Beta-reader: Mari Lima (até capítulo 9) e Vanessa (a partir do capítulo 10)


Capítulo 1

Ignorando tudo que prometi a mim mesma, tudo que prometi a ela, eu injetei mais uma dose em mim, desabando no chão frio do banheiro.
Nada importaria quando o efeito da heroína atingisse meu corpo, ela me faria esquecer tudo. Eu sabia que era errado, mas era o único jeito de esquecer tudo, de ter um pouco de paz.
Eu me levantei com dificuldade e saí do banheiro daquele bar imundo. Eu mal ficava em pé, e já sentia os espasmos que percorriam meu corpo por causa da droga.
Era como pequenos choques que percorriam todas as partes do meu corpo, me deixando acordada e me dando a sensação de êxtase. Minha visão já estava embaçada, meu corpo tonto.
Mas ter aquelas sensações já era rotina para mim... Não havia nada mais normal do que isso, não para mim.
Eu ficava tão mal depois, mas eu faria qualquer coisa para esquecer tudo! Para que todas as malditas lembranças desaparecessem de vez. Eu daria a minha vida para esquecer tudo, todos os motivos que me fizeram ser quem sou, e que me fizeram chegar a esse ponto.
Eu não queria estar ali, não queria ser quem sou. Por mais que eu lute, essa sou eu, não há escapatória... Eu sou a droga, minha própria droga. Eu me transformei no que sou e não a droga. Minhas dores latejavam tanto que me dopar era a única forma de esquecer...
Cheguei perto do balcão para pedir uma bebida quando senti um par de mãos fortes me agarrarem brutamente e me jogar para fora do bar.
- Cansei de vocês, drogados de merda no meu bar! – O homem disse e entrou novamente para o bar.
Meu corpo ficou jogado na porta do bar por alguns minutos até que eu finalmente decidi me levantar e sair dali. Minha maquiagem velha estava borrada pela chuva que caia. Eu sabia muito bem que eu não tinha lugar para ir, que o máximo que eu podia fazer era vagar por aí até desmaiar em algum lugar.
Eu andava sem rumo, não enxergava nada e mais uma vez, meu corpo me traía. Minha cabeça rodava tanto que meu senso de direção tinha desaparecido. Eu podia desabar em qualquer lugar, não importava.
Já eram mais de três da manhã, eu acho. Não havia quase ninguém naquela rua, eu estava sozinha. As poucas pessoas que estavam lá estavam tão drogadas quanto eu, por isso ninguém me olhava.
Caminhei até uma praça, vazia.
Eu sentia dor. Eu nunca tinha sentido aquela dor antes, acho que era o excesso da droga. A qualquer momento, meu coração pararia devido a minha melhor amiga, aquela que estava comigo a todos os momentos. A heroína.
Eu caí na grama molhada, sentindo aquela dor lancinante me devorar por inteiro. Será que minha hora finalmente tinha chegado? Será que finalmente Deus teve um pouco de piedade e decidiu que eu devia morrer?
Eu sorri com essa idéia. Minha fazia tão feliz pensar que a morte enfim tinha chegado. Eu sabia que o inferno me esperava, mas qualquer coisa era melhor que ser eu, que viver isso.
Se fosse mesmo isso, finalmente aquela dor ia passar. Finalmente eu ia esquecer tudo, sem precisar de nenhuma droga ou bebida...
Como num flash, a imagem dela veio a minha cabeça. Ela seria a última coisa que eu ia pensar agora... Será que ela estava bem? Será que tinha conseguido fugir? Será que ela tinha me esquecido?
Ela foi a única que um dia se preocupou comigo. Ela costumava dizer que eu era muito boazinha, e que eu nunca mereceria esse destino.
Ela costumava dizer que quando tudo isso acabasse, eu ia ser a melhor de todas... Que eu ia ser feliz. Ela acreditava em mim.
Senti minhas pálpebras caírem lentamente, junto com algumas lágrimas, de pura tristeza. Mas antes que meus olhos pudessem se fechar, eu vi alguém vindo em minha direção, um homem.
Minha última visão foi daqueles olhos me fitando intensamente, e então a escuridão me engoliu, e eu queria que tivesse sido para sempre.




Nas garras ferozes das circunstâncias, não me encolhi,
nem fiz alarde do meu pranto. Golpeado pelo acaso,
minha cabeça sangra, mas não se curva. Longe deste
lugar de ira e lágrimas só assombra, o Horror da sombra.
Ainda assim, a ameaça dos anos me encontra, e me
encontrará sempre, destemido. Não importa quão estreira
seja a porta, quão profusa em punições seja a lista.
Sou mestre do meu destino. Sou capitão da minha alma.



- One Three Hill



Capítulo 2


“- Posso vê-la? Talvez valha algum dinheiro... – Meu pai assentiu, e eu corri para meu quarto, com os olhos cheios de lágrimas.
Ele entrou no meu quarto.
- ? Pode vir aqui um momento? – Eu fiz que não com a cabeça, e ele agarrou meu braço e desceu as escadas comigo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Posso te dar uma boa quantia. Mas não posso levá-las juntas. – O homem disse, sorrindo para mim e me analisando.
chorava compulsivamente e eu também. Meu pai assentiu e me soltou. Ele foi até e segurou o rosto dela.
- Adeus, minha filha, eu te amo. – Ele tentou beijar a testa dela, mas ela se afastou.
- Eu te odeio, seu monstro. – Meu pai fechou os olhos com raiva, e eu corri para abraçar minha irmã.
- Não vai embora, , por favor! Não posso ficar sem você! – Eu disse aos prantos, e ela me apertou com força.
- Se cuida, mana. Não deixe eles te levaram, você é boa demais para isso, essa vida não é pra você.
- Nem pra você!
- Por favor, fala pro que eu o amo. E seja forte. A gente vai ser ver um dia, , mas, por favor, não deixa eles te levarem!
O homem a puxou com força e a arrastou pra fora da casa.
- Eu te amo, ! – Minha irmã gritou, chorando.
- Eu também te amo, ! – Meu pai fechou a porta, e eu observei pela janela minha irmã indo embora...
Eu tinha medo... Por que eu sabia que eu era a próxima.”


Eu acordei suando e assustada. Eu olhei para os lados, e não vi ninguém.
Eu não estava mais no parque. Mas eu também não sabia onde estava. Eu estava deitada numa cama, muito macia. A última vez que deitei numa cama tão confortável para dormir foi há uns quatro anos.
Meu corpo todo doía, eu sabia que era efeito da droga. Eu suspirei e me levantei, tentando me lembrar de como tinha ido parar ali. A última coisa de que me lembrava era de cair no chão gelado do banheiro e ser expulsa do bar.
Eu sentei no canto do quarto e comecei a massagear meus olhos. Lembrei-me do parque, e de achar que eu estava morrendo. Da escuridão, do medo... De me lembrar de minha irmã.
E daqueles olhos que me acharam segundos antes da susposta morte me engolir. Eram as únicas coisas que eu lembrava.
Levantei-me com dificuldade e caminhei até a janela do quarto. Estava fechada. Eu a abri e olhei para baixo. Eu estava em um prédio, e num andar bem alto. Provavelmente uma cobertura.
Olhei para baixo e me imaginei caindo... O vento batendo em meus cabelos , a sensação de liberdade... E então o baque, a morte. A dor...
Eu abri a janela toda e me sentei ali. Meus pés balançavam devagar, e eu queria me jogar. Lá embaixo, as pessoas passavam com pressa indo trabalhar, os carros businavam com pressa.
Coloquei minhas mãos no parapeito da janela e me preparei para acabar com tudo isso. De uma vez por todas. Quando fechei os olhos e comecei a sorrir, imaginando como seria bom sentir a dor de cair daquela autura...
Pelo menos eu ia sentir, sentir algo bom. Algo que não fosse essa dor que me acompanha há tantos anos, sentir algo a não ser o efeito de drogas e bebidas. Eu ia sentir a morte.
Ventava muito. Levantava meu cabelo e balançava minhas roupas. Eu tirei minha jaqueta de couro e a joguei para trás, ela caiu na cama. Eu respirei fundo... Eu tinha tomado uma decisão, e, pela primeira vez em muito tempo, uma decisão certa.
Quando comecei a balançar meu corpo, para enfim me jogar de vez, eu fechei meus olhos e sorri com um último pensamento.
Eu não desisti de lutar... Eu apenas estou dando mais um passo em minha luta.
E aí eu me joguei.
Mas eu não caí. Não... Pois um par de mãos me segurou bem a tempo. E me puxou para dentro do quarto. Eu não abri os olhos. Apenas suspirei e ouvi uma voz doce sussurrar.
- Você está bem? – A voz disse, tão docemente.
Eu abri os olhos lentamente, e então eu vi aqueles mesmos olhos que eu vi na noite anterior. Então, ele tinha me salvado me tirado de lá. Não que eu tenha gostado disso.
- Você ia realmente se jogar? – Eu apenas confirmei com a cabeça. – Não sei por que ia fazer isso, mas não o faça. Você não precisa... – Eu apenas soltei uma risada.
- Eu preciso sim, e, por favor, não fale assim, você não me conhece, não sabe nada da minha vida nem quem sou. Por que me ajudou, me trouxe pra cá? Onde estou? Quem é você? – Eu disse, com raiva, me sentando na cama.
- Meu nome é ... . Você está no meu apartamento... E eu te ajudei porque você precisava de ajuda. – Ele sorriu. – Minha vez de perguntar. Qual o seu nome? Por que tentou se jogar e o que estava fazendo caída lá na rua? – Eu passei a mão em meus cabelos ainda úmidos e olhei para ele.
Aqueles olhos me olhavam com ternura. Ternura... Era um sentimento. Ele me olhava com carinho, vontade de ajudar. Mas eu não precisava de ajuda, eu estava ótima... Ou era o que eu achava.
- Eu tentei me jogar, porque eu estava com vontade. Eu estava deitada na rua porque desmaiei. E é só. Por favor, sai daqui e me deixa sozinha. – Ele levantou e colocou as mãos pro alto como quem diz que se rende e foi em direção a porta. – Obrigada. Logo vou embora. – Eu não sorri e ele saiu do quarto.
Antes que eu pudesse pensar em algo, ele estava de volta com uma toalha e algumas roupas nas mãos.
- Tome um banho, aqui tem algumas roupas da minha irmã, pode usar. Não precisa ter pressa. – Ele me entregou e saiu em silêncio do quarto, fechando a porta.
Eu olhei para a toalha e as roupas e decidi entrar no banho.
O banheiro ficava no quarto, uma porta atrás de mim. Eu entrei, tirei minha roupa suja e molhada e entrei no banho.
Liguei o chuveiro no mais quente, embaçando o espelho rapidamente. Deixei a água cair na minha cabeça e lavar aquele cheiro de bebida que estava impregnado em mim.
Meus pulsos exibiam marcas profundas de minhas tentativas de morte. Meu braço direito estava cheio de marcas de agulhas... Meu corpo estava cheio de hematomas, velhos e novos.
Existia uma parte de mim que queria parar... Que queria ser eu mesma de novo. Não queria depender de drogas e bebidas para viver... Eu só gostaria que não tivessem tirado a inôcencia de uma garotinha de treze anos.
Eu queria a . Nesse exato momento, eu a queria aqui... me abraçando. Eu queria as nossas Barbies, nossos sonhos. Eu queria de volta nossa inocência de criança.

“- Você tem 16 anos... E eu 13! Acho que já passamos da idade das Barbies.
- A idade das Barbies só acaba quando você perde a vontade de brincar, . Eu não perdi. Adoro vesti-las, fazer roupas!”


Aquele cretino... Transformou uma criancinha de treze anos em uma viciada bêbada. Eu queria que tudo tivesse sido diferente.
Mas a vida me deu este destino... O melhor agora era aceitar. Só isso.

“- Quantos anos a outra tem? – O homem perguntou.
- 13.
- Posso vê-la? Talvez valha algum dinheiro... – Meu pai assentiu, e eu corri para meu quarto, com os olhos cheios de lágrimas.”


Eu não queria mais lembrar, doía. Dóia mais que viver o presente. Lembrar do dia em que tudo mudou.
Eu fechei o chuveiro e vesti as roupas que havia me emprestado. Eu não entendia por que ele estava fazendo isso, mas eu tinha que agradecer... Pela primeira vez, em quatro anos, eu me sentia segura.




Micheangelo disse uma vez que o melhor jeito
de julgar os elementos essenciais de uma estátua
é jogá-la de um morro e as peças que não forem
importante vão se quebrar. Às vezes, a vida é assim,
ela nos joga morro abaixo, mas quando atingimos o
fim e só restam as coisas mais importantes é quando
nossa visão clareia. É quando nos agarramos ao que
conhecemos, enquanto a esperança se mexe dentro de nós
.


- One Three Hill



Capítulo 3

POV

Ela ficou ali, sentando no canto do quarto praticamente os três dias inteiros. Ela não falava nada, só tinha os olhos tristes e um ar pensativo.
Ela parecia estar sofrendo, parecia ter tido uma vida difícil. Tentou se jogar da janela do meu apartamento na manhã em que acordou aqui, algumas horas depois de eu trazê-la para cá.
Achei-a desmaiada no gramado do parque perto da minha casa. Ela devia ser só mais uma daquelas drogadas, eu havia pensado. Mas quando cheguei perto e vi que ela ainda estava acordada, ela me olhou nos olhos e aqueles olhos me fizeram compreender que não era bem isso, que havia algo mais em relação a ela.
Eu a trouxe para casa e a deitei no quarto de visita e tomei a decisão de cuidar dela. Para muitos, ela era só mais uma viciada desmaiada no parque, mas eu vi dentro dela e sabia que ela não era assim.
E quando ela acordou em minha casa e me olhou nos olhos, eu vi uma garotinha, uma garotinha assustada. No fundo ela era isso, apenas uma pequena menina que teve os sonhos roubados cedo demais. Eu não sabia como ou por que, mas eu sabia.
Eu pude fazer o que eu sabia que quase ninguém tinha feito antes, eu tinha olhado dentro dela e visto uma garotinha linda, sonhadora e inocente. Ela podia não saber, mas era isso que ela era lá no fundo.
Nesses três dias, ela não quis dizer nem seu nome. Ela não abria a boca para nada. Ela não chorava, mas eu via as lágrimas acumuladas em seus tristes olhos .
Eu ia ajudá-la, custe o custar. Eu podia não saber o nome dela, de onde ela veio... Mas eu sabia que me sentia estranhamente ligado àquela pequena menina grande, sabia que quando nossos olhares se encontravam, compartilhávamos da mesma dor e que ambos não sabíamos o que era essa dor ou de onde ela vinha.
Eu sentia que tinha que cuidar dela, fazê-la melhorar. Fazê-la ser feliz de novo. Eu ia conseguir, eu ia ajudá-la. Quando eu via a tristeza em seu olhar, tudo o que eu queria era abraçá-la bem forte e a fazer esquecer tudo.
Esquecer todos que a haviam feito sofrer, esquecer tudo de difícil que ela já passou... Sentir-se curada, protegida...
Eu tinha essa vontade, esse impulso. Eu tentaria, conquistaria sua confiança e faria dela minha amiga. Eu queria fazê-la se sentir normal de novo.
Eu ia fazê-la esquecer das drogas, ficar limpa. Ela ia ter um lar... Quem sabe uma família.
Eu estava sentado na cozinha refletindo sobre aquela pequena estranha quando a ouvi gritando de dentro do banheiro de seu quarto e corri para ver o que tinha acontecido, se ela estava bem.

POV
- Eu tenho certeza de que minha boneca é muito mais bonita que a sua, . – disse vestindo sua Barbie.
- Não viaja, . – eu sorri. – Não acredito que estamos brincando de Barbie.
- Não estamos tão velhas assim, maninha! – Ela revirou os olhos.
- Você tem 16 anos... E eu 13! Acho que já passamos da idade das Barbies.

...

Eu saí do quarto e fui até as escadas bem escondida. Meu pai não podia me ver. Mas eu o via claramente, e um homem que eu conhecia de vista.
- Você precisa ir com ele, . – meu pai disse sério.
- Eu? Por quê? Ir com ele para onde? – Ela disse assustada.


Mais uma vez acordei chorando e agarrando o travesseiro. Eu tinha dormido na casa de mais três noites. E eu tinha passado três dias inteiros sem me drogar ou beber.
Eu fiquei sentada num canto do quarto por boa parte dos dias anteriores. tentou conversar comigo várias vezes, mas eu não dizia nada.
Nem uma palavra. Eu não ia contá-lo nada sobre minha vida e também não ia dizer meu nome. E eu precisava ir embora. Eu precisava sentir.
Eu precisava de mais, mais... Tudo se resumia a isso agora, minha vida girava em torno disso.
Minha cabeça doía, muito. Eu estava cansada daqueles sonhos malditos, e essa era a razão pela qual eu não dormia sempre que possível. Quando eu desmaiava de tão bêbada, eu não tinha esses sonhos.
Eu peguei minha jaqueta no chão e revirei os bolsos. Não tinha dinheiro, nem um pouco. Só havia uma foto da minha irmã junto a mim e uma da minha mãe. Havia também alguns documentos meus.
Deixei tudo onde estava e fui em direção ao banheiro tomar um banho. Eu precisava relaxar um pouco.
Eu iria embora hoje, já tinha decidido. Não podia ficar me aproveitando dele por tanto tempo... Era extremamente errado.
Deixei a água cair e levar com ela todas as lembranças. Seria temporariamente, mas aliviaria um pouco. O tempo suficiente para eu conseguir um substituto...
Eu sentia muita dor, dificuldade para respirar... Era tudo falta da droga. A partir do momento que se torna amiga dela, você não consegue sobreviver sem ela. Eu precisava dela, mais que nunca.
Eu já estava começando a ter alucinações, a ouvir vozes do passado. Vozes e momentos que eu só queria esquecer.

“ – Apesar de ser nova, olha como é bonita! – Ele dizia segurando fortemente meu braço. – E além disso... É virgem. – O homem que conversava com ele sorriu maliciosamente.
- Huummm... Vou querer essa daí mesmo. Sei que vai cobrar caro por ela, uma rapariga tão bonita, tão jovem... E ainda por cima virgem! Oh Deus, dou quanto você quiser por uma noite com ela. – Eu senti as lágrimas querendo sair, mas tive que segurá-las. Eu não podia demonstrar nada.
O homem que me segurava pegou um papel no bolso e entregou ao outro, que sorriu. ”


Eu senti meu peito doer com a lembrança e comecei a chorar, comecei a sentir.

“ – Feito. Essa quantia é cara, mas dou um jeito. – Senti o homem me soltar por um momento, mas outro par de mãos me segurava agora, de um jeito repugnante.
- Vamos logo, boneca. – Eu senti vontade de vomitar quando ele disse isso. O homem me arrastou com ele para dentro de um quarto, arrastando junto com ele minha inocência. ”


Eu senti minhas pernas cederem e eu caí no chão. Meu peito doía e meu choro se transformava em gritos agonizantes.
Deus, alguém precisava tirar essa dor de mim! Era insuportável e dessa vez não era a falta de droga, era a dor de ser quem eu sou. Eu queria sair dessa prisão, queria me sentir livre de novo!
Eu ouvi a porta sendo aberta rapidamente e senti as mãos de me levantando do chão. Eu chorava compulsivamente e ele fechou o chuveiro para mim. Ele me enrolou em uma toalha e me levou para o quarto no colo, enquanto a dor entorpecia todo o meu corpo.
Ele me sentou na cama e olhou fundo em meus olhos, minhas lágrimas escorriam fortemente pelo meu rosto. Eu nunca chorava, há mais de um ano eu não chorava. E todas aquelas lágrimas acumuladas estavam sendo postas para fora agora.
Ele não disse nada, apenas me abraçou com força. Os braços deles me apertavam com força e eu apenas o abracei de volta, pois era tudo que eu precisava. Eu me senti segura naquele abraço.
Eu me senti tão bem ali, abraçada com . Apesar de ele ser só um estranho, ele me transmitia segurança. Ali, nos braços dele, eu pude sentir pela primeira vez em muito tempo que tudo ia dar certo.
Eu não sabia por que ele estava fazendo isso, me ajudando e sendo bom comigo. Eu só sabia que quando eu olhava dentro daqueles olhos , eu me sentia bem, segura, amada. Eu sentia esperança.
Era como se aquele homem pudesse ver quem realmente sou, ver um lado da que foi levado junto com sua inocência a anos atrás. Era como se ele pudesse enxergar através da barreira que eu criei para que nem eu mesma enxergasse quem eu era de verdade.
Ele sabia que eu era um monstro, mas ele não tinha medo. Apesar de só me conhecer há três dias e nem saber meu nome, eu tinha a certeza de que talvez ele seria aquele que iria me salvar.
Ele desfez nosso abraço depois de um tempo e pegou algumas roupas no guarda roupas do quarto onde eu ficava. Eu ainda estava entorpecida e mal conseguia me mover, então ele me levantou da cama e me vestiu.
Ele escovou meus cabelos molhados com delicadeza e sem dizer uma palavra sequer. Olhava-me com ternura e tocava em mim como se eu fosse uma criança machucada. Sorria de leve para mim, mas por mais que eu quisesse sorrir de volta, haviam roubado meu sorriso.
Ele acabou, deixou a escova na cama e voltou para a cozinha. Eu fiquei olhando para a porta por um tempo, até que peguei a escova e comecei a escovar as madeixas de cabelo preto que há tanto tempo não brilhavam, mas hoje elas brilhavam.
Eu tinha tanto a agradecer Àaquele estranho! Eu sabia que ele não tinha intenções ruins em relação a mim, pois desde o momento em que me tirou do box até o momento em que me vestiu, ele não olhou meu corpo como um homem em hora nenhuma. Ele não reparou em meu corpo, ele apenas me ajudou. Ele era diferente.
Eu me levantei e fui até a porta, ele estava fazendo panquecas e colocando em dois pratos. Escorei-me no batente da porta e olhei para ele, que sorriu de volta para mim.
- Estou fazendo panquecas para nós. Quando estiverem prontas, eu te chamo. – Eu assenti e continuei lá parada, olhando-o.
- Obrigada, . – eu disse. – E a próposito, meu nome é . . – Eu sorri timidamente e entrei para o quarto de novo, deixando ele lá sorrindo.
Faziam quatro anos que eu não sorria de verdade.

Essa escuridão tem um nome? Essa crueldade, esse ódio, como ele nos encontrou? Ela se meteu em nossas vidas, ou nós a procuramos e a abraçamos?
O que aconteceu conosco, que agora mandamos nossosfilhos para o mundo, como mandamos jovens para a guerra… Esperando que voltem a salvo, mas sabendo que alguns deles se perderão no caminho.
Quando perdemos o nosso caminho? Consumidos pelas sombras, engolidos completamente pela escuridão… Essa escuridão tem um nome? Acaso, é o seu nome?


- One Three Hill



Capítulo betado por Thalita Queiroz



Capítulo 4


Podia ter sido um pequeno sorriso, mas, por Deus, eu não sorria há muito tempo. Eu não entendia por que eu fiz isso a ele. Fazia um ano desde a última vez que aconteceu, mas nem fora um sorriso verdadeiro naquela época... Mas agora, eu sorri.
Um sorriso tão pequeno, mas tão cheio de significados. Ele me fazia sentir segura, como eu nunca me senti antes. Aqueles olhos transmitiam a sensação de que tudo iria ficar bem, de que havia esperança para mim.
Não, não havia. Eu tinha que afastar aquela idéia, não iria ficar tudo bem, nunca. Eu nunca conseguiria ser eu mesma de novo, nunca curaria meu vício. Eu nunca conseguiria afastar a dor do abandono, da falta de amor, da infância roubada.
Eu voltei a me encostar na porta e a olhar aquele estranho de cabelos e olhos . Eu não conseguia achar nada de bonito em nenhum homem, não depois do que fizeram comigo. Mas com ele... Eu conseguia me perder naqueles olhos.
Quando ele me olhava, o ar ficava escasso ao meu redor. Eu tinha a leve impressão de que, pela primeira vez na minha vida, eu queria beijar os lábios de alguém, e eram os dele.
Mas eu não podia e não iria. Eu realmente não podia. Não porque era errado e nem porque eu não o conhecia, mas sim porque eu não conseguia. E acho que nunca iria conseguir... Não conseguiria agir com ninguém daquele jeito, nunca conseguiria beijar alguém, nunca conseguiria me entregar de coração a alguém...
Eu nunca conseguiria amar, nunca. Tiraram de mim esse poder há tanto tempo. Minha capacidade de amar, minha vontade de me envolver com qualquer homem, qualquer tipo de relação para mim era repugnante.
Eu queria ser eu mesma de novo. Queria sentir-me bem, feliz... Queria poder sentir de novo, sentir algo que não fosse vontade de me drogar, de beber ou de me matar. Sentir algo que não fosse aquela dor que me acompanhava há tanto tempo...
Minha mente vagou até . Onde será que ela estava? Não nos víamos há cerca de um ano. Na última vez que a vi, ela me ajudou a fugir daquele inferno... Mas depois disso não a achei mais.
E não achei também mais formas de sorrir, pois estar com ela era um motivo para sorrir, mesmo que não fossem sorrisos tão verdadeiros. Nos poucos momentos que eu passava com ela, toda a nossa vida desaparecia.
Éramos apenas duas meninas que tiveram a infância, os sonhos e as esperanças arrancadas de si cedo demais. Mas nós conseguíamos passar uns momentos juntas e sorrir algumas vezes por mês.
Eu sentia falta da . Nos braços dela, eu me sentia segura. Ela fora uma mão para mim, em todos esses anos.
Nossa mãe morreu quando eu tinha cinco anos, tinha nove na época. Ela cuidou de mim desde então. Aos nove anos ela teve que ser mãe, teve que cuidar de uma casa e desistir de brincar de boneca.
Quando eu fiz oito, comecei a ajudá-la, e então nós tínhamos alguns momentos de criança. Apesar de ela já ter 12 e já querer se importar com as coisas de adolescente, como maquiagens, garotos, amigas, ela se importava mais comigo, com minha infância e minhas bonecas.
Nosso pai era um viciado em heroína que fazia de tudo por mais droga. Ele nunca estava em casa e mal sabia nossos nomes.
Aos treze anos, arrumou seu primeiro namorado, o . Ele tinha quinze anos e era um amor de menino. Ele tratava minha irmã bem e a mim também. Ele estava sempre em nossa casa, ajudava-nos e amava minha irmã incondicionalmente.
Eles ficaram juntos até minha irmã ter 16 e ir embora. Ela foi arrancada dele e eu não sei se eles se viram de novo. Eu não o vi de novo, não até hoje. Provavelmente nunca mais o veria.
se virou para mim e abriu um sorriso, levando os dois pratos de panqueca até a mesa e indicando uma cadeira ao seu lado.

