Fic by: Ray | Beta: Lilá

Prólogo

The Sun

foi vista sozinha no aniversário de 8 anos da Australian Megapix, empresa de agrotóxicos em que trabalha. Questionada por jornalistas, não deu declarações, mas o lindo anel de noivado, dado pelo namorado , da mundialmente famosa banda McFLY, não estava mais em seu dedo. Amigos íntimos revelaram que a advogada foi convidada para trabalhar na matriz da empresa em Canberra, capital da Austrália. Veja abaixo algumas fotos do evento. Leia a íntegra na página 5.

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Revista Garota!

"Essa entrevista foi uma das mais pedidas e imploradas! Em meio a agenda super lotada e os compromissos com as fãs na sua Super Cidade, o McFLY arranjou um tempinho para conversar com a gente. Os meninos são uns amores e super atenciosos! Como todas vocês, estávamos loucas para saber como anda o coração dos integrantes da nossa banda favorita, e declarações bombásticas não foi o que faltou! Leia a seguir a entrevista com , , Harry e , em que dois deles afirmam estarem solteiros e um desconversa quando interrogado. Quem será? Será o seu "guy" favorito? Temos algumas respostas para vocês!"

(...)

Revista Garota!: Agora me digam, meninos, quem está na pista para negócio?
: Eu sou um homem casado, como você já deve ter ouvido por aí. Na pista só para proteger minha dos paparazzis, porque, afinal, ela é a estrela, eu sou um reles músico rico. Muito rico. (risos)
Harry: Eu estou solteiro.
: Eu também.
: Eu... (risos) Eu estou enrolado.

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Rolling Stone

Depois de muito tempo na estrada, a banda McFLY parece ter atingido sua maturidade musical. O recém-lançado CD, Above The Noise, atingiu as paradas norte-americanas com o single Shine a Light, em parceria com Taio Cruz. A histeria das fãs só faz aumentar, e , Harry, e parecem mais cansados, entendendo finalmente que a carreira musical não é só um mar de rosas. "Não somos mais crianças. Muita coisa mudou, e o que nós queremos agora é o relacionamento mais íntimo com nossas fãs" diz . Já acredita que a mudança venha com os perrengues que passam pela vida " e Harry passaram por uma separação traumática, está indo pelo mesmo caminho, a vida de casado é difícil. O dinheiro entra, é verdade, mas tem muita coisa pra fazer, preocupações que antes não pareciam tão monstruosas."

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Cê Jura?Blog, flog, vlog e mais alguns logs aí.
Longe de mim apreciar mais uma fofoca do que a carreira musical de alguém, mas não pude deixar de reparar que enquanto o McFLY cresce, os relacionamentos dos integrantes se desmancham; não venham me dizer que vocês ainda não leram todas essas notícias bombásticas sobre a banda! A separação de Harry Judd da namorada , até então grávida - que não está mais grávida -, o chiframento público de pela namorada , junto com o escandaloso vídeo em que o mostra cheirando pó, o casamento conturbado de com a atriz e o "vai, mas não vai" de e a advogada socialite . Me desculpe, McFLY, mas nós aqui do Cê Jura? gostamos muito mais dos bastidores.

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Revista Fofoca
p. 8

Rompimento da Semana!

, do McFLY, anunciou ontem, depois de inúmeras especulações, que ele e sua noiva, , estavam oficialmente separados. Em uma pequena nota no site da banda, Super City, avisou que o relacionamento estava acabado e que ele estava muito chateado. Pediu também que parassem com mentiras, pois a separação havia sido amigável e nenhum rancor fora guardado.
A advogada, que mora há alguns meses na Austrália, não quis se pronunciar.
Nós aqui, da Revista Fofoca, não acreditamos muito na "separação amigável", já que foi fotografado há alguns dias abraçado com numa boate no centro de Londres. Na verdade, esperamos algumas brigas públicas, porque vivemos disso. Vamos lá, casal, mostre suas garras!

Katy Springs, com pseudônimo de Mary Anne.


Capítulo 1 - O "Pra Sempre" Sempre Acaba.

:

- Estamos aqui hoje reunidos para a despedida da nossa querida . - minha futura ex-chefe apontou com a taça de champanhe quente para mim. A saliva, que sempre se acumulava em seus dentes da frente, voava para todos os lados. Eu podia sentir o desespero de suas secretárias, sentadas ali perto. Provavelmente haviam esquecido o guarda-chuva em casa. - Ela foi de grande ajuda e uma ótima ferramenta para essa empresa. Nós aqui, da Australian Megapix, te desejamos uma boa viagem de volta à Londres, e que todos os seus desejos se realizem. Vamos sentir sua falta.
"Não, não vão não" pensei, mas, ao invés de deixar todos os presentes constrangidos, levantei-me e caminhei até ela. Pude sentir o olhar de Paolo metralhando minha bunda, mas, pela primeira vez em dois anos, eu não me importei.
- Gostaria de agradecer por esses dois anos em que tive o prazer de passar na companhia de vocês. - recitei, como havia escrito e decorado há alguns dias atrás enquanto assistia ao X-Factor. - Sei que vou poder fazer muito mais pela empresa em Londres - "como chefe de todos vocês, babacas", pensei em dizer, mas me contive. O que não foi muito fácil. -, e sei também que todos vocês vão estar pra sempre no meu coração.
"Não vão, não. Talvez só o gostoso do terceiro andar que me trazia rosquinhas de chocolate e café preto. Mas só talvez". Depois de todos os abraços e sorrisos falsos, pude finalmente ir até o silêncio da minha sala. Deixei o champanhe quente e o bolo estragado para trás; eles que se divertissem sozinhos. Afinal de contas, eu estava voltando para minha terra natal, e nada no mundo poderia estragar minha felicidade.
- Toc, toc. - o som veio das minhas costas. Virei os olhos discretamente antes de olhar em sua direção. Bom, tinha alguém que poderia estragar minha felicidade, eu só não esperava me encontrar com ele. - Posso entrar?
- Claro, Christin. - respondi, apoiando-me na minha mesa bamba de inox e olhando para ele. Seus olhos negros varriam a sala com curiosidade.
- Nossa, vejo que você já limpou tudo... - ele assoviou, falando com aquele sotaque australiano carregado.
- Já sim. Eu embarco amanhã à noite. Limpei tudo há alguns dias. - respondi, dando de ombros. Tirei um fio de cabelo da minha saia rodada de algodão e guardei no bolso. Christian fitou minha mão ao fazer isso.
- Sabe, aquele anel ficaria lindo na sua mão. - comentou, ressentido.
- Chris, você quer mesmo falar sobre isso? Agora? - suspirei.
- E qual seria o momento certo? Pelo telefone, com você do outro lado do mundo? - perguntou, estressado. - Quando você pretendia me dizer que estava indo embora? No avião?
"Era uma das minhas intenções... Nunca era a outra opção."
- Christin, por favor, nós nunca iríamos dar certo. Eu tenho 26 anos, sou muito jovem para me casar. - ao falar a palavra 'casar', meus lábios se curvaram numa careta involuntária.
- Ah, é? Não foi o que você disse a . - foi sua vez de fazer uma careta. Senti uma fisgada no peito. Ele sabia que aquilo era doloroso para mim, e provavelmente foi por isso que mencionou. – Por que a ele você disse sim?
- Porque eu tinha 23 anos, era ingênua e apaixonada. Ele era o meu namoradinho da adolescência e eu tinha certeza de que iríamos passar o resto da vida juntos. - respondi, amarga. - Mas, como você pode ver, eu não me casei com ele. E não vou me casar com você. - coloquei um ponto final na conversa, sentindo meu celular vibrar. - Com licença. - pedi, atendendo a ligação da minha mãe.
Christian suspirou, magoado, e saiu pela porta sem se despedir.

:

dormia profundamente, com a boca aberta. Depois de três meses na estrada era ótimo tê-la em meus braços novamente. Principalmente depois da noite que tivemos. Mesmo que ela tivesse que vir até a Espanha para que aquilo pudesse acontecer.
Contornei seu nariz com o dedo de leve, com a intenção de acordá-la. Ela fez uma careta e virou o rosto. Enfiei os dedos entre seu cabelo embaraçado, separando algumas mechas. Ela suspirou e abriu os olhos sonolentos.
- , me deixa dormir. - pediu, manhosa.
- Deixo. - ela sorriu agradecida e fechou os olhos. - Mas antes você tem que tomar um banho e ir almoçar comigo.
- Ah, ! - ela exclamou, se espreguiçando. - Assim você me mata!
- De amor. Eu te mato de amor. - concordei, fazendo-a rir.
Levantei-me e entrei no banheiro. Liguei a TV de plasma e tirei a roupa, deitando-me na água quente da banheira. Zapeei pelos canais até achar a MTV espanhola, e como não estava passando nada de interessante - e nada de interessante queria dizer que não estavam passando os clipes nem de Party Girl nem de Shine a Light - mudei para a BBC News, canal que pelo menos entendia, e fechei os olhos. Estava mais do que cansado com o início da turnê. Se já estava assim nos primeiros meses, imaginava como seria o resto...
"...a socialite e advogada da empresa multinacional Australian Megapix volta à Londres para administrar a nova filial da empresa. Depois de vencer todos os processos a favor da empresa matriz - que não foram poucos - ela é mandada de volta para a realização de novos projetos. , além de defender a empresa, foi convidada para uma sociedade com o presidente, Jonathan Heathcliff. Ela retorna amanhã, e pequenos empresários já estão com medo do que ela poderá fazer..."
Abri os olhos na mesma hora. A foto da minha ex-noiva usando um conjunto de terno feminino cinza e saia na mesma cor estava estampada na tela.
- , eu posso entrar? - bateu na porta, me assustando. Mudei de canal rapidamente e pedi para que ela entrasse. Ela estava nua, e eu me esqueci um pouco da notícia que acabara de ouvir. - E aí, ainda quer que eu tome banho?
Sorri e fiz menção de me levantar, mas acabei escorregando e derrubando metade da água da banheira no chão, batendo a cabeça na borda.
- , você tá legal!? - ela perguntou, correndo até mim.
- Tô... Tô legal... - respondi, passando a mão pela nuca.
Estava falando com aquela voz esganiçada de garoto idiota de 17 anos e me sentia esquisito.

Raíssa:

Última chamada para o voô 6817, com destino à Londres.

"Bom, então é isso aí. Tchau, Austrália. Foi bom conhecer você", pensei, atravessando o portão de embarque. Havia me atrasado no check-in - bosta de Internet que não funcionara bem na hora que estava fazendo online - e corria pelo aeroporto como uma maluca. Quando finalmente encontrei o meu portão, as atendentes já estavam indo embora.
- Espera! - gritei, correndo com uma mochila nas costas, uma bolsa de mão da Chanel e uma pequena mala - que eu tinha certeza que não caberia no bagageiro.
Entreguei minha passagem e meu passaporte e corri pelo túnel que dava acesso ao avião. Quando entrei, todos os passageiros já estavam sentados, me olhando com raiva. "Ah, fodam-se, vocês, australianos babacas". Sentei-me na poltrona, sem aquela sorte que garotas de filmes norte-americanos costumam ter - sorte essa que tive aos 17 anos com Ben Tiller, antes de descobrir que o cara era um psicopata - ao sentarem-se com caras gostosos, solteiros e simpáticos. Ao meu lado um senhor de idade fazia palavras cruzadas.
Encostei a cabeça no assento e apertei o cinto de segurança. O avião começou a andar pela pista e eu me perdi em pensamentos.
Há exatamente dois anos eu estava vindo para a Austrália, atendendo um pedido que não podia recusar. A Australian Megapix era um monstro de empresa, e eles haviam me convidado para advogar na matriz. No mesmo instante joguei meu sonho de ser promotora criminal no lixo e aceitei a oferta. Só a quantidade de zeros no meu salário me fez mudar de ideia, e eu nem estou contando os benefícios.
Como na época eu era jovem - não que eu ainda não seja, mas aos 26 anos a razão costuma falar mais alto do que aos 22 - nunca cheguei a pensar que meu noivado acabaria. Nós estávamos tendo alguns problemas, brigas constantes - que eram sempre aumentadas na mídia -, mas na minha cabeça otimista e sonhadora, dois anos passariam muito rápido. podia esperar! Nós nos veríamos todos os meses, e seria o suficiente. Bem, não foi. Depois de quatro meses, nossa relação se transformou num inferno. Quanto mais ele ficava famoso, mais eu tinha acessos de ciúmes. Quanto mais eu crescia na empresa, mais ele dizia que eu havia perdido minha alma para a Australian Megapix. Depois de seis meses, resolvemos terminar. Não de um jeito muito amigável, devo acrescentar. Depois que vi fotos suas com outra garota - sua atual namorada - em uma boate qualquer, nunca mais nos falamos.
Claro que de vez em quando notícias sobre ele apareciam na Internet, e se eu desse azar elas pipocavam na minha tela do computador. Sabia que ele estava namorando, sabia que e ainda eram casados, sabia que e Harry haviam terminado depois dela perder um bebê e sabia que e se odiavam profundamente depois que ele começou a cheirar e ela o chifrou publicamente. Bom, a notícia dos meus amigos eu sabia não pela Internet, mas porque elas ainda eram minhas melhores amigas. É claro que elas evitavam comentar sobre , mas de vez em quando deixavam escapar algumas coisas. Como o fato de ele estar morando com a garota da boate.
É claro que eu não fiz melhor. Quase fiquei noiva de novo, do meu chefe, Christian. Não fiquei, mas cheguei a morar com ele. Então estávamos quites.
O avião decolou, e eu olhei em volta, procurando alguém com medo de voar para poder rir um pouco. Ninguém desesperado ao meu alcance.
Merda!
Quando ele já estava alto o suficiente, o aviso de que poderíamos soltar o cinto brilhou. As aeromoças passaram distribuindo fones de ouvido, que eu recusei educadamente. Aqueles fones de ouvidos eram péssimos, e eu não estava afim de assistir à algum filme infantil enquanto voava de volta ao meu país. Liguei meu iShuffle e deitei o banco. Se desse sorte, dormiria e acordaria já em Londres.
Fechei os olhos, e, sem que eu pudesse lutar contra, algumas memórias me invadiram.

- Nervoso? – perguntei, apoiando-me na parede branca e áspera. Lancei-lhe um olhar sou-uma-moça-inocente e sorri.
- Um pouco. – ele respondeu, com as mãos nos bolsos, me olhando com malícia.
- O que foi? – perguntei, ainda bancando a inocente. Pisquei os olhos algumas vezes e ele soltou uma risada meio nasalada. Balançou a cabeça e sorriu torto.
Ah, aquele sorriso torto...
- Nada. – respondeu. – Nada. – repetiu.
- Pode falar, , por que está me olhando desse jeito esquisito! – ordenei, e ele abaixou a cabeça, mas pude notar que suas bochechas ficaram vermelhas.
- É só que... – ele parecia envergonhado, mas isso não o impediu de se aproximar de mim, ainda com as mãos nos bolsos. – É difícil olhar para você e não querer sorrir.


- Moça? - abri os olhos, assustada. - Café? Água?
- Hm... Vocês por acaso não teriam algo mais forte? - pedi, sorrindo.

:

- BOA NOITE, MADRID! - gritou no microfone. - ESTÃO PRONTOS PARA DESTRUIR TUDO?
Ajeitei meu instrumento nos ombros, maravilhado com o grande público em nossa frente. Lembrei-me do nosso primeiro show...

- E AÍ, DELLRAY! – gritou ao microfone, fazendo todas as fãs gritarem alucinadamente. – COMO VOCÊS ESTÃO HOJE À NOITE? – mais gritaria. – AGORA EU QUERO OUVIR TODO MUNDO FAZENDO BARULHO COM FIVE COLOURS IN HER HAAAIR!
Mais gritos. E mais gritos. E MUITO mais gritos.
Olhei para , assustado. Como aquelas meninas conseguiam gritar tão alto daquele jeito? Desviei os olhos dele e olhei para o público enquanto cantava. Meninas – algumas bonitas, outras não – chorando, gritando, cantando, pulando... Mas todas com um só propósito: pegar um McLoser.
- E aí, , o que está achando das nossas fãs hoje? – perguntou no microfone, depois que acabamos a primeira música.
Para quem nunca tinha feito um show grande, até que nós estávamos indo bem.
Mas é claro que Patrick teve uma boa contribuição nisso.
“Não vomitem. Pega mal. Sério.”.
- Eu acho que elas são as melhores fãs que já existiram! – gritei de volta.


Nossas fãs continuavam sendo as melhores fãs que já existiram.
O show durou uma hora e meia, e saímos do palco exaustos. Bons foram os tempos em que saíamos do palco e íamos comemorar. Agora tudo o que eu mais queria depois de um show demorado era minha cama.
me esperava na van. Evitei abraçá-la, pois meu corpo inteiro estava molhado de suor, mas ela não pareceu se importar muito, enfiando a cabeça embaixo do meu braço.
- Como foi o show, amor?
- Foi bom. Cansativo. - sorri, e ela mordeu o lábio inferior.
- Sabe, nós poderíamos comemorar... Do nosso jeito... - sussurrou em meu ouvido, maliciosa. Olhei para meus companheiros de banda. Harry e dormiam de boca aberto enquanto digitava furiosamente no celular, provavelmente em mais uma briga silenciosa com . Naquele momento eu desejava ser como eles - livres para voltar para casa e dormir um sono tranquilo e profundo. Mas não, ao invés disso, eu tinha que transar.
Quando foi que isso passou a ser ruim pra mim?
Eu realmente não sei.
Olhei para o céu negro pela janela. As estrelas estavam escondidas num véu de poluição, mas pude seguir um avião com os olhos. Seria aquele avião o que estava trazendo minha ex-noiva de volta?
Balancei a cabeça; era passado, e o passado deveria ficar lá... No passado...

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Cheguei à Londres de madrugada. Passei direto e reto pelo free shop, cansada demais para pensar em comprar muamba. Peguei minha mala que pesava duas toneladas - e aquilo era só 1/5 das minhas coisas. O resto viria de navio -, e a arrastei por 500 metros até passar pela migração e sair daquele inferno. O aeroporto estava vazio, exceto por três garotas sentadas juntas no mesmo banco. Uma delas usava óculos de sol e boné, como se quisesse se esconder das pessoas, e digitava furiosamente no celular. A outra dormia de boca aberta com os fones no ouvido. A última estava com o olhar perdido no nada, pensativa.
Aquelas eram minhas melhores amigas, que eu não via há dois anos.
Agora você pergunta: Ué, você não visitou suas melhores amigas nem uma vez em dois anos? E eu te respondo: Você acha mesmo que eu tive férias? Não, senhora. Trabalhei natal, ano novo, feriados santos e férias de verão. A maior parte do tempo por vontade própria, mas o ano novo foi sacanagem do meu chefe e ex-namorado, que quis me castigar pelo término do relacionamento.
Soltei minha mala e joguei todas as bolsas no chão. Aquele não era um momento para timidez.
- , , !!! - gritei. deixou o celular cair, acordou assustada e fixou seus olhos pensativos em mim. - EU VOLTEI!
A reação das minhas amigas foi um dos momentos mais engraçados da minha vida.
pulou do banco e chegou até mim na velocidade da luz. Mal eu pisquei, estava sendo abraçada por ela, que estava praticamente de cavalinho em mim. Enquanto tentava equilibrar no meu colo, pude ver cair no mais profundo choro, sentada no banco com a cabeça enfiada nas duas mãos e rir sem parar.
- , MINHA , MINHA , VOCÊ VOLTOU! - gritava, agora com todo o seu disfarce no chão. Os óculos escuros estavam pendurados em seu cabelo e o boné voara para longe. Todos agora a reconheciam. Alguns ficaram só olhando, outros, mais espertos, tiravam fotos.
- Ótimo, , agora vamos demorar um ano pra sair desse aeroporto. Todo mundo já te viu! - exclamei, desgrudando-a de mim.
- Pra quem já esperou dois pra poder te ver! - sorriu, me abraçando assim que saiu correndo em busca do boné perdido. Dei um abraço longo e carinhoso em minha amiga. Assim que ela me soltou, apareceu no meu campo de visão. Seus olhos estavam borrados de preto e ela chorava sem se importar com as pessoas que observavam aquela cena dantesca.
- . - murmurei, abraçando minha amiga com força. Ela soluçou, sentida, e foi só aí que eu chorei também. Aquela minha amiga era um verdadeiro poço de sentimentos prontos para serem despejados. Se ela não começasse a desabafar poderia seriamente explodir. Depois de tudo que acontecera com ela, era de se espantar que ainda saísse da cama.
retornou com seu bonezinho ridículo na cabeça, feliz da vida. observava meu abraço demorado com sem emitir um pio. Quando finalmente nos soltamos, demos um abraço quádruplo.
- Agora nada mais importa. Deixemos para trás tudo de ruim que nos aconteceu. - murmurei. - Estamos juntas novamente.


Capítulo 2 - Empurrãozinho do Destino.

:

Depois do show nós voltamos para o Hotel e passamos o último dia da turnê espanhola - e, consequentemente, da turnê européia - no bar, tomando cerveja e conversando.
Era triste admitir que "conversar" já não era tão legal quanto antigamente, quando não estava com reserva na rehab pelo envolvimento com cocaína, quando não era ignorante e ranzinza o tempo todo, quando não passava a maior parte do tempo brigando por mensagens de texto e quando eu não tinha uma namorada que consumia todo o meu tempo.
O garçom passou por nós e chamou sua atenção. Pediu mais quatro cervejas e a conta. Nosso vôo partiria às 8 horas da manhã do dia seguinte, e já eram 1h30. Precisávamos dormir.
- Saidera, porque ninguém é de ferro. - comentou, guardando o celular no bolso.
- Meninos, vou subir. - anunciou, beijando meu rosto e sussurrando: - Te espero lá em cima. Não demore.
- Boa noite, amor. - beijei sua testa, evitando prometer algo que não poderia cumprir.
Os guys deram boa noite a ela e logo em seguida três pares de olhos se fixaram em mim. Pensei estar babado ou com aqueles bigodinhos de cerveja ridículos, por isso passei a mão na boca e no queixo.
- O quê? - perguntei, ao descobrir que não havia nada de anormal em meu rosto.
- Você já está sabendo? - perguntou, abrindo pela décima sétima vez o flip do celular ao senti-lo vibrar.
- Que eu sou foda e vou me dar bem essa noite? Sim, estou. - pisquei para ele, que riu sozinho. e somente me olhavam, um tanto quanto perplexos. - Não é isso? Ok, então não sei, me coloquem em dia...
- Ah, não é nada demais... Uma mulher chamada está voltando para a terra da Rainha. Lembra dela? Sua ex-noiva? - perguntou como quem não queria nada, dando um gole em sua cerveja.
Ah, então eles também estavam sabendo... Merda.
- Sim, lembro. - passei o dedo pela borda da minha caneca. - E daí?
enviou a mensagem e olhou pra mim, entortou a sobrancelha e virou os olhos.
- Me engana que eu gosto, . - comentou, terminando sua cerveja em dois goles. - Você deve estar louco para saber por que ela voltou, como e com quem.
- Não estou. - murmurei, como uma criancinha birrenta.
- Pode falar, . Aproveita que a não está aqui. - incentivou.
- Não estou interessado em saber qualquer coisa sobre . - virei os olhos, começando a ficar irritado.
- A gente te conhece, . Sabemos que está se corroendo por dentro para nos perguntar o porquê de sua ex-noiva estar de volta ao país. - deu de ombros, como se aquilo fosse muito óbvio da minha parte.
Fiquei em silêncio, respirando fundo. Não queria dizer nenhuma besteira, pois não tinha o direito de descontar meus problemas em meus amigos, mas eles também não estavam ajudando.
- Ficou até quieto. - comentou.
- Deve estar pensando nela. - jogou um guardanapo amassado em cima de mim. - Na , o grande amor de sua vida...
- e , embaixo de uma árvore... Como é o resto da música mesmo? - brincou, fazendo os outros dois rirem.
Não sei ao certo o que deu em mim. Provavelmente foi a menção daquele apelido há muito tempo esquecido que me fez estourar do jeito que estourei. Mas com bons motivos ou não, o que eu falei foi o seguinte:
- Não estou, caralho! - gritei, irritado. As poucas pessoas que ainda estavam no bar viraram suas cabeças em nossa direção. - Qual é a porra do problema de vocês, eim? Eu tenho uma namorada perfeita e nós estamos a poucos passos de nos casarmos. Será que vocês não podem esquecer do passado só por um instante? - levantei-me, empurrando a cadeira de qualquer jeito. - Acabou, ok? Acabou, nós não podemos reviver o passado. Superem isso.
Dei as costas aos meus amigos e saí do bar. Entrei no elevador, e no trajeto do primeiro andar ao décimo quarto, fui respirando fundo e processando o que acabara de acontecer. Não era comum eu perder a cabeça daquele jeito. Eu quase sempre era o "separa brigas" da banda! O que diabos havia acontecido?
Entrei no quarto já mais calmo, e fiquei ainda mais quando vi que dormia como um anjinho. Uma noite de folga para minha cabeça e corpo era tudo que eu precisava naquele momento!
Tomei um banho rápido e coloquei uma boxer qualquer. Deitei-me na cama ao lado de e beijei sua testa de leve. Ela fez menção de se mexer e eu virei para o lado, evitando dar de cara com minha namorada, que esperava um pouco mais de "ação" na nossa noite.
Fechei os olhos, com a bochecha colada ao travesseiro, e dormi.

