
Escrita por: Bela Deville
Beta-Reader: Babi Lorentz
Capítulo 1 - Cotidiano
A luz invadiu o quarto devagar, acordando-me, clareando cada ponto do quarto antes escuro. Abri os olhos e encarei o teto, que dia é hoje? Espreguicei-me e bocejei, indo em direção ao banheiro. Lavei meu rosto e encarei meu próprio reflexo no espelho. Quando eu ia voltar a dormir direito? Meus olhos estavam contornados com uma fina linha roxa, vermelhos e inchados; íris ficando escuras, estranhas e sem vida. Meu rosto pálido e cansado. Suspirei. Despi-me e tomei um banho gelado, finalmente desperta. Saindo do banheiro, minha cama não estava vazia. Quem era aquele garoto ali deitado? Eu não me lembrava dele.
Analisei melhor o cômodo, e percebi que as roupas daquele rapaz estavam no chão, assim como aquelas as quais eu havia usado na noite passada, e não foi preciso mais do que essa observação para que eu lembrasse o que havia acontecido. Ontem à noite eu fui novamente a um pub desconhecido e voltei pra casa com esse bonitinho, acho que o nome dele é Salsicha, Scooby... Fred! Esse é o nome dele, Fred. Eu fiquei meio sem graça para acordá-lo, mas não podia deixar que ele ficasse dormindo em minha casa enquanto teria de ir para o trabalho.
- Hey - Eu tentei acordar o garoto ruivo, coloquei minhas mãos sob suas bochechas brancas. - Querido, acorde, eu tenho que ir para o trabalho.
- Hum? - Ele abriu os olhos devagar e sorriu ao me ver.
- Tome banho, se vista. Eu vou pedir para que Lissa prepare alguma coisa pra você, tá? Tenho que ir pro trabalho.
- Tá bom, minha linda. - Ele falou segurando o meu queixo. Eu tirei a sua mão e sorri fraco, fui para o closet me arrumar. Decidi vestir uma saia roxa de cintura alta, cinto preto, blusa social e meia calça preta. Calcei sapatos sociais com um pequeno salto e me olhei no espelho. Resolvi dobrar as mangas da blusa e esconder minhas olheiras com um pouco de base, não gosto de parecer fraca, coisa que eu definitivamente devo ser. Depois do que aconteceu entre mim e Hugo, meu... ex-alguma-coisa-que-durou-quatro-anos, eu fiquei tão arrasada que acabei num pub bêbada, me agarrando com o primeiro 'broto' que vejo em minha frente. Pelo menos o cara era realmente um broto, e pelo menos eu lembrei o nome dele no outro dia. Fundamentalmente, era apenas mais uma recaída de forças diante da minha pose, e da minha verdadeira fraqueza. De um modo ou de outro, eu fui fraca, fraca e otária, pra variar. Acabando de passar a base, pus um rímel à prova d'água e fiquei pronta.
Pedi à Lissa, a empregada, que fizesse um bom café-da-manhã pro tal Fred e comi uma maçã na velocidade da luz, com a intenção de não me esbarrar novamente com o tal Fred; afinal, eu mal lembrava o que havia acontecido entre eu e ele na noite passada e não queria lidar com uma conversa estranha a essa hora da manhã. Aliás, eu não queria lidar com conversas estranhas nunca, obrigada.
Em pouco tempo, eu estava no trabalho. Sou design de uma revista com uma relativa fama, toda e qualquer ilustração que aparece na revista passa por minhas mãos, isso quando não é feita por mim. Minha exaustão era tremenda que eu não consegui sequer responder aos cumprimentos de meus colegas. Eu sei que eles perceberam minha indisposição, e eu aposto como o vai bater na minha porta daqui a 5, 4, 3, 2, 1...
- Srta ?
- Pode entrar, .
- Chegou cedo, qual o milagre? - Ele comentou com aquela cara descarada de sempre. é o meu chefe, os chefe dos chefes eram ele e ; aliás, a revista é deles. é um pedaço de mal caminho, devo admitir, e acho que ele já dormiu com metade da redação mas ninguém sabe disso ou, pelo menos, todos omitem.
- Eu não lhe diria o que realmente seria um milagre, meu caro. - Falei revirando os olhos e esvaziando a minha pasta - O Senhor está precisando de alguma coisa ou veio me incomodar como sempre?
- Calma, ! Não precisa ser tão grossa. Eu só vim saber se você está bem, o pessoal disse que você entrou com uma cara estranha.
- Hum... Eu tô bem, só um pouco cansada.
- Também, deve ter passado horas pra escolher as roupas. - Eu arqueei uma sobrancelha
- Era só isso que você queria me dizer? - eu perguntei, com escárnio.
- Sim. Agora vá trabalhar e tire essa cara enfezada.
- Que...? - Eu ia xingar, mas me segurei. entra na minha sala, fala coisas inúteis baseadas em fofoquinhas e espera que eu tenha algum agrado por ele? Faça-me o favor. Eu observei meu chefe passar pelas mesas das secretárias e as vi suspirar. Eu o pegaria se não fosse tão idiota, rabugento e metido. Eu o pegaria se não fosse pelo vazio dentro de mim a cada homem que eu beijava ou me interessava, se não fosse por um coração perdido e cansado. Eu o pegaria se... não existisse .
estava de costas para a minha porta, conversando com a Jen, minha secretária. Eu sei que se ele me desse um pouquinho só de ousadia, eu não pensaria duas vezes antes de arrancar alguns suspiros pesados dele ou de inalar aquele perfume forte do seu pescoço maravilhosamente cheiroso. Eu tinha aquela estranha fúria, insensata e possivelmente insaciável, de tê-lo; só por uma noite. Definitivamente, ele realmente merece tudo isso. também era famoso pela redação, famoso por ser lindo e intocável e por... ter uma namorada insuportável. Isso é broxante. Muito broxante. Broxante o suficiente para me fazer tirar os olhos daquele deus e me concentrar no trabalho. Hoje não seria um longo dia, eu só precisava organizar a capa e a contracapa e fazer um logo novo para a coluna da insuportavél do , .
Capítulo 2 - Promovendo a empresa
Eu já havia terminado a capa e a contracapa antes do almoço, só faltavam 10 minutos para que fosse liberada para o horário do almoço. Então eu acessei meu e-mail para perguntar a tal o que ela tinha em mente.
De: (design@musiclondon.com)
Para: (celo@musiclondon.com)
Assunto: Logo da sua coluna.
Oi ,
sou , chefe do departamento de Design da revista e gostaria que a Srta. me falasse sobre suas idéias para o Logo da sua Coluna, além das cores e ilustrações que pretende utilizar. x
Pronto, provavelmente depois do almoço eu obteria resposta, faria logo esse treco e sairia voando para casa, na intenção de dormir profundamente. Bem, talvez não dormir tanto porque eu não consigo, mas pelo menos me livrar desse trabalhozinho miserável.
- , horário de almoço. - Jen me informou sorrindo.
- Legal, vamos comer! Por que essa cara feliz, Jen?
- Você não sabe ainda?
- Sei?
- e se juntaram pra fazer um baile a fantasia, pra promover a revista, sabe?
- Emocionante, adoro festas. - Falei sarcasticamente. Acho que todos que me conheciam minimamente sabiam que eu não gostava de festas. Só prestam quando você bebe, e quando você bebe acaba fazendo coisas que não prestam. Resumo: São inúteis.
- Ah, Dona , vou logo cortar sua onda!
- O que você quer dizer com isso? - falei, levantando-me, ficando frente a frente com ela.
- Todos os funcionários devem ir. - frisou, sorrindo vitoriosa.
- Emocionante, emocionante... - eu me pus a reclamar. Jen saiu de frente da porta rindo da minha cara e eu ria apenas por não ter nada melhor pra fazer. Fui em direção à máquina de café e me deliciei com várias xícaras, sentada sozinha olhando pro nada, pensando em como seria minha vida se ao invés de um canalha como o Hugo, eu tivesse o . Como seria minha vida com aqueles olhos cintilantes tão perto de mim...
- Hey, ! - saiu dos meus sonhos e apareceu na minha frente. - E aí, como você tá?
- Bem. E você? - Respondi. Eu tenho medo de dirigir muitas palavras a esse homem, medo de falar besteira.
- Também. Pra que tanto café, sua viciada? Vai acabar ficando louca.
- Você fala isso como se eu já não fosse louca. - Eu disse sorrindo e tentando não babar, porque ele riu. Eu já comentei sobre o sorriso do ? É a coisa mais sexy vista na face terrestre.
- Não tão louca. - Ele deu mais uma risadinha e eu o acompanhei, olhando para baixo para disfarçar a leve tontura que me bateu quando o perfume dele me invadiu sem piedade.
- Mas então, você vai pra festa à fantasia? - Ele perguntou, finalmente parando de rir.
- Sim. É o jeito.
- Qual é, , vai ser legal! - Ele sabia que chamar-me pelo apelido era um diferencial; precisamente vindo dos lábios dele.
- Ah, , você sabe que eu não sou muito chegada a festas.
- Quem não sabe disso? Você só falta escrever na sua testa: "Odeio festas”.
- Ué, então porque quer me arrastar pra uma festa? Você bem devia falar com para que ele me liberasse dessa.
- , você é a atração da festa. Uma modelo que modela, se é que você entende. Além do mais, é uma festa a fantasia, pelo menos você se diverte se vestindo, coisa que eu sei que você gosta de fazer.
Olha, os argumentos dele não eram assim tão convincentes, mas aqueles olhos poderiam fazer eu me vestir de coelhinha da playboy e ir pra essa tal festa.
- Relaxa, eu vou estar lá. - Soltei um sorriso fraco.
- Ok. - ele se levantou da cadeira e colocou uma das mãos sob meu ombro - Dê um tempo no café e coma alguma coisa, você está pálida.
- Tá, pai, tchau. - Eu respondi com um sorriso e ele saiu. Era verdade o que ele havia comentado, eu não comia desde... desde... eu não me lembro quando eu comi de verdade. Só me lembro de ter comido uma maçã hoje de manhã. Minha barriga roncava forte e eu percebi que a tontura já não era mais pela beleza do . Respirei fundo e me levantei, virei o copo de café e apertei os olhos. Minha visão estava embaçada.
- ! O que está fazendo aí? Já acabou o horário de almoço, está na hora do expediente. - Eu não conseguia ver quem estava falando comigo, mas era uma voz conhecida. De repente, tudo ficou preto de uma vez e minhas pernas tremeram, senti que ia cair de vez no chão, mas alguma coisa me segurou.
- ! ! Heeey, acorda! - A mesma voz que havia reclamado comigo estava voltando a falar, eu abri os olhos devagar e minha visão ainda estava meio embaçada.
- Espera, , ela tá acordando. - Reconheci a voz de - , você está bem?
- Eu acho que um pouco cansada. - Respondi.
- Cansada, mulher? Você desmaiou! - falou, os olhos levemente arregalados, sua expressão afoita. Olhei para onde eu estava, era um escritório... estava meio bagunçado. Talvez fosse de , ele não tem senso de organização, e o pior é que eu não posso falar nada, também sofro com a desorganização. Mas aqui era realmente bagunçado.
- Bagunça. - Eu falei baixinho e ouvi gargalhar.
- Eu falei, cara! Ela ia notar a bagunça, era melhor a gente colocar as coisas mais ou menos em ordem. - falava e eu apenas sorria, havia percebido que só estavam eu e eles dois naquela sala. Minha mente sobrevoava os terrenos da malícia e eu a forçava a se concentrar em outra coisa que não fosse a presença daqueles dois na minha frente, tão perto de mim. Eles são meus chefes, eu repetia para mim mesma, não pode.
Levantei-me com alguma dificuldade, tirei o elástico do meu pulso e prendi o cabelo. Arrepiei-me ao sentir frio quando deixei meu pescoço tão exposto. Percebi que estava sem meus sapatos, estudei a sala e acabei achando-os empilhados perto da escrivaninha. Sentei na cadeira do meu chefe e calcei-os rapidamente, voltando a ficar em pé e encarando o olhar do e do .
- Desculpem-me por isso, eu simplesmente me esqueci de comer. Prometo que não vai mais acontecer. - Falei piscando e fazendo um 'legal' com o polegar.
- Tudo bem. - disse em sua pose acolhedora.
- Acho bom que não aconteça mesmo. As nossas funcionárias têm que estar sempre saudáveis, e você, como chefe de equipe, não deveria ficar se 'esquecendo de comer' e desmaiando pelos cantos. - falou e eu dei um olhar cerrado pra ele. apenas deu um meio sorriso balançando a cabeça, como se aquilo fosse típico do . Realmente, aquilo era típico do , e ignorá-lo era típico de mim.
- Obrigada por não me deixarem estirada aos ratos. – disse, por último, e saí daquela sala.
Capítulo 3 - A festa
Frente ao espelho, eu parei para pensar, vestida apenas com as roupas íntimas e pantufas de urso polar; Vi-me comparando a moça de hoje com a garota de alguns anos atrás. Eu podia não deixar transparecer, mas a ingenuidade ainda estava presente no brilho dos meus olhos, desses olhos confusos. Minha vida agora se resumia ao trabalho, afinal, até os caras que eu me interessaria, estavam sentados em uma salinha perto do meu escritório. Meu trabalho me parecia tão terrível quanto, porém não me entediava mais. E como alguém se entediaria com alguém como o rondando os corredores da revista que trabalha? Não dá. Mas aí entra aquela namorada dele. Eu andei conversando com ela, pra ver se eu me deparava com o amor deles dois e acabava perdendo as esperanças de beijar aqueles lábios finos e sedutores dele. Antes não o tivesse feito. parece amá-lo de uma forma que, para mim, chega a ser irritante. Ela o ama como eu amava Hugo, amor cego e sem fronteiras. Mas Hugo era um canalha, todos sabiam disso, menos eu, enquanto é maravilhoso, e todos sabem disso incluindo a própria . Eu poderia jurar que sabendo disso eu ficaria desmotivada de uma vez, mas, não sei se felizmente ou infelizmente, não fiquei. Consciente disso, eu estou mantendo a maior distância possível de , para não cair à tentação, e com isso acabei tendo que me aproximar do meu outro chefe, .
Eu suspirei a ponto de embaçar o vidro do espelho ao deixar meus pensamentos pararem em . Eu podia tratá-lo mal como quisesse, mas ele sempre acabava gargalhando e me fazendo rir. Ele me pareceu bem atraente esses dias, seriamente e perigosamente atraente, no entanto, outro problema: é o cara mais galinha da face terrestre. Ele é galinha do tipo que não desperdiça, e tem poucos requisitos: 1)Tem que ser gostosa 2)Tem que ser cheirosa 3)Tem que dar mole. Pronto, preenchendo esses pré-requisitos, pode se considerar dentro da rede do ! Uhu! Eu não gosto dessa mentalidade, é repulsiva! E daí pronto, me afastei também do . E agora, como fico?
- Sozinha. - repeti para mim a mesma a resposta que invadiu meus pensamentos. Varri toda a melancolia da minha mente e me pus a pensar sobre outra coisa: A festa à fantasia. O que iria vestir? Tinha de decidir logo, passaria o dia todo costurando a roupa que escolhesse. Olhei bem pra minha cara e pensei sobre com quem eu parecia, tinha que ser um personagem... sexy. Dei uma gargalhada que podia ser ouvida por todo o prédio. sexy, ui! Vamos ver, que tal a Betty Boop? Olhei para o meu corpo e imaginei o célebre vestido vermelho da Betty em mim. Costas nuas, pernas descobertas, decote... - Não. Definitivamente não. - Vai parecer que eu errei o lugar para rodar a bolsinha.
Tentei analisar melhor o meu rosto, com quem eu me parecia? Demônio da Tazmânia? Monstro do lago ness?
Lembrei das linhas roxas que rodeavam os meus olhos. Deixavam-me com um ar... vampiresco.
- VAMPIRA! É ISSO! - Eu gritei para o espelho. Olhei para os livros da minha estante e vi a série de Stephanie Meyer, vampiros estão ainda muito recentes, clichês. Ainda olhando para a estante, enxerguei a minha coleção de HQ's dos X-men. Acho que já sei como vou para a festa. Abri meu armário à procura de couro negro... restos de couro, tinha aqui em algum lugar...
*
Passei a tarde costurando a minha fantasia para a festa à noite. Ficou fascinante, digo, ficou do jeito que eu queria. Deixei a roupa recém-feita em cima da cama, tomei um banho rápido e fui pra o salão que é perto daqui de casa. Eu odeio ir ao salão, mas não conseguiria descolorir minha franja sozinha. Depois da seção chata, porém importante no salão, eu voltei pra casa afobada. Tinha apenas duas horas para me arrumar e chegar lá, contando com o engarrafamento, restava-me apenas uma hora. Corri para o banheiro e tomei um banho frio e relaxante, me arrumei o mais rápido que pude, maquiando-me entre uma secada de cabelo e outra. Como previsto, terminei de me arrumar exatamente em uma hora. Olhei-me ao espelho e vi minha imagem refletida de um modo diferente, a franja descolorida caia em parte no meu rosto e o couro colava ao meu corpo com gosto, mostrando cada forma, qualquer traço que o definisse. Bom saber que dias tediosos de academia sempre tem um retorno. Os meus olhos estavam mais fundos, por causa do sombreado roxo e preto que eu o contornei. Estava bom, agora eu realmente estava parecida com a Vampira
do X-Men.
Peguei um sobretudo preto e longo e joguei por cima dos meus ombros, coloquei algum dinheiro para o táxi e o celular no bolso e fui á cozinha me alimentar. Eu não sou a senhora prendada, não sei fazer mais do que macarrão e ovos, então optei por alguma coisa que fosse energética e rápida de se fazer: Chocolate e Morangos. Comi meia barra de chocolate intercalando com morangos vermelhos que a empregada havia comprado um dia antes. Guardei o que havia sobrado na geladeira e corri em direção ao banheiro novamente, desta vez para escovar os dentes e colocar o batom roxo. Feito isso, desci as escadas acelerada e acabei me impressionando com o que encontrei estacionado na frente do meu prédio. Um homem de cabelos grisalhos estava encostado numa limusine preta e dava sinal para que eu entrasse ali.
- Hey garota, não se preocupe, eu trabalho para a Music Journal!
- Essa limusine é pra mim? - eu perguntei confusa.
- Sim, sim. Todos os chefes de seções têm que ir comigo pra lá, você não é a Srta. ?
- Sou eu. - eu falei com um sorriso, sempre quis entrar numa limusine dessas. Aproximei-me do carro e cumprimentei o senhor de cabelos grisalhos com um aperto de mão. - Como você soube que eu era eu? - fiz a pergunta confusa.
- Me deram uma foto sua.
- Nossa, estou tão fácil de se reconhecer com essa fantasia?
- Na verdade, eu só vi a foto uma vez e acabei associando você como uma moça bonita. - o senhor deu um meio sorriso e eu fiz o mesmo.
- Obrigada.
- Não há de quê, Mademoseille. - Ele falou abrindo a porta da Limusine para mim. Lá dentro estava Jen acompanhada de Dominic, um dos chefes de seção da revista, e também uma outra moça que, se a memória não me falha, chama-se Emily. Eu sentei ao lado de Emily para não ficar muito perto do casal e acabar segurando vela. Cumprimentei de leve os presentes enquanto o senhor de cabelos grisalhos já tinha começado a costurar pelo engarrafamento da cidade grande. Percebi que Emily estava tão quieta quanto eu, e que ambas estávamos sem graça por causa do entrosamento excessivo entre Dominic e Jen, então puxei conversa com ela. Descobri que ela era a revisadora, e revisava a revista diretamente com os dois chefes, dando opiniões. Emily parecia ser uma boa garota, aliás, ela admitiu também não ir muito com a cara da aguada namorada do , .
- Chegamos, queridos, preparem-se para descer.
- Obrigada... - Eu procurava o nome do motorista sem sucesso.
- Jared, Srta . - ele me respondeu.
- Obrigada, Jared. - Eu sorri.
- É, obrigada. - Emily também agradeceu. -Vamos, ?
- Sim. Juntas no já.
- 1, 2, 3 e já. - Fizemos a contagem e descemos do carro juntas. Os flashes disparavam sem parar a ponto de me deixar cega e, sem ao menos saber onde estava. Senti alguém tirando meu sobretudo e apenas pedi para ter cuidado pois haviam algumas coisas minhas dentro do bolso, eu só não esperava ouvir uma voz em resposta ao meu pedido de cuidado:
- Não se preocupe, , suas coisas estão em boas mãos. - A voz respondeu ao meu ouvido, e por mais que eu virasse para ver quem era, não via nada mais do que vultos ou mais flashes me cegando. Eu conhecia aquela voz, mas não conseguia lembrar a quem ela pertencia. O autor da voz segurou minha mão e me guiou até a entrada da festa onde o som estava tão alto que o meu coração palpitava e o chão tremia. Eu já havia perdido as esperanças de ver o rosto daquele indivíduo e também não pretendia ficar muito tempo naquela festa, tentei achar Emily, a única pessoa que poderia conversar sobre coisas alternativas comigo sem que eu babasse, afinal, seria a outra pessoa capaz de conversar coisas alternativas comigo.
Lá estava Emily, vestida de Super-Girl, com as pernas descobertas e uma capa vermelha que ela tentava colar mais ao corpo por causa do frio. Tirei a minha capa e dei a ela em silêncio.
- Essa supergirl sente até frio! - Eu ri.
- HaHa, engraçadinha. E aí, quem era o bonitão Coringa que estava ao seu lado?
- Sei lá! A cara tava meio coberta e eu estava meio tonta por causa dos flashes, não consegui reconhecer.
- Sei...
- Sério! Mas parece que ele me conhece, porque me chamou pelo apelido.
- Trate de descobrir quem é, minha querida, porque ele parecia ser bem... nhamnham. - Emily ria e eu fiz o mesmo.
- Ok, ok. Vem cá, você já viu o ?
- ? Aquele gostosão vestido de Batman vindo em nossa direção nesse exato momento?
- O que... - Me virei para ver onde estava o tal Batman. E lá estava ele, o Batman mais gostoso que eu já vi em toda a minha vida.
- Hey, Vampira, hey, super-girl!
- Nossa, todo mundo está me reconhecendo. - Eu falei, fingindo desânimo.
- Esse corpo a gente reconhece em qualquer lugar, . - disse, fazendo-me corar de leve.
- Sabia que vocês iam se dar bem, o não queria por vocês na mesma limusine porque achava que vocês iam acabar brigando por ele.
Eu e Emily nos entreolhamos sérias e gargalhamos depois.
- Essa foi ótima. - Emily riu sarcástica.
- Não, Emily, essa foi podre. - Eu comentei. Nós estávamos nos divertido conversando ali; falava sobre as entrevistas que havia dado e as perguntas idiotas que haviam sido feitas, principalmente no que se diziam à fantasia dele. Mas então acabamos interrompidos por uma certa aguada, quem poderia ser? Ah sim. .
- , amor, vamos entrar na festa, você já está a bastante tempo aqui fora. - A se aproximou do meu, digo, do e lhe deu um beijo estralado na bochecha. Ele a puxou e lhe deu um selinho demorado, tipo, NA MINHA FRENTE! Tudo bem, eu sei me controlar, sou a melhor atriz do mundo: só preciso de um incentivo. Eu me despedi do casal apenas com um sorriso de boca fechada e um aceno com a cabeça, puxei Emily comigo lá pra dentro e me sentei na frente do bar com ela. Primeiro, um Coringa desconhecido me paquera, e depois o Batman que eu tanto queria já tem uma vítima, e pior, ela é duradoura. Merda.
- Meu querido! Dá-me um dose de Red Label, sem gelo, por favor. - Eu pedi sem dó. Precisava de um pouco de incentivo pra ser a melhor atriz do mundo e fingir não me incomodar com e a namorada; e de outro incentivo, este para dançar na pista cheia de gente.
- , você vai beber? - Emily perguntou preocupada. - Eu pensei que você não bebia.
- Mas eu não bebo, amor. Odeio beber. Só que agora isso é uma necessidade. - Falei, pegando o copo e virando de uma vez, franzindo a testa ao sentir o gosto amargo e forte da bebida descer goela a baixo.
- Espero que saiba o que está fazendo.- Ela me advertiu.
- Eu sempre sei. - Lhe disse - Mas agora é hora de dançar.
Eu acho que ela entendeu porque eu bebi nesse momento, Emily havia me dito no carro que adorava dançar e eu havia reprovado esse gosto dela.
Nós dançávamos uma música qualquer empolgadas, Emily dava um show e eu parecia estar entrando no ritmo. De repente, um príncipe épico apareceu atrás dela e começou a dançar. Ela não parou de dançar, virou-se para ele e os dois dançaram juntos, sincronizados. Presumi que já se conheciam e deixei que minha nova amiga continuasse com a dança quente dela, acenando de leve pra ela com uma das mãos e me esbarrando pela multidão, tentando encontrar a saída da pista de dança, ou talvez a saída daquela festa que, para mim, já havia dado no que falar. No caminho, encontrei alguns colegas de trabalho os quais eu fiz questão de passar direto, estava ficando cada vez mais impaciente. Quando finalmente consegui sair da multidão, me deparei com uma cena estridente: e , se amassando, digo, se comendo em um sofá, novamente NA MINHA FRENTE! Mas que merda, eu precisava de um porre urgentemente.
Para chegar ao bar eu teria que novamente encarar aquela multidão da pista de dança. Merda novamente. Eu entrei naquele bolo de gente, sem querer saber quem ou o que eu estava empurrando, até que algo me parou, segurando meus braços e me fazendo encará-lo: Era ele, o Coringa do começo da festa. O rosto estava pintado e borrado, como no último filme do Batman, o qual Ledger interpretou. Eu pude ver que seus olhos eram e que me passavam uma segurança estranha e boa ao mesmo tempo. Acho que nunca vi este homem na minha vida, sendo ele um desconhecido, o que fazia neste momento segurando os meus braços de tal forma?
- Calma, , você está bem? - O Coringa me perguntou.
- Por que todo mundo me reconhece? - eu falei brincando, tentando disfarçar minha aflição.
- Eu perguntei primeiro. - Ele disse apenas sorrindo de leve. Ok, não deu certo, plano B!
- Eu tô ótima. Agora eu vou pra lá, pode ser? - Perguntei indicando com o olhar os meus pulsos que ainda estavam imobilizados.
- Desculpe, pode ir. - Ele falou meio desanimado. Eu parei para observá-lo melhor, e Emily estava certa, ele era bem sexy. Mas agora era hora de encher a cara ou ir pra casa, sair daquele lugar, as imagens de e , quero dizer, de e estavam me deixando mais aflita que antes.
- Todo mundo te reconhece... - Ele falou e eu parei para saber o final da frase encarando suas íris , me acalmando. - Porque sua beleza não pode ser confundida, nem que você se vista de alienígena.
Eu sorri com esse comentário. Talvez não fosse de bebida que eu precisasse, nem de casa, talvez eu precisasse apenas daquelas íris me encarando, me acalmando. Talvez eu só precisasse de um Coringa.
Aproximei-me devagar do homem e coloquei minhas mãos cobertas com a luva por seus ombros. Olhei fundo nos seus olhos:
- Quem é você? Por que sabe o meu nome?
- Eu sempre estive ao seu lado. É uma boa dica. - Ele sorriu. E com esse sorriso eu pude reconhecê-lo.
- Tudo bem, eu não quero mesmo saber quem você é. Mas o que você tem a me oferecer?
- Uma dança.
- Só? - Eu perguntei e ele não respondeu, apenas voltou a sorrir aquele sorriso que eu conhecia bem, de longe e raramente dado para mim a não ser que fosse por escárnio. Ele colocou as duas mãos na minha cintura, e eu entrelacei os meus braços pelo seu pescoço, com o cotovelo apoiado pelos seus ombros e o olhar fixo naquelas íris . A música que tocava era de batidas fortes, um rap estranho e desconhecido pela minha pessoa. Nós dançávamos lentamente, como se houvesse uma outra melodia ecoando em nossos ouvidos, num ritmo próprio. Eu examinava o rosto do Coringa, lembrando de suas expressões duras no trabalho agora tão leves e reconfortantes. Seus olhos agora me puxavam mais pra perto, numa linha invisível, e eu me aproximava de seu rosto involuntariamente, aproximei a ponto de encostar nossas testas. Senti sua respiração perto de mim, o ar saia de sua boca acelerado e soprava na minha; um hálito bom, distinto, refrigério, invadia meus pulmões.
- Você cheira a chocolate e morango - Ele falou com um sorriso.
- Você já provou essa combinação? - Eu o provoquei e ele acabou dando uma risadinha, assim como eu. A boca dele se aproximou da minha e então ele deu uma mordida em meu lábio inferior que me fez gemer baixinho, o seu toque havia me trazido calafrios dos mais poderosos, que se movimentavam em avanço frenético da cabeça aos pés. Ele passou a língua pelo meu lábio e voltou a separar nossas bocas. Eu quis protestar, mas me contive.
- Parece ser gostosa.
Eu sei que ele queria brincar, mas eu queria muito mais daquela boca. Eu ri de seu comentário e lhe beijei os lábios com vontade. Meu braço escorreu pelo seu ombro e eu segurei seus cabelos com força, o guiando e ele fazia o mesmo. Era incrível o quão sincronizados estávamos. Extraordinário como fazíamos os movimentos certos na hora certa, era como se fôssemos encaixes de um quebra-cabeça. Nossos corpos estavam colados e eu pude sentir a excitação dele quando sua região pélvica se encostou na minha coxa. Meu Deus, o que era aquilo? O volume era indescritivelmente grande. Não que eu já tenha sentido muitos, mas esse cara com certeza tem algo a mais, consideremo-lo bem dotado, para não usar de super.
Eu tinha desejo dele, eu o queria para mim e queria agora. Necessidade de luxúria, tão simplesmente humana. Quebrei o beijo e pedi:
- Banheiro.
- Você leu meus pensamentos. - Ele me disse sorrindo e me dando um selinho, logo depois segurando a minha mão e me guiando pela multidão até o banheiro.
Chegando lá, estavam todos ocupados. Eu quis me desesperar, mas o Coringa parecia ter outros planos já formados em sua mente. Ele voltou a me puxar e nós acabamos num estacionamento escuro, onde eu vi a limusine do Jared estacionada no final do estacionamento, pelo que parecia, nós iríamos pra lá.
- Uai Chefe, a gente vai pra lá? Mas será que não vamos ter problemas com ou depois? - Eu o provoquei, ounvindo-o dar uma risada abafada.
- Confie em mim, Vampira, - Ele disse apenas, frizando bem a minha fantasia e não mais o meu apelido.
Ele tinha as chaves da limusine, abriu a porta e fez menção para que eu entrasse. Eu sorri e entrei. O Coringa entrou e sentou-se ao meu lado, fechando a porta. Eu olhei para ele com um sorriso malicioso e ele fez o mesmo, nós caímos na gargalhada por nada, e só paramos de rir quando ele de repente virou o meu rosto para ele e me beijou. Ele estava com uma das mãos na minha cintura e a outra no meu pescoço, puxando um pouco do meu cabelo enquanto eu já passava a mão pelo seu tronco, por debaixo do paletó roxo berrante. Aproveitando o lugar onde minhas mãos já exploravam, retirei seu paletó e joguei-o no chão, ainda sem partir o beijo. O Coringa abria o zíper do meu macacão de couro com agressividade e agora se deparava com meu tronco já nu. Parecia satisfeito com o que via quando esboçou um leve sorriso ao observar meus seios.
Seguiu por beijos pelo meu colo e passou sua língua quente pelos meus seios, um de cada vez, me fazendo arrepiar. Malditos calafrios. Estilhaça insanidade e células nervosas.
Mal-intencionado, desceu com mais beijos, retirando o resto do macacão até chegar a tirar minhas botas e beijar meus tornozelos de uma maneira que eu julguei extremamente sexy. Eu já estava apenas de calcinha em sua frente e ele ainda estava com a roupa quase toda vestida, exceto pelo paletó que jazia embolado no chão da limusine.
- Vamos dar um jeito nessas roupas - Eu sussurrei, levantando meu tronco e tirando seus trajes na maior velocidade possível. Em pouco tempo, ele também só estava de boxers e então voltou a me prensar no banco, deitando seu corpo sobre o meu e beijando minha boca com vontade. Mordi seu lábio inferior, apenas de sentir seu corpo sobre o meu já me sentia extremamente excitada e eu não via a hora de sentir todo aquele volume dentro de mim, não aturaria quaisquer provocações, queria sexo bruto.
Ele pareceu perceber minha inquietação e também parecia querer o mesmo. Eu tomei a iniciativa, e tirei suas boxers com a ponta dos pés, jogando-as para baixo. Sua ereção era incrível, e o meu tato aguçado não deixou aquele volume passar despercebido; meu corpo tremeu ao sentir o seu membro roçar na parte interior da minha coxa.
O Coringa interrompeu o beijo, encostando nossas testas. Eu deixei meus olhos fechados, sentindo a respiração ofegante dele se chocar fortemente com a minha; suas mãos tirando minha calcinha cautelosamente. Ajudei-o, levantando um pouco o meu corpo, nossas testas se desencostaram e ele parou para tentar observar o meu corpo nu e suado mesmo com a pouca claridade que invadia aquele carro. Eu abri os olhos, deixando-os baixos e encarando apenas o sorriso pervertido do Coringa antes de ele se posicionar em cima de mim.
Com a camisinha já vestida, deixou seu membro devidamente colocado na entrada da minha vagina. Aos poucos senti a glande penetrar e minha respiração simplesmente parou, até que ele o fez completamente - vagarosa e torturantemente - investia com força e velocidade. A sensação era simplesmente indescritível, nunca havia sentido nada como isso antes, e eu devia admitir que esse cara era realmente muito bom. Eu gostava de sua agressividade - indelével - e parecia que o meu corpo também. O Coringa mantinha a velocidade incrível e ás vezes não dava pra ocultar o prazer que eu sentia com gemidos sussurrados, minha voz se manifestava involuntariamente; todavia eu ainda conseguia me controlar para não dizer o nome dele. Ele teve que dar o melhor de si, tenho certeza que sim, mas o resultado foi gratificante: ambos tivemos o orgasmo, e ao mesmo tempo.
Não é fácil levar uma mulher ao orgasmo, principalmente sem antes provocá-la insistentemente, apenas com a penetração. Meu orgasmo durou alguns segundos, meus órgãos se reviravam dentro de mim, um pandemônio interior, e a sensação era de prazer extremo misturado com dor, um pouco masoquista sim, admito.
O Coringa caiu cansado sobre o meu corpo, dando-me um selinho demorado antes de se aconchegar ao meu lado, seus olhos fechados e seus cabelos suados grudando na testa. O banco era pequeno para nós dois, no entanto eu me enrosquei nele de modo que coubemos os dois de ladinho. Eu observava seus belos traços escondidos na maquiagem de Coringa. Peguei um guardanapo que estava atrás de mim e perto de umas garrafas de champagne e me pus a limpar o rosto dele, que agora jazia angelical em sono profundo. Eu estava cansada e poderia dormir naquele exato momento, mas não o fiz, precisava voltar para casa, pois ainda teria de trabalhar amanhã; afinal, mesmo sendo um domingo, era nos domingos que a revista era impressa e eu tinha que reexaminá-la antes. Além do mais, ainda tinha que preservar aquela de que não sabia quem era ele.
Fiquei algum tempo a observá-lo dormir calmamente, esperando que meu corpo voltasse ao estado normal e eu pudesse sair daquele carro sem que parecesse uma desequilibrada, literalmente. Assim feito, vesti-me com dificuldade; mesmo aquele carro sendo grande, era baixo, e eu ainda era um pouco desastrada.
Peguei o celular do Coringa do bolso de seu paletó e coloquei um despertador para daqui a meia hora, e um lembrete para que ele se vestisse. Dobrei suas roupas e coloquei sobre o outro banco, logo após, finalmente saí do carro.
Eu andava pelas ruas geladas e escuras de Londres à procura de um táxi, relembrando o que havia acontecido naquela festa, sorrindo satisfeita. Eu havia transado com um Coringa, e vamos admitir logo, um coringa gostoso e metido, mais conhecido como , o meu chefe.
Capítulo 4 - A empresa num precipício
Acordei com o despertador do meu celular. Abri os olhos com dificuldade, eles pareciam estar grudados, e me voltei ao visor do celular: 5 chamadas não atendidas, 3 mensagens recebidas e um lembrete: 'impressão da revista'.
As chamadas eram de , quatro delas. A outra foi de Jen. Estranhei essa preocupação dos meus colegas de trabalho e resolvi checar o horário. Eu não estava atrasada, chegaria a tempo sem problemas.
Abri as mensagens:
Cadê você? Estou te ligando há horas, ! Sua presença está sendo solicitada.
.
Legal, legal. Ele vai me matar.
, reunião de emergência! Liguei-te ontem pro outro celular, mas você não atendeu, vai pirar aqui.
Xx, Jen
Ah, óbvio, marcaram uma reunião e não me avisaram. Pergunto-me se alguém ali sabe o que é marcar com antecedência. Merda.
Why so serious? Obrigado pela noite, desejaria que ela se repetisse infinitamente. Obrigado pelo despertador, não sei o que seria da minha reputação sem ele. HAHA.
Anonymous.
E nem precisava ser anônimo, . Respondi mentalmente à mensagem. Levantei de uma vez da cama, jogando o celular lá e indo ao banheiro, precisava de uma ducha gelada e rápida. Assim feito, me vesti, passei um pó compacto no rosto, a fim de disfarçar a noite mal dormida; coloquei um rímel só porque o vi fácil em cima da pia. Fui à cozinha, colocando minhas botas e mancando, apressada. A minha geladeira estava praticamente vazia, a não ser por algumas verduras, jarros de água e restos mortais de refrigerante. Ótimo, agora eu teria de ir ao mercado. Abri a dispensa e encontrei o mesmo vazio. Então eu peguei o que havia de mais calórico: uma barra de cereal. Não existe nesse mundo coisa mais broxante do que uma barra de cereal, sinceramente. Comi às pressas e saí de casa correndo, pegando um táxi e chegando finalmente ao trabalho.
Jen me recepcionou afobada, dizendo que era para a reunião ter começado há uma hora e que todos estavam apenas à minha espera. Quando cheguei na sala de reuniões, ainda meio tonta por causa do sono, percebi que quase todos os chefes estavam lá sentados; o que incluía os dois Grandes e .
O tinha uma cara de ressaca misturada com uma preocupação tremenda, e batucava em cima do laptop algum ritmo estranho.
não estava lá e a única cadeira vazia era do lado dele. Cumprimentei meus colegas de trabalho categoricamente, me desculpando por não ter chegado antes já que não fui avisada com antecedência. Eles pareceram meio irritados, mas acho que acabaram me desculpando. Sentei ao lado do e cruzei pernas e braços.
- E então, o que aconteceu? – perguntei simplesmente.
- Failed. - suspirou, finalmente olhando nos meus olhos. - A festa foi um fracasso.
- Mas como? - Alguém que eu não consegui identificar perguntou. Voltei os meus olhos para os dois chefes.
- Chamaram o Perez Hilton de gay na frente dele. Digamos que ele tenha bons contatos e a mídia tacou em cima da gente. - respondeu sério.
- Legal, e quem fez essa proeza? - perguntei, levantando uma das sobrancelhas em tom de desafio.
- Ninguém - respondeu.
- Ninguém? - eu perguntei.
- Ele. - respondeu - foi ele quem o chamou assim.
- Eu estava bêbado.
- Não precisa se explicar, . - eu disse, acalmando-o.
