Fanboy
Autora: Lumaa || Beta-reader: Brille

- Capítulo 01:
      Encarei o meio sorriso que eu conhecia perfeitamente bem. Era incrível como ela me atraía. Era impressionante como ela fica extremamente sedutora com apenas aquele sorriso. Uma palavra para defini-la? Fogo. É... Fogo: é isso o que é. Sem mais. Um fogo inimaginavelmente sedutor e eletrizante, que atrai qualquer um com sua beleza e charme e o queima com sua sensualidade e presença. Não que eu já tenha namorado, ficado ou transado com ela. Não... Eu sequer a conheço!

      é apenas meu sonho de consumo; a mulher por quem eu venderia a minha mãe para ter. Não, não sou um estudante loser apaixonado pela menina mais foda da escola, até porque eu não estava nem mais na escola! E, bem... Nem quando eu estudava, eu era um loser. Nunca fui. Mas era como se fosse. Era assim que eu me sentia. Um loser do High School. Pelo menos, era assim como ela me fazia sentir. Repito: não conheço , nunca tive a oportunidade, infelizmente. Então, não há como me sentir como um loser de High School intimidado pela garota linda, inteligente, alegre e popular... Certo, little brother? Certo.

      Vou deixar de confundir sua cabeça e contar a história toda, little brother. Meu nome é , tenho 25 anos, moro em Londres e tenho uma banda que vai muito bem-obrigado chamada Busted. Somos bem famosos aqui pela Inglaterra. Ou seja, eu tenho tudo: dinheiro, fama e mulheres. O que eu mais poderia querer, não é mesmo? Eu queria . Não sei por que ela tem esse efeito em mim, ou como isso acontece, já que não nos conhecemos, mas eu sei que acontece. Bem... Acho justo apresentar minha musa inspiradora antes de falar como me sinto em relação a ela.

      é a guitarrista e vocalista de uma banda daqui, Buckcherry. Ela também é famosa, o que torna o fato de não nos conhecermos, nem nunca termos esbarrado um no outro por aí, mais intrigante ainda. O sorriso dela me é conhecido por causa das inúmeras fotos dela que eu já havia visto. Mas agora eu tinha uma coisa melhor: um pôster com uma foto dela, de dois metros de altura. Cortesia do Fletch.

      Uma semana atrás foi aniversário de oito anos da Busted, e resolvemos dar uma festa de arromba para comemorar, até porque não é para qualquer um passar por tanta coisa com os melhores amigos e não se separarem, e, ainda, chegar onde chegamos. Como presente, Fletch nos deu três pôsteres: um de Luma, outro de e outro de para mim, e , respectivamente. Pulamos de alegria, gritamos, o abraçamos e o beijamos, agradecendo. Pois é, três bichas.

      O engraçado da história toda é que somos famosos e, ainda assim, fãs de uma banda cujas integrantes têm nossa idade. Normalmente, não é assim, o “normal” para os famosos, é idolatrar bandas mais antigas, anteriores às deles, como Rolling Stones, Beatles, Kiss, Sex Pistols, The Clash, e assim vai eternamente. Enfim, além de ser fã dela, tenho os quatro pneus, mais estepe, carroceria ou qualquer parte integrante de um automóvel, arriados por ela. E, pior: é platônico.       Foi imaginando situações e momentos com ela que compus alguns dos maiores sucessos do Busted. É estúpido, eu sei. E gay também. Mas, simplesmente, não posso evitar. Esse platonismo, a porra toda, me irrita às vezes. Me faz sentir idiota, me faz sentir como se eu fosse o maior loser da escola, apaixonadinho, sem ter coragem de falar com a menina dos sonhos dele. Mas eu já te disse isso, little brother. Eu não tenho certeza de que me sentiria assim com ela, até porque (infelizmente), como já mencionei aqui umas três vezes, nunca estive com ela para confirmar, mas era exatamente assim como eu imaginava que seria.

- Capítulo 02:

Foi imaginando situações e momentos com ela que compus alguns dos maiores sucessos do Busted. É estúpido, eu sei. E gay também. Mas, simplesmente, não posso evitar. Esse platonismo, a porra toda, me irrita às vezes. Me faz sentir idiota, me faz sentir como se eu fosse o maior loser da escola, apaixonadinho, sem ter coragem de falar com a menina dos sonhos dele. Mas eu já te disse isso, little brother. Eu não tenho certeza de que me sentiria assim com ela, até porque (infelizmente), como já mencionei aqui umas três vezes, nunca estive com ela para confirmar, mas era exatamente assim como eu imaginava que seria.

Eu provavelmente perderia a fala e, quando me forçasse a dizer alguma coisa, eu começaria a gaguejar; é o que eu faço quando estou nervoso. Então, eu ficaria mais nervoso ainda, o que iria me fazer passar as mãos freneticamente pelos cabelos e, logo depois, eu ficaria tão vermelho quanto um tomate. Provavelmente, a cena mais idiota que ela veria na vida inteira.

Tinha uma semana inteira que eu me deitava todos os dias à tarde, depois do almoço, na minha cama, e ficava encarando aquela porra de pôster. Uma maldita semana! Aquela merda de amor platônico tinha piorado, e muito, depois que coloquei aquela bosta de pôster no meu quarto.

- Estou começando a me arrepender de ter aceitado o seu presente, Fletch. – Pensei alto, falando sozinho.
E, agora, você deve estar se perguntando: “Se vocês vivem na mesma cidade, os dois são famosos, não deveriam se conhecer?” Ou então: “E por que você ainda não foi a um show da banda dela, ?” Destino. Esse filho da puta tem sido muito escroto comigo, desde sempre em qualquer coisa relacionada a . Sempre que havia uma festa ou show, algum evento onde eu poderia conhecê-la, algum compromisso pessoal ou profissional atrapalhava. Shows em outras cidades, entrevistas, festas, reuniões de família... Uma vez eu fui obrigado a sair de Londres até a casa dos meus pais porque a porra do peixe dourado da minha mãe morreu e ela me queria no funeral! Vão conseguir encontrar uma solução para a porra do aquecimento global, eu leio a Bíblia trinta vezes, nasce e morre OUTRO Messias e eu não vou para a porra do show delas! O que me conforta é saber que e entendem minha dor, né. Eles também são fãs delas, mesmo que não sejam (segundo Matt) tão “psicopatas, obcecados, apaixonados e fissurados” quanto eu.

Despertei dos meus devaneios quando ouvi gritar como se estivesse sendo estuprado. Aquela bicha gritava meu nome com tanta urgência que me levantei num pulo e saí correndo, tropeçando em objetos aleatórios jogados no chão:

- MAS QUE MERDA É ESSA, DUDE? – Gritei desesperado, descendo as escadas o mais rápido possível. – Tá sendo estuprado, porra?
- Olha, dude! – apontava a televisão – Elas vão fazer um show!
A notícia me fez encarar a TV, paralizado. Era ela, linda e sexy como sempre, gargalhando de alguma piada que ela havia feito. Sexy o tempo todo, principalmente quando ela quer; divertida e perfeita também. Impossível evitar um sorriso.
- Por que o nome da nova música é “Crazy Bitch”? – O apresentador perguntou.
- A música fala sobre um relacionamento baseado em sexo, sem sentimento algum... – respondeu. – Vocês vão entender quando escutarem!
- Quero deixar bem claro aqui, em rede nacional, que nem eu, nem temos nada a ver com essa música. – riu e fez um high five com .
- Músicas sexuais e que envolvem drogas geralmente são escritas por ela! – entregou.
- Não esqueçam que vocês também ajudam, ok? – fingiu reclamar.
- Por que você gosta tanto de escrever sobre drogas e sexo, ? – O apresentador perguntou.
- Não sei por quê o assunto da sexualidade me interessa tanto. Acho que é porque, mesmo com toda essa tecnologia e informação, as pessoas ainda encaram o sexo como um tabu.
- Mas você não encara assim. – olhou pra ela, que riu.
- Até porque ela faz sexo, né... – ajudou a trollar.
- E muito. – completou, rindo junto com e .
- Quanto às drogas, não é que eu esteja fazendo apologia a elas... – ela falou rapidamente, antes que alguma das meninas falasse algo mais comprometedor, dando de ombros. – Até porque eu nem uso nada, só bebo.
- E muito. – comentou, rindo.
- E TENHO UM MOTIVO, OK? – se levantou bruscamente tentando segurar o riso e apontando para , que a olhou assustada: - Eu sofro bullying, gente! – Ela disse e sentou, fazendo todos rirem.
- Bem, meninas, infelizmente chegamos ao final do programa! Vocês têm algo a dizer aos fãs? – O cara da MTV perguntou.
- Vamos lá nos ver, né? – disse. – Nossa música nova é incrível!
- E temos uma surpresa a mais para vocês! Acho que vão gostar! – se empolgou.
- Desde quando meu strip-tease vai ser surpresa? – espantou-se, fazendo todos a olharem sérios e provocando meus pensamentos pervertidos. – Ah, gente! É mentira, né! – Ela disse, como se fosse óbvio. – Sem strip, perdão, homens! – Ela gargalhou alto. – Mas eu não queria tocar para as almas, então vocês bem que podiam ir, né? – Ela fez biquinho e passou a mão em seus ombros, fingindo consolar seu falso drama.
- Esperamos todos lá, dia 27 de julho, às 20:00, na Wembley Arena. – explicou.
O entrevistador agradeceu a presença delas, que responderam com cortesia. Eu continuava olhando a televisão com um sorriso provavelmente idiota. “É minha chance!”, pensei. O show seria em pouco mais de um mês, e estaríamos de férias.
- ! Dude! Mas que porra... – Matt me “acordou” com um forte tapa nas costas.
- Vai se foder, caralho! – Reclamei, olhando-o feio.
Trocamos olhares em silêncio, sem termos certeza de como deveríamos reagir. Depois de alguns minutos nessa situação, um “choque” de realidade nos atingiu e, ao que parece, ele nos induziu ao mesmo pensamento: subitamente, corremos até a cozinha, onde pegamos o telefone e ligamos pro Fletch.
- Gente... CALMA! – Ele nos interrompeu, estava no viva voz. – Não dá pra entender com os três gritando ao mesmo tempo! Pelos deuses! Anunciaram o apocalipse e vocês surtaram? O que aconteceu? Apenas um de vocês me explique, por favor!
Charlie respirou fundo, e disse:
- Buckcherry vai tocar!
- Daqui a um mês! – Matt completou.
- E nós queremos! – Concluí.
- Certo... – Fletch ponderou.
- Nós estaremos de férias. – Lembrei.
- Vou tentar conseguir os ingressos para vocês. Preciso desligar agora, tenho uma reunião. Tchau. – Ele desligou o telefone, sem nem nos dar a chance de agradecer e nos deixando com cara de otários.

