Zênite
História por Elle S. | Revisão por Gabriella
Prefácio
Que tipo de final feliz eu poderia esperar quando tudo já começava com “eu me apaixonei por um alien”?
Pensar que entre eu e pudesse existir um “felizes para sempre” era tão insano como crer que conto de fadas eram reais e que sonhos sobre as estrelas poderiam se realizar.
E a culpa de tudo isso era completamente minha, se eu não tinha um eterno final feliz, a culpada era eu que fora idiota o suficiente para me apaixonar por um cara que caíra, literalmente, de outro planeta.
Justamente eu que alardeara aos quatro cantos que aliens não existiam e que amor era uma besteira imensa, agora estava provando na pele o quanto as minhas certezas eram vãs.
Alien existiam, sim e não eram verdes e cabeçudos como eu imaginara por tanto tempo. Talvez até fossem, mas era uma exceção à regra. Ele era lindo, com seus olhos cor de chocolate tão intensos e completamente apaixonantes. era, com certeza, um alienígena, ninguém em todo o planeta Terra conseguia ser tão lindo e reunir tanta sensualidade em apenas uma pessoa.
Amor se provara não ser nenhuma besteira. Pelo contrário, ele machucava e feria muito profundamente para não ignorar. E em outros momentos, me elevava tão alto que eu não conseguia ao menos respirar.
Era tão irônico que um alien de outro planeta fosse o responsável por me fazer sentir tantos sentimentos conflitantes ao mesmo tempo, trazendo uma paixão arrebatadora quando eu me lembrava dos olhos de e um aperto doloroso no peito ao ser atingida pelas recordações de como tudo tinha terminado entre nós.
tinha uma vida no seu planeta, tinha uma família, um emprego magnífico e uma noiva. Céus! Como eu poderia querer um final feliz com essas condições?
Ele dizia me amar, e eu nunca amara ninguém na vida até conhecê-lo e saber o quanto um amor pode ser arrebatador, eu sabia que ele tinha deveres mais importantes do que ficar em um planeta estranho e hostil com uma garota como eu. Então eu tive de fazer valer o velho provérbio que a Sra. não parecia cansar se repetir: “se ama muito algo, deixe-o, se tiver se ser, ele voltará para você.”
Mas eu mesma sabia que ele não iria voltar.
Eu havia partido o coração dele e fazendo isso, partira o meu em ainda mais pedaços. Eu havia pedido para que ele fosse embora, mesmo o amando demais.
seria sempre o meu amor, o homem que me fizera acreditar no amor e saber como ele poderia ser. Porém, ele não conseguiria nunca me fazer acreditar que contos de fadas poderiam ser reais. Ele não chegaria em um cavalo branco e “felizes para sempre” era apenas um termo que não significava nada de muito concreto.
E só Deus sabia o quanto eu estava errada, mais uma vez.
Contos de fadas poderiam acontecer e pedidos feitos sob as estrelas poderiam se realizar, sim.
Sob o zênite, tudo poderia acontecer, especialmente quando um amor cósmico como o meu estava em jogo.
Um
Existiam certos sintomas para saber se uma pessoa estava na fossa. Geralmente os mais indicados eram ficar embaixo do cobertor por horas, chorando enquanto escutava músicas absurdamente melosas que geralmente falavam sobre amores perdidos e coisas do gênero, sem esquecer, claro, das overdoses de doces, sorvetes e pipoca, as sessões de filmes românticos e dramáticos e lágrimas que não paravam de cair.
E graças a Deus, eu não estava apresentando estes sinais. Estava trabalhando demais e tentando não correr para o banheiro, para chorar sem parar quando tudo voltava à minha mente como um filme ruim que eu não conseguia parar.
"Quero que você sofra tudo o que eu vou sofrer. Quero que chore o mesmo tanto que eu vou chorar quando me lembrar desse momento. Quero que você ofegue de desejo quando se lembrar de nossos toques, do quanto éramos bons juntos."
E era exatamente isso que acontecia toda vez que eu me lembrava de como eu havia sido tola. Ou eu havia sido forte?
Inclinei-me em minha cadeira giratória olhando as palavras no editor de texto, mas que não faziam sentido nenhum para mim naquele momento. As lágrimas estavam quase caindo e eu fiz um esforço sobrehumano para que elas continuassem dentro de mim. Lágrimas eram sinal de fraqueza, e eu não era fraca, se eu fosse teria deixado ficar.
- Já são cinco para a meia noite, Srta. , temos que fechar o jornal. - anunciou um dos seguranças parado na porta de vidro da minha sala, com um olhar cheio de piedade.
Eu despertava pena nas pessoas. E muito mais em mim mesma.
Não era como se eu estivesse sem banho e vestida como uma mendiga, mas todos perceberam que se antes eu já trabalhava como uma maluca, agora eu trabalhava muito mais.
Não tinha razões para voltar para casa. não estava mais por perto, e toda vez que eu chegava em casa, via em cada canto de meu apartamento e ficava revendo todos os nossos momentos juntos, me machucando mais do que eu pensara ser possível.
Amor doía, mas eu não pensei que ferisse tanto.
- Estou indo. - respondi educada, desligando o computador e já me enrolando em meu casaco.
O segurança pareceu dar um suspiro de alívio ao ver que eu concordara em partir. Isso significava que eu não o faria ficar mais tempo dentro do jornal. Ultimamente, muitos seguranças haviam inserido meu nome em suas listas negras por fazê-los ficar mais tempo além do horário habitual, porque eu me recusava a ir embora.
Mas, diabos, o que eu iria fazer em casa? Me jogar no sofá, abraçada a um travesseiro escutando Bonnie Tyler cantar Total Eclipse Of A Heart enquanto eu chorava sem parar? Não, eu não deixaria minha vida chegar a este estágio.
Se eu ainda tivesse , seria tudo tão mais fácil.
Despedi-me do segurança que pareceu agradecer aos céus quando atravessei os portões do jornal, rumo à rua fria do lado de fora, segurando a bolsa com força, tomando o rumo do metrô.
Apenas lembrar de me fazia ter vontade de chorar para sempre. A saudade de minha amiga apertava o meu peito muito fortemente. As ruas estavam vazias por isso me deixei extravasar toda a minha saudade e chorar baixinho enquanto continuava andando.
estava mais feliz onde ela estava, estava com ela e isso fazia com que a tristeza da falta dela fosse amenizada. faria o possível e o impossível para protegê-la, assim como eu havia feito por muito tempo.
Nós éramos amigas desde que nos conhecíamos como gente e nunca a deixei desprotegida por um só instante, agora, não ter a quem proteger me dava aquela sensação de impotência com a qual eu nunca soubera lidar.
Olhei para as estrelas, com um sorriso discreto. Ela havia realizado um de seus grandes sonhos: conhecer as estrelas de perto.
E fizera ainda melhor que isso. Estava morando em um planeta estranho e acompanhada de sua alma gêmea que era a pessoa mais especial deste mundo. estava bem. Eu não tinha com que me preocupar.
Mesmo assim, aquela dor dentro do meu peito não passava. Nem precisava ser adivinha para saber quem era o causador dela. O meu coração se apertava e eu nem precisava pensar em para isso acontecer, era como se meu coração soubesse que precisava bater por ele naquele momento e por isso batia mais doloridamente, me fazendo sofrer.
Todo sofrimento tinha um bem maior. Não era o que diziam? E o meu tinha sim um bem maior. Eu me apaixonara terrivelmente por e haviam tantas coisas entre nós que eu deveria esperar que ele se desse conta de que não poderíamos ficar juntos.
Por Deus! Eu não poderia partir, ele não poderia ficar e além de tudo isso havia a família dele e um casamento esperando por ele. Como fingir que tudo isso não era real? Como pensar que havia um futuro para nós.
Eu ainda via os olhos dele derramando lágrimas doloridas quando eu disse que não poderíamos ficar juntos e pedi para que ele voltasse ao seu planeta.
Era o melhor a fazer, e não importava o quanto eu sentia a falta dele, eu tinha certeza de que as coisas deveriam estar correndo melhores em Airamidniv do que se eu tivesse ido junto com . Ter que lembrar de seus olhos castanhos e profundos cada vez que eu respirava era apenas um pequeno preço a pagar.
Conformar-me que as coisas deveriam ser daquela forma era a única coisa que eu poderia fazer.
Já aceitara que estava mais feliz ao lado do amor de sua vida, já aceitara que estava fazendo o que estava em seu destino e isso era o mais importante e eu estava tentando levar a minha vida adiante, também. Tentando.
Eu já estava sentada há algum tempo no terminal quando o meu celular tocou. Eu nem ao menos precisava olhar no identificador para saber quem me ligava àquela hora da noite. September do Earth, Wind And Fire praticamente ecoou no terminal vazio e as outras três pessoas que também esperavam o metrô me olharam de viés, achando que aquele era o meu toque pessoal. Não era.
Na verdade, eu só o havia escolhido para saber que era Rico quem ligava. A música era brega como ele, se bem que, depois que eu finalmente havia concordado em lhe dar uma chance, ele havia superado e muito o seu lado de Rei do Brega. Havia abandonado as pochetes e ombreiras e não usava mais brilhantina, deixando o cabelo cair naturalmente ou passando um gel leve.
Só eu e Deus sabíamos o quanto ele havia se desculpado quando eu havia voltado de Iowa. Ele estava arrependido de ter perdido a cabeça naquele dia, e havia me explicado que havia ficado louco de ciúmes ao me ver com .
Ninguém melhor do que eu sabia o que era ser atacado por ciúmes doentio. Eu ainda me lembrava dos sentimentos que me afogaram quando eu havia visto Allie com e podia entender completamente o que Rico havia sentido.
- Alô?! - atendi baixinho para não perturbar ainda mais as pessoas que esperavam junto comigo.
- , meu amor, você ainda estava trabalhando? Meu Deus! - a voz dele estava preocupada e eu me senti protegida ao ouvir o modo como ele falava comigo. Eu seria muito grata a Rico enquanto eu existisse. Nos primeiros dias de torpor, quando eu realmente me dera conta do que havia acontecido, eu não tinha conseguido fazer outra coisa a não ser chorar e perguntar por que tudo havia sido daquela forma. E Rico havia cuidado de mim. Durante todos aqueles dias, e depois.
Até ter certeza de que eu estava realmente bem. O que mais eu poderia fazer senão atender ao seu pedido de namoro, dando a ele a coisa que ele mais queria no mundo, segundo ele, depois de ter cuidado tão bem de mim?
- Desculpe-me, eu realmente precisei.
- Tudo bem. Só queria saber se está tudo bem. Izzy e Noah estão de plantão na ARE em Washington, então creio que eles ainda não te perturbaram.
Sorri ao lembrar dos amigos que eu havia adquirido. Izzy e Noah eram tão divertidos que era praticamente impossível chorar ao lado deles. Noah era atrapalhado, mas estava sempre preocupado em me proteger, assim como Rico, e Izzy estava sempre pedindo conselhos amorosos, como se eu fosse digna em dá-los depois de ter perdido .
Mas para Izzy, eu deveria ser algo próximo dos gurus tibetanos do amor. Afinal, eu havia mostrado que as coisas entre ela e Noah realmente poderiam dar certo depois de ela passar tanto tempo apenas o olhando de longe. E sinceramente, passar alguns dias sem Noah e Izzy poderia ser ótimo para me fazer pensar.
Aí estava o problema. Eu não queria pensar. Não quando tudo o que vinha em minha mente era saudades e dor.
- E eles vão demorar? - perguntei já entrando no vagão mais próximo e me sentando perto da janela, afastada o suficiente para que os outros passageiros não fossem perturbados pela minha conversa.
- Provavelmente não. - Rico respondeu já um pouco menos preocupado. - O que pretende fazer este fim de semana? - a pergunta realmente me estremeceu. Eu sabia que estava prestes a ouvir um programa que seria o máximo para Rico e que eu, certamente, imploraria para não ir. - Vai ter um banda de salsa tocando lá na pizzaria e...
Rico falava demais. E a prova disso foi eu já estar na portaria do meu prédio, cumprimentando um sonolento Jesus quando ele finalmente deu uma brecha em seu monólogo sobre a diferença entre a salsa caribenha e a rumba de sei lá onde. Minhas opções para o momento eram inventar uma boa doença como dor de barriga ou de cabeça, ou então dizer que eu precisaria trabalhar.
Infelizmente, nenhuma das duas funcionaria.
Uma desculpa de doença me obrigaria a ser pajeada por Rico horas a fio e a desculpa do trabalho eu já havia usado na semana anterior.
- Señorita , a senhora tem...
- Eu pego minhas correspondências amanhã cedo, Jesus, muito obrigada. Tenha uma boa noite. - me despedi afastando a boca do telefone e mal deixando o meu porteiro completar o que estava falando.
Eu estava muito cansada e Jesus não parava de falar, mesmo sonolento e com o meu grau de cansaço, era bem possível que eu não entendesse metade do que ele diria. Já que algumas palavras eram em espanhol e eu nunca havia sido muito boa nesse idioma.
- Pode ser, Rico. - disse ao telefone, já prestes a bocejar.
O elevador subiu rápida e silenciosamente, então vi o meu andar, sentindo uma sensação no fundo do peito que já havia virado uma grande companheira. Eu simplesmente não conseguia ficar naquele apartamento me lembrando de todos os momentos que eu compartilhara com dentro dele. Doía demais.
Por isso respirei fundo ao colocar a chave na fechadura e finalmente entrei em casa, vagamente consciente de Rico surtando de felicidade por eu ter aceito ir a um show de eu nem mais me lembrava de que ritmo.
Antes de acender, como sempre fazia ao entrar em casa a luz da sala, incidiu em uma silhueta sentada no sofá, revirando os meus CDs que me fez pegar o spray de pimenta de dentro da bolsa, silenciosamente e desligando o telefone para que a voz anasalada de Rico não surpreendesse o bandido que pretendia roubar os meus CDs.
Me aproximei tão silenciosa quanto poderia estando de sapatilhas e investi para cima do sofá, ficando num bom ângulo para jogar o spray no rosto do bandido, que rolou do sofá, caindo no chão, em cima dos CDs e ficou em pé em minha frente.
Demorei alguns segundos para notar que eu havia errado o alvo e continuei espirrando o spray para cima escutando o bandido dar gemidinhos completamente femininos toda vez que eu tentava atacá-lo. Era só o que me faltava, além de ter um bandido em casa tentando roubar minha pilha de CDs da Britney Spears, o bandido tinha uma voz de falsete louca.
Era só o que me faltava, um bandido gay no meu apartamento!
De repente, o bandido correu em direção à porta e eu já estava atrás dele, pronta para usar o meu spray de pimenta de frente, o que me proporcionaria um maior estrago.
- Não ouse se mexer ou eu... Ou eu mato você.
O bandido parou estático com um braço já levantado e eu tremia, sem deixar de segurar forte o meu spray de pimenta. Era simples. Assim que eu jogasse aquilo em seus olhos eu chutaria sua virilha e correria para chamar Jesus ou alguém que pudesse bater com violência nesse bandido imprestável.
Antes que eu pudesse realmente espirrar o meu spray de pimenta, o bandido acendeu a luz, praticamente me cegando e por alguns segundos eu temi pela minha vida.
- Que merda você pensa que está fazendo, Égua Lenta?
A voz me era mais do que conhecida, assim como aquele odioso apelido que apenas uma pessoa a quem eu conhecia melhor que a mim mesma ainda tinha coragem de usar. Meus olhos ainda lacrimejavam pela sensibilidade da luz.
Eu só poderia estar louca. Era o sono, só poderia ser. Ela nunca poderia estar em meu apartamento. Eu estava delirando como já estivera outras vezes.
Mas o cheiro dela parecia tão real. Ela estava ali, só poderia ser . Mesmo assim não me mexi. Eu já havia abraçado o ar várias vezes, tendo alucinações como aquelas. E eu não faria isso de novo. Por mais real que parecesse, agora.
- Eu até diria “surpresa” e cantaria alguma música que diria como é bom estar de volta, se eu não estivesse completamente furiosa por você ter pisado no meu Cd da Britney! Justamente no Circus e você sabe o carinho que eu tenho neste Cd. - ela parou por alguns instantes me deixando assombrada. Como assim ela estava furiosa por eu ter pisado em seu cd e não por eu tê-la atacado? - O que me leva a perguntar, o que o meu cd está fazendo na sua casa?
Não pensei em nada. Tudo o que eu pude fazer foi me atirar nos braços quentes de , sentindo as minhas lágrimas escorrerem desesperadas enquanto eu sentia todas as sensações que um dia eu poderia sentir me atingirem todas de uma vez.
Era real. Deus! estava ali. De verdade.
- ... ...
As palavras saiam como lamentos de meus lábios e me acalentava como se eu fosse uma grande criança e eu sabia que não conseguiria parar de chorar tão cedo.
Eu havia sentido tanto a sua falta que meu coração havia até parado de bater, agora ele batia acelerado, misturando todos os sentimentos: alegria, alivio, felicidade, amor. Tudo. Junto.
- Ei, calma. Está tudo bem, ok? - me tranqüilizava e de repente senti algo deliciosamente carinhoso de encontro à minha barriga, como se viesse da barriga de . Uma sensação de acalanto tomou conta de mim e não pude resistir à vontade imperiosa que tive de tocar a barriga de minha amiga, ainda com o rosto cheio de lágrimas que pareciam não parar nunca de cair.
- Que...
- Bem, , existem certas coisas que você precisa saber. - ela sorriu e segurou minha mão, me levando por cima dos CDs espalhados para o sofá. Como costumávamos fazer há muito tempo atrás, eu me deitei em seu colo enquanto ela se sentou, fazendo um delicioso cafuné em mim.
Não me importei com a bagunça da casa, não quis perguntar o que estava acontecendo. Nada importava no momento. havia voltado e isso era tudo.
Chutei as sapatilhas para qualquer canto e me aninhei melhor à perna de , ainda suspirando o fim do meu pranto.
- Eu senti sua falta. - sussurrei.
- E eu a sua. Não imagina o quanto. Eu passei por cada coisa nesse período sem você que eu nem sei como pude ficar tanto tempo sem minha Égua Lenta. - ela falava rapidamente e às vezes eu me atrapalhava com a avalanche de palavras que ela jorrava, mas eu nunca poderia dizer o quanto escutar aquela enxurrada de informações me fazia sentir protegida e amada. - Você não tem noção! A noiva do era uma vaca invejosa e tentou roubá-lo de mim, vê que audácia, aí eu botei ela pra correr. Botei mesmo. Mas aí tinha também a mãe dele. Cara! Pensa numa megera. Pensou? - ela não me deu tempo o suficiente para pensar e já continuou, sem nem deixar eu absorver as palavras direito - Pois bem, ela é bem pior do que você imaginou. Ela fez da minha vida um inferno, e eu não estou exagerando. Ela era ruim mesmo! Ela queria porque queria fazer eu me separar do , e Ann tentou, juro que ela tentou. Ann é o nome dela, sabe. Bem, no final, ela entendeu que eu realmente o amava e parece estar aceitando melhor. Mas nunca se sabe quando a cobra vai morder você de novo.
Finalmente ela parou e eu me virei para olhar nos olhos de , como se eu realmente houvesse entendido o que ela queria dizer.
O que realmente era mentira. Eu nunca entendia nada do que dizia e poder não entender nada mais feliz do que qualquer pessoa poderia imaginar.
Peguei as mãos quentes de entre as minhas, suadas e frias, olhando fundo nos seus olhos brilhantes.
- E como esteve tudo por aqui? - ela perguntou sorrindo e eu não pude resistir a sorrir de volta. Eu também estava morrendo de saudades daquele sorriso.
- Tudo ótimo. Eu morri de saudades de você, mas Izzy e Noah me ajudaram bastante. Eles foram super legais comigo e vêm cuidando de mim enquanto eu quase me partia em duas, de tanta saudade.
Sim, eu não comentei o nome de Rico propositalmente. nunca gostara muito dele e desde o dia em que ele me atacara, ela passara a gostar menos ainda.
E ela também nunca entenderia o quanto ele estava me ajudando a lidar com o buraco em meu peito que parecia não ter cura.
- Saudades não só de mim, eu sei, .
Abaixei a cabeça soltando as mãos dela e tentando parar as imagens que vieram a minha mente.
- Sim. Apenas de você. - fui teimosa, e mentirosa, também. - Bem, mas me diga, você está tão linda e reluzente. O que andou aprontando em Airamidniv?
- Menina, você não vai acreditar! - mudar de assunto sempre funcionava com . Sempre. - me pediu em casamento!
Ela sorriu e eu a abracei forte mais uma vez, contente. e iriam se casar e isso era mais que lindo. Se havia alguém a quem eu confiava o meu posto de guardiã de , era a .
- Estou muito feliz por você, ! Muito.
- Bem, é por isso que eu vim à Terra. - ela disse - Eu não posso me casar sem você ao meu lado. Eu te prometi há anos que quando eu me casasse, você estaria ao meu lado. E não quero que seja diferente agora, só porque o noivo é um alien.
Segurei as lágrimas que estava prestes a voltar a cair. Eu havia prometido a ela que iria, naquela época, e ainda seguraria o seu buquê enquanto ela dizia sim ao homem de sua vida. Ou alien de sua vida, neste caso. Mas eu teria que quebrar esta promessa. Não poderia ir a Airamidniv. Meu coração não agüentaria.
- Eu te amo muito, . Mas realmente não posso. Airamidniv... Não posso.
- Você quer que meu filho - ela colocou uma mão sobre a barriga - fique sem madrinha só porque você não quer atravessar a via Láctea? - ante o meu olhar brilhante e meu sorriso bobo e emocionado, me abraçou. - Sim, eu estou grávida.
Chorando, de novo, coloquei a mão em sua barriga, sentindo a mesma sensação de acalanto que eu havia sentido quando a abraçara mais cedo. Algo ali de dentro se remexia contra a minha mão, como se estivesse brincando comigo.
- Ei, coisa fofa - eu disse contra a barriga - eu sou , sua madrinha.
Como se houvesse gostado disso, o bebê se remexeu bem mais, me fazendo sorrir boba.
- Bem, eu realmente vou descobrir em alguns meses como são os bebês meio-a-meio. - ela riu me fazendo gargalhar alto - Você vai comigo?
- Não posso. - gemi levantando-me e ficando de costas para , o que facilitaria e muito, a minha tarefa de mentir para ela e dizer que não iria com ela para Airamidniv. - Eu não... Não...
- Não quer encarar ?
A menção, a simples menção do nome dele já foi o suficiente para fazer o meu corpo tremer. Imagine como seria ficar cara a cara com ele. Não, eu não tinha amor próprio o suficiente para arriscar vê-lo mais uma vez.
- . - colocou a mão no meu ombro e eu fechei os olhos, prestes a cair no choro pela terceira vez. - Se não quer fazer isso, eu vou entender, mesmo chateada. Mas saiba que isso afetará não apenas a imagem que eu faço de você, como a que você faz de si mesma. Sempre achei que fosse mais corajosa que isso.
- Mas eu não sou! Eu sou covarde e por isso mesmo que eu o deixei partir. Eu queria, Deus sabe como, eu queria ser corajosa o suficiente para tê-lo de volta.
- E você tem essa chance. Eu estou colocando nas suas mãos a sua oportunidade para ter de volta e ainda mostrar para si mesma o quanto é corajosa.
- Como? - perguntei, me virando para ela completamente curiosa.
- É simples. Em duas semanas. vai se casar. Tudo o que tem à fazer é parar este casamento.
E então a minha boca secou. Não consegui pensar em mais nada a não ser no quanto o buraco ficara maior ao mesmo tempo em que a única pessoa que poderia curá-lo ficava ainda mais longe do alcance de minhas mãos.
iria se casar.
Dois
Eu não sabia o que era mais insano e/ou doloroso. se casar, eu impedir o casamento ou o que quer que continuava falando enquanto eu prosseguia em meu estado catatônico.
iria realmente se casar. Ele realmente me deixaria.
- Ele... Ele...
- Ele te ama, . quase morreu sem você e como é um cabeça dura como você, decidiu que a senhorita já deveria ter reconstruído a sua vida e decidiu realmente propor casamento à Allie.
Ela deveria estar muito feliz. Qualquer mulher que se casasse com seria feliz para sempre. Como num conto de fadas. E eu perdera a minha chance de ter um final feliz como o das histórias.
Imagens de ajoelhado, segurando a mão de Allie e a pedindo em casamento deixaram-me trêmula e a vontade de chorar ficou ainda maior.
Se ele estava com Allie, isso significava que eu havia feito tudo certo. Deixá-lo tinha sido o certo, mesmo que meu peito gritasse exatamente o contrário.
- É melhor assim, . Ele está seguindo o destino dele. E eu estou continuando a minha vida.
- Não. Você ama e...
- Um dia isso vai passar. – interrompi. - Eu vou aprender a amar o Rico. Estou me empenhando para que isso aconteça o mais rápido possível.
Tudo bem que eu não me empenhava o suficiente, mas o amor viria.
- Rico? Estamos falando daquele infeliz de ombreira e pochete que tentou te atacar? Faça-me o favor, !
- Ele abandonou a pochete e todo o resto. – disse, cansada de repetir isso sempre que dizia a alguém que estava namorando Rico. - E ele se desculpou, está realmente arrependido.
- Mesmo assim, você não vai amá-lo. É como obrigar alguém a fazer dieta depois de comer tudo o que se tem direito e repetir a sobremesa. Você não vai amá-lo. - repetiu.
E eu mesma sabia o quanto ela estava certa.
- Então, eu não vou amar Rico apenas porque ele não é tudo o que é?
- Não. Você não vai se apaixonar por Rico simplesmente porque o seu coração sempre pertencerá ao seu mrakni. - meu corpo se arrepiou ao escutar a linda palavra do idioma nells que designava as almas gêmeas no planeta de e . E eu era a alma gêmea de . - Mesmo que você se recuse a entregá-lo, seu coração sempre pertencerá ao seu mrakni.
Eu não iria chorar. Não iria. Mas estava tão difícil segurar. iria se casar. Eu não tinha mais chances, por mais que insistisse em toda aquela besteira, era oficial agora. Eu havia perdido .
- Tente entender, . - Não. Não entendi nem por que você o deixou da primeira vez, quem dirá por que você não quer arriscar agora.
Fechei os olhos, tentando tirar todos os pensamentos incoerentes da minha cabeça. iria se casar. Era a única coisa que se repetia como uma canção maldita que não consegue se tirar da mente.
Eu amava demais e, por esse exato motivo, eu havia feito tudo o que eu fizera. Era o melhor pra ele. Eu pensara no futuro, ao invés de me agarrar àquele amor. A última coisa que eu era, era imprudente. E mais uma vez a minha racionalidade que todos criticavam se mostrara acertada.
Tudo estava certo, apesar de meu coração partido.
- Eu fui racional. E isso se mostrou inteiramente certo.
- Ah. Você namorando um otário como o Rico sem nem ao menos suportar seus toques e se casando com uma mulher que não ama são, realmente, coisas muito corretas.
Virei-me para , ferida com o seu sarcasmo. Eu era a Rainha do Sarcasmo ali, eu estava sofrendo ali, era meu peito que doía sem solução ou remédio.
Ela estava furiosa e eu me senti no direito de contra-atacar como fazia quando brigávamos na adolescência. Mas, naquela época, as brigas eram bobas e sem um grande motivo. Diferentemente de agora.
- Se você veio aqui para me convencer a voltar com você para me humilhar na frente de , está perdendo o seu tempo. Eu não o quero.
- Mentirosa. - ela disparou. - E egoísta também. - estava vermelha de tanta raiva e colocou a mão na barriga, despertando a minha preocupação.
- Eu fiz o melhor pra ele e ainda sou egoísta. Legal.
De repente, não consegui mais manter a minha pose de indiferente. Não consegui mais controlar o que eu sentia. Eu era apenas , fraca, humana, terráquea e com o coração partido em mais pedaços do que eu poderia contar. Deixei-me cair no chão, com as lágrimas quentes escorrendo por todo o meu rosto e o peito arfante pelos soluços angustiados.
nunca me vira daquele jeito.
Eu mesma nunca me vira. Eu nunca ficara tão mal.
Mas o que eu poderia fazer, além de aceitar que não era meu e em duas semanas seria menos meu ainda?
A dor me consumia enquanto os braços de me rodeavam, firmes e acolhedores. Por entre os vales de lágrimas, eu sussurrava pedidos de desculpas. Eu nunca quis gritar com ela, muito menos me zangar, como eu havia feito.
- Não há o que se desculpar, . Me perdoe, eu... Fui cruel. Deveria saber o quanto está doendo.
Não. Ninguém tinha como saber o quanto estava doendo. Era ruim demais. Sufocante. Fatal.
- Desculpe... Desculpe...
- . Eu juro que não tocarei mais no assunto, mas eu realmente gostaria que você fosse para Airamidniv comigo. - ela me virou delicadamente para poder olhar em meus olhos. A sala estava uma bagunça. Estávamos rodeadas de CD’s, com os rostos manchados de lágrimas e tensas. Mas, mesmo assim, o nosso laço de amizade era tão fraternal que parecia rodear-nos. - Eu preciso de uma dama de honra e meu filho de uma madrinha. Mas, por favor, não entenda isso como um dos meus pedidos aos quais você nunca recusa porque me ama demais.
Eu poderia até sorrir, mas não consegui achar forças o suficiente dentro de mim para fazer isso. Ela piscou os olhos delineados com uma espécie de lápis prateado e, mesmo com aquele charminho, não consegui sorrir.
estava tão linda com aquele vestido cinzento que eu queria apertar ela vezes sem fim, mas ainda doía muito e tudo o que eu queria fazer era me jogar na cama e chorar até aquele aperto em meu peito não doer mais.
- Já é hora de fazer algo porque você quer fazer, não porque é o melhor a se fazer.
Respirei fundo, tocando o rosto de minha melhor amiga, dando-me conta do quanto aquele rosto era importante para mim. E do quanto eu significava para , quando ela fechou os olhos, contente pelo meu toque e com certeza com saudades dele. Eu não poderia deixá-la num momento tão especial de sua vida, onde ela estaria apavorada e num planeta completamente assustador. Eu tinha que estar lá, ao lado dela. Segurando a sua mão, como eu sempre fiz. E faria pelo resto da vida se fosse preciso.
- Eu vou. – suspirei, limpando as últimas lágrimas teimosas. - Eu vou com você.
- , não está fazendo isso por si mesma.
realmente me conhecia melhor do que eu pensava. Mas eu estava fazendo aquilo por mim mesma, se estivesse feliz com isso, então eu também estaria, mas sabia que ela não me deixaria em paz enquanto eu não mostrasse que estava fazendo aquilo porque eu realmente queria. Como se eu realmente quisesse largar a Terra e ir parar em Airamidniv para encarar esfregando Allie na minha cara, tentando me punir por tê-lo deixado.
Foi quando eu realmente percebi o que deveria fazer. Tanto pra provar à que eu realmente queria ir, quanto evitar que pensasse que eu tinha ficado abalada com a nossa separação. O que era mais que óbvio que acontecera.
Rico era a minha arma secreta.
não mexeria comigo se eu estivesse com Rico. Ele ficaria tão irado ao me ver com um cara como ele que, com toda a certeza, se grudaria mais ainda à Allie para me fazer ciúmes e eu estava decidida a não sentir nada assim que eu subisse naquela maldita nave. Deixaria ser feliz com Allie, ela merecia, ele merecia e era o melhor a ser feito.
Eu conhecia . Eu sabia o que ele faria antes mesmo de fazê-lo. E isso não era apenas racionalidade excessiva que me permitia analisar a reação das pessoas, isso era o meu coração que conhecia o de e sabia o que havia dentro dele. Era a minha própria mente que estava conectada à de . Era o simples fato de sermos mraknis.
- Estou. E é por isso mesmo que eu vou fazer uma exigência.
- Qualquer uma. - segurou minhas mãos com firmeza, contente por eu, aparentemente, estar finalmente fazendo algo por mim mesma e com direito a condições.
- Eu quero levar o Rico comigo.
- O quê? - ela gritou, levantando-se de uma vez e quase me fazendo cair. - Como assim?
- É a minha condição. - sussurrei um pouco envergonhada ao ver a reação tão explosiva de minha melhor amiga. Eu abaixei a cabeça enquanto a ouvia respirar profundamente para se acalmar.
- Tudo bem. Se é o que você quer. - ela voltou para perto de mim. - Aceito até levar aquele otário se isso me permitir voltar cedo para casa. Eu estou com os hormônios em ebulição e os sentimentos fora de controle e apenas consegue dar jeito nisso. - ela riu alto e eu revirei os olhos. Eu poderia rir também, se não estivesse pensando em outras coisas. , claro. Continuei no mesmo lugar, pensando no que fazer, quando o grito de me assustou. - E o que está esperando para fazer as malas e ligar para o Rico? Vamos, , eu não tenho a noite toda, tenho um mrakni para reencontrar! - eu fiquei atônita e ela gritou de novo, dessa vez me fazendo levantar e correr para o quarto para pegar a mala que eu deixava sempre pronta para qualquer viagem de última hora que eu precisasse fazer pelo jornal, atrás de uma matéria em outros locais.
- Vamos, , não é à toa que seu apelido é Égua Lenta.
Arrastei a mala até a sala, já discando o número de Rico em meu celular, pronto para avisar que faríamos uma viagem. não estava mais gritando por mim, já que eu já estava na sala, mas agora falava coisas suaves e parecia estar lendo os títulos dos CD’s, comemorando quando era um dos que ela gostava e se perguntando o que aquele tipo de CD estava fazendo na minha casa, se desaprovava o gênero ou artista.
- , minha princesa, aconteceu alguma coisa? - ele atendeu como sempre atendia. Afinal, era mais que difícil eu ligar para Rico, geralmente era o contrário, e isso acontecia tantas vezes que, de vez em quando, eu até tinha que desligar o celular para não atender chamadas de Rico.
- O que acha de irmos viajar?
- Eu adoraria. Quando? Talvez eu só...
- Eu quero ir agora. - eu disse um pouco brusca demais e, como eu realmente precisava que Rico fosse comigo, decidi que deveria mudar o meu tom de voz. - Eu recebi o convite agora e se não formos neste minuto, com certeza perderemos a oportunidade.
Passaram-se alguns minutos, enquanto Rico certamente decidia se iria ou não comigo e passara a se esgoelar na minha orelha, perguntando o que um CD da Celine Dion fazia na minha pilha de CD’s. Antes de eu dizer que ele era de Rico e não meu, o mesmo respondeu:
- Bem, acho que posso deixar a pizzaria nas mãos do Alejandro. - eu sorri contente, mesmo já perdendo a paciência com falando alto na minha orelha.
- Obrigada, Rico, passo aí pra te buscar em dez minutos, ok?
- OK, e... Eu te amo, .
Desliguei o celular sem responder a sua última frase. “Eu te amo” não era algo leviano que eu poderia falar para qualquer pessoa. Só havia um ser em todo o Universo que tirava aquelas palavras de meus lábios e, infelizmente, ele iria se casar em duas semanas.
Não, eu não deveria pensar nisso. Quanto menos eu pensasse em e seu casamento, mais cedo eu aceitaria isso. Mas por que era tão difícil apenas tirar isso da minha cabeça? Ah, claro, porque meu peito nunca doera tanto em toda a minha vida.
- Ah, eu... Acho que estou te deixando confusa com toda essa minha variação de humor, não é? - me perguntou, já dentro do elevador. Na verdade, no começo ela me irritara bastante, mas agora eu já nem a ouvia mais. Eu tinha outras coisas em mente para ficar escutando os surtos de . Afinal, algumas coisas nunca mudavam. - São os hormônios, ao mesmo tempo em que estou irada, já quero chorar e depois me acalmo e quero rir.
Bem, se era assim, então ela já estava grávida há, no mínimo, vinte e seis anos, já que ela sempre fora bipolar.
continuava falando sem parar e eu acreditava que ela estivesse contando alguma história sobre Airamidniv, já que os poucos pontos do seu monólogo em que eu prestava atenção, continham umas expressões estranhas que com certeza não era um idioma que eu conhecia.
E eu não conhecia muito de nells, a não ser “mra t nhé”. E me arrependia amargamente de ter conhecido essa expressão. Agora ela não saía de minha mente, mas teria que sair.
- Jura? – disse, sem emoção, em uma das deixas de quando o elevador já estava no subsolo, pronto para abrir as portas que davam para o estacionamento.
- Juro e... Meu carro! - ela gritou quando as portas foram abertas, correndo de braços abertos em direção ao seu pequeno carro prateado e o beijando com emoção. Meu Deus! Ela nunca tomaria jeito.
- Eu cuidei dele enquanto você não voltava. Está tudo do jeito que você deixou. - joguei as chaves para ela, que sempre ficavam dentro da minha bolsa, como se eu sempre soubesse que ela voltaria, e ela as pegou no ar, já abrindo a porta do carro, afoita. Entrei correndo e informei-a que precisávamos pegar Rico na pizzaria antes de seguirmos para onde ela estacionara, pousara ou sei lá o que fizera com a nave.
- O programou a nave para pousar em Maine. - ante a minha careta histérica, ela logo completou. - Mas eu aprendi rápido a mexer na nave e a pousei pertinho da Estátua da Liberdade. Está invisível, então ninguém sabe que tem uma nave espacial ao lado da Estátua. É tão engraçado. - ela riu, mas eu realmente não achei graça nenhuma.
Se ela pelo menos tivesse pousado a nave em Maine, eu teria mais tempo para me preparar para encarar uma vez mais, mas, como sempre, metera a mão onde não era chamada e pousara a maldita nave bem em Manhattan. Eu deveria matá-la.
Mas depois de tantos anos, eu deveria saber que não adiantaria nada.
- Ainda bem que é de madrugada e ninguém vai ver que eu pousei a nave lá. E também não vai nos ver embarcando.
- Ah, claro. Nova York nem é a cidade que nunca dorme, não é?
Ela riu e estava pegando a rua transversal, que saía exatamente em frente à pizzaria de Rico. Meus pensamentos ainda estavam conflituosos e dispersos. Nem se eu quisesse, eu conseguiria pensar no que dizia ou onde exatamente eu estava. Tinha que tirar da minha cabeça, mas a cada segundo que se passava, isso parecia mais e mais difícil.
buzinou duas vezes e Rico saiu de dentro da colorida pizzaria, com uma sacola de mão que só não era mais brega porque não era maior. Pelo menos, as roupas que ele trajava não eram tão horríveis ou eu realmente pediria para que não fosse mais. Eu queria mostrar para que eu estava superando o amor dele e estava numa melhor, não mostrar que eu me teletransportara para os anos 80 e roubara um homem de lá.
Ele correu para dentro do carro e se inclinou em direção ao banco da frente, roubando um selinho de mim, enquanto fazia uma careta de nojo.
- Bem, acho que não apresentei vocês dois. - disse o mais educadamente possível. - , este é meu namorado, Rico. Rico, esta é minha melhor amiga, .
Os dois apertaram as mãos, cordialmente, e eu sorri para Rico para deixá-lo mais à vontade com toda essa história de viagem, afinal, ele ainda não sabia para onde estávamos indo. Foi exatamente neste minuto que o meu celular tocou. Olhei no visor, receosa quando vi o nome de Izzy.
- Oi, Izzy.
- Querida, não quisemos ligar antes para não te preocupar, mas agora que nos certificamos, achamos que você deveria saber.
- Do que vocês estão falando? - perguntei confusa. E eu que achava que me confundia!
- Achamos uma nave ao lado da Estátua da Liberdade. Ela estava invisível, mas nossos sinais conseguiram rastreá-la. Quisemos nos certificar antes e descobrimos que a nave é realmente de Airamidniv.
- Bem, eu... - tentei pensar em alguma coisa que nos permitisse desconversar, mas tirou o telefone de minhas mãos, parecendo irada. - Oi, Izzy? Bem, é o seguinte. Se você tocar na minha nave, eu juro que eu vou perder o pouco de paciência que eu tenho no momento, entendeu? Sei. É bom mesmo. Já estamos indo para aí. Sim, vamos voltar para Airamidniv. Não, vocês não podem ir junto. Porque não podem. É uma nave, não um ônibus espacial. Não podem. Se forem bonzinhos, posso trazer um presentinho de Airamidniv quando eu visitar a Terra mais uma vez.
Depois de mais alguns minutos, finalmente se despediu e guardou meu celular no porta luvas, sorridente.
Eu estava tão embasbacada quanto Rico, que se virou para mim com os olhos arregalados e perguntou com a voz fraca:
- Para onde, exatamente, estamos indo?
- Não te disse? Airamidniv.
E não foi nenhuma surpresa quando eu olhei para trás e vi que o meu namorado de sangue latino e quente havia desmaiado como uma menininha no banco de trás.
Três
- Grande homem, hein? - disse quando já estávamos estacionando a alguns metros da Estátua da Liberdade, onde podíamos ver, de longe, os cabelos meio cor de rosa de Izzy Johnston.
- Ele só ficou um pouco assustado. Não é todo mundo que aceita fácil que vai pra outro planeta, sabia?
Ao invés de me responder, ela abriu a porta de trás e simplesmente bateu na cara de Rico para acordá-lo. O que ele fez imediatamente, olhando ao redor, confuso, até finalmente me achar, colocando uma mão no rosto vermelho que deveria estar dolorido pelos tapas de .
- Rico, eu realmente preciso fazer essa viagem. - eu disse, mal dando tempo para ele se recuperar. - E gostaria muito que viesse comigo. Preciso estar com você nesse momento.
Sim, mas, na verdade, precisava dele para mostrar a que ele não era o único homem do Universo. Não era certo usar Rico, eu sabia, mas tudo bem, eu estava pensando em mim pela primeira vez em muito tempo e não queria ficar pensando em remorsos. Dificultaria e muito os meus planos.
- Se você precisa de mim... - ele sussurrou, ainda fraco. - Mas eu... Tudo bem, . Se isso é importante pra você.
Droga! Ele fazia com que eu odiasse tudo o que eu estava fazendo, mas era importante para que eu fosse e eu odiava mais decepcioná-la.
Rico saiu de dentro do carro e andou ao meu lado, segurando a minha mão com toda a força possível. Ele estava com medo. Eu podia sentir isso pelo suor frio que já porejava em minha mão, vinda da dele, mas eu não poderia fazer nada para diminuir esse seu receio. Eu mesma não conseguia controlar o meu coração que batia acelerado.
Deus! Eu nem ao menos sabia exatamente do que eu estava com medo. Havia tantas coisas em jogo... Tantos sentimentos para lidar ao mesmo tempo, que eu nem ao menos sabia qual deles sentir primeiro.
- Vocês não relaram na minha nave, relaram? - gritou, correndo na nossa frente, chegando perto de Izzy e Noah.
Izzy estava com um sorriso de orelha a orelha por estar tão perto de uma nave, mesmo que ela estivesse invisível. Noah também não estava menos entusiasmado, mas realmente estava com medo de . E eu não o julgava, ela poderia ser bem assustadora quando queria.
- , eu estou com um mal pressentimento. - Rico me parou antes de nos aproximarmos de , Izzy e Noah. Ele segurava a minha mão com tanta força que eu tive que me virar para olhar em seus olhos, realmente espantada com o quanto eles estavam arregalados e me passavam insegurança.
Era só uma questão de esforço. Se eu quisesse, eu poderia me apaixonar por Rico. Ele não era feio, pelo contrário. Mas ele passara tanto tempo sendo brega que eu nunca me dera conta de que ele era interessante. Nunca chegaria nem perto do que era, mas ninguém nunca seria como , pelo menos não para mim.
- Vai dar tudo certo. - respondi, segurando as suas duas mãos com força, passando confiança. - Eu também estou com um pouco de medo de sair da Terra, mas confio em . Ela parece louquinha assim, mas tenho certeza de que vai cuidar bem de nós.
- Não é isso.
Rico abaixou a cabeça e eu senti algo partir dentro do meu peito. Eu odiava partir o coração dele vez após vez. Eu merecia ser punida por isso e tinha certeza de que esse casamento de era a minha punição divina por fazer tudo o que eu fazia com o amor de Rico.
- O que é então, Rico?
- Eu sinto que eu vou te perder. - ele disse tenso. - Essa viagem... Você... É um sentimento tão forte que está me deixando louco. Eu sei. Simplesmente sei. - ele apertou minhas mãos e eu senti mais uma vez o meu coração doer. - Você nunca foi inteiramente minha, . Sempre tive que te dividir com alguém que nem nessa galáxia está, mas estamos indo para o território dele. E se ele quiser te ter de volta, ele terá. Não haverá nada que eu possa fazer. Você sempre foi dele.
- Ele não vai me ter de volta, eu não vou voltar.
Eu respirei fundo, tentando realmente acreditar em minhas palavras. O meu tom de voz era decidido, a minha pose era determinada, mas só eu sabia o efeito que as palavras de tinham sobre mim. Se ele me pedisse de volta, eu tinha certeza de que esqueceria toda a minha racionalidade. Eu era, sim, racional e pensava em tudo primeiro antes de agir, mas eu estava cansada de sofrer. Não correria atrás de , não faria nada para acabar com aquele casamento. Mas se ele ainda me quisesse, eu seria dele.
Não! Deus! O que eu estava pensando?
- Você vai voltar para ele, . - ele gemeu, segurando-me com mais força ainda. - Eu sinto isso.
Joguei-me nos braços de Rico com toda a minha força. Ele me abraçou com firmeza, sentindo o meu corpo contra o seu, mas eu sabia que a sensação não estava diminuindo e sim aumentando. E, então, ergui meus lábios para Rico, beijando-o delicadamente.
Não houve fogos de artifício. Não ouvi nenhum sino. Meu peito não disparou e não senti o meu corpo se derreter, ardendo de desejo para se fundir ao dele.
Rico me segurava como se eu fosse uma flor fina e me beijava com carinho, tentando me convencer a ser dele.
Eu só tinha que me empenhar, fazer aquele amor dar certo. Fazer o nosso relacionamento ser real. Sempre fora real para Rico, mas para mim era apenas uma válvula de escape, uma companhia, Rico era mais um amigo do que realmente o homem com quem eu pretendia dividir minha vida.
- Não tenha medo, vai dar tudo certo. - repeti, soltando-me dele, e ele sorriu.
Pena que nem eu mesma acreditava em minhas palavras.
Dirigimo-nos para perto de Izzy e os outros. Vi que ela estava encantada com as histórias que contava e fiquei impressionada com o fato de ela estar entendendo tudo o que a minha amiga dizia, sendo que a velocidade das palavras era impressionante.
- E, então? - Izzy perguntou sorridente e meus olhos se voltaram para Noah, que sorriu apenas ao ver o sorriso de sua namorada. Era sempre assim. O olhar de Noah sempre estava voltado para Izzy. Ele sempre assistia todas as suas expressões, parecia beber todas as suas palavras e não havia coisa mais emocionante que olhar em seus olhos quando Izzy falava com ele. Era como se ele carregasse a lua e as estrelas em seus braços. Ele a amava mais que tudo nessa vida e, pelo modo como o corpo de Izzy parecia sempre se aproximar do de Noah como se fossem magneticamente pertencentes um ao outro, não era difícil de saber que todo o amor que ele sentia era lindamente recompensado.
