e comecei a procurar meus chinelos. Droga, por que eles sempre somem, assim? Eu ia dizendo, enquanto procurava pelo quarto todo.
- Não mude de assunto, começou – Você sabe que...
- Agora não, , por favor – eu disse, olhando pra ela e fazendo minha melhor cara de cão sem dono.
- , você sabe que não existe meio termo, ele vai se cansar de ficar só nos beijinhos com você.
- , se ele quiser ficar comigo, vai esperar a hora certa para nós transarmos – eu disse, tentando acreditar nas minhas próprias palavras.
- Meu Deus, como você é ingênua, menina – disse, incrédula – Ele não te ama, essa relação é sexo e nada mais. Você sabia disso desde o início. tem fama de ser como é e você conhece.
- Você faz parecer que isso é algum tipo de jogo – eu respondi, finalmente encontrando meus chinelos embaixo da cama e colocando eles.
- Um jogo como qualquer outro – disse, abrindo a porta do quarto.
- Como qualquer outro? – perguntei sem entender.
- Exatamente, cujo objetivo principal é apenas a diversão – ela respondeu, saindo do quarto. Será que ele estava comigo apenas pela diversão? Não pode ser, um lado meu ainda me dizia que dessa vez estava errada. Talvez esse fosse meu lado apaixonado.
Desci as escadas e encontrei a turma toda na cozinha. Cumprimentei , que estava emburrado por ter perdido pro , que por sua vez estava feliz da vida comendo uma maçã e contando algum tipo de piada para . e estavam terminando de fazer a sobremesa, torta de limão, especialidade da . estava jogando fora o purê de batatas que provavelmente havia dado errado.
- Olá, crianças – eu disse a eles e pegando um pouco do creme da torta da .
- Para, disse, irritada – Você é igualzinha seu irmão, fica comendo tudo enquanto os outros fazem. Que porra!
- Calma, cunhadinha – eu disse, rindo da cara dela – Ó, parei de comer, ok – eu disse – E, além disso, sobremesa é só depois do jantar.
- Que jantar? – perguntou – queimou o purê e ele era nosso único jantar.
- Hm, eu faço o jantar – eu disse, abrindo o armário. Talvez cozinhar me ajudasse a esquecer um pouco meu dilema pessoal.
- AE, AE, AE, AE! – saiu comemorando pela cozinha – Até que enfim alguém que saiba cozinhar!
- Eu cozinho e o restante coloca à mesa – eu disse, pegando uma lasanha congelada. Iria fazer arroz para acompanhar, salada e vinho.
- Credo, , você parece a mamãe mandando a gente arrumar a mesa – disse, pegando os pratos, os talheres, a toalha de mesa e assim por diante.
- Olha que lindo, todo mundo trabalhando – eu disse, dando risada deles.
- Claro mamãe, antes que você decida colocar todo mundo de castigo – me disse, mostrando a língua.
- Falando nisso, cadê a mamãe, ? – eu perguntei, enquanto pegava a panela para fazer o arroz.
- Não sei, acho que foi em um café com as amigas da faculdade – respondeu indiferente. Desde que minha mãe havia voltado a estudar, ela não parava mais em casa. Meu pai era cem por cento trabalho, também, eu e o não víamos muito eles. Sinceramente, eu não ligava muito pra isso, mas o sentia falta da família reunida pro jantar, por isso sempre enchia a casa com os nossos amigos, assim ele não se sentia sozinho.
Terminei de fazer o jantar e nos sentamos para comer, todos felizes, ou pelo menos era assim que aparentávamos estar. Os meninos discutiam algo sobre a próxima apresentação da banda. e comentavam sobre a semana de provas, estava quieta, até que decidiu perturbar minha paz de espírito.
- E aí, cunhadinha, como anda seu coração? – perguntou, enquanto se servia de mais um pedaço de lasanha.
- Batendo – eu respondi, dando uma golada no meu vinho e sorrindo para ela.
- Você sabe sobre o que eu quis dizer, – ela respondeu me olhando.
- Ele está muito bem, respondeu por mim. Mas que diabos, tinha que parar com esse hábito de responder às perguntas alheias.
- Que bom – respondeu – Esta ficando com alguém, ? – ela perguntou, destacando bem o meu nome, para que a não se intrometesse novamente.
- Estou – eu disse.
- Hm, quem é o sortudo? – perguntou.
- Alguém especial, talvez um dia eu te conte – respondi.
- Talvez um dia ele esteja aqui, jantando com a gente, também, maninha – foi a vez de responder, e, pelo jeito, ele não era o único que prestava atenção na conversa.
- Ui, a está na ativa – disse brincando e levando um pedala de – Ai, doeu, .
- Cala a boca, chaveirinho – respondeu, tacando o guardanapo na cara de .
- Conta aí pra gente, , quem é ele? – disse.
- Gente, deixem ela em paz – disse, ela e eram as únicas que sabiam quem era o ‘sortudo’. Aliás, elas e o Sebastian.
- Gente, vocês não chamaram o Seb? – eu perguntei.
- Ele disse que tinha umas coisas para fazer e não quis vir – disse.
- Ei, não muda de assunto, não – disse – Você não nos contou quem é o seu cara.
- Não quero falar sobre isso – eu disse, enchendo minha boca de lasanha. Com a boca cheia eu evitava responder as perguntas.
- CONTA, CONTA, CONTA – os meninos e começaram a cantar e gargalhar.
- Está com medo de alguma coisa? – disse, dando risada.
- EU NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO, CARALHO! – eu respondi, tacando meu guardanapo em cima da mesa e subindo pro meu quarto.
Subi as escadas xingando mentalmente meus amigos e me xingando também por ser tão idiota de me envolver com o . Algo me dizia que isso ainda ia me dar muita dor de cabeça. Entrei no quarto, fechei a porta e deitei na cama. Oh, céus, como eu estava cansada. Minha cabeça girava, já fazia quase um mês que eu estava ficando com o , e, desde então, meus sentimentos estavam todos desorganizados e eufóricos dentro de mim. Escutei baterem na porta.
- Quem é? – eu perguntei, não estava a fim de falar com ninguém.
- Sou eu, , sua cunhadinha preferida – disse com uma voz de criança e eu não pude deixar de sorrir. Ela era uma ótima pessoa e estávamos nos tornando amigas, agora que ela e o meu irmão estavam namorando firme.
- Pode entrar, – eu disse e ela entrou com um prato de torta na mão.
- Desculpe, , eu não perguntei por mal. Aliás, eu não tenho nada que me meter na sua vida, mas eu achei que seria legal a gente se tornar amigas, agora que eu também sou da família. E eu só estava querendo puxar assunto e – desembestou a falar.
- , calma, não foi sua culpa – eu disse sorrindo, e, realmente, não era culpa dela. Era minha culpa.
- Toma – disse, me entregando a torta de limão.
- Obrigada – eu disse, feliz, torta de limão era meu doce favorito – É meu doce favorito, , sabia?
- Sabia – ela disse, mordendo o lábio e sorrindo – É o doce favorito do seu irmão, também.
Eu apenas sorri, era bom ter a por perto. Era bom me sentir querida pelo o que eu sou, e não pelo meu corpo. Talvez um dia gostasse de mim, assim, igual aos meus amigos, do jeitinho que eu sou.

4° Capítulo

Meu final de semana não foi um dos melhores. Depois do jantar, fracassado diga-se de passagem, na sexta à noite eu não tinha visto mais as meninas. Estava ocupada terminando meu relatório de biologia para segunda-feira e deduzi que elas também estivessem. Meu irmão passou o final de semana todo ensaiando com a banda; eles precisavam recuperar o tempo perdido, já que não ensaiaram a semana passada por causa da semana de provas da faculdade do . Na segunda-feira, me levantei mais cedo do que o normal. Tomei um banho demorado e desci para tomar café da manhã.
- Bom dia, linda - meu pai disse, assim que me viu entrando na cozinha. Ele estava preparando panquecas, pelo cheiro bom que invadia a cozinha. estava sentado à mesa.
- Bom dia, pai – eu disse - Bom dia, – disse, dando um beijinho no rosto dele e me sentando ao seu lado, à mesa.
- Aqui está – meu pai disse, entregando a panqueca de – Quer uma também, ?
- Não pai, vou ficar só com o café mesmo, obrigada – eu respondi – Como foram os ensaios com a banda? – eu perguntei à .
- Foram razoáveis. Precisamos de mais um vocalista – ele disse, meio desanimado.
- Acho que vocês deviam aproveitar as férias e fazer testes com pessoas que se interessem – eu disse.
- Mas você não vai viajar nas férias, filho? – meu pai perguntou.
- Não, preciso me dedicar à banda e vou fazer isso nas férias – respondeu.
- Sua mãe não vai gostar nada disso – meu pai disse.
- Talvez se ela passasse mais tempo em casa... - eu ia dizendo.
- , chega – meu pai disse – Sua mãe tem os compromissos dela.
- Compromissos dela, sim, porque os da casa dela, ela não vê – eu respondi, meio irritada.
- , eu disse CHEGA – meu pai disse bravo e eu me retirei da cozinha. Deixei ele berrando sozinho. Percebi que estava logo atrás de mim.
- – ele disse
- Não dá, , quero ir embora dessa casa – eu disse, com os olhos cheios de lágrimas - Não agüento mais, preciso do meu espaço.
- Nós vamos, ok? – disse me abraçando – Eu e você, mas até lá, agüente firme.
- Ok – eu disse, me soltando dele – Agora me leve pra escola, antes que eu chegue atrasada.
- Claro – disse.

Cheguei à escola e logo encontrei as meninas, conversamos por um tempo antes de entrar para o nosso primeiro período, que seria filosofia. A aula passou normalmente, e, apesar do sono em que todos se encontravam, evitei as perguntas de e sobre meu jantar com o na sexta; por isso, saí assim que a aula terminou e fui procurar um lugar para me 'esconder' delas. Peguei o corredor do andar térreo e fui reto, esbarrando com pelo caminho.
- Oi, – ele disse, meio sem graça.
- Oi – eu respondi, tentando ir embora, mas simplesmente não conseguia.
- Você está bem? – ele perguntou, meio receoso.
- Estou ótima, obrigada – respondi seca.
- Desculpe por sexta-feira, eu estava um pouco cansado, cheio de coisas do trabalho. Me desculpe mesmo, prometo que não vai mais acontecer – disse. Ele estava com as mãos nos bolsos e me encarava de um jeito doce.
- Tudo bem, vamos esquecer isso, ok? – eu disse, passando a mão no rosto dele – Vai ter aula, agora?
- Não – ele respondeu – Eu estava indo para a minha sala, me acompanha?
- Claro – eu disse e nós fomos para a sala dele, com muito cuidado pra nenhum xereta ver.
Nem preciso dizer que foi maravilhoso. Fizemos as pazes e ele ficou me adulando o intervalo todo, mas como tudo que é bom dura pouco, tive que voltar para a sala de aula. O último período era de química, mas eu sinceramente estava com a cabeça lá na anatomia.

Parece até um conto de fadas, né? Mas a realidade é bem diferente; começou a se comportar de um modo estranho, de um modo frio; a princípio eu não liguei muito pra isso. Mas as coisas foram mudando, já fazia três meses que nós estávamos juntos e partir daí as brigas se tornaram freqüentes.

