Enchanted
"You'll be the prince and I'll be the princess. It's a love story, baby, just say yes."
(Taylor Swift - Love Story)


Realeza - (real + -eza)
1. Dignidade de rei ou rainha; 2. Os reis; 3. As pessoas reais; 4. Influência soberana; 5. Esplendor, magnificência, suntuosidade.
Realeza - (real, relativo às coisas + -eza)
Realidade.

Realidade... Nada na minha vida parece real, nem eu mesma pareço ser real. Tudo o que eu conheço como vida, foi algo moldado, escolhido, programado. E isso não é uma vida... Vida requer escolhas, sacrifícios, experiências... Para ser uma vida, é necessário viver! Eu posso dizer que tenho vinte e três anos e nunca vivi. Mas o que fazer, quando você já nasce com um destino traçado, com tudo planejado? Bem, a única coisa a ser feita é mudar tudo... Começando por você mesma.


Primeiro
Girls do what they want


Eu estava correndo, pela primeira vez me sentia livre, como se pudesse fazer tudo o que sempre quis. Sentia o vento bater em meu rosto, em meus cabelos, a adrenalina corria em minhas veias. De repente a cena mudou, eu estava num quarto escuro, não tinha uma saída, estava sozinha. Então pude ouvir alguém me chamando, bem longe, eu tentava gritar, pedir ajuda, mas era como se eu não tivesse voz, como se eu não pudesse ser ouvida. Mas a voz se aproximava e eu comecei a sentir uma ponta de esperança, como se pudesse ser libertada. A voz parou, onde eu descobri ser uma porta, que foi aberta lentamente, a claridade me deixou momentaneamente cega, eu fechei fortemente os olhos, esperando pelo primeiro movimento do meu visitante. Ele se aproximou, balançando meus ombros, chamando meu nome mais uma vez e de novo, de novo, de novo... Aos poucos pude reconhecer aquela voz e era... Da minha mãe? Abri os olhos e encontrei os dela me encarando, sua feição não era nem de perto alegre. Fechei os olhos novamente, colocando o travesseiro em meu rosto, cobrindo meus olhos da claridade que vinha da janela.
- , levante.
- Não, mãe, eu quero dormir.
- , levante agora. – ela disse séria.
- Pronto, levantei. – eu disse, sentando na cama. – Diga, mamãe querida. – forcei um sorriso, mas a feição séria no rosto dela não se alterou, mostrando que o assunto era sério.
- Eu não quero mais explicações, mais desculpas esfarrapadas... – ela disse, jogando o jornal no meu colo. – Quero atitudes, , atitudes que você deve ter. Quantas vezes eu tenho que explicar que você não é uma jovem normal, você não pode sair e fazer um monte de besteiras pela rua, você tem um nome a zelar, você tem um futuro nesse país.
- Eu sei, mãe.
- ‘Eu sei, mãe’ não vai mudar a manchete e nem retirar essa foto da primeira página do jornal. Isso está nas bancas de toda a Dinamarca. – eu peguei o jornal, olhando bem a foto e a manchete.

NOSSO FUTURO EM BOAS MÃOS.

Eu estava sentada na calçada, em frente a um bar, com uma garrafa de cerveja nas mãos. Meu primo, , estava ao meu lado e confesso, ele estava bem pior, e deveria estar ouvindo tanto quanto ou até mesmo mais do que eu.
- Até que eu fiquei bem na foto. Geralmente eles pegam num ângulo não muito favorecedor.
- Eu não acredito que você está fazendo piadinhas! – ela me olhou chocada, balançando a cabeça negativamente. – Eu desisto de você. – ela se virou e andou para fora do quarto.
- Mãe, eu estava brincando.
- Você sempre brinca, , eu ficarei surpresa quando você falar sério. – ela disse, antes de fechar a porta.
Me joguei de novo na cama. Não agüentava essa pressão. Eu não pedi pra nascer nessa família, não pedi esse legado. Quero viver como um jovem qualquer, quero sair com meus amigos, arrumar um namorado... Sem tanto controle, regras. Bufei, levantando da cama. Me aproximei da janela, olhando a bela vista que tinha do meu quarto. Os jardins do palácio ficavam lindos nessa época do ano. Me aproximei da sacada, deixando que a luz do sol banhasse meu corpo, me permitindo um momento de paz e sossego, o que é extremamente raro em minha vida. Ouvi batidas na porta, afirmando o que tinha acabado de pensar. Pensei seriamente em ignorar e fingir que eu não estava no quarto ou simplesmente dormindo. Mas quem quer que seja, era insistente.

- Prin...?
- Eu já vou. – eu interrompi, antes que ele completasse uma das palavras que eu mais odiava no mundo. Bufei e segui para a porta, a abrindo em seguida. Ellen e um dos meus guardas especiais me esperavam, com belos sorrisos estampados no rosto. Por mais falso que fosse o sorriso, ele não podia sair do rosto de nenhum deles. Tá, talvez dos guardas, afinal, quem respeitará um guarda todo sorridente? – Quantas vezes eu já pedi que vocês me chamem de , ou no máximo, senhorita. – fiz uma careta para última palavra.
- A senhorita sabe muito bem que é assim que o seu pai gosta que você seja chamada. – Ellen deu um sorriso quase irônico. – A propósito, bom dia.
- Bom dia, Ellen. Bom dia, . – eu me encostei ao batente da porta. Ellen era ‘minha criada’, se é assim eu posso chamá-la. Ela é o que um dia foi chamada de ‘dama de companhia’, mas graças a Deus, esse termo foi abolido. Ela era minha cúmplice, me ajuda nas minhas fugas e por mais que meus pais soubessem disso, eles não a despediam. Fiquei encarando Ellen, enquanto a mesma continuava com o sorriso irônico no rosto e eu passei a retribuir.
- Então, futuro do nosso país, seu pai está lhe esperando.
- Ellen, futuro do nosso país é a... – fui interrompida pela crise de tosse do , uma crise bem conveniente por sinal. Olhei para Ellen e começamos a rir.
- Bem, vou esperar as senhoritas lá embaixo. – ele virou e seguiu para as escadas.
- Eu acho que você exagerou um pouco na noite passada, .
- Você acha, Ellen? Você e toda a Dinamarca tem certeza. Inclusive meus pais, ou melhor, principalmente meus pais. Eu sempre fui uma boa filha, nunca pedi muita coisa, na verdade, a única coisa que eu realmente pedi foi tentar ter uma vida normal.
- Mas isso não é possível, não vindo da família que você veio.
- Eu não pedi pra nascer nessa família, não pedi pra ser uma princesa. Eu sempre quis e ainda quero ser uma pessoa normal, não ter uma vida toda decidida antes mesmo de ter nascido. Eu não pedi isso, Ellen.
- , você nasceu em berço de ouro, literalmente e não pode desperdiçar o que tem. Essas suas ‘aventuras’ que aparecem no jornal, nos olhos das outras pessoas, passa como uma atitude rebelde da princesinha que tem tudo e não está satisfeita com nada. Se você não mostrar quem realmente é, será sempre vista como uma rebelde mimada.
- Mas eu não sou uma rebelde mimada.
- Eu sei que não, mas você tem que mostrar pra todo mundo como você realmente é e eu acho que agora é um excelente momento.
- Como assim?
- Seu pai reuniu a imprensa, estão todos a sua espera. – fiz uma careta – Não, sem caretas. Você será uma rainha, tem que aprender a lidar com isso.
- Não serei rainha, vou abdicar do trono.
- Em favor de quem?
- Do . – ela me encarou, rindo alto em seguida, chamado a atenção dos guardas que passavam perto no momento.
- Você não pode tentar ‘salvar’ o país, abdicando do trono em favor de alguém pior que você. – concordei com a cabeça, ainda rindo.
- Já que tenho que enfrentar essas pessoas, eu tenho que estar, pelo menos, apresentável. – eu disse, apontando para minha roupa, eu ainda estava de pijama.
- Nisso eu concordo com você.


Respirei fundo antes de entrar na sala em que meu pai estava com a imprensa. Todos os olhares se voltaram para mim, enquanto eu marchava firmemente até meu pai, que me esperava com um breve sorriso nos lábios. Ele se levantou e me abraçou, fazendo com que eu ficasse parada ao seu lado, com minha mão em seu ombro. Estranhei não ver minha mãe ao seu lado, talvez tenha sido a gota d’água pra ela. Balancei a cabeça, voltando minha atenção para o meu pai.

- Rei Frederico. – um jornalista chamou sua atenção – Agora que a princesa já está aqui, o senhor pode fazer o pronunciamento?
- Ah! Claro. – ele se ajeitou no assento – Eu não queria tocar neste assunto, sem que a principal envolvida não estivesse presente. Creio que todos já viram as manchetes dos jornais de hoje, certo? Quer dizer, grande parte das pessoas dessa sala tem algo a ver com essas manchetes e eu não tiro a razão de vocês. Vocês devem noticiar o que julgar errado e minha filha, como figura pública, deve se resguardar. Mas eu pergunto, quem aqui não extrapolou, exagerou quando era jovem? Eu mesmo já tive meus momentos e não eram poucos, só que a imprensa não dava a importância que dão hoje, então minha filha tem mais destaque do que eu tive. Vejam, eu não estou dando razão a ela, só estou dizendo que quando somos jovens nós queremos aproveitar a vida e ela quer a mesma coisa. Mas ela tem noção do que o futuro guarda e está se preparando para isso, na verdade, ela foi preparada para isso toda a sua vida. E o momento de colocar todo esse conhecimento em prática chegou... – precisei apertar minha mão no ombro do meu pai para não cair. Como assim eu colocaria todo o meu ‘conhecimento’ em prática? Que conhecimento, meu Deus? Ele não podia estar falando desse assunto, não desse assunto. – Eu convidei todos vocês para anunciar que eu pretendo passar a coroa para a minha filha. E farei isso o mais rápido possível.

Sim, era exatamente esse o meu assunto mais temido. Ele não pode passar a coroa para mim, eu não estou pronta, eu não estou preparada e o pior de tudo, eu não estou... Casada. Respirei um pouco mais fundo, quando isso surgiu em minha mente. O que meu pai estava pensando? Ele vai mudar a constituição ou algo do tipo, porque eu não estou nem um pouco perto de casar. Eu comecei a me sentir desconfortável com os olhares que me eram lançados, todos eram de reprovação, de julgamento, como se estivessem me medindo e atestando que eu não era boa o suficiente para governá-los. Minha vontade era de tomar a palavra e dizer que eles poderiam ficar tranqüilos que quando chegasse o momento, eles estariam em ótimas mãos, que eu era e estava preparada... Mas será que eu posso mentir assim? A realidade é que eu não estou preparada para ser rainha, isso sempre pareceu um futuro tão distante...

- Mas, majestade, para esse feito, ela precisa se casar. O senhor já tem algum casamento arranjado em vista? – CASAMENTO ARRANJADO? foi a única pergunta que surgiu em minha mente. Ele não podia fazer isso comigo, não tinha o direito.
- Não, eu não tenho nenhum casamento em vista, mas farei um trato com a minha filha e todos vocês serão minhas testemunhas. Eu darei dois anos para ela arrumar um noivo, caso ela não consiga, eu mesmo arrumarei. – eu o encarei, com os olhos arregalados e ele apenas se virou para mim, murmurando um “depois conversamos” e voltou-se para os jornalistas. – Nós temos esse compromisso firmado. Daqui a dois anos minha filha assumirá a coroa e ao longo desse tempo, ela mostrará a todos vocês que é sim digna que governá-los.

Então é isso, eu serei rainha em dois anos. Eu estava pronta para isso? Tudo me dizia, ou melhor, gritava que não. E disso eu tinha certeza.

xxx


Minutos depois, todos os jornalistas deixaram o salão e eu me vi sozinha com meu pai. Momento perfeito para algumas explicações.

- Pai, o que foi isso? – perguntei, ainda em choque.
- O que, querida? – ele perguntou, com um sorriso. Como ele podia sorrir dessa forma? Ele não tinha a mínima noção do que tinha feito?
- Como assim ‘o que’? Isso de abdicar do trono, passar a coroa para mim? Eu não quero isso, pai. Não quero ser uma rainha. – eu gesticulava muito, demonstrando meu nervosismo. Eu estava sem saber o que fazer, sem saber o que falar. Ele me pegou desprevenida.
- , você não tem escolha, você é minha única filha, minha sucessora.
- Não, é claro que eu tenho escolha, outra pessoa pode assumir o trono.
- Você prefere mesmo que outra pessoa assuma no seu lugar? Quem, por exemplo?
- O , ele vem depois de mim na linha de sucessão. – percebi que ele segurou o riso.
- Você realmente não ama o seu país, não é?
- Por que o senhor diz isso? É porque eu amo e respeito esse lugar, que eu não quero assumir. O senhor tem noção do que esse lugar pode se tornar em minhas mãos?
- Você ama o seu país e quer deixá-lo nas mãos de um irresponsável? Você tem noção do que esse lugar pode se tornar nas mãos dele? Minha filha, seu primo é muito pior que você e eu não confio nele, não acredito que ele possa fazer um bom trabalho, mas em você em confio, eu me vejo em você. Eu também tive essas mesmas preocupações, os mesmos medos, sempre disse que nunca seria um bom rei e a sua avó sempre disse que eu tinha que confiar em mim mesmo. E foi isso que eu fiz, é isso que você deve fazer. Não importa o que dizem de você nos jornais, eu sei que essa aqui – ele pegou o jornal, me mostrando a foto – Não é a que governará. – ele me olhou com um sorriso encorajador e estendeu a mão para que eu segurasse.
- Você realmente acredita nisso? – eu perguntei com uma careta, colocando a mão sobre a sua.
- Eu acredito em você, minha filha. Você pode fazer qualquer coisa. – ele deu um beijo leve em minha mão e em minha testa. – Agora eu preciso resolver umas coisas.
- Tudo bem... – eu disse respirando fundo e me sentando na cadeira antes ocupada pelo meu pai. Tudo que ele falou ainda ecoava em minha mente, principalmente a palavra ‘Rainha’. Era quase incompreensível. Por que ele queria me passar a maldita coroa? Eu não a queria e ele sabia muito bem disso. Ele queria me castigar ou algo assim? Porque é a única explicação possível. Se os jornalistas gostam de me perseguir enquanto ainda sou princesa, imagine quando me tornar rainha? Rainha . Juro que ri de como isso soa. Não soa apenas estranho, soa errado.
- ? – ouvi alguém falar, me tirando de meus pensamentos. Olhei para a porta e Ellen entrava com no seu encalço. – E então, como foi? – ela perguntou e era possível ver a curiosidade refletida em seus olhos. Respirei bem fundo antes de dizer.
- Ele vai passar a coroa pra mim.
- O que? – ela perguntou surpresa. – Por quê?
- Não sei. Ninguém deve saber o que se passar na cabeça dele, nem ele mesmo. – eu disse balançando a cabeça lentamente – Ele precisa se tratar, Ellen, ele não está em seu juízo perfeito.
- Quando isso vai acontecer? – perguntou.
- Daqui a dois anos. – respondi derrotada.
- E você tá reclamando de quê? – Ellen perguntou, parecia meio... revoltada?
- Ellen, querida – usei meu melhor tom irônico e ela me olhou irritada – Você por algum acaso sabe o que é preciso para eu me tornar uma rainha? – ela pensou por alguns segundo, antes de arregalar os olhos.
- Oh Meu Deus, você precisa se casar! – ela levou as mãos à boca e eu revirei os olhos.
- E ele ainda disse que se eu não arrumar um noivo sozinha, ele arrumará um para mim. Ellen, coroa e casamento arranjado é muito pra mim.
- Mas o que você vai fazer? Você pretende arrumar um noivo sozinha, certo?
- Claro, eu acho que vou fazer isso agora. Talvez eu encontre um ali na esquina. – a olhei séria – Abdicar do trono está se tornando cada vez mais tentador.
- Você não pode fugir das suas responsabilidades, . – disse. Ele não é muito de falar, mas quando abre a boca sempre sai algo que vai me irritar profundamente, então eu prefiro que ele fique calado.
- , por favor... – eu apoiei a cabeça nas mãos.
- , é sério, você não pode abandonar o legado da família, não pode simplesmente largar na mão de outra pessoa...
- Eu não estou preparada pra isso. Não. Estou. Será que ninguém entende isso? – eu disse nervosa, levantando da cadeira.
- E a sua faculdade? Você estudo e...
- Não tem uma matéria na faculdade estilo: ‘Como governar um país’ Ou ‘Como ser rainha’.
- Exatamente, você precisa de experiência, precisa se aprofundar em... Seja lá o que precise estudar, mas deve se preparar.
- Eu sei, , eu sei... – eu suspirei.
- Por que você não aproveita esses dois anos que ele te deu de prazo e faz algum curso, alguma pós-graduação. Você já fez ciências políticas, pode fazer algo de economia, não sei. Só sei que você precisa parar de choramingar e reclamar, precisa tomar uma atitude. Seu pai não voltará atrás da decisão, então você precisa se preparar.
- Você está certa, Ellen, eu preciso para de se comportar como uma menininha, eu preciso me preparar... Melhor ainda se for em outro lugar.
- Isso você precisa resolver com os seus pais e não será tão fácil. – Ellen disse com uma feição nada agradável.
- Eu resolverei isso hoje, ou melhor, agora. – levantei, seguindo para a porta – Ah, se eles permitirem, vocês irão comigo. – dei um sorriso forçado antes de sair do aposento.

xxx


Caminhei com passos firmes até o escritório do meu pai, quando me aproximei o suficiente, pude ouvir meus pais discutindo alguma coisa. Colei o ouvido na porta, tentando escutar alguma coisa.

