Prólogo:

Peg havia partido. Tinha sido uma escolha da própria Peregrina ir viver com as Flores em vez de morrer e ser enterrada neste planeta. Ela sentia que seu corpo, ou melhor, o corpo de Pétalas Abertas para a Lua merecia, sim, uma chance de tentar viver, afinal, quem poderia garantir que a alma daquela garota não teria crescido ali, suprimida pelo ser extraterreno que ocupava sua mente? Enfim, Peg havia ido embora.


CAPÍTULO ÚNICO

- Eu não vou deixá-la fazer isso! - bradou Ian, abraçando o delicado corpo em que Peg estava inserida.
- Todos, sem exceção, Ian, devem ter uma chance de tentar viver. Não cabe a mim, nem a você decidir se essa garota deve viver ou morrer. Para começar, eu não devia nem estar aqui... Não sou humana como você! - explicou Peg com calma, sentindo os olhos marejarem; aquele corpo era tão suscetível às emoções humanas!
- Você provou ser tão humana quanto nós, Peregrina, por favor! - interveio Melanie. Somente ela e Jared continuaram presentes quando Peg pediu privacidade.
- Me desculpem! Vou falhar com vocês mais uma vez... Com Jamie. - as lágrimas desceram e Ian as enxugou delicadamente com os dedos.
Peg se aconchegou com cuidado ao corpo de Ian, agora enorme perto do corpo que ela própria "habitava", enquanto deixava que a segurança que ele lhe passava fluísse por suas veias. Seu olhar encontrou o de Jared, e por um segundo fugaz sentiu o amor que ainda nutria por ele machucar seu coração com uma enorme força.
Melanie percebeu a cumplicidade trocada naquele olhar e, apesar de sentir ciúmes daquele relacionamento, manteve-se calada. Não se importava que eles se amassem, pois havia sido aquela alienígena - tão odiada no ínicio - que o mantera vivo e que havia se arriscado para salvar Jamie quando ele estava muito doente.
- Não me deixe, Peregrina! - implorou Ian, em sua última tentativa de fazê-la ficar.
A garota na sua frente apenas apertou-se mais contra seu peito e chorou alta e copiosamente; então Ian entendeu que ela já havia tomado sua decisão e sabia, por experiência própria, que nada a faria mudar de ideia.
- Você sempre será meu único amor. Eu prometo! - disse Peg, levantando-se na ponta dos pés para alcançar o rosto de Ian.
O abraço que ele retribuiu foi tão forte que levantou-a do chão, e com os olhos azuis banhados de lágrimas doloridas, Ian beijou-a com paixão... Pela última vez.

Doc se mantinha impassível, mas sua natureza bondosa e delicada o fazia desejar que ela jamais o tivesse feito prometer aquilo. Além dele, Ian, Jared e Mel, se fazia também presente Jeb, que recusara falar com Peregrina desde que ela decidira ir embora.
- Ela vai sentir dor? - perguntou Ian, infantil, depositando com cuidado o corpo de Pet no catre. Corpo esse que Peg ainda ocupava.
- Tenho certeza que não, dei-lhe corta a dor. - explicou Doc.
Ian pegou a mão pequenina entre as suas e depositou um beijo nos lábios rosados.
- Adeus, minha Peg. - despediu-se.
Doc tomou o bisturi com cautela, passando-o vacilante na cicatriz cor-de-rosa. O filete de sangue foi cuidadosamente limpo por Mel; Jared segurava o criotanque e fez todo o procedimento para colocá-lo funcionando; Jeb encostou-se no fundo da caverna com os braços cruzados, e Ian se mantinha firme ao lado de Peg.
Alguns minutos depois, a pequena alma cintilava nas mãos de Ian, que a colocou-a no criotanque, sussurrando:
- Não tenho nojo do seu eu verdadeiro. Amo você.
Jared apertou o botão e fechou a tampa.

Ao saber que teria uma nova incursão, Jamie bateu o pé.
- Eu quero ir!
- Não, Jamie, dessa vez vai ser perigoso. - disse Mel, remexendo a comida sem apetite.
- Vamos correr perigo? Desde que Peg se juntou a nós, nada é perigoso.
- Melanie já disse não, Jamie. - advertiu Jared.
Jamie ainda não sabia da decisão de Peregrina e nem que a incursão seria para mandá-la embora.
Ele ficaria extremamente irritado e triste quando descobrisse, mas Peregrina desejou assim. Melanie deixou a emoção tomar conta; não chorou, não era de seu feitio, apenas permaneceu calada, lembrando de tudo que passaram juntas, das conversas privadas em sua cabeça...
- Vou procurar Peg! - falou Jamie e Mel levantou de supetão.
- NÃO! - gritou a garota para o irmão.
- Melanie! - interveio Jeb, que também comia com eles.
- O que houve com ela, tio? - todos na cozinha assistiam à cena, apreensivos.
- Jamie, Peg está ocupada e não quero a perturbe, você entendeu? - disse Jeb.
- O que ela...
- Me obedeça, garoto!
- Sim, tio. - concordou Jamie, vencido, voltando a sentar à mesa e lançando olhares de soslaio para Melanie.
- Fique de olho nele. - sussurrou Jeb para Jared, que confirmou com a cabeça.

Naquela noite, ninguém pegou no sono nas cavernas. Jared, Ian, Mel e Kyle se preparavam para incursão. Todos estavam tristes, até mesmo Kyle.
- Vou sentir falta da parasita. - brincou.
Ninguém riu.
Ian pegou Peg com Doc. Ela brilhava no fundo da caixa transparente. Partiram em dois carros: Ian, Kyle e Peg na frente e Jared e Mel atrás, dando cobertura.
- No momento de deixá-la, devo ir. - murmurou Mel para Jared.
- É perigoso. - comentou Jared, sem tirar os olhos da estrada de terra.
- Conhecem meu rosto, não verificarão meus olhos.
- Eu sei que sabe se cuidar.
Melanie ficou calada, observando a areia quebradiça do deserto.
- Você a amava? - perguntou de repente.
- Do que está falando?
- Peregrina. Você a amava?
- Eu só amo você, Mel.
- Que pena! - balbuciou - Ela o amava tanto que daria a vida para protegê-lo.
Jared se sentiu culpado. Não amava Peg, mas sentia algo forte por ela. Por mais que duvidasse, sabia que este era o planeta em que ela deveria ficar, só que essa era uma escolha exclusiva de Peregrina, e esta queria voltar a ser uma flor.
Kyle parou o carro na caverna. Lá dentro, trocaram de roupas e automóvel para esperar Jared e Melanie. Os quatro, juntos, partiram até o aeroporto de carga e descarga de almas. Eles ficaram parados alguns instantes, antes de Mel tomar a dianteira.
- Dê-me ela! – pediu, estendendo as mãos para a caixa.
- Melanie, você não deve ir sozinha. - sussurrou Ian.
- Ela já tem experiência, deixe-a tentar! - posicionou-se Kyle, dando de ombros no banco de trás.
- Confie em mim. - Mel pôs os óculos escuros no rosto.
Ian entregou-lhe Peg, e incapaz de se despedir de verdade, olhou para a naves que aterrissavam, tirando as mãos por completo da caixa. Jared, que se mantivera calado até então, tirou a mão do volante e segurou o braço de Mel, quando ela pôs os dedos na porta.
- Espere! - disse ele - Ela pode ficar.
- Jared, ela quer ir! Não a decepcione...
- Ian... - recorreu Jared, mas Ian não se pronunciou.
- Deixe-a, Jared, é o desejo dela. - falou Ian, recuperando-se do torpor.
Melanie, então, abriu a porta e seguiu confiante para a pilha de criotanques; depositou Peregrina na que tinha uma placa grande em letras garrafais: "Planeta das flores". Não havia repreensão em sua voz, quando falou, sem retirar os óculos.
- Obrigada por me ouvir quando podia. Por não ter me matado quando teve chance e por cuidar da minha família. Não sei se me ouve agora, mas quero que saiba que é minha única amiga. Faça jus ao seu nome, peregrine de volta para nós.
Mel voltou para o carro e constatou que Jamie tinha razão: com Peg, tudo era fácil. E agora, o que seria deles sem a amiga?
Ninguém sabia, mas o silêncio complacente no automóvel era a concordância muda de que todos sentiriam falta de Peregrina.

Capítulo betado por Mari Alves



CAPÍTULO UM


- Mentiram para mim! - explodiu Jamie ao descobrir a verdade.
Mel ficou sem palavras para confortar o irmão, que andava de um lado para o outro, chorando. Jared abraçou-a, mas ela o repeliu para tocar Jamie. Jeb e Ian observavam em silêncio.
- Não podia tê-la deixado ir embora. - sussurrou Jamie, aceitando o abraço da irmã.
- Ela quis, Jamie, não pudemos fazer nada. - retrucou Mel, com o rosto enterrado nos cabelos do irmão.
- Você disse que não ia deixar que Peg fosse embora. - gritou Jamie, furioso, para Ian.
Ian recuou, triste diante da fúria do garoto, e baixou a cabeça envergonhado.
- Entenda, Jamie... - ele tentou explicar, mas Jamie estava com muita raiva.
- Não atendeu ao pedido dela antes, por que agora? - a voz de Jamie era pastosa por causa do choro.
Ian não respondeu; Jamie correu para fora da caverna, sendo seguido por Mel e Jared.
- Sei que a amava, e também sei como se sente. - disse Jeb - Também perdi pessoas queridas.
Antes que Jeb pudesse se aprofundar no assunto, Doc entrou ofegante no quarto de Jared e Mel. As faces pálidas estavam coradas pelo calor e excitação.
- Ela acordou! - anunciou ofegante, com um sorriso.
Por um momento, Ian esqueceu de quem Doc falava, e então lembrou-se de Pet.
Os três correram pelos longos túneis claustrofóbicos até a "ala hospitalar". Doc parou e virou-se para Jeb, repentinamente.
- Desculpe! - pediu atordoado - Precisam ver isso, é incrível!
Quando entraram na caverna, a menina estava sentada no catre, observando tudo com curiosidade. Ao se deparar com Ian, ela abriu a boca, surpresa, e murmurou:
- Você me beijou.
Não havia repreensão em sua voz, só constatação. Doc se aproximou e verificou seu pulso.
- Por que você é tão reluzente? - perguntou.
- É só efeito do remédio, já vai passar. - respondeu Doc.
Jeb também se aproximou dela.
- Você lembra do seu nome? - perguntou o velho, se acomodando ao lado dela no catre.
- Sim, é claro! Sou , mas me chamam de Petálas Abertas para a Lua, Pet e... Peg, Peregrina! - ela concluiu, sorrindo docemente.
- Não a chamavam de Peregrina! - sibilou Ian, que continuava parado no mesmo lugar. - Você não é, e nunca será, a Peg.
Em um movimento brusco, Ian deu as costas para , Jeb e Doc, indo embora da caverna. Jeb passou a mão carinhosamente nos cabelos de e afagou seu braço, meio paternal.
- Ele não é sempre assim. Só está chateado. - Jeb defendeu Ian.
- Devo-lhe desculpas? - perguntou , um pouco triste.
- Primeiro precisa descansar, acabou de acordar. - guinchou Doc, preocupado, segurando um vidrinho com a etiqueta "Dormir". Ele tirou de dentro uma fina folha de remédio cor-de-rosa, e colocou sob a língua de .
- Acho que preciso avisar aos outros sobre , nossa mais nova moradora. - Jeb falou, levantando-se do catre para deixar a menina dormir.
- Tudo bem! Eu cuido dela. - Doc acenou com a cabeça na direção de .
- Só não se apegue muito, Sharon não iria gostar. - brincou Jeb, fazendo Doc corar.