- Não mesmo?
- Óbvio que não, agora a gente precisa de uma solução. - Todos olharam pra mim, assustados por eu não ter xingado nada nem ninguém no processo. Sempre era eu que saía rebaixando as pessoas que faziam alguma besteira naquela revista. Dentre os olhares, encontrei o de Emily. Sim, Emily, minha mais nova amiga, a revisadora. Cumprimentei-lhe com um sorriso e ela retribuiu.
- está certa. A gente precisa de uma solução urgentemente. Alguma coisa que possa promover a revista de um modo que nem Perez Hilton possa nos colocar pra baixo. - Emily disse.
- Ou iremos falir, ou despedir muita gente. O setor financeiro não está essas maravilhas, principalmente depois dessa festa-fracasso. - Phil, o nosso contador, falou.
- Eu espero que vocês se esforcem para achar uma solução conveniente, de acordo principalmente com os nossos cofres. Além disso, preciso que cada setor se esforce também para produzir boas matérias, a revista precisa ser vendida a qualquer custo. - falou agora na sua pose (sexy) de chefe.
- Era só isso. - disse. - Agora vocês podem ir pra casa. Pensem no que disse, estamos um por todos e todos por um.
O murmúrio invadiu a sala antes silenciosa de uma forma devastadora. As pessoas estavam preocupadas, aquilo havia sido um problema para todos nós. Permaneci sentada na minha cadeira, apenas cruzei as minhas pernas em posição indígena. Coloquei meus cotovelos sob a mesa e as mãos segurando a mandíbula. E agora? Eu precisava arranjar um jeito de não só salvar meu emprego como a revista inteira. Não ia conseguir apenas o emprego de volta, mas com certeza um certo prestígio. Um aumento salarial realmente não me faria mal. As pessoas saiam da sala enfileiradas, permaneciam apenas os chefes e eu ali. Eu não prestava atenção neles e não percebi quando o tempo passou e todos foram embora. Quando alguém falava comigo, eu apenas assentia com a cabeça, perdida em meus pensamentos.
Horas deveriam ter se passado e nenhuma idéia saia da minha cabeça. Eu estava ficando agoniada e a fome também já estava me tomando. Fui até a velha máquina de café, sentindo minhas pernas um pouco dormentes, devido ao tempo em que passei na mesma posição. Optei por um capuccino simples e peguei o copinho de plástico com cuidado pra não me queimar. Ouvi vozes ecoarem. Eram masculinas, e eu as conhecia.
Os dois chefes conversavam no escritório do . Eu sei que não devia ficar bisbilhotando assim a vida alheia, mas foi mais forte do que eu, principalmente depois de ouvir:
- ?! - A voz de ecoou. Eu fiquei atrás da porta entreaberta, ouvindo e observando tudo pelo pequeno feixe.
- Sim. Ela mesma. - respondeu sorrindo.
- Eu duvido. nunca lhe deu ousadia e vocês vivem brigando.
- É, cara, mas ela não sabe que fui eu.
- Não sabe?
- Claro que não, meu rosto estava maquiado. Não dava pra me reconhecer naquela fantasia.
- Ela transou com um estranho...
- Sim. Você nunca transou com estranhas? -
- Não precisa narrar o que aconteceu, .
- Foi mal.
- Mas e daí? Agora você acabou de conseguir uma proeza e tanto. é funcionária mais desejada de toda a Redação.
- Legal. No entanto, algo muito pior me incomoda. - adquiriu uma expressão pensativa, focando seus olhos extremamente na grande janela do escritório. Belos olhos, pensei. Há tempos venho observando que a beleza daquele homem estava nos detalhes, e isso me excitava, não há nada que me excite mais do que detalhes.
- ? - o interrompeu de sua forma pensativa.
- Sim?
- Você ia dizendo...
- Ah! - sorriu - Acho que estou, você sabe, pela nossa .
- O QUÊ? - Sem perceber elevou seu tom de voz, consertando-o automaticamente - Quero dizer você está apaixonado por ela?
- Sim. Apaixonado.
- , ela nem sabe que você era o Coringa.
- , eu lhe disse que estava num dilema, certo?
Eu realmente não precisava ouvir mais do que aquilo. Então quer dizer que estava apaixonado por mim?
Sim, e daria para tirar bons proveitos daquele belo chefe. Eu não me importaria de ficar com ele por uns tempos, e, aliás, o que ele havia me feito sentir na noite anterior deveria ser repetida sempre. Eu ia pensar sobre esse caso também.
Fui para a casa com minha cabeça funcionando a 300 por segundo, os pensamentos e idéias sendo analisadas com destreza. Em casa, percebi que era horário de almoço, então pedi uma pizza e liguei para Emily. A Summers é uma garota inteligente e eu acredito no ditado que diz que duas cabeças pensam melhor do que uma.
- Emily?
- Ela.
- É .
- ! Mulher, eu tentei te acordar do seu transe, mas você parecia estar em outro mundo.
- E estava no mundo da minha imaginação não tão fértil. - Eu ri - Mas eu não te liguei pra isso. Você topa vir aqui em casa pra gente discutir umas idéias?
- Trabalho?
- Sim, um pouco. Mas depois a gente pode fazer alguma coisa juntas. Ir à Starbucks, por exemplo.
- VICIADA! – Emily disse, rindo. Eu ri também.
- Eu topo, já estou indo para aí.
- Ok. Pedi uma pizza pra gente não morrer de fome, tudo bem?
- OBA! Nem se preocupe com os sabores, eu gosto da maioria!
- Tá bom, gordinha. Vem logo, estou te esperando. Beijos.
- Beijos, fui!
Desliguei o celular ainda dando risada. Eu acho que tudo que precisava era de alguém que pudesse me ouvir e entender. E para mim, Emily era a melhor pessoa pra isso.
*
- VOCÊ SÓ PODE ESTAR BRINCANDO! – Emily falava, digo, gritava, enquanto comia o último pedaço de pizza. A sua boca ainda estava cheia. Eu ria descontroladamente.
- É verdade, amore mio. - disse entre risadas.
- C-como você conseguiu essa façanha? Tipo, é o , o cara mais...
- Galinha da face terrestre. Sim, eu sei disso. – a interrompi.
- ficou bem puto com você hoje.
- É, ele ficou meio estranho comigo, mas não sei se isso é realmente porque eu me atrasei hoje. Ele mal olha nos meus olhos!
- Estranho... – ela concordou.
- Estranho – repeti.
- Mas e agora, o que você vai fazer? – Ela perguntou, limpando a boca com um guardanapo e tomando um gole da Coca. Essa menininha COMIA, viu?
- Bem, eu acho que vou fazer algo amanhã. Eu espero que dê certo.
- Sabe, ? Eu também. Espero que dê MUITO certo! – Ela falou e nós nos entreolhamos, cúmplices, caindo na gargalhada.
Capítulo 5 - Trabalho e problemas
- Emily... - Eu tentava calmamente acordar Emily do sofá da minha casa, balançando o seu corpo com a pouca força que meu braço tinha matinalmente. Só não diria que ela era uma pobre coitada naquela posição porque eu havia simplesmente dormido no tapete da sala, destroçando minha coluna. Aos poucos minha amiga acordava e abria os olhos, ainda sem mexer nenhum músculo do corpo.
- Trabalhar. - disse apenas e me afastei do sofá, alongando os membros. A sala estava uma completa bagunça, de caixas de pizza a papéis referentes ao trabalho, além de pipoca, refrigerante e uma montanha de DVDs que havia desabado. Não foi previsto que passássemos o sábado e o domingo juntas e, muito menos, que Emily dormisse na minha casa. Mas simplesmente havia muito para se conversar, muito para se discutir e o tempo passava muito rápido, tanto que mal percebemos quando, durante o último filme, fechamos os olhos e dormimos. Estávamos exaustas. Principalmente porque no domingo tivemos de providenciar a impressão da revista sozinhas, visto que os dois chefes folgados estavam afogados numa ressaca impossível desde que souberam das más notícias. Quando finalmente Emily moveu um músculo para se levantar, segurei-a pelos braços e a ajudei a ficar de pé.
- Estou com dor de cabeça. - disse com as mãos sobre a testa.
- Vou te arranjar um analgésico. Pode ir tomando um banho, tem toalha extra no banheiro.
- Obrigada, . - ela disse, dando passos tortos pelo corredor até o banheiro, onde se trancou. Eu olhava para a bagunça da sala e pedia com todas as minhas forças que a empregada resolvesse vir e fazer a arrumação daquilo sem reclamar. Passei as mãos pelo cabelo embaraçado e segurei-o em um coque até achar algo para prender. Assim feito, fui ao quarto, separar roupas para mim e para Emily. Sabia que seria difícil encontrar roupas minhas que dessem nela, afinal, Emily era muito magrinha e mais baixa que eu. Escolhi então uma
roupa que não parecesse grande nela, que não ficasse tocando no chão, e separei em cima da cama. Também separei a minha
roupa e sapatos para ambas; alguns acessórios, dois sobretudos não muito quentes e disponibilizei maquiagem básica caso Emily precisasse. Eu não sei ela, mas eu precisava estar bem hoje. Tinha planos para a noite.
*
- Você tem carro? - Emily me perguntou. Estava simplesmente esplêndida com a roupa escolhida, os cabelos haviam sido presos pela primeira vez desde que a conheci. Eu respondi à sua pergunta negativamente. Eu ainda não tinha condições de ter carro, já bastasse o apartamento que havia me custado anos de trabalho, um carro na capital inglesa me custaria mais um financiamento que eu temia não ser capaz de arcar. Além do mais, eu nunca me importei em pegar metrô para chegar até o prédio da revista.
- , chefe do departamento de design não tem carro? - Ela perguntou incrédula. - Não consigo acreditar. Pensei que tínhamos saído de táxi ontem porque você estava com preguiça de dirigir ou sei lá.
- Nossa... Não sei por que essa incredulidade. Por acaso a senhorita tem carro?
- Não... mas aí é porque meu salário não deixa. Eu ainda nem consegui sair da casa de minha mãe! - Nós rimos, até sermos interrompidas pelo meu estômago, que roncou como um urso que acabou de sair do período de hibernação.
- Vamos ter que comer fora. Aqui não tem comida. - eu disse, pegando minha bolsa e abrindo a porta de casa.
- É o jeito, né? - Mily disse - Você é uma ótima anfitriã, mas péssima dona de casa. - Falou e eu ri baixinho com a conclusão dela.
Pegamos o metrô até o prédio em que trabalhávamos e comemos algo na Starbucks da esquina, sem se importar com o horário; ainda era cedo. Apenas nesse momento eu percebi que meu relógio biológico havia funcionado pela primeira vez em tempos. Havia acordado sozinha e na hora certa. Mesmo agora tendo a certeza de que não encheria meu saco por ter chegado minimamente atrasada. Eu perguntava-me qual seria a reação dele diante do que acontecera entre nós dois; ele sabia quem ele havia ficado naquele dia, não imaginava que eu soubesse que o Coringa era ele, apenas isso. Será que mesmo assim ele me trataria daquele mesmo modo grosseiro e superior? Eu apenas sanaria minhas dúvidas caso entrasse no escritório da revista pós-festa-fracasso, em mais um dia de trabalho.
Adentrei o escritório rindo baixinho com Emily, ela havia contado algo engraçado sobre a festa, falava do príncipe épico que estava com ela quando eu a vi pela primeira vez.
- Qual é, ? Eu tenho vergonha, sabia? Ao contrário de certas pessoas...
- Eu sei que você tem vergonha, Emily. Eu lembro o modo em que você dançava até o chão CHEIA de vergonha - Ironizei entre risos. Os funcionários nos encaravam com caras sonolentas e assustadas diante da nossa disposição. Ou talvez fosse porque eu resolvi descobrir as pernas descaradamente. Who cares?
Fui direto ao meu escritório e o encontrei limpo e arrumado. Despedi-me de Emily com um aceno, vendo-a entrar no escritório do com um sorriso de canto de boca para mim; fiz sinal para que se calasse com o dedo e entrei em meu cafofo. Liguei o computador, joguei minha bolsa sobre a mesa e larguei o próprio peso sobre a cadeira giratória. Assim que o computador iniciou, abri todos os programas de que ia precisa, além do Outlook, para checar meu e-mail. Havia 40 mensagens não lidas, e eu passava meus olhos sobre elas sem a menor vontade de lê-las, apenas vendo se talvez houvesse algo interessante: Um lembrete de , sobre a nossa reunião na quarta-feira para discutir sobre o logo. Melody, uma das editoras, com uma matéria sobre bandas novas e o novo conceito do rock, me pedindo para ler, dar opinião e ainda por cima criar o design da matéria de forma inovadora. Nem me pediu tanta coisa.
Fui interrompida de minha leitura quando um emburrado abriu a minha porta sem nem ao menos bater educadamente - coisa que até o fazia - e jogar um bolo de papéis e desenhos sobre meu colo. Apressei-me em segurar aquela pilha de coisas para que não caísse e o encarei logo depois, o cenho franzido.
- Uau. Acumulou muita coisa, né?
- Não. Esse é o seu trabalho do dia. - Eu olhei novamente para a pilha, abismada. - Quero tudo pronto ao final do dia. Se você passar do expediente, não é problema meu, também não irei pagar extra pra você fazer sua obrigação, .
- O que significa isso, ? - me apressei em perguntar. Por que ele estava tão rude assim, de repente? Não me chamava de desde... muito tempo. Será que havia brigado com ? Compreensiva, coloquei a pilha de papéis sobre o móvel e voltei a olhá-lo. Levantei-me da cadeira e toquei seu ombro. - Está tudo bem com você, querido?
Suas feições foram indecifráveis. Ele retirou minha mão de seu ombro e me encarou com os olhos rachados.
- Você é a minha empregada. Coloque-se em seu lugar. Agora faça o que eu mandei. - disse ríspido. O brilho dos seus olhos nunca me fora tão repelente.
Mesmo assim, continuei em sua frente, observando seu rosto - que mesmo com raiva, permanecia lindo - e esperando que ele me dissesse que aquilo tudo era brincadeira. Mas ele não fez nada mais do que virar as costas largas e sair do meu escritório num vulto que fez os meus cabelos arrepiarem-se. Não iria chorar como uma garota, ou ficar triste com aquilo. Se ele quisesse ser rude, que fosse. Do mesmo jeito ele se agarrava com a namorada na minha frente e nem por isso eu conseguia ser tão ignorante com ele. Se realmente me conhecesse, saberia que com aquela reação dele eu ia passar a tratá-lo exatamente como tratava o : curta e grossa. A raiva, obviamente, não sumiu com lógica mais-do-que-óbvia presente em meus pensamentos teimosos. Sentei na cadeira sem conseguir segurar minhas pernas direito e cruzei os braços num ato infantil, mas perfeitamente combinável com a situação recente. Abri os vários projetos que me foram postos e suspirei fundo: Teria um bom trabalho pela frente.
Quando saí do escritório a fim de tomar café, os funcionários me encaravam com uma cara estranha, mas que eu não fiz questão de decifrar. Sabia que tinha acabado de sair da Starbucks, mas apenas mais uma dosezinha com certeza não me fará mal. Eu sabia que aquilo estava se tornando um vício, mas me parecia completamente inevitável reativar os ânimos, principalmente depois do trabalho extra que me foi enviado sem mais nem menos. Café era o meu álcool.
Enchi o copo descartável com café preto e forte, pouco açúcar. Entornei como se fosse água.
- Devagar aí, . Andou sem comer de novo? - ouvi a voz de tão perto de mim que preferi não me virar para não acabar causando um desastre.
- Oi, . - disse, fingindo ser a eu de sempre. Claro que eu tinha coisas em mente, aquilo fazia parte do plano... - E não, hoje eu comi bem. Só preciso de um pouco mais de energia.
- Sei. Como foi de festa? - virei-me num impulso para encará-lo. Assisti seus olhos adentrando cada célula óptica, informando aos meus neurônios de que existia algo perigoso por vir, um sinal para que eu me afastasse. Aqueles olhos estavam pura malícia. Eu bem queria saber o que ele pretendia fazer naquele momento, mas me recusei a deixar que ele controlasse algo. EU queria controlar, queria abordá-lo e deixá-lo confuso. Era uma necessidade de que as coisas funcionassem assim, um desejo do meu interior.
- Foi boa.
- Só boa?
- A sua foi maravilhosa?
- Não respondeu a minha pergunta.
- Você também não. - falei rispidamente porém com um sorriso nos lábios. - Até mais tarde, . Tenho trabalho a fazer...
- Onde está o resto da saia? - ele perguntou, olhando descaradamente para as pernas descobertas. Não me importei, era essa a intenção mesmo.
- Comprei em liquidação, vem pela metade. - Disse rindo - Você gostou?
Não dei espaço para que ele respondesse, apenas assisti seu rosto espantado com a minha petulância temporária. Apressei meus passos para o escritório e lá me tranquei, esquecendo de tudo e de todos, e fazendo apenas o que me era obrigação: Trabalho.
*
Era a última matéria a ser passada pelo Photoshop. Eu tinha apenas que ajeitar as fotos e adicionar o layout que, graças a deus, já estava pronto. Feito isso eu poderia colocar meu plano em prática. Isso, obviamente, se ainda estivesse na Redação. Ajeitei rapidamente o que precisava ser feito, não passando de 15 minutos. Fechei a última pasta que me foi entregue por na manhã e suspirei de alívio.
Levantei-me e andei em passos discretos até a porta, abrindo uma pequena fresta e observando a Redação completamente vazia; luzes apagadas e silêncio instalado - se não fosse pela climatização e pelo som da minha respiração um pouco ofegante. Virei meus olhos para a diretoria, mas não havia qualquer luz acesa em nenhum dos escritórios; melhor dizendo, não estava lá. Minha primeira reação foi amaldiçoar a porta, o dia, a caneta que estava no chão e eu tropecei, a formiga que fez cócegas em minha perna e o computador por simplesmente existir. Mas logo retirei todas essas maldições e as joguei em . Que merda ele estava fazendo com aquela arrogância que sequer combinava com ele? E me entupindo de trabalho, como uma escrava remunerada? Eu não ganhava o suficiente para trabalhar 24h mas, se ao menos ele fosse menos estúpido, quem sabe eu não reclamaria do dinheiro.
Fui atirando minhas coisas à bolsa sem me importar se ia caber ou não. Eu era a última naquele inferno de redação e também não me importei quando comecei a resmungar baixo ao fazer minhas coisas. Desliguei o computador puxando o cabo de energia e desliguei a luz quase quebrando o inferno do interruptor. Odiava planejar coisas, e quando planejo, não dá certo. Coisa boa ser impulsiva, péssima apenas para o interruptor, para o computador, para o chão que eu esmagava, enfim.
Quando me lembrei que ainda tinha de pegar o metrô tive vontade de me jogar do último andar do prédio. Suspirei fundo e peguei a bolsa lotada de coisas - também com trabalho de casa -, peguei um sobretudo que guardava num armário reservado aos funcionários devido ao frio que poderia encontrar lá fora, minha pele estava demasiada descoberta, saindo porta afora da redação, trancando portas e desligando lâmpadas remanescentes.
A cidade de Londres sempre fora uma coisa impressionante à noite. Já havia se passado da meia-noite quando atravessei a rua para pegar o metrô. A beleza da cidade simplesmente sucumbia aos rostos sérios que, principalmente àquela hora, se mantinham quietos e calados. O metrô, por algum milagre, não demorou a chegar, ou talvez aquilo fosse resultado da primeira vez que cheguei na hora certa para pegá-lo. Havia poucas pessoas sentadas naquelas cadeiras. Eu não gostava de ter que ir embora àquela hora de metrô, me parecia extremamente perigoso por mais que eu soubesse me defender muito bem devido ao meu passado. Assim que minha linha de pensamento parou no passado, eu rapidamente desviei, e me pus a pensar no presente, já que o passado apenas me traria coisas desagradáveis: em todo e qualquer sentido. O que me deixava mais louca era que o meu presente se resumia a dois nomes: e . Não que eu não me importasse com o trabalho em si, dos desenhos e tudo mais, mas aquilo era algo que eu fazia tão naturalmente quanto comer e dormir. Eles dois não. Com eles era diferente.
Sentei em uma das cadeiras perto de uma barra de metal, era meio desastrada quando o metrô estava em movimento, então permiti assegurar que não levaria uma queda ou saíria me batendo pelos vagões. Deixei minha bolsa descansar no meu colo e encostei a cabeça na parede. Por puro vício, puxei os fones do ipod de dentro da bolsa, liguei-o e apertei play esperando que uma lista qualquer tocasse. Não me importei diretamente com que música estava tocando, mas consegui deixar tocar por simplesmente me agradar.
My hopes of being stolen
Might just ring true
Depends who you prefer
Depende de quem eu prefiro. Quem eu prefiro?
Eu prefiro quem me complete. O problema é que eu acho que os dois conseguem fazer o mesmo... Apesar de que tem pontos na frente. Eu gostei da performance dele, ah, se gostei. A música entrava nos meus ouvidos com mais potência, e eu passei a pensar com um plano de fundo musical. No entanto, não conseguia me distrair. Havia um instinto aguçado e desconhecido que queria me deixar com os olhos bem abertos. Talvez fosse a insegurança pelo horário tardio em que eu estava voltando para casa. Senti meu celular tremer na bolsa e então me concertei na cadeira para ver a tela: 1 mensagem recebida.
"Girl, aonde hells você se meteu? Ninguém atende em sua casa, estou preocupada! Quero saber o que aconteceu... do seu plano.
xx Emily"
Suspirei fundo. Queria responder-lhe que o louco varrido do era quem havia me feito tanta desgraça ao mesmo tempo, destruindo meu plano e arruinando a minha noite.
"Plan Failed. Trabalho demais, e ainda estou levando coisa pra casa. Emily me salve.
xxx "
Mensagem enviada. A próxima estação já era a que eu desceria, então joguei minhas coisas na mochila e escondi os fones de ouvido por debaixo da roupa. Senti o telefone vibrar mais umas duas vezes no caminho andando até meu apartamento, mas preferi ignorar, apenas desejava dormir, descansar.
Os dias seguintes na revista foram piores do que aquela segunda-feira. Eu não conseguia coragem para pedir socorro na sala de ou reclamar com por estar jogando tudo em mim, descontando de algo que eu não havia feito. Aliás, o que mesmo levou-o a tomar tais atitudes ainda se formara com mistério, e não foi apenas pela falta de tempo que eu não cheguei a dar uma de Sherlok Holmes, mas porque quando a minha mente de repente se tornava desocupada, não era em que eu estava pensando.
Na quarta-feira, como combinado, resolvi o problema com . Não - eu não briguei com ela. Apenas tive que ajustar seu logo e ajudá-la a fazer uma seleção de imagens para compor sua matéria. Aliás, por acaso, andou sendo promovida. Se antes ela tinha uma folha e meia para sua matéria, agora ela tinha três completas; exatamente o dobro do anterior. O engraçado é que foi quem a promoveu, o que é meio suspeito já que eles são namoradinhos. Quanto a mim, acabei por ganhar um peso a mais no departamento, já que por decisão dos chefes, alguns web designers e editores da minha seção foram demitidos, visto o nosso problema financeiro pós-fracasso-de-festa. Andei pensando diversas vezes em idéias para reassumir a posição gloriosa da Music London, mas de nada adiantou. Talvez isso fosse problema decorrente da minha ocupação tremenda em outros trabalhos de prioridade maior, trabalhos esses vindos sempre das mãos de .
- Preciso do conteúdo desses envelopes impressos até o horário do almoço. - Disse naquele dia de sexta-feira. Estava decidida a, desta vez, comentar com ele sobre meu 'overbook' de trabalho árduo, cansativo, e que estava ocupando todo o meu tempo, livre ou não. Então coloquei os envelopes sobre a escrivaninha, e virei a cadeira giratória para que pudesse falar com ele diretamente. Estava vestido tão impecavelmente que cheguei a perder um pouco meu fôlego quando o encarei; uma calça social e smoking negros, a camisa era de cetim ou seda - eu não sabia diferenciar devido à distância - e estava colocada para dentro da calça apenas pela metade, enfeitada com uma gravata vermelho-sangue - esta com certeza de seda - que brilhava como se fosse veludo. Seus cabelos estavam penteados para trás, molhados como se tivesse acabado de tomar banho e penteado para trás.
- Senhor - sim, agora ele me obrigava a chamá-lo de senhor, dizendo que eu era sua empregada e não sua melhor amiga. Não que eu fosse ligar pra isso, algo muito maior me dizia que aquilo era apenas algo como uma máscara, e que aquele tratamento rudimentar e ignorante fazia parte do teatro em que se submetia. O motivo, este sim, completamente desconhecido.
- Sim, ? - Perguntou arqueando uma sobrancelha de forma desafiadora, e seriamente sexy. Tentei inspirar o máximo de ar possível para proferir as palavras corretas, mas algo estranho aconteceu. Eu não reclamei com ele. Não consegui.
- Por que você mudou tão repentinamente comigo? O que eu fiz pra merecer isso? - Perguntei instintivamente. me observou com suas sobrancelhas agora quase juntando-se no meio da testa, numa expressão de confusão, talvez.
- Você trabalha pra mim. Trabalho para trabalhadores. Se não consegue dar conta... - Não admiti que ele fosse manter aquela postura ridícula.
- Eu não estou reclamando, . Estou perguntando o porquê dessa mudança repentina! Essa semana você me encheu o saco exatamente como o faria. Trocaram os papéis, então?
A pele de marfim do meu chefe ficou mais branca ainda, pálida em demasiado. Qualquer resquício de sangue que pudesse estar presente em suas bochechas havia simplesmente sumido. Esperei uma resposta admirando até mesmo a sua cara de assustado, e feliz por ele ter finalmente tomado impacto com algo que eu dissesse.
- Eu vi você com o Coringa na festa.
- E eu vi você com sua namorada na festa. O que eu ainda não vi é o real problema com isso. - E finalmente, a discussão estava aberta. Os funcionários que estava perto da minha sala logo estavam jogados no vidro que separava a minha sala do resto da redação, e eu pude observar isso pelas pequenas frestas entre as persianas acinzentadas. Meu tom de voz já começava a se alterar, assim como o dele.
- Qual é, , como é que você fica com um total estranho? Aposto como você sequer sabe o nome dele. - disse de uma vez, indignado. Aquela era a primeira vez que ele falava comigo, se direcionado a mim, e não à designer da revista. Mas eu tinha rancor, e mesmo com a sua figura divina em minha frente, fui capaz de rebater.
- Se eu fosse você não me importaria com a vida pessoal da designer da revista.
- Eu sou seu amigo também.
- Há uma semana você não me trata como amiga. - elevei suavemente meu tom de voz, mas que, devido à voz aguda - presente da minha feminilidade - acabou por parecer que eu aumentei muito mais do que um oitavo na minha freqüência. O silêncio estava nos separando de chegar a um acordo com palavras, então nossos olhos trocaram palavras, gestos, sentimentos; tudo aquilo que apenas os olhos são capazes de informar. Eu estava com raiva, e ele me parecia levemente arrependido. Foi apenas impressão. Seus olhos tomaram aquela pose de chefe, subindo ao pedestal, enquanto eu permanecia como uma simples empregada. Eu odeio relações de negócios. Odeio.
- Tenho muito trabalho a fazer. - Desculpei-me e levantei da cadeira, passando por seu lado e abrindo a porta da saída. - Melhor você ir embora. - pedi.
Nunca pensei que ia pedir a um Deus Grego que se afastasse de mim, mas eu tinha entendido o recado. Ele sentiu ciúmes. O problema é que ele tem namorada, e eu não tinha nada com ele que se aplicasse a uma relação conjugal ou amorosa. Eu não devia nada a ele. E por mais que gostasse dele, não iria admitir ser pisada daquela maneira e muito menos iria admitir que ele viesse a me dizer que estava com ciúmes e me manipulasse como sua amante. Eu tinha . Eu queria . Eu estava feliz por tê-lo.
me olhou realmente assustado com minha reação. Não deixei transparecer mais nada em minhas feições, apenas queria que ele saísse dali. Eu me recusava a enlouquecer por causa dele. Virou-se em silêncio, dando as costas para mim.
- O conteúdo dos envelopes, meio-dia. - Repetiu e andou em seus passos arrastados de volta á sua sala, fazendo o pequeno motim ao redor da minha sala rapidamente voltasse aos seus postos. Senti olhares sobre mim, mas não tinha paciência sequer para me importar com aquilo. Sentei em minha cadeira e abri os envelopes que me foram dados com a perfeita intenção de exterminá-los o mais cedo possível e hoje era o dia do meu plano dar certo.
*
Abri a porta com certa cautela. Era o escritório da diretoria, o lugar onde eu encontraria e . Ainda era 11:30 e eu já havia terminado o que me fora pedido. Com um pen-drive em mãos que ainda teimavam em tremer, adentrei a sala, ainda dando leves batidas na porta - como um pedido de licença para entrar.
- Entre. - Ouvi a voz de dizer, e então eu entrei de vez, encostando a porta. Virei-me para onde eles estavam. Naquela espaçosa sala, estava completamente estendido em sua poltrona macia, enquanto conversava com ele sentado em cima da mesa de vidro e mármore, despreocupado - ou pelo menos estava despreocupado - até seus olhos cruzarem com os meus.
As feições antes calmas prenderam-se, esconderam-se, e logo aquela face linda me veio repelir. Que viesse. Também não vim amistosa, estava séria e concentrada nos meus próximos passos, nas minhas próximas falas. Ajeitei roupa
do dia, com certeza a menos provocante de toda a semana, e fui andando em direção à mesa. Coloquei o pen-drive vermelho no meio da mesa com uma frieza que eu não sabia de onde tinha tirado, mas que estava me ajudando bastante.
- Aqui está o que o Senhor me pediu. Mais alguma coisa? - perguntei ríspida. Deixei que meus pés pendessem para trás, dando alguns passos retardados, e assim meus olhos puderam alcançar os dois rostos que me encaravam sérios. Na verdade, eu podia perceber na feição de algo mais. Algo que eu não sabia definir, mas que podia entreter minha atenção por bastante tempo.
parecia pensar enquanto analisava o meu rosto; obviamente me deixando um pouco envergonhada e eu tive de lutar contra mim mesma para abstrair. De certa forma, com aqueles dois pares de olhos me encarando tão minuciosamente, fazia minha pele arder, queimar - e não era apenas nas bochechas -, vindo pelo lado de , minha vontade era de tocá-lo, e começar algo que poderia não terminar tão cedo...
E quanto a , minha raiva dele talvez já era o bastante, o bastante para que meu corpo pedisse para repudiá-lo. Ele merecia.
- Não, , acho que...
- Fale com Leah, ela pediu ajuda para a edição de uma história de ficção sobre os Strokes. Ajude-a. - Interrompeu numa superioridade invencível.
- Mas, ... - tentou falar novamente - a é...
- Ela está livre, . Ela está livre e nós estamos precisando de assistentes. Ela tem competência para isso. Ou ao menos era isso que dizia seu currículo, certo, ?
- Sim - concordei monossilábica. - Só isso?
- E finalize o layout para a impressão amanhã. - Disse com um sorriso tarado nos lábios. Encarei-o com os olhos semi-cerrados; Ele estava brincando comigo, né? Arranquei toda a calma que tinha nos meus pulmões, talvez a calma da minha próxima encarnação também, e consegui suspirar fundo antes de responder.
- Sim, chefe. - Disse, e virei as costas para eles - Com sua licença.
Não esperei respostas, mesmo tendo plena consciência de que estava fingindo em cada mínima ação, aquele ambiente estava me deixando louca. E até mesmo parte da minha dissimulação teimava em esvair-se. Saí do escritório dos chefes ouvindo-os me chamarem de volta; ignorei completamente. Em passos rápidos fui ao meu escritório e peguei minha bolsa, já estava quase na hora do almoço mesmo. Não encontrei Emily no caminho, e estava sem paciência demais para tentar encontrá-la. Deixei todos a me observarem sumir pela porta transparente que dava entrada à revista, enquanto os retardados ainda gritavam:
- ! ! Volte aqui! - a voz de ecoava.
- É, isso aí, volte aqui... - E ajudava. Estava me provocando.
Capítulo 6 - Meu plano, minha atitude
Já havia acabado o expediente fazia horas, e eu também já havia feito a minha parte. Naquele momento eu só esperava pacientemente até que sobrassem apenas duas únicas pessoas na Redação. Por um pequeno espelho em minha bolsa dourada consegui observar meu rosto, tentando ver alguma imperfeição que ao menos eu pudesse ajustar; não sei exatamente o que estava pretendendo com aquele espelho em mãos. Talvez um instinto feminino - sim - mas apenas talvez. Havia uma séria necessidade de estar arrumada quando estiver perto de ; e o mesmo acontecia com , apesar de que nesses dias a única coisa que eu queria mostrar a ele era o meu dedo do meio.
Quanto à minha aparência, sim, eu parecia acabada. Mas como não ficaria? Se ao menos não fosse tão inconveniente com tanto trabalho ao menos eu poderia ter uma noite de sono, um tempo para mim. O único tempo que tive pra mim, gastei comendo besteira e falando com Emily ao telefone, ou talvez tentando dormir. Havia algum tempo em que eu não me olhava no espelho direito ou cuidava de mim mesma - e não estou falando apenas da aparência. Eu estava meio destruída por dentro, com todos aqueles problemas. Minha mente estava ocupada, mas meu coração parecia estar no ócio. Há tempos ele vive congelado, quieto, silencioso... Triste. Também, quem na face da terra gosta de estar sozinho? Quem, na face da terra, gosta de viver ignorado? Pois então com meu coração acontece o mesmo. Ele já cansou de não ser ouvido. Já cansou de estar sozinho.
Deixei qualquer coisa que atrapalhasse a minha concentração de lado. Eu tinha um objetivo.
Levantei-me com cuidado da cadeira giratória e abri uma pequena fresta da minha porta. Ele estava lá. A única luz acesa, com exceção da minha, era a do escritório dele.
Perfeito.
Digo, não só a situação, mas também a imagem que adquiri quando deixei meus olhos pousarem nele. Estava quase deitado na cadeira, os pés relaxadamente em cima da mesa de vidro cobertos com aquele sapato social negro; a calça que vestia era de um grafite escuro, seu paletó da mesma cor estava pendurado na cadeira. A blusa branca estava com alguns dos botões iniciais abertos, mostrando um pouco do seu peito malhado - que eu fiz questão de ficar encarando por um bom tempo -, a gravata negra estava folgada em seu pescoço e seus cabelos estavam bagunçados, o que dava a ele um ar sexy impossivelmente lindo. A verdade era: era completamente lindo.
Hot Boss ’s POV on.
Estava impaciente com aquilo. havia se trancado naquela sala e não saiu um minuto sequer. Talvez eu tenha exagerado na brincadeira mais cedo. No entanto, foi tão engraçado vê-la se contorcer de raiva, as narinas se abrindo e fechando, os punhos fechados e os pés nervosos. Tudo que ela não dizia com palavras o corpo dela fazia o favor de nos mostrar. Ela estava muito puta mesmo com , aliás, até eu estaria no lugar dela. A mudança dele foi tão repentina que até eu estranhei; aliás, ele também está meio mudado comigo, apesar de estar disfarçando muito bem. O problema é que talvez a minha diversão não tenha valido a pena, pelo menos não para vê-la sofrer com tanto trabalho, tanta coisa que sequer seria da conta dela. Ainda me impressiono em como ela consegue se virar.
Eu não suportava mais esperar. Já havia passado da meia-noite e não saiu do escritório idiota. A minha raiva já transparecia em meus dedos nervosos, que batiam uns contra os outros, enquanto eu lia aquele formulário - ou fingia que lia, tanto faz -, ela não sairia nunca? Como eu poderia chegar até ela se não me dava chances? Ela pensa que eu não percebi as roupas provocantes que usou essa semana. Aquela mulher está fora de controle. Uma pena que meu sócio resolveu fazê-la se trancar, e não me deixou admirar a visão do paraíso que era o seu corpo. Com a conclusão de que eu estava ficando com raiva do meu amigo por causa de uma mulher tive a máxima certeza: Eu estava apaixonado.
Dando sinal de vida, desligou as luzes do seu escritório. Ouvi barulhos, como se ela estivesse terminando de arrumar as coisas e se aprontando para sair e, em seguida, o silêncio. O que diabos estaria fazendo no escuro? Será que eu não a havia visto sair?
Levantei-me da cadeira num impulso rápido, tinha de conferir se ela estava lá. Se não estivesse, eu iria até a casa dela; mas de hoje a minha designer favorita não escaparia. A redação toda estava um breu, exceto pela pouca luz que vinha das janelas de vidro ou do meu escritório, a alguns passos dali. A porta estava entreaberta, então tomei a liberdade de entrar, batendo de leve por puro costume de incomodá-la. Ali dentro estava muito escuro, aliás, eu não enxergava nada. Parei de dar passos quando cheguei ao meio da sala:
- ? - perguntei na esperança de encontrá-la, mas nada ouvi em troca. Quando estava para dar meia-volta, senti duas mãos frias irromperem a região dos meus olhos, mas talvez aquelas mãos não tinham a intenção de me cegar, e sim de me impedir de virar. Num impulso, coloquei as minhas mãos por cima daquelas geladas e notei dedos finos e unhas longas, típicas de mulher. Era ela.
- O que você quer cegando seu chefe? - falei com autoridade - Isso é caso de... - Perdi-me em minhas próprias palavras. Ela encostou os lábios em minha orelha, roçando-os. Meu Deus! O que ela estava fazendo afinal? Quando foi que ela resolveu gostar de mim e pior, me seduzir, me tocar... Não seria possível. Então essas mãos não eram dela, devia ser outra garota da revista, mas eu não tinha a mínima idéia de quem seria. Lembro-me de não ter pegado nenhuma delas desde que fiquei com . Pelo menos é disso que eu me lembro...
- Why so serious? - perguntou com a voz sussurrada. A teoria da garota errada estava falha, aquela voz era altamente reconhecível, em qualquer tom que usasse. Então ela sabia. Sabia que eu era o Coringa. Virei-me com certa cautela e a senti folgar as mãos que se encontravam em meus olhos, deixando-as caírem frias sobre meus ombros. Eu tinha certeza de que estávamos de frente um pro outro, mas não tinha noção de qualquer coisa à minha frente, se não o escuro. Por isso, foi necessário eu deixar que outros instintos, como o tato, me dessem um pouco desta noção, e não pude deixar de tocá-la. Passei minhas mãos sobre o rosto e, por falta de sensibilidade, não consegui definir quaisquer feições, apenas pude sentir a pele macia de mulher jovem fazendo carinho em minhas mãos que se mexiam aleatoriamente.
- Quando você descobriu? - perguntei em um sussurro, sorrindo bobo, ou abestalhadamente melhor dizendo. Eu me sentia um idiota perto dela. Principalmente porque ela já sabia de algo que eu ainda planejava contar. Era meio estranho que ela ficasse por cima, mas eu não me importava muito; era só me lembrar da última vez que estivemos juntos - ela, naquele momento, não estava nem um pouco por cima -, isso me ajudava a ficar mais calmo, e talvez até rir mentalmente com minhas conclusões.
- Eu sempre soube. - falou, a voz saindo rouca e até bem sexy. Seu rosto estava próximo do meu. Próximo demais.
