Quarto
The moment to fight, to fight, to fight, to fight
’s Pov
Nos meus dias de folga do trabalho eu gostava de praticar uma coisa que lembrava o meu pai. Era algo um tanto quanto antiquado, diferente ou até mesmo estranho, mas era um hábito, um hobby que tínhamos e uma das poucas coisas que fazíamos juntos. Para minha sorte, na faculdade tinha uma equipe, assim eu podia praticar e, modéstia a parte, eu era o melhor deles. Eu praticava esgrima. Nada comum, não é mesmo? Esse esporte sempre foi algo mais elitizado e graças à formação militar do meu pai, isso se tornou parte da minha vida. Quando eu vestia a roupa e pegava o sabre, eu me sentia mais próximo dele. Isso me alegrava.
Segui rapidamente pelos corredores da faculdade, eu estava atrasado mais uma vez. Será que eu chego no horário em algum momento da minha vida? Dizem que os ingleses pregam pela pontualidade, mas eu acho que não herdei isso do meu pai. Abri a porta lentamente, para não fazer nenhum barulho, pois o treino já havia começado e o treinador, senhor Kane, não gostava de interrupções. Segui para o banheiro, me troquei e logo estava pronto para as lutas.
Ao chegar perto dos demais, percebi que havia uma pessoa diferente no treino. Sua postura mais rígida me lembrava os antigos lutadores, talvez fosse algum amigo do treinador que veio nos auxiliar, afinal, um após o outro duelava com ele.
- Esse cara não perde uma. – um rapaz que estava próximo murmurou.
- Ele está aqui há muito tempo? – perguntei.
- Desde a hora que o treino começou e eu fui o primeiro a chegar. – ele respondeu. – E aparentemente ele lutará com todo mundo e ninguém ganhou dele até agora. O estranho é que ele luta com florete e ganha de pessoas que lutam com o sabre, ele não se dá ao trabalho de mudar a arma.
- Talvez eu possa mudar isso. – eu disse, sendo um pouco arrogante. O rapaz ao meu lado me olhou, quase me 'medindo' e depois deu de ombros, como se isso não importasse a ele. Alguns minutos se passaram e o 'lutador misterioso' continuava sem perder um embate. Pelas minhas contas, já eram seis vitórias consecutivas e sem contar as que eu perdi. Já estava ansioso pela minha vez, queria testar as reais habilidades dele.
- ? – o treinador disse alto. – Está pronto?
- Sempre estou. – respondi, aproximando-me da pista. Observei o tal lutador de perto pela primeira vez. Ele era meio baixinho e bem magro, talvez isso o deixasse mais veloz e flexível. Seria a única resposta para ele vencer todos os adversários com tanta facilidade, como vinha acontecendo.
- Seu adversário é um convidado especial. Não o trate como inferior, jamais meça seu adversário usando um nível inferior como base. Às vezes você pode se enganar. – meu treinador me advertiu, mas eu não liguei muito para o que ele falava. Minha atenção estava no meu adversário, a pessoa que nem se deu ao trabalho de tirar a máscara para me cumprimentar. Ele estava começando a me irritar.
- Três toques dão a vitória. – o treinador disse. – Preparem-se.
- Eu costumo usar o sabre, você tem certeza que vai lutar com um florete? – ele se limitou a balançar a cabeça afirmando. – Tudo bem, se você prefere assim. – abaixei o capacete e me lancei ao ataque. Ele se esquivou facilmente, acertando a lateral do meu corpo num golpe rápido e certeiro.
- Toque. – o treinador exclamou. Bufei, irritado. Não deixaria ele me vencer.
Voltei à posição inicial, observando atentamente meu adversário, ele deveria ter um ponto fraco. Atacarei pela lateral, assim como ele fez. Nada de partir para o ataque óbvio, pensei. Ele continuava em sua posição quase superior, nada o atrapalhava. Lancei-me novamente ao ataque, porém fugindo do esperado. Como se ele lesse minha mente, esquivou-se perfeitamente e, com a ponta de seu florete, tirou meu sabre do caminho. Não sei se foi impressão minha ou eu realmente vi um leve sorriso em seu rosto por trás do capacete. Com a minha atenção dispersa, ele tocou a ponta de sua arma em meu tronco.
- Toque. – o treinador disse novamente. Ouvi alguns murmúrios dos outros lutadores. E fiquei mais irritado ainda. Assim que voltamos à posição inicial mais uma vez, não dei tempo para que ele se preparasse, atirei-me ao ataque e o surpreendi, afundando meu sabre na altura do peito. Ele tombou a cabeça para o lado, me observando e então balançou a cabeça, como que afirmasse alguma coisa. – Toque. – repetiu o senhor Kane.
Ao voltar para minha posição, parecia que a luta tinha mudado de perspectiva. Meu adversário se lançou ao ataque, sem me dar tempo para pensar. Apenas levantei minha arma e me preparei para o golpe. Não sei de que forma ele fez, mas com alguns movimentos dele, em meio à minha tentativa de defesa, deixei que ele derrubasse minha arma, deixando-me vulnerável. Sem que houvesse como reagir, ele pressionou a ponta de seu florete firmemente contra meu corpo.
- Isso é para você parar de medir seus oponentes antes do combate. – uma voz feminina invadiu o ambiente, que ficou completamente silencioso. Meu adversário retirou a máscara e deixou seus longos cabelos caírem pelas suas costas. Ela os sacudiu e passou os dedos por entre os fios, tentando ajeitá-los. Na minha opinião, eles estavam perfeitos, assim como tudo nela. E então eu me lembrei do seu rosto, era a mesma menina que eu vi outro dia aqui na faculdade, a mesma que parecia estar perdida. Ela era ainda mais linda de perto e com certeza não era daqui. Ela tinha algo diferente, algo que a tornava especial perante às demais. Talvez fosse a postura quase superior que ela ostentava ou poderia ser apenas o fato de ser realmente boa na esgrima. Mas seja lá o que for, aquela garota tinha uma aura típica de pessoas nobres. Não lembro se ela disse mais alguma coisa, pois eu estava completamente paralisado diante da situação. Não foi porque eu perdi para uma garota, muito bonita, por sinal, e sim pela forma como eu perdi. Ela tinha uma técnica perfeita de combate, mesclando graciosidade, força e agilidade. Eu estava encantado. – Você tá me ouvindo? – ela disse mais alto, trazendo-me de volta à Terra.
- O quê? – limitei-me a dizer, parecendo um completo idiota. Ela deu um pequeno sorriso, parecido com aquele que eu pensei ter visto antes.
- Eu disse que você não pode menosprezar o adversário apenas pelo tamanho dele. Não digo nada pela arma, porque nas competições elas são iguais. – ela deu de ombros. – Mas eu vi muito bem a sua expressão ao ver o meu tamanho, meu porte atlético e isso pode ser surpreende, da mesma maneira que foi agora. Ou você tinha alguma idéia que estava lutando com uma garota? – ela enfatizou as duas últimas palavras.
- Eu acho que você não deveria colocar pensamentos em minha cabeça. – eu retruquei, conseguindo pensar direito pela primeira vez desde que ela tirou a máscara.
- Então você não me mediu ou pensou que seria fácil demais me vencer?
- Eu realmente te medi, mas eu não achei que seria fácil, não depois de ver a forma como você lutava. Não é qualquer um que vence tão facilmente lutando apenas de florete. – ela pareceu acreditar, mas não se deixava intimidar.
- Tudo bem, eu acredito em você, mas acho que vou embora. Afinal, meu trabalho está cumprido. – ela retirou as luvas e passou pelo meio dos outros rapazes, que assistiam a tudo aquilo calados, pegou a bolsa e saiu.
- Como assim seu trabalho está cumprido? – indaguei, seguindo-a.