- Frederico, como você pode dizer isso para os jornalistas? Você quer se desmoralizar? Essa menina nunca tomará jeito, ela nunca aprenderá. – minha mãe dizia, praticamente aos berros.
- A minha moral importa mais que o futuro da , não é? Se eu não fizesse algo assim, ela não tomaria juízo. Na verdade, eu não acho que ela esteja fazendo tanta coisa errada como fazem parecer. Afinal, o que há de tão errado em tomar uma cerveja com uns amigos? Ela já é maior de idade... – um sorriso brotou nos meus lábios. Meu pai sempre me protegia, não importava o quão errada eu estivesse, ele sempre procuraria uma forma de me tornar a certa da história.
- As duas coisas importam, mas parece que quem não se importa aqui é ela.
- Se me permitem... – eu disse, entrando no escritório – Tenho uma proposta para fazer.
- Você não pode entrar assim e...
- Diga, minha filha. – meu pai interrompeu minha mãe, que o olhou com um olhar fulminante.
- Eu estava no meu quarto pesquisando sobre alguns cursos ou especializações que eu poderia fazer e encontrei um que me interessou.
- E que curso seria? – minha mãe perguntou séria.
- Um mestrado em economia internacional e negócios. – ela arqueou a sobrancelha e ainda que ela pudesse falar alguma coisa, meu pai se adiantou.
- Isso é muito bom, minha filha, mas pelo o que eu saiba, não tem nenhuma especialização desse tipo nas nossas universidades.
- É, eu sei... Essa especialização é a Universidade de Londres.
- Não, não, não. Nada disso, , você não sairá do país. – ela mãe levantou, apontando um dedo em minha direção.
- A senhora não pode nem cogitar essa hipótese? Sempre disse que eu preciso fazer alguma coisa, dar um rumo a minha vida. É isso que eu estou tentando fazer. Meu pai quer que eu assuma o trono, alguém acha que eu estou preparada? Definitivamente não. Muito menos eu. Estou tentando...
- Você vai pra Londres.
- O quê? – eu perguntei surpresa.
- O quê? – minha mãe também perguntou, num tom bem mais elevado.
- Mary, ela quer estudar. Se ela me prometer que será isso que ela fará, ela vai.
- Você acha mesmo que ela vai estudar?
- Eu confio na minha filha. Ela merece um voto de confiança.
- Mas ela...
- Olá – sorri ironicamente – Não sei se perceberam, mas eu ainda estou aqui, poderiam parar de agir como se eu não estivesse? – minha mãe cruzou os braços e me encarou – Tecnicamente eu já sou maior de idade e não deveria pedir permissão para nada, porém, eu respeito a opinião de vocês, por mais que não respeitem a minha. A verdade é que eu não estou aqui pedindo para estudar fora, eu estou informando que estudarei fora. A Faculdade de Economia de Londres é uma das melhores do mundo, lá lecionam os melhores professores dessa área e é lá que eu me prepararei para assumir esse país. Mãe, eu não vou a passeio, mas também não prometo que ficarei trancada em casa. Farei o seguinte, mandarei minhas notas e se por algum acaso eu não for bem, eu volto. É apenas um ano e meio, eu volto logo. E imagine como será a sua vida sem mim, você vai querer que eu faça milhares de cursos como esse só pra se ver longe de mim, assuma. – ela riu.
- Filha, eu não quero que você fique longe de mim, muito pelo contrário, quero que você fique o mais perto possível...
- Para que você possa me controlar, eu sei.
- ...
- Mãe, são dezoito meses de curso e a única coisa que eu peço é isso, dezoito meses de liberdade, dezoito meses para eu ser quem eu sou e não quem querem que eu seja. Depois disso, você pode brincar de marionete o quanto quiser comigo.
- Eu realmente odeio esse a imagem que você tem de mim. – ela disse, abaixando o olhar.
- Mãe, por mais irônica que eu seja e mais irritante que a senhora seja, com todo o respeito, eu sei que você faz isso porque me ama. É a sua forma de me amar, eu tenho que aceitar isso, afinal, você é minha mãe.
- Por favor, não faça nenhuma besteira longe de casa. – ela me encarou por alguns segundo e me abraçou em seguida.
- E você ainda diz que ela não é persuasiva, ela consegue tudo o que quer. – meu pai disse rindo.

xxx


Sai sorridente do escritório, não, sorridente é pouco, eu mal conseguia segurar a minha felicidade. Finalmente viveria a vida do meu jeito. Por dezoito meses, eu sei, mas pra quem praticamente nunca viveu de verdade, dezoito meses podem ser uma eternidade. Assim que fechei a porta do meu quarto, corri gritando até a cama e comecei a pular na mesma... Infantil, não?
Ellen entrou correndo no quarto, ela estava assustada com os meus gritos e entrou correndo em seguida, vasculhando o quarto com os olhos. Quando me viram em cima da cama, me olharam confusos. Saltei da cama e parei em frente a eles e com o maior sorriso do mundo, disse:

- Prontos para Londres?


Segundo
Boys do what they can


’s Pov

Londres – algumas semanas depois

Abri os olhos lentamente, me espreguiçando. Olhei para o relógio na mesinha de cabeceira e pulei da cama. Estava mais que atrasado. Merda, merda, merda! pensei, correndo para o banheiro. Tomei um banho rápido e sai apressado, colocando a primeira roupa que vi pela frente. Abri a geladeira e me assustei com o fato de não ter nada dentro da mesma. Olhei ao redor, não encontrando nada comestível que não estivesse com o prazo de validade vencido ou a aparência suspeita. Suspirei, terminando de colocar a blusa e pegando o casaco que estava sobre a mesa. Corri todo o apartamento atrás das chaves, escrevendo uma nota mental de que faria uma faxina assim que tivesse tempo. Eu sabia que esqueceria logo, mas não custava tentar lembrar. Talvez eu não precisasse correr tanto, pois morava num quarto em cima do local onde eu trabalhava, mas toda essa proximidade com o trabalho não dava abertura para atrasos. Achei as chaves e segui em direção à escada, parando por alguns segundos. Acima da mesma tinha uma foto e o local onde ela ficava era privilegiado. Sempre que eu saia de casa, eu era ‘obrigado’ a olhar para aquela foto, não que fosse algo ruim, muito pelo contrário, em alguns momentos era minha única companhia. O sorriso da minha mãe estava perfeito naquele retrato, era como se ela soubesse que eu o olharia sempre que precisasse e que encontraria forças nele. Já meu pai estava sério, como sempre, na sua postura fria e séria do comandante inglês, mas a sua seriedade lhe dava um ar forte, capaz... Queria ser como ele. Passei a mão pela foto, como um carinho, dizendo:
- Amo vocês. – e desci as escadas, chegando na parte dos fundos do bar onde eu trabalhava. Eu paguei toda a minha faculdade com esse salário, que nunca foi grande coisa, mas era a única coisa que eu tinha.

- , você está atrasado. – Paul disse, contendo um sorriso – Você mora aqui em cima, como consegue se atrasar?
- Meu relógio não despertou. – eu disse, roubando um biscoito da prateleira. Ele balançou a cabeça lentamente e riu.
- Vá arrumar o salão, daqui a pouco está na hora de abrir e da sua aula. – ele disse, jogando o pano que segurava no ombro e voltando a lavar a louça.

Segui para a parte da frente, onde coloquei todas as cadeiras no lugar, limpei as mesas e o balcão. Depois peguei uma vassoura e limpei todo o chão, em seguida passei um pano com cera. Quando Paul terminou seu trabalho na cozinha, eu já tinha terminado o meu também.

- Já terminou? – ele perguntou.
- Já. – respondi, me jogando numa cadeira.
- Se eu fosse você não perdia tempo aí sentado, tá quase na hora da sua aula. – assim que ele falou, me levantei e segui correndo na direção da porta.
- ! – ouvi seu grito e voltei – Não tá esquecendo nada? – ele pegou minha mochila que estava atrás do balcão.
- Ah! Obrigada. – sorri de lado, antes de voltar a correr.

Paul é meu tio, irmão do meu pai e me ajudou quando eu mais precisei. Há dez anos meus pais morreram num acidente de carro. Eu tinha apenas quinze anos e confesso que fiquei completamente perdido. Eu não tinha mais ninguém na Califórnia, meu pai foi morar lá por causa da minha mãe, que perdeu o contato com toda a família. Então eu me vi órfão e sozinho, a única saída que eu tive foi vir para Londres e morar com o Paul. Ele me recebeu de braços abertos e sempre dizia que via meu pai quando me olhava. Talvez isso não seja tão bom assim, olhar pra uma pessoa e ver outra, mas deve ajudar de alguma maneira. Pelo menos nós temos um ao outro, quer dizer, meu tio tem a Carlie e eu... Bem, eu só tenho ele e meu amigo . Que por coincidência, está vindo em minha direção agora.

- Não acredito que você vai se atrasar para a sua primeira aula depois das férias. – ele disse, dando um soco em meu ombro.
- Eu não vou me atrasar – disse olhando para o relógio e constatando que estava sim atrasado – Quer dizer, não vou me atrasar muito. – ri, tratando de andar mais rápido. Continuamos nosso caminho até a faculdade, que não era tão longe. Conversamos um pouco, comentamos sobre a pressão de estar no último ano da nossa especialização. Eu me formei em direito há dois anos e no fim desse ano termino minha especialização em direito penal. Já está se especializando em direito administrativo, para trabalhar na empresa do pai e no futuro substituí-lo.
- ... – ouvi uma voz feminina, forçadamente sexy, me chamar pelo apelido. Respirei fundo, tentando ignorar.
- Cara, você vai deixar a Alicia falando sozinha? – perguntou, espantado.
- , vem aqui. – ela insistiu.
- Ela já fez isso tantas vezes comigo e eu sei que não mata.
- Eu nunca deixaria uma garota como ela falando sozinha.
- Sério? E a sabe disso? – perguntei, lembrando a ele de sua própria namorada.
- A não tem nada a ver com isso. – ele respondeu, na defensiva.
- . – Alicia disse firme, me fazendo parar e rolar os olhos.
- Bem, eu vou nessa, deixo esse problema só para você. – disse, antes de correr para o prédio, já que estávamos perto o suficiente. Parei, esperando que ela chegasse até onde eu estava.
- O que é, Alicia? Estou atrasado para a aula. – perguntei seco, cruzando os braços.
- Nossa, , precisa me tratar assim? – ela disse, passando as mãos por trás do meu pescoço.
- Sim, preciso. – respondi, retirando suas mãos.
- O que eu fiz?
- Não seja cínica, por favor. Eu vi você se agarrando com o Steve na festa do Mark e eu não sou otário.
- Mas aquilo não era nada, , é de você que eu gosto.
- Se o seu gostar é assim, eu prefiro que você não sinta nada por mim. – disse e virei as costas, seguindo para a aula.
- Você ainda vai se arrepender, . – ela disse, num tom superior. Eu virei, ficando de frente para ela e lhe dei um sorriso falso.
- Gosto de correr riscos.


- Então, turma, o trabalho é para daqui a quinze dias. Abandono do incapaz e lembrando: cinco laudas, citações de três autores diferentes e deve conter, no mínimo, sujeito do crime, objeto jurídico, elemento objetivo, consumação, tentativa e elemento subjetivo.* - o professor Smith disse, enquanto o sinal soava.
- Nossa, esse trabalho será pesado. – Steven reclamou atrás de mim.
- Nem reclame, pelo menos você não tem que trabalhar. – eu disse, guardando as coisas na mochila.
- Verdade, bom sorte com isso, .
- Já estou acostumado. – dei de ombros, saindo da sala. Caminhei lentamente pelo corredor, encontrando e pelo caminho.
- O que você fez com a Alicia? Ela entrou na sala soltando fogo pelo nariz. Foi muito legal de ver. – ela deu um risadinha. Elas eram da mesma turma, último ano de psicologia e, digamos, não se davam muito bem.
- Pena que nem todo mundo pensa assim, não é? – eu disse, olhando rapidamente para .
- Como assim? – ela perguntou confusa.
- Algumas pessoas não gostam de ver a queridinha de todos sendo mal tratada.
- Não sei como você a agüenta, , você merece uma garota legal, simpática, divertida e não aquele nojo da Alicia.
- Qualquer um merece a Alicia. – murmurou.
- Como é? – perguntou, parando no meio do corredor. Eu dei uma risada olhando a cara de espanto do .
- Não, não é isso, amor... – ele tentou se explicar, me olhando com cara de suplica.
- Bem, como alguém já me disse isso hoje, eu vou nessa e deixo esse problema só para você. – sorri, seguindo para a saída.

Cantarolava alguma coisa, enquanto me esquivava das pessoas indo na direção contrária. Até que encontrei um rosto novo na multidão. Sua expressão denunciava que ela estava perdida, ela olhava um papel e depois voltava a olhar em volta, quase que rodando no mesmo lugar. Ela era diferente, talvez nem fosse daqui. Seus cabelos bem cuidados caiam suavemente pelas costas, sua pele branca assumia um tom rosado com o contato do sol e um grande óculos cobria seus olhos. Não sei o que, mas algo me intrigou naquela menina. Quando pensei em me aproximar e oferecer ajuda, ela parou uma menina que passava e perguntou alguma coisa. Como agradecimento ela deu um dos mais belos sorrisos que eu já vi em toda a minha vida. Me xinguei milhares de vezes de não ter ido antes, afinal, se eu tivesse a ajudado, eu receberia aquele sorriso como agradecimento. Me perdi em meus pensamentos e quando voltei a razão, ela já tinha ido embora e eu nem vi em que direção. Não foi e nem será a primeira vez que eu me encanto com uma garota e, por ação do destino, eu a perco. Já deveria estar acostumado... Olhei para o relógio e já estava quase na hora do começo do meu expediente, então tratei de tirá-la da cabeça e continuei meu destino.


- Pensei que fosse se atrasar. – Carlie disse, quando eu entrei na cozinha do bar. Carlie era uma pessoa legal, por mais que não fosse oficialmente esposa do Paul, ela foi a figura mais próxima de uma mãe que eu tive nesses últimos anos. Em alguns aspectos ela até lembrava minha mãe, como o sorriso ou a forma alegre que vê e vive sua vida – É melhor você almoçar antes de ir lá para frente, porque daqui a pouco aquilo lota e você vai ficar com fome.
- O Paul vai reclamar...
- Com ele eu me entendo. – ela deu uma piscadela, colocando um prato na mesa. Comi o mais rápido que pude, lavando a louça em seguida.
- , o que você está fazendo? Aqui está uma loucura, estou precisando de você. – Paul disse, entrando rapidamente na cozinha.
- Eu disse que ele ia reclamar... – murmurei para Carlie.
- Paul, o menino precisava comer. – ela disse séria, o encarando por alguns segundos.
- Você mima demais esse menino. – ele disse, voltando ao trabalho.
- Eu disse que com ele eu me entendia. – ela sorriu – Agora vá trabalhar, já abusamos demais da boa vontade dele.

O bar estava realmente lotado, grande parte dos alunos da faculdade em que eu estudava acabava indo para lá depois das aulas. Logo, essa loucura era rotina na minha vida. Agora imaginem: faculdade, trabalhos, emprego, Alicia... Como eu consigo lidar com tudo isso mesmo?

*Retirado de um trabalho de doutorandos em Direto Penal.