- Mas... Como? - Perguntei sorrindo incrédulo, deixando que minhas mãos descessem até seu pescoço, embrenhando meus dedos em seus cabelos enquanto espalmava a mão naquele pescoço quente. Senti-a deixar sua cabeça pender para o lado, e então tirar uma das mãos de meus ombros para tocar em minha boca, delineando os meus lábios com os dedos leves. Fiquei repentinamente sério, mas não entendi o porquê. Talvez a maior proximidade entre nossas bocas tenha me feito concentrar.
- Seu sorriso. É inconfundível. - disse me empurrando e fazendo meu corpo esbarrar na janela de vidro onde, na frente, havia persianas. Talvez seja realmente correto o uso do passado nessa afirmação, havia persianas. Assim que houve o impacto, as persianas caíram no chão como se fossem poeira soprada.
Virei-me para encarar o seu rosto, estava com uma expressão assustada e risonha, iluminado pela luz da lua que acabara de invadir o escritório. Espantei-me com sua beleza estonteante tão de repente visível aos meus olhos a pouco cegos. Ela era realmente muito maravilhosa, isso sem nem virar de costas e mostrar a senhora bunda e os contornos do corpo bem feito. Já falei de sinônimos masculinos? Não? Então eu vou explicar uma expressão: Mulher bem-feita de corpo = Mulher gostosa. Sinceramente, eu acho que já havia pulado o ranking de mulheres gostosas, ela era demais. Tudo nela me atraía: o corpo, o rosto, a risada discreta, o jeito dela de ser sempre grossa como porta de igreja, o quão engraçadas ficavam suas feições quando eu a irritava - coisa que havia se tornado praticamente um hobbie meu; ainda havia aquele beijo viciante e o jeito desengonçado quando ficava com raiva. Eu gostava de tudo aquilo e, aos meus olhos, aquilo significava que eu gostava dela tanto quanto.
Eu poderia ter deixado que ela desse os próximos passos de aproximação apenas para vê-la conduzindo, mas já havia perdido a paciência com aquela situação. Não iria perder mais tempo indagando-me como se realmente houvesse algum problema que me impedisse de beijá-la avidamente e, finalmente, saciar o desejo. Peguei seus pulsos e girei-a, invertendo os lugares. Ela me olhou um pouco assustada e eu sorri maroto para ela, vendo-a abrir um pequeno sorrisinho e mexer a cabeça em sinal de reprovação.
- Reprovando alguma coisa, ? - perguntei, levantando uma sobrancelha de forma ameaçadora.
riu baixinho, e antes que ela pudesse abrir a boca para assentir qualquer resposta, aproximei meu rosto do dela a ponto de roçar nossos lábios. Deixei que minhas mãos descessem por todo o corpo escultural, retirando a blusa fina de dentro da saia social e passando as minhas mãos por sua pele macia, fazendo-a arrepiar-se com o toque. Sorri com o feito.
- Continua o mesmo mandão de sempre. - Ela disse. À medida que seus lábios abriam e fechavam discretamente para proferir aquelas poucas palavras, nossas bocas roçavam com mais persistência e aquele toco-não-toco já estava me dando nos nervos.
- E isso importa? - perguntei.
- Não... - ela disse, deixando que seu rosto se afastasse do meu e nossos lábios se desprendessem. Tocou meu nariz com a ponta do seu dedo indicador e deu um sorriso malicioso que me fez parar de pensar apenas para observá-la - Na verdade... Isso até me excita.
Aquelas últimas palavras haviam acertado em cheio em minha paciência. Apertei mais uma das mãos que seguravam sua cintura e, com a outra, espalmei a sua nuca e aproximei nossas bocas novamente; desta vez sem qualquer intenção de continuar com brincadeirinhas. Assim que a proximidade foi extrema, beijei-a com tal veracidade que poderia tê-la deixado sem ar - coisa que eu não me importava. O que eu queria era aquilo mesmo, tencionava ver aquela desobediente metida ensandecida sob minhas mãos. Era algo que sempre desejei, tê-la ao meu lado. Isso porque ela me parecia tão difícil, tão inalcançável. E fosse eu que a tratasse daquele jeito 'irritante' ou que a tratava como a melhor profissional que já havíamos visto: Ela sempre pareceu muito longe de nós. E eu poderia gargalhar por dentro naquele momento em que a tinha em meus braços; eu seria capaz de me gabar por aquilo pelo resto da minha vida.
Fiz questão de acelerar todos os nossos movimentos. As línguas se mexiam em velocidade inacreditável e, mesmo de um jeito desconcertado, ainda havia certa harmonia, algo que nos mantinham sincronizados. Minhas mãos se movimentavam por toda extensão do seu corpo, desfazendo o comportamento de suas roupas. Seu blazer foi o primeiro a sair do meio. Retirei-o tão rapidamente que talvez ela nem se percebeu; aos poucos me livrava daqueles botões da camisa social, fazendo-a gemer entre o beijo pela vagareza em que o fazia. Era realmente delicioso provocá-la. Como a claridade vinda daquela janela já havia feito o seu propósito, agora ela chegava a me atrapalhar; mesmo com os olhos fechados, eu não conseguia me concentrar cem por cento graças à luz da lua. Nunca pensei que ela pudesse ser tão inconveniente.
Parecendo ler meus pensamentos, retomou o posto de coordenadora de nossos ataques, e passou a me empurrar sem afastar-se, impulsionando passos retardados até um lugar desconhecido. Primeiro, senti meu corpo bater em algo de forma paralalepipeidal e fino, como um vidro. Aproveitei que estávamos parados novamente para exterminar de uma vez aqueles botões, mas não tive tempo de jogar sua blusa social para fora do seu corpo: Ela segurou-me pela gravata e me puxou novamente para outro lugar desconhecido.
Desta vez estava demorando demais para chegarmos ao nosso destino, então abri um pouco os olhos para saber onde diabos ela estava me conduzindo. Não consegui avistar muita coisa, mas consegui distinguir um pequeno corredor, como aqueles que ficavam na redação. Eu reconhecia perfeitamente aquele lugar, mas não conseguia me lembrar de forma algum onde acabaria aquilo ali.
- Ei, olhe pra mim - Ela pediu, segurando meu queixo, apontando para os próprios olhos. Olhei para ela meio aturdido, mas fiquei feliz com sua imagem descabelada e com aqueles lábios já tomando conseqüências dos beijos selvagens a que foram submetidos. - Sala 1 ou sala 2?
- Hum... Sala 2.
- Ok, Senhor . - Ela disse sorrindo maroto e eu não pude me segurar, voltei a beijá-la no mesmo momento.
’s POV on
Ele poderia ter escolhido a sala 1. Com todo o meu poderio vingativo, seria perfeito. Mas eu deixei passar, até que transar com o em seu próprio escritório também poderia despertar alguns outros sentimentos melhores. De certo modo, ainda me veio à mente como seria se ele escolhesse a sala 1, vulgo escritório do 'Senhor '. Poderia rir alto com meus pensamentos, mas algo me fez voltar à realidade: As mãos de acabaram de descer para um dos lugares proibidos, ele não apenas espalmou a minha bunda, mas apertou-a com tamanha força que eu poderia até provocá-lo - parecia que havia tempos que ele não tocava na bunda de uma mulher de verdade. O fato era que eu não queria levar as coisas para esse lado, e causar ciúmes em mim mesma - imaginando que ele já ficou com outras - não era algo sequer viável. Apenas entendi o que ele estava fazendo quando me vi sentada em sua mesa, com ele entre as minhas pernas. A minha saia, coitada, havia subido metros pelo meu tronco, e poderia ser confundida com uma blusa tomara-que-caia que, simplesmente, caiu.
Numa maestria interessante, consegui retirar sua gravata, por mais que minhas mãos estivessem tremendo. Meu corpo liberava uma adrenalina que pulsava tão fortemente em minhas veias que a tremedeira era imprescindível até mesmo para que eu me mantesse inteiramente sã. E era ele, era o responsável pela atividade anormal da hipófise. era o responsável por toda a bagunça em que se encontrava o meu corpo; eu tinha apenas que impedi-lo de chegar a dois lugares: mente e coração. Perder a razão seria um desastre e talvez apaixonar-me por aquele ser lindo e irritante não seria viável. Eu era fraca. Eu não suportava sentimentos fortes; meu coração estava morto. Eu o matei.
Aquela calça estava incomodando-me de uma maneira irritante. Estava tudo tão escuro e difícil de enxergar, meu tato foi o que conseguira perceber aquele traje idiota que separava a minha pele da dele. Passei as minhas mãos por toda extensão do cós da calça até encontrar o feixe. O beijo então ficou mais difícil, ofegava em demasiado e aquilo só havia piorado quando ocorreu o toque íntimo entre a minha calcinha que já estava molhada e a sua ereção. Fomos forçados a separar nossas bocas para não morrer por asfixia, e então passamos a tocar o corpo um do outro, como se fossem mundos que acabaram de ser descobertos. Eu traçava os músculos de seu peitoral com a ponta dos dedos, sentindo-os rígidos e volumosos. As mãos dele saíram de minha cintura para então acariciar os seios por cima do sutiã, deslizando-as então até as minhas costas, onde ele encontrou o feixe e abriu-o, fazendo com que um som como um 'tec' liberasse os meus seios de sua prisão.
Encostou nossas testas e eu deixei meus dedos caírem para sua barriga definida, que me dava uma sensação de que meus dedos pulavam colinas em cada gominho.
Ao invés de usar as mãos novamente para fazer as alças do sutiã caírem, desceu com beijos para minha mandíbula e pescoço. Esse era definitivamente um dos meus pontos fracos, apenas de sua respiração quente encostar ali eu já podia sentir cada célula se manifestando e uma falta de ar prendendo meus pulmões; o diafragma não relaxava de maneira alguma e eu simplesmente havia esquecido como o faria voltar ao normal. depositou um beijo leve no meu pescoço e graças ao bom Deus que prezava pela minha respiração, desceu com aquela boca perigosa para o meu ombro. Tocou a clavícula com mais um beijo leve, e então encostou os lábios por cima da alça do sutiã branco, mordendo-a. Seus dentes arranharam meu ombro e, com muita dificuldade, consegui relaxar os ombros, ajudando-o com o processo. Com um lado caído, ele se voltou ao outro e fez a mesma coisa, novamente passando pelo pescoço e fazendo-me perder o fôlego, por mais que desta eu me encontrasse preparada.
Meus dedos finalmente haviam chegado ao lugar certo e brincavam com a barra de sua boxer de cor desconhecida. Acho que naquele momento eu poderia dizer que estava ficando com ele por puro prazer. Não conseguia ver o seu rosto para impressionar-me com sua beleza ou até mesmo enxergar o seu corpo seminu para deliciar-me e excitar com a imagem divina. Era tudo instintivo, cada próximo passo diante do nosso aproximamento perigoso e antiético. Por mais comum que fosse, chefes e funcionários não deviam relacionar-se, essa era a ética do negócio. Era a ética em que se baseava para que existisse o lucro; não poderíamos trocar o prazer mútuo pelo trabalho e pela responsabilidade. Eu não queria me importar com aquilo por mais ciente que estivesse do erro, então apenas deixei a pulga atrás da orelha: querendo ou não, não havia freios para um corpo ensandecido como o meu. Não havia freios para . Aquém de responsabilidades havia uma necessidade humana, muito mais importante, não?
estava realmente entretido com os meus seios e já ia começar com aquela brincadeira de provocações. Foi uma questão de milésimos de segundos para que sua boca descesse a um dos mamilos enrijecidos enquanto a sua mão rude fazia movimentos bruscos e circulares com o outro seio. Ele chupava-o avidamente e chegava a arranhar os dentes ali. Minhas mãos desistiram de provocá-lo por eu simplesmente não ter mais controle sobre elas; deslizaram para as suas costas, espalmaram sua bunda e enfim fizeram-me fincar as unhas naquelas costas maravilhosas.
gemeu um pouco, talvez pela dor sentida quando aquelas unhas afiadas penetraram sua pele. Ele sabia que era apenas ele parar com as carícias que eu simplesmente o soltaria, mas ele continuou, então ele queria que eu arrancasse o seu coro. Quando resolveu alternar entre os seios, eu deixei minha cabeça pender para trás e a boca entreaberta para que o ar pudesse circular melhor. Nunca achei que a climatização da Revista pudesse ser tão ineficiente. Podia sentir as gotículas de suor que caiam pela minha testa, os cabelos que grudavam em minhas costas, e as costas de que pareciam terem sido banhadas a óleo com a facilidade em que as minhas mãos se escorregavam ali.
Minhas unhas saíram arranhando toda a extensão das costas de até chegar novamente às boxers, mas não parar por ali. Desci mais um pouco com os arranhões, diminuindo a intensidade da força, procurando fazer cócegas na região do cóccix; deslizando mais ainda para a frente e, com uma investida final de concentração descendo com aquelas unhas para dentro da boxer, tocando em seu membro duro. No mesmo momento parou de fazer o que estava fazendo:
- Você é louca, mulher? - perguntou com sua voz falhando. Seus olhos estavam tinindo com um brilho impecável de pura luxúria.
- Talvez só um pouco. Mas você não fica muito para trás, chefe. - disse, mostrando-lhe o estrago vigente em meu corpo seminu. Dei-lhe um selinho rápido enquanto apenas alisava o seu membro. Mesmo diante da pouca luminosidade eu fui capaz de enxergar a sua expressão confusa e tarada. Meu rosto acabou por cair em seu ombro e eu passei a me deliciar com o cheiro inebriante de suor e perfume masculino que o seu corpo exalava. Antes que pudesse me perder em devaneios com aquele aroma tóxico às minhas células, segurou-me pelos ombros, fazendo meu corpo cair aos poucos até deitar, entrando em contato com a fria mesa de vidro; ao mesmo tempo desceu seus lábios úmidos pelo meu colo e barriga. Apenas após ter se entretido em cada mísero centímetro do meu tronco e colo, finalmente me deixara levantar o corpo e voltar à órbita. Cheguei a sentir certa tontura e o meu corpo parecia estar derretendo, em todos os sentidos. Assim que estava novamente à minha posição inicial, meio que sentada naquela mesa de vidro e eu já clamava por nem mais um segundo mais de tortura, queria-o dentro de mim. Eu sabia que tinha que parar com essa mania de acelerar as coisas, mas ele estava simplesmente me deixando louca e esperar que ainda aturasse brincadeirinhas e provocações? Mesmo diante de tais indagações em minha mente, o orgulho presente em minha personalidade e resolveu dar sinal de vida. Eu iria fazê-lo ansiar pelos 'finalmentes'.
Capturei seus lábios numa agressividade inevitável e passei a enroscar minhas pernas nas dele, alisando nossas peles. Suas mãos espalmaram-se em minhas coxas e puxaram-me para perto de si. Soltei seus lábios e desci com beijos e mordidas pelas suas bochechas, chegando até perto da sua orelha - onde soltei o ar quente pela boca semiaberta, deixando soar seu nome de forma silenciosa -, e enfim chegando ao seu maravilhoso pescoço. Assim que tomei ar suficiente toquei seu membro com uma das mãos; no segundo seguinte fiz duas coisas ao mesmo tempo. Em movimentos frenéticos e repetitivos, masturbava-o. Com o resto da concentração que me sobrara, distribuía chupões que deixariam marcas em tons arroxeados por toda a semana. E eu poderia ter certeza de que cada vez que ele se olhasse no espelho e visse tais marcas, lembraria de mim. Se minha boca não estivesse tão ocupada eu poderia ter rido da minha própria conclusão. Os gemidos dele atravessavam meus ouvidos como aplicação sonora da satisfação e do prazer. E a sua satisfação era a minha satisfação; fato este que me fez aumentar a velocidade dos movimentos com a mão. Suas mãos apertavam minhas coxas numa força incrivelmente gostosa. De repente, segurou a mão que o masturbava, e eu acabei por parar de chupar seu pescoço.
- É o bastante - disse ofegante; eu também tentava recuperar o ar, mas uma vontade de rir fez com que minha barriga contraísse e um som abafado e nasalado da minha voz risonha ecoou pelo escritório.
Hot Boss ’s POV
A risada dela fez cócegas em meu pescoço gostosamente dolorido. Eu já tinha uma necessidade incontrolável de possuí-la o mais rápido possível. Passei o meu braço pela sua cintura, trazendo-a mais para perto. Parecendo conhecer minhas intenções, ela baixou a minha boxer de uma vez, deixando-a cair nos meus pés; levantei-os e joguei aquela peça de roupa para longe, não queria que nada me atrapalhasse. Ela ainda estava com aquela calcinha fina, e para que eu conseguisse tirá-la teria de me separar de e passar sua roupa íntima pelas pernas fechadas. Eu não tinha a mínima vontade de ter que fazer isso. Comecei a tirá-la vagarosamente.
- Você vai ter que afastar para conseguir tirar, chefe. - disse enquanto embrenhava os dedos nos cabelos da minha nuca.
- E me separar de você nesse momento? Nem por um segundo. Vamos improvisar. - Se fosse capaz de ver o seu rosto com mais nitidez teria plena certeza de que ela tinha umas das sobrancelhas arqueadas desafiadoramente. Segurei cada lado da calcinha em que havia renda - e não pano -, e puxei-a, rasgando-a agressivamente. soltou um gritinho combinado com uma gargalhada.
- Animal! - falou entre risos. Sorrindo descarado, joguei os trapos restantes da sua calcinha para longe. Posicionei-me e encostei nossos narizes, tomando ar para os próximos movimentos. Novamente ela manifestou sua voz calma - algo realmente incrível, visto o momento eufórico em que nos encontrávamos.
- Você vai mesmo quebrar a mesa de vidro? Eu quero sair daqui viva.
- Merda, fala sério... - disse incrédulo. Detalhe idiota. Por que minha mesa não era resistente? Por que eu nunca pensei que algo assim poderia acontecer? Deveria tê-la feito de mármore ou sei lá.
- E cadê a camisinha, adulto responsável? - Ela só poderia estar debochando de mim, ou eu realmente estava tão fora de órbita que me esqueci daqueles pequenos detalhes que poderiam fazer uma diferença enorme. Eu sentia que estava fazendo papel de idiota deixando passar tantos detalhes em que eu, o homem da relação, deveria pensar. Melhor dizendo eu, , o chefe da relação. Puto da vida, desfiz meu posicionamento e agachei-me, peguei a camisinha que havia reservado no bolso da calça. Levantei-me e antes que começasse a rasgar o pacote, tomou-o das minhas mãos; abrindo-o com os dentes e carinhosamente vestindo meu pênis ereto. Sua atitude me fez esquecer as situações adversas. Ela enlaçou os braços pelo meu pescoço:
- Dê cinco passos para trás. - sussurrou em meu ouvido - se você for manter aquela performance da limusine, acho que aqui apenas a parede de concreto pode lidar.
Ri baixinho com o seu comentário. Quaisquer que fossem minhas preocupações com os meus erros pelos detalhes, eu havia esquecido. Estava já na felicidade grau 1 de 3. apertou as pernas contra minha cintura, enroscando-as seguramente, e então segurando-a pelas penas, passei a carregá-la e dar os passos retardados até a parede. Virei meu corpo em 180º e logo o corpo de estava preso entre a parede e o meu corpo, que fazia pressão para mantê-la ali. Agora ela não tinha saída, e mais nada me impediria de retomar onde parei. Posicionei-me devidamente e não tardei a iniciar a penetração sem dó.
A primeira investida foi com toda a força que pude reunir naquele momento. Seu gemido ecoou por toda a Redação, e se eu não tivesse plena certeza de que estávamos sozinhos, com certeza passaríamos pela situação mais constrangedora de nossas vidas. Eu impedi que seu gemido proliferasse calando seus lábios com um beijo feroz. Tentei concentrar em um ritmo para ambos os movimentos, tantos os do meu quadril quanto os da minha boca. Não pude deixar de estocar com força nela, aliás, isso não era algo que eu pudesse evitar. Já havia se tornado uma necessidade que eu a tivesse com seus gemidos abafados soando melodias em meu ouvido; ou aquelas unhas que arranhavam suavemente as minhas costas e, até mesmo, meus braços; eu precisava do cheiro delicioso que seus cabelos suados emanavam; e o seu corpo lindo derretendo pelas minhas próprias mãos.
Sentindo-a chegar ao ápice, apoiei minhas duas mãos na parede para que assim pudesse ter mais impulso nas investidas finais e enfim também pudesse chegar lá. Acelerei loucamente os movimentos de vai-e-vem e manifestou-se, parando de me beijar par morder meu lábio inferior rapidamente e deixando seu rosto cair na curva do meu pescoço com um sorriso de deboche.
- Eu quero mais. MAIS.
Seu pedido foi atendido quase que automaticamente. Eu podia sentir seu corpo estremecer sobre o meu durante as investidas cada vez mais animalescas, que aumentavam gradativamente de acordo com minha necessidade de chegar ao orgasmo. Não demorou muito para que acontecesse; seu corpo ainda se via contraído ao redor do meu quando eu senti o ápice do prazer invadir minhas células. Era uma coisa que eu já havia sentido várias vezes, mas eu sentia que dessa vez havia sido diferente; e não foi apenas porque resolvi transar no escritório.
- Ponha-me no chão, pelo amor de Deus. - Ela pediu suplicante e eu obedeci, estranhando sua reação. Percebi que seus músculos estavam estranhamente contraídos e que ela tinha os olhos fechados. Assim que seus pés tocaram o chão ela largou o meu pescoço e deixou suas mãos nervosas deslizarem pelos meus braços, apertando-os fracamente.
- Você está bem? - Perguntei visivelmente preocupado.
- Pensei que não ia acabar nunca! - Exclamou com sua voz falhando. Forçando muito minha visão, consegui enxergar sua silhueta encolhida próxima de mim. O que não ia acabar nunca? Peguei me queimando neurônios, até uns dois súbitos terrivelmente antagônicos me ocorrerem: 1) Ela queria que aquela transa acabasse logo pra ela ir embora e nunca mais olhar na minha cara. Alternativa pessimista e chata, e eu não quero nem imaginar isso. 2) Ela estava com alguma dor. Bem, antes ela com uma dor passageira do que eu com uma dor eterna.
Repentinamente, me abraçou. Seus braços enlaçaram minha cintura e seu corpo chocou-se com o meu. Assustei-me, estava estranhando aquela ação repentina vinda dela; abraços carinhosos não era bem a cara dela. Sentindo seus pêlos arrepiando-se periodicamente e seu coração batendo tão forte contra o peito que até eu poderia sentir a pulsação acelerada, mais uma alternativa pousou na minha mente. E esta alternativa permaneceu mais forte e mais provável, assim que ouvi um gemido baixo dela e seu corpo enfim relaxando.
- C-C-Como você fez isso? - perguntei incrédulo. Só podia ser aquilo, tinha de ser.
- Sei lá como fiz. Mas lhe garanto que foi bom. - riu baixinho e eu a acompanhei. Para mim isso só era possível na televisão, com aquelas mulheres orientais que estudavam minuciosamente o kama sutra e técnicas para manter o orgasmo durante vários minutos. Foi incrível presenciar aquilo pela primeira vez. Ela segurou seu orgasmo até eu atingir o meu; solidariedade, habilidade... No que se resumia aquilo? Talvez eu deva usar das mesmas palavras que ela: Só sei que foi bom.
Era realmente agradável ficar ali, parado, apenas abraçando-a. O meu ego dava pulos de alegria, resultado do meu mais novo feito: Pegar a funcionária mais gostosa do planeta e ainda tê-la em meus braços, mesmo ela sabendo quem eu era.
*
’s POV on
Eu já estava acordada há algum tempo, mas não fazia qualquer questão de abrir os olhos. Não precisei apurar os outros sentidos para enfim sentir-me inebriada. Um braço forte prendia o meu corpo e um cheiro másculo e delicioso invadia os meus pulmões; uma pele quente encobria toda a região frontal do meu corpo. Tateei minha região inferior à procura de peças de roupas e acabei tocando onde não devia...
- OPA! Bom dia, . - ouvi uma voz grossa e brincalhona soar perto do meu ouvido. Dei uma risadinha fraca e o senti se aproximar.
- Eu estou vestida? - perguntei num sussurro. Seus lábios úmidos passaram a roçar nos meus, secos. Eu mal havia acordado e cogitava ainda estar dormindo, e sonhando. A sensação era extremamente gostosa, era de um êxtase irremediável. respondeu à minha pergunta com um som abafado propagado apenas pela sua garganta.
- HumHum - balançou a cabeça negativamente, sua boca estava pedindo para ser beijada. Deixei que meus olhos entreabrissem e a primeira imagem que consegui captar foi o seu rosto - geralmente sarcástico e prepotente - completamente angelical. Seus olhos fechados e seus cabelos bagunçados daquela maneira poderiam fazer uma adolescente alegar amor à primeira vista, e com razão. Sorri e passei a entrelaçar meus dedos em seus cabelos, alisando um pouco as extremidades do seu rosto. Logo não consegui mais resistir, iniciamos um beijo gentil e calmo que, por eu não conseguir segurar, logo se tornou mais veloz e agressivo. Virei o meu corpo a ponto de ficar por cima dele; senti-o sorrir durante o beijo e soltei seus lábios aos poucos.
- Bom dia, chefe. - disse com um sorriso tarado.
- Meu Deus, ela acorda faminta. - falou brincalhão, enquanto apertava a minha cintura. Segurou-me pelos cabelos e me fez aproximar o rosto do dele novamente, passando a delinear meus lábios com sua língua quente e fosca. Passamos um tempo apenas nos encarando com deslumbre, tentando absorver os últimos acontecimentos.
- Que estranho... - comentei sem querer, quase me arrependendo pelas minhas palavras.
- O quê?
- Sei lá, nós dois. Mesmo depois da festa... Eu nunca imaginei.
- Bem, eu não posso dizer o mesmo.
- O que você quer dizer com isso?
- Eu sempre imaginei. - disse com um sorriso sem graça. Nunca o vi tão vulnerável. Encarei-o com um olhar levemente confuso até mesmo pela certa confissão. Alisei seus lábios com a ponta dos dedos, apenas admirando sua figura calma.
- Eu gosto deste que estou vendo agora. Ele é diferente. - Claro que é diferente, , ele tá apaixonado por você.
- Isso é uma maneira '' de dizer que gosta de mim? - perguntou maroto.
- Talvez... - deixei soltar uma risada abafada.
- Então talvez deva exterminar com essas formalidades certo, ?
- Por obséquio. Mas como você deseja que eu o chame? zinho, -xuxu, meu bebê? - Perguntei virando os olhos e fingindo que falava com a minha mão. Ele gargalhou alto e colocou uma das mãos na minha nuca, puxando os meus cabelos rebeldes de um jeito possessivo.
- Acho que está bom. Apesar de que 'amor' não ficaria tão mal na sua voz. - Falou convicto e eu não pude deixar de soltar uma gargalhada sarcástica. Mudei de assunto antes que o clima pudesse ficar pesado e a gente começasse com uma DR sobre uma relação completamente indeterminada.
- Preciso ver que horas são... - falei e saindo de cima dele e me sentando na cama, colocando as pernas para fora. Abri os olhos com mais avidez e passei a observar o cômodo desconhecido em que me encontrava. Era tão grande que poderia ser confundido com um salão. No entanto, os móveis eram escassos e espalhavam-se de modo estratégico; vinham em cores escuras pelo quarto que tinhas suas paredes em marfim. Havia logo atrás de mim uma janela de vidro coberta por grossas cortinas em tons acinzentados; também um tapete de pele de urso arrodeando uma pequena mesa de centro logo a frente da cama; havia posters que viraram quadros esplendidos e uma coleção de CDs impressionante. Era tudo tão lindo...
- Onde eu estou? - perguntei virando o meu rosto para ele, ouvindo sua risada ecoar pelo cômodo.
- Eu estava esperando que você perguntasse isso. - riu novamente - Ontem você estava insistindo que eu a levasse para casa.
- Disso eu me lembro. E você é um cara muito chato. - ele me olhou assustado - foi mal, estava travado na minha garganta dizer isso - falei rindo e me aproximando novamente dele para abraçá-lo, enquanto ainda fingia estar atingido.
- Ok, deixe-me contar o resto da história, Srta . - disse rolando os olhos enquanto tentava se desvencilhar do meu abraço sem sucesso - se o acordo era sem formalidades eu vou começar a te chamar de Preguiça, ou Coala. É bem sua cara.
Soltei um pouco o abraço apenas para fazer com que minha boca tocasse na sua orelha.
- Eu sempre achei que era algo mais selvagem. - sussurrei em seu ouvido, fazendo-o arrepiar.
- Hm... Selvagem como?
- Não sei... - sussurrei novamente, descendo minhas mãos pelo seu tronco e arranhando sua barriga de leve - Provavelmente algo felino.
virou o jogo, ficando por cima de mim.
- Eu sempre vou te ver como uma sugadora. Uma Vampira. - falou rapidamente, antes de selar seus lábios nos meus sem qualquer pressa. Perdemos alguns minutos das nossas vidas trocando saliva e carícias, apesar de que na minha sincera opinião aquilo foi um ganho de vida. Não importava o espaço-temporal; nós nos beijávamos e era apenas isso que acontecia na minha mente, sem quaisquer indagações que poderiam me fazer sentir-me mal.
- Você não acabou de me contar o porquê de eu estar aqui - interrompi o beijo, e ele riu. Empurrei-o espalmando minhas mãos pelo seu peito, enquanto mordia os lábios. - Acabamos fugindo totalmente do rumo da conversa. Garoto levado.
- Ah sim... Então...
- Você não me levou pra casa.
- Claro, claro... Porque depois do segundo round no carro você simplesmente desabou. Então eu te levei para casa, cuidei de você e agora você está aqui, linda e saudável.
Quando ele terminou de falar eu já estava novamente saindo da cama, puxando os lençóis finos que se encontravam espalhados ali.
- Entendo. - disse vagamente, ainda deixando que aquele adjetivo soasse repetidamente em minha mente. 'Linda'. De repente a vida me pareceu tão menos... Insuportável. Sorri de lado para ele e levantei-me com o cobertor enrolando o meu corpo nu, mas não consegui completar a ação: A mão de me prendeu novamente à cama, puxando-me pelo braço.
- Onde você pensa que vai?
- Tomar um banho enquanto você prepara algo para nós comermos. - disse arqueando uma sobrancelha ameaçadora.
- E quem disse que eu vou fazer comida pra você? - apenas de ele voltar com aquele tom de superioridade eu pude me lembrar de que ele era o mesmo de sempre, tão simplesmente previsível.
- Então não o faça - dei de ombros, soltando meu braço de sua mão sem muito esforço. Levantei-me sem olhar para trás e dirigi-me a uma porta que me pareceu ser o banheiro. Já a pouco menos de um metro da porta, voltei a encarar aquela cama de casa; onde os olhos de me tinham atentos. Soltei um sorrisinho de canto de boca e deixei o cobertor cair pelos meus pés, explicitando toda a minha nudez. Eu não tinha tanta vergonha do meu corpo e tinha maturidade o suficiente para saber que homens, como , não se importavam com aquelas pequenas imperfeições que só eu e as vadias que me odiavam conseguiam ver. Para ele eu era linda, certo? Certo. Então eu o fiz sem hesitar, sabendo que o ambiente era claro e ele iria me ver por completo.
Enxerguei seu sorriso maroto - que eu achava encantador - abrir-se e então seu lábio inferior ser esmagado pelos próprios dentes. Os passos seguintes foram aquela porta adentro, e os momentos seguintes bem... foi o experimento de tê-lo na palma de minha mão. Mais uma vez.
Capítulo 7 - Recepção
- Alô? - perguntei com uma voz arrastada.
- Garota, onde diabos você está? está para ter um freak out! Você nunca se atrasa para a impressão...
- Nossa, eu estou realmente tão atrasada? Que horas são, pelo amor de Deus? - perguntei enquanto tentava me enxugar, prendendo o celular ao meu ouvido com o ombro.
- São 11 horas, . - ouvi a voz de Emily dizer com desdém. Merda, havia me atrasado demais. Era para estar lá há uma hora, dessa vez havia motivos para que quisesse cortar minha cabeça e jogar fora. Pensei bem, talvez aquela fosse o escape que eu tinha para esfregar na cara dele que eu sou humana e preciso dormir, descansar e comer; coisa que estava difícil de ser feita com ele me entupindo de trabalho.
- Damn. Ok, eu vou passar em ca...
- Nem pense nisso. Eu nem quero imaginar onde você está, venha já pra cá! - Emily exclamou - AGORA, . Estou sofrendo aqui, pelo amor de Deus.
- Tudo bem, tudo bem... Em quinze minutos eu chego. Beijos. - Cuspi as palavras e desliguei, passando a prestar atenção no que estava fazendo. De repente, duas mãos envolveram a minha toalha, e passaram a comandar o tecido fofo sobre meu corpo.
- Se enxuga direito, . - ouvi a voz dele soar rouca em meu ouvido. Dei uma risadinha meio desesperada.
- Que susto, chefe! - exclamei sorrindo e em seguida virando o meu corpo para ele. - é, agora não é mais , é só - fez com que suas mãos deslizassem pelo meu corpo, por cima da toalha, cobrindo-me numa cautela indigna de sua fama. Ou talvez fosse digna, já que sendo tão galinha e metido a 'putão', deveria tratar mulheres muito bem. Eu só precisava pensar nisso para cair na desilusão, a terrível e inevitável desilusão. Demorei um pouco para levantar meu olhar para ele e me arrependi de ter demorado; a visão que adquiri era a própria encarnação do doce e maravilhoso Deus Apolo. Dei de cara com um sorriso torto e olhos que brilhavam, ofuscantes; cabelos molhados que caiam em sua testa e lábios vermelhos, pelo contato com a água quente do chuveiro. Um sorriso involuntário fez meus lábios contraírem, e eu passei a enlaçar meus braços em volta do seu pescoço.
- Quem foi que ligou? - ele perguntou, encostando nossas testas e roçando nossos narizes.
- Hum... Foi Emily. Parece que eu vou levar uma boa bronca hoje, e com razão.
- Bronca? De quem? Por quê? - senti sua testa teimar em enrugar. Dei-lhe um selinho rápido e separei-me um pouco, passando meus dedos pela sua pele enrugada, tentando relaxar aquelas feições.
- Primeiro, relaxe. Quem devia estar estressada sou eu. - Ele sorriu - Assim está melhor. Bronca de seu sócio, , por ter me atrasado em mais de uma hora para comparecer à impressão da revista hoje.
Suspirei fundo e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, voltei a falar.
- Preciso que você me arranje roupas decentes. Uma calça jeans que eu possa cortar e uma blusa social que eu possa dobrar.
- ... Minhas roupas não vão dar em você. Vão ficar folgadas e grandes, suponho.
- Eu vou tentar fazer uma mágica. - disse, me desvencilhando de uma vez de seus braços, com um pouco de resistência. - Aproveite e me arranje uma tesoura.
me olhou assustado e começou a dar passos para trás em direção à um enorme armário.
- A maior calça que você tiver! Jeans escuro! - Pedi vendo-o se abaixar para abrir as gavetas, resmungando baixo enquanto buscava o que eu pedia. Dirigi-me e sentei em sua cama maravilhosamente fofa, alisando o lençol fino com a ponta dos dedos, procurando não me preocupar com o que me aconteceria assim que chegasse ao trabalho naquele dia.
10 minutos depois...
Encarava minha imagem ao espelho. A calça masculina havia sido cortada a ponto de formar um mini-saia; a blusa xadrez, vermelha e preta, foi dobrada, formando um blusão estilo country. Meus cabelos molhados haviam sido penteados para trás - paciência nunca fora meu forte -, e meu rosto estava limpo e estranhamente claro: sem orelhas, marcas de expressão, linhas que pudessem entristecê-lo. Meus pés estavam com os mesmo scarpins do dia anterior, negros e sujos.
Quando me virei de costas para o espelho, dei de cara com já vestido, parado, estático à minha frente com uma expressão boquiaberta. Vestido daquele modo sexy de sempre: calça, sapatos e blusa sociais - a blusa com os primeiros botões abertos. Aproximou-se de mim com um sorriso tarado nos lábios e sussurrou um 'uau' perto do meu ouvido, fazendo-me estremecer com o sopro do seu hálito quente. Beijei-lhe a bochecha, deixando escapar um risinho.
- Você vai me deixar lá? - perguntei me afastando e pegando minha bolsa, colocando-a sobre o ombro.
- Vou com você.
- M-mas não é necessário... É rapidinho que a gente faz a impressão e... - passei a me embolar com as palavras. Imaginei como seria quando , digo, Senhor nos visse de mãos dadas. As imagens eram catastróficas, principalmente aquelas que indicavam o mais rude, arrogante e exigente. Meu corpo reclamou com essa conclusão. Eu estava cansada demais, não suportaria mais aquela jornada estúpida de trabalho.
- Não vou atrapalhar, juro. Além do mais, se eu tiver lá, será menos chato com você. - disse dando de ombros.
- Isso se você não ajudar ele a ser insuportável.
- Bem... Desculpe-me por aquilo. É que você irritada fica uma... - aproximou-se e apertou minhas bochechas - gracinha!
Não controlei uma risada debochada.
- Ah, ótimo, que divertido encher o meu saco. WOW! - falei transbordando ironia, gesticulando com um sorriso sarcástico. Ele riu, e eu o fulminei com o olhar.
- Calma, , agora eu já encontrei outro jeito de achar você uma gracinha. - arqueei uma sobrancelha - Quando você sorri por minha causa. Quando seus olhos brilham de malícia e, principalmente, quando você está com vergonha... - abaixei a cabeça, sorrindo sem graça - como agora.
levantou o meu rosto pelo queixo, aproximando nossos rostos enquanto eu ainda tinha um sorriso bobo nos lábios. Beijou-me logo em seguida; lentamente, deliciosamente. Minhas mãos seguravam seu rosto e as dele dançavam pela minha cintura, subindo e descendo, apertando; logo aquelas mãos fizeram um trajeto malicioso, e meus braços apressaram-se em contornar seu pescoço, puxando-o mais para perto e fazendo-nos ofegar com um beijo mais rápido e selvagem. As coisas estavam começando a esquentar novamente quando algo tremeu entre nossos corpos.
- Merda. - Resmunguei, pegando o celular do bolso da frente da saia. Assim que o tive em mãos, ele parou de tocar. Uma mensagem recebida. Visto que a remetente era Emily, já imaginava o que estava escrito na mensagem, então simplesmente ignorei, colocando o celular dentro da bolsa. Levantei um olhar significativo para , inspirei o ar para reanimar meus pulmões ainda enfraquecidos com o beijo, e então murmurei:
- Precisamos ser rápidos.
puxou-me pela mão, guiando-me para fora da sua grandiosa casa. Sentia-me perdida vendo tantos cômodos passarem por mim, tantas portas, tão indiscriminadamente. Poupei elogios e até mesmo comentários, fazendo com que chegássemos à garagem em silêncio. O eflúvio incômodo de dióxido de carbono não me impediu de suspirar quando avistei uma Land
Rover LRX branca, reluzente por entre a pouca iluminação da garagem.
- Wow. - deixei escapar; completamente insana para alisar o capô daquele carro majestoso - É linda - Acrescentei, saindo do estado de choque e me aproximando vagarosamente do carro. Consegui tirar os olhos da Land Rover para reparar mais duas luzes que ofuscavam meus olhos: Um jaguar XF negro e uma Mercedes prata
dignas de um executivo prepotente e um rapper milionário, respectivamente. Estava completamente confusa: Como assim ele tem três carros divinos e eu ando de metrô? Que mundo injusto, pensei.