- Pergunte ao seu treinador, é ele quem lhe deve respostas, não eu.
- Espere! – eu disse, mas ela continuou andando, ignorando-me completamente. Não desistiria assim tão fácil. Continuei atrás dela, ignorando o fato de que eu ainda estava com todo o uniforme, exceto a máscara. Ela se livrou da jaqueta no meio de caminho e seguia seu caminho sem olhar para trás, mesmo sabendo que eu a seguia.
- OK. Se você for um maníaco ou qualquer coisa do tipo, é melhor se preparar... – ela disse, virando-se e me encarando.
- Não sou nada disso, você que decidiu me ignorar e eu não gosto de deixar coisas por falar.
- Tudo bem, que coisas que você quer falar? – ela perguntou, cruzando os braços. É, ela me pegou. Eu não sabia o que eu queria falar, não sabia se eu tinha ao menos uma coisa para falar. Eu abri a boca sem emitir som e repeti esse ato algumas vezes. Ela rolou os olhos e começou a bater o pé, como se estivesse contando o tempo. Alguns segundos depois ela pareceu se cansar e virou-se para ir embora mais uma vez.
- Não, não vá embora. – eu pedi.
- Eu não tenho todo o tempo do mundo, não posso ficar aqui admirando a sua beleza e vendo você abrir e fechar a boca...
- Então você me acha bonito? – perguntei com um sorriso e ela rolou os olhos mais uma vez.
- Chega. – ela disse, virando-se de novo.
- Tudo bem. – eu disse por fim. – Já sei o que quero saber.
- Até que enfim, ouço sinos e coros de aleluia.
- Você sabe que não me intimida agindo assim, não é?
- E quem disse que a minha atenção é te intimidar? Eu quero mesmo é me livrar de você, me trocar e ir para a minha aula. – ela pegou o celular na bolsa, olhando as horas. – Você tem mais dois minutos para me perturbar. Eu juro que ignoro toda a educação que recebi e te deixo aqui falando sozinho, se você não dizer logo o que quer. – ela disse, aparentemente usando toda a paciência que lhe restava. Eu quero você. parecia a coisa certa a dizer, pelo menos na minha cabeça, mas eu sabia que isso não seria bem recebido. Meu Deus, eu vi essa garota duas vezes e ela já está me deixando assim?
- Quero um nome, um curso e um lugar onde eu possa te achar. – eu disse por fim. Ela riu, balançando a cabeça lentamente.
- Você tem três questionamentos e eu tenho apenas tempo para lhe oferecer uma coisa.
- O quê? – perguntei, curioso.
- O benefício da dúvida. – ela disse com um sorriso, e em seguida continuou seu caminho. Dessa vez eu não a segui, continuei olhando encantado para aquela garota.
- Ah, vamos lá. – eu gritei, chamando a atenção de todos ao redor – Só um nome. - ela sorriu, virando-se para mim.
- Agora você quer me envergonhar? Não basta apenas me atrasar? – ela gritou de volta.
- Apenas um nome.
- . – ela disse, sendo vencida pelo cansaço. Sorri sozinho e continuei a acompanhá-la apenas com o olhar. Senti alguém parado ao meu lado, assistindo à cena.
- Quem é ela? – perguntou rindo.
- A futura mãe dos meus filhos, meu caro amigo. – eu disse, dando leves tapas em seu ombro.
/’s Pov
Quinto
Let's play a love game, play a love game
Corri pelos corredores, apressada. Aquele menino tinha me atrasado de verdade. Eu esbarrava em algumas pessoas e dizia um ‘desculpe’ alto o bastante para que ouvissem. Troquei de roupa o mais rápido que consegui, espremendo-me num quadrado micro que aqui eles chamam de banheiro. Depois de derrubar minha bolsa milhões de vezes e quase cair sentada mais duas mil, consegui finalmente me aprontar e sair mais uma vez apressada pelos corredores. Tentei prender o cabelo de qualquer jeito enquanto subia as escadas do prédio onde teria aula. Confesso que ficou horrível, mas era o melhor que eu podia fazer. Cheguei à porta da sala e olhei no relógio: estava quinze minutos atrasada. Fiquei pensando se entrava ou não, pois se entrasse, atrapalharia a aula que já tinha começado e isso não é visto com bons olhos por aqui. Desistindo de entrar, dei meia volta não olhando antes e esbarrei em alguém, que me segurou antes que eu caísse.
- Opa! Cuidado. – sua voz grossa me sobressaltou.
- Desculpe. – eu disse, tentando me ajeitar, porque tudo parecia querer cair ao mesmo tempo.
- Por nada. – ele respondeu, olhando no relógio e em seguida para dentro da sala.
- Você também faz essa aula? – perguntei, meio indiscreta.
- Faço, ou pelo menos tento. Essa professora não admite nenhum minuto de atraso, ela leva a pontualidade britânica muito a sério. – fiz uma careta, entendendo seu recado: Nunca mais me atrasar para essa aula.
- Ah, desculpe minha falta de delicadeza. Eu me chamo . – disse, estendendo a mão para o rapaz.
- Jared. – ele disse, com um sorriso. – Você não é daqui, é?
- Não, sou da Dinamarca.
- Seu sotaque te entregou. – ele confessou, mexendo na alça de sua bolsa, meio sem jeito. Ele era relativamente bonito. Talvez não ligasse muito para se arrumar, deixava uma barba rala e o cabelo despenteado de propósito. Isso lhe dava certo charme e um ar meio misterioso. Seus olhos verdes me fitavam com curiosidade, como se quisesse saber tudo sobre mim e fosse conseguir suas respostas apenas olhando em meus olhos.
- Bem, eu acho que vou embora. Nos vemos nas próximas aulas. – eu disse, com um pequeno sorriso simpático, ou diplomático, como diria meu pai.
- Isso se você não se atrasar de novo. – ele respondeu, retribuindo o sorriso.
- Digo o mesmo.
Dei as costas para o primeiro garoto que conheci na faculdade, pelo menos ele foi simpático. Nesse momento lembrei-me do rapaz do treino de esgrima. Ele era mil vezes mais bonito que o Jared e mil vezes mais abusado também, mas, de certa forma, ele conseguiu chamar a minha atenção de um jeito estranho. Talvez fosse pela sua aproximação nada convencional ou pela perseguição. Só sei que por culpa dele eu perdi uma aula importante e nada que ele pudesse fazer me faria recuperar. Talvez eu devesse procurá-lo e perturbá-lo até que ele também perdesse uma aula. Olho por olho e dente por dente, não é esse o lema? Balancei a cabeça lentamente, eu tenho cada pensamento infantil às vezes. Será que eu seria assim quando fosse rainha? Outro chefe de estado faria algo que não me agradasse e eu o pagaria na mesma moeda? Isso não está nada certo...
Senti meu corpo esbarrar em algo e depois ouvi o barulho de coisas caindo no chão. Abaixei e comecei a recolher vários livros que ficaram espalhados pelo corredor por minha causa. Ao pegar, olhei os títulos e eram todos sobre psicologia ou assuntos relacionados. Levantei, vendo a pessoas que eu tinha acertado.
- Mil desculpas. – eu disse, devolvendo os livros. – Eu estava no mundo da lua.
- Não se incomode, eu também estava. Bem que o meu namorado diz que eu não devo ler enquanto ando. Eu sempre soube que causaria um acidente, pelo menos não foi muito desastroso. – ela sorriu, com vontade, por sinal. – Me chamo . – disse, estendendo uma das mãos como conseguia.
- – respondi. – Eu te atrapalhei de alguma forma ou te atrasei? Porque eu estou esbarrando em muitas pessoas num único dia.