Terceiro
I'm on a roll this time and heaven is in sight


Londres – algumas semanas depois

Convencer a minha mãe que usar o avião do meu pai, porque eu me recuso a dizer o ‘nosso’ avião, foi realmente difícil. Eu queria chegar despercebida, não queria holofotes e placas de neon anunciando que eu estava em Londres. Já seria bem difícil sem isso. Pensei em cortar o cabelo, pintar ou qualquer coisa do tipo, mas, novamente, minha mãe se intrometeu, impedindo que eu fizesse qualquer coisa. Às vezes eu me sinto como uma criança de dez anos...
Mas isso não é importante, o que de fato importa é que eu acabei de pousar em Londres e já sinto minha vida mudando. Não sei, talvez seja apenas uma sensação de liberdade pelo fato dos meus pais estarem a horas de distância ou se é a minha consciência dizendo que esse é apenas o primeiro – e pequeno – passo da longa caminhada que eu tenho pela frente. Ellen se mexeu atrás de mim, para que eu seguisse meu caminho e nos seguia de perto. Eles eram as únicas pessoas que eu confiava além dos meus pais e do meu primo. Eu sempre achei que qualquer um pudesse usar algo que sabia ao meu respeito quando eu menos imaginasse. Acho que eu não estava tão errada assim, mas, pelo menos, eu não tinha nada a esconder. Pelo menos por enquanto... Pelo amor de Deus, . Você mal chegou e já está pensando em aprontar! Imaginei Ellen dizendo se eu tivesse dito em voz alta meu último pensamento. Seguimos para o carro que nos esperava e quando vi as pequenas bandeiras tremulando, sabia que não era boa coisa que estava por vir.

Quando o motorista nos deixou em frente ao nosso destino, tive que reprimir um gemido. Claro que eu teria que ficar na embaixada da Dinamarca. Onde mais meu pai confiaria a sua única filha?
Ao lado de um grande e moderno prédio, havia um pequeno casario, como se fosse um anexo. Uma pequena bandeira tremulava na entrada, e o vermelho dela se destacava na parede branca. Lembrei vagamente de passar alguns dias naquele lugar, quando eu ainda me via obrigada a acompanhar meus pais em suas viagens.
Assim que pus os pés na calçada, uns cinco empregados surgiram não sei de onde, talvez do além, e pegaram tudo que estávamos carregando. Ellen sorriu largamente, elas estavam acostumadas a fazer as coisas pelas pessoas e não que fizessem por ela. Confesso que ela deixa isso subir um pouco à cabeça dela, mas quem não agiria como ela? Você responderia ‘ninguém’, mas é porque não conhece o , é como se ele estivesse sempre preparado para qualquer coisa, sempre alerta, como diriam os escoteiros. Ele observou o lugar, buscando por qualquer coisa que fosse, sei lá perigosa. Às vezes eu tenho medo do que possa passar pela cabeça dele. Ele entrou na frente, carregando as próprias malas, sendo seguido por Ellen e eu entrei logo atrás.

Eu mal lembrava daquela casa, acho que não estive aqui muitas vezes, eu nem consigo lembrar da última. Parei perto da escada, no hall de entrada, de onde eu conseguia ver um pedaço da sala de estar e um corredor que, provavelmente, levava até a cozinha. Poucos segundo após entrarmos, uma senhora, aparentando uns cinqüenta anos, se aproximou sorriso verdadeiramente.

- Oh, , como você está crescida. – ela disse, parando ao meu lado. Eu lembrava vagamente de seu rosto, mas não do seu nome – Você não deve lembrar de mim. – ela sorriu – Sou Angela, eu cuidava de você quando seus pais tinham algum compromisso importante. Ficávamos aqui nessa casa fazendo roupas para as bonecas e comendo...
- Bolo de maçã com canela! – completei, lembrando instantaneamente de tudo que fazia naquela casa. Era uma época boa, eu não tinha com o que me preocupar.
- Que bom que você se lembra, porque tem um te esperando na cozinha. – ela sorriu – Acho melhor você se acomodar antes, deve estar cansada.
- Um pouco. – confessei. Ela fez um sinal para que eu a acompanhasse.
- Ah, só um momento. – ela disse, virando-se na direção de Ellen e – Clarice acompanhará você.
- Obrigada. – Ellen respondeu, enquanto se limitou a dar um pequeno sorriso.

Terminei de subir as escadas, encarando um pequeno corredor, que abrigava alguns quadros e fotos dos meus pais. Aproximei-me de um portarretrato que estava na parede, era uma foto minha e da minha mãe. Nós estávamos no jardim dessa casa, embaixo de uma árvore. Eu estava com um sorriso enorme nos lábios, parecia estar me divertindo como nunca. Eu sentia falta dessa época da minha vida, eu tinha um ótimo relacionamento com a minha mãe, nunca brigávamos, estávamos sempre juntas, fazendo todo tipo de coisa. Eu realmente espero que um dia tudo volte a ser como era antes, sem tantas confusões, tantas brigas, que nós voltemos a ser uma família feliz.

- Eu me lembro desse dia. – Angela disse, parando ao meu lado – Seu pai passou o dia todo fora e vocês ficaram fazendo bagunça o tempo todo.
- Tenho que mostrar essa foto para a minha mãe, para que ela veja que sorrir é bom e faz bem.
- Não fale isso. – Angela me censurou e ri de leve em seguida. Seguimos pelo corredor e paramos em frente à última porta – Nós não modificamos nada, então está da mesma forma que você deixou da última vez que esteve aqui.
- Devo me envergonhar? – perguntei, imaginando o quão critica estaria a situação.
- Um pouco, talvez. – Angela riu com vontade – Me chame se precisar de alguma coisa.

Não tinha nada tão catastrófico como eu imaginei, só algumas roupas, que eu nem lembrava mais da existência, no armário e alguns pôsteres de bandas estranhas nas paredes. Lembrei que na última vez que estive aqui, eu estava numa fase, digamos, difícil da minha vida. Eu só usava preto e ouvia rock, exceto quando tinha algum evento e eu tinha que vestir algo rosa. Eu era tão boba, ri de mim mesma. Retirei com cuidado os pôsteres das paredes, peguei algumas coisas que trouxe do meu quarto e tentei fazer daquele cômodo estranho, um pouco familiar, afinal eu morarei nele por algum tempo. Depois de espalhar fotos e bugigangas pelo quarto, sentindo o cansaço me abater, tratei de desfazer a menor mala e procurei algo confortável para vestir. Segui para o banheiro, onde tomei um banho quente e relaxante, coloquei um pijama largo e desci até a cozinha. Lá chegando encontrei Angela e Ellen conversando animadamente.

- Oi? – disse quando entrei, com medo de atrapalhar alguma coisa.
- Ai está ela. – Ellen levantou os braços e riu.
- O que foi? Ou melhor, o que você estava falando de mim? – perguntei – Não acredite nela, Angela. Ela mente.
- Pare com isso, . A Angela estava me contando o que você aprontava quando vinha pra cá, só isso.
- Tudo bem, eu acredito. – eu disse, sentando ao seu lado – E então, o que temos para comer?
- O que você acha? – Angela perguntou enquanto levantava e trouxe um prato branco de bolo para a mesa – Fiz o seu preferido. – ela disse mostrando o bolo de maçã com canela ainda morno.
- Deus, Angela, você é a melhor. – eu disse, pegando a fatia que ela me oferecia.
- Quer um pouco de suco de laranja?
- Quero sim, por favor. – eu disse de boca cheia e vi um pedaço do bolo sair voando.
- Antigamente as pessoas da família real recebiam aula de boas maneiras, vejo que agora as coisas estão diferentes. – Ellen disse, fazendo cara de nojo e saindo da cozinha.
- Onde estão todos? – perguntei.
- está conversando com os outros seguranças e as outras empregadas devem estar em seus quartos, já está meio tarde. – ela disse e eu olhei o relógio: 22:16.
- Me desculpe, Angela. Estou te atrapalhando. – eu disse, colocando o último pedaço de bolo na boca.
- Claro que não está, pode terminar de comer com calma. – ela disse com um sorriso, enquanto guardava algumas coisas que estavam na mesa.
- Eu já acabei, agora eu vou dormir. Obrigada, Angela.
- Boa noite, querida.
- Boa noite.

Segui para o quarto e caí na cama rapidamente. Dormi pesadamente e nem me dei conta que o sol já estava alto quando acordei. Ainda sonolenta, tateei a mesa de cabeceira a procura do meu celular e dei um pulo quando vi a hora. Eu tinha hora marcada na faculdade e já era um encaixe, não podia perder. Pulei da cama e segui para o banheiro, tomando um banho rápido. Me encarei no espelho enquanto me vestia, meus olhos ainda estavam inchados pelo sono. Peguei meus óculos escuros na mala e coloquei na bolsa. Já na sala, gritei um ‘tchau’ e sai apressada pela porta, não ia esperar nenhuma carona. Peguei um táxi e pedi que me deixasse na faculdade. Olhei no relógio, vendo que ainda tinha um tempo e não precisava correr tanto, porém havia um pequeno engarrafamento no caminho. Depois de uns vinte minutos cheguei à faculdade e me vi meio perdida. Eu tinha o número do prédio e da sala anotados num papel, mas todos os prédios eram parecidos e não tinha nenhuma numeração aparente. Fiquei rodando em círculos, igual uma boba, enquanto tentava me localizar. O sol não estava quente, mas minha pela branca começou a ficar com um tom rosado e os óculos não protegiam tão bem os meus olhos. Vi uma menina se aproximar e tentei chamar sua atenção discretamente, com sucesso.

- Você pode me ajudar? Estou meio perdida. – eu disse, com um sorriso tímido.
- Claro. – ela disse, tirando os fones dos ouvidos.
- Eu preciso ir nesse prédio, mas eu não consigo encontrá-lo. – mostrei o papel a ela.
- Você vai seguir por aqui. – ela apontou para a direita – É o terceiro prédio, o amarelo.
- Muito obrigada mesmo. – eu disse com um sorriso.
- De nada. – ela respondeu, antes de recolocar os fones e continuar seu caminho.

Depois da ajuda da menina eu encontrei facilmente o prédio e entrei rápido para não me atrasar. Não esperei muito tempo, a pessoa responsável pelas inscrições já estava me esperando e tudo saiu perfeitamente bem. Claro que eu pedi sigilo da minha presença na faculdade, não queria nada que pudesse me atrapalhar e é claro que eles aceitaram. Com mais tranqüilidade eu segui para a saída, e me disponibilizei um tempo para andar calmamente pelo campus. Peguei um táxi que estava parado na esquina e fui, dessa vez sem engarrafamento, para casa. Quando o carro parou, correu para abrir a porta e sua expressão não estava nem um pouco calma. Ele jogou algum dinheiro para o motorista e praticamente me arrastou para dentro.

- O que foi? Ficou louco? – perguntei.
- Aparentemente a louca aqui é você. Onde você estava com a cabeça para sair sozinha e sem avisar?
- Eu dei tchau. – respondi e ele rolou os olhos.
- Você não tá entendendo a gravidade da situação. Seu pai ligou e ninguém sabia onde você estava, ele ficou louco e tudo caiu nas minhas costas, afinal, eu sou o seu segurança. Você chegou ontem e já aprontou isso, tem noção de como os seus pais estão felizes com isso?
- Tá bom, eu já entendi. Posso me explicar agora?
- Pode. – ele disse, respirando fundo.
- Eu tinha hora marcada na faculdade e acordei tarde, eu não podia faltar. Então eu peguei um táxi aqui na porta, só isso. Eu não tinha tempo de esperar ninguém me levar. E também eu não sou nenhuma menininha, eu sei me cuidar.
- Eu sei, mas para os seus pais é meu trabalho cuidar de você.
- Tudo bem, me desculpe. Não farei mais isso, eu prometo.
- Tá, mas agora diga isso para o seu pai. – ele disse, enquanto me dava o telefone. Meu primeiro dia em Londres não estava sendo como eu esperava.


Quarto
The moment to fight, to fight, to fight, to fight


’s Pov

Nos meus dias de folga do trabalho eu gostava de praticar uma coisa que lembrava o meu pai. Era algo um tanto quanto antiquado, diferente ou até mesmo estranho, mas era um hábito, um hobby que tínhamos e uma das poucas coisas que fazíamos juntos. Para minha sorte, na faculdade tinha uma equipe, assim eu podia praticar e, modéstia a parte, eu era o melhor deles. Eu praticava esgrima. Nada comum, não é mesmo? Esse esporte sempre foi algo mais elitizado e graças à formação militar do meu pai, isso se tornou parte da minha vida. Quando eu vestia a roupa e pegava o sabre, eu me sentia mais próximo dele. Isso me alegrava.

