Cartas de despedida


Escrita por: Angélica
Betada por: Leeh




Meu nome é e tenho 25 anos. Aqui vou relatar brevemente a minha história, ou pelo menos, de quando eu comecei a viver realmente.

Nasci numa pequena cidade perto de Washington chamada Port Angeles, lá nunca fui feliz. Minha mãe nunca ligou pra mim, meu pai bebia o tempo todo, nós sobrevivíamos apenas com o dinheiro que meu irmão, Jasper, ganhava limpando quintais, e eu vendia flores nos bares e restaurantes por perto. Aos 15 anos me emancipei daquela loucura com meu irmão, que na época tinha 20 anos, fomos morar em Los Angeles, pois ele arranjou um emprego com um amigo, e nunca mais tivemos notícias de nossos pais. Certamente ambos morreram à míngua, já que nunca trabalharam nem fizeram nada por eles e por nós durante a vida. Jasper e eu nunca ligamos para o que aconteceu depois que saímos de lá, pois nunca tivemos outra família além de nós dois, ou ao menos era o que sentíamos.
Em LA, meu irmão fez questão de que eu voltasse a estudar. Havia parado no 2º ano do colegial. Antes mesmo de terminar os estudos, algumas amigas e eu montamos uma banda chamada EmptyGirls, e continuamos com ela até depois do colégio, quando fui morar sozinha de verdade. Não tínhamos muita fama, na verdade quase nada, mas nunca desistimos de ser estrelas do rock. Uma vez, participamos de um importante festival em Los Angeles e nos empolgamos muito. Foi demais tocar para um público com mais de 20 mil pessoas, mesmo que praticamente não ouvíssemos ninguém cantar nossas músicas, mesmo assim ficamos animadas e felizes, pois não recebemos nenhum tomate no rosto.
Mas esse não foi o principal motivo pelo qual esse dia se tornou um dos mais importantes da minha vida. Depois de nos apresentarmos, conheci no backstage. Ele veio simpático para nos cumprimentar e elogiar nosso trabalho, disse que também tinha uma banda, chamada The Used e que estavam se dando bem. Logo percebi que alguns olhares diferentes eram lançados a mim por . Seu perfil não era muito clássico, nem culto, porém, algo naquele homem me chamou a atenção, sinceramente até hoje não entendo o que. Sempre saí com caras de estilo parecido com o dele, alguns até mais bonitos ‘anatomicamente’, mas não conseguia tirar os olhos dos dele, e vice-versa.
Depois de algum tempo, fomos conversar a sós e pude perceber que tínhamos muito em comum. Finalmente após algumas indiretas, pediu pra me deixar em casa aquela noite. E assim foi. Apesar das tentativas incessantes dele de conseguir entrar, eu não deixei. Coisa que normalmente eu não faria, já que gostei do sujeito. Nós apenas trocamos os telefones.
No dia seguinte, já pela manhã, recebi uma ligação bem humorada de , me convidando para um passeio. Eu disse sim. E nesse momento foi como se eu tivesse dito ‘sim’ também à vida, pois só ele me fazia sentir tão viva. Nos dias e semanas que passaram, estive ao lado dele.
me pediu em namoro, eu aceitei e em poucos meses fomos morar juntos. Dois anos depois nos casamos e tivemos nossa filhinha , uma garotinha linda, com os olhos do pai e o sorriso mais doce que o mel. Nada mais nos incomodava, nada atingia nossa relação, nossas vidas eram perfeitas. Apenas nós. Apenas , e eu. Com o tempo, minha banda foi se desfazendo e eu comecei uma carreira (até hoje) bem sucedida como atriz. Já atuei com alguns atores conhecidos como Ashton Kutcher e Johnny Depp, mas ainda não tive nenhum papel de destaque. Já e o The Used estavam a todo vapor. Turnês de sucesso, CDs sendo lançados, programas de TV, revistas, Internet, tudo como deveria ser. Bem, na verdade, quase tudo.
Eu, somente eu, notava que algo de errado acontecia com , não sabia dizer o que, mas muita coisa havia mudado. Ele andava com a cabeça longe e não se empolgava tanto com os shows. Penso que a única coisa que não mudou desde então foi nosso amor. era simplesmente louco, obcecado, por mim. Tínhamos uma relação perfeita, e a paixão nunca diminuiu, nem com o tempo. Pelo contrário, parece que em todos os sentidos nosso amor sempre aumentava. O jeito que ele me tratava, como me olhava com os olhos ardentes, sua boca irresistível, seu cheiro, as palavras sempre certas nas horas certas. A delicadeza masoquista que demonstrava na cama, são apenas algumas das atitudes que nos davam mais certeza de que nos amávamos.