- E, então, eu vim para a Terra, buscar para o meu casamento. - terminou a sua história, fazendo um gesto discreto para mim. Izzy estava encantada com as poucas histórias que já tinha ouvido e eu tinha certeza de que se não fôssemos embora o mais rápido possível, teria que saciar a curiosidade de Izzy e Noah e eu tinha certeza de que a curiosidade deles era insaciável.
- Bem, acho que é melhor partirmos rápido, não, ? Quanto mais rápido partirmos, mais rápido eu e Rico voltamos.
apenas ergueu as sobrancelhas para mim, como se me dissesse que não tinha tanta certeza assim de que eu voltaria. E para falar a verdade, nem eu mesma tinha essa certeza.
- Realmente. Não temos muito tempo até os ufólogos começarem a investigar, só a ARE sabe como esses metidos a MIB são irritantes. - Izzy cutucou Noah e ele começou a rir como se lembrasse de um episódio engraçado com os amantes de ET’s.
- Tudo bem. - eu disse, já colocando a mala ao lado da mochila de Rico, que colocava dentro da nave, sabe-se lá como e onde, porque aquilo ainda estava invisível. - Izzy, eu quero que cuide de tudo por aqui, por mim, não vamos demorar muito. - disse para minha amiga querida e ela se lançou em meus braços, abraçando-me com firmeza e, quando eu me distraí, dei-me conta de que sua boca estava em meu ouvido, sussurrando para que apenas eu escutasse suas palavras.
- Não perca sua chance dessa vez, . Certas coisas são únicas, se você deixá-las para trás, perde tudo.
Abaixei a cabeça e fiz um firme sinal de negativa. Eu não iria dar outra chance para o meu coração. Não tinha como ele se partir mais do que já estava partido. E eu não tinha forças o suficiente para aguentar aquilo tudo uma vez mais.
Dei um beijo no rosto de Noah, que me abraçou com força, fazendo-me prometer que cuidaria de mim mesma e que não faria nada muito perigoso. O que me fez pular nos braços dele e abraçá-lo de novo, com força. Eu realmente adorava aquele cara e desejava do fundo do meu coração que ele fosse feliz para sempre ao lado de Izzy, que era, claramente, a mulher de sua vida, sua... Mrakni.
Não, eu não podia nem ao menos pensar naquela palavra. Doía demais.
estendeu a sua mão para Rico, que já havia se despedido de todos, e o colocou dentro da nave, ainda invisível, deixando-me intrigada sobre como ele tinha entrado e como Rico ficara transparente. Antes de Izzy fazer qualquer pergunta que atrasaria mais ainda a minha maldita viagem, agarrei a mão de e me joguei para dentro da nave.
A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi um palavrão. Dos mais cabeludos. Aquilo era irreal.
Era enorme, completamente metalizado, de um material que eu não conhecia nem nos meus melhores sonhos. Foi surpreendente e não era apenas eu quem estava de queixo caído. Era lindo. Enorme. E eu sabia que estava me repetindo, mas realmente não tinha mais adjetivos para descrever aquele esplendor.
Era grande como a nave do Matrix e eu sempre achara impressionante como a nave do filme era grande. Mas a nave de era luxuosa. Exuberante em sua decoração metalizada e me fazia questionar como alguém conseguira confeccionar algo como aquilo e ainda por cima colocar nela a capacidade de ficar invisível.
- Surpresa? - perguntou com um sorriso, entrando na nave.
Surpresa não. Eu estava encantada mesmo. E Rico não estava menos impressionado, já que passava a mão nas paredes com um sorriso bobo de criança e sussurrava coisas para si mesmo, claramente incrédulo por estar vendo tudo aquilo.
- Eu também fiquei surpresa quando eu vi uma nave pela primeira vez. Passei horas passando a mão em tudo, encantada com tudo o que eu via. - ela sorriu, tirando uma maleta prateada de baixo de uma poltrona, na qual eu e Rico viajaríamos. O material da poltrona também era prateado, mas parecia ser tão macio e confortável que eu tive de resistir à tentação de me sentar nela imediatamente. Era madrugada, eu estava cansada, apesar de estar há um bom tempo sem dormir direito. Na verdade, eu estava sem dormir direito desde que eu vira indo embora naquele facho de luz. - E olha que a nave em que eu fui para Airamidniv era bem maior que essa. No mínimo, sete vezes maior. Essa aqui é um ovo, mas era o que tinha disponível para mim, então...
Ovo? Só se fosse de avestruz gigante! Aquela nave era absurdamente enorme e a prova disso era que quando eu olhava para o corredor, não conseguia ver o final daquilo. Era absurdo!
- Isso é gigante, ! - eu disse assombrada. - Como conseguiu pousar tudo isso ao lado da Estátua da Liberdade?
- Exagerada! A nave é grande só do lado de dentro, do lado de fora a nave é minúscula, do tamanho de um smart car e olhe lá! E nem é tão grande, você precisa ver a nave do naul. - estendeu a maleta na poltrona e retirou uma esfera prateada de dentro dela. - Vem aqui, Rico. - Rico ergueu os olhos, surpreso por ter sido chamado pelo meu melhor amigo e foi até ela, esticando o braço em sua direção quando ela pediu para que ele o fizesse, colocando a pequena esfera na curva perto de seu cotovelo.
Eu já estava desconfiada das ações de e poderia jurar que nem havia me surpreendido muito quando vi a bolinha criar pequenas garras finas como agulhas, que picaram o braço de Rico.
Mas antes que eu pudesse ralhar com ela ou perguntar o que diabos ela estava fazendo, ela sentou Rico na poltrona mais perto dele e eu assisti abismada o meu namorado virar a cabeça para perto da parede e começar a ressonar, mostrando que ele estava dormindo perfeitamente.
- O que você fez, ? – perguntei, jogando-me no colo de Rico, tentando acordá-lo.
- Eu apenas fiz ele dormir. Sei que ele teria uma crise de nervos quando saíssemos da estratosfera. Seu namorado é um molenga. - ela reclamou. - Eu deveria te fazer dormir também, não é seguro que terráqueos conheçam a localização de Airamidniv, mas eu preciso conversar com você e posso fazer isso melhor agora que o Rico está dormindo.
se sentou na poltrona maior, em frente à uma enorme estação cheia de teclas e botões, que realmente me deixou confusa, e fez um gesto para que eu me sentasse na poltrona ao lado dela.
Me surpreendi ao ver que já estávamos voando e eu via as estrelas bem perto de mim. Diante de meus olhos. Deus! Eu nem havia percebido que estávamos no ar de tão distraída que eu ficara com a nave linda.
- Já saímos da Terra? - perguntei surpresa.
- Ainda não, mas quase. - ela respondeu e virou-se para mim com um sorriso que ela sempre usava quando ia me explicar termos astrológicos. - A nave estava programada para zarpar no exato momento em que eu entrasse nela. Tudo aqui é completamente programado. A única coisa que eu desprogramei foi o local de pouso. Nem ferrando que eu pararia no Maine. Eu tenho medo de lá.
Antes que eu começasse a rir, ela segurou minha mão, deixando-me prever que a conversa que teríamos deveria ser séria demais. começaria mais uma conversa sobre e o fato de sermos mrakni e eu nem precisava dos poderes telepáticos de para saber que era exatamente isso.
- Você tem certeza do que está fazendo? Trocando um Superman por um simples Pinguim do Batman?
Olhei para Rico ao mesmo tempo em que ela fazia o mesmo.
- Como você é cruel. Rico é até bonitinho. Talvez um Coringa, você sabe que eu sempre tive uma queda pelo Heath Ledger. - riu e eu vi que eu conseguira o meu intento, distraindo-a. Mas não durou muito, já que o seu olhar voltou a ficar firme e sério. - Eu posso amá-lo se eu me empenhar nisso. É só eu me esforçar. E ele é sempre muito bom para mim. Eu adoro o Rico, tudo bem que tem momentos em que ele é simplesmente insuportável com os seus momentos de “ainda vivo nos anos 80”, mas eu sei que podemos ser felizes juntos.
- Nunca ouvi um absurdo maior saindo da sua boca. Pelo amor de Deus, ! Você precisou se esforçar para amar ?
Na verdade, não. Fora exatamente o contrário. Eu tinha que me esforçar para não amá-lo. Mas o fenômeno das almas gêmeas era mais forte que eu e, mesmo que eu morresse tentando, eu sabia que não conseguiria deixar de pensar nele um dia sequer.
- Ele vai ficar melhor sem mim. Sei disso. - segurei as lágrimas com firmeza. Eu não iria chorar de novo. Depois da partida de , eu tinha me tornado uma boba chorona.
- A gente só fica bem quando fica perto de quem ama, . E por isso é mais que óbvio que você e não estão nada bem. - ela disse brava. - Caramba! Eu mesma não estou bem ficando tanto tempo longe de ,e olhe que não estamos longe nem a um dia direito.
Eu não pude rir como ela fez depois de seu ataque. As suas palavras ainda reverberavam dentro de mim. Só ficamos bem quando estamos perto de quem amamos. E eu tinha certeza de que meu coração voltaria a bater quando meus olhos encontrassem a profundeza cor de chocolate de . Não havia coisa no mundo que me acalmasse e perturbasse ao mesmo tempo do que aqueles olhos lindos, faiscantes e sedutores, que me encaravam como se eu fosse algo digno de ser encarado.
- Acho que você precisa dormir um pouco. - sussurrou perto de mim e percebi que eu tinha me distraído e nem ao menos tinha notado que ela tinha colocado a esfera em meu braço, de tão atordoada que os pensamentos sobre me deixavam. - Te acordo em Airamidniv. - vi o seu rosto sorridente se apagar aos poucos. - Mra T Nhé, .
E a última coisa em que eu pensei antes dos meus olhos se fecharem de vez foi de outra pessoa pronunciando aquelas mesmas palavras com todo o seu coração. Uma pessoa que eu encontraria em apenas algumas horas e eu tinha certeza de que não estava nem um pouco pronta para esse novo contato imediato.
Quatro
Eu nunca fui de dar razão para as coisas que a mãe de dizia. Afinal, ela nunca fizera muito sentido para mim e, geralmente, ela falava sobre destino. não acreditava em destino.
Para mim, destino não existia. Eu mesma trilhava meus passos e se desse certo ou errado no final, eu arcaria com as consequências do caminho que eu mesma escolhi. Não me arrependia de nada, nem olhava para trás. Os meus atos me traziam até onde eu estava e eu estava feliz onde estava.
Mas eu tinha que dar razão à Senhora e nem ao menos sabia por que eu me lembrara de uma vez, há muito tempo atrás, quando ela dissera que quando algo está escrito em nosso destino, vivemos aquilo cedo ou tarde.
E eu estava ali, diante da porta da nave que se abria lentamente, alguns passos atrás de , que estava eufórica e animada por voltar a ver e se jogar nos braços dele, que eu previa que iria passar a mão na barriga dela, como o pai coruja que com certeza ele era. A minha mão suava frio e eu estava morrendo de medo do que aconteceria assim que a porta se abrisse totalmente. Eu rezava silenciosamente para que não encontrasse . Eu poderia estar preparada para chegar em Airamidniv, para ver Allie, para lidar com um planeta completamente desconhecido e estranho como uma jornalista competente e capaz, como eu era. Mas não estava pronta para ver . Mesmo se eu lidasse com essa situação como jornalista, como uma profissional que estava apenas vivenciando uma nova experiência para reportar depois, eu sabia que seria impossível com . Havia muitos sentimentos em jogo.
Mais do que eu gostaria que tivesse.
A mão de Rico agarrou a minha e me virei para encará-lo. Ele parecia mais pálido e seus olhos verdes brilhavam com determinação, mas eu não era cega para não ver o pavor neles. Rico estava ali por mim e eu não brincaria com os sentimentos dele. Não poderia.
Era tão complicado ver os olhos verdes de Rico, sabendo que eram profundezas cor de chocolate que eu gostaria de ver naquele momento.
Eu tinha que viver aquele momento. Eu o adiara quando dissera para que não deveríamos ficar juntos. Mas eu tinha que vivê-lo e a prova disso era que eu estava prestes a colocar meus pés em Airamidniv.
O que o destino me reservava agora? Eu havia mordido a língua. Agora eu acreditava. Assim como eu acreditava em alienígenas.
A porta se abriu totalmente e acompanhei os passos de , saindo de dentro da nave de mãos dadas com Rico.
Uma passarela rolante nos levou até o chão e eu agucei meus olhos, tentando prestar atenção em tudo a minha volta, e foi quando me dei conta da mais completa ausência de cor naquele local.
Tudo era cinza, branco ou preto. As casas, as roupas, os objetos. As únicas cores que poderiam ser vistas eram o verde da grama, o azul do céu e nada mais.
Fiquei um pouco perturbada com isso, mas ainda assim continuei parada, estática. Aquilo era como um aeroporto de naves e, abaixo de nós, eu podia ver algumas pessoas nos esperando.
E mesmo de cima, eu poderia reconhecer aqueles cabelos indefinidamente claros. Eu não precisava vê-lo para saber que era ele. Eu o sentia em meus ossos.
A mera presença dele me despertava coisas inéditas, meu coração parecia prestes a sair do meu peito e minhas mãos suavam ainda mais. estava ali. Deus! E agora? Como eu iria encará-lo?
Finalmente, chegamos ao chão e Rico soltou a minha mão, colocando as suas para trás de suas costas numa pose protetora e que deixava bem claro que ele já havia avistado , pela sua expressão.
Eu apenas abaixei a cabeça, determinada a não deixar ver as minhas emoções, que desde que eu o conhecera, estampavam-se facilmente em meu rosto. Tentei pensar em coisas idiotas, como o quanto meu chefe ficaria furioso quando não me visse no jornal de manhã, como Airamidniv era sem cor, na verdade, eu estava pensando em qualquer coisa que não tivesse ligação com . Ele leria a minha mente, eu sabia que leria, e se ele fizesse isso, eu estava tomando cuidado para que não tivesse nada constrangedor para que ele descobrisse.
Como eu esperava, correu até , pegando-a no colo e a beijando com paixão, como se eles não tivessem passado dois dias separados, como se eles não se vissem há anos. E eu sentia que era exatamente assim que eu me sentia ao conseguir ver de relance, em uma das vezes que meu cabelo saiu de seu papel de véu e escudo, permitindo-me vê-lo. Era como se eu houvesse passado uma eternidade sem sentir a presença forte e intensa dele. Como se eu estivesse cega e, de repente, voltasse a ver e tudo que eu conseguisse ver era ele e toda a sua perfeição.
colocou a mão na barriga de , sorrindo quando aparentemente o bebê se comunicou com ele.
- Precisamos ir falar com o Dr. Luke. Sei que não aconteceu nada de anormal na viagem, mas tenho muito medo dos efeitos da atmosfera terrestre e, como o nosso bebê é metade terráqueo apenas, os efeitos podem ser diferentes.
- Também te amo e senti a sua falta, .
Eu senti algumas lágrimas escorrerem, mas limpei rapidamente. Não pensar em , não pensar em , não pensar em . E mesmo repetindo isso como um mantra, o magnetismo dele me fazia tremer para controlar a vontade que eu tinha de erguer os olhos para vê-lo.
Uma mulher bonita chegou perto de e esticou os braços para ela, ao que se aninhou neles e abraçou a mulher com um tanto de desconfiança e eu não precisei ser muito intuitiva para saber que ela era a tão famigerada sogra dela. A tal pé no saco estelar.
- Como está tudo com o meu netinho? - ela perguntou.
- Está tudo bem, ele se comportou muito bem. Estamos os dois muito bem. E mais felizes agora, porque consegui trazer comigo.
E chegara o momento pelo qual eu estava temendo. O da minha apresentação. O momento do confronto.
- Olá, . - me abraçou com carinho e eu sorri para ele, contente em revê-lo. Ele estendeu uma mão na direção de Rico, que a aceitou educadamente, mas estava claro no rosto de ambos que não se gostavam.
- , Rico, essa é minha sogra, Ann. - fez as apresentações. - Ann, essa é minha melhor amiga e seu namorado Rico.
Allie e estavam mais atrás e se aproximaram quando Ann me deu dois beijos na face e apertou a mão de Rico, mas sem muita intimidade, afinal, éramos terráqueos e ela não tinha nenhuma obrigação em ser educada conosco, mas parecia fazê-lo por perceber que gostava de mim.
- O que esse cara está fazendo aqui, ? - perguntou de uma vez, sem nem ao menos se preocupar em nos cumprimentar, enquanto eu sentia o olhar de Allie sobre mim, mesmo enquanto ela abraçava e dizia a ela que estava contente por ela não ter demorado na Terra e ter chegado a tempo de experimentar o seu vestido para a cerimônia.
- Ele é namorado de , .
- Mas que diabos a sua amiga tem na cabeça, ? Será que ela não sabe que esse cara tentou atacá-la e, se eu não tivesse chegado a tempo, as coisas poderiam ser irremediáveis?
- Ela está bem aí, , por que não pergunta a ela os seus motivos? Porque eu mesma não entendi.
Finalmente ergui minha cabeça, deixando que olhasse em meus olhos, mas pensando no meu primeiro beijo com Rico. Fora suave e ele me tratara completamente delicado. Eu sabia que não queria falar comigo, usaria todos os seus truques para saber da verdade e sua principal arma era a telepatia.
Sorri irônica ao ver o rosto dele se crispar de dor e ele colocar a mão na cabeça, atordoado.
Allie automaticamente grudou em seu braço, perguntando se ele estava bem e apenas assentiu, sem dizer nada, mas também sem tirar seus olhos dos meus. Eu sentia todo o mundo girar ao meu redor e eu nem sabia se Airamidniv orbitava. Mas eu sentia. Sentia calor, sentia que eu finalmente estava em casa, ao ver aqueles olhos brilhantes, a minha profundeza cor de chocolate que tanto me atormentara enquanto estivemos separados.
- Talvez, , ela precise de um homem de verdade para fazê-la feliz e seja por isso que eu estou com ela. Curando as feridas que você provocou.
Eu deveria ter previsto tudo o que iria acontecer, mas foi tão surpreendente que eu só pude assistir.
Assim que as palavras saíram rascantes da boca de Rico, o punho de virou-se numa velocidade espantosa e acertou-lhe o nariz de uma vez, fazendo Rico desequilibrar-se e cair em cima de mim, que o segurei prontamente e o fiz me encarar para saber o estado de seu nariz.
não disse mais nada, não fez mais nada, apenas olhou para nós dois com desprezo e se afastou pela longa via que dava em uma enorme mansão que, de longe, parecia de mármore negro.
O nariz de Rico sangrava demais e já escorria para a sua camiseta, enquanto ele segurava o mesmo e eu o segurava. estava com uma expressão que parecia que ela riria a qualquer momento e ostentava a mesma expressão. Qual era? Estavam todos contra o meu namorado?
- Desculpe-me, Rico. Se eu soubesse que ele faria isso com você...
- Não foi sua culpa, . - ele disse com a voz meio falha pelo nariz quebrado. - E isso não foi nada em visto ao que eu poderia fazer por você.
Eu sorri, fechando os olhos por alguns momentos e odiando com todo o meu coração. Bem que minha mãe dizia que o ódio era um sentimento perto demais do amor. No momento, eu sentia os dois com a mesma intensidade e dor.
Allie, que até então tinha estado parada no mesmo lugar, atordoada com tudo o que tinha acontecido, finalmente voltou seus olhos para nós. E, ao contrário do que eu pensava, ela não parecia superior. Os seus olhos estavam fixos nos de Rico, que devolvia o olhar com um misto de admiração e outro sentimento que eu não pude identificar. Allie parecia em outra dimensão. Estendeu a mão para o nariz de Rico e ele, como um autômato, soltou as mãos ensanguentadas do nariz dolorido e deixou que ela o tocasse.
E eu fiquei apenas olhando aquela cena, como todos os outros, tentando entender que merda estava acontecendo ali.
- Precisamos levá-lo para o hospital. - ela disse.
- Meu plano de saúde não cobre outros planetas, eu acho. - Rico disse com as mãos de volta ao nariz e eu e começamos a rir como loucas.
- O hospital é perto daqui. - anunciou. - Vamos até lá com vocês, precisa mesmo ver o Dr. Luke para verificarmos se está tudo bem com o bebê e já vemos quanto estrago... - respirou fundo como se estivesse contendo uma risada. - fez no nariz de Rico.
Allie assentiu com firmeza e já começou a marchar na direção onde deveria ficar o hospital. parou ao meu lado enquanto ia mais atrás conversando com a sua mãe.
- O que diabos foi isso? - ela perguntou baixinho, mas evidentemente prestes a surtar.
- Depende do que estamos falando. Juro que não estou entendendo o que está acontecendo desde que eu desci dessa nave.
- Bem, era mais que óbvio que o iria...
Antes que começasse uma ode elogiando como tinha sido viril e começasse a pensar em prováveis voltas entre nós, eu a cortei, perguntando se Airamidniv era maior do que aquilo que eu estava vendo.
Era muito pequena! Até mesmo o TriBeCa era maior que aquilo. E, aparentemente, não havia carros, já que todas as pessoas passavam apressadamente de um lado para o outro, apenas andando e com roupas pretas, brancas ou cinzas.
- Não, é só isso mesmo. Aqui é um ovo! Acho que por isso todas as crianças querem ser exploradores. Em dois anos de vida, as pessoas já conseguem conhecer o planeta inteiro. E com direito a detalhes.
Eu comecei a rir e me virei para ver se estava tudo bem com Rico, que gemeu um pouco quando mais sangue começou a escorrer de seu nariz.
fora um bruto ignorante. Como eu pudera amar um cara sem educação como ele? Além de não falar comigo, tratando-me como um nada invisível, batera em Rico como um homem das cavernas. Pior até.
- Está doendo muito? - perguntou.
- Um pouco. Já quebrei o nariz uma vez, então não está doendo muito. - ele assegurou. - Mas ele só conseguiu me acertar daquele jeito porque me pegou de surpresa e saiu, se ele tivesse ficado, iria rolar uma boa briga.
- No gel do seu cabelo?
havia falado em voz baixa, mas eu havia escutado e olhei para ela, censurando-a por sua falta de tato. O cara estava com o nariz quebrado, será que ela não poderia ser legal com ele só um pouquinho? Tudo bem, eu sabia que ele não era bem o que ela tinha em mente como um homem certo para mim, mas eu sabia que Rico poderia ser um bom cara para mim.
Não demorou muito e chegamos ao hospital, que era enorme e branco. Havia sim algumas coisas em cinza claro, mas tudo era tão minimalista que eu me senti como uma pequena formiga em um pote de leite.
foi até uma espécie de recepção e disse que queria ver o Dr. Luke e o médico de plantão para que ele pudesse ver o nariz de Rico.
Logo, dois homens vieram em nossa direção. O primeiro, um senhor de cabelos brancos, que depois de fazer uma enorme saudação para Allie, abraçou Ann, e pegou as mãos de entre as suas, dizendo o quanto estava feliz por ela ter voltado rápido de sua viagem. acenou para mim e seguiu o médico por um dos enormes corredores daquele enorme hospital, deixando eu, Allie e Rico com o segundo médico, que parecia ter no máximo vinte anos, fez uma mesura exagerada para Allie e pediu para que Rico o seguisse até o consultório.
Que, na verdade, não em surpreendeu nada. Era grande como a recepção. Branco como a recepção. E cheio de equipamentos enormes e de última geração, que fizeram a minha mão coçar de vontade de tocá-los.
O médico, que se apresentou como Josh, sentou Rico em uma pequena cadeira e pegou um pequeno aparelho, que mais parecia um notebook sem teclas, e fez com que Rico apoiasse seu queixo ali.
Tentei repetir o sobrenome do médico para mim mesma, mas, nem se eu quisesse, conseguiria repetir aquela coisa cheia de consoantes. Nem russo era tão difícil.
E antes que eu pudesse pensar, o médico pediu para que Rico se levantasse enquanto ele mexia no nariz de um lado para o outro com um sorriso imenso ao ver que o seu nariz havia voltado ao normal, mesmo ainda estando um pouco ensanguentado, problema que o médico também resolveu, dando uma caixa de lenços umedecidos para que Rico se limpasse.
Rico apertou a mão do médico efusivamente, contente por ter seu nariz consertado com tanta facilidade e rapidez.
Josh se mostrou sem graça com os agradecimentos de Rico e, depois de mais uma mesura para Allie, mandou-nos para fora de seu consultório, já que tinha mais uma emergência para atender.
Andamos em silencio até a recepção, onde Allie abaixou a cabeça com as duas mãos cruzadas na frente do corpo, com uma expressão estranha. Eu deveria ter perdido a minha capacidade de ler as expressões das pessoas. Afinal, eu não conseguia entender em nada o que significava os olhares que Allie e Rico trocavam.
- Eu realmente sinto muito pela falta de controle de . Ele está muito impaciente ultimamente, acho que são os preparativos para o casamento. - se ela queria me desmoralizar, muito bem, ela tinha conseguido. Eu senti um aperto odioso no peito, que me fez abaixar a cabeça para não deixá-la ver o quanto saber que o homem da minha vida se casando com outra mulher me doía. – E, por isso, gostaria que se hospedassem em meu palácio como um pedido sincero de desculpas.
- Realmente, muito obrigado. - cortei antes que o sorriso de Rico aumentasse e ele soltasse um sonoro “sim”, quando a última coisa que eu queria era ficar no palácio da minha rival. - vai nos hospedar e preferimos ficar com ela, não sabemos nada da cultura de vocês e nos sentiríamos pouco à vontade no castelo.
- Entendo.
- Mas obrigada pelo convite.
- Então, por que vocês não jantam conosco no palácio essa noite? - ela convidou com os olhos fixos em Rico. Como se eu nem estivesse ali. Deus! Eu adquirira a capacidade de ficar invisível em Airamidniv? Só podia. - Aceitem isso como um pedido de desculpas e eu não aceitarei recusas. Espero vocês às sete.
E sem dizer mais nenhuma palavra, ela saiu andando da recepção através das portas automáticas, deixando eu e Rico olhando confusos um para o outro.
Mais uma vez, eu não precisei ser intuitiva para saber que aquele jantar prometia muitas coisas. E nenhuma delas era boa.
Cinco
- Tchau, , tchau, . - a última das crianças que se eu não me enganava se chamava Vanessa, saiu porta afora com um brilhante sorriso depois de me dar um abraço terno.
havia me surpreendido muito. Tanto pela casa dela, quanto por ter realmente dado vazão à sua natureza criativa. Eu sempre soubera que ela era maravilhosa na pintura, mas nunca tinha me dado ouvidos e realmente explorado esse seu lado. E ver que ela finalmente estava pintando e ainda ensinando as pequenas crianças de Airamidniv como o mundo das cores e pincéis poderia ser maravilhoso estava me dando vontade de chorar.
Eu não tinha dúvidas de que seria uma mãe maravilhosa. Ela tratava as crianças tão bem e cuidava tão bem delas, tomando cuidado quando elas mexiam com tintas e cuidando das que subiam nas escadas para pintar as partes mais altas do mural que fazia.
Mas uma das crianças realmente me cativou. O seu nome era Kenan e durante todo o tempo que ele esteve na casa de , ele ficou sentado em meu colo, tocando o meu rosto delicadamente e dizendo o quanto tinha gostado da cor dos meus olhos. Era mais que claro que ele não tinha gostado de Rico, mas algumas crianças pareceram pensar diferente dele e, quando Rico disse que iria ensiná-las a jogar baseball no gramado em frente à casa de , muitos dos meninos o acompanharam, ansiosos para conhecerem um popular jogo terrestre.
- Eu me apaixonei por Kenan. - disse à quando ela finalmente fechou a porta, depois que Vanessa foi embora.
- E ele também se afeiçoou em você. Foram essas lindas criaturinhas que me disseram que eu estava grávida. No começo, eu duvidei demais e até mesmo cheguei a discutir com por conta disso. - ela sorriu enquanto me acompanhava pela escada para o segundo andar da casa, onde nos arrumaríamos para o bendito jantar que eu estava louca para faltar. - Eu realmente acho que ele teve muita paciência comigo nos primeiros meses de gravidez. - ela riu.
Nós paramos em frente ao quarto que eu iria ocupar enquanto estivesse em sua casa e o barulho do chuveiro poderia ser escutado mesmo do lado de fora com a porta fechada, indicando que Rico estava tomando banho.
- Precisamos conversar, não acha?
- Não. - cortei. - Não acho.
- Por favor, . O que você sentiu quando o viu? Quando seus olhos encontraram os dele?
Eu sorri, lembrando-me do quanto eu havia sido malvada, fazendo-o ver em minha mente a primeira vez que eu beijara Rico. Mas os sentimentos conflitantes em meu peito quando olhei para vieram me atormentar também. Ver Allie pendurada em seu braço, ver os seus olhos brilhantes e cor de chocolate o fitando como se ele fosse uma espécie de sonho que se tornara realidade e eu nem precisava de um espelho para saber que eu olhava para ele exatamente da mesma maneira.
E como eu poderia tirar isso de Allie? Como eu poderia simplesmente chegar no planeta dela, onde tudo seguia de acordo com as suas leis, e simplesmente levar o homem com quem ela sempre sonhara em se casar?
me dissera que os casais eram escolhidos e aprendiam a se respeitar e iam se afeiçoando dia após dia, até que se casavam e eu realmente acreditava que o respeito e o carinho eram a base para um casamento duradouro. E mesmo que todos os habitantes de Airamidniv não acreditassem em amor por não o verem há muito tempo, eu sabia que o que Allie sentia era amor. Mra, como eles diziam em nells, o idioma deles.
Ela o encarava como se ele carregasse a lua e a estrelas nos braços. Deus! Como eu poderia roubar o sonho dela? Eu sacrificaria o meu sonho pelo dela. Sim. Havia mais pessoas em jogo. Rico era uma delas. Ele gostava de mim e eu sempre odiara saber que as pessoas não eram amadas de volta. Era doloroso demais, cruel demais, já que isso já acontecera comigo uma vez e eu lembrava muito bem o quão horrível aquilo tinha sido.
Era só eu me esforçar, tentar duro e eu realmente conseguiria sentir o tal do amor que ele tanto merecia. Não como o amor que eu sentia por . Não, ninguém conseguiria sentir aquele sentimento. E, então, eu realmente entendi o que as pessoas de Airamidniv diziam sobre apenas as pessoas fortes serem capazes de amar. Alguém fraco nunca poderia lidar com tantos sentimentos ao mesmo tempo, tanta dor e tanta pressão.
Eu realmente era forte. Muito forte.
- Eu senti que fosse morrer.
- disse que sentiu ele lendo a sua mente e sentiu que ele ficou irado, o que diabos você pensou quando ele leu?
Abri a porta do quarto, decidida a terminar aquela conversa tão perturbadora.
- Pensei no meu primeiro beijo com Rico.
E o meu sorriso sádico não diminuiu nem um pouco quando eu vi a expressão assombrada de , assim que eu fechei a porta.
- Não estou pronta para isso. - eu disse, torcendo as mãos enquanto virava o rosto para o enorme palácio em mármore negro.
- Entendo seu nervosismo, . - disse, já prestes a subir as escadas, de braços dados com . - É enorme e imponente, mas vai dar tudo certo. Tenho certeza.
Ah, ele tinha? Que bom que alguém pensava positivo ali, porque eu não estava nem um pouco otimista sobre os eventos desse tal jantar.
- Vai dar tudo certo. - Rico também assegurou, segurando minha mão suada.
Dois pensando positivo ainda não era o suficiente para abater o meu negativismo.
- Vamos, ? - chamou e eu finalmente subi as escadas, segurando a ponta de meu vestido cinzento. O vestido era longo e sensual e havia me emprestado o mesmo com claras intenções de que ele seduzisse . O enorme decote redondo e o racho que descia do meu quadril até o meu tornozelo por toda a minha perna direita eram completados pelo tecido justo e colante.
Rico estendeu a mão para mim com os olhos baixos, evitando olhar no meu decote e eu quis apertá-lo por ser tão fofo. Ele estava usando uma camisa cinzenta, combinando com calças mais escuras, mas tudo em um tom de cinza que já estava começando a me cansar.
Já estava deslumbrante em um vestido rosa claro leve e curto, que a deixava parecendo uma fada prestes a voar a qualquer momento, pelo tecido esvoaçante. E eu me lembrava muito bem do ataque que tive quando vi que seu vestido era colorido. Até me recordava da resposta quando pedi para usar cores também e perguntei o porquê de não poder usar.
- Porque lutei muito para isso. E fui aceita apenas porque sou mrakni de um oficial. E pelo que eu lembro, o seu mrakni é apenas um otário terráqueo.
Lembrar-me disso apenas me fez querer mais ainda ir embora. Pelo menos, eles poderiam ter me deixado ir de preto, assim como , que estava deslumbrante ao lado de . Deus! Que par lindo eles faziam!
- Os senhores Schnakerjud e Rico Casillas acompanhados das senhoritas e .
Eu iria correr. Iria. Estava até dois degraus abaixo de todo mundo, pronta para correr de volta para casa. E quando eu dizia casa, estava mesmo era querendo dizer Terra. Eu sofria lá, mas sabia que nunca chegaria a encarar o causador do meu sofrimento de perto enquanto dava a ele a chance de me olhar nos olhos e questionar porque eu o deixei.
Como ele acreditaria que eu o deixara por amor quando estávamos sofrendo tanto mais separados. Mas eu sabia que seria mil vezes pior se estivéssemos juntos. Ou eu pensava que sabia.
Ryan sempre dissera que esse era o meu problema, achar que eu sabia o que as pessoas sentiam e pensavam, achar que eu sabia que o mundo era realmente daquele jeito, desprezando a ideia de que sentimentos poderiam mudar, que as pessoas poderiam mudar.
Mas agora eu não tinha para onde correr mais. O cara na porta já havia nos anunciado e e já entravam no enorme salão que conduziria à sala de jantar. Eu tive que correr para alcançar o braço estendido de Rico, fazendo uma expressão imperturbável.
- Preparada? - sussurrou para mim enquanto dois empregados abriam as enormes portas para a sala de jantar e, antes mesmo que eu dissesse que não estava nem um pouco pronta, as portas já estavam abertas e todos à mesa pararam para nos encarar.
Mas de todos os convidados naquela mesa, apenas um olhar prendeu minha atenção. Apenas um par de olhos completamente castanhos me atraiu entre tantas pessoas. E era justamente esse olhar que eu queria desesperadamente evitar.
- Oh! Vocês chegaram. - Allie levantou-se e andou até nós, cumprimentando-nos, cada um com dois beijos na face, e hesitando um pouco quando foi a vez de fazer isso com Rico, cujos olhos se iluminaram ao se ver tão perto de Allie. - Venham se sentar perto de nós, quero que conheçam meu pai, o naul de Airamidniv.
Meus olhos ainda estavam presos nos dele e nem por um segundo perdemos o nosso contato visual. O tal naul, que parecia se chamar Stan, levantou-se e nos cumprimentou, sentou-se de novo e, mesmo assim, nossos olhos ainda estavam fixos um nos do outro.
Eu podia sentir a mão de Rico na minha, enquanto me ajudava a sentar-me. Eu estava vagamente consciente da voz de Stan falando alguma coisa sobre terráqueos e sua importância no comercio intergalático, até mesmo sentia, pelos anos de experiência, os olhos de me sondando e querendo saber o que exatamente estava acontecendo.
Mas eu estava apenas vagamente consciente de tudo isso. Eu estava focada em outra coisa. Imagens passavam em minha mente como um daqueles filmes antigos, sem me dar uma pausa e eu nem precisei olhar para o outro lado da mesa para saber quem era o responsável pela sensação tão desconfortável que eu sentia. Era cruel. Na verdade, cruel era pouco para descrever o que estava fazendo comigo.
- E o que você achou de nosso planeta, ?
- Bem... - eu gaguejei, sentindo . Ergui os olhos para ele e notei que ele tinha um sorriso sarcástico no canto de seu rosto como se estivesse imensamente feliz com o meu desconforto. E, para piorar, não eram apenas as imagens que passavam em minha mente, mostrando o quanto ele ficara devastado depois que eu o deixara, não era apenas o pedido de casamento à Allie, era a voz dele em meu ouvido. Era mais do que eu poderia suportar. Mas ele se enganava se achava que eu deixaria que todos ali vissem o quanto ele ainda me dominava, o quanto eu ainda era dele.
E, provavelmente, sempre seria.
- Seu planeta é bem interessante. Adoraria permanecer mais tempo para ter tempo de conhecer melhor sua cultura, mas alguns aspectos arquitetônicos e a própria infra-estrutura de todas as partes que eu tive a honra de visitar realmente me surpreenderam e agradaram.
Virei meu rosto para e a vi sorrir orgulhosa de minha resposta. Ela sabia o que estava fazendo. Os olhos dela não mentiam para mim e, ao contrário do que eu gostaria, ela parecia gostar de saber que ele ainda me manipulava com sua mente.
Rico sorriu para mim e apertou minha mão, debaixo da mesa, tentando me passar uma sensação de segurança que não veio. Eu me senti culpada por estar ali, ao lado dele, apertando sua mão, enquanto o homem do outro lado da mesa de jantar me tinha em suas mãos para fazer o que quisesse de mim.
“Eu poderia odiar você, ...”
Abaixei a cabeça sem saber o que responder. Era melhor mesmo que ele me odiasse, era melhor que ele saísse de minha cabeça. Eu sabia que merecia uma punição por tê-lo deixado após declarar todo o meu amor e ouvir o mesmo dele, mas até um tolo entenderia que daquele jeito era melhor para nós.
“É o destino, , ele trouxe você para cá para nos acertar. Karma...”
Eu não acreditava em destino. Por que ele me puniria por ter feito o que era certo? Ou será que não era certo?
- E quanto a você, Rico, o que você faz na Terra? - Allie perguntou, apoiando as duas mãos na mesa de jantar enquanto um empregado do castelo provava a comida de seu pai antes de servi-la para todos.
- Eu tenho uma pizzaria. - ante o seu olhar, Rico explicou melhor. - Uma espécie de restaurante. É de família e é uma das coisas que tenho mais orgulho.
Ela sorriu para ele, parecendo elevada com as palavras que ele dizia e eu olhei torto para os dois. Que diabos estava acontecendo entre eles? Parecia até mesmo que ela estava arrastando as asinhas dela para o lado do meu namorado. Eu não amava Rico, mas não era motivo para ela ficar dando em cima do meu homem. E, além disso, ela tinha um noivo. O que eu queria, eu admitia, mas tinha.
Os pratos finalmente foram servidos, apenas algumas conversas amenas sobre a administração e cultura de Airamidniv foram mantidas e eu continuei em silêncio, de cabeça baixa, ainda com as memórias tortuosas de passando incessantemente pela minha cabeça. Mas agora não eram apenas as recordações e sua voz, eu sentia suas mãos, da mesma forma como eu sentira há algum tempo quando estava dirigindo há horas e achei que fosse uma maluca que estava sofrendo de alucinação. Ele me fizera pensar que eu havia surtado de vez!
De repente, explodiu em risadas e todo o salão parou suas ações e conversas para se virar para o explorador que se contorcia de rir. E eu sabia exatamente do que ele estava rindo. Eu o fizera se lembrar daquela vez, quando eu até mesmo ficara preocupada de estar enlouquecendo por ter ficado tanto tempo sozinha que estava tendo alucinações sexuais quando era aquele infeliz que estava provocando tudo aquilo na minha mente.
Momentos depois, quando todos já começavam a se irritar com as gargalhadas aparentemente sem sentido de , ele decidiu se explicar dizendo que tivera uma crise de riso do nada. olhou para mim, com uma risada presa entre os lábios finos firmemente prensados um contra o outro e eu já deveria me preparar para não dormir tão cedo, ela com certeza me faria mais de mil perguntas sobre tudo o que estava acontecendo ali.
- A comida não estava de seu agrado, ?
Por que será que Stan tinha que me chamar pelo nome e sobrenome? Não tinha coisa que eu odiava mais que isso. Sim, tinha. Ser mentalmente manipulada por um extraterrestre sem escrúpulos enquanto eu tentava manter conversas inteligentes e parecer realmente interessada em meu namorado que estava ao meu lado.
- Estava excelente. - foi quando me dei conta de que os vários empregados, distribuídos ao redor da mesa, retiravam todos os pratos sujos, substituindo-os por um pequeno prato com algo parecido com uma fatia de bolo dentro deles e eu notei que o meu prato estava intocado. Era realmente difícil prestar atenção em comida quando estava me torturando.
- Mas você nem ao menos mexeu no prato. - Allie disse. - Você gostou de nossa comida, Rico?
- Sim, o tempero é esplêndido. - ele sorriu - geralmente não come muito e, depois da longa viagem que fizemos, é comum que ela esteja um pouco sem fome.
Eu Assenti com a cabeça e senti a mão de Rico apertar a minha mais uma vez, sorrindo para mim com toda a sua ternura que não lembravam em nada o homem atormentado que me atacara certa vez.
“Negue que prefere o toque dele ao meu, ... Negue que quando era eu a tocá-la, o seu corpo vibrava e você perdia o controle... Vai dizer que não quer o meu toque nunca mais, , vai dizer que me odeia... Mas eu e você sabemos que é mentira...”
Fechei os olhos enquanto todos começavam a comer o tal bolo e elogiando a consistência do hurn, o que eu não tinha a mínima idéia do que fosse. E também não estava muito a fim de experimentar. Tudo o que eu queria era que se casasse amanhã mesmo para que eu pudesse ir embora de volta para a Terra, onde eu sabia o que meus sentimentos significavam e não me sentia uma maluca por escutar vozes na minha mente.
As conversas continuaram por um longo tempo até que Stan, o poderoso naul, retirou-se para uma sala anexa, onde os homens se reuniam, e senti um alívio gigantesco quando foi convidado para se juntar ao sogro, assim como Rico e . Da mesma forma, Allie nos chamou para a varanda extensa, onde se podia ver toda a amplitude de seu maravilhoso planeta.
se sentiu maravilhosamente honrada por ter sido uma das mulheres convidadas para esse momento de lazer e eu fiquei com o pé atrás, imediatamente, ao também estar entre o rol de convidadas.
As mulheres falavam sobre os novos cortes para o cinza daquela época de colheita de uma maneira tão monótona quanto as mulheres do jornal falavam sobre os cachecóis mais deslumbrantes do outono, segundo a última Vogue.
- E o que acha, ? - uma das esposas de um dos maiores exploradores perguntou a mim e me dei conta de que eles só deviam achar que era o meu segundo nome como Jane Lynn ou Mary Ellen.
- Eu acho... - e antes que eu pudesse dar minha sincera opinião, o beliscão de me fez responder de imediato. - Lindo.
Duas delas bateram palminhas afetadas e contentes e eu me virei para Allie, que estava com uma estranha expressão em seu rosto. Ela me encarava de longe, com uma expressão estranha e curiosa nos olhos. Era como se ela me avaliasse, pensando no que havia em mim que atraía tanto o seu noivo.
Era óbvio que ela sabia o que estava acontecendo entre nós. Ou havia acontecido. E mais óbvio ainda que ela se perguntava por que um homem como se interessaria por uma terráquea estranha como eu.
- Allie sabe? - perguntei disfarçadamente à , que conseguira que uma das cozinheiras lhe desse mais alguns pedaços de bolo e um copo de tamanho absurdo com algo que parecia leite, só que bem mais grosso que ela dissera se chamar condraani.
Ela enfiou mais um grande pedaço na boca e me olhou por cima do copo. O que me fez lembrar quando éramos pequenas e a mãe dela fazia bolo. Adorávamos bolo quente e comíamos até nossas barrigas incharem.
- Não me olhe desse jeito. Estou tendo que me alimentar em dobro esses dias, o bebê está cada dia mais voraz e acho que ele vai puxar ao pai, forte e saudável. E quanto a ela, sim, ela sabe que aconteceu algo entre vocês, mas não sabe que vocês são... - ela fechou a boca, evitando dizer a palavra que estava em sua mente e que eu sabia qual era. Mrakni.
- Com licença, , será que eu poderia roubar sua amiga por alguns instantes?
Eu não sabia com o que eu estava mais surpresa, com Allie chegando por trás de mim, como se tivesse se teletransportado para o outro lado, ou se com a sua mão macia e quente em meu ombro.
- Pode levar se me trouxer mais cinco fatias de bolo. - e o pior era que estava falando sério.
Com duas palmas, Allie fez com que uma das assistentes da cozinha trouxesse um grande prato com mais bolo e encheu o copo de com mais leite. Com um sorriso satisfeito, ela deixou com que eu fosse com Allie para uma outra sala lindamente decorada em tons de preto, que era ao mesmo tempo aconchegante e sombria.
- Bem, o que deseja de mim? - perguntei tensa.
- Você sabe, , então não se faça e nem me faça de tonta.
Com um gesto assustador, fechou a porta, fazendo-me dar dois passos para trás, claramente apavorada com a razão da nossa conversa.
E essa razão tinha nome, sobrenome e os olhos cor de chocolate mais lindos que eu já tinha visto e, sem querer, apaixonado-me.
Seis
- Sente-se, .
Eu continuei admirando a sala, completamente decorada com artefatos de mármore escuro que combinavam bem com o ambiente dando um ar completamente luxuoso e me fazendo sentir mais ainda destoada com aquele vestido cinza ridículo enquanto Allie parecia tão exuberante com seu esplêndido vestido preto, sem vulgaridade, sem exageros. Ela era linda, não precisava de nada para salientar isso, enquanto eu usava um racho do tamanho do Grand Canyon. Nunca me sentira mais estúpida em toda a minha vida.
- Prefiro ficar de pé. - respondi sem muita vontade, mas lutando para não parecer abalada.
- O que aconteceu na Terra? - a pergunta era direta, e exigia uma resposta direta, mas eu decidi que era melhor ganhar tempo, me acalmar.
- A respeito do que você diz?
- Você e . O que aconteceu entre vocês?
Andei até a janela de onde eu podia ver comendo como uma esfomeada da selva africana, tendo certeza de que ela não poderia me ver.
Como eu responderia aquela pergunta? O que realmente acontecera entre eu e ? Nada. Eu só me apaixonara, me entregara a ele, mas sabia que ele pertencia a outra pessoa. Ele nunca seria meu e eu fora uma tola. Nada daquilo tinha a ver com .
E aquilo me lembrara quando uma mulher de nossa antiga rua em Rhode Island tinha sido traída pelo marido e o botara para fora de casa. Sentia-me como a jovem amante que apanhara no meio da rua e fora ameaçada com um ancinho.
Graças a Deus, Allie era elegante demais para me ameaçar com um ancinho e me bater com suas chinelas de chita. Até porque, Allie era mulher do tipo que nunca usaria tal coisa. E nem colocaria para fora de casa.
- Não houve nada.
- Eu preferiria que fossemos honestas uma com a outra, . - ela disse, andando na minha direção, e mesmo sabendo que ela não faria nada contra mim, dei um passo para trás, nunca se mexe com uma mulher traída, e a velha Sra. Pillsbury era bem pacífica e educada até ser traída. Nunca se sabia...
- Eu...
- Eu tenho mil e uma razões para não gostar de você, . Você é uma terráquea, você conhece a localização do nosso planeta, você é a mulher por quem o meu noivo é apaixonado...
- Não. - eu a interrompi. - Não é bem assim.
