
História por That | Revisão por Carol Mello
"Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria."
(Legião Urbana - Monte Castelo)
O momento era decisivo, pela primeira vez, a vida dela dependia de mim, apenas de mim. E qualquer uma das duas escolhas que eu tinha, mudaria nossas vidas para sempre. Sim, nossas vidas. A minha vida, está entrelaçada a dela, de tal forma que se tornou impossível separar, assim como esse sentimento que eu carrego em meu peito. Não é permitido, não é correto, não é aceitável... Mas se tornou inevitável. Agora eu entendo porque os humanos fazem tantas loucuras por amor, agora eu entendo o que é amar alguém. Depois de muito tempo entendendo os sentimentos através de outras pessoas, sentir por mim mesmo é indescritível, é uma sensação que me faz sentir como se eu estivesse vivo... É exatamente assim que ela faz eu me sentir... Vivo! Ela é a minha vida. Os papéis foram invertidos, ela sempre precisou de mim, mas agora, eu preciso dela mais do que qualquer outra coisa. Eu abriria mão de tudo o que tenho, de tudo o que sou... Eu pertenço a ela. Eu pertenço a ela antes mesmo dela existir.
Primeiro
Like it was written in the stars
Paredes brancas, corredores bem iluminados, feições tristes, barulhos de aparelhos, médicos correndo de um lado para o outro. Choro, gritos... Era com isso que eu estava convivendo nesses últimos meses. Josh, meu protegido, estava doente e nesse tempo, a doença se agravou. O câncer, que ocupava seu estômago, se alastrou e tomou outros órgãos. Sua situação era muito delicada e sua família sabia que a qualquer momento poderia ser a sua hora. Sua esposa e sua filha não saiam do seu lado por mais de cinco minutos, elas queriam passar o maior tempo possível com ele. Elas não choravam mais, não queriam que ele partisse num ambiente triste, a doença em si já era ruim o suficiente. Elas apenas aceitaram o fato de que se partisse, seu sofrimento diminuiria. Senti alguém ao meu lado, olhando a mesma cena que eu, nem precisava olhar, apenas sua presença era o bastante para mim.
- .
- .
- Por favor, poupe o de mais sofrimento.
- Eu só estou aqui para que o sofrimento acabe, eu posso parecer, mas não sou um vilão, não sou eu quem decide quem sofre ou não.
- Eu sei, , mas eu peço que você faça o que puder.
- Meu trabalho, assim como o seu, já é escrito. Eu só os levo, , assim como você só os protege. Quem decide é Aquele que você chama de Pai, ou Deus, como achar melhor.
- Não estamos aqui para discutir isso, estamos? – eu o encarei e ele negou com a cabeça. – Vou prepará-lo.
- Vá em frente. – Essa era a pior parte da minha jornada com o meu protegido, a hora de partir. Mas de certa forma, eu sentia que ele estaria bem melhor no outro plano, onde ele estaria longe da dor, da tristeza e qualquer tipo de sofrimento.
- Josh, está na hora. – eu disse perto de seu ouvido. Eu pude vê-lo sorrir fracamente, de alguma forma ele sabia quem eu era, mesmo que eu nunca tenha aparecido para ele, não em forma humana, por assim dizer. Josh respirou fundo, acariciou o rosto da filha e beijou a mão da esposa, depois olhou diretamente para mim. Quando nossos protegidos conseguem nos ver, significa que a hora deles chegou, junto com o fim de mais uma jornada para mim. Uma forte luz invadiu o quarto, e seu espírito saiu de seu corpo, passando a andar ao meu lado, em direção a mesma.
- Agora ele te acompanhará, Josh.
- Não tenha medo, seu destino foi cumprido. Aproveite o paraíso. – disse, incentivando-o a seguir em frente, através da luz. – E você cumpriu sua missão. – ele disse para mim. Fechei os olhos, voltando para o meu lar, temporariamente, é claro.
Algumas pessoas podem ter descoberto quem eu sou, mas se você ainda não percebeu, eu sou um Anjo... Um anjo da guarda, para ser mais exato. Eu acompanho meu protegido em todos os momentos de sua vida, desde o nascimento, até a morte, como foi o caso do Josh. Então a vida do meu protegido, passa a ser a minha, mas eu sempre tive a certeza de que eu não tenho uma, aparece que eu não estou verdadeiramente vivo. Mas isso não afeta a minha missão, eu sempre procuro cumpri-la com perfeição, afinal, é a única coisa que posso fazer, por mim, por ele, por todos. Minha missão é fazer com que eles tenham uma vida longa e boa, cumprindo todo o destino, sem nenhum desvio. Quem conseguir seguir todo o caminho traçado é recebido com prazer no paraíso. As pessoas devem se perguntar como é o paraíso, na verdade, elas o imaginam de diferentes formas, com anjos voando entre as nuvens, outros tocando harpas e essas coisas. Elas ficariam decepcionadas se soubessem que não é nada do pensam. Nada de anjos voando ou tocando qualquer instrumento. Cada um tem sua função e a executa ininterruptamente, como eu, por exemplo, que estou a caminho de saber quem será meu novo protegido. Miguel, meu superior, já estava a minha espera.
- , sua nova protegida já foi selecionada.
- Para onde eu vou agora?
- Londres.
- Ela já possui nome?
- Sim, . E aparentemente, ela possui um destino estranhamente traçado.
- Mas todos têm, Miguel.
- Mas o dela é, digamos, diferente. Tem algo não decidido, não confirmado. Como se dependesse da vontade de outra pessoa.
- Mas se depende da vontade de outra pessoa, isso estaria no destino dessa outra pessoa e, conseqüentemente, no dela, certo?
- Tecnicamente sim, mas têm pessoas que possuem o poder de ter o destino modificado de outras formas, formas que nem nós entendemos. Mas você não precisa se preocupar agora, no momento você entenderá.
- Tudo bem. Quando eu começo?
- Agora. – assim que ele disse, fechei os olhos, sentindo uma força me puxando de volta à Terra.
Quando abri os olhos, me vi na sala de parto, onde a mãe de estava dando a luz. A linda menina olhou diretamente para mim – as crianças podem nos ver, por serem puros e ingênuos. Ela não emitiu nenhum som, nenhum choro, nenhuma reação, mesmo depois da intervenção dos médicos. O pediatra que estava na sala, saiu apressado com a menina em seus braços, tentando de várias formas, que ela reagisse. Depois de várias tentativas, ela finalmente chorou, fazendo todos ficarem aliviados, porém, a expressão no rosto do pediatra, não mostrava tanto alívio. Quando ele entrou no quarto que Sophia – mãe de – estava, ele parecia bem nervoso.
- Dr. Green, está tudo bem com a minha filha? – Sophia perguntou, claramente nervosa.
- Senhora , ela nasceu prematura e sempre há riscos nesses casos. Aparentemente o sistema respiratório dela não está completamente formado e ela precisará ficar na incubadora por alguns dias. Não é nada que a senhora precise se preocupar agora, nós faremos uma bateria de exames para descobrir o que há de errado, isso se houver mesmo alguma coisa.
- Eu posso vê-la?
- A senhora não deveria se levantar agora, tem que ficar um pouco de repouso.
- Por favor.
- Que seja rápido então.
Sophia caminhou lentamente até a unidade de tratamento intensivo do hospital, onde sua filha estava no momento e pela primeira pude olhar bem para a minha protegida. Ela era muita pequenina e magra, até mesmo para uma recém nascida; seus olhos, levemente amendoados, estavam fechados; seu tronco subia e descia rapidamente, como se estivesse com dificuldade de respirar, mesmo com a sonda presa ao seu nariz. Sua mãe de aproximou do vidro, colocando sua mão na parte interna, pela passagem existente e segurando, com extremo cuidado, a mãozinha da filha.
- , meu bem, não se preocupe, mamãe está aqui e sempre estará. Você vai bem – ela tentava conter as lágrimas – Vai sair daqui logo, logo. Vai pra casa, conhecer o lindo quartinho que nós arrumamos pra você.
- Senhora , a senhora precisa descansar. Daqui a algumas horas a senhora pode voltar.
- Tudo bem.
Sophia se retirou do aposento e fiquei, observando o pequeno bebê que já lutava pela sua vida. Coloquei minha mão no lugar que há poucos segundos, a mão de sua mãe ocupava e repeti suas palavras: Você vai ficar bem, não se preocupe, eu estarei sempre aqui. Sempre.
Horas depois...
Sophia tinha acabado de acordar, quando e seu marido, Adam, entraram no quarto. tinha cinco anos, e estava louco para conhecer a irmã. Sophia teve uma gravidez complicada e sempre teve o filho lhe apoiando, dizendo que seria o melhor irmão mais velho que poderia ter e lá estava agora, cumprindo seu papel. Enquanto seu pai e sua mãe conversavam no quarto, seguiu escondido, para a ala restrita do hospital, para ficar perto de sua irmãzinha. Porém, as enfermeiras o encontraram e tiveram que levá-lo de volta para o quarto, mas não antes dele constatar que sua irmã era tão linda e pequena, como ele imaginava.
- Senhor e Senhora ? – o Doutor Green disse, entrando no quarto.
- Sim. – Sophia disse, ajeitando-se na cama.
- Nós realizamos alguns exames no bebê e diagnosticamos uma doença.
- Que doença? – Adam perguntou, nervoso.
- Aparentemente, ela nasceu com uma doença degenerativa no coração. Ele não funciona da forma que deveria, o transporte do sangue oxigenado é deficiente, dificultando assim a chegada de oxigênio aos pulmões. Ela terá que ter um acompanhamento de um médico especializado sempre. Às vezes ela poderá ter algumas crises, falta de ar, ou desmaios, então é de extrema importância que vocês fiquem de olho, principalmente enquanto ela dorme.
Os pais de não esboçaram nenhuma reação enquanto o médico falava, como se estivem absorvendo as informações.
- Ela pode morrer? – Sophie perguntou, com lágrimas nos olhos.
- Se ela sempre tiver o acompanhamento correto, as chances são pequenas, mas sempre há chances.
- Sempre há chances. – Adam repetiu, sussurrando.
- Vou encaminhá-los para o Doutor , ele é um especialista, saberá como proceder, ok?
- Tudo bem. – Sophia disse, segurando a mão do marido.
Um mês depois...
Finalmente receberia alta. Ela conseguiu alcançar o peso mínimo para a liberação e toda a sua família estava presente. estava nervoso, seria praticamente a primeira vez que ele veria sua irmãzinha de perto. Durante todo esse período, ele não pode entrar na UTI, devido a sua idade.
- Mamãe, você deixa eu segurar a ? – ele perguntou, assim que a mãe saiu do hospital, com a filha nos braços.
- Assim que chegarmos em casa, tudo bem? – ele assentiu com a cabeça, correndo em direção ao carro. Quando o pai abriu a porta traseira, ele sentou em seu assento infantil, arrumando a cadeirinha do bebê, que foi colocado na mesma em seguida. Ele não conseguia tirar os olhos da irmã, como se ela fosse a coisa mais importante no mundo. Seus pais tinham explicado que era um bebê especial e que precisaria de cuidados especiais, isso serviu só para aumentar o amor e a preocupação que ele já sentia. Algo extremamente inesperado para uma criança de sua idade.
Ele seguia de perto seus pais, até o quarto que ele visitava todo o dia, aquele que ficava ao lado do seu, o rosa, cheio de bichinhos de pelúcia e bonecas. foi colocada gentilmente no berço e eu me sentei na poltrona que ficava logo ao lado. Seu pai saiu do quarto, indo até a garagem pegar o restante das coisas, sua mãe foi colocar a bolsa no quarto, restando apenas nós dois e . Ele se aproximou do berço, ficando na ponta dos pés para enxergar. Um singelo sorriso brotou em seus lábios ao ver a irmã finalmente em casa, sentindo a família completa.
- Quem tá falando é o seu irmão, . Você pode contar comigo pra qualquer coisa, tá? Eu não vou contar pra mamãe se você fizer bagunça, vou te proteger na escola, brincar com você... Ah! Todas essas coisas, mas pra isso você tem que crescer logo. – ele fez um bico. – Você tem que aprender a falar, não gosto de falar sozinho, fico parecendo um bobão. – ele se esticou para tocar em seu braço. – Você é tão pequenininha, parece que vai quebrar. – ele deu uma risadinha. – Olha você não pode fazer muita bagunça pela casa, só aqui no seu quarto, senão o papai briga. Na escola então, nem pensar, senão mamãe te deixa de castigo, sem ver desenho durante uma semana. Olha, a mamãe tá vindo, então depois eu conto mais coisas que você não pode fazer, tá. – ele se esforçou mais uma vez, colocando o dedo na mão da , que apertou muito levemente o mesmo, fazendo o irmão sorrir de orelha a orelha. - Bem vinda à família, .
Segundo
The day that you fall, I'll be right behind you
Os primeiros meses foram extremamente complicados. Os cuidados que eles deveriam ter com a , não eram os mesmos que se deve ter com uma criança normal. Sua mãe praticamente não dormia, ela só conseguia descansar quando Adam ou quando a babá que contrataram estava em casa. Sendo que após a primeira crise que ela presenciou, a babá pediu demissão, ela viu o tamanho da responsabilidade que estava em suas mãos. Então todo o peso era jogado em cima da cabeça de seus pais. Perdi as contas de quantas vezes vi Sophia chorando ao lado do berço, pedindo a Deus que as coisas melhorassem, que Ele tornasse a vida de todos um pouco mais fácil, tranqüila.
As coisas começaram a complicar quando fez seis meses. Adam começou a chegar tarde do trabalho e geralmente alcoolizado. Ele não se importava tanto com os filhos e muito menos ajudava a esposa a cuidar da caçula. Além de não ajudar, ele passou a atrapalhar, dizendo que sentia falta da esposa, que ela não cumpria com seus ‘deveres matrimoniais’, que era tudo sempre relacionado à . O pequeno ouvia as, agora constantes, brigas dos pais escondido no quarto da irmã, que ficava quieta em seu berço, brincando com seu coelho de pelúcia. A pior noite foi a que Adam chegou disposto a fazer com que a mulher fizesse o que ele queria. Os gritos eram ouvidos do lado de fora. Sophia pedia para o marido parar, pois ele estava assustando as crianças. Adam chegou a erguer uma das mãos, como que para bater na esposa, mas correu para perto da mãe, ficando abraçado a ela. , alheia a tudo, estava deitada em seu berço, eu me aproximei dela, passando a mão levemente em seu rosto. Ela precisava de um ambiente calmo para crescer bem. As brigas, os gritos, a deixavam nervosa e de alguma forma, a minha presença parecia acalmá-la. Quando eu percebi que isso funcionava, tornei isso uma rotina. Faria qualquer coisa que estivesse ao meu alcance para fazer da vida dela a melhor possível.
Seu primeiro aniversário foi marcado por uma festa de aparências. Com o passar do tempo, sua mãe aprendeu a esconder tudo o que ela passava em casa. As brigas, agressões verbais, quase físicas, e agora as traições. Ela suportava tudo calada, para o bem dos filhos, pois se não fosse o salário do marido, ela não saberia o que fazer. Eles eram como completos estranhos. Estranhos que dividiam uma cama, uma casa, uma família, uma vida. Independente disso tudo, crescia bem, graças ao zelo de sua mãe. Suas crises eram raras, ela estava grande e feliz. Como toda criança de sua idade deve ser. Já seu irmão, que consegue entender o que se passa ao seu redor, absorvia toda a aura pesada que pairava pela casa. Ele passou a criar um sentimento diferente pelo pai, uma espécie de rancor. Ele sabia o que o pai fazia a mãe dele, sabia que era errado e que ela aceitava isso por ele e pela irmã. Era no mínimo triste que uma criança da idade dele já alimentasse esse tipo de sentimento, ainda mais pelo pai, mas era uma espécie de bloqueio, de proteção. Assim ele não se magoaria, como sempre acontecia.
O acompanhamento do Doutor estava rendo bons frutos, aos cinco anos, estava pronta para o seu primeiro dia na escola. Escola essa recomendada pelo próprio Doutor , era a escola onde sua filha mais nova estudava e onde o mais velho também estudou. Claro que a sua mãe não estava contente com essa novidade, ela tinha medo do que podia acontecer com sua filha. Elas nunca tinham passado muito tempo separadas e a escola seria um ótimo teste para ambas. Porém tinha várias recomendações médicas que são difíceis de uma criança cumprir, ainda mais na companhia de outras. Não correr, não pular, não se cansar... Isso é quase um ‘não viver’ para crianças. Mas ela sabia que todas essas regras eram para o seu bem, para que ela ficasse bem. Diferentemente do irmão, não guardava rancor do pai, ele a tratava bem, não maravilhosamente bem, mas de uma forma que ela achava que era o bastante. A idéia de mandá-la para a escola foi dele, ele queria que ela se tornasse normal, coisa que não aconteceria se ela continuasse ‘debaixo da asa da mãe’, termo usado pelo próprio. Ele estava certo, pelo menos em alguns aspectos. Não deixar viver ou retirá-la do convívio de outras crianças seria prejudicial a ela e a mãe sabia disso, tanto que aceitou a idéia da escola. O primeiro dia de aula rendeu mais recomendações que o natural. Estavam as duas na porta da escola, trazia um enorme sorriso no rosto. Ela nunca havia estado no meio de tantas crianças de sua idade. Todas correndo e brincando, livre de qualquer impedimento. Mas isso não a desanimava, ela se sentia livre, a sua própria maneira.
- Filha, você sabe o que não deve fazer, certo?
- Sei, mãe. – respondeu, impaciente – Não posso correr, não posso pular, se não eu fico doente.
- A mamãe só está preocupada, meu anjo. Eu nunca passei tanto tempo longe de você. – Sophia disse, segurando o choro. olhou para a mãe, em seguida para o lado, onde a cena era o inverso, uma menininha chorava, não querendo se separar da mãe.
- Mãe... – ela disse, fazendo a mãe abaixar e ficar na sua altura – Não é porque eu não estou chorando que eu não gosto de você, tá. – ela deu um sorriso.
- Eu te amo, minha filha.
- Também te amo, mamãe.
Ela deu um último beijo em sua mãe e seguiu para sala de aula, o olhar de sua mãe era carregado de preocupação, mas não se importava com isso. Eu queria poder dizer para sua mãe que estava ali, que ela não precisava se preocupar, que estava em boas mãos. Mas eu não podia interferir tão ativamente, então lancei uma onda de tranqüilidade por ela, para que ela conseguisse ao menos ir para casa.
olhou mais uma vez para mãe antes de entrar sala e viu de relance o sorriso encorajador da mãe. Ela estava com uma pequena mochila rosa nas costas e um coelho de pelúcia, o mesmo que a acompanhava desde quando era bebê. Ela sentou-se numa pequena cadeira de plástico, em frente a uma das seis mesas que havia na sala. Ao seu lado tinha outra menininha, loira e com os olhos claros; a sua frente estava um menino, moreno com os olhos e cabelos escuros. Pouco tempo depois, aquela mesma menina que estava chorando na porta da escola, entrou na sala, sentando-se ao lado de . Seus olhos ainda estavam molhados e vermelhos, seu rosto retorcido numa careta e os braços cruzados na altura do peito. Ela realmente não queria estar ali. achava complemente estranha a reação daquela menina, afinal, ir para a escola era o seu maior desejo e alguém não querer estar ali era completamente incompreensível. Ela estudou atentamente o rosto da menina, até que num impulso resolveu falar com ela.
- Não precisa chorar, sua mamãe vai voltar pra te buscar. – disse, dando um sorriso em seguida.
- Eu quero minha mãe agora. – a menina disse, fazendo bico. olhou para o coelho e depois para a menina, repetido depois.
- Eu te empresto o Zac. – ela disse, estendendo a mão com o coelho – Mas toma cuidado, tá. – a menina a encarou por um tempo e olhou para o coelho, pegando-o. Ela o abraçou e sorriu um pouco.
- Qual é o seu nome? – a menina disse, mais animada.
- e o seu.
- .
E assim começaram a conversar. A conversa não foi das mais interessantes, afinal, sobre que assunto duas crianças de cinco anos de idade podem falar, a não ser brinquedos, desenhos e outras brincadeiras? Elas passaram o dia todo juntas, lancharam, pintaram, desenharam juntas. Mas na hora da brincadeira que o dilema apareceu. Quando chegaram no pátio, todas as crianças corriam, pulavam, enfim, faziam o que a mãe de pediu que ela não fizesse e ela não faria. saiu correndo junto com as outras crianças, deixando para trás. Ela pegou seu coelho e sentou-se num dos bancos do local, brincando sozinha. Após alguns minutos, se aproximou.
- Por que você tá aqui sozinha? – ela sentou-se ao lado de .
- Minha mãe pediu pra eu não correr e nem pular, eu fico doente se fizer isso.
- Por quê?
- Não sei... – deu de ombros, voltando para o seu brinquedo.
- Eu posso brincar com você? – perguntou, com um sorriso no rosto.
- Claro! – responde animada, pegando outros brinquedos na mochila que carregava.
Faltava pouco tempo para a hora da saída e as crianças ficariam brincando até seus pais chegarem. As duas novas amigas continuavam no banco, enquanto as outras crianças, inclusive as mais velhas, corriam para todos os lados. Até que Jullies – uma menina mais velha, que também brincava no pátio – avistou as duas e correu em direção a elas, com outras duas meninas em seu encalço. A que corria a frente, chegou primeiro, pegando o coelho das mãos de .
- Devolve o meu Zac. – pediu.
- Não, agora ele é meu. – Jullies disse, colocando o coelho atrás de seu corpo.
- Me devolve. – gritou, levantando do banco e tentou pegar o coelho. Mas foi impedida por Jullies, que a empurrou, fazendo com que ela caísse no chão.
