1º de Junho

“Não me lembro muito bem desta parte da história.
Naquele dia eu estava de folga do trabalho. e eu andávamos pelo campus após o término da aula. Como era rodízio do meu carro e o dela estava na oficina, decidíramos ir juntas para o meu apartamento fazer uns trabalhos da faculdade e ver uns filmes depois.
As ruas de Londres já estavam escuras, mas as ruas pelas quais passávamos eram movimentadas.
- Sabe, parece bobagem adolescente. Mas às vezes ainda penso nele. Às vezes eu volto a pensar como alguns anos atrás e fico me perguntando 'Cara eu cheguei tão perto sabe? Eu estou aqui, tão mais perto do que eu estive a minha vida toda. Porque eu deixei isso ir embora? Porque eu parei de tentar?' - Fiz uma breve pausa e a olhei - Isso é muito ridículo? Alguém com a minha idade, já adulta, ainda desejar de vez em quando, ter um ídolo? Digo, em casa?
- Eu realmente não sei, mas se você tem problemas, eu também tenho – nós rimos – Na verdade, eu nem ligo. Não faz tanto tempo assim. Foi esses dias que nós pegamos um avião tentando encontrar os caras dos nossos sonhos, a diferença é que agora a gente tem uma vida diferente, somos adultas e temos que agir como tais. Mesmo assim, ninguém nunca me disse que adultos não podem sonhar.
Nós sorrimos. Eu me sentia como uma adolescente apaixonada dizendo tudo aquilo, mas a verdade era que já estava acostumada. Ela sabia quando essas idiotices me faziam pensar. Talvez fosse só a saudade de sentir que eu estava crescendo de novo. Que eu não era mais só uma moleca.
- Isso vai parecer extremamente infantil... – um vento frio começou a soprar quando eu interrompi o silêncio. E foi aumentando sua velocidade e intensidade a cada nova palavra que eu dizia – ... Mas o que eu mais queria agora, era viver com do meu lado. Danem-se quem está ouvindo, e danem-se as consequências.
Aos poucos, as ruas pareceram esvaziar, o vento cada vez mais forte, mas eu parei de prestar atenção quando me fitou estupidamente sorridente.
- Se nós ainda somos as mesmas, amiga, então eu também.
Uma névoa estranha se instalou ao nosso redor, o vento soprava de um jeito que meus olhos nem se abriam direito; então eu pus a mão em frente ao meu rosto para tentar enxergar alguma coisa.
fazia a mesma coisa com uma das mãos, com a outra, ela me segurava tão forte que chegava a doer, mas eu não ligava. Estava com tanto medo que só queria sair dali.
- !! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! – Ela gritava. O barulho do vento parecia fazer com que ninguém nos ouvisse. Podia ver que ela estava tão apavorada quanto eu, e que meus olhos já marejavam.
- E-EU NÃO SEI!! – Gritei em resposta com urgência.
Não adiantava pedir socorro, então o melhor a fazer era ficar alerta e tentar sair o mais rápido dali. O silêncio impregnou no ar, exceto pelo barulho do vento que ficava cada vez mais forte e poeirento, e uns dois minutos depois senti a mão de fraquejar entre as minhas. De repente ela me soltou; um estampido aos meus pés e percebi que minha amiga tinha desmaiado. Entrei em pânico.
- !! ACORDA, POR FAVOR! NÃO ME DEIXA AQUI SOZINHA! – Eu chorava enquanto dava-lhe tapinhas no rosto para que ela acordasse. Mais alguns segundos e a tempestade nos levaria.
Segundos depois senti uma fraqueza dominar meu corpo e desmaiei por cima do corpo dela.”

Capítulo Um –

Minha cabeça girava e doía fortemente, mas eu não lembrava de ter bebido na noite anterior. Aliás, não lembrava de absolutamente nada.
Abri os olhos com a dificuldade de quem tenta levantar um elefante. Olhei o relógio e levei um susto. Eram quase meio-dia e meia. Tinha que estar na faculdade à uma e meia. Me levantei da cama num pulo e corri para o banheiro. Tomei meu banho correndo e só quando saí, percebi que Digby, labrador da minha mãe, que tinha vindo passar alguns dias comigo enquanto ela estava viajando, tinha dormido comigo e ainda estava totalmente coberto.
Separei uma jeans, uma camiseta branca, meu eterno cúmplice all-star e um agasalho pesado. Me vesti e nada do Digby acordar; estranho.
- Ô cãão! Bom dia! – cantarolei. Fiz uns assobios ensaiados para chamar o cachorro.
O normal seria ele descer e seguir para a cozinha para tomar café comigo como havia feito nos outros dias, mas só murmurou um preguiçoso “hm”.
Será que eu tinha dado uma festa e embebedado o cachorro também?
Fato que nos dávamos muito bem que ele chegara ao apartamento, mas eu nunca tinha exagerado a ponto de deixá-lo de ressaca comigo.
Ignorei e o deixei dormir, vai que cachorro também tem preguiça. Sei lá né; peguei a bolsa, desliguei a luz e ao encostar a porta do quarto, mandei um beijo no ar e disse:
- Te vejo mais tarde, não quebre nada!
- Tá bom amor, te amo! – uma voz dentro do quarto gritou em reposta. O_O’
Ao me virar para o corredor, o verdadeiro Digby estava deitado à minha frente, com os pêlos dourados esparramados no piso de tábua corrida e abanando o rabo de forma divertida.
Fui até a sala lentamente, tirei o tênis, larguei a bolsa no sofá, peguei uma facão na cozinha e voltei para o corredor que levava ao quarto evitando qualquer barulho. Tentei me manter fria e não pensar que provavelmente a pessoa lá dentro tinha dormido comigo.
Abri a porta com uma das mãos; a outra estava estendida para frente, como uma ameaça, com a faca na mão.
- Q-Quem está aí? – perguntei aparentemente calma, mas com medo da resposta.
- Eu, ué. – Parecia uma voz conhecida, mas nem tanto assim, talvez não de convívio.
- Você? – ele respondeu um ‘uhum’ brincalhão – e... eu posso saber quem é você?
- , que brincadeira é essa? – Gelei. O homem que estava lá dentro parecia mesmo me conhecer, e fazia barulhos indicando que vinha na minha direção. Ele abriu a porta. Estava só de cueca. Gelei de novo, dessa vez a ponto de me imobilizar completamente. Devia ser algum tipo de alucinação. Ai meu deus! Alucinações não são causadas por bebida!
Enquanto meus pensamentos arranjavam mil desculpas que pareceriam lógicas para mim naquele momento, eu continuava boquiaberta diante dele.
- Ah... Meu... Deus...! – eu disse pausadamente, piscando algumas vezes mas tentando manter os olhos bem abertos para que eu pudesse ver também duendes e unicórnios saindo do meu quarto, porque na melhor das hipóteses, eu estava mesmo alucinando.
- O que foi? – ele perguntou com uma expressão confusa
- O que foi? O que você faz aqui? Eu te seqüestrei? – me apavorei
- Não! – ele parecia cada vez mais confuso – Você está se sentindo bem? Quer dizer... Por que eu não estaria aqui? A gente brigou?
- Por que a gente brigaria? – eu não entendia absolutamente nada. E ele também não. Não parecíamos falar do mesmo assunto.
- Por que a gente não brigaria? Quer dizer... Às vezes é normal.
- Do que exatamente você tá falando?
- Amor, você está com amnésia? - ele tentou segurar meu pulso
‘Amor’? Que história era aquela de amor?!
- Deve ser, porque eu não consigo lembrar de absolutamente nada. – ri irônica. Há há, essa era boa. Agora eu era a louca com amnésia?
- Mas... – merda! Ele leva tudo a sério? – você ainda lembra que eu sou , seu namorado né?
- Meu o quê? – Ok a alucinação tinha chegado ao ponto culminante. Agora eu já tinha certeza de que aquilo não era realidade. Eu ainda estava em algum lugar desacordada, sonhando com as palavras que eu não traria à realidade se não acordasse. Com a dúvida, uma onda de fraqueza passou por todo meu corpo até chegar às minhas mãos e acabei deixando cair a faca no pé dele.
- AAAAAAAAAI CARALHO! – ele gritou com o corte profundo que eu tinha acabado de fazer. Me apavorei. Hesitei por alguns instantes, respirei fundo e organizei o que eu devia fazer naquele momento. Me abaixei depressa, rasquei a barra da minha blusa e usei para estancar o sangue, me levantei e o ajudei a chegar no banheiro.
Ele se sentou e eu peguei o kit de emergência. Em poucos minutos eu tinha feito um curativo. No final, fui obrigada a encará-lo, mas não queria porque de certa forma, me sentia mal. Era o sonho mais estranho que eu já tivera.
- Me desculpe... - comecei
- Não se preocupe. Isso acontece direto por aqui. – ele brincou.
- Aposto que sim – nós rimos. Eu não me atreveria a mentir, dizendo que eu não era desastrada. Na verdade, eu era o desastre em pessoa.
- Sorte a minha que você realmente leva jeito pra isso – ele indicou o curativo no pé com a cabeça. Fiquei tímida.
- É só porque eu estudo...
- Medicina – ele me interrompeu sorrindo – eu sei
O silêncio constrangedor se instalou no ar enquanto nos encarávamos. Ele devia estar pensando em muita coisa, e por um segundo, eu quis saber o quê. Já eu, sabia exatamente o que pensar. , meu paraíso particular na Terra, estava na minha frente, na minha casa, na minha vida. E talvez não fosse por ação de uma forte batida na cabeça ou por culpa de cogumelos alucinógenos.
- Bom, falando nisso, tenho que ir. Então... hm... Tchau. – dei-lhe um beijo na bochecha. Eu devia estar muito vermelha, porque ele sorria presunçosamente quando peguei outra blusa e deixei o quarto. Me troquei no quarto de hóspedes e saí de casa.
No elevador, procurava as chaves do carro na bolsa. Mas parei e a fechei, decidi que era melhor não dirigir aquele dia. Afinal, já me encontrei em estados melhores.
Na faculdade, me contou o que tinha acontecido. Ela também tinha acordado com , mas eles conversaram e pareceram entender melhor a situação do que eu e .
O que era realmente estranho, é que ela lembrava exatamente de tudo, enquanto eu tinha uma vaga lembrança da noite anterior.
Após a faculdade, fui para o trabalho. Fazia estágio em um hospital da região, para ganhar experiência.
Quando se está com a cabeça vaga, o tempo passa rápido. Era estranho o quão gentis estavam comigo naquele dia. Outra coisa que não fazia sentido. Logo deu oito horas e eu pude ir pra casa. Cheguei cansada e pelo silêncio, concluí que havia sido realmente um sonho o acontecido mais cedo. Senti um súbito alívio.
Destranquei a porta e antes de poder acender as luzes, meu queixo caiu. Velas por todos os lugares, parecia uma miniatura da cidade de Nova Iorque. Fiquei parada, nem tirei os sapatos, nem larguei a bolsa no sofá para trancar a porta, como normalmente faria, já considerando sair correndo dali. Passado uns três segundos, eu notei uma música lenta, bem baixa tocando ao fundo.
“Corre enquanto você pode, . Por favor!”, uma voz implorava dentro da minha cabeça, mas como de praxe, a curiosidade não me permitiu.
Adentrei apenas uns dois passos no apartamento, só para ver se...
Agilmente, mãos habilidosas fecharam a porta e me seguraram fortemente pela cintura por trás. Se aproximou devagar, colando nossos corpos e respirando fortemente na minha nuca. Alguns beijos provocantes no pescoço e eu perdi a noção do tempo e espaço.
me virou e me fitou com um olhar sexy. Não sei que efeito ele estava tentando causar, mas de repente, ao fitá-lo em um único segundo de insanidade, aquilo me deu vontade de rir. Eu estava me segurando muito para não rir. O que era aquilo, afinal? Uma tentativa de assédio?
Ele pôs as mãos em minha cintura e me puxou lentamente para perto, dessa vez de frente.
- Quem sabe, eu não posso te ajudar a lembrar? – sussurrou. A voz rouca me fez arrepiar a princípio, mas depois senti nojo. Como eu podia... Sem nem conhecê-lo?
Num momento de carência, de vontade, bêbada, até mesmo depois de uma festa, eu entenderia. Se fosse outra pessoa. Mas a figura dele, quem ele era, quem eu sempre quis, eu respeitava isso. Por mim. Eu sentia de outro jeito, não podia ser como se fosse apenas mais um.
- Ew! Chega, sai daqui! – eu disse com uma voz aguda quando corri me afastando dele. – Você não precisa me lembrar de nada não!
Corri e dei a volta no sofá. Estava quase colada na TV e ele parado na entrada.
- Tem que ter uma explicação! - eu disse em voz alta, tentando socar a frase dentro de minha própria cabeça - morreu e a alma dele tá atrás de mim agora! Não é possível! – comecei a massagear as têmporas e andar de um lado pro outro.
Ele continuava me olhando estranho; eu parei, respirei fundo e tentei explicar.
- Eu sei quem você é – a expressão dele pareceu se aliviar – mas realmente não sei o que faz aqui, eu não te conheço... Pessoalmente, sabe?
- Mas como? Eu sou seu...
- Não repete! – gritei. Me acalmei, respirei fundo mas ainda tremia. – Não repete, por favor. Nós dois já estamos suficientemente confusos. Eu vou tomar um banho e a gente conversa com calma, ok?
- Melhor assim. - ele pareceu entender que podia ser o único jeito.
Demorei mais que o planejado em meu banho. A água quente me fez esquecer de tudo. Vesti o roupão, sequei os cabelos e fui para a sala.
Por sorte ele estava de pijama. Tinha tomado um banho também; seu cabelo molhado e bagunçado o deixavam ainda mais bonito, embora isso parecesse impossível. Eu o preferia assim, ao natural do que bancando a estrela pornô. Era assim que ele apareceu por anos nos meus sonhos.
Ele não me esperava sozinho e sua companhia fez meus olhos brilharem como os de uma criança.
- Chocolate quente!
- É – ele sorriu – vem, senta aqui. Eu não vou te morder. – deu dois tapinhas para que eu me sentasse ao lado dele. Peguei minha xícara e acabei descobrindo que ele fazia o melhor chocolate quente, definitivamente.
- Eu não sei como eu vou te explicar isso. Nem eu entendi ainda. - Respirei fundo – Eu tentei organizar minha cabeça no banho, mas mesmo assim … Nada.
- Pra mim, parece que você sofreu uma amnésia – ele deu de ombros e tomou um gole. Como se uma amnésia não fosse nada demais, tentei não rir.
- Tá, e considerando que eu tenha sofrido uma amnésia. Como você me conheceu nesse caso?
- Eu vi você pela primeira vez com Lucy Hanson em um jantar beneficente, onde nós fomos convidados para tocar. Ela disse que você era genial, e que conseguiria um ótimo cargo no hospital quando acabasse a faculdade, e sendo assim, era dever dela levar você para conhecer algumas pessoas.
- Minha chefe? Lucy Hanson, me adora? - eu ri – Então alguma coisa aconteceu com ela também, pode ter certeza. Ela não me acharia genial nem se eu achasse a cura para o Câncer.
- Aí é que você se engana. Ela disse que você era um desastre no começo, mas que pegou o jeito e andou se dando muito bem por lá. Enfim, nesse jantar eu não pude evitar olhar pra você o tempo inteiro, e aquele jeito meio misterioso, meio calado... - ele sorriu – Nós acabamos ficando e depois eu te liguei uma, duas, três vezes, mas você estava sempre ocupada. Eu já estava a ponto de desistir quando você decidiu aceitar sair comigo de novo. E depois, eu sempre queria saber mais sobre você e passava as noites e os ensaios pensando e tentando entender o que você estava fazendo comigo – minhas bochechas esquentaram – Até que por fim, deu certo.
Fiquei em silencio, depois de uns dois segundos pigarreei.
- Há quanto tempo nós estavamos... juntos?
- Eu te vi pela primeira vez ao final de junho, então... Julho, Agosto, Setembro … Faziam uns três meses.
- Quê? - abri minha boca. Ok, alguns dias, considerei até algumas semanas, mas meses? Impossível. Como eu ficaria ausente, em uma espécie de coma psicológico por meses?
- Faziam três meses – ele repetiu – Eu comecei a notar de uns dias pra cá, que o seu “mistério” na verdade era “vazio”. E agora você aparece aqui, completamente diferente, tentando me explicar que sofreu algum tipo de amnésia e me amarra de volta – ele riu baixo – Eu quero de novo saber quem você é, o que faz, e o quê exatamente você tem que não consegue me deixar ficar longe.
- Olha, por favor. Não piore tudo. Eu só quero entender, por enquanto – ele assentiu, compreensivo.
- Sua vez. Como era sua vida... sem mim? Do que exatamente você lembra?
- Lembro do trabalho, da faculdade, dos amigos, da minha família. Da minha vida normal, sem namorados astros do rock ou qualquer coisa do gênero. – eu falando naquela espontaneidade, parecia muito mais simples de entender. – A última coisa que eu me lembro, foi o bendito dia do pedido, que o vento passou e eu desmaiei.
- Quê? - ele me olhou, possivelmente concluindo que eu estava louca. Sem mais – Que vento, que pedido? O que você pediu? – ele ficou curioso e eu senti que não ia conseguir responder. Depois de um tempo, respirei fundo e disse por fim.
- Você. – Aquilo parecia muito mais um sussurro do que uma fala. Não conseguia encará-lo. Era mais confortável encarar os marshmellows que boiavam em minha xícara. Mas percebi um sorriso vindo dele em minha visão lateral.
- Você lembra que dia isso aconteceu? – ele voltara a parecer um psicólogo
- Dia 1º de Junho.
- Você não se lembra de nada que aconteceu desde primeiro de Junho? - ele me olhou boquiaberto e eu senti a tensão começando a crescer. Não consegui responder. Parei pra pensar por cinco minutos.
- , que dia é hoje? - eu não sabia se queria mesmo saber a resposta.
- Dia 2 de setembro, por que?
- Hm – pensei mais um pouco – Não importa o quão ridículo isso pareça, ouça até o final ok? - ele assentiu – Vamos supor que eu tenha mesmo sofrido a amnésia. Ok, e vamos supor que eu tenha ficado tipo em “piloto automático” nesse tempo em que eu sofri tipo um coma psicológico. O ultimo dia que eu consigo me lembrar é 1º de Junho. Nesse dia, eu desmaiei com a minha amiga. E agora, estou aqui.
- Hm, ok – ele prestava atenção em tudo que eu dizia.
- Seria muita idiotice dizer que: Eu desmaiei no primeiro dia, passei um mês inteiro fazendo tudo para ter sucesso no meu trabalho e só no meu trabalho, agradei minha chefe, conheci você e permaneci desacordada por 4 meses enquanto, para mim, só se passou um único dia? - franzi a sobrancelha e esperei a resposta. apoiou o cotovelo nos joelhos, e ficou pensativo fazendo alguns 'hm's enquanto coçava o queixo.
- Não sei , é meio como no 'Click' onde você seria o Adam Sandler e isso já seria suficientemente estranho. Não sei se alguém vai acreditar, mas faz sentido, as datas batem – ele deu de ombros. Não consegui evitar rir com a comparação ao Adam.
- Ok, talvez eu tenha tempo pra descobrir isso. Não quero mais pensar no assunto, . - ele me sorriu idiota – Que foi?
- Eu confesso que estou um pouco surpreso com essa confiança toda – ele abriu um sorriso mais largo – Mas eu gosto disso, e eu confio na nova-.
- Nova- – ri fraco – Isso deve ser tão estranho pra você né?
- É tanto quanto pra você – ele segurou minha mão e piscou – mas a gente resolve.
Senti um arrepio passar pela minha coluna. Strike! Pelo menos eu acertei no pedido. Senti um climinha começar a rolar e confesso que isso me assustou um pouco. Dei um pulo do sofá.
- Preciso fazer um teste – eu disse
- Um teste?
- Aham. Como eu já te conheço bem, preciso saber o quanto você me conhece. – levantei para buscar um caderno e umas canetas. Entreguei uma folha a ele e peguei uma para mim – Toda palavra que eu disser, você põe o que você acha que eu responderia como meu preferido ok? Vou escrever o que eu realmente gosto, pra não haver dúvidas de que eu não modifiquei a resposta na hora. E depois a gente troca.
Ele me olhou intrigado mas confirmou e me esperou começar.
- Minha cor preferida. Uma mania. Um país que eu gostaria de conhecer. Uma banda. Um filme. Uma amiga. Uma paixão. – pausei – Deus, como isso é idiota – ri falando mais pra mim que pra ele.
Ao terminarmos, trocamos as folhas. Não sei dizer qual dos dois parecia mais espantado com os resultados.
- O que é isso? Acho que não estamos falando da mesma pessoa, – forcei o riso.
Nenhuma compatibilidade à primeira vista. Ele não tinha a mínima noção dos meus gostos musicais, culinários, hobbys, nada. Não sabia nem o nome da minha melhor amiga. Meu piloto automático já parecia uma vaca pra mim. Que tipo de “eu” não comentaria nem uma vírgula sobre ?
Ele se abismou por alguns segundos com alguns dos meus gostos musicais do rock britânico mais antigo. Pareceu impressionado por muito tempo e ainda mais curioso sobre mim. Era como se o empolgasse ter que redescobrir a pessoa com quem ele estava por meses. Isso era um tanto estranho na minha visão. Eu não conseguia absorver porquê eu estava ali. Nem porquê ele entendia tão bem, como se fosse normal. Era quase absurdo.
No entanto, ao ler as respostas dele, só consegui rir fraco e comentar:
- É, eu acho que a gente precisa se conhecer um pouco mais né? – não me culpem pelo uso de ironia constante e inconsciente. É fruto de muitos anos. riu e confirmou com a cabeça. – Mas só a partir de amanhã. Agora, eu só preciso dormir um pouco. – Dei um beijo estalado em sua bochecha macia e fria. Não pude evitar a agitação de uma fã idiota – Boa noite,
- Boa Noite, – ele respondeu enquanto eu depositava-lhe o beijo no rosto. Quando fiz menção de seguir para o quarto, ele segurou meu punho agilmente e disse baixinho – só... por favor, não vá embora.
Meus olhos brilharam, o frio na barriga se remexeu em meu estômago, e eu sorri involuntariamente.
Minha única certeza era que eu sentia, de alguma forma, que eu confiava nele.


Capítulo Dois-

Minhas crises de insônia davam o ar da graça de vez em quando. Naquele dia, eu tinha acordado às cinco e meia da manhã, sem nenhum motivo aparente. Inclusive eu esperava dormir mais. Aquele sonho estranho tinha me cansado mais do que descansado.
Levantei da cama de pés descalços, tremendo com o contato da pele quente com a madeira fria. Abri a grande janela para entrar claridade em meu quarto.
Vi que não ia conseguir dormir de novo, e a revisão dos últimos fatos (que eu não tinha nem idéia se eram reais ou não) me fizeram ir até a cozinha preparar o café da manhã. Passando pelo quarto de hóspedes, confirmei o que temia. Ele ainda estava lá, o que provava que eu tinha feito uma merda das grandes dessa vez.
O fato é que quando você faz algo errado, você tem que no mínimo assumir. Era hora da parar de reclamar e aceitar que aquilo poderia estar realmente acontecendo comigo, embora eu não soubesse como. Eu devia algo a . Ele fora bem compreensivo nas últimas 24 horas. Bem mais do que eu esperava, na verdade. Costumava ser bem chata de manhã, mas a situação já estava suficientemente estranha para nós dois para que eu continuasse fazendo caso. Abri o congelador e peguei o saco de pães de queijo prontos para assar. Eu amava cozinhar. Mas nem sempre. Não de manhã.
Enquanto os pães de queijo assavam, preparei um suco de laranja bem forte. Em poucos minutos, a mesa estava pronta. Me servi e fui para a sala.
Liguei para minha mãe para saber como tinha sido a viagem e quando eu poderia devolver Digby. Parei para pensar e me arrependi da proposta de devolvê-lo: E se o verdadeiro fosse um serial killer? Eu precisava de alguma testemunha. Afastei meus devaneios idiotas. Depois, peguei um filme na minha estante particular. Seleção feita por mim dos melhores filmes, livros e CDs. Organizados por tipo, gênero e data de lançamento. A única coisa organizada naquela casa.
Na metade do filme, apareceu na sala ainda com cara de sono.
- Os sem floresta? – Ele riu baixo, passando pelo sofá e se sentando ao meu lado.
- Qual o problema? Eu gosto de filmes infantis de manhã, tá? – Disse, indignada.
- Que inocente. – Ele brincou. Pegou um pão de queijo do meu prato, que estava na mesa de centro.
- Vai pôr pra você, folgado. – Dei um tapinha na mão dele assim que ele roubou um dos meus.
- Hm. Isso aqui tá bom. – Ele me ignorou completamente, como se nem tivesse me ouvido falar.
- Eu sei, fui eu que fiz. – riu, olhando para a TV. Pausa. – Sabe, você tem sorte. - eu disse
- O que? – Ele me olhou, confuso.
- Achar uma menina bonita, inteligente, que cozinha bem, tem bom gosto, sabe fazer curativos... - Eu ia continuar, mas ele me interrompeu.
- Não esqueça modesta, dramática, vê filmes de criança, acorda tão cedo quanto minha mãe...
Eu sorri irônica para ele. Fui surpreendida com um beijo na bochecha. Ótimo, acordava de bom humor. Possivelmente haveria algumas guerras de manhã.
- Sabe o que eu tava pensando? – Ele resmungou um ‘hm’, ainda de boca cheia por ter roubado um segundo pão de queijo meu. Eu ignorei e continuei. – Com o tempo, a gente vai acabar não tendo assunto. Tecnicamente, a gente não namora, não trabalhamos juntos, o que acontece na minha vida não tem nada a ver com a sua... Então a gente tem que inventar alguma coisa que gere assunto. Aí, eu pensei num livro.
- Um livro? Pode ser. – Ele não tava me levando a sério. Talvez o esquilinho doido por cookies do filme fizesse mais sentido, claro.
- É. E eu até já pensei em um. Eu comprei mas ainda não li. - ele me olhou esperando que eu terminasse – Se chama ‘101 Coisas A Fazer Antes de Morrer’.
- Eu já fiz mais de 101 coisas interessantes na minha vida. – ele me olhou cético.
- Então agora você tem mais 101 – dei de ombros, mostrando claramente que havia sido uma retórica.
- Tá, não é nenhum mistério policial, ou um de terror, mas pelo menos não é um livro de auto-ajuda – ele suspirou.
- Ah, ! Para de drama, é super legal e vai render assunto. A gente pode começar amanhã.
Ele entendeu que aquilo não era uma pergunta, de novo. Bufou e resmungou durante uns dez minutos. Mas eu ignorei e ele acabou parando. um, zero.
Tomei meu banho, me troquei, peguei as chaves, e ia saindo.
- ! Tô indo! – Gritei da sala.
- Espera! – Ele gritou do quarto – Eu vou com você.
Em segundos, ele estava na sala, ainda vestindo o agasalho. Tinha um pacote em uma das mãos, que me foi entregue.
- O que é isto? – Perguntei.
- Abre. Espero que goste. Acredito ter um bom gosto. – Ele sorriu.
Era uma blusa branca, para repor a que eu tinha rasgado na manhã do dia anterior. Esta era mais bonita. Claro que eu não ia admitir isso, mas realmente era.
- Obrigada. – Fui sincera. – Não precisava.
Guardei o presente e saímos de casa. Estávamos em silêncio, no elevador, até que chegamos à portaria. O porteiro nos cumprimentou.
- Bom dia, sr. e sra. .
- Bom dia. – foi simpático. Sra. é? Hm.
- Bom dia, mas agradeceria se o senhor continuasse me chamando de sra. . Afinal, nós não somos casados, não é?
Eu olhei para , que apenas deu de ombros. Aceitei como uma confirmação. Saí andando e pude ouvir ele comentando com o senhor de óculos algo como ‘mulheres!’ e bufei. Ao chegarmos ao estacionamento, o carro dele estava do lado do meu. Antes de entrar, me irritei, me virando depressa para ele.
- Nós não somos casados, né?
- Não. – ele respondeu, simplesmente.
- Hm. Muito bom. – Me voltei para o carro, mas lembrei de outra coisa, hesitei e tornei a encará-lo. – Posso te pedir uma coisa? Tenta controlar esse seu jeito irritante, tipo seguro demais com tudo, pelo menos perto de mim, antes que eu surte ou mate você. Por favor?
Ele riu de um jeito gostoso, como uma criança recebendo cócegas, e eu realmente não entendi.
- Primeiro dia e você já tá tão incomodada? Assim você não vai muito longe, amor. – Ele tentou uma provocação. Eu ergui uma sobrancelha.
- Pois é bom que você saiba que eu não vou dar o braço a torcer só porque hoje você acordou com vontade de me provocar, amor.
- Ah, não? – Eu respondi um ‘hm-hm’, negando com a cabeça. – Ótimo. Bom trabalho pra você. – ele piscou e tocou meu queixo de leve.
ia entrando no carro e eu decidi provocar só um pouquinho mais. Disquei rápido pra , enquanto ele não ligava o motor.
- Alô? , faz um favor pra mim? – Eu falava bem alto, para não haver dúvida de que ele estava ouvindo.
- Amiga, tá surda? Porque tá falando alto assim?- A ignorei e continuei falando.
- Pergunte se o seu irmão está desocupado hoje à noite? – Sorri radiante para ele, que agora fazia uma careta irritada.
- Hm, pergunto, mas porquê?. - Brigada, amor. – Desliguei o celular e entrei vitoriosa no meu carro, largando minha bolsa no banco do carona. Liguei o motor com pressa, engatei a marcha e o fechei na hora que ele ia saindo da vaga.
- Tchau, amor. Bom trabalho – Eu disse alto e ri, acenando, vendo ele ficar irritado.
Liguei o rádio bem alto ao som de The Killers.
Passei na casa de minha mãe que deu um chilique de saudades do ‘bebê’ dela. Não, não eu, o cachorro, que eu por acaso não devolvi. Queria conversar, mas eu ia acabar me atrasando.
Assim que cheguei à faculdade, vi o carro vermelho berrante de e ela sentada no capô, me esperando.
- Bom dia! – Rnata era outra que sempre acordava de bom humor.
- Bom dia. – Respondi, fria.
- Eita, amiga, o que houve? Tem alguma coisa a ver com aquele telefonema de hoje cedo? – Ela se preocupou.
- Não, não é nada. – Eu sorri amarelo. Ela me olhou duvidosa esperando a verdadeira resposta. Bufei, revirei os olhos e assumi – Amiga, ele acorda de bom humor! – choraminguei e riu de mim. – E não é só isso, ele fica me provocando, me pentelhando, sei lá.
Ela riu. Saímos andando em direção às salas.
- Ah, , vai ver vocês aprendem alguma coisa juntos. – ela tentou me animar.
- Claro. – Pausei e pensei. Cheguei à conclusão que a lição era: – Tome muito cuidado com o que deseja. – entramos na sala e escolhemos nossos lugares. Sentei e me virei novamente para ela.
- Mas e você e o ? – Sorri, duvidando que, naquele bom humor matinal, havia algo por trás.
- Ah. Estamos bem, eu acho. Quer dizer, ele é incrível, e eu nunca me dei tão bem de cara com ninguém. Não posso negar que é estranho namorar alguém assim, de repente, mas...
- Namorar? Pera! Vocês já se pegaram?
- Não se pegar, se pegar, no sentido divertido, sabe? – Ela brincou, me fazendo rir.
- Mas ele beija muito bem. – Eu estava abismada com a rapidez da minha amiga. Ela notou e prosseguiu. – Ah, você acha mesmo que eu, com o cara mais perfeito do mundo na minha casa, plenas dez horas da noite, cheio de segundas e terceiras e quartas intenções e não ia rolar nem um beijinho? Só lamento amiga, mas eu não tenho essa sua força.
- ! – Eu ri.
- E . – O professor pigarreou. – Se vocês pudessem parar com o ataque neurótico de vocês, eu realmente agradeceria.
- Desculpe, Senhor Smith. – Dissemos, nos virando para frente. Eu ainda segurava a vontade de rir.
- Já que comecei por vocês, venham à frente apresentar a pesquisa sobre leucemia, por gentileza.
- Claro. – Eu disse e seguimos para frente da sala.

O sinal tocou e me despedi de , indo para o hospital.
Mal cheguei e fui abordada por Lucy Hanson, minha supervisora.
- , você fica no terceiro andar hoje. Vão precisar de sua ajuda por lá. Chegou um grupo de crianças com câncer, hoje, na sala seis. Querem que você as olhe essa semana. Vai ser bom pra você já ir tendo uma noção com os medicamentos e com a parte de quimioterapia.
- Ok. Sem problemas. – Acenei com a cabeça para ela e corri para pegar o elevador.
Entrei na sala e logo comecei a me enturmar com as crianças. Eu adorava crianças, talvez um dia fosse uma boa mãe. Mas não que eu já pensasse em ser. Foi relativamente menos corrido que nos outros setores e eu havia conseguido lembrar as composições de uns dois medicamentos. Seria útil na próxima prova. Mais ou menos meia hora depois, percebi que havia uma menininha com o braço quebrado que não se misturava com os outros. Fui até ela.
- Oi. – Sorri, chegando perto.
- Oi. – Ela não parecia muito animada.
- Por que não está brincando com os outros? – Ela não respondeu, apenas deu de ombros. Tentei outro assunto. – Hm, e como você quebrou o braço?
- Caí da escada. – Ela encerrou. Mas percebi que era timidez.
- Sério? Eu também já quebrei o braço caindo da escada. A propósito, eu sou a . E você?
- Eu sei como você se chama. – Ela sorriu, me encarando pela primeira vez. – Eu sou Joanna.
- Dona Joanna, posso saber como você sabe meu nome? – Brinquei, fazendo cara de autoritária. Ela riu baixo.
- Você é namorada do , do McFly. – Great! Até a menininha no meu trabalho sabia quem eu era? ‘Senhora Namorada Do Do McFly’. Já posso até mudar meu RG – Você me daria um autógrafo seu?
- Meu? – Estranhei e acabei ficando um pouco desorientada. – Por que você iria querer um autógrafo meu?
- , o meu preferido na banda é o . E eu tenho só dez anos, não tenho chances com ele. Acho legal que ele tenha alguém como você, para fazer ele feliz, sabe? – Não pareciam palavras de uma criança de dez anos. – Tem muita gente que não gosta de você, sabe. Mas eu gosto. – ela sorriu me deixando completamente chocada, e eu obviamente acabei lhe dando o autógrafo no gesso. Depois disso, conversamos por horas.
Ela era pequena, parecia frágil, mas sua força era representada na intensidade do azul em seus olhos. Ela era delicada, bem menininha. Filha única e pelo que eu notei, com o tipo de mãe que mataria e morreria por ela. Comentou que adorava trampolins e camas elásticas, mas que de um tempo pra cá esteve impossibilitada de freqüentá-los. Haviam alguns adesivos colados na parede com desenhos de cupcakes e alguns doces, parecendo uma Candyland.
Acabei tendo que ir embora e me despedi dela com um abraço. Aquele, em especial, pareceu me reconfortar no meio daquela confusão que eu estava vivendo.
E, durante todo o percurso para casa, as palavras dela se repetiam na minha cabeça. Nem liguei o rádio. , o meu preferido na banda é o . E eu tenho só dez anos, não tenho chances com ele. Acho legal que ele tenha alguém como você, para fazer ele feliz, sabe?”

Já sabia que ele estava lá. Não adiantava hesitar, ou mentir para mim mesma.
- Boa noite. – Tirei os sapatos. Ele estava no sofá, vendo TV, e olhou para trás.
- Boa noite. Como foi seu dia?
- Bem. – Fui me sentar ao lado dele. Cansada, soltei um suspiro e prendi meu cabelo em coque. – E o seu?
- Bem, também. – Silêncio. Depois, ele me ofereceu sua cerveja – Você quer?
- Não, obrigada. Mas eu quero outra coisa. – Me sentei de frente pra ele no sofá. O vi engasgar com a cerveja e começou a olhar espantado para mim. Eu logo entendi o que ele estava pensando e joguei uma almofada em seu rosto. – Não isso, idiota!
Nós gargalhamos.
- O que é? – Ele começou a mudar o canal continuamente, sem notar o que estava passando.
- Hoje, uma menina de dez anos disse que era sua fã lá no hospital.
- Você tem que se acostumar com isso. Seu namorado é famoso. – Ele ainda mudava de canal irritantemente.
- Você não é meu namorado, . - o corrigi.
- Serve. Mas todo mundo acha que eu sou.
O olhei, cética.
- Continuando... Essa menininha era minha fã também, aí...
- Sua fã? – Ele parou de mudar de canal,me cortando bruscamente.
- Era.
- Por quê? Quer dizer, você não é conhecida. – Ele riu debochado.
- Ah, obrigada. – Fiz joinha. – Eu não quero falar sobre isso. O fato é que eu pensei em dar um autógrafo seu pra ela, mas aí eu tive uma idéia muito melhor.
- Lá vem. – Ele voltou à busca por um canal decente. Eu ri e o silêncio voltou a reinar. – Então, o que é?
- Eu não vou dizer.
- Você não vai me contar seu plano? – Ele me olhou com aquela cara de ‘você é estranha’ e eu neguei com a cabeça – Como assim não vai me contar?
- Não, hoje não.
- Ok, mas e o que a menininha te falou? Você vai contar, né?
- Claro que não. – Eu levantei do sofá e fui em direção ao banheiro. - Vou pro meu banho, tá?
- Volta aqui, mocinha. Vem aqui. – Ele levantou e correu atrás de mim, mas fui mais rápida e me tranquei no banheiro, ainda rindo. Do lado de fora, ouvi ele ficar resmungando. - Que injustiça! Calúnia contra mim, tá? – também ria.


Capítulo Tres –

Saí cedo de casa, deixando apenas alguns bilhetes para .
O primeiro, na porta do quarto de hóspedes, onde ele andara dormindo nas últimas noites:
“Tive que sair cedo com a . Acredito que possa se virar com o café hoje.
Qualquer coisa tem o número da Starbucks e do meu celular na geladeira.
Esteja em casa às seis. Passo para te buscar.
NÃO SE ATRASE, POR FAVOR


Sabia que assim que ele acordasse iria pedir muffins de chocolate mesmo, era melhor facilitar. O outro estava na geladeira, sua parada seguinte, com certeza.
ligou. Pediu para não se atrasar, James vai estar no estúdio hoje!”
Tinha certeza que ele iria se atrasar.
O terceiro estava no livro em cima da mesinha de centro.
“Eis o livro. Nem pense em ignorá-lo, eu sei que você tá lendo isso, ok?”
O último, na porta de saída, para ter certeza de que ele faria tudo certinho.
“SEIS HORAS!”

- Pra quê isso, ?! – estava embasbacada.
- Pro ! – eu respondi e ela gargalhou na loja, fazendo todos nos olharem.
- Você acha mesmo que ele vai usar isso aí? – ela riu de novo.
- Ah, ele vai, amiga. Pode ter certeza! – Já me sentia vitoriosa, fora de longe a melhor idéia que eu já tivera.
Me virei para uma vendedora na loja.
- A senhora teria em um tamanho maior?
- Tenho. Você vai levar? – ela perguntou não acreditando muito.
- Vou sim. Pode passar no débito, por favor.

Chegamos à faculdade e minha amiga ainda me olhava estranho; tenho certeza que ela tava pensando em me internar.
Embora ela teimasse comigo que não, eu sabia que tudo ia dar certo.
Não sei se foi sorte ou a minha ansiedade, mas logo a aula acabou e nós pudemos sair.
Chegamos ao carro e eu me virei para .
- Você e o querem ir com a gente? – perguntei
- Na verdade, ele fez uns planos pra um jantar hoje. – eu arregalei meus olhos. – É, para a gente se conhecer e... Essas coisas, sabe?
- Sei. Sei, sim – ironizei maliciosa, e acabei levando um tapinha dela – Tudo bem, deixa pra próxima.
- É. – ela concordou entrando no carro dela, e eu no meu – Mas grava o ‘episódio’ de hoje pra mim?
Eu ri.
- Gravo sim. Juízo vocês dois, hein? – ela não respondeu nada, apenas riu e deu a ré. Eu a segui.
Cheguei em casa rápido, estava sem trânsito. não estava lá, mas ainda não eram seis horas.
Fui até a cozinha, fiz um café e segui para o quarto de hóspedes, deixando o ‘presente’ em cima da cama.
Voltei para a sala e tentei achar um canal decente na TV. Mas antes ele chegou.
- Oh não, era verdade – disse assim que abriu a porta e me viu, dando meia volta para o corredor de onde tinha acabado de chegar.
- Ah, volta aqui! – eu pulei por cima do sofá, onde estava e corri até ele, puxando-o para dentro de casa. Depois ri brincalhona – Você não estava tão curioso?

Eu desci do carro segurando para não rir.
- Vaamos, !
- Eu não vou descer assim! – ele fez birra.
- Vai sim – o arrastei com dificuldade de novo, dessa vez até a recepção do hospital. – Tente não chamar atenção, precisamos entrar escondido.
- Há. ‘Tente não chamar atenção’. Você tá zoando com a minha cara, não tá? – ele foi irônico e eu não consegui mais segurar o riso, caindo na gargalhada.
- Sei lá, só me segue, finge que nada está acontecendo ok? - sugeri
Entramos andando rápido, atraindo o olhar de muitas pessoas na recepção, mas mesmo assim, fingindo que nada acontecia. Até que, na infeliz virada de um corredor, me deparei com Lucy, minha chefe.
- Ops – disse baixo.
- Mas o que é isso? – ela me olhou irritada.
- Er... Eu posso explicar – fui logo dizendo.
- Acredito que possa.
- Eu sei que devia ter pedido permissão, mas eu tive a idéia de última hora. Pensei que poderia ser bom para as crianças. – tentei.
- Hm. – ela ergueu uma sobrancelha – Certo, eu vou permitir dessa vez. Mas que isso nunca mais se repita ou você está fora!
- Sim, senhora. – segui pelo corredor em direção ao elevador. – Ufa!
- Sua chefe é durona, né? – ele me olhou enquanto eu apertava o botão do elevador
- É. Eu te disse que ela não ia com a minha cara. – respondi. – Ok. Eu vou te deixar numa salinha lá do lado e depois vou te buscar tá?
- Aham – ele concordou.
Saímos do elevador e o deixei na salinha de material de limpeza, que era do lado.
- Que salinha agradável – ele brincou e nós rimos. Eu saí, o deixando lá dentro e me encaminhando para a sala onde novamente eu cuidaria das crianças do dia anterior.
- Oi gente! – disse assim que cheguei à sala, e elas responderam um ‘oi’ em coro. – Vocês querem ver um filme?
- Põe ‘Procurando Nemo’? – John me perguntou.
- De novo? – eu resmunguei.
- É, por favor. – eles insistiram.
- Tudo bem, tudo bem. – eu pus o DVD e dei ‘play’. Ao me virar, vi exatamente a cena que esperava: a mesma menina do braço quebrado, no canto direito ao fundo da sala, novamente sozinha. Fui até ela.
- Oi – eu disse sorrindo e puxando uma cadeira, para perto de sua maca.
- Oi – Joanna respondeu.
- Tudo bem?
- Tudo – ela encerrava o assunto, envergonhada, a cada pergunta minha.
- Sabe, eu pensei muito no que você me disse ontem. E eu estava mesmo precisando daquilo. – ela sorriu – E eu quis retribuir.
- Não precisa, eu só estava sendo sincera – ela disse, depois me mostrou o gesso. – Além disso, você já retribuiu.
- Que isso, eu quero mesmo. Aí ontem eu comecei a pensar em como e então eu tive a genial idéia ‘Porque eu não levo um autógrafo do pra ela?’
- Sério? – ela me olhou incrédula
- É, mas aí eu consegui ter uma idéia mais genial ainda! ‘Porque eu não levo um vídeo do , com alguma coisa gravada exclusivamente pra ela?’
- Tá brincando – ela começou a rir.
- Mas aí eu tive uma idéia ainda melhor! – eu estava realmente empolgada
- Trazer o McFly aqui?! – ela estava abismada quando me interrompeu com a própria idéia, mas fazia sentido.
- Não! – eu ‘brequei’ de repente, franzindo o cenho – Eu pensei em trazer... Um palhaço! Não é ótimo? – minha encenação era tão desastrosa que eu tinha vontade de rir de mim mesma, mas ela parecia estar caindo direitinho, por sua repentina desanimação mal disfarçada – Um presente para todas as crianças, e dizem sempre que o melhor remédio é rir. Então, porque eu me preocuparia em trazer o meu tedioso namorado aqui? Sabe, ele realmente não ia fazer muita falta.
- Claro – ela sorria, mas visivelmente falsa. Fingi não perceber.
- Vou buscá-lo, mas não conte a ninguém ainda ok?
- Ok.
Saí da sala, com vontade de rir. Busquei e parei em frente a porta.
- Quando eu disser pra você entrar, tudo bem? Se prepare.
- Ok, eu estou preparado – ele dava pulinhos como se fosse entrar em uma luta de boxe. Eu balancei negativamente a cabeça.
- Sorria – ele sorriu exageradamente – um pouco menos, isso. Faça-as rir, não assuste ninguém tá?
- Tá – ele continuava pulando
- E pára de pular! – ele parou e me olhou indignado – Obrigada
Entrei e anunciei:
- Crianças, eu trouxe um presente pra vocês hoje. – elas festejaram – Espero que gostem.
Abri a porta e saí correndo, mas o palhaço me considerou a primeira vítima e começou a fazer cócegas em mim antes que eu pudesse me sentar e assistir o show. Elas riram bastante, então eu supero.
Depois ele começou a fazer piadinhas tão inúteis que eu nunca imaginei que ele conhecesse, fez truques bobos com as crianças e por fim o malabarismo. Essa fora a peça chave, era totalmente desastrado com as mãos com exceção apenas de instrumentos musicais e ao tentar esse número, todas as bolinhas caíram no chão; com isso, até Joanna e eu rimos.
Aos poucos, ele inventou atividades para que pudesse se desvencilhar das outras crianças. Chegou perto de mim e de Joanna, puxando uma cadeira para perto da maca.
- Ai, ai – ele bufou cansado ao se sentar, disfarçando a própria voz de um jeito engraçado. – Tá um calor, né?
- Aham. – a menina respondeu, sendo educada
- Quer que eu ligue o ventilador? – ele perguntou
- Não, não tem ventilador aqui.
- Não tem? Como não tem?! – ele fingiu estar indignado de um jeito engraçado
- Não. – ela riu timidamente – é ar condicionado.
- Ah, essa tecnologia de hoje. – ele se virou para ela – Sabe, esses dias eu comprei um celular e ele tinha tanta coisa incluída que eu não sabia nem usar.
- Mas é tão fácil. – ela riu
- Aposto que é pra você, que é uma menina esperta. Mas vamos fazer um teste. Qual é a raiz quadrada de 25?
- Hm... Cinco! – ela chutou
- Certo, Certo. E o qual é a melhor época do ano?
- Erm... Natal? – ela chutou de novo
- Isso! E qual é a melhor banda do mundo? – ele falou rápido e eu sorria como uma boba vendo eles dois conversarem.
- McFly! – ela se animou
- Blah, eles não são de nada. – ele brincou – Aposto que você gosta daquele lá, como é mesmo o nome dele?
- , eu gosto do . – ela respondeu sem pensar.
- Credo! Aquele carinha estranho. – ele fez uma careta e ela reprovou – Mas, porque você gosta dele?
- Ele passa uma sinceridade muito grande, nunca consegue esconder o que tá pensando, expressa tanta coisa no jeito que ele toca e tem um senso de humor realmente infantil, o que ajuda a saber como ele realmente é.
- Nossa, você deduziu tudo isso sozinha? – ele ironizou, já não disfarçando muito bem a voz.
- Sim – ela disse timidamente
- Não acredito que garotas tão adultas como você, possam se interessar por alguém como eu, que só pretende se divertir na vida. – ele disse em voz baixa, atraindo o olhar dela que já não entendia muita coisa. Do nada, tirou a peruca e o nariz de palhaço; a maquiagem ainda continuava lá, mas já dava para se notar seu rosto.
Os olhos de Joanna se encheram de lágrimas, assim como os meus, e ela o abraçou com tanta ternura que poderia derretê-lo. Saí de perto, vi que o momento não era meu.
Eu me sentei perto de John e Mike que assistiam a continuação do filme, desligados do mundo ao redor deles.
Podia ouvir eles dois logo atrás conversando animados, trocando autógrafos e rindo bastante. Sorri, satisfeita.
Nem vi a hora passar e ao que me pareceu pouco tempo, Mary, a menina que ficaria no meu lugar depois que eu saísse, apareceu na porta dizendo:
- , já passou quinze minutos do seu turno. Lucy pediu para avisá-la. Ela quer falar com você, lá na recepção.
Olhei para e ele entendeu que teríamos de sair.
- Olhe, eu tenho que ir agora. Mas amanhã eu ligo pro celular da e falo com você tudo bem? – ele disse a ela, que apenas sorriu. a abraçou, deu-lhe um beijo na testa e desejou boa noite. Eu fui logo depois dele. Ao abraçá-la, vi que ela procurava palavras para me dizer alguma coisa que provavelmente me faria chorar.
- Obrigada. – ela disse e eu senti além de sua sinceridade, as lágrimas no rosto dela e novamente no meu.
- Eu não fiz nada. – pisquei para ela e dei lhe um beijo – Boa noite.
Me despedi das outras crianças, deixei Mary entrar, e ao pegar o elevador, senti segurar discretamente na minha mão. Entrelacei meus dedos nos dele e deixei ele me levar em direção à recepção. Lá, encontrei minha chefe.
- Foi realmente ousado o que fez hoje, mas de grande mérito. Nós já havíamos pensado nisso antes, mas parece que você foi mais rápida – sorri timidamente – Será uma grande médica, Srta . E você, - ela se virou para encará-lo – Obrigada, nós não costumamos ter colaborações assim de famosos.
- A idéia foi toda dela, só dela. – ele sorriu de Lucy para mim, que por minha vez, apertei um pouco mais nossas mãos. – Temos que ir, boa noite.
Antes que pudéssemos sair do hospital, fomos parados por um funcionário que pediu uma foto. Depois pudemos ir em paz para casa.
Cheguei cansada, me joguei no sofá. Ele tinha ido tomar um banho e na volta me trouxe um copo de água.
- Obrigada – disse baixo.
- Eu que tenho que agradecer. – ele disse se sentando ao meu lado.
- Pelo quê?
- Por hoje. Pela experiência incrível.
- , eu...
- Você, , - ele me interrompeu. – é uma pessoa incrível. E não diga que não.
Sorri, vendo que não adiantava teimar com ele, abracei seu braço ao meu lado, deitei minha cabeça em seu ombro e dormi.
Uns quinze minutos depois senti ele me levar para a cama, me cobrir e depois se agachar na minha frente. Ele pensava que eu já estava dormindo e tentou:
- Você vai me dizer o que ela te disse ontem?
- Não – sussurrei, fazendo-o rir. Ele me desejou boa noite, saiu e desligou a luz.
estava errado. Ele era a pessoa incrível naquela casa.


Capítulo Quatro-

Eu fui acordada pela luz que entrava de minha janela já aberta e pelo cheiro gostoso de café fresquinho vindo da cozinha. Levantei e me encaminhei para uma mesa arrumada.
- Você fez isso? – Perguntei, incrédula, me sentando e observando café, torradas, ovos e waffles em cima da mesa. Ele estava só de calça encostado no balcão da cozinha americana, preparando sua vitamina. Eu não sabia que ele possuía um corpo definido daquele jeito... Tá, não interessa.
- Fiz. - Ele virou o rosto pra mim, sorrindo – Sou um garotinho prendado, tá?
- Já pode casar, né? – Ele ia bater as frutas no liquidificador, quando eu perguntei, mas hesitou, se virando por inteiro para mim e cruzando os braços.
- Se você quiser. – Ele rebateu.
- Muito cedo pra decidir. – Respondi, pensativa, fingindo não estar nem um pouco abalada com a sua ‘indireta direta’, mas devo confessar que não é muito saudável conviver com esse tipo de brincadeirinha. Dei ombros e me curvei com minha maçã sobre um jogo de palavras cruzadas que estava aberto em cima da mesa – Mas obrigada pela proposta, by the way.
Ele sorriu, voltou à vitamina, bateu no liquidificador, se serviu e sentou numa cadeira próxima. Pôs a mão sobre a minha e me olhou.
- Eu marquei um jantar pra gente, hoje. É um restaurante de comida italiana. O dono era amigo do meu pai.
- Algum motivo especial? – Sorri, erguendo uma sobrancelha.
- Agradecimento por ontem. Queria que você conhecesse a banda. A e o também vão.
- Noite de Casais, senhor ? – Perguntei, desconfiada.
- Não. e vão sozinhos. – Ele se voltou para a torrada, agindo naturalmente, até me olhar com aquele jeito malicioso. – Mas, se você quiser, pode ter um ‘After Party’.
- Credo! Olha a indecência, menino. – Brinquei, dando um tapa no braço dele – Viu porque eu não deixo você dormir comigo? – Eu ri e ele emburrou. Ficou silencioso, logo depois ouvimos o celular dele tocar e ele saiu da mesa para atender.
- Alô? Hey! Tudo bem? – atendeu, voltando à cozinha e se sentando novamente perto de mim. – Eu preciso ver com ela... Já, mas não tá confirmado ainda. Espera um pouco, eu já te ligo.
Ele se virou para mim, desligando o celular.
- Era o . – Disse, antes que eu perguntasse. – Queria saber se a gente vai hoje.
- Vou ligar pro hospital e ver se eu posso sair mais cedo. – Respondi, dando um gole no meu café. Ele assentiu com a cabeça. Fui para a sala e peguei o telefone.
- Alô. Oi, Sandy, você pode passar para o ramal da Lucy? É a . Ok. – Esperei um pouco, me sentando no sofá, enquanto terminava seu café e a ligação era transferida para minha superiora. – Oi. Tudo bem? Ah, que bom. Bom, na verdade eu queria saber se poderia ser liberada um pouco mais cedo, hoje. marcou um compromisso e eu precisaria estar lá às...
- Ás oito. – ele respondeu, da cozinha.
- Ás oito. – Repeti. Esperei um pouco – Sério? Então, se precisar de algo, me ligue. Obrigada. Bom dia.
Desliguei o telefone e voltei para a cozinha.
- E então? – Ele me perguntou.
- Ela me liberou. Não preciso ir hoje. – Sorri, começando guardar as coisas do café na geladeira. – A área do estágio está com uma boa equipe e estão revezando as folgas. A minha seria amanhã, mas ela disse que eu poderia transferir pra hoje.
- Vou ligar pro e avisar. – Ele disse, já pegando o celular
- Combina do passar aqui, que aí eu já venho com a da faculdade e a gente vai junto. – Falei alto, da cozinha, e ele confirmou. Enquanto ele ligava para e , tomei o meu banho e me troquei. Íamos sair juntos, então fui para a sala e liguei para minha amiga.
- Oi, amor. Você vai hoje?
- Vou, sim, você vai?
- Aham. Eu tava pensando em você vir para cá, depois seu namorado passava aqui e a gente ia junto.
- Pode ser.
- Nem precisa trazer roupa tá? Eu comprei um vestido pra você e ainda tá aqui em casa. Você inaugura ele hoje.
- Ok. Deixa eu ir, que eu vou pegar uma carona com o . Beijos. Vê se não se atrasa!
- Tá bom. Beijos. – Desliguei.