Eu não tinha comido nada desde que cheguera aqui; eu nunca tinha fome, efeito da droga. Mas com tanto tempo sem ela, eu passei a ter. Eu me sentei ao lado dele e começamos a comer em silêncio.
Jesus Cristo, aquilo estava uma delícia. Panquecas de maçã com calda por cima. Eu comia fazendo uma cara ótima; a última vez que comi panquecas foi quando nos buscava, eu e minha irmã, para ir à escola e parávamos para tomar café da manhã.
- Por que está fazendo isso? - Eu perguntei a .
- Fazendo o quê?
- Me ajudando, me tratando bem. Eu não mereço isso, eu sou ruim. Não devia ter me trazido pra cá. - Eu disse, olhando pra baixo.
- Se eu te achasse ruim ou má, não teria te ajudado. E por que eu te ajudei? Eu sabia desde o primeiro momento que havia algo bom aí dentro. Que você não pertencia àquele mundo...
- Engano seu. Aquele mundo é minha casa. Minha moradia há quase quatro anos. O único lugar que pode haver para uma pessoa como eu.
- Não, existe isso aqui. Uma casa, um lar.
- Ah. Eu não tenho uma casa. Eu moro na rua. - Eu disse comendo minha panqueca. Eu levantei o olhar por um momento e encontrei-me com o olhar dele.
- Está sozinha? - Ele olhou para meus olhos.
- Minha mãe morreu quando eu era criança, meu pai... Ele me... Abandonou. - Concluí. - Me perdi da minha irmã há um ano. Na verdade, eu fugi.
- Fugiu? - Ele levantou uma sobrancelha.
- Fugi da vida que eu e ela éramos obrigada a ter. Ela não conseguiu escapar... Bem simples. - Eu dei de ombros. - Não posso dizer que tive sorte, porque não tenho levado uma vida boa depois que fugi. Mas qualquer coisa é melhor que aquele lugar. - Me arrepiei só de lembrar da minha antiga vida. - Meu pai nos abandonou quando eu tinha treze anos. Ele era um viciado, se importava mais com drogas do que conosco. Bem, comigo não tem sido tão diferente.
- Seus braços... Estão cheios de marcas. - Ele disse, tentando encostar no meu braço, mas eu recuei. - Desculpe.
- Não tem problema... É que... Faz tempo que alguém não encosta em mim, de qualquer jeito. Sim, meus braços estão marcados... Agulhas... - Nos punhos, as lembranças de minhas várias tentativas falhas de suicídio.
- Você usa heroína, não é?
- Você é um garoto esperto. - Eu disse contendo as lágrimas. - Eu não queria essa vida pra mim... Não mesmo. Mas era a única forma... A única maneira de... - Eu passei a mão nos olhos tentando segurar as lágrimas.
- A única maneira de... - Ele tentou me fazer falar.
- De esquecer tudo. - Eu disse sem conter as lágrimas e corri de volta para o quarto.


"Não seja ninguém além de você mesmo,
Em um mundo que está fazendo seu melhor,
Noite e dia, para te tornar outra pessoa...
Está prestes a lutar a batalha mais difícil que
Qualquer ser humano pode lutar...
E nunca deixa de lutar."


- One Three Hill



Capítulo 5


Corri para o banheiro e tranquei a porta. Eu tinha vontade de morrer... Porque estando limpa, sóbria, eu lembrava de tudo! Tudo que eu mais queria esquecer voltava à tona.
E eu não podia mais correr disso, eu não podia mais correr de mim mesma. Essa era a de verdade, eu não podia tentar mais fugir, eu estava em um beco sem saída. Eu teria que encarar quem eu era, pela primeira vez.
Eu me olhei no espelho. A garota refletida lá era muito pálida, muito magra. Os cabelos sem vida e compridos emolduravam o rosto triste e esquelético. Os olhos não tinham aquele brilho de antes, aquela vida.
O corpo antes tão belo, objeto de cobiça entre muitos homens, estava desgastado, acabado. As pernas estavam finas como nunca. Ela nunca fora magra antes. Fazia mais o tipo “cheinha”.
Os braços estavam cheios de marcas de agulhas, os pulsos com cicatrizes fortes e grandes de facas e cacos de vidros... Eu tentei encarar o espelho e aceitar que a garota refletida lá... Era eu.
Aquela garota marcada por surras, drogas, bebidas, prostituição... Era eu. Aquela menina mulher, cuja infância fora roubada, cujo os sonhos foram destruídos... Tão cedo!
Aquela pobre garotinha de treze anos, que só queria brincar com suas bonecas e suas amigas, teve sua vida roubado por um homem que só se importava com dinheiro... Teve sua liberdade, sua vida vendida pelo seu próprio pai.
Eu queria gritar. O mais alto que eu pudesse, queria que o mundo todo soubesse o que aconteceu comigo. Queria que alguém pudesse me ajudar. Eu queria que alguém pudesse me salvar.
- Não, ninguém pode me salvar. Não há salvação, eu já me perdi. – Eu gritei para mim mesma e soquei o espelho.
O espelho se partiu e eu vi o sangue escorrer pelo meu braço. Não importava... Nada importava além da vontade, necessidade de me dopar.
Eu precisa dela, eu precisava muito. Eu precisava me acabar, injetar a dose suficiente para ter uma overdose e finalmente morrer. FINALMENTE tudo poderia ter um fim!
Essa miserável vida poderia ter um miserável fim. Eu gritei mais uma vez, com toda a força que consegui. O chão do banheiro estava molhado com meu sangue. Ouvi um barulho alto e em segundos estava lá dentro.
Ele tinha arrombado a porta... Agora estava me segurando e olhando minha mão.
- Me solta, eu VOU EMBORA! – Eu gritei com raiva, saí do banheiro e corri em direção à porta do apartamento, mas ele foi mais rápido e correu pra lá, travando a porta.
- Você não vai a nenhum lugar. – Ele disse bloqueando a porta.
- Eu vou sim, você não pode me deixar presa aqui! NÃO PODE! – A minha mão cortada tremia muito, mas eu precisava sair. Eu precisava, precisava dela, aquela dor precisava passar.
- Você está tendo uma crise de abstinência. – Ele disse sério. – Por favor, se acalme, , ou vou ter que te segurar. – Aqueles olhos tentavam me domar inutilmente, eu não parei.
Ele suspirou e veio para cima de mim, segurando meus braços e me imobilizando facilmente. Eu chorava e gritava, ele apenas me segurou e me sentou na cadeira da cozinha por mais ou menos dez minutos.

POV

Eu a imobilizei e fiquei segurando-a na cadeira por um bom tempo. Ela continuava se debatendo e chorando, aquilo cortava meu coração. Eu já havia trancado a porta, mas não queria soltá-la por medo de se machucar.
O corte em sua mão, que tremia, sangrava. Ela precisava de alguns pontos ali e logo, mas eu não podia levá-la a nenhum lugar até que sua crise passasse. Depois de um tempo, sua respiração começou a se regularizar e ela parou de se debater.
Olhou-me nos olhos, são olhos cheios de lágrimas e tão tristes, me imploravam para soltá-la. Mas eu não podia. Ela ainda chorava, mas em silêncio.
- Me solta... Eu não tenho força pra fazer nada. – Ela sussurrou com dificuldade e eu a soltei devagar.
Ajeitou-se na cadeira e ficou parada chorando. Sentei-me na cadeira ao lado, mas eu não podia fazer nada. Nada iria ajudá-la agora... Ela só precisava esperar passar, se é que ia passar.
- Me deixa ir embora, por favor, . – Ela disse meu nome com tamanha doçura, que senti meu coração apertar. – Eu preciso...
- Não, você não precisa! Você é melhor que isso, . Essa vida não é pra você, você é boa. Posso ver isso em seus olhos. – Ela continuou chorando e apenas assentiu silenciosamente. - Você consegue.
- Por favor, não diz isso... Eu não consigo, você não entende? Ela me domina completamente. Eu já não sou nada sem ela, eu sou ela, eu sou a droga! Quando eu fico sem ela, meu corpo não aguenta, eu entro em colapso. Força de vontade não é nada quando se está lidando com isso... Eu não sou boa, . Eu costumava ser uma menina muito boazinha, mas eu não sou mais...
- Sim, você ainda é! Eu consigo ver, aí dentro, uma mulher maravilhosa! Você pode lutar contra isso, sim! Eu vou te ajudar ... Deixa eu te salvar. – Eu estendi a mão para ela.
- Você não entende... Ninguém pode me salvar... Acabou. – Ela afastou minha mão - Agora é só uma questão de tempo... Até que meu coração se canse de sofrer e pare... E, finalmente, pare. Tenho a vida contada.
- NÃO DIGA ISSO! – Eu disse irritado e ela se assustou – Nunca mais, ouse dizer que irá morrer, você não vai! Você vai ficar bem, e sair dessa! – Ela pareceu surpresa, e eu pude perceber uma chama brilhar em seu olhar por alguns segundos, mas quando olhei de novo ela já não estava mais lá.
- Mas é a verdade. Logo, tudo terá um fim. – Ela segurou minha mão por um segundo, bem fracamente, mas logo a soltou – Meu corpo não aguenta mais, eu não fui feita para suportar tanto. Eu já aguentei demais... Eu agradeço o que está tentando fazer por mim, mas é tarde de mais para mim, não há salvação, não há mais uma maneira de concertar as coisas...
- Sempre tem um jeito de concertar as coisas, nada está perdido para sempre. Você precisa, apenas, deixar eu te salvar. Você pode ser salva, você apenas tem que permitir isso. – Ela fechou os olhos e deixou uma lágrima solitária cair.
Um sorriso brincou em sua boca, quis aparecer, mas sumiu. Levantou a cabeça e me olhou profundamente. E eu pude ver, no fundo daqueles lindos olhos , uma pequena faísca de esperança surgir.
Ela não teve tempo de dizer nada, pois seus olhos se fecharam e ela tombou para o lado, caindo em meus braços. Mas ela não precisou dizer nada, pois seus olhos disseram tudo: ela queria ser salva.




"Dê uma olhada em você no espelho.
Quem você vê te olhando?
É a pessoa que você quer ser?
Ou é alguém que você queria ser?
A pessoa que você deveria ser, mas acabou não sendo?
É alguém dizendo a você que você não pode ou não quer?
Porque você pode.
Acredite que o amor está por aí.
Acredite que sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam.
Às vezes, a felicidade não vem do dinheiro, da fama ou do poder.
Às vezes, a felicidade vem dos bons amigos e da família.
E da tranquila nobreza de se guiar uma boa vida
Acredite que os sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam.
Então dê uma olhada nesse espelho e lembre-se de ser feliz,
porque você merece ser.
Acredite nisso.
E acredite que os sonhos se realizam todos os dias.
Porque eles se realizam."



- One Three Hill



Capítulo 6
(Avril Lavigne - Keep Holding On)

POV

Eu a carreguei até a cama e a deixei dormindo. Enfaixei a mão dela bem apertado para diminuir o sangramento.
Eu tinha a esperança de que assim que ela acordasse, já estaria melhor e eu poderia levá-la a um hospital para levar alguns pontos na mão.
Sentei ao pé da cama e a observei dormindo. Ela ficava linda dormindo. Era como se todos os problemas desaparecessem e ela fosse somente... Ela, de novo.
A sua respiração irregular mostrava que estava com dor. E eu sabia que a dor não ia passar... É muito difícil curar o vício em heroína, dizem que as dores são insuportáveis. Eu não sabia como eu ia ajudá-la, o que eu ia fazer. Mas eu sabia que íamos dar um jeito... Juntos.
Eu tinha me apegado demais a aquela pequena estranha, eu sabia que era errado, mas eu não podia evitar. Tudo o que eu queria era vê-la feliz de novo, seus olhos brilhando e seu sorriso aberto.
Eu cheguei mais perto e comecei a acariciar o seu cabelo. Encolheu-se mais e sorriu. Devia estar tendo um bom sonho. Continuei ali, mexendo em seus cabelos e cantarolando baixinho.



You're not alone
(Você não está sozinho)
Together we stand
(Juntos ficaremos em pé)
I'll be by your side
(Estarei do seu lado)
You know I'll take your hand
(Você sabe que segurarei sua mão)

When it gets cold
(Quando estiver frio)
And it feels like the end
(E parecer o fim)
There's no place to go
(E não tiver para onde ir)
You know I won't give in
(Você sabe que eu não desistirei)
No, I won't give in
(Não, eu não desistirei)

Keep holding on
(Continue aguentando)
Cause you know we'll make it through,
(Porque nós vamos conseguir)
We'll make it through
(Vamos conseguir)
Just stay strong
(Apenas fique forte)
Cause you know I'm here for you,
(Porque eu estou aqui por você)

There's nothing you can say
(Não há nada que possa falar)
Nothing you can do
(Não há nada que fazer)
There's no other way when it comes to the true
(Não há outro jeito se tratando da verdade)
So keep holding on
(Então continue aguentando)
Cause you know we'll make it through,
(Porque nós vamos conseguir)
We'll make it through
(Vamos conseguir)

Os seus olhos estavam meio abertos agora. Olhava-me sorrindo e mexia a boca, tentando dizer algo, mas logo desistiu e apenas me olhou. Eu continuei acariciando o seu cabelo e cantarolando baixo para que apenas ela ouvisse.
Ela tinha um sorriso triste e os olhos cheios de lágrimas. Eu cheguei mais perto e continuei a cantar.

So far away
(Tão longe)
I wish you were here
(Eu gostaria que estivesse aqui)
Before it's too late
(Antes que seja tarde demais)
This could all disappear
(Isso tudo poderá desaparecer)

Before the doors close
(Antes que as portas se fechem)
And it comes to an end
(E o fim chegue)
With you by my side
(Com você do meu lado)
I will fight and defend
(Eu lutarei e defenderei)
I'll fight and defend
(Lutarei e defenderei)

Uma lágrima solitária escorreu do seu rosto e eu a limpei rapidamente. Ela mal se movia, sua respiração era fraca e dolorosa... Mas ela sorria. E dessa vez um sorriso bem aberto, cheio de... Esperança.
Os olhos brilhavam, ela sabia que eu ia ajudá-la e que tudo ia ficar bem.

Hear me when I say,
(Me ouça quando eu digo)
When I say I believe
(Quando eu digo que eu acredito)
Nothing's gonna change
(Nada vai mudar)
Nothing's gonna change,
(Nada vai mudar)
Destiny
(O destino)
Whatever is meant to be
(O que quer que seja)
We'll work out perfectly
(Nós resolveremos perfeitamente)

(La ra ra ra ra)
Keep holding on
(Continue aguentando)
Cause you know we'll make it through,
(Porque nós vamos conseguir)
We'll make it through
(Vamos conseguir)
Just stay strong
(Apenas seja forte)
Cause you know I'm here for you,
(Porque você sabe que estou aqui por você)
I'm here for you
(Estou aqui por você)

There's nothing you can say
(Não há nada que possa dizer)
Nothing you can do
(Nada que possa fazer)
There's no other way when it comes to the true
(Não há outro jeito se tratando da verdade)
So keep holding on
(Então continue aguentando)
Cause you know we'll make it through,
(Porque você sabe que nós conseguiremos)
We'll make it through
(Nós conseguiremos)

Ela fechou os olhos e mordeu o lábio inferior. Ela estava com dor.
Eu beijei-lhe a testa e me levantei. Segurou meu braço e eu me virei para encará-la. Ela apenas fez que sim com a cabeça e eu sorri. Saí do quarto e me sentei na cozinha.
Ela tinha dito que sim... Que queria que eu a salvasse.
Eu olhei pela porta e vi que ela havia dormido de novo. Dessa vez, a deixei quieta e fiquei sentado no sofá da sala, pensando. Eu não tinha a mínima idéia do que eu ia fazer para ajudá-la, só força de vontade não seria o suficiente.
Ouvi alguém batendo na porta e fui atender.
- Espero não estar interrompendo nada. – disse batendo em minha mão e entrando no apartamento.
- Não, não está. Entra aí, cara. – Ele sentou no sofá da sala e eu fui à cozinha pegar duas cervejas.
- Valeu. – Ele disse quando atirei para ele a garrafa. – Passei pra avisar que temos que estar no estúdio amanhã às seis.
- Ai droga, eu tinha me esquecido disso! – eu disse tomando um gole e batendo com a garrafa na cabeça. – Droga!
- Eu sabia que devia ter esquecido, por isso mesmo passei por aqui. – Ele disse sorrindo, como se fosse esperto – Você anda muito distraído esses dias.
Eu não podia deixar sozinha aqui no apartamento... Também não podia levá-la ao estúdio. Era arriscado deixá-la aqui sozinha, no mínimo, ela ia tentar se jogar da janela de novo.
- Meio ocupado. – Eu assenti e bebi um gole – Onde o pessoal está?
- Em casa, dormindo, eu acho. – Ele deu de ombros e analisou meu olhar preocupado. - Tá preocupado com a garota, né?
- Isso é obvio. – Eu tinha contado para e os rapazes por telefone sobre . A primeira reação deles foi achar que eu estava doido, mas depois acabaram aceitando e até apoiando minha decisão.
- Não entendo suas razões, , mas apoio o que você fez... Foi bonito. – Eu assenti – Não vou tentar entender, nunca vou conseguir. – Ele riu. – Ela está dormindo?
- Aham – Assenti – Tá lá no quarto da minha irmã, emprestei a ela umas roupas dela. Minha irmã disse que não tem problema, ela não iria vir buscar as roupas mesmo. – Dei de ombros.
- Você sabe que não vai ser fácil. – ele disse sério.
- Eu sei... Não tem sido muito fácil. Ela teve uma crise agora a pouco, mas passou bem rápido. Ela socou o espelho e está com um baita corte na mão... Estou esperando ela acordar para levá-la ao hospital.
- Ela ao menos disse o nome, onde mora? – Eu fiz que sim.
- . A história é um pouco complicada... Ela não explicou bem, então eu sei bem pouco. A mãe dela morreu quando ela era pequena, deixando ela e a irmã sozinhas, porque o pai era um viciado que não estava nem aí pra elas... Ele abandonou-as quando tinham treze. Ela se separou da irmã há mais ou menos um ano e, desde então, está usando drogas e fica por aí. Não tem casa, nem nada.
- E o que aconteceu nesse intervalo de três anos? – Dei de ombros.
- Ela não disse... Ainda. Mas é algo que machuca muito ela... E, provavelmente, a razão pela qual ela se droga. Ela disse que sua vida era pior antes dela fugir... – Ele fez uma cara confusa – Fugir da vida que ela e a irmã levavam. Ela disse que a irmã não conseguiu fugir... Ela fica mal quando fala sobre isso, eu não sei o que aconteceu, mas não é algo fácil de lidar.
- Coitada, cara. É óbvio que a garota não é uma vagabunda qualquer, ela sofreu muito. – Ele colocou a garrafa vazia na mesa. – É de partir o coração de qualquer um.
- Cara, ela disse que se droga pra esquecer, pra esquecer de tudo. Ela só tem dezessete anos, e se droga pra esquecer... Quando ela disse o porquê de se drogar, eu senti um aperto no coração, que eu nem sei explicar, ! Ela só tem dezessete anos. Deveria estar indo à festas, no máximo, experimentando um bebida, namorando, curtindo com a irmã... No entanto. – Eu abaixei a cabeça triste.
- , é deprimente, coitada. Cara, eu te admiro muito. Fazer algo assim não é fácil...
- Eu só quero devolver a sua vida, devolver o que roubaram de si, a felicidade.
- Se precisar da gente, pode falar. Eu também quero ajudar nisso... Eu não faço a mínima do que você vai fazer, mas boa sorte.
- Eu li sobre vício em heroína. Quando se fica sem a droga, as dores são insuportáveis... E o único jeito de fazê-la passar, é com a droga. Por isso é tão difícil se curar do vício.
- E o que vai fazer?
- Não faço a mínima. Vou mantê-la aqui o maior tempo possível... - se levantou e escorou-se no sofá.
- Uhum... – Ele assentiu – Eu já vou indo, ... Os caras estão me esperando. Não se atrase amanhã. – Eu assenti e ele saiu, me deixando sozinho com o sofá.




“Faça um pedido e o guarde no coração.
Qualquer coisa que você quiser.
Tudo que você quiser.
Você o fez?
Ótimo.
Agora acredite que ele vai se realizar.
Você não sabe de onde vai surgir o próximo milagre,
o próximo sorriso, o próximo desejo realizado.
Mas se você acreditar que está logo ali…
E abrir a mente e o coração para a chance de acontecer…
Para a certeza de acontecer…
Você pode conseguir aquilo que pediu.
O mundo está cheio de magia.
Você só precisa acreditar nela.
Então, faça o seu pedido.
Você o fez?
Ótimo.
Agora acredite nele.
Com todo seu coração”.



- One Three Hill


Capítulo betado por Giovana



Capítulo 7
(She Will be Loved - Maroon 5)



POV

- Acho que preciso te levar para dar alguns pontos nessa mão. O corte está muito fundo. – disse analisando minha mão.
- Acho que a faixa que você colocou impediu que eu sangrasse até a morte... – Nós rimos e ele recolocou a faixa em minha mão, com muita delicadeza, enquanto eu olhava. – Obrigada. – Eu disse segurando sua mão.
- Por te impedir de sangrar até a morte? – Ele disse brincalhão.
- Não... Por tudo. Por ter me trazido para cá naquele dia, por ter me ajudado, por ter acredito em mim... Por ter ficado ao meu lado, pela música, por tudo. – Eu sorri – Minha irmã, a , foi a única que acreditou em mim. Mas, agora...
- Ela não é a única. – Ele completou e apertou, de leve, minha mão. – Vou sempre estar aqui... Sei que é difícil para você falar do seu passado, mas saiba que se quiser falar sobre isso, estou aqui.
- Obrigada. – Eu fechei os olhos por alguns segundos e depois os abri novamente. – Significa muito... Apesar de... De eu querer deixar o passado para trás. O que já passou, passou. Mesmo que eu queira voltar atrás, não há como voltar e também não há como mudar algo. A vida é assim, temos que nos conformar...
- Você não pode mudar seu passado, mas pode mudar seu presente... – Ele deu um sorriso torto e eu ri.
- Com certeza... Sério, você só pode ser um anjo... Ou eu vou acordar a qualquer momento e perceber que ainda sou uma vagabunda drogada. – Eu sorri e ele ficou sério.
- Não fala assim, você não é isso.
- Vagabunda drogada? Não, eu não sou mais... Graças a você, eu estou melhorando. Vai ser difícil, mas eu estou disposta e, além disso, eu andei pensando na minha mãe e na . No que elas iam querer para mim... – eu suspirei – Minha mãe odiaria saber da vida que levo e quando eu fui embora, me fez prometer que eu iria sair dessa vida e ia ser boa... Ia trabalhar, arrumar uma casa... Ela me deu algum dinheiro e eu fui embora. Eu devia ter feito o que ela disse.
- O que aconteceu?
- Gastei o dinheiro com bebidas e drogas. E quando o dinheiro acabou, entrei em desespero e comecei a roubar... – Dei de ombros – Eu sinto remorso. Minha irmã, depois de tudo o que fez por mim, só me pediu um favor que eu nunca nem tentei fazer.
- Um favor?
- Ela só queria que eu dissesse ao seu ex-namorado tudo o que aconteceu. Que eu dissesse a ele que ela não tinha o abandonado e que... Ela o amava. Ela nunca teve coragem de dizer, com medo de que ele não sentisse o mesmo, mas ela o amava. E eu não duvido de que ainda ame... Para ele, ela sumiu no mundo...
- Vai tentar achar o cara? Posso te ajudar com isso se quiser.
- Acho que antes tenho que sair dessa dependência... Tenho que melhorar. – Eu sorri e me levantei. – Vamos ao hospital antes que as dores voltem ou que eu fique doida de novo.
Ele riu e concordou. Nós descemos até o subsolo do prédio e ele me levou até o seu carro. Parecia ser caro, chique e novo. Ele abriu a porta para mim, como um cavalheiro e eu agradeci, entrando no carro.
- Você é fofo assim o tempo todo ou é só porque eu sou uma psicopata doida e dependente? – Eu perguntei e ele riu enquanto acelerava o carro.
- Sinceramente, eu não sei... E eu sou muitas coisas, mas não sou fofo. Fofo é gay e eu não sou gay. – Dessa vez fui eu quem não conteve o riso.
- Eu não estava querendo zombar da sua masculinidade... – Eu ri e arrumei meu cabelo – Nossa, meu cabelo está uma merda. Sério, preciso dar um jeito nele qualquer dia desses... E sabe o que mais preciso fazer? Arrumar um emprego! E, é claro, parar de te explorar e alugar um apartamento para mim.
- Nem pensar que eu vou te deixar ir embora. E você não vai arrumar emprego nenhum, vai ficar comigo até ficar completamente bem. Você acha que eu vou deixar você ir embora para se jogar de alguma janela? – Ele disse rindo, mas dessa vez eu fiquei séria.
- Não vou me jogar de mais nenhuma janela, prometo.
- Não vai se jogar agora, porque, agora, você está bem, mas quando tiver uma crise... – Ele balançou a cabeça.
- Sabe de uma coisa?
- O quê?
- Acho que essa é a primeira vez que eu sou eu de verdade em um bom tempo. A primeira vez que não estou bêbada, nem drogada e estou apenas sendo a . Obrigada por isso... Eu consigo ser eu mesma com você, eu consigo confiar em você. Acho que estou ficando doida...
- Ficando doida? Por quê? – Ele disse ligando o rádio e deixando bem baixinho, para que a música ficasse como fundo de nossa conversa.

Beauty queen of only eighteen, she
(Linda rainha de apenas 18 anos, ela)
Had some trouble with herself
(Tinha alguns problemas com si mesma)
He was always there to help her, she
(Ele sempre estava lá para ajudá-la, ela)
Always belonged to someone else
(Sempre pertenceu a outra pessoa)

- Porque estou me sentindo feliz. – Eu disse sorrindo.
- Mas devia ser natural... Se sentir feliz. Você não está doida só porque está feliz.
- Não é natural, não é normal, não pra mim. Eu vivi tempo demais nas sombras, na tristeza... Vai ser difícil me acostumar a ser de outro jeito. – revirei os olhos, triste – Se for. – Completei.
- Você vai ser... Vai ser feliz, como nunca foi antes. Pode ter a certeza de que se for por mim, você vai sorrir o tempo todo. – Ele passou a mão em seus cabelos e sorriu abertamente.

