História por Débora Costa | Revisão por Cáh Almeida

Prólogo

Escondi as olheiras com maquiagem. Ninguém precisava saber que eu passara a noite anterior acordada, perdida em pensamentos. Chega um ponto em que você necessita pensar em todos os caminhos escolhidos que te levaram àquela determinada situação, mas, por mais que eu tentasse entender, eu nunca encontrava um momento certo em que eu passei a olhá-lo com olhos apaixonados.
No começo eu não me sentia parte daquele mundo. Era como se eu fosse um grão de areia extra no mundo, sem função, sem utilidade. Eu, secretamente, me sentia assim todos os dias, ninguém sabia, ninguém percebia. Então me veio a chance de um novo começo. Meus pais haviam misteriosamente decidido que eu iria me mudar para Londres e moraria com uma família chamada Jones. Ninguém nunca me perguntou se eu queria abandonar a minha realidade, a minha solidão, mas quando eu me dei por mim, já estava dentro daquele avião, aterrissando na terra da Rainha e deixando tudo o que eu conhecia para trás.
Decidi, naquele dia, que eu não seria mais aquela garota que tinha medo de olhar nos olhos das outras pessoas. Eu era perfeitamente capaz de começar uma vida onde eu tinha controle das minhas próprias decisões, e Londres poderia me dar essa oportunidade. Tudo no seu tempo, devagar.
Então ele apareceu, devagar. Com aqueles seus olhos profundos, fez com que as minhas pernas vacilassem. Seu jeito grosseiro e um tanto taciturno me deixaram intimidada no início, mas não me abalei. Éramos diferentes, sim, mas, no final, isso acabou sendo o que nos manteve unidos durante todo esse tempo.
Eu mudei. Não por ele, mas pelos acontecimentos ao longo da minha estada em Londres. Novas pessoas cruzaram meu caminho e contribuíram para que eu me descobrisse novamente, direta ou indiretamente. Eu me vi forte, quando eu normalmente fraquejaria. A garota refletida no espelho ainda era aquela que cruzou o oceano assustada e perdida? Não. Aquela garota havia sido deixada para trás por muitos motivos.
- Está pronta? – A voz doce de ecoou pelo quarto, despertando-me dos meus pensamentos. Ela era uma das pessoas que haviam cruzado o meu caminho e contribuído para que eu me tornasse alguém mais forte e mais decidida. Minha melhor amiga, minha primeira amiga. Construímos nossa amizade a partir das mudanças em nossas vidas. Era bom saber que ela estaria ao meu lado naquela noite em que tudo mudaria.
- Estou. – Respirei fundo, encarando meu reflexo no espelho. Eu estava realmente decidida a acabar com todas aquelas palavras deixadas no ar? Seria este o melhor caminho? Eu não sabia, mas precisava arriscar.


Assim que adentramos o salão, meus olhos se perderam em meio a tantas pessoas procurando pela única que me importava ali. segurou minha mão, tentando me manter por perto enquanto um grande número de pessoas vinham nos cumprimentar. Próximo a banda, encontrei e , mas nenhum sinal daquele que eu realmente deseja ver. Onde ele estava? Eu havia dito que precisava dizer algo extremamente importante.
- Ele está no lago. – sussurrou em meu ouvido. Sorri, agradecida, e logo desapareci em meio a multidão.
O frio parecia não incomodar as pessoas que caminhavam pelo jardim. Havia muitos casais apaixonados, e eu não podia deixar de sorrir ao ver tantas pessoas felizes. Eu queria ser uma dessas pessoas.
Então eu o vi. Em pé, na ponte sob o lago, trajando aquele smoking que ele tanto odiava. Seus cotovelos estavam apoiados sob o corrimão e seus olhos estavam completamente perdidos nos flocos de neve que insistiam em cair.
Minhas mãos tremiam. Eu podia sentir o ar congelar dentro dos meus pulmões. Seria realmente aquela, a hora certa de dizer os meus sentimentos? Meu coração apertou dentro do peito, lembrando-me a primeira vez que aqueles olhos se encontraram com os meus. O timbre grosseiro que me tirava do sério, e a maneira taciturna com que caminhava por aí, sempre implicando com a minha maneira de lidar com as coisas. Naquela época havia uma ponte de indiferença entre nós. Não nos importávamos com a presença um do outro e evitávamos. Porém agora, por algum motivo, eu queria alcançá-lo.

Capítulo 01

Nunca imaginei que em algum momento da minha vida eu estaria ali. Sozinha em uma sala de embarque, apenas esperando que um avião me levasse a um lugar desconhecido. Mas estava acontecendo, e de uma maneira bem inesperada. Um dia eu acordei e recebi a notícia que os meus pais haviam decido que eu iria me mudar para Londres e me formar em um colégio muito conceituado de lá.
Diferente dos outros pais, eles não se importaram em perguntar se eu realmente queria essa mudança radical, simplesmente decidiram.
Não era de se surpreender. Eu passei metade da minha vida fazendo coisas que eu não gostaria. Minha mãe sempre convencia o meu pai a me matricular em cursos e palestras, alegando que eu precisava adquirir o máximo de conhecimento possível. Eu não tinha voz, assim como não tive voz quando me colocaram dentro daquele avião.
Alguns minutos – tediantes – depois, o portão de embarque finalmente foi aberto e eu pude seguir para dentro do avião que me levaria a maior mudança da minha vida. Agora era real, eu estava indo para a Inglaterra.
Quatorze horas de vôo não é algo confortável, definitivamente não é. Aeromoças andando de um lado pro outro, um silêncio tedioso durante grande parte do vôo e seu companheiro de poltrona roncando e babando. Tem certas pessoas que têm sorte para algumas coisas e azar para outras, bem, acho que sou uma dessas.
- Senhorita... – chamei a aeromoça que passava por mim.
- Pois não. – sorriu.
- Existe outra poltrona que eu possa me sentar? – perguntei. – Eu acho que vou me afogar na saliva dele se continuar aqui. – apontei para o homem ao meu lado.
- Claro! – ela continuou sorrindo. – É só me seguir.
Peguei minha mochila no bagageiro em cima da poltrona e a segui até uma poltrona mais a frente da minha, na verdade, bem mais a frente.
Guardei novamente minha mochila em seu devido lugar, pegando antes meu mp4, afinal, ainda faltavam sete horas de vôo e eu precisava me distrair.
Sentei-me na poltrona da janela e liguei meu pequeno aparelho. Observar as nuvens no céu à noite ao som de Love me Tender , na voz de David Archuleta, é realmente uma das melhores distrações.
- Você não vai jantar? – ouvi uma voz masculina perto do meu ouvido.
- Er... Não. – respondi com a voz trêmula. Fiquei tão distraída com a música que acabei não percebendo o garoto que se sentara ao meu lado. Só espero que ele não babe também.
- Eu quero só o refrigerante. – pediu à aeromoça, que lhe entregou uma latinha de coca cola.
– Certeza de que não quer nada? – perguntou novamente.
- Certeza. Eu passo mal com essas comidas de avião. – expliquei.
Ele sorriu pra mim e voltou sua atenção para o livro que estava em seu colo. ‘O Segredo’ era o nome. Tinha certeza que já havia lido aquele livro, mas vagamente me lembrava do que se tratava. Desisti de puxar da memória qualquer informação útil sobre o livro, voltando à atenção novamente a voz divina de David.
Eu ainda me perguntava como havia permitido que a minha vida mudasse tanto. Em nenhum momento de toda a discussão sobre a minha viagem, eu proferi qualquer palavra dizendo que eu não queria ir. Havia tantas pendências no Brasil, e uma delas tinha nome, cabelo e um jeito insuportável de Don Juan. Pietro era o seu nome. Fazia um tempo que a nossa amizade já não era mais a mesma. Ele era meu único e melhor amigo, mas agora nossa amizade estava mais para algo "solo".
- Vai morar no avião, é? – ouvi uma voz rouca ecoar em meus ouvidos. Abri os olhos com certa dificuldade vendo um rosto, talvez angelical me encarando com um sorriso.
- Já chegamos? – perguntei me espreguiçando.
- Já! – sorriu. – Bem vinda à terra da rainha.
Observei os passageiros saindo do avião em meio a um tumulto. Será que as pessoas não sabem fazer fila? Esperei junto ao garoto ao meu lado que a maioria desembarcasse, para que então pudéssemos pegar nossas coisas e descer também.
Assim que senti o vento frio bater em meu rosto, a ficha finalmente caiu, eu estava em Londres.
Comentei que odeio lugares super lotados? Bem, eu odeio. Peguei um carrinho para por as minhas malas e depois de quase quinze minutos lutando contra pessoas mal educadas, eu finalmente pude seguir para o saguão principal, onde os estariam me esperando.
- Merda. - Falei para mim mesma. O saguão estava tão lotado quanto a área das bagagens, procurar os ali seria o mesmo que procurar uma agulha no palheiro. Caminhei em direção às cadeiras do saguão, subindo em uma delas. Finalmente uma visão mais limpa daquele lugar.
- Atenção, por favor! - Gritei. Algumas pessoas próximas a mim pararam para me olhar, logo havia um grande grupo perto de mim. - Será que alguém pode me ajudar a encontrar um tal... - Olhei o papel em minhas mãos verificando o nome da pessoa que deveria estar me esperando. - ? – Arqueei a sobrancelha.
- Sou eu. - Um garoto, aparentemente da mesma idade que eu, saiu no meio da multidão com as mãos para cima, me permitindo localizá-lo com facilidade.
- Finalmente, você poderia ao menos ter feito uma placa, né? - Proferi enquanto descia da cadeira. Ele apenas deu os ombros, fazendo sinal para que eu o seguisse.
Não trocamos nenhuma palavra depois disso. Fizemos o trajeto entre as pessoas até o carro sem nem ao menos olharmos um para o outro. Ele se manteve indiferente à minha presença, como se não fizesse a mínima questão que eu estivesse ali.
Apesar do mau humor do meu “guia", não me privei de notar como Londres era uma cidade bonita. Apesar do céu nublado, a cidade ainda tinha a mesma beleza que eu vira em algumas fotos. Por sorte, eu teria alguns dias para visitar os pontos turísticos e conhecer melhor o lugar antes das aulas começarem.


A família morava um pouco mais ao sul de Londres, em um condomínio fechado, não muito grande. A casa ficava logo no início da rua, umas quatro casas após a entrada no condomínio. De aparência grande, a casa – pelo menos por fora – parecia ser bem aconchegante.
Assim que adentramos, uma senhora com aparência muito doce surgiu no hall da casa. Trajava um vestido vinho, justo e sem muitos detalhes. Sua presença transmitia elegância e outra coisa que eu não encontrei palavras para definir.
- Você deve ser a , certo? – Eu apenas assenti com a cabeça e ela sorriu. – Seja bem vinda, eu espero que goste de ficar aqui. – O garoto, , depositou um beijo na bochecha da mãe e sumiu na escada que dava ao segundo andar.
- Não se preocupe comigo, senhora, eu pretendo não dar nenhum trabalho. – Sorri simpática, tentando passar uma boa impressão.
- Deixe suas malas aí, depois eu peço para que alguém as leve para o seu quarto. – Eu apenas concordei e a segui casa adentro para conhecer melhor o meu novo lar. Começamos pela cozinha, que era realmente um sonho. Parecia uma daquelas que você compra prontinha na loja. Havia um jardim nos fundos, muito bem cuidado.
O andar de cima tinha um formato arredondado, composto de cinco portas. O quarto dos donos da casa era o primeiro, depois o quarto de , com um adesivo escrito “Not Disturb" bem grande.
Meu quarto era bem espaçoso, tinha um tom lilás bem claro e uma varanda com vista para o jardim.
- Espero que goste do seu quarto, se quiser mudar alguma coisa é só me avisar. - Disse a Sra. .
- Está perfeito, muito obrigada. - Sorri simpática. Então ela me deixou ali para organizar as coisas do meu jeito. Eu não sei como, mas as minhas malas já estavam ali.
Organizei minhas roupas no closet, meus pôsteres na parede e meu computador na mesa. Eu realmente estava começando a sentir falta do Brasil. Principalmente do calor.
- Pode entrar. - Respondi ao ouvir algumas batidas na porta.
- Minha mãe pediu pra te avisar que o jantar está quase pronto. - O rosto de não parecia muito amigável. Eu apenas ignorei. Durante o jantar, ele não disse nenhuma palavra. Sr. ficou me fazendo um interminável interrogatório sobre como era a minha vida no Brasil, onde eu estudava e como eram meus amigos. Confesso que foi um pouco desconfortável, pelo simples fato de eu não ter muito contato com a minha família e meu número de amigos ser quase zero. Sim, quase. Eu tinha o Pietro, só ele e mais ninguém. Eu nunca fiz o tipo popular, nem muito sociável. Era uma característica que eu pretendia mudar a partir de agora.
Subi para meu quarto após o jantar. Provavelmente meu único amigo estaria me esperando na internet. Ao passar pela porta do quarto de , pude ouvir uma melodia bem conhecida por mim. The Beatles. Pensei em bater na porta, mas assim que tive menção em fazê-lo, a mesma se abriu e eu me deparei com aqueles olhos profundos totalmente confusos.
- Posso ajudar? - Perguntou com um tom indiferente na voz. Eu apenas neguei com a cabeça e continuamos ali, parados, encarando um ao outro.
- Você estava ouvindo Beatles... – Minha voz saiu um tanto falha e minhas bochechas coraram sem querer.
- Pois é... – Deu os ombros.
- Eu adoro Beatles. – Sorri.
- Eu não perguntei. – Ele revirou os olhos, fechando a porta atrás de si com força.
- , amanhã eu... - A Sra. apareceu no corredor tão de repente que se assustou ao nos ver ali. - Desculpem, eu não queria interromper. - Sorriu.
- Tudo bem, eu já estava indo dormir. - Sorri para ela e segui em direção ao meu quarto.
Ele era tudo o que eu não precisava naquele momento. Alguém para implicar comigo e fazer com que eu me sentisse mal. Respirei fundo, tentando acalmar meus ânimos. Eu não queria me envolver em problemas ou criar inimizades, mas se ele não iria ser simpático comigo, eu não via necessidade de ser simpática com ele.
Liguei meu computador, na esperança de ter alguma notícia de Pietro, mas tudo o que eu encontrei foi uma caixa de entrada vazia. Talvez tudo estivesse bem pior do que eu imaginava. Queria entender o por quê.
Afastei os pensamentos ruins, afinal, amanhã eu iria fazer um longo passeio pelos principais pontos turísticos de Londres. Era um novo começo para mim, com novas pessoas. Mesmo sendo uma mudança contra a minha vontade, eu tinha que tirar algum proveito disso, certo?