Saímos da faculdade fofocando e rindo alto.
- E aquela hora que ele se perdeu e ficou meia hora tipo ‘Aaahn...’ dormindo legal no meio da explicação. – Lembrou Dakota, rindo.
- Eu nem sei por que ele ainda dá aulas. A família devia ter convencido ele a se aposentar. – brincou.
- Apoiada. – Fiz cara séria, depois ri com as meninas.
- Vocês vão juntas pra casa hoje? – Perguntou nossa amiga.
- Vamos sim, Dak. Temos um jantar com os meninos hoje à noite. – sorriu, empolgada.
- Hmm, que garotos mais românticos. – Ela sorriu, deliciada. – Depois eu quero todos os detalhes, hein?
Nos despedimos com beijinhos e fomos embora. Entrei no carro e fiquei curiosa.
- Essa sua empolgação toda tem algum motivo?
- Não. – Ela respondeu depressa sem me olhar nos olhos.
- Você sempre mentiu muito mal, sabia? – A olhei incrédula, fazendo-a rir.
- Tá, tá. Aconteceu. – Ela se empolgou. – A gente se pegou ontem e foi... Muito hot!
Eu ri. Ela começou a agitar as mãos em gestos de impaciência.
- Conta tudo.
- A gente tava vendo filme, aí ele começou a brincar com a minha mão, deitou no meu colo, começou a me dar selinho, beijar meu pescoço, aí foi esquentando e não prestou.
- , você tá mesmo me dizendo que vocês já se comeram? – Eu aproveitei o sinal vermelho para me virar para ela, incrédula.
- Não! E não diga ‘se comeram’, é tão fútil. – Ela bufou, irritada. – Na hora em que a situação... Ia começar, digamos, ele provou ser o consciente da relação.
- Como assim? – Estranhei.
- Ele disse que era melhor a gente esperar um pouco mais e não forçar a barra, afinal aquilo era sério pra ele e ele queria que fosse sério pra mim também. Eu disse que entendia, mas fiquei puta na hora né? – estava visivelmente irritada – Aí eu emburrei, a gente foi dormir, ele ficou meia hora me perturbando com coisinhas tipo “voce tá brava? Você tá brava?” e a gente acabou se entendendo. – Eu via os olhinhos dela brilhando.
- Oun, você não ficou brava, que lindo! – Eu disse, boba.
- Eu não sei, mas eu acho que gosto mesmo dele, sabe? – era orgulhosa demais para ficar dizendo isso por qualquer um, vi ela sorrir e percebi que estava ficando sério entre eles. – Mas e você e , como estão?
- Bem – respondi.
- bem? - ela me olhou absorta.
- Não sei amiga, eu não consigo ver ele mais do que como amigo, por enquanto. – Eu virei a curva para a minha rua, aproveitei a desculpa de olhar para fora da janela e fingir não perceber ela bufando.
- Acho que eu vou vir morar no seu prédio, chegaria em casa tão mais rápido. – Ela comentou, mudando de assunto enquanto descíamos do carro e entrávamos pelo hall do prédio.
- Senhora... . – Chamou-me o porteiro, se lembrando do que eu tinha dito sobre os sobrenomes. – Chegou uma edição da Bliss Magazine para a senhora.
- Tá assinando a Bliss, agora? Você não disse que não tava com tempo pra ler revistas de fofocas? – Perguntou-me .
- Não, pior é que eu não assinei revista nenhuma. Tem certeza que é para mim, senhor Brown?
- É, sim, senhora. Olhe, tem você e o senhor na capa.
- O quê? – Peguei a revista das mãos do porteiro. Tinha mesmo. – Ah, ok. Deve ser para mim então. Obrigada. Me virei e entrei no elevador, sendo seguida por minha amiga. Assim que a porta fechou eu pude começar a xingar.
- Mas que merda é essa?! – Rasguei o saco plástico que envolvia a revista com ferocidade.
- Que matéria é, amiga? – Perguntou , enquanto eu folheava rápido, tentando achar a página da matéria.
- Não acredito. – Olhei cética para a minha amiga e entreguei a revista aberta. – Lê isso.
- Ontem, quinta-feira, dia 4 de novembro, o casal e a namorada foram fotografados no hospital onde trabalha. – começou, e eu ouvia atentamente, ao mesmo tempo em que abria a porta do apartamento. Liguei a luz, entramos e ela continuou quando sentamos no sofá. – A moça, que até agora tinha mantido-se escondida das câmeras, sempre séria e um tanto antipática com a imprensa, decidiu se mostrar de uma forma diferente ao público, dando uma de boazinha.
- Dando uma de boazinha?! Eu vou processar aquela revista! – Comecei a berrar.
- Cala a boca, deixa eu continuar. – Pediu minha delicada amiga. – Por informações trazidas de dentro do próprio hospital, ela levou o namorado para fazer uma surpresa e ‘alegrar’ um grupo de crianças com câncer. É, nosso sempre fofo .
O integrante da famosa banda McFly vestiu-se como palhaço, mas desistiu do figurino durante a encenação.
foi elogiada por seus superiores e prometeu voltar. Aparentemente, as coisas andam ficando sérias em uma velocidade recorde. Estariam os dois, com apenas alguns meses de namoro, já planejando algo bem a mais?
A imprensa não conseguiu falar com o casal hoje, por isso é tudo que temos, por enquanto. Informações e fotos doadas por um funcionário do hospital.
- Deixa o ver isso! – Resmunguei.
- Eles já estão acostumados com esse tipo de coisa, amor. Olha pelo lado bom, a matéria é pequena.
- Ai , pára com esses seus ‘lados bons das coisas’. Vamos nos trocar que a gente ganha mais. Vem ver o vestido. – Corri para o quarto, puxando-a pela mão.
Peguei o presente no meu guarda roupa, lutando para que aquela ‘montanha’ não caísse junto e a entreguei. Ela abriu e ficou boba. Era no estilo balonet, com manguinhas delicadas de meia-manga, com um detalhe fofo e discreto de lacinho. Mas, ao mesmo tempo, preto e um pouco curto, para dar uma ousada com as pernas.
- Eu tava doida por esse vestido! – Ela deu gritinhos. – Comprei um sapato pra usar com ele, mesmo não tendo comprado ainda. Eu ia inaugurar ele hoje com outra coisa.
- Não precisa mais. – Sorri abertamente para ela. – Vai se trocar que eu quero ver como vai ficar.
Ela correu até o banheiro, se trocou, fez uma maquiagem leve, pôs o peep toe preto de salto e prendeu duas mechas laterais do cabelo para trás. Quando ela saiu de lá, pronta, a única conclusão que eu consegui ter foi a que tinha ganhado na loteria.
- Então? Linda, né? Eu já sei, agora vamos, ! Com que roupa você vai? – Ela se apressou, empolgada.
- Você acha que eu te chamei pra quê? Lógico que eu não sei com o que eu vou, né? – Me joguei na cama.
- Oba, eu escolho! – Até hoje acho que minha amiga devia ter feito moda, não medicina. Ela abriu o guarda roupa bagunçado e, em meia hora, tinha feito o look perfeito. Um vestido listradinho vermelho e branco, que parecia uma regata bem comprida, e que ao mesmo tempo mantia um pouco o estilo Pin Up, joguei uma jaqueta de couro preta por cima e uma sandália de salto no estilo ankle boot preta.
Me troquei e fiz uma maquiagem básica também, com delineador e um batom vermelho. Um tantinho ousado, eu sei. E nem tanto o meu estilo, já que eu era meio largada, podemos dizer. Mas ficou legal. Antes que eu terminasse a maquiagem, os meninos chegaram, já zoando.
- É bom vocês estarem lindas, porque tá cheio de fotógrafos lá em baixo. – avisou da sala, assim que entrou. foi ao encontro deles, nos defendendo.
- Vocês têm namoradas maravilhosas, que até maltrapilhas ficam lindas, baby. – Ela brincou e deu um beijo em . Eu apenas ouvia a situação, mas tinha certeza da cara de paisagem e de vela que com certeza estaria. Este apenas ignorou e seguiu para o meu quarto.
- Você já tá pronta? – Ele entrou e se sentou na minha cama.
- Já. – Saí meio tímida do banheiro, receosa sobre o que ele iria achar, e tinha razão em estar. Ele estava boquiaberto quando saí e não conseguiu dizer nada, apenas me olhando. – Que foi?
- Erm... Nada. – Ele disse, se recuperando, balançando a cabeça como se saísse de uma transe. Se levantou rápido e disse um pouco envergonhado – Você está... Maravilhosa.
- Obrigada. – Sorri abertamente. – Vamos? – Mostrei minha mão para que ele pegasse e, depois, o levei até a sala. Chegando lá, fiquei realmente boba ao ver assim, pessoalmente. Eu já tinha ido a tantos shows deles e, agora, eles estavam no meu apartamento.
- Tudo bem? – Dei beijinhos em sua bochecha, o cumprimentando.
- Tudo ótimo, . – Ele sorriu, me deixando tonta. – Bom, acho que podemos ir, antes que ligue de novo.
Ele deu a mão para e pôs a mão em minha cintura, me dando um susto. O que estava acontecendo comigo? Foco, , foco.
Saímos do apartamento e pegamos o elevador.
- Era sério o negócio dos fotógrafos? – Perguntei, nervosa.
- Não, aqui não. Mas no restaurante, com certeza. É um lugar bem frequentado e sempre tem fotógrafos por lá. – respondeu, tranqüilo.
Saímos do prédio e entramos no carro. e no deles. Prendemos o cinto e começamos a conversar.
- Como foi seu dia? – Ele perguntou, sorridente. Parecia feliz.
- Bem, e o seu?
- Também. – Ele respondeu – Você viu a Bliss Magazine?
- Vi. – Bufei irônica.
- Eu disse, você tem que se acostumar. – Ele brincou.
- Ok. Eu vou começar a ouvir o que você diz – Ri. – Começou a ler o livro?
- Dei uma olhada, parece interessante. Mas esperei pra gente ler junto. – Ele deu de ombros.
- Não é tão chato. Você vai gostar, amor. – Eu disse, olhando minhas unhas recém-feitas. De repente, percebi que ele me fitava.
- Eu adoro quando você me chama de amor, sabia? – Ele fez manha.
- Seu bobo. – Fiquei envergonhada, encerrando o assunto. Depois, liguei o rádio e deixei as letras das músicas ocuparem o espaço para mais conversas até chegarmos ao restaurante.
Antes de estacionar o carro, ele me olhou e disse, simplesmente:
- Sorria. Pelo menos até entrarmos no restaurante. Se lhe fizerem alguma pergunta, seja direta e se não quiser responder, só dê uma risada discreta e finja que está olhando para as câmeras. – Feito isso, descemos.
Eu achei que ele estivesse tentando me assustar quando falou de fotógrafos, mas não era mentira. Era a mais absoluta verdade. Os flashes de umas três ou quatro máquinas profissionais me cegavam, se aquilo já era suficientemente irritante, não queria nem pensar no tapete vermelho. Tentei manter o sorriso claramente artificial. Milhares de perguntas eram feitas ao mesmo tempo por jornalistas jovens de revistas de fofocas e eu não entendia nenhuma. O restaurante era bem conhecido, tinha boas críticas e flagrava muitos artistas.
Nós chegamos de braços dados, sorrindo radiantes, mesmo eu estando apavorada e tonta por estar ao lado do centro das atenções.
- Qual foi a sua inspiração para ir visitar as crianças doentes no hospital St. Mary? – Perguntou um repórter de fofocas que estava mais próximo a ele.
- A idéia não foi minha, foi dela. – Ele sorriu sincero, dando ótimas fotos para as fãs babarem litros.
- E o que você achou da experiência? – Uma mulher perguntou.
- Foi incrível, espero poder repetir. – Ele respondeu enquanto uma máquina fotografava ao nosso lado sem parar.
- , vocês planejam se casar? Você está grávida? - Uma mulher baixinha de cabelos castanhos curtinhos aproximou o gravador de mim. Me surpreendi com a pergunta, a príncipio e ri fraco.
- Não não. Nós estamos indo devagar. Não faz tanto tempo assim que estamos juntos e ainda tem muito pela frente. - respondi
acenou com a cabeça, indicando que iríamos entrar no restaurante. Agora era vez de e , que vinham logo atrás de nós. , por ser simpático, acabava respondendo perguntas demais e eu tive vontade de rir de minha amiga por ter que agüentar mais tempo que eu.
Lá dentro era uma paz; um ambiente aconchegante, nada muito extravagantemente luxuoso e com um cheiro incrível de massas. Avistamos acenando e fomos ao encontro deles. Ai, meu pai, socorro! O que eram aqueles dois pessoalmente?
levantou com aquele sorriso de fazer qualquer uma derreter e me cumprimentou.
- ! Quanto tempo! – Ele me deu beijinhos na bochecha. – Você está ótima.
- Obrigada. – Eu sorri, tentando parecer natural e que o conhecia há meses, claro.
Depois, falei com , que estava charmosíssimo, como sempre. Tentei não perder o foco com o olhar gentil dele.
- Linda, para variar. – Ele sorriu e me abraçou. – Não imagino que o tenha tanta sorte.
- Nem eu. – Brinquei, e me olhou com certa ironia. Depois , e eu rimos. Nos sentamos e logo e chegaram.
Nós pedimos a comida e começamos um papo animado. Primeiro, contamos como tinha sido no hospital. Eu às vezes soltava umas besteiras, fazendo todos rirem e, por fim, acabou comentando:
- Eu tô achando que o zinho evoluiu em alguma coisa. A tá tão animada hoje. – Ele brincou, fazendo todos rirem – Pode ser sincera, você já achou viagra na gaveta de cuecas dele?
- Pára de inveja, Jones. – riu.
Logo que a comida chegou, e começaram uma conversa animada sobre ‘a festa da noite passada’. O jantar era um ‘spaghetti especial’, receita inventada pelo dono do restaurante e o pai de há uns anos. Só o pessoal da família ou amigos já provaram.
Não sei dizer que temperos ele usou, mas estava simplesmente magnífico, por isso prestei mais atenção à conversa do que opinei.
Nós estávamos realmente à vontade; tanto que, de vez em quando, pousava a mão na minha perna, mas eu não estressei. Eu tinha que tentar entender o lado dele. Ao meu ponto de vista, estava indo tudo bem. Todos pareciam felizes, como amigos de infância. Até , por fim, comentar.
- Tinha muita mulher bonita lá. Pena que vocês dois estejam namorando, com todo o respeito, meninas. – Ele se explicou para mim e para . – Mas, sério. Chuta quantas eu peguei noite passada.
- Não sei. – deu um gole no vinho. – Umas oito?
Eu fiquei abismada. Oito? Jones era tão pegador assim?
- Não, não. – Ele respondeu e eu me acalmei. – Foram dezenove! Dezenove, em uma única noite, acredita?
A partir daí, a história é trágica.
Eu estava engolindo a comida e, ao ouvir a resposta natural de , me engasguei. Mas não foi um simples engasgo. Foi o engasgo. Eu tossia muito e todos se apavoravam por que eu comecei a ficar vermelha.
- Ah, meu deus, ajudem ela! – minha amiga começou a gritar.
Se não fosse eu na situação, com certeza àquela hora eu estaria morrendo de rir.
Todos ficaram à minha volta e me ofereciam coisas para beber. Até que, por fim, eu me recuperei, meio tonta. Meio? Não, eu quis dizer completamente tonta. Dei uns passos cambaleantes para trás e acabei empurrando um garçom que derrubou macarrão nos peitos de uma senhora que me lembrava o quadro da Mulher Gorda.
Eu não tinha visto o que tinha feito, então peguei o copo de água e bebi tranqüilamente. Ao ver que todos olhavam abismados para trás, me virei lentamente e ao ver a senhora toda lambuzada com cara de quem não estava acreditando, eu não agüentei e comecei a rir baixinho e ainda boquiaberta. me olhou com reprovação e eu parei. Meu Deus, que vergonha. Corri para o banheiro, lavei o rosto, respirei fundo e, quando saí, ele já me esperava. Encostado na parede, com cara de derrota, pendeu a cabeça pro meu lado.
- Vamos para casa? – Ele disse baixo e decepcionado. Eu apenas assenti, com a cabeça baixa, terrivelmente envergonhada. Saímos por uma saída de emergência lateral, para evitar todos nos olhando e de novo os repórteres à porta. Entrei no carro e continuei quieta, como uma criança que espera uma bronca. Mas a bronca não veio.
Chegamos em casa naquele silêncio constrangedor. Ele fechou a porta, encostou a cabeça sem expressão e ficou me olhando.
- Ai, desculpa, tá? Eu sei que era pra parecer normal e que foi um desastre. Mas fala alguma coisa – Eu me agitei. – Nem que seja pra gritar comigo.
Ele me olhou, sorriu, começou a rir baixo.
- Por que você tá rindo? – Eu estranhei – Qual é o seu problema?
Aí ele começou a rir mais ainda, sentou no chão e gargalhou.
Eu fiquei com cara de idiota, mão na cintura, tentando entender. Mas tinha sido o episódio mais hilário da minha vida e provavelmente iria sair em milhares de revistas.


Capítulo Cinco

- Não, eu não quero levantar. – Resmunguei, com a cara enfiada no travesseiro.
- Vamos, , para de preguiça! Hoje é sábado, você não vai querer mesmo ficar em casa, vai? – ele me balançou pela milésima vez, como se aquilo fosse adiantar de alguma coisa.
- Vou. – Respondi com a voz abafada.
- Por quê? – tentou disfarçar.
- Porque eu tive um pesadelo. – Eu me sentei. Se ele supostamente não lembrava, talvez não fosse verdade. Ele assentiu com a cabeça, para que eu contasse. – Eu tava num restaurante com você e a banda, aí...
- Não foi pesadelo. – Ele riu e eu comecei a resmungar, querendo chorar. Deitei de volta, escondendo minha cara no travesseiro.
insistiu, insistiu, insistiu, mas nada parecia adiantar. Só havia uma solução e ele, não sei como, sabia qual era. A casa ficou em silêncio depois que ele saiu e fechou a porta. Acho que dormi por uns dez ou quinze minutos, mas logo ‘re-acordei’ ouvindo vozes conhecidas na sala.
- Cadê ela?
- Tá lá no quarto. – ele respondeu. Ouvi passos vindo em direção ao quarto, mas não abri os olhos. A pessoa fazia um barulho irritante de salto alto, enquanto abria minhas janelas, depois meu guarda roupa, e jogou roupas em cima de mim.
No estresse e na pré-deprê que eu estava, só uma pessoa se arriscaria a fazer isso sem medo de morrer. .
- Vai, levanta. É um ótimo sábado e você já me fez perder tempo demais. – Ela puxou minha coberta e meu travesseiro, parecendo minha mãe. Na verdade, era como minha mãe inglesa, a desajuizada, porém autoritária, garota decidida, que tomava conta de mim. – O shopping nos espera há séculos, colega.
- Eu não vou hoje. – Resmunguei, de cara amarrada.
- Quê?! Tá doente, não tá? Desde quando a que eu conheço recusa um shopping num sábado?
- Desde que ela passou o momento mais desastroso da vida dela na frente dos caras que ela mais admira. – Me sentei para encará-la, com voz de choro. – Eu fiz de tudo pra conhecê-los minha vida toda e, quando tenho a oportunidade, eu estrago tudo.
- Amor, calma, ok? Não foi tão ruim assim. Além disso, e eu conversamos com o pessoal ontem, depois que você dormiu. Todo mundo veio aqui e nós dois dissemos que você tinha sofrido uma breve amnésia do acontecido nos últimos três meses. Tá tudo bem, eles entenderam, hm? Vai ser como se nada tivesse acontecido.
- Eu não queria ter que fazer você e o mentirem por mim.
- Pára de se lamentar e vamos, se troque. – Ela bateu palminhas, me apressando.
- A gente pode ver um filme depois? – Fiz manha.
- Pode. – Ela sorriu, paciente. Me levantei e fui vestindo a jeans e uma camisa velha, grande e branca dos Beatles e joguei um blazer cinza por cima. Bagunçado e arrumado ao mesmo tempo. Gosto dessas combinações. Enquanto estava no banheiro do meu quarto, fazendo um coque, ouvi encostar a porta e se voltar para mim.
- ... – Respondi com um ‘oi’. – Não fica chamando o de , não. Nem fica comentando ou se lamentando tanto pelos outros guys.
- Por quê? Aconteceu alguma coisa? Ele comentou alguma coisa ontem? – Estranhei, me virando pra ela.
- Ele gosta muito de você. Da verdadeira você desde que a gente ‘chegou’ aqui, entende? – Ela fez as aspas com os dedos. – Eu percebi o jeito que ele cuida e se importa com você, e isso demonstra frieza da sua parte. Imagina: do nada, a namorada dele baixa o santo e se torna uma pessoa totalmente diferente do que ele era acostumado. Nega os beijos, mesmo vocês sendo namorados, é uma destrambelhada...
Nós rimos.
- Prometo que eu vou me esforçar... É só que eu tenho medo.
- De quê? – Ela achou que eu tava brincando.
- De gostar mesmo dele e depois me enganar. Voltar o tempo sabe? A gente chegou aqui do nada, porque também não voltaria do nada? – Passei por ela para calçar o tênis, deixando-a ainda encostada no batente da porta, na mesma posição e agora de costas pra mim. Depois, ela se virou, meio pensativa.
- Eu nunca tinha pensado nisso, sabia? – Ela ficou de cabeça baixa, olhando as unhas, tentando demonstrar indiferença, mas eu sabia que ela estava preocupada em perder .
Coloquei os cadarços pra dentro, peguei a minha bolsa em cima da cama e a puxei pela mão.
- Isso só o tempo pode dizer. – Sorri fraco, recebendo o mesmo em troca.
Chegamos à sala onde estava no sofá ao lado de .
- Hey – disse, sorridente. – O que as donzelas vão querer fazer hoje?
- Shopping, claro. É a nossa lei: sábado, dia de shopping. – sorriu abertamente, pegando a bolsa do sofá. – Acostumem-se. – Ela provocou, brincalhona.
- Ah, saco. – disse, fazendo o amigo rir. – Mas só se tiver um filme depois.
- Claro né? bobão. – Eu ri e, quando me virei para o sofá, ele me olhava com o sorriso mais idiota que eu já tinha visto. Olhei para e , que se olhavam maliciosos, cheios de desdém, e rindo baixo.
- Vem, amor, vamos sair do castiçal. – Ele riu, a puxando para fora do apartamento.
Eu fiquei envergonhada, pigarreei e disse, por fim:
- Vamos? Não quero perder o dia. – Eu tentei parecer séria, sem encará-lo.
- ... - Ele riu e eu o vi levantar e chegar bem próximo a mim, me olhando diretamente nos olhos e me deixando tonta com aquele sorriso radiante e seu perfume amadeirado. – Desde quando eu te dei intimidade o suficiente para me dar apelidos bobos?
- Ah, vai se ferrar, ! – Eu fiz questão de destacar o sobrenome dele, desobedecendo completamente o pedido de minha amiga. Ele apenas riu alto, me vendo sair do apartamento batendo os pés.

Eu fui no meu carro, dirigindo, e ele no carona. Não queria ajudar a fortalecer o machismo ultimamente presente naquele ser humano.
Chegamos e rodamos o dia todo, passando por centenas de lojas, experimentando roupas, pedindo opiniões deles, parando para lanches (aqueles dois pareciam mais dois animais esfomeados do que qualquer outra coisa) e rindo das besteiras deles.
Entramos em uma loja onde eles fingiram ser um casal gay.
- Cadê aqueles dois, ? – Perguntei, procurando pela loja.
- Por aí. – Ela estava babando por uma jaqueta linda.
Tentei esquecê-los e fui aos trocadores, já que estava com um monte de roupas nas mãos. Ao chegar ao corredor das cabines, vi saindo desajeitado de um provador com um vestido decotado vermelho, que ficava bem apertado nele.
- E então, amor? O que você acha? – Ele fez voz de gay, dando voltinhas na frente de .
- Ah, não sei, não. – Ele fez voz grossa, olhando o corpo de com cara de tarado e mordendo os próprios lábios. – Acho que tá muito decotado, meu chuchuzinho. Você não pode sair exibindo o que é só meu.
- Você acha, chuchu? Pede a opinião de uma baranga aí da loja. – olhou em volta fingindo nem me ver. A essa hora eu já tava rindo tanto que estava sentada no chão, com a barriga dolorida.
- Quê que foi, invejosa? Tá rindo de quê? Eu sei que você queria um macho desse opinando sobre os seus decotes, tá? Mas tira os olhos, que esse aqui já tem dona. – A voz continuava aguda, como a de uma mulherzinha histérica, e ele apontava o dedo pra mim, que já não conseguia parar de rir.
- Olha, sua magrela, só meu. – Ele sentou no colo de e ficou apertando e passando a mão pelos seus ‘peitos’, enquanto olhava-os com a cara mais tarada possível.
chegou e, ao ver a situação, pôs a mão na testa e saiu bufando, puxando todo mundo.
- Meu pai, que vergonha, tendo que ser mãe de três cavalões desses! Vamos embora! – Ela ia começar com seus habituais chiliques, mas eu percebi que ela queria muito rir.
Eles se trocaram e saímos da loja.
- Ah, chega de roupa, vai! – Eles resmungaram, parecendo crianças.
- Hora do filme! – pediu.
- Ok, mas a gente escolhe! – minha amiga propôs.
- Sendo terror... – disse e deu de ombros.
- Sem chances! – Eu neguei, revirando os olhos. Sou um desastres com filmes de terror. Sempre fui muito mole com esse tipo de filme. – Tá passando ‘Anjos e Demônios’. Dizem que é bom.
- Pode ser. – Os três concordaram.
Eles resmungaram por um tempo, mas aceitaram. e eu fomos comprar os ingressos, deixando o casal sozinho por um tempo. Mal saímos e eles começaram a se beijar apaixonadamente. Sabia que ele queria estar do mesmo jeito comigo, mas agradecia mentalmente por sua paciência. Talvez ainda não tivesse caído a ficha, só isso. Quando voltamos, vi segurar o rosto de entre suas mãos, enquanto sorriam da maneira mais romântica possível. Era uma combinação perfeita.
me abraçou de lado, encostou sua cabeça na minha e comentou.
- Eles formam um lindo casal, né?
- Aham. – Concordei, sorridente, voltando para perto deles. – Odeio interromper, mas acho bom a gente já ir subindo. Chegamos até eles e, uns quinze minutos depois, estávamos comprando pipoca.
- Oi, gatinha, seu pai é advogado? – começou com suas brincadeiras idiotas, cantando a mulher do balcão e nos fazendo morrer de vergonha. Quando digo nós, quero dizer e eu, claro.
- Não, por quê? – Ela continuou, séria.
- Porque que ele fez direito, ele fez! – fez uma cara sexy de pedófilo, recebendo um tapa forte da namorada – Ai!
- Segura isso direito, criança! Vai cair tudo – Briguei com , que ria e estava deixando cair um monte de pipoca no chão. Eu também ria, ao mesmo tempo em que dava a bronca nele.
Entramos na sala fazendo barulho, recebendo um monte de ‘shh’, mas nosso casal, pra variar só um pouco, começaram a se pegar antes mesmo do filme começar. e eu ficamos conversando sobre queijos até a sala escurecer. É, queijos. Que foi? A gente tava se conhecendo, ok?
Descobri que o preferido dele é gorgonzola, e ele descobriu que o que eu mais odeio é o cheddar. Concordamos em relação ao catupiry e ao parmesão.
O filme começou e era ótimo. Eu me assustava de vez em quando, e ele se comportou direitinho, vendo tudo quietinho, com a cabeça encostada no meu ombro. A pipoca, ou o que sobrou dela, ficou apenas para nós dois. Quando os outros dois decidiram dar um tempo pra respirar, beberam um pouco da coca, babando duplamente todo o canudo. Resultado: meio litro de refri desperdiçado.
- Eca! Eu não quero isso aí, não. Que nojo! – Comecei a resmungar quando me empurraram o copo.
- Cala a boca, mussarela girl! – Berraram lá de cima, fazendo a sala toda rir, inclusive eu. quis começar a discutir com o cara, mas eu não deixei.
Ao final, eu estava concentrada no desfeche do filme, que nem uma idiota, para variar. Vi que ele me olhava atentamente e o encarei.
- Que foi? – Perguntei, tímida.
- Seus olhos. Parecem uma telinha menor. – Ele disse desligado, mas sorrindo. – Dá pra ver tudo que passa ali, só que aqui é exclusivo pra mim.
Me virei na cadeira, me sentando de frente para ele, e passei o dedo por sua bochecha carinhosamente, fazendo-o se assustar um pouco.
- Você é mesmo um bobão, sabia? – Eu sorri, tímida.
- Não, não. Eu sou mesmo um bobão. – Nós rimos baixo.
- Eu não queria que você mentisse por mim. A comentou comigo sobre ontem – eu disse, desviando o olhar.
- Não foi nada. Eu me preocupo com você, não quero que você fique mal. - ele me sorriu gentilmente por alguns segundos até que inevitávelmente, nós trocamos alguns olhares mais sérios e ele começou a fitar meus lábios. O que me deixou ligeiramente nervosa na hora.
- Dá pra vocês se pegarem logo ou tá difícil? – E de repente, disse, fazendo algumas pessoas perto de nós rirem baixo e quebrando completamente o clima. Vi ficar realmente estressado com isso.
- Continua comendo a aí, . – ele resondeu, fazendo ela lhe mostrar o dedo do meio. Eu fiz ‘shhh’, querendo terminar logo com aquilo, e me virei para ver o resto do filme.
Saímos do cinema e fomos comer uma pizza. Chegamos à mesa e fizemos o pedido. Comemos, enquanto conversávamos sobre a nota irritante que tinha saído na Bliss Magazine. Uma hora depois, a pizza tinha tirado parte de nossas forças e empolgação.
- Ai, eu tô cheia. – Suspirou .
- Somos duas. – Concordei, bebi um pouco do refrigerante e me virei para os meninos. – E aí, gente, o que vocês andam fazendo lá pela gravadora?
- Música? – brincou, sendo óbvio e recebendo um ‘dããr’ em coro de nós três. – Brincadeira. Ah, o CD novo tá ótimo.
- Nós somos gênios musicais, honey. – , que já tinha bebido umas cervejinhas, piscou. - A gente precisa levar elas duas um dia lá. Mas essa semana é folga! – Ele e brindaram.
- Folga? Por quê? – Perguntei, olhando para eles.
- O CD já está bem adiantado, então a gente resolveu dar um tempinho essa semana. – respondeu.
- Amor, tô cansada. Vamos pra casa? – resmungou de novo, e concordou.
- Vamos. Vocês vão ficar aí? – ele nos olhou. Olhei para , ele para mim e, então, respondi:
- Só mais um pouco. Qualquer coisa, amanhã a gente liga pra vocês.
- Ok, então. Boa noite. – abriu a carteira, pagando a parte deles, apesar de insistir no contrário, se despediram com beijinhos e foram embora.
Nós dois ficamos por lá mais um pouco, falando besteira, rindo à toa... Tinha certeza de que ele já estava meio alegre. Do nada, o assunto acabou. Sumiu. Ficou aquele silêncio constrangedor, que eu tanto odeio, pairando no ar, quando ele de repente me perguntou, mexendo no copo, sem me encarar.
- , porque você tem medo de mim?
- Quê? – Eu estranhei.
- É. Parece que você tá sempre com medo de que eu possa te beijar, ou dizer que te amo, ou que eu possa chegar perto demais, descobrir coisas demais sobre você. – Ele falava, com certa sentimentalidade, mas com a voz engraçada, então não senti tanto medo em responder. Apesar de me assustar muito em ouvi-lo dizer aquilo assim, na lata.
- Eu não escondo nada de você. –Pus minha mão sobre a dele e o olhei nos olhos. – Eu só tenho medo de começar a gostar de verdade de você e voltar tão facilmente quanto eu vim parar aqui.
- Se essa máquina do tempo te levar embora, eu prometo que eu vou te buscar, ok? – Ele, disse fazendo cara de super-herói, me fazendo rir fraco.
- Combinado. Agora, vamos embora? Isto aqui já vai fechar.
Pagamos a conta, peguei a chave do carro e fomos para casa. Subimos pelo elevador, cheguei em casa e empurrei até o banheiro para ir tomar seu banho. Tomei também o meu banho, agradeci a pelo dia e fui me deitar.
Adormeci, torcendo mentalmente para que, se um dia eu fosse mesmo ‘embora’, de volta ao meu tempo e espaço, que o meu super-herói pudesse mesmo ir me buscar.


Capítulo Seis –

E lá estava eu, no último andar do prédio, vendo carros e pessoas andarem normalmente lá embaixo, sem saber o que acontecia. Pareciam minúsculas formiguinhas.
No meu íntimo eu não queria saltar e nem mesmo sabia o que estava fazendo ali.
Sentia o vento forte no meu rosto, um frio na barriga, uma enorme confusão em minha cabeça e, de repente, a sensação de estar sendo observada. Me virei e vi . Me olhava sem expressão, o vento bagunçando seus cabelos; ele sim parecia ter certeza do que estava acontecendo ali. Lentamente, se aproximou de mim e eu vi que seu jeito era sensual, porém maléfico, diferente do que morava comigo. Um olhar frio, um sorriso torto e ele me empurrou.
Eu caí do prédio, o que mais parecia um abismo, por horas. Não conseguia sequer ouvir meu próprio grito surdo e apavorante. Quando achei que morreria finalmente estatelada no chão, senti braços fortes e poderosos me segurarem bruscamente.
Olhei para cima e o desprezível não estava mais lá, me virei para quem acabara de me salvar e era .
Me olhando ainda meio pálido de susto, mas com o olhar doce que eu conheço. Ele me salvara. Agarrei seu pescoço e comecei a chorar, sem entender nada pela milésima vez nesta história. Ele afastou um pouco o rosto, encostou nossas testas, sorriu de olhos fechados e começou a cantar ‘Hey Jude’ dos Beatles bem baixo, em uma versão apaixonante.
Era um tanto quanto irônico, mas fazia sentido. O que me colocou em tudo aquilo era a única pessoa que poderia me salvar quando sabe-se lá o que acontecesse. E eu tinha um forte pressentimento de que esse “sabe-se lá o quê”, aconteceria.
A voz não era dele, aí eu pude encaixar tudo e perceber que acabara de ter o sonho mais estranho que eu já tivera. Talvez nossa conversa há algumas noites tivesse afetado verdadeiramente a mim. Sentei na cama, esfreguei os olhos e atendi o celular, que era quem realmente cantava.
- Alô. – minha voz estava completamente sonolenta – Ah, oi Sra. Hanson... Calma, calma o que houve?... Ah meu deus. Mas estão todos bem? E as crianças? Aham. Entendo. Bom, se precisar é só me ligar ok? Tudo bem, obrigada por avisar. Bom dia.
Levantei, lavei o rosto e me dirigi ao quarto de hóspedes. Dei um beliscão na bunda de .
- Hey, acorda. Vai mais pra lá. – ele ficou me olhando estranho, com o cenho franzido e se afastou me dando espaço na cama. Deitei ao seu lado. Ele me olhou ainda confuso e pôs a mão na minha testa.
- Tá com febre?
- Bobo. Hey, o que a gente vai fazer essa semana?
- Eu vou curtir minha folga com os meus amigos e você vai trabalhar – ele sorriu
- Há há – eu ri irônica, fazendo careta – Eu não vou trabalhar essa semana.
- Ah não? – balancei a cabeça negativamente – E posso saber por que?
- Porque o hospital pegou fogo – respondi naturalmente
- Quê?! – ele me olhou assustado, levantando um pouco a cabeça.
- É, pegou fogo. Teve um acidente na cozinha e vai levar umas duas semanas pra voltar ao normal. Fui dispensada. Ou seja, também estou de folga – apertei seu nariz, mostrando a língua.
- Ótimo – ele bufou e eu lhe dei um beliscão na barriga. E que barriga meu deus. – Ai. Mas e as crianças?
- Foram transferidas para outro hospital aqui em Londres mesmo. Nem perguntei direito, Lucy estava apavorada agora de manhã.
- Ela te ligou?
- Aham, agora há pouco. – respondi me sentando. – Vem, vamos levantar. Eu estou com fome.
- Ok. Ah , então eu já sei o que a gente pode fazer. – ele disse com a voz rouca, levantou depressa e me abraçou por trás me dando beijinhos no pescoço. Droga, meu ponto fraco. Me arrepiei toda, mas mantive o controle.
- . ! – eu disse em tom de reprovação.
- Tá, eu prometo tentar me comportar. – ele encostou seu rosto no meu ombro e eu me lembrei do sonho. Me afastei e apontei o dedo para ele.
- Você tem que parar de me prometer coisas ok? – ri baixo e ele ficou com cara de paisagem sem entender nada.
Seguimos entre bocejos para o nosso café da manhã.
- Hm, você tem mesmo uma idéia legal para a nossa semana? Ou era só sua conduta pervertida entrando em ação?
- Só minha conduta pervertida entrando em ação – ele deu de ombros e mordeu um pedaço de um mufin de chocolate. Magro de ruim.
- A gente podia começar a ler o livro, vai que tem alguma coisa lá. Fala sobre 101 coisas pra fazer e a gente só precisa de sei lá, umas sete. – sugeri
- Você tá louca pra começar a ler esse livrinho né? – eu ri afirmando com a cabeça –Tá, vamos terminar aqui e a gente dá um lida.
- Vai lá buscar que eu vou guardando as coisas do café – Fui colocando leite, mel, biscoitos e todo o resto em seus devidos lugares. Joguei as cascas de frutas fora, e coloquei os pratos e talheres sujos na pia.
Com pouco tempo, voltou com o livro já aberto e lendo a introdução.
- Ah, é uma lista de coisas a fazer - comentou.
- Deixa eu ver - sequei minhas mãos, e o arrastei pro sofá. Ele abriu na página da introdução e eu li rapidinho – Ah sim, é tipo uma listas de coisas interessantes que você pode fazer, e marcando aqui se já fez ou não.
- E tem adesivos de estrelinhas pra você colocar no que você já fez, olha – passou para a página 1 do livrinho onde tinham adesivos de estrelinhas coloridas e comentou – Eu não via adesivos de estrelinhas desde a primeira série.
- Hm, você era um aluno nerd de estrelinhas, ? – brinquei
- Não, eu via no caderno da minha irmã – ele respondeu simplesmente.
- Hm. Tá, abre em uma página qualquer.
- Wow, esse livrinho é muito melhor do que eu pensava – abrira de cara na página 18: “Estudar e pôr em prática o kama sutra”. Dei risada e me apressei para dizer “próóóximo”. – Porque próximo? Voce tem que seguir o livro, sua burladora de regras.
O olhei séria com cara de “quer passar logo pro próximo?”. Ele fez um bico e comentou baixinho, passando para a próxima página aleatória:
- Mas você viu, não fui eu. Foi o livro. – abriu o livro de novo – Ok, agora caiu na página... 43.
- “Jogar um dardo no mapa e ir para onde cair” – li – Ok, esse dá pra fazer. Mas eu não vou arremessar o dardo, vai que cai no meio da água. A gente vai ter que ir.
- Tá, tem um mapa mundi no quarto de hóspedes, embora eu não saiba bem pra quê, mas...
- E os dardos? – perguntei – Eu não tenho dardos.
- Eu trouxe os meus pra cá. Já pego, espera um pouco. – foi ao quarto de hóspedes e voltou com um mapa e alguns dardos. Arrumamos o mapa em cima do balcão da cozinha para ficar um pouco mais alto que na estante da sala. pegou os dardos, eu cruzei os dedos e...
- No mar não, no mar não... – resmunguei
- Quer parar de pressionar, amor? – ele se virou pra mim emburrado e eu dei risada, calando a boca. Ele mirou, firmou os pés no chão e arremessou. Na hora, eu fechei os olhos, rindo. O ouvi dizendo “Yes!” e abri os olhos. Me aproximei do mapa.
- Mas , deu no Reino Unido. A gente já tá aqui – o olhei com cara de “dãr”
- Sim, mas a gente vê a cidade em que caiu. Sendo perto, a gente já pode ir essa semana. – Ele sorriu – e assim, você estava certa. O livro tinha a resposta. E nessa viagem, a gente podia cumprir a página 18. Eu não me importaria – ele abaixou o tom de voz querendo que eu concordasse com ele sem saber o que ele tinha dito.
- Eu não vou pôr o kama sutra em prática com você. – finalizei
- Ah então com outra pessoa você realizaria? – ele me olhou indignado
- Também não. , onde fica Dover?
- Em Kent, ao sudeste de Londres. Dá umas duas horas de carro.
- Então, eis o nosso lugar. – suspirei, feliz. Hesitei por um segundo e me virei para ele com a mão na cintura – Você fez alguma coisa não fez?
- O quê? – ele franziu o cenho
- Como você me consegue acertar dentro da Inglaterra?
- Do mesmo jeito que eu consegui você – o olhei intrigada – cagada – ele riu e eu passei dando um tapa forte em seu braço.
- Não sei nem porque eu pergunto – comentei.
- Ah é, lembrei agora, o pai do tem uma casa de praia que é uma delícia. E fica em Dover. É meio afastado de tudo e tem aquelas praias de encosta de penhasco sabe? E um pouco mais pra frente, na cidade tem campo de paintball, cachoeira, um monte de coisas. A gente podia ir passar a semana lá.
- É uma boa, mas tem que ver com o , né?
Peguei o controle da TV e comecei a zapear pelos canais da TV enquanto ligava para . Pedi para ele pôr no viva voz.

- Fala .
- E aí, cara? Você já tem planos pra semana?
- Nada ainda e você?
- Nada também. Tipo, eu tava pensando se a gente não podia ir passar lá na casa de praia dos teus pais. Será que dá?
- Ah, dá sim. É uma boa, ir todo mundo. Faz tempo que a gente não vai. Mas a e a vão deixar vocês irem sozinhos? – ele riu
cochichou para mim alguma coisa tipo “Tudo bem que era pra nós dois né? “ Eu dei risada e lhe dei um beliscão de leve.
- Então, elas vão estar livre essa semana também, teve um acidente lá no hospital.
- Então tá fechado, acho. Eu vou ver que dia eu pego a chave com a minha mãe e depois te ligo. Mas se for, vamos nos organizando logo pra não perder tempo. Vai ligando pro resto.
- Beleza, vou avisar o pessoal – respondeu
- Tá. Ah, ! Vê se a não tem uma amiguinha solteira aí. O tá com uma garota faz um tempo aí, ele deve levar ela e eu não quero ficar de vela, hm?
- Você não presta, . – ele bufou e me olhou. – Tá, eu vejo com ela. Tchau
- Valeu.
Depois do almoço, Dany retornou dizendo que tava marcado, que já havia falado com os outros antes mesmo de ligar e que iríamos sair às nove da noite. e eu pegamos as malas e começamos a nos arrumar.
Uma amiga para . Pensemos. Uma amiga decidida, bonita, divertida, que não fosse dominada por ele e que conseguisse colocá-lo ‘na linha’ se quisesse. Quem eu pensei? Dakota, claro!
Liguei para Dak correndo.
- Amor, o que vai fazer essa semana?
- Nada – ela disse entediada, devia estar dormindo
- Então arruma as malas. Eu vou viajar com um pessoal e pensei se você não queria ir com a gente.
- Para onde vocês vão? – ela se animou
- Dover! – respondi empolgada, ela não recusaria essa nem se chovesse meteoros.
- Opa. Tô indo me arrumar, amor.
- Ok. Chega aqui até as sete, sete e meia tá?
- Aham. Devo passar na casa da Alice antes, mas não me atraso ok? – Alice era irmã dela.
- Certo, manda um beijo pra ela, te vejo mais tarde. Beijo.
- Beijo. - e desligou. que me aguardasse. Acabara de achar a criatura perfeita para ele.
A mala de , obviamente ficou pronta antes da minha. Levei umas duas horas para separar minhas roupas, agasalhos, tênis, cremes e todas aquelas tranqueiras.
Pus também uns livros e filmes na bolsa caso não houvesse uma locadora por perto. me ligou umas trezentas vezes para saber se ia com o vestidinho vermelho ou o branco, de tranças ou rabo de cavalo, tênis ou uma sapatilha. Estilo litorâneo sempre a deixava meio perdida.
- , você já tá pronta? – ele gritou do quarto, vindo à sala onde eu o esperava trazer as malas. Ele estava com uma bermuda xadrez, um all star e uma meia manga justa e branca, morri.
Trouxe a mochila dele e uma bolsa minha, e depois minha mala maior. Peguei as chaves do carro, mas ele logo tomou da minha mão, sorrindo abertamente.
- Nem pensar, agora quem dirige sou eu.
- Tá né – bufei, sendo obrigada a concordar. – Mas a gente precisa esperar a Dak chegar, .
- Que Dak? – ele se virou.
- Minha amiga, ela vai com a gente. – logo depois o interfone tocou e eu corri para a cozinha. – Hey. Ah tá, pode mandar subir.
Olhei para séria, dando a entender que era para ele se comportar, ou pelo menos tentar. Dak entrou pelo apartamento com uma mala apenas e me abraçou.
- Cheguei no horário viu? – ela piscou pra mim e se virou para cumprimentá-lo. – Oi, então você é o famoso ? – Dak o abraçou sorrindo e eu corei.
- É, acho que sim. – ele estava meio tímido, mas me olhou presunçosamente. Dakota era morena, cabelo liso, franjinha reta, uma das garotas mais bonitas que eu já conhecera. Ela não queria, não conseguia e não precisava ser igual às outras. Acho que eu era a maior fã da minha amiga. Desde que e eu chegamos à Inglaterra, ela fora como uma irmã pra gente, a mais próxima.
O ponto que mais importava é que Dakota era do tipo que colocava os homens na palma da mão, dando soco com luva de algodão. Perfeita para o Womanizer .
- Acho que podemos ir – eu disse pegando uma das bolsas. pegou a minha e a mochila dele e Dak pegou a dela. Descemos em direção ao estacionamento, entramos no carro e seguimos para a casa de , onde os outros nos esperavam.
Chegamos rápido, já que não era tão longe. A noite estava quente, ocasião boa para finalmente vestirmos shorts, bermudas e camisetas. Todos conversavam animadamente sobre sei lá o que na frente da casa, quando chegamos.
Descemos do carro, abracei e cumprimentei todos, com atrás de mim fazendo o mesmo. Depois apresentei Dakota, que já tentava se enturmar.
- Gente, essa é Dakota.
- Oi – ela sorriu gentilmente.
- Dak, esses são , e . – dei ênfase ao último nome. – O e a você já conhece.
Mal terminei a apresentação e chegou uma menina loira, muito bonita que ficou ao lado de .
- Ah, eles chegaram – ela nos olhou de cima a baixo meio séria. – Bom, podemos ir, então?
- Você é? – eu tentei ser simpática, mas ela tinha cara de ser a pessoa mais metida que eu já havia conhecido.
- Abigail Evans. – ela estendeu a mão. – namorada do .
- Prazer, . – Eu levantei uma sobrancelha e a cumprimentei, trocando olhares rápidos com Dakota e . Eu soubera de uma ficante, não uma primeira dama.
- É, estamos todos aqui. Vamos? – perguntou quebrando o gelo.
- Claro – respondi.
- e Abby, e , e . E você? Vai com quem? – chegou perto de Dakota e eu sorri piscando sugestivamente para ela. Ele mal sabia que tinha mordido a isca.
- Com a – ela respondeu simpática.
- Ah, de vela? Eles são um nojo quando estão juntos. Esquecem do mundo ao redor deles – falou baixinho, mas Dak riu. – Vamos comigo, meu carro tá vazio.
- Já tá me cantando? – ela olhou incrédula para ele.
- Não, estou tentando ser gentil e achar alguém que fique conversando comigo e jogando pôker até altas horas comigo quando os casais estiverem se pegando à noite. – ele sorriu.
- Hm. Melhor assim. Bom, então acho que não vai ter problema. Vamos?
e eu fingíamos estar conversando logo atrás deles, só para ouvir. Quando Dak o acompanhou, eu fui comemorando silenciosamente atrás. Seguimos para os carros, cada casal no seu.
Era estranho saber que todos nós éramos casais, quando parecíamos amigos de colegial saindo em muvuca pra curtir o fim de semana.
- , aquela Abby é mesmo namorada do ? – perguntei, no banco carona, sentada de lado, o olhando.
- Por quê? – ele perguntou sério, desviando o olhar. – Tá a fim do ?
- Não, seu bobo. – levantei um pouco do meu banco e mordi de leve sua bochecha. Adorava ver ele com ciúmes, parecia diversão particular. – É que o tinha comentado que ela era só ficante, aí vem a menina se achando a última coca cola do nordeste dizendo ser namorada dele.
- Não gostou dela? – ele riu debochado
- Não. Ela tem cara de metida. – respondi séria
- Esse é o problema de vocês, garotas.
- Qual? – estranhei.
- Vocês julgam antes de conhecer as pessoas – ele deu de ombros.
- Ah, você viu a cara amarrada dela, narizinho empinado. Querendo dar ordens. Pena, o é tão legal pra uma menina daquelas, achei que ele fosse ter senso.
- Eu tô mesmo achando que você tá a fim do – ele continuou sem expressão.
- Para de bobagem, . – eu sorri radiante e ele não conseguiu esconder o sorriso. – Mas sério, conte-me o que você sabe sobre a Abby.
- Ela é modelo e os pais são franceses. Conhece o há um bom tempo, mas sempre foram só amigos, pelo que a gente sabe. Ele decidiu contar que gostava dela há um tempo e começaram a ficar. Ela é legal, a gente saiu umas duas vezes.
- Hm. – murmurei – Loira, francesa, modelo. Estereótipo de mulher metida. Você não acha porque ela é gostosona, aposto.
- Isso é ciúme? – ele brincou com um sorriso no canto dos lábios.
- Não. – respondi naturalmente. Talvez fosse, mas eu tenho alergia a assumir esse tipo de coisa. Meu orgulho não deixa. Fiquei olhando quieta a janela. – Acha que vai fazer sol amanhã?
- Vai sim. Ultimamente tudo tem vindo ao nosso favor – ele sorriu radiante e eu não pude deixar de acompanhá-lo.
Encostei a cabeça no vidro, fiquei olhando a paisagem que passava rapidamente e nem percebi que tinha dormido. Pareceram apenas uns dez minutos, mas a viagem durava em torno de duas horas.
- Dorminhoca. Ô menina inútil e preguiçosa viu? – começou a reclamar abrindo a porta do carro. – Vai , acorda, a gente chegou. Vem ver a casa, é linda.
- Peraí ela já acorda. – Dakota começou. Eu tinha medo do que ela era capaz de fazer, mas eu tava com uma preguiça tão grande...
- AAH, VIADA! – Gritei levantando depressa e querendo bater nela. Dak tinha enfiado o dedo na própria boca e colocado o dedo babado no meu ouvido. Eu morria de raiva das brincadeirinhas dela.
- Funcionou, não? – ela riu. Esfreguei os olhos, desci do carro e dei um tapa no braço dela. tava cheio de malas nas mãos, mas derrubou todas elas e sentou no chão de tanto gargalhar da brincadeira.
Fui até ele, dei um chute de leve em sua perna.
- Idiota. Pára de rir. – eu disse séria, segurando para não rir; aquela risada gostosa de criança me dava vontade de mordê-lo. Peguei minha mochila que ele estava levando para dentro da casa antes de deixar tudo cair. – Onde a gente vai ficar?
- Vamos, eu te mostro – ele ainda ria, mas se levantou e me acompanhou para dentro da casa.
Era realmente lindo. Parecia uma casa de campo, um gramado bonito, era aconchegante, tinha uma árvore imensa, cheia de galhos, muito bonita ao lado da casa.
Virei de costas e vi um portão grande e branco. Vi também conversando com um simpático senhor que deveria ser o caseiro. Atrás da casa, tinha a maior e mais linda varanda que eu já vira, com uma vista ampla para a praia lá embaixo, limitada pela enorme costa do penhasco. Continuei andando para conhecer o resto. Do outro lado, sem ser o da grande árvore, tinha a piscina com um tobogã e a churrasqueira.
me chamou para entrarmos na casa. Lembrava a casa dos meus avós. Simples e arrumadinho. Tudo meio rústico passando a maior sensação de conforto.
Maior parte do pessoal tava lá em cima, com exceção de que estava terminando de tirar as malas do carro e que conversava com o caseiro e brincava com o Golden de sua mãe que ficava na casa.
Subi as escadas para onde ficavam os quartos, acompanhada de . , como sempre, estava dando ordens tentando organizar onde cada um ia dormir.
- O disse que são quatros suítes. e a Abby ficam em um, e eu em outro, Dak e o ...
- Pera, . Vai pôr a Dak com o ? – interferi.
- Calma. Eu durmo com o e fica você e a Dak em outro quarto, pode ser? – olhou para mim.
- Pode – era mais confiável. Tecnicamente eu e não éramos um casal, mas a idéia não me parecia mais tão ruim assim. Só que eu sabia que seria incômodo para a minha amiga dormir com um cara que ela acabou de conhecer.
Entramos cada um em seu respectivo quarto para guardarmos as coisas e descemos para a varanda atrás da casa para jogar conversa fora, beber um pouco, tocar violão. Eu desci com Abby. Ela me dava nojo, mas eu não ia parar de andar com o meu amigo por causa dela então era melhor tentar se socializar. Sabe aquele tipinho que não conversa muito, não olha pra você enquanto fala e só sabe falar sobre moda? Essa era Abby. e já estavam lá para ajustar os violões. Os outros desceram depois.
Em alguns minutos já estávamos lá. Em um círculo, com uma mesinha cheia de aperitivos e bebida do lado. Eu estava com uma caipirinha de frutas vermelhas na mão, a única diferenciada dos copos de vodka e cerveja do restante.
Tocamos músicas como ‘Help’, ‘Love me Do’ e ‘Abbey Road’ dos Beatles. Algumas do Sex Pistols, Beach Boys e finalizamos com ‘I Want to Touch You’, paródia deles mesmos.
Conversamos sobre o que a gente poderia fazer na semana, contou a história de seu pai ter pedido a mãe dele em casamento naquela casa, e de quantas vezes tinha caído da grande árvore.
Lá pelas três e meia da manhã, decidimos ir dormir. Eu já tava mais pra lá do que pra cá. Não sou fraca pra bebida, o problema é quando eu começo a misturar os tipos. Digamos que eu tenha errado qual era meu copo algumas vezes.
Entrei no quarto de luz apagada e fui logo falando.
- Agora, senhora Dakota, pode ir me contando sua viagem com . Tudo. Nos mínimos detalhes. – eu estava com a voz engraçada. Minha voz parecia muito mais tonta e embriagada que eu mesma. Tirei o tênis e liguei a luz.
Me deparei com a cena mais inesperada: Dakota e na maior pegação na cama de casal onde eu dormiria com ela naquela noite.
virou um pouco a cabeça para mim, meio desligado e com a boca avermelhada.
- Apaga a luz quando sair, por favor? – com a mão ainda no interruptor, eu apaguei na mesma hora, comecei a rir, peguei um travesseiro e uma coberta e desci.
Fui para a sala, já devia estar dormindo e eu não queria acordá-lo.
Ao descer as escadas, ele estava sentado no sofá, com óculos de leitura, lendo o livrinho que combinamos de ler juntos. A coisinha mais linda e obediente. Sorri boba.
- Onde você vai com isso aí na mão, criança? – ele levantou o olhar ao me ver na escada com um travesseiro debaixo do braço e um cobertor na mão. Engraçado, com as meias coloridas e naquela situação eu parecia mesmo uma criança. Ri baixinho.
- Ia dormir aqui, o tá se aproveitando da Dak lá no quarto.
- Por que você não foi pro meu, então? – ele me olhou cético.
- Porque eu não queria te acordar – disse baixo, me sentando ao lado dele.
- Você pode – ele sorriu carinhoso. – Vai, sobe lá. Eu durmo aqui.
- Não – eu disse teimosa. – Você sobe. Eu quero o sofá. E aqui o Billie pode me fazer companhia, eu não gosto de dormir sozinha. E não é justo você dormir no sofá. Ganhei – sorri. Billie era o cachorro da senhora .
- Tá, eu subo com você. Tem mais de uma cama lá no nosso quarto, vamos – ele levantou, puxou minha mão e nós subimos. Entrei no quarto com um friozinho na barriga. Era a primeira vez que nós dormiríamos juntos e sem nunca termos nos beijado (na minha cabeça, claro).
Joguei o travesseiro e o cobertor na cama de casal, enquanto ele entrava depois de mim. Sentei na cama, e o observei se dirigir para a beliche que tinha do lado.
Deitei, me cobri até a cintura, olhei para ele meio tímida e pedi.
- Dorme aqui. – ele me olhou duvidoso, estranhando. – É sério.
Ele sorriu torto e deitou ao meu lado.
- Não tem mais medo de mim? – ele zombou enquanto nos deitávamos
- Eu não tenho medo de você. Nunca tive – disse essa última frase um pouco mais baixo, tinha certeza de estar envergonhada e vermelha.
- Eu fico feliz com isso, acho que vai ser muito bom a gente ficar aqui essa semana. Passar mais tempo junto. – ele sorriu e pegou minha mão, por debaixo das cobertas. Fiquei olhando seu rosto, como parecia ter sido feito sob medida para mim, a exata idéia do perfeito.
Vi ele fechar os olhos, como um anjo. Fiquei pensativa, por um minuto mais ou menos, só o olhando. Continuei o vendo falar. Era tranqüilizante.
- A gente só se vê de noite. E eu tenho muita vontade de ficar grudadinho com você o dia todo. Te mostrar que você não estava errada quando desejou tudo isso – ele dizia como se fosse mais para ele do que pra mim. De repente, por puro instinto, apoiei-me em um dos meus cotovelos, soltei de leve a mão que ele segurava, pus em seu rosto e o beijei.
Era tudo que eu queria naquele momento, mesmo sabendo que depois de tanta enrolação, ele podia não querer mais.
Esperei por segundos que para mim, pareceram eternidades inteiras. Mas quando sua língua enfim respondeu, colocando sua mão em meu rosto e me puxando para perto, foi a melhor sensação do mundo.
Fazia anos que eu não me sentia assim, para dizer a verdade, não sei se já havia me sentido.
Não sei quantas horas ficamos naquele beijo. Mas foi o mais completo de todos, definitivamente.


Capítulo Sete –

Acordei deitada no peito de . Abri os olhos lentamente e levantei um pouco a cabeça.
- Bom dia. – ele disse rouco e sorridente.
- Bom dia – eu lhe dei um selinho.
- Não era um sonho? – ele brincou.
- Pára, seu bobo. – eu ri sem graça. – Vamos levantar, gordinho. A gente vai perder o dia.
- Caramba, que menina elétrica. Foi dormir às três da manhã, e essa hora já tá nesse pique todo?
- Sim, senhor – eu sentei bocejando. – Vamos. Levante.
Eu levantei, calcei as pantufas do Scooby-Doo, espreguicei os braços enquanto ele também levantava. Escovamos os dentes juntos, fazendo caretinhas bobas de criança.
- Tá friozinho – ele voltou para a cama e puxou o cobertor – Vem pra cá.
Sentei ao lado dele e puxei o cobertor pesado para o meu ombro. Ele me abraçou forte e ficou me olhando bobo. Coloquei a mão no rosto.
- Não fica me olhando – ri fazendo manha.
- Porque não? - ele deu risada.
- Porque eu não gosto de gente me encarando.
- Seu namorado também não pode? - Match Point. Um arrepio me passou pela coluna de cima a baixo. Agora eu não tinha mais como fugir dele. E talvez nem quisesse rs. Acabei dizendo que podia; só um pouquinho mas podia.
- Me dá ali o livro? Você comentou que tinha estrelinhas – ri fraco e o pegou na mesinha de cabeceira – Olha, se a gente já tiver feito algumas coisas, a gente já pode colocar algumas.
- Tá, vamos ver a lista. - Ele abriu na página – Hmmmm, deixa eu ver. Olha eu sei tocar um instrumento, página 9.
Voltamos na página dos adesivos de estrela. pegou uma azul e colocou no devido espaço da página nove.
Continuamos olhando a lista e achara mais um que ele já tinha feito: Surfar na Platéia. O meu primeiro só veio na página 29 e não era muito agadável ler em voz alta: Conhecer seu ídolo. E depois “Morar no lugar em que você ama”. Não eram muito emocionantes, mas me faziam feliz
Colocamos a estrelinha também no primeiro que tinhamos feito juntos: “Jogar um dardo no mapa e ir para o local onde cair”.
Depois desse ultimo, tomou o livro de minhas mãos, o fechou e o colocou rapidamente em cima de algum lugar, ao mesmo tempo que me puxava pela cintura para um beijo com a outra mão livre. Sem perder o real foco, comentou:
- A gente podia cumprir a página 18 agora né? - ele me olhou malicioso, me prendendo num forte abraço.
- Hm, talvez agora não. Quem sabe mais tarde – dei risada voltando a beijá-lo.
- Tá falando sério? – ele me olhou duvidoso.
- Não – garalhei e saí correndo do quarto com ele logo em meu encalço.
Saímos do quarto tentando não rir muito alto para não acordar os outros.
O corredor estava vazio, ninguém tinha acordado pelo jeito. Ia descendo a escadas quando me puxou pela cintura, me encostou na parede e começou a me beijar. Mas não era como o beijo apaixonado da noite anterior. Esse era... diferente. Pegou uma velocidade e temperatura absurda em questão de segundos, e ele começou a me dar mordidinhas nos lábios, me deixando sem ar gradativamente.
De repente, eu já não conseguia pensar em muita coisa, minha mente me enganava dizendo que estávamos sozinhos naquela casa, e me proibia de interromper aquilo. Um minuto depois, Billie subiu as escadas abanando o rabo, atraído pelos sons não tão altos e começou a querer brincar. Droga de cachorro. Isso lá é hora?
o empurrou repetidas vezes, não conseguindo sequer desgrudar seus lábios dos meus. Eu só conseguia me perguntar como alguém conseguia acordar com hálito de canela. Estava lá antes mesmo dele escovar os dentes. Comecei a sentir alguma coisa puxando meu pé. Olhei rapidamente para os lados e vi que Billie mordia minha pantufa.
- Ah não... O scooby... não, larga Billie! – disse, entrecortadamente mal respirando direito.
- Deixa, eu te dou outra – sugeriu. Ah droga, esses machos persuasivos.
Sem ter noção de como aquilo só me complicaria, levantei o pé pro cachorro puxar de vez a merda da pantufa e , instintivamente, passou a mão pelas minhas coxas e me levantou em seu colo, ainda encostando-me na parede.
Nossas linguas já estavam dormentes e àquela altura eu nem conseguia mais pensar em nada.
Ouvi um barulho numa das portas, mas percebi que nem eu nem ele conseguíamos parar. Talvez não fosse nada. Meus dedos já estavam entrelaçados em seu cabelo, suas mãos me puxavam fortemente contra seu corpo, nossas respirações ofegantes e eu sorria.
Eu estava com medo de alguém nos flagrar, mas quem iria acordar àquela hora depois da zona e as bebidas na madrugada afinal?
Nessa exata hora soltou um suspiro em exclamação, surpresa com a mão na boca.
- Desculpa, desculpa, desculpa. Já tô indo. Podem continuar aí. – ela voltou ao quarto correndo e rindo baixo. Eu e ficamos meio desconcertados, sem graça. Ele já havia me soltado e pulado pra meio metro de mim quando notei.
Ele se encostou na parede oposta à minha, parando para retomar o fôlego e quando finalmente nos olhamos, começamos a rir um da cara do outro. Dei a mão para ele, ainda rindo um pouco e descemos. Fizemos sanduíches, e fomos ver TV.
Ficamos deitados abraçados no sofá até a turma aparecer. O primeiro a descer foi , depois de uns minutos . Depois e Abby e por último, e Dakota.
Não demoraram muito, então eles seis acabaram ficando juntos na cozinha para tomar o café da manhã.
Estavam todos meio quietos e conversando baixo na cozinha, mas eu estava abraçada com , com o rosto encaixado em seu pescoço me senti intoxicada; percebi que o perfume que ele usava, era o que eu mais gostava. Só consegui me distrair dele, quando ouvi não resistir e zoar da cozinha:
- Parece que todos nós dormimos muito bem – Ouvi maioria rir fraco, até mesmo , ao meu lado. Este, de repente se mexeu no sofá, baixando o rosto pra mim, me abraçou e entrelaçou nossas pernas.
- O que você quer fazer hoje? – ele perguntou sorridente e beijou a ponta do meu nariz.
- O que você quer fazer? – eu sorri sugestivamente.
- Você quem sabe, eu sou seu bobão apaixonado, lembra? – ele abriu um sorriso ‘colgate’ e eu lhe dei um selinho.
- Ah, é né? Tinha me esquecido. – comecei a brincar com os cabelos de e o beijei. Era incrível como eu perdia a noção do tempo quando estava com ele. Só percebi realmente isso quando colocou o dedo entre nosso beijo.
- Viado – reclamou
- O ministério da saúde adverte: – imitou a voz do carinha da propaganda, fazendo-nos rir – é menos constrangedor se comer no quarto. – Eu me sentei e ele me acompanhou. Parece que o ocorrido mais cedo já havia sido divulgado.
- O que a gente vai fazer hoje? – perguntou .
- Bom, eu tenho uma sugestão. – , que estava sentado no braço do sofá ao lado de Dakota, levantou a mão. - Diga Mr. President – riu com a própria infantilidade.
- A gente pode ir pra praia agora de manhã, jogar um voleizinho básico, pegar umas ondas e mais tarde a gente pode fazer um fogueira. Que tal?
- Apoiado – levantei do sofá.
- Concordo, é uma boa idéia – disse Abby dando de ombros.
- Decidido então – abriu um sorriso.
- Bom, então acho melhor a gente subir para se trocar. – disse , se levantando. Eu, Dak e Abby a seguimos. Até achei estranho a senhora Abigail Evans nos seguir.
Entramos nós três em um quarto e ela se dirigiu a outro antes que pudéssemos chamá-la.
Assim que eu fechei a porta, fiquei com medo de me virar, mas virei. e Dakota sentadas na cama me olhando com dois travesseiros na mão.
Elas vieram até mim e começaram a me bater com os travesseiros.
- AAAAAAAAAH – eu gritei, me encolhendo e rindo – SUAS OBESAS!
- Você... Não... Contou... NADA! – disse pausadamente enquanto me batia com o traveseiro.
- Tava pegando o sem nem avisar tipo ‘amigas, tô comendo um astro do rock’! – Dakota berrou.
- CHEGA! Suas escandalosas, a casa inteira não precisa ouvir ok? – eu me levantei, dei uns três passos pra frente, perto da janela imensa que tinha no quarto de e e me voltei para elas. – Sim. Eu estou pegando o se é isso que vocês queriam saber. Mas vocês não perderam muita coisa. A primeira vez foi ontem.
Elas abriram ‘aquele’ sorriso maldoso, correram e sentaram na cama abraçando uma almofada cada uma.
- Primeira vez? Adoro. Conta TUDO. – começou.
- TUUUUUDINHO – Dak reforçou. – Ai não aguento esperar, vamos logo ao que interessa, ele é bom?
Nós demos risadas.
- Bom?! – a olhou boquiaberta – você tá brincando, Dak. Pela cena que eu vi hoje de manhã, ele é ÓTIMO. Putaquepariu, filme pornô ao vivo no corredor amiga.
- Meu deus, quem diria né? Santa que nada, essa .
Não conseguimos evitar outras gargalhadas.
- Ai gente não foi assim também, credo. Você tá exagerando Dona . A verdade é que não teve parte divertida, babies. – elas resmungaram um ‘aah’ desanimado – Senhor. Dá pra vocês deixarem esse lado pornográfico de vocês, só um pouquinho? Obrigada. Ah, eu não sei como explicar – eu sorri abertamente – eu vi ele com aquela carinha de anjinho quase dormindo do meu lado, aí atacou a louca em mim e eu beijei ele. Não sei se foi surpresa, mas de início ele não respondeu. Fiquei desesperada e morrendo de vergonha, mas não parti o beijo. Aí quando ele respondeu foi... Ah! – eu suspirei, lembrando.
- Oun, que coisa mais catita! – fez uma voz agudinha. (N/A: Créditos às manias antigas de Renata Monteiro)
- Continuaa! – Dak estava mais empolgada que eu.
- Nós dormimos abraçadinhos, aquele perfume... Ai ai. E hoje de manhã foi muito bom,e sim, ele parece ser ÓTIMO mas eu ainda não posso dizer nada. Foi bom você ter interrompido – virei o olhar pra – Se dependesse dele, o corredor servia. – rimos – Sério, eu gosto mesmo dele. Eu tinha medo que isso fosse acontecer, mas eu já sabia que era inevitável.
Parei e vi que estava sendo poética demais por alguma coisa que eu nem sabia se ia dar certo. Olhei para as duas, e elas estavam sorrindo feito duas retardadas de boca aberta e os olhinhos brilhando.
- Chega, bando. Acabou minha história, agora é a vez da Dak. Você e ! Em menos de um dia!
- Você me chamou pra pôr ele na linha, amiga – ela piscou – eu só fiz meu trabalho.
- E bem rápido né? – eu ri, indo até minha mala e pegando meu biquíni, um shorts jeans e um agasalho de moletom na cor vinho no estilo daqueles dos caras de futebol americano.
Fui ao banheiro e me troquei enquanto e Dak se arrumavam também.
- O que eu posso fazer, baby? Não sou mulher de ficar perdendo tempo – ela riu. – Mas a gente ainda tem que concordar que a mais rápida foi a .
- Com certeza! – eu disse.
- Ah, eu tenho minha desculpa de ter voltado no tempo do nada, ok?
- Quê? – Dak estranhou.
- Nada. – eu e ela respondemos rápido e ao mesmo tempo. Dakota nos olhou intrigada, mas se voltou para o seu biquíni ‘tomara-que-não-caia’ dando de ombros e eu dei um pedala em .
Terminei de me trocar primeiro e desci para agilizar alguma coisa para o almoço; tinha certeza que estaria todo mundo morrendo de fome depois da praia. Entrei na cozinha, abri o freezer, vi que tinham umas lasanhas para microondas e as tirei.
Umas quatro deveriam bastar. Ao me virar para colocar as lasanhas congeladas em cima da mesa, levei um susto, vendo que Abby também estava lá, sentada na mesa. Ela entrara silenciosamente na cozinha e eu nem percebi.
- Desculpe – ela riu – não queria assustar.
- Tudo bem, eu estava distraída – eu disse.
- Quer ajuda? – ela se ofereceu.
- Não precisa, eu acho. Estou só agilizando umas lasanhas pra gente comer quando chegar.
- Deixa que eu faço duas, vai mais rápido. – Ela pegou duas das caixinhas e as abriu. Ela até que estava sendo consideravelmente simpática.
Uns 20 minutos e a gente já tinha terminado tudo, contando que a cozinha da Sra. era gigante e tinha dois fornos.
- Abby, se você quiser ir chamando o pessoal, pode ir. Deixa que eu termino aqui. – disse, pegando um pano para limpar um pouco a pequena bagunça.
- Magina. Deixa aí. A gente arruma quando voltar.
Eu dei de ombros, larguei o pano e saímos da cozinha. já estava na sala com as chaves do carro na mão, esperando os outros descerem. Ela foi até ele sorridente e saltitante e o beijou, segurando seu rosto entre as mãos. Estavam felizes.
Por mais que maioria de nós, acredito, não tenhamos ido com a cara de Abby a princípio, era possível suportar vendo que eles pareciam perfeitos um para o outro. Com meus poucos minutos com ela na cozinha, eu diria até que poderia me acostumar e que talvez a arrogância dela pudesse diminuir em certas ocasiões.
Senti até uma pontada de curiosidade em ouvir a história deles.