- Oi, , eu te liguei pra saber se você vai ao pub – eu perguntei ao telefone, pro , assim que acordei pela manhã, em pleno sábado. Um dos pubs de Londres aceitou que a banda do meu irmão, McFly, tocasse lá e muitas pessoas iriam prestigiar. Claro que eu não poderia ir sem o , então liguei.
- Não sei, – ele disse, como se calculasse as palavras – Você vai?
- Claro, não posso deixar de apoiar meu irmão, nessa hora – eu disse entusiasmada.
- Sim, mas eu não sei se vou, . Amanhã vou pra Liverpool visitar minha mãe, e tenho que pegar a estrada cedo.
- Ok – eu disse – Se você não for, me liga, avisando?
- Claro, linda – ele disse.
- Ok, beijos – eu disse e desliguei.
A verdade era que essa história estava muito mal contada, na minha opinião. Eu sou muito desconfiada porque, mesmo gostando do , eu não sou idiota e sei bem da fama que ele tem. Fiquei pensando nisso, deitei na cama e acabei pegando no sono, acordei por volta das 19hrs com a me balançando.
- Acorda, vai – disse, enquanto me chacoalhava.
- Ei, – eu disse, sonolenta – Que que você está fazendo aqui?
- Nossa, , você é muito desligada, mesmo, viu – ela disse, se fingindo de brava. Eu ri.
- Desculpe, . Peguei no sono e esqueci que você iria se arrumar aqui, para ir ao pub comigo.
- Tá, eu te desculpo, mas que milagre ver você dormindo a essa hora – ela disse, se deitando ao meu lado na cama – Você dormiu a tarde toda?
- Sim – eu respondi – Depois que eu falei com , acabei dormindo.
- Ele vai no pub? – perguntou.
- Ele não sabe, disse que vai pegar estrada amanhã cedo pra casa da mãe dele e...
- E você acreditou, como você é bobinha – disse.
- Oras, , pode ser verdade – eu rebati – Você não sabe se ele está mesmo mentindo.
- Mas ele disse pra você que iria, – ela continuou – Na segunda-feira lembra? Você tinha até dado o convite pra ele, já.
- Talvez ele tenha mudado de planos – eu disse, me recusando a acreditar que ele podia estar mentindo pra mim.
- Por que você não faz um teste? – perguntou com uma carinha diabólica, e, quando ela agia assim, é porque algum plano ela tinha.
- Como assim? – eu perguntei, me levantando da cama e sentando na poltrona perto da janela.
- Óbvio, – ela disse – Invente uma doença, ligue para ele e diga que você não está nada bem e que esta muito triste porque não vai poder ver seu irmãozinho tocar.
- , você é um gênio – eu disse, dando pulinhos e de repente Linger começou a tocar no meu celular, olhei no visor e era ele.
- É ele, – eu disse – Ele disse que ligaria, avisando se ia ou não.
- Então, atende logo e faça o que combinamos.
- Alô – eu disse, quase que sussurrando, para dar a impressão de que eu estava mesmo doentinha.
- Oi, – ele disse – Você está bem?
- Não, . Acordei com febre e uma dor no corpo terrível – eu disse, enquanto colocava meu travesseiro no próprio rosto para abafar o riso.
- Eita, , tem que ver isso aí... – disse – Pode ser dengue, ou algo do gênero.
- É, a vai comigo ao médico. Estou esperando ela chegar.
- Ah, entendi – ele disse e ficou em silêncio por uns cinco segundos – Deduzo que você não vá ver ser irmão tocar hoje à noite, então.
- Pois é – eu disse – Espero que o não fique bravo comigo.
- Ele vai entender – disse – Eu também não vou, . Aliás, te liguei para avisar, estou cansado e preciso dormir para pegar a estrada amanhã cedo.
- Ok – eu disse – Dirija com cuidado e mande lembranças pra sua mãe – tentei dizer a última parte para que parecesse uma ironia, mas não sei se obtive muito sucesso.
- Ok, linda, melhoras pra você. Tchau – ele disse e desligou. Eu taquei o celular em cima da cama em um pequeno acesso de fúria, mas eu tinha que entender o lado dele, também.
- E aí, o que ele disse? – perguntou.
- Disse que não vai mesmo porque tem que descansar e... – eu disse me jogando na cama e me afundando em meio aos travesseiros.
- E você não acredita nele – completou a frase.
- Não sei o que eu faria se isso que ele me disse fosse uma mentira – eu resmunguei, e, nesse momento, entrou no quarto.
- Quem mentiu pra você, ? – perguntou, se enfiando no quarto e tacando meu urso de pelúcia na cara da .
- Droga, , não te ensinaram a bater na porta, não? – perguntou, tacando o urso de volta nele.
- Ei, vocês dois – eu disse – Deixem meu urso em paz.
- Achei que vocês já estivessem se arrumando – disse – eu e os meninos vamos mais cedo para arrumar os instrumentos. O disse que vai deixar o carro dele pra você ir com as meninas, .
- E vocês vão como? – eu perguntei.
- Com meu carro – respondeu – Bom eu tenho que ir, a gente se vê lá – ele disse, dando um beijinho no rosto da e um na minha testa.
- Tchau, – eu e a dissemos em coro e ele se foi.
- Bom, acho que está na hora da gente se arrumar – disse – Quem vai pro banho primeiro?
- Pode usar meu banheiro, , eu uso o do – eu disse, peguei minhas coisas e fui para meu banho.
Banho é algo ótimo, é relaxante sentir a água quente batendo nas minhas costas. Momento de pensar. Mas, ah, tudo o que eu não queria era pensar. Pensar nele, pensar se ele estava mentindo, queria que tudo sumisse da minha mente, pelo menos por essa noite.
Quero me divertir com meus amigos e aplaudir meu irmão.
Naquela noite, a noite era dele.
Saí do banho, passei meu hidratante, coloquei meu vestido preto tubinho tomara que caia, meu salto alto preto, cabelos soltos, maquiagem degradê do preto para o prata e peguei minha bolsa, também prata. também estava linda. Ela usava um vestido rosa bebê curto e soltinho no corpo, uma sandália de salto alto na cor prata; estava com os cabelos soltos também e tinha no rosto uma maquiagem clarinha. Entramos no carro e fomos buscar e .
No caminho até o pub a alegria reinou no carro, a música alta. Cantamos alto também, e por minutos me esqueci do ; talvez por uma noite eu fosse capaz de esquecê-lo, talvez só por essa noite.

5° capítulo

O pub estava cheio, as risadas preenchiam todo o local, que era bem grande, diga-se de passagem. Muitas pessoas estavam lá também, vários rostos conhecidos. Os meninos não estavam no meu campo de visão, então deduzi que estivessem no camarim, ou algo do tipo.
- Vamos, disse, praticamente me arrastando. – Temos que achar uma mesa bem perto do palco.
- Calma, . – eu disse, rindo – Até parece que você nunca viu o tocar.
- Mas hoje é diferente. – ela disse, escolhendo uma mesa ao lado esquerdo do palco, bem na frente. Nos sentamos e ficamos conversando por meia hora, até que o show dos meninos começou. A primeira música era Not Alone. Eles estavam lindos. , modéstia a parte, era o mais gato. Claro né, ele é meu irmão. Mas não posso negar que os outros também estavam. Logo após a primeira música, eles tocaram também Friday Night, Broccoli, Do Ya.
Estava calor, então decidi ir buscar uma bebida no bar que ficava mais ao fundo do pub.
- Vocês querem alguma coisa? – eu perguntei para as meninas.
- Não, , obrigada. – disse, e as outras concordaram com ela.
- Ok – eu disse, me levantando – Volto logo.
- E volte mesmo, viu? – disse, rindo, e a ignorei, dando o dedo do meio a ela, e me dirigindo ao bar. Escutei a introdução de Lies e não pude deixar de pensar em .

Better run for cover
You're a hurricane full of lies
And the way you're heading, no one's getting out alive
So do us all a favor
Would you find somebody else to blame?
'Cause your words are like bullets and I'm the way your weapons aim
I guess I could fill a book with things that I don't know about you baby
You're not misunderstood, but you got, you got to go

Cheguei ao bar e me sentei no balcão, ainda pensativa. Pensando se havia mentido ou não para mim.
- O que você vai pedir? – o barman perguntou, me fazendo despertar dos meus pensamentos.
- Uma vodka com Tonica, por favor – eu disse. Talvez estivesse falando mesmo a verdade, não posso desconfiar dele, um relacionamento é baseado em confiança. Bebi um gole da minha vodka.

Living in a fantasy (Lies)
Don't even know reality (Lies)
When you start talking, I start walking


Mas que relacionamento, afinal? nunca me pediu em namoro. Ficávamos às escondidas, sem compromisso, talvez sem sentimento também, pelo menos da parte dele, porque eu sabia o quanto eu gostava daquele homem. Eu mexia em minha bebida enquanto cantava a musica baixinho. ‘Don't even know reality’. Bebi mais um gole e me levantei, foi então que eu o vi.

Lies, lies, lies

estava sentado em uma mesa ao lado direito do bar, bem ao fundo do pub.

Don't even wanna know the truth (Lies)

Ele beijava uma mulher loira e muito bonita. Devia ter uns 23 anos.

The devil has his eye on you girl
When you start talking, I start walking


Perdi meu chão naquele momento, peguei a minha bebida e me dirigi à mesa. Parei bem em frente, e quando o me viu, rapidamente se afastou da moça. Mas não importava mais, o que ele havia feito não se faz com ninguém.
- VISITAR A MAMÃE, NÉ, ? - eu disse, aos berros.

Lies, lies, lies

- , calma, vamos conversar. – ele disse, se levantando e tentando me acalmar.
- NÃO CHEGA PERTO DE MIM – eu disse, meus olhos cheios de lágrimas. – EU TENHO NOJO DE VOCÊ.
- , pára com isso. – ele disse, passando a mão pelos cabelos.
- Olha, mocinha. – a moça que estava com ele começou a dizer.
- Cala a boca, sua loira oxigenada. – eu disse, tacando meu copo de vodka nela.
- JÁ CHEGA, . – disse, me pegando pelo braço e me levando para fora do pub. No caminho, muitas pessoas olharam, dentre elas estavam minhas amigas. olhou com uma cara de espanto, com um olhar severo, e , de reprovação. Agradeci mentalmente pelos meninos estarem no palco, assim eles não presenciariam aquela cena lamentável.
Sentamo-nos em um banco na frente do Pub, lá o barulho não era tão alto e as poucas pessoas que estavam ali pareciam estar bêbadas ou algo do tipo.
- Quer que eu busque uma água para você se acalmar? – perguntou, me olhando atentamente. Eu estava sentada no banco e ele estava parado na minha frente. Olhei para ele com repulsa e raiva.
- Não, aliás, não quero mais nada que venha de você. - respondi, seca e grosseiramente.
- , não tem motivo para você ficar nervosa desse jeito. – ele disse, como se ele estivesse certo. Ah, me poupe, né.
- NÃO TEM MOTIVO? – eu berrei para ele.
- Fala baixo, menina. – ele disse, colocando o dedo na minha boca, em sinal de silêncio – Nós não temos nenhum compromisso sério, , você não pode agir assim. Você não é minha namorada, entendeu?
Eu apenas olhei para ele, mas a minha vontade era de esganá-lo.
- Não importa mais agora. – eu disse, baixinho, para mim mesma, mas ele também ouviu.
- Acho melhor você ir para casa agora, você está muito nervosa. – ele disse – Conversamos amanhã, pode ser?
- Eu não vou embora. – respondi, me levantando – Se quiser, vá você, a festa ainda não acabou. – eu disse, entrando no pub. me seguiu e me puxou pelo braço.
- Olha lá o que você vai fazer, . – ele disse, em sinal de advertência.
- Fazer o quê? – eu respondi, piscando para ele.
- Vai pra casa, . – ele disse – Você está nervosa, não é uma boa idéia ficar aqui.
- Eu fico onde eu quiser. – respondi, me soltando dele – Você não é meu namorado, – dizendo essas palavras, eu entrei no pub, ainda tinha uma noite toda pela frente.
e estavam paradas perto da porta.
- , – disse. – Vem, vamos lavar seu rosto e cumprimentar os meninos pelo show.
- Ok. – eu disse, e nós duas nos dirigimos para o banheiro.
foi até o bar pegar umas bebidas para nós.
- , o que foi aquilo? – perguntou, enquanto retocava minha maquiagem que estava borrada devido às lagrimas.
- Ele mentiu para mim, , ele estava com outra menina. – eu disse.
- Mas no fundo, você sabia, né, . Isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. – respondeu, me olhando nos olhos – Não sabia?
- Sabia, só não queria acreditar. – respondi, por fim.
- Vem, esquece isso, por enquanto. – disse, me puxando para fora do banheiro. – Vamos cumprimentar seu irmão e os meninos. E nada de chorar na frente deles, hein, o escândalo já foi grande. Só espero que o não fique sabendo.
- Não vai saber. – eu disse, e nós duas nos juntamos a eles e as outras meninas. Os meninos estavam ótimos no palco, e estavam felizes também. Bebemos e demos risadas. Minhas risadas falsas, pois eu estava morrendo por dentro, mas de que isso adiantava agora? Estávamos sentados no bar quando começou a tocar Linger do The Cranberries, minha musica favorita. Fui até a pista e comecei a dançar. Meus amigos ficaram me olhando e logo e se juntaram a mim. O ritmo me deixava feliz, a bebida me deixava feliz, eu estava entorpecida. As músicas mudavam, muitas tocaram, mas eu perdi a conta, perdi a conta também de quantas vodkas eu bebi. Só voltei a mim quando senti alguém me puxando pela cintura. Era o .
- , vem comigo. – disse, me levando até o bar.
- Cadê o pessoal, ? – eu perguntei, olhando em volta.
- está sentada na mesa com um cara, foi embora, Dougie está vomitando no banheiro e o e a foram embora.
- Embora como? – eu perguntei. – Eu estou com o carro.
- Agora não está mais. – disse, dando risada. Digamos que ele não estava muito sóbrio também. – Eu te levo embora.
- Obrigada, . – eu disse, sincera – Mas antes, que tal me pagar mais uma bebida?
- Acho que você já bebeu demais, , que tal você parar? – ele disse.
- Eu preciso delas essa noite. – quando eu disse isso, meus olhos se encheram de lágrimas.
- Mais uma vodka com tônica aqui. – disse ao barman, que rapidamente atendeu nosso pedido. Olhei ao redor e vi que o pub já estava quase vazio. Começou a tocar Wild World, do Mr. Big. Eu fechei os olhos e sorri. Ah, como eu gosto dessa música.
- ? – me chamou.
- Hum – eu resmunguei.
- Não quer me contar o que aconteceu? – ele perguntou, eu me assustei.
- O quê? – eu disse, bebendo um gole da minha bebida e tentando mudar de assunto.
- Eu sei que aconteceu alguma coisa, . – ele disse – Eu te conheço.
- Pois é. – eu sorri – Acontece que eu estou cansada, , cansada de ser feita de idiota.
- Você não é idiota. – ele retrucou.
- Mas me fizeram assim. – eu disse, chorando, e ele me abraçou.
- , você é maravilhosa, é incrível. – ele disse, pausadamente. – Eu sei que você está assim por causa daquele seu ‘namorado’ misterioso, mas seja lá o que fez, eu não quero te ver assim.
- É difícil, . - eu disse, tentando me recompor.
- Mas não é impossível. – ele disse, me olhando nos olhos. – Quem te faz sofrer é porque não te merece de verdade.
- Então ninguém me merece. – eu disse, sorrindo falso, e percebi que os olhos do ficaram tristes.
- , você está bem? – perguntei, passando a mão pelo seu rosto.
- Sim. – ele disse, dando o dinheiro para o barman, e pegando minha bolsa. – Vem, vou te levar pra casa.
Saímos do Pub. Ele me segurava com medo de que eu fosse cair. Bem, talvez eu fosse, mas isso não vem ao caso. Ele abriu a porta do carro para mim, entrou e ligou o rádio. “If Today Was Your Last Day” do Nickelback, estava tocando. Escorei minha cabeça no vidro, e fechei os olhos, tentando esvaziar minha mente.