- Espero que você tenha esbarrado em alguém mais interessante que eu antes, se é você me entende. – ela disse, de forma engraçada. Acho que a minha expressão não foi das melhores, porque ela desfez seu sorriso e me olhou séria. – Eu disse algo errado?
- Não, é que você é diferente das outras pessoas que conheci aqui na Inglaterra.
- É, você parece mesmo não ser daqui e esse pessoal é muito anti-social, não ligue pra eles. – ela disse, fazendo careta e apontando para algumas pessoas que estavam ali por perto.
- Você também não é daqui? – perguntei.
- Eu sou nascida e criada aqui, mas a minha avó é italiana e ela é, como se diz, bem expansiva, animada...
- É, eu sei. Lembro de quando fui até a Itália pela primeira vez. Os homens me assustaram. – confessei, falando a última frase mais baixo.
- Algum deles passou a mão em você?
- Não! – eu respondi, alarmada. – Eles fazem isso?
- O tempo todo. Você não pode ficar desatenta, porque se você bobear... – ela não completou a frase, mas riu bastante, deixando claro o que acontecia. Ela manteve o sorriso no rosto, olhando-me de forma calorosa, como se me conhecesse de muito tempo e não há cinco minutos. – Então você não é daqui, não é? Você perguntou se eu também não era...
- Eu sou da Dinamarca, eu estou aqui pra estudar.
- Dinamarca? Não conheço... É frio lá? – ela perguntou, de forma quase infantil.
- Bem, eu já estou acostumada, então não sei se é tão frio. Mas não é nada insuportável como alguns lugares da Noruega ou da Finlândia. – os olhos dela quase brilhavam, enquanto eu falava dos países.
- Eu nunca fui pra nenhum desses países da parte de cima da Europa. Eu praticamente só conheço a Itália e a França.
- Quem sabe um dia você não me faz uma visita quando eu voltar pra casa? Você podia ir na primavera, o castelo fica lindo. – eu disse, não prestando muita atenção no que tinha dito.
- O castelo? – ela perguntou, curiosa. Percebi a besteira que tinha feito. Tinha prometido a minha mesma que não deixaria ninguém ficar sabendo quem eu realmente era e na minha primeira conversa mais longa, eu já deixo escapar.
- É, a família real deixa os jardins do castelo abertos para visitação. – eu disse, torcendo para que ela acreditasse. Na verdade eu não menti, pois isso realmente é verdade.
- E é bonito? – ela perguntou, animando-se mais uma vez.
- É lindo. – confessei, sendo aplacada por uma saudade imensa de casa. Ela sorriu, olhando para o relógio, e então franziu o cenho. – Você tem que ir embora?
- Tenho. – ela fez uma careta. – Mas eu queria muito continuar aqui conversando mais com você. Se bem que... Tem algo pra fazer até a hora do almoço?
- Eu teria aula, mas acabei perdendo. Então não, estou completamente livre.
- Quer me acompanhar no almoço? – ela ofereceu. – Isso se você não se importar de passar algum tempo com o chato do meu namorado...
- Acho que não me importo, a namorada dele já é legal o bastante. – respondi sinceramente. Eu realmente tinha gostado dela, o seu jeito sincero, animado, divertido e até mesmo meio infantil era contagiante. Eu precisava de alguém assim perto de mim.
- É um lugar perto daqui, um dos meus amigos trabalha lá, é bem legal. – ela disse enquanto andávamos em direção à saída. – E o melhor: fica lotado de gatinhos.
- Mas você não tem namorado?
- Tenho, mas olhar não tira pedaço. – ela riu e eu acompanhei.
Depois de andarmos um pouco, chegamos num pequeno bar. Ao entrarmos, deparei-me com um ambiente meio singular. Ele era a mistura de um bar convencional e um pequeno restaurante. O bar era como aqueles que nós vemos nos filmes e tal: o ambiente meio escuro, bancos cercando uma bancada, várias bebidas nas prateleiras das paredes do fundo, nas laterais alguns anúncios e slogans de cervejas, daqueles que ficam brilhando com luz neon, no fundo uma grande mesa de bilhar ganhava destaque com o grande refletor que pendia do teto. Já o restaurante tinha um toque mais feminino, era claro, bem iluminado, acolhedor. Era como se não pertencesse a aquele lugar, como se duas pessoas com gostos completamente diferentes fossem forçadas a conviver e trabalhar juntas, cada uma querendo deixar leves marcas sobre seus gostos pessoais. Talvez fosse a diferença tão gritante que deixasse aquele lugar completamente irresistível. Era misterioso e aconchegante ao mesmo tempo.
- Esse lugar é incrível. Completamente diferente. – eu disse, enquanto tirava meu casaco e adentrava o local.
- Eu também adoro. Antes era só um bar, mas a esposa do dono resolveu que serviriam comida também, então eles fizeram um ajuste. De noite isso aqui fica completamente diferente, você precisa ver.
- Preciso mesmo. – confessei.
- Olá, Paul. – ela disse acenando levemente para o senhor que estava atrás da bancada, servindo algumas pessoas. – Ele é dono e ela – apontou para uma moça, que entrava no salão com uma bandeja lotada de pratos. Imaginei como ela conseguia equilibrar tudo aquilo. – É a esposa dele, Carlie.
Sentamo-nos e eu passei a folhear o cardápio. O aroma que vinha da cozinha era altamente convidativo, como o cheiro de comida caseira recém preparada. Depois de poucos minutos, a moça, que disse se chamar Carlie, se aproximou.
- Boa tarde, e...? – ela disse.
- . – respondi, estendendo a mão para cumprimentá-la.
- Já escolheram? – ela perguntou, dando-nos um grande sorriso depois.
- Ainda não, estamos esperando o . – disse.
- Ah, tudo bem. Ele deve chegar daqui a pouco junto com o . Eu peço pra ele atender vocês, então.
- Obrigada. – dissemos juntas, rindo em seguida.
- Você faz o que na faculdade? – perguntou, talvez tentando ocupar o silêncio que se formara antes.
- Mestrado em economia internacional e negócios. – disse, recebendo um olhar estranho em resposta. – O que foi? Não pareço tão inteligente pra fazer isso? – eu ri.
- Não, é que não faz muito seu tipo. Quer dizer, quem olha pra você pensa que faz algo relacionado a humanas ou moda. – ela deu de ombros.
- É pra dar prosseguimento aos negócios da família. – confessei, em partes na realidade.
- Ah! Odeio isso. É como se tirasse o livre arbítrio da pessoa, não é natural. – ela exclamou. Vi que esse assunto a incomodava de certa forma.
- Tentaram te forçar a fazer alguma coisa?
- Deu pra perceber? – ela perguntou, dando uma risada.
- Só pela forma que você falou. – ri junto.
- É coisa do meu pai. Ele sempre esperou que eu fosse boa em matemática e essas coisas, mas eu sempre preferi ficar analisando as pessoas, sabe? Sempre tive isso de conversar, tentar ajudar. Acho que sempre fui a psicóloga das minhas amigas e sempre gostei disso. Não tinha porque eu me enfiar dentro de uma sala por horas e horas para fazer a contabilidade de uma empresa ou prever lucros e essas coisas. Mas vai falar isso pra ele... Tenho pena do meu irmão mais novo, ele não terá escapatória.
- Pelo menos você tem um irmão. – confessei, respirando fundo em seguida.
- Mas você poderia bater o pé, dizer que não é isso que você quer pra sua vida, . Ninguém no mundo deveria ser obrigado a fazer o que não quer.
- Eu não tenho como fugir, é algo de sangue... E é melhor mudarmos o assunto. – disse, tentando desconversar.
