Contato Imediato II -- Pé no Saco Estelar
História por Elle S. | Revisão por Gabriella


Prefácio



“Os nunca fazem nada aventureiro. Se arriscar não é para os ” e “Não existe vida nas estrelas, , quantas vezes eu vou ter que te dizer isso?” eram as duas frases que mais fizeram parte da minha infância. Mais até que o “Isso é tudo, pessoal” de todos os fins de tarde, dito pela turma do Looney Tunes.
Na verdade, elas fizeram parte da minha adolescência, juventude e atormentaram minha mente até momentos antes de eu decidir sair de casa para ir morar com minha melhor amiga, , em Nova York.
Frases repetidas quase diariamente e incansavelmente pela minha mãe, e esta já achava uma decepção ímpar o fato de eu supostamente dar as costas para seus conselhos, ignorando seus sermões repetitivos e me mudando para Nova York, ingressando em todo e qualquer grupo de astronomia. Tinha medo só de pensar no que aconteceria com o coração dela quando descobrisse que eu estava do outro lado da Via Láctea, num planeta chamado Airamidniv e prestes a me casar com um alienígena deliciosamente lindo e apaixonante, o qual era a minha alma gêmea.
Mas minha mãe não estava de todo errada nas suas frases repetitivamente exaustivas, ou exaustivamente repetitivas, eu não sabia ao certo. Havia uma frase que era mais dita que as outras duas, geralmente quando a vovó vinha nos visitar. “Sogra só tem uma vantagem: ter colocado o homem da sua vida no mundo. Do resto...”. Eu nunca havia entendido o que ela queria dizer com esse “do resto...”, mas agora eu sabia. Eu tinha uma sogra e sabia exatamente do que consistia esse “do resto”. E se pudesse descrever a minha sogra, a descreveria certamente como um belo Pé No Saco Estelar.

Um

Sorri para meu noivo mais que tenso, que já se despedia de mim pela terceira vez seguida e parecia não ter se dado conta de que já havia me dado três beijos na testa, em três despedidas nas quais ele não havia realmente partido. Ele olhou aflito para a entrada da Base de Explorações Interplanetárias - mais conhecida como BEI -, onde ele trabalhava, e segurou minhas mãos entre as suas. Mais uma vez.
- Daqui a pouco Allie vem te buscar e...
- Está tudo bem, . – Eu interrompi o que ele ia repetir pela quarta vez, já que dissera aquilo quando estávamos a caminho da BEI também. – Ela só está um pouquinho atrasada.
Allie tinha outros compromissos como filha do naul, ou rei, ou governante ou como quer que seja, e era muito simpática e generosa por tirar alguns minutos de seu tempo para ensinar como me comportar em Airamidniv.
- É. Apenas atrasada.
Segurei as mãos de , sorrindo nervoso para mim, chegando ao extremo de tremer. Eu não estava muito diferente: estava completamente enjoada, completamente tremula e nem ao menos conseguia controlar a minha respiração.
E o motivo de nosso nervosismo era o mesmo: a chegada da mãe dele.
A senhora Ann Schnakerjud ainda não me conhecia. Nem eu, nem tínhamos a mínima idéia do que ela pensaria quando me visse. Não que eu fosse algum tipo estranho com os cabelos verdes, o corpo coberto de piercings e tatuagens, além de uma mutação grave que me deixava com oito pares de olhos. O problema era outro. Eu era uma terráquea que se apaixonara pelo seu filho e, por coincidência, era a alma gêmea dele, que decidira me trazer consigo para seu planeta e estava planejando terminar tudo com sua noiva assim que ela chegasse de viagem junto com minha futura sogra.
E aí estava o segundo problema. A noiva de .
No planeta deles, todos os casamentos eram arranjados pelos pais desde quando as crianças nasciam, baseados em interesses de ambos os pais do “casal”. Para eles isso era tão normal quanto acordar e respirar. O problema principal nessa história toda do casamento arranjado de consistia no fato de que a coisa que a noiva mais queria no mundo era casar com ele, assim como a coisa que a mãe dele mais queria era que ele se casasse com a noiva escolhida.
Ainda com as minhas mãos nas dele, tentei me sentar em um dos degraus da escada, já com as pernas cansadas - coisa que vinha se repetindo muito nos últimos dias e que eu culpava a densidade de Airamidniv -, mas antes que eu me sentasse nos degraus negros, ele me puxou com um olhar repreensivo. Mais um dos meus costumes terráqueos proibidos em Airamidniv.
- Preciso ir agora. – Ele disse me dando mais dois beijos na testa. – Mra T Nhé. – Ele beijou minha testa mais uma vez, após dizer que me amava na língua nativa de seu planeta, nells. - Não saia daqui e...
- Vamos lá, ! – Uma voz alta e poderosa quase gritou ao nosso lado e eu nem precisei me virar para saber a quem ela pertencia. havia chegado. – Não temos tempo para despedidas melosas. – Céus! Ele estava cada dia mais ranzinza. – Você só vai ficar longe dela por duas horas, não é como se ela estivesse deixando você para sempre e quebrado o seu coração em doze mil pedaços.
Quando acabou de falar, já estava no alto da escada, mas sua voz ainda reverberava no ar. De lá, ele lançou um olhar furioso para , fazendo-o praticamente correr escada acima depois de me dar mais um beijo, me deixando sozinha na escada morrendo de vontade de me sentar nela.
Somando o tempo de viagem e os dias que eu estava em Airamidniv, já estava lá há quase um mês e parecia que a cada dia o humor de ficava mais tenso. Eu nem poderia fingir que não sabia o motivo que o fazia estar sempre tão bravo e ranzinza, com o seu ponteiro do humor estacado no um negativo. Eu sabia exatamente o que acontecera e quem partira seu coração em doze mil pedaços quando o deixara.
Fazia pouco mais de um mês que tudo acontecera, mas às vezes pareciam anos. e caíram na Terra, bem onde eu e minha melhor amiga, , estávamos acampando atrás de um cometa raro. A nave deles ficara destruída, então, para ajudá-los a chegar onde a nave mãe iria buscá-los, eu e decidimos atravessar o país de carro, levando-os até a nave. E sem querer nós duas nos apaixonamos por aqueles lindos aliens de olhos cor de chocolate. Eu descobrira que era minha alma gêmea, assim como ele descobriu que eu era sua mrakni, que era basicamente a mesma coisa, mas claro que a palavra deles era muito mais bonita para descrever algo tão profundo quanto o nosso amor.
Assim como eu e , e também perceberam que eram feitos um para o outro, mas não teve toda a minha coragem - ou cara de pau, eu não havia refletido o suficiente sobre o que me fizera subir naquela nave com -, ela preferira deixar do que encarar sua família e sua noiva. Afinal, a noiva de era Allie, a filha do naul, e sabia o quanto perderia se ficasse com ela e o quanto sua família ficaria desapontada se ele largasse tudo o que poderia ter ao lado de Allie para ficar com minha melhor amiga.
Lembrar de tudo aquilo me fez questionar a mim mesma quem de nós duas fora a mais corajosa: eu ou ela, que tivera força o suficiente para abandonar o homem de seus sonhos para que o seu amado não perdesse seus planos e não envergonhasse a família?
E se eu acabasse fazendo envergonhar a mãe por ter escolhido a terráquea ao invés de obedecer o que lhe fora imposto desde que nascera?
Balançando a cabeça enquanto lutava para ter pensamentos felizes e positivos para que desse tudo certo quando encontrasse Ann, fui me inclinando, cedendo ao impulso de me sentar na escada. Foi quando escutei um grito de pavor que me fez erguer o corpo novamente e encarar a direção de onde ele vinha, encontrando Allie quase se descabelando de gritar.
E, como sempre, ela estava linda em um vestido preto e botas altíssimas. Tudo parecia feito sob medida para que ela ficasse ainda mais bonita. Mas eu sabia que nem se ela fosse a mulher mais bonita do universo ela conseguiria apagar a tristeza que todos conseguiam ver nos olhos de nos últimos dias. Ela era linda e exuberante, mas não era a ela que amava, era à que o seu coração pertencia.
- Não ouse se sentar nessas escadas, . Eu ordeno.
Imediatamente o meu corpo enrijeceu e eu fiquei parada, sem mexer um só músculo, obedecendo a ordem dela.
- Não se preocupe, Allie, eu lavo o vestido depois. – Me desculpei, tentando justificar. – Eu estou muito cansada. Minhas pernas doem e eu estou enjoada e...
- O problema não é o vestido. É a quantidade de pessoas que passaram por aí, transmitindo energias ruins para a escada pelos pés que você absorveria toda para você.
- Desculpe, Allie.
- Tudo bem. Só não se esqueça de mais essa lição. – Eu assenti e a acompanhei pelas ruas calmas de Airamidniv. O planeta era tão pequeno que com certeza não deveria ser maior que o Village, bairro onde morávamos na Terra. Se eu precisasse de uma palavra para descrever este planeta, seria monocromático.
Todas as casas e prédios obedeciam a um padrão de cores, assim como as vestes da população, também pequena como o planeta. As pessoas do governo e as que trabalhavam no BEI usavam preto, além do prédio da BEI, das outras bases do governo e do palácio de Allie. Os demais prédios com ligações governamentais, como escolas, postos de saúde e as pessoas que trabalhavam neles, usavam branco todo o tempo. Já as pessoas comuns, os prédios comerciais e residenciais e eu tínhamos como cor padrão: o cinza.
Ver , Allie e sempre de preto enquanto eu tinha que vestir cinza, aumentava - e bastante - a sensação de que eu não passava de uma forasteira em um planeta novo e desconhecido. Mas me orgulhava em saber que eu já aprendera bastante sobre a cultura do planeta deles. Era tão estranho ver que as coisas ali em Airamidniv funcionavam tão parecido com as da Terra e que a tecnologia deles era simples como a nossa, ou melhor, praticamente a mesma que a nossa. Isso facilitava a minha adaptação, mas não muito. Era difícil demais aprender todas as regras e leis de Airamidniv, saber como me comportar e ainda por cima aprender uma nova expressão do idioma nells diariamente. Não que eu já não soubesse algumas expressões, como “mra t nhé”, que significava “eu te amo”, e “mrakni” para designar almas gêmeas. Recentemente, eu havia aprendido a falar “boa noite” em nells também, que era algo como “schinik”.
Eu acreditava que lidar com tudo aquilo seria bem mais fácil se eu não estivesse sempre cansada e enjoada. Porém, não tinha do que reclamar a respeito da comida de Airamidniv: era mil vezes melhor do que a meleca que eu tentava cozinhar para mim. Na Terra eu só comia alguma coisa decente quando ia a algum fast food ou comia na casa da , pois ela era uma cozinheira habilidosa, mas muito preguiçosa. Era mais fácil ter dois eclipses em um mês do que levantar dizendo: “Nossa! Que vontade de cozinhar!”. Era mais que claro que eu adorava quando esses milagres culinários aconteciam: significava alguns dólares economizados com o fast food do dia.
Airamidniv tinha até mesmo hambúrgueres, e para mim qualquer lugar que vendesse hambúrgueres merecia meu respeito. Na verdade, vender era apenas modo de falar. No planeta de , as coisas eram compartilhadas, não existia dinheiro. Se você precisava de algo, bastava pedir, já que com certeza alguém precisaria de algo que você possuía também. Uma coisa generosa e cíclica que parecia funcionar muito bem por ali.
- Provavelmente Ann te cumprimentará do modo nells, então vamos praticar essa parte mais uma vez, tudo bem?
Eu assenti e olhei nos olhos de Allie, como havia aprendido, esperando que ela estendesse o braço para que eu o segurasse na altura do cotovelo, como ela faria comigo. E assim foi. Depois do cumprimento, inclinei-me para a frente, em sinal de respeito por Ann ser uma senhora.
- Bravo, ! – Ela disse com um sorriso radiante. – Estou orgulhosa. Mais duas ou três aulas e poderemos começar a aprender telepatia e expressões mais complexas.
Sorri para Allie, mas com o pensamento em outra coisa. Ann e sua chegada me davam pânico. Eu tremia só de pensar no que poderia acontecer se ela não gostasse de mim. Será que ela me deportaria, como faziam com os mexicanos clandestinos nos Estados Unidos? Ser deportada era o de menos, eu não queria me separar de , e se por um acaso - que eu já contava como certo - Ann não gostasse de mim, era bem provável que ela o proibisse de me ver.
E isso era como a morte para mim.
Eu estava convivendo razoavelmente bem com a falta que eu sentia de , mas acreditava que não seria tão habilidosa assim em lidar com a falta de . Seria quase como perder um membro, uma parte muito importante de mim ser levada para longe.
- Não se preocupe, . – Allie abraçou meus ombros quando notou que eu estava nervosa. – Mraknis são quase sagradas, ela não fará nada contra você.
- Mas pode fazer algo para impedir o meu amor com ?
A pergunta escapou de meus lábios antes que eu me desse conta, e a ansiedade pela resposta me pegou mais ainda de surpresa.
- Pode, mas não significa que ela fará. Ann é uma boa pessoa, nunca faria isso. – Incrivelmente, aquelas palavras não diminuíram nem um pouco o meu nervosismo. – Bem, vamos tomar um café da manhã enquanto aprendemos mais um pouco e esperamos e para irmos buscar Ann, ok?
Eu assenti e olhei para trás, tentando buscar em algum ponto da rua algo que me desse confiança e acabasse de vez com aquela insegurança irritante, mas era tudo tão novo e desconhecido, que me fez apenas ficar ainda mais nervosa.
Allie falava uma porção de coisas enquanto andava à minha frente e eu parei para pensar se eu me sentiria melhor se quem estivesse ao meu lado fosse e não Allie. Provavelmente. Conhecia como a palma da minha mão, talvez até melhor que a palma da minha mão, e sabia que se ela estivesse comigo enquanto eu estivesse nervosa daquela forma, com certeza desceria de seu pedestal de racionalidade e iria me fazer cócegas até eu rir, ou quem sabe como ela fizera da última vez que eu ficara tão nervosa, quando eu e ela nos mudamos para Nova York, ela subiria num monumento da cidade e cantaria uma musica do Abba para me fazer rir.
Eu dei uma risada e Allie sorriu para mim, como se pensasse que eu estava rindo com ela de qualquer coisa que ela tinha falado, quando, na verdade, eu estava rindo daquela ocasião quando cantou Gimme Gimme Gimme do Abba em cima do monumento em homenagem ao prefeito e no outro dia todos os carinhas gatos da cidade estavam no portão dos Munnighan querendo ser o “homem da meia noite” da minha amiga.
Lembrar daquilo fez eu me sentir um pouco melhor em relação ao nervosismo da chegada de Ann, mas fez a saudade de aumentar em proporções gigantescas. Ela e eu éramos quase siamesas, o que uma sentia, a outra quase era capaz de sentir também, e agora eu estava do outro lado da via láctea enquanto minha amiga estava sozinha na Terra, sabe-se lá fazendo o quê.
- E então, vou fazer algumas perguntas pra saber se você realmente decorou as palavras que eu pedi. – Eu assenti, finalmente prestando atenção em Allie. – Como se diz “Estou ocupada” em nells?
- Szurnir.
- “Por favor”.
- Djileiev. – Minha resposta foi novamente automática. E as que se seguiram também. estava me ensinando algumas palavras em casa, além de me ajudar na pronuncia. Eu não conseguia pronunciar aquele monte de vogais juntas sem que eu enrolasse a língua.
- Olhe eles aí.
- Desculpe, Allie, essa expressão eu ainda não aprendi.
Allie começou a rir como se eu tivesse feito uma piada tão boa quanto as dos pontinhos coloridos que eu costumava contar para irritar . Ela apontou para trás enquanto ria e encontrei e vindo em nossa direção parecendo mais lindos do que já eram normalmente.
Se eu tinha alguma duvida do porquê de eu estar me descabelando em um planeta estranho, prestes a conhecer a mãe de um namorado, essa duvida se evaporou junto com todas as minhas preocupações quando vi . Ele era mais que seus cabelos escuros e brilhantes, perfeitamente combinados com um corpo deliciosamente esculpido e olhos cor de chocolate que eram simplesmente fascinantes; ele era amoroso, compreensivo e o único homem no universo capaz de me fazer sentir tantas coisas ao mesmo tempo e não ser capaz de distinguir nenhuma delas.
segurou minha mão, me puxando para um de seus abraços calorosos e que enchiam o meu coração de mais sentimentos inexplicáveis. Pelo canto dos olhos vi Allie abraçar enquanto ele continuava imóvel. Seus olhos estavam fixos nela, mas estavam tristes e apagados. Não lembrava nem de longe os olhos sempre faiscantes com que ele olhava para .
- Vamos para a Abertura. – chamou e fomos abraçados, seguidos de perto por e Allie, para a Abertura, que era uma espécie de aeroporto onde as naves chegavam e partiam. O funcionamento era idêntico ao de um aeroporto, a única diferença eram as naves reluzentes, as quais pareciam tão irreais.
Uma nave veio pousando e e os demais deram alguns passos à frente, enquanto eu dei dois para trás. Uma mulher bonita, de cabelos escuros desceu da nave antes de todos os outros e em seguida muitas outras pessoas desceram também, fazendo mais ainda com que eu me lembrasse dos aeroportos e rodoviárias da Terra.
Não demorou muito para que a primeira mulher que desceu abraçasse com toda a força possível, assim como ele fez, quase erguendo-a do chão. Eu não precisei de muito para reconhecer Ann. Ela era linda. Pudera! Era parecidíssima com o filho. Para mim, estava para nascer criatura mais linda e perfeita do que .
De repente foi como se alguém apertasse o botão de mute. Tudo ficou sem som enquanto eu me afastei mais dois passos, Ann deu um grande abraço em , que sorriu contente e deu espaço para Allie se jogar nos braços da mãe de . Do ponto onde eu estava, vi os lábios de Ann se mexerem enquanto dizia algo a , que a segurou pelos ombros e sacudiu de leve, ao que ela sorriu e procurou por algo nas mãos dele. Delicadamente, a virou na minha direção, enquanto Allie rapidamente se posicionava atrás de mim, empurrando-me passos à frente para que eu me aproximasse de Ann.
Meu coração estava disparado, eu respirava com dificuldade e meus enjôos, que já acabavam comigo normalmente, no momento pareciam ainda mais fortes. Fiz uma prece rápida para que eu não vomitasse em minha sogra e estragasse toda aquela história de fenômeno da primeira impressão.
- Bem, esta é , mamãe.
A mulher me analisou dos pés a cabeça e seus olhos pararam nos meus, encarando-os com firmeza.
- Ela é...
- Minha Mrakni. – disse antes que ela pudesse completar sua frase com a palavra que, mesmo não dita, continuou pairando entre nós.
- Ela é terráquea, !
A voz dela era cheia de um sentimento que eu não soube decifrar, mas sabia que não era bom.
- Também.
Ann me esquadrinhou com o seu olhar mais uma vez e me senti tremer diante de sua analise. Percebendo isso, segurou uma de minhas mãos, me passando confiança e uma sensação deliciosa de proteção.
Olhei para e Allie, buscando saber se eles perceberam ou não o olhar de Ann e vi a princesa de cabeça baixa, enquanto encarava a mãe de quase com ódio e um fundo de indignação. Ele entendia agora exatamente porque não havia vindo. Ela queria evitar isso. O desprezo da mãe do seu amado ao saber que você era nada mais nada menos do que uma terráquea, ou seja, nada qualificada para se casar com o seu filho, mesmo que ele fosse doente de amores por você.
- Não quero discutir isso agora. – Ela disse completamente esnobe. – Vou descansar e vejo vocês mais tarde em um jantar em minha casa. O seu pai está convidado.
Allie fez um gesto breve, assentindo, e Ann me encarou com mais desprezo ainda, dizendo que eu também estava convidada e simplesmente saiu andando com seu traje cinza, mas parecendo emanar mais poder que a própria Allie.
Foi simples. Ela me odiara e me repudiara sem nem ao menos eu abrir a boca. Só porque eu era terráquea.
- Agora eu entendo a . – Eu disse antes que pudesse conter as palavras e vi erguer os olhos para a Abertura, como se esperasse que chegasse do nada. Mas ambos sabíamos bem demais que aquilo não aconteceria.
- Vai dar tudo certo.
Sorri para , não acreditando muito em suas palavras. estava certa. Eu fora tão burra. Eu havia saído do meu planeta com a esperança de que tudo daria certo e o começo não fora lá muito inspirador.
- Eu prometo que vai dar tudo certo, . A gente está destinado a ficar juntos, então se estamos juntos, tudo fica bem.
Eu me abracei a meu noivo com toda a minha força, tentando transportar a mesma força para os meus pensamentos, buscando tentar acreditar nas palavras de , mas era difícil crer naquilo quando eu tinha mais um mau pressentimento. E dessa vez um tão forte que me fez levar uma mão à barriga, enjoada mais uma vez.
Não pude deixar de me lembrar de . Se estivesse ali, diria mais uma vez com sua voz irritada: “Malditos pressentimentos”. Dessa vez eu teria que concordar com ela.


Dois

- Vamos, ! Estamos atrasados.
Guardei a escova de dentes mais uma vez, depois de vomitar vendo comer uma espécie de pastel extragorduroso recheado com carne do que eu nem tinha idéia de que fosse.
Havia demorado bastante para me arrumar, sem saber o que vestir para impressionar a minha “sogra”. Sabia que cor vestir, mas não exatamente o quê. me ajudara a escolher um vestido de corte bonito de apenas uma alça com uma fenda nas costas, elegante sem ser vulgar. Ele o vestira em mim enquanto me beijava docemente, me enlouquecendo a ponto de eu jogar o vestido longe, do mesmo modo que fiz com as suas roupas.
Não sabia o porquê, mas desde que entrara naquela nave, a minha vontade por parecia ter aumentado ainda mais, eu estava sempre desejosa e com vontade de arrancar as roupas dele. E com razão, ele era tão delicioso!
Eu sabia o que ele estava fazendo, queria que eu me despreocupasse, que eu parasse de pensar no meu pressentimento e pensasse como ele - que tudo daria certo - e era por isso que ele deixava sempre o seu corpo em contato com o meu, sabendo o quanto aquilo me tirava de mim. E realmente, durante o tempo em que seus lábios estavam em mim, eu parava de pensar, não sendo capaz de pensar nem em mim mesma.
- Já estou indo. – Enxagüei a boca mais uma vez e saí do banheiro colocando a mão em seu braço. – Vamos?
Todo o meu nervosismo estava presente naquelas palavras e ele percebeu, fazendo um comentário qualquer de como eu estava linda. Eu ri percebendo que ele conseguira de novo. Eu ficava emocionada por ele se preocupar tanto comigo quando ele devia estar preocupado com sua mãe, que devia estar extremamente furiosa com ele por ter se apaixonado por uma terráquea sem ter onde cair morta.
Estava tão nervosa quando cheguei à casa de Ann e minhas mãos suavam tanto, que eu tive que secá-las no vestido disfarçadamente.
- ! – Ann quase gritou quando abriu a porta e pulou no filho, puxando-o para um abraço carinhoso que minha mãe não tinha muito o costume de me dar e me fez sentir ainda mais excluída dali. Minha mãe não era muito fã de contato físico, então me criara a distância, enquanto eu sempre fora necessitada de carinho. Quem pagara por aquilo fora , sempre agarrada por mim com abraços de urso nos quais ela quase perdia a coluna.
Depois de alguns segundos de amor materno, a mãe de finalmente se decidiu por me notar.
- Ah, olá. Vamos entrar. Os outros convidados ainda não chegaram, mas podemos... hum... conversar na sala de estar.
Segurei uma risada alta por ter ensaiado tanto o cumprimento nells para impressioná-la com a minha recente etiqueta de Airamidniv e aquela mulher nem se dignara a me cumprimentar. Bem, dela não fora a quem meu havia puxado a educação, já que ele fora extremamente cavalheiro deixando que eu e Ann nos sentássemos nos sofás modernos de sua casa, antes que o fizesse.
- E como foi sua exploração a Trajan Pró, ?
- Foi bem aproveitada. Eu e fizemos várias pesquisas, mas no caminho de volta a nossa nave bateu em um pedaço de meteorito e caiu na Terra.
Ela deu um sorriso falso para mim e comentou:
- Que foi como você conheceu sua suposta alma gêmea.
- Exatamente. – sorriu segurando a minha mão e colocando-as unidas em meu colo, me fazendo sorrir de volta para ele.
- Então você é realmente terráquea, garota?
- Sim, senhora. – Respondi de pronto.
Então Ann me lançou mais um de seus olhares que deixam claro que eu era indesejada ali.
- E o que você fazia na Terra?
- Eu trabalhava com artigos exotéricos, além de estudar astronomia de modo informal.
- E tinha um noivo, companheiro?
- Não. – Respondi com a voz estrangulada. Não era acostumada a ser interrogada daquela maneira. O meu ultimo “encontro com a sogra” consistira num jantar num restaurante japonês no qual a mãe de meu namorado, ou qualquer coisa que ele significasse para mim, resolvera faltar. Juro que eu não me importei nem um pouco com a sua falta, eu iria terminar com Ling na semana seguinte mesmo. Ele tinha ciúmes de meu telescópio, o que era mais do que um indicio que ele não era um cara normal.
- O que os seus pais dizem sobre você estar com um extraterrestre?
- Eles não sabem. Mesmo se soubessem, eles não se importariam.
Ela se sentou mais eretamente, me lembrando um predador quando encontra um ponto fraco em sua presa.
- Está querendo me dizer que seus pais não se importariam por você estar, supostamente, noiva do meu ?
- No caso, sim. Desde que eu saí de casa, eles não se surpreendem mais com as coisas que eu digo fazer.
Ann cruzou as mãos no colo e olhou para mim, séria.
- Se coloque em meu lugar, garota. – Fiquei extremamente tentada a interrompê-la para dizer o meu nome, pois ela parecia não saber, ou, se sabia, fazia a máxima questão de não pronunciá-lo, mas percebi que aquilo só pioraria minha situação. – Você gostaria se seu filho único fosse a um planeta inferior e voltasse de lá com uma garota que não faz nada da vida, rejeitada pelos pais, e se dissesse apaixonado por ela?
- Mamãe! – ofegou envergonhado pelas palavras da mãe enquanto eu abaixava a cabeça, me sentindo um lixo e desejando mais do que nunca correr para os braços de , a única pessoa que parecia me entender no universo.
- Se ele a amasse, eu não veria problemas, já que não haveria nada que eu pudesse fazer.
Ela me olhou com ódio dessa vez, mas eu não me deixei abaixar a cabeça. Lembrar de me fizera entender o que eu deveria fazer. Se aquela mulher tornaria as coisas difíceis para que eu ficasse com , eu superaria todas as suas dificuldades. Eu queria ficar com ele, e nada do que aquela aspirante a velha bruxa dissesse mudaria os meus sentimentos.
- Tem razão. – Ela disse, me confundindo com seus olhos castanhos, agora parecendo doces e simpáticos. Ela estava apenas me testando? Não tinha como ter certeza, por isso continuei mantendo a minha postura defensiva. – , por que não vai até o bar buscar alguns drinks para nós?
olhou para mim, sorrindo e apertou minha mão antes de sair da sala, indo para um cômodo contiguo onde ficava quase impossível para ele escutar o que diríamos a seguir. Para ficar ainda mais difícil de seu filho ouvir suas palavras, a voz de Ann era baixa e ameaçadora.
- Acredita mesmo nisso? – Perguntou, parecendo ainda mais assustadora e me fazendo tremer um pouco, mas nada que eu deixaria que ela percebesse. – Acredita que não há nada que eu possa fazer para separar você e meu filho? Então está totalmente errada, garota. Ele é um explorador interplanetário, merece alguém muito melhor do que você e espero que ele perceba isso o mais rápido possível para que devolva você ao seu planeta de merda. E garanto que eu farei o que estiver ao meu alcance para que ele perceba que você não é para ele.
Eu franzi o cenho, irritada por aquela velha ser tão pé no saco, e sorri para ela com todo o desdém que me era peculiar quando eu estava revoltada daquela maneira. Poucas pessoas me viram daquela maneira, mas quando viam, se arrependiam profundamente de me deixarem chegar aquele ponto.
- Então está realmente decidida a me tirar de ? Desejo-lhe sorte, Ann, porque não vai ser tão fácil. – Eu me levantei sorridente assim que chegou à sala, entregando nossos drinks e me abraçando pela cintura.
- Sobre o que estavam falando?
perguntou, mas eu senti ele entrando em minha mente e fiz questão de bloquear meus pensamentos, como aprendera com Allie, para que ele não soubesse a cobra traiçoeira que tinha como mãe.
- Por que não mostra o seu quarto dos tempos de criança à sua bela noiva, enquanto eu termino os preparativos para o jantar?
Assentindo, me abraçou pela cintura enquanto eu dava uma última olhada para trás, cruzando meus olhos com aquelas orbes chocolates que pareciam ser capazes de fritar uma pessoa apenas de encará-la.
Legal, minha sogra me odiava!
e eu subimos as escadas e viramos um corredor longo e bem decorado em tons escuros, como tudo naquela casa, e paramos em frente a uma porta que parecia ser de acrílico cinza escuro. se virou para mim sorrindo.
- Preparada para se desapaixonar por mim? – Ele riu. – Eu era bem estranho, então não vou te culpar por querer voltar pra Terra por ver o quanto eu era... estranho.
Eu ri e coloquei a mão na maçaneta, enquanto ele tentava não me deixar abrir a porta. Abracei ele pela cintura e beijei seu pescoço sabendo que aquele era o seu ponto fraco, rindo baixinho quando ele jogou a cabeça para trás, esquecendo de cuidar da porta, e eu a abri e corri para dentro enquanto ele me encarava, balançando a cabeça divertido.
- Você me distraiu apenas para entrar no meu quarto, sua garota má. – Ele riu e me pegou pela cintura, me jogando por cima de seus ombros, de um jeito que me fez rir de prazer.
Mesmo em cima de seus ombros, prestei atenção em tudo à minha volta, estudando seu quarto e buscando entender o que havia de tão estranho em seu quarto. No caso, nada a não ser o quanto aquilo era monocromático. Preto e cinza dominavam o papel de parede listrado e todos os móveis. A cama era enorme e ficava a um canto, onde várias estrelas decoravam o teto, daquelas que se iluminam quando apagam as luzes.
- O que tem de tão estranho aqui, ? – Eu perguntei enquanto ele girava pelo quarto, como se estivesse procurando alguma coisa.
- Acho que minha mãe deve ter tirado. Se você visse, me chamaria de louco pervertido e estranho.
Ele me colocou no chão e eu fiquei na ponta dos pés, tocando seu rosto com carinho. Jesus! Como eu amava aquele homem. Eu estava em um planeta estranho, lidando com uma cobra venenosa que seria, em breve, minha sogra e tudo isso por causa dele. E jurava que nem por um instante me arrependia daquilo.
- Eu nunca deixaria de te amar por causa de esquisitice adolescente. Eu também não era nenhuma líder de torcida gostosa com um tesão natural por compras quando era adolescente.
Ele riu, mesmo sem saber o que era uma líder de torcida, e eu me senti um pouco tonta, sentando-me em sua cama e tentando fazer parecer com que eu não tivesse sentido nada.
- E o que achou da minha cama? – Ele disse, sentando-se ao meu lado e se aproximando quase até se deitar sobre mim.
- Achei maravilhosa. Todas as camas de Airamidniv são gostosas assim? – Perguntei.
- Apenas as que tem você deitada nela. Você faz qualquer cama ficar irresistível. – se deitou sobre mim e minha libido foi ao céu e voltou, me fazendo inverter nossas posições, me deitando por cima dele para tocar todas as partes do corpo de , enquanto ele se ocupava em beijar meus lábios, quase os deixando vermelhos. Eu agarrava com paixão e ele fazia o mesmo comigo. Ele sabia exatamente onde e como me tocar. Quase como se o meu corpo fosse uma extensão do dele. Eu nem ligava mais se a minha sogra estava arrumando taças e talheres no andar de baixo, minha fome não tinha nada a ver com risotos e coisas do gênero, minha fome era do corpo de , o qual eu ataquei com beijos ferozes até escutarmos uma tosse forçada na porta, percebendo que havíamos, infelizmente, esquecido-a aberta.
estava parado na porta, encostado na mesma, enquanto olhava para o chão, fazendo-me crer que se o visse naquele momento ela teria um ataque cardíaco nível oito, como ela costumava dizer. Ele usava um terno preto, assim como a camisa e não usava gravata, ao contrário da de , que usava uma cinza em homenagem ao meu vestido, como ele mesmo dissera.
- Vocês realmente não conseguem tirar as mãos um do outro? Achei que só fazia parte da lenda das mrakni.
Eu realmente tentei me sentar na cama e me recompor, mas agia como se não fosse nada demais seu melhor amigo o pegar na cama com a noiva, agindo naturalmente, enquanto continuava deitado, agora ao meu lado, na cama.
- Você diz como se não tivesse uma. – disse sem saber o quanto aquelas palavras machucavam , e vi exatamente o quanto feriam-no quando olhei em seus olhos. Mas ao invés de dar uma de suas respostas rascantes e mal educadas, como era de se esperar, apenas riu, encarando a cama e brincou:
- Até que enfim essa cama foi estreada, hein! E não estou falando de pensamentos nada ortodoxos com a Melanie Draknikovs. – Ele brincou enquanto colocava as mãos diante do peito, simulando uma mulher peituda.
riu junto com ele e me dei conta de que nunca havia visto rir sinceramente, e era exatamente por isso que eu o olhava como se tivesse pintinhas verdes e um bico de pato.
- Não me olhe assim, . Eu não sou o monstro que você imagina. – Ele riu novamente, fazendo um gesto estranho com a mão, numa tentativa bem falha de imitar um monstro. – Só estou tentando... humm... – ele buscou uma palavra que expressasse o que ele sentia e os seus olhos castanhos e lindos ficaram tristes mais uma vez e a tristeza transpareceu em todo o seu rosto, me fazendo abaixar a cabeça em respeito a sua melancolia – superar o que aconteceu. Não posso ficar pensando que... – um suspiro pesado saiu de sua boca e ele saiu do quarto, deixando o ar tenso e as palavras ali, mesmo que elas não tivessem saído de sua boca.
Ele não poderia ficar pensando que ela iria chegar de repente e ficar com ele, porque ela não iria. De repente me perguntei como deveria estar lidando com as coisas na Terra. Ela havia sido procurada pela policia, provavelmente por isso havia perdido o emprego e passara o Natal sozinha, já que eu sempre passava com ela, porque os seus pais viajavam cada ano para um local mais quente, procurando voltar sempre como dois camarões sem molho.
Conhecia , provavelmente ela deveria estar sentada em uma daquelas cadeiras de madeira, na varanda de seu apartamento, observando a neve cair, enquanto derramava lagrimas silenciosas, tão silenciosas que ela mesma não perceberia que estava chorando. odiava chorar. Odiava demonstrar que era fraca. Odiava entregar o seu coração para quem quer que fosse. E o que acontecera fora que ela entregara o coração justamente para a última pessoa que poderia ficar com ela.
- Vamos, estou com fome! – chamou, me ajudando a me levantar da cama e calçar novamente os sapatos que eu havia chutado quando a coisa entre nós começara a ficar mais quente.
Só de pensar em comida meu estomago já ficava estranho de novo, como se fosse uma maquina de lavar centrifugando tudo dentro de mim. Uma sensação horrível que não me deixava comer nada há quase duas semanas.
Descemos as escadas juntos e encontramos Allie acompanhada de um senhor muito bem apessoado, de cabelos claros e entremeados de fios grisalhos e porte aristocrático, e nem precisei pensar muito para saber que era pai dela, já que a semelhança estava quase estampada.
- Ah, ! – Ela disse contente quando me viu e me puxou pela mão para perto de si. – Quero te apresentar ao meu pai. Pai, esta é , mrakni de . E , esse é meu pai, Stan Jrakskovae, Naul de Airamidniv.
Ele estendeu o braço para mim e eu tive a honra de cumprimentar o naul de Airamidniv pelo cumprimento Nells, quase desmaiando de surpresa quando ele se ajoelhou, numa saudação mais elaborada.
- Temos que reverenciá-la, mrakni, não sabe o quanto é afortunada por encontrar a sua outra metade.
Meu olhar encontrou parado apoiado na escada, olhando a cena com orgulho e prazer evidentes, e eu não resisti a sorrir para ele, enquanto assentia à Stan, concordando do quanto eu era sortuda por ter .
- Um verdadeiro achado. – A voz fina de Ann pronunciou com um tom meloso demais para parecer verdadeiro. – E ainda melhor, um achado terráqueo.
Velha bruxa! Essa ainda queimaria no inferno com direito a canibalismo! Jesus! Como uma pessoa conseguia ser tão odiosa? Era curso intensivo? Se fosse, minha sogra tinha tirado doutorado nisso!
- Terráquea? Bem que percebi que seus olhos eram diferentes. – Stan disse, não parecendo nem um pouco abalado com o fato de eu não ser realmente nells.
Sorri mais uma vez para o pai de Allie, e Ann se virou para , comentando alguma coisa a respeito do andamento da BEI e então todos se envolveram no assunto. Todos, exceto eu, que me sentei no sofá - o mesmo de antes - e peguei o meu drink que ainda estava ali, dando goles ocasionais e sorrindo para quando eles desviavam um pouco a atenção para ver se eu estava bem e logo a focava de novo na conversa em torno de algo sobre Trajan Pró, o planeta onde eles haviam estado antes da Terra.
Ann sentou-se ao meu lado, parecendo uma simples anfitriã, mas eu sabia que aquela jararaca havia sentado ao meu lado apenas para destilar o seu veneno de cobra maldosa.
- Todos conversam sobre a BEI, por que não entra no assunto?
- Porque eu não entendo sobre isso. – Respondi sincera.
Eu realmente não entendia nada sobre explorações e pesquisas que eram serviço da ARE, mas me interessava bastante quando via falando sobre elas. Pareciam tão fascinantes e divertidas.
- E precisa de quantas provas mais de que o seu lugar não é aqui?
- Meu lugar é ao lado de , Ann. Onde ele estiver, eu estarei.
O meu sorriso era doce e quem nos visse pensaria apenas que estávamos trocando amabilidades acerca do tempo e da decoração, que por sinal era completamente escura.
- Não conte muito com isso.
Ela se levantou e chamou todos para a sala de jantar, onde tudo já estava pronto. Depois de um agradecimento rápido - uma tradição em nells que na Terra eu também era habituada como prece antes das refeições -, todos nos sentamos nos servindo e eu coloquei menos do que eu tinha o costume de comer. Meu estomago parecia uma ginasta russa de tantas cambalhotas e achei melhor apenas brincar com a comida, do que realmente comê-la e passar qualquer vexame ali.
A conversa novamente era sobre a BEI e outras bases do governo e todos participavam ativamente, mais uma vez, enquanto comiam.
Os olhos de Ann se fixaram nos meus por cima da mesa e ela não precisou de palavras, entrando em minha mente e me lembrando de novo o quanto eu era indesejada ali. Então, ao ver todos se divertindo e discutindo entre si, comecei a pensar que ela poderia estar certa.
Uma empregada chegou perto de Ann dizendo algo baixo em seu ouvido, ao que ela levantou e tocou de leve com o garfo na taça que continha um liquido esverdeado delicioso, mas alcoólico, e chamou a atenção de todos para si.
- Esse jantar é em homenagem à minha nova nora, mas ela não é a única convidada especial. Quero propor um brinde em comemoração à volta de nossa melhor exploradora estelar, Victoria.
E então foi como se eu levasse um lindo e potente soco no rosto ao ver aquela mulher entrando na sala, parecendo completamente cheia de si. Não precisei de nenhuma dica para saber quem era ela.
Os olhos de brilharam miseravelmente ante sua visão e nunca na vida eu senti que Ann tinha mais razão do que naquele momento.
Aquele não era meu lugar.