I drove for miles and miles
(Eu dirigi por milhas e milhas)
And wound up at your door
( E acabei em frente a sua porta)
I've had you so many times
(Eu te tive por tantas vezes)
But somehow, I want more
(Mas de algum jeito, eu quero mais)

- Pela primeira vez, eu tenho esperança. Algo dentro de mim diz que... Vai dar tudo certo. E acredite, eu nunca pensei assim antes. Eu pensava que estava perdida... Nos meus poucos momentos de sanidade eu só conseguia pensar em como seria bom morrer.
- Está feliz por não ter conseguido se matar?
- Não sei. Porque essa história mal começou. Mas, guarde o que eu vou dizer pra me lembrar quando eu já não for eu mesma... Eu quero lutar, quero conseguir. Quero fazer valer a pena estar viva, quero que o sacrifício que minha irmã fez por mim não seja em vão... Eu não quero mais essa vida.
- Eu fico feliz por pensar assim, porque seria muito difícil salvar alguém que não quer ser salva. – Eu assenti e fechei os olhos para segurar as malditas lágrimas.
- Eu nunca vou conseguir entender por que está fazendo isso, .
- Porque isso é o certo. Acho que cada um tem um objetivo na vida, Deus nos trouxe aqui para alguma coisa... E talvez eu tenha vindo pra te salvar. Talvez eu seja realmente um anjo, seu anjo da guarda. – Senti as lágrimas querendo sair, mas as segurei.

I don't mind spending everyday
(Eu não me importo de passar todos os dias)
Out on your corner in the pouring rain
(Do lado de fora na esquina de casa com a chuva caindo)
Look for the girl with the broken smile
(Procuro a garota do sorriso partido)
Ask her if she wants to stay awhile
(Pergunto a ela se quer ficar um pouco)
And she will be loved
(E ela será amada)

Tap on my window, knock on my door
(Dê um toque na minha janela, bata na minha porta)
I want to make you feel beautiful
(Eu quero fazer você se sentir bonita)
I know I tend to get so insecure
(Eu sei que às vezes sou meio insegura)
It doesn't matter anymore
(Não importa mais)

Ele parou o carro no fundo do hospital e abriu a porta para mim. Levou-me até dentro do hospital e, enquanto esperávamos minha vez de ser atendida, ficou brincando com meus cabelos e cantarolando a música que estava tocando no carro.
Eu estava feliz em estar pensando racionalmente. De estar sendo eu mesma e não uma dopada, bêbada e doida. Eu estava feliz assim e queria continuar assim. Eu queria ajuda e queria ser salva...
Eu queria fazer aquele favor para minha irmã, eu queria ter uma vida e eu queria achar minha irmã novamente. Quero compensar o tempo que perdi. E também quero entender...
Entender por que está fazendo isso por mim. E por que toda vez que ele chega perto meu corpo arrepia, como nesse momento. Por que, pela primeira vez, me sinto a vontade perto de um homem...
Por que eu sinto essa vontade de beijá-lo, de estar em seus braços. E essa era eu mesma, eu não estava dopada.
Seria só questão de tempo até eu ter um ataque daqueles e ficar fora de mim novamente. Mas eu sabia que quando isso acontecesse estaria ao meu lado e que ficaria tudo bem.

It's not always rainbows and butterflies
(Nem sempre são arco íris e borboletas)
It's compromise that moves us along
(É o compromisso que nos move juntamente)
My heart is full and my door's always open
(Meu coração está cheio e minha porta está sempre aberta)
You can come anytime you want
(Você pode vir a hora que quiser)

I know where you hide
(Eu sei onde você se esconde)
Alone in your car
(Sozinha em seu carro)
Know all of the things that make you who you are
(Sei todas as coisas que fazem você ser quem você é)
I know that goodbye means nothing at all
(Sei que aquele adeus não significa mais nada)
Comes back and begs me to catch her every time she falls
(Volte e me peça para que a segure toda vez que ela cair)

Eu queria que ele me abrasasse. Queria estar aconchegada em seus braços e fazer meu passado sumir. Toda a dor, a solidão...
Todos aqueles momentos em que tudo o que eu queria era morrer, desaparecer. E, apesar de já fazer um tempo, eu ainda me sinto tão suja... E nenhum banho pode resolver isso.
- ? – A enfermeira chamou e eu me levantei.
- Quer que eu vá com você? – perguntou.
- Não, está tudo bem. – Eu sorri e entrei no corredor, onde a enfermeira me indicou a sala onde eu devia entrar.


Você já se perguntou se somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas ou se são os momentos da nossa vida nos fazem?
Se você pudesse voltar no tempo e mudar apenas uma coisa na sua vida, você mudaria?
E se mudasse, será essa mudança tornaria a sua vida melhor?!
Ou será que ela acabaria partindo o seu coração?!
Ou partindo o coração de outro?!
Será que você escolheria um caminho totalmente diferente?
Ou você só mudaria uma única coisa?
Um único momento?
Um momento que você sempre quis ter de volta...



- One Three Hill



Capítulo betado por Giovana



Capítulo 8


- Olá, querida. - Uma médica disse entrando na sala onde a enfermeira tinha me feito entrar. – Vamos ver essa mão. – Eu estendi minha mão, ela deu uma olhada rápida e foi pegar algumas coisas para suturar. – É um corte bem feio, como conseguiu?
- Soquei o espelho. – Dei de ombros e observei enquanto ela voltava até onde eu estava.
- Estique o braço, querida... – Eu a obedeci. Ela aplicou uma anestesia em minha mão e começou a suturar.
- Posso saber o motivo para você, garotinha, ter socado um espelho? - Ela riu e eu sorri de leve.
- Já ouviu falar de que uma dor te faz esquecer a outra? – Ela arqueou uma sobrancelha para mim – Eu estava com muita dor em outro lugar, então soquei o espelho para sentir outra dor que abafasse a primeira. E, também, porque eu estava com raiva.
- E será que isso tem alguma coisa relacionada com seu braço marcado por agulhas? – Ela passou os dedos pelo meu braço, onde várias marcas de agulha se encontravam.
Ela me olhava intensamente, mas não com um olhar crítico ou mau. Um olhar bom, compreensivo. Ela não parecia me julgar como todos os outros... Quer dizer, todos os outros menos .
- Qual delas? – Ela perguntou enquanto se concentrava em minha mão.
- Heroína. – Eu sussurrei.
- Quanto tempo?
- Pouco mais de um ano. – Ela ficou em silêncio por algum tempo – Deve estar com medo, agora que tem a certeza de que sou uma drogada, não é? Deve estar doida para acabar logo de costurar isso aí para sair de perto e...
- Não. – ela me interrompeu – Não tenho medo de você. É apenas uma garotinha de dezessete anos assustada... – Ela me olhou compreensiva por alguns segundos e desviou o olhar.
- Você... Você não tem medo, nem repulsa? – Eu balbuciei.
- Nem um pouco. Está óbvio que você quer sair dessa. Está escrito em sua testa que você só está com medo e sozinha... Só precisa de compreensão e ajuda... – Ela acabou de suturar e foi até o armário, ficando de costas para mim.
- Quem? – Eu perguntei baixinho.
- Meu irmão. Morreu há dois anos... Mas ele lutou até...
- Até?
- A dor vencê-lo e ele se jogar do telhado do nosso prédio. – Ela se virou novamente para mim com uma faixa.
- Desculpe-me.
- Esqueça. – ela sorriu e começou a enfaixar minha mão com delicadeza – Não sei por que estou falando da minha vida com uma paciente.
- Tudo bem. Não vou a contar a ninguém... Na verdade, nem há ninguém a quem eu possa contar.
- E o rapaz que te trouxe aqui? É seu irmão? – Ela indicou a porta.
- Ah, o ... Não, ele não é meu irmão, ele é... – refleti por um momento – Nada. Ele me achou há alguns dias desmaiada depois de me drogar muito. Ele me levou para casa e está cuidando de mim. Eu não entendo muito bem o porquê... Mas acho que ele é, meio que, um anjo da guarda. – Ela fechou os olhos e sorriu.
- É tão bom saber que ainda há pessoas boas nesse mundo... Não sei como alguém pode olhar nesses seus olhos e não ver a inocência deles... O medo, a tristeza, a dor... – Eu ri incrédula quando ela disse isso.
- disse isso também... Disse que foram os meus olhos que o fez me salvar...
- É como dizem, os olhos são a janela da alma. Você pode tentar esconder quem é, mas seus olhos sempre dirão. Não quero dar um de intrometida, mas e a sua família?
- Minha mãe morreu de câncer quando eu tinha cinco anos... Meu pai me abandonou juntamente com a minha irmã mais velha quando eu tinha treze anos e minha irmã dezesseis.
- E sua irmã, por que não está com você?
- Eu não a vejo há mais de um ano. Ela me ajudou a fugir, mas não conseguiu sair de lá. – Eu disse com frieza as palavras. – Sinto falta dela.
- Quem sabe se reencontrem. O destino é misterioso. – Eu assenti e ela pegou algo no bolso.
- Meu cartão. Ligue se precisar de algo. Tenho um consultório não muito longe daqui e... Conheço boas clínicas de reabilitação, se quiser eu...
- Eu não quero ir a nenhum lugar assim. – eu interrompi. – Quero tentar vencer isso sozinha...
- Ninguém consegue passar por isso sozinha, querida... . – Ela leu em minha ficha. – Eu sei que pensa que pode, mas, acredite, não pode. As dores vão te consumir aos poucos...
- Eu consigo. vai me ajudar, ele... – Eu não sabia o que falar e minha frase morreu ali.
- Toma. – Ela atirou um frasco de remédio para mim. – Um de manhã e um a noite. – Eu olhei para ela confusa - Vai controlar as dores... Não por tanto tempo, talvez um mês. Depois disso vai ter que suportá-las por mais de um ano, que é o período de “desintoxicação” ou terá que ir para uma clínica.
- Por que, exatamente, está me ajudando? – Perguntei guardando o vidro no bolso.
- Se na época eu pudesse, gostaria de ter ajudado meu irmão... Mas acho que no fundo são seus olhos... – Ela sorriu e eu me levantei.
- Obrigada.
- Por nada. E eu acho que você deveria ver uma psicóloga...
- Quem sabe um dia. – Eu respondi e saí da sala, acenando para a médica e combatendo uma tristeza esmagadora.
me esperava sentado exatamente no lugar onde eu havia o deixado. Ele apenas sorriu e nós voltamos para sua casa em silêncio.
Aquela felicidade de mais cedo já tinha passado... Agora eu só sentia uma tristeza, uma dor. Apenas isso... me olhava pelo canto do olho uma vez ou outra, mas não chegou a dizer nada.
Eu comecei a prestar atenção nas casas, já que dirigia bem devagar. Havia algo familiar naquelas casas, naquela rua... Tudo tão familiar. Foi então que o carro passou devagar por aquela casinha amarela e eu senti meu corpo latejar.
- PARA! – Eu gritei e parou o carro de uma vez, assustado. Eu abri a porta sem dizer nada e caminhei até a porta daquela casa.
apenas me seguiu confuso e tentando me fazer parar. Eu fiquei parada, cara a cara com aquela porta, sem saber o que fazer. Aquelas lembranças que eu reprimi por tanto tempo vieram como um flash e eu apenas respirei fundo.
Eu não iria chorar de novo na frente de .
Eu caminhei até um vaso em uma janela e tirei a chave de lá dentro, destrancando, devagar, a porta. Eu não consegui abrir, apenas fiquei encarando com as pernas trêmulas.
- Minha casa. – Eu sussurrei para ele, que estava do meu lado observando tudo.
- Quer entrar? – Ele sussurrou no meu ouvido docemente e eu assenti.
Ele empurrou a porta e eu entrei na casa, passo após passo. Eu mal me aguentava em pé e estremeci. percebeu isso e colocou o braço em minha cintura, me apoiando.
- Obrigada. – Sussurrei baixinho.
Eu comecei a andar pela sala, percebendo que estava tudo exatamente como eu deixei há quatro anos. Passei a mão pelos porta-retratos em cima da lareira. Algumas daquelas fotos eram simplesmente as melhores recordações da minha infância.
Parei em frente a minha preferida: eu, e minha mãe, um pouco antes dela ficar doente. Nós três estávamos sorrindo em frente à montanha russa, o brinquedo preferido da .
Era seu aniversário de nove anos e ela decidiu que queria comemorar no parque, comigo, a mamãe e nosso... Pai. Ele não foi... Mas foi um ótimo aniversário, acho que o melhor de todos... E o último que comemoramos ao lado da mamãe.
- Sua mãe e sua irmã? – perguntou segurando a fotografia.
- Uhum. Tiramos essa foto há... Doze anos. Eu tinha cinco anos... Era o aniversário de nove anos da minha irmã... Fomos comemorar no parque.
- Essa foto é especial para você, certo? – Eu assenti.
- É a última foto que tirei com a mamãe antes dela... Antes dela morrer. – Expliquei.
- Deveria levá-la com você. - Ele me entregou e eu segurei a foto com os dedos trêmulos. – Certas lembranças não são tão ruins quanto você pensa.
- Tem razão. Eu deveria levar isso comigo. – Segurei o porta-retrato e peguei mais um, uma foto minha e de ; eu com treze e ela com dezesseis, no dia do meu aniversário de treze anos. – Essa aqui foi no meu aniversário de treze anos. Comemorei apenas com a em uma sorveteria aqui perto... – Eu peguei o porta-retrato e coloquei junto com o outro, no bolso da minha jaqueta.
- Sua irmã se parece muito com você. – disse reparando em outras fotos.
- É o que nos diziam sempre. Vamos embora, eu não... Não quero ficar mais. – Ele assentiu e continuou me segurando. Quando passamos pela porta, eu a tranquei e fiquei escorada ali com os olhos fechados.
Eu ainda sentia ao meu lado, mas continuei lá, parada. Joguei a chave dentro do vaso na janela e olhei para ele ao meu lado.
- Nem todas as lembranças relacionadas à sua família são ruins... Às vezes, é bom lembrar; faz-nos feliz.
- Eu tenho medo de lembrar. Eu sinto muita falta delas. – Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto e ele a enxugou com o dedão.
Ele ficou lá, me olhando. Nossos rostos a centímetros de distância. Aqueles olhos olhavam dentro dos meus e tudo o que eu queria era que ele me beijasse. Nossos rostos foram se aproximando devagar...
Mas, por mais que quisesse, eu não podia. Recuei um pouco e ele percebeu, virando o rosto e envolvendo minha cintura protetoramente.
- Vem, vamos para casa. – Fomos até o carro, ele abriu a porta para mim e disse: – Você é mais forte do que pensa, , você, às vezes, só se esquece de acreditar nisso.
Eu fiquei pensando no que ele disse. Olhava minha foto com minha mãe e irmã e me lembrei de como era ser feliz... Lembrei-me da minha mãe e de sua eterna luta para permanecer ao nosso lado.
Minha mãe passou quase um ano lutando contra o câncer... Eu queria seguir o exemplo dela e conseguir lutar... Eu podia.
Olhei para o lado e vi concentrado em dirigir. Então, foi aí que eu percebi que enquanto eu o tivesse ao meu lado eu podia fazer tudo, eu podia conseguir tudo... Ele me dava forças.


A maioria das pessoas são mais fortes do que pensam.
Elas só esquecem-se de acreditar algumas vezes.



- One Three Hill



Capítulo betado por Giovana



Capítulo 9
(McFly - I'll Be Ok)


O caminho foi silêncioso. se concentrou na estrada e não me disse sequer uma palavra. Às vezes ele olhava para mim discretamente, mas eu fingia não perceber. Eu não o olhava de volta diretamente porque eu tinha medo de que nossos olhares se encontrassem. Eu não sabia como me sentiria ao olhar novamente naqueles olhos , principalmente depois o que tinha acabado de acontecer.
Quando chegamos ao apartamento dele eu entrei para o “meu quarto” e fui tomar um banho. Minha cabeça estava explodindo e eu estava começando a me sentir estressada. Eu sabia que era abstinência. Eu já conhecia os sintomas e eu os odiava, mas teria que conviver com eles por um bom tempo.
Depois de tomar banho eu tomei um comprimido e escolhi um vestido no guarda-roupas. disse que era da irmã dele e que ela não se importaria que eu usasse.
Eu deitei um pouco na cama, esperando o remédio fazer efeito, quando entrou no quarto e se sentou ao meu lado, olhando para cima também.
- Minha cabeça está doendo pra cacete – eu disse, me levantando e calçando um chinelo que estava ao lado da cama. – Ah e obrigada de novo.
- Disponha – ele se sentou na cama e só então reparou em minha roupa. Ele pareceu boquiaberto.
- Que foi? O vestido não ficou bom em mim? Ou ele é tipo uma daquelas roupas que eu não posso usar? Se quiser eu posso tirá-lo agora e...
- Não, não! – ele me interrompeu – É que você está... Nossa, você está maravilhosa nesse vestido – eu senti minhas bochechas ficarem mais quentes e sorri.
- Obrigada. Nossa, quanto tempo faz que eu não ouço um elogio – eu ri e ele riu também – E antes que eu me esqueça... Essas roupas são da sua irmã, não é? E ela não se importa que eu as use?
- Não, claro que não. E sim, são da minha irmã, . Ela está morando com nossos pais na França por um tempo... Ela deixou a maioria das coisas aqui, disse que tinha que se adequar à moda de lá... Ela provavelmente ia jogar fora essas roupas quando chegasse, ela troca de guarda-roupa muito rápido – ele deu de ombros – É uma sorte que vocês duas vistam o mesmo tamanho.
- Uma feliz coincidência – eu sorri – Tomara que quando ela voltar, ela não ligue de eu estar usando as roupas e as coisas dela.
- Ela com certeza nem vai ligar... Eu nem sei quando ela volta, então tanto faz – ru sorri de novo pra ele e me joguei na cama. – Vou te deixar dormir, já está tarde, né?
- Nem tanto, eu só estou com dor de cabeça mesmo – ele assentiu e se levantou, indo até a porta e se virando para me olhar de novo. - Obrigada de novo, ... Por tudo. Não importa o quanto eu te agradeça, nunca será o suficiente.
- Disponha, bons sonhos e boa noite, .
- Boa noite, – ele mandou um beijo no ar e apagou a luz.
Não demorou muito para eu cair no sono, porque minha cabeça já estava doendo e meu corpo estava cansado. Não só do dia, mas de tudo.

“- Anda, , coloca a porra do pé aqui! – disse juntando as mãos perto da janela.
- Tem certeza de que isso vai dar certo? – Eu perguntei com medo.
- É claro que vai. O Jason saiu e a Ellie disse que ele não volta hoje. Talvez a gente nunca tenha uma oportunidade como essa, temos ao menos que tentar.
Eu assenti e coloquei algumas coisas no bolso, juntamente com o dinheiro que ela tinha me dado. Eu subi na mão dela e me sentei na janela.
- Eu tenho medo do que vai acontecer com você, – Eu disse com os olhos banhados de lágrimas.
- Não tenha, . Eu sei me virar sozinha... Vai ficar tudo bem, não chore. Não se esqueça de fazer o favor que te pedi... E seja boa – Ela completou – Eu sei que você consegue. A gente se encontra um dia.
- Eu te amo mana.
- Eu também – Ela sorriu pra mim pela última vez e eu pulei a janela.
Corri o mais rápido que podia, meu coração estava totalmente acelerado e minhas pernas tremiam um pouco. Eu estava aliviada por saber que nunca mais pisaria naquele lugar horrível, mas também meu coração doía por não saber quando veria minha irmã de novo.
Eu tinha medo do que Jason faria com ela quando descobrisse que eu fugi. Ele com certeza saberia que tinha sido ela...
Mas o meu maior problema era: pra onde eu iria? Como viveria? Haveria alguma esperança pra mim?”


Acordei com um barulho alto vindo da cozinha. Espreguicei-me e me levantei. Minha cabeça já não doía nem o meu corpo. Peguei o vidro de remédio na gaveta e vi escrito no rótulo que o remédio tinha que ser tomado com um intervalo de doze horas. Ótimo, à noite eu tomaria um.
Eu caminhei até a cozinha e vi comendo Waffles com cerveja. Ele estava todo arrumado e deviam ser umas cinco da manhã.
- Acordou cedo – Ele falou quando eu me sentei ao lado dele.
- Tecnicamente você me acordou com todo esse barulho... Vai trabalhar?
- Aham - ele disse com a boca cheia – Eu realmente queria poder faltar hoje mas não posso. Eu não queria te deixar sozinha...
- Eu não vou pular de nenhuma janela, , prometo – Eu disse séria.
- Você está lucida agora, mas pode ter uma crise a qualquer momento. Eu vou ligar do trabalho pra cá de hora em hora pra ver se você está bem
- Tudo bem... A que horas você chega?
- Provavelmente oito. Vou tentar sair mais cedo mas não prometo nada. – Eu assenti – Tem mais waffles ali na bancada, pegue alguns – Eu me levantei e peguei o restante dos Waffles, sentando ao lado dele novamente e comendo.
- Valeu – Ele assentiu e se levantou.
- Tenho que ir ou vou me atrasar – Ele deu um beijo carinhoso na minha testa e foi até a porta. – Eu vou ligar. E se precisar de qualquer coisa, deixei meu número na porta da geledeira.
- Está agindo como... Meu pai – ele deu de ombros.
- Acho que estou mais pra um namorado muito protetor – Ele riu, mas os olhos dele queriam dizer que ele estava falando sério. – Bom dia pra você, até mais tarde.
- Bom trabalho.
- Obrigada – Ele saiu do apartamento e me deixou sozinha com os waffles.
Depois que eu tomei café da manhã, aproveitei para arrumar a cozinha. Estava uma completa bagunça, tinha uma pilha de vasilhas sujas e bagunça por todo lado.
Acabei tendo a brilhante idéia de arrumar toda a casa, isso me ocuparia durante o dia. E afinal, se a cozinha estava assim, imagine o restante da casa?
Depois de lavar tudo que estava na pia e guardar, lavei a geladeira e o fogão. Sequei tudo e acabei de limpar os balcões.

When everything is going wrong
(Quando tudo está dando errado)
And things are just a little strange
(E as coisas estão um pouco estranhas)
It's been so long now you've forgotten how to smile
(Agora faz tanto tempo que você até esqueceu como sorrir)
And overhead the skies are clear
(E acima de você o céu está limpo)
But it still seems to rain on you
(Mas ainda parece chover em você)
And your only friends all have better things to do
(E todos os seus únicos amigos têm coisas melhores para fazer)

Depois de limpar a cozinha saí procurando vassoura, balde e panos pela casa. Por sorte achei tudo que eu precisava facilmente e comecei pela sala minha arrumação.
Eu estava certa, estava uma bagunça. Caixas velhas de pizza, DVD’s para todo lado e mutia sujeira. A sala dele era linda! Havia uma TV enorme de plasma na parede, os sofás pareciam novos e caros.
No quarto dele, a cama de casal estava desarrumada e tinha roupas sujas pra todo lado. Juntei todas e coloquei na máquina de lavar. Arrumei a cama e tirei o pó dos móveis. Varri tudo e comecei a reparar nas fotos.
Na maioria delas ele estava com a família, era óbvio. O pai e a mãe eram evidentes e havia uma menina que provavelmente era a irmã dele, . Havia também fotos de amigos, mas nada muito específico.

When you're down and lost
(Quando você estiver pra baixo e perdido)
And you need a helping hand
(E precisar de uma mão pra ajudar)
When you're down and lost along the way
(Quando você estiver pra baixo e perdido no caminho)
Oh just tell yourself
(Oh, é só falar pra você mesmo)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)

Now things are only getting worse
(Quando as coisas só estiverem piorando)
And you need someone to take the blame
(E você precisar de alguém para levar a culpa)
When your lover's gone there's no one to share the pain
(Quando seu amante se for e não tiver mais ninguém para compartilhar a dor)
Been sleeping with the TV on
(Quando você estiver dormindo com a TV ligada)
And you're lying in an empty bed
(E você estiver deitado em uma cama vazia)
All the alcohol in the world would never help me to forget
(Todo o álcool do mundo nunca me ajudaria a esquecer.)

O apartamento era enorme, eu gastei quase o dia inteiro limpando tudo. Por fim, fui lavar a roupa e fazer um jantar. Eu nunca tinha sido dona de casa, mas eu estava me saindo muito bem. Na verdade, eu estava fazendo isso porque estava fazendo muito por mim e eu não podia simplesmente não fazer nada em troca - e essa era a única coisa que eu podia oferecer no momento.
Ele já havia ligado quatro vezes. Eu falava que estava bem mas ele sempre dizia que ia ligar de novo. estava sendo como um irmão mais velho, estava cuidando de mim e eu estava amando isso.
Depois de cozinhar tudo, coloquei as roupas na secadora, tomei um banho rápido, tomei o remédio e coloquei uma roupa qualquer.
Voltei pra cozinha, coloquei o jantar na mesa e arrumei tudo bonitinho. Eu não tinha muita paciência com essas coisas, mas por algum motivo eu estava animada com isso.
Quando a porta se abriu, entrou, sorrindo e se assustou. Provavelmente porque a casa estava arrumada, coisa que não devia acontecer há um tempo.
- Meu Deus o que aconteceu aqui? – Ele sorriu e se virou pra mim.

When you're down and lost
(Quando você estiver pra baixo e perdido)
And you need a helping hand
(E precisar de uma mão pra ajudar)
When you're down and lost along the way
(Quando você estiver pra baixo e perdido no caminho)
Just try a little harder
(Tente só um pouco mais)
Try your best to make it through the day
(Tente o seu melhor para terminar o dia)
Oh just tell yourself
(Oh, apenas diga a si mesmo)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)

You're not alone (you're not alone)
(Você não está só (você não está só))
You're not alone (you're not alone)
(Você não está só (você não está só))
You're not alone
(Você não está só )
Just tell yourself
(Apenas fale para si mesmo)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)
Oh just tell yourself
(Apenas fale para si mesmo)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)
Won't you tell yourself
(Você não vai falar para si mesmo? )
I...
(Eu... )

- Eu precisava de um jeito de te agradecer então eu... Limpei tudo, lavei as roupas e fiz o jantar. Pelo menos para empregada eu sei que sirvo – Ele riu e veio até mim, me pegando de surpresa e me dando um abraço.
- Não precisava – Ele sussurrou no meu ouvido.
- Precisava sim. Você tem feito muito por mim e eu não tenho muitas maneiras te te agradecer... Mas bem, encontrei uma. E além disso, não me atirei de nenhuma janela.
- O destino é engraçado, não é?
- Muito – Eu ri e concordei.

