Get Up And Go
Autora: Sally | Beta-reader: Giovana


17 de novembro – Quarta-feira - São Paulo, Brasil

É isso aí.
Agora não tem mais volta.
Daqui a 48 dias - no dia 4 de janeiro - eu estarei em um avião com destino a Madri, Espanha.
Vou fazer dois semestres de faculdade na Universidad de Madri.

Aqui vai uma lista das coisas que eu espero aprender na Espanha:
1. Como arranjar um namorado europeu rico e bonito.
2. Como fazê-lo se apaixonar perdidamente por mim.
3. Como deixá-lo tão apaixonado a ponto dele me pedir em casamento.
E, finalmente,
4. Como convencê-lo a assinar um acordo pré-nupcial com comunhão total de bens.
Ei, eu não sou uma pistoleira. Mas eu me conheço e imagino pelo menos sete coisas que eu gostaria de fazer na Europa que quase com certeza resultariam em extradição.
Uma garota tem que ser prevenida.

21 de novembro - Domingo - Ainda São Paulo, ainda Brasil

Ainda não estou nervosa. Faltam 44 dias para a minha viagem e eu ainda não estou nervosa.
O que é muito estranho considerando que eu fico nervosa por ter que esperar a mulher colocar os pães no saquinho quando eu vou à padaria.
É essa padaria aqui perto de casa. Eu a adoro. Não consigo imaginar uma padaria com menos variedade de pães do que ela. Sério, só tem pão francês e italiano.
Normalmente o italiano está com a data de validade vencida e o francês, ou muito branco ou muito queimado.
Ela fica dentro de um mercado com os maiores preços que você pode imaginar. Pense no mercado mais caro que você já viu - o mercado perto da minha casa é mais caro do que ele.
Não gosto de fazer compras em outro mercado, nem em outra padaria.
O amor é uma coisa estranha, né?

24 de novembro – Quarta-feira - São Paulo, Brasil

41 dias.
Ainda não nervosa.
Estava conversando com uns amigos hoje e todos eles estão nervosos ou excitados com a minha viagem.
É estranho. Eu sei que eu vou viajar, já estou com a passagem comprada, com a documentação da faculdade pronta, já até me despedi de alguns parentes que eu só vejo muito ocasionalmente, mas sei lá.
Sei lá.
Parece que quem vai viajar é outra pessoa. Sabe?
Como se fosse um amigo meu, que eu gosto, mas não sou tão grudada, de modo que vou sentir um pouco de saudade, durante o primeiro mês ou algo assim, mas logo vou me ocupar com outras coisas e outros amigos vão ocupar o espaço que ele deixou.
Espero que ninguém ocupe o meu espaço.
É BOM que ninguém ocupe meu espaço.

1° de dezembro – Quarta-feira - São Paulo, Brasil

Meu pai chegou em casa hoje com cinco guias da Espanha.
Eu disse a ele: 'Pai, eu vou para uma cidade só, não preciso desse monte de guias'.
E ele respondeu: 'Uma garota tem que ser prevenida'.
Imagino se ele saiba sobre esse blog e leu o meu primeiro post.

(Muito provavelmente ele, simplesmente, conhece a filha que tem e sabe que as chances de eu ficar apenas em Madri, ao invés de aproveitar cada final de semana para conhecer uma cidade europeia nova, são de poucas a completamente nulas.)

4 de dezembro - Sábado - São Paulo, Brasil

Meu último final de semana livre antes da tortura que aquela faculdade me faz passar, com suas provas e trabalhos e sei lá mais o quê.
Eu deveria estar me divertindo agora, aproveitando o sol na beira da piscina, com um drink na mão e um bofe nos braços.
Mas o dia está nublado. A piscina foi esvaziada, porque estava chovendo direto e ninguém iria usá-la (eu tentei discutir dizendo 'ei, eu uso a piscina, não me importo se está chovendo'. Mas aí minha mãe perguntou se eu pretendia pegar uma pneumonia e morrer nas vésperas da minha viagem e eu pensei melhor). Não tenho um bofe. Poderia até fazer um drink, mas isso meio que atrapalharia os meus planos de estudar, ir bem nas provas pra não pegar nenhum exame e viajar pra Europa.
Então, aqui estou eu. Estudando.

ODEIO ESTUDAR!

Aquela história de que na faculdade você só aprende o que gosta?
Balela.
O mundo é injusto.
Queria poder largar a faculdade e ainda assim ir pra Espanha.

10 de dezembro – Sexta-feira - São Paulo, Brasil

ACABOU!

Não quero mais falar sobre faculdade até o dia 4 de janeiro!
Tô arrumando as malas. Vamos todos os meus amigos e eu para o Rio, comemorar o fim das aulas e começar a minha despedida. Volto perto do Natal.

TCHAU!