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Três

Ela era tão linda que por alguns segundos eu cogitei a possibilidade de esconder-me debaixo da mesa para evitar as comparações que eu já estava mais que ciente de que viriam.
Ela usava um vestido preto e longo, que só não ficava melhor nela porque não havia como. Ela era deslumbrante! Seus cabelos eram curtos - na altura do ombro - e daquela mesma cor indefinida que eram os cabelos de , mas que eram simplesmente tão lindos a ponto de serem invejáveis. E o que era aquele corpo? Pilates e musculação benditamente aplicados em cada curva. Depois de observá-la por alguns segundos pensando quem ela me lembrava, vi que era a própria Victoria Beckham, o que me fez resmungar com Deus, silenciosamente.
Poxa! Justo a Posh. Não poderia ser a Mel C.? A Emma eu até aceitaria, já que ela era uma chata de galochas que ninguém suportava. Da banda, ela era a que nunca me convencera com aquele papinho de menina de família. Eu sempre fora muito mais a Posh que tinha estilo e pernas maravilhosas... E agora, a minha rival. A mulher que queria roubar o meu homem de mim parecia-se justo com a minha Spice favorita? Era sacanagem demais!
levantou-se, assim como todos os outros. Mesmo ainda entorpecida, levantei-me também. Ela fez um gesto breve pedindo para que todos se sentassem de novo, abaixou-se na frente de Stan - cumprimentando-o do modo nells - e sentou-se no lugar ao lado de , que eu não havia reparado que estava vazio.
- Eu senti sua falta, seu explorador maroto! Nem me liga quando volta! – ela ralhou com ele de brincadeira enquanto segurava a sua mão.
ficou pálido e parecia estar suando frio, enquanto todas as pessoas da sala de jantar encaravam a nós três, sentados lado a lado. Stan parecia achar até mesmo que era um daqueles filmes de drama onde a traída já começaria o barraco digno de Oscar, pois colocava o garfo na boca, assistindo a cena sem tirar os olhos de nós, como se estivesse no cinema.
também assistia incomodado. Seu olhar ia e voltava de nós para Allie, como se quisesse adivinhar quem ela apoiaria. Era mais que obvio que ele estava usando aquela situação como parâmetro para avaliar o que aconteceria se fosse com ele e se estivesse no meu lugar.
- Er... Victoria, eu...
- Soube que foi para a Terra. Espero que tenha me trago uma lembrancinha de lá. Você sabe como eu adoro presentes de planetas atrasados para lembrar de como Airamidniv era quando éramos menores.
Ann parecia um baiacu, inchada de alegria por ver que logo o circo iria pegar fogo e seria eu quem iria me queimar. Não fiz um só som. Um simples movimento poderia estragar tudo. E não conseguia decidir se a demora para se explicar, ou a maneira como Victoria segurava sua mão era o que me deixava mais irritada.
- Victoria, eu...
- Tudo bem, querido. Vou perdoar-te se não tiver trago nada. – ela sorriu e pareceu finalmente notar-me ali. – Ah, oi! – ela sorriu e seus olhos se fixaram nos meus, como toda pessoa de Airamidniv que eu conhecia parecia fazer. – Ah, eles estão dando terráqueozinhos de brinde? Como aqueles pequenos frutgant que a gente ganhava em Minion?
Os olhos dela brilharam e eu quis não ter entendido o que ela queria dizer. Eu estava prestes a chorar, mas segurei por orgulho.
Ela ergueu o garfo e sorriu aos demais que nos olhavam como se a bomba atômica fosse explodir onde estávamos.
- Acho digno eles fazerem isso. Despovoar aquele planetinha é mais do que necessário! Com toda aquela gente... Urgh! – ela deu uma estremecida de nojo e eu não agüentei mais.
Levantei-me imediatamente. Stan levantou-se também, com o olhar ainda confuso e eu o reverenciei, pronta para sair da sala.
jogou o guardanapo na mesa e parecia que iria sair de lá comigo. Allie simplesmente segurou o seu braço, como se pedisse para ele não fazer nenhuma besteira. também se levantou, perdido no que não fazer e a quem explicar tudo primeiro. o olhou com firmeza, comunicando-se com ele pela mente e se sentou.
- Com licença. – eu disse com o choro preso na garganta, enquanto me afastava para a porta da sala de jantar.
- E a falta de educação dos terráqueos não era apenas um mito, huh?
A voz dela conseguiu penetrar a porta, mesmo ela estando fechada. Corri o máximo que meu estômago enjoado e minhas pernas cansadas deixaram-me correr, parando apenas embaixo de um poste, a uma distancia segura da casa de Ann, onde eu não poderia ouvir ninguém.
Sentei-me na calçada, tirando os sapatos e deixando que o material estranhamente frio - que deveria ser o asfalto - deixasse-me melhor.
As lágrimas caíam sem parar e me senti cada segundo mais idiota por estar ali.
fora um idiota pior do que eu, por saber que tudo aquilo iria acontecer e ainda assim, insistir em trazer-me para um planeta bobo e feio.
Deus! Quando eu ficara infantil daquele jeito?
Encostei a cabeça no poste e escutei passos se aproximando. Eu deveria levantar-me para não parecer uma mendiga - o que eu ainda não havia visto em Airamidniv, ainda. Os passos pararam ao meu lado e a pessoa sentou-se ao meu lado, sem dizer uma palavra, assim como eu não ergui os olhos para reconhecê-la.
Passaram-se alguns minutos e ele finalmente decidiu falar, mas eu realmente desejei que ele não o tivesse feito. O silêncio estava confortável. Nele eu não precisava buscar razões para aquilo estar justamente acontecendo comigo. Bem, talvez amor não fosse uma coisa tão boa assim em Airamidniv, não?
- Eu não paro de pensar se estaria sendo do mesmo jeito se fosse a em seu lugar. – ele respirou fundo, tentando se acalmar. Eu também havia pensado muito nisso quando sentei-me na calçada, mas não conseguira chegar a uma conclusão.
- Ann me odeia!
- Ela odeia todo mundo. Qualquer pessoa que chegue perto do – ele fez uma careta ao dizer o apelido que a mãe dera ao filho – sem que ela aprove, já é inimigo mortal dela.
- Multiplique isso por cem com uma terráquea burra que é mrakni dele. É faz sentido, porque ela quer transformar minha vida em um inferno.
riu e o seu olhar voltou-se para frente. Se estivesse ali, com certeza ela teria sido educada e aguentado tudo calada. Ela era educada demais para levantar-se e sair.
- Eu sei que ela não viria. Mesmo que eu arriscasse tudo por causa dela.
Virei-me para , vendo seus olhos se nublarem, como se ele estivesse prestes a chorar. Porém, de repente voltou a me olhar sorridente, como se nada houvesse acontecido com seus lindos olhos de chocolate.
- Você ficaria? – perguntei mais preocupada agora com o drama dele do que com o meu próprio. – Se ela te pedisse para ficar, você ficaria com ela?
- Aí está o problema, . Ela não pediu. Não quis nos dar uma chance. Eu ficaria. Eu enfrentaria a ARE. Viveria como um bobo, protegendo-a de tudo e todos, mesmo quando ela não queria ser protegida, ou quando ela falasse com aquele jeito arrogante e metido dela. Eu a beijaria até ver que ela estaria se derretendo em meus braços como eu amo ver ela fazer. – ele suspirou mais uma vez e corrigiu a frase. – Como eu amava vê-la fazer.
levantou-se e estendeu uma mão para mim, ajudando-me a sair do chão. Levantei-me também e deixei minha cabeça remoer tudo o que estava acontecendo, sentindo minha barriga dar mais uma reviravolta apenas por eu lembrar da visão mais que perfeita de Victoria completamente deslumbrante acariciando meu .
- Victoria é uma idiota, ! nunca irá trocar você por ela. – ele disse apertando minha mão, que ainda estava grudada na sua, e por uns segundos eu percebi que esse não era o que eu havia conhecido na Terra e nem o que parecia estar sempre emburrado e mal humorado de uns dias para cá.
E pelo visto, ele tinha lido exatamente isso na minha mente.
- Estou tentando facilitar as coisas para você. Imagino se tivesse sido o contrário. Se tivesse vindo e você ficado. Ela estaria sozinha por aqui e ficaria mais ranzinza do que o velho Yrdifas, que é a criatura mais mal humorada de Nells. Não seria justo com ela todas os acessos de mau humor quando ela estaria precisando é de uma – ele mostrou nossas mãos juntas – mão amiga.
Eu ri enquanto andávamos pelo caminho que levava para a casa de onde eu estava morando com ele. Eu não sabia como lidaria com as notícias que ele traria do jantar. Por isso nem estava contando muito com o fato de ali ser o meu lar também. Eu não desistiria de meu amor por ele, mas ele poderia muito bem ceder à mãe e ficar com Victoria. Eu deveria esperar por isso também.
Pensar nas coisas boas e más que poderiam acontecer, poderia ser uma boa terapia. Não que eu contasse muito com terapias para melhorar o meu nervosismo.
- Allie não parece ter muito ciúme do que houve entre você e . Ela sabe, não?
riu, pegando-me completamente de surpresa. Eu estava apenas comparando Allie e Victoria, a quem eu tinha certeza de que quebraria no mínimo duas dúzias de pratos quando soubesse da noticia de que havia encontrado sua mrakni. Isto é, se contasse. Ele parecia tão nervoso e impotente com a aura de poder que emanava dela, que com certeza ele demoraria um bom tempo para falar qualquer coisa. Então senti pena de . A mãe dele era uma dominadora da pior espécie, assim como a noiva Victoria. Ele seria completamente dominado pela esposa e pela mãe, que com certeza seria um combo para dar ódio em qualquer um.
- Ela sabe. E apenas parece não ter ciúmes. Ela não sabe que é minha mrakni, mas desconfia e isso está deixando ela irritada. A poderosa Allie Jrakskovae nunca poderia ser trocada por uma simples terráquea. É aí que eu começo a ver que, infelizmente, tinha razão. Não digo que aceito ela ter me deixado, mas digo que entendo porque ela deixou.
Eu me abracei, sentindo uma coisa estranha dentro do peito ao ouvir ele falar daquela maneira e percebi que já estávamos em frente à minha casa.
- Ele não te deixaria, . demorou muito tempo para te achar, para agora simplesmente te deixar.
- Demorou? – eu ri – , a gente se apaixonou em uma semana. Ele caiu na Terra por acidente e...
- Acredite, faz um bom tempo que ele procura por você.
Ele balançou a cabeça e se despediu de mim com a mão no peito - a saudação de despedida Nells - e continuou pela rua bem iluminada pelos diversos postes de luz feitos de um material lindo e que parecia brilhar. Eu juraria que era acrílico, mas tinha coisas mais importantes para pensar do que matérias primas de postes nells.
Eu tinha um dilema, um quebra cabeça e um enjôo sem motivo. E para uma pessoa como eu, isso era problema demais.
Então, assim que eu me deitei no sofá, lembrei-me de outra coisa que estava me acometendo naqueles últimos dias. Cansaço.
Eu sempre sentia-me miseravelmente cansada e com as pernas tão pesadas que nem se eu pesasse três toneladas, elas pareceriam pesadas daquela forma.
Eu não queria dormir. Queria ficar sentada ali como minha mãe fazia quando eu era mais nova e conseguia arrastar e seu irmão Ryan - que na maioria das vezes fazia a vez de nosso motorista - para alguma festa que eu não poderia perder. Minha mãe sentava-se na sala pacientemente até eu chegar em casa e falar poucas e boas na minha orelha. Na verdade “poucas e boas” era apenas uma expressão, porque ela falava exatamente o contrário daquilo.
Porém, eu não aguentaria muito mais. Meus olhos fechavam-se aos poucos e ,por mais que eu quisesse me manter acordada, isso não aconteceria.
Sabe aquele momento em que você está quase dormindo e de repente você percebe que está com tanto sono que saem lágrimas de seu olho? Aconteceu o mesmo comigo. Mas as lágrimas não eram de sono.
Eram uma mistura de frustração, irritação, raiva, amor intenso e cansaço.
O mau pressentimento que vinha me corroendo desde que eu chegara em Airamidniv só ficava mais forte enquanto imagens me torturavam. Às vezes eu odiava ser tão imaginativa. Característica que a minha melhor amiga dividia comigo. Desta vez, cenas de pegando Victoria pela mão e dizendo que eu não era nada ficaram em minha mente. Na sua sequência, vinha uma cena em que eles subiam as escadas se beijando como dois loucos, quase tirando as roupas um do outro. Ann, da sala de jantar, assistia a subida deles com um sorriso enorme, contente por seu filho não estar acompanhado de uma terráquea.
E então, naquela mesma cama onde eu e nos pegamos mais cedo, ele deitaria Victoria e iria por cima dela, beijando-a com ferocidade e jogando a blusa preta e estilosa dela para qualquer lado, em poucos segundos atirando seu paletó para qualquer lado, enquanto ela puxava-o mais para si pela gravata enquanto eu ficava ao lado, apenas assistindo e tentando interromper, entre lágrimas, perguntando insistentemente a se ele faria aquilo comigo, implorando para que ele não escolhesse ela, mas ele me ignorava e fazia gestos para mim como se espantasse uma mosca. De repente, Victoria também parecia perceber que eu estava ali e os dois agarravam-se com mais paixão, apenas para me mostrar como eles ficavam bonitos juntos. Como a paixão deles era melhor. Como ele amava ela e não eu.
Ergui-me de uma vez, gritando para que não fizesse aquilo comigo e tudo o que eu vi foi a sala escura e meu corpo mais dolorido do que estava. Minha barriga parecia que iria implodir de tanto que doía. Respirei profundamente sentindo braços fortes ao meu redor.
Aquele cheiro nunca me deixaria confundi-lo. Eu era dependente daquele perfume tanto ou mais quanto eu era viciada em seu calor.
Não consegui conter as lágrimas que vinham sem parar ao meu olhar. Meu coração se aquecia tão gostosamente quando ele estava ao meu lado que eu não poderia nem ao menos cogitar a possibilidade de passar uma hora que fosse longe dele. Se me deixasse, mesmo que não fosse para ficar com Victoria, eu provavelmente não conseguiria mais respirar nem viver.
- ... – eu me abracei a ele com força chorando o meu peito fora.
- Eu não vou te deixar, . Eu juro. – eu chorei ainda mais alto. – , meu coração é seu. Eu não posso viver sem meu coração.
Ele afastou-me por alguns minutos, encarando - com um olhar cativante - meu olhar choroso. Eu era terrivelmente apaixonada por ele.
Tanto que não gostaria de ver o quanto o magoaria se eu lhe contasse o quanto a sua mãe era uma mulher malvada que queria nos separar. E nem quis me prolongar muito no quanto a intimidade entre ele e Victoria me fez mal, assim como os seus insultos.
Superaríamos tudo aquilo para ficarmos juntos, porque eu acreditava em destino e, no nosso destino, estaríamos juntos para sempre.
segurou minha mão com mais força e olhou em meus olhos, sem precisar mexer os lábios, falando em minha mente que éramos mraknis e superaríamos qualquer coisa juntos, porque eu pertencia a ele e ele a mim. Aconchegando-me em seus braços, deixei que meus olhos se fechassem enquanto eu buscava acreditar nas suas palavras e deixar o pressentimento horrível de fora.
Mas o que estava se repetindo em minha mente não era “Juntos para sempre” e sim “Garanto que eu farei o que estiver ao meu alcance para que ele perceba que você não é para ele.” Dito em alto e bom som pela mulher que era mais que minha sogra, era um verdadeiro pé no saco intergalático.


Quatro

Você sabe que alguém te tem nas mãos quando você não quer fazer algo, mas mesmo assim o faz, para ver a pessoa por quem você é louco mais feliz. A felicidade dessa pessoa é o seu único intento, a sua maneira de ser feliz é a fazendo feliz.
E era mais que óbvio que me tinha nas mãos. E se o fato de eu estar em Airamidniv não fosse uma prova o suficiente disso, eu ainda tinha várias pequenas provas de como eu estava pacientemente nas mãos de , esperando fazê-lo feliz até o fim de seus dias.
E naquele momento, a ultima coisa que eu queria era me levantar daquela cama quentinha, onde ele me abraçava confortavelmente e acariciava o meu corpo inteiro. Eu não estava enjoada, estava resplandecida e ele estava ao meu lado. Porém, eu sabia que isso só duraria enquanto estivéssemos deitados lado a lado. Naquela cama a realidade não nos atingia e eu me sentia em casa.
Na verdade, eu fizera o possível para transformar aquilo no mais parecido com o “lar” que eu conhecia. Fizera tintas com alguns materiais orgânicos e sintéticos que eu havia achado numa loja - ou strasj como chamavam por Airamidniv as lojas - e enchi de algumas coisas que poderiam virar tinta se eu misturasse. Sim, o tempo gasto no Escoteiras de Amanhã não fora de todo inválido. Eu sabia montar um projeto de fogueira e fazer tintas. Claro que sabia fazer mais coisas que eu acerca desse negocio de escoteiro. Ela não admitia ir mal nem nas coisas de que não gostava.
Bem, eu havia conseguido dar um bom colorido na casa. Tinha pintado algumas paredes, pintado alguns objetos e deixara tudo bem espalhado e cômodo. De um jeito aconchegante que parecera gostar. Dava para ver em seus olhos o quanto ele gostava de cores, mas não se deixava levar por elas, já que em Airamidniv as pessoas não eram muito chegadas a sair do padrão monocromático deles de cinza, preto e branco. E só.
Era tão chato ver tudo em tão poucas cores quando se existia tantas cores no mundo!
puxou-me mais para ele, preparando-se para se levantar e beijando meu rosto, cobrindo meu corpo com o lençol, delicadamente como se pensasse que eu ainda estava dormindo.
Ri antes que pudesse se levantar e o puxei de volta para a cama pelas pernas, fazendo com que ele caísse em cima de mim, acendendo de novo a minha paixão por ele. Eu queria de novo. Deus! Aquilo deveria ser uma obsessão.
- Eu preciso ir trabalhar.
- Não precisa, não. Tem que me amar bastante até a hora em que eu ficar cansada de você. – eu disse fazendo bico e charminho para ele passar mais tempo comigo.
- E você acha que vai ficar cansada de mim tão fácil, Dona ? – ele brincou passando as mãos por todo o meu corpo, beijando meu pescoço enquanto eu o abraçava, acariciando as suas costas fortes e nuas. Sua pele era tão quente que aquecia até meu interior. Eu não ficaria cansada dele nunca. Nunca.
- Posso ficar. Você pode ser um alienígena muito chato às vezes.
Com a minha brincadeira, ele levantou o tronco e me encarou enquanto eu tentava conter uma risada. Porém, me conhecia bem demais e logo pulou por cima de mim, me pegando pela cintura e fazendo cócegas em minha barriga, me puxando da cama para perto dele e me jogando em cima de seu ombro, como se eu fosse um grande saco de batatas que nem pesasse tanto assim.
Nós dois riamos como duas crianças, sem pensar no futuro. Sem nem ao menos ter um relance de que em apenas algumas horas ele teria que ir para a BEI e teria que lidar com uma Victoria traída e enfurecida, eu nem ao menos me lembrei de que em poucos minutos teria que me encontrar com Allie que me ensinaria mais uma porção de palavras de Airamidniv.
Não. Nada disso passou pelas nossas cabeças. Éramos apenas nós dois e mais nada. Ele me colocou no chão com cuidado e logo me empurrou delicadamente para dentro do Box do chuveiro, onde eu tinha feito uma espécie de pintura no vidro que mostrava dois corpos se colando e vários corações meio transparentes em volta.
Eu nunca havia percebido que ainda tinha dons artísticos até chegar a Airamidniv, quem sabe eu devesse investir naquilo? Mas não naquele momento. até ficaria orgulhosa em ver que eu estava dando utilidade ao meu diploma de Arquitetura e Design da Cornell, mas naquele momento não era muito em que eu estava pensando. Não com as mãos de me tocando com calor e paixão inigualáveis.
- Parece que você gostou mesmo desse negócio de “banho juntos”. – eu disse rindo como uma louca, feliz por ter ensinado ao menos um costume que ele gostava.
- Eu gosto de aprender esse tipo de costume terráqueo. – o corpo de me prensou ainda mais contra a parede perto ao chuveiro enquanto ele o abria e o vapor se espalhava por todo o Box. – Se tiver mais um desses para me ensinar, a hora é agora.
Eu ri enquanto dizia em seu ouvido outro “costume” da Terra que era bem pecaminoso e quase sofri um infarto quando ele me olhou confuso perguntando o que era aquele costume. Dei uma risadinha maliciosa enquanto colava mais uma vez a boca no seu ouvido, detalhando do que consistia o “costume”. riu alto e disse arrepiando todo o meu corpo antes de puxá-lo contra ele.
Provavelmente decidido a testar para ver se a pequena brincadeirinha intima terrestre funcionava em Airamidniv também.
E sobre isso, eu tinha apenas uma coisa a dizer: Funcionava que era uma beleza!
Mesmo com todo o meu charminho e quase chorando para ele não ir, finalmente me convenceu a deixá-lo ir para a BEI. Ele também não estava muito contente com a possibilidade de agüentar uma cena publica de ciúmes, vinda de Victoria que ficara muito possessa na noite anterior quando descobrira que a “terraqueazinha” na verdade era a mrakni de seu noivo. Para ela era algo tão humilhante quanto perder o namorado para um gay. Talvez até pior.
finalmente conseguira me convencer por completo a sair de casa com ele e levá-lo até a BEI como eu costumava fazer todos os dias. Mas uma coisa era sair de casa e levá-lo para o trabalho normalmente e esperar que a minha tutora princesa chegasse para nossas aulas. Outra totalmente diferente era fazer a mesma coisa com a possibilidade de encontrar uma ex-noiva traída e furiosa e uma sogra vingativa e decidida a acabar com o seu relacionamento.
Só uma pessoa bem louca se arriscaria a sair de casa nestas condições.
Ou uma pessoa subornada.
E eu definitivamente me encaixava na segunda opção. Fora cruelmente subornada por que me prometera uma fatia de bolo bem grossa com direito a algo que se chamava hurn que eu não tinha menor idéia do que significava. Porém, eu esperava que fosse algo como glacê ou calda de chocolate. Ou chantilly. Ou melhor, chantilly de chocolate!
E de repente a minha barriga se revolveu, mas pela primeira vez não fora de enjôo e sim de excitação. Eu queria um pedaço bem grande daquele bolo. Com direito a molhar cada pequeno pedaço em um copo de leite gelado.
- Existe leite aqui? – eu perguntei enquanto andávamos lado a lado pelas ruas de Airamidniv a caminho de algo que era bem parecido com uma padaria. Na verdade, eu mais pulava atrás de , animada com a possibilidade de comer bolo com leite. E hurn. Que eu não sabia o que era, mas que deveria ser bem gostoso pela maneira como falava sobre isso.
- Temos algo bem parecido. Mais doce, porque não é leite de verdade. E um pouco mais grosso. Mas delicioso. – devolveu contente enquanto entravamos na padaria. – Não temos muito tempo. Eu vou fazer o pedido e você come no parque, pode ser?
Eu assenti pouco me importando com onde eu iria comer, me preocupando apenas em comer. Ele pegou um pratinho coberto por uma tampa cônica e um copo tampado como aqueles que vinham com refrigerante nos fast foods e sai atrás dele, farejando o ar, tentando sentir o cheiro do bolo, quase dando uma de criança e gritando que queria logo.
Ele atravessou a rua, parando na praça e olhando para o céu, coisa que todos em Airamidniv costumavam fazer, como se consultassem uma espécie de relógio superior, e me deu um rápido beijo nos lábios que eu mal retribui, pois tinha o pratinho nas mãos.
- Fique aqui até Allie te buscar, ok? Já estou atrasado. – ele me deu um beijo na testa e eu ri sem jeito enquanto meus olhos ficavam fixos no bolo em uma de minhas mãos e o copo de leite na outra. Ou o que parecesse muito com leite. – Se não fosse você e seus costumes deliciosos... – ele riu e me deu mais um beijo murmurando que me amava em sua língua natal e correndo para os lados onde o enorme prédio negro da BEI estava.
Sorri para mim mesma enquanto me sentava em um banco, colocando o prato em meu colo e destampando-o, assim como fiz com o copo que eu ainda segurava. A aparência do bolo era linda. Ele era multicolorido como um arco-íris, cada camada de uma cor, formando realmente um arco-íris. Eu quase chorei ao ver um bolo tão lindo e colorido num lugar tão sem cor quanto Airamidniv e passei o dedo pelo glacê de cima, que eu suspeitava que fosse o tal hurn e nem me importei em estar parecendo uma selvagem, esquecendo que talheres existiam. Mais um motivo para as pessoas pensarem que eu era uma terráquea sem modos.
Coloquei o dedo na boca, saboreando o delicioso gosto de hurn que era meio doce e meio azedo ao mesmo tempo, como um mousse de limão, delicioso.
Com as mãos mesmo, puxei mais um pedaço de bolo, colocando-a na minha boca e vi duas garotas me encarando sorridentes.
- Oi. – cumprimentei de boca cheia.
Elas soltaram risinhos entre si e se sentaram cada uma de um lado do banco, deixando-me no meio. Eu ofereci bolo a elas que recusaram educadamente e me assistiram colocar um grande pedaço multicolorido na boca e beber leite em seguida, achando aquilo a coisa mais gostosa do mundo.
Minha barriga pareceu até se agitar um pouco em agradecimento, como se algo dentro de minha barriga que estivesse desejando o tal bolo.
- Você come bolo com condraani? – uma perguntou.
- Nós não. Dizem que faz mal. – a da minha esquerda completou apontando para o copo em minha mão.
- Deve ser o mesmo que eles falam sobre comer manga e beber leite, e eu sempre tomava vitamina de manga e nunca passei mal na minha vida por comer demais. – eu ri. – É uma delicia tomar vitamina! Na Terra eles fazem de todos os sabores, sabe? Uma delicia!
- Existem vários sabores na Terra?
- O que é vitamina? E manga?
Eu fiquei tão contente por ter quem conversasse comigo sem ser , , Allie ou as paredes da minha casa que eu me empolguei conversando com as duas garotas, contando a elas como os doces e refrigerantes da Terra eram prejudiciais à saúde, mas tão bons que não havia uma pessoa que não se entregasse a eles de vez em quando.
As garotas faziam perguntas sobre a Terra e eu respondia com toda a franqueza, falando com um saudosismo querido do meu lar. Contei a elas tantas coisas que nem tinha percebido que havíamos passado um bom tempo conversando. Tanto que eu já tinha terminado o meu bolo e o meu condraani. A nossa conversa estava indo muito bem quando de repente escutamos uma voz parecendo muito zangada chamando as meninas.
- Aqui! Agora! – a mulher alta vestida de branco chamou as meninas que se levantaram assustadas e pararam ao lado da mulher, parecendo envergonhadas por terem sido pegas conversando comigo.
Levantei-me, pronta para dizer a mulher que elas estavam bem, que estávamos apenas conversando e que eu estava cuidando delas. Eu não gostaria também se visse minha filha conversando com estranhos.
- Não importa o que você estava fazendo. É uma terráquea. – a voz da mulher era como um tapa na minha cara, e eu a encarei pensando que tinha entendido errado as suas palavras e ela virou-se na direção das filhas completando. – Não quero ver vocês perto dessa terráquea de novo.
A mulher virou as costas para mim sem nem ao menos me dar um direito de resposta, levando consigo suas filhas que ainda arriscaram um aceno para mim que a mãe logo repreendeu, me olhando como se eu fosse uma devoradora de criancinhas.
Sentei-me de volta no banco me sentindo uma perdedora e passei a reparar em todas as pessoas que passavam pela praça, notando que era o horário de começar algo parecido com o expediente em Airamidniv. As pessoas me olhavam com o canto dos olhos como se temessem me encarar. Alguns mais corajosos até me encaravam como se eu fosse uma daquelas aberrações de circo que não deveria estar ali.
As lágrimas nublaram meu olhar, enquanto eu tremia, encarando a grama aos meus pés, irritada por estar cedendo às emoções. Se eles não me queriam ali, problema deles. me queria. Eu tinha todo o direito de estar ali, eu era uma mrakni.
Mas mesmo sabendo disso, eu não conseguia parar de chorar e por isso eu nem ao menos tinha percebido que o lugar ao meu lado estava ocupado. Eu reconheci as botas, mas não quis erguer o meu olhar para encará-la. Eu não sabia o que sentir em relação a Allie. Ela era a rival da minha melhor amiga, mas era tão gentil e boa comigo que eu não sabia o que fazer. Eu era uma terráquea e mesmo assim ela me tratava com gentileza como se eu fosse natural de Airamidniv. O que eu não poderia nem ao menos fingir que era. Meus olhos não eram lindos e castanhos como os deles.
- Ann falou na câmara hoje pela manhã.
Ah, certo. Isso explicava e muito porque todo o planeta estava me olhando como se eu fosse uma atração de circo. Não queria nem saber o que aquela cobra filha da mãe havia dito sobre mim, já sabia que não era nada de bom.
Eu respirei fundo e limpei as lágrimas encarando a princesa de Airamidniv e ela sorriu para mim com gentileza.
- Ela quer que você seja expulsa do planeta por ser terráquea e oferecer danos à cultura nells. Mas as leis a proíbem disso exatamente por você ser mrakni. – Allie disse com toda a sinceridade. – Mas infelizmente não a impedem de mover toda a sociedade contra você, eles podem te odiar, te humilhar, mas não podem te expulsar daqui, penso que isso seja algo bom, afinal. Sinto muito por tudo isso.
Eu respirei fundo amaldiçoando em pensamento todas as pessoas que estavam me odiando e reservando algumas pragas especiais para Ann, aquela jararaca maldita.
- Bem, vamos à aula, ? – ela perguntou simpática e eu concordei em ter mais uma aula de costumes e idioma de Airamidiniv, ali na praça mesmo. E apesar de responder corretamente todas as perguntas de minha instrutora, tudo o que eu tinha na cabeça era o quanto Ann estava fazendo para conseguir realizar o seu desejo de me separar do seu filho.
Eu desejava internamente que ela não conseguisse isso nem em mil anos, mas meu pressentimento estava forte demais e com os olhos fixos em Allie, aprendendo a pronuncia correta de uma palavra que deveria significar algo como “me dê mais um” e ignorando os olhares hostis das pessoas que passavam atrás de mim, como se eu fosse um objeto indesejado, tudo o que eu conseguia pensar era quanto tempo demoraria para que aquilo acabasse.
Eu só queria voltar correndo para casa e deitar na minha cama, chorar bastante até certamente me desidratar e ser abraçada por que diria que tudo ficaria bem, quem sabe, talvez, ele me levasse de volta para a Terra.
Deus sabia o quanto eu estava tentando me adaptar, e apenas ele também sabia o quanto eu estava sofrendo por isso.
Eu estava aprendendo o idioma, estava aprendendo a cultura, de toda a boa vontade que eu tinha. Estava fazendo de tudo para permanecer ao lado de , vivendo o que ele vivia, para ele me amar mais.
Mas não estava dando muito certo. Na realidade, não estava dando nada certo.
- Preciso ir agora, . – Allie levantou-se despedindo-se de mim com um sorriso sincero, que graças a minha irritação, eu não consegui retribuir. – Você foi muito bem hoje. Estou orgulhosa de você. Quer que eu te leve para casa?
As pessoas continuavam passando pela praça - mesmo já tendo passado do “horário de expediente” - e me olhavam com insistência e hostilidade. Era como se eles estivessem indo para a praça apenas para desfazer de mim.
Eu já havia passado um mês ali e ninguém tinha feito nada disso comigo, na realidade, eu duvidava que alguém realmente havia percebido que eu não era de Airamidniv de tanto que eu honrava os costumes, andando com as roupas nas cores certas, cumprimentando a todos com educação e respeitando as tradições na rua.
E então, aquela víbora maldita sem amor no coração que eu teria que chamar de sogra em breve, estava me difamando e tornando a minha vida um perfeito inferno. Minha mãe costumava dizer que era pecado odiar as pessoas. Bem, se era pecado, eu com certeza deveria passar a morar na igreja para me expiar pelo tanto que eu odiava Ann naquele momento.
Cortando caminho pela praça, consegui ir meio que me escondendo por entre as arvores até conseguir chegar à minha casa. Ou o mais perto que eu conseguiria chegar disso em Airamidniv.
Lar para mim seria qualquer lugar onde estivesse, mas eu não sabia por quanto tempo mais eu poderia estar no mesmo lugar em que ele estivesse.
E então, quanto mais perto da porta da “minha casa” eu ficava, mais aquele pressentimento parecia pior, quando coloquei a mão na maçaneta então, até mesmo fiquei tonta, me obrigando a segurar na pilastra que havia ao lado da porta de entrada para me restabelecer.
Quando eu tive certeza de que eu estava respirando corretamente e que não vomitaria nem desmaiaria na porta da frente, me senti segura para abrir a porta e internamente, desejei nunca ter aberto aquela porta.
Nunca ter conhecido e ter me apaixonado por ele a ponto de ir para aquele planeta de merda e passar por tudo aquilo.