:

Acordei no dia seguinte ouvindo a voz descompassada de no andar de baixo. Ela cantarolava You've Got a Friend e um cheiro horrível de ovos queimados invadia o quarto e minhas narinas.
Quem deixou sozinha na cozinha?
Coloquei meu roupão rosa escuro e prendi o cabelo. Calcei minhas pantufas do Bob Esponja e desci correndo as escadas. Tinha medo de que minha amiga colocasse fogo na casa. E deixa eu te contar uma coisinha sobre a casa de : Era enorme! Talvez ainda maior que a casa em que passei minha adolescência... Se uma casa daquelas pegasse fogo, com certeza espalharia para o quarteirão inteiro.
- Good morning sunshine! - exclamei, beijando minha amiga no rosto e tirando a frigideira de sua mão. lançou um beijinho no ar e virou-se para a torradeira. Aparentemente ela não havia percebido que os ovos já estavam... Hm... Pretos.
Desliguei o fogo e coloquei-os em dois pratos. Sentei-me na bancada americana da cozinha e tampei o nariz com os dedos, evitando sentir o cheiro de queimado. pegou as torradas meio esverdeadas e os bacons crus e os colocou em nossos pratos.
Entreolhamos-nos e olhamos para a comida em nossa frente. Sem pensar duas vezes, perguntei:
- Starbucks?
E ela respondeu:
- Feito.
Enquanto nos arrumávamos, convidamos e para o "rolê". Encontramos-nos quinze minutos depois no Starbucks do centro. Aproveitei o fato de que estávamos todas juntas e sem nada para fazer para procurar algum lugar para morar. Tomamos nosso café da manhã e fomos direto para uma imobiliária ali perto.
A imobiliária se chamava Houses&Happiness, mas nós nunca pensamos que aquele "happiness" do nome fosse ser tão real. Ao pisarmos nossos pézinhos imaculados na imobiliária, fomos mais felizes do que jamais seríamos capazes. Por quê? Porque Bella trabalhava lá.
Meu queixo simplesmente caiu quando Bella - Bella, aquela mesma gostosona que fisgou meu por algum tempo na juventude - saiu do escritório e colocou seus tamancos de madeira no hall. Ela não era mais a mesma. At all.
Ela agora era loira, tinha a boca cheia de botox - e, consequentemente, parecia que alguém havia dado um belo chute de coturno em sua cara -, unhas de vagabunda do tamanho do meu ante-braço e um corpo... Estranho.
Tá, "estranho" pode ser eufemismo. Na realidade, Bella estava gorda.
Muito gorda.
Assim que ela nos olhou com aqueles mesmos olhos verdes de gato, com uma pastinha de couro marrom em uma das mãos e as chaves do carro na outra, nós quatro ficamos estáticas
- , essa não é... - murmurou.
- É.
- , ela está... - foi a vez de balbuciar.
- É.
Bella pegou sua falsificação da Prada de cima da mesa e veio até nós. Cumprimentou uma por uma com um beijinho no rosto e começou a tagarelar sobre os apartamentos que iríamos ver.
Ela não se lembrava de nós.
- Vamos lá, meninas? - perguntou, passando por nós em direção à porta automática. - Eu tenho alguns apartamentos bem legais para mostrar, com quatro quartos se vocês não pretendem dormir juntas...
- Não, o apartamento é só pra mim, Bella. - comentei, colocando a mão em cima da boca logo em seguida. As meninas seguraram a respiração e Bella entortou a sobrancelha.
- Nossa, não me chamam de Bella desde que eu tinha 20 anos... - ela sorriu e apertou os lábios cheios de botox. Posso jurar que vi colágeno escapando por entre seus dentes. - Por favor, me chamem de Isabella.
Assim que ela saiu pela porta, nós quatro caímos na gargalhada. Eu não ria gostoso daquele jeito havia dois anos.
É, o "happiness" do nome não estava de brincadeira.

:

Acordei bem-humorado no dia seguinte. Desliguei o despertador, terminei de arrumar minhas coisas, tomei banho e desci para tomar café da manhã. já estava lá, e nós conversamos um pouco enquanto líamos o jornal. Terminei de comer e avistei meus companheiros de banda do lado de fora, conversando com os roudies. Avisei que iria até eles e o fiz.
- Bom dia. - desejei, puxando minha mala com a mão direita e a mala de com a mão esquerda. Coloquei-as na Van, que já estava parada na porta do Hotel. Os três me olharam, interessados. - Já fizeram o check out?
- Fedelso está fazendo isso por nós. - apontou com a cabeça para nosso empresário, que conversava na recepção. - E a ?
- Está terminando de tomar café. - respondi, sorrindo para algumas fãs que gritavam meu nome do outro lado de uma muralha de seguranças. - Escuta, sobre ontem...
- A princesa já está melhor do piti de ontem à noite? - me cortou, indo direito ao assunto.
- A princesa não deu piti nenhum, mas pretende dar, se o bobo da corte continuar martelando a mesma tecla. - respondi de atravessado. - Eu vim aqui pedir desculpas, ok? Não deveria ter estourado daquele jeito... Eu estava cansado. Me desculpem.
- Temos a realeza na nossa banda! Posso ser o rei e o a rainha? Posso? Posso? Posso? - perguntou, ignorando totalmente meu pedido de desculpas.
Virei os olhos, enquanto os outros dois riam.
É, eu estava perdoado.
- , você tomou o seu remédio hoje? - perguntou, fechando o porta-malas. - Aquele azul que eu deixei em cima da sua mesa com o bilhete "só converse com a gente depois de tomar esse comprimido".
- Não. Quer saber por quê? - perguntou, abaixando os óculos de Sol ao perceber que Fedelso vinha em nossa direção. - Porque eu sou da realeza.
Nosso empresário veio até nós com em seu encalço.
- Tudo pronto. Vamos antes que aconteça uma desgraça. - ele anunciou, apontando para as fãs que já destruíam a barreira humana.
Entramos na Van e passamos pelas meninas acenando e mandando beijos.
Assim que saímos da zona de perigo, apoiou a cabeça no encosto do banco e dormiu, começou a bombardear de mensagens, pareceu se perder em seu mundo de magia e apoiou sua cabeça em mim, adormecendo logo em seguida.
Suspirei aliviado. Logo estaria em casa.

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- Você tem alguma moeda de duas libras aí? Vamos precisar de no mínimo cinco para preencher o cofrinho. - murmurou em meu ouvido, enquanto Bella se agachava para abrir a janela do quinto apartamento que estávamos visitando. Deixei uma risada alta escapar, não aguentando. Bella virou-se para nós e sorriu amarelo, abrindo a janela que dava para a sacada.
Não gostei de nenhum apartamento que ela havia nos mostrado, muito menos aquele, que custava os olhos da cara e nem era tão bom assim. Mas os comentários maldosos de minhas amigas sobre Bella estavam compensando aquela falta de sorte.
- Isabella, me desculpe, mas eu não tenho condições de pagar esse aluguel. - menti. Eu tinha, mas não gastaria naquele apartamento. - Não vai rolar...
- Bom, nós ainda temos mais um apartamento para visitar. - ela anunciou, virando os olhos. Já estava de saco cheio de mim e minhas amigas risonhas. Porque, pra ser sincera, nós praticamente rimos o tempo todo, fazendo piadinhas idiotas sobre a bunda e as unhas de Bella. Isso, claro, quando não estava mandando mensagens para , quando não estava olhando para o horizonte triste e quando não estava fuçando os sites de fofoca pelo celular em busca de mais uma recaída de . - É nesse quarteirão mesmo, dentro de uma rua fechada.
Aquele quarteirão era ótimo pra mim, já que a Australian Megapix ficava há menos de cinco minutos de carro e uns 15 minutos andando. Se pudesse encontrar um apartamento naquela área por menos de cinco mil libras ao mês, ficaria com ele.
Bella entrou em seu carro e eu e as meninas entramos na Hilux de . Andamos alguns metros - incrivelmente inútil pegar o carro para andar aquela distância - e paramos na portaria que fechava a rua. Assim que as meninas avistaram o pequeno condomínio fechado, começaram a agir de um jeito esquisito.
- Hm... Ouvi dizer que esse condomínio... - olhou de relance para e , como se pedisse ajuda.
- Fede. Ouvimos dizer que ele fede, . - completou, sorrindo.
- Não me parece. - abri o vidro do carro assim que passamos pela portaria. - Aliás, estou sentindo um cheiro muito bom de dama da noite.
- Ah, então é por isso... - sorriu amarelo. - Odeio cheiro de dama da noite.
- Odiei esse lugar. Ele é horrível! - anunciou. Olhei em volta, observando uma pequena praça arborizada, algumas casas muito bem conservadas e grandes prédios de luxo.
- , eu sei que onde você mora é fora dos padrões, mas também não precisa humilhar! - exclamei, ofendida. Estava começando a adorar aquele lugar. - Esse lugar é uma gracinha!
- Ai meu Deus... - ouvi murmurar assim que parou o carro em frente ao prédio que visitaríamos.
Saí do carro um tanto quanto empolgada. A portaria era rústica, mas muito bonitinha, e alguns casais passeavam com suas crianças pela vizinhança.
- Estou gostando. - anunciei para Bella, que avisou o porteiro que era corretora e mostraria o apartamento 202 para sua cliente. Assim que as meninas ouviram aquele número, começaram a murmurar sem parar. Alguma coisa estava errada, mas eu estava tão encantada com o lugar que nem me preocupei em saber o que era.
O porteiro abriu o portão de entrada e nós fomos para o Hall principal esperar o elevador. Ele era todo decorado com famosas peças de arte, e as pessoas que esperavam os elevadores ali próximas pareciam bem distintas.
- Esse apartamento está praticamente de graça se quiser comprá-lo. O aluguel também não é muito caro, já que são dois por andar, e não um como no prédio que acabamos de ver. - Bella ia explicando enquanto pegávamos o elevador. - Duas vagas na garagem, área de lazer completa e elevador privativo.
Saímos no Hall do andar, onde duas portas de madeira se olhavam de frente. O apartamento 201 parecia ser habitado por algum engraçadinho, já que o tapete da frente era em formato de pênis, mas melhor um engraçadinho do que um casal com crianças pequenas que gritavam e choravam.
Bella girou a chave na fechadura e foi amor a primeira vista.
- A. Meu. Deus. - exclamei, colocando a mão na boca.
O apartamento começava em uma ampla sala de TV, com uma lareira elétrica no canto e a sacada no final. Do lado esquerdo estava a porta para o lavabo e do lado direito a porta que dava acesso à cozinha e à área de serviço. O lavabo era relativamente grande para um banheiro, azul claro. A cozinha era grande, com fogão industrial e armário embutidos. A sala era clara e arejada, e a sacada tinha vista para a London Eye e o Big Ben.
Perto da sacada havia um corredor que dava para os quartos. Duas suítes completas, com closet e hidromassagem. A suíte maior tinha sua própria sacada, com a mesma vista da sala.
- Eu quero ficar com ele. Não importa quanto, eu fico! - exclamei, dando pulinhos de excitação.
- 3 mil libras ao mês mais condomínio de 670 libras. - Bella anunciou, sorrindo.
- É meu! Eu fico! - corri até ela, pegando a caneta de sua mão. - Onde eu assino?
- Uau! Que intensa! - ela brincou, olhando para minhas amigas, que roíam as unhas em conjunto. - É só assinar aqui. - apontou para o pontilhado no contrato.
Coloquei a caneta no papel, mas antes de assinar tive que ouvir as reclamações das minhas amigas.
- , não se precipite! Nós podemos encontrar melhores! - pediu, sorrindo amarelo.
- É, . Podemos até achar um por andar pra você por esse preço! - concordou.
- Não assine, . Esse prédio está... Embargado! Ele vai cair! - veio até mim e tirou a caneta de minha mão.
- Não está não, srta. . - Bella pegou a caneta de volta e a colocou em minha mão. - O prédio está em perfeitas condições.
Revirei os olhos, cansada dos defeitos que minhas amigas estavam colocando naquele apartamento perfeito.
- Eu nunca vou chamar vocês para jantar comigo. - resmunguei, assinando na linha pontilhada. Posso jurar que gemeu assim que eu entreguei o contrato para Bella. - Quando posso me mudar?
- Hoje mesmo. O apartamento não está habitado mesmo... - Bella guardou o contrato na maleta de couro e saiu na sacada para dar alguns telefonemas.
Olhei em volta, ainda maravilhada. Aquele seria o meu novo lar.

:

Chegamos por volta das 14h em Londres. Fiquei com em seu apartamento até as 18h e voltei para o meu. Pretendia passar o final de semana em casa, meditando. Ou seja, dormindo, tomando cerveja e jogando vídeo-game.
Passei pelo portão da rua, cumprimentando Mattias, o segurança.
- Boa tarde, sr. . - ele acenou. - Temos uma nova vizinha!
- Ah, que maravilha. Estávamos mesmo precisando de mais mulheres por aqui. - sorri, acelerando assim que a catraca se abriu.
Estacionei na vaga 3B, ao lado de uma Tucson Prata que nunca havia visto. Provavelmente era o carro da nova vizinha.
Subi o elevador, parando no segundo andar. Avistei meu tão amado tapete em formato fálico e sorri por estar em casa.
Fui até minha porta e coloquei a chave na fechadura. Assim que a abri, a porta da nova vizinha abriu-se atrás de mim.
- Você deve ser meu novo vizi... - ela ia dizendo, ao mesmo tempo em que eu me virava e dizia:
- Você deve ser minha nova vizi...
E aí eu a vi. E ela me viu. E nós murmuramos ao mesmo tempo:
- ?
- ?


Capítulo 3 – Nós só dissemos adeus com palavras...

:

Acho que nós ficamos uns bons cinco minutos em silêncio, sem conseguir esboçar qualquer tipo de reação. Os olhos de subiam e desciam pelo meu corpo, e eu não pude evitar fazer o mesmo. Quero dizer, desde quando ele tinha aqueles bíceps malhados? Quando o vi pela última vez ele tinha um corpo bonito, mas nada comparado com aqueles braços enormes e os ombros largos!
Fiquei imaginando o que ele teria achado do meu novo corpo. Claro que eu sempre estive em forma, graças a minha vaidade excessiva, mas eu andava um tanto quanto obcecada nos últimos tempos.
Depois que o choque inicial passou, consegui reunir forças para perguntar.
- O que você está fazendo aqui?
, que ainda me analisava, voltou a si e olhou pela primeira vez dentro dos meus olhos. Senti que os mesmos começariam a lacrimejar, então respirei fundo e fechei a garganta. Eu não correria o risco de chorar na frente de .
Não mesmo.
- Eu quem te pergunto! – ele rebateu. – O que você está fazendo no meu prédio?
- Eu moro aqui agora! – respondi. Não consegui controlar minha voz, que saiu uns cinco tons acima do normal.
- Eu também moro aqui! Moro desde que vendi o últ... – ele ia dizendo, mas se calou.
Claro que ele não precisaria terminar a frase para que eu entendesse o que queria dizer. Afinal, minhas amigas adoravam me manter informada sobre , mesmo quando eu implorava para que não, então eu sabia como ele ia terminar a frase. “Desde que vendi o último apartamento, um dia depois do término do nosso namoro”.
Então, de repente, comecei a me lembrar de como minhas amigas estavam estranhas pela manhã, e no fato de que Bella fora a corretora que me levou até aquele apartamento, e tudo fez sentido.
- Puta que pariu, ela se lembrou de mim! – sussurrei, arregalando os olhos.
- Quem se lembrou de você? Do que você está falando? – quis saber, dando um passo em minha direção. Ao perceber sua aproximação, dei dois passos para trás e olhei para baixo, corando. – Nossa, calma, eu não vou te morder!
parecia um pouco assustado com a minha reação.
Percebi que não ia conseguir mais segurar as lágrimas, então me virei de costas e corri até a porta do meu apartamento.
- Não se preocupe comigo, amanhã você não vai nem lembrar que estive aqui. – prometi, batendo a porta atrás de mim. Ainda pude ouvir um “espera aí, !”, mas não dei importância.
Corri até o quarto, sentindo meus olhos arderem. O cômodo estava vazio, assim como o resto do apartamento, com exceção de um colchão no chão. Sentei-me trêmula e respirei fundo. Meu coração batia descontroladamente no peito e minhas mãos tremiam. Peguei meu iPhone na bolsa e liguei para , errando seu número algumas vezes antes de acertar. O celular só dava caixa postal, então liguei para sua casa.
No segundo toque, atendeu ofegante.
- Residência dos Jones.
Fiquei muda. Agora mais aquela! Será que aquele era o dia do “vamos jogar na cara de tudo que ela perdeu na vida!” Afinal, eu nem sabia há quanto tempo não falava com , justo ele, que costumava ser um de meus melhores amigos.
- Alô? – ele repetiu. – Olha, se isso for mais um trote, eu juro por Deus que...
- Não é um trote. – murmurei. A voz do outro lado se calou. – , sou eu, a .
- ? ? – ele perguntou perplexo. Pelo menos era o que sua voz indicava: perplexidade.
- Sim, sou eu. Será que eu poderia falar com a ? – pedi desesperada. Não queria falar com ele, não queria falar com , só queria descarregar minhas frustrações em alguém.
- Pode sim, só um momento. – ele respondeu com toda a educação de um mordomo treinado. Senti um aperto no coração ao perceber que, além de perder o noivo, também havia perdido meus melhores amigos.
, telefone!” ouvi ele berrar.
“Eu não pedi pra você dizer que eu não posso atender, ? Quem é? É a Vogue?” berrou de volta, aparentemente no andar de cima. “Eu estou cansada, não quero falar com jornalistas agora!”
, só venha atender, ok?” ele exclamou irritado.
Ouvi alguns passos ecoarem, e logo a voz de parecia mais nítida.
“Quem é?”
“É a !” murmurou. Senti mais uma pontada no peito ao ouvir meu antigo apelido. Pelo menos ele se lembrava...
“Ah, merda...” resmungou.
- Alô? – disse baixinho.
- Sua vaca, filha da puta! – gritei, liberando toda a minha raiva. – Será que você não podia ter me avisado sobre o novo vizinho? Você não podia ter dito um simples “olha só, , seu ex-noivo mora do seu lado!”? Era pedir demais?
- Calma, ! Eu não fiz por mal! – exclamou, e eu pude ouvir perguntar no fundo “o que aconteceu?” – Será que eu posso me explicar?
- Pode sim! Pode começar me explicando como eu faço pra cancelar meu contrato de aluguel agora! Você pode me explicar isso, ? Pode?
ficou em silêncio do outro lado da linha.
- Foi o que eu pensei. Bom, muito obrigada por ser uma péssima amiga! – berrei, enlouquecida, e desliguei o telefone. Liguei para e e disse exatamente as mesmas coisas, e só aí me dei ao luxo de deitar no colchão e chorar até dormir.

:

Aquilo não podia ser verdade. não podia ser minha vizinha. Aquilo tinha que ser alguma brincadeira de mau gosto; essa era a única explicação.
Enquanto encarava o número 202 colado na porta de madeira à minha frente, o telefone tocou dentro do meu próprio apartamento, mas eu não consegui mexer um só músculo. Meus olhos estavam paralisados, hipnotizados.
Depois que meu telefone parou de tocar, o celular começou a vibrar dentro do bolso da bermuda e eu pisquei os olhos, saindo daquele transe. Atendi sem olhar para o visor.
- Cara, o que tá rolando? Minha mulher está chorando dentro do banheiro depois que desligou o telefone com a que, aparentemente, é sua nova vizinha! – berrou desesperado, não esperando eu dizer “alô”.
- Ah, merda... – resmunguei, puxando o cabelo para trás com os dedos da mão livre. – Eu não sei o que aconteceu! Cheguei na minha casa e dei de cara com ela!
- Mas que caralho! – gritou. Então ouvi um barulho e ele completou. – Ela saiu do banheiro, preciso ir. Falou!
E a ligação foi cortada.
Entrei irritado em meu próprio apartamento e joguei o celular em cima da mesa. Desisti de passar minha tarde jogando vídeo-game e tomando cerveja. Ao invés disso, peguei meu casaco de frio, coloquei uma calça jeans qualquer e saí. Não estava com cabeça para ficar em casa sabendo que minha ex-noiva estava há alguns passos de mim.
Decidi dar uma volta a pé, e saí pelo hall principal. Cumprimentei alguns vizinhos que passeavam com seus filhos pequenos e seus cachorros cheirosos, e saí para o frio. Nunca imaginei que essa seria nossa conversa depois de dois anos separados. Claro que, do jeito que terminamos, não esperava uma recepção calorosa, mas nunca, em meus piores pesadelos, cheguei e pensar que nós dois fôssemos nos tratar como completos estranhos. Não depois de tanto tempo juntos, depois de toda a nossa história...
Caminhei até a portaria pensativo. Estava quase saindo quando ouvi uma gritaria vir da guarita de entrada. Como isso quase sempre acontecia quando alguma fã queria entrar no condomínio, fui até lá para tentar ajudar, não encontrando fã alguma. No lugar disso, dei de cara com batendo boca com o porteiro.
- Como assim eu não posso entrar? Minha melhor amiga precisa de mim! – ela berrava, e o segurança só negava com a cabeça.
- Nós ainda não temos nenhum cadastro nesse endereço senhora, e a senhora não vai poder entrar. Me desculpe, essas são as regras.
- Senhorita! – ela o corrigiu, irritada. – E eu vou entrar, sim, senhor!
Fui até os dois e coloquei as mãos no ombro de Mattias.
- Deixa que eu cuido dessa. – disse, envolvendo o ombro de , que berrava como uma louca, e levando-a para longe dali.
Mattias suspirou e fez um sinal positivo com o polegar para mim. Eu estava parcialmente acostumado a lidar com garotas histéricas, mesmo quando essa garota não era uma fã, e sim a estilista da banda.
Eu via sempre, nos sets de gravação, antes dos shows, nos programas de TV, pelo skype antes de algum show internacional... Nós éramos bons amigos, então foi relativamente simples calar sua boca; foi só apertar bem firme seus ombros e concordar com tudo que ela dizia.
era a única das garotas com quem eu ainda mantinha algum contato. havia saído de nossas vidas definitivamente depois que perdera o bebê, e era ocupada demais para sequer assistir a algum show do McFLY.
Depois de todo o escândalo da traição, quis demitir , mas eu não deixei. Só ela era capaz de nos deixar apresentáveis sem nos transformar em homossexuais.
Ele só permitiu que ela continuasse se pudesse contratar uma nova estilista só para ele, e nós deixamos. Os dois mal se viam pelos corredores, mas quando acontecia, eram mestres da indiferença.
Nós andamos abraçados até o final da rua, enquanto se acalmava. Quando ela finalmente se calou, eu resolvi começar o interrogatório. Afinal, eu precisava de algumas respostas ali.
- Como você chegou aqui tão rápido? Você não mora do outro lado da cidade? – perguntei curioso.
- Eu estava aqui por perto para assistir a um desfile que vai começar em – ela olhou de esguelha para o relógio – três minutos, quando a me ligou.
- E por que ela te ligou? – nós viramos a esquina e paramos em frente ao Starbucks. Fiz sinal com a cabeça para que entrássemos, e ela concordou. Sentamo-nos em uma mesa reservada no fundo do salão e tirou o pesado sobretudo vermelho de lã, revelando uma blusa decotada de manga comprida.
Nós éramos tão amigos que em nenhum instante meus olhos se desviaram de seu rosto, o que seria bem diferente se outra mulher estivesse sentada na minha frente com aquele decote.
Mulher. já era uma mulher; éramos todos adultos.
Às vezes era difícil lembrar que nós não tínhamos mais 17 anos.
- Hoje de manhã eu e as meninas fomos visitar o apartamento com ela e não contamos que você seria o vizinho. – admitiu, com os olhos baixos de culpa. Neguei com a cabeça, não acreditando que elas foram capazes de fazer aquilo. – Não nos julgue, ! Ela parecia tão feliz! Nós só queríamos que ela se sentisse em casa depois de dois longos anos longe, e ela só faltou beijar o chão do apartamento!
- Mesmo assim, , vocês podiam ter avisado. - comentei, desconfortável. - Foi um choque. Acho que eu nunca a vi tão desamparada como acabei de ver!
- Ela nunca mais vai nos perdoar... – lamentou-se.
- Também não é pra tanto... – apertei sua mão por cima da mesa. Fiz sinal para um garoto que passava com o uniforme do Starbucks e pedi dois mocaccinos. Quando ele se afastou, eu continuei. – Ela não é rancorosa.
- Como você pode ter certeza disso? Vocês não se falam há dois anos! – rebateu, inconsolável.
- Sim, é verdade, nós ficamos dois anos separados, mas acho que isso não anula os quase nove anos que passamos juntos. – comentei um tanto quanto ofendido. – Além do mais, ela sempre amou vocês três como irmãs. Não seria capaz de ficar brava, principalmente agora que voltou pra casa.
Olhei para a janela, desviando os olhos de . Não queria que ela pensasse que eu ainda nutria quaisquer sentimentos por , porque isso não procedia. Claro que, escondido nos confins da minha mente, eu tinha um carinho especial pelo meu primeiro amor, mas nada tão forte ao ponto de querê-la de volta. Não depois de tudo que aconteceu...
Eu amava e me casaria com ela, e nada nem ninguém mudaria isso.
- Me desculpe, não quis parecer rude... - disse, enquanto o garoto depositava nossas bebidas na mesa. - Eu só não queria que nos odiasse agora que voltou...
- Ela não vai odiar vocês, , deixe de bobeira! - dei um gole no meu mocaccino fumegante.
O celular de que repousava em cima da mesa começou a vibrar, e ela atendeu no segundo toque. Disse alguns “sim” e “aham” e desligou. Olhou para mim chateada e guardou-o na bolsa.
- Eu preciso ir, . O desfile se atrasou porque uma das minhas assistentes ficou doente e não foi. Vou precisar segurar as pontas. - ela se desculpou.
- Espera aí, o desfile que você estava indo é o seu desfile? - perguntei perplexo.
- Sim! - ela exclamou, achando graça. - Você acha mesmo que eu tenho saco para assistir ao desfile de outras pessoas?
Gargalhei enquanto se arrumava. Ela colocou o sobretudo vermelho e beijou o topo da minha cabeça antes de sair.
- Tchau, .
- Tchau, . E não se preocupe, vai dar tudo certo! - eu tentei consolá-la, agitando meu copo de café para ela.
fez uma careta e saiu da cafeteria depois de pagar sua parte no caixa.
Eu ainda fiquei observando-a desaparecer pela rua, mordiscando a borda do copo de café com um sentimento de nostalgia no peito.

:

Acordei na manhã seguinte sem lembrar direito onde estava. Olhei em volta ainda meio grogue, sentindo meus olhos inchados. Quando vi que estava deitada em um colchão, lembrei-me dos acontecimentos do dia anterior. Bufei, nervosa, e peguei meu iPhone desligado. Xinguei-me mentalmente por ter esquecido de colocá-lo para carregar e arrastei-me até a cozinha. Peguei o interfone e esperei o porteiro atender.
- Bom dia, srta. . - ele desejou.
- Bom dia. - resmunguei. - Você saberia me dizer se meus móveis já chegaram? Meu celular está sem bateria e eu acabei dormindo demais.
- Ainda não recebemos nada, srta. , mas assim que o caminhão chegar te avisaremos. - ele prometeu. Agradeci e desliguei. Fui até minha bolsa, jogada em cima da bancada americana da cozinha, e vasculhei pelo meu carregador. Coloquei o celular para carregar e olhei para baixo. Minha saia estava amassada, minha camisa aberta e minha meia calça furada nos joelhos.
Voltei para o quarto e joguei minhas roupas em cima do colchão no chão. Peguei outras novas na mala, junto com duas toalhas, meu xampu, condicionador, sabonetes e todas os outros acessórios necessários para um bom banho de meia hora.
Entrei no banheiro e deparei-me com ele completamente vazio, com exceção de um chuveiro e um vaso sanitário. Coloquei as toalhas em cima da tampa do vaso e as coisas de banho no chão. Não me importei com a falta do box; eu precisava desesperadamente de um bom banho.
Liguei o chuveiro no mais quente e apoiei minha testa na parede. Meus olhos ardiam de tanto chorar na noite anterior, e eu só queria desaparecer.
O banho, que deveria durar meia hora, durou só dez minutos. Eu acabava de tirar o condicionador do cabelo quando o interfone tocou. Enrolei-me na toalha e saí correndo. Atendi esbaforida.
- Srta. ? - ouvi a mesma voz com quem havia conversado minutos antes chamar.
- Sim. - fiquei com vontade de responder "Quem mais seria? A Rainha? Eu moro sozinha, me mudei ontem e ninguém entrou no meu apartamento! Pensa, amigão!" mas achei que seria desnecessário.
- Seus móveis chegaram. Posso mandar subir?
- Pode, por favor. - pedi, cansada. Desliguei o interfone e saí correndo em busca das minhas calcinhas. Coloquei uma calça jeans e um blusão da GAP - Deus abençoe a GAP - e terminava de pentear o cabelo quando ouvi batidas leves na porta.
"Chegaram!" pensei, tentando me animar.
Abri a porta e dei de cara com um senhor grisalho de uns 50 anos. Ele segurava uma prancheta preta nas mãos e mastigava algo, fazendo seu bigode espesso subir e descer freneticamente.
- Srta. ? - perguntou, carrancudo. Sua voz era rouca e um maço de cigarros praticamente pulava de sua calça de moletom suja.
Ele não parecia feliz.
- Sou eu. - respondi, olhando por cima de suas mãos para ler o papel que estava preso na prancheta. Não foi preciso muito esforço, pois o senhor a virou para mim, estendeu uma caneta e apontou para a linha pontilhada no final da folha.
- Assine aqui e eu já mando subirem os móveis. - ele pediu.
Assinei, depois de ler o que estava escrito - afinal, eu era uma advogada, e uma das boas, e não podia simplesmente deixar de ler um contrato, por mais que a folha de papel não dissesse nada de muito interessante -, e o senhor gritou pelo rádio alguma coisa inaudível com um sotaque irlandês carregado. Depois, desapareceu pelo elevador e eu fiquei apoiada na batente da porta, olhando para todos os lados, menos para o apartamento 201.
Passados alguns segundos, o elevador fez barulho de que estava no andar e eu levantei os olhos para ver qual seria o primeiro móvel a chegar no apartamento da discórdia.
Para minha surpresa, não era um móvel.

:

Acordei na manhã seguinte com o celular vibrando. Abri um dos olhos e li a mensagem. "Estou chegando, ! Vamos sair para almoçar? - Gio XxxxXXx" Depois, olhei para o relógio na mesa de cabeceira e dei um pulo ao constatar que já eram 14h32.
Tomei um banho rápido e coloquei a primeira coisa que vi pela frente - eu sentia falta de nessas horas de desespero.
Estava calçando meus tênis quando o interfone tocou.
- Sr. , a srta. está aqui embaixo. - Mattias informou.
- Pode deixar subir. - respondi, realmente irritado por sempre ter que deixá-la subir. Nós namorávamos há dois anos, será que eles ainda não haviam entendido que ela podia subir a hora que quisesse?
Fui até a porta, mas antes de abri-la, algo chamou minha atenção. Curvei-me para pegar o jornal no chão e li a pequena nota no canto esquerdo inferior.
" , guitarrista do McFLY, é flagrado em conversa íntima com ex-namorada de um colega de banda. Leia mais na p. 8"
Arregalei os olhos. Virei as páginas de qualquer jeito, chegando à seção cultura. Metade da página era coberta por uma foto em que eu segurava as mãos de entre as minhas e nós nos olhávamos, e embaixo um texto contava um pouco das nossas histórias.

Ídolo adolescente e estilista encontram-se mais do que casualmente!

, guitarrista da boyband McFLY, encontrou-se ontem com , estilista da banda.
O encontro seria só romântico, se não fossem pelos detalhes que o envolvem; namora há dois anos com a atriz , e é ex-namorada de longa data de , baixista do McFLY.
Enquanto ainda namorava , foi fotografada em uma balada nos braços de Dave Ortego, ator teen que, na época, estava cogitado para ser o novo homem-aranha nas telonas.
Pouco depois, um vídeo no qual aparece cheirando cocaína no banheiro de uma festa foi um dos mais vistos no YouTube. Os dois romperam nessa época, e está solteira desde então. Ontem, foi fotografada em um momento de intimidade com em um Starbucks.
Fontes revelam que eles nunca tiveram nada a não ser grande amizade, mas que estariam bem próximos nos últimos tempos. Procurados, eles não quiseram dar depoimento.
Esperamos que tenha tido a decência de terminar com antes de embarcar nesse outro romance! Ou será que teremos mais uma namorada se mudando para a Austrália?

Reportagem por Peter Lands.


Larguei o jornal no chão, incrédulo. Procurados para dar depoimento? Só se fomos em sonhos! Aliás, quem aquele cara pensava que era para brincar assim com a vida das pessoas? Eu estava acostumado em sair nos jornais, mas nunca havia sido alvo de mentiras como a que acabara de ler.
Ouvi vozes no corredor e, imaginando que seriam de , abri a porta.
De fato, era .
Conversando com .

:

Mal pude acreditar quando botei meus olhos em , namorada do meu ex-noivo.
Eu não conhecia muito sobre ela. Só sabia que eles estavam juntos desde que havíamos rompido. Não fiquei sabendo se fui traída, do mesmo jeito que não quis saber se ela fora só um caso desesperado depois do término ou se eles já estavam apaixonados antes. O que eu de fato sabia, era que ela era aspirante a atriz, tinha 25 anos e cabelos perfeitos.
Eu fiz de tudo para passar despercebida. Olhei para o chão e simplesmente fiquei ali, estática. Aliás, eu não tinha muito o que fazer, pois a primeira coisa que a maldita fez ao pisar no hall foi olhar em minha direção.
- Bom dia! Finalmente esse apartamento foi ocupado! - ela desejou, com uma voz enjoada de menina certinha. Levantei o rosto a contra gosto e arregalou os olhos. - Meu Deus, mas você é a ex-noiva do !
Preparei os punhos paro o caso de ter que me defender, mas, para minha surpresa, ela só soltou um gritinho agudo e correu em minha direção.
- Eu sempre quis te conhecer! - berrou, envolvendo meu pescoço com os braços.
Foi exatamente nesse momento que abriu a porta e gritou.
- Não! , não é nada disso que você está pensando!


Capítulo 4

:

- Não é isso que eu estou pensando o quê, amor? - perguntou, me largando para correr até .
Mal tive tempo de digerir a informação do ataque de fofura e já tive de passar por outro trauma: beijando meu ex-noivo com todo o amor e devoção.
Eu sinceramente não achei que fosse doer tanto... Podia jurar que a ferida emocional já estava cicatrizada, afinal, dois anos era muito tempo!
Claro que durante esses dois anos eu evitei ao máximo qualquer coisa que pudesse impedir o processo de cicatrização; desde que pusera meus pés na Austrália, eu só havia visto uma foto de e , e foi logo quando descobri que ele estava com outra. Depois da dor que senti naquele dia, jurei nunca mais me martirizar daquele jeito. Eu achava que a ignorância só estava me ajudando, mas também nunca imaginei ter de ver a cena que se passava diante de meus olhos.
Meu pulmão se recusava a soltar o ar, e eu só fiquei ali, observando a boca que um dia foi minha beijar outros lábios.
Felizmente, percebeu que aquilo era um tanto quanto desagradável para nós dois, e empurrou com delicadeza para o lado. Ela nem percebeu a rejeição; estava tão animada por ter me conhecido que mal cabia em si.
- Ahn... Eu... Bom, pensei que você fosse ficar brava por ver a aqui... - comentou, envergonhado.
- ! Até parece! Me desculpe pela grosseria, ! Até parece... Eu sempre quis te conhecer! - ela piou, voltando-se para mim e sorrindo de orelha a orelha. , ao lado dela, coçava a nuca como se não acreditasse no que estava vendo. - Quero dizer, eu sempre quis conhecer o primeiro amor do , e calhou de ser você! Já que nós vamos nos casar algum dia, quero conhecer todos que fizeram parte da vida dele.
Minha respiração ia e voltava com força, e eu tinha vontade de vomitar. Casar? Eles iam se casar?
- Eu... Bom, esse é um apartamento provisório... Eu acabei de chegar, foi o lugar mais rápido que eu consegui arranjar! - eu expliquei, mais para dar um parecer para do que puxar papo com a coisinha ao lado dele. - Eu estou recebendo a mobília agora, eu pedi antes de...
Olhei constrangida para , que engoliu a seco, entendendo porque eu havia parado de falar. Eu havia dito a ele no dia anterior que ele não precisaria se preocupar, pois no dia seguinte eu não estaria mais ali e, bem, lá estava eu.
- A está muito ocupada, querida. Vamos deixá-la cuidar da mobília. - comentou, sento inteligente o suficiente para não comentar sobre nosso reencontro.
- Ah, aí está você! - eu exclamei aliviada, indo até o carregador que saía do elevador com minha mesa de centro e uma cara de espanto.
- Tudo bem. - resmungou, parecendo um pouco decepcionada por não poder passar mais tempo conversando comigo; teve de envolvê-la pelos ombros e a arrastá-la para dentro do apartamento.
E, mesmo tento me tirado daquela saia justa, lançou um olhar de desculpas antes de entrar no próprio apartamento. Claro que eu não estaria naquela saia justa se ele não tivesse me trocado pela coisinha, mas isso são outros quinhentos.
Ainda fiquei encarando a porta - aliás, eu estava fazendo muito isso nos últimos dias -, sem saber o que fazer, como proceder. O carregador teve de intervir para me fazer reagir.
- Moça, aonde eu coloco isso? - ele perguntou, com o rosto vermelho de fazer força.
- Ah, me desculpe... - suspirei, entrando no apartamento. - Pode colocar ali no meio.
Fiquei observando o garoto de no máximo 18 anos ajeitar a mesa no centro da sala, mas meus pensamentos estavam longe. Com toda aquela coisa de ser meu novo vizinho, nem havia se passado pela minha cabeça que ele era um homem comprometido e que, mais dia menos dia, eu conheceria a coisinha. Pior ainda, eu teria de ver o casal felicidade todos os dias durante minha estadia ali!
Suspirei, apoiando-me na parede. Quantas surpresas naquela volta à Inglaterra. E eu nem havia visitado minha mãe ainda!

:

lia compenetrada o jornal e negava com a cabeça, não acreditando no que seus olhos viam. Fiquei feliz em dar-lhe uma distração enquanto pensava em como explicaria minha nova vizinha ser minha ex-noiva.
- Meu Deus, isso é um absurdo! - ela murmurava entre pequenos intervalos de tempo. Quando finalmente acabou a matéria, abaixou o jornal e me olhou indignada. - Acho que essa foi a coisa mais idiota que eu já li em toda a minha vida!
Concordei com a cabeça, colocando duas xícaras na mesa de centro da sala e despejando o café recém feito em cada uma delas, o aroma gostoso invadindo todo o meu apartamento.
deu um pequeno gole em seu café e colocou o jornal de lado. Sentei-me ao seu lado, beijando sua orelha.
- Que bom que você não está brava. - comentei, aliviado.
- Você achou mesmo que eu fosse acreditar em um tablóide idiota, amor? - ela fez um biquinho, beijando a ponta do meu nariz.
- Na verdade eu estava me referindo a . - pigarreei, constrangido.
- Por que eu estaria brava por ? - ela sorriu carinhosa. - Foi uma simples coincidência! Você nunca me trairia, e é isso o que eu mais gosto em você.
- Não são os meus olhos de cachorrinho que caiu da mudança? - perguntei, incrédulo, fazendo-a rir.
Superado o episódio ex-noiva, decidimos ficar no apartamento e pedir comida pelo telefone. 20 minutos depois, o motoboy me entregava duas sacolas com duas box de comida chinesa e uma Coca-Cola grande. Passei o cartão e esperava ele ir embora quando olhei de relance para a porta na frente a minha. Estava tudo apagado e silencioso, e me lembrava exatamente como andava a minha relação com desde que havíamos terminado: Apagada e silenciosa.

:

Depois que tudo parecia estar em seu devido lugar, decidi sair um pouco de casa. Eu não estava afim de ficar em casa me sentindo mal, e precisava desesperadamente visitar meus pais. Estávamos na metade de Agosto, e o outono adiantava um pouco como seria o inverno, então coloquei um sobretudo por cima do meu conjunto de saia e camisa social. Calcei meus scarpins e saí, trombando com um garoto que trazia duas sacolas de comida chinesa. Desculpei-me, correndo até o elevador para não correr o risco de dar de cara com a coisinha, e apertei o primeiro subsolo. Quando coloquei meus pés no piso de cimento, lembrei-me de que havia esquecido de trancar a porta, mas resolvi não voltar; não quando as possibilidades de eu dar de cara com a coisinha eram imensas.
Saí com minha Tucson prata pela garagem e fiz o trajeto de meia hora até a casa dos meus pais, tamborilando o volante enquanto cantarolava junto com Freddie Mercury. Ao chegar no bairro em que cresci, fiz um caminho totalmente diferente e mais longo só para não passar em frente a república dos meninos e ao Colégio Norbert.
Estacionei em frente minha antiga casa e caminhei até a porta. Apertei a campainha e esperei. O barulho reverberou por toda a casa, e eu revirei os olhos. Minha mãe e sua mania de chamar atenção.
Passados alguns segundos, uma senhora com ares de latina, pequenos olhos amendoados e lábios finos abriu a porta toda estabanada. Seu cabelo grisalho estava preso em um coque alto, e ela parecia ocupada, pois nem se dignou a me lançar um olhar.
- Em que posso ajudar?
- No momento você poderia ir até meu apartamento e reorganizar as coisas por lá. Sabe, Rosa, está uma zona!
A mulher subiu o rosto e quase que instantaneamente lágrimas se formaram embaixo de seus olhos. Ela começou a falar coisas em espanhol e me abraçou pela cintura. Ela não me parecia tão baixinha da última vez em que nos vimos.
- Querida, querida, você voltou! Ah, meu Deus, sentimos tanto a sua falta! - ela exclamava, agora em inglês. - Quando foi que você voltou? Por que não avisou seus pais? Eles só falam de você, no quanto sentem sua falta...
- Eu quis fazer uma surpresa. - sorri, soltando minha antiga babá. As lágrimas agora molhavam seu rosto, e eu me sentia mal. Podia ter feito a mulher ter tido um infarto! - Mamãe está por aí?
- Está sim, lá no escritório. Ficou lá o dia inteiro... Seu irmão veio nos visitar semana passada, está lindo! A namorada também, é uma fofa... Sabia que eles estão noivos? Seu irmão vai se casar, ! - Rosa contava todas as novidades enquanto me guiava pelo corredor.
Claro que eu sabia que Ryan estava noivo. Eu fora a primeira a saber, e estava super feliz por ele.
Enquanto andávamos pelos corredores intermináveis da minha antiga casa, eu acabei me desligando da voz de Rosa. Eram tantas lembranças que ficava difícil não sentar no chão e querer chorar. Por que tinha que estar presente em todos os momentos da minha vida?
Ao subirmos a escadaria principal, uma memória formou-se tão nítida em minha mente que eu poderia ver a versão mais jovem de mim e correndo degraus abaixo.

E foi por isso mesmo que eu dei um soquinho no ombro de e exclamei, disparando pelo corredor.
- Quem chegar por último na cozinha faz os lanches!
- Ei! - ele exclamou, correndo atrás de mim. - Roubando de novo?
Mas dessa vez ele foi mais rápido e me alcançou. Pegou-me no colo e desceu correndo pela escada, enquanto eu esmurrava suas costas e gritava como uma louca.
- Me põe no chão, ! Nós vamos cair!
E não deu outra. Chegando ao último degrau, escorregou no tapete persa e caiu sentando no chão, fazendo-me cair por cima dele. Nossas pernas se encaixaram e eu deixei minha cabeça despencar em seu peito. Ríamos sem parar e ele ficava falando.
- Sai de cima de mim, sua gorda! Você vai me matar!
Quando finalmente conseguimos parar de arfar e rir, joguei meus cabelos para trás e olhei em seus olhos, que pareciam sorrir. Ele tocou a ponta do meu nariz com o dedo indicador e desceu para meus lábios, que sorriram involuntariamente. Sem pensar muito, inclinei-me para frente e nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Mas por pouco tempo, porque logo em seguida ouvi gritar do andar de cima.
- SAI DE CIMA DE MIM, JUDD!
Afastei meus lábios de e olhei curiosa para a escada. Ele aproveitou minha distração para beijar meu pescoço e por pouco eu não ignorei os gritos e voltei a beijá-lo.
Só não o fiz porque parecia estar rolando a segunda guerra mundial no andar de cima.
- VOCÊ QUE TÁ EM CIMA DE MIM, SUA MALUCA! - Harry gritou de volta e eu pulei de cima de , já subindo a escada a passos firmes.

Cheguei na sala de TV, com atrás de mim, a tempo de ver o inferno na terra.


Nosso primeiro beijo, quase uma brincadeira. Agora estava quase noivo e eu estava de volta a minha antiga casa, recebendo aquela avalanche de informações na cabeça.
- , você está me ouvindo? - Rosa perguntou assim que chegamos em frente a porta do escritório da minha mãe.
- Me desculpe, Rosa, eu estava perdida em pensamentos... Sabe como é, faz muito tempo que eu não venho aqui... Mesmo antes de ir para a Austrália, já fazia um bom tempo em que não pisava os pés nessa casa. - eu me desculpei, beijando o topo de sua cabeça.
- Você está pensando naquele menino de novo, não está? - Rosa perguntou, brava. - , esqueça! As coisas mudam, você não pode ficar presa ao passado!
- Eu sei... - suspirei, cansada. Agora até Rosa me daria o famoso sermão "todas as coisas mudam"? - Pode voltar a fazer o que estava fazendo, eu já me junto a você. - apontei com a cabeça para o escritório, e Rosa concordou meio a contragosto, desaparecendo pelo corredor.
Parei em frente à porta e respirei fundo.
O que eu ainda não contei a você é que minha mãe havia mudado muito desde que voltara com o meu pai. Agora eles eram um casal de adolescentes apaixonados, e para mim era muito esquisito ter de ouvi-la se desmanchar toda pelo meu pai. Quero dizer, eles eram meus pais! Tinha como ser mais esquisito?
Entrei sorrateira pela porta, observando uma mulher de quase 60 anos de costas para mim, digitando furiosamente no computador, com uma caneca de café fumegante de um lado e um cigarro queimando no cinzeiro do outro.
Algumas coisas nunca mudavam.
- Mamãe?

