Por: Eduarda V. e Amanda N. | Beta-reader: Giovana


Prólogo
As ruas daquela cidade minúscula estavam desertas e ainda nem eram dez horas da noite. Os postes estavam apagados e apenas um tentava, sem muito sucesso, manter um beco de tijolos aceso. Nenhuma luz de casa iluminava os quartos e, principalmente, ninguém. A cidade estava praticamente vazia. Seus moradores, desaparecidos e mandados para algum lugar do submundo.
O céu estava negro, sem nenhuma estrela e sem nenhuma nuvem. Nem mesmo a lua se atrevera a aparecer durante a própria fase de lua cheia. A única coisa que impedia a cidade de ficar no escuro total eram os raios projetados no horizonte e que mantinham uma distância segura das casas no centro. E aquilo, com certeza, não era uma coisa boa.
Zeus preparou mais um raio e apontou para outra casa. Não adiantou muita coisa. A proteção balançou um pouco, mas ricocheteou o raio para longe e para o horizonte. O deus franziu o cenho, irritado. Quase mirou o arco dourado para seu fiel filho e mensageiro Hermes, quando este saiu do Olimpo para encontrá-lo. Vinha com uma expressão preocupada e Zeus imaginou que abria a boca para falar alguma besteira que poderia acalmar o pai. Entretanto, surpreendeu-o no momento em que o som de sua voz chegou aos ouvidos do Grande deus.
- Seus filhos não estão no Olimpo.
- Sim, eu sei. – o tom de voz de Zeus era pesaroso. – Ênio está criando uma barreira de proteção. Ilítia e Hebe devem estar com Hera.
- Eu não acho que me entendeu, meu senhor. Ares e Hefesto também não estão aqui.
Outro raio explodiu no horizonte e Hermes recuou um pouco. Zeus manteve uma expressão irritada, mas seu gesto representava desdém. Ele balançou a mão e pediu para que Hermes ficasse ao seu lado.
- Hermes, você é o único que consegue atravessar a barreira de Ênio. É o único que ela permitirá que entre. Além disso, confia em você.
- Sim. – o mensageiro balançou a cabeça, incentivando Zeus para que este continuasse a falar.
- Preciso que quebre essa confiança. Fique por perto, observe o que irá acontecer. Depois, quero que mate todos que precisar matar.
- Mas, pai, não sou violento! – Hermes disse com escárnio e uma expressão amedrontada.
Zeus riu um pouco e fez um som desagradável.
- Está na hora de ser, meu filho. Vá. – ele então caminhou até as portas douradas do Olimpo com naturalidade. Não pensou muito antes de abri-las, mas parou um pouco antes de entrar para olhar Hermes. – Vá. – ele observou o filho assentir e, confiando em sua lealdade, dirigiu-se ao quarto para poder descansar um pouco.

Não conseguiu fazer o que pretendia quando abriu as portas do quarto. Poseidon, Anfitrite e Atena estavam sentados em sua cama, todos com os olhares preocupados. Os deuses encaram-se por um instante e a primeira a quebrar o silêncio foi Afrodite, que estava parada em um canto um tanto quanto escondida.
- Eryx está com Hera também.
- Mas ele não é filho dela! – Zeus exclamou, finalmente perdendo a calma. – Poseidon, vá buscar seu filho. Na verdade, aproveite e vá com Hermes. Garanta que ele mate aquele bastardo.
Quando viu Poseidon assentir e deixar o quarto, Zeus deu um sorriso de satisfação. Pelo menos alguém era realmente leal à família.
- Você não espera que Hermes mate uma criança! – Anfitrite disse com sarcasmo. – Ele nunca faria mal a um titã e você espera que ele assassine um bebê. Zeus, eu não consigo entender você. Já teve filhos com várias mortais. Na verdade, teve filhos com várias mulheres, sendo elas mortais ou deusas. Hera nunca cogitou matar você! E você sabe que ela poderia. Hades está reunindo seguidores. Se ela o deixasse entrar, você morreria.
- Você não entende! – Zeus gritou e sua voz reverberou por todo o Olimpo. Aquilo fez com que Anfitrite se encolhesse e ficasse quieta na cama do deus, mas serviu apenas para irritar Atena.
- Tia, deixe-nos. – ela disse, cerrando os punhos enquanto Anfitrite não saía. – Vamos ficar bem. – ela insistiu quando viu que a deusa estava hesitando.
Finalmente, ficaram sozinhos naquele quarto. Afrodite saiu do canto e parou ao lado da irmã, ambas com expressões brabas e arfando. Zeus baixou um pouco a guarda, mas deixou claro que não toleraria qualquer tipo de falta de respeito pelo pai.
Com isso, Afrodite deu um sorriso sarcástico.
- Deixe Hera em paz e vá divertir-se com uma das ninfas. – disse com desdém. – Você já a traiu vezes demais para ela se importar e, ainda sim, ela se importa. Isso significa que ela realmente ama você, pai. As pessoas erram e deuses também. Você sabe que se você a aceitar de volta, ela nunca irá mencionar esse filho. Talvez tente convencer você de que podem criá-lo juntos como se ele fosse seu. – ela acalmou-se um pouco e ficou receosa em dizer suas próximas palavras. Por isso, abriu a boca e murmurou baixo, sabendo que o pai escutaria. - Ela está arrependida.
- Você falou com ela? – Zeus explodiu e empurrou Atena para a sua cama, deixando-a despreparada por um momento. Enquanto não havia barreiras entre ele a Afrodite, puxou os cabelos desta até que ela estivesse bem na sua frente.
Ela já chorava, mas não ousava levantar a mão para o pai. Não era violenta e, apesar de ser uma das guerreiras mulheres mais grandiosas do Olimpo, recusava-se a lutar com alguém tão próximo e, principalmente, que deveria respeitar. Aproveitando-se disso, Zeus estapeou-a uma vez na bochecha.
O seu lindo rosto ficou marcado, mas ela ainda assim não se mexeu. Levou mais tapas do pai por vários minutos enquanto Atena não se levantava e ganhava consciência do que estava acontecendo. Mas, no segundo em que viu a irmã apanhando de Zeus, Atena jogou-se em cima do pai e iniciou uma luta entre eles.