Virei-me para com meus olhos brilhantes e percebi que os seus estavam da mesma forma, e não era pelos carros. Não, o mundo não é tão injusto. Sorri para ele e ele retribuiu largamente, murmurando um 'obrigado' e passando ao meu lado, abrindo a porta da Land Rover. Com meus olhos dividindo atenção entre olhos tentadores e carros reluzentes, dirigi-me ao carro e sentei-me no confortável banco de couro. fechou a porta e correu, dando a volta pelo carro e entrando, fechando a porta e rapidamente colocando a chave na ignição, ligando o motor daquela maravilha terrena.
O ronco do motor soou como adorável melodia aos meus ouvidos, eu adorava a potência das máquinas. De todas elas. Inclusive de .
Suspirei e vi o meu chefe ligar o rádio e, com um controle remoto, abrir o portão da garagem; deu de ré e logo estávamos a caminho da Revista Music London.
O trajeto foi praticamente silencioso. Além do som do motor do carro, eu só ouvia outros dois sons: o rádio, que tocava novos hits; e o som da respiração calma de , que eu fazia questão de me concentrar para ouvir.
De repente, enquanto esperávamos uma das últimas sinaleiras até o grande prédio da Revista, rompeu o silêncio, sua voz um pouco afobada.
- Do que você tem medo, afinal?
Olhei para ele, que tinha os olhos fixos no horizonte. Seu perfil explicitava a seriedade de sua expressão, e também a intenção sincera daquela pergunta.
- Eu... Não tenho medo de nada. - respondi veemente.
- Mas você hesitou que eu viesse. Se você não quiser mais a gente... - suspirou - a gente simplesmente esquece o que aconteceu. Eu...
- Cala a boca, . Não fala merda. - disse franzindo a testa. virou o rosto para mim, relaxando seus olhos abundantes nos meus. - Eu não quero terminar com isso.
Minha frase pareceu um pouco infantil depois que a analisei novamente. Mas aquela era a verdade. Não queria me separar dele. Gostava dele, ele me fazia um bem imensurável; eu tinha criado uma dependência pelo meu próprio chefe. Que tipo de funcionária sou eu, relacionando-se de tal maneira com seu próprio chefe, envolvendo-se inconseqüente, como uma adolescente? Poderia ser ridículo, mas eu não iria abrir mão dele. E como uma criança birrenta, repetiria: Não quero, não vou, daqui ninguém me tira. Consciência, você não é minha mãe.
Os olhos dele ainda estavam confusos, as sobrancelhas juntando-se no meio da testa.
- Então o quê? - perguntou.
- Então o sinal abriu e tem gente buzinando. - interrompi a tensão da conversa, deixando que a realidade fora do ambiente me impedisse de falar algo impensado.
Talvez o momento mais tenso foi a guerra de palavras que se fazia na minha mente; eu tinha que saber falar as coisas sem que ele sequer cogitasse qualquer paixonite aguda pelo Senhor por mim (e vice-versa).
Assim que o carro estacionou, tomei ar; tirou a chave da ignição e antes que ele saísse do carro bruscamente - talvez batendo os pés - segurei seu braço com força, chamando sua atenção.
- Você se lembra do que o seu sócio fez comigo durante essa semana?
- Então ele é o problema? - interrompeu.
- Shhh... - coloquei o dedo indicador sobre seus lábios macios - Apenas diga 'sim' ou 'não'. - soltei seus lábios.
- Sim.
- Então você sabe que não foi fácil. Minhas energias estão esgotadas. Eu fiz o meu trabalho e o dos outros, entrava sete horas da manhã e só saia depois da meia-noite. Eu não dormi e nem comi direito. - suspirei - Do jeito que as coisas andam, se me vir arranjando tempo para namorar, vai usar o argumento de que também tenho tempo para trabalhar com mais eficiência. Não quero ser forçada a me demitir, por isso hesitei. Perderia não só o melhor emprego da minha vida, mas também a convivência com... - sorri - meu chefe favorito.
Tentei decifrar suas feições com o término do meu mini-monólogo; ele parecia entender, eu acho.
- Você... entende?
- Eu... - concordou com a cabeça - me desculpe, . Eu não sabia que as coisas andavam assim, não prestei atenção; não tive noção da seriedade. Desculpe-me. - disse com um olhar de clemência.
- Não sinta pena. Isso só foi o porquê de eu ter hesitado, só isso.
alisou meu rosto com o polegar, visivelmente preocupado.
- Entendo, claro. - murmurou enquanto se aproximava, beijando todo o meu rosto; bochechas, queixo, testa, olhos, ponta do nariz e, enfim, minha boca. Separamo-nos apenas pelo desconforto das posições. (n/a: Alguém está atrasada para uma certa reunião...)
- Não vou deixar que ele faça isso com você, Srta.. Não se preocupe.
Ele sorriu torto, fazendo-me relaxar completamente. Podia sentir meu corpo arrepiar-se, provocando um espasmo estranho, uma contração de meus músculos involuntariamente. Nunca vi sorrisos como aquele, capazes de mover músculos alheios, de relaxar, descontrair, apaixonar...
Perguntava-me durante todo esse tempo onde aquele se escondia. Por que ele não apareceu antes? Eu realmente precisava dele; aquilo tudo era bom demais para ser verdade.
*
- ALELUIA! - exclamou Emily ao me ver, logo arregalando os olhos por dois motivos: a minha roupa e a minha companhia. - Jesus Cristinho - ela murmurou perto do meu ouvido, entrelaçando seu braço no meu e me puxando para a sala de impressão. havia ficado para trás quando seu celular tocou; mandei-lhe uma piscada de olho e ele sorriu, mordendo o lábio inferior, enquando parecia não se importar nem um pouco com a voz do outro lado do telefone celular. Fui forçada a tirar meus olhos dele quando precisei medir meus passos, ou acabaria tomando uma queda daquelas.
Imperceptível à minha mente que ainda tinha imagens do sorriso do meu chefe favorito, meu mais novo arquiinimigo materializou-se à minha frente, com uma cara enfezada. Assim que os olhos de desceram minha roupa - às minhas pernas descobertas -, seu rosto pareceu iluminar-se num sorriso discreto e perverso. Logo aqueles olhos subiram aos meus, completamente sedutores e armados; quando ele comprou aqueles olhos, no rótulo com certeza tinha alguma coisa do tipo: "Olhos assassinos. Exterminam até a sanidade feminina." ou uma marca do Snoop Dog "Sensual seduction"; POR QUE ME OLHAR DESSE JEITO?
Graças a Emily, que havia jogado a revista em meus braços despreparados, voltei à órbita, folheando cada página, tentando - com todas as minhas forças restantes - prestar atenção no que lia.
- Bom dia, . - ouvi a voz de ecoar. As máquinas de impressão já estavam ligadas, e faziam um som importúno a quaisquer tipo de conversas.
- Dia, . - respondi - vou dar uma olhada nisso num lugar mais silencioso. - disse, dando as costas. Obviamente no mundo da lua, percebi que tanto como Emily me seguiam e eu andava meio sem rumo, apenas fugindo do barulho. Emily correu para o meu lado.
- Puta merda, você não recebeu a minha mensagem? - sussurrou, segurando meu braço e guiando meus passos.
- Recebi. - sussurrei de volta.
- E por que está aqui? - olhei confusa para ela. Seus olhos vinham fulminantes, preocupadíssimos.
- Não entendi.
- está prestes a...
- Hey, vocês duas, aqui no meu escritório. - disse , abrindo a sua sala e entrando.
Voltamos em alguns passos, entrando lá também. Sentei-me num sofá que encontrei e cruzei as pernas, finalmente me concentrando no que fazia. Sentia os olhares de fixados em mim - e o ignorava avidamente -, também ouvindo resmungos preocupados de Emily. Foco, foco...
- Bom dia, trabalhadores! - ouvi a voz de e apenas sorri, em completo desespero, sem tirar meus olhos das páginas da Revista, conferindo rapidamente as imagens.
Poucos segundos, e um peso surgiu no sofá de dois lugares; o peso beijou minha bochecha, sussurrou 'oi' no meu ouvido e eu não conseguia me segurar: Precisava ver a cara de .
Mesmo diante de um visual belíssimo, estava pasmo. Boquiaberto, olhos levemente arregalados, as mãos segurando mais fortemente a ponta da mesa de vidro em que encostava seu corpo másculo - a mesa de vidro gêmea a da noite passada. Levei meu olhar rapidamente a Emily, que tentava segurar seu riso com a mão e virava-se de costas rapidamente, para não ser descoberta. Eu via as narinas de inflarem como as de um dragão e seus lábios estavam crispados.
- Qual é o problema, ? - apressou-se em perguntar.
Eu tentava inspirar o ar, mas tudo que sentia era o cheiro entorpecente do perfume de e aroma hilariante que vinha da reação - não sei se esperada ou inesperada - do . E agora, o que ele faria? Se tentasse colocar mais trabalho em mim, impediria, como prometido. Se falasse alguma coisa sobre relações intra-pessoais dentro da empresa, eu faria questão de jogar na cara dele que ele namora com uma redatora , conhecida como . Ele não tinha chances se não aceitar, e ficar calado, quieto, NA DELE.
Não sabia que deixar vir poderia se tornar uma idéia tão boa. Voltei meus olhos para a revista, esperando ouvir a voz de responder, fingindo-me de desentendida.
- Lembrei de alguns problemas, depois discutimos isso. - disse . O som das máquinas era o único ouvido por mim; o silêncio era claro e constrangedor naquela sala. Eu apenas levantei o olhar para trocar palavras inaudíveis com Emily, que solamente mexia a cabeça negativamente. Senti o braço de envolver o sofá por cima da minha cabeça, e virei a última página, finalmente terminando.
- Pronto, tudo O.K. - disse, soltando o ar de vez.
se aproximou e pegou a revista da minha mão, procurando não me olhar.
- Então, , qual é a sua histórinha sobre o seu atraso de hoje? - perguntou. Vi tomar ar para responder, então toquei a sua coxa de leve, chamando sua atenção e sussurrando um 'deixe comigo'.
- Eu estava dormindo, comendo, vivendo. Essas coisas que todo humano faz e você me impediu de fazer durante a semana. - Respondi com certa petulância, mas finalmente deixando que aquelas palavras se livrassem de sua prisão na minha garganta.
- Esse é um modo de dizer que você estava com o ? - ele perguntou, visivelmente furioso, mas com uma voz calma, cínica.
- Se você quiser interpretar dessa forma...
Vi abaixar a cabeça ao meu lado, escondendo seu risinho debochado. Por que ele estava rindo mesmo? O momento é tenso, o ar está pesado, é tudo cáustico, catastrófico, enlouquecedor!
Do outro lado da sala, Emily finalmente parava de querer rir - ela realmente me entendia! - e tinha a expressão mais do que séria. Eu tentei ler seu olhar, mas ela virou seu olhar e pegou a revista da mão de antes que ele começasse a amassar todo o nosso trabalho.
- Emily, pode começar a impressão. Vocês não precisam mais de mim e nem da , não é? - interrompeu o momento, levantando-se e estendendo sua mão para que eu levantasse. Segurei sua mão com certa cautela, tentando me equilibrar em pernas que tremiam.
Emily concordou com a cabeça e saiu em passos apressados, deixando-me sozinha com meus dois chefes. folgou a gravata e ajeitou os cabelos - bagunçando-os -, fazendo uma pose avassaladoramente sexy. Exatamente do jeito que ele fazia na frente da minha sala, com aquele sorriso, aqueles olhos estonteantes, aquela boca bem delineada... O que eles estavam fazendo comigo?
De um lado, abraçava minha cintura, exigindo os espamos pela sua presença sobrenaturalmente divina. Pelo outro lado, parecia ler minha mente, sabendo exatamento o jeito em que eu me derretia por ele, não, muito pior, sabendo que eu me derretia por ele. Equilibrei-me apenas quando coloquei meu braço ao redor da cintura de :
- Não, . Meu trabalho aqui é só esse, já podemos ir. - respondi e comecei a andar em direção a porta, quando senti para de se mexer. prendeu seu braço, impedindo-nos de continuar nossa jornada para um bom fim de semana.
- Sentem-se vocês dois. Precisamos conversar. - disse , fazendo-me arrepiar até a estrutura esquelética. Medo, dúvida, cheiro enebriante, força sobrenatural, homens divinos, chefes, relação, sexo, loucura, loucura, LOUCURA!
Capítulo 8 - Denominação
As palavras que eram proferidas pelos lábios finos de deixavam-me a cada segundo mais atordoada. Chegava a ser ridículo o que me propunha, e me impressionava saber que não mexia um músculo em contestação. Minha paciência aos poucos se esvaia, assim como a calma dos meus neurônios, aqueles responsáveis pelo tom de voz, principalmente.
- Não concordo. – disse rabugenta, ao cruzar os braços – Não sou social, não tenho o dom da palavra e nem sou Barbie para ficar sorrindo o tempo todo. Eu sou a design da revista, não estou apta a uma conferência e muito menos se deve a mim a responsabilidade de salvar a empresa. Por que você não acha outra pessoa para ir?
sorriu discretamente. Encarei suas íris brilhantes e não precisei me concentrar muito para perceber que ele tinha a resposta na ponta da língua. Logo, o olhar do arquiinimigo virou-se para (lê-se deus grego), que suspirou fundo e pressionou os lábios um contra o outro, relaxando os ombros e virando-se para mim.
- Nós confiamos em você. – disse , numa tentativa muito das espertas de me desarmar – Você é inteligente, atraente, e capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
- Pode me chamar de multifuncional também. Máquina multifuncional. Eu ganho a mais por isso, por acaso? – resmunguei irritada.
riu baixinho balançando a cabeça, e a bola de ‘Vamos convencer a ’ passou para .
- Quando você fala de arte e música, , seus olhos brilham. Você se torna social, ganha o dom da palavra e fica muito pior do que a Barbie, sorrindo sem parar. – disse .
- E é exatamente isso que nós precisamos nessa conferência em Nova York, . Precisamos de alguém que impressione, que faça com que os acionistas e investidores voltem a pensar na London Music como A revista, exatamente como antes. – acrescentou .
Eles queriam realmente me convencer a viajar para Nova York que, para mim, era uma cidade de fantasmas do passado, fantasmas que ainda me atormentavam; queriam que eu fosse lá, para uma tal conferência a qual faria a London Music voltar a ser a mesma, voltar com todo seu prestígio. Como faria isso? O que diria aos acionistas? O que poderia fazê-los vir? Só se eu fosse uma prostituta de luxo ou algo do tipo. Nesses momentos eu desejava ser poderosa como a Audrey Hepburn, ou como qualquer uma daquelas divas de cinema. Eu queria poder fazer aquilo tudo por eles, mas não sabia como. Antes fosse algo que eu soubesse fazer naturalmente, como desenhar, que por acaso era o meu ofício.
Definitivamente eu não era a pessoa que eles procuravam. Eu era aquela que eles desejavam, e não era para impressionar acionistas.
- , nós precisamos de você – disse , olhando-me nos olhos daquele jeito completamente encantador e sexy, que apenas ele era capaz de fazer. Não se voluntária ou involuntariamente, mas levei aquela frase a dois sentidos completamente distintos. – E acrescentando, eu não a considero apenas uma design.
Devido à ansiedade e ao turbilhão de pensamentos que faziam prós e contras na minha mente, passei a arranhar levemente meus joelhos descobertos, fazendo caminhos tortos, dispersa. Isso atraiu os olhos de que, ao meu lado, desceu seu olhar maliciosamente para a tensão das minhas pernas, inspirando o ar profundamente. Eu senti certo conforto com aquilo, era bom ser desejada, bom demais. Desejada e respeitada... Digo, esquecendo a parte do respeitada; suspirei fundo ao notar que finalmente havia chegado à minha conclusão.
- Só pode ser um complô. – falei finalmente, a testa franzida em desconforto. – Eu quero um extra por isso.
- Isso é um sim? – perguntou , e eu assenti, balançando a cabeça positivamente e rolando os olhos.
- Birrenta – disse , e eu notei sua voz muito próxima, sua respiração tocando no meu pescoço. Logo, senti seus lábios depositando um demorado beijo em meu pescoço e não demorou para que uma de suas mãos segurassem meu queixo e virassem para o rosto dele. Numa bipolaridade incrível, eu via o rosto dele com uma calma impassível. Decorava cada traço, cada curva, cada toque de perfeição; lia os poros da sua pele, os pontos de barba, as sobrancelhas desajeitadas. Os olhos e boca eram minhas perdições mais impuras, mais viciantes; eu podia passar horas apenas observando-o, e mais horas ainda beijando-o; talvez anos delirando nos braços dele. Acordando-me de meu súbito derretimento, pigarreou, mas não por isso eu ou paramos no que estávamos prestes a fazer.
Eu podia sentir meu ego gozar, o poderio vingativo havia o alimentado naquele momento. ia sentir a dor que senti quando o vi com , diversas vezes, até mesmo naquela festa. Ele ia ver que havia perdido para o Coringa: Era uma vez Gotham City, eu estava dominada.
Beijei suavemente os lábios de num selinho demorado, apaixonado, puxando o ar com mais força pelas minhas narinas. Mesmo com o aroma avassalador do perfume de , eu ainda sentia, longinquamente, um outro perfume, do outro chefe. Mais presente ainda, era cheirinho de vingança, tão deliciosa vingança. Segurei o rosto de para separar-nos antes que ele resolvesse fazer mais alguma coisa indecente na frente de , como um beijo de verdade. Eu ansiava por sua língua quente, mas não tardei a me afastar – com um breve sorriso – e voltar à posição normal.
- Pornografia – bufou e reclamou , abrindo uma gaveta em sua escrivaninha e pegando alguns papéis.
Por mais que tivesse saciada com uma vingança boba, no fundo do meu coração de neve e gelo, sentia certa clemência por . Mas ele merecia aquilo. Quem havia me tratado com tamanha arrogância e prepotência fora ele. Quem havia me feito de gato e sapato fora ele; quem havia judiado da minha paciência e do meu trabalho fora ele. Quem havia negligenciado os meus sentimentos e necessidades humanas, mais uma vez, fora ele. Era um merecedor de cada estocada de ciúme que poderia corroer suas células.
Olhei para e avistei-o sorrir bobo. Era engraçada sua expressão; principalmente para mim, que mal me acostumava com um divertido. Ele ainda me parecia como um muro, um grande muro; eu não sabia quem era ele, ou melhor, qual dos dois s que conheci era realmente ele. Tanto tempo com um chefe insuportável e algumas horas com um cara apaixonante, muito mais do que aparência e charme.
- Então, Srta. ... Já enviei à sua secretária as passagens de ida e volta. Serão três dias lá e, como agradecimento de nossa parte, digo, da parte da Music London, estamos oferecendo-a um dia de folga, onde poderá andar pela Big Apple sem compromissos.
- Obrigada por isso.
- É apenas política de empresa. – respondeu friamente.
- Obrigada, política de empresa. – agradeci brincalhona e vi esforçar-se para manter a pose. Diga-se de passagem, eu achava aquela pose dele bem insuportável.
- Você parte daqui a onze dias, ou seja, na quarta-feira da semana que vem. O resto das informações eu já passei para Jen e ela lhe passará mais detalhadamente.
- Tudo bem.
Alguns constrangedores segundos de silêncio permaneceram na climatizada sala, e eu encarava minhas mãos, só para não ter que subir o olhar para qualquer um deles. Assustava-me.
- E... não sabia dessa história não? – perguntei, lutando contra o ar sombrio e pesado que se instalava quando nós três estávamos juntos.
- Não, por isso que ele está aqui. – disse ríspido.
- Hum...Entendo. – falei baixinho. Juntando as informações acabei por notar que aqueles elogios feitos a pouco haviam sido completamente espontâneos da parte do meu chefe. Que... Meigo?
Faltei engasgar com o adjetivo utilizado. Não suportava relações melosas demais, palavras melosas demais. Grude. Eca.
Relaxei os ombros e então me coloquei melhor na cadeira, ajeitando a saia improvisada para baixo.
- Então é isso. Conferência, viagem na quarta-feira, informações com Jen. – falei pausadamente – Espera, eu vou sozinha?!
- Bem, nós ainda vamos decidir isso. Estou pensando em deixar Emily ir com você, mas não sei ainda, as despesas...
- Eu não quero ir sozinha. Eu não vou sozinha. Arranje-me companhia.
- Você não deu essa condição antes, agora já aceitou ir! – resmungou , sério.
- Aceitei ir, mas posso voltar atrás e recusar. A condição é essa e se você não quiser, problema é todo e completamente seu. – ralhei.
- Meu e do seu outro chefe. – ele falou com uma cara de superior.
- Seu e do meu outro chefe, exatamente. Trabalho é trabalho, não vamos confundir as coisas, não é, ? Afinal, você é que é o especialista nisso.
- O que você quer dizer com isso, ? – perguntou, a fúria transparecendo em suas feições.
assistia aquilo com certa dose de divertimento em sua expressão.
- Ora ora, mais dissimulação? Como então anda sendo promovida? Tenho certeza que não é pela excepcionalidade de seus textos. – disse, ainda querendo jogar na cara dele a semana passada, mas orgulhosa demais para tanto.
- Você está sugerindo que...
- Não estou sugerindo, , meu velho amigo. – interrompi-o – Estou afirmando, jogando na sua cara a mais pura verdade. Verdade não é uma coisa em que você esteja muito acostumado, não é?
- , controle sua mulher. – murmurou para , que apenas sorria.
- Ela não pertence a mim... ainda. Para quê controlar essa fera? Ela está me seduzindo desse jeito, não é ? – sorriu largamente – irritada e birrenta. Um amor de mulher.
“É que você irritada fica uma gracinha!” Recordei-me da sua frase hilária.
- Deixe fora disso. Você pode ser meu chefe e eu sua subordinada, mas eu não sou escrava e muito menos sou otária para não notar seu joguinho. E meu instinto capitalista me informa que você devia aceitar minhas condições se ainda quer ganhar alguma coisa com essa revista.
bufou fortemente, bagunçando os cabelos com uma das mãos numa atitude de desespero.
- Ok, , que seja.
Sorri vitoriosa.
- Mais alguma coisa, ?
- Senhor ...
- . – repeti, fazendo-o rolar os olhos em desaprovação.
- Não, minha cara , pode ir. – disse ele, frisando bem o meu apelido. Por mais que havia sido posto com certa ironia, eu ainda podia ouvir sua voz pronunciando meu apelido daquele modo carinhoso, cauteloso. Antes disso tudo. Também sentia-me estranha por estar invertendo os papéis, ora tratando bem e mal, ora tratando mal e bem. Apenas confundia-me cada vez mais.
Inspirei todo ar possível e soltei-o devagar, levantando-me da cadeira.
- E esses papéis, ? – perguntou, enquanto ainda levantava-se.
olhou para os papéis em sua mão e fez uma expressão de surpresa.
- Ah, sim, é claro. – disse – Estes são para você. – entregou-me uma leva – e estes para você, sócio.
Examinei os papéis que havia recebido e percebia que eram os folhetos da conferência, fotos e críticas sobre as passadas, além de orientações.
- Obrigada. – disse sincera com um breve sorriso nos lábios.
- De nada, . – respondeu baixinho.
Os próximos minutos que se sucederam houve uma das despedidas mais tensas que já participei e, salva pelo gongo (lê-se Emily), consegui sair de lá viva e inteira. Eu e descemos juntos o elevador até a garagem, e então eu notei que estávamos, digamos, seguindo os mesmos passos. Não tinha noção de quais seriam as próximas ações, principalmente quando estas se referiam a mim. Derrotando meu orgulho idiota e deixando de lá minha fome pelo controle da situação, perguntei:
- Chefe, posso saber onde estamos indo? – perguntei parando de andar. virou o rosto para mim, meio que me medindo; eu estranhei.
- Aqui em cima, . – disse rindo e acenando. Ele finalmente tirou os olhos do meu corpo para sorrir e olhar nos meus olhos. Perdi-me naqueles globos devastadoramente apaixonantes e sorri sem graça, retribuindo.
Ele veio para perto de mim, maroto, e segurou minha cintura com as duas mãos, puxando o meu corpo para o seu, forçando um choque mecânico que fez todas as minhas células tremerem; satisfeitas. Num processo antagônico se comparado ao outro chefe, este era capaz de fazer com que o ar dançasse feliz nos meus pulmões, e eu sentia meu sangue mais puro, mais limpo; sentia meu coração borbulhar. O outro era exata e coincidentemente o contrário: o ar não entrava, o sangue não pulsava e meu coração não dava qualquer sinal de vida; era como um choque epiléptico, estático, imóvel, inconsciente.
- Nós vamos para onde você quiser. – sussurrou em meu ouvido. Tirou os cabelos do pescoço, explicitando a pele lisa e vulnerável, deslizando seus lábios quentes e sua respiração descompassada por toda aquela extensão. Comprimi um gemido, apenas sendo capaz de suspirar pesadoramente, a boca semi-aberta.
- Hum... Eu estou com fome. – disse, tomando ar e me separando.
- Ah, claro... – ele disse, um pouco desapontado. Sorri levemente enlaçando meus braços em seu pescoço.
- Eu preciso de energia, meu caro chefe. Sem energia não há trabalho, certo?
sorriu malicioso e beijou-me com fúria, apertando meu corpo contra o seu com cada vez mais força. Coloquei uma das mãos sobre seus cabelos, puxando-os, guiando-o naquele beijo de tirar o fôlego. A língua dele invadia cada canto livre da minha boca; sua saliva me drogava, era calorosamente viciante.
Separamo-nos com certa resistência, ainda deixando nossos narizes tocarem-se e nossas respirações ofegantes fundirem-se. sugou demoradamente meu lábio inferior, finalizando com uma mordida leve, sorrindo daquele jeito galanteador.
- Eu acho que tenho um lugar para te levar. – disse, desvencilhando-se de minha boca e me abraçando de lado pela cintura.
- Que lugar? – perguntei, começando a andar em direção à sua divina Land Rover, meu braço rodeando sua cintura.
- Segredo. – disse colocando o dedo indicador sobre os lábios. O eco do meu salto batendo contra o concreto era o único som ouvido naquela garagem estranhamente silenciosa. Havia muito poucos carros estacionados, o que era plausível num dia de fim de semana ao meio-dia, visto que estávamos em um prédio comercial. Suspirei fundo, soltando o ar com força, relaxando meus músculos tensos.
- O que foi? – perguntou.
- Nada.
- Vamos fazer assim, eu vou te perguntar de novo e você me responde a verdade. – ele disse sério – O que foi?
- Nada que...
- , confia em mim. Eu não sou mais um monstro. – falou com as sobrancelhas clementes. Deixei meu olhar descansar no seu, procurando conforto.
- Eu só estava percebendo que hoje é fim de semana, há poucos carros na garagem e...
- É a conferência, não é? – perguntou-me, parando de andar. Seu carro já estava na nossa frente. Encostei-me no capô, baixando a cabeça. Será que pelo fato de eu ter mergulhado em seus olhos ele acabou por ler a minha mente?
- É meio problemática essa história, mas eu não queria conversar sobre isso. – sorri fraco – Diga-me, quais são seus planos?
*
As nuvens pairavam no céu, esse pincelado com seu cinza triste. O cheiro do mar – e dos sais ali dissolvidos - era extasiante, principalmente por se fundir com o perfume de , que estava ao meu lado. Estávamos em uma praia praticamente deserta; havia dirigido algumas horas para que chegássemos àquele lugar divino, e tenha certeza de que ele teve alguns vários problemas para me convencer a fazer isso, a vir aqui. Meu argumento ‘Eu tenho que trabalhar na segunda’ foi simplesmente vencido por ‘Eu sou seu chefe, quem manda sou eu.’ – e nada de pensar que para mim aquilo não fora bom. Um fim de semana numa praia com , my boss. Eu não me importava que ele tivesse sendo mandão e blá blá blá, para mim tudo estava ótimo; incrivelmente ótimo. O horário, bem, eu arriscaria umas cinco horas da tarde. O sol já não sobressaia às nuvens e logo ele não estaria mais lá, o dia escurecia; os postes da periferia já estavam ligados, iluminando as vielas que se faziam por entre o chão de pedras.
A água do mar era escura, esverdeada e mastigava dolorosamente as pedras, debatendo-se contra elas. Nessas pedras ante o mar raivoso estávamos sentados eu e ele; na mesma posição, pernas esticadas, braços suportando os pesos para que não caíssemos para trás. Meus saltos urbanos e os sapatos sociais do meu chefe estavam descansados sobre um pequeno banco de areia branca ali perto. Meus cabelos dançavam esvoaçantes, caindo em meu rosto; tirou os fios que ricocheteavam minha pele facial, forçando os dedos ásperos suavemente sobre minhas bochechas:
- Gostou daqui? – perguntou.
- É lindo – respondi, deixando um sorriso invadir meus lábios secos - Obrigada por me mostrar isso aqui. – acrescentei.
Enxergando-o com minha visão periférica, senti seu rosto virar para o meu.
- De nada – disse ele dando de ombros e voltando a encarar a paisagem. Suspirei fundo, deixando o ar limpo do vento frio e forte – que se debatia contra meu corpo – entrar em meus pulmões.
- Eu gosto desse cheiro. – comentei – de mar, de sal, de água, de palmeira... e de pedra úmida.
- Também gosto. – disse sorrindo, provavelmente surpreso com minha capacidade de distinguir tais perfumes – Costumo vir aqui aos fins de semana, sabe... Para espairecer.
Lembrei-me de que quase nunca comparecia à impressão da revista, então era aqui que ele vinha. Interessante.
- O único lugar o qual costumo sair para espairecer começa com P e termina com B, tem três letras.
- Pub?
- Garotinho esperto, você. – ri – Isso mesmo.
- Nem sabia que você costumava beber, é sempre tão politicamente correta. – disse , arqueando perfeitamente uma das sobrancelhas. Virei meu rosto para ele e passamos a nos encarar.
- A bebida me dá a felicidade instantânea e amigos, esses que nunca tive. – disse simplesmente, lutando contra a hipnose dos seus olhos – é só uma válvula de escape, mas não a uso muito frequentemente.
- Logo você? Digo... Eu vejo o pessoal do trabalho sempre procurando ser seu amigo...
- Não costumo confiar em qualquer um. – interrompi-o.
- Talvez seja isso que te deixe assim, sozinha.
- Talvez seja isso que me torne seletiva. – retruquei dando uma piscadela e voltando a encarar o mar selvagem. Via as ondas debatendo-se cada vez com mais força nas pedras, mas mesmo diante de tal provocação ambiental, eu estava impassivelmente calma, relaxada. Isso era evidente nos meus músculos faciais, estranhamente descontraídos.
riu alto e copiou o meu gesto, também voltando a encarar o mar verde e espumoso.
- Não entendi a risada. – retruquei.
- Você acabou de dizer que confia em mim e que eu não sou qualquer um. – disse em tom convencido.
Sorri sem graça, sempre me esqueço de ler minhas próprias entrelinhas quando estou com ele. Muito problemático, eu sei. Baixei a cabeça e mordi meu lábio inferior.
- Eu gosto de você – admiti quase num sussurro. – só não sei se isso é bom ou ruim.
Sorrindo largamente, virou meu rosto para si, segurando meu queixo com seus dedos gélidos. Logo sua respiração soltava um filete de ar quente perto da minha boca.
- Acho que agora você já pode dizer que a recíproca é verdadeira, ta no script. – sussurrei risonha, talvez um pouco nervosa também, mas não deixando transparecer.
- Intensamente v... – a fala de fora interrompida por uma grossa gota d’água que caiu no exato espaço entre nossas bocas. Ambos olhamos para o céu, deparando-nos com uma chuva orográfica digna do litoral inglês; uma chuva fraca e duradoura. A água fria reanimava espasmos corporais de ambas as partes e o vento havia se tornado um inimigo em nossas vidas. A camisa social de encharcava aos poucos, grudando em seu tronco másculo; e o mesmo acontecia com a camisa quadriculada que eu vestia.
Momento pós-insight, sorri maliciosa e passei a desabotoar minha camisa, levantando-me, explicitando minha nudez e o sutiã branco, o mesmo do dia anterior.
- O que você está fazendo, mulher? – perguntou-me confuso.
Não respondi, apenas sorri mais largamente, provocante, e mordi levemente minha própria língua, de um jeito maroto, moleque. Deixei que a blusa escorregasse pelos meus ombros, caindo pela minha cintura e puxando-a para fora do corpo. Vi a boca dele se abrir levemente num "O" perfeito e seus olhos brilharem em luxúria e tesão; não podia ser diferente. Era eu, uma mulher com apenas um sutiã branco molhado sobre seios jovens, um corpo molhado pela mais gelada água doce e algo o qual eu chamei de saia, cobrindo apenas o que tinha que cobrir (entretanto eu tinha certeza de que já imaginava que aquele pedaço de pano havia perdido sua utilidade).
Chamei-o com o dedo, fazendo-o levantar perigosamente perto do meu corpo – e vagarosamente.
- Sempre surpreendente – falou com sua voz sensualmente masculina. Que tipo de voz era aquela? Será que existia algo mais torturante que a completa hipnose de um Deus Grego? Um Deus louco por mim. Por mim, eu, . A designer, a funcionária, a nada mais. Adorável.
Os lábios de desenhavam os contornos da minha barriga e sua língua deslizava toda aquela temperatura impossivelmente gostosa por toda aquela extensão. Aos poucos se levantava, chegando ao meu colo e pescoço – depositando algumas mordidas aqui – enfim aos meus lábios, enfim em pé. Beijamo-nos com uma calma simples, as línguas se movimentavam em uma sincronia perfeita, como se ouvissem uma mesma melodia e dançassem conforme a música.
Aos poucos fomos largando as respectivas bocas, o frio estava cada vez mais latente.
- Tire a blusa também. – disse sorrindo enquanto nossos lábios ainda se tocavam.
- Por quê? – perguntou desconfiado.
- O calor passa melhor de um corpo pro outro se você tirar essa blusa gelada.
- Ah... – riu – entendo.
logo tirou aquela blusa (irritante) e chocou seu tronco nu com o meu, fazendo-me arrepiar e soltar um gemido abafado.
- Melhor. – disse em seu ouvido. Em questão de milésimos de segundos nossos lábios estavam colados de novo; minhas mãos passeavam pelas suas costas, vez ou outra descansando sobre a barra da sua calça; as dele estavam completamente indecisas, ele as deslizava facilmente por toda extensão possível do meu corpo. Sentia-o excitar cada vez mais, e o beijo não estava mais em uma melodia calma. Sugeria um rock como trilha sonora, ou uma daquelas músicas techno que estimulam pessoas drogadas a ficar mais doidas ainda.
- Acho que não ta funcionando muito. – interrompi o beijo, fazendo-o bufar.
- E você, por acaso, tem alguma sugestão?
- É claro, sou a melhor funcionária, certo? – sorri convencida – O plano B é usar atrito. Não sei se você me entende, mas atrito produz calor.
tinha seus olhos fixos no meu e um sorriso bobo nos lábios. Eu podia ler toda a sua mente, ele não precisou dizer nada. Soltamo-nos, catamos as blusas e sapatos e seguimos em direção à linda e adorável Land Rover. Por troca de olhares havíamos trocado a seguinte mensagem: Vamos testar a suspensão do carro.
Capítulo 9 - Amortecedores
- Aqui tá bom? – perguntou enquanto estacionava o carro em um lugar mais discreto. Olhei para os lados, analisando. Estávamos a poucos metros da praia, mas entre palmeiras mais densas.
- Aqui está perfeito. – eu disse, sorrindo maliciosa. – Agora vá para o banco de trás. – indiquei.
me olhou confuso, arqueando brilhantemente uma das sobrancelhas.
- Mandona. – reclamou. Eu ri baixinho e, com alguma dificuldade, passei para o banco de trás. Sentei-me, vendo-o me olhar com desejo. Minha situação já era bastante crítica, usava apenas o sutiã e o projeto de saia; talvez por isso, consegui a atenção de em tempo integral para cada mísero traço do meu corpo. Passei o dedo indicador em meus lábios, molhando-os com um pouco de saliva e passei a delinear cada traço do meu tronco: clavícula, seios, abdômen, entrada pélvica e enfim chegando ao botão do jeans. Encarei a face de , visivelmente assustada e pervertida. Seu corpo estava torto, virado para o banco de trás; com certeza aquilo lhe traria algumas dores no pescoço depois de um tempo. Tentei abrir o botão do jeans com apenas uma mão, sem qualquer sucesso.
- Acho que preciso de uma ajudinha aqui, chefe. – disse, transbordando a malícia e luxúria a cada abrir e fechar da boca, a cada mudança de entonação na voz. Eu estava sim um pouco nervosa, não tinha como não estar.
Era ali. Meu chefe. Eu nunca me acostumaria com isso; nem eu, nem meu corpo. sorriu largo e finalmente saiu do seu transe temporário para vir ao banco de trás. O banco era de couro, e reclamou um pouco da movimentação de dois corpos estranhos ali. Ele selou seus lábios nos meus com intensidade, com fome, e tratou de desabotoar o jeans em segundos, deslizando a saia pelas minhas coxas até os tornozelos, forçando-me a deitar no banco. Largou meus lábios para me encarar, completamente possuído, e então levantar uma das minhas pernas, beijando cada centímetro possível. Quando enfim chegou aos meus calcanhares, retirou a saia jeans e aproveitou para puxar de uma vez a calcinha:
- Dessa vez eu deixarei ela inteira. – disse sorrindo, lembrando da vez em seu escritório. Eu dei uma risada abafada.
- Acho bom mesmo. – forçou uma risada, encostando seu corpo ainda úmido no meu. Seu peitoral, com seus músculos bem definidos, tocou o meu tronco sem dó, retirando qualquer ar ou forma de vida de meus pulmões; o mundo havia parado na suavidade de um toque. Logo sua respiração forte pairou em meus lábios e eu o ouvi sussurrar:
- Mas isso não significa que vou te deixar inteira dessa vez. – Encarei-o aturdida. O que ele estava pretendendo? Que tipo de amortecedores terrestres poderiam suportar sua fúria sexual? Aliás, será mesmo que ele seria capaz disso tudo?
Sorri brincalhona e encostei minha boca em seu ouvido, levantando um pouco o corpo.
- E qual vai ser a primeira parte de mim que você vai arrancar? – perguntei, sentindo relaxar as feições do rosto num sorriso largo.
- Você descobrirá quando sentir. – respondeu convencido, antes de impactar seus lábios nos meus e ativar sua língua bem instruída para brigar com a minha, desafiadora. Beijávamo-nos numa intensidade impossível de se descrever; aliás, se pudesse fazer quaisquer comparações, diria que estávamos preparando uma fissão nuclear. A energia que passávamos um ao outro se tornava uma espécie de aura e sintonia; os gestos vinham como premeditados para nos despir e encaixar nossos corpos. Então, depois de não demorados segundos, já roçávamos nossos corpos nus e fazíamos jus às palavras selvagens trocadas. parecia realmente o chefe daquela vez e, por incrível que pareça, era exatamente esse papel que eu queria vê-lo exercendo naquele momento.
Meu chefe parou de me beijar, encostando nossos narizes. Minhas pernas já rodeavam sua cintura e seu membro jazia pulsando perto da minha intimidade, arrancando-me o ar e fazendo da minha postura ofegante. Era incrível como há pouco estávamos os dois morrendo de frio sob a chuva e, de repente, juntos, sofríamos de uma perda de água excessiva, o suor tomando conta de nossos corpos e o calor dilacerando nossas células (e também nossa sanidade). Aquele era o momento, a conjuntura iria começar.