- Se você quer o seu bichinho, é melhor você sabe correr bem rápido. – dizendo isso, ela começou a correr, deixando as duas meninas para trás. Antes que conseguisse levantar, saiu correndo atrás de Jullies, contrariando todas as recomendações feitas por sua mãe. Ela corria o mais rápido que podia, mas mesmo assim não conseguia se aproximar das outras meninas. Depois de correr por quase todo o pátio, ela parou abruptamente. Seu rosto estava pálido, seus lábios esbranquiçados, sua respiração pesada, parecia que ela cairia a qualquer momento. Segundos depois seu corpo foi ao chão, fazendo com todos corressem ao seu encontro, até mesmo as meninas que provocaram isso. A senhora Manson, sua professora, a pegou no colo, seguindo para a enfermaria, gritando para que alguém ligasse para a mãe da menina e para a ambulância. A preocupação em visível no rosto do todos no colégio, alguém murmurava que a ambulância estava demorando; outro murmurava que a respiração dela estava fraca demais, que ela precisava ir para o hospital imediatamente. Cinco minutos depois a ambulância chegou e os enfermeiros correram com para dentro da mesma. Com uma máscara de oxigênio em seu rosto, ela seguiu, ainda desacordada, para o hospital.
Então era esse seu destino? Morrer aos cinco anos de idade?
Nesses momentos que eu me pergunto: Por que eu existo? Por que eu devo proteger uma pessoa, se a qualquer momento ela pode partir? Eu não posso evitar essas coisas, eu não posso interferir diretamente, não posso modificar um destino já traçado, muito menos um indefinido. Passei todos esses anos esperando as informações que Miguel me prometera. Ele disse que eu as receberia no momento certo, esse seria um deles? Eu espero que sim. E se esse é realmente o destino dela, porque ele não estava traçado, definido e, agora, concretizado? Por que essa demora, essa angústia?
Os aparelhos mostravam que ela ainda estava viva, mas a situação não parecia tão favorecedora. Ela nunca tivera uma crise tão forte como esta, ela nunca estivera tão frágil, tão debilitada. Era estranho o laço afetivo que existia entre nós, eu sentia que deveria fazer algo a respeito, mas o quê? O que está ao alcance de minhas mãos? Infelizmente, nada.
- Peço que você não se envolva tanto, ela será minha em breve. – o tom de sua voz, parecia capaz de tornar todo o ambiente mais frio, sombrio, quase fúnebre. Era difícil acreditar em qualquer coisa boa com ele por perto, era como se ele sugasse os bons sentimentos. surgiu ao meu lado, com seu sorriso irônico nos lábios.
- Qual é o seu problema?
- Nenhum, estou apenas fazendo o meu trabalho, . – ele deu de ombros, encostando as costas no vidro que permitia ver dentro da UTI – Eu não tenho problemas pessoais com ninguém, até porque eu não sou de fato uma pessoa. Assim como você, por mais que você esqueça isso às vezes.
- Você estava falando a verdade quando disse que ela seria sua em breve? – ignorei seu último comentário.
- Eu não minto, às vezes eu posso omitir alguns fatos, mas eu não minto. Tem algo que impede que a leve hoje, como impediu que eu a levasse desde o dia que ela nasceu. Você não sabe o que é? – ele perguntou, levantando as sobrancelhas, como se soubesse de algo que eu não sei.
- Se eu soubesse não estaria perguntando, certo?
- Você nunca vai enxergar o que está diante do seu nariz. – ele murmurou.
- O que você quis dizer com isso?
- Olhe para frente, o que você vê? – ele voltou a posição inicial, apontando com a cabeça para frente, cruzando os braços na altura do peito.
- Eu vejo a numa cama, ligada a diversos aparelhos e...
- Não, . – ele balançou a cabeça lentamente – Afaste-se um pouco do vidro e me diga o que vê. – fiz o que ele disse, observando mais atentamente.
- Eu vejo meu reflexo. – eu disse confuso, eu não deveria ver, nem ao menos ter um reflexo. Tentei lembrar a última vez que vi meu próprio rosto, meus olhos eram lembranças anuviadas pelas sombra que parecia se formar ofuscando todo o meu passado. Levantei uma das mãos, tocando o rosto e vi o gesto ser repetido a minha frente. Estendi as mãos, quase que tocando o vidro. Era como se outra pessoa estivesse do outro lado, aquele rosto não era meu. Aquele não era eu ou não era o que um dia eu fui. – Como?
- Aprendi alguns truques. – ele disse rindo. – É boa essa sensação, não é? O simples de fato de conseguir ver a si mesmo como pessoa é sensacional. Há quanto tempo você não se sentia assim?
- Muito tempo. – disse, ainda atordoado com o que estava acontecendo.
- Infelizmente os humanos não dão tanto valor a vida, se eles soubessem o que os esperam. – ele acenou negativamente com a cabeça – Mas o que é bom... – disse, fazendo o reflexo desaparecer lentamente, deixando a minha vista mais uma vez – Dura muito pouco.
- Como... Como você pode fazer isso?
- Ser o que sou tem alguns benefícios... – ele deu de ombros – Enfim, entendeu o que eu quis dizer sobre algo que impede que ela vá, por exemplo, agora? – no momento em que ele disse isso, o coração de falhou numa batida.
- Eu tenho alguma coisa a ver com isso?
- O que você acha? Ela não resistiu durante todo esse tempo sem nenhum motivo muito forte. – ele respirou fundo, mesmo sem necessidade – Bom, eu preciso ir, é um grande hospital... Muito trabalho, se é que você me entende. Pense no que eu te falei ou nos veremos em breve, quem sabe...
Antes que eu pudesse pedir uma explicação sobre o que ele tinha falado, ele não estava mais lá. Algo estava acontecendo, ou estava para acontecer. Eu podia sentir. Algo maior do que qualquer coisa que eu já tenha visto ou vivido. De alguma forma eu impedia a morte dessa menina e alguma coisa dentro de mim esperava que isso continuasse acontecendo. Eu queria que ela vivesse, eu precisava que ela vivesse. Era como se a sua luta pela vida, fosse a minha também. Como se a vontade que ela tinha de viver, aumentasse a minha dedicação. Eu sentia que seria um trabalho árduo, mas isso não em desanimava, pelo contrário, me motivava. Eu estava mantendo-a viva e era isso que continuaria fazendo pelo maior período de tempo que eu pudesse. Se isso fosse o que estava a ser decidido em seu destino, eu acabara de aceitar minha maior e mais importante missão.
Senti uma presença no recinto, uma onda de tranquilidade e uma atmosfera de paz inundaram o ambiente. A diferença entre as duas sensações era gritante, assim como os sentimentos que elas despertavam. Sentindo minha mente mais leve, ouvi a voz de Miguel ecoando em minha cabeça:
Não estava nos planos você ter pistas sobre isso agora, mas acho que você está no caminho certo. Você era a chave de tudo e agora aceitou traçar o destino dela. Espero que você seja sábio e tome as decisões corretas, . Eu espero que dê certo...
Terceiro
Why do you have to go and make things so complicated?
Sophia surgiu correndo através do longo corredor, esbarrou em algumas pessoas pelo caminho, inclusive com o doutor . Ela parecia exausta, nervosa, ansiosa, estava um pouco pálida, com a respiração ofegante. Se apoiou no médico, respirando fundo antes de falar.
- Peter, o que aconteceu? Como está minha filha, onde ela está? Eu preciso saber o que aconteceu, como aconteceu, e...
- Sophia, por favor, se acalme. Ela está bem, não corre mais perigo. – Sophia pareceu relaxar um pouco com o que o médico disse, mas não o suficiente para que o nervosismo fosse embora.
- Eu... Eu preciso vê-la. – ela praticamente implorou.
- Nesse momento, só através do vidro da UTI.
- Como, UTI? Você disse que ela não corre perigo...
- Mas não corre, a UTI é só uma precaução, fica tranqüila. – ela continuava preocupada, era possível ver em seus olhos. – Vamos vê-la?
- Vamos. – ela concordou e eles seguiram pelo corredor em direção ao quarto. Pararam em frente ao vidro e Sophia repetiu a posição que eu estava há pouco tempo. Ela passava cuidadosamente as mãos pelo vidro, como se estivesse fazendo carinho na filha. As lágrimas escorriam por seus olhos, por mais que ela tentasse impedir.
- Não se preocupe, ela vai ficar bem, é uma garota forte. – ela apenas assentiu fracamente com a cabeça.
- O que eu vou fazer agora? – ela murmurava.
- Você disse alguma coisa?
- Não. – ela apoiou a cabeça no vidro, respirando fundo.
- Onde está Adam? – Peter perguntou.
- Ele... – ela respirou fundo, buscando forças para responder.
- Aconteceu alguma coisa, Sophia? – o médico perguntou preocupado.
- Não. – ela forçou um sorriso – Não aconteceu nada de importante.
- Nós nos conhecemos há cinco anos e eu acho que consigo perceber que aconteceu alguma coisa.
- As coisas não andam bem lá em casa, e já tem um bom tempo que estão assim.
- E não há nada que você possa fazer? Você sempre pode fazer alguma coisa...
- É algo que eu posso simplesmente ignorar, eu venho fazendo isso há alguns anos. – ela riu sem humor – Mas chega um momento em que você fica saturada. Eu estou exausta, eu acho que não tenho uma noite tranqüila de sono desde que a nasceu. Eu não estou reclamando, só acho que algumas coisas deveriam ser dividas, algumas responsabilidades deveriam ser compartilhadas.
- Problemas com o Adam? – Peter perguntou meio sem jeito.
- Problemas são apelidos carinhosos perto do que temos, mas não é nada com que eu não possa lidar. – ela respirou fundo, forçando um sorriso em seguida.
- Eu não sei o que falar. Na verdade, quando minha esposa era viva, nós não éramos o tipo de casal perfeito.
- Não existem casais perfeitos, Peter, o que existem são pessoas dispostas a levar uma relação adiante. – ela deu de ombros.
- Quer saber? Acho que vou quebrar algumas regras... Quer ver sua filha? – ele perguntou com um sorriso.
Sophia entrou no quarto lentamente, segurava o choro a cada passo que dava. Ver a filha naquelas condições a matava por dentro, ela daria qualquer coisa para trocar de lugar com ela, sofrer em seu lugar... Na verdade, ela provavelmente sofria tanto quanto , mas de outra forma. Ela pegou uma das mãos de sua filha e colocou sobre a sua, com a mão livre, ela acariciou o rosto da menina. Ela estava com uma feição tranqüila e, aparentemente, parecia não sentir dor ou algo do tipo.
- Meu amorzinho... – ela passou as mãos na testa da filha, tirando alguns fios de cabelo que ali estavam. Ela não conseguia mais segurar o choro, as lágrimas escorriam de seus olhos uma após a outra. Ver tão debilitada não era novidade, mas sempre doía. De repente, as pálpebras da menina tremeram e seus olhos se abriram um pouco. Ela estranhou o ambiente e ficou confusa até enxergar sua mãe ao seu lado.
- Mamãe, o que aconteceu? – ela perguntou, tentando tirar a sonda que estava presa ao nariz.
- Não, querida, não pode tirar. – Sophia disse, dando um sorriso verdadeiro para a filha.
- Por que eu tô aqui?
- Você passou mal e teve que vir para o hospital, não se lembra de nada?
- Eu lembro um pouco. Estava brincando com o Zac... Onde está o Zac, mamãe? – a menina perguntou assustada, olhando por todo o quarto.
- Ele deve ter ficado na escola, vão cuidar bem dele. – Sophia passou a mão pelo cabelo da filha.
- Deve ter ficado com a , ela sim vai cuidar bem dele.
- Quem é , ?
- Minha amiguinha, mamãe. Ela ficou brincando comigo o dia todo. Comigo e com o Zac. Até que a menina grande pegou o Zac e saiu correndo. – ela disse fazendo bico – Ela é muito chata, mãe.
- Então essa menina pegou o Zac e saiu correndo? – afirmou com a cabeça – E você foi atrás dela, correndo também. – ela afirmou novamente, negando em seguida. Ela sabia que não devia ter feito aquilo.
- Foi sem querer, a menina grande pegou o Zac e empurrou a , o que eu podia fazer?
- Não correr? – Sophia perguntou rindo – Você sabe que é por isso que está aqui, não sabe? – afirmou – Você vai fazer novamente? – ela negou – Então vamos esquecer isso.
- Onde está o papai e o ?
- Papai está no trabalho, e o seu irmão na escola.
- Quando eu vou pra casa? – ela perguntou fazendo bico e tentando tirar a sonda mais uma vez.
- Não sei, meu bem, só o doutor sabe. Eu vou lá fora falar com ele, você vai ficar bem sozinha?
- Vou, só não demora, por favor.
- Não demorarei. – a mãe deu um beijo na testa da filha, que se ajeitou no travesseiro e fechou os olhos.
Dias depois...
- ? – Sophia disse, entrando no quarto da filha. ficou mais dois dias no hospital antes de ser liberada, agora ela estava de repouso em casa, até a outra semana, quando voltaria para a escola – Querida, sua amiga veio lhe ver. – entrou lentamente no quarto, segurando Zac firmemente nos braços. Quando ela viu que estava melhor, seus lábios se entortaram num sorriso e correu até a cama.
- Papai disse que você ficou doente. – ela disse meio chorosa.
- Eu não podia correr, mas corri assim mesmo. Pelo menos a mamãe não brigou.
- A Jullies ficou de castigo a semana toda, ela ficou fazendo dever enquanto todo mundo brincava. – abriu um belo sorriso e Sophia riu.
- Vou fazer companhia para a mãe da , não façam tanta bagunça. – Sophia alertou antes de sair do quarto e deixar as meninas à vontade.
se recuperou bem e passou a seguir as recomendações da mãe. Durante os cinco anos seguintes, ela quase não sofreu nenhuma crise e fazia apenas o acompanhamento com o doutor . Ele dizia que a doença não tinha sinais de melhora e nem de avanço, ela encontrava-se estagnada, controlada. Porém, a sua vida ‘fora’ doença não estava sob controle. Sua família estava cada vez mais despedaçada. Seu pai agora mal parava em casa e sua mãe se desdobrava para dar conta de tudo que deveria fazer, a única coisa que Adam ainda fazia, era pagar as contas e o tratamento da filha. Mas num dia, que parecia ser um como qualquer outro, tudo mudou. Sophia foi levar a na escola e quando voltou, estranhou algumas coisas fora do lugar em seu quarto e outras coisas não estavam onde deveriam. Abriu o armário e chocou-se ao perceber que tudo o que era de Adam tinha sumido. Procurou por todos os lugares, até encontrar um bilhete em cima da bancada da cozinha. Sophia abriu o bilhete com as mãos tremendo, ela sabia o que provavelmente estava escrito no papel, mas lê-lo só tornaria tudo mais real. Contudo, não estava escrito o que ela esperava. O bilhete só continha uma frase:
Eu sinto muito.
Não havia explicações ou nada do tipo. Para Adam, aquele casamento não precisava de motivações para acabar, ele havia acabado sozinho. Ele tinha se desgastado até deixar de existir. Sophia também sabia disso, mas esperava uma atitude, pelo menos, madura do, agora, ex-marido. Não havia telefone ou um novo endereço no papel. Talvez ela tivesse visto Adam pela última vez naquela manhã, antes de sair de casa. Será que se ela soubesse que isso aconteceria, teria dito alguma coisa ou tudo terminaria como foi? Sem nada a ser dito? Sophia ficou sentada em silêncio em sua cozinha pelo resto da manhã, ela não tinha noção do que fazer de sua vida. Tinha dois filhos para sustentar e nenhum emprego. Quando voltou a si, estava na hora de buscar na escola e levá-la para a consulta com o doutor . Pegou a bolsa e as chaves do carro, seguindo para a escola. Tentou disfarçar o nervosismo perto da menina, não queria que ela se preocupasse com isso agora. Talvez isso não fizesse tão bem a ela. Sophia não queria imaginar a reação de quando ele descobrisse. O menino estava numa fase meio revolta de sua vida e isso com certeza agravaria a situação. Nesse momento ela soube que os problemas financeiros seriam os menores, ela teria problemas maiores para lidar.
Quando chegou ao hospital, mãe e filha seguiram ao encontro do doutor , que recebeu as duas com um sorriso acolhedor, mas ao olhar nos olhos de Sophia, Peter soube que tinha acontecido alguma coisa.
- , querida, vá até a Bernadette e diga que eu falei pra ela te dar o chocolate que está na minha sala. – ele disse se abaixando, para ficar na altura da menina.
- Chocolate? – ela disse com os olhos brilhando – Posso, mãe?
- Claro. – Sophia forçou um sorriso, encorajando a filha a seguir em frente.
- O que aconteceu? – o médico perguntou preocupado.
- O Adam saiu de casa. Eu fui levar a na escola e quando cheguei, ele não estava, pensei que tivesse ido para o trabalho, mas quando abri o armário, não tinha nada dele. – Peter a levou até as cadeiras que estavam próximas, sentando ao seu lado.
- Como isso aconteceu? Eu pensei que o casamento de vocês ia bem...
- Nós não éramos casados há muito tempo, Peter, éramos estranhos que dividiam uma casa. Só que eu precisava dele por causa da , nunca pude trabalhar e era dele o único dinheiro da casa. Agora eu não posso mais pagar o tratamento dela, eu não sei como eu vou fazer com duas crianças, Peter, eu não sei...
- Sophia, calma, nós daremos um jeito. – ele disse, colocando a mão por cima da mão de Sophia.
- Nós? – ela levantou a cabeça, olhando para as suas mãos juntas e em seguida para os seus olhos e assim ficaram por alguns segundos.
- Desculpe. – ele disse sem jeito, retirando sua mão – E eu disse nós, porque queria ajudar. Meus filhos perderam a mãe muito cedo, principalmente a minha filha, e ela não tem um terço dos problemas que a tem, então eu sinto que preciso ajudar.
- Mas ajudar como, Peter?
- Eu posso bancar o tratamento da , eu me pago, não tem problema nenhum. – ele riu.
- Não posso aceitar, eu estaria tomando o tempo de outro paciente que paga a consulta.
- Então o que você vai fazer, vai deixar a sem acompanhamento médico?
- Não, eu darei um jeito de pagar. Vou arrumar um emprego ou algo do tipo...
- Emprego? É claro. – ele parecia falar sozinho – Tenho a solução perfeita, isso é, se você aceitar.
- O que é? – ela perguntou curiosa.
- Eu estava precisando de alguém que cuidasse dos meus filhos e da casa, alguém que pudesse ficar lá durante o dia. Se você aceitar, eu posso oferecer os dois quartos do primeiro andar, você se acomoda com os seus filhos. Estará trabalhando e me pagando pelos meus serviços como médico.
- Peter, eu não sei... – Sophia disse sem jeito.
- Você vai aceitar, porque eu não quero um não como resposta. – Ele abaixou o olhar, encarando o chão por alguns segundos – Eu sinto que preciso te ajudar, Sophia, por favor, aceite. Além do mais, eu estou com medo de não fazer um bom trabalho como pai. O já está grande, ele já entende bem as coisas, mas eu sei que sente falta de um pai mais presente. E a Gabbie só tem doze anos, ela reclama que eu não passo muito tempo com ela. – ele voltou a olhar para Sophia, só que agora bem dentro de seus olhos – Eu também preciso de ajuda, acho que tanto quanto você. – dessa vez foi Sophia que colocou sua mão sobre as dele e lhe deu um sorriso encorajador.
- Eu acho que podemos passar por isso juntos. Não juntos nesse sentido, mas...
- Eu entendi. – ele também sorriu.
Dias depois...
- Mãe, por que nós temos que nos mudar para a casa de um desconhecido? – perguntou, jogando suas roupas de qualquer jeito na mala. Sophia respirou fundo, tirando as roupas emboladas e começando a dobrar uma por uma.
- , eu não tenho dinheiro suficiente para pagar o aluguel dessa casa e o tratamento da sua irmã, também não é a casa de um desconhecido, nós vamos para a casa do Peter, eu vou trabalhar lá.
- Desde quando a senhora chama o doutor de Peter? – perguntou, arqueando as sobrancelhas. Sophia ficou meio sem jeito e encarou o filho por alguns segundos.
- Chega de perguntas, termine de colocar as suas coisas nas caixas, o caminhão da mudança chegará a qualquer momento. – ela deu um beijo na testa do menino e seguiu para o quarto da filha, para empacotar as coisas dela.
encarou o seu, agora antigo, quarto com as feições sérias, sérias demais para um menino de quinze anos. Ele sabia que tinha acontecido, sabia que o pai tinha abandonado a família e isso só fez com que todo o respeito que ele ainda tinha pelo pai, se acabasse. Ele pegou um porta retrato que estava na cômoda, na foto a família estava reunida e quem olhasse, pensaria que seria impossível que aquela felicidade acabasse um dia. Mas acabou. Na cabeça dele ele não tinha mais pai, a família dele se resumia a sua mãe e sua irmã mais nova. Mas algo parecia não se encaixar para ele, ele não entendia como alguém podia agir como o pai, como alguém podia ter sangue frio, a indecência, ser covarde ao ponto de abandonar a família, abandonar uma filha doente. Aquilo o deixava revoltado. Enquanto a maioria dos meninos de sua idade tem o pai como herói, via na figura de Adam tudo que ele mais repudiava. Ele sentia vergonha, sentia nojo, sentia pena... Pena de Adam ser como ele é. Ele abriu o porta retrato, pegou a foto e a encarou com repulsa, não conseguia encarar aquele homem. Com muito cuidado, ele rasgou a mesma, retirando Adam do retrato da família, família que ele não pertencia mais. Com quinze anos de idade, ele sentia que deveria ser o homem da casa, que deveria ajudar sua mãe e cuidar da sua irmã. E é isso que ele faria. Ele não chorava, muito menos ficava se perguntando por que aquilo estava acontecendo. Era como se ele tivesse crescido, amadurecido em poucos dias... Era como se ele não fosse mais uma criança. Tudo que ele já havia presenciado: as brigas, os gritos, tudo só ajudava a aumentar a raiva que crescia em seu peito. O que não é nada bom. Uma criança não pode nutrir sentimentos assim por ninguém, muito menos pelo seu pai. Ele colocou a última coisa que faltava na caixa, a fechou e colocou no corredor. Olhou uma última vez para o cômodo dando adeus a ele, dando adeus ao que ele representava... Dando adeus a sua antiga vida.