Fletch conseguiria. Ele sempre consegue.

- Capítulo 03:

Às vezes, eu tinha uma vontade súbita de ir ao Madame Tussauds. Talvez fosse porque lá eu podia ver uma réplica quase perfeita de . Quase. Porque perfeita, só a verdadeira. Além disso, eu sentia uma paz lá. Claro que, antes da paz, vem uma sensação bizarra de ver uma estátua de cera que é o seu clone. É creepy, little brother. Parei por alguns segundos do lado de fora, observando a entrada. Eu adorava aquela entrada, aquele lugar... De alguma forma, uma sensação de conforto e tranquilidade me invadia sempre que eu ia lá. Entreguei meu ticket na entrada e comecei meu tão conhecido tour.

Vi Jimi Hendrix, Ozzy Osbourne com os companheiros do Black Sabbath, Sex Pistols, Amy Whinehouse, Kiss, Twisted Sisters, Beatles, AC/DC, Michael Jackson, Iggy Pop, David Bowie e várias outras celebridades. Eu ia andando pelo museu, analisando figuras que eu já conhecia bem. Passei pelo McFly, que estava junto conosco, o Busted, e soltei uma risada nervosa, exprimindo meu “medo” misturado com um divertimento esquisito.

Continuei andando, me dirigindo até onde eu sabia que as estátuas dela junto com e estariam, mas, para a minha surpresa, Buckcherry não estava mais entre as Spice Girls e Beyoncé. O que acho que era bom, até porque elas não tinham nada a ver com Spice Girls e Beyoncé. Procurei por algum funcionário do museu, e ele me explicou que elas foram transferidas para o local onde ficavam as estátuas do Foo Fighters e Nirvana.

- Sabe como é, né... é fã do Nirvana e do Foo Fighters, então, quando ela comentou na televisão que o sonho dela era que a estátua dela ficasse perto da deles, nosso diretor mandou, imediatamente, que as transferissem. – Explicou.
- Ah, sim... Vou lá, então. Obrigado.

Dirigi-me para a sala onde estavam as estátuas, e ela estava lá. Com o meio sorriso sexy e, ao mesmo tempo, que dá a impressão de que ela é superior a qualquer outro pobre ser humano que possa vir a habitar esse Universo. Fiquei imaginando o quanto aquela escultura deveria ser injusta em relação à beleza dela, analisando todos os seus traços. Sem conseguir controlar meu olhar, foquei-me em seus lábios vermelhos... Ela sempre usava um batom bem vermelho ou de cor bem forte. Foi impossível não pensar em como aqueles lábios deveriam ser macios, não pude evitar de imaginar qual deveria ser o sabor do beijo dela e comecei a sorrir feito idiota, hipnotizado com minhas fantasias.
- Engraçado como essas estátuas de cera são perfeitas, né? Chega a ser assustador... – Uma voz feminina disse, do meu lado direito, mas não consegui desviar os olhos da escultura à minha frente.
- Verdade. – Concordei, sem dar muita importância a quem estava ao meu lado.
– Isso me lembra a casa de cera, mesmo sabendo que eles não matam ninguém pra fazer isso...
“Porra! Já não tenho a menina de verdade, aí quando venho aqui, só pra olhar pra ela, ficam me interrompendo?”, me irritei.
- É. – Respondi, seco.
- Mas, sei lá... Talvez eu só seja paranóica, mesmo. – Ela deu uma risada alta.
“Não pode ser. Não acredito.”, tentei me convencer de que era alucinação minha e eu não reconheci aquela risada que eu ouvi em tantos vídeos e entrevistas. Decidi me certificar que era loucura minha, que ela não estava ali falando comigo, então, fiquei repetindo mentalmente: “Aja normalmente, . Aja normalmente!”, enquanto me virava devagar. Mas... O que seria "agir normalmente"?

Meu coração parou. Era ela. Ela estava ali ao meu lado. Sorrindo para uma estátua de cera de si mesma, sem sentir meu olhar nela. E eu fui grosso com ela, dude! “Como eu sou idiota!”, reclamei comigo mesmo, tentando me controlar para não bater na minha própria cabeça por ter sido imbecil, tentando me controlar para não falar besteira, ainda que me forçando a dizer alguma coisa e tirar aquele sorriso retardado que estava na minha cara. “As estátuas de cera nunca vão conseguir fazer jus a tamanha perfeição.”, concluí mentalmente.
- Estranho se ver assim, né? – Disse, agradecendo ao meu mantra por ter funcionado.
- Assim como? – Ela tirou o olhar da estátua e me encarou, deixando minhas pernas bambas: - Ah, assim? – Ela apontou a de cera. – É, é, sei lá... Estranho, bizarro e divertido ao mesmo tempo. – Ela gargalhou, me fazendo sorrir. Pessoalmente, a risada dela é ainda mais apaixonante. – Mas, ainda assim, é muito feliz. Porque só desse jeito eu poderia chegar perto do meu maior ídolo... – Ela andou até a estátua de Kurt e ficou analisando-o, sorrindo e com os olhos brilhando.
- É... Não é todo mundo que tem a oportunidade de conhecer os ídolos. – Falei, olhando para Kurt e coloquei as mãos nos bolsos.
- Infelizmente... Daria tudo pra conhecê-lo, sabia? Pra conversar com ele, pra dizer o quanto ele foi e ainda é importante pra mim... Eu queria poder fazer alguma diferença na vida dele. Queria que eu pudesse ter sido um motivo para evitar o que aconteceu e fazer com que o Nirvana pudesse lançar muitos outros discos. – Ela não escondeu o tom de tristeza.
- Eu não sei o que dizer. Me perdoe. – Foi o que consegui dizer e atraí o olhar dela.
- Nem tem nada... Sou tão insensível para tantas coisas, mas pra isso, não. Não é que eu tenha um amor platônico por ele, nem nada, é só, que... Sei lá, queria ter a oportunidade de ser importante e ajudar alguém que é tão importante pra mim... – Ela deu de ombros e enfiou as mãos nos bolsos, voltando a olhar para a estátua dele. – E você que me perdoe, eu não devia estar alugando as pessoas assim, no meio do nada. – Ela sorriu.
- Nem tem nada, ... Não se importe com isso, fale o quanto quiser. – “Eu amo a sua voz.”, completei mentalmente, quase deixando a frase escapar e vendo-a voltar a olhar pra mim, confusa.
- Como você sabe meu nome?
- Você é famosa, sabia? - Perguntei como se aquilo fosse óbvio, fazendo-a dar uma gargalhada gostosa.
- Sabia... Mas não é possível que todo mundo desse país me conheça.
- Então digamos que você desabafou suas mágoas para um fã. – Eu disse, fazendo sorrir.
- Desculpe.
- Nem precisa pedir desculpas. – Sorri para ela, que sorriu de volta.
Depois de alguns segundos sorrindo um para o outro, ela franziu a testa:
- Eu não te conheço de algum canto?
- Também estou aqui no museu. – Respondi, sorrindo.
- Me desculpe, mas eu não lembro seu nome... – Ela disse, coçando o pescoço, envergonhada.
- Não tem problema. – Ri. – Meu nome é . . Estou lá em baixo com a minha banda, Busted.
- Ah, sim! – Ela bateu na testa. – Lembrei! Estava ouvindo uma música de vocês enquanto vinha pra cá.
Peraí! já ouviu Busted? Então ela já me ouviu tocar... E, cara! QUE FODA!
- Qual delas?
- “That Thing You Do”. E adorei, por sinal. – Ela sorriu.
- Tá bom, ! Você já pode parar se ser legal, eu deixo! – Brinquei, fazendo-a gargalhar.
- Deixa de ser leso, ! – Ela me empurrou, rindo. – Quero ir a um show de vocês!
O que é isso, cara? não me conhece não faz nem vinte minutos e ela já tá me chamando de “leso”? Eu me senti confortável com ela, ao contrário do que imaginei que seria, mas nunca imaginei que ela pudesse sentir o mesmo quanto a mim. Sempre achei que ela ia me esnobar...
- Ah, estamos de férias, só voltamos em agosto... Mas, se você quiser, eu te aviso!
- Quero sim! Vou te dar meu telefone, ok? – Ela se empolgou. – Me dá o seu também!
Eu não sabia o que dizer, eu não sabia o que pensar, como agir... Nada! Apenas peguei meu celular roboticamente e anotei o número que ela me passou enquanto dava o meu pra ela.
- Você sempre dá seu telefone tão facilmente assim, pra qualquer pessoa que aparece? Te cuida, ! Vai que eu sou um fã maluco e psicótico... – Brinquei, fazendo-a gargalhar alto.
- Não dou, não, ok? Mas você não tem cara de ser um fã maluco e psicótico. E, além disso, senti que posso confiar em você antes mesmo de você abrir a boca para falar comigo. – Ela encolheu os ombros – Eu tenho essas loucuras. E, além disso, você agora sabe um dos meus segredos que pouquíssimas pessoas sabem...
- Considere seguro. Não conto nada a ninguém, nem sob tortura! – Fechei a boca e fingi que a estava trancando e jogando a chave fora, o que fez rir.
- Gostei de você, ... Você é legal. – Ela disse dando um sorriso fofo e jogando a cabeça para o lado esquerdo, me fazendo sorrir.
- Não preciso dizer que você é legal, né? Se não fosse, eu não seria seu fã. – O comentário a fez sorrir mais ainda.
- Quero um abraçinho, pode? – Ela disse, juntando as mãos.