When you're down and lost
(Quando você estiver pra baixo e perdido)
And you need a helping hand
(E precisar de uma mão pra ajudar)
When you're down and lost along the way
(Quando você estiver pra baixo e perdido no caminho)
Just try a little harder
(Tente só um pouco mais)
Try your best to make it through the day
(Tente o seu melhor para terminar o dia)
Oh just tell yourself
(Oh, diga a si mesmo)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)
I, I'll be ok
(Eu, eu vou ficar bem)

- Acho que o destino realmente queria que nos encontrassemos... Estamos nos ajudando.
- Nâo compare o que você está fazendo por mim com esse simples favor... O que você tem feito, nada nesse mundo inteiro pode pagar. Você tem sido meu anjo... Isso parece até um sonho – suspirei – Tenho medo de como será quando eu acordar.
- Eu não vou embora, vou sempre estar aqui... Não é um sonho, você está mais do que acordada – Eu sorri para ele, que sorriu de volta.
Nenhum de nós dois disse mais nada, ficamos apenas nos olhando por alguns momentos. Eu queria beijá-lo, naquele momento. Eu queria poder esquecer tudo e começar de novo.
Mas por mais que você tente esquecer seu passado, ele é parte de você. Viver apenas o presente não é tão fácil quando a cada segundo seu passado te assombra... Segundas chances existem, mas são mais dolorosas do que parecem.

"O tempo leva tudo.
O que você quer e o que não.
O tempo leva tudo.
O tempo arrasa tudo.
E, no final, só resta a escuridão.
Às vezes, encontramos outros nessa escuridão.
E outras vezes, perdemos eles de novo"

- One Three Hill



Capítulo 10


Dois dias se passaram, e a mesma rotina se repetia. passava o dia todo no trabalho e ficava me ligando de hora em hora para ver se estava tudo bem.
Eu ficava arrumando as coisas, lendo algum livro que achava pela casa ou assistindo TV. O remédio estava conseguindo controlar muito bem minhas crises e eu estava melhor do que nunca. Já havia quase uma semana que eu não usava heroína.
havia acabado de ir pro trabalho e eu estava assistindo uma reprise de American Idol. Eu amava esse programa porque ele me lembrava muito minha irmã e o passado... Eu, e sempre assistíamos American Idol aos sábados à noite. Isso quando e não estavam em uma de suas sessões de amassos.
Às vezes dava uma saudade da época em que as coisas eram mais fáceis. Eu, e comendo Waffles e falando sobre como a Carrie Underwood cantava bem. Minhas crises de nojo total quando eles ficavam com muita babação... Era tudo tão família, tão bom.
Eu tenho essa mania de sempre remoer o passado. Ficar lembrando e desejando que tudo fosse como antes... Como seria bom ter os dois aqui mais uma vez.
Mas por outro lado... Eu não conseguia enxergar para mim uma vida sem . O homem que salvou minha vida... Meu porto seguro.
No momento, ele significava tudo para mim. Como eu ia ficar sem ele? Quando tudo parecia perdido, era com ele que eu queria estar. Quando as lágrimas precisavam cair, era o ombro dele que eu ia procurar. Tudo nesses dois dias.
Ele era meu melhor e único amigo. Sem ele, não existia mais ... Eu sempre fui muito dependente, até certo ponto. Eu não conseguia ficar sem alguém do meu lado, eu me desviava do meu rumo.
Noite passada eu tive um dos meus rotineiros pesadelos. Mas foi diferente, foi tão... Real. E fora um dos piores, as lembranças que eu mais odiava. Só sei que acordei chorando histericamente e corri para o quarto de .

Flashback ON

Acordei com a roupa ensopada de lágrimas. Minhas mãos tremiam muito e minha visão estava embaçada. No momento só uma pessoa veio à minha cabeça: .
Andei até o quarto dele e a porta estava aberta, então entrei. Ele estava dormindo em sono profundo, eu tive muito dó de acordá-lo. Eu não sabia o que fazer, se acordava ele ou ia embora.
Acabei optando por ir embora. Quando eu estava saindo do quarto, tentei controlar o choro, eu estava soluçando muito alto. Eu estava quase saindo do quarto, quando uma voz me impediu.
- ? Você está bem? – A voz sonolenta de me perguntou.
- Não. – Eu sussurrei indo até ele. – Eu tive um pesadelo e... – Comecei a embolar as palavras e então ele me puxou pra cama dele pela cintura.
- Calma, shiiii, já passou. Deita aqui. – Ele me aninhou em seus braços enquanto eu chorava alto e ele fazia carinho em mim, tentando me acalmar. – Vai ficar tudo bem, eu estou aqui...
Ele me transmitia segurança... Eu até parecia uma criança perto dele. Chorando e indo até o quarto dele por causa de um pesadelo. Mas estar daquele jeito com ele, nossos corpos tão próximos, eu...
- Quer falar sobre o pesadelo? – Eu fiz que não com a cabeça e apertei meus meu corpo no dele. – Ok, não precisa falar... Foi só um sonho, tá bom?
- Talvez agora tenha sido só um sonho. Mas antes era real. – Eu sussurrei, ainda chorando.
Ele beijou o topo da minha cabeça e ficou sussurrando pra mim até eu cair no sono ali, nos braços dele. Qualquer pessoa que chegasse ali encontraria uma garota de pijama abraçada a um garoto que estava só de calção. O que essa pessoa pensaria?
Só sei que dormir ali, nos braços dele, foi a melhor sensação que já tive. Era tão quente e aconchegante que eu não queria sair dali nunca mais. Queria ficar nos braços dele para sempre, sem nunca precisar sair.


Flashback OFF

Eu estava concentrada na TV quando ouvi um barulho vindo da porta. Não dei muita atenção, achei que era o chegando mais cedo.
Apenas notei que havia algo errado quando ouvi uma menina gritar e me levantei assustada, dando de cara com uma garota na minha frente.
- Meu Deus! Quem é você e o que está fazendo aqui? – A garota falou, jogando sua bolsa no sofá onde eu estava sentada.
- Eu é que te pergunto isso!
- Tecnicamente, você está na minha casa, então você é quem tem que responder querida!
- Eu sou... ... . Sou amiga do . – Eu disse sem pensar e ela sorriu.
- Ah, sim! Eu sou a , a irmã dele. – Ela estendeu a mão e apertou a minha com força. – Que susto você me deu! O não me contou que finalmente conseguiu arrumar uma garota!
- Ah, não, não! – Eu disse rápido – O não é meu namorado! Eu estava com alguns... Problemas em casa, e ele tem me ajudado, me deixou morar aqui por algum tempo...
- Own, que fofo! E peraí... Eu conheço essa blusa de algum lugar! – Ela disse, analisando minha blusa e eu fiquei com vergonha.
- Errr... É porque essa blusa é sua. E o shorts também. disse que eu podia usar algumas roupas, eu não trouxe nada quando vim pra cá...
- Ah, tá bom. – Ela sorriu e então foi levando uma mala que estava atrás dela até seu quarto.
- Você... Realmente não se importa? – perguntei, confusa, e ela negou.
- Claro que não! Eu não ia mais usar nada daqui... Essas roupas já são tendência passada... Pode usar à vontade, . – Ela colocou a mala em cima da cama. – Ufa, em fim em casa.
- Ah, obrigada! Eu realmente deixei tudo que eu tinha pra trás... Bem, suas roupas são muito lindas, , você tem muito bom gosto.
- Ahhh, obrigada, querida! E pelo visto você também tem muito bom gosto, porque essa roupa ficou muito linda em você e combinou certinho! Pena que, como eu disse, elas são tendência passada...
- Que nada, elas são perfeitas!
- Ai, que porra, eu não sei nada da moda daqui! Passei um bom tempo fora... E sabe o que isso significa? – Ela me perguntou animada e eu fiz que não. – Compras!
- Ah, compras. Bem, ainda é cedo, são nove horas... Se você sair daqui agora não deve pegar trânsito até o shopping.
- Tem razão! Eu não trouxe quase nada da França, preciso de roupas novas... – Ela me olhou por um segundo – E você também! Vem, você vai comigo! – Ela pegou a minha mão e me levou pra sala.
- Não! Quer dizer, eu não tenho nenhum dinheiro, ! E suas roupas estão ótimas pra mim...
- E quem falou em você pagar algo? Eu vou pagar tudo para você! Se é amiga do , é minha amiga... Além disso, meu cartão de crédito está implorando para ser usado hoje! Minhas roupas velhas estão muito ultrapassadas! Vamos comprar novas para você e doar aquelas!
- Poxa, , é muita bondade sua, mas não precisa, de verdade! Suas roupas estão me servindo muito bem e eu não quero gastar seu dinheiro... – Ela fez cara de ofendida e voltou a me puxar pelo braço.
- Precisa sim, óbvio! E a gente vai se divertir! Desde que cheguei aqui, percebi que você tem um rostinho muito triste... Deve ser por causas dos problemas que você disse que tem feito você morar aqui e tudo mais... E quando eu tenho problemas de qualquer tipo, compras e diversão com as amigas sempre me fazem melhorar! – Ela fez um biquinho fofo igual uma criança pequena pedindo doce.
- Tudo bem... Você me convenceu. Vamos, antes que eu mude de ideia. – Ela ficou toda animada e pegou sua bolsa no sofá.
Nós trancamos o apartamento e saímos de lá. O carro de era um lindo conversível amarelo, novinho, assim como o de .
Eu fiquei pensando no que ela tinha dito... Compras faziam melhorar o humor dela quando ela estava com problemas... Mas acho que meus problemas não podem se resolver com compras... No máximo, eu ia melhorar meu humor.
E se soubesse realmente quem eu era, porque eu estava na casa de ... Se ela soubesse do meu passado, será que ela ainda me chamaria para fazer compras? Diria que eu já era amiga dela? Provavelmente não.
- ... Olha, eu tenho certeza de que logo, logo já seremos melhores amigas, mas... Cá entre nós, você e meu irmão não estão juntos mesmo?
- Não, . Somos só amigos mesmo... Eu juro.
- E você não quer mais nada? – Ela deu um risinho e dei um tapa no braço dela.
- Não! Que pergunta, menina... Por que está tão interessada assim nos relacionamentos do seu irmão? Ele, com certeza, deve ter uma namorada porque... – interrompi-me quando percebi que ia falar besteira.
- Por quê...? – Ela perguntou, curiosa.
- Porque ele é até bonito... Na verdade, ele é muito bonito. Com certeza deve ter várias garotas aos pés dele. – Ela soltou uma gargalhada e não tocou mais no assunto, para minha felicidade.
Chegando ao shopping, me fez entrar em todas as lojas e comprar todas as roupas que ficavam boas em mim. Sapatos, roupas, joias... Ela me fez andar até meus pés estarem cheios de bolhas.
Maquiagem, perfume, lingerie... Era tanta coisa, eu não aguentava mais sacolas. Eu nem comento sobres as lingeries minúsculas que me fez comprar, falando que eram lindas e ficariam perfeitas em mim, e que eu poderia usar quando conseguisse um namorado... Coisa que ela não sabia, mas que não ia acontecer.
Depois de muitas lojas, bolhas no pé e gritinhos afetados por parte de , finalmente paramos para almoçar. Ambas estávamos mortas de fome, já eram quase duas da tarde.
me arrastou direto para o McDonald’s. Ok, eu pensei. Deve ter o quê? Uns... Quatro anos que eu não venho comer aqui... Deve ter mais ou menos isso de tempo também que não venho a um shopping.
- Vou pegar dois hambúrgueres e duas cocas, pode ser? – Eu assenti e ela foi pra fila pegar.
não demorou a chegar e logo começamos a comer e conversar. Ela estava super animada com as compras que fizemos. Eu não sabia que eu conseguia carregar tantas sacolas como estava carregando.
- , você deve ter gastado uma fortuna nisso tudo que compramos. Estou me sentindo culpada! – Eu disse, tomando um gole da minha coca.
- Às vezes eu também me sinto culpada quando penso na conta que vai chegar pro meu pai... Daí eu olho tudo o que eu comprei e o sentimento de culpa passa! Afinal, vale a pena! – Eu apenas ri e revirei os olhos.
- Ai, vai ser tão bom ter você lá no apartamento! Você é super fofa, apesar de ser meio fechada e triste... Vai ser bom conviver com alguma mulher e também ter alguém pra me fazer companhia, já que o trabalha o dia inteiro...
- Ai, merda! Esqueci completamente do ! Ele deve estar louco de preocupação!
- Que isso, , o só chega depois das oito.
- Não, você não entende, ! Ele liga de hora em hora pra ver se eu estou bem! Ele vai ficar doido de preocupação quando ligar!
- Ahhhhh, meu Deus, que lindo! Ele se preocupa muito com você pra ligar de hora em hora! Ahhh, me comoveu totalmente! Meu irmãozinho sendo tão bom assim... Ok, vamos embora... Você me convenceu, estando tão preocupada com ele!
- Vamos logo, então! – Eu peguei as sacolas e nós jogamos tudo no banco de trás do carro.
- Eu aposto meu óculos novo da Dolce & Gabbana que o está apaixonado por você! – Ela disse e eu senti minhas bochechas arderem.
- , não é nada disso, eu já expliquei...
- Que são só amigos, ele está te ajudando num período difícil, blá blá blá... Entenda, meu irmão não é tão fofo, atencioso e preocupado... A menos que ele realmente goste de uma garota. Já faz um bom tempo que eu não fico sabendo dele ser fofo assim.
- Ele não está apaixonado por mim, , e mesmo que estivesse...
- E eu aposto minha bolsa prada que você vai se apaixonar por ele no final dessa história. Vocês vão ficar juntos, vão se casar... Ai, vai ser que nem naqueles filmes românticos... Aiai. Eu quero ser a madrinha, ok?
- Ok, ... – Eu disse, ao invés de discutir.
Coitada, mal sabia ela que mesmo se nós dois estivéssemos apaixonados, nunca ficaríamos juntos... Eu não conseguiria me envolver tanto com alguém.


As pessoas não mudam.
Mas elas podem. Elas só não mudam, pois é mais fácil não mudar.
Estamos sempre esperando para o começo das nossas vidas...
Esperando sermos outra pessoa algum dia.
Pelo que estamos esperando? Só temos o agora, não fuja disso.


- One Three Hill



Capítulo 11


- Ahh, você está ficando tão linda! – exclamou, fechando o vidro de esmalte.
- Afinal, pra que tudo isso, ? Eu nem saio de casa... Eu nem sequer gosto de me arrumar!
Depois que chegamos, não me deixou ligar pro . Ela começou com um papo de que meu cabelo precisava de mais brilho, que minhas unhas estavam foscas... Foi aí que ela decidiu me arrumar... Isso mesmo.
Ela arrumou meu cabelo, pintou minhas unhas... Tinha muito tempo desde a última vez que eu fiz essas coisas, e isso estava me causando um certo desconforto.
- Para de reclamar, , você está tão linda! Esse vestido está lindo em você... – Ela suspirou – Vem, vamos acabar de arrumar o quarto... – Ela me puxou pelas mãos até seu quarto, onde nós já tínhamos empacotado as roupas velhas dela.
- Acabei de pensar que temos um probleminha... Onde eu vou dormir? – exclamou do nada, preocupada.
- No seu quarto, né, ... Eu vou dormir no sofá! – Ela fez uma cara de reprovação.
- Claro que não! Você é visita, vai dormir aqui! Hum, eu durmo lá em cima com meu irmão... A menos que...
- O quê? – Ela deu um sorrisinho malicioso e riu.
- A menos que você queira dormir lá em cima com ele... – Eu revirei os olhos e joguei uma blusa que estava na minha mão nela.
- Eu já disse que seu irmão é apenas... Meu amigo. Você pode não acreditar, mas estou falando sério... Mesmo se eu gostasse dele, eu não... – A frase morreu ali, eu apenas suspirei.
apenas ficou me olhando por alguns segundos. Eu continuei arrumando as roupas dela, colocando tudo dentro do guarda roupas. Eu queria chorar... Mas eu não podia. Não ali, não com ela... Ela não sabia nem da metade da minha história.
- Se precisar conversar... Pode me contar. Nos conhecemos hoje, mas já te considero muito e... Tenho certeza de que com o tempo, poderemos confiar muito uma na outra... – Ela tocou de leve meu braço – O que aconteceu com você? Parece que isso te magoou muito... Se um dia você quiser falar sobre isso, saiba que eu estou aqui.
- Obrigada, eu... Eu não quero conversar sobre isso... Não diretamente. Mas, às vezes, é como se... Um buraco tivesse sido aberto no meu peito. E nada pode fechá-lo... Parece que quanto mais eu choro, mas lágrimas aparecem. Eu estava tão perdida, tão triste, tão... Abandonada. E daí... Eu conheci seu irmão. – Eu deixei uma lágrima escorrer e segurou minha mão.
- Às vezes... A vida machuca a gente, e muito. Às vezes nós pensamos que nossa vida está perdida, pensamos que não há qualquer tipo de salvação para nós. Pensamos que ninguém mais se importa, e então... Você descobre que alguém se importa. Que você não está sozinha...
- Eu rezo todo dia. Eu rezo pra essa dor passar... Eu rezo pra tudo isso acabar... Há tanto tempo eu peço a Deus para me ajudar... Mas acho que ele nunca ouviu... Porque sempre piorava, sempre. Nada mudava... Por mais que eu implorasse. Então. um dia, eu desisti de pedir. Eu desisti de lutar... E foi aí que... O me encontrou. Ele me salvou, e quando eu olhei nos olhos dele... Eu sabia que ele era um anjo, ... Um anjo que Deus enviou pra me ajudar, mesmo depois de tantos anos.
A garota apenas me abraçou com força. Eu não derramei mais lágrimas, apenas apertei nosso abraço e ela passou a mão por meus cabelos, de leve.
- Tem um quarto de visita lá em cima, ao lado do quarto do . A gente pode arrumar suas coisas lá... Você também vai se sentir mais confortável perto dele, não é? – Eu assenti e ela pegou as sacolas com minhas coisas e roupas.

END ’s POV

e subiram para o quarto de visitas e começaram a arrumar as coisas de lá.
podia ver que aquela garota estava muito... Quebrada. Podia sentir a tristeza que emanava dela. E tinha tanta dó... Os olhos de brilhavam enquanto elas arrumavam as coisas... Um brilho que reconheceu como esperança.
- Eu realmente não sei... – começou – O que aconteceu com você. Mas sei que por causa disso... Você não consegue se relacionar... Não é? Deu para perceber quando você começou a falar e... Saiba que, por mais que você esteja machucada, você pode vencer isso. Você não está sozinha nessa... Você tem o , e agora... Tem a mim. Seja o que for que estiver acontecendo com você, nós vamos fazer isso passar. – sorriu para a garota, que sorriu timidamente de volta.
queria poder contá-la tudo. Mas, talvez, isso mudasse toda a opinião de sobre ela. Enquanto ela arrumava as roupas no lugar, não conseguia deixar de sorrir. Ela se sentia tão bem... Parecia que finalmente tinha um lar... Uma família, pessoas que se importavam com ela.
Até , que tinha conhecido ela hoje, já dizia que ia ajudar, mesmo não sabendo quais eram os problemas dela. Parecia que tudo finalmente daria certo...
Depois que acabaram de arrumar todo o novo quarto de , elas desceram para cozinha e preparou sanduíches de queijo para as duas. não tinha muita fome, mas se esforçou para comer pelo menos um pouco.
Elas ficaram conversando sobre algumas coisas banais, como roupas, sapatos... Até que olhou, preocupada, para o relógio.
- Oito horas. A qualquer segundo o vai chegar, vai se assustar ao me ver, fazer uma cena e depois fica tudo bem. – Ela revirou os olhos.
E foi dito e feito. Poucos minutos depois, a porta do apartamento se abriu com força, revelando um completamente desesperado. As garotas se assustaram tanto com o barulho da porta abrindo que levantaram com um pulo das cadeiras da cozinha.
- ! POR QUE NÃO ATENDEU O TELEFONE? ONDE VOCÊ ESTAVA? O QUE ACONTECEU, VOCÊ... – Ele não terminou a frase, pois seu olhar pousou em . – ?
- Oi, maninho! – Ela disse, animada, pulando em e dando um abraço apertado no irmão. De início ele pareceu assustado e sem reação, mas depois a abraçou de volta. Depois do abraçou, foi até e a abraçou com força, assustando a menina.
- Eu fiquei tão preocupado com você. – Ele disse baixinho no ouvido da menina.
- Eu estou bem, desculpa não ter atendido ao telefone.
olhava a cena comovida. O irmão dela realmente se importava com a garota... Fazia tempo que não via os olhos do irmão brilharem daquele jeito. E ela pode notar também como os olhos de brilharam.
“Predestinados”, ela pensou.
- Tudo bem, alguém pode me explicar o que está acontecendo? – disse, sentando em uma cadeira e olhando a irmã.
- Eu decidi voltar e te fazer uma surpresa. Quando eu cheguei aqui no apartamento, dei de cara com a ! Eu me assustei, por que eu não fazia a mínima de quem era aquela garota! Então ela me explicou que era sua amiga, que passaria uns tempos por aqui...
- Ok, mas por que ninguém atendia o maldito telefone? Vocês tem noção do quão desesperado eu fiquei?
- Me desculpa, , mas não fica bravo com a , a culpa é minha, OK? Eu a levei pra fazer compras comigo, ela não queria ir, mas eu insisti muito... Desculpa mesmo, eu não sabia que você ia ficar bravo! – disse, fazendo uma carinha que derreteria qualquer um. respirou fundo.
- Não façam isso de novo, OK? – As duas assentiram.
- A gente fez sanduíche de queijo pra você. – disse, tentando acalmar . Ela pegou o prato com o sanduíche e entregou pra ele, sorrindo.
- Obrigada... O que... O que aconteceu com você? – Os olhos dele estavam fixos nela, em seu cabelo, em sua roupa... Ela estava tão linda. E a parte mais linda era o sorriso que ela tinha no rosto.
- Ah... Eu a arrumei. Sei lá, ela estava com uma carinha triste... Eu arrumei o cabelo e as unhas dela e, além disso, nós fomos fazer compras, como eu já tinha dito antes. Eu comprei roupas novas para mim e para ela...
- Eu tentei convencer ela a não gastar o dinheiro dela comigo, mas ela não quis! Ela praticamente me obrigou a comprar as coisas pra mim... – arqueou uma sobrancelha para as duas, que já discutiam.
- Para de reclamar! Você amou fazer compras e, além disso, compramos roupas lindas para você!
- Além de um tanto de coisas que você não precisava ter comprado para mim!
- Para de reclamar, eu já disse! Você precisava sim! E vai ficar linda com tudo aquilo! Além disso, quem vai pagar é o mesmo... – se assustou quando disse aquilo e quase cuspiu o suco que estava bebendo.
- Você disse que era o cartão do seu pai! – Ela disse, com raiva.
- Ops, foi mal. É do meu maninho lindo...
- Ai, meu Deus, que vergonha... , eu sinto muito, eu não sabia... – Ela tentou explicar e ele apenas riu.
- Não esquenta... Já estou acostumado. Isso é o normal da , desculpa por ela... Espero que ela não tenha te importunado muito.
- Na verdade, ela foi bem fofa comigo... Apesar de ter me feito comprar metade do shopping. – Ela deu de ombros.
- Está tudo bem. Não é nada... – sorriu para ela, que sorriu de volta... olhava e pensava que os dois pareciam dois bobos apaixonados que não queriam admitir que se amavam. – Vamos esquecer isso ,então. Fico tão feliz que tenha voltado, . Você faz muita falta nesse apartamento, pode ter certeza.
- Está dizendo isso porque eu coloco ordem aqui, faço compras e arrumo tudo enquanto você trabalha e viaja... Você me faz de escrava, ! Mas mesmo assim, eu te amo muito... E senti sua falta também, e dos garotos também! Não vejo a hora de ver eles de novo...
- Eles também devem estar com saudades... Mas o que te trouxe de volta? – Ele perguntou, curioso.
- Nah, nada importante. Saudades mesmo... Me cansei da França. Papai e mamãe também já estavam me dando nos nervos... Além disso, eu passei numa faculdade que é aqui perto.
- Hum... Eu vou me trocar e me deitar. Boa noite para vocês dois. – disse, de repente, e não deu tempo deles responderem, pois ela já tinha saído.
A garota correu para seu quarto e trocou de roupa. Sua cabeça doía muito, ela tomou o remédio, suas mãos tremiam. Ela se sentia muito mal. Não sabia o porquê, mas uma tristeza incontrolável tomou conta dela subitamente.
Ela se deitou na cama e tentou dormir, mas sua cabeça doía demais, assim como o resto do seu corpo. Ela tinha ficado tempo demais sem seu remédio. Ela fechou os olhos e esperou que o sonho viesse.



- , quase que eu morro do coração hoje. Eu liguei aqui para casa umas dez vezes e ninguém atendia! Você não podia ter simplesmente saído com ela sem sequer me avisar...
- Eu já pedi desculpas, ! Como eu ia saber que você ia surtar só porque levei a garota para fazer compras? – Logo depois que saiu, e começaram a discutir. – Dá pra esquecer isso?
- Ok... Vamos deixar pra lá então. – Ele segurou a cabeça entre as mãos e respirou fundo.
- ... Você nunca a mencionou pra mim... E eu nunca a conheci. E você está escondendo algo, posso ver nos seus olhos... Você pode me contar o que foi? – sentou ao lado do irmão no sofá e colocou a mão na perna dele.
- Ela está morando aqui há umas duas semanas, no máximo... Ela está com problemas e eu estou ajudando.
- Ela já falou isso, você vai ter que ser mais específico e mais detalhista... Porque eu conheço todos os seus amigos e amigas, mas nunca ouvi falar dela. – suspirou e decidiu contar à irmã tudo que havia acontecido.
- Eu estava andando pela rua há algumas semanas. Vi ela andando e tropeçando no banco da praça, caindo no chão. Eu fui ver se ela estava bem, estava completamente drogada, e quase desmaiando. Ela apagou e eu a trouxe pra cá...
- Quer dizer então que você simplesmente achou a garota na rua e trouxe-a aqui pra casa?
- Foi... Eu não entendi totalmente porque fiz isso, eu nem conhecia a garota... Mas quando ela olhou nos meus olhos, deitada no chão... Alguma coisa naqueles olhos me fez crer que ela precisava de ajuda... Ela acordou no dia seguinte completamente confusa e quase pulou da janela do seu quarto... Ela demorou a me dizer seu nome, teve umas crises de choro, socou o espelho... Mas, finalmente, está ficando tudo bem. A mãe dela morreu quando ela era bem pequena, o pai abandonou a ela e à irmã quando ela tinha treze e... Eu não entendi o que aconteceu depois disso, ela ainda não quis contar... Só sei que isso a afetou muito, e que, há aproximadamente um ano, ela e a irmã se separaram... E ela sente muita falta da irmã.
- , eu... Acho que eu nunca fiquei tão orgulhosa de você. – abraçou o irmão, pegando-o de surpresa – De todas as coisas idiotas que você já fez, essa foi a mais linda...
- Obrigada, . Eu... Sinto uma vontade imensa de protegê-la. De fazê-la ficar bem, entende? Eu não consigo entender por que, mas, às vezes, parece que tudo o que importa, é ela.
- Sabe o que parece? Que você está completamente apaixonado por aquela garota...
- Eu não estou apaixonado por ela... Não posso estar.
- Acho que ela também está... Mas não tem coragem de dar uma chance para si mesma... Uma chance de amar. Se não foi o destino que uniu vocês, não sei de mais nada... Você precisa ensiná-la a amar de novo.
pensou no que a irmã tinha dito... Destino... Será que realmente teria sido o destino que tinha juntado os dois? Será que ele realmente estava... Apaixonado? E será que ela sentia o mesmo?