- Se você prefere... – ficamos num silêncio meio constrangedor durante alguns minutos, até ouvirmos o barulho da porta da frente abrir e um rapaz caminhar até a nossa mesa. – Você demorou. – exclamou, recebendo um leve beijo em seguida.
- Desculpe, foi coisa do . – ele disse, enquanto se sentava.
- Nós temos uma convidada. – ela disse sorridente, apontando para mim. Ele me olhou de forma estranha, mas eu não fazia idéia do motivo.
- . – estendi a mão para cumprimentá-lo.
- . – ele respondeu, apertando minha mão levemente. – Eu não conheço você?
- Não que eu saiba.
- É que o seu rosto não me é estranho...
- Pronto, pronto. Espero que não estejam morrendo de fome. – escutei uma voz conhecida atrás de mim. Virei-me lentamente, encarando, eu acho que pela primeira vez, seus olhos incrivelmente . Eu não tinha reparado bem em todos os seus aspectos físicos, mas agora, me dando essa liberdade, pude perceber toda a beleza que passou despercebida pelos meus olhos. Limitei-me a sorrir, sem saber muito bem o que falar. Ele franziu as sobrancelhas quando me viu e depois sorriu abertamente. Preciso dizer que fiquei mais paralisada do que já estava? – Você tá me seguindo ou algo parecido? – ele perguntou, tirando-me do meu quase transe.
- Você sempre chega depois de mim, logo, tecnicamente, quem está me seguindo é você. – desviei meu olhar, tentando clarear minha mente. Nada de garotos em sua vida, . Por mais lindos, charmosos e atraentes que eles sejam, nada de garotos em sua vida.
- Mas de alguma forma, você sempre acaba encontrando uma forma de estar em algum lugar ao qual eu pertenço. Talvez seja, sei lá, o destino... – ele disse, curvando-se lentamente em minha direção.
- Eu não acredito em destino. – respondi rápido.
- O que eu perdi aqui? – perguntou, altamente confusa.
- Ah! Lembrei, você é a garota que o ... – ele encarou o amigo, que estava prestes a dizer algo impróprio. – Enfrentou no treino, não é? – se corrigiu.
- Sim, eu sou a garota que o derrotou com certa facilidade, por sinal. – respondi, de forma quase arrogante.
- Eu não tenho vergonha de ter perdido pra você, eu fui desatento, estava despreparado e você é uma excelente esgrimista.
- Obrigada, quem sabe não te dou chance para uma revanche depois?
- Vocês podem, por favor, me explicar o que tá acontecendo aqui? – pediu mais uma vez.
- Eu fiquei sabendo que tinha uma equipe de esgrima na faculdade, fui até o treinador e pedi para participar de um treino, porque eu praticava constantemente antes de vir pra Inglaterra. Ele permitiu e me fez lutar com cada um da equipe, sendo que eles não sabiam que era uma garota. O foi o último a me enfrentar e, mesmo sendo o melhor de todos, não conseguiu em derrotar. Depois de perder, ele ainda veio atrás de mim querendo saber uma série de coisas e acabou fazendo com que eu perdesse a minha aula.
- Desculpe, não foi minha intenção. – ele respondeu, antes do meu celular tocar. Olhei o nome do no visor antes de atender.
- Com licença. – eu disse ao levantar e me afastar um pouco. - Alô.
- , já estou aqui fora te esperando.
- Eu não estou na faculdade, eu vim almoçar com uma menina que eu conheci, esqueci de te avisar.
- Você vai ficar? Porque você tinha prometido à Carmem que estaria em casa hoje para dizer como queria a reforma do seu quarto.
- Ah! Droga, esqueci completamente. Eu vou pra casa.
- Eu passo aí, onde é?
- Segue em frente pela principal e vira na segunda rua à direita. Vou te esperar na porta.
- Tudo bem, chego em cinco minutos. Tchau.
- Tchau.
- Eu tenho que ir embora, esqueci que tinha um compromisso. – eu disse, pegando minha bolsa.
- Pode convidá-la para a festa do Eric? – perguntou ao namorado, que afirmou com a cabeça. – Então, tem uma festa aqui hoje. Você podia vir e eu te apresento para todo mundo.
- Eu não sei...
- Por favor, por favor, por favor... – ela quase implorou, olhando-me de forma quase irrecusável.
- Tudo bem, eu farei o possível. – respondi e ela levantou os braços, em sinal de comemoração.
- Então até mais tarde. – ela disse, me mandando beijos.
- Até mais. – respondi. – Tchau, meninos.
- Tchau. – respondeu, mas continuou apenas me olhando. Eu dei de ombros e segui para a porta. Porém, eu fiquei apenas alguns segundos sozinha do lado de fora, pois tinha me acompanhado mais uma vez.
- Depois sou eu quem fica te seguindo. – eu disse, antes que ele falasse alguma coisa.
- Eu posso ter vindo até aqui respirar um pouco de ar puro.
- Ok, vamos fingir que sim.
- Eu só estou aqui pra dizer que, independente do que esteja fazendo com que a gente se encontre, não importa se for o destino, a sorte ou o acaso, eu serei eternamente grato a ele. – ele me encarou novamente, com aqueles brilhantes, atrativos e hipnotizantes olhos .
- Você esqueceu uma coisa, . – eu me aproximei. – Essas coisas em que você está se apoiando não são tão confiáveis. Não conte apenas com elas.
- Então quer dizer que eu preciso tomar alguma atitude? – ele perguntou, cruzando os braços. Nesse momento ouvi o carro do parar ao meu lado. olhou de soslaio para quem dirigia e eu dei um pequeno sorriso.
- É apenas um conselho, você não precisa levar tanto a sério. – eu disse, enquanto entrava no carro. Acenei levemente enquanto dava partida.
- Você disse que estava almoçando com uma menina. – ele enfatizou.
- Não é nada demais, , apenas dirija. – respondi, recostando-me no banco e pensando novamente naqueles olhos .
Após fazer tudo que era necessário, tirei um tempo para conversar com a Ellen. Eu precisava falar com alguém sobre o . Era algo estranho, uma atração intensa demais para se desenvolver em apenas um dia. Eu sei que existe essa coisa de olhar. Não como um amor à primeira vista como dizem, mas algo como uma atração mesmo, um desejo repentino que faz com você aja sem pensar. Eu já passei por isso algumas vezes e eram coisas rápidas que, da mesma forma que surgiam, desapareciam. Mas eu não estava aqui para isso, não queria me envolver com ninguém, ainda mais amigo da primeira pessoa que eu conheci e que foi gentil comigo. Ter algo com o e depois simplesmente acabar poderia afetar uma possível amizade que eu talvez tivesse começado com a e eu não queria isso. Ou eu podia estar exagerando, porque homens têm mais facilidade de lidar com esses casos, simples e rápidos, que as mulheres. Mas lá estava eu, com a mente vagando, imaginando milhares de coisas. A minha cabeça é uma coisa tão fértil, que era como se tudo isso já tivesse acontecido dentro dela. Eu me assusto comigo mesma. Às vezes eu nem precisava me preocupar com isso, vai ver ele não queria nada comigo e desistisse facilmente. Eu espero que não., ‘disse’ uma parte da minha cabeça. Deus, eu já estava discutindo comigo mesma internamente. Eu preciso de ajuda psicológica. Talvez a pudesse me ajudar com isso...
- O que você acha, eu devo ir? – perguntei à Ellen.
- , eu sempre te ajudei nas suas fugas, por mais que eu não concordasse muito com elas. Mas eu fiz uma promessa a mim mesma de que não iria interferir mais na sua vida. Eu não posso ficar controlando seus passos. – ela disse, com um pedido de desculpas inscrito no olhar.
- Mas eu não estou pedindo para que você controle meus passos e nem que me ajude a fugir. Não estou presa aqui. A única coisa que eu quero é uma opinião. Uma opinião como amiga.