Eu sempre achei que fosse ficar paralisado se algum dia fosse abraçá-la. Na vida real, minha reação foi completamente diferente: sorri e me aproximei dela, colocando minhas mãos em sua cintura e a puxando para mim, rezei para que ela não ouvisse meu coração, que estava prestes a saltar pela boca, e disse:
- O certo não seria o fã pedir o abraço ao ídolo?
- O certo e o errado são relativos. – Ela disse, com a voz abafada pelo meu cabelo.
Deixei que seu cheiro invadisse meu sistema: cheirava a perigo. Senti suas mãos em volta da minha cintura e inalei seu perfume atraente. E, não sei de onde, tirei coragem para fazer algo que eu nunca pensei que fizesse:
- Seria certo te levar pra tomar um sorvete?
- Só se você me deixar pagar. – Ela disse, se desvencilhando carinhosamente de mim.
- Qual seria a finalidade de te convidar para tomar sorvete se você não vai me deixar pagar? Nem vem que não tem, !
- Então, me deixe pelo menos te dar uma cortesia pro show... – Ela pediu.
- Eu já tenho minha senha, obrigado.
- De qual área? – Ela cruzou os braços, arqueando a sobrancelha, me desafiando.
- Premium. – Respondi.
- Mas você não tem os passes pro backstage. – Ela deu o meio sorriso sarcástico que eu adorava.
- É verdade... – Consenti.
- Quantos você quer?
- Quantos o quê? – Eu realmente não havia entendido.
- Passes pro backstage, anta! – Ela riu.
- Ah...
- Vai, com quantas pessoas você vai? Porque, né... Você parece louquinho, mas eu sei que não vai só. – Ela brincou e riu.
- Ah, sim... Vou com mais dois caras.
- Ok, vou pedir pro Tyrion os passes e te ligo, pra entregar, certo?
- Certo.
- Agora, eu quero meu sorvete! – Ela bateu palmas, feito uma criança feliz, me fazendo gargalhar.

Saímos do Madame Tussauds e entramos no carro dela, já que eu havia ido a pé. Decidimos que iríamos tomar sorvete num lugar que tinha o melhor sorvete de Londres, mesmo que pouquíssimas pessoas conhecessem, até porque ficava do outro lado da cidade. Durante o percurso, perguntei a ela o que ela fazia àquela hora no museu, já que era horário de almoço e praticamente ninguém ia lá.
- Eu não sei o que me faz ir lá... É como se aquele lugar tivesse um ímã, sabe? Ele me atrai demais. E me conforta muito. Às vezes, eu vou pra lá e fico imaginando como eu manteria um diálogo com as pessoas que estão lá... – Não pude ficar mais surpreso.
- Jura? – Franzi as sobrancelhas, vendo-a dirigir e assentir com a cabeça, levemente: - Eu vou lá pelo mesmo motivo. – Disse, por fim.
- É um lugar muito inspirador. – Ela comentou e eu concordei.
Quando chegamos à sorveteria, ela sentou na minha frente e sorriu para a garçonete, negando o cardápio:
- Não preciso. Já sei o que vou querer.
- Eu também. – Disse, encarando a mulher: - Quero uma casquinha com duas bolas de sorvete de morango e cobertura zerada para mim, e uma casquinha com duas bolas de sorvete de menta com chocolate e cobertura zerada para ela... – e olhei para Luma, que estava boquiaberta: - Acertei? – Dei um meio sorriso triunfante, vendo-a assentir devagar.
- Como você sabe meu sabor preferido de sorvete? – Ela franziu as sobrancelhas.
- Sei lá, acho que devo ter te visto dizendo isso em algum lugar. – Dei de ombros, era verdade, eu não lembrava.
- É injusto! – Ela reclamou e cruzou os braços.
- O quê?
- Você sabe algumas coisas sobre mim e eu só sei seu nome e o nome da sua banda.
- Tá bom... – Brinquei com o porta-guardanapo, ponderando se eu deveria propor aquilo: - Me pergunte qualquer coisa que eu respondo.
- Por que você gosta da minha banda?
- Porque vocês são incríveis, tocam muito bem e quebram estereótipos.
- Certo... – Ela mordeu o lábio, pensando: - Quantos anos você tem?
- Vinte e cinco.
- Quem é a sua preferida da banda? – Ela deu um sorriso escroto.
- Próxima pergunta? – Pedi, rindo.
- Ah, vai, ! Você disse que eu podia perguntar qualquer coisa!
- Tá... É você. – O sorriso que ela deu por causa da resposta foi o mais lindo e perfeito que eu já havia visto a vida toda.
- Obrigada. ESTOU COM VERGONHA! – Ela gritou rindo e escondendo o rosto com as mãos. Sua ação teria chamado a atenção de outras pessoas, se não estivéssemos sozinhos com os funcionários da sorveteria.
- Ah, deixa de besteira, ! Quem devia estar morrendo aqui era eu, né...
- Acho que você já pode parar de me chamar de , . Chama de , vai!
- Como você sabe que os caras me chamam de ?
- Não sei, ué. Mas gosto desse apelido e adoro seu nome. – Ela sorriu, dando de ombros, me fazendo sorrir de volta.

Nossos sorvetes chegaram, então ficamos conversando e tomando, fazendo gracinhas e comentando algumas músicas que tocavam na rádio. Mal percebemos que já estava escuro, o que significava que tínhamos passado muito tempo lá. Pedi a conta e percebi que tomamos oito sorvetes cada um, uma quantia razoável, já que passamos boa parte do dia lá. Saímos da sorveteria rindo da nossa gula e entramos no carro de .
- Para onde, Sir?
- Para as estrelas.
- Não tenho um foguete, tenho um carro, ! – disse e nós rimos.
- Não, boba! Isso é Titanic!
- Você gosta de Titanic? Que gay, ! – Ela riu mais ainda.
- Ei, nem é, ok? É um clássico! – Fingi revolta e, então, imitei uma voz de mulher: - E é uma história de amor liiiiinda! – teve uma crise de riso tão grande que ela “chorou” e ainda começou a gritar entre os risos:
- MINHA BARRIGA DÓI! MINHA BARRIGA DÓI! – A cena toda era muito cômica, eu estava me estourando de rir junto com ela.