Segui rapidamente pelos corredores da faculdade, eu estava atrasado mais uma vez. Será que eu chego no horário em algum momento da minha vida? Dizem que os ingleses pregam pela pontualidade, mas eu acho que não herdei isso do meu pai. Abri a porta lentamente, para não fazer nenhum barulho, pois o treino já havia começado e o treinador, senhor Kane, não gostava de interrupções. Segui para o banheiro, me troquei e logo estava pronto para as lutas.
Ao chegar perto dos demais, percebi que havia uma pessoa diferente no treino. Sua postura mais rígida me lembrava os antigos lutadores, talvez fosse algum amigo do treinador que veio nos auxiliar, afinal, um após o outro duelava com ele.
- Esse cara não perde uma. – um rapaz que estava próximo murmurou.
- Ele está aqui há muito tempo? – perguntei.
- Desde a hora que o treino começou e eu fui o primeiro a chegar. – ele respondeu. – E aparentemente ele lutará com todo mundo e ninguém ganhou dele até agora. O estranho é que ele luta com florete e ganha de pessoas que lutam com o sabre, ele não se dá ao trabalho de mudar a arma.
- Talvez eu possa mudar isso. – eu disse, sendo um pouco arrogante. O rapaz ao meu lado me olhou, quase me 'medindo' e depois deu de ombros, como se isso não importasse a ele. Alguns minutos se passaram e o 'lutador misterioso' continuava sem perder um embate. Pelas minhas contas, já eram seis vitórias consecutivas e sem contar as que eu perdi. Já estava ansioso pela minha vez, queria testar as reais habilidades dele.
- ? – o treinador disse alto. – Está pronto?
- Sempre estou. – respondi, aproximando-me da pista. Observei o tal lutador de perto pela primeira vez. Ele era meio baixinho e bem magro, talvez isso o deixasse mais veloz e flexível. Seria a única resposta para ele vencer todos os adversários com tanta facilidade, como vinha acontecendo.
- Seu adversário é um convidado especial. Não o trate como inferior, jamais meça seu adversário usando um nível inferior como base. Às vezes você pode se enganar. – meu treinador me advertiu, mas eu não liguei muito para o que ele falava. Minha atenção estava no meu adversário, a pessoa que nem se deu ao trabalho de tirar a máscara para me cumprimentar. Ele estava começando a me irritar.
- Três toques dão a vitória. – o treinador disse. – Preparem-se.
- Eu costumo usar o sabre, você tem certeza que vai lutar com um florete? – ele se limitou a balançar a cabeça afirmando. – Tudo bem, se você prefere assim. – abaixei o capacete e me lancei ao ataque. Ele se esquivou facilmente, acertando a lateral do meu corpo num golpe rápido e certeiro.
- Toque. – o treinador exclamou. Bufei, irritado. Não deixaria ele me vencer.
Voltei à posição inicial, observando atentamente meu adversário, ele deveria ter um ponto fraco. Atacarei pela lateral, assim como ele fez. Nada de partir para o ataque óbvio, pensei. Ele continuava em sua posição quase superior, nada o atrapalhava. Lancei-me novamente ao ataque, porém fugindo do esperado. Como se ele lesse minha mente, esquivou-se perfeitamente e, com a ponta de seu florete, tirou meu sabre do caminho. Não sei se foi impressão minha ou eu realmente vi um leve sorriso em seu rosto por trás do capacete. Com a minha atenção dispersa, ele tocou a ponta de sua arma em meu tronco.
- Toque. – o treinador disse novamente. Ouvi alguns murmúrios dos outros lutadores. E fiquei mais irritado ainda. Assim que voltamos à posição inicial mais uma vez, não dei tempo para que ele se preparasse, atirei-me ao ataque e o surpreendi, afundando meu sabre na altura do peito. Ele tombou a cabeça para o lado, me observando e então balançou a cabeça, como que afirmasse alguma coisa. – Toque. – repetiu o senhor Kane.
Ao voltar para minha posição, parecia que a luta tinha mudado de perspectiva. Meu adversário se lançou ao ataque, sem me dar tempo para pensar. Apenas levantei minha arma e me preparei para o golpe. Não sei de que forma ele fez, mas com alguns movimentos dele, em meio à minha tentativa de defesa, deixei que ele derrubasse minha arma, deixando-me vulnerável. Sem que houvesse como reagir, ele pressionou a ponta de seu florete firmemente contra meu corpo.
- Isso é para você parar de medir seus oponentes antes do combate. – uma voz feminina invadiu o ambiente, que ficou completamente silencioso. Meu adversário retirou a máscara e deixou seus longos cabelos caírem pelas suas costas. Ela os sacudiu e passou os dedos por entre os fios, tentando ajeitá-los. Na minha opinião, eles estavam perfeitos, assim como tudo nela. E então eu me lembrei do seu rosto, era a mesma menina que eu vi outro dia aqui na faculdade, a mesma que parecia estar perdida. Ela era ainda mais linda de perto e com certeza não era daqui. Ela tinha algo diferente, algo que a tornava especial perante às demais. Talvez fosse a postura quase superior que ela ostentava ou poderia ser apenas o fato de ser realmente boa na esgrima. Mas seja lá o que for, aquela garota tinha uma aura típica de pessoas nobres. Não lembro se ela disse mais alguma coisa, pois eu estava completamente paralisado diante da situação. Não foi porque eu perdi para uma garota, muito bonita, por sinal, e sim pela forma como eu perdi. Ela tinha uma técnica perfeita de combate, mesclando graciosidade, força e agilidade. Eu estava encantado. – Você tá me ouvindo? – ela disse mais alto, trazendo-me de volta à Terra.
- O quê? – limitei-me a dizer, parecendo um completo idiota. Ela deu um pequeno sorriso, parecido com aquele que eu pensei ter visto antes.
- Eu disse que você não pode menosprezar o adversário apenas pelo tamanho dele. Não digo nada pela arma, porque nas competições elas são iguais. – ela deu de ombros. – Mas eu vi muito bem a sua expressão ao ver o meu tamanho, meu porte atlético e isso pode ser surpreende, da mesma maneira que foi agora. Ou você tinha alguma idéia que estava lutando com uma garota? – ela enfatizou as duas últimas palavras.
- Eu acho que você não deveria colocar pensamentos em minha cabeça. – eu retruquei, conseguindo pensar direito pela primeira vez desde que ela tirou a máscara.
- Então você não me mediu ou pensou que seria fácil demais me vencer?
- Eu realmente te medi, mas eu não achei que seria fácil, não depois de ver a forma como você lutava. Não é qualquer um que vence tão facilmente lutando apenas de florete. – ela pareceu acreditar, mas não se deixava intimidar.
- Tudo bem, eu acredito em você, mas acho que vou embora. Afinal, meu trabalho está cumprido. – ela retirou as luvas e passou pelo meio dos outros rapazes, que assistiam a tudo aquilo calados, pegou a bolsa e saiu.
- Como assim seu trabalho está cumprido? – indaguei, seguindo-a.
- Pergunte ao seu treinador, é ele quem lhe deve respostas, não eu.
- Espere! – eu disse, mas ela continuou andando, ignorando-me completamente. Não desistiria assim tão fácil. Continuei atrás dela, ignorando o fato de que eu ainda estava com todo o uniforme, exceto a máscara. Ela se livrou da jaqueta no meio de caminho e seguia seu caminho sem olhar para trás, mesmo sabendo que eu a seguia.
- OK. Se você for um maníaco ou qualquer coisa do tipo, é melhor se preparar... – ela disse, virando-se e me encarando.
- Não sou nada disso, você que decidiu me ignorar e eu não gosto de deixar coisas por falar.
- Tudo bem, que coisas que você quer falar? – ela perguntou, cruzando os braços. É, ela me pegou. Eu não sabia o que eu queria falar, não sabia se eu tinha ao menos uma coisa para falar. Eu abri a boca sem emitir som e repeti esse ato algumas vezes. Ela rolou os olhos e começou a bater o pé, como se estivesse contando o tempo. Alguns segundos depois ela pareceu se cansar e virou-se para ir embora mais uma vez.
- Não, não vá embora. – eu pedi.
- Eu não tenho todo o tempo do mundo, não posso ficar aqui admirando a sua beleza e vendo você abrir e fechar a boca...
- Então você me acha bonito? – perguntei com um sorriso e ela rolou os olhos mais uma vez.
- Chega. – ela disse, virando-se de novo.
- Tudo bem. – eu disse por fim. – Já sei o que quero saber.
- Até que enfim, ouço sinos e coros de aleluia.
- Você sabe que não me intimida agindo assim, não é?
- E quem disse que a minha atenção é te intimidar? Eu quero mesmo é me livrar de você, me trocar e ir para a minha aula. – ela pegou o celular na bolsa, olhando as horas. – Você tem mais dois minutos para me perturbar. Eu juro que ignoro toda a educação que recebi e te deixo aqui falando sozinho, se você não dizer logo o que quer. – ela disse, aparentemente usando toda a paciência que lhe restava. Eu quero você. parecia a coisa certa a dizer, pelo menos na minha cabeça, mas eu sabia que isso não seria bem recebido. Meu Deus, eu vi essa garota duas vezes e ela já está me deixando assim?
- Quero um nome, um curso e um lugar onde eu possa te achar. – eu disse por fim. Ela riu, balançando a cabeça lentamente.
- Você tem três questionamentos e eu tenho apenas tempo para lhe oferecer uma coisa.
- O quê? – perguntei, curioso.
- O benefício da dúvida. – ela disse com um sorriso, e em seguida continuou seu caminho. Dessa vez eu não a segui, continuei olhando encantado para aquela garota.
- Ah, vamos lá. – eu gritei, chamando a atenção de todos ao redor – Só um nome. - ela sorriu, virando-se para mim.
- Agora você quer me envergonhar? Não basta apenas me atrasar? – ela gritou de volta.
- Apenas um nome.
- . – ela disse, sendo vencida pelo cansaço. Sorri sozinho e continuei a acompanhá-la apenas com o olhar. Senti alguém parado ao meu lado, assistindo à cena.
- Quem é ela? – perguntou rindo.
- A futura mãe dos meus filhos, meu caro amigo. – eu disse, dando leves tapas em seu ombro.

/’s Pov


Quinto
Let's play a love game, play a love game


Corri pelos corredores, apressada. Aquele menino tinha me atrasado de verdade. Eu esbarrava em algumas pessoas e dizia um ‘desculpe’ alto o bastante para que ouvissem. Troquei de roupa o mais rápido que consegui, espremendo-me num quadrado micro que aqui eles chamam de banheiro. Depois de derrubar minha bolsa milhões de vezes e quase cair sentada mais duas mil, consegui finalmente me aprontar e sair mais uma vez apressada pelos corredores. Tentei prender o cabelo de qualquer jeito enquanto subia as escadas do prédio onde teria aula. Confesso que ficou horrível, mas era o melhor que eu podia fazer. Cheguei à porta da sala e olhei no relógio: estava quinze minutos atrasada. Fiquei pensando se entrava ou não, pois se entrasse, atrapalharia a aula que já tinha começado e isso não é visto com bons olhos por aqui. Desistindo de entrar, dei meia volta não olhando antes e esbarrei em alguém, que me segurou antes que eu caísse.
- Opa! Cuidado. – sua voz grossa me sobressaltou.
- Desculpe. – eu disse, tentando me ajeitar, porque tudo parecia querer cair ao mesmo tempo.
- Por nada. – ele respondeu, olhando no relógio e em seguida para dentro da sala.
- Você também faz essa aula? – perguntei, meio indiscreta.
- Faço, ou pelo menos tento. Essa professora não admite nenhum minuto de atraso, ela leva a pontualidade britânica muito a sério. – fiz uma careta, entendendo seu recado: Nunca mais me atrasar para essa aula.
- Ah, desculpe minha falta de delicadeza. Eu me chamo . – disse, estendendo a mão para o rapaz.
- Jared. – ele disse, com um sorriso. – Você não é daqui, é?
- Não, sou da Dinamarca.
- Seu sotaque te entregou. – ele confessou, mexendo na alça de sua bolsa, meio sem jeito. Ele era relativamente bonito. Talvez não ligasse muito para se arrumar, deixava uma barba rala e o cabelo despenteado de propósito. Isso lhe dava certo charme e um ar meio misterioso. Seus olhos verdes me fitavam com curiosidade, como se quisesse saber tudo sobre mim e fosse conseguir suas respostas apenas olhando em meus olhos.
- Bem, eu acho que vou embora. Nos vemos nas próximas aulas. – eu disse, com um pequeno sorriso simpático, ou diplomático, como diria meu pai.
- Isso se você não se atrasar de novo. – ele respondeu, retribuindo o sorriso.
- Digo o mesmo.
Dei as costas para o primeiro garoto que conheci na faculdade, pelo menos ele foi simpático. Nesse momento lembrei-me do rapaz do treino de esgrima. Ele era mil vezes mais bonito que o Jared e mil vezes mais abusado também, mas, de certa forma, ele conseguiu chamar a minha atenção de um jeito estranho. Talvez fosse pela sua aproximação nada convencional ou pela perseguição. Só sei que por culpa dele eu perdi uma aula importante e nada que ele pudesse fazer me faria recuperar. Talvez eu devesse procurá-lo e perturbá-lo até que ele também perdesse uma aula. Olho por olho e dente por dente, não é esse o lema? Balancei a cabeça lentamente, eu tenho cada pensamento infantil às vezes. Será que eu seria assim quando fosse rainha? Outro chefe de estado faria algo que não me agradasse e eu o pagaria na mesma moeda? Isso não está nada certo...
Senti meu corpo esbarrar em algo e depois ouvi o barulho de coisas caindo no chão. Abaixei e comecei a recolher vários livros que ficaram espalhados pelo corredor por minha causa. Ao pegar, olhei os títulos e eram todos sobre psicologia ou assuntos relacionados. Levantei, vendo a pessoas que eu tinha acertado.
- Mil desculpas. – eu disse, devolvendo os livros. – Eu estava no mundo da lua.
- Não se incomode, eu também estava. Bem que o meu namorado diz que eu não devo ler enquanto ando. Eu sempre soube que causaria um acidente, pelo menos não foi muito desastroso. – ela sorriu, com vontade, por sinal. – Me chamo . – disse, estendendo uma das mãos como conseguia.
- – respondi. – Eu te atrapalhei de alguma forma ou te atrasei? Porque eu estou esbarrando em muitas pessoas num único dia.
- Espero que você tenha esbarrado em alguém mais interessante que eu antes, se é você me entende. – ela disse, de forma engraçada. Acho que a minha expressão não foi das melhores, porque ela desfez seu sorriso e me olhou séria. – Eu disse algo errado?
- Não, é que você é diferente das outras pessoas que conheci aqui na Inglaterra.
- É, você parece mesmo não ser daqui e esse pessoal é muito anti-social, não ligue pra eles. – ela disse, fazendo careta e apontando para algumas pessoas que estavam ali por perto.
- Você também não é daqui? – perguntei.
- Eu sou nascida e criada aqui, mas a minha avó é italiana e ela é, como se diz, bem expansiva, animada...
- É, eu sei. Lembro de quando fui até a Itália pela primeira vez. Os homens me assustaram. – confessei, falando a última frase mais baixo.
- Algum deles passou a mão em você?
- Não! – eu respondi, alarmada. – Eles fazem isso?
- O tempo todo. Você não pode ficar desatenta, porque se você bobear... – ela não completou a frase, mas riu bastante, deixando claro o que acontecia. Ela manteve o sorriso no rosto, olhando-me de forma calorosa, como se me conhecesse de muito tempo e não há cinco minutos. – Então você não é daqui, não é? Você perguntou se eu também não era...
- Eu sou da Dinamarca, eu estou aqui pra estudar.
- Dinamarca? Não conheço... É frio lá? – ela perguntou, de forma quase infantil.
- Bem, eu já estou acostumada, então não sei se é tão frio. Mas não é nada insuportável como alguns lugares da Noruega ou da Finlândia. – os olhos dela quase brilhavam, enquanto eu falava dos países.
- Eu nunca fui pra nenhum desses países da parte de cima da Europa. Eu praticamente só conheço a Itália e a França.
- Quem sabe um dia você não me faz uma visita quando eu voltar pra casa? Você podia ir na primavera, o castelo fica lindo. – eu disse, não prestando muita atenção no que tinha dito.
- O castelo? – ela perguntou, curiosa. Percebi a besteira que tinha feito. Tinha prometido a minha mesma que não deixaria ninguém ficar sabendo quem eu realmente era e na minha primeira conversa mais longa, eu já deixo escapar.
- É, a família real deixa os jardins do castelo abertos para visitação. – eu disse, torcendo para que ela acreditasse. Na verdade eu não menti, pois isso realmente é verdade.
- E é bonito? – ela perguntou, animando-se mais uma vez.
- É lindo. – confessei, sendo aplacada por uma saudade imensa de casa. Ela sorriu, olhando para o relógio, e então franziu o cenho. – Você tem que ir embora?
- Tenho. – ela fez uma careta. – Mas eu queria muito continuar aqui conversando mais com você. Se bem que... Tem algo pra fazer até a hora do almoço?
- Eu teria aula, mas acabei perdendo. Então não, estou completamente livre.
- Quer me acompanhar no almoço? – ela ofereceu. – Isso se você não se importar de passar algum tempo com o chato do meu namorado...
- Acho que não me importo, a namorada dele já é legal o bastante. – respondi sinceramente. Eu realmente tinha gostado dela, o seu jeito sincero, animado, divertido e até mesmo meio infantil era contagiante. Eu precisava de alguém assim perto de mim.
- É um lugar perto daqui, um dos meus amigos trabalha lá, é bem legal. – ela disse enquanto andávamos em direção à saída. – E o melhor: fica lotado de gatinhos.
- Mas você não tem namorado?
- Tenho, mas olhar não tira pedaço. – ela riu e eu acompanhei.