Capítulo 02

Eu nunca poderia imaginar que as manhãs em Londres poderiam ser tão bonitas. O clima não estava nem tão quente, nem tão frio. A brisa que adentrava o quarto balançava levemente as cortinas quase transparentes, fazendo com que os raios de sol me obrigassem a levantar. O dia seria longo. Eu realmente queria reclamar de estar ali. Reclamar do garoto do quarto em frente ao meu, da cidade, do clima, ou de qualquer coisa, mas eu não conseguia. Era um bom lugar, uma boa família e o garoto era levemente suportável.
Levantei-me da cama rapidamente e fiz minha higiene matinal. O sono ainda estava impregnado no meu corpo, mas nada que fosse me impedir de sair de casa naquela manhã. Eu queria visitar os principais pontos turísticos de Londres antes das aulas começarem.
- Bom dia. - Sorri ao encontrar a família reunida no café da manhã. Como sempre, mantinha a mesma expressão de poucos amigos, mas eu não me importava. A única dúvida era se aquele garoto já havia dado um sorriso uma vez na vida.
- Bom dia, minha querida, dormiu bem? - Perguntou uma Srª. sorridente.
- Sim. Tive uma ótima noite de sono. - Sorri de volta, me servindo com um pouco de café.
- E quais são os planos para hoje? - Agora foi a vez do Sr. se pronunciar.
- Bom, eu pretendo conhecer um pouco a cidade, pontos turísticos... fazer algumas compras, não sei. - Dei os ombros.
- poderia te acompanhar. - Sugeriu. Ambos arregalamos os olhos tentando encontrar alguma desculpa que nos livrasse daquele convívio forçado. - Ele conhece muito bem a cidade. - Completou.
- Não precisa, eu posso me achar sozinha. Não quero incomodar. - Falei baixo, tentando não encarar nenhuma das pessoas a mesa.
- Não é incomodo querida. Tenho certeza que ele não se importará em te mostrar a cidade. Não é filho? - A Srª. se voltou para , que tentava ignorar toda a conversa.
- Claro, mãe. - Sorriu forçado, concordando com a mãe. - Mas, hoje eu tenho ensaio da banda. - Completou.
- Você pode levá-la ao ensaio também. - Proferiu o Sr. .
Eu não disse nenhuma palavra. Terminei de tomar meu café e subi para o meu quarto. Precisava organizar algumas coisas antes de sair, eu não sabia do que iria precisar, então precisava levar um pouco de tudo.
- Você está pronta? - Ouvi a voz de atrás de mim, quando me virei em direção a ele, pude encontrá-lo encostado na porta, me observando.
- Estou, mas não precisa fazer isso se não quiser. Eles nem vão saber. - Dei os ombros. Não queria forçar ninguém a estar na minha companhia.
- Eu não me importo em fazer isso. Vou te esperar lá em baixo. - Ele deu os ombros e saiu. Ainda existia aquela expressão de mau humor, cuja eu não conseguiria me acostumar tão cedo. É horrível estar em um lugar onde você não consegue se sentir bem vinda. E eu ainda teria que passar o dia ao lado dele. Tortura ou castigo? Os dois.
Peguei minha mochila e desci rapidamente. me esperava no hall, impaciente. Se ele não estava com vontade de ir, então porque estava indo?
- Estou pronta. - Sorri, tentando ser simpática com ele e acabar com aquela cara de múmia esquizofrênica.
- Vamos. - Proferiu, seguindo em direção ao jardim da frente. Por sorte, o garoto já dirigia, isso significava que eu provavelmente economizaria no ônibus, pelo menos por hoje. - Aonde quer ir primeiro? - Perguntou desanimado.
- London Eye. – Respondi, sorridente. Ele não iria estragar meu passeio com aquele mau humor, não mesmo. Coloquei o cinto de segurança e rezei para que fosse um bom motorista. Eu não queria morrer antes de terminar o Ensino Médio, ainda tinha muito a viver. O caminho até o nosso destino não era longo. Eu esperava ter que ficar o mínimo possível sozinha com aquele garoto. Aquele clima era desconfortável. Algumas vezes eu tinha a sensação de que me jogaria para fora do carro e me deixaria ali. E, a julgar o humor maravilhoso que ele demonstrara desde que cheguei, eu realmente não me surpreenderia se ele o fizesse.
Depois de uns dez minutos de carro, finalmente chegamos ao London Eye. Meu coração só conseguiu parar de bater forte quando eu me vi no meio de toda aquela multidão. Se ele tentasse me matar eu pelo menos teria testemunhas.
- É por aqui. - Ele passou as mãos sobre meus ombros, me guiando em direção à entrada. Eu realmente me surpreendi com aquela atitude, mas e se ele estivesse tentando me segurar para que eu não fugisse? Eu definitivamente estava ficando paranóica.
Entramos na nossa cabine. Eu realmente estava animada com aquilo, porém havia me esquecido de um detalhe muito importante: Eu morria de medo de altura.
- ... - O chamei com a voz um pouco falha.
- O que foi? - Proferiu com a voz entediada, se aproximando de mim.
- Ainda dá tempo de sairmos daqui? - Perguntei, pedindo mentalmente por uma resposta positiva.
- Hm, não. Já fecharam as portas. - Suspirou. – Por quê?
- Eu tenho medo de altura. - Proferi, deixando transparecer o tremor das minhas pernas e a minha falta de ar.
- E você só me diz isso agora, garota? - Falou um pouco irritado. Puxando meu corpo contra o dele, como se quisesse me manter segura.
- Desculpa, mas eu estava tão feliz que me esqueci deste pequeno detalhe. - Falei ríspida. Garoto idiota.
Ele apenas passou as mãos pela minha cintura, para que eu pudesse me manter firme. Quando a cabine começou a se movimentar, eu não hesitei em agarrá-lo com toda força. Se morrêssemos pelo menos eu teria companhia na hora da passagem.
- Você precisa ficar calma. - Ele proferiu. - Hm, dizem que se distrair é uma ótima idéia nesses casos.
- E como pretende fazer isso, Albert Einstein? - Perguntei, sentindo minhas mãos ficarem cada vez mais geladas.
- Todas as brasileiras são irritantes como você? - Revirou os olhos.
- Eu não sou irritante! - Dei a língua. Quem ele estava pensando que era?
- "Ai Sr. , eu estudo muito. Meus pais querem a melhor educação pra mim. Eu falo francês fluente, alemão e blá blá blá" - Me imitou.
- Todos os ingleses são tão patéticos como você? - Perguntei revirando os olhos.
- Eu sou o melhor inglês que você vai conhecer. - Ótimo, além de idiota era egocêntrico. Obrigada mãe, obrigada pai, estou vendo como vocês realmente amam a sua filha única.
- Idiota. - Resmunguei.
- Medrosa. - Ele revidou.
Ficamos trocando apelidos carinhosos durante um bom tempo, até que finalmente a porta da cabine se abriu e eu pude me sentir segura em terra firme.
- Aleluia! - Gritei. - Engraçado, foi tão rápido. - Comentei.
- Bem, eu disse que distração faria seu medo passar. Talvez eu realmente seja um Albert Einstein. - Aquele sorriso convencido estava começando a me tirar do sério.
Depois que saímos do London Eye, me levou para conhecer o mosteiro de Westminster Abbey. Era um belo lugar, com uma aparência gótica. Eu havia lido alguma coisa na internet sobre o lugar, mas eu não me lembrava muito bem o quê.
Passamos pelo Museu Imperial, mas reclamou tanto de estar ali, que eu decidi voltar com mais calma outra hora.
Por um segundo, durante todo aquele passeio, eu desejei que Pietro estivesse no lugar de . Eu sentia muita falta do meu amigo. Com certeza, tudo aquilo teria maior graça se ele estivesse comigo. Iríamos apreciar a estrutura do Mosteiro Abbey, e ele provavelmente faria uma piada para me arrancar um sorriso. Por que meus pais haviam me obrigado a vir para este lugar? Eu não estava reclamando, mas se tivessem me avisado com antecedência, eu provavelmente tinha dado um jeito de Pietro vir comigo. Moraríamos em um apartamento no centro de Londres, estudaríamos juntos e daríamos várias festas brasileiras por aqui.
Eu sentia falta do seu ânimo, e da maneira como cuidava de mim. Eu nunca pensei que um dia me veria em um lugar sem meu melhor amigo, e agora eu estou aqui, a um oceano de distância dele.
resolveu que seria muito mais vantajoso para nós, almoçarmos em um restaurante próximo ao museu. Eu não estava com fome, mas acabei por concordar com ele. Logo depois do almoço, fomos ao Palácio de Buckingham. Um dos pontos turísticos que eu mais queria conhecer, pois todos comentavam como era interessante assistir a troca das guardas.
- Uau, este lugar é realmente maravilhoso. - Proferi, observando o lugar ainda do lado de fora. Havia muitas pessoas ali. Alguns brasileiros, franceses e até mesmo alemães. Também havia um casal de senhores, aparentemente de sessenta anos de idade fotografando tudo que viam pela frente. Não pude deixar de achar aquilo fofo, e, mais uma vez, Pietro me veio à cabeça. Será que um dia seríamos idosos e ainda amigos como somos hoje?
- Você se impressiona tão fácil. - deu os ombros, passando os olhos pelo relógio em seu pulso. Eu não estava preocupada com as horas, não devia ser nem duas ainda.
- Cala a boca. - Revirei os olhos. Continuei o caminho não dando importância à cara de tédio que fazia. Eu não tenho culpa se ele fez questão de obedecer aos pais e me acompanhar.
Acompanhei o grupo de turistas que adentravam o lugar. Havia tantas pessoas que eu estava quase me sentindo na fila da estreia de Harry Potter, no Brasil. Era bem assim.
- Que horas é a troca da guarda, ? – Voltei-me para o garoto, mas, para a minha surpresa, ele não estava ali.
Voltei o caminho, na esperança de encontrá-lo na entrada do lugar, porém, ele não estava. Passei meus olhos cautelosamente pelo local, na esperança de avistá-lo por perto, mas não demorou muito para que a ficha caísse. Eu estava sozinha.


Capítulo 03

Ódio. Esse era o único sentimento que tomava conta de mim naquele momento. Eu estava perdida nas ruas de Londres, e, para completar, começara a cair um temporal que, provavelmente, veio do além apenas para piorar a situação em que eu me encontrava. Se aparecesse na minha frente, eu seria capaz de cravar minhas unhas em seu pescoço, sem me importar se seria presa por agressão física ou não.
Como ele pudera fazer aquilo? Era uma atitude desumana, até mesmo para ele. Eu não sabia como voltar para casa, não havia pegado o endereço, nem mesmo o telefone. Se ele queria ensaiar, era só ter me avisado e iríamos para onde ele queria, sem problema nenhum.
Conforme eu caminhava sem rumo, a tempestade apenas piorava. Eu não sei exatamente como os ingleses chamam aqui, mas na minha terra denominamos isso como "Lei de Murphy". Aquele momento em que acontece tudo o que você não queria que acontecesse. No meu caso, eu não queria que estivesse chovendo, ventando, muito menos trovejando. Na verdade, eu queria que passasse um táxi, para que eu pudesse ao menos tentar encontra o caminho de casa, mas as ruas estavam completamente vazias. Não havia sinal de nenhuma viva alma.
O fato era que eu não sabia onde estava. Por algum motivo, as ruas de Londres me pareciam todas iguais. Eu estava caminhando há mais ou menos três horas, e o cansaço estava começando a dominar o meu corpo.
Ao virar a décima esquina, deparei-me com um hotel. Minha visão estava um pouco turva, mas eu consegui identificar bem a placa em neon vermelho. Não era um dos hotéis mais bonitos que eu já havia visto em Londres, mas provavelmente eu conseguiria alguma informação ali, ou abrigo.
- Com licença. - Proferi ao me aproximar do balcão da recepção, que, para minha sorte estava vazio. Como eu disse, Lei de Murphy.
Toquei a sineta algumas vezes, na esperança de que alguém fosse aparecer, mas nada. Como as pessoas deixam um lugar abandonado? Vai entender.
- Oi, eu posso ajudar? - Uma voz feminina surgiu no hall do hotel, me assustando. - Desculpe, eu não queria assustar. – Logo eu pude ver que se tratava de uma garota de estatura média, morena, com uma expressão muito simpática no rosto.
- Tudo bem. - Proferi. - Eu estou perdida, será que você pode me ajudar?
- Você não é daqui, né? – Observou a garota, tomando posição atrás do balcão.
- Poxa, e eu achando que seria capaz de me misturar. - Fiz bico e nós rimos.
- Seu sotaque denuncia. - Riu.
- Eu sei. Meu inglês não é um dos melhores mesmo. - Dei os ombros. - Ah, meu nome é . . - Estendi a mão para mesma, me apresentando.
- . Prazer. - Ela sorriu, apertando minha mão. - Então, ... Como você conseguiu se perder?
Contei a ela o que havia acontecido comigo, dando ênfase no fato de ter me largado no meio do Palácio de Buckingham, provavelmente para ir ensaiar com a sua banda. Ela se surpreendeu, pois Buckingham ficava bem longe dali, me fazendo concluir que eu havia andado muito mais do que imaginei.
Meu pés estavam doendo, meu corpo estava gelado e tudo isso era resultado da falta de consideração de . Eu não havia obrigado ele a me acompanhar, não havia porque ele ter feito isso comigo.
- Enfim, agora eu não sei como voltar pra casa e estou perdida. - Conclui minha história com um longo suspiro de cansaço.
- Que garoto estúpido! - Comentou. – Isso é atitude de um imbecil.
- Eu que o diga. Desde que cheguei, ele vem me tratando com essa frieza, e eu nem ao menos sei por quê. – Dei os ombros, tentando aquecer meus braços. - Que bom que Deus teve pena de mim e me fez te encontrar. - Ri.
- Ainda bem mesmo. Imagina se você fica vagando por ai embaixo dessa tempestade. É perigoso. – Ela afirmou.
A tempestade que caia do lado de fora não era favorável para que eu fosse para casa. me ofereceu um dos quartos do hotel para que eu pudesse tomar um banho quente e tirar aquela roupa molhada antes que ficasse doente. A companhia da garota era realmente agradável. E depois de estar devidamente vestida com roupas secas e aquecida, e eu passamos um bom tempo conversando sobre coisas aleatórias. A garota me contou que morava com seu pai naquele hotel, e que, sozinhos, tentavam manter o lugar funcionando. Ela mesma admitiu que o lugar precisava de uma reforma, mas não havia conseguido dinheiro suficiente para fazê-lo.
Contei a ela um pouco da minha vida no Brasil, dando ênfase na parte em que meus pais não se deram nem ao trabalho de me perguntar se eu realmente queria deixar a minha terra. Falei um pouco de Pietro, claro. E , como me permitiu chamá-la, me contou que sua mãe havia se mudado para Paris, com o novo marido rico dela. Não ousei perguntar porquê ela não preferiu morar com a mãe, acho que é algo muito pessoal.
Eram quase sete da noite quando a chuva cessou. Expliquei mais ou menos o que me lembrava do lugar onde os moravam, e, por sorte, conhecia o lugar. Chamamos o táxi e ela explicou cuidadosamente ao motorista o melhor caminho para chegar ao meu destino.
- Obrigada por me ajudar. – Sorri, abraçando a garota, agradecida.
- Nada. Volte sempre que quiser para conversarmos. E se quiser matar esse tal de , me avise. – Sorriu.
A ida de volta para casa levaria cerca de quarenta minutos. Eu não me lembrava de como conseguira chegar tão longe. As ruas de Londres voltavam a se encher de pessoas e as luzes começavam a se acender, deixando a cidade ainda mais bonita quanto de manhã.
No fundo, por mais belo que fosse o lugar e por mais legal que fosse estar com os , apesar do filho imbecil deles, eu realmente queria voltar para casa. Sentia falta do único amigo que eu tinha. Do meu quarto. Da ausência constante dos meus pais em minha vida, que, por sinal, não tiveram o trabalho de dar nenhuma ligação para saber como eu estou. Eu queria poder voltar, mas aquilo me parecia fora de questão.
Meus olhos se perderam na paisagem, levando meus pensamentos junto com eles. Era a saudade apertando o peito. Saudade de coisas que eu nem ao menos tinha.
- Moça, eu não posso entrar com o táxi, vou ter que te deixar aqui. - Proferiu o motorista, despertando-me de meus pensamentos.
- Tudo bem. O senhor já me ajudou bastante. - Sorri. - Quanto foi a corrida?
- Nada. Foi por conta do hotel, não se preocupe. - Ele sorriu e, assim que eu desci, do veículo, partiu. Acenei para o porteiro do condomínio, pedindo que ele avisasse alguém da família que eu estava do lado de fora. Como eles ainda não haviam me registrado na portaria, eu só poderia entrar acompanhada de um deles. Questões de segurança, eu acho.
Não demorou muito para que um dos empregados da casa aparecesse com um papel na mão, liberando a minha entrada. Logo que adentramos a casa, Marisa, como me permitiu chamá-la, jogou sobre mim um mundo de perguntas sobre o que havia acontecido e onde estava o filho dela senão comigo.
Eu poderia simplesmente dizer exatamente o que havia acontecido, porém seria fácil demais. Ele provavelmente esperaria aquela atitude de mim, e eu não daria esse prazer a ele.
- Eu achei melhor ir ensaiar sem mim. É claro que ele insistiu muito para que eu fosse, mas eu estava com vergonha de conhecer os amigos dele. Então, para que ele não ficasse chateado comigo, eu o deixei no meio do Palácio de Buckingham e continuei meu passeio. Sei que ele deve ter ficado muito preocupado, mas entendeu. - Suspirei, tentando fazer parecer que a culpa fora realmente minha. - Não brigue com ele, por favor. Eu quem não deveria ter sumido assim. Às vezes eu me esqueço de que não estou mais na minha terra natal. - Mais um longo suspiro e uma expressão de tristeza em meu rosto foram suficientes para fazer com que a Srª. deixasse o assunto " e Palácio de Buckingham" de lado e me abraçasse, como se eu fosse sua filha querida.
Ouvi o barulho da porta da frente se abrindo e logo a figura de se revelou na entrada da sala.
- ! - Levantei-me correndo e o abracei. Não, eu nunca tinha feito aulas de teatro ou coisa do tipo, mas eu era boa em convencer as pessoas quando eu queria. - Finge que sabe do que eu estou falando. - sussurrei em seu ouvido, continuando a encenação. - Desculpe tê-lo deixado sozinho, eu sei que não devia ter te dado preocupação à toa. - Proferi, me afastando dele.
- Que bom que está bem. - Ele sorriu, colocando uma mecha do meu cabelo para trás. - Eu realmente fiquei muito preocupado com você, Déh. Os garotos e eu ficamos procurando por você a tarde toda.
Só eu conseguia sentir a falsidade em sua voz? Ele não esteve preocupado comigo nem um segundo si quer do seu dia animado, enquanto eu fiquei por horas vagando pelas ruas em baixo de uma tempestade.
- Me desculpe, . - Pedi mais uma vez, dando um discreto sorriso irônico, sem que a mãe dele percebesse.
Marisa anunciou que comeríamos pizza no jantar em minha homenagem. Ela fazia questão que eu experimentasse todo o tipo de comida inglesa, mesmo aquelas que não eram tão saudáveis assim. Ela alegou que na internet disseram que nós brasileiros temos o costume de comer essas coisas no jantar (o que não deixa de ser mentira), e para fazer com que eu me sentisse em casa, resolveu que mudar o cardápio seria uma ótima opção.
Subi para o meu quarto, tomando um banho quente e colocando uma roupa mais confortável. Liguei meu notebook por alguns instantes, apenas para mandar um e-mail para Pietro que não havia dado sinal de vida durante todo o dia. O que será que ele estava aprontando?
- Por que você não contou o que de fato aconteceu hoje? - Ouvi a voz de surgir atrás de mim, fazendo com que eu pulasse da cadeira.
- Que susto, garoto. - Ofeguei. Garoto retardado, quase me faz vomitar meu coração.
- Não foi a intenção. - Proferiu, passando os olhos lentamente pelo quarto. - E aí, vai me dizer por que ou não?
- Eu não sou dedo duro. Simples. - Dei os ombros, voltando minha atenção para o computador.
- Duvido que seja isso. - Ele insistiu.
- Bom, se vai acreditar ou não em mim, o problema é seu. Agora, se fizer o favor de pegar a sua dúvida e se retirar do meu quarto, eu agradeço. - Sorri, tentando fazer a minha voz soar o mais simpática possível. Eu precisava controlar a minha raiva. O que é dele estava guardado.
- Definitivamente simpatia não é uma qualidade sua. - Comentou.
- Creio que posso dizer o mesmo de você. - Sorri. O que ele estava tentando fazer? Me tirar do sério? Eu havia acabado de livrá-lo de um problema com os pais e, mesmo assim, ele insistia em atormentar as poucas horas de paz que eu tinha. Droga.
Ele continuou ali. Não se retirou do quarto como eu havia pedido. Apenas sentou-se na cama e ficou observando cada movimento meu, como se me analisasse. Eu tentei ignorar tal atitude, mas não havia como não me sentir constrangida com o olhar dele sobre mim. Eu o queria longe. Bem longe.
- Por que está fazendo isso? - Perguntei, me voltando para ele.
- Fazendo o quê? - Ele questionou.
- Tentando me intimidar. - Respirei fundo, tentando me convencer de que uma abordagem direta me livraria da presença dele até a hora do jantar.
- Eu não estou fazendo isso. - apenas deu os ombros, voltando seu olhar para um ponto qualquer do quarto, como se quisesse fugir do assunto. - Tudo bem. - Suspirei. – Por que ainda está aqui?
- Me mandaram ficar te fazendo companhia. - Ele admitiu. Não fiquei surpresa com isso. não gostava nem um pouco de ter nenhuma proximidade comigo, e para ele estar ali, só mesmo obrigado pelos pais.
- Não precisa. - Dei os ombros. - Aliás, eu estou querendo ficar um pouco sozinha.
- Tudo bem. Diga isso para eles, caso perguntem. - Ele apenas se levantou e saiu do quarto.
Eu queria entender o porquê dele me tratar assim, sem nem mesmo me conhecer. Claro, eu não era nenhum poço de simpatia e nem mesmo queria estar ali, mas ele, ao menos, poderia ter sido um pouco mais receptivo comigo. Sempre achei que os ingleses fossem ótimos anfitriões. era estranho, definitivamente estranho.