Depois da crise de riso de , expliquei a ela onde era a minha casa, mas tive que ir indicando onde entrar, porque ela não tem um senso de direção lá muito bom. Estávamos sempre rindo, fazendo piadas e brincando um com o outro, como se fôssemos amigos de infância. “Amigos de infância”... Bem, pelo menos estou perto dela, não é mesmo? Quem sabe algum dia... Ela parou o carro na frente da minha casa, desceu do carro, passou pela frente dele correndo, abriu a porta e disse:
- Pronto, a mocinha está entregue.
- Engraçadinha. – Dei um sorrisinho sarcástico e saí do carro.
- Ah, vai! Foi legal! – Ela deu uma risada.
- ... – Parei na frente dela, olhando em seus olhos: - Muito obrigado. Sério. Você não imagina o quanto esse dia foi perfeito pra mim. Eu não sei nem como agradecer... Eu queria que você pudesse ter tido um dia como esse com o Kurt.
- Me agradeça sendo meu amigo, . – Ela sorriu. – Eu realmente gostei de você, me senti segura... Sinto que posso confiar em você e que você vai sempre cuidar de mim. Além disso, você tem um dos melhores abraços do mundo. – Cada palavra dela me fazia sorrir mais ainda. – Eu não sei se eu devia dizer isso, mas acho que as pessoas devem falar o que sentem e procurar preservar amizades que elas acham valer à pena. Acho que a sua é assim. Eu gostei muito de você. Se não tivesse gostado, não teria sido tão espontânea, te chamando de mula, anta e afins, né? – Nós dois rimos. – Só, sei lá... Fique por perto, gostei de ter você comigo.
- Pode deixar, . – Respondi e a abracei, me inebriando com seu cheiro. – Quer entrar? – Chamei, quando nos separamos.
- Eu adoraria, mas não posso... Passei o dia com essa roupa, to me sentindo uma suja! – Ela riu. – E, além disso, - ela interrompeu o que falava para bocejar – tô com soninho.
- Tudo bem. – Sorri e tirei uma mecha de cabelo que caía no rosto dela: - Boa noite, .
- Boa noite, . – Ela me abraçou de novo e eu dei um beijo no topo de sua cabeça.
Nos separamos e eu andei em direção à porta da minha casa enquanto ela fechava a porta do co-piloto e se dirigia para seu lugar. Subi dois dos três degraus que davam acesso à porta, quando a ouvi me chamar:
- Ah... ! – Me virei para saber o que ela queria. – Obrigada. – Ela sorriu ternamente, me deixando confuso.
- Pelo quê? – Perguntei, sem entender nada.
- Por ter me conhecido hoje. – Ela sorriu mais ainda, me mandou um beijo no ar e disse: - Boa noite, !
- Boa noite, ! – Eu disse, vendo-a entrar no carro.
Ela esperou até que eu entrasse em casa para dar partida no carro.
Corri pela casa gritando pelos caras, como uma bicha que arrumou um bofe, mas ninguém respondeu. Provavelmente tinham saído pra beber e os idiotas me esqueceram. De novo. Não importa. Tive vontade de gritar mais ainda, mas a vizinhança não permitia, então me joguei na cama e fiquei encarando o pôster do mesmo jeito que uma menina apaixonada pelo seu ídolo faria.
- Você é muito mais perfeita pessoalmente, sabia? – Falei para a foto de , que sorria para mim.
Cogitei a possibilidade de não tirar mais aquelas roupas e ficar para sempre com o cheiro dela, mas lembrei que eu tinha o telefone dela. Então, eu poderia ligar para ela e chamá-la pra sair. Até porque ela disse que éramos amigos agora. Eu estava tão feliz que chegava a doer! Parecia que meu coração ia explodir no meu peito! Decidi ir tomar um banho e virar gente. Foi o banho mais feliz da minha vida. Cantei o tempo inteiro, sem desviar nenhum segundo o pensamento dela e, ainda, repassando as imagens do dia com ela, seus sorrisos, suas brincadeiras, suas palavras... Tudo! Ela era muito mais incrível e perfeita do que eu havia imaginado! Quando terminei o banho, coloquei minhas boxers e me joguei na cama, deixando o cansaço do dia pesar e me fazer fechar os olhos lentamente. Eu estava quase perdendo a consciência quando senti meu celular vibrar:<>
“Não estou dando em cima de você, mas estou feliz por ter te conhecido, haha. Você é legal... Já disse isso?
Xoxo”

Foi impossível segurar o sorriso. Foi impossível não bater com meus pés na cama e bater palmas, rindo.
“Achei que estivesse dando, ok? Você é má! Haha Também adorei te conhecer, você é mais legal do que eu imaginei!
Obrigado pelo dia, foi incrível!
Boa noite.”


Alguns segundos depois, meu celular vibrou de novo e, antes mesmo de abrir a mensagem, eu já sorria.
“Já disse que não precisava agradecer!”

Meu coração batia rápida e descompassadamente.
“Desculpa, né?”

“Pára! Sem desculpas ou agradecimentos!”

“Tá... Desculpa!”

Ri sozinho, imaginando a cara de revoltada que ela deveria estar fazendo agora.
“Quer apanhar, Bourne?”

“Calma, não precisa de violência!”

“Você é muito besta, me diverte demais.
Xoxo.”

“Fico feliz que você goste.”

“Preciso dormir agora... Se tiver afim de fazer alguma coisa amanhã, call me!
Boa noite!
Xoxo.”

“Durma bem!”

“Sonhe com pernilongos também!
PS: adoro Timão e Pumba.”

Ri com a criancice dela e resolvi deixá-la dormir. Eu arrumaria qualquer pretexto pra ficar perto dela amanhã. Adormeci pensando nela.

- Capítulo 04:

Acordei animado. Ora, não é para menos! É O DIA DO SHOW!!! Há vinte dias conheci e nos tornávamos mais próximos cada vez mais. Saímos quase todos os dias desde que nos conhecemos, exceto quando ela precisava se dedicar aos preparativos para o show ou ir a uma entrevista. Ou até mesmo quando o merda do Fletch arrumava alguma entrevista ou sessão de ensaio nas nossas férias. Um sorriso brotou em meu rosto assim que lembrei dela. Ou seja, um sorriso brotou em meu rosto assim que acordei, antes mesmo de sair da cama. Peguei o celular e mandei uma mensagem para :

“Bom dia?
E aí, como estão os ânimos para o show?”

“Dia! :D
Estou meio nervosa, fizemos umas alterações de última hora.
Tá empolgado?”

“Pergunta retórica? CLARO que sim!
Relaxa, vai dar tudo certo!”

“Tomara!
Sou meio psicótica, quero tudo perfeito.”

“Nem é, também sou assim!”

“Ainda bem que você entende minha dor! :’)
Preciso desligar o celular agora,
Tyrion quer um último ensaio, checagem de som...
Enfim, tô indo para o Wembley agora.
Beijos.
PS: deixei seu nome e dos meninos na entrada do Wembley,
vocês vão entrar pela nossa entrada e vão ficar numa
área exclusiva, podem vender seus ingressos!”


Eu não acredito que ela fez isso! Sorri feito um retardado, já era perfeito ser amigo da minha integrante preferida da banda e, ainda, poder ir pela primeira vez ao show delas, e ela ainda iria nos colocar numa área exclusiva? E ainda perguntam por que eu sou apaixonado por aquela mulher...

“Você sabe que não precisava!
Mas muito obrigado, você vai pro céu por ser tão linda! Haha
Obrigado mesmo!
Boa sorte.
Beijos.”


Acho que não preciso dizer que minha vontade era de finalizar essa última mensagem com “Beijos, te amo muito”, não é mesmo, little brother? Mas o fato é que ela só me encara como amigo dela e ela deixava isso bem claro todas as vezes que nos encontrávamos. “Quando uma amizade tem que acontecer, não importa se vai demorar ou não... O que vai acontecer é que duas pessoas vão perceber a necessidade que tem de estar com a outra. A amizade é um tipo de amor fraternal. Eu gostei de você desde o primeiro segundo, , e você sabe disso, principalmente agora que me conhece melhor. Eu estou muito feliz por ter te conhecido”, ela me disse um dia. Claro que foi um momento de drama, tristeza e falta de esperança, mas, mesmo assim, feliz.

Drama, tristeza e falta de esperança, porque eu perdi toda a confiança e esperança que eu tinha de que, um dia, algo poderia acontecer entre nós dois. E as palavras dela pareciam enfiar 1.000 punhais em meu coração, mas é óbvio que ela não percebeu que, de certo modo, estava me machucando... Eu nunca falei sobre meu amor platônico para ela e, provavelmente, nunca falaria. Principalmente depois de descobrir que somos amigos. Amigos. Eu amei e odiei essa palavra no dia que ela me disse isso. Amei porque, de certa forma, eu ainda tinha alguma coisa dela, uma parte dela me amava, não do jeito que eu gostaria que amasse, mas, ainda assim, é muito importante pra mim estar, pelo menos, próximo a ela. E odiei as palavras porque é um senso comum, é sabido que, quando uma mulher diz que você é amigo dela, ela quer dizer que te vê como outra mulher e nunca teria nada com você.