Capítulo betado por Franciele Strack


Cinco

Eu deveria ter reconhecido pelo perfume, deveria. Mas não, eu estava tão irritada e irada com tudo o que Ann havia feito, que eu não tinha paciência para farejar a minha própria casa atrás do perfume de outra mulher.
Deveria ter notado o sutiã jogado no sofá. Mas estava ali outra coisa que eu não havia notado na minha pressa de correr para o quarto, tirar aquele maldito vestido cinza, jogar-me na cama macia e quente para chorar todas as lágrimas de humilhação e fúria que estavam presas na minha garganta e esperar que chegasse, para que ele me abraçasse e dissesse que ficaria tudo bem. Eu sabia que não ficaria, mas eu me sentia melhor quando o ouvia assegurar aquilo.
E, então, foi como se meu coração parasse de bater por aqueles minutos. Foi como se eu não soubesse mais o que fazer. Nem se alguém tivesse me batido e xingado a de mulher barbada eu teria ficado tão irada.
- , eu espero que você tenha uma desculpa boa demais para isso. Uma boa o suficiente.
Assim que a minha voz estranhamente baixa e controlada disse essas palavras, Victoria se virou na direção da porta, onde eu estava parada com uma expressão atônita na face, e deu um sorrisinho típico de vadias de esquina.
, que havia sentado na cama de uma vez, olhou em meus olhos e depois olhou atordoado para Victoria, que displicentemente se levantava da cama e recolhia suas roupas aos poucos, com uma paciência que traía em absoluto a tensão que estava naquela sala.
Depois que ela pegou tudo, pareceu olhar ao redor procurando por algo que ainda não tinha sido pego, então eu apontei para a sala, informando que o seu sutiã, se fosse isso o que ela estava procurando, estava lá.
Ela assentiu e se virou para novamente, sorrindo daquela maneira completamente irritante e vulgar e assoprou-lhe um beijo, que foi como um arranhão na cara para mim, de tanto que doeu.
- Sei que vai demorar pouco para dar o fora nela e colocá-la na nave de volta para a Terra, então vou te esperar na sala, meu amor. – ela saiu do quarto, passando por mim com um certo receio e, já da sala, gritou para mais uma vez. – Vou estar prontinha pra você, .
Revirei os olhos ao ouvir o apelido “” mais uma vez e tive que rir, rir alto. era um banana. Só escolhia mulheres mandonas e chatas. E a prova disso era eu ser sua mrakni.
E isso me lembrava de que mesmo sendo sua mrakni, isso não me garantia fidelidade. Afinal, estava na cama com sua ex-noiva, ou noiva, ou fosse lá o que fosse. E... Estava nu.
Era demais para mim. Entrei no quarto como uma tempestade, pronta para bater em , mas não tinha coragem o suficiente. Eu queria matar aquele filho da puta. E me dava um prazer xingar ele e Ann ao mesmo tempo.
- , eu...
- Você?
- Eu fui...
- Vou dizer o que você foi, . – eu disse, aproximando-me da cama enquanto ele se levantava e parava ao lado da mesma, enrolando um lençol em volta da cintura. – Você foi um belo filho da puta. Astranuk é como vocês chamam aqui, né? Astranuk, um grande e belo astranuk. Eu preciso saber como se chamam os traidores aqui. Vai valer pra você. Exatamente.
- Mas, , eu...
- Você o caramba! Você é um traíra maldito, que teve a sacanagem e cara de pau de dizer que eu era a merda da sua mrakni e me trazer até um planeta no fim da merda do universo para ficar se pegando com a sua noiva.
- Ex-noiva. – ele corrigiu apressado.
A minha paciência não estava boa o suficiente para interrupções como aquelas e eu tive que me segurar para não dar um belo chute na região íntima dele.
- Ex? Não era o que parecia, . Mas não vamos deixá-la esperando, não é? Eu vou até a BEI falar com o e ele me coloca de volta na nave para onde eu nunca deveria ter saído.
- ... – ele chamou mais uma vez, quando eu estava chegando na sala, e encontramos Victoria deitada no sofá como uma verdadeira meretriz. – Pelas estrelas da galáxia, Victoria, vá embora! Não basta o que você fez? Vá e nunca mais volte.
Ela fez uma carinha de cachorro abandonado, que parecia mais uma vadia pedindo pro programa ser à vista, e eu quis atacar ela com as minhas unhas. Eu lanharia a cara dela com gosto, se ela não tivesse visto em minha mente o que eu pretendia e vestisse as suas roupas pretas, saindo apressada da casa enquanto eu esperava ela sair.
Assim que tive certeza de que ela estava longe, dei uma ultima olhada para e para a casa parcialmente colorida e abri a porta, pronta para ir embora.
- Não vá embora, , precisamos conversar.
- Acho que eu já entendi tudo o que aconteceu aqui, ok? Obrigada pelas roupas, pela hospedagem, por tudo.
Eu coloquei a mão na maçaneta, mas os braços de me puxaram da porta, virando-me e me fazendo olhar profundamente em seus olhos profundos e castanhos.
- Ela me drogou, . É uma droga poderosa de Airamidniv que faz com que você obedeça a quem o DNA está na bebida. E o DNA de Victoria estava lá.
Dei uma olhada irônica para como se dissesse “me poupe” e ele entendeu isso de imediato. Alias, eu e tínhamos esse entendimento apenas no olhar. Se minha mãe visse isso, ela diria que éramos almas gêmeas e eu até acreditava que éramos. Acreditava. Pretérito. E tenho certeza de que era um dos mais imperfeitos.
- Droga da obediência. Nunca ouviu falar nisso? – pela minha expressão, ele teve certeza de que eu não estava acreditando muito nele.
- Estou cansando de tudo isso! Estou cansada desse planeta, estou cansada da sua mãe e tudo o que eu quero é voltar para onde eu não deveria ter saído.
E novamente, antes que eu pudesse abrir a porta, me virou em sua direção olhando fundo nos meus olhos, parecendo tão furioso quanto eu estava.
- Quem sabe, se você se esforçasse para se adaptar, ficasse tudo mais fácil e eu não teria que me preocupar com você enquanto trabalho.
Pronto! Se ainda não tinha acabado com a minha paciência, agora ele tinha conseguido. Minha raiva era tão latente, que eu podia sentir a veia da minha garganta pulsando. Deus que me segurasse ou eu partiria aquele filho da mãe em pedacinhos.
- Me esforçar? Adaptar? Vá à merda, . Eu estou dando tudo de mim para aprender a cultura e o idioma desse planeta estranho, onde todo mundo me odeia, e você quer tirar uma pra cima de mim. Vá à merda, ok? E a partir de agora você não vai mais precisar se preocupar comigo no seu precioso trabalho, pode tirar todos esses minutos de preocupação para poder pegar a Victoria no banheiro, seu merda.
Assim que bati a porta com toda a força que eu tinha e saí para a rua, completamente desnorteada, eu nem ao menos me importei com o fato de todos estarem me olhando e, quem sabe, se animando com o fato de eu estar tão mal. Mas eu estava pouco me importando para o que aqueles aliens pensavam. Eu estava furiosa e tão irritada, que meus passos eram até meio trôpegos. As lágrimas me deixavam desfigurada, mas eu andava com tanta determinação para a casa de , que estava ignorando tudo à minha volta.
Eu estava irada sim, furiosa por demais, tão irritada que poderia matar alguém com minhas próprias mãos, mas o que mais doía era a decepção. Saber que o homem que eu pensara ser o que eu esperara toda a minha vida, aquele que faria tudo valer à pena, não passava de um idiota que me traíra na primeira oportunidade.
E não podia culpá-lo. Nunca poderia. Se eu estivesse em seu lugar e tivesse de escolher entre uma terráquea sem nenhum atrativo ou uma alien exploradora, linda e elegante, claro que ficaria com a alien que passou a minha vida inteira comigo. Era até idiota pensar que ele faria o contrário.
Bati na porta cinzenta de , que abriu a porta com uma garrafa nas mãos e sem camisa, como se estivesse aproveitando seus momentos de folga da BEI. Assim que ele viu o meu estado, puxou-me para dentro da casa e me fez sentar no seu imenso sofá cinzento, foi colocar uma camisa e buscar um pouco de água para mim, que ainda não tinha parado de chorar.
- Agora, com calma, me diz o que houve.
É claro que eu já tinha tentado fazer isso quando me sentei no sofá e tudo o que ele havia conseguido entender era algo como “astranuk” e “ é um puto”, mais do que isso era realmente um milagre entender, já que eu chorava como uma pessoa de luto grave.
- O . Me traiu. Com a Victoria. – eu respirei fundo, graças a Deus eu estava indo bem no pior relato da minha vida. – Eu... Cheguei em casa. E os dois estavam na cama. Ele teve a audácia de dizer que estava drogado e que eu deveria me esforçar um pouco para me adaptar. Irônico, não?
Eu dei uma risada completamente sarcástica e me deixei olhar para tudo ao redor daquela sala, prestando atenção em todos os detalhes. gostaria daquela sala. Era simples, mas bem decorada com um toque moderno. Claro que ela jogaria algumas cores ali. E babados. Para isso, ela era ainda pior que eu. Quase ri, imaginando que ela pintaria a parede perto do que parecia ser um televisor, de roxo e ainda faria umas pinturas estranhas nela. E colocaria cortinas com rendas na janela da frente.
- O te traiu com a Victoria? Impossível! – disse rindo, incrédulo.
- Não é tão impossível. O garotão entrou com a nave dela na bonitona. É simples. Eu cheguei e os dois estavam nus em cima da cama, onde eu dormi todos esses dias.
- te ama, . Ele não te trairia a não ser que estivesse sob os efeitos de Dorpinom, uma droga daqui que faz as pessoas obedecerem a quem o DNA estiver dissolvido com a droga. Provavelmente Victoria usou isso. E tenho certeza de que foi ela quem o mandou dizer sobre você se adaptar. me disse mais cedo que estava contente por você estar se adaptando rápido e que isso apenas o fazia te amar mais.
Eu ergui o olhar para o explorador na minha frente, temendo cair no choro mais uma vez, e ele sentou-se ao meu lado, abraçando-me pelos ombros, consolando-me, e aquele gesto me fez lembrar dos abraços da minha melhor amiga. Como eu sentia falta da ! Se ela estivesse comigo naquele momento, eu tinha certeza de que ela teria a explicação mais racional para a atitude de . E ainda teria mais umas loucuras que ela colocaria no meio. Típico de .
- Foi o que ele disse. Mas não sei se acredito nisso. Não mais. – eu disse, escondendo o rosto no peito de , chorando toda a minha mágoa.
- Deveria. realmente esperou a vida dele inteira por você. Não por alguém como você, mas exatamente você. E conhecendo meu melhor amigo tanto quanto você conhece sua , em dois minutos, ou menos, ele estará aqui.
Limpei algumas lágrimas que ainda rolavam, tentando conter os sentimentos que pareciam uma montanha russa dentro de mim se misturando e se revolvendo.
- Mas o mais importante no momento é: você ama o bastante para escutar tudo o que ele tem a dizer e acreditar na força do amor de vocês?
Aquela era uma pergunta importante, uma que eu nem precisava pensar muito para responder. Eu amava . Muito. Mais do que eu poderia supor. E apesar de estar furiosa com ele, no meu interior eu não conseguia duvidar dessa história da droga da obediência.
Eu acreditava na força do nosso amor. Acreditava nela sem reservas.
- Eu amo. Muito. – respondi a , que sorriu para mim e largou os meus ombros, levantando-se.
- Então, creio que vocês tem muito a conversar.
Segurei na mão de , pedindo para que ele ficasse mais um pouco, temendo que eu não tivesse força de vontade o suficiente para resistir a . Eu queria mostrar o quanto estava magoada e irritada com ele. Mas eu não conseguiria. Eu me derretia facilmente naqueles olhos cor de chocolate que me deixavam louca. Era tão fácil me perder, tão fácil. Mas eu não faria isso. Eu não olharia para . Continuei encarando , segurando a sua mão com força e ouvi sua voz em minha mente.
- Não é porque eu não mereça uma chance do amor, que você não a terá também.
Ele sorriu e se afastou, indo para onde eu acreditava que ficassem os quartos. Eu voltei meu corpo para olhar . Nem ao menos dirigi o olhar para ele, ficando imóvel e apenas sentindo a presença dele atrás de mim, algo deliciosamente previsível. Algo que esquentava meu interior e me fazia crer que eu vivera a minha vida inteira apenas esperando o dia em que eu ficaria ao lado de , vivendo incompletamente até encontrá-lo.
- , eu... Não quis fazer aquilo.
Silêncio. Eu deixaria que ele falasse tudo o que ele quisesse.
- Eu nunca te trairia se eu tivesse são. Você sabe o quanto eu te amo e o quanto eu fico maluco sem você. Por que eu tiraria você da minha vida, de propósito, apenas para perecer?
Até então, meus olhos estavam fixos na parede à minha frente, de costas para , mas ele fez com que isso durasse pouco tempo, puxando-me para encará-lo, entre os seus braços fortes e olhando no fundo dos meus olhos, deixando-me em uma maré de calma completamente divergente com o que eu estava sentindo mais cedo.
- Olhe nos meus olhos, . A verdade está toda neles, vem do meu coração, porque o coração nunca mente e você é meu coração, é impossível mentir para o próprio coração. – ele passou a sua mão grande e quente pelo meu rosto, fazendo-me fechar os olhos para sentir melhor o contato que estava disparando o meu coração, enlouquecendo-me. Era a principal função de : me enlouquecer. – Não quando o meu coração é tão lindo, tão doce, tão colorido.
Eu não iria rir, mas não consegui conter a risada alta. Eu era realmente colorida. Era um fato.
- Eu acredito em você, . Acredito em nós dois.
Ele me abraçou com força, mostrando o quanto estava aliviado por eu dizer aquelas palavras, e me deixei derreter em seu abraço. Mas é claro que tudo não estava tão bem assim. Eu era vingativa e insegura demais para deixar as coisas como estavam.
havia me traído com a pessoa que eu mais odiava e que mais me deixava insegura na vida. Tudo bem que ele estava sob drogas e qualquer coisa parecida, eu havia acreditado nele, mas era bem capaz de ter tirado uma boa vantagem da situação.
Victoria era linda demais e sensual demais para que não tivesse dado umas passadas de mão bem legais sem ela pedir. E era exatamente por aquele motivo que eu me vingaria dele.
- Então... – ele disse na minha orelha, na tentativa de me seduzir para eu desculpar ele de vez e irmos para a cama fazer as pazes onde sabíamos fazer melhor. – Vamos pra casa e...
- Ei, querido... – eu me levantei de uma vez. – Eu te desculpei e acreditei em você, mas isso não significa que as coisas voltaram a ser como eram antes. Eu ainda estou querendo comer o seu fígado com catchup e é bom você não abusar.
Ele arregalou os olhos, parecendo confuso, e eu ignorei uma risada que parecia vir do corredor, mostrando que estava escondido escutando a conversa.
- Mas eu...
- Bem, eu amo você, mas... Acho que nossas brincadeirinhas estão suspensas por um bom tempo, um bom tempo mesmo.
parecia que iria ter um ataque cardíaco de tão surpreso e desapontado que ele parecia. Mais uma vez eu pude ouvir uma risada no fundo da sala, que eu ignorei novamente.
- E, bem, eu estou pensando em morar aqui por uns tempos. Sei que o não vai recusar isso, eu acho que precisamos de uma distância para sabermos se isso é o que nós realmente queremos.
Antes que eu pudesse fechar a boca, já estava parado no meio da sala, olhando-me como se eu tivesse um terceiro olho ou fosse um tipo de mutante e estava prestes a ele mesmo comer o próprio fígado com catchup de tanta culpa expressa em seu rosto.
Eu era vingativa, sim. Mas também não era masoquista. Eu sabia o quanto doeria em mim ficar longe de e, por mais que fosse um amigo querido, eu não queria arranjar mais encrenca para a minha pobre vida em Airamidniv, largando a casa de para morar com seu melhor amigo. Isso daria um escândalo, que faria Ann ter orgasmos múltiplos de felicidade. E sinceramente, a última coisa que eu queria era fazer aquela mulher feliz.
- Como assim você vai morar aqui?
- Tem certeza de que é isso o que você quer, ?
se virou para , olhando para ele como se o mesmo fosse algum tipo de idiota.
- E eu ainda me pergunto, por que você age como um capacho, às vezes? Achei que você tinha tomado jeito quando decidiu trazer a com você, mas vi que você não tomou jeito mesmo. Dá pra você, por favor, tomar vergonha e ser um homem mandão pela segunda vez em 28 anos?
respirou fundo, como se aceitasse o que tivesse falado e se levantou de uma vez, segurando-me pelo pulso como um verdadeiro homem das cavernas.
- É o seguinte, mulher: eu sou seu mrakni e aquela louca da Victoria fica de doce pra cima de mim, mas não significa nada pra mim, quero que ela queime naquele fogo dela. Eu quero é você e estou pouco me importando com você estar brava ou magoada ou o caramba que for. Você é minha. E vai voltar comigo para a sua casa, onde é o seu lugar.
Meus olhos estavam arregalados de surpresa. Deus! Ele parecia tão perigoso com aquele olhar firme no meu, seus olhos brilhavam ameaçadores, como se ele pudesse me prender se eu não o acompanhasse de volta para casa. Mas, ao invés de sentir raiva por ele estar agindo daquela forma machista, eu só pude sorrir orgulhosa e trêmula de desejo pelo homem que eu tinha acabado de despertar dentro dele.
- Vamos pra casa, . Queimar aqueles lençóis, pintar paredes, transformar aquilo num lar para nós dois e ai de você se tentar sair de lá mais uma vez, batendo portas e ousando não me ouvir. Você vai ter que aprender na marra que eu te amo e não te trairia por iniciativa própria?
Ai! Ele estava amolecendo minhas pernas com aquele tom de voz rascante e com uma fúria contida.
- Vamos... – eu sussurrei aquela única palavra gaguejando bastante e andou até nós batendo no ombro de , tão orgulhoso quanto eu.
E com agarrado à minha cintura e com um andar bastante parecido com o dos gangsters do Brooklyn quando exibiam uma de suas novas namoradas, caminhamos juntos pelas ruas de Airamidniv de volta à nossa casa, onde eu esqueci a minha resolução de dar um castigo pra ele por ter tirado casquinhas de Victoria.
Eu era bem melhor que ela, disse a mim mesma. E era exatamente por isso que eu o deixaria me beijar, tocar-me e me amar, para ele mesmo ver o motivo por ter escolhido eu e não ela.
- Vocês... Estiveram no banheiro? – perguntei enquanto entrávamos no quarto e eu desviei o olhar da cama, dividida entre a raiva de Victoria e o desejo mais que intenso que estava latejando dentro de mim. Não suportaria se ele tivesse transado com ela no banheiro. Aquele era o nosso lugar preferido.
- Não. – ele respondeu, empurrando-me para dentro do banheiro. – Eu nem cheguei a tocar nela de verdade, ela que tocou em mim. Mas só existe uma pessoa que sabe exatamente como me tocar. – e me prensando contra a parede do box, enquanto abria a torneira do chuveiro, deixando a água cair sobre nós, ele completou. – Só há uma mrakni. Só há você, .
E começamos a nos beijar como se não houvesse amanhã. Mas haveria e com ele viriam novos problemas, novas ameaças, talvez até uma nova briga. Eu provavelmente sentiria enjôos, ficaria irritada, quereria comer o fígado de , mas, se todas as nossas brigas nells acabassem como aquela, eu, bem, brigaria muitas vezes mais com meu mrakni.

