Blood At Her Hands
História por Adrianne Silva | Revisão por Gabriella

Capítulo 1

Seguiu-a cegamente sem prestar o mínimo de atenção ao caminho o qual estava tomando, queria alcançá-la, tomá-la em seus braços e acabar com a tortura que ela havia imposto desde o começo da noite. E quando o fizesse, ah... Seria delicioso para ambos os lados. Enquanto corria, rindo das palavras desconexas que ela soltava sem fôlego devido à fuga e às risadas, sua mente era tomada por pensamentos impuros e que não deveriam ser ditos em voz alta nem se estivesse completamente só. Alguns considerariam as palavras, frases, imagens que se formavam no fundo de sua mente, completamente sujas - céus, até mesmo ele as considerava -, mas estava adorando toda aquela expectativa antes de chegar ao, por assim dizer, ponto final. Ele sempre adorou jogos, provocações e perseguições eróticas, e quando descobriu que ela também gostava de tudo isso, tornou ainda mais fácil o trabalho.
Assim que atingiu a parte mais escura e afastada do bosque, puxou o punhal brilhante de um lugar escondido em sua bota e nem ao menos esperou-o dizer uma palavra, cravou o seu companheiro de caça no ponto onde tinha certeza de que ele não escaparia da morte. Esperou vários minutos, até que a perda de sangue do rapaz fosse suficiente para parar as batidas de seu coração. Observou enquanto sua jugular espirrava o tão precioso sangue vermelho e quente. Examinou-o de mais perto, para ter certeza de que estava morto, e suspirou pesadamente, deixando o local.

xx


E no final de mais um dia de trabalho, sentia-se cansado, tanto física quanto mentalmente. Todo dia, novos relatos de crimes, agressões e outros casos de grande porte chegavam ao prédio da Scotland Yard, mais especificamente, à mesa de . Sempre que sua equipe encontrava o culpado por algum crime, era tomado por um alívio enorme que o preenchia por inteiro, mas que ia embora quando se via frente a um novo caso. Todos sabiam o quão cansativo era aquele cargo, mas ele adorava o que fazia - apesar de todo o estresse. Levantou-se, vestindo o paletó e pegando as chaves, pronto para aconchegar-se no conforto de sua casa. Caminhou até o elevador, sem a mínima pressa de chegar até seu carro, sabendo que as ruas estariam repletas de pessoas em busca de badalação para mais uma madrugada de sexta-feira. Sentia falta de sair para se divertir, sem ter hora pra voltar, sem preocupações, deveres... Sentia falta da pessoa que era, seis anos atrás. Sentia falta dela.
Abriu a porta de seu apartamento e deu boas-vindas à conhecida solidão que o assolava. Largou o paletó no sofá e as chaves na mesinha do telefone, afrouxando o nó da gravata e caminhando em direção ao quarto. A luz da lua que atravessava a única e enorme parede de vidro, lançava sombras esquisitas no chão e nas paredes, tornando o cômodo algo próximo a fantasmagórico; mas não se assustava... Nem ao menos percebia. Tomou um banho rápido, e abriu uma das portas do enorme guarda-roupa, buscando uma boxer limpa. Vestiu-se, e antes que pudesse pensar em fazer mais alguma coisa, deparou-se com algo que não se lembrava de ter deixado ali. Pegou o retângulo de papel em mãos e observou atentamente cada traço da cena retratada ali. Lembrava-se dela como se tivesse ocorrido no dia anterior.
Jogou-se na cama e encarou o teto. Todas aquelas lembranças lhe atingindo com a força de um furacão. Parecia que tudo aquilo estava varrendo sua mente e levando qualquer outra coisa que não fosse ela para longe. Sentia-se indignado consigo mesmo e com o resto do universo; por que, em seis anos, não conseguira superá-la? Por que continuava querendo voltar no tempo, para tê-la, nem que fosse por uma vez? Ele queria de volta sua vida calma e todo aquele tempo em que não se importava, pois agora, era difícil deixar pra lá. Ele queria de volta seu irmão, pois ele em seu lugar, saberia o que fazer. Ele a queria de volta.
"Amor é auto-destrutivo", foi seu último pensamento antes de cair na inconsciência do sono, com aquela foto ao seu lado.

Suas gargalhadas tomavam conta do parque. Riam e brincavam como se nada pudesse os atingir, como se nada importasse, só... A companhia. Parecia-lhes que o mundo fora feito só para eles, e com todo aquele amor, bem que poderia ser assim; porque apenas isso, poderia preencher o mundo inteiro. Todos diziam que eles viviam em seu próprio universo, todos apoiavam aquele casal. E esse era um dos motivos de tanta felicidade de ambas as partes.
O rapaz sujou o nariz da menina com calda de sorvete e ela fez uma careta furiosa.


xx


- Chefe, a coisa tá feia.
E com essa frase, tudo começou a ficar pior do que um dia, alguém pôde imaginar.

Capítulo 2

Ali, em sua sala, repetia-se mais uma vez a cena que ele sentia-se tão habituado a presenciar. Familiares descontrolados, um de seus colegas de trabalho tentando acalmá-los e ele como espectador, tentando entender o que se passava dessa vez. A mulher, no auge de seus quarenta anos, chorava baixo, escondendo-se atrás do marido, que por sua vez, falava alto a ponto de quase deixar todos os presentes, surdos.
- Meu filho foi morto e ninguém sabe por que! – gritou em tom ofensivo. – Esse é o seu trabalho! Você já deveria ter desvendado isso há muito tempo, !
respirou fundo, observando o prestigiado Sr. Kingsley perder a cabeça. Aquele era um dos homens mais importantes da cidade, por ser dono das fábricas que ocupavam cerca de quarenta por cento do centro industrial. Quanto ao seu filho, todos o julgavam um dos jovens com futuro mais promissor de Londres, além de ser o queridinho das pessoas mais importantes da Inglaterra. Um crime desse porte renderia muita coisa, e se não fosse cuidadoso, o assassino poderia se dar muito mal.
- Sr. Kingsley, acalme-se. O caso só chegou a mim hoje, não teria como arrumar uma resolução assim, do nada. – explicou-se.
- Você não sabe o que é perder alguém que ama, ! Você não sabe! – devolveu Brandon Kingsley, exaltando-se ainda mais.
Com um pesar enorme desabando sobre suas costas, suspirou e lutou contra as lembranças ruins que lhe invadiram assim que ouviu aquelas palavras ofensivas. Ele sabia muito bem como era perder alguém que amava. Ele perdeu seu irmão para um criminoso que ninguém nunca conseguiu descobrir quem era. Engoliu a vontade de responder-lhe a acusação e deixou com o homem de sua equipe, que ainda se fazia presente na sala, pedir aos familiares de Bernard para que se retirassem.