Mesmo assim, apesar de a história não ter saído como eu sempre sonhei que fosse, ela é a mulher mais foda e incrível que eu já conheci e tenho orgulho de estar ao lado dela. O ponto positivo de ser considerado amigo dela é que ela sabe que eu sempre vou estar com ela. Não que eu não fosse estar se ela me amasse como eu a amo. Ainda mais depois que e a conheceram e os três se deram muito bem. Tão bem que ela até brincou com eles, dizendo que eles fariam pares perfeitos com e . Mal sabe ela que eles têm pôsteres enormes delas nos quartos. Aliás, ela não faz a mínima ideia de nenhum desses pôsteres, já que ela nunca entrou em nenhum de nossos quartos e preferimos não contar a ela, até porque seria bizarro e assustador para ela, se ver ali na foto para a qual eu passei boa parte do dia sorrindo.

Felizmente, o dia passou rápido e logo estávamos nos arrumando para ir para o show. Antes do evento, à tarde, encontrou três compradores dos ingressos e, quando saímos de casa, já não precisávamos nos preocupar com a venda dos ingressos. Quando chegamos ao Wembley, nos dirigimos até a entrada que indicou, onde fomos recebidos por um segurança que era, literalmente, uma geladeira. Me senti a Olivia Palito na presença dele. Era assustador! Nos identificamos enquanto ele analisava uma pequena lista em sua prancheta. Por fim, disse, com a voz grossa, o que dava um toque mais assustador a ele:

- Ah, sim... A senhorita foi bem específica quanto à entrada de vocês. – Ele sorriu. – Acho que ela repetiu umas três vezes para onde eu deveria levar vocês. Vamos.
Nós os seguimos, enquanto outro brutamontes assumia o lugar dele. Durante o caminho, ele ficou tagarelando sobre , e , como elas eram gentis e educadas com todos os funcionários, ao contrário de outras bandas, de como elas sempre falavam com todos eles, desde a faxineira até o dono da Wembley e coisas do tipo. Ele falava tanto que só tínhamos a chance de comentar alguma coisa esporádica e, na maioria das vezes, concordando com ele, deixando-o com sua idolatria.
- Descendo essas escadas, vocês vão ficar nessa área na frente do palco. – Ele nos indicou.
Ficamos boquiabertos quando vimos o Wembley daquele jeito: o estádio explodiria se mais alguém entrasse! A área onde ficaríamos era o espaço vazio de uns cinco metros, entre o palco e a grade, onde as pessoas na área Premium ficavam. Os fãs gritavam, as chamavam, seguravam cartazes com declarações de amor e todas aquelas coisas que vemos em shows de bandas incríveis. Além de nós, um casal e o irmão de estavam lá, dividindo o espaço conosco. A banda que estava abrindo o show já havia acabado e elas provavelmente estariam esperando para entrar, já que é meio que de praxe o atraso das bandas.

Entretanto, para a nossa surpresa, elas foram pontuais. Quando menos esperávamos, a irmã de entrou no palco, fazendo todos baterem palmas e gritarem. Não lembro onde li um dia, mas lembro que li que ela não quer seguir a carreira roqueira da irmã, e sim trabalhar como atriz. Depois que as ovações diminuíram, ela sorriu:

- Boa noite! – Ela fez uma pequena pausa, para que os fãs parassem de gritar: - Provavelmente vocês não me conhecem, mas eu sou a irmã de nossa linda baixista, ! Antes de começar o show e chamar as meninas para entrar, devo avisar que aqueles que têm problemas cardíacos, saiam agora ou arquem com as consequências, porque O SHOW DE HOJE VAI SER INSANO! – Ela sorriu enquanto nós batíamos palmas e gritávamos e, depois de colocar o microfone de na haste, nos acompanhou nas palmas e se retirou do palco.

A primeira a entrar correndo foi , que parou no meio do palco, ao lado do microfone de , e fez uma reverência, curvando-se para a frente, enquanto nós gritávamos e batíamos palmas. deu um daqueles assobios com a mão, atraindo a atenção dela, que sorriu para ele. Em seguida, entrou andando e, em meio às ovações, pegou a ponta de sua saia curta e sorriu, abaixando-se, como num plié. e ficaram lado a lado, no meu do palco, esperando que entrasse ao som dos fãs gritando seu nome. Eu era um desses fãs. Ela entrou andando e parou ao lado das outras duas e, simplesmente, fez o cumprimento vulcano para nós com a mão direita e, com a esquerda, puxou o microfone:

- Vida longa e próspera!

A entrada de me fez rir e bater tantas palmas quanto eu pude, até ficar com as mãos dormentes. As três se abraçaram, passando os braços nos ombros uma das outras, mantendo uma fila indiana, e se inclinaram para frente, assim como havia feito antes, em meio às ovações. Depois disso, cada uma assumiu seus respectivos lugares. Enquanto ia pegar uma guitarra e um baixo, sentou em sua bateria e disse em seu microfone:
- E aí, gente? Acho que nunca tivemos um show tão lotado antes! Teremos algumas surpresas musicais esta noite, já que não podem ser surpresas sexuais, se não, seria presa por atentado ao pudor, fazendo um strip tease no meio do show... – O comentário dela me fez rir.
- Infelizmente! Eu estava preparada pra fazer o strip, né. – disse, quando parou em seu lugar.
- Todos queriam ver! Eu também queria ver! – brincou e riu.
- Vamos ao que interessa? – perguntou.
Nesse momento, olhou em meus olhos e sorriu: li em seus lábios um “Obrigada” e ela me mandou um beijinho no ar, me fazendo mandar outro pra ela, sorrindo feito bobo.
- ! – a chamou.
- O quê? – Ela a olhou, confusa.
- Pare de dar mole para os caras aí e apresente a música! – riu.
“Quem dera ela estivesse me paquerando...”, pensei.
- Ah, sim... Bem, gente... – começou, passando os olhos por toda a multidão. – Essa música é nova, vocês sabem! Não tenho o que falar sobre ela!

Elas abriram com “Crazy Bitch”, depois tocaram “Dreams”, a música surpresa que havia prometido. Em seguida, tocaram “(Too Drunk) To Fuck”, “Porno Star”, “A Child Called ‘It’”, que é uma das minhas preferidas, e “Next 2 You”. Eu estava extasiado, me contagiava, o público dela me contagiava... A vibe do lugar era insanamente contagiante! Cantei, gritei, pulei, assobiei, fiz tudo o que eu sempre quis fazer no show. Eu simplesmente não conseguia tirar os olhos daquela mulher linda, que estava toda suada, cantando e pulando, brincando e fazendo o que ela mais sabia fazer: sendo perfeita. Não sou de descrever as roupas das mulheres, até porque eu nunca fui de reparar nisso, mas foi impossível não analisá-la, eu não tirava os olhos dela: ela usava uma calça de couro vermelho e uma blusa de frio, de crochê mostarda, e All Star preto e surrado. Perfeita e sexy. Ao fim de “Drink The Water”, ela disse:

- Eu nunca mais venho tocar com uma calça de couro! Estou derretendo aqui dentro! – Ela riu, me fazendo rir junto com ela, e acredito que as outras pessoas no show também riram.
Mas eu não me importava com o resto do público, se eu podia ver tocando e exibindo para o mundo toda a sua beleza, perfeição e sensualidade. De jeito nenhum!
- Por falar em calor, ... – disse. – Eu e vamos ali fazer um xixizinho e trocar de roupa, ok?
virou-se para ela, fingindo desespero:
- E o que eu vou fazer com esse monte de gente aqui na minha frente? Um show de stand up comedy?
- Te vira, gata! – disse.
As duas deixaram sozinha, que resmungou no microfone:
- Putas... Vocês tão vendo o que elas fazem comigo, né? ISSO É BULLYING! – Ela disse a última frase bem mais alto, olhando para onde elas haviam ido. Ri do drama dela e sorri para ela quando nossos olhos se encontraram, fazendo-a sorrir de volta. – Peraí, gente... Volto já.