Capítulo 04

Primeiro dia de aula. Mais conhecido como o pior dia da minha vida. Poderia ser melhor se eu conhecesse alguém interessante, com quem fosse possível manter um diálogo maior do que "Anda logo, não quero me atrasar".
me esperava impaciente no corredor. Não estávamos atrasados, porém ele queria sair cedo de qualquer maneira. Se houvesse a opção de não ir, eu ficaria feliz. Não estava nem um pouco confortável com a ideia de estudar em um lugar onde não conhecia uma pessoa sequer. Tudo bem, eu conhecia , mas depois do que ele aprontou comigo no sábado, eu não tenho motivo algum para querer conviver pacificamente com ele.
Assim que coloquei os pés para fora do quarto, o garoto desceu as escadas correndo, fazendo com que eu tentasse segui-lo na mesma velocidade.
- Você vai atrás. - Proferiu, assim que eu fiz menção de sentar no banco da frente.
Eu apenas assenti e me desloquei para o banco de trás. Não me atrevi a puxar conversa com ele, não me interessava. Era inimaginável qualquer tipo de relacionamento amigável entre nós, logo, resolvi me limitar às caronas até a escola e nada mais. Tenho certeza de que ele estaria de acordo com isso. Poupá-lo-ia de ser desagradável o tempo todo.
O dia estava bonito. Os raios de sol que escapavam entre as folhas das árvores davam certo ânimo ao ambiente.
Fizemos uma parada em uma casa semelhante à dos . Não ousei questionar o porquê, apenas observei descer do carro e cumprimentar o garoto que estava parado no jardim. Provavelmente era seu amigo. O vi apontar para o carro, o que me fez voltar-me para o outro lado rapidamente.
- Você deve ser a , certo? - Outro garoto, de aparência simpática, surgiu na janela do carro. O mesmo me observou de cima a baixo com um discreto sorriso no rosto. Não pude deixar de sentir minhas bochechas queimarem.
- Sim, sou eu. - Dei os ombros, tentando disfarçar a minha vergonha.
O garoto abriu a porta do carro e sentou-se comigo no banco de trás, fazendo com que um clima muito estranho se instalasse ali.
Eu não tinha coragem para puxar conversa. Não queria arriscar ser tratada de forma estúpida como fizera comigo. Dizem que só andamos com aqueles que são parecidos conosco, logo, as chances dos amigos de serem iguais ou piores que ele eram bem grandes.
- Eu sou . Prazer. - Ele sorriu e eu apenas assenti. - Você é do Brasil, certo?
- Sim. Rio de Janeiro para ser mais exata. - Sorri. Eu não sabia como reagir diante de pessoas que não conhecia. Eu era simpática, comunicativa, porém meu lado melancólico me obrigava a manter certa distância das pessoas, o que explicava um pouco minha timidez. - Você é amigo do ? - Ousei perguntar.
- Sou. - Ele concordou. - , , e eu somos amigos desde as fraudas. - Ele riu.
- Pelo menos você é mais simpático que ele. - Comentei, me arrependendo em seguida das palavras que haviam saído da minha boca.
- Eu já estou sabendo que o anda pegando no seu pé. - Ele riu. - Mas não se preocupe, é o jeito dele. Você se acostuma.
- Se eu não matá-lo antes. - Dei meu melhor sorriso antes de cairmos na gargalhada.
era um garoto agradável. Rapidamente conseguiu quebrar as barreiras da minha timidez, me deixando completamente à vontade na sua presença.
Ficamos conversando durante um certo tempo, até que e o garoto do jardim, que por sinal chamava-se , resolveram entrar no carro.
- Mas você já ficou amigo da menina, ? - Proferiu com tom de espanto. Ou melhor, um falso tom de espanto. - Nem ao menos tive tempo de jogar meu charme para ela. – Suspirou decepcionado.
Eu não pude conter a risada, o que fez revirar os olhos.
- Prazer, sou . - Ele sorriu pegando minha mão e beijando-a levemente.
- . - Sorri.
Os garotos foram discutindo e brincando durante todo o caminho. não disse nenhuma palavra. Era o único que se mantinha sempre sério e reservado. Aquilo começava a me incomodar um pouco. Todos tentavam ao máximo me deixar à vontade, porém ele era o único que ainda se mantinha distante. Não se dava ao trabalho de ser, nem ao menos, simpático.
O portão principal da escola estava lotado de adolescentes pouco desenvolvidos. Havia todo o tipo de grupo social reunido em apenas um lugar. De líderes de torcida a pessoas com um olhar sombrio.
Eu estava me sentindo no High School Musical, só faltava eles saírem cantando e dançando uma música estranha.
- É muito diferente das escolas do Brasil? - Perguntou quando descemos do carro.
- Completamente. - Suspirei, sentindo meu estômago revirar.
- Você está nervosa? - Ele manteve o sorriso no rosto, como se tentasse me acalmar.
- Pra ser sincera, muito. - Dei um longo suspiro, tentando arrancar alguma coragem de dentro de mim. - Acho que vou esperar esse bando de gente entrar.
- Não acha melhor acabar com isso de uma vez? – Sugeriu.
- Bom, se for igual aos filmes que eu já vi, não. – Ri. – Eu vou passar por eles e as líderes de torcida vão comentar sobre a minha roupa. – Apontei para as três garotas que estavam rindo de alguma outra que acabara de cruzar o portão. – Depois os jogadores de futebol vão comentar sobre meu corpo e provavelmente fazer alguma piadinha. – Mostrei os dois garotos que brincavam com a bola de futebol ao lado das líderes. – E o resto vai apenas cochichar enquanto eu tento fingir para mim mesma que ninguém notou a minha presença. – Suspirei.
- Uau. Isso foi realmente assustador. – Não pude deixar de rir da cara assustada com que ele me olhou. Apesar de a minha análise ter sido estranha, não pode deixar de concordar comigo.
Ficamos parados em frente ao carro de , conversando qualquer assunto aleatório que surgia. fazia de tudo para tirar a minha atenção do enorme número de pessoas que adentrava a escola, e eu estava realmente agradecida por isso. Se não fosse a presença dele, eu provavelmente estaria surtando de tão nervosa.
- As pessoas estão entrando. Podemos ir? - Ele apenas estendeu a mão para mim, mantendo seu sorriso no rosto. Muitas coisas poderiam estar passando na minha cabeça naquele momento, porém a minha única certeza era de estaria comigo.
- Tudo bem. - Assenti, segurando firme a sua mão. - Eu posso fazer isso. e nos esperavam na entrada junto com um outro garoto a quem eu ainda não havia sido apresentada.
Assim que nos aproximamos deduzi que se tratava de . O garoto me cumprimentou da mesma forma simpática que e , porém observando que o meu sotaque era realmente estranho.
- Eu tenho que te levar na secretaria. - Proferiu , interrompendo a minha conversa com os garotos.
- Não precisa. Eu me acho sozinha. – Sorri, voltando a minha atenção para , que me falava sobre alguns vídeos engraçados sobre o Brasil.
Fiquei conversando com eles, até que o sinal do primeiro tempo tocou, nos obrigando a seguir em direção as salas de aula.
Atenciosamente, os três me levaram até a porta da secretaria deixando claro que, se eu precisasse de qualquer coisa, era só procurá-los nas salas do terceiro ano.
Não demorou muito para que o diretor Gregor me chamasse em sua sala. Muito simpático, ele me deu as boas vindas, apresentando-me as regras da escola e como funcionavam as matérias, as pontuações e os horários das aulas. Meu material escolar já havia sido incluso no pacote do intercâmbio. Eu apenas teria que pegá-lo na secretaria, junto com a chave do meu armário e o número da sala onde eu iria ficar.
- Eu realmente espero que goste da West High. – Proferiu Gregor, abrindo a porta de sua sala para mim.
- Muito obrigada. – Sorri, me retirando do recinto.
Um dos inspetores gentilmente me levou até meu armário, me ajudando a carregar o material que não era nada pesado. Explicou-me como chegaria a minha aula de matemática e depois sumiu no meio da multidão que estava no corredor.
Guardei minhas coisas rapidamente, tirando apenas o material da minha primeira aula. As coisas pareciam estar começando a melhorar, pareciam.
Droga! Quem é o louco que colocou história no segundo horário de uma segunda feira? Não é justo.
Saí da sala de matemática com os olhos marejados de tanto sono. Não estava com ânimo nenhum para estudar a história da rainha, porém não poderia, de forma alguma, faltar às aulas naquela semana.
Segui perdida pelos corredores da instituição. Eu não fazia a menor ideia de onde me encontrava e não havia para quem pedir informações, afinal, todos estavam em sala.
- , porque ela tem que morar com você? – Uma voz feminina ecoou de uma das salas, fazendo com que a minha curiosidade voltasse para a mesma. Segui o timbre até a porta do auditório, podendo ver a figura de e uma garota ruiva pendurada em seu pescoço.
- Amber, ela é só uma turista. Não enche meu saco, por favor. – Ele revirou os olhos.
- E se você achá-la mais bonita do que eu? – Fez bico.
- Ela é tolerável. Nada mais. – Proferiu, tirando os braços da garota de seu pescoço. – Agora eu tenho que ir.
Saí correndo do local para não correr o risco de perceber que eu havia ouvido sua conversa com a garota.
Tolerável. Aquela palavra havia me atingido como um soco no estômago. Eu não deveria me importar, mas alguma coisa em mim não permitia que esse sentimento fosse colocado de lado.
Eu gostaria de poder dizer que não teria que falar com ele, mas eu morava na mesma casa que ele. Teria que conviver com seu olhar frio todos os dias, até essa merda de intercâmbio acabar.
Seria tudo muito mais fácil se Pietro estivesse aqui. Ele saberia a palavra certa a ser dita e o sentimento certo a sentir. Eu nunca havia sentido tanta falta de casa como naquele momento.

Capítulo 05

Eu estava determinada a evitar uma conversa com o máximo que eu pudesse. Mesmo quando os pais dele pediam para que ficássemos no mesmo recinto, eu inventava qualquer dor de cabeça para me trancar no quarto e não ter que dirigir a palavra a ele. Era muito mais educado para ambos evitar qualquer tipo de conflito, e menos cansativo também. A única coisa mais próxima que eu tinha de , era a melodia do seu violão, que invadia meu quarto durante algumas noites. Nada mais. Ele continuava a se manter frio e taciturno na minha presença. Eu sabia que não era assim – o tempo todo – com os amigos, mas, de qualquer forma, era um incômodo saber que eu o incomodava de tal forma. Algumas vezes era bom pensar que eu não teria que dirigir a palavra a ele, porém talvez fosse mais fácil se pudéssemos conviver em harmonia. Não era necessário existir amizade entre nós, apenas respeito. A verdade é que eu queria voltar para casa. Desde que cheguei à terra da rainha, esse era o único pensamento que eu mantinha. Precisava de Pietro e das palavras carinhosas que ele me dizia quando eu estava me sentindo sozinha. Ele provavelmente me incentivaria a sorrir diante desses pequenos infortúnios, mas não havia o porquê de fazê-lo, sabendo que meu melhor amigo estava a um oceano de distância e nem sequer me dava notícias.
No fundo eu sabia que alguma coisa estava acontecendo. Algo que talvez eu não devesse saber, mas que a curiosidade me incentivava a tentar descobrir. Eu sempre soube que “A curiosidade matou o gato", mas ninguém se importa com isso quando se tem a certeza de que as coisas não estão nos seus devidos lugares.
O sinal do intervalo finalmente tocou e eu pude me livrar daquela insuportável aula de física. Eu e Newton nunca nos demos muito bem. Ele tem muitas leis para o meu gosto.
Estava no meu armário, guardando meu material, quando senti duas mãos grandes taparem meus olhos. Tateei a mesma com cuidado, tentando identificar o infeliz que estava atrapalhando minha visão.
- Tudo bem, eu quero ver a luz. – Proferi, impaciente.
- Poxa, eu achei que você fosse acertar. – tirou as mãos dos meus olhos, me permitindo vê-lo.
- Você exige muito da minha inteligência, garoto. – Sorri, dando um abraço bem apertado no mesmo.
- Onde estão e ? – Perguntei, notando que estava sozinho no corredor. – Eu achei que vocês não se desgrudavam tipo... nunca.
- Estão no refeitório. – Deu os ombros, ignorando meu comentário anterior.
- Não está com eles, mas sabe onde suas moçoilas estão. – Ri. fez uma careta, ignorando meus comentários posteriores. Como dizem: perca o amigo, mas não perca a piada.
Seguimos juntos para o refeitório onde os garotos se encontravam com e uma pessoa a mais. Amber estava pendurada no pescoço do garoto, que demonstrava total indiferença à presença da garota. “Masoquista" pensei. Estava explícito que naquela relação havia alguém que amava mais e, definitivamente, não se tratava de .
- Ei, gente. – Proferi animada, sentando-me à mesa.
- Oi, . – e proferiram juntos. apenas me cumprimentou com os olhos e a ruiva sorriu simpática, não se dando o trabalho de fazer apresentações amistosas.
Era o que me faltava, uma louca cogitando a possibilidade de eu querer roubar o namorado dela.
- Do que falavam? – Perguntou , sentando-se ao meu lado na mesa.
- está tentando se aproximar daquela novata ali. – Proferiu , apontando para um rosto conhecido por mim na mesa ao lado.
- Eu acho que conheço... – Comentei baixo, apenas para mim mesma. – Quem é?
- Se chama . – Proferiu , com os olhos brilhando.
- Claro! Foi ela que me ajudou no sábado. – Sorri vitoriosa. Minha memória nunca falha. – O pai dela tem um hotel.
- Que ótimo. – Disse animado.
- Eu não sabia que ela estudava aqui. – Comentei.
- Na verdade, ela veio transferida. – Agora foi a vez de Amber se pronunciar. – Porque não a chama pra sair, ? – Sugeriu a ruiva.
- Isso ia ser muito direto, provavelmente assustaria a garota. – Me intrometi.
- E o que você sugere? – Perguntou , me desafiando a dar uma boa resposta.
- Conversar. – Afirmei, olhando-o nos olhos. – Mesmo que a garota seja apenas tolerável. – Sorri, vendo a expressão confiante de se desfazer discretamente diante de mim. Amber provavelmente não havia notado a indireta, mas ele sabia perfeitamente a que eu me referia.
- Acho que eu vou fazer isso. – Disse ainda com uma expressão confusa no rosto.
Levantei-me discretamente da mesa e me aproximei de , que estava sozinha no refeitório lendo um livro sobre zumbis. Eu estava feliz em vê-la ali. Um rosto conhecido no meio de tantas pessoas estranhas. Eu não me sentiria tão sozinha agora.
- Com licença, eu acho que estou perdida de novo. – Disse, rindo.
- ! – A garota me abraçou. – O que esta fazendo aqui?
- Eu estudo aqui. – Afirmei.
me contou que sua mãe havia exigido que ela tivesse uma das melhores educações, então a transferiu da escola pública onde estudava para uma particular. No começo ela não gostou muito da ideia, mas, no final, acabou concordando que seria bom mudar um pouco os ares, conhecer novas pessoas. Queria eu pensar assim sobre o meu intercâmbio.
- Pelo menos eu vou ter com quem conversar por aqui. – Proferiu alegre.
- Digo o mesmo. – Sorri. – Vem comigo que eu quero te apresentar umas pessoas.
Puxei a garota até o grupo onde eu me encontrava anteriormente. O rosto de tomou uma cor avermelhada, obrigando todos a segurarem a vontade de rir.
Apresentei à todos os meninos e à Amber, que não fez muita questão de nos dar atenção. Ela estava mais preocupada em lixar as unhas e cochichar alguma coisa com o namorado.
- Aquele é o tal ? – Sussurrou em meu ouvido, apontando discretamente para o garoto com expressão de poucos amigos na mesa.
- Esse mesmo. – Revirei os olhos.
Fiz questão de que se sentasse ao lado de , assim ficaria muito mais fácil para ele ter uma conversa informal com a garota.
Durante todo o intervalo pude sentir os olhos confusos de sobre mim. Ele provavelmente estava se perguntando como eu saberia que ele se referia a mim como uma pessoa tolerável. Talvez ele não quisesse que eu soubesse daquilo, mas agora era tarde demais.
Amber, por outro lado, tentava me analisar discretamente. A maneira que me olhava era estranha. Eu não sabia como descrever. Tinha impressão que ela estava decidindo se era melhor se aproximar de mim ou me repelir de uma vez por todas.
- Vocês já escolheram uma atividade extra? – Perguntou , brincando com o canudo de plástico.
- Eu não sei. – Suspirei. – No meu país não tinha essas coisas. – Dei os ombros, fazendo com que as pessoas na mesa rissem.
- Acho que eu vou ficar com o pessoal do livro. – Proferiu , fazendo uma expressão de “Eu não tenho opção".
- Porque não entram para a torcida? – Sugeriu . – A Amber pode ajudar vocês. Não é? – Voltou-se para a garota, que quase engasgou com o suco.
Eu e nos entreolhamos durante um tempo, sentindo um clima constrangedor tomar conta da mesa.
- Eu acho que vou me juntar a e os livros. – Afirmei. Os meninos se entreolharam, mas logo se voltaram para , que estava alheio à tudo que acontecia ali. – Torcida nunca foi o meu forte. – Sorri.
- Dá pra notar. – Resmungou Amber. Eu apenas ignorei, voltando minha atenção para alguma coisa que dizia.
- Livros. Não me dou bem com livros. – Proferiu com uma cara de desânimo, fazendo com que todos na mesa rissem.
Logo o fim do intervalo chegou e eu fui obrigada a seguir para minha primeira aula de Ed. Física. Eu nunca fui muito fã de exercícios físicos, mas teria que abrir uma exceção para causar uma boa impressão.
Como também teria Ed. Física naquele tempo, pedi ao mesmo que me guiasse até o ginásio, afinal aquela escola era grande demais, eu poderia me perder com facilidade. e seguiram juntos para aula de Química, o que me deixou feliz, pois eles estavam conversando animadamente. resolveu que assistiria suas duas aulas de matemática, e havia desaparecido junto com sua namorada assim que o sinal tocou.
- , eu vou ter que te deixar aqui. Minha aula de Ed. Física vai ser no campo de futebol. – Proferiu , se despedindo.
- Tudo bem. – Sorri, dando um leve beijo na bochecha do garoto.
Adentrei ao ginásio, encontrando apenas algumas meninas da torcida conversando. Não havia nenhum ser vivo da minha turma ali, talvez eu tivesse errado o horário.
- Com licença... – Me aproximei das garotas que me encaravam de forma estranha. – Onde é a Ed. Física do 3º B?
- Amber! – Uma loira gritou a ruiva que se aquecia num dos cantos da quadra. Não demorou muito para a mesma se aproximar. – A novata quer saber aonde é a Ed. Física.
- Vem, ... É esse seu nome, né? – Proferiu a garota, me puxando com ela. Por um segundo eu pensei que aquela simpatia pudesse ser verdadeira, mas levando em consideração o jeito como ela me olhava, minha ideia fora completamente descartada.
Amber me levou até a área esportiva da escola, onde havia o campo de futebol, uma quadra aberta e a piscina. Caminhamos até a área da piscina, porém não havia nenhuma pessoa da minha turma ali.
- Er... onde é que tá todo mundo? – Perguntei um pouco receosa com o que estava para acontecer.
- Como é que eu vou saber, meu assunto é só com você. – Seu rosto foi tomado por uma expressão um tanto ameaçadora. Eu não estava assustada, mas também não estava gostando do rumo que aquilo estava tomando.
- Tudo bem, o que está acontecendo? – Cruzei os braços, tomando uma postura firme diante da ruiva. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, mas com certeza não era algo bom.
- Eu quero você longe do meu namorado. – Rosnou.
- Eu não acredito... – Suspirei, revirando os olhos. – Sério que você tá querendo me amedrontar por causa do ? – Ri.
- Você se acha muito engraçadinha, né? – Amber se aproximou com o punho fechado, me obrigando a dar alguns passos para trás.
- Na verdade, quem esta demonstrando vocação para palhaça aqui é você. – Mantive uma expressão neutra, não poderia dar chance para que ela se sentisse por cima. Deus, onde eu fui me meter? De High School Musical eu passei direto para Meninas Malvadas. Tem como piorar?
- Isso é o que vamos ver. – Amber me empurrou em direção à piscina, fazendo com que eu caísse na mesma. Meu corpo paralisou no momento em que eu senti o toque gélido da água em meu corpo. Eu tinha pavor de água, não sabia nadar.
Senti o peso de o meu corpo me puxar para baixo lentamente. Meus braços não tinham forças para me impulsionar para a superfície. Tentei prender a minha respiração o máximo possível, porém foi uma questão de segundos para que meu pulmão começasse a se contorcer no meu peito.
Reuni forças para tentar subir a superfície, mas eu não conseguia. Meu corpo era pesado demais. Eu me sentia sufocada. Minha visão foi ficando turva aos poucos. Percebi um vulto preto me observar da superfície, e depois disso tudo ficou escuro e silencioso. Eu desmaiei.