22 de dezembro – Quarta-feira - Não aguento mais São Paulo, não aguento mais Brasil

Uma semana.
Estou com um leve formigar nos dedos.

Minha mãe veio falar comigo chorando ontem, dizendo que era louca de ter aceitado que eu fosse morar sozinha na Europa durante um ano, que queria que eu cancelasse tudo e ficasse com ela em casa pra sempre.
Tive vontade de dar um chacoalhão nela. Tipo ‘acorda, eu estou realizando um sonho!’
Não dei, claro.
Eventualmente ela se acalmou e me deixou em paz.
Mas de vez em quando me olha com uma expressão triste e seus olhos enchem de lágrimas.
Era tudo o que faltava, minha mãe pirar uma semana antes da minha viagem.
Quando eu fui dormir, ela veio até meu quarto e pediu desculpas, mas ela estava com uma sensação ruim e não conseguiu se controlar.
Eu fiquei nervosa.
Minha mãe é maluca, mas esse negócio de sensação ruim, pressentimento e whatever - mães nunca erram nesses assuntos.
Já estava pensando que meu avião ia cair e eu ia morrer antes de pisar na Espanha, quando eu perguntei o que era e ela simplesmente disse:
- Eu acho que você nunca mais vai voltar.
Aí ela começou a chorar de novo e aí eu fiquei com vontade de chorar também, mas me segurei.
- Mãe - eu perguntei - você acha que eu vou morrer?
Ela levantou os olhos pra mim assustada e por um segundo pensei que fosse me dar um tapa.
- Claro que não, garota, tá maluca? Vira essa boca pra lá!
E se levantou e saiu do meu quarto, me xingando baixinho e dizendo coisas como: 'É cada uma que me aparece'.
Sério, SÉRIO, qual é a da minha mãe?
De todas as mães do mundo, de todas as mulheres normais que existem, porque eu tive que nascer justo dessa?
Justo da mulher que me diz uma semana antes de uma grande viagem, que eu não vou voltar!
E hoje de manhã quando eu quis retomar o assunto, ela simplesmente disse: 'Não quero falar sobre isso' e saiu andando.
Pff, mulheres.

P.S.: Na verdade, pff, mulheres o cacete, porque ter uma vagina não faz de ninguém mais ou menos maluco, mas é que eu sempre tive vontade de terminar um texto falando isso.

26 de dezembro - Domingo – São-Paulo, Brasil

Meu último domingo no Brasil.
Meu último almoço na casa da minha vó, com todos os meus primos e tios e agregados. Todo mundo chorou, minha vó quase desidratou, coitada, meu vô fez o forte, mas ficou com o olho cheio de lágrima.
Deu vontade de pegar o ouvido de cada um e gritar: ‘GENTE, EU TÔ INDO VIAJAR, NÃO TÔ INDO PRA FORCA! EU VOLTO!’
Isso porque já tinha acontecido uma rodada de choro no Natal.
Juro, se eles continuassem fazendo aquele escândalo eu ia pensar que tava todo mundo secretamente chorando de felicidade de finalmente se verem livre de mim.
Nunca pensei que minha família me amasse tanto assim.

O que, CLARO, não impediu meus primos de tacarem pimenta na minha comida quando eu me levantei pra pegar mais refrigerante.

28 de dezembro – Terça-feira - São Paulo, Brasil

Ontem foi minha despedida oficial.
Mais pessoas apareceram do que eu imaginei, o que foi realmente estranho, porque eu tenho certeza que não existem tantas pessoas assim que gostam de mim.
Fomos pra uma balada que eu não lembro o nome, o que é realmente lindo, porque a maioria dos meus amigos trabalha e todos iriam emendar a balada com o trabalho, especialmente para a minha despedida.
Foi meio que um insight sobre como esse próximo ano será, porque, sério, nunca vi tanto gringo reunido no mesmo lugar.

Daí que eu estava lá dançando, em toda a minha glória (he), quando eu vejo um delícia me olhando com cara de tarado. Olhei com cara de tarada de volta e ele meio que sorriu. Mas aí minha amiga me puxou pra falar alguma coisa e eu perdi o delícia de vista.
Bebida vai, bebida vem, uma das minhas amigas está se agarrando com um barbudo qualquer em um canto da balada e eu lhe dou um cutucão no ombro (oi, sou chata).
Ela para de beijar o cara e os dois me olham. Verdade seja dita, eu não tinha nem o que falar, mas tinha me perdido de todos os meus outros amigos e fiquei feliz em ver um rosto familiar.
, minha amiga, sorriu e me puxou pra um abraço, aí já viu, bêbado quando começa a abraçar é uma desgraça, não para até alguém levar uma passada de mão na bunda e gritar “EPA”.
De repente, milhares de pares de braços apareceram, todo mundo se abraçando, gente que eu nunca vi na vida, todos os meus amigos gritando 'Tchau, ', pessoas rindo, pulando, dançando e eu pensando 'Eu nunca me diverti tanto assim na minha vida.'
Eu sempre penso isso quando estou me divertindo.
Quando o fogo aquietou e eu fui olhar em volta, o delícia com cara de tarado estava conversando com o barbudo que a tava pegando. Olhei pra ela daquele jeito e ela super entendeu o recado.