- Pois eu acho que é bem assim, sim. Eu conheço há mais tempo do que eu conheço a mim mesma. Fui educada para cuidar desse planeta como eu cuidaria da minha vida e para ser a esposa perfeita para .
Ela se calou, sentando-se elegantemente em uma poltrona de um material que parecia ser muito macio e olhou-me como se esperasse que eu dissesse alguma coisa, como não o fiz, ela continuou.
- E desde que ele caiu na Terra, eu não o conheço mais. Ele costumava sorrir, ser divertido, ele nunca pensou em mim como mais que uma companheira, mas eu contava que o tempo faria com que fossemos mraknis. Eu aguardava ansiosamente o dia em que o velho Yrdifas o chamaria lá para mostrar o nosso quadro. Acreditava que com o tempo o mra viria para nós.
- O amor vem com o tempo. - eu assegurei com uma certeza que na verdade era mais voltada a mim do que a ela mesma. O amor viria com o tempo para mim e Rico. Era tudo o que eu esperava. Eu poderia ser uma boa namorada para ele, e quem sabe um dia, nós poderíamos até mesmo nos casar.
- Não vem quando o amor já veio para um de nós. - ela sorriu triste e eu nunca me arrependi tanto de uma coisa do que de ter estado no lugar errado, na hora errada e ter visto aquela maldita nave cair diante dos meus olhos. - O amor já veio para , na Terra. É claro, pois quando ele voltou, ele não era mais o mesmo. Ele acha que eu não noto que ele está sempre absorto, pensando em outras coisas e apenas fingindo que está me escutando e contente de estar ao meu lado como costumava ser antes. Ele fecha sua mente para que eu não saiba que ele se apaixonou, mas eu sei. Toda mulher sabe quando o homem que está em suas mãos não é seu de verdade.
- é seu.
- Porque você o deixou para que ele fosse? Não seja tola, . Ele ainda é seu, assim como você não é de Rico coisíssima nenhuma.
- Eu amo Rico. - eu dei um passo para frente, inflamada com uma paixão que era completamente falsa.
- Não ama.
Como ela era capaz de me conhecer tão bem? Como ela sabia tudo o que se passava dentro de mim? E então, incapaz de continuar de pé, me sentei na poltrona que estava relativamente perto da dela e me deixei apenas ficar, sentindo todos aqueles sentimentos conflitantes fazendo algazarra dentro de mim, tentando organizar meus pensamentos quando na verdade, tudo o que eu queria fazer era chorar.
ainda era meu. Mas não podia ser. Ele era de Allie e eu havia jogado todo o meu final feliz e todos os meus sonhos de contos de fadas pela janela pra que fosse assim. E assim seria.
- Por favor, me conte o que aconteceu na Terra. - ela pediu segurando a minha mão. E eu não consegui, nem por um só segundo odiar aquele contato.
Deus, eu queria tanto odiar aquela mulher. Pensar nela como alguém que faria mal para , alguém que faria mal a mim apenas por amá-lo, mas era impossível. Allie estava acima de tudo isso.
- Eu o odiei. Muito. Ele era arrogante, antipático, metido e esnobe. Deus, ele era tão egoísta! Tudo tinha que ser do jeito dele, no momento em que ele queria. E tinham os olhos dele. Eles eram tão intensos. Eu nunca tinha visto olhos como aquele, e eles me hipnotizavam, eram como o chocolate líquido, se derretendo e envolvendo-me num mundo novo. - ela sorriu como só quem conhece bem uma pessoa de quem se está falando sorri. - E ele me odiava também. Eu fiz de tudo para que ele me odiasse. Eu sempre soube administrar sentimentos negativos, raiva, indiferença, frieza, ódio, mas nunca, nunca, estive preparada para os sentimentos de . Com ele era tudo tão quente. As nossas discussões eram acaloradas, os nossos olhares soltavam fagulhas...
- Os seus toques...
- Sim. - Eu abaixei a cabeça não podendo estar mais envergonhada. - No começo eu não sabia de você. E fiz de tudo para evitar todos os sentimentos que despertava em mim. Amor era para pessoas fortes, como vocês dizem. Mas eu sempre me senti tão fraca que duvidei que eu estivesse sentindo realmente amor.
- Mas era. - ela sorriu complacente.
- Era. E então eu o beijei. Foi um dos melhores momentos da minha vida. E então eu soube de você, e fiquei ainda mais decidida a não sentir nada além de raiva por ele ser tão irresistível quando tinha a princesa como prometida. me contou dos pais dele e do quanto eles esperavam por esse casamento e ficavam orgulhosos dos passos de .
- Sim, eles se orgulham muito de .
Eu comecei a chorar, não agüentando mais a pressão das lembranças, era como se eu vivesse tudo de novo, todas as emoções, todos os sentimentos, tudo...
- Então eu não pude resistir mais, Allie. Eu me entreguei, não pude mais me controlar. Eu o amava demais. “Só essa vez”, eu disse. Seria como matar a sede, depois que eu fizesse isso, com certeza a minha vontade dele passaria.
- E passou?
- Sim. - menti.
Limpei algumas lágrimas e voltei a encará-la, notando o porque de ela merecer .
Eu estava na frente dela, me assumindo como a usurpadora. A mulher que roubara o seu homem, a víbora que o tinha seduzido e ela segurava a minha mão com carinho e me olhava como se entendesse exatamente pelo que eu estava passando.
Como ela era linda! Ela o merecia, não eu.
- E quando nós fomos embora? - ela perguntou. - Eu subi primeiro e ele foi o ultimo a subir, quando ele entrou na nave, ele não me olhou, apenas trocou um olhar misterioso com e saiu para os seus aposentos na nave. E mais tarde, quando eu fui ver se estava tudo bem com ele, os seus olhos estavam vermelhos e úmidos, como se ele estivesse chorando há horas. O que aconteceu, ? Eu vi o modo como ele te olhava hoje, durante o jantar. Como se quisesse te odiar, mas te amasse tanto que não seria capaz de fazê-lo.
- Ele precisa me odiar. - funguei entre lágrimas. - Ele tem que me odiar.
- Por quê?
- Porque aqui é o lugar dele. É aqui onde ele pertence. Você está aqui, os pais dele estão aqui. Eu não posso ficar aqui, ele não poderia ficar lá.
- Ele não te disse que te ama?
Meu bom senhor Jesus, como eu digo para a namorada de um homem que ele me disse que me ama e que eu o amo também? Bem, mentir é feio, mas é uma opção, no momento.
- Não. Ele não me ama, Allie. Nem eu o amo mais.
- Ah. - a expressão dela era completamente sarcástica e eu fiquei um tanto embaraçada. - E então você ama o Rico?
- É, eu amo o Rico. Ele é o homem da minha vida.
Allie sentou-se um pouco mais para frente, sem soltar minha mão, procurando olhar dentro dos meus olhos úmidos e vermelhos.
- Você sabe que isso é tão injusto para ele quanto é para mim, não sabe? Você acha que ele gosta de estar ao seu lado sabendo que você ama ? - tentei interrompê-la, mas Allie ergueu a mão num gesto que eu não fui louca de desafiar. - Eu entendo exatamente o que Rico sente, e gostaria de fazer algo sobre isso. Mas não posso. Nem você. Nem , nem Rico.
Abaixei a cabeça percebendo o quanto nossas vidas estavam perdidas e ao mesmo tempo entrelaçadas como um roteiro idiota de novelas mexicanas. Nem mesmo uma novela mexicana conseguiria ser tão estúpida.
- Eu gosto de Rico. - eu disse bem baixinho.
- Eu... - ela começou, mas ficou incrivelmente vermelha abaixando a cabeça e soltando a minha mão.
- Perdoe-me, Allie, tudo o que aconteceu deve ficar no passado. Eu quero o melhor para e sei que isso só será possível se ele ficar longe de mim. Então, quero que me perdoe por tudo o que aconteceu, sua vida teria sido bem mais feliz se nada disso acontecesse.
- Ou não.
Ela se levantou e andou pelo grosso tapete com seus sapatos altos tendo os barulhos abafados pelo mesmo.
- Quem sabe, era assim que tinha que acontecer o velho Yrdifas já pintou tudo desse jeito. Quem sabe? Vai ver era assim que tinha que ser. Eu tinha que conhecê-lo, você tinha que conhecê-lo. Vai ver o amor vem de longe por isso te encontrou na Terra e eu...
- O que está dizendo? - cocei a cabeça, completamente desorientada, mas reparei que ela estava, na verdade, falando consigo mesma.
- Não me peça desculpas por nada, . - ela ajoelhou-se na minha frente e segurou minhas mãos com firmeza. - Eu que tenho que te pedir desculpas.
- Imagine!
- Sim, eu tenho. Vejo dentro de sua mente algo que quer esconder. Você é a mrakni de . Pelas leis de Airamidniv, eu deveria me retirar educadamente e deixar que você fosse feliz com ele, mas não posso. Eu sou a próxima naul disso tudo e isso muda as regras. O meu prometido tem de ficar comigo, mesmo que ele tenha achado sua mrakni.
Meus olhos ficaram úmidos novamente e me segurei para não chorar. Isso era bom certo? Isso significava que o futuro de estava seguro, eu tinha me sacrificado pelo bem. Meu coração estava partido em mil e uma partes, mas ele ficaria bem no final.
- Eu quero muito, muito, que me perdoe por ter destruído seu final feliz, . - ela olhou no fundo dos meus olhos e notei que assim como os meus, os olhos dela também estavam úmidos. - Eu destruí o seu final feliz, mas eu também não poderei ter o meu. As estrelas sabem o que eu queria neste instante, , eu queria poder terminar com os nossos sofrimentos, os de todos nós, mas estou sujeita às regras nells. Por favor, me perdoe.
E me joguei nos braços dela, a abraçando e a confortando, do mesmo modo como ela fazia comigo, parecendo duas loucas, chorosas e lamentosas.
- Se tudo fosse diferente...
- Você mesma disse, Allie, talvez é assim que tudo tenha que ser. Eu não acreditava em destino até chegar aqui. Talvez tudo tenha que ser assim.
Ela chorou mais um pouco no meu ombro e eu me levantei, trazendo ela comigo, ajudando-a a secar suas lágrimas, secando as minhas em seguida.
- Volte amanhã, vamos conversar mais. - ela disse enquanto rumávamos para a sala. - Eu quero saber como você conheceu Rico, como você se despediu de .
- Essa história é um pouco quente. - eu ri enquanto ela abria a porta para mim.
- Uau. Você, você... - ela ficou vermelha mais uma vez. - Fez?
- Acho que eu vou ter muita coisa para falar com você.
estava parada em um sofá perto da porta com uma expressão afobada no rosto que me deixava saber que ela estava escutando através da porta pelo menos boa parte da nossa conversa. Claro! Curiosa como ela estava, era mais que obvio que ela iria me perturbar por boa parte da noite querendo saber das partes que ela perdera.
- Estou com fome, com sono e nervosa porque o acabou de avisar que a reunião do conselho é amanhã. - ela olhou para mim com um pânico que me fez querer abraçá-la como eu fazia quando éramos pequenas, desejando que todos os nossos problemas se resolvessem naquele abraço aparentemente interminável.
Acenei para Allie e segurou minha mão com avidez, mostrando que estava com um pouco de ciúmes e eu não pude deixar de rir e apertá-la em meus braços.
- Vai dar tudo certo, . Tudo.
Eu sabia que não era exclusivamente para ela que estava dizendo tudo aquilo. Eu, Allie, Rico, , e precisávamos de toda a sorte do mundo naquela hora.
Mas não tinha nenhuma certeza de que daria tudo certo.
Sete
Eu sou uma pessoa relativamente fácil de lidar. Como de tudo, durmo em qualquer lugar, mas, se tem algo que realmente reverte tudo isso, é me acordar quando eu ainda não dormi o suficiente. E geralmente quem aguentava as crises de ira quando esses episódios aconteciam era Ryan, que sempre era o responsável por me acordar de maneiras nada convenientes.
- Pelo amor de Deus, eu acho que só dormi duas horas. Eu realmente, realmente necessito de, pelo menos, mais cinco minutos.
- Não temos esse tempo, . - a voz afobada de estava perto demais da minha orelha, e eu cogitei a ideia de me afundar debaixo dos cobertores e tampar a cabeça com o travesseiro. - Em vinte minutos, começa a reunião do conselho e eu gostaria que você estivesse lá comigo.
Ergui a cabeça, tentando focalizá-la precariamente, mas ela já estava andando de um lado para o outro no quarto que havia disponibilizado para mim em sua casa. deixara bem claro que não queria que eu e Rico dormíssemos juntos, então, eu estava em um quarto de um lado da ala sul enquanto ele estava em outro do lado final da ala leste.
- Eu já estou indo. - reclamei, enquanto me levantava da cama.
Eu realmente precisava de mais duas horas de sono, no mínimo, para ficar no meu estado normal novamente, mas precisava de mim, e eu me orgulhava de estar com sempre que ela precisava. Dessa vez não seria diferente.
- Então levanta logo essa bunda ossuda daí, .
Pulei da cama e a olhei admirada. Eu nunca entenderia essas malditas mudanças de humor que vinham com a gravidez.
Corri para o chuveiro, pronta para acordar com a água quente que cairia em meu rosto. Eu havia passado grande parte da noite acordada, primeiro com , que resolvera desabafar e me pressionar para contar tantas coisas, que eu quase dormira sentada enquanto ela falava sem parar, e depois, se já não houvesse sido o suficiente, Rico estava me esperando na porta do meu quarto para conversar comigo sobre a conversa que tivera com ele.
- E está tudo sobre a minha cabeça. - eu me lembrava vagamente de escutar falando isso enquanto dava voltas pela sala, totalmente sem sono e sem se importar nem um pouco, com o fato de eu estar praticamente dormindo sentada, e rezando pelo momento em que eu poderia tirar aquele vestido. - Eu acho que Ann gosta de mim agora, ao menos um pouco, não sei se ela seria capaz de falar contra mim, você acha? - antes que eu pudesse pensar em responder, ela continuou. - Eu sei que ela tem motivos, mas eu estou esperando o neto dela. Mas nós vimos o quadro com o velho Yrdifas e ele nunca se engana. Se bem que no quadro, não se apontava nenhum veredicto, só a Ann falando e... Ah, mas ela sabe que eu estou grávida, ela não faria eu ser deportada. - de repente, ela parou olhando para mim e eu tive que fingir que estava acordada, apenas dando o meu famoso aceno de cabeça que funcionava para todas as respostas de perguntas que eu não havia ouvido. - Tem como ser deportada em termos interplanetários?
Dei de ombros e ela sentou-se ao meu lado, olhando para a direção da escada, sem um só pingo de sono e me fazendo ter mais ganas de matá-la, para que me deixasse dormir quietinha.
- Eu estou grávida, não estou morta.
- Percebi isso já. - fui sarcástica.
- Mas, ao que parece, não. Eu tento atiçá-lo e ele foge, diz que não pode porque nosso bebê pode ser afetado. Poxa! Ele é bem dotado e tudo mais, mas...
- Eu realmente, de verdade, preferia não ficar escutando essas coisas às três da manhã. Sinceramente.
- Preciso dividir esse meu momento de escassez sexual com minha melhor amiga, como esta é você, vai ter que me ouvir.
Lembrava-me de ter batido a mão na testa, completamente apatetada de sono enquanto continuava falando sem parar.
- Ele parece um maluco, correndo de mim quando eu chego muito perto. Eu tento, amiga, Deus sabe o quanto eu tento. Mas se eu tiver de passar mais oito meses nesse negócio só de beijinho e jejum de atividades físicas intensas e mais que prazerosas com , eu vou fazer besteira.
Eu ri, mas ela parecia realmente estar muito irada com . Irada era pouco, se naquela semana não comparecesse, como ela mesmo dissera, as coisas iriam ficar feias para o lado dele e, com os hormônios de grávida de oscilando toda hora, eu estava com medo por ele, desde aquele momento.
Demorara um bom tempo para ela me deixar subir, afinal, ela falava sem parar, construindo quase um monólogo e não me dando tempo o suficiente para responder às perguntas que ela fazia que, na maioria das vezes, consistia em , e quando eu não conseguia responder, ela soltava bem alto:
- Quem cala, consente, .
Eu praticamente acendera uma vela de agradecimento a São Patrício, quando ela, finalmente, me deixara dormir. A maquiagem de Airamidniv parecia uma cola plástica em meu rosto, meu cabelo estava suado pelo calor e aquele vestido estava me incomodando. Eu estava com sono e não via a hora de deitar na minha linda cama, que estava esperando quentinha por mim.
Ledo engano. Rico estava sentado na porta do meu quarto, ainda de terno, esperando por mim. Eu já estava com o meu texto na ponta da língua, pronta para dizer-lhe que eu estava muito cansada para darmos alguns beijos.
Claro, porque entre eu e Rico as coisas nunca passaram de beijos e algumas mãos que avançavam um pouco mais, mas eram rapidamente controladas com tapas. Da minha parte, sempre.
- Eu...
- Sabe, Rico, eu estou muito cansada e... - eu disse com a voz cansada.
- Não. Eu vim conversar com você. Sobre o tal .
Imediatamente eu fiquei tensa. Ainda estava cansada, mas o nome de me deixava em suspense.
- O que houve com ele? - perguntei de imediato.
- Ele veio falar comigo. Ou rosnar seria mais certo para descrever o modo como ele disse. Fez-me prometer que eu te trataria bem, do contrário, ele não seria tão bonzinho quanto fora comigo na Terra.
- Sabe que não tem com o que se preocupar, não é, Rico? Eu sei que nunca me machucaria, e não tem que se intrometer na minha vida.
- Eu lhe disse que você era bem grandinha para cuidar de si mesma. Quase tomei outro soco, mas Stan apartou nossa calorosa discussão, falando sobre o casamento dele com Allie.
Mais uma vez, aquele aperto em meu peito me deixou tensa. Era como se apertassem meu coração até que eu não pudesse mais respirar.
- Sim, eles se casarão em alguns dias.
- Ela é muito especial para um cara daqueles. - ele disse. - Você era muito especial para um cara daqueles, . - completou, quando percebeu a cara de paspalho que fazia quando falava de Allie.
- Quem sabe? - respondi. - Quando amamos, ficamos cegos para certas coisas.
Rico abaixou a cabeça, como se soubesse exatamente o que minhas palavras queriam dizer. Eu estava me machucando ao ver novamente, mas não tinha a mínima ideia do quanto Rico se machucava todos os dias, ao ver que não importava o quanto ele tentasse, eu nunca seria dele.
Por mais que eu quisesse ser.
Ele beijou-me, antes de ir para o seu quarto e eu apenas limpei a maquiagem, dei um jeito no cabelo e tirei o vestido antes de ir para a cama. Eu não tinha coragem para nada além disso. E ter a certeza de que sonharia com , me fez ter menos coragem de me mover ainda. Porque, pelo menos nos sonhos, tudo estava bem.
Não por muito tempo, já que e seus monólogos tinham me despertado de meu sono mais que recente e, mesmo de dentro do banheiro, terminando de lavar o meu cabelo com um cheiroso shampoo de algum produto que eu não tinha ideia do que fosse, mas era muito bom; eu podia ouvir me gritando e pedindo para que eu fosse mais rápida.
Tive que me vestir em menos de cinco minutos, colocando um vestido cinzento e estranho, que me deixava a cara de uma advogada bem sucedida com apartamento no Upper Eastside.
Rico também já estava pronto quando eu descera as escadas arrastada por , enquanto ainda terminava de prender meus cabelos em um coque fraco.
nos encontraria lá, vindo da BEI, que eu ainda não entendera direito o que era, mas sabia que era algo haver com explorações. me arrastou pelas ruas de Airamidniv com toda a sua pressa e imponência misturadas, que dava a ela um ar completamente hilário, e eu, por consequência, arrastava Rico comigo em direção ao grande prédio escuro, que era conhecido como Conselho Nells de Airamidniv.
Na porta do local, ela parou, olhando fundo em meus olhos e respirou fundo.
- Estou nervosa.
- Acho que percebi isso, quando eu tropecei a duas quadras e você quase me arrastou pelo cabelo. - resmunguei.
- Desculpe, . Sei que está com sono, mas eu realmente precisava muito de você aqui. - ela se desculpou com um olhar tão perdido, que eu esqueci dos motivos que eu tinha para ficar zangada com ela. Respirei fundo e a segurei pelos ombros, como fazia sempre antes de nossos momentos decisivos. No vestibular ou antes de decidirmos contar à mãe dela que estávamos indo de mala e cuia para Nova York.
- Vai dar tudo certo. Você é uma mrakni. - eu disse sorridente, com um bom humor que não era meu. - Agora entra lá e mostra para ele como nós, terráqueas, somos demais!
Ela riu alto e deu um passo para frente, fazendo com que as portas automáticas se abrissem e eu desse uma olhada ansiosa para Rico, que apenas piscou para mim. Sim, eu poderia me apaixonar por ele se ele continuasse daquela forma.
Ou não.
E percebi que esse “ou não” era mais verdadeiro, no exato instante que uma simpática moça de uniforme preto invejável, nos conduziu para uma enorme sala no andar térreo, que mais parecia um auditório, e estava quase que completamente cheio.
Allie e Stan estavam sentados numa longa mesa, junto com outras pessoas impecavelmente trajadas, mas sempre na cor preta.
Mas não foi para eles que o meu olhar foi imediatamente direcionado quando eu entrei ali. Era como uma força motriz, como um imã, onde quer que estivesse, eu saberia. Como um sinal dentro de mim que desse alerta quando ele se aproximava.
Meus olhos se fixaram nos dele, que pareceu saber a exata hora em que eu entrei. Era uma ligação imediata. Um contato imediato. Eu sempre sabia, no fundo do meu peito, quando ele estava por perto, assim como ele sabia quando eu estava chegando perto dele.
- Vamos nos sentar ali na frente. - Rico disse, me conduzindo pelo cotovelo até a segunda fileira, um pouco atrás de onde se encontrava junto com outros membros da BEI. Deus! Ele parecia tão poderoso e tão forte, que eu demorei muito tempo para assimilar que eu estava com Rico e não com ele.
- Allie está muito... - Rico começou ao meu lado, finalmente me fazendo prestar atenção nele. - Elegante. Hoje. Eu acho.
Virei para encará-lo e vi que ele estava de cabeça baixa, evitando olhar para a filha do naul novamente, e com o rosto completamente vermelho de vergonha.
Será que... Não? Não era me gabar, mas Rico realmente gostava demais de mim e, com certeza, não estava interessado nela, mas... Olhei para Allie em cima do palanque, sentada eretamente ao lado de seu pai, e notei que o seu olhar não era direcionado a , como deveria ser. Seu olhar estava fixo era onde eu estava. Ela sorria, mas não olhava para mim.
Deus. Será? Será mesmo que Allie e Rico estavam...
Antes que eu pudesse dar razão a todas as minhas conjecturas, Stan bateu na mesa com uma espécie de martelo, bem parecido com os que os juízes usavam nos tribunais de Nova York.
havia sido sentada em uma alta cadeira do lado esquerdo do palanque, e olhava aterrorizada para os lados. Quando os olhos dela finalmente encontraram os meus, ela enviou um olhar agonizado como quem pede socorro e, na realidade, eu não sabia nem ao menos o que estava acontecendo.
- Estamos aqui reunidos diante do Conselho de Airamidniv, para levar a prova a denúncia feita por Ann Schnakerjud acerca de . Os termos usados para tal, foram quebra de costumes, e cultura e falso proclame de mrakni.
Eu olhei para a senhora de cabeça baixa que estava sentada em um banco na primeira fileira, acompanhada de , e quis imediatamente dar um grande e ardido tapa em sua cabeça. Como aquela velha poderia duvidar de que era mrakni de ? Era mais fácil o Sol girar em volta da Terra do que não ser mrakni de .
- Daremos primeiro a palavra à parte acusadora. Senhora Schnakerjud, pode começar. - Allie fez um gesto elegante com a mão para que Ann se aproximasse da cadeira do pequeno palanque.
Ann, com toda a sua elegância e altivez, andou até o local determinado e olhou com os olhos tristes para . Deus! Que ela não aprontasse nada para cima de . Eu era calma e realista, mas se ela começasse com graça, eu era bem capaz de me arriscar a ser deportada de Airamidniv, por bater numa idosa local até a morte.
- Eu sou Ann Schnakerjud. Sou mãe do explorador Schnakerjud. Meu filho fez uma viagem para a Terra e lá conheceu , a julgada em questão. Fui totalmente contra o relacionamento, usando os já citados argumentos, como quebra de costumes ou nenhum costume, já que ela mal sabe falar nosso idioma, e, tem por mania, usar roupas coloridas, atrapalhando completamente o nosso sistema de cores.
- Que cores? - Rico disse em meu ouvido, me fazendo dar uma risadinha que foi prontamente assistida por , que fechou ainda mais a cara, praticamente querendo matar Rico a distância. Se ele tivesse visão de raio laser, naquele momento, eu não teria mais um namorado.
- Além de todo o já explicitado, a Srta. alegava ser mrakni do meu filho, e o mesmo alegava que isto era verdadeiro. Não tive dúvidas de que ela estava utilizando Dorpinom para que ele acreditasse tão piamente que era realmente mrakni dela.
- Mas ele era. Ele era! - disse, completamente inflamada, e até mesmo com o rosto rubro de tanta raiva.
- Por favor, senhorita, mantenha-se calada enquanto escutamos o testemunho de acusação. - uma mulher de cabelos brancos, que estava sentada relativamente perto de Stan, disse.
O olhar de me buscou e eu apenas assenti, pedindo em pensamento para que ela segurasse a onda. Eu estava ali por ela, tudo o que ela precisasse, eu estaria ali.
- Mas eu estava errada. Precisei saber que ela estava esperando um filho de meu , meu neto, para poder ver várias coisas para às quais eu estava cega até então.
- Então a senhora está retirando a queixa? - a mesma mulher perguntou. Com certeza era a primeira vez que ela via tanta confusão em um tribunal. Isso era porque ela não estava presente quando foi julgada por invasão de propriedade, ao roubar uma rosa do jardim da vizinha. Aquilo sim foi confusão!
- Eu...
- Ela está seguindo os costumes de Airamidniv de acordo? Pelo visto, não. Ontem mesmo, ela foi vista no jantar do Naul vestida de cor de... De colorido.
- Cor de rosa. Eu estava de cor de rosa. - completou, com um ar enfadonho.
- Sim. Isso mesmo. - a mulher voltou a falar, e deu pra ver que ela estava completamente contra . - Isso comprova a primeira acusação. Que é verdadeira.
bufou e a mulher olhou brava para ela. Allie queria falar ou fazer alguma coisa, eu percebia, mas, infelizmente, ela estava de mãos atadas pela sua posição como filha do naul.
- Para comprovar a segunda acusação, de que você drogou o seu companheiro para que este mentisse que era seu mrakni, fizemos um teste de sangue em Schnakerjud e ele será apresentado agora.
Uma mulher de vestido preto curto e justo, entrou pela porta lateral e colocou um envelope preto, também na mão daquela maldita mulher.
Todos ficaram em silêncio e procurou meu olhar mais uma vez. Ela estava com medo e, da mesma maneira, estava eu. Quis ir até o palanque e olhar primeiro para que eu pudesse acalmar a minha amiga. Como quando eu olhei primeiro o nosso atestado de admissão na faculdade. Mas dessa vez eu não poderia. Tinha mais coisa em jogo do que apenas não poder ir para a faculdade dos nossos sonhos. Toda a vida e felicidade de estava em jogo.
- Bem, a senhora Schnakerjud estava certa. Esse exame comprova que havia resíduos de Dorpinom em seu sangue na data do exame.
- Eu posso explicar isso. - se levantou de uma vez e, antes que a maldita ousasse mandá-lo se sentar, Stan fez um gesto para que ela o deixasse falar. - Eu fui drogado pela exploradora Victoria Nemwhyg. Ela era minha noiva, mas a deixei pelo direito que tenho à minha mrakni. Ela drogou-me para que eu deixasse , mas nem Dorpinom foi forte o suficiente para me deixar fazer isso.
- O seu testemunho não é prova suficiente. - aquela maldita ainda tinha a audácia de abrir a boca!
Olhei de soslaio para e vi que ele também a fuzilava com o olhar. Ele, mais do que ninguém, sabia que era mrakni de .
- Como não temos provas cabais de tal fato, podemos julgar como falsa mrakni e...
- Podem julgar nada! - escutou-se uma voz do fundo do salão. A voz parecia cansada e me deu uma falsa sensação de conforto. - Eu, mais do que ninguém, sei quando duas pessoas são mrakni e, por isso, o meu depoimento, mais do que ninguém, é válido.
- Yrdifas, seu lindo! - gritou do altar e um pequeno velho, meio manco, desceu lentamente e subiu no palanque, empurrando Ann com a menor das delicadezas. O tal Yrdifas sorriu para e depois para , e apontou para mim, me fazendo olhar para trás para ter certeza de que ele estava apontando para outra pessoa.
- Vamos conversar depois, mrakni. - eu o olhei, espantada. - E você, Rei da Pochete, tenho um quadro para você. Quando eu terminar de resolver isso aqui, você vem comigo para ver o que eu pintei.
Todos dentro do salão olhavam para nós. Eu estava consciente disso. Mas estava mais consciente do olhar de ódio que vinha de . já havia me falado acerca de Yrdifas, ou velho Yrdifas, como eles diziam. Ele pintava mraknis e mostrava aos homens, para que eles soubessem quem era a sua prometida pelo destino. E se ele dizia que eu era uma mrakni, e mostraria um quadro para Rico, isso era um sinal. Eu só não sabia ainda, se mal ou não.
- Bem, esse é o meu depoimento. Eu pintei a para quando ele ainda tinha treze anos. Ele vem buscando ela desde então. E, se alguém discorda do fato, vá ao meu ateliê que mostrarei a cópia do quadro. E ela veste colorido, sim, mas está ajudando todas as crianças da vizinhança a pintarem e entenderem o sentimento que vem com as cores, percebam que elas melhoraram seu desempenho na escola depois que isso começou.
- É verdade o que ele diz, Olivia? - a mulher da cara de cavalo, que estava prestes a tomar um tapa meu, perguntou a uma pequena moça vestida de branco na primeira fileira, que se levantou, fazendo uma pequena reverência e começou a falar.
- Sim, Vanessa, e as outras crianças da redondeza de Schnakerjud melhoraram de rendimento nas últimas aulas. Estão mais participativas e assimilam melhor a matéria dada.
fez o símbolo de perdedora para a malvada discretamente, e esta, ergueu o olhar para Stan.
- Infelizmente, não cabe a mim decidir a situação, e sim, ao grande Naul deste planeta. Sr. Stan Jrakskovae, tenha a sua palavra.
- De acordo com a palavra de Yrdifas e com o testemunho de Olivia, estamos julgando alguém inocente. é mrakni de , e ela está ajudando as crianças de Airamidniv. Vamos expandir isso e permitir o uso de cores na escola. Se isso ajuda no desenvolvimento das crianças, eu estou de total acordo. As crianças são o futuro do nosso planeta.
estampava um sorriso de orelha a orelha. Stan deu duas batidas na mesa, liberando todo mundo e saiu de onde estava, pulando nos braços de , que a abraçou com força, beijando sua testa com carinho. Havia dado tudo certo.
Yrdifas mancou para fora do palanque e subiu em direção à porta, pegando no braço de Rico e o arrastando consigo. Antes que ele pudesse reclamar, Yrdifas virou-se para ele:
- Eu pintei o seu futuro. Vai dar mesmo as costas para isso?
Rico nem disse alguma coisa, apenas seguiu Yrdifas, que me mandou um aceno simples, saindo de dentro do salão, e me deixando parada ali, sem saber para onde ir.
Rico havia ido embora, Allie e Stan conversavam com a grisalha malvada, e estava tentando colocar o atraso com em dia, no meio do palanque mesmo, com um beijo intenso.
Eu estava feliz por , mas estava curiosa demais para ficar parada. E se eu fosse mrakni de Rico? E se eu estivesse amando o homem errado? Eu não seria nem a primeira nem a última no mundo a fazer isso.
“Você não é de ninguém, senão minha, . E sabe disso.”
Fechei os olhos, sentindo as mãos dele tocarem meus braços tensos, e pensei numa resposta educada, inteligente e plausível, mas eu senti seus lábios sobre os meus e perdi tudo o que eu estava pensando.
“Mra T Nhé, . Pedi para que nunca se esquecesse disso. E sei que nunca esqueceu. Essa noite, eu terei a prova de que seu coração ainda é meu. À meia noite, me encontre no jardim principal de Airamidniv.”
Mesmo eu não querendo admitir, quando abri os olhos e olhei para todos os lados, não achei . Ficando apenas com o calor de seus lábios e o eco de sua voz em minha mente, eu sabia o que aconteceria mais tarde. Eu poderia mentir para mim mesma o quanto eu quisesse, mas sabia que, quando desse meia noite, eu estaria naquele jardim.
E sabia disso melhor do que eu.
Capítulo betado por Thaciane Millena
Oito
Eu gostaria, de coração, de ser uma boa amiga para . Realmente gostaria de prestar atenção em tudo o que ela falava no caminho para casa, já que eu era a única a acompanhá-la, já que Rico estava com o velho Yrdifas e tivera de voltar para a BEI para uma reunião de ultima hora acerca das novas explorações.
Desde que eu era adolescente desenvolvera uma capacidade única de apenas fingir que eu escutava as pessoas, enquanto, na verdade, eu prestava atenção em outras coisas e/ou tentava resolver meus próprios problemas. E, acreditem, se tivessem uma amiga como , todos no mundo teriam desenvolvido a mesma capacidade.
Até o momento, eu não sabia se eu era muito sem paciência, ou ela quem falava demais. Ou quem sabe eram ambos que me impediam de ser uma boa ouvinte em relação aos problemas de .
- Será que agora ele vai agir?
- O quê? – perguntei parando na porta de casa, assombrada, preocupada que por alguns segundos ela tenha lido meus pensamentos.
- Eu estava perguntando se você acha que agora o vai agir de vez e vai parar com essa idiotice de machucar a criança? – fixei o olhar no rosto dela tentando ver se ela realmente estava falando toda aquela idiotice. – Ele é grande e tal, mas eu só estou brincando quando o chamo de pica das galáxias.
- Eu acho que não precisava saber disso. – resmunguei.
- Estou disposta até mesmo a usar Dorpinom se isso me ajudar a ter uma longa e deliciosa noite de prazer com . O bebê pode ficar quietinho por algum tempo, enquanto eu me aproveito daquele corpo e... Ei! – gritou quando eu já abria a porta, entrando em casa e a deixando falando sozinha do lado de fora. – Isso é importante, ok?
- Sua vida sexual não é importante, .
- Sabe como isso se chama? Inveja. Porque eu venho fazendo sexo desde que levei para o meu apartamento, e você só fez uma vez, lá no celeiro, e olhe lá!
Lancei um olhar dardejante para ela, e me joguei no sofá, sentindo todo o meu corpo se amalgamar com o tecido escuro do sofá. Eu estava muito cansada, e se dependesse de mim, eu colocaria as pernas para cima e dormiria linda e relaxadamente. Mas, com certeza, ainda tinha muito o que falar.
- E por que diz isso? Você não sabe o que aconteceu comigo depois que veio para Airamidniv.
- Ah, faça-me o favor, ! Acha mesmo que eu vou acreditar que você dormiu com o Rico? Ah! Você nunca faria isso. Você só dormiria com um homem que amasse, . E por mais carinho que você possa nutrir por Rico, não o ama.
Eu apenas sorri triste e, depois de ficar descalça, finalmente coloquei os pés em cima do sofá, numa posição deliciosamente confortável.
Logo em seguida, a campainha tocou e eu fiz uma cara tão sofrida que entendeu que eu estava cansada e foi abrir a porta.
- Senhorita ? – a voz à porta perguntou.
- Sim, eu mesma.
- A Escola Espacial de Airamidniv tem o prazer de convidar a senhora para uma reunião de urgência para tratar do ensino dos seus métodos pedagógicos para as outras instrutoras.
- Agora? – perguntou, tentando esconder a empolgação em sua voz. Mas eu conhecia minha amiga muito bem, e nem precisava estar por perto para saber que ela estava mais do que feliz.
- Se a senhorita pudesse, sim.
- , estou saindo, volto em uma hora mais ou menos, relaxe um pouco e fique à vontade, a casa é sua. – ouvi a voz de gritar para mim e apenas ri após ouvir a porta batendo em seguida.
Segundos depois, a porta foi aberta novamente e entrou por ela completamente alvoroçada, parando ao meu lado no sofá, dando-me um beijo rápido, e correndo para fora em seguida.
Levantei-me e subi para o quarto reservado para mim, ainda rindo de . Ela era completamente louca. Mas eu estava feliz por ela. Ela tinha tudo o que sempre quisera na Terra, em um planeta completamente novo e, mesmo sendo um pouco assustador, ela o amava.
teria uma criança em breve, tinha , voltara a pintar, uma das coisas que ela mais gostava de fazer, e estava no espaço. Onde sempre desejara estar. Todos os sonhos dela se realizaram, e eu não poderia estar mais feliz por isso.
Ver feliz era uma realização para mim mesma. Eu lutara a minha vida inteira para que nada a fizesse triste e justamente quando eu não fizera nada para estar ao lado dela, ela conquistara tudo o que sempre quis.
Talvez o problema fosse comigo.
Deitei-me na enorme e confortável cama nells e deixei que a maciez daquele colchão operasse suas maravilhas em minhas costas enquanto eu continuava pensando no quão complicada a minha vida era.
Ou melhor dizendo, enquanto eu continuava pensando em e no quanto nós éramos impossíveis um para o outro.
“Mra T Nhé, . Pedi para que nunca se esquecesse disso. E sei que nunca esqueceu. Essa noite, eu terei a prova de que seu coração ainda é meu. À meia noite, me encontre no jardim principal de Airamidniv.”
Aquelas palavras rondaram a minha mente de novo, fazendo-me enrijecer todos os músculos e usar toda a força da minha mente para pensar um “não” enorme que eu desejaria enviar para a mente dele. E acho que eu havia feito tanto esforço que ele realmente recebera a minha resposta.
“Você sabe que você quer, ”.
“Tudo o que eu quero é distância, . Estamos melhores do jeito que estamos.”
“Se acredita mesmo nisso, por que você está vibrando a espera do meu contato?” a voz dele era um sussurro em minha mente, mas parecia que eu a ouvia ao pé do meu ouvido. As sensações que me fazia sentir eram tão fortes que eu até mesmo conseguia sentir o seu calor perto de mim. “Você me deseja e só o corpo admite isso, . Eu poderia ser cruel e vasculhar sua mente atrás de todos os momentos em que você chorou, á noite, implorando por mim.”
Ele não faria isso. Seria muito cruel. Muito vil até mesmo para ele. Mas eu não sabia até que ponto poderia chegar para me fazer perder o controle. Ele era hábil demais nisso, descontrolar-me era seu passatempo preferido. Ver-me perdendo o controle da minha mente era tão divertido para ele quanto um parque de diversões pode ser para uma criança.
Senti, aos poucos, os lábios dele tocarem meu pescoço. Abri os olhos tentando ter certeza de que aquilo tudo era um sonho. Eu estava sozinha. Não havia mais uma viva alma dentro daquele quarto, mas mesmo assim eu ainda sentia o calor úmido dos seus lábios.
Por mais que eu não quisesse, não consegui resistir por muito mais tempo, e acabei fechando os olhos, sentindo seus lábios mais próximos do meu maxilar. Deus! Eu podia até sentir os sedosos fios de seus cabelos em contato com a minha pele. A nossa ligação mental era mais forte do que eu poderia admitir para mim mesma.
E eu poderia fingir, mentir e negar o quanto eu quisesse, mas eu estava louca para fazer sexo telepático com .
Não. Aquilo era loucura. Eu tinha Rico, ele tinha Allie. Não éramos livres e desimpedidos e eu não estava nem um pouco a fim de trair Rico.
“Mentirosa. Você quer traí-lo, sim. Quer ter um pouco mais do que lhe foi tirado tão bruscamente. Quer ter de novo o que você mesma jogou fora.”
A voz dele misturava raiva e desejo, fazendo ambas as sensações circularem pelo meu corpo, como larva em minhas veias.
- Não quero, . Você sabe porque tudo acabou, por favor, entenda. É tão difícil para mim quanto é pra você. Pelo amor de Deus, não torne tudo mais complicado.
“Eu sei. E acho lindo você se sacrificar por mim.”
A voz agora era irônica, mostrando o quanto ele estava chateado e ainda não tinha superado aquela história. Será que ele não via o quanto aquilo era difícil para mim?
“Eu queria poder consertar tudo, . Mas é melhor assim.”, pensei.
“Melhor para quem, ? Para você? Não parece. Para mim? Pareço estar melhor do que estava com você? Todas aquelas palavras que me disse na Terra, antes de eu entrar naquela nave, me tornaram um eco do que eu fui um dia. Um eco ruim e sem esperanças.”
Deixei que algumas lágrimas escapassem do meu olhar, completamente dolorida e magoada com a reação de . Eu havia feito aquilo pensando no melhor para nós, ainda não estava tudo bem, mas ficaria um dia, eu tinha certeza.
Mais lágrimas escorreram do meu olhar para a colcha, e eu me encolhi toda, deitando a face molhada no travesseiro e tentando desesperadamente fazer aquela dor em meu peito passar. Mas nada fazia com que aquilo parasse. Era como se uma metade de meu peito se apertasse, como se quisesse se implodir, não existir mais, já que a outra metade não existia mais.
“Eu te dei o meu coração, . E você o jogou fora.”
“Não fale coisas que não sabe, . Você não sabe o que vai dentro de mim, não sabe o que eu sinto, os meus motivos para fazer ou não fazer qualquer coisa, então não aja como se me conhecesse tão bem assim.”
“Mas eu conheço. Sei o que passa dentro de você.” Senti algo quente em cima do meu peito, como se uma grande mão estivesse pousada ali, sentindo os meus batimentos cardíacos em contato com a sua palma.
“Não sabe. Você não sabe de nada.” Praticamente rugi em pensamentos.
“Sei o quanto é doce, . Mesmo querendo que as pessoas pensem que você não tem um coração. A tão famosa mulher de aço que você quer que as pessoas pensem que você seja, na verdade, não existe.” A voz dele estava em meu ouvido de novo, como se ele estivesse sentado atrás de mim, inclinado contra o meu corpo para poder dizer tudo aquilo diretamente em meu ouvido, com medo de que as palavras perdessem seu valor, se perdessem-se ao vento. “Eu também sei que você não acredita em contos de fadas, porque a cada dia mais eles provam que não existe nada daquilo. O seu príncipe encantado não existe. Não é o que você diz, ?”
“Mas não existe, . Contos de fadas são só mais uma ilusão.” Respondi, deixando que mais lágrimas vazassem de meu olhar para o travesseiro. me conhecia, sim. Mais do que eu deixei que qualquer pessoa conhecesse. Ele sabia que eu não era tão insensível quanto parecia. Quanto mais de mim saberia?
“E como você sabe? E se eu for o seu príncipe encantado, ? E se ao invés de um cavalo branco ter me levado até você, tenha sido uma nave espacial reluzente? E se ao invés de eu ter ido te salvar, tenha sido você quem me salvara, me mostrando o quanto a minha vida poderia ser melhor e diferente?”
“Contos de fadas não são assim, .”
“Que se danem os clássicos, . Que se dane o resto! Eu estou te implorando pra viver um conto de fadas comigo, para fazermos o nosso próprio começo e nosso próprio fim. Se você quer um Príncipe Encantado, eu estou aqui. Eu posso te fazer feliz, . Mas só se você me dar uma chance.”
“Já tem princesas o suficiente na sua vida, .” Até na minha mente, a minha voz saiu embargada. Aquelas palavras ficaram pairando entre nós, mas não eram elas que eu queria dizer. Eu tinha outra coisa em mente. Algo que minha língua coçava para dizer, mas que eu não tinha coragem o suficiente.
Onde ia parar a realista nesses momentos? Onde ficava todo o meu controle quando se aproximava, mesmo mentalmente?
“Eu sei que não é isso, . Vamos, diga o que você quer dizer. Coloque pra fora essas palavras. Tudo o que você tem que fazer é falar.”
era cruel. Eu já sabia muito bem disso. também era insistente. E quando ele juntava essas duas características da sua personalidade em uma tentativa de convencimento, ele se tornava bem mais que perigoso.
Primeiro, eu senti o meu lóbulo da orelha deslizar suavemente pra dentro de sua boca, quando ele achou que essa carícia já tinha me provocado o suficiente, ele voltou-se para o meu pescoço, beijando centímetro por centímetro de pele até chegar ao meu colo.
“Vamos, ...”
- Não posso, . – inconscientemente fui me desenroscando de mim mesma, espalhando-me na cama e, sem querer, dando espaço para que continuasse a sua exploração sobre o meu corpo.
“Eu te disse que deixaria que as estrelas cuidassem de você, mas não fui capaz de me descuidar de você nem por um instante.”
“Eu estava por minha conta na Terra, .”
“Não. As estrelas estavam lá por você. Assim como eu.” A voz de era ainda mais rouca naquele momento, e agora os seus lábios brincavam com a curva do meu ombro, e o meu pescoço, com uma lentidão e sensualidade atormentadores.
- Por favor...
“Não. Da primeira vez, eu parei na hora em que você quis. Seu planeta, suas regras. Eu entrei naquela nave, e voltei para cá, contra minha vontade, jogando pelas suas leis. Mas agora tudo se inverteu, . Esse é o meu planeta, essas são as minhas regras.”
Eu fui sucumbindo aos poucos, eu estava sentindo o meu corpo se inclinar na direção para onde eu estava ouvindo a sua voz, logo sentindo o calor tão conhecido do corpo de em contato com o meu, me fazendo perder o controle. Se eu já não havia perdido todo, não é?
- ...
“Diga, . Eu posso ouvir dentro da sua cabeça, mas eu quero ouvir a sua voz dizendo isso. Alto. Claro. Para que eu saiba, de verdade.”
- Seja meu, . – eu disse, antes que eu pudesse controlar as palavras saindo da minha boca.
“Não era exatamente isso, mas... Serve, também.” Ele riu, e de repente eu não estava mais naquela cama, enlouquecida e torturada mentalmente.
Eu estava em um quarto enorme, maior até mesmo que o de , completamente decorado em preto e mármore da mesma cor, estava parado à minha frente, estampando um sorriso de mais puro convencimento. Era como se ele sentisse que tivesse ganhado uma brincadeira muito importante, apenas ao ouvir a minha voz clamando para que ele fosse meu.
- Tem noção do quanto eu esperei para ouvir isso uma vez mais?
- Tem noção do quanto é difícil para mim dizer isso sabendo quantas coisas estão em jogo e se destruirão por nos deixarmos levar por essa paixão idiota? – perguntei brava, usando as mesmas palavras dele e assistindo ele sair de onde estava, perto da cama e indo ao meu encontro, dando uma volta completa ao meu redor.
- Isso é apenas um sonho, . Ninguém sabe, então ninguém se machuca.
Ele parou atrás de mim, inclinando-me lentamente até minhas costas encostarem em seu peito, enlouquecendo-me ao sentir o seu calor.