Sophia parou o carro em frente ao seu novo lar. Não era realmente dela, mas seria a coisa mais próxima que ela teria disso. Ela saiu do carro com um sorriso, tentando encorajar os filhos a fazer a mesma coisa. saiu meio desconfiada e triste, ainda sentia saudade do pai, ela não conseguia entender por que ele foi embora. Já continuava enfurnado dentro do carro, essa mudança não estava o agradando.
- , sai desse carro, a mamãe já está de cara feia. – disse, colocando a cabeça na janela ao lado do irmão. Ele apenas ignorou o que a irmã disse e colocou o fone de volta ao ouvido. A irmã puxou o fone e o encarou, ele bufou, tirando o outro fone e saindo do carro.
- Eu tenho que parar com essa mania de fazer tudo o que você pede. – ele disse e ela sorriu.
- Nossa, que casa grande. – disse boquiaberta. A casa tinha dois andares e era num estilo vitoriano: as paredes eram brancas e as molduras das janelas eram azuis, que contrastavam com o telhado acinzentado; na frente, e rodeando boa parte da casa, tinha uma varanda a qual um lance de escadas dava acesso; e tudo isso era bem moldurado por um belo jardim e grandes árvores em frente à casa.
- Ser médico realmente dá dinheiro. – disse, concordando com a irmã.
- Vocês podem, por favor, me ajudar? – Sophia disse, pegando uma grande mala no carro.
- Eu ajudo. – um menino, que parecia ter a idade de apareceu – Eu sou , o filho mais velho do Peter.
- Ah, muito obrigada. Eu sou Sophia e esses são meus filhos: e . – o menino sorriu e cumprimentou a todos, antes de pegar a mala das mãos de Sophia.
- Eu te ajudo, onde é pra colocar? – disse, pegando outra mala.
- Eu te mostro. – respondeu e eles seguiram para dentro da casa.
Alguns minutos depois, todas as coisas já estavam nos quartos e a pior parte começaria: arrumar tudo. Sophia resolveu fazer o almoço antes de começar a arrumação, já seguiu para o quintal, pois o convidara para jogar futebol. ficou sozinha no quarto que dividiria com o irmão. Sentada em sua cama, ela começou a lembrar de seu pai e algumas lágrimas brotaram em seus olhos. Era uma cena difícil de se ver, ainda mais quando não se pode fazer nada a respeito. Mas era como se eu precisasse fazer alguma coisa, ao menos dar apoio a ela. Talvez ela precisasse de companhia, talvez ela precisasse de um amigo. Talvez...
- Se eu fosse você, eu não faria nada contra as normas. – surgiu ao meu lado, com a mesma fisionomia superior.
- Mas você não é, e eu não pretendia quebrar nenhuma regra.
- Você sabe que se aparecer pra ela, pode complicar as coisas...
- E eu por acaso perguntei a sua opinião? – eu disse seco, tentando fazer com que ele desaparecesse logo. Ele balançou a cabeça lentamente.
- Só não diga que eu não avisei... – e assim como surgiu, de repente, ele se foi. Tentei pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa, ajudar meu protegido é a minha função e isso engloba qualquer tipo de ajuda, certo? Era nisso que eu estava me apoiando.
‘s POV
Eu me sentia estranha, como se alguma coisa faltasse. Tá, não é apenas qualquer coisa, eu sentia falta do meu pai. Ele foi embora sem se despedir, sem dizer se eu o veria novamente e isso me magoou. Eu ouvi dizer à mamãe que ele não tem mais pai, mas eu não consigo pensar dessa forma. Minha família está incompleta e assim não funciona. Nós éramos como um mecanismo que precisava de todas as peças para funcionar perfeitamente e agora estaríamos quebrados para sempre. Talvez essa sensação de vazio se amenizasse com o tempo, provavelmente ela nunca me abandonaria, mas ficaria suportável. Talvez algo possa preencher esse espaço, mas o que? Ou melhor, quem?
De repente senti como se tivesse mais uma pessoa no cômodo, parecia que alguém me observava. Senti o colchão afundar ao meu lado e ao olhar, encontrei um rapaz que nunca tinha visto na vida, mas pela forma que ele me olhava, era como se eu o conhecesse da vida toda. Seu sorriso era como um calmante, aliviava toda a dor que eu sentia, eu me sentia bem novamente.
- Quem... Quem é você? – perguntei cautelosa. Eu sabia que não havia motivos para ter medo, mas ele é um estranho... Ou nem tanto. Ele não me respondia, continuava apenas me olhando e sorrindo, como se estivesse feliz porque eu estava lhe vendo.
- Meu nome é . – quando sua voz suave soou, senti um alívio imediato, mas continuava com medo de quem ele poderia ser. Será que ninguém viu quando ele entrou na casa? Talvez eu devesse gritar... – Não precisa ficar com medo, eu não farei nada com você, . Eu estou aqui pra te ajudar.
- Me ajudar, em quê? – perguntei curiosa. Nesse momento ouvi um barulho do lado de fora e em seguida minha mãe surgiu na porta.
- Tá falando sozinha, minha filha? – ela indagou. Imediatamente eu olhei para o lado, não encontrando meu antigo companheiro. Vasculhei todo o quarto com os olhos, procurando-o, mas não o encontrei.
- Não, eu estava, como se diz mesmo? Pensando alto. – forcei um sorriso. Ela balançou a cabeça e voltou para a cozinha.
- Aonde ele foi? – sussurrei para mim mesma.
- Eu ainda estou aqui – ele surgiu novamente a minha frente – E ficarei pelo tempo que você quiser.
/‘s POV
Quarto
But dreams only last for a night
E então as coisas saíram do controle.
Depois que eu apareci para a pela primeira vez, eu não conseguia mais ficar longe. Eu sentia que algo dentro dela mudava quando eu estava perto, talvez eu conseguisse deixá-la mais feliz ou que ela tirasse um pouco o pai da cabeça. Mas foi justamente esse o meu erro. Ela substituiu a figura paterna por esse ‘amigo imaginário’ que estava sempre por perto. Sua mãe achou estranho no começo, sempre via a filha falando sozinha pelos cantos, servindo café na xícara de brinquedo para uma pessoa que estava ao seu lado e que ela não conseguia ver. Mas depois ela entendeu, ou pelo menos achou uma desculpa para si mesma. Na sua concepção, a filha tinha criado esse amigo para suprir uma falta específica e se isso não a prejudicasse, ela não interferiria.
Seis anos depois
- Você continua vendo seu ‘amigo imaginário’? – Gabbie perguntou, sentando em sua cama.
- Bem, ele aparece algumas vezes... – disse, tentando acabar com o assunto.
- Eu acho isso tão estranho, . Tipo, você não tem mais idade para ter um amigo imaginário.
- Não tem idade pra essas coisas, Gab. Eu já vi um filme que a menina crescia com o amigo e quando ela se tornava adulta, ele era como um namorado pra ela.
- Sim, até ela conhecer um cara de verdade. – Gabbie completou. suspirou, olhando para a lua pela janela. Eu sabia que esse assunto era delicado e que ela não gostava de falar sobre isso. Era algo extremamente particular, ainda mais pelos motivos que só ela sabia. Talvez fosse hora de colocar pra fora, fazer com que a amiga a ajudasse de alguma maneira, ou que pelo menos parasse de repreendê-la. – Você acha que ele será como um namorado pra você também?
- Não! – negou veementemente – De maneira nenhuma, eu não o vejo dessa forma.
- Então você precisa conhecer um cara de verdade, . De carne e osso, que você possa tocar, abraçar, beijar...
- Pare com isso, Gab. Eu não gosto de falar sobre isso.
- Mas eu gosto. – a amiga forçou, abrindo um sorriso – Sabe, o Andrew quer me convidar para sair e eu disse que só aceitaria se ele levasse um amigo, assim eu poderia te levar.
- E quem disse que eu iria? Ou melhor, quem aceitaria sair comigo, Gabbie? Você precisa entender que eu não sou como você, não posso ter uma vida normal. Namorados e festas não fazem parte no meu mundo. Eu não sou como você.
- Claro que é! – Gabbie levantou da cama, quase que revoltada – Eu não consigo ouvir você dizer uma besteira dessa e ficar calada. – ela puxou a amiga, fazendo com que ela ficasse parada ao seu lado em frente ao espelho – Olhe para nós duas e diga o que eu tenho que você não tem ou ao contrário. Por algum acaso você tem cinco olhos, três narizes e duas bocas? Não. Claro que não! Você é normal, . Mais do que isso, você é linda e nunca deixem que te digam o contrário, ou melhor, nunca diga o contrário. Você tem dezesseis anos e você deve começar a viver, claro, respeitando seus limites, mas deve começar a viver. – a encarou por alguns segundos, antes de desabar na cama, segurando o choro.
- Por mais que você diga que eu sou normal, eu não sou. Eu nunca vou poder sair, me divertir ou namorar como todo mundo. Quer dizer, como se alguém fosse se interessar pela estranha aqui. Ao contrário de você, eu já aceitei a minha condição. – ela levantou, secando as lágrimas que teimavam em rolar – Eu vou pro meu quarto e, por favor, me deixa sozinha.
Vê-la naquele estado me deixava estranho. Eu queria ajudá-la de alguma forma, ser o que ela precisava, mas eu no podia. Já havia quebrado demais as regras e as coisas fugiriam mais ainda do meu controle. Não é aconselhável que os protetores se envolvam tanto com seus protegidos, porque isso faz com que eles se tornem dependentes, vulneráveis. E já era vulnerável demais para o seu próprio bem.
Ela deitou na cama, agradecendo pelo fato de que seu irmão não estava no quarto. Jogou-se na cama, cobrindo a cabeça com o travesseiro, fechou fortemente os olhos, como se aquela ação afastasse algum pensamento ou algo do tipo. Tentei forçar-me a ficar longe, deixar com que ela tivesse um tempo só para ela, mas era praticamente impossível vê-la naquela situação e não fazer algo a respeito. Aproximei-me dela, tentando passar-lhe força, segurança, ou apenas acolhe-la. Com o ambiente um pouco mais leve, ela conseguiu se acalmar, caindo levemente no sono. Suas feições relaxaram e leve sorriso em seus lábios me dizia que ela estava sonhando. Algo me atraía, praticamente me chamava. Era como se eu precisasse saber o que ela estava vivendo em sua mente, como se eu precisasse participar.
Sem pensar mais uma vez, me atirei em minha própria loucura, quebrei mais uma regra. Mas naquele momento, isso era o que menos me preocupava.
Aquele foi o primeiro dia em que eu resolvi visitar em seu sonho.
Ela estava sentada na areia de uma praia, observando as ondas baterem furiosamente contra as pedras da encosta. A noite era escura e fria e seu fino casaco estava longe de ser o suficiente para protegê-la do frio. Sentei-me ao seu lado, um pouco incomodado pelo fato dela não ter sentido a minha presença, mas antes que eu pudesse me segurar a esse pensamento, virou lentamente sua cabeça em minha direção e sorriu.
- Eu sabia que um dia isso ia acontecer. Eu esperei bastante por isso, na verdade. - ela disse e a mim e eu apenas a olhei confuso.
- Pelo que?
- Pelo dia em que você me visitaria.
- Você sabe que isso é um sonho, não sabe?
- Mas eu sei que é real. Eu sei que você está realmente aqui. Não me pergunte como, mas eu só sei. E eu sei que ainda vou saber disso quando eu acordar.
- Existe uma linha tênue entre sonho e a fantasia. Nunca se deixe levar por nenhuma das duas. A realidade pode ser dura, mas é nela que devemos nos manter sempre. – ela suspirou, voltando a encarar o horizonte.
- Eu preciso de algumas respostas, .
- Eu também, . Mas não podemos ter tudo o que queremos.
- Eu nunca posso ter nada do que eu quero, então eu meio que já estou acostumada. – ela riu sem humor – Eu me pergunto por que não me levam embora? Por que eu tenho esse sentimento de que eu já passei da minha hora?
- Não é a sua hora ainda. Você tem que pensar também na sua família. Você já parou pra pensar em como eles se sentiriam se você se fosse?
- Às vezes eu acho que seria melhor se eu morresse de vez. Estou cansada de ver todo mundo vivendo os meus problemas todos os dias comigo, sofrendo por minha causa.
- Não pense assim, . Só eu sei o quanto a sua mãe e o seu irmão agradecem no final de todos as noites por você ter conseguido sobreviver mais um dia.
- Eu acho que eles não entendem como eu me sinto. Talvez eles também desejariam que eu fosse de vez.
- Eu sou a melhor pessoa nesse universo para te entender, . E eu sei o quanto você quer viver. Você só está tendo um momento de dúvidas.
- Ninguém que eu conheça é a melhor pessoa pra me entender. Eu passei a minha vida inteira morrendo, . E eu quero viver. E se eu tiver que morrer pra que isso aconteça, então talvez é isso que eu deva fazer.
E quando ela disse isso foi quase como se algo dentro de mim quebrasse. Por que por mais que ela tivesse certa, tinha aquela pequena e poderosa parte de mim que não queria isso acontecesse. Primeiro porque a minha missão estaria falha. Segundo porque, incrivelmente, eu estava considerando o fato de que eu nunca mais a veria se deixasse isso acontecer.
Peguei na mão de e a levantei, vendo seu olhar assustado.
- Eu posso te tocar!
- Esse é o seu sonho. Você pode tudo... - ela sorriu animada, entendo o meu recado e me puxou pela mão, correndo em direção ao mar.
- Vamos nadar. - e assim que ela terminou de falar, o céu se tornou claro e aquecido, o mar pairava tranquilo sobre o horizonte. A água estava aquecida quando entramos e soltou a minha mão pra nadar como se tivesse feito isso a vida toda. Ela parou por um momento, me encarando maravilhada.
- Eu nunca tive tanto controle sobre os meus sonhos antes.
- Eu posso estar ajudando nisso... - eu disse casualmente, dando de ombros.
- Obrigada! - ela sorriu, me pegando de surpresa em seu abraço. Algo dentro de mim se aqueceu com essa atitude. Eu não estava acostumado com demonstrações físicas de afeto. Era como se eu tivesse esquecido como era a sensação de ser abraçado, de ter alguém tão próximo. De repente parou seu abraço bruscamente e me olhou assustada, me apavorando instantaneamente.
- O que está acontecendo? - ela alternava seu olhar entre meu rosto e suas mãos, que ficavam cada vez mais translúcidas.
- Você está acordando.
- Droga. Nos veremos de novo? - eu hesitei em responder. Eu sabia que o que eu estava fazendo era errado em todos os sentidos e que aquilo não podia voltar acontecer, mas eu queria que parasse? Antes que eu pudesse responder, desapareceu completamente.
Quando eu voltei ao quarto para ver sendo despertada pela sua mãe com um gigante sorriso no rosto, eu soube que ela ainda se lembrava de tudo e então eu não pude deixar de sorrir também. Só demorou um segundo pra perceber o quarto gelado e sombrio por alguns instantes. Então eu soube que esteve aqui enquanto eu visitava os sonhos de e então o nervosismo alcançou minhas terminações nervosas. O que eu achava que tinha sido apenas um sonho bom, poderia ter se tornado um terrível pesadelo. E eu logo vi que pensar em seu nome, era como chamar-lhe em voz alta. Ele apareceu em minha frente, com as expressão tensa, como se soubesse de algo e não pudesse falar.
- Eu sei que quebrei mais uma regra, não precisa me lembrar.
- Ainda bem que você reconhece seus próprios erros. – ele disse, da forma irônica e superior de sempre.
- Não é um erro, nada que beneficia meu protegido pode ser considerado um erro.
- Blá, blá, blá... – ele disse, com uma careta – Você sabe que contatos diretos são proibidos e já não basta aparecer para ela, você tem que ir até seus sonhos, tocá-la, abraçá-la? Pelo amor de Deus, . – ele disse, olhando para cima e dando um sorriso – Não é a sua primeira vez, você sabe o que pode e o que não pode.
- Mas o que isso vai mudar? Minha relação com ela não está atrapalhando e nem modificando seu destino.
- Até porque é você que o traça, certo? Então essa suas intervenções são providenciais, são quase que necessárias para que as coisas saiam como eu espero.
- Como você espera? – perguntei confuso – O que você pode ganhar com isso?
- Eu? Nada. Eu apenas espero que as coisas saiam como eu espero, que você consiga cumprir a sua missão com perfeição. – ele respondeu, mas eu pude sentir que ele ainda estava me escondendo alguma coisa, mas o meu medo era: será que eu gostaria de saber o que era? Talvez fosse melhor esquecer e esperar até quando ele quisesse falar. Até porque, desde quando queria o bem de alguém? Ainda mais se for de uma pessoa que ele sempre teve desejo de levar com ele.
- É que você não entende, ... Eu sinto uma necessidade de ficar perto dela, eu não consigo entender o porquê. É algo mais forte do que eu posso aguentar ou resistir.
- Eu entendo perfeitamente. – ele suspirou, olhando para como se visse outra pessoa no lugar.
- Como assim?
- Eu não sou isso desde sempre, . Eu já fui um anjo protetor e só fui deposto do meu cargo porque eu violei uma série de regras, assim como você. Eu sentia essa necessidade de fazer parte da vida da Alane, te estar perto, de ser quem e o que ela precisar. Só que isso fez com que o seu destino mudasse completamente de rumo e...
- E? O que aconteceu com ela? – perguntei interessado. Nunca tinha o visto falar com tanto sentimento sobre alguém, ela deve ter sido alguém extremamente importante em sua vida.
- O que acontece com as pessoas que tem o seu destino não concretizado? – ele perguntou, com um sorriso sem humor nos lábios – Ela morreu por minha causa, pelos meus erros, meus deslizes. Não pense que eu sou de todo ruim, , eu já fui bom, já fui exatamente como você, e é por isso que eu me dou ao trabalho de me intrometer. Eu vejo você cometendo os meus erros e não quero que você carregue esse fardo que eu tenho que carregar. Eu me culpo pela morte dela todos os dias. – ele respirou fundo, encarando meus olhos por alguns segundos e eu pude sentir a sinceridade de suas palavras – Ela é pra você, o que Alane era para mim... Ela é o seu afecto.
Quinto
It started out with a kiss, how did it end up like this?
- Como assim meu afecto? – perguntei confuso. Nunca tinha ouvido esse termo antes e me perguntava o que poderia significar, o que poderia ser.
- Quando Alane entrou na minha vida, ou melhor, quando eu entrei na dela, algo mudou em mim. Ela despertou sentimentos estranhos. Anseios, necessidades que não me eram comuns. Era como se eu passasse a sentir falta de coisas que eu nunca tive, que nunca vivi. Então eu praticamente vivia pela vida dela, pelos seus sentimentos, suas experiências. Ela era a minha realidade. – ele deu um sorriso de lado, como se lembrasse de algo bom.
- Por que você nunca me disse isso?
- Porque não é nem um pouco reconfortante ficar falando sobre o seu fracasso, ainda mais com o que ele motivou.
- , não foi culpa sua, afinal todos morrem um dia... – tentei contornar, fazer com que ele se sentisse um pouco melhor, que esquecesse.
- Não daquela forma. Acredite, , eu não me culparia se não fosse realmente minha culpa. Estava em minhas mãos, eu escolhi o que aconteceria com ela. Eu fui estúpido, egoísta... – ele balançou a cabeça lentamente – Eu estava apaixonado.
- Apaixonado? – perguntei, com milhões de perguntas surgindo em minha cabeça. Como um anjo poderia se apaixonar, nós não temos esse tipo de poder, não somos capazes disso, é algo característico e próprio dos humanos – Como apaixonado? Você era um anjo e ela uma humana, sua protegida. Não há como ter esse tipo de envolvimento, ter esse tipo de sentimento...
- Tecnicamente nós somos iguais aos humanos, apenas temos o privilégio da ‘vida eterna’. Nós somos capazes de sentir qualquer coisa, contanto que achamos algo ou alguém para despertar-los. Alane despertou o amor em mim, a pode ter despertado outra coisa em você, talvez um forte sentimento de amizade ou carinho... – ele deu de ombros, antes de respirar fundo, tentando se recompor – Acho que te dei muita coisa pra se pensar, né? – deu um sorriso sem humor.
- Você nem imagina o quanto. – disse impressionado. Respirei fundo uma vez antes de perguntar o que estava me corroendo por dentro – , como ela morreu? – vi que minha pergunta não o pegou desprevenido, mas ele estava de guarda baixa. Aquele assunto era extremamente delicado e difícil para ele, eu conseguia sentir isso. Mas era algo tão novo, tão difícil de compreender, que era praticamente impossível resistir à tentação de saber mais sobre.
- Eu não gosto de falar sobre isso, . – ele disse, fechando os olhos com força, talvez tentando espantar algumas lembranças – É como se eu morresse um pouco cada vez que eu lembrasse.
- Me desculpe por isso, é que é algo novo pra mim, nunca pensei que algo assim pudesse acontecer.
- Tudo bem, não precisa se desculpar. Eu entendo a sua curiosidade. – ele suspirou pesadamente – Tenho algumas coisas pra fazer. Cuide bem dela, , não me dê motivos para voltar. – dizendo isso ele desapareceu, me deixando apenas com e sua mãe em seu quarto.
E de fato, havia me dado muito no que pensar.
Amor era algo muito distante pra mim, muito distante do meu mundo. Não conseguia imaginar uma pessoa como eu podendo se envolver amorosamente com alguém. Provavelmente em minha vida eu tenha passado por essa experiência, mas não é algo que eu lembre ou deva lembrar. Não conseguimos manter nossos vínculos passados, é como se não tivéssemos existido, como se fôssemos anjos por toda a nossa existência. Talvez seja isso que nos afete tanto, se soubéssemos como vivemos ou se ao menos vivemos de verdade, nós não teríamos tantos assuntos não resolvidos ou problemas internos. Eu mesmo sofro muito com essa dúvida. Não saber, não ter lembranças... Não ter vivido. Eu nunca tivera um envolvimento tão grande com um protegido. Eu realmente estou vivendo muitas coisas pela vida da . Suas experiências são as minhas, seus sentimentos são os meus. Isso explica por que eu não consigo ficar longe e interferir o mínimo possível ou deixar que ela viva a sua vida. Talvez seja por isso que eu tenha o poder de decidir seu futuro. O futuro dela é o meu futuro. Será que um dia eu serei egoísta como disse que foi? Será que serei capaz de fazer algo mal a ela, algo que possa ter consequências drásticas? Espero que ela desperte algo bom em mim, algo que seja proveitoso para nós dois. Algo que faça a nossa vida melhor.