Capítulo 06

- Marisa? - A olhei, confusa. Envolta de mim estavam , Sr. e . Todos me olhavam assustados, querendo entender o que estava acontecendo. - Onde eu estou? - Perguntei.
- Você está no hospital, querida. - Proferiu Marisa, com a voz calma. - Você caiu na piscina da escola, mas alguém te ajudou, lhe trazendo direto para cá. - Eu não... - Senti uma pontada forte na cabeça, fazendo com que tudo a minha volta ficasse um pouco turvo. - Minha cabeça dói. - Resmunguei.
- É melhor eu ir buscar o médico. - Agora foi a vez de se pronunciar, deixando o quarto logo em seguida.
Meu corpo estava dolorido. Eu me lembrava vagamente do que havia acontecido, antes de eu acordar misteriosamente com todos aqueles olhos arregalados e preocupados sob mim. Os flashbacks faziam minha cabeça doer um pouco, porém, eu não conseguia tirar da cabeça aquela sombra escura me olhando afundar pouco a pouco.
- , eu sou Dr. Whirror. Quero que você olhe diretamente para a luz, tudo bem? - Eu apenas concordei com o homem à minha frente.
Depois de uma bateria de exames, eu fui colocada em observação por mais um dia. Segundo o médico, eu estava bem, mas, por precaução, eu passaria a noite no hospital.
- Não se preocupe, querida. ficará aqui, com você. - Proferiu Marisa.
- Não seria melhor a ficar? - Perguntei.
- Desculpe, , mas eu não vou poder. Meu pai precisa que alguém fique no turno da noite no Hotel. - Explicou.
- Tudo bem. - Suspirei.
- Não se preocupe, eu mandarei trazer tudo o que for necessário para você ter uma noite confortável.
Logo, Marisa e o marido deixaram o hospital junto com . Eu não conseguia fechar os olhos. Sempre que o fazia, a imagem do ser humano não identificado me observando me vinha à cabeça. Era assustador pensar que alguém poderia ter sentido algum tipo de prazer ao me ver afogar.
- Você está bem? - se aproximou de mim, passando os dedos levemente pela minha bochecha.
- Estou. – Assenti, tentando buscar um pouco de ar para os meus pulmões.
- Eu sei que este não é o momento, mas, o que aconteceu na piscina? - Perguntou.
- Sinceramente? Eu não sei. - Menti. Não podia contar a que sua namorada ruiva havia tentado me afogar. Por mais que fosse o merecido, eu não era o tipo de garota que se vingava de pessoas desesperadas.
- Eu sei que você não caiu naquela piscina por simples descuido. – Afirmou. – Você pode ser um pouco lerda, mas não faria algo do tipo.
- Isso foi um elogio? Porque não esta soando como um. – Ri. Eu não queria discutir com naquele momento, eu queria descansar e me esquecer do que havia acontecido.
- Eu não sou bom com elogios. - Ele suspirou, sentando-se na poltrona próxima a mim.
- ... - O chamei. - Quem me trouxe para o hospital?
- Ninguém sabe. Quando ficamos sabendo que você tinha se machucado, você já estava aqui. - Explicou.
Suspirei, frustrada. Eu gostaria de saber quem havia me tirado da água. A imagem de alguém me observando da superfície era tudo o que eu possuía Não conseguia me lembrar do rosto, nem mesmo se havia alguém além de mim e das meninas malvadas naquela hora.
- Com licença. - Uma das enfermeiras adentrou ao quarto com um buquê de flores copo de leite maravilhoso. - Acredito que isso seja pra você. - Ela sorriu, me estendendo o buquê.
- Nossa, quem me mandou isso? – Perguntei um tanto surpresa.
- Eu não sei, mas tem um cartão. - Apontou-me o envelope no meio das flores, deixando o quarto logo em seguida.
- De quem é? - Perguntou , curioso.
- Aqui diz: Desculpe não ter ficado com você no hospital, espero que esteja tudo bem. Tente não se machucar, eu posso não estar perto da próxima vez. Te vejo na escola. - Procurei pela assinatura, mas não havia nenhuma identificação. - Bem, acho que só vou saber quem é quando voltar à escola. - Dei os ombros.
- Admirador secreto, que clichê. – debochou do cartão, e eu apenas ri. Não poderia discordar de que se tratava de uma atitude muito clichê, mas, que mulher não gostaria de ganhar flores?


A casa dos estava cheia. Marisa havia preparado uma pequena festa de boas vindas para mim apenas com os amigos que eu mais convivia, ou seja, o amigos de e . Assim que adentrei a porta da frente, veio me abraçar, me tirando do chão, sem nem se preocupar com os olhares sugestivos sobre nós.
- Olha, se vocês quiserem ficar sozinhos é só falar, ok? – Comentou .
- Largue de ciúmes, pequeno. – Dei a língua, indo abraçá-lo em seguida.
Depois de abraçar todos na sala, subi para o meu quarto. Eu precisava de um bom banho quente para relaxar. Passar a noite em um hospital não era algo fácil.
- ? – Ouvi uma voz desconhecida me chamar do lado de fora, fazendo com que eu me apressasse no banho.
- Um momento, eu já vou sair. – Gritei.
Assim que abri a porta do banheiro, me deparei com Amber sentada em minha cama, me observando com uma expressão diferente da que eu estava acostumada.
- Ahm, o que está fazendo aqui? – Perguntei, receosa.
- Por favor, eu vim em missão de paz. – Respondeu rapidamente. – Na verdade, eu queria te pedir desculpas pelo o que aconteceu na escola. Eu não tinha a menor ideia de que você não sabia nadar. – Sua voz saía rápida e tremula, ela parecia preocupada com algo.
- Eu só quero entender o porquê daquilo. Eu e o secretamente nos odiamos, e você deveria ser uma garota bem mais segura de si, não? – Proferi, sentando-me ao lado dela.
- A verdade é que não gosta de mim como eu gosto dele. – Suspirou. – Eu nem sei bem o porquê insisto nesse relacionamento. Acho que é o que chamam de amor, sabe? – Eu apenas concordei com a cabeça. – Tenho medo de perdê-lo, e quando eu me sinto ameaçada, não sei, eu perco a cabeça. - Amber, eu nunca fui uma ameaça pra você. – Falei séria.
- Você está morando com ele, pode passar mais tempo ao lado dele do que eu. Na verdade, sempre evita passar um tempo comigo fora da escola. – Explicou. – Ele só está comigo por comodismo. – Sua voz estava falha e seus olhos não demoraram muito a se encherem de lágrimas.
- Não fique assim. – A abracei. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo ali, mas entendia perfeitamente a situação frágil em que ela se encontrava. – Talvez devesse se dar um pouco mais de valor.
- Você não entende. – Proferiu, limpando as lágrimas dos olhos. – Eu amo o . – Disse firme. – E é importante pra mim que ele não saiba que eu te empurrei na piscina.
- Amber, você fez o quê? – A figura de surgiu na entrada do meu quarto, nos pegando totalmente de surpresa.
- ... Eu... – A garota ao meu lado tentava reagir de alguma forma, para evitar uma grande confusão, mas o olhar reprovador de era tão assustador, que nem mesmo eu conseguia dizer alguma coisa.
- Você enlouqueceu? – A expressão de era séria, mas mesmo assim, em nenhum momento ele levantou o tom de voz com Amber. – A garota poderia ter morrido, você tem ideia disso? – Amber apenas concordou com a cabeça, sem coragem para olhá-lo nos olhos.
- , está tudo bem. – Agora foi a minha vez de tentar amenizar a situação. – Eu não me machuquei e Amber e eu já conversamos sobre isso.
- Isso não se trata apenas de você. – Proferiu, sério. – Ela precisa tratar esse ciúme doentio. – Notei seu punho se fechar, como se ele tentasse conter a fúria dentro de si. Mesmo sendo um idiota comigo, na maioria das vezes, conseguia manter-se controlado para não faltar ao respeito com ninguém.
- ... Me desculpe, eu não queria machucar ninguém. – Amber se aproximou de , com o rosto um pouco avermelhado por causa das lágrimas, mas o mesmo apenas se afastou da ruiva, mantendo um olhar de indiferença sobre ela.
- Eu estou cansado dessas suas loucuras, Amber. – Proferiu, sério.
- O que quer dizer com isso? – A voz da ruiva saiu trêmula. Ela sabia o que ele queria dizer com aquilo, mas não queria ouvir.
- Acabou. – Foi à única palavra que saiu da boca de . Os olhos do mesmo continuaram firmes e sem nenhuma expressão. Eu não conseguia decifrar o que se passava na cabeça dele, mas, provavelmente, não era algo muito bom.
- Você não pode fazer isso... – Proferiu Amber com a voz trêmula.
- Tanto posso, como estou fazendo. – Seu olhar indiferente sobre a garota doía até em mim. Por mais que eu soubesse que não estava totalmente errado, eu também entendia o porquê de Amber agir de forma tão infantil e descontrolada.
A garota apenas saiu correndo do quarto, batendo a porta atrás dela. e eu ficamos nos encarando por alguns minutos, mas nenhum palavra foi dita sobre o assunto.
- Você devia colocar uma roupa. – Proferiu, apontando para a toalha enrolada em meu corpo. Eu apenas assenti, continuando a encará-lo.
- Acho que você foi rude demais com ela. – Proferi baixo.
- Amber é uma descontrolada, não é a primeira vez que ela age assim, mas é a primeira que ela quase mata uma pessoa. – Suspirou. – Imagine se acontecesse algo mais sério com você?
- Não é como se você estivesse preocupado com isso. – Dei os ombros.
- Esse não é o foco da conversa, . – Proferiu, sério.
- Tudo bem. – Suspirei. – Me permite uma pergunta?
- Faça-a.
- Porque estava com a Amber? – Mordi levemente o lábio.
- Eu não sei. A história é meio longa. – Deu os ombros.
- Entendo. – Por mais que a curiosidade estivesse me torturando por dentro, resolvi deixar que o assunto se encerrasse por ali. Não era da minha conta saber o porquê dos relacionamentos de . – Posso te pedir uma coisa? – Ele apenas assentiu. – Não comente com ninguém o que aconteceu entre eu, Amber e a piscina.
- Por que não? Ela precisa pagar pelo que fez. – Afirmou.
- Acredite, ela já deve estar sofrendo muito pelo o que acabou de acontecer.
- Tudo bem. – Concordou. – Mas ainda acho melhor você colocar uma roupa. – Apontou novamente para a toalha em meu corpo, deixando o quarto em seguida.


Assim que retornei a sala, senti um clima estranho no ar. Os meninos estavam todos sentados na sala de visitas, mas nenhuma brincadeira era feita ou palavra era dita.
- Uau, eu morri e esqueceram de me avisar? – Brinquei.
- Nem brinque com uma coisa dessas, garota. – Proferiu , que, sem nenhuma razão aparente estava sentada ao lado de .
- Então, por que essas caras de enterro? – Perguntei, notando a ausência de .
- Amber. – Sussurrou em meu ouvido, assim que me sentei ao seu lado. - O que tem ela? – Perguntei.
- Esta lá fora, discutindo a relação com o . – Explicou. Eu apenas assenti.
- E por que o silêncio? – Perguntei sem entender o que uma coisa tinha a ver com a outra.
- Ah, nós estamos tentando ouvir o que eles estão falando. – Eu não pude conter o riso.
- Vocês são tão idiotas! – Comentei, batendo em com o travesseiro. - Ei! Por que só eu apanho? – Questionou.
- Porque você é o que está mais pertinho de mim. – Sorri, abraçando-o em seguida.
- Será que vocês podem calar a boca? Eu quero ouvir. – Proferiu , sério. Não pude deixar de rir com aquilo. De repente, a vida pessoal de estava parecendo as novelas da Globo, onde o país inteiro quer saber “Quem matou Salomão Hayala?". Eu só esperava que não estivesse sendo rude demais com Amber, apesar de saber que ele não passaria dos limites com ela.
- O lanche está servido, crianças. – A voz de Marisa invadiu a sala, fazendo com que a atenção de todos se voltassem para ela.
- Oba! Comida! – Gritou .
- Legal, acho que agora ninguém mais quer saber da vida do . – Comentei.
- Quem precisa do , quando se tem comida na sala ao lado? – Proferiu , seguindo para a sala de jantar, junto com todos os outros.
- Você está certo. – Apenas sorri, seguindo o fluxo de pessoas à minha frente.