- Eu posso me machucar, . Eu quero isso muito, a ponto de qualquer coisa aqui, agora, ser real em minha mente.
deslizou uma mão pela lateral de meu corpo até chegar a cintura, segurando-a com firmeza. Depois, com carinho, fez-me inclinar a cabeça para o lado, para que meu pescoço ficasse completamente exposto para a sua diversão.
- E você ainda diz que eu não te conheço, .
- Mas não conhece! – disse tentando parecer brava, mas na verdade não sendo nada mais do que implorativa.
- Conheço, sim. Eu sei que você adora quando eu faço isso. – ele tocou meu pescoço com o seu nariz, causando-me um arrepio delicioso do qual eu sentia mais falta do que qualquer outra coisa em todo o mundo. – Sei o quanto você tem medo de ETs. – eu tentei fazer uma careta, mas ouvi a sua voz ficando mais próxima do meu ouvido. – O que torna ainda mais paradoxal o fato de você me amar tanto.
- Eu nunca disse o contrário.
Pronto! Se havia ainda alguma chance de eu sair dali sem sair machucada e ferida por dentro, essa chance havia acabado. Eu abrira mão de minha racionalidade. Era um sonho, eu sabia. Eu sentia meus membros lentos, como em geral acontecem nos sonhos. me apertava contra si tão apertado, que só poderia ser um sonho. Na vida real aquilo não poderia estar acontecendo.
Sucumbir apenas por um tempo, não causaria mal nenhum. Rico não saberia. Allie não saberia. Seria apenas entre nós. Eu e ele apenas. Nada mais.
Como eu sempre sonhara.
- Eu posso fazer o seu conto de fadas ser real neste momento, . Sem sapatinhos perdidos, sem sono eterno, sem feras, sem Belas.
- Eu aceito todos os termos, . Tudo para ter você agora.
me virou para si bruscamente, tomando os meus lábios com brutalidade, quase como querendo ter, ele mesmo, a certeza de que aquilo poderia ser real, se quiséssemos. O meu corpo estava inflamado e aproveitei-me do fato de que tudo era um sonho para rodear meus braços ao redor de seu pescoço, beijando-o com o dobro de intensidade, sentindo meu corpo ser arrastado aos poucos até se deitar na cama, lentamente, delicadamente.
Fechei os olhos deixando apenas as sensações me levarem aos poucos. sabia onde me tocar, ele conhecia cada recanto de meu corpo que estava doloridamente necessitado dos seus toques.
- Eu te conheço, . – ele repetiu. – Sei que você me ama mais do que tudo nessa vida, sei que sabe que eu sinto tudo isso e muito mais por você. Tudo o que temos a fazer é arriscar, meu amor.
Eu abri os olhos e percebi que os seus estavam exatamente em cima dos meus. Seria tão mais fácil mentir e discordar de tudo o que ele dizia se aqueles olhos cor de chocolate não estivessem fixos nos meus. Seria muito mais simples ignorar tudo o que ele dizia, mas era impossível.
Aquela profundeza cor de chocolate me dragava aos poucos, drenando minha energia e me deixando mole e suscetível a qualquer coisa que ele quisesse fazer de mim. Até mesmo me tornar dele para sempre.
Era errado. Tínhamos pessoas com quem nos importávamos em jogo, e que se magoariam demais se simplesmente deixássemos o coração falar mais alto. Eu levara anos para aprender que meu coração nunca deveria falar mais alto que a minha racionalidade, mas eu precisava de apenas um segundo olhando nos olhos de para saber que ele sempre gritaria o nome dele quando aquele alien estivesse ao meu lado.
- Não podemos...
- Podemos. É o nosso conto de fadas. Tudo o que você precisa é me dar a mão. Eu enfrento tudo isso por você, .
Só poderia ser um sonho. não enfrentaria tudo por mim. Ele tinha muito a perder. Um posto, o respeito da família, a confiança dos moradores de Airamidniv, Allie e muitas outras coisas.
Eu enfrentara a dor e tudo mais para que ele não perdesse tudo isso. E era bem capaz de enfrentar tudo de novo, se fosse preciso. Tudo o que eu queria nessa vida era a felicidade dele, e eu sabia, tinha a mais plena certeza, de que ela não seria ao meu lado. Ele tinha todo um futuro e eu não estava incluída nele.
Em todos os meus anos sendo racional e pé no chão, uma das coisas que eu mais prezava era acertar nas escolhas do presente, para ter um futuro estável. E o futuro de ao meu lado não era nem um pouco estável. Eu nunca poderia ficar em Airamidniv, e se ele ficasse na Terra, mesmo eu conhecendo Noah e Izzy e sabendo que eles não eram tão cruéis quanto eu pensava que a ARE fosse, eu ainda estava correndo o risco de que outros agentes viessem e levassem de mim.
E era melhor que eu o deixasse agora, do que o levassem de mim mais tarde.
com certeza sentiu que meu corpo enrijeceu-se sob o dele, tanto que olhou mais profundamente em meus olhos, tentando ler a minha mente e saber o que eu estava pensando que me fizera parar tudo.
Mas eu fui mais rápida, e pensei em meu trabalho e nas pilhas de serviço que já deveriam estar em cima da minha mesa. Não quis pensar em nada que remetesse a nós dois ou coisa parecida.
- , eu sei que está me distraindo. O que está acontecendo?
Fechei os olhos e rolei para longe dele, ficando no outro extremo da cama, pronta para me levantar, e de costas para ele, tomando todo o cuidado possível para não olhá-lo e começar a chorar com um bebê.
- Não tem nada acontecendo, , só quero voltar pra casa. Talvez Rico já tenha chegado.
A mão grande de segurou meu braço, virando-me em sua direção, e me fazendo olhar no fundo naqueles olhos cor de chocolate, que estavam mais raivosos ao me ouvir proferir o nome de Rico.
- Até agora você queria isso, . Você queria que eu fosse seu, me pediu. Disse que aceitaria todos os termos.
- Mas não posso aceitar todos os termos. Não posso ficar com você, e o que aconteceu aqui, momentos antes, foi um erro. Um terrível engano que eu espero que não volte a se repetir, e não se repetirá se atender o meu pedido de ficar bem longe da minha mente.
O meu braço estava um pouco dolorido, mas meu peito estava bem mais. Ele me puxou, perto o suficiente para que os meus olhos focalizassem os seus com perfeição, e eu poderia jurar que ficara tonta com a nossa proximidade.
- Não de novo, . Eu pude suportar da primeira vez, mas de novo não. Eu não poderia suportar você me deixar para ficar com Rico.
- Ele me ajudou quando eu estava a ponto de padecer, . Eu devo isso a ele. – respondi, quase deixando o meu pranto finalmente ser vazado.
- Mas nada precisaria ser assim se você simplesmente tivesse dado uma chance pra nós dois.
- Meu Deus, ! – levantei-me de uma vez, deixando-o surpreso e atordoado ao mesmo tempo. – Que tipo de chances poderíamos ter? Eu sou uma terráquea sem nada a te oferecer, eu não poderia te proteger contra as coisas que poderiam te atingir na Terra, eu nem ao menos consigo me proteger. Você mesmo sabe que eu aparento ser essa mulher de aço, mas sou só... – eu finalmente comecei a chorar, para a minha própria surpresa. – sou só uma menina assustada, . E você é o alien que eu sempre temi, você não é verde, eu sei, mas eu ainda tenho medo. Você desperta tudo de melhor e mais mágico em mim, traz a tona essa menininha assustada que corre para os seus braços em busca de carinho, quando eu quero escondê-la de todos e tudo.
pulou da cama e me abraçou, enquanto eu abraçava a mim mesma. Os braços dele eram quentes e confortáveis, e assim como eu havia confessado, eu me senti indefesa por alguns instantes, para em seguida ser protegida por ele.
- Mas eu te amo dessa maneira. Eu...
- E eu te amo, . Muito. E é exatamente por isso que eu não quero, e estou te pedindo para se afastar. Você tem tudo, pode proteger todos aqui. Tudo o que você é, está em Airamidniv. Te pedir pra ir contra isso é insano da minha parte. Eu nunca faria isso.
- Eu não quero mais ter que sofrer pelas suas escolhas, . – ele me apertou mais forte. – Pelo amor das estrelas, Mra T Nhé. Não tem noção disso?
- Justamente por ter noção, é que estou fazendo isso. É o melhor para nós.
Fechei os olhos, sentindo o calor dele ainda na minha pele, enquanto ele se afastava e depois me puxava de novo contra seus braços, apertando-me com toda a força de que era capaz.
- Por favor, . Eu estou implorando, como nunca fiz por alguém.
- Sinto muito.
Fechei os olhos com firmeza e usando toda a força da minha mente, deixei que o meu corpo ficasse leve, e quando eu abri os olhos novamente, estava encarando a minha cama, de pé, do outro lado do quarto, sentindo meu corpo ainda vibrar e tremer ante as lembranças do que acontecera momentos antes.
As lágrimas ainda caiam sem parar, e olhando pela janela, próxima a mim, apenas respirei fundo.
Só havia um pensamento que poderia me acalmar naquele momento.
O de que era melhor daquela forma.
Capítulo betado por Natália Smith
Nove
Eu já havia tomado banho, comido alguma coisa estranha que eu havia achado na geladeira de e agora estava pacientemente lendo algum exemplar de um livro bem ruim que tinha achado no fundo da mala.
Ruim, na verdade, era um grande eufemismo.
ainda não havia chegado, muito menos . Rico, então, nem se fala.
Ou nem se falava.
Assim que eu passei para a página setenta e estava prestes a comemorar o meu feito, a porta se abriu e revelou Rico, que estava de cabeça baixa e com uma expressão estranha no rosto.
Levantei-me empolgada e fui até ele, saber o que estava acontecendo, tentando desesperadamente me desapegar daquela culpa dentro de mim. Poxa! Havia sido apenas um sonho, eu não o traíra de verdade. Fora extremamente real para mim, mas não fora de verdade.
E, de qualquer forma, eu havia deixado bem claro que não haveria nada entre nós. Eu e Rico tínhamos um futuro. Ele poderia me proteger, e éramos do mesmo planeta.
- Oi, Rico.
- Oi. – Seco. Essa palavra descrevia bem até demais o seu cumprimento.
- E aí? Como foi tudo com o velho Yrdifas?
- Bom.
Rico já passou em direção às escadas. Eu não perdi tempo, indo atrás dele.
- O que está havendo, Rico?
- Será que dá pra você me deixar em paz, ? – ele parou no meio do degrau, olhando firme para mim e me deixando surpresa com tanta ignorância.
- Eu realmente não estou entendendo o motivo de tudo isso, Rico. Você nunca me tratou assim, nunca...
- Engano seu. – ele disse, abaixando-se até o degrau onde eu me encontrava, olhando fundo em meus olhos. – Já te tratei pior. Não se lembra? Eu ainda me lembro. Foi o único momento em que eu consegui tirar algo desse seu corpo, e desse seu peito de pedra.
Abaixei a cabeça, vermelha, só não sabia de ódio ou de vergonha. Ele não podia estar falando aquilo a serio. Nós tínhamos prometido um ao outro que nunca mais mencionaríamos aquele fato. Era melhor para levarmos a vida adiante.
- Rico...
- Ah, ninguém nunca disse que o seu coração era de pedra? Que surpresa então, , você tem o coração de pedra. Estou me sentindo muito honrado em ser eu a contar a você que o seu órgão vital não existe mais, você só tem amargura e frieza no lugar onde deveria bater um coração.
Ele subiu as escadas e eu fui atrás dele. O que será que aquele velho manco havia dito para ele, para que Rico voltasse tão revoltado? Nunca o tinha visto daquela maneira.
Eu tiraria essa história a limpo, e exatamente por isso, bati com urgência na porta do seu quarto, irritada, até que ele abrisse, o que, quando ele fez, foi atacado com a minha fúria e com meus gritos em sua cara.
- O que aquele velho disse pra você, Rico? O que fez você virar um... idiota? – gritei.
- Yrdifas não me disse nada. – ele rosnou em resposta. – me disse.
Bati com toda a força no batente da porta, desejando com todo o meu coração que aquela fosse a face de . Eu mataria aquele alien metido a besta. Filho da mãe!
- E o que ele te disse?
- Nós bebemos eychaqua, e ele me disse coisas sobre você. Coisas que eu já deveria saber.
- Como o que, Rico? – gritei, pegando-o pela gola da camisa, perdendo de vez a paciência.
Finalmente. Aquela era eu. Temperamental, solta, raivosa, prestes a matar qualquer um, e de preferência esperando que esse cara prestes a ser morto fosse .
- Ele disse que você tem o coração de pedra, e que nunca poderá amar ninguém, muito menos eu. Disse que eu estou perdendo o meu tempo com você. E estou começando a achar que isso é verdade, sabia? – a voz dele estava bem perto do meu rosto, mas não numa coisa romântica e sensual, pelo contrário, estava calma, mas com uma ameaça velada.
Uma ameaça que eu fiz questão de ignorar. Ele achava que estava bravo. Bem, brava não era nem metade do que eu estava.
- Verdade? Você correu atrás de mim por quase três anos, Rico. E agora que eu estou com você, você acha que está perdendo o seu tempo? Você é um otário, sabia?
- E por que você está comigo, ? – ele gritou, realmente vermelho de tanta raiva. – Porque eu cuidei de você. Impedi que você morresse de tristeza.
- Pois me deixasse morrer... Ninguém se importaria com isso! – eu gritei, deixando e indo para o meu quarto, batendo a porta.
Três batidas rápidas e furiosas quase colocaram a porta abaixo, me fazendo abri-la com toda a minha fúria, fazendo com que a mesma batesse contra a parede.
- Você acha que pode começar uma discussão e simplesmente sair andando, , pois está enganada. Quer discutir a relação, pois bem, vamos discutir isso. Se é que temos uma relação.
- O que é isso, então, seu otário? Eu te trouxe para um planeta estranho, acha que eu faria isso se não me importasse com você? É, você é mais estúpido do que imaginava. – disse irônica.
Rico estreitou seus olhos, e eu fiz o mesmo, deixando bem claro que não o deixaria vencer aquela discussão.
- Estúpido? Você está me chamando de estúpido, ?
- Acreditar nos absurdos de é algo que só um estúpido faria.
- Ele pode ter razão. – Rico deu de ombros.
- Tem razão em quê, meu Jesus? – gritei, frustrada. Será que ele não via o quanto aquela discussão era infundada, e que quanto mais gritávamos um com o outro, menos adiantava?
- Ele disse que eu estou perdendo o meu tempo amando você. Você nunca vai me amar, e também não é corajosa o suficiente para me mandar embora. Me fazer ir para longe de você e nunca mais te procurar. Você é covarde demais para se desfazer de tudo isso.
- disse isso? – perguntei sentindo a veia do meu pescoço latejar freneticamente. Eu mataria alguém em cinco segundos se não me acalmasse. E desejava ardentemente que esse alguém fosse . Adoraria ter sangue de alien em minhas mãos, enquanto eu o matava lentamente.
- Disse, mas eu não precisava que ele dissesse nada disso para eu saber que você me deixa distante de você para não se machucar. Como se ama uma pessoa, se não colocar o coração no relacionamento, ? – Rico perguntou, tenso. Eu abaixei a cabeça, envergonhada. Eu mantinha a todos longe para não me machucar. Era o meu jeito de me proteger contra as sensações que eu nunca conseguira entender. Eu não sabia amar. Eu me machucava quando fazia isso. Minha mania de me apegar rapidamente às pessoas fazia com que eu as amasse com muita rapidez e muita intensidade. E com isso eu me machucava com mais freqüência do que gostaria. Machucava. Eu aprendera que as coisas poderiam ser diferentes, se eu mantivesse uma distância segura de tudo e todos, impedindo que elas ficassem próximas o suficiente para despertar meus sentimentos. Sentimentos eram perigosos, e com , eu tinha aprendido isso melhor do que ninguém. Poucas pessoas conseguiram atravessar esse bloqueio. era uma delas. E mais recentemente se mostrara digno de receber os meus sentimentos.
E . Mas ele não era digno. Meus próprios sentimentos decidiram que tinham que se misturar, e se perder dentro de mim, quando ele estava próximo, e mesmo comigo tentando desesperadamente manter a distância segura, e praticamente construindo uma barreira ao meu redor, para que ele não chegasse perto o suficiente para começar aquela coisa maluca e sentimental dentro de mim, ele conseguia atravessar a barreira. Me pegava de surpresa. Quando eu via, ele já estava perto demais. Meus sentimentos estavam malucos demais. E eu tinha que admitir para mim mesma que o amava demais.
- Eu gosto de você, Rico. – esbravejei.
- Mas não ama. É ai que eu quero chegar, . Você não me ama nem uma parte do que eu amo você.
- Mas você disse. Você disse que isso viria aos poucos. Eu te respeito, e sinto um carinho especial por você. O nosso amor poderia vir disso.
Tentei argumentar, mas eu sentia lágrimas perto dos meus olhos. A minha tarde com me deixara passional e, depois, ter de discutir com Rico tornava tudo mais e mais difícil para mim. Eu era boa em esconder sentimentos, não em administrá-los. Eram sempre muitos, muito fortes e incontroláveis.
- Deveria ser, . – Rico colocou a mão na cabeça, como se sentisse uma dor muito forte nela. – Eu deveria ser capaz de fazer você me amar, mas não é um amor de verdade se apenas um lado o sente.
- Eu...
- Você nunca vai me amar. – ele disse um pouco raivoso e alto demais, assustando-me. – Nunca. E você sabe bem disso.
- Já disse que eu poderia tentar.
- Tentar para quê? Você não vai conseguir, e eu não quero estar por perto para ver você falhar. Eu sei o quanto você odeia falhar, e imagine como seria para a grande poderosa falhar justamente na tarefa de amar alguém como Rico Casillas. Seria tão... Irônico.
Eu o olhei com firmeza e uma raiva claramente estampada em meus olhos, segurando todas as palavras que eu queria realmente dizer.
Eu já havia falhado antes. Eu tinha usado todas as minhas forças para me manter afastada de , para não amá-lo, para não deixar que o seu poderoso charme estelar me abatesse. E eu falhei. Falhei miseravelmente. Eu me apaixonei tão forte que eu não consegui nem ao menos evitar.
Eu tentei parar, tentei impedir que eu falhasse. Mas falhei de novo. Falhei ao tentar tirá-lo de dentro de mim. Tanto de dentro da minha cabeça, quanto de dentro do meu coração. E quanto mais eu tentava, mais ele vinha de volta à minha mente.
- Você diz como se eu fosse muito importante, Rico. Eu sou apenas uma mulher. Uma mulher que não merece metade do amor que você dá a ela.
- Entende agora o que eu digo? Você está me afastando de novo, droga! Até quando você vai fazer isso? – Rico gritou.
Arregalei os olhos, assustada. Deus! Eu estava fazendo de novo, e nem ao menos tinha percebido que fazia.
- Que gritaria é essa aqui? – subiu as escadas correndo, enquanto subia atrás dela, decidindo se estava mais preocupado com a namorada que subia vários degraus correndo e segurando a barriga, ou se comigo que estava na porta do quarto de olhos arregalados enquanto Rico gritava.
- Está tudo bem, , só uma briga de casal. – Rico se virou para ela. – Ou não, não é? Ainda não sei se somos um casal. Somos um casal, ? Somos uma porcaria de um casal?
Rico parecia estar mais revoltado com a recente chegada de e , como se a presença deles o deixasse ainda mais revoltado. A voz dele subia de tom muito rapidamente e, em pouco tempo, ele estava gritando comigo novamente.
- Eu... Eu... – tentei, mas estava nervosa demais. Por que eu estava tão nervosa? Como diabos minhas emoções poderiam estar tão volúveis? Eu não tinha a quem culpar. A não ser . Com certeza ele fizera algo naquele sonho para que minhas emoções ficassem tão libertas.
- Se eu fosse você, eu pararia de gritar.
- É por culpa de vocês, aliens, que a minha vida está essa bagunça. – Rico se virou para , que estava tentando acalmá-lo, e tinha uma expressão ameaçadora nos olhos. Eu nunca enfrentaria . Ele era calmo e gentil, mas aquela expressão que ele estampava nos olhos agora, dizia que ele poderia ser letal se o quisesse ser.
- Pare com isso, Rico. Eles não tem nada a ver com isso. – eu tentei. Então me virei para e . – Me desculpem, nós vamos conversar no quarto. – segurei o braço de Rico, tentando colocá-lo para dentro do quarto.
- Não. A culpa é desses aliens mesmo. Primeiro surgiram lá na Terra, e o conseguiu conquistar você em dois minutos, enquanto eu levei três anos tentando convencer você a simplesmente sair para tomar um café comigo. É culpa deles também o estado em que você ficou quando eles foram embora. – ele olhou para e , que me encaravam como se perguntassem a mim se eu havia realmente ficado tão mal quanto Rico dizia. E tudo o que eu fiz foi abaixar a cabeça, envergonhada. Droga! Eu não queria que eles soubessem o quanto eu havia sido fraca. – Ou estou mentindo? Porque Deus sabe que eu não estou! E então, do nada, eu acompanho você para esse lugar, e tudo se torna pior. Muito pior. – ele colocou a mão na cabeça mais uma vez, e encarou o chão. – E tem essa Allie que...
Todos ficamos encarando Rico enquanto ele colocava as mãos na cabeça, sentindo uma dor de cabeça que devia ser realmente insuportável, já que ele até mesmo curvava o corpo.
- O que você bebeu recentemente, Rico? – perguntou, colocando uma mão no ombro de Rico, adivinhando o que estava acontecendo com ele. O que eu não tinha a menor idéia do que poderia ser.
- Eychaqua. – ele disse, parecendo sofrido.
- Mas eychaqua não é tão forte assim. Abra a boca, Rico.
Rico fez o que pedia e, assim que o fez, pediu para que ele fechasse. Sabendo o que acontecia.
- O que está havendo? – perguntou.
- Dorpinom. Alguém deu dorpinom para ele e provavelmente deu uma direção também.
Fiquei olhando de um para outro, sem entender nenhuma parte do que estava acontecendo. me encarou, percebendo que eu estava confusa, e se deu ao trabalho de me explicar o que acontecia.
- Dorpinom é uma espécie de droga da obediência por aqui. Você a toma, e a pessoa que te deu lhe diz o que fazer. Victoria usou-a com e disse a ele que deveria terminar comigo. Quem deu para Rico, provavelmente disse que ele deveria confrontar você acerca de seus sentimentos ou algo assim.
Assenti e encarei Rico que fechava os olhos, tenso.
- O que está acontecendo agora? – perguntei, preocupada.
- O efeito está passando. Deram droga demais para ele. Em algumas horas ele estará bem, mas, por enquanto, ele terá uma dor de cabeça dos infernos. – disse, carregando Rico para dentro do meu quarto mesmo, e o colocando em minha cama. Assim que ele se aconchegou entre os lençóis, e me puxaram para fora do quarto, pedindo sem usar palavras, para conversarem comigo em particular.
Encostei a porta, e olhei para eles, esperando que eles começassem o assunto. Eu estava preocupada com Rico.
- Quem deu a droga para ele, estava lendo a mente dele para saber se ele faria exatamente as coisas que a pessoa o ordenara fazer. – explicou. – Por isso a dor de cabeça dele está tão forte.
- Coitado! – eu disse, lançando um olhar de pena para a porta do quarto.
- Ele te disse se havia bebido eychaqua com alguém, ? – perguntou, em voz baixa, imaginando que eu estava um pouco abalada depois da discussão. Ela sabia o quanto eu odiava discussões. Especialmente as sem sentido e nas quais eu não tinha argumentos, como aquela.
Tentei lembrar se Rico dissera alguma coisa, e lembrei exatamente o que ele havia dito. Ele havia bebido eychaqua com . Aquele filho de uma mãe.
- . Ele bebeu com . – eu rugi.
sorriu e tentou não fazer o mesmo, mas era mais do que claro que era exatamente aquilo que ela queria fazer.
- Ele não tinha o mínimo direito de fazer isso! Ele... Ele...
- Só está tentando ter você de volta. – disse simplesmente e deu de ombros, ao que fez o mesmo.
- Das maneiras erradas. Mais cedo ele entrou na minha mente, tentando me convencer de todas as formas que éramos perfeitos um para o outro, e que deveríamos arriscar e ficar juntos. Agora, ele droga Rico. Será que ele não vê que está fazendo tudo errado?
- Ele está usando as técnicas que ele conhece, . – foi a vez de defendê-lo. Amiga da onça! – Ele está fazendo o que pode. E isso é muito romântico.
Resmunguei alguma coisa e balancei a cabeça, tentando não ficar mais brava do que já estava. Eu estava realmente fora de controle. Minhas emoções estavam todas misturadas, e o meu tão prezado senso de realismo estava perdido em algum lugar da minha mente.
- Eu já deixei bem claro que não podemos. Não é certo. Eu abri mão de todo o meu amor para que ele fosse feliz sem mim. Ele tem que ver que juntos não temos um futuro.
- E quem decidiu que deveria ser assim? Você? Acho que está na hora de você aprender que pode estar errada às vezes, égua lenta. – disse.
- Tudo bem. – eu simplesmente dei de ombros, desci as escadas e abri a porta, escutando vagamente os passos de atrás de mim, e consequentemente os de atrás dela.
- Aonde você vai, ? Espera!
Peguei um dos casacos que estava me emprestando, e o vesti com pressa. gritou para que eu a esperasse mais uma vez e, com as mãos nos joelhos, aparentemente cansada por aquele pequeno esforço, olhou em meus olhos.
- O que você vai fazer?
- Andar, tentar colocar meus pensamentos em ordem. – eu disse. – Minha cabeça está uma bagunça. Meus sentimentos estão todos... Eu não gosto de me sentir assim, . Eu não gosto de...
- Perder o controle? Sei que não. – rebateu.
- Eu vou espairecer. Pensar. Não demoro. - Fechei os olhos, tentando, desde aquele momento, colocar um sentido na minha mente confusa.
correu alguns passos até mim e me abraçou com força, fazendo-me sentir algo dentro da barriga dela se mexer contra a minha, como se estivesse me passando força também. sempre fora capaz de me passar força com aqueles abraços. Ela mostrava que não importava o quão idiota eu estava sendo, ela estaria comigo no final.
- Eu te amo, Lombriga.
- Eu também, égua lenta. Se cuida e... – ela se virou para disfarçadamente, e depois se voltou para mim, sorrindo. – As estrelas guiarão o seu destino.
Eu sorri e atravessei a porta, fechando-a e pensando nas palavras de . Olhei para o céu escuro, mas recheado de pequenos pontinhos brilhantes. O frio entrou por dentro do tecido estranho do casaco, e eu coloquei o capuz, decidida a pelo menos uma vez na vida seguir as palavras de , deixando assim, que as estrelas guiassem o meu destino.
Dez
Irada. Furiosa. Prestes a arrancar a cabeça de um. Nutrindo ódio profundo. Frustrada. Preocupada. Perdida. Chorosa. Machucada. Magoada. Raivosa. Apaixonada. Traída. Perturbada. Encantada. Revoltada.
Tudo isso. Ao mesmo tempo.
Eu iria pirar. Isso é, se eu já não estivesse pirando. Tudo ia e vinha na minha mente, ao mesmo tempo, e eu não conseguia pensar em qual sentimento sentir primeiro, para fazê-lo parar de me atormentar.
E o pior não eram os sentimentos. Eram as lembranças. Eram pedaços da minha vida, coisas que as pessoas me disseram, momentos que eu vivi. Tudo isso junto com os sentimentos.
Era realmente muito bom eu me perguntar como eu não estava pirando.
Como lidar com todos aqueles sentimentos?
Inspirar e respirar. Inspirar e respirar. Eu fui repetindo este mantra pelas ruas vazias de Airamidniv, tentando me concentrar apenas no meu mantra, e na minha respiração. Que diabos! Por isso eu nunca conseguira fazer ioga, eu nunca conseguia me concentrar na minha respiração, sempre tinha uma outra coisa na minha cabeça. Mas não agora. Eu deveria me concentrar.
Apenas inspirar e respirar. Continuei fazendo isso e andando vagarosamente, dizendo o meu mantra baixinho, e de repente comecei a rir, lembrando da ultima vez que recorrera a um mantra.
estava me provocando no meu apartamento, e eu fiz de tudo para me convencer de que ele era apenas um ser verde com anteninhas e uma grande cabeça que, provavelmente, estava possuindo um cara sensual, modelo de cuecas Calvin Klein.
Como eu estivera errada!
“Acho que está na hora de você aprender que pode estar errada às vezes, égua lenta.”
Droga! Às vezes eu tinha realmente que dar razão para . Eu não gostava de estar errada. E quem gostava? Mas eu realmente gostava menos que todo mundo. E antes de , eu fazia o possível e o impossível para não errar. Dava o melhor de mim, muitas vezes, para que tudo fosse impecável. Não errar era o meu verdadeiro lema. Até .
Parece que conhecer ele já tinha sido um erro. Depois dele, eu parei de prestar atenção, ou quem sabe, eu prestei mais atenção. Mas em mim mesma. E então começou a minha homérica sequência de erros. Eu errei quando deixei que me levasse por aquela floresta, errei quando olhei nos olhos dele pela primeira vez, deixando-me perder todo o meu controle, errei quando levei para o meu apartamento, errei quando deixei que ele me provocasse o suficiente para me fazer tirar a minha máscara, e deixar que ele me conhecesse tão bem. Errei quando o beijei. Mas errei muito mais quando, mesmo sabendo de toda a situação, eu entreguei meu corpo e minha alma a ele.
Pronto! Eu poderia ir até mesmo para o livro dos recordes por tantos erros.
De repente, eu parei.
E se não fosse um erro? E se eu tivesse acertado em todos aqueles pontos?
me ensinara lições valiosas que eu nunca teria aprendido, se eu não o tivesse conhecido. Eu aprendera o que era amor.
E mesmo dizendo a mim mesma, desde que era criança, que eu não tinha um coração, sabendo que não tem como se ter um coração partido, se não tiver um, eu entreguei o que eu achava que nunca tinha existido dentro de mim, para . Sem saber. Quando eu vi, já era tarde.
E ele entregara o dele a mim.
Espontaneamente. Quase como num banquete, e eu o tinha destruído. Pisado nele e o esmagado. Partido, como eu pedira a Deus milhares de vezes que não fizessem comigo.
Eu fizera pior com ele. E, com isso, fizera três vezes pior no meu próprio coração.
- Foi melhor assim. – eu disse para mim mesma, enquanto atravessava uma rua, olhando para o céu, ao invés de olhar para o trânsito inexistente. Morrer seria um alívio, sem ser dramática nem nada, mas resolveria muitos dos meus problemas. Mas a mãe de costumava dizer que apenas os covardes pediam a morte. E eu não era covarde. Ou era. Não sabia mais. – Eu estou uma bagunça. – reclamei. – E estou louca. Eu estou falando sozinha. – chorei. – Eu estou falando sozinha.
Um dia tudo se resolveria. Tentei ser positiva dessa vez. Um dia eu me apaixonaria por Rico. Num belo dia, já estaria casado com Allie, e ela estaria esperando um filho dele, nesse momento, ele saberia que tudo o que eu havia dito e feito, tinha sido o melhor para ele. Quem sabe até mesmo me mandasse um bilhete preto em letras prateadas com um agradecimento muito lindo. E no bilhete ele também se desculparia por tudo o que ele havia feito a gente passar com sua teimosia e com a sua momentânea loucura de achar que éramos mraknis.
“Você é minha mrakni, . Eles vão entender, eles têm que entender.”
Inferno! Não era hora de recordações. Muito menos as recordações dos momentos do adeus. Era um dos piores momentos da minha vida, e eu odiava revivê-lo. Eu passara quase uma semana revivendo-o. Palavra por palavra. Olhar por olhar. Gesto por gesto. E definhei dia após dia, até Rico me encontrar e decidir que eu precisava me levantar. A vida tinha que continuar.
Sim. A vida tinha que continuar, mas eu sabia que depois de não era mais uma vida, e sim uma semi-vida, que eu estava vivendo. Como viver sem metade de seu coração?
“Você é minha mrakni, . Eu não posso te deixar aqui. Você tem que vir comigo. Vamos ser felizes juntos, seremos... Como um só.”
Não. Sem mais memórias. Eu não estava pronta para isso. Lembrar me deixava fraca, suscetível, e eu já tinha sentimentos conflitantes o suficiente dentro de mim para sentir mais alguns.
“Mra T Nhé. Dsu Bia Nokena” Pareci ouvir aquilo dentro de meu ouvido mais uma vez. Eu poderia até mesmo aguentar todas as lembranças do nosso adeus, mas da nossa primeira vez não. Apoiei-me em uma parede cinzenta, e respirei fundo, tentando fazer com que aquelas imagens parassem de me atormentar. Aquilo sempre acontecia na Terra. Ser assombrada pelas lembranças e as avalanches de sentimentos começarem a me rondar eram coisas com que eu convivia com muita frequência desde que partira, mas para não ser assolada, eu me jogava de cabeça no trabalho, ou qualquer outra coisa que eu pudesse fazer que ocupasse a minha mente.
Nos últimos tempos, nos fins de semana, quando o meu chefe me impedia de ir trabalhar, e deixava ordens expressas com os guardas para não me deixar entrar, com medo de que o sindicato dissesse alguma coisa pelas minhas excessivas horas de trabalho, eu vinha me entregando ao sodoku. Era interessante e ocupava a minha mente. Ajudava-me a evitar as memórias de .
Mas ali, naquele momento, não existia sodoku. Não existia trabalho. Eu estava prestes a enlouquecer.
As memórias eram fortes demais para eu lidar. Eu podia claramente nos ver naquele posto de gasolina, perdidos nos sentimentos, sentindo o controle se esvair entre nós, deixando só aquela paixão amalucada que sentíamos. E então, como uma neblina, aquela lembrança foi substituída por aquela noite, em meio ao feno. Eu podia reviver tudo. Tudo.
Podia ouvir a chuva batendo contra o telhado, podia sentir o cheiro do feno, o cheiro da pele quente de . O calor. Ai, meu deus, o calor. Eu sentia. E como sentia! Podia até mesmo sentir o sabor dele em meus lábios, como se fosse um néctar sagrado. Algo especial que ninguém mais havia provado, apenas eu.
Meu corpo começou a se arrepiar, e fechei os olhos, sentindo as mesmas sensações daquela vez. O calor de suas mãos contra o meu corpo, o nosso encaixe perfeito.
Era o modo que eu me sentia com que fazia tudo ser diferente. Era o que ele despertava dentro de mim.
Mais cedo naquele dia eu sentira aquelas mesmas coisas. Apenas com a mente. Ele era capaz de me fazer sentir a mim mesma, apenas com o toque de sua mente. Que outro homem conseguia fazer isso?
- Almas gêmeas. – eu disse baixinho, voltando a andar, olhando para as estrelas. – Mraknis.
Não. Éramos. Mraknis. Que parte disso a minha porcaria de cabeça não podia entender?
Eu deveria ter algum problema sério. Algo como dupla personalidade, no mínimo. Eu era duas pessoas diferentes, com certeza. Uma séria, controlada, respeitável, cujas únicas preocupações no mundo eram a melhor amiga maluca e o trabalho que sempre desejara em um jornal de sucesso. A outra era uma passional e sentimental mulher, que se derretia e se perdia nos carinhos de um alien que a provocava e a irritava ao seu bel prazer, apenas para se divertir com as reações despertadas.
Sim. Não eram a mesma pessoa. Por que eu não havia pensado nisso antes? Uma boa dose de terapia poderia resolver isso por mim.
Terapia? Eu estava maluca. Com certeza. Chutei uma pedrinha do chão, revoltada com a minha própria maluquice.
Como diabos eu sentaria em um divã, pagando cem dólares a consulta, num consultório chique e refinado de Upper East Side, olharia firme para a renomada psiquiatra e contaria minha história?
“Bem, tudo começou quando eu encontrei uma nave espacial com dois caras dentro, eu estava acampando com minha amiga, esperando pra ver um cometa, sabe como é, e então os achamos e eu me apaixonei por um, e ela por outro. Ah, eles eram aliens, sabe? Nada muito estranho, não eram verdes nem nada, eram bem sexies. Tipo aqueles modelos de cuecas? Os da Calvin Klein. È! Bem assim! Então, nós tivemos um caso. Transamos até. Juro pra você. Se foi bom? É. Foi. Maravilhoso. Bem, não deu certo. Por isso eu estou aqui. Ele tinha uma noiva. Não, ele não foi sacana. Ela era princesa do planeta deles, ele até quis ficar comigo, mas eu não deixei. Ele seria mais feliz com ela. E então, qual o meu problema?”
Era dizer isso e esticar os braços para ser colocada a camisa de força em mim. No mínimo.
Quem diabos acreditaria em uma história dessas? Nem eu mesma acreditava, quando parava muito para pensar. E eu tinha uma mente bem criativa. Mesmo assim, era inacreditável. De vez em quando, eu acordava de madrugada me perguntando se tudo o que eu vivera tinha sido, ou não, um sonho.
E eu ainda não sabia dizer se me sentia melhor ou pior quando descobria que não fora um sonho.
Olhei para as estrelas, com um sorriso bobo. Elas guiariam o meu caminho? Pois bem. Para onde elas me levariam? Afinal, acreditara nelas, e dera tudo certo para minha amiga.
Melhor até.
Ela confiara no poder dos astros, e conhecera a pessoa que sempre estivera em seu destino. Como era possível uma pessoa ser destinada a outra do outro lado da galáxia? Será que o destino brincava na via láctea, dançando e esperando o momento certo de juntar duas almas, e torná-las uma da outra pra sempre? Se fora isso, eu tinha que lhe dar os parabéns. Ele não poderia ter juntado duas pessoas mais perfeitas uma para a outra. e eram simplesmente feitos para pertencerem um ao outro.
Ele a olhava de um modo tão especial, que parecia que ela trazia todo o mundo em seus braços. Era um encantamento sem fim. E eu que pensara que não existia amor. Que tola eu era! A prova estava bem ali.
nunca me parecera tão linda e feliz como estava agora. E ver a sua pequena barriga crescendo dia após dia, e o modo como parecia estar sempre ao seu redor, cuidando para que tudo fosse do modo mais perfeito e seguro possível para ela.
Eu invejava. Sim, não era um sentimento muito sadio e bonito de se sentir. Mas eu a invejava por saber que a minha vida poderia ser daquela forma, se eu desse uma chance para mim mesma. Para nós. Se eu deixasse, tudo poderia ser diferente.
Atravessei a rua, vendo uma estrela brilhar mais intensamente no céu. Ela parecia estar mais perto do que as outras, como se estivesse apenas algumas quadras mais à frente. Dei mais uma olhada, ouvindo as palavras de em minha mente. Deixar as estrelas me guiarem era tudo o que eu tinha a fazer. E era o que eu faria, pensei andando calma e diretamente para o pequeno ponto brilhante no céu.
Ainda pensando em e administrando toda aquela maluquice estranha de sentimentos dentro de mim. Era por isso que eu odiava sentir o que quer que fosse. Minhas emoções eram intensas demais e quando elas tinham envolvido, pareciam dobrar de intensidade.
Eu estava fazendo tudo certo agora. Era isso o que eu pensava, enquanto caminhava já bem mais calma. entenderia uma hora, com certeza. Eu só tinha que continuar firme em minhas decisões. Ele se casaria em pouco tempo, então eu não tinha que me importar muito mais.
Tudo estaria acabado quando ele colocasse aquela aliança no dedo de Allie, ou fosse lá como eles faziam em Airamidniv. As esperanças morreriam, as famílias ficariam satisfeitas e eu mostraria para todos que eu estava certa.
Seria difícil no começo. Sempre era. Eu sabia que desaprenderia a viver durante as primeiras semanas, como fora quando partira, mas dessa vez seria mais fácil. Saberíamos que não tinha maneiras de se voltar atrás, e nos conformaríamos mais depressa.
Sorri para mim mesma, num misto de tristeza e alegria. Feliz, por ter encontrado a solução, e saber que meus planos realistas dariam certo. Eu estaria certa. Triste, por ter de saber que tudo terminaria daquela forma. Eu amava , e às vezes amar não significava manter a pessoa do seu lado, mas deixá-la ser feliz do modo que ela merecia.
E era justamente o que eu estava fazendo.
Ele lutava para orgulhar sua família, e estava querendo jogar tudo isso fora apenas para ficar comigo. Era injusto. Muito injusto da minha parte.
Finalmente, cheguei onde a estrela brilhava tão forte e me dei conta de que estava em um grande parque, bem verde e bonito, mas estava escuro, e eu não podia ver muito com a pouca luz que vinha de espaçadas luminárias presas em fios metálicos que davam um ar completamente encantador ao lugar. Através da parca iluminação, pude divisar o palácio e o prédio da BEI, que á primeira vista parece monstruos, de tão grande.
Sentei-me em um pequeno banco, e ergui os olhos para as estrelas, notando agora que tinha perdido a minha estrela brilhante. Eu estava realmente mais calma agora, com poucas sensações para lidar. Estava preocupada com Rico, pelo dorpinom, com , por tê-la deixado nervosa. Eu me arrependia tanto de tê-la preocupado. Sabia que na situação dela, eu não deveria fazer nada que a contradissesse.
E, claro, eu ainda estava brava com . Era tudo culpa dele. Completamente dele. Minha avalanche de sentimentos, o dorpinom, eu ter me descontrolado a ponto de preocupar . Tudo.
Lidar com a raiva de era normal. Mais do que isso, até. Aqueles modos arrogantes e metidos dele, sempre me tiraram do sério. E quando eu pensava que ele tomara jeito, ele mostrava que ainda era o alien metido de olhos cor de chocolate que eu conhecera na Terra.
E por quem me apaixonara.
Ergui os olhos para a estrela, e notei que ela havia voltado, e brilhava ainda mais intensamente, fazendo um arco pelo parque e indo desaparecer perto de onde eu estava, fazendo-mw olhar para trás, vendo a estrela sumir ao longe.
- Droga! Nem tive tempo de fazer um pedido. – reclamei.
- Bem, eu fiz. E fui atendido.
Não precisava virar-me para saber de quem era aquela voz. Eu sabia que tudo o que eu vivera mais cedo, tinha sido um sonho. Nada que eu vivera mais cedo poderia se comparar àquelas milhares de borboletas malditas em meu estômago. Apenas ouvir sua voz me deixava daquela forma.
Sim, mais cedo fora um sonho.
- E o que você pediu?
Grande boca! Eu não queria dizer nada daquilo. Eu queria ir embora. Eu nem deveria estar ali. Já era meia noite? Droga! Ele tinha combinado um encontro, e eu estava lá, como se tivesse concordado em encontrar com ele e tudo. E por que eu estava ali mesmo?
A estrela! E então, tudo fez sentido. As estrelas tinham guiado o meu destino, levando-me até aquela praça. Onde dissera que me encontraria.
E se eu ainda não tinha me dado conta de que o meu destino era ao lado do de , as suas palavras fizeram isso. Por mais que eu quisesse evitar, não havia mais como; eu era dele e ele era meu:
- Eu estava em meu quarto quando a estrela apareceu e pedi a ela para que, se ainda houvesse uma esperança para nós, que você estivesse aqui. E você está.
E dentro de minha mente as palavras não foram ditas, mas me fizeram fechar os olhos, deliciada e assustada ao mesmo tempo.
“E sempre estaria.”
Capítulo betado por Natália Smith
Onze
Não aguentei mais e me virei para . A primeira coisa que eu senti foi a força de seus olhos cor de chocolate.
Brilhantes, derretidos, faiscantes. Tão perfeitos que eu às vezes tinha que me perguntar se eram reais.
- Eu não deveria ter vindo. – eu disse, levantando-me e arrumando a gola do sobretudo. Apenas por se aproximar, parecia que o frio não era mais tão intenso. Assim como o barulho dos insetos parecera silenciar, e tudo ao nosso redor pareceu perder a intensidade. Tentando nos dar privacidade para acertarmos os nossos dilemas.
- Eu sabia que viria.
- Mas eu não deveria. Você é um arrogante, . – rebati, andando alguns passos até parar, sentindo a mão quente dele contra o meu braço. Respirar? Como se fazia isso? Não, eu tinha o calor de contra mim, não precisava de mais nada.
- Por que você não deveria ter vindo?
- Ah, será que é porque você me torturou mais cedo, drogou meu namorado e o fez falar coisas absurdas pra mim? – fui sarcástica. Usá-lo com para disfarçar as minhas verdadeiras emoções já estava virando clichê.
- Não eram absurdos. Você realmente não tem coração.
Ele coçou a nuca com as duas mãos, num gesto completamente fofo, mas que, no momento, me irritou mais do que eu poderia tolerar.
- Não tenho um coração?
- Não tem. – ele disse calmamente. – Você o deu pra mim. É meu.
O resto de paciência que eu havia andado vários minutos para recuperar, havia se perdido. estava prestes a me ver mais enfurecida do que nunca vira em sua vida.
- Você é mesmo um alienzinho desprezível, . Um metido... Um... – me perdi nas palavras. Droga! Eu era tão boa nelas. O que estava acontecendo comigo?
- Rico não disse nada que não fosse verdade.
- Você o drogou! – esbravejei mais uma vez.
- Culpado. – ele ergueu as duas mãos, com o melhor de seus sorrisos convencidos. – Eu tinha que fazer alguma coisa.
- E essa alguma coisa era drogar o meu namorado, para fazê-lo dizer coisas horríveis sobre mim? Parabéns, . Você realmente aprendeu como fazer uma mulher te odiar. – respondi voltando a me sentar no banco, cruzando os braços e as pernas, mostrando o quanto eu estava furiosa através do meu olhar.
- E a mulher de ferro tenta se enclausurar novamente... – ele riu.
- Mulher de ferro? Você não me conhece, querido. – ironizei de novo.
Meu corpo se arrepiou antes mesmo da ação dele. sentou-se no mesmo banco que eu, a poucos centímetros de distância. Poucos centímetros, mas já o suficiente para fazer o meu coração bater mais forte.
- Talvez eu te conheça bem demais. Não, ? – ele sorriu quando virei o rosto para ele, ainda com os braços cruzadas, numa pose que pareceu de criança birrenta, até para mim mesma. – Sei que está brava comigo. Muito, muito brava, porque eu brinquei com o seu Riquinho. Mas não estou nem um pouco arrependido. – o sorriso dele se alargou. – Eu também sei que está mais brava por hoje à tarde do que realmente por eu ter dado Dorpinom para o Rico.
- Você é odioso. – xinguei.
Descruzei os braços e virei o rosto, apoiando as duas mãos no banco, uma de cada lado, olhando para frente e balançando as pernas, decidida a não dar atenção a . Era isso o que ele queria: atenção. E a melhor maneira de fazê-lo ver que eu não dava a mínima para ele, era justamente o ignorando.
colocou dois dedos em cima do banco e os moveu lentamente, um na frente do outro até que eles ficassem bem pertos de minha mão. Olhei de soslaio para ele, tentando desesperadamente achar aquilo idiota, mas dentro de mim, eu bem sabia que estava achando aquilo fofo.
- Você está me ignorando, certo? – eu não me movi e nem emiti um só som, sentindo os dedos se aproximarem. – Só por que eu estou tentando fazer você entender o que já devia ter entendido há muito tempo? – mais aproximação. – Bem, eu deveria saber que as coisas eram sempre mais complicadas com você, . Para você entender que eu te amava precisei te mostrar todas as minhas memórias, para você ficar comigo devo, no mínimo, laçar uma estrela e colocá-la num pote para você.