Xx

Releu o mesmo relatório três vezes, tentando entender o que estava deixando escapar, ou alguma peça que não se encaixava, mas era impossível! Como diabos ninguém viu Bernard Kingsley depois das oito da noite? Por que diabos o corpo dele foi parar no bosque, onde aparentemente, ninguém encontrou nada além de animais? estava frenético! Sempre ficava assim quando algo desse porte acontecia, odiava quando as coisas passavam por debaixo dos seus olhos sem que percebesse.
Levantou-se de sua poltrona, arremessando-a na parede atrás de si com um estrondo alto. Andou com passos largos até a sala que ficava no lado oposto à sua, abrindo a porta sem pensar no que poderia encontrar ali. Não queria pensar, apenas agir.
- Scott, quero você e uma equipe de investigação prontos em dez minutos.
Comandou e saiu sem esperar resposta, vendo a única mulher de sua equipe pessoal caminhando em sua direção como se o mundo pertencesse a ela. sorriu do modo como ela parecia segura com relação a si mesma. Ela avistou seu sorriso, mas não se permitiu sorrir de volta. Parou em sua frente e pôs as mãos nos quadris, olhando-o com algo parecido a superioridade.
- O que está acontecendo? – perguntou-o, arqueando a sobrancelha.
- Você, tão esperta, não sabe? – desafiou-a.
Marian rolou os olhos e respirou fundo, encarando a parede ao seu lado. sabia o quanto ela odiava ser desafiada, sabia quão forte ela era e quão boa poderia ser em uma luta, mas ele não tinha o mínimo medo de levar uma surra de ninguém.
- O filhote dos Kingsley foi morto. – informou.
Assim que ele pronunciou a frase, o clima pareceu tenso, o ar mais pesado e o silêncio mil vezes mais denso. Marian não se abalou.
- Pois bem, investigue o local do assassinato.
- Já estou providenciando isso. – aproximou-se – Afinal, who is the boss? – brincou com um sorriso maroto, ignorando a tensão instalada há pouco.
Marian quase sorriu.
Quase.

Xx

Vasculharam o bosque do começo ao fim, dividiram-se em duplas, passaram pelos mesmos locais quatro vezes e as únicas coisas encontradas foram árvores e sangue seco – de Bernard, é claro. Marian, cuja presença fora imposta pela própria, apesar de não ser preciso, observou atentamente todo o local, sendo assim, a única esperta o suficiente para notar uma pegada solitária no meio das raízes de uma árvore.
- ! – chamou-o.
Ele atendeu seu chamado prontamente e a seguiu até a frente de um carvalho que deveria ter centenas de anos e observou o local que ela apontava, se sobressaltando ao notar a pegada naquele local. Poderia jurar que aquela pegada não estava ali quando passou antes.
- Então devemos chamar nosso criminoso de “ela”? – comentou Marian, em tom de duvida, agachando-se para olhar mais de perto.
continuou na posição que estava, perguntando-se por que diabos só havia uma pegada em todo o lugar e tão longe de onde o corpo e o sangue de Bernard estavam.
- Por que acha que foi uma mulher, se só temos uma pegada? – indagou .
Marian pisou mais forte ao lado do que analisava e mostrou-lhe, de onde vinha tanta certeza. As duas pegadas eram idênticas, sendo a da direita mais nítida e úmida. Olhou atentamente o calçado de Marian, concluindo que nenhum homem usaria uma bota tão... Feminina. Estava prestes a fazer um comentário, quando Scott chamou sua atenção para um detalhe que até então, ninguém tinha notado.
- Sr. , estamos sendo observados.
sacou a arma da cintura, apontando-a para direção em que Scott apontava, ouvindo, logo em seguida, um ruído alto. A névoa presente no fim da tarde não permitiu-lhe ver com clareza, e tudo que conseguia-se ouvir eram as respirações aceleradas de tensão pelo que viria a seguir. Mas ao contrário de quase todos, o chefe odiava esperar. Sempre preferiu agir. O que lhe fez caminhar na direção que olhava. Andou uns dez metros e percebeu que estava saindo do meio sufocante de árvores para a civilização. Avistou o primeiro prédio do outro lado de uma avenida quase deserta e junto com ele, uma silhueta feminina.
A assassina podia ser tudo, menos amadora.

Xx

Calças e jaquetas de couro, blusas de lycra e coturnos pretos... Marian se apresentava irresistível naqueles trajes.
- Você fica muito bem nessa roupa. – falou, vendo-a escorar-se no batente da porta e morder o lábio. – Aposto que fica melhor sem ela.
- Sabia que poderia contar com você. – respondeu, caminhando até e sentando-se em seu colo.