- Testando a suspensão do carro, tomada 1. – disse baixinho, meus olhos já fechados e minhas unhas fincadas nas costas dele. Ouvi uma risada baixa de sua parte, sentindo-o aproximar o rosto do meu pescoço e posicionar-se devidamente. Juntei todo o ar que pude e o senti penetrar-me com uma selvageria insanamente gostosa. Não consegui suprimir um gemido alto, aquela sensação era divina e era realmente um cara que conseguia fazer essa sensação ser fora do normal; demais para o intelecto humano. Continuou com as investidas, alternando-as, e o carro movimentava fortemente com o impacto.
Em minha mente, nada de mais se propagava. Eu poderia fechar os olhos e a única coisa que podia ver era ele; o único som que podia ouvir era seu gemido sussurrado perto do meu ouvido; a única sensação do tato era da sua pele amaciando a minha, de seus pêlos eriçando, misturando-se com os meus, da sua respiração ofegante perto do meu rosto e das investidas poderosas do seu sexo no meu. A cada vez que sentia o ápice mais próximo, consegui distinguir outros sons e outros aromas, principalmente. Mas não envolvia quaisquer pessoas, era apenas o nosso cenário: o carro, a praia, as palmeiras, os amortecedores da suspensão, o banco de couro, a falta de ar.
Dotada agora de sentidos mais atentos, senti o cansaço apoderar-se do corpo de , tornando seus músculos rígidos involuntariamente relaxados pelo meu corpo e mãos. Toquei seus lábios num pedido para que parasse como movimento de vai-e-vem, deparando-me com seu rosto confuso e seus olhos desejosos atacando os meus. Levantei meu corpo vagarosamente e, em completa sintonia, fazia o mesmo, retirando seu membro extremamente excitado de dentro de mim. Não foram necessárias palavras para que eu o confortasse pedindo por confiança. Beijei-o numa calma inabalável e fui correspondida por lábios que tremiam – nervosos, talvez. Aos poucos fui ajeitando nossos corpos do jeito que tinha em mente. Logo, estava sentado e eu estava em cima dele, uma perna para cada lado, de joelhos, frente a ele; e beijando-o como se fosse a última coisa que faria em vida.
deixou seu corpo deslizar sobre o banco, entortando a própria coluna, aperfeiçoando a posição e encaixando nossos corpos perfeitamente. Enrosquei meus cotovelos em seu pescoço, entrelaçando meus dedos em seus cabelos enquanto tocava nossos narizes; eu já estava mais alta que ele.
As respirações ofegantes faziam da Land Rover uma espécie de vulcão em erupção; poderia ser apenas minha insanidade, mas eu podia jurar que havia visto fumaça pairando sobre o ar ao meu redor.
- Hm – gemeu , chamando minha atenção. Impulsionei os joelhos forçando meu corpo a se levantar. As mãos dele espalmaram em minha bunda, permanecendo ali. Toquei seu pênis com uma das mãos, posicionando-o em minha vagina, novamente colocando minhas mãos em seus cabelos. Ele depositou um beijo em meu pescoço, numa espécie de sinal afirmativo, então eu puxei todo o ar para os meus pulmões e dei início ao movimento de descida.
A penetração se fez lenta e deliciosamente torturante para ambos os lados. Cheguei a sorrir quando terminei o primeiro ato. tinha seus lábios semi-abertos, uma expressão insana de prazer. Mordi meu lábio inferior e iniciei movimentos de subida e descida em cima dele, rebolando em movimentos circulares que faziam com que seu membro tocasse em cada canto da parede vaginal, ele estava muito mais do que dentro de mim; assim senti a primeira parte de mim esvair-se: sanidade. arrancou a infeliz sanidade. Eu era louca, só podia ser. E continuava ainda mais louca transando com meu próprio chefe num carro, no meio do nada e pior: ficando por cima. Dessa vez, se o desempenho do sexo não fosse tão bom, a culpa seria inteiramente minha: Eu estava no controle. Um momento de reflexão: Eu estava no controle?
Podia sentir minhas células gargalharem maquiavelicamente. Que tal uma pequena ‘vingançazinha’ sexual? Não foi ele o cara que me deu o meu primeiro orgasmo de quase um minuto? Que tal se eu proporcionasse a ele o melhor de mim? Talvez agora não estivéssemos mais testando os amortecedores da Land Rover, os amortecedores seriam meus joelhos. Preparei meus músculos das pernas para o máximo desempenho e então joguei minha cabeça para trás, segurando o cabelo da nuca do chefe com mais força e acelerei os movimentos em velocidade máxima. Seu membro saía quase que completamente e entrava por inteiro; seus gemidos já eram silenciosos, não havia mais forças para propagar quaisquer sons. Ambos estávamos demasiados concentrados, eu, em lhe proporcionar o máximo do prazer e ele, em senti-lo em sua latência.
Fechei meus olhos a fim de concentrar-me mais ainda naqueles movimentos, como uma tentativa de descansar, ao menos, minha pobre retina. Fui surpreendida por lábios úmidos que deslizavam em meu colo aleatoriamente, esfomeados. Suas mãos então subiram às minhas costas e sua língua quente passou a tocar um dos mamilos enrijecidos. O som rouco da minha voz ecoou num gemido prolongado, porém interrompido por espasmos cada vez mais intensos e constantes do meu interior. Era incrível o poder que ele exercia sobre mim, parecia uma força de gravitação; temia que chegássemos a anular tal força e nos fundir de uma vez. Aliás, era exatamente essa fusão que os românticos apelidavam de amor, não é?
Cedo demais para chegar a qualquer conclusão.
alternava entre meus seios – talvez um dos seus hobbies – em chupões e sugadas, vez ou outra parando para respirar ou gemer alto devido à uma boa investida vinda de mim e dos meus amortecedores naturais. Eu sentia meu corpo se alterar com mais espasmos, cada vez mais potentes, fazendo-me fechar os olhos com mais força. parou de chupar meus seios para segurar-me pelos cabelos, puxando-me, e selando nossos lábios. Subi o máximo que pude com minhas últimas forças, os músculos das pernas já reclamando em desfalque, e desci tudo de vez, sem dó.
Senti o líquido dele jorrar dentro de mim sem pudor, forçando uma segunda reação: meu orgasmo. Ficamos em choque por um tempo, procurando sentir mais minuciosamente cada sensação proporcionada pelos corpos dotados do gozo. Pequenos choques elétricos alimentavam o pulsar das minhas artérias e um campo magnético de atração aproximava meu corpo ao toque dele, era inevitável. Meu corpo clamava por . Abracei-o em meio à sensação latente, talvez um pouco desesperada, e fui devidamente retribuída por aquelas mãos quentes, que deslizaram pelas minhas costas suadas, juntando com mais força os nossos corpos. Eu ouvia sua respiração diminuir aos poucos e deliciava-me com o cheiro másculo que seu pescoço exalava.
- Isso foi... – a voz dele irrompeu o silêncio - incrível.
Deixei que minha risada brincalhona ecoasse, afastando-me de seu pescoço ainda com um pouco de reluta. Sua expressão risonha me atacou, fazendo-me imprimir nos lábios um sorriso maroto.
- Eu sei. – disse, dando-lhe um selinho demorado. Quando tentei me afastar da sua boca, ele se aproximou de mim ainda mais, mordendo o meu lábio inferior como se me chamasse de volta para ele. O canto da minha boca coçou com mais um sorriso, este de satisfação. Beijou-me com mais intensidade, pedindo espaço para sua língua me invadir, porém os movimentos eram calmos, como quem descansa beijando. Realmente eu precisava descansar, me deixava extremamente exausta. Além de sono, eu tinha fome e certa necessidade de uma cama quente e uma noite bem dormida com minha cabeça deitada no peito dele.
Afastei-me vagarosamente e finalmente saí de cima dele, para o alívio da minha intimidade e dos meus joelhos. Nus em pêlo, estávamos sentados no banco de trás da Land Rover, um ao lado do outro, as cabeças erguidas para o teto. Os sons eram distinguíveis, tinha o mar que batia nas pedras, a chuva fraca que alisava os vidros, as nossas respirações que tentavam se acalmar e os nossos corações que batiam em descompasso, fortes e potentes.
- Acho que essa última, foi a tomada dois, não é? – perguntei com um sorriso malicioso.
- Um ponto para a Land Rover. Excelente suspensão. – disse rindo enquanto eu o acompanhava.
Nossas risadas esgotaram e logo entramos no transe momentâneo novamente. Olhei para o lado da janela, vendo as gotas de água doce escorrerem pelo vidro. Cada detalhe ao meu redor era facilmente notado por mim, principalmente detalhes vindo daquele ser ao meu lado, que tocava a pele quente do seu braço no meu; os pêlos da sua perna na minha, o suor do seu corpo misturando-se ao o meu.
- Heaven.... – cantei baixinho, virando meu rosto para ele, que já me encarava confuso. – I’m in heaven. And...
- My heart beats so that I can hardly breath. – ele continuou a música perfeitamente. Sorrimos cúmplices. colocou sua mão em minha coxa, a palma para cima; deixei que minha mão também descansasse ali e entrelacei nossos dedos. Um sentimento bom me invadiu, suspirei fundo e deixei minha cabeça encostar-se ao seu ombro, cantarolando a música com a boca fechada enquanto ele alisava meu polegar distraidamente.
Ficamos um tempo ali, apenas admirando a presença um do outro. Talvez estivéssemos trocando informações telepaticamente; o que eu sei é que, vez ou outra, ríamos sem motivo, era como se ele tivesse contado uma piada, nessa nossa conversa telepática. Os sorrisos e olhares eram cúmplices, os carinhos eram dotados de uma extrema cautela, um carinho que ninguém nunca saberá de onde surgiu ou como surgiu. Eu revia algumas cenas do passado, do rígido, do chefe em si, do galinha que ele costumava ser. Duvidava na possibilidade de aqueles olhos azuis pudessem ter saído da máscara de carrasco, por isso toquei diversas vezes em seu rosto, precisava me certificar de que aquilo tudo era verdade, era realidade. Era com certeza verdade e também com certeza o paraíso: Heaven.
- Estou com fome. – reclamei finalmente, sentindo meu estômago revirar pela terceira vez.
- Pra variar. – ele disse num tom brincalhão. Fuzilei-o com o olhar e ele fez cara de inocente, colocando as duas mãos para o alto. – Juro que também estou com fome, por favor, não me mate, eu sou jovem!
- Jovem? – perguntei. – E eu sou feia. – disse irônica.
- Bem que eu achei algo estranho no seu nariz... – ele disse rindo, logo se desculpando com um beijo no meu nariz. - Eu sou velho e você é linda. – sussurrou no meu ouvido. Sorri largo e depositei um beijo carinhoso em sua bochecha.
Procurei com os olhos a minha calcinha, a saia e o sutiã. Achei algumas roupas emboladas e supus que algum daqueles trajes poderia pertencer a mim. Passei por cima das pernas de para pegá-los e separei-os. Encontrei a saia e o sutiã juntos e a boxer dele. Joguei a boxer no colo dele e passei a me vestir, impressionantemente rápida. Eu sentia os olhos dele acompanharem meus movimentos rápidos para me vestir naquele lugar um tanto quanto pequeno. Quando acabei, olhei para ele que ainda me encarava.
- Não vai se vestir, velhinho? – perguntei com um sorriso sapeca.
- Não sei... Estou decidindo ainda. – ele disse, completamente disperso nas curvas do meu corpo feminino. Aproximei-me dele e toquei o seu pescoço, encarando algumas velhas marcas feitas por mim. Escolhi a mais fraca e ali calei meus lábios, sugando com destreza e finalizando com uma leve mordida.
- Me alimente e eu deixo você ficar nu. – eu disse indo para o banco da frente e catando minha blusa, começando a abotoá-la.
Puxei o retrovisor melhorando minha visão e assisti tocar o próprio pescoço e sorrir maroto, procurando o resto das suas roupas e vestindo-as devagar. Quando ele acabou, virei-me para olhá-lo, encarando minha visão de Deus Apolo encarnado.
- Velhinho gostoso, você viu minha calcinha? Não a acho em lugar algum... – disse, deixando meus olhos caírem para o chão do carro à procura daquela calcinha idiota.
- Agora eu sou gostoso? – perguntou desconfiado, fazendo-me gargalhar alto.
- Não, sempre foi. – eu disse e antes que pudesse abrir a boca pra falar qualquer coisa, interrompi-o – Não é pra ficar convencido, senhor . Agora vamos, me ajude a encontrar a calcinha.
- Você é mandona demais, sabia? – perguntou, segurando meu queixo e me forçando a encará-lo.
- Você se incomoda? – perguntei.
- Não... Na verdade isso até me excita. – sorriu, beijando-me no canto dos lábios. Sorri de volta. – E sinceramente, esqueça essa calcinha, facilite meu trabalho. Você não quer ver mais outra calcinha rasgada, não é mesmo?
Um pico de perversão subiu ao meu cérebro e deitou em minha língua, que não se segurou.
- E se eu sentir frio?
- Eu te aqueço. – ele disse tão pervertido quanto e, com um pouco de vergonha, voltei ao meu assento, endireitando-me e prendendo o cabelo de qualquer jeito.
Foram precisos alguns minutos de persuasão para que ele me forçasse a aceitar cinco mudas de roupa numa loja qualquer, dentro daquela cidade pequena. Eu não conhecia aquele lugar, mas ele me era extremamente aconchegante. As casas de madeira compunham o cenário perfeito para um filme de Natal; aliás, lembravam-me de um seriado: Men in trees.
Fomos à tal loja que ele mencionara e eu tive que escolher as tais roupas. A loja era de departamento, então consegui arranjar pijamas, calcinhas, sutiãs, blusas de frio, segundas-peles, jeans e um vestido de gala. Para que diabos um vestido de gala? Eu perguntei o mesmo a e ele apenas mencionou que sempre foi seu sonho me ver num daqueles. Eu concordei, tendo a plena certeza de que realmente havia arrancado a minha sanidade.
- Satisfeito, senhor ? – perguntei enquanto ele assinava o papel do cartão de crédito.
- Agora sim, senhorita . Venha, quero que conheça meu refúgio. – disse ele, pegando as sacolas com uma mão e com a outra puxando a minha, arrastando-me para o lugar ao qual se referia.
Eu já preferia guardar minhas belas interrogações. Era de fato bastante curiosa, mas o que faria? Enchê-lo-ia de perguntas até ele dizer que não iria me responder e desse a língua? Poupei-me disso. Respirei fundo e segui até a Land Rover, apenas obedecendo suas indicações.
- É aqui. – ele disse, sorrindo de orelha a orelha. Desligou o motor maravilhoso da Land Rover e saiu do carro, pegando as sacolas que estavam no fundo. A chuva já havia acabado, mas seus estragos ainda estavam presentes. Dali eu podia ouvir o som e sentir o cheiro do mar forte. A casa que ele me levara era pequena, de madeira, iguais àquelas que eu havia visto na cidade, só que muito menor e mais bonita. Parecia ter saído de um conto de fadas. vinha apressado com as sacolas e abriu a casa enquanto eu ainda estava em transe, meus movimentos lentos como de uma lesma. Ainda fechava a porta do carro enquanto ele já acendia as luzes da pequena casa rapidamente; eu apenas via seu vulto se movimentando com pressa.
- ! – gritou de dentro da casa. Logo o vi na frente da porta, fazendo sinal para que eu fosse lá mais rápido. Apressei um pouco meus passos, sentindo um frio tremendo, principalmente nas partes de baixo. Não estou me referindo apenas à minha intimidade, mas minhas pernas estavam completamente descobertas; e ainda por cima, os saltos urbanos faziam doer o peito do pé.
Assim que cheguei perto dele, envolveu seu braço em meu pescoço, por cima dos meus ombros e me levou para dentro de casa, fechando a porta.
Era tudo lindo e minimalista. A casa era realmente pequena, mas os móveis pareciam ter sido feitos para aquele lugar, encaixavam-se deixando o espaço perfeito para a circulação de pessoas. O cheirinho de madeira, sal e me fazia inspirar o ar com mais força, procurando sentir aquele cheiro maravilhoso dentro de mim.
Havia um pequeno sofá de veludo, num estilo de namoradeira, vermelho-sangue. Ao lado, estendiam-se algumas poltronas reclináveis e à frente uma pequena mesa de centro, com alguns porta-retratos e objetos de decoração em cima.
Quadros prendiam-se ao lado de lindos alabastros dourados. Era tudo realmente belo. Uma escadinha de não mais do que três degraus levava-nos à cozinha e à sala de jantar, que se fundiam em um só. Os balcões da cozinha formavam um L e eram de uma madeira escura que parecia ter sido banhada a bronze. Dessa mesma cor também vinha a mesa quadrada a poucos metros, apenas quatro lugares e cadeiras com almofadas que, de longe, pareciam extremamente fofas. Eu tocava quase tudo que via completamente boquiaberta. Para um conquistador como ele, eu esperava algo, no mínimo, parecido com sua casa. Majestoso, moderno. Aquilo parecia ter sido construído há muitos anos e que apenas fora levemente modernizado com os aparelhos eletrônicos; como a televisão de plasma que fazia um contraste imenso com o resto da casa.
- À direita – ele apontou – o banheiro e a dispensa. À esquerda – apontou para o outro lado – Nosso quarto e o quarto de hóspedes.
Momento de reflexão: Nosso quarto?
- É tudo lindo demais, . Eu estou impressionada, tem certeza de que isso aqui é seu? – perguntei divertida. Ele riu.
- É claro que é meu. Eu sou velho, lembra? – disse rindo. Era engraçado que ele dissesse que era velho, eu sabia que ainda nem tinha completado seus trinta anos. Eu ri e me afastei de seu braço, indo até uma das cadeiras da mesa de jantar e sentando.
- O que vai ter pra jantar, chefe? – perguntei sorrindo.
- Eu estava pensando em... – pôs-se a pensar - gosta de fondue?
- Amo.
- Então acho que temos o nosso cardápio, minha jovem.
Era meia noite quando finalmente olhei para o relógio. Saí do banheiro com meu mais novo pijama, mais ridículo impossível. Era uma camiseta gigante e tinha o Bob Esponja na frente, brincando de caçar água-vivas. Saí do banheiro com a cara amarrada, os braços cruzados.
- Estou me amaldiçoando por ter deixado um VELHO escolher meus pijamas. Você foi um pedófilo na última encarnação, eu tenho certeza. – disse resmungando e sentando na macia cama.
- Você ficou uma gracinha nesse pijama. – Ele disse sorrindo, saindo de sua antiga posição, deitado e olhando pro teto, para me abraçar por trás.
- Gracinha, gracinha... – resmunguei – era só o que me faltava.
ria, dizendo que quanto mais nervosa eu ficava mais gracinha eu parecia. Depositou beijos em meu pescoço que me faziam arrepiar, mas ainda não consegui ceder à ridicularidade daquele pijama. Parecia que eu tinha voltado aos meus doze anos. Infernais doze anos. Infernal passado. Merda.
Levantei-me da cama num impulso rápido, fazendo com que tomasse um susto.
- ... – tentou dizer, mas eu o interrompi colocando um dedo em seus lábios. Coloquei as duas mãos na barra do pijama e levantei-o de vez, deixando-me vestida apenas com uma calcinha preta normal – isso porque fui eu quem a escolhi.
- Pijama idiota. – disse, jogando aquele Bob Esponja para longe. – Chega pra lá. – falei com a voz autoritária. Tirei os edredons, deitando-me na cama e me cobrindo. Contei exatos seis segundos para que fizesse o mesmo, esperando que eu virasse meu corpo para ele. Sentia sua respiração tocar na minha nuca e seu cheiro me intoxicava cada vez mais. Ele se mexeu um pouco na cama para desligar as luzes, deixando um breu naquele quarto. Sua risada fraca fora ouvida por mim, fazendo-me sorrir também e virar para ele. - Chefe... – chamei-o em um sussurro.
- Hum. – respondeu num murmúrio.
- Você prometeu me aquecer, certo?
- Sim.
- É que eu estou com frio – sussurrei com uma tentativa de voz sexy. Não demorados segundos, já estávamos completamente enroscados, beijando-nos com ardência, rolando pela cama. - Chefe? – interrompi o beijo. estava em cima de mim, tinha um braço em cada lado da minha cabeça, eu estava praticamente enquadrada naquela posição.
- Sim?
- Será que a cama também tem bons amortecedores? – perguntei, fazendo-o rir baixinho perto do meu ouvido. Mordeu o lóbulo da minha orelha.
- Vamos testar... – sussurrou. Se continuasse daquele jeito, eu já não sabia lhe dizer o que poderia acontecer; previsões para romance ardente, romance amoroso, sexo sem compromisso, sexo com compromisso, troca de favores, amizade colorida... Infinidade de futuros para nós dois. No entanto, não havia nada melhor a fazer senão aproveitar o momento e o momento agora é de, bem, melhor não comentar...
Capítulo 10 - Confusão e Romantismos
Eu estava, mais uma vez, encrencada em lençóis quando aqueles infelizes devaneios cessaram. Abri os olhos em desespero, deparando-me com as costas nuas e levemente musculosas de . Meu coração batia com tamanha força sob meu peito; era impossível controlá-lo. Minha respiração era descompassada, louca; eu tentava inutilmente me acalmar e fechava os olhos com força, procurando fazer com que a dor se dissipasse. O pesadelo parecera tão real. Eu ainda podia enxergar as ruas de Nova York passando rápido pela janela do carro, onde eu e ele estávamos. Aquela cena se repetira várias vezes. O fogo era sentido pelos meus pulmões, que reclamavam da fuligem e do gás carbônico excessivo, sufocando. Tudo fora tão rápido e tão incrivelmente doloroso...
Com cuidado, retirei lençóis e edredons que me enrolavam, passando a cobrir mais o corpo do meu querido , impedindo-o de sentir frio, possivelmente, com a ausência do calor do meu corpo. Os raios da aurora reluziam forte por sobre a cortina espessa, o amanhecer me chamava para conhecê-lo. Estava com um sono implacável, mas morria de medo de que, se fechasse os olhos, voltasse a ter aquele infeliz pesadelo. Eu não agüentaria mais um segundo. Percebendo estar nua, procurei pelo chão aquele pijama podre do Bob Esponja, sem sucesso. Comemorei um pouco por não tê-lo encontrado; deveria ter voltado ao inferno, onde pertencia. Coisas felizes demais ainda me assustavam. , deitado naquela cama, com tal calma, assustava-me. Diferente da tristeza, a felicidade assusta qualquer um. Você não fica surpreso por estar triste; a não ser que seja alguém sou-feliz-all-the-time que quando fica triste quase comete suicídio (Se você está nesse estado, meu filho, volte ao seu planeta natal).
Admito ser alguém que não sabe ainda o sabor da felicidade, da satisfação. Aliás, eu até sei. Satisfação sexual, serve? Sem mais delongas, eu admito a mais pura verdade: Fui triste a maior parte da minha vida. Mas será que agora vinha a felicidade? era maravilhoso, eu sabia. E a cada dia, a cada surpresa, a cada beijo, a cada toque, a cada olhar, a cada troca de palavras... Enfim, romantismos à parte, gradativamente ele me parecia mais perto da felicidade. Eu vou ser feliz?
Procurei alguma roupa daquelas que havia comprado para mim, mas não me interessei por quaisquer. Por isso, abri o armário dele e procurei por uma daquelas camisas largas masculinas, com cheiro de perfume francês. Avistei algumas coisas estranhas lá, mas estava sonolenta demais para me pôr a bisbilhotar; o faria mais tarde. A blusa escolhida era amarela e batia nas minhas coxas, por isso necessitei de uma adorável boxer negra, confortável à minha intimidade, devo acrescentar. Na blusa, havia palavras ‘Dig If u will the picture’, as quais eu logo reconheci como da música When the Doves Cry, do Prince. Música bem velhinha. é velho. É, combina com ele.
Ligando em meus lábios um sorriso leve, dirigi-me àquelas cortinas e ali me escondi, observando a aurora do dia, que já se fazia com a presença de algumas nuvens acinzentadas.
E então, em meio aos meus pensamentos, aquele pesadelo retornara e assim vieram meus problemas. Chega a ser engraçado como os problemas do passado, aqueles que você enterra cuspindo, voltam na primeira oportunidade; são insistentes, incontroláveis. Ralhei um pouco contra o vidro da janela, espalmando minha mão ali e sentindo o frio me tocar. As cortinas cobriam meu corpo, eu havia me infiltrado nelas, apenas para sentir melhor o paraíso gelado que se fazia do lado de fora.
Eu sei que estava sendo errada, fugindo sempre, mas já havia virado rotina. Se o mundo vira as costas para você, você vira as costas para o mundo. Timão me ensinou isso e eu aprendi perfeitamente. Só não tem ninguém para provar isso, só consigo provar o infeliz fato de estar sozinha. Sim, eu sei que está deitado naquela cama e nas diversas vezes em que havia me possuído, fez sentir como se pertencíamo-nos mutuamente. Era como se houvesse dois de um só. Há quanto tempo estava com ele? Dois dias? Não poderia tomar decisões precipitadas. Eu ainda estava sozinha, como sempre. A solidão me persegue...
Já sentindo possíveis lágrimas brotarem em meus olhos, ergui a cabeça, como se as tivesse engolindo; solitária sim, mas eu não me conformaria em ser triste. Não me conformo e nem devia.
Inspirei o ar doce e voltei a encarar a paisagem na janela. Os raios de sol já surgiam altos pelo horizonte. Parecia que o mar trazia o sol, como se o abraçasse em despedida. Eu assistia a aurora do dia com um sorriso fraco nos lábios, ainda havia esperança residindo em meu corpo, exigindo paciência. Não tinha a mínima idéia de quais seriam minhas reações ao respirar o ar da Grande Nova York, mas talvez fugir não fosse a opção; eu só precisava esquecer o passado e viver o presente. Presente como aquele que se deitava na cama aquecida, enrolado entre lençóis macios, respirando pausadamente em seu sono mais profundo. Mesmo com o sol inteiro acima do mar, demorei a acreditar que iria dormir sem pesadelos e só me senti segura quando ouvi o canto dos pássaros, a natureza me dando forças. Saí da janela cautelosamente, fechando as cortinas com cuidado para que não iluminasse demais o cômodo e acabasse por acordar o adormecido.
Voltei à cama, deitando-me ao lado de e encarando seu rosto sereno. Cobri-me com os lençóis, apenas deixando o edredom de lado, aproximando meu corpo do dele o máximo possível; encaixando nossos corpos e fazendo com que o calor transitasse com mais facilidade. Eu senti a respiração dele tocar meu rosto, ventilando, e inspirava aquele ar intoxicado, perdendo-me em meus mais oníricos devaneios. Sua pele de alabastro agora podia ser enxergada por mim, devido à luz que já invadia o quarto sem permissão, atravessando as espessas cortinas, eu me deleitava em cada traço daquela bela pele. Senhor , tão completamente airoso... Pensava eu, fixando meus pensamentos nele, jamais teria pesadelos. Esperei estar certa. Meus olhos coçavam insistentemente, e se debatiam contra a minha força de vontade, eles queriam se fechar, descansar; mas como eu poderia relaxar? E se aquelas imagens voltassem?
Naquele momento eu cheguei à mais óbvia conclusão: Eu não queria ir à Nova York, não queria mesmo. Eu não sairia daqui de forma alguma a não ser... a não ser que fosse também. Eu preciso dele. Minha dose dele deve ser diária ou toda minha aflição retornará. Para onde mais eu irei? O que mais eu serei? Para quem mais terei de mentir, enganar, subornar?
Esconder-me. Refazer-me. Eu não tinha mais forças para isso. E Emily, com quem tive uma amizade tão verdadeira? E , meu Deus? Eu ainda tinha um apreço por ele; algo me dizia que aquele cara, meu chefe, guardava algo para mim. Entretanto, não era como . Eu sabia disso. E se ele viesse a confundir as coisas, eu iria repeli-lo. Por mais que aquilo viesse a machucar meus sentimentos e, principalmente, machucar o apelo que meu corpo sentia diante ao dele. Eu me privaria. E isso doeria. Acho que já estou suficientemente acostumada com a dor...
Desejando que meus pensamentos catastróficos cessassem, adormeci; e a última coisa que senti foi o braço de me trazendo para mais perto de si, acolhendo-me, forçando-me a inspirar o perfume másculo que seu peito exalava, inebriando...
A Narradora informa: Apresento-lhes, caros leitores e leitoras, o ponto de vista de alguém que vocês já devem conhecer. Dona de cabelos louros e olhos escuros, de uma mente limpa de preconceito, de uma facilidade em transpor, em palavras, os sentimentos alheios; trago-lhes Emily Summers. Ela vai ser nosso terceiro olho na estória de Boss. Talvez, seja de conhecimento de vocês, leitores, que esta fic não é apenas pornografia. Emily vai mostrar a vocês o sentimento de cada personagem dessa história, de cada traço e desenlaço de suas vidas; com esse cruzamento de desejos, sentimentos, amizades e paixão. Dêem as boas-vindas à Summers.
Emily’s POV on
- Mas por quê? Por que você está fazendo isso? Eu ainda não entendo! Se me disseste que a ama, que gosta dela, por que fez tão mal a ela?
- Eu nem sei direito, Mily. – disse desapontado. – Mas você viu o que ela fez? Ela não se importou! Isso é o que mais me deixa chateado. E agora ela está com e, pior, parece tão feliz. Eles têm aquela cumplicidade... Porra, Emily.
Estávamos sentados nos bancos esverdeados da Starbucks. à minha frente, os cabelos sendo periodicamente bagunçados pelas mãos nervosas; sua expressão tão extremamente em agonia, transmitindo à mim, sua melhor amiga; e eu era capaz de sentir um aperto no peito.
- Calma, .
- E como? Como eles puderam fazer aquela relação em tão pouco tempo? Dois dias? DOIS dias?
- É incrível, eu sei. Mas devo lhe confidenciar de que diversas vezes eu ouvi o nome de pronunciado por . E vice-versa. – antes que pudesse abrir a boca para revidar, eu já havia começado a falar – Eu sei que antes era de raiva, de repulsão. Mas você já devia saber que, no fundo, aquilo era uma forma de aproximação. Quantas vezes essa história já apareceu em filmes de romance?
olhou para cima, pensando, e enfim encostou a cabeça para trás. Aproveitei a deixa para tomar um gole do frapuccino, molhando os lábios com calma, suspirando. Eu era aquela pessoa intermediária. Era amiga de , de e de . E eles eram tudo que eu tinha. Eu não tinha namorado, não havia me apaixonado como nenhum deles; não havia sofrido como ; não havia sido cafajeste como ; e muito menos tive uma vida regrada como a de . Eu apenas tinha um segredo e, juntamente a esse segredo, eu mixei um dever: Iria ajudá-los no que fosse. Meus três amigos.
- ? – ele voltou a encarar-me com seus olhos opacos e sem esperança – E ? Você ainda a tem.
- Eu pedi um tempo à ela desde a primeira vez que vi e juntos. Eu gosto muito dela para vê-la sofrer. Eu só preciso de um tempo pra pensar.
- Então... vá a algum lugar. Algum lugar que lhe faça pensar, e clarear suas idéias...
- Mily... Posso te levar a um lugar? – perguntou-me , os olhos extremamente pedintes.
- Mas... Amanhã...
- Nós voltamos ainda hoje, my friend. Confie em mim. Eu preciso te mostrar uma coisa.
Seguimos ao carro de , um daqueles carros de gente rica que eu não sei dizer de onde veio, como veio, qual a marca ou qualquer outra coisa. Só sei que era grande e azul-marinho. Ele ligou a ignição e começou:
- Lembra da brincadeira que fazíamos quando éramos pequenos? Quando eu e descobrimos o seu segredo, naquela casinha de praia?
- É claro que lembro – eu disse sorrindo – Eu e mudamos um pouco aquele lugar, depois de demolirem; mas ainda se parece muito com o que tínhamos na infância, apenas reformamos. Usamos como refúgio. – deu partida ao carro e começou a costurar entre os poucos carros naquele dia de domingo. – Nem sei por que nunca te levamos lá...
- Talvez seja porque, desde que eu me lembre, aquela casa tem dois quartos. – Eu ri. – E eu já decretei que nunca dormirei ao lado de nenhum de vocês, ninfomaníacos.
deu uma gargalhada.
- Uma pena, uma loira gostosa como você na minha cama não me faria mal. – brincou e eu bati em seu braço, enquanto ria.
- Cala a boca, . – disse revirando os olhos.
Hot Boss ’s POV on
Eram exatas 2 horas da tarde quando consegui convencê-la a entrar no carro novamente. resmungava insistentemente de que não queria viajar, que adorou aquela casa e que pertencia ao seu 18º sono, naquela cama. Eu simplesmente achei hilário, arrastando-a pelo braço. Fiz com que ela vestisse alguma coisa por baixo, já que ela havia se apoderado das minhas roupas, e ela acabou vestindo um jeans e um casaco (meu) por cima, roupas que não combinavam. Digo isso porque em todas as vezes que a vi em minha vida, suas roupas combinavam com tudo; fosse com seu corpo, com o momento (pode levar para o lado da malícia), com sua personalidade. Ela estava com uma blusa em que eu estranhei muito ela tê-la escolhido; era amarela e tinha um trecho de uma música velhíssima, eu duvidava que ela conhecesse. Não que ela fosse tão mais nova que eu, mas mesmo quando eu ouvi essa música, era pré-adolescente, provavelmente era apenas uma criança.
resolveu se jogar no banco de trás, dizendo estar morrendo de sono; ali se encolheu e fechou os olhos.
- Acorde-me quando chegar... – disse com uma voz manhosa.
- Espera, , antes que você desabe de novo...
- Hum?
- Por que essa camisa? – perguntei, logo ouvindo sua risada ecoar pelo carro. Enxergando-a pelo retrovisor, vi seus olhos abrirem e pousarem nos meus.
- You are not engaged in a kiss. The sweat of your body covers me. Can you, my darling, can you picture this? – cantou com uma voz que eu duvidei ter saído de sua garganta. Era afinada, feminina e... serena. Como ela jamais demonstrou ser, serena. Deu mais uma risada alta. – Pensa que eu não conheço Prince, velhinho?
Eu ri, ligando o som, ciente do CD que ali tocava.
Purple Rain, purple Rain!
gargalhou e virou de lado, voltando ao seu sono profundo, ao som do velho Prince que clamava pela chuva roxa. Suspirei fundo e acelerei para chegarmos logo ao nosso destino.
- Dream If you can courtyard, an ocean of violets in bloom… - sussurrei em seu ouvido, vendo-a despertar.
- Já chegamos? – ela perguntou, o cenho franzido.
- Sim. – disse, abrindo mais a porta de trás para que ela saísse. Desacostumada com o sol, tardou a abrir os olhos devidamente e se espreguiçou diversas vezes. - Não dormiu à noite?
- Tentei, velhinho. Mas você consegue me deixar acordada até quando está dormindo. – Ela disse sorrindo, enfim levantando e parando ao meu lado. Olhou para baixo e analisou as próprias roupas.
- Aqui aparece muita gente?
- Não, quase ninguém. – respondi, vendo-a dar de ombros e sorrir.
- E o que viemos fazer aqui? Aliás... Que lugar é esse? Sequer parece... real. – Sorri com o canto de boca. Aquele era o meu lugar preferido em todo o mundo. Lembrava-me, principalmente, de meus pais. Nunca havia levado quaisquer de minhas mulheres para cá, só mesmo Emily. Apesar de que Emily não é minha mulher, necessariamente. Ela é a melhor amiga; todo mundo merece uma Emily em suas vidas. Foi bom ter visto que e Mily se deram bem de primeira. Eu estava meio apreensivo com isso tudo. Emily conhecia todos os meus segredos, sabia minha vida de cor e salteado e, naquela época, eu ainda tinha como inimiga. Claro, ela era boa demais. O primeiro sentimento que você tem de alguém que é bom demais é de concorrência, mas era impossível concorrer com ela, impossível. Não porque ela era perfeita, mas, porque, há dois dias descobri, ela é meu encaixe. Ela é o que falta em mim.
Olhei para o lado vendo-a encarar deslumbrada a paisagem. Estávamos em uma montanha, bem acima do mar. O vento, mesmo frio, era banhado por um sol forte. As nuvens não eram capazes de nos alcançar, estávamos pouco acima delas. Pela primeira vez, senti a mão dela envolver a minha – e não o contrário – e o seu sorriso sincero desiludir minha masculinidade.
- Você me surpreende mais a cada dia. – ela disse, seus olhos fixos nos meus.
- Isso é bom. – falei, desvencilhando-me da sua mão e colocando meu braço ao redor de sua cintura. A cabeça dela caiu em meu ombro e ali descansou por alguns segundos, os quais eu viajei até o mais longe planeta procurando palavras que pudessem suportar significados para aquele momento.
Após aquele breve e maravilhoso momento em que estávamos em pé, sentamos em uma daquelas pedras e eu me lembrei de ter trazido material para aquele momento. Pedi-lhe um minuto e saí correndo para pegar as coisas no fundo do carro. Havia vinho de excelente qualidade que eu havia comprado no exterior e ainda uma tábua de queijos diversos, dos mais exóticos aos mais tradicionais. Meu pai costumava dizer que Vinho e Queijo conquistava as mulheres, menos a minha mãe, que era alérgica a laticínios. Ri com o pensamento, lembrando dos meus velhos. Peguei ainda uma mochila, na qual havia guardado algumas coisas para , coisas em que eu precisava que ela aceitasse usar.
Os olhos dela brilharam ao verem comida e bebida de tamanha qualidade sendo trazidas. Preparamos nosso lanche em cima da pedra e os silêncios que teimavam em nos separar eram preenchidos com suas risadas.
- De novo! – disse rindo.
- Vamos logo, puxe assunto, hiena. Eu não consigo mais rir, minha barriga dói! – eu tentava falar.
- Ok... Vamos falar de você, . – disse tentando ser séria. Demorei para voltar à minha expressão normal. Tomei um gole de vinho e pus alguns queijos na boca.
- O que é que cê qé xabê? – perguntei com a boca cheia e ela se segurou para não rir.
- Hum... Sua família, sua vida... Seus amigos. – disse pausadamente, enquanto brincava com a taça.
Engoli o queijo mal mastigado e enchi o copo de vinho, tomando-o quase todo de vez.
- Minha família: Meus pais morreram quando eu ainda era adolescente. Deixaram uma herança e o sonho da London Music. Então, eu fui para a casa de Emily, minha prima de sei lá quantos graus. A mãe dela me acolheu na época. Nesse mesmo tempo eu conheci o chato do . – sorri – Meus amigos: e Emily. Sempre. E minha vida, não é nada mais do que o que você já viu. É a revista, meus amigos...
- As vagabundas, as secretárias da revista, as mulheres que...
- Não precisa continuar, dona. – eu ri – Admito já ter sido um cafajeste.
- E não é mais?
Sequer me dei ao trabalho de responder. Olhei para ela daquele jeito que olharia para o maior presente da minha vida e sorri largo, balançando a cabeça negativamente.
- Isso é bom. – Ela riu. – Eu não sabia que você, e Emily são amigos há tanto tempo.
- Somos sim, amizade de ferro. Sabemos tudo um sobre o outro. Quando eu estava tentando montar a London Music, percebi que não sabia nada de administração ou sequer como começar. Foi aí que eu e nos tornamos sócios. Nós éramos unha e carne muito antes de qualquer acordo financeiro.
- Já imaginava – ela falou baixo, olhando para o horizonte enquanto bebericava seu vinho – Eu gosto de vocês três. São realmente pessoas boas. Digo, não mais um cafajeste, um senhor-certinho e uma super-girl. Vocês têm algo a mais. – ela sorriu – Eu sei que têm.