Virei a cabeça na direção dele, com um olhar ameaçador, e voltei à posição original, como se com aquele olhar eu dissesse o quanto ele estava sendo ridículo. O que realmente estava.
- Eu tentei te fazer ver o quanto isso é ruim pra nós dois, . Estamos fazendo muitas pessoas sofrerem com essa sua decisão maluca. – eu dei o mesmo olhar pra ele, e ao contrário do que eu esperava, ele apenas sorriu novamente. – Sim, maluca, porque nem eu, nem você, queremos ficar longe um do outro. É insano você insistir nisso.
Balancei a cabeça, numa desacreditada negativa e continuei emburrada.
- Já parou para pensar que quem deveria estar bravo aqui, sou eu? – não pude segurar a risada irônica que passou por mim, fazendo-o erguer uma sobrancelha, meio zangado, meio divertido. – Ei, eu me humilhei e você me deixou, quando chega ao meu planeta, eu faço de tudo pra te ter para mim, mais uma vez, e você faz o possível e o impossível para me deixar novamente. Tenho motivos mais fortes que o seu para fazer esse bico.
- Então me odeie, .
- Esse é o problema. – finalmente os dedos cálidos se aproximaram o suficiente para tocar a minha pele. – Eu não consigo. Tentei desesperadamente. Muitas vezes. Mais do que eu era capaz de tentar. Mas eu não sou capaz de odiar a pessoa a quem eu mais amo em toda essa galáxia.
Os dedos subiram em minha mão, brincando de se intercalarem, ora um, ora outro, tocando-me. A atenção de estava voltada para nossas mãos, enquanto falava e, sem querer, a minha seguiu a mesma direção.
- Deveria.
- Eu sei. Mas não sou capaz.
- Eu não posso deixar que isso continue. Vai ser pior pra nós. – tentei. Quantas vezes eu teria que explicar, em vão, os meus motivos para que ele os ignorasse por completo, deixando no vácuo-me, fazendo-me falar milhares e milhares de vezes porque não deveríamos ficar juntos?
- Nós quem, mra y?
Inclinei a cabeça com um sorriso torto, perguntando a mim mesma o que significaria mra y, tendo a resposta em seguida.
- Meu amor. – ele sorriu, passando o dedo indicador pela minha pele, numa brincadeira deliciosamente tortuosa. Eu deveria parar aquilo e ir para casa. Deveria. Mas não queria. – Pode significar muitas coisas. Mas quando se tem uma mrakni, significa “meu amor”.
- O que mais pode significar? – curiosidade era realmente um de meus piores defeitos.
- Dizemos mra y quando queremos reunir tudo o que é especial em uma expressão só. Bem, acho que isso te designa, também.
Fechei os olhos, falando a palavra mais uma vez, nunca podendo representar aquele sotaque eslavo de , que era tão lindo, másculo e apaixonante.
- Eu posso estar sonhando? – ele perguntou.
- Mais provável que eu esteja. – ri.
- Sonhei com um momento parecido com esse, várias vezes nas últimas semanas. Eu te tocava, e era real. Seus olhos, seus cabelos, seu cheiro... Tudo. Você realmente estava lá. Eu não precisava mais sentir a sua falta, eu tinha você novamente.
- É real agora. – eu disse, não resistindo ao impulso de fechar os olhos, sentindo os dedos de acariciarem a minha pele. Era um contato parco. Quase nada, mas o suficiente para me fazer arrepiar e disparar meu coração, deixando aquelas estúpidas borboletas em meu estômago cada vez mais alucinadas.
- Eu quero acreditar que sim. – ele sorriu.
- Por que é tão difícil pra nós? – bufei. – Acho que eu consigo lidar melhor com o seu lado arrogante, metido e odioso que eu conheci na Terra. Não sou muito boa em processar os sentimentos que vem de você pra mim, quando estamos assim... – deixei no ar. Incapaz de poder continuar os meus pensamentos.
- Assim como?
- Assim... – eu já estava na chuva, o que custava me molhar? – Como um casal apaixonado que não tem nada a perder.
- Nada a perder... – ele sorriu triste. Os dedos pararam de brincar, e eu não consegui pensar antes de agir. Impulsos. Isso não tinha nada a ver com os meus dogmas realistas. Tinha a ver com o meu coração.
Enlacei os meus dedos nos dele, apenas o indicador e o do meio, como se estivéssemos simulando duas pernas unidas. Eu queria que ele soubesse que mesmo não podendo ficar com ele, era isso o que eu queria fazer. Mas nunca teria coragem de dizer isso em voz alta. O que era mantido na mente não poderia causar tanto estrago.
- Ainda temos esperança, ? – ele perguntou, e algo em sua voz me fez estranhar. – Temos alguma chance?
Ergui os olhos para , e notei que seus maravilhosos olhos chocolate estavam prestes a derramar lágrimas. Não. Eu não poderia lidar com aquilo.
- Eu...
- Ainda estou disposto a largar tudo e partir para Terra com você. Se ficarmos juntos, não haverá nada que não possamos lidar. Eu confio em nós.
Malditos impulsos! Minha mão, que não estava aninhada à dele, se elevou para o seu rosto, sentindo a sua pele macia contra a minha palma. Calmamente, apenas sentindo as emoções. Eu sabia que ele precisava de uma resposta para tudo o que tinha dito, mas eu não era capaz de pensar em nada para dizer-lhe. Eu também confiava em nós. Eramos mraknis, certo? Nada poderia nos deter como tais. Era o que dizia. Teorias. Práticas eram outra coisa, e eu tinha medo de saber como eram, realmente.
deixou que seu rosto descansasse em minha mão e agarrou a minha outra, delicadamente, para depois levar a sua outra mão para o meu rosto, da mesma maneira como eu fazia com ele.
Eu nunca estaria preparada para os toques de . Eles despertavam avalanches de sentimentos dentro de mim. E ao sentir sua palma quente contra a pele do meu rosto, não fora diferente.
- Também confio em nós.
- Mas não pode me deixar fazer essa sandice. – ele disse exatamente as palavras que eu estava pensando. – Eu não li sua mente, . Apenas te conheço muito bem.
Fechei os olhos, sentindo o delicioso calor dele. Era como minha fonte de energia, ao mesmo tempo em que era a minha kriptonita. Eu ficava mais forte ao lado dele, mas ao mesmo tempo, desesperadamente vulnerável. Apenas era capaz de tirar de dentro de mim a menininha desprotegida, que queria colo e carinho. Ele entendia essa menininha. E dava a ela o que ela necessitava.
- Conheço-a, e a amo. – ele disse, mostrando que desta vez, sim, ele estava lendo os meus pensamentos.
- Queria que tudo fosse diferente para nós. – eu disse.
Os braços de se esticaram e me puxaram para um abraço, fazendo meu rosto encostar em seu peito no exato momento em que minhas lágrimas começaram a cair. Como se tivesse cronometrado aquele toque.
- Eu também, mra y. Eu também.
- Eu sinto muito, . Eu sei que não entende, mas é realmente melhor do jeito que estou pedindo. Eu queria ficar do seu lado, arriscar tudo. Eu seria uma tola se não quisesse, mas... – chorei.
- É o melhor para nós. – ele passou a mão pelo meu cabelo, numa carícia suave e reconfortante que me acalmou, e ao mesmo tempo, fez-me abraçá-lo com mais força. – Quero apenas guardar esse momento, . Pode ser a última vez que você está em meus braços.
Afastei-me um pouco, e ergui a cabeça, procurando os olhos dele, perdendo-me naquelas piscinas de chocolate, e tendo agora outro foco de atenção: seus lábios que estavam úmidos, e pareciam clamar pelos meus. Assim como a minha boca pedia a dele.
Tinha que ser. Era para ser.
Segurei-o pela frente da camiseta e beijei seus lábios, apenas encostando-os, sentindo o calor deles, como há muito não sentia. Certo. Como eu poderia pensar que eu havia feito errado em conhecê-lo, quando estar em seus braços era a única coisa que parecia certa?
Fechar os olhos, sentir os braços dele me rodeando, abrir a boca aos poucos para sentir os lábios dele beijarem os meus delicadamente, e então deixar que a sua língua entrasse em minha boca, pedindo passagem, arrepiando o meu corpo, certificando-me do quanto aquilo era certo e bom. Tudo era tão normal, tão correto que me deixava calma e ansiosa ao mesmo tempo.
Não poderia ser a última vez que eu estaria em seus braços. Eu sempre precisaria de mais. Mesmo uma vida inteira ao lado de não seria o suficiente.
me puxou mais contra o corpo dele, e nos separamos um pouco mais, permitindo que respirássemos e nossos corações voltassem a bater corretamente. Não lentamente, era impossível que meu coração batesse da maneira correta quando eu estava do lado de . Ele levou seus lábios até a minha cabeça, esperando, aparentemente, por um momento para dizer algo que estava na ponta de seus lábios.
- Acho que precisamos conversar, .
- Sinto isso também. – eu disse, enquanto me afastava, sem sair dos braços dele, sentindo me ajeitar entre eles, fazendo com que eu ficasse quase no seu colo. Parecíamos um casal fofo, que não tinha nada a temer. E eu gostava disso, mesmo sabendo que eu não deveria.
- Eu entendi todos os seus motivos. Sei que temos que fazer isso, e quero que fique bem, por isso o farei. Atenderei seus pedidos.
- Ficarei bem se ficar bem.
- Aí está o problema. – ele beijou o topo da minha cabeça mais uma vez. – Eu não consigo ficar bem sem ter você. – ele resmungou alguma coisa em nells que me pareceu um palavrão pelo jeito que ele dizia. – Eu gostaria realmente que tudo fosse diferente. Um pesadelo. Mas não é.
Não, não era.
Fechei os olhos, deitando a cabeça no peito de , sentindo o coração dele bater em contato com a minha pele, aquecendo-me e me fazendo sonhar acordada. Pensar no que poderia ser não nos ajudaria nem um pouco, então por que eu estava fazendo aquilo? Eu sabia que não ficaríamos juntos, então por que eu ainda insistia em fazer planos para se isso um dia acontecesse?
- Podemos fazer planos, . Eu fiz vários. Eu sonhava conosco, um pequeno menino com o seu rosto perfeito e amoroso. Ele teria o seu gênio teimoso, mas seria destemido como as pessoas de Airamidniv. Nós o amaríamos tanto...
Ainda de olhos fechados, eu conseguia visualizar essa criança. Ele teria os olhos de , aqueles fofos olhos cor de chocolate, doces, calmos e brilhantes. Ele seria risonho e teria aquele jeito de rir do pai. Inesperado, mas que fazia as pessoas rirem também, encantadas. Uma pequena réplica de e eu.
- Seria perfeito. – sorri.
- Mas não acontecerá. – a voz dele era sofrida, e tinha um quê de mistério. Ele queria me dizer algo.
- O que há, ?
- A dor do Adeus já está partindo o meu peito. É a última vez que eu poderei ter você em meus braços, e você não sabe o quanto isso me machuca, . É como se eu sentisse tudo o que há de bom no mundo e soubesse que a qualquer instante isso desaparecerá. Não poderei te ter por muito mais tempo, e saber que ambos desejamos que isso não aconteça, faz com que seja mais e mais doloroso.
- Eu sei. – chorei. – Eu sei, mas não há nada que possamos fazer.
- Se fosse antes, quem sabe até teria. Mas agora não há muito mais o que se fazer. O tempo acabou.
Afastei-me bruscamente, buscando olhar em seus olhos, tentando decifrar o que estaria acontecendo dentro dele. Não tínhamos mais tempo? Como assim?
- O que quer dizer com isso, ?
- Se você soubesse que tudo entre nós acaba essa noite, o que faria? – ele perguntou olhando fundo em meus olhos. Aquela resposta ditaria as nossas vidas. O que eu faria? Eu me entregaria? Deixaria-me perder nos braços dele, tentando esquecer que era o nosso adeus, e só me preocupar com ele quando ele chegasse e realmente precisássemos dizer que era o fim?
Sim, exatamente isso.
- Eu te abraçaria forte, o mais forte que eu pudesse, e mostraria pela última vez o quão intenso é o meu amor por você, esperando até o momento em que realmente tivéssemos que dizer tchau.
- Não poderá ser tchau dessa vez, . – ele suspirou pegando a minha mão com suas duas, numa firmeza tensa. – Terá que ser adeus, por mais que doa.
- ... – eu tentei.
- Me abrace, . Faça com que essa dor se estanque. – a voz suplicante de pediu e eu não pude me segurar, rodeando-o com meus braços, sentindo o corpo dele se amalgamar ao meu, enquanto sentia o seu peito subir e descer, como se estivesse soluçando. Em pouco tempo, escutei o barulho característico do choro e evitei olhar em seus olhos. Eu sabia que odiaria que eu o visse chorando. Ele era forte demais para demonstrar os sentimentos, mas os sentia quase com a mesma intensidade que eu, senão mais. O problema era que eu era mais covarde, por isso, por mais que eu tentasse ser de pedra, ou de ferro, como ele dizia, e não demonstrar os meus sentimentos, eu sempre acabava o fazendo.
- Eu te amo muito, .
- E eu muito mais, . Mra T Nhé Huts Ni Quyj.
A voz dele estava baixa, contra o meu ombro e eu pude sentir naquelas palavras que aparentemente não faziam sentido nenhum para mim.
- Eu te amo muito mais que tudo. Isso o que eu disse. – ele riu, mesmo entre as lágrimas e a voz grave.
- Por favor, me conte o que está acontecendo. – supliquei.
limpou os olhos de uma maneira muito rude e masculina, e eu me senti entorpecida pelos seus gestos. Eu o amava. Amava tudo o que ele fazia. Tudo o que ele era. Eu amava por inteiro.
- Stan remarcou a data do casamento. Os contratos extra-estrelares serão fechados na semana seguinte, por isso ele decidiu que era melhor usarmos a data mais propícia.
- E quando isso seria? – perguntei com o coração aos saltos, vendo virar o rosto, contorcido de dor. – Quando, ?
- Amanhã. Eu me casarei amanhã.
Respirar e inspirar. Deveria fazer isso. Meu coração também deveria estar batendo. Eu não estava sentido mais nada. Entorpecida. Dopada. Nem ao menos estava sentindo a mim mesma. Fechei os olhos que estavam arregalados até então, e senti a brisa voltar a passar por entre o tecido do sobretudo, gelando os meus braços. O meu corpo nunca estivera tão gelado, assim como eu nunca sentira tanto frio em toda a minha vida.
Por Deus! Como fazia para aquilo parar? Como fazer para aquela dor parar?
Os braços de eram fortes, e me puxaram contra o seu corpo, num abraço firme e apaixonado.
- Não pode ser... Eu não...
- Mas é, eu sinto muito. – ele pedia desesperado, mas não era culpa dele. Era minha.
Eu me arrependia de ter sido tão boba. Quem sabe, se da primeira vez eu tivesse lhe dado uma chance, agora, talvez pudéssemos ser felizes. Ou não. Tudo se embolava em minha mente dopada de dor, e eu não conseguia raciocinar direito.
se levantou e estendeu-me a mão, pedindo para que eu fosse com ele. Eu limpei algumas lágrimas que ainda caíam, e eu não pude evitar perguntar para onde estávamos indo.
- Se é a nossa última noite, temos que fazer com que ela dure para sempre em nossas mentes. – disse ele. – Vamos fazer desse momento, o mais perfeito de nossas vidas, para quando a dor começar a ameaçar nossa sanidade e nossos corações, termos essa memória para nos fortalecer. – eu sorri docemente, ao ver que ele sorria da mesma forma para mim. – Termos um momento só nosso, onde você provou o quanto me amava, eu te provei o quanto sou apaixonado por você e como somos mraknis perfeitos.
Levantei-me, e coloquei a mão por cima da dele.
Para aquela noite eu só tinha um plano: me entregar desesperadamente, rezando a Deus com todas as minhas forças, pedindo que o amanhã não chegasse e que aquela noite não terminasse nunca. Porque, do contrário, eu não sabia se conseguiria viver.
Doze
Corri de mãos dadas com por quase toda Airamidniv, até chegarmos a um grande campo aberto, que eu não entendi direito o que era. Fiquei encarando-o, enquanto buscava ar, de boca aberta e com as duas mãos apoiadas nos joelhos. Eu não conseguia respirar direito, e ter chorado mais cedo não me ajudava nem um pouco.
- Vem, . – chamou, quase no meio do campo.
Andei até ele, avaliando o campo. Não era maior que meio campo de futebol. Bonito, bem cuidado, mas sem nenhuma árvore por perto, realmente um campo aberto. Eu estava tentada a perguntar o que era tudo aquilo, quando pareceu colocar a mão em uma parede invisível.
Fiquei de boca aberta quando ele segurou minha mão, fazendo eu dar alguns passos para frente, e me mandando ficar parada ao seu lado. Eu não entendi nada do que estava acontecendo, e só consegui ter uma idéia breve e assustadora quando o meu corpo começou a ser levado para cima, como se eu estivesse sendo abduzida.
Eu estava morta de medo. Na verdade, se existisse algo pior do que morrer de medo, era exatamente o que eu estava fazendo no momento. Desesperada. Tentando com todo o meu ser não gritar ou surtar enquanto meu corpo ia subindo aos poucos, escutando as risadas de ao meu lado. Não era engraçado, nem um pouco engraçado. Eu me lembrava que um dos meus maiores medos quando criança, era justamente ser abduzida. O que estava acontecendo naquele momento.
- A sua idéia de despedida de solteiro é me matar, ? – eu disse entre os dentes quando a sua risada ficou mais alta, e eu tentava não olhar para direção nenhuma, ao notar que o chão ficava cada vez mais longe.
- Se há alguma possibilidade de se morrer de prazer, eu posso até tentar. – sorriu do seu modo mais arrogante, fazendo-me desejar olhar para ele e sorrir, mas ainda estava muito amedrontada para tal.
De repente paramos. Como se estivéssemos na merda de um grande elevador invisível, o que me fez querer correr dali imediatamente, até perceber que embaixo de nós tinham metros e mais metros de nada até chegar o chão. Agarrei a mão de , e ele apenas sorriu divertido, encarando a minha expressão mortificada, e me pegando no colo, como se eu fosse uma noiva e ele estivesse prestes a iniciar a nossa lua de mel.
Não, nada de comparações relativas a núpcias. Aquilo me amedrontava mais do que aquele maldito elevador transparente. Quando me senti segura nos de , dei-me ao direito de olhar para frente, não podendo deixar de sorrir ao ver aquilo.
Estávamos numa espécie de plataforma de cristal. Invisível, mas naquela altura eu já começava a ver algo como um chão de cristal, ou qualquer material resistente e transparente que estava nos sustentando. Era como se estivéssemos mais perto das estrelas do que jamais ficáramos. E, por incrível que pareça, não estava frio como lá embaixo. Estava tão morno que estava me dando calor.
- O que é aqui? – perguntei enquanto ele andava pela plataforma, até um local que apenas ele sabia. Fiquei com medo de esbarrarmos em alguma parede invisível, mas eu tinha certeza de que sabia para onde estávamos indo, e conhecia tudo ali, mesmo estando invisível.
- Toda criança tem uma casa na árvore. – ele disse, ainda me segurando em seu colo. – Eu tinha uma casa no zênite. – sorriu. – Meu pai construiu-a para mim, usando toda a tecnologia invisível que ele testava. Nenhuma pessoa nunca veio aqui, apenas ele. – finalmente, ele parou, mas eu não olhei para onde estávamos, continuei olhando em seus olhos que brilhavam tão lindamente, que me deixaram derretida. – É o meu lugar preferido em todo o planeta. Eu sempre venho aqui quando eu estou perdido, e quando eu sentia muito a sua falta, eu vinha aqui para pedir às estrelas para que te trouxessem para o meu zênite.
- E eu estou aqui agora.
- Por essa noite. – ele respondeu, sorrindo triste mais uma vez.
se ajoelhou e me colocou em algo macio e quente, que se parecia uma cama. Olhei em volta e me dei conta de que estávamos realmente muito perto das estrelas. Quase como se as estrelas estivessem ao nosso redor. A cama de cristal, ou seja lá o que fosse aquele material, estava quente e confortável como nunca sentira antes.
Busquei me sentar mais confortavelmente, dobrando os joelhos contra o peito e apoiando o meu queixo nele, com a atenção voltada para as estrelas à minha frente. Parecia um sonho. Ou algo melhor que isso.
À minha frente, o céu escuro estava brilhantemente pontilhado, e eu não podia deixar de sorrir quando algumas estrelas caiam, fazendo daquilo um espetáculo perfeito, enquanto eu estava sentada em uma cama desarrumada de lençóis brancos e imaculados.
logo se deitou ao meu lado com as costas no colchão e as mãos sobre o peito, com o olhar voltado para as estrelas acima de nós.
- Quando eu era adolescente, eu vinha aqui para me acalmar. Allie me tirava do sério com o seu treinamento para naul, e seus planos para o casamento. Eu me rebelava bastante com isso. Queria casar com alguém que eu mesmo escolhesse. – ele sorriu para as estrelas, quando o meu olhar se voltou para ele. – Eu me deitava aqui, como estou agora, e pensava em mil e uma garotas que poderiam ser minhas noivas. – ele virou o seu olhar para mim com um sorriso tão esplêndido que eu não pude controlar o meu. – Mas nunca pude imaginar que ela seria tão perfeita como você.
Eu sorri, e deslizei a minha mão pela cama até encontrar a dele, que a agarrou com carinho.
Era a nossa última noite. Eu tinha que fazer algo. Eu estava cansada de escutar a razão e depois me arrepender de coisas que eu não havia feito. Quantas e quantas vezes eu não me arrependera? Não deixaria ser assim dessa vez. Não poderia deixar. Tudo terminaria amanhã, de acordo com a voz da minha razão. Então por que não ouvir meu coração dessa vez e deixar que as estrelas fossem testemunhas do quanto nós nos amávamos?
- ... – eu disse enquanto relaxava as pernas, deixando-as descansar no colchão. – Eu amo você... – continuei, enquanto ia, aos poucos, deixando o meu corpo se deitar de lado, até que eu ficasse encarando a lateral de seu corpo. – Estou ouvindo a voz do meu coração agora.
Puxei a mão que ele ainda mantinha em cima do próprio peito e a coloquei sobre o meu, para que ele pudesse sentir, em sua mão, as batidas do meu coração.
- E o que ele diz? – a voz rouca de questionou.
- Que será seu. Não importa onde, nem quando. – ele sorriu e se virou de frente para mim, sorrindo ao tocar o meu rosto. Sorri, de volta, fechando os olhos. Era tão perfeito o nosso toque que eu me revoltava com a idéia de termos apenas algumas horas até o amanhecer.
- Então vamos fazer essas horas durarem para sempre, dentro da nossa mente.
se colocou de joelhos em cima da cama e me ajudou a fazer o mesmo enquanto puxava o meu rosto, suavemente, contra o seu, para um beijo terno e carinhoso que quase me levou às lagrimas.
Aos poucos, ele foi tirando a sua camiseta preta de mangas compridas, sorrindo ao ver a maneira como eu admirava o seu corpo. Tão forte, tão delicioso. Tão meu.
Estendi a minha mão direita, tocando os músculos de seu peito, com uma quase reverência em meus toques. Deus! Era quente e acolhedor. Deslizei meus dedos quentes pela pele mais que cálida, até chegar bem perto de seu umbigo, e subi novamente, apenas com uma mão, sentindo a pele dele se arrepiar com o meu toque, como se precisasse dele desesperadamente.
Eu sabia exatamente como era isso. Eu também precisava.
Com a mesma vagarosidade sensual, ele tirou o meu sobretudo, deixando apenas a minha camiseta à mostra, passando as suas duas mãos pelos meus braços, arrepiando os meus pelos, aos poucos, dando-me uma sensação deliciosa de necessidade de mais.
- Eu senti falta de sua pele, . – ele sussurrou contra os meus lábios, que se grudaram aos dele mais uma vez, enquanto a minha mão continuava pressionada contra o seu peito, e as dele faziam carinhos contínuos em meus braços. – Eu senti a sua falta por inteiro...
As mãos dele chegaram bem perto da minha cintura, e a apertaram com a mesma suavidade na qual ele insistia. Bem devagar, as mãos entraram por dentro da camiseta, sentindo o meu corpo esquentar ainda mais. A minha pele mais a de era quase como uma equação química, sempre teria uma resposta positiva e explosiva.
Levei a minha outra palma, que ainda estava caída, para o pescoço de , fazendo leves carinhos em sua nuca enquanto a sua língua invadia a minha boca sem pressa alguma. Parecia que tínhamos anos naquela cama de cristal em meio às estrelas, e não apenas algumas horas.
Eu vi os olhos dele se tornarem mais vividos, o chocolate dentro deles prestes a queimar de tanto fogo, e senti que ele estava se segurando. queria que fosse tudo devagar, singelo, lindo como uma recordação deveria ser. Ele queria fazer diferente daquela vez.
Minha camiseta saiu de meu corpo aos poucos, e eu ergui os braços para ajudá-lo a tirá-la de vez. Sem pressa. Aparentemente, apenas.
A maneira que os olhos dele brilharam ao ver o meu colo nu, apenas coberto pela renda preta do sutiã que eu havia colocado mais cedo, fizera com que algo animal se despertasse dentro de mim. E eu sabia que esse mesmo animal estava acordado dentro dele.
Lentas e carinhosas, as palmas quentes de afastaram a alça esquerda do meu sutiã, fazendo-me respirar fundo, já que ao mesmo tempo ele estava deslizando os lábios pelo meu queixo, aos poucos, até chegar ao meu pescoço, lambendo-o desde a base até perto da mandíbula, bem suave e vagarosamente, tentando me provocar, silenciosamente. Será que ele não via que já me colocara no estado de ebulição? Eu estava mantendo o ritmo que ele queria manter. Quieta, apenas sentindo as suas mãos acariciando o meu ombro esquerdo, e brincando com a alça caída do meu sutiã, deixando que sua boca desse beijos suaves e lentos por toda a minha mandíbula, pescoço e começo do colo.
- ... – eu tentei, enquanto praticamente arqueava o corpo, desejando que ele aumentasse o ritmo.
- Não fala nada. – rebateu ele. A boca desceu mais um pouco, e tocou o ombro, trazendo o fogo das estrelas para dentro de mim. Eu teria que implorar? Era isso? Pois bem, eu estava pronta para implorar e gritar por aquilo.
Sugando o meu ombro de uma maneira que era deliciosa, mas que nunca deixaria as marcas que eu sabia que queria fazer em meu corpo para nos lembrar daquilo um dia.
- Não é assim... – mais uma vez eu tentei, quando ele deslizou seus lábios bem perto do meu seio e depois voltou para fazer os mesmos carinhos no meu ombro direito.
- Tem que ser assim. – ele foi suave, mas eu podia notar o timbre desesperado em sua voz. Ele queria aumentar o ritmo, sabia que eu queria, então o que diabos aquele homem estava esperando? – Você merece que seja assim. Suave. – ele passou as mãos calmamente pela minha cintura, arrepiando-me. – Delicado. – ele beijou o meu ombro com carinho. Delicadamente. – Perfeito. – foi a vez de seus dedos ágeis acharem o fecho traseiro do meu sutiã, abrindo-o sem muita dificuldade, respirando fundo quando percebeu que eu já tirava a peça, atirando-a para qualquer lado da plataforma invisível, notando pela primeira vez que estava de olhos fechados. Ele não queria ver o meu colo nu, com medo de perder o controle de vez.
Pois bem, eu o faria perdê-lo.
Inclinei meu corpo mais para perto do seu, fazendo com que os meus mamilos intumescidos tocassem a pele quente do meu peito, despertando as sensações animais tanto dentro de mim, quanto dele. A respiração de ficou ainda mais instável, e eu sorri perversa.
Ele não perdia por esperar. Levei a minha boca, ainda seguindo o ritmo lento que ele queria, para a sua orelha, mordendo o lóbulo e o sugando para dentro da minha boca com delicadeza, ouvindo soltar um som baixo, que para qualquer não passaria de uma respiração mais intensa. Mas eu sabia que era um som de desejo.
- Isto pode ser perfeito, também. – eu sussurrei em sua orelha, sentindo o corpo dele se arrepiar, e me fazendo querer agarrá-lo de vez. Mas eu esperaria até ele dar o sinal verde. – Nosso amor nunca foi suave, . – eu mordi o seu pescoço, para ilustrar minhas palavras dessa vez. – Nem ao menos delicado. – e então lambi toda a pele de seu pescoço, sentindo-o me puxar contra si, delicado, mas já deixando sinais de que ele não agüentaria muito tempo também. Puxei pelo pescoço, sentindo-o erguer a cabeça e olhar para as estrelas, numa espécie de pedido, com certeza desejando poder voltar a assumir o controle. Que eu não deixaria que ele assumisse. - O nosso amor é passional. - disse enquanto puxava o seu cabelo bem perto da nuca, sabendo o quanto isso o deixava em desespero. - Intenso. - ele abaixou a cabeça, ainda comigo puxando o seu cabelo macio e daquela cor nunca identificada, que eu parecia amar mais a cada dia. - Feroz, selvagem, louco, sem limites... - enumerei enquanto olhava fundo em seus olhos, sentindo que a fera estava quase que completamente desperta. Aquele era o nosso jeito de amar. Sem saber o que iria dar, sem pensar, sem movimentos calculados, sem sentimentos tímidos. Era forte, animal, para não se dizer bestial. Sabíamos descontrolar o outro, sabíamos exatamente o ponto fraco do outro, e era isso o que nos fazia tão perfeitos. Saber que o nosso prazer vinha do prazer que despertávamos.
- Assim é o nosso amor. - ele sorriu de lado, com os olhos brilhando tão profundamente que eu me perdi naquela profundeza cor de chocolate que eu amava e tanto sentiria saudades. - É como uma tempestade de raios. É belo e ao mesmo tempo perigoso, assustador. - ele me puxou com mais firmeza, deixando bem claro que eu havia conseguido o meu intento.
Eu sabia que eu tinha conseguido tirar do sério pelo modo como ele abaixou a cabeça e capturou os meus lábios desesperadamente, como se a vida dele dependesse daquele beijo. Ele sugou o meu lábio para dentro de sua boca, faminto e voraz, enlouquecendo-me. De repente, ele aprofundou o beijo, fazendo com que a sua língua penetrasse a minha boca, quente, cálida e sedenta. Nossas mãos perderam a noção, tocando todo centímetro de pele que estivesse à mostra, espalhando calor e deixando aquela cama de cristal prestes a derreter.
Com um gesto firme e que me surpreendeu, me deitou sobre a cama, deitando-se por cima de mim e olhando em meus olhos com firmeza.
- Thuys Nig jetvi. - ele disse, ainda sem perder a sua determinação. - Esse é o nosso pra sempre. - traduziu, para em seguida me beijar loucamente, mais uma vez.
As mãos de começaram a ficar mais assanhadas, tocando o meu colo, rodeando o meu seio numa pegada firme e quente. Eu estava prestes a fechar os olhos, mas levou o indicador e o polegar ao meu mamilo, beliscando-o de leve, mas me alucinando. Abri os olhos e notei que ele tinha aquele sorriso sádico estampado na face. Já me deixando prever o que ele faria comigo.
E então a boca de beijou o meu pescoço, descendo de leve até o meu colo, sem parar de distribuir beijos nem por um segundo. Foi quando a sua boca quente encontrou o meu seio. A mão firme e grande de se divertia no seio esquerdo, enquanto o direito tinha sido capturado pela boca quente e sua língua suave.
- Você me enlouquece, . - ele disse com a boca em minha pele.
E ele nem tinha idéia do que fazia comigo. me puxou pela cintura, mais uma vez, fazendo com que nossos corpos se colassem, deixando-me febril e em êxtase. A mão restante, acariciava a minha barriga, mas sem deixar de mexer no cós da minha calça, quase como se quisesse deixar bem claro que a tiraria em breve.
- Eu vou fazer esse momento durar para sempre, . Para sempre.
- Então não deixe amanhecer. Faça com que as estrelas brilhem para sempre no Zênite.
Ele ergueu o seu olhar para mim, como se quisesse me prometer que daria tudo e mais um pouco para fazê-lo. E então sua atenção voltou ao meu colo, fazendo com que uma de minhas mãos puxasse o seu cabelo, e a outra arranhasse as suas costas, sentindo o modo como ele se arqueava contra mim e parecia se arrepiar quando eu o fazia.
Aos poucos a boca ia trocando de seio, ora o direito, ora o esquerdo e voltando para o direito, até que decidiu que a minha barriga era interessante também, brincando com o meu umbigo, com a sua língua, e despertando mais sensações incontroláveis dentro de mim.
Como ele era capaz daquilo? Despertar o meu corpo, minha alma e fazer com que eles se fundissem em um só, a partir do meu coração, que batia frenético e alucinado, em busca de mais?
- ... - gemi o seu nome, sem me conter.
Ele abaixou-se aos poucos, abrindo o botão da calça e o zíper numa velocidade que não era tão intensa como estávamos seguindo agora, nem lento como antes. Era a velocidade de uma paixão que apenas nós dois conhecíamos. Rapidamente, abaixou a minha calça e eu rebolei os quadris para permitir que ele fizesse aquilo com mais facilidade e também levei minhas mãos para a calça, ajudando-o a tirá-la. Decidindo que eu deveria tirá-la sozinha, voltou-se para a minha barriga, segurando-me pela cintura com as duas mãos, e me mantendo naquele arco sobre a cama, enquanto beijava a minha barriga de um jeito quente e úmido.
Eu queria provocá-lo da mesma maneira que ele estava me provocando, mas não fui capaz. Deixei que ele repousasse meu corpo na cama mais uma vez, capaz apenas de sentir o fim daquelas sensações que abalavam meu corpo tão intensamente.
Ao ver minha pequena calcinha azul com estrelinhas estampadas, que eu havia ganho de em algum Natal, riu alto.
- Não ria. - ralhei.
- Não estou rindo. - ele tentou. Mas não conseguiu. O que ele achava tão engraçado em uma porcaria de calcinha estelar? Eu não tinha outra limpa na mala!
ainda sorria para mim, e por isso não teve como prever a minha reação, virando-o sobre a cama e o deixando deitado sobre mim.
- Você estava rindo e isso o torna um menino mau, ? - eu disse, numa tentativa de ser sádica e sensual, que aparentemente dera certo.
- Serei punido? - ele lambeu os lábios.
- Severamente. Severamente. - eu sorri, sentando-me sobre o seu corpo, e deixando minha vulva exatamente em cima de sua ereção, fazendo com que gemesse muito baixo, desconfortável com a calça escura que ainda prendia o seu membro, impossibilitando que eu brincasse com ele, como eu queria ter feito na nossa primeira vez, e ele não deixara. - Vou fazer tudo o que eu quiser fazer essa noite, . Te darei todo o prazer essa noite. - ele lambeu os lábios mais uma vez, segurando-me pela cintura, acariciando-a ao mesmo tempo. - É a nossa noite. Podemos fazer isso vezes sem fim. Delicamente, suavemente, selvagem. Mas, por agora, tudo o que eu quero é você.
Deixei que meu corpo se curvasse contra o dele, com sensualidade, fazendo com que meus seios tocassem seu peito mais uma vez e beijei os seus lábios bem suave, apenas deixando nossos lábios se tocarem. tentou aprofundar o beijo, mas levantei a cabeça, jogando os cabelos para trás e rindo sarcasticamente quando vi a cara sofrida que ele fez ao não ser beijado como ele queria.
Arqueei ainda mais o meu corpo, beijando agora o seu pescoço, lambendo e sugando aos poucos, de uma maneira deliciosa e que estava deixando sem controle. As suas mãos apertavam minha cintura com mais força, quando minhas sugadas eram mais intensas e quando eu ousava mordê-lo, as suas unhas arranhavam a minha barriga para tentar me dar o mesmo prazer doloroso que eu dava a ele. E então foi a vez de seu peito receber todos os meus carinhos, toquei-o com ambas as mãos, apoiando-as em seu peito, deslizando-as em círculos e apenas sentindo o calor de seu peito forte e musculoso contra as minhas palmas. Macio. Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. Quente e macio. E eu desesperadamente quis tocá-lo com meus lábios para saber se em minha boca a sua pele traria aquela mesma sensação.
sorriu quando me inclinei sobre ele mais uma vez e beijei o seu peito, bem perto do seu mamilo, que eu sabia ser tão erógeno quanto os meus eram. Ele gemeu delicadamente, bem baixo, como se não quisesse fazer nenhum barulho mais alto. Beijei ao redor de seu mamilo, depois descendo os beijos por todo o seu corpo, chegando ao umbigo, onde rodeei a minha língua, sentindo tremer e apertar minha cintura mais firmemente. Eu realmente estava o castigando. E eu não estava nem no começo.
Lambi o seu peito no sentido contrário, dessa vez subindo de volta ao seu mamilo, que eu suguei de leve e mordi, primeiro um e depois o outro, deixando se remexer alucinado em baixo de mim, encaixando-se ainda mais em minha intimidade.
- ... Isso é crueldade...
- Jura? Ainda nem comecei. - eu ri, abrindo o botão de sua calça de uma vez, fazendo a mesma coisa com o zíper, de um jeito alucinado, que o surpreendeu e o encantou. - Nem comecei. - ri e fiz com que ele abrisse as pernas, deixando que eu ficasse no meio delas, para poder tirar a sua calça com mais facilidade. E mais selvageria. Tirei-a de uma vez, e com a mesma falta de cerimônia, tirei seus sapatos e suas meias. riu da minha pressa e eu sorri para ele, agora um pouco tímida. Deus, o que eu estava fazendo? Mas logo que a sua boxer preta apertada entrou no meu campo de visão, o pequeno relance de Calma-Controlada-Realista se foi. Eu tinha interesses mais urgentes.
Passeei minhas mãos, uma em cada perna de , deslizando-as desde o seu calcanhar até chegar às suas coxas, que eu apertei com uma firmeza sedutora. arfou e fechou os olhos, sentindo minha mão subir rápida demais e prestes a tocar o tecido de sua cueca. Eu apenas sorri, e me dediquei a uma massagem em suas coxas, bem perto da virilha, mas não perto o quanto queria. Ele gemeu meu nome baixinho e eu o escutei. Bem, eu não seria tão cruel. Pelo menos não ainda.
Subi até o elástico da cueca na sua cintura e a abaixei apenas alguns centímetros, beijando o local deliciosamente. segurou a minha cabeça, dessa vez. Enlaçando os meus cabelos entre seus dedos, fazendo um carinho terno como um cafuné, desesperadamente pedindo para que eu não fizesse aquilo.
Abaixei mais alguns centímetros, beijando mais para baixo, e assim fui indo até chegar onde eu queria. Abaixando sua cueca até os joelhos, e deixando toda aquela área livre para o meu divertimento. Eu estava em êxtase.
Segurei seu membro com as duas mãos e arfou alto, parecendo desesperado. Dei uma risadinha de lado. Seus olhos cor de chocolate estavam quase negros de tão profundo o seu desejo. Ele estava hesitante em me tocar. Sua mão apenas acariciava meus cabelos. Olhei em sua face e pediu numa linguagem mental para que eu não o punisse tanto. Apertei o membro e ele arqueou o corpo e puxou os meus cabelos um pouco mais forte.
Usei dessa vez as duas mãos. Subindo e descendo com uma, numa velocidade tortuosa e lenta, e com a outra acariciava a base, sentindo o membro em minhas mãos vibrar e ir aumentando aos poucos de tamanho e dureza. Ele estava quase pronto.
Quando finalmente decidi que estava "no ponto". Abaixei meu corpo, olhando em seus olhos até que meus lábios tocassem a ponta de seu pênis. Ele olhou nos meus olhos, profundamente e puxou meus cabelos com ainda mais firmeza do que já estava puxando. Eu sorri sadicamente e fechou os olhos, depois de revirá-los, mostrando em sua face o estado de seu desejo.
Era a minha hora.
Aos poucos deslizei os lábios por toda a extensão de sua virilidade, beijando todo o seu entorno até chegar ao momento de usar a minha língua quente. praticamente puxou a minha cabeça de perto de seu membro de tanta excitação que ele sentia. Deixei que minha língua percorresse todo o membro, como se fosse um grande picolé, sorrindo comigo mesma ao ver as reações de a esse carinho bobo. Coitado. Eu nem estava fazendo nada demais. Agora eu faria. Levei a minha boca à ponta, mais uma vez, dessa vez dando um beijinho delicado, para depois deslizar a boca, colocando aquele falo para dentro dela. puxou o meu cabelo com força, depois mais fracamente, como se estivesse perdendo a força conforme eu colocava o seu membro mais e mais para dentro de minha boca. Quando achei que era o suficiente, parei, tirando-o da boca e depois voltando a fazer isso, repetidamente, deixando que sentisse o quanto era tortuoso o ritmo lento que ele queria manter mais cedo. Bem lentamente fui repetindo aquela carícia até que ele puxou os meus cabelos mais forte.
- Pelas estrelas, !
- Só se disser a palavra secreta meu amor. - eu fui cândida, e sorri para ele com a boca pousando mais um beijo na ponta de seu falo.
- Eu... Eu... - tentou ele.
- Palavra errada. - voltei a fazer a caricia que consistia em deslizar a minha boca para cima e para baixo em seu membro, inserindo-o dentro de minha boca, mas dessa vez fazendo carícias na mesma direção e velocidade com a parte que eu não conseguia colocar na boca.
- Uhts Nij Tas. - ele quase gritou, alucinado se levantando, ficando ajoelhado no colchão e me puxando para que eu me levantasse também e olhasse para ele, o que fiz com uma expressão completamente pervertida.
- E o que seria isso? - perguntei olhando em seus olhos desfocados.
- Isso quer que dizer que acabou a sua vez de brincar, .
Eu iria rir, mas me jogou contra a cama, deitando-se em cima de mim e imediatamente atacou o meu pescoço com seus beijos quentes e possessivos. As mãos de estavam desesperadas. Não sabiam se tocavam os meus seios, massageando-os e beliscando suavemente os mamilos, me enlouquecendo, ou se apertavam a minha cintura, fazendo-me gemer baixinho e continuamente.
Foi assim até que suas mãos foram para a lateral da minha calcinha, descendo mais até apertar minhas coxas, com firmeza, enquanto eu jogava a cabeça para trás, mais que alucinada com aquelas sensações. subiu mais suas mãos e afastou a calcinha de estrelinhas, que agora não era mais motivo de riso e dando uma sugada mais intensa em meu pescoço, levou dois dedos até a minha vagina, tentando ver se eu já estava pronta.
E como eu estava!
Ele massageava meu clitóris com seus dedos grandes, quentes e mais que rápidos, penetrando-os em minha vulva quando achava que deveria fazê-lo e arrancando gemidos mais altos e desesperados de mim quando o fazia. o repetiu por mais duas ou três vezes, até penetrar os dedos em mim mais uma vez e puxar-me contra ele, fazendo com que seus dedos me penetrassem por inteiro. Revirei os olhos e me agarrei a ele. Ele movia seus dedos com força e firmeza, tirando-me do sério, até que eu precisei gritar-lhe:
- Agora, ... Agora.
- Sei, conheço o seu tempo. - ele suspirou - E ele é o mesmo que o meu. Somos perfeitos a esse ponto, . - olhou em meus olhos, deixando-me ver que aquela era a hora, o nosso momento tinha chegado. - Somos mraknis. Até o fim.
Tirando a minha calcinha com pressa e deitando-se sobre mim, levando a sua virilidade até a minha entrada úmida, penetrando-a delicadamente e com suavidade, fazendo-me agarrar suas costas, e rodear as minhas pernas em sua cintura, como se eu quisesse me colar ainda mais a ele do que já estava colada. Ele puxou-me pela cintura, tentando fazer o mesmo e beijou o meu pescoço mais uma vez, alucinado. Tanto ou mais do que eu estava.
Ele se afastou e deslizou mais uma vez, repetindo isso por mais algumas vezes até eu arranhar suas costas com mais força, implorando sem usar palavras para que ele entendesse que eu queria aquilo mais intenso.
Compreendendo rapidamente o que eu queria, afastou-se um pouco, apenas para sair por completo de dentro de mim e se introduzir novamente, com força, intenso, apertando minha nádega, desesperado. Ele ia e vinha dentro de mim com rapidez e selvageria, mas de um jeito completamente delicioso que eu aprovava cem por cento, tanto que eu estava movendo o meu corpo, rebolando sob ele, ao mesmo ritmo, buscando, em certos momentos, até mesmo aumentá-lo para que intensificasse os seus movimentos também. O que ele conseguiu fazer lindamente.
Nesse momento comecei a sentir algo se avolumar dentro de mim, que já estava se avolumando há algum tempo, mas naquele instante estava tomando proporções insuportáveis. Agarrei-me com mais força a , e ele parou de se mover.
Arranhei-o como uma selvagem e ele olhou em meus olhos com um sorriso que misturava sadismo e a sua já conhecida arrogância, que era mais que lindo.
- Isso é ser cruel, . Isso. - ele continuou parado até que me penetrou bem devagar mais lento do que eu achei que fosse possível. Depois voltou a sair de dentro de mim, repetindo isso até que nem ele mesmo agüentou o ritmo torturante que ele estava impondo.
O seu corpo caiu sobre o meu, segurando-me com força, até que ele reiniciou os seus movimentos frenéticos, sem parar, apenas aumentando mais e mais até que eu não agüentei e deixei que meu corpo escorregasse aos poucos de volta a cama, já que este estava arqueado, tentando obter o máximo dos movimentos de . Meu corpo parecia ter levado um choque e mesmo depois de parecer ter sido abatido por uma onda gigantesca que finalmente quebrara na praia, ainda estava vibrando. Uma tsunami quebrando na praia depois de atingir picos incríveis, era um bom exemplo de como fora o meu ápice com .
Que com certeza estava no mesmo estagio que eu, depois de investir contra o meu corpo mais duas ou três vezes, seguindo aquele ritmo animal até cair em cima de mim, sem forças nem ao menos para se levantar.
Respirei fundo acariciando seus cabelos macios que estavam em meu peito, sentindo o coração dele batendo contra o meu, sentindo a sua respiração contra a minha pele. Era tão perfeito. Tão certo. Mas estava prestes a acabar.
virou-nos sobre a cama, fazendo-me deitar sobre o peito dele, de uma maneira mais confortável. Ele ergueu os olhos para o céu estrelado e eu fechei os meus, permitindo-me sonhar acordada, sentindo aquela sonolência gostosa que estava me abatendo.
- Não estou sentindo minhas pernas. - ele riu. - Fomos selvagens demais dessa vez, .
Ri junto com ele e senti o abraço de me rodear ainda mais. Ele nos cobriu com o lençol e eu me enrodilhei mais a ele, querendo sentir o seu calor mais contra o meu corpo.
- Eu não quero que amanheça. - disse, pensando em tudo o que poderia acontecer se realmente o sol chegasse. Ele não poderia nascer, isso significaria que estava tudo acabado. Que realmente teríamos de nos dar adeus. E eu sabia que morreria no momento em que eu tivesse que dar adeus a , para nunca mais.