- Eu escolho time! – gritei levantando a mão
- Eu também quero escolher – disse.
- – eu escolhi apontando para ele.
- – ela sorriu pro namorado
- – eu disse
- – ela o chamou acabando com a minha graça, eu ia formar um time só de machos.
- Hm... Abby – eu disse.
- Dak – deu de ombros, sorrindo.
foi até a minha canga meio sério, tirou o agasalho e os chinelos mas ficou com a camisa. Ventava bastante.
- Que foi? – eu fui até ele e o abracei pela cintura.
- Nada – ele tentou disfarçar, abaixando a cabeça e desviando o olhar
- Ah, pára de ser criança – eu ri – Eu ia formar um exército no meu time, você é meu namorado, por isso deixei por último, não achei que ela fosse te escolher
Dei um beijo no pescoço dele, depois um selinho, outro e aprofundei o beijo. Senti os braços dele se fecharem em volta da minha cintura e ele responder ao meu beijo ainda um pouco emburrado. De repente ele parou o beijo com um sorriso fraco.
- Mas isso vai acabar sendo um problema pra você, sabia?
- Por quê? – eu estranhei
- Porque o seu time vai perder – ele piscou
- Ah é? – eu o olhei incrédula e ele confirmou com a cabeça – Vamos ver!
Saí batendo o pé, mas fui puxada com força pelo braço, quando vi já estava no peito de , ele me olhou presunçoso, segurou pela minha nuca, puxando de leve os meus cabelos e me beijou com força. Gostei da atitude, me arrepiei, coloquei a mão em sua cintura apertando de leve com as unhas e quando comecei a me animar, ele parou o beijo sorridente; nessa hora senti meus lábios quentes e ardendo um pouco. Deveriam estar bem vermelhos.
- Vamos jogar – ele tirou minhas mãos de sua cintura e me puxou carinhosamente para onde e terminavam de montar a rede de vôlei.
- , já tá todo mundo aí? – eu perguntei
- Sim. - ela olhou em volta e se dirigiu a um lado da rede com Dak, e .
Eu fui para o outro com Abby, e . Dak começou sacando, levantou bola e rebateu, mas foi fora. Um a zero pra gente. sacou, Abby levantou e marcou ponto e nós comemoramos. Dois a zero.
Na metade do jogo, estava empatado. Era vez deles e como já estávamos cansados, quem marcasse ponto agora, ganharia. levantou bola, rebateu com força e eu me lancei ao chão do outro lado da rede, com uma manchete tentando defender. Consegui, a bola subiu e Abby marcou do outro lado. Ao mesmo tempo ‘aterrissei’ ao lado de que se desequilibrou, acabou pisando no meu antebraço e pressionando-o com força na areia.
- AAI – eu reclamei apertando o braço junto ao peito, deitada na areia – Droga!
- , desculpa! – se assustou, achando que tinha me machucado feio. Vi correr na minha direção e dar um leve empurrão em para chegar em mim; os outros chegaram perto depressa também.
- Deixa eu ver... – ele pegou minha mão e fez uma careta – Acho que quebrou. , onde tem um hospital?
- Perto do centro, do lado do mercado, sabe?
- Sei – ele me ajudou a levantar – eu vou levar ela lá, podem continuar aí. Vejo vocês em casa mais tarde.
Percebi que ele estava sério, talvez até zangado, por isso fiquei quieta. Ele fechou o zíper do meu agasalho, me abraçou de lado, andando rápido até o carro e beijando o topo de minha cabeça.
- Tá tudo bem, hm? – ele abriu a porta do carona – A gente chega lá rapidinho.
Eu entrei e assenti com a cabeça. Ele passou o cinto por mim, visto que eu estava com a mão ainda fortemente pressionada contra o peito, tentando atingir uma dor maior que a do ferimento para que esta não fosse percebida.
Chegando lá, foi rápido, considerando a fama de . Não precisou engessar, o médico só precisou colocar uma tala até que eu conseguisse mexê-la sem dor.
- Você ficou bravo? – perguntei baixo, enquanto estávamos no carro de volta para casa. já havia ligado para saber se estava tudo bem e pediu desculpas novamente; disseram que já estavam em casa nos esperando.
- Não – ele estava sério – só levei um susto.
- Então porque está tão sério? – me virei para ele, sentando de lado
- Você podia ter se machucado, podia ter sido mais cuidadoso.
- Mas você disse que tinha o desculpado. Eu o desculpei. Deixa pra lá, não foi nada. Era um jogo e eu sou desastrada – vi ele sorrir no canto da boca – Promete que vai relaxar, ?
- Hm, tá – ele abriu um largo sorriso e aproveitou o sinal vermelho para me dar um beijo rápido – mas prometa ser mais cuidadosa também.
- Feito – sorri.
Em poucos minutos chegamos em casa. Já tinham devorado as lasanhas, com exceção de uma que guardou para nós no microondas, escondendo dos animais famintos.
Dak e correram para saber se eu estava bem. Abby, , e vieram logo em seguida, um pouco preocupados também. Eu disse que não tinha sido nada demais.
Almoçamos em silêncio depois se juntou aos meninos que estavam na piscina; Dak e tomavam sol (de roupas, porque regatas eram o máximo que Dover permitia) com os fones nos ouvidos então as deixei quietas lá; e Abby? É, eu não sabia onde estava Abby, mas também não ia perguntar. Tinha medo de tentar ser legal com ela e tomar aquele fora.
Fiquei debaixo de uma árvore lendo ‘Marley e Eu’ pela segunda vez, sossegada e desajeitada por causa da mão, no silêncio que eu apreciava. Billie, o cachorro da Senhora , se sentou ao meu lado. E eu passei a tarde assim, lendo, debaixo da árvore, acariciando um Golden dourado, no meu tão procurado sossego.
Adiantei uns seis capítulos durante a tarde, só percebi que tinha entardecido quando a luz incrivelmente laranja do pôr do sol irritou meus olhos, me impedindo de ler.
Fechei o livro, levantei e caminhei pelo gramado, apreciando aquela imagem. Era inexplicável. De repente, percebi um flash no meu rosto.
- Não podia perder essa, ficou linda – ele me abraçou, beijando meu nariz e me mostrando a câmera. A foto tinha ficado linda mesmo. Só a vendo, percebi que o Golden estava sentado com uma perfeita postura do meu lado. Ele combinava com a luz, o livro, a imagem toda parecia se completar; a única intrusa era eu. Tão sem graça e deslocada comparada aos outros elementos da foto. O enorme contraste. Eu deveria mesmo estar ali? Ou o meu egoísmo estava estragando tudo de novo? Eu estava tomando o lugar de outra pessoa? Uma sim, perfeita para e para todos os outros?
- Não sei.
- Não sabe o que? – ele me olhou estranhando
- Nada – levei um susto visto que tinha falado em voz alta – Só pensando alto
Sorri fraco, ele me deu a mão, beijou a palma e entramos em casa. Estavam assistindo o final de um filme na sala, não queríamos interromper e subimos as escadas para o nosso quarto. Eu me joguei na cama, olhando pro teto e tentando organizar tudo que tinha na cabeça enquanto foi para o seu banho.
Em poucos minutos ele saiu já trocado, com o cabelo bagunçado e se jogou ao meu lado, ficamos lá, parados nos encarando, brincando com os dedos um do outro. Do nada, ele me deu um selinho, outro, outro, outro, e foi aprofundando. Metade de seu corpo já estava sobre minha barriga quando ele interrompeu o beijo.
- Que foi? Você tá tão tensa. Aconteceu alguma coisa? – ele passou o polegar pela minha bochecha carinhosamente apoiado nos cotovelos.
- Não, é que... Ah, não é nada. Só bobagem minha.
- Conta – ele se sentou do meu lado, me puxou, me fazendo sentar também de frente para ele.
- Você já parou pra pensar que eu posso estar tomando o lugar de outra pessoa? Que você pode gostar de mim hoje, só por que eu fui egoísta o suficiente pra desejar estar aqui, como em um filme?
- , para de besteira. Eu gosto mesmo de você, e você não tá tomando o lugar de ninguém, ok? – Ele ficou em silêncio olhando pra baixo por aguns instantes, pegou minha mão, pôs em seu peito esquerdo e disse baixinho – ele já é seu, bem antes que você mesma se lembre.
Não teve como não sorrir, e para minha total vergonha, uma lágrima caiu. Ele sorriu bobo e a limpou, passando a mão pelo meu rosto. Eu me apoiei nos meus joelhos para chegar mais perto dele, pus a mão em seu rosto e o beijei. Aos poucos ele me puxou pela cintura, e se deitou, me deixando por cima dele. Nossas pernas se entrelaçaram e nós continuamos naquilo durante uns dez minutos, até que começou a ficar mais sério. Parecia um deja vú, não tinha como fugir.
Mas além do desejo físico, havia a necessidade de sermos nós dois. Eu pra ele e ele pra mim. Como se nenhuma outra peça se encaixasse.
As mordidinhas me provocavam uma respiração mais rápida, suas mãos apertavam fortemente minha cintura e tentavam subir minha blusa discretamente. Eu tentei manter o controle enquanto o beijava, mas parecia impossível embora eu tivesse me mantido inflexível até agora.
- Você não pode vencer sempre – ele sussurrou divertido em meu ouvido, me provocando arrepios. Em um movimento ágil ele se virou e ficou por cima.
Se sentou por cima da minha coxa, deu um sorriso malicioso e eu respondi com um igualmente mal intencionado.
Sentei também, o olhei, tirei a blusa dele, depois a minha. Ele sorriu satisfeito que eu tivesse correspondido e voltou a me beijar; passou as mãos pelas minhas costas e com um simples ‘click’ soltou meu sutiã. O deitei de volta, desabotoei sua calça e em poucos segundos ela estava no chão com todo o resto.
E quando por fim aconteceu, eu senti que aquele êxtase não seria proporcionado por mais ninguém. Mesmo que eu tivesse todos os homens do mundo um dia, qualquer um seria simplesmente sexo por prazer, e nada além disso, comparado àquilo.
O que se seguiu, é clichê. Everybody knows. Na verdade, não para mim porque foi realmente especial. Foi com , o cara por trás das câmeras, o que eu amava e que ninguém mais conheceria daquele jeito. Não com , o cara famoso que menininhas de meio mundo queria ter em casa por ter uma banda e ser gostoso.
Eu fiquei feliz por ter esperado.

‘Toc Toc Toc’
- Posso entrar? – perguntou.
- Pode – eu respondi sentada na cama, conversando com . Nós já estávamos trocados decentemente ok?
- O pessoal tá descendo pra acender a fogueira, vocês não vão? – ela perguntou só com a cabeça para dentro do quarto.
- A gente já vai descer. Que horas são, amor? – eu perguntei
- Quase sete e meia. – ela olhou o celular
- Já? – ela confirmou com a cabeça. Eu levantei da cama, vesti minhas pantufas do Scooby agora mordida e dei a mão para para descermos.
, e preparavam as madeiras para a fogueira, Dak estava no banho, estava tirando fotos com e eu me sentei ao lado de Abby.
- Está frio, não? – puxei assunto
- Aham – ela respondeu. – e sua mão? Está melhor?
- Ah, sim. Obrigada – sorri fraco
- Ficamos preocupados aqui. – eu balancei a cabeça negativamente dando a entender que não era necessário – Pena que não engessaram. Queria ser a primeira a assinar, hm?
Ri sinceramente com ela.
A noite terminou de modo agradável, com conversas animadoras em volta da enorme fogueira que se formou. Debaixo das milhares de estrelas e da lua que tanto me envolviam.


Capítulo Oito –

Musiquinha (:
- Amor? – sussurrou no meu ouvido e eu resmunguei um ‘hm’ – Os meninos estão indo pra campo de Paintball, você vai?
- Claro que vou, e acompanhada da minha bonita e super ágil mão – eu ironizei me virando para ele, que riu e me beijou. – Tá tão cedo, o que eles vão fazer num campo de Paintball essa hora da manhã?
- , já é uma da tarde – ele me olhou cético
- Sério? Nem parece – esfreguei os olhos e me sentei.
- Peraí, eu vou me trocar então. – ele disse indo em direção à mala.
- Se trocar pra quê? – eu estranhei o puxando pelo braço e o fazendo sentar-se de frente para mim.
- Ué, você disse que não vai. Eu não vou te deixar sozinha aqui né?
- Ai, pára de besteira. Eu não vou só pra ficar olhando, amor. Vai você e se diverte, eu posso me virar sozinha hm? – lhe dei um selinho.
- Tem certeza? – ele fez manha
- Claro, vai logo que eu quero dormir mais um pouco – ri baixo, voltando pras cobertas. – Juízo hein? – foi a vez dele de rir.
- Se cuida, e qualquer coisinha me liga tá? – ele me cobriu e beijou meus cabelos; Logo o vi sair do quarto e apagar a luz. Contando que já tinha uma claridade considerável àquela hora do dia, eu não consegui dormir por muito mais tempo.
Levantei, desci as escadas, tomei um copo de suco de morangos frescos e de repente ouvi uma melodia baixa vinda do lado de fora da casa. Ainda com o copo na mão, saí para ver quem era. Longos cabelos dourados sentados na grama na frente da casa; Ela tinha um violão nas mãos e começava a tocar. Reconheceria aqueles acordes iniciais em qualquer lugar: eu adorava aquela música.
Eu me sentei na grama, um pouco mais para trás para que não fosse notada e pudesse ouvi-la.
Abby tinha uma voz melodiosa e meiga quando cantava, o que me fazia lembrar mais do cover feito pela Zooey Deschanel do que a música original.

I got some troubles but they won't last
Eu tenho alguns problemas, mas eles não vão durar
I'm gonna lay right down here in the grass
Eu vou deixar aqui na grama
And pretty soon all my troubles will pass
E muito em breve todos os meus problemas passarão
'cause I'm in shoo-shoo-shoo, shoo-shoo-shoo
Porque eu estou em uma do-do-do, do-do-do
Shoo-shoo, shoo-shoo, shoo-shoo Sugar Town
Do-do, do-do, do-do Doce cidade

I never had a dog that liked me some
Eu nunca tive um cão que gostasse um pouco de mim
Never had a friend or wanted one
Nunca tive um amigo ou quis um
So I just lay back and laugh at the sun
Então, eu apenas relaxo e rio para o sol
'cause I'm in shoo-shoo-shoo, shoo-shoo-shoo
Porque eu estou em uma do-do-do, do-do-do
Shoo-shoo, shoo-shoo, shoo-shoo Sugar Town
Do-do, do-do, do-do Doce cidade

Yesterday it rained in Tennessee
Ontem choveu em Tennessee
I heard it also rained in Tallahassee
Ouvi dizer que choveu também em Tallahassee
But not a drop fell on little old me
Mas nem uma gota caiu sobre meu velho eu
'cause I was in shoo-shoo-shoo, shoo-shoo-shoo
Porque eu estava em uma do-do-do, do-do-do
Shoo-shoo, shoo-shoo, shoo-shoo Sugar Town
Do-do, do-do, do-do Doce cidade

If I had a million dollars or ten
Se eu tivesse um milhão de dólares ou dez
I'd give to ya, world, and then
Eu daria para você, mundo, e então
You'd go away and let me spend
Você iria embora e me deixaria passar
My life in shoo-shoo-shoo, shoo-shoo-shoo
Minha vida em do-do-do, do-do-do
Shoo-shoo, shoo-shoo, shoo-shoo Sugar Town
Do-do, do-do, do-do Doce cidade
la-la-la-la
La-la-la-la (até o fim)

- Ain, Nancy Sinatra – meus olhos brilharam – Juro que se a minha mão não estivesse nesse estado, eu aplaudiria – falei baixo fazendo-a se virar rapidamente, levando um susto.
- Ah, sua sem graça. Eu não teria cantado se soubesse que você tava aí. – ela riu corada e se sentou ao meu lado
- Mas você canta super bem – sorri
- Obrigada. E a sua mão, tá melhor?
- Tá sim, obrigada.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
- Por que você não foi com os meninos? – arranquei uma folhinha da grama, olhando pro nada.
- Você ia ficar sozinha aqui. As meninas queriam ficar, mas eu insisti pra que elas fossem já que eu também não tô num dia bom, sabe né? – é eu sei, bem. Afeta qualquer uma. E receber bolinhas de tinta pelo corpo não ajuda muito. A minha maior curiosidade era finalmente ouvir a história dela com , mas não sabia como chegar ao ponto. Pensei por alguns minutos.
- Essa música é muito linda – tinha ficado com ela na cabeça, comentei por comentar.
- Eu amo. É minha trilha sonora – ela sorriu.
- Ótima escolha. Passa uma liberdade, uma energia positiva, não passa? - Hippie mode on. - Sim, e é meio que a minha história. Essa coisa solitária, independente e tal.
- Como assim? - a olhei intrigada
- Longa história. – eu assenti com a cabeça lentamente, torcendo para que ela contasse – mas eu acho que a gente tem tempo.
- É, acho que sim.
- Melhor eu começar do começo. – ela suspirou, fazendo uma pausa – Tipo, meus pais são franceses, se apaixonaram e casaram muito cedo. Eles tinham um ideal de vida perfeita, que tudo sempre daria certo e que eles viveriam felizes para sempre.
‘Normal pensar assim. Eles vinham de famílias ricas, conheciam apenas as pessoas necessárias. Mas a maioria era velha e eles acabavam sendo a única companhia um pro outro. – ela sorria, como se tivesse lembrando-se de um filme ou um livro inspirador. – Aquele amor platônico, justamente no país onde o mundo inteiro tem uma chance de encontrar a pessoa perfeita.
Com três anos de casamento, eu nasci. Minha mãe até hoje diz que foi a melhor época pra eles, já que era a época dos casais começarem a entrar em crise e eu impedi isso. Mas não por muito tempo, eles descobriram que não eram a alma gêmea um do outro e brigavam o tempo todo.
Eu cresci sendo criada por babás e professores particulares e numa verdadeira Guerra Mundial em casa. Fiquei conhecida como a metidinha e problemática. Comia por ansiedade e com 12 anos eu já pesava o dobro do que eu peso hoje e tinha crises de depressão.’
Eu fiquei abismada. Me senti terrivelmente culpada por ter julgado Abby. Ela fitava os pés e suspirava como se o pior viesse a seguir.
- Quando eu fiz 15 anos eles fizeram uma festa monstruosa, chamaram milhares de pessoas que eu não conhecia e se tivessem ao menos três delas com a mesma idade que eu tinha na época, eram muitas. Comemorando o único motivo deles se manterem juntos por dezoito anos.
‘No final da festa eu consegui me entreter com os sobrinhos de um conde convidado por meu pai. Eles tinham em média uns 23 anos. Minha mãe sumiu por esse horário e meu pai foi procurá-la. Ela estava no jardim com um cara e meu pai viu tudo. Ele andava sempre com uma arma no terno, sacou e atirou na perna do sujeito. Ainda hoje o cara anda mancando.
‘Foi notícia na França por semanas. Eu ouvia minha mãe dar ordens aos empregados de nem sequer comentar algo perto de mim. Ela e meu pai nem se falavam mais; não dormiam na mesma cama, nem no mesmo quarto; ele chegava tarde em casa e eu não tinha diálogo com nenhum dos dois.
Aos meus 16 anos ele resolveu aceitar o divórcio que ela implorou desde a festa. Mas na mesma noite se matou.’
Eu soltei um suspiro em exclamação, assustada. Ela estava evitando chorar sem muito sucesso e eu não pude conter minhas lágrimas também.
‘Foi a minha deixa. Eu fugi de casa e vim para a Inglaterra, sem nem imaginar o que seria da minha vida. No dia que eu cheguei, vi um rapaz bonito, desligado do mundo que não parava de fumar no aeroporto. Ele estava sentado a algumas cadeiras de mim, num lugar a céu aberto, permitido para fumantes.’
Ela começou a sorrir fracamente.
‘Sentou-se de frente para mim e me ofereceu um. Eu aceitei e começamos a conversar. Eu lhe contei todos os meus problemas e ele parecia não ligar pra nada que eu dizia, e realmente não estava. Eu me derretia em lágrimas quando ele me perguntou ‘já viu como a lua tá linda hoje?’ e então eu observei. Estava mesmo. Naquela noite ele me disse que eu não devia me preocupar com aquilo tudo, eu só tava ligando pra vida dos outros e esquecendo da minha, afogada nos problemas dos meus pais. Era incrível que ele tivesse ouvido cada palavra quando parecia absorto num mundo só dele. ‘Me falou que eu podia ficar na casa dele e dormir no quarto da irmã, que a mãe não se importaria. Eu aceitei de novo, sem ter medo de mais nada. Pra mim eu já tava no cú do mundo mesmo. Ele se tornou meu melhor amigo, que me dava os melhores e piores conselhos do mundo.
‘Com ele eu aprendi a me arriscar mais, fazer mais coisa errada, comecei a fumar e assim eu emagreci. Uma agência me contratou como modelo, deu certo e eu consegui comprar meu próprio apartamento. Ajudei com a divulgação da banda deles e a gente foi se ajeitando. Meio desastroso, eu sei, mas deu certo.
‘Há uns meses atrás, minha mãe me procurou pra me avisar que tinha se casado com o cara da bala. O cara pelo qual meu pai tinha se matado. Mesmo que ele não fosse a pessoa que qualquer um denominaria ‘normal’ logo de cara, era meu pai.
Ela olhou vagamente o céu, com poucas lágrimas ainda escorrendo pelo rosto. ‘Eu cheguei ao extremo pela segunda vez na minha vida e cheguei à conclusão de que iria me matar. Era o suficiente. Eu não precisava agüentar aquilo.
‘Peguei uma faca e ia cortar o pulso quando chegou ao meu apartamento, por pura sorte, destrancado. Quando viu a cena, ele correu até a cozinha, pegou uma também e pôs no pulso, ameaçando se matar junto comigo. Eu não sabia o que fazer, não tinha coragem de acabar com mais de uma vida naquela noite. Comecei a xingá-lo de tudo que eu conhecia. Depois ele disse o que eu consigo me lembrar até hoje: ‘Aquela lua só era bonita o suficiente por que ela estava refletida nos teus olhos. Desde que você chegou naquela droga de aeroporto, eu tenho que me controlar para não parecer um idiota perto de você. Eu nunca consegui te considerar só a melhor amiga, Abby. Só o fiz pra poder ficar perto de você. E se você se matar agora, vai estragar duas vidas de uma vez só, porque eu não sei mais do que eu valho sem você.’ Então ele deu de ombros descontraidamente e continuou a falar, já chorando ‘Não vai fazer diferença se eu me matar junto contigo.’
‘Na mesma hora eu larguei a faca e caí de joelhos no chão, chorando como nunca fiz na vida. Ele se abaixou, me abraçou e me beijou. Nós estamos juntos desde então. Ele foi a melhor coisa que me aconteceu’
Ela sorria abertamente agora e nós enxugamos os olhos na mesma hora e rimos fracamente. Eu a abracei forte e de repente vi que estava mais errada do que jamais estive na minha vida.
- Desculpe Abby, eu imaginei algo totalmente diferente disso. Me sinto tão culpada agora.
- Não tem problema, já superei essas críticas. E hoje, pra quem eu quero que me conheça de verdade, eu conto. – ela piscou.

Mais tarde, Abby e eu estávamos concentradas fazendo uma torta de maçã na cozinha quando os meninos chegaram, nos abraçando por trás, todos sujos de tinta.
- Ah, ! Agora eu tô toda suja também – ri de má vontade, tentando dar tapas no braço dele.
- Agora a gente pode tomar banho juntinho né? – ele disse baixinho no meu ouvido e riu malicioso.
- Mas o que é isso – eu ri, conseguindo me virar de frente para ele em seus braços. Segurei seu rosto entre as minhas mãos, sorri e o beijei.
- Calmaê casal, vamos comer outra coisa primeiro, depois a gente disputa os quartos. – brincou levando um tapa de Dak que chegou à cozinha e o abraçou pela cintura, também suja de tinta. – Brincadeira, amor.
Eu olhei sorrindo sugestivamente para ela que sorriu abertamente e veio me dar um beijinho na bochecha.
- Essa mão tá melhor, pequena?
- Tá sim, amor, acho que mais um dia e eu já posso tirar essa tala. Chama lá a e o pra gente almoçar. – ela saiu saltitando pela cozinha e puxando pela mão.
De repente estávamos , Abby, e eu na cozinha. Ela estava sentada na mesa ao lado dele, com a cabeça apoiada em seu ombro, me fazendo sorrir vagamente.
- Que foi ? Tá com uma carinha tão boba – brincou.
- Nada não – eu acordei de meu transe – e aí gente, como foi lá?
- Éramos eu, e a Dak contra a , e . – começou.
- A gente era o time vermelho. The Rockers. – fez uma careta de empolgação. – Em meia hora de jogo, a gente já tinha deixado o todo colorido.
- Quem o acertou mais vezes? – Abby perguntou descontraídamente
- Dak. – respondeu baixo, olhando o chão e fazendo eu e Abby rirmos.
- Continuando. – pigarreou – Depois a mirou o impiedosamente. Estávamos dois a dois.
- Eu consegui tirá-la de campo também, mas o me acertou na mesma hora. – ele bufou – Protetor.
Nós rimos.
- De repente era ele contra mim – fez uma cara de suspense – A gente correu e se escondeu deixando todo mundo no suspense. Nunca pensei que o fosse tão escorregadio.
- corria, se esquivava, se jogava no chão, parecendo coisa de filme, mas nunca conseguia acertar The Big . – brincou.
- Dá pra contar logo quem ganhou? – eu me intrometi, rindo.
- Eu, lógico – apareceu na cozinha comemorando de braços abertos e erguidos, sorrindo abertamente e beliscando – Perdedor – ele brincou, recebendo um soco em sua barriga de brincadeira.
- Se pelo menos tivesse me dado cobertura – ele emburrou no seu jeitinho competitivo.
- Minha cabeça estava em outro lugar, não é minha culpa – ele sorriu bobo para mim, que o beijei e recebemos um ‘OUN’ em coro de todos agora na cozinha.
Almoçamos, contando nossos dias separados. Os meninos pediram para desenformar a torta, os quatro na maior brincadeira e acabaram o quebrando. Mas mesmo assim ele foi devorado por nossos famintos animaizinhos. Estava mesmo uma delícia.
e Dak se perderam ‘acidentalmente’ pela casa, Abby e acabaram cochilando juntos em uma rede na varanda, e foram ver um filme e eu arrastei para a grande árvore comigo.
Eu daria tudo para tê-lo comigo naquele lindo lugar, olhando o pôr-do-sol, mesmo que em silêncio.
Ele me ajudou a subir em um galho mais acessível e não tão alto, por causa da mão.
Estávamos sentados de frente um pro outro, abraçados em um mesmo tronco. Ele me beijou intensamente, pausou o beijo, tirou uma mecha que estava caída em meu rosto e sorriu.
- Como você veio acontecer pra mim?
- Não pergunta. Você deve ter sido um mal garoto quando criança para me merecer né? – eu passei o polegar em sua bochecha, o olhando vagamente e de repente ficou sério.
- Você não sabe mesmo o que diz, né? – ele me deu um selinho.
- Pior que sei. – minha voz se entristeceu um pouco.
- Se sabe mesmo, eu quero ser um menino mal para sempre – ele sorriu abertamente – Eu não consigo me preocupar com nada quando estou com você, sabia?
Nos beijamos de novo, e ficamos abraçados lá em cima até eu finalmente quebrar o silêncio.
- A história do e da Abby é linda, ela me contou hoje. Desculpe, eu estava errada mesmo.
- Não se preocupe – ele deu de ombros, desligado.
- Eu queria ter uma história com você também – falei, parecendo uma criança que não ganhara seu tão desejado presente de Natal.
- Essa é a melhor parte de estar com você – ele riu baixo
- Ter um relacionamento com uma criança mimada? – eu brinquei
- Não. – Ele me olhou no fundo dos olhos – Poder fazer a nossa história ainda.
E eu o abracei, sentindo seu perfume, seus braços quentes e acolhedores à minha volta e percebi o quão perigosamente necessário aquilo estava se tornando para mim.


Capítulo Nove –

Musiquinha (:

Já faziam alguns dias que estávamos pelo sítio, aproveitando cada momento e lotando as máquinas de fotos.
Peguei o Iphone de e me tranquei no quarto onde nós estávamos ‘hospedados’ no sítio dos . Me sentei na cama e entrei no Google. Havia uma coisa me “encucando” naquele lugar, como se aquela atmosfera me deixasse mais sensível, e querendo resolver o que estava pendente. Eu disse que ia procurar entender, mas havia me conformado em estar ali. Em ter alterado a vida de pessoas maravilhosas que conviviam agora comigo, sem me deixar pelo menos assumir a culpa disso. Havia se tornado um peso na consciência.
Joguei a palavra-chave vento e depois desejos trazidos pelo vento.
A primeira trouxe músicas ou respostas prontas para serem copiadas e coladas em trabalhos. Nada que alguém já não saiba do ‘ar em movimento’.
Na segunda vieram poemas, músicas, blogs com textos românticos mal escritos. Nada que pudesse me ajudar. Mesmo assim eu persisti, procurando alguma resposta, que por incrível que parecesse, nem a internet poderia me trazer.
- Livros! É isso, eu preciso ir à uma biblioteca. – comecei a falar com as paredes enquanto deixava o Iphone em cima da mesa de cabeceira e peguei um livro que eu sempre levava na bolsa para saber onde se situava cada coisa em Londres. Contando com uma certa ajuda da internet, obviamente. Melhores preços, lugares mais pertos, sempre ajudam, gêneros espíritas, científicos e filosóficos. Nessa mesma hora, entrou no quarto esfregando as mãos.
- E precisa se agasalhar também. Tá esfriando mocinha, você não está mais no Brasil, lembra? – ele vestiu um moletom preto que estava jogado em cima das malas. Abriu uma delas, pegou o meu cinza e o jogou para mim.
- Você parece a minha mãe às vezes, sabia? – resmunguei vestindo o agasalho.
- Alguém precisa cuidar de você. – ele sorriu sentando na cama, ao meu lado. Eu fiz um bico engraçado, ganhei um selinho e continuei procurando para saber onde tinha uma biblioteca enquanto corria com os dedos pelos mapinhas do livrinho. – O que você tá procurando?
- Uma biblioteca, eu preciso pegar uns livros. Talvez uma pilha deles. – fiz uma careta.
- Trabalho da faculdade? Eu posso te ajudar se você quiser.
- Não. É outra coisa que eu preciso descobrir. – continuei procurando, dizendo em voz baixa – Biblioteca, biblioteca, biblioteca... Onde?
- Posso perguntar que coisa é, senhora detetive? – ele brincou sorrindo e começou a me dar beijinhos no queixo.
- Na verdade, você vai bufar e se estressar se eu disser o que é. – respondi o ignorando com dificuldade.
- Eu vou? – ele disse com a voz rouca, ainda me dando beijinhos pelo pescoço.
- Vai. – respirei e controlei meu sorriso bobo – E não vai conseguir o que está tentando. Estou decidida e concentrada no que quero.
- Será? – ele de repente começou a beijar ‘de verdade’ meu pescoço, me fazendo arrepiar. Golpe baixo. Segurei seu cabelo e fiz nossas bocas se encontrarem. Ele sorriu vitorioso e começou a brincar com minha língua. Continuei o beijando enquanto, em um movimento rápido, passei minha perna por sua cintura e fiquei por cima. Ele escorregou o corpo para ficarmos deitados, e mordeu meu lábio, me provocando. Suas mãos começaram a acariciar minha barriga, na intenção de subir minha blusa, mas eu as peguei e as prendi um pouco acima de sua cabeça. O beijei por mais uns dois minutos explorando cada milímetro de sua boca. Depois me separei, por um segundo.
- Eu disse que estava concentrada. E que você não ia conseguir o que queria. – juntei nossas bocas novamente enquanto ele sorria abertamente.
- Então parece que você perdeu. – ele disse com a voz rouca. Era incrível como eu conseguia tirá-lo de sua sanidade tão facilmente.
- Eu nunca perco, – mordi seu lábio, o puxando lentamente de maneira provocativa, o fazendo gemer baixo. Depois, cruelmente, me levantei rindo e cortando o clima. Peguei o livrinho e saí da cama.
- Ah, sua chata. Você vai ver! – ele se levantou rápido e eu saí correndo gritando pelo corredor. Desci as escadas rindo alto com ele no meu encalço, e pulei em cima de e Abby que estavam deitados num colchão na sala. pulou por cima, fazendo xingar a gente e rir ao mesmo tempo.
- MONTINHOO! – e gritaram e pularam. Depois vieram e Dakota. Estávamos todos sufocados, nos xingando e rindo muito quando vimos um ‘flash’ repentino. Viramos a cabeça, todos ao mesmo para a entrada da sala e vimos um Josh - o caseiro - sorridente e com uma máquina na mão.
Ficamos todos céticos, o encarando e em silêncio até ele dizer em seu comunal jeito caipiresco:
- Bando de matuto. – ele largou a máquina no sofá e todos começamos a rir muito, saindo um de cima dos outros.

Chegando o fim de semana, decidimos que era hora de voltar pra casa.
- Amor, você já tá pronta? – ele berrou do corredor.
- Já, só preciso achar um papelzinho aqui, vai entrando no carro! – avisei-o enquanto olhava embaixo da cama. Eu precisava achar. Era o endereço da biblioteca que tinha o livro que podia conter todas as respostas que eu precisava. Não podia deixá-lo no sítio, depois de dias procurando.
Remexi embaixo das cobertas, dentro das gavetas, do guarda-roupa que nós havíamos nos apossado por uns dias, no banheiro, em todos os lugares imagináveis naquela casa. Onde estava?
- , deixa isso pra lá, a gente procura o endereço depois. – ele disse descontraído de braços cruzados encostado na porta.
- Não , eu preciso do endereço. Entrei em milhares de sites, não vou achar de novo! Eu quero aquele papel! Não saio daqui sem ele.
- Isso nem deve ser tão importante assim. - ele disse baixo, mas eu ouvi.
- Claro. Você sabe onde você está, com quem convive, porque convive. - rebati
- Mimada – ele disse baixo, em tom de brincadeira, mas me deixando profundamente irritada.
- É a sua mãe. – comecei a introduzir o som ignorante na voz. – Se não vai me ajudar, pode me deixar em paz, que já colabora bastante.
- Ah, a gente não vai começar a brigar – ele fez careta
- A gente já começou – o olhei séria.
- Você já começou, não eu. Fica aí com os seus papéizinhos, que eu tô esperando no carro. – ele bateu a cara e desceu.
- Vai à merda – eu disse baixo e irritada para mim mesma, enquanto ele saía do quarto e eu me voltava para procurar a droga do papel.
- Já tô na merda – ele respondeu irritado do corredor.
Minutos depois eu achei o que queria, dentro da gaveta da cozinha. Eu tinha anotado antes de ajudar Dak com o almoço e guardei para não molhar. Porque eu nunca lembro dessas coisas na hora?
Peguei minha última bolsa e tranquei a porta. Entreguei as chaves para , me desculpei pela demora, me despedi de todos e entrei no carro. Ele ainda estava emburrado, com o braço pra fora da janela quando eu entrei e coloquei o cinto.
- Achou? – perguntou de má vontade
- Achei – respondi satisfeita.
- Podemos ir? – ele me olhou sério
- É você quem tá dirigindo – virei a cara, coloquei os óculos de sol e os fones de ouvido, encerrando o assunto. Ele finalmente ligou o motor e partiu, dando buzinadas como se fossem despedidas ao resto da turma.

Não demoramos para chegar em casa, ainda no mesmo clima estranho. Estava andando emburrada na frente, entrei no apartamento e deixei a porta aberta para que ele entrasse depois.
- Ótimo, a gente vai ficar brigado por causa de um pedaço de papel? – ele perguntou assim que fechou a porta do apartamento, me encarando incrédulo.
- Não estamos brigando por causa de um pedaço de papel. Estamos brigando porque você não sabe ter o mínimo de paciência, e tentar dar um pouco de importância se por acaso eu tô totalmente perdida no tempo e não acho resposta alguma pro que tá acontecendo comigo. Não estaríamos brigando se você não fosse um garoto de boyband mimado.
- Eu sou o mimado agora? Eu tô tentando te entender desde que você apareceu assim do nada. Eu sei tanto quanto você do que aconteceu, mas me desculpa se eu pelo menos tento te conhecer e dar algum rumo a isso.
- Não se faça de bonzinho, . É muito mais simples você dizer que não se importa.
- Eu não me importo – ele levantou os braços, naturalmente. Como se tivesse se rendido. – Não é isso que você quer ouvir? Pronto. Eu não me importo. Eu queria conhecer quem você é, queria ouvir o que você quer falar, tentar entender o que passa na sua cabeça. Mas você não aproveita por estar aqui comigo. Parece que não desejou de verdade, foi só da boca pra fora.
Fiquei calada o olhando, com a mão na cintura, deixei-o prosseguir.
- Você se importa muito mais em como deve estar apresentável para conhecer a banda, para receber o em seu apartamento, para saber a história do ou julgar a Abby. Pensei que o seu pedido tinha sido eu. Pensei que poderia ter “aparecido” uma pessoa que me amava, que ia levar nossa relação a sério. Pelo menos, faria sentido.
- Pare de ser egocêntrico, ! Tudo no seu mundo é você. O seu bem estar. Você isso, você aquilo. Você já pensou em como EU estou? Acho que não, né? Você não consegue enxergar que eu mudei não só a minha vida, mas a de todo mundo ao meu redor. E isso não pesa na sua cabeça, claro. É na minha! - fiz uma breve pausa - Se eu não me importasse com você, não faria o esforço que eu estou fazendo, eu teria me internado! E que relação é essa? Pra você pode ser uma relação, mas pra mim são pouco mais de semanas! Não jogue essa responsabilidade pra mim...
- Responsabilidade. Um fardo. Porque não desejou alguém menos pesado pra você?
- Teria sido melhor. Talvez alguém que não fosse tão dramático.
- Dramático?
- Sim, um dramático que muda com as pessoas por minha causa. – ele me olhou boquiaberto. – Você teria gritado com o se ele não tivesse me machucado? Teria feito alguma boa ação se eu não tivesse lhe pedido?
Silêncio.
- Não, . Não teria. Não quero que você mude o que é realmente por mim. Seja sincero, jogue limpo, me mostre quem é você, chega de mudanças.
Fez-se uma pausa. Só se ouvia minha respiração pesada enquanto ele encarava o chão, pensativo.
- Até porque você não faz questão nenhuma de mudar por mim, né? – ele me olhou de lado, derrotado. Engoli em seco e pensei.
- Definitivamente não. – mantive-me firme, o olhando nos olhos, deixando meu orgulho inútil transbordar em minhas palavras frias.
Sem dizer mais nada ele pegou a mala que estava no chão da sala e seguiu para o quarto de hóspedes. Sumiu pelo corredor, fechando a porta. Eu respirei pesarosamente, me jogando no sofá e pensando. O que eu tinha feito? Não ia engolir minhas palavras e pensamentos no momento da emoção. Só não tinha certeza do quão absurdamente errada eu poderia estar depois de ter tido aquela discussão.
Coloquei o rosto entre as mãos, pensando em quantas coisas eu não deveria ter dito, quantas eu poderia ter retirado, eu podia ter me rendido uma vez, ao menos. Droga de orgulho.
Ele era paciente, principalmente tendo uma louca no mesmo apartamento. Sei de milhares de pessoas que não suportariam viver comigo. Ri baixo com a idéia.
Passei a mão pelos cabelos, levantei, tomei um copo de água, segui para o meu quarto, tomei um banho, troquei de roupa. Deitei, tentei dormir e não consegui. Virei de um lado pro outro, virei o travesseiro, deitei pros pés, tirei o cobertor, me cobri novamente, liguei o abajur, li um pouco, lembrei dele, me irritei, tornei a guardar o livro, liguei pra que não atendeu, fui ao banheiro, voltei, encostei na porta e vi que outra pessoa também não conseguia dormir naquela casa.
Vendo filmes de ação na sala, com um volume alto, talvez para me irritar. Voltei pra cama, fiquei sentada e decidi fazer alguma coisa. Levantei, peguei a mala e a pus em cima da cama. Tirei todas as roupas que tinham dentro e joguei em cima da cama. Abri o guarda roupa, e numa crise de insônia e uma revolta adocicada, joguei todas as roupas no chão. Tudo. Um guarda roupa vazio. Sentei no chão, e comecei a dobrar as roupas, uma por uma, colocar no cabide, relembrar de peças mais antigas, mas que eu, por sinal, amava.
Terminei o trabalho exausta, me achando completamente paranóica e ri de mim mesma pensando ‘Estou, definitivamente, ficando doida’. Olhei o relógio, que marcavam quase duas da manhã.
- É. foi bom passar um tempo comigo mesma – sorri satisfeita, olhando meu guarda roupa, acreditem, organizado. Os perfumes, jóias, roupas, sapatos, livros, tudo no seu devido lugar. Ficou tão lindo, que eu na mesma hora peguei o celular e tirei uma foto para mostrar pra .
Pra não perder o costume, peguei a blusa que me deu, desdobrei, amassei, e joguei por cima de tudo. Agora sim, estava a minha cara. Nada no meu mundo é organizado demais.
Acostumem-se, sou uma criança birrenta.

O despertador estava gritando há não sei quanto tempo. Olha que surpresa:
- Tô atrasada de novo! Droga, droga, droga. – levantei correndo, fiz um rabo de cavalo meio bagunçado, vesti um moletom, a jeans e calcei os tênis.
Peguei as chaves, e saí. Entrei no carro e parti para a faculdade, voando. Nem consegui olhar se ainda estava em casa, ou se o porteiro ainda era o mesmo, ou se ele me deu bom dia ou não.
- Por pouco você não perde, amiga. – veio até mim surpresa.
- Não perco o que? – perguntei desligada, tentando equilibrar todos os meus livros.
- Como assim ‘perco o que?’ – ela parou na minha frente incrédula, fazendo as aspas com os dedinhos e depois os estalou. – O último dia ! Acorda.
- Último dia? Tem certeza?
- Ai criatura brisada – ela voltou a andar ao meu lado – O último dia de aula, . Sem mais aulas chatas, agora a gente pode trabalhar de verdade. Nada de estágio ou coisa do tipo. E pensar que a gente passou as semanas mais chatas, aproveitando no sítio.
- É – respondi sem realmente prestar atenção. Nos sentamos em um banco no pátio, ela me olhou com atenção e perguntou.
- O que aconteceu? Você tá tão desligada hoje. – respirei pesadamente.
- Briguei com o .
- Ih, me conta.
- Foi por bobagem, já tava um clima estranho aí eu e minha grande boca acabamos estragando tudo definitivamente. Ele ficou mesmo irritado, não queria ter dito algumas coisas.
- Você e essa sua mania de falar tudo que pensa. É tão difícil assim se controlar algumas vezes? – sabia que ela ia puxar minha orelha.
- Eu não sei , é difícil pra mim. Meu orgulho é muito grande. – pensei por um instante – Ele tem razão, eu sou tão mimada. Não sei perder.
- Então chega pra ele hoje e diz isso. – ela segurou minha mão – É pro bem de vocês, você sabe que se acontecer alguma coisa, você vai ficar mal.
- Eu sei – disse baixo, quase em um sussurro. – Eu vou fazer isso hoje. Se não posso deixar de ser infantil e abrir a boca na hora que quero, posso pelo menos tentar consertar as coisas depois.
- Não esqueça que nem sempre um pedido de desculpas é aceito, . A gente tem que pensar antes de agir – Absorvi lentamente as palavras, com medo de ser tarde demais.
Fomos parabenizados pelo nosso trabalho e dedicação. A cerimônia ficou marcada para o sábado seguinte. Depois me despedi das meninas e decidi passar no hospital para ver como as coisas iam por lá.
As obras estavam quase prontas e eu voltaria ao meu trabalho normal na semana seguinte; Porém as crianças só voltariam um tempo deipois, pra um lugar mais preparado. Conversei com Lucy e ela decidiu me contratar oficialmente, o que me deixou extremamente feliz. Ok, tudo estava indo bem no meu dia, só me restava a etapa final. Saindo do hospital, ouvi o celular tocar, numero desconhecido.
- Alô?
- ? É a Joanna.
- Ah sim, oi. – ela tinha o numero do meu celular? – tudo bem?
- Sim, espero que não se incomode de eu ter te ligado.
- Magina, pode dizer.
- Sei lá, eu tava sem nada pra fazer e queria conversar com você.
- Ok, eu queria mesmo te perguntar uma coisa. Com a reforma do hospital, onde você está agora?
- Em casa, minha mãe contratou uma enfermeira por uns dias. E o ? Está com você?
- Não, na verdade eu tô saindo do hospital agora. Vim ver como estavam as coisas. Logo logo terminam as obras.
- Que bom, quero voltar praí.
- Mas você pode vir antes. Se a sua mãe deixar, você pode passar um dia comigo.
- Sério?!
- Aham. Veja com ela, ok?
- Tá bom.
- Eu vou desligar agora, porque eu tô entrando no carro, ok?
- Tudo bem, beijo.
- Beijo flor.
Liguei o carro, e segui decidida para casa. Sabia exatamente o que fazer, já me sentia até mais leve.
Cheguei em casa, tranquei a porta, joguei minha bolsa no sofá, seguindo a rotina.
- ? – perguntei da sala. Ninguém respondeu. Tentei de novo e mais alto. – ?
- Me chamou? – ele apareceu na sala secando os cabelos com uma toalha. Estava de jeans, uma camiseta azul linda que eu não lembrava ter visto antes e tênis. Ele ia sair ou era impressão minha?
- Chamei. Achei que não tinha ninguém em casa. – tirei o agasalho e sentei no sofá o encarando. – Vai sair agora? Queria conversar com você.
- Pode dizer. – ele se sentou, largou a toalha nos ombros e me encarou.
- Eu pensei muito hoje e deduzi que já tá na hora de deixar de agir como criança. Eu não queria ter brigado com você ontem, principalmente por motivos tão bobos. Eu sou muito orgulhosa e na hora do nervosismo eu não sei pensar duas vezes antes de falar.
- , era o que você pensava no momento, não tinha que esconder nada. – ele não trazia mais na voz aquele jeito doce de ter paciência comigo. Parecia algo mais amargurado, embora não estivesse bravo.
- Eu sei , mas eu quero me desculpar. Você teve razão em muitos pontos. Eu sou difícil, eu sou mimada, sou terrivelmente orgulhosa, não valorizei o que você sentia por mim muitas vezes e não vou te julgar caso esse pedido de desculpas não seja aceito... Você não vai estar errado.
Silêncio. Ele respirou fundo, veio até mim, se agachou na minha frente e pegou minhas mãos.
- Desculpas aceitas – ele sorriu fraco pra mim.
- Obrigada – o abracei, mesmo com medo de estar pisando em falso. – Já é um alívio enorme pra mim.
- Imagine. Minha vez de falar. – ele se desvencilhou de mim e eu pude sentir que agora vinha a pior parte. – Eu conheço bem minha criança mimada e eu sei que você vai estar achando que eu vou te dar a maior bronca agora – rimos baixo por sabermos que ele estava certo. – Devia. Mas não vou. Você não é a vilã da história , toda moeda tem dois lados e eu analisei o meu lado. Também errei; muitas vezes me importei muito mais comigo do que com a gente. Eu quis tanto você, que não pensei no que você queria. Não abri espaço pra você decidir isso.
- ... – coloquei uma das mãos em seu rosto cauteloso e implorei para que ele não se culpasse e aquilo acabasse ali. Senti meus olhos encherem de lágrimas. Aquela conversa não tomava um bom rumo.
- Olha, eu te amo muito , e eu sei que você ainda não sente o mesmo por mim. Ou nem vá sentir algum dia. Em primeiro lugar, prometa que você só vai dizer que me ama, quando sentir que é de verdade. Quando sentir que nada pode superar isso, que nem mesmo o destino poderia intervir no que você sente. – abaixei a cabeça. ‘Não acredito que ele me pediu isso’, pensei. Ele sabia que agora não era o momento e eu queria morrer por não ser. Queria amá-lo mais. Queria amá-lo tanto quanto ele me amava. Ele levantou meu queixo delicadamente com o dedo – Prometa.
Respirei fundo.
- Prometo. - e engoli em seco.
- Próximo passo é o mais difícil, mas não faça drama. Só vai piorar as coisas. – Ele se levantou e eu involuntariamente o segui. Minhas mãos gelaram, minha garganta apertou. O que era pior que aquela situação? – O nosso problema é não ter espaço, não ter tempo para nós mesmos, não ter a possibilidade de sentir saudade um do outro. Você estava certa: nós assumimos a responsabilidade de uma relação mais séria cedo demais. A gente mora na mesma casa, sendo que nos conhecemos há apenas semanas! – ele riu debochado, mas sem realmente achar graça. – Vou ser direto. Preciso de um tempo. Precisamos de um tempo.

You left me hanging from a thread we once swung from together
Você me deixou pendurado numa corda logo em nosso primeiro balanço
I've lick my wounds but I can't ever see them getting better
Eu lambi minhas feridas mas eu não posso mais vê-las melhorar
Something's gotta change
Algo mudará
Things cannot stay the same
As coisas não podem continuar iguais

Her hair was pressed against her face
O cabelo dela está contra sua face
Her eyes were red with anger
Seus olhos estão vermelhos de raiva
Enraged by things unsaid and empty beds and bad behavior
Enfurecidos pelas coisas não ditas, camas vazias e mau comportamento
Something's gotta change
Algo mudará
It must be rearranged
Isso precisa ser reorganizado

Senti as lágrimas que eu repreendi descerem pelo rosto. Porque eu estava chorando? Não fui eu mesma que causei isso? Porque não tenho respostas, droga?!
me puxou pelo braço, me abraçou forte, apoiou sua cabeça sobre a minha e continuou a falar.
- Vai ser bom pra gente conviver com mais pessoas, passar um tempo sozinho, talvez até gostar de mais gente. Se sentir confusa, sabe? – eu senti que tal possibilidade o assustava, se eu quisesse alguém que não fosse ele. Ele não ia gostar de outra além de mim, tinha certeza pelo tom de sua voz e pelas lágrimas que correram livres por seu rosto. Ele estava pensando em mim, mais do que nele mesmo. Não havia possibilidade de haver uma gota de egoísmo saindo em suas palavras. Ele respirou e me olhou, no fundo dos olhos. – Não chore, você vai ficar bem, eu sei disso. Pode me ligar quando quiser e eu volto se você estiver pronta, ou se precisar. Meu apartamento é aqui perto.

I'm sorry
Eu lamento
I did not mean to hurt my little girl
Não queria ferir minha menininha
It's beyond me
Vai além de mim
I cannot carry the weight of the heavy world
Eu não posso carregar o fardo de um mundo pesado
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight

Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite,
Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite
Hope that things work out all right
Espero que as coisas dêem certo

Não consegui dizer nada. Apenas assenti com a cabeça enquanto ele se soltava de mim. Reorganizei os pensamentos, fechando os olhos e só consegui dizer enquanto não o encarava.
- Eu entendo seu lado. Agradeço por pensar em mim, . – abri os olhos convencida de que nenhuma outra lágrima cairia, e assim foi. – Você tem razão, nós vamos ficar bem. Isso vai ser melhor por um tempo. Não passa disso, não é? Só um tempo?
- Aham – ele sorriu, tentando disfarçar sua tristeza. Não consegui acreditar em sua confirmação. – Vou buscar minhas coisas. Sumiu pelo corredor, me permitindo respirar por alguns minutos. Tinha pavor de pensar naquele quarto vazio.

The room was silent as we all tried so hard to remember
O quarto estava silencioso quando nós tentamos duramente relembrar
The way it feels to be alive
O jeito que se sente por estar vivo
The day that he first met her
O dia em que ele se encontrou com ela pela primeira vez
Something's gotta change
Algo mudará
Things cannot stay the same
As coisas não podem continuar iguais

You make me think of someone wonderful,
Você me faz pensar em alguém maravilhoso
But I can't place her
Mas eu não posso encontrá-la
I wake up every morning wishing one more time to face her
Eu desperto toda manhã desejando vê-la mais uma vez
Something's gotta change
Algo mudará
It must be rearranged, oh
Isso precisa ser reorganizado

Afastei a imagem da cabeça, mas a que vi quando abri os olhos foi mil vezes pior. Ele tinha uma mala grande, uma um pouco menor e uma mochila nas costas. Deixou tudo perto da porta e voltou para se despedir de mim.
Segurou meu rosto entre as mãos e me beijou carinhosamente por um tempo, até sua língua pedir passagem; eu permiti, obviamente. Analisei na intensidade e urgência daquele beijo, a necessidade que eu tinha dele e embora não o amasse tanto assim, eu o amava. Era incontestável. Nossas línguas dançavam abraçadas, eu não cansava de explorar cada centímetro de sua boca e suas mãos me transmitiam uma segurança inabalável; não queria que terminasse nunca, mas, por fim, se partiu. Um selinho, dois, três. Ele me olhou e sorriu.

I'm sorry
Eu lamento
I did not mean to hurt my little girl
Não queria ferir minha menininha
It's beyond me
Vai além de mim
I cannot carry the weight of the heavy world
Eu não posso carregar o fardo de um mundo pesado
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight

Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite,
Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite
Hope that things work out all right
Espero que as coisas dêem certo

- Acho que eu já vou indo. – sussurrou com o rosto escondido em meu pescoço – Fique bem, tá? – assenti com a cabeça, me segurando para não chorar – Eu te amo, pequena.
Não o soltei. Não tinha forças pra isso.
- Eu te... – ele fez um ‘shh’ em repreensão. Pensei melhor. – Eu te adoro, .
Ele riu fraco, se desvencilhou, beijou minha testa, caminhou até a porta, pegou as coisas e saiu, fechando a porta. Sem mais.
Fiquei parada, olhando a porta, sem reação, com medo do próprio silêncio que se formou. Parecia um barulho horrível. Mas não era. Era só o som de estar sozinha.
Hm, Sozinha. Sempre odiei essa palavra. Caminhei até a porta, encostei a cabeça e uma das mãos; olhei para baixo e vi a sombra dele. ainda estava lá, do outro lado da porta, prestes a ir embora, sem ter ido realmente. Como naqueles clipes musicais ou filmes em que o casal está na mesma posição em lados opostos da porta, ou de uma parede, um deles está decidido a ir embora, mas uma parte sua não permite.
Devem ter se passado uns vinte minutos, mas eu nem senti. Só percebi realmente na hora em que a sombra se mexeu e sumiu deixando o clarão do corredor. Aí sim, senti meu chão sumir, meu ar evaporar, meu mundo ficar abstrato e minha cabeça latejar, como se estivesse bêbada.
Virei de costas, escorreguei até o chão e comecei a chorar. Sozinha e sentada aos pés da porta. Chorei como nunca ninguém chorou. Chorei tanto que acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci.

So much to love
Tanto para amar
So much to learn
Tanto para aprender
But I won't be there to teach you
Mas eu não quero estar aqui para te ensinar
I know I can be close
Eu sei que eu posso estar perto
But I try my best to reach you
Mas eu tentei demais encontrá-la

I'm sorry
Eu lamento
I did not mean to hurt my little girl
Não queria ferir minha menininha
It's beyond me
Vai além de mim
I cannot carry the weight of the heavy world
Eu não posso carregar o fardo de um mundo pesado
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight

Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite,
Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite
Hope that things work out all right
Espero que as coisas dêem certo


Capítulo Dez –

Acordei toda torta, esparramada no chão, com as costas e pescoço doendo e os olhos inchados. Preciso parar de me depreciar. Talvez isso possa trazer um desgaste físico muito maior que o mental. Ou talvez não.
- Merda. – me espreguicei estalando toda a costela com dor. Levantei, fiz minha higiene matinal, tomei um suco de laranja e uma aspirina e liguei pra Dak. Não queria meter e nisso agora, principalmente porque ela me mataria se ficasse sabendo que ele saíra de casa. Apesar de que provavelmente já soubessem.
- Dak? Bom dia. - Jesus, minha voz estava acabada.
- Bom dia chuchu.
- O que você vai fazer hoje?
- Nada por enquanto e você?
- Tava pensando em ‘sessão fossa’, que tal?
- Ih, tá mal? – ela riu – Hm, pode ser. Eu pego os filmes.
- Tá bom amor, vou passar no mercado, até mais.
- Até.

Peguei minha bolsa e saí. Ainda com uma básica cara de bunda e moletom, fui ao mercado. Comprei sorvete de chocolate, Pringles e um engadado de cerveja long neck. A vendedora me olhou dos pés a cabeça com aquela cara de ‘Nossa, aposto que apanhou do marido ou acabou de terminar um namoro. Sinto pena dela’. Me segurei por um tempo, mas não agüentei; depois que ela passou todas as minhas coisas, eu tinha que dizer algo em minha defesa.
- Que foi? Porque tá me olhando? Você me conhece? Para de se perguntar por que eu estou com essa cara! Não é problema seu, amiga. E se eu me acabei em uma festa ontem? E se eu dormi com dois? E... E se ele terminou comigo? Isso te interessa? E se eu vou me entupir de chocolate? Tem algum problema? Vai dizer que você nunca passou por isso? – pausei para respirar, remexendo na bolsa atrás da carteira.
- Me desculpe senhora, eu não quis dizer nada. - ela ficou sem graça.
- Não se preocupe, todas nós queremos dizer alguma coisa até que aconteça com a gente. E eles se sentem bem com isso! Nunca é nada demais para se pensar até altas horas da madrugada, como nós fazemos. - me aproximei um pouco dela enquanto lhe entregava o cartão - Mas você quer saber? Eu quero mesmo é que ele se foda e saia pegando um monte de menininhas de dezenove anos mais gostosas e mais fáceis que eu! Porque é isso que ele merece, um bando de putinhas que agitam pompons com micro-saias depois da escola!
Eu parei para respirar fortemente; ela me olhou assustada, sem entender nada. Não só ela, mas uma básica metade do mercado. Eu bufei e passei a mão pelos cabelos.
- Isso , muito bem. - disse baixo para mim mesma, enquanto tentava regular a respiração.
- A senhora quer uma água? - ela me ofereceu, assustada, já se pondo de pé;
- Imagine - levantei a mão, mostrando a palma, indicando que não precisava. - Eu estou bem. - ela me olhou duvidosa e eu lhe disse um pouco mais baixo. - Embora não pareça.
Discretamente, dei uma olhada ao redor e reparei que muita gente ainda me olhava, mas bem menos gente que antes. A vendedora ficou me olhando caso eu voltasse a berrar com ela. Senti dó, ela fazia estereótipo de gente insegura e que estaria pensando no chefe berrar e demiti-la por não saber atender uma de suas clientes. Pisquei umas duas vezes, apontei o cartão, e disse.
- É débito. – ela passou, eu digitei a senha, balancei a cabeça, peguei as sacolas e o cartão e saí resmungando baixo comigo mesma. – Não, eu não tô nada bem. Olha o que aquele infeliz faz comigo. Filho da mãe, idiota, mal-amado...
Entrei no carro, fechei a porta e me senti em paz. Respirei fundo, tombei a cabeça pra trás, pus o cinto, peguei meu espelho na bolsa e vi a cara de doida psicótica que eu estava. Eu não costumava ter aquelas olheiras grandes e profundas, nem aquela falta de maquiagem na cara ou aquele cabelo bagunçado.
Vendo aquela eu-que-não-era-eu comecei a rir. Rir muito, gargalhar.
Definitivamente fora do normal. Me diz, o que tá acontecendo comigo? Ainda rindo, peguei o celular e liguei pra minha mãe.
- Alô, mãe? Oi, sou eu. Escuta, você tem o número de algum psicólogo, psiquiatra, sei lá? – ri baixo com a idéia. – Não, não é brincadeira não, tô falando sério. Não. Mãe,... mãe! Me ouve, eu tô bem. É pra uma amiga. Aham, juro. Tá, pode falar. Hm...Aham... 73? Tá bom, brigada, beijo. Também te amo.
Desliguei o celular, liguei o carro e segui pra casa. Chegando ao hall do prédio, minha amiga já estava lá, com uns três ou quatro DVDs na mão. Dei dois beijinhos nela, a abraçando.
- Oi amor, desculpa o atraso.
- Não tem problema – ela sorriu e me mostrou os DVDs – Olha o que eu trouxe. PS. I Love You, Um amor pra recordar, Sete Vidas e Em busca da Terra do Nunca.
- Ah, não acredito, você trouxe filme do Peter Pan? - choraminguei animada. Dakota conhecia bem a minha fixação pelo menino que nunca cresceu.
- Algo me diz que você está precisando - ela piscou
- Algo me diz que você está certa - admiti e puxei-a pela mão. – Vamos.
Chegamos no apartamento, me dirigi à cozinha e fui tirando as coisas das sacolas. Dak se sentou, ficou me encarando até que perguntou.
- Me conta, o que foi? Já vi que ele não tá aqui.
- Nada – dei de ombros e coloquei as cervejas no freezer pra gelar mais rápido.
- Você não me engana, mocinha. Pode ir contando. – ela mandou. Respirei fundo e me apoiei na bancada, a fitando.
- Não comenta nada com a ? – pedi.
- Por quê? – ela estranhou
- A comenta com o , ele comenta com o , o vem falar comigo... – coloquei o sorvete no freezer.
- Ah tá. Pode deixar, mas me conta.
- A gente brigou, ficou um clima estranho, fui pedir desculpas, mas aí era tarde demais. – ela ficou me olhando esperando a tradução de ‘tarde demais’ – Ele me pediu um tempo. Foi pro apartamento dele.
- Sério amiga? – Dak mordeu os lábios rosados e fez cara de desânimo quando eu assenti. – Mas e você nessa história? Como você está se sentindo?
- Não sei, não me dei tempo pra pensar nisso ainda. Chorei bastante ontem, mas é normal de fim de relacionamentos. Tudo bem, eu não chorei tanto com os outros, mas eu estou bem. Só não quero estragar nossa amizade...
- E...? - droga, ela sempre sabia quando tinha mais.
- E... Eu acho estranho não ter ele aqui. Me acostumei com o perfume amadeirado depois que ele saía do banho, ou com o estilo largado de se vestir, em ele cantar algumas musicas pra eu dormir, ou quando ele ficava falando sozinho... Sei lá, tem tanta coisa. A casa ficou vazia, não tem mais barulho.
- Eu entendo, amor. Mas eu não acho que seja coisa para se preocupar, logo logo ele volta, o te ama de verdade , acredite. – ela piscou, sorrindo. – Mas enquanto isso, para de se depreciar. Nem parece mais a que eu conheci. Aproveita o tempo que ele pediu. Pode ser bom pra você também.
Abri a Pringles em silêncio, coloquei em um recipiente, e me sentei à mesa com minha amiga que beliscou um dos salgadinhos.
- Não sei Dak, até eu mesma ando estranhando algumas das minhas atitudes. Eu não era assim antes dele. Você precisava ver meu estado hoje de manhã! Nunca me vi assim. – peguei um salgadinho também e concluí, fazendo pouco caso – Acho que tô ficando louca.
Dakota riu e me puxou para a sala, para vermos os filmes. Enquanto colocava o filme, peguei as bebidas, o sorvete, duas colheres e o salgadinho.
- Mas e você e o ?
- Tá na mesma. – ela respondeu naturalmente.
- Como na mesma?
- Na mesma ué, a gente só tá ficando.
- Por enquanto – sugeri sorrindo animada.
- Ai boba. – ela ficou sem-graça – Não tem nada demais, é só mais um ficante. Eu tô curtindo muito, mas eu não vou morrer na hora que acabar, que surgir outra pra ele. Muito pelo contrário, eu vou seguir com a minha vida. Que é o que você deveria fazer também.
Sentei no sofá, de frente pra ela; Agarrei uma almofada e me animei.
- Me conte como é ficar com .
- Ahn... É maravilhoso, – ela fez cara de derrotada e nós rimos – Sei lá, ele é um dos caras mais legais que eu já conheci. Tem uma pegada... Nunca vi ninguém me tirar do sério tão fácil, aquele calorzinho até sobe. Mas ao mesmo tempo, ele é carinhoso. A gente passou um dia quase todo abraçados, falando besteira, rindo de piadas sem graças. Ai, e quando ele canta pra mim?
- Ele canta pra você? – me abismei. Nunca tinha o imaginado tão romântico.
- Canta. E eu adoro aquela voz. É linda. – ela fez manha, se derretendo em pensamentos. Acordei-a jogando a almofada nela.
- Tá completamente apaixonada por ele e não tem vergonha de negar! Toma vergonha na cara, Dakota. – eu ri alto e corri para a cozinha.
- Ai sua vaca! Você também tá e mente do mesmo jeito. – minha amiga se defendeu.
- Não tô não! – emburrei
- Tá sim! – ela insistiu
- Não tô! – me defendi
- A gente tá parecendo duas colegiaizinhas. – ela começou a gargalhar.
- Verdade.