Capítulo betado por Ana Caroline Mello

Capítulo 3



Com os pés sobre a mesa, a gravata afrouxada de qualquer jeito, lia as fichas das pessoas que poderiam ter algum envolvimento com o assassinato de Bernard. O cigarro que estava em seus lábios já era o terceiro que fumava em menos de dez minutos. Tomou um gole do whisky – que já estava ficando quente – e passou para a próxima ficha vendo que não encontraria nada ali.
Seus olhos estavam ficando cansados de tanto se esforçar com aquelas letras miúdas que só o davam mais desespero e nervosismo. Ele odiava aquela sensação de estar dando tiros no escuro... aquela sensação de impotência que até então lhe era desconhecida. Já haviam se passado quase um mês inteiro desde que aquele assassinato ocorrera e ele não conseguia sair do ponto que se encontrava ao início de tudo: zero.
Permitiu-se uma olhada rápida em sua mesa, mais como uma inspeção de seu próprio estado do que de qualquer coisa, e acabou tendo sua atenção prendida a gaveta aberta à sua direita. Não exatamente a gaveta, mas sim, o que ela continha. A foto. Aquela mesma foto que ele tinha achado no seu guarda-roupa dias atrás, bem alcance de sua mão.
Apagou o cigarro no cinzeiro de prata, pouco se importando com o fato de que não havia chegado nem ao mesmo na metade, e tomou em suas mãos – mais uma vez – a prova de que um dia ele havia sido realmente feliz. De repente, sentiu-se sufocado por tudo que sentira, e ainda sentia por ela. Ela... que ele nem sabia onde estava por agora.
Suspirou pesadamente e levantou o olhar, sobressaltando-se ao ver Marian parada a pouca distância de si. O que diabos ela queria?
- Parece que o chefe não está assim tão preocupado com o trabalho... – sussurrou, seu tom carregado de ironia.
Ela claramente estava lhe provocando, e teria conseguido se ele não estivesse tão preocupado em guardar a foto, que acabou sendo tirada de suas mãos antes que tivesse tempo de colocá-la de volta na gaveta.
Observou a mulher na foto com um sorriso de lado, e depois balançou a cabeça negativamente, pondo-a em cima da mesa.
- É por ela que você morre de amores? Porque, – inclinou-se sobre ele – cá entre nós... eu sou melhor que ela.
revirou os olhos e dispensou qualquer possibilidade de resposta atravessada, levantando-se e encostando-se a janela atrás de si. Marian se aproximou com uma expressão nem um pouco puritana e com alguma ideia maliciosa passando em sua mente, e transbordando por sua face.
- O que você quer aqui? – perguntou.
- Apenas... passar o tempo, quem sabe?
Pôs as mãos nos ombros de , olhando-o dentro dos olhos e se aproximando para beijá-lo. a parou antes que estivesse, ao menos, no meio do caminho. Segurou seus pulsos e a empurrou de leve na direção oposta a sua. Ele não a queria hoje.
- Hoje não, Marian. – disse, esquivando-se das suas unhas impecavelmente pintadas de preto.
A fúria que tomou conta da mulher ao ouvir dispensá-la foi tão grande, que ela não conseguiu controlar o instinto de pegar o punhal em sua bota enquanto ele virava-se de costas para ela. Moveu-se rapidamente, aproveitando a brecha em sua defesa, e o pegou numa chave de braço – sendo favorecida por ter sua altura quase igual à dele – encostando a ponta de seu punhal na pele exposta de sua garganta.
- Quem você pensa que eu sou? – sua voz estava ácido puro. – Se você acha que pode me tratar assim, está muito enganado, . Não sou nenhuma das prostitutas que você pega por aí, então acho bom me respeitar.
Analisou as chances que tinha de matá-lo, pensando quão fácil seria se o matasse agora. Ela era especialista, não faria sujeira... Por que não matá-lo?
era treinado para esse tipo de situação, o que tornou muito mais fácil livrar-se da ameaça de Marian. Em um segundo, ele estava preso sob sua faca; no outro, ela estava sendo pressionada contra o corpo dele, as mãos presas pelas mãos dele em suas costas e o punhal de lâmina brilhante, reluzindo do outro lado da sala.
- Você precisa de alguém que te amacie, Marian. Está arisca demais.
A experiência de Marian não era exatamente um incômodo. adorava ver mulheres lutando, – mesmo que contra si mesmo – e essa, era especialmente boa.
- Eu gostaria de vê-lo tentar. – respondeu muito mais calma.
Ele, que ainda a segurava fortemente contra si, depositou um beijo em seu pescoço.
- Mais tarde, quem sabe. – disse, soltando-a.
Ele era bom demais para ser desperdiçado. Exatamente do jeito que ela gostava: humor negro, insinuação, prática e acima de tudo, sexy. E era por isso que ela não o matava...
Pelo menos por enquanto.

xx


O rapaz de olhos verdes olhou as duas mulheres na sala que se encaravam com expressões ferozes. Elas realmente não se suportavam, e ficar na mesma sala que elas teria sido uma pressão psicológica enorme se ele não estivesse acostumado com esse tipo de situação.
- Esperava que você estivesse azeda com a falta de sexo, como nos velhos tempos, – deu ênfase em “velhos tempos” – mas vejo que suas noites estão rendendo o suficiente pra colocar um sorriso nesse seu rosto lindo.
Comentou sarcasticamente, a mulher de cabelos longos, claramente mais confortável com o ambiente que estava, porque, obviamente, aquele território era seu. Ela quem havia sido convocada para uma “reunião”. E além do mais, ele não deixaria que ela fizesse algo contra si.
- Felizmente, estou mais satisfeita que você. – respondeu-a, olhando o rapaz no canto da sala. – Você sabe... Eu sempre tenho o melhor.
Os dois riram com escárnio e acharam melhor ignorar sua tentativa de provocação. Entreolharam-se, e o rapaz puxou uma arma da cintura e apontou na direção da mulher que nem piscou.
- O quanto você presa a sua vida? – perguntou, pressionando o cano em sua jugular.
Por um segundo, ela considerou a possibilidade de ser morta por ele e até mesmo se sentiu intimidada, mas esse pensamento logo foi superado por sua autoconfiança extrema.
- Se você me matar, – encarou-o com seu olhar felino – ela vai ser a primeira a morrer. E aí, você vai ter que arrumar outro brinquedinho pra te tirar do tédio.
A mulher no canto oposto da sala se moveu quase como um borrão e empurrou a que estava na mira da arma de encontro a parede, a imobilizando de um modo tão rápido que poderia ser comparada a um guepardo. Sua postura superior era o principal motivo da atração que o rapaz, ali presente, sentia por ela.
- Nunca mais me ameace. Mesmo que indiretamente.
Soltou-a tão rápido quanto tinha a prendido e saiu da sala.

xx


Assim que notou a placa de saída de incêndio, tratou de seguir o caminho que a seta indicava. Apressou ainda mais o passo ao notar as duplas portas corta-fogo no final do corredor mal iluminado em que se encontrava, olhando para trás de si o tempo inteiro. Jogou todo o peso do seu corpo contra a porta, sua única chance de sair vivo e descobriu que estava de alguma maneira, bloqueada. Suspirou profundamente e virou-se, vendo-a encostada na parede a poucos metros, brincando com a arma em mãos.
Ele sabia que não tinha escapatória, ela o tinha encurralado; sua hora havia chegado. Observou atentamente cada movimento seu, surpreendendo-se com a delicadeza dos mesmos. Tratou de memorizar, em seus últimos momentos de vida, todos os traços de seu rosto e também, seu corpo. Os longos cabelos escuros que caíam em cascata sobre seus ombros, sua pele clara, seus olhos profundos como a noite... Ela parecia um anjo. Um disparo.
Ela era o anjo da morte.