- Não vou deixar que amanheça. Não posso deixar. - ele sussurrou. - Mra T Nhé, minha mrakni. Dsu Bia Nokena. - os lábios de pousaram suavemente em minha cabeça e eu me senti incapaz de continuar de olhos abertos, o sono estava me abatendo rápido demais, mas ainda tive tempo de dizer:
- Mra T Nhé, . Até o fim.
Com a certeza de que ele entenderia que o fim não estava próximo, pelo menos o do meu amor, porque as estrelas começaram a desaparecer aos poucos quando eu dormi de vez, sentindo-as levar minha esperança junto com elas.
Estava um pouco frio quando eu abri os olhos, e imediatamente a claridade ainda parca da manhã invadiu meus olhos. O corpo forte e quente de ainda estava contra o meu e ele dormia, silenciosa e calmamente, como se não tivéssemos nenhuma perturbação.
E tínhamos. Infelizmente.
Toquei seu rosto com carinho, sentindo-o se aconchegar mais a mim em seus sonhos e desejei que ele estivesse tendo sonhos lindos, com o pequeno menino de olhos cor de chocolate que poderíamos ter tido, com toda a nossa vida juntas que nunca se tornariam reais.
Com cuidado, fui saindo da cama, colocando o travesseiro sobressalente aonde estava meu corpo para que não notasse que eu estava saindo da cama. Respirei aliviada quando ele abraçou o travesseiro sem perceber que eu havia saído de lá. dormia tão lindamente que eu estava prestes a chorar apenas de olhá-lo. Eu não iria chorar. A controlada estava novamente tomando conta de mim, e ela sabia que naquele momento tudo o que tínhamos a fazer era nos vestir, sair daquela plataforma e só então pensar no que aconteceria.
Foi exatamente o que eu fiz, caçando minhas roupas pelo chão invisível da plataforma, até achá-las e me vestir, para então passar à árdua tarefa de passar as mãos pelas paredes até achar o elevador. Quando finalmente o achei, usei todo o meu estoque de coragem para colocar o pé para frente, encontrando apoio no chão invisível e depois andando para dentro do que eu imaginava ser o elevador, ficando imóvel.
Meus olhos focalizaram a cama de cristal e o homem lindo deitado nela, com a luz alaranjada do sol nascente fazendo com que seu rosto parecesse mais belo e seus cabelos tivessem um tom ainda mais indefinido. Deus, como eu o amava!
- Adeus, mra y. - sussurrei esperando que o vento que já voltara a soprar, levasse minha mensagem a ele e estendi a mão como o vira fazer na outra noite, para que o elevador descesse.
Não mexi um só músculo enquanto via o chão ficar mais e mais próximo, quase maluca com o quanto aquele elevador me deixava tonta.
Finalmente senti a grama sobre meus pés, e tudo o que eu pude fazer foi correr. Para bem longe, atravessando as ainda vazias ruas de Airamidniv com todo o meu fôlego, tentando fazer com que as lágrimas não escorressem com o esforço que eu fazia para correr o mais rápido possível.
Eu não poderia passar mais nenhuma hora em Airamidniv. Não podia encarar aquilo mais. Eu conseguia ver as bandeirinhas pretas penduradas por todos os lados, com o anuncio de que o casamento seria naquela tarde, e tudo o que eu podia fazer era correr mais rápido e segurar as lágrimas com mais força.
Abri a porta da casa de com pressa, subindo as escadas e correndo para o meu quarto, mas não consegui chegar até lá. Deixei que meu corpo ficasse pela escada, me sentando no ultimo degrau, chorando como nunca e respirando entrecortadamente pelos soluços e pela falta de fôlego.
chegou rapidamente com uma expressão claramente preocupada, sentando-se ao meu lado e abraçando-me, colocando a minha cabeça em seu peito, enquanto acariciava os meus cabelos com carinho.
- O auto-falante de Airamidniv anunciou o casamento, noite passada. Imaginei que te encontraria. - apenas assenti para despreocupá-la. Ela sabia que eu estaria com , apenas ele era capaz de me proteger contra mim mesma. - Eu... Sinto muito.
- Eu quero ir embora, . Quero partir desse lugar.
- Eu entendo, minha égua lenta. - ela acariciou-me novamente. - preparou tudo para que a nave partisse antes do casamento, achamos mesmo que não fosse querer ficar.
Segurei as mãos de entre as minhas e depois de beijá-las, deitei minha cabeça em seu colo, sem me importar de onde eu estava e apenas deixei que todas as minhas lágrimas despencassem e rolassem escada abaixo.
As estrelas haviam levado a esperança que eu tinha em meu peito, embora, quem sabe, um dia poderia levar o meu amor também. Levar o de e deixar que ele fosse feliz com Allie, ela merecia tanto quanto eu.
Mas eu já deveria saber que as estrelas não poderiam tirar o que elas mesmas haviam trago. Eu seria de até o fim. E por mais que eu pensasse que fosse, aquele ainda não era o fim.
Treze
Com muito esforço, conseguiu com que eu comesse alguma coisa, já que eu não comia há várias horas e aquela maldita dor de cabeça que sempre vem quando eu choro demais, abateu-me. Mesmo querendo ficar de pé, , e agora com a ajuda de , conseguiram com que eu fosse dormir um pouco.
Eu não queria dormir, eu sabia que teria sonhos ruins, mostrando tudo o que poderia ser. Não poderia dormir. saiu de casa junto com , para irem cumprir seus afazeres na BEI e na escola interespacial por meio período enquanto o resto da cidade planejava e sonhava com o casamento de Allie e . Esperei que eles fossem embora para poder me levantar da cama e parar de fingir que eu estava dormindo.
Dei uma volta pela casa até chegar ao meu quarto, já que e haviam me colocado para dormir em sua cama, devido ao fato de Rico ainda estar dormindo em minha cama, se recuperando de sua recente experiência com o Dorpinom.
Abri a porta com suavidade, procurando não acordar Rico e o encontrei sentado na cama, com as duas mãos na cabeça, e o seu rosto expressava toda a dor que ele sentia.
- Tudo bem, Rico?
O homem se levantou de uma vez e me encarou com uma expressão de quem sentia muito. Eu nem esperava pelos seus atos quando ele correu até mim e pegou em minhas mãos, colocando-as em cima do seu peito.
- Deus, ! Eu sinto tanto! Nunca quis dizer nada daquilo para você. Foi insano. Me perdoe. Eu sei que eu nunca deveria ter dito aquelas coisas, menos ainda sair para beber com , sabendo que ele não gosta de mim, que ele faria qualquer coisa para ter você de volta.
Faria. Passado. Então não pude deixar de fazer uma expressão desanimada. Nem esperanças eu poderia nutrir mais. Em algumas horas tudo estaria acabado, não haveria mais pelo que rezar, a não ser para que Deus apagasse todas as minhas lembranças de . Para que tirasse ele de mim.
- Agora já foi. Passou, Rico. - respondi tentando apagar a minha expressão, segurando o seu rosto com carinho. - Vamos esquecer a noite passada, ok? Temos uma...
Rico se afastou de mim suavemente e se eu não tivesse visto o carinho em seus olhos, poderia jurar que ele ainda estava sob os efeitos de Dorpinom. Suas mãos frias tocaram o meu rosto por alguns instantes e de repente ele voltou a se afastar.
- Disse muitas coisas em vão, noite passada, . Mas isso não muda que algumas dela sejam realmente verdades. Eu... Eu acho melhor terminarmos tudo entre nós.
A voz de Rico era tensa e mais uma vez me questionei sobre o quanto de droga ainda poderia estar correndo em suas veias.
- Não vejo mais sentido em continuarmos com isso. Já nos machucamos demais, machucamos outras pessoas e... - ele abaixou a cabeça. - Eu sei, você sabe, todo mundo sabe, na verdade, que nunca vamos nos amar de verdade.
Eu ergui uma sobrancelha, prestes a questionar tudo aquilo quando Rico decidiu continuar.
- Eu sempre achei que esse amor fosse grande, . Mas... - ele sorriu triste, como se quisesse me dizer, sem usar palavras, que aquilo era o certo a se fazer. E eu sabia o quanto fazer o certo para quem amávamos poderia ser doloroso. - Eu vi o modo como ele fala de você. Os olhos dele mudam de cor. Como quando se derrete o chocolate, sabe? Aquela coisa quente e... Eu nunca poderia sentir algo como ele sente por você, . Nunca.
- Rico... Tem certeza de que é isso o que quer? Pode parecer que é o certo para nós, mas é pra você?
- Absoluta certeza. - ele garantiu sorrindo enquanto seguia para a janela, vendo a cidade completamente decorada lá embaixo. - Eu entendo o que você quer dizer de parecer certo para os outros, mas não o ser para você. - ele se virou para mim rapidamente, buscando os meus olhos. - Não deve estar sendo fácil para você.
Apenas balancei a cabeça, incapaz de me fazer de tola e fingir que não havia entendido o que Rico queria dizer. Estava doendo. Muito. Mais do que eu pensara ser possivel doer. Como um coração poderia se apertar daquela forma. E eu que pensara que quando havia partido, eu estava sofrendo. Bem, não era nada, comparado-se àquilo.
Mas eu seria forte agora. Ou pelo menos tentaria ser, enquanto estivesse naquele planeta.
- Precisamos vir para tão longe para nos darmos conta de que amar pode ser doloroso. - Rico sorriu, voltando a encarar as pessoas contentes pela rua. Ele estava filosofando com um sorriso tão triste no rosto que não me contive. Abracei-o com ternura. Eu gostava de Rico. Mas não o suficiente. Ele sempre seria um amigo querido, ainda mais querido por ter sido o responsável por cuidar de mim, enquanto eu não tinha condições nem ao menos de respirar. E eu tinha certeza de que isso se repetiria quando chegassemos à Terra novamente.
- Sinto muito. - tentei.
Rico me abraçou com mais força e me afastou em seus braços o suficiente para que eu olhasse fundo em seus olhos e escutasse o que ele tinha a dizer.
- Não sinta. Eu tenho que te agradecer. - Minha expressão ficou confusa e Rico voltou o seu olhar para fora, mais uma vez. - Por ter me trazido com você. Acho que é melhor morrer de amor do que morrer sem amar, não é? - ele riu, mas vi que, na verdade, ele estava prestes a chorar como um bebê.
O que estava acontecendo com ele? Não era só a nossa separação que o estava deixando daquela maneira.
- Rico...
- Acho que existem algumas coisas que eu preciso te contar. - comentou ao perceber o meu olhar. - Sobre ontem à noite.
Eu tinha quase certeza de que havia mais do que apenas ontem, mas deixei que Rico me contasse o que se sentia preparado para contar. Já era o suficiente.
- O que houve ontem à noite?
- Eu sonhei... Com... Allie. - ele sorriu tristonho mais uma vez. Começando a me deixar preocupada. - Foi tão real. Eu pude sentir o perfume dela, eu pude... colher as lágrimas dela em meus dedos. - Rico ergueu a cabeça mais uma vez, como se não quisesse me deixar ver que ele estava prestes a chorar. Um latino como Rico nunca permitiria que ninguém o visse. Mas o que é o orgulho para quem está padecendo de amor? - Ela... Vinha me avisar do seu casamento e... Por Deus, . Eu nunca tive um sonho tão real.
Eu apenas sorri. Sabia exatamente como Rico se sentia. Era tão intenso que parecia real, deixei meu corpo estremecer de leve ao me lembrar das várias vezes em que eu fora vítima daqueles sonhos manipulados pela mente de , mas infelizmente a tristeza do presente viera junto com as lembranças.
- Você entende? - eu apenas assenti de leve. Minhas forças para falar estavam minima. Eu sabia que estava prestes a chorar, então quanto menos eu falasse, mais tempo daria a mim mesma antes de cair no choro. - Eu acho que não posso esconder de você, . Você, mais do que ninguém, sabe como estou me sentindo no momento. - Rico sentou-se na cama, depois de fechar as persianas para que a decoração não fosse mais vista por nós. Sentei-me ao seu lado, sem convite, prevendo que eu teria a confirmação do que eu já suspeitava.
Eu prestava atenção nos olhares dispersos de Rico desde que chegaramos à Airamidniv. Ele passara a agir mais como o amigo querido que eu sempre estimara do que o pretendente insistente para namorado. Mas eu não quisera entender. E nem tinha cabeça para tal. Tudo o que se passava em minha mente era .
- Eu... Sempre achei que gostava muito de você, . Via você como a minha musa. Mas... Eu a encontrei. - ele balançou a cabeça evitando o meu olhar. - Não queria sentir isso. Eu te amava, certo? Não era direito sentir nada disso por outra garota, mas ela parecia me puxar para ela. Eu... Sinto coisas fortes por ela, . Tão fortes que em certos momentos eu até duvido que realmente te amei. - Finalmente Rico deixou-me olhar em seus olhos e a despeito de tudo o que acontecia comigo, com minha vida e minha mente, eu estava sorrindo. Já sabia a quem Rico amava. Tudo passava a fazer sentido naquele momento.
- Fico feliz por amar Allie. - disse - Até que enfim encontrou a pessoa que eu disse que encontraria. A que mereceria todo o amor que você sente.
Rico riu. Era um riso estranho, daqueles que a pessoa torce para que não o faça chorar, que impeça que as lágrimas comecem a cair. Eu conhecia bem aquele riso. Quantas vezes eu não havia recorrido a ele?
- Eu não entendia o que você dizia, nunca parei para pensar no quanto você poderia ter sofrido. Agora eu tenho a mais completa noção. A mais completa e dolorosa noção.
- Sinto muito. - repeti - Deve estar sendo horrível pra você.
- Não. Até que estou lidando bem com isso de descobrir que eu amo uma mulher em uma noite, e vê-la se casar na noite seguinte. - nós dois rimos do sarcasmo dele e nos aproximamos, deixando um segurar a mão do outro, sabendo que ninguém mais entenderia o que ambos sentíamos naquele momento do que um ao outro. - Até parece letra de música do Earth, Wind and Fire. - ele brincou, rindo mais uma vez.
- Nada. Dos Bee Gees. Consegue ser bem pior.
Empurrei-o com o ombro e, como já era de se esperar, o riso durou pouco tempo e aquele olhar perdido voltou a tomar conta dos olhos de Rico.
- Vai passar, cara.
- Duvido muito. - ele respondeu com a atenção voltada para o tapete sob nossos pés. - Não passou para você, é insano pensar que poderia passar para mim.
Abracei-o mais uma vez e deixei-me chorar. Eu deveria estar dando apoio a Rico, mas estava caindo aos pedaços. Estava me sentindo péssima e para piorar, flashes da noite que eu tivera com insistiam em me perseguir, atormentando o fim de sanidade mental que eu ainda parecia ter. Eu estava padecendo.
Meu choro durou por algum tempo mais, e Rico fizera o possível para me acalentar e continuou fazendo-o até que os meus soluços passaram e eu pude secar as minhas lágrimas, me sentindo um pouco melhor. Nas últimas horas eu vinha me sentindo melhor a cada vez que eu chorava. E era mais que claro que “melhor” era apenas um termo abstrato, aquilo dentro de mim nunca mais passaria e a certeza disso era o que acabava comigo.
- Você deve estar com fome. - Rico disse com um sorriso de quem me conhecia bem. Eu nem ao menos conseguia calcula há quanto tempo eu estava sem comer. Tinha coisas mais importantes para pensar do que em comida. - O que acha de tortillas?
Rico sorria tão lindamente e a mistura de seu sorriso com a palavra “tortilla” fizeram com que eu me levantasse e segurasse sua mão, acompanhando-o para a cozinha. Eu sabia que ele não acharia os ingredientes para fazer um dos meus pratos favoritos, mas a expressão contente dele enquanto procurava por algumas coisas para improvisar as tortillas e mexia nas panelas, me deixaram calada e me induziram a apenas escutar o seu suave cantarolar e o barulho dos armários abrindo e fechando, juntamente com as panelas batendo uma contra a outra. O único som naquela cozinha.
Por pouco tempo.
A porta da sala abriu-se de uma vez e eu nem precisei de poderes mediúnicos para saber que aquelas passadas eram de . Muito menos para deduzir que ela estava mais do que furiosa, pelos barulhos que ela fazia enquanto pisava firme pela sala.
- ...
- Não fala nada ou eu vou xingar é você! - ela gritou com que andava atrás dela enquanto eu ouvia os seus passos e vozes se aproximarem da cozinha e pararem bruscamente. Até mesmo Rico havia parado de mover-se, encarando a entrada do cômodo com um certo receio. - Eu estou furiosa. Não! Furiosa é pouco.
- , eu sinto muito e estou bravo também, mas...
- Esse planeta... Eu não vou me rebaixar e xingá-lo. Não vou me rebaixar. Não vou. - ela dizia para si mesma numa tentativa bem falha de se acalmar. - Eu quero matar alguém. - gritou.
- Isso não é bom para o bebê. - tentou .
- Ah é? Então fala pra eles. Diz que sua mrakni está em alerta vermelho porque eles fizeram essa barbaridade.
- Eu também não aprovo isso, ok? Eu também estou furioso e decepcionado, mas o que diabos eu posso fazer?
também tinha perdido a paciência e ergui as sobrancelhas completamente assustada. Aquilo era novo para mim. Eu estava acostumada a ver apenas o doce alien apaixonado, nunca vira se alterar antes e podia dizer que era completamente assustador.
Mas não o parecia para .
- Tem certeza de que não podemos fazer nada? - ela perguntou após um longo silêncio no qual eu e Rico nos entreolhamos confusos e curiosos.
- Não. - respondeu, triste.
- Eu vou contar para . Ela deve saber.
Após ouvir o meu nome, levantei-me de uma vez e parei na entrada da cozinha, apoiando-me no batente e encarando-os. Minha amiga estava em frente ao noivo com a expressão mais mista que eu já havia visto em seu rosto. misturava apenas preocupação e nervosismo. , não. Eram tantos sentimentos que perguntei-me se ainda a conhecia tão bem quanto antes eu acreditava.
- O que eu devo saber?
Ambos se viraram na minha direção, assustados, e eu continuei encarando-os sem me abalar.
- ... Nós... - gaguejou.
- Podem contar.
- Não posso.
correu para os braços de , escondendo a cabeça em seu peito e chorando como um bebê. Deus! O que estava acontecendo?
- Eles não tinham esse direito. Não tinham! - soluçou ela - Não podiam fazer isso.
Ele fazia carinhos ternos em seus cabelos e de repente senti a presença de Rico ao meu lado, olhando a cena preocupadamente e confuso.
- Não posso viver num lugar que faz isso. Sinto muito. - ela chorou - Achei que Airamidniv pudesse ser meu lar, mas como poderei viver aqui tendo de encarar... - o seu choro ficou mais alto e ela se emaranhou mais a . - Sei que aqui é o seu lar. - ela se afastou para olhar nos olhos de que estavam doces e compreensivos, fazendo com que eu desviasse a minha atenção deles, tentando fazer meu peito parar de doer ao ver tamanho amor. - Este bebê também é seu. - colocou uma mão sobre a barriga enquanto eu e Rico continuávamos em silêncio. - Mas não posso criá-lo num lugar onde suas próprias lembranças não te pertencem. A Terra é um mundo perigoso, mas lá ninguém tira o sentimento de ninguém assim...
assentiu sem dizer nada e a puxou para mais perto quando o seu choro se intesificou.
- Você disse... Disse que se uma pessoa tivesse uma mrakni, eles deveriam ficar juntos. Ninguém deveria impedí-los. Você disse.
- Eu disse. - assentiu mais uma vez, freneticamente agora e eu soube na hora que eles falavam de e eu, o que aumentou a minha preocupação e curiosidade. - Mas a lei não se aplica a eles. Ela é a governante.
- Ela pode ser até a... - minha amiga estava prestes a gritar, mas ao invés disso, se afundou no peito de novamente, voltando a chorar.
- Eu... - limpei a garganta quando a minha voz saiu rouca demais e comecei de novo. - Eu acho que tenho o direito de saber o que está acontecendo.
O casal trocou um olhar tenso, mas logo se deram conta de que eu estava certa.
- Acho melhor você se sentar, .
Segui , que conduzia para a sala, com Rico ao meu lado. Eu estava nervosa e nem fiz questão de esconder. Nos sentamos em frente a , que ainda acalentava a noiva, e o ouvimos perguntar a ela se queria contar ou deixaria que ele mesmo me contasse.
Curiosidade era um dos meu piores defeitos, e ela estava me abalando com força total naquele momento.
- Stan tomou uma decisão muito importante. - começou . - Sinto dizer que por mais insana que ela seja, ele tem direitos e poderes o suficiente para executá-la.
- Ele é o naul.
- Mas isso não justifica, . - rebateu, chorando sentida.
- tem razão. Ele quer o bem para o povo dele e quis se certificar que estaria garantindo isso para o futuro através do casamento de Allie e .
Senti Rico se mexer, desconfortável, ao meu lado e procurei sua mão, apertando-a com firmeza para lhe dar segurança, enquanto eu padecia sozinha e parecia mais nervosa ao passar dos segundos.
- Já estou ciente do casamento. - disparei, amarga.
- Bem, nós de Airamidniv temos o companheiro designado para nós, sem nos dar possibilidade de escolha, e para nos convencer de que isso é algo bom e acertado, nos espelhamos em nossos nauls e suas companheiras, que são sempre felizes em suas uniões.
- Blé! Uma besteira. Uma besteira. - resmungou .
- Sabendo que o casamento de Allie e não será feliz, já que está fadado a ser infeliz para sempre, longe de sua mrakni, Stan tomou providências. Drásticas.
- Esperem. - Rico chamou a atenção de todos com as duas mãos para cima, claramente confuso. - O que são mraknis? Estava tentando me lembrar de onde eu ouvi essa palavra antes, e me lembrei que foi o velho pintor que me disse ela. - ele encarou . - Ele me mostrou um quadro e disse: “Essa é a sua mrakni, filho”.
- Quem estava no quadro?
e o encararam, perguntando ao mesmo tempo, mas quem dera a resposta fora eu:
- Allie. Ela é a mrakni de Rico.
- Ah, claro! Porque ironia pouca é bobagem, né? - bufou, irritada e cruzou os braços depois de limpar suas últimas lágrimas.
sorriu, triste, e encarou o olhar desolado de Rico.
- Mrakni significa alma gêmea, Rico. Portanto Allie é a sua alma gêmea. Sinceramente não sei se lhe dou os parabéns por ter encontrado a sua outra metade, algo tão difícil de ser encontrado, ou se lamento por ser justamente Allie.
O homem ao meu lado apenas balançou a cabeça, sem coragem de responder qualquer coisa, sentindo a informação pesar em sua mente e a impossibilidade de ficar com a mulher que amava doer mais latente.
- Mas qual é a decisão de Stan? O que é tão insano assim que te tirou do sério e descontrolou ? - perguntei curiosa e com medo. Era óbvio e certo que aquela decisão dizia respeito a mim também, e algo dentro de mim já alertava os perigos de eu querer saber sobre aquilo.
- Eles não podem lidar com amando você, .
- Stan não quer que as suas lembranças não deixem o casamento fluir e servir de exemplo para todos os casamentos de Nauls até agora. - foi a vez de .
- O que ele fez? - impacientei-me levantando de uma vez do sofá, para cair sobre ele novamente, pálida e sem vida ao ouvir a resposta dolorosa vinda dos lábios de .
Fora como um tiro. E doía tanto quanto um. Eu estava errada quando dissera que meu peito nunca poderia doer tanto. Doía agora. Parecia se rasgar. Tudo ao meu redor ficara lento e abafado. Eu não ouvia mais nada, eu não via mais nada. Lembrei-me então de quando eu sentia algo como aquilo na Terra, quando um guarda abordara o nosso carro e manipulara minha mente para que eu sentisse uma dor imensa para que pudéssemos distrair o guarda.
A dor de Airamidniv, ele chamara.
Era exatamente o que eu sentia.
E mais forte ainda enquanto tudo do que eu podia me dar conta era das palavras de se repetindo em minha mente como um cântico maldito que abria feridas incuráveis dentro de mim.
“Stan apagou a mente de . Tirou de dentro dela todas as lembranças que ele tinha de sua mrakni. Tudo o que tivesse a ver com ela foi bloqueado. Ele nunca mais se lembrará dela. nunca mais se lembrará de você, .”
Catorze
As coisas ao meu redor pareciam estar girando em uma órbita um tanto quanto maluca. Eu não queria continuar encarando , ou Rico, mas as expressões que eles faziam ao me encarar, fizeram com que eu assumisse uma pose que eu não queria nem um pouco assumir.
Sorri. Mesmo que essa fosse a última coisa que eu quisesse fazer e notei que olhava-me como se eu fosse uma estranha. Eu estava sentindo tanta dor que eu não sabia como eu estava sendo capaz de enganá-los que eu estava sob controle.
não se lembrava mais de mim. Tudo o que vivêramos juntos agora estava acabado. Seriam apenas minhas fantasias. Tudo o que ele me dissera, tudo o que ele sentira ficaria presente apenas em mim, a partir daquele instante. E a quem eu poderia culpar? A mim mesma, por não ter jogado tudo para o alto quando tive oportunidade e decidido ficar com ele? Ao destino, por ser tão cruel conosco e quando estava tudo quase dando certo, sempre acontecia algo que impedia que fôssemos felizes? Ou a culpa era de Stan, que me tirara de dentro de , o único lugar ao qual eu pertencia de verdade?
- , nós...
- “...sentimos muito” - interrompi . - Não precisam sentir. Já haviamos nos despedido, estava certo que ele casaria com Allie. Tudo o que Stan fez foi acelerar o processo de esquecimento pelo qual teríamos que passar um dia.
- Isso é errado! Você está sendo condescendente com algo que é completamente errado. Eu não posso tolerar isso.
andava ao redor do tapete, olhando-me com raiva. Droga! Ela me conhecia muito bem. Melhor até do que eu supunha. Bastou um olhar em meus olhos e ela já soube que o que eu dizia não tinha absolutamente nada a ver com o que ia dentro da minha mente.
Eu estava caindo aos pedaços por dentro. Eu sentia tantas coisas ao mesmo tempo que até me questionava de como era possível que eu mantivesse aquela expressão tão calma. Ninguém conseguia ver o que se passava dentro de mim, e esse era o meu trunfo. Eu conseguia mentir que estava tudo bem, conseguia mais uma vez ter de volta a controlada e acertada que não deixava que ninguém visse mais do que ela queria mostrar. A capaz de guardar todos os seus sentimentos embaixo de uma firme camada de controle que nunca era abalada e, quando era, ela conseguia facilmente esconder que isso acontecera.
A única que sempre conseguira passar esse bloqueio fora . E não apenas ultrapassava o bloqueio, ele o destruía. Fazia com que todas as minhas emoções viessem à tona para que ele brincasse com elas e as atiçasse a um ponto em que eu perdesse o controle de vez e ele pudesse me mostrar o quão forte era o poder dele sobre mim.
- Você não me engana, Égua Lenta.
- Jura, Lombriga? Achei que estava sendo tão convincente. - fui irônica.
- Você está caindo aos pedaços. Está com a maior vontade de chorar que já sentiu em toda a sua vida. Quer sair correndo daqui e ir matar Stan, no mínimo. Ou correr para o seu quarto e chorar sem parar até o momento em que eu entre lá e coloque a sua cabeça em meu colo.
- Você está errada. Eu estou ótima. Eu saí da memória de . Acabou. Não era como se nenhum de nós não soubesse que acabaria assim.
chutou o sofá com força e atraiu a atenção de para ela, que foi até a noiva, abraçando-a pelos ombros e a tirando de perto do móvel. Ela estava com os olhos faíscantes e eu sabia que toda a raiva que ela estava de Stan, seria brevemente direcionada para mim se eu continuasse com aquela fingida despreocupação e ironia.
Não havia coisa que ela odiasse mais que quando eu era sarcástica. Ryan também não suportava, e essa era uma das poucas maneiras que eu achara para que eles me deixassem em paz quando eu precisava disso.
- Vamos, mostre o que está sentindo. Ou está com medo?
- Do quê? De dizer que eu amo um homem que nem ao menos se lembra mais de mim e se casará em algumas horas. Por favor, .
Ela se agitou nos braços de , o fazendo soltá-la enquanto ela caminhava até mim com os olhos mais que brilhantes e uma mão na barriga que provavelmente estava latejando um pouco. Ela já me dissera que aquilo acontecia quando ela estava com muita raiva. A criança sentia os sentimentos de e fazia com que ela sentisse dores fortes, às vezes até insuportáveis.
- O bebê, ... Acalme-se... - tentou com a voz suave, mas ele já deveria saber que não acalmaria tão fácil.
- O que vai fazer a respeito disso? Vai simplesmente deixar que ele esqueça de você? Vai deixar que isso aconteça? - apenas dei de ombros, como se deixasse bem claro que não planejava nem ao menos sair daquele lugar. - E pensar que eu costumava achar que você era mais do que isso, .
Deus! O que haveria para eu fazer? Stan era quem mandava em todo o planeta, eu era apenas uma terráquea que estava ali a convite, e era, para pior dos pesares, a pessoa que ameaçava todos os seus planos de “um futuro melhor para o seu povo” que ele lutava para manter na maior perfeição existente. Como eu poderia sequer pensar em levantar daquele sofá quando tudo o que eu queria fazer era exatamente o que ela já dissera: correr para o meu quarto e chorar até que ela chegasse e me permitisse deitar a cabeça em seu colo, chorando como um criança desamparada, que era o que eu me sentia naquele momento: desamparada.
Rico sentou-se no sofá, crendo que eu já estava bem melhor do choque momentâneo que eu levara com a notícia. Eu sabia que ele tinha medo que eu padecesse na sua frente, como da última vez, quem sabe até pior. Eu vira em seus olhos o seu receio, como ele já estava preparado para me envolver em seus braços se eu caísse, assim como ele foi abatido por todas as memórias de como eu ficara quando partira. Fazia sentido. Se quando ele simplesmente fora embora, prometendo que me amaria para sempre, eu praticamente deixara de viver, por que eu haveria de continuar com a vida agora que ele nem ao menos se lembrava de meu nome?
Apertei a sua mão de leve, deixando claro, com um sorriso de que estava tudo bem e não pude deixar de lamentar os nossos destinos. Poxa! Ele merecia tanto Allie que apenas o fato de ele nem ao menos poder lutar para tê-la de verdade já era injusto demais para que eu apenas pudesse lidar com o fato.
- Não está e você sabe disso também, Rico. - disse mais ácida do que eu jamais a ouvira falar. - Bem, vou parar de me importar com você quando você mesma parece não se importar. - ela jogou o cabelo e se virou para . - Precisamos conversar seriamente.
Ele fez um gesto amplo, dizendo sem palavras que o que ela tivesse de dizer, ela poderia dizer na minha frente e de Rico.
- Pois bem, tem a ver com ele também. E com essa fingida que eu chamo de amiga.
Eu ri alto. Não podendo aguentar a maneira como ela falava. Era tão engraçado quando parecia se preocupar demais comigo. Sempre era o contrário, eu que ligava, cuidava e parecia estar sempre um passo a frente dela para impedir que ela caísse, e se isso acontecesse, o meu passo a frente, impediria que ela se machucasse demais. Eu preferia machucar a mim mesma do que a . Em qualquer circunstância.
- Não ria.
Parei imediatamente e assisti-a dar mais uma volta pela sala, claramente nervosa.
- O que é tão importante que você quer me dizer, ?
- Não aja como se você já não tivesse lido a minha mente e soubesse exatamente o que eu vou dizer. - ela estava impossível. E as suas palavras fizeram com que eu olhasse para , que estava com uma expressão completamente sombria em seu rosto. Sim, ele realmente havia lido a mente de e sabia, naquele momento, antes de todo mundo, o que ela tinha de tão importante para anunciar. - E eu sei que não está gostando nem um pouco disso.
- Como quer que eu goste?
- E como você quer que eu goste? Eu não posso ficar aqui mais. Não concordo com essas leis. Não concordo em permanecer em um lugar onde as suas próprias lembranças não te pertencem. - Ela aproximou-se de , agora com aquele fogo em seu olhar adquirindo algo um tanto chateado e amoroso enquanto olhava nas profundezas cor de chocolate dele que estavam operando a sua mágica sobre ela e com certeza a acalmando, mesmo que ele estivesse longe de estar calmo. - Não posso ficar em um lugar onde minhas própria identidade está sendo perdida dia após dia.
- Eu...
- As cores, . Eu não era nada disso. Você me conhecia antes disso, sabe como eu era...
- Mais feliz. - ele resmungou.
- Eu não estou sendo feliz aqui. - abaixando a cabeça, percebi que estava prestes a deixar que as suas lágrimas começassem a cair sem controle e apenas por vê-la naquele estado, senti o meu controle vacilar um tanto.
- Eu percebi isso. Achei que trazer para cá ajudaria. Mas eu estava errado.
- Eu sou feliz ao seu lado, . Juro que sou. Quando estou com você, nada é capaz de me atingir. Sou invencível. Nada me abala. Nem sua mãe, nem todo o seu povo me olhando de viés como se eu não tivesse o direito de estar ali. Quando estou contigo sinto que posso ser feliz aqui, se estiver com você, estará tudo bem. Mas é aí que está o problema. Você não pode estar ao meu lado o tempo todo.
Comecei a me sentir mal por estar presenciando uma conversa que era completamente pessoal, e antes que eu fosse capaz de me levantar, e se viraram para mim ao mesmo tempo:
- Nem ouse se mover.
Voltei a me sentar e até mesmo cruzei as pernas para deixar bem claro que eu não pretendia mais sair dali. Eles suspiraram, aliviados e voltaram a se encarar.
- Eu gostaria de cuidar de você, . O tempo todo. Mas você sabe que a BEI é aonde devo estar, eu queria permanecer ao seu lado o tempo todo. Mas...
- Você não pode. Eu sei disso. Eu entendo.
- E isso está acabando comigo, . Você entende. - ele agarrou a mão de minha amiga e a vi inclinar a cabeça de leve, como se aquele contato estava a elevando a um grau especial de amor. - Eu vejo você entender tudo desde que saiu da Terra, entender toda uma cultura nova, entender a minha mãe que não ajudou em nada a sua adaptação à Airamidniv, entender a distância de sua família, entender que as coisas não serão como queremos que seja. Eu... Vi você até mesmo entender Victoria, quando tudo o que ela merecia era uma surra.
- Que eu deveria ter dado.
Ergui o polegar, sem fazer nenhum som, deixando bem claro que eu concordava cem por cento com o que minha amiga havia dito. Deveria ter dado uma surra daquelas de puxar cabelo, e nunca mais Victoria ousaria mexer com o mrakni alheio na vida.
A mão de tocou o rosto de e continuou com a outra mão dela segura na sua. Aquela cena estava começando a me emocionar, e lembrei-me de Rico, ao meu lado, que agora estava com a cabeça entre os joelhos e parecia estar tentando não chorar. A cena estava o emocionando também. Mais até do que a mim. Ele estava vendo como o amor com a sua mrakni poderia ser. E, infelizmente, também estava tomando mais e mais consciência do que ele estava perdendo. Ele nunca poderia segurar sua mrakni daquela forma. Olhar em seus olhos e poder deixar que a mágica das mraknis se realizassem.
E eu entendia completamente aquele sentimento.
- Eu não quero entender. Mas devo. Eu sei o que você está planejando e sei que não posso impedir. - ele olhou mais profundamente nos olhos dela e eu me odiei por não ser telepata. Droga! O que estava planejando? Que ela tinha um parafuso a menos eu já sabia, mas o sentimento que me abateu, informava-me que era mais do que um simples parafuso a menos.
- Eu não quero fazer isso, .
- Não posso conviver com a idéia de que não está sendo feliz, . Simplesmente não posso. Se isso a fará feliz, eu tenho apenas que acatar.
- Mas, diabos, eu não posso ser feliz sem você. Tem noção do que temos nas mãos? Eu não quero ficar num lugar que não me faz bem, mas não posso nem ao menos cogitar a idéia de não viver ao seu lado.
- Eu...
- Diga o que eu quero que você diga, . - ela deu um passo para a frente e a mão que ele ainda segurava, foi imediatamente para a barriga dela, como se atraída por uma força motriz. Os olhos dele se fecharam e seus lábios se moveram, em silêncio, como se estivesse se comunicando com a vida perfeita dentro da barriga da noiva.
- Quando eu diria não a você, ?
- A BEI é importante pra você...
- Vocês duas são muito mais. - a mão dele acariciou a barriga novamente.
- Sua mãe e tudo o que você ama estão aqui...
- Vou ter que começar a repetir os meus argumentos, hut frik.
Ergui a sobrancelha, tentando desesperadamente não dar uma de curiosa demais, mas eu estava morrendo de vontade de perguntar em voz alta o que significava “hut frik” e não demorou muito para que a voz de viesse à minha cabeça, informando-me que aquelas palavras lindas significavam “mãe do meu filho”. Dei um sorriso radiante e continuei imóvel, apenas assistindo a cena e me preocupando com Rico ao meu lado, que parecia a cada segundo mais pálido.
O que estava acontecendo com ele?
Mas antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, minha melhor amiga deu o ar de sua graça.
- Está vendo como é estranho? Até um “mãe do meu filho” me lembra comida. Não parece que você está falando batata frita?
- O que é batata frita? - eu encarei com incredulidade. Mas é claro, ele era um alien. Não deveria mesmo saber sobre o prato mais delicioso que tínhamos na Terra.
- Esquece. - ela riu, tocando o rosto dele com todo o carinho que conseguiu reunir em suas duas mãos, que também eram transmitidos pelos seus olhos. - Você...
- Eu vou com você para onde quer que você vá. - a resposta dele foi automática, deixando bem claro que eles haviam voltado para a discussão em pauta. - Seja num lugar completamente monocromático, ou onde servem batatas fritas, eu estarei com você. Eu sou seu.
Eu estava quase em lágrimas.
- É mesmo capaz de deixar tudo isso apenas para voltar para a Terra comigo, ? Sei que me ama, que ama o nosso bebê, mas se isso não o fizer feliz, eu...
- Eu gosto da Terra, . De verdade. Eu posso fazer isso. Você pode deixar tudo o que você amava para trás para vir morar aqui comigo, por que eu não poderia deixar isso tudo para trás, também e simplesmente ir com você? Eu amo você e fui mais feliz em uma semana na Terra do que em minha vida inteira em Airamidniv.
- Você... Vai mesmo?
- Sem pensar duas vezes.
se jogou nos braços do noivo, beijando seus lábios com firmeza, como se eu nem ao menos estivesse assistindo à cena. O beijo começou a ficar mais intenso e eu tive de pigarrear alto. Poxa! Eu estava ali. Não queria ver descontando os dias sem sexo na minha frente. Se bem que ela era louca o suficiente para começar a tirar a roupa. nunca fora muito certa quando o assunto era sexualidade.
Depois de pigarrear mais três vezes e praticamente colocar o meu pulmão para fora numa tosse completamente forçada, os dois finalmente pararam de se beijar e voltaram a prestar atenção em mim.
- Então... Deixe-me ver se eu entendi. Vocês vão voltar comigo para a Terra?
- Basicamente. - respondeu. - Não quero continuar aqui. Não depois do que eles fizeram com . Isso é completamente... Injusto.
- Sim. E eu não posso deixar . É contra todas as leis do meu coração. - virou o olhar para a minha amiga e eles começaram a se beijar novamente, deixando-me crer que a greve de sexo que ele estava fazendo deveria estar perto do fim. Eu agradecia. Isso impediria que continuasse me perturbando com aquele assunto.
- Talvez demoremos mais alguns dias para acertar tudo. Eu pedir uma licença à BEI. terminar de ensinar a terapia das cores para as instrutoras. Mas não passaremos muito tempo.
- Entendo. - respondi apenas.
Foi exatamente nesse momento que Rico se levantou ao meu lado, mais pálido do que quando desmaiara ao saber que estávamos a caminho do espaço.
- O que foi, Rico?
- Você está branco feito quem viu um fantasma. - e seus dizeres típicos da mãe dela.
- Não posso... Não posso...
Ele coçou a cabeça com força, mostrando o quanto estava fora de si. Levantei-me e tentei abraçá-lo, mas ele me afastou com delicadeza, olhando em meus olhos com suas lindas orbes verdes, tentando me convencer através do olhar que não estava louco.
Apesar de parecer.
- Eu não posso deixar isso acontecer. - ele se virou para e .
Eu ergui as sobrancelhas mais uma vez e sorriu para ele, ao passo em que eu e ainda exibiamos o mesmo olhar confuso.
- Não posso...
- O que você não pode, Rico? - perguntei já perdendo a paciência.
- Não vou deixar Allie se casar. Ela é minha mrakni. Ela está fazendo isso contra a vontade dela. Não posso deixar ela fazer isso. Ela é minha.
Ele olhou no fundo dos meus olhos mais uma vez e eu apenas abaixei a cabeça. Ela era dele. Ela ainda se lembrava dele. Ao contrário do que acontecia com e eu.
- Vamos com você.
colocou a mão no ombro da noiva, deixando bem claro que compartilhava a opinião dela e que ambos iriam juntos parar aquele casamento.
- Ela não pode se casar contra a vontade dela.
- Não pode. É isso aí. - sorriu. O rosto dela mostrava o quanto ela estava ansiosa com aquilo. Ela estava mesmo a fim de uma confusão. E se envolvesse parar o casamento do meu homem, ela estava ainda mais pronta.
- Eu não posso tomar parte disso. Não posso vê-lo, sabendo que ele não se lembra de mim. Eu apoio você ir, Rico. Mas eu não vou.
- Ela acredita em você, . Ela me disse que apenas você poderia fazê-lo se lembrar do quanto te ama.
Balancei a cabeça em negativa com força o suficiente para impedir que as lágrimas caíssem de meus olhos.
- Ela esteve em minha mente, agora há pouco. Temos duas horas antes que seja tarde demais. Eu prefiro fazer algo e ver tudo acontecer do que assistir a mulher da minha vida, que eu tive que atravessar a galáxia para encontrar, se perder de mim tão bruscamente. - disse Rico enquanto ainda massageava a cabeça, deixando-me crer que ele estava decidido quanto àquilo e nada que eu ou qualquer pessoa pudessemos dizer, faria diferença. Ele estava pronto para ter a sua mrakni para si.
Ele andou em direção à porta, e juntamente com o seguiram, enquanto eu continuava parada à porta, simplesmente encarando-os.
O que eu ganharia fazendo aquilo?
E então eu percebi que perderia muito mais se não atravessasse aquela porta.
E se ainda existia alguma estrela naquele céu, naquele universo, que ainda pudesse atender o meu pedido, eu só poderia pedir para que ela me protegesse.
Pois eu tinha um casamento para parar.
Quinze
Durante todo o caminho até o grande e imponente castelo de mármore negro, eu arrastei meus pés, rezando para que alguém naquele grupo mudasse de idéia e para que ninguém percebesse se caso eu atendesse aos meus anseios secretos e saísse correndo de volta para casa. Essa era a minha maior vontade naquele momento.
Apenas uma pessoa masoquista ao extremo seria capaz de enfrentar o que eu tinha à minha frente. Eu teria de olhar nos olhos do homem que eu mais amava em minha vida e vê-lo olhar através de mim, já que ele nem ao menos se lembrava do meu nome. Como eu poderia lidar com uma situação como aquela? Nem se eu apelasse para o autocontrole das estrelas todas eu seria capaz de fingir que nada estaria acontecendo quando os olhos de focassem os meus e eu não visse mais o brilho intenso que sempre era destinado a mim quando eu encarava aquelas íris cor de chocolate.
- Vamos, . - dizia pela décima vez, no mínimo. Eu arrastei os pés um pouco mais rapidamente, mas continuei por último enquanto via pessoas vestidas de branco saindo de todos os lados e marchando, como nós para o grande palácio.
Eu, que até aquele momento, só havia visto uma pequena parte do planeta e todos em três cores: preto, cinza e branco, fiquei um pouco assustada ao ver todos de branco. E tanta gente.
Antes que eu pudesse perguntar a o que estava acontecendo, ela provou que também não sabia, perguntando para porque todas aquelas pessoas estavam de branco.
- É parte do nosso ritual de casamento. Os noivos usam preto e todos os convidados usam branco. Preto é a cor do poder em Airamidniv, e quando um casal se une no casamento, o poder está ao lado deles.
Como grandes amigas que se conheciam há muito tempo e pegaram os costumes uma da outra, eu e erguemos as sobrancelhas ao mesmo tempo com uma expressão curiosa.
- Como o casamento de e Allie é versão suprema de união de poder, por ela ser filha de nauls e , portanto, o próximo naul, todos são obrigados a comparecer ao evento.
- Bem, então se Rico não decidisse dar uma de maluco e parar o casamento, isso significaria que estariamos infringindo as leis de Airamidniv por não ir ao casamento? - ela perguntou segurando a mão de com um pouco mais de firmeza ao notar que as pessoas começavam a encará-la com estranheza.
- Mais ou menos assim.
Olhei ao meu redor e percebi que já estava cercada de pessoas vestidas de branco e que estavamos perto demais do palácio. Perto demais para que eu pudesse fugir dali. E essa aproximação estava começando a me deixar com falta de ar, juntamente com as pessoas que estavam cada vez mais próximas, olhando-me de cima abaixo e provavelmente me odiando por estar quebrando a tradição.
Pois eu tinha um recado para eles: não havia porque ter tradição se não haveria casamento. Eu estava muito bem com os meus jeans e com a minha camiseta preta. Assim como parecia estar bem em seu vestido cinza, em seus trajes pretos e Rico com sua camisa verde, provavelmente da época em que ele ainda adorava as pochetes, e calça jeans.
- Eu...
- É agora ou nunca. - Rico se virou para mim enquanto as pessoas continuavam entrando sem parar pelos portões do palácio e eu e meus amigos continuávamos parados bem no meio delas, sendo acertados por cotovelos e ombros apressados.
- Não sei se posso... - tentei novamente, mas as lágrimas represadas ainda estavam em minha garganta, impedindo-me de dizer qualquer coisa. Apenas pensar na probabilidade de olhar nos olhos de e não ver tudo o que eu estava acostumada a ver de volta, estava me abalando mais do que eu poderia imaginar.
Eu era controlada, droga. Eu era racional e realista. Não deveria estar me sentindo daquela maneira. Mas eu esquecia que sempre que estava envolvido, eu perdia a noção de meus sentimentos.
De repente, as pessoas pararam de passar por nós e olhei para com apreensão. Se todos já havia entrado, isso significava que não faltava muito.
- Já vai começar. - olhou com preocupação para dentro do enorme salão. Eu e os outros andamos lentamente para dentro dele, observando as centenas de bancos completamente preenchidas, enquanto as pessoas faziam um burburinho suave de conversa que não impedia-nos de ouvir uma música ter início.
- É agora ou nunca, . - Rico segurou a minha mão com mais força, enquanto eu estava com os braços levemente afastados do corpo olhando tudo com o queixo caído. Era quase imperativo. Não havia como ficar no mesmo lugar que ele sem ter meus olhos atraídos para a sua figura.
Ele estava no meio de um palanque com a mão estendida para Allie que vinha atravessando o palanque pelo lado esquerdo. Enquanto eu, Rico, e , continuávamos de pé no final do longo corredor, praticamente imóveis. Não acháramos que o casamento começaria mais cedo.