Passamos a tarde vendo filme. Choramos, rimos, dançamos no pior nível de várzea que uma sala de sétima série costuma fazer. Não sei quantas vezes dissemos “ele tem essa mesma mania” ou “ele sempre faz isso”. Teve uma hora que a gente inventou de fazer vaca-louca de sorvete com cerveja. Ficou bom... Mentira, ficou uma droga, não tente isso em casa.
O que eu mais gosto na Dak é isso: Ela é tão infantil quanto eu. Não só nos parecemos, como somos duas crianças sem infância quando estamos juntas.
- Sabe o que a gente tá mesmo precisando, amiga? – Ela perguntou deitada de cabeça pra baixo no sofá.
- Juízo? – Eu respondi, também deitada de pernas pro ar.
- Não, idiota. Uma festa. Não uma festa qualquer, mas AQUELA festa. Pra gente beber e dançar até se acabar. No outro sábado vai ter a cerimônia de formatura, depois de lá a gente pode ir praquele Pub que abriu lá perto de casa. Disseram que é ótimo.
- Ótima idéia. Tô mesmo precisando. Aí você podia chamar uns amiguinhos né? – a cutuquei sugestivamente
- Coitado do – ela balançou negativamente a cabeça.
- Coitado nada. Quem mandou me dar um fora?
- Ele não te deu um fora. Ele pediu um tempo chuchu.
- Pra mim é a mesma coisa, pepino.
- Não é não – Dak riu.
- Dak, quando alguém pede um tempo é só um jeito mais delicado de terminar. Ou seja, isso não faz dele menos pior.
- Não vou teimar com você criatura. Vem, você precisa dormir depois de dez horas de filme. – sim, é verdade. Pode fazer a conta: quatro filmes de aproximadamente duas horas e meia. Já estava de madrugada e pra minha sorte, eu tinha bebido bastante. Não ia lembrar de muitas coisas que eu tinha dito ou feito no dia seguinte, não ia me preocupar com a quantidade de calorias que eu ingeri por estar mal, nem por ter deduzido sozinha e bêbada que 50% das minhas chances eram de não tê-lo mais só pra mim.
Minha amiga passou aquela noite acordada comigo. Desabafei o que sentia pra ela. Chorei e confessei que o queria de volta. Confessei que não agüentava me ver naquele estado, que eu nunca tinha sentido nada assim tão prazeroso e tão mortal. Por fim, acabei dormindo. Ela acordou algumas vezes para ver se eu estava bem, se eu não queria água ou um remédio pra dor de cabeça. Ou até mesmo pra perguntar se eu não queria ligar pra ele.
Mas eu não queria. Não ia deixá-lo se sentir culpado ou convencido por ter me deixado assim. Tive sonhos horríveis em que ele estava agarrando uma tal de Holly. Até que eu acabei dormindo.
Acordei e ela estava no telefone, sentada no sofá.
- Bom dia - minha voz estava bem rouca, mas nada sexy. Me sentei do lado dela e tombei a cabeça pra trás.
- Ela? Hm, ela ainda não acordou. - minha amiga mentiu olhando pra mim.
- É ele? - sussurrei para que só ela me ouvisse. Dak afirmou com a cabeça.
- Não se preocupe, eu cuido dela. Tudo bem, tchau. - dito isso, desligou. Eu a olhei, esperando alguma coisa. - Ele estava preocupado. Queria saber de você.
Não respondi nada, indiferente. Visto que eu não ia ceder, ela prosseguiu.
- Sua mãe ligou, marcou horário pra você com o Martin daqui a pouco. Disse pra eu convencê-la de você passar no shopping e comprar algumas coisas pra si mesma. - ela tocou a ponta do meu nariz. - Eu vou devolver os filmes, passar em casa e nos vemos à noite. A vai junto, então, já se prepare para contar. Você sabe que não é da sua natureza esconder as coisas dela, e ela vai ficar magoada se souber por outra pessoa.
Assenti com a cabeça. Dak beijou minha testa e saiu.
- Não se atrase, Martin vai ficar furioso.
- Ele sobrevive.

Obedeci minha mãe e fui ao salão. Decidi repicar um pouco mais o cabelo e clarear um pouco as pontas. Minhas unhas também estavam uma droga.
- Eles sempre voltam, meu bem. Reclamam, reclamam, reclamam, mas não vivem sem a gente. - Dizia Martin, meu cabeleireiro e confidente.
- Martin, vamos encarar os fatos: Todo mundo sabe que quando se pede um tempo, é só um pretexto para o fim. Uma forma de eles se sentirem menos culpados.
Ele parou, colocou a mão na cintura, me apontou o pente e me olhou bem sério através do espelho.
- , toma vergonha nessa sua cara, menina! Ter medo até de salto vermelho, eu entendo. Mas de perder homem, colega, por favor né? Se tem homem até pra um gay como eu não vai ter pra um mulherão como você? E olha que eu sou um bem disputado, minha amiga.
E eu finalmente ri pela primeira vez no dia.
- Você devia mesmo me ouvir, eu ouço muita história nesse salão todo santo dia. Eu já conheço todos os tipos de homens possíveis e imagináveis. E só pelo que você me diz, esse aí te idolatra, pra sua sorte. - ele me disse com convicção e eu sorri fraco.
- Espero que você esteja certo, amor. Eu não sei se estou pronta para perdê-lo. - mordi o lábio apreensiva. Martin apenas revirou os olhos e desembestou a falar de novo.
- Você é muito boba mesmo sabia? Recuperar é a coisa mais fácil que existe. Continua com a sua vida, se mantenha bonita, compre roupas, faça coisas diferentes, saia com as amigas... Ele vai ver que você seguiu com a sua vida, e nada pode causar mais medo do que perder você. É batata, método de Oxford, Beverly Hills, Tókio. Em qualquer lugar do mundo, funciona. - ele piscou sorridente.
Sabe, não era uma má idéia.
Umas três, quatro horas depois, eu já me encontrava atrapalhada com umas dez sacolas. Roupas, uma bota, óculos escuros, perfumes, uma almofada e um livro. ‘Os delírios de consumo de Becky Bloom’: sempre tivera vontade de ler, mas nunca achara tempo. Saí da livraria folheando o livro distraída, enquanto andava, até que esbarrei em alguém. Alguém que me conhecia.
- ? - olhei pra pessoa tentando adivinhar quem ele era. Não me parecia estranho, mas não fazia a mínima ideia de quem ele poderia ser. - Não lembra de mim?
- Não, me desculpe. - ri, envergonhada. - Não estou lembrando mesmo.
- Dereck. Estudamos juntos há alguns anos, no colegial. Eu andava sempre com o Dave, da aula de química.
- Dereck? Dereck Nichols? - ele me sorriu abertamente e fez que sim com a cabeça. Nós não éramos muito próximos, mas andávamos com o mesmo pessoal e saíamos sempre juntos. Eu o abracei e começamos a conversar. - Meu deus, quanto tempo! É claro que eu me lembro, me desculpe. Você não estava em Los Angeles?
- Ah sim, mas vim passar um tempo em Londres. Precisava resolver umas coisas com o meu novo sócio. E você? O que faz aqui?
- Eu estou morando em Londres fazem três anos. Ano passado meus pais também vieram, vendo que eu não voltaria para casa tão cedo. Termino a faculdade esse ano - começamos a andar enquanto conversávamos.
- Nossa, que legal. Fez medicina mesmo? - eu respondi que sim - Obviamente faria, você não parava de comentar no terceiro ano.
- Nossa, você ainda se lembra? - eu me surpreendi. Dereck assentiu.
- E então, sua vida se organizou por aqui?
- É, acho que sim. Faculdade, trabalho, casa...
- Namoro? - ele perguntou descontraído, com as mãos nos bolsos, mas eu me senti um pouco envergonhada. Eu não respondi e ele me olhou surpreso - Não venha me dizer que você, , está sozinha!
- Na verdade, eu dei um tempo agora. - a melancolia não conseguia deixar a minha voz.
- Você não devia ter me dito isso - ele disse baixo e riu abafado, mas eu ouvi. No mesmo segundo, me faltou o ar. Dereck não era mais o magricela de algum tempo atrás, longe disso, porque agora tinha um corpo invejável. O geek aguadinho agora usava uma camisa social marfim, que realçava os seus olhos verdes cristalinos. Ele não usava mais óculos, e os aparelhos deram lugar a dentes perfeitamente alinhados e branquíssimos. Se no colegial, quando ele nem era tudo isso, havia metade da escola correndo atrás dele, eu não queria saber as multidões de mulheres que o queriam agora. E se eu não estou louca, ele estava usando seu charme ‘Brad Pitt’ em mim.
- Eu corro algum risco agora? - brinquei
- Você? De maneira alguma. Já não posso dizer o mesmo do seu ex. - Ah meu deus, eu estou ficando louca, sim. Um homem daqueles jamais olharia pra mim. Mesmo que me conhecesse há muito tempo. Por outro lado, eu ouvi o prefixo ‘ex’ e aquilo me doeu como um soco na boca do estômago.
- Isso significa claramente que Londres pode ser atacada a qualquer momento por um solteirão maníaco e perigoso, certo? - brinquei
- Certíssimo - ele me respondeu, rindo. Depois absorveu um certo desdém e soltou descontraidamente - Interessada?
- Não, por enquanto não, obrigada - fiz uma caretinha - Se eu quiser depois, eu te aviso ok? - pisquei divertida, e ele levantou os braços como se se rendesse.
- Tudo bem , eu sou paciente.
- Ótima qualidade, Nichols. Ponto positivo.
- Eu cozinho, faço massagem e tenho motorista, isso ajuda? - rimos. Eu estava me divertindo com ele. Não era bom ter longe de mim. Mas não era nada ruim ser cortejada por um homem como Dereck.
E enfim, nós acabamos chegando na entrada do shopping, que me levaria ao estacionamento. Eu precisava ir embora, tinha lembrado do combinado com minha amiga mais cedo, e se eu não demorasse, talvez ainda conseguisse dar um cochilo no sofá antes de sair.
- Er, eu preciso ir - mordi o lábio. Ele não disse nada, mas pegou o celular.
- Grava o meu numero, e se você quiser me ligar, marcar alguma coisa, não sei.
- Claro - sorri - Pode dizer.
- Deixa só eu achar aqui o numero do meu celular. - ele riu fraco, um pouco envergonhado, enquanto mexia as teclinhas para baixo.
- Eu não acredito! Achei que eu fosse a única pessoa capaz disso! - ele me olhou incrédulo, e começamos a rir.
- Achei que você ia me dar uma bronca agora! Ah, não decoro mesmo. São sempre tantos números: ramal do escritório, telefone da empresa, celular, apartamento de Los Angeles, apartamento de Londres, hotéis, documentos...
- Ah, verdade. - concordei. Salvo o numero, passado o meu de casa e do celular também, fui para casa. Cheguei no prédio, discuti com o Senhor Smith que não sabia me ver levando um monte de sacolas e sempre insistia para levá-las para mim, mesmo que soubesse da minha teimosia e do prazer que sentia vendo o tanto de compras que havia feito, como uma boa capitalista.
Larguei tudo num canto do quarto, voltei para a sala e me joguei no sofá. No mesmo instante, o telefone de casa tocou. Bufei cansada, mas levantei para atender.
- Nem pense em se deitar, se arrume que eu passo aí daqui duas horas. Beijos. - Dak disse e desligou.
- Ok. - bufei e me levantei. Tomei um banho, vesti um agasalho verde escuro de lã de gola alta e que chegava à metade das coxas, uma legging clara e a bota de montaria que eu tinha comprado. Fiz um rabo de cavalo e uma maquiagem para realçar os olhos.
- Você está linda! - minha amiga disse e me abraçou sorridente. Passamos na casa da que vinha reclamando da lerdeza do elevador. Seguimos para um barzinho com musica ao vivo. Pegamos uma mesa no fundo, atraindo vários olhares. Estava ‘bem visitado’ naquela noite.
- E então, o que você tem pra me contar? - perguntou me olhando. Mordi o lábio e engoli seco.
- me pediu um tempo. - ela arregalou os olhos, incrédula. Sua boca mal se fechava e ela tentou gaguejar um ‘como assim?’. Contei a ela todos os detalhes da briga que eu ainda não tinha dito, contei o que ele me dissera naquela noite, como dissera, o tempo que ele ficou parado à porta e o que senti quando vi que ele não estava mais realmente lá. Até eu estranhei não ter esquecido nenhum detalhe da cena.
Nisso, cada uma já tinha tomado uma boa dose de vinho, o que provavelmente ajudou com que eu dissesse tudo, e com que elas ouvissem tudo. Agora eu seria bombardeada com os comentários bondosos e de apoio irrestrito de ; e logo em seguida, com os otimistas e pervertidos de Dakota. Respirei fundo.
- Amiga, você sabe que ele volta. Todo mundo conhece bem o e se ele já ligou pra Dak hoje, é um ótimo sinal. É verdade que não faz tanto tempo e que você é uma pessoa bem impulsiva às vezes, - reprimi um ‘obrigado’ irônico. - mas acho muito difícil ele te trocar. Eu não me surpreenderia se vocês fossem os primeiros a se amarrarem.
- Hãn? - franzi o cenho - Como assim, o que você quer dizer?
- Você sabe, noivarem e...
- Há-há, não seja tão sonhadora. , nós acabamos de terminar! Como você pode achar que isso é um sinal de noivado? - ri
- , alguém aqui tem duvida de que vocês vão voltar? Eu acho que não - ela piscou para mim, totalmente convencida.
- Ok. Porque vocês são minhas amigas. Mas e se isso for pra valer? Se não tiver mais volta entre nós dois? Não vou morrer, nem ficar rindo por aí, mas não quero que me encorajem tanto assim. - admiti.
- Ai, que conversa mais depreciativa. Você - Dak apontou para - pare de ser tão otimista. E você - apontou pra mim - pare de ser tão pessimista.
Rimos as três juntas, quando a nossa terceira rodada de vinho chegou.
- Ah não posso beber tanto vinho, não dá muito certo – comentou.
- Cala a boca e bebe, - Dak riu. - Eu assumo a responsabilidade com o depois.
- E você, o que acha disso tudo? - perguntei a Dak, para terminar logo com isso.
- Eu sinceramente acho que a sua vida está começando agora. E que você deveria organizar e se empenhar ao máximo com o novo trabalho com a Lucy. - uau, palavras sábias vindo dela? Muito menos pior do que eu imaginara. - Além disso, você está no melhor lugar do mundo, com a melhor idade, as melhores companhias e nenhum implante de silicone; Portanto, eu sugiro a você e a pararem de drama com relação a essa história toda e optarem pelo sexo aleatório sem compromisso. Só vai te fazer bem e pode ter certeza que ele vai fazer o mesmo.
Fiquei cética a olhando, e bebi mais um belo gole do vinho, esperando não ter ouvido aquilo antes que elas duas começassem a gargalhar com a sinceridade de nossa amiga, e não pude resistir e deixar de acompanhá-las. Até que o garçom pigarreou ao nosso lado.
- Senhoras, o rapaz da mesa 11 pediu este drink como cortesia a vocês. - ele deixou três pequenas taças com um líquido azul contido, à frente de cada uma. - É Blue Curaçao, um licor caribenho.
Logo, nos entreolhamos e começamos a procurar a mesa 11, cada uma em seu campo de visão. Dak foi quem anunciou.
- Achei. - ela fez uma pequena pausa - Jesus, que pedaço de mal-caminho - mordeu o lábio.
- Onde? Onde? - deu risadinhas.
- Atrás de você. Camisa clara, olhos claros, loiro, cabelo bagunçado, músculos tonificados. Está sozinho na mesa. - As duas se agitaram, mas eu me manti quieta e fiz questão de não olhar, não podia me envolver tão rápido, nem dar nenhuma ideia a elas. Beberiquei o licor, que era uma delícia, mas algo me dizia que provavelmente perigoso.
- Eu vou lá. - Dak anunciou, já se levantando.
- Dakota! - a repreendi, com a boca escancarada. Não sabia se ria, ou se me mantia séria.
- Que? - ela perguntou como se não estivesse fazendo nada demais.
- E o ? - perguntei
- O não sabe de nada - ela piscou, rindo inocentemente. Eu e nos olhamos pasmas, e acabamos rindo também. Ela foi e voltou em alguns minutos.
- E aí? - perguntei ansiosa.
- Ele queria conhecer alguém legal, bonita, charmosa...
- Convencida! - disse
- Mas, obviamente, solteira. - murchamos; eu tinha mesmo acreditado que ela conseguiria. - Aí eu pensei “bonito, charmoso, solteiro e empresário, segundo ele” não pude deixar escapar, então...
- Então...? - dissemos em uníssono.
- Então eu dei seu numero pra ele - ela deu de ombros, olhando pra mim.
- Você o que? - eu engasguei incrédula - Dakota, você está ficando louca?!
- Qual é, você é a única solteira aqui. Vai se divertir um pouco. - ela riu.
- Eu vou lá, e vou consertar isso agora mesmo. - Me levantei decidida, e rumei à mesa 11. Mas no meio do caminho, percebi que ele já não estava mais lá.


Capítulo Onze –

O telefone estava tocando há horas, quem fosse que estivesse ligando, era irritantemente persistente. Meu pesadelo com a Holly-capa-de-revista-pornô agarrando queria ser mais forte, mas na verdade era só a preguiça de levantar. Coloquei os dois travesseiros sobre a cabeça tentando ignorar o barulho constante e calculado, mas de nada adiantou. Mesmo que baixo, o toque era persistente como uma mosca e me fizera perder o sono.
Odeio telefone tocando de manhã; devia ser proibido me ligar antes do meio dia. Já puta de raiva, levantei batendo os pés e disse um ‘alô’ grosseiro.
- Bom dia - a voz do outro lado parecia animada, mas eu não reconheci de quem era.
- Quem está falando? - a pessoa só riu, o que deixou meu humor ainda mais enfurecido. - Olha, eu levantei só porque esse telefone está tocando há horas e eu não costumo acordar de bom humor; menos ainda se for para brincar de adivinha no telefone. Portanto, por favor, se identifique ou me deixe voltar a dormir.
- Calma, não tive a intenção de irritá-la. Só liguei para perguntar se o Blue Curaçao foi uma boa escolha. - ele parecia estar sorrindo. Eu sinceramente não estava muito paciente pra esse tipo de coisa, mas bem curiosa então me sentei no sofá e decidi conversar um pouco com ‘o cara da mesa 11’. Passei a mão no rosto, tentando me manter acordada.
- Ah, é você. - não consegui reprimir um bocejo - É muito gostoso, mas me parece do tipo que te embebeda sem que você perceba. E deve ter uma porcentagem esdrúxula de corante. - ele riu
- Match Point. Me pegou, vou ter que tentar outra coisa. Que tal Margueritas? Conheço um terraço que faz uma divinamente bem. Posso te pegar às sete no sábado?
- Boa tentativa - eu ri fraco - Mas houve um engano, eu não estou interessada. Minha amiga te passou meu numero sem que eu ao menos soubesse, e quando eu fui consertar o mal entendido, você já tinha ido embora, então...
- Olha, eu já percebi que você odeia ser acordada pelo telefone. E se isso for aceito só como pedido de desculpas? Podemos marcar até o horário que você quer que eu te deixe em casa. Não é nada demais, só pra conversar um pouco ao ar livre. - ele fez uma pausa - Eu prometo.
Respirei fundo e pensei um pouco.
- Tudo bem então. Mas não crie esperanças.
- Yeah. - ele disse e nós rimos - Até lá.
- Até.

Desliguei o telefone e só então me dei conta do que tinha feito. Tudo bem que eu quisesse deixar minha mente livre por algumas horas depois de tudo que havia acontecido, mas sair com um homem que eu não sabia nem quem era? , sua estúpida! Como estaria agora? Como ficaria quando soubesse?
Ele com certeza desistiria de mim na hora. Todas as nossas chances contidas pela minha curiosidade? Eu sabia bem que não aconteceria nada, porque eu não queria. Mas como ele iria saber disso?
Peguei o telefone e disquei o primeiro numero que veio à cabeça.
- Alô?
- ? Er... Oi, é a .
- Ah, oi. Como você está? - sua voz era solidária. - Fiquei de te ligar e acabei esquecendo, desculpe.
- Não tem problema, eu estou bem.
- Vou deixar claro que ele é um idiota. - eu ri
- Não se preocupe, . Independente do que acontecer daqui pra frente, eu tenho certeza de que ficaremos bem.
- Eu torço por isso. - ele disse gentilmente.
- Hm, na verdade, eu queria falar com a Abby, ela está?
- Tá sim, perae que eu vou chamar. - o ouvi gritando ‘Amor! É a . Ela quer falar com você.’ Poucos segundos depois Abby atendeu o telefone.
- ? Ah meu deus, sinto muito. - Não se preocupe, eu estou bem - repeti - Mas eu preciso de ajuda, e só consegui pensar em você.
- Pode falar. - Eu preciso de notícias, Abby. Quero saber se ele está bem, se está comendo direito, se está dormindo, se está saindo. Pode parecer possessivo, mas eu preciso de alguém que possa garantir isso pra mim. E que fique só entre a gente. - mordi o lábio.
- Claro! Faz assim, não se preocupe, está tudo bem. Eu te ligo amanhã, porque você sabe... - O pode ouvir. - concluí
- Aham.
- Nossa Abby, obrigada. De verdade.
- Imagine amor. Cuide-se você também. Saia um pouco no sábado, nós vamos a um show e eu ficaria mal imaginando você trancafiada em casa.
- Tudo bem então. Nos falamos depois. Beijo e bom passeio.
- Obrigada, beijos.
Ok, um peso menor na consciência. Ele talvez estivesse bem.
Fiz uma lista de musicas do Elvis e Frank Sinatra, que há tempos eu estava com saudade de ouvir. Deixei as portas abertas, (com exceção da do apartamento, claro) janelas fechadas, som bem alto e curti meu banho como eu não fazia desde o colegial. Demorei não sei quanto tempo, usei vários tipos de espuma na banheira, vários esfoliantes e me encharquei de creme depois.
Hm, agora eu ia me trocar e cozinhar alguma coisa bem especial, eu merecia me ceder esse luxo, depois eu ia assistir minhas melhores comédias e...
Saí do banho e meu celular estava tocando. Corri para atender, ainda de toalha.
- Alô? - não tinha nem reparado quem era.
- Oi - reparei pelo seu tom de voz, que ele estava sorrindo - Tá ocupada?
- Não, pode falar - respondi igualmente sorridente. Não estava achando que ele fosse me ligar.
- Sei lá, queria te ver hoje. Vai fazer alguma coisa?
- Não, vou ficar sem absolutamente nada pra fazer. Tem alguma ideia?
- Tenho. O que você acha do Le Brunet?
- Ta falando sério? - embasbaquei-me
- Porque não estaria?
- Não sei, mas se está, então é uma ótima sugestão. - respondi
- Te pego daqui a 15 minutos, então?
- 15 minutos está ótimo.

“Preciso achar alguma coisa para vestir. Alguma coisa que eu não tenha usado ainda!” Pensei, vasculhando meu guarda roupa.
O Le Brunet para quem não sabe, é um dos melhores restaurantes franceses que existe em Londres. Seus clientes são sempre pessoas da alta sociedade, e seus cozinheiros são todos chefes renomados da culinária. Era particularmente meu restaurante preferido, mas eu não ia lá sempre até pelos gastos.
E agora ele estava me convidando. Que reviravolta, senhor. Quem poderia imaginar?
Até que achei um sobretudo carmim, que eu não tinha usado ainda. Me arrumei e ao me ver no espelho, percebi que estava decente para um Le Brunet.
Às quinze para as duas, o carro já estava me esperando em frente ao prédio. Passei um gloss, peguei a bolsa e desci.
- Oi - o cumprimentei com beijinhos na bochecha sorrindo.
- Oi anjo, você está linda - eu agradeci e ele me sorriu abertamente. Estava com um terno elegante que eu havia visto em um catálogo da Hugo Boss uma vez. E uma camisa social branca por baixo, que tinha os dois primeiros botões abertos. Seu perfume envolvia de longe, qualquer uma que se aproximasse e que gostasse de homens, claro. Suspeito que ele ganharia facilmente até as que não gostam. Respira, ! Expira, inspira, expira, inspira. Ele sentia e gostava do efeito que conseguia causar em mim. Apoiou as mãos nas minhas costas e me acompanhou até o carro onde abriu a porta para que eu entrasse. O motorista logo se virou para nós, no banco de trás e perguntou.
- Para onde nós vamos, Senhor Nichols?
- Para o Le Brunet Theo, por favor. - Dereck respondeu.
- Sim senhor - ele acenou com a cabeça e seguiu para o restaurante.

Mal chegamos, e fomos atendidos pelo próprio dono que nos agradeceu pela presença e nos levou a uma mesa privilegiada pela vista, na disputada varanda do local.
- O de sempre para a entrada? - perguntou-lhe o gerente sorrindo.
- Hoje não, George. - Dereck lhe sorriu em resposta, igualmente educado - Traga-me aquele vinho tinto que eu adoro, você sabe.
- Sei sim, da safra de 96?
- Esse mesmo. - George fez continência em um tom de brincadeira e se retirou. Logo em seguida, ele virou o olhar pra mim. - Desculpe ter decidido sem consultá-la, mas eu sei que você vai gostar.
- Imagine, não vejo problema. Não tenho tanto conhecimento em vinhos - assumi.
- Eu posso ensiná-la algumas coisas se quiser. Na verdade, é bem fácil. Por exemplo, todos dizem que se deve começar com vinhos doces. Mas eu discordo, vinhos doces só trazem enxaquecas, é preferível que se comece com os suaves de mesa. Eu sei que você não é iniciante, então pedi o tinto. Esse em particular, refina os gostos.
- Sabe o que é estranho? - desviei do assunto. Ele franziu as sobrancelhas em pergunta. - Você era tão largado na escola e agora tá aí todo culto, me ensinando sobre vinhos. Não era para as coisas terem se invertido assim, preferia quando era eu que te ensinava sobre filosofia ou matemática.
- Ou qualquer outra matéria - ele riu - mas você veio pra Londres e eu não tinha mais de quem colar, tive que me virar pra garantir meu futuro brilhante. Minha mãe suspeitava que eu não conseguiria terminar a faculdade sem você puxando minha orelha para fazer todos os trabalhos. - nós rimos baixo.
George voltou à mesa com uma garrafa e duas taças. Nos serviu e antes que o vinho fosse apreciado, ele se virou para Dereck.
- Mas que noiva invejável, devo admitir. Onde foi buscá-la?
- Ora George, não é minha noiva. - ele riu sem graça - Estudamos juntos há alguns anos e viemos nos reencontrar aqui somente este ano.
- Perdão, senhorita. - George enrubesceu. - Imaginei que Nichols tivesse tomado um rumo, de uma vez.
Nós três rimos.
- Imagine George, não me sinto ofendida. Acho que qualquer um pensaria o mesmo.
- Vou deixar vocês colocarem o assunto em dia, já trago os cardápios.
- Tudo bem - disse ele. Mais uma vez George se retirou e ele se voltou para mim - Uma figura, esse George. Gosta de me deixar constrangido. A história dele é bem interessante. Filho de um padeiro, veio da França após passar por outros cinco países atrás de uma moça. Ela andava em excursão pela Europa e Ásia e ele o tempo todo seguindo-a procurando uma oportunidade de falar com ela. No final a moça acabou sossegando em Londres e ele também. O pai dela tinha uma lojinha no estilo “Vinho, pães e queijos” e ele começou a fazer pães para entregar lá. A via todos os dias de manhã, entregando os pães, até que ele se declarou e contou-lhe o que vinha fazendo. O pai dela o contratou após o casamento e o negócio foi crescendo até virar o Brunet.
- Nossa, que legal. - não consegui evitar ficar boba e Dereck riu. Degustei o vinho que era realmente uma delícia. Ele prosseguiu.
- Fiquei sabendo da vida dele na primeira vez que vim aqui, e tive que contar a minha. Sempre que preciso de conselhos, ou só relaxar, costumo vir aqui.
- Falando na sua vida, você não me contou muito sobre ela. - eu disse
- Não tem muito o que contar. Nós passamos no terceiro ano, eu fui para Yale com Brad, Erick e a Ninna, lembra dela?
- Argh, lembro. - Eu não gostava nenhum pouco de Ninna, nem ela de mim.
- Então, eu me formei em Administração Empresarial e acabei ficando com ela nos últimos anos, não sei bem por que. Era mais curtição.
- Ah Dereck! Você não pegou a Barbie! Jesus, que mau gosto. - eu fiz cara de nojo e ele riu.
- Fiquei sim, mas não vou dizer que foi só com ela na época. - revirei os olhos. Todos iguais. Todos. Sem exceções. - Ah , estou te dizendo, era só curtição. Se fosse a Angela, Bridget, Anna ou você era outra história. - ele citara as meninas legais do nosso grupinho. Senti saudades daquela época, onde éramos nós quatro e metade dos meninos da escola. Quando as cheerleaders morriam de inveja da gente por não precisarmos usar saias mínimas para andar com todos os garotos desejados por elas. Mesmo que lá no meio do grupo, nós fossemos consideradas um pouco como eles.
- Sinto tanta saudade delas, não queria ter perdido o contato, mas já faz tanto tempo. Não vai ser como antes.
- Eu ainda tenho contato com todo mundo, vamos marcar de sair qualquer dia.
- Está brincando comigo, Nichols? - fiquei radiante instantaneamente
- Claro que não, se você não estiver ocupada semana que vem, quem sabe? - ele me sorriu sugestivamente.
- Vai se ferrar, moleque. Desde quando eu estou ocupada pra vocês? - nós rimos.
- Moleque. Quanto tempo ninguém me chama de moleque, . Você não mudou nada né?
- Mudar pra que? - dei de ombros.
O gerente voltou à mesa com o cardápio, fizemos o pedido e voltamos à nossa animada conversa.
- Depois da faculdade foi meio que só trabalho, trabalho, trabalho até eu conseguir me estabilizar. Um ano depois viajei por alguns lugares exóticos com Dave, Brad e Erick e depois resolvi voltar pra minha casa, em Los Angeles. Cheguei lá, acabei fechando negócio aqui em Londres com o meu novo sócio e fim. - ele sorriu - agora você.
- Eu? Hm, vejamos. Vim pra Londres, fiz faculdade, saio toda semana com as minhas “novas” amigas, nada de só trabalho. Fui à Austrália nas férias do ano passado. Dei um cachorro pra minha mãe, que me trocou por ele. Venho tentando ser mais organizada e com menos conduta de adolescente desde cheguei aqui, mas não tenho muito sucesso. Comecei a estagiar no St. Mary, fui contratada semana passada, inclusive. Conheci um pessoal de uma banda e comecei a namorar um deles.
- O que você deu um tempo, agora a pouco?
- Isso. - ele parecia me lembrar isso o tempo todo, mas eu sabia que não era de propósito. Pura paranóia minha. - E fim, eu acho - sorri.
Nós almoçamos ainda com assuntos sobre faculdades, amigos antigos, gastronomia. O tempo passou rápido enquanto isso.
- Nossa, sabe o que eu tava lembrando? - ele disse, de repente, quando já estávamos na sobremesa.
- O que? - estranhei.
- Lembra quando a gente ficava olhando as criancinhas do primário e dizer qual ia ser nosso filho? - ele riu
- Nossa, lembro! - o acompanhei na risada.
- Vamos fazer isso hoje?
- Añ? Como? A gente não está na escola... - mas antes de me responder, ele puxou minha mão e começamos a andar rápido pelo restaurante, deixando a mesa para trás. - Dereck, a conta!
- George, põe na minha conta, eu passo aqui à noite. - O francesinho nem nos olhou, só riu balançando a cabeça em negação enquanto fazia um joinha para ele, como se aquilo já fosse normal. Corremos até o carro, onde ele mandou Theo seguir para um parque ali perto.
Saltamos do carro, e ele voltou a me puxar pela mão.
- Dereck... dá pra me explicar... ai... - eu tentava falar enquanto corríamos até a grama verde. Ele parou bruscamente em frente a uma arvore, e se sentou, me fazendo sentar junto a ele.
- Olha ali. - ele apontou para um círculo de pessoas não muito longe. - Eu vi em um banner para pais, que eles estariam aqui em excursão hoje - ele sorriu, arfando um pouco por termos corrido.
No pequeno círculo estava uma mulher, já um pouco velha com seus quarenta e poucos anos, cercada de crianças com, no máximo, quatro anos. Eu sorri boba, então era isso?
Nos recostamos na arvore, sem dizer nada e ficamos olhando as criancinhas baterem as palminhas pequenas e gordinhas em coro com musicas infantis. Assim como fazíamos há alguns anos.
- Tá vendo o moreninho de olhos claros e a blusa azul? - ele me perguntou.
- Sim.
- É o meu filho. - nós rimos. - Sua vez, escolhe um.
- Menino? - perguntei. Ele afirmou.
- Hm. Aquele ali, loirinho com os olhos castanhos, bochechas rosadas e a blusa laranja.
- Qual? - deviam ter uns outros dois parecidos com ele.
- O que acabou de errar a musica, e tá de all star preto.
- Ah achei. É, ele parece com você, sabia que ia escolher ele - rimos fraco. Ele parecia com também, seus traços eu acho. Mas eu não ia dizer isso.
- Uma menina agora. - eu disse. - Nem pense na morena de trancinhas. Já é minha.
- Não vale! - ele se indignou. - Você sabia que eu ia escolher ela!
Eu gargalhei.
- Sabia, mas escolhi primeiro, escolha outra.
- Hm, então a de cabelos compridos e franjinha. Que está com o vestidinho vermelho.
- Ela é linda - assumi.
- Parece com você. - ele me olhou sorridente, me deixando vermelha e forçada a desviar o olhar.
- Er, acho que vou deixar os saltos no carro e me juntar à rodinha, que tal? - levantei e estendi a mão para ele.
- Boa ideia. - Ele segurou a minha e me acompanhou. Deixou o terno no banco de trás, com as minhas coisas. Voltamos à rodinha de crianças, e eu pigarreei timidamente. A mulher nos olhou.
- Querem cantar conosco?
- Podemos? - olhei para elas.
- Siiiiiiiiiiiim - as pequenas crianças responderam. Abriram espaço pra mim e para Dereck na rodinha pegaram nossas mãos e voltaram a brincar numa adoleta diferente. Eu não tinha entendido direito a brincadeira e vivia me perdendo, fazendo todos rirem.
Ficamos uns quarenta minutos ali até que tivemos que nos despedir por causa do horário deles. Descobri que o nome dos “meus filhos” eram Lizzie, a menina de tranças, e James, o menino loirinho.
Os de Dereck se chamavam Layla, a menina moreninha de olhos brilhantes, e Luccas, o menininho moreno de olhos claros. Ganhei (ou colecionei, na verdade) beijos de todos eles, e um convite para que fôssemos à escolinha deles qualquer dia.
- Ah que saudade disso, Dereck. - eu esfregava as mãos com um pouco de frio enquanto ainda as olhava ir embora. Ele se aproximou e me abraçou por trás, me fazendo levar um susto.
- Eu sei, também tive. Sabe o que mais eu senti falta nesses anos todos? - ele me olhou e eu neguei, já um pouco apreensiva - Em ser adolescente. E já senti que só consigo ser assim de novo com você.
Eu não sabia o que responder. Meu coração se acelerou, mas não sei se era correspondendo exatamente ao que Dereck visivelmente queria; Era mais por não saber como agir. Senti minhas bochechas ruborizarem, e baixei o olhar, fazendo-o rir baixinho. Ele me soltou e ficou de frente pra mim.
- Não precisa ficar vermelha, - ele riu e levantou um pouco meu queixo - não to te pedindo nada, sei da situação com o cara lá. Só não sei quando eu vou poder estar com você de novo, e eu senti muita falta disso, quero relembrar, independente do que aconteça. Se a gente tivesse tido alguma coisa, onde eu ou você pudéssemos ter uma recaída, mas não... - ele me sorriu gentilmente.
- Eu sei, é só bobagem minha - sorri fraco - Acho que ainda to meio mexida com isso. Mas eu quis assim, não posso me prender agora. Você tem toda a razão. Qual o próximo plano?
- Bom, agora eu vou te deixar em casa. E espero que você não me esqueça - ele me apontou o indicador. - Vamos combinar de sair mais vezes, a iniciativa já foi minha.
- Tudo bem, eu marco da próxima.
No caminho de volta pra casa, vimos o sol se pondo, deixando o parque alaranjado. Viemos conversando bobagens que eu já nem lembro. Cheguei em casa e a luzinha piscante do telefone fez com que eu apertasse o botão.
Você tem três novas mensagens.
Primeira nova mensagem:
“Sábado às sete, anote na geladeira, eu vou cobrar, hm?”
Reconheci a voz do cara da mesa 11.
Segunda nova mensagem:
“Fui lá hoje. Eu sei que disse que só ia te ligar amanha, mas o Hary foi à padaria e estou aproveitando. Você deve encontrar com ele lá, já que também não está em casa...”
Boa Abby, agora estou me sentindo culpada, pensei “... está bem, mas comentou que é estranho estar naquela casa vazia. É muito quieto. Talvez vocês devessem pelo menos conversar. Bom, eu não sei. Se precisar, estou aqui. Boa noite, .”
Terceira nova mensagem:
Silêncio. Ninguém disse nada. Não tenho muita paciência para trotes e ignorei; tirei o sobretudo e os sapatos, joguei a bolsa no sofá e ia em direção ao quarto trocar de roupa quando ouvi do corredor:
“Isso não pode ser tão difícil” Parei subitamente e voltei, para ficar encarando o telefone, torcendo para que tivesse mais alguma coisa. “Eu não sei o que dizer. É só que não é bom ficar sem falar com você.” Fechei os olhos para conseguir imaginá-lo ali na minha frente. “Sabe, eu comprei um peixe.” Ri já pensando em quantos dias ele iria durar contando que esqueceria de dar comida pra ele. “e eu não estou esquecendo de alimentá-lo.” Ler pensamentos não vale, eu disse baixinho. “Mas ele não fala, nem late, nem mia, nem faz nada, então eu tive que te ligar.” Fez uma pausa “Só não quero mais fingir que a gente não se conhece. Espero que não esteja me odiando. E que esteja bem.” Desejei exatamente o mesmo, de olhos fechados e respirando fundo. “Acho que é isso.” Ele suspirou “Boa noite, ”.
- Boa noite, - respondi, tendo a noção de que ele não me ouvia, mas me senti melhor assim.
Meu dia tinha sido bom, e tinha se passado rápido, mas não estaria completo sem aquilo. Na verdade, ainda não estava. Eu queria mais.
Mas o caminho pela frente me parecia menos assustador agora. Eu sabia que ia ficar tudo bem. Não sabia quando nem como, mas certamente ia.


Capítulo Doze -

Os movimentos de eram constantes e cada vez mais rápidos, o prazer era visível em seus olhos; ele estava deliciado. Os gemidos eram cada vez mais altos e obscenos; a cena parecia que nunca ia acabar. A mulher de cabelos ondulados até a cintura num intenso vermelho cereja e olhos verdes estava tão suada quanto eu. Mas o meu suor e o meu calor eram coléricos; eu preferia morrer a ser obrigada a ver aquilo.
Os seios dela eram tão fartos que ele enchia as duas mãos com um só deles. Ela era totalmente maleável, flexível, experiente. Se encaixava nele como se fossem uma única pessoa. Não tinha romantismo, era o mais puro e selvagem dos sexos.
Da voz que me hipnotizou por toda a minha vida, só saía uma palavra:
- Holly... Holly... Holly...
Saí correndo, cega no escuro, cheia de lágrimas nos olhos, e de repente, senti um forte baque na parte de trás da cabeça que fez tudo sumir. Alguns segundos depois, senti as costas doendo também e abri os olhos.
Tudo que vi foi o teto do meu quarto e algumas cobertas enroscadas na minha perna, que vieram comigo rumo ao chão. Por sorte eu me mexi bastante durante a noite e acabei indo para os pés da cama, o que me impediu de bater a cabeça na mesa de cabeceira. Eu estava molhada de suor.
Holly, a vadia ruiva kama-sutra-ambulante, vinha me perseguindo há dias. Graças a ela, agora eu tinha as piores olheiras da história; sentia constantes dores de cabeças por meus chifres imaginários; me questionava se ela era real; e via constantes flashes dos meus horríveis pesadelos onde ela aparecia. Conseguiu imaginar o caos que se tornara minha vida?
Acreditem, a vida real me parecia bem melhor agora. E se ele estivesse mesmo com a Holly? E se ela fosse melhor que eu? Famosa, até! Que se dane, eu não precisava... Ah, cale a boca, . Não fale sozinha, ligue para alguém ok? Ok.
Tu... … Tu... …Tu... …
- Alô.
- Oi, sou eu. Está no trabalho? - perguntei
- Na verdade, não. Estou mofando em casa hoje, alguma ideia? - Dereck perguntou.
- Há quanto tempo você não come brigadeiro? - meus olhos brilharam
- Bastante tempo – ele riu
- Você traz o granulado?
- Em dez minutos.

Corri para atender a porta. Sorri e lhe dei dois beijinhos na bochecha enquanto o puxava para dentro.
- Você está molhado, Dereck! - ele deu de ombros
- Acho que estou – riu fraco – Peguei uma chuva do mercado pra cá.
- Porque não veio de carro?
- Não estava tão longe daqui – ele começou a tremer de frio.
- Espere um pouco, eu vou lhe trazer uma toalha e roupas secas. - Corri para o quarto de hóspedes onde ainda haviam toalhas grandes, algumas camisetas e uma calça de moletom que não costumava usar muito. Voltei para a sala em alguns segundos e o vi deixando algumas sacolas na bancada. - Não é nada formal, nem de marca, mas foi o que ele – fui abaixando o tom de voz – hm, deixou aqui. O banheiro é na primeira à esquerda.
Lhe entreguei os dois, mas antes que eu sequer desviasse o olhar, Dereck tirou a blusa encharcada e me deixou sem falas, ou ar, ou qualquer outra coisa, e seguiu para o banheiro.
Pigarreei no intuito de me trazer de volta à realidade. Passei a mão pelos cabelos e me sentei no sofá enquanto o esperava. Ele voltou em poucos segundos, vestido como se estivesse em casa, me sorrindo.
- Nem falei direito com você. - e me depositou um beijo na bochecha – Oi.
- Oi, bobão – ri, me confundindo com a combinação em frente a mim: visivelmente Dereck, mas com o cheiro perfeitamente reconhecível e inconfundível de . Seria um loooongo dia, graças a mim.
- Já viu as sacolas? - Ele buscou uma – Já que eu vi que você me ligou com uma bela voz de sono em pleno meio dia, decidi me encarregar de trazer o almoço, mas não sei se você gosta, foi só um chute. - e tirou uma bandeja de variados tipos de sushi com alguns molhos tipo agridoce e shoyu.
- Ah, não acredito. – meus olhos brilharam mais uma vez como os de uma criancinha. Me dirigi à cozinha para nos servirmos, com ele no meu encalço. Dereck me ajudou a pegar os talheres e algumas cervejas que ainda tinham na geladeira.
Sentamos no sofá e comemos enquanto procurávamos algo decente na TV e conversávamos sobre coisas entediantes. Era bom estar com ele, me levava de volta à minha adolescência que eu tanto desejei não ter acabado. Embora ele fosse agora um homem (e que homem!), ainda era pra mim aquele Dereck magricelo e charmoso que eu nunca conversei tanto quanto agora e que eu nunca entraria em duvida sobre ele ou , então, tecnicamente, eu não estava fazendo nada errado, estava?
Ao terminar, eu fui à cozinha lavar a louça e como um bom cavalheiro, ele insistiu em me ajudar. Durante a tarefa, eu tive a brilhante ideia.
- O que é aquilo? - apontei para a parede oposta, para quebrar o silencio. Dereck virou prontamente para ver, mas obviamente não tinha nada lá; E então quando ele virou de volta, eu enchi sua bochecha de espuma, já dando risada. Ele me olhou sério e disse:
- Tá sujinho aqui, olha – e passou a mão mergulhada em água e sabão na minha bochecha também.
Pode-se imaginar a 'pequena' guerra que fizemos na cozinha com as esponjas jorrando agua e sabão, fazendo mil e uma poses de kung fu, desviando e escorregando no chão ensaboado, até o celular de Dereck começar a tocar e ele ir atender. Foi secando as mãos em um pano e tentando não molhar muito o chão enquanto ia para a sala.
- Alô? Ah, oi amor. Tudo ótimo e você? Ah, minha linda, eu também to com saudades – o ouvi rir da cozinha. Sabia. Nenhum homem é santo. Solteiro, mas cheio de garotas lindas, sua idiota. Como isso não estava claro? E além do mais, que diferença fazia? - Eu sei, eu sei. Eu vou aparecer, só você me dizer o dia. Só esse sábado que eu não posso, mas de resto... - Ele veio até mim na cozinha, e me chamou baixinho para sentar na mesa com ele. Isso tinha algum propósito? Enfim, acabei me juntando a ele, sem entender muita coisa. Dereck segurou minha mão e começou a brincar com ela – Eu tenho um presente pra você – ele disse, todo meloso. Isso era alguma brincadeira? - Aham, peraí. - ele apertou o botãozinho do viva voz e sussurrou para eu dizer 'oi'. O olhei intrigada, mas ele apenas insistiu.
- Hm, alô? - eu disse, em dúvida.
- Alô, quem tá falando? - eu conhecia aquela voz de mulher de algum lugar.
- É a . . Quem é? - perguntei com o cenho franzido olhando para ele.
- Ah meu deus, é brincadeira né? - ouvi risadas levemente incomodadas – Dereck, isso não tem graça, seu insuportável. Não acredito, você acha engraçado fazer isso, é?
- Dereck, quem é ela? - perguntei, alheia ao telefonema.
- Quem é você, ser do outro lado da linha? - ele brincou, rindo da minha confusão. Odeio suspense.
- Papai noel, idiota. - e então, caiu a ficha. Ficantes sexies de Dereck não agiriam dessa forma.
- BRIDGET? - abri a boca, inacreditada.
- ? É você mesmo?! - ela soltou gritinhos. - Ah, meu Deeeeeus. Como? Como ele te achou? Ai, miserável, nem fala nada. Vou matar esse Dereck. - ele gargalhou ao meu lado.
- Não sei, não sei – algumas lágrimas vieram aos olhos, e eu ri boba – Ah, eu quero te veeeer – resmunguei.
- Eu também! Muito muito! - ela resmungou um 'merda' baixinho - Meu chefe tá vindo pra cá, eu te ligo mais tarde. Já vejam quando nós vamos poder sair, ok? To morrendo de saudades, quero te ver pra ontem, quero saber tudo, vou avisar o resto do pessoal, beijo, te amo.
- Eu também amor, beijo beijo, te amo – ri

E então ela desligou o telefone. Eu ainda tremia um pouco e mal podia acreditar. Fazia tanto tempo! Algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto e Dereck me abraçou dando risada, e eu lhe dei alguns tapas no peito.
- Não tem graça! Você podia ter me falado, pelo menos. - limpei o rosto, sorrindo fraco.
- Você perderia a surpresa. - ele me sorriu gentilmente
- Seu bobo
Nós ficamos abraçados por algum tempo, até que nós percebemos que aquilo estava passando do tempo de um abraço, hm, normal. Me desconfortei, pigarreei e saí discretamente sem-graça dizendo que ia trocar a roupa cheia de espuma. Coloquei um vestidinho antigo de malha branca e manguinha balonê que eu achava super fofo mas só usava em casa.
Quando voltei, Dereck me esperava distraído sentado no sofá; ele me olhou sorridente quando voltei, provavelmente por causa do vestido. Ignorei.
- E o meu brigadeiro? Não sai não? - perguntei, brincando.
- Agora? A gente acabou de almoçar! - ele me olhou espantado
- Nem você nem eu cozinhamos, até terminar eu já to com fome de novo.
- Por isso que você tá gorda – ele levantou do sofá vindo comigo até a cozinha, recebendo um tapa ardido nas costas.

Começamos a procurar os ingredientes nos armários e sacolas de mercado que ele havia trazido. Pedi para ele abrir as latinhas de leite condensado porque eu não sabia, e ele riu da minha cara como sempre fazia. Disse que eu parecia uma criança e depois, que qualquer dia me ensinava. Fui pegando todo o chocolate necessário enquanto isso, e o resto dos ingredientes enquanto ele continuava implicando comigo, apenas mostrei a língua. Fui colocando tudo na panela antes de acender o fogo, virei a latinha de leite condensado, tombei a cabeça pra trás e abri a boca, para pegar o ultimo fiozinho de leite condensado; Dereck fez a mesma coisa ao meu lado e puxou a latinha no alto para si, sujando minha bochecha e queixo. Dei risada. Me lembrou da 'Quarta do Filme e Brigadeiro' que nós fazíamos toda semana. Era tão nostálgico. Fui até a geladeira pegar o leite e quando dei meia volta, ele estava perto demais. Forcei o riso, ruborizando, e passei por baixo de seu braço estendido pretendendo não fitá-lo. Ele mordeu o lábio sorrindo, percebendo que me incomodara.
- Meu anjo, só tem um probleminha.
- Qual? - ele me olhou absorto.
- Eu não sei fazer nada sem música. - sorri-lhe idiota
- Ah, não. Sem chance. Aguentei suas musiquinhas o colegial inteiro.
- Não quero saber.
Fui até a sala, peguei um cd antigo e coloquei 'Dancing Queen' pra tocar; Ele fez uma cara de 'não acredito', dei risada e comecei a fazer umas dancinhas parecendo uma idiota drogada. Liguei o fogão, mexi um pouco e o puxei para alguns giros idiotas.
Ele ria bufando um pouco, desconfortável.
- Para de ser certinho, mexa suas curvas, baby – pisquei rindo. Ele levantou uma sobrancelha duvidando de que eu duvidava dele e começou a dançar ridiculamente também, me fazendo tombar a cabeça e gargalhar mais ainda.
- Assim tá bom pra você? - Ele me olhou com cara de ninfomaníaco
- Tá, tá, chega – implorei, com a barriga doendo de tanto dar risada.
- Chega? Agora você é a fraca da história? - ele riu
- Sim, eu sou. Agora chega, você tá me dando vergonha alheia – dei um empurrãozinho em seu braço, notando as curvas.
Ele parou de dançar, sorriu e ficou me olhando. Senti as bochechas esquentando enquanto minha risada ia se controlando, e se transformando num sorriso idiota.
- Que foi? - perguntei sem entender.
- Você.
- O que tem eu? Nunca viu uma idiota dar risada do amigo gay dela? - mordi o lábio, brincando. Dereck riu.
- Já. Mas é que eu esqueci como era parar pra observar você rir. - estatizei, e meu sorriso foi sumindo, ao ser pega de surpresa. - Parece uma criança hiperativa descontrolada – nós rimos, e eu me senti um pouco mais confortável por alguns segundos – Mas também é o melhor sorriso do mundo. Eu podia gravar e assistir o dia todo. - ele deu um passo e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Depois simplesmente se afastou e encostou na bancada de braços cruzados como se nada estivesse acontecendo. Que tipo de jogo era aquele?
Resmunguei um simples e desconfortável 'hm' e me virei para mexer a panela um pouco.
- ? - eu o olhei – Como era viver aqui? Digo, com o . Como era a relação de vocês?
- Era... Hm, incrível. Eu aprendi a gostar dele muito rápido. Eu nem lembro mais como foi o começo da nossa relação – ri da minha própria piada interna – E agora é só.. Estranho não ter ele aqui, sabe?
- Só estranho? Quer dizer, nada a mais?
- Não, não. 'Só estranho' porque meio que essa falta surgiu do nada dentro de mim, eu não sabia que ia sentir tanto assim.
- E se você se sente assim, porque terminaram? Porque não voltam? - ele franziu as sobrancelhas
Respirei fundo, deixei de encará-lo, engoli em seco e por fim, disse bem baixo:
- Eu não sei.
Um silencio se instalou na cozinha, e só ouviamos o chocolate começando a ferver e engrossar. Ficamos assim por um bom tempo. Eu pensando em suas perguntas. Ele pensando em minhas respostas.
Eu tinha passado tão pouco tempo com . A verdade nisso tudo era que eu sempre fora tão insegura com tudo, e agora tinha todos os motivos para redobrar minha insegurança. Por Deus, ele era famoso. Nada em grandiosas dimensões, mas em breve seria. E eu a alguma hora perderia, era só uma questão de tempo, então porque adiar?
Era tão difícil notar que meu mal era apenas medo? Era tão difícil concordar que eu estava certa e sendo realista? Por mais que ele me amasse, eu devia dar direito a ele de ser egoísta, a carreira dele estava prestes a ser incrivel. Era melhor assim.
Eu nunca passava mais do que um ano com ninguém. Sobreviveria a esse também. Nos veríamos mais tarde, e tudo estaria tão bem que teria valido a pena (não?).
Pensei no que Dereck estaria pensando. Se eu tinha acabado com suas tentativas de vez. Se eu tivesse conseguido, isso seria bom ou ruim? Eu estava só estragando outra coisa que poderia ser muito bom pra mim? Droga, porque eu não sei ler pensamentos?!
- ! Tá queimando!
- O que? Ah, droga! - apaguei o fogo depressa. - Me desculpe por isso, mas acho que deu tempo de salvar. Hm, pegue o granulado e coloque em um prato por favor? Enquanto esfria, eu vou ao banheiro. Licença. - E saí, percebendo claramente que eu tinha subitamente ficado estranha. Tranquei a porta, e senti que podia finalmente respirar. Soltei todo o ar em meus pulmões, não percebendo a quantidade enorme exalada. Lavei o rosto. Fazia tanto tempo que eu me fazia milhares de perguntas, e nunca tinha respostas. Tanto tempo que eu não me conhecia.
Já tinham se passado dois meses e meio desde que eu 'chegara' a esse novo tempo. Julho - e tudo que tinha acontecido antes de eu conhecer - parecia ter ficado em alguma outra vida. Logo eu terminaria a faculdade, e seria Natal de novo, e talvez eu nunca voltasse para o que eu mais queria naquele momento: minha verdadeira vida. Normal. Pacata. Incrivelmente tediosa aos domingos. Onde eu vestia mil casacos, cachecol e touca, assumindo a estrangeira brasileira, para enfrentar o frio de Londres e ia pra qualquer parque, ler qualquer coisa. Ver o sol querendo superar toda aquela neblina fria, tão perfeitamente invulnerável aqui nesse lugar.
Saí, tentando aparentar estar menos pálida, menos sem graça, e voltei para a cozinha preparando alguma coisa para falar que quebrasse o gelo. Obviamente sem muito sucesso.
- Ah, já começou sem mim? - resmunguei, vendo-o fazer bolinhas e jogar no granulado.
- Ficou muito bom! Experimenta um – ele me sorriu, parecendo facilmente ignorar minha bipolaridade. Dereck colocou um na minha boca, e eu fiz um 'hmmmm' demorado – Sim, eu disse.
Começamos a fazer bolinhas, comendo mais do que propriamente fazendo nosso trabalho. Lembramos dos 'kisses' da Hershey's que roubavamos da secretaria nos tempos de escola. Ou daqueles pacotes de bala Juquinha que eu trazia pra ele quando vinha do Brasil depois das férias. Dereck era a única prova de que a minha eu-realmente-eu tinha existido.
Coloquei tudo bonitinho em uma bandeja de vidro e fomos pra sala. Comecei a zapear pela TV.
- Para nesse! - ele pediu já segurando meu braço. Passava The Jetsons. Eu era apaixonada. Decidi definitivamente não mudar quando no canto superior esquerdo apareceu “A seguir: O maravilhoso mundo de Bob”. - A gente nunca vai mudar, né?
- Não – eu ri fraco – e não importa quantas vezes encham nosso saco.
- Já imaginava.
Dito isso, se instalou um silencio no ar. Só se ouvia o mastigar de chocolate granulado e a voz aguda e antiga de Judy Jetson. De repente, surge uma colher ágil girando na mão desastrada de Dereck e minha bochecha se viu coberta de chocolate, até o canto da boca. O olhei séria e cética, já com a boca franzida em um 'não acredito'. Reparei em sua cara de medo, como se eu pudesse matá-lo.
- Não fica brava – ele sufocou um riso – Foi sem querer, eu juro. É só chocolate, eu limpo – levantou as mãos na defensiva.
- Vou te dar dois minutos. - Não aguentei e soltei um riso baixo.
Logo em seguida, Dereck já estava perto demais para me permitir respirar. E beijou minha bochecha, pegando onde tinha sujado de chocolate. Senti seus lábios quentes e molhados se moverem quase imperceptívelmente em direção à minha boca. Eu não podia deixar aquilo acontecer, não podia... Mas... E as respostas dos meus neurônios, meus movimentos, onde estavam?!
Ele vinha chegando perto, bem perto, finalmente no cantinho, eu já podia até sentir seu nariz e...
- , - A porta se abriu de repente, com estrondo, e nós pulamos um para o mais longe possível do outro. chegara e trazendo com ela, todo o oxigênio que eu não conseguia encontrar no apartamento - Eu tinha esquecido minha... Blusa. Oi. - Ela parou na porta, olhando em duvida a cena. - Eu devia ter ligado antes?
- Hm, não, . Pode entrar – levantei e fui cumprimentá-la com beijinhos. - Como você tá?
- To bem – ela me olhou meio desconfiada – Na verdade, era só uma passada rápida pra buscar minha blusa, vou precisar dela hoje. Aproveitei que parou de chover.
- A gente fez brigadeiro, fica. - lhe olhei suplicantemente com os olhos. Eu precisava dela, porque eu sabia que ia fazer uma bela besteira logo menos se ela saísse.
- Oook – ela disse lentamente, suspeitando de algo.
- Ah, não te apresentei. , esse é o Dereck. Dereck, , minha amiga. - Eles disseram 'prazer' e trocaram sorrisos e apertos de mão discretos.
- Hm, você disse que a chuva tinha parado? - ele perguntou a ela, que acenou que sim com a cabeça. - Então eu acho que vou indo, é melhor.
- Tem certeza? - eu perguntei
- Tenho, vou deixar vocês conversarem, outro dia a gente marca alguma coisa. E é melhor eu ir antes que a chuva volte, eu vou me trocar. - acenei com a cabeça e ficamos em um silencio constrangedor vendo-o sumir no corredor de volta ao quarto de hóspedes para se trocar. Assim que ele sumiu, me olhou espantada, boquiaberta e sem entender absolutamente nada. Começou a agitar as mãos e gritar sem emitir voz: “COMO? QUEM? MAS... ONDE? AI MEU DEUS, AMIGA, WHATAHELL?”. Meus sussurros gritantes começaram a entrar em conflito com os dela “AI, CALMA, PORRA, EU JÁ TE EXPLICO, SHIU!”. Ouvimos a porta se abrindo e acabamos por engolir bruscamente as outras mil palavras que estavam vindo. Ela respirou fundo e eu a olhei séria, deixando minha voz sair ainda bem baixa: Cala a boca.
Dereck surgiu e se despediu rápido, um pouco sem graça. Foi um pouco desagradável e talvez ele não me ligasse por uns dias. A porta se fechou, e só para garantir eu coloquei a mão na boca de minha amiga até ouvir o som do elevador deixando o andar.
- Ok. Agora você pode falar. - resiprei fundo e baixei a cabeça.
- Falar? O que você quer que eu fale? Quer dizer, talvez seja você que deva me explicar alguma coisa. , o mal saiu daqui. - ela fez uma breve pausa – Tudo bem, ele é delicioso, mas eu esperaria isso da Dak, não de você.
- Eu sei. Mas ele não significa nada pra mim. Absolutamente nada. Confia em mim. – lhe olhei suplicantemente – Você sabe quem eu amo. Eu só queria esquecer um pouco tudo isso, deixar a poeira baixar, entende? Dereck é um amigo do colegial, fazia muito tempo que eu não via, só isso.
- Só isso nada, não mente. Ele tava quase te beijando.
- Ele tentou, mas eu dei graças à Deus por você chegar aqui. – choraminguei – Eu não quero fazer isso, – ela se virou, me olhou em duvida e acabou me abraçando.
- Ahn amiga, eu sei, eu sei. Não vou te julgar. Prometo. - respirei aliviada.
- Brigada, amor, mas vem cá, tem mesmo brigadeiro. – ri fraco – Ficou muito bom.
Ficamos comendo chocolate e falando bobagens, naquele climinha de amigas-irmãs.
- Hm, sabe o que é engraçado? - ela me perguntou e eu fiz um 'hm' em pergunta – É que eu tenho a impressão de que já vi ele em algum lugar.
- É, talvez - Eu dei de ombros, limpando a colher.