:

escolhia distraída algum filme na instante, e eu peregrinava pelos mais de 100 canais de TV por assinatura. Assim que ela pescou qualquer título que nós já havíamos assistido milhões de vezes eu senti meu celular vibrar. Atendi depois de ver o nome de brilhar no visor.
- Fala aí, veadinho. - cumprimentei, ouvindo alguns berros de ao fundo. - Tá tudo bem aí, cara?
- Não, não tá. Ela enlouqueceu. - "VOCÊ NÃO ME RESPEITA MAIS! VOCÊ PAROU DE ME RESPEITAR NO DIA QUE DISSE SIM NA IGREJA!" eu podia ouvir a voz de ricochetear e nocautear meus ouvidos. parecia assustado. - Ela achou as mensagens da figurinista do e está surtando!
- O que tem nessas mensagens? - eu quis saber, já que não sabia que os dois andavam trocando mensagens.
- Ela me mandou uma mensagem perguntando quanto eu calçava. Pronto! Foi o suficiente! - sussurrou, como se estivesse no meio de um jogo mortal. "E SAIBA, VOCÊ, QUE EU POSSO ENCONTRAR HOMENS QUE ME TRATARIAM MILHÕES DE VEZES MELHOR DO QUE VOCÊ!"
- ENTÃO POR QUE VOCÊ NÃO ENCONTRA? EU ESTOU TE IMPEDINDO? - berrou de volta. "SEU FILHO DA MÃE INGRATO! VOCÊ NÃO MERECE A MULHER QUE TEM!"
- SÓ EU SEI O COMO ISSO É VERDADE! Você está vendo, ? Está vendo porque eu fico tão triste quando sei que a turnê está acabando? - a voz de tremia. "AGORA VOCÊ SE FAZ DE VÍTIMA, NÉ, BEBEZÃO? VOCÊ É SEMPRE A VÍTIMA, E EU SOU SEMPRE A VACA!"
, ouvindo os berros no meu celular, perguntou quem era. Eu abanei a mão, pedindo que esperasse.
- , quer que eu vá até aí? - perguntei, começando a ficar preocupado. Eu sabia que eles brigavam constantemente, mas não sabia que era tenso daquele jeito. E se algum deles ficasse louco e fizesse alguma besteira?
- Não, cara, não precisa, eu... - suspirou, e eu ouvi um barulho de estalos. Logo, a voz de preenchia todo o meu cérebro.
- NÃO ACREDITE EM UMA SÓ PALAVRA DESSE CANALHA, ! ELE QUER UMA MULHER PARA MOSTRÁ-LA COMO UM TROFÉU, NÃO UMA COMPANHEIRA! - ela berrou, e eu afastei o celular da orelha, fazendo uma careta. , percebendo que se tratava de , deu de ombros, acostumada com as brigas do casal. - FAZ QUASE SEIS MESES QUE NÓS...
- JÁ CHEGA, ! , depois nos falamos, cara.
E então a ligação foi cortada.
Ainda fiquei olhando para o celular sem entender nada. colocou o DVD e sentou-se ao meu lado, acariciando meu joelho.
- Ah, amor, deixa pra lá. Eles que se arranjem. - ela aconselhou, dando play no filme.

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- ! - minha mãe exclamou, levantando-se com um pulo. A cadeira caiu para trás e ela não se deu ao trabalho de recolhê-la. Correu até mim e me abraçou. - Por que você não disse que estava voltando?
- Eu não quis deixá-la preocupada com o voo. - expliquei, o que era verdade. - Mas, na verdade, pensei que você fosse ver na mídia.
- Eu estranhei mesmo você sumir do Skype, mas só achei que estivesse ocupada demais, principalmente com a nova fase na carreira... Além disso, você me disse que só viria mês que vem, quando tudo já estivesse oficial! - minha mãe me soltou, um pouco magoada por eu não ter-lhe contado sobre a minha volta.
- Eu sei, mãe, mas Jonathan achou melhor eu vir antes. Quando antes começarmos, melhor! - eu expliquei, tirando o sobretudo que vestia e o colocando na cadeira do computador.
Minha mãe me analisou de cima a baixo, fazendo cara de reprovação.
- Você anda comendo, ? Está muito magra!
- Ah, não, por favor, não comece com isso, mamãe. Eu acabei de chegar! - exclamei, revirando os olhos. - Cadê o papai?
- Foi pescar com os amigos. - minha mãe fez uma careta. - Ele está virando um desses velhos...
- Engraçado, nunca pensei que ele fosse virar um caipira quando velho. Justo ele, que sempre foi tão workaholic... - comentei, franzindo o nariz. - Vamos sair daqui? Esse cheiro de cigarro me faz mal... Aliás, quando é que você vai parar, mamãe?
- Não comece com isso, . Você acabou de chegar! - minha mãe brincou, me empurrando delicadamente porta a fora. Assim que saímos, demos de cara com Rosa, que parecia estar ouvindo atrás da porta. - Rosa, querida, vamos comer alguma coisa?
Nós três seguimos pelo corredor, descemos as escadas e fomos até a cozinha. Lá, Rosa preparou lanches e passou o café, juntando-se a nós na mesa.
- Mas me diga, querida, você já tem algum lugar pra morar? - minha mãe perguntou, mordendo seu lanche.
- Na verdade, arranjei um apartamento bem perto da empresa. - comentei, omitindo o fato de que seria vizinha de . Minha mãe o odiava com todas as forças desde que ele partira o meu coração.
- Ah, que pena, pensei que pudesse ter minha menininha comigo de novo... - minha mãe fez beicinho, me fazendo rir.
- Acho que eu estou muito grandinha para voltar a morar com a mamãe! - comentei, mordiscando meu lanche. Eu não queria comê-lo, pois tinha um corpo a zelar, mas também não queria fazer desfeita a Rosa; acabei por dar uma grande mordida, sorrindo em seguida. - Está pronta para ser avó, mãe?
Minha mãe arregalou os olhos e colocou a mão no coração.
- V-você... O-o quê? - ela balbuciou.
Rosa parecia ter infartado, me olhando estática.
- Nossa, gente, calma! Eu estou falando do casamento do Ryan! - exclamei, e as duas soltaram o ar ao mesmo tempo.
- Quer me matar do coração, menina? - minha mãe revirou os olhos. - Nunca mais brinque assim comigo!
Gargalhei, tomando um gole de café em seguida.
- Pode ficar tranqüila, mãe, do jeito que as coisas andam, desse mato aqui não vai sair coelho... - comentei, dando de ombros.
- Você tem 26 anos de idade, menina, não é uma velha na menopausa! - Rosa resmungou, gesticulando. - Pare de se fazer de vítima! E aquele garoto lindo da Austrália? Christian?
Foi minha vez de revirar os olhos.
- Vai ser difícil fazer vocês duas esquecerem o Chris...
- Vai mesmo! Ele era um ótimo partido! - minha mãe deu de ombros. - Mas não, você fica aí pelos cantos, choramingando a falta de sorte que tem, quando um homem daqueles estava louquinho por você...
- Vamos mudar de assunto? - pedi, começando a ficar irritada. - Me diga, Rosa, como andam seus netos?
E nós três passamos uma tarde agradável conversando sobre amenidades. Era bom estar de volta.

:

Na metade do filme, meu celular resolveu vibrar de novo. estava tão entretida que nem reclamou quando eu me levantei e fui até a cozinha atendê-lo.
- Não, , eu não vou te emprestar minha réplica do Stormtrooper. - atendi, mas não riu do outro lado da linha. - ?
- Eu acabei de jogar todo o meu estoque de cocaína na privada. - anunciou, com a voz embargada. - Eu fiz, .
Sentei-me em uma das cadeiras da mesa de jantar, não podendo acreditar. vivia dizendo que não cheirava mais, mas nós sabíamos que sua demora nos banheiros, quando íamos a baladas e pubs, não era comum.
- , isso é... Eu nem sei o que dizer! - eu sussurrei. - Como você está se sentindo?
- Desamparado... - ele admitiu. - Mas confiante. Acho que o período na reabilitação só vai me fazer bem. Não que eu ache que uma semana vá me fazer esquecer a cocaína, eu só acho que... Bom, que eu vou poder pensar no que quero fazer da minha vida.
- Esse é o pensamento, . - incentivei, feliz por ele ter tido a coragem para me ligar e contar o que estava sentindo. - Você vai sair de lá outro cara!
- Espero que sim. Eu não quero mais... - deu uma tossida de leve. - Não quero perder mais nada na minha vida.
Eu sabia que ele se referia a , mas preferi não dizer nada.
- Estou muito feliz por você. - eu disse, sincero.
- Também não precisamos revelar ao mundo nosso relacionamento homoafetivo, . - brincou, e eu soube que o momento sério já havia passado.
- Mas você disse que quando fosse a hora iria assumir e gritar para quem quisesse ouvir! - exclamei, e meu amigo gargalhou.
- Até amanhã, .
- Até amanhã, .
Desliguei o telefone e voltei para a sala particularmente feliz. Beijei a testa de e a acomodei em meus braços.
- Quem era, amor? - ela perguntou por perguntar, porque não parecia interessada em nada a não ser o filme.
- O . - respondi, e ela não fez mais nenhuma pergunta.

:

A tarde passou voando, e quando eu percebi, o céu já estava escuro e Rosa estava pescando na mesa de jantar.
- Está tarde. - comentei, levantando-me e me espreguiçando. - Acho que já vou indo.
- Mas seu pai já deve estar para chegar! - minha mãe protestou, e Rosa deu um pulo, acordando com o próprio ronco.
- Quem diz meu nome em vão? - a voz grave e rouca do meu pai irrompeu a cozinha, e eu me virei para observar um senhor distinto de chapéu e varinha de pescar nas mãos. - Minha garotinha!
- Papai! - exclamei, correndo até ele. Abraçamos-nos desajeitados e ele deu tapinhas calorosas em minhas costas. - Você está um arraso com a fantasia de mendigo!
- Última moda em Paris. - meu pai deu uma voltinha, fazendo as mulheres na cozinha rirem. - Não acredito que você está indo embora justamente quando eu cheguei!
- Está tarde, papai... - comentei, tristonha.
- Engraçado, aos 16 anos vocês dizem que nove horas é muito cedo para ir dormir, mas aos 26 dizem que é muito tarde para ir embora! - ele fez uma careta. - Filhos...
- E disse o homem que passou minha adolescência escondendo meu irmão de mim em outro país. - revirei os olhos. Depois de todo aquele tempo, nós já éramos capazes de fazer piada sobre nossas desgraças.
Sorri e meu pai apoiou a varinha na batente da porta, sorrindo de volta.
- Ah, tá bom, seu velho safado! - exclamei, não aguento aquela carinha carente. - Eu fico mais um pouquinho!
Meus pais comemoraram e Rosa voltou ao fogão, esquentando a água para o chá.

:

- Tem certeza que não quer dormir lá em casa? - perguntou, fazendo beicinho. - Eu comprei algumas lingeries novas!
- Amor, eu estou cansado... - aleguei, beijando sua testa. - Amanhã eu dou uma passada lá!
- Amanhã é segunda-feira, e você vai passar o dia inteiro dando entrevistas! - ela exclamou, manhosa.
- Eu dou um jeito de passar por lá. - prometi, e ela apertou o botão do elevador. Assim que ele chegou, beijei-lhe os lábios de leve e ela enfiou a cabeça em meu peito.
- Vou ficar com saudades.
- Eu também, . - beijei o topo de sua cabeça e ela entrou no elevador, tristonha.
Esperei o elevador chegar no térreo e estava para entrar no apartamento quando, mais uma vez, senti o celular vibrar.
'Nossa, parece celular de puta!' pensei, atendendo sem ver quem era.
- Alô?
- . - Harry sussurrou do outro lado. 'Mais um?' pensei. 'Hoje é o dia do vamos desabafar com ?'
- Harry?
- Eu estava mexendo no meu armário e o carrinho de brinquedo que você me deu quando descobrimos que a estava esperando um menino caiu nos meus pés. - ele contou, sem nem me introduzir no assunto. - O que você acha que isso quer dizer?
Fiquei mudo, sem saber o que responder. Afinal, o que ele queria que eu respondesse?
O assunto da perda do bebê era muito delicada, e Harry quase nunca falava sobre isso. Era até meio doloroso conversar sobre aquilo; todos nós sentimos com a perda.
- Eu... Não sei, Harry. - admiti, apoiando-me na batente da porta. - O que você acha que significa?
- Acho que ele pode estar querendo me dizer algo. - Harry disse, soando um tanto quanto lunático. - Você acha que ele está com raiva de mim?
Fiquei com vontade de dizer que não existia nenhum 'ele', mas não queria correr o risco de ter que internar outro integrante do McFLY, e no caso de Harry, no hospício.
- Não. Acho que ele sentiria muito orgulho de ser seu filho. - comentei, rezando para que aquilo fosse o certo a se dizer em um caso como aquele.
Harry ficou quieto por um bom tempo. Eu estava prestes a ver se a ligação havia sido cortada quando ele se pronunciou.
- Espero que sim.
- Tenho certeza que sim. - disse, sentido.
- É, eu vou dormir... - ele anunciou, como se a conversa anterior não tivesse acontecido. - Até amanhã.
- Até. - cumprimentei, e ele desligou.
Todos os meus amigos estavam ficando loucos?

:

- Agora eu preciso ir mesmo, gente. - anunciei, levantando-me do sofá depois de mais meia hora de papo. - Eu venho visitá-los no próximo final de semana.
- Vem mesmo? - minha mãe perguntou, levantando-se junto comigo. Meu pai e Rosa fizeram o mesmo. - Venho mesmo. - prometi, abraçando cada um deles.
Fomos até a porta e eu me despedi. Entrei no carro e eles ainda ficaram na frente de casa, me esperando ir embora; eu buzinei ao virar a rua.
No caminho para a casa eu ainda passei pela Starbucks, tentando adiar ao máximo minha chegada, mas estava tão cheio que eu desisti. Teria mesmo que encarar , ou pelo menos sua porta fechada.

:

Guardei o celular no bolso e abri minha porta. Então, como quem não queria nada, dei uma olhadela de esguelha no apartamento de . Pela fresta da porta pude ver que continuava tudo escuro, mas algo me dizia para ir até ele.
Atravessei hesitante o pequeno hall que separava os dois apartamentos e encostei a orelha na porta, não ouvindo nada. Enquanto procurava pelo em ovo, coloquei as duas mãos na maçaneta e a girei, mais por distração do que por outro motivo, mas, para o meu espanto, a porta se abriu com um clic.
Escancarei a porta, sentindo meu coração bater mais rápido. Será que eu seria idiota a esse ponto? E se ela chegasse e me pegasse ali, o que faria?
Eu pensava em todas as coisas que podiam dar errado enquanto acendia as luzes de sua casa. Já que estava ali mesmo, nada mais justo do que dar uma simples olhada...
O lugar ainda estava relativamente vazio e a única coisa fora do lugar era uma jaqueta de couro bege em cima do sofá. Fui até ela e a peguei entre as mãos. O antigo perfume de estava impregnado na peça de roupa, e eu sorri. era o tipo de pessoa que teria o mesmo cheiro pelo o resto da vida.
Circulei pela sala espaçosa, pegando as coisas pelo caminho, analisando-as e as colocando no lugar de origem. A mesa do centro era composta por duas velas vermelhas e um vaso discreto no centro. Na estante da TV, alguns filmes estavam organizados em ordem alfabética, e a tela de plasma jazia imponente. O sistema de hometeather ainda não estava instalado, mas as caixas de som estavam em seus respectivos lugares.
Fui até a cozinha e abri os armários, completamente vazios. A geladeira era ocupada por uma garrafa solitária de água e alguns chocolates em barra. Voltei então para sala, a procura de seu quarto. Eu não sabia o que estava procurando ali, mas sabia que encontraria algo.
Dei uma passada no banheiro vazio e nos outros quartos tão vazios quanto, e finalmente cheguei onde eu queria. O esqueleto da cama ocupava metade do quarto, mas o colchão ainda não estava em cima dele. Além disso, duas malas grandes estavam abertas no chão, e eu fui até elas. Vasculhei suas calcinhas, achando graça no fato de que ela ainda era uma criança, com calcinhas de estampa de bichinhos e desenhos animados. Imaginei que ela, sendo uma workaholic, tivesse fios dentais e sutiãs de renda, mas, felizmente, sua roupa de baixo não havia sido vendida ao diabo, ao contrário de sua alma.
Ao lado dessas duas malas grandes haviam alguns cadernos de anotação da empresa e coisas do trabalho. Vasculhei entre eles, folheado-os distraído. Colocava-os de volta, frustrado por não ter encontrado nada de interessante além de sua roupa íntima, quando um caderninho pequeno de capa rosa me chamou atenção.
Ele parecia uma agenda pessoal, e foi o suficiente para que eu me sentasse no colchão do chão e o abrisse. A primeira página continha uma só palavra escrita com delicadeza. "Diário".
Bingo!
Folheei até as últimas páginas, curioso para saber o que ela havia achado sobre nosso reencontro. A última delas datava do dia anterior, o dia em que descobrimos que seríamos vizinhos.

20 de Agosto de 2011, Londres.

E enfim eu cheguei, mas não sem grandes surpresas... Eu sabia que o sonho que tivera no avião, a lembrança de , significava algo. Sabia também que o reencontro com Bella só podia ser um sinal e, finalmente, sabia que minhas amigas não estavam agindo em seu estado normal, mas, infelizmente, eu optei por ignorar. Grande erro. Eis que a pessoa que eu nunca mais gostaria de ver na vida é meu novo vizinho. E o pior de tudo: Ele está gostoso. Como isso pode ter acontecido? Quero dizer, eu passei os últimos dois anos tentando ignorar completamente a existência dele! Tentando reconstruir minha vida, seguir em frente. E quando eu finalmente senti aquela chama de esperança de que sim, eu podia e devia tentar ser feliz, ele cai de paraquedas na minha frente! Será que Deus está querendo brincar comigo? Eu já não sofri o suficiente? Eu já não chorei o suficiente? Já não perdi manhãs, tardes e noites pensando em como seria diferente se eu não tivesse priorizado minha carreira? Só eu sei o quanto eu queria...


Mas eu não pude ler o resto, porque um barulho me chamou atenção e eu fechei o diário de com força, só para vê-la parada na batente da porta, com a jaqueta bege nas mãos e terror nos olhos.


Capítulo 5 - Como Nos Velhos Tempos.