Começou com um soco no rosto, tentando aproveitar-se da surpresa do deus. Depois, enquanto ele não abria os olhos depois de se recuperar do machucado, acertou a barriga dele com um chute. Bateu o máximo que podia pelo tempo máximo que conseguiu. Depois, quando Zeus ficou de pé, tornou sua posição defensiva. Esquivou-se no maior número de golpes possível, mas foi inevitável que tomasse outros. Levantou-se, entretanto, depois de cada soco e chute que Zeus lhe acertara. Manteve os olhos cerrados, desafiando o pai. Porém, não pôde fazer nada quando um raio surgiu na mão do Grande deus. Este lhe chutou os calcanhares e Atena caiu deitada, de barriga para cima. O raio encostou na barriga da deusa, mas não penetrou. Ela olhou para os lados tentando ver o que tinha acontecido e o porquê de Zeus não estar mais em cima dela.
O que acontecera fora que Apolo e Dionísio haviam invadido o quarto e seguravam o pai no chão. Não batiam e não apanhavam. Zeus retomava a calma e a consciência. Tentava resistir ao impulso de enfiar o raio que ainda tinha na mão nas costas de um dos seus filhos. Dionísio foi o primeiro a largar o corpo do deus.
- O que foi isso, pai? – disse com o tom de voz acusador. – Você ia matar a minha irmã.
Zeus não respondeu, no entanto. Tirou Apolo de cima de si e bufou. Não queria dar satisfações a ninguém e por isso saiu do quarto, para a torre de observação do Olimpo. A passos largos, lembrou-se do que acontecia fora daquela confusão própria.
Lembrou-se de que aquilo acontecia apenas por causa da Hera e sua traição. E suas filhas! Elas haviam escolhido à mãe ao invés do pai. Apesar de ele nunca demonstrar, tinha afeto por elas. Quando as criou, era apaixonado por suas mães. Elas não acreditavam que ele não lamentava a sua existência. Não acreditavam que ele as amava.
Por isso, lutavam contra ele naquela noite. Quando ele chegou à torre de observação e mirou os olhos naquela minúscula cidade, pôde sentir a força da barreira de proteção de Ênio, a raiva que ela tinha dele.
Ele retomou a consciência ao sentir que ela ainda o repelia. Ela e todas as suas irmãs, além de dois de seus dois outros irmãos, Hefesto e Ares. Zeus não poderia lutar contra eles se descesse para a Terra. Todos os seus filhos que tinham alguma relação com armamento e guerra protegiam Hera. Além disso, teriam a vantagem de que Zeus estaria pesaroso pelo fato de lutar contra seus próprios filhos. O Grande deus lhes ensinara a nunca hesitar, mas lá estava ele, fazendo exatamente isso.
Quando conseguisse acalmar-se e já tiver matado ao bastardo, Hera teria sua punição. Ele jurava que sim.

- Ênio? – Hera chamou em meio aos gritos. A filha, concentrada e controlada, enquanto ajudava Hefesto com as barreiras de proteção contra os deuses do Olimpo, quase não ouviu ao chamado da mãe. Além disso, não queria atendê-lo e deixar a barreira de proteção mais fraca. Entretanto, teve de o fazer. A mãe estava fraca, magoada e com dor e precisava dela naquele instante. – Ênio, meu amor.
- Não fale com ela! – gritou Ilítia. – Está quase nascendo!
- Mãe, você vai ficar bem. Eu e Hefesto não vamos deixar papai encostar em você. Agora concentre-se, por favor. Pelo bem do meu irmão. – disse isso e segurou a mão de Hera. Esta sorriu e assentiu.
Não demorou muito para que o choro ecoasse por aquela casa e chegasse aos ouvidos de Zeus, no Olimpo. Desta vez, vários raios simultâneos apareceram no horizonte. Hera gritou, mas não era pela dor do parto.
- Eu estou com medo, Hefesto! – gritou para o filho, mas este não a escutou. Sua barreira estava sendo atacada agora com mais violência e apenas se estabilizou quando Ênio voltou a ajudar.
Enquanto isso, Ilítia cuidava de todos os preparativos para o bebê. Agora que ele já havia nascido, um problema havia sido resolvido. Ela chamou Hebe, que vinha com cobertores e um pouco de água. Ênyx foi para o lado de Hera, comovido. Apesar de não ser filho da deusa, a amava tanto quanto amava Poseidon e Anfitrite. Ele sorriu e segurou a mão de Hera, lhe dando confiança, apesar de ele mesmo não saber se tudo ficaria bem. Ilítia gritou, mas não era absolutamente nada realmente alarmante. Ela estava apenas surpresa e de alguma forma contente. Ria, mas não era porque estava achando graça. Ria apenas porque achava que tinha que rir. Não havia motivos para qualquer um estar sorrindo em uma hora daquelas.
Hebe deu um pulo quando a irmã começou a saltitar. Ergueu as sobrancelhas e franziu o cenho, tentando entender o que havia acontecido. De canto de olho, conseguiu enxergar o rosto do bebê. Ele quase não conseguia manter os olhos abertos. Porém, com sua visão aguçada, conseguia ver o quão lindos eles eram.
As pupilas dos olhos eram pequenas, mas a íris era de um azul fenomenal. Tão azul quanto os olhos de Poseidon, provavelmente tão azul quantos os olhos humanos do pai. Sua boca pequena era desdentada e seu corpo era minúsculo o suficiente para que ele ficasse enterrado com a parte inferior do braço de Ilítia. Mas, finalmente, ela conseguiu ver o motivo de todo o contentamento da irmã. Deu uma risada também, mas tentou não ser tão escandalosa.
Olhou para a mãe com os olhos cor de mel e que agora estavam cheios d’água. Hera tinha a expressão do rosto alarmada, mas a confusão era perceptível. Hebe caminhou em direção à Ilítia e pegou o bebê em seus braços. Sentou-se na cadeira de madeira ao lado da cama onde Hera estava e entregou o serzinho a esta.