Capítulo Treze -

Depois do incidente com e Dereck, ele havia ficado sem me ligar por uns dias, exatamente como eu havia suposto, e, sendo sincera, isso nem me incomodara tanto assim. É ótimo não ter que pensar nos homens às vezes, eles realmente acham que o nosso mundo gira em torno deles, mas a verdade é bem outra.
Nesse meio tempo, eu tinha ido jantar com os meus pais num lugar legal, coisa que já não fazíamos há um bom tempo. E escolhi o sofá novo da minha mãe. Dei uma ajuda extra no hospital que já estava quase pronto depois do incidente com o fogo.
Eu, e Dak tinhamos feito camisetas personalizadas, com desenhos abstratos que ficaram bem diferentes e originais. Bom, e no sábado, eu tinha um encontro. E como tinha decidido que não queria mais nenhuma enrolação, nem dor de cabeça, chamei Martim pra ir comigo. Ele aceitou na hora, e no mesmo instante eu comecei a pensar no quão engraçado aquilo iria ser. Mas a condição dele era que eu fosse com uma roupa nova, algo diferente do que eu tivesse no guarda-roupa. Tudo bem, acordo feito.
O cara, se tivesse alguma sã consciência, nunca mais me convidaria pra nada e eu ainda ganharia uma ótima história.

Fui fazendo um coque no elevador, segurando a bolsa de um jeito desajeitado. O elevador parou no quinto andar e a senhora Owen entrou com uma expressão gentil acompanhada de seus dois poodles.
- Bom dia, senhora Owen - acenei com um sorriso educado.
- Bom dia, – ela respondeu
- Tudo bem com a senhora? - gosto de puxar assunto com gente mais velha, eles sempre acham que temos coisas mais interessantes a fazer do que conversar com eles.
- Tudo e com você? - respondi que sim. Ela pareceu hesitar por um segundo e prosseguiu – Se não for uma pergunta indiscreta, por onde anda aquele rapaz bonito que morava com você?
- Hm, nós decidimos dar um tempo, ele está no apartamento dele agora.
- Ah, sim. - e ela se virou pra frente, já se preparando para sair do elevador quando chegamos ao térreo. Sem notar por um instante que eu estava ali, ela comentou mais para si do que pra mim – Eu gostava dele. Bom rapaz aquele .
Sorri boba, a olhando. Sim, senhora Owen, ele é um bom rapaz, pensei. Era engraçado e às vezes até me estressava a facilidade que tinha para cativar as pessoas.
Continuei no elevador, até chegar no estacionamento e de lá, fui para o shopping. Fui para uma loja logo perto da entrada, mas estava bem dificil achar alguma coisa que eu gostasse, era tudo exagerado demais. Fiz uma ultima tentativa e ainda na mesma loja, procurei mais perto das vitrines, que costumam ter coisinhas melhores. Vi uma blusa que gostei, não para a noite, mas pro dia-a-dia e comecei a procurar meu tamanho, quando ouvi umas batidinhas no vidro à minha direita.
Na hora não me toquei, mas a pessoa insistiu e insistiu até que eu acabei virando pra olhar. Fiquei de boca aberta, sorrindo bem fraco, como se quase não fosse um sorriso, eu estava bem surpresa. Era .
Ele me sorriu gentilmente, como se fosse um amigo de longa data, me indicou a saída, dizendo 'vou te esperar lá' e saiu. Me recuperei do choque, olhei para a blusa e vi que nem era tão boa assim. Fui para a saída.
Ele me abraçou e me deu beijinhos na bochecha.
Respirei fundo e coloquei a mão nos bolsos na calça, pra ficar mais calma.
- Como você está? - ele me perguntou.
- Bem, e você?
- As coisas andam bem corridas no estúdio, tem um novo sócio lá e o cara tem sido a arrogância em pessoa com a gente, dando prazos absurdos. Mas fora isso, tá tudo bem. Ah, e meu peixe ainda tá vivo – nós rimos – Tem um show que eu vou à noite com o e a Abby, você podia ir se não tiver nenhuma programação pra hoje.
Ótimo, era tudo que eu precisava explicar.
- Hm, na verdade, eu combinei de sair com o Martim hoje. – mordi o lábio inferior. Minhas mentiras sempre dão em merda, eu não sei mentir direito – Ele me chamou pra um tango e margueritas aí e eu acabei aceitando.
- Martim não é seu cabeleireiro?
- Sim, sim – eu sorri torcendo pra que ele também se lembrasse que meu cabeleireiro era gay – mas obrigada pelo convite, eu realmente iria se já não tivesse confirmado com ele.
- Não tem problema, fica pra próxima. Hm, eu preciso passar na livraria, você me acompanha? – Eu assenti. começou a andar devagar e eu o acompanhei
- Ah, eu precisava mesmo falar com você. - lembrei - Se lembra da Joanna?
- Sim, claro. Como ela está? Já voltou pro hospital? - senti o súbito interesse de , ele tinha se apaixonado pela menina.
- Na verdade, ainda não, então eu chamei ela pra passar um dia comigo – ele me olhou tentando perceber onde eu queria chegar – Seria legal se você fosse, quer dizer, se isso não fosse te atrapalhar.
- Lógico que não, eu vou adorar ir. Eu posso até ir um pouco antes, pra gente arrumar algumas coisas pra ela.
- Seria ótimo. – lhe sorri sinceramente.
- O que você acha de a gente marcar pra terça-feira da outra semana?
- Por mim tudo bem, vou ver com a mãe dela.
- Ok.
Chegamos à frente da livraria que era mais perto do que eu desejava. Ficamos em silêncio nos encarando por alguns segundos. Senti uma vontade absurda de dizer 'sinto sua falta', mas me controlei.
- Então, você quer vir comigo ou precisa fazer alguma coisa agora? - ele perguntou. “Eu quero ir com você, ”.
- Eu preciso resolver algumas coisas. - respondi.
- Tudo bem, a gente se vê, né? - ele me perguntou receoso.
- Sim, claro. - dei uma ênfase descarada no 'sim'.
- Então tá, . - me beijou a bochecha deixando o lugar dormente, e me deixou lá parada, me dando tchau e me olhando com o sorriso mais lindo do mundo. Droga, eu o queria de volta.
- Ah, , espera! - ele me olhou confuso e parou no lugar. Eu corri até ele. Perguntava ou não perguntava? Ah, que se dane, vou perguntar de uma vez. Respirei fundo, eu conseguiria fazer aquilo sem soar idiota demais (talvez) – Hm, isso vai parecer bem ridículo, mas você conhece alguma Holly?
- Quê? - ele me olhou cético
- Só responde. Tente se lembrar, você conhece alguma Holly? Hm, uma ruiva talvez. - Discrição fail.
- Eu conheço uma, na verdade – “ah não”, pensei – ela é meio gordinha – ele fez um esforço para se lembrar.
- Uma gordinha médio ou uma gordinha bonita?
- Uma gordinha enorme, e com uma verruga na bochecha. Ela é vizinha da minha tia, tem onze gatos e eu fingia com o meu primo que ela era uma bruxa quando éramos crianças – ele deu risada – Por que?
- Por nada não – fiz uma cara pensativa – Tem certeza que ela é a única? Você conhece tanta gente.
- Tenho. Só não estou entendendo essa curiosidade repentina, dona .
- Não é nada, preciso ir – fiquei na ponta dos pés e dei-lhe um beijo na bochecha, saí antes que ele pudesse me fazer mais alguma pergunta.

No fim eu acabei achando um vestido floral e delicado em uma outra loja, mas muito bonito. Fui para casa e liguei para o salão.
- Alô? Eu poderia falar com o Martim, por favor? - ouvi alguém dizer “É pra você” e logo em seguida ele atender – Oi, sou eu.
- Fala, bitch – ele respondeu
- Hm, eu não vou mais hoje, Martim.
- Por quê, menina, quem morreu? - ele se apavorou
- Ai credo, não morreu ninguém não. É que eu encontrei uma amiga hoje e ela queria ir num show aí mas não queria ir sozinha.
- Ah sim. Menos pior – ele comentou alguma coisa com um ajudantezinho e retornou à conversa – E que amiga seria essa?
- A Abby – era impressão minha ou eu estava o convencendo?
- Abby de onde? Eu acho que você já comentou dela.
- É namorada do – respondi simplesmente
- A-HÁ. Flagrante! - parei e reparei na minha burrada – , amigo do . O que significa que ela vai levar o namorado, e ele vai chamar o , e por isso você quer ir – ele disse depressa
- Mas Martiiiim... – choraminguei
- Mas Martim nada – ele respondeu – você vai comigo e ponto final. Algum dia você vai me agradecer por isso. Esteja pronta às sete. Eu passo pra te buscar, um beijo – e desligou sem me dar a chance de negar. Aquela bicha anoréxica.
Bufei e me levantei fazendo corpo-mole em direção ao meu quarto. Tomei um banho quente, saí do banheiro em meio ao vapor quente e depois me joguei na cama de braços abertos, ainda enrolada na toalha. Ai preguiça de ir encontrar um cara gostoso;
Acabei me levantando e fui procurar onde eu tinha deixado as sacolas do shopping. Peguei o vestido, tirei a etiqueta e o vesti. Enrolei mais um pouco no sofá, me olhei no espelho, levantei o vestido e decidi que eu queria fazer uma tatuagem na coxa.
Fui até o banheiro, sequei o cabelo, dei uma amassada pra ele ficar um pouco ondulado, e comecei a fazer minha maquiagem, sempre enfatizando os olhos.
Voltei à cozinha, peguei uma maçã, coloquei o laptop pra ligar. Peguei meu sapato de boneca, que era um pouco melhor pra dançar tango. Não, eu não dançava tango sempre. Mas eu já tive minha época de achar a dança bem sensual e decidi aprender. Hoje minha noção é apenas básica para atrair alguns olhares.
Sentei no sofá, verifiquei meu e-mail e minha conta no facebook. Passei em alguns sites inúteis e meu celular tocou indicando que eu havia recebido uma nova mensagem. Ainda eram seis horas.
“Estou chegando em casa agora, vou me arrumar e te dou um toque quando estiver chegando aí.
Beijos, Martim”

Em menos de uma hora, ele já estava tocando o interfone. Peguei um energético na geladeira, respirei fundo e desci. “Seja o que deus quiser” pensei.
Passei na portaria e deixei um aviso por lá.
- Se a ou um dos meus amigos passarem aqui, avise que eu estou no Terraço Latino.

Entrei no terraço que tinha um clima animado, já estratetizando como eu fugiria dali. Afinal, gente demais, feliz demais, músicas dançantes demais, e bebidinhas com estranhos fazia minha cabeça gritar “DANGER! DANGER!”.
Talvez se eu fizesse um resgate meio maria-macho, ou se eu arrotasse “sem querer”. Ri com as ideias. Nem se eu quisesse eu conseguiria. Martim deu nossos nomes e o garçom indicou a nossa mesa, onde já tinha um cara loiro e forte sentado de costas para a entrada e, olha que surpresa, tinha uma plaquinha escrito “Mesa 11”.
Isso já tava me estressando, agilizei o passo sendo seguida por Martim. Sentei de uma vez à mesa, pronunciando um “boa noite” um tanto rude. Tomei um susto quando encarei aqueles olhos azuis.
- Ué! O que você está fazendo aqui, Dereck?
- Você já me conhece de algum lugar? - ele riu divertido, erguendo uma das sobrancelhas.
- Eu não acredito que você fez isso! – ri fraco e me senti aliviada. Pelo menos para ele, já estava tudo bem claro de que não ia rolar. Martim me olhou com cara de paisagem – Martim, este é Dereck. Dereck, este é Martim – apresentei-os.
Conforme a sugestão da casa, pedimos alguns aperitivos e, claro, as margueritas. Não notei como a nossa animada conversa fora engatada, mas eu me sentia bem, em uma noite com dois amigos, como deveria ser. Em tal hora, os dois se envolveram em um papo tão animado sobre Los Angeles que eu acabei pedindo licença para ligar pra .
Fui em direção a um jardinzinho que ficava mais perto do banheiro que da nossa mesa. Acima de suas flores brancas e de minha cabeça, passava um varalzinho de luminárias laranjas penduradas. Minha amiga demorou um pouco, mas acabou atendendo e eu lhe fiz o convite.
- Oi, amor, então é que eu e o não estávamos fazendo nada e acabamos vindo pro show com o pessoal. É, eu vi! – ouvi risadas e notei que a ultima parte não era comigo – o tá perguntando de você! – mais risadas – , vai começar aqui amor, eu não tô te ouvindo, depois eu te ligo! Beijos, se cuida! – e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela desligou. Senti aquela sensação infantil de ter sido excluída bater no estômago.
Alguns segundos depois quando eu encarava o celular nas mãos, Martim apareceu sorridente e se colocou ao meu lado.
- Meu Deeeeus, onde você foi buscar aquele ali? – ele fez cara de espanto e eu ri – Nossa, que homem, se você não quiser, me avise, que eu sou o primeiro da lista colega. Agora volte já praquela mesa, que eu vou ao banheiro e ele está sozinho. Não quero nenhuma vadiazinha aparecendo “ocasionalmente” por lá. – e me deu um empurrãozinho. Eu voltei rindo e me sentei à mesa.
- Posso fazer uma pergunta? – Dereck perguntou e eu fiz que sim com a cabeça – Martim é gay?
- Lógico, né? – eu ri – Você realmente ainda tinha alguma dúvida disso?
- Só queria confirmar – ele corou
- Hm, entendo. Se você quiser eu agito ele pra você – pisquei, brincando. Ele me devolveu um olhar bravinho – O que foi? Vocês estavam em um papo tão animado que eu confesso que suspeitei de você – sorri.
- Gracinha – ele me deu um sorriso irônico e alguns minutos depois Martim voltava a sentar-se à mesa, já com um olhar interessado. Depois Dereck se inclinou discretamente pra ele, e disse mais baixo – Tá vendo aquela mesa? Aquele moreno mais alto era dançarino da Madonna. Ele não para de olhar pra cá.
- Sério? – Martim fora visivelmente fisgado.
- Aham, eu arriscaria como ele estaria planejando como chamar a para dançar se eu não tivesse certeza que, você sabe, ele jogasse no outro time. – Ele deu de ombros e finalizou sua bebida, pedindo mais uma rodada pra gente.
Pronto. Depois disso, Martim não parava de olhar o tal cara (e vice-versa). Mais um pouco e eu iria até lá resolver as coisas e indicar um motel pra eles. Mais algumas doses da perigosa bebida, que infelizmente era também irresistível, e os dois acabaram indo conversar em um canto. E mal meu amigo se retirou, Dereck foi logo dizendo:
- Agora sim. O nosso encontro como combinado. – ele me olhou com um sorriso conquistador – Eu e você. E ninguém mais.
- Ah, não fala isso, você adorou o Martim – eu dei uma risadinha desconfortável.
- Sim, ele é gente boa. Mas não tinha sido assim que eu tinha planejado, afinal. – Ele puxou sua cadeira um pouco mais pra perto de mim achando que só porque eu já estava alegre, não iria notar.
- Você acaba de mandar minha carona embora, isso sim – resmunguei fazendo sinal para o garçom me trazer mais um coquetel à base de tequila.
- E isso acaba de tornar minha noite ainda melhor. – ele disse com uma voz sexy e um sorriso brincando malicioso em seus lábios.
- Tem como você parar de dar em cima de mim? Eu já estou ficando desconcertada. – mordi o lábio.
- Adoro sua sinceridade. – ele riu – Mas vou tentar me comportar.
Fez-se uma pausa enquanto o garçom deixava meu copo na mesa e recolhia os outros. Eu nem lembrava quantos já tinham sido. Outra música animada começou, ao som latino, e Dereck se levantou.
- Vamos, você é brasileira, tem que saber dançar isso.
- Saber eu sei, só que eu não quero. – sorri um pouco tímida.
- Isso pra mim é covardia, desistência. Gente que nem tenta, aff. – ele provocou e olhou em volta. – Me ajuda a achar alguém que tenha cara de corajosa...
- Bem aqui. – Me levantei. Odeio ser subestimada. Já comecei com os joguinhos de olhares provocantes e indiferentes que é essencial na dança. Passei por ele sem sequer tocá-lo e me dirigi ao centro do espaço ao ar livre que estava sendo utilizado como pista de dança. Comecei o encarando com um meio-sorriso nos lábios e formando um círculo em passos lentos (assim como o ritmo do violino ao fundo) em volta dele, enquanto este continuava parado e me olhando sem parar. Mas, de repente, a batida começou em um som muito mais animado e... Latino do que propriamente o tango. Revirei os olhos, dei risada e fiz menção de voltar à mesa indicando que aquilo já era muito mais dançante que o meu normal. Mas em um puxão ágil e terrivelmente másculo, ele colou nossos corpos e em seguida nossas testas com um sorriso divertido. Começamos a dançar no passinho básico, mas depois eu acabei me soltando e me permiti algumas voltas e meias-voltas em torno dele, fazendo meu vestido se levantar um tanto com os giros e meus cabelos soltos esvoaçarem um pouquinho; ele estava com seus fortes braços agarrados na minha cintura, delimitando e me puxando repetidas vezes para junto dele. Eu já conseguia notar alguns olhares. Ele estava se sentindo “o cara” da vez no Terraço inteiro. Comecei a lembrar da música, eu já havia feito uma coreografia com ela em aula. Em dois segundos teria uma parada inesperada e... bam! Levantei minha coxa e a colei em suas costas, fazendo-o perder o sorriso brincalhão e convencido por um instante. Ergui uma das sobrancelhas, dando a entender “Pare de se achar. Sou eu quem mando aqui”. Ainda com a perna colada em suas costas, ele fez uma leve pressão contra meu braço, me dando a entender que deveria jogar o corpo para trás e assim o fiz. Diferente da descida brusca, subi lentamente, colando nossos troncos. Depois, ele apoiou a mão em minha cintura e me levantou, me girando rapidamente fora do chão por alguns instantantes, só para que trocássemos de lado. Ele se desvencilhou de mim, deu uma volta, me agarrou por trás, e estendeu um dos meus braços, enquanto sua outra mão ficava firme em minha cintura e fazendo o passo mais conhecido que era meio andando de lado enquanto os pés se entrançavam. Ele tornou e me virar de frente pra ele, e eu fiz um quatro com as pernas enquanto suas mãos me mexiam em meias-voltas novamente. Ao final da música, ele colou nossos corpos de repente, e ao tentar me beijar, eu simplesmente abri as pernas em espacate, escapando dele.
As pessoas aplaudiram e eu finalmente tive noção de quem estivera assistindo. Oh, Gosh, eu devia estar tão bêbada. Fazia tanto tempo que eu não dançava. Não conseguia nem imaginar como eu conseguira fazer aquilo. Olhei em volta, ainda respirando fortemente, e um tanto corada e notei que Martim e seu novo guri eram apenas dois dos que olhavam e aplaudiam impressionados.
Acenei com a cabeça em agradecimento, ainda rindo um pouquinho e voltei à mesa. Onde pedi um outro drink gelado. Dereck parecia me olhar cada vez mais encantado e isso era um tanto incômodo. Mas justamente por essa hora, todas as minhas outras bebidas começaram a surtir efeito. Minha cabeça começou a girar um pouquinho e minhas risadas já se soltavam sem que eu nem percebesse. Eu brincava com ele, sendo terrivelmente sincera. Devia já estar comentando alguma coisa que fosse me envergonhar no dia seguinte, mas quem se importava?
Mais uma meia hora, e Martim e o “Dançarino da Madonna” começaram a se pegar no sofá ao lado.
E mesmo que eu já o tivesse visto com tantos caras, a princípio me pareceu tão engraçado. E logo depois, já soava de maneira extremamente excitante pra mim, dois caras daqueles, fortes e com porte para serem “meus futuros amantes safados”, numa temperatura absurda, só me fazia desejar estar lá no meio.
Já em controvérsia, me fazia parar pra pensar e desejar absurdamente estar com um gordinho murmurante e desajeitado para me colocar algum juízo na cabeça (ou um certo gelo em outro lugar). Mas aquela droga de homem sentado à minha frente só piorava minha situação já não muito ajudada.
Eu pedia bebidinhas e bebidinhas continuamente, o garçom já devia estar a ponto de perguntar quão resistente eu era ao coma alcóolico. Mas nem eu mesma sabia.
Tinham tantas pessoas agora, como se elas tivessem dobrado de quantidade em um passe de mágica, como se tivessem entrado no local por todas as janelas e possíveis entradas enquanto eu estive de costas. E todas elas riam tanto, dançavam tanto, bebiam tanto que me deixava tonta só de olhar. Então eu olhava para o outro lado, e só conseguia enxergar Dereck também não muito bem, tentando me beijar e enfiar seu rosto em meu pescoço ou passar as mãos nas minhas pernas de cima a baixo, e eu o empurrava repetidas vezes. E isso me deixava mais tonta ainda.
E a cada nova insistência, eu sentia cada vez mais nojo, perguntando-me porque raios eu dei ouvidos a Martim e não fui ao show. Eu poderia ter resolvido tudo ao invés de piorar.
Com uma puta dificuldade, acabei me colocando de pé e balbuciando que esava indo embora. Olhei em volta, à procura de um garçom que pudesse me chamar um taxi. E ao me virar para a porta espelhada vi meu reflexo bagunçado: cabelos bagunçados, vestido bagunçado e a cara meio caída. Mas então o foco da imagem se ajustou e eu vi uma pessoa que não se mexia. Me encarava lá da porta, sem expressão. Não dançava, não bebia, não ria. Tinha um olhar meio triste, meio decepcionado.
.
Combinava com o frio que começava a fazer. Como se o mundo tivesse se tornado cinzento, e toda aquela alegria forçada por bebida, só me deixasse mal.
Meu coração se acelerou ao vê-lo, e mais ainda ao não decifrar sua expressão. Ele não vinha até mim, no entanto, também não ia embora. Eu tinha que ir até lá, tentei correr mas o chão de repente pareceu dançar mais que todas aquelas mulheres de saias esvoaçantes juntas e eu não pude dar sequer um passo. Senti mãos me segurando e dizendo algumas coisas. Mas eu precisava ir até lá! Olhei de novo e o vi um pouco mais distante. Lembrei da sensação que eu sentira na noite em que ele partiu, como se meu peito murchasse, aquele sentimento de incompetência, de não poder fazer nada, de não poder resolver as coisas. E com todas aquelas pessoas que eu não conseguia identificar, o chão se mexendo e com o efeito de todo o resto, eu achei que poderia desmaiar, ter uma das minhas crises claustrofóbicas, enfartar. Me virei, apoiei a mão nas costas do sofázinho, de uma mesa próxima e me sentei de volta, antes que eu desmaiasse.
Aquela sensação não era nada boa.


Capítulo Catorze -


Eu acho que tinha... um restaurante. Acho que tinha música. Bebida, com certeza. E . É, tinha também. Bem no final e em flashes, mas ele estivera lá, eu tinha certeza.
Tateei a mesinha de cabeceira, derrubando várias coisas em busca do relógio digital que apitava sem parar, até achar o botão de “Cale a boca”.
Minha cabeça girava muito, parecia ter milhares de abelhas lá dentro; todas agitadas e nervosas, fazendo um zumbido ecoar pelos meus ouvidos. Cuspi um pouco de cabelo que caíra no rosto, fiz força na mão que ainda estava apoiada na mesinha para tentar me levantar e, sem nem abrir os olhos direito, fiquei de pé com dificuldade. Meus pés faziam um ziguezague no chão enquanto eu andava lentamente, me arrastando. Estava tudo muito escuro e eu ainda tentava assimilar como todo o meu cabelo tinha vindo parar no rosto; devia estar parecendo o Capitão Caverna.
Em questão de frações de segundos, bati a testa na parede com tudo, fazendo um estrondo. Quis chorar com a batida na parede e ainda mais com o barulho do choque contra a parede que fez o interior da minha cabeça tremer.
Fiquei lá, estatelada como uma amoeba que cai lentamente, até minha cabeça tremer menos e eu poder desgrudar. Mas eu tinha certeza que o banheiro era daquele lado! Me virei de costas, apertei os olhos e enxerguei uma luz fraca na parede oposta. Esse banheiro tava de brincadeira com a minha cara, sem mais. O encarei fixamente para caso ele mudasse de lugar de novo e, quando abri a porta, a claridade quase queimou meus olhos. Levei alguns segundos para me acostumar com a luz e me dirigi ao espelho para ver meu estado. Eu usava uma camiseta azul-marinho meio velha, mas muito bonita, onde estava escrito UCLA e logo abaixo em letrinhas menores “University of California, Los Angeles”. Devia ser uma daquelas bem velhas que eu costumava deixar no fundo do guarda-roupa.
Alguns segundos depois, acabei notando que minha calcinha não estava onde deveria estar. Mas também não estava onde não devia. Simplesmente não estava. Porém, a essa hora eu ganharia um Oscar se conseguisse somar dois mais dois. Tirei a blusa e entrei no banho.
Algum tempo embaixo d'água e eu comecei finalmente a acordar. Eu nem lembrava direito como tinha vindo parar no banheiro. Estava tirando o shampoo quando notei que eu não me lembrava daquele cheiro, que marca era aquela? Peguei a embalagem, mas não entendi como se pronunciava aquilo. Girei nas mãos o produto e li “Made in Turkey”. Turquia? Franzi o cenho e estranhei, eu nunca tinha ido à Turquia.
Então olhei para a parede à minha frente: uma parede que não era minha. Comecei a olhar tudo em volta. Aquele chão de mármore branco não era meu, aqueles produtos não eram meus, aquele chuveiro com dispositivos para cromoterapia não era meu. Puxei depressa uma toalha enorme e branca que parecia de pelúcia e me enrolei. Abri o boxe cuidadosamente e saí.
Ainda no banheiro, comecei a pensar: Sem calcinhas + bebida + + banheiro desconhecido = Fodeu.
Na melhor das hipóteses, eu tinha ficado bêbada, decidiu me salvar do estado que eu estava, paramos no apartamento dele, eu fui impulsiva e agora eu tinha feito merda de novo e teríamos que nos encarar e…
- AAAAAH! – gritei com o susto, de repente vendo-o entrar no banheiro. – Ah, meu Deus, o que é isso?!
- Você quer mesmo que eu responda? – ele olhou pra baixo e deu uma risadinha irônica.
- NÃO! – tapei meus olhos e passei direto por ele para fora do banheiro – Eu quero que você se vista e me explique o que está acontecendo aqui! – berrei, furiosa. Procurei minhas roupas o mais rápido possível, enquanto ele vinha atrás de mim já com a toalha na cintura.
- Mas, … - tentou
- Mas nada! Você é louco? Eu estava bêbada! – me dirigi à sala, já pegando minha bolsa e colocando os sapatos.
- Pelo amor de Deus, nós somos adultos, sozinhos em Londres, qual o problema em termos feito? – ele me olhou indignado achando mesmo que estava certo.
- Eu. Estava. Bêbada. – disse pausadamente – Você não ouviu? Se eu tivesse um pingo de lucidez, eu nunca estaria aqui agora. Entendeu? - e, dito isso, saí e bati a porta com força, fazendo estrondo.
Desci depressa pelo elevador e saí ignorando todos os Bom-Dias que os funcionários me deram quando passei em passos marchantes. O último, que ficava perto da entrada, nem se dera ao trabalho e abrira de uma vez a enorme porta de vidro com detalhes dourados antes que eu pudesse atravessá-la. Ao sair na rua, ouvi alguém perguntar “Táxi, senhora?” e ignorei novamente. Olhei para os lados e li em uma placa Oxford Street; coloquei meus óculos escuros e saí andando para descontar minha raiva. Eu ainda não conseguia acreditar, custava muito ter esperado eu estar sóbria? Dormir com um bêbado inconsciente é tão fútil, tão asqueroso, tão baixo!
Entrei em um café na esquina, vi pelo relógio que ainda eram nove horas da manhã e isso explicava porque ainda estava tão vazio. Me dirigi ao fundo do local, a uma bancada vazia e chamei uma garçonete sem nem mesmo tirar os óculos, não queria que as poucas pessoas ficassem me olhando pela minha cara Kesha, sem falar que gosto quando elas não sabem pra onde estou olhando, se estou dormindo. Quando ela perguntou o que eu iria querer, respondi naturalmente, procurando o celular dentro da bolsa.
- Um expresso puro, sem leite, sem açúcar. Do maior tamanho que você tiver. – a mocinha me olhou intrigada por uns dois segundos, anotou o pedido e saiu. Finalmente achei o celular e disquei o número de . - Alô, ? Oi, você tá fazendo alguma coisa agora? É que eu tô sem carro, ia pedir pra você vir me buscar. Tá, tá tudo bem sim. Eu estou num café na esquina da Oxford com a Baker. Ok, brigada, beijos.
A mocinha trouxe meu café numa xícara onde eu conseguiria tomar banho e, com mais alguns minutos, eu vi o carro de minha amiga sendo estacionado e ela entrar apressada no local, vindo se sentar ao meu lado. se dirigiu à bancada onde eu estava, largou a bolsa e as chaves à sua frente e girou no banco, se virando para mim.
- Vai, fala.
- Falar o quê? - murmurei sem me virar para olhá-la – Não tenho nada pra falar, já te disse.
- Você já tomou algum analgésico hoje? - ela ignorou meu descaso.
- Eu não preciso de analgésicos. - murmurei mais uma vez, sem expressão, enquanto via meu reflexo mumificado na “banheira” de café que tinha nas mãos. Ouvi bufar irritada ao meu lado, antes que súbita e grosseiramente ela arrancasse os óculos escuros da minha cara.
- Olha a sua cara. Olha o tamanho dessa xícara de café. Você veio parar do outro lado do Hyde Park em plenas nove horas da manhã de um domingo e espera que eu acredite que você não tem nada, NADA pra me contar? - Fiz uma pausa pensativa e respirei fundo.
- É. - dei de ombros, bebendo mais um pouco do líquido amargo. Tinha certeza que ela estava se imaginando me dando um belo soco. Minha amiga respirou fundo mais uma vez, para não perder a paciência comigo.
- Isso tem alguma coisa a ver com ontem à noite? - E, sem que eu entendesse o porquê, um sorriso curioso dançou em seus lábios.
- Verdade, amiga, como foi ontem à noite? - Ignorei descaradamente sua última pergunta.
- Eu perguntei primeiro – ela me olhou cética – Ou você acha mesmo que eu não vou perguntar de novo como você veio parar aqui?
- Meu carro quebrou.
- Você nem estava de carro ontem, !
- Puta merda, , eu ainda estou bêbada, ok? Bêbados não contam histórias, conviva com isso. - Fiz uma breve pausa – Agora, a sua história de ontem à noite, se você não se importa.
Ela me olhou desconfiada por alguns instantes, hesitou, mas acabou concordando.
- Ok, então. e eu estávamos em casa vendo The Notebook de novo e ele já estava impaciente, aí o pessoal ligou nos chamando pra ir. Estava todo mundo lá. O lugar tinha uns drinks exclusivos e uma cara super retrô, você ia adorar... - “Ia mesmo”, pensei. Que idéia idiota ter perdido isso, eu nem gosto de tango. Me dava enjôo só de lembrar que tudo poderia ter dado certo na minha noite, eu poderia ter consertado tudo, mas não o fiz. Eu já nem conseguia prestar atenção em , era como se eu tivesse abaixado todo o volume em sua voz e só sua boca continuasse se mexendo. Mas não tinha problema, eu conhecia minha amiga o suficiente para ter certeza de que ela iria repetir a história mais de cem vezes. De repente ela começou a sorrir e se empolgar cada vez mais, devia ter chegado à melhor parte. Pessoas de outras mesas olhavam-na falar como se isso relembrasse suas próprias histórias, as boas épocas de sua juventude. Era realmente contagiante. E eu tinha me negado a participar. Parecia um sentimento de luto. E pelos gestos de minha amiga, as coisas ficavam cada vez melhores, mas eu não conseguia prestar atenção. E, então, quando abri a boca para tentar sorrir e apoiá-la com um “Aham”, as palavras pularam de minha boca.
- Eu dormi com o Dereck.
E então o estrago estava feito. parou de uma vez, quase como se tivesse engasgado com as palavras que viriam a seguir. Seus olhos arregalados me fitavam confusa e aterrorizada, como se a traição tivesse sido a ela mesma. As pessoas de outras mesas voltaram seus olhares para as próprias vidas, como se eu tivesse estragado tudo, e o café tornou a ser cinzento, de um domingo de manhã. Antes que eu voltasse a falar, já tinham lágrimas correndo pelo meu rosto.
- Não me odeia, tá? Já vai ter gente demais pra isso. Eu sei que não foi certo, mas eu tava bêbada, eu não consigo lembrar de nada. Só que eu acordei com ele hoje. – admiti amargamente.
- Meu Deus, . - Ela parecia escolher as palavras certas pra dizer. Até que franziu as sobrancelhas e se virou para mim confusa. - Não, espera. Mas e o ? - Então meu corpo gelou.
- O que tem o ? - eu realmente não queria uma resposta.
- Quer dizer, era pra você estar com ele. Ele... Foi atrás de você, ontem.
E foi o suficiente para me fazer levantar de uma vez, correr pra rua e me jogar na frente de um táxi. Dei a volta no carro, entrei e bati a porta.
- Eu pago o dobro pro senhor chegar à Cleveland Square em quinze minutos.
- Fechado. – ele me respondeu largando a maçã que comia no banco passageiro e acelerando o motor.
Cheguei ao prédio correndo até a portaria. Por pouco não perco o porteiro que ficara de turno na noite anterior. O parei, segurando-o pelos braços, e parei para respirar.
- Calma, moça. Eu não vou fugir. – ele disse meio sem graça – Tá tudo bem? No que eu posso ajudar a senhora?
- Ontem... Alguém… Veio… - fui fazendo pausas para que a minha respiração voltasse ao normal – Atrás de mim? Veio me procurar?
- Sim, senhora. Aquele seu namorado, o senhor . - Fiquei parada o encarando, sem nem conseguir piscar. Meu Deus, por que eu não consigo lembrar o que aconteceu? Eu não me perdoaria se tivesse magoado . Peguei o elevador e entrei ainda apressada em casa. Bebi um copo d'água, larguei a chave na mesinha de centro, sentei no sofá e liguei pra .
- Alô? - ela respondeu
- , cadê o ? Eu preciso achar ele, amiga. Eu tenho certeza que eu fiz alguma merda muito grande, eu preciso achar ele...
- Amor... Ele tá aqui. - sua voz era um sussurro choroso, que fez minhas entranhas se arrepiarem. Do outro lado da linha, parou de falar e eu pude ouvir chorando - “Cara, eu não sei o que eu fiz de errado. Eu cheguei e tinha um babaca com a cara enfiada no pescoço dela. Eu... Eu fui atrás dela, ! EU FUI ATRÁS DELA!”
não conseguiu pronunciar muitas outras coisas audíveis, imaginá-lo chorando daquele jeito acabara comigo. Instintivamente, desliguei o telefone, me deitei no sofá, me enrolando em posição fetal como se fosse um caracol e me desfiz em lágrimas.



? Amiga, você tá bem? Tá viva? Tem comida na sua geladeira? Vê se me responde, ok? Tô preocupada com você. Beijos,

? Caralho, dá pra você responder essas mensagens? Vou mandar alguém ir arrombar a sua porta, sua vadia. Ainda tem álcool na sua geladeira? Responde, sério. Preciso saber se você tá viva. Beijos, Dak”

“Filha, sai desse apartamento. Não é assim que uma mulher reage. Se você quiser, pode vir ficar aqui em casa por uns dias. Beijos, mamãe te ama”


Ignorar. Ignorar. Ignorar. É, eu ainda estava viva. Mas evitar alguns contatos às vezes me fazia bem. Já tinha comido alguns potes de sorvete, mas nenhum muito grande. Eu não estava feliz, de fato, mas também não estava morrendo. Fui até o hospital saber se eu poderia ajudar em alguma coisa, montei vários diálogos antes de dormir, imaginando como me desculpar com , mas nenhum parecia bom o suficiente. Toda cena que surgia na minha cabeça o fazia me olhar friamente e bater a porta em minha cara (com razão). Além disso, fui atrás da seleção de livros que eu tinha feito. Talvez, se eu descobrisse como voltar, esse pesadelo acabasse e eu teria como fazer tudo dar certo dessa vez. Por mais que eu saísse magoada no final, por ser a única a lembrar de tudo, ele estaria bem. Não se lembraria de mim, nem da confusão que eu lhe causara e seria livre para estar com quem ele realmente deveria estar, não com um futuro manipulado por mim. Na verdade, talvez essa tivesse sido a razão para tudo isso acontecer. Sempre dizem que, no final, as coisas acabam como devem e, talvez, só não fosse pra gente ficar juntos.
Antes que meus pensamentos voassem para ainda mais longe, peguei as chaves do carro e tomei um susto quando abri a porta. Dereck estava com a cabeça encostada no batente, me fitando. Soltei uma exclamação e em seguida me recompus e pigarreei.
- O que você está fazendo aqui? Eu não tenho nada pra falar com você. - ia fechando a porta, mas ele colocou o pé no meio do caminho.
- Mas eu tenho. Olha, , eu nunca quis criar problemas pra você. Eu realmente não achei que isso fosse te magoar assim e eu só não queria parar de falar com você.
- Deveria ter pensado antes.
- Eu sei, ok? Por isso eu vim aqui te pedir desculpas. Mesmo que você não queira mais me ver depois.
Respirei fundo. A frase “Karma is only a bitch if you are” ecoou em minha cabeça. Se eu queria que me perdoasse, talvez o primeiro passo fosse perdoar Dereck. Ele estava tão bêbado quanto eu, provavelmente em outras condições nada teria acontecido. Respirei fundo e desfiz minha estratégia de defesa máxima.
- Tudo bem. Nós estávamos muito bêbados, por mais que não devesse ter acontecido. Eu vou precisar de um tempo pra mim agora, ok? Até porque eu estou de saída então, bem... - Ele me abriu seu melhor sorriso em agradecimento e me deu um beijo gentil na testa, girou em um dos pés e se dirigiu ao elevador de onde viera. Ele era um cara legal, apesar de tudo. Senti que Dereck não queria se afastar, não queria estar longe.
Voltei para pegar minha bolsa e mais um agasalho e desci para o estacionamento. Só quando saí da garagem do prédio é que notei a chuva que estava caindo. Chuva grosseira, de gotas grandes, parecidas com pedras de gelo. O vento uivava lá fora, competindo com as buzinas dos carros que sempre travam no trânsito por causa de chuva. Os livros não me saíam da cabeça, a curiosidade de saber como isso era possível fora de um filme de ficção me dava coceira, mas os carros mal se moviam. Meus dedos tamborilavam nervosamente no volante enquanto isso.
Depois de 40 minutos tentando achar uma rádio que só tocasse musicas legais (o que já era beeeem mais fácil que no Brasil, convenhamos), acabei chegando à minha livraria-destino, que bem me parecia um sebo. Os livros tinham cara de antigões, o lugar tinha o cheiro doce que as avós têm e as atendentes tinham carrancas de “mulher da biblioteca”. Pedi os dois livros a uma senhora que parecia não ser gentil há muito tempo, ela murmurou um amargo “hm, eu já venho. Vou ver se acho”. Fiquei em pé, olhando em volta, segurando um dos braços; típica pose de quem está desconfortável, em alguma casa estranha. Em dez minutos, um senhor diferente voltou pra me entregar os livros. Ele parecia ser mais simpático, mas também não falava muito. Me dirigi até o caixa.
- Sua conta fica 42 libras, senhorita.
- Hm, ok. - peguei o dinheiro na carteira e a joguei de volta na bolsa. Paguei e hesitei por um instante – Hm, o senhor por acaso teria algum contato com estes escritores?
- Deixe eu dar uma olhada nos nomes... - Ele olhou a contracapa dos dois livros – Leanne Leblanc talvez seja mais fácil de achar. Ela está enterrada em um cemitério famoso em Paris. Já esse aqui - ele apontou para o nome “August Brown” em dourado -, dizem que ele ficou meio louco. Pinta quadros num ateliê velho em Heathrow. Deixe seu número comigo, posso conseguir o endereço pra você.
Empolgada, anotei meu numero num post-it que foi colado no canto da telinha do caixa e me despedi com um sorriso. Voltei para casa e imediatamente me joguei no sofá para ler os livros, que não eram muito grandes. Deveria chegar ao final dos dois em uns três ou quatro dias. O livro de August me interessou mais. Muito provavelmente pelo fato de que ele ainda estava vivo e que eu poderia conseguir algumas respostas. Os dias foram passando e eu praticamente engoli o pequeno livro, chegando a reler algumas partes. Brown parecia descrever exatamente o que acontecera comigo, quase em documentário. Das duas uma: Ou ele vivera o mesmo que eu, ou ele conhecera alguém que passara por isso.
Ninguém seria capaz de descrever uma cena tão perfeitamente como a que eu, inexplicavelmente, vivi. Uma semana depois, quando comecei a ler o livro de Leanne - que parecia mais um conto de ficção – o velhinho da biblioteca retornou me deixando o endereço de August, que era do outro lado da cidade e, portanto, me faria esperar até o fim de semana. Na terça feira eu voltei ao trabalho, mas as crianças só voltariam na outra semana. Fui colocando em prática algumas coisas, começando aos pouquinhos, mas aparentemente bem. Me fez bem voltar ao trabalho. Eu não suportava mais ouvir aquele silêncio jogando a culpa em mim e me mostrando que não havia saída, não tinha como voltar atrás.
No sábado de manhã fiz uma mala bem básica, peguei a bolsa, uma garrafinha de água, o celular, algumas besteira pra comer num caminho, e saí cedinho de casa rumo à Heathrow. A estrada estava boa de manhã, demorei menos do que pensei pra chegar lá. Às onze e meia eu já tinha parado para tomar café estava hospedada num chalezinho vitoriano, até o dia seguinte de manhã. Tinha esfriado muito desde o dia anterior e eu provavelmente nunca estaria cem por cento preparada para o frio daquele lugar. A não ser Dover, eu amava o vento do litoral de Dover, por mais gelado que fosse. Decidi que iria depois do almoço atrás do tal August. Mas, depois do almoço, dá uma preguiça... Eu poderia esperar uma meia hora, não poderia? Me agasalhei e tirei um cochilo em frente à pequena lareira. Quando acordei, já passava das cinco da tarde. Me levantei depressa, calcei as botas, vesti o agasalho pesado e peguei as chaves do carro. Caía uma chuva colossal lá fora.
Dirigi igual a uma barata tonta, eu não conhecia Heathrow, tinha que ter saído mais cedo. E, então, como se fosse possível, a chuva só piorou. Já estava escuro e eu definitivamente não sabia chegar ao endereço que me passaram. Depois de passar três vezes pela mesma rua, lembrei que deveria pegar a direita e não à esquerda. Cheguei à tal ruazinha estreita.
Ainda do carro, vi, com dificuldade, por causa da tempestade que caía, um senhor que tentava achar as chaves certas para fechar um ateliê velho e mal iluminado. Seu guarda chuva, por maior que fosse, não estava adiantando nada. O velho tinha os cabelos brancos e desgrenhados na altura do ombro, era corcunda e um tanto alto, com cara de acabado.
Sem pensar sequer uma vez, desliguei o motor e saltei do carro. Em dez segundos fora do carro eu já estava encharcada, senti na pele que a temperatura deveria ter baixado para uns dois graus negativos, logo menos começaria a nevar. Corri até o senhor e fiz menção em ajudá-lo com as chaves, mas ele fez um resmungo e me olhou de cara feia.
- Desculpe, é que eu vi o senhor do meu carro – apontei – e quis ajudar. – Ele continuou sério, sem dizer nada, sem me encarar. – Por acaso o senhor seria August Brown? Porque, se for, senhor Brown, eu preciso muito falar com o senhor.
- O ateliê já fechou, volte outra hora.
- Eu vim do outro lado da cidade, tenho urgência. – insisti
- Meus quadros não são feitos com urgência, menina. – ele respondeu sendo rude.
- Não é sobre os seus quadros. É sobre seu livro. Eu preciso muito saber...
- Era mentira! – August berrou – Tudo mentira! O que você tem na cabeça? Como pode acreditar em mim? Não sou escritor, não posso provar bosta nenhuma que escrevi, se fosse, ou pudesse, estaria rico e não num ateliê mofado pintando o que o rum me causa. Criança estúpida, não acredite em tudo que lê por aí, você já é bem grandinha, não acha?
- Não ouse mentir para mim. Eu sei que é verdade, senhor Brown. – teimei, me irritando um pouco.
- Como poderia? – ele desdenhou.
- Porque... Eu passei por aquilo. O senhor escreveu exatamente o que aconteceu comigo. – ele me olhou duvidoso por alguns instantes. A chuva diminuíra pouquíssima coisa, estávamos encharcados, mas eu sabia que ele não pretendia me convidar para entrar. – O senhor não quer... A gente pode conversar no meu carro?
- Não aceito carona de estranhos. – ironizou.
- Ora, por favor... Eu realmente preciso da sua ajuda. – Ele olhou de mim para o carro uma duas vezes. Assim que o desafiei e destravei o alarme, ele bufou e correu ao banco carona. Uma vez lá dentro e com as portas fechadas, liguei o aquecedor. Ainda meio assustada com o jeito do homem, tentei continuar a conversa. – Eu... Eu desejei, num dia qualquer, quando voltava da faculdade, um tanto da boca pra fora, sabe? Estava ventando muito forte e, sei lá, foi exatamente como no seu livro. O vento, a fraqueza, os desmaios, tudo. Quando acordei, já estava aqui.
Ele manteve o olhar meio desconfiado sobre mim; como se em sua cabeça eu pudesse ser alguma psiquiatra enviada como um presente grego por algum amigo que acreditava que ele precisava de tratamento.
- O que foi que você desejou? – Brown fez algum esforço.
- Uma pessoa.
- Sempre desejamos uma pessoa. – tive a impressão de ver um sorriso bem fraco – Uma que não podemos ter.
- Como foi que aconteceu... Sabe, na sua vez?
- Pedi minha mulher. Mas ela descobriu e acreditou em mim e, bem, depois foi a vez dela de fazer um pedido.
- O que ela pediu?
- Ir embora. Morrer longe de mim. – meu estômago revirou de arrependimento por ter feito a pergunta.
- Oh deus, eu sinto muito. – fiz uma pausa – Sua mulher era Leanne?
- Não. Não conheci Leanne. Mas acredito que ela também passara realmente por isso. Ela era meio “escritora de contos”, mas sabia demais.
- Entendo. E você sabe por que isso acontece?
- É o vento. Soa estupidez, mas, em alguns meses, no primeiro dia do mês, você tem a oportunidade de fazer um pedido. É como se o céu nos desse estrelas cadentes mais baixas, mais perto de nós. Mas não dá pra saber quais os meses, ou quem vai receber a oportunidade. Às vezes simplesmente coincide. Coincidência é a desculpa que o destino dá para fazer as coisas se manterem no rumo que nos foi escrito, sabe, quando elas desandam ou saem dos eixos.
- E... Isso pode acontecer duas vezes para a mesma pessoa?
- Talvez. Eu nunca soube de nada assim. Nós somos a grande minoria, garota, não é fácil descobrir ou se ter muita informação pra esse tipo de coisa. – Ele curvou as sobrancelhas e me encarou – O que você está pretendendo fazer?
Como ele sabia que eu pretendia fazer alguma coisa? Ainda um pouco hesitante, respirei fundo e respondi.
- Voltar. Eu quero voltar, quero desfazer isso. Não deu certo, foi completamente estúpido e egoísta. Deu tudo errado.
- E você vai fugir? – ele me olhou indignado.
- Você não entende, é que...
- É claro que eu entendo! – August se exaltou – Entendo perfeitamente! Vocês, jovens imbecis, são todos iguais! Imaturos e impacientes, é isso que vocês são. Vocês preferem fugir a ficar e enfrentar as merdas que fizeram.
- Mas o que eu fiz... - tentei falar, mas o velho me cortara novamente.
- Não quero saber o que você fez! Mas não volte. Não agora. Aquele babaca ainda vai vir atrás de você, por pior que tenha sido o que você fez. Agora, se me dá licença, eu não vou ficar aqui e colaborar com a sua covardia, senhorita. – Disse, como se tivesse sido gravemente ofendido. E, assim, August Brown saiu do carro, bateu a porta com estrondo e saiu revoltado, chingando sozinho, enquanto andava desajeitado na chuva. Eu não tive reação alguma. Fiquei parada, tentando assimilar e me perguntando se aquilo seria verdade.

Capítulo Quinze –

Cheguei em casa, deixei a pequena mala no corredor de entrada mesmo e me joguei no sofá, exausta. Meu celular vibrou no bolso traseiro e começou a cantarolar “Hit the Road” alegremente. Ergui a cintura para pegá-lo e atendi.
- Alô?
- Ah, senhor, amém! – respirou fundo – Nossa, sua tratante, você sabe há quantos dias eu tento te ligar? Por que você não atende?
- Ai, amiga, eu precisava ficar um tempo sozinha. Você tá parecendo namorado falando desse jeito.
- Não, namorado a gente não atende mesmo. Melhor amiga é outra coisa! – ouvi resmungar um “Como é que é?” – Nada, amor. Mas, tá, e você? Como tá? O que tá fazendo agora?
- Eu to bem, to viva, voltei pro trabalho essa semana, não consigo ficar em casa; tenho me alimentado diretinho e ainda tem álcool na minha geladeira. – ri fraco – Agora, nesse exato momento, eu estou esparramada no sofá, morta de cansaço, acabei de chegar de “viagem”.
- Viagem? Pra onde você foi, sem me avisar nada?
- Heathrow.
- Fazer o quê em Heathrow, ?
- Descobrir como a gente veio parar aqui, como isso tudo aconteceu. – respondi, sentindo que não devia tê-lo feito.
- O quê? Pra quê, ? Esquece isso. Por favor. Você não tá numa semana legal, não age de cabeça quente.
- Amiga. – senti uma estranha ansiedade – Eu vou voltar. Quero dizer, se eu conseguir. Vou desfazer isso.
- , pelo amor de Deus, não faz isso. – ela começou a choramingar – Se você não consegue entender a besteira que você tá pretendendo fazer, pensa pelo menos em mim!
- Amor, nada vai acontecer com você. Você vai continuar aqui, com o , do jeito que isso deve ser. Você veio comigo porque desejou, não porque eu te trouxe. Só eu preciso voltar.
- E você vai me largar aqui?
- Amiga... – eu estava certa. Não devia ter aberto a boca.
- Eu nunca acreditei que você... Como pode? – e, com uma bufada magoada, desligou. Ótimo. e , quem seria o próximo?
Porém, amiga pra mim era covardia. , então, sem comentários. Nos conhecíamos desde a terceira série. Quando ela supostamente “namorava” o meu melhor amigo.
Passei as mãos pelos cabelos, nervosa, joguei um dos braços por cima do rosto e chorei covardemente, como no dia em que ouvi magoado pelo telefone. Parecia que tudo estava desabando. O que mais poderia dar errado? Eu ia magoar todas as pessoas à minha volta? Seria esse o preço que eu teria que pagar? E por que todas as coisas erradas acontecem sempre ao mesmo tempo?
Cansada da viagem e do choro que não cessava, acabei cochilando. Tive um sonho estranho, do qual eu não me lembro e me levantei mais tarde, com um pouco de dor de cabeça. Aquela situação estava conseguindo acabar comigo. Eu realmente não sabia o que fazer, como consertar tudo. Mas precisava achar uma solução logo, antes que tudo fugisse do meu controle e as pessoas me odiassem ainda mais.
Eu podia tentar começar do começo. Levantei, tomei um banho decente, com todos os meus devidos produtos e esponjas, para tentar relaxar um pouco. Saí, coloquei uma jeans, uma blusa de manga comprida e um cachecol. Saí apressada do apartamento, ainda fazendo um coque, decidida a achar o tal estúdio. Achei uma palheta perdida no balcão da cozinha e procurei pelo logo.
Em meia hora eu estava na recepção do prédio.
- Com licença, eu preciso falar com , creio que ele esteja gravando agora.
- A senhorita é?
- , - pensei por um instante e senti uma agitação desconfortável ao usar a palavra, como se roubasse algo – hm, namorada dele. É meio urgente, mas eu preferiria se ele não fosse avisado de que eu estou subindo.
- Preciso do seu RG e vou ligar só pra confirmar com alguém lá em cima, mas peço para não o avisarem.
- Tudo bem, - entreguei-lhe o RG e o cara me devolveu alguns instantes depois com um crachá aparentemente credenciado. Passei por uma roleta e me dirigi aos elevadores. Apertei o numero 13, conforme o homem tinha me dito, e me olhei no espelho. O elevador parecia subir incrivelmente devagar, meu estômago revirava e a cor parecia sumir do meu rosto. Cada vez mais eu sentia vontade de desistir, de ir embora, mas eu sabia que alguma hora teria que tentar. Eu já estava ali mesmo, era melhor que fosse agora. Além disso, o que mais poderia dar errado depois dessas últimas semanas?
As portas metálicas pesadas se abriram. Virei à esquerda no corredor, completamente deslocada. Pude ver, ao final do corredor, uma porta entreaberta onde tinha um pessoal em frente a muitos equipamentos de equalização, computadores enormes e uma parede de vidro na frente deles, os separando de uma cabine isolada. Devia ser ali. Quanto mais me aproximava, mais via a sala de gravação, que era exatamente do jeito que eu imaginava, porém maior. Antes de bater na porta, ainda bastante apreensiva, saiu suado, com uma garrafa de água na mão e fones enormes no pescoço.
- ! – Ele me abriu um sorriso contagiante e me abraçou, antes que eu pudesse me afastar, dei uma risada leve. – Que bom ver você! Eu queria mesmo falar contigo. – e ele puxou a porta atrás dele, fechando-a – Eu queria te pedir pra vocês pararem com isso, todo mundo ficou meio mal por vocês terem se afastado. Isso é tão estranho. A gente bem sabe o quanto vocês se gostam, não acho que isso valha realmente à pena. Às vezes, a melhor coisa que a gente faz é engolir o nosso orgulho.
- Nossa, eu estou ouvindo isso de ? O que a Dak fez com você, menino? – ele deu uma risada e bebeu um pouco mais da água – Brincadeira, . Na verdade é exatamente o que eu vim fazer. Não agüento mais isso. Tem me feito muito mal.
- Ele anda meio injuriado, mas, sabe, é você. Não custa tentar. – Ele me sorriu e parou no corredor – Eu nego se você disser que fui eu, mas comentaram que ele foi pegar uma pasta lá na sala 1306. – piscou alegre e deu meia volta para a sala de gravação.
De repente, um pouco mais empolgada, olhei a plaqueta dourada à minha frente.
“Salas 1305 à 1311”
Andando depressa, me adiantei para o outro lado do corredor e, sem notar as outras portas, ou nem pensar, abri a porta da sala 1306. Imediatamente desejei nunca ter feito, ter despencado com o elevador. Desejei nunca ter me perguntado se a situação poderia piorar. Ou nem mesmo ter tido coragem de ir até lá.
estava sentado na grande poltrona giratória de costas para mim. E em cima da mesa estava ela, sentada, com as enormes coxas torneadas cruzadas, um decote abaixo da discrição padrão, longos cabelos ruivos ondulados por baby-liss, um olhar de lince, um sorriso sedutor dançante, pronto para dar o bote fatal. Me veio à cabeça a horrível imagem de uma comparação entre nós duas e eu – obviamente - jamais teria chance de competir. Eles continuavam conversando entre alguns risinhos casuais, sem me notar parada à porta.
Até que, em um dos giros de meia-volta que fazia com a cadeira, ele pôde me ver e os dois se viraram para mim. Agilmente, ela fingiu se sentir envergonhada e incomodada na minha presença repentina. E, num pigarro desconfortável, ela saltou da mesa.
- A pasta está na terceira gaveta, Sr. . Vou deixá-los à sós agora. Com licença.
Olhei visivelmente cínica e irônica para ela, dando a entender que (se dependesse de mim) minha mão e seu perfeito rosto de porcelana logo menos teriam uma conversa no mínimo... Interessante.
Mas antes que ela se encaminhasse e eu pudesse ver suas cinturas quebrando em ondas vulgares enquanto andava, se pôs de pé e se adiantou até mim.
- Não precisa, Molly. - Nossos olhares amargos se cruzaram e a tensão cresceu. Qualquer mulher já estaria à beira de lágrimas, mas eu não. Eu não chorava. Eu ficava com raiva. Essa tal raiva de repente só crescia a cada novo passo que ele dava. Minha cabeça começou a gritar “Todos iguais. Esses imundos nojentos vão queimar no inferno com suas putas ruivas!”. Meus punhos tremiam, imaginando o momento em que o acertariam, até que ele, por fim, disse – não anda mais com a ralé. Ela está na sala errada. A chefia é no final do corredor. – finalizou e fechou a porta na minha cara.
Semicerrei os olhos, abri e fechei a boca várias vezes, hesitante. Eu poderia fazer um escândalo, mas não o faria. Fiquei apenas desejando arrombar a porta, voar naquela vadia e matá-la com um grampeador. Com milhares de golpes, uma morte dolorosa e lenta. E ele? Ah, se dependesse de mim, não teria um fio de cabelo sobrando para contar histórias. Eu iria torturá-lo naqueles aparelhos rústicos e cruéis do século XIX, fazê-lo engolir agulhas, tomar banho em óleo fervente, amarrá-lo de cabeça para baixo e acender uma fogueira em baixo. Mas antes que ele morresse eu iria... Eu iria... Eu iria perguntá-lo “Por quê?”.
Respirando fundo, cansada do meu próprio nervosismo, dos meus próprios devaneios, fiquei encarando a porta branca, imaginando se ainda haveria algum espaço entre eles. Por quê? Ri fraco, sem realmente achar graça. Eu não precisava perguntá-lo “Por quê?”. Eu sabia a resposta. Tanto que na verdade, eu era a resposta.
Depois de alguns segundos, aquele buraco negro se abrindo no chão (sensação que já estava se tornando costumeira últimamente) voltou a aparecer. Mas não como na noite em que ele partiu; dessa vez era muito pior. Porque pior do que vê-lo ir embora, era vê-lo não querendo voltar.
Passei a mão pelo rosto, limpando algumas últimas lágrimas insistentes que me sobraram e me dirigi ao elevador, estranhando a repentina volta dos movimentos, depois de minutos.
Mas, por um segundo, eu hesitei e pensei no que ele estava querendo dizer com aquela frase deslocada. Dei meia volta, andando depressa.
“Sala errada. A chefia é no final do corredor”.
Não precisei chegar ao fim do corredor para entender que não havia sido uma desculpa qualquer. Ainda meio longe, vi a última porta, Sala 1311. A mesma porta branca das outras sala, carregava uma placa dourada trabalhada, com ar de autoridade, onde se lia “Dereck Nichols”, e logo abaixo “Vice-Presidência”.
Não entendi bem minha reação. Eu acredito que já estava me tornando invulnerável. Na hora, tive uma estranha vontade de rir. Não era possível. Isso tudo não acontece a uma pessoa só. A Lei de Murphy já estava desafiando a gravidade do meu mundo. Passei a mão pelos cabelos, completamente chocada, não querendo aceitar. Mas muita coisa fazia sentido agora. Desde o diálogo de quando nos reencontramos.
“-Você não estava em Los Angeles? – perguntei.
- Ah, sim, mas vim passar um tempo em Londres. Precisava resolver umas coisas com o meu novo sócio. E você? O que faz aqui?”