6° capítulo

Those times I waited for you seem so long ago
(Aquelas vezes em que eu esperei por você parecem tão distantes)
Wanted you far too much to ever let you go
(Eu queria você longe demais para te deixar partir)
You know you never got by "I feel it too"
(Você sabe que você nunca respondeu "Eu sinto isso também")
And I guess I never could stand to lose
(E eu acho que eu nunca suportei perder.)


Ao escutar essa música, abri os olhos com dificuldade e prestei atenção na letra, que, diga-se de passagem, era bem sugestiva. Me levantei e senti que minha cabeça ia explodir a qualquer momento. Passei uma água no rosto, coloquei uma roupa e desci para procurar aspirina, jurando a mim mesma nunca mais beber na vida. Como se eu realmente fosse cumprir.
- Olha só quem acordou – disse. Ele estava deitado no sofá, lendo algo em uma revista de música. Dougie jogava video game com , que arregalou os olhos ao me ver.
- , você esta péssima. – ele disse.
- Ah, diga uma coisa que eu não sei. – respondi, sorrindo, e me dirigindo pra cozinha, sendo seguida por .
- Como você está se sentindo, ? – ele perguntou, enquanto eu pegava água na geladeira.
- Com muita dor de cabeça. – eu disse, sem graça. – Pode procurar aspirinas no armário para mim?
- Claro , já volto. – ele disse, e saiu da cozinha. Me sentei à mesa e fiquei olhando a água do copo. logo voltou, me entregando as aspirinas e sentando ao meu lado.
- Você não devia ter bebido tanto. – ele disse.
- E você acha que não sei? – respondi, tomando o remédio. – Obrigada por ontem.
- Não precisa agradecer. – ele disse, mexendo no meu cabelo. – Amigos são para isso, e por falar em amigos, a me ligou hoje, ás 7h da manhã, perguntando de você... essa menina não dorme, não?
- HAHA. Como se você não conhecesse a . – eu disse, rindo.
- É. – ele disse, se levantando. – De qualquer forma, ela vem aqui mais tarde com o Sebastian.
- Obrigada, . – eu disse, ele apenas me olhou, e foi pra sala.
Alguma coisa me dizia que aquele seria um dia longo, pior ainda quando eu voltasse para o colégio e tivesse que encarar o . Será que ele ia pelo menos tentar me dar explicações e pedir desculpas? Talvez sim, talvez não. Parte de mim queria acreditar que tudo iria ficar bem, mas a outra parte dizia algo bem ruim, e acho que essa sim estava certa.
Por volta das 15h, chegou em casa, junto com o Seb, soltando os cachorros em cima de mim.
- Onde já se viu você armar aquele barraco todo ontem? – ela berrava, como se o mundo fosse acabar por isso. – Eu te avisei que o não prestava!
- , relaxa – eu estava tentando fazer ela calar a boca de um jeito bem educado.
- RELAXAR... – ela parecia indignada – Eu me odeio por ter te apoiado nessa loucura.
- , cala a boca. – eu disse – Eu já sou bem grandinha e não preciso que você fique dizendo o que eu devo ou não fazer. - Entrei no banheiro e entrei no banho de roupa e tudo, lavar a alma era o que eu precisava, já que meus olhos estavam sendo lavados pelas minhas lágrimas.
Não sei dizer por quanto tempo fiquei no banho alienada de tudo e de todos, mas quando saí de lá, já não estava mais em casa, não havia mais ninguém lá. Ao olhar pela janela percebi que o sol já estava se pondo, coloquei uma roupa e deitei. Amanhã seria ainda mais difícil.
O despertador tocou as 6h em ponto, acordei um pouco desnorteada, ah! O pior de tudo é sempre acordar no dia seguinte. Hoje é segunda e eu não posso mais adiar a conversa com o . Por isso me levantei, passei uma água no rosto e coloquei meu uniforme, peguei meu material e pedi para me levar.
Chegar na escola foi o mesmo que levar um soco na barriga. Mal me despedi do e já saí do carro batendo a porta, e rezando para ninguém me ver. Afinal, meu escândalo fora em um local público, e tudo o que eu menos queria era fofoca sobre qualquer tipo de relacionamento que eu pudesse ter com um professor do colégio. Passei rápido por todos e fui diretamente para a sala do . Bati na porta muitas vezes até ele abrir.
- Ei, acalme-se, . – ele disse, assustado – Vem, entra para conversarmos.
Eu entrei, joguei minha mochila em qualquer canto e me virei para ele.
- Seu verme imundo e desgraçado. – eu disse, nervosa, indo para cima dele, mas ele me segurou. – Você não tinha o direito de fazer aquilo, .
- Pelo o que eu me lembre, eu não tenho nenhum tipo de relacionamento sério com você, , eu sou livre para ficar com quem eu quiser.
- É, livre, ... e agora está livre de mim também, eu tenho nojo de você.
- Achei que você soubesse desde o início meu jeito de ser, aliás, você sabe muito bem e você tem que aceitar se quiser ficar comigo. – ele disse, apertando meu braço. Por um instante, me arrependi totalmente de ter me aproximado dele.
- Me solta, – eu disse – está me machucando, , pra variar. – sorri, irônica.
- Pra variar? – ele disse, incrédulo, se aproximando mais de mim, com um olhar de raiva. Ele não era o mesmo que conheci. – Você sabe muito bem, , que eu não fui feito para ficar de namoricos, eu não sou o cara ideal e você sempre soube disso.
- ENTÃO VOCÊ QUER DIZER QUE A CULPA É MINHA AGORA? – gritei.
- Quieta, . – ele disse.
- VAI PRO INFERNO – gritei mais alto ainda – QUERO QUE...
- CALA A BOCA– ele disse, me pegando pelo braço e me sacudindo. Apenas olhei. Impossível ele ser esse monstro, eu não podia acreditar no que estava vendo. Me soltei dele e fiquei apenas encarando-o, meus olhos cheios de lágrimas olhando para os olhos cheios de raiva dele. Me virei e saí.
Caminhei pelos corredores da escola com o olhar perdido, confusa e com raiva, jurando a mim mesma nunca mais me aproximar dele, e me arrependendo até a alma por um dia achar que ele era ideal para mim. Entrei na sala de química e encontrei ouvindo música. Estalou os olhos, assustada, assim que me viu.
- , o que houve? – ela perguntou, se sentando ao meu lado na carteira.
- Ele é uma pessoa horrível, . – eu disse, entre lágrimas.
- Fica calma, , não adianta chorar agora. – ela disse, passando as mãos pelos meus cabelos. – Isso logo passa e ele vira passado, você vai ver.
- Já virou. – eu disse, olhando para ela – Nunca mais quero ouvir falar o nome dele, aliás, estou pensando até em me mudar de escola.
- Mas é claro que não, aqui é seu lugar, com os seus amigos. – ela disse, alterando um pouco a voz. – Você não pode sair daqui, não pode.
- Não só posso como eu vou. – disse, me levantando e saindo da sala, deixando todos os alunos com cara de abobados pela minha atitude.
- VOLTA AQUI. – ouvi gritar, ao fundo. Não olhei para trás, apenas segui em frente, pois era assim que seria de agora em diante.
O vento frio soprou meu rosto assim que saí do colégio. Apertei o casaco contra o meu corpo e me dirigi à cafeteria mais próxima. Caminhei pelas ruas lentamente, relembrando mentalmente cada palavra que havia me dito. Aquilo doía tanto e a única coisa que eu desejava agora era poder arrancá-lo de dentro de mim. Fechei os olhos e respirei fundo, entrando na cafeteria logo em seguida. O local estava quentinho e com um cheirinho que eu amava. Pendurei meu casaco na porta, fiz meu pedido e me sentei em uma mesa aos fundos, esperando que meu frapuccino chegasse.
É difícil tomar decisões precipitadas, irracionalmente. Eu sabia que devia esperar as coisas esfriarem ao invés de decidir mudar de escola, mas aparentemente era a única saída que eu conseguia encontrar. A garçonete trouxe meu frapuccino. Me lembrei de nesse instante, uma de suas bebidas favoritas. Me lembrei dos seus olhos, dos seus carinhos, dos beijos e de todas as juras de amor, e nesse instante percebi que as juras de amor não existiam de verdade. Eu as criara. Talvez no fundo, ele tivesse razão. Talvez a única culpada por tudo o que aconteceu tenha sido eu, só eu.
- Oi, . – uma voz suave sussurrou no meu ouvido, me fazendo acordar dos meus pensamentos.
- Oi, . – eu disse, sorrindo sincera – Sente-se aqui comigo.
- Será um prazer. – ele me respondeu, brincalhão – Até que enfim te achei, .
- E você, por um acaso, estava me procurando? – perguntei, enquanto a garçonete trazia o pedido de .
- Estava... a me ligou desesperada, perguntando se eu sabia de você, porque você saiu igual uma louca da escola dizendo que não voltava mais para lá.
- A é muito exagerada. – eu disse, revirando os olhos. – Você sabe que não deve dar ouvidos a ela, .
- Então não é verdade o que ela disse? Porque pelo o que eu sei, você devia estar na escola, e não tomando café comigo nesse momento. – ele disse, me olhando profundamente, como se quisesse descobrir algo oculto em mim.
- É verdade a parte de que eu não quero mais voltar para o colégio. – suspirei, me desviando dos olhares atentos de .
- Mas por que não quer, ? O que está acontecendo com você? Primeiro aquela bebedeira na boate e agora isso...
- Não está acontecendo nada, . – eu respondi, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas – Só estou cansada de tudo, quero começar uma vida nova, entende?
- Mas você não precisa se afastar de todo mundo para isso, , a mudança começa dentro de você.
- Eu sei, só estou confusa... isso logo passa. – terminei de beber meu frapuccino e fiz menção de me levantar, mas me segurou pelo braço.
- Deixa eu te levar em casa, ? – me perguntou, sorrindo, e eu não pude deixar de sorrir também.
- Claro. – eu disse, e por fim saímos rumo a minha casa.