A mãe, entretanto, não percebeu o que estava acontecendo. Observava os olhos azuis iguais aos do pai e não piscava para ver qualquer outra coisa. Apenas visualizou o rosto de Ilítia quando a filha pigarreou alto.
- Não é meu irmão. – ela disse, e um rápido relance de decepção passou pelos olhos de sua mãe. Ela pensava que Ilítia havia aceitado sua traição. A apoiara desde o momento em que dissera que estava grávida, e que não era de um filho de Zeus. Parecia sempre tão compreensiva, e aquelas últimas palavras tiraram de Hera a esperança de que ela poderia ter uma família unida novamente.
- Não é meu irmão. – Ilítia repetiu e finalmente deu um sorriso. – É minha irmã.
Todos na casa, com exceção de Hefesto e Ênio, deixaram seus queixos caírem. O Oráculo havia dito que seria um menino. Um menino que traria desgraça à maior família do Olimpo e que deveria ser executado quando nascesse. Isso queria dizer que o destino de bebê era outro? Um sorriso brotou dos lábios de Hera.
- Uma menina. Eu tive mais uma... – começou a dizer, mas foi interrompida por três batidas na porta.
Os músculos de Ênyx se contraíram e o azul de seus olhos ficou mais vivo de repente. Aquilo deu a todos um sinal de alerta. Os olhos dele apenas ficavam assim com a presença do pai.
Mas, como se para dar ênfase ao pensamento de todos, a água do copo que Hebe trouxera explodiu o vidro. Segundos depois, a porta deixou de ser um obstáculo e Poseidon entrou na casa. Hera estava deitada em uma cama de madeira de segunda mão e as paredes cor de salmão estavam descascadas. Os olhos do Grande deus brilharam de deleite quando ele chegou mais perto de Hera.
Em outra situação, ele teria curiosidade para entender o porquê de Zeus ter se casado com ela. Era apaixonado por ela. Apesar de ser sua irmã, os deuses não viam problema em casar-se com pessoas da mesma família. Os Grandes, filhos de Cronos, eram poucos quando o pai morreu. Por isso, Hera era casada com Zeus e este tinha filhos com Deméter.
- Tenho ordens específicas de que preciso matar quem for necessário. – Poseidon disse com sua voz majestosa. – Ênyx, vá para casa. Sua mãe está preocupada.
Aquilo não foi, sem dúvida alguma, um pedido. Do mesmo jeito, Ênyx ficou parado ao lado de Hera, segurando sua mão. Não a deixaria ali e, com certeza não, sabendo que o pai não pensaria duas vezes antes de matá-la.
- Mas ela é uma menininha inocente! – gritou, seus olhos implorando por misericórdia. – Por favor, pai, não a mate.
- O que você disse? – a voz de Poseidon estava fraca, assustada com que ele ouvira.
- O Oráculo previu errado. – Hebe disse com as mãos sujas de sangue. – Não é menino.
O bebê nos braços de Hera deu sinal de vida e chorou alto. Agora seus olhos estavam mais abertos e se Poseidon não conseguisse sentir que ele era uma semideusa, juraria que era sua filha. A cor azul dos olhos era simplesmente igual.
A criança o fitou com admiração e no minuto em que visualizou o rosto do deus parou de chorar. Um sentimento reconfortante invadiu o corpo de Poseidon, exatamente igual a quando Ênyx, Teseu, Tritão, Polifemo, Belo, Agenor e Neleu vieram ao mundo. Era como se um novo filho seu tivesse nascido.
Não, ele não poderia fazer mal àquela criança. Ela era muito pequena e frágil e ele se recusava a machucá-la. Se estivesse sozinho, deixaria que escapasse. No entanto, não estava. Hermes entrou no recinto apenas uns segundos depois e a expressão arrogante indicava que não deixaria ninguém sair daquele lugar. Droga.
Ênyx pegou um pedaço de madeira que estava solto sobre o chão e fincou no ombro direito do pai. Poseidon arfou de dor, surpreso. Não demorou muito para que Ênio chegasse perto e ficasse um punhal perto de seu coração. Poderia tê-lo atingido, se quisesse. Mas ela já havia percebido que ele não faria mal à irmã.
Hermes, entretanto, estava investindo contra ela mais violentamente do que qualquer vez já fizera um ataque. Ele tinha um escudo preso em seu braço esquerdo e uma espada de ouro estava sendo segurada fortemente pela mão do lado oposto. Ele quase chegou à cama de Hera, mas Hefesto quebrou sua barreira de proteção contra Zeus e atacou ao mensageiro sem pudor algum.
Ele era, com certeza, mais forte do que Hermes. Portanto, conseguiu cuidar sozinho para que este ficasse imóvel por um curto período de tempo. Tentou recriar a barreira rapidamente, mas Zeus já atacava forte demais para que fosse impedido.
Um raio atingiu o telhado da casa e a criança nos braços de Hera começou a chorar. Com Zeus atacando, Hermes retomando a consciência do que estava acontecendo e Poseidon não querendo acabar com seu teatro de “ataque” contra eles todos, não havia como vencer. Hera gritou o mais alto que conseguia, que se rendia.
O céu ficou limpo novamente e as estrelas apareceram. Os postes foram ligando-se, um por um. A lua apareceu. Todos os deuses naquela casa pararam de lutar e olharam para o Olimpo. Quase conseguiam ver o sorriso que Zeus tinha no rosto. Arfando, subiram para enfrentar as consequências. Hera, entretanto, foi a última a subir e a única sobre quem Zeus não colocou os olhos.
Aquilo lhe proveu tempo para pensar em todo um plano. O Oráculo não saberia nada sobre o que acontecera com a criança porque tinha em consciência um menino e não a menina que realmente nascera. Poseidon afirmaria que matara a criança e a jogara nos mares. Portanto, ninguém saberia que o bebê existira se ele... Desaparecesse.
Hera foi para a torre de observação enquanto os outros dirigiam-se à sala de reuniões do Olimpo. De cima da torre, começou a chorar. Suas lágrimas transformaram-se, então, em gotas de chuva. Chovia na Grécia inteira.