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- O que você está fazendo aqui? - eu perguntei entredentes. Meu corpo inteiro tremia tanto desde que eu o vira agachado com meu diário em mãos que eu mal conseguia parar em pé.
jogou o caderno longe e ficou em pé rapidamente. Ele havia adquirido uma pigmentação branca e seus olhos estavam arregalados.
- O que você está fazendo aqui? - eu repeti. Agora minhas mãos tremiam também.
estava mudo, estático. Provavelmente seu cérebro estava pensando em qual seria a melhor estratégia para escapar daquela situação. Eu tinha pena dele se era isso mesmo o que estava pensando; só Deus sabia que eu o perseguiria até o final do mundo se ele resolvesse sair correndo.
- Eu... - ele começou, cauteloso. - Eu também não sei.
- Você também não sabe? - quantos anos eu passaria na cadeia se o assassinasse ali? - Como... - eu apertei minhas têmporas. - Como você entrou aqui?
- A porta estava aberta. - ele disse, parecendo um garotinho indefeso.
Bom, eu tinha minha parcela de culpa ali. Deixar o apartamento aberto não era algo que eu costumava fazer frequentemente.
- Qual é o seu problema? - eu levantei o rosto, e estava no mesmo lugar, parado. Seria cômico se não fosse trágico. - Você sabe que eu poderia chamar a polícia por invasão de domicílio, não sabe?
- Ah, para com o drama, eu só vim ver como estava o seu apartamento. - deu de ombros, retomando um pouco os sentidos.
E falando com uma arrogância gigantesca.
- Com o meu diário nas mãos? - eu perguntei, irritada. Caminhei até perto dele e peguei meu caderno do chão. Ele estava aberto na última página, e eu senti minhas bochechas esquentarem. - Eu não sei qual é o seu problema com diários alheios - eu comentei, relembrando-me de um episódio parecido que ocorrera no Ensino Médio -, mas eu quero que você saia daqui. Agora.
caminhou lentamente até a porta, obedecendo sem pestanejar. Ele passou por mim como um fantasma, quase sem fazer barulho.
Eu fiquei de costas, esperando ele sair para que eu pudesse chutar alguma coisa com raiva, mas ele não saiu.
Não, eu ainda podia sentir sua presença na batente da porta.
- , eu...
- Vá embora, . - eu repeti.
- Eu só quero conversar! - ele exclamou, me puxando pelo braço e me virando de frente para ele.
Nós ficamos então bem próximos, e eu pude reparar que seu cabelo estava estranhamente arrepiado para cima e seus olhos faiscavam de raiva. Irritada, eu puxei meu braço de volta com força e me desvincilhei dele, massageando a área onde ele me segurou.
- Eu não tenho nada para conversar com você. - eu respondi, cuspindo as palavras.
- Tem sim! Aliás, nós precisamos conversar há dois anos, mas você nunca me deu a chance! - abriu os braços em sinal de rendição. - Mesmo quando ainda éramos noivos, eu tentava conversar, tentava resolver as coisas entre nós, mas você estava sempre cega pelo seu orgulho!
- Como você é mentiroso! - eu berrei, perdendo o controle. Ele podia estar imensamente gostoso, mas nada entre nós havia mudado; eu sofri muito nas mãos dele, e não pretendia passar por tudo de novo em razão de belos bíceps. - Quando eu me mudei para a Austrália você simplesmente parou de me ligar!
- Claro que parei, você estava sempre ocupada demais para mim! Era sempre "Ah, amor, agora não posso conversar, estou em reunião!" ou ", por favor, eu estou cansada..." Eu te atendia no meio dos shows, enquanto tomava banho, quando estava atendendo fãs! Pelo amor de Deus, eu te atendi enquanto era devorado por fãs brasileiras malucas! - estava vermelho, e parecia reviver tudo aquilo que saía de sua boca. - Depois de um tempo sendo tratado feito merda, você aprende que o melhor a se fazer é não ligar!
- Você sempre soube que eu era assim, . - eu caminhei até minha mala e peguei três quadros de lá de dentro, jogando-os em cima da cama; eram três diplomas emoldurados. - Eu não tenho três diplomas à toa! A minha carreira sempre veio primeiro, e eu deixei claro para você desde o começo! Eu não sou o tipo de mulher que desiste dos sonhos para ficar em casa cuidando da janta do marido!
- Eu sei que não, e eu nunca quis que você fosse esse tipo de mulher, mas isso não justifica me tratar do jeito que você me tratou. - murmurou, sentido.
- Claro, porque era muito fácil ser carinhosa com você quando eu via a sua foto dia sim dia não nas colunas de fofocas! Era fácil ser carinhosa quando você ia para as baladas se divertir, enquanto eu estava sozinha em um país estranho, recebendo pressão de todos os lados, trabalho, família, amigos e, principalmente, você! - eu enterrei meus dedos no cabelo, andando de um lado para o outro. - Você não tem ideia de como foi desesperador! Eu passei quatro meses de puro inferno!
- E por isso resolveu terminar comigo, sem mais nem menos!? - estava se segurando para não gritar; suas veias saltavam pelo pescoço.
- Ah, não se faça de vítima! Que eu me lembre, você ficou tão arrasado que no dia seguinte já estava com outra! - eu não podia acreditar que ele estava me culpando por todos os nossos problemas. Eu podia não ser santa, mas não era, de longe, a única culpada. - E ainda saiu como o inocente da história, e eu a vagabunda sem coração! Me diz, , qual foi a sensação de transar com uma garotinha inocente ao invés de uma vaca fria e sem coração? Te fez voltar ao Ensino Médio?
- Por que você tem que fazer isso? - ele perguntou, caminhando até mim. - Por que você tem que se menosprezar desse jeito?
- PORQUE É ISSO QUE VOCÊ PENSA QUE EU SOU! - eu berrei, não aguentando mais segurar. Afinal de contas, foram dois anos com aquilo preso na gargante. - É ISSO QUE TODO MUNDO PENSA QUE EU SOU. UMA VACA FRIA E SEM CORAÇÃO! PORQUE, NO FUNDO, É ISSO QUE EU SEI QUE EU SOU!
- SE VOCÊ FOSSE UMA VACA FRIA E SEM CORAÇÃO EU NÃO TERIA FICADO QUASE NOVE ANOS AO SEU LADO! - berrou em resposta, ofegando. - MAS NÃO POSSO NEGAR QUE VOCÊ ESTÁ AGINDO COMO UMA IMBECIL. EU SÓ QUERO CONVERSAR COM VOCÊ, EU SÓ QUERO AJEITAR AS COISAS!
- VOCÊ NÃO VAI CONSEGUIR AJEITAR NADA, NÃO DEPOIS DO QUE FEZ COMIGO!
- EU ESTOU DISPOSTO A TE PERDOAR PELO O QUE VOCÊ FEZ COMIGO, POR QUE VOCÊ NÃO PODE ME PERDOAR? - enquanto berrava, ele se aproximava de mim. Agora ele estava perto.
Perto demais.
Tão perto que eu nem me assustei pelo o que ele fez; ele me abraçou.
Mas não foi um abraço qualquer. Ele envolveu todo o meu corpo em seus braços, e eu afundei a cabeça em seu peito, soluçando.
Desde quando eu estava chorando?
O abraço durou só alguns segundos. Logo eu voltei a mim e o empurrei.
não parecia surpreso; foi quase como se ele esperasse por aquela reação.
- PORQUE NÃO! PORQUE DÓI DEMAIS! - eu solucei mais um pouco. Antes eu chorava pela briga, por relembrar tudo, mas agora eu chorava de raiva de mim mesma por ficar vulnerável daquele jeito perto dele. - Dói demais...
ficou em silêncio e eu deixei as lágrimas rolarem pelo meu rosto e aterrissarem no chão. De repente, o interfone tocou, e eu enxuguei o rosto com as costas da mão. Passei por sem dizer nada e fui até a sala. Peguei o interfone trêmula e respirei fundo.
- Alô?
- Srta. ? - o porteiro perguntou, e eu afirmei com a cabeça, esquecendo-me de que ele não podia me ver.
- Sim.
- Srta. , sei que isso é chato, mas os vizinhos estão reclamando do barulho no seu apartamento. Já passou das 22h, e a partir das 22h barulhos não são permitidos. - ele explicou visivelmente constrangido.
- Ah... - eu respondi, sentindo o rosto esquentar. Havia começado com o pé direito no prédio novo. - É a... Hm... Tv. Eu vou abaixar. Me desculpe, sr...
- Abdullah, sem senhor, só Abdullah. - ele respondeu, e eu enfim entendi o porquê do sotaque indiano.
- Me desculpe, Abdullah. - eu pedi, sincera. Funguei um pouquinho, e a sua voz ficou mais carinhosa.
- Ah, imagine! Eu que peço perdão por fazer a senhorita passar por isso! - ele exclamou. - Boa noite, srta. .
- Boa noite, Abdullah.
Eu bati o interfone no gancho e me virei rapidamente. estava parado atrás de mim, vermelho.
- ... - foi tudo o que ele disse.
- Boa noite, . - eu disse fria como uma pedra de gelo. Fui até a porta da frente e a abri. - Não temos mais nada para conversar.
ainda hesitou, mas ao ver que eu não estava brincando, atravessou a porta meio a contragosto. Assim que ele saiu eu a tranquei e fui até meu quarto. Lá, peguei meu diário e o joguei no lixo.
nunca mais ia ler qualquer coisa minha.
Depois de me livrar do diário, sentei-me na cama, mas logo me levantei. Havia sentado em algo duro, e o peguei nas mãos.
Era uma carteira.
Masculina.
Merda! Agora teria que me encontrar com de novo, só para entregar a sua maldita carteira.
Maldito destino!
Claro que eu ainda podia deixá-la na soleira da porta dele, bater algumas vezes e sair correndo, mas desconfiava que uma mulher de quase vinte e seis anos não deveria agir como uma criança de oito. Por mais que eu quisesse.
Peguei a carteira e a abri com raiva, mesmo sem entender o porquê da minha reação. Ao abri-la, todo o seu conteúdo caiu no chão, e eu agachei-me para pegá-los.
tinha dois cartões internacionais, um cartão premium, algumas palhetas, vários cartões com número anotados - dentre eles, um cartão de visitas de , que só dizia " , atriz". Estranhamente, atrás do cartão dela havia um número que eu tinha a impressão de conhecer, mas não conseguia me lembrar de onde - e, nas profundezas dos documentos, uma foto.
Uma foto que fez as lágrimas voltarem aos meus olhos.
Era uma versão de nós dois mais novos. beijava meu rosto e eu fazia uma careta engraçada. Meu cabelo ainda era liso e ia até a cintura, e usava uma combinação esdrúxula de xadrez com listrado. Uma toca verde musgo enfeitava sua cabeça, e nós dois parecíamos tão... Apaixonados!
Quantos anos eu tinha naquela foto? Dezesseis? Dezessete? Eu não sabia, mas me lembrava perfeitamente do dia. A foto era da viagem que nós havíamos feito para a praia, na casa dos tios de .
Eu estava tão feliz! Jovem, apaixonada, com sonhos e ambições.
E agora eu estava ali, sentada na cama do meu apartamento, olhando sozinha para uma foto velha e relembrando os bons tempos.
Fui até a minha mala, desenterrei um pijama - não estragaria mais nenhuma meia-calça boa - e o vesti. Ajeitei a cama e me deitei sem tomar banho nem escovar os dentes. Arrumei as coisas na carteira de e adormeci com aquela foto nas mãos.
Eu não sonhei aquela noite.

:

Eu tremia de raiva. Cheguei em meu próprio apartamento e peguei meu Ballantines em cima da cômoda. Despejei quatro dedos e tomei a la cawboy.
Qual era o meu problema, afinal de contas? Por que eu tinha que ter invadido o apartamento da minha ex-noiva? Eu tinha uma namorada linda, uma vida perfeita, a profissão dos meus sonhos e um futuro brilhante a minha frente.
Por que eu tinha que ficar preso ao passado, pensando em alguém que visivelmente não queria melhorar as coisas?
Apalpei meus bolsos e procurei a minha carteira; ela não estava lá.
Merda, eu pensei, colocando mais quatro dedos de whisky no copo. Nem fodendo eu iria lá de novo! Pelo menos não depois da nossa briga. Virei novamente o conteúdo e fechei a garrafa.
Desliguei o celular e pedi a Abdullah, por interfone, para não ser incomodado. Tomei um remédio para dormir - eu costumava tomá-los todos os dias durante os meses em que eu e ainda estávamos juntos e ela estava na Austrália, mas havia quase um ano em que não os tomava - e me deitei.
E então eu sonhei com ela.

Fechei meus olhos e encostei minha cabeça em seus cabelos desgrenhados, respirando fundo seu perfume.
Não sei o porquê, mas de repente eu me senti... Triste.
Triste por , que estava ali, tão magoada e vulnerável.
- Sabe, quando eu era criança e meus pais brigavam comigo, a única coisa que me acalmava depois era fugir para a casa do meu amigo, Jimmy, e ficar horas e mais horas na piscina dele, boiando e pensando na vida. - confidenciei e ela, que fungou em meu peito. Eu não sei porque estava confidenciando aquilo, mas queria acalmá-la de algum jeito.
Ficamos um pouco em silêncio, ouvindo o som dos grilos misturado ao som de seu choro magoado. Então ela balançou os cabelos e levantou a cabeça para mim, piscando seus grandes olhos vermelhos e me encarando.
- Vamos fazer isso. - ela disse, fungando. - Vamos fazer isso! - repetiu, agora mais animada, se levantando em um salto.
- Isso o quê? - eu perguntei, me levantando também. passou a mão por entre os cabelos, jogando-os para trás, e respondeu:
- Nadar. Na piscina de alguém!
- , ninguém vai querer deixar nós entrarmos na piscina às duas da madrugada e... - eu ia dizendo, quando algo me atingiu em cheio. - É! - eu exclamei, já a agarrando pela mão e a arrastando pela rua. - Vamos fazer isso!
Então ela sorriu pela primeira vez, fazendo meus lábios se curvarem junto, involuntariamente. E acho que pela primeira vez na vida eu me senti feliz em ser acordado no meio da madrugada.

:

Acordei na segunda-feira com uma ligação de Jonathan; eu deveria estar na UK Megapix às sete horas em ponto, pois eu seria apresentada aos meus novos colegas.
Argh! Aquela era a pior parte em trabalhar em uma empresa: conhecer as outras pessoas que estavam loucas para passar a perna em você na primeira oportunidade.
Levantei-me sonolenta, ainda com a foto de nas mãos; ela estava amassada e suada. Coloquei-a na escrivaninha e fui tomar um banho. Como ainda eram cinco para as seis, eu tinha tempo para tomar um decente.
Saí revigorada do chuveiro e peguei o conjunto de terno e saia risca de giz, separado há muito tempo para aquela ocasião. Eu me maquiei com precisão e saí do quarto. Como não havia nada na minha geladeira além de uma água e barras de chocolate, peguei minha bolsa e saí do apartamento. Passei sem nem olhar para a porta do meu vizinho e fui direto para o elevador.
Peguei meu carro no subsolo e dirigi distraída até o primeiro café que achei; ele era pequeno e charmoso, praticamente ao lado da UK Megapix, que aparecia majestosa sob o sol nascente.
Instalei-me confortavelmente em uma mesa ao lado de fora do café e pedi um café forte e um brownie. Eles chegaram cinco minutos depois e eu me deliciei. Enquanto comia, mandava mensagens para , e , pedindo para me encontrar com elas; acho que elas mereciam uma explicação e um pedido de desculpas da minha parte.
Eu não tinha porque ter agido como agi com elas, e queria voltar às boas, principalmente agora que estava de volta a Londres e podia ter minhas amigas em tempo integral.
Só Deus sabia o quanto eu precisava delas.
Quando deu quinze para as sete, eu paguei a conta e atravessei a rua, entrando no gigantesco prédio da UK Megapix. Fui até a recepcionista, que sorriu para mim.
- Bom dia. - eu desejei, sorrindo de volta. - Meu nome é ...
- ..., eu sei. - a moça de cabelos escuros e unhas perfeitas me entregou um crachá. - O sr. Heathcliff está te esperando na sala de reuniões. Décimo terceiro andar.
Eu agradeci e passei pela catraca. Peguei o elevador sozinha - agradeci mentalmente por isso - e cheguei rapidamente no andar desejado.
Assim que entrei, dei de cara com uma mulher linda. Ela era alta e tinha os olhos claros, mas de uma cor que eu nunca havia visto - eles eram cinzas. Ela sorria de um jeito forçado e ajeitava as madeixas loiras platinadas presas em um coque perfeito.
- Bom dia, srta. . - ela sorriu sem animação. - O sr. Heathcliff está esperando você dentro...
- ...da sala de reuniões, eu sei. - eu estendi minha mão. - Por quantas fases mais terei que passar para chegar ao chefão, eim?
Eu tentei ser simpática e espirituosa, como todos os livros de auto-ajuda aconselhavam, mas nem sei porque sempre me dava ao trabalho; lá estavam elas, as secretárias pessoais, sempre magras, perfeitas e sem nenhum senso de humor.
- Sou a última fase, srta. . - ela sorriu forçada, voltando a ficar séria. - Me acompanhe.
Acompanhei a secretária e ela abriu a porta dupla da sala de reuniões. Lá dentro, Jonathan Heathcliff ajeitava alguns papéis na mesa e conversava com alguém pelo fone de ouvido.
- ...Sim, com certeza... - ele dizia.
- Boa sorte, srta. . - a loira desejou, fechando as portas atrás de si.
Pigarreei, e Jonathan olhou para mim.
- Querida, a chegou. Peça ao Edward que escolha: ou o carrinho ou o Batman; ele não pode ter os dois... Beijos, até mais tarde.
Jonathan pegou o BlackBerry do bolso e o desligou. Depois levantou-se e estendeu os braços.
- , , querida! - ele exclamou, caminhando lentamente até mim.
Jonathan Heathcliff era um senhor alto e bem apessoado. Ele tinha sessenta e sete anos, mas gostava de dizer que aparentava ser um garotão de dezoito anos. Seu cabelo já estava inteiro grisalho e ele já não enxergava mais sem os óculos "de leitura". Mas, apesar disso, era o tipo de homem que chamava as mulheres.
- Como vai o seu netinho? Problemas entre escolher entre um carrinho e o Batman? - eu perguntei, abraçando meu amigo querido.
Jonathan era como um pai para mim; ele me ajudou em muitos perrengues que passei na Austrália. Quando fui atrás do emprego na UK Megapix, foi com Jonathan que fiz a seleção; ele dizia que queria um advogado novo para a Australian Megapix, mas descobri mais para frente que o que ele queria de verdade era um pupilo, alguém para ensinar e, mais para frente, confiar seu império. Como ele só tinha uma filha, que não tinha interesse algum em assumir as rédeas da empresa - ela era professora de primário e amava a profissão -, ele precisava de alguém de confiança, e eu, não me pergunte como, fui a escolhida.
Como ele também era advogado de formação, sentia uma certa simpatia pela garota de vinte e poucos anos que queria carregar o mundo nas costas. E, em um fatídico dia, ele apareceu na Australian Megapix - ele nunca ia para a filial em presença; sempre conversávamos por vídeo conferências - e pediu para almoçar comigo.
Estava feito o pedido de sociedade.
Claro que ele ainda trabalharia até quando conseguisse parar em pé, mas era claro que ele precisava de uma segurança; eu era a sua segurança.
- Eu particularmente prefiro o Batman. - ele fez uma careta, e nós nos soltamos.
- Ah, Jonh, eu senti a sua falta. - eu admiti, sentando-me na primeira cadeira que achei.
- Não, não, não! Sem sentar! - ele exclamou, e eu me levantei. - Precisamos te apresentar para uma empresa inteira!
Eu revirei os olhos e me levantei.
- Você só faz isso porque sabe que eu odeio. - eu disse.
- Você sabe que sim. - ele respondeu, piscando para mim.
Nós passamos pela porta e lá estava a loira, em pé, nos esperando.
- Presumo que você já tenha conhecido Melina Harper. - ele apontou para ela, que sorriu docilmente para ele.
- Já sim, sr. Heathcliff. - ela respondeu. - Nós já nos conhecemos.
Nós fomos juntos no elevador e paramos no primeiro andar. Iríamos de andar em andar para que Johathan pudesse me apresentar.
Ficamos horas nessa enrolação, e eu queria morrer. Todos sorriam com falsidade e me desejavam boa sorte. Jonathan parecia estar se divertindo as minhas custas, e Melina era só amores com ele, mas comigo era uma vadia desprezível.
Quando acabamos o último andar, o da diretoria, e eu pude enfim conhecer a minha sala, e sócio e secretária me deixaram sozinhos.
Eu me sentei e relaxei. Liguei meu novo computador e posicionei o telefone ao lado do teclado. Estava colocando senha no login quando ouvi batidinhas de leve na minha porta. Virei-me com a cadeira e deixei o queixo cair.
Christian estava apoiado na batente, sorrindo.

:

- Bom dia, dra. Cooper. - eu desejei, atravessando as portas automáticas do Instituto de Recuperação de Movimentos. - Como está a minha lindinha?
- Pare de me chamar assim, . - eu ouvi a voz de reclamar atrás de mim. - Eu não sou mais uma criança.
- E lá está ela! - a dra. Cooper comentou sorridente. Ela era uma senhora de meia idade e sorriso caloroso, e parecia ser a única fisioterapeuta ali que não tratava os pacientes como idiotas.
Virei-me rapidamente, e lá estava a minha irmã, em pé nas barras e caminhando com dificuldade. Eu sorri e fui até ela, beijando sua testa.
- Bom dia. - eu desejei. - Como estamos hoje?
- Bom, eu estou no andador, e você está me tratando como uma retardada. - revirou os olhos.- E você, como está hoje?
- Ah, normal... - eu me apoiei no andador, e ela me olhou com a sobrancelha levantada. - O que foi?
- Vamos lá, me conte. - ela disse, chamando a dra. Cooper com as mãos. - Elizabeth, você pode me tirar daqui?
A doutora foi até ela e a ajudou a sair das barras. Nós caminhamos lentamente até os bancos e ela foi embora, me deixando sozinho com a minha irmãzinha.
- O que você quer que eu te conte? - eu perguntei, tentando parecer indiferente.
- , eu te conheço mais do que você mesmo. - ela comentou, dando de ombros. - O que te aflige?
Eu suspirei. Maldita ! Por que ela tinha que ter nascido com a capacidade de ler minha mente?
- A voltou. - eu respondi, e ela arregalou os olhos.
- A ? A sua ? - ela exclamou. - Não acredito! Eu quero vê-la! Faz muito tempo que ela não vem me visitar!
- Faz muito tempo que ela não vem visitar ninguém, . Ela estava na Austrália, está lembrada?
- Claro que eu estou. Por isso mesmo, eu quero que ela venha me visitar agora que voltou! - não ficava animada daquele jeito havia muito tempo. - Fala para ela vir?
- Ah, , por favor, não me peça uma coisa dessa... - eu pedi, nervoso.
Como eu poderia pedir uma coisa daquelas para ?
"Ah, então, eu sei que eu invadi o seu apartamento ontem e que você queria chamar a polícia, mas será que poderia ir visitar a minha irmã?"
- Por quê? Vocês brigaram? - perguntou, inquisitiva.
- Ela é a minha vizinha. - eu contei, e ela arregalou os olhos pela segunda vez. - É, eu sei.
- Não acredito! Ah, meu Deus! Como foi que isso aconteceu?
- Nem eu sei...
- , você precisa trazê-la aqui! - parecia uma criancinha animada. - Por favor, por favor, por favoooor!
me olhava com aqueles olhões de bebê, e eu me sentia a pior pessoa do mundo. Como eu podia negar algo a ela depois de tudo havia feito ela passar na vida?
Eu bufei e deslizei no banco.
- Beleza, eu vou conversar com ela. Mas não garanto nada! - eu completei, depois que ela começou a dar pulinhos animados. - Você sabe do nosso passado.
- Mas e aí, como foi o reencontro? - ela perguntou, como se nós fôssemos amigas e ela quisesse saber do meu primeiro encontro com aquele gatinho do segundo ano.
- Uma merda. Eu me sinto como um idiota perto dela. - eu respondi sincero. - Me sinto como se tivesse dezessete anos de novo.
- Bom, levando em consideração que você se apaixonou por ela com dezessete anos, acho que é só assim que você tem que se sentir. - minha irmã profetizou.
- Eu não sei o que eu faço, - por mais que minha irmã fosse mais nova, ela era a única capaz de abrir meus olhos e me dar conselhos úteis -, eu amo a , amo mesmo, mas perto da eu sinto como se tivesse levado um soco na boca do estômago.
colocou sua mão sobre a minha e sorriu.
- , só você mesmo vai poder responder isso. - ela piscou para mim. - Mas, se quer mesmo saber, se é assim que você se sente, acho que deveria começar a ouvir o seu coração.
- O que eu devo fazer? Largar a garota com quem pretendo me casar um dia para ficar implorando pelo perdão de ? - eu afundei mais ainda na cadeira. - Isso não faz o menor sentido!
- Ah, ... - bufou. - Você vai me obrigar a falar a frase mais piegas de todos os tempos?
- Vou? - eu quis saber, curioso.
bufou mais uma vez. Depois respirou dramaticamente e soltou de uma vez.
- O amor tem razões que até a própria razão desconfia.

:

- Christian? - eu perguntei, não acreditando naquilo.
Era uma miragem. Só podia ser uma miragem.
- Olá, . - ele sorriu para mim, os dentes brancos e alinhados formando um dos sorrisos mais lindos que eu já vira.
Ainda me lembrava de como havia conhecido Christian; trombei com ele nos corredores da Australian Megapix e me encantei. Eu achava que estava apaixonada. Na verdade, eu tinha quase certeza. Mas no fundo eu sabia que só estava maravilhada pela sua aparência e com o fato de que ele poderia me dar o futuro que eu sempre quis ter.
Christian jogou o cabelo loiro queimado para trás e desencostou-se da batente, suas sardinhas pipocando pelo rosto.
Ele tinha trinta e dois anos, mas ainda parecia um garotão. Qualquer garota em sã consciência se apaixonaria loucamente por ele, mas não eu; não a imbecil .
- O que você está fazendo aqui? - eu quis saber, perplexa.
- Você está olhando para o novo gerente de finanças da UK Megapix. - ele contou a novidade, o sotaque australiano carregado. - Não vou poder surfar por aqui, mas vou ganhar tanto dinheiro que vou poder comprar minha própria praia particular.
- Quando você foi transferido? - eu perguntei, abobalhada.
- Já haviam me oferecido esse trabalho antes, mas eu nunca aceitei. - ele caminhou até a cadeira em frente a minha mesa e sentou-se. - Dessa vez o dinheiro falou mais alto. E outra coisinha também.
- Que outra coisinha? - aquilo já estava virando um interrogatório.
- Você. - ele colocou a mão sobre a minha em cima da mesa. Eu não tive reação. - Eu não vou desistir tão fácil assim de você.

:

- Um brinde a esse tempo que vamos ficar sem ouvir a voz do ! - Harry exclamou, levantando sua paint para brindarmos.
Chocamos nossas canecas e rimos. já estava ligeiramente bêbada, e acabou derrubando metade da cerveja em mim.
- Vocês vão sentir tanto a minha falta que vão acabar indo lá me visitar. - comentou, fingindo estar ofendido.
- Deus me livre! - fingiu arrepiar-se. - Eu queria era que você ficasse um ano por lá!
- Eu não queria, . - eu disse, dando um soco de leve em seu ombro.
- Puxa saco. - Harry comentou, dando um belo gole em sua cerveja.
Nós havíamos nos encontrado para uma pequena "despedida". Sabíamos que beber cerveja não era o melhor método de comemorar a ida de nosso amigo para uma casa de reabilitação para viciados em drogas, mas queríamos dar um último gostinho da vida real para ele.
- Cara, eu nem acredito que vou finalmente me livrar disso. - comentou, olhando para o copo de cerveja e sorrindo. - Vou poder finalmente colocar minha vida nos trilhos.
Nós ficamos em silêncio, observando .
- Eu nem sei porque comecei a usar cocaína. Um dia eu estava de bobeira e resolvi experimentar. No outro eu estava comprando direto com o traficante. Quando foi que eu me deixei perder desse jeito? - ele suspirou, deixando os ombros caírem. Depois levantou o rosto, confiante. - Sei que uma semana é pouco, mas eu já estou há um bom tempo limpo, e só preciso desse tempo para colocar minha cabeça no lugar.
- Você não precisa se explicar, . - disse. - Você vai voltar, nós vamos entrar em turnê e faremos os melhores shows de nossas vidas!
- Assim espero.
- Mais um brinde a isso! - exclamou, levantando sua caneca.
Nós brindamos entre risadas e passamos uma noite agradável; eu quase nem pensei em .