- Você está realmente atraída por esse rapaz? – ela perguntou e eu, relutante, afirmei. – Então o faça esperar. É dessa forma que nós descobrimos se vale a pena.
- Você não vale nada. – eu disse rindo. – E é por isso que eu gosto tanto de você. – completei, enquanto me levantava e procurava algo para vestir.
Não sabia mesmo o que usar. Um vestido? Talvez muito arrumado para uma festa num bar. Peguei uma saia preta, de corte simples e cintura alta. Puxei uma blusa branca com algumas listras pretas, ela era de manga longa e assim eu não precisaria de casaco. Tirei meu sapato preto sem salto do armário, já que eu ia beber, era melhor não arriscar. Tomei um banho rápido e ao sair soltei meu cabelo, que estava preso numa trança, ele estava levemente ondulado, então deixei que caísse pelas costas. Não exagerei na maquiagem, passando apenas lápis e rímel, ambos pretos, nos olhos e um batom cor de boca. E voilá, eu estava pronta.
- Você acha que o me deixa ir de táxi? – perguntei, com medo da resposta.
- E ele é seu pai pra deixar alguma coisa? – Ellen disse, cruzando os braços e eu ri. – Vai, eu me entendo com ele depois.
- Obrigada. – respondi, descendo as escadas rapidamente.
- Ah! – ela chamou a minha atenção. – Cuidado com a hora, mocinha. O encanto acaba à meia noite.
Entrei lentamente no bar e me espantei novamente. Era um ambiente completamente diferente do que eu tinha visto mais cedo. As mesas haviam desaparecido, dando lugar a uma pista de dança, estava mais escuro, com luzes em apenas alguns pontos específicos. A música estava alta, mas ainda era possível ouvir os barulhos que as bolas de bilhar emitiam ao se chocar. Procurei por um rosto conhecido, mas estava difícil, o lugar estava muito cheio.
- Procurando alguém? – sua voz familiar soou ao meu ouvido. Sorri levemente, mordendo o lábio em seguida. Ok, vamos dificultar as coisas, .
- Talvez, . – virei em sua direção, ficando bem perto de propósito. Fiquei na ponta dos pés, olhando por cima do seu ombro e encontrando sentada num canto junto com o . – Olha que sorte a minha, já achei. – afastei-me e segui para a mesa.
- Você veio! – celebrou, levantando-se num rompante e me abraçando.
- Meu primo me disse uma vez que eu não podia perder nenhuma festa. Então aqui estou.
- Então vamos pegar algo para beber. – ela levantou, meio cambaleante.
- Cuida dela pra mim. – murmurou.
- Pode deixar... – seguimos para perto do bar e esbarrou em todas as pessoas possíveis e até mesmo em algumas impossíveis.
- Olá, Paul! – ela praticamente gritou quando chegamos. Ele olhou meio confuso, mas sorriu em seguida. – Eu quero um...
- Refrigerante. – respondi antes. – Você precisa tomar algo sem álcool, agora. Depois, quando você estiver melhor, nós voltamos a detonar!
- Tudo bem, eu acho. – ela disse, pegando a bebida.
- E você o que quer?
- Acho melhor acompanhá-la no refrigerante. – ele balançou a cabeça lentamente.
- Você é nova aqui, certo? Nunca tinha te visto com a . – ele disse, ao me dar minha bebida.
- Não, acabei de me mudar. – disse, enquanto pegava algum dinheiro para pagá-lo.
- Ah! Então isso é por conta de casa, um presente de boas vindas. – ele sorriu abertamente.
- Obrigada. – eu disse incerta, afastando-me.
Depois de algumas horas e diversas bebidas, eu estava bem alegre e ria de tudo junto com a . Tirei um tempo para conversar com e saber um pouco mais sobre a sua vida. Como que ele era formado em direito e fazia mestrado em direito empresarial, para trabalhar no negócio da família. Ele era mais um que teve sua vontade própria extraída, mas ele não parecia se importar com isso, na realidade, ele parecia estar muito bem com relação a isso. Ele parecia... feliz. Talvez seja apenas isso que importe de verdade.
- Olha, a mesa de bilhar está vazia. – disse, praticamente correndo até ela, para que ninguém a ocupasse antes.
- Eu não vou jogar. – eu disse, encostando-me à mesa.
- Por quê? – perguntou – Se porque você é ruim, não se importe com isso, eu também sou.
- Não, é que eu não estou com vontade. – respondi e ela deu de ombros.
- Talvez ela seja do tipo que só joga pra ganhar, . – disse, surgindo de repente.
- Talvez eu seja assim mesmo. – dei de ombros.
- Então, mesmo se eu te desafiar, você não se anima a jogar?
- Um desafio? – eu ponderei. – Mas só se valer alguma coisa.
- Bom, eu tenho uma série de coisas em mente que podemos apostar... – ele disse, encostando-se ao meu lado. Seu braço tocava levemente o meu e ele me olhava de uma forma diferente, querendo descobrir alguma coisa.
- E você acha que algo disso vai me agradar? – perguntei baixo, vendo um sorriso brotar em seu rosto. Ele aproximou-se de mim, parando os lábios próximos ao meu ouvido.
- Eu tenho certeza de que você gostar. – olhei em seus olhos por alguns segundos e fiquei perdida, aceitaria qualquer coisa vinda dele.
- Tudo bem. – respondi baixo, recebendo um belo sorriso em troca.
- , se importa de deixar a gente jogar? Tenho algumas coisas a tirar dela. – ele disse, reprimindo um sorriso. entendeu imediatamente seu estado de espírito, passando o taco para ele. veio para o meu lado, ainda sem entender.
- Ele quer perder pra mim de novo, só isso. – expliquei. Ela deu de ombros, entregando-me o taco. Dei um gole na bebida, clareando minha mente. Não podia deixar que ele me afetasse e me fizesse perder. Eu não podia perder para ele.
- Qual é a primeira aposta? – perguntei, enquanto ele arrumava as bolas. E assim começamos. Cada bola que um encaçapava, o outro estava, automaticamente, devendo uma bebida. Até que restavam três bolas na mesa e eu estava perdendo. Era a vez de e eu precisava fazer com que ele desistisse de tudo. – Eu acho que deveríamos melhorar a premiação.
- O que você tem em mente?
- Se você encaçapar essa bola, eu fico te devendo um jantar. – ele sorriu e preparou-se para jogar.
- Separe o dinheiro. – ele disse antes de dar a tacada certeira. Eu precisava melhorar isso.
- Ok. Então se você acertar essa – eu me aproximei, encostando-me ao seu lado – eu te dou um beijo. – ele me encarou por alguns segundo e sorriu com vontade.
- Você só está tornando as coisas melhores para mim... – ele disse e eu dei de ombros.
- O que eu posso fazer? Tenho que arriscar. – dei mais um gole em minha bebida, precisava tomar coragem para fazer o que viria a seguir. Ele preparou-se mais uma vez, precisando de mais concentração agora. Mesmo errando a tacada, ele conseguiu encaçapar mais uma bola.
- Tenho que esperar o jogo acabar para receber meu prêmio? – ele perguntou e eu afirmei com a cabeça.
- Mas antes, eu tenho uma última proposta. É como tudo ou nada. – eu disse, chegando mais perto. Ele abaixou-se, pronto para jogar.
- Seja o que for, eu aceito. – ele disse, confiante. Parei perto dele, falando em seu ouvido:
- Se acertar agora, eu durmo com você. – eu disse baixo, fazendo com que ele errasse, e muito, a tacada. Sorri abertamente, dando-lhe um beijo na bochecha. Ele me encarou com a expressão quase perplexa, balançando a cabeça lentamente. – É, , mais sorte da próxima vez.