Ian se remexia inquieto em seu colchão. Não conseguia tirar Peg da cabeça. Onde ela estaria? Estaria bem? Lembraria dele? Como iria ficar? Seu rosto ardia em brasa, e a raiva se aglomerava dentro dele.
Jamie bateu na porta vermelha encostada na abertura da caverna de Ian.
- Mel pediu para que eu viesse até aqui. – murmurou, envergonhado.
- Entra, garoto! - Ian sorriu.
Os dois se encararam por alguns segundos, e depois uma lágrima escorreu no nariz de Jamie. Ian abraçou-o de lado, sentindo a mesma dor multiplicada dez vezes.
- Sinto falta dela! - sussurrou Jamie.
- Eu também, garoto! Eu também...
Doc surgiu na porta do quarto; Jamie e Ian o olharam curiosos.
- Ela quis vir até aqui. - anunciou ele, e apareceu ao seu lado.
- O que ela está fazendo aqui? - guinchou Ian. se assustou com a voz trovejante do moreno e, como um bebê amendrontado, se agarrou ao braço de Doc, com os olhos arregalados.
- Você a assustou! - repreendeu Jamie, se afastando de Ian com um olhar severo.
Jamie foi até e a examinou por uns segundos; então, seus lábios se abriram em um sorriso e ele a puxou para dentro do quarto.
- Oi, sou Jamie. - o garoto se apresentou.
- . Eu o conheço! - exclamou a garota bobamente.
Doc sorriu e saiu de fininho, deixando os três sozinhos. Jamie parecia radiante com a presença de ; ele sorria e segurava a mão da garota com delicadeza.
- Vem, não precisa ter medo do Ian, . Posso te chamar assim, né? Ele é grande, mas é legal! - derramou Jamie, levando-a para perto de Ian.
Os olhos azuis do moreno percorreram o corpo magro e bem vestido de , e um calor subiu por suas veias, fazendo-o ter a impressão de seu sangue estar borbulhando.
- Então, , qual sua idade? - indagou Jamie.
- Fiz dezessete... Semana passada, eu acho. - tinha uma vaga lembrança da data.
- Dezessete! - exclamou Ian - Mas Peg disse que era dezoito. - então ele parou. Pensar em Peg doía.
- Jamie, poderia me deixar conversar com Ian à sós? - perguntou , parecendo, pela primeira vez, menos boba.
- Ah! Entendi. - Jamie piscou para Ian pelas costas de .
Jamie deixou o quarto correndo e foi até a porta verificar se ele tinha realmente ido embora. Ela desceu os olhos para o chão, constrangida, e respirou fundo, criando coragem.
- Não a culpe por mentir. - disse .
Ian lhe lançou um olhar confuso.
- Você teria receio de me tocar... Digo, tocá-la, se ela lhe contasse a verdade.

Capítulo betado por Mari Alves


CAPÍTULO DOIS


Envergonhado, Ian andou de um lado para o outro no quarto. Ele tinha certeza que a garota o observava se movimentar, mas estava bastante incomodado com a presença dela para se preocupar em não demonstrar sua irritação. Aquela garota o deixava confuso, durante dois meses vivera ao lado daquele pequeno corpo que abrigava uma outra mulher, aquela que ele amava, mas em seu íntimo acabou associando a frágil à Peregrina e o fazia desejar envolvê-la em seus braços e abraçá-la com todo o seu amor.
permanecia parada esperando que o belo homem à sua frene digerisse a informação recebida. Ela lembrava de cada instante que passara suprimida ao lado de Ian, ela desejava que ele a tocasse novamente, mas dessa vez ela queria que ele sussurrasse seu nome em vez de chamar por Peg. Seu corpo tremia só de lembrar das vezes que ele se deitou ao seu lado e a manteve aquecida com seu calor inconfudível. Por mais que desejasse que fosse diferente sabia que por culpa de Peregrina, ela estava perdidamente apaixonada por Ian.

- Eu não consigo entender por que ela quis ir embora. - disse Ian de repente, como se conversasse sozinho. não respondeu e nem se aproximou. Ela sabia exatamente a dor que ele sentia naquele momento e o que se passava em sua cabeça, pois ela mesma vivenciara essa angústia quando Peregrina vivia nela. Ela sabia a resposta para o questionamente de Ian, mas não tinha certeza se deveria falar, sentia como se agora o timbre de sua voz incomodasse aquele homem.
- Será que o amor que ela sentia por mim não foi o suficiente para fazê-la ficar? - o murmuro angustiado apertou o coração de , esmagando-o de tristeza.
- Não fale assim! - manisfestou-se - Ela o amava Ian, mas era boa demais para me deixar sumir.
- Como você pode saber de algo? - sibilou Ian com os olhos marejados - Não estava aqui quando tudo aconteceu!
A pequena garota se encolheu e decidiu que era um direito de Ian conhecer o que Peregrina pensava, ela sabia que ele era o único que tinha a real necessidade de tentar compreender os borrões que eram as lembranças de durante o tempo que passou escondida em sua própria mente.
- Ela conversava comigo! - começou - Por diversas vezes implorou por uma resposta, mas eu estava fraca demais para responder. Algo minha impedia de dizer a ela que estava ali e que a ouvia perfeitamente bem. Eu nunca fui forte. - vagou até o colchão de Ian e sentou sem ser convidada, a história era longa.
- Ela conversava com você como conversava com Melanie? - interessou-se Ian, mas sua voz ainda era ríspida.
- Não como Melanie. Com ela, Peg tinha uma resposta clara e eu não conseguia atravessar a barreira nebulosa que nos separava. Eu cresci aprendendo tudo que Pet aprendeu, era para eu temer humanos como a minha primeira "parasita" temia, mas eu não consigo olhar para você e enxergar maldade. - corou, mas continuou a narrar os fatos para Ian, que se encostou em uma das paredes sob a sombra. - Eu queria ter podido dizer a Peregrina que estava ali, mas teria sido ruim se isso houvesse acontecido.
- Por quê?
- Simplesmente porque eu teria gritado com ela, teria falado coisas horrendas e com certeza pediria para que ela abandonasse meu corpo! Eu a odiava Ian. - respondeu com lágrimas nos olhos, seu lábio inferior tremeu quando ela se forçou a segurar as lágrimas.

Jamie entrou correndo na cozinha, sentou ofegante entre Jared e Melanie e pegou o prato de comida que Trudy lhe oferecia. De vez em quando o menino parava de comer para sorrir sozinho.
- O que há com você garoto? - indagou Jeb.
- Nada tio Jeb. - respondeu Jamie em meio a um sorriso.
- Está acontecendo alguma coisa, vamos me conte. - pediu o velho de boca cheia.
Jamie gargalhou e encheu a boca de comida como pretexto para não falar.
- Deixe de ser tão infantil Jamie, está parecendo uma criança. - Melanie falou, também curiosa para saber o motivo da felicidade repentina do irmão.
- Acho que sei o porquê de Jamie estar tão eufórico. - balbuciou Doc que estava ao lado de Mel, próximo à Sharon.
- Então fala logo! - Jeb de repente se tornou mais interessado.
- Eu conto! EU conto Doc, pode deixar. - Jamie se levantou e sussurrou como se fosse segredo, mas audível para todos. - .
Jeb suspirou e voltou a comer, ao lado do garoto Jared estava vermelho de raiva. Ele levantou rápido e seu prato de comida emborcou na mesa.
- Aonde você vai? - perguntou Mel.
- Senta aí rapaz. - a voz de Doc ecoou calmamente, mas ele continuava comendo como se não tivesse falado nada.
- O que vamos fazer então Jeb? Esperar Ian se descontrolar e atacar a garota?
- Se a machucar a terá que se ver comigo. - Jeb olhou para Jared.
- Mas...

- Minha casa, minhas regras! - o velho entoou seu bordão.
Melanie arregalou os olhos assustada. Não podia estar acontecendo aquilo que ela estava pensando, Jared não podia ter se apegado àquele corpo em tão pouco tempo. Se isso fosse verdade então ela corria o risco de perder o amor da sua vida para a hospedeira de Peregrina. Ela poderia ter suportado perdê-lo para a própria Peg, mas nunca, jamais, para uma outra humana. Ainda mais uma tão frágil e mais parecido com as patricinhas que ela conhecera na infância. Irritada Melanie deixou as lágrimas caírem e para evitar perguntas difíceis ela se levantou da mesa e saiu correndo.
- Mel! - bradou Jamie preocupado, mas uma mão impediu-o de ir procurar pela irmã.
- Deixe-a sozinha um pouco. - era Doc.
- Mas ela estava chorando. - justificou Jamie.
- Eu vou procurá-la! - disse Jared cabisbaixo, parecia ter percebido que sua atitude protetora em relação a tinha deixado sua namorada magoada.


CAPÍTULO TRÊS

chorava copiosamente. Não queria deixar transparecer todas as suas fraquezas diante do homem que estava amando, mas também não estava pronta para guardar tanta solidão dentro de si. Nenhuma daquelas pessoas sabia o que era crescer sem chance de viver literalmente e Ian não podia lhe julgar sem antes conhecer a verdadeira . Ela lembrava de quando tinha sido entregue para inserção, ainda era muito pequena. Lembranças como essa não são subjugadas facilmente.
Tinha cinco anos quando tudo aconteceu, lembrava-se bem de quando sua mãe lhe acalmara e sem saber o que acontecia não se importou com a conversa que ouviu. Sua mãe se aproximou de um homem alto, parecia bem mais velho que ela. Ele deu uma rápida olhada na direção da criança e sorriu para a menina. agarrou a saia da mãe e se deixou ser carregada por ela que deu-lhe um beijo na bochecha e passou-a para o homem que seguiu com ela para uma sala branca de luz forte. As memórias eram vagas, só lembrava de que quando acordou não conseguiu mover seus braços e em desespero tentou chamar pela mãe que parecia não entender seu sofrimento, ela apenas sorria como sempre, ao dar a mão para a garota. Naquele momento, soube que não tinha mais controle pelo seu corpo, e mesmo muito jovem aceitou o fato que seria esquecida.

- Me desculpe chorar desse jeito! - ela sorriu lacrimosa - Mas na verdade é a primeira vez que faço isso. Tudo que sei aprendi sendo Pet, mas nunca pude sequer usar meu corpo para exprimir minhas emoções.
- Nem imagino como seja! - Ian baixou a guarda e sentou ao lado da garota no colchão, seu corpo se encheu novamente do fogo que fazia suas veias queimarem.
- Eu acho que preciso ir, o Eustace pediu para eu ficar com ele naquela caverna, disse que posso me sentir fraca e enjoada. - levantou.
Ian começou a rir descontrolado, a garota não entendeu bem o porque, mas riu de vêr aquele homem que estivera tão triste minutos antes, mais feliz.
- Eustace! - balbuciou Ian entre gargalhadas. - Os pais dele eram realmente muito maus!
- O que houve? - perguntou abobada.
- Doc não vai gostar de ouvir você chamando ele por esse nome, prefere que o chamem de Doc mesmo. Eu também iria preferir. - respondeu o moreno se recuperando das risadas.
- Ah! Me desculpe. - disse sorrindo amarelo.
- Não precisa pedir desculpa por tudo, parece Peg quando faz isso.
Ian se calou de repente, sentiu novamente a onda de tristeza abalar seu interior ainda machucado pela perda do seu grande amor, pensar na estranha alienígena que conquistara seus sentimentos ainda era algo muito dolorido e era algo que ele queria esconder.
- Sei que se sente sozinho agora! Também sei que não sou muita coisa, eu vim até aqui me desculpar por ter sido presunçosa e me chamar de Peregrina. Sei que nunca chegarei a ser metade do que ela foi, mas sinto tudo que ela sentiu e isso inclui você. - desabafou a garota se aproximando de Ian - Não vou deixá-lo só.
O desejo culminou em ação, Ian a tomou em seus braços para sentir o cheiro adocicado que pertencera à Peg por tão pouco tempo. O furor do momento quase o deixou tonto e por um triz ele não a beijou chamando por Peregrina embevecido de saudade. Controlando-se ele apenas afastou-a e se ofereceu para levá-la de volta à Doc.
- Obrigada! - o homem percebeu que ela agradecia não só pelo oferecimento, mas também pelo abraço complacente.