"A vida vem a nós saindo da escuridão e existem momentos
em que você deve ir atrás dos medos e enfrentá-la...
Uma vida pode surgir em você de fora da escuridão,
quem você ira escolher para encarar isso, poderia
ser uma pessoa que você confia, ou ser sábio,
e o amor que eles tem por você ajudará a te guaiar até a luz,
ou então você se perdera nessa escuridão,
será que te darão escolhas nobres?
Ou será que essa pessoa é alguém que está testando alguém novo?
A vida exige que você saia da escuridão, quando sairmos,
existe uma pessoa na sua vida com quem você pode contar.
Alguém estará te observando quando você tropeçar e cair.
E nesse momento, te dará força para encarar seus medos sozinho."

- One Three Hill



Capítulo 12
(Nickelback - Far Way)


se remexia na cama, inquieta. Ela tinha sono, mas alguma coisa não a deixava dormir. Sua cabeça doía e seus olhos ardiam. Mas ela precisava dormir, precisava descansar...
Sua cabeça estava confusa. Ela não sabia mais o que estava sentindo por . O jeito como ele a abraçou parecia tão certo. Ele a fez pensar que tudo ia dar certo... Ele a deu esperanças. Parecia certo se sentir daquele jeito. Como se nada importasse e como se...
Como se ela estivesse apaixonada. Mas não, ela não poderia estar apaixonada por . Pra início de conversa, ela nem deveria estar aqui. Eles eram de dois mundos completamente diferentes, duas realidades distintas. A qualquer momento esse sonho iria acabar.
Seus olhos começaram a pesar e o cansaço a venceu. Ela fechou os olhos verdes cheios de lágrimas, lágrimas pela incerteza de amar ou não alguém que nunca poderia ficar com ela.

[N/A: Aperte o Play!]

“ - Mãe? A senhora está acordada? – perguntou, sentando-se em uma cadeira ao lado da cama de hospital onde sua mãe dava seus últimos suspiros.
- Sim. – Ela sussurrou para a filha, que tinha a irmã mais nova, , no colo. Ambas choravam baixinho.
- Quando a gente vai poder ir pra casa, mamãe? Eu quero que você me faça algumas panquecas. – disse, inocente.
Ela só tinha cinco anos, era muito nova para entender que sua mãe estava com câncer terminal e morreria a qualquer momento. O coração de Madison, a mãe delas, se apertou ao ouvir as palavras da filha e começou a chorar mais ainda.
- Shay... Prometa que vai tomar conta da sua irmã. – assentiu e apertou a mão de sua mãe. Ela pegou a mãozinha de e colocou junto com a da mãe.
- Sempre, mamãe, sempre. Eu não sei o que fazer sem a senhora aqui, mãe, eu não sei como posso... Por favor, mãe, não deixa a gente, por favor. – chorava compulsivamente e sua mãe sorriu, acariciando a mão da menina de leve.
- Eu nunca vou abandonar vocês, nunca. Toda vez que você precisar, é só olhar dentro do seu coração... Eu vou estar lá. Nunca vou deixar vocês a sós...
- Você vai embora, mamãe? – perguntou, com os pequenos olhos verdes com lágrimas.
- Sim, meu anjo, a mamãe vai ter que ir embora... Mas sua irmã vai cuidar de você.
- Mas eu quero é você, mamãe. Você não pode ir embora... Por que a senhora vai embora? – A pequena começou a chorar, aquela era uma cena de partir qualquer coração.
- Escute, , um homem muito muito bonzinho está precisando da ajuda da mamãe agora. Ela tem que ajudá-lo agora, mas ela não quer muito ir. – A mãe disse, consolando a filha – Mas eu prometo que nunca vou deixar vocês sozinhas...
- Mãe... Eu só queria que soubesse que eu te amo. Nós te amamos. Eu não queria que a senhora fosse embora assim... A gente precisa de você. A só tem cinco anos, e eu vou fazer dez, como vou cuidar dela?
- Eu sei que você consegue, meu bem. Me desculpa por isso, mas não temos escolha, anjinha. Vocês vão ficar bem, eu tenho certeza. Amo vocês. – A mãe deu um pequeno sorriso – Agora eu preciso dormir, estou muito cansada. Boa noite, meus anjos.
só tinha cinco anos mas... De alguma forma, ela entendeu. Sabia que a mãe estava morrendo. E foi naquele momento que ela se desesperou, porque sabia que nada ia ser igual. Ela sabia que a mãe não ia voltar.
sentiu o aperto de sua mãe em sua mão cada vez mais fraco, até que era inexistente. Sua mãe suspirou por uma última vez e então ela já não estava mais lá.
Quando ouviu o bipe do monitor, gritou desesperadamente por uma enfermeira, sem soltar a mão de sua mãe.
- ENFERMEIRA! ENFERMEIRA... – Uma mulher correu em direção a elas, junto com vários médicos – Por favor, faz alguma coisa, minha mãe, minha mãe tá morrendo, pelo amor de deus, me ajuda.
A enfermeira olhou a menina com dó, mas ninguém podia fazer nada. Era tarde demais.
- Eu sinto muito, querida... – Ela sussurrou e a menina desabou em lágrimas.
Sua irmazinha chorava também, e assim elas permaneceram, até que uma enfermeira tentou tirá-las da sala. apertava com força a mão da sua mãe ainda, já estava gelada.
- Você precisa soltar a mão dela... Vem, vamos comer alguma coisa, meu bem.
- Eu não posso... – ela soluçou – Não posso deixar a mamãe. Eu não posso...
- Vocês duas precisam comer alguma coisa... E ficar aqui não fará bem a vocês... Você tem que dizer adeus, meu bem.
- NÃO! Eu não vou, não posso... Ela não se foi, ela ainda tá aqui, não tá, mamãe? Ela vai acordar daqui a pouco, vai ficar tudo bem... Não é, mamãe? – Ela sacudiu a mãe – MÃE? VAI FICAR TUDO BEM, NÉ? – Ela sacudia a mãe, esperando que a mesma acordasse, mas nada aconteceu. – MÃE! – Ela abraçou o corpo da mãe com força e não queria soltar nunca mais.
A enfermeira delicadamente pegou a mão da menina e a tirou de lá. apenas chorava em silêncio. Antes de saírem da sala, a pequena pronunciou uma frase silenciosa.
- Adeus, mamãe. Eu te amo. – Ela sussurrou e olhou sua mãe deitada lá... Só que não era mais sua mãe. Ela tinha ido embora.”


acordou gritando. Lembrar daquele dia a despedaçava. Ela se lembrava perfeitamente daquele dia, cada palavra, cada sentimento. Apesar de ter sido há muito tempo, o subconsciente dela não tinha apagado nada.
Ela olhou a foto da mãe e da irmã que estava ao lado dela e chorou ainda mais alto. Ela se lembrou de sua irmã gritando pela mãe... Ela se lembrou de seu adeus silencioso. Ela se lembrou de que as duas foram embora sozinhas para casa naquele dia. Ela se lembrou que dali pra frente, elas ficaram sozinhas.
O que fazer agora? Ela sentia saudades de e de sua mãe. Nunca ia ser a mesma coisa, nunca. Sua vida estava destruída.
Ela diminuiu a altura do choro, não queria acordar ninguém. Enrolou-se nas cobertas e continuou chorando até que ouviu sua porta sendo aberta devagar.
- Você está bem? – Ouviu a voz de . Estava escuro e ela não podia vê-lo.
- Estou. – Respondeu fracamente e ouviu os passos dele até perto dela.
Ela continuou chorando baixinho até que sentiu o colchão se abaixando e o hálito doce e quente de perto de si. Ele não disse nada, apenas a abraçou com força e ela se aninhou em seu peito.
Ela chorou. Como sempre, chorou. Ele estava ali, ele era real... Mas será que ele iria embora? Será que realmente era só questão de tempo até ela acordar? Ela soluçou baixinho.
- Eu não te deixar. Nunca. – Ele disse, quase como uma resposta aos pensamentos dela e ela se apertou mais nele. – Eu te juro.
Ele passava a mão carinhosamente pelos cabelos pretos dela. Acariciava seu rosto delicadamente, tentando acalmá-la um pouco. respirava fundo, tentando reprimir os soluços. Não estava dando certo.
Ela sentia uma pontada de dor onde seu coração ficava. Ela sabia que essa dor não ia sumir nunca. Pois era a dor de perder as pessoas que ela mais amava no mundo inteiro. E essas pessoas não iam voltar.
- Faz parar, , por favor... – ela soluçou – Faz essa dor parar... – Ele a apertou mais e desejou poder fazer algo pra ajudá-la. Cortava seu coração vê-la assim, tão indefesa.
- Shii, calma, ok? Foi um pesadelo? – ela assentiu – Quer falar sobre ele?
- Minha mãe... Eu sonhei com o dia em que ela morreu... E a gritava e tentava fazer ela voltar, mas ela não estava mais lá, e ela gritava tanto... E eu estava lá vendo tudo... – deu um último soluço antes de se virar para .
Ele acendeu a luz pelo interruptor que ficava perto da cama e olhou ela nos olhos.
- Não chora, foi só um sonho. Vai ficar tudo bem... Eu estou aqui agora, . E não vou sair. – Ela soluçou e eles se olharam profundamente.
Os olhos de hipnotizavam . Inconscientemente, eles foram se aproximando. Os rostos dos dois estavam mais uma vez a centímetros de distância e ela podia sentir o hálito quente e doce dele em sua boca.
Ela não podia fugir daquilo. Ela não queria impedir aquele momento.
Os lábios tão doces dele tocaram levemente os dela e ambos puderam sentir seus corpos eletrizados. Ela deslizou sua mão suavemente para os cabelos dele e logo a língua dele pressionou suavemente os lábios dela, pedindo permissão para ir adiante. Ela apenas puxou um pouco o cabelo dele e logo a língua dele acariciava gentilmente a dela, como em uma valsa silenciosa e romântica. A mão dele tocou de leve a cintura de , o que a fez arrepiar levemente.
Ela percebeu que tinha ido longe demais. Partiu o beijo suavemente e fechou os olhos. Mesmo de olhos fechados, pode sentir se afastando da cama e logo sua voz saiu sem permissão.
- Não. Fica aqui comigo, por favor. Eu preciso de você... – Ela sussurrou e ele se deitou junto a ela. Ela se aninhou nele e, pela segunda vez em sua vida, dormiu nos braços do cara que ela estava apaixonada.
Sim, finalmente ela se permitia aceitar a verdade, ela estava apaixonada. Não que ela fosse levar isso adiante.

Depois de algum tempo, você aprende a diferença,
a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que
companhia nem sempre significa segurança.
E começa a aprender que beijos não são
contratos e presentes não são promessas. (...)
E aprende que não importa o quanto você se importe,
algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,
ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. (...)
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa
na vida são tomadas de você muito depressa, por isso
sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras
amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. (...)


- William Shakespeare



Capítulo 13


’s POV


Eu acordei com alguém se mexendo ao meu lado e abri os olhos lentamente. Eu já sabia quem estava ao meu lado, mas mesmo assim, me assustei quando virei para lado e vi dormindo.
Ele era lindo dormindo. Ele estava com a boca aberta e babava um pouco, era fofo. Sua boca esboçava um lindo e sereno sorriso. Os cabelos dele estavam todos atrapalhados e caíam para todos os lados. Ele parecia um anjo dormindo.
Eu tentei me levantar, então percebi que o braço de envolvia fortemente minha cintura, impedindo-me de levantar dali ou sequer de me mover muito. Eu não queria acordá-lo.
Rolei por debaixo do braço dele e quase caí da cama, mas consegui me segurar a tempo. Levantei-me e vesti um roupão. Ouvi barulhos de panelas vindo da cozinha e deduzi que já tinha acordado.
- Bom dia, . – Eu disse, entrando na cozinha e ela sorriu pra mim.
- Bom dia, . Como dormiu? – Ela perguntou, sem desviar sua atenção da frigideira em que fritava omeletes.
- Até que bem. E você?
- Ótima. Nada como o ar de Londres para me dar uma boa noite de sono... – Ela sorriu e desligou o fogão, colocando dois pratos na bancada a minha frente.
Ela se sentou e pegou um jornal, folheando-o lentamente e meio sem interesse real. Talvez estivesse procurando uma notícia em especial. Ela levantou os olhos do jornal e me empurrou um prato de omeletes.
- Come aí, esse é seu e o outro do , eu já tomei café da manhã. – Ela sorriu para mim, eu agradeci e comecei a comer as deliciosas omeletes que tinha preparado.
Ela continuou folheando o jornal calada e com um olhar de desinteresse. tinha um olhar sempre muito alegre, um pouco cínico e espontâneo, ela era uma pessoa tão boa que você podia sentir isso mesmo antes de conversar com ela.
- Eu sabia, eu sabia! Esse me paga... – Ela exclamou, de repente, fazendo-me pular da cadeira enquanto ela jogava o jornal em cima de bancada e apontava furiosamente para uma manchete.
- “Nova turnê do McFLY na América do Sul” – Li a manchete e arqueei a sobrancelha – O que tem isso?
- O não me contou! Ele sabe como eu quero ir ao Brasil! Que merda, ele prometeu me avisar! – Eu fiz uma cara confusa e ela balançou a cabeça pegando o jornal e lendo em voz alta a notícia – “No início do próximo mês, a mundialmente conhecida banda inglesa, McFLY, inicia sua turnê pela América do Sul. A turnê passará pelo Brasil, Argentina e Chile, respectivamente. Os integrantes da banda, blá-blá-blá, – ela deu ênfase ao nome – disseram em entrevista ao Top Of The Pops que estão entusiasmados com a viagem e pretendem voltar à América Latina em outras oportunidades. – Ela jogou o jornal na mesa.
- Perai, o toca em uma banda? Uma banda famosa?
- Você não sabia, ? – Fiz que não com a cabeça – Ele é o baixista do McFLY, banda mundialmente famosa e tudo mais. Agora você sabe... Ai, o prometeu me levar na turnê, e não me disse nada! Ele vai ver. Ai, vou ter que arrumar nossas coisas em cima da hora e...
- Nossas? Você endoidou ou o que, ?
- Nossas, ora, é claro que você vai também!
- Claro que não vou! Acabei de descobrir sobre isso tudo, eu não vou em viagem alguma! Está louca? – Eu bufei, levantando-me.
- Não vamos ter essa discussão, . – Ela disse, com raiva, jogando o jornal de lado e pegando sua xícara, que estava cheia de café.
Eu revirei os olhos e peguei uma caixa de leite em cima da bancada, enchendo uma xícara e misturando com o café. parecia aparentemente emburrada e parecia não querer falar comigo. Eu não me importava.
Estava bem mais preocupada com o fato de que tinha uma banda famosa e de que se essa história, sobre mim, vazasse, ia arruinar muita coisa para ele. Ia arruinar de verdade.
Seria o escândalo do momento: Jovem músico se envolve com drogada. É claro que nós não estávamos de fato envolvidos, mas é isso que as pessoas pensariam. As pessoas sempre veem maldade nas coisas.
De repente, um monte de coisas parecia errado. e suas preocupações, o jeito como ela falava enquanto eu bebia meu leite, não me afetavam. Eu estava preocupada demais para me importar com ela.
- Tá me ouvindo, ?
- Ahn? Foi mal, , eu estava distraída.
- Que porra, , eu aqui abrindo meu coração para você e você me ignorando! – ela fingiu uma cara de magoada e eu comecei a rir.
- Se não me engano você estava falando de sapatos, , isso não é abrir seu coração. – Eu comi um pouco do minha omelete e dei uma risada junto a ela.
- Bom dia, garotas. – A voz sonolenta de disse, entrando na cozinha e puxando uma cadeira ao meu lado.
- Dia, . – Eu respondi, enquanto pegava novamente o jornal e atirava com raiva no irmão.
- Ai, ! Que boa maneira de começar o dia! – Ele disse, colocando o jornal na mesa.
- Cala a boca, ! Olha só, quando você pretendia me contar da turnê sul-americana?
- Na verdade, eu não pretendia te contar nada.
- TÁ VENDO? É DISSO QUE EU TO FALANDO... EU TE PEDI PRA IR, , TE PEDI HÁ MUITO TEMPO ATRÁS! – gritou com raiva, eu me afastei um pouco com medo.
- Mas você acabou de voltar, . Na verdade, eu nem tinha pensado nisso! Para de drama!
- DRAMA? DRAMA? Você me paga, . Eu e a vamos encher muito o saco de vocês nessa turnê.
- Opa, tire meu nome do meio, ok? Não tenho nada a ver com essa confusão. – Eu disse, bebendo o resto do meu café com leite.
- , você vai na turnê, ok? Não vou discutir. Ela vai, não é, ?
- Claro que ela vai, ! Eu jamais a deixaria sozinha aqui... – Eu sorri pra ele.
- Não vamos discutir sobre isso agora. – eu disse, apenas.
- Ela tem razão... Então, antes que eu me esqueça, nós vamos sair para jantar hoje. – pegou a omelete que tinha feito e encheu um copo com café.
- Jantar aonde? Com quem? Por quê? – questionou.
- Vamos a um restaurante chinês novo com o pessoal. A voltou da Itália e o resolveu reunir todo mundo para comemorar, e também porque quero apresentar a ao pessoal.
- Me ganhou com a parte da comida chinesa! , você gosta de comida chinesa?
- Humm, claro, eu adoro comida chinesa. – bateu palmas animadas.
- Então, avisadas? Saímos daqui às oito. – Assentimos e voltamos ao nosso café da manhã normalmente.
Depois de tomar café, foi ao salão de beleza e eu e optamos por assistir um filme qualquer. Ele foi até seu quarto e buscou vários DVDs para eu escolher um.
Depois de muito enrolar, acabei optando por “Triplo X” um filme clássico de ação, um dos meus favoritos. Ele colocou o DVD no aparelho enquanto eu fui fazer pipoca, apesar de termos acabado de tomar café da manhã.
Eu sentei-me no chão enquanto se deitou no sofá. Fiquei sentada no tapete com as costas no sofá onde estava, com a bacia de pipoca no meu colo, de um jeito que pudesse alcançá-la facilmente.
Bem, o filme era simples: Tiros, carros explodindo e gente correndo, o típico de um filme de ação. Eu realmente não prestava muita atenção no filme, principalmente porque a cena de mais cedo se passava repetidamente pela minha mente.
tinha uma banda. tinha uma banda famosa. era famoso... ELE ERA FAMOSO. E eu poderia colocar tudo a perder para ele.
Onde ele estava com a cabeça quando me ajudou? Não pensou nos tabloides com notícias berrantes como “Astro visto com drogada” ou “Jovem músico arruma namorada viciada”. É claro que eu não era a namorada dele, mas os tabloides diriam isso.
Eu não queria estragar tudo. Eu odeio estragar tudo, por que eu sempre estrago tudo? Eu não podia simplesmente foder com a vida dele desse jeito. Era errado. Eu só não conseguia pensar numa solução, eu não conseguia mais pensar em um jeito de viver sem ele.
Eu não sei exatamente quando, mas em um certo ponto desde que ele me achou, ele se tornou algo essencial em minha vida. Algo como o ar, ou como o sol. Acho que encontrei a palavra certa para descrevê-lo: Sol.
era como o sol: Ele me iluminava, até nos dias mais sombrios. Ele conseguia fazer seu caminho por entre as nuvens e me mostrar a felicidade. Ou o que restou dela. Ele conseguia me fazer sentir aquecida e segura, fazia-me ver que ainda havia algum tipo de esperança para mim.
Como viver sem um sol? Como viver sem ? Se eu fosse embora, eu não conseguiria passar sequer um dia sem saber se ele estava bem. Eu precisava saber dele, precisava estar perto dele.
Absorta em pensamentos, eu não notei quando a pipoca acabou e começou a lentamente acariciar meus cabelos. Era bom. Eu gostava de quanto ele estava desse jeito comigo. Apesar de ser errado, parecia certo.
Eu estava um pouco sonolenta por não ter dormido muito na noite anterior, e acabei me deitando no tapete. Não era confortável, mas era só para tirar um cochilo.
Logo, desceu do sofá e se sentou ao meu lado. Ele colocou minha cabeça em seu colo e ficou acariciando novamente meu cabelo enquanto assistíamos ao filme.
Ele me fazia sentir especial. Fazia-me sentir amada... Mas o que estou dizendo? Como posso saber como é ser amada? Nunca fui amada de verdade. Nunca amei de verdade.
Eu acabei cochilando no colo dele, e logo os barulhos dos tiros foram ficando mais baixos em minha mente, até ficarem inaudíveis.


Acordei lentamente e percebi que ainda estava deitada no colo de . Abri os olhos devagar e olhei para cima, vendo que ele também estava dormindo escorado no sofá. A casa parecia vazia e não havia nenhum sinal de .
Levantei-me e fui até a cozinha pegar algo para comer. O relógio marcava quatro e meia da tarde. Quatro e meia? Dormimos tanto que havíamos perdido o almoço. Não era de se espantar eu estar com tanta fome.
Onde será que estava? Em casa, com certeza não. Ela teria mexido na cozinha, que estava exatamente como eu deixei ao fazer a pipoca. Bem, talvez ela tivesse almoçado fora e encontrado algum amigo.
Enfim, a vida pessoal de definitivamente não era da minha conta.
Abri um dos armários e peguei um pacote grande de Doritos. Na geladeira peguei uma garrafinha de Coca-Cola e rumei novamente para a sala de estar.
Acho que só comia besteiras, os armários eram cheios de Doritos, Cheetos, etc. A geladeira só tinha refrigerante e bebidas.
Sentei-me no tapete da sala, ao lado de . Abri o pacote de Doritos e tomei um gole da Coca-Cola. A televisão reprisava um episódio antigo de Supernatural, uma série que eu não via há muito tempo.
O problema é que não saía da minha cabeça a proximidade de a mim. Eu não sabia o que fazer, ainda mais depois do beijo de ontem. Eu deveria conversar com ele?
Comecei a prestar mais atenção na TV e menos em meu subconsciente, que aparentemente queria me enlouquecer. De algum modo, assistir a Dean e Sam me lembrava de minha irmã.
Eu e sempre brigávamos e discutíamos por coisas atoas. Mas sempre, sempre estávamos lá uma para a outra. A gente se amava demais, e só tínhamos isso: o amor uma pela outra. Cuidávamos uma da outra sempre, e não importava o que acontecesse, estávamos sempre lá.
Apesar de tão longe, eu sabia que em algum lugar ela estava pensando em mim. Eu sabia que todo dia antes de dormir ela fazia suas preces, e sabia que ela pedia por mim nelas. Conheço o suficiente minha irmã para saber que ela está trabalhando num jeito de me achar.
Eu sabia que a gente ia ser ver de novo. Eu sabia, eu tinha esperança. Lá no fundo, eu acreditava que íamos ficar juntas de novo. Íamos ser uma família de novo.
Ouvi um barulho e olhei para o lado, vendo acordado e se espreguiçando. Sorri fracamente e ofereci o pacote de Doritos. Ele pegou alguns e se sentou direito.
- Acho que dormimos demais, . – Ele disse rindo. – Algum sinal da ?
- Não, ela não voltou pra casa. Ou, pelo menos, eu acho que não. – Dei de ombros e um silêncio se instalou.
Conversar ou não. Eis a questão.
- ... Acho que a gente precisa conversar. – Disse por fim, virando-me para ele.
- Pode falar.
- É sobre ontem e eu... Ai droga, eu sinto muito, . – Eu disse, segurando as lágrimas.
- Sente pelo o que, ?
- Por ter de beijado ontem a noite. Eu realmente sinto muito e... – Ele começou a rir e eu fiquei sem terminar a frase.
- Não precisa se desculpar por isso, ! Tecnicamente, fui eu quem te beijou, e não me arrependo. – Nós dois já estávamos muito próximos, e eu fui para trás.
- Não, , você não entende. O problema é que eu não podia ter retribuído daquele jeito, não quando eu... – respirei fundo – Não quando eu não posso ter nada com você. Eu não devia ter me deixado levar pelo beijo, foi errado, . Eu sinto muito. – ele ficou em silêncio. – Eu queria poder ficar com você, mas não posso. Não quando é tão errado. De verdade, eu sinto muito, .
- Você está errada.
- O quê?
- Está errada. Você pode. – Ele disse apenas.
- Eu ia foder com tudo. Você merece alguém melhor. – respondi de volta, levantando-me e indo para o quarto, antes de sair da sala olhei pra ele de novo – Sinto muito. – virei-me e fui até meu quarto.
- Eu também. - Ele sussurrou.
Já eram cinco e alguma coisa e lembrei-me do jantar que havia citado. Peguei um vestido simples e uma sapatilha (coisas que a tinha comprado para mim, mesmo sem que eu deixasse).
Entrei no chuveiro e tive muito cuidado para não molhar meu cabelo que tinha me obrigado a arrumar. Fiquei um tempo apenas deixando a água quente esquentar minha pele, que arrepiava com a água corrente que caía.
Senti as lágrimas escorrendo lentamente dos meus olhos. Fazer a coisa certa não era fácil. Nunca foi... Mas por mais que doa, você tem que fazê-la. A vida não é feita apenas de boas coisas... Principalmente no meu caso.
E de todas as merdas que eu já tinha feito, essa com certeza era a maior: apaixonar-me por .


E se tudo não passar?
Sempre dizem que com o tempo tudo vai passar.
Será mesmo? E se nós estivermos nos enganando?
Agimos como as lembranças tristes do passado fossem pesadelos que nunca existiram de verdade.
Tentamos tapar o sol com a peneira para evitar a tristeza.
Não que estejamos errados, mas esta é uma decisão muito arriscada.
Para quê ficar remoendo um passado e tentando esquecê-lo?
Viva sua vida a cada dia, isso não lhe atrapalhará em nada,
muito pelo contrário, você vai provar que aprendeu com seus erros,
suas dores, e ser uma pessoa melhor.