Dito isso, saiu quase correndo do palco, deixando todos nós confusos. Depois de alguns segundos, ela voltou segurando um banco alto, como aqueles bancos de bares, ajustou a haste do microfone, para que ela pudesse cantar sentada e pegou um violão cheio de adesivos de bandas, vi um com aquela boca que é símbolo dos Rolling Stones e outro com “NIRVANA” escrito bem grande. Os outros eram menores, então, não vi direito. Ela sentou com as pernas cruzadas, da mesma forma que os índios sentavam: eu já havia percebido que ela fazia a maioria das coisas assim, inclusive sentar para as refeições, mesmo que ela estivesse num restaurante.
- Pareço uma lady, mas só consigo sentar assim. – Ela comentou e riu. – Obrigada por estarem aqui esta noite... É muito importante para nós todas. – Ela disse, mais uma vez, passando o olhar pelo público: - Eu sempre me emociono vendo que tanta gente gosta do nosso trabalho. Estou até com os olhos cheios de lágrimas! – Ela disse com a voz um pouco, quase nada, vacilante e riu enquanto colocava as mãos nos cantos dos olhos, limpando-os. – Obrigada pelo amor e carinho, vocês são foda!
Fizemos muito barulho: eu e assobiamos com a mão e depois batemos palmas, junto com todo o resto da Wembley Arena, enquanto ela sorria radiantemente. Eu podia sentir a felicidade dela enchendo meu peito. A felicidade dela é a minha felicidade.
- Vou contar uma historinha meio longa pra vocês... Um dia, muitos anos atrás, eu estava saindo com um cara. Nós nos víamos todo dia e ele era do tipo que qualquer menina quer como namorado, ele era o cara perfeito. Mas eu nunca fui de me apegar, eu realmente gostava dele, mas gostar não é amar, e o sentimento que eu nutria por ele era muito pequeno e fraco para nos fazer ficar juntos. O dele também era, mas ele não sabia disso ainda. Depois de três meses saindo, ele me levou para jantar e me deu um anel de compromisso. – Ela sorriu, provavelmente relembrando a história. – Nessa noite eu percebi que ficar com ele seria injusto, porque eu não o amava. E ele precisava de alguém boa o suficiente para ele. Então, eu disse a ele que não podia aceitar o anel porque eu não gostava dele como a pessoa certa deveria, e disse que achava melhor não nos vermos mais. Eu parti o coração dele como nunca havia feito antes, eu o deixei destruído, o que me deixou muito mal também, porque eu gostava dele como meu amigo e não o queria sofrendo. E ninguém sabe como dói ver uma pessoa de quem você gosta sofrer por sua causa ou por algo que você fez. Só Deus sabe como me custou fazer aquilo e como ainda me sinto mal por tê-lo feito se sentir daquele jeito. – No final da frase, sua voz estava trêmula, então ela parou alguns segundos e limpou as lágrimas.

“Puta merda, ele tá aqui, só pode! Ela vai se declarar pra ele e pedir desculpas!”, concluí desesperado. Eu não aguentaria ver aquilo. Eu não aguentaria vê-la se declarando para outro, não aguentaria perdê-la, não aguentaria vê-la sofrendo por ter me machucado, se o que ela disse sobre se machucar por machucar alguém é verdade. Mordi meu lábio com força, a ponto de sentir o gosto férreo de sangue em minha boca, até que ela continuou:
- Mas a vida me ensinou que há males que vêm para o bem. Infelizmente, para isso, eu tive que partir o coração dele e perder minha melhor amiga, que não concordou com o que fiz com ele e brigou comigo. Mas, como eu disse, a pessoa que escreve o livro dos nossos destinos antes de nascermos, tem um senso de humor meio... Irônico. – Ela deu um meio sorriso, o que me deixou mais preocupado ainda. – Um ano depois de ter perdido minha melhor amiga e um grande amigo, ela voltou a falar comigo e disse: “Luh... Obrigada. Sem você eu não teria me aproximado dele, nós estamos namorando!” Ela viu o quanto fiquei feliz por ela, era impossível não ficar. Eles eram perfeitos um para o outro. – Nesse momento, nossos olhares se encontraram rapidamente, o que fez meu coração apertar de modo como nunca aconteceu antes: - E estavam felizes juntos. O que me deixou muito feliz, principalmente porque eu ganhei minha melhor amiga de volta e também um grande amigo de brinde. Mas eu nunca pedi desculpas aos dois, mesmo achando que eles sabem o quanto eu sinto por tê-los machucado. Os anos foram se passando e eles continuaram juntos, e também meus amigos. Até que, semana passada, fomos almoçar juntos e eles me fizeram um pedido ao qual não pude recusar: ser a madrinha de casamento deles! – Ela sorriu abertamente, como se aquilo fosse a coisa mais incrível que já aconteceu com ela. – Do jeito que eu e minha amiga falávamos que ia ser. – Ela disse sorrindo. – Depois que aceitei, quis saber por que eles me queriam como madrinha. E eles disseram: “Se não fosse pela bagunça que você fez nas nossas vidas, nós não estaríamos almoçando como um casal, com você. Esse pedido nunca teria existido. Você faz as coisas certas de um jeito muito estranho, .” – A voz dela embargou de novo no final da frase, fazendo-a parar de novo para limpar os olhos: - Perdão, gente... Esse é um momento de muita emoção pra mim. – Ela riu e, de novo, limpou as lágrimas nos olhos: - Ben, Hayley... – Ela olhou sorrindo para o casal que estava ao nosso lado.

A mulher chorava silenciosamente, com as mãos tapando a boca, e o homem tinha uma mão carinhosamente pousada em sua cintura. Ele sorria, deixando algumas lágrimas de emoção caírem pelo rosto. Senti alívio por ter me enganado com , mas senti uma ponta de inveja do casal... Eu queria ser com como Ben e Hayley eram.
- Tá todo mundo chorando aqui, gente! Assim não aguento! – Ela disse, com a voz mais embargada ainda, e fez uma pausa mais duradoura do que a primeira. – Enfim... Ben, Hayley, me desculpem pela bagunça que eu fiz e por ter machucado vocês. Vocês não fazem ideia do quanto foi difícil ter perdido minha melhor amiga, sem nem saber que ela tinha uma paixão platônica pelo cara com quem eu estava saindo. – Ela riu. – Você devia ter me dito, Hay. – Hayley apenas concordou com a cabeça, sem parar de chorar ou tirar as mãos da boca. – Eu desejo tudo de melhor para vocês, e quero dizer que vocês não fazem ideia do quanto estou feliz por fazer parte da história de vocês. – Ela disse, olhando para eles. – Por isso, gente... – Ela ergueu o olhar para o público: - Eu queria que vocês ligassem seus celulares, isqueiros ou qualquer coisa que seja luminosa, eu queria um momento bem romântico aqui pra eles... – Quando ela disse isso, todas as luzes do palco foram desligadas, exceto o foco de luz em e o telão, onde ela podia ser vista: - Essa é uma das coisas mais lindas que eu já vi na minha vida! – Ela sorriu e desceu o olhar para Ben e Hayley: - Compus essa música depois do nosso almoço, vocês me inspiraram demais, por isso que eu pedi pra vocês virem. E por isso que as meninas saíram. Espero, sinceramente, que vocês gostem.
começou a tocar o violão, do qual saía uma melodia calma e linda... Contagiante! Antes de começar a cantar, ela me olhou e piscou.
- If I could control my fears... Where would you be in my life? I tell ya now, I’m dangerous… Love is there in your eyes. She flies like a butterfly, wind underneath her pretty wings. It’s not about the money, baby, your lessons learned while you sleep, yeah… - Ela sorriu. – Everytime I look in your eyes, I see the love light up in you, baby. – Eu daria qualquer coisa para que ela pudesse ver isso em mim também… Eu queria que ela sentisse isso. Eu queria que ela fosse minha. – Just between the good advice, I got the love so tight in you, baby. Baaaaaby, yeah! – A voz perfeita de entrou em meus ouvidos. – I got that Love so tight in you, baby. – Ela falou a frase, ao invés de cantá-la.

Perdi a concentração na letra da música e perdi as estrofes seguintes analisando , o modo como ela ficava linda concentrada no que estava tocando e cantando, às vezes alternando o olhar entre ela e o casal emocionado. A voz dela era como uma droga, incrivelmente viciante e relaxante, mas que às vezes, dependendo do momento, causava euforia. Eu a queria pra mim. Mas tinha medo de perdê-la, assim como Ben a perdeu um dia. Não... Eu preferia sofrer por tê-la por perto, mas não tê-la completamente a perdê-la por inteiro. Despertei dos meus devaneios quando me deu uma cotovelada sem querer enquanto batia palmas, assim como todos os outros, e, instantaneamente, bati palmas e assobiei.
- Obrigada. – Ela sorriu e, enquanto empurrava o banco para o canto do palco, e voltaram para seus lugares.
- WOW! – disse. – Essa, foi incrível!
- É verdade! – concordou. – E, parabéns, Ben e Hayley! Vocês nem pra nos falarem, né? – Ela riu, fazendo o casal rir também.
- Traidores! - gritou apontando para eles e rindo.

O resto do show passou tão rapidamente que fiquei impressionado quando elas voltaram para o bis. Agradeceram mais algumas vezes e se despediram do público. Enquanto o resto dos fãs saía, o segurança que havia nos recebido voltou e nos conduziu até o camarim delas, onde disse que elas estariam esperando a todos. Eu estava sem palavras para definir minhas sensações durante a noite, eu não consegui abrir a boca o caminho todo, mesmo que ouvindo e tagarelando com Ben e Hayley sobre o show e a música deles. Quando paramos na frente da porta, o segurança bateu e a abriu, deixando que nós passássemos. Primeiro a irmã de e o irmão de entraram juntos, seguidos por Ben e Hayley e, então, por mim, e .

- TÁ BRINCANDO? NÓS ADORAMOS! – Hayley gritou e abraçou , quando ela perguntou sobre a música.
- Foi linda, ... Escolhemos a madrinha perfeita. – Ben disse e a abraçou.
- Obrigada. – disse e puxou os dois para um abraço em trio. – Eu amo vocês.
- Nós também. – Hayley disse.
se separou deles e nos encarou:
- VOCÊS VIERAM! – Ela andou rápido em nossa direção, batendo palmas e sorrindo. – Obrigada! – Ela disse e abraçou nós três ao mesmo tempo. – Venham aqui, quero que vocês conheçam as meninas! – Ela disse, empolgada, puxando a mim e a Matt pela mão.