- Claro, não sou mais um cafajeste, sou seu namorado. – disse convencido, sem nem me importar com as conseqüências daquelas palavras.
faltou engasgar. Olhou para mim aturdida, procurando por respostas.
- Repete.
- Eu sou seu namorado. – repeti na cara-dura.
- Você, por acaso, pediu minha permissão?
- Não, eu só preciso pedir aos seus pais. Falando nisso, e a sua família? – pude jurar que depois dessa pergunta, o sol pareceu ter sumido das nossas cabeças. Tudo escureceu. Mas a verdade é que eu estava apenas perdido demais nos olhos de e seus olhos não me passaram muito mais do que trevas.
- Sou órfã.
- Ah... Desculpe-me. Meus pêsames.
- Faz muito tempo. Não sei se consigo sentir falta do que nunca tive. – ela sorriu sem graça – Mas, acho que não devemos falar disso. Você pode fazer a proposta à mim e eu me dou por satisfeita.
Eu sorri. Peguei a mochila e dei-lhe.
- Vá ali, naquela pequena barraca. Está abandonada há anos, mas eu cuido dela, ou seja, está limpa. Vista-se com o que está aqui dentro, por favor.
- , que invenção... – revirou os olhos.
- Por favor – pedi sério.
Ela assentiu. Beijou meus lábios rapidamente e, em silêncio, saiu. E, em silêncio, voltou. Silêncio suficiente para que eu não notasse que ela estava em minha frente, em cima da pedra mais alta. Quando olhei para ela, minha respiração foi fortemente afetada. O vestido de gala, aquele que havíamos comprado na pequena loja, caíra perfeitamente em seu corpo, moldando cada uma de suas curvas. Era vermelho, vermelho como o sangue; e o decote delineava seus seios, fazendo-os parecer mais fartos, atraentes e chamativos. Seu rosto não tinha sinal de qualquer maquilagem, mas não aparentava imperfeições. Os lábios estavam levemente abertos, levemente brincalhões. O cabelo era levado pelo vento, ricochetando seus ombros e costas. colocou uma das insistentes mechas atrás da orelha e sorriu para mim. Levantei-me enfeitiçado e fui em sua direção.
- Satisfeito, chefe? – Ela perguntou. Calei seus lábios com o beijo mais apaixonado que pude lhe proporcionar. Aquele vento muito forte me dava uma sensação de que estava voando, não já bastasse os lábios desejosos e a língua esperta na qual me deleitava e confundia os sentidos.
Afastei apenas os nossos lábios, ainda deixando nossos narizes em contato.
- Senhorita . Teimosa, risonha, inteligente, orgulhosa. Mulher mais linda que já conheci. Mulher mais petulante com quem já lidei. – sorrimos – Aceita namorar comigo?
- De acordo com as circunstâncias, senhor ; Impaciente, esperto, sem-vergonha e... – ela passou um tempo pensando, seu sorriso abrindo malicioso em câmera lenta. Desencostou nossos narizes e voltou com sua resposta em meu ouvido – e bom de cama. Homem mais lindo que já conheci. Homem mais irritante com quem já lidei; Sim, eu aceito namorar com você.
...
Passamos um tempo absorvendo nosso namoro, conhecendo um ao outro com jogo de perguntas e respostas, brincadeiras bestas ou simplesmente conversando. Estava escurecendo quando a vi bocejar e dizer:
- Chefe...
- Sim? – Estávamos deitados sob as pedras. O vinho acabou. O queijo também. Tínhamos apenas um ao outro.
- Você acredita em amor à primeira vista? – perguntou, virando-se para mim. Estranhei a pergunta e franzi o cenho. – Assim, duas pessoas se virem e, de repente, amor?
- Não sei... O que você pensa sobre isso?
- Eu acho que é impossível amor à primeira vista. – ela disse, fazendo com que eu me assustasse e virasse para ela, extremamente confuso.
- Impossível? – perguntei.
- É. – respondeu convicta.
- Mas... Por quê?
- Claro que isso é apenas minha opinião, mas faz sentido. É que eu acho que as pessoas não têm noção da intensidade dessa palavra, amor. Todo mundo diz ‘Eu te amo’, como se fosse normal, simples. Eu vejo pessoas esperando anos por essas três palavras e são tão facilmente enganadas por outras que não dão a mínima. É fácil falar que ama. Eu acho que as únicas pessoas que podem dizer o que é o amor, são aquelas que convivem à longo prazo.
- Faz sentido. – pensei alto – Mas e o amor materno? Mães não amam seus filhos incondicionalmente?
- Eu pensava bastante nisso. Agora vejo noticiários, informando que mães abandonam seus filhos. Não têm amor certo, assim. E também não é certo comparar o amor maternal com o fraternal, paternal, conjugal.
- Você me parece ter pensado bastante no assunto. – Ela sorriu envergonhada e voltou a olhar para o céu. Fiz o mesmo. – Eu nunca pensei que pudesse me apaixonar assim. Eu já tive todos os tipos de mulheres que me foi possível, mas nunca me senti satisfeito o suficiente. Dói dizer que nunca amei.
- Eu já.
- Sério? – perguntei, já sentindo o ciúmes voltar a corroer meu coraçãozinho e ferir meu orgulho.
- Há tempos. Mas não era correspondida. Além do mais... – virou-se para mim – eu também nunca namorei.
- Que revelação! – disse assustado – Mas como diabos uma mulher linda como você jamais pôde namorar?
- Talvez linda demais para ser namorada. Ou petulante demais... – ela riu e se encostou no meu peito. Sorri com ela. – Eu acho que primeiramente você sente desejo, atração. Depois vem aquele sentimento de paixão, algo além de querer sentir a pessoa. Depois vem a cumplicidade e, se houver coragem, compromisso. Daí em diante, não sei mais narrar a história. Mas é por aí que a gente ama, não é?
- É, ... Deve ser por aí. – respondi beijando o topo da sua cabeça.
Emily’s POV on
- Ficou realmente linda, . – repeti pela trigésima sétima vez naquele momento, enquanto olhava a pequena casa de madeira. O som do mar era o mesmo, o cheiro ainda era de inebriar e, com ao meu lado, o momento não poderia vir a ser mais nostálgico. Visto que eu era mais baixinha, meu amigo pôs o braço ao redor do meu pescoço e me levou em direção à casa. Olhei para o lado e acabei por reconhecer o carro de ali estacionado. Apontei e chamei .
- Ora, mas está aqui? Ele sequer me avisou! – disse indignado. Dei de ombros e voltei a nos guiar para a porta. Estava destrancada. abriu. As luzes tiveram de ser ligadas, a sala estava um pouco bagunçada, mas não pude disfarçar o deslumbre pela decoração.
- Furacão passou por aqui. – Eu disse rindo – Mas está realmente tudo lindo. Eu também quero passe livre para vir aqui.
- Tudo bem, dona Emily, você o terá. – disse – Dê uma volta, é capaz de você encontrar coisas suas por aí. Eu vou ver se o está no quarto.
Concordei e passei a fazer um tour solitário pela casa. Encontrei alguns objetos que costumavam me pertencer e sorri ao encontrá-los, cheirando-os, lembrando dos bons tempos, na época em que o tempo ainda era ao meu favor. Suspirei. Ouvi o som de chuveiro ligado e estranhei que não tivesse voltado mesmo depois de quase dez minutos passados. Fui ao mesmo quarto em que ele se dirigiu e cheguei a me deprimir com a cena na qual o encontrei.
Capítulo 11 - Concorrência e Filosofia
Hot Boss ’s POV on
Eu jurei ter ouvido vozes enquanto me ensaboava no chuveiro e, por isso, tratei de acelerar meu banho, enxaguando mais rapidamente o xampu do meu cabelo. Saí do Box, mal me enxugando e enrolando a toalha na minha cintura, ou um pouco (muito) abaixo da linha que denominariam ser a cintura, e abri a porta do banheiro. Lidei com um ambiente um pouco mais frio, e tive uns arrepios involuntários pelo ar gélido. Não me lembrara de ter deixado a janela aberta. Olhei para o lado da cama e vi deitada de lado. Emoldurada pelo vestido vermelho. Os cabelos rebeldes deixavam-na como uma medusa – a mais bela medusa -, e sua respiração lenta e compassada atingia em cheio minha sensibilidade à sua feminilidade. Como ela poderia ser tão atraente? Eu estava me aproximando da minha – agora – namorada quando ouvi vozes sussurradas vindas da sala de estar.
Assustado, dei passos cautelosos até a porta do quarto, abrindo uma pequena fresta e ali me escorando, procurando saber quem eram os invasores da minha casa.
- ? Por favor, volte a falar. – dizia Emily. Mas que diabos Emily fazia aqui? E muito mais, ! Ele sequer avisara ou... A gente nunca avisa, nem sei por que me incomodo. Talvez seria pelo rumo em que as coisas haviam tomado. e Emily estavam lado a lado, e ela tentava consolá-lo, uma das mãos em seu ombro. Meu amigo tinha a cabeça baixa e uma expressão chorosa que eu jamais vira. Ambos sentados na namoradeira vermelha, e num gesto que me pareceu uma calamidade! chorava! Emily, a super poderosa, estava triste, com dor! O que estava acontecendo conosco? E para celebrar com cobertura de chocolate, eu estava apaixonado.
Para permanecer são, permiti-me abstrair pensamentos catastróficos e prestar atenção na conversa.
- Emily, você não entende... É muito mais forte que eu. Como pode ser possível que algo dessa intensidade não convenha... a esse ramo, digo, de relacionamento?
Emily continuava silenciosa, acariciando os cabelos de como uma mãe coruja. Lembrava-me, em relampejos, de quando éramos crianças e Emily, como a mais velha, sempre nos trazia conforto. Ela olhava para ele com clemência.
Meu coração batia tão forte contra meu peito que eu mal sabia como conseguia permanecer ali sem ser notado. A adrenalina era impossível de se segurar, minhas veias estavam gritantes; o que o ciúme não fazia com o corpo de um cidadão?
Eu não conseguia imaginar sequer a cena de como meu concorrente. Não, de jeito algum. era muito melhor que eu em tantos quesitos; ele era organizado, firme, inteligente. Ainda tinha aquela fama de bom namorador, ao invés da minha de lançador de rede: o que cair na rede é peixe.
- O cheiro dela, Emily, é cativante. E ela estava ali, tão simplesmente vulnerável, serena como nunca havia visto. Eu não sei como nunca pude tê-la notado antes... me parece a mulher que sempre sonhei. – continuou, fazendo com que meus dedos apertassem tanto na porta, a ponto de me unhas ali fincarem, tamanha pressão. Eu mal tinha unhas e elas estavam fincando na madeira!
- Calma, . Você sabe que não devia ter chegado tão perto. Ouviu o que não queria.
- Aqueles cabelos de medusa – por que ele tinha de fazer a mesma comparação que eu? – jogados sobre a cama, o vestido vermelho. O cheiro de sal que o corpo dela emanava. Diga-me, Mily, como privar meu sexo disso? Eu sou homem, porra!
- , pelo amor de Deus. Eu to falando grego? Acalme essa cabecinha. Acho melhor irmos embora antes que saia daquele banheiro. Ou acho que teremos alguns problemas...
Eu respirei fundo. Hora de intervir ou fingir que nada havia acontecido? Novela Mexicana ou falta de adrenalina nessa estória?
- Problemas comigo? – Eu disse, entrando na sala na maior cara-dura, fingindo ter acabado de tomar banho. Emily e logo voltaram seus olhares para mim, e eu os encarei amistoso. Ironias a parte, jovenzinhos...
- Oi ! – Emily logo disse, vindo em minha direção com os braços abertos. Abracei-a, e percebi que aproveitara a deixa para enxugar as lágrimas dos olhos.
Eu ainda me pergunto, até hoje, por que Emily tinha aquele cheiro de chocolate. Ela não tinha cara de chocolate. Digo, loiríssima com aqueles olhos escuros e a pele branca como pérola; ela não tem cara de chocolate.
Assim que desfiz meu abraço com Mily, já estava de pé, e seu rosto transparecia sua tristeza. nunca fora um bom ator, assim, como eu. Ele sempre deixa escapar.
- Então... Qual a surpresa de trazer Emily, ? – disse eu, num teatro amistoso. olhou fundo em meus olhos, ele sabia bem que eu estava atuando; mas eu mantinha minha pose, e por que não manter? A atuação é tão perfeitamente mais conveniente do que uma briga, uma discussão. Eu chamo atenção por ser discretamente cara-de-pau. É só olhar para trás e revisar os detalhes.
- Queria que Emily... – ele hesitou – conhecesse isso aqui. - Afinal, um dia essa casa pertenceu à ela também, não é?
- Por obséquio. – eu disse, enfim apertando a sua mão, pegando-o de surpresa. Trocamos olhares devastadores. Sequer tinha forças para desviar atenções a Emily, que por acaso ainda continuava ali, parada, esperando por quaisquer reações.
Emily sabia que nunca nós três ficamos daquele jeito. Principalmente quando o assunto envolvia a mim, e as fêmeas (com a óbvia exclusão de Emily). Vinham em minha cabeça as imagens de mim com ; eu nunca fora tão feliz com uma mulher – não mais uma fêmea, mulher. Foi para ela que eu cedi os meus romantismos sem atuações, sem bancar o cafetão ou o galã de cinema, deixando-me levar para ser apenas o velho chefe, .
Eu não a entregaria a . Eu sabia que estava sendo egoísta, mas e se eu não fosse... poderia perdê-la para sempre, simplesmente; e essa era uma idéia que minha mente não podia suportar. Mal tive a oportunidade de tê-la, como posso perdê-la?
Os olhos de pareciam ameaçadores, principalmente pelo fato daquelas pequenas veias vermelhas – saltadas pelo fato de ele estar chorando há pouco – ainda estarem aparecendo, rugindo sua raiva e desavença.
- Por que você está me olhando assim? – perguntei sem mais rodeios, revirando os olhos e sentando no sofá.
Desviando da raivinha de , busquei Emily, e dei sinal para que ela se sentasse também. Vi-a engolir seco e, assustada, sentar-se numa poltrona ali perto, logo juntando as mãos e passando a massageá-las freneticamente – mal sinal -, ela estava nervosa, estressada, e a ponto de explodir.
Com muita calma, pedi com a mão para que sentasse ao meu lado, no sofá vermelho-sangue.
- Diga-me, . Diga-me de uma vez. Você está estranho, conte-me a verdade. Estamos no nosso lar, na casa da verdade, no nosso esconderijo. Estamos nós três aqui, os melhores amigos, como sempre... – eu disse, mas antes que continuasse, interrompeu.
- Todavia temos uma intrusa. – ele disse, mantendo o olhar sobre horizonte. Segui meu olhar para o exato lugar onde estava o seu, e não foi exatamente o horizonte o que eu avistei.
estava parada. Seu vestido vermelho rasgado e um pouco sujo de areia; os olhos mostrando cansaço, mas ainda assim de uma intensidade sobrenatural. Sorria sarcástica, uma das mãos descansando sobre a cintura fina.
- Uma intrusa na reunião. Desculpe-me, , se te incomodo... – Ela disse chegando mais perto. Sentou-se em uma das poltronas, ao lado de Emily, e cumprimentou-a com um olhar cúmplice. – Estou abismada com sua falta de educação, . Sempre pensei que o Senhor fosse educado, prendado... Claro, isso antes da sua repentina mudança de comportamento... São as drogas? Sua mulher anda te traindo? Afinal, qual é o seu problema?
Estávamos os três boquiabertos com a entrada standart de . Faltou um público para aplausos na minha (humilde) opinião. Se eu não tivesse a certeza de que seria rechaçado, realmente levantaria em ovação. “Bravo, bravo!”. Porém não foi o medo de ser rechaçado que me manteve estático. O olhar que levou à foi insano; desejoso e ao mesmo tempo enfrentador. Eu estava entendendo tudo perfeitamente agora.
Vamos então aos fatos.
está a fim de .
está arqueando uma sobrancelha para .
Eu namoro .
Emily está abismada, mas eu consigo ver mais: Ela não sabe se ri ou chora.
E uma pequena nota para os meus leitores: Why so serious?
- ? Responda. – insistiu, fitando-o intensamente. Seus olhos cansados lhe davam um ar cada vez mais terroso; e os cabelos cheios e bagunçados lhe confundiam com uma bruxa maléfica. O corpo esguio e sedutor esta ali, sempre reconhecível, mas numa sensualidade de enlouquecer a áurea masculina. Eu apenas estranhei os arranhões em suas coxas, ainda vermelhos, recentes. Franzi o cenho e procurei o seu olhar, mas ela ainda fitava , e sua cara chata e decidida não me permitiu uma intervenção, quanto mais uma desobediência.
- Problemas? – perguntou – eu não tenho.
Logo Emily, e eu encaramos numa arqueada conjunta de sobrancelhas desafiadoras. Ele continuou:
- Pelo menos nenhum problema que venha a interagir com sua pessoa, . Eu não devo explicações a você. – ele disse num fingimento meia boca que me fez revirar os olhos e sorrir irônico.
- Faz-me rir, . Você é ridículo. Eu o considerava meu herói, e agora você fica aí fazendo papel de paspalho. Quantas faces você tem? E quando vai deixar de ser dois ao mesmo tempo? – ela perguntou rápido, cuspindo as palavras. Eu apenas ria, claro que disfarçando, colocando uma das mãos sobre a boca; isso porque Emily soltava olhares repreendendo-me.
Suspirei fundo colocando a mão que tampava meus sorrisos sobre o queixo. Eu esperava um barraco mais longo... Mais divertido. Uma pena.
Antes que pensem que sou masoquista, eu tenho a certeza absoluta de que não me trocaria por . E disso eu tive certeza quando ela sentou na cadeira e olhou daquele jeito para ele.
Uma das coisas mais importantes que já aprendi em minha breve vida foi interpretar olhares. Então, considero o fim da concorrência. Pelo menos da minha parte.
Cogitar um ‘se’ nessa história me daria apenas dores de cabeça. Vamos deixar os ‘se’ para os catastróficos, como Emily, por exemplo.
Olhem para ela. Ela se contorce na cadeira, ela se incomoda, preocupa-se demais com todos nós. Eu nem ao menos sei por quê. Pergunto-me se Emily não tem vida pra cuidar...
- Acho melhor vocês pararem por aqui. – disse a própria, Emily Summers, levantando da cadeira e puxando . – Vamos voltar. – disse ela, segurando pelo braço, dirigindo-se a ele.
- Estão malucos? São onze horas da noite! – exclamou – Vocês dormem aqui e vão embora ao amanhecer. A casa também é de vocês, certo?
Tive de decidir entre olhar para se levantando naquele vestido rasgado ou contar o número de vezes que Emily se recusava a dormir com . Eu preferi olhar para . Aproximei-me para tocá-la, sentir sua pele geralmente quente... assustei-me sentindo-a agora bastante fria.
- Está gelada – eu disse, bem perto dela, dando-lhe um beijo na testa.
- Meu calor ta ocupado. – respondeu – fritando os neurônios que me restam – disse rindo.
Beijamo-nos levemente devido aos convidados... espera, convidados? Quem convidou?
Imediatamente tentei aprofundar o beijo em seus lábios macios, mas ela fincou as unhas em meu rosto, recusando-se.
- Eu conheço o seu jogo, chefe. – deu uma piscadela – Só não esqueça de que você está só de toalha...
Saiu dando risada e se dirigindo a e Emily. Balancei a cabeça negativamente, imaginando o que seria de nós até que os raios de sol dessem o ar da graça...
’s POV on
- Emily, eu posso falar com você? – foi apenas o que eu disse quando consegui me aproximar dos dois. Emily me encarou assustada, enfim balançando a cabeça positivamente. Não me dei ao luxo de deixar minha visão escorrer para . Puxei Mily pelo braço, levando-a para a cozinha.
- Acho que você precisa de um copo d’água. – eu disse, procurando o copo na estante enquanto ela se debruçava no balcão.
- Preciso mesmo. – falou bufando – Agora eu pergunto, qual é o problema de vocês três? Por que diabos estava rindo? E por que você está parecendo uma bruxa malvada e sensual? E por que ta parecendo um doido bipolar? E DESDE QUANDO AS COISAS MUDARAM E NINGUÉM ME FALOU?
Dei risada enquanto colocava água no copo. Virei-me para encará-la com um sorriso maroto.
- A super-girl perdeu a onisciência? – ri mais uma vez, entregando-lhe o copo – Então quer dizer que estava rindo? Coincidência... – pensei alto.
- Coincidência? – Emily perguntou entre um gole e outro.
-Sim. Eu estava aqui imaginando... Acho que voltamos aos nossos personagens. Reflita.
Emily me olhou com uma baita cara de interrogação. Eu dei de ombros e sorri para ela, que ainda estava assustada e preocupada.
Tirei o copo de vidro da sua mão e coloquei sobre o balcão. Enlacei meus braços pelo seu corpo fino e pequeno, abraçando-a com força.
- Emily, pare de se preocupar com isso. Logo as coisas hão de resolver-se por si mesmas. Não há nada de tão complexo. Você está vendo algo complexo? – perguntei, ouvindo-a murmurar negativamente e espalmar as mãos em minhas costas – Então pare de se preocupar. Relaxe. E, olha, eu tenho uma boa notícia para você. – disse me afastando.
- Qual? – ela perguntou, já com um leve sorriso de esperança nos lábios.
- Eu e o velho estamos namorando, não é épico? Eu ainda estou estranhando, mas... – fui incapaz de completar a frase porque Emily pulou no meu pescoço, entortando minha pobre coluna.
- Ah, que lindo! Conte-me tudo, quero saber os detalhes!
Fui forçada a sentar à mesa de jantar e contar ‘timtim por timtim’ para a Senhorita Summers. Pode parecer entediante, mas eu me senti estranhamente maravilhada com aquilo. Havia uma cumplicidade entre nós duas, eu me sentia bem contando aquilo pra ela; eu me sentia bem tendo alguém ao meu lado, se importando comigo...
Todavia algo me incomodava periodicamente naqueles olhos azuis escuros de Emily; não apenas pelo fato de eles serem conforto e ameaça ao mesmo tempo, Emily tinha seus olhos transmitindo o vislumbre de espanto. Ela estava falando alguma coisa que eu não entendia muito bem, isso porque me ocupava decifrando seus olhos, então eu a interrompi:
- Emily, fale o que você realmente quer me falar. Uma heroína não deve mentir. – eu disse sorrindo o mais sincera que eu podia. Por um breve momento senti que estávamos sendo observadas, mas acabei por dar de ombros.
- Não tem... – baixou a cabeça.
- Minta olhando em meus olhos. É bem mais difícil. – falei para ela. Dessa vez minha voz estava mendiga. Eu não estava sendo dura. Mesmo em palavras que poderiam ser julgadas como duras, eu as tornei límpidas e amigáveis, principalmente quando toquei a mão de Emily.
Nunca pensei que podia me dar bem com alguém assim. É diferente como numa relação com um homem. Se você está numa relação com um homem e está tudo muito bem, sem juras de amor com as três palavras tóxicas, culpamos o sexo. Algo como, sexo todo dia ou sexo muito bom. Homens preferem não largar mulheres assim, acreditem. E essa é a diferença. Por isso, sempre considerei a relação entre mulheres muito mais difícil, sem falar que estamos sempre competindo, quer queira, quer não.
Mas eu e Emily? Nada.
Sem competições.
Apenas cumplicidade, amizade. Aquelas coisas bonitas e clichês que todo mundo tem vontade de encontrar e ter, mas acham que são tão impossíveis quanto encontrar o Papai Noel.
Claro que é mais difícil achar algo que você nunca procurou. Mas ninguém aqui vai virar pirata pra viajar os sete mares!
Naquele breve momento eu podia sentir estrelas nos meus olhos, um borbulhar no meu estômago. Dentre os milhares de monstros que eu guardava comigo, Emily acabou de matar um deles.
Ela sorriu largo com seus lábios finos, mostrando os dentes pequenos e enfileirados perfeitamente, olhando em meus olhos.
- Eu sabia que no fundo você era humana. – ela riu, e eu a acompanhei. Não consegui sentir ou , apenas ouvia nossas gargalhadas escandalosas ecoando pela casinha aquecida.
- Você sabe o que está acontecendo, não sabe, Emily? – perguntei.
- Eu sei... – suspirou – E o que você vai fazer?
- É uma boa pergunta. – minha vez de suspirar, deitando minha cabeça na mesa.
- Deixe que o tempo te leve... – ela disse, e ia levar as mãos ás minhas pernas, para cobri-las com o pano vermelho. Logo avistou os arranhões. – O q-q-que foi isso? – gaguejou assustada.
- O resultado do que você viu naquele quarto. De quando você ficou com aquela cara de gárgula.
- Eu não entendo... – ela disse, mexendo a cabeça negativamente.
Sentei-me de forma correta, ajeitando minha coluna no encosto. Ajeitei os cabelos para que parassem de cair no meu rosto e respirei fundo.
- Ele veio ao meu quarto. Eu já estava acordada, mas com preguiça de abrir os olhos, como sempre. me ocupou durante o dia... – eu sorri um pouco - então eu o senti. ... é tão estranho o efeito dele em mim. Sempre foi assim. Eu sempre tive uma vontade extraterrestre de puxar ele pelos cabelos e – baixei o tom de voz, quase sussurrando – você sabe...
- Sei sim... – ela concordou sorrindo – ele é realmente muito bonitão.
- Não. Não é apenas a beleza. Tem algo a mais. Como um empuxo, que me prende. Na verdade, é mais animal. Mais como se ele usasse perfume de feromônio; e agora, de repente, nós dois somos animais estúpidos e loucos. Ele me prende, me segura, me trava.
- Não entendo... Mas por que então você namora o ?
- é a gravidade, o equilíbrio. Ele me solta, me liberta. Eu preciso do todo dia. E tenho a plena certeza de que uma noite com o me deixaria levinha. Só que já começou, e eu só descobri isso agora.
Ela passou um tempo me encarando, talvez me chamando de louca.
- Você filosofa demais. – ela riu. – Mas eu entendi. E os arranhões?
- Ah, sim! Os arranhões! Pois bem, entrou no quarto, e eu automaticamente senti sua presença. Permaneci daquele jeito, fingindo estar adormecida, esperando sua reação diante de mim. Aliás, estava no banheiro, ele não podia se exceder em quaisquer reações. Ele veio para perto, muito perto. A única coisa que eu pude tocar foram minhas próprias coxas, e ele ainda pôs as mãos sobre as minhas e...
#FLASHBACK#
- Você sabe que poderá vir a mim quando quiser e bem entender. Eu não me importo com esse outro que te tem o tempo todo. Eu preciso de você. – sussurrou a voz máscula do chefe.
Subiu e desceu as mãos pelo corpo esguio, delineando, memorizando os traços com o tato. Uma loucura, sim. Era instinto animal.
- Onde está a sua coleira? – Ela sussurrou de volta, os olhos ainda fechados e um sorriso sacana nos lábios secos. – I don’t belong to you. – disse séria.
#
- Você disse isso a ele?- perguntou Emily assustada.
- Claro que disse! Eu não trairia o . Mesmo que aquele velho tarado me traia – eu ri – Jamais o trairia. Muito mais com o , e com a desculpa de instinto animal. Eu sou uma humana, você mesma me assegurou disso.
- É...
- É. – disse-lhe – É, é e é. Sem reticências. – Levantei-me.
- Ta, e os arranhões? – ela perguntou, franzindo a testa.
- Quando seu corpo não responde os estímulos nervosos, você força outros estímulos... Eu só consegui me arranhar para não avançar como um animal no cio.
- Isso é muito loucura para a minha cabecinha... – ela reclamou.
Eu ri e a ajudei a se levantar, estendendo minha mão.
- Tome um banho, tenho um pijama para te emprestar. Vou conseguir toalha também. E bote um sorriso nesse rosto, minha jovem! Você vai dividir a cama com o chefão gostosão , e que ele não me ouça dizendo isso! – Rimos.
Providenciei o necessário para Emily e então voltei para o quarto que considerava como ‘nosso quarto’. Abri a torneira para que a água enchesse a bela banheira ali presente. Fiquei um tempo olhando-me no espelho, a porta ainda estava aberta, qualquer um podia entrar; deixei que a aleatoriedade do destino fizesse seu trabalho, estava cansada de planejar, pensar, decepcionar, culpar-me.
Prendi meus fios rebeldes com um elástico e fiquei a observar minha face. Como poderia minha própria face trazer tormentos? Cada traço me lembrava terror.
Minha última esperança era de que com a maior aproximação com os chefes da revista eu pudesse, ao menos, adiar a viagem... Seria tão mais fácil.
Com a banheira cheia, não me dei ao trabalho de tirar o vestido, ele parecia já se fundir ao meu corpo mesmo... Preguiça.
A água estava adoravelmente morna. Deitei-me e joguei a cabeça para trás, respirando fundo numa tentativa frouxa de relaxar e fechando os olhos.
Senti uma presença que imediatamente interrompeu meus pensamentos de viajarem em saltos mortais por sobre a maionese (ficou até chique falando desse jeito).
- ? – a voz chamou.
- Feche a porta, tranque-a e venha aqui. – eu disse rapidamente. Podíamos transformar essa noite numa história de terror.
Capítulo 12 - Terror e amor
Era impossível desviar os olhos. Sentia o sangue rugir nas minhas veias para quaisquer movimentos, mas a estática fazia parte dos sintomas.
- Eu quero falar com o . Devolva-me o , agora. – ouvi minha própria voz suplicar.
As feições perfeitas do chefe resumiram-se ao tom de tristeza. Ele baixou a cabeça e tirou uma das minhas mãos de dentro d’água, passando a alisar meus dedos meticulosa e aleatoriamente. Seu peito subia e descia na respiração descompassada e pesada, eu sentia a calça jeans molhada tocar minhas pernas descobertas. A água impedia que os nossos calores corporais transitassem, aliviando meus instintos.
- Eu estou aqui, . Sempre estive. – disse , sem parar de alisar a minha mão.
- Olhe para mim. Eu quero ver seus olhos. – pedi.
Seus movimentos foram em slow motion, ou talvez eu estava no modo lento. Vagarosamente depositou minha mão de volta a água morna, e armou seus olhos para me atingir.
- Oi. – disse com um breve sorriso. Sentia seus olhos tocarem nos meus e não pude deixar de levar um sorriso aos meus lábios.
- Oi. – respondi – Acho que temos que conversar.
- Parece que sim...
Alguns segundos se passaram enquanto nos reconhecíamos, perdoávamos um ao outro em silêncio. Levei minhas mãos à superfície com a palma levantada para cima, chamando-o.
- Acho melhor não nos tocarmos... – ele disse quase num sussurro - sabe, desse mal ainda não me recuperei. Não vou me responsabilizar pelos meus atos.
- Inferno. – reclamei – Então qual é com nós dois? Estou cansada disso. Eu quero viver minha vida normalmente.
- Bem, eu já não posso dizer o mesmo.
Fechei meus olhos e punhos.
- Eu vou ser bem clara com você, . – disse-lhe veemente – Eu não vou me desfazer do . Estou muito bem com ele, e não vai ser esse instinto de besta animal que vai esculhambar com tudo. Essa noite, eu vou fazer com o que meu instinto animal desejar, vou saciá-lo como quiser ser saciado. – levantei-me da banheira – E nós vamos gemer tão alto, que o seu instinto louco vai arder, e quem sabe ele desista. Já lhe disse e vou repetir: Eu não pertenço a você.
Ele riu. RIU, em deboche. Como pôde atrever-se? A minha fúria apenas aumentava.
- Você...
- , , ... Minha jovem . Sempre petulante. – puxou a minha mão com força para baixo, fazendo-me voltar a sentar na banheira, soltando respingos de água por todo o toalete. – Eu vou ser bem claro com você, . Se você acha que com essa petulância vai vencer a minha vontade de te possuir, está muito enganada. Eu terminei com . Está tudo preparado. E eu sei, para você ceder, só é preciso de um sussurro. – ele aproximou meu rosto do seu, sua boca do meu ouvido – Da minha voz.
- Não, não... Pare... – supliquei. Estava voltando, tudo estava voltando, aqueles sintomas. Onde estava o oxigênio? Por que não atingia os meus pulmões?
Eu também não conseguia ouvir o palpitar do meu coração. Ele, , estava travando tudo. Ele é a chave que tranca, que prende.
Suas mãos molhadas delinearam meus braços, sentia a aspereza dos seus dedos. Seus lábios tocaram a pele do meu rosto, úmidos, e pela primeira vez, depositaram um beijo. Não fora exatamente na espinha dorsal onde senti um calafrio. Não sentia sentimento no que ele fazia; não estávamos sendo claros nas nossas palavras, e sim obscuros. Voluptuosidade.
- Largue-me. – disse de uma vez, levantando-me da banheira. – E da mesma maneira que entrou, saia daqui. – ordenei.
Em silêncio ele saiu da banheira, enxugou-se brevemente. Antes de sair pela porta, chamou minha atenção com um simples sussurro:
- E eu que achava que eu era o chefe...
Despi definitivamente o vestido vermelho e voltei à banheira, dessa vez para ligar ducha. Tirei o tampo da banheira, e tudo que eu via era água. Fechei os olhos.
O que era , afinal? Do que ele era capaz? E por que, por que temos de portar-nos como animais? Eu não tinha muitas escolhas. Não mais.
Vesti as roupas íntimas de um violeta escandaloso de listras negras. Percebi-me encarando uma das cicatrizes, quase apagada, em minha costela. Suspirei. Voltei a me vestir. Coloquei outra camisa de por cima de tudo, a de hoje era preta, e não havia nada escrito, apenas um pequeno sigma. Passei a mão por cima do tecido, ajeitando-o, e acabei por sentir meu estômago reclamar, faminto. Já havia passado da hora do jantar, e eu não era mais daquelas que deixava de se alimentar; sabe como é, necessitava da energia proporcionada pelo alimento.
Saí do banheiro, e só então percebi o quão quente estava aquele cômodo. Exalava seus eflúvios em um vapor digno de sauna.
- O que você andou fazendo nesse banheiro? – ouvi a voz de se pronunciar. Olhei para os lados, encontrando-o deitado na cama, relaxado sobre seus braços. Seu olhar metido, superior a mim; aquela pose de chefe. Sorri com canto de boca, penteando os cabelos molhados com o dedo para trás.
- Apenas tomando um banho. – respondi simplesmente, sentando na beira da cama. Senti-o tocar minha perna esquerda e alisar distraidamente. Enquanto eu me deliciava com seu toque, também ajeitando os fios dos meus cabelos, ouvia o som de pratos e talheres na cozinha; provocando cada vez mais a minha fome. Entretanto, a distração de ao apenas alisar as minhas pernas já havia se acabado. Puxou-me, por ali mesmo, pela perna esquerda, e também pelo braço esquerdo, girando-me até me ter por cima de si.
- Cheirosinha... – elogiou, ao fungar o meu pescoço de forma engraçada. Eu ria sem parar, como uma criança.
- Sua hora de rir. – disse-lhe, sorrindo como uma hiena cheia de malícia.
- Não gosto dessa cara – ele disse meio assustado, abri mais ainda o sorriso, passando minhas mãos pelo seu tronco – o que você está pretendendo?
- Cócegas, chefinho. – disse brincalhona antes de fazê-lo clamar por menos. Era tão engraçado vê-lo rindo daquele jeito, tão infantil. Não éramos mais dois adultos, não mais.
- O que é isso aqui, pelo amor de meu Jesus Cristinho? – fora ouvida a voz de Emily. Eu e viramos nossos olhares (lacrimejados de tanto rir) para a nossa amiga: ela tinha uma panela em mãos e enxugava-a rapidamente. – , minha criança, venha me ajudar na cozinha, sim?
Troquei olhares com , meio que pedindo permissão.
- Vai lá, criança. – ele frisou. Segurei o seu queixo rindo.
- Tá bom, velhinho. Mais tarde a gente vê quem é criança, não é? – pisquei e dei língua, saindo da cama rapidamente.
Andei em direção à Emily, que estava um pimentão à minha espera, encarando a panela enxuta.
- Vamos, Mily.
Hot Boss ’s POV
Após um exagerado jantar preparado por Emily, deitei-me na cama, cheio, e resmunguei palavras que nem eu mesmo fui capaz de decifrar. Fechei os olhos para um breve cochilo, e deixei que minha mente relaxasse.
...
Mãos geladas.
Massagem.
- Chefe... – ouvi a voz da namorada me chamar bem perto do ouvido. – Hm, velhinho, agora não é hora de dormir. – ela suspirou.
Senti que seu corpo estava sobre o meu. Abri vagarosamente meus olhos, a visão ainda estava embaçada. Enxerguei seus cotovelos apoiados um em cada lado da minha cabeça e senti o seu cabelo, ainda um pouco molhado, batendo nas minhas costas.
- E fazer o quê acordado? – perguntei meio grogue, com um sorriso de canto de boca. Senti-a sair de cima de mim.
Abri de uma vez os olhos e me ajeitei na cama. Virei os 180º, observando-a trancar a porta do quarto. Ela tinha aquele sorriso perverso; apenas aquele sorriso já havia contraído minhas entranhas.
Puxou a camisa negra para cima, mostrando o seu conjunto íntimo. Não tirava aquele maldito sorriso do rosto. tocou minhas pernas com sua mão gelada e veio engatinhando até mim, aproximando nossos rostos. Segurei-a pelos cabelos da nuca, puxando-a para mim:
- O que é esse sorrisinho? – perguntei entredentes, mordendo seu queixo.
- Você vai descobrir... – ela disse entre suspiros. - e vai ser agora.
No mesmo instante em que ouvi a sua voz destemida, parei de mordê-la. Seus olhos haviam perdido a razão, nem precisei provocá-la a ponto de perder sanidade. Puxei-a para mais perto possível, a ponto de selar nossos lábios e beijei-a com um ímpeto de delírio. Sua boca estava veloz, esperta. Minhas mãos tiravam seu sutiã enquanto ela já havia deixado a minha bermuda aos meus pés. Por falta de ar, larguei seus lábios; esses já estavam levemente avermelhados. Novamente aquele sorrisinho.
Desceu com beijos e chupões pelo meu tronco, arranhando-me com suas unhas afiadas. Então o motivo do sorrisinho era uma vingança? Ela também queria me arrancar a sanidade?
Sua língua era quente demais se comparada ao meu tronco; aquelas unhas afiadas faziam o trajeto certo para que eu me contorcesse, e até risse – eram meus centímetros de loucura. O ar soltava-se com ruídos da minha boca, era inevitável.
De repente, senti suas unhas afiadas na região pélvica, minha boxer cinza sendo arrancada do corpo; fechei os olhos, prevendo o que estava por vir. Obviamente já estava mais do que excitado, não precisava de muito para me deixar de tal modo. Eu ia colocar minha mão no pênis ereto, mas recebi um belo tapa.
- Sai. – ela disse – é meu. – sorriu.
E foi a minha vez de sorrir. Fechei os olhos e coloquei as duas mãos seguras sobre os lençóis, esperando que ela fizesse alguma coisa.
Primeiro foram as mãos em seus movimentos frenéticos e repetitivos; me masturbava daquele modo que eu já conhecia – não – muito melhor. Ela o fazia com uma maestria invejável, deliciosa e... indescritível. Realmente indescritível fora quando senti sua língua quente rodear a glande, e novamente, quando sua boca praticamente engoliu meu pênis.
O gemido fora tão alto, senti-me como cão no cio.
Ela era muito boa no que fazia. Era o seu nome que saia da minha boca, descontroladamente.