Capítulo 07

A segunda feira começou agitada. Os boatos sobre o término do namoro de e Amber já corria pelos corredores. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido, porém as teorias eram muitas. Alguns diziam que ele havia terminado com ela para ficar com uma mulher mais velha. Outros já diziam ela havia terminado com ele por tê-lo pego traindo-a comigo. Muitas teorias, várias versões de uma história que ninguém viu e nenhum boato realmente verdadeiro. Eu já havia me esquecido que o Ensino Médio poderia ser pior do que Gossip Girl. A única coisa que eu não ouvia nos corredores eram comentários sobre a pessoa misteriosa que havia me salvado. Ninguém sabia quem era ou como a pessoa havia me encontrado na piscina. Era um total mistério.
- Já descobriu algo sobre o cara da piscina? – Perguntou em meu encalço. Como sempre, eu estava atrasada para minha aula de português. É impressionante como a lei de Murphy age em nossa vida no momento em que mais precisamos de paz. Justo hoje, que eu precisava chegar na aula de português, todo mundo resolveu preocupar-se comigo e perguntar se eu estava bem. Pessoas que eu conhecia de vista e principalmente, pessoas que eu nunca havia visto na minha vida.
- Tá atrasada, ? – Ouvi a voz de Amber surgir ao meu lado. Por alguns segundos eu pensei que ela estivesse me esperando passar por ali.
- Um pouco. Aparentemente todo mundo ficou sabendo que eu não sei nadar. – Dei os ombros continuando meu caminho.
- Eu posso conversar um pouco com você? – Pediu. Só então eu notei as enorme olheira envolta dos seus olhos. Seu rosto estava um tanto inchado e não era difícil perceber que ela havia tido uma noite muito ruim. Eu não tinha como dizer não para um ser humano naquele estado. Apenas assenti e a segui até o banheiro, onde por algum motivo, todas as garotas saíram assim que nós entramos.
- O que aconteceu? – Perguntei. Amber parou diante dos espelho e ficou olhando seu reflexo por alguns segundos. Ficamos em silêncio, mas eu sabia exatamente o que ela estava querendo me dizer.
- Eu não era assim, sabia? – Voltou-se para mim. – Antes de conhecê-lo, eu era uma garota alegre. Eu tinha controle dos meus sentimentos, eu não pensava em nada que não fosse... eu. – Seus olhos se voltaram novamente para o espelho, como se ela mesma se questionasse quem era a garota que estava ali.
- Eu acho que o amor é assim. – Proferi após um longo suspiro. – Você meio que perde o controle de tudo. Eu nunca senti, mas eu já vi muitas pessoas que amaram e ficaram assim. Chamam de amor unilateral. – Me postei ao lado dela, também observando meu reflexo no espelho. Talvez eu compreendesse o que se passava com ela. Eu também não sabia quem era aquela garota refletida. Eu nunca soube.
- Eu queria poder tirar tudo isso de dentro de mim. – Suas mãos apertaram seu peito com força, como se ela realmente estivesse tentando arrancar a dor que estava sentindo.
- Tempo. Meu pai sempre me disse que o tempo pode curar. – Dei o meio sorriso ao me lembrar da primeira vez em que ouvi aquelas palavras.
- Não vai ser hoje, muito menos amanhã. Vai ser muito difícil. Vão existir dias em que você vai pensar que superou e logo em seguida virão os dias em que essa dor vai te torturar e você vai pensar que não tem forças para aguentar. Porém, você tem. – Me aproximei dela, enxugando uma lágrima que escorria em seu rosto.
– Eu sei que você consegue. Apenas foque em algo que goste e eu sei que daqui a um mês, será apenas passado.
Ficamos ali durante um tempo. Por alguns minutos eu havia me esquecido que a garota a minha frente havia tentado acabar com a minha vida, mesmo que sem querer. Ela estava perturbada e fora de si, definitivamente. E eu não podia deixar de ajuda-la. Garotas como Amber poderiam carregar esse tipo de sentimento para o resto da vida, e provavelmente não traria bons resultados. Assim que saímos do banheiro, deixei que ela seguisse seu caminho. Graças a maquiagem, ela nem ao menos parecia ter chorado há minutos atrás. Victoria’s Secret, baby.
- Você é um tanto inocente, não? – Ao olhar para o lado, pude perceber encostado na parede com seu ar superior costumeiro.
- O que quer dizer? – Perguntei.
- Acredita mesmo que ela esta sofrendo e que se arrepende do que fez? – Seus olhos estavam presos no teto, como se estivesse tão certo do que estava falando, que nem ao menos precisaria olhar nos meus olhos para me convencer.
- Eu acredito que as pessoas possam mudar. – Dei os ombros. Eu realmente acreditava. Amber estava completamente perdida, precisava de alguém que a incentivasse a continuar com sua vida e deixar essa paixão platônica por para trás. - Boa sorte com isso. – Ele apenas sorriu e seguiu em direção a sala de aula. Eu não tive tempo de reagir. Era algo que possuía. Ele sorria para as pessoas e elas ficavam totalmente sem reação, apenas observando qual seria seu próximo passo. Aparentemente, nem mesmo eu, com todo o meu desafeto por ele, era imune a tal habilidade.
- Por alguns segundos eu pensei que você estava matando aula com seu salvador das águas. – O tom de voz usado por me fez cair na gargalhada. Era como se eu estivesse falando com um mordomo real ou coisa parecida.
- Eu ainda não descobri quem é o meu misterioso Jesus Cristo, mas espero que ele não seja um santo. – Ri. Sentando-me na mesa ao lado.
Uma coisa que eu havia percebido era minha falta de habilidade para assistir aula sentada ao lado de . Era impossível não fazer algum comentário ou não fugir do assunto da aula e falar de coisas muito mais interessantes do que sujeito e predicado. Eu nem sabia para o que serviam mesmo. Trocamos bilhetes, escrevemos uma musica, fizemos um poema e desenhamos algo parecido com o de mal humor matinal, mas nada que pudesse nos ajudar a entender a matéria. Eu realmente adorava a companhia de . Era como se eu tivesse de volta meu melhor amigo brasileiro que não respondia as minhas mensagens, e-mails e qualquer sinal de fumaça que eu usasse para entrar em contato.
- E o que eu aprendi nas aulas de português? – Falei animada, me aproximando da mesa dos meninos. – Isso! – Exibi meu desenho de mal-humorado como se fosse uma obra prima de Leonardo DaVinci.
- Muito engraçadinha. – revirou os olhos e voltou sua atenção para a comida. deu-me um beijo demorado na bochecha, como se não quisesse que eu ligasse para as reações de , e eu não ligava.
- E já sabe quem te salvou? – Perguntou curiosa.
- Ainda não. – Dei os ombros. Eu não sei lidar com o clichê de admirador secreto, então eu vou esperar que ele se apresente a mim como uma pessoa normal e pergunte se eu estou bem.
- Nossa, você não é nem um pouco uma princesa de conto de fadas. – Proferiu , como se estivesse desapontado.
- Eu seria se você fosse o príncipe. – Pisquei para ele e o mesmo sorriu.
- Ei! Eu to com ciúme. – Gritou , tacando uma bolinha de papel em mim.
Deixei meus amigos terminando de almoçar e fui até a piscina onde eu quase havia morrido. Era um tanto estranho ter aquela atitude, porém, se eu esperava encontrar a pessoa que me salvou, nada melhor do que ir ao local onde tudo aconteceu. Sentei-me na beirada da piscina, apenas observando a agua parada. Não havia ninguém ali além de mim. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia materializar um rosto para a sombra que eu havia visto. Era apenas uma sombra. Curvas masculinas que poderiam pertencer a qualquer garoto daquela escola. Eu tinha uma visão bem clara do campo de futebol. Eu podia ver os garotos suados, correndo de um lado para o outro como se suas vidas dependessem daquela bola de futebol. E as de alguns dependiam. Bolsas de estudo na faculdade para esportes eram muito sonhadas por pessoas que não tinham nada haver comigo.
- Eu sabia que você era esperta. Apesar de ter caído na piscina. – Ele era moreno. Alto e provavelmente jogador de futebol, a julgar pelo uniforme que usava.
- Então foi você. – Afirmei.
- Obrigada. – Sorri. Não havia muito o que dizer, afinal ele havia me salvado, mas isso não me dava nenhum conhecimento sobre ele.
- Eu sou Josh. – Pegou minha mão gentilmente. – E você deve ser minha princesa encantada. – Sorriu, beijando-a como cuidado.
Era estranho. De onde eu venho o máximo que iria acontecer era um “Ah, que bom que esta bem. Posso te comer?" Porque, sim! O nível de cavalheirismo dos homens brasileiros sempre foi muito limitado. Ainda mais tratando-se de garotos da mesma faixa etária que a minha.
- Nada de princesa, muito menos encantada. – Sorri.
- Eu sou . – Proferi, cumprimentando-o com um aperto de mão.
- Prazer, . – Sorriu.
- Eu não sei se esse é o melhor momento, mas será que você poderia me explicar o porque da Amber querer te matar? – Perguntou curioso.
- Um nome e sobrenome. . – Ri.
– Eu estou morando na casa dele, por ser de outro país. Porém, a Amber entendeu que eu e o podem viver um romance, apesar de eu não gostar muito dele. – Acrescentou.
- Bem, assim como você, eu não a maior fã dele. Logo, romance está fora de cogitação. – Dei os ombros.
Ficamos um tempo conversando sobre coisas aleatórias. Josh fazia parte do grupo que desejava a tão sonhada bolsa de estudos na faculdade. Não que ele precisasse, mas era uma tradição de sua família ser sempre o melhor em tudo. Família problemática era um assunto que eu entendia bem, o que resultou numa longa conversa interrompida apenas pelo sinal da próxima aula. Deixei que Josh voltasse ao seu treino de futebol e segui para aula com um sorrio meio idiota no rosto. Acho que era normal, após encontrar um garoto descente, além do é claro.
- Eu sei que você estava com ele. Me conte tudo. – Não tive nem ao menos tempo de pensar numa resposta, quando fui arrastada para o banheiro feminino por .
- Ok, você precisa repensar suas abordagens. – Apenas ri, colocando alguns fios do meu cabelo no lugar.
Resumi a história para , afinal, não havia muito o que se contar exatamente. Eu havia sido salva pelo garoto do futebol e isso não contava muitos pontos pra mim. Futebol e músculos não eram atributos que me atraiam num homem, mas chamavam a atenção de qualquer forma. Não preciso nem mencionar a euforia de ? Por alguns segundos eu pensei que ela tivesse se afogado e não eu. Sua imaginação era tão fértil que em menos de vinte minutos ela conseguiu planejar toda a minha vida de amor com Josh, até o nosso casamento. Assustador.
- Josh Haennel? – Amber adentrou ao banheiro com o seu ar poderoso de líder de torcida. Era engraçado vê-la com aquela pose novamente. Nem parecia que havia tido um término.
- Foi ele quem me salvou. – Dei os ombros.
- Tá, porque eu sinto essa atitude indiferente vindo de você. – Perguntou Amber, como se eu estivesse fazendo algo absurdo.
- Ahm, porque é só... o Josh. – Falei como se fosse óbvio.
- Claro, porque o Josh é o garoto mais cobiçado dessa escola. O mais lindo e o único que nunca está disponível apesar de solteiro. – Amber falava de uma maneira tão engraçada, que eu me senti diante da versão branca da Beyoncé.
- Eu não entendi. – Eu realmente não havia entendido. Como assim 'indisponível?
- Ele nunca namorou ninguém dessa escola. E nem fora dela pelo o que eu sei. – Explicou Amber. – Ele é o sonho de consumo de cada garota nesse corredor, e provavelmente você já deve ser o assunto nos corredores.
Amber estava certa. Eu era o assunto nos corredores da escola. As pessoas me olhavam e me apontavam, principalmente as meninas. Algumas tinham uma expressão séria, como se quisessem arrancar a minha cabeça fora. Deus, eu realmente estava num filme da Disney, não é?As pessoas na Europa tinham o costume de aumentar histórias que elas nem ao menos haviam ouvido direito. Eu me sentia uma celebridade, e não estava gostando disso. Nem um pouco.

Capítulo 08

Eu não tinha muito a dizer sobre Josh. Era um garoto comum, apesar de todas as pessoas a minha volta tentarem endeusá-lo de alguma forma. Me perguntava se aquilo o incomodava. Me incomodaria.
Seria muito chato viver em meio a pessoas que criam uma imagem completamente distorcida de você e ainda tem a cara de pau de falar por ai que te conhecem muito bem. Eu já me irritava em ter meu nome sendo sussurrado pelos corredores.
Fazia uma semana que o assunto daquela escola era a repentina aproximação entre Josh e eu. Até mesmo se surpreendeu quando lhe expliquei o porque de sair com Josh para tomar um café na Starbucks no sábado. Aliás, a sexta feira anterior ao meu “encontro casual" fora muito estranha.
reagiu de uma maneira estranha. Não que ele já não o fizesse normalmente, porém, quando pronunciei o nome de Josh, pude notar seus músculos se contraindo. apenas proferiu um “Ah, tá. Legal, ..." E tratou de mudar de assunto.
Não insisti. Talvez houvesse algum acontecimento entre eles. Uma briga. Uma bobeira por causa de mulher. Talvez Amber.
- Essa minha amizade com está me irritando. – entrou em meu quarto como um furacão e se jogou em cima da cama enquanto me observava escrever mais um email desesperado para Pietro. – Você pode me dar atenção? – Perguntou, jogando uma das almofadas em mim.
- Vocês ainda estão na fase de discutir séries, livros e gostos em comum? – Perguntei, mantendo minha atenção no email.
- Sim. Eu acho que eu sei mais do gosto musical dele, do que qualquer outra coisa. Achei que ele estava interessado, mas agora eu não tenho tanta certeza. – Bufou, afundando o rosto no meu travesseiro.
- Porque não o convida pra sair? – Sugeri.
- , às vezes eu acho que você é um homem com peitos. – Falou séria. – Ele precisa dar o primeiro passo. Porque eu quero que ele dê o primeiro passo. – Afirmou.
- Criança mimada. - Dei os ombros, enviando o email. – Hoje em dia as mulheres têm o poder. – Voltei minha atenção para ela, que me olhava com uma cara de cachorro sem dono.
- Eu só queria uma atitude. – Choramingou.
Respirei fundo, refletindo internamente para encontrar uma solução. Logo percebi que havia uma solução simples, e que se encontrava a uma porta de distância.
Caminhei em passo largos até o quarto do . Ele ouvia sua musica alta habitual, logo, não importava o quanto eu esmurrasse a porta, ele não iria ouvir.
- Eu preciso da sua...
Minhas falas tomou o rumo de volta a minha garganta quanto meus olhos encontraram completamente nu em sua cama, lendo uma revista pornô qualquer e ouvindo AC/DC. Foi, literalmente, a cena mais chocante da minha vida.
Ficamos nos encarando. Foram apenas alguns segundos, que pareceram horas, até que se cobrisse rapidamente e soltasse suas grosserias em cima de mim. Eu não reagi. Não respondi. Aliás, eu nem sequer consegui ouvir qualquer coisa que ele gritava. Eu estava traumatizada.
- Eu preciso da sua ajuda. – Minha voz estava falha. Meu corpo parecia estar preso ao chão. Foi então que eu percebi que havia visto o primeiro homem nu em mim vida, ao vivo. Eu já havia visto um homem nu. Em fotos de nu artístico na dashboard do Tumblr, revista da G Magazine, e acidentalmente em tags do WeHeartIt. Porém, ao vivo, era a primeira vez.
- Tá, diz o que você quer. – Respirou fundo, passando a mão pelo cabelo já bagunçado.
- Na verdade, é uma pegunta.. anexada a ajuda. – Acrescentei. – está afim do . Eu pensei que o estava afim da , porém, aparentemente, eles empacaram no meio do caminho. – Me surpreendi ao ver que prestava atenção no que eu dizia. Ele nunca se importava.
- E qual o ponto disso? – Perguntou.
- Preciso que o convide a para um encontro. Não uma conversa casual, um encontro de verdade. Com beijo. – Ele riu quando pronunciei a palavra “beijo". Só então eu percebi o quão infantil aquilo tinha soado.
- Eu vou ver o que posso fazer.
- Tudo bem. - Sorri, caminhando em direção a porta.
- ... – Voltei minha atenção para ele, sentindo minhas bochechas queimarem. – Dá próxima vez, quebre a porta, mas não entre sem bater.
Eu não respondi, apenas fechei a porta e caminhei para o meu quarto tão rápido que quando entrei quase atropelei no caminho.
- Fecha a porta. – Pedi. Ela fechou a porta e caminhou até mim, que estava jogada na cama com o travesseiro na cara, gritando.
- Tá, o que aconteceu? – Perguntou, preocupada.
- Eu o vi pelado. – Falei, com a voz abafada.
- Fala pra fora. – Pediu, me olhando com uma cara assustada.
- Eu vi o nu. Completamente nu. Totalmente sem roupas. Nada de camisa, cueca ou qualquer pano. – As palavras saiam aceleradas. Eu ainda não conseguia processar todo o acontecimento na minha cabeça. Eu tinha visto o pelado. Pe-la-do.
Quando dei por mim, estava rolando de rir. Literalmente rolando. Na verdade ela já havia ultrapassado o estágio de rir. Ela gargalhava. Seu rosto estava vermelho e eu podia ver claramente ela lutar por ar nos pulmões. “Vadia", pensei.
- Não, eu estou chocada. – Joguei meu travesseiro nela, finalmente conseguindo um pouco de atenção.
- Você nunca viu um homem nu? – Perguntou.
- Ao vivo? – Ela apenas concordou. – Não.
- Então você nunca...?
- Nunca.
- E era grande ou pequeno?
- O quê? – Perguntei sem entender.
- O instrumento do ... – Apontou para baixo.
- ! – Gritei, enfiando o travesseiro na cara dela.
Como dormiria na casa dos , comigo, o assunto da noite foi educação sexual. Talvez ela tenha ficado com pena de mim pelo trauma que me acontecera, e resolveu me explicar como realmente funciona as coisas entre um homem e uma mulher.
Foi engraçado. Eu não era totalmente inexperiente, apenas tinha o conhecimento básico de como chegar em tal situação. Porém, como nunca cheguei nem perto de consumar alguma coisa, nunca pesquisei o assunto ou me interei das novidades.
Isso explica a vergonha ao ver pelado em sua cama. Principalmente pelo fato de ser . Como eu o encararia depois? Poderia fingir que nada tinha acontecido?
- Será que eu devo pedir desculpas? - Perguntei, enquanto e eu lutávamos para dividir o espelho do banheiro. Sempre pensei que me arrumar para a aula fosse um ritual particular meu, porém, ao ver o longo processo de , percebi que não éramos tão diferentes de qualquer modelo de “O diabo Veste Prada".
- Não. - Respondeu. Ela estava tão concentrada em passar o lápis de olho, que eu comecei a pensar que ela estava me ouvindo, sem realmente me ouvir.
- Como é que eu vou encará-lo? - Perguntei. Eu estava desesperada, internamente. Minhas bochechas ardiam só de imaginar qual seria a reação de ao me ver.
- Para com isso! - Falou firme, me segurando pelos ombros. - Você não é uma criança, é uma mulher. Então comece a agir como uma. Nada aconteceu e é assim que você deve agir. Agora... - Respirou fundo antes de continuar. - …deixe eu terminar de me arrumar em paz antes que eu abaixe as calças do e te obrigue a olhar pra ele até se acostumar. - Todo aquele monólogo resultou em um sorriso simpático com um ar ameaçador. Minha amiga era tão... assustadoramente “fofa".