Depois de andarmos um pouco, chegamos num pequeno bar. Ao entrarmos, deparei-me com um ambiente meio singular. Ele era a mistura de um bar convencional e um pequeno restaurante. O bar era como aqueles que nós vemos nos filmes e tal: o ambiente meio escuro, bancos cercando uma bancada, várias bebidas nas prateleiras das paredes do fundo, nas laterais alguns anúncios e slogans de cervejas, daqueles que ficam brilhando com luz neon, no fundo uma grande mesa de bilhar ganhava destaque com o grande refletor que pendia do teto. Já o restaurante tinha um toque mais feminino, era claro, bem iluminado, acolhedor. Era como se não pertencesse a aquele lugar, como se duas pessoas com gostos completamente diferentes fossem forçadas a conviver e trabalhar juntas, cada uma querendo deixar leves marcas sobre seus gostos pessoais. Talvez fosse a diferença tão gritante que deixasse aquele lugar completamente irresistível. Era misterioso e aconchegante ao mesmo tempo.
- Esse lugar é incrível. Completamente diferente. – eu disse, enquanto tirava meu casaco e adentrava o local.
- Eu também adoro. Antes era só um bar, mas a esposa do dono resolveu que serviriam comida também, então eles fizeram um ajuste. De noite isso aqui fica completamente diferente, você precisa ver.
- Preciso mesmo. – confessei.
- Olá, Paul. – ela disse acenando levemente para o senhor que estava atrás da bancada, servindo algumas pessoas. – Ele é dono e ela – apontou para uma moça, que entrava no salão com uma bandeja lotada de pratos. Imaginei como ela conseguia equilibrar tudo aquilo. – É a esposa dele, Carlie.
Sentamo-nos e eu passei a folhear o cardápio. O aroma que vinha da cozinha era altamente convidativo, como o cheiro de comida caseira recém preparada. Depois de poucos minutos, a moça, que disse se chamar Carlie, se aproximou.
- Boa tarde, e...? – ela disse.
- . – respondi, estendendo a mão para cumprimentá-la.
- Já escolheram? – ela perguntou, dando-nos um grande sorriso depois.
- Ainda não, estamos esperando o . – disse.
- Ah, tudo bem. Ele deve chegar daqui a pouco junto com o . Eu peço pra ele atender vocês, então.
- Obrigada. – dissemos juntas, rindo em seguida.
- Você faz o que na faculdade? – perguntou, talvez tentando ocupar o silêncio que se formara antes.
- Mestrado em economia internacional e negócios. – disse, recebendo um olhar estranho em resposta. – O que foi? Não pareço tão inteligente pra fazer isso? – eu ri.
- Não, é que não faz muito seu tipo. Quer dizer, quem olha pra você pensa que faz algo relacionado a humanas ou moda. – ela deu de ombros.
- É pra dar prosseguimento aos negócios da família. – confessei, em partes na realidade.
- Ah! Odeio isso. É como se tirasse o livre arbítrio da pessoa, não é natural. – ela exclamou. Vi que esse assunto a incomodava de certa forma.
- Tentaram te forçar a fazer alguma coisa?
- Deu pra perceber? – ela perguntou, dando uma risada.
- Só pela forma que você falou. – ri junto.
- É coisa do meu pai. Ele sempre esperou que eu fosse boa em matemática e essas coisas, mas eu sempre preferi ficar analisando as pessoas, sabe? Sempre tive isso de conversar, tentar ajudar. Acho que sempre fui a psicóloga das minhas amigas e sempre gostei disso. Não tinha porque eu me enfiar dentro de uma sala por horas e horas para fazer a contabilidade de uma empresa ou prever lucros e essas coisas. Mas vai falar isso pra ele... Tenho pena do meu irmão mais novo, ele não terá escapatória.
- Pelo menos você tem um irmão. – confessei, respirando fundo em seguida.
- Mas você poderia bater o pé, dizer que não é isso que você quer pra sua vida, . Ninguém no mundo deveria ser obrigado a fazer o que não quer.
- Eu não tenho como fugir, é algo de sangue... E é melhor mudarmos o assunto. – disse, tentando desconversar.
- Se você prefere... – ficamos num silêncio meio constrangedor durante alguns minutos, até ouvirmos o barulho da porta da frente abrir e um rapaz caminhar até a nossa mesa. – Você demorou. – exclamou, recebendo um leve beijo em seguida.
- Desculpe, foi coisa do . – ele disse, enquanto se sentava.
- Nós temos uma convidada. – ela disse sorridente, apontando para mim. Ele me olhou de forma estranha, mas eu não fazia idéia do motivo.
- . – estendi a mão para cumprimentá-lo.
- . – ele respondeu, apertando minha mão levemente. – Eu não conheço você?
- Não que eu saiba.
- É que o seu rosto não me é estranho...
- Pronto, pronto. Espero que não estejam morrendo de fome. – escutei uma voz conhecida atrás de mim. Virei-me lentamente, encarando, eu acho que pela primeira vez, seus olhos incrivelmente . Eu não tinha reparado bem em todos os seus aspectos físicos, mas agora, me dando essa liberdade, pude perceber toda a beleza que passou despercebida pelos meus olhos. Limitei-me a sorrir, sem saber muito bem o que falar. Ele franziu as sobrancelhas quando me viu e depois sorriu abertamente. Preciso dizer que fiquei mais paralisada do que já estava? – Você tá me seguindo ou algo parecido? – ele perguntou, tirando-me do meu quase transe.
- Você sempre chega depois de mim, logo, tecnicamente, quem está me seguindo é você. – desviei meu olhar, tentando clarear minha mente. Nada de garotos em sua vida, . Por mais lindos, charmosos e atraentes que eles sejam, nada de garotos em sua vida.
- Mas de alguma forma, você sempre acaba encontrando uma forma de estar em algum lugar ao qual eu pertenço. Talvez seja, sei lá, o destino... – ele disse, curvando-se lentamente em minha direção.
- Eu não acredito em destino. – respondi rápido.
- O que eu perdi aqui? – perguntou, altamente confusa.
- Ah! Lembrei, você é a garota que o ... – ele encarou o amigo, que estava prestes a dizer algo impróprio. – Enfrentou no treino, não é? – se corrigiu.
- Sim, eu sou a garota que o derrotou com certa facilidade, por sinal. – respondi, de forma quase arrogante.
- Eu não tenho vergonha de ter perdido pra você, eu fui desatento, estava despreparado e você é uma excelente esgrimista.
- Obrigada, quem sabe não te dou chance para uma revanche depois?
- Vocês podem, por favor, me explicar o que tá acontecendo aqui? – pediu mais uma vez.
- Eu fiquei sabendo que tinha uma equipe de esgrima na faculdade, fui até o treinador e pedi para participar de um treino, porque eu praticava constantemente antes de vir pra Inglaterra. Ele permitiu e me fez lutar com cada um da equipe, sendo que eles não sabiam que era uma garota. O foi o último a me enfrentar e, mesmo sendo o melhor de todos, não conseguiu em derrotar. Depois de perder, ele ainda veio atrás de mim querendo saber uma série de coisas e acabou fazendo com que eu perdesse a minha aula.
- Desculpe, não foi minha intenção. – ele respondeu, antes do meu celular tocar. Olhei o nome do no visor antes de atender.
- Com licença. – eu disse ao levantar e me afastar um pouco. - Alô.
- , já estou aqui fora te esperando.
- Eu não estou na faculdade, eu vim almoçar com uma menina que eu conheci, esqueci de te avisar.
- Você vai ficar? Porque você tinha prometido à Carmem que estaria em casa hoje para dizer como queria a reforma do seu quarto.
- Ah! Droga, esqueci completamente. Eu vou pra casa.
- Eu passo aí, onde é?
- Segue em frente pela principal e vira na segunda rua à direita. Vou te esperar na porta.
- Tudo bem, chego em cinco minutos. Tchau.
- Tchau.
- Eu tenho que ir embora, esqueci que tinha um compromisso. – eu disse, pegando minha bolsa.
- Pode convidá-la para a festa do Eric? – perguntou ao namorado, que afirmou com a cabeça. – Então, tem uma festa aqui hoje. Você podia vir e eu te apresento para todo mundo.
- Eu não sei...
- Por favor, por favor, por favor... – ela quase implorou, olhando-me de forma quase irrecusável.
- Tudo bem, eu farei o possível. – respondi e ela levantou os braços, em sinal de comemoração.
- Então até mais tarde. – ela disse, me mandando beijos.
- Até mais. – respondi. – Tchau, meninos.
- Tchau. – respondeu, mas continuou apenas me olhando. Eu dei de ombros e segui para a porta. Porém, eu fiquei apenas alguns segundos sozinha do lado de fora, pois tinha me acompanhado mais uma vez.
- Depois sou eu quem fica te seguindo. – eu disse, antes que ele falasse alguma coisa.
- Eu posso ter vindo até aqui respirar um pouco de ar puro.
- Ok, vamos fingir que sim.
- Eu só estou aqui pra dizer que, independente do que esteja fazendo com que a gente se encontre, não importa se for o destino, a sorte ou o acaso, eu serei eternamente grato a ele. – ele me encarou novamente, com aqueles brilhantes, atrativos e hipnotizantes olhos .
- Você esqueceu uma coisa, . – eu me aproximei. – Essas coisas em que você está se apoiando não são tão confiáveis. Não conte apenas com elas.
- Então quer dizer que eu preciso tomar alguma atitude? – ele perguntou, cruzando os braços. Nesse momento ouvi o carro do parar ao meu lado. olhou de soslaio para quem dirigia e eu dei um pequeno sorriso.
- É apenas um conselho, você não precisa levar tanto a sério. – eu disse, enquanto entrava no carro. Acenei levemente enquanto dava partida.
- Você disse que estava almoçando com uma menina. – ele enfatizou.
- Não é nada demais, , apenas dirija. – respondi, recostando-me no banco e pensando novamente naqueles olhos .


Após fazer tudo que era necessário, tirei um tempo para conversar com a Ellen. Eu precisava falar com alguém sobre o . Era algo estranho, uma atração intensa demais para se desenvolver em apenas um dia. Eu sei que existe essa coisa de olhar. Não como um amor à primeira vista como dizem, mas algo como uma atração mesmo, um desejo repentino que faz com você aja sem pensar. Eu já passei por isso algumas vezes e eram coisas rápidas que, da mesma forma que surgiam, desapareciam. Mas eu não estava aqui para isso, não queria me envolver com ninguém, ainda mais amigo da primeira pessoa que eu conheci e que foi gentil comigo. Ter algo com o e depois simplesmente acabar poderia afetar uma possível amizade que eu talvez tivesse começado com a e eu não queria isso. Ou eu podia estar exagerando, porque homens têm mais facilidade de lidar com esses casos, simples e rápidos, que as mulheres. Mas lá estava eu, com a mente vagando, imaginando milhares de coisas. A minha cabeça é uma coisa tão fértil, que era como se tudo isso já tivesse acontecido dentro dela. Eu me assusto comigo mesma. Às vezes eu nem precisava me preocupar com isso, vai ver ele não queria nada comigo e desistisse facilmente. Eu espero que não., ‘disse’ uma parte da minha cabeça. Deus, eu já estava discutindo comigo mesma internamente. Eu preciso de ajuda psicológica. Talvez a pudesse me ajudar com isso...

- O que você acha, eu devo ir? – perguntei à Ellen.
- , eu sempre te ajudei nas suas fugas, por mais que eu não concordasse muito com elas. Mas eu fiz uma promessa a mim mesma de que não iria interferir mais na sua vida. Eu não posso ficar controlando seus passos. – ela disse, com um pedido de desculpas inscrito no olhar.
- Mas eu não estou pedindo para que você controle meus passos e nem que me ajude a fugir. Não estou presa aqui. A única coisa que eu quero é uma opinião. Uma opinião como amiga.
- Você está realmente atraída por esse rapaz? – ela perguntou e eu, relutante, afirmei. – Então o faça esperar. É dessa forma que nós descobrimos se vale a pena.
- Você não vale nada. – eu disse rindo. – E é por isso que eu gosto tanto de você. – completei, enquanto me levantava e procurava algo para vestir.
Não sabia mesmo o que usar. Um vestido? Talvez muito arrumado para uma festa num bar. Peguei uma saia preta, de corte simples e cintura alta. Puxei uma blusa branca com algumas listras pretas, ela era de manga longa e assim eu não precisaria de casaco. Tirei meu sapato preto sem salto do armário, já que eu ia beber, era melhor não arriscar. Tomei um banho rápido e ao sair soltei meu cabelo, que estava preso numa trança, ele estava levemente ondulado, então deixei que caísse pelas costas. Não exagerei na maquiagem, passando apenas lápis e rímel, ambos pretos, nos olhos e um batom cor de boca. E voilá, eu estava pronta.
- Você acha que o me deixa ir de táxi? – perguntei, com medo da resposta.
- E ele é seu pai pra deixar alguma coisa? – Ellen disse, cruzando os braços e eu ri. – Vai, eu me entendo com ele depois.
- Obrigada. – respondi, descendo as escadas rapidamente.
- Ah! – ela chamou a minha atenção. – Cuidado com a hora, mocinha. O encanto acaba à meia noite.


Entrei lentamente no bar e me espantei novamente. Era um ambiente completamente diferente do que eu tinha visto mais cedo. As mesas haviam desaparecido, dando lugar a uma pista de dança, estava mais escuro, com luzes em apenas alguns pontos específicos. A música estava alta, mas ainda era possível ouvir os barulhos que as bolas de bilhar emitiam ao se chocar. Procurei por um rosto conhecido, mas estava difícil, o lugar estava muito cheio.
- Procurando alguém? – sua voz familiar soou ao meu ouvido. Sorri levemente, mordendo o lábio em seguida. Ok, vamos dificultar as coisas, .
- Talvez, . – virei em sua direção, ficando bem perto de propósito. Fiquei na ponta dos pés, olhando por cima do seu ombro e encontrando sentada num canto junto com o . – Olha que sorte a minha, já achei. – afastei-me e segui para a mesa.
- Você veio! – celebrou, levantando-se num rompante e me abraçando.
- Meu primo me disse uma vez que eu não podia perder nenhuma festa. Então aqui estou.
- Então vamos pegar algo para beber. – ela levantou, meio cambaleante.
- Cuida dela pra mim. – murmurou.
- Pode deixar... – seguimos para perto do bar e esbarrou em todas as pessoas possíveis e até mesmo em algumas impossíveis.
- Olá, Paul! – ela praticamente gritou quando chegamos. Ele olhou meio confuso, mas sorriu em seguida. – Eu quero um...
- Refrigerante. – respondi antes. – Você precisa tomar algo sem álcool, agora. Depois, quando você estiver melhor, nós voltamos a detonar!
- Tudo bem, eu acho. – ela disse, pegando a bebida.
- E você o que quer?
- Acho melhor acompanhá-la no refrigerante. – ele balançou a cabeça lentamente.
- Você é nova aqui, certo? Nunca tinha te visto com a . – ele disse, ao me dar minha bebida.
- Não, acabei de me mudar. – disse, enquanto pegava algum dinheiro para pagá-lo.
- Ah! Então isso é por conta de casa, um presente de boas vindas. – ele sorriu abertamente.
- Obrigada. – eu disse incerta, afastando-me.
Depois de algumas horas e diversas bebidas, eu estava bem alegre e ria de tudo junto com a . Tirei um tempo para conversar com e saber um pouco mais sobre a sua vida. Como que ele era formado em direito e fazia mestrado em direito empresarial, para trabalhar no negócio da família. Ele era mais um que teve sua vontade própria extraída, mas ele não parecia se importar com isso, na realidade, ele parecia estar muito bem com relação a isso. Ele parecia... feliz. Talvez seja apenas isso que importe de verdade.
- Olha, a mesa de bilhar está vazia. – disse, praticamente correndo até ela, para que ninguém a ocupasse antes.
- Eu não vou jogar. – eu disse, encostando-me à mesa.
- Por quê? – perguntou – Se porque você é ruim, não se importe com isso, eu também sou.
- Não, é que eu não estou com vontade. – respondi e ela deu de ombros.
- Talvez ela seja do tipo que só joga pra ganhar, . – disse, surgindo de repente.
- Talvez eu seja assim mesmo. – dei de ombros.
- Então, mesmo se eu te desafiar, você não se anima a jogar?
- Um desafio? – eu ponderei. – Mas só se valer alguma coisa.
- Bom, eu tenho uma série de coisas em mente que podemos apostar... – ele disse, encostando-se ao meu lado. Seu braço tocava levemente o meu e ele me olhava de uma forma diferente, querendo descobrir alguma coisa.
- E você acha que algo disso vai me agradar? – perguntei baixo, vendo um sorriso brotar em seu rosto. Ele aproximou-se de mim, parando os lábios próximos ao meu ouvido.
- Eu tenho certeza de que você gostar. – olhei em seus olhos por alguns segundos e fiquei perdida, aceitaria qualquer coisa vinda dele.
- Tudo bem. – respondi baixo, recebendo um belo sorriso em troca.
- , se importa de deixar a gente jogar? Tenho algumas coisas a tirar dela. – ele disse, reprimindo um sorriso. entendeu imediatamente seu estado de espírito, passando o taco para ele. veio para o meu lado, ainda sem entender.
- Ele quer perder pra mim de novo, só isso. – expliquei. Ela deu de ombros, entregando-me o taco. Dei um gole na bebida, clareando minha mente. Não podia deixar que ele me afetasse e me fizesse perder. Eu não podia perder para ele.
- Qual é a primeira aposta? – perguntei, enquanto ele arrumava as bolas. E assim começamos. Cada bola que um encaçapava, o outro estava, automaticamente, devendo uma bebida. Até que restavam três bolas na mesa e eu estava perdendo. Era a vez de e eu precisava fazer com que ele desistisse de tudo. – Eu acho que deveríamos melhorar a premiação.
- O que você tem em mente?
- Se você encaçapar essa bola, eu fico te devendo um jantar. – ele sorriu e preparou-se para jogar.
- Separe o dinheiro. – ele disse antes de dar a tacada certeira. Eu precisava melhorar isso.
- Ok. Então se você acertar essa – eu me aproximei, encostando-me ao seu lado – eu te dou um beijo. – ele me encarou por alguns segundo e sorriu com vontade.
- Você só está tornando as coisas melhores para mim... – ele disse e eu dei de ombros.
- O que eu posso fazer? Tenho que arriscar. – dei mais um gole em minha bebida, precisava tomar coragem para fazer o que viria a seguir. Ele preparou-se mais uma vez, precisando de mais concentração agora. Mesmo errando a tacada, ele conseguiu encaçapar mais uma bola.
- Tenho que esperar o jogo acabar para receber meu prêmio? – ele perguntou e eu afirmei com a cabeça.
- Mas antes, eu tenho uma última proposta. É como tudo ou nada. – eu disse, chegando mais perto. Ele abaixou-se, pronto para jogar.
- Seja o que for, eu aceito. – ele disse, confiante. Parei perto dele, falando em seu ouvido:
- Se acertar agora, eu durmo com você. – eu disse baixo, fazendo com que ele errasse, e muito, a tacada. Sorri abertamente, dando-lhe um beijo na bochecha. Ele me encarou com a expressão quase perplexa, balançando a cabeça lentamente. – É, , mais sorte da próxima vez.


Sexto
'Cause she's everything I ask for and so much more


’s Pov

Dias depois

Preciso dizer que aquela garota ficou na minha mente por todos esses dias? Não, certo? Ainda mais depois daquela última proposta. Tá, eu sei que ela fez de propósito, mas só de lembrar a sua voz sussurrando aquilo em meu ouvido, eu já começo a imaginar milhares de coisas. Eu me sinto como um adolescente inexperiente, louco para liberar todo esse desejo e... Ela vai me deixar maluco e eu não posso nem reclamar, porque eu vi isso acontecendo. Eu sabia que isso aconteceria no momento em que a vi pela primeira vez. Senti que eu teria que fazê-la minha, mas não fazia idéia que a necessidade seria tão grande. E a nossa relação não facilita tanto as coisas para mim. Sempre rola aquele jogo básico de sedução, aquele onde ninguém quer ser o que cederá primeiro, porque isso significa que este será o submisso. E fica bem claro que nenhum dos dois quer desempenhar esse papel. Porém, pelo jeito que as coisas estão, estou revendo meus conceitos e chegando à seguinte conclusão: eu seria para qualquer coisa que ela quisesse.