- Mel! - gritou Jared ao entrar na caverna que servia de salão de jogos e tribunal. - Sei que está aqui, porque não quer aparecer!
Melanie se escondera na mesma fenda onde Peg havia passado seus dias de luto, onde ela havia sumido da mente de Peregrina pela primeira e última vez. A lembrança da angústia que passaram juntas durante aqueles dias, intesificou sua própria tristeza.
- Você sabe que te amo Melanie, só fiquei preocupado porque ela ainda é uma criança! - continuou Jared.
Mel saiu de se esconderijo e enxugou suas lágrimas na roupa. Seu rosto sujo de purpura marcado em linhas retas e finas que o pranto deixara. Cansada de suportar aquilo calada ela olhou para Jared e mantendo distância desabafou tudo que sentia em uma única frase.
- Tenho medo de perder você.
- Ah Mel, você sabe que isso é impossível. Eu te amo. - Jared andou até ela e a abraçou para tentar acalmá-la.
- Não quero que se apegue a essa humana! Se ainda fosse a minha amiga, era diferente.
Nesse instante alguém sorriu, era um sorriso delicado e femenino. Melanie olhou sobre o ombro de Jared a garota surgira na entrada da caverna, entrara em foco, sendo seguida por um Ian um pouco sério.
Jared soltou um pouco o abraço para ver quem sorria e seu coração palpitou ao perceber a hospedeira de Peg, ela parecia bem mais delicada do que ele lembrava.
Todos ficaram se encarando por alguns segundos, foi quem cortou o silêncio.
- Ele também me beijou!
Ian olhou assustada na direção de Mel e Jared, como que esperando uma reação histéria por parte da outra garota.
- Ele não beijou você! - explicou Melanie impaciente, desvencilhou-se de Jared e foi até . - Estou avisando você, não sou do tipo que manda recado. Jared é meu namorado! - então ela foi embora.
Os dois homens ficaram parados observando a garota morena ir embora irritada. Ian percebeu que estava supresa e que a menina não falara por mal. Ela mal pensava na consequencia de suas palavras, porque não fora assim que ela havia sido educada.
- O que eu fiz... - sussurrou retoricamente.
- Esquece, ela está triste porque perdeu uma amiga. - apaziguou Ian.
- Peregrina?
- Sim, Peregrina!
Jared não falou nada, apenas sentiu que deveria se afastar daquela menina o mais rápido possível ou poderia não só machucar o coração de Melanie, mas também seu amigo O'Shea.
- Sou Jared! - se apresentou rapidamente com um aceno de cabeça.
- . - retrucou em resposta. - É um prazer.
Jared pôs as mãos nos bolsos e saiu da caverna, com um sentimento novo e confuso se manisfestando em seu coração.


CAPÍTULO QUATRO

- Finalmente! - guinchou Doc puxando pelo braço, quando ela entrou na caverna.
Quando o homem magro e ruivo olhou para quem a trouxera, seus olhos se arregalaram um pouco, surpreso. Doc achou que Ian relutaria em aceitar que não era mais Peg e tal foi sua surpresa de vê-lo sorrindo para a garota enquanto ela se ajeitava no catre.
- Obrigada por hoje Ian! - agradeceu .
- De nada! Amanhã venho buscá-la para lhe mostrar a cozinha e apresentá-la às mulheres. Boa noite, Doc!
Impassível Doc analisou as pupilas de e a fez deitar, sem dizer uma palavra ele sorriu para a menina que retibuiu o gesto.
- Obrigada a você também. - ela abraçou-o e Doc corou desesperadamente.
- Ah tudo bem, tudo bem! Agora deite e descanse. - ele soltou-se do abraço e seguiu para o catre mais distante da caverna, levando consigo a única fonte de luz.

acordou com a caverna um pouco mais iluminada que na noite anterior, aceitou que era dia e sentou-se no catre sonolenta e lerda. Um ronco suave vinha do fundo da caverna e a garota se limitou a aceitar que era o homem bondoso que cuidava dela que estava dormindo pronfundamente. Para não acordá-lo ela se moveu o mais devagar possível e procurou pelas sapatilhas no chão.
Sua blusa rosa estava manchada de púrpura em várias partes, mas ela não se importou. Precisava apenas procurar Ian e fazê-lo lhe alimentar, pois seu estômago estava praticamente gritando por algum alimento.
Ao sair da caverna ficou confusa com qual caminho seguia. Parecia ter perdido a noção de direção e não lembrava por onde tinha vindo na noite anterior. Decidiu-se pela direita e seguiu em frente resignada. Em algumas partes as cavernas eram tão escuras que mal dava para ver mais de 10 metros à sua frente e o escuro pareceu se tornar seu inimigo constante, ela não via a literal luz no fim do túnel e o pânico de estar perdida fluiu em suas veias como um remédio, lhe causando taquicardia.
- Está perdida? - a voz era familiar, mas não deixou de causar um certo arrepio em .
Ofegante do susto, ela se posicionou de frente para o rosto semi-iluminado da pessoa que a observava de cima, devido à diferença de altura.

Jared não esperava encontrar aquela garota sozinha vagando pelos corredores da caverna, seu olhar se demorou alguns segundos nos cabelos loiros que pareciam fios de nailon, pedendo em cachos nos ombros pequenos e fragéis. Todo o rosto de era de um tom rosado e os olhos pareciam ter um brilho natural incomum.
Quando se deparou com aqueles belos olhos lhe encarando seu corpo perdeu um pouco do equilíbrio, aquela menina tinha um poder incrível de lhe desconcertar.
- Na verdade estou! - admitiu movimentando delicadamente os lábios rosados e baixando a cabeça.
- Por que não está com Doc? - perguntou Jared dando um passo para trás, aumentando a distância entre os corpos.
- Pensei que sabia como chegar até a cozinha. - o tom infantil da resposta quase fez o homem sorrir.
- Vem, eu levo você.
Jared esperou que se movimentasse, mas ela apenas ficou parada encarando o rosto dele. Só então ele percebeu que ela observava o abrir e fechar dos lábios dele e desconcertado com a repentina ação dela ele virou-se de costas esperando que ela o seguisse.
ia de olhos arregalados, como se isso a ajudasse a enxergar além da escuridão. Sem saber qual caminho tomava ela apenas suspirou e puxou a camisa do homem que a guiava.
- Se importa se eu segurar em sua camisa? Não quero me perder!
O homem apenas assentiu inseguro e continuou seu caminho.

A cozinha apinhada logo parou seus murmúrios e risadas para observar a recém chegada. Ian que estava sentado ao lado de Jeb e travava uma conversa interessante com ele logo percebeu que a garota vinha acompanhada de Jared, sem perceber a insegurança foi se apossando dele. Era algo que ele não podia explicar com palavras.
Jamie correu para levar à sentar do seu lado. Com um sorriso meigo a jovem aceitou o abraço de Jeb. O velho logo soltou-a e agarrando no pulso de arrastou-a até à frente da mesa com o intuito de apresentá-la a quem estava presente no café-da-manhã.
- Ei! - bradou, mas algumas conversas continuavam altas demais, com um pigarro forte ele fez com todo o burburinho calasse.- Gostaria de apresentar ou como gosta de ser chamada. Como muitos sabem ela foi a segunda hospedeira de nossa amiga Peg que infelizmente resolveu nos deixar, sendo assim, agora é uma de nós e merece respeito, quebrem minhas regras... - seu olhar se demorou em Ian - e teremos que nos resolver.
A mão de Jeb passou despercebidamente no ombro, no lugar onde costumava ficar a corrêa que carregava sua arma, mas o ato era tão instintivo dele que ninguém percebeu.
Assim que acenou para alguns e conseguiu sentar, trocou algumas palavras com Jamie.
- Você dormiu bem? - perguntou a menina ao garoto que tinha a boca cheia.
- Mais ou menos. - disse Jamie assim que conseguiu falar.
- O que houve?
- Kyle ronca demais e Ian se remexeu bastante no colchão. - seu olhar amargurado pousou no moreno de olhos azuis que conversava com Jeb.
- Pobre Jamie. - lamentou .
Ian apareceu ao lado de de repente, a garota não se assustou, apenas levantou a cabeça e sorriu docemente. Algo implícito naquele sorriso castigou Ian de curiosidade.
- Hoje disse que ia mostrar nossa casa para você, geralmente Jeb faz isso, mas...
- Tudo bem Ian.
Os dois foram em direção aos dormitórios, eles precisavam saber onde a garota ia dormir. Ela com certeza não iria ficar para sempre dormindo na caverna-hospital de Doc, precisava de uma cama e algum tipo de conforto.
- Aonde vamos? - perguntou .
- Procurar um lugar para você dormir.
- Não posso dormir com você?
Ian estagnou, seu corpo respondeu de forma estranha àquela pergunta. Como se vibrasse de ansiedade.
- Não acho que seja...
- Mas eu dormia com você! - fechou a cara irritada. - Por que me tratam assim? Não sou nenhuma criança, também não sou Peg, mas vivi tudo que ela viveu. Será que ainda não percebeu Ian que acabei por nutrir os mesmo sentimentos que ela?
A voz abandonou Ian, assim como todo o senso de noção. Seu enorme corpo prendeu na parede como uma jaula. Seus corpo lançava estímulos táteis, em busca de um toque qualquer que pudesse acalmar aquele fogo. O calor que compartilhavam parecia fazê-los suar em bicas, Ian não estava mais se contendo e apertando os olhos fortemente ele jogou seu rosto de encontro ao de forma bruta.
sentiu seus lábios esmagados por Ian, mas não havia o que reclamar. Era uma sensação boa estar nos braços de Ian, ele lhe oferecia calor e segurança. Puxando-o para mais perto com os braços finos ela retribuiu o beijo com força, uma desespero de sentir aquele gosto que ela so experimentara de leve nas outras vezes. Dessa vez era ela quem tinha o desejo, era Ian quem a desejeva. Diferente de estar apenas assistindo jogada no fundo de sua mente.
As mãos trabalharam mais rápido que a mente e Ian as levou de encontro à cintura da pequena que estava na ponta dos pés para alcançar os cabelos do moreno, entrelaçando seus dedos nos fios.
- Calma. - sorriu Ian.
- Não me peça calma O'shea!
E mais uma vez puxou Ian para perto de si, com o único intuito de sentir aquela sensação agradável, mas ao longe alguém observava a cena entre as sombras, não muito feliz por estar presenciando aquele momento. Com rapidez o estranho se virou e deixou o corredor com passos lentos e ritmados para que não fosse descoberto espionando.