- Autor Desconhecido


Capítulo 14
(My Immortal - Evanscence)


Logo que saí do banho, encontrei se arrumando em seu quarto. Ao perguntá-la onde tinha passado o dia, ela apenas respondeu que “com um amigo”. Preferi não perguntar mais nada.
colocou um de seus vestidos mais simples, já que disse que não era um restaurante chique. Ela colocou um pequeno salto e fez sua maquilagem. Queria, também, de toda maneira, fazer a minha, mas eu não deixei, já que não era muito fã de maquilagem.
- Prontas? – apareceu no quarto perguntando.
- Claro, vamos. – disse, puxando-me pelo braço para fora do quarto.
Trancamos o apartamento e logo antes de entrarmos no elevador, soltou um suspiro e se virou para nós de cara amarrada.
- Esqueci a bolsa na cozinha. Vou lá buscar, a gente se encontra no carro. – Ela voltou correndo antes mesmo que pudéssemos concordar.
Eu e não nos falamos depois de nossa “conversa” mais cedo. Continuamos em silêncio até chegarmos ao estacionamento, onde nos escoramos no carro, esperando por .
Nós não nos olhávamos. Cada um estava absorto em seus próprios pensamentos e ignorava a presença um do outro. Até que alguém resolveu quebrar o silêncio.
- Não quero ficar sem falar com você. – disse, quebrando o silêncio desconfortável que pairava entre nós.
- Nem eu sem falar com você.
- Podemos simplesmente esquecer sobre aquela discussão? E sobre aquele beijo?
- Acho que é o melhor a fazer. As coisas estão ficando complicadas demais... Entre nós. – coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha – Vamos fingir que não aconteceu.
- Tudo bem.
Logo ouvimos chegando e entramos no carro. O restaurante ficava a uns dez minutos de distância do apartamento, então, não demorou para que chegássemos. estava muito animada, ela se animava com tudo, e dizia estar com saudade dos garotos e suas namoradas.
Eu ainda não os conhecia, e confesso que estava com certo medo da reação deles em relação a mim. Não sabia se eles iriam me aceitar, ou sequer se sabiam sobre mim.
Nós entramos no restaurante, que era simples, porém bonito. Tinha uma bela decoração que mostrava claramente que era um restaurante chinês. Logo eu vi correndo em direção a uma garota e a abraçando escandalosamente.
apenas riu e me guiou até a mesa onde aparentemente seus amigos estavam.
- , está é a . – O garoto que indicou sorriu e apertou minha mão – , esse é o . – Eu sorri e ele retribuiu o gesto.
- Prazer. – Eu disse.
- O prazer é meu. – Logo uma voz feminina apareceu e tratou de apresentá-la também.
- , essa é a , a namorada do . , esta é a . – A garota apresentada era sorridente e parecia muito feliz.
Ela era baixa, tinha a pele morena e os olhos castanhos grandes e envoltos por grandes cílios. Ela tinha o cabelo na altura dos ombros, pretos e moldados para fora. Parecia ser dona de um inconfundível sorriso alegre.
- É um prazer conhecer você, ! – Ela me deu um abraço forte e animado.
- É um prazer conhecer você também, .
- Que isso, me chama de ! – Ela parecia tão simpática quanto e logo me indicou o resto do pessoal.
- , estes são e a namorada dele, Joanna. – Apertei a mão dos dois e sorri de volta.
Joanna já parecia o oposto de . Ela era alta e com a pele branca como leite. Tinha os cabelos pretos e compridos. Seus olhos, assim como os de , eram castanhos, porém pequenos. Ela parecia ser tímida.
- E este é o... – indicou o último garoto, que por sua vez, estava sozinho.
O choque que me atravessou ao olhar naqueles olhos é indescritível. Eu nunca pensei que iria ver aqueles olhos novamente um dia. Coincidência? Destino? Eu não sabia, mas também não sabia o que fazer, ou dizer. Estava paralisada pelo choque, por tê-lo exatamente na minha frente após quatro anos.
- . – Completei e todos me olharam, confusos.
- ? – Ele perguntou, tão confuso quanto eu e os outros.
- . – Eu disse e ele continuou sem expressão e me puxou inesperadamente para um abraço. No início achei estranho aquela sensação. Mas por fim, abracei-o de volta.
- O que, diabos, você... Onde está sua irmã? A ? Onde está a ? – Ele perguntava confuso.
- Eu não sei, . Simplesmente não sei.
- Perai, vocês dois já se conhecem? – perguntou por todos.
- Meu ex-cunhado. – Respondi, torcendo a boca.
- Que mundo pequeno... Bem, mas que tal agora sentarmos e fazermos nossos pedidos? Estou com muita fome. – riu e passou a mão pelos cabelos curtos.
Nós rimos e nos sentamo à mesa que estava logo a nossa frente. Sentei-me entre e e logo nós pedimos o que queríamos. Nada demais, a maioria pediu Yakisoba e os outros eu não vi. Eu e Joanna pedimos refrigerante, enquanto os outros pediram cerveja.
contava animadamente sobre sua viagem à Itália, enquanto tinha os braços ao redor dela. Ela e riam o tempo todo e tentavam fazer com que eu entrasse na conversa, sem muito sucesso. Até Joanna, que tinha um perfil muito tímido, conversava entusiasmada com os demais.
- Acho que precisamos conversar. – sussurrou, sem que ninguém percebesse.
- Eu também acho. – Sussurrei de volta e ele sorriu fraco.
Era uma coincidência incrível eu encontrá-lo depois de todo esse tempo. Eu nem ao menos estava procurando por ele. Ele não havia mudado tanto. Ainda tinha os mesmos olhos felizes e o mesmo jeito tosco de falar. Ainda era completamente ele.
Eu só não sabia o que isso significava. Encontrá-lo, justo agora.
Logo nossos pedidos e chegaram e acho que a conversa ficou ainda mais animada, tanto que até eu conversava com eles. O assunto da vez era a viagem deles para a América do Sul, viagem da qual as garotas estavam mais entusiasmada que os próprios garotos. Principalmente .
Eu não conseguia falar muito. Talvez eu estivesse em estado de choque por estar mais uma vez ao lado de . Tanto tempo havia se passado, tanta coisa havia mudado, e ele parecia o mesmo. O mesmo sorriso, o mesmo jeito de falar, de mexer no cabelo... Ele continuava o mesmo de tantos anos atrás.
Vez ou outro ele me olhava pelo canto do olho e parecia sorrir. Será que ainda restava dentro dele algum sentimento por minha irmã? Eu esperava que sim. Eu tinha certeza que, onde quer que ela estivesse, ela ainda o amava com a mesma intensidade de antes. Quando gostava de algo, era para sempre.
Os ventos estavam mudando. Tudo havia mudado em tão pouco tempo. Pra melhor, claro. Será que Deus tinha planos diferentes dos que eu pensei ter para mim? Será que ainda restava alguma coisa de bom em mim?
- Você devia falar mais, ! Você parece ser tão simpática, mas fica tão calada! – exclamou.
- Ah, eu sou calada assim mesmo, . – sorri para ela e bebi um gole de coca.
- Não devia ser! – ela insistiu e eu deixei o assunto morrer por ali.
Depois de acabarmos de jantar, continuamos conversando sobre assuntos banais. Na verdade, eu só ouvia, eles falavam. As vozes pareciam um tanto quanto distantes. Talvez por que eu não me importava.
- Vou ao banheiro. – Eu disse, levantando-me e indo ao banheiro, que não ficava longe da mesa em que estávamos.
Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Meus olhos estavam sem vida. Como sempre. Lavei o rosto e continuei me olhando no espelho.
Saí do banheiro e, ao invés de voltar para a mesa, dei a volta sem que ninguém percebesse e fui para um jardim que havia atrás do restaurante.
Era bonito. Havia um canteiro baixo, cheio de margaridas. Sentei-me e olhei para o céu. As estrelas brilhavam, brilhavam do mesmo jeito de quando me encontrou. Eu ainda me lembrava.

[N/A: coloque a música para tocar]

Senti uma lágrima querendo escorrer. Enxuguei-a rápido e voltei a olhar para o céu. Senti uma mão tocando de leve meu ombro e me virei para o lado, dando de cara com ninguém menos que .
- ? – perguntei. Ele sorriu fraco e se sentou ao meu lado.
- Tem um minuto? – ele perguntou e eu assenti.

I'm so tired of being here
(Estou tão cansada de estar aqui)
Suppressed by all my childish fears
(Reprimida por todos os meus medos infantis)
And if you have to leave, I wish that you would just leave
(E se você tiver que ir, eu desejo que apenas vá)
'Cause your presence still lingers here and it won't leave me alone
(Por que sua presença continua aqui e isso não vai me deixar em paz)

- Claro, . – ele colocou meu cabelo atrás da orelha e sorriu de novo.
- Ninguém te viu vindo pra cá, a propósito. Apenas eu... – eu assenti novamente – Você mudou tanto... Está crescida. Mas seus olhos ainda tem aquele mesmo jeito de antes.
- Você também não mudou muito. – eu ri.
- Tem tantas coisas que eu quero te perguntar... Não entendo nada do que aconteceu, não sei o que aconteceu! Por que vocês foram embora sem avisar? – eu ri baixinho e evitei olhar nos olhos dele.
- Não fomos embora. Quer dizer, não de propósito. Eu sinto muito, queria poder ter dito a você antes... Mas eu nunca mais consegui te encontrar... Eu sinto tanto. – reprimi as lágrimas enquanto sentia aquela antiga ferida latejar.

These wounds won't seem to heal
(Essas feridas parecem não cicatrizar)
This pain is just too real
(Esta dor é tão real)
There's just too much that time cannot erase
(Há tanto que o tempo não pode apagar)


- Entendo se não quiser falar sobre isso agora, eu...
- Não, . Eu vou falar. Você merece saber... Tem o direito de saber. – respirei fundo – Parecia ser um dia comum... e eu brincávamos no quarto, quando ouvimos alguém chegar. Meu pai nos chamou para descer... Eu só não entendia nada do que eles estavam falando, sabe? Só entendi quando ele quis levar a ... E ela disse... Disse pra eu me cuidar e não deixar eles me levarem... E ela... – as lágrimas começaram a escorrer – E ela foi embora, ele deixou ela ir... – enxuguei minhas lágrimas com as costas da mão e continuei – Ele... Meu pai, se assim posso chamá-lo, ele vendeu ela... Vendeu a e a mim para comprar drogas... Eu só fui perceber isso quando ele fez o mesmo comigo, alguns dias após...

When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorou, eu enxuguei todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritou, eu lutei contra todos os seus medos)
And I held your hand through all of these years
(E eu segurei sua mão por todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)

- Filho da puta! – exclamou – Ele não tinha o direito de fazer isso com você, !
- Quando o homem, Jason, me levou também... Eu ainda não entendia o que iam fazer conosco... Eu ouvia ele sussurrar com as pessoas ao redor, mas parecia tão distante! Parecia que era tudo um sonho macabro, e que eu ia acordar e tudo ia estar bem de novo... Eu só percebi o quão era real quando ele.... – engoli em seco e senti os olhos de sobre mim – Quando eu percebi que ele ia obrigar-nos a nos prostituir. Ele... E ele vendeu a minha virgindade pra um cara qualquer e eu... – comecei a chorar mais forte e não consegui continuar. Senti os braços de ao meu redor, ele me abraçava com força e me aconchegava em seus braços – Eu me sentia tão suja, era tão errado... Mas, que escolha eu tinha?

You used to captivate me by your resonating light
(Você costumava me cativar com sua luz ressonante)
Now I'm bound by the life you've left behind
(Agora sou limitada pela vida que você deixou pra trás)
Your face it haunts my once pleasant dreams
(Seu rosto assombra todos os meus sonhos que já foram agradáveis)
Your voice it chased away all the sanity in me
(Sua voz expulsou toda a sanidade em mim)

- Não acredito que fizeram vocês passarem por isso, eu só... Só não sei o que dizer.
- A e eu ficávamos juntas o máximo de tempo que podíamos. Ela era... “popular”, ela ganhava muitas gorjetas por fora, sabe? Ela juntou muito dinheiro, dinheiro suficiente para fugir... Mas ao invés de fugir, ela deu o dinheiro a mim, para que eu pudesse fugir! Mas antes de eu sequer pensar nessa possibilidade, houve um dia... Um dia em que eu só queria morrer, sabe? Para estar livre de toda essa merda de vida... Queria estar com a minha mãe, queria ser feliz de novo. Então eu me tranquei no quarto e fiquei lá. Não trabalhei, não conversei com ninguém... Bem, é óbvio que houve uma consequência... Um castigo. Jason disse que eu deveria sofrer. Ele me deu algo... Não sabia o que era. Acordei horas depois e sentia que precisava de mais, e mais... Aí eu descobri o que ele tinha me dado. Era heroína. – ele enxugou algumas das minhas lágrimas.

These wounds won't seem to heal
(Essas feridas parecem não cicatrizar)
This pain is just too real
(Esta dor é tão real)
There's just too much that time cannot erase
(Há tanto que o tempo não pode apagar...)


- Depois daquele dia, não consegui parar. Nunca contei à e... Depois, ela quis que eu fugisse. Mas era errado! Era a chance dela. Eu estava condenada, não merecia uma segunda chance. Estava suja demais, errada demais... Perdida demais para uma segunda chance. Mesmo assim ela disse “Nunca repita. Você vai ter sua segunda chance...”... Eu não merecia aquela chance, era a dela. Era a chance dela de ser feliz de novo, de te achar, de ter uma vida normal de novo... Eu arruinei tudo. Eu não merecia estar aqui... Eu não mereço uma segunda chance.
- Não repita. Jamais repita de novo... Você merece essa chance, . Você merece ser feliz...

When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos)
And I held your hand through all of these years
(E eu segurei sua mão por todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)

- Não. Eu não mereço. Eu sou imunda... Eu tenho nojo de mim mesma! – gritei, chorando e ele me abraçou mais forte.

I've tried so hard to tell myself that you're gone
(Eu tentei com todas as minhas forças dizer a mim mesma que você se foi)
But though you're still with me
(E embora você ainda esteja comigo)
I've been alone all along
(Eu tenho estado sozinha por todo esse tempo.)


- Eu fugi... E por muito tempo, eu apenas usava drogas e bebia. Era algo como... Suicídio. Estava tentando me matar... Estava cansada de viver, de perder as pessoas que eu amo, cansada de decepcionar minha mãe. Se ela me visse daquela forma... Gastei o dinheiro que me deu. Quando ele acabou, comecei a roubar para comprar drogas e bebida... Foi assim, até que me achou... Ele me salvou, . Eu não merecia ser salva... Queria que ele tivesse me deixado morrer ali. Estaríamos todos melhor assim... Eu não posso fingir que está tudo bem quando... Quando tudo está desmoronando aos poucos.

When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos)
And I held your hand through all of these years
(E eu segurei sua mão por todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)


- Não diga isso... Você não merece morrer, você merece essa segunda chance, e vai ficar tudo bem. Eu estou aqui agora, tudo bem? É tudo o que importa, eu vou fazer tudo ficar bem, ... Eu te prometo...
Ele continuou me abraçando enquanto enxugava minhas lágrimas. Ele realmente faria ficar tudo bem? Eu sentia aquela velha ferida latejando. Era como se me rasgasse de dentro para fora, e nada fazia essa dor passar.
- Eu só queria minha irmã aqui agora... – solucei. – Queria saber onde ela está...
- Vamos encontrá-la. Eu te prometo, nós vamos achar ela de novo.
- Ela queria que você soubesse... Pediu que se um dia eu te encontrasse, eu te dissesse... Que ela te ama. Ela ainda te ama, e sempre vai amar. – ele passou a mão pelo meu rosto e me abraçou mais forte.
- Eu sei. – ele disse apenas. – Eu sei...
Depois de mais um tempo abraçados, ele pegou seu celular e digitou uma mensagem para alguém e o guardou no bolso novamente.
- Eu disse ao que eles podiam ir embora. Eu te levo pra casa depois, pode ser? – eu assenti, ele se levantou e estendeu a mão. – Vem.
Eu dei a mão a ele e me levantei. Ele passou o braço pelas minhas costas e fomos caminhando para fora do restaurante, pela parte de trás.
Andamos um pouco até chegar numa praça completamente vazia. Eu me lembrava dali, era onde eu e brincávamos quando crianças. pareceu se lembrar do local também, pois soltou uma risadinha baixa.
Nós caminhamos um pouco enquanto ele me contava tudo sobre sua vida depois que fomos embora. Como conheceu , e , como começaram a banda... Basicamente tudo que perdi.
Comecei a olhar os brinquedos. Eram antigos, sempre estiveram ali. Lembravam-me minha mãe. Ela sempre me trazia para brincar aqui... Lembrava-me .
- Você se lembra? – perguntou.
- Do quê?
- De quando eu trazia você e a sua irmã para tomar sorvete aqui?
- Sim, eu me lembro. Você me empurrava no balanço enquanto a ria e pedia pra empurrá-la também... – eu ri e ele concordou.
- Você era uma gracinha.
- E você era super gentil. – nós rimos e ele me levou até o balanço.
- Quer relembrar os velhos tempos? – ele me soltou e indicou um dos balanços. Eu sorri e me sentei nele, olhando em volta.
começou a me empurrar enquanto eu ria. Parecia que tudo havia voltado... Que as coisas eram como antigamente... olhava pra mim com carinho. Ele não tinha nojo de mim, de quem eu havia me tornado...
Eu ria como uma criança. Quando eu olhei para o lado, podia jurar que tinha visto minha mãe sentada no banco acenando para mim e sorrindo.
Eu podia jurar que era ela.


As pessoas sempre partem....
Às vezes a dor se torna uma parte grande da sua
vida que você espera por ela sempre, porque você
não consegue lembrar a parte de sua vida sem ela.
Mas, um dia, você sente algo a mais.
Algo que você sente errado só porque não é familiar
e esse momento você percebe que você é feliz.


- One Three Hill



Capítulo 15


’s POV

- A gente podia ir ao cinema. – propôs.
- Estou com preguiça. – respondi.
- Podíamos ir tomar sorvete.
- Está frio.
- Podíamos ir ao trabalho do ?
- É longe.
- PODÍAMOS MORRER?
- Estou com preguiça disso também, .
- Você é muita chata, sabia, ? – ela reclamou, me batendo – Você não quer fazer nada desde sexta! O que aconteceu? Traiu meu irmão com o ou algo assim? Você está demasiada estranha desde aquele dia.
- Como eu poderia trair seu irmão se sequer estou com ele, ? Por que você não vai, sei lá, sair com seus amigos e me deixa aqui na minha monótona existência?
- Mas você é minha amiga e eu quero sair com você, ! Dá pra parar de ser chata só hoje e sair comigo? Estou num péssimo dia, e você não está ajudando em NADA!
- Ok, você venceu, . Aonde vamos? – perguntei, me levantando e pegando meu casaco na mesa da cozinha.
- Andar pela cidade. Meu irmão deixou as chaves do carro aqui.
- Mas ele não foi de carro para o trabalho?
- Ele tem dois, sua esperta.
- Ah. – Já deveria saber, mas, no entanto, continuava me surpreendendo.
- Vamos, pega suas coisas, animal. – mostrei a língua pra ela e peguei minha bolsa no quarto.
estava mais chata do que o normal desde sábado de manhã. Não sei o que tinha dado nela, mas estava muito estressada e brigava com o irmão a todo o tempo. Provavelmente havia brigado com o namorado (sim, ela tinha um, só evitava comentar, pois tinha ciúmes do cara).
Quanto a mim, bem, fiquei exilada do resto do mundo durante o fim de semana. Não dirigi uma palavra sequer a . Conversei com pelo telefone algumas vezes, mas nada demais, apenas conversas casuais... Como antigamente.
e eu percorremos boa parte da cidade enquanto ela tagarelava e aumentava o volume do rádio a cada música conhecida que ressonava. Eu apenas ouvia atentamente o que me interessava e ignorava as outras partes. Como sempre, calada.
Um fato que me esqueci de comentar foi a obsessão que a namorada de – mais conhecida como – começou a ter por mim desde o jantar sexta. Ligou no sábado e no domingo a me procurar e foi ao apartamento de no domingo. Parecia querer se aproximar de mim de qualquer jeito. Bem, Deus e eu sabemos que eu não costumo me aproximar das pessoas.
Ela era sim uma boa garota, mas era demasiada falante, demasiada feliz. Felicidade era algo que me irritava, principalmente quando em excesso. Ela era tão “pulante”, tão feliz... Lembrava-me um Oompa-Loompa. Sim, aqueles do filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Era pequena e dançante como eles.
Ela era parecida com . Aquele mesmo jeito de me encher o raio do saco quando eu só quero dormir – ou morrer -, aquele mesmo jeito irritante de olhar tudo pelo lado positivo. As duas poderiam se casar e se mudar para bem longe, talvez assim me deixassem em paz.
Não que eu não gostasse delas... Mas também não era como seu eu as amasse.
parou, então, o carro em frente a um prédio grande e fez sinal para um garoto parado na porta, que eu identifiquei como o manobrista. Eu desci do carro e ela entregou-lhe as chaves, recomendando um milhão de cuidados para com o carro.
- Onde, diabos, estamos, ? – perguntei, enquanto ela me conduzia para dentro do prédio e entrávamos no elevador.
- Em um lugarzinho que eu gosto de chamar de trabalho do ... Ou estúdio do McFLY. É, dá na mesma. – eu olhei para ela com raiva e ela soltou uma gargalhada de puro prazer... Prazer por me ver com raiva. Sim, essa era .
- Eu disse que não queria vir aqui. – suspirei.
O elevador parou e ela saiu saltitante. Cumprimentou algumas pessoas e eu a segui até uma sala no final do corredor.
A sala era o estúdio dos garotos. Logo ao entrar vimos eles sentados conversando enquanto e um homem discutiam sobre como seria melhor uma certa música: Acústica ou mais “eletronizada”.
- Bom dia! – disse aos dois.
- Bom dia, ! – se levantou e abraçou – Bom dia, ! – Ela veio até mim e me deu um de seus abraços esmagadores.
- Bom dia, .
- Que coisa, já pedi pra chamar-me por !
- Tudo bem, vou passar a chamar-lhe por , lhe prometo...
- , esse é o Jamie, ele trabalha aqui com os meninos – indicou-me o homem sentado ao lado de onde estava .
- Prazer! – ele disse, sorrindo.
- É um prazer conhecê-lo também, Jamie. – eu sorri de volta.
- Os garotos estão gravando? – perguntou, ocupando uma cadeira ao lado dele.
- Não, estão compondo. e estão empenhados em um novo projeto... É uma ótima música.
- Podemos ouvir?
- Claro. – Jamie apertou um dos botões do painel e retirou seus fones de ouvido, assim como .
Olhei para dentro da sala onde os garotos estavam e vi e sentados lado a lado, cada um com seu respectivo instrumento no colo e escrevia algo em um bloco. e estavam próximos a eles, ajudando-os.

“Tell me are you feeling Strong
(Me diga se você se sente forte)
Strong enough to love someone
(Forte o suficiente para amar alguém)
And make it through the hardest storm…
(E fazer isso através da mais dura tempestade)”

cantou o trecho e anotou algo novamente. Sua voz era calma e aconchegante.
- “And bad weather” cantou do outro lado e anotou rapidamente.
- Boa, . Ok, estamos quase lá. Mais alguma ideia, ? – refletiu por um momento e logo após cantou baixinho.

“Will you pull me from the flames
(Você irá me puxar das chamas)
Hold me till I feel no pain
(Me abraçar até que eu não sinta dor)
And give me a shelter from the rain
(E me abrigue da chuva)
Forever
(Para sempre)”

- Você é genial, dude. Já temos um refrão, agora só precisamos juntar tudo e por uma melodia certa.
- Podíamos começar com acordes mais baixos nos primeiros versos, uma explosão de bateria no refrão... – propôs – Quando ouço essa música, tenho uma vontade louca de dançar, sabem? Acho que podíamos por uma voz de fundo, ou uma batida, algo dançante.
- Vamos testar isso, parece ser uma boa. O primeiro verso é seu, , eu fico com o segundo e faço o fundo. O refrão é de todos. – propôs.
- Ok, vamos. – disse.

“Tell me are you feeling Strong
(Diga-me se você se sente forte)
Strong enough to love someone
(Forte o suficiente para amar alguém)
And make it through the hardest storm.
(E faze-lo através da mais forte tempestade)
And bad weather
(E tempo ruim)
Will you pull me from the flames
(Você me puxará das chamas)
Hold me till I feel no pain
(Me abraçará até que eu não sinta dor)
And give me a shelter from the rain
(E me abrigue da chuva)
Forever
(Para sempre)

Where can I find her?
(Onde eu posso encontrá-la?)

She took the light and left me in the dark
(Ela tirou a luz a me deixou no escuro)
Yeah
She left me with a broken heart, yeah

(Ela me deixou com um coração partido, yeah)
Now I’m on my own
(Agora eu estou na minha)
If anybody sees her
(Se alguém a vir)
(eh, eh, eh) Shine a Light on her
(eh, eh, eh) (Brilhe uma luz nela)
(eh, eh, eh) Shine a Light on her
(eh, eh, eh) (Brilhe uma luz nela)
(eh, eh, eh) Shine a Light on her
(eh, eh, eh) (Brilhe uma luz nela)
(eh, eh) If anybody sees her
(eh, eh) (Se alguém a vir)”

- Eles são ótimos. – Comentei.
- Sim, eles são. Esse novo CD vai ser o melhor de todos. – disse.
- Gostei dessa música.
- Eles estão trabalhando nela há alguns dias. está muito empenhado em fazer dela perfeita... Posso imaginar por que.
- Por quê? - Perguntei curiosa.
- Ah, não, , vai dizer que não percebeu? – disse.
- Percebi o que?
- É a sua música, . Está explicito que é sobre você... – ela explicou.
- Sobre, mim? – gaguejei.
- Aham. – respondeu.
Eu parei por um momento e analisei a letra da música. “Tell me are you feeling strong, strong enough to love someone?”. Lembrei-me da conversa com sexta-feira.

“- É sobre ontem e eu... Ai, droga, eu sinto muito, . – Eu disse, segurando as lágrimas.
- Sente pelo que, ?
- Por ter te beijado ontem à noite. Eu realmente sinto muito e... – Ele começou a rir e eu fiquei sem terminar a frase.
- Não precisa se desculpar por isso, ! Tecnicamente, fui eu quem te beijou, e não me arrependo. – Nós dois já estávamos muito próximos, e eu fui para trás.
- Não, , você não entende. O problema é que eu não podia ter retribuído daquele jeito, não quando eu... – respirei fundo – Não quando eu não posso ter nada com você. Eu não devia ter me deixado levar pelo beijo, foi errado, . Eu sinto muito. – ele ficou em silêncio. – Eu queria poder ficar com você, mas não posso. Não quando é tão errado. De verdade, eu sinto muito, .
- Você está errada.
- O quê?
- Está errada. Você pode. – Ele disse, apenas.
- Eu ia foder com tudo. Você merece alguém melhor. – respondi de volta, levantando-me e indo para o quarto. Antes de sair da sala, olhei pra ele de novo –– Sinto Muito. – Virei-me e fui até meu quarto.
- Eu também. – ele sussurrou.”