‘s POV
Depois de ter sonhado com o , eu me senti um pouco diferente, mais confiante, talvez. Acho que foi por isso que, depois de muita insistência, aceitei sair com a Gabbie e os meninos. Só de pensar eu já conseguia sentir meu coração bater mais forte, imagina na hora? Eu me arrependi de ter aceitado um segundo depois, já que ela começou a bolar vários planos mirabolantes para que tudo saísse da forma que ela esperava. Entendam, Gabbie tem dezoito anos, sair com meninos é normal pra ela, que já teve até alguns namorados mais sérios. Mas eu nunca saí com nenhum garoto, sempre me policiei a ficar longe, não sei o que pode acontecer comigo. E já que nunca saí com nenhum garoto, vocês podem imaginar o meu grau de inexperiência com o sexo oposto. Esse pensamento me fazia suar frio. Mas eu já tinha falado que ia e eu cumpro minhas promessas.
- ? – ouvi Gabbie chamar do lado de fora do quarto – Você vai assim? – ela perguntou chocada, quando abri a porta. Ela vestia uma saia preta de cintura alta e bem solta nas pernas, uma blusa laranja que deixava um ombro à mostra e uma sandália preta não muito alta. Olhei minha roupa e vi o que estava errado nela. Os problemas eram uma calça jeans, uma blusa branca e um all star.
- Qual é o problema com a minha roupa? – perguntei, sabendo que ouviria por, no mínimo, cinco minutos.
- Não sei nem por onde começar... E não é só a roupa, qual é o problema de soltar os cabelos, ? – ela disse entrando no quarto e fechando a porta. Sem me dar muita confiança, seguiu até o meu armário e o abriu sem cerimônias. Revirou o mesmo por alguns segundo até puxar uma peça. Olhei atentamente para o que estava em suas mãos e comecei a temer o pior.
- Nem pense nisso! – eu disse séria. Gabbie segurava um vestido preto que ela mesma tinha me dado no último Natal. Ele era lindo, mas completamente desnecessário pra mim, ele estava jogado num canto do armário até hoje. Para que uma menina que não sai de casa precisa de um vestido preto tomara que caia com brilho por todos os lados? – A gente vai comer uma pizza, certo? – perguntei e ela concordou – Então por que eu vou vestida como se fosse pra uma festa? – ela revirou os olhos.
- Mas também não precisa ir vestida como se fosse na esquina comprar pão. , o Andrew vai levar o Taylor. Você tem noção da quantidade de meninas que se matariam para estar no seu lugar? – ela perguntou. O Taylor é realmente lindo, um dos caras mais bonitos da escola, mas não é um dos mais difíceis. Grande parte das meninas que queriam estar no meu lugar, poderiam mesmo estar e ele não veria nenhuma diferença nisso.
- E qualquer uma delas poderia estar no meu lugar, aposto que ele não se importaria. Talvez ele vá embora assim que souber que sou eu.
- Não seja idiota. – ela me empurrou, fazendo com que eu caísse sentada na cama – Tá, talvez esse vestido seja exagerado mesmo. – ela disse, voltando a mexer no armário – Ah! Achei um perfeito. – ela disse sorrindo. Ela desenrolou um vestido branco de alças bem fininhas, o tecido era leve e fazia com que ele modelasse o corpo de uma forma bonita – Esse você vai usar e não vai reclamar!
- Claro, Gab. Tudo pela sua felicidade. – coloquei o vestido, voltei para o quarto e vi um sorriso iluminar seu rosto.
- Ficou perfeito. – ela disse me puxando pela mão e me fazendo sentar novamente – Agora vamos dar um jeito no resto.
- Resto... – resmunguei, enquanto sentia cada parte do meu rosto ser coberta por alguma coisa.
Nós estávamos prontas e sentadas no sofá, sob os olhares atentos de e . Eles não gostaram muito dessa história de encontro, talvez seja apenas ciúme de irmão. E então ouvimos um barulho vindo da porta e em seguida algumas batidas. Senti meu coração acelerar. Esse era o meu primeiro encontro, entendam isso. Gabbie levantou tranquilamente e esperou que a seguisse, mas eu me mantive sentada.
- Eu acho melhor você ir sozinha, não estou me sentindo bem. – eu disse baixo.
- Sem inventar histórias, , levante já desse sofá. – ela disse sem paciência. Respirei fundo antes de acompanhá-la. Ela trocou sua impaciência por um belo sorriso e abriu a porta, encontrando os dois meninos com os lábios repuxados numa expressão de expectativa.
- Oi, Gabbie. – Andrew disse, lhe dando dois beijos no rosto. Ela corou um pouco e me puxou para fora, gritando um ‘tchau’ para quem escutasse. Andrew era um rapaz muito bonito, seu cabelo loiro caía levemente sobre seus olhos verdes e seu corpo era um pouco malhado, mas nada exagerado. Com muita timidez, olhei Taylor pelo canto dos olhos e encontrei-o me encarando de volta.
- Tudo bem? – ele perguntou, com sua voz rouca.
- Tudo. – respondi, tentando manter minha voz firme. Ele era mais bonito ainda de perto. Era um pouco mais alto e forte que o Andrew, seu cabelo escuro estava propositalmente despenteado e seus olhos quase negros me fitavam estranhamente.
- Fiquei surpreso quando o Andrew disse que você tinha aceitado sair com a gente. – ele disse com um sorriso sacana nos lábios.
- A Gabbie quase me obrigou. – respondi, mantendo meus olhos longe dos dele.
- Por um momento eu pensei que o problema fosse comigo.
- Não! – eu disse rápido – Não pense isso.
- Não se preocupe, você já mudou minha opinião. – ele disse calmamente – Na verdade, você mudou minha opinião sobre duas coisas.
- E qual é a outra? – perguntei, me virando para ele, quando paramos no sinal para atravessar.
- Eu sempre soube que você era linda, até porque não sou cego. Mas assim tão perto... – ele se aproximou perigosamente – Você é mais linda ainda. – precisei de vários segundos pra lembrar de como respirar. Não é todo dia que eu tenho um dos meninos mais lindos da escola assim tão... Próximo.
Com o passar do tempo as aproximações do Taylor ficavam cada vez mais descaradas e isso começou a me assustar. Não que eu estivesse com medo do que ele poderia fazer comigo, nós estávamos num local público e ele não seria tão louco assim. O que me assustava era como tudo era completamente novo pra mim. Enquanto Gabbie e Andrew estavam aos beijos, eu continuava olhando para qualquer lugar, menos para Taylor, tentava o ignorar o máximo. Mas ele parecia ser bem persistente.
- Você tá nervosa? – ele perguntou, pegando minha mão, que tremia um pouco por sinal.
- Talvez. – respondi, com um sorriso nervoso.
- Eu acho que sei como te acalmar ou, pelo menos, te fazer relaxar um pouco. – ele colocou uma das mãos no meu queixo e o levantou um pouco, olhando nos meus olhos.
Eu posso ser inexperiente, mas não sou burra, eu sabia muito bem o que estava por vir. Era como se fosse coordenado, a cada centímetro que ele se aproximava, mais rápido meu coração batia e mais descompassada minha respiração ficava. Eu já tinha ouvido falar de ‘beijos de tirar o fôlego’, mas eu deveria esperar nossos lábios se tocarem pelo menos, certo? Tentei me concentrar e entender o que estava acontecendo. Tudo parecia meio quieto e lento demais, talvez o mundo tivesse desacelerado, enquanto eu tentava me localizar nele. Eu estava tendo a minha chance de ser normal e aproveitaria de qualquer maneira. Tudo isso passou por minha cabeça no intervalo de um segundo. Ele ainda estava diminuindo a distância entre nós e eu parecia já sentir seus efeitos. Quando ele já estava próximo o suficiente para que eu sentisse uma respiração contra o meu rosto, a minha respiração começou a ficar difícil. Era sentia algo estranho, um incômodo que não sentia há anos e eu sabia que não tinha nenhuma relação com o beijo, ou futuro beijo. Quando seus lábios finalmente alcançaram os meus, minha atenção estava em outra coisa. Percebendo a minha falta de atenção em relação ao seu beijo, Taylor se afastou lentamente e me encarou.
- Você tá bem? – ele perguntou, mas sua voz parecia mais distante do que deveria estar. Minha visão começou a ficar turva e eu não conseguia mais sustentar o peso do meu corpo da forma correta – ? – ele disse um pouco mais alto, chamando a atenção de todos ao redor, principalmente de Gabbie.
- O que ela tem? – ela perguntou preocupada.
- Não sei, ela estava bem há alguns minutos atrás. – ele disse, enquanto eu me esforçava em me manter acordada. Respire fundo, respire bem fundo... Eu dizia a mim mesma, mas não estava funcionando.
- Ela está muito pálida, Taylor. – Gabbie disse, mas eu não consegui ouvir a resposta dele. Cansada de lutar contra o inevitável, deixei que meus olhos se fechassem.
Sexto
Say it if it's worth saving me. Hurry I'm fallin'.
Música do capítulo.
Abri os olhos e me vi num lugar estranho. Olhei em volta, procurando por algo familiar ou, pelo menos, confortador, mas não encontrei nada. Era tudo tão branco, tão claro que mal parecia um lugar real. Forcei-me a levantar e estranhei a sensação de parecer estar flutuando. Talvez eu estivesse em outro dos meus sonhos e não tinha me dado conta ainda. Olhei meu corpo e eu ainda estava com a roupa que usei para sair com a Gabbie e os meninos. Estranho, talvez eu tenha ficado impressionada com o que tenha acontecido, que me forcei a sonhar com isso. Tentei lembrar de alguma coisa, mas era tudo tão indefinido, tão confuso. Alguns flashes surgiam: Nós quatro andando pelas ruas, a primeira aproximação de Taylor e ele dizendo o quanto eu estava bonita, Gabbie aos beijos com Andrew e a última coisa que eu me lembro é de sentir a mão de Taylor em meu queixo e sua respiração perto do meu rosto e depois... Nada! Voltei a olhar ao redor. Esse sonho estava estranho demais.
- Talvez isso não seja um sonho. – uma voz me sobressaltou. Era uma voz firme, grave, poderosa. Uma voz que você sentia vontade de obedecer. Virei-me para encarar meu acompanhante e me deparei com um rapaz estranho me olhando de forma curiosa. Ele avançava lentamente, mas o curioso era que não parecia que era ele que se movia e sim as coisas ao seu redor. Uma força estranha emanava dele, como se fosse uma aura poderosa. Mas não era um bom poder. Só de sentir sua presença, algo como medo passou a me dominar. Mas ao mesmo tempo em que o medo me rondava, passei a sentir algo estranho. Era como se eu soubesse que deveria sentir medo dele, mas também deveria ansiar por ele, por mais proximidade. Ele tinha um ar misterioso que me seduzia de alguma forma. Ele estava distante, então ainda não conseguia ver seu rosto perfeitamente. Mas era algo sombrio, indescritível e, provavelmente, belíssimo. Seus traços me lembravam alguma coisa ou alguém, mas eu não conseguia lembrar. A única coisa em que eu conseguia pensar e manter a minha atenção era no rapaz misterioso. E então pude ver seus olhos. Seus olhos castanhos e calorosos. Seu sorriso, longe de ser acolhedor, era inquietante. – Estou contente de finalmente te conhecer, .
- Quem é você? – perguntei baixo, encarando seus lábios levemente repuxados – Como você sabe o meu nome?
- Eu sei muitas coisas sobre você, mais do que imagina. – ele parou em minha frente, com sua postura superior – Mas isso não é tão importante no momento, não nas circunstâncias que estamos.
- Que circunstâncias? – perguntei confusa. Pra mim isso era apenas um sonho. Um sonho muito estranho, mas ainda apenas um sonho.
- Ah! Vejo que a névoa ainda encobre seus olhos. – ele riu baixo e fez um leve movimento com as mãos, como se afastasse alguma coisa – Consegue ver agora? – olhei novamente o ambiente e dessa vez o local era outro. O ambiente claro desapareceu, dando lugar a outro conhecido. Era como se eu visse tudo de um ângulo diferente, como se eu sobrevoasse a cena enquanto observava. Do alto eu conseguia ver Gabbie, Andrew e Taylor perto de uma menina que parecia comigo. Ela estava caída no chão, enquanto Taylor fazia algumas manobras de reanimação, Andrew conversava com alguém no telefone e Gabbie gritava, meio desesperada.
- Aquela sou eu? – perguntei, colocando a mão em meu peito e vendo que, pra mim, eu estava ali de carne e osso. Tentei forçar-me para baixo, voltar ao meu corpo para que eu pudesse levantar e continuar minha vida normalmente. Mas eu não conseguia me mexer, era como se tivesse uma barreira invisível que me impedisse de voltar.
- Sim, aquele é o seu corpo. Apenas as almas têm acesso a esse lugar em que você está. – ele disse tranquilamente.
- Almas? – eu perguntei nervosa – Eu morri? – ele riu com vontade e balançou a cabeça lentamente.
- Ainda não.
Ainda não.
Então eu estava tenho uma experiência de quase morte? Para que eu estou aqui exatamente? Para que possam repensar a minha morte ou decidir o lugar onde passarei a eternidade? Várias perguntas passavam pela minha cabeça, mas eu não conseguia focar em apenas uma. Eu me sentia tão viva para estar morrendo. Eu penso que é até meio injusto. Logo no momento em que eu começo a viver, consigo um garoto que queria sair comigo, desfruto um pouco da minha adolescência... Isso acontece. É como se alguém conspirasse contra mim, fizesse tudo dar errado de propósito.
- Juro que não sou eu. – o rapaz respondeu. Eu o encarei com os olhos arregalados. Eu estava falando isso em voz alta? – Desculpe minha intromissão. É como se os seus pensamentos fossem gritos, é quase impossível não respondê-los.
- Você pode ler meus pensamentos?
- Eu posso quase tudo. – ele disse com o rosto próximo ao meu. E então, como mágica, estávamos em outro lugar. Nós estávamos no alto e quando eu digo alto, é bem alto. Era como se estivéssemos numa nuvem, flutuando sobre a cidade. Era mais como uma cabine transparente acima de tudo. A visão era perfeita, mas era como uma prisão. Mas eu não conseguia me ater a detalhes como a paisagem, eu precisava entender o que aconteceu comigo.
- O que tá acontecendo?
- Você está fazendo a passagem. – ele deu de ombros.
- E isso significa que...? – forcei.
- Que você está tecnicamente morta, mas que ainda há salvação. Senão você teria ido direto para onde deve ir.
- Tecnicamente morta? Como assim? Quem é você? – perguntei, me desesperando.
- Eu? Eu sou a morte. – ele deu mais um de seus sorrisos inquietantes. Eu recuei no mesmo instante, temendo o que ele poderia fazer. Ele revirou os olhos – Se eu quisesse mesmo te levar, teria feito isso no dia em que você nasceu ou em qualquer uma de suas outras crises. Você não precisa ter medo de mim. Afinal, eu sou inevitável.
- Mas se você não quer me levar, o que eu ainda estou fazendo aqui? Por que eu não posso voltar?
- Porque isso não depende de você. – ele passou a mão em meu rosto lentamente e eu senti todos os pêlos do meu corpo de arrepiarem.
- E depende de quem? – eu disse, tentando controlar a minha voz.
- Dele. – ele disse apontando para frente – Mas se apresse, seu tempo está acabando. – Eu me virei, mas não consegui enxergar nada.
- Mas eu não consigo ver nada. – eu disse olhando para o rapaz, mas ele deu de ombros, como se o problema não fosse dele. Voltei minha atenção para o lugar que ele tinha apontado e dessa vez eu consegui enxergar uma forma entre as nuvens. Mantive meu olhar fixo, até a forma se transformar numa pessoa. Conhecida por sinal. Seus olhos se destacavam no horizonte e eu me prendi neles. Era como se eu nunca tivesse o visto. Ele estava diferente, estava mais nítido, sua presença era mais forte, quase palpável. – ?
- Me desculpe por isso. – ele disse calmamente. Até a sua voz era diferente do que eu lembrava. Era como se eu nunca tivesse visto, ele era novo. Era um novo .
- O que você tem a ver com isso? Como você pode me ajudar?
- Eu não sou o que você pensa, . E eu me sinto mal por ter escondido isso por tanto tempo, mas era necessário.
- Quem é você? Ou melhor, o que é você, ? – perguntei no momento em que ele parou à minha frente. A distância era tão curta, que eu podia tocá-lo se levantasse a mão.
- Eu sou um anjo. – ele disse com um pequeno sorriso – Eu sou o seu anjo.
(n/a: coloque a música para tocar)
- Tipo um anjo da guarda? – perguntei confusa.
- Exatamente.
- Então foi por isso que o... Que ele falou que eu dependia de você? – apontei para o rapaz atrás de mim.
- geralmente fala demais, mas sim, é por isso que você depende de mim agora.
- Você pode realmente me salvar?
Prison's gates won't open up for me
Os portões da prisão não se abrirão para mim
On these hands and knees I'm crawlin'
Com estas mãos e joelhos eu estou rastejando
Oh, I reach for you
Oh, Eu alcanço você
Well I'm terrified of these four walls
Bem, eu estou aterrorizado com essas quatro paredes
These iron bars can't hold my soul in
Estas barras de ferro não podem aprisionar minha alma aqui
All I need is you
Tudo que eu preciso é você
- Eu não sei. – ele respondeu e eu vi a dor da sinceridade em seu olhar – Eu não sei exatamente o que fazer.
- Você precisa tentar, tentar o que puder. Por favor. – eu disse, começando a me desesperar – Eu não quero morrer.
- Você tem certeza disso? O que aconteceu com aquele pensamento de ‘seria melhor se me levassem de uma vez’? – ele indagou, pegando meu ponto fraco.
- Eu não penso mais assim, eu juro. Eu vi que posso levar uma vida normal, ou ao menos tentar. Por mais que tenha sido isso que tenha me trazido aqui, eu não me arrependo.
- Eu juro que não sei o que fazer. – ele disse em voz baixa, olhando nos meus olhos. Era como o infinito. Seu olhar era tão penetrante, que parecia que ele podia olhar dentro da minha alma, enxergar meus pensamentos, ver todos os meus segredos, desejos e anseios. Era como se naquele momento, a minha dor fosse a sua dor. Então eu entendi, ou pensei entender. Sendo meu anjo, deveria entender e sentir tudo que se passava comigo, como se fosse com ele. Era como um espelho, meus sentimentos eram refletidos nele. Talvez isso ajudasse em alguma coisa.
- Eu confio em você. É como se te conhecesse de toda a vida e provavelmente é. – ele deu um pequeno sorriso – Eu quero viver, quero ser capaz de passar por tudo isso mais uma vez.
Show me what it's like
Mostre-me como é
To be the last one standing
Ser o último a ficar de pé
And teach me wrong from right
E ensine-me a diferença entre o certo e o errado
And I'll show you what I can be
E eu te mostrarei o que posso ser
Say it for me, say it to me
Diga isso para mim, diga isso por mim
And I'll leave this life behind me
E eu deixarei essa vida para trás
Say it if it's worth saving me
Diga se vale a pena me salvar
Vi trocar olhares significativos com o outro rapaz que ele chamou de . Era como se eles conversassem apenas com o olhar e isso era meio assustador.
- Eu não posso fazer nada, isso é com vocês. – disse, como se pedisse desculpas.
- Mas você disse que dependia de mim, então você sabe de alguma coisa.
- Eu disse isso porque qualquer coisa relacionada ao destino dela depende de você. E eu não quero me responsabilizar se algo sair errado.
Enquanto eles conversavam, eu comecei a me sentir estranha, como se eu estivesse me desmaterializando. Uma força estranha me puxava para baixo e não era a gravidade. Por mais que o meu corpo estivesse no mesmo lugar, eu sentia como se estivesse caindo em queda livre diretamente para o chão. Eu não estava sentindo coisas muito boas ao longo de todo esse tempo, mas esse era, sem dúvida, a pior sensação de todas.
All I need is you
Tudo que eu preciso é você
Come please I'm callin'
Venha, por favor, eu estou chamando
And all I scream for you
E, oh, eu grito por você
Hurry I'm fallin'
Depressa, eu estou caindo
I'm fallin'
Eu estou caindo
I'm fallin'
Eu estou caindo
- ... – eu sussurrei e o seu olhar em resposta foi arrasador. Era como se ele tivesse me perdido, como se não existisse mais volta. Estendi a mão em sua direção e senti levemente o seu contato. Era reconfortante. Sorri com a sensação que seu toque me trouxe e olhei mais uma vez em seus olhos – Por favor, me salve. – Então senti meu corpo pesar e seguir em direção ao solo, completamente vulnerável ao poder daquela força. Durante a queda, eu ainda conseguia observar o olhar assustado de e o complacente de . Por mais que esse fosse seu trabalho, eu sentia que ele não estava completamente satisfeito em me levar.
Say it for me, say it to me
Diga isso para mim, diga isso por mim
And I'll leave this life behind me
E eu deixarei essa vida para trás
Say it if it's worth saving me
Diga se vale a pena me salvar
/’s POV
Eu nunca tinha presenciado uma cena como aquela. Geralmente eu não estou mais ligado aos meus protegidos quando eles são levados para a sala de julgamento. Era perturbador demais. Ver uma pessoa submetida a tal poder sem nem ter chance de reação, é meio desorientador. Olhei para , que encarava um ponto qualquer, esperei que ele falasse alguma coisa, mas ele continuou em silêncio. Talvez isso trouxesse algumas lembranças ruins para ele.
- . – eu disse, fazendo com ele me olhasse.