Seis

segurava a escada enquanto eu pintava as paredes do andar de cima com uma cor feita por mim mesma que lembrava bastante um laranja claro, que ficara bem lindo no painel que eu estava pintando. Como aquela parede não tinha escadas e nem janelas e pegava os dois andares inteiros, um painel ali ficaria lindo. E concordara em gênero, número e grau quando eu decidira pintá-la.
Na verdade, estava me apoiando bastante com a inclusão de cores na nossa casa. Já havíamos pintado a cozinha com tons de verde, que ficara muito lindo e aconchegante, havíamos feito uma grande bagunça na sala, pintando a estante de branco para diferenciar um pouco o esquema monocromático da sala, mas sem perder o toque nells. E ele estava sendo tão másculo ultimamente, que eu não conseguia parar de desejá-lo por um só segundo. Se estivesse comigo, diria que eu estava com o apetite sexual de uma grávida. E para ser franca, não era apenas o sexual. Eu tinha desejo de tudo, toda semana. Coisas nojentas, que nem mesmo tinha coragem de comer, e eu comia.
- Arrasta a escada mais para a direita, amor. – eu gritei de cima da escada e mandou eu descer para que ele movesse a escada de lugar. Ele estava másculo, mas não estava louco em arriscar a minha vida. Desci os degraus com cuidado e ele me ajudou a descer do último, na verdade, isso era apenas um pretexto para me tocar e acender o meu fogo. Na última vez que ele havia tido um dia de folga, como aquele, e me ajudara a pintar a parte de baixo da mesma parede, ele havia se aproveitado, usando o mesmo artifício e havíamos nos amado no chão mesmo, em meio às tintas.
Eu deveria entrar para uma reunião de ninfomaníacas anônimas urgente.
- Está bom assim? – ele perguntou e eu apenas assenti, subindo de novo e quase grudando a barra da minha calça jeans na lata de tinta que ele ajudava a subir. Jeans, na realidade, não era realmente o material da calça, mas a pintura que eu havia feito nela lembrava bastante. Eu pintara a maioria das roupas que havia comprado para mim, deixando apenas uma ou outra peça cinzentas para o caso de precisar ir ao Conselho ou precisar sair pelas ruas.
Eu não saía mais de casa, com um certo receio de ainda ser olhada estranho pelas ruas. Allie ia me dar as aulas de comportamento e manipulação de mente em casa e estava adorando o ar colorido da minha casa. Todos adoravam.
ainda não sabia que sua mãe fora a pessoa quem falara contra mim no Conselho e eu estava calada sobre isso. Eu odiava aquela velha endiabrada, mas nem por isso a colocaria contra o meu homem.
Se fosse o contrário, o injustiçado pela minha mãe, eu não me sentiria confortável com ele falando as coisas absurdas que ela fazia e falava sobre mim.
- Acho que uns desenhos abstratos ficariam mais legais e você?
- Não entendo muito desses negócios de arte, . – ele respondeu e eu não contive o sorriso. Se fosse o velho , cachorrinho de madame, ele certamente viria com um “o que você quiser, pra mim está ótimo.”
Eu estava prestes a descer para misturar as tintas e obter um verde lindo para eu começar a base do painel, quando a campainha tocou. não se importou muito em ir abrir, mas em me ajudar a descer a escada, sim. Estávamos esperando por mesmo e ele era de casa. Tocava a campainha, mas logo abria a porta mesmo.
Ele poderia parecer educado, mas era só dar um pouco mais de intimidade e ele já ia abrindo a porta da geladeira. Tudo bem, do armário, já que não existiam geladeiras em Airamidniv.
Mas quando a campainha tocou pela segunda vez, praguejou e foi abri-la, arrumando a camisa antes de abrir. Meu Deus! Ele estava tão delicioso naquele dia. Vermelho era uma cor que caía perfeitamente bem para , eu começaria a pintar mais camisas dele. Ele ficava simplesmente divino com aquelas camisas coloridas, certo que de preto ele também parecia deliciosamente esculpido, mas eu realmente preferia as coloridas.
Ele abriu a porta e, de onde eu estava, eu não conseguia ver quem era o nosso visitante, mas o grito me alertou sobre quem estava na porta. E me alertou que ela estava tendo um belo ataque do coração.
E de todo o meu coração, eu não estava muito chateada com isso, não. Pelo contrário, matar Ann do coração seria uma das coisas mais divertidas da minha vida.
- Oh! Céus! Você está com uma camiseta com... Cores? Oh Por todas as estrelas! Você pintou as paredes e... E... Oh! Está tudo com... Cores? Oh! Oh!
Eu controlava a minha vontade de rir à pulso, mas ao ver a expressão mista de nojo, medo e ódio no rosto de Ann ao atravessar a sala, ao lado de seu charmosos filho de camiseta vermelha e ver o enorme mural que eu estava pintando, fez-me refrear a vontade.
Mas só para deixá-la ainda mais furiosa.
- Ah! Olá, Ann! Como vai? Estamos dando um toque terrestre aqui. – pronunciei a palavra terrestre com uma reverência que nem a palavra sagrada teria. – Se quiser ajudar, é muito bem-vinda.
Meu Deus! A mulher estava inchando de ódio ou era impressão minha? Cara, se ela explodisse como um baiacu, eu teria que filmar e postar na internet. Ah, tinha me esquecido. Não tinha internet em Airamidniv. Pena, teria que guardar aquele momento só para mim.
- ! Eu não posso acreditar que está compactuando com isso! Você está deixando essa terráquea pintar sua casa? É isso mesmo que você está fazendo? Desonrando os Schnakerjuds?
Eu acreditava que havia mudado, que largara aquele lado de cachorrinho domesticado, ensinado, provavelmente, pela cobra da sua mãe. Mas não acreditava que fosse enfrentá-la. Se não enfrentara em tanto tempo, não enfrentaria agora.
E quem era eu para falar de enfrentar mães quando justamente eu sempre abaixava a cabeça para a minha? Todas as vezes que e eu tínhamos coragem de visitar nossa cidade natal, eu quase enfartava de medo de ver minha mãe. Eu era simplesmente um lixo no que dizia lidar com ela, seus inúmeros conselhos sobre como viver minha vida e suas reclamações sobre amar as estrelas e ter um emprego autônomo e liberal.
Fora exatamente por isso que eu me surpreendi quando se virou para sua mãe dizendo:
- Eu deixei que ela pintasse, sim. E não sou menos seu filho ou Schnakerjud por isso, se é o que pensa. – as palavras eram doces e respeitosas, mostrando o quanto ele amava a mãe, mas ao mesmo tempo firmes, mostrando que ele estava mesmo trilhando os próprios passos. – E, por favor, mãe, me sinto desconfortável quando se refere à como “terráquea” apenas, ela é sua nora.
Dei um passo para trás, morta de medo de Ann realmente explodir, já que a cara que ela fez quando juntou eu e nora na mesma frase era uma evidência claríssima de explosão.
- Nora?
- Sim. – ele respondeu despreocupado. – Ela é minha mrakni.
- Mas e se o Conselho decidir que ela não deve ficar? Que sua mente deve ser apagada e...
- Vamos conversar sobre isso em particular. – interrompeu , segurando no braço da mãe e a levando para o escritório onde ele estudava, em casa, os relatórios da BEI.
É feio, sim. É errado. Muito. E quando eu tiver um filho, vou ensinar para ele que não se podia ir à cozinha, pegar um copo e escutar a conversa dos outros por detrás da porta. Mas era mais forte que eu. O meu futuro estava sendo discutido naquela sala.
- , meu filho. - Ann dizia. – Eu só estou te poupando de decepções futuras. Você sabe que o Conselho ainda não decidiu sobre ela ficar ou partir.
- Eu sei, mas Allie e Stan gostam dela, a posição deles a favor de conta muito.
- Dois em sete, . Dois em sete.
Com certeza aqueles cinco que sobraram deveriam ser bem influenciados, ou subornados, ou ambos, por Ann para votarem contra mim.
- Eu tenho esperanças. – a voz de era firme, mas ouvir a tristeza e o medo nelas me fez tremer e usar a mão que não estava segurando o copo para me abraçar.
- E eu não quero que você as frustre, quando o Conselho votar que não se adaptou da maneira correta, e essas pinturas todas são prova disso, e apaguem a mente dela, mandando-a de volta para a Terra.
- Se, mãe, não quando.
Eu sabia que Ann estava apenas com uma inveja porque eu tinha um mrakni e ainda era habilidosa com pintura e trabalhos manuais. E também sabia que estava mentindo para mim mesma numa clara tentativa de afastar o medo, que se apoderava de mim com as palavras de Ann.
- E quem pode garantir isso? – ela perguntou. – O meu maior medo é que Victoria não te perdoe pela humilhação que você a está fazendo passar e não volte para você quando a terráquea for embora.
Escutei um barulho alto, que me fez deduzir que havia batido em alguma coisa antes de dizer as suas firmes palavras à sua mãe:
- Victoria me drogou, mãe. Quase fez com que e eu nos separássemos. Eu não a humilhei, simplesmente encontrei minha mrakni, que você mesma sabe que passei anos procurando por, então agora é mais do que normal eu me separar dela agora que encontrei . Eu quero paz, não ter que ficar de cabeça quente cuidando de um harém porque Victoria não consegue superar isso. E quantas vezes eu vou ter que falar que ela é minha mrakni, que o nome dela é e que ela não vai embora?
Pelo silêncio que preencheu a sala, Ann estava tão chocada com as palavras e comportamento de quanto eu estava orgulhosa deles.
Aquele era o meu homem. O que dava uma de machão e enfrentava, não o cachorrinho bobo que acatava tudo.
- Essa mulher está te fazendo perder o juízo, .
- Não, mãe. Quase precisei perdê-la para aprender que eu não sou esse cara que aceita calado e abaixa a cabeça para tudo, se comportando como um gentleman quando qualquer pessoa normal deveria estar era quebrando a cara de alguém.
Meus olhos se encheram de lágrimas do outro lado da porta e eu praguejei em pensamentos por estar tão emotiva e chorona nos últimos dias.
- Agora não me restam dúvidas. Ela está drogando você! – O quê? Pronto, era oficial, aquela mulher era maluca. – Eu te darei uma semana para se livrar dela, colocar sua cabeça no lugar e ir se desculpar por todas as asneiras que acabou de dizer, assim procuraremos Victoria para continuarmos os preparativos para o casamento que nunca deveria ter sido cancelado. Do contrário...
- Do contrário...? – perguntou, verbalizando os meus pensamentos, enquanto eu pressionava o copo um pouco mais contra a porta.
- Do contrário, falarei contra ela no Conselho e não terei nenhum arrependimento sobre isso.
De novo, não é? Falar contra mim, de novo, afinal ela já falara uma vez. E podia assegurar, pelos olhares da cidade para mim, que o que ela falara não era nada elogioso.
Sério, até uma cobra conseguia ser mais graciosa que ela. Estava decidido, eu não a chamaria mais de cobra para não ofender os pobres ofídios.
Escutei um barulho parecido com o de um corpo se levantando de algum lugar, mesmo sabendo que deveria sair da porta.
- E o que vai falar contra ela, mãe? Não há nada contra ela.
- Nada? Certeza? Veja o modo como está se comportando, . Olhe o modo como está tratando sua própria mãe. Olhe esse monte de... Cores... Por todos os lados... Não tenho nada contra ela? Bem, parece que você está enganado e acredito que o Conselho vai gostar muito de saber a maneira como sua . – ela disse meu nome como se fosse a palavra mais nojenta que já saíra de sua boca. – Está se adaptando aqui. – Os passos se aproximaram da porta e eu corri, voltando para as tintas, como se eu não tivesse saído do lugar, com o copo colocado casualmente em cima da escada, como se eu simplesmente houvesse bebido água nele e não escutado a velha má da minha sogra tramar contra mim para me separar do amor da minha vida.
- Mãe... – disse de dentro do escritório quando a porta se abriu de uma vez e Ann saiu de lá como um verdadeiro furacão, parando ao lado da porta da frente, com toda a sua altivez, olhando para a porta do escritório, onde estava encostado, parecendo pálido e preocupado.
- Uma semana, . Nada mais que isso.
E assim, bateu a porta da casa, quase a fazendo tremer.
Andando calmamente, parou ao meu lado, enquanto eu mexia uma lata de tinta com um bastão, bloqueando meus pensamentos para que ele não pudesse lê-los. Com um gesto firme que me emocionou profundamente, me ergueu até me fazer olhar em seus olhos castanhos e lindos.
- , eu realmente amo você. E quero que saiba sempre disso.
Eu sorri para ele, tentando deixar o clima mais ameno, mas sentindo a tristeza e preocupação em seus braços, que me apertavam mais contra ele. Eu sentia o medo dele. Era o mesmo que o meu. Não queria me separar dele por nada nesse mundo. E exatamente por isso, eu traduzi a frase dele para nells, dizendo a ele a mesma coisa, pois era exatamente o que eu queria dizer:
- , bsefat mra t nhé. Bluesk chan pt.
Ele riu alto ao escutar minha pronúncia que, modéstia a parte, estava bem melhor, e me pegou no colo, abraçando-me e rodopiando comigo pela sala.
Não era preciso ter nenhum sexto sentido para saber que a nossa tensão e medo ficavam cada vez mais forte quando nos abraçávamos mais fortes, imaginando por quanto tempo mais poderíamos nos abraçar e beijar como fazíamos naquele momento.
- Por todas as estrelas! Vocês não conseguem mesmo ficar sem se tocar? – perguntou entrando na sala, rindo alto, enquanto segurava precariamente um engradado da versão nells pra cerveja, eychaqua, e uma roupa esfarrapada para nos ajudar na pintura do mural.
Bem, provavelmente eu teria que arrumar algumas roupas coloridas para também. Quem sabe, ele pareceria menos arrogante sem aquele preto todo. Eu apostava em azul para ele. E xadrez, ele havia ficado lindo com a camisa xadrez de Ryan, quando estava na Terra.
- E aí? Vamos pintar ou não? – ele perguntou, colocando o engradado perto da mesa com os pincéis, balançando as garrafas esféricas de eychaqua. – Estou ansioso para começar a pintar. Para completar o momento terrestre, eu iria fazer café, mas não consegui com os ingredientes nells, então teve que ser eychaqua mesmo.
Eu ri, enquanto ele já pegava um pincel grande e arregaçava as mangas da sua camiseta preta, de mangas compridas, que parecia feita sob medida para ele de tão lindo que ele parecia nela, mas não pude deixar de pensar que ele ficaria ainda mais lindo se a camiseta fosse azul, ou verde.
- Mudança de planos. – pronunciou, colocando-me no chão e tirando o pincel da mão de , enquanto eu e ele erguíamos as sobrancelhas para , completamente confusos.
- O que vamos fazer, então?
- Visitar o velho Yrdifas. – ele disse já subindo as escadas, mostrando que não aceitaria recusa nem da minha parte, nem da de . – Agora.
Sabe aquele pressentimento de que uma coisa vai mudar a sua vida? Eu acabara de ter um desses em relação a essa visita. E um grande.
, ao meu lado, parecia ter tido o mesmo pressentimento.
E não poderíamos estar mais certos.

Capítulo betado por Isabela H.




Sete

estava determinado a ir ver o tal velho e graças ao meu pressentimento, eu estava mais tentada a ficar sentada em casa, quem sabe, terminando o meu painel, que ficaria lindo.
- Tem certeza de que quer mesmo ver o velho Yrdifas? Não confio muito nas previsões dele.
parecia bem desconfortável ante a possibilidade de fazermos uma visita ao vidente de Airamidniv, mas depois do olhar de , que era uma mistura de determinação do tipo ”Ah vai” e uma diversão do tipo “não acredito que está com medo”, que eu aposto que tinha alguma mensagem telepática embutida, levantou do sofá, onde tinha se jogado para fazer pirraça e preparou-se para ir ao tal velho.

- Acho que não quero ir, . – disse nervosa.
- Tem algo sobre nós dois que você precisa saber pelo velho, e espero saber mais coisas sobre o nosso futuro. – ele desceu os poucos degraus que tinha subido e segurou minhas mãos. – Que parece tão incerto que me dá medo.
Na verdade, o nosso futuro era a coisa que me dava mais medo no mundo. Depois da mãe dele. Mas olhar naqueles lindos olhos chocolate, que me hipnotizavam tão bem, me estremeceu ao ver o medo tão bem espelhado neles. Deus! A cada vez que me olhasse daquele jeito, eu iria até o fim do mundo por ele. Com ele.
E assim, nós três saímos de casa, não antes de eu e trocarmos nossas roupas, rumo ao fim de Airamidniv, que era onde o velho Yrdifas morava. Apesar do verbo “esconder” se encaixar melhor na frase.
Quando eu dissera que iria até o fim do mundo atrás de , eu não sabia que estava sendo tão literal.
O recanto do velho Yrdifas era uma espécie do que imaginávamos, na Terra, ser as bases de exploração da lua. Ermo, metálica e estranha. No meio de uma clareira entre as arvores lindas de Airamidniv que até pareciam holográficas de tão irreal e bonitas.
Na verdade, parecia mais que o velho havia se apropriado de uma base caída ali, e estava morando lá há algum tempo, já que haviam cortinas nas janelas da base metálica.
- É aqui? – perguntei quando chegamos à clareira.
- Sim.
- Eu achei que nunca viria aqui. – olhou para frente com o olhar perdido. – Não por iniciativa própria. Você foi chamado, da primeira vez, não, ?
- Fui. Foi quando Yrdifas pintou o quadro de .
- Meu quadro? Do que estão falando? – indaguei.
E antes que algum dos dois pudesse responder, o velho apareceu à porta da base, encarando cada um de nós, me fazendo recuar um passo diante de seu olhar mais que avaliador. Me permiti avaliá-lo também, encarando a sua barba rala, seus cabelos brancos, que pareciam uma nuvem de algodão em cima da sua cabeça. Ele era magro e um pouco torto, usava roupas pretas e tinha o olhar castanho mais calmo que eu havia visto.
- Entrem. Já sabia que viriam, por isso passei a noite em claro pintando o quadro de cada um de vocês.
Ele se afastou da porta com passos mancos e nos deixou entrar. Agarrei a mão de , um tanto quanto nervosa, mas me senti em casa assim que atravessei aquela porta. Cores. Para todos os lados. Tintas. Respingos no chão e nas paredes. Vermelho, verde, azul, laranja e muito mais cores. Para todos os lados. E eu não pude conter um sorriso, contente.
- Bem, vamos começar com o da mrakni terrestre. – disse o velho, andando para perto de três cavaletes tampados por um pano vermelho. Assim que ele disse “mrakni terrestre”, e deram um passo à frente, confiantes e exultantes, apesar de estar um pouco nervoso. – Não, o que a mrakni ainda está na Terra.
voltou para o meu lado, segurando minha mão, e secou as dele em sua calça, olhando para o primeiro cavalete que o velho Yrdifas descobria lentamente. Quando o quadro finalmente estava descoberto, nossos queixos caíram e literalmente se jogou no chão, tremulo e perturbado diante da realidade da pintura.
Era . Detalhadamente pintada. Ela estava sentada em uma espécie de praça bem parecida com as da Terra e, pela luz, eu poderia até arriscar que era o Washington Square Park, que era onde ela adorava ficar sentada nos domingos e feriados, quando eu a convencia a deixar de ser workaholic. Minha amiga estava tão fielmente retratada, que me trouxe lágrimas ao olhos de ver aquele rosto tão conhecido mais uma vez. Dessa vez, o rosto não estava sério ou com um brilho irônico no olhar, estava sorrindo, com uma criança linda nos braços, tão parecida com ela, que eu não tive como duvidar que era filho dela.
Aproximei-me do quadro e vi que os olhos da criança estavam ocultos, já que o pequenino ria com as brincadeiras da mãe com os olhos fechados.
- . – chamou, como se ela pudesse sair de dentro do quadro. – ... – a sua voz era estrangulada e partiu o meu coração quando ele se arrastou para mais perto do cavalete, erguendo a mão, visivelmente perturbado, para tocar o rosto de sua mrakni. – Mra T Nhé, .
Eu achei que estava vendo demais, mas estava realmente com o rosto úmido pelas lágrimas que caiam de seus olhos que estavam tão tristes que doía meu peito encará-los.
- Isso é... Futuro?
- Sim. Mas não é Airamidniv ali. – ele apontou o quadro casualmente – É a Terra.
- Ela... Ela... É minha mrakni e eu... – as palavras se confundiam e eu entendi que precisava de apoio, por isso coloquei a mão em seu ombro, dizendo, sem palavras, que eu estaria ali com ele.
- Ela é sua mrakni, mas a sua noiva é a filha do Naul. E você vai se casar com ela. – todos nós fizemos caretas assustadas e apesar de não verbalizarmos a pergunta o velho a respondeu. – A Mrakni? Vai ficar bem, mas saiba que já pintei a sua noiva entrando na igreja, então...
Se as palavras do velho Yrdifas fosse um punhal cravado no peito de , pareceria ter doido menos. E nem o “meuq” sussurrado do velho melhorou a situação.
Sussurrei o correspondente nells para “sinto muito” que também, assim como eu, já tinha deduzido o significado do quadro. Ele se casaria com Allie, e também seguiria sua vida, na Terra. Aquele lindo menininho em seus braços era prova disso.
E, por um segundo, fiquei dividida em compartilhar a tristeza de , ou comemorar o quanto meu sobrinho era lindo.
- A criança se chama Benjamin. Quando pintei, pude ouvir a voz da mrakni o gritando, enquanto ele corria pelo parque. Ela o chama de Ben.
me abraçou pela cintura, deixando também uma mão no ombro de , que tocou o quadro, desenhando com o dedo, o rosto de , com reverência e em seguida, tocando a bochecha rosada da criança.
- Se eu tivesse um filho, ele se chamaria Benjamin. – ele disse derrubando mais lágrimas. – Filho da felicidade. Sabia? – ele me perguntou, quase partindo meu coração com a dor em seus olhos castanhos intensos. – Que o nome Benjamin significa Filho da Felicidade? Que nome poderia ser melhor para um filho meu e de ?
O velho colocou a mão no rosto de , compreensivo e chamou para mostrar o seu quadro.
Com a mesma vagarosidade com que havia descoberto o de , agora com o choro silencioso do mesmo ao fundo, Yrdifas descobriu o quadro de .
A imagem era clara e tão realista que parecia uma fotografia. O local parecia a corte de justiça de Nova York. Havia uma mesa, com sete pessoas sentadas nela, e mesmo em escala diminuta, eu consegui encontrar Allie e Stan sentados à mesa.
estava ao lado de sua mãe, e ela erguia os dois braços para o céu, numa pose bem teatral e eu deveria ser idiota se não soubesse o que estava representado naquele quadro.
Ann depondo contra mim em frente ao conselho.
Várias pessoas estavam sentadas, atrás dela, olhando pacientemente a sua acusação em frente ao conselho, e estava ao lado dela, mas de costas, não podendo saber qual a reação dele.
- O que esse quadro quer dizer? Qual a resposta do conselho? – ele olhou quase furioso para o velho, que ergueu as mãos num gesto de rendição.
- Eu só pintei o que vi. – ele se defendeu. – O que vai acontecer neste futuro – ele apontou par ao quadro e olhou nos olhos de – já está escrito. E posso te garantir que nem tudo o que parece, é o que realmente é.
Com certeza ele deveria estar falando da mãe de . Ela parecia uma cobra, mas não era. Era bem pior, eu garantia isso.
- O que quer dizer com isso?
- Que nem tudo o que parece, é. – ele disse franzindo o cenho e já caminhando para o último cavalete, onde estava o meu quadro.
Antes que o velho Yrdifas pudesse começar o seu suspense no meu quadro, o interpelou mais uma vez. Ele ainda não estava satisfeito com o seu quadro e nem com a falta de respostas que ele trazia.
- Mas eu vim aqui saber se continuaria com , eu não posso deixar ela partir, entende?
O velho olhou profundamente para , que não o olhou de volta. Seus olhos estavam fixos em mim, como se olhando para mim, ele tivesse a resposta correta para todas as suas perguntas. Na verdade, era justamente o contrário, quanto mais tempo eu ficava ao lado dele, menos respostas ele tinha.
- Pelo contrário, quanto mais perto de você, mais eu tenho respostas para tudo na minha vida.
Eu sorri para e por alguns segundos foi como se não houvesse mais ninguém na Terra, em Airamidniv ou em qualquer outro lugar da galáxia. Eramos só nós dois e foi simples saber o que estava passando na cabeça de . Ele não sabia a decisão do conselho, mas estava disposto a ficar comigo, quer que fosse.
- Bem, como o garoto já aceitou o seu quadro, vamos ao seu, mrakni. – Yrdifas mancou até o meu quadro e segurou o tecido vermelho. – É a segunda vez que eu pinto você. A primeira foi há quinze anos. E até hoje me lembro da imagem, uma mulher linda, debruçada com uma espécie de montanha atrás dela.
segurou minha mão, me fazendo sentir o calor gostoso que acometia a cada vez que ele me tocava.
- O quadro retratava exatamente o momento em que a vi pela primeira vez, naquela cratera. Quando percebi que tinha finalmente encontrado a minha mrakni.
- E isso foi há quinze anos. Ele sabia que iria te encontrar há todo esse tempo, mas não sabia onde e nem quando. Só sabia que iria te encontrar. – disse com a voz baixa, mas parecendo recuperado. – Yrdifas pinta todas as mraknis antes das pessoas conhecê-las. – teve pouco trabalho neste aspecto, já que não há mais muitos casos de mrakni.
Yrdifas balançou a cabeça afirmativamente parecendo orgulhoso de seu trabalho, mas o tom de voz de deixava bem claro que ele não havia acabado.
- Então, esta não é minha mrakni. – ele apontou para o quadro de , que atraia a minha atenção bem mais que os outros. A saudade que eu sentia da minha melhor amiga era tão grande, que nem a curiosidade acerca do meu quadro suplantava. – Eu já a conheci, e não recebi nenhum chamado seu com um quadro sobre ela. Isso significa que ela não é minha mrakni.
- Exatamente, garoto, você não recebeu nenhum chamado. Mas porque eu tenho amor à minha cabeça, não porque ela não é sua mrakni. Você é prometido da filha de Naul, se ela se enfezasse ao saber que você tem uma mrakni, eu poderia ser decapitado, sabia?
- Você... Você a pintou... Antes?
era um guerreiro. Um chefe de expedições intergaláticas, frio e arrogante, sempre controlado e firme, mas que perdia completamente a linha quando o assunto era .
O velho mancou para fora da sala e esperamos todos, em silêncio, enquanto ele mexia em algumas coisas, fazendo um barulho quase estrondoso do outro lado da sala. Minutos depois, ele voltou com um quadro seguro em suas mãos tremulas. Não era muito grande, então, ele o colocou nas mãos de , que sorriu imensamente ao vê-lo.
E apenas de ver o seu sorriso, sorri também, morta de curiosidade para saber o que estava pintado naquele quadro.
- Apesar de eu ter percebido que ela era minha mrakni no momento em que abri os olhos, este é o momento com que sonho todas as noites, quando eu percebo que só quando durmo e sonho, é que ela vai estar comigo. É quando a automática e chata de tanto realismo, foi embora e deixou a passional. Quando eu conheci a verdadeira , a minha mrakni.
Ele virou o quadro para que eu e pudéssemos vê-lo e vi , mais uma vez, perfeitamente pintada, completamente molhada sob a chuva e com os olhos brilhantes, quase faiscantes, a boca crispada, como se estivesse com raiva e vontade ao mesmo tempo. Linda. Passional. Completamente .
- Nem todos podem ficar com suas mraknis. E este é o meu caso. – a voz de era dura e ele parecia conter as lágrimas que cairiam, mais uma vez. – Posso ficar com o quadro?
- É seu. – Yrdifas deixou admirando e virou-se para mim. – O seu quadro não é exatamente futuro, mrakni, é presente.
A minha expressão denunciou que eu não havia entendido nada, e o velho, solidário à minha confusão, descobriu o quadro de uma vez. Sem surpresas, nem charme e e eu demos um passo à frente, admirando o quadro, onde eu vestia uma bata lilás e era mais que visível a minha barriga crescida, quase como se eu estivesse... Não! Impossível.
Coloquei a mão no ventre e imediatamente senti algo mexer ali. Fome. Provavelmente. Eu não comia nada há horas, vinha comendo demais e todo o tempo, ultimamente, precisava de uma dieta.
Graças aos céus, não disse nada. Parecia muito emocionado e contente para dizer algo. Eu também não me pronunciei, morta de medo.
Eu não poderia estar grávida. Não num momento em que não sabia se conseguiria ficar em Airamidniv nem mais um dia com o conselho querendo a minha pele. Imagine se eu estivesse grávida, e sem me casar. Não só o conselho ficaria furioso, mas minha mãe comeria meus olhos.
Mas ao mesmo tempo, a idéia me deu um pequeno prazer terno, ao imaginar dar a luz a um bebê metade humano e metade alien, com lindos olhos castanhos e uma paixão natural por bagunças coloridas. Ah! E que achara não ser possível ter um desses. Errada ela.
- Agora vão e levem seus quadros. Tenho muito a fazer.
- Obrigada, Sr. Yrdifas. – agradeceu segurando minha mão com uma de suas mãos e os nossos quadros com a outra.
- Er... Realmente... Posso levar os quadros? – perguntou encarando a imagem de sob a chuva. Yrdifas assentiu, preparando mais tintas e misturando numa paleta como se já tivesse dado toda a atenção suficiente para nós e não daria mais nenhuma. apanhou apenas o que ilustrava na chuva. – Eu vou levar apenas este.
- Tudo bem, mas volte em duas semanas. Terei um quadro novo para você.
- Espero que ele retrate quem eu devo ou não convidar para o meu casamento. Casarei em duas semanas. Com a mulher mais linda e mais poderosa de Airamidniv.
- não é de Airamidniv. – eu e dissemos ao mesmo tempo. Ambos surpresos e confusos. E, por mais que eu odiasse admitir algo tão sem coração, estava contente por ter distraído , o fazendo esquecer do meu quadro e adiando uma conversa que eu não queria ter. Eu não estava preparada para ela. E além do mais, eu não estava grávida. Estava engordando um pouco, sim, mas porque a comida nells era muito boa e os sintomas eram apenas parecidos com o de uma gravidez, os meus eram pela falta de adaptação à gravidade de Airamidniv.
Eu não estava grávida. Eu saberia se estivesse. Mas, toda a minha paranóia de gestação foi interrompida por e suas palavras que me congelaram de pânico.
- E quem disse que eu vou me casar com ?