Parar o casamento enquanto ele estava acontecendo não era o nosso plano. Deus! Eu nem sabia se tínhamos realmente um plano. Pelo que eu sabia, conversaríamos com Stan e Allie antes do casamento, Rico explicaria que era o mrakni de Allie e tentaria fazer com que não houvesse casamento e Stan permitisse que ela ficasse com ele, se fosse da vontade dela. O que nós todos sabiámos que seria, de acordo com o que Rico contara durante o caminho não tão longo para o palácio.
Allie o amava também. A magia das mraknis tomara conta dela no momento em que o vira segurando a minha mão, ao descer da nave. E ela percebera que nunca mais poderia ser feliz sem ele, quando socou o seu nariz. Havia algo de diferente naquele homem que a fizera se apaixonar. E só agora eu era capaz de entender toda a conversa estranha na qual ela tinha me engendrado naquela noite de seu jantar. Ela estava apaixonada por Rico, e eu por , enquanto nossos pares estavam absolutamente trocados e nossos corações destinados a serem partidos.
Meus olhos continuavam fixos em . A mão dele continuava estendida, e ele simplesmente sorria. Em outra época, os olhos dele teriam se virado para mim. Ele mesmo dizia que era ímpossivel nossos olhos não se encontrarem, fazia parte da magia das almas gêmeas. E a minha alma reconhecera a dele como irmã. Éramos mraknis. Éramos. O verbo no passado dizia isso mais do que eu queria escutar.
Ele estava tão malditamente lindo naquele terno preto, assim como era a sua gravata e a sua camisa. Não pararia de encará-lo tão cedo. E logo, eu sentia, minhas lágrimas começariam a cair. Eu já estava ali há algum tempo. Allie estava praticamente alcançando a sua mão, e ele não sentia a minha presença.
- Vá. Faça o que tem de fazer. Ela é sua. - virei-me para Rico, que assentiu rapidamente e deu dois passos corridos para frente, fazendo com que as pessoas sentadas nas últimas fileiras o olhassem com desconfiança.
e se colocaram ao meu lado, prontos para intervir se algo desse errado. Eu não me movera um centímetro. A mão quente de se apoiou em meu ombro e eu continuei olhando para . Que ele me olhasse, que ele me olhasse, que ele me olhasse. Se, por algum acaso, os seus olhos se encontrassem nos meus, isso significaria que ainda tínhamos uma esperança.
- Por favor... - implorei, e tudo o que eu vi foi a mão de Allie pairar no ar, pronta a tomar o seu lugar entre a de .
- Não! - a voz rouca de Rico gritou alto e claro, e fez com que todas as pessoas dentro da igreja se virassem para ele e nos notassem no fundo da igreja. Eu já sabia que descrição estava fora do negócio quando decidíramos parar o casamento, mas não imaginava que Rico seria tão... indiscreto. - Não faça isso, Allie.
Ela sorriu largamente, como se, por alguns momentos, ela tivesse realmente pensado que ele não viesse. Rico correu até ela, e ninguém nem ao menos se moveu. Estavam todos embasbacados. Era a primeira vez em sabe-se lá quantos anos que um casamento de nauls era parado. E eu estava com medo das consequências. Pensar nas consequencias já era algo que eu fazia sem notar.
- O que vocês pensam que estão fazendo?
- Estamos impedindo que a coisa mais absurda que esse planeta já viu aconteça. - Rico respondeu à Stan de um modo que fez com que eu me orgulhasse demais dele. Ele parecia tão forte e seguro de si que realmente me surpreendeu. Ele estendeu o braço para Allie, da mesma maneira que estendia-o para ela, anteriormente.
- E quem é você para dizer tudo isso?
Allie colocou a mão sobre a de Rico, que sorriu para ela, mostrando uma ternura e coragem em seu olhar que eu nunca havia visto.
- Eu sou Rico Casillas. Sou o mrakni de sua filha, e o único homem a quem ela irá se unir.
Um burburinho alto tomou conta do salão, e juntamente com , deram um passo para frente, no mesmo momento em que se virava para trás, encarando e , sem bem ao menos parecer notar que eu estava ali. balançou a cabeça suavemente e olhou para Rico mais uma vez.
- O que significa isso? Mraknis não existem. Foram extintas.
Eu não poderia aguentar mais que aquilo. Apoiei-me em um banco e tive a mais completa certeza de que eu deveria estar terrivelmente pálida e prestes a chorar como nunca. dissera que mraknis não existiam, mas existiam. Eu era a mrakni dele. Mas ele não se lembrava. Não mais.
- Não foram, . - disse encarando o amigo. - é minha mrakni.
- Uma excessão que eu compreendi, . Uma em um bilhão.
- Não dê ouvidos a eles, . - Stan urrou - Estão todos presos por obstrução de ritual. Até mesmo você, Schnakerjud. Acaba de perder o seu posto na BEI.
encarou com certo receio em seus olhos, e depois se virou para Allie, que por sua vez encarava o pai, mal podendo acreditar que ele estava mesmo dizendo tudo aquilo. ergueu a cabeça, em desafio, enquanto pelo menos vinte guardas apareciam, aparentemente do nada, no salão. Rodeando-nos sem se aproximar demais, apenas nos deixando intimidados. Dois deles pararam atrás de mim, e por mais que eu não quisesse, acabei dando dois passos para perto de . Mais assustada com a idéia de não se lembrar mais de mim do que de ser presa em um planeta estranho.
- Ah é assim, não é? Se vamos jogar sujo, então vamos jogar sujo de verdade, Stan. - anunciou, demonstrando que não estava nada intimidada com os inúmeros guardas. não a segurou, eu via em sua cara que ele estava morrendo de vontade de rir de sua pose ameaçadora, segurando a barriga levemente inchada. Ela continuou andando imperativa pelo corredor, até chegar bem perto do palanque, olhando firme nos olhos de Stan e depois virando-se para a platéia - Pessoas de Airamidniv, o naul em quem vocês tanto acreditam e confiam, hoje fez algo que desmereceu completamente a confiança e lealdade de vocês. Todos vocês aprendem que mrakni é algo para o qual não se pode voltar as costas. E quando se acha a sua, deve-se ficar com ela. Independente de como, quando, quem está contra isso, não importa. E o seu grande naul, povo de Airamidniv, o homem que deveria alimentar essa crença, é quem está se opondo a ela.
A sua voz estava poderosa, e todos naquele salão a encaravam naquele momento, o que acabou me fazendo lembrar do inúmeros projetos de Astronomia que ela apresentava quando estávamos no colégio. Eram coisas maçantes, mas sempre tivera o poder de transformá-las em coisas maiores do que realmente eram. Ela tinha o poder da oratória. Nossos professores diziam. Era por isso que ela sempre fora melhor que eu nos debates.
Todos a encaravam com respeito e curiosidade. Ela conseguira. Ela tinha a platéia em sua mãos, como na Terra. Eu sempre soubera que nenhum planeta estaria livre do grande magnetismo de .
Senti os braços de ao meu redor e, automaticamente, pude me sentir um pouco melhor. Era bem mais fácil respirar sem sentir meu coração querendo pular fora de meu peito se eu olhasse para qualquer outra direção onde não estivesse.
- Ele impediu que a sua própria filha ficasse com o seu mrakni.
Vários “ohs” surgiram, indignados, das inúmeras pessoas de branco, amontoadas e fez uma expressão também indignada que atiçou ainda mais o seu público.
- E pior, povo nells, ele apagou da mente de que ele possuia uma mrakni. - ela apontou para mim, que ainda estava apoiada contra tentando me manter em pé, abalada com a tontura que fazia com que tudo ao meu redor rodopiasse e meus olhos se voltassem para .
De repente, todos os olhares daquele salão se voltaram para mim, e tudo o que eu pude fazer foi erguer a cabeça, suportando a todos eles. Foi mais forte que eu. Tive de encarar . Eu não poderia continuar encarando as pessoas de branco, eu teria que olhar nos olhos cor de chocolate que eu queria ver.
E se eu pudesse, nunca teria feito isso.
Seu olhar era desconfiado. Ele não acreditava que eu era sua mrakni. E aquilo me machucou mais do que eu poderia dizer.
- Vocês acham isso certo? - todos negarem em uníssono e vários olhares raivosos se dirigiram para o naul, que queria, visivelmente, arrancar a cabeça de com os dentes. E eu que pensava que Stan era um cara bom. Ledo engano.
- Não acham que Allie deve ficar com o homem que as estrelas designaram para ela?
A multidão mais uma vez concordou com , que se afastou para perto do seu noivo, colocando a sua mão sobre a minha que estava a cada segundo com mais vontade de correr dali.
Allie apertou a mão de Rico e as ergueu, juntas, ignorando o olhar de seu pai e sorrindo para todos, enquanto a população nells aplaudia a cena.
- Pessoas de Airamidniv. Anuncio que a partir deste momento, eu declaro que o poder já inquestionável das mraknis passa a se sobrelevar até mesmo ao poder dos nauls. - Stan a olhou de um modo que fez com que até mesmo eu tremesse, mas ela parecia completamente calma. - Os companheiros que nossos familiares nos escolhem são sempre maravilhosos. , por exemplo. - ela apontou para ele e fiz o possível para não deixar meus olhos seguirem naquela direção. - Nunca poderia ter um companheiro melhor que . Um homem incrível, um explorador dedicado e que, com toda a certeza, terá uma família amorosa e linda que dará valor a ele. - as pessoas sorriram para ele, encantadas com os elogios de Allie, que parecia ter o mesmo dom de para encantar multidões, enquanto continuava com o queixo erguido, não expressando sequer uma emoção, fazendo com que meu coração batesse lentamente. Ele pararia, não demoraria muito para parar de bater de vez. E eu agradeceria por isso. Não suportaria ver os olhos de olhando para mim daquela forma. Como se eu não tivesse significado nada para ele. Como se tudo o que tivéssemos vivido, fosse apenas fantasias da minha mente criativa demais.
- A partir deste momento, os companheiros ainda serão desginados pelas nossas famílias, que sempre desejam o melhor para nós, mas a partir de hoje, vocês têm o direito de procurar suas mraknis. Todos nesse mundo tem uma mrakni, tem uma parte de sua alma neste grande universo, e devem achá-la. Até agora, vocês deveriam apenas esperar por anúncio de que vocês realmente tinham uma. Procurem! Busquem. Sintam o mra. Ele não acabou. Está dentro de cada um de nós, povo nells.
Todos ovacionaram Allie, que se virou para Rico com um sorriso radiante, beijando seus lábios de uma maneira suave que fez com que vários habitantes de Airamidniv se levantassem em êxtase.
- Mas...
- Pai. Acho que já tivemos problemas demais por hoje, não? - a princesa se virou, ainda nos braços de Rico, que a segurava firmemente, com medo de que ela pudesse se afastar um átimo que fosse de seu corpo. - Entendo que tudo o que você fez foi para o meu bem. Para o bem de toda a população nells que entenderá que os parceiros escolhidos são uma forma de nossa família demonstrar o amor e a preocupação que eles nutrem por nós. Entendemos todos. - ninguém era capaz de dizer nada, apenas assentir freneticamente com a cabeça. O que me fez lembrar da Terra, onde, se estivesse acontecendo aquilo, a população não estaria tão calma. Na Terra as coisas eram um pouco mais passionais. Pouco era ainda um eufemismo.
- Eu sinto muito, Allie, eu tentei... - Stan estava de cabeça baixa e parecia imóvel. - Eu sinto muito, . Não deveria ter feito isso. Mas agora é tarde demais. Sua memória só poderia ficar em um estado possível de ser recuperado em duas horas. Bem, essas duas horas já se passaram. - meus olhos se arregalaram. Não. Eu estava entendendo errado. Completamente errado. Não poderia ser. - Não há mais como recuperar a sua memória da mrakni.
Eu parei.
Sentia me sacudindo contra ele, vendo o meu estado catatônico, e só então as outras pessoas pareceram se dar conta do que estava acontecendo comigo. Eu era capaz de sentir as mãos de em meu rosto, dizendo que eu deveria olhar nos olhos dela. Mas não queria olhar nos olhos dela. Eu queria olhar nos olhos chocolate que eu amava e implorar para que ele se lembrasse de mim. Mas não era mais possível.
Ele nunca mais poderia ver meu reflexo amorosamente espelhado nas profundezas cor de chocolate que eu mais amava. Nunca mais.
me abraçou contra ela e eu podia sentir todos os olhares dali presos em mim, em silêncio.
- Eu sinto muito, . Sinto muito.
- Eu quero ir para casa. - disse com a voz rouca. Eu não me permitiria chorar. Eu não choraria. Não podia.
Ela fez que sim com a cabeça repetidas vezes e eu pude ver o olhar cheio de piedade com que olhava para mim.
- Já vamos, meu amor, já vamos. - ela disse quase chorando, ainda assentindo. - Vamos voltar para casa. Vai ficar tudo bem.
Eu abanei a cabeça e saí andando, enquanto todos os olhares ainda estavam presos sobre mim. Eu queria fugir, ir para algum lugar aonde eu poderia chorar sem sentir os inúmeros olhares de pena sobre mim. Rico sorria triste, Allie me encarava com uma pena estranha no olhar. Eu não queria a pena, a piedade ou a dó de ninguém. Tudo o que eu queria era correr dali para chorar.
Todos me olhavam, aquilo começou a me deixar sem jeito. Para todo lado que eu virava tinha um olhar cheio de pena virado para mim. Uma mulher até mesmo chorava, de pena de mim. Eu me afastei lentamente, de costas, retribuindo os olhares com altivez. Não havia por que sentir pena de mim. Dei mais um passo para trás, chegando perto da escada. Foi quando meu olhar focou o dele e tudo o que eu pude fazer foi pensar com toda a força que eu tinha em minha mente. Mandar uma pensagem telepática para ele. Tentar uma vez mais.
Tentar pela ultima vez.
“, se lembre de mim, lembre do que fez você me amar, lembre-se do quanto eu te amo. Por favor, . Se lembre que eu sou sua.”
E enquanto eu corria desesperada pelas ruas de Airamidniv, ainda sentia todas as pessoas me encarando. Tudo o que eu mais tivera medo em minha vida acontecera. Eu fora humilhada na frente de centenas de pessoas. Eu perdera o amor de minha vida, e eu não tinha mais nada para o que lutar.
E quanto mais eu corria, mais a voz de atormentava minha mente.
“Sinto muito. Não me lembro.”
Acabara. Tudo acabara. E as memórias seriam apenas minhas. Dolorosas e intensas, e apenas minhas.
Capítulo betado por Natália Smith
Dezesseis
Por todas as estrelas. O que fora tudo aquilo? Minha cabeça não poderia estar mais confusa enquanto todas as pessoas iam embora. Sorridentes, apesar de não haver acontecido o maior ritual de companheirismo de Airamidniv. O meu ritual, que acabara por se tornar uma verdadeira bagunça com terráqueos invadindo, minha noiva se decidindo por ficar com o seu mrakni e eu descobrindo que tinha uma, mesmo sem me lembrar dela.
Aos poucos, o enorme salão de eventos do palácio ficou vazio, exceto por eu, Allie, seu novo companheiro mrakni e terráqueo, e sua também terráquea mrakni. Além de Stan, que estava acuado em um canto, aparentemente perdido, sem saber o que dizer ou fazer depois de tudo aquilo que se passara. Nem eu mesmo entendera. Nem eu mesmo sabia o que fazer. Não teria mais ritual, eu não tinha mais uma noiva e, tudo o que eu acreditara a minha vida inteira, viera abaixo em meia hora ou menos.
Tudo o que eu conseguia pensar era no olhar daquela garota, fazendo com que as paredes pretas do salão ficassem ainda mais assustadoras. Os seus olhos brilhavam de uma maneira tão intensa, expressavam que eu significava algo para ela. Muito. Eu significava muito para aquela garota, mas não conseguia me lembrar disso.
Eu sentia isso em seu olhar. Sentia que ela era importante para mim também. O aperto em meu peito e aquela confusão de sentimentos que eu sentira quando a olhara me provavam isso.
A voz dela na minha cabeça estava me deixando mal demais. Estava me deixando confuso.
“, se lembre de mim, lembre do que fez você me amar, lembre-se do quanto eu te amo. Por favor, . Se lembre que eu sou sua.”
Eu queria me lembrar dela. Queria desesperadamente. Ela estava me despertando algo com o qual eu não sabia lidar, mas eu queria me lembrar do que era. Eu sabia, no meu íntimo, que eu já sentira algo daquela mesma forma por ela. Até maior. Incalculável, mas agora eu não me recordava. Eu sentia algo diferente apenas de me lembrar de seu olhar. Algo diferente e forte.
Meus olhos se voltaram para Allie e o tal Rico, o seu mrakni terráqueo que tinha a maior cara de babaca que eu já havia visto. Eles estavam sentados em um dos primeiros bancos, se olhando com as mãos completamente unidas, como se tivessem medo de soltá-las por sequer um instante e se verem separados novamente. Eu não havia ido muito com a cara daquele homem. Ele parecia amar sinceramente Allie, mas, mesmo assim, havia algo nele que me dava vontade de socar a sua cara. E não havia coisa que eu odiava mais do que violência, mesmo assim eu sentia vontade de bater em um cara que eu nunca havia visto antes.
Sacudi a cabeça com força para tirar tais pensamentos dela.
Então, silenciosamente, andei até onde e a sua mrakni ainda estavam e parei ao seu lado, que logo percebeu a minha presença. Ele era meu amigo há mais tempo do que eu poderia me lembrar e sabia que, mesmo sem eu dizer uma só palavra, ele já sabia que eu estava confuso. Confuso demais, aliás.
- ... Sinto muito. - ele disse e eu simplesmente fiz um gesto com a mão, desprezando o seu sentimento de pena. Eu queria respostas, não comiseração.
- A sua amiga... - comecei, olhando fundo para a mrakni de e ela abriu um sorriso caloroso, que fez algo dentro de mim se revirar. Eu conhecia aquele sorriso. Ele me lembrava de momentos bons. De... Casa. Apesar de eu nunca tê-la visto, aquela mulher me passava uma sensação de que eu pertencia a um lar onde ela também estava inserida. Balancei a cabeça, tentando fazê-la voltar a pensar com clareza. O que estava mais e mais difícil a cada segundo que se passava. - Ela é realmente minha mrakni?
- Sim. - o sorriso era triste dessa vez e ela olhava em meus olhos procurando por algo que logo descobrimos, ambos, não estar lá. - Não acredito. Você não se lembra de mim, também? - simplesmente neguei com a cabeça e ela soltou uma imprecação longa, que deveria equivaler ao astranuk para nós de Airamidniv. - , é sua mrakni. De verdade. - com um gesto firme, ela balançou a cabeça afirmativamente e tentou olhar em meus olhos mais uma vez, achando que o contato visual ajudaria a me convencer mais facilmente. Mal sabia ela que, naquele instante, eu não duvidava de mais nada. Eu tinha uma mrakni e não me lembrava dela, porque o homem que eu sempre tivera como um pai havia apagado a minha mente e tirado de dentro dela, tudo o que tinha a ver com ela. - Eu não sei onde ela está, estou com muito medo por saber que ela está naquele estado e sozinha por aí, mas sei que ela ficará pior se eu for encontrá-la. quer ficar sozinha e eu não posso me intrometer mais do que eu já me intrometi.
. O nome pairava na minha mente. . Um nome lindo. Parecia uma doce canção que eu deveria ter cantado várias vezes. O nome vinha fácil em meus lábios e me trazia a lembrança de um sorriso. Olhos brilhantes, um rosto bonito e molhado pela chuva... E, de repente, tudo ficou negro novamente. Aquele nome aquecia o meu peito. Me trazia sentimentos bons e fazia com a que a confusão em minha mente ficasse mais branda. E antes que eu pudesse pensar racionalmente, como seu sempre pensara, escutara as palavras saindo de meus lábios antes que eu pudesse detê-las.
- Preciso ir atrás dela.
As palavras de voltaram à minha mente e eu realmente percebi que tinha de ir atrás de , olhar em seus olhos tristes e pedir desculpas do fundo do meu peito por não me lembrar dela. Por Júpiter! O quanto ela não estaria sofrendo ao ver alguém que amava demais em um dia, simplesmente não se lembrar dela.
Meu peito se apertou mais uma vez e a mrakni de segurou meu braço e olhou mais uma vez em meus olhos.
- Não posso te deixar fazer isso. Já interferi demais nesse romance. Eu fiz tudo errado. Ferrei com tudo. Se eu tivesse deixado como estava, você não a teria, mas se lembraria dela. E... - a rodeou com os seus braços e deixou que ela chorasse em seu peito com toda a sua mágoa. - Eu não posso ver sofrer desse jeito, e não posso suportar a dor de saber que a culpa é minha. Eu... - ela se escondeu no peito do noivo mais uma vez e eu me senti perdido pela nona vez naquele dia.
“Vá, ache-a. Ela vai te fazer lembrar. A magia das mraknis é forte demais para permitir que você não se lembre dela. Confie nas estrelas, . Elas trarão o seu amor de volta.”
A voz de ainda ecoava na minha mente enquanto eu corria pelas ruas de Airamidniv para procurar a tal moça terráquea. me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa e eu sabia que ele estava torcendo por mim, e estaria comigo mesmo se eu não conseguisse achar a minha mrakni e não me recordasse dela.
Eu havia procurado em todos os cantos do planeta, que no momento eu agradecia à galáxia por ele ser o menor do cinturão de Orion, de outra forma, eu demoraria dias para encontrá-la.
Estava cansado de procurá-la quando dei de cara com o grande campo onde meu pai construíra a minha incrível casa no Zênite. Eu adorava aquele lugar. Apesar de tê-lo deixado um pouco de lado quando entrara para a BEI. Todas as minhas melhores lembranças estavam naquele lugar. Todos os melhores momentos de minha vida tinham acontecido naquele lugar. Era até irônico, eu pensava enquanto subia pelo elevador, que naquele momento, as melhores memórias que eu poderia ter, estavam perdidas.
Talvez se eu deitasse em minha cama e descansasse um pouco, isso aliviasse a minha mente. A minha dor de cabeça passaria e isso me ajudaria a raciocinar melhor. Esperar que as lembranças voltassem era demais.
Eu não esperava por milagres das estrelas. Não mais. Esperar que as estrelas trouxessem a minha mente de volta era demais. Elas trouxeram a minha mrakni e eu nem me lembrava dela, as estrelas deviam, com certeza, me considerar um mal agradecido. Não me dariam mais nada.
Rapidamente cheguei ao piso invisível, um pouco mais calmo e à vontade por estar em casa, e dei de cara com uma cena que me encantou mais do que me surpreendeu.
O sol brilhava não tão intenso, mas os seus raios se espalhavam na direção da cama, onde ela estava sentada em cima dos lençóis, olhando para frente com os olhos fixos no sol. Seus olhos estavam cerrados e, mesmo de onde eu estava, era capaz de ver as suas lágrimas escorrendo silenciosas e calmas. O seu pranto não fazia barulho. As lágrimas apenas caíam, enquanto a brisa suave que soprava apenas no zênite jogava os seus cabelos para trás. Ela segurava o joelhos dobrados contra o peito e, de vez em quando, respirava mais fundo, sem se preocupar em secar as lágrimas.
Aqueles olhos. Aquele rosto. Tudo naquela mulher despertavam uma coisa enorme dentro de mim, dentro de meu coração, o fazendo bater mais depressa e dilatar as minhas pupilas. Era certo. Havia algo entre eu e aquela . Havia algo forte demais. Tão forte que mesmo sem nossas memórias, eu ainda conseguia sentir aquilo. Conseguia me sentir perdido apenas em olhá-la, indeciso se deveria abraçá-la, beijá-la ou apenas ficar parado contemplando o seu rosto tão perfeito.
Minha cabeça pulsava, minha mente estava uma bagunça só e meu coração nunca estivera tão disparado em toda a minha vida. Nem em minhas missões mais perigosas. Franzi os lábios, tentando não deixar um milímetro aberto entre eles. Não queria que nenhum som saísse de minha boca, que queria desesperadamente chamar o nome dela. .
E nem precisei falar em voz alta. A minha mente a chamou.
se levantou de uma vez e limpou as lágrimas indisfarçadamente, e se afastou da cama. Enquanto jogava os cabelos para trás, numa pose que eu sabia ser envergonhada. Eu não me lembrava dela, mas conhecia cada expressão de seu rosto. Cada maneira diferente de seus olhos brilharem. Seus trejeitos, seus sorrisos. Eu a conhecia. Eu a amava. Mesmo sem me lembrar de nada.
E eu nem precisava de recordações para saber que eu a amava. Era maior que eu.
- Me perdoe. Eu sabia que aqui é um local privado, mas eu realmente precisava de um lugar para ficar sozinha. E esse foi o único local onde eu sabia que não poderiam me encontrar. Desculpe-me.
Ela abaixou ainda mais a cabeça, como se isso fosse possivel. Eu entendi o que ela estava tentando fazer. tentava desesperadamente não me encarar. E isso me magoava de uma forma que, nem se eu quisesse, poderia explicar.
- Como sabe desse lugar?
Erguendo os olhos para mim, de uma vez, mostrou seus olhos lacrimejantes mais uma vez. Mas não durou muito, já que logo ela os abaixou novamente e mordeu o lábio inferior, como se lutasse para não chorar. Ela não tinha noção do que vê-la chorar estava causando dentro de mim. Era forte demais para que eu pudesse resistir à vontade de rodeá-la com os meus braços e abraçá-la até que todo o seu pranto passasse. E então senti um arrepio nos braços. Eu poderia não me lembrar, mas meu corpo se recordava, automaticamente, de . Meus braços sentiam que ela já estivera lá e sentia falta de seu calor. Meu corpo sentia falta do seu.
- Você não se lembra. - ela sussurrou. - Mas você me trouxe aqui. Noite passada. Mas eu já estou indo. Não se preocupe.
não ergueu sua cabeça para me encarar, ao declarar que estava partindo. E dessa forma, andou em passos rápidos para perto do elevador, com os cabelos ocultando o seu rosto. Não deixei que chegasse até a saída, segurando o seu braço com firmeza e carinho, fazendo com que ela se assustasse ao sentir o meu contato, e erguesse seus olhos para mim.
Fora o suficiente.
Eu me sentira automaticamente perdido. Sentira todos os sentimentos do mundo ao mesmo tempo. Sentira que ela era minha mais uma vez. Minha pele tocava a dela. Eu sentia o seu cheiro como se fosse o ar que eu tanto precisava para respirar. Por todas as estrelas, eu a amava, sem nem mesmo precisar me lembrar de tudo o que havíamos passado juntos.
Tudo o que eu precisava naquele momento era beijá-la. Meus lábios coçavam para fazer isso enquanto os dela se abriam de espanto por ter-me tocando-a de maneira tão abrupta. E não resisti. Deixei que minha cabeça se abaixasse até capturar seus lábios entre os meus. Apenas os tocando. Sentindo o quão doces e macios eles eram. estava imóvel, com certeza não acreditando que aquilo era verdade. Mesmo assim, puxei-a para mais perto de mim, colando o seu corpo ao meu e intensificando o beijo. Sentindo agora, devolvê-lo na mesma medida, enquanto erguia uma de suas mãos para o meu rosto, tocando minha face com uma delicadeza apenas dela; e a outra segurava a minha nuca.
“, eu te amo tanto, se lembre, por favor, se lembre” a voz de seus pensamentos vinha até a minha mente e eu me sentia mal por não conseguir me recordar. Que droga! Eu queria me lembrar. Queria ficar ao lado dela para sempre. Mas sabia que ela não ficaria ao meu lado, sabendo que eu não me lembrava de nada do que havíamos vivido juntos.
E nem eu poderia lidar com isso. Saber que naquele momento em que eu estaria segurando a sua mão, e pensando em tudo o que poderia acontecer em nosso futuro, ela estaria lembrando de momentos felizes do nosso passado que eu não conseguiria me lembrar.
O nosso beijo já havia se partido há algum tempo, mas eu continuava de olhos fechados, sentindo o corpo dela no meu e o rosto dela em minhas mãos. Colei minha testa na dela e sussurrei:
- Sinto muito, . Eu quero me lembrar. Quero mais do que já quis qualquer coisa.
- Eu sinto muito mais, . Acredite. - ela tentou se desvencilhar de meus braços, mas não deixei que ela se afastasse. - Talvez seja assim que as coisas tenham que ser. Eu não aceitei isso quando tínhamos chance. Deixei tudo se perder dezenas de vezes, a culpa é minha.
- Shhh... - sussurrei, puxando o rosto dela ainda mais para perto. - Ninguém tem culpa de nada. - ela deixou algumas lágrimas escorrerem, incapaz de segurar os seus sentimentos por muito mais tempo. Capturei-as com os meus lábios, secando o seu rosto com beijos ternos enquanto via um sorriso leve e triste surgir em seus lábios.
O que eu não daria para fazê-la sorrir para sempre? O que eu não faria para nunca mais ter que vê-la se afastar de mim, mesmo sem me lembrar de por que a amava e o quanto esse amor nos custou ou significou?
“Tudo teria sido bem mais fácil, se eu simplesmente tivesse deixado ir para aquela floresta sozinha e tivesse voltado para casa, para assistir Um Amor Para Recordar” ela pensava enquanto abaixava a cabeça, voltando a se afastar de mim. Dessa vez eu não fiz muito para segurá-la ao meu lado. Não sabia do que ela estava falando, mas entendia o que queria dizer.
Ela desejava nunca ter me conhecido.
- Ajude-me a lembrar, .
Supliquei enquanto os seus passos avançavam para perto do elevador. Ás minhas costas, me deixando em frente à cama, olhando-a e sentindo arrepios de desejo incômodos quando via os lençóis revirados daquela forma. Algo entre eu e teria acontecido naquela cama? Droga! Eu me odiaria para sempre por não me lembrar disso.
- Não posso...
- Pode. - virei-me de uma vez, segurando seus ombros e a puxando para mim, vendo mais uma vez o seu olhar assustado e encantado. Era amor o que eu sentia. Apenas os fortes poderiam provar do mra. O amor de Airamidniv. E eu estava sentindo. Eu podia senti-lo correndo por minhas veias, enquanto tudo ficava mais brilhante só de encarar . Era amor. Não podia ser outra coisa. - Me mostre suas memórias. Deixe que elas me mostrem o que eu preciso ver.
abaixou a cabeça, mas eu a sacudi levemente, em meu desespero de fazer qualquer coisa para lembrar dela e ficar com ela. No momento, não havia coisa que eu queria mais.
- Mesmo que você se lembre...
- Você mesma disse, , que deixou tudo se perder dezenas de vezes. Por nós dois, não faça isso uma vez mais. Me ajude a lembrar e fique comigo. Eu me lembrarei de você. - sorri para ela e vi seus olhos brilharem mais faiscantes. - Meu corpo se lembra do que foi apagado da minha mente. Ele vibra de saudades do seu. - ela deu um passo para frente e deixou que o seu corpo ficasse bem perto do meu. Fazendo com que os arrepios voltassem a me assolar. - Eu vou me lembrar, . Diga que ficará comigo. Que dessa vez você não desperdiçará essa chance. Diz.
Tudo o que ela fez foi levar uma das mãos aos meus olhos e passá-la suavemente por eles, deixando bem claro que eu deveria fechá-los. Pedido que eu atendi de pronto.
- As estrelas sabem o que é certo para nós, . - ela disse enquanto eu fechava os olhos, se colando a mim e segurando as minhas mãos, que deslizaram dos seus ombros. - Elas darão um sinal e me permitirão fazer o que é certo para nós dois. O certo das estrelas, não o que é certo para quem amamos ou para nós. - eu assenti em silêncio, e senti ela chegar ainda mais perto. Eu tremia como um garoto assustado ao sentir a sua respiração perto demais do meu pescoço. Aquela mulher me enlouquecia como nenhuma outra fora capaz de fazer.
- Guie-me em suas lembranças, .
E então, de repente, senti aquela sensação estranha no estômago que eu sempre sentia ao invadir uma mente por inteiro. Na BEI costumávamos fazer isso em último caso. Apenas em altas traições e nada mais, casos importantes. E eu sabia que não havia nada tão importante quanto ter de volta para mim. Para sempre.
Eu podia vê-la junto com sua amiga, andando em direção a algumas àrvores grandes de onde saíam enormes cortinas de fumaça. Depois vi encarando-me. Eu estava estirado, completamente machucado, perto da nave, e olhava-me como se eu fosse a coisa mais especial que ela já havia visto. Sorri de leve ao ser tratado daquela maneira, e ergueu a sua mão, no passado, tocando o meu rosto.
Eu me lembrava daquilo. Me lembrava de seu toque. Aquela tinha sido a primeira vez em que havíamos nos sentido, e naquele momento eu percebera que eu nunca mais seria o mesmo sem aquela moça da Terra com o toque de veludo.
Depois estávamos em um carro, havíamos acabado de pedir carona a ela. estava desconfortável com o que sentia por mim e eu estava a provocando do meu modo mais sedutor. Sim, eu era impossível quando queria. Logo aquela lembrança retornou a mim também. Eu era capaz de me lembrar do quanto eu ficara encantado por ela, e havia decidido que a teria, não importava o que me custasse.
E assim, sucessivamente, as memórias vieram da mente dela para a minha. A cada memória que ela acionava, ela automaticamente acionava a minha que pensavámos ter sido apagada. Eu me lembrava. E podia me recordar agora, de como eu me sentira em cada situação, de como cada momento que eu passara com me afetara e melhor, podia ver, através do seu ponto de vista como eu havia a feito se apaixonar por mim e perder o controle aos poucos.
Pude ver, pelos olhos dela, todas as vezes em que eu a provoquei em seu apartamento, os sonhos que ela tinha comigo, o nosso beijo no posto de gasolina, as provocações no carro, uma das minhas preferidas, na verdade. E então as nossas conversas. Eu dissera que a amava mais vezes do que eu pensara dizer para qualquer pessoa, e, ao contrário do que poderia acontecer antes de eu conhecê-la, não me envergonhava de dizer tais palavras. Pelo contrário. Queria repeti-las e repeti-las até nunca mais duvidar de meus sentimentos.
As memórias de continuaram vindo e, dessa vez, eu via a nossa discussão na chuva. Fora nesse momento em que eu sentira que era a minha verdadeira mrakni. Seus olhos faiscantes, sua pele molhada, seus lábios crispados enquanto eu a fazia perder o controle. Tirar de vez aquela máscara de mulher controlada e realista que ela insistia em usar. Aquela era a que eu amava. A passional, a descontrolada, a apaixonada. E como se fosse a primeira vez, me apaixonei novamente. Apenas com a lembrança que havia me feito recordar, mesmo sem ela precisar me mostrar, o que acontecera depois daquilo. Nossos corpos nus sobre o feno enquanto eu a possuia e a tornava verdadeiramente minha.
Em seguida, eu a vi encarando Allie e sorri disfarçadamente ao sentir o seu ciúmes. se lembrou então, de quando havia entrado na nave, junto com e Allie, e então veio a nossa despedida. Cogitei me afastar de suas lembranças. Já havia me lembrado daquela memória em especial. Não queria viver aquilo de novo, não pela mente dela. Mas tive de ver tudo novamente. A sua cabeça dizendo que aquilo era o certo, o meu coração pulsando enquanto eu implorava para que ela não fizesse aquilo com a gente, para que ela ficasse comigo.
Fechei os olhos, rejeitando tais recordações e apertou minha mão, me obrigando a continuar vendo as suas memórias. Ela estava me torturando? Se era isso, ela estava sendo bem sucedida. Muito mais que bem sucedida, pensei, enquanto via imagens de sofrendo a minha ausência. Sim, agora eu era bem capaz de me lembrar do quanto eu sofrera com a dela também. Eu implorava às estrelas para que dessem recados a ela, implorava a todos os astros que pudessem me ouvir para que a trouxessem para mim. E agora eu via, que da sua própria maneira, ela pedira o mesmo.
Agora eu entendia o porquê da minha vontade de socar Rico. Lembrava-me muito bem do que ele havia feito, mas, apesar de tudo, eu era grato a ele. Não era capaz de imaginar o que poderia acontecer se ele não cuidasse de por mim enquanto eu não estava lá para fazê-lo.
Finalmente a vi chegar em Airamidniv, vi tudo o que acontecera entre nós desde que ela chegara ao meu planeta até o momento em que me encontrara no altar. Por todas as estrelas, agora tudo fazia sentido para mim. Eu me lembrava de tudo.
Era capaz de me lembrar do quanto eu fora feliz naquela cama na noite anterior, de como eu me sentira perdido ao acordar naquela manhã e ver que já se fora, sem se despedir de mim, apenas deixando o seu perfume nos lençóis. Perfume esse, que eu não fora capaz de resistir e acabara inalando entre lágrimas, enquanto aceitava o meu destino. Eu me casaria com Allie, se era assim que as coisas deveriam ser.
Quando eu chegara ao seu palácio, descobrira que Allie havia achado o seu mrakni, e por mais que eu odiasse pensar que era ele, não desacreditava nem ia contra à escolha das estrelas. Rico era a alma gêmea de Allie e eu sabia que ele a faria feliz. Nunca vira um sorriso como aquele nos lábios de Allie. Eu sabia justamente como era me sentir daquela forma, amado e amando. despertava em mim todas aquelas emoções que Allie estava sentindo. E muito mais.
A memória de Stan me chamando até o seu escritório ainda estava fresca. Ele dizia que estava pensando no bem do povo dele, e que não poderia deixar que eu e Allie seguíssemos caminhos diferentes do que já estavam programados. O casamento por conveniência era uma parte da tradição do nosso povo.
- Eu sempre soube que trazer terráqueos demais para cá daria nisso... - ele resmungava enquanto andava de um lado para o outro. - Mas não posso deixar os planos serem diferentes.
E tudo o que eu sentira fora as mãos deles em minhas têmporas, e de repente eu não era capaz de me lembrar de mais nada. Mas era bem capaz de saber que a última coisa da qual eu pensei antes de minha mente ficar vazia, havia sido , e o quanto eu a amava, e daria tudo para poder abraçá-la uma vez mais.
De repente ela se afastou de mim, dando por concluído o seu trabalho. Os passos dela a levaram para bem longe de mim, eu fiquei sentindo algo como um vazio no meu peito.
Pelo astro sol, será que não se dera conta de que agora não havia mais nada que impedisse o nosso amor? Será que ela não conseguia ver que éramos feitos um para o outro?
Como ela era capaz de sequer fingir que poderíamos manter ausência um do outro? Mesmo sem memória, meu corpo clamava pelo dela, meu coração disparava sem controle, apenas de ouvir o seu nome. Agora que todas as nossas recordações haviam voltado para a minha mente, de onde nunca deveriam ter saído, tudo seria mais fácil.
- ... - chamei, mas recebi o silêncio em resposta.
Ela encarava o sol brilhante, diante da cama e respirava profundamente, recobrando o fôlego. Ela tentava reaver o seu controle. E não havia coisa que eu odiasse mais do que o controle e a razão de . Eles sempre nos mantinham separados, nunca deixavam ser ela mesma, ser a que eu amava.
A que eu vira sob a chuva, a mesma que Yrdifas pintara e que sempre estaria em meu coração.
- Não há mais nada entre nós. - disse enquanto me aproximava dela. - Só nós dois, mais nada. Não há mais nada que temer. - ela balançou a cabeça, frustrada. Parei atrás dela, fazendo-a se virar para me encarar, olhando profundamente em seus olhos enquanto fazia o mesmo comigo. - Do que você tem medo?
- Eu tenho medo do futuro. - abaixando a cabeça mais uma vez, quebrou o nosso contato visual. - Eu não posso mais ficar longe de você, . Por mais que eu lute para ser racional e me lembrar que o nosso futuro é tão complexo, eu sei que não tenho mais forças para me afastar de você.
Meu coração batia sem controle, depois de ouvir essas palavras. Eu também não conseguiria ficar nenhum segundo a mais sem saber que ela era minha. Para sempre. Como tinha de ser.
- Sou uma terráquea, . Tudo o que eu sou e preciso está na Terra. E você pertence a esse lugar. Estamos num impasse, mra y, eu não posso ficar, você não pode ir. - apenas ao começar a falar, a voz de já ficara embargada. Escutá-la me chamar de “meu amor” em minha língua materna, fora tão sublime e emocionante que tive de pigarrear para continuar prestando atenção no que ela dizia. E preferia não ter ouvido.
- Clark Kent também era um alienígena e Lois Lane ficou com ele mesmo assim. Ele era de Krypto, mas escolheu a Terra como o seu lar. - eu usei o argumento de e vi, com o peito transbordando de ternura, erguer os olhos para mim e sorrir ao ouvir-me. - Eu posso viver na Terra, , posso ser o seu superman.
Sorri enquanto a mão dela acariciava meu rosto, ainda encarando meus olhos. Por Vênus! Como eu a amava. Eu queria olhar em seus olhos e repetir isso por vezes, sem fim, até ela nunca mais esquecer. era minha, de uma forma que nenhum outro seria capaz de possuí-la.
- Isso é ficção. O real é duro, cruel e nos machuca. - ela suspirou sentindo as lágrimas chegarem rapidamente. - Temos apenas o presente, é por isso que eu temo tanto o futuro. - escondendo o seu rosto em meu peito enquanto me abraçava com força, finalmente se permitiu chorar. - O futuro é incerto, ele não me dá garantias de ter você e eu não posso viver sem você mais, .
A abracei, enlaçando-a contra o meu corpo ainda mais, enquanto beijava o topo de sua cabeça, sentindo a brisa suave bagunçar os seus cabelos.
- O nosso amor é cósmico. As estrelas me deram o seu coração e te entregaram o meu. Se tiver de ser, , elas nos darão um sinal.
O meu sussurro em seu ouvido arrepiou a sua pele e a fez se agarrar ainda mais contra mim. Foi quando senti o primeiro pingo em meu ombro, seguido de mais um, e outro, e outro. se afastou de mim, encarando o céu completamente incrédula. Uma expressão que eu também mantinha em meu rosto naquele momento.
Era o nosso sinal. Havíamos pedido às estrelas que nos mostrassem que aquilo realmente deveria ser e elas o fizeram.
- Mas... Mas... - ela sorria agora, ainda sem acreditar.
- Não se chove no zênite. - eu ri, feliz em ter o nosso sinal. Com certeza ela já sabia disso, pelo tamanho de seu sorriso. certamente passara dias explicando para ela como era o zênite. - E está chovendo. É o nosso sinal. É a nossa prova de que é assim que tem de ser.
A chuva estava forte, com pingos frios e grossos, a despeito do sol que brilhava à nossa frente. Os cabelos de já estavam grudando em seu rosto e eu vi mais uma vez como naquele dia. Ela sorria, enquanto seus olhos brilhavam de felicidade e a chuva caía sobre ela.
E então me dei conta de que aquele era o nosso momento. Eu esperara por muito tempo, mas agora eu tinha de fazê-lo.
era a única que fazia meus sentimentos se misturarem daquela forma. A única a quem eu tinha vontade de repetir que a amava até o fim dos meus dias. era minha. Eu já sabia, ela já sabia. As estrelas nos fizeram mraknis. Companheiros para a vida toda. Agora eu a faria minha perante todo o universo. Como tinha de ser.
Era um passo grande a se dar, eu sabia, mas estava preparado. Era o nosso momento, sob a chuva, olhando um nos olhos do outro, com o coração aos pulos como sempre acontecia cada vez que eu a olhasse.
Então me ajoelhei e respirei fundo para selar o compromisso mais sagrado do universo e fazer de , minha esposa.
Capítulo betado por Thaciane Millena
Dezessete
As gotas estavam frias, mas eu não as sentia por completo. Era um sinal. Era o nosso sinal.
Meus dedos tremiam, na verdade, eu tremia por inteiro. Nunca me sentira tão feliz. Nunca sentira tanta coisa em um dia só, para ser franca.
Primeiro, a dor de saber que não seria mais meu, depois, saber que ele não se lembrava mais de mim. E pior, ver em seus olhos que não restava mais nenhuma memória minha dentro de si. Depois, as coisas aconteceram tão rápido que eu me sentia perdida, mas ao mesmo tempo, acolhida, pelos olhos cor de chocolate de , que me encaravam ternos.
Ele me amava.
Parecia tão surreal pensar que alguém tão maravilhoso quanto me amava, mas não era apenas uma fantasia da minha cabeça. Ele estava ali, comigo, e deixava bem claro que nunca sairia de perto de mim.
As estrelas me deram o sinal. Deixaram bem claro que eu não precisava mais ter medo. A Terra podia ser perigosa, mas eu o protegeria o máximo que eu pudesse. Eu podia ser fraca, mas ao lado de , não havia nada que eu não enfrentasse. Eu era forte em seu amor. Não precisava temer nada.
Então, de repente, se ajoelhou à minha frente, pegando uma das minhas mãos entre as suas. E eu que já estava trêmula, passei a suar frio, e não tinha nada a ver com a brisa, nem com os pingos frios de chuva.
- Eu sou o seu superman? - ele perguntou sorrindo.
Droga! Eu estava tão malditamente emotiva, que já sentia meus olhos marejarem.
- Você sempre foi. O meu alienígena de olhos cor de chocolate metido e arrogante. O meu mrakni.
As lágrimas cairiam a qualquer momento. Dessa vez eu tinha a chuva para ocultá-las.
- Eu sou metido, arrogante, sou de outro planeta, odeio o seu querido Rico, acho que a sua melhor amiga fala demais e tenho péssimos hábitos. Conheço grande parte da galáxia e odeio a maior parte dela. Já lutei contra monstros, falo palavrões nells com mais frequência que o recomendado e bebo mais eychaqua do que qualquer homem de Airamidniv.
Sorri largamente. Ele poderia ser tudo aquilo, ter feito tudo aquilo, mas eu ainda o tinha como a criatura mais perfeita que já fora minha. Se ele estava querendo me fazer desistir do nosso amor, ele precisaria de muito mais que aquilo. A chuva dera o sinal. Ele era meu. Para sempre.
- Eu não sou perfeito, . Pelo contrário. Sei que muitas vezes você quis me matar e sei que virão muitas vezes mais, nas quais você até mesmo planejará comprar uma arma. - eu ri e ele fez o mesmo antes de continuar, sem deixar de olhar em meus olhos nem por um instante. - Eu sei que você pode ser irritante quando quer. Mas nunca, nem por um instante, eu vou deixar de te amar. Eu sempre vou amar cada pequena parte de você.
Se ele não parasse as lágrimas logo começariam a escorrer. E eu não queria chorar mais na frente de . Ele já havia visto o suficiente de minhas lágrimas por um dia.
- Se levanta, vai, . - pedi, enquanto tentava fazê-lo se levantar. - Vamos, .
Mas ele continuou irredutível, segurando a minha mão e olhando fundo em meus olhos. Eu já deveria saber que ele era mais teimoso do que eu. Por isso decidi deixá-lo ficar onde ele estava e apenas escutá-lo.
- Tudo o que eu sei é que eu não posso mais ficar sem você. É como se eu perdesse um dos meus sentidos e tivesse de me virar cego, ou surdo. E não quero mais viver assim. Não quero mais isso pra mim. Não agora que eu posso ter você. - eu ergui a cabeça para afastar as lágrimas e senti mais pingos frios em meu rosto. - Eu acho que você sente o mesmo por mim, . E nós dois sabemos que juntos somos mais felizes, mais fortes. O seu coração é meu, e o meu é seu. Abençoados pelas estrelas.