- Eu tenho trabalho a fazer, . – ele virou as costas.
- Sim, a . – eu respirei fundo – Você precisa me ajudar. – eu me aproximei, pousando a mão em seu ombro.
- Não há nada a ser feito. Se você tivesse que evitar isso, deveria ter sido antes de acontecer.
- Tem que existir uma forma. Qualquer coisa. – ele me encarou – , qualquer coisa.
- Existe uma forma, mas é arriscado demais. – ele disse, medindo as palavras.
- O que pode ser mais arriscado pra ela do que morrer?
- Não é arriscado pra ela, é arriscado pra você. – eu nunca tinha me importado muito com o que poderia acontecer comigo. Era algo supérfluo. Quando se tem a eternidade para viver, você para de se preocupar um pouco com o que pode acontecer.
- Eu não me importo, não posso falhar com ela. – ele respirou fundo e soltou o ar pesadamente.
- Uma vez eu vi um anjo nessa mesma situação. Ele disse que faria qualquer coisa e fez. Ele deu a alma dele pela dela, deu tudo que o que tinha pela vida da protegida. Mas a falha tinha sido dele, então sua ‘doação’ não serviu para nada. Ele perdeu sua condição de anjo e ela morreu. No final das contas não adiantou de nada o sacrifício dele.
- Um anjo deu a alma por um protegido? – isso era difícil de compreender. Um anjo se submeter a tal coisa por um ‘ser menor’, não é comum, não é normal. É necessária uma conexão além da normal, acho que nem mesmo eu, que tenho a como meu afecto, poderia pensar em algo assim. A não ser que... – Você fez isso. Você deu a sua alma pela da Alane. – ele olhou para o chão e sorriu tristemente.
- E não adiantou. Eu pensei que se eu desse minha alma pela dela, nós acabaríamos da forma, seríamos compatíveis, mas não foi isso que aconteceu. Eu não pensei que essa interferência fosse tão prejudicial. Aquele acidente não estava em seu destino, foi minha culpa, minha culpa. Eu cometi tantos erros com ela, que não era digno de sequer pensar em merecê-la. Eu não podia cobiçá-la, desejá-la, muito menos amá-la, mas eu amei. Não posso deixar que isso aconteça de novo, . Não posso sujeitar outro ser humano a isso.
- Mas pode ser diferente comigo, . Eu sou responsável pelo destino da , qualquer interferência, desde que venha de mim, pode ser benigna. Eu tenho que me dar ao trabalho de pelo menos tentar. Se isso não funcionar, eu terei falhado de qualquer forma.
- É por sua conta e risco, . Todos sabem que eu tentei impedir, não podem colocar a culpa em mim.
- Eu aceito todas as consequências dos meus atos. – ele olhou durante alguns segundos, talvez buscando alguma fraqueza em meu olhar ou em minhas palavras.
- Me acompanhe.
Seguimos por um caminho rápido, escuro e estranho. Em poucos segundos estávamos num lugar que se passaria por uma sala normal em qualquer casa. As paredes claras deixavam o ambiente bem iluminado e a única mobília da sala era preta, dando um contraste enorme. sentou-se e me encarou, esperando que eu fizesse alguma coisa.
- Desculpe, mas ninguém chega vivo a esta sala, logo não tem outra poltrona. – ele disse com um olhar de desculpas.
- Não preciso me sentar, preciso saber o que fazer.
- , isso é complicado. Você precisa abrir mão de uma parte de sua alma para dar lugar a dela. A alma humana não tem o mesmo valor de uma alma angelical, então você não terá que dar a sua vida pela dela. Talvez esse tenha sido o meu erro, mas não importa agora. Você precisa querer salvá-la verdadeiramente, só assim a sua alma alimentará o cajado e a vida dela será poupada.
- O que eu preciso dizer?
- Não há nada fixo, só pode dizer o que quiser desde que seja sincero.
- Eu vou tentar. Onde ela está? – perguntei.
- Eu te levo. – ele disse se levantando e com um gesto rápido de uma de suas mãos, eu me vi em outro lugar. estava deitada, ela parecia levitar à minha frente. Me aproximei, olhando em seu rosto. Suas feições estavam relaxadas e seu rosto pálido. Olhei para , buscando um olhar encorajador, mas ele havia sumido. Ótimo, eu estava sozinho sem ter noção do que fazer.
Seja sincero. A voz de ecoava em minha cabeça. Sim, pelo menos ser sincero não era difícil. Receoso, segurei uma de suas mãos com delicadeza.
- Eu não sei o fazer, . Eu já lhe disse isso, mas eu preciso tentar. Eu tenho te protegido há dezesseis anos e não será agora que falharei. Tudo bem, eu falhei algumas vezes, mas consegui consertar meus erros e conseguirei mais uma vez. Custe o que custar e, aparentemente dessa vez, o preço é uma parte de mim. Sinceramente, uma parte mim não fará falta, já que desde o momento em que descobri a influência que você exerce sobre mim, eu tenho sido todo seu. Tento ser o que você precisa e agora serei sua alma, ou parte dela.
Nesse momento senti algo estranho. Respirei fundo e fechei os olhos, assim que uma luz branca muito forte encheu o lugar onde estávamos. Ainda de olhos fechados, senti meu corpo levitar e uma forte dor atingiu minha cabeça. Não pude reprimir um grito de dor, ao sentir algo totalmente novo: Dor; Essa era o nome dessa sensação. Minha cabeça parecia estar em chamas e a cada segundo minha visão ficava cada vez mais turva. Meus joelhos cederam e eu caí aos pés do corpo de . Tentei agarrar-me a alguma coisa, como se isso fizesse a sensação passar ou pelo menos amenizar. Abri os olhos, olhando para minha protegida, que também estava envolta na mesma luz branca, mas eu conseguia ver uma com uma fina linha horizontal sendo inscrita em seu peito, exatamente no centro. Olhei para o meu próprio corpo, vendo a mesma marca aparecer. Tanto a inscrição em sua pele, quando a minha começaram a brilhar intensamente e eu, subitamente, comprimi os meus olhos ao sentir a dor me assolar mais uma vez. Gritei o mais alto que minha garganta suportou. Olhei, paralisado, o momento em que abriu os olhos, alarmada, tentando enxergar alguma coisa. Respirei fundo e a sensação foi gratificante, como se eu não tivesse respirado durante todo esse período. Felizmente estava errado, tudo tinha dado certo dessa vez. estava bem, eu estava bem... ou pelo menos eu parecia bem.
Sétimo
She's not alone and never will be
’s Pov
Escutei um barulho estranho, um som contínuo e irritante. Abri os olhos com dificuldade e tentei focalizar o que estava vendo. Era como se eu não abrisse os olhos por muito tempo. Olhei para o lado e vi os aparelhos, provavelmente de onde vinham os barulhos inconvenientes. Tentei me sentar, mas era praticamente impossível, devido a quantidade de fios que estavam conectados ao meu corpo. Tentei lembrar o que tinha acontecido para que eu fosse parar num hospital depois de tanto tempo, mas as únicas coisas que vinham à minha mente eram flashes confusos e desconexos. A última coisa que eu lembrava é que tinha saído de casa com a Gabbie para encontrar os meninos. Forcei um pouco, o que me resultou numa dor na cabeça, mas continuei. O rosto de Taylor encheu minha mente e pequenos fatos foram voltando lentamente. Sua mão na minha, seus carinhos em meu rosto... Seus lábios nos meus.
- Meu Deus. – eu exclamei, sentando num rompante. Com esse movimento brusco, alguns fios se soltaram e o barulho que seguiu era alto e incômodo. Segundos depois, uma enfermeira entrou apressada no quarto e sua expressão aliviou-se quando me viu sentada.
- Você me assustou. – ela confessou, respirando fundo. Sem saber o que dizer, limitei-me a sorrir timidamente – Vou chamar o doutor . – dizendo isso, ela saiu. Toda aquela pressa me deixou meio tonta, deitei novamente, esperando pelo médico.
- Que bom que acordou. – Peter disse, ao entrar no quarto.
- O que aconteceu?
- Você teve outra crise, mas dessa vez foi diferente, foi... Estranha.
- Como estranha? – perguntei. Ele sentou-se no pé da cama e me encarou por alguns segundos antes de responder.
- Foi como se você tivesse morrido, . Em um minuto nós estávamos te perdendo e no outro você estava melhor. Seus batimentos voltaram ao normal, sua respiração estabilizou. Eu fiquei surpreso, nunca tinha visto uma recuperação tão repentina, mas fiquei aliviado. Estava me sentindo desnecessário. É o meu trabalho e eu não estava conseguindo fazer o possível...
- Peter... – o interrompi. Depois de tantos anos morando na mesma casa, eu me sentia íntima o bastante para chamá-lo pelo primeiro nome – Eu estou aqui, viva. E sei que grande parte disso é por sua causa. Não se sinta mal, por favor. Eu devo minha vida a você. – ele deixou um pequeno sorriso aparecer. Sua timidez não o permitia grandes demonstrações de afeto.
- Obrigada, querida. Vou chamar sua mãe.
- Ela está muito brava? – perguntei, temendo pelo quando eu ouviria.
- Ela não está brava, ela está preocupada, . – ele disfarçou.
- O problema que com ela isso não tem tanta diferença, o senhor sabe. Mas tudo bem, faça-a entrar, estou preparada para receber toda a sua preocupação traduzida em palavras. – ele balançou a cabeça lentamente, antes de sair do quarto. E foi como a minha recuperação, num momento eu estava sozinha num quarto silencioso e no seguinte minha mãe me abraçava, numa mistura de gritos e choro excessivo – Mãe, calma, eu estou bem. – tentei consolá-la, mas no momento em que abri a boca, ela começou a gritar mais ainda. Eu mal conseguia entender o que ela falava, mas era algo como: o que você fez?; você quase me matou!; não faça mais isso!; tá tudo bem? Resolvi deixar que ela se acalmasse, antes de falar mais alguma coisa e tudo recomeçasse.
- Acho que agora passou. – ela disse, com um pequeno sorriso. Sentou-se ao me lado na cama e fez um leve carinho em meu braço – Como você se sente?
- Confusa... – confessei – Eu não sei bem o que aconteceu.
- Do que você lembra?
- De sair com a Gabbie e os meninos, nós chegamos à pizzaria e eu estava conversando com o Taylor, é a última coisa que eu lembro. – vi minha mãe corar levemente, havia algo que ela queria me falar, mas não sabia como – O que foi?
- Eu acho melhor a Gabbie conversar com você. – disse e levantou-se rapidamente – Fique bem, depois eu volto. – eu estava mais confusa do que antes, mas não disse nada. Pouco tempo depois Gabbie entrou e correu logo para me abraçar.
- Você não tem noção de como eu fiquei preocupada, . Nunca mais faça isso na minha frente. – ela disse tentando parecer séria.
- E você acha que eu escolho quando vou passar mal? – perguntei, rindo ironicamente e ela rolou os olhos. Seu celular tocou e ela o pegou, vendo uma nova mensagem.
- Os meninos estão preocupados com você. – ela respondeu, enquanto digitava rapidamente em seu celular.
- Ótimo, era tudo que eu precisava, passar mal na frente deles. Já posso até imaginar o que vão falar de mim na escola.
- Dá pra parar de falar besteira? – Gabbie falou, séria – Eles não fariam brincadeira disso, não depois que viram como você ficou. , parecia que você estava morta. Você estava quase branca de tão pálida, quase não tinha pulsação... O Taylor ficou desesperado. Ele estava aqui até uma hora atrás, mas ele foi em casa, tomar banho, trocar de roupa, essas coisas. – foi aí que eu reparei que ela ainda usava a mesma roupa, será que eu tinha ficado muito tempo desacordada?
- Ele ainda estava aqui? – perguntei, surpresa – Quando tempo eu fiquei inconsciente?
- Umas vinte horas. Meu pai achou melhor te sedar, para que você pudesse se recuperar mais rápido.
- Ele ficou aqui esse tempo todo? – perguntei, sem conseguir conter o choque em minha voz, ela deu um pequeno sorriso antes de responder.
- Parece que você realmente o impressionou.
- Claro, eu devo cair muito bem. – ironizei.
- Estava falando sobre suas habilidades em, você sabe... Beijar.
- Pelo amor de Deus, Gab. Meus lábios mal tocaram os dele. – ela ria tão alto, que chamava a atenção das pessoas que passavam no corredor – E para de fazer escândalo, sua louca.
- Parei. – ela disse, respirando fundo, tentando se acalmar.
- Então, é verdade que ele ficou impressionado? – perguntei, antes de esconder meu rosto no travesseiro e ouvir novamente a risada dela – Eu fiquei curiosa, ué.
- Pra ser sincera, eu não perguntei e ele não falou nada a respeito. Também não tinha como saber, , vocês se beijaram por, sei lá, cinco segundos?
- Verdade. – suspirei, sabendo que talvez eu nunca mais teria outra chance de ter alguma coisa com o Taylor. Não que eu fosse apaixonada por ele ou algo do tipo, mas você não pode, simplesmente, ignorar ou recusar alguém como ele. Ainda mais eu que não sou um exemplo de rainha da beleza. Nem normal eu sou, porque tenho essa doença que impede que eu faça coisas que as pessoas da minha idade fazem. É, eu sou muito sortuda...
- Ele tá perguntando se pode vir até aqui, se você quer vê-lo. – Gabbie disse, tirando-me de meus pensamentos.
- Oi? – perguntei, querendo saber se eu tinha mesmo ouvido o que achava.
- O Taylor quer vir aqui te ver. Entendeu agora? – ela falou, quase sem paciência.
- Mas, Gab, olha como eu estou. – apontei para o meu rosto.
- , da última vez que ele te viu, você estava mil vezes pior do que isso. E além do mais, só de falar nele, seu rosto ficou até mais rosado.
- Ai, eu não sei. Tô com medo.
- Eu acho que ele não é corajoso o bastante para tentar te beijar de novo, não depois do que aconteceu.
- Infelizmente... – eu murmurei.
- O que?
- Nada. – respondi sem jeito.
- Daqui a pouco ele estará aqui. – ela disse tranquilamente, porém viu algo em meu olhar que a preocupou – Preciso pedir que o meu pai te dê algum calmante ou você consegue se controlar?
- Eu estou bem, Gabbie. – disse com firmeza, tentando fazer com que ela acreditasse e eu também.
- Posso tentar fazer alguma coisa com o seu cabelo, sei lá.
- Você lembra o que aconteceu quando você me arrumou para encontrar o Taylor, não lembra?
- Claro que eu lembro, mas pense pelo lado positivo, se acontecer alguma coisa nós já estamos no hospital. – ela disse, antes de pegar uma escova de cabelo em sua bolsa.
Eu sabia que seria vergonhoso, tinham vários equipamentos acompanhando as batidas do meu coração e se o Taylor falasse ou fizesse qualquer coisa que fizesse aumentar os batimentos, ele saberia na hora. Então coloquei na cabeça que eu controlaria meu coração. Não sabia como, mas eu arrumaria um jeito. Comecei um pequeno treino, tentei controlar e diminuir minha frequência cardíaca, que aumentou só de pensar no que estava por vir, com a minha respiração. Enquanto inspirava, relaxei o máximo que consegui antes de expirar e, após algumas repetições, começou a fazer efeito. Mentalizei que daria certo e consegui manter meu coração controlado, mesmo pensando e lembrando do rosto do Taylor e de tudo que passamos no nosso curto e intenso espaço de tempo juntos.
- ? – Gabbie disse, colocando a cabeça para dentro do quarto e me assustando.
- Ai, Gab, não faz isso. – falei, antes de começar a rir.
- Desculpe. – ela pediu, rindo junto comigo – Tenho uma visita pra você... – ela disse e eu pude senti meu coração acelerar. Pelo visto ela também percebeu, pelo aumento súbito nos bips provenientes dos aparelhos – Tá tudo bem? – Retomei o meu exercício, conseguindo recuperar o controle pouco tempo depois.
- Tudo sob controle. – eu disse, respirando fundo.
- Tem certeza? – ela perguntou, preocupada.
- Absoluta. – eu disse, dando um sorriso em seguida. Ela me olhou por alguns segundos, antes de abrir um pouco mais a porta e dar passagem para seu acompanhante passar. Ele estava mais bonito do que da última vez, se isso fosse possível, é claro. Vestia uma calça jeans de lavagem escura, uma blusa branca e um casaco cinza por cima. Seus olhos escuros pousavam sobre mim e me deixavam um pouco constrangida, eu realmente não sabia o que fazer. Desviei meu olhar, concentrando-me na respiração, não podia passar vergonha na frente dele mais uma vez. Gabbie revezava seu olhar entre nós dois, como se avaliasse a opção de nos deixar a sós. Num momento ela deu de ombros e seguiu em direção a porta, mas antes de sair ela disse:
- Comportem-se. Vou buscar a e volto mais tarde.
Taylor riu, deixando o ambiente menos tenso, talvez. Ele se aproximou a passos incertos e se apoiou perto dos pés da cama. Ficou alguns segundos olhando o quarto, a quantidade de aparelhos, depois voltou sua atenção e olhar apenas para mim. Eu me senti meio constrangida, mas não era um sentimento de todo ruim, sentir que há alguém te olhando pode ser bom, você pode até se deslumbrar um pouco, como foi o meu caso. E para a minha felicidade, todo o meu treinamento tinha dado frutos, até aquele momento todos os bips estavam controlados, assim como meus batimentos cardíacos.
- Então... – ele disse, meio sem jeito, depois de algum tempo – Como você tá?
- Eu acho que poderia estar melhor. – respondi, olhando para os aparelhos e para a pequena bolsa de soro que pendia presa ao teto, que seguia diretamente para o meu braço terminando numa agulha. Eu odeio agulhas. Dei um sorriso em seguida, temendo que ele pensasse que eu estava o culpando por alguma coisa. Ninguém sabe como é a cabeça das pessoas, não é mesmo?
- Será que devo me desculpar? – ele cruzou os braços, esperando pela resposta.
- Claro que não, Taylor. Foi uma fatalidade, poderia ter acontecido por qualquer outra coisa. Se alguém tem culpa, esse alguém é o meu coração... Ele é fraco.
- Quer dizer que eu realmente mexo com ele. – ele disse, numa tentativa nada falha de ser sexy. Ele realmente não quer me ver bem. Eu respirei fundo, conseguindo, felizmente, me controlar.
- Pra ser sincera... Sim, você realmente mexe com ele e eu estou usando todo o meu poder de controle nesse exato momento. Não quero que nenhum desses aparelhos me faça passar mais vergonha. Chega de vexames na sua frente.
- Você não precisa se preocupar com essas coisas, . – ele disse. Seria muito estranho dizer que até o meu nome soava sexy na voz dele. Pelo amor de Deus, isso não é normal.
- Como não, Taylor? Duvido que alguma garota desmaiou depois de te beijar.
- Realmente, o poder do meu beijo me assustou um pouco ontem. – ele brincou e eu rolei os olhos.
- Então você levou tudo isso numa boa?
- Claro que não. Te ver daquele jeito foi horrível, eu me senti um inútil. Preciso que você nunca mais faça isso comigo. – precisei de um minuto para absorver o que ele tinha falado. Quer dizer que ele ainda me quer por perto? Será que é tipo, muito perto?
- Mas pra que isso possa ser possível, nós temos que, sabe, ficar juntos. Digo, passar algum tempo, tipo a Gabbie e o Andrew. Quer dizer, não como eles... – eu desisti. Apoiei minha cabeça nas mãos, escondendo meu rosto, provavelmente, vermelho como um tomate.
- ... – ele disse, se aproximando e fazendo com que olhasse em seus olhos. Seu toque em meu rosto foi totalmente inesperado e os aparelhos começaram a emitir sons mais altos e alarmados. Ele olhou para as máquinas e em seguida para mim, como se quisesse saber se estava tudo bem. Eu fiz que sim com a cabeça, esperando que ele continuasse. O estrago já estava feito mesmo... – Eu fiquei muito feliz quando a Gabbie disse que você tinha aceitado sair com a gente. Eu tenho esperado isso há tanto tempo, que eu não me importo de esperar mais. Eu sei e vi com os meus próprios olhos que com você as coisas são diferentes. Eu estou disposto a esperar, isso é, se você quiser, é claro...
- Taylor, eu não sei. Não quero que você perca seu tempo comigo. – ele colocou um dedo em meus lábios, me impedindo de continuar. Preciso dizer que os aparelhos quase foram à loucura? Ele os ignorou e continuou:
- Nada com você pode ser perda de tempo. – ele olhou fundo em meus olhos e depois revezou entre eles e minha boca, receoso de se aproximar – Devo?
- Acho que não. – respondi, aparentemente frustrada comigo mesma. Ele limitou-se a sorrir. Deu um beijo em minha testa e em seguida em uma de minhas mãos.
- Tenho certeza que um dia toda essa espera valerá à pena. – ele disse, quando ouvimos algumas batidas na porta.
- Eu acho que eles vieram ver se tem algo errado, os equipamentos ficaram loucos de hora para a outra.
- Eu vou embora, antes que me impeçam de te visitar novamente. – ele deu mais um beijo em minha testa e outro de seus belos sorriso. Abriu a porta, dando passagem para a enfermeira curiosa, Gabbie e a . Eu me joguei com vontade na cama, com um enorme sorriso nos lábios.
- Descobri o motivo da instabilidade dos seus batimentos, mocinha. – a enfermeira disse, reprimindo um sorriso.
- É um belo motivo. – completou Gabbie. deu uma leva cotovelada na outra, apontando para a enfermeira em seguida. Esta olhou os aparelhos, anotou alguma coisa e depois saiu apressada do quarto.
- Um belo motivo que disse que iria esperar até que eu estivesse bem, porque nada comigo pode ser perda de tempo. – falei, assim que a porta se fechou. As duas deram gritinhos estridentes, antes de correrem para sentarem aos pés da cama, esperando que eu contasse tudo. Contei toda a história entre gritos e outros diversos tipos de demonstrações de animação. Elas ficaram verdadeiramente felizes pelo o que aconteceu, mas assim como eu, elas também ficaram preocupadas de acontecer tudo novamente. Mas eu pedi que não pensássemos nisso naquele momento, para que pudéssemos passar um tempo como amigas. Um tempo apenas como amigas que contam tudo uma para as outras. Nesse meio tempo, senti o olhar delas se cruzarem e vi que estavam escondendo alguma coisa de mim.