Até a última frase de .
não anda mais com a ralé. Ela está na sala errada. A chefia é no final do corredor”.
Ele não só me viu com alguém, ele viu quem era esse alguém. E não pôde fazer nada pelo simples fato de que aquele cara podia mandar nele no mínimo 12 horas por dia e acabar ou não com sua carreira e a dos meninos. Talvez ele tenha tido vontade de ir lá e resolver quebrar alguns dos dentes branquíssimos de Dereck. Ou talvez ele tenha simplesmente se magoado com a cena, tenha ido embora e descoberto no dia seguinte, quando estivesse tentando se fazer acreditar que tinha sido um sonho ruim. Eu nunca iria saber. Eu nem sabia se ainda estava no meu corpo. Simplesmente não tinha reação. Nem lágrimas ou choros desesperados haviam mais; cheguei ao fundo do poço, mas ele já estava seco. Continuei parada naquele corredor, com um certo desespero interno de realmente não saber o que fazer a seguir. Mas então a porta se abriu e Dereck saiu surpreso de lá, curvando as sobrancelhas.
- ? O que você tá fazendo aqui? Tá tudo bem?
- Não, não tá. – admiti, tendo certeza que ele seria o único a me proteger e me ouvir naquele momento – Dereck, me tira daqui, por favor.
- Calma, vem cá. – ele veio até mim, me abraçou, tentando me acalmar e, depois, com a mão em minha cintura, me guiou até sua ampla e luxuosa sala. Sentei em uma das grandes poltronas. Ele fechou a porta, deu a volta em sua mesa e apertou um botão em seu telefone, que o atendeu quase imediatamente – Avise que não posso ser incomodado agora. Não estou para ninguém. Se tiver algum assunto para hoje, adie. Só amanhã, ok? E, por favor, mande subir um jarro de água gelada, copos e – ele me olhou – o que você vai querer?
- Whisky.
- Me mande também whisky e gelo. – ele soltou o botão no telefone – Agora, você se acalma e me conta o que tá acontecendo. Você acaba de me deixar preocupado.
- Tá tudo dando errado, Dereck. Tudo. – desabei – Aquele dia que nós saímos, eu fiquei com ainda mais raiva de você, porque o me viu com você. Ele tinha ido atrás de mim, eu poderia ter resolvido tudo naquela noite. E, sabe, só de imaginá-lo ali parado, imaginando um monte de coisas...
- Pera, , que ? O seu ex? – ele me olhou intrigado. Me lembrei, no mesmo instante, que Dereck sabia que eu tinha algo pendente, mal resolvido com meu ex. Mas ele não fazia idéia de quem era.
- Sim. Ele nos viu no restaurante. E só piora. – pensei por um instante se deveria contá-lo, por mais que ele fosse meu único refúgio naquele momento.
- Piora? Como assim?
- O tem uma banda. Trabalha num estúdio. Numa gravadora. Na qual você é vice-presidente.
- O-o quê? – ele ficou surpreso – El-ele trabalha aqui? O seu ... É o ?!
- Aham. – baixei o olhar, pensando que em breve não teria muita gente comentando “o seu ”. – E agora ele pensa que eu cansei dele, decidi investir em alguém com um cargo mais importante. Meu Deus, isso nunca passaria pela minha cabeça, Dereck. Você sabe disso. – ele assentiu com veemência, deixando claro que acreditava em mim. – E agora, além de tudo isso, eu briguei com a minha melhor amiga e acabei de vê-lo com uma vadia ruiva, em cima da mesa.
- Ah, a Molly. Ela tem sido polêmica por aqui.
- Polêmica como?
- Digamos que é um pouco difícil trabalhar com ela. – ele bufou, com aparente preocupação de chefe. Isso não me animou muito e ficou um tanto claro meu desânimo. Ele me abriu um leve sorriso – Se você quiser, eu posso dar uma suspensão neles, focá-la em outros andares, deixá-la ocupada, sabe, essas coisas.
- Não precisa. – sorri, agradecida pela tentativa de me animar. – Se eles quiserem se encontrar, não vou poder impedir. Mas obrigada.
- Hey, chega disso. Não quero te ver assim. Se alguma coisa não acontecer, quem mais vai perder com isso vai ser ele, tenha certeza. E eu vou estar aqui, sempre que você precisar, ok?
- Ok. – sorri, um pouco mais tranqüila.
- Agora, pegue suas coisas. Deixa esse whisky pra outro dia. Eu vou te levar em casa. – murmurei um “não precisa”, mas ele insistiu. – Eu vou separar uma papelada que eu tenho que deixar no sétimo andar, você não quer ir descendo? Eu te encontro em dez minutinhos.
- Pode ser. – Peguei a bolsa e saí da sala, indo em direção aos elevadores. Entrei na grande caixa metálica um pouco melhor do que antes. Às vezes você mal conhece alguém, mas te faz bem você saber que você pode confiar nela em tal momento, mesmo que esse momento seja uma vida inteira, ou apenas uma hora.
Apertei o botão que fez a porta se fechar e me rumar ao térreo. Parecia-me que a cada andar que descia, me acalmava um pouco mais. Associar meu medo de altura e o andar onde estavam todos os meus problemas juntos era um pouco claustrofóbico. No sétimo andar o elevador parou e quem eu menos queria ver na face da terra apareceu e entrou para me fazer companhia. Apertou o botão do terceiro andar. Ótimo, quatro andares. Ela pigarreou baixinho e tentou puxar assunto.
- Hm, eu sei que a cena de agora há pouco foi um tanto chata, mas o Sr. não anda muito bem com ninguém. Queria pedir desculpas em seu nome, porque, na verdade, eu nunca o vi tão chateado. Parece que foi algo com a ex-namorada dele. – hm, então ela não sabia que era eu? Isso podia ser interessante.
- Na verdade, eu ouvi dizer que eles nem chegaram a terminar. Só estão passando por um período meio chato. Sabe? Coisa de relacionamentos longos. – fiz uma cara de pena. – Uma hora acaba acontecendo.
- Ah, eu não sei. Ele andou muito mal. Tenho conversado muito com ele, porque ele não anda se abrindo com muita gente no momento. Então, eu só tento fazer de tudo para alegrá-lo um pouquinho.
- Eu tenho certeza que sim. – disse, um pouco mais baixo, olhando para a parede do meu lado. Ela disse um “oi?”, se fazendo de desentendida. Abri-lhe um sorriso – Nada, estou só pensando alto. De qualquer forma obrigada, hã... – olhei seu crachá, errando o nome de propósito – Holly. Eu acredito que você torce por eles dois tanto quanto nós.
- Claro. Sempre vou torcer pelo que for melhor para ele. – ela desdenhou.
- Eu sei. Se você fosse uma amiga mais próxima, saberia que ela é, sem dúvida, o melhor para ele. Mas, não se preocupe, tenho certeza que você terá tempo suficiente para conhecê-lo melhor nas reuniões do trabalho. – soltei uma risadinha aparentemente amigável e ergui uma das sobrancelhas, provocativa. Ela me sorriu ironicamente e se virou para o espelho do elevador, apertando um pouco os seios, jogando o cabelo para trás com uma das mãos e pegando o batom na pasta para um retoque rápido.
- Talvez até fora das reuniões, já que ele mesmo anda se declarando solteiro por aí. Sabe, ela teve a chance dela. E não aproveitou. Não posso deixá-lo desolado assim. Um cara tão atraente e atencioso, você sabe que não é todo dia que nós encontramos um desses.
- Nossa, nem me fale. Mas não acho que valha a pena investir agora. comentou que ele ainda chora por ela quando eles conversam. – menti – Não adianta estar perto de alguém com a cabeça longe. Já sofri muito por isso.
- Sério? Pois ele comentou até de algumas festas no final de semana comigo.
- Nossa, isso é realmente um recorde, admito. Mas, como amiga, não vale onde pisa se ele não estiver sériamente apaixonado. Sugiro um certo cuidado. Sem falar que ela, a ex dele, comentava muito comigo que ele é PÉSSIMO de cama.
- Verdade? – ela me olhou um pouco assustada. Consegui convencê-la ao menos disso.
– Ahaaaam. Desse tamanhico, menina – indiquei com os dedos o tamanho da minha chave de casa. A vadia arregalou os olhos. – Ela tinha uma coleção de vibradores pra conseguir prosseguir com o relacionamento, acredita?
- Enfim, nós estamos aqui imaginando uma coisa que ainda não aconteceu. Vamos dar tempo ao tempo, né? – Inevitavelmente, a voz da mulher rancorosa falou alto dentro de minha cabeça “Isso, querida. Dê tempo ao tempo ao tempo. Dê tempo ao relógio, aos carros, ao padeiro, a quem você quiser. Tempo daqui até a eternidade”, pensei. Mas só murmurei um “uhum” discreto e simpático. O sinal do terceiro andar apitou e eu a olhei.
- Vamos deixar isso entre nós, ok? Não seria um assunto legal para correr pelos corredores daqui, se é que você me entende.
- Claro. De qualquer forma, obrigada.
- Imagine. – sorri falsa e em seguida pisquei – Boa sorte.
E, dito isso, ela saiu, me deixando sorridentemente vitoriosa no elevador. Aquela dúvida implantada na cabeça dela me daria algum tempo até eu decidir o que fazer. Chegando ao térreo, sentei em um sofá, peguei o celular e entrei no Facebook, para fuçar as novidades, passar algum tempo, enquanto esperava Dereck. Cerca de dez minutos depois ele surgiu com o charmoso terno, fazendo uma reverencia cordial e me estendendo a mão.
- Será que essa adorável senhorita não poderia me fazer companhia nesta tarde maravilhosa?
- Talvez... – estendi-lhe a mão, sorrindo. Naquele dia, Theo não nos acompanhou, Dereck pegou as chaves do conversível e largou o motorista para trás, ao arrancar com o carro, me fazendo dar risada.
– Para onde vamos, Milady? – ele brincou.
- Não sei. Divirta-me, servo. – correspondi. Passamos por algumas ruas de Londres, só por passar, e ficamos jogando conversa fora enquanto dirigíamos sem rumo. Ele parou em uma cantina italiana algum tempo depois. Descemos e pegamos uma mesinha do lado de fora, voltada para a rua.
- Aqui tem o melhor sorbet de Londres. Eu nunca provei nada igual. – o garçom chegou, perguntando pelo nosso pedido – Eu vou querer esse “Summer” aqui. E você?
- Hmm... Vou arriscar esse de laranja com gengibre. – o rapaz fez que sim com a cabeça e se retirou. Ficamos ali, com aquele sol alaranjado, um vento frio, tomando sorbet que derretia na boca. Como as pessoas podiam culpar tanto Dereck? Ele me fazia tão bem, era um amigo que me divertia e me fazia esquecer os problemas. Qual o mal nisso?
Depois de alguns assuntos bobos e constantes risadas, ele me deixou em casa, já no finalzinho da tarde. Ao chegarmos ao meu prédio, ele desceu do carro, abriu a porta para mim e me acompanhou até o portão. Ficou parado me olhando, com um sorriso idiota.
- Você quer subir? – perguntei.
- Hoje não. Eu ainda tenho que voltar no escritório, vai ficar tarde. Vamos deixar pra próxima.
- Ok. – sorri – Obrigada por hoje.
- Não foi nada. – ele se aproximou um passo e colocou uma mecha atrás da minha orelha – Eu vou falar com o . Vou explicar que você não estava bem e eu quis te descontrair um pouco, pelos velhos tempos. E que não aconteceu nada entre a gente, ok?
- Você não precisa... – suspirei
- Preciso sim. Não vai ser ótimo para mim, eu confesso. Mas eu simplesmente não suporto te ver assim, . Me faz mal. – um arrepio percorreu meu corpo. Ótimo, o que eu ia dizer agora? Antes que eu pensasse em algo decente, ele segurou meu rosto e deu um beijo demorado em minha bochecha. – Eu preciso ir. Qualquer coisa, me liga, ok?
- Aham. – Assenti e fiquei o olhando entrar no carro e sumir na virada da esquina. Rico, lindo, loiro e carinhoso. Qualquer mulher mataria por um desses. Então por que ele não tinha grandes efeitos sobre mim? Por que eu não conseguia estar apaixonada por Dereck? E começar a descomplicar um pouco minha vida? Por que eu insistia tanto em amar , mesmo nessa situação extremamente difícil em que estávamos? , um músico desleixado que deixava toalhas molhadas em cima da cama, que tinha brincadeiras infantis e implicava comigo quando eu acordava mal-humorada nos domingos de manhã. e seu charme de adolescente bad-boy que nunca iria crescer. E até mesmo aquele que me odiava no momento. Para uma mulher comum, ele nunca competiria com Dereck, mas, ainda assim, era quem eu queria do meu lado. Hoje. Amanhã. E depois.
E talvez nada fosse mudar isso. Nem mesmo as cortesias à La Casanova de Dereck Nichols.

Capítulo Dezesseis –

Os dias foram se arrastando lentamente. A temperatura e a chuva em Londres pareciam cair cada vez mais. Eu via aqueles turistas curiosos fotografando a neve pelas ruas da cidade e me lembrava vagamente de quando eu era um deles. Eufóricos, felizes, maravilhados, esperando a hora de voltar para casa e contar sobre cada fotografia. Mas, ao mesmo tempo, com vontade de não ir embora nunca mais.
Meu foco constante tinha se tornado o trabalho. Eu era muito boa no que decidira fazer, mas precisava impressionar por ser nova na equipe. Às vezes me olhavam meio torto, esperando o momento em que eu fosse fazer ou dizer alguma besteira e eles pudessem me repreender. Lucy me chamara na sala dela no meio da semana e me disse que eu não voltaria a cuidar das crianças como antes. Eu era uma médica formada, não uma enfermeira. Eu poderia ficar na parte dos exames e diagnósticos, mas só. Isso não me alegrou muito, mas era um crescimento pessoal. Que, na verdade, era tudo que eu vinha tido nas últimas semanas. Crescimentos pessoais. Sem amigas para me ligar, chateado e a vontade de sumir do GPS da mamãe, tudo que eu tinha era o hospital, onde meu único objetivo era salvar a vida de outras pessoas, já que a minha estava uma bagunça. Eu me sentia mais ou menos assim: Quando você está na escola e conhece alguém de uma série anterior e vocês dois recebem uma lista de exercícios. A sua é complicada, demora demais para fazer e exige uma concentração e um esforço maior que você mesmo. A dele não. É fácil e você sabe como resolver. Então você acaba preferindo ajudá-lo e deixar a sua para um pouco mais tarde.
Assim como na maioria dos dias da minha nova rotina, eu tinha saído tarde do hospital e já não havia ninguém na rua. Peguei as chaves do carro e, antes de entrar, dei uma olhada ao redor só para ter certeza de que ninguém iria me seguir até em casa. Meio paranóico, eu sei, mas não custava nada se certificar. Àquela hora da noite, nunca se sabe. Ao chegar em casa, tranquei a porta, liguei o aquecedor e comecei a tirar os casacos e pendurá-los no cabide do corredor de entrada. Joguei a bolsa no sofá como de costume e fui até a geladeira ver se tinha algo decente para beliscar. Quando estava com a cara enfiada lá dentro, o interfone tocou e eu bati a cabeça “no teto” com o susto. Fechei a porta e fui xingando até tirá-lo do gancho e atender. Era Dereck.
Ah, esqueci de comentar que isso também tinha se tornado um pouco costumeiro. Dereck agora vivia preocupado se eu estava bem e às vezes passava lá em casa depois do trabalho. Naquele dia ele não parecia tão animado. Mandei-o subir e fui abrir a porta.
- Nossa, que cara é essa? – perguntei.
- Oi pra você também. – ele deu uma risadinha de leve, me deu um beijo na bochecha e entrou. Ele tinha nas mãos uma sacola, que deixou em cima da bancada da cozinha.
- O que é isso? – sentei num dos bancos e fucei a sacola. Tinha uma caixinha branca.
- Comida chinesa. Você já jantou? - ele parecia cansado.
- Ainda não. Tava vendo o que eu ia comer. Me conte, o que houve hoje que te deixou tão cansado? - girei no banco, me virando para ele. Dereck sentou no banco ao meu lado e me fitou. Não parecia ter boas notícias.
- Pedi para conversar com o hoje. - senti a agitação no estômago, ansiosa. - Tentei explicar tudo, limpar sua barra e dizer o quanto você sentia falta dele.
- Mas? - eu sabia que tinha um mas. Sempre tem.
- Mas ele não quis ouvir. Começou a explodir comigo na sala. Eu entendo o lado dele, mas ele nem me deixou terminar, . Eu não achei que ele fosse tão incompreensível e arrogante.
- É, nem eu. - Nós nem parecíamos falar da mesma pessoa. sendo arrogante? Ele podia se estressar às vezes, mas não era arrogante, definitivamente.
- Eu ainda disse que não o deixaria sair da sala sem esclarecermos as coisas, mas ele insistiu dizendo que para ele não fazia diferença. Que nós podíamos nos casar, fazer o que quiséssemos. Ele comentou que “está em outra agora”. - ele fez as aspas com os dedos. Meu olhar já estava distante. Não era, não podia ser a mesma pessoa. A imagem daquela conversa jamais entraria na minha cabeça. Dei de ombros desligada. Eu não tinha nada a dizer. - Eu sinto muito, . Não vou desistir de ajudar você nisso, mas eu preciso de um tempo depois da arrogância dele comigo esta tarde. Não tenho o sangue tão frio assim.
- Imagine, você tem sido ótimo, isso nem era dever seu. Eu não tenho o que dizer, você nunca deveria ter ouvido besteiras dele, Dereck. Peço desculpas. - disse, ainda distante.
- Você não tem que me pedir nada. - ele se levantou – Acho melhor ir embora. Nós vamos acordar cedo amanhã.
- Ok. Obrigado pela visita, pela comida, por tudo. – sorri fraco e o acompanhei até a porta, onde ele se virou para mim.
- Vê se come direitinho, o cheiro está ótimo. – fiz que sim com a cabeça, ainda com um sorriso bem fraco. Ele tocou meu queixo, levantando um pouco meu rosto – Não fique assim por quem também não estiver por você. Tem muita gente esperando pra ser notada, gente que faria qualquer coisa por você. Enquanto o anda se gabando por aí. – Não teve como sorrir, eu não estava bem, não adiantava mentir. Abaixei o olhar e, antes que eu pudesse perceber, Dereck se aproximou um passo e me beijou. Um selinho primeiro e um pouco mais profundo depois, mesmo que sem língua. Era bom, mas um tanto... Estranho. Eu realmente não estava esperando e nem estava acostumada com outros lábios. Não durou muito, no entanto; alguns segundos, outro selinho e ele me deixou lá, à porta.
Eu entrei, me sentei no sofá e fitei a tv desligada. Curvei as sobrancelhas. Eu estava dormindo. Nada mais fazia sentido, então a única resposta plausível era que nada disso era verdade. A qualquer momento eu poderia me mexer só mais um pouquinho e cair da cama. Então tudo voltaria ao normal. Seria só um daqueles sonhos que nos previne de uma série de erros que podemos fazer quando acordarmos. Tentei fechar os olhos e me balançar um pouco, talvez isso agilizasse o processo, pensei estupidamente.
Porque pensando de uma maneira lógica, em primeiro lugar: Dereck deveria estar em Los Angeles, super bem-sucedido, numa lancha enorme com quinze mulheres esculturais em sua cama de lençóis de seda. Em segundo: Eu nunca teria recusado um show com , por pior que a nossa situação estivesse; eu tinha certeza de que iria com ele pelo simples fato de ser divertido, mesmo que fôssemos como amigos. E em terceiro: eu tentaria até minha ultima chance provar que eu o amava, que eu jamais o magoaria, e que mesmo quando ele nem sabia que eu era uma das milhares de cabecinhas minúsculas que pulavam em seus shows, mesmo nessa época, o sorriso dele era a melhor coisa no meu mundo.
Mas agora estava tudo assim, tão distante de não só uma, mas de duas das minhas realidades, me deixando confusa sobre o que era verdade. O fim só me parecia cada vez mais definitivo e eu sabia que ainda não era tempo de conferir a resposta. Tudo que me restava era, infelizmente, esperar mais um pouco. Mas por quanto tempo, afinal?
Tempo esse para que descobrisse ser um galinha, traído e desacreditado no que tínhamos. Tempo para que ele se tornasse alguém rude e eu nem pudesse fazer nada para mudar? Tempo para que as minhas amigas se distanciassem e eu me aproximasse de Dereck, me fazendo acreditar que ele seria meu único refúgio mesmo quando era ele quem mais me distanciava das pessoas que eu amava?
Eu, no final das contas, me trairia pelo simples medo de ficar sozinha? Deixaria o tempo passar e levar o que eu tanto quis um dia? Eu teria mesmo a coragem de August para ficar e enfrentar todos os erros?
Todas aquelas perguntas me deram dor de cabeça e me fizeram perder o apetite. Eu andava em estado quase vegetativo. Mal comia, só me importava com o trabalho e tentava evitar todo mundo. Mas a minha distância e falta de insistência, ao contrário do que eu pensara, só piorou a situação. Uns cinco dias depois, Dereck me ligou comentando sobre a novidade da gravadora: e Molly estavam juntos. E que era melhor eu saber por ele, porque - segundo Dereck - não faria questão de me contar. Eu não acreditava plenamente no que Dereck me dizia, não era compatível com a personalidade daquele que viveu comigo, mesmo que por pouco tempo. Mas em um momento de raiva, nada mais importa. Só o que passa pela sua cabeça são besteiras. Assim que terminei de ouvir a notícia pelo telefone em pleno sábado de manhã, saí jogando as almofadas e travesseiros nas paredes, com grunhidos ininteligíveis e chutando as que já estavam no chão. Porra de karma!
Até o único que parecia valer a pena, não esperava nem duas semanas para cair na cama com outra. Eu sei, não faziam só duas que nós tínhamos “dado um tempo”. Mas há duas semanas atrás, ele ainda me queria e supostamente morria de amores por mim. Amor não se esvai em duas semanas. Então até que ponto ele tinha me dito a verdade?
- Quer saber? Eu estou pouco me fudendo pra quem cai na cama dele. Não tô nem aí pras vadiazinhas dele. Ele que se foda com aquela Holly! - “Molly, .” minha mente me corrigiu calmamente enquanto eu gritava com as paredes de cabelos desgrenhados – MOLLY O CACETE. AQUELA FALSETA DE ARAQUE, JURA QUE ME ENGANA! EU CHAMO DO JEITO QUE EU QUISER. ELA JÁ DEVE TER TIDO TANTOS NOMES QUE NEM VAI FAZER DIFERENÇA. VADIA.
Fui ao mercado e trouxe três garrafas de vodka para casa. Fiquei em ócio o fim de semana inteiro, bebendo e olhando para tv, sem condições nem para tomar um banho decente. Se eu continuasse nesse ritmo, logo teriam que me internar. Mas eu não conseguia resistir, parecia que aquela droga era a única capaz de me fazer esquecer tudo. E, acredite, eu precisava. Acho que nem quando cheguei à Londres desorientada com pouco dinheiro eu estive tão mal.
Ficar longe do convívio das pessoas evita que você sofra das mágoas que as outras pessoas lhe causariam. Mas as mágoas que você faz a si mesmo e esconde por dentro acabam sendo muito maiores, por mais que sejam menos visíveis.
Os dias se arrastaram de novo, minhas olheiras conseguiram ser tragicamente maiores que as da última vez. Quando eu ia dormir, ficava encarando o vazio que dormia ao meu lado já há tantos dias.
Por mais que as pessoas vissem claramente meu estado, eu me recusava a confirmar. Por orgulho? Não. Para, talvez, se eu insistisse tanto nisso, eu provasse a mim mesma que não valia a pena sofrer assim. Que o que tivemos foi ótimo, mas passou. Que as pessoas mudam e nem sempre para melhor. Que quem foi um dia o “meu ”, hoje era de outra pessoa. E agora, querendo ou não, eu tinha vidas que dependiam de mim. Vidas que podiam se perder em um segundo, caso a minha cabeça continuasse vagando assim. Eu não podia mais me dar ao luxo de fazer drama adolescente e morrer por um ex-namorado.
Eu não podia acabar com a vida de outras pessoas só porque a minha tinha estacionado por uns tempos.
Dereck se aproximava cada vez mais e, mesmo que eu tentasse evitá-lo, vê-lo se preocupando tanto comigo atrapalhava tudo. Era alguém que realmente se importava, que gostava tanto de mim e, mesmo assim, parecia tão errado estar com ele. Até que houve um dia, quando eu voltei do trabalho a pé.
Ainda tinha muita gente na rua, era um pouco mais cedo que o meu horário habitual de voltar para casa, mas Lucy tinha ficado um pouco impaciente com o fato de eu estar fazendo o meu trabalho e de mais uns dois funcionários novos e praticamente me empurrou para fora do hospital.
Eu andava devagar, há tempos que eu não olhava a cidade. Meus olhos brilhavam. Eu havia esquecido o quanto Londres é linda no inverno, com seu luxuoso manto branco envolvendo tudo, aquele manto que nós conhecemos como neve.
As luzes pareciam brilhar mais, o tempo parecia andar mais devagar, vinham melodias de todos os lugares e todo mundo parecia estar apaixonado. Era lindo.
Sentei em um dos bancos da cidade, numa rua onde era cheia de barzinhos, cafés e uma sorveteria (não me lembrei se era a que Dereck tinha me levado). Mal senti o frio do ferro nas coxas e nas costas por causa dos dois casacos e do sobretudo pesado. Na verdade, o frio mal me atingia; Eu estava de cachecol, luvas de couro e uma boina de lã que a avó de fez para mim. Eu não gostava de boinas, mas acertaram no modelo quando pensaram em me dar de presente, era a única coisa que eu ainda usava na cabeça de vez em quando. Porém, no rosto, pousavam alguns flocos de neve às vezes e pareciam pequenas agulhinhas me dando leves sustos e deixando minhas bochechas rosadas, mas, estranho ou não, eu gostava do efeito. Abri um sorriso sozinha.
Sozinha. Eu que estive por tanto tempo com medo de tal palavra, agora me sentia bem e confortável com ela. Todo mundo precisa de um tempo em algum momento da vida, ou a nossa cabeça vira um nó e você começa a afetar não só a si mesma, mas todo mundo à sua volta. Sem falar que não adianta ter medo de estar sozinha, não se pode depender de alguém sempre. Aprendi no meu meio-tempo isolada que nós temos que ser “auto-suficientes”, no sentido mais literal da expressão, e aprender a viver com o que temos.
Olhei em volta. Tantas pessoas andando sozinhas, ouvindo música, cantarolando (ou até dançando), tirando fotos e rindo para elas mesmas. Não poder ser feliz sozinho nunca significou que não possa haver um mundo de pessoas divertidas dentro de você. Um lugar para onde possamos fugir quando preciso. (Desde que você não se tranque lá dentro, claro).
Aquela pausa me fez bem; ver gente feliz andando despreocupada por aí (mesmo que o mundo delas estivesse desmoronando) me alegrou. Comecei a notar os sorrisos que enchiam aquele lugar em particular, quase como um convite “venha sorrir um pouco também”. Um velhinho conversando animadamente com seu Pointer Inglês, uma mãe correndo aos risos atrás do filho pequeno que disparara, um casal saindo de um dos cafés do outro lado da rua. Acompanhei-os com os olhos.
Eles saíram de mãos dadas do local, ele parecia sério e distante, parecia ter tido um dia ruim. Ela pareceu notar e deu-lhe um abraço, de súbito, fazendo-o abrir um sorriso. Meio fraco ainda, mas agradecido. Mesmo de longe, eu sabia que ela ao menos estava tentando (e senti uma ligeira pontinha de inveja. Sabe-se lá há quanto tempo ela já não estava tentando animá-lo, enquanto eu estava lá, parada naquele banco gelado, observando o mundo). Ele passou a mão em seu rosto e a beijou, de leve. E então ele se aproximou um pouco mais da luz. Pude ver seus olhos doces, um sorriso infantil e débil tentando aparecer, mas sua expressão era tão cansada. Por que um cara tão jovem parecia tão esgotado?
E, mais uma vez, antes que a minha resposta aparecesse, ela segurou seu rosto e o beijou - direito, dessa vez -, e ele pareceu melhor, dando uma risada quando ela o soltou. Pareciam felizes. Em meio às risadas, uma moto passou por eles e jogou a luz no cabelo da moça, me fazendo levar um choque interno quando notei o vermelho vivo nos cachos ondulados. Meu olhar correu para quem estava com ela e confirmei que o jovem cansado era . Não o meu . O da Molly.
Ou Holly, como eu preferia acreditar. Um pesadelo que se tornara realidade e agora vinha me atormentar mesmo quando eu me levantava da cama. Eu já sabia que provavelmente eles estariam juntos mesmo, mas ver era outra coisa. Enquanto circulam boatos, você pode se convencer de que é uma mentira. Mas quando você enxerga, participa da cena, não tem pra onde fugir. É a prova viva, a imagem que ia ficar se repetindo a cada vez que eu piscasse os olhos.
Já era ruim vê-la tentando, mas saber que ela podia ser uma pessoa legal, que apenas gostasse dele tanto quanto Dereck gostava de mim, me deixava sem um motivo para odiá-la. Mas pior era vê-lo sorrindo. Eu não fazia ideia de quando fora a última vez que eu sequer imaginei sorrindo. Como eu poderia me reaproximar e correr o risco de ficar tanto tempo sem vê-lo sorrir de novo? Deixá-lo mal de novo? Suspirei e vi a fumaça gelada e aspiralada saindo da minha boca, quase como fumaça de cigarro. Ele estava melhorando, tinha alguém tentando fazê-lo feliz e eu me recusava a afetar isso e estragar tudo outra vez. Não havia mais nada ao meu alcance, o próximo capítulo de sua vida podia ser melhor, bastava eu não fazer nada.
E, para me incentivar a deixá-lo ser feliz um pouco, me levantei do banco antes que eu mudasse de ideia e fui embora com as mãos nos bolsos, na direção oposta, sem olhar para trás.


Capítulo Dezessete –

O mês seguinte chegou, me trazendo algumas esperanças sem que eu ao menos soubesse por quê. Mas eu simplesmente sentia que tudo iria melhorar, que a minha tempestade estava passando. Talvez porque eu estivesse melhor, mais decidida e um pouco mais corajosa em relação a tudo.
E se não melhorasse, eu iria atrás de tornar tudo um pouco melhor. Eu era adulta, independente, lutaria pelo que eu queria e encararia os problemas de frente, aceitando minhas consequências. Não importava o que acontecesse.
Lucy fora, talvez, a primeira pessoa a notar meu ânimo melhorar de repente. Minha depressão indo embora e minha vida marchando para deixar o estacionamento. O primeiro passo era alguém com quase o mesmo sangue, alguém já da família, que eu não suportava mais a distância. .
Liguei várias vezes, mas ela recusava de cara. Deixei alguns recados para que ela respondesse ou me procurasse com urgência. No trabalho ou em casa.
Aquele dia estava tudo corrido no hospital. Eu e a equipe que Lucy comandava fomos chamados para a sala dela. Um lugar amplo, com uma mesa de vidro, parecida com uma sala de reuniões. Eu e as outras seis pessoas que faziam parte da equipe chegamos e nos acomodamos nas cadeiras, sabendo que teríamos um caso um pouco mais complicado e que provavelmente teríamos que agir juntos dessa vez. Ela se levantou da ponta da mesa, pegou sete relatórios dentro de um envelope e os entregou a cada um de nós. Ficou em pé, com uma das mãos na mesa e a outra na cintura.
- Eu sei bem que vocês preferem trabalhar individualmente e que são mais ágeis assim. Mas nem tudo é como a gente deseja, eu preciso de uma equipe fortalecida nesse momento e vocês são capacitados para o caso. John McKoy tem algo que ainda não conseguimos determinar o que é. – ela notou os olhares confusos e completou – Além do câncer, que tem sido bem controlado com a Quimio.
Li o relatório rapidamente e dei uma olhada nos exames anexados. Um frio correu pela espinha quando percebi que alguns deles haviam sido feitos por mim. John McKoy era uma das crianças, aquele que poderia rever “Procurando Nemo” mil vezes e nunca se cansar.
- Quero todos os tipos de exames sendo feitos naquela criança. – ela continuou – Descubram o que ela tem e qualquer sinal de suspeita sobre alguma coisa, falem diretamente comigo. Ah, e trabalhem juntos. Boa sorte, estão dispensados.
Saí andando desnorteada da sala, peguei o elevador e desci para o terceiro andar depressa. Fiquei parada, olhando para dentro da salinha pelo vidro do aquário na parede e observei as crianças (que tinham voltado no dia anterior) brincando e rindo lá dentro. Estar nesse caso me apegaria ainda mais a John, mesmo que com receio por sua doença misteriosa. Eu tinha que descobrir o que ele tinha e achar alguma solução.
- Meu Deus, uma criança de seis anos. Isso é tão injusto. – pensei alto, com a mão no vidro, enquanto encontrava John com os olhos. Sentado na cama, com o cobertor até a cintura, rindo abertamente das outras crianças brincando e desejando estar com elas. Mas sua palidez e algumas tosses mostravam que ele não conseguiria sequer descer da cama. Me senti tonta e completamente destruída, ele ainda tinha tanto para viver. Me passou pela cabeça dramaticamente que eu poderia ceder a minha a ele, não haveriam muitas pessoas dando falta, mas logo espantei o pensamento.
- O que ele tem? - Fui pega de surpresa por uma mulher perguntando, inexpressiva, parada ao meu lado, também fitando aquário adentro.
- Ainda não sei. Sabemos. – corrigi depressa. Ela pigarreou.
- Todos os exames já foram feitos?
- Não, a bateria começa amanhã. – respondi
- Quantos anos ele tem?
- Seis. Acredita? Uma criança de seis anos. Isso deveria ser biologicamente proibido. A quantidade de vida que ainda tem nele, isso simplesmente me... Agoniza. - fez-se silêncio por algum tempo.
Aquilo tudo era tão desconfortável. Ela abaixou um pouco a voz.
- Como você se sente, sabe, lidando com tudo isso?
- Eu? Às vezes eu penso que eu já nem sinto mais nada. Mas tem vezes que parece que eu tenho a Síndrome do Membro Fantasma, sabe? Quando retiram a sua perna, mas você continua sentindo ela lá, coçando, doendo, ou encostando no chão frio.
- Entendo. Por causa do . – ela abaixou a cabeça.
- Não, , sua idiota! Por sua causa! - ela me fitou surpresa – Óbvio que eu sinto falta dele. Muita. Mas o que eu tô passando agora é muito pior. O cara que eu amo me derrubou no chão. Recorri ao alcóol, mas ele também me derrubou no chão. Só que dessa vez eu não tive nenhuma amiga pra me levantar, pra superar isso comigo, pra se sentir mal junto comigo. E isso é... Horrível. – admiti, já começando a chorar – Não tive ninguém pra ver filme de madrugada, pra dormir comigo no meio da semana, pra me dar flores, bronca ou sequer um tapa na cara.
- Ai, amiga, me desculpa! - ela caiu no choro, se jogando no meu pescoço e me abraçando com força – Desculpa, desculpa, desculpa. Eu também odiei tanto ficar sem falar com você. Eu fui uma idiota, uma menina mimada. Como eu pude deixar você sozinha?
Ficamos lá abraçadas, chorando e murmurando coisas que já não davam pra entender. Era como voltar a falar com uma irmã, literalmente. Era como voltar pra casa. Sentir que a minha queda tinha parado e que um braço tinha me segurado antes que eu pudesse atingir o chão. Era saber que, se eu morresse hoje, alguém choraria, além dos meus pais. Era reconfortante. Nos soltamos e nos olhamos com aquelas caras vermelhas, encharcadas e demos risada uma da outra, suspirando.
- Vamos, você vai almoçar comigo hoje. – ela me puxou pelo braço aproveitando o horário como desculpa. Paramos em um restaurante e fomos pras mesas do terraço que ela tanto adorava. Vi sua cara fazer um muxoxo e ela voltar a tocar no assunto – A Dak e a Abby queriam te ligar, saber como você estava. Mas eu mudava de assunto, nunca deixava. Uma porque não queria que elas realmente morressem caso você decidisse... Sabe, partir. Outra por ciúme. Você é minha. Não queria ninguém sabendo como você estava mais do que eu. Tive medo de você trocar de melhor amiga. – ela limpou mais algumas lágrimas com o dedo médio, discretamente. Admitiu, por fim, com voz chorosa – Foi tão infantil. Até o ficou emburrado comigo por alguns dias. Peguei ele tentando te ligar uma vez, à noite, depois que eu me deitei. Os meninos pediram pra ele tentar. Todo mundo ficou morrendo de saudades de você.
Meus olhos encheram d'água de novo. Era tão bom ouvir aquilo.
- Não faz mal. Só nós sabemos o quanto podemos ser geniosas quando estamos com raiva. – rimos fraco – E eu também precisava desse tempo. Mas o que interessa é que você está aqui agora. E isso já é um alívio enorme. Tudo vai dar certo daqui pra frente, eu sei disso.
- Vai sim. Você não está sozinha nisso, nunca esteve. Nós vamos consertar tudo e aí... Você não vai precisar ir embora, né? - ela fez vozinha de criança. Sorri.
- Eu não vou a lugar nenhum. Meu lugar é aqui.
- Aqui, exatamente, não. - ela ergueu uma sobrancelha e mudou seu tom, para um tom de bronca – No lugar onde você permitiu que outra mulher ocupasse.
- Eu não tenho que permitir nada. A vida é dele, amor. E ele tá feliz, é isso que importa, não?
- Não! Nem me venha com essas. – ela abriu um sorrisinho cínico – Na verdade, eu ia até comentar com você umas coisas que eu ouvi por aí...
- O quê? - estranhei.
- É que hoje o pessoal vai lá em casa comer uma pizza e jogar poker. E parece que a Molly foi ficar uns dias numa filial na França. Ela viajou ontem. E o está indo sozinho. – ela piscou e eu dei uma risadinha.
- Não inventa, . Eu não posso aparecer assim. Todo mundo deve estar meio bravo comigo, eu não vou me sentir bem, amiga.
- Lógico que pode. Todo mundo quer você de volta. E a casa é minha, eu chamo quem eu quiser. – ela fez birra – Não faça uma desfeita dessas.
- Eu iria por você e pelos outros, mas ele vai ficar desconfortável com isso. Principalmente indo sozinho.
- Meu Deus, você tá ouvindo a besteira que você está falando? - se irritou – Ele está indo sozinho, assim, Forever Alone, precisando de consolo e você não quer ir?
- E de que adianta ele estar sozinho só hoje? No final da semana ele volta pra ela e eu fico aqui morrendo de novo. – fiz uma breve pausa e acrescentei, desanimada – Sem falar que eu acho que mesmo que ele estivesse solteiro, não iria querer me ver do mesmo jeito.
Minha amiga colocou a mão sobre a minha, em solidariedade. Não gosto nada de ser a “pobre coitada”, mas eu sabia que seria bem assim, estranho para nós dois, caso eu fosse.
- Eu não acho isso. Acho até que ele está com ela pra suprir a carência, pra tentar esquecer você, mas ele sabe que a Molly nunca vai ser você. - sorri agradecida, mas não acrediatando tanto assim – Até porque ele andou comentando com o que tinha vontade de conversar com você, que as coisas não ficaram exatamente claras e bem-resolvidas.
- Ou seja, ele quer deixar isso mais definitivo ainda. – concluí.
- Ou não, sua babaquinha. A gente não faz questão de conversar com quem nós odiamos não acha? Se ele ainda faz questão disso, é porque se importa. Mesmo que não admita.
Pensei por uns tempos e acabei sem resposta pro último argumento dela. Senti um frio na barriga, mas eu nunca iria saber o que podia acontecer se eu não fosse, assim como no dia do show. E repetir o mesmo erro mais de uma vez é estupidez, na minha opinião.
- Ok, já que você decidiu virar uma advogada nerd cheia de argumentos, eu vou ceder dessa vez. Que horas hoje?
- Às dez. – ela sorriu abertamente, completamente empolgada.
- Ok, agora eu preciso mesmo ir. – olhei a hora no celular – Eu já estou mais do que atrasada. - Dei um beijo em seu rosto e saí correndo de volta pro hospital enquanto ela reforçava já de longe “Às dez!”. Entrei no hospital correndo, esbaforida e dando risada com as piadinhas de algumas pessoas sobre “até que enfim, ela se atrasou”, “cuidado com a chuva de porcos de hoje” e outras do tipo. Ao me ver atrasada, descabelada e rindo, Lucy comentou “É, a está de volta.” Notei que ela não se referia ao meu horário de almoço e pensei, por um segundo, que era incrível como a mais remota chance de falar com ele de novo, me alegrava. Principalmente agora, com a do meu lado.
Fiz questão de aproveitar o bom humor e me energizar para agilizar o que eu pudesse sobre o caso McKoy. Agendei eu mesma três dos exames necessários já para o dia seguinte e fui pessoalmente colocar a sessão “Nemo” do dia.
No final do dia, voltei para casa um pouco cansada, pensando se eu deveria mesmo ir. Mas me enfiei debaixo do chuveiro e comecei a me trocar antes que eu desistisse. Passei meia hora decidindo o que iria vestir, mas depois me apressei pensando que eu me sentiria melhor caso chegasse antes. Ninguém ficaria abismado me olhando quando eu entrasse e ainda teria uma desculpa para ir embora mais cedo caso algo desse errado. Sem contar a vantagem de não ter que ir falar com as pessoas e sim elas virem até você. Dá uma preguiça ir andando que nem um pinguim e dar beijinho em todo mundo.
Peguei o carro, chequei a maquiagem e o cabelo mais uma vez e arranquei com o carro. Velocidade me dava uma certa confiança. Cheguei em menos de vinte minutos. Ainda eram nove e meia e, se eu desse sorte, só estaria o casal em casa. desceu e veio me buscar no portão animada.
- Jurava que você não ia vir, já tava treinando a bronca que eu ia te dar amanhã. - Demos risada e pegamos o elevador. Fui pega por um momento de reflexão rápida – Que foi? Tá bem? Você fez uma cara agora.
- Eu fui a primeira a chegar? - perguntei apreensiva.
- Foi sim, por quê?
- É que acabou de me ocorrer que eu posso estar atrapalhando um “Before Party”. - riu.
- Idiota, lógico que não. – ela fez uma pausa com cara de menina boazinha, mas aguardei algo um pouco promíscuo vazar. E assim veio – Até porque “After Party” são bem melhores. No final da festa já começa aquela de uma mão aqui, outra ali. E o fogo vai subindo e a gente fica esperando todo mundo ir logo embora, aí quando a porta se fecha, ai ai... - Tá, eu já entendi. – dei risada
- E a melhor parte é que eles não podem ser interrompidos por toques de campainha. - Nós rimos e saímos do elevador, já entrando no apartamento deles. estava jogado no sofá, com uma longneck de cerveja na mão, vendo futebol.
- Quem está jogando? - perguntei descontraída. Eu me sentia tão em casa naquele lugar, apesar das novas mudancinhas que deixavam o ambiente com mais cara de casal.
- O Manchester versus o Liverpool. Dois a zero pro Manchester.
- Aí sim, hein? - comentei, não conseguindo evitar meu lado futeboleira. parou de repente e se virou abismado, parecendo só notar de quem era a voz naquele momento, me fazendo rir pela lerdeza.
- Ah, não acredito nisso. – ele levantou depressa e me abriu os braços e um sorriso. Me abraçou forte e ficou sorrindo de mim para – Até que enfim vocês tomaram juízo. Nossa, ela tava tão estranha, , tão chata, eu não aguentava mais. Não dá pra aguentar essa mulher sozinho não, eu preciso de ajuda. Você não pode sair tirando folga assim não. - brincou e recebeu um tapa no braço. - Ai! Brincadeira, amor. Mas, enfim, entra. A casa é mais sua que minha. Vem ver o jogo comigo enquanto o pessoal não chega. – Me acomodei no sofá, enquanto ia para a cozinha, tirar não-sei-o-quê do forno. - Amor, traz mais duas cervejas, por favor? - berrou da sala. Em alguns minutos, ela estava de volta, com duas garrafinha nas mãos e nos olhou cética.
- Nossa, tô me sentindo a Dona Flor e seus dois maridos nessa cena, trazendo cerveja pros meus machos futeboleiros. – Mostrei a língua pra ela e nós rimos. Mais uns quinze minutos, o interfone tocou e eu me senti ficando mais fria. “Não desmaie, não desmaie, sua idiota” pensei. Discretamente peguei as duas garrafas com a desculpa de levá-las até a cozinha e pesquei minha amiga comentando “Ah, ok. Pode pedir pra subirem”.
- Você precisa de ajuda em alguma coisa?
- É só o e a Abby, não precisa se enfurnar na cozinha, ok? - ela me olhou com aquela cara de “eu conheço você”.
- Não é nada disso, só vim trazer as garrafas, podia aproveitar pra te ajudar, só isso. – levantei os braços, como se estivesse desarmada. Não admiti que a informação me reconfortou um pouco.
- Não precisa, amor, já tá tudo pronto. Pode ir pra lá. A hora que eu precisar levar para a mesa, eu te chamo.
- Ok. – voltei e me sentei no sofá, a tempo de ver e Abby entrarem de mãos dadas no apartamento. Como eu estava sentada de costas, esperei eles cumprimentarem e primeiro, depois me virei e vi Abby boquiaberta com a surpresa; Reparei que ela estava super bem vestida, com os cabelos impecáveis e mesmo se fosse fotografada no segundo em que me viu, ainda assim, sairia bem. Vi sorrindo, também surpreso, mas Abby correu primeiro para me abraçar berrando um “AAAAAAWWWWNNN”.
- Ai, que saudade que eu tava de você! - Abby parecia que não ia me largar nunca, me balançando de um lado pro outro e eu não tive como não rir – O que te deu, pra sumir assim? Agora você vai ter que dormir uns três dias lá em casa pra gente pôr as fofocas em dia!
- Nem pensar! Eu vi primeiro! Ela vai ficar um tempo comigo! - entrou na discussão de brincadeira.
- Então vamos todo mundo dormir na minha casa ué. – sugeri
- Não precisa, eu vou matar você aqui mesmo. – Dakota chegou já fazendo estardalhaço e a sala começou a se encher de vozes: As dos meninos se cumprimentando e esperando para falar comigo e as nossas, matando as saudades. Dak continuou – Pode deixar que, se sujar, depois eu mando seu tapete pra lavar, tá, ? Agora você, pode vir aqui, que eu vou te socar. – Ela me apontou o dedo – Quem permitiu que você sumisse assim? Sua vadia, eu não ligo tanto nem pra minha mãe, pra saber se ela ta viva, coitada. E você ainda se dá ao luxo de não atender? É pedir pra morrer, né, Dona ? - nós rimos e ela me deu um tapa forte, seguido de um abraço apertado, não conseguindo conter o sorriso. Ainda em meio às fofocas, risadas e cumprimentos que não queriam acabar nunca, a sala barulhenta com comentários de como eu iria ser punida e xingamentos sobre um gol do Liverpool, chegou.
- Nossa, eu não sabia que isso ia ser bom assim. – ele comentou, sorrindo. Então se fez um silêncio meio repentino, as meninas que me cercavam recuaram um ou dois passos e nós nos olhamos. Nos olhamos nos olhos, pela primeira vez em tempos. E, apesar do clássico vestido preto curtinho deslumbrante, eu me senti tão mal vestida, tão mal arrumada, tão exposta e não-preparada para aquele momento. O silêncio continuou por quase vinte anos na minha cabeça, apesar de terem se passado apenas segundos. Comecei a suar frio, esperando ardentemente por alguma reação. Que ele se virasse e fosse embora, viesse gritar comigo, ou que apenas me ignorasse, mas torci mais pelo último, confesso.
E, surpreendendo não só a mim, mas a todos naquele apartamento, ele me abriu um meio-sorriso. Um sorriso fraco, sem a sombra da tristeza que ele parecia vir carregando; um sorriso fraco, porém sincero; não tão efusivo, não tão claro, não com tantos dentes à mostra como o do Gato de Cheshire. Senti a corda que apertava meu órgãos por dentro há meses se dissipar e aquele simples sorriso educado me tranquilizar como as palavras de Dereck ou de nunca conseguiram. Sem pensar duas vezes, correspondi com outro sorriso educado e um breve aceno de cabeça.
Então a cena pareceu sair da “Pausa” e quando eu me virei para falar com as meninas e ele se dirigiu aos meninos, todo mundo riu aliviado e voltou aos seus determinados assuntos. Logo depois, veio falar comigo e me abraçou, comentando que tinha sentido minha falta, pra eu nunca mais fazer isso. veio logo atrás dele, me abraçou, mordeu minha bochecha e reclamou sobre eu ter perdido um churrasco na casa dele. Olhei de relance e não vi , devia ter ido ao banheiro ou atender o celular. Dak, Abby, e eu sentamos no sofá e elas puxaram um assunto sobre trabalho.
- Só interrompendo rapidinho... – disse – , você pode tirar as tortinhas do forno? Àquela hora ainda não estavam prontas.
- Posso sim, pode deixar que eu vou lá.
- Coloca elas na geladeira, por favor?
- Ok. – me levantei, já completamente solta, me sentindo como se estivesse andando de pantufas na casa da minha melhor amiga. Ou quase isso.
Ouvi o som começar a tocar e entrei na cozinha sorridente e cantarolando. Dei de cara com encostado na pia, falando ao celular. Desligado, meio sério, os cabelos bagunçados e a camisa social com as mangas dobradas de sempre. Perdi alguns segundos o observando, mas pisquei e virei o rosto, corada, quando ele me notou.
- Desculpa, eu não sabia que você estava... - sussurrei, fiz um telefone com as mãos e coloquei ao lado do rosto.
- Não tem problema, pode ficar. – ele sussurrou de volta e retornou à ligação – Ok, pode marcar pra amanhã às duas, eu vou ver isso com ele pessoalmente. Eu preciso desligar agora, Ben. Nos falamos amanhã. – e desligou o telefone.
Me virei sem-graça, procurando as luvas de forno.
- Eu não quis atrapalhar, não sabia que você estava aqui. Vim só retirar as tortinhas do forno. - admiti e senti ele me fitando às costas.
- Era do trabalho, você acabou me salvando. – ele sorriu, deu dois passos e me entregou as luvas, deixando claro que ele estava bem mais calmo que eu. Sorri-lhe em resposta aos dois. Fui até o forno, desliguei-o e puxei a portinha. Dei uns dois passos pra trás, fugindo do bafo quente, mas ao mesmo tempo atraída pelo cheiro do recheio de frutas vermelhas. Puxei a bandeja e coloquei em cima da pia. Tirei as luvas e fechei a portinha com um dos pés. Abri a geladeira e abri algum espaço na primeira prateleira. Peguei duas tortinhas e as coloquei lá dentro.
- Você não vai me ajudar? - brinquei, me fingindo de indignada, mesmo que ainda apreensiva.
- Eu não, você é melhor nisso. – ele piscou e sorriu. Fiz uma cara irônica e entreguei-lhe mais duas tortinhas.
- Vamos, coloca lá pra mim, por favor. - E ficamos assim, eu entregando as tortinhas e ele colocando na geladeira até acabar. Não consegui evitar pensar que eu nunca imaginaria essa cena naquela noite. Pus a bandeja dentro da pia e nos dirigimos à sala, as na porta ele se virou e impediu a passagem com um dos braços, com uma cara desconfortável.
- , eu não... Eu...
O fitei aflita, em tom de pergunta.
- Eu fui muito rude com você... Aquele dia... Eu não... – ele parecia não conseguir terminar a frase, meu estômago começou a revirar e ele respirou fundo, tentando organizar a cabeça. Mas eu optei por acabar com seu sofrimento.
- Será que nós podemos não falar disso hoje? - sorri singelamente, abaixei a cabeça, fitando minhas próprias mãos. Ele respirou fundo mais uma vez.
- Se nós pudermos falar disso outro dia... - ele sugeriu – Porque isso tem me incomodado e eu não quero deixar isso assim. Nós temos os mesmos amigos e não precisa ficar um clima chato, sabe?
- Eu entendo. Mas vamos marcar pra outro dia, ok? Eu acredito que hoje a gente mereça uma noite mais descontraída, não?
- É, você tem razão. – ele sorriu e retirou o braço do caminho – Vamos voltar antes que achem que a gente se matou por aqui.
Retornamos à sala e encontramos todos se reunindo ao redor da mesa – que já estava com a habitual toalha verde do jogo –, ocupando seus lugares enquanto tirava o baralho e as fichas da caixinha. Ele nos olhou.
- Vocês jogam nessa rodada ou na próxima? - perguntou
- Nessa mesmo. – respondi por nós dois
- É, em comemoração a não terem sentido nossa falta. – ele disse baixinho em tom de brincadeira, para que só eu ouvisse e foi se sentar entre e . distribuiu as cartas e o jogo começou.
Alguns sorrisos para as próprias cartas eram só uma das táticas de blefe. O jogo era lento, estratégico e eu diria que até meio sedutor com todos aqueles olhares. Cada partida acabava demorando por volta de uns quarenta minutos, mas entre amigos, cervejas e petiscos, o tempo sempre passa rápido.
Mas, sinceramente, pouco me importava o tempo naquele momento. Era hora de novas apostas, de blefar e acreditar que eu venceria no final. Acreditar que eu estava de volta ao jogo e que daria a última cartada em um Royal Flush préviamente estratetizado, pregando uma peça em quem vinha me fazendo de boba há algum tempo: o próprio tempo.


Capítulo Dezoito –


- Não acredito nisso! Juro que eu nem reparei a hora que vocês dois sumiram. Achei que só tinha você na cozinha. – comentou boquiaberta enquanto chegávamos ao meu prédio.
- Pois é, eu nem consegui acreditar que ele ao menos falou comigo. – admiti, em seguida parando na portaria – Oi, chegou alguma coisa pra mim?
- O Sr. Nichols passou aqui ontem e deixou um envelope pra senhora. Ele ficou esperando algum tempo, mas acabou indo embora.
- Ok, obrigada. – sorri em agradecimento e peguei o envelope, me dirigindo com ao elevador.
- Esse Nichols não para de tentar, né? - minha amiga perguntou com desdém, deixando clara sua antipatia por Dereck.
- Ele é só um amigo, eu já disse. - falei distraída, abrindo o envelope. Dentro havia um convite luxuoso branco e dourado com um post-it anexado onde ele havia escrito caprichosamente “Eu ficaria honrado”. Abri e li sobre um grande evento interno da gravadora.
- Ei, eu recebi um desses, não acredito que o ... - tomou o envelope de minhas mãos e eu decidi contar de uma vez.
- Não foi o que me mandou isso, foi o Dereck. Ele é o novo sócio da gravadora. Descobri muito tempo depois de ter voltado a falar com ele. E sim, eu vou com o Dereck, antes que você pergunte. O com certeza vai com a nova namoradinha dele e isso não faz dele nenhum santo, então, por favor, pare de tomar as dores do , porque pelo menos não sou eu que estou com outra pessoa. - dei um sorrisinho e saí do elevador, deixando-a de queixo caído lá dentro com o convite em mãos enquanto eu abria a porta de casa.
- Pera, pera, pera. Isso... Isso é mesmo sério? - ela ficou tentando assimilar e se juntou a mim, dentro do apartamento.
- Aham. – respondi simplesmente
- Eu não posso acreditar que você vai mesmo com ele. – se jogou bufando no sofá. - Eu não suporto esse cara, ele é um completo idiota e você não enxerga isso. Tô querendo dar um soco nele. - ela fez birra. Mas eu me recusava a ter Dereck como desculpa para mais uma discussão com a minha melhor amiga, então apenas fiz descaso.
- Ele é um cara legal. Você só não quer conhecê-lo direito porque acredita realmente que eu vá colocá-lo no lugar do . – dei de ombros, me juntei a ela no sofá, tirei o tênis e apoiei os pés em cima da mesinha de centro. - Embora ele esteja merecendo, admita.
- Não, eu não vou concordar com você e dizer que o merece que você ponha um babaca no lugar dele! - ela se indignou
- Nossa, você parece a minha mãe, ficam sempre defendendo os meus homens, mas nunca me defendem! – fingi estar indignada e dei uma risadinha de leve, levando tudo aquilo na brincadeira – Acho que não vou apresentar mais ninguém pra vocês duas.
- Ele é metido, te afasta do e de todo mundo e acha que porque ele é rico você tem que ser dele e somente dele. Além disso, o nariz dele é meio assim... – ela continuou falando, revoltada.
- Esse cara babaca que você tanto odeia, tentou falar com o , pra me ajudar a voltar falar com ele. Mas o zinho bonzinho da titia – brinquei – nem quis ouvir e foi super rude. - Senti uma ponta de culpa por saber que nem eu mesma acreditava naquela história do “ arrogante”.
- Claro! Ele por acaso vai ser amigo do cara que tá roubando a garota dele, ?
- Ele não tá roubando ninguém, mas que coisa.
- Ele é um idiota.
- Ok. – respondi.
- Tô revoltada. – ela fez bico.
- Quer sorvete?
- Quero.

As meninas acabaram indo dormir lá em casa aquele dia, ficamos conversando e nos atualizando sobre tudo. E para o pesadelo de , Abby e Dak concordaram comigo. estava com alguém, então porque eu não poderia estar também? Só ele tinha direito de fazer ciúmes? E, no final das contas, o que mais convencia as três era que eu estaria lá com elas no dia da festa. Ainda faltava algum tempo, mas já não se comentava sobre outra coisa. Vestidos, imprensa e afins.
continuava fazendo birra e fechava a cara caso alguém comentasse de Dereck perto dela. Mas estava animada para que eu fosse. Suspeitei de que ela estivesse planejando alguma coisa, alguma emboscada para nós dois no próprio evento.
Faltando apenas uma semana para o acontecimento, todo mundo já sabia que iria com Molly e eu com Dereck. Senti os meninos fechando a cara para mim à medida que a data se aproximava, mas não liguei, imaginando que também tivessem fechado a cara para ele. E, falando em , depois da noite do pôquer na casa da , tinha o visto apenas um dia, quando foi buscar Abby lá em casa e ele estava de carona com o . Nos cumprimentamos educadamente, mas inevitavelmente ainda distantes. Distantes até demais, na minha opinião, mas já era melhor que nada.
Na noite do evento, me dei um dia no salão com direito a tudo e saí de lá deslumbrante. Chegando em casa foi só colocar um vestido azul-marinho (que considerei uma das melhores compras do ano) e um salto divinamente alto. Ao terminar, Theo já estava lá embaixo, me aguardando. Desci e encontrei Dereck encostado na Mercedes preta. Despreocupado, me esperando. Num terno preto luxuosíssimo e com a barba por fazer. Senti um frio na barriga e o coração acelerar um pouco; Eu o tinha enxergado como homem pela primeira vez, não só como um velho amigo de colegial. Vi sua expressão ficar de súbito radiante ao me ver e aquilo só me deixou um pouco mais nervosa. Ele se adiantou sorridente, colocou a mão em meu rosto e tentou me beijar, mas eu virei o rosto sutilmente, um pouco corada, sentindo que por um triz eu não havia cedido.
Theo nos guiou até um grande salão, onde a festa estava acontecendo. Para a minha sorte, Dereck era menos simpático com os fotógrafos do que e nós entramos sem parar e forçar sorrisos para as câmeras. O lugar me lembrava uma enorme galeria de arte: amplo, dois andares no estilo loft e muito bem iluminado, com uma decoração luxuosa, porém simples. Ao mesmo tempo, com muitas saletas, que tornavam o lugar enorme.
Assim que chegamos, acompanhei Dereck pelo lugar, cumprimentando todas aquelas pessoas estranhas e riquíssimas, sentindo a falsa amizade exalar de muitas delas, mas principalmente dos grandes empresários, já mais velhos que ele, que sentiam em Dereck uma ameaça.
Paramos em uma rodinha para conversar com vários senhores, aparentemente os respeitados anfitriões e consegui reparar (pela conversa) que o senhor barbudo era o sócio de Dereck. Ele abrira um largo sorriso quando nos viu.
- Ora, lá vem meu garoto prodígio! - ele exclamou, cumprimentou Dereck e em seguida beijou minha mão – E, provavelmente, sua adorável noiva.
- Ainda não. – ele brincou fazendo todos rirem, exceto eu, que me senti um pouco desconfortável e acabei forçando uma risadinha – Ela é difícil, mas eu chego lá um dia. – ele me olhou, dando a entender que não era tão de brincadeira assim.
- Minha jovem, eu lhe garanto que vale à pena. É difícil encontrar alguém assim hoje em dia. Lhe dou minha palavra, senhorita...?
- . – respondi educadamente
- Senhorita . – ele repetiu e continuou a conversa – Você tem cara de quem nasceu em Liverpool.
- Obrigada, eu acho. – ri fraco – Ficaria honrada em nascer no mesmo lugar que o Lennon, mas, na verdade, eu sou brasileira.
- Brasileira? - ele pareceu se impressionar e se voltou para Dereck – Não a deixe fugir, ou eu bato em você.
- Não vou deixar. – ele assegurou, com uma confiança excessiva que chegou a me irritar levemente. Daí para a frente a conversa se tornou tediosa e eu pesquei um ou dois drinques dos garçons que passavam para suportar os assuntos sobre filiais, sócios, investidores, capital, novos talentos “perfeitamente-promissores” e novos equipamentos japoneses. Tais assuntos faziam com que eu me sentisse ignorante e fútil. Já estava me dando vontade de ir embora – mesmo estando lá há somente quarenta minutos – quando encontrei .
- Senhores, vou pedir licença a vocês. – fiz um aceno de cabeça e me retirei, indo falar com minha amiga e sentindo o olhar de Dereck me seguir confuso até que eu a encontrasse. A abracei e logo as meninas chegaram – Nossa, me salvem, não suporto mais assuntos de negócios.
- Quem manda? Você que não sabe escolher um cara descomplicado. – Dak brincou e eu mostrei-lhe a língua.
- Onde estão os meninos? – perguntei
- Tinham que falar com não-sei-quem ali atrás. Disseram que o cara é dos bons e tem propostas muito mais interessantes para eles. - respondeu.
Assenti e ficamos conversando por alguns tempos até que vi e as outras fazerem uma careta para algo às minhas costas. Perguntei o que era, mas antes que eu me virasse, Abby explicou.
- Não olha agora, mas a Molly está vindo pra cá. Ela pensa que somos amigas; mantenha a classe, empine o nariz e aja naturalmente. Não se mostre intimidada – Elas três assentiram e eu abri um sorriso cínico de “pode deixar”. Arrumei discretamente o decote, arrumei o cabelo e fiz uma cara de superior.
- Querida, estava procurando você! – ela disse efusivamente para Abby, que apenas sorriu falsamente. Ela cumprimentou as outras e tomou um leve susto quando me viu. Sorri abertamente, me divertindo com aquilo. - O-oi – ela gaguejou ao me cumprimentar. Notei, atrás dela, e Dakota querendo dar risada.
- Oi, tudo bem? - respondi, aparentemente simpática.
- Tudo, e você? - ela tentou parecer natural
- Vou muito bem. E o , como vai? - perguntei descaradamente
- Ele vai bem. – ela ergueu uma sobrancelha – Estava comigo pouco tempo atrás. Digo, aqui no salão. – Molly fez questão de deixar claro que ele estava acompanhado. Aquilo normalmente me deixaria pra baixo, mas quando sinto raiva, costumo ser cínica e parecer o mais tranquila possível. E ela, em particular, merecia uma boa dose da minha ironia, principalmente porque parecia irritá-la e isso só me incentivava a ser ainda mais “amigável”.
- Fique de olho, aquele ali escapa rápido. Qualquer vadia e ele já está correndo atrás, né? – provoquei ainda mais sorridente, sentindo a raiva fluindo dentro dela.
- Ah, mas só escapa rápido quando a mulher não é boa o suficiente pra segurar. – ela piscou
- Então você deve durar só mais alguns dias, querida.. - sorri ironicamente
- Ok. Veremos. – ela saiu andando, visivelmente irritada.
- Essa boneca inflável jura que vai pra algum lugar com esse silicone todo, né? - brinquei, dando risada e sendo acompanhada pelas meninas.
- Ai, amiga, você é ótima com raiva. – Dak disse e nós rimos.
Ficamos fazendo planos de jogar agulhas nos peitos e na bunda dela para ver se estouravam como bexiga de festa, até que os meninos chegaram. abraçou por trás, abraçou Abby também e fez o mesmo com Dak. Me senti desconfortável, mas quando chegou com a mão na cintura de Molly e ela ficou me olhando com desdém, eu me senti completamente nua em meio a tantas pessoas.
- Você está sozinha? - Molly fez cara de pena – Precisamos arranjar alguém para você, querida. Os meninos conhecem uns caras maravilhosos. – ela piscou e vi se remexer desconfortavelmente e colocar as mãos nos bolsos. Tentei pensar nele, mas vê-la tentando pisar em mim, fez a raiva subir à cabeça.
- Na verdade, não, não estou sozinha. Estou com os meus melhores amigos e com aquele cara ali, está vendo? Acho que ele é seu chefe, se me lembro bem. – acabei sendo arrogante sem sentir nenhum remorso. Sai desfilando sem nem olhar para mais ninguém e me juntei a Dereck, abraçando-o e lhe dando um selinho. Nunca me provoque, eu acabo mostrando que eu consigo ser pior.
Sabia que ela tinha ficado com cara de bunda e que todo mundo a olharia torto por ter praticamente me expulsado de lá, mas que também sentiriam raiva da minha ignorância e que teria ficado chocado com a cena.
Mas minha súbita raiva fora tamanha que nem nisso eu consegui pensar. Se ele poderia dormir com a ruiva kama-sutra então era meu direito mínimo beijar um homem tão indispensável quanto Dereck. Tentei ficar algum tempo longe do grupo (principalmente de , que conseguira me deixar realmente irritada) e me forcei a me manter com os amigos velhos e tediosos de Dereck por algum tempo. Como olhar caras velhos e barbudos não era muito atrativo, acabei reparando mais tempo em Dereck. Em como ele era claro e coerente quando falava, como suas ideias eram claras e - na minha opinião - as únicas realmente “perfeitamente promissoras” naquela conversa, como seu rosto parecia ser desenhado, embora com curvas menos suaves que o rosto de e como o sorriso dele começara a me causar alguns leves arrepios. Somei isso ao fato de estar cansada de correr atrás de quem parecia querer voltar, mas que desfilava por aí com uma ruiva da Playboy. Odiei admitir para mim mesma a possibilidade de estar nascendo uma dúvida em minha cabeça e decidi ir ao terraço para tomar um ar e um drinque sozinha. Me sentei em um banco, olhando pro céu e tentando clarear as ideias.
Eu não podia desistir agora que tudo estava caminhando (e nem queria isso), mas tinha alguém do lado dele, mesmo que ainda gostasse de mim, enquanto a minha vida estava completamente estacionada por sua causa. E isso me irritava.
Intervendo aos meus pensamentos, uma voz perguntou:
- Posso me sentar?
- A sua namorada não vai se irritar por você estar aqui? - não sorri quando falei e ele se manteve quieto por alguns segundos.
- Ela não é... Nada. Digo, nada minha. - disse ao se sentar – Isso tudo me deixou muito mal e ela, bom, acabou sendo uma fuga. Tente entender, mesmo se eu quisesse muito, nós não sabemos para onde estamos indo. - ele soou razoável e eu entendia, mas não confirmei, continuei calada. Ele suspirou – Não pense que eu não me importo com você.
- Eu não penso isso. Mas você tem uma maneira muito estranha de demonstrar. - olhei para o lado oposto, evitando encará-lo.
- Nós mal nos conhecemos, . Todo aquele tempo foi tão... Mal aproveitado, eu diria. Você é tão difícil pra se ler... - ele fitou o chão – Isso leva tempo e eu só estou tentando ser paciente dessa vez. Nós não podemos cometer um mesmo erro três vezes. - ele se sentou de lado no banco, me fitando – Olha pra mim. – não me virei para ele, mas insistiu – , olha pra mim.
Me virei respirando fundo e o olhei, mesmo que evitando os olhos.
- Vamos com calma, ok? - sua voz parecia implorar – Vamos caminhando assim, como amigos, por enquanto, sem planejar nada, não esperar nada do futuro dessa vez. O que tiver que ser, vai ser, confie em mim. Eu garanto que você vai ficar bem, seja comigo ou com outra pessoa. - Minha garganta fechou e eu previ as lágrimas vindo à tona, mas tentei refreá-las.
“Não! Eu não quero outra pessoa, será que você não entende?!” pensei.
- Tudo bem. Vamos com calma. Como amigos. – respondi, virando o rosto quando senti os olhos encherem de lágrimas. Ele suspirou e se sentou virado para frente novamente. Talvez para fingir que não me vira chorando. Talvez para não me deixar vê-lo abatido.
- Se você quiser, se não estiver com raiva de mim, eu vou estar livre na quarta. Pensei que nós podíamos... Sabe, ainda devemos algo para Joanna. Talvez ela fique feliz. – ele sorriu inocentemente e eu não tive como não rir fraco. Limpei algumas lágrimas e lhe sorri.
- Quarta-feira está ótimo por mim.
- Ótimo. Eu te ligo. Vou lá pra dentro um pouco agora, ok?
- Ok. – respondi como se estivesse realmente tudo bem. Ele levantou e beijou minha bochecha, deixando o local dormente. Eu fechei os olhos e senti seus lábios delicados no meu rosto, o perfume que ninguém além dele tinha e o hálito de canela me rondeando só por ele ter sorrido. Senti o mundo em câmera lenta e quis que nunca acabasse. Mas eu sabia que ele era politicamente correto, infelizmente, e que não voltaria para me agarrar de uma vez e acabar com aquele pesadelo.
Alguns minutos depois, Dereck veio e se sentou do meu lado, alienado, sem saber do que acabara de acontecer. Sorridente, sempre animado só por estar ao meu lado. Olhou para o céu.
- Que noite, não? - eu sentia uma certa inveja dele. Tão despreocupado, tão confiante e tão persistente. Como se nada no mundo pudesse abalá-lo. Dereck era meu porto-seguro quando me deixava parada, ao vento, esperando que ele voltasse.
- É, cheio de estrelas. – não tinham tantas assim, mas eu comentei distraída, tentando aparentar estar tão despreocupada quanto ele. Seu olhar desceu dos céus e se virou pra mim, ficou lá, sorrindo, me olhando, seu braço apoiado atrás das minhas costas, sentado de lado, exatamente como estivera há apenas alguns minutos. Foi inevitável compará-los. Eram ambos muito bonitos, ambos carinhosos, ambos atenciosos, ambos trabalhavam com música...
- Eu podia passar minha vida inteira olhando para você, sabia? - ele comentou – Esperando por você. Porque se eu fosse embora agora, tudo perderia o sentido, . Eu passaria as 24 horas do dia pensando se você estava bem, se ouvira minhas mensagens, quando eu iria te ver de novo. - Dereck fez uma breve pausa e ficou sério de repente – Eu acho que eu nunca senti isso por ninguém. Nenhuma mulher fez meu mundo ficar assim.
Ambos me amavam. Mas só um deles estava presente o tempo inteiro, completamente livre, implorando para ser notado.
Arrepios me rodearam mais uma vez, notei seus olhos claros como as águas do mar, tão doce, tão paciente. Segurei seu rosto com as mãos e só me dei conta do que estava fazendo quando senti sua respiração próxima demais e o beijei.
O beijei com intensidade, acreditando que podia valer muito à pena, apaguei tudo e todos da cabeça àquele momento e me deixei levar por sua língua. Senti uma certa satisfação ao sentir o corpo de Dereck relaxar um pouco ao meu lado, quase como um alívio, por conseguir o que ele tanto buscara.