CAPÍTULO CINCO


Melanie entrou como um furacão na cozinha. Trazia a roupa molhada em uma das mãos, e na outra um sabonete em barra num tom de verde vômito. Ela sentou-se e puxou para perto de si um prato de comida que Trudy lhe estendeu.
- Onde você esteve Mel? - a mulher mais velha curvou-se sobre a mesa para sussurrar.
- Dormindo! Estava cansada. - Mel deu de ombros, estava estranha - Ainda tem ovos mexidos?
- Melanie! O que há? - Trudy insistiu.
- Chega Trudy. Não lhe dei essa liberdade. - Mel se levantou da mesa irritada e saiu pisando forte.

***


Jared batia a enxada no chão com mais força do que o necessário. Algumas pessoas que trabalhavam com ele, arando a terra. Todas estavam assustadas com a repentina atitude do moreno. Kyle se aproximou receoso e com um sorriso debochado comentou:
- Eu não tenho culpa se Melanie se apaixonou por mim, Jared.
Jared levantou os olhos e Kyle estremeceu, nunca vira o amigo com tanta raiva. Os dois voltaram a trabalhar sem trocar uma palavra e Jared parecia realmente muito irritado com algo.

***


Jamie se arrastou pela caverna para não ser notado. O que era impossível, já que somente ele e mais duas crianças assistiam às aulas de Sharon. A mulher olhou enraivecida para o garoto que fechou a cara.
- Não vou aliviar pra você Jamie, só porque é meu primo!
- Não pedi que fizesse nada. - bradou Jamie.
- O que há com você, anda relapso e mal aparece na aulas. - Sharon se aproximou e passou a mão nos cabelos negros de Jamie, ele empurrou a mão dela com violência.
- Não quero sua pena Sharon!
E correu para fora da caverna, deixando para trás uma Sharon confusa e duas crianças assustadas.
- Tudo bem. - acalmou-as.

***


Ian ainda ofegava, os braços musculosos de trabalho duro estavam em volta de protetoramente. O beijo demorara a se partir, mas para ambos não tinha durado o suficiente. relaxou e abraçou o tórax de Ian, enquanto encostava a cabeça no peito definido do rapaz.
O cheiro inebriante e natural da pele de invadiu as narinas de Ian fazendo-o esquecer o que queria dizer. Ian sentiu-se novamente animado a amar, mas tinha medo de que algo acontecesse, assim como aconteceu com Peg.
- Vamos com calma, ! - exclamou Ian.
- Já falei que não quero me acalmar e que vou dormir com você. - ordenou , tentando alcançar os lábios do moreno.
- Não pode ser assim, Pet.
franziu a testa.
- Não me chame assim, sou . Pet não era minha verdadeira personalidade.
Envergonhado por ter pisado na bola, Ian agarrou os cotovelos da menina e a afastou de si, pondo seu rosto a centímetro do dela.
- Não pode ser assim, ! Você, mesmo sendo quem é, ainda é apenas uma garota. Sou um homem...
- E isso importa? Que droga Ian! Me trata como uma estranha e até parece que não gostou quando trouxeram o meu corpo para Peregrina.
As entranhas de Ian reviraram ao ouvir este nome. Pela primeira vez nas últimas semanas ele tinha conseguido esquecer de Peg e agora a pessoa que fizera tal milagre trazia a lembrança de volta para sua mente atulhada de lembranças.
Lembrou-se de quando, contra sua vontade, Peregrina lhe pedia um beijo, a fim de trazer Mel de volta.
- Ian? Acorde, vou ou não dormir com você? Prentende me prender para sempre com Doc naquela caverna?
- Nao dá, . Kyle e Jamie dormem comigo, não tenho quarto particular.
- Podíamos assumir que somos um casal, assim como Melanie e Jared. Eles têm um quarto só para eles.
Ian estava percebendo que era bastante mimada, ou somente fosse alguém realmente insistente. Perdeu-se um pouco no fundo daqueles grandes olhos femeninos e deu um pequeno sorriso torto que deixou sem ar por alguns segundos. "Como é perfeito", pensou a garota, deixando seus olhos marejarem. Não podia acreditar que um homem como ele estivesse ali, abraçando-a e dizendo a ela que ia tentar de tudo para que pudessem dormir juntos, mas que não ia garantir nada. E esquecendo-se de ouvir o resto do discurso ela ficou admirando os músculos firmes, passando o indicador nos braços nús dele.
Alguém pigarreou, fazendo os dois levarem um grande e estabanado susto.
- Você precisa de um banho. - era Jeb - Vem comigo.
desgrudou-se da parede e com um olhar triste e envergonhado saiu junto com Jeb. Ian percebeu que o velho não estava vendo com muito bons olhos aquele relacionamento, mas o que podia dar errado entre eles? Ela não era Peg, mas era como se fosse. O pensamento foi logo interrompido. Será que ele estava suprindo a falta de Peregrina com sua hospedeira? Não! Mesmo com seu coração machucado, ele teria que seguir em frente e tinha sido a escolhida para lhe fazer feliz. E ele esperava do fundo de sua alma humana que pudesse corresponder àquele sentimento.


CAPÍTULO SEIS

Jared arriscou-se a ir tomar um banho. Passara a manhã inteira ajudando Jeb com a horta, mas antes precisaria ir atrás de Melanie e saber o que a garota estava fazendo. Havia alguns dias que ela estava esquiva e estranha, por um instante ele achou que se Peg ainda estivesse com eles, ela saberia o que fazer para que Mel desabafasse o que estava se passando.
O moreno encontrou sua namorada ouvindo Sharon contar coisas sobre o mundo humano de anos atrás para as crianças. Melanie parecia perdida em lembranças de uma época em que a vida era fácil e divertida. Parado a porta ele resolveu não interromper o momento, mas Mel percebeu sua presença. Ela levantou com rapidez e caminhou até ele, jogando seus braços ao redor do pescoço másculo e empurrando-o para fora da vista da crianças.
- O que está fazendo aqui? - perguntou ela - Não devia estar na horta, arando com Jeb e Doc?
- Terminamos mais cedo.
De repente uma lembrança vagou em sua mente como um lapso. Ian deveria estar com eles, mas o homem não aparecera o dia todo, nem para o café e toda vez que Jared fazia uma pergunta que incluísse O'shea ou o velho desconversava e olhava para Doc com cumplicidade. O que os dois estariam escondendo dele? Com certeza não seria nada do que ele já não soubesse, afinal na noite anterior ele tinha visto os dois se entendendo muito bem no corredor de umas das cavernas.
- O que foi? - questionou Melanie preocupada.
- Estou indo tomar um banho! - retrucou Jared, retirando os braços da garota do seu pescoço e dando-lhe um beijo rápido.
- O que está havendo? - sussurrou Melanie, para não atrapalhar Sharon.
- Não está acontecendo nada Mel, eu só estou um pouco cansado e sujo. Se continuasse me abraçando ia se sujar também.
- Como se eu estivesse cheirando a rosas. Jared, você está frio e distante desde que aquela garota, , acordou. Não me diga que...
- Não fique inventando coisas Melanie. Você está ficando paranóica.
E deixando uma Melanie boquiaberta, Jared seguiu para sua caverna com a intenção de pegar roupas limpas para que ele enfim pude se lavar. No meio do caminho ele percebeu que a porta do quarto de Ian estava encostada e viu mais ao longe Kyle sair da caverna de Wes. Sem entender direito o porquê de tudo aquilo ele simplesmente empurrou um pouco a porta vermelha, olhando na pequena fresta que abrira, o corpanzil de Ian deitado e ao seu lado o pequeno e delicado corpo de...
- ! - bradou Jared.
Os dois humanos que dormiam profundamente acordaram com um sobressalto. Ian se engasgou no meio de um ronco e apertou os olhos por causa da claridade que os invadira de uma vez.
segurou a cabeça com força, sentiu-a doer de imediato com o grito de Jared. Quando pequena, sempre que acordava de um susto passava o dia com aquela enxaqueca que insistia em não ir embora. Sem compreender o que estava acontecendo ela apenas forçou-se a sentar no colchão enquanto Ian se punha de pé e explicava alguma coisa para um homem bastante irritado.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou Jared, empurrando a porta bruscamente.
- Ela só precisava de um lugar para dormir, Jared.
- E você ofereceu sua cama de imediato e seu corpo como cobertor? Faça-me rir.
- Por que está todo preocupado, Howe? Por acaso está interessado na ?
Jared fechou os punhos com raiva. Lançou um olhar de desprezo para a garota que estava sentada e assustada no colchão de Ian e saiu pisando fundo. No corredor, Kyle e Wes presenciaram a briga. Confusos eles deram de ombros. Wes seguiu para a cozinha enquanto Kyle foi procurar por Sunny na caverna de Trudy. Ian não tocou no assunto com . Sabia que a garota estava passando por turbulências demais desde que conseguira retomar seu corpo e sua personalidade, mas algo realmente o alertava de que os três estavam prestes a passar por tudo de novo e dessa vez o agravante era que Melanie tinha seu próprio corpo para lutar.
- Não se preocupe. - disse ele a .
Ela simplesmente sorriu sem graça e abraçou Ian da forma que pôde. Jogando seu rosto no peito forte e definido dele, mas sem intenção alguma de despertar algum interesse sexual. Afinal, tinham passado a noite juntos.
Quando sugeriu que dormissem juntos, diversas imagens de outros tempos invadiram a mente de Ian, mas aquela com quem ele dividira seu calor era Peregrina e não a frágil, infantil e inexperiente . Depois de tudo que houve, ele nem pensou que ela só quisesse realmente tê-lo por perto na hora de fechar os olhos. Por algum motivo ele se sentia melhor ao ter o corpo de tão rente ao seu.
Quando ambos deitaram no colchão nada confortável, entrelaçou seus dedos no de Ian, puxando sua mão para a frente fazendo assim com que ele a abraçasse e em questão de minutos ela ressonava, dormindo profundamente ao lado do homem que amava.


CAPÍTULO SETE


Estavam se esgotando todos os recursos. A comida estava escassa, faltavam remédios e Sunny havia se machucado em uma tentativa falha de usar uma enxada, na qual Kyle ficou desesperado.
Eles estavam voltando a comer as verduras grudentas e sem gosto e pão estava cada dia mais duro. Era inevitável pensar que logo teriam que fazer uma incursão. Ian não gostava de pensar em se afastar de , ela ainda era tão vulnerável. Mas naquela noite Jeb bateu o martelo, eles teriam que decidir quem iria buscar os suprimentos ou em breve eles estariam com suas forças totalmente abaladas.
Todos se reuniram na caverna que eles usavam de tribunal.
- Todos sabem porque estamos aqui! - iniciou Jeb - Não temos mais remédios e a comida está acabando. Doc está realmente me irritando por um pouco de Corta Dor para Sunny.
- Ande logo Jebediah, já estamos todos acostumados a mandar os nossos, para o bem de todos. - insistiu Maggie, irmã de Jeb e tia de Melanie e Jamie.
- Não esqueça que está de convidada! Minha casa, minhas regras. - falou Jeb.
- Eu me ofereço para buscar os remédios. - Kyle estava encostado ao fundo da caverna. Do seu lado estavam Ian e , a garota parecia assustada.
- Temos um voluntário, mais alguém? - perguntou Jeb.
- Eu vou!
Todos olharam para trás. Era impossível não reconhecer aquela voz que por tanto tempo pertencera à Peregrina. Jared deu um longo suspiro, cansado e Jamie deu um pulo que quase o fez cair.
Melanie apertou os olhos e passou a mão pelos cabelos, dando um passo a frente se prostrando ao lado de Kyle. Jeb estagnou, não parecia surpreso, mas percebeu-se que o velho não gostou nada da ideia de Mel sair em uma incursão.
- Eu também vou! - era Jared. Totalmente esperado.
agarrou o braço de Ian. Algo lhe afirmava que ele teria que sair e caso isso acontecesse ela iria ficar sozinha naquelas cavernas, sem saber como agir e com quem falar. Ele era seu porto seguro, com quem ela podia passar horas sem perceber o tempo e o espaço ao seu redor. O único alguém em quem ela confiava cegamente. Ian agarrou o braço de com delicadeza e puxou-a para o lado, onde ninguém pudesse escutar o que conversavam, mas Jared percebeu e seu rosto tornou-se uma brasa.
- Eu terei que ir. - disse ele.
- Não! - sussurrou .
- Você sabe que eu sempre voltarei para você.
- Não quero que vá, quem vai ficar comigo? - a pergunta soou mais infantil do que a garota pretendia.
- Você terá Jeb, Trudy, Doc, Wes e Jamie! Sabe como Jamie adora você. - um sorriso insatisfeito surgiu nos lábios de Ian.
- Tudo bem. - estava resignada mesmo antes de Ian lhe contar que iria, por algum estranho motivo ela sabia que ele voltaria bem. Ninguém precisou lhe explicar o que era a tal incursão, alguma coisa em sua cabeça lhe contava tudo.
Os dois voltaram para a reunião e parecia que todos esperavam a resposta de Ian; todos queriam que ele fosse.
- Estou indo também. - anunciou Ian de forma divertida.
Jared evitou olhar para o amigo e para .