(Seria interessante se você colocasse ‘Almost Lover’ pra tocar a partir de agora...)


Mas por alguma razão mais forte tudo isso não foi o suficiente.

Numa terça-feira normal no trabalho, chuvosa e fria, me ligaram da creche de , pois não foi apanhá-la. Passei lá para pegá-la, e a única coisa que eu esperava a mais naquela noite, era chegar em casa e dormir abraçada com o homem da minha vida, mas não foi o que aconteceu. Logo na portaria do prédio percebi uma movimentação estranha de policiais e ambulâncias. Havia também alguns repórteres que me rodearam fazendo perguntas indecifráveis e falando muito alto. assustada começou a chorar. Alguém a tirou de meus braços, e me puxaram para dentro do prédio para dar a notícia. se foi. Para sempre. Por uma fraqueza da vida, desistiu. A dor invadiu minha alma sem piedade. Uma sensação de agulhadas tomou todo o meu estômago, e em meu peito, o coração encolheu, murchou. Senti-me como um bosque na época do outono, com todas as folhas das árvores caídas, sem vida, naquele chão frio. Pude sentir o vento cortando meu rosto e fazendo meus lábios secarem. Não conseguia acreditar que nunca mais tocaria aqueles lábios de veludo. Aquelas mãos que sempre me deram todo o prazer de que precisava agora estavam geladas e em pouco tempo iriam se decompor, virando nada mais do que matéria orgânica. E... Meu Deus, como é difícil até hoje conviver sabendo que nem uma vez mais poderei mergulhar no daqueles olhos que tanto amor me fizeram sentir. Agradeço todos os dias por minha filha ter sido poupada de tanto sofrimento, pois a pobre criança nem ao menos entendia que alguém tão importante havia sido arrancado amargamente de nossos braços. As únicas coisas deixadas por ele foram a saudade no meu coração, no de todos os fãs e amigos que o amavam, uma filha, e uma carta, uma maldita carta que me faz ter calafrios.

CARTA DE DESPEDIDA


“Para Boddah (Amigo imaginário que tinha quando era pequeno). Falando da língua de um simplório experiente que obviamente preferiria ser um eliminado, infantil e chorão. Este bilhete deve ser fácil de entender.
Todas as advertências dadas nas aulas de punk rock ao longo dos anos, desde a minha primeira introdução a, digamos assim, éticas envolvendo independência a aceitação de sua comunidade provaram ser verdadeiras. Há muitos anos eu não tenho sentido a excitação de ouvir ou fazer música, bem como ao ler e escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras.
Por exemplo, quando estou atrás do palco, as luzes apagam e o ruído maníaco da multidão começa não me afetam do jeito que afetava Freddy Mercury que costumava amar, se deliciar com a adoração da multidão que é algo que eu totalmente admiro e invejo. O fato é que eu não posso fazer você de tolo, nenhum de vocês posso enganar. Simplesmente não é justo a você ou para mim. O pior crime do que eu posso imaginar seria enganar as pessoas sendo falso e fingindo como se eu estivesse me divertindo 100%.
Às vezes eu acho que eu deveria acionar um despertador antes de entrar no palco. Eu tentei tudo dentro de meu alcance para gostar disso (e eu gosto! Deus acredite em mim, eu gosto, mas não foi o suficiente). Eu aprecio o fato de que eu e nós atingimos e divertimos muitas pessoas. Eu devo ser um desses narcisistas que só dão valor as coisas quando elas se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que eu tinha quando criança.
Nossas últimas três turnês tiveram um reconhecimento por parte de todas as pessoas que conheci pessoalmente e dos fãs de nossa música, mas eu ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que eu tenho por todos. Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal. O triste, o sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus. Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei!
Eu tenho uma esposa que é uma deusa, que transpira ambição e empatia, e uma filha que me recordam muito do que eu era. Cheio de amor e alegria, beijando toda pessoa que ela encontra, porque todo o mundo é bom e não a fará nenhum dano. E isso me apavora ao ponto de eu mal conseguir funcionar. Eu não posso ficar com a ideia de se tornar o triste, o autodestrutivo e mórbido roqueiro que eu virei. Eu tive muito, muito mesmo, e eu sou grato por isso, mas desde os sete anos, passei a ter ódio de todos os humanos em geral. Apenas por que eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho.
Obrigado do fundo de meu nauseado estômago queimando por suas cartas e sua preocupação ao longo dos anos. Eu sou mesmo um bebê errático e triste! Não tenho mais a paixão.
Paz, Amor, Empatia.