7° Capítulo
Mesmo sendo de manhãzinha, o sol ainda não aparecera e o vento trazia com ele uma certa nostalgia, me deixando um pouco estranha e desconfortável, como se nada mais pudesse fazer sentido. Pelo o que pude perceber, estava preocupado comigo, mas não fez nenhum comentário durante o caminho, e eu agradecia mentalmente por isso. Tudo o que eu queria agora era apenas observar as ruas e as pessoas que nela passavam. Paramos em um sinal movimentado perto do centro enquanto esperávamos ele abrir, me mostrou algo realmente interessante.
- Olha , está vendo aquele prédio ali? – ele disse, apontando em direção a um prédio de arquitetura um pouco clássica, bela fachada e muito bem localizado, mas devido à quantidade de pessoas que passavam pelo local e o tempo nublado, não pude realmente compreender o que era aquele prédio.
- Sim, é um belo prédio – respondi, olhando para ele e vendo seu sorriso largo e animado.
– É a gravadora onde vamos fazer um teste para a banda na semana que vem, estamos super animados e essa vai ser uma grande oportunidade.
- Ah sim, a gravadora – agora eu me recordava sobre algo que dissera semana passada.
Enquanto falava empolgado sobre o teste, algo me chamou a atenção, me distraindo completamente do que ele dizia. O carro parado em frente ao hotel no lado do prédio da gravadora. Tentei observar mais minuciosamente, mas não consegui, devido à distância que nos encontrávamos, mas cheguei à conclusão que é impossível ter dois carros assim tão parecidos.
- – me virei depressa pra ele que estava prestes a arrancar com o carro – Vire, quero o ver o prédio da gravadora mais de perto. – Ele pareceu não compreender muito, mas mesmo assim fez o que eu pedi, virando a direita assim que o sinal abriu.
- Vá mais devagar, – eu disse, observando atentamente o carro no hotel ao lado, e não a gravadora em si, e foi aí que eu vi claramente: Era o carro da minha mãe. Mas o que ela estava fazendo lá? A esse horário ela devia estar no trabalho.
Pedi para o parar o carro enquanto eu observava em silêncio e não demorou muito para que a minha pergunta fosse respondida. Minha mãe saiu do hotel acompanhada por um cara que eu não reconheci, mas muito bem vestido com calça e sapatos sociais, camisa branca e óculos escuros, alto, moreno e aparentemente bonito, mas que me despertou repulsa quando o vi beijar minha mãe na frente do hotel. Nesse instante pude sentir o chão sumir, a respiração acelerada e o ar escasso. Como ela podia estar fazendo isso? Eu não podia mais ficar um segundo ali.
- ? – me chamou um tanto preocupado me despertando do transe em que me encontrava – , o que houve... Você está pálida.
- Me leva pra casa – eu disse nervosa, voltando a colocar os cintos de segurança – Depressa , ande. – ouvi ele bufar um tanto irritado e arrancar com o carro logo em seguida, disparando para a minha casa.
- Rápido, . Quero chegar logo... Ande – eu dizia, alterada, tudo o que eu mais queria era chegar em casa, pegar as minhas coisas e ir embora. Mas embora para onde? Eu não podia lidar com aquilo, seria demais para mim. Eu não poderia encarar meu pai, ele que tanto amava minha mãe... e também não podia contar a , ele era meu irmão e eu confiava nele mais do que em qualquer pessoa, mas eu não podia fazer isso com ele.
Em poucos minutos estacionou em frente à minha casa. Praticamente nem esperei ele desligar o carro e já comecei a me livrar dos cintos de segurança, mas eu não conseguia... ah, malditos cintos, não pude mais evitar e comecei a chorar. - , me diga o que houve – pedia levantando o meu rosto, mas eu simplesmente o ignorei, conseguindo desprender o cinto, saindo do carro o mais rápido que pude.
- VOLTA AQUI – berrou, saindo do carro e correndo para dentro da minha casa.
Abri a porta com certa dificuldade devido às lagrimas que me impediam de enxergar claramente e disparei escada acima enquanto chamava pelo meu irmão.
- ? ? Alguém em casa? - Ótimo, ele não respondia... sinal de que não estava em casa e não precisaria presenciar aquilo tudo. Entrei no meu quarto e joguei minha bolsa em cima da cama e em seguida peguei minha mala de viagem em cima do meu guarda roupa e dei a ela o mesmo destino na da minha bolsa. Abri a mala e o guarda roupa, colocando tudo o que eu encontrava pela frente lá dentro – vestidos, blusas, calças. Minha cabeça trabalhava a mil, eu estava tão confusa e desnorteada. A única certeza que eu tinha era que não podia mais ficar ali vivendo sobre as mentiras imundas da minha mãe.
- entrou no quarto e ficou um tanto pasmo ao ver tudo o que estava acontecendo, meu quarto bagunçado com roupas e a mala aberta sobre a cama – , o que você está fazendo? Você precisa conversar comigo – ele se aproximou de mim, pegando minhas mãos e me fazendo parar por um instante.
- Eu preciso ir embora, – eu disse com a voz embargada o encarando seriamente.
- Mas por quê? O que você viu naquela gravadora?...
- Não foi na gravadora, – eu disse por final, me sentando na cama e olhando pra ele. Aqueles olhos castanhos pareciam tão compreensivos agora, talvez eu pudesse contar a ele. sempre fora meu amigo e talvez fosse o único que pudesse me ajudar nesse momento.
- Então o que você viu que te deixou assim tão desconcertada?
- Por favor , me promete que você vai guardar isso, por favor me prometa – eu ia dizendo enquanto apertava firme sua mão e me ajoelhava a sua frente.
- Shiu... acalme-se – foi o que eu ouvi ao sentir sua mão pelo meu rosto, limpando minhas lágrimas, quase como um carinho sutil e doce. Deitei a cabeça em seu colo e fechei os olhos, respirando profundamente antes de dizer qualquer coisa.
- Eu vi a minha mãe ... com outro cara – eu disse por fim me afundando no colo de , sem obter nenhuma resposta em troca. Talvez, por essa ele não esperasse.
- Ah meu Deus – o espanto estava visível na sua voz, mas ele se manteve firme. Afastou-me e sentou-se ao meu lado no chão, me puxando para si com um abraço. Como era bom poder senti-lo tão perto agora. Aquele abraço era tudo o que eu mais precisava.
- Eu sinto muito.
- Não precisa sentir – eu respondi me afastando dos seus braços e enxugando as lágrimas que insistiam em rolar pelo meu rosto – só, por favor, me prometa que não vai contar isso ao .
- Mas ele é seu irmão , ele tem que saber... não por mim, é claro... mas por você – parecia ter entrado em um estado de pânico visível agora, era um de seus melhores amigos e eu não podia culpá-lo por isso.
- Nem por mim e nem por ninguém – eu disse ríspida – você não faz idéia de como isso machuca, você nem sequer imagina como eu estou me sentindo e eu não quero que o passe pela mesma coisa.
- Mas ...
- Pela amizade de vocês dois, me prometa que não vai falar nada, .
- Okay – ele respondeu desviando sua atenção para a minha mala aberta em cima da cama – o que você pretende fazer agora?
- Vou embora.
- Mas para onde?
- Estava pensando em ir morar com a minha avó.
- Mas ela não mora no sul?
- Sim, .
- E vai deixar seus amigos e seu irmão aqui? – ele parecia incrédulo.
- Eu não posso lidar com isso se eu continuar morando sobre o mesmo teto que ela, , entenda por favor...
- Mas , isso é egoísmo... você vai deixar para trás todos que te amam – parecia vomitar as palavras, com um nervosismo que aumentava visivelmente – sem contar que ela é sua mãe e vocês precisam conversar.
- Não por enquanto... primeiro eu preciso me afastar de tudo isso, eu preciso pensar e... e eu não tenho mais nenhum lugar para ir, , além da casa da minha avó.
- Tem sim... você tem um lugar. – de repente sua voz se tornou baixa e calma.
- Ah e qual é?
- Minha casa – ele respondeu simplesmente, desviando seu olhar do meu, como se a proposta dele fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Como assim eu ir morar com você, isso é loucura, – eu disse, rindo ironicamente me encostando na parede - praticamente impossível.
- Impossível por que ? Eu moro sozinho, meu apartamento é grande e você vai ficar confortável e ao mesmo tempo perto das meninas, do e até mesmo do e do Seb... apesar que seu pai não vai ficar muito contente em ver a filhinha dele morando com um cara 5 anos mais velho do que ela, e músico, ainda por cima – ele terminou de falar rindo, como se aquilo tudo tivesse alguma graça.
- Ai – por um momento eu havia me esquecido do meu pai, eu não podia mentir para ele sobre algo tão sério e depois encará-lo como se nada estivesse acontecendo. Podia até ser loucura, mas a decisão estava ada. Levantei-me rapidamente do chão e voltei a colocar minhas roupas dentro da mala.
- Okay então, está decidido ... eu vou morar com você, eu tenho minha mesada e algum dinheiro no banco, posso ajudar nas despesas... só preciso de uma bela desculpa para me mudar pro seu apartamento.
- E eu preciso de um grande saco de gelo, posso até sentir o soco do seu irmão – ele disse, fazendo careta e por um instante conseguiu me fazer rir.
- Não se preocupe, vamos dizer que você é meu namorado secreto e que decidimos morar juntos, simples assim – disse terminando de fechar a mala e pensando no que mais poderia levar.
- Que eu sou seu o quê? Menina, agora sim eu to morto – disse, se jogando em cima da minha cama.
- Desculpe, mas foi a desculpa mais convincente que achei, ... pensa comigo, não existe no mundo outro motivo que me levasse a morar com você. Então seja bonzinho.
- Tudo bem, tudo bem... Mas como fica o seu verdadeiro ‘namorado’ secreto, hein?
- Ele não existe mais – eu disse sentindo as lágrimas voltarem novamente – ele só existiu na minha imaginação.
- Eu sei que isso é mentira, mas não vou te perturbar com isso agora. Nós temos que ligar pro seu irmão e avisar, okay? – ele se sentou e olhou para a mala pronta a sua frente – tem mais alguma coisa?
- Hm, acho que não – olhei em volta – Não sei... Não consigo pensar nos detalhes agora.
- Okay, qualquer coisa eu peço pro levar em casa, por que eu realmente duvido que depois dessa eu volte a pisar na sua casa – ele disse sorrindo e pegando a mala. - Vamos?
- Sim.
Nunca imaginei que seria tão difícil deixar tudo para trás, minhas memórias, lembranças de uma vida que dificilmente voltaria a ser o que era antes. Infelizmente não posso voltar no tempo e consertar tudo, ah, Deus sabe como eu gostaria de fazer isso. Mais lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas isso já não importava. Eu observava as fotos espalhadas pelo meu quarto, aniversários, natais... Nada mais tinha importância agora. Estava na hora de ir, já me esperava no andar de baixo. Apaguei a luz e fechei a porta para o passado.

‘Todos os fins são também começos, apenas não sabemos disso na hora’


8° capítulo
O prédio onde morava ficava a cerca de 20 minutos longe da minha casa, era bem no centro de Londres. Nunca cheguei a entrar na casa dele, mas me lembro de ter parado de carro na frente várias vezes enquanto esperava o ou apenas passado por lá quando voltava do colégio. Não me lembro exatamente que horas chegamos ao apartamento, provavelmente um pouco tarde, pois meu estômago já gritava comigo há horas.
- Está com fome? – perguntou, enquanto entrava no estacionamento do prédio e guardava seu carro, um Jaguar de cor prata, na vaga de número 6.
- Hm, não exatamente – disse um pouco constrangida pelo barulho que minha barriga estava fazendo.
Descemos do carro, peguei minha bolsa e pegou minha mala. Em seguida nos dirigimos ao elevador em silêncio, onde ele apertou o botão do 7° andar. Em menos de três minutos estávamos em um longo corredor bem iluminado, com chão de madeira sintética e varias portas brancas com numerações indicando os apartamentos. Andamos mais ou menos até o meio do corredor onde colocou a chave na porta, o seu chaveiro me era familiar, uma clave de sol preta e brilhante que eu havia dado a ele no amigo secreto que fizemos no final do ano passado. Boas lembranças. abriu a porta e fez sinal para que eu entrasse.
A sala era ampla, toda branca e decorada com quadros de várias bandas do qual ele era fã. Na mesa de centro da sala estavam várias fotografias, muitas delas com o meu irmão e o . A estante onde estava a televisão continha vários jogos de video game e filmes todos empilhados em ordem.
- A partir de agora o apartamento também é seu – disse, fechando a porta atrás de mim e pegando minha mala do chão novamente – quero que se sinta em casa.
- Obrigada – disse, sincera, enquanto seguia ele por um corredor pequeno.
- Tenho dois quartos aqui, você vai ficar no de hospedes que é esse aqui – ele disse, parando em frente à última porta do corredor e abrindo para que eu entrasse. O quarto era de tamanho médio, com uma cama toda em mogno com lençóis brancos, o guarda roupa ficava encostado na parede mais ao fundo, ao lado da cama havia uma mesa de cabeceira e um espelho bem grande do outro lado do quarto. Era bem arejado e aconchegante. Aos poucos eu iria me acostumar, eu sabia disso.
- O quarto é lindo – respondi me sentando na cama, que era muito confortável com aqueles lençóis tão macios.
- Bem, vou falar com o porteiro agora para avisar a ele que está morando comigo, assim você terá acesso livre ao prédio e quando eu voltar começo a preparar algo para comermos, pois meu estômago já começou a gritar tanto quanto o seu – disse, dando um sorriso animado, saindo do quarto logo em seguida e me deixando a sós com uma mala e enorme cheia de roupas e pensamentos.
Coloquei a mala em cima da cama e comecei a tirar seu conteúdo, eu não tinha levado muita coisa, mas à medida que o tempo fosse passando eu poderia pedir ao para me levar o restante. Ah, irmãozinho, minha barriga gelava só de pensar que eu teria que contar a ele que simplesmente me mudei. E o meu pai? Esse sim iria me matar, mas eu não podia vacilar agora, era tudo ou nada. Sacudi a cabeça tentando espantar os pensamentos que me agoniavam e comecei a colocar as roupas dobradas e em ordem dentro do guarda roupa. Passaram-se uns 20 minutos e ouvi a porta da sala se abrir e logo em seguida se fechar, deduzi que era o chegando. Terminei de arrumar as roupas e fui para a cozinha.
- Hum, vejo que não foi apenas falar com o porteiro – eu disse sorrindo me sentando no balcão da cozinha, que não era muito grande, mas era organizada e limpinha. Em cima da mesa havia sacolas onde retirava algumas guloseimas.
- Pois é, aproveitei e fui até o supermercado aqui perto comprar umas coisas para você – disse me mostrando todo feliz um pote de sorvete de pistache, meu favorito.
- Ah – meus olhos brilharam ao ver o sorvete e meu apetite apareceu novamente – que delícia.
- Eu sabia que você ia gostar – ele disse colocando o sorvete no freezer e tirando uns pacotes de massas da sacola.
- Mas não quero que se incomode, ok?
- Não é incômodo nenhum, é apenas uma exceção para comemorar o fato de você ser agora minha colega de apartamento.
- Okay, okay, você venceu – eu disse me aproximando dele e apertando suas bochechas – acho que podemos comemorar agora, o que acha?
- Nada disso – ele disse se colocando a frente do freezer imitando um segurança – primeiro vou fazer comida de verdade e depois sim a sobremesa.
- Ah – eu disse tentando fazer minha melhor cara de gatinho do Shrek, mas acho que não obtive muito sucesso, pois se voltou novamente às sacolas, agora vazias em cima da mesa. – Tudo bem, posso tomar um banho enquanto isso?
- Por que não liga pro seu irmão enquanto isso e o convida para jantar, hein? Assim podemos explicar a ele toda essa mentira pra encobrir outra mentira – disse, um pouco sério dessa vez.
- Ai não sei se tenho coragem – eu voltando ao balcão novamente e me debruçando sobre ele.
- Primeiro o convide para jantar e quando ele chegar aqui nós contamos. Eu vou estar com você.
- Esta bem – respondi – posso ir pro banho depois?
- Pode, o banheiro fica na primeira porta do corredor e tem toalhas limpas no armário.
- Okay – disse simplesmente voltando novamente para o quarto.
Entrei, fechei a porta e me sentei na cama. Peguei o celular dentro da minha bolsa e fiquei observando ele por alguns minutos enquanto tentava imaginar a reação do quando soubesse. Por fim acabei mandando uma SMS apenas o convidando. Talvez tivesse mesmo razão e fosse melhor ele saber pessoalmente o que se passava.
. Estou na casa do ... Eu sei que ainda é cedo, mas só para avisar, é que vai ter um jantar aqui e ele pediu que eu te chamasse. Nós temos que conversar. Beijos’
Enviei a mensagem e continuei apenas observando o celular, talvez fosse melhor chamar o e as meninas, o clima poderia ficar mais leve e por desencargo de consciência teríamos testemunhas caso algo acontecesse. Apenas sorri do meu pensamento e completei com outra SMS.
‘Traga os outros junto com você’
Eram 16 horas e 25 minutos. Fechei o celular, peguei minhas coisas e fui para o banheiro. Nada melhor do que um bom banho para dar ânimo e me preparar para o que ainda estava por vir. O banheiro era pequeno, mas muito bonito, todo claro e com alguns acessórios azuis. Despi-me calmamente e liguei a ducha na água morna. Aquela água parecia a melhor coisa naquele instante, fechei os olhos e relaxei os músculos, tentando esvaziar a mente, mas isso era impossível.
Comecei a reconstruir todo o meu dia, a briga com e as suas palavras que me atingiram como foice, a minha mãe e aquele cara que deram nojo e repulsa, minha mudança pra casa do . Ah, ... Tão gentil e cuidadoso comigo, amigo estilo protetor. Por um instante senti certa dose de bem estar tomar conta de mim enquanto pensava em . Talvez morar com ele fosse realmente uma ótima idéia.