***


Sozinha pelos corredores, tentava aprender o caminho de volta para sua caverna. Ian havia saído mais cedo do jantar com a desculpa de se preparar para sua ida e não podia culpá-lo. Cada dia que passava a comida estava mais horrível, não por culpa das mulheres que faziam a comida. Mas quem estava acostumado com coisas boas desde que Peg se mudara para caverna, dificilmente comeria aquela sopa rancenta sem reclamar.
No meio do caminho algo farfalhou às suas costas. Como se alguém estivesse se esgueirando pelos corredores e a seguindo. deu um pequeno salto para o lado e adiantou suas passadas, para chegar o mais rápido possível em algum lugar conhecido, mas na pressa a garota percebeu que estava totalmente perdida.
Era um longo corredor escuro. Do seu lado direito havia um buraco cheio de caixas vazias e dois sacos de cereais jogados no chão, na entrada do buraco. Sentiu certa familiaridade com o lugar, mas não conseguia se lembrar porque. Ela nunca estivera ali antes, mas de imediato veio a resposta em sua cabeça "Peg sim, já esteve aqui."
- Perdida?
guinchou e levou as mãos até a boca.
- Não me assuste assim, Jared. - pediu, a voz ainda sobressaltada.
- Vim buscar as caixas! Está fazendo o que aqui?
- Voltando para as cavernas. - disse , sentindo a voz falhar.
- Você está bem longe. - Jared sorriu e se aproximou para pegar a caixa que estava ao lado da garota.
- Peregrina já esteve aqui? - perguntou de repente.
Jared estagnou. Segurou a caixa com tanta força nas mãos grandes que a esmagou. Ele lançou um olhar cheio de brilho melancólico e pesar para , e a garota se retraiu, pensando se fizera uma pergunta impertinente, ela já abria a boca para se desculpar quando Jared se adiantou.
- Posso fazer uma coisa? - disse ele, abaixando os olhos.
- O-O que? - conseguiu gaguejar, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo.
Jared não esperou uma resposta formal. Segurou com força os ombros de e a trouxe para perto de si, os olhos denunciavam sua decisão. tentou empurrá-lo, mas antes que pudesse obter qualquer êxito, Jared lhe rendeu com um beijo. Os lábios cheios de desejo arrancara um gemido do fundo da garganta de , involuntariamente. A garota preferia ter deixado aquilo preso, pois depois disso Jared a prendeu com seus braços musculosos e aprofundando ainda mais o beijo, fazendo sua língua invadir a boca da garota com desespero.
Jared poderia estar enlouquecendo, mas ele achou que se beijasse poderia sentir Peg mais uma vez. Não sabia porque queria tanto ter aquela alma de volta, mas só então ele percebeu que aprendeu a amá-la e que em nenhum momento mentiu, quando pediu a Peregrina que ficasse. Ele tinha que tê-la de volta, ele precisava. Pensando que se buscasse mais insanamente no corpo de talvez ele despertasse algum sentimento nostálgico Jared beijou a garota com mais força, só que nada aconteceu.
sentiu-se enojada. Como podia estar fazendo aquilo com Ian, ele a amava e ela sabia que também tinha os mesmo sentimentos para com ele. Então por que ela estava ali, nos braços de Jared? E Melanie, ela queria ser amiga de Mel, mas como poderia se estava beijando o namorado dela? Como resposta a esses pensamentos, enfiou os dentes nos lábios de Jared e disparou em uma corrida até o fim do corredor, sem saber ao certo aonde iria dar, ela só queria se afastar da tentação.




CAPÍTULO OITO


- Ei, calma! Respira. - pediu Ian.
entrara minutos antes, caverna adentro, chorando. Ela se jogou nos braços dele e o fez envolvê-la em um abraço apertado e quase doloroso. Ela queria ter certeza de que ele ainda estava li, de que não perderia seu Ian. Ela ergueu os olhos até encontrar a imensidão azul dos de Ian, abriu a boca serenamente e implorou:
- Por favor, diga que me ama.
- Por que isso agora, sabe que amo você.
- Não, diga com todas as letras.
Ian suspirou profundamente, de olhos fechados. Não podia entender a reação de , mas que mal tinha em dizer para a garota, a verdade?
- , eu te amo. Amo mais do que você pode entender, é algo tão complexo que nem eu mesmo entendo. Só sei que te amo!
Ian inclinou-se para beijar . A garota correspondeu com intensidade, ela passou os dedos suavemente pela nuca de Ian, sentindo os pelos dos braços do moreno se arrepiarem ao seu toque gélido. Ian deixou que sua boca tocasse delicamente a pele fina do pescoço de , causando-lhe um tremor, que a garota fez questão de pontuar com um sussurro.
- Ian, por favor.
Sem pensar duas vezes ele se esticou para deitá-la no colchão, deixando seu corpo se encaixar sobre o da garota. Beijou-lhe com carinho e pôs suas mãos lentamente dentro da blusa dela, para não assustá-la. Era uma camisa dele; larga e de flanela, mas que só o fazia desejá-la ainda mais. jogou a cabeça para trás, estremecendo quando Ian lhe tirou a roupa com delicadeza.
Inexperiente, só conseguia acariciar a pele dele. Ela queria fazê-lo sentir prazer em estar com ela, mas não sabia como. Com cuidado pôs seus braços nas costas de Ian e enfiou as unhas compridas na pele bronzeada. Ela foi abrindo as pernas devagar e deixou que ele se encaixasse entre elas e dali para frente tudo foi fluindo com naturalidade. Ele a fez sentir-se mulher, pela primeira vez, pois nunca tinha tido aquele tipo de intimidade com ninguém. E Ian há muito tempo que não amava uma mulher daquela forma.
Murmurando baixinho o quanto estava feliz, Ian possuiu , sentindo seu desejo aumentar cada vez mais e fazendo com que ele tivesse a certeza plena que agora estava completo. Ele tinha tudo o que precisava bem ali.

Eles não podiam permanecer por muito mais tempo como estavam. Era quase um milagre que ninguém os tivesse interrompido durante tudo que acontecera minutos antes. Ian ouvia o respirar calmo de enquanto entrelaçam seus dedos. Ele não se surpreendeu ao perceber que ele havia sido o primeiro homem da vida daquela garota e se sentiu ainda feliz em saber que ela era inteiramente dele.
Ian depositou um beijo na bochecha da garota antes de se levantar. também levantou-se assustada e observou o moreno deixar a caverna rumo a algum lugar. Ela ficou apreensiva, será que ele já estava partindo para a incursão? Afetada pelos pensamentos a garota simplesmente vestiu as roupas de qualquer jeito e saiu apressada a procura de alguém. Estava mais do que na hora dela se manter a par de tudo que acontecia naquele lugar.
Vários rostos fitavam com curiosidade quando ela passava, isto a estava deixando profundamente irritada. Havia um mês que ela estava ali, tempo suficente para que todos se acostumassem com sua presença. Ao virar em um corredor estreito, deu de cara com Mel que apertou os olhos ameaçadoramente ao fitar a garota.
- Cansou de ser fazer de santa garota? - perguntou Mel.
engoliu em seco, Mel era a última pessoa que ela precisava encontrar.
- Não sei do que está falando. - disse , tentando abrir caminho, mas Mel largou a caixa que segurava no chão e fechou a mão em torno do braço de .
- Não me venha com suas bobagens, sei melhor que ninguém o que é ser uma hospedeira! O desejo de vingança... Deve estar querendo se vingar de nós por termos entregue seu corpo a Peregrina e sei também que está usando Ian.
As palavras valeram mais do que uma bofetada! Era isso, então. O motivo pelo qual todos lhe olhavam de soslaio, era porque não confiavam nela, era uma inimiga, humana ou não. O jorro de realidade veio de forma absoluta sobre a garota, ela não tinha um lugar ali, como pensara. Precisava ir embora, para que a paz voltasse a reinar naquele mundo subterrâneo. deveria se entregar aos Buscadores para que todos fossem novamente feliz. E a garota começou a pensar como desde que viera parar nesse lugar, as pessoas começaram a brigar. As imagens começaram a formar slides de um filme dramático em sua mente: Sharon e Doc, Maggie e Jeb, Jared e Mel, Jamie e Sharon, Ian e Jared. Ela era a culpada de todas essas desavenças.
desvencilhou-se do toque de Mel e começou a andar apressadamente para um lugar conhecido. Um lugar onde ela só estivera uma vez, mas que sabia muito bem como chegar: a prisão onde Peg ficara no início.
O corredor estava escuro, inóspito. Onde antes haviam várias caixas vazias, agora existia apenas uma e uma pesada saca de cereais que jazia esquecida no chão. Com um sorriso sofrido, examinou o fundo do buraco, calculando se deveria entrar ali ou não. Ela decidiu que sim, precisava pensar. Mal colocara parte de seu corpo para dentro, passos a alertaram de que alguém estava vindo. Ela tentou se esconder rapidamente, mas a voz masculina de Ian trovejou:
- O que está fazendo aqui, ?
A garota disfarçou e passou a mão nas lágrimas como se estivesse limpando o suor do rosto. Ian entortou a cabeça esperando por uma resposta.
deu-lhe a única em que conseguiu rapidamente pensar. Seria a oportunidade perfeita para encontrar um Buscador e se entregar para uma nova inserção.
- Estive procurando você...
- Por quê? - interrompeu Ian, desconfiado.
- Quero ir na incursão.