Oito

Eu queria pensar que não havia realmente entendido. Queria pensar que não estava dizendo aquilo.
- Em duas semanas estarei me casando com Allie e me tornando o subnaul de Airamidniv, como queria que eu me tornasse.
- Por que diabos você está fazendo isso? Está louco?
E vejam, me orgulhando mais uma vez. Por alguns segundos até pensei que meu mrakni fosse sacudir o seu amigo, mas ele não fez isso. Talvez faria, depois, quando estivéssemos longe de Yrdifas e de seu colorido acolhedor.
- Vamos logo! Tenho ainda que ir falar com Allie e apressarmos tudo para a cerimônia.
E antes que eu pudesse rebater tamanho absurdo, saiu andando na minha frente, me deixando no vácuo, e obrigando eu e a segui-lo, após nos despedirmos rapidamente de Yrdifas.
- . Você está louco mesmo.
se virou para , que havia parado no meio da estrada de terra que levava de volta da clareira para o asfalto.
- Louco? Por que estaria? Eu vou me casar com a mulher que estou destinado a casar desde que nasci. O que há de errado nisso?
O meu olhar se voltou imediatamente de para , como se eu fosse uma juíza de um jogo de ping pong.
- Há! Você ainda não entendeu a insanidade de você não ficar com sua mrakni. Que parte disso não é louco?
Os meus olhos e minha cabeça se viraram para , esperando sua resposta.
- Ela me deixou, . E ainda disse que eu ficaria melhor sem ela. – a resposta dele me deu uma vontade absurda de chorar, apenas imaginar o quanto deveria estar sofrendo sem . Era doloroso demais. – Aí está a loucura. Eu pareço bem sem ela? Não. Porque eu não estou e vir aqui piorou tudo. Porque aqui eu descobri que eu não vou ter de volta, por mais que eu queira isso desesperadamente.
Limpei uma lágrima e me voltei para , que, apesar de parecer compreender o quanto estava doendo em , estava disposto a não deixá-lo desistir tão fácil. Entretanto, quem disse algo fora , não ele.
- Você não sabe o quanto dói ver você e e todo esse negócio de mrakni. Eu não tenho minha mrakni comigo e porque ela, ela, quis que fosse assim.
- Você vai desistir assim, então? O grande explorador vai simplesmente deixar para lá por cauda de uma visão que nem temos certeza se é realmente verdadeira?
Eu esperava que realmente pensasse daquela maneira, assim seria mais fácil ter a minha conversa com ele a respeito do meu quadro.
- Ela não vai voltar, . Ela não vai sair da Terra só para me ver. Ela fez sua escolha. E eu estou fazendo a minha.
- Você não pode... – eu disse com a voz fraca, tomando as dores de minha amiga. Eu não poderia deixar que ele desistisse tão fácil. Eles tinham de ficar juntos. Eram assim que aconteciam os finais felizes, e não importava o que Yrdifas havia pintado, eles ficariam juntos.
- , eu gostaria de ficar com ela para sempre, mas eu não posso.
Aquelas palavras me deixaram furiosa. E eu já vinha ficando furiosa com muita facilidade ultimamente. Por que ele não podia? Era só ele pegar uma nave qualquer da BEI, voar de volta pra Terra e buscar . Que parte disso era impossível? se acostumaria com a vida em Airamidniv. Se até mesmo eu estava me acostumando.
- A parte em que ela não quer ser buscada é a que torna tudo impossível.
Dei um pulo para trás, só então me recordando que eles poderiam ler mentes, sempre me deixando indefesa quando eles o faziam.
- Mas...
- Não tem “mas”, . E pode me chamar de maricas o quanto quiser, . Eu não vou correr atrás de , mesmo sabendo que isso é o que eu mais quero fazer, eu também sei que é o que ela menos quer. – ele balançou os ombros como se não desse a mínima e colocou o quadro mais ajeitadamente embaixo do braço.
- E vamos logo porque ainda quero falar com Allie hoje. Já esperamos tempo demais para nos casar.
Eu parecia uma criança fazendo birra. Arrastando os pés e cantando os maiores sucessos de Britney Spears com a voz bem mais fina do que já era normalmente apenas para irritar , que andava na nossa frente.
Algo dentro de mim e dizia que eu estaria traindo se deixasse que se casasse. Eles eram almas gêmeas, era até contra os meus princípios. Deixar com que ele se casasse com Allie era errado.
Não que eu tivesse algo contra Allie. Nunca. Ela era um amor de pessoa e sempre me ajudara muito com toda a loucura de sair da minha Terra e cair com tudo em Airamidniv, lugar do qual eu nem ouvira falar. Mas só se eu fosse uma idiota do pior tipo não conseguiria ver que Allie e não eram nem um pouco feitos um para o outro. Eu desejava uma pessoa boa e legal para ela, mas não . Ele era de . E era dele. Era simples assim.
- Não podemos deixar isso acontecer. – cutuquei , que apenas assentiu com o semblante duro e um olhar digno de assassino a sangue frio fixo em .
Não era nem tão difícil entender, também, o porque de estar tão furioso. Ele havia procurado sua mrakni por anos a fio e lutava com unhas e dentes para ficar com ela, ou comigo, o que dava na mesma coisa. Já encontrara sua mrakni por acaso do destino, e mesmo a amando e sabendo o quanto era cabeça dura, ele nem se abalava para lutar por ela.
- Vamos sequestrar o noivo?
- Difícil demais. – respondeu, já que havíamos tomado certa distância de , que praticamente marchava na direção da enorme mansão de vários andares e completamente feito em mármore negro.
- E... E... E se eu tiver um ataque cardíaco como aquele da no meio da cerimônia?
- Muito manjado. – ele rebateu a minha mais brilhante ideia. Eu estava realmente crente de que aquilo daria certo. – E vai ser em cima da hora, assim que você melhorar, o casamento continuará. Se alguém morresse na hora da cerimônia...
- O que aconteceria? – sim, eu era curiosa demais e estava muito interessada em saber o que seria eficaz o suficiente para destruir o casamento. Estava aí outra coisa que eu ensinaria ao meu filho em coisas que ele não deveria fazer. Mas, no momento, era necessário.
- Teria que se interromper a cerimônia e passar seis meses de luto. – ele parou por alguns segundos e depois voltou a andar ao meu lado – Mas ninguém parece dar alerta de estar no fim da vida.
Bem que poderia ser a mãe dele. Não disse isso em voz alta, mas imaginei bem contente, a sua mãe tendo um ataque cardíaco no meio da cerimônia, sendo levada da igreja e todos indo embora aos poucos, estragando todo o casamento. E em ser estraga prazeres, Ann era muito boa.
Foi quando notei que já estávamos na porta de nossa casa e eles já estavam guardando os quadros rapidamente e saindo em seguida, para rumar ao castelo exatamente no meio do planeta.
- Eu não quero ir. – disse, quando encostava a porta, pronto para seguir . – Eu adoro Allie, mas é minha melhor amiga. – expliquei. – Não seria justo com ela. E simplesmente não posso ver você cometer esse grande erro. Te desejo o melhor. Mas eu, você e toda a torcida do Knicks sabemos que você apenas será feliz com a nossa .
parou à minha frente, abraçou-me com força, muita força, me lembrando do modo como me abraçava, como se a resposta do mundo estivesse naquele nosso abraço. Chorei, enquanto sentia seus braços me rodeando. Chorei de pena dele por estar fazendo a coisa errada, chorei de ódio dele por estar jogando tudo para o alto, chorei de saudade de , tanta saudade que tive que abraçar com ainda mais força. Estranhamente, estar com ele me relaxava, era quase como estar abraçando . Eles eram tão parecidos, tão iguais.
- Eu sei que não serei feliz, mas ainda posso tentar fazer Allie feliz. Ela merece isso.
- Merece. - funguei depois de limpar uma lágrima ou outra. – Ela é uma boa pessoa. Merecia um mrakni.
- Mraknis não dão em arvore. – ele riu. – Você é tão preciosa quanto um eclipse entre uma anã marrom e um cometa quente.
Uau! Eu era rara! Muito rara! Eu conhecia esses eclipses e sabia que só acontecia uma vez na vida e outra na morte, como minha mãe costumava dizer. limpou uma lágrima que ainda escorria do meu rosto e tocou minha bochecha comunicando-se comigo pela mente.
“Mra T Nhé, .”
Eu sorri largamente e assisti fazer uma brincadeira qualquer com sobre a intimidade dele comigo, e depois vir me dar um beijo no rosto, com cuidado, e correr para acompanhar .
De todo o meu coração, eu desejava tudo de bom para Allie, mas não com . E assim eu tinha mais um problema, como se já não tivesse muitos. Além de minha situação praticamente ilegal em Airamidiniv, minha suposta gravidez, que tinha certeza de que era apenas um engano, eu tinha que descobrir uma maneira de impedir o casamento de com ninguém menos que a princesa do planeta. E tinha apenas duas semanas para isso. E ainda com um método eficaz.
Mas tirei tudo isso da minha cabeça quando me dediquei, mais uma vez, ao meu mural alaranjado. Pegando um pincel fino, me coloquei a desenhar um casal no meio do mural, e rascunhar mosaicos em volta.
Deixei que minha imaginação me levasse aos poucos. Eu havia esquecido completamente do quanto eu adorava desenhar. Era uma paixão quase semelhante com a que tinha com lápis e papéis. E a magia era a mesma. Ela criava com palavras, eu criava com tinta.
Lembrar do talento de me fez lembrar que minha amiga estava na Terra, sozinha. Provavelmente a mercê de qualquer amiga nova-iorquina casamenteira, de seu chefe carrasco e de Rico. Sem mim para protegê-la. Sem para cuidar dela.
Apoiei meu pincel no topo da escada, pensando no que aconteceria se fosse a candidata a se casar com . Ela o faria tão feliz que eu nunca mais veria aquele rosto lindo e tão másculo derrubar uma lágrima novamente.
Eu imaginava que eles brigariam sim, uma vez ou outra, mas isso era o que faria com que eles fossem e . Dois cabeças duras perfeitamente perfeitos um para o outro.
Levantei os olhos para o casal rascunhado no mural e sorri levemente ao pensar que se Allie fosse como Victoria, qualquer plano para terminar o casamento seria muito mais simples e menos culpável. Eu não queria terminar com o casamento lindo e exuberante que Allie planejava há anos, mas era necessário. não era dela. Era de .
Suspirei mais uma vez ao lembrar de Victoria. Eu tinha mais este problema para resolver. Ela não desistiria de tão fácil e com Ann realmente investindo fundo em sua tarefa de se ver livre de mim, era mais que óbvio que ela utilizaria a linda e sofisticada Victoria para fazer perceber o quão comum e sem graça eu era.
Uma semana. Eu tinha apenas uma semana para resolver meus problemas em Airamidniv. E eles pareciam grandes demais para apenas mencionar, quem dirá a resolver pelo menos um deles.
Comecei a pintar o mural com um pincel mais grosso fazendo um contorno mais delineado no casal do centro, me divertindo com a tinta preta que eu cuidava para não borrar o desenho.
Eu tinha que arrumar uma solução para o casamento de , em primeiro lugar, mas eu nunca fora muito boa com essas coisas de armar planos e tudo o mais, geralmente eu só tinha a ideia do que deveríamos fazer e deixava a arquitetura do plano nas mãos de , que, apesar de ser a mais boazinha de nós duas, sabia exatamente o que fazer.
A execução era sempre da parte de Ryan, já que nossos planos sempre tinham a ver com bebidas e festas quando os meus pais viajavam para algum congresso cristão, deixando a minha casa vazia, e ele tinha 18 anos quando nós tínhamos apenas 16.
Lembrar daquele tempo me fez pensar no quão diferente as nossas vidas estavam naquele momento. Tão diferentes do que planejáramos antes. Não a de . Os planos dela nunca falhavam. Quando nos sentávamos na varanda da casa dos quando planejávamos sair daquela cidade pequena, ir para Nova York e ser quem sempre sonhavamos em ser.
conseguira ser tudo o que planejara. Conseguira seu apartamento no Village, conseguira seu emprego no jornal, apesar de não ser ainda a editora de política, ela estava rumando determinada para esse lado, só não conseguira casar com o homem perfeito.
Os meus planos eram absurdos, visitar algum planeta, como marte, ou talvez júpiter, casar com um cara lindo e determinado, que provavelmente seria a minha alma gêmea, afinal, desde a adolescência eu verificava o meu horóscopo semanalmente para saber se estava perto o dia em que eu encontraria a minha alma gêmea.
E apesar de eu pensar que meus sonhos eram insanos, consegui realizar todos eles. Ou quase. Eu e ainda não estávamos casados. E se dependesse de sua mãe, isso não aconteceria nunca.
Pensar naquela velha malvada e sem coração fez com que eu borrasse o desenho, sem querer. Soltei um palavrão terrestre que tinha tradução em quase todos os idiomas e procurei pelo pano para limpar o local da mancha e percebi que o pano estava quase seco, assim como o pote onde eu estava deixando os pincéis sujos, que deveria estar cheio de água para limpá-los.
Provavelmente deveria ter tirado a água de lá, ele tinha pânico de que aquela água suja manchasse o seu carpete nells. e sua mania de limpeza eram irritantes.
Mas eu amava isso, assim como eu amava tudo nele.
Peguei o pote e os pincéis sujos e saí pela porta da cozinha para limpá-los do lado de fora, onde não teria nem chances de sujar o carpete de e encher o pote para poder limpar a mancha no mural.
Enquanto eu estava sentada na escada, perto do decompositor de lixo, limpando os pincéis, reparei em várias meninas olhando pela janela do corredor que dava para a sala, rindo ao ver algo pela janela.
Eu sabia o que elas estavam vendo e um medo agudo passou pela minha coluna. Cores eram repudiadas por todos em Airamidniv e ninguém além de e Allie, que eram favoráveis a minha causa, ou melhor, à minha permanência no planeta.
Com aquelas meninas sabendo sobre a minha pintura, eu teria menos tempo ainda com . Pintar era uma manifestação clara de que eu não estava me adaptando às regras nells e não me adaptaria, afinal, eu era uma terráquea selvagem e traidora, e tinha certeza de que Ann adoraria sublinhar o “traidora” do meu título, ao lembrar a todo o conselho de que eu havia tirado de um relacionamento estável com Victoria, supondo que eu era mrakni dele.
E supondo era uma ova. Eu realmente era mrakni de , não estaria naquele planeta estranho e hostil se não fosse por isso.
Silenciosamente eu fui até as meninas e não sei se eu ou elas ficamos mais assustadas quando nos encaramos. Elas se assustaram porque eu havia chegado silenciosamente e eu me assustei ao ver tantas crianças juntas.
Pelo menos quinze crianças, entre meninos e meninas olhavam assustadas para mim, preocupadas com o que eu, uma terráquea, faria com elas, crianças nells que espiavam pela janela da minha sala.
- É a pintora terráquea. – uma das meninas sussurrou para outra.
Todos deram um passo para trás, deixando apenas uma garota de cabelos claros e olhos lindamente chocolates na frente, que ao perceber que os outros haviam dado um passo que ela não dera, suspirou fundo e me encarou.
- Eu... Eu... – ela gaguejou e eu sorri, tentando deixá-la confortável para falar. – Eu sou Vanessa, eu... Nós...
- Não farei nada contra vocês. – eu assegurei enquanto tomava uma certa distância, para não assustar as crianças. - Só me digam por quê vocês estavam espiando minha casa.
- Porque gostamos de sua pintura. – uma das crianças se abaixou após falar isso, morrendo de medo de que eu fizesse alguma coisa contra ela por ter dito isso.
- Gostam mesmo?
- Gostamos. – disseram todos em uníssono.
Olhei para os pincéis em minhas mãos e levei os olhos para as pequenas crianças que sorriam timidamente com seus lindos olhos cor de chocolate que pareciam ainda mais brilhantes quando eram vistos em grande núumero, como no momento.
- Então, vocês querem... Me ajudar? – perguntei esticando o pote com água e os pincéis limpos na direção das crianças, que praticamente avançaram neles, cada um apanhando um e olhando para mim com sorrisos completamente exultantes por verem que eu não faria nada contra eles e ainda daria a oportunidade de eles ficarem perto das cores, que eram tão repudiadas naquele planeta, mas que eles pareciam tanto admirar.
E mesmo sabendo que eu estava assinando uma sentença de despejo ao mostrar cores às crianças e ainda deixá-las pintar, eu não dei a mínima e abri a porta da cozinha para que todos eles entrassem. Eu adorava crianças e, na minha opinião, elas tinham direito a conhecer as coisas boas da vida. E com certeza, se sujar coloridamente era uma delas.
Se a mãe deles, Ann ou qualquer pessoa se importasse com isso, bem, eu teria que fazer um gesto muito feio que Ryan ensinara eu e dizermos para quando as pessoas nos aborrecessem no primário, e não me sentiria nem um pouco mal ao mostrar o meu dedo do meio para Ann ou Victoria.
Muito pelo contrário.

Capítulo betado por Thais M.




Nove

As crianças pareciam nunca terem se divertido tanto.
Havia tinta espalhada por toda a sala e eu não sabia como aquelas quinze, ou menos, crianças se duplicaram tão rápido. Agora eu tinha tantas crianças espalhadas pela minha sala, que estava parecendo um campo minado. Era praticamente impossível andar naquela sala sem ter que desviar de uma criança fofa, de olhos brilhantes, cor de chocolate.
Deixei que os maiores misturassem os materiais para criação de tintas e preparassem tudo, criando cores completamente novas e interessantes, que as fazia dar gritos de animação e prazer por verem que poderiam mexer com cores sem se preocupar.
É Claro que eu havia forrado o carpete super especial de com um enorme tecido de aparência lavável, que eu havia achado na dispensa, para que nada de grave acontecesse com ele. E como eu era a favor de crianças se sujarem, mais da maioria delas estava com tinta até dentro do buraco do nariz, e tinha quase certeza que uma delas realmente assoou tinta do nariz, ao invés de meleca.
Além da pequena mesa de mistura de tintas, outro lugar da sala era muito procurado por todas as crianças: meu colo.
Os menores se revezavam em se sentar entre minhas pernas e desenhar comigo algum desenho abstrato nas folhas de papel, que eu havia achado na mesma dispensa do tecido, e receber um pouco da minha atenção, que era extremamente dividida entre a criança que estava em meu colo, as que mexiam com tinta, com medo de acontecer algo com o carpete, mesmo sob o tecido lavável, e as crianças que pintavam a parte de baixo do mosaico do mural.
Apesar de minha atenção estar completamente dividida, eu estava realmente adorando ter tantas crianças por perto. Ao contrário de , eu nunca tivera nada contra elas, e até brincava com elas quando sentava perto de uma no trem ou no ônibus. Já , preferia ficar em pé a ficar perto de crianças.
Era a vez de Layla se sentar em meu colo e Vanessa, a pequena garota que começara a invasão das crianças, deu um muxoxo triste por ter que sair de meu colo. E, antes que Layla sentasse, a pequenina deu um beijo em meu rosto e afagou minha barriga.
Estranhei o gesto, mas retribui o beijo com um abraço apertado e deixei que ela se levantasse e Layla se sentasse. A fofa garota de cabelos castanhos, parecidíssimos com o de , e pequenas sardas no rosto, sentou-se contente em meu colo e rodeou meu pescoço com seus bracinhos, agradecendo por eu ter deixado as crianças brincarem ali. Sorri para ela e começamos, juntas, a desenhar figuras abstratas enquanto ela se divertia com aquilo. De repente, ela levantou seus olhos para os meus fazendo uma pergunta:
- Você é mesmo uma mrakni? – eu ri divertida e olhei em volta, percebendo que todas as crianças haviam parado para escutar a minha resposta.
- Sim, eu sou uma mrakni.
- Você é da Terra mesmo? – uma outra garota, que mexia com as tintas na mesa, fez a pergunta dessa vez.
- Sou 100% terráquea. – ri.
- E como é lá?
Eu sabia que uma hora ou outra as perguntas viriam. Até havia demorado um pouco, já que estavam todos distraídos com a brincadeira com as tintas e a descoberta de cores. Mas finalmente as perguntas chegaram, eu sabia o quanto crianças eram curiosas e não me importava nem um pouco em respondê-las.
- É lindo. Há cores para todos os lados, verde nas árvores, azul no céu, pessoas de todas as cores, olhos de todas as cores, há coisas ruins também, mas as boas superam.
- Tem tecnologia? – um dos garotos perguntou. Assenti e ele perguntou novamente, mostrando em seus brilhantes olhos castanhos toda a sua curiosidade. – E como é? É avançada?
- Na verdade, John, é bem parecida com a sua. Em alguns casos, a tecnologia nells é até mais avançada.
- Vocês lêem mentes também?
Fiz que não com a cabeça e rapidamente voltei minha atenção para uma menina com o cabelo escuro preso num rabo de cavalo, que fez a sua pergunta com um olhar apaixonado, e eu tinha certeza de que tinha espelhado este olhar apenas ao ouvir a pergunta.
- E como foi que o Schnaker achou você? Como se encontra uma mrakni? Como você sabia que ele era o seu mrakni?
Todas as crianças abandonaram o que estavam fazendo e se sentaram em círculo ao meu redor, olhando fixamente para mim e esperando que eu começasse minha narrativa. Sorri para todas elas e abracei mais Layla, que estava ainda em meu colo olhando para mim e ansiosa para que eu começasse a história que todos queriam escutar.
- Bem, eu morava em um lugar muito populoso da Terra. Era tão grande que Airamidniv inteira caberia ali e sobraria muito e muito espaço. – todos fizeram um som surpreso e admirado e deixaram que eu continuasse. – Eu estava lá há muito tempo, junto com minha amiga . Ela é minha melhor amiga e a pessoa mais especial no mundo para mim. Naquele dia, eu resolvi acampar na praia... – todos os olhares ficaram confusos e percebi que eu deveria explicar melhor o que era uma praia. – Praias são locais com um pequeno pedaço de terra e muita água, um mar de água salgada para as pessoas se divertirem ali.
- Ah, Rtuvci.
E, então, fora a minha vez de olhar confusa para as crianças, que me explicaram que o que eu conhecia como praia era conhecido por rtuvci entre elas.
- Ok, então eu e fomos acampar numa rtuvci para ver um cometa raro, que passaria no céu naquela noite. Foi quando vimos a nave de e cair na floresta atrás de nós. – as crianças pareciam fascinadas e eu continuei a contar, adorando ter aquela atenção de seres tão fofos e especiais. – Não pensamos duas vezes e corremos para o lugar para ver o que acontecia. Foi quando encontramos a nave destruída e e jogados para fora da nave. Eu me abaixei para cuidar de e correu para acudir .
Mesmo com todas aquelas crianças ao meu redor praticamente sorvendo todas as minhas palavras, eu não tinha como não pensar em e no pedido de casamento que ele deveria estar fazendo à Allie naquele exato instante. Eu esperava do fundo do meu coração que estivesse fazendo alguma coisa para impedir isso.
- E o que você sentiu quando o viu? – Vanessa perguntou com o queixo apoiado na mão e olhando para mim.
- Eu fiquei sem ar. – comentei, lembrando-me do exato momento em que meus olhos se fixaram em . – Meu coração batia tão rápido que eu fiquei assustada, mas ao mesmo tempo em que estava com medo de todas aquelas sensações, eu tinha vontade de esticar meus dedos para tocar aquele homem para ter certeza de que era real. – eu fechei os olhos sorrindo ao sentir novamente todas aquelas emoções. Deus! Eu amava com toda a força do meu coração. E estava decidida a ter esse amor para sempre, independente de quantas armadilhas a cobra mal amada da Ann planejasse para nos separar.
- A sentiu o mesmo?
Meus olhos se viraram para Layla em meu colo e me perguntei o que realmente sentira quando vira . Era completamente impossível eu saber o que acontecera dentro dela naquele momento, mas sabia que mudara muito depois daquele contato imediato. A garota ranzinza e fria que jurara nunca amar e nunca sofrer por amor, vira todas as suas resoluções virem por água abaixo por um alien lindo, que ganhara seu coração sem querer.
- Sentiu. Acho que até mais.
- E o que sentiu? – um garoto baixinho e fofo olhou para uma das pequenas garotas de cabelos claros e depois se virou para mim. – Ele tinha uma companheira destinada, não tinha? – eu assenti e ele perguntou novamente – Como ele sabia, então, que você era a mrakni dele?
Essa pergunta eu não sabia responder. Ainda me lembrava de dizendo que sua noiva era uma pessoa especial e doce e ela contrariara todas as minhas primeiras impressões com base no que ele havia dito, provando ser uma verdadeira vadia que estava decidida a ter o seu homem de volta. Na verdade, dela o caramba, ele tinha escolhido a mim, então ele era meu, certo?
- Eu... Não sei...
- Eu sei. – escutamos uma voz vinda do fundo da sala e todas as cabeças se viraram para o lugar.
Meus olhos brilharam espelhando a alegria que eu sentia quando via . Era sempre como se fosse a primeira vez. Ele sorriu para mim e seus olhos pareciam prestes a chorar de emoção ao me ver sentada ali, com uma criança tão parecida com ele nos braços. Eu entendia o que se passava em sua mente. E aquilo me emocionou terrivelmente.
- Eu senti tudo. Tudo ao mesmo tempo quando abri os olhos e a vi. Era como se eu estivesse andando há séculos por um deserto, morto de sede e encontrara água fresca e limpa. – meus olhos começaram a despejar lágrimas emocionadas e limpei-as com pressa. – Eu já era destinado para Victoria, mas quando você vê a sua mrakni, você já sabe que ela é sua para sempre, não tem como fugir disso ou esconder. Simplesmente é.
Todas as crianças suspiraram e já estavam prontas para começarem a fazer mil e uma perguntas para , quando ele finalmente chegou mais perto de nós, com os olhos fixos nos meus.
- Crianças, já está tarde e tenho certeza de que as mães de vocês não sabem que vocês estão aqui.
Um coro de reclamações começou e, mostrando que seria um bom pai, negociou com elas, assegurando que poderiam voltar no dia seguinte e que ele contaria para todos as histórias dos monstros que vira quando viajara para Candara e mais algumas outras de suas viagens pela BEI.
As crianças, entusiasmadas, despediram-se dele e de mim, uma atrás da outra, e prometeram que voltariam no dia seguinte. A última a se despedir foi Layla, que agarrou o meu pescoço com seus bracinhos curtos e me deu um longo beijo no rosto e depois um beijo na barriga.
- Tchau, tia , tchau, bebê.
- Não tem bebê aqui, Layla. – sorri para ela, temerosa do que poderia estar pensando daquilo.
- Tem sim! A gente conversou bastante, todas as crianças sentavam no seu colo pra conversar com ele.
E abraçando , que se inclinara para facilitar o abraço da menina, ela saltitou para fora e fechou a porta atrás de si, deixando e eu com um clima estranho no ar.
Eu sabia que uma hora ou outra teríamos de conversar sobre filhos, o que era um assunto bem futurista, já que eu sabia que não estava grávida e qualquer que tenha sido a previsão do velho Yrdifas, era equivocada.
Levantei-me, recolhendo os pincéis, colocando-os no copo de água para limpá-los, recolhendo os potes de tinta e os organizando em cima da mesa, ainda em silencio e rezando para que continuasse assim por um bom tempo, até eu me acalmar. me assistia pacientemente, esperando pelo meu tempo para começar aquela conversa.
- Então... – eu estalei os dedos, nervosa, enquanto enrolava o tecido lavável para levá-lo para fora junto com as outras coisas. – fez o pedido?
- ...
A voz de dizia muito mais do que apenas o meu nome. Ele estava frustrado por eu mudar de assunto e por isso apenas fiquei parada, de cabeça baixa, sentindo se aproximar de mim enquanto os meus sentimentos se confundiam num crescente tornado.
- Precisamos conversar, .
- E já estamos conversando, , querido. Agora me conte: qual foi exatamente a reação de Allie quando propôs casamento à ela?
Antes que eu pudesse continuar com aquele assunto, agarrou-me pelos ombros e fez com que meus olhos se encontrassem com os dele. E, então, eu vi naquela profundeza cor de chocolate o quanto ele estava nervoso comigo.
- Eu estou pouco me importando com Allie, e quem quer que seja. Você está grávida, !
Eu não tinha motivos para ficar brava, mas fiquei e tentei me afastar do aperto de , mas ele me puxou de volta para seus braços, bem mais irado por eu estar tentando fugir e eu quase gritei em seu rosto:
- Eu tenho quase certeza de que não estou grávida, . O corpo é meu, eu deveria saber se estou ou não. E mesmo que eu estivesse, o que mudaria? Aquela oferecida da Victoria continuaria no seu pé e a sua... – respirei fundo antes de usar qualquer adjetivo ofensivo que passava em minha cabeça para designar sua mãe e chamá-la pelo nome. – Mãe ainda faria de tudo para nos separar. O que mudaria? – repeti.
- Se você estiver grávida, tudo muda.
Ele me soltou e eu o olhei entre duvidosa e tensa.
Do que ele estava falando? Afastei-me e terminei de recolher as coisas do chão, colocando tudo nos seus devidos lugares, enquanto o olhar de ainda me seguia, esperando que eu continuasse aquela conversa, que estava mais do que clara de que não terminaria tão cedo.
- O que muda, ?
Finalmente, levantei meus olhos para ele, enquanto segurava alguns pincéis já limpos para colocá-los dentro do estojo plástico onde eu os guardava.
- Muda que não precisamos passar pelo Conselho. Esperando um filho meu, você já é automaticamente acima de qualquer lei. Não precisamos nos preocupar com nada, nem serei mais ameaçado a sair da BEI por estar morando com uma terráquea, se você for a terráquea grávida de um filho meu.
Com toda a minha força, joguei o copo contra a parede atrás de , enquanto o via abaixar a cabeça num reflexo, enquanto o copo estilhaçava.
- O quê...?
- Então é isso? Você quer que eu esteja grávida para não abandonar a sua maldita BEI? É isso que um filho meu significaria para você? – eu estava quase rugindo enquanto continuava atirando pincéis na direção dele, que desviava habilmente, temeroso da minha ira. E ele tinha que ter medo mesmo, eu estava furiosa a ponto de querer matá-lo. – Posso até imaginar você pegando essa criança e me colocando num inferno de nave de volta para a Terra enquanto cuida dele com a sua preciosa Victoria.
Ele olhou para mim confuso e eu fiquei ainda mais irritada de ele não admitir seus planos.
- Não é isso o que você quer?
- Claro que não, !
- Mentira! – gritei mais uma vez, jogando mais um pincel na direção dele. Até que correu na minha direção e jogou tudo o que eu tinha nas mãos para o chão, olhando furioso para mim, talvez até mais furioso quanto eu estava, e pude jurar que ver aquele brilho irado no fundo de suas íris cor de chocolate, fez-me tremer de desejo.
me abraçou com força e eu não pude fazer outra coisa a não ser chorar, enquanto me enrodilhava mais e mais aos seus braços. Algo em minha barriga se moveu e eu pensei, mais uma vez, que deveria ser fome. Sempre era.
De repente, ajoelhou-se no chão à minha frente e levantou minha blusa, deixando minha barriga à mostra e colocou sua testa nela, como se realmente houvesse alguma coisa ali dentro.
- Quantos sinais mais ele terá que dar para você perceber que ele está aqui, ? – eu abaixei a cabeça para a minha barriga, tensa e entre lágrimas que não paravam de cair. Eu deveria saber, se estivesse grávida. É algo que toda mulher sabe, certo?
Fechei os olhos e deixei que acariciasse minha barriga e falasse coisas baixinho, grudando a boca contra a minha pele, enquanto eu sentia algo ali dentro se mover contra o rosto de , como se o acariciasse também.
Não podia ser.
- Eu deixei que percebesse por si mesma, , mas eu já o vinha sentindo há algum tempo. – ele sorriu contra a minha pele e eu me arrepiei. – E não há nada neste mundo que eu queira mais do que essa criança. Não pela BEI, eu já te disse milhares de vezes que pouco me importo com o que há ao nosso redor se eu tiver você. Mas eu quero essa criança porque é ela é um símbolo do nosso amor. É uma prova viva de que eu pertenço a você e você pertence a mim.
Ele ficou de pé e olhou em meus olhos, pronto a me beijar, e foi exatamente o que ele fez, enquanto eu me entregava àquela carícia, ávida por saber que ele realmente desejava aquela criança porque a amava, não para outros fins egoístas.
- Victoria está viajando, foi para Calibri. Garanto que ela não nos perturbará por um bom tempo. – ele sorriu contra meus lábios. – E... Esse bebê é apenas o primeiro de muitos.
Meu sorriso era enorme e eu não cabia em mim de felicidade. Deus! Como eu poderia sentir tantas emoções ao mesmo tempo, uma hora estava amedrontada, na outra estava furiosa, na seguinte eu não conseguia parar de chorar para depois estar resplandecente de tanta felicidade. Como eu poderia explicar algo como aquilo?
Mais uma vez, algo se mexeu dentro de mim, fazendo-me lembrar de quando eu perguntara à como eram bebês meio alienígenas e meio terráqueos e ela não soubera me responder. Bem, seria a primeira vez que eu saberia mais que sobre Biologia.
- Muitos? – perguntei boba.
- Muitos, muitos bebês de olhos castanhos e com esse seu rosto perfeito correndo pela casa com pincéis na mão e sujos de tinta, enquanto você corre atrás deles, brincando. Acho que se felicidade tivesse uma definição, seria exatamente isso.
Meus olhos se fixaram nos olhos de enquanto eu imaginava vários meninos e meninas de olhos cor de chocolate, com aquele ar calmo de e com um talento nato para o desenho.
Eu não poderia achar felicidade maior do que ter vários filhos de . Nem imaginar Ann fazendo planos de mandar eu e minha “ninhada”, como eu tinha certeza de que ela chamaria meus filhos, de volta para a Terra, era capaz de me fazer ficar triste.
Mas ainda havia um problema. Eu poderia não estar grávida. Não era certeza. Poderia ser apenas gases, poderiam ser vários motivos. Quem sabe, eu estivesse tão obcecada em não estar grávida que estivesse tendo uma gravidez psicológica.
- Eu não estou grávida, .
se afastou de mim de uma vez e deu um chute potente na porta da cozinha, visivelmente furioso.
- Vá dormir, . Está tarde e com certeza você está com sono.
- Não, , eu...
- Vá dormir. Amanhã falamos sobre isso e sobre o que mais você quiser. – ele estava de costas para mim e eu tentei me aproximar, mas se afastou. – Você tira o meu controle com essa sua teimosia.
- Isso estava no pacote quando você me conheceu, .
- Eu sei, e por isso te amei ainda mais. – eu sorri ainda encarando suas costas. – Mas não consigo lidar com você querendo fazer de tudo para ignorar o fato de que está esperando um filho meu. Eu sei que ter um bebê de um alienígena não é o sonho de toda garota da Terra, mas...
Virei de frente para mim, com firmeza, perguntando o que ele estava falando. Era mais que óbvio que eu queria um filho dele. Pouco me importava se ele era um alien ou um siri cascudo, era o homem da minha vida e era ao lado dele que eu queria construir uma família e ser feliz para sempre.
Olhei mais uma vez naquelas profundezas cor de chocolate e vi lágrimas que eu não estava esperando. Abracei-me a ele, enquanto sentia suas mãos irem até minha barriga, tocando-a numa tentativa desesperada de me fazer acreditar que havia algo ali.
- Amanhã. – ele disse, segurando minhas mãos. – Vamos ao hospital, antes de eu ir para a BEI e faremos todos os exames. Vou te provar que eu estou certo.
Coloquei minhas duas mãos na barriga crescida e encarei com meu olhar superior que dizia, sem palavras, que eu tinha certeza de que estava certa.
E, pela primeira vez, eu tive que engolir todas as minhas palavras e certezas. Não podendo deixar de imaginar que se estivesse ali naquele momento, com certeza ela estaria dizendo um “Eu te avisei”, que ela sempre quisera falar.