Enquanto isso...
Colégio/Faculdade West Side – centro de Londres, ás 16hras.
estava na cantina da faculdade sentado junto com a namorada e os amigos e jogando cartas e comendo petiscos, enquanto aproveitavam o tempo livre que tinham das aulas. realmente detestava a faculdade, e sempre achava um jeito de ficar para fora.
- Hey man – disse, enquanto distribuía as cartas – cadê a ? Não vi ela hoje.
- Pois eu também não – respondeu dando de ombros – deve estar na aula ainda... e Seb também não apareceram.
- Ou com o namorado misterioso dela – responde dando risinhos divertidos e uma piscadela para quando o mesmo o olhou seriamente.
- Ah deixe de ser curioso, chaveirinho – disse jogando chips em – você está muito interessado na vida particular da pro meu gosto.
- Não estou não – parecia emburrado – só estou curioso para saber quem é e eu sei que a senhorita sabe, pois bem?
- Não sei de nada – respondeu enfiando chips na boca e voltando sua atenção as cartas.
- Qual é – foi a vez de falar – calem a boca vocês dois e deixem a em paz.
que ainda não se pronunciara sobre os comentários envolvendo o nome da irmã, tentou mudar de assunto, pois não podia negar que a curiosidade de também o deixava inquieto.
- Olha lá, , não é seu professor de anatomia, o ? – disse apontando para o homem alto de cabelos escuros que passava pelo corredor.
- É ele sim... HEY PROFESSOR – disse uma feliz enquanto acenava para .
- Olá – respondeu de volta – a senhorita não devia estar na aula não?
- Nop... estou com esse tempo livre, venha estamos jogando cartas – disse , ou diga-se de passagem, ‘berrou’.
- Só vou entregar esses papéis na secretaria e volto para jogar com vocês – respondeu, voltando a caminhar pelo corredor rumo à secretaria. pareceu ficar um pouco nervosa com o fato de se juntar a eles, e não era por menos, se os amigos soubessem o que realmente se passava. Mas os pensamentos de foram interrompidos por um levemente intrometido na vida alheia.
- Ele não é muito jovem para ser professor, ? – perguntou e deu de ombros.
- Ele tem uns trinta anos, mais ou menos... não deve passar disso. Logo no primeiro dia de aula no curso, ele nos contou uma história sobre a vida dele.
- Ah, e qual é a história? – perguntou abandonando o jogo para prestar atenção na amiga.
- Nossa, a realmente tem razão... você é muito curioso – foi a vez de se manifestar e rir logo em seguida quando lhe mostrou os dedos.
- Calados vocês dois – ia dizendo enquanto ainda fazia um esforço em vão para entender aquele jogo. Truco nunca tinha sido seu forte – Ele nos contou o quanto era importante escolhermos um curso que a gente goste, porque não podíamos imaginar o que era fazer algo apenas por fazer. O canta, ou pelo menos cantava quando era adolescente, queria fazer algo nessa área, mas teve de mudar os rumos dos seus planos para satisfazer a vontade do seu pai. Então escolheu ciências biológicas e agora está aqui dando aula de anatomia. Simples assim.
- Ah, gostei dele – disse.
- Só por que ele gosta de musica também, aposto – disse ironicamente, mas apenas deu de ombros.
- Mas também existe outra história sobre ele – disse com um sorriso divertido, tentando colocar na voz um certo de suspense.
- E que história é essa, posso saber? – perguntou.
- Dizem que ele sai com as alunas, um completo mulherengo que seduz as menininhas - respondeu e engoliu em seco.
- Isso não é história, é boato – disse – não é legal ficar comentando isso sobre as pessoas.
- Só contei o que eu ouvi – tentou se defender.
- Então não ouça mais. E outra, se ele sai mesmo, o problema é dele... ele é maior de idade e vacinado.
- É, mas as alunas não – respondeu, sorrindo para com um ar vencedor.
- Se elas saem com ele é porque querem – retrucou fazendo daquilo uma pequena discussão.
- Chega vocês dois, vamos voltar ao jogo logo e parem de falar desse homem – disse, ríspida pegando a carta de todos novamente e embaralhando.
- É impressão minha ou você ficou nervosa? – perguntou, mas não teve a chance de responder.
- Calem a boca – disse – ele está vindo.
Logo em seguida o professor juntou-se a eles no jogo.

9° Capítulo

Traranraran...
- Maldito celular que não para de apitar – disse, irritado, deixando as cartas em cima da mesa e pegando o celular no bolso.
- Hey, relaxe dude – respondeu – e confesse que essa sua irritação não é por causa do celular, e sim porque está perdendo pra mim no jogo – ele deu uma piscadela para e logo em seguida foi acertado por um chips na cara.
- Ele perde de você e você perde de mim, baby – respondeu, vitoriosa.
- Esse amor fraternal de vocês é sempre assim? – perguntou a , irônico e divertido.
- Ah, sempre que podemos – disse, esticando o pescoço para tentar ler a mensagem de – Quem é, amor?
- É a respondeu – Disse que vai ter um jantar na casa do e que é para eu chamar todos.
- E o que a está fazendo na casa do ? – perguntou, com uma expressão intrigada.
- Sabe, eu acho que você cuida demais da vida da respondeu, ironicamente.
- Era pra ela estar na aula e só estou perguntando, ou não tenho esse direito? – revidou, perdendo a paciência com a menina.
- Talvez ela tenha saído mais cedo, a é assim mesmo, imprevisível. - disse, rolando os olhos de um jeito espontâneo e de certa forma descuidado, sendo censurado pelo olhar de reprovação de .
- Você conhece a minha irmã? – foi à vez de bancar o curioso, fazendo ficar totalmente desconcertado com a situação. Alguns segundos de silêncio se passaram até que o professor finalmente respondeu, com a voz calma e a respiração um pouco acelerada.
- Conheço – ele respondeu, desviando os olhos de para as cartas de baralho que se encontravam em suas mão – A foi me procurar a respeito do laboratório, parece que ela se interessa pela área de humanas e gostaria de conhecer um pouco mais sobre a mesma.
- Hum... – o olhou diretamente como se o avaliasse – Estranho é que a nunca nos falou nada sobre o assunto. Ela visita seu laboratório com freqüência?
- ... – respondeu mudando de assunto – É normal a estar realizando essas visitas... logo ela terá de escolher uma profissão e além disso, ela não precisa ficar dando a você e nem a ninguém satisfação dos passos dela. Talvez não dos passos escolares.
- Tudo bem, não está mais aqui quem perguntou – disse, levantando as mãos e sacudindo-as de forma frenética como se quisesse espantar algum bicho de perto.
- Vamos para a casa do agora ou preferem ir depois? – perguntou.
- Vamos já pra lá, amor – disse, animada – Assim podemos ajudar em algo, um jantar entre amigos fica bem melhor quando todos cozinham, não concordam?
- Menos quando a cozinha – riu – Aquele purê acabou com o meu estômago.
- Nada acaba com o seu estômago, você é uma traça, menino, se te derem pedra, você come - respondeu, levantando-se e pegando suas coisas – Vamos, então?
- Só se a pedra tiver muita maionese e for bem temperada – riu e jogou um beijo para com seu tradicional sorriso maroto.
- Ok, ok... já chega, está na hora de irmos – levantou-se e pegou sua mochila e de .
- Vamos também, professor? – perguntou do nada olhando diretamente para , que se levantava, sendo pego de surpresa novamente com a pergunta que lhe fizera.
- Não – respondeu, sem jeito, passando a mão pelos cabelos levemente desgrenhados, olhando para os lados, possivelmente esperando que algum milagre o tirasse daquela situação – Eu tenho muitas provas para corrigir ainda.
- Tudo bem então, vamos indo todos – disse, despedindo-se de . – Foi um prazer conhecê-lo, professor.
- Igualmente – sorriu, despediu-se de todos desajeitadamente, com um certo alívio nos olhos e seguiu em direção à sala de aula, enquanto os outros caminhavam em direção à saída, onde esperava os amigos.
O tempo começava a mudar, as nuvens assumiam um tom de cinza escuro, entregando que a chuva não tardava a chegar. O vento soprava frio e todos caminhavam apressadamente até o carro de , onde acomodaram-se ao som de Rainbow, e então o carro arrancou suavemente.
- Acho super divertido esses jantares - comentou, alegre, do banco da frente.
- Eu também gosto – disse, do banco detrás – Principalmente com essa semana cheia de provas e trabalhos, estou ficando quase louca.
- A devia estar com você hoje, e não com o disse, despreocupadamente, deixando o comentário vago livre para interpretações.
- Ela é bem grandinha, sabe o que faz – respondeu, desviando os olhos de e voltando sua atenção para o celular.
- Algo me diz que esse jantar não vai ser nada divertido – respondeu, distante, como se estivesse sozinho no carro enquanto dirigia calmamente pelas ruas de Londres.
- Por que acha isso, amor? – perguntou, despertando o namorado do transe que se encontrava.
- A disse que tínhamos que conversar – respondeu, por fim, enquanto olhava pelo retrovisor a tempo de observar a troca de olhares de e , que nesse momento se encontravam caladas no banco de trás, ao lado de um quieto e pensativo.
Nenhuma palavra a mais foi dita durante o caminho, o clima era tão tenso e sólido que a impressão era de poder cortá-lo com uma faca, mas o problema era que ninguém sabia explicar o motivo. fez o percurso até a casa de em aproximadamente 10 minutos, estacionou quase na frente do prédio e desceu para ajudar a fazer o mesmo. Quando se preparava para descer, uma mão fria a segurou pelo braço firmemente.
- Eu sei de tudo – disse, sério.
- De tudo o quê? – perguntou, se soltando das mãos de , preparando-se para sair quando ele respondeu sua pergunta suavemente, quase com um sussurro.
- é o namorado da – ele respondeu, aparentemente sem expressão nenhuma em sua voz, o rosto era severo – E você sabe disso, eu sei que sabe.
- Não sei do que você está falando, disse, sentada, como se algo imaginário a prendesse ali dentro, como se as mãos frias de ainda a segurassem, mas já não havia nada, mais nada.
- Mas é claro que você... – aumentou a voz e assumiu um tom de incredulidade, porém não teve a chance de terminar a frase, visto que um impaciente batia na janela, fazendo menção para eles saírem de dentro do carro.
- Andem logo vocês dois – dizia – Estou congelando de frio aqui fora e preciso trancar o carro.
desceu do carro em silêncio, seguindo para perto de , que conversava alegremente com sobre um trabalho escolar, acompanhada de , que ainda tinha a expressão fria. Entraram no prédio onde o porteiro ligou para o apartamento de , liberando acesso aos amigos que se encontravam no saguão de entrada, um tanto quanto impacientes por terem que esperar. Caminharam até o elevador e subiram. Poucos minutos depois, se encontravam batendo na porta do apartamento de .
- Olá – parecia surpreso ao vê-los tão cedo em casa, mas tentou não demonstrar. Colocou seu melhor sorriso no rosto e recebeu os amigos de braços abertos, literalmente. – Podem entrar e sintam-se em casa.
- Não precisa dizer isso, já esqueceu que sua casa é nossa casa – disse, tirando as sapatilhas e pulando no sofá prestes a pegar o controle, quando puxou a menina, fazendo ela soltar pequenos palavrões.
- O controle hoje é meu – disse, glorioso, com o controle remoto de na mão.
- Hoje por um acaso tem jogo, é? – perguntou, enquanto colocava sua mochila no canto da casa.
- E eu por um acaso gosto de jogo, é? – perguntou, divertido tacando uma almofada em .
- Crianças – apenas suspirou enquanto olhava divertido para os amigos, que mostravam a língua divertidamente para ele.
- Falando em crianças, cadê minha irmã, ? – perguntou, por fim.