A deusa beijou a testa branca e macia como veludo da filha. Pensou em algo para colocar de nome. Demorou um tempo para que o nome lhe viesse à mente, mas no momento em que o fez, Hera teve certeza de que era o correto.
Jogou a filha do alto da torre enquanto ainda soluçava. Observou-a cair até a Terra e apenas então começou a caminhar para onde todos os outros Grandes deuses estavam se reunindo. Abriu os lábios para dizer as últimas palavras para sua filha:
- Eu te amo, Helena.

Capítulo 1
Vou morrer se você não me tirar daqui, relógio.
Lucy quase conseguia ouvir as palavras sendo ditas por Sophia em sua mente. A amiga fuzilava o pequeno aparelho na parede que parecia girar os ponteiros cada vez mais devagar. Todas as palavras irritantes e vazias pronunciadas pelo professor Martin entravam e saíam por seus ouvidos sem qualquer tipo de armazenamento. Lucy riu da amiga e chamou a atenção do professor para si.
No momento em que percebeu o fato de estar sendo encarada, abaixou a cabeça. Não queria visualizar o olhar desaprovador do professor e sentir-se assustada. Entretanto, não tinha medo do próprio Sr. Martin e sim do jeito como ele reagia às suas ações. Tinha medo porque, na verdade, o olhar dele era desaprovador de mais, como se ele esperasse alguma coisa dela.
Desde cedo odiava essa expectativa que todos tinham dela. Talvez fosse porque ela exalava confiança ou porque era mais inteligente do que os outros estudantes, não importando se ela era ou não uma adolescente normal. A verdade era que ela era sim uma menina de dezesseis anos de idade que não queria decepcionar ninguém. Atrás de toda a arrogância, de toda a máscara que ela colocara sobre si, era mais do que uma menina bonita e inteligente que deveria comportar-se tão bem quanto à mãe.
- Lucinda. – o professor disse e seu tom era pesaroso. Não era necessário que ele dissesse qualquer outra coisa. Aquela simples palavra e seu olhar acusador diziam tudo o que Lucy precisava saber. Ele estava decepcionado com o fato de sua melhor aluna se comportar tão mal em sala de aula.
A menina pigarreou e piscou algumas vezes. Ignorou todos os olhares sobre ela e a energia negativa que a sala mantinha. Recolocou a máscara de arrogância e confiança que sempre tinha quando olhou novamente para o professor. Observou-o ajeitar os óculos de armamento redondo e enferrujado e levantar as sobrancelhas esperando uma resposta. Mentalmente, Lucy desculpou-se com ele.
- Daniel. – ela disse, mantendo o tom um tanto quando desrespeitoso. Os alunos riram e Sophia a olhou com orgulho. – Continue sua aula e ignore as risadas. Tenho certeza de que isso não se repetirá.
O professor virou-se para o quadro novamente, sentindo-se pressionado. Além de todos os alunos estarem concordando com as ordens de Lucy, o ar praticamente o obrigava a fazer aquilo. Lucinda tinha um poder de pressionar as pessoas para que fizessem o que ela queria e esta não precisava medir nenhum esforço. Parecia que era de sua natureza ser persuasiva.
Não adiantou muito ele pegar a o giz branco e colocar a data no canto superior esquerdo no quadro negro. Tão logo abriu a boca para iniciar o conteúdo, o sinal bateu. Os estudantes pularam para fora da sala de aula, gritando de felicidade. Sophia saiu correndo para encontrar-se com o namorado. Lucy, a última a sair da sala, mandou um olhar pesaroso para o professor antes de andar em direção aos armários.
- Anjo. – alguém fechou a porta do armário cinza de Lucy e a fez sorrir.
estava encostado na parede branca de um dos corredores da escola com a expressão de superioridade habitual. Ele mantinha um sorriso no rosto e estendia um dos braços para alcançar os ombros de Lucy. Esta aproximou-se para que ele contornasse seu pescoço com o braço a abraçasse com vontade.
Eles não se viam há mais de uma semana. estava viajando com alguns amigos para comemorar a formatura e voltaria apenas dois dias depois daquele. Por isso, Lucy sorriu surpresa, quando o sentiu a abraçando pelos corredores da escola.
- Como foi sua viagem? – ela perguntou, colocando todos os livros em apenas um dos braços.
- Foi boa. – o rapaz disse, apesar de não ser muito convincente. Lucy arqueou as sobrancelhas e ele lhe lançou um olhar de desdém. – Não queira saber.
- Tudo bem.
então enfiou as mãos dentro da bolsa da menina, procurando pela chave do Chevrolet antigo e preto que ela havia ganhado da mãe alguns meses atrás. Ele pulou para o assento do motorista quando chegaram ao estacionamento e empurrou a amiga para o do carona. Ela bufou, mas assentiu.
- Se você vai dirigir, sem gracinhas. Vá para a minha casa.
- Ah, hoje é o seu aniversário. – resmungou. – Você é muito chata. Nunca me deixa fazer nada.
- Que seja. – Lucy disse. – Agora dirija.

Não demorou muito para que chegassem à casa de Lucy. Os pais dela não estavam, apesar de ser o horário de folga deles. Provavelmente estavam organizando uma festa íntima para os amigos dela, cuidando de todos os detalhes, como sempre faziam.
Os pais dela eram muito detalhistas e tudo em sua vida deveria ser perfeito. Era por causa do histórico impecável de sua mãe que ela tinha que atender a todas as expectativas na escola. Talvez fosse também porque seu pai era alguém inteligente o suficiente para ser conhecido no pequeno bairro na cidade de Veneza. Fosse o que fosse, ela não conseguia atender às expectativas de filha perfeita.
entrou no quarto da amiga e tirou uma fotografia do bolso. Era, provavelmente, uma foto que ele tirara durante sua viagem. Mostrava ele e mais alguns amigos dividindo uma pizza de tamanho gigante, com ele de boca cheia demais para conseguir sorrir. Do mesmo jeito, ele tentava o fazer. Tinha, por isso, uma careta terrível na face. Colocou a foto no canto direito da parede de Lucy, junto com as outras fotos engraçadas que eles tinham juntos. Contemplou a parede e passou os olhos por toda ela. Fora ideia dele criar um mural na parede do quarto de Lucy. Há mais ou menos cinco anos eles escolhiam as melhores fotografias, revelavam-nas e colavam na parede. Havia um canto engraçado, um canto bonito, um canto de Lucy e um de . Porém, eram tantas fotos que não importaria se fosse tudo misturado. A parede era bonita por si própria, talvez um pouco confusa. sorriu, orgulhoso.