Capítulo 4



- Chefe, más notícias.
virou-se abruptamente quase derramando o whisky de seu copo em cima dos papéis espalhados pela mesa e cadeira. Ele adorava ser chamado de chefe, pois se sentia superior – não que gostasse de esnobar, ele simplesmente gostava do prazer de ser “poderoso” – mas odiava quando essa palavra vinha acompanhada de algo que piorasse sua situação na Scotland Yard.
- Recebemos uma ligação anônima do empresarial Pristle. Encontraram o Sr. Pristle com uma mulher em sua sala. Ambos mortos.
Depois de alguns segundos de incredulidade, o Sr. saiu em disparada de sua sala, atravessando o quarto andar em direção ao hall dos elevadores, o qual dobrou e abriu a primeira porta de madeira sem incomodar-se em bater. Scott estava lendo alguns papeis com duas mulheres nas cadeiras em frente a sua mesa. Ele parecia nervoso e entretido o bastante com o que lia para se sobressaltar-se com o barulho que seu chefe fez ao entrar na sala.
Trocaram olhares inquietos, dando a entender que Scott já sabia da ligação e estava justamente investigando aquilo.
- Marian separou uma equipe da perícia e foi até lá em uma viatura – balançou o papel em suas mãos – Já me enviaram um relatório.
E pela primeira vez em sua vida, ele viu Marian cometer um erro. Uma viatura chamaria atenção demais e se o assassino ou assassina ainda estivesse por lá, veria a movimentação e fugiria. Uma viatura seria como um alarme de “perigo iminente”.
Ninguém naquela maldita polícia sabia se virar sem ele?
Outra mulher adentrou a sala e se não tivesse reconhecido-a poucos segundos depois acharia que aquele lugar estava tornando-se um prostíbulo/um shopping ou algo que fosse espalhafatoso o suficiente para ser freqüentado por tantas mulheres.
Notou de primeira suas feições preocupadas e urgentes, sabendo que outra bomba estava por vir.
- Acabei de receber por telefone a informação de que um dos donos da boate Pacha London foi encurralado na floresta. – disse, atropelando algumas palavras.
Só poderia ser o mesmo assassino! Duas mortes em série e uma em potencial com quarenta metros de distância de um local pra outro e percorrido em menos de quinze minutos era muita coincidência para um dia só, não?
- Vamos Scott. Chegou a nossa hora.

xx


Antes que a SUV preta parasse completamente, o “chefe” saltou, puxando a arma preta bem polida do cinto e movendo-se floresta adentro enquanto ouvia as instruções serem dadas por Scott, seu braço-direito. Por conta do caráter impulsivo de , ele não era homem de teorias e sim, ações, atitudes. Não adiantava de nada dizer que impulsividade não levava a nada porque bem, ele era o chefe da unidade mais importante da Scotland Yard e esse “título” era indiscutível.
- Vai com calma, cara. A gente nem sabe a localização deles – ouviu Scott sussurrar não muito distante de si.
A cada passo que dava, seu sapato afundava no chão lamacento, fazendo um barulho irritante de algo sendo espremido. O ar na floresta estava úmido e quase gelado. As árvores eram tão próximas umas as outras que em alguns lugares pareciam formar paredes, com quinas e tudo o mais. O cheiro, que misturava orvalho, barro molhado e sabe-se Deus o que mais, não era um dos mais agradáveis. Sua posição era tensa, seus músculos dos braços e costas salientavam-se por manterem-se retesados enquanto apertava forte a arma em suas mãos.
Perscrutou cada milímetro a sua volta, apurando ainda mais seus sentidos, tentando notar qualquer coisa fora do comum, mas até o momento... Nada. Andou mais alguns metros floresta adentro, sabendo que estava aproximando-se do lago – que provavelmente estaria congelado a esta época do ano –, mas logo em seguida, ouviu uma série de ruídos fracos e entrou em alerta máximo, movendo-se mais habilmente, na direção do som.
Flexionou os cotovelos, mantendo a arma mais próxima ao rosto com a parte mais escura da floresta em sua mira constante. O ruído que ouviu ficou mais alto e mudou de direção. acompanhou-o e ao virar-se para finalmente ver o que diachos estava produzindo aquele arrastar de folhas irritantes, frustrou-se. Era apenas uma raposa.
Virou-se novamente para a direção de onde tinha vindo e viu Scott olhar ao redor. Assim que abriu a boca para comentar algo, ouviu um grito agudo.
Aquilo sim era uma pista. Aquilo sim, não poderia de jeito algum, ser som de um animal.
Se sua intuição não lhe faltava, não adiantava mais manter a discrição. Correu a todo vapor, sentindo suas pernas doerem pela falta de exercícios, mas não se deixou vencer pelo cansaço, impôs-se um ritmo ainda mais rápido, confiando apenas em sua audição, novamente.
Avistou vultos a uma distância não muito longa e mais um grito foi produzido. À medida que chegava mais perto, a cena ficava mais nítida, mesmo com sua visão parcialmente bloqueada pela penumbra que assolava o centro do floresta/bosque. Duas pessoas, uma caída – parecendo morta – e a outra em pé, segurando algo que não conseguia distinguir, poucos metros antes do lago, que como havia suposto, estava congelado.
Mesmo que o único barulho ali fossem os gritos e o chão fazendo barulhos quando as folhas eram movidas pela corrida louca de e Scott, o assassino alarmou-se e olhou na direção deles, sacudindo, involuntariamente, seus longos cabelos que pareciam ser pretos. Assim que os avistou, hesitou, parecendo confusa com algo, mas tomou um caminho quase contrário ao que deveria, fazendo seus perseguidores se desnortearem por alguns segundos.
Então, ele havia vislumbrado a assassina.
Tomaram um caminho paralelo ao da mulher e conseguiram vê-la correr a seu lado. Àquela distância, qualquer um poderia ver seu rosto se não estivesse tão preocupado em desviar das árvores e raízes pelas quais passavam e mantê-la em seu campo de visão.
Diachos, aquilo estava acabando com os pulmões de . Uma corrida como aquela não era nem de longe comum para um fumante como ele, e agora, que lhe era exigido tanto esforço, ele sentia-se inútil por não conseguir corresponder ao que lhe era esperado.
Passaram por uma árvore meio inclinada que não havia sido percebida por antes, o que o fez relaxar os músculos da mão e braço, quase derrubando a arma. A arma.
Ele poderia atirar e consegui-la ferida ou morta, ou poderia não atirar e perder a oportunidade de capturá-la.
Sem hesitar, levantou o braço direito – confiando que daria conta de apoiar a arma com apenas um braço – e disparou três vezes na direção dela. Na última vez, pensou ter acertado-a.
Ela fez um caminho em ziguezague, cambaleou como se estivesse ferida e sumiu.
Mero engano. A maldita assassina simplesmente sumiu.