SAYS –
Terminei meu banho, me arrumei calmamente... Não para um jantar e sim para um desastre, porque era isso que teríamos no cardápio. Um completo desastre.
Fechei a porta do quarto e estava seguindo pelo pequeno corredor, enquanto terminava de dar uma última ajeitada no cabelo. não havia comentado o que iria cozinhar, mas mesmo assim eu estava disposta a ajudá-lo.
- Falando em crianças, cadê minha irmã, ? – perguntou, por fim.
Tudo corria parcialmente bem quando aquela voz invadiu os meus ouvidos, me fazendo prender a respiração, as mãos ficaram geladas e aquele tão conhecido nó na garganta havia voltado. Era a voz do . Nunca fiquei tão agoniada na presença do meu próprio irmão. Aos poucos, fui entrando na sala onde os demais se encontravam. estava sentada ao lado de no sofá. estava perto da TV tentando mudar o canal, perto da porta, apoiado e com um ar mais sério do que o normal, segurava uma almofada e olhava diretamente para , bem na sua frente.
- Olá, pessoal – eu disse, tentando mostrar o máximo de alegria e empolgação.
- respondeu me abraçando, ou melhor, sufocando – Sua fujona, porque não estava na escola, hein?
- Eu tinha um trabalho, entreguei e fui liberada mais cedo – eu respondi, tentando manter a calma e ser convincente. Olhei disfarçadamente para e lhe supliquei por pensamento para confirmar, caso decidisse lhe perguntar mais tarde.
- Tudo bem – ele respondeu e me puxou pelo braço para que eu sentasse no sofá ao seu lado – E então, o que você e o fizeram de bom hoje?
- Tomamos um café – respondeu, sentando-se no braço do sofá onde e se encontravam – Ou melhor, a tomou um café... eu a encontrei quando fui buscar o meu e ficamos conversando por horas, decidimos fazer o jantar e então trouxe ela pra cá, nada de muito empolgante – ele riu tentando disfarçar o nervosismo – Vocês querem beber alguma coisa?
- Eu quero uma cerveja – respondeu.
- Também queremos – disse.
- Pra mim só um suco – respondi, sorrindo delicadamente.
- Que tal um de maracujá? – disse, irônico – Está muito nervosa hoje, .
- Impressão sua, querido – eu respondi e joguei um beijinho – É só cansaço e mesmo assim, toda cansada, aposto que ganho de você no game.
- Ahá - disse, em meio a risadinhas – Isso é o que vamos ver então – ele respondeu por fim, sentando-se no chão de frente a TV enquanto eu me preparava para ligar o vídeo game. chegou com as bebidas e nos servimos.
- E a prova, como foi, dude? – disse, abrindo sua cerveja e dando um longo gole – Você disse que era importante, foi bem?
- Foi, um pouco complicada... mas acho que consegui uma boa nota para me livrar logo dessa matéria.
- Claro, com certeza foi ótima sua nota, nem deu 5 minutos direito e você já tinha saído da sala – disse, enquanto mexia nos controles.
- Nossa, quanta dedicação, hein – respondi em zombaria e fui acertada por uma almofada.
- É , mas depois o resto do nosso dia foi bem legal sabe, jogamos cartas e o perdeu pra mim de novo – disse e caiu na risada.
- Caramba , será mesmo que você nunca vai conseguir ganhar da ? – ela disse, rindo divertidamente da cara de , que estava vermelha como uma pimenta.
- Oh, não fique bravo, – eu disse, passando a mão pelos seus cabelos e dando um beijo na sua bochecha.
- É, perdi mesmo.... Mas se você não tivesse atrapalhado o jogo com sua mensagem, ela teria perdido também pro professor .
? Será que eu tinha ouvido direito... Não pode ser. O que estava fazendo com os meus amigos, afinal? - Ah – eu respondi, com a voz falha, enquanto procurava desesperadamente os olhos das meninas, mas elas deram de ombros – O professor, não sabia que vocês o conheciam.
- Ele me dá aulas, , de anatomia – respondeu, animada. Faculdade era realmente algo que ela adorava.
- Hm – eu disse voltando minha atenção pro jogo – De anatomia? Que legal.
- É... Mas é claro que você já sabia disso, né, ? – disse, me olhando diretamente, mas seus olhos estavam tão afiados que eu estava evitando a qualquer custo fitá-los.
- Eu sabia – respondi – Claro que eu sabia.
- É claro que ela sabia – respondeu – Afinal, fomos juntas visitar o laboratório para conhecermos melhor a área de humanas.
- Achei que você quisesse a área da comunicação, maninha – disse, sua voz não denunciava qualquer vestígio de desconfiança e isso me aliviou.
- Só estive pensando que talvez fosse legal ter uma segunda opção – tentei entrar na conversa e mentir descaradamente, nada do que eu dissesse a eles seria pior do que a verdade. estava calado, apenas observando, deduzo que completamente nervoso, mas resolveu se pronunciar.
- É muito bom você pensar assim – ele disse – Conhecer outras áreas pode mostrar a você mais opções e talvez descubra algo totalmente novo, mas que seja sua verdadeira vocação.
- Pois é – disse, se levantando – O papo sobre futuro está ótimo, mas eu estou realmente com fome e gostaria de assaltar sua geladeira.
- Ah, mas é claro – disse e riu – Sinta-se à vontade. Aliás... vamos todos para a cozinha enquanto preparo o jantar. Farei alguns petiscos enquanto esperamos. – e depois de ter dito isso, se levantou e começou a ir para a cozinha junto com , , que queria outra cerveja, , que não queria deixar ela beber e , que se levantou rispidamente, dizendo apenas ‘continuamos depois’, me entregando o controle do game e seguindo os demais. Olhei enquanto ele andava e sumia para a cozinha, virei para , que ainda se encontrava na sala.
- É impressão minha ou o está estranho?
- Não é só impressão, não – disse, levantando-se do sofá e sentando-se ao meu lado. Me deu um abraço e mexeu nos meus cabelos. Parecia estar procurando as palavras certas, e então prosseguiu. – Ele está assim desde hoje à tarde, depois de jogarmos com o .
- Mas porque? – minha garganta se fechou, pelo jeito havia descoberto algo.
- Eu não tenho certeza, , mas acho que ele desconfia sobre você e o – ela disse, me olhando, preocupada.
- Impossível – respondi, me levantando – Não teria como ele chegar a essa conclusão sozinho. Só você e a sabiam disso, e o Seb, mas ele não falaria nada.
- Mas o sim – também se levantou e eu fiz sinal para que falasse mais baixo, tudo o que eu menos precisava naquela noite era de alguém ouvindo atrás da porta. – O disse, não diretamente é claro, mas deixou escapar que conhecia você, como desculpa ele usou sua visita no laboratório, mas ele ficou nervoso e não conseguiu esconder.
- Não conseguiu esconder só do pelo jeito – eu disse tentando relembrar se algum deles deu sinais de que também desconfiavam.
- O é seu amigo... Te conhece muito bem e sabe que você detesta a área da saúde, é obvio que ele iria desconfiar dessa história. Sem contar que...
- Que? – Incentivei a continuar.
- Que ele sabe de histórias sobre o e de como ele se relaciona com as alunas – ela respondeu tão depressa como se as palavras pudessem me atingir. Bem, talvez ela estava certa... atingiram. É horrível imaginar o com aquelas alunas nojentas dele, mas por outro lado, não era hora de me preocupar com isso.
- É, se daria muito bem como psicólogo – eu disse, risonha, me jogando no sofá.
- , você está louca? – parecia não acreditar na minha calma. Estava provavelmente três vezes mais preocupada com a situação do que eu.
- Não se preocupe, – eu disse, pausadamente – Depois dessa noite, todas as suspeitas do irão sumir. - sorri apenas e voltei a brincar com a almofada do sofá.
- Ah, vocês estão aí – disse, vindo em nossa direção – Vamos pra cozinha, estão todos esperando.
- Claro – respondi, me levantando no sofá e pulando nas costas de . Segui rumo à cozinha, deixando para trás uma amiga completamente confusa com a situação.

Capítulo betado por Letii



10° Capitulo

A vida de ninguém é repleta de momentos perfeitos. E se fosse, não seriam momentos perfeitos. Seriam apenas normais. Como você poderia saber o que é a felicidade se nunca tivesse experimentado as quedas?!

A cozinha estava animada e o cheiro era ótimo. sempre foi um grande cozinheiro. Enquanto ele mexia com as panelas, o observava. As meninas conversavam animadas no balcão sobre um assunto qualquer, abria a geladeira procurando mais cervejas e vinha logo atrás de mim se juntando a ele. Ao fundo tocava Faber Drive, dando certo ar nostálgico à cena. Era tão bom ver meus amigos reunidos, eu os amava tanto que me sentia sufocada só de pensar no que poderia acontecer depois que eu contasse ao sobre meu “relacionamento” com o . Talvez muitas coisas mudassem, talvez.
Sentei-me com as meninas no balcão e tomei algumas cervejas, conversamos sobre o colégio, os jogadores do time de futebol, a inauguração da nova boate e eu me vi absorvida na conversa de um modo que eu não ficava há semanas. Depois de algumas cervejas e muitas risadas, me pediu para que o ajudasse a colocar a mesa. Levantei-me do balcão e fui em direção ao armário para apanhar os pratos, talheres e copos.
- Você acha melhor contarmos agora? – aproximou-se de mim, falando baixo e me ajudando com os pratos.
- Não, vamos esperar... Depois do jantar seria mais adequado – eu respondi
- Quer me dar o direito de ter uma última refeição digna antes que seu irmão quebre meus dentes e eu passe o resto da vida comendo miojo? – respondeu com um sorriso brincalhão no rosto. Mas esse sorriso não foi capaz de esconder a aflição no seu olhar e eu estremeci.
- Essa é a hora, – eu disse calmamente – se quiser desistir tem que ser agora.
- Eu não vou, – ele disse firme.
- Apenas não quero que você se complique – sentia as lágrimas invadirem meus olhos e tentei me conter, respirar fundo me parecia uma boa alternativa.
- Vai ficar tudo bem – ele disse sincero, me transmitindo um conforto especial.
- Por que você faz isso por mim? – perguntei – eu sei que sempre fomos amigos, mas você tem se mostrado sempre tão prestativo e está ao meu lado como nunca imaginei que estivesse...
- Eu... – preparava-se para responder quando ouvimos gritar na mesa.
- Andem logo vocês dois com esses pratos, eu estou com fome – ela dizia praticamente aos berros, como se fossemos surdos ou algo do tipo.
- Eu vou levar os pratos – disse por fim - vamos. E eu me juntei a ele, e logo em seguida ao restante do pessoal que se deliciava com a refeição.
Servimos-nos da maravilhosa massa preparada pelo , havia vinho na mesa, mas ninguém arriscou beber depois de todas as cervejas consumidas, então ficamos apenas com o suco de uva concentrado.
- Depois eu quero a receita disso aqui, , é realmente maravilhoso – disse enquanto se servia de um pouco mais.
- É, realmente está muito bom, porque hoje a conseguiu comer mais do que a disse enquanto dava uma piscadela aos demais, fazendo rir do comentário.
- Você quer dizer o que com isso, ? – perguntou fazendo sua melhor voz de ofendida, provocando risos em todos. , todo desastrado, acabou batendo a mão em seu copo, que tombou na mesa e quebrou.
- Ai, , olha só – disse pegando um guardanapo para limpar o líquido roxo derramado sobre a mesa.
- Não se preocupe, amor – respondeu – Deixe que eu cuido disso aqui – ele pegou os cacos do copo e infelizmente acabou se cortando, soltou um gemido de dor e imediatamente gotas de sangue se misturavam a bebida derramada.
- Meu deus – rapidamente fez soltar os pedaços de vidro e abriu sua mão para poder ver o tamanho do corte.
- Caraca, dude, tem que tomar mais cuidado – disse se aproximando de que estremecia de dor a cada toque de .
- , você tem kit de primeiros socorros em casa? – perguntou.
- Claro, está no meu quarto – respondeu imediatamente – Venham comigo. E assim os três saíram da cozinha.
Eu olhava para a mesa sem nem piscar, aquele sangue fez meu estômago revirar e a comida, consumida há alguns minutos atrás, praticamente gritar para sair.
- ? – me chamou.
- Hum.
- Você está pálida, disse me olhando e me puxando para sentar.
- Não me admira – respondeu – a nunca gostou de ver sangue ou qualquer coisa relacionada, sempre passa mal.
- É, e ver o sangue do realmente não foi uma boa ideia – Eu respondi – principalmente depois do jantar – e me levantei rapidamente indo rumo ao banheiro.
Abri a porta e olhei-me no espelho. Realmente eu estava um pouco pálida Abri a torneira e lavei o rosto, e rapidamente senti um alívio e pude relaxar. Meu estômago já não reclamava mais. Mantive a cabeça abaixada enquanto me recompunha.
- Achei que você gostasse de sangue – disse encostado na porta do banheiro, me fazendo levantar a cabeça rapidamente e fitá-lo – Afinal sangue faz parte da rotina de profissionais da saúde.
- Não sei aonde você quer chegar com isso, – respondi secamente.
- Ah, , fala sério... Você não tem a menor vocação pra isso – ele disse sarcástico.
- É, acho que acabei de confirmar que não – respondi em um tom irônico.
tinha razão, realmente desconfiava de algo. Abaixei a cabeça novamente e a mantive assim por alguns segundos. O silêncio era torturante.
- Talvez você devesse reconsiderar a comunicação – ele disse.
- É, talvez – eu respondi sem nem olhar para ele.
Ele não respondeu de imediato, apenas me avaliou. Pude sentir seus olhos queimando sobre mim. Não sei dizer quanto tempo se passou até ele finalmente falar.
- Desculpe – disse se aproximando de mim – Vem, deixe-me cuidar de você.
- Tudo bem – sorri fraco pra ele, aquele sim era meu amigo, prestativo e carinhoso, e não aquele detetive calculista que ele foi o dia todo. Ele pegou a toalha de rosto e molhou com a água fria da pia e, em seguida, passou pelo meu rosto.
- Você está voltando à cor normal – ele disse sorrindo – já não parece mais a irmã mais nova do Gasparzinho.
- Obrigada – eu disse rindo e colocando a tolha dentro do cesto de roupas sujas – Vamos ver como está o corte do ?
- Com certeza está curado – ele disse – vai ser uma ótima enfermeira, diferentemente de mim que não tive o mesmo cuidado com você, logo, você não teve a mesma sorte do – e logo em seguida ele deu aquela risada brincalhona.
- Você cuidou de mim muito bem – eu disse sincera.
- É isso que os amigos fazem – ele disse sem graça.
- É isso que os melhores amigos fazem – eu o corrigi e ele sorriu, me abraçou e saímos rumo ao quarto do .
estava sentado na cama do , ao seu lado guardava o que me pareceu seu soro fisiológico e estava em pé na frente dos dois, rindo de algo que provavelmente dissera.
- Hey, dude – disse sentando-se do outro lado de – como está esse corte?
- Nada mal – respondeu – mas acho que não poderei tocar bateria por uns dias.
- Por uns três dias no máximo, disse se levantando e entregando o kit a – foi um corte superficial e logo você não terá mais nada.
- Menos mal – disse – Não podemos atrasar muito o ensaio, você sabe que vamos ter aquele festival daqui há um mês.
- Até lá a mão do já não terá mais nada – tornou a falar – vocês homens são muito dramáticos.
- É porque não é a sua mão – respondeu e riu. apenas mostrou a língua e saiu do quarto, dizendo que iria ajudar e com a louça do jantar.
- Ei, eu não terminei, mocinha – disse rindo e correndo atrás dela.
Estávamos sozinhos, só nós três finalmente. Eu, que não disse nada desde que cheguei ao quarto, me aproximei lentamente e me sentei ao lado de .
- Temos que conversar – disse séria e pude sentir estremecer a nossa frente.
- Então diga, maninha – disse, mexendo no curativo em sua mão.
- , feche a porta, por favor – pedi e um assustado obedeceu. ergueu os olhos e então eu comecei.
- Bom ... – as palavras pareciam extremamente difíceis de sair nesse momento – Eu estou apaixonada por alguém.
- Ah, que ótimo, maninha – disse sorrindo e me abraçando – Eu já desconfiava mesmo que você tinha um namoradinho escondido – ele deu uma piscadela marota, que me faria rir em outros momentos, mas não nesse.
- E ele é o – eu disse rápido, olhando para que estava em um silêncio total e absoluto.
- ? – disse meio confuso – Que ?
- Eu, disse sério. não respondeu, apenas o encarou por alguns instantes, sério e confuso. Logo em seguida desviou seu olhar para mim.
- Do que ele está falando, ? – perguntou sem nenhuma emoção na voz, sem nenhuma expressão no rosto.
- Que é por ele que eu estou apaixonada e já decidimos que vamos morar juntos e é por isso que eu estava aqui hoje a tarde e... – eu vomitava as palavras com uma rapidez inacreditável.
- Não pode ser... Não mesmo. – se levantou, passou as mãos pela cabeça em um gesto nervoso.
- Por que não? – eu perguntei – Eu me apaixonei, ele também e...
- E NADA – gritou, dando um murro na porta e depois soltando um gemido de dor. Bateu a mão que estava machucada.
- Cuidado – eu disse me levantando e encostando a mão no seu ombro, com o intuito de fazê-lo olhar para mim – , por favor.
- Isso é um absurdo, se virou rapidamente, me encarando, e por um momento eu tive medo do meu irmão.
- Dude, também não é assim...Você tem que entender – tentava argumentar, mas parecia que nem escutava.
- Você é cinco anos mais velho do que ela, . Ela só é uma menina. Eu sempre soube que você era um canalha, mas não a ponto de dar em cima da minha irmãzinha. MINHA IRMÃZINHA.
- , você está muito nervoso – tentava falar, mas foi interrompido por um soco de , que o derrubou em cima da cama.
- NÃO... – eu me aproximei de , tentando segurá-lo para que não batesse em novamente.
- VOCÊ ESTÁ LOUCO, , LOUCO – gritava ao mesmo tempo em que ia pra cima de para revidar o soco. Eu não conseguia segurá-los, e então gritei para que , e pudessem ajudar.
- LOUCO É VOCÊ, EU VOU TE MATAR POR TER ENCOSTADO ESSAS SUAS MÃOS SUJAS NA MINHA IRMÃ.
- POR FAVOR, PAREM – eu gritava tentando puxar , mas de nada adiantava. Por sorte abriu a porta, meio atordoado com a cena e sem entender nada, mas rapidamente se colocou entre os dois para tentar separá-los. entrou logo atrás aos gritos, me ajudando a puxar enquanto e seguravam .
- JÁ CHEGA – gritou no meio dos dois, os empurrando. tinha o canto da boca sangrando e a mão já machucada de não ficava atrás, já que seu curativo estava de um vermelho vivo.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – perguntou – Vocês dois brigando? Estavam bem há uns minutos atrás e agora estão iguais a cão e gato.
- FOI ESSE IMUNDO QUE VOCÊS CHAMAM DE AMIGO – ainda estava aos gritos, lágrimas começaram a escorrer por suas faces.
- Me deixe ver sua mão, amor – disse, tentando pegar a mão de para ver porque o corte sangrava tanto.
- Me deixa, – ele respondeu seco, se afastando da namorada, que o olhava assustada.
- O que aconteceu aqui, ? – me perguntou se aproximando. Eu não aguentava mais, eu não podia mais. Comecei a chorar. me abraçou.
- Seja lá o que for, vai ficar tudo bem, ok? – ela disse enxugando minhas lágrimas.
- Não, não vai ficar nada bem – respondeu – Ela se deixou levar pelo idiota do , é a namorada dele, acreditam? E como se não bastasse, ainda vai se mudar pro apartamento dele.
- Isso é verdade? – me puxava para poder olhar nos meus olhos. Eu balancei a cabeça em sinal de aprovação.
- Desde quando você namora o ? – , que estava perto da porta, perguntou indignada e confusa.
- Ah, então quer dizer que vocês também não sabiam? – perguntou irônico, rindo tristemente – Parece que o casal enganou todos muito bem.
- Calma... – disse olhando pra mim e em seguida para – Então é o namorado secreto da ?
- Sim, sou eu... Todo mundo satisfeito? – perguntou nervoso, se sentando na cama.
- Graças a Deus – disse parecendo aliviado – então eu estava errado sobre...
- GRAÇAS A DEUS? – gritou - Então você acha isso normal? E errado sobre o que?
- É que... – começou, como se procurasse as palavras certas, ou a mentira certa.
- Quer saber, não precisa dizer nada... Você é louco também, todos vocês são. E você – disse apontando para – está fora da banda – disse se virando rapidamente e saindo do quarto, sendo seguido pela namorada extremamente assustada com a situação.