- Diga “xis”! – Lucy apareceu gritando com a câmera nova que ganhara dos pais.
Ela era daquelas profissionais, que alguns fotógrafos usavam, que imprimiam a foto em segundos e que conseguiam manter o efeito desta sempre vivo. No momento, estava programada para dentro de ambientes com lâmpadas fluorescentes. Lucinda apertou o botão brilhante e esperou que a foto fosse revelada.
Não importando o modo como ela ficara, a menina colou-a na parede no canto engraçado. Com a careta de surpresa que fizera, não havia outra opção de lugar que não aquele. Esperou que o preto se transformasse na imagem e, quando ela estava totalmente visível, teve de conter uma risada.
- Primeira foto do meu aniversário. – disse. – Sinta-se honrado.
sorriu, mas seus olhos demonstravam uma intensidade tão grande que de fato assustou Lucy. Ele abriu os braços, deu um passo para a frente e envolveu o corpo dela com as mãos. Aquele abraço deveria ser um dos raros momentos em que ele demonstrava o quanto gostava dela. Desde que ele a resgatara da tempestade naquele lago gelado os dois eram amigos. Lucy sabia de poucos detalhes sobre aquele dia e alegava que era jovem demais para lembrar com certeza. Entretanto, quem realmente lembrava se negava a contar. Por isso, as memórias daquele dia haviam sido escondidas de Lucy.
O que ela sabia era que não era filha de sua mãe. Era adotada – fora encontrada por um menino de quatro anos que a achara perto de um rio na época do inverno. Estava se armando uma tempestade e a menina, recém-nascida, provavelmente morreria se ele não a tivesse encontrado. correra contra o vento até uma clínica médica pequena nos limites da cidade e entregara o bebê a uma moça que mais tarde tornara-se a mãe de Lucy.
- Feliz aniversário, anjo.
Finalmente, ele a largou. Lucinda sorriu, corou e abaixou a cabeça. Sempre ficava envergonhada quando a encarava como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. Sabia que ele não tinha qualquer tipo de interesse romântico por ela, mas que levava a amizade dos dois muito a sério. Não ficaria surpresa se ele estivesse disposto a levar um tiro por ela.
então enfiou a mão na pasta de tecido cuja alça atravessava seu corpo de um lado ao outro, na diagonal. Tirou de lá uma caixa fina e larga de veludo, aparentemente cara. Entregou-a a Lucy, já com os olhos brilhando de expectativa. A menina a pegou, curiosa.
No interior da caixa havia um pequeno colar de ouro com um pingente grande o suficiente para conter algumas letras estranhas em grego. Lucy não fazia ideia do que aquilo significava, mas sorriu. O colar era lindo, talvez o mais lindo que já vira na vida.
- Muito obrigada, . – falou, envergonhada. – É maravilhoso.
- Eu coloco para você.
Lucy, com um sorriso, entregou o colar para . Estava com as bochechas rosadas por ter recebido uma joia tão linda de um amigo. Se fosse dos pais, acharia até normal. Ou sentiria-se culpada por eles terem gastado dinheiro com um presente tão exuberante. Mas com , a história era diferente. A menina sabia muito bem que para , dinheiro não era problema.
Na verdade, mal sabia de onde ele tirava todo aquele bendito dinheiro. Uma vez, quando perguntara, respondera que era de algumas apostas. Às vezes corridas de cavalo, às vezes pôquer ou até mesmo jogos esportivos. Ele dizia que tinha um dom para identificar quem iria vencer. Por isso, não precisava trabalhar – tinha dinheiro o suficiente para sustentar a si mesmo e a Lucy e ainda iriam sobrar números na conta do banco.
não tinha pais. Com dezenove anos, já recebera várias oportunidades de entrar em faculdades. Como Lucy, era muito inteligente. Tinha a mesma capacidade de influência e destacava-se em meio ao grupo. Não apenas por sua beleza, mas também porque tinha um brilho espetacular. Mantinha-se perto da escola para treinar natação, o único esporte que ele fazia. Desde os quatro anos, quando resgatara Lucy daquele lago, percebera que adorava nadar. Por isso, naquele mesmo ano, pediu para que a mãe o matriculasse na equipe de natação. Hoje, competia com outras escolas, mas Lucy tinha a impressão de que apenas continuava nadando com o clube do colégio para ficar mais perto da melhor amiga.
Lucy tirou o cabelo de cima dos ombros e ergueu-os em um coque malfeito. Esperou que terminasse de encaixar as duas peças de ouro que ligavam uma ponta do colar a outra e deu uma risada. Correu para frente do espelho e ficou encarando as letras inscritas na joia. Conhecia latim, alemão e francês, mas apenas sabia que existiam as letras Alfa e Beta no alfabeto grego. Tirando isso, ficava no branco quanto ao grego antigo. Por isso, virou para enquanto sorria largamente.
- O que diz?
O amigo fez uma careta e levantou as mãos como se estivesse entregando-se a polícia. Deu alguns passos em direção à Lucy e encarou as letras gregas do colar. Depois de um tempo, balançou a cabeça e encarou os lindos olhos azuis da menina. Suspirando, abriu os lábios.
- Eu não faço a mínima ideia. O senhor que me vendeu isso era meio louco. Disse que tinha a ver com uma bicicleta.
- Uma bicicleta? – Lucy gargalhou, sentando-se na cama. Então, entregou a câmera nova ao e fez um biquinho pidão. – Merece uma foto. Por favor!
tirou a foto que ela tanto queria. Usou um pouco de zoom antes de clicar no botão grande e chamativo, completamente iluminado pela luz verde que formava um fio brilhante em volta do botão. Ele esperou que o preto se tornasse a imagem e, finalmente, sorriu.