Lembrei-me de quando tive o pesadelo com minha mãe, eu disse a : “Faz parar, , por favor... Faz essa dor parar...” E cantei para mim mesma o verso da música “Hold me till I feel no pain”.
Que droga. A música parecia mesmo ser para mim.
- Jamie onde eu aperto para eles me ouvirem? – perguntou.
- Aqui, . – ele apertou o botão para ela, que sorriu.
- E aí, cambada? Como está indo o ensaio? – eles se viraram para ela e ela sorriu.
- ? O que você está fazendo aqui? – perguntou a ela, assustado.
- Vim visitar meu irmãozinho no trabalho, não posso? – ela revirou os olhos – Vejam, eu trouxe a também.
- Oi, garotos. – eu disse, acenando.
- Oi, ! – eles responderam de volta.
- Vamos continuar o ensaio, desliga a porra do alto falante, . – disse, irritado. mostrou língua e desligou o áudio.
Sentei-me em um canto do estúdio e fiquei vendo-os ensaiar. estava sentada no painel de som, usando fones de ouvido e ajudando Jamie e .
Eu não conseguia evitar pensar naquela música. Não conseguia parar de pensar em mim e em . Será que eu era forte o suficiente para amá-lo? Forte o suficiente para enfrentar as dificuldades que nos cercavam, para dar uma nova chance a mim mesma?
O caso era que, quando eu estava com , eu me sentia bem. Não curada, mas como se nunca houvesse havido qualquer ferida. Ele conseguia resgatar o que havia de bom em mim. Havia uma parte que vibrava com a possiblidade de ele sentir o mesmo que eu. Era uma parte pequena, mas ainda sim, ela estava lá.
Minha cabeça doía. Parecia que algo rasgava-a de dentro pra fora, sem dó. Eu tinha vontade de morder um tijolo ou arrancar minha cabeça fora.
Os analgésicos que a médica havia me dado já não faziam qualquer efeito sobre mim. Já fazia alguns dias que eu tinha essas dores terríveis e lapsos de memória, alucinações.
Começou no dia em que eu vi minha mãe no parque. No dia seguinte, comecei a ouvir a voz da minha avó, que havia morrido quando eu tinha 10 anos de idade. Depois as dores começaram e eu percebi que era abstinência.
Meu maior medo era que eu perdesse minha sanidade novamente. Que as alucinações tomassem conta de mim e eu já não soubesse diferenciar o que era real e o que não era.
Após umas 3 horas de ensaio, os garotos decidiram almoçar. explicou que normalmente eles almoçam em um restaurante dentro do prédio, para evitar fãs loucas e paparazzi. Mas depois de dez minutos de discussão, decidiram que almoçaríamos em uma pizzaria no final da rua. havia ganhado a discussão, como sempre.
Ela tinha aquele jeito de sempre ganhar, e sempre ser a certa. Era uma sortuda.
- 2 pizzas grandes, uma de quatro queijos e uma de pepperoni. – pediu quando chegamos à pizzaria.
Ficamos conversando enquanto nossos pedidos não chegavam. pediu uma garrafa grande de cerveja e fez todos, sem exceções, tomarem. Todos estavam animados e conversavam sobre sua viagem para América do Sul, que seria em algumas semanas.
As pizzas chegaram e eu estava completamente sem fome. Depois de muita insistência por parte de todos, peguei um pedaço de pizza 4 queijos e comi devagar. Eu ainda estava no primeiro copo de cerveja, enquanto os demais já estavam na terceira garrafa.
Acabamos de comer e ficamos conversando descontraidamente na mesa por cerca de meia hora, até que os garotos decidiram que já era hora de voltar ao trabalho. Eu convenci de que deveríamos ir para casa ao invés de incomodar mais os meninos, eles precisavam trabalhar... E eu precisava descansar.
- Eu e a vamos para casa, além de já termos atrapalhado vocês o suficiente, eu estou com um baita de um sono... – Eu disse a .
- Teve uma noite ruim? – ele perguntou, preocupado.
- Sim. Mas estou bem, só preciso de um cochilo e estarei renovada. – Eu sorri e ele pareceu desconfiado.
- Tem certeza? Você parece distante demais, seus olhos estão... Diferentes. Tem certeza de que está bem, ?
- Sim, , eu tenho. Como eu disse, só preciso de um cochilo e estarei renovada. – eu menti – Obrigada por se preocupar. – Ele sorriu e mexeu no meu cabelo.
- Sempre me preocuparei. – Eu sorri e ele deu um beijo no topo da minha cabeça. – Não deixe que se desvie do caminho... – nós rimos e ele se virou para voltar ao estúdio com os garotos e .
- Até mais, . – disse, abraçando-me inesperadamente.
- Até qualquer dia, . – e também me abraçaram rapidamente e por último ficou .
- Se cuida, baixinha. – Ele me abraçou forte e beijou o topo da minha cabeça.
- Não sou tão baixinha assim, ... Eu cresci, ok? – Eu bati nele e ri.
- Pra mim, continua a mesma baixinha de sempre... Até depois. – ele me deu um tapa no braço e saiu andando com o pessoal.
- Vamos, . – Ela assentiu, mas logo após o telefone dela tocou e ela saiu para atender, dizendo que seria “apenas um minutinho”.
Escorei-me na parede da pizzaria enquanto ela conversava no telefone. Fiquei observando as pessoas que entravam e saíam, sem ter nada melhor a fazer. Uma garota que aparentava seus vinte e cinco anos saiu da pizzaria e ficou a me olhar.
Tinha os cabelos pintados de ruivo que lhe batiam até a cintura. Usava uma maquiagem exagerada e um vestido jeans curto. Ela me encarou por um momento e caminhou até mim, sorrindo.
- ... Há quanto tempo! – ela me abraçou e eu continuei parada, sem me lembrar dela. – Não está me reconhecendo, ? – eu neguei – Sou eu, Melissa! Lembra-se de mim? A Mel? Nós dividíamos o quarto...
As lembranças começaram e voltar e rapidamente eu sabia quem era ela.
- Não... Não pode ser você, não pode... – repeti para mim mesma e para Melissa.
- Cara, eles não vão acreditar quando eu disser que te encontrei... Tem noção do que aconteceu depois que você fugiu? Sua irmã está morrendo de preocupação, e o Jason... Achei que ele ia matar alguém! Por Deus, , tem noção do estrago que causou lá?
- Fique longe de mim...
- Que isso, ! Você tem que voltar, vamos, posso te levar pra lá.
- FIQUE LONGE DE MIM! – Eu gritei, empurrando e correndo o mais rápido que podia em direção ao estacionamento.
Ela não podia ter me achado. Ela ia me levar embora... Ia me tirar de . Eu corri até chegar ao estacionamento e procurei o carro de . Agachei-me ao lado dele e comecei a chorar.
Não podia ser real. Ela não podia ter me achado.
Ouvi os passos abafados em minha direção e me encolhi mais, abraçando minhas pernas.
- , o que foi? – disse e logo ouvi uma exclamação assustada – Ai, meu Deus, o que aconteceu, ? Olha pra mim, , me diz o que aconteceu?
- Ela quer me levar embora, , não deixa ela me levar, por favor... – eu disse entre soluços.
- Quem quer te levar, ? Pra onde? Me diz o que está acontecendo para eu poder te ajudar... – Ela tentou levantar meu rosto e viu minha feição de completo pânico.
- Melissa! Ela quer me levar de volta... Você não entende? ELA QUE ME LEVAR DE VOLTA, por favor, , não deixa ela me tirar de vocês... – sentou-se ou meu lado e me abraçou.
- Ninguém vai te tirar de nós, eu te prometo. Não vou deixar ninguém te levar, eu te prometo, ... Respira fundo. Ninguém vai te levar.
- Você jura? – eu disse, enxugando as lágrimas.
- Te juro. – Ela pegou minha mão e se levantou. – Agora vamos pra casa, ok? – eu assenti e ela me levantou, abrindo a porta do carro.
Nós fomos todo o caminho em silêncio. Em pouco tempo eu parei de chorar e me acalmei. não ligou o som e não disse qualquer palavra até virarmos a esquina do apartamento.
- ... Quem é Melissa? – ela perguntou-me, quebrando o silêncio existente no carro.
- A mulher ruiva que estava conversando comigo. – fez uma careta e negou com a cabeça – Você não a viu?
- Não havia ninguém com você, . Você estava sozinha e começou a gritar “Me deixe em paz!”. Logo após você correu.
- Ela estava lá, , eu tenho certeza. – eu disse, escondendo o rosto nos braços, completamente em pânico, mais uma vez.
- Olha para mim, . – já havia estacionado o carro no nosso prédio e puxava cuidadosamente meu braço – Olha para mim, , agora... Por favor.
Eu levantei a cabeça e olhei dentro dos olhos dela. Meus olhos estavam marejados e cobertos de medo.
- Oh, . – ela disse, passando a mão pelos meus cabelos pretos e longos – Não havia ninguém lá...
- Ela estava lá, eu a vi, !
- Não há o que temer, eu juro que não havia ninguém lá. Eu te jurei que ninguém ia te levar embora, não jurei? – eu assenti – Pois, então, você acha que eu mentiria? Claro que não. Acalma-se, por favor.
- Tudo bem. Só me leva para casa. – Sussurrei.
Ela assentiu e saímos do carro. Pegamos o elevador até o nosso andar e assim que adentramos o apartamento, correu para cozinha para pegar um copo de água para mim. Ela me sentou no sofá e me fez beber todo o copo.
- Você precisa descansar. Vamos assistir TV, isso sempre me relaxa. – ela ligou a TV, nervosa, e deixou em um canal que reprisava um episódio antigo de Friends.
Deitei-me no sofá e acabei cochilando nos 10 primeiros minutos do programa, talvez por estar frágil e cansada.

END ’s POV

A garota dormia calmamente no sofá da sala, enquanto assistia a um programa qualquer. Seu celular tocou inesperadamente, fazendo-a pular do sofá para atender.
- Alô?
-? Sou eu, Math.”
- O que foi, Math? – Ela disse, com raiva. Não estava nem um pouco a fim de ter outra discussão com o namorado.
- “Eu estou aqui na Starbucks da esquina do seu apartamento... Não poderia dar um pulinho aqui?”
- Para fazer o que, exatamente?
- “As pazes. Não quero ficar brigado com você” ele disse, de uma forma doce e gentil.
- Te encontro em cinco minutos. – ela suspirou e desligou o telefone.
Ela pegou suas coisas e pouco antes de sair, lembrou-se da amiga que dormia no sofá da sala. Ela foi até e a acordou gentilmente.
- , vou ter que sair. Você fica bem sozinha? – ela sussurrou.
- Claro. – ela disse, sonolenta.
- Qualquer coisa me liga, tudo bem? Eu juro que não vou demorar. – Ela deu um beijo na testa da amiga e saiu apressada do apartamento.
esfregou os olhos e se levantou lentamente do sofá. Sua cabeça estava praticamente explodindo de tanta dor. Ela sabia que remédio nenhum faria a dor passar, então tentou se concentrar na televisão, que ainda estava ligada e exibia um filme qualquer.
Uma garota de cabelos pretos estava deitada em uma banheira, olhando fixo para o teto e segurando uma grande faca na mão. Ela deixou uma única lágrima cair e apertou a faca firme contra seu próprio pulso, cortando-o repetidas vezes.

“Eu sei que você gostaria de ser ela.”

desligou a TV rapidamente e se levantou do sofá.

“Não finja,

- Saia da minha cabeça. – Ela disse para o nada.
A voz soava profundamente familiar e parecia sussurrar coisas em seu ouvido. achou que estava enlouquecendo completamente. Ela apertou as mãos com força em seus ouvidos e rezou para que a voz cessasse.

“Está tentando fugir de mim? Isso é injusto. Estou apenas dizendo o que você já sabe...”

- SAI DA MINHA CABEÇA! - a garota pegou um jarro em cima da mesa de cabeceira e apertou com força contra sua própria cabeça, fazendo o jarro se quebrar em pedaço e machucando-se.

“Pare, não vê que só quero teu bem? Agora, responda-me, não querias fazer como a mulher do filme?”

- Não! Eu não quero me matar!

“É claro que quer. Não tente esconder de mim, eu sou você. Eu estou dentro da sua cabeça, sei cada detalhe da sua vida. Eu sei que você quer isso.”

- Eu não posso... Não posso fazer isso. - ela disse, chorando.

“Você deve.”

andou desesperada até a cozinha e abriu freneticamente todas as gavetas da cozinha, suas mãos tremiam e suas lágrimas escorriam cada vez mais avidamente.
Ela estava em um confronto consigo mesma. Ela já não sabia distinguir o que era real e o que não era. Não sabia o certo a fazer.
Ela pegou uma grande faca na terceira gaveta. Olhou para o seu reflexo nela e hesitou antes de voltar à sala. Ela podia ouvir novamente a voz em sua cabeça.

“Quase lá. Faça-o, .”

respirou fundo e pegou o telefone na mesa. Ela discou o número tão conhecido e aguardou enquanto ninguém atendia. Ela estava deitada no chão, sua camisa já molhada de lágrimas e em sua cabeça uma grande indecisão.
- Alô?
- ? - ela disse, a voz entrecortada por soluços.
- ? O que aconteceu? Você está bem?
- Eu sinto muito...
- Sente pelo que? O que está acontecendo? - ele disse, preocupado.
- Eu tentei, juro que tentei! Mas é mais forte que eu! Ela não para de mandar em mim! - ela passou a mão em seus cabelos, percebendo que estava sangrando, devido ao corte com o jarro.
- Por favor, me diz o que está acontecendo, ! Você está começando a me preocupar... - O garoto estava quase largando o telefone e correndo até o apartamento, para checar se ela estava bem.
- Eu tenho que te agradecer, . Você nunca desistiu de mim, mesmo quando até eu mesma tinha desistido. Mas agora eu... Não posso mais. Sinto muito.
- Não se atreva a fazer nada, ! Estou indo pra casa agora, por favor, não faça nada.
- Eu sinto muito. - ela disse, soluçando. - Eu te amo. - ela sussurrou, sem saber ao certo se ele tinha a ouvido.
Ela largou o telefone no chão, ainda escutando os gritos de , desesperado por saber o que estava se passando.

“Eu estava certa”

- Sim, você estava. Você ganhou. - apertou os olhos com força, deixando mais e mais lágrimas escorrerem por sua face.
Ela apertou a faca com força sobre o pulso esquerdo e a puxou. Pode ver o sangue vermelho escorrendo e logo o cheiro de ferrugem preencheu o ar ao seu redor. Sua mão tremia. Com dificuldade, ela fez o mesmo no outro pulso.
Ela estava perdendo sangue muito rápido. Jogou a faca para um lado e tombou a cabeça para trás. Antes de adormecer, ela ouviu uma voz sussurrar em seu ouvido, baixinho, para que só ela escutasse.

“Eu ganhei.”


Acho que o problema é comigo,
as pessoas me cansam,
me tiram as forças a tal ponto
que eu não consigo abandoná-las.
Eu aprendi a odiar as pessoas, mas ainda mais a mim.


- Autor Desconhecido



Capítulo 16
(She Falls Asleep - McFLY)


- Alô? - disse, logo ao atender ao telefone.
- ? - Ele pode perceber o tom de choro da voz de , o que o preocupou.
- ? O que aconteceu? Você está bem? - ele perguntou-a mais que depressa.

She falls asleep and all she thinks about is you
(Ela adormece e tudo que ela pensa é em você)
She falls asleep and all she dreams about is you
(Ela adormece e tudo com o que ela sonha é você)
When she's asleep the air she's breathing is for you
(Quando ela está adormecida, o ar que ela respira é por você)
Oh why she wants to live
(Você é o porquê dela viver)
She's not got that much more to give
(Ela já não tem mais tanto assim a oferecer)

- Eu sinto muito...
- Sente pelo que? O que está acontecendo? - ele disse, preocupado.
- Eu tentei, juro que tentei! Mas é mais forte que eu! Ela não para de mandar em mim!
- Por favor, me diz o que está acontecendo, ! Você está começando a me preocupar... - O garoto estava quase largando o telefone e correndo até o apartamento, para checar se ela estava bem.
- Eu tenho que te agradecer, . Você nunca desistiu de mim, mesmo quando até eu mesma tinha desistido. Mas agora eu... Não posso mais. Sinto muito.

She sits alone, on her phone
(Ela se senta sozinha, ao seu telefone)
And she's calling about a broken heart
(E ela está ligando sobre um coração partido)
And i don't know what i should say, cause she's crying
(Eu não sei o que deveria dizer, porque ela está chorando)
And feels as though she's thrown it all away
(E sente que mesmo que se ela jogar tudo fora)
She won't last another day
(Ela não durará mais nenhum dia)

- Não se atreva a fazer nada, ! Estou indo pra casa agora, por favor, não faça nada.
- Eu sinto muito. - ela disse, soluçando. - ele ouviu-a sussurrar algo baixinho, mas era inaudível.
- ? ? - O telefone ficou mudo, fazendo desesperar-se ainda mais.
desligou o telefone e saiu correndo do estúdio, sem nem explicar aos amigos o que estava ocorrendo. Seus olhos ardiam, só de pensar na simples ideia de alguma coisa de ruim ter acontecido com sua pequena .
Entrou no carro e acelerou o máximo que pode. Ele precisava ser rápido se quisesse chegar a tempo de ajudar, apesar de ele não saber ao certo o que era.
O que será que havia acontecido? Ele sentia o coração doer ao lembrar-se da voz dela ao telefone, fraca, triste, indefesa. Ele queria apenas estar ao lado dela e fazer toda a dor passar, qualquer que fosse, ele só queria abraçá-la e fazer tudo ficar bem. Aquela garota tinha chegado tão de repente em sua vida, mas ele sentia que não podia mais viver sequer um dia sem ela. O que seria de suas manhãs sem aquele sorriso para alegrá-las? E o prazer que lhe dava ouvir sua risada? O jeito com que ela apenas o abraçava, fazia-o ficar completamente... Apaixonado.
Sim, ele estava apaixonado por ela. Por mais que tivesse medo de admitir. Ele só não queria estragar tudo, deixando-a saber. Ele sabia que ela não sentia o mesmo, nem de longe. Quando eles se beijaram, ele se sentiu bem. Sentiu-se diferente, como se as coisas estivessem se encaixando. Quando ele a ajudou, nunca teve a intenção de se apaixonar por ela: Ele só queria fazer a coisa certa. Ele olhou naqueles olhos e só sentiu que deveria tentar ajudar. Ele nunca teve segundas intenções em seus atos. Mas assim que ele a conheceu, percebeu como ela podia ser a pessoa mais incrível do mundo.
Ele chegou ao prédio e, ao notar que o elevador demoraria a chegar, correu rapidamente pelas escadas, mas a cada passo, a escada parecia aumentar de tamanho.

You're climbing the stairs, unaware that she's hurting
(Você está subindo as escadas, sem saber que ela está machucada)
Bad and lying very still on the floor by the door
(Gravemente e deitada imóvel no chão à porta)
But it's locked and she was hoping
(Mas está trancada e ela estava esperando)
You would come back for more
(Que você fosse voltar por mais)
But it's too late to realize you've made mistakes
(Mas é tarde demais para perceber que você cometeu erros)

Ele chegou ao apartamento e bateu na porta, gritando pelo nome dela. Ele não tinha as chaves, tinha entregado-as à mais cedo. Ele bateu mais forte, e ao não ouvir ninguém respondendo, resolveu fazer algo para abri-la.
Ele deu alguns passos para trás e bateu o corpo com força na porta. Nada. Tentou mais algumas vezes, até que a porta se abriu com um baque alto e ele entrou correndo no apartamento.
- ? - ele gritou pelo nome dela, e não ouviu resposta.
Ele caminhou até a sala e percebeu algo atrás do sofá. Andou cuidadosamente até ele e se deparou com uma trilha de sangue, juntamente a uma faca.
- Ai, não, que merda! - ele gritou, com raiva. - ? - ele gritou de novo.
Logo ao dar mais alguns passos, avistou ,
Ela estava caída no chão, próxima à porta do quarto. Ele podia ver que seu corpo estava molhado pelo sangue e que seu rosto estava desvanecido, porém, acordado. Ele correu desesperado até ela e segurou-a em seus braços.
- ? Por favor, , fala comigo. O que você fez? - ela movimentou os lábios com dificuldade e abriu os grandes olhos .
- Eu só queria sentir de novo. - ela sussurrou, deixando algumas lágrimas escorrerem.
- Por que você fez isso, ? Eu achei que estava tudo bem, que você estava bem... Eu, eu... - ele também deixava as lágrimas escorrerem.
Ele nunca poderia deixar sua pequena ir embora. Nada, nem ninguém iam tirá-la dele.

She falls asleep and all she thinks about is you
(Ela adormece e tudo que ela pensa é em você)
She falls asleep and all she dreams about is you
(Ela adormece e tudo com o que ela sonha é você)
When she's asleep the air she's breathing is for you
(Quando ela está adormecida o ar que ela respira é por você)
Oh why she wants to live
(Você é o porquê dela viver)
She's not got that much more to give
(Ela já não tem mais tanto assim a oferecer)


Ele pegou o celular rapidamente no bolso e discou o número da emergência, e logo foi atendido.
- Eu preciso de uma ambulância imediatamente! O endereço é... - Ele passou o endereço e eles prometeram mandar a ambulância o mais rápido possível.
O desespero o sufocava cada vez mais. Ele via perder cada vez mais sangue e sua consciência indo – aos poucos – embora. Ele não a deixaria fechar os olhos de maneira alguma.
- Me prometa uma coisa. - ela sussurrou, sem forças.
- Qualquer coisa, , qualquer coisa. - Ele beijou a testa dela e ela sorriu.
- Promete que não vai embora.
- Eu não vou, nunca. - ele acariciou sua face e ela deixou outra lágrima escorrer.
- Você é a única razão...

Please save me
(Por favor, me salve)
I've been waiting
(Eu tenho esperado)
Been waiting for too long
(Tenho esperado por tempo demais)


- Por favor, nunca me deixe. Eu não quero uma vida sem você, já não tem sentido... - ela sussurrou novamente e ele beijou-lhe suavemente os lábios.
- Eu nunca, jamais vou sair do seu lado. Você me terá aqui para sempre. - ela sorriu e fechou os olhos lentamente.
Ela não tinha mais forças para dizer nada. Apenas moveu os lábios, sussurrando três palavras, apenas três palavras que fizeram o coração de bater de um jeito diferente. Mas talvez... Talvez ele apenas tivesse ouvido errado.