Mas que diabos a lei de Murphy tinha contra o universo?

Diminuiu o ritmo e parou, vendo Scott comunicar-se pelo celular com o resto da equipe.
- Estou mandando cercarem o bosque. Diga a Marian que vá se ferrar, quem está dando as instruções hoje sou eu. – disse alterado. – Caralho, estou mandando cercarem logo a porra do bosque!
Desligou, jogando o celular contra uma árvore. Passou as mãos pelo rosto e bagunçou os cabelos, tentando estabilizar a respiração para que pudesse falar com .
Já este sabia que era desnecessário tentar fechar uma barreira ao redor de seja lá o que fosse, apesar de manter-se calado. Se ele não havia conseguido pegá-la, quem mais conseguiria? Mesmo tendo feito tanto esforço por nada, seu ego não poderia estar mais inchado.
Era sempre assim quando perdia uma corrida contra o crime. parecia um guepardo quando queria. Apesar de seus pulmões não serem lá os melhores ele conseguia correr mais rápido que qualquer um de sua equipe, era tão feroz quanto um animal quando queria e por isso e outras coisas, nunca aguentava perder. Seu instinto era impulsivo e orgulhoso o suficiente para querer vencer acima de tudo.
Devia estar maquinando alguma vingança terrível – apesar de tortura não ser permitido como punição, segundo a lei – para aquela criminosa terrível que estava ameaçando a vida dos cidadãos da cidade que estava sob sua proteção.
Ah, se ele pegasse aquela mulher... Ela iria conhecer o verdadeiro significado da palavra sofrer.

Capítulo 5



A imagem do corpo largado a exatamente dois metros do lago, ainda estava gravada na mente de , mesmo tendo uma foto do que ele tinha visto com os próprios olhos há horas atrás. Ele teria retorcido suas feições se não fosse expert em lidar com mortes – graças a sua profissão.
O corpo estava completamente ensanguentado, e por ter sido recente, o corte fundo que ia da altura do apêndice até a costela ainda sangrava lentamente, deixando a cena ainda mais horripilante. Quem quer que tenha matado todas aquelas pessoas – Bernard Kingsley, Robert Pristle, a mulher que mais tarde foi identificada como Kim Lesmech e por fim, um dos donos da boate, Cam Bridget – não tinha um pingo de pena, coração ou qualquer coisa que impedisse alguém de cometer crimes como aquele.
observava o teto de seu quarto, sem realmente vê-lo, enquanto separava mentalmente cada detalhe de cada assassinato, tentando fazer ligações entre eles. Ela poderia ser um tipo de psicopata frustrada amorosamente e vingativa. Isso, se Kim não estivesse incluída nessa lista negra.
Todas as vítimas eram ricas ou tinham posses extremamente valorosas. Exceto por Kim, que não era nada mais, nada menos que uma garçonete da Starbucks mais afastada do centro.
Grunhiu irritado com todas aquelas coisas que tomavam e confundiam sua mente.
Depois dela, sua vida havia virado de cabeça para baixo. Isso se houvesse alguma vida restante para ele, tudo agora se resumia a Scotland Yard, criminosos e lei. Se não tinha vida... era bem fácil que não tivesse mais alma, a Scotland Yard havia sugado-a. Mas por enquanto, tudo que precisava era de uma distração.
E ele sabia muito bem onde conseguí-la.

xx

- Sério, calem a boca. – resmungou para os dois rapazes ao seu lado.
Estava se cansando de todo aquele falatório sem fim dos seus companheiros de trabalho. Muita conversa, pouca diversão não era exatamente o que ela gostava. Pensando bem, aquela vida não era algo que ela gostasse. Odiava ter de se esconder nas sombras, apenas cumprindo ordens; mas agora, não haveria jeito de se livrar daquilo, uma vez que estava metida até o pescoço. Havia muito arrependimento, mágoa e ódio preenchendo sua alma do vazio que possivelmente a tomaria se não houvesse amado. Se não amasse quem amava.
Virou a taça de Bloody Mary de uma só vez, inclinando a cabeça para facilitar o processo. Fechou os olhos desfrutando do prazer do álcool descendo por sua garganta, causando-lhe uma leve tontura. Por baixo de suas pálpebras fechadas, sua mente um pouco fora do normal lhe fazia ver imagens não desejadas. Imagens dele tocando e beijando aquela maldita.
Abriu os olhos rapidamente e abriu os olhos para caçar uma presa. Naquela noite, ela queria fazer algo sombrio. Olhou a sua volta, e mais além. Do outro lado, parecendo solitário com seu copo vazio em cima da pequena mesa a sua frente, ela viu algo muito melhor para se fazer numa noite como aquelas. Sua vontade de fazer algo sombrio fora reduzido a quase nada.
Pediu uma dose de whisky e outro Bloody Mary ao barman, ajeitou o vestido e os cabelos claros e rezou para qualquer que fosse a divindade a que recorria nas horas difíceis – apesar de não acreditar em nada daquilo – que ele não a reconhecesse, ou teria sérios problemas.
Pegou a taça e o copo adornado e seguiu na direção dele. Caminhou firmemente pelo pub, e, quando chegou perto o suficiente, pôs o whisky na mesinha fazendo-o olhá-la de cima a baixo.
Por um momento, ele pensou ter reconhecido-a de algum lugar, mas o mais provável era que estivesse ficando velho o bastante para confundir as pessoas – principalmente no escuro miserável que estava naquela porcaria de pub. Bem, ela era bonita.
Exibiu um sorriso de lado, meio sacana.
- Boa noite, Sr. . – cumprimentou-o. – O que um homem tão ocupado faz numa boate em plena quinta-feira? – perguntou sutilmente, sentando-se perto dele.
riu. A primeira pessoa que se aproximava dele, já estranhava o fato de estar numa boate, isso sim era um insulto ao seu passado de farras com amigos e mulheres. Aí estava a prova do quanto havia mudado. Do quanto havia se fechado para qualquer tipo de vida, no mínimo, legal, fora da polícia. Abaixou a cabeça, ainda com um sorriso em seus lábios.
- Digamos que hoje, eu queria... Esfriar a cabeça um pouco – refletiu.
- Preocupações de um homem importante... – deu um risinho e continuou – Então, podemos “esfriar a cabeça” em algum lugar reservado? – perguntou, mordendo de leve o lábio inferior.
Ele gostava de mulheres assim, diretas, decididas e, aparentemente, nem um pouco ingênuas.