Amo minhas amigas espertas, sério.

Foi até o barbudo dela e, surpresa!, ele era gringo. Assim como o amigo tarado.
Quando eu cheguei até eles, logo atrás da , esse cara me olhou e eu me senti quase que violentada. Foi de cima a baixo, com um olhar safado e a mesma cara de tarado e eu secretamente pensei 'Vou me dar bem essa noite.'

O nome dele é , ele é e estava no Brasil a trabalho.
Ele parecia novinho, mais ou menos da minha idade e eu me perguntei que tipo de trabalho traria um gringo de vinte e poucos anos ao Brasil. A primeira resposta que veio a minha mente foi prostituição, mas quem sou eu pra julgar os outros, não é mesmo? Ele era lindo e estava me dando mole, era isso que importava e se foi a prostituição que o trouxe até meus braços, tudo bem pra mim.
Conversa vai, conversa vem, (muita) bebida vai, (muita) bebida vem, estávamos e eu no banheiro da balada, agarrados um ao outro e ele me pergunta se eu quero ir pra um lugar mais calmo.

Gente, que isso, a sutileza em pessoa, só faltou me perguntar se eu queria fazer um amor gostoso.

Mas eu estava muito bêbada e muito tarada (o cara é LINDO) e disse ‘Ok, que lugar você tá pensando?’
Ele dá um sorriso safado (um ÓTIMO sorriso safado) e responde 'Meu hotel.'
Eu pensei ‘Fodeu, o cara vai me levar pra um hotelzinho de quinta categoria no Baixo Augusta com o colchão podre e os lençóis fedendo a mofo.’ Mas eu não tinha nada pra fazer mesmo e queria que a minha última transa no Brasil fosse em grande estilo, com um gringo gato num hotel qualquer e disse 'Bora’.

Ok, não, eu não queria que minha última transa no Brasil fosse nada disso. Na verdade, eu nem pensei como seria minha última transa no Brasil e considerando que eu estava sem namorado, sem ficante, sem fuck buddy ou whatever, eu pensei que a minha última transa no Brasil seria a que eu tive com um ex-ficante meu há mais ou menos um mês e meio.

Saímos do banheiro, passei pela Marta, minha outra amiga e disse que estava indo embora com o gringo e qualquer coisa eu ligava pra ela.

Nesses casos, é sempre bom deixar alguém avisado que você está indo embora e com quem você está indo, pra facilitar o trabalho da polícia quando você não aparecer em casa depois de três dias.
HA!
Mas é verdade.

Fomos pro caixa e o gringo pagou tudo, a minha comanda e a dele, o que eu nunca faço muita questão e, na maioria das vezes, prefiro que não aconteça, mas deixei passar porque ele era muito gato e eu costumo ser mais branda com caras muito gatos. Ainda na fila, ele ligou pra alguém e pediu pra virem buscá-lo, o que eu achei um pouco estranho, mas estava tão bêbada que nem liguei.
Fomos pra rua esperar quem quer que fosse buscá-lo e ele magicamente tirou um frasco de vodka do bolso da calça. Meus olhos brilharam e eu considerei por um segundo se ele era o homem da minha vida.

Um adendo: eu tenho certeza que o homem da minha vida anda por aí com frascos de bebida nos bolsos. Não me pergunte como, eu simplesmente sei.

Estávamos a quase vinte minutos esperando o carro do , quando ele recebeu outra ligação e me avisou que seria melhor se pegássemos um táxi. Eu disse ‘Ok’ e entramos em um que estava parado em um ponto perto da balada.
Dentro do táxi, acabamos com o frasquinho de vodka, o que pode ser uma das razões pra minha falta de memória. O hotel era mais longe do que eu pensava que fosse e o quarto era cheiroso e arrumado, mas isso é basicamente tudo que lembro.
O sexo era bom. Não lembro detalhes, mas lembro que fui dormir querendo mais, porque quando me virei pra fazer um charme, já estava dormindo.
Com certeza foi melhor do que eu pensei que a minha última transa em solo brasileiro fosse ser.
Acordei com o meu celular tocando e a desesperada perguntando onde eu tava. O tava dormindo ao meu lado e eu me levantei silenciosamente, peguei minhas coisas e fui embora.
Quando cheguei no lobby do hotel, meu queixo caiu. O cara estava simplesmente hospedado no Hilton.

Prostituição deve dar mais dinheiro do que eu pensava.

Continua...


Qualquer erro nessa fanfic é meu, portanto avise-me, seja por twitter ou e-mail. Obrigada. xx, Giovana.