- É que, eu fiquei com o ontem. Mas não era pra ninguém saber, a Gabbie que chegou na hora que não devia. – confessou.
- Então você é tipo a cunhada dela. – eu disse, apontando para a Gabbie.
- Ai, nada disso. Não apressem as coisas, por favor. – disse, enquanto cobria o rosto com ambas as mãos. E assim continuamos a conversar como numa noite comum de amigas. Exceto pelo fato que era num hospital. Talvez isso eliminasse o comum como adjetivo.
/ ’s POV
Eu me sentia acabado. Como se todos os músculos do meu corpo tivessem sido arrancados e recolocados no lugar. Eu sabia que deveria estar junto da , deveria saber se ela estava realmente bem, se tudo tinha dado certo, mas eu não conseguia levantar meu corpo do chão. estava ao meu lado, mais como um companheiro, um amigo, do que qualquer coisa. Acho que fiz mal ao julgá-lo precipitadamente, afinal, ele vem me ajudado há um tempo e tudo tem dado certo a partir do intermédio dele. Talvez eu devesse lhe ajudar de alguma forma, tentar falar com nossos superiores sobre reverter o processo que fez com que ele perdesse suas asas e com isso o direito de ser um protetor. Apenas pensar fez como que eu me sentisse melhor, mas foi só lembrar da dor, que a mesma me assolou novamente, fazendo com que eu me retorcesse no chão.
- Eu sei o quanto isso é doloroso, mas eu acho que valeu à pena dessa vez, deu certo. – disse, quase que me reconfortando.
- Mas você não queria que eu fizesse. Isso tudo era pra evitar que eu me tornasse algo como você? – me arrependi no mesmo momento em que disse a última palavra. Ele tinha sido tão bom comigo nos últimos tempos e não merecia algo assim.
- Talvez. As pessoas não merecem terminar como eu, . Ninguém deveria viver para sentir a dor da perda de uma pessoa especial. Seja ela um amor ou um amigo. Mas o processo deu certo com você, isso é o que importa.
- E a ? – perguntei.
- Ela está bem, está se recuperando. Quase não sinto a necessidade de trazê-la, pode ficar tranquilo.
- Ela vai lembrar de alguma coisa que presenciou aqui?
- Não, ela teve suas memórias devidamente apagadas, é muito difícil que lembre algo substancial. E se ela lembrar, provavelmente pensará que é algum vestígio de um sonho ou algo do tipo. Os humanos não são bons em aceitar que exista algo superior a eles. – aquilo me acalmou, saber que eu poderia continuar visitando, convivendo com ela, mesmo que ela pensa que eu sou um amigo imaginário, era tranquilizador. De alguma forma eu me manteria na vida dela e era isso que importava. Foi isso que sempre importou no fim das contas.
- Talvez seja hora de voltar às minhas tarefas. Ela pode estar precisando de mim... – eu disse, tentando me levantar.
- Tudo bem, depois conversaremos sobre os efeitos colaterais do seu ato.
- Efeitos colaterais? – perguntei, começando a me incomodar com o tom de sua voz. geralmente utilizava de um tom frio e sombrio, mas o que ele usava agora era diferente, como se soubesse o que me esperava, mas não quisesse falar. Na realidade não havia muito a ser feito, eu havia aceitado e me responsabilizado pelas consequências dos meus atos e não estava preocupado com o que poderia acontecer. Eu sou um anjo e fiz isso pelo bem de minha protegida, que de tão ruim aconteceria comigo?
- Vá, . Nos encontraremos quando os efeitos começarem a aparecer. Até lá, tente não fazer mais nada de errado, por favor.
- Mas que efeitos, ? – perguntei, porém sem sucesso. Ele tinha desaparecido da mesma forma de sempre. Fechei os olhos, voltando para perto de minha protegida.
A sensação era como de voltar para casa depois de muito tempo longe. Era como se eu precisasse ver o seu rosto, olhar em seus olhos, para ter certeza que eu estava no lugar certo. No lugar o qual eu realmente pertencia. Meu lugar era ao lado dela e disso ninguém poderia discordar. Mas para ser sincero, voltar para um hospital era como ver que todo o meu esforço fora em vão. Aqueles sons que os aparelhos produziam, era como uma música anunciando minha falha, mas eu sabia que ela estava bem e era por minha causa. Isso ninguém tiraria de mim. Olhei para ela, buscando o seu brilho característico, e encontrei alguém ao seu lado. O rapaz estava com um dos dedos sobre os lábios dela, enquanto dizia alguma coisa. Tentei prestar atenção e compreender o que ele falava. Nada com você pode ser perda de tempo. E então ele revezava olhares entre os olhos e os lábios dela, como se quisesse um consentimento sobre o que viria a seguir. Devo? “Claro que não, seu idiota!” eu quis gritar, mas uma voz vinda do além não faria bem à e eu não queria causar mais danos. Concentrei-me, para voltar no tempo e ver onde ele tinha entrado na vida dela, para que eu pudesse entender o que ele fazia ali. Não precisei de muito esforço. Ele era o mesmo cara que a beijou e causou tudo aquilo. Onde ela estava com a cabeça de deixar que ele fizesse tudo novamente? Acho que não. Agradeci a Deus. Talvez ela estivesse voltando a ter consciência de seus atos. Tenho certeza que um dia toda essa espera valerá a pena. Tentei entender o efeito que essa frase teve sobre mim, mas não consegui. Era uma sensação estranha, diferente. Mas não era importante no momento. Agora, eu queria mesmo que esse rapaz fosse embora e deixasse se recuperar bem, antes que ele causasse mais algum problema e nem eu pudesse resolver. Eu vou embora, antes que me impeçam de te visitar novamente. Era como se ele ouvisse meus pensamentos e isso era bom, ele estava indo embora. Mas antes ele se curvou e deixou que seus lábios encontrassem a pele macia da testa de . Ela fechou os olhos, aproveitando o máximo daquela situação. Naquele momento eu vi que, por mais que eu salvasse a vida dela, eu nunca poderia fazê-la se sentir tão bem como ele podia e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.
Oitavo
I know you're somewhere close behind me
Música do capítulo. Coloque-a para tocar quando a letra aparecer.
’s POV
Um mês depois
Eu fui liberada do hospital semanas atrás, sob apenas uma recomendação: eu estaria sendo observada diariamente. Ninguém deixaria que eu fizesse algo inapropriado. Peter deixou isso bem claro e eu acho que subentendido estava a seguinte mensagem: “Nada de se envolver com aquele rapaz novamente, mocinha”. Era isso ou ele tinha esquecido que eu sabia muito bem o que eu não podia fazer, já que isso envolvia quase tudo que era legal. É claro que eu aceitei sua recomendação, mas aceitar é completamente diferente de obedecer e Gab me ajudava nessa parte. Ela sempre inventava que faríamos alguma coisa, para que eu pudesse encontrar com o Taylor. No começo ela também aproveitava para passar mais tempo com o Andrew, mas de repente resolveu terminar tudo com ele. Confesso que fiquei surpresa. As coisas pareciam ir tão bem... Talvez fosse isso que a alarmava, ela estava com medo de ter um relacionamento de verdade. Depois eu conversaria com ela sobre isso, porque, no momento, algo prendia mais minha atenção.
Nas últimas semanas, o que eu tinha com o Taylor tinha se desenvolvido e passamos a ter mais contato físico. O próximo passo era o meu aguardado e mais perigoso. Não, não é o que você pensa. Eu queria apenas beijá-lo, mas beijá-lo de verdade. E eu achava que estava pronta pra isso. Não sei por que, mas parecia que depois da última crise eu ficara mais forte, mais resistente. Pelo menos eu me sentia assim. Essa confiança, esse estado de espírito que me movia e, é claro, a presença do Taylor na minha vida. Eu nunca tinha sentido nada assim por alguém. Talvez ele seja o meu tão esperado primeiro amor. Ai, isso é coisa de filme...
Hoje era a festa de aniversário da Gabbie e o tão aguardado dia. Controlei a ansiedade que me dominava e comecei a me arrumar. Olhei temerosa para o vestido que me aguardava em cima da cama; outro presente da minha linda amiga. Respirei fundo, passando o tecido leve pelo meu corpo e deixando com que ele caísse suavemente. Seu grande e quase provocativo decote deixava parte do meu colo à mostra, mas não de forma vulgar.
Aproximei-me do espelho, notando um marca diferente entre meus seios. Era uma pequena linha na vertical, tão pequena que eu não tinha reparado até aquele momento. Toquei-a lentamente, vendo um brilho estranho e diferente passar por ela, me levando para um local desconhecido.
Num instante eu estava em meu pequeno quarto e no seguinte eu estava lugar que nunca tinha visto na vida. Sua claridade quase me cegava e sua imensidão me dava uma profunda sensação de pequenez. Era tudo tão irreal que eu tive que levantar a mão e tentar tocar em algo, porém sem sucesso. Parecia que eu estava sonhando acordada, mas a sensação de realidade era tamanha que quase chegava a ser palpável.
De repente, senti uma pontada no peito. Curvei meu corpo, olhando para frente. Um misto de imagens me confundiu, mas eu conseguia me ver no meio delas. Eu conversava com um rapaz estranho, mas era impossível tentar focalizar e tentar desvendar quem era, pois nada parava no lugar. Eu me sentia tonta e cansada, como se estar ali exigisse muito esforço e meu corpo não estava preparado para tanto. Olhei para o lado e vi a única coisa que parecia perfeitamente sintonizada. Como se o de seus olhos fosse a minha conexão com o mundo, como se nada mais importasse naquele momento, naquele lugar. Ele se aproximava a passos lentos, como se tudo girasse ao seu redor. Percebi que era dele que toda aquela luz era emanada. Ele era o sol daquele lugar. era o meu sol. Quando estava perto o suficiente, ele olhou fundo em meus olhos e uma série de coisas surgiu em minha mente. Tudo estava relacionado a nós dois e tudo que vivemos nos últimos anos. Ele era mais que um simples amigo imaginário; ele sempre fora mais do que isso.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios e ele acariciou lentamente o meu rosto. Por onde sua pele roçava a minha, eu sentia um arrepio inexplicável, algo que nunca havia sentido antes. Retribuí seu sorriso, enquanto encostava minha mão na dele. O toque de nossos corpos gerou novas sensações e parecia que mais luzes surgiam no ambiente. A claridade aumentava de uma forma que a cada segundo era mais difícil manter meus olhos abertos. Quando se tornou insuportável, fechei fortemente os mesmos e então sua fala entoou pelo ambiente.
- Consegue ver agora? – sua voz doce e aveludada era tão sedutora, que fez com que eu abrisse os olhos, vendo outra cena. Meu corpo pairava flutuante no ar, enquanto aparecia ajoelhado ao meu lado. Sua blusa entreaberta deixa seu peito levemente à mostra e nele brilhava uma marca como a minha. Num instante gritou e o foi o som mais apavorante e assombroso que eu ouvi.
Olhei para mim mesma e minha nova cicatriz brilhava fortemente. Ele encostou sua mão na minha e uma pequena linha se desenhou, uma pequena e disforme marca, assim como a do meu peito.
- ? – ouvi uma voz me chamando, distante.
- ? – chamei, mas a cena desaparecia lentamente.
- ? – a voz parecia mais próxima, quase me arrastando de volta à Terra. Eu não queria sair de perto do naquele momento, mas parecia impossível. Olhei mais uma vez para seu rosto e o de seus olhos foi a última coisa que vi em meu devaneio. – ? – chamou mais uma vez.
- Oi. – respondi, ainda fora de órbita. – Eu estava distraída.
- Percebi. – ele disse, sentando em sua cama. – Você tem um minuto para conversar com seu irmão?
- Tenho até dois. – respondi, acomodando-me ao seu lado.
- Eu me sinto um idiota por falar disso. Você é minha irmã mais nova...
- Por que você não fala de uma vez e deixa que eu vejo se é idiotice ou não? – eu disse. Ele me olhou por alguns segundos e respirou fundo antes de responder.
- Eu estou meio apaixonado.
- Isso é bom, não é? Por que isso seria idiotice?
- Espere até ouvir por quem eu estou apaixonado. – ele disse, rindo nervosamente.
- Então fale de uma vez, eu estou curiosa.
- Eu estou apaixonado pela Gabbie. – confessou sem pensar, deixando sua cabeça cair em suas mãos.
- Pela Gabbie? – gritei e ele me olhou feio. Cobri minha boca com as mãos, pedindo desculpas – Pela Gabbie? Desde quando? – perguntei, depois de me acalmar e controlar minha voz.
- Eu acho que desde sempre, só que agora está diferente. Eu não consigo mais aguentar, eu preciso contar a ela, mas eu não posso...
- E por que não? – questionei, confusa. Nunca tinha imaginado isso, mas foi apenas ele falar, que eu passei a imaginar diversas coisas. Afinal, seria perfeito ter a Gabbie como cunhada.
- Por que não? – ele repetiu minha pergunta. – Você acha isso certo? , eu não quero ser dispensado, mas também não quero mais guardar isso só pra mim. Eu realmente não sei o que fazer.
- Eu sei o que você vai fazer. – eu disse, fazendo com que ele me olhasse nos olhos. – Você vai falar isso pra ela hoje, entendeu? Não vai desperdiçar mais nenhum dia, porque não vale à pena. Só não digo para você fazer isso agora, porque ela deve estar se arrumando, mas eu darei um jeito para que vocês fiquem sozinhos para você contar tudo a ela. O máximo que pode acontecer é ela dizer não.
- É, como se isso fosse bom... – ele murmurou.
- Pode não ser bom, mas você não ficará com a sensação do “como poderia ser”. , a vida é curta demais para apenas pensar e não fazer.
- Quando você ficou esperta pra essas coisas desse jeito? – ele perguntou com um sorriso. Eu ri, tentando ignorar seu questionamento, porque o que estava em pauta era a sua vida amorosa e não a minha. – Eu sei do Taylor. Digo, eu sei que você tem se encontrado com ele. – ele confessou, olhando para frente.
- E você vai contar para a mamãe?
- Claro que não, . – ele me encarou, quase ofendido – Eu sempre achei que você deveria levar uma vida normal e ter um namorado faz parte dessa normalidade. Eu peço que você evite acidentes como da última vez e espero que ele seja um bom garoto, senão ele terá que se resolver comigo. – nós sorrimos juntos – Você sabe que pode contar comigo para essas coisas, não é? – perguntou e eu afirmei com a cabeça. Ele respirou fundo, levantando-se. – Vou deixar você terminar de se arrumar. – ele deu um beijo em minha testa e saiu do quarto.
- Gabbie? – eu disse, enquanto batia em sua porta.
- Entra. – ela gritou e foi isso que eu fiz, encontrando seu quarto de cabeça para baixo.
- O que aconteceu aqui? – perguntei, tentando arrumar um espaço para me sentar em sua cama.
- Eu estava tentando encontrar algo decente para vestir. – ela disse, surgindo do banheiro, trajando seu poderoso vestido vermelho.
- E vejo que não encontrou algo decente mesmo, não é? Olhe o tamanho desse vestido. – censurei.
- Olhe o seu decote, . Fique quieta. – ela replicou, voltando sua atenção ao seu cabelo.
- Dezenove anos, escola acabando. – desconversei – É, Gab, você está crescendo...
- Eu sei, mas daqui a um mês é o seu aniversário, então não fale muito, você também ficará mais velha. – ela respirou fundo, virando repentinamente. – Não quero ir pra faculdade, não conheço ninguém lá. Eu não terei mais vocês comigo... Ficarei sozinha.
- Tem seu irmão, o meu irmão... Você não vai ficar sozinha.
- Eu sei, mas é estranho. – ela disse, olhando-se mais uma vez no espelho.
- Eu não estou aqui pra falar disso. Na verdade, eu queria te contar uma coisa que aconteceu comigo. – eu disse, sem saber muito bem como começar.
- O que foi agora? – ela perguntou, quase revirando os olhos.
- Eu acho que tive uma visão... – respondi, incerta.
- Como assim uma visão? – ela disse, empurrando algumas peças de roupa no chão e sentando-se ao meu lado.
- Eu nunca tinha reparado nessa marca aqui. – apontei para o sinal entre meus seios – Estava colocando o vestido quase vi e quando encostei, pareceu que eu fui transportada para outra dimensão ou algo do tipo. – ela reprimiu um sorriso. – Gab, é sério. Foi muito real, eu estava sentindo as coisas...
- Que coisas?
- O estava lá, ele fez um carinho no meu rosto, eu segurei sua mão. Ele era de verdade, Gabbie. – eu disse, querendo convencer a minha mesma também.
- , me escute. Não venha enfiar esse seu amigo imaginário na sua vida de novo. Tanto tempo que você não fala dele, por que isso agora? Você tem um garoto de carne e osso louco por você. Não coloque tudo a perder por nada.
- O não é nada, Gab. Você simplesmente não entende, não viu o que eu vi, não sentiu o que eu senti. Ele... – eu parei de falar, encarando a parede, sem saber se deveria continuar ou não.
- Ele o que, ?
- Ele tinha uma marca como minha. Eu me deitava como se estivesse flutuando e ele estava ajoelhado ao meu lado. Então ele gritou... – eu respirei fundo, sentindo um arrepio forte passar pelo meu corpo. – Foi o som mais apavorante que eu já ouvi na minha vida.
- Foi um sonho ou a lembrança de um. É a única explicação possível. – ela disse, tentando encerrar o assunto.
- E isso não foi algo possível de explicações? Existem coisas assim. – ponderei, mas ela não parecia se convencer.
- Para quem acredita, sim. Mas eu não acredito, . Desculpe. – ela disse, enquanto eu encarava a marca em minha mão.
- Quem sabe você esteja certa. – eu respirei fundo, voltando a olhar em sua direção. – Talvez eu tenha que voltar minha atenção para o Taylor, já que ele está aqui de verdade. – dei de ombros.
- Eu estou certa. – ela afirmou. Eu levantei, seguindo para a porta.
- Te vejo lá embaixo. – disse, fechando a porta atrás de mim. Encarei mais uma vez a linha disforme em minha mão. – Não foi um sonho – murmurei para mim mesma – Não foi.
A música saía bem alta das caixas de som. A batida animava todas as pessoas que estavam espalhadas pela grande sala da casa dos . Não tinha muitos enfeites, a decoração era basicamente formada por luzes que saíam de todos os lugares possíveis. Os móveis foram retirados do ambiente para dar mais espaço para a bagunça organizada – pelo menos era assim que a festa da Gabbie era chamada pelo seu pai. Ele e minha mãe estavam escondidos na cozinha, tentando não passar pela sala, para evitar situações desconfortáveis e poupar um pouco seus ouvidos também.
A festa já rolava há um tempo e eu ainda não havia encontrado quem eu realmente queria ver. Taylor não tinha aparecido até aquela hora e eu já estava começando a me preocupar. Levar um bolo não estava nos meus planos. O ocorrido com o ainda não tinha saído da minha cabeça, então eu precisava me distrair, esquecer um pouco, e contava com o Taylor para me ajudar com isso.
Voltei para perto da cozinha, onde eu tinha uma boa visão de todo o ambiente. A aniversariante estava no meio de um grupo de amigas, dançando animadamente a música que rolava na festa. Num canto afastado, observava a cena, admirando sua amada. Ao seu lado estavam e , os novos namorados da casa. Foi uma surpresa altamente agradável esse namoro, era ótimo ver dois amigos juntos.
- Olá, casal. – eu disse, sorrindo.
- Oi, . – me abraçou. – Como você tá? – ela disse, mas eu sabia bem qual era a pergunta que estava implícita.
- Estou ótima. – respondi. rolou os olhos e meu irmão fez um som estranho – Qual é o problema com vocês dois?
- A gente sabe muito bem o motivo da sua animação e por que você está tão bem... – disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Eu te disse que sabia e, se eu sei, o também sabe. – completou.
- Alguém já disse que vocês dois parecem duas menininhas? Meu Deus, vocês contam tudo um para o outro. – eu falei, fazendo uma careta.
- Obrigada, ! – disse, levantando as mãos para o alto. – Pensei que fosse só eu que pensasse isso.
- Será que ele sabe tudo mesmo, ? – perguntei, levantando uma sobrancelha.
- Não, ele não sabe de tudo. – ele respondeu sério, me olhando bem feio em seguida.
- O que é que eu não sei? – perguntou.
- Calma. Hoje isso será resolvido e então todos poderão saber. – eu disse, olhando diretamente para o meu irmão.
- ... – ele começou, mas eu interrompi.
- Não comece, . Espere a minha deixa e faça a sua parte. – falei, procurando meu alvo. – Me encontre em cinco minutos perto da piscina e não discuta.
Avistei Gabbie perto da cozinha, conversando com algumas meninas que eram da sua turma da escola. Fiz um sinal para ela, que rapidamente veio ao meu encontro. Ela sorria educadamente para as pessoas por quem passava.
- Diga, meu bem. – ela disse, toda sorridente.
- Preciso que você confie em mim.
- O que foi? É alguma coisa com o seu amigo imaginário de novo? – ela perguntou, quase sem paciência.
- Não tem nada a ver comigo, Gab. Dessa vez é com você. – eu disse e ela ficou séria. – Alguém quer te ver.
- Ah! Não quero ver o Andrew. Eu terminei justamente por não achar justo ficar com ele por ficar. Eu não gosto dele dessa forma, . – ela estava praticamente se desculpando.
- Não é o Andrew.
- Então quem é? – perguntou, curiosa.
- Confie em mim, por favor. – eu disse, estendendo a mão para que ela segurasse. Gabbie me encarou por alguns segundos, pegando minha mão em seguida.
- Espero que eu não me arrependa. – ela murmurou.