CAPÍTULO NOVE


Jared e Ian se esgueiraram pela entrada dos fundos de um pequeno supermercado. Ao longe Mel esperava pelo aval para seguí-los, mesmo tendo sido alertada por Jared que seria muito perigoso. Ian por sua vez insistira para que ficasse dentro do carro com Kyle e ela contrariada se deixou vencer. Alguns minutos se passaram até que ela pudesse avistar Ian se arrastando até a porta e abrindo-a devagar, óculos escuros no rosto e uma pose um tanto relaxada. Eles tinham Mel e ela ainda era conhecida por aquelas bandas como 'Flocos de Neve'.
- Olá Flocos! - cumprimentou o velho homem atrás do balcão - Como tem passado? Você demorou para voltar.
Mel disfarçou um pouco e deu um pequeno sorriso. Os olhos dela também estavam cobertos por uns grandes óculos de sol, a garota não se aproximou do caixa para responder apenas tomou um carrinho entre as mãos e disse:
- Estive nas colinas, acampando!
- Você realmente adora esse planeta, não? - retrucou o homem curioso.
- Ah, sim! Há tanto para ser descoberto... - Mel tentou imitar o timbre sonhador de Peg, mas sempre saía-se terrivelmente mal.
Ela arrastou Ian pelo braço e ambos começaram a encher o carrinho de comprar e sussurraram um para o outro. O homem que tomava conta do caixa não se preocupou em ouví-los, não havia porque desconfiar, certo?
- Isso é muito perigoso. - Ian enclinou-se para pegar uma enorme caixa cheia de sabonetes.
- Sh, cala a boca O'shea e entope esse carrinho logo, para gente dar o fora daqui.
Assim que terminaram eles se encaminharam novamente até o balcão. O homem catalogou todos os produtos e acenou com a cabeça, claramente se despedindo de Mel. Com a ajuda de Ian ela agarrou tudo e seguiu aliviada, mas antes que alcançasse a porta do estabelecimento ela deu de cara com fotos de duas pessoas que ela conhecia muito bem e era algo incomum naquele mundo de almas. Dois cartazes de 'procura-se', e nas fotos estavam e embaixo de sua sorridente figura lia-se o nome, Pétalas Abertas para a Lua e no outro cartaz era a inconfundível face da Buscadora.
O corpo de Mel congelou no lugar, ela ficou aterrorizada por saber que estavam procurando por elas. Os Buscadores deviam estar fazendo buscas incessantes pelo deserto e se eles encontrassem a caverna onde estavam os carros e suas roupas, provavelmente saberiam que tinha um grupo de refugiados nas redondezas o que afirmava que estavam correndo um enorme perigo saindo naquela incursão e ainda mais com aquela garota no carro.
O homem no balcão ficou preocupado ao ver a expressão da garota e balançou a cabeça negativamente como se estivesse perplexo com tanta maldade. Ele olhou para as fotos e comentou.
- Os Buscadores acham que elas foram seqüestradas por rebeldes. Ouvi um deles comentar que não pararão até encontrá-las.
Mel então não respondeu, apenas segurou suas sacolas com mais força e correu na direção de Ian. Jared já estava no carro esperando por eles. Ela abaixou a cabeça e jogou todas as coisas no porta-malas e entrou no carro sem dar um pio.
- O que houve? - perguntou Jared, ele sabia que algo estava perturbando a garota.
- Vamos embora agora! - foi tudo que disse, ou melhor, ordenou.
- Melanie, por favor, não complica. Ainda não temos comida o suficiente...
- E se demorarmos aqui vamos todos ser capturados pelos Buscadores, sabiam que eles estão procurando por Lacey e por ela. - guinchou Melanie enlouquecida. Jared estava irritantemente cético nos últimos dias.
- O que, eles estão procurando... - começou Ian, mas Mel interrompeu novamente.
- Há dois enormes cartazes com a foto das duas naquela loja e a garota está no carro com Kyle. Se eles o pararem como quando aconteceu conosco e Peregrina irão reconhecê-la e aí é que todos nós estaremos numa fria.
Jared pisou no acelerador com calma, não queria dar na vista. E repentinamente o automóvel ficou estranhamente silencioso. Era a primeira vez que alguém dizia o nome de Peregrina de forma tão displicente e até mesmo Melanie deixou-se mergulhar em nostalgia ao lembrar-se da amiga. Onde estaria aquela atrapalhada? Será que se lembrava deles naquela nova vida como flor? E a garota pegou-se pensando que a delicadeza de uma flor caía bem em Peregrina!
- Temos que voltar! - sussurrou Ian.
- E como voltaremos com o pouco que temos? Eles nos perguntaram onde está a comida.
- Eles não terão o que comer Jared, se todos nós formos pegos na estrada. Precisamos avisar o perigo que corremos.
Com um soco no volante Jared entregou os pontos e começou a dirigir de volta para onde estavam Kyle e , esperando por eles. Não seria uma boa hora para discussões e ele tinha que admitir que Mel e Ian tinha toda a razão quando falavam na segurança de todos. Seria uma árdua tarefa montar uma frente de batalha, mas não tinha como!
Seria necessário que Jeb estivesse à par de tudo e soubesse como iriam fazer para se defender.
Ian ficou imediatamente nervoso. Ele sabia que algo estava errado, porque não lhe ouvira e tinha tirado a idéia maluca de vir com eles, da cabeça. A garota agora corria risco de ser descoberta e se eles a pegassem o que fariam com ela quando descobrissem que Pet havia sido retirada? Seria dada para uma nova inserção? Seria simplesmente ignorada e entregue para sacrifício? Isso ele não permitiria, nem que tivesse que salvá-la com a própria vida. Peg havia dado sua existência na Terra para que tivesse a chance de viver e nenhum buscador faria com que o sacrifício de Peregrina fosse em vão, não enquanto Ian O'shea estivesse vivo.
- Ali estão eles. - arrulhou Mel, abrindo a porta do carro e pulando para fora.
Jared batucou no volante, retirou a chave e seguiu Melanie. Ian já estava ao lado de e abraçava a garota que estava assustada. Kyle não saiu do carro, apenas meteu a cabeça para fora a fim de fazer uma de suas brincadeiras, mas ao notar a preocupação ele se calou, olhando para Jared. Questionando.
- Precisamos voltar. - anunciou Jared para Kyle.
- Não cara, eu não volto sem o remédio de Sunny. - disse Kyle, categoricamente.
- Eu peguei antibióticos Kyle, ela conseguirá passar com remédio humano. - replicou Mel, urgente.
Logo eles carregaram o jipe com todos os suprimentos que conseguiram nos dois supermercados e seguiram de volta para as cavernas. Kyle reclamava e Jared ia explicando a situação. Não tinham muito o que fazer e a única arma que havia para a luta era a velha espingarda de Jeb.
- Estão atrás de mim. - disse de repente, depois de assimilar a notícia - Se eu me entregasse.
- Nem pensar.
- Não!
As vozes foram de Ian e Jared, respectivamente. Pelo canto de olho Kyle reparou no rosto de Mel, a garota olhava cheia de ódio na direção de , que estava aninhada no peito de Ian e envolta nos braços do moreno. Ela chorava calada e parecia sofrer com a perspectiva de ver os amigos passarem maus bocados por ela.
não permitiria que nada acontecesse com ninguém que amava sua família agora eram todos aqueles que moravam com ela nas cavernas, Não seria justo que sua presença trouxesse tanto sofrimento. Ela se entregaria, eles querendo ou não. Só precisava fazer isso sem que eles soubessem, talvez Melanie a ajudasse...
- Acho que ela está certa. - sussurrou Mel, a mão no queixo e os olhos na janela.
- Não deixarei que nenhum de nós caia nas mãos dos Buscadores, Melanie. Eu protegerei todos, exceção, com minha própria vida se for o caso. - bradou Jared, irritado com o egoísmo e ciúme de Melanie. Aquilo já lhe enchera.
Dali para a frente a viajem seguiu-se silenciosa. Ninguém conversava; ninguém estava calmo. Ninguém estava satisfeito.


CAPÍTULO DEZ


- Voltaram cedo. - comentou Doc ao ver Jared e Ian carregando as poucas caixas para dentro das cavernas.
- Onde está tio Jeb? - perguntou Melanie, aflita. Mas não foi necessária uma resposta, Jeb apareceu logo.
O velho estava com uma expressão zangada no rosto. Talvez achasse que o grupo se acovardara diante de alguma difuculdade. Ele olhou para como se achasse que a garota tinha culpa em alguma coisa, mas não parecia realmente culpá-la. Suas rugas tornaram-se um pequeno sorriso que faiscou na direção dela antes que ele voltasse sua total atenção para Melanie, Ian, Jared e Kyle.
Sunny já se atracara ao corpo de Kyle e o abraçava de uma forma engraçada. Jamie observava tudo de longe, mas percebeu a vontade que o garoto tinha de se meter na situação ou de abraçar a ela e a irmã. Só que parecia que ele havia sido advertido por alguém para que ficasse ao longe.
Jared prostrou-se ao lado de Melanie e passou seu braço nos ombros da garota protetoramente, o mesmo fez Ian. Assim que ele se aproximou, depositou um beijo superficial em e disse:
- Não se preocupe tudo ficará bem.
A garota concordou.
- Eu sei que sim. - e ela jogou os braços ao redor da cintura dele, deixando-se inebriar com seu perfume natural. Era tão parecido com o cheiro de praia do qual ela tinha uma vaga lembrança.
- Alguém vai me contar o que aconteceu? - indagou Jeb.
Doc agarrou a caixa de remédios assim que ela surgiu. Ele revirava tudo ansioso, mas pareceu frustrado quando tudo que achou foram antibióticos humanos. Ele lançou um olhar aborrecido na direção de Jared e depois viajou até Sunny que de tempos em tempos fazia uma careta de dor, mas logo sorria quando Kyle acariciava seus cabelos. Ela era tão pequena perto de Kyle!
- Eles estão procurando por Lacey e por ela. - retrucou Melanie em resposta, estava irritada embora sua voz não demonstrasse.
- Os Buscadores? - guinchou Doc.
Jared confirmou com um rápido aceno de cabeça.
Sunny estremeceu ao som do nome e Jamie veio até onde todos conversavam e fitou preocupado.
- Acha que nos encontrarão? - perguntou o garoto para o tio.
- Não tem a mínima possibilidade. - respondeu Jeb, incerto. Mas não deixou transparecer. - Vamos ter uma reunião com todos na caverna quando amanhecer!
As pessoas que foram receber o grupo começaram a se dispersar. Doc, Kyle e Sunny seguiram para a "caverna-hospital", Jamie parecia aborrecido e não falou com ninguém, apenas foi-se embora. Melanie e Jared seguiram para a cozinha e Ian guiou para a caverna deles. Ela parecia exausta e estava muito calada desde que recebera a notícia. Ele não a julgava por isso, ele mesmo teria ficado apavorado se estivesse sendo buscado; ele estava apavorado porque ela estava sendo procurada!
- Vão brigar por minha causa. - foi a primeira coisa que disse.
- Não se culpe , vamos todos brigar por nossas vidas. - replicou Ian sorrindo.
- Se me lembro bem, Jared quer lutar pela vida de todos. Ele não se importa de morrer. - desabafou, isso era uma das coisas que a vinha preocupando.
- Jared é extremista, não chegaremos a este ponto. - Ian abraçou e ambos sentaram-se no colchão fitando uma linha de luz que invadia a caverna e iluminava as partículas de poeira que estavam soltas no ar.
Eles ficaram assim alguns minutos, poderiam ter sido horas também. Nenhum dos dois realmente se dera o trabalho de perceber algo tão inútil.