Ficara linda. Os lindos cabelos pretos e sedosos escorriam naturalmente até um pouco abaixo dos ombros. Ela havia ajeitado-o em uma trança sem borrachinha, que estava um tanto quanto desmanchada. Os lindos olhos azuis penetrantes estavam convidativos, mais brilhantes agora que ela usava aquele colar. Estavam quase tão azuis quanto os olhos de . A boca, principalmente, destacava-se. Lucy não sabia o que era, mas parecia estar mais perfeita. Ela estava com uma aparência igual, mas diferente. Não tinha imperfeições. Poderia ser Afrodite em pessoa. Como se não bastasse, a pele macia e sem nenhuma imperfeição estava mais brilhante.
Lucy sempre tivera um corpo e rosto de modelo. Alta, corpo bem distribuído, estilo de moda casual consideravelmente bom para uma menina esportiva e pose impecável. Tinha a etiqueta de uma princesa. Iluminava o cômodo sempre que estava dentro deste. Exercia tanto poder sobre as pessoas que, se dissesse “pule”, todos pulariam. Os meninos da escola ficavam loucos. Os veteranos, principalmente. Mas os que realmente babavam quando ela passava eram os que haviam entrado no Ensino Médio há pouco. Porque todos que estudavam com Lucy sabiam que não adiantaria babar. Ela era objeto de desejo inacessível. Tivera um ou dois namorados durante seus dezesseis anos de vida. Estes dois haviam durado mais de meses. O que os meninos queriam era ela durava uma noite. No máximo.
Não. A menina era simplesmente intocável. Estabelecera isso no último namoro, com o garoto mais popular do colégio, Blake Monroe. Aquele típico pedaço de homem que se acha inteligente. Preocupado demais com o cabelo, aparências e com quantas meninas já ficou. Olhos azuis, cabelos castanhos, físico bom para as dezenas de horas na academia da rua ao lado da sua. O sonho de toda a menina, inclusive de quem era Lucy há quatro meses.
Os dois estavam saindo fazia meses. Ninguém entendia porque Blake ainda não havia posto suas mãos imundas nela. A verdade, no final de contas, era que ele realmente gostava dela. O único motivo para o término dos dois havia sido porque ele agira como um idiota.
Um dos amigos estava cheio de dinheiro e todos do grupo tinham uma garrafa de cerveja na mão. A festa da noite era na casa de Jade Lyon, cujos pais estavam fora da cidade. Blake fizera uma aposta atrás da picape vermelha turbinada que ganhara dos pais: em troca de duzentos e tantos dólares, avançaria no relacionamento com Lucy. Quando ele se atreveu a chegar perto de mais, a menina quase deu um pulo. Lembrava-se tão bem daquela noite. Havia o chutado bem entre as pernas. Ele ficara agonizando enquanto ela saía, indignada, em direção ao ponto de táxi. Que se danasse a carona. Que se danasse o carro. Já havia bebido de mais e na manhã seguinte acordaria bem cedo e pegaria um ônibus até a casa de Jade para pegar o Chevrolet. Desde aquela semana, os meninos pararam de mexer com ela. Os que queriam apenas uma coisa nem a convidavam mais para sair. Poucos eram os corajosos que tentavam e queriam mesmo um relacionamento com ela. Lucy, no entanto, já havia desistido. Que fosse o homem perfeito, nenhum outro. Acabaria magoando a si mesma e a quem quer que fosse o namorado da vez.
Claro que isso não significasse que ela fosse santa. Flertava com vários dos rapazes bonitos da escola, trocando olhares intensos ou simplesmente mexendo no cabelo. Quando ela fazia isso, sentia que tinha mais poder do que nunca. Parecia que controlava cada mísero fragmento de feromônio que as pessoas exalavam. Quanto às meninas, tinha o controle pelo grande poder das panelinhas. A influência já bastava, mas seu talento natural expandia seus horizontes. Quando queria ser persuasiva, não havia jeito. Tanto era que Lucy nunca havia visto alguém negar um pedido seu quando ela o fazia com um tom que ela chamava “convincente”.
- Se um dia inventarem um concurso de “melhor parede de fotos”, vamos ter que inscrever a nossa. - a menina disse, com um sorriso, enquanto admirava a si mesma. O canto mais divertido eram todos os cantos em que ela e apareciam juntos. Dava para ver como os dois se conectavam e uma frequência que apenas ele conheciam. Às vezes, não estavam nem ao menos em sintonia com o resto do mundo. O que era bom, na verdade. Lucy sempre sentira que precisava abrir-se para alguém. E, com toda a certeza do mundo, esse alguém não era Sophia.
Tudo bem que as duas eram amigas desde que conheceram uma a outra, na sexta série. Pena que Lucy não tinha foto delas assim, tão pequenas. Agora, cada uma com dezesseis anos, tinha o canto delas na parede, mas era tão minúsculo que quase não dava para ver.
Sophia era muito ligada às aparências. No fundo, tinha um bom coração. Era exatamente como Lucy; colocava uma máscara insensível que a fazia parecer a rainha da popularidade e a valentona que respondia para os professores e esnobava com as outras meninas. tinha alguma coisa contra ela. Quando Lucinda apresentara a amiga ao , ele havia feito um som estranho. Um som tão estranho que, se Lucy não estivesse com tanto sono para fazê-la duvidar se ouvira ou não, poderia ter jurado que era similar a um rugido.
Três batidas ritmadas na porta e depois mais três. Alice, mãe adotiva de Lucy, abriu uma brecha e pôs a cabeça para dentro. Finalmente, deu um sorriso. Em pulos, entrou no quarto. Sem falar nada, pegou a orelha de e o colocou para fora. Tanto Lucinda quando o garoto fizeram caras surpresas, mas foram incapazes de não rir.
- Você tem duas horas para se arrumar para a sua festa, mocinha.

A festa havia sido cansativa. Não fora tão pequena quanto Lucy e esperavam. Alguns dos familiares estavam ali e pelo menos duas das turmas de Lucinda no colégio haviam aparecido. Deveriam ser em torno de noventa convidados. Não que a menina não tivesse gostado, mas preferiria se os pais tivessem deixado as coisas um pouco mais reservadas.