- Você vai me agradecer eternamente por isso. – respondi, seguindo com ela para o lado de fora. Contornamos a piscina e eu avistei meu irmão perto do jardim, onde ninguém conseguiria ver de dentro da casa.
- O que estamos fazendo aqui? – ela perguntou, sem ver o .
- Está entregue e lembre-se: escute tudo o que ele tem a dizer, por favor. – dei um beijo em seu rosto antes de continuar. – Ela é toda sua, . – vi uma expressão surpresa tomar conta de seu rosto enquanto eu me afastava.
Sabia que não era correto ficar perto o bastante para ouvir, mas ficar longe o suficiente não era tão mau assim, não é? Fiquei o mais distante o possível, observando apenas as reações de ambos. estava completamente sem jeito e Gabbie mais ainda. Ele falou por um longo período, enquanto ela apenas escutava, porém seus olhos nunca deixaram os dele e isso fez com que tudo fosse realmente intenso. Depois de alguns minutos de conversa, Gabbie jogou seus braços ao redor do pescoço do meu irmão, selando seus lábios com desejo. A vontade com que eles se beijavam fez com que eu me sentisse bem comigo mesma, com a sensação de dever cumprido. Voltei para a festa com um grande sorriso no rosto.
Caminhei lentamente, me desviando dos desavisados que passavam pelo meu caminho, até que senti alguém me segurar e me levar para um lugar mais calmo. Seguimos para o jardim da frente, onde nos sentamos num dos bancos. Era possível ver que ele estava sorrindo, mesmo com tudo escuro, que fazia com que eu ficasse ainda mais encantada. Ele ficou de frente para mim, puxando-me para que eu apoiasse meu corpo no seu.
Lying here with you so close to me
Ficar aqui com você tão perto de mim
It's hard to fight these feelings when it feels so hard to breathe
É difícil lutar contra esses sentimentos quando parece tão difícil de respirar
Caught up in this moment, caught up in your smile
Preso neste momento, preso em seu sorriso
Minha cabeça parecia que estava girando. Eu não sabia o que falar e muito menos como agir, tudo isso era realmente novo para mim. Esperava que ele dissesse algo, tomasse a frente da situação e me guiasse, mas ele parecia tão nervoso quanto eu. Talvez fosse pelo o que já aconteceu, o medo de tudo se repetir o dominava e falava mais alto que os seus desejos. Porque ele deveria desejar isso tanto quanto eu, afinal ele tinha esperado todo esse tempo.
- E então, como você está? – Taylor perguntou, quebrando o longo silêncio que se instalara.
- Muito bem e você?
- Melhor agora. – ele respondeu, reprimindo um sorriso. – Você está linda hoje, bem mais que o normal.
- Não exagera, Taylor. – disse, olhando para o outro lado, tentando esconder meu rosto, provavelmente, vermelho.
- Eu não estou exagerando nenhum pouquinho. – disse, colocando a mão em meu queixo, fazendo com que eu o olhasse. – Você deveria ter noção do quanto é bonita.
- Eu não me sinto muito à vontade com esse assunto. – confessei.
- Você não é boa com elogios?
- Nenhum pouco. – ri, completamente sem jeito.
- Então vamos mudar de assunto. – ele disse, descontraído. – E o coração? – quando ele citou, o mesmo começou a bater mais forte, mas eu não me sentia mal. Muito pelo contrário, eu me sentia bem. Muito bem, por sinal. Estava animada, como se tivesse uma dose extra de adrenalina correndo em minhas veias.
I know that if we give this a little time
Eu sei que se dermos um tempo
It'll only bring us closer to the love we wanna find
Isso só vai nos levar perto do amor que queremos encontrar
It's never felt so real. No, it's never felt so right
Nunca me senti tão real. Não, nunca me senti tão bem
- Ele não poderia estar melhor. – confessei, pegando sua mão e colocando-a sobre o meu coraçãp. – Ele está batendo forte desse jeito por você, mas eu não me sinto mal, na verdade, eu me sinto muito bem.
- , eu não quero causar nada daquilo de novo. Talvez a gente esteja apressando as coisas... – ele começou, mas eu o interrompi, colocando um dedo sobre seus lábios.
- Não estrague isso. – eu disse.
Olhei em seus olhos, que, à meia luz, brilhavam de uma forma que pareciam duas pedras ônix de tão brilhantes que estavam. Contornei a forma de seus lábios com meus dedos, enquanto ele se aproximava mais, prendendo meu corpo fortemente junto ao seu. Ele roçou seu nariz levemente no meu, deixando com que sua respiração batesse em meu rosto. Até aquele instante, eu não me sentia mal, eu apenas queria que ele se aproximasse mais ainda de mim. Eu queria acabar com aquela distância de uma vez por todas.
Mas antes que eu pudesse fazer, ele fez. Seus lábios se moldaram perfeitamente aos meus, exatamente da forma que eu imaginava. Uma de suas mãos pousava na base da minha coluna, enquanto a outra repousava em minha nuca. Aumentando a intensidade e os movimentos, ele apertou seus braços ao meu redor, porém ainda me segurando como se eu fosse algo extremamente valioso. Eu já estava ofegante, mas parar não passava pela minha mente no momento. Queria fazer com que esse momento fosse eterno, pois, pela primeira vez, eu sentia como se estivesse realmente vivendo e vi o quanto eu havia desperdiçado durante todo esse tempo.
Just a kiss on your lips in the moonlight, just a touch of the fire burning so bright.
Apenas um beijo em seus lábios ao luar, apenas um toque de fogo tão brilhantes
No, I don't wanna mess this thing up, I don't want push too far
Eu não quero confundir essas coisas, eu não quero levar isso tão longe
Just a shot in the dark that you just might be the one I've been waiting for my whole life
Apenas um tiro no escuro que você só pode ser o único que eu estive esperando minha vida toda
So baby I'm alright with just a kiss goodnight
Então, baby, eu estou bem com apenas um beijo de boa noite
Cedo demais ele se afastou, com um belo sorriso em seus lábios. Taylor podia não ser o amor na minha vida, mas apenas por essa ocasião ele tinha acabado de ocupar um lugar de extrema importância. Ele tinha conquistado um lugar cativo em minha memória e meu coração. Com apenas um beijo, tinha transformado aquela noite na mais formidável e linda de toda a minha vida.
Let's do this right
Vamos fazer isso certo
With just a kiss goodnight
Com apenas um beijo de boa noite
With a kiss goodnight
Com um beijo de boa noite
Kiss goodnight
Beijo de boa noite
/’s POV
Eu estava preso no plano superior. Avisaram-me que Miguel queria conversar comigo e eu só poderia sair depois disso. Eu não sabia o que ele tinha para falar e isso me deixava completamente nervoso. Nunca é bom quando ele pede para conversar com um protetor durante seu tempo de serviço. Isso só pode significar duas coisas: Ou o tempo de seu protegido estava acabando ou você tinha feito algo de errado. E como da última vez que eu estive com ela, estava tudo bem, algo me dizia que o errado no momento era eu mesmo.
Tentei pensar em outras coisas, mas era praticamente impossível. Quando Miguel resolve interferir pessoalmente, é porque já ultrapassou muito do limite recomendável.
- . – Miguel disse, me sobressaltando. Sua expressão não era das melhores. Apesar de seu olhar sempre parecer ríspido demais, sempre tinha algo que te acalmava. Porém, dessa vez, além de não ter nada de tranquilizador em sua fisionomia, ela estava mais severa ainda.
- O senhor queria falar comigo? – eu falei, após reunir forças.
- Vou direto ao ponto. Eu sei o que você fez para salvar sua protegida e isso não é visto com bons olhos. Sim, você deve fazer o que está ao seu alcance e apenas isso. Você não pode simplesmente abrir mão do que você tem de mais importante. – conforme ele falava, o peso de suas palavras caía sobre meus ombros, fazendo com que uma sensação de culpa me dominasse. Eu sabia que Miguel podia fazer coisas como essas, talvez para fazer com que as pessoas se arrependessem de seus atos, mas eu não estava nem um pouco arrependido. – Mesmo um pedaço ínfimo de sua alma pode causar conseqüências desastrosas em mãos erradas. agora a possui e você sabe o que ele pode fazer com ela agora?
- Não faço ideia, senhor.
- E você confia nele o bastante para que possamos ficar tranquilos? Porque eu não confio nenhum pouco. – ele disse, fazendo uma careta reprovadora em seguida.
- O mudou, ele fez isso porque queria o bem da minha protegida. – ponderei, mas ele não levou muito a sério meu comentário.
- Não creio que um anjo da morte possa querer o bem das pessoas. Eles podem ser criaturas terríveis. Mentem, enganam, usam as pessoas apenas para conseguir o que querem. Eu julgava você mais inteligente que isso, . E você me decepciona cada vez mais. – ele balançou a cabeça em desaprovação. – Além de fazer essa loucura, você ainda a traz aqui novamente, mesmo sabendo que humanos não podem vir em vida. Está quebrando regra após regra. Você perdeu completamente o controle da situação e eu só tenho uma coisa a fazer...
- Eu posso explicar! Só queria que ela entendesse... – tentei contornar a situação, mas ele estava irredutível.
- Ela não precisaria entender nada se você fizesse apenas o que devia. Você está se desviando de seu caminho, protetor. Mas eu tenho uma solução. É drástica, porém eficaz. Você está proibido de fazer qualquer tipo de contato com ela. Passará a seguir à risca todas as regras, sem nenhuma outra transgressão, ou as consequências serão realmente trágicas. Estamos entendidos? – ele perguntou, mas eu não conseguia responder. A única coisa que se passava pela minha cabeça era a sua frase: “Você está proibido de fazer qualquer tipo de contato com ela.”. Eu não era capaz de passar nenhum um minuto longe dela, como eu poderia não ter nenhum contato com ela? Isso era impossível. – ! – ele disse mais alto, chamando minha atenção. – Estamos entendidos?
- Senhor, eu simplesmente não consigo ficar longe dela. – confessei, sentindo o peso de minhas palavras. Ele me olhou com mais atenção, como se estivesse me estudando. E, como se visse algo diferente e poderoso, se afastou repentinamente. – Não é algo possível.
- Então torne possível. – ele disse, desaparecendo em seguida diante dos meus olhos.
Então, pela primeira vez eu me senti completamente sozinho. Era como se nada me prendesse a esse ou a qualquer outro mundo. Como se eu dependesse da presença dela para viver ou para apenas ser real. Sem ela eu era apenas um espírito vagando pelo mundo. Sem direção, rumo, ponto de partida ou chegada. Afinal ela era tudo isso para mim.
Capítulo betado por Tami Tifer
Nono
And if you have to go, always know that you shine brighter than anyone does
Quem quiser ler a última cena ouvindo essa música, sinta-se à vontade. Colocarei um * indicando a última cena.
- Parece que é difícil de fazer você entender o que é “tente não fazer nada de errado”. – disse , aparecendo assim que Miguel desaparecera, fazendo menção ao aviso que me dera na última vez que nos encontramos – É claro que você tinha que trazê-la aqui novamente, não é? Eu lhe disse que ela não podia ter consciência do que aconteceu, que tinha que pensar que era um sonho. – ele suspirou – Você não pode deixar que a vida pessoal dela influencie em seus atos.
- Nada influencia em meus atos, .
- Não parece. – ele riu baixo – Eu conheço os sinais, . Eu sei o que tá se passando na sua cabeça, porque eu já passei por isso.
- Não tem nada passando em minha cabeça agora, nada! – esbravejei, recebendo um olhar assustado em resposta. Senti como se o meu corpo todo ficasse mais quente, parecendo que eu estava a ponto de explodir ou perder completamente o controle. Eu não deveria descontar minha infelicidade nele, na verdade eu não deveria descontar em ninguém, pois fui eu o culpado – Me desculpe.
- , agora você terá que manter sua cabeça livre de pensamentos estúpidos. Eu sei o quanto é doloroso ficar longe dela. Eu estou longe da Alane há anos e a dor nunca cessou.
- Não faça comparações, não dê sua opinião. – fui grosso novamente – Miguel disse que eu não deveria confiar em você. Que agora você tem uma parte da minha alma e pode fazer qualquer coisa com ela.
- E você acredita? Concorda com os seus julgamentos? Porque por causa dele você está proibido de se aproximar de seu afecto, e não por minha causa. Eu te ajudei, te orientei, contei coisas sobre a minha vida que poderiam de ajudar e é assim que você me retribui? Esperava um pouco mais de você.
- Todos ficam falando a mesma coisa e eu não aguento mais. Eu não posso ser culpado pelas coisas que vocês acreditam ou esperam de mim. Vocês me subestimam e eu fico com a culpa.
- Eu sei o que espero de você e não é nada além do que pode fazer. Se você está chateado porque não pode ficar com ela e tem alguém que pode, não é porque eu quero.
- Do que você está falando, ? – perguntei confuso.
- Você só a trouxe aqui mais uma vez para ela ver que quem salvou a vida dela. E isso tudo porque tem um garoto...
- Não é nada disso, você está imaginando coisas. – respondi, tentando assimilar a quantidade de absurdos que ele poderia dizer em tão pouco tempo.
- Não? Então por que você a trouxe aqui? Por que você mostrou o que fez? – ele indagou, mostrando sua expressão superior, aquela que ele assume quando sabe que está certo. E para piorar a situação, eu não tinha resposta. Só de ver aquele menino próximo dela, fazendo com que ela se sentisse bem de uma forma que eu não conseguia, aquilo me matou por dentro. Eu sentia vontade de separá-los, levá-la para um lugar onde ele nunca a encontraria.
- É a forma que ele a toca, . – confessei, encarando o chão – Eu salvei a vida dela e era ele que estava lá no meu lugar. Tocando seu rosto, fazendo-a sorrir...
- ... – ele disse, esperando que eu o olhasse – Eu disse que viria quando efeitos colaterais aparecessem, mas não sabia que seria tão rápido. – ele se aproximou, ficando à minha frente. – Eu sei o que você está sentindo e o quão confuso é, mas com o passar do tempo tudo começa a fazer sentido.
- O que é isso? Essa confusão de sentimentos que eu não conheço? Eu não consigo lidar com isso. Estava acostumado a não sentir nada e agora é o contrário, eu sinto tudo. Como se a minha cabeça não comportasse isso e eu me visse obrigado a liberar tudo de uma vez.
- Quando você deu parte de sua alma, você se tornou vulnerável aos sentimentos humanos. Agora eles não passam despercebidos, você consegue senti-los e, às vezes, com mais intensidade que os próprios humanos. E sinto informar, mas é apenas o início, tudo tende a piorar.
- Ah! Muito reconfortante saber dessa última parte. – comentei sarcasticamente.
- Nossa mente não está apta a receber esse tipo de informação, então se você ficar confuso é completamente normal. Só que você tem que aprender a lidar com isso, tem aprender a controlar o que você sente antes que seja tarde demais.
- Tarde demais para quê? – perguntei, confuso novamente.
- Não vou te dar ideias ou possibilidades. – ele respondeu, rindo levemente – Fique longe dela e tente controlar o que sente. Por favor, faça o possível e o impossível para ficar longe. Eu não quero que você termine como eu. É melhor tê-la por perto, mesmo que sem nenhum contato direto, do que não poder ver nem mesmo seu rosto.
- Isso que eu estou sentindo agora é reflexo desses sentimentos que me dominam?
- Possivelmente. A raiva é um sentimento comum, qualquer coisa pode tirar alguém do sério. Uma palavra, uma ação. No nosso caso foi algo que eu disse num mau momento, confesso. Se bem que eu gosto de estar por perto nas primeiras vezes, é engraçado. – ele riu, mas eu não o acompanhei.
- E essa necessidade de tirá-la de perto dele? Por que eu não consigo aceitar? É estranho, como se meu coração pesasse e um bolo se formasse em minha garganta. Eu quero gritar com ele... – fechei as mãos em punho, tentando me controlar – Eu o quero longe dela.
- Isso, meu caro, é o ciúme. Um dos mais comuns e simples sentimentos. – ele disse, com um sorriso singelo no rosto. Mas não havia nada de simples no que eu sentia. Era um turbilhão de coisas passando em minha cabeça ao mesmo tempo, algo como perda, diminuição, troca. Como se eu não fosse mais necessário para a por causa desse garoto, como se ele estivesse roubando meu lugar. Enfim, nada comum e muito menos simples.
- Ciúme? Como eu posso sentir ciúme? Ela não é nada minha, não penso nela desse jeito... Romântico, .
- As pessoas podem sentir ciúme dos amigos, familiares, . Não é obrigatório que se tenha algum tipo de envolvimento físico ou amoroso. – ele ponderou, olhando para frente.
- Você seria sincero se eu te perguntasse uma coisa?
- Claro. – ele disse, apoiando-se à parede e me encarando com intensidade.
- Eu realmente posso confiar em você? – disse rápido, antes que eu mesmo pudesse me impedir.
- Não é como se você tivesse muitas escolhas, . – ele disse, rindo em seguida – Mas eu acho que sou o seu menor problema. Você realmente acha que pode confiar no Miguel ou em suas decisões? Eu não confio. Só depende do seu poder de discernimento escolher em qual lado você está. – ele deu de ombros.
- Não é como uma guerra, . Eu não preciso escolher um lado... Ou preciso?
- Eu penso o seguinte: Você não pode se manter na corda bamba, ficar em cima do muro. Em algum momento terá que tomar partido de algum lado e é melhor ir escolhendo antes que seja tarde. Não vou te pressionar ou algo do tipo, mas no momento em você optar pelo lado dele, não conte mais com a minha ajuda. Peça para ele te auxiliar a vigiar sua protegida, encontrar-se com ela. Aposto que ele vai adorar. – ele se endireitou, rumando para a saída.
- Espere, eu não tomei minha decisão. – eu disse, indo até ele – Mas dependendo do que eu escolha, sofrerei consequências muito drásticas?
- O problema não é com quem você se mistura, o problema é o que você faz. Independente de estar do meu lado e confiando em mim, você ainda será você, um protetor.
- Tudo bem, mas eu preciso fazer uma coisa. – ponderei. Ele apertou os olhos, pensando e esperando – Preciso vê-la mais uma vez.
’s POV
Acordei me sentindo completamente plena. Eu tinha vivido a melhor noite de toda a minha vida, nada tinha dado errado, tudo como o planejado. Algumas coisas boas aconteceram fora do esperado, mas serviram para melhorar, tipo o que rolou entre a Gabbie e o . E por falar nisso, eu preciso conversar com ela, saber tudo o que aconteceu. Exatamente da forma que ela faz. Respirei fundo, fechando novamente os olhos. Lembrando de todos os momentos que passei com o Taylor: da sua leve respiração batendo contra o meu rosto, seu toque em minha pele, o roçar de seus lábios nos meus. Tudo tinha sido perfeito. Me sentir viva era muito melhor do que eu sempre imaginei. Não tinha nada que me fizesse parar de viver novamente. Sorri, vendo a imagem perfeita de Taylor sendo formada em minha mente. Todos os traços fortes e marcantes do seu rosto, o brilho de seus belos olhos negros. Em meio às lembranças o rosto se modificou, os olhos negros se tornaram , com um brilho intenso e misterioso. A face séria de contrastava bruscamente com as leves formas de seu rosto. Algo estava errado com ele, que sempre estava sorridente e acolhedor. Lentamente a imagem começou a se afastar e eu senti algo estranho, como se estivessem retirando alguma coisa de mim. Era um sentimento de perda, que fazia meu coração ficar apertado e pesado no peito. Sua imagem se afastou até sumir completamente. Parecia que eu o tinha perdido e isso era uma coisa que não podia acontecer. Ou não queria acreditar.
Escutei alguns sons estranhos enquanto seguia para a cozinha. Espiei antes de entrar, vendo uma cena engraçada. e Gabbie estavam agarrados e aos beijos, escorados no balcão. Os dois estavam tão felizes, que parecia um crime atrapalhar... Parecia.
- Então... – eu disse, fazendo com que eles quase pulassem – Queria saber o que vocês fariam se fosse a minha mãe ou o seu pai que entrasse aqui agora? – me encarou sem graça, enquanto Gabbie rolava os olhos.
- Até parece que você não faz isso. – ela retrucou.
- Sim, mas no meu caso é bem menos constrangedor. Imagine se o seu pai entra aqui, ou melhor, , imagina se a mamãe entra aqui. Ela ficaria louca. A gente mora aqui há bastante tempo, ela trata a Gabbie como filha. – ele me encarou por alguns segundos, suspirando em seguida.
- Ela tá certa. – confessou.
- E o que você quer que a gente faça? – ela perguntou.
- Primeiramente, você pode largar ele um pouquinho, acho que já vi demais. – riu alto, sentindo o abraço de Gabbie apertar em sua cintura. – Depois, quem sabe, vocês podem sentar para conversar com eles. Explicar como tudo isso aconteceu de um dia para o outro.
- Não foi de um dia para o outro. – meu irmão me intrometeu.
- Até ontem, antes da festa, você não colocava partes do seu corpo dentro do dela. – Gab deu uma risada maldosa e eu percebi o que tinha dito. – Pelo amor de Deus. Vocês entenderam o que eu falei. – comentei impaciente – Ah! E no momento que descobrirem, eles vão pensar a mesma besteira que vocês.
- Isso é verdade! – Gabbie exclamou. Ouvimos alguns passos e os dois se separaram bem rápido, tentando ficar da forma mais normal possível. Era estranho ver os dois agindo como amigos depois do que eu vi.
- Olá, crianças. – minha mãe disse, dando um beijo na testa de cada um – Se divertiram bastante ontem? – olhei para o novo casal à minha frente e reprimi um sorriso.
- A minha até que foi divertida, mas nada como a deles. – dei de ombros.
- Verdade? E o que vocês fizeram de diferente? – minha mãe perguntou, encarando o novo casal. Gab me olhava como se fosse me matar e eu adorava isso.
- O que a quer dizer, é que ela se resguardou e não pôde aproveitar a festa como nós. Ela não dançou e nem pulou tanto, entende? – se embolou um pouco para responder – Mas ela fez outras coisas, não é?
- Tipo o que? – minha mãe perguntou.