Jamie voltou para o salão de jogos, onde estivera antes. Alguns dos rapazes jogavam futebol e ainda estavam absortos em discutir um placar. Eles ainda não sabiam do perigo e nem Jamie contaria. Era tarefa de Jeb alertar a todos. Ele sentou-se no canto mais escuro do lugar e abraçou as pernas, encostando o queixo no joelho, olhando o jogo sem realmente enxergar alguma coisa.
Há algum tempo ele vinha sentindo um estranho vazio que vinha mudando sua personalidade. Ele jurava que estava tentando gostar de ao máximo que podia, mas não conseguia parar de culpá-la pela partida de Peregrina. Ele sentia falta da amiga e sabia que naquele momento difícil ela teria a solução, mesmo que esta fosse se entregar em nome de todos e pedir para que os buscadores os deixassem em paz. Ela sempre estaria disposta ajudar, mas aquela garota apenas ficou calada enquanto todos se preocupavam em desespero com o que fariam. Ela era inútil.
Jamie estava cansado de fingir e queria gritar para todo mundo que eles não deviam ter deixado Peregrina partir e que tudo tinha sido erro deles, mas também tinha sua parcela de culpa, afinal, fora ele quem escolhera o corpo de . Estava com medo de morrer e com mais medo ainda por sua irmã. Não era justo que agora, logo agora, que ele a tinha de volta tudo isso acontecesse. Não era certo!
- Jamie... - uma voz calma se aproximou e Sharon logo estava sentada ao lado do primo.
- O que é? - perguntou ríspido.
- Eu sei o que está sentindo. Doc me contou sobre Os Buscadores! - ela disse taxativa e parecia irritada também. - Eles não nos encontrarão, você lembra quando Lacey, ou melhor, a Buscadora em Lacey tentou nos achar? Ela não conseguiu. - Sharon enconstou a mão no ombro de Jamie.
O garoto não estava gostando da proximidade da prima, ele não era um bebezinho que precisava de colo, mas também não retirou a mão dela. Havia dias que ele estava sendo um idiota com todos. Não queria que Peregrina ficasse zangada com ele quando soubesse como se comportou. Ah, como ele sentia sua falta.
- Sente saudades dela não é? - questionou Sharon.
Jamie não respondeu, apenas estremeceu um pouco e se afastou alguns centímetros.
- É incrível, mas até eu sinto falta daquela lacraia. - disse uma Sharon sonhadora, como se estivesse perdida em lembranças.
- Não a chame assim. - gritou Jamie e assim que o fez se levantou e saiu correndo da caverna, deixando um rastro de olhares curiosos para trás.


CAPÍTULO ONZE


acompanhou Trudy até a caverna para tomar um banho. Agora que tinham sabonetes ficava muito mais confortável deixar-se levar pelo cheiro inebriante do perfume com o qual não estavam mais acostumados.
Trudy deu a uma das toalhas felpudas que tinham conseguido na última incursão, mas a garota simplesmente negou com a cabeça.
- Por que está assim? - perguntou Trudy, também entrando dentro da "piscina".
- Não é nada! - retrucou .
A garota estava bolando seu plano. Só precisava saber como fugir de Ian e conseguir sair das cavernas. Ela só tinha um questionamento, será que se somente ela se enregasse eles deixariam de procurar por Lacey? Bom, talvez não fosse assim que aconteceria, mas ao menos as buscas diminuiriam em torno do deserto e daria tempo o sufiente para que eles conseguissem se preparar para um possível embate.
- Ninguém aqui culpa você, . Todos esperávamos por isso um dia. - comentou Trudy, enquanto lavava sua roupa.
deixou-se afundar na água para não ouvir mais nada. As palavras de conforto eram mais cortantes do que se alguém lhe apontasse o dedo e lhe acusasse de ser a vil culpada por toda aquela desgraça.

A garota não quis comer. Em vez de se juntar a todos na cozinha, preferiu ir para o quarto e tentar descansar um pouco, antes de colocar seu plano em prática. Assim o fez. Antes porém que pegasse no sono, ela reparou que Jamie se mantinha distante. Havia algum tempo que o menino não lhe dirigia a palavra e como um jorro de água fria ela constatou que ele estava a culpando pelo risco que todos estavam correndo.
- Trouxe seu jantar. - Ian estava parado a porta, segurando um prato de barro nas mãos.
- Não quero nada Ian, não precisava se incomodar.
O moreno fechou os olhos, como que tentando se controlar. Ele depositou o prato no chão, ao lado do colchão e sentou-se aos pés de . Ela afastou as pernas, para que ele tivesse mais espaço. Ian suspirou profundamente e ergueu os olhos para a garota.
tinha o rosto depositado nos braços, como se estes fossem seu travesseiro. Os olhos estavam brilhantes de lágrimas e o rosto avermelhado por causa do sol que pegara no deserto, durante a incursão. Como sempre, estava usando umas das camisas de Ian e um short que Trudy lhe emprestara. Os cabelos ainda molhados grudavam em seu rosto e braços. Ela encarava Ian como se esperasse que ele começasse a gritar.
- Tira isso da sua cabeça. - disse ele - Se alguém aqui é culpado por isso, somos nós mesmos.
- Mas se eu...
- Nada de se entregar! Se você fizer isso, eles vão inserir outra alma em você e tentar extrair informações sobre nós. Seria suicídio. - o moreno disse gravemente.
- Mas se não fizermos nada, seremos decobertos!
- Eu não estou preocupado com isso. Podemos lutar pelas nossas vidas, afinal, não é isso que estamos fazendo neste exato momento?
A garota esboçou um pequeno sorriso ao notar o olhar azul e divertido de Ian.
Ele estava preocupado. Estava apavorado com ideia de serem todos descoberto e com o que fariam dali para a frente, mas não podia deixar que se culpasse por isso. Ela era tão frágil fisicamente, não sobreviveria a uma sessão de tortura. Ele tinha a pequena impressão de que ela havia herdado a noção suicida de Peregrina e aquela mania incontrolável de se culpar por tudo que acontecia a eles.
- Agora come um pouco ou acha que Jeb deixará você ficar aqui de graça?
Ambos sorriram e ela tomou o prato, comendo devagar e compassadamente. Ainda não tinha desistido de sua missão!

***


esgueirou-se para fora do colchão. Ian remexeu-se e resmungou, mas apenas virou para o outro lado e voltou a dormir. A garota olhou para o homem moreno que dormia profundamente, de forma saudosa e com muito cuidado depositou um beijo em seu rosto.
Ela não se preocupou em levar roupas, nem comida. Talvez para onde fosse não precisaria disso ou nem fosse conseguir viver para usufruir disso. Sorrindo ela soltou um longo suspirou e andou na ponta dos pés até fora da caverna.
Assim que conseguiu encontrar a saída das cavernas, deixou uma lágrima cair e molhar seu colo. Passando os dedos sobre os olhos ela balançou a cabeça tentando afastar a saudade precoce. Ela iria sentir muita falta de todo aquela calor humano, mas precisava salvá-los de qualquer jeito.
No momento que conseguiu avistar o céu azul marinho e pintado de pequenas gotículas brancas que piscavam incessantemente, deixou-se jogar no chão. Sentido seu choro chacoalhar seu corpo. O inveitável estava acontecendo! Como Peg ela teria que partir.
A garota andou o suficiente para encontrar uma enorme pedra onde se enconstou exausta.
- Devia ter trazido ao menos um pouco de água. - sussurrou para si mesma.
Entregando-se para o sono, foi adormecendo, mas dois enormes faróis a despertaram para algo que mudaria completamente o rumo de sua história. Sem forças ela nem deu bola para quem era, queria apenas dormir e não acordar nunca mais.
- Encontramos uma. - disse uma voz masculina, porém doce.
- Ela está em perfeitas condições?
- Parece que está com insolação. - o homem da voz doce tocou o rosto de , ela apenas resmungou.
- Os curandeiros darão um jeito. Acha que ela está sozinha? - perguntou uma voz femenina, que fazia coro com a masculina.
- Não sei, mas se não levarmos essa rebelde agora vamos perder essa hospedeira.


CAPÍTULO DOZE


Ian levantou-se na manhã seguinte sentindo seu rosto queimar com a luz que provinha do teto. Ele ergueu a mão para bloquear os raios e pôs a outra ao seu lado, em uma busca por , mas tudo que ele conseguiu foi tocar o colchão áspero e ainda assim confortável.
- Mas onde... – resmungou.
Sua preocupação logo foi apaziguada. Talvez a garota estivesse finalmente se sentindo em casa e saíra para fazer alguma tarefa com os outros.
Assim que levantou e saiu da caverna – coçando os olhos -, percebeu que Doc e Sharon estavam no corredor e de mãos dadas.
No momento em que deram de cara com Ian os dois pareceram perder a cor do rosto. Sharon arregalou os olhos, mas logo desviou o olhar para outro lado. Doc apertou os olhos e respirou fundo como se estivesse prestes a enfrentar um jogo de perguntas e repostas.
- Bom dia. – disse Ian animado, apesar de estar confuso com a reação de ambos. – Aconteceu alguma coisa.
Sharon deixou escapar um gemido.
- Bom dia Ian. – disse Doc com sua voz habitualmente calma – Está acordando agora?
- Sim. Vocês viram ? – perguntou o moreno, lançando um olhar para Sharon que estava espremida na parede oposta.
- Er... Sabe... Eu... Eu não a vi. – gaguejou Doc.

- Faça-me o favor Doc, conte logo ele vai saber de qualquer jeito. – guinchou Sharon, vindo na direção dos homens.
Ian sentiu um baque no estômago. Sua desconfiança tinha fundamento, então. Algo estava acontecendo na caverna e ele estava dormindo. Que ridículo! Ele devia estar ajudando; devia procurar e colocá-la a salvo.
No exato momento em que a garota à sua frente abria a boca para falar, Jamie apareceu por detrás de Doc. Os olhos do menino estavam vermelhos e ele fazia um enorme esforço para esconder as lágrimas que insistiam em se formar.
- Ian, Tio Jeb está procurando por você.
- Onde está ? – Ian fez uma nova tentativa, mas Jamie lhe deu a costa.

- Não quero ver ataques de histeria aqui. – disse Jeb olhando diretamente para Ian e depois para Jared.
- Jeb, por que você nos reuniu aqui tão cedo? – questionou Jared de braços cruzados.
- Tenho uma notícia nada agradável para dar a todos.
- Desembucha logo Jebediah! – irritou Meg.
- A pedra da entrada da caverna foi removida e...
- Deixa de rodeios e conta logo que aquela garota sumiu! – comunicou Lacey.