She falls asleep and all she thinks about is you
(Ela adormece e tudo que ela pensa é em você)
She falls asleep and all she dreams about is you
(Ela adormece e tudo com o que ela sonha é você)
When she's asleep the air she's breathing is for you
(Quando ela está adormecida, o ar que ela respira é por você)
Oh why she wants to live
(Você é o porquê dela viver)
She's not got that much more to give
(Ela já não tem mais tanto assim a oferecer)
Please, save me
(Por favor, me salve)
I've been waiting,
(Eu tenho esperado)


- Quando ela vai acordar?
- Ainda não sabemos. Ela perdeu muito sangue, tivemos que fazer uma transfusão, ela provavelmente ficará desacordada por um tempo.
podia ouvir vozes conversando, mas elas pareciam distantes. Ela nem sequer conseguia abrir seus olhos.
- Ela vai ficar bem, não vai? - ela pode reconhecer a voz de .
- Sim, com um pouco de descanso e cuidados, creio que ela ficará bem.
abriu os olhos devagar e logo viu e conversando com o médico no corredor. Ela fechou os olhos novamente e tentou se lembrar do que havia acontecido, ou de onde ela estava.
Ouviu passos entrando na sala e abriu os olhos novamente, tentando se sentar na cama.
- Hey, hey, calminha aí. - Ela ouviu dizer, deitando novamente. - Como se sente?
- Não muito bem. Na verdade, péssima. Onde estou?
- No hospital, dãh. - ele respondeu, rindo.
Ela reparou ao seu redor e viu que realmente estava no hospital. Olhou para os braços e viu duas ataduras enormes em seus punhos e se assustou. Ela não fazia a mínima do que estava acontecendo.
- O que aconteceu? - ela perguntou, assustada.
- Você tentou se matar hoje mais cedo. - dessa vez quem falou foi , que estava entrando na sala e se sentando ao lado dela, em uma cadeira.
- Eu não fiz isso... Fiz?
- Você não se lembra? - perguntou, assustado.
- A última coisa da qual eu me lembro ter feito foi de chegar em casa com e dormir. - ela coçou a cabeça com cuidado e pediu a que a ajudasse a se sentar. - Eu fiz merda, né?
- Das grandes. - ele respondeu rindo e ajudando-a a se sentar.
- Sinto muito. - ela sussurrou.
- Está tudo bem agora, você vai ficar bem. Nós todos vamos ficar. - Ele passou o braço pelo ombro dela e sorriu.
- Por favor, não faça isso de novo com a gente. - disse, dando um sorriso torto.
- Prometo não fazer. Obrigada por estarem sendo legais comigo. Na verdade, eu merecia uns tapas por ter sido tão estúpida... Sinto tanto, garotos. - ela disse, mordendo os lábios.
- Você fez uma grande merda, mas afinal, está tudo bem agora! Eu vou ali fora chamar a , ela está quase parindo um filho de preocupação. - disse rindo. Ele se levantou e saiu da sala em silêncio.
Por alguns segundos, o silêncio se instalou entre e . Um apenas olhava pro outro, sem saber ao certo o que dizer.
se perguntava se ele se lembrava da conversa que tinha tido com ela. Sim, desta parte ela se lembrava. Ela se lembrava de estar nos braços dele e ouvir tudo o que sempre sonhou. Mas ela tinha medo. Medo de que ele apenas tivesse dito aquilo porque ela estava morrendo.
- Você não se lembra de nada do que aconteceu mais cedo? - perguntou, receoso.
- Não. - ela mentiu.
- Não se lembra de ter dito nada pra mim?- ela negou e ele pareceu decepcionado.
- O que eu te disse, ?
- Nada. Nada que importe agora. – ela sentiu seu coração se partindo com aquelas palavras.
Como podia ter mentido para ele? Sim, ela se lembrava dessa parte. Lembrava-se de ele ter beijado seus lábios, do que a prometera. Ela só não queria que ele soubesse. Ela queria que aquela parte do dia também tivesse sido fruto de sua loucura, mas na verdade, foi provavelmente a parte mais sã do seu dia. Como ela podia ser tão estúpida? Tão... Masoquista? Ela estava tão apaixonada por ele, mas tinha tanto medo. Não queria estragar tudo. Mas, no fundo, queria poder dizer a ele como realmente se sentia, queria dizer que se lembrava das palavras dele, queria dizer que realmente o amava. Mas ela realmente não podia fazê-lo. Era errado tentar ficar com ele e nada mudaria esta triste verdade. Eles eram de dois mundos completamente diferentes. Eles eram o oposto um do outro. Se o mundo fosse certo, eles nem teriam se conhecido, para começar.
ficou calada. Ela se lembrava dessa parte. Quer dizer, pelo menos de ter ouvido dizer que a amava. E de ele ter a beijado. Ela apenas suspirou e viu correr para abraçá-la.
- Eu nunca mais vou te deixar sozinha. - ela disse, com raiva – Eu ia me sentir culpada pra sempre se alguma coisa tivesse te acontecido, ! Por favor, não faça mais isso.
- Sinto muito, . De verdade. - sorriu e se sentou.
- Vou deixar as duas sozinhas. – disse, levantando-se e deixando a sala em silêncio.
- Precisamos conversar. - ela disse, séria.
- Sobre? - perguntou com medo.
- Você. Você precisa de ajuda, . - olhou para o outro lado, com medo de encarar .
- O que você quer dizer com “precisa de ajuda”? – ela perguntou receosa.
- Nós duas sabemos o que está acontecendo aqui. As alucinações, perda de memória, psicose. Você está tendo crises de abstinência, .
- Você não sabe do que está falando.
- Sim, eu sei. – ela suspirou – Você não pode continuar assim. Se dessa vez você despedaçou completamente seus pulsos, imagina da próxima vez? E se você pular do telhado, ou algo assim? Não vai ter sempre alguém por perto pra te salvar, , você teve sorte dessa vez, mas quem garante que terá nas próximas? Não vai ter volta, .
- Eu não vou fazer nada disso, , para.
- Não posso parar! Você não entende, ? Isso é sério. Você não tem consciência do que faz quando está no meio de uma crise, você pode fazer qualquer coisa! Eu me importo com você, . – apenas fechou os olhos e ficou calada – Não é só sobre você, . Pare de ser tão egoísta! É sobre mim, sobre , ... Sua irmã! Até , , e Joanna, que já gostam de você! Imagina se acontecer algo com você, como vamos ficar? Você é parte da nossa vida agora.
- É um erro. – ela sussurrou. – Foi um erro ter entrado na vida de vocês. Eu não devia ter ficado, deveria ter indo embora assim que tive chance. Estou estragando tudo.
- Você não está estragando nada. Você só faz a gente mais feliz. A gente te ama, , só queremos o seu bem, não entende?
- Eu sinto que só estou estragando tudo. Não quero estragar tudo. – limpou as lágrimas que começaram a escorrer do rosto da garota e a abraçou.
- Você não vai estragar nada, .
- Eu já estou estragando tudo.
- Não, não está. Por que pensa assim?
- Porque eu só estrago tudo cada vez mais, a cada vez que eu me apaixono mais pelo seu irmão, eu só estrago tudo cada vez mais, à medida que me importo. – soltou uma exclamação surpresa, mas logo tampou sua própria boca.
- Eu sabia. Sabia que tinha algo a mais entre vocês!
- Não tem nada entre nós. Sou só eu que gosto dele. – disse sem graça e olhou, incrédula.
- Vamos deixar esse assunto para outro dia. Mas ainda tenho minhas dúvidas. E aí, qual é a sua resposta?
- Sobre o que?
- Ajuda. – pensou por alguns minutos antes de responder.
- Acho que... Sim. Eu realmente preciso ajuda. – Ela disse séria.

Dias Depois...

- Por favor, não tire essas faixas ou eu serei obrigada e te dar uns bons tapas, . – disse, com uma cara de nojo. – Os machucados devem estar bem feios.
- Olha, , eu tenho que trocar os curativos de qualquer forma, então sai daqui, horas. Ninguém te pediu pra olhar, pediu? – disse, com raiva. – Anda, sai daqui, . – Ela disse, fazendo um sinal com as mãos, indicando a porta do banheiro.
- Eu te odeio. – Ela riu e mostrou a língua, saindo do banheiro.
teve alta do hospital na sexta, ou seja, ficou no hospital por cinco dias. Longos cinco dias. e passavam o dia com ela e os garotos vinham à noite, após o trabalho. Sempre tão amorosos, tratavam-na como se fosse da família.
Ela retirou as faixas com cuidado e colocou-as em cima da bancada da pia. Lavou os machucados rapidamente e com cuidado, para logo após pegar faixas novas e fazer o curativo nos machucados. Ela ouviu o barulho de passos entrando no banheiro e reconheceu a familiar voz de .
- Como conseguiu ficar tanto tempo inconsciente a ponto de fazer isso? Está realmente feio, . – Ele disse baixinho.
- Na verdade, eu não sei. Mas eu não me lembro de sentir alguma dor... Eu só lembro de alguns flashes, não lembro de tudo que me aconteceu naquele dia. – Ela disse, concentrando-se nos curativos.
- Quer ajuda? – Ele perguntou ao perceber que ela estava tendo problemas com a faixa. Ela sorriu e ele a ajudou a terminar o curativo em silêncio.
- Obrigada. – Ela sussurrou, sorrindo e ele retribuiu o sorriso.
- Tenho que ir até a casa do . Não se preocupe, a vai manter os olhos em você. – Ele riu e acariciou o rosto de , que sorriu de volta e viu se afastar em direção à porta.
Ela terminou de refazer os curativos e voltou para o seu quarto, encontrando sentada na cama segurando uma toalha e algumas roupas. se levantou e sorriu, indo em direção ao banheiro.
- Vou tomar um banho. Tranquei as janelas e, é claro, escondi as facas. Não se preocupe, está segura. – Ela riu, mas parecia um tanto quanto séria – A porta do banheiro está aberta e só vou levar cinco minutos. – Ela entrou no banheiro e sorriu, indo para a sala.
Ela sentou-se no sofá e ficou olhando o teto por alguns segundos, sem ter certeza de seu próximo passo. Ela estava assustada, insegura e indefesa. Há alguns dias atrás tinha ligado para algumas clínicas de reabilitação - segundo ela e suas fontes, as melhores da região -, havia visitado e escolhido uma. O nome era Live & Breathe, se ela não se enganava. Ela estava insegura quanto a isso, ela tinha medo. Ela ia se afastar de , e ela não sabia se conseguiria ficar sem ele por tanto tempo. E se ele desistisse dela? E se ele a abandonasse lá? E se não quisesse mais vê-la? E se não quisesse mais nada com ela?
Bem, na verdade, eles não tinham nada. sabia que o “relacionamento” dos dois era apenas coisa da cabeça dela. Eles não tinham nada. Ele nunca ia querer alguém como ela. Mas ela não conseguia tirar da cabeça as palavras dele “Eu nunca, jamais vou sair do seu lado. Você me terá aqui para sempre.”. Ela queria que aquilo fosse verdade, que ele tivesse falado sério. Ela sabia que era só pelo embalo do momento, ele pensou que ela ia morrer, por isso disse aquelas coisas. Naquele momento, mais que tudo, ela queria que fosse real. Que o relacionamento deles fosse real.
Ela queria poder construir uma vida com ele. Queria poder beijar-lhe os lábios e sorrir após, e ter a certeza de estar tão completa como jamais fora antes. Ela queria ficar nos braços dele e jamais ir embora. Queria deixar tudo pra trás e recomeçar, queria conseguir esquecer tudo.
Ela se assustou ao ouvir o barulho da porta do apartamento sendo aberta e se levantou de repente. O que ela viu foi, no mínimo, estranho. Uma mulher de cabelos curtos e loiros havia entrado no apartamento e a olhava confusa, o que a lembrou do dia em que conheceu .
A mulher era alta e tinha os cabelos castanhos com luzes bem claras. Seu cabelo era bem curto e ela tinha a pele morena. Usava roupas que pareciam ser caras e trazia na mão uma revista. Ela parecia estar furiosa com algo ou alguém, e logo veio em direção à .
- Onde o está? – ela perguntou com raiva, sem sequer se apresentar.
- O saiu, ele foi à casa de um amigo. Um momento, quem é você e como entrou aqui? – A mulher riu sarcástica e balançou uma chave presa em um chaveiro.
- Por acaso, eu tenho as chaves daqui... – ela colocou as chaves no bolso, olhou e deu uma risada sarcástica para – Quem sou? Meu nome é Wanessa, e eu sou a namorada do . – O primeiro sentimento de foi susto. O segundo, dor. Ela não sabia o que dizer ou falar perante aquela alegação. – Não acredita? Então, olhe isso. – ela estendeu a mão e mostrou à uma aliança prateada com uma enorme pedra no meio. – ME deu esse anel quando oficializamos nosso namoro. Não que isso seja da sua conta... Aliás, quem é você? – continuou parada, sem entender o que estava acontecendo.
Namorada? nunca mencionou uma namorada. Nem sequer . Em todo esse tempo que esteve na casa de , nunca tinha visto ou ouvido falar naquela mulher. Ela se sentiu partida. Sentiu-se atordoada, sentiu-se traída. Não conseguia sequer lembrar de que poucos minutos antes, estava imaginando sobre a possibilidade de um futuro com .
- Alô? Você aí, está me ouvindo? Quem, diabos, é você e o que está fazendo na casa do meu namorado? – acordou de seu transe.
- Não te interessa. Não te interessa quem eu sou. – ela respondeu apenas, dando as costas para a mulher e indo em direção ao banheiro onde estava, no quarto de cima.
- Peraí, você... Você é ela! – a mulher jogou a revista no sofá – uma revista adolescente -, logo na frente de , para que ela visse a notícia em destaque. agarrou a revista.
- Por que eu estou em uma revista de fofoca adolescente?
- Leia. – ela disse, apenas e fez o que ela mandava.

“Astro do rock é flagrado com nova peguete.”

“O músico , 23, foi flagrado nessa sexta-feira saindo do hospital com uma garota diferente das outras com as quais ele já saiu antes. Será que nosso McFLY preferido arrumou uma nova paixão?
A escolhida da vez foi , 17, que não é ninguém mais ninguém menos do que... Bem, do que ninguém. Depois de uma investigação minuciosa sobre seu passado e sua vida, a equipe da AstroTeen descobriu que a nova escolhida de é – ou pelo menos, era – uma prostituta. Uma viciada em drogas que faz de tudo pra conseguir a próxima dose. Será que ela está apenas enganando para conseguir dinheiro?
Quais são as intenções dela com ele? E o mais importante: Quais são as intenções dele com ela?
Fique ligada aqui na AstroTeen para mais informações!

XOXO, Kate Jenkins.”

ficou boquiaberta e deixou a revista cair no chão. Olhou para Wanessa, que tinha um sorriso cínico e ao mesmo tempo raivoso. Ela deu um passo em direção à , que recuou, já com os olhos cheios de lágrimas.
- Escuta aqui, sua prostituta de merda, se afaste do meu , entendeu? Fique longe. Ele me ama, e apenas a mim. Eu não sei o que está acontecendo, que joguinho é esse que vocês estão jogando, mas seja qual for, é hora do Game Over. – abriu a boca pra falar algo, mas Wanessa foi mais rápida – Você já estragou a vida dele o suficiente, não acabe de estragar.
- Você não sabe o que está falando. – sussurrou, apenas, com os olhos cheios de lágrimas.
- Não sei? – ela riu e olhou para o rosto de por alguns segundos – Oh, meu Deus... Você está apaixonada por ele, é verdade, não é? – não disse nada, seu silêncio foi considerado como um sim. – Você só precisa entender uma coisa, : me ama. Sim, nós brigamos às vezes, nossa relação não é perfeita. Ele sempre fica com raiva e vai procurar outra, só pra tentar fazer ciúmes em mim... Mas, entenda, no final do dia... É sempre pra mim que ele volta. Quando as coisas dão errado, é nos meus braços que ele vem procurar abrigo. Não importa se você está apaixonada por ele. Para ele, sou só eu, e sempre vai ser. – sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto e mais uma vez a risada sarcástica de Wanessa tomou a sala.
- Por favor, pare. Vai embora.
- Eu não vou embora, é você quem vai. Eu tenho as chaves daqui, ou seja, eu sou bem-vinda aqui. Ao contrário de você. Eu não sei o que deu no para fazer isso, pra trazer você pra cá, ele só pode estar doido em trazer uma prostituta pra morar em sua... – a fala dela foi interrompida por uma terceira voz na sala.
- Wanessa? O que você está fazendo aqui? – entrou na sala, assustada, indo até elas. – O que, diabos, está acontecendo aqui?
- ? Você sabia de tudo isso? COMO DEIXOU SEU IRMÃO TRAZER UMA PROSTITUTA PRA CASA? – ela gritou com raiva e quase avançou em cima dela.
- ELA NÃO É UMA PROSTITUTA, E NÃO OUSE GRITAR COMIGO DENTRO DA MINHA PRÓPRIA CASA, WANESSA! - gritou, ainda mais alto.
- Você não sabe? – ela perguntou à e depois se virou para – Você não contou a eles? Oh, Deus... Não contou aos seus amiguinhos que você era uma prostituta? – ficou calada e apenas olhou pra baixo, irrompendo novamente em lágrimas. – Você a conhece tão bem que nem...
- CALA A BOCA! CALA ESSA MALDITA BOCA! – gritou. e Wanessa a encararam, assustadas, até que ela soluçou e saiu correndo do apartamento, descendo as escadas do prédio.


Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar.
Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente.
O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar.
Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja.
Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem,
e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.


- Clarice Lispector



Capítulo 17

(Therapy - All Time Low)


desceu as escadas do prédio correndo e apenas deixou que suas pernas a guiassem a qualquer lugar que fosse longe dali. Longe de tudo.
Ela sentia seu coração pulsando forte, latejando de dor a cada batida. Era como se algo a rasgasse, novamente, de dentro para fora. Era como perder os sentidos. Por um segundo, apenas um segundo, antes daquela mulher – Wanessa – aparecer, uma parte dela chegou a pensar que talvez ela e pudessem ter um futuro juntos. Que ele pudesse curá-la, fazê-la sorrir... Que ela pudesse fazê-lo sorrir também.
Ela chegou até uma praça praticamente vazia, vazia o suficiente para que ninguém se importasse com seus olhos vermelhos e as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Ela se aproximou de um laguinho que havia no fim da praça e respirou fundo, olhando para o horizonte.
Estava tudo tão errado, tudo doía tanto. Ela sentiu o chão debaixo de seus pés sumir e logo seu corpo estava no chão. Ela se sentou e abraçou as pernas, olhando para o lago sem expressão alguma.
Ela estava cansada, simplesmente cansada de tudo isso. Era coisa demais, em pouco tempo, demais para ela dar conta. As desgraças de sua vida não tinham sequer intervalo para que ela pudesse descansar um pouco. Não, ela tinha sempre que sofrer. Era sempre assim. A vida não lhe dava descanso.
Seu coração sangrava e doía cada vez mais ao pensar em um simples fato: a usou. Esse tempo todo, ele apenas se aproveitou dela para fazer ciúmes em Wanessa. Como ele podia ter sido tão idiota? “Ele não tinha o direito de brincar com os meus sentimentos desse jeito”, pensou. Ele despertou a confiança dela para apenas magoá-la mais ainda, para apenas abrir mais um buraco em um coração que parecia um campo de guerra. Ela não sabia quantas vezes mais seu coração podia ser partido sem parar de bater. Ela não sabia mais quanto tempo ela podia respirar sem sentir aquela dor que a tomava por inteiro, que tirava seus sentidos, seus sorrisos. Ela não sabia mais se queria viver.

[Coloque a música para tocar]

Talvez seu subconsciente estivesse certo. Talvez aquela voz que sempre ecoava em sua cabeça, repetindo para que desistisse, que tirasse sua própria vida, talvez essa voz estivesse certa. concluiu que não havia nascido para ser feliz. Ela só queria esquecer. Só queria ir embora e deixar tudo pra trás.

My ship went down
(Meu navio afundou)
In a sea of sound
(Em um oceano sem som)
When I woke up alone
(Quando eu acordei sozinho)
I had everything
(Eu tinha tudo)
A handful of moments
(Uma porção de momentos)
I wished I could change
(Eu desejei poder mudar)
and a tounge like a nightmare
(E uma língua como um pesadelo)
That cut like a blade
(Que cortou como uma lâmina)


- Posso me sentar com você? – ouviu a última voz que queria ouvir no mundo falar baixinho. Ela negou com a cabeça.
- Vá embora, . – ela disse, apenas, sem olhá-lo.

O garoto sentou ao seu lado e permaneceu em silêncio, fitando o horizonte ao lado dela.
A única coisa que ela conseguia pensar era no que Wanessa lhe disse:

“Mas, entenda, no final do dia... É sempre pra mim que ele volta. Quando as coisas dão errado, é nos meus braços que ele vem procurar abrigo.”

In a city of fools
(Em ma cidade de idiotas)
I was careful and cool
(Eu era cuidadosa e legal)
but they tore me apart like a hurricane
(Mas eles me destruíram como um furacão)
A handful of moments
(E uma porção de momentos)
I wished I could change
(Eu desejei poder mudar)
but I was carried away
(Mas eu segui a onda)


- Eu posso pelo menos me explicar? – ele sussurrou.
- Você não tem o que explicar. – ela continuou em silêncio.
- Sim, eu tenho. E se você me der uma chance, eu prometo que vai valer apena gastar seu tempo me ouvindo. – continuou em silêncio. Ela gostaria de ouvi-lo falar. Gostaria de saber que era tudo mentira, que ele a amava...

Mas, infelizmente, a vida real não é um conto de fadas.

- Wanessa não é minha namorada... Ela é minha ex-namorada.

Give me therapy
(Preciso de terapia)
I'm a walking travesty
(Sou uma farsa ambulante)
But I'm smiling at everything
(mas estou rindo de tudo)
Therapy, you were never a friend to me
(Terapia. Você nunca foi um amigo pra mim)
and you can keep all your misery
(E você pode manter toda a sua idiotice)


- Eu não fazia ideia de que ela ainda tinha aquelas chaves, ou aquele anel. Nós terminamos há tipo, quase oito meses. Eu não a vejo desde que terminamos, eu nem sequer lembrava da existência daquela mulher.
- Por que está me dizendo tudo isso, ? – ela se virou pra ele, pela primeira vez, e olhou no fundo daqueles olhos tão – Você não me deve nenhuma satisfação. Não é da minha conta se você está ou não com ela. – ela se virou de novo para o outro lado, mas ele segurou o rosto dela, fazendo com que ela continuasse olhando em seus olhos.
- Estou te dizendo tudo isso porque eu me importo. Porque eu sei que você se importa. E porque eu preciso que você saiba que não existe algo entre mim e Wanessa. Não mais... O que houve entre nós, foi há muito tempo, tempo o suficiente para que eu não me importe mais. – ela deixou algumas lágrimas escorrerem e ele usou seu dedão para secá-las.
- Você não pode fazer isso, você não entende? Ela estava certa! Wanessa está certa. Eu não posso fazer isso, . Não posso destruir sua vida... Você viu aquela revista? Viu o que dizia sobre você? Sobre nós? Não existe nada entre nós, mas se as pessoas pensarem que existe... Vai estragar tudo, . Vai arruinar sua vida, sua carreira, eu não ia suportar te ver perdendo tudo por minha causa, por causa de algo que sequer existe, eu não... – as palavras dela foram interrompidas por um par de lábios macios que se uniram ao seus sem sequer ela ter cogitado essa hipótese.

My lungs gave out
(Meus pulmões não aguentaram)
as I faced the crowd
(Enquanto eu olhava a multidão)
I think that keeping this up can be dangerous
(Eu acho que manter isso pode ser perigoso)
I'm flesh and bone
(Eu sou carne e osso)
I'm a rolling stone
(Eu sou inconstante)
And the experts say I'm delirious
(E os médicos dizem que eu sou louco)


Os lábios de pressionaram os de suavemente e ela sentiu seu corpo formigar. Desde a ponta dos pés até o último fio de cabelo, seu corpo estava entorpecido, tudo por causa daqueles doces lábios que há tanto tempo ela desejava que se unissem aos seus. A língua dele contornou suavemente sua boca, pedindo passagem, que ela cedeu sem pensar duas vezes. Suas línguas se encontraram, fazendo mais uma vez o corpo dela se arrepiar e mergulhar em sensações que ela mesma havia se privado por tanto tempo. Ela se sentia viva de novo. Suas línguas se acariciavam e jogavam um jogo de esconde-esconde, provocando os mais diversos sentimentos um no outro. Ela se sentiu tão completa, tão bem. Talvez fosse um erro... Sim, era um erro, o melhor de todos os erros: Se apaixonar perdidamente por .
Ele afastou lentamente seu rosto do dele e fixou seu olhar naqueles olhos tão profundos. Ela respirou fundo e ainda podia sentir o doce hálito de perto de sua boca.

Give me therapy
(Preciso de terapia)
I'm a walking travesty
(Sou uma farsa ambulante)
But I'm smiling at everything
(mas estou rindo de tudo)
Therapy, you were never a friend to me
(Terapia. Você nunca foi um amigo pra mim)
and you can keep all your misery
(E você pode manter toda a sua idiotice)


- Eu não me importo para o que as revistas dizem, não me importo para o que as pessoas dizem. A única coisa que me importa é você. Eu sei quem você é, e eu sei o que sinto por você, e também sei que nada nesse mundo e nem ninguém vai mudar o que eu sinto.

Arrogant boy
(Garoto arrogante)
love yourself so no one has to
(Ame a si mesmo para ninguém precisar amar)
They're better off without you
(Eles estão melhores sem você)
Arrogant boy
(Garoto arrogante)
Cause a scene like you’re supposed to
(Faça drama como costuma fazer)
They'll fall asleep without you
(Eles vão dormir sem você)
You're lucky if your memory remains
(Você terá sorte se lembrarem de você)


- É errado... – ela insistiu.
- Então, diga. Me diga que não sente o mesmo. Que não sentiu nada ao me beijar. Que não quis aquilo.
- Eu... Eu não posso. Eu não posso dizer isso. Mas também não posso te amar, , eu sinto muito, eu... – ela já caía aos prantos de novo e puxou o corpo dela para si, aconchegando-a em seu peito.
- Você precisa esquecer o passado e se concentrar mais no presente. Você precisa de um novo começo... E tenho a certeza de que eu estarei aqui em cada segundo desse recomeço. – ele passava a mão delicadamente nos cabelos dela enquanto ela chorava.
- Eu só preciso saber uma coisa.
- Pergunte.
- Por quê? Por que me salvou? Por que fez “o que era certo”? Ninguém normal pega uma drogada qualquer na rua e a coloca dentro de casa... – ela ouviu-o suspirar – Por favor.
- Tudo começou no colegial. Eu estava no segundo ano e tinha minha melhor amiga. O nome dela era Carolyne. – ele sorriu – Uma das garotas mais lindas que já conheci, e também uma das mais bondosas. Ela tinha os cabelos pretos e longos, batiam na cintura e tinha os olhos mais que eu já havia visto em todo a minha vida até... Bem, até eu te conhecer. Ela era incrível. Ela era órfã, foi criada pela tia, que na verdade nunca a deu tanta atenção. No segundo ano, ela ficou diferente; Ela começou a se envolver com as pessoas erradas, começou a agir diferente. Ela mudou tanto que, em pouco tempo, eu não tinha mais a minha Carolyne. Um dia eu fui procurá-la depois da aula e achei atrás da arquibancada da escola... Cheirando cocaína. Ela estava louca, completamente fora de si. Ela não conseguia manter uma conversa comigo por mais de cinco minutos. Passaram-se meses, e ela só se afastou casa vez mais, e se afundou mais no vício... – o ouviu suspirar de novo.
- O que aconteceu com ela? – ela perguntou baixinho.
- Está enterrada no cemitério municipal.
- Sinto muito.
- Ela teve uma overdose. Depois daquele dia, as coisas mudaram, sabe? Eu comecei a pensar que era minha culpa... Ela ter morrido.
- Não foi sua culpa. – segurava a mão dele, que ela acariciava com a ponta dos dedos.
- Eu sei que não, mas de alguma forma eu sabia que se eu tivesse me importado mais, ela talvez ainda estivesse aqui. Se eu tivesse a ajudado, ela não teria se entupido de drogas até ter uma overdose. Eu queria ter sido o anjo dela. Queria poder tê-la salvado. – ele ficou em silêncio por alguns minutos e depois voltou a falar – Quando eu te achei naquela noite, a primeira coisa que eu vi foram seus olhos. Eram tão , iguais aos de Carolyne. Eu sabia que não era ela, minha Carolyne estava morta, e ela jamais voltaria, mas quando eu olhei dentro dos seus olhos, eu percebi que eu não poderia ajudar Carolyne mais, ela já se fora pra sempre, mas eu ainda tinha a chance de ajudar alguém...
- Eu sinto muito por você tê-la perdido. – sussurrou.
- Eu também. – ela se aconchegou mais ao peito dele e inalou um pouco daquele cheiro viciante que tinha. – Sabe, ... Você sempre diz que não pode amar, que não vai encontrar o amor. Mas talvez, ele esteja apenas esperando que você o deixe te encontrar. – Ela se virou para ele e olhou dentro dos olhos dele mais uma vez.
- Eu não sei o que fazer.

Give me therapy
(Preciso de terapia)
I'm a walking travesty
(Sou uma farsa ambulante)
But I'm smiling at everything
(mas estou rindo de tudo)
Therapy, you were never a friend to me
(Terapia. Você nunca foi um amigo pra mim)
and you can keep all your misery
(E você pode manter toda a sua idiotice)
Therapy
(Terapia)
I'm a walking travesty
(Sou uma farsa ambulante)
But I'm smiling at everything
(mas estou rindo de tudo)
Therapy you were never a friend to me
(Terapia. Você nunca foi um amigo pra mim)
and you can choke on your misery
(E você pode manter toda a sua idiotice)


- Você não precisa saber. Seu coração já sabe por você. – ele disse e colou os lábios mais uma vez nos dela, fazendo tudo parecer completo.

Foi há muito tempo,
mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito
do passado, essa história de que podemos enterrá-lo.
Porque, de um jeito ou de outro,
ele sempre consegue escapar.


- O Caçador de Pipas



Continua....




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