No início, quando Lucy resolveu aparecer, haviam chegado apenas Sophia, Sarah e Blake, quem a mãe insistira em convidar. Era totalmente contra o fim do namoro dos dois e Lucinda sabia que ela o fazia porque não sabia o motivo do término. Se soubesse, Lucy nem queria imaginar em como Alice o faria sofrer. Provavelmente mais um chute entre as penas. Depois, acharia um jeito de, com suas leis e jeitos de lidar com a justiça, colocá-lo na cadeia. Provavelmente por posse ilegal de drogas. Apesar de ele não usar, o irmão usava. Portanto, dentro de sua casa sempre havia alguma coisa. Talvez, também, Alice o colocasse na cadeia por beber e dirigir depois daquela festa. Ninguém sabia se ele havia dirigido, mas o fato de ele ter bebido e o carro não estar lá no dia seguinte havia comprovados fatos.
Durante o aniversário, as coisas típicas aconteceram. Alguns adolescentes namoraram, outros dançaram, outros ficaram sentados o tempo inteiro. Depois disso, dois grandes grupos de pessoas começaram a girar uma garrafa de refrigerante perguntando a outra pessoa se ela escolhia verdade ou consequência. Foi estranho ver todas aquelas meninas admitindo coisas que deveriam guardar a si mesmas, mas aquilo nem havia sido o mais diferenciado da festa.
Lá pelo final, quando a família já havia ido embora e sobravam os amigos mais próximos e, é claro, os pais, alguns pedaços do espelho caíram sobre o chão de linóleo branco. Nada batera neles, nada nem ao menos passara por perto. Simplesmente caíra. Então, alguns longos minutos depois, os jovens ouviram um barulho forte. Um barulho alto, que fizera o chão tremer. Um barulho alto que fazia os ouvidos deles doerem.
Um barulho que se parecia com uma bomba.
Quando ouviu pela primeira fez, Lucy poderia jurar que era. Mas, no entanto, não houve explosões. Era como se fossem invisíveis. Ninguém ficou realmente ferido pela queda. Queda de quê, ninguém sabia. Tudo foi tão misterioso que, depois de dez minutos sem nada mais acontecer, as pessoas começaram a duvidar se havia sido sua imaginação. Tudo voltou ao normal. A música ficou mais alta e agitada, os pais de Lucinda continuavam servindo a comida e bebida.
Mas o barulho se repetiu.
Desta segunda vez, o chão tremeu. As paredes tremeram, também; mas o que mais assustou os convidados foi o subterrâneo. Todos sabiam que embaixo da cidade onde viviam existiam túneis usados pelos antigos militares para conseguirem entrar e sair sem serem vistos. Todos sabiam, também, que aquilo estava abandonado. Era proibido entrar lá. E havia, com toda a certeza do mundo, mais do que apenas uma pessoa se movimentando embaixo da terra, jogando coisas por algum lugar próximo.
E foi tudo tão rápido. Ninguém viu quando aconteceu. Apenas sabia-se que, em um momento, Lucy estava ali; no outro, não estava mais. Ela havia simplesmente evaporado. Não havia sinais de arrombamento. Procuraram todos os lugares do salão, da casa, dos lugares próximos. Os pais de Lucy chamaram a polícia, mas era contra a lei eles tomarem qualquer tipo de providência antes de 48 horas de desaparecimento.
Besteira.
também havia sumido, mas ninguém procurou por ele. Havia, provavelmente, se metido em algum canto da cidade para apostar em mais alguma coisa. Nem consideraram o fato de que ele poderia estar envolvido com o desaparecimento de Lucy.
Não havia se passado nem um dia desde que ela sumira e Alice já estava enlouquecendo. As câmeras não flagraram nada. Havia um corte de uma fração de segundo que tirava um piscar de olhos essencial. Mas nada poderia ter acontecido! Era impossível! Não era? Não, não era. Agora todos dali sabiam que não. Porque foi nesse exato tempo que Lucinda demorara para desaparecer. E onde ela estava agora? Se quem a levou era rápido desta forma, onde eles poderiam estar naquele exato momento? Essas várias perguntas preocupavam os pais de Lucinda.
- Sra. Blackhouse? - um policial estranho e jovem chamou Alice com um livreto estranho na mão. Quando ela aproximou-se dele, este não tardou a entregar o que quer que tivesse na mão para a mulher. Ela franziu o cenho, confusa. Mas só então percebeu o que era.
O passaporte de Lucy.
Com as folhas manchadas de sangue.
As batidas do coração de Alice ficaram mais rápidas. O que havia acontecido com sua filha? O que o passaporte tinha a ver com o sequestro? Aquilo era mesmo um sequestro? E aquele sangue, de quem era? Todas essas perguntas continuavam marteleando na cabeça da mulher. Para todas elas, existiam várias hipóteses, mas o pessimismo típico de Alice a impediu de pensar que aquilo era apenas um mal entendido. Alguma coisa havia acontecido com Lucy. Ela só esperava que não fosse o que ela imaginava.

- Droga!
Lucy pôs a mão no local próximo ao bulbo e praguejou baixinho. O teto não parecia estar assim tão perto naquela escuridão. Ou, pelo menos, não tão perto para ela não conseguir se levantar. Que lugar era aquele, afinal? Olhou em volta, confusa. A última coisa de que se lembrava era estar na sua festa, conversando com e Sophia.
Agora, aquele cubículo onde estava metida era insuportavelmente sufocante. Provavelmente era uma caixa dentro de algum lugar sem luz nenhuma. Conseguia sentir os três furinhos no teto feitos para que o ar entrasse e saísse, mas que não deixavam aquele lugar exatamente em bons termos respiratórios. Começou a bater nas quatro paredes ao seu lado. Alguns passos ao longe foi o máximo que conseguiu ouvir de diferente.