xx

Olhou a foto em suas mãos, querendo memorizar cada detalhe do rosto dele. O sorriso enorme e aberto que ele exibia ao envolver sua cintura com os braços, os olhos brilhantes e a alegria transbordando deles. Enxugou uma lágrima rebelde que mesmo com toda sua relutância, insistiu em relembrá-la do amor que ainda sentia por aquele homem. Queria tê-lo de volta, explicá-lo o porque de ter ido embora e não ter lhe procurado novamente durante todos esses anos em que sofria em silêncio, mas não podia.
Não podia porque não havia mais vida para ela. Não havia pessoas suficientes para perdoá-la de tudo que havia feito e especialmente, não podia conviver com a culpa que sentia. A culpa, nada aliviava. Nada além de "desligar" seu lado humano e amável.
Ela poderia ser feliz com . Ao menos era isso o que tinha pensado quando aceitou sua proposta e tornou-se, de alguma forma extremamente doentia, sua “companheira”. O que aliviava sua mente era saber que não queria um compromisso de papel passado, com direito a cerimônia em igreja - ele não se atreveria a pedir a benção de Deus, sabendo de todos os pecados que cometia e fazia outras pessoas cometerem - pois isso, ela não aceitaria de forma alguma.
Não aceitaria com alguém que não fosse o homem que ela amava. O homem que ela queria ter ao seu lado pelo resto da vida. Aquele que a sustentaria quando ela estivesse prestes a cair, que a amaria mesmo com todos os seus erros, exceto... Exceto aquele erro. Por aquilo, ele jamais a perdoaria.
Por mais que estivesse agindo por vingança, ele nunca entenderia seus motivos para ter feito aquilo. Ele nunca entenderia o motivo por trás do que fez.

xx

Sydney entrou no prédio com um sorriso deslumbrante, caminhando até o elevador sem olhar para os lados. Vendo que estava vazio, apertou o botão do oitavo andar e aproveitou para chegar a maquiagem que cobria as marcas arroxeadas no pescoço. Ainda dava para vê-las, mas com certeza, não diriam que eram tão recentes quanto Syd sabia que eram; logo, esse detalhe dava pra passar despercebido.
As portas do elevador se abriram no segundo andar e ele entrou, sem surpreender-se nem um pouco ao ver Sydney parada ali, em seu sobretudo bege. Disparou-a um olhar sombrio, que fazia seu coração palpitar, ao mesmo tempo, seduzida e com medo, da aura macabra que tomava conta de seu amado.
- Eu sei o que você fez, Castellari. E eu não gostei nem um pouco – ele disse, encarando-a.
Syd apenas soprou os cabelos que caíam pela testa e desviou o olhar, cantarolando a primeira música que lhe veio à mente.
- Não faça pouco caso de mim – gritou, agarrando seu braço com força e fazendo-a olhá-lo – Você quer o quê? Causar discórdia? – segurou seu queixo com a mesma força que aplicava no braço, fazendo-a grunhir baixo – Você sabe o que ela é capaz de fazer, e eu espero, que quando ela descobrir, não tenha um pingo de pena!
soltou-a de forma tão brusca que ela quase caiu após bater as costas na parede do elevador. Ela estava tão cansada de ser tratada daquela maneira e nunca reagir. Estava cansada de ser tratada como inferior, mesmo tendo sido a primeira mulher que tivera. Olhou para ele e lembrou-se de tudo que havia o ensinado. E foi assim, lembrando-se do incrivelmente tímido que ela conhecera que não se sentiu mais ameaçada por ele.
Aproximou-se novamente, ficando a apenas um palmo de distância e procurou todo o ódio e sarcasmo guardados e existentes em sua alma.
- Sabe qual é o seu problema? – perguntou, em tom de voz baixo – Você tem medo que ela perceba o quanto é melhor que você em tudo. Tem medo de que na próxima vez que o veja, ela não o enxergue com uma arma apontada pra cabeça de alguém, e sim, como é bom ter intimidade com ele – ela piscou, sorrindo sarcasticamente – Tem medo de que ela perceba o quanto ele é gostoso e o prefira a você. De novo.
sempre fora um homem transparente, mas nunca havia sido... daquela maneira. O suor escorria lentamente em sua nuca, sua respiração estava acelerada, os olhos vermelhos e levemente arregalados, as mãos fechadas em punhos. Mas, o principal sinal de sua raiva, era a veia saltada em seu pescoço.
Ele estava puto. E Syd, encrencada.
Como se pudesse estar ciente da tensão, um apito soou, avisando-os de que haviam chegado ao oitavo andar. Assim que as portas se abriram, ela saiu, achando que escaparia do “castigo” que poderia lhe aplicar. Algo do tipo, limpar o chão por um mês ou, ainda mais humilhante, limpar os rastros dos menos experientes no ramo deles.
- Você tá fora, Sydney – a voz de soou pela sala que era uma espécie de “recepção”.
Alguns dos que trabalhavam para ele, e sabiam o que aquilo significava, viraram-se, observando a cena enquanto ela parava, tensa com o que o seu “chefe” falara.
Não.
Ela não podia sair. Eles a matariam. Se o próprio não mandasse matá-la, eles matariam. Queima de arquivo ou vingança.
- Pegue suas coisas e fuja – ele disse no mesmo tom de sempre, arrogante – A caçada começou – ao passar do seu lado, pronunciou seu apelido com sarcasmo -, Syd.
A caçada havia começado.
A caçada por ela.