:

- Tudo bem, então eu vejo vocês lá. - eu ia falando ao telefone com enquanto seguia pelo corredor até os elevadores.
Eu não havia feito nada de muito útil no meu primeiro dia como a mais nova sócia da UK Megapix, mas já havia participado de reuniões de planejamento com investidores, aqueles malditos burgueses capitalistas.
Eu estava entrando no elevador quando ouvi alguém gritar "segura para mim". Nem precisei me virar para saber que era Christian.
Depois da nossa curta conversa constrangedora, eu pedi a ele que não fizesse aquelas coisas comigo; o que nós tínhamos havia acabado. Mas ele então só riu e saiu da minha sala, me deixando lá com cara de interrogação.
- Obrigado. - ele agradeceu, apertando o primeiro andar.
Foi uma longa viagem do décimo terceiro andar ao primeiro. Viagem essa que nós passamos em silêncio.
Tinha como ser mais constrangedor?
Chegando ao primeiro andar, nós dois saímos juntos. Eu entreguei meu crachá na recepção - teria que usá-lo até me cadastrar na biometria - e saí para a rua, com Christian sempre ao meu lado.
Graças a minha sorte, ele virou para a esquerda e eu para a direita. Mas é claro que ele não me deixou ir tão fácil assim.
- , não pense que eu desisti. - ele disse, e eu me virei na mesma hora. - Eu só estou dando tempo ao tempo.
- Er... Ok.
"Er... Ok." Quantos anos eu tinha, doze?
Christian riu com seus dentes perfeitos e seguiu seu rumo. Aliviada, eu caminhei rapidamente até a esquina e peguei um táxi - tinha que estar do outro lado de Londres em quinze minutos.
Não que Londres fosse gigante, mas ela era congestionada.
Muito.
O taxista era indiano - era impressão minha ou a Inglaterra estava sendo invadida por indianos? - e me cumprimentou simpático.
Nós levamos exatos doze minutos para chegar ao London Eagle Eye, e eu dei uma gorjeta generosa a ele por ter dirigido feito um louco. Eu entrei no pub e fui direto à mesa das minhas amigas.
- Me desculpem. - foi a primeira coisa que eu disse, beijando o rosto de cada uma delas. - Vocês não mereciam ouvir o que eu disse. Eu fui idiota e explosiva, e peço perdão por isso. De verdade.
- Nós que pedimos desculpas. - se virou para trás e pegou um pacote da bolsa. - Nós até te compramos um Cupcake de desculpas.
Ela abriu a caixinha e eu pude ver um bolinho de tamanho médio com 'Sorry' escrito em M&M's.
- Vocês são muito lindas. - eu admiti, pegando o bolinho. - Estou até emocionada.
- Duvido muito. - comentou, e nós rimos.
As pessoas das outras mesas olhavam para a nossa, e alguns cochichavam e apontavam para , que já estava tão acostumada que nem se importava.
- Sem mais dramas, esse não faz nosso estilo. - eu comentei, mordendo meu bolinho com vontade. - Bom, já que nós somos super desencanadas e já estamos de bem - levantou o dedinho -, você bem que podia nos contar como foi o seu final de semana sendo vizinha do !
Eu suspirei e dei de ombros; não esconderia nada das minhas amigas.
E então eu contei. Contei tudo, com riqueza de detalhes! Desde quando descobri que seria meu vizinho até a briga do dia anterior, chegando até mesmo à volta de Christian. Elas ouviram tudo mudas, só soltando alguns "ooh" e "que imbecil" de vez em quando. Quando acabei, elas ofegaram, como se estivessem a história inteira sem respirar.
- Meu Deus... - murmurou. - Pior que isso é só o indo para a...
E então ela parou de falar no meio do caminho, cobrindo a boca com as duas mãos.
fez o mesmo, e ficou olhando com cara de idiota. E então eu entendi.
não sabia que estava indo para a rehab.
Malditas amigas de boca grande!
- O está indo para onde? - ela perguntou, curiosa.
- Meu Deus, quando eu precisava saber vocês ficaram quietinhas, agora quando era para calar a boca. - eu comentei, olhando feio para . Ela fez uma careta, arrependida.
- Para onde o está indo? - parecia prestes e explodir.
- Para a reabilitação. - murmurou, envergonhada.
Eu já sabia sobre pois havia me contado, mas eu não sabia que elas estavam escondendo o fato de .
Ela ficou roxa, azul, amarela e branca em questões de segundo. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas não emitiu nenhum som. Depois virou o resto da cerveja em seu copo e fechou os olhos bem apertados.
- Ele está fazendo isso por minha causa. - ela murmurou. - Se não fosse por mim ele não teria se afundado. Ao invés de ficar ao lado dele quando descobri sobre a cocaína, eu simplesmente o larguei, depois de trai-lo publicamente. Mas é que eu estava com tanta raiva... Como ele pôde... Como ele pôde se viciar quando tinha tudo? Ele tinha a vida perfeita!
Nós ficamos em silêncio, constrangidas. Afinal, o que poderíamos dizer? Não acreditávamos que a culpa havia sido dela, mas tudo aconteceu conforme ela narrou. Seria ingênuo demais dizer que nada era culpa dela, e duro demais concordar com tudo.
- , querida, não pense assim. Ele quer melhorar, quer se tratar! Você devia ficar feliz por isso. - acariciou as costas de , que soluçou.
Ah, ótimo! Agora ela estava chorando!
- É, , ele vai se livrar do vício, isso não é bom?
- NÃO! - ela berrou, e as cabeças que ainda não nos olhavam se viraram para a nossa mesa. - Porque se não fosse por mim ele não estaria desse jeito!
- , eu não acho que a culpa... - eu ia dizendo, mas ela se levantou bruscamente, e eu me calei.
- Eu vou falar com ele. - ela anunciou, virando as costas.
, que estava mais perto dela, tomou a atitude que qualquer uma de nós tomaria; a agarrou pelo braço e a puxou de volta. caiu com um baque surdo na cadeira e nos olhou assustada.
- Mas que porra foi essa? - ela quis saber, irritada.
- Isso é uma intervenção. - disse, e eu olhei para ela divertida. - Uma intervenção momentânea.
- Ah, , cala a boca. - revirou os olhos, e nós três rimos. deixou um sorrisinho escapar. - , nós não vamos deixar você ir falar com ele, nem ao menos ligar para ele! Deixe o colocar a cabeça no lugar. O que for para ser, será. Acredite em mim.
piscou para , que, emburrada, afundou na cadeira.
Nós passamos o resto da noite falando mal dos homens - eu fui bem energética quando passamos a xingar - e ponderando os prós e contras de eu dar outra chance para Christian. No final das contas, nós ficamos tão bêbadas que acabamos pegando um táxi para casa e nos decidindo em uma só coisa: nós éramos boas demais para qualquer homem.

:

Acordei na terça-feira meio de ressaca. Olhei para o despertador e xinguei mentalmente , que me acordou com o barulho do chuveiro às 6h23.
Levantei-me sonolento e fui pegar o jornal; eu não esperava que os jornalistas fossem rápidos o suficiente para dar a notícia da rehab de , mas sabia que nada era impossível.
Abri a porta e peguei o pacote no chão. Voltei para dentro, coloquei o jornal em cima da mesa de centro e fui esquentar a água para fazer café. Passado o café, despejei uma boa quantidade em uma caneca do Star Wars e fritei alguns bacons. Os coloquei em cima de torradas e ajeitei todos em um prato raso. Levei tudo para a sala e me sentei confortavelmente no sofá. Mordi uma torrada e tomei um gole de café puro. Depois de sentir o líquido quente esquentar meu corpo, abri o The Sun no colo e tomei um susto.
A capa do tabloide era uma foto dividida. Em cima, nós, o McFLY, estávamos na mesa do pub brindando juntamente com . Na foto de baixo, , , e riam juntas, também em um pub.
Apertei os olhos e comecei a ler a matéria.

Reencontro Colegial!

Aconteceu ontem em pontos distinto de Londres. No UK World Pub, McFLY e a namorada de , a atriz , se despediram de que está indo passar um tempinho na reabilitação para se livrar da cocaína. No Eagle Eye Pub, quatro amigas de longa data, três delas ex-namoradas de McGuys e uma casada com um deles, se reencontraram depois da longa temporada de uma delas pela Austrália. São elas , , e .
McFLY e as quatro amigas se conheceram no college, e lá fizeram amizade. e foram os primeiros a se envolverem romanticamente; fontes seguras revelam que desde aquela época os dois usavam cocaína juntos nos intervalos entre as aulas. O segundo casal a se formar foi e , a mundialmente conhecida atriz da trilogia Colecionador de Corações. Amigos dizem que, como os dois casaram muito cedo, vivem um relacionamento aberto, já que fica com fãs durante a turnê e se envolve com os atores com quem contracena. Em seguida, Harry Judd e se envolveram. Ainda no colegial, abortou um bebê, mas não foi espontâneo. Por isso que o aborto espontâneo que ela teve tempos depois minou a relação dos dois; ela já havia perdido dois bebês, e Harry queria muito ser pai. O último casal que se formou, e talvez o mais turbulento, foi e . Houve muita confusão envolvendo os dois durante o ensino médio, principalmente por intermédio do blog Conte Seu Babado, criado naquela época. O blog ainda está no ar, mas sem nenhuma postagem há muito tempo. O casal / é polêmico até hoje em dia, tendo saído muitas vezes em jornais e revistas. Atualmente estão separados, e parece ter envolvido com todos os seus tentáculos, obstinada a não deixá-lo cair em tentação.
Oito amigos com muitas histórias no passado, mas próximos demais para que possamos ter novidades em breve! Será que teremos?

Reportagem por Peter Lands.


Capítulo betado por Mel




Capítulo 6 - A Carta.

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Acordei meio de ressaca na terça-feira. Minha cabeça doía e meus pés se contraíam involuntariamente. Por que eu havia tomado todas aquelas bloody mary's? Aliás, como eu havia bebido todas aquelas taças que vi de relance em cima da mesa antes de ir embora? Porque, para ser sincera, eu não me lembrava de ter pedido mais nenhum drink depois do segundo.
Malditas mulheres! Sempre querendo embebedar umas as outras só pelo simples prazer de poder contar no dia seguinte que você vomitou no garçom e tirou a blusa no metrô de volta para casa.
Não que eu já tenho feito isso na vida. Claro que não.
De qualquer jeito, eu estava deitada na minha cama, refletindo sobre o quão grave era a minha ressaca, quando meu celular tocou. Era Heathcliff me pedindo para chegar mais cedo, pois ele tinha alguns assuntos a tratar comigo.
Preocupada com o tom de sua voz, eu me levantei rapidamente e me arrependi amargamente no mesmo instante: Eu não tinha mais 16 anos! Não podia mais beber nas segundas-feiras e achar que iria acordar radiante nas terças.
Eu estava um bagaço.
Tomei um banho quente e me arrumei. Cheguei na empresa em menos de quinze minutos; dessa vez passei reto pelo café charmoso perto da empresa e só tomei um café frio na recepção, enquanto esperava meu crachá.
Logo depois subi para o meu andar e encontrei Jonathan me esperando; ele explicou que a empresa estava sendo processada, dessa vez por acidente de trabalho - um funcionário havia perdido a mão na prensa -, e a mídia estava em cima. Ele pediu que eu fosse a público explicar a situação, pois estava velho demais para aquele tipo de estresse.
Eu não me importei muito; aquele era o meu trabalho na Australian Megapix, e eu não tinha dúvidas de que seria a mesma coisa na matriz.
Acho que nem preciso dizer que meu dia foi a mais total loucura. Jornalistas entrando até pelas frestas do prédio, gritaria, perguntas ofensivas e todas essas coisas que a mídia faz por um simples furo. Eu não podia julgá-los; todos nós temos nosso ganha pão, e aquele era o deles.
Só tive uma hora para ficar a par da situação antes de enfrentá-los; depois disso, passei cinco horas em pé na coletiva de imprensa, respondendo perguntas. Foi só quando comecei a cambalear no palanque que Melina Harper resolveu despachar as pessoas e me dar algum tempo de almoço.
Saí verde da sala de coletiva, ligando meu celular. Eu tinha sete ligações perdidas de , e liguei para ela enquanto saía para rua, negando com a cabeça sempre que algum jornalista tentava me fazer mais alguma pergunta.
- Finalmente! - berrou. A ligação estava barulhenta. - Meu Deus, aonde você se meteu?
- Ligue a TV na BBC e você vai saber.
- Eu não tenho tempo pra isso. - pareceu se afastar do telefone e exclamou. - Julie, coloque esse molde ali no canto e pode pedir para as modelos entrarem!
- Hã? - eu quis saber.
- Não é com você. - ela disparou. - Você leu o The Sun hoje?
- Eu não tenho tempo pra isso. - eu a imitei, parando em frente a uma banca de jornais da rua. - Mas vou ler agora. Por quê?
- Você está sentada? - ela perguntou ansiosa.
- Não. Por quê?
- Então é melhor sentar.

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Eu não aguentava mais receber ligações de jornalistas. Eram só 8 horas da manhã e eu já havia falado com 5 jornais e 3 revistas; fui curto e grosso, e recusei-me a falar com o The Sun.
Eu estava cansado e com fome, então desliguei o celular e o telefone de casa. Aproveitei o silêncio para tomar outro café. saiu do meu quarto pronta e beijou minha bochecha.
- Cansado? - ela quis saber, colocando um pouco de café para si mesma.
- Cansado e revoltado. - eu respondi, apontando com a cabeça para o jornal jogado em cima do sofá. já havia lido, e concordou com a cabeça. - Achei que essas perseguições estavam enterradas no meu passado, mas parece que não.
- Você está na mídia, meu amor. - comentou, dando de ombros. - Não achava realmente que eles nunca iriam atrás de vocês, não é? Sei que o McFLY nunca foi alvo dessas especulações, e que está sendo difícil pra você, mas dê tempo ao tempo; logo alguma outra fofoca estoura e eles vão se esquecer de vocês.
- Assim espero. - eu suspirei, beijando o topo da cabeça de . - É hoje o teste para o papel?
- Sim. - fez uma careta. - Me deseje boa sorte!
- Eu tenho certeza que você vai ser uma ótima Helena. - eu disse, sorrindo. - Só se eu tiver o meu Demétrio na plateia. - ela brincou, beijando minha boca e saindo de casa.

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Eu estava sentada em uma mesa de canto no Burguer King, esperando chegar. Fiquei tão nervosa depois de ler o jornal que entrei no primeiro lugar cheirando a comida que encontrei. Agradeci por ser o BK; um Whopper triplo com cebola e Coca-Cola me acalmaria.
Mas só um pouco.
Quem diabos era Peter Lands, o que ele queria com a gente? Já não bastasse a época horrível do Ensino Médio, agora eles queriam nos infernizar em nossas vidas adultas?
entrou fazendo barulho na lanchonete; esbarrou em uma mulher e suas duas crianças pequenas e acabou derrubando a casquinha do garoto mais novo, que caiu no choro. Ela deu uma nota de cinco libras para a mãe irritada e pediu desculpas. Todos ainda a olhavam quando ela se sentou a mesa.
- . - ela disse, tirando uma carta de dentro da bolsa gigantesca de verniz verde limão. Em mim aquela bolsa ficaria ridícula, mas em ficava fashion e elegante. - Preciso de um favor.
- Eu pensei que você estava vindo aqui me acalmar, não me pedir um favor! - eu exclamei, arrancando metade do meu lanche com uma só mordida. Continuei com a boca cheia. - Eu estou tendo um ataque de piti! Não estou em posição para atender um favor seu!
- Ah, por favor, foi só uma materiazinha em um tablóide sensacionalista! - fez sinal de quem não se importava.
- É a capa do The Sun! - eu tomei um gole da Coca para ajudar o pedaço do lanche descer pela minha garganta. - Meu Deus, !
- Para de frescura, . - colocou a carta que segurava na mão em cima da mesa. - Eu que deveria estar tendo um piti. Meu ex-namorado está indo pra rehab e tudo o que eu quero falar para ele está nessa carta, e se ele não a ler eu nunca mais vou ter coragem de entregá-la, ou até mesmo de conversar com ele.
Eu fiquei muda. É, talvez o meu motivo para o piti fosse um pouco fútil demais.
- E como eu posso te ajudar nisso? - eu perguntei, engolindo meu orgulho. precisava mais da minha ajuda do que eu precisava da dela.
- Preciso que você entregue essa carta para o .
- E como diabos eu vou fazer isso? - eu ofereci uma cebola para , que negou com a cabeça. - Eu nem sei em que clínica ele está!
- Você entrega pro , o vai visitá-lo e entrega para ele.
Eu fiquei mais uma vez muda, enquanto me olhava com carinha de cachorro pidão.
- O ? Aquele mesmo que entrou no meu apartamento e nós tivemos a maior briga do mundo? É desse que você está falando?
- Você é minha última saída, . - ela choramingou. - A não quer qualquer contato com nenhum deles e a está gravando. Eu não posso entregar pessoalmente nem para eles nem para o . Eu não tenho coragem!
- , eu...
- Por favor, . - empurrou a carta pela mesa. - Eu preciso de você.
Eu suspirei. Não acreditava que seria obrigada a recorrer a . Pior ainda, seria obrigada e conversar com ele. Só a ideia de ter de tocar sua campainha me enojava.
Eu estava prestes a negar, mas então olhei para e vi que ela estava chorando. Na verdade, ela estava fingindo que seus olhos estavam coçando, e xingava baixinho as "malditas cebolas", mas eu sabia que ela estava chorando.
E nunca chorava.
- Tudo bem, . - eu peguei a carta e a coloquei na minha pasta chata de couro, bem diferente da bolsa verde limão maravilhosa da minha amiga estilista. - Mas você me deve essa!
- Obrigada, ! - inclinou-se sobre a mesa e me abraçou. - Eu vou te recompensar. Juro que vou!

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Eu havia acabo de desligar novamente os telefones, depois de dar mais 7 entrevistas e conversar com os meninos, decidindo que nós não iríamos conversar com mais nenhum jornalista, principalmente se fosse do The Sun, quando minha campainha tocou.
Eu tinha consciência de que estava de samba canção e sem camiseta, mas fui assim mesmo atender a porta. Provavelmente era Abdullah querendo perguntar por que meu interfone estava desligado.
- Abdullah, eu... - fui dizendo após abrir a porta, mas parei ao perceber que não era Abdullah.
Era . E ela olhava de um jeito engraçado para os meus ombros.
- . - foi tudo o que e consegui dizer.
Uma salva de palmas para minha imbecilidade.
- - ela chacoalhou a cabeça, tirando os olhos do meu abdômen -, eu não estou aqui para brigar. Eu tive um dia horrível na empresa, passei a maior parte das horas despachando jornalistas idiotas e a outra parte em uma reunião muito chata com os CEO's. No meio disso, eu li a matéria de um tal de Peter Lands e quis morrer, então eu só vou te pedir um favor e espero que você me ajude. Não é para mim, é para a . - ela então estendeu um envelope e eu o peguei debilmente. - Preciso que você entregue isso para o .
Eu li o remetente e abri a boca ligeiramente. estava mandando uma carta para o ?
- Hm... - eu murmurei. - Tudo bem.
- Obrigada. - ela agradeceu, dando as costas para mim e batendo seus saltos agulha no carpete de madeira do hall. Ela entrou no próprio apartamento e fechou a porta atrás de si.
Ainda um pouco entorpecido, eu fechei minha própria porta e fui até a cozinha. Coloquei água para esquentar e esperei ela ferver. Então desliguei o fogão e coloquei o envelope em cima da panela. O vapor d'água amoleceu o lacre e eu abri o envelope.
Eu não perderia a oportunidade de chantagear quando ele saísse da rehab.
Não mesmo!
Mas aí eu comecei a ler a carta, e me arrependi de ter feito aquilo.

Querido ,

Você deve estar achando estranho receber essa carta de mim, porque da última vez que nós nos falamos eu disse que nunca mais queria ver a sua cara na minha frente. E, bom, eu não queria mesmo. Pelo menos não até descobrir que você estava indo para a rehab.
Eu sei que nós cometemos muitos erros durante nosso relacionamento, a começar por você, que se deixou levar pelas drogas. Mas eu também poderia ter te apoiado, ao invés de humilhá-lo publicamente ao ficar com um ídolo teen qualquer. Mas eu estava tão brava! Tão magoada, tão decepcionada... Você tinha tudo! Nós tínhamos tudo! Eu não conseguia entender por que você estava jogando tudo fora por um pó branco que te deixava ligado e agressivo. Pra te dizer a verdade, , eu me senti trocada. Me senti incapaz de te satisfazer. Por que você precisava das drogas quando tinha a mim? Eu não era boa o suficiente? Eu não entendia naquela época, e custei a entender, que uma vez dentro, fica difícil sair. Eu nunca contei isso para ninguém, mas depois que nós terminamos eu comecei a pesquisar mais sobre o vício, e quanto mais eu lia mais eu via o quão injusta estava sendo com você. No que eu estava pensando? Você estava doente, não entediado!
Eu me sentia tão mal - ainda me sinto -, mas era muito orgulhosa para te pedir perdão. Por que eu deveria te pedir perdão? Você escolheu essa vida, não eu! Era eu quem deveria ouvir um pedido de desculpas, não você! Além do mais, depois que nós terminamos você não largou a cocaína; ao contrário, você se afundou de vez.
Eu via as notícias nos jornais e queria te ligar, queria te dizer que tudo daria certo. Mas eu não conseguia. Então passava noite e mais noites chorando na minha cama, pedindo a Deus que me desse coragem para procurá-lo. Que me desse coragem para perdoá-lo.
Então ontem a Ashley me contou que você estava indo para a reabilitação, e meu mundo caiu. Lá estava você, sendo forte o suficiente para assumir seu vício e procurar ajuda, e eu não era capaz de conversar com você?
Eu fiquei horas e mais horas olhando pra esse pedaço de papel, pensando no que iria escrever, pensando que talvez eu não tivesse tantas coisas assim para conversar com você. Eu me enganei; essa carta não chega nem perto de tudo que eu gostaria de te falar. Mas eu vou tentar. Eu vou tentar te perdoar, me perdoar, e nós vamos sair dessa. Eu te prometo.
Sinto muito sua falta, , e espero que você possa me perdoar.
Me perdoa?
Você foi meu primeiro amor, eu desconfio que será o único. Eu não estou mais suportando viver sem você, sem a sua risada, sem as suas caretas, sem o seu abraço, sem as suas broncas... Mas eu não estava mais suportando viver sem você quando ainda estávamos juntos! A droga te mudou; você não era mais o mesmo adulto com alma de garotão que adorava pular na piscina no inverno e me fazia cócegas até eu te dar o que você queria. Você estava sério, mal humorado, agressivo... Não era mais o meu .
Eu não posso negar: Quero você de volta. Mas quero o antigo de volta, não o no qual você se transformou. E eu tenho certeza que esse tempo refletindo vai trazer o meu namorado de volta.
Eu te amo, e espero que essa carta o ajude nessa fase difícil. Eu não estou com você aí, fisicamente, mas estou em alma e coração. Por cada dificuldade que você passar, lembre-se que eu estou ao seu lado para o que der e vier.
Estarei esperando uma resposta.

Para sempre a sua .


Eu acabei de ler a carta e me senti um imbecil; no que eu estava pensando em invadir assim a privacidade dos meus amigos?
Eu coloquei o papel dobrado de volta no envelope e o lacrei. Como iria visitar na sexta-feira, guardei-o no meu armário e voltei para a cozinha.
Não sabia explicar por que, mas ler aquilo havia mexido comigo. E não podia deixar de mexer! Quero dizer, havia deixado de lado todo a mágoa para apoiar , e eu não era capaz de ter uma conversa decente com ?
Pensando nisso, eu vesti uma camiseta, calcei chinelos e fui até a porta da minha vizinha.
Era hora de ter uma conversinha.