- Eu conversei bastante, com um monte de pessoas. Algumas até que eu nem conhecia. – gaguejei, tentando inventar alguma coisa. Se minha mãe descobrisse que eu estava com o Taylor, eu seria uma menina morta.
- Fez novas amizades? Que bom. – ela deu um pequeno sorriso – Eu esbarrei com aquele menino ontem, o Taylor. Ele estava procurando por você. Ele te achou? – eu logo percebi que ela sabia que eu escondia algo, mas como estava vendo que eu estava bem, não se preocupou tanto.
- É, eu encontrei com ele. – murmurei e foi a vez deles reprimirem um sorriso. Minha mãe se aproximou, ficando bem à minha frente.
- Espero que você tome cuidado, . Não quero te proibir de nada, mas também não quero que você fique mal de novo.
- Eu sei, mãe, mas eu não tenho sentido nada de estranho. É como se algo tivesse se ajeitado em mim, parece que eu estou bem. – tentei explicar, mas ela não parecia convencida.
- O Peter tentou me esclarecer o que aconteceu da última vez, mas eu não entendi bem, foi como se o seu corpo se recuperasse sozinho e quase que inexplicavelmente. Não sei se isso é bom ou não, talvez você esteja criando barreiras, mas é melhor não arriscar. Por favor, vá com calma. – ela pediu, quase suplicante.
- Mãe, eu não tenho pressa. Já esperei tanto tempo por isso... – ela sorriu, dando um beijo em minha testa.
- E quanto a vocês dois. – ela dirigiu-se para e Gabbie – Nós conversaremos depois, assim que o Peter chegar. – dizendo isso, ela seguiu em direção à área de serviço.
- Como ela descobriu? – Gabbie quase gritou.
- Sei lá, mas você deveria saber, . Não se pode esconder nada dela.
Acho que passei o dia todo enfurnada no quarto, agarrada com um livro. não tinha voltado, então imaginei que estava tendo aquela conversa citada mais cedo. Agradeci a Deus por não estar no lugar dele. Depois de imaginar uma série de reações do pai da Gabbie e rir de algumas, voltei minha atenção ao livro. Era a história de uma garota que foi culpada pela morte de seu namorado e por isso foi enviada a um reformatório. Chegando lá, ela conhece um menino e, por mais que ele a tratasse mal na maioria das vezes, ela se apaixona. Não que fosse o melhor livro que eu já tenha lido, mas algo nele me fazia pensar em coisas da minha própria vida. Não que eu já tenha sido suspeita de assassinar alguém ou tenha ido para um reformatório, mas a relação entre ela e o rapaz era tão intensa e confusa, que em alguns trechos me lembravam o . Como o rapaz estava sempre por perto para salvá-la ou para apenas fazer companhia, passar algum tempo junto. E por mais que tivesse outro cara entre eles, o rapaz nunca partia.
“– Nós nos conhecemos. Nós sempre nos conhecemos, de uma maneira ou de outra, sempre nos aproximamos, não importa para onde eu vá, não importa o quanto eu tente me distanciar de você. Nunca importa. Você sempre me encontra.”¹
O que me chamou atenção nesse trecho, é como ele se encaixa perfeitamente na minha vida. Por mais que eu tente abstrair, pensar em outra coisa, tente esquecê-lo, eu não conseguia. sempre voltava para ocupar seu lugar e eu não fazia nada para impedir. Talvez parte de mim não queria, talvez ele seja realmente necessário. Sua presença sempre me trouxe coisas maravilhosas e eu não estava pronta para deixá-lo ir. Ele me acompanhou nos momentos mais complicados e solitários. Parece que ele nunca deixará de ser de vital importância. Mesmo agora que eu tenho o Taylor, eu sempre sinto ao meu redor. Como se estivesse preparado para me auxiliar no momento que eu precisar.
“– E todas as vezes que nos encontramos, você se apaixona por mim...”¹
Esse trecho me fez rolar os olhos. Eu não estava apaixonada pelo , isso é impossível. Ele não existe, pelo menos não fora da minha imaginação. Como eu poderia amar algo que não é real aos olhos dos outros? Não que eu não o amasse, mas era outro tipo de amor, algo fraternal ou baseado na amizade. Eu não posso misturar as coisas, não posso ficar mais confusa. está na minha vida como amigo. Ele foi meu amigo quando eu não tinha mais nada e mesmo agora que tenho, ele continuará sendo apenas isso. Não sei como essa ideia maluca de me apaixonar surgiu, ainda mais com o Taylor, mas ela era tão absurda, que eu não sei como eu cheguei a cogitá-la. O não existe. Senti uma leve queimação na palma da mão. Olhei para a mesma e me deparei com a minha nova cicatriz. A marca ainda estava rosada, como se estivesse cicatrizando. Passei levemente o dedo por cima, fazendo com que a ardência abrandasse um pouco. Lembrei de como aquela marca surgiu e o quanto ela me contradizia. Eu tinha acabado de dizer que não existia, mas aquela cicatriz estava ali para provar que eu estava errada.
“– Eu posso resistir a você ou fugir de você ou tentar ao máximo não corresponder, mas não faz diferença. Você se apaixona por mim, e eu por você.”¹
Respirei fundo, fechando o livro com força. Já estava cansada de ler algo que tentava fervorosamente provar que eu estava errada. Levantei, colocando o livro no lugar mais escondido que eu poderia achar. Manteria aquilo o mais longe possível, assim como as ideias que ele me dava. Minha vida já era complicada os bastante sem elas.
Ouvi meu celular tocar, anunciando uma nova mensagem de texto. Peguei o aparelho, vendo o nome Taylor brilhar no visor. E como num passe de mágica, um sorriso brotou em meu rosto.
Será que você consegue fugir e me encontrar aqui na praça perto da sua casa? Beijos.
Sentindo meu sorriso aumentar, digitei uma rápida resposta, enquanto me olhava no espelho e tentava arrumar a bagunça que eu me encontrava. Atravessei o corredor em silêncio, tentando ouvir algum barulho estranho, mas a casa estava completamente silenciosa. Não fiquei esperando que alguém aparecesse, saí pela porta dos fundos, seguindo rapidamente para o meu destino.
O sol ainda brilhava no céu, mas não estava quente, o vento fresco bagunçava meus cabelos e fazia com que eles caíssem sobre os meus olhos. Ao me aproximar, avistei Taylor sentado num dos bancos, observando algumas crianças brincarem no local. Coloquei minhas mãos sobre seus olhos, aproximando-me do seu ouvido.
- Advinha quem é? – quase sussurrei e senti um sorriso sendo formado. Num movimento, ele me fez sentar em seu colo e selou nossos lábios rapidamente – Fiz você esperar muito?
- Não, acabei de chegar. - ele sorriu, mas tinha algo de estranho naquele gesto. Toquei a ruga entre seus olhos, que as suas sobrancelhas curvadas faziam, e ele olhou em meus olhos.
- O que foi? – perguntei, levantando de seu colo e sentando ao seu lado no banco.
- Minha carta de aceitação chegou. – ele disse pausadamente, como se fosse uma notícia ruim.
- Qual delas?
- A mais esperada... – ele respondeu baixo. Nas últimas semanas eu não tinha me preocupado muito com o fato de que ele também estava saindo da escola, assim com a Gabbie. Talvez a ficha não tenha caído. Talvez eu não estivesse querendo aceitar que eu o perderia sem nem ao menos tê-lo ganhado direito. – Eu vou morar a mais de uma hora de distância, .
- Então você foi aceito em Oxford? – perguntei, ligeiramente animada. Ele limitou a confirmar com a cabeça. Joguei meus braços ao redor do seu pescoço, distribuindo beijos pelo seu rosto, até ver o ensaio de sorriso aparecer – Não estou te entendendo. Você acabou de ser aceito em Oxford. Como você pode ficar com essa cara amarrada?
- Você ainda não entendeu o que isso significa?
- Claro que eu entendi. – eu disse, segurando o rosto dele, para que ele me olhasse – Mas isso não quer dizer que acabou, pelo menos não para mim.
- Finais de semana serão as únicas coisas que teremos.
- É melhor do que nada... – ele pôs minhas mãos sobre as suas em seu colo e começou a acariciá-las.
- Pelo menos nós temos as férias, dois meses para aproveitar todo e qualquer minuto que tivermos.
- Parece ser o bastante por agora. – afirmei, sentindo seus lábios nos meus novamente. Dessa vez não foi tão rápido, ele me puxou para um beijo mais intenso, mais demorado. Como se já estivesse sentindo a saudade antecipada. Coloquei uma de minhas mãos em sua nuca e entrelacei meus dedos em seu cabelo, trazendo-o para mais perto. Segundos depois, já ofegantes, tivemos que nos separar. Ainda mais pelo lugar onde estávamos e as pessoas que nos cercavam.
- Vou sentir falta disso. – ele murmurou, enterrando seu rosto em meu cabelo.
- Talvez nem tanto, as coisas podem mudar...
- Você está em dúvida? – ele perguntou confuso.
- Não é isso. A distância nunca é bom sinal, sempre traz uma série de complicações...
- Eu estou cem por cento seguro em relação a isso, . – ele me interrompeu – Mas se você não estiver, nós podemos parar por aqui, antes que fique mais difícil.
- Eu não quero parar nada, só estou dizendo o que eu acho que pode acontecer. – ponderei, tentando fazê-lo entender meu ponto de vista.
- Eu estou disposto a tentar, então só depende de você. – ele afirmou com tanta certeza, que eu não podia mais combater.
- Aparentemente não tenho mais argumentos, então só me resta aceitar. – dei de ombros, fingindo desinteresse. Ele sorriu verdadeiramente pela primeira vez desde que eu cheguei. Ainda sorrindo, ele começou a passar levemente os dedos pela minha mão, até que a virou e repetiu o gesto na palma da mesma.
- Você se machucou? – ele perguntou, fazendo menção a minha nova cicatriz.
- Não que eu lembre.
- Parece recente. – ele disse, passando o dedo por cima. No momento em que ele fez isso, eu senti como se a marca estivesse congelando. Era uma sensação tão incômoda, que afastei brutamente a mão dele e olhei assustada para a minha – O que foi? Te machuquei?
- Não, é que eu senti uma coisa estranha. – eu disse, enquanto ainda olhava estreita linha disforme em minha mão. Estava rosada, como se estive em processo de cicatrização. Mas eu não tinha sentido nada antes, várias coisas tinham esbarrado ali e não tive reações. Parece que foi como um repelente ao toque do Taylor. Como se alguma coisa avisasse que ele não deveria tocar naquele local. Imersa em meus pensamentos, comecei a achar que estava vendo coisas, mas eu estava realmente vendo um brilho estranho emanando do machucado. Olhei para Taylor, que não esboçava reação, como se não estivesse vendo a mesma coisa que eu. Encostei levemente um dedo, sentindo o local quente novamente. A temperatura estava normal, como se não fosse possível eu ter sentido aquele mesmo local quase congelante.
- , tá tudo bem? – ele perguntou, passando um braço pelo meu ombro.
- Tá sim. Eu lembrei que preciso voltar para casa, eu não avisei que ia sair e minha mãe vai enlouquecer. – falei, enquanto me levantava. Ele me acompanhou, puxando-me para um último beijo.
- Eu te ligo. – ele disse, quando eu já estava um pouco longe.
- Vou esperar. – respondi, mandando um beijo em seguida.
Assim que fechei a porta atrás de mim, voltei minha atenção à minha mão. Aquela sensação tinha sido altamente estranha. Tornei a passar o dedo sobre a marca e nada acontecia. Por quê? Era a única coisa que passava pela minha cabeça. Até umas horas atrás, eu pensava que aquilo era coisa da minha cabeça, não tinha nenhuma chance de eu ter machucado a mão daquela forma e não ter percebido. Não há uma explicação plausível para a marca. Eu só lembro-me de ter encontrado com o antes de aparecer. Mas como ele poderia causar isso? Ele não era real, não a esse ponto. E mesmo que fosse, por que ele faria algo que me machucasse? Não há explicação... Não há! Fechei os olhos, tentando lembrar as coisas que imaginei ter visto ontem enquanto me trocava. Nada parecia ser de verdade. O lugar era amplo demais, claro demais para existir. Mas de alguma maneira eu estive nesse lugar e voltei com duas marcas. Olhei para a existente em meu peito, tocando-a levemente. Nada aconteceu, a não ser algo como uma onda de calor invadindo meu quarto e fazendo com que meus pelos se eriçarem. Fechei os olhos, inspirando o doce perfume que agora inebriava o ambiente. Era um aroma relaxante, acolhedor e conhecido. Mantive os olhos fechados até ouvir sua voz doce ecoar pelo ambiente. Porém, ao invés disso, ouvi sua respiração leve em algum lugar por perto. Abri os olhos, procurando por ele e o encontrei apoiado perto da janela. O sorriso que eu esperava não estava lá, o que foi decepcionante. Eu queria sentar e contar tudo para ele, deixá-lo a par do que estava acontecendo comigo ultimamente, mas sem realmente saber porque, eu não conseguia falar sobre o Taylor com ele. Talvez com medo de sua reação. O que, provavelmente, era uma preocupação boba. Com um leve sorriso nos lábios, eu me aproximei, esperando a mesma reação em resposta. Coisa que não aconteceu.
*
- O que foi, ? – perguntei baixo. E então ele me olhou nos olhos pela primeira vez. Aquele brilho intenso que eu me recordava se fora, era como se existisse uma nuvem escura pairando sobre seus lindos olhos . Olhos que eu reconheceria em qualquer lugar, a qualquer momento.
- Eu tenho uma coisa a fazer. – ele respondeu, com sua voz num tom triste.
- Aparentemente não é algo bom. – murmurei e ele acenou a cabeça, confirmando. Ele me olhou nos olhos novamente, mas de forma mais invasiva, como ele nunca tinha feito. Não me senti mal ou ofendida com isso, era como se não houvesse mais coisas para ele descobrir sobre mim. Eu sempre fui e sempre serei um livro aberto com ele. Excetos pelos capítulos que abordam o Taylor. Ele continuava me encarando, como se medisse ou estivesse se decidindo como começaria. Confesso que toda aquela espera me deixava nervosa e meu sexto sentido gritava, como se algo ruim estivesse para acontecer.
- Eu estou indo embora. – ele finalmente falou. Meu sorriso vacilou e desapareceu. Ele estava indo embora? Como isso é possível?
- C-como? – gaguejei.
- Sempre há aquele momento em que percebemos que não somos mais úteis e ele chegou para mim.
- Como você não é mais útil? Quem te disse isso? Não é verdade! – disse apressada, me aproximando mais. Ele se contraiu com minha aproximação, o que me fez recuar.
- Você precisa aceitar, , afinal, foi você que tornou isso possível. – ele disse com tamanha dificuldade, como se aquilo o matasse por dentro.
- Eu? – perguntei assustada, procurando motivos que pudessem comprovar que ele falava e minha mente me levou automaticamente para Taylor. Era óbvio, ele era a causa disso tudo – Se isso é por causa do...
- Não precisa se explicar. – ele murmurou e sorriu pela primeira vez – Nós somos necessários quando vocês estão com dificuldades, carentes de atenção, amigos ou companhia. Contudo, o momento agora é outro, você, finalmente, encontrou alguém real, de carne e osso. Para que perder tempo com alguém como eu?
- , não. Você esteve comigo nos piores momentos, sempre foi meu amigo. E o fato de eu ter ou não alguém real nunca foi motivo de nada. Eu sempre tive minhas amigas e isso não te impedia de estar ao meu lado. – rebati, tentando encontrar alguma brecha em seu discurso.
- Agora é diferente. Ele ocupa um lugar específico e não tem mais espaço para nós dois. Nós, de fato, temos a mesma função, mas ele é real, . Ele pode te confortar, te abraçar. Eu sou apenas...
- O melhor amigo que já tive em toda a minha vida? – dei uma opção. Ele sorriu abertamente, estendendo sua mão. Entrelacei nossos dedos e senti o calor de sua pele. Com o meu toque, era como se ele passasse a emitir uma luz muito intensa. Literalmente, brilhava mais do que qualquer pessoa.
- É para isso que eu existo, suprir as necessidades até que alguém apareça. – ele explicou, trazendo nossas mãos unidas para perto do seu peito. Era estranho não sentir um coração batendo, isso tornava mais difícil acreditar em tudo que eu estava vivendo. Encarei seu tronco exposto e a marca idêntica à minha reluzia fortemente. Estiquei minha mão livre, tocando a cicatriz. No mesmo momento sua luz se tornou tão intensa, que eu não conseguia manter meus olhos abertos. Me senti plena quando ela me atingiu, como se servisse de anestésico e retirasse de minha mente todos os meus problemas e complicações.
- Como vou viver sem você por perto para fazer isso quando eu precisar? – sussurrei, ainda de olhos fechados. Senti um toque suave perto dos meus olhos. Até aquele instante eu não tinha percebido que estava chorando. – Por que eu tenho imaginado coisas absurdas? Estou com medo de estar louca, ninguém acredita em mim.
- Não são coisas absurdas e nem nunca serão. – ele pareceu ofendido – Basta que você acredite, somente você. Afinal, é a única pessoa que realmente importa.
- Eu tento, mas é difícil, . Me explique então, o que foi aquilo que eu vi? Por que eu estava flutuando e você ajoelhado ao meu lado?
- Você deve ter visto algo que te impressionou, não se deixe levar por essas coisas. São sonhos. – ele disse baixo, com sua voz suave e cadenciada.
- Foi real demais para ser um sonho. Eu senti tudo.
- Sentiu tudo como está sentindo agora? Como você pode ter certeza que não está sonhando novamente? – ele questionou, com um sorriso bobo nos lábios.
- Não tente me confundir. – pedi.
- Eu nunca fiz e nem farei isso. Todas as respostas que você precisa estão debaixo de seus olhos, basta você entendê-las.
- Eu não quero entender, não quero que você vá... Não quero ficar sozinha. – pedi, quase suplicante.
- Você não estará sozinha.
- Se é por causa do Taylor, não precisa se preocupar, ele vai embora...
- Não é por ele, não é a pessoa dele, e sim o que ele significa. Se por acaso ele sair de sua vida, outro aparecerá. – ele ponderou, tentando me fazer desistir.
- Mas... – eu comecei a falar, quando ele me interrompeu, olhando diretamente em meus olhos.
- Quando você se sentir sozinha, faça o seguinte: – ele soltou nossas mãos e pegou a que tinha a marca. Passou seu dedo por toda a extensão da mesma e o resultado foi completamente diferente do anterior. O que antes se tornou quase congelado, estava quase fervente. Mas o calor era a agradável, como quando os raios do sol tocam a sua pele depois de muito tempo num lugar frio. Era revigorante. No fim do curto trajeto de , a cicatriz assumiu um leve brilho – Busque refúgio num lugar que você saiba que é nosso. Não importa quando, não importa onde, eu estarei lá de alguma forma.
- Para sempre?
- Para todo o sempre. – ele disse, se aproximando e encostando seus lábios levemente em minha testa. Fechei os olhos, para aproveitar ainda mais do momento. Não senti o que normalmente sentiria, era como todas as minhas terminações nervosas entrassem em colapso ao mesmo tempo e me impedissem de dizer algo concreto. Agora as lágrimas desciam com vontade e eu não as impedia – Adeus, minha pequena.
Abri os olhos, mas ele não estava mais lá. A única coisa que comprovava que ele realmente esteve lá e que tudo, infelizmente, foi real, era os resquícios de sua forte e brilhante luz. Inspirei, sentindo que o seu perfume ainda estava no ambiente, fraco, porém ainda presente. Coberta por sua luz e inebriada com seu perfume, não tive outra opção a não ser murmurar alguma coisa, enquanto via sua luz se esvair aos poucos.
- Adeus, meu .
¹ Trechos retirados do livro Fallen de Lauren Kate.
Continua...
Nota da autora: Hoje vai ter uma festa (8) Paarabéns, Halo!
Essa é a atualização de aniversário de Halo. Minha fic faz/fez um ano no dia 30/04 e resolvi adiantar a atualização em comemoração.
Foi muito bom passar esse tempo aqui com vocês, por mais que eu tenha meus altos e baixos, vocês sempre estão por perto para me ajudar a levantar e isso é o mais importante. Eu cheguei a seguinte conclusão: não preciso de um batalhão de leitoras, eu tenho vocês e estou satisfeita com isso. Confesso que posso me abalar novamente, não sou de ferro e minha autoestima é extremamente baixa, mas prometo trabalhar nisso.
Ah! Ganhei a eleição de autora do mês, então agora em Abril meu nome ficará na página inicial do site em posição de destaque, não é lindo? *--*
Tá, falaremos da história. Nada na vida da principal é fácil, quando ela arruma um namorado, o menino tem que ir embora. Mas acreditem, tudo está dentro do esperado. Pelo menos para mim... Isso faz parte do grande processo de crescimento da principal, onde ela vai amadurecer e virar uma mulher, no sentido adulto da palavra. Ela viverá experiências boas e ruins, pois isso faz parte da vida de todo mundo. Teremos algumas surpresas pelo caminho, mas nada que não seja suportável para vocês.
Tá, talvez eu tenha falado demais sobre coisas que não acontecerão agora.
Até a próxima atualização!
Beijos.
Comentários após 03/04 serão respondidos na próxima atualização.
Jess Colors, Lan, Carol, Lu Medina, Gi, Cinthy, Gá Pereira, Ias, Andie, Sally e Anna, obrigada pelos comentários. Vocês fazem com que surja um sorriso de orelha a orelha em meu rosto cada vez que eu os leio. <3
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Minhas outras fics:
When I'm Hurt - McFLY/Finalizadas
Vestida Para Casar - McFLY/Em Andamento
Histeria - Restritas/Em Andamento
Enchanted - McFLY/Em Andamento
The Way I Loved You - McFLY/Finalizadas
What Goes Around... Comes Around - Restritas/Finalizadas
What Goes Around... Comes Around II - Restritas/Em Andamento
You Make It Real - Especial de Natal
Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail, não utilizem a caixa de comentários. Obrigada, espero que gostem da fic. XX