Ela chamou a atenção de e , que comentavam sobre o show com os outros quatro. Elas sorriram e deram dois beijinhos em cada um de nós, à medida que ia dizendo nossos nomes.
- Então você é o famoso ! – disse, sorrindo. – O cara que roubou minha amiga!
- E eles dois são os comparsas! – brincou, apontando e .
- No início, eu ficava revoltada quando ela dizia que ia te ver, . – riu. – Mas depois eu me conformei, né... Fazer o quê, se ela sempre nos troca por homens? – Ela riu e mostrou o dedo do meio para ela e, calmamente, voltou a procurar alguma comida da qual ela gostasse na mesa.
- Vocês fariam um casal fofo! – comentou, me fazendo corar, e andou em minha direção:
- Ah... Ele nem me quer, pô! – reclamou e deu um beijinho em minha bochecha.
A cena fez com que e me olhassem com as sobrancelhas erguidas, sabendo que aquilo era mentira.
- E então... Vocês gostaram do show? – perguntou, mas ela queria saber o que achava.
- Foi incrível! – disse empolgado.
- Concordo! Por isso, devíamos todos sair para comemorar! – disse.
- Super topo! – disse.
- Falou em farra, essa daí já corre! – disse. – Mas eu também vou!
- E eu, né! – concordou e olhou para : - Quero revanche!
- Revanche de quê? – Perguntei.
- Quem consegue beber mais shots de tequila sem vomitar, desmaiar ou algo do tipo. A que permanecer em pé e menos bêbada por mais tempo, ganha! – disse empolgada.
- Gostei! Também quero! – disse.
- Se eu fosse você, não entraria numa competição com ... Mas a escolha é sua! – sugeriu.
- Quero ver se ela bebe tanto quanto falam. – ergueu a sobrancelha, desafiando .
O que não é bom. não é do tipo que pode ser desafiada... Não mesmo!
- Fechado, !

perguntou se Hayley e Ben nos acompanhariam, mas, assim como os irmãos de e , eles recusaram o convite, então fomos nós seis para uma das boates mais badaladas da cidade. Assim que chegamos lá, fomos fazer a competição de quem bebia mais. Felizmente, os barmans de lá já conheciam as meninas, principalmente , que ia lá quase todo final de semana, então todos podíamos beber e ficar louquíssimos, estávamos seguros. foi a primeira a desistir da competição, depois de quatro rodadas. Mais duas rodadas e quem desistiu foi , que saiu com para dançar. Na décima rodada, eu e desistimos ao mesmo tempo: já estávamos bem altos. Ou seja: e estavam competindo. Coisa boa não ia sair, né?

Eu encorajava e , encorajava , que tomaram mais uma dose ao mesmo tempo. E outra. E outra. E outra. Eu e já não dizíamos mais nada para encorajar ou desestimular um dos dois, apenas assistíamos à disputa fervorosa dos dois, que trocavam insultos de brincadeira e tentavam desencorajar o outro. Dei um gole na minha dose de whisky vendo e virarem o décimo nono shot.
- Pronto? – perguntou a , enquanto pegava o vigésimo shot.
- Pronta? retrucou, arqueando a sobrancelha em desafio e pegando no copo.
Entretanto, quando sentiu o cheiro da tequila entrando em suas narinas, colocou o copinho de volta na mesa ao mesmo tempo que virava seu shot. Quando terminou de chupar o limão, ela olhou pra ele:
- Desistiu?
- Desisti.
- FUCK YEAH! – Ela disse, pegando a dose dele e virando, sem nem colocar sal na boca ou chupar o limão depois: - WEEEE ARE THE CHAMPIOOONS, MY FRIEEEEND!!! – Ela cantou, alegre.

Então, “depois de mais uma vitória épica de ”, como disse antes de sair com para dançar, pediu mais um shot de tequila e, depois, uma dose dupla de vodca. Ficamos por algum tempo conversando no bar, até que decidimos ir dançar.
Acordei numa cama que não era a minha, confuso e com a garganta seca. Ao meu lado, uma mulher. “O que porra eu fiz ontem?”, me desesperei. Forçando-me a lembrar, lembrei que fiquei dançando com , depois da competição, nos divertimos muito, mas não tive coragem de beijá-la. Infelizmente. Se eu não tive bêbado, imagina sóbrio. Quando a festa acabou, um táxi já conhecido de nos deixou aqui e, como eu estava menos bêbado que ela, a ajudei a chegar ao quarto e a deitei na cama, onde caí e capotei também.

Recapitulando a madrugada, andei pela casa de até chegar à cozinha que eu já conhecia. No caminho, encontrei dormindo no corredor; dormindo na espreguiçadeira na piscina, no chão de um dos banheiros da casa, perto do vaso sanitário, e no tapete da sala. Então, obviamente, a mulher que estava dormindo comigo era , portanto me acalmei um pouco: "Puta merda! Eu dormi na mesma cama que ela! E se a gente tiver ficado e nenhum dos dois lembra???". Quando abri a porta da cozinha, o cachorro dela veio me recepcionar, me abaixei e disse:

- Bom dia, Gladstone! Como foi sua noite, garoto? – Ele balançou o rabo e lambeu minha mão enquanto eu fazia carinho na parte de trás de sua orelha.
Decidi fazer café da manhã, então bebi água, lavei as mãos e comecei a fazer panquecas para comer, porque eu estava com uma fome de animal e eu sabia que não se importaria.
- Que cheiro bom! – A ouvi dizer e me virei.
- Estava pensando em você agora, sua estranha! – Eu disse e nós dois rimos.
- Pensando se eu ia me revoltar porque você está usando minha cozinha e me recusar a te oferecer comida? – Ela andou e cruzou os braços, para encostar o ombro esquerdo na parede, me vendo fazer a comida.
- Quando eu disse que você era estranha, eu estava brincando, não era pra você comprovar, ok? – Sorri vendo-a gargalhar.
- Tem pra mim? – Ela me olhou com os olhos do gato do Shrek.
- Claro que tem, né? Você acha que eu ia fazer comida pra mim e não ia fazer para a minha anfitriã linda?
- Na verdade... – Ela mordeu o lábio, pensando. – ACHO! – Ela gargalhou.
- É... Saiba que você está completamente... Certa! – Nós dois rimos.

Terminei de fazer as panquecas e empilhei algumas no prato de , que batia palmas feito uma criança feliz. Quando colocava muita calda de chocolate por cima delas, disse:
- Adoro panquecas!
- Eu percebi! Você vai ficar diabética com tanta calda de chocolate, ! – Comentei, fazendo-a rir.
Ela cortou o primeiro pedaço de panqueca e o levou à boca, mas parou no meio do caminho:
- Você lavou as mãos antes de fazer as panquecas, né?
- Lavei sim, pode comer. – Ri.
Outro complexo que ela tem é o de olhar a origem dos alimentos que ela compra no supermercado, e evitar contatos desnecessários com bactérias, como, por exemplo, comer algo feito por alguém com as mãos sujas, ou não beber do mesmo copo de outra pessoa, ou não usar os mesmos talheres, não comer amendoins em bares, enfim, qualquer coisa que era uma fonte óbvia de bactérias. A observei levar o garfo até a boca e mastigar lentamente, para depois dizer:

- Se nada der certo na nossa vida, a gente se casa, pra você me fazer panquecas sempre! – Ela riu.
- Ah, você só me quer pra marido por causa das panquecas? – Fingi indignação.
- Você cozinha outras coisas? – Ela perguntou e riu mais ainda.
- Engraçadinha. – Dei um sorriso irônico pra ela.
- O quê? Não é culpa minha se eu acho um charme homens que cozinham!
“Ponto pra mim.”
- Sou charmoso, então? – Fiz uma careta proposital, fingindo que estava querendo parecer sexy.
- Um pouco, ok? – Ela riu. – Mas, pra mim, é justíssimo que um homem cozinhe. Quero que meu marido saiba fazer comidas gostosas... – Ela deu de ombros.

falou como se não soubesse cozinhar, mas uma das melhores macarronadas que já comi na minha vida foi feita por ela. Ela é dramática, só isso. Mas o comentário dela me fez querer dizer: “Eu sou o cara perfeito para você, , mas, mais uma vez, me controlei. Não quero perdê-la por um descuido idiota.

- Capítulo 05:

Numa sexta à noite, quase dois meses depois do show, decidiu aceitar um dos milhares pedidos de para saírem juntos e já estava saindo com há algum tempo. Eu e estávamos na mesma. Ela sempre mostrava que eu era amigo dela e eu sabia, mais e mais, que nunca passaria disso. Eu continuava na mesma. me chamou para ficar lá com ela, oportunidade que eu não perderia por nada nesse mundo. Entrei em sua casa e ela não estava me esperando na sala, como de costume. Ela estava sentada numa das espreguiçadeiras da piscina, tocando violão. Parei na porta de vidro que separava a cozinha da piscina e fiquei observando-a cantar “She Will Be Loved”.