Capítulo betado por Letii


11° Capítulo
O silêncio era algo atormentador depois que deixou o quarto. As meninas ao fundo estavam quietas e apreensivas, já nos olhava em silêncio e dava sorrisos doces em minha direção, querendo dizer com aquele simples gesto que tudo iria ficar bem. Era bom saber que ele estava do meu lado, aliás, do nosso lado, já que agora também fazia parte de um problema que era só meu. Ele estava de olhos fechados e a cabeça apoiada na parede, tinha a respiração forçada e cansada, achei por um segundo que ele fosse chorar. Lágrimas que não vieram dos olhos dele, mas sim dos meus cuja culpa estava me sufocando por colocá-lo naquela situação, e então o silêncio foi cortado pelo meu choro baixinho que não passou despercebido.
- Não chora sentou-se ao meu lado na cama e afagou meu rosto – Vai dar tudo certo, ele só precisa de um tempo.
- Tempo? – eu disse, olhando nos olhos – O tempo só afasta as pessoas, eu não preciso de tempo, ele não precisa de tempo, não precisamos entende... Ele é meu irmão! – e como uma onda turbulenta as lágrimas voltaram aos meus olhos e rolavam por meu rosto. abriu os olhos e se aproximou.
- – disse ele a enquanto tirava as chaves do carro de dentro do bolso – Leve a e a para a casa. Eu cuido da e depois nós conversamos.
o encarou por alguns instantes e depois assentiu em silêncio, pegando as chaves.
- Vou levar elas e amanhã cedo eu volto para trazer o carro e ver como você está ok? – ele disse beijando minha testa. Eu apenas assenti.
se aproximou para se despedir e enquanto me abraçava, perguntou baixinho
- O que foi isso, ? O que está acontecendo?
- Eu explico depois.
E assim ela me largou, mesmo não entendendo eu pude sentir que ela compreendeu e que iria estar ao meu lado, talvez, mas eu estava torcendo para que sim. nada disse apenas me jogou um sorriso triste e eu retribuí e então, eles se foram.
Alguns minutos se passaram, não sei dizer ao certo quantos, apenas que foram longos.
- Ele vai entender – disse rompendo o silêncio com a sua voz serena – Você conhece seu irmão, ele é assim ciumento e protetor, mas ele vai entender.
- E se não entender? E se ele nunca mais falar comigo? Ou olhar na minha cara ou na sua, e a banda ? É a sua vida... É a vida dele e do . – o desespero já se tornava visível na minha voz, estava bem claro que as probabilidades de eu lidar bem com a situação eram muito poucas.
- Olha, ... Eu te prometo que vai ficar tudo bem, você precisa descansar e pensar, organizar as ideias e deixar sua mente livre e seu coração tranquilo. Não há nada que você possa fazer agora, entendeu?
- Tudo bem – deitei minha cabeça no ombro do . Era incrível como eu conseguia-me sentir segura ali... Estava claro que nossa amizade era única.
- Sabe... Você pode fazer uma coisa ainda .
- E o que é ?
- A regra dos três “D” - eu apenas olhei confusa.
- Ora , deitar, dormir e descansar! – Ele disse com um ar brincalhão e por um segundo eu sorri e percebi que ele estava certo, meus olhos estavam praticamente se fechando sozinhos... Meu corpo pedia por repouso, mas, eu não estava certa se minha mente compartilhava da mesma vontade. Pensei na ideia por alguns minutos.
- Você está certo, eu vou mesmo dormir – disse a ele me levantando – amanhã te ajudo com a bagunça da cozinha, tá?
- Nem está tão bagunçado assim, as meninas deram uma ajuda já... E o que sobrou fazemos amanhã.
- Ótimo! Bom... Vou me deitar então – eu disse dando um leve beijo em sua bochecha. Ele apenas sorriu, e ficou visível que eu não era a única que precisava descansar.
Relaxei o corpo e me virei, caminhando lentamente até a porta.
- Hey, ... – disse se levantando rapidamente. Eu me virei e o encarei séria por alguns segundos, ele se aproximou em silêncio e me olhou fundo e pela primeira vez eu reparei em como seus olhos eram bonitos e encantadores.
- Sim, ...
Ele não respondeu de imediato. Mexeu no meu cabelo, colocando uma mecha atrás da minha orelha e depois acariciou meu rosto.
- Qualquer coisa que precisar pode me chamar – Disse por fim, se afastando. Eu assenti, porém fiquei em silêncio por alguns segundos e depois rapidamente saí do quarto.

Quando saí do quarto me senti nervosa e inquieta. Andei até o banheiro, liguei a torneira e joguei água fria no rosto. Ao olhar meu reflexo, percebi que eu não era nem a sombra da de algumas semanas atrás. Espantei os pensamentos por um instante para fazer o ritual noturno antes de dormir, que incluía escovar os dentes e colocar meu pijama. A casa estava silenciosa, sem um mínimo barulho sequer... Deduzi que o já dormia, ou pelo menos tentava. Andei a passos leves de volta para o meu quarto e me deitei, os pensamentos insistiam em voltar, mas, a cama era tão confortável e eu estava tão cansada que deixei que o sono vencesse e me levasse direto pro mundo dos sonhos. Naquela noite, tive pesadelos.
“Porque, às vezes, acordar tem lá suas muitas desvantagens.”