.

e , eu estarei em seu altar.
Por favor, vá em frente , por .
Por sua vida, que vai ser mais feliz sem mim.
EU TE AMO, EU TE AMO!”

FIM DA CARTA DE DESPEDIDA


Como por um instante de sua existência ele pode pensar que eu seria mais feliz sem ele? Como ele pensou que eu seria feliz? Desde então, parei de viver e voltei a apenas existir.

Exatamente um ano depois, minha tão querida filha teve um sério tumor cerebral e faleceu no mesmo dia que seu pai. Ainda penso que a culpa foi toda minha por sufocar a tendo como memória do meu . A questão é que pra mim, mais NADA, absolutamente NADA tem sentido. De lá pra cá, tentei ao máximo encontrar alguma razão para tudo isso que chamam de vida, e cada vez que paro pra pensar nisso, acabo no mesmo resultado: ”Nada vale a pena afinal!”.

Para meu irmão, a única pessoa em quem posso confiar neste mundo. E a única que tem a ideia do que eu vivi nesses últimos três anos. Você sempre soube o quanto eu tentei recomeçar, espero que entenda minha atitude, e faço apenas um pedido. Divulgue essa carta para todas as pessoas que sofrem como eu. Elas não estão sozinhas.

Agora, só espero conseguir completar meu último objetivo. Preciso de paz, de um pouco de paz, e sei que só há uma forma de obtê-la, junta das duas pessoas que mais amei na vida. e . Espero que estejam me esperando como sempre sonhei, e é por isso que exatamente um ano depois de minha princesinha, e dois desde que meu grande amor se foi, também estou indo.

“É melhor queimar do que se apagar aos poucos!”


Depois de escrever essa carta, tomou 20 dos comprimidos que tomava contra a depressão, e faleceu. Receber a notícia de sua morte é dolorido demais, mas eu a entendo. Como viver sem ter sentido nenhum. Espero que agora ela esteja como desejava, próxima de e .
se foi, com o objetivo de passar isso à diante, como minha irmã desejava agora você também sabe que muitas vezes, nossos problemas não são tão grandes como pensamos. Ela sofreu demais, sei disso, e é única e exclusivamente por esse motivo que passei sua história para todas as pessoas que queiram um pouco de conforto.
FIM



Nota da autora: Valew por ler minha Fic pessoa...
Espero que tenha gostado, fiz de coração!
Na verdade, queria deixar bem claro que a parte da 'Carta de Despedida' dele, é na verdade a carta que Kurt Cobain deixou... Fora isso, é tudo meeeeew! rs...
Quem quizer me add fique a vontade... angelica_kykynha@hotmail.com
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Tenho mais uma fic de minha autoria: Call My Aunt Marie do My Chemical Romance.
PS: Não sou suicida!
XxxooOº ... Srtª Sweet Angel




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