Dez

Outra coisa que minha mãe também costumava dizer bastante era que, quando você tinha um grande problema, quanto mais você tentava tirá-lo da cabeça, mais coisas apareciam para te lembrar dele.
E, mais uma vez, ela provava que estava certa.
Eu fora dormir abraçadinha com , distraindo ele a todo momento de toda essa história de gravidez e, como ele não queria falar de e do casamento, assunto pelo qual eu estava me roendo para saber novidades, tive de distrair falando sobre a minha infância na Terra e escutando vários pedaços hilários de suas brincadeiras com quando eram crianças, e que terminavam sempre em colocar gelo seco no cabelo de alguma das companheiras de um dos dois. Não tinha nem como negar que eu rira muito quando imaginava Victoria, já bem enjoada desde pequena, com o cabelo todo desgrenhado de tanto gelo seco e correndo atrás dos meninos.
Crianças eram crianças em qualquer lugar.
E, quando finalmente dormi entre os braços de , toda a nossa conversa se converteu em um sonho bonito, onde estávamos sentados em uma escadaria bem parecida com a das casas de Greenwich Village, brincando com uma pequena menina, que insistia em correr até o outro lado da rua deserta e voltar pegando folhas secas de árvore, deixando o seu cachecol e seus cabelos escuros esvoaçarem enquanto corria. estava de olho nela, preocupado em prestar atenção a qualquer ameaça de carro.
De repente, a garotinha risonha correu para , dizendo algo em seu ouvido, ao que sorriu, a criança se jogou em meu colo, olhando no fundo de meus olhos enquanto dizia que estava com fome em nells.
Os olhos da menina eram perfeitamente cor de chocolate e seus cabelos soltos e castanho escuro contra a minha mão, não me deixaram dúvida de quem era o pai daquela garotinha. Mas seu nariz fino e seu sorriso eram tão parecidos com os que eu via no espelho, que não tive como ter dúvidas a respeito da mãe da criança também.
Eu toquei o rosto dela e a escutei dizer que o papai estava com fome também. Eu dei uma olhada para , que levantou as mãos, rendendo-se.
E antes que eu pudesse abraçar a minha pequena filha com mais força, fui sacudida levemente por , que me fez acordar um pouco assustada.
Antes que eu pudesse voltar a respirar normalmente, beijou minha testa e saiu na direção do banheiro, deixando-me sentada, sozinha, no meio daquela cama enorme, com uma mão na barriga inchada, de tanto comer errado, eu tinha certeza, e com a respiração acelerada.
Sonhos não eram sinais. Aquilo era só uma manifestação mental porque eu havia pensado muito em crianças o dia inteiro e ainda conversara com sobre infância antes de cair no sono. Era isso. Apenas isso.
- ... – colocou a cabeça com o rosto cheio de espuma de barba pela fresta da porta do banheiro. – Se arrume, temos que ir ao hospital.
não me deu tempo para reclamar, fechando a porta em seguida, nem me deixando usar todo o meu poder de convencimento que geralmente convencia muito facilmente.
Eu não queria ir a hospital alienígena nenhum. Eu sabia o que estava acontecendo comigo. E não era nada demais. No máximo, uma gravidez psicológica. Eu havia tido várias aulas de Psicologia na faculdade e poderia jurar que todos os meus problemas não eram físicos, eram mentais.
Bem, o único problema físico que eu tinha, no momento, media 1,60 e pesava 70 quilos, atendendo pelo nome de Ann Schnaker , já que pela graça do senhor Jesus Cristo, haviam conseguido uma viagem de reconhecimento para Victoria em sabe-se lá que planeta, que na galáxia onde estávamos tinham nomes mais e mais estranhos. E olha que achava Júpiter um nome estranho para planeta.
Na verdade, para , qualquer coisa relacionada à estrelas era estranho e ela não queria saber a mínima, talvez tivesse a ver com o medo, que ela escondia a todo o tempo, de ETs. Quem diria? Ela estava justamente apaixonada por um. E pior, era mrakni de um ET lindo e sensual.
Que não me ouvisse pensando aquilo.
Dei um pulo, saindo da cama, e bati na porta do banheiro, chamando por .
- Fale agora. O que exatamente aconteceu no castelo e como o pediu a Allie em casamento?
- Não estou com muita vontade de falar nesse assunto. – ele reclamou com a voz abafada pela porta fechada.
- Nem eu estou com a mínima vontade de ir a esse hospital e ver você passar de bobo por descobrir no meio de toda aquela gente que eu não estou grávida.
A porta se abriu de repente e eu, que estava precariamente escorada no batente, quase caí no carpete cinza escuro.
- Então, vamos fazer um trato. – disse ameaçador, com aquele jeito determinado recém descoberto que ainda fazia misérias do meu autocontrole. – Eu te conto tudo sobre o casamento no caminho para o hospital. Se você não for... – ele abaixou-se até seus olhos ficarem na altura do meu e sorriu contra meus lábios, de uma forma que bem sabia que me convencia a fazer o que ele quisesse. – Bem, se você não for, vai ficar sem saber o que aconteceu.
Era vilania brincar com a minha curiosidade daquele jeito. Eu precisava saber tudo o que tinha acontecido se quisesse realmente armar um bom plano para fazer com que caísse na real. E eu esperava que no fim desse plano, ele fosse buscar . Ou eu com certeza teria de tomar medidas drásticas.
- Como vai ser, ? Você vai comigo e sabe de tudo, ou fica em casa?
- Você não tem vergonha de ser tão cruel, ? – eu perguntei com um biquinho que já dizia a ele que eu tinha aceitado todos os seus termos, mas estava fazendo charme para conseguir algum bônus para mim.
- Nenhuma. Mas, acho que você está um pouco suja, Srta. , por que não vem tomar banho comigo?
Eu me virei de costas para ele, brincando, e disse que não tomaria banho com um cara malvado como ele, e foi apenas uma questão de tempo até o corpo de se moldar ao meu, por trás, e ele sussurrar em minha orelha, mordendo-a levemente em uma caricia atormentadora:
- Prometo ser bonzinho com você.
Deixei, então, que ele me carregasse para dentro do banheiro e me amasse o quanto ele desejasse.
Uma hora depois, eu estava parada na porta, na frente de , que aguardava pacientemente a minha saída, que parecia não acontecer nunca. Eu estava nervosa e acreditava que tinha razões para aquilo. Eu estava a caminho de um hospital alienígena, que nunca, provavelmente, vira uma terráquea e que estavam prestes a verificar se eu estava grávida ou não.
A primeira vez que eu tinha ido a um ginecologista, havia praticamente arrastado comigo, e eu já tinha 20 anos!
E será que Airamidniv tinha ginecologistas?
Meu nervosismo estava estampado em meu rosto e começou a preocupar , que colocou uma mão protetoramente em minha cintura e perguntou-me se eu estava bem. Não. A última coisa que eu estava era bem.
Já havia tido mais um daqueles enjôos matinais e minhas costas doíam como o inferno. E, além do mais, estava terrivelmente aterrorizada com a possibilidade de estar realmente grávida.
Aterrorizada e ao mesmo tempo encantada.
Eu não estava entendendo as minhas emoções e muito menos o que estava acontecendo comigo, mas se eu ainda me conhecia, sabia que não era covarde. E se eu havia dito a que iria com ele a esse tal hospital fazer todos os exames, então era isso o que eu faria. Eu falava, eu cumpria. Simples.
Mas assustador.
A mão de , que estava em minha cintura, deslizou para a minha mão direita e meus olhos ergueram-se para os dele, que estavam confiantes, e abaixei a cabeça, ouvindo a voz dele no fundo de minha mente, dizendo-me por telepatia que ele estaria sempre comigo. Não importava como ou onde.
Foi o que bastou para eu atravessar aquele pórtico e começarmos a rumar para o hospital, com ambas as mãos frias e um nervosismo típico de pais de primeira viagem.
Se fossemos realmente pais.
- E então? Como o pediu a Allie em casamento?
A pergunta não era tanto para quebrar o gelo, que estava quase nos afundando, mas sim para saciar a minha curiosidade, que era mais um dos sentimentos conflitantes que estavam dentro de mim naquele momento. As ruas estavam vazias por ainda ser cedo e agradeci por isso. Realmente não suportaria lidar com o olhar das pessoas hostis daquele planeta.
- Eu tentei fazê-lo mudar de idéia por todo o caminho. Argumentei, briguei, expliquei, mas nada parecia mudar a cabeça de , aquele teimoso.
- Agora sabemos o porquê de ele e serem mraknis. – eu ri e deixei que ele continuasse.
- Allie estava à nossa espera e suava de nervosismo. Era preciso só ler sua mente para saber que quem passava em sua cabeça naquele momento era e não Allie. Depois de muito tentar, decidi que deveria ficar calado e assisti enquanto ele se ajoelhava no chão, de repente, assustando Allie e a pedindo em casamento.
- E o que ela disse? – minha curiosidade estava impossível.
- Ela ajoelhou-se ao lado dele e o beijou, sussurrando milhares de vezes que se casaria. Você precisava ver a alegria no rosto dela, era como se ela se sentisse sortuda por saber que mesmo amando o tanto que ama, ele ainda casaria com ela. Ela, não a terráquea. Dava para ler isso no rosto dela.
Eu suspirei enquanto atravessávamos uma espécie de avenida que já começava a ver o início do movimento.
- Ela sabe, não sabe? – perguntei. – Allie sabe que é a mrakni dele, não é?
- E quem não sabe? É tão óbvio! Basta ver os olhos de para saber. E quando ele está distraído, a mente dele repassa todos os momentos que eles dividiram. É quase como se ele gostasse de se torturar por ter concordado em deixá-la.
Eu abaixei a cabeça, sentindo a dor daquele amor problemático dentro de mim e percebi que estávamos bem próximos ao hospital. Na verdade, naquele planeta, tudo era próximo. Claro! Até o Brooklyn era maior que aquilo ali.
- Quanto tempo temos até o casamento?
- Duas semanas. disse a Allie que queria se casar o mais rápido possível e ela já tinha a maioria das coisas preparadas, afinal, ela estava esperando apenas a chegada da estação do frio para se casar.
- Duas semanas... – repeti, pensando em algum plano bom o suficiente para acabar com o casamento.
- Vamos conseguir, . – me beijou exatamente em frente às portas automáticas do hospital, acalmando-me infinitamente. Tanto a respeito do plano, quanto da minha possível gravidez.
Eu afirmei com a cabeça e, com a mão completamente suada agarrada a dele, entramos no hospital, parando na recepção para o registro.
A estrutura e a burocracia era bem parecida com os hospitais da Terra, com exceção da irritação acerca de planos de saúde, que não existia em Airamidniv, tudo era em cooperação, então, todos usufruíam de boa escola, boa educação e boa alimentação.
- Bem, suponho que você seja .
Um homem alto de cabelos grisalhos, mas bondosos olhos cor de chocolate, veio me receber e eu nem o havia visto se aproximar de tão ocupada que eu estava, observando cada detalhe da decoração monocromática em branco e cinza claríssimo do hospital. Minimalista era pouco para descrever o hospital.
Mas a tecnologia dos aparelhos e máquinas realmente me deixou impressionada. Os aparelhos reluziam e davam claramente a impressão de que eram complicados de se manejar.
ainda segurava a minha mão enquanto o médico nos conduzia pelos corredores brancos até a sua sala. Meu coração com certeza podia ser ouvido de Marte e eu previa que em poucos minutos não conseguiria respirar mais.
- Acho que... – comecei e tive que limpar a garganta para continuar, já que ela estava seca de tanto nervosismo. – Acho que devo avisar que eu sou terráquea. Os métodos que o senhor... é, Hum... Vai usar... Podem... Variar?
O médico sorriu para mim, compreendendo todo o meu início de faniquito, segurou a mão que não estava agarrado e olhou no fundo de meus olhos com a sua calma profusão de chocolate.
- Eu entendo de biologia terráquea, se essa é a sua preocupação. E todos nós em Airamidniv já a conhecemos, senhorita . É raro a aparição de uma mrakni, mesmo em outros planetas, fico muito feliz em ver um casal de mrakni pessoalmente. Em especial, quando o noivo é o nosso , de quem cuido desde que usava fraldas.
sorriu para o médico, que soltou minha mão quando percebeu que eu estava mais calma em saber que ele conhecia a minha biologia e ainda era simpático à minha causa de mrakni, que ultimamente parecia surtir efeitos tão hostis na população nells. Além do mais, alguém que conhecia desde criança, não faria mal algum a mim, sabendo o que um mrakni é capaz de fazer para defender a sua metade de qualquer mal.
O médico abriu a porta da sala e nos deixou entrar, pedindo que nos sentássemos, enquanto se acomodava atrás da grande mesa repleta de papéis. Não pude conter meus olhos que circularam a sala em menos de um segundo, reparando em tudo à minha volta.
A sala era grande, com um aparelho médio em um canto, a maca em outro. Tudo branco e completamente minimalista. Do outro lado da sala, separada pela mesa do doutor, que ainda não se apresentara, estava mais dois equipamentos realmente grandes, que me intimidaram um pouco e me fizeram voltar a minha atenção para o doutor.
-Você... Ainda não... Se apresentou. – disse engasgada.
- Ah, me perdoe. Meu nome é Luke Hosterfklink - Ótimo, mais um sobrenome que eu nunca saberia soletrar. - Eu sou o médico geral desse hospital e sou formado em várias ciências. – ele fez um gesto para a parede atrás dele, que parecia ter todos os diplomas do mundo. Vários deles estavam emoldurados um atrás do outro, fazendo-me ficar um pouco desconfortável com tanta inteligência.
Ele continuou falando coisas que pareceram sem sentido para mim e, de repente, anunciou que começaria a consulta.
Se eu havia me acalmado, agora todo o meu nervosismo havia voltado e com força total. Minhas pernas tremiam enquanto eu me levantava e seguia Dr. Luke para o maior dos aparelhos da sala. O que me fez realmente tremer na base.
ainda não tinha soltado a minha mão e apertou ela com um pouco mais de força, sentindo o meu nervosismo pelo tanto que minha mão estava suada.
- Pode se posicionar em frente a este aparelho e fique olhando para esta tela. Isso é como um dos aparelhos de ultrassom da Terra, por isso não fique com medo, tudo bem?
Eu assenti, sentindo que minha voz não estava forte o suficiente para falar qualquer coisa, totalmente apavorada com o que poderia acontecer nos próximos dez minutos.
Dr. Luke me empurrou um pouco mais para frente até minha barriga, mesmo vestida, tocar em uma espécie de chapa de LCD, que fez cócegas em mim.
Meus olhos se fixaram na tela que estava negra, até o doutor ligar o aparelho. Eu fechei meus olhos imediatamente, ainda apertando a mão de com força, completamente amedrontada. Eu não queria abrir os olhos e ver que eu estava realmente certa e não existia bebê nenhum. Eu era forte, mas não conseguiria lidar com a decepção nos olhos de ao saber que ele desejara tanto que chegara a acreditar que realmente eu estivesse grávida.
A mão dele soltou a minha e eu imediatamente ergui os olhos para a tela, procurando ver o que assustara a ponto de ele soltar a minha mão, e vi algo vermelho se mexer no vídeo, fazendo o meu coração bater cada vez mais apressado. Havia realmente uma vida dentro de mim.
- Querem ouvir?
Eu assenti silenciosamente, o médico aumentou o som aos poucos e percebi que queria tanto quanto eu ouvir o que o nosso filho fazia dentro de minha barriga.
Uma batida. Duas batidas. Três batidas.
Meu Deus! Era um coração, batendo ao mesmo ritmo que o meu, percebi enquanto lágrimas caíam de meus olhos, cada vez mais rápido.
- ... Você está realmente grávida.
Virei os olhos para e vi o seu rosto banhado em lágrimas afoitas, emocionado por ver que eu estava grávida, esperando um filho dele. Uma criança que teria os olhos dele e aqueles mesmos cabelos escuros que eu tanto amava e com aquele mesmo sorriso.
Como a menininha que eu vira em meus sonhos.
- Qual é o sexo, doutor? – eu e perguntamos ao mesmo tempo, emocionados e ansiosos.
- Ainda não posso ver. Mas, como você virá fazer as suas consultas quinzenalmente, provavelmente já poderemos ver isso no próximo mês.
Fechei os olhos e saí de perto da máquina, como o doutor me pedira para fazer, e voltando a me sentar nas cadeiras em frente a sua mesa, junto com , enquanto o médico terminava de desligar a máquina.
- Bem, . – disse o Luke, colocando a mão dentro da gaveta. – Vou te dar essas vitaminas para ajudar na sua alimentação e já marcarei a sua consulta para daqui duas semanas, tudo bem?
Eu estava atônita. Eu estava grávida. Realmente. Eu sabia desde o início, mas me enganara.
- Eu estou grávida. – eu sussurrei sorrindo, emocionada para mim mesma.
- Sim, está. – o médico colocou todos os potes redondos de comprimidos em minhas mãos enquanto assistia completamente emocionado.
Foi tudo completamente automático e, quando me vi, já estava do lado de fora do hospital com a mão de na minha e a minha mão restante pressionada contra a barriga, cumprimentando a pequena vida que crescia dentro de mim quando eu nem imaginava que ela fazia isso.
- Eu poderia muito bem falar que eu estava certo. – disse, enquanto nos sentávamos em um dos brancos em frente ao hospital. – Mas estou tão feliz, que não consigo nem achar palavras.
Os lábios de se enroscaram nos meus e eu o beijei com toda a minha paixão, desejando mostrar naquele beijo o quanto eu estava contente de ter um filho dele.
Afastamo-nos, sorrindo um para o outro, e deixei que ele levasse uma de suas mãos para onde a minha estava, acariciando de leve a minha barriga, sem parar de olhar em meus olhos por um só instante.
- Mra T Nhé, .
- Mra T Nhé hut frik.
- O que significa isso? – perguntei, abraçando-me mais ainda a ele.
- Eu amo você, mãe do meu filho.
Antes que as primeiras lágrimas saíssem dos meus olhos, ainda espantados por tantas revelações e emoções sentidas, uma voz que parecia vinda do além atrapalhou todo o nosso momento.
E eu nem precisei me virar para olhar para saber quem estava se aproximando por trás de nós.
A jararaca malvada dos infernos nells.
Mais conhecida como Ann, minha sogra, e que não parecia nem um pouco feliz.

Onze

Imediatamente, após ouvir aquela voz das profundezas do inferno, coloquei minhas mãos sobre o meu ventre, esperando que daquela forma eu conseguisse impedir meu bebê de ouvir a voz daquela malvada.
E nesse mesmo instante percebi que, por pior que isso pudesse ser, ela era a avó daquela criança. Meus olhos se voltaram para , que já havia se levantado e olhava por cima de mim para a sua mãe, que estava atrás de nós.
Respirei fundo e estendi uma das mãos para , que a segurou, e me ergui, também, virando-me para a direção da velha senhora.
Quem sabe se eu a tratasse com respeito e educação, ela não se tornasse mais boazinha. Eu poderia tentar fazer isso pelo bem do meu filho. E, por isso, sorri para ela e para as várias senhoras que a acompanhavam quase numa daquelas reuniões das senhoras do Upper East Side.
- Eu te dei uma semana para se livrar desta porcaria terrestre e você me sai com ela pelas ruas de Airamidniv como se ela fosse uma coisa muito boa de se expor? – a voz de Ann era sarcástica e completamente maldosa, o que me fez reconsiderar toda a minha idéia de tratá-la bem. Aquela sucuri do mato sem vergonha não merecia um tratamento digno de gente, ela merecia era ser lanhada e afundada em vinagre quente para aprender.
Quando percebi as coisas horríveis que estava pensando, repreendi-me automaticamente e passei a pensar em coisas boas para que o meu bebê não aprendesse aquilo. Filho de , com certeza já deveria estar lendo os meus pensamentos, por isso pensei no quanto o amava e o quanto estava feliz por vê-lo crescer dentro de mim, para que fosse isso o que ele visse quando lesse a minha mente.
- Mãe, já conversamos sobre isso.
- Dorpinom. – uma das velhas disse. – Com certeza é isso, dá para ver pelo brilho nos olhos dele que ele não está normal.
- A senhora já tem muitos problemas para cuidar da vida dos outros, não, senhora Jonhrisdki?
Tentei esconder um sorrisinho de escárnio, por ver a bela resposta de e a expressão incrédula da mulher ao escutar uma resposta tão sarcástica de um garoto que ela provavelmente vira crescer.
- Essa não foi a educação que eu te dei, .
Ao contrário do que aconteceria antes, não abaixou a cabeça, e continuou encarando a mãe, esperando que ela terminasse de dizer tudo o que ela tinha a dizer contra ele.
- Eu te dei uma semana, mas parece que você não vai me obedecer.
- Eu não vou deixar , mãe. Eu encontrei minha mrakni depois de passar tanto tempo procurando...
- Procurando porque foi idiota, você tinha uma das melhores mulheres do planeta como companheira e ficou caçando uma selvagem da Terra que não é nada.
Antes que eu pudesse resmungar algo bem ofensivo à Ann, algo que fizesse jus à minha nova fama de selvagem, algo em minha barriga deu um forte pinote que era quase impossível para um bebê de apenas três meses, ou pouco menos.
- Por favor, , não vamos discutir isso em público e na presença das senhoras. – eu disse de cabeça baixa, segurando a mão de e tentando não deixar que ele percebesse que minha testa estava gotejando suor pelo esforço que eu fazia para não transparecer a dor que estava passando.
- Por que não discutir em público se toda Airamidniv já sabe que você é uma terráquea suja, que fez alguma coisa na mente do meu filho para que ele não visse a porcaria que você é?
Minha barriga pulsou mais uma vez e doeu mais forte ainda, chegando a parecer que estavam arrancando bolas de golfe de dentro de minha barriga. Não, bolas de golfe eram pequenas demais em comparação com a dor que estava me assolando. Bolas de basquete e feitas de ferro fundido seriam perfeitas para dar uma leve noção do que eu estava passando.
- Eu não sou suja e muito menos fiz qualquer coisa para o seu filho ficar comigo, na verdade, eu nem queria vir. – eu disse, contendo minhas lágrimas, agora que cairiam tanto pela dor quanto pela raiva e humilhação.
Eu nunca fora tão humilhada na vida e pensara que já havia sido, quando voltara para casa pela primeira vez, desde que saíra de lá para Nova York, e escutara minha mãe falando para todos na mesa de jantar que era compartilhada naquela noite com os Munnighans, que estava completamente envergonhada por eu estar morando em Nova York e praticamente precisando vender o corpo nas esquinas do Brooklyn, como ela já tinha avisado.
Eu chorara a noite inteira, abraçada a , que tentava me acalmar. Só que agora eu não tinha no colo de quem chorar aquela humilhação e, para piorar, a minha barriga parecia não parar de doer por um só instante.
- A senhora não tem o menor direito de dizer essas coisas de mim. Não me aceitar porque eu sou a mulher que o seu filho ama e... – respirei fundo, tentando regular minha voz e conter os espasmos de dor. – Mesmo que o fato de ele me amar acabe com todos os planos que você fez para o seu filho, é compreensível, mas você me ofender e me acusar de coisas que eu nunca fiz e nem sou é horrível e deselegante.
- E quem pediu sua opinião? – uma das senhoras disse afetada.
- E quem pediu a da senhora? É a mãe de ? É minha mãe? É da família de algum dos envolvidos? Não? Então, a senhora não tem nem o direito de abrir essa bocarra.
A senhora olhou com espantados olhos cor de chocolate e eu não me dei ao direito de sentir pena dela e me odiar por estar sendo sem educação com os mais velhos. Que meu bebê não aprendesse aquilo.
Mas acreditava que, no momento, ele estava mais preocupado em me fazer sentir uma dor dos infernos do que aprender qualquer mau comportamento que eu pudesse ensinar.
Levei uma mão a testa, secando as gotas de suor e Ann deu um passo a frente, venenosa.
- Como ousa tratar assim uma das senhoras mais importantes da sociedade nells?
Pensei até que aquela maldita iria me bater, mas colocou-me para trás dele e tocou de leve em minha barriga, apenas para me deixar saber que ele estava protegendo não apenas a mim, mas a nosso pequeno bebê também.
- Mãe, você não tem nem o direito de perguntar como ela ousa, já que foi a senhora quem começou.
Ann ergueu os braços e virou-se teatralmente para as outras senhoras que a assistiam embevecidas a performance de mãe injustiçada que aquela velha fazia.
- Vêem o que esse filho ingrato está fazendo? Defendendo a mulher que foi o pivô de toda a nossa briga e se colocando contra mim. Acham isso certo? Acham isso decente, justo, com uma mãe como eu, que sempre prezei apenas o bem do meu filho? Acham?
- Mãe, você me criou perfeitamente bem, não tenho nenhuma reclamação acerca disso. – disse , completamente chateado ao ouvir as coisas que a mãe dizia. E eu me lembrei ainda mais daquela primeira vez que eu voltara para casa. – Mas me tornou um fraco, que abaixava a cabeça para tudo e não tinha sequer opinião própria. Uma marionete que obedecia apenas o que você queria e, enquanto eu fui isso, você aproveitou e se orgulhou do bom trabalho que fez. E sabe o que eu acho, mamãe? Que você deveria se orgulhar agora quando eu estou finalmente criando uma família, fazendo as coisas por minha própria conta e sendo feliz. Que mãe, senhoras. – avançou, indo para perto da mãe e das outras senhoras e me deixando ali, imóvel e sentindo os espasmos de dor ficarem cada vez mais ferozes e praticamente me obrigarem a me curvar para tentar parar a dor. Mas eu não fiz aquilo, continuando ereta e firme, escutando tudo o que eles tinham a dizer. – Não ficaria feliz de o filho encontrar a coisa mais rara do nosso mundo? Uma mrakni. Que mãe não se orgulharia de o filho estar fazendo de tudo para ser feliz e construir a sua própria família? A minha, senhoras. A minha mãe repudia a minha própria felicidade e, ao invés de ajudar a mulher da minha vida a se sentir a vontade num planeta desconhecido que a assustava e que ela nunca tinha visto na vida, faz de tudo para ela se sentir mais e mais desconfortável.
As mulheres se viraram para Ann, fazendo um gesto desaprovador e uma delas ainda arriscou um “Que feio, Ann”. E, se eu não estivesse tão ruim, eu provavelmente teria rido da cara dela.
- Por favor, ... – eu implorei, sentindo que a dor não ia me deixar ficar ali por mais tempo.
Graças aos céus que estávamos em frente ao hospital e eu teria atendimento imediato, ou então eu não tinha idéia do que poderia acontecer no período até chegarmos ao hospital. Eu estava preocupada de alguma coisa estar acontecendo ao meu pobre bebê. E tudo graças ao nervosismo que eu estava passando com a jararaca da minha sogra.
Eu não conseguiria, nunca, descrever Ann com mais nenhuma expressão a não ser Pé No Saco. Algo completamente dolorido, incômodo e completamente indesejável. Mas no caso de Ann, era um Pé No Saco Estelar, era muito maior e muito pior.
- Ah, ela vai fingir que está passando mal. Eu já devia ter esperado por isso. Uma ceninha básica.
Ann era realmente indesejável. Por Deus!
- O que foi, ? – já estava ao meu lado, segurando a minha mão e com a outra em minha barriga e encarou meus olhos completamente assustado ao sentir a pressão contra a sua mão. – Pelas estrelas frias, há quanto tempo você está sentindo isso?
- Há um certo tempo... – eu disse, temerosa pela raiva que eu vi em seus olhos quando ele compreendeu que eu estava sentindo aquelas dores desde que Ann começara o seu ataque.
- Vamos entrar, você precisa ver o Dr. Luke urgentemente.
- Quem ouve pensa que ela está morrendo... – Ann, sua maldita, será que não podia ficar calada e guardar o seu veneno nem por um segundo? Que ódio!
- Ela está grávida, mãe!
A voz de saíra mais alta e mais irada do que pretendia e do que esperávamos ouvir. Eu olhara para frente, ainda gemendo, mas ávida por saber o que a informação bombástica iria encadear.
Sim, eu estava passando mal, mas ainda assim a minha curiosidade não me abandonara.
- Ela está...
Fechei os olhos, sentindo todos os sentimentos juntos em meu peito. Fúria, frustração, dor, pena de por estar tendo que lidar com todos aqueles problemas por minha causa, mais dor e vontade de matar alguém com as unhas.
- Grávida, esperando um filho meu, o filho que eu sempre quis ter e com a mulher que estava destinada para ser minha, não pela vontade de pais, pela vontade do naul ou por qualquer outra coisa. é minha pela vontade das estrelas.
Ann estava praticamente se arrastando em minha direção, com os olhos arregalados, notavelmente assustada, e eu não tive forças para dar o passo assustado para o lado que eu queria dar.
De repente, todas as respirações ficaram suspensas no exato momento em que a mão de Ann se colocou estendida na minha barriga alguns centímetros abaixo da de .
A minha própria respiração ficou suspensa enquanto sentia a palma gelada de Ann mesmo através da minha camiseta cinza.
O medo gelava as minhas veias e não vi solução alguma, senão fechar os olhos e esperar. Com o coração batendo tão forte, que era bem capaz de todas aquelas senhoras escutarem.
- Um Schnakerjud? – ela perguntou sem tirar a mão da minha barriga e, nem após ouvir a sua voz nitidamente fraca, não tive coragem de abrir os olhos.
- Sim, aí dentro há seu neto, mãe.
Pronto! Se eu já estava ferrada apenas por ser a futura esposa do seu filho, ser mãe do neto dela devia estar no topo da lista dela de fatos para me odiar ainda mais.
- Meu neto...
A mão dela fez um carinho leve em minha barriga e eu senti ainda mais dor, quase a ponto de me jogar no chão para ver se daquela forma a dor pareceria menos intensa. Não consegui conter mais e me curvei levemente em direção ao chão e tive que abrir os olhos quando me puxou mais contra si e me pegou no colo, beijando minha face suada e contorcida em uma careta de dor, e virei meu olhar para Ann, que estava de boca aberta com a mão parada, estendida no ar e completamente espantada.
- Você vai ser avó de um bebê meio nells meio terráqueo. – uma das senhoras disse, como se fosse muito difícil para Ann fazer as ligações por si só.
- Sim, eu irei. – ela disse ainda absorta, como se estivesse em um outro mundo. – Leve-a para dentro, , ela parece estar morrendo de dor. Leve-a!
Eu poderia garantir que não era a única que estava de boca aberta naquele momento. e todas as senhoras exibiam a mesma expressão nos olhos, completamente incrédulas.
Mas, antes que eu pudesse, mais uma vez, dizer alguma coisa, me levou para dentro do hospital, sem se preocupar em falar com a recepcionista nem nada do tipo, avançando por vários corredores e abrindo a porta da sala do Dr. Luke com impetuosidade.
- Por Deus, o que houve? – ele perguntou enquanto auxiliava a me colocar deitada na maca e já lavava as mãos para começar a me examinar. não perdeu tempo, segurou minha mão com firmeza e secou o suor do meu rosto com uma toalha de papel, olhando em meus olhos, preocupado e tentando fazer contato com a criança dentro de minha barriga, como parecia fazer há um bom tempo, mesmo antes de eu saber que ela estava ali.
- Minha mãe discutiu com ela na frente do hospital. Disse coisas horríveis para e acho que ela ficou nervosa demais.
explicava tudo muito afoito e seguia o médico com o olhar, vendo-o colocar uma luva, tocar minha barriga com delicadeza, fazendo uma espécie de massagem em vários pontos e me fazendo relaxar, mesmo ainda sentindo aquela dor lancinante.
Aos poucos, os meus olhos foram se fechando sozinhos e ainda segurava a minha mão, com menos firmeza agora, e sussurrava com o médico numa conversa velada que não chegava aos meus ouvidos, para não me preocupar, como sempre.
Os lábios de foram até a minha testa, dando um beijo leve e sussurrando que me amava com a sua voz calma e suave, visivelmente menos preocupado. E como a dor estava se abrandando aos poucos, permiti-me fechar os olhos para descansar.
- Mra T Nhé.
Eu não tinha com o que me preocupar, estava ao meu lado e então ele não deixaria nada de mal acontecer comigo. Eu confiava nele e se ele estivesse comigo, tudo estaria bem.
A não ser que a mãe dele estivesse por perto.
Com os olhos fechados e naquele estado entre o sono e a realidade, eu não teria nunca como saber que a minha sogra estava em um dos cantos da sala, com os olhos cheios de lágrimas, observando todo o procedimento médico de Dr. Luke sem pronunciar uma única palavra. Ela estava guardando todas para o momento em que eu acordasse. Cada uma delas.
E quando acordei, ela realmente estava ali, ao meu lado, e pronta para dizer todas as palavras que guardara.