- Ah, droga! – bati com o punho na mesa.
- O que foi agora? – perguntou.
- Eu não consigo terminar esse trabalho e é para segunda de manhã. Cinco laudas e eu não tenho nem duas prontas.
- Calma, cara. Relaxa que dá tempo.
- Não dá tempo. – eu disse, fechando o notebook. – Vou desistir disso. – bufei.
- Vai desistir de tudo porque não consegue fazer um trabalho? , você já foi melhor que isso.
- Eu não consigo me concentrar, . Eu tento, mas é impossível. – confessei, respirando fundo.
- É a ? – ele perguntou, deixando seu livro de lado.
- E quem mais poderia ser? – perguntei retoricamente. – Eu não consigo tirá-la da cabeça, não paro de pensar em nenhum minuto.
- Convida logo a garota para sair e acabe com essa tortura. – ele disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
- Eu não sei, parece que ela quer brincar comigo ou algo do tipo. Eu não preciso de outra pessoa assim na minha vida, já basta a Alicia.
- E a Alicia ainda está em sua vida? – ele perguntou.
- Não, mas nunca se sabe o dia de amanhã...
- , eu não consigo ver a como a Alicia. Vai ver ela não quer brincar com você, talvez ela esteja apenas esperando uma atitude sua. As coisas podem ser assim no país dela, sei lá. – ele deu de ombros.
- Eu queria apenas esquecer isso, deixar para lá, me focar nos estudos, sabe? Mas eu não consigo. Ela, simplesmente, não sai da minha mente e eu já não sei o que fazer. – disse, desistindo de ser rebelde e reabrindo o notebook.
- Já disse, chame a garota para sair, só vocês dois. – ele insistiu.
- Não sei...
- Às vezes você parece uma garota, cara. As coisas deveriam ser diferentes, você é homem e nós não nos sentimos assim. – ele disse sem paciência. Eu ri alto, chamando a atenção das outras pessoas que estavam na biblioteca. – Além disso, você já tem vinte e cinco anos, aja como homem. – ele desabafou.
- Sabe qual é a verdade? – perguntei e ele apenas me encarou. – Você é um péssimo conselheiro.
- Realmente, isso é verdade. Você deveria falar com a , ela sim pode te ajudar. É psicóloga, sabe lidar com esses problemas e dar conselhos é parte do seu trabalho. Quando você tiver problemas no bar e seu tio precisar de um advogado empresarial, aí sim você pode me procurar.
- Tudo bem, .
- Aliás, você tem que aproveitar o fato de que elas estão assim – ele uniu dois dedos. – Inseparáveis. – respirei fundo, concordando com a cabeça, sem dar atenção. – Olha, a tá chegando, conversa com ela.
- Esquece. – pedi.
- Para com isso, aproveita que ela deve saber alguma coisa.
- Quem deve saber o quê? – ela perguntou, enquanto sentava-se à mesa.
- Você deve saber se a está realmente a fim do . – ele respondeu.
- Não sei se posso contar, eu estaria traindo o código das amigas. – ela disse, receosa.
- Então tem alguma coisa? – perguntei, instantaneamente interessado.
- Não posso falar sobre isso, rapazes. Me desculpem.
- Não pode contar, mas pode, pelo menos, dizer sim ou não. – interveio, dando uma idéia.
- Isso eu acho que posso... – ela ponderou.
- Ela só está enrolando o ? Sabe, tipo brincando.
- Não, ela nunca faria isso. – respondeu rapidamente.
- Então ela está realmente interessada nele?
- Sim. – respondeu com convicção.
- Ela está interessada ou está gostando dele? – insistiu.
- Isso não dá pra responder com sim ou não, amor. – ela disse, carinhosa.
- Ok, vou reformular a pergunta. Ela gosta dele? – demorou para responder, incerta se deveria ou não.
- Sim. – ela confessou por fim.
- Da forma que a Alicia gosta? – insistiu.
- Não. A não tem nada em comum com aquela vadiazinha. – ela virou-se para mim. – Me escute, de onde ela veio, os rapazes a tratavam muito mal, sempre se aproximavam com intenções nada boas. Ela é de uma família importante na Dinamarca e é realmente difícil que um cara goste dela e não do que ela tem, entende? Você tem que demonstrar que é diferente, que é digno de confiança.
- Eu disse isso a ele. – se intrometeu.
- Você não disse nada disso. – desmenti.
- Vamos fazer o seguinte: eu vou convidá-la para sair, sem mencionar que você vai, porque se eu falar pode deixá-la desconfiada. Então eu e o vamos dar um tempo para vocês conversarem sem essas máscaras que insistem que usar quando estão perto um do outro. Eu não entendo, vocês mudam completamente. Você assume uma postura de conquistador, arrasa corações, e ela se transforma numa Alicia da vida, uma garota fútil, mimada e que não liga pra ninguém. – fez uma cara de nojo. – E sabe quem sai ganhando nessa história? Ninguém! Nada disso tem lógica. – ela respirou fundo. – Vocês me cansam...
- Tá, desculpa, eu acho. – disse, sem saber realmente se deveria ter aberto a boca.
- Hoje é sexta, não é? – ela perguntou e confirmou. – Vai trabalhar de noite?
- Não. – respondi.
- Então nos encontramos no bar do seu tio às oito. Esteja preparado.
- Estarei. – disse firmemente, com um sorriso. Ela o retribuiu e se levantou, dando um selinho no namorado.
- Vou conversar com ela agora.
- Fale bem de mim. – pedi, enquanto ela se afastava.
- E o que você acha que eu faço? – ela disse com um belo sorriso.
- Tá mais tranquilo agora? – perguntou, querendo apenas me irritar.
- Vá à merda. – eu disse, levantando-me, e pude ouvir sua risada de longe.

Tentei esfriar um pouco a cabeça. Tinha que trabalhar, encontrar a e ainda fazer um trabalho, tudo isso em algumas horas. Minha vida nunca foi fácil, muito longe disso, só que eu queria não ter nada para me preocupar as vezes, só para variar. Isso parecia impossível para alguém como eu, mas sei que um dia eu olharei para trás e verei que todo o esforço foi recompensador. Terei um bom e sólido emprego, uma bela família e o menor número possível de problemas.

- , meu bem. Há quanto tempo não nos falamos direito. – Alicia disse, encaixando seu braço junto ao meu. Foi só falar de problemas que ela reapareceu. Será que se eu falar sobre um milhão de libras, elas aparecerão na minha conta? Acho que não.
- Olá, Alicia. Como está? – perguntei, ainda sem dar muita atenção a ela.
- Um pouco triste, você não tem me dado atenção da forma que eu mereço. – ela disse, fazendo biquinho. Em outros tempos, eu estaria todo derretido nesse momento, mas agora nada dela parecia fazer efeito sobre mim.
- Acredite, eu estou te dando a atenção que você merece. Oi e tchau já estão de bom tamanho.
- Que grosseria, . – ela revirou os olhos. – Não sei por que você se faz de difícil, não consegue resistir por muito tempo mesmo.
- Bem, eu estou resistindo por mais de duas semanas, talvez não seja um trabalho tão árduo como você imagina. – mantive minha expressão séria, encarando-a levemente.
- Quem é ela? – ela perguntou rapidamente.
- Ela quem? – respondi, confuso.
- Para você me tratar assim, só pode ter outra garota no meio. – ela cruzou os braços. – Anda, me fala.
- Ah! Eu esqueci que você, estudante de psicologia, sabe 'ler' as pessoas. Mas eu estou achando que você precisa estudar um pouco mais, porque não tem garota alguma. Será que não tem a mínima chance de eu ter me cansado de ser o seu brinquedo? – perguntei, fingindo um cansaço por ter de explicar tudo a ela.
- Eu só acho que essa sua tentativa falha de me magoar vai acabar se voltando contra você. – ela disse séria, perdendo toda sua paciência e vontade de, talvez, me seduzir.
- Não acho, Alicia. Porque, sinceramente, não vejo como piorar minha situação. As minhas opções são: ficar com você, receber alguma atenção por poucos momentos e na maioria do tempo ser tratado como lixo ou ficar sozinho, esperando o acaso trazer alguém para mim. E eu estou inclinado a escolher o acaso.
- Você vai se arrepender, . E amargamente. – ela me ameaçou, colocando um dedo no meu rosto.
- Mal posso esperar. – respondi, sorrindo ironicamente em seguida.
Eu parecia estar com a aparência mais leve depois de encontrar Alicia, pois esse foi o primeiro comentário do meu tio assim que eu cheguei ao bar. Ele pensou que eu tivesse tido um encontro ou uma conversa divertida e não um quase 'acerto de contas'. Mas, para ser sincero, até que tinha sido bem divertido falar algumas verdades para ela. A Alicia é daquele tipo de garota que sempre teve tudo na vida e está acostumada que as pessoas façam tudo para ela. E o mal dela foi pensar isso de mim. Ela queria que eu estivesse lá quando ela quisesse e precisasse e eu não queria ser mais um para ela. Eu não a amava, mas ser apenas mais um da lista de alguém não está nas metas da minha vida. E por mais que o ache isso estranho e diga que é coisa de garota, eu prefiro ficar sozinho a ter que passar por esse tipo de situação. Afinal, ficar com ela não era tão recompensador assim, se é que me entendem. Não valia a pena o sacrifício.

Sem que eu percebesse, já tinha anoitecido e eu ainda estava atolado de trabalho. O bar estava muito cheio, como era de costume, mas um dos funcionários ligou avisando que iria se atrasar e sobrou para mim. Eu disse que ficaria o cobrindo até que ele chegasse, mas o problema era se as meninas chegassem antes. Eu não tido tempo de me arrumar, nem ao menos tomar um banho. Como eu poderia tentar ser eu mesmo com a , aparentando ter ficado horas e horas atrás de um balcão? Eu deveria ser eu mesmo no interior, sem forçar, mas o exterior deveria estar, pelo menos, aparentável. Contrariando meus desejos, as meninas chegaram e sentaram-se numa mesa no canto. me olhou com cara feia, ao ver que eu ainda estava trabalhando. Droga, ela ia falar tanto no meu ouvido. Comecei a rezar baixinho, pedindo que o Raul chegasse logo e me liberasse. Eu não podia abandonar meu tio sozinho ali. A única coisa que eu queria ver era a porta abrindo e a cara feia do Raul surgindo, mas parecia que quanto mais eu desejava isso, mas longe de acontecer estava. Resolvi deixar para lá, alguma hora ele ia aparecer. Estava distraído quando ouvi a voz do chamar minha atenção.
- O que você ainda tá fazendo trabalhando?
- Tenho que esperar o Raul chegar, ele se atrasou e eu não posso deixar meu tio na mão. – expliquei.
- Merda. A tinha falado que a gente ia ao cinema, mas tá quase na hora do filme, não vai dar tempo. – ele disse, jogando-se numa das cadeiras.
- O que você quer que eu faça? – perguntei, depois de entregar uma garrafa de cerveja para um cara.
- Nada, . É a que tá me irritando, vou inventar alguma desculpa. – ele apoiou a mão no balcão, brincando com um canudo. – Acredita que ela conversou com a ? Eu peguei o finalzinho.
- O que ela falou?
- Que a deveria parar de agir como outra pessoa e dar uma chance pra você mostrar quem realmente é. – ele disse, olhando para a mesa, por cima do ombro.
- E o que ela respondeu? – perguntei curioso, olhando, discretamente, na mesma direção.
- Que não sabia se você valia o feito. – ele respondeu com uma careta.
- Nossa. Ela é bem sincera, não? – falei, rindo em seguida.
- Está em suas mãos, meu amigo. – ele comentou. – Vou voltar pra lá, arrumar alguma desculpa.
- Boa sorte! – murmurei, enquanto ele se afastava.
Alguns minutos depois, mais ou menos quinze, Raul chegou apressado e cansado, como se tive vindo correndo. Nem esperei por sua explicação. Assim que ele ocupou seu posto, corri para o meu quarto. Tomei um banho a jato, colocando a primeira roupa limpa que vi. Quando cheguei novamente ao salão, fiquei espiando a mesa de longe, não sabia como me aproximar. Será que ela daria abertura? Será que ela deixaria, ao menos, eu tentar mostrar que valia a pena? Bem, eu teria que tentar... Vamos à luta então.
- Boa noite. – eu disse, educado, ao me aproximar. – Posso sentar com vocês? – eles se entreolharam e em seguida os olhares se pousaram nela.
- Claro. – ela respondeu, sorrindo levemente. Sentei-me ao seu lado, tomando cuidado para desmontar a antiga impressão de conquistador barato. Tentei ser educado ao extremo. Perguntei sobre diversas coisas, algumas até pessoais demais. Mas depois de alguns minutos, a conversa fluía de uma forma que parecia que nos conhecíamos há anos. Descobri que ela era da Dinamarca e estava aqui estudando, então disse que também não era daqui, que morava há dez anos em Londres com o meu tio. Contei para ela todas as minhas experiências como um "imigrante", compartilhamos algumas informações, histórias, piadas. Enfim, de tudo um pouco. Ela se empolgava em alguns momentos e num deles chegou até a apoiar sua mão sobre a minha. Reprimi um sorriso nessa hora. Ela se alarmou, murmurando um 'Desculpe.' enquanto a retirava. Pensei em dizer que não tinha nenhum problema, que ela poderia manter a mão ali pelo tempo que quisesse, mas lembrei que deveria ir com calma. Então disse algo como 'Não tem problema.'. Ela riu e abaixou o rosto levemente corado. Queria dizer o quanto ela era bonita e o quando as coisas simples a deixavam mais irresistível ainda. Um simples toque, seu sorriso sem graça, sua risada leve. Tudo isso a tornava encantadora demais para a minha sanidade. Num momento ela fez uma das perguntas mais difíceis que já me fizeram.
– Agora que eu vi que tudo aquilo que eu conheci era uma máscara, quem é o verdadeiro ? – aquilo me pegou de guarda baixa, eu não sabia o que responder.
- Eu ainda não sei. – respondi, sincero. – Talvez um rapaz que passou por momentos ruins e que conseguiu dar a voltar por cima, ou ainda está tentando. – dei de ombros.
- Você é um cara legal, disso eu tenho certeza. Quem sabe com o tempo eu aprenda mais coisas sobre você, o que acha? – ela me olhou e sorriu daquele jeito. Como se eu pudesse dizer a não a ela, ainda mais depois daquele sorriso. Se eu falasse em voz alta as coisas que passavam pela minha cabeça, o teria mais motivos ainda para falar que eu pareço uma garota.
- Eu adoraria. – respondi, olhando em seus olhos por alguns segundos. Ela desviou o olhar, encarando, sem graça, seu copo vazio. – Vou pegar outro para você.
- Obrigada.
Segui para o bar, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. Escutei algumas reclamações do meu tio sobre o atraso do Raul e vi algumas caretas do mesmo enquanto ouvia o sermão. Impedi-me de rir diante da cena, além de errado, acabaria sobrando para mim. Peguei as bebidas, fazendo meu caminho de volta, até que senti braços ao redor da minha cintura me abraçando por trás. Olhando com dificuldade, pude reconhecer.