O sol batia no meu rosto e a claridade incomodava muito. Abri os olhos e imediatamente os acontecimentos da noite anterior vieram a minha cabeça. Rolei pro lado e peguei o celular, eram 8 horas da manhã e havia cinco ligações perdidas do . Sentei-me na cama e esfreguei os olhos para olhar direito, era isso então? Seria uma ligação para pedir desculpas? Só havia um jeito de saber.
O telefone na linha tocou até quase cair na caixa postal, o que me deixou muito nervosa, mas então a voz aparentemente cansada do meu irmão atendeu.
- Alô – ele disse, sua voz parecia além de cansada, distante.
- , eu... – minha barriga gelou e meus olhos instintivamente se encheram de lágrimas.
- Só tinha ligado antes pra avisar que os nossos pais querem tomar café da manhã com você hoje e conversar sobre a situação.
- A situação que você devia enten...
- Não, . Não tenho que entender nada. Às 10 da manhã no Lola & Simon. – Ele disse rispidamente e desligou.
Olhei para o meu celular por alguns instantes e todo aquele medo e nervosismo foi se transformando em raiva. Era isso, eu estava com raiva, estava brava... Ele era meu irmão e não podia simplesmente me tratar assim.
Respirei fundo e me levantei, eu podia ficar ali e pensar sobre como eu iria resolver essa situação com meus pais, mas não. Despi-me rapidamente e entrei no banho... Uma ducha de água fria era o que eu precisava naquela manhã.
Não sei quanto tempo fiquei ali, só sentindo a água no meu corpo enquanto eu distanciava minha mente para um mundo que com certeza não era aquele em que eu estava vivendo. Meus pensamentos foram dispersos por um barulho muito alto vindo da cozinha.
havia acordado. Saí do banho e sequei-me. Abri minhas malas ainda não desfeitas e procurei por uma roupa que não estivesse muito amassada. Vesti uma calça legging preta, com uma blusinha branca básica, coloquei uma bota de couro marrom. Sequei meu cabelo e fiz uma maquiagem leve, uma tentativa útil de disfarçar as olheiras e totalmente inútil para me mostrar autoconfiante. Era isso, eu estava pronta. Peguei meu casaco e saí do quarto.
Assim que eu saí do quarto pude sentir um cheirinho de panquecas agradável e ouvir xingando a cafeteira. Andei apreensiva até a cozinha. Eu imaginava que estivesse irritado, bravo ou talvez zangado comigo, mas ao entrar na cozinha vi que a situação era totalmente diferente e senti uma sensação boa ao vê-lo ali, sujo de massa de panquecas.
Sentei-me no balcão e fiquei apenas observando, um tanto desastrado. Isso me divertia e sem perceber abri um sorriso.
- ! – disse ao me ver ali sentada quietinha, sua voz tinha um tom calmo, por incrível que pareça.
- Bom dia, – eu respondi indo ao seu encontro para lhe dar um beijo na bochecha.
- Você está cheirosa.
- E você está cheirando a panquecas e calda de amora, – eu disse brincalhona limpando um pouco de farinha do seu rosto.
- Eu estava preparando o café da manhã pra gente – ele parou de falar e me observou antes de continuar – Mas percebo que você vai sair.
- Não passou pela sua cabeça que eu simplesmente goste de me vestir bem até mesmo dentro de casa? – eu perguntei mostrando a língua.
- Já te vi em casa várias vezes e em todas você usava apenas uma camiseta larga do e aqueles shorts pequeninos que vocês meninas adoram.
- E que vocês homens também adoram – eu disse rindo enquanto ficava totalmente vermelho com meu comentário, que por sinal era bem uma verdade.
- Talvez – ele sorriu.
- Mas bem, você estava certo... Vou sair, ligou e disse que meus pais querem tomar café da manhã comigo. – no instante em que terminei a frase vi o ir de vermelho cereja para branco leite em questão de segundos.
- Você quer que eu vá com você? – ele perguntou desamarrando o avental, um pouco desconcertado e com a voz falha.
- Não precisa , e não precisa ficar nervoso também – eu me aproximei e o ajudei com o avental, tacando-o em cima do balcão e passando a minha mão pelo rosto de – Está tudo bem, ok? Nós vamos conversar e eu vou explicar a situação...
- A falsa situação...
- Você sabe que a verdadeira não tem como eu dizer, , você sabe...
- Ta ok , você vai e vai explicar tudo e se precisar sabe que pode ligar. – Ele disse com um sorriso daqueles que querem dizer “vai dar tudo certo”, mas que na verdade dizem “não sei se vai dar certo, mas to aqui com você”. Eu gosto mais da segunda descrição.
Eu assenti com a cabeça e o abracei, sentindo aquela sensação boa novamente.
- Eu tenho que sair hoje pra resolver umas coisas, mas se você preferir posso te esperar.
- Não , pode ir fazer suas coisas e não sei que horas eu volto e eu vou ficar bem.
- Manda uma SMS ou me liga quando chegar , para eu não ficar preocupado. Vou deixar as chaves do apartamento na portaria.
- Ok papai ... – eu disse divertida apertando suas bochechas.
Coloquei o casaco e peguei minha bolsa. O prédio estava com um fluxo de pessoas normais saindo para o trabalho ou para a escola... Escola me lembrava o ... , eu havia me esquecido, mas eu ainda tinha esse problema, não com ele, mas comigo. Assim que saí do prédio, senti o vento frio no meu rosto e me perguntei se eu não devia subir e pegar outro casaco. Olhei no relógio para me certificar do horário e já eram 9hrs 18min... Deixei o casaco pra lá e fui à procura de um táxi. Lembro que eu e a havíamos pegado um taxi por ali uma vez, mas não conseguia me lembrar onde era o ponto e os que passavam na rua estavam lotados. Andei algumas quadras onde vi um senhor descendo de um do outro lado da rua, apressei o passo e consegui chegar antes que o carro partisse.
A cada segundo eu ficava mais nervosa.
- 278 King Street, por favor. – Eu disse ao motorista que assentiu e arrancou com o carro.
A minha ida até a o café era apenas um borrão na minha mente, eu não conseguia me lembrar do trajeto e nem do que o motorista falava. A única coisa que vinha à minha mente era tudo o que iria falar, ou melhor, tudo o que eu podia falar. Demoramos 20 minutos até que Noel, acho que era esse o nome dele, estacionou. Entreguei o dinheiro a ele e desci rapidamente. Ouvi Noel arrancar com o carro atrás de mim. Respirei fundo e olhei no relógio, 9hras 38min.
Empurrei a porta e no instante que entrei já pude sentir aquele cheiro gostoso de café e ouvir pessoas conversando em voz alta, umas com as outras ou no celular. Eu gostava muito daquela cafeteria, mesmo não indo lá há anos. Era um dos lugares favoritos dos meus pais.
Procurei por eles e não encontrei, pois bem ainda não estava no horário. Procurei uma mesa vazia e encontrei uma mais ao fundo, onde me sentei enquanto uma garçonete sorridente veio me atender.
- Posso anotar seu pedido? – ela disse sorrindo demais para quem devia estar trabalhando desde às seis da manhã.
- Quero um cappuccino médio, por favor – Eu pedi enquanto ela assentia e se distanciava.
O relógio ao fundo acusava 9hras 53min. Eu realmente detestava esperar pelas pessoas.

12° Capítulo
Depois de beber todo meu cappuccino e pedir pelo segundo, finalmente os avistei entrando. Meu coração gelou. Meu pai tinha uma expressão serena, como de costume, já minha mãe tinha a expressão fechada, e ah, como de costume também, mas o tinha a expressão indefinida, com um misto de raiva e decepção e isso vindo do meu irmão não era nada normal.
Eles chegaram e eu me levantei para recebê-los na mesa.
- O que você está fazendo, minha princesa? – meu pai dizia enquanto me abraça forte. Ele estava confuso e isto era claro.
- Ela ta fazendo besteira – minha mãe disse com um olhar nada amigável, me repreendendo.
- Tudo bem querida, nós vamos resolver – meu pai disse sentando-se ao meu lado.
Ficamos em silêncio por algum tempo, conseguíamos cortar a tensão com uma faca de serra. Meus pais e fizeram seus pedidos, e após alguns minutos a mesma garçonete que havia me atendido os trouxe, era muito cedo ainda para consumir bebidas alcoólicas, então depois de dois cappuccinos eu achei melhor pedir um café preto e sem açúcar, só assim pra aguentar a conversa que viria adiante.
- Filha... – meu pai começou a voz aparentemente embargada e confusa – o que deu em você para tomar essa decisão?
- Bom, pai... – a cada palavra eu sentia meus olhos arderem, eu não podia fraquejar agora – eu amo o .
- Ama uma ova – disse friamente do outro lado da mesa, me fitando amargamente.
- Fica quieto – meu pai disse lançando um olhar sério para ele.
- Eu amo o , pai, é isso o que aconteceu. Resolvemos morar juntos há algum tempo porque não estávamos conseguindo lidar com esse relacionamento.
- Há quanto tempo filha? – meu pai e eu fui obrigada a olhar seus olhos, verdes e doces que me passavam uma tranquilidade inabalável, e mentir.
- Já tem três meses – menti.
- Estranho, muito estranho – minha mãe falou baixinho enquanto me avaliava. Ela me conhecia e muito bem, se eu tivesse que mentir teria que ser muito bem feito, com muita calma, calculando todas as palavras, emoções e atitudes. Bebi um pouco do meu café e pousei a xícara, ele estava muito amargo. Peguei um sache de açúcar de cima da mesa e abri. Na minha frente eu podia sentir os olhos de me queimando, mas não o encarei.
- Vocês podiam continuar o namoro, não precisa se mudar, , você sabe disso... Nós nunca te proibimos de namorar – meu pai dizia tentando entender o motivo de uma atitude tão drástica.
- Pai, você acha mesmo que iria dar certo? Eu imaginava a reação de , iria ser um inferno e por isso escondemos, queríamos paz e tranquilidade – eu disse colocando o máximo de emoção na minha voz e obtive um grande sucesso quanto a isso, pois apesar das minhas palavras fazerem menção ao , era que estava na minha cabeça junto com todo nosso relacionamento imprudente e apaixonado. Bom, a parte do apaixonado era só minha, mas eu ficava pensando o que aconteceria se eu e o tivéssemos uma chance igual a que eu e o estávamos tendo, eu sei que a chance com era falsa, mas com o seria totalmente verdadeira.
- Era óbvio que eu iria me opor, você é só uma criança – dizia me fitando, ele parecia acompanhar cada movimento que eu fazia como se fosse pular em cima de mim a qualquer momento e me arrastar pros Emirados Árabes.
- Eu gostaria muito de te levar de volta pra casa, , você não sabe o que é a vida, você não está pronta – minha mãe disse firme e ríspida.
- Eu aprendo. – respondi no mesmo tom.
- Você sabe que pode voltar, eu e sua mãe vamos te dar todo o apoio com seu namoro – meu pai disse calmamente.
- Vocês não podem me levar, eu fiz uma escolha pai.
- Uma escolha errada – resmungava.
- Errada ou não, é a minha escolha – e essa com certeza era minha última palavra.
- Podemos fazer um teste, – meu pai hesitou por um momento antes de prosseguir – Você passa um tempo na casa do , como se fosse uma experiência e se não der certo você volta, dois meses querida e daí você decide se fica com ele ou volta pra casa, pensa nisso.
- Eu aceito – disse. Eu não precisava pensar. Já estava certo.
- Okay – meu pai respondeu por fim, dando-se por vencido me pegando a carteira, de lá tirou algumas notas, umas belas notas.
- Ah, mas assim é fácil sair de casa, você não pode dar dinheiro a ela meu bem – Mamãe dizia incrédula pela atitude do meu pai.
- Ela não vai passar nenhum tipo de necessidade – meu pai respondeu de volta me entregando o dinheiro. Por um minuto pensei em não aceitar, mas minha mesada não era o suficiente e eu não podia deixar me sustentar, então eu peguei o dinheiro e colocando na bolsa.
- Obrigada Pai, eu te amo – respondi abraçando-o.
- Esse vai ser o último dinheiro que o papai vai te dar, ouviu bem ? – disse em tom furioso – Não vou deixar ele sustentar seu namorado imbecil.
- O não precisa ser sustentado por ninguém, ele trabalha. – eu disse ríspida.
- Ele não ganha lá essas coisas pra poder te sustentar no luxo que está acostumada – parecia se divertir com a situação.
- Ele poderia ganhar mais se você não o tivesse expulsado da banda – senti minha voz se alterar.
- Só lamento por ele, mas não vou ajudá-los.
- Achei que você fosse ficar do meu lado , você é meu irmão.
- Jamais ficaria do lado de um cretino como o e de uma mimada como você.
- é seu amigo – respondi seca.
- Era meu amigo.
- Eu sou sua irmã – disse quase como uma súplica para que se ainda existisse algum sentimento nele, este saísse e me confortasse.
- É uma pena que não escolhemos os familiares.
Aquilo fora demais pra mim. Se era assim que queria, era assim que seria então. Levantei-me e bati na mesa, pouco me importava se eu poderia chamar a atenção de todos na cafeteria. Cheguei perto de e o encarei profundamente para que ele pudesse ver o desprezo que estava causando. Eu só tinha uma coisa a dizer.
- Vá para o inferno.
me fulminou com o olhar se levantando bruscamente e empurrando a cadeira de lado. A essa altura todos nos olhavam. Papai se levantou também, fazendo menção de entrar no meio, enquanto minha mãe puxava para trás.
Meu irmão nada disse. Eu não o reconhecia. Senti algumas lágrimas escorrerem pela face e abaixei a cabeça.
- Me solta – ouvi dizer e se afastar. Alguns segundos depois a porta da cafeteria se fechou e eu caí em prantos.
- Eu vou atrás dele – meu pai disse pegando as chaves mas minha mãe o impediu.
- Deixe-o, meu bem, ele precisa pensar. Precisa ficar sozinho, não está sendo fácil – minha mãe disse.
- Não está sendo fácil para mim também, mãe.
- Mas foi você quem escolheu isso, então agora vai lidar com as consequências - ela era tão seca comigo às vezes que não me admirava o agir dessa maneira.
- Já chega, querida – meu pai respondeu, por fim secando minhas lágrimas – Vamos levar a pra casa dela e depois vamos almoçar, tenho que estar no escritório daqui a poucas horas.
- Não precisam me levar pai, vou me encontrar com as meninas para almoçar.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Tudo bem então – ele me beijou na testa e se levantou deixando o dinheiro da conta na mesa – Qualquer coisa me ligue.
- Sim senhor – eu sorri e assenti – Tchau mãe.
- Tchau filha – ela sorriu por uns instantes e depois se virou. Estava claro seu descontentamento, mas se ela soubesse que o motivo dessa confusão toda era ela, ah se ela soubesse.
Continuei sentada enquanto eles saíam pela porta, as pessoas já não olhavam agora. Abri minha bolsa e peguei meu pequeno espelho, ajeitei meus cabelos e limpei o rímel borrado pelas lagrimas. Eu ainda estava com o coração apertado, as palavras que me disse simplesmente não saíam da minha cabeça. Elas martelavam e martelavam. Por um lado eu estava aliviada, apesar dos pesares a conversa não foi assim tão ruim, mas por outro eu estava completamente destruída, as palavras duras e a insinuações sobre eu estar acabando com a minha e a verdadeira história sobre minha mudança estava pesando muito e eu sentia que ia explodir a qualquer momento. Eu precisava de uma válvula de escape e eu sabia onde encontrar. Pedi a conta e depois entreguei o dinheiro que meu pai havia deixado sobre a mesa. Levantei-me e sai do ambiente quente e agradável para o vento gélido das ruas londrinas.
Peguei meu celular e disquei. Instantes depois atendeu.

Nota da Autora: Olá, eu sei que demorei muito com a att dessa vez, e peço desculpas é que as coisas andam uma loucura! Espero que gostem. Divirtam-se e comentem. Beijokas :*


NOTA DA BETA: Encontrou erros que provavelmente passaram despercebidos pela desastrada aqui?
     
P.S: A opção "descontar na autora através dos comentários" foi desativada pela eminente injustiça que representa.
Curtiu demais Anatomy e mal pode esperar pelo próximo capítulo? Acompanhe aqui o processo de betagem (recebimento e envio de fics).




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