Doze

Meu corpo estava completamente relaxado. Mais relaxado ainda do que quando eu e pagamos os olhos da cara para fazermos uma tal de massagem de lama em um dos estúdios de beleza mais caros de Nova York.
Lembro que meu corpo ficara completamente relaxado e eu achara que nunca mais poderia sentir uma sensação como aquela. Mas eu sentia agora. Meu corpo estava leve e a dor, que quase parecera me matar algumas horas antes, parecia nunca ter acontecido. Abri os olhos aos poucos bem devagar, estranhando o fato de não estar mais segurando minha mão e a primeira coisa que focalizei foi o teto branco da sala de Dr. Luke.
De repente, minhas duas mãos se dirigiram para a minha barriga, tocando-a e procurando saber se estava tudo bem com o meu bebê, que imediatamente se movimentou dentro de mim, parecendo contente por eu ter acordado, e fez cócegas em minhas mãos, fazendo-me sorrir e me virar para onde estava antes de eu dormir.
E qual não foi a minha surpresa quando, ao invés de ver , vi a velha assombrosa, que também era conhecida como minha sogra? Quase caí da cama ao me sentar de uma vez e Dr. Luke se aproximou, preocupado com a minha situação, mas apesar do susto, eu não havia sentido dor alguma.
- Tudo bem, ?
- Tudo. O que houve comigo antes? Parecia que eu iria morrer. – perguntei ao médico, praticamente ignorando Ann, que estava de cabeça baixa, ainda parada no mesmo lugar.
- O seu bebê é o mais forte que eu já vi em anos de medicina, . Ele sentiu o seu nervosismo, entendeu que você estava contendo tudo para não afetá-lo e decidiu expressar todo esse nervosismo por você, mas como ainda está dentro de si, isso trouxe uma dor imensa para você. – ele sorriu enquanto passava a mão sobre minha barriga e acreditei que isso já estava virando uma tradição das pessoas próximas a mim. – Mas está tudo bem com ele e precisei de apenas uma massagem e algumas palavras acalentadoras para acalmá-lo. Quando isso acontecer novamente, tudo o que precisa fazer é acalmar o seu bebê e a dor passará.
Sorri agradecida para o médico e o olhar dele se lançou disfarçadamente para Ann, como se ele me perguntasse sem usar palavras se eu desejava que ele a tirasse dali. Mas percebi que eu não queria.
Tínhamos muito a conversar e, talvez, ela tentasse me esganar, mas se aquela senhora tentasse algo contra mim, teria que esquecer a minha educação e descer a mão na cara dela. Minha mãe havia me educado bem, ensinando-me a sempre respeitar os mais velhos, mas Ryan havia me ensinado que, quando as pessoas me provocassem, eu deveria partir para a briga.
E eu havia aprendido muito bem ambas as lições.
Deixei que Ann pigarreasse alto, pensando em como iria começar aquela conversa. Eu também estava calada, por não saber o que dizer a ela. Seria muito começar com um “É o seguinte, sua velha maldita...” e, por isso mesmo, eu continuei em silêncio enquanto ela respirava fundo.
- Acredito que agora que está grávida, você vai me entender... – ela começou, olhando para a minha barriga, e eu imediatamente levei a mão para lá. – Você sabe que faria qualquer coisa no mundo por essa criança, se arriscaria ao extremo para que nada acontecesse com ela. E se você sequer pensasse que alguém poderia fazer mal a ela, faria o possível e o impossível para afastar essa pessoa de perto da sua criança.
Abaixei a cabeça, percebendo que eu faria exatamente isso. Se alguém, qualquer pessoa, colocasse em risco a segurança dela, eu seria capaz até de matar o infeliz. Aquela pequena vida, que se desenvolvia aos poucos dentro de mim, já se tornara a melhor coisa de minha vida e eu não poderia deixar nada estragar isso.
- Foi o que eu fiz. – Ann continuou, após ler os meus pensamentos, mais para saber se eu estava lidando bem com aquela conversa ou ainda estava querendo quebrar osso por osso dela por ser tão cruel comigo. – Eu protegi . Escutava histórias tão terríveis da Terra e, apesar de ter orgulho dele por ser um explorador da BEI, eu ficava com o coração na mão a cada exploração dele. Não sabia que perigos ele iria enfrentar e não poderia ir com ele para cuidar para que nada de mal acontecesse com ele.
- Mas já é um homem, Ann, você não poderá protegê-lo para sempre. – minha voz era calma e não transparecia em nada o nervosismo que estava dentro de mim.
- Eu sei que não.
Ann ficou de cabeça baixa por alguns instantes, ergueu sua mão em direção à minha barriga e deixou-a cair em seguida, quando notou o olhar duvidoso que eu dei na direção dela. Ann não era minha amiga. Ela fizera de tudo para acabar comigo e com a relação que eu tinha com o seu filho. E como eu poderia saber se aquilo não era uma outra técnica que ela estava usando para chegar ao seu objetivo final: me mandar de volta para a Terra e deixar o caminho livre para Victoria voltar para ele?
- Eu sabia que iria crescer, sabia que chegaria uma hora em que ele se cuidaria por si só, e escolhi uma mulher que eu tinha certeza de que cuidaria dele por mim, que o acompanhasse e acreditasse nele como eu acreditava e que o apoiasse como eu.
- Ele precisava de uma esposa, Ann, não de uma segunda mãe.
Eu tivera que responder aquilo. Fora mais forte que eu.
- Mas Victoria cuidaria dele, era da BEI também e iria com ele nas expedições e não deixaria que nada acontecesse com ele. Eu a conhecia há anos e sabia o quanto ela era bem educada e a família dela era de boa índole.
- Ah, claro! E eu era uma selvagem, vinda sabe-se lá de onde, que traria ainda mais perigos para perto de seu filho e você nem ao menos sabia o que minha família fazia. É, faz sentido você querer me deportar.
Céus! Eu estava ficando irônica como , justamente eu que sempre a repreendia por ser assim quando ficava nervosa, estava sendo sarcástica e irônica com a minha sogra. Não que ela não merecesse, claro.
- Você era uma terráquea! Já ouviu as histórias sobre o que vocês fazem com os extraterrestres? – ela perdeu a compostura. – Você chegou do nada e mudou , o deixou mais forte, mais seguro e mais corajoso, me mostrando que ele realmente é um homem e não precisava mais de mim. Como eu iria reverenciar você, quando tirou de mim a única razão de eu viver? Minha vida se tornou proteger de tudo e de todos e, mesmo sabendo que Victoria faria um bom trabalho com isso, eu não tiraria meus olhos dele nem por um segundo.
- Ann, você já parou para pensar que é para isso que criamos os nossos filhos? – ela ergueu o olhar brilhante para mim e estava claro que ela começaria a chorar em segundos. E, cara! Se ela chorasse, eu com certeza derrubaria três ou quatro lágrimas também. – Nós os criamos para que eles sejam boas pessoas, que sejam capazes de proteger as pessoas ao redor deles, para que se tornem pessoas fortes, corajosas, das quais podemos nos orgulhar. E o seu filho é isso. – meu coração bateu mais forte ao me lembrar de todas as coisas maravilhosas que era e, sob minha mão, o meu bebê se mexeu suavemente como que concordando com os meus pensamentos. Ele admirava seu pai e eu com certeza o criaria para que ele fosse alguém como , especial e incrível.
- Você...
- Eu achei seu filho caído ao lado de uma nave destruída, machucado e perdido. Eu cuidei dele, Ann. Enfrentei uma viagem longa e cheia de perigos, fui procurada pela polícia e nem por um instante passou pela minha cabeça deixar qualquer coisa atingi-lo. Eu saíra de meu lar para proteger até o fim do mundo e, realmente, vim até aqui para protegê-lo do fim do mundo. Ele havia achado sua mrakni e não iria mais se casar com a destinada dele, todos iriam se voltar contra ele e eu vim até aqui para que todos se virassem contra mim e o deixassem em paz.
- Mas eu...
- Eu ainda não acabei. – E Ann, que ainda tentava resmungar qualquer coisa, foi cortada por mim, que a fizera calar a boca e olhar para mim, esperando que eu terminasse. – Meus pais são pessoas incríveis que me deram educação o suficiente para suportar a senhora quando você praticamente pisava em cima das minhas costas, nunca falei mal da senhora para , mesmo merecendo que eu mostrasse para ele quem você realmente era e, por isso, me pergunto por que a senhora me odeia tanto.
- Porque você poderia tirar meu filho de mim! – ela gritou assustando-me e de repente paramos ambas, com as mãos nos peitos arfantes e respirando fundo para tentarmos recuperar o controle e manter as aparências calmas como se uma não afetasse a outra, quando sabíamos, agora, que uma afetava a outra, sim. – Você ensinou em três meses o que eu passei grande parte da minha vida para ensinar a . – ela abaixou a cabeça e respirou fundo mais uma vez. – Eu tive tanto medo de que você pudesse tirar de mim, você mostrou para ele que ele poderia ser independente, ter uma vida totalmente diferente da que eu mostrava que ele poderia ter. Uma vida mais feliz que a que eu parecia revelar para ele. Isso já era prova o suficiente para mim de que você poderia roubar o meu filho de mim.
- Eu nunca faria isso. – minha voz era baixa e assustada. Deus! Eu nunca pensara em nada disso. Eu pretendia apenas ficar com pra sempre, se para isso eu tivesse que agregar Ann e construir um quarto para ela, eu faria isso (Bem, eu pensava que uma casa de cachorro seria mais adequada para ela, mas um quarto mostraria mais generosidade da minha parte).
- Mas em minha cabeça era só o que você iria fazer.
- Esse “era” é um sinal de que você mudou de idéia?
O silêncio reinou na sala e até meu bebê ficou imóvel. Eu havia me escorado contra a parede, ainda sentada na maca, cruzando os braços como se tentasse mostrar o quando aquela conversa estava enfadonha para mim, quando na verdade eu estava morrendo de medo do rumo dela.
- Mudei. Há poucos minutos atrás. – ela sorriu quando lançou um olhar em direção à porta, perdida em pensamentos, e eu a encarei, esperando que ela continuasse. – O papel de qualquer mãe é tornar o seu filho em um homem. Honrado, de respeito, educado e que possa formar uma família a quem ele ensinará as mesmas coisas. – eu sorri, sem querer, pensando em e vendo que todas as características eram completamente perfeitas para ele. – E antes eu nunca acreditara que realmente se tornaria um desses homens, até ele anunciar que você está grávida. – abaixamos a cabeça ao mesmo tempo. – Os olhos dele brilhavam, ele parecia tão forte e capaz de fazer qualquer coisa para cuidar de você e de sua pequena criança, que até mesmo me deu vontade de chorar. Então, eu não tinha como te odiar.
Ela ergue a mão, colocando-a sobre minha barriga e sorrindo ao sentir a pequena criança dentro de mim respondendo ao contato da avó.
- Você está dando à luz para uma criatura que, além de levar o nome dos Schnakerjuds, fez meu filho realmente se tornar um homem de família. Como eu poderia te odiar depois disso?
Eu coloquei minha mão em cima da dela e vi algumas lágrimas delicadas escorrerem de seu rosto completamente sem o ar altivo. Nem parecia com a Ann que eu conhecera há algumas semanas atrás.
- ... – escutar meu nome naquela voz me pareceu tão estranho, que até tive que balançar a cabeça duas ou três vezes para ter certeza daquilo. – Peço desculpas por tudo o que eu disse nos últimos dias. Realmente. Eu estava com muito ciúme e deixei que isso me cegasse, não me permitindo ver quem você realmente era e nem as coisas maravilhosas que estava fazendo pelo meu filho.
Esfreguei a mão dela de leve e soltei em seguida, dizendo que estava tudo bem. Apesar de estar mais calma e aliviada por estar escutando Ann dizer aquelas palavras, isso não significava nem um pouco que nosso relacionamento estava intacto como se ela não tivesse feito nada, tampouco eu não houvesse dito nada. Eu disse que a desculpava, não que esquecia tudo. Era completamente diferente.
- Eu sei que não será nada fácil para você esquecer tudo o que eu fiz e disse para você, , mas acho que em nome de e de essa criança que amamos com a mesma intensidade, deveríamos nos dar a chance de conhecermos uma a outra.
Por mais que eu não quisesse ficar desconfortável por ela ter lido a minha mente, não consegui. Eu sabia o quanto Ann implicar comigo e fazer de tudo para me mandar de volta para onde eu tinha vindo, magoava profundamente e, se ela estava levantando uma bandeira branca em nome do homem a quem amávamos com todo os nossos corações, então eu poderia fazer isso.
Não esquecer. Isso nunca. Mas poderia, com certeza, dar uma chance para ela. Com a condição de que, na primeira pisada na bola, eu meteria a minha mão na cara dela, pouco me importando com onde estivéssemos ou quem estivesse olhando. Minha paciência já tinha atingido o limite.
- Podemos fazer isso, Ann. Por , eu até mesmo lavaria os seus pés. – ri. E, de repente, fiquei séria, com medo de que Ann levasse isso como uma verdade. O que com certeza não era. – Estou brincando.
- Eu sei. – ela riu, bem humorada. – E só o fato de você estar me dando uma chance de poder tentar refazer as coisas do jeito certo, me faz crer que você não era a pessoa que eu pensava que você fosse mesmo.
Eu sorri e deixei que ela segurasse a minha mão.
E como sempre, lembrei-me de e parei para pensar no que ela diria se estivesse ali naquele momento. Provavelmente, aquela aspirante a culta diria algo de Kipling como “Mundo grande e estranho...” E realmente era. O universo inteiro era grande e estranho, mas acreditava que não era Kipling ou que deveriam ser citados naquele momento, mas sim minha mãe.
“O mundo gira e sempre quem está em cima cai.”
Eu tinha sempre que dar razão à minha mãe uma hora ou outra. E essa era a maior das vitórias dela. Escutar um filho dizer “minha mãe tem razão”.
Sorri, apertando de leve a mão de Ann, e ela balançou um pouco a cabeça, olhando para o lado da porta e sorrindo, como se soubesse mentalmente quem estava do outro lado. E mesmo sem o super poder telepático nells, eu também sabia quem estava lá.
nunca deixaria eu e Ann sozinhas sem saber de antemão que uma não explodiria a outra, então era mais que certo que ele estava do outro lado da porta, escutando toda a nossa conversa. Não com um copo na mão, como eu fizera da outra vez, mas que escutava, escutava.
- Pode entrar, . – Ann disse quase rindo, afastando-se para perto da porta. – E saiba que essa não foi a educação que eu te dei.
Ele entrou no quarto de cabeça baixa, mas eu já entrevia um sorriso nos seus lábios. Céus! Como eu amava aquele sorriso.
não olhou para mim nem por um momento e ergueu os olhos para a mãe, como se a desafiasse a ler o que ele estava pensando e, depois de alguns instantes, ela sorriu e apoiou uma das mãos em seu ombro, enquanto eu me ajeitava em cima da maca macia e tentava saber o que estava acontecendo.
- tinha razão. – Segurei-me para não gritar de excitação ao ouvi-la dizer aquilo. - Nós criamos nossos filhos para que eles sejam pessoas boas, para que sejam capazes de proteger as pessoas importantes ao redor deles, para que se tornem pessoas das quais podemos nos orgulhar. E se você realmente fará isso, você me orgulhará mais do que nunca. Isso significará que toda a educação que eu dei fez realmente de você um homem perfeito. Um gentleman. – ela sorriu e virou-se para mim. – Vou deixar vocês conversarem.
Se o meu nervosismo havia passado depois da conversa com Ann, que apesar de surpreendente, fora melhor do que eu esperava, agora ele tinha voltado com força total. Eu tremia e tive que levar a mão para a barriga, acariciando devagar para que o bebê não sentisse o meu nervosismo.
- Temos que conversar, .
Meu Senhor! Por que essas palavras me deixavam tão nervosa? Continuei acariciando a barriga e ergui o meu olhar para , que me olhava com carinho e ternura. Aquele era o homem da minha vida. E, independente do que ele me dissesse naquele momento, nada mudaria.
Meu maior medo naquele instante era que depois de tudo o que Ann e eu conversáramos, ele decidisse que não me queria mais. Talvez, quem sabe, até mesmo o que Ann dissera havia sido um jogo. Para que eu não voltasse chateada para a Terra e acionasse a NASA para atacar o planeta deles.
E eu nem tinha como acionar a NASA!
Engoli em seco e assenti, esperando a conversa ter início.
- Eu pensei muito, , e percebi que realmente demorei muito para dizer isso à você. Deveria ter pedido isso à você quando entramos naquela nave para virmos para Airamidniv.
Sim, ele realmente me mandaria embora. Até mesmo abaixei a cabeça, completamente trêmula de medo, pelas palavras que ele diria a seguir. Não queria, de jeito nenhum, que ele visse em meus olhos o quanto eu queria que ele nunca dissesse que me deixaria.
- Bem, não sei como se faz isso e apesar de ter visto fazendo, creio que não aprendi muito bem. – ele estendeu uma mão para mim, ajudando-me a descer de cima da maca e, quando meus dois pés se plantaram no chão, firmes, continuei de cabeça baixa. A mão de ainda segurava a minha e a sua mão restante ergueu meu rosto e deixou que meu olhar fosse capturado pelas suas íris cor de chocolate, que realizavam uma magia silenciosa e poderosa dentro de mim. Meus tremores passaram apenas de olhar no fundo daqueles olhos e meu corpo se acendeu, como uma vela que acha o seu acendedor perfeito. – Vou fazer isso direito, eu juro. – ele riu.
E, com os olhos cheios de lágrimas, vi se ajoelhar no chão e ainda segurando minha mão e olhando fixo em meus olhos, disse as palavras mais lindas que eu já havia ouvido desde “mra t nhé”.
- Skel Mra Tsi, ?
- Oi? – perguntei confusa. Eu realmente havia perdido muitas aulas de Allie ou não tinha prestado atenção naquela. Não conseguia me lembrar mesmo do que aquilo significava. Ou nunca a tinha ouvido?
- Acho que no seu idioma vai fazer mais sentido pra você.
Depois de coçar a cabeça, procurando as palavras certas no meu idioma, voltou a olhar nos meus olhos e segurou a minha mão com um pouco mais de firmeza.
- Quer casar comigo, ?


Treze


Mais uma estrela cadente riscou o céu, enquanto eu me empoleirava mais à poltrona da varanda de minha mãe, e não pude deixar de abaixar a cabeça, pensando no meu pedido. Já era a terceira estrela que caía na última hora e, apesar de eu fazer o mesmo pedido a cada estrela que caía, ele ainda não havia sido atendido.
- Seu namorado é uma verdadeira vergonha. – meu irmão, Ryan, riu enquanto levantava meus pés do assento da poltrona e sentava-se ali, colocando meus pés descalços em cima do seu colo.
Dei uma olhada para trás, por cima do encosto de cabeça, e encarei meu pai e meu namorado dançando Earth Wind and Fire, coisa que eles vinham fazendo há mais de uma hora.
Eu, realmente, realmente mesmo, não deveria ter trazido nem Rico nem Noah e Izzy para a festa de aniversário do meu pai, mas com certeza papai e mamãe, sem contar Ryan, desconfiariam muito fácil de que eu vinha mentindo para eles nos últimos dias, se me vissem sozinha. Por isso, eu convidara aqueles malucos e estava passando vergonha.
Rico e toda a sua falta de estilo haviam imperado na sala de estar e, depois de quase dez minutos de conversa com meu pai, que tinha um gosto musical bem duvidoso, os dois descobriram muitas coisas em comum, inclusive que Earth, Wind and Fire era a banda favorita dos dois.
E eu nunca odiara esse fato como odiava no momento, por ter que escutar aqueles falsetes há mais de uma hora e, por uma infelicidade das grandes, meu pai tinha a discografia completa deles.
Como se já não bastasse os dois cantando como loucos, no meio da sala, acharam que dançar seria mais animado e depois meu pai puxou minha mãe para dançar September. Rico fazia uns passinhos ensaiados ao lado e Noah e Izzy se divertiam, imitando robôs e dando leves beijinhos um no outro.
- Sim, Rico é uma vergonha. – eu ri. – Mas até que ele está bem moderno ultimamente. Você perdeu a época das ombreiras com pochete.
Eu sabia que Ryan teria exatamente aquela reação e por isso nem fiquei zangada quando ele começou a rir como um louco, jogando a cabeça para trás.
- Nossa, chorei! – ele disse, limpando as lágrimas de riso, minutos depois, enquanto eu continuava com os olhos fixos nas estrelas. Será que eu não havia aprendido que não teria um sinal? Três meses haviam se passado. Era mais que claro que ele não queria mais me ver, que o que eu havia feito havia sido realmente o melhor para . Mas eu não tinha mais como esconder que aquilo não era o melhor para mim. – Seus novos amigos também não são muito certos.
Claro que não eram! Izzy e Noah trabalhavam numa agência extraterrestre e eram as pessoas mais confusas que eu já tivera o prazer de conhecer. Eles estavam comigo quando eu havia passado pelo pior momento da minha vida e me tinham como uma madrinha do relacionamento deles, afinal, eu reparara nos olhares um para o outro e insistira para que Izzy falasse com ele. E eu não poderia estar mais certa. Na semana seguinte, eles fariam um mês de namoro.
- Mesmo assim, estou sentindo falta de , minha pequena. Onde ela está, mesmo?
- Viajando. – respondi rápido demais para que não parecesse mentira. Mas era só olhar em meus olhos e qualquer pessoa saberia que eu estava mentindo. Ainda mais quando meus olhos voltaram ao céu. Por Deus! Eu morria de saudade de e apenas pronunciar o nome dela fazia com que a dor latejasse mais forte dentro de mim.
- Provavelmente, fazendo teste para Garota Astrológica do ano ou cover oficial da Britney Spears.
Ryan começou a rir mais uma vez e, depois de duas ou três gargalhadas, eu tive de abaixar a cabeça numa tentativa desesperada de não chorar. A saudade apertava muito o meu peito e saber que estava no mesmo lugar onde estava, não ajudava muito.
- Por que você não foi com ela? Vocês são inseparáveis desde que nasceram, é até estranho ver vocês distantes.
Distantes? Era a palavra perfeita. Eu e estávamos exatamente a um universo de distância e eu não gostava nem um pouco de me lembrar disso.
- Tinha trabalho no jornal. Você sabe como eu sou workaholic, não é?
Meu irmão assentiu apenas uma vez com a cabeça, deixando-me perceber que a minha tentativa de piadinha não dera muito certo. Eu estava quase chegando a crer que o silêncio entre nós só poderia ser quebrado mesmo pelos grilos insuportáveis, que moravam no jardim da mamãe, quando Ryan disse:
- O que houve, ?
- Nada. – respondi, olhando para as estrelas que pareciam brilhar mais intensamente toda vez que eu pensava em e . E para meu mais completo e lindo infortúnio, Earth, Wind and Fire me fez o favor de tocar After The Love Has Gone e tive que me segurar ainda mais para não chorar.
- Eu te conheço, , melhor que ninguém. Eu te ensinei a rebater uma bola de baseball, te ensinei a beber e a frequentar festas escondidas e te ensinei como dar um bom chute nas áreas fracas de qualquer garoto, então você não me engana tão fácil. – Suspirei alto, odiando a mim mesma por não saber mentir tão bem. era a única que conseguia enganar Ryan, eu não. – Me diz o que está acontecendo e onde está. E se você disser que não está acontecendo nada, eu saberei na hora que é mentira. Você não seria amiga do casal “oi, eu sou uma aberração” e nem estaria namorando o Rei da Pochete se não estivesse acontecendo nada.
- É uma longa história. E mesmo que eu a contasse, você não acreditaria em mim.
Cruzei minhas pernas, tirando os pés do colo do meu irmão e fiquei sentada na posição de Buda, sentindo o vento frio de Rhode Island bagunçar meu cabelo, jogando-o na minha cara.
- Quando eu deixei de acreditar em você, Rachel Munnighan?
Droga! Ryan havia usado o meu nome inteiro, isso era mais que um indício de que ele não desistiria tão fácil.
- foi abduzida e eu estou apaixonada por um alien.
- Com certeza, foi abduzida por conta própria, se depender até mesmo ameaçou o alien para levá-la com ele!
Virei a cabeça para Ryan, que ria alto novamente. Eu havia esquecido o quanto a risada dele me deixava calma e confortável. Mas no momento, ela me mostrava que ele não acreditava em mim nem um pouquinho.
- Eu estou falando sério.
- Eu sei. – ele riu de novo. – E é por isso que eu estou rindo. , você morre de medo de ETs e é a pessoa mais realista do mundo, como isso foi acontecer com você. – mais risadas. E mais caretas impacientes de minha parte. – Deixe-me adivinhar. Culpa da ?
- Como sempre! Ela me convenceu a acampar, uma nave caiu, os ETs eram lindos e sensuais e precisavam ir para Wyoming para serem buscados pela nave mãe, é uma pirada e me convenceu a levá-los até lá. Eu me apaixonei por um deles e a CIA nos parou quando chegamos a Iowa, a nave mãe apareceu, o outro ET estava apaixonado por e ele por ela, então a nossa pequena projeto de astronauta foi pro planeta deles com o seu amante alien e o ET restante declarou que me amava e que sabia que eu o amava também.
- E aí? – a voz de Ryan era curiosa, mas não ergui os olhos para encará-lo enquanto terminava o meu relato.
Eu iria chorar a qualquer momento e estava me segurando para não fazer isso. Chorar mostraria o quanto eu era fraca. E eu não queria ser fraca, eu sabia que havia feito o melhor para ele e isso era o que eu devia levar sempre em mente, por mais que meu coração doesse e sangrasse dia após dia. Mesmo que eu acordasse gritando por sonhar que estava de volta e me amando, eu tinha que admitir para mim mesma que eu sabia que aquilo não era real. Eu havia partido o coração dele, sim, mas aquilo era o melhor para nós dois.
- Eu sabia que ele não poderia ficar. A Agência de Relatório Extraterrestre, que é onde o casal estranho ali trabalha, estava atrás dele e eu não podia ir para o planeta dele. Ele estava destinado a casar com uma espécie de princesa do planeta dele e era o que a família dele esperava dele. Então, disse a que poderia partir, que não ficasse, e ele foi.
- E partiu seu coração. – Ryan disse como se não fosse óbvio o suficiente.
- Mas eu partira o dele antes. Eu partira o coração dele, Ryan, ele foi embora acabado e eu sou a culpada disso.
Earth Wind and Fire continuava esgoelando sobre o que fazer depois que o amor partisse, mas eu sabia exatamente o que fazer quando isso acontecesse. Não esperar que ele voltasse. Ele não voltaria. O amor lhe dá apenas uma chance de ser feliz e, se você não a aproveitar, não se iluda que ele lhe dará outra chance, pois não dará.
- E como acabou com esse estranho?
- Rico é uma boa pessoa, Ryan. – defendi. – Ele me encontrou quando eu voltara de Iowa, depois de dirigir horas sem dormir ou comer e me levou para casa, ficou cuidando de mim por três dias enquanto eu estava catatônica, apenas chorando e chorando. Ele me amava e eu pensei que se me esforçasse o suficiente poderia ser uma namorada boa o suficiente para ele, mesmo não o amando. Eu deveria tentar continuar a minha vida e torcer para que continuasse a dele.
- Acha que Rico merece que continue ao lado dele enquanto seu coração bate por uma pessoa que está do outro lado da galáxia?
A pergunta de Ryan exigia uma resposta prática, direta, e eu tinha essa resposta. Exatamente no momento em que o cd acabara, eu pude responder com a voz limpa, como se não estivesse prestes a chorar a qualquer momento:
- Meu coração não bate mais, Ryan. Desde o dia que se foi.
Eu soube que era a minha mãe quem mexia no rádio naquele momento, pois um bandolim suave começou a me envolver e eu reconheci a música que tocava. Era a mesma que tocava quando eu e estávamos sentados do lado de fora daquele restaurante. Eu estava deitada em seu colo e aquela música me envolvia tão profundamente quanto agora, entorpecendo-me.
Não pude deixar de não ser assolada por aquelas lembranças enquanto a cantora se perguntava o que existe quando não há amor. E uma lembrança sempre puxava a outra, fazendo com que os momentos que eu passara com me matassem aos poucos.
E enquanto eu me lembrava de quanto o encontrara naquela cratera, deixei uma lágrima cair, que foi acompanhada de outra quando me recordei de quando ele mexia com a minha mente, fazendo-me sentir todos os sentimentos dele, aquela aura sexual tão forte que ele possuía, e assim as lágrimas foram caindo uma após a outra, até eu chorar baixinho. Um pranto silencioso que partia meu coração em mais pedaços do que ele já era perdido.
Os braços de Ryan ficaram ao meu redor enquanto eu deixava todas as dores do meu coração saírem pelos meus olhos úmidos. E sempre que eu chorava daquela forma, eu rezava para que passasse. Tudo passaria.
Mas era impossível não me perguntar o que teria acontecido se eu tivesse subido naquela nave. Ignorando que a noiva de estava ali e jurado amor eterno para ele ao invés de deixá-lo partir, carregando com ele metade do meu peito.
- Vai ficar tudo bem, .
- Vai. Um dia vai. Um dia eu vou acordar e não vou pensar nele. Eu juro.
Ryan deu um beijo no topo de minha cabeça enquanto continuava sussurrando palavras doces para mim, na tentativa de me acalmar, da mesma forma que ele costumava fazer quando eu era pequena e me machucava ao tentar brincar com os brinquedos grandes do parque.
E não era a mesma coisa agora? Eu era pequena demais para brincar com o amor, um jogo perigoso e grande demais para uma pessoa como eu. Não era à toa que eu havia me machucado tão profundamente.
Escutei passos vindos por trás e encarei Izzy com um copo plástico na mão, que ela entregou para mim, sentando-se no encosto de braço disponível, segurando minha mão que não estava ocupada com o copo.
Cheirei a bebida de leve e sabia que era algo com um grande teor alcoólico. Eu precisava mesmo de algo como aquilo no momento. Algo forte, que aquecesse meu peito.
- Não fique assim, , parte meu coração vê-la assim.
Desenlacei-me do meu irmão e caí no colo de Izzy, que acariciou meu cabelo com carinho. Ela era minha amiga de verdade e, ultimamente, estava comigo quando a dor apertava naquele momento. Eu sentia uma falta absurda de e poder me deitar e chorar no colo de Izzy me fazia lembrar de quantas vezes eu havia feito a mesma coisa no colo de .
Eu já havia assegurado várias vezes à Izzy que ela seria minha amiga para sempre e que, quando voltasse, seríamos um trio inseparável. Mas que garantias tinha eu de que ela voltaria?
- Eu vou ficar bem, Izzy. – assegurei. – Só estava com saudades de Ryan. – sorri para meu irmão, que me sorriu de volta, tentando fazer Izzy acreditar naquela mentira.
Meu irmão segurou minha mão enquanto a mesma cantora de antes, agora cantava implorando para que seu amado não se esquecesse de se lembrar dela.
- Acho que deveríamos deixá-la um pouco sozinha. – Izzy disse e se levantou, sendo seguida por Ryan, que voltaram à festa de papai, onde todos se divertiam animadamente, esquecendo-se por alguns minutos de que eu estava ausente.
Assim que me vi sozinha novamente, meus olhos se voltaram novamente para o céu, lembrando-me dos últimos momentos com , quando ele dissera que iria conservar minha mente para que eu não esquecesse-me de que éramos almas gêmeas e do quanto nos amávamos.
Fechei os olhos e deixei que as memórias voltassem aos poucos e senti os lábios sendo acariciados pelos dele de um modo completamente delicado, que naquele momento eu previ que me assombraria pelo resto dos meus dias, e estava completamente certa no momento.
“Mra T Nhé, ” ele dissera enquanto o facho de luz o puxava para cima, levando tudo o que eu mais quisera na vida.
Os passos voltaram para perto da varanda e sabendo o quanto Ryan se preocupava comigo, já fiz questão de avisar-lhe que eu estava bem.
- Está tudo bem, Ryan, vai passar.
- Mas isso não me impede de me perguntar quando você vai me amar, .
Virei minha cabeça para perto da porta, vendo Rico escorado na porta de acesso à varanda, com os cabelos jogados no rosto, de um jeito moderno e descolado, uma camiseta preta que combinava com os tênis da mesma cor e uma calça jeans da última moda.
Ele conseguira se modernizar, empenhava-se o máximo que podia para abandonar as suas tendências bregas, mas a mãe de sempre dizia que pode-se tirar alguém da sua antiga vida, mas não se pode tirar a antiga vida de dentro de alguém.
Mesmo assim, Rico se entregava a tarefa de fazer com que tivéssemos um “felizes para sempre” e me machucava ver o quanto ele tentava em vão.
Ele andou para perto da poltrona e sentou-se no mesmo lugar em que Ryan estava sentado momentos antes.
- Eu penso, às vezes, que você não me ama porque eu perdi a cabeça daquela vez... – ele abaixou a cabeça culpado, lembrando-se de quando havia quase abusado de mim, completamente fora de si por ciúmes.
- Pare de se culpar por isso, Rico. – apertei a mão dele que estava caída perto de mim. – Eu já disse que te perdôo, sei exatamente como é se ver louco de ciúmes.
- Eu queria apenas um pouco, , só uma parte do que você sente por esse cara. Só um pouco e eu já me sentiria feliz, realizado. Você é tudo o que eu sempre desejei.
Ele apertou minha mão com mais força e por mais que estivesse escuro na varanda, eu pude ver uma lágrima caindo do seu olhar, triste e solitária, exatamente como eu me sentia.
- Existem garotas melhores por aí. Garotas menos problemáticas que irão te amar. – eu repeti o que sempre dizia a Rico. – O universo é gigante, em algum lugar dele você vai encontrar alguém que te ame.
E eu esperava que quando ele encontrasse, não fosse tão idiota quanto eu e deixasse a pessoa partir.
- Vamos nos dar mais uma chance, . Mais um mês. Mais um tempo. Deixa eu te provar que você pode me amar, que eu sou digno o suficiente para que você me ame como ama esse camaradinha.
Abaixei a cabeça e fechei os olhos, assentindo em silêncio. Era cruel fazer alguém sofrer nem que fosse uma parte do que eu sofria, afinal, só eu sabia o quanto estava doendo dentro de mim.
- Você não vai se arrepender de me dar essa chance, . – Rico puxou-me pelo queixo e me deu um singelo beijo nos lábios, que não mexeu nem um pouco comigo. Talvez mexesse se eu não houvesse conhecido a tormenta de emoções que era um simples toque casual de .
- Vem, Rico, vamos colocar Bee Gees! – meu pai gritou, completamente animado com o gosto musical do genro.
Rico me beijou mais uma vez e correu para dentro de casa e acompanhei a sua partida com o olhar, por cima do encosto de cabeça, vendo num dos cantos, Izzy e Noah grudados um ao outro e mamãe dançando a última música country nos braços de Ryan, que ria do desajeito de mamãe, Rico e papai se divertiam escolhendo um CD da pilha que eu e Ryan apelidáramos de Pilha da Tortura, de tantos CDs ruins que haviam ali.
Ninguém me perturbaria naquele momento, então pude deixar que todas as lágrimas caíssem desesperadas enquanto todos os toques e palavras de me enlouqueciam e me deixavam tonta e a cantora country, a mesma de antes, perguntava-se se tudo fora apenas um sonho.
Não, não fora. Sonhos não tinham o poder de partir seu coração. Não eram capazes de te fazer sofrer como eu estava sofrendo naquele momento.
Abaixei a cabeça e limpei a última das lágrimas, erguendo os olhos para o céu estrelado de Rhode Island, enquanto a brisa bagunçava o meu cabelo mais uma vez. Uma nova estrela cruzou o céu, não pedi nada, não havia nada que aquela estrela pudesse me trazer. Ela não podia me trazer ou , não podia me fazer amar Rico, não podia aliviar a tristeza de meu coração, então só havia uma coisa que eu poderia dizer e rezar para que, do outro lado da galáxia, onde quer que estivesse, ele escutasse as palavras que minha boca pronunciavam, mas que saíam do fundo do meu coração:
- Mra T Nhé, .