Sexto
'Cause she's everything I ask for and so much more
’s Pov
Dias depois
Preciso dizer que aquela garota ficou na minha mente por todos esses dias? Não, certo? Ainda mais depois daquela última proposta. Tá, eu sei que ela fez de propósito, mas só de lembrar a sua voz sussurrando aquilo em meu ouvido, eu já começo a imaginar milhares de coisas. Eu me sinto como um adolescente inexperiente, louco para liberar todo esse desejo e... Ela vai me deixar maluco e eu não posso nem reclamar, porque eu vi isso acontecendo. Eu sabia que isso aconteceria no momento em que a vi pela primeira vez. Senti que eu teria que fazê-la minha, mas não fazia idéia que a necessidade seria tão grande. E a nossa relação não facilita tanto as coisas para mim. Sempre rola aquele jogo básico de sedução, aquele onde ninguém quer ser o que cederá primeiro, porque isso significa que este será o submisso. E fica bem claro que nenhum dos dois quer desempenhar esse papel. Porém, pelo jeito que as coisas estão, estou revendo meus conceitos e chegando à seguinte conclusão: eu seria para qualquer coisa que ela quisesse.
- Ah, droga! – bati com o punho na mesa.
- O que foi agora? – perguntou.
- Eu não consigo terminar esse trabalho e é para segunda de manhã. Cinco laudas e eu não tenho nem duas prontas.
- Calma, cara. Relaxa que dá tempo.
- Não dá tempo. – eu disse, fechando o notebook. – Vou desistir disso. – bufei.
- Vai desistir de tudo porque não consegue fazer um trabalho? , você já foi melhor que isso.
- Eu não consigo me concentrar, . Eu tento, mas é impossível. – confessei, respirando fundo.
- É a ? – ele perguntou, deixando seu livro de lado.
- E quem mais poderia ser? – perguntei retoricamente. – Eu não consigo tirá-la da cabeça, não paro de pensar em nenhum minuto.
- Convida logo a garota para sair e acabe com essa tortura. – ele disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- Eu não sei, parece que ela quer brincar comigo ou algo do tipo. Eu não preciso de outra pessoa assim na minha vida, já basta a Alicia.
- E a Alicia ainda está em sua vida? – ele perguntou.
- Não, mas nunca se sabe o dia de amanhã...
- , eu não consigo ver a como a Alicia. Vai ver ela não quer brincar com você, talvez ela esteja apenas esperando uma atitude sua. As coisas podem ser assim no país dela, sei lá. – ele deu de ombros.
- Eu queria apenas esquecer isso, deixar para lá, me focar nos estudos, sabe? Mas eu não consigo. Ela, simplesmente, não sai da minha mente e eu já não sei o que fazer. – disse, desistindo de ser rebelde e reabrindo o notebook.
- Já disse, chame a garota para sair, só vocês dois. – ele insistiu.
- Não sei...
- Às vezes você parece uma garota, cara. As coisas deveriam ser diferentes, você é homem e nós não nos sentimos assim. – ele disse sem paciência. Eu ri alto, chamando a atenção das outras pessoas que estavam na biblioteca. – Além disso, você já tem vinte e cinco anos, aja como homem. – ele desabafou.
- Sabe qual é a verdade? – perguntei e ele apenas me encarou. – Você é um péssimo conselheiro.
- Realmente, isso é verdade. Você deveria falar com a , ela sim pode te ajudar. É psicóloga, sabe lidar com esses problemas e dar conselhos é parte do seu trabalho. Quando você tiver problemas no bar e seu tio precisar de um advogado empresarial, aí sim você pode me procurar.
- Tudo bem, .
- Aliás, você tem que aproveitar o fato de que elas estão assim – ele uniu dois dedos. – Inseparáveis. – respirei fundo, concordando com a cabeça, sem dar atenção. – Olha, a tá chegando, conversa com ela.
- Esquece. – pedi.
- Para com isso, aproveita que ela deve saber alguma coisa.
- Quem deve saber o quê? – ela perguntou, enquanto sentava-se à mesa.
- Você deve saber se a está realmente a fim do . – ele respondeu.
- Não sei se posso contar, eu estaria traindo o código das amigas. – ela disse, receosa.
- Então tem alguma coisa? – perguntei, instantaneamente interessado.
- Não posso falar sobre isso, rapazes. Me desculpem.
- Não pode contar, mas pode, pelo menos, dizer sim ou não. – interveio, dando uma idéia.
- Isso eu acho que posso... – ela ponderou.
- Ela só está enrolando o ? Sabe, tipo brincando.
- Não, ela nunca faria isso. – respondeu rapidamente.
- Então ela está realmente interessada nele?
- Sim. – respondeu com convicção.
- Ela está interessada ou está gostando dele? – insistiu.
- Isso não dá pra responder com sim ou não, amor. – ela disse, carinhosa.
- Ok, vou reformular a pergunta. Ela gosta dele? – demorou para responder, incerta se deveria ou não.
- Sim. – ela confessou por fim.
- Da forma que a Alicia gosta? – insistiu.
- Não. A não tem nada em comum com aquela vadiazinha. – ela virou-se para mim. – Me escute, de onde ela veio, os rapazes a tratavam muito mal, sempre se aproximavam com intenções nada boas. Ela é de uma família importante na Dinamarca e é realmente difícil que um cara goste dela e não do que ela tem, entende? Você tem que demonstrar que é diferente, que é digno de confiança.
- Eu disse isso a ele. – se intrometeu.
- Você não disse nada disso. – desmenti.
- Vamos fazer o seguinte: eu vou convidá-la para sair, sem mencionar que você vai, porque se eu falar pode deixá-la desconfiada. Então eu e o vamos dar um tempo para vocês conversarem sem essas máscaras que insistem que usar quando estão perto um do outro. Eu não entendo, vocês mudam completamente. Você assume uma postura de conquistador, arrasa corações, e ela se transforma numa Alicia da vida, uma garota fútil, mimada e que não liga pra ninguém. – fez uma cara de nojo. – E sabe quem sai ganhando nessa história? Ninguém! Nada disso tem lógica. – ela respirou fundo. – Vocês me cansam...
- Tá, desculpa, eu acho. – disse, sem saber realmente se deveria ter aberto a boca.
- Hoje é sexta, não é? – ela perguntou e confirmou. – Vai trabalhar de noite?
- Não. – respondi.
- Então nos encontramos no bar do seu tio às oito. Esteja preparado.
- Estarei. – disse firmemente, com um sorriso. Ela o retribuiu e se levantou, dando um selinho no namorado.
- Vou conversar com ela agora.
- Fale bem de mim. – pedi, enquanto ela se afastava.
- E o que você acha que eu faço? – ela disse com um belo sorriso.
- Tá mais tranquilo agora? – perguntou, querendo apenas me irritar.
- Vá à merda. – eu disse, levantando-me, e pude ouvir sua risada de longe.
Tentei esfriar um pouco a cabeça. Tinha que trabalhar, encontrar a e ainda fazer um trabalho, tudo isso em algumas horas. Minha vida nunca foi fácil, muito longe disso, só que eu queria não ter nada para me preocupar as vezes, só para variar. Isso parecia impossível para alguém como eu, mas sei que um dia eu olharei para trás e verei que todo o esforço foi recompensador. Terei um bom e sólido emprego, uma bela família e o menor número possível de problemas.
- , meu bem. Há quanto tempo não nos falamos direito. – Alicia disse, encaixando seu braço junto ao meu. Foi só falar de problemas que ela reapareceu. Será que se eu falar sobre um milhão de libras, elas aparecerão na minha conta? Acho que não.
- Olá, Alicia. Como está? – perguntei, ainda sem dar muita atenção a ela.