Levantei da cama já era meio dia, cabelo bagunçado, delineador do dia seguinte e uma blusa GG do Smiths que eu usava para dormir. Fui até o espelho e, apesar de tudo, me achei bonita. Me achei leve e despreocupada de novo, com vontade de dançar pelada na janela e parar de me perguntar o que podia acontecer no segundo seguinte, no dia seguinte, no ano seguinte, ou no resto da minha vida. Eu não queria mais perguntas, não queria respostas, só queria o agora, um passo de cada vez.
Voltar a falar com foi muito bom. Ver que e eu podíamos sair, dar risadas juntos, como qualquer pessoa normal, foi muito bom. Ficar com Dereck na festa foi muito bom. Mas só isso. Ponto. Sem expectativas, sem reflexões sobre os assuntos. Me bastaria o que fosse acontecendo daqui pra frente.
Fiz um suco de laranja bem forte com gelo e bebi, para acordar. Fui até a sala, sentei no sofá e quase instantaneamente me deu vontade de comprar um animal de estimação.
- Ok, Animal Planet, o primeiro bicho que aparecer, vai ser minha companhia. – falei sozinha, pegando o controle. Assim que mudei de canal, o enorme pescoço de uma girafa apareceu na tela. Olhei pro teto e fiz uma careta – É, acho que não. Ok, segunda tentativa.
Desliguei a TV por alguns segundos e liguei de novo. Antes que eu prestasse atenção qual programa era, meus olhos brilharam e eu decidi que era exatamente o que eu queria. Um coelho branco, de olhos vermelhos.
Fui até o quarto, coloquei uma meia calça xadrez preta, um shorts e um all star branco, mantive a blusa, peguei a bolsa e saí de casa. Dirigi perguntando às pessoas onde tinha um petshop. Cheguei ao balcão e um cara bonitinho, moreno de cachinhos, veio me atender sorridente.
- Oi, posso ajudar?
- Oi, eu vim comprar um animal de estimação.
- Um gato, eu aposto.
- Eu tenho cara de quem vai levar um gato? - dei risada, não entendendo muito bem. Donos de gatos tem um estereótipo certo?
- Na minha opinião, sim.
- Ah, é? E por quê? - perguntei, ainda sorrindo
- Você tem cara de ser complexa. Gente complexa gosta de gatos. – ele piscou. Pensei vagamente que eu poderia levar ele para casa.
- Hm, bom palpite. Mas hoje eu quero um coelho. Você tem?
- Tenho, mas só te vendo se você prometer que não vai colocar nenhum nome tipo Pernalongas ou Perninha. - Demos risada. Levantei a mão direita.
- Ok, eu prometo que vou pensar em algo bem criativo. - ele deu a volta na bancada onde estávamos conversando e pediu que eu o acompanhasse. No fundo da loja, depois dos cachorros, gatos e hamsters, estavam os coelhos. Havia nove filhotes, parecendo pequenas bolinhas de algodão. Brancos, brancos com manchas pretas, brancos com manchas marrons, marrons, mas nenhum dos olhos vermelhos. Me desanimei, mas fiquei olhando para ver se algum me interessava.
- Posso te dar uma dica? - murmurei um “uhum”. Ele pegou um pacotinho de rações para coelhos – Deixe que um deles escolha você. – e dito isso, colocou um punhado de ração na minha mão. O olhei, olhei para a gaiola de vidro e coloquei a mão lá dentro. Todos eles correram assustados e eu fiz um muxoxo.
- Acho que nenhum me escolheu
- Espera. – ele comentou quando eu fiz menção de tirar a mão. Aos poucos, as grandes orelhas e olhinhos brilhantes voltaram a aparecer, mas nenhum se aproximou. Tentei ficar o mais imóvel possível e nem assim. Quase um minuto depois, um deles deu dois pulinhos tímido e comeu a ração na palma da minha mão. Eu abri um sorriso enorme junto com o menino bonito dos cachinhos, que comentou – Viu? Esse é o seu.
Levei aquele para casa, mesmo sem ter escolhido o nome. Comprei gaiola, potinhos de água e comida, ração e uma plaquinha escrita “_________'s Home”, mas essa ainda teria que esperar uns dias para receber uma gravação.
- Ok, obrigado e volte sempre. – disse o menino bonito – Ah, e aqui tem um cartão com o numero da loja e o meu, caso você precise de alguma coisa. Quero dizer, caso ele precise, sabe... - ele corou e eu dei uma risadinha.
- Ok, não se preocupe. - disse e saí. Parei em um lugar para almoçar, mas acabei comendo depressa, com medo de deixá-lo muito tempo sozinho no carro e voltei para casa. Assim que entrei, vi a luz da caixa de mensagens piscando e apertei o botão.
“Você tem uma nova mensagem:
Oi ,. É o . Eu queria saber se eu posso ir aí na quarta mesmo. Se você já falou com a mãe da Joanna. Hm, me liga ok?...”

Senti a pausa no ar, pairando com a dúvida de mandar ou não um beijo. Tirei o telefone do gancho e disquei o número dele. Apoiei o aparelho entre o ombro e o rosto enquanto eu levava a caixa com o meu novo mascote até o quarto de hóspedes. Deixei tudo em cima da cama e fiquei olhando o bichinho tímido olhar o ambiente ao redor, enquanto atendia.
- Oi, sou eu. Tudo bem?
- Oi, tudo e você?
- Tô bem. Então, eu tinha falado com a mãe dela ontem e parece que está tudo ok. Na quarta-feira ela vem comigo depois do hospital. Se você quiser aparecer e participar da nossa noite de garotas... - brinquei.
- Ah, eu vou adorar – ele ironizou – Mas, sim. Eu vou aparecer ok? Vou ver se consigo uma surpresa pra vocês.
- Hm, uma surpresa? Você não pode me falar o que é? Estou cansando de surpresas.
- Não. Você vai ter que esperar. - Ouvi gente entrando na sala – Eu preciso ir. Te ligo depois.
- Ok. - desliguei e larguei o telefone em cima da cama. Soava tão engraçado a amizade que parecíamos estar construindo. - E agora, você... – olhei para a bolinha de algodão e a peguei no colo – Bem vindo à sua nova casa. Você vai ficar aqui, neste quarto. E olha que só gente especial dorme aqui. Então cuide bem do lugar e nada de toalhas molhadas em cima da cama. – ri de leve e depois senti falta das toalhas que tanto me perturbavam. Afastei o pensamento e comecei a arrumar o lugar onde ele ficaria, no chão ao lado da cama.
Depois de tudo pronto, ainda com ele no colo, deitei na cama do quarto de hóspedes e o deixei andando entre a minha barriga e o meu colo. Dei risada pelas cócegas que suas pequenas patinhas me faziam ao andar e notei que seu focinho rosado nunca parava de se mexer. Mesmo sem os olhinhos vermelhos (os dele eram iguais pérolas negras), a pequena companhia já estava me conquistando.
- Ei, mocinho, precisamos achar um nome pra você. Até quando você vai ser o coelho-sem-nome? - ele me fitou e continuou mexendo o focinho – É, parece que eu vou ter que perguntar pra outra pessoa.
Alguns segundos depois, interrompendo nosso processo de conhecimento, a campainha tocou. Eu não fazia ideia de quem podia ser e, sinceramente, não estava afim de levantar da cama para descobrir. Mas o barulhinho continuou e me forçou a levantar. Deixei o bichinho na gaiola e fui atender a porta.
- Tava dormindo? - Dereck perguntou
- Na verdade, não. – ele me deu um selinho, entrou e eu fechei a porta. Assim que me virei, Dereck me surpreendeu com outro beijo. Me prensando contra a porta e com as mãos firmes na minha cintura, me fazendo ter certeza que eu não queria que ele parasse agora. Aprofundei o beijo, tendo a sensação de que nós dois podíamos perder o ar a qualquer momento. Porém, minhas mãos sempre tão impacientes, se firmaram em seu pescoço e não desgrudaram por sequer um segundo.
Ele foi me guiando até o sofá, onde caiu deitado por cima de mim, mantendo os nossos lábios colados. Nosso ritmo permaneceu o mesmo, me fazendo esquecer de como tinha começado. Mas, de súbito, eu interrompi, sem nem saber direito o porquê.
- Tá tudo bem? - ele me olhou confuso
- Tá sim. – respirei fundo e o fitei – Vamos devagar, ok?
- Ok. Desculpa, eu perdi minha cabeça agora. – ele levantou, se sentando. Dei-lhe um selinho e ele me olhou com uma expressão boba – Não aguentava mais aquela sala, precisava te ver. - dei um sorriso bobo, sem saber o que responder.
- Eu preciso te apresentar uma pessoa. – levantei do sofá e o puxei pela mão, levando-o até o quarto de hóspedes. Sentei no chão e coloquei o bichinho no colo – Esse é o meu novo macho.
- Ah, que fofo. – ele brincou e se sentou ao meu lado – E qual é o nome do cara que vai dividir o apartamento com a minha garota? - me senti desconfortável com a expressão “minha garota”, principalmente pelo fato de que Dereck estava no quarto de hóspedes. Fiz uma força para responder, meio sem graça.
- Ele ainda não tem nome. Estava tentando pensar em um.
- Você podia colocar algo tipo “Pernalongas”, parece com ele.
E esse é o momento onde o mundo para e só eu continuo olhando toda aquela cena, falando sozinha dentro da minha cabeça. Tudo ficou cinza e imóvel de repente. Me desfiz do sorriso forçado, irritada. Aquele não era um nome criativo, como ele poderia pensar que eu daria um nome desses ao pobre do bicho? E a questão não era nem o coelho. Me irritei por vê-lo ali: num lugar onde não era dele, com uma garota que não era dele. Me perguntei onde eu estive enquanto todo o resto se desenrolou. Talvez, numa possibilidade bem remota, aquilo fizesse sentido pro meu novo mascote. Talvez aquela situação de casalzinho com um novo bichinho até parecesse com ele. Mas, definitivamente, não parecia comigo.


Capítulo Dezenove –

- Sim, eu tenho a autorização da mãe dela. Nós conversamos muito e, bem, por causa da proximidade dela com o , pensamos que poderia ser bom para ela. – comentei, tentando acompanhar Lucy Hanson, que andava apressada pelo corredor.
- Eu não sei. Concordo que não é bom que ela fique trancada no hospital e sei que ela estará em mãos competentes estando com você, mas terei que ligar para a mãe.
- Ela está lá embaixo, veio trazer uma mochila com as coisas dela. – comentei, tentando agilizar o processo. Lucy parou de repente e se virou para mim, suspirando.
- Você é mesmo muito teimosa. – ela comentou irritadiça e eu sorri – Ok, vamos logo com isso. - e pegamos o elevador. Depois de tudo acertado com a mãe da menina, as coisas no meu carro, todos os telefones possíveis trocados, milhares de avisos de mãe e aquele olhar preocupado, estávamos prontas para nos despedir.
- É só uma noite. Ela estará bem. Prometo que ligo imediatamente se ela fizer ao menos menção de espirrar. – tentei acalmá-la.
- Confie nela, mamãe. Eu confio, por que você não? - Joanna a olhou intrigada.
- E-eu confio, meu bem. É só preocupação. – a mãe fez cara de culpada, mas decidiu se acalmar – Escove os dentes direitinho, não faça bagunça e qualquer coisa me ligue, ok?
- Ok. Boa noite, eu te amo. – e beijou o rosto da mulher. Entramos no carro e chegamos em pouco tempo ao meu prédio. tinha pedido as chaves para ir um pouco mais cedo preparar a tal surpresa para nós duas, eu estava curiosíssima para saber o que ele estava aprontando, mas não queria comentar que ele já estava lá, preparando algo.
Subi o elevador, tamborilando os dedos e a menina soltou uma risadinha.
- Você está impaciente. – ela comentou
- Estou pensando no que podemos fazer hoje. – menti – Comer uma pizza, ver filmes, fazer brigadeiro... – fui comentando possibilidades enquanto abríamos a porta, mas minha boca se fechou e nenhuma das minhas ideias pareceram páreo para aquilo quando adentramos a sala.
Joanna e eu ficamos paradas, boquiabertas, na entrada. Eu com a mochila da menina em mãos e ela abraçada com um ursinho. havia afastado os dois sofás e a mesa de centro para um canto e aberto um enorme espaço no meio da minha sala onde só ficaram a minha coleção, a estante e a TV. Bem no centro fora montada uma enorme tenda, com lençóis sobre lençóis na cor salmão. Lá dentro era amplo, estava cheio de almofadas e quatro lanternas grandes, que faziam um contraste mágico com a luz apagada. Flagramos jogando as últimas almofadas lá dentro. Quando nos notou à porta, ficou nos encarando, apreensivo, esperando por alguma reação; mas tudo que eu consegui conceder foi uma risada abafada e entrecortada de surpresa (e Joanna ao meu lado, nem isso).
- Meu Deus, isso é... - comecei a falar, mas não achei uma palavra boa o suficiente.
- Lindo. – Joanna disse, ainda desnorteada – Muito lindo.
Eu e ele nos olhamos receosos de que ela chorasse assim que a vimos emocionada, mas antes que ela tivesse tempo, sorriu abertamente e disse:
- Então por que vocês ainda estão aí? - depois deu de ombros e disse - Ou eu vou ter que ficar nessa tenda rosa sozinho?
Ela correu e mergulhou em meio às almofadas, eu fechei a porta, larguei a mochila dela no sofá, caminhei sorridente até ele e lhe dei um beijo na bochecha.
- Isso é salmão, idiota. – nós demos risada e ele soube que a surpresa estava aprovada. Por nós duas.
- AAAAH! – ouvimos a menina gritar e nos assustamos, correndo para a entrada da tenda – Tem um cobertor de estrelas aqui dentro! - os olhos dela brilharam.
Ele soltou uma risada gostosa e pulou lá dentro com ela.
- É porque nós vamos à Marte hoje, senhorita. – ele sentou na ponta do cobertor e puxou duas pontas, dirigindo-o como se fosse um tapete mágico. “Isso soa meio tarado para se dizer a uma criança.” pensei, mas não quis estragar a cena. Joanna logo se sentou atrás dele e puxou um cinto de segurança imaginário.
- Cintos colocados, capitão. – ela bateu continência e ele olhou para trás com um ar assustado.
- Oh, não! - ele puxou um microfone imaginário do “teto” da nave – Houston, nós temos um problema! - e depois me olhou fixa e intensamente, com um sorriso no canto dos lábios – Todos os passageiros ainda não estão a bordo.
Minhas pernas estremeceram, eu achara aquilo extremamente fofo. E, correndo o risco de derreter no meio do caminho, me apressei e adentrei a nave, antes que ela partisse. Fomos à Marte e descobrimos uma espécie de alienígenas que viviam lá (uma das milhares, claro), eles eram super simpáticos e tomavam sorvete azul feito dos anéis de Saturno. Eles imploraram silêncio, mas garantiu que o segredo dele estava a salvo conosco. Agradecidos, os aliens transformaram nossa nave em um grande navio.
Logo, nós fomos até o Mar do Fim do Mundo e lutamos contra o próprio Capitão Gancho. Lógico que, no meio da luta, quando as coisas estavam críticas para nós, Peter Pan apareceu para nos dar uma mãozinha. Após ele e se unirem e formarem um plano infalível contra o Gancho, nós vencemos.
- Ó, que esperteza a sua, capitão! – Joanna exclamou encantada a assim que vencemos. No final, Pan insistiu para que déssemos uma passada rápida pela Terra do Nunca e os Meninos Perdidos pediram para que eu desse uma de Bucaneira Jill e lhes contasse uma de nossas aventuras. Contei e, depois, em agradecimento pela história, as fadas transformaram nosso navio em...
- Um carro super tecnológico em formato de cupcake! - Joanna disse, empolgada.
- Cupcake? - fez uma careta.
- Claro! De que outra maneira nós iríamos a Candylane? - ela bufou, como se aquilo fosse óbvio.
- Tudo bem, tudo bem. – ele aceitou – Candylane, aqui vamos nós! Mas é bom que tenham Skittles por lá.
Nossa viagem prosseguiu e conhecemos a famosa Candylane, que tinha as estradinhas feitas de paçocas, os arbustos de jujubas, as casinhas de cupcakes, carros de chocolates e muito mais.
- E lá no limite da cidade, tinha um lago. – Joanna fez cara de suspense – O lago mais azul que você já viu na vida. - imaginei vagamente que tal lago deveria ter a cor dos olhos dela – E na ponta desse lago, havia um trampolim de waffles, beijado pelo sol. – ela correu pela sala e mergulhou em meio às almofadas – E então, eu mergulhei. Vocês não?
- Claro! - e eu fingimos que tínhamos mergulhado e esperamos ela contar o resto.
- Pronto, então todos nós começamos a ficar pequenininhos assim, do tamanho de um peixinho. Eu me tornei a pequena Joanna, você a pequena e você o pequeno . E nós reparamos que podíamos respirar debaixo d'água; e então nadamos e nadamos até ver um castelo muito bonito, feito de areia. E todos os peixes, ostras, estrelas do mar, camarões, lagostas, tubarões e baleias estavam esperando por nós. Eles tinham um grande jantar para começar, estava tudo arrumado: mesas, lustres, a orquestra; mas não tinham maestro. E então eu fui até eles e disse que sabia alguma coisa sobre ser maestro.
Eu e sorríamos feito duas crianças. Ela era incrível. Mesmo com tudo que ela passara na vida, a essência de criança nunca deixara de existir. Eu tinha medo de ter uma filha que não se parecesse com ela.
- E então eu comecei a dirigir a orquestra de lagostas e camarões. E tudo ficou muito bem, o jantar foi lindo e vocês dois dançaram até se cansarem.
- Nós? - ruborizei.
- É ué, eu estava dirigindo a orquestra, não se lembra? - ela comentou um pouco mais quieta, me fazendo rir. Notei que depois de tanto pular e passar em diversos faz-de-conta de uma vez só, o sono se aproximava.
- Ok, Senhora Maestra. Agora, que tal as moças irem pro banho e colocarem os pijamas enquanto eu peço uma pizza pra gente? - sugeriu.
- Ótima ideia – disse e me levantei. Joanna imediatamente fez corpo mole, como se derretesse igual a uma geléia. a jogou por cima do ombro em um ato rápido, como se ela fosse um saco de batatas e correu até o meu quarto. Quando cheguei, ele estava fazendo cócegas nela, que ria descontroladamente.
- Que coisa feia, sua porquinha! - ele brincava – Pula, pula e depois não quer tomar banho?
- Tudo bem, tudo bem. – ela cedeu, tentando respirar – Mas ela vai primeiro.
- Ok, eu vou primeiro. – ergui os braços, rendida. deixou o quarto, eu fechei a porta e separei nossos pijamas, deixando em cima da cama. Separei também uma toalha limpa para ela. Joanna andava de um lado para o outro, curiosa, enquanto eu estava de costas; De repente olhei para trás e não a vi em nenhum canto, procurei em baixo da cama e quando ia até a sala, a notei em meu banheiro.
- Nossa! Quanta coisa bonita você tem aqui – ela olhava admirada minhas maquiagens, me fazendo rir fraco. Fechei a porta de vidro fosco do boxe e entrei no banho, tendo certeza de que aquilo a seguraria por algum tempo. E assim foi, eu via a silhueta da menina parada, virando o rosto de um lado para o outro, tentando ver tudo, completamente em silêncio.
- Tem um batom aí em cima que tem a embalagem branca, é o único, eu acho. – comentei, enquanto tirava a espuma dos cabelos.
- Hm, deixa eu ver aqui. – desliguei o chuveiro e puxei a toalha, me enrolando – Achei.
- Eu acho que ele ficaria muito bem em você. – saí do boxe e ela me olhou admirada como quem perguntasse “eu posso?”, eu apenas pisquei em resposta. Era um rosa-pêssego que, conforme eu pensara, combinara muitíssimo bem com ela. Ela entrou no banho e eu aproveitei para vestir uma calça de uma malha bem fina azul marinho e uma meia manga branca, de pijama. Logo ela saiu, vestiu o pijama e eu sequei seu cabelo em meio à algumas risadas pelas caretas que ela fazia.
Fomos para a sala, liguei a TV e tentamos achar algum filme legal, mas, antes que eu me sentasse, abriu a porta e entrou com duas pizzas na mão.
- Para quê duas, ? - perguntei
- Uma pra vocês e uma pra mim, duh. – ele respondeu, enquanto deixava as pizzas na bancada da cozinha – Eu vou pro meu banho agora, vocês me esperam?
- Só se você for rápido, eu tô morrendo de fome. – respondi e ele me olhou com cara de bravo – Tá, eu espero, vai logo.
Em quinze minutos voltou, secando o cabelo com a toalha, como de costume, e depois trouxe a pizza para a sala. Ele me ajudou a virar a entrada da tenda de frente para a TV e nós comemos enquanto assistíamos Bob Esponja. Quando terminamos, Joanna levantou os braços e se jogou de uma vez para trás, caindo nas almofadas. olhou e a imitou, caindo do lado direito dela e, depois, eu os imitei e caí ao lado esquerdo da menina, ficamos deitados na ordem , Joanna e eu, olhando para o “teto” da tenda.
- Seria muito bonito se tivesse um móbile de estrelas aqui. – ela comentou, distraída – Nós ficaríamos olhando até cair no sono.
Fiquei olhando para cima, imaginando como seria e tendo certeza de que eles dois estavam imaginando o mesmo. Longos minutos de silêncio se seguiram.
- Eu tenho dois irmãos, sabiam? - ela voltou a comentar.
- Eu tenho um. – comentei.
Mais silêncio.
- O jogo é assim: cada um fala uma frase aleatória sobre si mesmo, ok? - Joanna explicou, e eu assentimos.
- Minha cor preferida é lilás. – Joanna disse.
- A minha é azul, por causa do céu. – comentei, fitando o teto.
Alguns segundos de silêncio.
- Eu já fiquei dois anos sem falar com o meu pai por causa de uma discussão. – comentou, distante.
- Eu sempre quis ter uma coruja. – Joanna disse.
- Eu tenho um coelho sem-nome. – comentei e ela se sentou depressa ao meu lado.
- Você tem um coelho?! - a menina me olhou boquiaberta.
- Tenho, ele está lá no quarto de hóspedes, quer trazer ele pra cá? - perguntei. Ela assentiu depressa e correu. Ouvi de longe um “awn, que fofo!” e depois ela correu de volta para a sala, com a minha pequena bolinha de algodão no colo. Joanna tornou a se deitar entre nós dois e colocou ele aninhado em sua barriga, enquanto o olhava com ternura.
- Depois que eu adoeci, mamãe nunca mais quis um animalzinho lá em casa. – senti que era a continuação do jogo – Mas há muito, muito tempo, o meu irmão mais velho tinha um.
- Um coelho? - perguntou, ainda olhando para cima, com as duas mãos atrás da cabeça.
- Um bichinho. Ele tinha uma lagosta. – eu e olhamos intrigados para a menina.
- Uma lagosta, tem certeza? Quem tem uma lagosta de estimação? - praticamente retirou a pergunta da minha boca.
- O meu irmão, ué. – ela deu de ombros, como se aquilo fosse perfeitamente normal – Ele comprou uma para fazer uma apresentação na escola e depois acabou ficando com ela. A mamãe ficou furiosa. – ela soltou uma risadinha sonolenta.
voltou o rosto para cima de novo e mais alguns minutos de silêncio se passaram. Pensei que as lagostas eram bichos que não geravam motivo de afeição nas pessoas. O irmão dela deveria ter tanta personalidade quanto Joanna, então.
- Sabem, as lagostas são bichos legais. – ela comentou enquanto passava as mãozinhas delicadamente do focinho às orelhas do coelho e este, por sua vez, ia adormecendo aos pouquinhos, quase como ela – Meu irmão me contou uma vez que ele tinha visto na TV que as lagostas são os bichos mais românticos do mundo.
- Ah, é? - curvou as sobrancelhas para ela em tom de riso, incrédulo na história. Eu parecia nem estar ali, fiquei quieta, por gostar de ouvir eles dois conversando.
- É sim. – ela continuou – Uma vez que elas conhecem uma outra lagosta e elas se apaixonam, elas nunca mais podem se apaixonar por outra lagosta. Serão sempre uma da outra. – ela comentou vagamente e bocejou.
- E você conhece duas lagostas assim, espertinha? - brincou. Joanna virou o rosto para ele, com os olhinhos pesados, fez que sim com a cabeça e cobriu a boca com uma das mãos, como se fosse contar um segredo.
- Você e a . Ela é a sua lagosta. – Um frio percorreu minha espinha e minha bochecha esquentou imediatamente. Me mantive imóvel, ainda olhando para cima, mas senti seu rosto virar na minha direção e o olhar dele pesar sobre mim, pela minha visão lateral. Minha respiração ficou irregular e eu soube que não adiantaria fingir que estava dormindo e que também não ajudaria encará-lo. Passados alguns segundos, sorriu e virou o rosto para cima de novo.
- Eu tive um trauma de água quando eu era pequenininho, só voltei a nadar quando eu tinha doze ou treze anos. – ele disse. Regularizei minha respiração e virei de lado, apoiando o rosto nas mãos. Notei que Joanna havia dormido.
- Não me crucifique, mas eu aprendi a andar de bicicleta com 16 anos. – admiti, dando risada e me acompanhou.
- Eu nunca soube assobiar. – ele continuou.
- Eu nunca quebrei nenhum osso – arregalou os olhos, surpreso, quando eu falei.
- Isso é absurdo! Todo mundo já quebrou alguma coisa. – dei de ombros – Vou ter que te derrubar da escada agora. – nós rimos.
- Eu tocava bateria na adolescência. Me desestressava, me desligava do mundo. – eu disse e, mais uma vez, ele me olhou surpreso.
- Você tocava bateria? Ok, essa é realmente surpreendente. – fez uma pausa – A janela do meu quarto dava no telhado e eu sempre ia pra lá quando não queria que me achassem. Eu gostava de pensar que aquele lugar era só meu.
- Às vezes eu sonho que eu estou voando e eu passo por lugares lindos, lugares que eu não acho nem que existam nesse mundo e depois eu vou para uma cidade cheia, cinzenta. Daí as minhas asas somem... E eu caio.
- E depois? - ele me olhou concentrado e eu dei de ombros.
- Depois eu acordo.
Mais silêncio.
- Eu comecei a tocar quando eu tinha seis anos.
“Deve ser por isso que você é tão bom nisso.” pensei, mas não admiti, apenas sorri.
- Meu livro preferido é o da Alice, aquele original bem antigo, do Lewis Carrol. – prossegui.
- Se eu pudesse ser um super herói, eu seria o Hulk.
- Eu tenho uma cicatriz no pé. – comentei, tentando inutilmente ver meu pé. Senti seu olhar novamente pesar sobre mim e quando ergui os olhos ele estava lá, com um sorriso dançando no canto dos lábios e seu olhar penetrando o meu.
- Eu também.
Sorri em resposta, desejando que o espaço entre nós não existisse. Senti meu coração acelerar e deitei o rosto nas almofadas novamente, olhando para ele, descansando a mão por cima da cabeça. Logo, sua mão encontrou a minha, elas se entrelaçaram e nós não precisamos dizer nada por um bom tempo. Os polegares acariciando uma mão à outra e os nossos olhares conectados como sempre deveriam estar.
Em meio a nós, Joanna se mexeu adormecida e o pequeno coelho tentou se arrumar em sua barriga.
- Ela vai acabar não dormindo bem aqui. Vamos colocá-la lá no quarto. – Comentei, desentrelaçando nossos dedos e me sentei. Peguei o meu pequeno mascote sem-nome, com cuidado para não acordá-lo também. E me seguiu até o quarto, com Joanna dormindo em seu colo. Coloquei o bichinho na gaiola e me apressei para puxar as cobertas da cama para que pudesse deitá-la. Depois, nós a cobrimos e desligamos a luz. A olhei do corredor por um ou dois segundos e depois me virei para a sala. estava de pé, bem perto, me olhando.
- Pode ir pro seu quarto, eu fico aqui na sala.
- E deixar todas aquelas almofadas só pra você? Nem pensar. – disse e adentrei a confortável cabana novamente. Ele logo me seguiu e apagou duas das lanternas, deixando a luz mais fraca. Senti um friozinho percorrendo a barriga.
Por muito tempo nós não dissemos nada. Puxamos um cobertor, nos enrolamos, ainda bem próximos, ficamos de mãos dadas, nos olhando. Senti um vento gelado passar e tremi involuntariamente.
- Vem cá. – ele deitou virado para cima e abriu um dos braços. Timidamente, eu me aproximei e deitei o rosto em seu peito, com a mão junto ao rosto. Ele passou o braço à minha volta e eu me senti um pouco mais quente. Agradecendo mentalmente pelo fato dele não conseguir fitar meu rosto, abri um largo sorriso, rezando para que aquela noite não acabasse tão cedo. Sua respiração foi relaxando e eu fui distanciando o braço do meu rosto, o abraçando. Parei com a mão em cima de seu coração, para sentir as batidas tranquilas e ritmadas.
Quando tive a certeza de que ele estava dormindo, olhei para cima e passei a mão gentilmente pelo seu rosto.
- Só para encerrar o jogo, . – eu disse baixinho, quase como um cochicho – Essa casa não tem graça sem você aqui.
E fiquei reparando em todos os seus traços e em como eu odiava não conseguir achar um defeito nele. Mais alguns segundo e eu deitei de volta em seu peito, pronta para cair no sono. Mas, para o meu total choque, sua mão se ergueu e segurou a minha, apertando-a.
- Minha vida não tem graça sem você, . – então ele levou a minha mão até seus lábios e a beijou. Fiquei completamente sem reação, querendo rir e, ao mesmo tempo, me enfiar em um buraco no chão.
Eu continuei calada por muito tempo, até que acreditei que ele tivesse dormido realmente. E, mais uma vez, sua voz saiu rouca com o sono, e me assustou de sobressalto.
- Sabe, quando eu cheguei aqui hoje, eu dei comida pro seu coelho. E a ração dele tem biscoitinhos de várias cores, mas ele só come as verdinhas mais claras. Daí eu olhei na embalagem e vi que essa verdinha mais clara é sabor Picles. Super estranho, né? Não sabia que coelhos gostavam de picles. – ele riu fraco. Fiquei completamente confusa, sem saber o sentido daquilo – Mas, sei lá, parece que ele gosta. Você devia colocar o nome dele de “Senhor Picles”.
Meu coração de repente se acelerou e uma felicidade bem boba me invadiu. Era aquele o nome que eu queria; graças a , o meu filhote não era mais um coelho sem-nome. E por um motivo ainda mais idiota que a minha alegria repentina, eu soube.
Soube imediatamente. Que não interessava se eu era ou não a dele, mas que definitivamente era a minha lagosta.


Capítulo Vinte –

- Não pode ser. Câncer não se desenvolve assim em uma criança de seis anos. – Lucy descartou nossa hipótese.
- Pode ser doença auto-imune. Os sintomas batem. Se for, nós encontramos o foco e operamos. – comentou Nishi, uma menina asiática do outro lado da mesa.
- Não tem como. O tumor tem 6 cm no lobo temporal. É inoperável. – suspirei
- Ou seja? – Lucy me pressionou
- Se for um desses, ele não tem mais que um ano de vida. – tentei afastar a idéia da cabeça, sem muito sucesso. As pessoas na mesa (inclusive eu) entraram numa troca de olhares em pânico, sem saber se tínhamos chegado ao final, se era só isso e não havia mais nada que pudéssemos fazer.
Antes que desanimássemos de vez, Lucy retomou o foco e se pôs de pé.
- Ainda não terminamos. Vocês ainda têm muito trabalho pela frente. Eu quero uma Angiografia e um EEG o mais rápido possível. Vocês avançaram muito, não se dêem por vencidos justo agora. – e, dito isso, deixou a sala. Nos olhamos por alguns segundos e saímos todos depressa da sala.
Assumi a tarefa de pedir os exames e saí correndo pelos corredores. Ouvi passos apressados ao meu lado, mas aquilo era tão normal na minha rotina de trabalho que eu sequer virei o rosto para olhar. De repente, uma silhueta apareceu na minha frente, me fazendo parar com o susto.
- Oi. – disse .
- Hã... Oi. O que você está fazendo aqui? – curvei as sobrancelhas.
- Desculpa, não sabia que eu não era mais bem-vindo aqui. – ele fez bico.
- Não é isso, é que... – tentei equilibrar os papéis e achar o pedido assinado por Lucy.
- Eu só pensei que talvez você tivesse cinco minutos. – pareceu um pouco sem graça.
- Eu só preciso pedir uns exames. Você pode me esperar na recepção? – mordi o lábio – Prometo que eu não vou demorar.
- Tudo bem. – ele sorriu gentilmente e deu meia volta ,rumo à recepção.
Subi e fiz os pedidos correndo, obviamente, e desci mais depressa ainda. Antes de chegar à recepção esbaforida e descabelada, diminuí o passo, arrumei o cabelo e tentei parecer uma pessoa normal. Olhei em volta e não o vi por ali. Não podia ser, eu não havia demorado tanto assim! Senti uma pontinha de indignação surgir em mim, mas antes que eu me voltasse bufando para o resto do dia de trabalho, uma voz surgiu atrás de mim.
- Pode deixar, eu não falo pra ninguém que você desceu desesperada pra me ver. – ele disse e passou por mim, com as mãos nos bolsos. Revirei os olhos e dei um risada abafada.
- Eu não desci desesperada pra te ver, senhor egocentrismo. É que eu ainda tenho muita coisa pra fazer hoje. E eu não posso deixar os meus fãs esperando, né? – dei de ombros.
- Aham, vou fingir que eu acredito. Enfim, eu estava passando aqui perto e lembrei que hoje o pessoal vai lá em casa a noite, beber um pouco, conversar um pouco... E, ah, sei lá. – ele coçou a cabeça – Pensei que talvez você pudesse ir, se não for fazer nada... – ele desviou o olhar e pigarreou – Com o seu namoradinho.
- Provavelmente eu teria alguma coisa pra fazer hoje à noite, se eu tivesse um namoradinho. Mas já que não, eu posso lhe conceder a honra da minha presença hoje, . – pisquei.
Ele me deu um sorrisinho irônico e mostrou a língua.
- Ok, senhora egocentrismo. Se não souber chegar lá, me liga mais tarde. – me deu um beijo na bochecha e se despediu.
Mesmo que eu não quisesse admitir, aquele pequeno gesto deixou meu dia um pouco mais feliz. Ele poderia ter ligado mais tarde, tipo “ah, já está todo mundo aqui, você quer vir?”, mas não. Ele foi lá, me pedir pessoalmente e reclamar do meu “namoradinho” e aquilo já era bem mais do que eu podia esperar dele.
Não sei se por conta da expectativa calada, mas meu dia acabou passando bem rápido. Cheguei em casa no mesmo ritual: largar a bolsa em cima do sofá, trancar a porta, ficar de pés descalços, checar a secretária eletrônica, dar comida ao Sr. Picles e soltá-lo da gaiola.
Na secretária, havia um recado de Dereck. Alguma coisa com “minha garota... blábláblá... eu quero te ver, blábláblá... sinto sua falta” e coisas do tipo, mas para mim era como ouvir um recado de cobrança do banco. Eu podia até gostar de Dereck, mas ele não tinha um efeito real sobre mim, principalmente se comparado a .
Por sorte, havia uma blusa nova no guarda-roupa, tomei um banho, me vesti e liguei para para descobrir o endereço. Em pouco tempo eu estava lá, não era tão longe de casa.
O prédio era bem básico, do tipo que você ignora quando passa na rua. Portão grande de ferro escuro e interfones: nada de hall, de portaria, de puxa-saquismo. A cara dele.
Subi completamente receosa: pelo espaço desconhecido, por estar fora da minha “comfort zone”, por não saber se já havia alguém lá. Chegando ao quinto andar, olhei em volta. Só havia uma porta, já aberta, esperando por mim. Me dirigi “pisando em ovos”, ouvindo algumas risadas de algum lugar lá dentro. Da porta, vi que , Dakota, e já estavam lá, com longnecks de cerveja nas mãos, sentados no aconhegante sofá.
- Vai ficar aí na porta? – uma voz veio da direção oposta. sorria, parado em uma entrada que eu deduzi ser a cozinha, tentando equilibrar mais algumas garrafas nas mãos. Me encaminhei e o cumprimentei, ajudando com duas das garrafas. – Obrigado.
Fomos até os sofás e deixamos as garrafas na mesinha. Cumprimentei todo mundo e só depois parei para observar o apartamento. Era enorme, com muitos detalhes de mogno e vidro, alguns vinis, uma vitrola antiga, alguns pequenos prêmios e porta-retratos com a família e com os meninos da banda. O que mais me chamara atenção, no entanto, fora uma varanda comprida, que ocupava uma parede inteira. O apartamento no geral era basicamente charmoso e largado, assim como o dono.
Ajudei a trazer mais algumas coisas da cozinha, tomei a liberdade de escolher um vinil do Sinatra e peguei uma das garrafinhas de cerveja.
- Vem dançar comigo. – estendi a mão para , que deu o último gole da própria bebida e se levantou para dar alguns rodopios comigo ao som de “Fly me to the Moon”. Depois de algumas risadas das nossas dancinhas, Dakota puxou e puxou , fazendo todos rirem.
Quando começou a música seguinte, roubou de mim, que fiz bico e fui me sentar, mas, antes que pudesse, envolveu minha cintura com uma das mãos e segurou uma das minhas com a outra, me puxando para uma dança com ele. Dei uma risadinha e acabei cedendo-lhe a dança.
Dois passinhos, dois passinhos, corpos e rostos próximos. Comecei a me sentir um pouco corada, mas ele provavelmente sentiu a tensão crescer, ergueu uma das sobrancelhas e cantou com a voz num tom grave que eu nem imaginava que ele conseguia alcançar.

(N/A: música)

I've got you under my skin
Tenho você sob a minha pele
I've got you deep in the heart of me
Eu a tenho bem no fundo do coração
So deep in my heart, that you're really a part of me
Tão fundo no meu coração que faz parte de mim
I've got you under my skin
Eu tenho você sob a minha pele

I've tried so not to give in
Eu tentei tanto resistir
I've said to myself this affair it never will go so well
Eu disse pra mim: Esse caso nunca vai dar em nada
But why should I try to resist, when baby I know damn well
Mas por que tentar resistir, quando, baby, eu já sabia
I've got you under my skin
Que você já está sob a minha pele

I would sacrifice anything come what might
Eu sacrificaria qualquer coisa fosse o que fosse
For the sake of having you near
Pra poder lhe abraçar bem pertinho
In spite of a warning voice that comes in the night
Apesar dessa voz me avisando que vem a noite
And repeats in my ear
E repete no meu ouvido:

Don't you know you fool, you never gonna win
"Você não sabe, seu tolinho você nunca vencerá.
Use your mentality, wake up to reality
Use a cabeça e caia na real!
But each time that I do, just the thought of you
Mas cada vez que eu tento, só de pensar em você
Makes me stop before I begin
Já me faz parar antes mesmo de começar
'Cause I've got you under my skin
Porque você já esta sob a minha pele

I would sacrifice anything come what might
Eu sacrificaria qualquer coisa fosse o que fosse
for the sake of having you near
Pra poder lhe abraçar bem pertinho
in spite of a warning voice that comes in the night
Apesar dessa voz me avisando que vem a noite
and repeats the shouts in my ear
E repete no meu ouvido:

Don’t you know you fool, there’s no chance to win
"Você não sabe, seu tolo você nunca vencerá.
why don’t you use your mentality, stand up to reality
Porque nao usar a cabeça, e acordar para a realidade?
but each time I do, just the thought of you
Mas cada vez que eu tento, só de pensar em você
makes me stop just before i begin
Já me faz parar antes mesmo de começar
Because I've got you under my skin
Porque você já esta sob a minha pele
And you grab me under my skin
E você me prende, dentro de mim

Imaginando que talvez por trás dessa brincadeira houvesse um fundo de verdade, encarei-o, esperando algum comentário. Ele me olhou e sorriu.
- Essa música é incrível. Desde 1956 e ela ainda deixa as mulheres com esse olhar bobo. – brincou e eu imediatamente me recompus, orgulhosa.
- Não sei de que olhar você está falando. – olhei para os outros casais.
- Esse aí, que você ta tentando esconder de mim. – ele riu e eu bufei.
- Não é pra você. Eu sempre fico assim com as músicas do Sinatra, o cara era genial, o que você queria? – respondi na defensiva. encostou o queixo em meu ombro, meu argumento pareceu calá-lo por algum tempo. Mas depois sua voz soou vitoriosa ao pé do meu ouvido, me deixando arrepiada.
- Eu nunca disse que o seu olhar bobo era pra mim. Viu? Você mesma se denuncia. – e soltou uma risada abafada. Revirei os olhos indignada.
- Com licença, eu preciso ir ao banheiro, . – disse grosseiramente e me retirei batendo os pés. Ele continuou lá, parado com um sorriso vitorioso no rosto, me irritando profundamente.
- Ai, sua idiota! Como se ele não tivesse razão! – passei uma água no rosto e tentei regularizar as batidas cardíacas enquanto reclamava para o espelho. – Você era tão boa em não demonstrar, o que está acontecendo com você?
Alguns minutos depois, quando me considerei recomposta, retornei à sala, disposta a atuar perfeitamente dessa vez, eu me recusava a entregar o jogo assim, sendo que as coisas podiam ser um pouco mais interessantes.
Vi Dak voltando de algum outro ponto da sala e se sentando novamente ao lado do namorado. estava em pé, de costas para mim. Conforme ia atravessando a sala, comecei ouvir o que ele falava, que fazia os meninos darem risada.
- Americanozinho meia boca, não deve limpar nem a própria bunda, eu aposto.
- Nossa, gente, de quem vocês estão falando? – Dakota roubou as palavras da minha boca.
- De quem mais seria? Daquele merda do Nichols, claro. O cara é um babaca, Dak. A pessoa mais arrogante que eu já conheci na vida. – Ninguém riu dessa vez, todos ficaram estáticos, me fitando atrás dele. sussurrou um inaudível “Ops”. Cruzei os braços e esperei ele se virar. suspirou – Ora, , não me peça para dizer que pelo menos suporto ele dentro da minha própria casa.
- Não estou pedindo. Mas é que não foi exatamente o que eu ouvi, sabe? Na verdade eu fiquei sabendo de uma história completamente oposta.
- Eu imagino. Mas cabe a você escolher em quem você acredita. – ele me olhou sério.
- Ultimamente, eu realmente não sei mais. – peguei minha bolsa no sofá e saí sem olhar para trás. Adentrei o elevador que já estava no andar e fiquei olhando a porta pesada demorar vários segundos para fechar. Quando ela estava quase completamente fechada, alguém a abriu depressa, com certa ferocidade, me fazendo levar um susto.
- Ah, não! Nós não vamos brigar outra vez por causa daquele idiota! – berrou.
- Nós já estamos brigando por causa dele, caso você não tenha notado! – berrei de volta. A porta do elevador se fechou e nós ficamos brigando dentro da caixa metálica, que não se movia por não termos escolhido nenhum andar. – E aquele idiota consegue ser bem menos idiota que você!
- Isso porque ele atua melhor que o Al Pacino! Só VOCÊ é boba o suficiente pra acreditar nele! – soltei um grunhido irritada e dirigi o dedo com vontade para o botão que indicava o térreo. Mas antes de chegar lá, ele segurou minha mão e apertou o botão do oitavo e último andar, fazendo birra. – Ele exibe você como se fosse um troféu, um pedaço de carne! É isso que você quer, ?! Porque se for, tudo bem, eu deixo você praquele seu namoradinho nojento!
- Por que raios o assunto sempre é sobre o MEU namoradinho mentiroso e nojento?! Só eu sou culpada na história, ?! E aquela sua Holly vadia?
- O nome dela é Molly! – parecíamos dois loucos berrando sem razão.
- NÃO É! Pode checar o RG dela! Eu aposto com você! – bufei – Depois o Dereck que é o mentiroso da história.
- Viu? Aquele babaca vai deixar você louca!
- Talvez. Quem sabe não seja no mesmo dia em que a sua ruiva kama-sutra convença você a fazer um filme pornô com ela! – rebati. Chegamos ao oitavo andar e antes que ele pudesse me deter, apertei o botão do térreo. Mas para não entregar as coisas tão facilmente, apertou todos os botões para nós irmos andando de andar em andar até chegar ao meu destino.
- Você começou, agora agüente! – ele me apontou o dedo
- Meu Deus, como você é infantil!
- É, talvez o Dereck não...
- Chega! – o cortei – Eu me recuso a continuar isso.
Nós dois nos calamos. Deslizei as costas na parede e sentei no chão, impaciente, sendo forçada a esperar o elevador parar e parar e parar e parar. No quinto andar, imaginei que ele fosse sair, cansado da discussão, mas não. Ao invés disso, ele apoiou uma mão na parede ao seu lado, a outra na cintura e abaixou a cabeça suspirando. O olhei, esperando a próxima reação. Após alguns segundos, ele se sentou de frente para mim e respirou fundo mais uma vez, aparentemente vencido.
- Desculpa, ok? É que eu... Eu sinto ciúmes. Eu odeio imaginar ele com você. Você é uma garota muito legal para estar com ele. – desviou o olhar, parecendo odiar admitir – Eu só... Queria que você acreditasse em mim.
Fitei meus próprios dedos, sem saber o que responder. Senti uma pontada de culpa, ergui o olhar, segurei uma de suas mãos e lhe sorri, sem dizer nada. Logo em seguida, a porta do elevador abriu.
- Porque vocês estão sentados no chão? – Abby perguntou por trás de . Nós os olhamos e levantamos depressa.
- Hã... O elevador parou por alguns segundos e a gente ficou esperando destravar. Só desceu agora. – mentiu
- Deve ser porque alguém fez o favor de apertar todos os botões. Tava subindo e descendo, parando em todos os andares. Você devia descobrir quem são essas crianças e avisar alguém antes que dê algum problema. – Abby deu de ombros e passou pela gente, enquanto nos olhávamos. Fiquei parada olhando os três (, e Abby) dento do elevador, pensando no que fazer.
- Você não vai subir com a gente? – ergueu uma sobrancelha, estranhando. e Abby fizeram cara de que queriam saber o mesmo.
- Er... Eu... É, eu vou com vocês. – e subimos de volta, sem comentar nada.
Quando voltamos ao apartamento, todo mundo deu uma encarada suspeita como se perguntassem “vocês não tinham se matado no elevador?”, mas depois não houve nenhum comentário e todos agiram como se nada tivesse acontecido, para a minha sorte.
Rimos e bebemos a noite toda. Os meninos tocaram a música nova da banda que se chamava “Home is where the heart is”, pela qual eu particularmente me apaixonei. Pela melodia, pela letra e pelo significado. Mostrava que mesmo depois do lançamento de três álbuns de sucesso, eles nunca esqueceram de onde vieram; e que por trás daqueles moleques palhaços e baderneiros, havia um homem adulto dentro de cada um deles. Eu conseguia imaginar o quanto havia se dedicado para escrever aquela música.
Houve um momento em que eu ria tanto das brincadeiras e pelo efeito do álcool que eu já nem acertava mais qual era o meu copo. E então tudo começou a passar muito rápido, quase como num flash e quando eu me toquei, todo mundo já havia ido embora, mas eu e ainda conversávamos no sofá.
- É, você tem razão. Eu também prefiro “A sociedade dos poetas mortos” a “Perfume de Mulher”. – Ele comentou e se levantou do sofá, indo à cozinha – Você quer mais uma cerveja?
- Hm, não. Acho que eu já estou de boa. – respondi da sala.
- E sorvete de chocolate? – mostrou o rosto no batente da porta.
- O sorvete eu vou ter que aceitar – sorri.
voltou com duas tacinhas e colheres, fez um movimento com a cabeça para que eu o acompanhasse até a varanda. Levantei do sofá e fui. Ele me entregou uma das tacinhas e encostamos no vidro que limitava a varanda e a queda do quinto andar de um prédio. Ficamos olhando a paisagem, um do lado do outro, sem dizer nada. A vista dos fundos do apartamento era linda, pegava boa parte da cidade; Havia esfriado um pouco e as brisas geladas da madrugada já próxima batiam no meu rosto; O gosto doce do chocolate depois da bebida amarga; Tudo isso num conjunto dava a sensação de me transportar para um mundo novo, paralelo, do qual eu não tinha a mínima vontade de sair.
- Hm, eu não estou mais com a Molly. – ele interrompeu meus pensamentos.
- Oi? – estranhei.
- É. O pessoal já sabe, faltou você.
- Ah, sim. – respondi, desligada – E por que vocês terminaram?
- Não deu certo, eu não tava levando muito a sério, na verdade. – ele deu de ombros.
Virei o rosto para ele e fiquei o encarando. Não veio nada. Uma surpresa absurda, uma vontade de gritar, de voar nele e agarrá-lo sem culpa. Nada. Uma onda de tristeza me invadiu repentinamente, dizendo que não deveria ser assim! Eu tinha que sentir alguma coisa! Mais alguns segundos e eu percebi que não havia nada errado, eu não devia. Tinha que ser exatamente assim, porque dessa maneira provava que além de gostar de , eu conseguia vê-lo como um amigo, como alguém com quem eu queria contar, estando com ele ou não. Provava que o que nós tínhamos ia além do físico e que nós podíamos conversar sobre outras pessoas sem criar grandes casos. E isso era um alívio enorme.
Voltei o olhar para o céu novamente. Uma imensidão marinha com pontinhos brancos, que prendia a mim tanto quanto a ele. Talvez fosse a coisa mais comum que existisse entre nós dois. Eu tinha a absoluta certeza de que só ele enxergava o céu assim como eu, além do que as pessoas comuns vêem. Um céu para sonhadores.
- Por que você ficou dois anos sem falar com o seu pai? – perguntei aleatoriamente.
- Longa história, qualquer dia eu te conto. – ele não sorriu quando falou, mas também não pareceu irritado ou chateado com a pergunta. Passaram-se mais alguns segundos em silêncio, quando ele voltou a falar, apontando para o alto – Ta vendo aquela estrela?
- Sim. – focalizei o pontinho branco no céu.
- Reparou que ela brilha mais que as outras? – fiz que sim com a cabeça – Bom, ela pode ser um satélite, não uma estrela de verdade, sabia? Quer dizer, se você faz um pedido pra ela, ele pode não acontecer. Enquanto outra estrela menos brilhante poderia ser real e fazer acontecer. Isso não decepciona você? – pensei por algum tempo.
- Na verdade, não. – respondi, simplesmente. Ele me olhou, perguntando “sério?” – Aham. Você não sabe se aquele satélite não quer ser uma estrela. E ele só vai ser se você acreditar. Você faz dele uma estrela e ele torna o seu pedido real. É o que eu penso. – ele ficou calado, encarando a estrela-satélite.
- E se você pudesse fazer um pedido pra ela agora, o que você pediria? – ele perguntou sem me olhar. Me concentrei, essa era uma boa pergunta. O que eu queria?
- Eu acho que eu pediria para ter a capacidade de voar. Lá em cima...
- Pra poder alcançar uma estrela? – ele comentou em tom de brincadeira e eu dei risada
- Aham, e fazer a luz dela de abajur no meu quarto. – respondi ainda de brincadeira, mas imaginei o quanto seria bonito se fosse real. Quando virei o rosto de lado, os olhos de brilhavam, me encarando. Pigarreei e ele imediatamente desviou o olhar.
- E você? Se pudesse fazer um pedido, o que você pediria? – perguntei, continuando com o assunto.
- Eu? – ele olhou fixamente para o nada – Eu amo o lugar onde eu vivo. Eu amo minha família. E eu amo o meu trabalho. – seu olhar se voltou para mim com um sorriso gentil no rosto e colocou uma mecha caída atrás da minha orelha – Mas, além disso, eu não pediria nada, porque eu tenho você aqui agora.
Meu sorriso se esvaiu com o choque. Eu realmente não esperava por aquilo. Pisquei debilmente e tentei desviar o olhar, por não saber o que falar. Mas sua mão já estava ali, na minha nuca, com o polegar acariciando minha bochecha, sem sequer cogitar a ideia de me soltar. Ele deu dois passos, fazendo meu coração se acelerar tanto que podia quebrar minhas costelas, colocou a outra mão delicadamente sobre o meu rosto e encostou nossos lábios. Apenas encostou, sem beijos, sem selinhos, sem movimentos. Ele me olhou esperando que o próximo passo fosse meu.
Mesmo se eu quisesse não fazer nada, meu corpo não permitiria. Seu nariz colado no meu, seu doce olhar aguardando pacientemente por qualquer reação minha, sua respiração, seu perfume roubando-me todo o ar. Era incrível como ele me deixava mais embriagada do que qualquer outra coisa no mundo. Nem álcool, nem cigarro. Minha maior droga estava ali, parada à minha frente. E, no segundo seguinte, eu havia selado nossos lábios, com tanta urgência que parecíamos ser apenas um. Não deveria haver um mísero milímetro entre a gente.
Sua língua encontrou à minha e foi como atear fogo à pólvora. Sua mão desceu para a minha cintura e me puxou mais para perto (como se isso fosse físicamente possível) com tanta força que deixaria marcas. Intercalei o beijo com algumas mordidas no lábio inferior e arranhões leves no pescoço. Eu sentia o gosto de canela em sua boca e tinha tanto medo de nunca mais ter aquela sensação que segurava-lhe os cabelos como se não houvesse chão sob os meus pés.
O ritmo foi se acelerando como uma dança mortal, como uma rosa que estivesse prestes a explodir. A brisa gelada à nossa volta se tornou o ar abafado de um forno e todas as pessoas daquela cidade que poderia estar nos observando àquele momento, simplesmente não existiam. Eu sentia minhas bochechas queimando e as dele ficando muito vermelhas pela falta de ar, mas nós não conseguíamos parar. Ao mesmo tempo em que se tornava difícil respirar, era aquele beijo que me trazia de volta à vida, como se enchesse meus pulmões, como se eu não soubesse o que era realmente o ar desde que ele fora embora.
Chegamos no limite e fomos obrigados a parar. Ainda estávamos bem perto, abraçados e com a respiração ofegante. Ele sustentou seu olhar sobre mim, ainda um pouco desnorteado. Sua respiração se regularizou um pouco antes da minha e encostou nossos narizes, penetrando minha alma adentro com aquele olhar suplicante de uma criança e um sorriso fraco. Ele beijou delicadamente minha testa, a ponta do meu nariz, meus lábios, meu queixo... Fechei os olhos e apenas senti sua boca me traçando beijos leves na linha da mandíbula em direção a nuca. Ele deu uma mordida quase insensível na orelha e em seguida apoiou a testa no meu ombro, com o rosto mergulhado no meu pescoço.
Eu desejava tanto que ele nunca mais me soltasse, que nós ficássemos abraçados ali para sempre, que o mundo acabasse naquele exato segundo e nós fôssemos eternizados naquela cena, com o meu coração sentindo as batidas dele e ele as minhas.