Ela era tão perfeita, tão incrível... Desanimei quando lembrei que a única coisa que havia mudado em relação a ela era que eu agora a conhecia e ela era minha amiga, porque a imagem que eu tinha dela era exatamente a mesma da vida real. E o meu amor por ela continuava platônico. Mal percebi que a música tinha acabado e continuei a observá-la com um sorriso bobo na cara. Ela começou a tocar “Better That We Break” e percebi que no meio da música, ela começou a chorar, o que me fez andar até ela e sentar na sua frente, para encará-la.
- O que você tem, ?
- Nada, ... – Ela respondeu, limpando as lágrimas.
- Claro que você tem, ! Olha pra você aí chorando! – Respondi, irritado.
- Não é nada, sério... Não precisa se preocupar. – Ela disse e me abraçou.
Meu coração ainda disparava sempre que ela chegava perto demais e meu corpo aquecia sempre que eu sentia seu cheiro. Nos desvencilhamos do abraço e ela me chamou para os colchonetes que ela havia colocado ali, já que não cabíamos numa mesma espreguiçadeira. Ela deitou e apoiou a cabeça no meu ombro, enquanto eu brincava com uma mecha de seus cabelos.
- O céu tá lindo hoje, né? Olha a Lua... – Ela comentou.
- Está mesmo...
- Você demorou demais pra me encontrar aqui?
- Não... Quando vi todas as luzes desligadas, supus que você estava aqui fora, olhando para o céu. Eu sei que você gosta de fazer isso.
- Gosto mesmo... Às vezes eu fico imaginando como seria incrível se começasse a chover absinto.
- Absinto, ? – Ela me olhou como se aquilo fosse óbvio, me fazendo rir.
- É... – Ela deu de ombros. – Imagina como ia ser psicodelicamente lindo, ! O céu azul escuro, à noite, e gotas verdes neon caindo das nuvens... É assim que chove no meu “mundo perfeito” – ela fez aspas com a mão – além de ser lindo, você fica bêbado de graça, é só ir para a chuva e abrir a boca. – O comentário me fez rir.
- Você tem uma definição de mundo perfeito? – Perguntei.
- Tenho... Você não? – Ela levantou a cabeça pra me olhar.
- Acho que tenho. – “É claro que eu tenho."
- E qual é? – Ela perguntou, depois de voltar a olhar para o céu.
- Conta o seu primeiro. – Pedi.
- Além de chover absinto, não tem fome. Nem guerra... Não gosto de guerras. Nem doenças. – Ela disse, me fazendo rir. – O que foi? – Ela levantou a cabeça de novo, para me olhar.
- Nada... É só que é bem típico seu mesmo, querer um mundo assim. Você é muito generosa, . E você ama o amor... Pode não ser o amor entre homem e mulher, talvez você não tenha encontrado ainda, mas você ama o amor em si. O amor em geral. – Eu disse, sem entender o motivo de eu estar dizendo aquilo, sem conseguir me controlar e olhar para ela, mas sentindo seu olhar pesar em mim: - E eu sei muito bem que você evita toda e qualquer fonte óbvia de bactérias para não pegar doenças. Você não come amendoins dos bares e, se alguém der um gole de qualquer coisa no seu copo, você não bebe mais...
- Como você sabe tudo isso?
- Sou um cara observador. – Dei um meio sorriso e a olhei. – Mas continue.
- Não existe essa coisa de querer quem você não pode ter, ou querer o que é dos outros. Você só fica com a pessoa que foi feita pra você. Os animais não estão sendo extintos e não existe violência. Não tem buraco na camada de ozônio... E eu estou sempre com as pessoas que eu amo.
- Seria um belo mundo.
- Seria. – Pela voz dela, posso dizer que ela estava sorrindo.
- E Kurt Cobain estaria nele, né?
- E eu não permitiria que ele morresse...
- Porque você seria importante.
- E porque ele saberia que tem razões pelas quais ele deveria viver... – Ela suspirou.
- Eu estaria nele?
- Claro que estaria, né, seu besta? Como eu ia viver sem você? – Ela disse, mais animada.
O comentário me fez sorrir. Mesmo que eu não a tivesse como minha namorada, eu a tinha como minha amiga. E isso não era perfeito, mas era bom. Ela sentou e perguntou:
- E o seu?
- O meu o quê? – Olhei para ela, sem entender.
- Seu mundo perfeito, !
- Ah, sim... – Sendo observado, olhei de novo para o céu, fazendo das minhas duas mãos um travesseiro e, incontrolável e inconsequentemente, comecei a vomitar palavras: - Seria parecido com o seu... Mas a mulher que eu amo perceberia o quanto ela é importante para mim e o quanto ela faz a diferença na minha vida. Ela saberia que eu não consigo sair de perto dela, que eu não deixaria nada, nem ninguém machucá-la e que eu a protegeria sempre. Mas, nesse mundo, eu teria coragem de contar a ela como eu me sinto, eu diria tudo o que tá engasgado pra dizer. Mostraria como meu coração bate rápido quando ela me toca e o quanto a quero comigo...
- E por que você não fala a ela?
- Naah, eu não consigo. Mas eu gostaria de dizer... Queria que ela soubesse que todas as músicas que eu escrevi saíram de situações que eu imaginei com ela...
- Tenho inveja dessa mulher. – sussurrou, mas, ainda assim, eu ouvi o que ela tinha dito.
O comentário me fez olhá-la surpreso, ao mesmo tempo que ela arregalou os olhos e tapou a boca com as duas mãos.
- O que você disse? – Perguntei me levantando e, assim, sentando de frente para ela e, delicadamente, tirando suas mãos da boca, enquanto ela negava devagar com a cabeça. - Diga, . Por favor... – Pedi e ela suspirou.
- Eu disse que tenho inveja dessa mulher.
- Por quê? – A olhei incrédulo.
- Porque ela tem você, . Ela é importante pra você. – Ela disse, olhando para as mãos. – Ela tem a pessoa que eu mais amo nesse mundo. Quem eu mais quero que esteja ao meu lado, me protegendo e mostrando o quanto sou importante...

A cada palavra que ela dizia, meu sorriso aumentava. É recíproco! Ela também me amava! E ela entendeu tudo errado... Era a cara dela não entender as coisas. Meu peito parecia que ia explodir, meu coração batia rápido e o efeito disso foi uma crise de risos.
- O que foi? – Ela perguntou ainda olhando para as mãos.
- Você entendeu tudo errado, ... Pra variar, entendeu tudo errado. – Disse, levantando seu queixo delicadamente. – É você, . Sempre foi você. Você é a mulher do meu mundo perfeito. Você é importante. Importante demais. Eu te amo desde sempre, desde antes de te conhecer. Sempre tive um amor platônico por você, mas nunca achei que fosse acontecer nada. Mas aí nós nos conhecemos. E eu me apaixonava mais ainda por você... , eu tenho um pôster seu de dois metros de altura no meu quarto! – O comentário a fez rir levemente.
- Por que você não me disse antes? E, espere... É por isso que você nunca me deixou entrar no seu quarto? - Ela cruzou os braços, fingindo indignação.
- Porque você sempre repetia que eu era seu amigo. E, você sabe... Amigos não namoram.
- Eu achava que você não queria nada comigo. – Ela abaixou a cabeça. – Por isso falava aquilo... Pra me convencer e me conformar que eu não podia ter você.
- Eu não acredito nisso! – Disse, incrédulo e a abraçando, que apoiou a cabeça em meu peito. Dei um beijo no topo de sua cabeça e levantei seu queixo: - ... Você é a mulher mais incrível, linda, sedutora e perfeita que existe nesse mundo. Seria impossível não me apaixonar por você. – Ela sorriu e me deu um selinho.
- Eu te amo, .
- Eu também, .
Meu coração batia forte e descompassado, do jeito que sempre bateu quando ela se aproximava de mim, então coloquei a mão dela em meu peito, que sorriu quando sentiu meu coração. A puxei para mim e, finalmente, realizei o maior desejo que eu tinha: a beijei intensamente, do modo como eu só havia feito nos meus sonhos e, ainda, fui correspondido com amor e ternura. E então, depois de anos e anos imaginando como seria o sabor do beijo dela e se seus lábios eram tão macios quanto eu achava, consegui comprovar que minha imaginação nunca fez e nunca faria justiça a nada relacionado à . Nada.


FIM.


N/A:
Hey, hey, hey!!! Bem, gente... Inicialmente essa deveria ser uma one shot, mas ela meio que virou meu amorzinho porque eu ADORO essas coisas de amores platônicos pelos ídolos... I'm a proper fangirl, guys! Enfim, o final é BEM meloso, mas achei justo colocá-la no site! Obrigada por lerem, indiquem se gostarem, critiquem se não e, é isso! :D

N/B: Se encontrar algum erro, mande um e-mail para drainnotes@live.com ou me avise pelo Twitter.

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