- Um pouco triste, você não tem me dado atenção da forma que eu mereço. – ela disse, fazendo biquinho. Em outros tempos, eu estaria todo derretido nesse momento, mas agora nada dela parecia fazer efeito sobre mim.
- Acredite, eu estou te dando a atenção que você merece. Oi e tchau já estão de bom tamanho.
- Que grosseria, . – ela revirou os olhos. – Não sei por que você se faz de difícil, não consegue resistir por muito tempo mesmo.
- Bem, eu estou resistindo por mais de duas semanas, talvez não seja um trabalho tão árduo como você imagina. – mantive minha expressão séria, encarando-a levemente.
- Quem é ela? – ela perguntou rapidamente.
- Ela quem? – respondi, confuso.
- Para você me tratar assim, só pode ter outra garota no meio. – ela cruzou os braços. – Anda, me fala.
- Ah! Eu esqueci que você, estudante de psicologia, sabe 'ler' as pessoas. Mas eu estou achando que você precisa estudar um pouco mais, porque não tem garota alguma. Será que não tem a mínima chance de eu ter me cansado de ser o seu brinquedo? – perguntei, fingindo um cansaço por ter de explicar tudo a ela.
- Eu só acho que essa sua tentativa falha de me magoar vai acabar se voltando contra você. – ela disse séria, perdendo toda sua paciência e vontade de, talvez, me seduzir.
- Não acho, Alicia. Porque, sinceramente, não vejo como piorar minha situação. As minhas opções são: ficar com você, receber alguma atenção por poucos momentos e na maioria do tempo ser tratado como lixo ou ficar sozinho, esperando o acaso trazer alguém para mim. E eu estou inclinado a escolher o acaso.
- Você vai se arrepender, . E amargamente. – ela me ameaçou, colocando um dedo no meu rosto.
- Mal posso esperar. – respondi, sorrindo ironicamente em seguida.
Eu parecia estar com a aparência mais leve depois de encontrar Alicia, pois esse foi o primeiro comentário do meu tio assim que eu cheguei ao bar. Ele pensou que eu tivesse tido um encontro ou uma conversa divertida e não um quase 'acerto de contas'. Mas, para ser sincero, até que tinha sido bem divertido falar algumas verdades para ela. A Alicia é daquele tipo de garota que sempre teve tudo na vida e está acostumada que as pessoas façam tudo para ela. E o mal dela foi pensar isso de mim. Ela queria que eu estivesse lá quando ela quisesse e precisasse e eu não queria ser mais um para ela. Eu não a amava, mas ser apenas mais um da lista de alguém não está nas metas da minha vida. E por mais que o ache isso estranho e diga que é coisa de garota, eu prefiro ficar sozinho a ter que passar por esse tipo de situação. Afinal, ficar com ela não era tão recompensador assim, se é que me entendem. Não valia a pena o sacrifício.
Sem que eu percebesse, já tinha anoitecido e eu ainda estava atolado de trabalho. O bar estava muito cheio, como era de costume, mas um dos funcionários ligou avisando que iria se atrasar e sobrou para mim. Eu disse que ficaria o cobrindo até que ele chegasse, mas o problema era se as meninas chegassem antes. Eu não tido tempo de me arrumar, nem ao menos tomar um banho. Como eu poderia tentar ser eu mesmo com a , aparentando ter ficado horas e horas atrás de um balcão? Eu deveria ser eu mesmo no interior, sem forçar, mas o exterior deveria estar, pelo menos, aparentável. Contrariando meus desejos, as meninas chegaram e sentaram-se numa mesa no canto. me olhou com cara feia, ao ver que eu ainda estava trabalhando. Droga, ela ia falar tanto no meu ouvido. Comecei a rezar baixinho, pedindo que o Raul chegasse logo e me liberasse. Eu não podia abandonar meu tio sozinho ali. A única coisa que eu queria ver era a porta abrindo e a cara feia do Raul surgindo, mas parecia que quanto mais eu desejava isso, mas longe de acontecer estava. Resolvi deixar para lá, alguma hora ele ia aparecer. Estava distraído quando ouvi a voz do chamar minha atenção.
- O que você ainda tá fazendo trabalhando?
- Tenho que esperar o Raul chegar, ele se atrasou e eu não posso deixar meu tio na mão. – expliquei.
- Merda. A tinha falado que a gente ia ao cinema, mas tá quase na hora do filme, não vai dar tempo. – ele disse, jogando-se numa das cadeiras.
- O que você quer que eu faça? – perguntei, depois de entregar uma garrafa de cerveja para um cara.
- Nada, . É a que tá me irritando, vou inventar alguma desculpa. – ele apoiou a mão no balcão, brincando com um canudo. – Acredita que ela conversou com a ? Eu peguei o finalzinho.
- O que ela falou?
- Que a deveria parar de agir como outra pessoa e dar uma chance pra você mostrar quem realmente é. – ele disse, olhando para a mesa, por cima do ombro.
- E o que ela respondeu? – perguntei curioso, olhando, discretamente, na mesma direção.
- Que não sabia se você valia o feito. – ele respondeu com uma careta.
- Nossa. Ela é bem sincera, não? – falei, rindo em seguida.
- Está em suas mãos, meu amigo. – ele comentou. – Vou voltar pra lá, arrumar alguma desculpa.
- Boa sorte! – murmurei, enquanto ele se afastava.
Alguns minutos depois, mais ou menos quinze, Raul chegou apressado e cansado, como se tive vindo correndo. Nem esperei por sua explicação. Assim que ele ocupou seu posto, corri para o meu quarto. Tomei um banho a jato, colocando a primeira roupa limpa que vi. Quando cheguei novamente ao salão, fiquei espiando a mesa de longe, não sabia como me aproximar. Será que ela daria abertura? Será que ela deixaria, ao menos, eu tentar mostrar que valia a pena? Bem, eu teria que tentar... Vamos à luta então.
- Boa noite. – eu disse, educado, ao me aproximar. – Posso sentar com vocês? – eles se entreolharam e em seguida os olhares se pousaram nela.
- Claro. – ela respondeu, sorrindo levemente. Sentei-me ao seu lado, tomando cuidado para desmontar a antiga impressão de conquistador barato. Tentei ser educado ao extremo. Perguntei sobre diversas coisas, algumas até pessoais demais. Mas depois de alguns minutos, a conversa fluía de uma forma que parecia que nos conhecíamos há anos. Descobri que ela era da Dinamarca e estava aqui estudando, então disse que também não era daqui, que morava há dez anos em Londres com o meu tio. Contei para ela todas as minhas experiências como um "imigrante", compartilhamos algumas informações, histórias, piadas. Enfim, de tudo um pouco. Ela se empolgava em alguns momentos e num deles chegou até a apoiar sua mão sobre a minha. Reprimi um sorriso nessa hora. Ela se alarmou, murmurando um 'Desculpe.' enquanto a retirava. Pensei em dizer que não tinha nenhum problema, que ela poderia manter a mão ali pelo tempo que quisesse, mas lembrei que deveria ir com calma. Então disse algo como 'Não tem problema.'. Ela riu e abaixou o rosto levemente corado. Queria dizer o quanto ela era bonita e o quando as coisas simples a deixavam mais irresistível ainda. Um simples toque, seu sorriso sem graça, sua risada leve. Tudo isso a tornava encantadora demais para a minha sanidade. Num momento ela fez uma das perguntas mais difíceis que já me fizeram.
– Agora que eu vi que tudo aquilo que eu conheci era uma máscara, quem é o verdadeiro ? – aquilo me pegou de guarda baixa, eu não sabia o que responder.
- Eu ainda não sei. – respondi, sincero. – Talvez um rapaz que passou por momentos ruins e que conseguiu dar a voltar por cima, ou ainda está tentando. – dei de ombros.