Abri um dos olhos levemente para vê-la. Com uma das mãos segurava meu pênis, na base; com a outra arranhava o meu abdômen; e com a boca – aquela boca veloz e esperta – sugava, lambia e brincava com meu membro.
Eu estava jogado ao deleite, exposto ao delírio contínuo. O sangue que deveria bombear meu cérebro e manter a sanidade se mantinha no membro inferior – na “cabeça de baixo” – e eu me via incontrolável. Coloquei uma das mãos nos cabelos da nuca de e passei a guiá-la em seus movimentos. Minha outra mão puxava com força o lençol da cama, não era exatamente algo que eu, , estava fazendo; mas sim a mão de , entenda.
Meu corpo estava implodindo, e eu sentia o gozo por vir. Puxei para o lado, como um aviso. Ela pareceu compreender, mas isso não a fez parar, apenas fazê-lo mais lentamente, numa tortura impossível.
- Louca, louca... – proferia as palavras com dificuldade – mais rápido.
Seus olhos se levantaram, ela retirou sua boca do meu membro e lambeu-o.
- Implore. – maldito sorriso.
- Por favor. – eu pedi. Ela lambeu mais uma vez, da base ao topo, negando. – Por favor, por favor, por fa...
Abocanhou-o novamente e voltou com os movimentos rápidos, mais um gemido alto da minha parte. Quando sentiu o gozo por vir, ela pôs de vez o membro em sua garganta, deixando o líquido branco descer por ali. Fechei os olhos com força para sentir mais minuciosamente aquilo, aquela sensação. No momento em que os abri, ela já estava na minha frente, lambendo os beiços.
- Oi velhinho. – ela disse, tomando ar.
- Oi – foi tudo que consegui dizer, estava eras mais ofegante que ela. Ainda assim beijei-a com intensidade, mordendo seus lábios, sugando-os. Coloquei-a por baixo do meu corpo e passei e me deliciar com seu pescoço, descendo então para o seu maravilhoso colo e seios.
Colo e seios de mulher jovem, lisos, bem feitos. Tinham um verdadeiro toque de perfeição ao não serem nem tão grandes, nem tão pequenos. Extremamente macios. Depositei beijos ao redor dos mamilos e passei a língua ali, delineando-os do jeito que sempre fazia.
Com as mãos, puxava sua calcinha para baixo, sendo obrigado a descer mais ainda no seu corpo esguio. Tirei a parte de baixo do seu conjunto íntimo duo cromático, puxando pelas pernas. Ela tinha seus olhos fixos nos meus, com intensidade irrevogável. Sorrindo maroto, abri suas pernas, deparando-me com sua intimidade úmida.
- É minha. – falei com minha voz o mais grossa possível. Senti-a se arrepiar apenas com o meu tom, e rir baixinho, uma risada infantil.
- Vá em frente. – ergueu uma das sobrancelhas.
Sorri novamente antes de sucumbir a um objetivo: proporcionar prazer à minha .
Suguei-a, penetrei-a levemente com a língua; segurava-a pelas coxas e glúteos, ela já não se tinha nos campos da razão. Meu nome era pronunciado diversas vezes e intercalado com meu apelido, daquele jeito que apenas ela me chamava “Chefe, Chefe...”, no tom da insanidade. Logo me pus a provocá-la com mais intensidade, pressionando a vulva com dois dedos e penetrando. Mais gemidos, de ambas as partes. Estávamos insanos.
Emily? ? Seriam espertos se usassem tapadores de ouvido... aliás, isso eu bem indicaria à Emily; já , que ouvisse o nosso amor, rugindo em gemidos escandalosos. Divertido.
- , venha. Para mim. – ela pediu, sua voz rouca.
- Implore. – repeti exatamente o que ela disse antes, numa vingança quase que imediata. Ela sorriu; sorriu aquele sorriso perverso, e balançou a cabeça negativamente.
- Chefe – chamou novamente, mordendo o lábio inferior e sorrindo - Come. into. me. – ela disse pausadamente. Quantas vezes amaldiçoei esse sorriso?
Aos poucos deitei por cima dela, abrindo ainda mais as suas peras, e me posicionando. Olhei diretamente em seus olhos. Não mais demonstravam luxúria, mas sim confusão. Como pode mudar da água para o vinho em questão de minutos?
Peguei um preservativo na mesa de cabeceira. Rasguei-o com os dentes e rapidamente me afastei para colocá-lo. Novamente me deitei por cima da minha namorada, posicionado para penetrá-la; ajeitei seus cabelos pelo rosto, retirando-os dali.
- Apenas minha. – sussurrei em seu ouvido antes de começar a conjuntura. Penetrei-a com cuidado e maestria, sentindo-a tencionar os músculos da vagina. Ela se fazia tão concentrada quanto eu. Colei nossos narizes, deixando que as respirações pairassem entre nossas bocas. Alisei seus lábios com minha língua, sentindo-a puxar o meu inferior para uma mordida leve.
Minhas investidas eram lentas, profundas. também fazia movimentos para o encaixe, fazendo-nos sentir mais prazer. Todavia, depois da fúria animal que tivemos no começo do sexo, agora tudo parecia mais romântico, mais íntimo.
Mudamos novamente de posição.
Com aquele jeito de guiarmos um ao outro telepaticamente – ela dizia que era telepático, para mim era a prova de que éramos encaixes – ficamos ambos sentados sobre a cama.
Suas pernas, molhadas de suor, rodeavam meu quadril, mas faziam pouca força; eu a tinha no meu colo, a centímetros de uma segunda penetração. Coloquei minhas mãos em sua cintura, apertando-a; seu rosto aproximou-se do meu, nossos narizes roçaram. E então eu senti seu corpo relaxar sobre o meu, em mais um vislumbre de prazer e – acreditem – amor.
...
Cansados e distraídos num gracioso silêncio. A beleza de era tamanha, que mesmo as feições recheadas de cansaço e sono, ainda a deixavam em seus conformes, incrivelmente bonita. Meu corpo nu enlaçava-se ao dela, e eu me esquecia totalmente de quem éramos, onde estávamos, quem mais estava ao nosso redor. Havia palavras querendo escorrer da minha boca, mas ainda um ego as impelia.
Tirei meus olhos da minha para olhar à janela, observando a noite. Ali achei o que eu queria. As cortinas, mostrando-me o crepúsculo da minha cidade, lembrando-me meus pais.
Voltei a encarar , já tinha seus olhos felinos encobertos pelas próprias pálpebras.
- – chamei-a. Abriu os olhos com preguiça, sorrindo com os lábios secos.
- . – ela disse – . – sorriu – vai dormir.
Fora minha vez de rir abafado.
- Je t’ame. – disse-lhe, já com medo de sua reação. –
Je t’ame.
me encarou por um tempo, como se procurasse algo no meu rosto. Depois, repentinamente, beijou meus lábios docemente, como nunca fizera antes.
- É a você que eu pertenço. – ela disse baixinho no meu ouvido. – apenas a você. – repetiu, aconchegando-se em meu peito e entregando-se ao sono.
Ainda repeti diversas vezes em murmúrios aquelas palavras “Je t’ame Je t’ame...” Eu havia falado aquilo a ela, as três palavras. De um jeito diferente, eu não podia deixá-la mais traumatizada do que já era com as três palavras. Meus pais tiveram o casamento na França; e eu me lembro como se fosse hoje, o quanto eles diziam que se amavam.
Eu a amo. Eu tinha certeza disso. Não tinha?
Emily’s POV
estava demasiado assustado. Não pude, durante um minuto, deixar de acolhê-lo em meus braços. Sua raiva era tremenda, ainda mais com aquela maldita idéia de querer chegar perto do quarto deles quando achou que havia acabado.
- Ele disse que a amava. Está tudo acabado, eu nem tenho mais chances. Não sei por que um dia achei que tive. Ela é determinada...
- Você quer dizer teimosa, ela é teimosa. – interrompi-o.
- Não, determinada. – Ele teimou.
- É. Teimoso é você. Continue. – disse, alisando seus cabelos.
- Ela disse e repetiu, é a ele que pertence. – e finalmente abriu os olhos. Não estavam mais límpidos, e sim avermelhados. Ódio e tristeza vigentes não cor ruge.
- É indomável. é indomável. – encarei a sua figura calmamente, tentando lhe passar a minha calmaria. – tente entender que nem você, nem jamais a terão completamente em suas mãos como ela, pelo que vejo, já os tem.
- Isso é ridículo.
- Isso. – apontei para seu peito, indicando o seu ego – é machismo. Aposto como se a situação fosse inversa não haveria esse tom na sua voz, mocinho.
- Vamos parar com isso? Estou me sentindo uma donzela! – exclamou , levantando sua cabeça do meu colo. Suspirei fundo, vendo-o levantar da cama. Ele era tão bonito, não havia necessidade de sofrer daquela maneira. Eu tinha plena noção de que estava em dúvida, mas também tinha plena noção de a sua escolha final seria . Tinha de ser.
puxou uma toalha de dentro do gaveteiro de mogno e entrou no banheiro:
- Finja que nunca me viu nesse estado. – disse em seu tom grave.
Assenti com a cabeça.
Deitei minha cabeça na cama. Estava pesada. Eu estava sentindo aquilo de novo, aquele mal-estar. Não queria acreditar que tinha de acontecer logo agora, e que eles poderiam descobrir o meu segredo.
Estava ficando pior.
Virei-me de lado, encolhendo o corpo, a dor estava ficando mais insuportável. Sentia as células corroendo em desconforto. A visão ficando embaçada, a dor de cabeça aumentando cada vez mais.
Daí então, eu apaguei.
Capítulo 13 - Segredos à quatro.
Hot Boss ’s POV
Não houve raios de sol para me acordar, nem sons estranhos. Abri os olhos e olhei para o visor do celular, que apontava 4:50 da manhã. Cedo demais. Ainda assim, estava inquieto, era impossível descansar novamente.
Bem aconchegada em meus braços dormia tranquilamente, como um urso. Sua respiração era silenciosa e lenta; para quem via de longe, poderia jurar que estava em coma ou coisa do tipo. Seu sono era cauteloso, como eu já observara duas vezes. Duas vezes. Duas noites. Foram apenas duas noites que se passaram desde que todo esse estardalhaço começou. Como pude fazer tudo isso tão rápido, sem parar? Eu precisava de um momento para mim.
Retirei-a com cuidado do seu aconchego, e, por incrível que pareça, ela não moveu um músculo em desavença. Do exato jeito em que a coloquei de volta aos travesseiros ela permaneceu, ou seja: completamente torta. Desejei que se ajeitasse mais tarde, eu não queria acordá-la de jeito maneira. Levantei-me da cama com cautela, espreguiçando e sentindo meu corpo ranger como se fosse de um robô enferrujado. Um velho.
Ria mentalmente enquanto, desajeitado, dirigia-me tonto ao banheiro para uma rápida higiene matinal. Ducha rápida, escovar de dentes, fazer a barba, colocar o tônico, perfume, desodorante. Vestir. Roupas de frio. Optar por pentear o cabelo com os dedos, olhar-me rapidamente no espelho, sentir-me charmoso e, finalmente, sair do banheiro.
Antes de sair do quarto, não consegui deixar de observá-la novamente. Sim, ela mesma, meus amigos, minha namorada. Ajeitei-a na cama, coloquei o edredom para cobrir mais o seu corpo; o jeito em que ela pegou o cobertor e cobriu até a cabeça pareceu agradecer, e eu também tive de agradecer: ela estava viva, mon dieu!
Não consegui deter um sorriso do rosto, e finalmente saí daquele quarto que, por acaso, cheirava a nós dois – e àquelas palavras proferidas na noite passada -, e à loucura, e à selvageria e paixão. Uma delícia de fragrância. Em passos lentos e silenciosos, dirigi-me à cozinha, e não encontrei nada além de água e bebida alcoólica. Optei pelo copo d’água, molhando o estômago vazio, e enfim fechei a geladeira.
Abri a dispensa, e parecia que um pote grande esperava a minha chegada. Biscoitos. Provavelmente feitos por Emily, já que não era muito chegada a cozinhar e esse tipo de afazer. Sinceramente, eu não sabia muito sobre aquela que pedi em namoro.
Incondicional.
Essa única palavra rebolava em meus pensamentos enquanto devorava todo o pote de biscoitos de Emily. Vamos recapitular:
, designer da London Music. Não sei idade, onde mora ou quem eram seus pais. Sei que ela é exuberante, petulante e terrivelmente teimosa. Por que as coisas não poderiam ser normais nem por um instante?
Coloquei o pote vazio dentro da dispensa e baixei meus olhos ao chão, sentindo uma breve dor de cabeça. Fazia tempos que não usava o lado direito do cérebro, aquele que cuidava da humanidade e sentimentalidades. Mas então comecei a ouvir aqueles gemidos abafados, femininos e conhecidos. Não era , ela estava em sono profundo agora a pouco. A única mulher residente naquela casa era... Emily.
Em passos largos e furtivos, corri para o quarto de . Ela estava completamente descoberta, suando como uma louca, encolhida em posição fetal. Eu vi quando o sangue passou a escorrer da suas partes íntimas, e ela abriu a boca para deixar o doloroso ar escapar. Meu corpo e mente pareciam não ter resposta para os meus próximos atos; não tinha a mínima idéia do que estava acontecendo com minha prima, ou melhor dizendo, minha irmã. Assim eu a considerava, assim eu a tinha.
- Em... – chamei-a do mesmo jeito que chamava-a quando éramos crianças. Aproximei-me do seu corpo, esse se contraindo em espasmos e arrepios. O rosto de Emily era puro sofrimento. – Em, o que está acontecendo? Por que você está sagrando? Você estava doente e não nos falou? – nenhuma resposta – Mily, é o . Mily, eu estou com você. – falei um pouco mais alto.
estava do outro lado da cama, e parecia ter um sono pesado, já que não havia acordado com os gemidos de Emily ao seu lado. O que era instigante, visto que ele costumava ter sono leve; pelo menos até onde eu o conhecia, na época Pré- .
- EM! – gritei, e finalmente encontrei o azul-marinho dos seus olhos, as veias das extremidades do globo ocular saltando. – Ei, Ei, calma... Está tudo bem, linda. Calma. – Afaguei seus cabelos, ainda perdido no que estava prestes a fazer. – ! Acorde! Agora! Emily está... – minha voz falhava – Minha querida Emily está doente, sangrando. ACORDA, DESGRAÇADO!
Levantei-me e balancei , fazendo-o despertar sonolento.
- Porra, , o que é? – perguntou, apertando os olhos.
- Olhe pro seu lado. , nossa Emily. Temos que ir embora, aqui não tem Hospital e a viagem até Londres são duas horas se corrermos muito. – Eu falava exasperado. mal tinha aberto os olhos. Vagarosamente, virou-se para o lado e pareceu acordar quando o escarlate dos lençóis chamou sua atenção. Emily tremia, seus olhos presos em minha imagem, nenhuma palavra conseguia ser proferida pelos lábios finos.
- MEU DEUS! Emily, o que aconteceu? E...
- Ela não consegue falar. Mantenha-a acordada, eu vou chamar . Vamos embora e é bom que ela venha ajudar.
- Você só pensa nessa maldita mulher. – comentou , saindo dos cobertores para acolher Emily e passar a fazer-lhe um interrogatório.
- Fala isso como se você não fizesse o mesmo. – soltei-lhe um olhar desafiador, beijando a testa de Emily e saindo dali. Corri para o meu quarto e já estava de pé, como se me aguardasse.
- Emily está doente e... Ela está sangrando, você sabe, por baixo e eu e , nós... Hospital. Sabe. Precisamos sair logo. Hospital. Emily.
O vulto de passou diversas vezes pelos meus olhos assustados, atravessando o meu olhar sem foco. Ela saiu do quarto correndo, apenas com um moletom largo cobrindo o corpo. Segui-a por puro instinto até o quarto de .
Quando o olhar das duas se chocaram, eu pensei ter perdido anos de comunicação.
- Tragam toalhas, esquentem um pouco de água, sem ferver, e também tragam numa bacia. Preciso de cobertores e primeiros-socorros. Saiam do quarto. – Essas foram as primeiras palavras que Isabela dirigira a mim naquela manhã. Parecendo combinados, eu e nos entreolhamos, e voltamos nosso olhar para , que se agachava ao lado de Emily e segurava a sua mão com um olhar de compaixão. – AGORA! – nos soltou um olhar furioso e voltou a olhar para Mily.
- Não se preocupe, Mily. Eles podem ser nossos chefes, mas eu posso acusá-los de homicídio culposo se não se mexerem nesse EXATO momento. – sorriu irônica para a amiga, que pareceu querer rir até mesmo em sua situação trágica.
Para mim e não restou alternativa senão dar meia-volta e fazer o que nos foi pedido. Nós estávamos estáticos pela simples razão de estarmos em choque; nunca tínhamos presenciado Emily em qualquer sofrimento físico. Ela sempre fora meio instável emocionalmente, de se preocupar demais, mas a saúde de Emily era de ferro, sempre foi! O que estava acontecendo dessa vez?
’s POV
Não podia deixar escapar os olhares atemorizados os quais Emily dirigia a mim. Enquanto os chefes cuidavam dos lençóis sujos e preparavam um novo leito para uma debilitada Mily, eu me via trancada com ela no banheiro. Em meio a medicações, toalhas sujas e limpas, um abafamento proposital graças ao desespero da doente, Emily se via imersa na banheira, a água agora límpida parecia acalmá-la. Mas então ela me via, preparando as toalhas quentes em uma pequena bacia transparente; claro que eu estava concentrada no que fazia, mas isso não me retirava a personalidade observadora.
Peguei uma das toalhas e coloquei sobre sua testa, ouvindo-a arfar e franzir o cenho.
- Calma, Mily, isso vai melhorar a enxaqueca. Não vou lhe dopar com mais remédios... – disse-lhe com uma voz serena, a mais serena que pude proporcionar. – Você vai precisar de um bom descanso.
Emily suspirou e fechou os olhos daquele azul-marinho. Passei a encarar sua face, agora pálida, os traços finos do rosto oval. Jamais daria tempo de chegar a um hospital, eu bem sabia disso. Contudo, eu estava completamente exposta naquela situação. A ida à Nova York se aproximava, faltou me crucificar com sua declaração de amor. mantendo aquela posição ciumenta, desafiadora... Eu não poderia perder a minha sanidade e cometer qualquer garfe. Não depois de tudo que me aconteceu, seria burrice; repetir erros do passado: Fuga. Era simples, eu escolheria um deles, esconderia a verdade sobre meu passado pelo resto da minha vida; faria de Emily uma amiga a quem poderia confidenciar os segredos (claro que havendo uma vice-versa), e pronto. Simples, sem fugas. Porcaria de mania de fugir das coisas. Merda.
- Um descanso significaria férias remuneradas? – perguntou Emily sorrindo fraco e abrindo os olhos. – Sem viagem à Nova York? – sorriu mais largamente.
- Com certeza, eu lhe daria 15 dias para se recuperar do que aconteceu. Mas...
- Mas? – a expressão confusa de Emily relatou a sua confusão extrema, a falta de redenção. Não queria se entregar. Troquei a toalha que estava em sua testa, coloquei mais sais em seu banho e sorri-lhe com compaixão.
- O que aconteceu com você não foi natural. Causado pelo estresse, excesso de preocupação, bem típico, não é, Senhorita Summers? – minha voz tornou-se mais dura, meu blefe precisando dar certo.
- ...
- Não minta. Não para mim. Eu estou aqui para te ajudar, você não vê? – supliquei – Desde quando?
- Eu engravidei faz 3 semanas. – ela respondeu, sem olhar nos meus olhos. – Foi um cara que eu conheci. Eu queria o bebê, mas tinha tanta coisa envolvendo... Sabe, você, , , meus melhores amigos, nisso que parece ser um triângulo amoroso e...
- Não foi essa a minha pergunta. Desde quando você está doente? Desde quando você... – Não tinha mais ar para aquelas palavras, engasgavam na minha garganta como uma gigante bola de pêlos engasgaria um gato. – Desde quando você desistiu do câncer?
Finalmente seus olhos se viraram para mim e, dessa vez, com real expressão de susto. Pela jugular que pulsava freneticamente, era óbvio que seus batimentos aceleraram enlouquecidos.
- Emily, eu sei o diagnóstico, preciso saber o resto. Você sabe que o câncer é fatal, o que tem na cabeça? Fale comigo!
Ouvi batidas na porta e, em seguida, a voz de gritar:
- Já está tudo pronto aqui!
- Nós já vamos! – gritei de volta e voltei meu olhar para Emily. – Por favor, fale comigo.
Olhando em meus olhos, Mily suspirou fundo.
- Tudo bem. Mas será que podemos adiar essa conversa? Não quero que e nos ouçam; nem por acidente, nem propositalmente. – falou séria.
- Sim senhora! – respondi-lhe com ar brincalhão, afastando o ar retesado que insistia em me atacar; como um estigma. – Agora vamos sair dessa banheira antes que você vire um peixe.
Sorrindo, Emily levantou-se com alguma dificuldade. Segurei-a com cuidado, e enxuguei seu corpo, ajudando-a a sair dali. Vesti-a com uma calcinha, e coloquei uma pequena toalha, caso o sangramento voltasse por algum motivo. Destranquei a porta para pedir ao – agora útil – que me trouxesse uma de suas camisas, e para que trouxesse uma segunda-pele e uma calça-moletom. Talvez um comentário importuno, mas , apesar das feições levemente entristecidas, estava estonteante. Ok, parei. Assim que Emily estava bem-vestida, novamente medicada, também com um Dormicid, apoiei-a em meu ombro e, finalmente, saímos daquele banheiro abafado. Coloquei-a na cama, agora de cobertores cor salmão, e deixei que se cobrisse sozinha. Abaixei-me e sussurrei em seu ouvido, cantarolando:
- Don’t worry about a thing, because every little thing is gonna be alright. – afastei-me e a vi sorrir largamente.
- Boboca. – disse-me com sua voz fraquejada pelo Dormicid. Ri baixinho, e antes que pudesse me levantar, senti as mãos de me abraçando por trás.
- Coisa inteligente, você não se vestiu hoje de manhã. Está de blusa e calcinha, deu para perceber que não estamos sozinhos para você fazer isso com a minha sanidade? – sussurrou em meu ouvido. Segurei um riso. – E até a sanidade do zinho ali. Coitadinho.
Olha um fato: é um excelente ator. Outro fato: Eu sou uma excelente observadora. O ciúme corroera cada célula de , e eu sabia que o fato de eu não ter lhe dado atenção desde o ‘ocorrido’, por assim dizer, de ontem à noite, mexeu com seu coraçãozinho de pedra e luxúria.
Emily já estava de olhos fechados, a respiração compassada num sono alfa.
Meu chefe e namorado (por que isso soa tão estranho?), carregou-me como um esposo carrega sua esposa e, em completo silêncio, retirou-me daquele cômodo.
- Desde quando você é médica? – perguntou-me quando estávamos no meio da sala, exato espaço entre um quarto e outro.
- Não sou médica. Sou Designer. – respondi-lhe olhando para o horizonte. – São primeiros socorros. Você e estavam em choque, alguém tinha de fazer alguma coisa, certo?
Ele parou quando estávamos já dentro do quarto, suspirando.
- É. – respondeu monossilábico. – O que aconteceu com ela?
- Aborto espontâneo. – respondi-lhe. – Vou tomar um banho, aliás, que horas são?
pôs-me no chão e olhou para o relógio de pulso.
- Cinco e meia da manhã.
- De uma segunda-feira. Emily precisa de descanso, eu diria uns 15 dias. Bem, vou tomar meu banho e então vocês se decidem como vai ser hoje. – Suspirei, meus olhos fincados no chão. Ouvi passos de afastamento de . – Chefe... – chamei-o.
Ele apenas parou de andar, ainda de costas para mim. Andei em sua direção e o virei para mim, abraçando-o fortemente. Sentia seu peito quente subir e descer rapidamente contra o meu, a fúria tomando o lugar das lágrimas. Entrelacei meus dedos em seus cabelos da nuca e afastei-os apenas o suficiente para fazer nossos rostos se tocarem. O cheiro que seu rosto emanava era simplesmente delicioso, de puro deleite; cheiro de loção de pós-barba, perfume, do seu hálito de menta. Quanto à mim, a única coisa que havia colocado na boca era um pacote de balas de framboesa; o açúcar era única droga que acalmava meus nervos e minha vontade de fugir, porém nunca a longo-prazo.
- Vai ficar tudo bem. Emily vai ficar bem, nós só temos a ficar cada vez melhores. vai entender, eu sei que vai. Só é preciso tempo. Tempo, meu , a única coisa que nós não tivemos. – beijei rapidamente seus lábios. – Dê tempo ao tempo, não sofra de antecedência.
E então foram os seus lábios que vieram ao encontro dos meus, completamente famintos, mas pareciam estar sendo guiados por uma corrente, algo que segurava a selvageria do beijo. Minha língua transpassava cada ponto da sua boca, deliciando-se como sempre, em sua dose matinal do Chefe.
Não sei ao menos o que me fez abrir levemente os olhos, porém fora algo que me arrependi amargamente. se encontrava parado na porta, encarando a mim e a com uma expressão de nojo. Com a mesma velocidade em que o arrependimento veio, ele se foi. Visto que uma das minhas mãos acariciava os cabelos da nuca de , soltei-a levemente e mostrei o dedo do meio para , sorrindo entre meu beijo maravilhoso. Voltei a fechar os olhos e fingi que nada tinha acontecido. Nada aconteceu.
- Jennifer, vai assumir hoje às 8. Emily está de licença médica. Hoje eu vou tirar minha folga remunerada, já falei com o . não comparecerá hoje por motivos pessoais. Vemo-nos amanhã. Xx . – desliguei o telefone celular. – Pronto, acabei de mandar a mensagem para minha secretária. Eu vou ficar na casa de Emily, ela vai precisar de alguém para levá-la ao médico de verdade quando acordar.
- Eu vou com você. – ofereceu-se .
Estávamos eu e Emily no carro de , já que era maior e mais espaçoso para Emily deitar. Meu colo lhe servia de travesseiro. dirigia concentrado e calado – até esse miserável momento -, em suas vestes de executivo e óculos aviador Ray Ban.
- Não. – suspirei. – Acho melhor não. É melhor que uma mulher a acompanhe nos exames, visto o que aconteceu. – contornei-o. Ele deu de ombros e manteve-se calado pelo resto da viagem.
Enquanto minhas mãos acariciavam os cabelos de Emily, meus pensamentos correram para a Land Rover que corria na estrada logo atrás da gente. Eu podia vê-lo pelo retrovisor. O vento arrumando os cabelos para a desordem, com o cotovelo apoiado na janela e uma das mãos entrelaçando os próprios cabelos. Sorri sem nem entender o porquê e passei a cantarolar.
But I don’t enjoy Heaven as much
As dancing cheek to cheek
Now come and dance with me
I want my arms around you
The charms above you
Will carry me through
To Heaven
A casa de Emily era realmente bem pequena. Uma pequena casa em um bom condomínio. Dois andares, os tijolos pareciam novos, era uma boa arquitetura. O interior, porém, nem tanto. Apesar de parecer uma bela casinha por fora, por dentro a casa aparentava ser habitada por um anão. Devido ao meu salto, eu comecei muito bem batendo a testa no rodapé da porta. Esbarrei em diversos móveis, enquanto já se infiltrava na casa com Emily no seu colo. Sentei no sofá, procurando não me bater em mais nada, e vi voltar.
- Obrigada. – disse-lhe.
- É por Emily. – respondeu num gesto grosseiro.
- Eu sei, bonitão. – pisquei de um olho só e comecei a retirar os sapatos.
- Você é muito folgada. – ele reclamou. – Está na casa de outra e já vai tirando os sapatos na sala, enquanto ela dorme.
- Você também. – Fingi estar falando com minha mão – Hand, você convidou o chefe arrogante para entrar na casa de Emily? – Fiz que não com a mão. – Ops, então é melhor ele cair fora. Imagine se Emily, aquela pessoa preocupada, acordar, e vir perturbando a amiga confidente? Oh, no no... Isso pode ser muito ruim. Vai estressá-la novamente. – Encarei com a face mais furiosa que pude lhe proporcionar.
Mas ele pareceu invicto às minhas provocações. Aproximou-se e encostou o rosto a centímetros do meu.
- Olha só, bonitona, você ainda vai pagar por tudo isso. – e selou rapidamente nossos lábios, saindo logo em seguida. Mesmo sentindo a maciez de seus lábios ainda pairando sobre os meus, aquela selvageria e animalidade já encontrando o caminho da minha circulação sangüínea, eu parei para pensar. E as palavras saíram num eco enquanto o Senhor abria a porta da casa de Emily, abaixando-se para sair dali:
- Vamos ver quem vai pagar o que e para quem! Aguarde-me, bonitão, sua máscara de super-herói se derrete quando está em minhas mãos! – praticamente gritei para que me ouvisse. – Otário. – sussurrei enquanto tocava meus lábios. – Otário gostoso. – Passei a língua pelos meus lábios. – Filho de uma...
Saí correndo pela casa de Emily à procura de um banheiro.
Tomei um baita susto quando a vi com o blusão cinza de que pareceu premeditado para a calça-moletom também no mesmo tom de cinza. Estava em pé, lágrimas nos olhos, o cabelo bagunçado.
- Só tem banheiro no meu quarto. – disse-me com a voz arrastada. – Eu vou comer alguma coisa.
- Obrigada...
Seria inútil falar qualquer coisa. Dirigi-me ao banheiro e coloquei pasta de dente no dedo indicador, esfregando em todos os cantos da minha boca, limpando-me. Aquele maldito , passando-me seu gosto – diabolicamente bom -, mas que deveria morar apenas na sua boca. Ele nem tinha o gosto de menta, nem o cheiro de pós-barba; nem aquela fragrância própria. AQUELES IDIOTAS ESTAVAM ME DEIXANDO LOUCA.
Cuspi na pia e enxagüei a boca.
- Queria poder ler suas expressões e então adivinhar o que está pensando. – disse-me Emily, arrastando-se até a cama com um pote de sorvete caseiro. Virei-me para ela e a encontrei em seu estado deplorável, porem segurando duas colheres de chá e estendendo uma para mim.
Sentei-me ao seu lado da cama de casal, que pareceu fraquejar com meu peso.
- Relaxe, minha cama pode não parecer forte, mas ela é super-poderosa. Acredite em mim. – Emily sorriu maliciosa.
- Você não presta... – eu ri.
- Vamos comer, eu to com muita fome! – disse-me ela. Eu ri novamente.
- Acabou de sofrer um aborto e está assim? Meu Deus.
- Eu também sou super, queridinha. – falou com um sorriso largo no rosto, abrindo o pote de sorvete e pondo a colher com gosto.
- Eu acredito que sim. – sorri-lhe, também pegando uma colher e colocando rapidamente na boca. Quando vi, estávamos fazendo competição de quem comia mais rápido. – Congelamento de cérebro! Bandeira branca!
- Cérebro, que cérebro? – Emily me disse, pegando o pote de sorvete só para ela e continuando com as colheradas, um sorriso beirando a extremidade da sua boca avermelhada pelo frio.
- Boboca. – respondi-lhe, fazendo-a gargalhar de boca cheia. – Pois bem, Dona Emily, fique à vontade para me contar sua história. Nós temos a noite toda.
- Ui, isso soou provocativo. – ela riu novamente. Porém, dessa vez, eu estava completamente séria. Mily suspirou fundo.
- Melhor você pegar um travesseiro para a coluna. – ela me disse.
- Estou bem assim.
- Bem, tudo começou...
Capítulo 14 - O sentido da verdade
- Há um dez anos... Não havia , nem você, era apenas nós três. Éramos três adolescentes loucos. Eu tinha dezessete, dezenove, e havia completado vinte naquele mês. Modestamente, éramos realmente lindos. Lindos e loucos. Na verdade, eu e éramos os piores; talvez porque eu seguia os seus passos. Morávamos os três em um pequeno apartamento no subúrbio de Londres, era uma bagunça. vivia trazendo garotas para o quarto dele e, bem, como o cafajeste que era não podia culpá-lo. E eu e ...
- Você e tiveram um romance? – perguntei-lhe assustada.
- Eu e nos drogávamos, bebíamos como loucos e depois, bem, acho que eu ficava muito louca para lembrar, mas acabávamos nus na cama dele.
- Ok, ok, pára tudo. Você e o se drogavam na adolescência?
- Pare de me interromper, merda. – ela reclamou, colocando mais sorvete na boca. – Vou continuar a história. – falou de boca cheia.
- Estou de boca calada.
- Mas assim que entrei na Universidade, e lá tive meu primeiro namorado de verdade, esqueci completamente de e das besteiras que fazíamos. Como eu morava na Universidade também, fiquei completamente sem contato com ele. me ligava vez ou outra, perguntava como eu estava; ele é meu primo, não sei se você sabe. Depois dos três anos de Faculdade de Administração, eu saí da Universidade. Liguei então para o suposto celular de , porém, quem atendeu foi . Nós conversamos horas a fio, contei-lhe que não bebia nem fumava mais enquanto ouvia sua risada alta pelo telefone. Ele dizia que com ele acontecia o mesmo; que estava namorando uma garota, eu lembro o nome dela, Mona Turner. Terrivelmente chata, devo acrescentar. Em comparação, ela era potencialmente mais chata do que .
- Credo!
- Nem me fale. A vida seguiu normalmente até... até o ano retrasado. Foi quando eu perdi meu emprego na antiga Empresa em que trabalhava, ela faliu, eu fui junto. Meus meninos não tinham como me contratar como administradora, isso é, com meu currículo em si. Por isso esse trabalho como revisora; é só fachada, eu ajudo na administração por trás de tudo. Juntamente com , que tem pós em Administração. Quando cheguei à London Music, eu a percebi, e como não perceber? A grande , designer maluca e mandona. Cada vez que você chegava de manhã e cumprimentava todo mundo, eu via, da pequena sala no depósito, seu glamour ao responder um simples ‘Bom-dia’. È, , Eu me lembro de você. – Emily sorriu. – era a da vez, enquanto continuava o mesmo. Foi naquele ano que o câncer veio perturbar minha paz. Fui ao médico e me internei durante seis meses para a quimioterapia. Você deve se lembrar dos dias em que você trabalhou dobrado no sábado porque uma funcionária estava doente.
- Ah sim! Claro que lembro. Não sei como não me recordo de forma alguma do seu rosto... Você vivia enfurnada no depósito durante os dias da semana?
- Sim, e enquanto você revisava os desenhos no sábado de manhã, eu chegava logo depois. Acho que sofremos aquela história de Encontros e Desencontros.
Emily havia parado de falar para finalmente finalizar o pote de sorvete. Enquanto isso, eu parecia absorver as informações que me foram dadas. e Emily num romance adolescente, envolvidos com drogas. Os super-heróis e seus passados sujos. Mordi meu lábio inferior com certa força ao chegar a minha conclusão: Nada é o que parece. Fato fatídico. Mily deitou-se na cama, e eu a acompanhei. Fiquei em posição fetal enquanto ela mantinha a barriga para cima e o olhar fixo ao teto.
- A quimioterapia não deu resultado. Meu câncer no fígado só daria jeito caso eu fizesse a cirurgia e o removesse, fazendo então um transplante. Fígados são difíceis de achar. O único que me arranjaram não tinha uma boa saúde, mas pelo menos as células não eram cancerígenas. Transplante feito, eu abri um sorriso e esperei que o médico me desse uma boa notícia. – Emily virou seu rosto para mim. – Desculpe o palavreado.
- Que...
- Mas aquele filho da puta nojento, disse-me que eu não tinha muito mais que um ano de vida. Disse-me para tentar outra seção de quimioterapia. Jamais! Jamais! Aquilo era horrível, eu não ia me submeter aqueles vômitos de cinco em cinco minutos, a sensação de derrota! Eu era Emily, a super-mulher. Eu sou super. E não era aquele médico que ia me dizer o contrário. – Ela suspirou – Em dois dias eu saí do hospital. Estava parecendo um pinto com o pouco cabelo que crescia do meu coro cabeludo. Era novembro. Com o dinheiro que me restou, comprei uma peruca ruiva horrível, mas que quebrou o galho, principalmente por ser idêntica ao meu antigo corte. Voltei à minha casinha horrorosa, liguei pros meninos, disse que eu tinha voltado de viagem.
- Você disse a eles que tinha viajado durante todo esse tempo; ou seja, eles não sabem de nada do câncer. Por isso não têm a mínima idéia do porquê do aborto... Não, muito pior. Eles não sabem de nada. Simplesmente nada. E depois vocês se dizem melhores amigos. – eu ri – Super divertido. Então você voltou a trabalhar como uma ruiva.
Emily me lançou um olhar de censura o qual eu ignorei completamente.
- Pois bem, e o médico foi tomar banho, porque aqui estou eu, viva e linda. – Ela me disse sorrindo largamente.
Uma dor terrível me atingiu o peito e, de repente, meus olhos passaram a arder como a pele do demônio em água benta. Eu solucei. A respiração passou a acelerar e, num súbito, uma água doce caiu dos meus olhos até tocar meus lábios. Choro.
- , por que você está chorando? – Emily perguntou. – Olhe, eu estou bem. Já disse que sou super.
- Emily, minha amiga... Continue a história, e a gravidez? Quem foi? Como aconteceu?
- Foi... Um amigo. Momento de fraqueza, nada demais. Três semanas atrás, como já lhe disse
- Quando o amigo lhe viu, sentindo aquela dor, gemendo daquela maneira, eu via o desespero nos olhos dele. A culpa. And I hurt myself, by hurting you. – cantei com a voz mansa.
- Você tem a terrível mania de associar as coisas a uma música. Isso assusta.
- Assusta principalmente quando o que eu canto é exatamente o que acontece. Ou a música parece encaixar com o momento. – disse-lhe – Agora tudo faz sentido... Mas não foi apenas um deslize, certo? Vocês não conseguiram se segurar, principalmente visto o que aconteceu no passado, na adolescência.
- Foi tão bom. Nós não queríamos parar. é bonito demais para eu deixá-lo com uma chata qualquer. descobriu.
Parei um tempo para pensar.
- Foi... Foi que a colocou na mesma limusine que eu, no dia da festa, lembra?
- Ele tinha me dito que se eu quisesse crescer na empresa, precisava falar com você. Mas aí nós conversamos, tudo mudou.
- sabia da sua relação com , e também sabia que eu tinha queda por bonitões. Com você ao meu lado, no caminho, ele sabia que eu jamais cogitaria qualquer coisa com o .
- Mas tem algo errado nessa história...
- O quê? – perguntei assustada.
- não deixou de ficar no seu pé por motivo algum. Fosse eu, , ou a pressão de .
- Eles estavam brincando comigo. BRINCANDO COMIGO, PORRA! – Levantei da cama com raiva.
- Ei, ei, calma. Você não está sozinha nessa. Estamos no mesmo barco. – falou calmamente, fazendo uma trança no cabelo louro.
- E POR QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ CALMA?
- Ué, eu tenho você no meu time, para que diabos ia me estressar?
Sentei-me na cama novamente, cruzando os braços.
- Eles que me aguardem. – disse-lhe séria. – Agora eu preciso de doces e café, muito café. Você fique aqui quieta que eu vou sair para comprar...
- Aqui tem. No armário, terceira portinha à esquerda. E o café está na estante, você consegue se virar, né?
- Por obséquio. – respondi-lhe. – Emily, parabéns, você vai participar do meu plano anti-chefes-gostosões.
havia pré-meditado tudo para me conhecer e me manter, o que explicava o porquê de ele ter aturado as provocações do Senhor .
tinha um caso secreto com Emily, eles quase tiveram um filho se não fosse pelo câncer que atacou o útero da jovem Emily.