Capítulo 6



Tateou a mesinha de cabeceira, puxando as duas folhas de ofício repletas de letrinhas pequenininhas, que sempre o davam dor na vista se as lesse por muito tempo. Repousou as duas folhas no peito descoberto e acendeu a luz, se sentando e encostando-se ao espelho da cama, enquanto repassava cada pequeno fato descoberto ali.
Não adiantava ler e reler aquelas informações. Aquelas folhas não lhe dariam a resposta. Aquelas não, mas outras talvez pudessem dar-lhes o que precisava.
Ele bem que poderia ter lido o relatório detalhado sobre Kim Lesmech e Robert Pristle antes; mas estava tão cansado que não conseguiria nem passar da primeira linha.
Agora, depois de ter dormido um pouco sentindo o frio envolver suas pernas e torso nu, poderia correr atrás de suas respostas.
- Vejamos... – sussurrou para si mesmo, ouvindo sua voz ecoar no vazio do apartamento.
Abriu a pasta, pegando a primeira folha, que continha o nome de Kim.
Garçonete no Starbucks mais afastada da cidade, 23 anos, Irlandesa, estudante da Oxford University, notas exemplares, sem ficha criminal, tudo que ela tinha feito de errado na vida foi: nada. Porque diabos a garota tinha sido assassinada?
Robert Pristle, empresário mais que bem sucedido, dono do empresarial mais famoso nas redondezas, 45 anos, casado, relacionamento conturbado, segundo amigos íntimos da família, mas nada de ficha criminal.
A secretária de Pristle informou que Kim Lesmech estava ali a quase uma hora, e aparecia regularmente todos os meses.
Talvez, ali estivesse a resposta que sabia que devia estar deixando passar. Mas é claro!, ele percebeu com um estalo. Robert Pristle tinha uma amante.
Esse era o motivo por Kim ter sido assassinada. Ela era amante de Robert. O relacionamento conturbado dele e de sua esposa tinha uma explicação: Kim! O fato de ela conseguir pagar a Oxford sem aparentes atrasos também estava explicado. O salário de Kim na Starbucks não era suficiente para pagar uma universidade daquele porte. Mas o assassinato não podia ter sido cometido pela sra. Pristle. Ela estava em Paris. Então... Quem?
Depois de duas horas lendo os relatórios, uma ideia surgiu tão certa, que parecia ter estado ali o tempo inteiro, e o fez arregalar os olhos.
Não, não pode ser, pensou .

xx


- Por favor, não! – Syd gritou, enquanto corria, desesperada, pela rua deserta.
No dia anterior, Syd havia brigado com , e estava (a partir daquele minuto) ameaçada de morte. Fazia vinte minutos que ela havia saído de casa, quando avistou o homem que havia tentado “recrutá-la” há tanto tempo atrás, e soube imediatamente que era hora de correr. A sua sorte era que estava próxima o suficiente do seu destino final para avistá-lo. Assim que atravessou a rua, olhou para trás, vendo Collet – o homem que a perseguira – parado, apenas observando-a. Caminhou mais calmamente, tentando normalizar sua respiração à medida que se aproximava da entrada do prédio.
- Apartamento 215 – falou rapidamente, querendo entrar no elevador o mais rápido possível. – , da Scotland Yard. Diga que Sydney está aqui.
O porteiro fez uma ligação rápida, falou algumas palavras e desligou, abrindo o portão para Sydney entrar. Ela se dirigiu à escada, percebendo que estava agitada demais para usar um elevador. Assim que chegou ao apartamento de , notou a porta aberta e foi logo entrando.
- Você precisa me ajudar, ou eu vou morrer – Syd despejou, chorando desesperadamente. – Por favor, .
Os soluços de Syd enchiam a sala, enquanto fechava a porta e se sentava ao lado dela, querendo entender porque diabos ela tinha aparecido ali, naquele estado.

- E você pretendia não me contar isso? Sydney, eu dormi com você! Dormi com você e você não me contou que era assassina de aluguel?
Sydney se desesperou ao ver o jeito que tinha ficado. As veias saltadas no pescoço, o rosto vermelho. O jeito como agarrava os cabelos o fazia parecer... . E, Deus, ela estava morrendo de medo de .
- Me mande para cadeia se quiser! – falou, querendo amenizar, mas voltou atrás ao perceber que não estaria segura lá também. – Ou não. Não, . Eles vão me matar, não deixe-os me matar. Por favor! – Syd falou num tom esganiçado.
Pra quem os visse, diria que os dois estavam ficando completamente loucos. Um de raiva, outro, de medo. arremessou um vaso contra a parede, fazendo Syd se encolher no sofá, agarrando as pernas contra o peito.
respirou fundo, tentando se acalmar e ligou para Marian.
- Preciso que você venha até meu apartamento. É urgente.
Syd observou andar de um lado para o outro, temendo o que aconteceria consigo assim que a tal Marian chegasse. sentou-se na mesa de frente para ela.
- Eu poderia te trancar numa cela comum do presídio e deixar que os homens do tal Collet te matassem, mas eu vou fazer algo contra a lei pra te proteger.
A calma se apoderou do corpo dela como um choque.
- Mas não vai ser de graça, Sydney – ele disse, aparentemente calculando um plano diabólico. – Eu quero informações. Você disse que não estava sozinha, certo? – ela confirmou com um aceno de cabeça.
- Zachary, meu ex noivo, comanda tudo. – sua voz estava trêmula como nunca. – Eram 15 assassinos, contando comigo. O resto das pessoas cuida da burocracia. - a mente de Syd estava embaralhada, tão embaralhada que ela havia se esquecido do principal. Ela, a mulher que procurava.
O telefone tocou. atendeu, disse um “ok” rápido, e dois minutos depois, a porta foi aberta. Marian entrou e quase caiu de costas ao ver quem era a garota encolhida e aterrorizada no sofá. Sua mente viajou a mil por hora.
Estava feito. Sydney havia denunciado-a e a todo resto. havia chamado-a ali para prendê-la. Eles haviam caído depois de tantos anos, era uma traição. E no caso de traição, sua orientação era apenas uma: matar. Mas não, ela não poderia matá-la ali, ou em qualquer outro lugar. Não poderia porque estava sendo presa.
Olhou para com atenção e esperou que ele dissesse algo.
- Ela vai ficar comigo por uns dias. Aqui, no apartamento – anunciou. – Quero proteção máxima em torno do prédio.
Marian suspirou aliviada.
Ele não a prenderia, pelo menos, não agora. Mas mesmo chegando a essa conclusão, não haveria um jeito de matar Sydney sem chamar a atenção de .
Ou haveria?
- Por que isso, ? – perguntou em tom baixo, voltando seu olhar para Sydney.
- A garota está ameaçada de morte – respondeu simplesmente.
Marian aproximou-se do sofá em que Syd estava, e ela escondeu o rosto entre os joelhos, pensando se aquilo tudo não seria um sonho.
- Esse não é o procedimento correto, .
- Não me questiona, porra! – gritou, sem segurar sua raiva por mais tempo. – Quem manda nessa merda sou eu, e você vai me obedecer ou tá fora.
Marian desgrudou os olhos da loira, que tremia enquanto presenciava a conversa. Claro que ela a havia reconhecido. Ela contaria tudo na primeira oportunidade que tivesse. estava lhe dando proteção, estava lhe dando mais tempo de vida, seria apenas uma questão de tempo até tudo estar perdido.