- Você é um cara legal, disso eu tenho certeza. Quem sabe com o tempo eu aprenda mais coisas sobre você, o que acha? – ela me olhou e sorriu daquele jeito. Como se eu pudesse dizer a não a ela, ainda mais depois daquele sorriso. Se eu falasse em voz alta as coisas que passavam pela minha cabeça, o teria mais motivos ainda para falar que eu pareço uma garota.
- Eu adoraria. – respondi, olhando em seus olhos por alguns segundos. Ela desviou o olhar, encarando, sem graça, seu copo vazio. – Vou pegar outro para você.
- Obrigada.
Segui para o bar, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. Escutei algumas reclamações do meu tio sobre o atraso do Raul e vi algumas caretas do mesmo enquanto ouvia o sermão. Impedi-me de rir diante da cena, além de errado, acabaria sobrando para mim. Peguei as bebidas, fazendo meu caminho de volta, até que senti braços ao redor da minha cintura me abraçando por trás. Olhando com dificuldade, pude reconhecer.
- Alicia, você poderia me soltar, por favor? – pedi, quase impaciente.
- Não. – ela disse melosa, percebi que ela estava bêbada. Duas vezes pior... pensei.
- Eu preciso voltar para a mesa. – falei, enquanto me livrava de seu abraço.
- Sua mesa? – ela perguntou, olhando na direção que eu seguia. Ela viu o acompanhado de e sozinha. – Ah! Isso porque não tinha nenhuma garota na história, não é? – ela disse um pouco mais alto, chamando atenção de algumas pessoas ao redor.
- Alicia, fala baixo, por favor. E se tem uma garota, não é da sua conta.
- Então é isso, você vai me trocar por ela? Quem é essa? – ela disse nervosa.
- Já disse que não é da sua conta. Vai arrumar outra pessoa para perturbar. – pedi, virando as costas.
- , querido, você sabe que não é assim que as coisas acontecem. – ela me puxou de volta. – Tudo sempre acontece do meu jeito. – dizendo isso, ela me beijou. Foi um beijo estranho por dois motivos: 1. Ela se jogou em mim, enquanto eu tentava me afastar; 2. Era a primeira vez que aquele beijo não me causava nenhuma reação. Quer dizer, nenhuma reação boa. Empurrei-a da forma que podia, não me importando se fui rude ou algo do tipo. Ela tinha passado completamente dos limites. Olhei para a mesa, observando se alguém esboçava ter visto alguma coisa. Mas todos estavam conversando normalmente, como se nada estivesse chamando a atenção. Voltei meu olhar para Alicia, que me olhava de forma ultrajada.
- Você é maluca? Qual parte do 'eu não quero mais nada com você' você não entendeu? – perguntei, mas não queria saber a resposta. Encarei-a por alguns segundos, desistindo depois. Dei as coisas e voltei para a mesa.
Eu estava completamente aéreo depois do que aconteceu, Alicia tinha me tirado do sério. Toda a aproximação que tinha sido iniciada foi por água abaixo. Ninguém estava mais da mesma forma. Talvez ela tivesse sentido o clima estranho. E tudo ficou pior quando ela resolveu ir embora. Tentei convencê-la a ficar mais um pouco, mas sabia que não adiantaria de nada. Tudo tinha dado errado. Estava tudo perdido.
- Posso te levar em casa se quiser. – ofereci.
- Não precisa, eu pego um táxi.
- Deixa ele te levar, . É melhor. – se intrometeu.
- Nunca se sabe o que se passa na cabeça desses taxistas. – completou. Ela os encarou por alguns segundos, provavelmente chegando à conclusão de que ou ela entrava por vontade própria no carro ou seria arremessada para dentro dele.
- Tudo bem. – ela se deu por vencida. Despediu-se rapidamente, seguindo para o lado de fora. Olhei para os meus amigos, que faziam alguns sinais estranhos para mim. Eu não entendi muito bem, mas achei que poderia ser algo motivador.
Ela se manteve em silêncio por todo o caminho, exceto pelo momento em que disse o endereço. Não era tão longe, uns dez minutos, quem sabe. Liguei o rádio, tentando evitar que ficasse um silêncio constrangedor, mas não fui muito feliz. Ela continuava olhando pela janela, encarando qualquer coisa e evitando me olhar. Parei num sinal e fiquei discutindo comigo internamente. Falo ou não falo? repetia-se em minha mente como um mantra. Preferi ficar em silêncio para não piorar a situação.
- Eu vi você beijando a menina. – ela finalmente falou, assim que parei o carro. Apertei meus dedos ao redor do volante, reprimindo um palavrão.
- , eu não queria, ela me agarrou... – tentei me explicar, mas parei quando vi sua expressão. Seu olhar me transmitia algo diferente, como se ela enxergasse algo bom em mim e não um cara safado, que beija outra garota depois de ter conversado com ela por horas.
- Eu também vi sua reação, , não se preocupe. – ela se ajeitou no banco e passou a encarar as mãos, como se também estivesse nervosa com a situação. Afrouxei levemente o aperto, decidindo o que falaria.
- Nós costumávamos sair, mas não deu certo. – confessei.
- E ela não entende isso? – ela perguntou, ainda olhando atentamente para os seus dedos e balançando nervosamente uma das pernas.
- Pelo visto não. – respondi, rindo em seguida.
- Eu entendo o lado dela. – ela disse, voltando seu olhar para meus olhos. – Não deve ser bom perder alguém como você. – Senti todo o sangue correr para o meu rosto. Provavelmente eu estava mais corado que qualquer outra coisa. Ela riu levemente, tocando meu braço. – Não precisa ficar sem jeito.
- É muito difícil não ficar sem jeito. – confessei.
- Desculpe. – ela disse, aumentando o sorriso. Aquele sorriso. Olhou para a casa e depois de volta para mim. – Eu acho melhor eu entrar. – movimentou-se para abrir a porta, mas eu saí antes que ela pudesse. Abri a mesma, ajudando-a a descer. – Boa noite, então. – ela disse, mordendo levemente o lábio em seguida.
- Boa noite. – respondi, observando-a virar-se em direção ao portão. Reuni minhas forças e respirei fundo. – , espera. – eu disse, segurando uma de suas mãos. Puxei-a levemente para mais perto, não desviando meus olhos dos seus. Ela não negou, nem se distanciou. Aproximei-me mais, deixando nossos corpos quase colados. Ela revezava seus olhares entre meus olhos e meus lábios, deixando clara a sua permissão. Levantei uma de minhas mãos, acariciando seu rosto. Ela fechou os olhos, aproveitando a sensação que meu toque lhe dava. Com cuidado, retirei uma mecha solta de seu cabelo, colocando-a no lugar e posicionando minha mão em sua nuca. Ela aconchegou-se mais em meus braços, deixando seus lábios perigosamente perto dos meus.
- ? – uma voz masculina me sobressaltou. Ela se afastou repentinamente, mas continuava perto o bastante, pois meus braços ainda estavam ao seu redor. Ela olhou-me nos olhos durante alguns segundos, antes de depositar um beijo em meu rosto. Afrouxei meu abraço, deixando que ela se distanciasse.
- Boa noite mais uma vez, . – ela disse em sua voz de veludo, sorrindo com vontade.
- Boa noite. – respondi, enquanto ela caminhava lentamente em direção à porta. – Ah! Mais uma última coisa. – chamei sua atenção. Ela se virou e apoiou-se no batente da porta. – Se ela fosse como você, jamais iria me perder. – confessei, vendo-a exibir mais uma vez aquele sorriso. Sorriso esse que, provavelmente, me acompanhará por todos os sonhos de hoje em diante.
/’s Pov