Capítulo Vinte e Um –


Dereck ativou o alarme do carro que eu acabara de deixar e veio andando apressado atrás de mim, que já estava no hall do prédio, chamando o elevador. Eu estava de braços cruzados, sem me virar para ver onde ele já estava.
- O que está acontecendo, ? Eu realmente não estou entendendo. – ele tentou controlar as palavras, estava visivelmente irritado.
- Não tem nada para se entender, Nichols. Você me pediu para ir a um jantar com você. Não para ser um troféu que você exibe como sua futura esposa. Não para ser uma mulherzinha fútil bancada por você. Eu nunca te dei o direito de agir assim. – rebati, furiosa.
- Eu não estava te tratando assim. – ele respondeu, entrando no elevador comigo.
- Estava sim! Qualquer um notou isso! Nós nem temos nada e você já... – ele me olhou indignado e me cortou no meio da frase.
- Nós não temos nada? NÓS. NÃO. TEMOS. NADA?
- Óbvio que não. – eu respondi – Achei que isto estivesse claro. Você é meu amigo, não me entenda mal.
- Amigo? Você beija seus amigos? Você dorme com os seus amigos? – ele curvou as sobrancelhas como se estivesse ofendido.
- Dereck, não complique as coisas. – respirei fundo, revirei os olhos e saí do elevador, pegando as chaves de casa. Destranquei a porta e me virei para ele, que estava parado me fitando as costas. – Nós temos um caso. Eu gosto de você, é verdade. Mas você não é meu namorado e isso que a gente tem não está indo a lugar algum.
- Então isso é só uma brincadeira pra você? – ele fez cara de derrotado.
- Eu não estou brincando com você, Dereck. Você quis tentar, não é? Nós tentamos e aqui estamos nós.
- Pra mim não era só uma tentativa, . Eu amo você. Eu sei o que eu quero. Mas e você? Você sabe o que quer? – me fiz a mesma pergunta e permaneci calada.
- Eu só estava pensando... – não consegui terminar a frase.
- No . – eu levantei o meu olhar para o rosto furioso de Dereck – Não é, ? Não é tudo em que você pensa?
- Você está sendo ridículo. – comentei com certo desprezo e entrei em casa, mas, quando ia fechando a porta, Dereck a segurou e entrou no apartamento comigo.
- ELE É RIDÍCULO! Como você pode sequer olhar para aquele cara?! – ele começou a se alterar – E, mesmo assim, ainda é tudo o que você quer!
Meus olhos encheram d’água e eu senti meu sangue ferver, querendo arrebentar a cara dele. Ele bateu a porta às suas costas, com estrondo, me fazendo levar um susto.
- Eu estou aqui há anos, te oferecendo o mundo, e você só quer aquele mal-trapilho! Como isso é sequer possível? Eu tenho TUDO e ele não tem NADA! – ele começou a caminhar lentamente na minha direção e eu ia dando passos para trás no mesmo ritmo.
- O é o homem que você nunca vai ser, Dereck. – cuspi as palavras, deixando algumas lágrimas rolarem com o medo que vinha surgindo dentro de mim.
- É MENTIRA! O nunca vai amar você como eu amo, você não entende? – ele fez cara de piedade. – O não amou você durante o colegial, não conseguiu tudo por você, não se esforçou para se transformar em tudo que você poderia querer, nem revirou o mundo para te achar.
- Você estava me seguindo? Quer dizer, nós não nos encontramos por acaso aquele dia? – questionei, incrédula.
- Eu fiz o que era necessário. – ele respondeu depressa, sem me encarar – Eu preciso de você.
- Meu Deus, você é louco, Dereck. Ninguém nunca terminou com você antes? – perguntei indignada, continuando a recuar enquanto ele tentava se aproximar.
- Nós não estamos terminando. – ele estava colérico.
- É verdade. – encarei-o fixamente sem demonstrar o medo que fazia meus punhos tremerem – Não se pode terminar o que nunca começou.
- Que droga, ! Por que você complica tudo? Isso é tão difícil assim?
- É só que... – minha voz não demonstrava afeto ou piedade, mas eu tentei acalmar os nervos, passando a mão pelos cabelos – Eu não posso mais mentir para você. Não posso mais mentir para mim. Não peça isso.
De súbito, ele ficara incrivelmente sério e andou apressado até mim, que só pude recuar até bater as costas e encostar na televisão. Minhas batidas cardíacas se aceleraram. Não era a primeira vez que eu discutia com alguém, muito menos a segunda, mas ele estava tão estranho, tão imprevisível, que algo no ar me causava medo dele, sem que eu sequer soubesse por quê. Dereck chegou mais perto e segurou meu rosto à contra gosto.
- Se eu não posso ter você, também não posso deixar que ele tenha.
“Ótimo. O que isso significa? Você vai me matar?” pensei, irônica, mas ainda atenta a tudo. Ele foi levando meu rosto contra o dele, eu fazia força para negar a proximidade, mas ele era mais forte e acabou selando nossos lábios. Sua língua adentrou minha boca, que eu tentava manter fechada sem sucesso, então fiz questão de ao menos não fazer nenhum movimento em resposta. Assim que ele me soltou, levantei a mão e lhe desci em direção ao rosto, mas ele segurou meu pulso com força antes que eu pudesse atingi-lo. Ficamos nos olhando furiosos, respirando com força até que eu tivesse coragem de falar.
- Você está me machucando, me solta agora. – fiz questão de encará-lo e falar com autoridade.
- Não era isso que você pretendia fazer comigo há um segundo atrás, ? Não é tão bom quando é com a gente, não? – ele ironizou.
- Você me dá nojo, Dereck. – e, descontrolada de raiva cuspi, literalmente, em seu rosto.
Ele pareceu se transformar num monstro daquele segundo em diante, sua mão livre veio em direção ao meu pescoço e a outra rastejando pelo meu corpo, procurando a abertura do vestido. Por puro instinto de sobrevivência, acredito, tateei a estante atrás de mim e, sem pensar duas vezes peguei a garrafa de vinho que o meu pai me dera. Dereck começou a pressionar minha garganta e, quase imediatamente, quebrei a base da garrafa na quina da estante, derramando todo o vinho no chão. A garrafa permaneceu intacta do gargalo até a metade, onde se formaram pontas de vidro lascado. Senti o cheiro de álcool subindo pelas minhas narinas e um corte nos meus dedos feitos por um dos cacos de vidro que saiu voando. Senti que de repente eu parecia tão ameaçadora quanto ele e isso era ótimo, me dava um alívio enorme.
Metade da garrafa ainda continuava na minha mão, com ameaçadoras lascas de vidro nas pontas. Ele estaria morto se tentasse alguma coisa. Dereck pareceu pensar antes de agir. Sua mão em minha garganta começou a afrouxar enquanto ele não corria o risco de tirar os olhos da garrafa quebrada.
- Você tem três segundos pra me soltar e sumir daqui. – ameacei.
- Você não está falando sério. – ele blefou
- Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida, mas é você quem decide se arrisca ou não. – respondi, séria. Ele refletiu, respirou fundo e me soltou.
- Agora eu acho bom você sair por aquela porta e não esperar me ver nunca mais na sua vida. – mantive o tom ameaçador. Dereck estava com uma expressão colérica. Se ele estivesse armado, eu definitivamente estaria morta. Já perto da porta, com as mãos nos bolsos, ele se virou para mim.
- Tenha certeza que você ainda vai me ver, . Eu vou fazer questão de estar no velório do . – e fechou a porta. Meu sangue ferveu de tal forma, que eu arremessei o restante da garrafa na porta que ia se fechando, não o atingindo por questão de segundos. Ouvi o restante do vidro se estilhaçar e se transformar em poeira brilhante, junto com toda a minha coragem que ia se dissipando a cada segundo.
Todas as forças que eu reuni para enfrentá-lo derreteram, fazendo-me encostar as costas na parede, abraçar os joelhos e cair no choro.
Eu já imaginava que poderia haver um conflito, mas nada a esse nível. Senti a repulsa me invadir só de lembrar das vezes que eu discutira com por ele; por alguém que me tratava feito uma marionete. Que sabia o exato segundo em que nós nos encontraríamos “por acaso”. Que planejara todo o charminho do cara da mesa 11, para dormir comigo enquanto eu estava bêbada. Um arrepio passou por mim só de lembrar que eu cheguei a confiar nele, que apenas me usava como um vício doentio. E o pavor do que ele poderia ter feito, caso eu não tivesse reagido depressa.
Minha imagem desacordada no chão, com marcas de mãos masculinas me vieram à cabeça, intensificando ainda mais os meus soluços compulsivos e as tremedeiras que corriam dos ombros às pontas dos dedos e da cintura aos pés. Tive vontade de deitar no chão e ficar lá para sempre. Mas com todos aqueles cacos de vidro, minhas costas estariam rasgadas em questão de segundos. Com dificuldade, levantei e fui à cozinha, pensando em pegar alguma coisa para limpar aquela areia cortante espalhada no chão.
Tirei os saltos, caminhei devagar, sentindo alguns pequenos pedaços grudarem debaixo dos pés, mas sem ter certeza se estavam adentrando a pele ou não. Passando pela bancada, vi o telefone e um choque percorreu minha espinha. Tentei chegar o mais rápido possível, sentei na bancada e disquei o numero depressa.
- Alô? – respondeu
- , é a . Onde você está? – tentei parecer calma.
- Tô no estúdio, acabei de sair. Estávamos gravando e... Ah, espera um pouco, estão fazendo muito barulho aqui. – ouvi a risada exagerada de ao fundo. Pelo menos ele não estava sozinho e isso já era um alívio enorme. O barulho diminuiu significativamente – Oi.
- Oi. Hm, você não vai fazer nada hoje, né? – minha voz estava ligeiramente trêmula
- Eu estava indo para casa agora. Você está estranha, aconteceu alguma coisa?
Segurei meu braço firmemente, como se aquilo pudesse me dar mais força, mas eu simplesmente não conseguia refrear as lágrimas e a minha voz não pareceria normal nem de longe.
- Não, só queria saber se você estava bem. – dei uma risada abafada em meio ao choro baixinho. – Vai pra casa, descansa e se cuida, tá?
- , o que está acontecendo? Por que você... – e eu desliguei, limpando o rosto inutilmente. Eu nem sabia ao certo porque ainda estava chorando, mas as últimas cenas continuavam a se repetir e o medo de que Dereck tivesse ido imediatamente atrás dele, me apavoravam. Ainda sentada na bancada, ajustei a visão e mirei minha imagem acabada no espelho na parede oposta. Cabelos bagunçados, a maquiagem desfeita, os olhos vermelhos. Fiquei lá, me encarando por muito tempo; com raiva da fragilidade e da impossibilidade de fazer alguma coisa.
Não tenho a mínima noção de quanto tempo se passou e das imagens horríveis que preenchiam os cantos da minha mente. Sei que houve um momento em que minhas mãos e pés ficaram um pouco mais gelados, minha cabeça girou e minha visão escureceu. E então eu caí.

Capítulo Vinte e Dois –


As pálpebras pesavam, inchadas pela quantidade de lágrimas que eu havia chorado. Eu ainda me sentia meio perdida e ia recuperando a consciência aos poucos.
Dereck. A briga. As ameaças. Os cacos de vidro quebrado. E eu desmaiei.
Eu me lembrava bem de ter despencado da bancada rumo ao chão, mas eu agora estava deitada em algo confortável, macio. Pisquei algumas vezes e tentei erguer um pouco a cabeça, que girou alarmada e me levou de volta ao travesseiro. Fiz uma careta e fui tateando a testa, até achar um inchaço enorme do lado esquerdo.
Pelo canto dos olhos, notei que eu estava em casa, na minha cama. Estava amanhecendo (ou talvez entardecendo de novo, eu não tinha noção de quanto tempo havia se passado). Tentei me lembrar se eu havia conseguido me arrastar até o quarto, mas nada me veio à cabeça. Ouvi passos do lado de fora do quarto, pra lá da porta semi-aberta e senti minhas batidas acelerarem; imediatamente puxei o cobertor até o colo, segurando-o com força, de modo que as minhas mãos ficassem doloridas.
- Q-quem está aí? – minha voz soara fraca, mas não parecia ser por esse motivo a falta de respostas. Os passos se aproximaram e a porta se abriu. entrou no quarto brigando com a caixinha de band-aids e o alívio tomou conta de mim. Ele tomou um susto ao me ver de olhos abertos. Eu tomei um susto por vê-lo ali.
- Você acordou? Por que não me chamou? Eu estava... – ele apontou para o corredor de onde viera e veio se sentar aos pés da cama. – Você está bem?
Eu fiz que sim com a cabeça sem falar nada e notando a palidez em seu rosto e as olheiras debaixo dos olhos.
- Eu fui lá na sala buscar... – ele mostrou a caixinha – Porque seu pé... Tem um cortezinho aqui. – eu imaginava o nervosismo correndo por dentro dele, preocupado com o que poderia ter acontecido e sem coragem de me perguntar, com medo de que eu caísse no choro. pegou um band-aid e colocou gentilmente em meu calcanhar, com os olhos cheios d’água. Minha garganta se fechou, senti mais das malditas lágrimas querendo vir à tona e segurei sua mão, ambos em silêncio. Tentei lhe esboçar um sorriso fraco, vendo gotículas rolarem pelo meu rosto e pelo dele.
Ele engatinhou pela cama, sentando ao meu lado, e me aninhou em seu peito, num abraço forte. Sua cabeça apoiada acima da minha e seu polegar afagando meu cabelo. Beijou minha testa.
- Tá tudo bem agora. Já passou. – ele começou a falar baixinho enquanto meus soluços saíam aliviados – Nada vai acontecer com você enquanto eu estiver aqui; e eu nunca mais vou embora, eu prometo.
Afastei-me de seu peito por alguns segundos e o olhei, calmo, gentil, refreando a insegurança. Levei uma das mãos ao seu rosto e acariciei-lhe. Ele deu um sorriso fraco e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
- Eu nunca vou conseguir me perdoar por não estar aqui com você. – ele encostou nossas testas.
- Tá tudo bem. Você está aqui comigo agora. – eu falei pela primeira vez. Ele beijou meus lábios, abraçou-me novamente e deitou, fazendo-me deitar a cabeça em seu peito e prender minhas pernas nas dele. Pude senti-lo passar os dedos pelos meus cabelos bem devagar ou fazer alguns desenhos com as pontas dos dedos nas minhas costas e beijar minha testa vez ou outra. Eu estava exatamente onde eu sempre deveria ter estado. Em casa.
E nada nem ninguém poderia mudar isso. Porque de alguma maneira, nós sempre apareceríamos um na vida do outro. Ele sempre voltaria para me dizer que estava tudo bem. E tudo só estaria realmente bem se ele estivesse lá.
Apenas alguns segundos, sabendo que estava realmente ali, protegendo-me, segurando-me, bastaram para esquecer todo o incidente quase traumático com Dereck. Mas como se eu precisasse de uma certeza maior ainda de que era realmente ele do meu lado, virei-me de lado e fiquei lhe observando o rosto.
Inspirar. Expirar. Os olhos fechados mesmo estando acordado. Todos os traços do nariz, boca, queixo. Todas as imperfeições me pareceriam perfeitas.
- Tem alguma coisa no meu rosto? – ele perguntou.
- Não, por quê? – respondi, desligada do mundo, ainda notando os seus traços cada vez mais visíveis à medida que amanhecia e a claridade que entrava pela janela era maior.
- Não sei. – ele abriu os olhos e se virou para mim, com um sorriso fraco no canto dos lábios – Você está aí, olhando. Imaginei que tivesse alguma coisa estranha. – demos uma risada sonolenta, meio abafada.
- Eu gosto de olhar pra você. – dei de ombros
- Como se isso fosse muito interessante. – ele brincou, ironizando.
- Pra mim é. – sorri – Eu nem sei quanto tempo eu poderia ficar aqui, fazendo isso.
- Deve ser porque você é bobinha. – ele riu e mordeu meu queixo, passando a mão pela minha cintura e me mantendo perto.
- Não. – ele me olhou curioso, pelo repentino tom de seriedade. Encarei seus olhos fixamente – Deve ser porque eu amo você.
Sua surpresa foi clara. Ele não esperava por aquilo.
- Não encare isso como uma estupidez, mas eu não quero que você diga isso só pelo que aconteceu e só porque eu estou afirmando que não vou mais embora... – ele desviou o olhar e falou baixinho, completamente sem graça.
- Não é por isso. Você me disse que eu deveria dizer quando estivesse pronta e, bem... – dei de ombros mais uma vez, senti algo remexendo em mim e desembestei a falar – Eu nunca consegui entender por que sequer permiti você fazer as malas. Nunca entendi por que não impedi você de chamar o elevador. Porque cada maldito segundo eu estive pensando em você e me perguntando se você estava pensando em mim. Remoendo essa minha droga de orgulho por não ligar, por não socar aquela Molly maldita. Eu sou cheia de defeitos e estou longe de ser a pessoa mais romântica do mundo, eu sei. Mas eu realmente nunca senti isso por ninguém antes. Nunca tive tanta certeza de que eu poderia passar o resto da minha vida com alguém. E se isso não é esse tal de amor do qual todo mundo fala, então eu não sei o que é.
Fechei a boca para regularizar a respiração e só então me dei conta das palavras que haviam se jogado da minha boca afora. Imediatamente minhas bochechas esquentaram de leve.
O silêncio perdurou e eu não conseguia encará-lo. Todo aquele tempo tratando-o como “apenas bons amigos”, fingindo que o meu estômago não remexia quando ele estava um pouco mais perto ou quando me abraçava. Vendo ele beijar outra garota e continuar conversando e rindo normalmente como se eu sequer prestasse atenção neles. Tudo isso acumulado em coisas que eu nunca havia dito. Uma aflição crescente, querendo colocar tudo pra fora de uma vez, falar por uma hora, mas o receio da desaprovação me segurando.
E se ele não quisesse que as coisas mudassem? E se tudo isso fosse a culpa pelo que acontecera comigo? Fosse só o resultado de uma preocupação muito forte e súbita? Fosse só carinho? Só o momento?
Eu nunca iria saber.
Meus devaneios me fizeram parar de prestar atenção nele e fiquei surpresa quando ele tocou meu rosto, sorrindo, e me beijou gentilmente. Devagar e doce. Doce como canela.
Parecia que só quando ele me beijava o mundo girava do modo certo, o ar entrava realmente nos meus pulmões e eu sentia que eu era humana, em carne e osso. Porque bastava ele se afastar pra tudo isso sumir, ficar translúcido, virar fumaça e superficial. Era mais forte do que qualquer outra coisa. Meu maior erro foi demorar tanto tempo para perceber.
Ele partiu o beijo, ainda segurando o meu rosto, e me olhou nos olhos.
- Eu tenho tanto medo de estar errada. De não ser a pessoa certa para você. – admiti baixinho.
- Eu não ligo pro que é certo ou errado. – ele tocou nossos narizes levemente – Esse lugar, aqui do meu lado, ele pertence a você mais do que a qualquer outra pessoa. E isso é tudo o que me importa agora.
E para sumir de vez com o meu ar, mergulhou-nos em outro beijo. Outro que duraria para sempre (ou quase isso).

- Peraí, eu já volto. – ele me deu outro selinho, desceu da cama e deixou o quarto, fazendo com que eu ficasse esperando idiotamente sorridente que ele voltasse. voltou com uma bandeja servida de cupnoodles, um suco de laranja, uma travessinha cheia de morangos e uma caixinha de leite condensado. – Tá bem improvisado, desculpa. À noite eu faço alguma coisa mais decente.
Dei-lhe um beijo na bochecha.
- Não precisa. Está ótimo, ok? Eu nem estou com tanta fome assim...
- Pode tratar de comer tudo, você ainda não comeu nada hoje. – ele fez cara de mandão.
- Tá, mamãe. – ironizei.
- Olha o aviãozinho. – ele deu uma garfada no cupnoodles e veio em direção à minha boca
- Ah, para, você vai fazer meleca!
- Vamos, . Abre a boca. – e eu abri, antes que sujasse a minha cama.
- Ok... deixa que eu como. – falei de boca cheia, tentando não rir. Ele pegou um morango e pôs na boca, me fazendo não resistir à brincadeira – Nossa, que sexy.
- É bom você comer rápido, ou eu vou acabar com os morangos. – levantou o olhar até mim com cara de pervertido, me fazendo rir – E com a brincadeira.
- Olha essa sua cara, tenho até medo das “brincadeiras”. – mostrei a língua.
- Não deveria ter. – ele chegou mais perto para morder meu pescoço e eu me arrepiei, virando o rosto para morder-lhe o lábio inferior. Se já era difícil respirar com ele do lado, imagina me concentrar em não engasgar em meio a isso. Decidi mudar o assunto.
- E as gravações? Como andam?
- Ah, estão indo bem. – ele pegou outro morango – O álbum já está quase pronto. Mas eu acho que ainda faltam duas músicas pra finalizar, pra ficar legal, sabe?
- Aham. Mas vocês já tem alguma coisa escritas pra essas duas?
- Ainda não. Eu queria algo bem significativo pra escrever sobre, sabe? O CD inteiro está assim, não faz sentido escrever essas duas só por escrever.
- Entendo.
- Acho que vou escrever uma sobre você. – deu de ombros e se deitou, olhando para o teto, com as mãos atrás da cabeça.
- Aham. – fiz pouco caso, não acreditando. Coloquei o copinho do cup noodles de lado e bebi meu suco de laranja. Depois coloquei a bandeja de lado e roubei a travessa de morangos. Ficamos em silêncio por algum tempo, até que ele se virou para mim.
- O que aconteceu ontem? – ele suplicou com o olhar para que eu lhe respondesse
- Eu... – abaixei a cabeça – Eu não quero falar sobre isso. As coisas às vezes dão errado. Só isso.
- O que deu errado?
- A escolha que eu fiz.
- Que escolha?
- Eu escolhi ter dúvida entre você e outra pessoa. – Ele se levantou de um pulo, apavorado.
- É CLARO! TINHA QUE TER SIDO ELE, COMO EU NÃO... – ele vestiu o agasalho, furioso – EU VOU MATAR O NICHOLS.
Não mexi sequer um músculo, ainda sentada na cama, encostada na cabeceira.
- Você não vai a lugar algum. – disse, em alto e bom som, fitando-o. se virou bruscamente para mim, indignado.
- O quê? Você vai defender ele agora?! – berrou.
- Não estou defendendo ele! Muito menos o que ele fez. Dereck foi o ser mais repugnante que eu já vi na vida ontem à noite. Mas a cada maldito segundo eu estive pensando em você, no que poderia te acontecer. Sem nem pensar o que isso poderia me custar. E agora você quer ir atrás dele sem se importar com o que eu arrisquei? – odeio fazer joguinhos super defensivos, mas eu vi que seria a única maneira de prendê-lo ali. Ergui a sobrancelha e esbocei um sorriso irônico – Muito legal da sua parte.
Ele soltou um urro indignado e socou a parede, fazendo-me tomar um susto. Ficou lá, no visível impasse, arfando enquanto encarava a parede. A raiva exalando dele compulsivamente.
Levantei com cuidado, dando passos leves, bem devagar, até chegar atrás dele. Cautelosamente, passei os braços por sua cintura. Ele tentou se desvencilhar, bufando, mas não obteve sucesso.
Ele fechou os olhos e tentou controlar o nervosismo enquanto eu lhe dava alguns beijos leves pelas costas ou na nuca.
respirou fundo e virou de frente para mim, com as costas encostadas na parede. Colocou as mãos em meu ombro e me fez encará-lo.
- É só que... Me dá tanta raiva pensar no quão estúpido ele pode ter sido com você.
- Eu sei, eu sei. – ele passou a mão pelos cabelos
- E... E me dá ainda mais raiva saber que você está certa. E que eu não posso fazer nada. Isso é tão...
- Eu sei, ok? – segurei seu rosto – Só que eu prefiro você aqui comigo do que lá fora, aos socos com ele. Entende?
Ele suspirou, olhou-me nos olhos, vencido, e fez que sim com a cabeça. Acariciei sua bochecha com o polegar e colei nossos lábios, selando outro beijo.
- Vamos lá para a sala, estou cansando de ficar aqui. – e o puxei pela mão. Ficamos deitados no sofá, assistindo o finalzinho de um filme até que começou a escurecer. Fui à cozinha beber água e, na volta, caminhei até a janela, onde apoiei os cotovelos e fiquei observando o laranja-violeta se transformar em azul-marinho. Alguns ocasionais pontinhos brancos começaram a aparecer, timidamente. Não muito mais que ocasionais, já que Londres é bem iluminada.
Me desprendi do chão, divagando ao olhar para o céu. Notei que quanto mais tempo se passava, mais estrelas era possível se enxergar. Até que ouvi pequenos estrépidos no piso de madeira e senti se aproximando lentamente. Ele me abraçou por trás e me deu um beijo no pescoço, causando os costumeiros arrepios.
- Viu alguma coisa interessante por aqui? – ele me perguntou ao pé do ouvido e eu dei de ombros.
- Só as estrelas.
- Acho fofa essa sua fixação pelo céu. – ele comentou, me dando outro beijo gentilmente, fazendo-me sorrir.
- Eu acho que é o que existe de mais mágico perto da gente. Como se existisse todo um joguinho lá em cima, como se fosse um mundo particular, sabe? – comentei, com os olhos brilhando. – Toda essa gravidade aqui embaixo me deixa meio tonta. Parece muito mais interessante ver a noite virar dia lá de cima. Se apaixonar por Urano e dançar na via Láctea. – comentei, brincando. – Você vem comigo?
- Ao infinito e além, minha garota estelar. – nós demos risada e ele me beijou mais uma vez, dispensando todas as estrelas lá em cima e todos os pedidos que eu fazia à elas todas as noites.


Capítulo Vinte e Três –


A vida é uma coisa engraçada, às vezes, quando você acha que está começando a suportar a pressão e a presença de tantos problemas, ela melhora e se estabiliza. Como se nos desse uma trégua. Quem sabe ela não nos odeie tanto, afinal.
Dereck não havia mostrado as caras novamente desde o incidente (nem na empresa, para a minha sorte). aos poucos ia voltando para casa, mesmo que em alguns dias da semana ficássemos no apartamento dele para não soar tão injusto. As coisas estavam bem.
Era outro dia comum no trabalho. Vi Lucy ao longe conversando com Nishi e Joshua, membros da equipe. Nós havíamos chegado a uma conclusão trágica a respeito de John McKoy no dia anterior. Me aproximei depressa, a tempo de ouvi-los falando:
- Isso prova que o que ele tem é morte cerebral. – Nishi concluiu.
- Errado. – eu interrompi, fazendo a garota se virar irritada para mim.
- O que você está fazendo? – perguntou ela – Nós concluímos isso ontem. Os exames provaram que...
- Os exames não explicam isso, venham comigo. – e segui de volta pelo corredor de onde eu viera. Lucy, Nishi e Joshua vieram ao meu encalço, curiosos e desentendidos. Nós paramos em frente à sala onde as crianças ficavam, onde podíamos vê-los através do aquário. Apontei para John sentado na maca, com um teclado de brinquedo no colo – Estão vendo aquilo? Ele está tocando “brilha brilha, estrelhinha” desde hoje de manhã, quando a avó trouxe o teclado.
- E daí? – Joshua perguntou, como se aquilo não fizesse sentido algum.
- E daí que ontem, quando eu voltei para casa, eu fiquei pensando sobre o caso dele e revi todos os exames. Eu havia concluído que ele só havia morte cerebral do lado direito do cérebro. Mas hoje eu cheguei aqui e ele estava tocando música, inclusive criando algumas pequenas melodias. – Percebi que apenas Lucy acompanhara o meu raciocínio.
- É o lado direito do cérebro que controla os sentimentos, a criatividade e sabe a função dos objetos. – ela explicou para os outros dois.
- Exatamente! Portanto, ele só tem uma pequena área danificada que atrapalha o resto do desempenho cerebral. Pode ser resolvido com cirurgia, e a massa que tem que ser retirada é mínima. – Comentei realmente empolgada.
- Isso... Isso é uma ótima notícia. – Lucy comentou, sem querer demonstrar que estava emocionada – Ótimo trabalho.
Sorri abertamente, querendo gritar “yeah” e fazer uma dancinha, mas controlando meus impulsos. Fora talvez a primeira vez que eu fiquei imensamente grata por ter escolhido aquela profissão. Eu não suportaria saber que não houvesse nada que eu pudesse fazer a respeito dele. Joshua me deu um abraço e me parabenizou comentando “genial, temos uma nerdinha na equipe”, fazendo-me rir. Nishi me parabenizou também, mas sua inveja acabou ficando mais clara do que o que ela desejava. Porém, nada poderia estragar aquele meu dia. Eu conseguira, por mais clichê que aquilo fosse, salvar a vida de alguém. Impedir que algum médico mais experiente nos olhasse e nos chamasse de incompetentes por não notar algo assim. Aquela ótima sensação de se sentir... Foda. Não importava o quanto isso soasse egocêntrico.
Passei o resto do dia sorridente, brincando com todo mundo e me propondo até a pagar o Happy Hour de sexta. Voltei para casa e ainda não havia chegado do estúdio. Alimentei o Senhor Picles e o deixei solto pela casa. Coloquei um CD do Elvis, vesti um vestido e fiquei de pés descalços. Fui para a cozinha e fiz spaghetti para o jantar. Houve uma hora em que eu peguei a pequena bolinha de algodão no colo e dei um giro enquanto cantava “Hound Dog”. Quando parei, vi a porta aberta e um encostado no batente, com uma camisa social com as mangas dobradas e uma jeans velha, completamente sorridente. Não consegui não rir.
- To tentando achar um motivo pra não passar o resto da minha vida com você. – ele riu de leve. Achando aquilo a coisa mais fofa do mundo, larguei o Picles no sofá, corri e pulei nele, prendendo as pernas em volta da sua cintura, dando risada. Como se fosse completamente inevitável e ele fosse o meu imã humano, mordi seu lábio inferior e deixei minha língua pedir passagem, timidamente. Ainda comigo em seu colo, ele entrou em casa e fechou a porta com um dos pés. Interrompi o beijo alguns minutos depois.
- Achou algum? – perguntei
- Algum o quê? – rebateu, desnorteado
- Algum motivo para não passar o resto da vida comigo?
- Muitos. Mas nenhum deles me convence. – e dito isso, eu voltei a beijá-lo intensamente, disposta a perder todo o ar que houvesse em meus pulmões. Após alguns arranhões nas coxas e beijos no pescoço, sua camisa estava no chão (talvez sem a mesma quantidade de botões que antes) e a brincadeira acabou ficando mais interessante.

- Meu Deus... Você... É incrível – ele comentou em meio à respiração entrecortada e desregularizada
- Para! – dei-lhe um tapa ardido no braço enquanto eu ria e sentia as bochechas esquentarem, ruborizando.
- É sério. É muito sério. – ele enfatizou, apoiando-se em um dos cotovelos e me dando um selinho – Uma coisa é certa: às vezes eu chego a pensar que você é demais para mim.
- Uma coisa é certa: você vai ter que lavar meu tapete. – comentei, fazendo nós dois cairmos na risada. Puxei a camisa social dele, vesti e fiz um coque com o cabelo – Outra coisa é certa: Eu to morrendo de fome.
- Nossa, somos dois, mas eu não quero que você saia daqui. – ele fez um bico e me segurou pela cintura.
- Vamos jantar e eu penso no seu caso depois – pisquei, com cara de inocente, fazendo ele me soltar no mesmo segundo e me acompanhar até a cozinha. Nós jantamos enquanto eu tentava ignorar os beijos no pescoço, ou as roçadas de perna por debaixo da mesa, que ele fazia por brincadeira.
- Me conta como foi o seu dia. – ele comentou em meio ao nosso jantar
- Resolvi o problema do John McKoy, por muito pouco. Se eu não tivesse chegado a tempo, poderiam ter dado o laudo errado e eu nem quero pensar no que aconteceria.
- Nossa, o que ele tinha?
- Desgaste de uma parte do cérebro, uma massa pequena que não funciona. E ia ser declarado como morte cerebral.
- E como você descobriu que não era morte cerebral? – ele me perguntou, intrigado
- Eu passei por uma sala e ele tava tocando teclado. Ele não conseguiria se tivesse morte cerebral e blábláblá.
- Engraçado, é como se fossem as nossas duas funções juntas. – olhei-o em tom de pergunta – A música salvando vidas.
Ri fraco e segurei sua mão. Terminamos de comer, deixamos os pratos na pia e voltamos abraçados pra sala. sentou no sofá e eu sentei no colo dele.
- Ah, mocinha! Que história é essa de que eu sou dotado de... Uma chave? – ele fez o tamanho com os dedos. Eu fiquei imediatamente muito vermelha e caí na gargalhada.
- Tenho que proteger o que é meu, né? – mostrei a língua e nós rimos. Depois minha risada foi sumindo e eu comecei a olhar pros meus próprios dedos, fingindo que eu estava perguntando sem propósito. – Ela teve a oportunidade de conferir?
- Não, sua idiotinha. O que é seu ta guardado. Literalmente. – dei-lhe um tapa no braço, achando dispensável a brincadeira. Ele beijou minha bochecha. – Eu não estava me referindo a isso. Existe uma coisa muito mais interessante que é sua. Ela fica pulsando aqui do lado esquerdo, não sei se você sabe o que é.
Segurei seu rosto entre as mãos, olhei o fundo de seus olhos, quase penetrando a alma, e o beijei de novo, conforme ia me deitando e o seu corpo vinha por cima do meu. Seus dedos fazendo desenhos delicados nas minhas coxas. E, por mais impossível que isso soasse, não havia erotismo. Não havia o desejo carnal. Aquele momento era só proximidade, os olhos nos olhos, eu e ele. Até que interrompeu o beijo, com um sorriso de orelha a orelha e comentou: - Acabei de ter uma ótima ideia.

Bom, eu (assim como vocês devem estar agora) passei dias me coçando de curiosidade para saber o que era a tal ótima ideia. Andava na ponta dos pés para tentar ouvi-lo no telefone, ou tentava espiar quando ele estava no computador, mas todas as minhas tentativas acabaram sendo falhas.
- Não adianta, você não vai descobrir. – ele ria.
E toda a minha curiosidade inquieta acabou realmente não sendo páreo para ele. um, zero. Acabei como aquelas crianças que pulam, pulam e são vencidas pelo cansaço. Desisti de descobrir e admiti que, o que quer que fosse, estava realmente bem escondido de mim. Duas semanas depois, numa sexta feira, a cirurgia de John havia sido feita e ocorrido muito bem, graças aos céus. Eu chegara em casa outra vez com aquele sentimento de que nada no mundo conseguiria me deixar mal. Abri a porta, joguei minhas coisas no sofá, tirei os sapatos e o vi vindo pelo corredor, com os cabelos molhados.
- Ah, droga, se eu tivesse chegado alguns minutos mais cedo. – fiz bico e ele deu risada. Caminhei até ele, passei os braços pelo seu pescoço e o beijei por minutos, depois de um dia cansativo. – Como foi seu dia?
- Foi ótimo, fiquei sabendo que Dereck voltou a Los Angeles. Devia estar com medo de apanhar. – brincou, a felicidade estampada no rosto – E o seu?
- Foi muito bom também. A cirurgia do John ocorreu super bem, talvez em uma semana ele possa voltar para casa.
- Que ótimo, amor. – ele me deu um selinho – Estou orgulhoso de você. Agora vá pro seu banho, porque nós vamos dormir cedo hoje.
- Por quê? – estranhei – Na verdade, eu estava querendo sair... – fiz manha
- Tudo bem, nós saímos hoje. Mas aí você perde a minha surpresa amanhã, ok? – ele disse, com descaso
- To indo pro banho. – disse depressa, fazendo-o rir. Nós jantamos assistindo TV e acabamos indo dormir cedo, afinal, ele sabia bem como me convencer.

- Ei, bela adormecida, acorda. – sussurrou ao pé do meu ouvido e me deu um beijo na testa. Resmunguei e ele pediu novamente. – Vamos, , não quero me atrasar.
- A gente precisa mesmo sair tão cedo assim? – esfreguei os olhos. Sentia como se eu tivesse dormido apenas meia hora.
- Sim, nós precisamos. Você pode dormir no carro se quiser.
- Tá, né? – me levantei emburrada, sem nem abrir os olhos direitos e fui escovar os dentes. Voltei e caí na cama de novo, quase voltando a cochilar.
- , eu não vou ter que ir até aí, né? – ele fez voz autoritária e eu só respondi um “hm”. bufou, veio até a cama, pegou-me no colo e me jogou (ainda não descobri exatamente como ele conseguiu) por cima do ombro, largando-me apenas na cozinha. Olhei furiosa para ele.
- O que você pensa que eu sou? Um saco de batatas? – perguntei indignada e ele deu uma risada abafada.
- O saco de batatas emburrado mais lindo que eu já vi. – deu-me um selinho – Agora coma alguma coisa, acorde e venha se trocar.
Fiquei bufando em alto e bom som por alguns segundos para que ele me ouvisse reclamando, fiz um sanduíche, comi uma maçã e voltei pro quarto. Vesti uma jeans, uma regata, joguei um moletom branco por cima e calcei minha UGG boot
- Quanto tempo nós vamos ficar fora? – perguntei a ele
- Talvez um ou dois dias. Leve pouca coisa. Acho que uma mochila dá. – Uma mochila dava para ele, que é homem. Levei duas por precaução. Peguei o celular e deixei um recado para que minha mãe viesse buscar o Senhor Picles, a cópia da chave estaria na portaria. Fomos no carro dele, que era mais esportivo, sem falar que era ele o motorista da vez. Geralmente nós discutíamos sobre “em qual carro nós iríamos” porque eu sou apaixonada por dirigir e me sinto mais confortável no meu carro. Mas a etapa de disputa pelo volante foi pulada, porque eu estava morrendo de frio e sono e não fazia a mínima ideia de onde estávamos indo.
Notei que pegava algumas avenidas movimentadas, mas que estavam vazias considerando que deviam ser umas 4h da manhã, até que nós acabamos na estrada. Quando eu comecei a deixar a fase de “meio acordada, meio dormindo”, o sol começou a nascer. Por sorte, a cidade já estava pra trás quando o céu se alaranjou por completo e anunciou o bom tempo. Vi sorrindo, ao meu lado, no volante, para o que prometia ser um dia ótimo.
Nós ficamos quietos, só cantarolando algumas músicas que ele havia colocado para tocar, olhando amanhecer enquanto nos afastávamos de Londres. Vez ou outra eu perguntava se ele queria água ou algum dos biscoitos que eu havia trazido na mochila. Quando ele não via nenhum carro na nossa frente, ou vindo atrás, largava do volante e vinha me beijar por alguns segundos, mas eu tinha que devolvê-lo depressa, com medo de sermos surpreendidos por algum barranco ou pela própria estrada. Ele comentou em algum ponto da viagem que estávamos na fase “chiclete”, porque se deixassem, nós morreríamos asfixiados num beijo sem se importar ou passaríamos tanto tempo grudados que viraríamos irmãos siameses. Eu achava o exagero dele incrivelmente engraçado. Porque por mais bobo que fosse, ele tinha uma facilidade muito grande de me fazer rir e todo e qualquer tempo que eu passasse com ele parecia apenas meia hora.
Por tal motivo, estranhei quando olhei o relógio e vi que já haviam se passado cinco horas. Assim que a placa que indicava Gloucester passou pela gente, fiquei curiosa.
- O que nós viemos fazer em Gloucester?
- Quem disse que nós vamos ficar em Gloucester? – ele perguntou de volta.
- Não sei, é que você parece perdido. – comentei distraída e só depois o notei ficando emburrado. Nunca diga que um motorista experiente parece perdido. Ainda mais se for homem.
- Não estamos perdidos, eu sei exatamente onde estou indo.
- Quanto tempo ainda de viagem?
- Uma hora, ou menos. Se for mais que isso, nós paramos, estou ficando com fome. – fez um muxoxo.
- Ok. – e, dito isso, encostei a cabeça no vidro, fiquei reparando nas imagens correndo lá fora e acabei cochilando. Algum tempo depois, ouvi ele falando baixinho “Amor, estamos chegando. Acorda.”
Abri os olhos com preguiça, bocejei e olhei a vista. Um lugar lindo, muito verde em campos abertos, uma pequena ponte feita de pedra atravessando o riacho perto da curva da estrada de terra. Chequei o relógio e vi que 40 minutos haviam se passado, sorri de lado pela precisão dele.
- Onde nós estamos? Parece a Irlanda. – comentei, com a voz sonolenta.
- É quase isso. – ele riu fraco – Estamos em Gales. Na cidade de Newport.
- É lindo. – continuei olhando em volta, meio embasbacada – Onde nós vamos passar a noite? Quero ver amanhecer por aqui, mas não trouxe muito dinheiro.
- Eu já tenho um lugar para a gente ficar. Não está muito longe. – Mais uns dez minutos e percebi que ele pegara uma estradinha menor, alternativa. Fazia-se um corredor de árvores cheias, frondosas, de cada lado da estrada. Fui obrigada a fazê-lo parar para que eu pudesse fotografar. Não muito à frente, havia uma casa. Grande e antiga, com muitas janelas e trepadeiras nas paredes externas.
- Que lugar é esse? – perguntei, extasiada pela beleza do lugar.
- Vem, eu já te conto tudo. – parou o carro, abriu a porta, desceu sem me esperar e foi falar com uma senhorinha que saiu correndo de dentro da enorme casa, em meio a sorrisos e exclamações.
Desci apreensiva, com um pouco de timidez, por não ter ideia de onde estávamos ou a quem pertencia aquele lugar. Chegando perto deles, logo comentou:
- Anna, essa é a . – e, olhando para mim, continuou – , essa é Anna.
- Prazer. – eu disse, sorridente, cumprimentando-a.
- Ah, querida, o prazer é meu. Ele não para de falar em você – disse a velhinha de olhos claros, com o sotaque puxado de interior – Agora vamos para dentro crianças, eu preparei o café. Estava só esperando vocês chegarem.
E, com palmadinhas nas costas, ela nos levou para dentro. A casa tinha todo um charme vitoriano e era quente lá dentro. A mesa estava servida com dois bolos, leite, café, pão, frutas, biscoitos caseiros e suco. Estávamos esperando mais gente?
Anna disse que iria chamar Jean, que eu não fazia ideia de quem era, e nos deixou na cozinha sozinhos.
- Você não vai me falar que lugar é este? – perguntei.
- Ah, é. – ele respondeu de boca cheia e engoliu de pressa – Essa casa era do meu avô. Eu, meus pais, meus tios e meus primos crescemos aqui. Todo feriado que tinha, ou na época de férias, nós vínhamos para cá. Mas o tempo passou, a gente foi crescendo, tendo mil e um compromissos, o resto da minha família mal para no país. Depois que o meu avô morreu então, nós só aparecemos por aqui separados. É estranho. – ele bebeu um gole do café – A Dona Anna era menina quando veio cuidar dessa casa, me viu crescer.
- Ah sim, entendi. Pensei que estávamos invadindo algum terreno. – brinquei.
- Ainda não. – ele rebateu com um sorriso sapeca no rosto – Vamos levar nossas coisas lá para cima.
Fomos até o carro, pegamos as bolsas e subimos até um quarto que havia sido claramente arrumado e estava esperando por nós. O papel de parede tinha uma estampa vintage, já um pouco envelhecida, o piso era de tábuas de madeira grossas e tinha uma lareira, mas nada conseguiria ganhar daquela vista. Parada na janela, respirando o ar puro e gelado de Newport, me abraçou por trás e cochichou ao pé do meu ouvido:
- Vem, eu quero te mostrar tudo nesse lugar. – Sorri como uma idiota e dei a mão para ele, que me levou de volta ao primeiro andar e, de lá, para o jardim de onde ouvimos Anna berrar “Voltem para o almoço”. Saímos correndo para detrás da casa, onde tinha um campo, um pequeno jardim de inverno à beira da janela da cozinha, um banco e muitas árvores para lá do pequeno campo. Sentamos no banco.
- Bem vindo ao “muitas coisas que quase ninguém sabe sobre mim”. – deu uma risadinha – Fato número um que você talvez não queira saber: Eu dei meu primeiro beijo nesse banco. Ela era filha da Anna e eu tinha uma paixão platônica por ela desde os sete anos.
- E com quantos anos você deu seu primeiro beijo? – perguntei, achando a lembrança fofa.
- Com doze. Depois de muito tempo, quando eu decidi dar flores pra ela ao invés de convidá-la para brincadeiras que envolviam lama. – nós rimos – E o seu?
- Com treze. Eu gostei dele por muito tempo e ele também gostava de mim, mas nós éramos melhores amigos, ficava meio difícil assumir. Aquela coisa de amizade colorida, inocente, sabe? Era muito bom.
- É engraçadinho amor de criança. Às vezes é bem melhor que o de adultos. – ele pegou minha mão e levantou de volta – Agora vem, que tem muito mais coisa pra você ver.
Passando por uma árvore, ele comentou que tinha uma foto com todos os primos lá em cima, que acampavam debaixo daquela árvore, que era quase a fortaleza deles. Havia vários nomes gravados nela. Entre eles “ ”.
Pegamos um caminhozinho estreito de terra. Tive a impressão de que antes deveria ser um caminho mais aberto, mas o que quer que tivesse lá na frente acabara sendo deixado de lado e as plantas invadiram um pouco o caminho, por desleixo. xingou baixinho, comentando que antes era tão mais fácil chegar lá. O espaço era tão verde que eu quase me sentia clorofilando por osmose. A umidade no ar e as plantas fechando o céu acima de nós fazia com que parecesse ainda mais frio do que já estava. Após uns quinze minutos de caminhada, o espaço se abriu, dando para um pequeno lago com talvez uns três ou quatro metros de diâmetro. A água era um pouco turva, silenciosa, a superfície parecia feita de vidro. Espelhava o céu, azul anil de meio dia e o sol (não mais impedido por milhares de folhas e besourinhos), conseguia deixar aquela clareira mais quente. Notei algumas bromélias vermelhas nas árvores do outro lado do lago. As duas pedras grandes que haviam na margem esquerda estavam cheias de musgo e a parte mais charmosa da cena: uma pontezinha de madeira envelhecida ia até a metade do lago.
Dei dois passos, desnorteada com a beleza do lugar. Ainda de mãos dadas, me guiou até a ponte, nós nos sentamos de frente um para o outro, eu ainda estava olhando em volta. Sentia-me emocionada sem nem saber por quê; por mais que eu não fosse uma garota chorona, sentia que a qualquer momento meus olhos poderiam se encher de água e algumas lágrimas fugiriam sem que eu as controlasse. E as cinco palavras seguintes acabaram me mostrando que o “a qualquer momento” era exatamente naquele segundo.
- Eu nunca trouxe ninguém aqui. – ao virar o olhar para mim, deu uma risada abafada e beijou minhas lágrimas, enquanto eu fechava os olhos e apenas o sentia ali perto. – E o mais engraçado é que, quando eu achei esse lugar, nunca passaria pela minha cabeça trazer uma garota aqui.
Eu sorri, imaginando um pré-adolescente sujo de lama e com nojo de garotas.
- E você ainda não viu a melhor parte, que eu nem sei se ainda tem... – ele se deitou de bruços, fez sinal para que eu fizesse o mesmo e lá, debruçados na beirada da ponte, tirou um pequeno pedaço de pão do bolso, fez migalhas e jogou no lago. Seu olhar esperançoso, ansioso sobre a água. Silêncio.
Segundos depois uma cabeça alaranjada veio à superfície sendo seguida por milhares de carpas. Elas estavam por toda a parte e, com elas, ecoava a risada dele, abismado por elas ainda estarem ali, quer dizer, já fazia tanto tempo.
Sem hesitar, colocou a mão dentro da água e acariciou uma das maiores carpas que haviam ali, da cabeça ao rabo. Depois nos viramos, deitados para cima e ficamos olhando o céu, adivinhando formato de nuvens.
- É um coelho. – eu disse, apontando para cima.
- É um pato. – ele contrapôs.
- Lógico que não. É um coelho – insisti.
- , olha isso, é um pato. – ele teimou.
- É um coelho.
Ficamos em silêncio. O vento mudara o formato da nuvem.
- Agora é um chapéu. – ele comentou.
- É, agora parece um chapéu. – concordei.
Ficamos na ponte por algum tempo. Eu tinha vontade de nunca mais sair dali, mas houve a hora em que a barriga de começou a roncar e eu tive que levar meu animalzinho pra comer, antes que ele devorasse a própria ponte.
Voltamos à casa para comer a famosíssima “Lasanha da dona Anna”. Fomos comer no quintal, numa mesa enorme que tinha ao sol, nos fundos da casa. Estávamos, eu, ele e a senhorinha contando histórias de uma criança terrívelmente arteira.
- Ele já te mostrou a bendita árvore, aposto. – ela comentou, com voz de vovó.
- Aham. – assenti.
- Os outros meninos, os primos dele, eram todos maiores e mais velhos que ele. Mas esse era tão inquieto, ele queria fazer as mesmas coisas que os meninos faziam e ainda ser mais experiente que os outros. – ‘previsível’, pensei – A primeira vez que ele subiu lá, tomou uma queda e abriu a cabeça! Deixou todo mundo desesperado por aqui. Saíram correndo com ele pro hospital.
Ele deu risada, enquanto Anna tinha o ar de que ainda guardava o susto de lembrança.
- Tomei quatro pontos na testa, olha. – levantou o cabelo e exibiu a pequena cicatriz na testa.
Ela contava sobre quando eram adolescentes, saíam escondidos à noite e um primo mais velho dele pegava o carro do pai. Iam pras festas na cidade e voltavam quando amanhecia.
- Eu achava que ninguém sabia! – ele comentou, espantado, mas querendo rir.
- Ora, , vocês eram muito desastrados. – nós rimos e Anna levantou da mesa – Eu vou buscar a torta. Com licença.
Ele segurou minha mão e comentou com a boca cheia pela última garfada:
- Amor, se você aprender a cozinhar assim, eu peço você em casamento. – não tive como não rir, mas dei-lhe tapas no braço.
- Tá bom que eu vou aprender a cozinhar assim pra você me fazer de Amélia. – ele mostrou a língua e mordeu minha bochecha. Pouco depois, Anna trouxe uma enorme torta de maçã para o quintal. Nos serviu com boas fatias e eu senti que, mesmo que eu já estivesse satisfeita, teria que arrumar espaço para aquela torta.
Depois do almoço, nós a ajudamos a levar as coisas para dentro e eu me encarreguei da louça, após muita insistência da minha parte. Saí da casa, secando as mãos, e vi largado numa rede, meio sonolento. Caminhei devagar até ele, deitei do seu lado, abracei-o e encaixei o rosto no seu pescoço. Cochilamos por um tempo, sentindo a brisa nem quente nem fria.
Já estava escuro quando nós levantamos e estava bem mais frio. Depois de colocar agasalhos, nós fomos lá pra fora de novo. O carro ainda estava largado no mesmo lugar e perto dele havia uma árvore cheia de pontinhos avermelhados. Eram amoras. Eu amo amoras.
Sentamos no capô do carro, um do lado do outro e ficamos comendo as pequenas frutinhas, sem falar nada.
- Acho que nós vamos ter que dormir por aqui, a dona Anna foi pegar mil cobertores pra gente. E ta fazendo planos pro almoço de amanhã.
- É, então eu acho que sim. Tem problema pra você? – ele perguntou, como se a resposta não fosse óbvia.
- Tem. Não vou agüentar ficar aqui mais um dia com você. Quero ir pra casa. – ironizei e ele sorriu, beijando minha testa. Apoiei o rosto no seu ombro, de lado.
Ele estava quieto e eu sabia que tinha alguma coisa passando pela sua cabeça. Aquele lugar parecia trazer muitas lembranças, mas talvez nem todas elas fossem boas.
- Ele traía a minha mãe. – engoliu em seco depois de comentar no vazio. Olhei para ele, em dúvida. – Meu pai. Foi por isso que eu fiquei dois anos sem falar com ele, sabe, depois que eu descobri. Eu tive mais raiva dele do que ela.
- Sua mãe que te contou?
- Não. Ela nem sabia. Fui eu que vi eles dois juntos.
- Sinto muito. – comentei, passando a mão pelas suas costas.
- Tudo bem. Ficou tudo bem depois. Era uma fase difícil e ele estava confuso. Mas passou, eles estão juntos de novo. Na época foi difícil entender, mas hoje eu sei que, mesmo que ele tenha sido estúpido e tenha feito uma burrada enorme, não significa que ele não a amava.
- É verdade. – concordei. Segurei seu rosto e o beijei. Beijo de adolescente, apaixonado e intenso.
- Você está com gosto de amoras. – ele riu.
- Isso é ruim? – perguntei, fazendo manha
- Muito pelo contrário. – e sua língua pediu passagem outra vez. Meu celular vibrou no bolso, mas eu não conseguia me afastar dele por vontade própria. Se fosse importante, ligaria outra vez. Nós ficamos ainda mais perto, meus braços em volta do seu pescoço e meu coração internamente torcendo para que nada, (nem Anna, nem celular) interrompesse aquilo. Mas a minha sorte andava muito bem para o normal e o celular acabou insistindo.
Xinguei baixinho e acabei atendendo, enquanto recuperava o fôlego.
- Alô?
- ? Você tá ocupada agora? soluçava do outro lado da linha, fazendo com que eu me assustasse.
- Não, o que aconteceu? – perguntei, depressa
- Eu não to bem, amiga. – ela chorava do outro lado da linha.
- Onde você está? – me olhou preocupado e eu cochichei para ele “Preciso voltar. Agora. Pegue as minhas coisas, por favor.” Obviamente ele notara que algo havia acontecido, algo que eu também não sabia.
- Estou em casa. – ela fungou.
- Tome um remédio e durma um pouquinho que eu já chego aí, ok? – tentei acalmá-la.
- Tudo bem – enquanto nos despedíamos, terminava de trazer e colocar as nossas coisas no porta malas, que não eram muitas. Anna estava confusa à porta, mas provavelmente não iria insistir para que ficássemos. Desliguei o telefone.
- O que aconteceu? – ele me perguntou, preocupado.
- Eu não sei. me ligou chorando. Não deve ser bom. – passei as mãos pelos cabelos. – Vou voltar.
- Eu vou com você.
- Ok, me passe as chaves. – pedi. Ele pareceu meio hesitante em me deixar dirigir naquele estado, mas sentiu que também não seria bom discutir.
Entramos no carro, colocamos os cintos e eu acelerei. Tive certeza de que a viagem de volta ia ser bem mais curta.
Capítulo Vinte e Quatro –

Deviam ser umas cinco da manhã. O porteiro entediado detrás da mesa se assustou ao me ver entrar depressa, fazendo voar alguns papéis que estavam à sua frente. vinha em meu encalço e avisou para qual apartamento estávamos indo. Desnecessário. Todos eles me conheciam, eu não pedia pra subir.
Apertei o botão repetidas vezes, batendo os pés e bufando. segurou meu dedo indicador e me virou em um giro para ele.
- Ei, se acalma. Nós já estamos aqui. Não aconteceu nada, ok?
- Ah, não, ela me ligou chorando porque estava bem. – ironizei
- Eu sei que ela não estava bem, . Mas não deve ser nada excepcionalmente trágico, confia em mim. – respirei fundo – Além disso, você estar agitada assim pode piorar tudo.
- Eu sei, você está certo. – parei de bater os pés, dei-lhe um selinho e entramos no elevador. Ele segurava minha mão e eu não conseguia evitar pensar em mil coisas horríveis. nunca chorava. Tinha que ter potencial para fazê-la chorar. E isso me embrulhava o estômago só de pensar.
O barulhinho irritante que o elevador faz quando chega ao andar certo ecoou e eu saí, tentando controlar a pressa e a vontade de arrombar a porta. tocou a campainha e me abraçou de lado, tentando realmente me acalmar. Ouvi passos e a porta se abriu.
Ela estava de pijama e com os olhos levemente vermelhos. Deu um sorriso fraco.
- São cinco horas, você podia ter esperado amanhecer. – sua voz estava rouca e os olhos já cheios d’água.
- Eu disse, mas ela nunca me ouve. – brincou, para tentar amenizar a tensão. Eu não respondi nada, abracei-lhe e de imediato senti os ombros molhados, mesmo que ela estivesse sendo discreta ao chorar. passou a mão pelas suas costas, tentando acalmá-la. Afastei-me e segurei seu rosto.
- Ei, eu tô aqui. Tá tudo bem. Vem, vamos entrar. – puxei-a pela mão. trancou a porta atrás de nós, olhou em volta e perguntou, distraído.
- Cadê o ? – engoliu em seco
- Ele não está. – respondeu simplesmente. Eu e trocamos olhares discretos, sabendo que haviamos achado o real problema.
- Eu vou fazer um chá pra gente. – ele comentou após pigarrear, sem graça.
- Você pode ficar aqui hoje? – minha amiga me perguntou, chorosa
- Lógico que eu vou ficar aqui hoje, ok? Só vou falar pro ir pra casa, espera um pouco. – se sentou no sofá, e eu fui até a cozinha, avisá-lo.
- Você acha que tem problema eu ficar também? Sabe, se acontecer alguma coisa, eu estou aqui. Posso ficar no sofá. – ele comentou baixinho.
- Ok, eu vou deixar cobertor e travesseiro pra você ali na sala e vou lá no quarto conversar com ela. Deixa o chá aí que eu já venho buscar. – ia me virando para deixar a cozinha, quando ele me puxou de volta.
- Ei, eu te amo. – e me beijou por alguns segundos.
- Eu também amo você. – dei-lhe beijinhos na bochecha e me soltei dele, antes que eu mudasse de ideia. Busquei travesseiro e cobertor e larguei na sala. Quando voltei, ela ainda estava com aquele olhar perdido, olhando o vazio. Puxei-a pela mão – Vem.
Entramos no quarto, eu fechei a porta, suspirei e perguntei de uma vez.
- Tá, por que vocês brigaram?
Ela sentou na cama, com ar de cansada, e me olhou.
- Nós não simplesmente brigamos, . Nós terminamos.
- Como? Por quê? – perguntei-lhe, incrédula, e ela caiu no choro de novo. Sentei-me e lhe abracei de lado – Amor, calma. Vocês são o casal mais... Casal do grupinho. Todo mundo imagina vocês juntos, numa casa enorme e um jardim com crianças correndo. É só uma fase. Eu tenho certeza disso.
- Não, , não é! – ela se levantou – Eu pensava como você até esses dias. Mas o é uma pessoa completamente diferente, ele é... Covarde. – ela disse, com repugnância.
- O que aconteceu entre vocês de tão grave, afinal de contas? – perguntei, vencida pela confusão. caminhou até o guarda-roupas sem me responder, abriu uma gaveta e trouxe uma caixinha até a cama. Antes de abrir a caixa, ela me olhou receosa.
- Eu tava mal essa semana, bem mal. Não sabia o que era. Até que me ocorreu uma possibilidade estúpida e... – ela retirou a tampa – Acabou que não era tão estúpida assim.
Soltei um suspiro de espanto.
- Meu Deus! – coloquei a mão na boca, ainda tentando assimilar o fato.
- Eu tô grávida. Provavelmente já entre o terceiro ou o quarto mês. – minha amiga confirmou. “Gravidíssima”, pensei, ainda olhando os quatro testes de gravidez que deram positivo. Mas eu não comentaria o pensamento nem que me pagassem, porque eu não precisava levantar o olhar para saber que ela não encarava aquilo como boa notícia. Imaginei que ela deveria ter dito que iria abortar e se emputeceu. Mas, sem querer adivinhar nada, olhei-a de volta e esperei a versão completa da história.
- Eu não vou dizer pra você que eu quero um filho agora. Eu estaria mentindo. Mas aconteceu e, depois do primeiro teste, eu comprei vários outros pra ter certeza. Até que ontem, eu decidi contar. Mas a reação dele foi completamente contrária. Nós discutimos por horas e, bem... - ela engoliu em seco – Ele foi embora. quer menos um filho do que qualquer outra pessoa na face da Terra. E eu não posso culpá-lo por isso.
- COMO ASSIM?! É CLARO QUE PODE! – indignei-me – Pelo amor, você não fez isso sozinha! Isso é uma surpresa pra você tanto quanto é pra ele. Que direito ele tem de se achar a vítima e te deixar aqui?
- ... – ela tentou
- nada! Vocês são adultos, não têm mais 16 anos pra ele se apavorar e ser tão estúpido. – bufei e passei a mão pelos cabelos, andando de um lado pro outro.
- É, eu sei. – ela abaixou a cabeça. Percebi que eu não estava ajudando muito e fui até ela.
- Foda-se ele, ok? Eu vou ser o pai dessa criança. – nós rimos fraco – Eu vou te ajudar em tudo que você precisar, vou estar aqui. Desde a primeira foto do amendoinzinho que existe dentro de você, até o momento em que ele respirar pela primeira vez, andar pela primeira vez e trouxer a primeira namorada em casa. E você nunca vai estar sozinha. Eu prometo.
- Brigada, amor. – seus lábios tremeram e ela caiu nos soluços mais uma vez. Abracei-a forte, tentando passar segurança, mas me senti completamente impotente quando ela sussurrou – Era tudo que eu queria ouvir dele.
Não tive como responder nada. Eu apenas imaginava o quão difícil deveria ser. Ela já não queria isso e somado ao fato dele ter sido tão infantil e estúpido era cruel. Deixei que ela chorasse pelo tempo que fosse preciso, enquanto mexia em seus cabelos. Seu olhar fitando a parede, sempre tão distante, pensando no que seria do futuro dela e daquela criança sem que ele estivesse por perto. É nesse lado do amor que ninguém pensa: quando nós amamos e é bom, é ótimo, lindo, perfeito, nada pode nos afetar. Mas basta uma pequena palavra, uma ideia diferente para que o lado ruim da moeda seja desastroso. Todo o tempo de confiança, tudo que se passou juntos corre o risco de ir por água abaixo. Uma brisa invisível e o castelo de cartas precisa ser refeito.
Depois de uma hora e meia em silêncio, ela acabou dormindo. Mas eu já havia perdido o sono, embora estivesse ainda um pouco cansada. Passei a mão pelos cabelos, fui de pés descalços até a cozinha, esquentei meu chá e o bebi. Vi, pela janela da cozinha, que já estava amanhecendo. De volta à sala, sentei na poltrona e fiquei sem fazer barulho, olhando dormir como uma criança enquanto milhares de coisas passavam pela minha cabeça. Talvez se a tivesse traído com outra mulher, mesmo assim, teria sido menos pior. Imaginei uma criança correndo por aquela casa e que expressão haveria em seu rosto quando perguntasse do pai. Eu não esperava isso dele.
Por um segundo, eu desejei estar no lugar dela para não vê-la sofrer assim. Um pensamento levava ao outro e, parada ali, vendo dormir, tão tranquilo, tão perto, perguntei-me se ele agiria da mesma forma. Se ele ficaria do meu lado, mesmo que não quisesse um filho. É algo complicado para se ficar pensando a respeito.
O sol entrou num raio laranja forte pela janela e me fez olhar a cidade lá fora. Quando voltei meu olhar a ele, seus olhos brilhantes estavam abertos, olhando-me.
- É uma ótima maneira de acordar. Ver você assim, no sol.
- Queria ver se você ia achar bonito se eu estivesse na chuva, morrendo, com cara de gripe. – brinquei
- Nem chuva nem nada vai conseguir me fazer te achar feia