- Quando você entra de férias? - Minha mãe perguntou do outro lado da linha. Aquela era a quarta ou quinta vez que eu falava com meus pais aquela semana. Hora meu pai ligava, outrora era minha mãe. Ambos estavam com uma voz estranha, como se estivessem preocupados com a minha volta ao Brasil. Eu iria no próximo feriado, ficaria dois ou três dias e depois voltaria para cá.
Estava ansiosa. Eu queria ver meu melhor amigo e finalmente descobrir o porquê de ele nunca responder meus emails ou mensagens. Era uma atitude muito estranha.
- Vai ter um feriado daqui a algumas semanas, eu falei com o papai. Ele não te falou? - Perguntei. Ela apenas negou. Ouvi uma voz no fundo e ela se apressou em desligar.
Era sempre assim. Minha mãe estava evitando prolongar conversas comigo, e sempre que eu peguntava sobre meu pai, ela desligava ou mudava de assunto. Meu pai estava em uma situação semelhante, porém quando eu falava da minha mãe, sua voz soava triste e magoada.
No fundo eu sabia que havia algum problema entre eles, porém ambos nunca me deram abertura para perguntar o que estava acontecendo. Se eu ao menos conseguisse uma resposta de Pietro, talvez sobesse se havia algo errado.
- Problemas em casa? - Perguntou , se jogando no sofá da sala.
- Eu não sei. - Dei os ombros. - Parece que eles me excluíram da vida deles pra sempre. Não me contam mais o que acontece e sempre que eu toco no assunto “ir visitá-los" eles fogem ou inventam uma desculpa para que eu não vá. - Suspirei.
- Família é algo realmente complicado... - Comentou, distraído com as várias opções de programas na televisão. Foi quando eu me peguei observando o corpo de , o jeito como ele estava jogado no sofá era... demasiado atraente.
- Verdade. - Concordei, tentando voltar minha atenção para qualquer outra coisa no ambiente. - Bem, vou indo. Se sua mãe perguntar diga que eu não voltarei tarde. - Proferi.
- Vai sair no meio da semana? – Perguntou, me olhando de uma maneira estranhamente curiosa.
- Josh. – Dei os ombros. – Eu vou apenas dar uma volta. – Expliquei. O semblante curioso se tornou sério assim que o nome “Josh" foi pronunciado. nem ao menos se deu ao trabalho de terminar de me ouvir, voltou sua atenção para a televisão e ali ficou. E eu que, por alguns segundos, pensei que estávamos fazendo algum tipo de progresso nesse convívio social.

- Eu gosto de Jane Austen, mas estou tentando seguir uma linha mais moderna nos meus textos. Alguma coisa que faça com que as garotas de hoje em dia possam se identificar mais. – Expliquei. Fazia mais de uma hora que eu havia saído de casa com Josh. Estávamos em um papo animado sobre as coisas que gostávamos e histórias de vida. Para alguém tão popular na escola, o garoto se mostrava uma companhia bem mais agradável do que eu podia imaginar.
- Nunca li essa tal aí. – Riu. – Mas eu posso ler se você me mandar alguns PDFs dela. – Eu gostava muito do interesse que ele demonstrava em conhecer as coisas das quais eu gostava. De alguma forma, ele me lembrava um pouco o jeito que eu e Pietro nos aproximamos com tempo.
Pietro. Eu já estava começando a esquecer como era seu rosto e até mesmo o seu sotaque puxando o "s" até quando não era necessário.
- O que foi? – Perguntou Josh. – Você ficou com uma cara meio triste de repente. Foi algo que eu disse? – Perguntou, preocupado.
- Não. – Respirei fundo. – É que esse nosso papo de livros me fez lembrar de um amigo do Brasil que eu sinto muita falta. – Comentei.
- Amigo mesmo? – Perguntou, usando aquele tom de voz que insinua segundas intenções.
- Sim, apenas amigo. Na verdade, melhor amigo. – Afirmei. – Desde que cheguei aqui não tenho noticias dele. – Completei.
- Nossa! Vocês brigaram?
- Não sei. Quando eu vim pra cá as coisas já estavam meio estranhas, mas não achei que fossem piorar.
O assunto sobre Pietro rendeu muito mais do que qualquer outra coisa que Josh e eu tenhamos conversado durante a noite. Só resolvemos voltar para casa quando meu celular começou a vibrar o nome de Marisa na bina.


- Achei que fosse ficar namorando até tarde. – Comentou, assim que me viu cruzar a porta de entrada. – Então foi esse o gato que te salvou?
- Foi sim. – Não pude conter a minha risada ao vê-la usar gírias tão antigas. Nem me lembro qual foi a última vez que a minha mãe pegou no meu pé por causa de algum garoto.
- Devia convidá-lo pra jantar. – Sugeriu.
- Não, jantar não é uma boa ideia. Somos apenas amigos, nada demais. – Dei os ombros, indo em direção a sala de jantar onde nos esperava.
Jantamos em silêncio. Haviam muitos pensamentos que não me deixavam puxar alguma conversa saudável. Eu estava com saudade de casa e uma curiosidade mista de preocupação para saber o que havia acontecido com Pietro.
Não me lembro de ter brigado com ele, apenas senti uma certa distancia que vinha acontecendo há alguns dias. Pietro andava sempre lá em casa, mas nas ultimas semanas, antes de eu viajar, ele começou a se afastar aos poucos, indo uma ou duas vezes na semana. Não achei anormal esse pequeno afastamento, pois já havia acontecido antes, mas depois que eu me mudei, as coisas pareceram piorar.
Meus pais eram outros que estava muito estranhos. Sempre trabalharam muito, e sempre tiveram pouco tempo um para o outro, mas isso nunca fez com que o amor deles, ou seja lá o que for que mantinha aquele casamento feliz, morrer. Agora, eu mal ouvia um falar do outro ou comentar qualquer coisa. Ambos estavam frios e distantes e eu podia sentir que havia alguma coisa errada.
- Marisa, eu gostaria de ir ver meus pais no feriado. – Proferi, sem pensar. As únicas duas pessoas a mesa voltaram seus olhares para mim assustados, como se aquilo não fosse uma boa ideia.
- Bom, podemos conversar sobre isso mais tarde. – Proferiu.
Não ousei tocar mais no assunto.

Capítulo betado por Tatiane M.

Capítulo 09

- Então, vai ter uma festa amanhã à noite, eu realmente gostaria que você fosse comigo... – Comentou Josh, encostado no armário ao lado do meu.
- Eu não sei... – Suspirei, enquanto tentava encontrar algum livro de matemática dentro do meu armário. – Acho que não gosto muito de festas.
- Você precisa conhecer as festas daqui, além do mais, eu realmente queria a sua companhia. – Falou em tom de manha. Dei os ombros e segui para aula, sem, ao menos, me dar ao trabalho de olhar para trás.
Eu não era idiota. Não iria fantasiar que Josh estava me convidando para circular com ele em uma festa apenas como amigos, e eu também sabia que aceitar instigaria ainda mais os comentários que já rolavam pelo corredor. A questão era: eu queria me tornar algo a mais do Josh? Bom, a resposta era não, definitivamente. Nutria sim, um carinho grande por ele ter me ajudado quando eu precisei, e por estar sendo tão amistoso comigo, mesmo sem eu demonstrar nenhum interesse além. Não passava disso. Talvez eu devesse usar a desculpa de quem não estava emocionalmente disponível naquele momento, mas a verdade é que, apesar de Josh ser realmente um cara bonito e me fazer bem, não conseguia nutrir por ele nenhum tipo de sentimento além da amizade. Se é que eu podia dizer que ele considerava o que tínhamos uma amizade.


Quando o sinal do intervalo tocou, me juntei a e no pátio principal do colégio. Não havia nenhum sinal de , , ou mesmo de . Estranhei quando a vi em um papo extremamente animado com , como se ignorasse completamente a nossa presença a uns vinte passos dali.
- Ouvi dizer que o está pensando em chamar a pra sair. – Comentou , fazendo sinal para que eu desse corda para o assunto.
- Verdade. Ela até comentou comigo que eles começaram a ficar próximos e que ela vem sentindo um interesse diferente da parte dele. – Dei os ombros, como quem não estava se divertindo com aquilo.
A expressão de mudou completamente ao processar a conversa. Seus punhos se contorciam de tal forma, que eu podia ver suas veias pulsarem claramente.
- E ela vai aceitar? – Perguntou, depois de um longo suspiro. Seus olhos estavam focados em . Eu podia jurar que a qualquer momento ele a arrancaria dali e a arrastaria pátio afora.
- Não ficaria surpreso se aceitasse, ela tem sido bem comentada na escola. Tem muitos caras querendo chamá-la pra sair. – O comentário de foi a gota d’água para . Ele se levantou em tamanha fúria, que era possível ver claramente sua pele branca se tornar avermelhada conforme seus passos duros se dirigiam até onde estava.
Foi uma questão de segundos para que estivesse aos beijos com no meio do pátio. Eu não consegui entender bem o que havia acontecido, mas as caras de satisfeitos de e quando a cena aconteceu não me deixaram dúvidas de que aquilo havia saído melhor do que eles esperavam.
- Eles provavelmente vão ficar naquilo um bom tempo... – Comentou . – Vou procurar alguma coisa pra comer, você vem?
Eu apenas neguei com a cabeça, estava muito preguiçosa para caminhar até a cantina. Não demorou muito para que e também sumissem das minhas vistas e eu ficasse completamente sozinha ali, ou melhor... quase.
- Acho que essa é a hora em que você diz que eu mandei muito bem, certo? – se sentou ao meu lado e eu logo pude sentir o peso de seu ego sob os meus ombros.
- Como sabia que ia funcionar? – Perguntei, ignorando completamente o que ele havia dito.
- só funciona sob pressão. Eles vão se entender melhor agora. – Deu os ombros.
- Obrigada. – Proferi baixo. Não queria alimentar ainda mais seu ego.
- Nada, tudo pela felicidade de um amigo. Eu já havia cogitado isso quando você me pediu ajuda. – Comentou.
Minhas bochechas se enrubesceram rapidamente. Tentei esconder a vergonha jogando o cabelo para frente, mas gentilmente o colocou para trás da orelha, com um ar tão compreensivo que nem parecia o cara que eu conhecera.
- Ouvi você e a no quarto, depois que você saiu. – Proferiu. – E antes que comece a gritar ou a me ofender, eu estava indo pedir desculpas pela situação. – Continuou, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
- Então você sabe que eu nunca...?
- Sei, e não vou sair espalhando ou te criticando por isso. Sinto muito em frustrar você com isso. Na verdade, queria que soubesse que não precisa ficar envergonhada pelo ocorrido, eu deveria ter trancado a porta. Foi até uma sorte ter sido você, seria pior se fosse a minha mãe. – riu ao imaginar a cena, e foi só então que eu percebi o quão gostosa era o som da sua risada. Reconfortante.
- Eu realmente me sinto idiota com aquela situação. – Ri, ainda envergonhada. – Mas consigo imaginar os gritos da Marisa se te visse daquele jeito.
- Você é uma garota muito estranha. – Comentou, deixando seu lado cômico de lado.
- Como assim? – Perguntei sem entender.
- Não se ofenda, mas eu te acho um tanto idiota por sempre pensar o melhor das pessoas e deixar que qualquer um se torne tão íntimo seu. É pedir para ser enganado e sofrer. – Falou sério. – Mas por outro lado, esse seu jeito envergonhado, sempre preocupado com a felicidade dos amigos, é até que bonitinho. – Sorriu.
- me fazendo um elogio? – Me surpreendi.
- Acho que é um quase elogio, mas, é... pode ser. – Ele sorriu mais uma vez antes de se levantar e sumir entre as pessoas que ali estavam. Aquela fora a primeira conversa decente que eu tivera com desde que colocara os pés em seu país. Não estava com expectativas de uma amizade próspera, mas podia sentir que o bom convívio estava por vir.


- Eu quero saber de tudo! – Assim que entrei no banheiro, pude ouvir a voz de Amber e eufóricas. Havíamos nos tornado próximas nas últimas semanas. Não chegava a ser uma amizade como eu e tínhamos, mas parecia estar caminhando para ser. – Foi uma cena digna de filme!
- Eu não sei quem era aquele , mas eu quero que ele fique pra sempre. – Comentou , tentando conter os gritos.
- Eu quero saber o que vocês conversaram. – Proferi. Amber rapidamente concordou comigo e aquela euforia logo se tornou um interrogatório.
- Ele disse que não iria me convidar pra sair, porque nós já havíamos saído algumas vezes, pelo menos na cabeça dele, mas que precisava me dar aquele beijo para que eu tivesse certeza de que está acontecendo algo entre nós, mas que ele só não sabe exatamente o que é. – Sorriu, sonhadora.
- Sinto que alguém estará namorando em breve. – Comentei, animada com a ideia de ter um casal de amigos apaixonados.
-... Ou não. – Comentou Amber, logo se arrependendo do que dissera. – Desculpa, , é que eu ainda estou traumatizada com tudo o que aconteceu com o . – Se corrigiu.
apenas se solidarizou com a ruiva e não levou aquilo como uma ofensa, ou como dizem na minha terra, “Olho gordo".
Eu andava um tanto preocupada com Amber nos últimos dias. Ela sempre aparentava estar bem com a situação entre ela e , mas eu podia vê-la observando-o todo o tempo e perguntando, como quem não quer nada, se ele estava saindo com alguma outra garota que ela não soubesse. Até mesmo tentou disfarçar sua tristeza saindo com um dos amigos de Josh, mas não durou três dias. Ela fazia grandes comparações com o , na frente do garoto, e aquilo o deixou extremamente irritado em pouco tempo.
Confesso, eu não tinha a menor ideia de como lidar com esse tipo de drama feminino, porém havia algo dentro de mim me dizendo que ela precisava de ajuda, e eu deveria dá-la.


Estávamos todos encostados na carro de , quando avistei Josh vindo em nossa direção. Me virei de costas pra ele, rezando para que ignorasse a minha presença ali, mas fora completamente em vão.
- , que bom te encontrar! – Ele proferiu, animado. Seus olhos analisaram as pessoas a minha volta, mas ele se limitou a cumprimentar apenas as garotas. Não que eu achasse que os garotos iriam se importar com isso.
- Oi, Josh, ‘tava me procurando? – Perguntei, tentando disfarçar que não fazia ideia do que ele queria comigo.
- Na verdade, eu só queria saber se vai aceitar ir à festa comigo. – Sorriu como num quase pedido para que eu dissesse sim.
- Ela vai comigo. – Senti as mãos de sobre os meus ombros e aquilo me deixou extremamente assustada. Olhei para as garotas e a expressão de Amber não era nada amigável.
- E eu posso saber por quê? – Eu pude sentir a irritação na sua voz.
- Moramos na mesma casa, então como eu sou nova por aqui, Marisa, a mãe do , acha que é melhor ele me acompanhar e me trazer em segurança. Não vamos juntos, ele vai ser tipo... meu segurança. – Tentei explicar, tratando logo de tirar as mãos de dos meus ombros.
- Entendo. – Suspirou. – Então nos vemos na festa. – Deu os ombros, seguindo em direção aos amigos.
O silêncio se instalou entre o grupo onde eu estava durante alguns segundos. Ninguém conseguia dizer nenhuma palavra sobre aquela situação estranha, mas eu agradecia mentalmente por ter me salvado de uma situação tão constrangedora.