:

A campainha tocou uns quinze minutos depois que eu deixei a carta com . Já eram 21h, e eu estava com o meu pijama quentinho de flanela. Calcei minhas pantufas e me arrastei até a porta. Ao abri-la, estava parado com uma cara esquisita, usando uma camiseta amassada e chinelos velhos.
- Ah. - foi o que eu disse. - Oi.
- Oi. - ele respondeu, um pouco encabulado. - Acho que nós precisamos conversar.
- Sobre o quê? - eu me apoiei na batente da porta, cruzando os braços na frente do corpo.
- Sobre nós. - ele respondeu com simplicidade.
- O que quer conversar sobre nós?
- Será que eu posso entrar? - eu levantei a sobrancelha, inquisitiva. - Dessa vez eu estou pedindo permissão.
Eu deixei escapar uma risadinha e dei espaço para que ele entrasse. deu alguns passos e sentou-se nos bancos da bancada americana, sem tirar os olhos de mim.
Ainda um pouco defensiva da briga do dia anterior, eu fui até ele e peguei minha garrafa térmica de cima da pia. Coloquei um pouco de café em duas canecas e entreguei uma a ele. Meu cérebro gritava para que eu o mandasse embora, mas meu coração queria ouvir o que ele tinha a dizer.
- Nunca pensei que fosse gostar mais de café do que de bebidas alcoólicas. - ele comentou, dando de ombros. - No Ensino Médio cerveja descia como água, e café descia como vodca.
- Nós crescemos e nos tornamos adultos chatos. - eu sorri amarelo. - Acontece nas melhores famílias.
- Por quê? - ele perguntou, levantando os olhos da caneca e cravando-os em mim.
- Por que café nos deixa acordado? - eu arrisquei, mas ele negou com a cabeça.
- Não isso. Por que nós nos tornamos adultos chatos? Por que todos as nossas promessas e sonhos se desmancharam do dia pra noite? - eu fiquei estática, sem saber o que dizer. - perdeu o bebê, sim, e foi muito triste, mas será que eles não podiam tentar de novo?
- Eu não sei, eu só...
- e . - ele continuou, me impedindo de falar. - Ele cometeu um erro, um erro estúpido, mas um erro. Por que não foi capaz de perdoá-lo?
Eu fiquei quieta, pois percebi que ele não pararia de falar até terminar o que queria dizer.
- Mas então temos o outro lado da moeda. e ainda estão tentando, mas estão a cada dia mais desgastados. está sempre nervosa e não consegue mais se concentrar nos ensaios. Ainda bem que demos esse tempo enquanto o está na rehab, porque acho que ele seria capaz de surtar no estúdio.
tomou um gole de café e respirou fundo.
Lá estava ele, pronto para falar de nós. Mas será que eu estava pronta para falar de nós?
- E então temos eu e você. - ele disse, mas não continuou.
Ele esperava que eu falasse algo antes de continuar. Mas o que eu poderia falar? Foram muitos erros, muitas decepções, muitas mágoas... O que eu poderia falar que consertaria as coisas?
Nada. E eu sabia disso.
Mas tentar não me mataria. Aliás, tentar era um ótimo começo.
- Será que se nós tivéssemos tentando mais um pouco estaríamos como e ? - eu perguntei, sem quebrar o contato visual. Durante muito tempo eu acordei ao lado daquele par de olhos. Por muitas vezes eles estavam sonolentos ou alegres; amorosos ou cansados. Mas, durante os últimos meses em que ficamos juntos, eles estavam sempre magoados, sempre procurando por uma resposta. Eu pensei que depois de tanto tempo aquela mágoa já teria ido embora, mas lá estava ela, assombrando meu ex-noivo.
- Não sei. - ele admitiu. - E isso está me matando aos poucos.
Eu olhei para as minhas unhas, e ele sorriu.
- Você não muda mesmo.
Ainda olhando para as minhas unhas, eu sorri tímida.
- Embora todos digam o contrário, existem coisas que nunca mudam.
- E eu agradeço por isso. - ele disse, e eu levantei o rosto.
Seus olhos estavam saudosos, nostálgicos. Assim como os meus.
- O que nós vamos fazer agora? - eu quis saber, colocando minha mão em cima da dele. a apertou com força.
- Vamos dar tempo ao tempo. - ele disse, levantando-se do banco. - Talvez ele cure as coisas.
- E se não curar? - eu perguntei, precisando de alguma resposta.
- Se o tempo não curar, nós damos um jeito de curar nós mesmos. - nós dois caminhamos juntos até a porta da minha casa e ele a abriu. Então ele olhou para mim e sorriu. - Nós sempre damos um jeito.
Eu esperei sair e fechei a porta, encostando-me nela. Fechei os olhos e respirei fundo seu perfume, que ainda estava impregnado no ar. Lembrei-me da promessa que fizemos no dia em que e ficaram pela primeira vez; se o McFLY e minha carreira de promotora não dessem certo, nós abriríamos uma agência de namoros. Nós éramos daquele jeito; sempre tentando consertar a vida dos outros.
Mas será que éramos capazes de consertar as nossas próprias vidas?


Capítulo 7 - Agindo como adultos.

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Entrei no segundo quarto, o de casal, e finalmente encontrei o que estava procurando.
estava sentada na cama com os joelhos dobrados e a cabeça apoiada nos mesmos. Estava sozinha, no escuro. Eu andei em sua direção, devagar para não fazer barulho, e a cada passo eu podia ouvir mais nitidamente seus soluços.
Aquilo estava me matando por dentro, de verdade, sem hipocrisia. Eu odiava vê-la chorando! Ainda mais por minha causa.
Ao chegar na beirada da cama, sentei-me e ela levantou a cabeça lentamente. Seus reflexos estavam lentos e ela piscava vagarosamente, mostrando que sim, ela estava muito bêbada, obrigado por perguntar.
- Oi, . - eu murmurei, sendo repentinamente invadido por uma vergonha acima do normal. O que eu havia feito? Eu havia, mais uma vez, magoado a garota que amava.
- O que você está fazendo aqui? - ela perguntou, amargurada.
- Eu vim tirar você daqui. - eu expliquei, passando os dedos por sua perna. Ela retirou minha mão com um tapa mole e voltou a apoiar a cabeça nos joelhos. - , por favor, eu sei que você está chateada, mas...
- Chateada? - ela riu de um jeito irônico, sem levantar a cabeça. - Sim, , eu estou chateada. Mas estou muito mais do que isso. Estou... - então ela levantou a cabeça e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Franzi a testa, sentindo um nó se formar em minha garganta. - Decepcionada. Eu... Eu pensei que você fosse diferente. Mas acho que me enganei.
- , por favor, me escuta! Eu não sou assim, você me conhece e sabe que eu não sou assim! Eu só não terminei com ela porque eu... - eu tentei dizer, mas ela colocou a mão gelada em meu braço e eu não consegui continuar falando. O seu toque fez meu coração parar por completo e minha respiração falhar.
- , você faz um favor pra mim? - ela pediu de um jeito doce, e eu confirmei com a cabeça. No meu estado, faria qualquer coisa que ela me pedisse. - Me esquece?
Menos aquilo.
Dito isso, ela se levantou, meio cambaleante, e foi até o banheiro, onde se agachou na frente da privada e começou a vomitar. Eu me levantei e fui atrás dela. Ajoelhei-me e segurei seu cabelo entre os dedos. Ela tentava se livrar de mim, mas eu era mais forte e não estava bêbado.
Assim que ela acabou, levantou-se e foi lavar o rosto e a boca. Pegou uma pasta de dente que estava em cima da pia e apertou na língua. Depois voltou para o quarto e para a mesma posição na cama, com a cabeça enfiada entre os joelhos.
Ela não chorava mais.
- Por favor, não faz isso comigo. - eu supliquei. Eu podia parecer patético naquela situação, mas usaria de todos os artifícios para convencê-la. Sentei-me na cama novamente. - Não agora. Não depois de tudo que nós passamos! Eu não aguento mais brigar com você! Por que tudo que acontecesse tem que virar briga? Será que nós não podemos tentar fazer isso dar certo?
- Vai embora, por favor. - ela pediu, levantando a cabeça com cuidado. - Por favor, eu só te peço essas duas coisas. Vai embora e me esquece. É pedir demais? Eu não quero mais te ouvir, eu não quero mais saber de você. Tudo o que você fez entrando na minha vida foi bagunçar minha cabeça. Estava tudo bem antes de você chegar, e eu não preciso disso!
- Para com isso! Eu sei que não é isso que você quer! - eu murmurei, respirando fundo. - Você bebeu demais e precisa ir pra casa. Amanhã nós vamos conversar e vamos arrumar tudo isso!
- Eu não quero arrumar nada! - ela exclamou, levantando a voz. Seus olhos queimavam e ela tinha uma expressão assassina. - Eu só quero que você VÁ EMBORA! Vai embora AGORA!
Senti meu sangue borbulhar.
- Então vai ser assim? - eu perguntei com raiva. Ela tinha conseguido me irritar com toda aquela cena infantil. Se ela não queria me ouvir, eu não queria mais ser ouvido.
Na verdade, naquele momento, eu só queria... Sair de perto dela.
- É, vai ser assim... - ela respondeu. - Você quis assim e vai ser assim.
- Ótimo. Simplesmente ÓTIMO! - eu gritei a última palavra, levantando-me da cama e jogando o travesseiro que estava em cima do meu colo no chão. O ódio havia tomado conta de mim, e eu só queria gritar. Não tinha mais o controle das minhas palavras. - E quer saber de uma coisa? Foda-se! Foda-se tudo! Agora quem não quer mais saber de você sou eu! Eu faço de tudo pra dar certo, mas você não liga! Você já me magoou várias vezes e eu não disse nada! Eu pisei na bola, sim! Fiz merda, sim! Só que eu acho que mereço uma segunda chance, porque EU te dei várias chances! Mas acho que pra você eu sou só um brinquedinho que você usa quando está entediada. Quer saber mesmo o que eu acho? Eu acho que eu nunca deveria ter ficado com você. Eu sabia que garotas como você não tinham sentimentos e estão acostumadas a brincar com os outros, mas eu pensei “não, vamos dar uma chance, parece que ela gosta mesmo de mim!”. Bom, vejo que me enganei. Você é exatamente igual a todas as outras. E sabe o que eu sinto por elas? Desprezo.
Eu caminhei com pressa até a porta. Abri-a e saí do quarto.
Não sem antes ouvir
- Vai pro inferno, !

Oi. Aqui quem fala é o ... Se eu não atendi, ou estou dormindo, ou estou tocando para uma legião de fãs enlouquecidas. Deixe o seu recado após o sinal, mas não espere por uma resposta...

Eu arregalei os olhos e senti como se meu peito fosse explodir. Ele subia e descia descontroladamente.
Eu já mencionei o quão sem graça é essa sua secretária eletrônica, ?
Há muito tempo eu não tinha um sonho tão nítido como aquele. Eu podia até sentir o cheiro da mistura de narguilé e cerveja da atmosfera... Podia até sentir a textura fina do cabelo de entre meus dedos...
É a , by the way. Estou ligando para te lembrar do nosso almoço no Nobu hoje. Te pego no apartamento ao meio-dia, ok? Beijos, amor.
Irritado com aquelas interrupções da secretária eletrônica, eu me virei de lado e a tirei de tomada. Então enterrei os dedos no meu cabelo, o puxando para trás.
O que estava acontecendo comigo? Eu costumava adorar aquelas mensagens irritadinhas de ! Costumava adorar saber que tínhamos algum almoço combinado!
Costumava adorar ser acordado por sua voz!
Mas, desde que havia voltado, eu estava tendo aqueles sonhos, aquelas lembranças, e perdendo todo o tesão que tinha pela minha namorada.
Seria só uma fase de nostalgia, de relembrar o quão bom foram os tempos de adolescência, ou era algo a mais?
Irritado com a minha própria indecisão, levantei-me para pegar o jornal, só para ver estampado na capa do The Sun, com um boné e óculos escuros, falando ao telefone, como se quisesse se camuflar. A manchete era: Estrela do rock na Rehab!
Dei uma folheada nas páginas, lendo mentiras e mais mentiras sobre o meu amigo. Quando cheguei ao final do artigo, amassei as folhas e joguei o tablóide no lixo. Fui tomar banho e me arrumar para encontrar , e saí do apartamento minutos depois, ligando para . O celular tocou, tocou, e caiu na caixa postal.
Olá, aqui é ! Eu não posso te atender agora, então deixe uma mensagem após o sinal!
- , aqui é o ... Recebi sua mensagem. Desculpe não ter te atendido, estava dormindo... Você sabe como eu fico depois das turnês, só quero dormir! Bom, estou confirmando o almoço, estarei pronto e perfumado te esperando ao meio-dia. Beijos, meu amor.
Guardei o celular no bolso e chamei o elevador. Ele ainda estava no segundo andar quando saiu do próprio apartamento.
Eu abaixei a cabeça e cocei a nuca, dando uma espiada nela. Ela usava um vestido preto simples e scarpins também pretos. Uma meia calça fumê cobria suas pernas e ela remexia na bolsa.
- Bom dia. - eu cumprimentei, sentindo-me subitamente muito mal vestido com minha calça jeans rasgada e minha polo surrada.
levantou o rosto e franziu um pouco o cenho, curvando os lábios num sorriso envergonhado.
- Bom dia.
Nós dois ficamos de frente para o elevador, ela pescando o celular de dentro da bolsa, eu batucando nas próprias pernas, como um adolescente ansioso. Quando o mesmo finalmente chegou no hall, eu pude sentir meus ombros relaxarem.
Entramos no cubículo e foi mais rápida ao apertar o botão do primeiro subsolo.
- Está indo trabalhar? - eu perguntei, querendo puxar assunto. Não sabia muito bem lidar com silêncios constrangedores, e queria ter uma convivência agradável com a minha ex-noiva, principalmente pela conversa que havíamos tido no dia anterior.
- Ah, não... Hoje eu entro às 10 horas, mas estou indo mais cedo para... Bom... - ela deu de ombros. - Eu estava entediada, sabe?
Eu deixei uma risada escapar e ela corou um pouco.
Então uma ótima ideia me veio à cabeça. Por que não juntar o útil ao agradável?
- Eu estou indo visitar a , se quiser ir comigo... - virou-se para mim, interrogativa. - Ela sente muito a sua falta, sabe? Da última vez que estive lá comentei de você, e ela disse que gostaria muito de te encontrar!
mordeu o lábio inferior e ficou muda por alguns instantes. Então acabou decidindo-se e sorriu para mim, aquele sorriso que me fez ficar apaixonado por ela no terceiro ano do ensino médio.
- Eu adoraria.

:

dirigia com uma mão no volante e a outra para fora do carro, o vento balançando seu cabelo e ricocheteando em seu Ray Ban aviador. Nós ouvíamos as notícias no rádio e eu pensava no quão desconfortável era aquela situação. Quero dizer, até poucos dias atrás eu queria assassiná-lo. E agora lá estava ele, dirigindo ao meu lado.
- Sabe - ele começou, sorrindo. Seu perfil era maravilhoso, e eu estava evitando olhar para ele. -, isso é um tanto quanto esquisito.
- Nem me fale! - eu concordei, como se um peso saísse do meu peito. - Achei que fosse a única nesse carro sentindo isso.
- Eu sonhei com você essa noite. - ele disse, como se não conseguisse mais segurar aquilo dentro dele.
Eu olhei para ele com o canto dos olhos, sem saber o que dizer.
- Foi mais uma lembrança... Você se lembra de quando nós voltamos da Argentina e você descobriu que eu não havia terminado com a Bella? - ele perguntou, e eu concordei com a cabeça. - Bom, então você ficou bêbada na casa do Marcus, e eu fui lá conversar com você.
- , faz um favor pra mim? Me esquece? - eu me imitei mais nova, com uma vozinha irritante.
- Foda-se! Foda-se tudo! Agora quem não quer mais saber de você sou eu! - ele foi na onda, fazendo uma voz desafinada.
Nós dois rimos, mas logo ficamos em silêncio. pegou a entrada para sair da rodovia e rodou alguns metros antes de parar no estacionamento do IRM, Instituto de Recuperação de Movimentos.
Antes de ir para a Austrália, passava a semana inteira no Instituto. Mas, por meio das minhas amigas, descobri que agora ela só ia três vezes por semana.
- Chegamos. - ele desceu do carro, dando a volta para abrir a minha porta. Eu agradeci o gesto e nós seguimos em direção ao Instituto.
Lá chegando, desapareceu por uma porta de vidro e reapareceu instantes depois, com uma fisioterapeuta de meia idade do seu lado e do outro.
- ! - ela berrou, caminhando com certa dificuldade até mim.
Nós duas nos abraçamos demoradamente, sem dizer nada. Com o canto dos olhos, vi nos observar com um sorriso nos lábios, então eu a apartei mais ainda, procurando não chorar.
- Que saudades, ... - eu murmurei, e ela somente concordou com a cabeça.
- Meninas, vou deixá-las sozinhas um pouco. - disse, e nós nos soltamos. Discretamente, eu limpei as gotículas que se formaram no canto dos meus olhos. - Preciso conversar com a dra. Cooper.
- Sem problemas, . - sorriu, e ele se afastou com a doutora. - Vamos sentar, ? Sabe como é, minhas pernas ainda não estão tão fortes...
- Como assim não estão fortes? - eu perguntei, caminhando até os bancos da sala de espera com ela. - Há dois anos atrás você mal podia andar!
sorriu e sentou-se ao meu lado, cruzando as pernas.
- Senti muito a sua falta. - ela comentou, dando de ombros. - se sentia tão culpado por minha causa, e você era a única que conseguia convencê-lo de que eu não o odiava...
- Foi bem difícil... Eu me lembro que no ensino médio ele se sentia um monstro por ter causado o acidente! - eu observei a porta pela qual ele havia sumido com a doutora. - Mas acho que ele melhorou bastante agora.
- Ele sofreu muito, . - ela murmurou, e eu me virei para ela, sem entender. - Depois que você foi embora. Ele sofreu muito.
- Eu também sofri.
- Sim, mas para nós mulheres as coisas são mais fáceis. - deu de ombros, mordendo a ponta da unha do dedo indicador, o olhar vago. - Eu realmente pensei que ele não fosse se recuperar...
- , eu não... Eu só...
- Você não precisa dizer nada, . - ela subiu os olhos para mim, sorrindo. - Ele foi um imbecil por deixar o amor da vida dele ir embora sem nem ao menos lutar!
Meus olhos se encheram de lágrimas novamente.
- Ah, ... - eu desabei, abraçando a irmãzinha do meu ex-noivo. Ela afagou minhas costas com carinho. - Você não sabe como foi difícil para mim... Eu pensava nele a todo instante! Tudo me lembrava dele... Eu não podia nem olhar para o meu dedo anelar sem querer chorar!
- , vivia com olheiras e mau humorado... Mesmo depois de começar a namorar a - eu estremeci à menção do nome da coisinha -, ele ainda ficou uns bons meses muito mal... Ele vinha me visitar todos os dias, e quase sempre chorava.
- Chorava? - eu separei o nosso abraço, surpresa. - Ele chorou?
- Como uma criancinha! - ela exclamou, me fazendo soltar um sorriso. - Meu Deus, não conte isso a ninguém, mas passou um mês inteiro chorando e resmungando o seu nome, e como você havia destruído o coração dele...
- ...obrigado, dra. Cooper. - nós ouvimos a voz de e eu me ajeitei na cadeira, limpando novamente o cantinho dos olhos. piscou cúmplice para mim e sorriu angelicalmente para . E antes que ele pudesse se aproximar o suficiente para nos ouvir, ela murmurou.
- E se quer saber a minha opinião, ele nunca gostou daquele projeto de atriz. Ela foi só um passatempo enquanto ele esperava você voltar!

:

Nós passamos um dia bem agradável com . Eu e nos tratamos como os adultos que éramos, e relembramos alguns dos nossos momentos como adolescentes... Eu mal vi o tempo passar, e quando percebi já estávamos no carro, pois precisava ir para a empresa.
Primeiro ela tentou me convencer a deixá-la no metrô, mas eu não cedi - a deixaria na porta da UK Megapix.
- Sua irmã está melhor do que nunca! - ela exclamou, colocando o cinto de segurança. - Eu fico tão feliz...
- Foi justamente isso que fui conversar com a dra. Cooper. - eu respondi, colocando a chave na ignição. - Ela me disse que daqui algumas semanas ela só vai precisar ir um dia por semana no instituto.
- Que bom! - sorriu, colocando os óculos de sol.
Eu fiz o mesmo e nós entramos na rodovia. apoiou o cotovelo na porta do carro e mordiscou a unha do dedão. O vento batia em seu cabelo, que brilhava com a luz do sol.
- Obrigado por ter vindo. - eu agradeci, e ela se virou para mim. - Fico feliz em saber que o que aconteceu entre nós não afetou sua relação com a minha irmã. Ela gosta muito de você.
- Eu também gosto muito da , .
Passamos o resto do caminho em silêncio. Um pouco constrangido, eu liguei o rádio e coloquei o primeiro CD que encontrei pela frente. Não prestei atenção na música que tocou - tudo o que eu conseguia fazer era lançar olhares nervosos na direção de enquanto tentava não bater o carro.
Chegamos a sua empresa mais rápido do que eu planejei. Ela retirou o cinto de segurança e virou-se para mim pela primeira vez. Mesmo usando os óculos de sol, eu sabia que ela olhava diretamente para mim. Eu senti meu sangue gelar.
- Muito obrigada por me levar para visitar a . - ela agradeceu, segurando minha mão na sua.
- Eu que agradeço. - eu sorri, levando as costas de sua mão até a minha boca. Beijei-a de leve e puxou o braço de volta, talvez um pouco mais rápido que o necessário.
- Bom... É... - ela mordeu o lábio inferior. - Então nós nos vemos por aí...
- Sim, nos vemos.
Silêncio constrangedor. Ela tirou os óculos de sol e saiu do carro.

:

Assim que coloquei meus saltos na calçada, dei de cara com Christian, que fumava um cigarro na porta do prédio. Ele tinha um sorriso esquisito no rosto, e acenou para mim. Olhei para trás, por cima dos ombros, e olhava para o meu ex-namorado confuso. Eu sorri amarela para ele, que deu de ombros e foi embora com o carro.
Então eu fiquei sozinha com Christian.
- Bom dia, . - ele desejou, vindo até mim depois de apagar o cigarro na sola do sapato. - Vejo que você já se reencontrou com seu ex-noivo.
- Por favor, Christian, não comece... - eu pedi, apertando as minhas têmporas.
- Ah, não! Eu não estou aqui procurando uma briga! - ele sorriu, segurando minhas mãos nas suas. O toque, diferentemente do toque de momentos atrás, era frio e até um pouco mecânico. - Fico feliz em saber que você não guarda mágoas dele!
- Hm... É, não guardo... - eu menti, soltando minhas mãos das deles.
Nós começamos a andar e entramos no prédio. Mostrei minha credencial para a secretária e Christian fez o mesmo, comentando sobre um novo restaurante que ele havia visitado na noite anterior. Por educação e consideração aos anos que passamos juntos, eu ouvia e fazia pequenos comentários.
Entramos então no elevador, e ele então segurou mais uma vez as minhas mãos, me pegando de surpresa.
- , eu quero recomeçar. Quero tentar de novo. Eu sei que não sou o amor da sua vida, mas quero te provar que posso ser! Por favor, me dê mais uma chance...
- Christian, eu não quero me envolver com ninguém por algum tempo...
- Só um jantar. É só isso que eu te peço, um jantar! - ele implorou. - O restaurante é muito bom, eu te garanto!
Seus olhos cor de mel brilhavam com a súplica, mas eu não podia fazer aquilo com ele. Não podia enganá-lo, iludi-lo... Não seria egoísta a esse ponto, só para dar uma levantada no meu ego!
- Christian, me perdoe, mas não... Não podemos fazer isso! - eu apertei suas mãos nas minhas.
- Tudo bem. - ele as soltou, decepcionado. O elevador apitou, avisando que havíamos chegado em seu andar. Ele sorriu com tristeza, saindo do elevador. Mas antes que as portas se fechassem, ele coçou a nuca e pediu. - Só pense nisso, ok? Eu e você, e Christian. Não te parece tão errado, não é?
Eu neguei e as portas do elevador se fecharam. Encostei então a cabeça no espelho e dei duas leves batidinhas com a minha testa nele.
Em pensar que eu havia esperado tanto tempo para voltar para Londres...

Capítulo 8 - Proteção à Testemunha.