- Alicia, você poderia me soltar, por favor? – pedi, quase impaciente.
- Não. – ela disse melosa, percebi que ela estava bêbada. Duas vezes pior... pensei.
- Eu preciso voltar para a mesa. – falei, enquanto me livrava de seu abraço.
- Sua mesa? – ela perguntou, olhando na direção que eu seguia. Ela viu o acompanhado de e sozinha. – Ah! Isso porque não tinha nenhuma garota na história, não é? – ela disse um pouco mais alto, chamando atenção de algumas pessoas ao redor.
- Alicia, fala baixo, por favor. E se tem uma garota, não é da sua conta.
- Então é isso, você vai me trocar por ela? Quem é essa? – ela disse nervosa.
- Já disse que não é da sua conta. Vai arrumar outra pessoa para perturbar. – pedi, virando as costas.
- , querido, você sabe que não é assim que as coisas acontecem. – ela me puxou de volta. – Tudo sempre acontece do meu jeito. – dizendo isso, ela me beijou. Foi um beijo estranho por dois motivos: 1. Ela se jogou em mim, enquanto eu tentava me afastar; 2. Era a primeira vez que aquele beijo não me causava nenhuma reação. Quer dizer, nenhuma reação boa. Empurrei-a da forma que podia, não me importando se fui rude ou algo do tipo. Ela tinha passado completamente dos limites. Olhei para a mesa, observando se alguém esboçava ter visto alguma coisa. Mas todos estavam conversando normalmente, como se nada estivesse chamando a atenção. Voltei meu olhar para Alicia, que me olhava de forma ultrajada.
- Você é maluca? Qual parte do 'eu não quero mais nada com você' você não entendeu? – perguntei, mas não queria saber a resposta. Encarei-a por alguns segundos, desistindo depois. Dei as coisas e voltei para a mesa.
Eu estava completamente aéreo depois do que aconteceu, Alicia tinha me tirado do sério. Toda a aproximação que tinha sido iniciada foi por água abaixo. Ninguém estava mais da mesma forma. Talvez ela tivesse sentido o clima estranho. E tudo ficou pior quando ela resolveu ir embora. Tentei convencê-la a ficar mais um pouco, mas sabia que não adiantaria de nada. Tudo tinha dado errado. Estava tudo perdido.
- Posso te levar em casa se quiser. – ofereci.
- Não precisa, eu pego um táxi.
- Deixa ele te levar, . É melhor. – se intrometeu.
- Nunca se sabe o que se passa na cabeça desses taxistas. – completou. Ela os encarou por alguns segundos, provavelmente chegando à conclusão de que ou ela entrava por vontade própria no carro ou seria arremessada para dentro dele.
- Tudo bem. – ela se deu por vencida. Despediu-se rapidamente, seguindo para o lado de fora. Olhei para os meus amigos, que faziam alguns sinais estranhos para mim. Eu não entendi muito bem, mas achei que poderia ser algo motivador.
Ela se manteve em silêncio por todo o caminho, exceto pelo momento em que disse o endereço. Não era tão longe, uns dez minutos, quem sabe. Liguei o rádio, tentando evitar que ficasse um silêncio constrangedor, mas não fui muito feliz. Ela continuava olhando pela janela, encarando qualquer coisa e evitando me olhar. Parei num sinal e fiquei discutindo comigo internamente. Falo ou não falo? repetia-se em minha mente como um mantra. Preferi ficar em silêncio para não piorar a situação.
- Eu vi você beijando a menina. – ela finalmente falou, assim que parei o carro. Apertei meus dedos ao redor do volante, reprimindo um palavrão.
- , eu não queria, ela me agarrou... – tentei me explicar, mas parei quando vi sua expressão. Seu olhar me transmitia algo diferente, como se ela enxergasse algo bom em mim e não um cara safado, que beija outra garota depois de ter conversado com ela por horas.
- Eu também vi sua reação, , não se preocupe. – ela se ajeitou no banco e passou a encarar as mãos, como se também estivesse nervosa com a situação. Afrouxei levemente o aperto, decidindo o que falaria.
- Nós costumávamos sair, mas não deu certo. – confessei.
- E ela não entende isso? – ela perguntou, ainda olhando atentamente para os seus dedos e balançando nervosamente uma das pernas.
- Pelo visto não. – respondi, rindo em seguida.
- Eu entendo o lado dela. – ela disse, voltando seu olhar para meus olhos. – Não deve ser bom perder alguém como você. – Senti todo o sangue correr para o meu rosto. Provavelmente eu estava mais corado que qualquer outra coisa. Ela riu levemente, tocando meu braço. – Não precisa ficar sem jeito.
- É muito difícil não ficar sem jeito. – confessei.
- Desculpe. – ela disse, aumentando o sorriso. Aquele sorriso. Olhou para a casa e depois de volta para mim. – Eu acho melhor eu entrar. – movimentou-se para abrir a porta, mas eu saí antes que ela pudesse. Abri a mesma, ajudando-a a descer. – Boa noite, então. – ela disse, mordendo levemente o lábio em seguida.
- Boa noite. – respondi, observando-a virar-se em direção ao portão. Reuni minhas forças e respirei fundo. – , espera. – eu disse, segurando uma de suas mãos. Puxei-a levemente para mais perto, não desviando meus olhos dos seus. Ela não negou, nem se distanciou. Aproximei-me mais, deixando nossos corpos quase colados. Ela revezava seus olhares entre meus olhos e meus lábios, deixando clara a sua permissão. Levantei uma de minhas mãos, acariciando seu rosto. Ela fechou os olhos, aproveitando a sensação que meu toque lhe dava. Com cuidado, retirei uma mecha solta de seu cabelo, colocando-a no lugar e posicionando minha mão em sua nuca. Ela aconchegou-se mais em meus braços, deixando seus lábios perigosamente perto dos meus.
- ? – uma voz masculina me sobressaltou. Ela se afastou repentinamente, mas continuava perto o bastante, pois meus braços ainda estavam ao seu redor. Ela olhou-me nos olhos durante alguns segundos, antes de depositar um beijo em meu rosto. Afrouxei meu abraço, deixando que ela se distanciasse.
- Boa noite mais uma vez, . – ela disse em sua voz de veludo, sorrindo com vontade.
- Boa noite. – respondi, enquanto ela caminhava lentamente em direção à porta. – Ah! Mais uma última coisa. – chamei sua atenção. Ela se virou e apoiou-se no batente da porta. – Se ela fosse como você, jamais iria me perder. – confessei, vendo-a exibir mais uma vez aquele sorriso. Sorriso esse que, provavelmente, me acompanhará por todos os sonhos de hoje em diante.

/’s Pov


Sétimo
When the time comes, baby don't run, just kiss me slowly
Música do capítulo. Coloque-a para tocar quando a letra aparecer.


Entrei em casa amaldiçoando e xingando até a décima quinta geração da família do . Como ele pôde atrapalhar? Como ele pôde chegar exatamente naquele momento? Também não queria saber. Entrei e, sem dar muito assunto, segui direto para o meu quarto e traquei a porta, num aviso claro de 'não perturbe'. Corri até a janela, espiando pela mesma. O carro continuava lá parado e eu conseguia ver sentado no banco do motorista. Parecia que ele estava falando sozinho ou algo do tipo. Ele intercalava sorrisos com expressões estranhas e à distância tudo isso parecia maluquice. E um maluco era tudo que eu precisava, queria e não podia ter em minha vida agora. E se a interrupção fora providencial? Eu tinha dito para mim mesma que não me envolveria com ninguém aqui, que me focaria nos estudos. Só que as coisas tomaram um caminho completamente diferente e eu tinha medo de não ter mais volta. Eu acho que nunca fiquei tão atraída por um cara em toda a minha vida. tinha um jeito de ser completamente diferente. Ele conseguia ser altamente sexy e fofo ao mesmo tempo. E quando assumia aquela forma de conquistador? Prefiro não pensar nas consequências dos meus atos. Imagine se ele tivesse acertado a última bola naquele dia. Eu sou uma mulher de palavra, aprendi isso com o meu pai, então eu teria de cumprir o prometido. E aqui entre nós, não seria um total sacrifício. Eu não poderia agir como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse fruto da bebedeira e fingir que eu não estava interessada em continuar com isso. Porque, por Deus, eu queria muito beijá-lo naquele momento. Olhei mais uma vez e agora ele estava ligando o carro. Ele olhou mais uma vez na direção da casa, dando um sorriso em seguida, e então foi embora. Talvez seja porque eu sempre soube que todos se envolviam comigo pelo mesmo motivo: aparecer na mídia como o namorado da princesa herdeira. Por isso que eu os tratava da mesma forma. Acho que esses eram os únicos momentos em que eu gostava de ser quem eu sou. Era simples: eu escolhia o cara, alguém nos apresentava e pronto, ele era meu. Pelo tempo que eu o quisesse, é claro. Mas isso começou a voltar-se contra mim, principalmente quando a minha mãe descobriu. As mães sempre são chatas quando o assunto é namorado, então imaginem a minha. Tive que escutar um enorme sermão sobre as minhas obrigações como membro da realeza e futura rainha. Óbvio que isso não parou por aí. A partir desse dia, ela colocou mais um guarda na minha cola, pois ela sabia muito bem que o me acobertava. Logo, desde desse dia, o meu esquema de encontros fracassou e eu, praticamente, não sabia mais o que é isso. Devia ter quase um ano que eu não saía com um rapaz. Essa minha conversa com o foi a coisa mais próxima de um encontro nos últimos 12 meses, 365 dias. Deus, isso é muito tempo! Ouvi alguém bater na porta e reprimi um palavrão. É claro que o 'não perturbe' não funcionaria.
- Vá embora! – gritei para quem quer que fosse. Será que ninguém nessa casa pode me dar um pouco de espaço, privacidade, tempo ou sossego? As batidas seguintes serviram como um belo e gritante não. Eu não tinha muita escapatória, segui para a porta. – Será que eu não tenho direito a cinco minutos sozinha no meu quarto? – perguntei, encarando Ellen, que estava parada no meio do corredor.
- Nossa, para que tantas pedras na mão? – ela disse, entrando sem ser convidada. – Pelo o que eu saiba, não fui eu que atrapalhei nada...
- Ellen, por favor. – eu pedi, apontando para fora do quarto. – Eu preciso pensar.
- Eu acho que você precisa de ajuda, então eu não vou sair. – ela disse, sentando-se numa poltrona. Derrotada, respirei fundo e fechei a porta antes de me sentar na cama. Deitei na mesma, encarando o teto por alguns segundos.
- Eu estou extremamente confusa. – admiti, ainda sem encará-la.
- Por que você não começa me contando de hoje? – ela incentivou.
- Eu fui até o bar para encontrar a Isabela e não sabia que ele ficaria com a gente. Então ele veio todo gentil, pedindo para se sentar e o que eu poderia fazer? Eu deixei. Nós conversamos por muito tempo, mas parecia que tinham se passado cinco minutos. – eu ri sozinha. – O mais incrível e estranho é que nós conversamos como se nos conhecêssemos há anos e não há dias, entende? – ela se limitou a balançar a cabeça concordando. – Ele foi buscar uma bebida e foi quando uma garota apareceu do nada, falou várias coisas e o beijou.
- Espere, ele beijou outra depois de ficar conversando horas com você? – ela perguntou meio assustada.
- Deixa eu terminar, Ellen. O mais surpreendente está por vir. – eu ri. – Ele a empurrou e começou a brigar com ela no meio bar. Ele deixou a menina lá sozinha depois de rejeitá-la e ela não é feia. Ela é, sem dúvidas, a menina mais bonita que eu vi aqui. Eu fiquei sem saber como agir, não sabia se dizia que vi ou se ficava quieta e foi isso que eu fiz. Então o clima esfriou, eu resolvi vir para casa e ficaram implicando, falando para ele me trazer. Eu disse que não precisava, mas não teve jeito. – eu respirei fundo, lembrando-me do clima estranho dentro do carro. – Nós viemos até aqui em silêncio. Até que eu resolvi confessar que tinha visto toda a cena do bar. Você precisava ver como ele reagiu. Seu rosto ficou vermelho na hora e ele não tinha palavras para me explicar. Depois de muito se enrolar, ele disse que teve um caso com essa menina, mas não tinha dado certo e ela não tinha aceitado o término numa boa. E foi aí que eu fiz a coisa mais idiota de toda a minha vida.
- O que você fez? – Ellen perguntou preocupada.
- Eu tomei coragem e disse: Eu entendo o lado dela, não deve ser bom perder alguém como você. – confessei, rindo alto em seguida. Estranhei o fato de Ellen não me acompanhar. Geralmente ela é a primeira a rir dessas minhas atitudes idiotas. Olhei em sua direção e vi que ela olhava para a janela, como se pensasse em alguma coisa. – O que foi?
- Você realmente disse isso? – ela perguntou pausadamente.
- Sim, mas eu sei que foi estupidez.
- , você tá interessada nesse rapaz? – ela indagou, encarando-me incessantemente.
- Não. – respondi rapidamente, sentando na cama. Ela me olhou, demonstrando não acreditar nem um pouco. – Não sei. – tentei novamente e ela revirou os olhos.
- Qual é a dificuldade de admitir para mim uma coisa que você já admitiu para ele?
- Eu não admiti...
- Não? – ela riu. – Claro que admitiu e da forma mais clara possível. E qual é o problema disso ser verdade? Você nunca vai saber se ele vale a pena se não fizer um teste.
- Esse é o problema, Ellen. O não precisa de um teste, eu sei que ele vale todo e qualquer esforço. – confessei.
- E isso pode ser ruim de alguma forma?
- Não, não é nenhum pouco ruim. Só que eu não queria me envolver com ninguém e eu sei que com ele será impossível não deixar isso acontecer.
- , sinceramente, eu acho que já está tarde para você se preocupar em se envolver ou não. Querida, você já está envolvida. – ela disse, sorrindo de lado. – Talvez não seja tão ruim você tê-lo em sua vida, pode ser disso que você precisa. Você não queria viver de verdade? – ela perguntou e eu assenti. – Então viva.
- Eu acho que vou deixar rolar, ver o que acontece. – falei, deitando na cama novamente.
- Faça o que você tiver vontade, . Se dê essa liberdade uma vez na vida. – ela disse, seguindo para a porta. – Vou te dar os cinco minutos que você queria sozinha.
- Ellen. – chamei sua atenção. Ela parou perto da porta, virando-se para mim. – Antes de ir embora ele disse uma coisa.
- O quê?
- Que se ela fosse como eu, nunca teria o perdido. – Ellen sorriu largamente.
- Ou você agarra logo esse, ou eu o tomarei de você. – ela disse, enquanto fechava a porta.

Passei o dia seguinte revezando olhares entre a janela e o telefone, o que era inútil e estúpido, na verdade. Eu não podia, simplesmente, esperar que o cara aparecesse na minha porta do nada e eu nem tinha dado meu telefone para ele. E pelo o que eu saiba, ele não tem o poder de descobrir telefones aleatoriamente, logo a minha espera era completamente idiota. Então passei todo o sábado buscando alguma coisa para fazer, não estava a fim de sair e encontrar casualmente com ele, não depois de ontem. Não sei muito bem o que ele pensou sobre o ocorrido, mas eu não teria gostado muito se fosse o inverso. Bem, eu tinha uma série de coisas da faculdade para ler e estudar. Era melhor tirar ao menos um dia para fazer o que se deve, certo?