Se eu achava que tinha algum poder, a verdade é que eu era realmente uma funcionária, namorada do chefe, e não tinha bulhufas; senão um passado misterioso e horroroso.
O inferno vos aguarda.
Capítulo 15 - Análise, fato e sim: verdade.
Foi diferente. O pesadelo foi diferente. Quando abri os olhos naquela manhã, na cama de Emily, algo havia mudado. Levantei-me devagar, espreguiçando-me, e observei que dormi sem cobertas e com as mesmas roupas do dia anterior. Olhei para trás e Emily estava ao meu lado, completamente envolta nos edredons em arco-íris; ali a resposta para a falta de cobertores em meu corpo. Emily os havia puxado durante o sono.
Suspirei pesadoramente sentindo uma leve tontura. Não havia dormido direito. Altas doses de cafeína e glicose haviam afetado meu organismo de tal maneira que fora impossível relaxar meu subconsciente. Senti minha mente regurgitar informações as quais não me eram sequer decifráveis.
Levantei meu corpo com dificuldades e segui para o banheiro. Apenas arrumei os cabelos, lavei o rosto e aprumei as roupas; não me dei ao trabalho de me ver no espelho e analisar o quão horrenda estava. Voltei à sala, calcei meus sapatos, deixei um bilhete qualquer para Emily e saí porta afora.
Mesmo sonolenta, eu não pude deixar de notar que o bairro em que me encontrava era nobre, de casas grandes, e casa de Emily se diferia de todas as outras. Com toda a história que ela havia me contado ontem, eu sentia sim o meu instinto de vingança latente e atento, porém a minha consciência parecia contê-lo. Algo estava errado, e eu me encontrava completamente disposta a descobrir o que era.
Segui pedindo informações até chegar a um ponto de táxi. Custou-me voltar para casa. Depois de pagar ao taxista, examinei meu prédio. Eu tinha saudades de casa; aquela loucura me deixava em completa deselegância e, para mim, meu refúgio é o meu lar. Completamente. Cumprimentei o porteiro com um leve aceno e segui o itinerário até o apartamento em que morava, no 3º andar. Depois de passar um tempo me estressando por não encontrar as chaves na bolsa gigante, finalmente abri a porta do meu amado refúgio. Estava completamente bagunçado, como se não tivesse sido arrumado há dias. Recordei-me da última vez que vi Lissa, a empregada: três dias, ou seja, desde em que havia me ausentado. A bagunça era simples, o chão e os móveis levemente empoeirados, a flor laranja - que geralmente me aguardava brilhante no centro do lugar - morta, por não ter sido regada. Onde estava Lissa?
Fui direto refazer-me para trabalhar. O expediente começava às 8 horas em ponto e já eram 6:50. Banho rápido, prendi meus cabelos e coloquei uma roupa que me agradasse e, ao mesmo tempo, combinasse com o frio que se fazia lá fora. Arrumei a minha segunda grande bolsa, mudando as coisas rapidamente e refiz maquiagem rápida no espelho. Optei pelo básico rímel nos cílios, um leve sombreado, e deixei os lábios a mercê de um batom aperolado. O vestido era de cor púrpura, e assim foram as pérolas que coloquei no meu pescoço. As botas negras chanel ¾ faziam o trabalho de cobrir as pernas, juntamente com a meia calça grossa. Prendi os cabelos de qualquer jeito e saí de casa.
O porteiro do qual eu nunca lembrava o nome estava assistindo algum reality show na pequena TV, completamente arreganhado em seu assento. Apressei passos rápidos em sua direção:
- Senhor, sabe de uma mulher branca, mais ou menos 1,60m, bem novinha, cabelos muito claros e encaracolados? Ela trabalha no meu apartamento, no terceiro andar. – falei pausadamente, dando ficha completa, gesticulando com as mãos. Os olhos cansados do porteiro voltaram-se para mim com uma certa surpresa.
- Sei quem é. Melissa. – Ele disse entediado, ao mesmo tempo que observava minha face minuciosamente. Arqueei uma das sobrancelhas como quem não está de brincadeira.
- Pois é. Lissa. Quando foi a última vez que você a viu? – ele continuou a me olhar sem dizer nada. As vozes repassadas no reality show da pequena TV apenas esquentavam meus neurônios. – Meu querido, você vai responder ou vai ficar olhando pra minha cara? – e o homem continuou calado. Eu não estava apenas intrigada, agora eu estava realmente preocupada e irritada.
Peguei o celular na bolsa e disquei rapidamente o número que eu sabia de cor. Perdi a conta do número de vezes que liguei para Lissa pedindo para ela fazer um novo prato no jantar, recepcionar alguém, arrumar alguma coisa e achar alguma coisa que eu não lembrava onde havia deixado, principalmente.
- Alô? – a voz feminina, fina e altamente reconhecível de Lissa soou ao telefone celular.
- Lissa, sou eu, . Onde você está? Estou preocupada! Esse porteiro mal-educado não quer me...
Antes que eu sequer acabasse minha frase o telefone havia sido desligado. Merda. Liguei novamente.
- ?
- Sim, sou eu. Você está bem? – foi a primeira coisa que perguntei.
- Eu... estou bem. – falou com uma voz rastejante. – Só que... bem, eu estava esperando sua ligação.
Estava convicta de que algo muito ruim havia acontecido. Num gesto infantil, dei língua para o porteiro e saí portão afora do meu prédio, a caminho da estação de metrô.
- O que aconteceu quando eu estava fora? – perguntei-lhe.
- Uma mulher ligou. Dizia ser sua parente e apenas me deixou a ordem de sair do apartamento. – a voz de Lissa saia trêmula pelo telefone, e eu não tinha a mínima idéia de que mulher poderia ligar para minha casa de tal maneira. Balancei a cabeça negativamente, meus passos cada vez mais tortos ultrapassando apressados os ingleses que se punham à minha frente.
- Olhe, eu estou um pouco apressada agora, e preciso de você. Você sabe disso. – falei em tom brincalhão, ouvindo-a rir tensa do outro lado da linha. – Onde você está?
- Naquele motel a 5 quadras do seu apartamento. Aquele que você me dizia para ir quando não tinha lugar para ir.
- Tudo bem. Fique por aí, eu vou ver se consigo sair mais cedo do trabalho hoje, apesar de não ser muito provável. Espere minha ligação e não volte pro apartamento. Você está me entendendo? NÃO volte!
- Sim.
- E não se assuste, é só que estou com um mau pressentimento.
- Ai meu Deus... – ela suspirou alto.
Avistei as escadas para descer o metrô e sabia que a partir dali meu celular ia começar a falhar o sinal.
- Pois bem. Te ligo depois. Cuide-se.
- Você também.
Desliguei o celular e o pus na bolsa, fazendo meu caminho até o trabalho, caducando quem diabos era a mulher que ligou para minha casa. Melissa sempre fora uma excelente trabalhadora; e eu chegava a considerá-la mais como minha secretária pessoal do que como uma empregada doméstica em si. Cuido da garota desde os 17 anos, quando me apareceu procurando emprego e sem lugar para morar. Agora ela tem seus 22 anos, apenas recusa-se a cursar o ensino superior, alegando que gosta de fazer o que faz. Praticamente minha babá, a diferença era que eu jazia anos mais velha que ela, e com um passado que nem mesmo se o universo fosse feito de borracha, eu conseguiria apagá-lo.
Seja lá quem fosse a psicopata ligando para minha casa, eu tinha esse pressentimento de que era melhor manter Lissa longe daquele apartamento. Longe de qualquer telefonema.
Quando dei por mim o meu piloto automático havia me levado direto ao prédio onde situava-se a London Music. Limpei meus pensamentos para tentar concordar a realidade presente. , , Emily e seus desenlaces de insanidade me aguardavam.
Entrei no elevador sozinha e apertei o 18º andar, até um arrepio frio e agradável percorrer a espinha dorsal. Mãos masculinas impediram a porta de se fechar, e logo encarei com um sorriso maroto entrando no elevador e ficando ao meu lado.
Não consegui impelir o sorriso que me atingiu como uma bala feroz. Assim que a porta do elevador se fechou, entreolhamo-nos, sem saber o que fazer. Primeiro dia de trabalho desde a proposta de namoro. Não sei dizer se foi ele ou eu quem virou primeiro, o riso foi automático quando viramo-nos no mesmo momento; toquei seus ombros com as mãos ainda cobertas por metade das longas mangas. Seu corpo se aproximou do meu com extrema elegância e o tempo que tive para tomar ar foi mínimo, fechei meus olhos e apressei o encontro dos nossos rostos. O tempo não fora suficiente para que nossas respirações se chocassem e pudessem enfim fundir-se; como o pulo de um gato, lábios selaram sua sede constante em um beijo que considerei terno. À medida que passávamos um andar, o elevador apitava e informações as quais minha audição ignorava, eram passadas por uma mecânica voz feminina. Consciência, minha amiga, pedia-me insistentemente para contar os toques que indicavam cada andar a ser subido; mas de algum modo eu estava muito distraída para discernir o certo do errado, o conveniente do extremo constrangedor. Foi quando outro choque voltou a percorrer a minha circulação, acordando minhas células de seu transe, e fazendo-me (ou, melhor dizendo, forçando-me) afastar de e seu beijo doce tão rapidamente que mal pude notar meus movimentos. O Outro – e assim me dirijo ao - estava próximo, eu consegui senti-lo como uma vítima sentiria a presença do seu assassino.
Meus olhos fincaram-se na pequena tela que indicava o 15º andar, e uma seta verde apontando para cima: subindo. Olhei cuidadosa para , que também tinha seu olhar sereno voltado para mim. “Calma”, foi a palavra que li dos seus lábios levemente avermelhados.
- Eu estou calma. – falei quase num sussurro. – É só... ele. – frisei o pronome com repulsa, apertando o punho. segurou a minha mão.
- Bipolar e imprevisível. Vou anotar isso na minha lista. – riu – Não foi você que disse que ia ficar tudo bem, ? Já está tudo bem. E eu estou ao seu lado.
Tentei falar alguma coisa, mas além de meus argumentos serem demasiados obscuros e insanos, a porta do elevador finalmente se abriu, e a voz mecânica se declarou: “London Music, Décimo oitavo andar. Desce.”
Eu odiava a voz daquelas mulheres mecânicas blábláblá! Por que não uma voz masculina? Será que dá pra respeitar a população do sexo feminino, muito maior do que os homens? Voz de mulher às vezes me irritava. Aliás, estava me irritando bastante esses dias. Como aquele maldito telefonema o qual eu não conseguia tirar de cabeça. Ou as palavras de Emily, que me pareciam algo, definitivamente, estranho. Eu não sairia do trabalho sem sanar as minhas dúvidas.
Senti o vento de ar refrigerado, com aquele cheiro altamente reconhecível, tocar uns fios rebeldes dos meus cabelos, os quais teimavam em sair do penteado. Segurei a mão de com mais força e montei a minha face matinal: sonolenta e receptiva com sorrisos breves e acenos baixos.
O primeiro olhar a ser notado foi o de Jennifer, minha fiel secretária, que vinha com seu caderninho de anotações verde polar; eu via sua boca se abrindo em câmera lenta, e lia seus lábios: “Eu não acredito!”
O pessoal das contábeis parou de mexer nas máquinas mortíferas (ou assim eu apelidei os computadores avançados). Conversas foram interrompidas, enquanto outras, não podiam parar naquele momento tão avassalador. Seria aquilo tão avassalador assim? Sentia-me como a primeira mulher a pisar na lua, sendo recebida na Terra. E eu que pensava que esse mundinho acabava no High School...
- Parabéns, celebridade. Nunca fiz tanto sucesso em minha própria empresa. – disse-me em voz baixa enquanto acenava para Dominic.
- Você deve estar se divertindo mesmo com isso... – sussurrei-lhe, chamando Jen com uma das mãos.
- Mas não é divertido? – perguntou, virando-se para mim. Fiz o mesmo involuntariamente ao sentir sua respiração quente no meu pescoço.
- Claro que é. – sorri-lhe beijando o canto dos lábios. – Nos encontraremos no almoço?
- Sim, Milady. – sorriu cavalheiresco, até ser puxado por algum de seus funcionários o qual não pude identificar.
- . – a voz de Jennifer reanimou minhas células apaixonadas, fazendo-as tentar (ao menos tentar) voltar à realidade.
- Oi, oi, eu, eu. – repeti as palavras em desatino.
- ... – ela repetiu, com uma expressão animalesca detetive. Sorri-lhe cúmplice. – Nova York em oito dias, você precisa preparar seu discurso. me pediu ontem para que você fizesse algo inovador para os nossos acionistas, de acordo com seus dons artísticos e criatividade renomada.
- Hum. – murmurei. Vi-a com seus passos rápidos em direção ao meu escritório e passei a segui-la apressada.
- Carl disse ter perdido seu projeto gráfico básico da revista, ele a espera no seu escritório nesse exato momento. Tente não matá-lo, por favor. – pausou o falatório para uma respiração sensata. Rondei meus olhar pelos cubículos, sem nem saber o por quê. – Seu vôo partirá quinta-feira, às 5 horas da tarde. Ou seja, esteja no aeroporto uma hora antes. E NÃO atrase.
- Todo mundo quer ser minha mãe... – disse-lhe avoada - Desde quando eu me atraso para compromissos importantes? – virei meu olhar desafiador para minha secretária. Ela pareceu tremer. Que besteira, era apenas um olhar desafiador. – Relaxe, Jen. Eu estava brincando. Além do mais, não tenho mais motivos para me atrasar. – soltei-lhe uma piscadela.
- Ok... – Jen disse, ainda parecendo amedrontada. – E... Você e o ?
Avistei a porta do meu escritório. Apenas sorri para Jennifer quando ali me enfiei e de lá apenas saí para o necessário. No horário do almoço, tornei a ligar para Lissa. Saí do escritório com o telefone celular no ouvido apenas sustentado pelo meu ombro, enquanto as duas mãos se ocupavam em reler o relatório de Carl. Sim, mulheres têm essa capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, principalmente quando são jovens, como eu.
Os passos foram automáticos até a cafeteria, mas antes que eu pudesse clicar em qualquer botão da máquina expressa, uma mão puxou-me com agilidade tamanha para me fazer virar cento e oitenta graus.
- Comida de verdade. – disse-me em sua voz perfeitamente afinada para a minha audição. Arqueei as duas sobrancelhas pelo susto, e soltei todo o ar preso em meus pulmões.
- Não precisava me assustar também. – falei-lhe rindo.
- ? – Lissa me chamava pelo celular.
- Desculpe-me. É o . Nós conversamos mais sobre aquilo quando eu chegar em casa. Agora... procure o que eles estão fazendo. – respondi ao celular, tocando o ombro de como um pedido de espera.
- Pelo Centro Médico ou...?
- Sim,por esse mesmo; o outro não vai oferecer esse tipo de informação.. Preciso desligar. Beijos. – disse rápido e desliguei, encarando a expressão de um confuso. Ele parecia ter ouvido a conversa toda, e sua testa franzida preocupava-me com as futuras perguntas.
- Trouxe-me o que para comer? – reverti o assunto que ainda estava para surgir. Sorri-lhe largamente e sentei em uma das cadeiras da pequena cafeteria, cruzando as pernas, olhando-o impaciente.
- Ah... – balbuciou – Sanduíches. – disse simplesmente, colocando uma sacola de cor parda no meio da mesa e sentando na cadeira da frente.
- Sanduíches? – perguntei-lhe – Isso é comida de verdade? – sorri, virando a sacola e avistando a logomarca da Burger King.
- Ta, desisto, é Fast Food. Mas é melhor do que se alimentar de cafeína, você não fica muito bem quando toma café de estômago vazio. – sorriu de lado, abrindo a sacola e dividindo os sanduíches e batatas-fritas. – Bem lembro da vez que carreguei-lhe desmaiada aqui mesmo. – Ri baixinho, lembrando do fato. Ele abriu a caixinha do que eu consegui definir como um BK Stacker quádruplo e deu uma mordida enorme. Segurei o pensamento que me invadiu: ‘Que boca enorme...’ e tratei de rir para dentro; disfarcei pegando algumas batatinhas e colocando na boca.
- Você e comigo desmaiada, naquela bagunça que você chama de escritório. – balancei a cabeça – Isso me soa perturbador agora. - ri, mordendo os lábios involuntariamente. Suspirei e abri um dos pacotes de Ketchup, vagarosamente pintando a batata-frita daquele vermelho.
- Bem... – ele riu um pouco mais alto – Eu pensei em coisas inadequadas naquela situação, admito. Você é tão... – ele sequer completou a frase, deu mais uma mordida no sanduíche e levantou rápido. Pegou uma Coca-Cola na máquina de refrigerantes e voltou ao seu lugar original, engolindo tudo com a básica Coca. franziu a testa. – Você ficava incrivelmente linda até desmaiada.
#FLASHBACK#
A jovem mulher descansava ainda nos braços daquele que a carregava, porém ele estava sentado no sofá de dois lugares que decorava o seu escritório. Devido ao desespero, o tapete que cobria grande parte do recinto, fora puxado diversas vezes a ponto de quase embolar-se. , o sócio administrativo, retirou os sapatos altos da moça; seu corpo tão maleável e torto, aqueles saltos saíram de seus pés com grande facilidade. Inevitável que a saia roxa de tecido leve aprumasse para o alto; e as pernas mantidas no linho fino da meia-calça fossem extrapolando a estética apresentável.
- Deveríamos cobrir as pernas? – perguntou, engolindo em seco em sua visão.
- Eu não sei. Ainda acho que, de qualquer jeito, ela vai achar que a molestamos ou... sei lá. – disse , suspirando. – Acho que ela é criativa o bastante para imaginar o que nós dois pensamos agora e nesse instante.
estava ali tão bela em seus trajes de trabalho agora tão fora do comportamento habitual. Os cabelos soltos e levemente claros contrastando com a pele que pouco a pouco adquiria cor, quase imperceptivelmente. Os seus lábios estavam tão secos, como se pedissem para serem molhados. E se um dia elogiaram os olhos, precisavam vê-la com as pálpebras mostradas.
- Eu não pensei em nada! – disse, colocando as mãos pro alto. – Não tenho culpa se a mulher chama atenção até quando parece estar morta. – Ele dirigiu-se à cadeira reclinável, relaxando o corpo. – Que bonitinho... – comentou irônico.
- O quê? – perguntou , finalmente parando de analisar os traços da Designer.
- Você... ... Eu sei que só a trata mal por que tem medo do que possa acontecer quando você tentar alguma coisa. – suspirou – , ... Eu te conheço, meu garoto.
- Sei que sim. – respondeu ríspido, o amigo e sócio tinha a razão. Pra variar... – Engraçado mesmo é que ela te trata bem e você fica aí torcendo o nariz e namorando a . , eu sou seu amigo, mas versus ?
fechou os olhos e imprimiu os lábios numa linha fina.
- É, meu caro. Mas é completamente instável e , bem, pelo menos eu sei que vai dar certo. Sabe... Com toda certeza. E a gente tem química, ela é bonita, é o suficiente.
- O suficiente. – repetiu em voz baixa, voltando a olhar para a adormecida. Retirou-a de seu colo e ajeitou a cabeça em uma almofada, afastando-se, e sentando em outra cadeira ali perto.
#FLASHBACK#
- Ah claro, os dois chefões reunidos... – coloquei o resto do sanduíche na boca. – admirando os meus dotes físicos. – disse sarcástica, ainda mastigando a comida. Acho que estava meio nervosa com aquela situação.
- Você sabe que não se resume a isso. – me disse com uma voz convicta, porém triste. Acabei de comer e enchi a barriga de Coca-Cola.
- Jamais educarei meus filhos com Fast-Food. – declarei, limpando a boca. riu. – Eu estou falando sério! Sinto como se tivesse grávida de um Alien agora. – e ele riu ainda mais, balançando a cabeça negativamente. Ergueu um pouco o corpo sobre a mesa e aproximou-se de mim. Senti suas mãos quentes e ainda um pouco sujas de óleo tocarem as minhas, igualmente sujas e diferentemente frias.
- Não pense mal disso. – olhou-me sério. Uma tortura olhar nos olhos de um deus.
- De que, de você e admirarem meus dotes físicos? – perguntei-lhe – Eu vou levar como um elogio.
- ... – ele chamou calmamente. Ouvi o som do elevador chegar abarrotado dos funcionários da empresa, voltando ao horário do expediente. – É só que... Deixa pra lá. Se o que ela me disse for verdade, que você vai fugir, não me deixe aqui sozinho. As coisas mudaram.
- Ela? De quem você está falando? – perguntei, segurando suas mãos em tensão. – E por que diabos eu fugiria?
- Emily. Foi o que Emily me disse hoje de manhã.
Passei um tempo silenciada, e o único som ouvinte era do pessoal chegando e se acomodando. Já sentia o perfume do namorado inebriar meu olfato, e aquele efluente parecia ativar memórias; e quantas vezes eu repetiria que me fazia muito bem?
Insight. Momento de idéias rápidas e descontrole das palavras, como o vulto de um super-herói, fiz a pergunta:
- Alguma vez Emily já foi ruiva?
Ele arqueou uma das sobrancelhas perfeitamente, fazendo com que meu espectro apaixonado entrasse em guerra com o mais novo espectro: Sherlok Holmes, detetive.
- Não. – Ele fez careta. – Sempre loira, desde que eu me conheço por gente.
Sorri fraco e levantei da mesa, sendo seguida por ele. Arrumamos rapidamente a bagunça que seria jogada no lixo. Ouvi a voz de bem de longe - como no fundo de uma das cabines de impressão - incentivar o começo do turno vespertino de trabalho. me olhou com uma cara pedinte e, ao mesmo tempo, maliciosa.
- 19 horas.
- Não. – recusei. – Muito tarde, preciso resolver coisas em casa. 18 horas.
- Não dá, enche o saco à essa hora com reunião de redatores. – ele me dizia rápido.
- 18:30h? – perguntei.
- Perfeito. No meu escritório. – ele sorriu largo, aproximando-se do meu corpo e puxando-me pela cintura naquela agilidade conhecida. Apesar de não termos nos demorado, o beijo foi o suficiente para marcar a boca de ambos, deixando nossos lábios avermelhados; como se tivessem sido devorados. E assim seguiu mais um dia no trabalho, normal até o fim do expediente.
22 horas – Escritório de
Talvez eu exagerei nas provocações, mas finalmente havia cansado . Ele descansava no sofá, depois de termos experimentado vários cantinhos daquele cômodo. Também nunca pensei que ia amar o fato de o seu escritório de Boss serem um dos únicos a terem cortinas que fechavam completamente o ambiente. Emoção e adrenalina correram sem interrupções da nossa circulação, enquanto encontrávamos devassos saciando a sede diária; e ao mesmo tempo, a poucos metros, ouviam-se digitar de máquinas, chamados de bips e vozes alheias.
O computador dele estava ligado, e era minha chance de acessar os arquivos da empresa.
Como se esperasse por mim, o sistema estava logado, o que me salvaria de tentativas como hacker. Encontrei o ‘Pesquisar’ e digitei rapidamente: Emily Summers.
Quando acabei de ler tudo, havia apenas uma palavra querendo escorrer da minha boca. Acordei , chamando-o para sair dali e vestir-se. Ele o fez parecendo estar no nirvana ou algo do tipo, sorria sozinho. Eu o encarava desconfiada depois do que havia lido, meu coração abatido, mas ainda apaixonado por aquele ser.
Assim que ele acabou de se vestir, dei-lhe o beijo mais carinhoso e calmo que pude proporcionar. Seus lábios movimentaram-se em completa sincronia, e os braços enlaçavam toda a minha cintura, juntando nossos corpos. Minhas mãos agarravam seu pescoço, e dali não queriam sair, pelo menos não por vontade própria.
- Tenho duas frases a te dizer, mas não farão muito sentido agora. – praticamente sussurrava, enquanto nossas testas se encontravam e os narizes frios se tocavam eventualmente – A primeira é “Resista e não haverá vingança”. A segunda, e mais importante é “Aussi”.
Então me desvencilhei de seus braços e beijei a palma da sua mão, saindo silenciosa, a não ser pelo toque dos meus saltos no chão duro. E apenas quando me vi segura e dentro de casa, tranquei a porta e finalmente pronunciei aquela uma palavra que agoniava as minhas entranhas desde que li quem era Emily Summers:
- Mentirosa.
Capítulo 16 - Reunião de decisão
Os dias seguiram e eu fingia que nada havia acontecido. Lissa parecia menos assustada desde que mudei o número do telefone da minha casa, e também ficou mais aliviada quando contei-lhe que poderia ser apenas o passado infernizando; e disso, Melissa era a pessoa mais indicada para entender do que se tratava. É claro, para minha sorte, não precisei entrar em detalhes.
Dispensei todos e quaisquer convites para o meu sábado à noite. Dessa vez, o Saturday Night não seria para diversão, a não ser que houvesse palhaços no circo armado entre aqueles três.
Emily’s POV
Era sábado, dia de fazer biscoitos, exatamente como mamãe fazia. Convidei os meus meninos para uma pequena reunião entre amigos, haviam tantos novos assuntos ruins atrasando nossas vidas, eu precisava levantar o astral deles. também deveria estar mal, mas dela eu tinha que cuidar depois. Aliás... Acho que o envolvimento dos três era realmente aquilo que me deixava triste.
Com a massa dos biscoitos pronta e nas formas, coloquei-os no forno já quente. Estariam deliciosos assim que os meninos chegassem, isso é, às 7. Eles eram sempre pontuais.
Deixei a cozinha e sentei-me em um dos sofás da sala, que eram cobertos de desenhos feitos com lã. Eu gostava de tecer. Com um controle remoto, liguei o som, e o agradável som de Aerosmith encheu o ar de inspiração, e eu me senti flexível a uma meditação sobre o caso dos Três. E então os pensamentos fluíram rápidos...
tinha que escolher um deles, de uma vez. Se ela escolhesse, eu acho que seria o , mas isso deixaria triste. Porém, se ela escolhesse , , que já estava apaixonado, poderia até mesmo perder a razão e virar um Tiozão, como George Clooney. Ah... George Clooney... triste me magoaria. triste me magoaria. tinha de ir embora. Ela com certeza faria isso, se estivesse muito confusa, e ela os culparia por deixá-la louca...
Um estalo na minha cabeça retirou-me da meditação para colocar as bebidas no refrigerador. Minhas ações eram automáticas, e naquela linha de pensamento, eu percebi que mesmo sem nunca ter pensado puramente no assunto, eu já havia manipulado para que tudo isso acontecesse. Um sorriso iluminou o canto da minha boca. Eu tinha o feito sem sequer perceber, porque era esse meu destino: proteger os três. Eles tinham de estar separados, não havia outro jeito racional de mantê-los em suas sanidades e personalidades. E eu, eu tinha que ser amada também. Eu morreria logo, sabia disso, então por que eles não podiam simplesmente fazer o favor de manterem-se afastados? Era... para o bem deles.
Ouvi o toque da campainha. Olhei para o meu relógio pregado no topo da parede: 18:50 h. Será que eles haviam chegado mais cedo? Aprumei meu vestido e dei uma rápida conferida no visual, apenas apalpando-me. Passei as mãos pelos cabelos e atendi a porta:
- Emily. – sorriu-me não um dos meus meninos, mas , com aquele potencial incrível de ser impossivelmente linda e... assustadora. Os cabelos bem presos num coque baixo, nenhum fio se atrevia a sair do lugar; seu rosto estava pintado com uma maquiagem negra, e nem mesmos os lábios escaparam da conduta obscura. Vestia um sobretudo bege – na altura dos joelhos - minimamente mais curto que algum vestido negro e rendado que usava por baixo. Os saltos altos, os quais eu jamais imaginaria me equilibrar, ela parecia estar montada em pantufas com a facilidade em que se mantinha em pé, eram brancos como a neve.
- Oi. – disse balbuciando um pouco. Não esperava a sua presença.
- Emily, a mentirosa. – sorriu, e por mais bonito que fosse o seu sorriso, eu nunca tive tanto medo de suas feições. Eram sarcásticas, duras, más. O que ela estava dizendo? O que estava fazendo?
Sequer retirou o sobretudo para sentar-se em meu sofá com aquele mesmo sorriso que se fundia entre o escárnio e a boa educação. Colocou a bolsa pesada sobre as pernas e olhou para mim.
- O que deu em você? – perguntei rindo, disfarçando a tensão, e fechando a porta de casa. Sentei-me ao seu lado, sentindo-a exalar uma corrente de ódio tremenda.
- Você mentiu para mim. – disse-me olhando profundamente nos meus olhos, a ponto de fazer ferver a espinha. – Entrou na London Music na semana da festa e, de repente se torna minha melhor amiga. Com todo aquele semblante de anjo, tão comportada, uma amiga perfeita, tudo que eu precisava. E agora eu me pergunto: O que afinal você quer de mim? São eles, não é? São eles que você não consegue dividir, porque eles têm de ser seus e de mais ninguém; e seu maior medo é que eles me amem mais do que a amam. – finalmente parou para respirar. – Pior do que qualquer decepção amorosa é saber que alguém em quem você confiava cegamente, mente por puro deleite do próprio ego.
Não havia palavras ou gestos ou quaisquer ações para respondê-la. Eu me sentia inútil, ruim, mau, uma verdadeira bruxa; mesmo sabendo que, no fundo, havia feito tudo de propósito. Abaixei a cabeça com desgosto de mim mesma, e deixei-me levar pelo remorso, que agora, vendo a fúria de uma mulher como ela – ela que sentava ao meu lado -, parecia realmente existir.
Ainda assim via-me na mesma encruzilhada, sem querer magoar os meus meninos, sem querer deixá-los à mercê da escolha de . Escolha de uma mulher que poderia definir a felicidade de um ou de outro, era assim que funcionava, e como esperariam que eu me impusesse? Que ficasse silenciada, vendo-os sentenciados ao sofrimento? Mentir, grande coisa.
- Você fala como se fosse a Santa maravilhosa. – deixei-me levar pela raiva que voltou a me consumir. arqueou uma sobrancelha desafiadora, apenas meu medo evaporou como água em chapa quente. – Só que você esconde o seu passado indefinidamente, e fica nessa de misteriosa indecisa. Espera o quê com isso? E por que antes de me julgar, você não se julga, e percebe que fez o mesmo que eu!?
Ela gargalhou.
- Ah, vamos lá, Emily, eu esperava uma melhor defesa do que me atacar. Meu passado é omitido, devia ser enterrado, e eu jamais enganei ninguém por causa disso. – Disse-me com a voz calma, mas ainda assim transtornada.
Ouvimos o silêncio e a briga entre nossos olhares. Estávamos demasiadas concentradas naquela discussão; eu já havia perdido completamente minha paciência. Ouvi o som de uma porta se batendo, só que nesse exato momento o argumento que eu precisava assolou a minha mente, e não pude impedir-me de ralhar:
- E como descobriu que eu tinha câncer apenas de examinar-me a olho nu? E como soube diagnosticar quando eu perdi meu filho? Por que você sabe tanto sobre tantas coisas? Por que esse medo, essa fúria... Como você pode ser tão rápida nessas respostas sobre a vida? Afinal, , quem é você?
- Reabilitação numa clínica em Cambridge aos 19, nunca cursou uma universidade. Sua verdadeira idade, 25 anos. Seus cabelos nunca foram raspados porque você nunca tentou uma quimioterapia, e é isso que te mantém viva, se você quer saber. E é isso que vai te matar logo, se também for de seu interesse, Summers. Loira e para sempre loira, linda e para sempre linda, meiga e para sempre meiga; mentirosa e para sempre mentirosa. – respondeu. – Essa é você.
- E minha pergunta não foi respondida. – repliquei.
- E eu não estou entendo porra nenhuma. – ouvi uma voz masculina ecoar pelo recinto. Era , com a chave da casa na mão e a porta escancarada, revelando , ali encostado em um traje Armani e mãos nos bolsos. Ambos com os rostos tristes e furiosos. – Aliás, acho que estou entendendo sim, depois de ouvir a conversa das duas, ou seria uma briga?
- Cala a boca, . Cala a boca e senta aí. – ordenou , voltando então seu olhar para . estava... bem, eu não sabia definir sua expressão diante daquela ali sentada. Ajeitou suas vestes, retirando o sobretudo e colocando-o no cabideiro ao lado da porta e simplesmente sentou em uma das poltronas existentes na sala. – ...
- . Eu... – queria falar alguma coisa, mas a outra fora ágil em correr ao seu encontro e calar-lhe os lábios com o dedo indicador.
- Venha, eu já estou de saída. – segurou a mão dele e guiou-o até o sofá, fazendo-o sentar ao meu lado.
retirou a bolsa do meio entre eu e e colocou-a sobre um dos ombros. Afastou-se de nós e manteve-se em pé, apenas a observar.
- Antes de deixar-lhe a sós em sua reunião secreta, tenho mais a dizer. – Ela falou, deixando a pesada bolsa cair, arranhando seus braços até a mão, onde ali ela capturou o objeto com agilidade e pressa, colocando-o cuidadosamente no chão. , e eu a encaramos perplexos. – Não sou intrusa, eu faço parte da reunião. Sob efeito de mentiras – olhou-me em culpa – ou verdades, vocês me convidaram, e não pediram o currículo do meu passado para me fazer entrar nisso.
- , por favor, tente entender! Eu não quis mentir para você, mas como posso comparar uma amizade de tantos anos com os poucos meses que tivemos juntas? – tentei redimir. – Eu só preciso que você faça a escolha. Preciso que pare com essa indecisão que os dilacera. É só isso... É meu... – respirei fundo, deixando o ar morno alisar meus pulmões doentes. – último pedido.
O silêncio tocou até mesmo as nossas respirações, apenas o natural era ouvido. traçou expressões as quais jamais conseguiria decifrar e retirou os botões do sobretudo, parecendo apenas sentir calor; mas então jogou o couro pesado no chão e deixou o vestido de tecido fino e renda impressionar. Sussurrou palavras para si mesma e virou-se, indo para dentro da pequena casa sem proferir qualquer palavra audível.
Primeiramente encarei , e seu olhar ainda seguia os passos largos de e seus saltos altos; esperei até encontrar os globos e agradáveis os quais precisavam me dar um mínimo sinal de vida, qualquer coisa sensível. Eu estava doente, eu precisava dele. Então finalmente se virou:
- Você está morrendo? – ele me perguntou quase num sussurro, a testa franzida o suficiente para revelar algumas marcas de expressão.
- Todo mundo está morrendo, ... – desconversei, sentindo-me desconfortável, triste novamente. – A morte é o destino de todo mundo... – disse em um sussurro medroso.
- Como você pôde nos esconder uma coisa dessas, Emily? – perguntou-me , colocando uma das mãos sobre a minha.
Eu não sabia responder.
- Medo. Do que vocês poderiam pensar, fazer... Eu realmente não sei.
- Eu sei. – disse a outra possível voz feminina do recinto, a mulher ; aquela que eu enganei. Viramos todos os três para ela, que segurava um pote com os biscoitos recém-feitos, ainda exalando a fumaça quente. Deixou o pote no meio da mesa e descansou os braços cruzados, mantendo-se em pé. – Eles iam queimar. – Disse ela, referindo-se aos biscoitos. – Estou de saída.
começou a catar as suas coisas do chão, vestindo o sobretudo enquanto eu ainda via os meus dois meninos a olhar, nada discretamente, o seu objeto de desejo. Objeto. Objeto. Era nisso que ela se resumia, não era? De maneira alguma. Olhei de soslaio para e vi os pêlos do seu antebraço arrepiarem-se apenas de vê-la. Não era o tipo de coisa que objetos faziam com humanos, esse ato de apaixonar-se, não daquele jeito.
Ela abriu a porta e olhou para trás, mas seu olhar não se cruzou com o meu, apenas com o deles. Apenas eles.
- Até segunda, chefes.
Hot Boss 's POV
Eu vi. também viu; mas Emily ainda estava sucumbida em suas tristezas para reter-se aos outros. A expressão de era de choro, a lamúria implacável das lágrimas que queriam descer do seu belo rosto. Tão orgulhosa...
A verdade era fina como uma linha e dura como diamante: Eu não sabia o que fazer. Correr atrás daquela que eu achava ser amor ou cuidar de uma amizade que estava para ser finalizada a qualquer momento; e qualquer que fosse a minha escolha, parecia-me eterna. A morte é irreversível; a fuga de , inevitável. Quantas vezes alarmaram de sua instabilidade, e então valeria a pena a sedução do seu mistério, da beleza e... minha resposta era a mesma: Não tinha como evitar. Evitaria eu, um pobre mortal, aquilo que me atingia na histeria de um furacão?
Emily, por mais problemática que fosse, era minha irmã; e iria deixá-la à beira da morte?
Senti minha cabeça baixar enquanto mantive-me estático naquele sofá, e não mexi um músculo para seguir , ou para contatá-la.
- Desculpem. – ouvi Emily dizer com sua voz fraquejada. – Eu...
- Uma bebida forte. – pediu.
- Dois copos. – a minha voz foi proferida, e eu sequer levantei a cabeça, apenas baguncei os cabelos e abracei Emily ao meu lado. – Estamos com você, Em. Até o fim. – disse-lhe, e ela se enroscou em meus braços, abraçando-me fortemente.
- Sim, meu querido. Até que a morte nos separe.
Epílogo
O avião aguardava os passageiros com destino para Nova York. No aeroporto de Heathrow, uma mulher belamente vestida aguardava, com uma grande mala esterlina, o funcionário que a traria sua passagem.Sua expressão tristonha interpretando as conjurações de pensamentos que asseguravam o seu silêncio absoluto.
Chegou então um homem elegante o qual sentou ao seu lado, e sequer a fez virar a face.
- Ela disse que era só você escolher.
- Diga a Emily que eu recuperei a sanidade, . Não vou brincar com ela em jogos mortais. – disse a mulher. – Onde está minha passagem?
- me contou, .
A mulher finalmente virou o rosto. A falta de maquilagem não conseguia denunciar a irresistível beleza de suas feições, e o encontro entre o seu olhar e o de a fez ter lembranças não tão agradáveis, as quais arrancaram-lhe um pesado suspiro.
- Não estou fugindo. – retrucou. encarava aqueles lábios cheios que se movimentavam com tamanha delicadeza, independente da aspereza que rugissem suas palavras. Ela arrancou o papel que tinha em mãos, uma passagem de avião, e sorriu. – Pode espalhar a notícia, ma dear. Eu vou voltar, e aí nós vamos ver quem vai mandar – ela levantou-se -, e então nós veremos Who is the Boss.
FIM
n/a: Na moral, eu to com vergonha do que posto. Terminei de escrever às 23:35 do dia 12 de março de 2010. Estou envergonhada, sério mesmo. Eu espero que consiga fazer Boss valer a pena quando terminar a segunda parte...
Dedico os dois últimos capítulos e o epílogo à Duda Henker, em homenagem ao seu aniversário! Parabéns, amics! Happy Sweet 17 o/ Todo mundo mandando coisas pro Jones e eu fazendo meu presente especial para a Duds.
You’re especial, girl!
Aussi - Eu também (em francês) (#fikdik)
Playlist de Boss:
Fire and the Thud - Arctic Monkeys
Cheek to Cheek – Ella Fitzgerald e Louis Armstrong
When the doves cry e Purple Rain – Prince
Hurt - Christina Aguilera
Three little birds - Bob Marley
Bela Deville (@savemepanda)