:

- Vocês não acham que nós estamos bebendo um pouco demais desde que eu voltei para Londres? - eu perguntei, tomando um gole da minha terceira taça de vinho.
Eu e as meninas jantávamos em um charmoso restaurante italiano na Trafalgar Square, enquanto conversávamos sobre amenidades. Todas nós havíamos acabado de sair do trabalho, por isso tinha um capacete amarelo de proteção na bolsa, trazia consigo algumas almofadas de agulhas e amostras de tecido no bolso interior do sobretudo e conservava olheiras profundas, sinal de quem estava há 2 dias sem dormir direito, gravando direto.
Eu, por minha vez, trazia o mau humor que sempre me acompanhava todas as vezes em que eu tinha que passar o dia inteiro naquele escritório maldito, com as olhadelas de repúdio de Melina Harper, as tentativas de aproximação de Christian a as constantes ausências de Jonathan, o que deixava a empresa em minhas mãos.
- Nós estamos com quase 30 anos - ergueu sua taça no ar para que nós brindássemos -, nessa idade nada pode nos proporcionar mais prazer do que comer bem, tomar uma taça de vinho e falar mal da vida alheia!
- Nós só temos 26 anos, ! - revirou os olhos, erguendo sua taça mesmo assim. - Mas concordo com suas sábias palavras, jovem padawan.
- 26 anos com corpinho de 25. - eu brinquei, me juntando a elas para o brinde.
se limitou a sorrir resignada e encostou sua taça ao círculo. Nós nos entreolhamos e bebemos. Por transmissão de pensamento, decidimos quem seria a escolhida a perguntar a o que estava acontecendo; estava desanimada e fazendo comentários sombrios desde que chegara ao restaurante.
Eu fui a escolhida, já que e eram duas filhas da puta que sempre empurravam a pior parte do script para mim.
- , querida, você está bem? - eu perguntei, acariciando seu ombro. - Está tão caladinha desde que entrou aqui!
- , você não precisa me tratar como criança, eu estão triste, não inválida. - ela suspirou, apoiando a cabeça nas mãos.
- Então nos diga o que está acontecendo, . - insistiu, cutucando sua lasanha intacta no prato. Uma fumaça branca dançou em volta dele, e ela decidiu esperar antes de comer e queimar a língua. - Você é sempre a mais falante de nós!
- Ah, meninas... - suspirou, partindo um pãozinho ao meio. - Eu estou tão cansada... A cada filme que eu faço as coisas ficam mais difíceis...
- Mais difíceis como? - quis saber.
remexeu-se desconfortável na cadeira.
- A começar que agora, com a minha carreira em ascensão, eu sou contratada por diretores mais renomados e, consequentemente, mais egocêntricos e malucos. E a cada filme que sai nos cinemas os fãs ficam mais inconvenientes, como se me conhecessem, como se fossem os meus amigos! - ela olhou em volta, assegurando-se que ninguém estava ouvindo. - E então entram os tablóides, contando mentiras e mais mentiras sobre a minha vida.
- Mas essas são coisas das consequências da carreira que você escolheu, . - deu de ombros. - Eu também passo por problemas como esses, mas eu amo o que eu faço demais para me deixar abalar!
- Eu também amo o que eu faço! - ela protestou, colocando o pedaço de pão na boca. - Para dizer a verdade, estaria tudo bem se pelo menos eu tivesse o apoio do meu marido, mas a cada dia que se passa eu o percebo mais distante.
- Isso não é bom. - comentou, tomando um longo gole de vinho antes de continuar. - Depois que eu perdi o bebê, Harry ficou frio e distante. Mal falava comigo, como se tivesse sido minha culpa...
Era a primeira vez que falava de Harry, pelo menos desde que eu chegara a Londres. Seu rosto estava vermelho e os olhos marejados.
- Eu sei que não é bom... - mordeu o lábio inferior. - Eu estou pensando em pedir o divórcio.
Nós três paramos de respirar, observando a incrível atriz cutucar sua comida, sem vontade de comer.
Aquele era o nosso último elo. Se se separasse, perderíamos para sempre a última ponta que tínhamos com o McFLY. Ainda teríamos como estilista, mas não seria a mesma coisa.
Claro que não era isso que nos importava naquele momento. O que nos importava eram as lágrimas que começavam a cair dos olhos de timidamente.
- Falem alguma coisa. - ela pediu.
- ... Você pensou bem nisso? - eu perguntei, segurando sua mão na minha. - Tem certeza que não tem volta?
- Quem sabe uma viagem! Uma viagem pode reacender as coisas entre vocês! - sugeriu, animada.
- , nós não temos mais 16 anos... - suspirou. - Não é uma viagem para a Argentina que vai mudar as coisas.
Ela fitou seu prato. Depois levantou o rosto, curvou-se sobre a mesa e nos segredou.
- Nós... Nós não fazemos sexo há 3 meses...
- 3 MESES? - berrou, e todos em volta nos olharam. Ela então corou e abaixou o tom de voz. - Meu Deus, , nem eu que sou solteira estou sem sexo há 3 meses!
- Agora vocês me entendem? - ela perguntou, murchando na cadeira. - Eu tenho um Deus grego dentro de casa, dormindo na minha cama, e ele não me procura há 3 meses! Todas as noites eu deito com o meu melhor lingerie, esperando pacientemente, até que ele se deita, vira para o lado e dorme. Ah, meninas, eu tenho quase certeza que ele está me traindo!
- Por que acha isso? - abocanhou um bom pedaço de sua lasanha.
- Um homem normal não fica 3 meses sem sexo, quem dirá um rockstar com milhares e milhares de meninas aos seus pés! Meu Deus, eu devo ser a mulher mais corna de todas as cornas desse mundo!
Eu olhei para e depois para , engolindo a seco. tinha razão... Depois de algum tempo de vida nós mulheres descobrimos que os homens não são tão legais quanto costumavam ser no Ensino Médio. Eles só querem sexo, sexo e mais sexo. E eles enjoam do mesmo sexo após algum tempo... E então começam os problemas.
- , eu realmente não sei o que te dizer. - eu dei de ombros. - A única coisa que eu posso te falar é que separações doem, e doem muito. Talvez se eu tivesse insistido no meu relacionamento com o eu não teria passado por tudo o que eu passei, mas esse é só mais um "e se" que eu vou ter que conviver com pelo resto da minha vida. Então pense muito bem antes de tomar uma decisão. E qualquer que seja essa decisão, nós vamos estar aqui por você.
- Nós te amamos, , casada ou divorciada. - sorriu para ela.
- E eu, particularmente, tenho uma queda por você desde o Ensino Médio. - brincou.
deixou os ombros caírem e uma lágrima rolar por sua bochecha esquerda, mas pelo menos ela sorria.
- Eu não preciso de homens quando tenho a vocês, meninas. - ela olhou para cada uma de nós. - Vocês sempre serão as minhas almas gêmeas.

:

- Nós reunimos todos vocês aqui hoje para podermos dar uma explicação sobre o que está acontecendo, e para que as notícias falsas parem de se espalhar. - eu pigarreei antes de continuar, torcendo minhas mãos atrás do palanque. Nem a presença de e Harry ao meu lado me acalmava. Por que eu tinha que falar?
Ah, sim, porque eu era o mais centrado da banda. Pelo menos de acordo com e Harry, que só queriam tirar os seus da reta.
Eu olhei para o lado e vi em um canto no fundo da sala, sorrindo para mim. Ela fez sinal para que eu continuasse.
- é nosso melhor amigo e companheiro de banda. Nós só queremos o seu melhor, e se esse tempo em uma clínica de reabilitação for o que ele precisa para se sentir melhor, nós o apoiamos no que for preciso. - eu olhei para baixo, tentando acompanhar meu texto, mas já o havia lido tantas vezes que nem precisava mais. As palavras estavam na ponta da minha língua. - se envolveu com cocaína sim, mas está arrependido e quer se livrar disso. Ele não usa drogas mais pesadas e com certeza nunca usou crack, como andei lendo pelas revistas. Ele não foi para a reabilitação por ninguém, somente por ele mesmo, e ninguém tem o direito de dizer mentiras sobre sua vida pessoal.
tossiu ao meu lado, e Harry remexeu-se desconfortável. Aquela era uma maneira suave de dizer que não estava envolvida naquilo, mesmo que ela fosse um dos principais motivos.
- Nós esperamos que vocês possam compreender que ele está passando por um momento ruim de sua vida, e que precisa de todo o apoio que puderem dar. Principalmente dos nossos fãs, os quais estão nos apoiando desde o começo da carreira.
Os flashes continuavam a estourar na minha cara, mas eu nem os via mais. Estava concentrada em terminar o meu discurso, cuidadosamente preparado por mim e os meninos.
- estará de volta quando se sentir melhor, e até lá esperamos que vocês possam deixá-lo em paz. Muito obrigado.
Desci do palanque e saí pela porta dos fundos até uma sala privativa, sobre o som de perguntas e mais perguntas. "O que tem a dizer sobre o caso de com o ator Dave Ortego?" foi a última pergunta que ouvi antes de as portas se fecharam.
Apoiei-me na parede e entrou pela porta lateral.
- Você foi ótimo, amor. - ela beijou minha testa, ficando na ponta dos pés para isso. Depois afastou-se de nós e foi conversar com alguns de nossos amigos, que estavam lá para nos apoiar.
- Eu nunca vou me acostumar a isso... - eu suspirei, sentindo minhas mãos molhadas dentro do bolso da calça social.
- Você foi bem, . - Harry sorriu para mim, indo pegar uma taça de vinho.
Algumas pessoas andavam por ali, repondo coisas, evitando que jornalistas entrassem na sala, conversando com Fedelso, que estava ali para se certificar de que nós não faríamos alguma besteira. E em meio a essa sala lotada, se aproximou e soltou de uma só vez.
- Eu vou pedir o divórcio de .
Nós paramos o que estávamos fazendo e o olhamos espantados.
- Você o quê? - Harry quis saber.
- , você ficou maluco? - eu perguntei. Afinal, era e , e . O único casal restante da nossa juventude, da melhor época de nossas vidas. Eles não podiam simplesmente se separar! - Da onde tirou essa ideia? Vocês se amam!
- Acho que não mais. - ele deu de ombros. Então aproximou-se e falou mais baixo. - Nós não transamos há 3 meses.
- 3 MESES? - eu gritei, e algumas pessoas em volta nos olharam, inclusive . Eu sorri amarelo para ela, que voltou a conversar com nossos amigos. - Meu Deus, , o que você tem feito durante 3 meses para aliviar... Bem... A pressão?
- Não nos diga que você a está traindo! - Harry rosnou. - Ou eu te mato!
- Não! Não estou! - ele exclamou, olhando em volta. Então voltou-se para nós. - Mas tenho assinado mais sites pornôs do que um universitário morando sozinho...
- Ah, , pelo amor de Deus! - eu joguei as mãos para o alto. - Você não!
- Por que vocês não transam?
- Eu... Bom, isso pode ser embaraçoso... - encarou os próprios sapatos. - Ela anda tão fria, tão distante, que eu não consigo ter uma... Não consigo...
- Se animar? - Harry tentou.
- Armar a barraca? Colocar o menino pra brincar? - eu continuei, num tom sério.
- Ter uma ereção. - foi mais formal, corando.
- Caralho... A coisa está séria então! - Harry sentenciou.
- Sei que nós não podemos te dizer o que fazer com a sua vida, , mas pense muito bem antes de tomar uma decisão precipitada. - eu o aconselhei, dando tapinhas em seu ombro. Aquele era o único jeito másculo de reconfortá-lo. - Você pode vir a perder o amor da sua vida. E eu bem sei como é perdê-lo, e não o desejo para o meu pior inimigo.

:

Cheguei ao prédio um tanto quanto alta. Agradeci ao motorista do táxi, joguei algumas notas de 20 libras em seu banco - bem mais do que valia a corrida - e subi cambaleante até o hall de entrada. Abdullah estava lá, vigilante como um falcão.
- Boa noite, srta. . - ele cumprimentou com um aceno de cabeça. - Precisa de ajuda para subir até seu apartamento?
- Abdullah, se tem uma coisa que eu aprendi nesses 26 anos de vida foi a chegar em casa bêbada. - eu sorri para ele. - Mas agradeço a preocupação.
Peguei o elevador de serviços, que calhou de chegar primeiro, e subi os andares com a cabeça apoiada no metal frio. Quando o apito de que havia chegado soou eu tomei um susto, ajeitando-me. Saí do elevador com pressa, trombando em algo escuro e quente.
- . - ouvi aquela voz acolhedora chamar, e por pouco não revirei os olhos. Por que Deus gostava de brincar comigo daquele jeito?
- ! - eu exclamei, animada demais para a ocasião. - Que noite agradável, não?
- , você está bêbada. - ele relatou o óbvio.
- Está imaginando coisas, . - eu pigarreei, coçando a garganta. E senti uma súbita vontade de repetir seu nome, e foi o que eu fiz. Alongando as sílabas. - .
me olhou com curiosidade, para depois soltar uma longa gargalhada. Como eu estava bêbada, e bêbados riem por qualquer coisa, eu o acompanhei na risada.
- Ah, ... Você não mudou nada. - ele sorriu, depois que conseguiu parar de rir. Eu reparei que ele usava um terno que tinha aspecto de ser caro, e sua cara não era a das melhores. Ele parecia cansado.
Enquanto analisava o seu aspecto, ele se aproximou e deu um peteleco de leve no meu nariz.
- Continua adorável quando bêbada.
Eu fiquei paralisada, olhando para aquele homem lindo na minha frente, sentindo o meu corpo inteiro esquentar. Reação ao elogio e as coisas que eu gostaria de fazer com ele naquele exato momento.
- Tão adorável quanto um panda. - foi o que eu respondi, me sentindo imensamente estúpida após dizê-lo, principalmente porque caiu na risada mais uma vez. - Bom, foi muito bom conversar com você, , mas eu tenho alguns processos para analisar - eu menti, acenando para ele como um viking bêbado.
Corri até a minha porta e ainda passei 10 vergonhosos segundos tentando encaixar a chave na fechadura, sentindo seus olhos queimarem minha nunca. Quando finalmente entrei no meu apartamento, bati a porta com um pouco mais de força a qual havia planejado. Por pouco não escorreguei no jornal do dia, que eu havia deixado de lado pela manhã; peguei-o com pressa e me joguei no sofá.
- Idiota, idiota, idiota. - sussurrei comigo mesma, batendo na minha testa.
Abri o jornal para me distrair e fui até a sessão de fofocas, só para me irritar mais ainda. Lá estávamos nós dois, eu e , entrando juntos na instituição em que fazia a reabilitação. Ele abria a porta para mim, enquanto eu retirava meus óculos de sol.
Nem cheguei a ler o texto para não passar mais raiva. Bêbada e irada, peguei o telefone da base e disquei o número da redação. Sabia que era tarde, mas ligaria até que alguém me atendesse.
Não precisou muito. Alguns toques mais tarde e uma voz irritante de mulher dizia.
- The Sun, boa noite.
- Boa noite é o caralho! - eu exclamei. - Eu gostaria de saber quem foi que tirou uma foto minha com e a publicou! Acho que eu tenho esse direito, não tenho?
- Srta., por favor, se acalme. - a secretária parecia amedrontada. - Quem está falando?
- , quem mais seria? Acho que você lê a porra do jornal para o qual trabalha, não lê?
- Por favor, acalme-se, srta. .
- Pare de me pedir isso e chame a porra do seu editor. - eu ouvi o silêncio do outro lado da linha. - AGORA!
A musiquinha de que a ligação havia sido transferida começou, e eu esperei por longo cinco minutos até que alguém me atendesse.
- Srta. , Matt Pilgrim falando. - uma voz masculina e tranquilizadora me atendeu. - Me desculpe pelo inconveniente. A secretária deveria ter transferido a ligação imediatamente.
- Me poupe de sua polidez, Matt Pilgrim. - eu cuspi as palavras, irritada até os ossos. - Eu quero saber quem diabos é Peter Lands e o que ele quer comigo? Porque eu sinceramente não voltei para Londres para aparecer nos tablóides todos os malditos dias!
- Srta. , nós não podemos expor nossos jornalistas desse jeito. - o homem disse com calma. - Seria antiético.
- Antiético são vocês publicando essas merdas sobre pessoas que só querem viver a vida normalmente, destruindo relacionamentos e constrangendo as pessoas desse jeito! - eu berrei. - Eu sou uma advogada formada, estou a par dos meus direitos e exijo que você me diga quem é Peter Lands!
- Eu não posso te dar essa informação, srta. , porque Peter Lands é uma fonte anônima que trabalha como freelancer para o nosso jornal. - Matt parecia bem seguro de sua posição.
- Você não vai me contar, tudo bem, mas não se espante quando tiver que explicar aos seus acionistas o porquê de vocês estarem tendo de pagar uma quantia milionária para , seu filho da puta de merda! - eu exclamei, batendo o telefone em sua cara.
Joguei o jornal longe e fui em busca de água. Eu descobriria quem era Peter Lands, mesmo que tivesse que ir até o inferno para encontrá-lo!

:

- Nós não podemos te dar essa informação, sr. . - um tal de Matt Pilgrim atestou do outro lado da linha. - Me desculpe, mas não será possível.
- Mas isso não é jornalismo! Não é nem mesmo uma reportagem legítima! Que tipo de jornalista se esconde atrás do anonimato e não procura entrevistar os dois lados antes de sair por aí publicando as coisas? - eu andava de um lado para o outro, com a gravata frouxa no pescoço e uma caneca de café já gelado nas mãos. - Não chegou nada a minha assessoria de imprensa. Eu posso muito bem processá-los por isso.
- Você terá de processar o autor das reportagens. - Matt replicou.
- Vou processá-lo, mas vou processar também quem deixou que essa matéria fosse publicada. Você vai ouvir dos meus advogados ainda essa semana, sr. Pilgrim. Passar bem.
Eu desliguei o celular e o joguei em cima do sofá. Quem quer que fosse o autor daquelas matérias, estava querendo infernizar minha vida e das pessoas mais próximas a mim. Agora eu teria que explicar a porque diabos estava em uma foto com na primeira página dos tablóides e não seria nada fácil convencê-la de que nós éramos somente adultos querendo agir como tal.
Quase como se ela pudesse ouvir minha mente, o nome piscou na tela do celular, e eu o peguei sem cerimônias. Tinha de enfrentá-la a qualquer momento; melhor que fosse de uma vez só.
- Amor. - eu coloquei o celular na orelha.
- , você pode me explicar que merda é essa no The Sun? - berrou do outro lado. - As minhas amigas não param de me ligar me chamando para ir para a balada, dizendo que eu vou superar a separação! Eu fui humilhada, , e espero uma explicação plausível para essa putaria!
Eu respirei fundo.
- , eu estava indo visitar a minha irmã e esbarrei em , que, você sabe, é a minha nova vizinha. Eu comentei que estava indo visitar e como as duas costumavam ser muito amigas, achei que seria bom para reencontrar a antiga amiga, então a convidei. Ela aceitou, nós passamos algum tempo com a minha irmã e depois nós fomos embora. Nada aconteceu e nem vai acontecer.
continuou calada do outro lado.
- , eu amo você, eu estou com você e quero ficar com você. Por favor, não precisa ficar enciumada. Eu amei sim, mas no passado, e o passado é para ficar na nossa memória. Mas nós somos adultos e temos que nos respeitar acima de tudo, principalmente depois de tudo que vivemos juntos. Eu não quero que perca uma de suas melhores amigas, principalmente depois de tudo que eu causei a ela, e nós temos uma relação amigável, mas é só.
continuou calada.
- , eu te amo, não faça isso comigo. - eu apertei minhas têmporas, cansado do dia que estava tendo. - Por favor, eu estou cansado, só quero tomar um banho e dormir sabendo que nós dois estamos bem; não vamos desperdiçar o pouco tempo que temos antes que o McFLY entre em turnê novamente com briguinhas sem motivos.
Enfim ela cedeu, suspirando do outro lado.
- Tudo bem, eu acredito em você.
- Obrigada, meu amor. Eu sempre soube que você era a mais inteligente de nós dois.
riu e se despediu sem rancores. Eu guardei o celular no bolso feliz pela minha vitória e fui tomar banho. Saindo do meu tão merecido banho, coloquei uma cueca qualquer e fui me deitar, esperando que o sono chegasse rápido, mas ele não chegou... Então minha mente vagou sem rumo, até chegar aos meus 17 anos de novo...

- Bom dia, gata! - eu sussurrei em seu ouvido e ela abriu os olhos lentamente. Os piscou algumas vezes e sorriu ao ver a bandeja de café da manhã ao meu lado.
- Bom dia, ! Tudo isso é para mim?
- Tudo, mas se você não quiser eu posso comer. - eu brinquei, e ela levantou levemente a sobrancelha.
- Claro que eu quero! Mas se eu morrer envenenada volto para puxar o seu pé!
- Há há, hilária!
Ela deu um longo gole no milkshake e sorriu.
- Muito bom!
- E aí, dormiu bem? - eu perguntei, enquanto ela cortava as panquecas com delicadeza.
- Sim, sim. A cama não era muito boa, mas... - ela brincou, enfiando um pedaço de panqueca na boca. Eu dei um peteleco em seu nariz e respondi.
- Para a sua informação, muitas matariam por essa cama.
- Que mal gosto... - ela comentou, me fazendo rir.
Entre uma risada e outra acabou de comer e eu coloquei a bandeja em cima da mesa de centro, segurando um bombom que havia deixado por último em minhas mãos. Ela tentou pegá-lo distraída e eu levantei o braço. Percebendo minhas intenções, ela tentou de todos os jeitos pegar o bombom e não conseguiu, até que subiu em cima de mim e o conseguiu pegar. Quando abriu a embalagem, eu o roubei de sua mão e coloquei na boca.
- Ah, seu safado! - ela exclamou, beijando-me para tentar tirar o bombom de mim.
entrelaçou suas pernas em minha cintura e segurou meus braços atrás da minha cabeça. Finalmente pegou o bombom de volta e o mastigou feliz.
- Não me provoca assim não! - eu pedi, apontando com a cabeça para a nossa posição. Ela olhou junto e gargalhou, passando a mãos pelo meu cabelo e o jogando para trás. De repente, ficou séria, me analisando. Resolvi fazer o mesmo e analisei aqueles olhos expressivos, boca provocativa e nariz perfeito. Nós dois ficamos sérios e parecia que podíamos ler o pensamento um do outro.
- O que vai acontecer com a gente quando descobrirem? - ela cortou o silêncio, afastando um pouco o rosto do meu. Respirei fundo para não me esquecer daquele momento, e respondi, fechando os olhos.
- Estou tão perdido quanto você.


Continua...

N/a (07/02/2012): Olá leitoras bonitas, como vão vocês?
Eu vou bem, mas em uma sinuca horrível. Acho que como vocês sabem, eu passei o ano passado inteiro cursando a Federal de São Paulo. Então esse ano eu prestei USP e UNICAMP de novo, e, para a minha surpresa, eu passei! Mas agora não sei o que eu faço, se fico na Unifesp, se vou pra Usp, se vou pra Unicamp... Então estou ficando MALUCA! HAHAHAHA.
Bom, mas acho que não tenho porque ficar de mimimi aqui... Espero que tenham gostado da atualização. Eu, particularmente, adoro a cena dela bêbada falando merda pro principal! xD E, bem, agora os Gossip começou a colocar as asinhas pra fora... Vocês já tem as suas dúvidas de quem está escrevendo essas notícias? ;)
Acho que é isso aí... Qualquer dúvida me sigam no twitter, @Raycjay, ou podem me adicionar no face, que vai estar aí embaixo.
Espero que tenham gostado. Se gostaram, comentem! ^^
Beijos beijos,
Ray.

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N/B: Eu já dei parabéns pelos vestibulares e eu ia achar muito legal se você fosse pra Unicamp e ficasse pertinho de mim! Haha Mas a decisão é sua e só sua! Haha
Também adorei a cena dela bêbada! xD E também adoro os flashbacks! Quero mais! xx Lilá.


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