Assim que chegamos em casa, eu segui desesperadamente para o meu quarto, na esperança de encontrar qualquer resposta de Pietro na minha caixa de entrada, mas, para variar, eu só tinha alguns spams e convite para uma nova rede social que não me interessava.
Resolvi que escreveria outro email, na esperança que ele me respondesse apenas aquele, mesmo sabendo que não aconteceria. Uma sensação ruim tomou conta de mim, e eu nem sequer pude disfarçar minha cara de enterro quando bateu na porta do meu quarto.
- Saudade de casa?- Perguntou.
- Quase isso. – Dei os ombros, tentando forçar um meio sorriso. – Obrigada por me ajudar com Josh hoje, eu não queria magoá-lo.
- Aquele cara é um idiota, não sei porquê ainda dá ideia pra ele. – Deu os ombros. Não toquei no assunto. Estava cansada demais para discutir com e sua opinião torta sobre as pessoas. – Esteja pronta às sete para irmos a festa, ok? – Comentou, eu apenas concordei.
- , acha que sua mãe concordaria em me deixar ver meus pais no feriado? – Perguntei.
- Bom, acho que estamos caminhando para um convívio melhor, então é melhor começar a me chamar de . – Sorriu. – E eu não sei te responder, mas é provável que não.
Aquilo me deixou deveras desanimada. Eu realmente precisava visitar meus pais e descobrir o que estava acontecendo. Me sentia praticamente isolada dos acontecimentos importantes, na verdade, eu estava isolada.
- Mesmo assim, eu vou tentar. – Suspirei.


Esperei que a família se reunisse na sala após o jantar, para então entrar novamente no assunto. Expliquei a Marisa que sentia que as coisas na minha casa não estavam bem e que meus pais provavelmente estavam precisando de mim, mas não queriam pedir minha ajuda. Como ela era uma pessoa que prezava a família, tinha esperança que entendesse o que eu queria.
- Não acho que seja bom pra você fazer essa viagem sozinha. – Comentou, pensativa. Meus olhos se revezavam entre ela e o Sr. , como se eu pedisse por clemência.
- pode ir com ela. – Sugeriu Sr. . Meus olhos quase saltaram do meu rosto. Como assim eu teria que carregar comigo? Era aceitável que estivéssemos melhorando nossa convivência, mas viajar com ele já era um tamanho exagero.
- Não vejo necessidade de fazê-lo perder o feriado por minha causa. – Proferi. Eu podia sentir o olhar de ódio de sobre mim quando soubesse da novidade. Ele provavelmente rasgaria a bandeira de trégua.
- Está decidido. irá com você passar o feriado no Brasil, e não se preocupe, pois vamos custear a viagem de ambos. – Decidiu. – Pode ir contar a ele a novidade. – Completou, animada.
E o que era para ser a melhor notícia, acabou se tornando um pseudo pesadelo pra mim. Era como entregar o machado na mão do carrasco.
Caminhei até o quarto de com o coração na boca. Estava com medo de como ele reagiria ao saber que acabaria perdendo o seu feriado comigo. Bati na porta com força e logo pude ouvir sua voz permitindo a minha entrada.
- Conseguiu o que queria? – Perguntou.
- Mais ou menos. – Suspirei.
- Como assim? – Sua expressão estava séria, como se já esperasse uma notícia ruim.
- Eu vou para o Brasil no feriado, mas você também irá. – Informei.
Não ouve tempo para absorver a reação de , quando me dei por mim, ele já estava no andar de baixo argumentando com os pais o porquê de ter que ser meu babá em uma viagem tão rápida.
E esse foi o fim dos nossos momentos de paz.

Capítulo 10

Era por volta de quatro da tarde quando eu tomei coragem de atravessar o corredor e ir ao quarto de . O mesmo passara a noite discutindo com os pais sobre nossa viagem ao Brasil, mas eles foram irredutíveis quanto à decisão. Eu estava me sentindo mal por ter causado tamanho problema ao garoto. Na verdade, eu não desejava que ele fosse comigo. Se eu encontrasse problemas no Brasil, ter alguém comigo só poderia atrapalhar ou até piorar a situação.
Bati na porta duas vezes, até que pude ouvir a voz de me dizendo para entrar.
- Ocupado? – Perguntei. Ele estava jogado na cama, sem camisa, ouvindo alguma música do Oasis, que eu não conseguia me lembrar do nome.
- Só tirando algumas músicas pra banda. – Deu os ombros.
- Olha, eu não queria que você fosse para o Brasil comigo... – Suspirei. – As coisas estão muito complicadas, e eu não sei o que posso esperar quando chegar lá...
- Você pode relaxar um pouco? – Me interrompeu. – Acredite, eu também estou odiando a ideia de viajar para um país que eu nem ao menos sei a língua, mas foi uma decisão que eu não posso argumentar. Então, a única coisa que eu posso te garantir é que vou ficar na minha, enquanto você resolve seus problemas.
Não havia muito o que argumentar com . Apenas assenti e voltei para o meu quarto. Afinal, eu precisava me arrumar pra uma festa.


- Vestido ou calça jeans? – Perguntei a no telefone.
- Se você não sabe o que vai vestir, quê dirá eu? – Riu. – Não é um baile, então acho que uma calça jeans, um salto e uma blusa que você goste vai ficar bem legal. – Sugeriu.
Ficamos mais alguns minutos no telefone, até eu criar coragem para ir secar meu cabelo e vasculhar alguma roupa decente no armário. Vesti uma calça jeans justa com uma blusa preta de um ombro só com uma faixa para amarrar na cintura. Coloquei um salto preto estampado que minha mãe havia me dado no natal. Optei por deixar o cabelo solto e fazer uma maquiagem bem leve. Eu não estava muito animada com essa história de festa, então não havia muita necessidade de ficar me arrumando demais.
- Como você esta bonita! - Comentou Marisa ao me ver descendo as escadas. Senti os olhos de sobre mim, como se analisasse meu corpo como se eu estivesse despida em sua frente. Posso dizer que aquilo se tratava de algo masculino, pois já havia percebido e me olharem da mesma forma diversas vezes. Minhas bochechas trataram logo de ficarem avermelhadas.
- Realmente, você está bem bonita. – Concordou. Eu apenas agradeci com um sorriso, fazendo um rápido comentário sobre como combinava com ele a camisa social para fora da calça. E realmente combinava.


- Garota, você ‘tá a maior gata! – Vi Josh vindo em minha direção com uma garrafa de cerveja na mão. Ele passou o braço pelos meus ombros, falando alguma coisa sobre o dono da casa e as festas que ele dava. Eu não conseguia entender muito bem o que ele dizia por causa da música alta, mas eu não me importava. Enquanto andávamos, passei os olhos pelo lugar. Logo avistei conversando com uma garota loira que fazia questão de ficar pendurada em seu pescoço. Foi uma cena bastante engraçada vê-lo me olhar com desespero, como se pedisse pelo amor de Deus para que eu o salvasse, mas o que eu podia fazer?
Amber estava numa conversa animada com as amigas na cozinha. Acenei para ela, enquanto a mesma fez sinal para que eu a encontrasse depois. Apenas concordei e deixei que Josh me arrastasse para o jardim. Eu podia sentir que o garoto começava a ficar bêbado e aquilo não era bom.
- Josh, não é melhor dar uma segurada na cerveja? – Sugeri, tentando fazê-lo sentar no banco a nossa frente.
- Nada, eu sou duro na queda. – Riu, cambaleando para se sentar.
Dei uma olhada à minha volta e pude encontrar e se agarrando. Era bom ver que a minha amiga estava feliz. Próximo a eles estava , que havia sumido na festa logo que Josh apareceu, conversando com e uma garota morena que eu conhecia apenas de vista. Acenei para eles, que fizeram uma cara de desgosto quando viram Josh deitado em meu colo. Estava tão distraída observando o ambiente, que nem percebi quando ele deitou. - Eu queria te falar uma coisa... – Começou. – Eu não gosto muito daquele .
- Josh, a festa está só começando, tem certeza que quer ter esse tipo de conversa agora?
- Preciso falar... – Disse manhoso. Eu apenas passei a ponta dos dedos pelos seus cabelos e deixei que ele falasse, afinal, quem faz um bêbado ficar quieto? – Eu sei que você mora na casa dele e que não existe um jeito de vocês não conviverem um com o outro, mas eu não acho que ele seja o tipo de pessoa com quem você deva andar.
- Como assim? – Perguntei, sem entender.
- Não sei. Não gosto da maneira como ele age, sempre parecendo ser superior às pessoas a volta dele. – Deu os ombros. – E eu não gosto de vê-lo perto de você.
- Você falou igual a um namorado ciumento agora. – Ri.
Ele não disse mais nada. Apenas ficou observando as estrelas que estavam sobre nós. Josh me parecia ser um garoto legal, mas eu não conseguia olhá-lo de outra forma. Era um amigo, assim como os outros garotos.
Preferi considerar aquela conversa como uma birrinha entre pessoas que não se gostam e nada demais. Não iria me obrigar a escolher entre ele e meus amigos sem motivo. Ouvi uma música conhecida invadir meus ouvidos. Era She Will Be Loved, do Maroon 5. Não pude deixar de sorrir, aquela melodia sempre me fazia sorrir por algum motivo.
- Quer dançar? – Perguntou.
- E você está em condições de dançar?
- Eu estou alegre, não caindo de bêbado. – Ele riu.
Seguimos para a sala onde se encontrava a pista de dança. Encontrei acompanhado da morena, juntamente de Amber, que estava bêbada e jogada nos ombros de . Sua expressão não era nada boa, mas como ele não tinha nada a perder, estava aguentando a situação. Coloquei meus braços em volta do pescoço de Josh, e ele espalmou as mãos em minha cintura. Agradava-me ouvi-lo sussurrar partes da música no meu ouvido. Foi quando eu percebi os olhos de sobre mim. Sua expressão era neutra, mas, ao mesmo tempo, me mantinha hipnotizada. Eu quase podia dizer que estava dançando com ele ao invés de Josh.
- Eu acho que... - Ouvi Josh dizer alguma coisa, mas o mesmo foi interrompido por , que misteriosamente se teletransportou para o nosso lado.
- Posso dançar com você? – Perguntou. A expressão no rosto de Josh não era nada amigável. – Tenho certeza que o Josh vai ficar feliz em dançar um pouco com a Amber.
- Se importa? – Perguntei a Josh, que apenas fez um “não" com a cabeça, mesmo sua expressão dizendo completamente o contrário.
Era nítida a expressão de vitória que tinha. Mas eu não estava nem um pouco feliz em ser um objeto entre os dois. Se tinham problemas, que resolvessem entre eles e não me colocassem no meio. Eu não estava aqui quando eles começaram a ter problemas e não estava afim de ser o motivo de uma guerra. - Não gostei disso. – Disse, séria. Senti as mãos de apertarem a minha cintura, fazendo com que ficássemos mais próximos.
- Não gostou do que? – Perguntou.
- De me usar para provocar o Josh.
- Pense nisso como um favor que me deve, por me fazer perder o feriado. – Revirei os olhos ao ouvir o que ele dissera. Às vezes eu me perguntava qual era o nível de imaturidade dos homens desse planeta. – Você gosta dessa música, certo? – Eu apenas concordei.
aproximou ainda mais nossos corpos, deixando que sua testa encostasse na minha. Eu não podia negar que era uma sensação muito boa. me transmitia uma certa segurança, e eu podia ver nos seus olhos que ele também estava gostando daquilo.
- Eu também gosto... dessa música. – Ele sorriu. Era a primeira vez que eu o via me olhar daquele jeito. Como se realmente me quisesse ali. Normalmente, sempre que eu chegava perto, eu podia sentir uma certa repulsa vindo de sua parte, mas, dessa vez, ele estava quase que gostando de me ter por perto.
Assim que a música acabou, me arrastou novamente para o lado de fora da casa. Eu não entendi muito bem para onde estávamos indo, mas acabei me deixando levar.
- Desculpa. – Proferiu, assim que sentimos o ar frio tocar nossas peles.
- Pelo o que?
- Por te usar para provocar o Josh e me livrar da Amber, sei que ela é sua amiga.
- Não é bem amiga, mas ‘tá caminhando pra ser. – O corrigi. – Mas, tudo bem, eu estou te devendo dois favores.
Ele riu.
Senti minha pele se arrepiar com o vento frio. colocou seu paletó sob os meus ombros e eu sorri agradecida. Ficamos um bom tempo parados, olhando o nada sem dizer uma palavra. Era a primeira vez que ficávamos perto um do outro por tanto tempo.
- Acho que eu sou mais tolerável do que você pensava. – Ri.
- Não exagera. – Ele riu. – Mas você tem seus bons momentos.
- Você também. – Sorri.


Ficamos um bom tempo conversando do lado de fora da festa. Logo e se juntaram a nós, seguidos de e . Pude notar Josh me observando da varanda com uma cara nada amigável. Ele cochichava alguma coisa com uma garota, que eu conhecia de vista, mas não conseguia me lembrar de onde.
- Finalmente aquela Kelly desgrudou do meu pescoço. – Reclamou . – Não pode me ver, que me cola feito velcro. - Ui! Mamãe passou mel em mim quando eu nasci. – Brinquei.
Ficamos um tempo conversando em grupo, e, desta vez, não me ignorou ou me deu respostas atravessadas. Fiquei feliz em ver que o nosso convívio estava melhorando aos poucos. Acho que todos no grupo estavam.
Não tinha muito a dizer sobre as festas britânicas. Não eram tão diferente das brasileiras, principalmente na quantidade de pessoas que saíam carregadas de tão bêbadas, ou que vomitavam pelo caminho até perder a consciência. Era por esses e outros motivos que eu gostava muito de ficar em casa lendo um bom livro.
- , aquela ali não é a Amber? – Apontou .
Olhei para onde ela indicava e pude ver a ruiva sentada na janela do segundo andar, seminua e com um ar de quem ia tentar seguir o Peter Pan para a terra do nunca.
Saí correndo em direção ao segundo andar. Empurrei todos que estavam entrando no meu caminho, sem nem me preocupar se estaria causando um acidente. Vi que e me seguiram, enquanto os outros tentavam conter a multidão idiota que pedia para ela se jogar.
- Amber, o que você ‘tá fazendo? – Entrei no quarto, desesperada. Talvez ela estivesse no seu limite, mas nada era motivo para ela querer se jogar. Nem mesmo . Principalmente .
- Sai! Eu quero que o venha me buscar. – Suas palavras saiam enroladas e eu podia sentir de longe o cheiro forte de álcool.
- Amber, sai daí e vem vestir sua roupa! – A expressão de era muito séria. Era visível que ela detestava esse tipo de atitude para chamar atenção.
- Eu quero o . – Choramingou.
Respirei fundo tirando o celular do bolso. Dois minutos depois, encontrei com no corredor, visivelmente irritado com aquela situação.
- Eu sei que é pedir muito, mas você pode tirar ela de lá? – Pedi.
- Por quê? Ela é louca. – Proferiu.
- Ela provavelmente está depressiva, . – Tentei explicar. – Não estou pedindo que volte com ela, nem nada. Só que ela não vai descer dali sem você, e eu não quero terminar a noite tendo que explicar porque ela se jogou da janela pra polícia.
- Você está certa. – entrou no quarto e Amber começou a gritar coisas que ninguém conseguia compreender, porém bastou que a pegasse no colo a força, para que a garota se rendesse aos efeitos do álcool e apagasse ali mesmo.
- Ah, que ótimo. – Proferiu . – E agora, o que a gente faz com essa doida adormecida?
- Eu vou levar ela pra minha casa, você me ajuda, ? – Proferiu . Me surpreendi com a atitude dele, mas acho que, por mais duro que ele fosse, jamais deixaria a ruiva jogada em qualquer canto, ainda mais no estado em que ela estava.
e nos ajudaram a abrir caminho até o carro de . O número de curiosos querendo saber o que estava acontecendo era enorme. Eu nem sabia que havia tantas pessoas naquela festa.
- ! – Senti alguém me puxar pelo braço e assim que me virei pude ver Josh com uma expressão bem preocupada. – Você está bem?
- Estou. Amber teve um surto de loucura e eu vou levá-la pra minha casa. – Expliquei.
- Como você consegue ser tão legal com ela, mesmo depois de tudo o que ela aprontou? – Perguntou.
- Não sei, acho que não sou do tipo que guarda mágoa. – Dei os ombros. – A gente se vê depois. – Depositei um beijo em sua bochecha e segui em direção a , que me esperava no carro.


Era por volta das três da manhã quando chegamos em casa. Tentamos fazer o mínimo de barulho possível para não acordar ninguém. carregou Amber até seu quarto, colocando-a cuidadosamente em sua cama.
Olhando-a daquele jeito, parecia um anjo dormindo. Amber era uma garota extremamente bonita, não conseguia ver de onde vinha tanta insegurança e tantas atitudes estúpidas.
- Onde você vai dormir? – Perguntei em sussurro.
- Não sei, quando eu estiver com sono, eu decido. – Suspirou. Eu apenas concordei. Depois de toda aquela agitação, não havia como termos sono. Descemos silenciosamente até a sala, estava passando a primeira temporada de Game of Thrones na HBO. Por sorte, pegamos o começo do segundo episódio. Surpreendi-me ao ver que também era um fanático pela história, tanto quanto eu.
- Eu sinceramente não gosto desses Lannisters. – Comentou.
- Eu também não. Já jurei minha fidelidade à casa dos Targaryens – Falei animada. Ele riu. – O que foi?
- Você é muito fanática.
Estávamos tão confortáveis, que acabou arrumando travesseiros e um cobertor para nós. Assistimos uns três episódios, quando finalmente o garoto acabou se rendendo ao sono, deitando em meu colo sem pedir permissão. Ele estava com uma expressão tão tranquila, que eu acabei sentindo muita pena de acordá-lo. Era estranho ver naquela situação. Uma situação em que ele não estava me tratando de forma grosseira, nem me dando patadas ao invés de respostas civilizadas.
Nem parecia aquele garoto do aeroporto, que me deixou perdida em Londres no meu primeiro dia. Não parecia com o mesmo cara que me chamara de tolerável para a ruiva que dormia no andar de cima.
Era bom ver que eu e estávamos criando a política da boa vizinhança. Talvez essa viagem para o Brasil não fosse assim tão ruim.