Ai, meu Deus. Ela havia sido sequestrada? Não lembrava-se de nada. Começou a chorar. Onde estaria agora? As ideias vieram em sua mente. Era tão pessimista quanto à mãe. O que aconteceria se não fosse resgatada? Nunca mais fosse ver Alice ou John, seu pai? E ? Nem sabia ela se não estava sendo levada para fora do país. Sentia uma ondulação estranha em todo o ambiente. Só o que lhe faltava era estar em um navio cheio de escravos. Ou cheio de pessoas ricas. Não queria ver a história do Titanic acontecendo novamente.
Ah, sim, ela estava em um navio. Ao perceber isso, seu pânico apenas aumentou. Ela tinha medo de navios! Saber que eles poderiam bater em icebergs, pedras ou simplesmente naufragar em águas perdidas lhe dava ânsia de vômito. Não estava pronta para morrer. Não estava pronta para morrer! Era jovem, recém havia completado os dezessete anos de vida. Bonita, inteligente, com certeza garantiria uma bolsa integral em alguma faculdade de elite. Seu sonho de cursar direito em Harvard não poderia acabar ali. Poderia?
- Socorro! Socorro! - ela sabia que não adiantaria gritar.
Quem quer que tivesse a deixado ali de prisioneira não cometeria um erro tão grande. Que sequestrador que se preste deixaria que os berros da vítima fossem ouvidos? Mas mesmo assim, continuou gritando. Talvez incomodasse o criminoso o suficiente para ele abrir o local onde ela estava. Daria um chute entre suas pernas e sairia correndo. Hm, o pior era se fosse uma mulher. Não tinha movimentação suficiente para acertar algum lugar que realmente doesse em uma mulher.
- Alguém me ajude! Pelo amor de Deus! - o choro ficou mais alto e Lucy sorriu para si mesma quando ouviu o barulho de uma porta abrindo.
Preparou-se para o que quer que lhe acontecesse. O local onde estava tremeu e o teto abriu-se de repente. Mas não havia ninguém ali, olhando para ela, bloqueando sua passagem. Ela estava… Livre? Pulou da caixa de madeira com atenção. Olhou para os lados, encontrando , arfando enquanto tentava falar alguma coisa.
Lucy riu do melhor amigo e seu péssimo preparo físico para corrida.
- Eu…
Ele queria dizer alguma coisa. Lucinda franziu o cenho, tentando identificar suas palavras. Como era possível um nadador campeão ser tão ruim na corrida? Não tinha tudo a ver com respiração? Lucy refletiu um pouco. Desde que conhecia , ele tinha essa tara por água. Qualquer outro tipo de esporte era sua negação.
Tentando dar um tempo para o amigo recuperar o fôlego, Lucy começou a observar o ambiente. Não saberia dizer o nome, mas tinha em mente que o grande cômodo onde estavam ficava tão abaixo do navio quanto a fornalha. O nome era fornalha, certo? Ela queria dizer aquele lugar onde vários operários ficavam o dia inteiro carregando uma grande lareira que mantinha o navio funcionando. Ou isso nem existia mais? A única ideia que tinha sobre navios vinha do filme Titanic, onde passara a maior parte do tempo admirando Leonardo DiCaprio ao invés de prestar atenção no que diziam sobre o número de botes salva-vidas.
Claro! Eles poderiam sair dali por um bote salva-vidas. O sequestrador não demoraria muito para voltar. A não ser que, na pior hipótese, ele já estivesse ali. O medo voltou a possuir o corpo de Lucinda. Onde estava o criminoso? Se a pegasse ali, fora do lugar onde a tinha posto e ainda mais , o rapaz que resolvera dar uma de herói, Lucy nem tinha ideia do que poderia acontecer. Talvez fossem jogados no oceano, ou na lareira junto com o carvão. Com certeza dariam o que falar.
- Vim…
Ignorando a frase incompleta e sem nexo que tentava formular, Lucy deu alguns passos para trás, tentando ver se alguma brecha da porta era o suficiente para eles estarem sendo observados. Não, a porta estava fechada. No entanto, o trinco estava sem chave alguma, o que significava que ninguém poderia ter certeza de que eles estavam sozinhos ali naquele lugar sem serem vigiados.
O barulho de um salto alto descendo as escadas chegou aos bons ouvidos de Lucinda. Não, não poderia ser. Se o sequestrador aparecesse agora, nenhum dos dois jovens saberia o que fazer. Não havia nada que pudessem usar de arma ali. O cômodo era simplesmente vazio, com a única caixa grande o suficiente para que o corpo de Lucy coubesse ali. A menina arrepiou-se. Parecia que havia sido feita sob medida exatamente para que ela entrasse ali.
- Salvar…
O trinco foi forçado para baixo. Imediatamente, Lucy escondeu-se atrás do corpo musculoso de e agarrou-se ao seu braço. O rapaz, que terminava de falar no exato momento, ainda não havia escutado o que Lucinda escutara.
A porta abriu-se em um rompante. Feita de alguma madeira antiga, bateu contra a parede branca de tinta descascada e velha fazendo um barulho alto e irritante. A maçaneta tremeu e o trinco caiu.
- Você! - terminou , antes de perceber a mulher parada na soleira da porta.

Continua...

Nota da autora: N-O-S-S-A-S-E-N-H-O-R-A! Só esse capítulo foram 9 páginas do Word. Mas precisava, certo, não dava pra simplesmente parar em uma cena para mudar o capítulo. Então... Eu me animei. Queremos deixar claro (lê-se: a Amanda quer deixar claro) apenas que quem está escrevendo esta fic sou eu, Eduarda, e quem está ajudando a idealizar e criou essa base para toda a história foi ela, a Amanda.
E quem é a mulher parada na porta, dudes? Eu tive que me conter para não simplesmente sair contando. Agora mesmo estou mordendo a língua para não escrever aqui e fazer a história perder todo o brilho. Enfim, my loves, esperamos que estejam gostando. Vão nos palavrões mesmo (rsrsrs) para explicar o que acham da história, ninguém aqui se importa (apesar de eu ser a santinha - Duda - que nunca falou um mísero palavrão nos treze anos de vida). ;D


Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, não use a caixinha de comentários, avise-me por email. Obrigada. Xx.



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