Catorze

ainda estava aos meus pés, segurando a minha mão, que passara a suar frio, e meu corpo tremia enquanto eu tentava buscar algo naquele cenário que me ajudasse a pensar que eu não estava sonhando.
Eu realmente, realmente, estava sendo pedida em casamento!
Caramba! Onde estava para acompanhar aquele momento? Onde estava minha mãe para engolir todas as suas palavras sobre cabeça na lua e casamentos inexistentes para moças que não sabiam cozinhar?
Eu realmente estava sendo pedida em casamento!
Só poderia ser um sonho daqueles lindos que sempre acabam com a gente acordando com o despertador quase tendo um ataque epilético ao lado da cama.
costumava dizer que todos os passos difíceis que a gente dava, levariam a gente a um lugar incrível. E ela tinha razão, apesar de que, naquela época, eu achava que esse lugar incrível provavelmente seria o Queens, no máximo Tribeca.
Em último caso, em Los Angeles, mas aí eu já sabia que estava sonhando alto demais.
E quem diria? Quem poderia imaginar que eu estaria admirando o homem da minha vida, ajoelhado aos meus pés, no meio de um hospital de um planeta completamente estranho, pedindo-me em casamento?
Nem se eu pedisse à Sra. Porto Belo, aquela latina estranha que morava na rua da frente, para tirar a minha sorte, ela poderia prever algo como aquilo. E se previsse, não me deixaria pagar a mulher, achando que ela era uma charlatã.
- O que me diz, ?
O bebê dentro de minha barriga fez um movimento que eu já começava a identificar como algo que o agradava e olhei nos olhos cor de chocolate de , buscando algo que me dissesse que não daria certo. O que era praticamente impossível.
Deus! Somasse apenas as coisas difíceis que havíamos passado para chegarmos até ali e veríamos o quanto fora complicado e certas vezes parecera impossível chegarmos aquele momento.
Primeiro a complicação para eu chegar até Airamidniv, dividida entre ir ou ficar na Terra, onde era o meu lugar. Depois enfrentar sua mãe e sua ex-namorada, que me odiavam e estavam dispostas a fazer de tudo para que seguisse os planos originais e ficasse com Victoria, a ex-noiva que era um pé no saco.
E, então, sua mãe começou com planos estranhos para nos separar, nós brigávamos dia após dia e ele insistia que eu estava grávida quando a minha teimosia me impedia de interpretar os sinais do modo correto e admitir que dentro de mim crescia uma vida, uma extensão de , a pessoa mais importante da minha vida.
Fechei os olhos, tentando me lembrar de todas as vezes que eu havia dito que era a pessoa mais importante e quantas vezes ele realmente me provara que era a pessoa por quem eu sempre esperava.
Meu Deus! Como eu não poderia me casar com alguém como ? Ele me dava segurança, fé, respeitava-me e me amava acima de tudo. Só eu sabia a sorte que tinha por me amar.
- Eu... Aceito.
Ele riu e se levantou de uma vez, puxando-me para um abraço. O perfume dele e o seu calor se grudaram em mim como se quisessem me mostrar que eu estava fazendo a coisa certa. E mesmo que fosse a coisa errada, eu nunca diria não a . Era impossível dizer não quando o meu próprio coração dizia que eu estava fazendo a coisa certa.
- Eu prometo, , de todo o meu coração, que nunca deixarei você, de forma alguma e, se há algo que pode nos separar, esse algo é a morte.
Um arrepio trespassou meu corpo apenas de pensar na possibilidade de algo grave acontecer com . O trabalho dele era perigoso, eu havia visto por mim mesma quando a nave dele caíra no meu planeta e, por mais que eu quisesse proteger de tudo e todos para que ele ficasse comigo para sempre, eu tinha que admitir que não poderia estar com ele o tempo todo.
Talvez esse tenha sido o problema de Ann, ela não admitira que uma hora ou outra teria que deixar voar.
- Não vai acontecer nada disso...
- E a maior felicidade que eu poderia ter, , é saber que eu estou te fazendo feliz. Sei o quanto você sofreu tendo que viver aqui com a população nells quase inteira te odiando. E eu prometo que de agora para sempre, minha maior preocupação será a sua felicidade, eu vou lutar para que cada segundo que você passe ao meu lado seja o melhor de sua vida.
- Eles já são, ... – eu tentei, mas ainda não havia terminado a sua declaração de amor. E eu tinha certeza de que as lágrimas que cairiam de meus olhos a qualquer momento não tinham nada a ver com hormônios malucos em ebulição, era o meu coração que estava sendo completamente preenchido pela emoção daquele momento.
- E se você quiser que eu cante pra você, eu cantarei, mesmo não sabendo cantar uma só nota, se quiser que eu dance, eu sou bem descoordenado, eu admito, mas mesmo assim tentaria o meu melhor para fazer o que você quisesse que eu faria. Se você quiser até mesmo que eu te deixe, eu faria isso, . Se isso fosse o que você queria, eu faria, mesmo machucando o meu coração profundamente.
- Por todas as estrelas, . Eu nunca lhe pediria isso.
- Mas se pedisse, eu faria. Faria qualquer coisa por você, .
Derrubei algumas lágrimas com os olhos fixos nos olhos castanhos tão intensos e doces de . Aqueles olhos eram mais que hipnotizantes, eles realizavam uma mágica tão bem feita dentro de mim, que era praticamente impossível negá-la. A mágica se chamava amor e entre nós era tão perfeita que eu não tinha nem como descrever.
Os olhos de brilharam profundamente, mostrando que ele estava prestes a chorar e aquilo me emocionou demais.
- E a partir de agora e para sempre, , eu farei tudo por você e para essa criança dentro de você. A personificação de que somos realmente mraknis e que somos feitos um para o outro. – ele chorou enquanto a sua mão se soltava da minha para tocar o meu ventre, completamente carinhoso, a outra mão se arrastou para o mesmo lugar, sentindo o bebê responder a seu toque num gesto carinhoso, como se ele estivesse colocando suas pequenas mãozinhas recém-formadas nas de , através da pele fina da minha cabeça. – Vou cuidar de vocês dois com a minha vida se for preciso. Não há nada no mundo que seja mais importante para mim do que vocês dois.
- Assim como pra gente não há mais ninguém que faça nossa vida valer a pena além de você.
deu um beijo terno em minha barriga e subiu seus lábios para os meus, beijando-me com delicadeza e paixão ao mesmo tempo. Os beijos de sempre foram capazes de me fazer perder o controle, mas naquele momento ele conseguira se superar.
Enquanto os lábios dele tocavam o meu com a maior ternura que poderia ser possível do lado de cá do Universo, minhas mãos o puxaram com determinação como se eu quisesse me certificar com todas as garantias possíveis de que aquilo era realmente verdade, não um sonho.
Afinal, era como um sonho para mim. Tudo o que eu sempre imaginara e sonhara quando era uma adolescente boba que enchia páginas de agenda com descrições do homem perfeito, estava em . O seu sorriso, seus olhos cor de chocolate, seus cabelos escuros e que atraíam meus dedos, o seu corpo que sabia perfeitamente como se encaixar no meu. Tudo.
- Então, a partir desse momento, você é minha, .
- Estou prestes a ser Schnakerjud, não é? – eu sorri e ele assentiu com uma expressão elevada de orgulho por agora eu carregar o seu sobrenome e em poucos meses dar à luz a um pequeno herdeiro, ou herdeira. – Então, acho bom você me ensinar a escrever este seu bendito sobrenome, porque eu não tenho idéia nem de como se soletra ele!
Nós rimos, ainda um nos braços do outro, e fomos surpreendidos com a porta sendo aberta por Dr. Luke, Ann e , que não estava com uma cara nada contente.
- Vocês estavam escutando atrás da porta? – perguntou sorrindo, como se já soubesse que a resposta era afirmativa, mas mesmo assim não estivesse zangado com isso.
- Bem, eu e Dr. Luke estávamos. – Ann admitiu e pude perceber que ela estava com os olhos um pouco brilhantes e vermelhos demais. Com certeza estava chorando, mas não quis saber se era de orgulho e felicidade, ou de impotência, por saber que agora não tinha jeito mesmo de separar e eu.
Após Luke cumprimentar eu e , contente por estarmos formando uma família tão bonita e não parecendo se importar nem um pouco por estarmos todos em seu consultório, resolvendo problemas que nada tinham a ver com saúde.
ainda estava encostado no batente da porta e sua expressão ranzinza não parecia ter mudado em nada.
- Parabéns, casal! – a voz de estava estranha. Será que ele estava com dor de garganta? Só podia, para a voz dele estar daquela forma, como se tivesse um bolo nela.
fixou o seu olhar em e soube imediatamente que ele estava lendo a mente de seu amigo.
- Parabéns para você também, , soube que você pediu Allie em casamento. – por mais que eu quisesse, eu não conseguiria esconder o sarcasmo. – Espero que seja muito feliz com a pessoa que você ama.
As palavras de simplesmente ecoaram em minha mente, enquanto estabelecíamos um contato visual forte.
“Você sabe que já está doendo o suficiente, não torne isso pior, .”
Abaixei a cabeça, sentindo muito. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser que eu conseguisse fazer algo que impedisse esse casamento.
- Oh! Que lindo,! Allie é uma mulher incrível que, com certeza, o fará muito feliz. Não tem idéia do quanto estou feliz por você! – Ann abraçou , de lado, que sorriu para a senhora, mas era mais que óbvio que não era um sorriso que estaria estampado no rosto dele se estivesse sozinho.
- É, meus pequeninos pacientes, estão se tornando verdadeiros homens. – Dr. Luke comentou com uma nostalgia no olhar, provavelmente se lembrando dos garotos quando pequenos.
Ann olhou no relógio de pulso ultramoderno e avisou que precisava ir se encontrar com as outras senhoras para o chá de discussão de planejamento social, que eu nem ao menos sabia o que significava, mas já previa que tinha a participação das outras senhoras no maior estilo Upper East Side.
Como e ainda tinham que ir para a BEI, tivemos todos que desocupar o consultório e nos despedir de Dr. Luke, que parecia ser uma pessoa bem carente e praticamente implorou para que ficássemos mais um pouco.
Alguns minutos depois, Ann já tinha ido embora para o seu chá não sabia do quê e eu, e andávamos pelas ruas, agora já um pouco mais movimentadas, de Airamidniv, a caminho da BEI.
- Sinto muito, .
- Pelo que, ? – a pergunta foi feita num tom cansado que realmente me partiu o coração.
- Por não termos te contado que iríamos nos casar, sei que você ficou chateado por não termos comentado com você e...
- , eu juro que não estou chateado com isso. – ele parou e olhou para mim com firmeza. – Estou feliz por vocês, de verdade.
- Com certeza, e essa sua carranca expressa a maior felicidade que alguém poderia ter, não é?
Meu Deus! Não sabia que poderia ser tão sarcástico assim!
- Claro, estou em êxtase por saber que meu melhor amigo vai casar com a sua mrakni enquanto eu vou me casar com uma mulher que eu não amo, porque a mulher que eu realmente amo, a minha mrakni, me deixou.
Bem, não era realmente uma coisa pela qual ele ficaria rindo o dia inteiro.
Ele também abaixou a cabeça e eu pude ver uma gota cair no asfalto cinzento das ruas nells. Eu realmente achava lindo o fato de que os homens nells não tinham o menor preconceito de chorar na frente das pessoas. Eles levavam muito em conta as emoções e essa era uma das coisas que mais me faziam sentir confortável naquele planeta, sentir as emoções tão intensamente. Pena que eu sentia tanto as negativas quanto as positivas da mesma forma.
- Meus vizinhos já devem achar que eu sou um louco, que fico sentado do lado de fora falando com as estrelas, esperando que de onde quer que esteja, ela escute o meu pedido desesperado para que ela me aceite de volta. E não tenho nenhuma resposta a não ser estrelas cadentes que riscam o céu silenciosas, como se não quisessem fazer barulho nenhum para que eu pudesse apenas escutar meu coração gritando de saudade. E eu não acho isso justo. As estrelas me levaram para , elas poderiam ao menos... Ao menos... Me trazer uma mensagem dela.
- Tenho certeza de que ela também está sofrendo, e... – tentei, mas ele não deixou que eu continuasse.
- Não, eu vi a pintura e sei que a vida dela vai continuar com ou sem mim. É melhor que eu continue a minha. Sem ela.
As palavras pareceram arranhar meu coração, lembrando que eu também estava vivendo a minha vida sem . A minha melhor amiga em todo mundo estava perdendo os momentos mais importantes da minha existência. Eu estava grávida e acabara de ser pedida em casamento, mas não tinha , então não tinha como dividir ambas notícias completamente incríveis com a pessoa que mais torcia para que minha vida fosse a melhor possível, chegando, em certos momento, a sacrificar a sua própria vida em função da minha.
- Eu... Vá indo para a BEI, . – disse de repente, com um brilho estranho no rosto, que depois de conhecê-lo tão bem, já sabia que ele havia tido uma idéia muito boa.
- Eu espero você lá.
E com esse cumprimento mais fungado que falado, andou na direção do enorme prédio negro mais a frente e se virou para mim, segurando-me pelos ombros e com os olhos completamente brilhantes de animação.
- Eu sei, , eu sei como impedir o casamento de e fazer com que essa tristeza desapareça.
Ergui uma sobrancelha, perguntando sem palavras, o que ele queria dizer com aquilo.
- Não estou nada satisfeito em ver assim, ele precisa de . Sei que é o que todos em Airamidniv esperam, mas não posso deixar se casar com Allie, sabendo que nenhum dos dois será feliz. Ele não pode ser feliz sem e consequentemente não conseguirá fazer Allie feliz enquanto pensar em sua mrakni.
- Certo. Concordo com isso, mas o que vamos fazer?
O sorriso de aumentou e ele me deu uma pequena chacoalhada como se me forçasse a pensar o mesmo que ele estava pensando. Mas eu não conseguia chegar a nenhuma idéia que fosse viável ou óbvia, ou os dois ao mesmo tempo.
Era difícil esperar muito do meu raciocínio em condições normais, quem dirá quando eu estava duplamente feliz com as notícias de meu casamento e de que eu estava esperando um bebê lindo!
- Não cheguei a sua conclusão ainda. – avisei.
- Bem, é simples... – ele sorriu e aproximou a sua boca do meu ouvido, sussurrando a idéia mais perfeita que eu já havia ouvido.
Caramba! Por que eu não tinha pensado naquilo antes?
Era prático e rápido e tinha mais de 100% de chances de funcionar. Certo que traria uma leve confusão e mais ódio da população para cima de e eu, mas eu não me importava nem um pouco com aquilo.
Salvaríamos e de um futuro completamente cinza e sem vida e, além do mais, eu estava com saudades de .
Puxando para um beijo estalado, eu sorri empolgada, pensando que não poderia haver um plano mais perfeito que aquele.

Capítulo betado por Isabela H.



Quinze

Eu batia o pé, sentada em uma das cadeiras plásticas transparentes, perto da enorme nave reluzente. Ela me assustava demais, mas eu estava completamente excitada apenas de pensar na importância de minha jornada.
E , que duvidava que eu veria uma nave espacial na vida! Imagine quando ela soubesse que, além de já ter visto e andado, agora eu iria pilotar uma pela primeira vez. Eu estava completamente nervosa, mas estava tão empolgada, que não conseguia pensar em mais nada e estava apenas vagamente consciente dos barulhos que fazia dentro da pequena nave.
Ele sim estava assustado e não fazia a mínima questão de esconder isso. Estava furioso comigo, mas sabia que era muito melhor deixar que eu fizesse uma besteira como aquela do que enfrentar a minha fúria de mulher grávida. E eu tinha certeza de que ele ainda se lembrava o quanto eu poderia ser irada, como quando eu encontrara ele e Victoria.
Graças a Deus que aquela miniatura de cobra estava em Calibri. Eu rezava para que ela encontrasse uma alma gêmea naquele planeta e deixasse eu, e nosso filho em paz.
Era meio difícil imaginar aquela Victoria amando alguém, além dela mesma e de seu status, mas eu realmente desejava tudo de bom para ela. Contanto que ela nos deixasse em paz. Da primeira vez eu não havia sentado a minha mão na cara dela, mas ninguém sabia o quão furiosa eu poderia estar em uma segunda vez.
bufou de dentro da nave e eu gritei do lado de fora:
- Vai dar tudo certo, .
- Ok.
- Eu só vou buscar , não vai acontecer nada demais. Eu conheço a Terra como a palma da minha mão. E você está cuidando de todos os detalhes. É impossível acontecer alguma coisa.
- É. – foi tudo o que ele respondeu e eu continuei mexendo os pés, que não alcançavam o chão, pela altura da cadeira, e olhei para o céu escuro pontilhado de estrelas. Estrelas que eu admirara a minha vida e que haviam trago o amor da minha vida. Eu nunca deixaria de ser agradecida a elas.
- Você realmente vai ficar falando comigo por monossílabos?
- Sim.
Eu ri de e ele colocou a cabeça para fora da nave, me olhando com um dos seus melhores olhares zangados. Mas fora ele mesmo que havia tido a ideia, eu apenas me agarrara a ela e vira como ela poderia dar certo.
Eu iria à Terra buscar , com uma história louca de que eu precisava dela em Airamidniv e faria com que ela se encontrasse com .
Era completamente injusto com ela e , que não pudessem ficar juntos e desperdiçassem suas vidas com pessoas que não amavam, apenas porque eram cabeças duras demais.
concordava em gênero, número e grau comigo, neste aspecto apenas.
Ele estava mais que enfezado por eu estar fazendo esta viagem extraestelar grávida e sem conhecer nada sobre pilotagem de naves. Ele até tentara me convencer a fazer um curso rápido de pilotagem, mas não tínhamos tempo.
se casaria em duas semanas e eu tinha dois dias de viagem pela frente e, mesmo com aquela nave supersônica, eu não sabia como o humor de estaria na Terra e quanto tempo levaria para arrastá-la para Airamidniv.
Mas que eu arrastaria, eu arrastaria.
Era fácil convencer a qualquer coisa, quando se tinha quase vinte anos de experiência nisso. E eu tinha até um pouco mais que isso.
- Está tudo bem com a gente, . Você está se preocupando à toa.
- Sei... – a voz dele era completamente irônica e ao invés de isso me deixar chateada, tudo o que eu fiz foi sorrir. Era tão lindo ver ele preocupado daquela maneira.
Havíamos tido uma discussão mais cedo, depois que ele chegara da BEI e mesmo depois de eu haver recuperado o bom humor dele com uma boa massagem nas costas, que terminou com uma hora de amor alucinado e apaixonado, ainda estava com aquela cara ranzinza que não conseguia esconder a sua preocupação.
E eu achava que mesmo falando que estava tudo bem, tanto comigo quanto com o bebê, não estava ajudando em nada em acalmá-lo.
- Eu sei exatamente o que fazer e tenho tudo sobre controle. É entrar na nave que já está programada para me levar para Maine, usar o meu cartão de crédito para ir até Nova York, convencer e voltar com ela para Maine, entrar na nave e apertar o botão azul que fará o trajeto programado ao inverso. Certo?
- Certo. – ele disse mais pesaroso do que orgulhoso por eu realmente ter me lembrado de todo o plano.
- E não esquecer de deixar a nave invisível quando eu me afastar dela.
- Certo.
- , fala direito comigo ou eu vou ficar mais nervosa do que já estou.
Eu gritei e depois coloquei o rosto nas mãos, chorando. Malditos hormônios que não me deixavam saber se eu estava contente, irritada, nervosa ou já começando a sentir falta de , mesmo sem nem ter entrado na nave ainda.
- Eu vou sentir sua falta, .
De dentro da nave, ele colocou a cabeça para fora mais uma vez e se espantou ao ver que eu estava chorando, pulando de dentro da armação de metal que estava o sustentando enquanto ele fazia os últimos ajustes na programação e correu para onde eu estava, esquecendo, naquele momento, que ainda estava relativamente zangado comigo e me abraçando com todo o carinho que ele tinha.
Sentir falta dele já não tinha nada a ver com hormônios. Era meu coração. Ele sabia que era mais difícil bater longe de , mesmo que não fossemos ficar tanto tempo distantes.
Era como se algo dentro de mim fosse diretamente ligado com algo dentro de e quanto mais nos afastávamos um do outro, mais difícil de viver, esse algo se encontrava.
- Eu vou sentir falta de vocês dois. – ele beijou minha testa e abaixou-se um pouco, curvando-se para beijar a minha barriga e sentir, como sempre, uma movimentação do bebê, como se respondesse ao toque de seu pai. – Não há nada que eu possa fazer para te fazer pensar direito sobre isso, ?
- Não temos tempo para eu pensar direito, e eu já estou decidida. – dei um leve beijo em seu queixo, sorridente e senti ele beijar meu nariz em retorno. Uma luz azul brilhou ao redor da nave e eu sorri, sentindo a excitação latejar por todo o meu corpo. Estava quase na hora de partir.
abaixou a cabeça, provavelmente tendo visto, como eu, a luz brilhar através da nave.
- Eu sei que vai dar tudo certo. – a voz de parecia estrangulada e me perguntei o que ele estava sentindo. O corpo dele se aproximou ainda mais do meu e fechei os olhos enquanto ouvia as suas palavras acima da minha cabeça, enquanto ele apoiava o seu queixo no topo da minha cabeça. – Você é a pessoa que mais tem capacidade de fazer este plano dar certo.
Sorri, mesmo sabendo que ele não poderia me ver e senti aquela coisa que já latejava dentro do meu peito aumentar um pouco mais. E eu nem havia entrado naquela nave. Não queria nem pensar no quanto doeria quando eu me afastasse da orbita de Airamidniv e tivesse que lidar verdadeiramente com a distância de .
- Eu acredito em você quando diz que está tudo bem e vai ficar melhor ainda, mas ainda não estou preparado para deixar você ir. – uma lágrima escorreu do meu olho, como uma resposta imediata às palavras e o perfume dele, tão próximo e que eu já contava como oxigênio que me mantinha viva.
- Eu também não estou, mas precisamos.
- Sei que precisamos. Mas durante todo o dia eu encarei e vi o quanto a distância de o deixa mal, sei que são apenas dois dias, no máximo três, mas eu não estava preparado pra ficar sem você nem por um segundo, , imagine ficar do outro lado da galáxia por três dias e sentindo esse buraco no coração aumentar a cada centésimo de segundo que você não está comigo.
- Eu também estou com esse buraco. – apanhei a mão esquerda de e a coloquei no meu coração, para que ele sentisse o desespero que eu estava sentindo. Era o certo a fazer, ir encontrar e buscar e permitir a felicidade de minha melhor amiga e seu mrakni. Mas me doía tanto apenas pensar que eu deixaria sozinho.
- Sou inseguro demais, . Nada me tira da cabeça que você pode encontrar o cara que você sempre sonhou na Terra, aquele por quem você sempre esperou...
- Shhh! – o calei colocando um dedo em seus lábios e erguendo a cabeça para encará-lo mais facilmente. – Você, , você é meu mrakni, e se eu nunca me importei com os caras da Terra antes de conhecer, porque agora que estou prestes a me casar com você, eu daria importância a eles? Só há um homem em todo o universo que pode ser quem eu sempre esperei.
Mais algumas lágrimas caíram dos olhos dele e eu, ainda segurando a sua mão esquerda, coloquei-a em cima da minha barriga e ele sentiu o nosso filho se movendo contra o calor de sua palma.
- E nós dois temos alguém muito especial por quem voltar de onde quer que seja. Não vamos te deixar nunca, .
O pranto dele se intensificou e mais uma vez eu achei lindo a hombridade de de chorar em minha frente, me permitindo sentir as suas emoções tão fortes, me permitindo saber o quanto aquele momento doía nele como doía em mim.
Eu sempre admirara homens que choravam, mostrava não que eles eram sensíveis demais, como Ryan costumava pilhar, mas mostrava que eles tinham a coragem necessária para mostrar o que estavam sentindo. E , o homem que eu escolhera para mim, tinha essa característica. E muitas outras.
Deus! Como ele poderia pensar que eu não voltaria para ele?
A nave emitiu um brilho azulado desta vez e olhou-a atentamente, como se pensasse o quanto ela era segura para mim e nosso filho.
- O combustível está abastecido. – a voz dele era completamente profissional e quando ele percebeu que eu não havia gostado nada do tom, ele sorriu para mim, segurando minha mão e me ajudando a sair da cadeira transparente.
- Eu estou ansiosa.
- Eu sei. Você é louca, ! – riu ele.
- E você me adora, . Se eu não fosse louca assim, com certeza você não teria se apaixonado por mim... É um pacote. A teimosia e a loucura vieram de brinde.
Nós dois rimos e qualquer um que assistisse a cena de longe, jamais pensaria que aquela era uma despedida. Nem desconfiaria, também, que estávamos tramando para os nossos amigos se reencontrarem e perceberem que eles tinham um destino junto. Assim como tínhamos um.
- Acho que vou cantar uma música de despedida... – ele cogitou enquanto me segurava como se fossemos dançar uma valsa ou algo do gênero. De repente, ainda em silêncio, começamos a nos balançar e balançar, dançando uma música inexistente para todas as outras pessoas, mas que tocava em nossas cabeças, como se houvesse uma cúpula invisível tocando-a apenas para nós.
Se fosse eu, com certeza teria escolhido uma música romântica da Britney, ou quem sabe Selfish do Nsync, mas aquela parecia ser adequada ao momento. As palavras nells não faziam nenhum sentido para mim, mas me acalentavam, acalmando o buraco em meu coração e fazendo me apertar mais a , como se dependesse do seu contato para continuar viva naquele instante.
- Você vai voltar pra mim, ... – sussurrava em meu ouvido, a voz rouca e sedutora, como eu costumava ouvir quando estávamos na cama. – Escute... – ele conseguia me modelar em suas mãos como se eu não fosse mais do que massinha. O seu corpo se colava ao meu e o aquecia como se tudo o que eu dependesse para viver, fosse o seu calor.
- Essa música é linda. – minha voz era baixa, tentando, de todas as formas, não deixá-la parar de tocar nas minhas orelhas. Era como uma carícia. Enquanto a música me entorpecia lentamente, eu podia sentir as mãos de passando em meu corpo e os lábios dele deslizando pelo meu pescoço. A música ia aumentando gradualmente de ritmo conforme os nossos corpos se colavam mais e as nossas temperaturas ficavam mais quentes.
- Acho que... – ele me afastou um pouco. – Ele não está muito contente com as minhas intenções. – riu enquanto acariciava a minha barriga, brincando com nosso bebê que fazia movimentos realmente dolorosos ali dentro.
Ao mesmo tempo, a nave emitiu uma luz azulada ainda mais forte, mostrando que estava completamente programada. Olhei nos olhos cor de chocolate de e dei o primeiro passo em direção à nave, ouvindo a música ficar lenta novamente e ainda mais alto.
- Essa é a música dos mraknis. – me explicou como se soubesse que eu estava prestes a lhe perguntar exatamente isso. – Achei que era apenas uma lenda, mas é real. Ela tocando entre nós é uma prova de que somos realmente mraknis e de que você vai voltar para mim. – sorri, enquanto beijava a minha mão, segurando-a firmemente enquanto me levava até a nave. – Se eu tinha alguma dúvida de que deveria deixar você ir, ela passou neste momento. – estremeci ante o novo beijo de em minhas mãos. – Eu vou sentir muito sua falta e contarei cada segundo. Por isso, vou deixar você ir agora, neste momento, para voltar mais rápido.
E, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, me pegou no colo, me colocando no assento do piloto, na frente da pequena nave e já colocara o cinto de segurança, programando todos os itens possíveis para a minha segurança. Quando se certificou que tudo estava bem, olhou-me nos olhos, profundamente, prestes a fechar a porta da nave e, com isso dar partida automática, me levando para a Terra pra me deixar dar ínicio na minha aventura.
Eu estava tão excitada, mas o medo já começava a me corroer de novo. Estava prestes a dar adeus para , e isso não era nada como eu pensava que iria ser. Eu tinha achado que seria mais forte, que eu teria que dar apenas um tchau, não sentir aquela maldita pressão em meu peito que me fazia querer sair de dentro da nave, pular nos braços de e não sair de lá nunca mais. Nos braços dele era o meu lugar. Para sempre.
- Eu não... Não...
- Só precisa dizer tchau, . Eu vou estar bem aqui esperando você voltar.
- Mas, eu... Eu...
- Vai demorar pouco, e também vai doer em mim. Então, quanto mais tempo você demorar, mais vai doer. Só se despeça de mim. – ele sorriu olhando nos meus olhos, segurando meu rosto.
- Tchau, . – funguei, sentindo as lágrimas caírem aceleradas, minha cabeça era uma confusão, tudo se misturava dentro de mim e eu não conseguia prestar atenção em nada, além dos olhos de , enquanto ainda ouvia a música acima de nós, mas em um volume tão baixo que não passava de um sussurro. Deus! Minha cabeça rodava de tantos sentimentos conflitantes que se misturavam.
- Mra T N... – estava prestes a abaixar a porta, quando eu gritei para que ele esperasse e ele olhou para mim, confuso.
Tirei o cinto de segurança de uma vez e pulei nos braços de , abraçando-o com força e sentindo o perfume dele inflar minhas narinas e aquecer meu coração. Doeria tanto passar horas sem ele, que decidi pensar apenas em e no que essa viagem traria para ela.
Ela sempre pensara em mim antes de pensar nela mesma. Era a minha hora de pensar nela ao invés de mim mesma. Eu voltaria para em dois dias, no máximo, ao contrário do tempo que ela estava passando sem e sofrendo por isso.
. Eu deveria focar em .
Afastei-me um pouco e olhei profundamente nos olhos de , sentindo um calor abrasar meu corpo novamente. Era sempre assim quando eu olhava para ele.
- Mra T Nhé, . Eu volto logo, juro. – beijei seus lábios, sentindo a suavidade deles me emocionar mais do que eu já estava emocionada.
Ele beijou meus lábios mais uma vez e esperou que eu fechasse o cinto de segurança, fechou a porta da nave e parou do lado de fora, esperando os propulsores esquentarem o suficiente para levantar voo, e colocou sua mão em cima da minha através do vidro da porta. Mesmo assim, eu pude sentir o calor dele e ver as lágrimas que já começavam a rolar, mostrando que a confusão de sentimentos era dividida e que o buraco que eu sentia por pensar em ficar longe dele, o machucava tanto quanto me feria.
- Mra T Nhé hut frik. – ouvi baixinho e sorri ao sentir algo dentro de minha barriga se mexer em resposta àquela despedida. Eu era a mãe do filho de e ele me amava. Esse já era um sinal suficiente de que tudo daria certo.
E minhas certezas e esperanças se renovaram enquanto a nave levantava voo aos poucos e eu enxergava cada vez menor, até finalmente a nave partir na velocidade da luz, mas sem me impedir de enviar uma mensagem telepática para e a receber de volta, garantindo-me que tudo daria certo. Ele me amava e essa certeza, era o que fazia toda a minha vida e ações serem certas.
E agora, havia alguém dentro de mim que conseguia fazer tudo ser ainda mais correto e completo.

Capítulo betado por Thais M.

Fim




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