***

- Querida, acorde. – disse o homem calmamente, tocando a face de levemente.
A garota despertou sentindo-se completamente bem e calma. Seu coração já não batia mais acelerado e seus lábios estavam inteiros novamente. Todo o cansaço e sono haviam desaparecido e seus não mais ardiam. Era como se por mágica ela estivesse curada.
- Onde estou? – perguntou, enrolando um pouco a língua.
- Está em uma instalação de cura. – disse o homem.
Agora que ele falara, começou a perceber ao seu redor e onde estava. Não havia ninguém além dela e o homem naquele lugar. As paredes eram tão brancas que chegava a machucar os olhos. Ela estava deitada em uma maca de bordas transparentes e seu corpo estava coberto por um tecido também branco e macio.
O homem usava uma roupa azul ciano e um jaleco branco, seus cabelos eram bem negros, os olhos eram bondosos e de um tom oliváceo. Era jovem e seu corpo parecia ser forte – por baixo da roupa -, seus dedos passeavam delicadamente pela pele do braço de , examinando a pele esfolada.
- Parece que ainda temos um machucado. – disse ele.
- Não consigo me mexer. – a garota retrucou arregalando os olhos.
- Bom, considerando que você é uma selvagem, lhe demos um paralisante para que não pudesse se mover e fugir. Geralmente não temos muitos selvagens adultos! – continuou o homem, normalmente.
- Selvagem? – balbuciou ela com certa dificuldade.
- Encontraram você vagando no deserto, sozinha. Já em estágio final de vida. Os Buscadores a trouxeram para cá e agora estou recuperando o hospedeiro, ou melhor, seu corpo. – respondeu ele.
- Então os Buscadores já terminaram a procura?
- Procura de que?
Nesse momento começou um burburinho no corredor e várias pessoas vestidas em tons pastéis, começaram a entrar na sala. Alguns tinham as feições bondosas, mas outros pareciam um pouco irritados.
Uma mulher alta de penetrantes olhos azuis, vestida em um terninho se aproximou da maca e analisou como se fosse uma mercadoria. A garota tentou levantar a mão para afastar aquela presença incomoda, mas não conseguiu.
- Com licença! – disse ela, sua voz era grave como a de um homem, porém com um pequeno toque feminino – Nos mandaram aqui para levar essa hospedeira para inserção.
levou um grande susto. Suas entranhas se remexeram e ela se sentiu nervosa. Seu corpo inteiro tremia, mas ela não podia fazer nada.
- Ela ainda não está completamente curada.
E nesse momento sentiu um toque levemente gelado em seu braço direito e logo depois o homem borrifou um líquido em seu rosto. Assim que a menina inspirou começou a sentir-se sonolenta e adormeceu. Mas antes ouviu a mulher dizer.
- Precisamos encontrar aquele grupo de selvagens do deserto e é essa garota quem vai nos levar até eles.


CAPÍTULO TREZE


- Temos que procurar por ela. – dizia Ian, enquanto ia andando apressado pelo corredor de pedra.
- Não podemos sair das cavernas, Ian. – rebateu Kyle, tentando fazer com que o irmão percebesse o erro e a precipitação.
Ian estagnou e virou-se de imediato fitando o irmão, com fogo nos olhos. Estava claramente visível o medo e raiva que pairavam em sua aura. Ele estava extremamente infeliz e não mediria esforços para encontrar aquela que ele aprendera a amar.
- Mesmo que coloque minha vida em risco; mesmo que isso signifique que me tornarei um deles, eu não vou desistir de como fiz com Peregrina.
Enfim, Kyle percebeu que de nada adiantaria suas súplicas e nem a de mais ninguém. Nem mesmo Jeb conseguiria frear a insanidade momentânea de Ian e logo Kyle se percebeu no lugar do irmão. Quando tomado de melancolia, saudades e esperança, ele procurou por sua amada e encontrara Sunny vivendo em seu corpo.
- Tudo bem. Eu vou com você. – disse Kyle vencido, tomando o rumo oposto ao de Ian.
O moreno continuou seu caminho, feliz por saber que alguém entedia seus motivos, mas ao mesmo tempo não sabia o que esperar dos outros moradores das cavernas. Ele sabia que suas ações iriam interferir na vida de todos e colocaria a população inteira em risco, mas ele não podia deixar que simplesmente fosse esquecida e apagada da sua vida. Ela o ensinara a amar novamente e consertava seu coração machucado.
Quando finalmente alcançou sua caverna ele se assustou. Não esperava que aquela garota estivesse ali. Por um instante foi simplesmente arrebatado pela nostalgia, por lembrar que durante vários meses ele amara aquele corpo; que ele se sentira atraído por Melanie.
- Mel?! – surpreendeu-se Ian.
- O’shea! – cumprimentou Melanie.
- O que está fazendo aqui? – perguntou Ian, retirando sua camisa e jogando-a no canto.
- Vim conversar com você. Sobre o que pretende fazer.
- Não vou fazer nada para prejudicar vocês. – disse Ian, mesmo sem convicção do que falava.
Melanie balançou a cabeça irritada e crispou os lábios, transformando-os em uma fina linha. Ela apertou os olhos, na tentativa falha de apaziguar seus sentimentos controversos.
- Claro que vai! – disse por fim – Se você sair daqui e os Buscadores o encontrarem, estaremos todos em perigo. Inclusive, neste exato momento estamos correndo o maior deles.
- Ela não vai abrir a boca Melanie! Ela é forte.
- Droga! Será que você é tão burro, a este ponto Ian? – gritou Melanie.
- Do que você está falando? – bufou Ian, pegando outra camisa e vestindo-a.
- não é Peregrina. Ora ou outra ela vai deixar de te amar, assim como aconteceu com Peg.
Ian pareceu confuso. Seu corpo inteiro respondeu àquela constatação. Ele começou a suar frio e sua cabeça doía, ele não estava preparado para aquela discussão. Melanie se aproximou de Ian e puxou-o pelo pulso, fazendo com que ele olhasse para ela cara a cara.
- Peregrina só amava Jared porque eu o amava. Quando ela ganhou um corpo, passou a amar você. Faça a psicologia reversa, Ian! – disse Mel - ama você porque Peregrina te amava, quando ela se libertar passará a amar outro alguém.
- Não acredito nisso...
- Veja se realmente vale a pena arriscar a vida de todos nós por alguém que deixará de ser quem é em breve. Precisamos nos preocupar com os nossos; preparar-nos para uma luta ou fugir. – continuou Melanie, interrompendo Ian.
- Não adianta! Eu não desistirei dela e se tiver que fazer se apaixonar eu farei, mesmo que custe todos os dias da minha vida.
- Não percebe que está sozinho nessa? – guinchou Melanie. – EU QUERO VIVER.
Ian encarou Melanie por alguns segundos. A garota perdera as estribeiras e a compostura. Estava alucinada e perdida, talvez confusa. Ian não a culpava, ele mesmo depois de tudo estava se sentindo um caco.
- Ele não está sozinho. – murmurou uma voz masculina.
Melanie e Ian olharam para a figura de Jared. Ele estava encostado na porta vermelha e velha, com os braços musculosos cruzados na frente do peito e os olhos abaixados, fitando os pés. Quando ele levantou o olhar, deu de cara com uma Melanie estarrecida.
- Jared, não! – sussurrou Mel.
- Sinto muito! Mas quando vim para cá , Melanie, jurei que protegeria todos que aqui vivessem e querendo você ou não, é parte de nós.
Enlouquecida de ódio Melanie saiu da caverna como um furacão. Deixando para trás um rastro de poeira púrpura e dois homens.


CAPÍTULO CATORZE


O curandeiro terminou seu chamado com . Ele a vestiu com uma roupa semelhante a sua e suspendeu a droga que a deixava imóvel, trocando por uma que apenas a fazia sonolenta.
A garota cambaleou para fora da maca e forçou-se a sentar em um sofá florido que estava displicentemente colocado do lado direito da sala.
O curandeiro sorriu docemente para e saiu para chamar os buscadores.
Nos breves minutos que ficou sozinha, a garota percebeu que não devia ter tomado aquela atitude tão drástica, mas tinha certeza que conseguiria resistir o suficiente para proteger o segredo de todos. Ela esperava ser forte como lhe diziam que Peregrina fora, para ser vista por Ian como uma heroína.
- Tudo bem? – questionou o curandeiro, voltando à sala.
- Sim. – respondeu fracamente – Como você se chama?
- Raios Solares que Iluminam a Terra. – respondeu o homem, ajudando-a a se levantar. – Mas se for extremamente grande para você, me chame apenas de Sol.
- Sol? – perguntou , de olhos fechados.
- Sim, o que são os raios solares senão fluxo energético proveniente da radiação solar?
Ele a levou para fora da sala e entregou-a para os Buscadores. Todos juntos seguiram para fora do lugar, entrando em um carro grande e igualmente branco.
- Onde estão me levando?
- Para um centro de inserção na Califórnia. O curandeiro Fords Águas Profundas faz questão de cuidar do seu caso. – respondeu Sol.
- Obrigada por me curar.
- É apenas o meu chamado.

***


- Você pode nos poupar toda a trabalheira que teremos com você, selvagem. – sibilou a Buscadora para , quando elas desceram do carro – Basta me dizer onde estão o resto de seus aliados!
permaneceu calada e mesmo que quisesse não poderia falar, estava grogue demais para se manter em pé sozinha. Ela mal conseguia raciocinar direito e sua apenas sua visão – mesmo turva -, conseguiu distinguir o velho homem que se ofereceu para levá-la para dentro.
- Pode deixar, eu a levo a partir daqui. – murmurou o homem, carregando delicadamente para dentro do centro de inserção.
- Não posso deixar! Minhas ordens são acompanhá-la.
- E as minhas são manter a hospedeira calma e com você por perto acho esse chamado muito difícil de se cumprir. – falou o homem, se assustou com a irritação em sua voz.
Ele afastou-se dos buscadores, arrastando a garota para dentro da construção. Sem dizer uma palavra ele a guiou por entre os corredores até um elevador. Lá ele a depositou em uma cadeira de rodas e seguiu o caminho até seu laboratório.
- Sei de alguém que daria uma mão por todos esses equipamentos. – sussurrou fracamente, lembrando-se de Doc.
O cansaço causado pela droga que lhe ministraram estava passando e o efeito se dissipando. Ela estava ficando cada vez mais forte.
Ao lembra-se dos amigos, não pode deixar de esconder uma lágrima que rolou pelo seu rosto e molhou sua roupa esverdeada. O homem que a observava ficou um pouco mais pálido que o normal e se ajoelhou com dificuldade na frente de .
- A lágrima humana é algo tão preciosamente belo. – falou, admirando a gota de lágrima salgada que ele tocara.
- Qual é o seu nome? – perguntou a garota, sem pestanejar. Ela se sentia estranhamente a vontade no meio das almas.
- Sou o curandeiro Fords Aguas Profundas! – disse, cautelosamente.
- Sou Pétalas Abertas para a Lua. – sussurrou em resposta, com um doce sorriso nos lábios. Ela resolvera usar seu nome de alma, para estreitar os laços entre ambos.
- Vou ser seu curandeiro e irei fazer sua inserção. – contou ele, levantando-se e começando a preparar seus materiais.
fechou os olhos, apertando as pálpebras, sentindo seu corpo inteiro vibrar de ansiedade e nervosismo. Ela estava convicta de que manteria o segredo de Ian e os outros a salvo, ela precisava ser forte para isso.
- Peregrina, você que foi uma alma notável, me ajude a superar meus medos. - pediu ela em voz alta.
Um barulho metálico ecoou pela grande sala fechada e forrada. tentou olhar para o curandeiro, mas só conseguiu ver o bisturi caído em cima de uma badeja de aço e o olhar indagador, assustado e curioso de Fords.
- O que disse? – questionou ele.
- Nada! – respondeu a garota assustada.
- Você disse: Peregrina. Conheceu Peregrina?
- Como assim, você sabe quem ela é?
- A alma que peregrinou por oito planetas antes de aceitar a vida na Terra e que sumiu há meses no deserto? Sim, eu a conheço!
- Como?
- Eu a inseri no corpo da hospedeira adulta e selvagem, Melanie Stryder.


Continua...

Nota da Autora: Oi minhas pequeninas, saudades de voces. Eu sinto muitíssimo por ter ficado todo esse tempo sem att. Eu tive uns probleminhas com meu computador que me roubaram a inspiração, mas já estou de volta. Vocês acreditam que estou escrevendo essa nota enquanto assisto a cena da primeira vez da Lucy de Crossroads com a Britney Spears? Sim, eu gosto desse filme :@

Bom florzinhasdeixa eu ir procurar minha inspiração que deve estar escondida embaixo da cama, com medo de mim!

beijos xx


Erros? Entre em contato com a beta. Agradecida.