Não resisti a sorrir. E pensar que eu desprezava as estrelas. Elas haviam me trazido tudo o que de mais importante eu tinha. Era hora de eu ser agradecida.
Esquecer de racionalidades e controles. Esquecer que éramos tão diferentes e o quanto tudo poderia ser apenas um sonho. Ser romântica não fazia muito o meu estilo, mas eu podia seguramente admitir que era o meu príncipe encantado. De um conto de fadas estelar confuso e estranho, mas ainda assim, merecedor de um final feliz.
- Rachel , juntei todos os meus sentimentos e tentei transformá-los em frases coerentes para fazê-la entender o quanto você significa para mim. - toquei o rosto dele com a minha mão restante e deixei que as lágrimas caíssem. Seus olhos cor de chocolate brilhavam intensamente e naquele instante tive a mais absoluta certeza de que não poderia viver um dia a mais sem vê-los. - Não fui capaz de traduzir todos eles, mas prometo tentar dizer-lhe em todas as línguas dessa galáxia e de quantas mais existirem, que eu amo você. E repetirei todos os dias, até o meu fim, se você permitir que eu seja só seu. Porque é isso que eu quero ser, , apenas seu.
- Eu te amo demais, . Demais.
Vê-lo sorrir daquela maneira fez com que eu me perdesse de vez. Eu seria dele. Aceitaria todas as suas condições , faria o que fosse preciso, enfrentaria o que quer que fosse, mas não o perderia mais. Ele era meu.
- Então, aqui, sob a chuva das estrelas, no meu zênite, acima de tudo, eu, Jeetwoodmac, peço solenemente a você, Rachel , minha mrakni terráquea, que se una a mim e aceite do fundo de seu coração, ser a minha companheira até o fim.
Eu nunca ouvira algo como aquilo antes. Era diferente, mas absolutamente lindo. estava realmente me pedindo aquilo? De verdade? Deus! Era tudo o que eu mais queria. Meu sorriso mal cabia em meu rosto, assim como o dele, que apesar de minha confusão mental, já sabia de minha resposta. Não poderia ser outra, além de sim.
- Eu sei que esse pedido pareceu estranho. Afinal, eu tive que traduzir o que dizemos à nossos companheiros em nells para o seu idioma. Mas, espere! Vou fazer isso do seu modo. Como você sempre sonhou.
Não pude segurar o riso ao vê-lo se levantar, com as gotas de chuva o molhando e deixando-o mais perfeito e delicioso ainda. Pobre ! Aquele havia sido o melhor pedido de casamento que eu poderia receber. Não poderia sonhar com um melhor.
beijou minha testa, sorrrindo e se afastou, segurando minhas duas mãos.
- Eu te amo, , você aceita se casar comigo? - ele abriu a mão e de lá, como num passe de mágica, surgiu um anel brilhante de ouro que me surpreendeu, mais pelo seu modelo do que pelo fato de ele ter aparecido do nada.
Deus! Eu conhecia aquele anel. Quando eu e éramos adolescentes, passávamos diante de uma joalheria na volta do colégio, e eu sempre admirava uma jóia em especial. Um anel brilhante, dourado, enfeitado com pequenas safiras em formato de estrelas, rodeando o pequeno diamante maior. Eu sonhava com o dia em que um homem perfeito apareceria em minha vida e pediria a minha mão em casamento, me dando aquele anel como prova de seu compromisso. E, nesse dia, o dia mais perfeito de minha vida, o meu conto de fadas teria início.
E estava se mostrando este homem. O homem com quem eu sempre sonhara naquele momento, estava realizando um dos meus anseios mais antigos e secretos. Eu até já havia me esquecido daquilo, tantos anos buscando ser racional, me fizeram esquecer que eu queria um final feliz, com o homem de meus sonhos. E este era . Deus, como eu poderia dizer não a um homem desses?
- Na nossa relação as coisas sempre foram bem diferentes, não? - eu disse, dividida entre rir e chorar enquanto o anel deslizava em meu dedo anelar, me fazendo sentir um aperto maravilhoso no peito. O anel pesou em meu dedo e tudo o que eu podia fazer era admirá-lo bobamente.
- Se formos avaliar pelo fato de nos encontrarmos como almas gêmeas do outro lado da galáxia, eu diria que sim.
Ele puxou-me para si, fazendo com que nos encarássemos com ainda mais firmeza, deixando que os olhos se fechassem apenas quando nossos lábios se tocaram. Suaves, calmos, apenas para provar da certeza de que o outro estava verdadeiramente ali.
- Você ainda não me respondeu, senhorita .
- . - sussurrei bem perto de seus lábios. - Mra T Nhé, Skel Mra Tsi?
jogou a cabeça para trás, numa gargalhada alta, enquanto eu temia silenciosamente ter dito as palavras erradas. Aprender nells com não era uma das tarefas que eu mais gostasse, ou me empenhasse mais. Antes, eu não tinha porque aprender aquele idioma, mas agora era diferente. Meu noivo e futuro marido falava aquele idioma, e eu aprenderia o máximo possível de sua cultura para agradá-lo.
- Onde você aprendeu isso? Está perfeito. - ele me abraçou pela cintura, me erguendo do chão invisível e beijando meus lábios de leve. Sorri disfarçadamente ao ver que havia tirado algumas lágrimas dele. Eu havia dito as palavras certas. Havia pedido para ele se casar comigo. As coisas entre nós eram sempre tão estranhas e diversas. Talvez se eu pedisse, no lugar dele, isso faria com que as estrelas soubessem que não iria mudar nada. O nosso amor era daquele jeito estranho. Mas era como nós gostávamos que fosse. - O seu sotaque é uma graça. - mordeu a minha bochecha e eu apoiei-me em seus ombros, o encarando com fingida seriedade.
- Você ainda não respondeu minha proposta, .
Rindo mais uma vez, ele me puxou para perto, ainda mais, sussurrando em meu ouvido:
- Eu aceito. Tudo o que eu mais quero é me casar com você, Mra t nhé, mra y.
Eu sorri, sentindo os seus lábios em meu pescoço, beijando-o com carinho.
- Eu nunca pensei que poderia ser tão feliz.
- E esse é só o começo. Só o começo.
me empurrou para trás, suavemente, até chegarmos à cama, também vítima da chuva inesperada. Ele me colocou cuidadosamente sobre os lençóis úmidos e deitou-se por cima de mim, encarando meus olhos.
- Fala de novo. - pediu num sussurro.
- Skel mra tsi, mra y?
Sorrimos juntos, nos encarando por alguns segundos até nos beijarmos com firmeza e paixão. Éramos um do outro agora. Nada e nem ninguém poderia ir contra isso agora.
- deve estar arrancando os cabelos de preocupação. - ele riu enquanto afastava a barra da minha camiseta e distribuía beijos pela minha barriga.
- Vamos deixar ela arrancar mais alguns fios. Tenho preocupações mais interessantes por agora.
Puxei pela gravata e a sua expressão convencida me fez sorrir pela enésima vez naquela tarde, e beijá-lo impetuosamente. era meu. Essas palavras se repetiam incessantemente em minha cabeça, como um mantra, enquanto desfazia o nó de sua gravata com um movimento firme e único. Decidi que nunca mais o deixaria longe de mim. Eu não tinha mais porque usar máscaras e me esconder atrás de racionalidade e controle de aço. me conhecia por dentro e me amava daquela maneira e isso era o que eu sempre havia querido, mas não tinha admitido nem a mim mesma.
Ele conhecia todos os meus segredos. Suas mãos já tinham o mapa de onde me tocar e eram especialistas em me enlouquecer. E provavam bem isso, naquele momento, enquanto a boca de brincava com a minha orelha, sussurrando coisas ternas e distribuindo leves mordidas em meu lóbulo.
As palmas de avançaram por dentro da minha camiseta, tocando meus seios e cintura. quebrara todas as minhas defesas e vira a menininha desprotegida que, no fundo, eu era. Mas escondia de todos sob a minha frieza e racionalidade excessiva. se apaixonara por ela, a protegera, cuidara e a fizera crer que nunca mais ela precisaria temer nada. Ele estaria com ela. Comigo.
- Mra T Nhé. - ouvi a sua voz mais uma vez e perdemos todas as amarras românticas. Éramos passionais demais para nos controlar quando nossas peles se tocavam. A nossa pressa um do outro não tinha mais nada a ver, agora, com o nosso tempo juntos sempre prestes a expirar. Agora queríamos um ao outro com urgência, porque o nosso ato de amor consumaria de vez os nossos pedidos. Seriamos um só, sob a chuva que, misteriosamente ou milagrosamente, eu ainda não sabia; não parara de cair.
Eu e nos afastamos, arrancando as roupas um do outro, rapidamente. Quando eu menos esperava, a camisa e o paletó dele, já estavam do outro lado do quarto e a minha camiseta, juntamente com a minha calça repousavam de um outro lado. Eu nem havia visto muita coisa, apenas sentido. Meu corpo estava em brasa e nem as gotas geladas de chuva eram capazes de apaziguar aquele calor.
Minhas mãos passeavam em seu peito com avidez e logo minha boca traçava várias linhas sob a sua pele quente, enquanto sentia suas palmas contra a minha pele. Era tão bom, tão certo.
Continuei o meu caminho, provando todo o sabor de seu corpo até abrir a sua calça de uma vez, revelando a sua cueca preta que me levou à loucura apenas de vê-la. estava mais afoito do que eu.
Meus lábios estavam em fogo, por Deus, eu sentia tanta sede, e sabia que a única fonte da qual eu queria beber era dos lábios de . Por isso, nem ao menos, me fiz de rogada. Imediatamente me joguei sobre ele, o beijando com avidez, enquanto sentia as suas mãos sem controle em minhas costas, buscando o fecho do meu sutiã, que colaborou facilmente com ele e se soltou. deslizou a peça sobre meus braços e a atirou pelo quarto, sem nem se preocupar para onde estava jogando-as. A atenção dele estava em meu corpo e eu não reclamava nem um pouco disso.
As mãos fortes de massageavam meus seios com firmeza e eu soltava leves gemidos enquanto levava meu corpo para perto do seu. Logo ele desistiu de usar apenas seus dedos e passou a experimentar um de meus seios com os seus lábios quentes e usar as mãos no outro. Me fazendo suspirar em suspense. Deus! Eu poderia morrer com aquelas carícias. O calor que subia em meu corpo era anormal. Eu derreteria se não fosse a chuva fria aliviando aquela cálidez que brotava em meu âmago e aumentava descontroladamente.
- Eu te amo, por todas as estrelas, eu te amo. - ele sussurrava entre gemidos suaves, enquanto lambia minha barriga, descendo lentamente e deixando as suas mãos ainda em meus seios, me delirando.
Arquear as costas era eufemismo perto do que eu fazia. Eu era capaz de fazer ginástica artística daquela forma, se os dedos de continuassem daquele jeito. Deus! Ele não estava fazendo aquilo! Mas estava. Com os seus dentes, abaixava a minha calcinha, aos poucos, me fazendo abaixar os olhos para ele e quase morrendo apenas de ver a sua cara convencida e safada, ao ver o tanto que ele estava me enlouquecendo.
- Você é um... Pervertido. - eu ri.
- Seu pervertido.
Por todos os santos! Ele não tinha noção do que fazia. Os dedos dele saíram de meus seios, descendo de leve, até chegarem às minhas coxas, apertando-as com firmeza e massageando-as com mais força ainda. Ele voltou a deitar-se sobre mim, beijando o meu pescoço e o mordendo, subindo às vezes para o meu maxilar e minha orelha, distribuindo as mesmas carícias ali, me deixando louca.
Subindo perigosamente, senti os dedos de chegarem perto de mais de onde eu os queria. introduziu um dedo dentro de minha vulva e eu praticamente me virei do avesso em cima da cama, mas ele me prensou mais contra a mesma, rindo, enquanto sentia a minha umidade em seus dedos. Ele era cruel. Ele não via o quanto eu o queria?
Levei uma mão até as suas costas, arranhando-o com força, e puxando o seu cabelo com a outra. Ele sentiria dor pelo que estava fazendo comigo, mostraria machucando-o que eu o queria dentro de mim naquele exato instante.
- Você está tão molhada, tão pronta pra mim... - sussurrava em meu ouvido. Virei os olhos em desespero e pedi, eu implorei e praticamente rezei para que me penetrasse naquele instante. - Seus pedidos são uma ordem, minha mrakni.
Eu podia sentir o céu. E o corpo de sobre o meu estava me levando mais e mais alto. Meus gemidos eram mais altos a cada segundo. Parecia que tinha algo gigantesco dentro de mim se avolumando e se avolumando, prestes a tomar proporções avassaladoras, mas eu me continha. investia contra o meu corpo com uma firmeza impressionante, enquanto buscava meus olhos, me fazendo encarar o castanho profundo de suas lindas íris cada vez mais desfocadas de prazer.
sabia a maneira exata de me possuir, sabia como me tirar de vez de órbita e ainda me manter em seus braços. Tudo estava girando ao meu redor e me agarrei mais ainda a , sentindo o meu corpo automaticamente se grudar mais ao dele, querendo que a penetração fosse ainda mais profunda. Querendo que aquele momento ficasse gravado em minha derme tanto quanto estava gravado em minha mente.
fez com que meus olhos se arregalassem quando o meu prazer alcançou o ápice. Sorriu enquanto investia contra o meu corpo mais uma vez, com mais firmeza, deixando claro que o prazer dele também havia chegado ao seu limiar, deixando com que eu sentisse todo o seu prazer dentro de mim. Meu corpo ainda se convulsionava em espasmos e sentia o dele sobre o meu, nas mesmas condições.
- A partir desse momento, , de agora para sempre, você é minha. Tanto pela alma, pelo coração ou pelo corpo. Você é minha, da mesma maneira que eu sou seu. - estava sob seus braços ainda trêmulos, olhando em meus olhos enquanto eu fazia o mesmo, me perdendo naquela piscina de chocolate sempre tão quente e enlouquecedora. - E assim será, . Até o dia em que eu não mais respirar.
Abracei com força e ele deitou de lado, puxando-me para perto de seu corpo, mesmo sobre os lençóis molhados e a chuva que ainda estava caindo, contra todas as probabilidades. Logo senti o meu corpo se rendendo à letargia, que sempre vinha depois dos atos de amor que eu compartilhava com . Ele me cansava de uma maneira que nenhuma outra pessoa conseguia, não era apenas o meu corpo que ficava satisfeito depois de uma noite, ou tarde, como era o caso; com . A minha alma relaxava. Eu sentia que não tinha mais nenhum problema no mundo. Éramos apenas eu e , mais nada. E nesse momento, mais do que nunca, éramos um do outro. Para sempre.
Até parecia sonho, mas não era.
A respiração de estava calma e profunda atrás de mim e percebi logo que ele dormia. Eu queria fazer o mesmo, meu corpo pedia por isso, mas minha mente trabalhava avidamente com vários pensamentos ao mesmo tempo.
Finalmente a minha cabeça se rendeu ao meu corpo, fazendo com que todos os pensamentos ligados ao quanto aquilo parecia irreal, o quanto eu sentia por e como a nossa vida seria perfeita dali para frente.
Antes que os meus olhos se fechassem de vez, momentos antes da chuva parar e um lindo arco irís brilhar do lado de fora do quarto, quase como se estivesse enviando toda a sorte do mundo para o nosso amor; tudo o que eu pude pensar era em como o meu final feliz, que eu jurava que não existia, era real. Louco, com um alien como marido e tudo mais. Não era o final que eu sonhara, mas era o mais perfeito que poderia existir. E sabe por quê?
Porque estava ao meu lado, e não sairia dali jamais.
Dezoito
Coloquei o último pote de essência de sândalo na prateleira e me virei para Jane Lynn, que fazia pacientemente as suas palavras cruzadas. Era bom tê-la calada. Eu não aguentava mais repetir a história de minha suposta abdução diariamente e, ao que parecia, Jane Lynn ainda não havia se cansado de escutá-la e sempre pedia para que eu repetisse certas partes que ela achava mais emocionante, como quando havia me pedido em casamento, ou quando eu, , Rico e havíamos parado o casamento de Allie e .
Esperei alguns segundos para me certificar de que Jane Lynn estava realmente entretida em suas palavras cruzadas e fui para o estoque, me sentar um pouco. Estava exausta e nem eram três da tarde ainda. Minhas costas estavam me matando e minhas pernas pareciam pesar toneladas. E se minhas pernas pesavam toneladas, imagina a minha barriga!
Assim que me recostei contra a confortável e antiga cadeira de balanço que havia no depósito, eu fechei os olhos, aspirando o aroma de alfazema, que sempre me acalmava. Deus! Tantas coisas haviam acontecido nos últimos meses que, mesmo agora, cinco meses depois, eu ainda me via confusa. Acontecera tão rápido.
Ainda podia me lembrar de e chegando em casa, de mãos dadas, e completamente encharcados, com sorrisos tão largos que caberiam pilhas de copos em suas bocas.
- Estamos noivos. - me lembro dos dois anunciando ao mesmo tempo, mostrando o anel na mão de , que não parava de sorrir por um só instante.
Nunca tinha a visto daquela forma. E também nunca me sentira tão feliz por alguém. conseguira, finalmente, a pessoa que cuidaria dela, como eu sempre me esforçara para cuidar. Demorara, sim, fora dificil, com certeza, mas o final era o mais doce possivel. Ela estava com o seu príncipe encantado, não precisaria mais se esconder, mentir para si mesma e nem se trancar por mais de quinze horas na redação de um jornal. seria feliz, como eu sempre torcera para que ela fosse.
Fora uma confusão em casa naquela noite. Ri comigo mesma, ao lembrar, tomando o cuidado de não rir muito alto, para não despertar Jane Lynn de sua concentração. Eu não estava com muita vontade de falar sobre tudo aquilo. Lembrar me cansava menos e, por Deus, estava tão cansada ultimamente.
Bati de leve na barriga, ao sentir Melody se mexer dentro dela. Aquela menina estava cada dia mais esperta.
Menina. Seria uma linda menina, com os olhos do pai, e eu esperava que com os cabelos também, linda como . Mas com a minha personalidade, eu tinha certeza. Claro que o gêne teria que ganhar alguma, e se fosse para mostrar para Ann quanto os s poderiam ser osso duro de roer, que fosse.
Abri os olhos, sorrindo para a minha enorme barriga, ao lembrar da confusão quando eu e chegaramos à casa de Ann, horas antes de nossa partida de volta para a Terra, para avisar a velha, digo, a minha sogra, de que estavamos indo de vez.
Era complicado demais para e eu ficarmos em Airamidniv. Não conseguiríamos nunca nos adaptar àquele lugar, por mais lindo que ele fosse. E, sinceramente, não queríamos ficar ali. Nosso lar era a Terra. Problemática, sim, mas ainda o nosso lar. Airamidniv não fora um bom lugar para nós. Fora lá que encontramos a nossa felicidade, certo, mas lá vivemos os momentos mais desafiadores de nossas vidas. Eu enfrentara Victoria e Ann, que fizeram de tudo para me afastar de , enquanto teve de lidar com o casamento de e sua perda de memória, que, graças a Deus, ela conseguira resgatar.
- Como assim, ? - Ann gritava em desespero. - A sua mrakni está grávida, como poderão criar um bebê nells em um local tão perigoso como a Terra?
- Meio nells, ok? - eu resmunguei.
- Mãe, olhe, ele é da Terra, é da Terra. E de uma forma ou de outra - respirando fundo para realmente tomar fôlego para dizer tais palavras, continuou. - Eu sinto que também pertenço à Terra.
Nunca me sentira tão realizada ao ver Ann tão furiosa e não poder fazer nada para arruinar aqueles planos. Bem, ela bem que tentou, implorando para Stan não deixar que tirasse a sua licença permanente da BEI, mas não havia mais volta. Ele não era mais um explorador, era apenas o meu , e voltaria para a Terra comigo, onde criaríamos o nosso filho com todo o carinho da galáxia, ensinando-o como lidar com as estrelas e entender o seu poder lindo e infinito.
Outro que também tinha dado as costas à imponente Base de Exploração Interplanetária, fora . O cargo de chefe de exploração ainda estava vago desde o dia em que ele decidira que a Terra era o seu lar, já que o lar é onde o coração estava.
E o seu coração sempre estaria com .
Minha barriga deu um grande solavanco e eu fiquei tensa. Doía um pouco, mas ainda estava suportável.
estava impossível nesses dias. Os bebês nells geralmente nasciam de sete meses, ao contrário dos terrestres, que nasciam aos nove. Eu estava quase completando sete meses e ele estava enlouquecendo com toda essa ideia de eu dar a luz. Estava até estranhando o fato de ele ainda não ter me ligado naquele dia, já que nunca houvera na história de Nova York, um pai tão preocupado como ele.
Soubémos de que seria uma menina apenas aos três meses. Eu resolvera fazer o pré natal com uma médica que eu já conhecia dos encontros ufos que eu frequentava e isso facilitou muito ao contar a minha história para ela, que ainda estava fascinada com tudo o que acontecera. odiava que eu ficasse contando aquilo para todo mundo, mas era a verdade, por que eu não contaria?
A médica me examinara com todo cuidado, ante o olhar atento de , que não desgrudara de mim nem sequer por um instante. O ultrassom fora normal e ao ouvirmos o pequeno coração de Melody batendo, não resistimos a olhar um para o outro, quase em lágrimas. Eu estava nervosa e morrendo de vontade de chorar. Aquele som vinha de dentro de mim, eu já sabia que havia uma vida dentro de mim, mas agora, mais do que nunca, eu me certificava disso. Era uma vida que eu amava mais do que eu pensara ser possível amar alguma um dia.
- Vocês querem saber o sexo do bebê? - a doutora perguntara e ao encarar para perguntar o que ele achava, vi os olhos do meu noivo completamente marejados, quase a ponto de derramarem lágrimas de emoção, apenas por ouvir o coraçãozinho do nosso filho. Ele assentiu para a médica, que rodou aquele aparelho em minha barriga, ainda não tão grande naquela época, mas besuntada de gel frio e gosmento, e sorriu ao finalmente localizar o que procurava. - Bem, espero que vocês não tenham se adiantado na compra dos chocalhos intergaláticos, porque vai ser uma menina. Uma garota estelar.
Meus olhos se encheram de lágrimas e eu nem me preocupei em escondê-las, tampouco, nossos olhos estavam derramando lágrimas de felicidade, da mais pura alegria. Nosso bebê seria uma menina, como eu pensava que seria. Ela seria como o pai. Linda, especial.
E seria amada, tão amada, que todas as outras crianças do planeta ficariam com inveja. a mimaria e conhecendo , como eu conhecia, sabia que ela seria a pior madrinha possível para aquela criança, a cercando de presentes e a mimando dia e noite. Com a ajuda de , eu já supunha.
Naquela noite, eu e havíamos comemorado com e , à menininha que iria nascer em breve. A confusão se formou de vez quando decidimos começar a cogitar os possíveis nomes para a menina.
insistia em escolher um nome de protagonista de livros, enquanto estava convicto a dar à pequena, o nome da mãe dele e nem preciso comentar que estava o ignorando a cada grito de “Pode ser Ann?”. estava calado, pensando em algum nome que fizesse sentido em Airamidniv e na Terra.
- Eu acho que Jane seria lindo. Homenagearia a Jane Austen e...
- Melody. - A voz de surpreendeu a todos e fez com que todas as cabeças se virassem em sua direção. - Melody, soa lindo em nells e no idioma de vocês.
Eu inclinei a cabeça em lágrimas incessantes que eram em parte pela emoção e em parte pelos hormônios e pulei em , o abraçando com força. me deu um afastão suave e beijou o noivo, contente e orgulhosa.
- Mas... Poderia ser Melody Ann, não?
Mais uma vez todos se viraram para um ser da sala, rolando os olhos para a ideia completamente idiota de . Depois de tudo o que eu tinha passado com aquele pé no saco estelar que ele chamava de mãe, nem pagando promessa eu colocaria o nome dela em minha filha.
Minha barriga doeu um pouco mais forte e tive de arfar de leve para suportar a dor. Nunca doera daquela jeito. Será que já estava na hora? Jane Lynn não fazia nenhum som do lado de fora, a não ser do lápis batendo no papel de vez em quando. Pedir ajuda para ela era algo que estava bem longe dos meus planos de ser bem ajudada, então tirei meu celular do bolso do avental, discando rápido o número de . Por que eu ainda não deixara aquele número na discagem rápida? O celular tocou três vezes até a voz já bem conhecida de Izzy atendê-lo.
- Johnston falando.
A voz de Izzy me fizera lembrar de tudo o que acontecera quando chegaramos de volta a Terra. Ela interceptara a chegada da nave e fizera contato, ao que respondemos de imediato e ela ajudou o nosso pouso, ocultando os nossos históricos na NASA e na ARE.
Ela ficara nos rodeando durante um dia inteiro, perguntando sobre tudo e não desgrudando de por um segundo sequer, me fazendo ficar cada segundo mais irritada. Coisa que durava até agora, se eu fosse admitir. Ela era a minha amiga mais íntima e antiga, eu me sentia ameaçada com Izzy por perto, mas de qualquer forma, respondeu a todas as questões dos agentes com o maior prazer e ficou completamente sem graça quando ela perguntou do presente que prometemos.
- Quero falar com a . Cadê ela? - malditos hormônios. Eles me deixavam cada dia mais impaciente. sofria cada dia mais com tudo isso. Mas ele parecia gostar, já que satisfazia todas as minhas vontades. E o fato de Izzy estar atendendo o celular de .
- Está em reunião. Eu posso guardar o recado e...
A dor estava mais forte e parecia voltar de cinco em cinco minutos. Desliguei o telefone dizendo que ligava depois e me sentei mais eretamente na cadeira, aspirando a alfazema com mais força, tentando me acalmar e esquecer que estava doendo tanto. Isso ajudava, esquecer que estava doendo.
Me levantei, andando para mais perto da caixa de essência de alfazemas e inspirei com força. Lembrar de outras coisas. Eu precisava pensar em outras coisas e esquecer que estava doendo. Isso.
Lembrar por exemplo de... Quando chegara no serviço, no dia seguinte a nossa chegada. Deus! O chefe dela estava cospindo fogo pelas ventas por ter perdido de uma hora para a outra a sua melhor redatora, sem nem ao menos alguma explicação. O pedido de demissão de já estava pronto e apenas esperando a assinatura dela, que, ao contrário do que eu esperava, assinou-o com um sorriso no rosto, jogando os cabelos e saindo do prédio do jornal com a expressão mais satisfeita possível, colocando seus óculos escuros e andando para a minha loja.
- Fui demitida. - ela sorrira enquanto se sentava no colo de , que estava na loja, assim como , esperando a chegada de Izzy, para dar notícia de como andava a investigação da ARE, já que os nossos noivos haviam colaborado com várias informações. - E acho que eu não poderia estar mais feliz. Eu vou encarar isso como um sinal das estrelas, dizendo que a minha vida vai mudar e ser muito melhor agora.
Eu sorrira para ela, naquela vez, e fiquei emocionada apenas de vê-la dar uma chance às estrelas que eu sempre mostrara a ela. As estrelas sempre mostravam o caminho. E fora assim para nós duas.
Izzy e Noah chegaram minutos mais tarde de mãos dadas. Pareciam contentes, o que nos deixou um pouco menos tensos, mas não muito. Apenas a ideia de pensar que poderia acontecer alguma coisa a e , depois de tudo o que sofremos para chegarmos até ali, estavam me deixando maluca. E com certeza, à também.
- Bem, temos algumas notícias para vocês.
- Boas. - Noah completara.
- A ARE se interessou bastante pelas informações de vocês.
- Tanto que querem fazer uma proposta para vocês. - o agente completou a fala da namorada mais uma vez.
- A ARE quer que vocês trabalhem para ela, como consultores interplanetários. O que acham? O histórico de vocês será completamente limpo e a NASA ajudará com alguns subsídios e o FBI dará documentos para vocês, para facilitar a sua vida no novo planeta. O que nos dizem?
Eu praticamente abracei Izzy. Nunca saia nada de coerente daquele ser de cabelos quase rosa, mas dessa vez, eu sentia vontade de realmente fazer aquilo. e poderiam ficar na Terra e ainda conseguiram ajuda do FBI e um emprego na ARE. Tinha coisa melhor?
apertou a mão dos agentes, agradecido e correu para os meus braços, me levantando enquanto nos beijavamos contentes. Ele ficaria do meu lado. Era o que eu mais poderia querer. Criaríamos nossos filhos na Terra. Do jeito que eu sempre quisera.
beijava , depois dele ter cumprimentado Izzy e Noah também, que perceberam logo que estavam sobrando na comemoração e deixaram claro que e deveria comparecer à ARE no dia seguinte para assinar os papéis.
As coisas estavam funcionando tão bem, mas tão bem, que eu não poderia querer mais nada.
Depois do anúncio do emprego de nossos noivos, conseguiu um ladinho na ARE também, já que a última assessora de imprensa não havia lidado muito bem com a ideia de realmente existirem extraterrestres bem perto de nós e havia se demitido.
O emprego era maravilhoso e permitia a ficar mais perto de . Que, já me confessara, se pegava com ela em corredores escuros antes de partirem para casa, como dois adolescentes cheios de hormônios.
Deus! Mais uma pontada daquelas e eu poderia pedir para morrer. Olhei no relógio, confirmando que já havia dado cinco minutos desde a última pontada e peguei o celular, tentando ligar para mais uma vez.
- O que foi, ? A Izzy disse que você ligou mais cedo e...
- Estou com dor. - disse da forma mais manhosa que pude e percebi que se levantara de onde quer que ela estivesse sentada.
- Aonde?
- Na barriga. De cinco em cinco minutos e...
- Estou indo para aí.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, já havia desligado o telefone. Credo! Como ela era apavorada! Nem estava doendo tanto assim.
Mentira. Estava doendo muito. E agora as dores iam e vinham em menos de dois minutos. Parecia que estavam tirando bolas de golfe de dentro da minha barriga, aleatoriamente, pelo visto, já que a cada hora, elas pareciam sair de lugares diferentes.
- , eu... - Jane Lynn disse da porta e, ao me ver completamente suada e apoiada em uma prateleira, arfando furiosamente, correu para o meu lado, colocando um cristal, de algo que eu não identifiquei no momento, em meu pescoço.
- Está na hora. - ela sorriu e eu voltei a me sentar, com o corpo todo dormente e, ao mesmo tempo, dando agulhadas aterrorizadoras. Tinha que doer tanto assim? Era pra ser um momento lindo, feliz, e não para eu estar quase morrendo.
- Me arruma. - eu pedi à Jane Lynn - Quero chegar linda ao hospital. Liga para a , ela deve estar a caminho e pede para ela levar a máquina fotográfica, vou querer um monte de fotos deste momento e...
Outra contração estragou todo o meu discurso, me fazendo agarrar nos encostos da cadeira, com força, tentando desesperadamente não gemer. Eu seria forte. Faria a Diva e não gritaria por um instante sequer. Aquelas escandalosas dos filmes eram tão clichês. Eu não seria como elas.
- Você não deveria estar arrumando o meu cabelo, Jane?
A menina correu para colocar uma fita de cetim no meu cabelo, me deixando adoravelmente arrumada, e colocando um pouco de pó em minha cara, para evitar que eu parecesse tão pálida.
- Você ligou pro pai da criança? - ela perguntou.
- Esqueci. - ri. - Deveria ter ligado para ele primeiro, não é? - tentei alcançar o telefone, mas a porta da sala se abriu de uma vez, revelando , e . - Er... Oi.
A expressão de era completamente ameaçadora. Havíamos combinado de que assim que eu sentisse as contrações, deveria ligar para ele e correr para um hospital. Mas eu estava com muitas dores, não poderia me lembrar de detalhes triviais assim.
Ele parou ao meu lado, colocando o braço sobre o meu ombro e me ajudando a ficar de pé, enquanto Jane Lynn terminava de passar maquiagem em mim.
- Pronto. Vamos agora.
e iam atrás, completamente nervosos, enquanto Jane Lynn assegurava que cuidaria da loja. Era só o que me faltava, ela querer ir também!
me colocou no banco de trás e se sentou, colocando a minha cabeça em seu colo, do modo mais confortável possível. Uma de suas mãos foi para a minha barriga, tocando o local com carinho, como se tentasse convencer Melody de que estava tudo bem. Não faltava muito tempo.
tentava desesperadamente parecer calma e controlada, mas estava trêmula e olhava para o banco de trás a todo instante para ter certeza de que eu estava bem. se sentou ao lado dela, apertando a sua mão em cima do câmbio, enquanto ela desafiava o tráfego de Nova York, nos levando para o Lutheran Medical Center, o hospital mais próximo naquela região que aceitava o meu seguro de saúde.
- Está doendo, ? Está doendo? - ela perguntava pela sexta vez e eu ria, mesmo sentindo as contrações cada vez mais arrasadoras. - Você não deveria estar vazando água? Digo, sua bolsa não deveria estar estourada e...
- Estou com a bolsa dela, . Tudo sob controle. - disse balançando a minha pequena bolsa, enquanto eu ria ainda mais alto, tentando desesperadamente fazer a dor parar de me nocautear daquela forma. apenas revirou os olhos para , que tentava desesperadamente ajudar, mantendo a noiva calma, o que não estava saindo muito de acordo com o planejado.
Parecia que estava fazendo drift pelas ruas do Brooklyn sem se importar com os hidrantes que estavam cada vez mais perto. Ela estava tentando nos matar?
segurava a minha mão com carinho, e a sua outra ainda estava sobre a barriga, enquanto ele sussurrava coisas bonitas para Melody, que se acalmava consideravelmente. Quando conseguia acalmar nossa bebê, as dores diminuiam significamente e eu agradecia muito por isso.
Eu já sabia que eu passaria dores incríveis. Eu havia assistido filmes o suficiente para saber dessa parte. Ainda me lembro daquele episódio de Friends no qual a Rachel tem o bebê... Deus! Eu não seria uma mãe tão histérica. E era justamente por isso que eu estava bem maquiada, bem penteada e tentando desesperadamente não me render a dor.
Eu sempre fora um pouco mais forte nesse sentido do que . Qualquer simples dor de cabeça e ela já estava de cama, com compressas e pilhas de comprimidos. Eu não. Eu era capaz de aguentar dores incríveis, como no colegial, quando jogávamos vôlei e eu caíra de mal jeito, quebrando o braço. Ninguém havia percebido e nem estava doendo tanto, continuaramos jogando até perceber como o meu braço inchava e me levar para a enfermaria, enquanto eu ria de seu exagero e jurava que não estava doendo. Fora o meu primeiro gesso e todos os caras mais gatos da escola o haviam assinado.
- Eu estou feliz que esteja ao meu lado, . - sorri para o meu noivo, que segurou a minha mão com firmeza. Ele estava claramente mais nervoso do que eu. Será que só eu estava calma dentro daquele carro? Credo! Era só um filho, não era como se uma sociedade alienígena avançada estivesse invadindo o planeta.
- Vai dar tudo certo. Eu não vou sair de seu lado nem por um só instante e... Tem como você dirigir mais rápido, ?
Eu ri alto e assisti pisar ainda mais fundo no acelerador. Aquilo nos daria uma bela de uma multa. E de repente, fez uma curva quase assassina e estacionou o carro perfeitamente na vaga mais perto da porta da emergência do Lutheran Medical Center e abriu as portas do carro automaticamente, pegando a minha bolsa e instruindo e para que eles me segurassem e me guiassem até o balcão da enfermaria.
Eu sorria para todos, cumprimentando a qualquer um que passava, enquanto as pessoas me olhavam como se eu estivesse louca. Eu deveria estar gritando e implorando a Deus para que parasse com aquela dor, mas essa era a minha diferença para as outras pessoas, eu gostava de ser diferente, fazer o que as pessoas não esperavam. E quer coisa mais diferente do que escolher para ser o seu companheiro para a vida inteira um alien que caíra no seu planeta?
já estava gritando com a enfermeira quando chegamos ao balcão dela e e me seguravam com as mãos em minhas costas e os braços sobre meu ombro como se eu precisasse de ajuda para andar. Ok, talvez eu precisasse de um pouquinho. Sem dizendo palavras bonitas para Melody para que ela se acalmasse, as dores voltaram e eu não conseguia mais nem ao menos raciocinar. Apoiei a cabeça no ombro de que sussurrou que tudo ficaria bem.
Meu sorriso era fraco, mas estava estampado em meu rosto, quando parei para pensar no quanto eu era sortuda por ter encontrado o meu verdadeiro amor. Minha mãe poderia ter dito coisas horríveis de como almas gêmeas não existiam, mas hoje eu provava de todas as maneiras possiveis que ela estava errada. estava ao meu lado, e já dera inúmeras provas de que estaria sempre ali. Ele era o pai de minha filha, em breve seria o meu marido e era ainda mais do que isso. era meu amigo nas horas em que eu estava precisando de um colo para chorar o filme romântico que eu estava assistindo, era meu companheiro na tarefa de observar as estrelas de madrugada. era muito mais do que eu merecia, e agradecia a Deus diariamente por tê-lo encontrado.
- Vou chamar a doutora Honor. - a enfermeira bradou depois de discutir com que parecia prestes a bater na mulher com a bolsa que ela segurava com força. Em poucos segundos, a doutora apareceu e mandou que os garotos nos levassem para dentro de seu consultório, onde a mulher ergueu o meu vestido, enquanto e ficavam do outro lado do biombo, verificando a minha dilatação.
não soltava a minha mão nem sequer por um instante e eu sabia que com ele assim, eu enfrentaria aquilo muito melhor.
Fechei os olhos ao sentir a médica me tocando na intimidade e na barriga ao mesmo tempo e apertei a mão de com mais força. Podia divisar as sombras de e , abraçados do lado de fora do biombo e me assustei com a voz da médica:
- Como você não está gritando e se contorcendo? Você está com quatro centímetros de dilatação e sua barriga já está baixa o suficiente para fazer o parto. Está na hora, .
Eu sorri confiante para a médica enquanto me segurava com mais força. Era a hora. Nossa filha iria nascer.
- A sua bolsa já deveria ter sido estourada e você sorrindo, sua louca! - ela riu enquanto tirava as luvas. - Te vejo no centro cirúrgico, .
A médica saiu da sala apressada, convocando anestesistas, enfermeiras, clínicos gerais e quem mais estivesse disponível no Lutheran. Depois de me ajeitar, abriu o biombo e vimos e abraçados sorrindo contentes. Eles também sabiam que já estava na hora.
Em poucos segundos, várias enfermeiras entraram na sala e me levaram para colocar aquela horrivel camisola de hospital e fazer todos os procedimentos clínicos antes de ser anestesiada. Eu estava com mais dor ainda naquele momento. As enfermeiras tiveram de se unir para deixar do lado de fora daquela sala. e estavam tão nervosos que não saiam do lado da máquina de café por um só segundo. Uma das simpáticas enfermeiras me fez sentar em uma cadeira de rodas, tampando, graças a Deus, a parte de trás do meu corpo, que estava à mostra, me desejando boa sorte.
Assim que a cadeira de rodas entrou no corredor, eu comecei a mandar tchauzinhos para as pessoas, como se nem estivesse quase morrendo de dor. já andou para o meu lado segurando a minha mão, mas a doutora Honor o parou.
- Se quer ver o parto, vá se esterelizar e colocar as roupas apropriadas.
- Mas a ...
- Vai esperar aqui. A dilatação é grande, mas a bolsa dela ainda não estorou.
lançou um olhar para mim, que estava parada no meio do corredor, completamente feliz com a ideia de andar de cadeira de rodas, apesar de querer que mais alguém estivesse comigo, seria lindo apostar uma corrida de cadeira de rodas.
- Vou esperar, relaxa, .
Ele assentiu de leve e acompanhou uma das enfermeiras para a sala da qual eu havia acabado de sair. Foi quando tudo começou. As pontadas passaram a ser mais intensas e eu senti uma enorme vontade de ir ao banheiro e fiquei enormemente surpresa ao ver uma água suja sair de entre minhas pernas. Mas, que merda, eu estava segurando a vontade de ir ao banheiro! A agua não parava de escorrer e minha barriga parecia estar cada vez mais baixa. Era a hora. Realmente.
- Er... Doutora Honor? - eu sussurrei tentando falar através da neblina de dor que estava me dopando e vi o rosto dela virar para mim com um sorriso contente.
Ela estava feliz, bom pra ela. Eu estava morrendo de dor, ela pelo menos deveria se compadecer da minha dor, não é?
- Você até poderia esperar, mas acho que nossa pequena Melody não. - e de repente ela começou a gritar ordens e eu mal as pude ouvir, tanto pela dor, como por já estar entrando por portas que eu nunca tinha visto, entrando em uma sala branca e fria, onde uma mulher que parecia ser enfermeira sorriu, como se tentasse me passar confiança.
Se ela soubesse o quanto estava doendo, ela não ficaria de sorrisinho para o meu lado.
- Bem, é hora de tomar a Rack. Não fica com medo, não vai doer muito.
- Não tem como doer mais do que já está doendo, eu garanto. - fui irônica e a mulher apenas alargou o seu sorriso. Eu estava morrendo, ninguém estava vendo isso.
Logo me colocaram numa maca que eu nem ao menos havia notado que estava ali e me moveram a para a sala ao lado, onde já estava tudo preparado para o meu parto.
Eu só torcia para que fosse rápido. Antes eu torcia para que fosse indolor, mas pelo tanto que estava machucando, indolor era a última coisa que aquilo seria.
Haviam vários médicos com aquelas estéreis roupas verde todos preparados para me ajudar a trazer ao mundo a pessoa mais importante da minha vida. Assim que dois enfermeiros relativamente fortes me passaram da maca para a mesa operatória. Eu rangia os dentes tentando desesperadamente não gritar.
O suor que escorria do meu rosto já havia arruinado a minha maquiagem e em algum ponto dessa loucura onde as enfermeiras me moviam de um lado para o outro, eu havia perdido a minha linda fitinha de cabelo.
Mas quando olhou em meus olhos, isso se tornou segundo plano. Aos olhos dele eu sempre parecia linda, e dessa vez, as suas lindas profundezas cor de chocolate mostravam tantas coisas ao mesmo tempo que ao invés de ele segurar a minha mão, eu quem puxou a dele. Daria tudo certo. Eu tinha certeza.
- Vamos lá, , empurre com toda a força, estamos quase lá.
A médica gritava enquanto eu olhava para frente, com determinação, segurando a mão de com toda a força de que eu era capaz e empurrando Melody com mais força ainda. Meus olhos focalizaram e , com roupas esterelizadas, do outro lado do vidro, torcendo por mim, e sorrindo. Dizendo, sem mover os lábios, que estavam comigo.
sempre estava nos momentos mais importantes da minha vida. E não era diferente dessa vez. Agora ela era especial na vida de Melody também. Assistia, através do vidro grosso, o nascimento de sua afilhada e acompanhava a minha dor.
Virei o rosto suado para que passou a mão em meus cabelos, mal tampados pela touca que alguém tinha enfiado em minha cabeça e sussurrou que me amava. Eu tinha de ser forte. Empurrar mais forte. Mas, Deus, doía tanto. Não seria capaz de conseguir. Mas eu tinha que conseguir.
Respirei fundo e sorri para ele. Era agora.
Fiz mais força ainda e a médica gritou, me estimulando.
- Mais, . Vamos!
E então eu empurrei com tudo o que eu podia, apertando e gritando mais alto do que eu já gritara em toda a minha vida. A sala ficou em silêncio, enquanto eu parecia voltar a cair na mesa cirúrgica em câmera lenta. Se eu tivesse de fazer mais força, eles poderiam me esquecer. Eu não tinha mais energia.
O choro.
Foi a primeira coisa que eu ouvi quando a minha cabeça alcançou o travesseiro e meus olhos se fecharam, respirando fundo e tentando achar o ar que faltava em meus pulmões desesperadamente.
Minha filha estava chorando. Minha filha havia nascido.
Uma lágrima escorreu de meu rosto sem que eu ao menos percebesse e tirou a máscara do rosto, esquecendo-se que não deveria fazer aquilo, erguendo os braços e os esticando na direção da enfermeira, que segurava um pequeno bebê completamente ensanguentado.
Com um aceno de cabeça, a médica permitiu que a mulher colocasse Melody nos braços de , que derramou duas lágrimas completamente emocionadas enquanto seus olhos não saíam do rosto da filha.
- Ela tem o seu nariz. - ele riu no choro. - E os seus lábios. - sorria largamente. Estendi os braços pedindo para que ele a colocasse ali, o que fez com todo o cuidado do mundo, ante os olhares atentos de toda a equipe médica envolvida no meu parto. Eu só tinha olhos para uma coisa agora.
E ela estava repousando no meu colo, segurando com as suas pequenas mãozinhas o dedo que eu colocara perto de seu pequeno nariz muito parecido com o meu. Naquele momento, eu senti que tudo estava onde sempre deveria estar.
As estrelas me trouxeram o que eu sempre quisera. E agora, ali, naquela sala de hospital eu poderia ver todos os meus sonhos realizados. Eu sempre quisera ter a minha própria familia, um marido que sempre estivesse ali por mim, como eu sabia que sempre estaria, e filhos, vários filhos. E o começo desse vários estava no meu colo naquele momento.
Uma lágrima teimosa escorreu dos meus olhos e a capturou, abraçando-me pelos ombros, me fazendo aumentar ainda mais o senso de família que estava sentindo. Ergui os olhos, procurando pelo resto de minha familia, a irmã que eu sempre tivera comigo, mesmo sem ser de sangue, mas de alma e de estrelas que era muito mais forte e profundo que isso, vendo , pelo vidro, com as duas mãos espalmadas contra o mesmo, e respirando profundamente, deixando mais do que claro que estava chorando, enquanto olhava para mim, e a pequena Melody.
- Precisamos levá-la para se limpar e tomar o banho de luz. - uma enfermeira que parecia carinhosa e confiável pediu para que eu lhe entregasse Melody, e eu, pouco me importando com o fato de ela estar completamente suja, beijei sua testa, enquanto sentia fazendo o mesmo em mim. - Agora você precisa descansar um pouco.
Eu procurei ignorar a enfermeira, mas parecia que apenas a sugestão dela me lembrara do quanto eu estava cansada, enquanto ela levava Melody porta afora.
- , eu...
- Eu te amo, mra y. - senti os seus lábios em minha testa suada e grudada de cabelos mais uma vez, e isso fez com que eu fechasse os olhos. Deus! Eu estava tão cansada, mas ao mesmo tempo tão feliz que eu não sabia como era possível tanta felicidade caber em mim. - Descanse. Eu estarei aqui quando você acordar. Eu e Melody.
Tentei abrir os olhos novamente, mas estavam tão pesados, eu estava tão cansada e... Tão feliz. Sorri para , sem abrir os olhos e senti dessa vez os seus lábios nos meus.
- Eu amo vocês. - foi a última coisa que eu disse antes de adormecer, contente, sabendo que quando eu acordasse, minha família estaria comigo.
Minha Família.
E apenas de pensar nesse termo, os meus sonhos foram mais lindos. Tão lindo quanto as estrelas, as quais eu nunca deixaria de agradecer por me fazer tão feliz.
Continua...
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