Não sei como, mas acordei no dia seguinte com um livro sobre o meu rosto e o restante da cama coberta por folhas soltas. Levantei estranhando a claridade que vinha da janela, não acreditando que tinha caído no sono tão cedo em pleno sábado. A última coisa que me lembrava de fazer na noite anterior, foi levantar e pegar um livro de economia, que estava na estante, e olhar para o relógio nesse momento. Eram oito da noite e eu não fiquei muito tempo lendo, pois não tinha passado da página dez. Ri sozinha, vendo o quanto eu estava cansada. Pelo menos eu tinha reposto todas as energias. Desci apressada, estranhando a pouca movimentação na casa. Encontrei Ellen de papo com perto da porta e pela animação que eles transpareciam, preferi não atrapalhar. Segui para a cozinha, de onde vinha um cheiro maravilhoso. Angela conversava com a cozinheira, Dolores.
- Vejo que acordou com fome. – Angela exclamou.
- É impossível não sentir fome com esse cheiro. – afirmei, sorrindo para Dolores.
- Querida, você quer comer algo antes do almoço? – ela perguntou, esquecendo um pouco as panelas.
- Não precisa se preocupar, eu como uma fruta. – sorri levemente, pegando uma maçã da fruteira.
Caminhei distraidamente para os fundos, sentando-me no antigo balanço que ainda estava lá. Era engraçado como tudo ainda estava como antes, principalmente aquela parte da casa, que era a minha favorita, por sinal. As mesmas flores, a mesma árvore, o mesmo balanço. Tudo ainda estava lá. E se dependesse de mim, continuaria para sempre. Eu gostava muito de brincar ali, parecia uma casa, sem essas coisas de palácios, castelos. Ali eu me sentia uma pessoa normal, com preocupações, medos e anseios. Uma garota da minha idade deve se preocupar com a faculdade, o namorado, os amigos, e não com um país que deverá governar daqui a uns anos. Ninguém deveria ser obrigado a passar por isso e digo por experiência própria. As coisas não funcionam bem quando os envolvidos estão sob pressão. Desistindo de pensar em minha vida, que aos meus olhos parecia completamente triste, passei a dar mais atenção ao vento que corria levemente. A brisa calma e relaxante do início do outono europeu. Não estava tão frio, mas também não estava quente. A temperatura agradável, juntamente com a paisagem ainda bela, fazia daquele quintal o meu paraíso particular. Algumas folhas já estavam pelo chão, trazendo aquele tom amarronzado característico da estação. Porém algumas folhas e plantas mantinham a sua coloração natural colorindo de verde, rosa, amarelo, vermelho e outras diversas cores todo o ambiente. De fato, aquele era o meu lugar preferido na Terra.
Interrompi meu devaneio para almoçar, talvez voltasse depois e passasse o restante do dia ali. Comi em silêncio na sala de jantar, o que me irritava bastante. Não gostava de comer sozinha, é triste demais. Sempre peço para que me acompanhem e que se sentem à mesa comigo, mas sempre recusam, falam que é completamente inadequado. Até parece que eles não sabem que inadequado é meu nome do meio. Recolhi minhas coisas e segui para a cozinha, onde todos estavam reunidos. Mesmo longe, eu conseguia ouvir a conversa e os risos. Era exatamente isso que eu queria no meu almoço. Sem dar muita atenção aos olhares espantados, sentei-me à mesa junto com eles, esperando que retomassem o assunto. E é claro que isso não aconteceu.
- Ah! Vamos lá. – exclamei. – Será que vocês não podem fingir que eu não estou aqui e continuar o que estavam fazendo?
- , isso é... – Ellen começou a falar, mas eu a interrompi.
- Inadequado? – completei, rolando os olhos. – Vou falar uma coisa para todos vocês. Inadequado é eu não ter uma pessoa sentada à mesa comigo. Inadequado é eu ter que ficar sozinha, porque vocês se julgam inferiores. Inadequado é eu sentar aqui e me sentir excluída também. – desabafei, olhando para cada rosto surpreso na mesa. Eles se entreolharam.
- Eu acho que você deveria procurar um sinônimo para inadequado. - deu de ombros e retomou a conversa, animando a todos. Pouco tempo depois eu estava a par de tudo e discutia todos os assuntos abordados com o mesmo entusiasmo.
Continuamos nessa animação por mais algumas horas. Acho que não ria tanto há muito tempo. Até que ouvimos a campainha tocar, Angela levantou-se para atender. Segundos depois ela voltou.
- , é pra você. – ela disse, incerta. Estranhei, ninguém me visitava. Segui para a porta, tendo ao meu encalço. Perguntei a mim mesma se isso era realmente necessário, mas não me manifestei. Ellen vinha logo atrás, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa. Eu ria de alguma coisa que esqueci no exato momento em que vi quem me esperava na porta. Com um lindo sorriso sem jeito nos lábios e aqueles lindos olhos me encarando, fez com que eu esquecesse qualquer coisa. Com ele por perto, meu pensamento não poderia ser outro. Aproximei-me lentamente, parando perto o suficiente para o momento. Afinal, Angela, Ellen e ainda estavam presentes. Angela foi a primeira se retirar, murmurando um "com licença", mas os outros dois continuaram firmes. Ficamos nos encarando por alguns segundos, apenas sorrindo um para o outro. limpou a garganta, fazendo um barulho alto o suficiente para chamar nossa atenção.
- Ah sim. – clareei minha mente. – Gente, esse é o . E , esses são Ellen e .
- Prazer. – disse, apertando a mão de cada um. – Eu acho que lembro de você. – ele disse diretamente para .
- Sim, foi ele que me buscou naquele dia no bar. – me intrometi.
- Ele é seu...? – perguntou em dúvida.
- Não! – neguei rapidamente. – Ele é... Namorado da Ellen, minha amiga lá da Dinamarca. – disse rapidamente, olhando a expressão confusa dos dois. Virei-me para eles, pedindo silenciosamente para que eles confirmassem minha mentira.
- É, ele é meu namorado. – Ellen disse, aproximando-se mais de e passando um braço pela sua cintura. Foi uma cena engraçada, eles tentavam parecer íntimos, mas estavam mais temerosos por se tocarem do que qualquer outra coisa.
- Ok, então. – disse, dando de ombros. – Será que eu podia falar com você?
- Claro. – eu afirmei, olhando para o 'novo casal'. Eles, ainda que contrariados, nos deixaram a sós.
- Eu não sabia se podia vir até aqui, pensei em ligar, mas lembrei que não tinha o seu número. – ele explicou, meio sem jeito.
- Você podia ter pedido para .
- Verdade, nem pensei nisso. – ele riu e eu o acompanhei.
- Fico feliz que você tenha vindo, de verdade.
- Bem, eu estou aqui com um propósito. – ele começou, com um sorriso bobo nos lábios.
- E qual seria? – perguntei curiosa.
- Estou te sequestrando, isto é, se você me permitir.
- Me sequestrando? – perguntei, repentinamente animada.
- Exatamente. – ele confirmou. – Podemos ir? – perguntou, oferecendo sua mão.
- Só preciso pegar minha bolsa e meu casaco. Já volto. – eu disse, antes de correr até o quarto. Eu não tinha tempo de me arrumar, então tinha que improvisar. Soltei os cabelos, que estavam presos, passei rapidamente um batom claro nos lábios, peguei o casaco e a bolsa, parando em frente ao espelho, ajeitando alguns fios rebeldes. Em poucos minutos eu já estava de volta à porta. No caminho acenei para Ellen, falando que explicava depois. sorriu quando me viu e estendeu mais uma vez sua mão. Sem pensar duas vezes a segurei fortemente e me deixei ser levada. Não importava para onde nós iríamos, eu estaria com ele de qualquer forma.
- Eu não tinha reparado que você morava na embaixada. – ele comentou, abrindo a porta do carro. Enquanto entrava, pensei nas diversas desculpas possíveis, porque algo como "ah, quando se é uma princesa, os locais de hospedagem ficam restritos" não cairia muito bem. Não que eu não confiasse nele, mas eu não queria que ninguém soubesse do meu pequeno segredo por enquanto.
- Medidas cautelosas do meu pai. – murmurei, torcendo para que ele não quisesse saber de mais nada.
- Então você é alguém importante? – ele se animou.
- Isso importa? – perguntei, temendo ter sido grossa demais.
- Nem um pouco. – ele deu de ombros. – Era só curiosidade, sei lá, queria saber mais sobre você. – ele me lançou mais um sorriso.
- Digamos que eu seja filha de alguém importante. – respondi, derrotada. Ele estreitou os olhos, pensando por alguns segundos.
- Então é melhor colocar o cinto, não quero problemas com quem quer que seja da Dinamarca. – ele disse, rindo alto em seguida.

Seguimos pelas ruas movimentadas de Londres. O tempo quase agradável era muito convidativo para um passeio. mantinha um belo sorriso nos lábios enquanto dirigia, sua animação era contagiante. Não conversamos muito durante o caminho, logo me prendi à paisagem até então desconhecida. Era incrível como até o centro da cidade era bonito. Diversas praças ou pequenos parques estavam pelo nosso percurso e eu me maravilhava conforme eles iam passando. fez uma curva mais fechada e quando os prédios saíram de meu campo de visão, fui tomada pelo verde dominante daquele lugar quase gigantesco. Debrucei-me na janela, sentindo o vento bater em meus cabelos. Eu tinha certeza que parecia uma criança naquele momento, daquelas que estavam indo conhecer um lugar pela primeira vez. Não pude evitar, eu estava realmente animada com aquela situação. Escutei um riso baixo ao meu lado, parece que eu estava divertindo alguém.
- Estou parecendo uma idiota, não é? – perguntei, ajeitando-me no banco.
- Você está maravilhosa. – ele respondeu, corando levemente. Confesso que fiquei sem jeito, quer dizer, eu sempre fico sem jeito com os elogios dele. Não sei o que responder, então apenas sorrio sem graça e fico em silêncio. Isso deve ser altamente frustrante.
- Eu queria saber manter uma conversa com você, sem estar com álcool no meu sangue. – eu disse, rindo em seguida. – Mas eu acho que é impossível.
- Bom, se você quiser, eu posso parar num bar ou algo do tipo. – encarei-o por alguns segundos, antes de rirmos novamente.
- Eu acho melhor eu tentar me acostumar com isso. Não quero ter que beber toda vez que eu for passar um tempo com você.
- Que bom, porque, se dependesse de mim, você passaria a vida toda bêbada. – ele falou, olhando nos meus olhos. Tá, isso pode não ter sido a frase mais romântica que já foi dita, mas para mim teve um significado especial. Especial até demais. Eu respirei fundo, tentando pensar em alguma resposta, mas eu não conseguia.
- Eu acho que vou precisar daquela bebida. – murmurei, ouvindo seu riso alto ecoar pelo carro.
- Chegamos. – ele disse minutos depois. saiu do veículo e veio abrir a porta para que eu descesse. Eu tinha ficado tão distraída com a nossa conversa, que não tinha visto para onde tínhamos ido. Olhei rapidamente ao redor, percebendo a grande massa verde que nos rodeava. Era o mesmo lugar que tinha chamado a minha atenção antes. Eu deveria estar com o mesmo sorriso bobo nos lábios enquanto observava o meu redor. – Se você está achando o estacionamento bonito, espere até ver o parque por dentro.
- Onde estamos? – perguntei, enquanto seguíamos na direção que ele apontou. Após poucos metros, deparei-me com um imenso arco que servia como entrada.
- Hyde Park. Eu achei que você ainda não conhecesse alguns lugares aqui de Londres. Eu também fiquei meio perdido quando cheguei, então pensei que seria legal você conhecer esse parque.
- É absurdamente lindo, . – confessei, olhando, maravilhada, cada pedacinho daquele local. – Hoje mais cedo eu estava encantada olhando o pequeno jardim que temos no quintal. Mas agora, isso tudo aqui o transformou em nada. Eu tinha escolhido aquele quintal como o meu lugar favorito em todo mundo. Acho que tenho que repensar.
- Eu gosto muito desse lugar. Meu pai me trouxe aqui uma vez e me contou diversas histórias sobre ele, então quando eu estou aqui é como se ele estivesse também. – ele disse, com uma sombra de tristeza no olhar.
- Você mora com os seus tios, não é? – perguntei curiosa. Ele encostou-se a uma árvore, encarando a imensidão verde à sua frente. – Seus pais ficaram na Califórnia?
- Meus pais morreram. – ele disse, dando um leve sorriso em seguida. Não entendi o motivo do sorriso. Ele estava tentando parecer forte ou algo assim?
- Meu Deus, , eu não sabia. Me desculpe. – eu tentei remediar a situação. Aproximei-me dele, com os braços estendidos como se fosse abraçá-lo ou fazer um carinho. Mas parei no meio do caminho, sem saber se deveria continuar.
- Não se preocupe, isso foi há dez anos. Eu não fico mais triste, eu apenas sinto saudades.
- Não consigo nem imaginar como isso deve ser ruim. – eu disse, parando ao seu lado e apoiando a cabeça em seu ombro.
- Eu não te trouxe até aqui para te deixar triste. Vem, quero te mostrar meu lugar preferido daqui. – ele disse, com um pequeno sorriso, entrelaçando nossos dedos e me guiando por entre as folhas caídas pelo chão. Segundos depois, cedo demais para mim, ele soltou minha mão, andando ao meu lado em silêncio.

Stay with me, baby stay with me, tonight don't leave me alone.
Fique comigo, querida, fique comigo, essa noite não me deixe sozinho.
Walk with me, come and walk with me, to the edge of all we've ever known.
Ande comigo, venha e ande comigo, para o limite de tudo que conhecemos.


Percorremos alguns metros no caminho de asfalto do parque. O vento leve que passava fazia com que as folhas que estavam pelo chão voassem e formassem um tapete natural. Eu realmente não sabia o que admirar. Qualquer lugar para o qual eu dirigisse meu olhar me dava visão de nova cores, novos movimentos, novas sensações. Até mesmo as construções que cercavam o parque ajudavam a aumentar a beleza do lugar. O aspecto antigo que elas traziam consigo dava ao lugar uma aparência de filme antigo. Num momento, ele segurou minha mão novamente, olhou para os lados e nos levou por entre as árvores, talvez cortando caminho. Retirando alguns galhos à nossa frente, ele revelou um lugar absurdamente maravilhoso.
Um lago se estendia até onde eu não conseguia ver e em toda a margem flores de diversos tipos, cores e formas se desenvolviam. Olhei para o meu lado esquerdo, onde o sol agora se punha, tonalizando todo o ambiente de uma cor quase alaranjada. Porém, do lado inverso, já era possível ver a lua, mesmo que fosse apenas a sua ligeira sombra. Sem querer, meus dedos roçaram levemente os dele. Levantei meus olhos até os de , que me encarava de forma doce. O pequeno sorriso ainda estava em seu rosto também iluminado pelos fracos raios solares. Seus olhos e brilhantes se destacavam, fazendo-me ficar quase que hipnotizada. Sem nem pensar, aproximei-me de seu corpo, sem tirar meu olhar do seu. Rapidamente ele alcançou meu estado de espírito, virando-se em minha direção. Prendi minha respiração enquanto ele fazia este movimento. Com os olhos fechados, ele passou o nariz pela pele do meu rosto, fazendo um carinho ao mesmo tempo em que inspirava meu perfume. Eu queria me prender e me perder mais uma vez naqueles olhos encantadores. Aqueles olhos.
- Abra seus olhos. – pedi quase num sussurro.

Stay with me, baby stay with me, tonight don't leave me alone.
Fique comigo, querida, fique comigo, essa noite não me deixe sozinho.
She shows me everything she used to know, picture frames and country roads
Ela me mostra tudo o que ela conhecia, molduras e estradas rurais,
When the days were long and the world was small.
Quando os dias eram longos e o mundo era pequeno.
She stood by as it fell apart, separate rooms and broken hearts,
Ela parou perto de tudo que se desfez, salas separadas e corações partidos,
But I won’t be the one to let you go.
Mas eu não vou ser aquele que deixou você ir.


A forma como ele me olhou em seguida, o olhar que ele me lançou, era completamente nova para mim. Era uma mistura, uma profusão de diversos e confusos sentimentos, mas um era claro, pois parecia ser refletido do meu. Ele queria isso tanto quanto eu e não tinha ninguém para atrapalhar dessa vez, eu sabia muito bem como isso terminaria. Não que eu estivesse com medo ou algo do tipo, eu ansiava esse momento desde a noite de sexta-feira. Para ser sincera, eu tinha fantasiado e revivido essa cena ininterruptamente em minha cabeça. Agora não eu não estava a mais que alguns segundos, respirações ou batimentos cardíacos de distância do que eu desejava. Era minúsculo o espaço que nos separava.
- Se eu te disser que você está mais linda do que nunca, seria muito típico? – ele perguntou, repousando uma de suas mãos na base da minha coluna, deixando nossos corpos separados por centímetros. Um lindo sorriso brincava em seu rosto.
- Seria bem típico, diria quase clichê. – respondi, colocando minhas mãos em seus ombros, diminuindo ainda mais a distância.
- E se eu não dissesse mais nada? – ele perguntou novamente, apoiando a outra não em minha nuca, fazendo com que nossos narizes ficassem quase colados.
- Então seria perfeito. – confessei, sentindo seus lábios finalmente moldados aos meus.

Darling you don't have to run, you don't have to go.
Querida, você não tem que correr, não tem que ir.
Just stay with me, baby stay with me.
Apenas fique comigo, querida, fique comigo.


No início nossa movimentação era descompassada, desencontrada. Como se ambos quiséssemos muito aquilo, mas não tínhamos encontrado o nosso ritmo, o nosso jeito. Conforme os movimentos foram se intensificando, o abraço dele ficou mais apertado. Não que eu quisesse que ele se afastasse, pelo contrário, queria que ele ficasse cada vez mais próximo. me deixou completamente desnorteada com seu beijo, eu tinha perdido a noção do tempo, espaço e tudo mais. Depois do que eu achei que foram alguns segundos, nós encontramos nossa sintonia. Era como se toda a ansiedade que estava guardada tivesse sido libertada num rompante e agora tivéssemos o controle de nossos corpos novamente.

I'm not sure what this is gonna go, but in this moment all I know,
Eu não tenho a certeza de que isso vai passar, mas nesse momento tudo o que eu sei,
Is the skyline, through the window, the moon above you and the streets below.
É a linha do horizonte, através da janela, a lua acima de você e as ruas abaixo.
Hold my breath as you're moving in, taste your lips and feel your skin.
Prendo a respiração enquanto você está movendo-se, saborear seus lábios e sentir sua pele.
When the time comes, baby don't run, just kiss me slowly.
Quando chegar o momento, baby não corra, só me beije lentamente.


Então eu percebi que tinha acabado de mudar completamente o rumo da minha estadia em Londres e talvez até da minha vida. Mas sentindo aqueles braços ao meu redor e aqueles lábios nos meus, era muito difícil, diria impossível, pensar em outra coisa a não ser prolongar ao máximo possível aquele momento. Eu acho que o tempo podia parar, seria pedir muito?


Nota da Autora: Então eles se beijaram...
Eu não sei muito bem o que escrever aqui hoje, na verdade eu nem deveria enviar essa atualização hoje, mas eu não consigo terminar a próxima e se eu for esperar, não envio nunca.
Essa semana que ganhei a votação de Autora do mês aqui no FFOBS e nem tô acreditando. AEAEAEAEA o/ Acho que a ficha só vai cair quando meu nome aparecer lá na página inicial.
Tá, vou parar de falar, espero que vocês tenham gostado.
Beijos, até a próxima.

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Minhas outras fics:
When I'm Hurt - McFLY/Finalizadas
Vestida Para Casar - McFLY/Em Andamento
Histeria - Restritas/Em Andamento
Halo - McFLY/Em Andamento
The Way I Loved You - McFLY/Finalizadas
What Goes Around... Comes Around - Restritas/Finalizadas
What Goes Around... Comes Around II - Restritas/Em Andamento
You Make It Real - Especial de Natal