Depois de horas arquitetando um sistema de segurança com homens armados que parecesse seguro o suficiente, ficou satisfeito. Ou quase isso. Quando mandou Marian organizar alguns homens de acordo com o plano de segurança, ela hesitou, olhando Syd por alguns minutos, e foi embora com uma expressão indecifrável. tinha cometido o maior erro de sua vida, aquela loira era a tão traiçoeira quanto podia, e seria a ruína deles, muito em breve.
- – a loira sussurrou assim que ficou a sós com ele. – Aquela mulher, ela... – gaguejou. O medo inicial havia voltado. – Ela não é confiável.
voltou-se para ela, confuso. O que diabos ela queria dizer com mais isso?
- Ela trabalha pro .
Demorou a absorver aquilo, mas quando o fez, sentiu uma vontade enorme de esmagar o pescoço de alguém. Mas que tipo de piada doentia era aquela? Não podia ser verdade, Marian trabalhava para ele desde muito tempo, e aquela maldita estava enganando-o desse jeito?
- Há quanto tempo? – perguntou num sussurro irritado.
- Três anos.
rosnou como um animal selvagem e esmurrou a janela da cozinha, quebrando-a ao meio.

xx


Marian correu, o mais rápido que pôde, todo o caminho de seu carro, até a sala de . Abriu a porta sem pensar duas vezes e se deparou com uma cena nada agradável: pendurado no pescoço daquela desgraçada, enquanto ela apenas ria, de olhos fechados. Ouviram-na entrar e pararam o que estavam fazendo.
- Sydney está com . Ela vai nos entregar para a Scotland Yard. – Marian disse de uma vez só a má notícia.
- Que vadia! Ela vai foder todos nós – jogou uma miniatura de cavalo em vidro na parede oposta, gritando todos os palavrões que conhecia.
- Ela nos entregou pro ? – ela perguntou. – Syd... Sydney contou tudo?
O espanto total transparecia nos olhos azuis dela. Óbvio que ela estava com medo. Eles não tinham pegado Sydney a tempo de salvar a própria pele, e agora, estavam mais que ferrados.
- Não por enquanto! – Marian disse.
- Diga a Jeff que a vadia nos traiu e mande-o levar tudo para Brixton; absolutamente tudo. Ajude-o a cuidar disso, e o resto fica por minha conta. – ordenou, com os olhos vermelhos.
Abriu duas gavetas, em lados opostos da mesa, e retirou o fundo falso de ambas, pegando as duas armas de pequeno calibre e pondo-as no cós de sua calça. Jogou alguns papéis – todos os presentes naquela sala pequena – dentro da lixeira, e pôs fogo neles com a ajuda de um isqueiro. Agarrou o pulso dela, e puxou-a para fora da sala.
Marian, que tinha saído a poucos minutos da sala, voltou correndo com o celular na mão e uma cara de desespero. ignorou sua presença, e continuou pegando as armas escondidas naquele pequeno espaço.
- Você e eu vamos para fora da cidade, pegar um avião para Rússia ou seja lá o que.
- Não, – falou desesperada. – O braço direito de , Scott, acabou de me ligar. Minha foto e a sua estão sendo espalhadas pelas delegacias e polícias rodoviárias de cada cidade desse país.
- E eu? – ela perguntou.
- Scott disse que apenas nós dois tinham sido entregues. Parece que você é a queridinha da Sydney.

- Eu e Marian encontraremos um jeito de burlar essa porra de bloqueio e você vai embora o mais rápido que conseguir. – mandou, tentando por fogo nas salas do oitavo andar daquele prédio.
A morena dos olhos azuis mordeu o lábio, nervosa com a possibilidade de a Scotland Yard entrar no seu rastro. adoraria matá-la quando a descobrisse. Seus pensamentos sobre a polícia e fuga foram interrompidos quando lembrou-se de um detalhe que havia sido deixado pra trás por e até mesmo por ela.
- O serviço de Collet, ! – gritou em espanto, largando o galão de gasolina e correndo para junto dele. – Collet pode nos entregar mais rápido se souber que não cumprimos o que ele pediu. - E você quer matar o sócio do cara como, porra? – respondeu, enxugando a testa.
- Eles não sabem quem eu sou ainda – começou seu raciocínio. – E além do mais, a maioria dos homens da Scotland estará atrás de vocês. Posso fazer o serviço, rapidamente e sem alarde.

Capítulo betado por Thais M

Continua...

Nota da Autora: Aeae, primeira atualização de 2012! :D
Me contem, todo mundo já tá voltando pra escola/faculdade? Como foram as férias? As minhas passaram num piscar de olhos e eu to sofrendo pra me acostumar com escola nova, amigos novos e etc, sem falar em ter que acordar cedo de novo! Prentendem ler muito esse ano? Então, aqui está a att \o/ Quero saber nos comentários: o que acham da Syd? E do ?
Boa leitura, lindas.

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I'll Be With You [Avenged Sevenfold/Em Andamento]

Peixos, Adrianne Silva


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