Capítulo 11

A manhã logo veio. Os raios de sol da janela da sala começaram a me incomodar. Tateei o sofá em busca de , mas ele não estava ali. Respirei fundo e tomei coragem para me levantar.
Dei uma olhada no andar de baixo e nada. Não havia sinal de nenhuma pessoa da família , não havia sinal de .
Subi lentamente, tentando evitar qualquer tipo de barulho. Acabei por encontrar a porta do quarto de entreaberta, mas não havia nenhum sinal de Amber. Perguntei-me se deveria ficar preocupada, mas se não estava ouvindo gritos, era bem provável que tudo estivesse bem.
Tomei um banho rápido, colocando um shorts com uma camiseta larga de Pietro que eu havia roubado. Fiz um coque frouxo no cabelo e desci para colocar alguma coisa no estômago.
- Bom dia! – Encontrei Marisa na cozinha, ela estava se deliciando com algumas panquecas e fez sinal para que eu me sentasse.
- foi levar Amber em casa. – A expressão de Marisa não estava nada boa. Ela parecia preocupada, ou melhor, um tanto aborrecida.
- E ela estava bem? – Me servi de um pouco de chá.
- Sim. – Ela suspirou. – Acredito que ela sempre fica bem depois de causar um estrago para arrumar depois.
Mordi o lábio inferior, tentando encontrar uma boa resposta para aquilo, mas não adiantou. As atitudes de Amber mereciam a desaprovação de Marisa. A cena da noite anterior foi lamentável, até mesmo para alguém como ela, e eu nada podia fazer para ajudar.
- Avisou seus pais que está indo visitá-los? – Perguntou e eu apenas assenti. Na verdade, eu não havia falado com nenhum deles sobre a viagem. Talvez fosse melhor assim, eles poderiam inventar qualquer compromisso para que eu não voltasse.
Terminei meu café e fui para o quarto começar a arrumar minhas coisas. Aquela viagem seria muito importante pra mim, afinal, eu finalmente iria descobrir o porquê do meu melhor amigo ter me abandonado. Eu quase não me lembrava mais do seu rosto. Não havia percebido que, apesar da saudade, meus dias estavam cada vez mais agitados e eu quase nunca olhava nossas fotos, apenas checava meus e-mails pra ter certeza de que ele não havia me escrito algo.
Em pouco tempo, quase dois meses, fora de casa, muita coisa havia me acontecido. havia me deixado perdida em Londres, conheci , Amber quase me matou, conheci , e , Amber resolveu ser minha amiga, conheci Josh, salvei Amber de se matar, começou a namorar e resolveu criar uma política de boa vizinhança comigo. Pietro era o único que não fazia parte desses acontecimentos, ele não estava ali em nenhum momento de alegria, nem mesmo nos momentos de tristeza. Para alguém que sempre estivera comigo, mesmo quando todos diziam que ele tinha potencial para andar com pessoas melhores, ele continuou ali.
Meu coração apertou e as lágrimas finalmente rolaram pelo meu rosto. Eu havia conhecido muitas pessoas na minha vida, mas Pietro, até então, era o único que nunca havia me magoado e nunca havia me feito chorar.
Sequei as lágrimas e respirei fundo. Cinco dias, só faltavam cinco dias para que eu finalmente pudesse descarregar todo esse peso em cima dele. E não pouparia palavras.


- Tá todo mundo comentando... – Sussurrou . Estávamos no meio da aula, eu podia ver todos olhando para mim e cochichando sobre o acontecido da festa. - ...uns dizem que você e o estão juntos e por isso a Amber tentou se matar.
– Eu apenas dei de ombros. Ninguém de fato sabia o que havia acontecido naquela festa, e eu não ia me dar ao trabalho de explicar. Desde aquele dia, eu não havia trocado uma palavra com sobre o assunto e também não havia visto Amber nos corredores da escola. Havia um boato de que os pais dela haviam internado a garota numa clínica, mas era bem provável que fosse apenas um boato.
- Eles falam demais. – Resmunguei.
Assim que o sinal tocou, corri para encontrar Josh perto da piscina. Nossas conversas estavam se tornando frequentes e eu começava a me sentir bem perto dele, mas sem nenhum tipo de sentimento além de amizade. Claro que e os garotos não estavam se sentindo à vontade com isso, mas não comentavam nada que pudesse me deixar magoada. começava a fazer nosso plano de saídas em casal, mas eu não cogitava colocar em uma situação constrangedora de ter que ser simpático com Josh para agradar a todos. Não seria justo.
- Animada pra viagem? – Ele sorriu assim que eu me aproximei. Estava sentado na beirada da piscina com os pés dentro da água.
- Um pouco. – Dei os ombros, sentando-me ao seu lado. – Você sabe. – Sorri. – Tem noticias da Amber?
- Sei tanto quanto você. – Suspirou. – Queria saber o que se passa na cabeça dela...
- Ela é uma boa pessoa, é apenas um pouco perturbada, sabe? Acredito que ela tenha dificuldades em superar os sentimentos que criou pelo . – Deitei meu corpo no chão, deixando que os raios de sol tocassem a minha pele.
- Eu não me lembro de ter visto aquela pessoa incentivá-la, sabe? Ele sempre foi um tanto fechado com as garotas, distante. – Suspirou. – Quando ela contou que estavam namorando, ninguém acreditou, mas quando ele confirmou... foi o assunto da escola por semanas. Nunca pensei que fosse ver aquele cara namorando alguém como a Amber...
- Por que?
- Digamos que... eu o conheço bem pra saber que ela nunca fez o tipo dele. – Josh ficou com os olhos perdidos na água durante um tempo. Deixei que o assunto morresse ali e me permiti apenas curtir o momento. A data da minha viagem estava próxima, e eu queria aproveitar as poucas coisas boas que eu havia conquistado naquele lugar.


- ! – Chamei o garoto que estava sentado em um dos bancos de concreto do pátio da escola. Ainda faltavam alguns minutos para o intervalo acabar.
- Que susto! – Ele colocou a mão no peito. – Por dois segundos eu pensei que fosse aquela garota maluca da festa. – Eu apenas ri.
- Sabe onde eu encontro o ? – Ele negou com a cabeça.
Eu queria notícias de Amber, mas não tinha coragem de tocar no assunto de novo. Todos estavam comentando o que havia acontecido, aumentando a história e dizendo coisas horríveis. e eu havíamos nos falado muito pouco depois que ele voltou da casa de Amber naquele dia. Apenas o básico “oi" e “tchau". Ele vivia trancado dentro do quarto com música alta e nem mesmo Marisa conseguia arrancar dele se estava tudo bem.
Amber era outra que não respondia minhas mensagens. Suas amigas da torcida também não tinham notícias suas e, aparentemente, não faziam questão de ter.
- Você quer saber da Amber, certo? – Eu apenas concordei. – Às vezes eu penso que aquela garota é louca, outras vezes eu acho que é apenas falta do que fazer. – Suspirou.
- Acha que ela está bem?
- Com certeza. – Sorriu – Eu sei que tem uma opinião meio ruim do , mas ele faz de tudo para que ela não tenha problemas. Realmente se preocupa. – Deu os ombros. – Desde que ela “surgiu" na vida dele, tudo o que faz é cuidar para que ela fique bem.
- ...e tudo o que Amber faz é criar problemas. – Resmunguei. – Por que ele é desse jeito? Por que começou a namorar com ela?
- É uma história um pouco complicada... - Suspirou. Os olhos de se perderam assim como os de Josh. O silêncio se instalou entre nós e o assunto acabou morrendo.
Por um lado eu estava curiosa para saber o mistério que rondava , por outro, eu estava feliz por saber que ele não era duro com Amber apenas por implicância. Ele tinha seus próprios motivos.
- Você e esse Josh estão namorando? – A pergunta surgiu do nada e acabou quebrando o silencio.
- Não. – Revirei os olhos. - Somo apenas amigos.
- Ele não é uma boa pessoa para ser amiga. – Resmungou. Obriguei-me a ignorar o comentário. Até então, Josh havia se mostrado uma boa pessoa, não queria estragar minha amizade com ele por conta de opiniões alheias, eu ainda podia cuidar muito bem de mim.


e eu voltamos para casa em silêncio. Comentei alguma coisa aleatória sobre a banda que tocava no rádio, mas ele apenas concordou com a cabeça. Eu sabia que ele não me diria nenhuma palavra sobre Amber, então acabei deixando que ele se trancasse no quarto novamente.
Marisa não estava em casa. Subi para o meu quarto correndo, tomei um banho rápido e me concentrei em arrumar as coisas para a viagem. Ainda não havia nenhuma mensagem de Pietro e eu fiz questão de também não avisá-lo que eu estava voltando, afinal, ele poderia fugir.
- Você tá animada pra me largar! - A voz de invadiu o quarto.
- O que é que você ta fazendo aqui? – Ri.
- Vim te ajudar com a bagagem, na verdade. – Ela deu os ombros. – Apesar de eu ser contra você passar o feriado longe de mim.
- Você podia ir comigo... – Sugeri. Eu livraria de passar o feriado comigo, ou melhor, me livraria de passar o feriado com e poderia conhecer um pouco mais de mim.
- Não dá... meu pai precisa de mim no hotel, aliás, você podia passar as tardes comigo na recepção, a gente tem wi-fi agora. – Sorriu. – Meu pai disse que pode te pagar um salário de meio período.
- Acho que seria uma boa ideia. – Ter um trabalho de meio período me faria bem, eu passaria menos tempo dentro de casa fazendo nada e ocuparia a minha cabeça.
– Eu vou conversar sobre isso com Marisa. Ela precisa me autorizar. – Dei os ombros. Sabia que Marisa não seria muito a favor de um trabalho de meio período, mesmo que fosse junto de . Não era por maldade, mas a Sra. era o tipo de pessoas que ainda acreditava que as mulheres deveriam se dedicar ao lar e ao marido, e devido a sua posição social, um trabalho simples como o de recepcionista seria visto como impróprio para “alguém como eu".
- Meu pai esta conseguindo melhorar aquele lugar. – Os olhos de estavam um pouco tristes. – É complicado com a localização e com a situação do hotel, mas estamos conseguindo melhorar. Pelo menos alguns quartos não têm mais goteiras, ou cheiro de mofo. – Eu sabia que ela estava preocupada com a situação financeira do pai. Por mais que tivesse a opção de morar com a mãe, sempre teve mais afinidade com o pai e jamais o abandonaria, mesmo por uma educação melhor ou roupas de marca. Nem ela conseguia se encaixar nesse mundo, assim como eu.
- Tenho certeza de que seu pai vai transformar aquele lugar em algo bem melhor. – A abracei. Por alguns segundos eu pensei em adiar minha viagem para poder ajudá-la, mas eu tinha assuntos pendentes no Brasil, e se eu fosse realmente começar uma vida em Londres, eu precisaria deixar tudo o que estava na minha terra natal para trás.
- Falou com ? – tinha a péssima mania de mudar de assunto quando ficava chateada ou preocupada com algo. Notei isso depois de perceber que quase nunca falávamos sobre a real situação do hotel.
- Sobre...? – Arqueei a sobrancelha.
- Amber.
- Não consegui falar com ele sobre isso. – Bufei. – Tentei puxar assunto no carro, mas ele continuou em silêncio. Acha que ele está com raiva de mim porque dormimos juntos naquela noite?
- Como assim dormiram juntos? – Ela arregalou os olhos.
- Não, não é esse “juntos" que você está pensando. – Arremessei o travesseiro em sua direção. – Estávamos assistindo a uma série juntos e acabamos adormecendo no sofá. Quando eu acordei, ele já não estava lá, nem Amber.
- Eu tentei arrancar alguma coisa do , mas ele disse que “é complicado". – Deu os ombros.
- me disse a mesma coisa. – Suspirei. – Talvez eu consiga perguntar algo durante a viagem.
- Acha que seu amigo, Pietro, vai ter uma boa justificativa? Estou preocupada com você. – Ela mordeu o lábio inferior e se aproximou para me abraçar novamente. - Não se preocupe. Estou indo justamente pra deixar minha vida no Brasil para trás. Quero começar de novo, aqui. – Sorri.


Então o dia da minha viagem finalmente chegou. continuou silencioso durante os dias que se antecederam a viagem. Eu também não encontrei com Amber, nem mesmo consegui notícias suas desde o ocorrido, mas eu sinceramente esperava que ela estivesse bem. Graças a ajuda de , minha bagagem estava pronta e muito bem organizada, eu ficaria devendo ela por isso.
- Vamos te levar. – e estavam ao pé da escada, acompanhados por e Marisa. Sorri ao ver que meus amigos estavam ali.
- Onde está o ? – Procurei o garoto pelo cômodo, mas ele não se encontrava com o grupo.
- Tá com o colocando as coisas no carro. – Explicou Marisa.
- Aliás, você tá levando o mundo pro Brasil. – Comentou , eu apenas ri.
- Provavelmente eu vou voltar com muito mais malas. – Avisei. – Devo trazer muitas coisas minhas que deixei no Brasil.
- Desse jeito vão achar que adotamos você. – surgiu no meio do grupo com um meio sorriso no rosto que me deixou um pouco desconcertada sei lá por qual motivo. Era a primeira vez que eu o via sorrir depois do que acontecera.
- Eu tenho certeza que você vai adorar me ter como irmã. – Dei a língua e ele revirou os olhos, tentando esconder o sorriso no canto dos lábios.
Marisa não iria nos acompanhar até o aeroporto. Foi uma lista de recomendações até que e eu pudéssemos finalmente entrar no carro e seguirmos o nosso caminho.
No aeroporto, não conseguiu conter as lágrimas, mas eu fiz a promessa de que voltaria melhor do que estava indo. me fez prometer que seu me magoasse, ele teria permissão para socar Pietro, mas garantiu que faria isso pelo amigo, apesar de não ter a intenção de se envolver nos meus problemas. Depois de quase vinte minutos de choro e despedidas, nós finalmente fizemos o nosso check-in e seguimos para o avião.
- Está com medo? – despertou meus pensamentos, que, por sinal, estavam voltados para ele.
- Não sei. – Suspirei.
- Como era...?
- O quê? – Perguntei sem entender.
- Sua vida no Brasil... – Mordeu o lábio inferior. Era a primeira vez que perguntava algo sobre a minha vida. A primeira vez que ele se interessava em saber algo sobre mim.
- Normal, eu acho. – Dei os ombros. – Eu nunca fui muito popular, se é isso que quer saber. Eu tinha colegas, não amigos. Pietro era o único que estava sempre comigo em todos os momentos. Não fazia o tipo namorada de alguém, porque eu nunca realmente tive o interesse de ser a namorada de alguém. Meu tempo era sempre ocupado com coisas particulares, sabe? – Ele me olhou sem entender. – Enquanto as garotas da minha turma pensavam em baladas e coisas do tipo, eu estava envolvida com livros, desenhos animados e coisas do estilo. – Dei os ombros. – Sempre fui um tanto quieta em relação às pessoas.
- Mas você conversa bem com o pessoal na escola... – Comentou.
- Eu sei, acho que tomei Londres como um novo começo. Arrisco-me mais, e até acho que isso é bom, mas existem velhos hábitos que eu não consigo perder.
- Tipo o quê?
- Me preocupar com as pessoas a minha volta. – Deixei que um meio sorriso surgisse no canto do rosto. – Eu não preciso voltar, mas estou preocupada com Pietro e meus pais.
- Acho que isso é compreensível. – Suspirou, encostando a cabeça na poltrona.
- Na verdade, não. – Mordi o lábio inferior. Deixei que meus pensamentos se perdessem quando o avião finalmente levantou voo. Eu sabia que estava prestes a encarar minha antiga vida e havia algumas coisas nela que eu desejava mudar.
- Amber está bem... – Resmungou.
- Imaginei. – Respirei aliviada. – Você pode negar, mas se preocupa com ela, independente das atitudes estúpidas.
- Não posso negar, não é? – Ele riu.
- Às vezes eu acho que você gosta dela.
- O que me une a Amber é algo extremamente complicado. – Bufou. – Mas eu não a amo.
- Complicado. – Resmunguei para mim mesma. – Sempre que eu toco no assunto “Danny e Amber" todos falam que é complicado.
- Acho que não tem outra definição. – Suspirou.
Aconcheguei meu corpo na poltrona e deixei que o sono tomasse conta do meu corpo. Seria uma longa viagem de volta.

Capítulo 12

- Pietro? – Havíamos acabado de chegar na casa do meu “melhor amigo”. A porta estava aberta, mas ninguém respondia. – Pie...?
Subi um andar a sua procura, mas não havia ninguém. Decepcionada, desci as escadas, foi quando percebi um cheiro forte pela casa, algo podre. Caminhei até a cozinha, havia rastros de sangue seco pelo chão. Tentei gritar por alguém, mas a voz na minha garganta desapareceu. Segui os rastros involuntariamente até o lado de fora da casa, quando me deparei com o corpo de Pietro no chão, já em decomposição. Um horror tomou conta de meu corpo, eu tentava gritar, mas a voz me escapava.
De repente eu já não estava diante do cadáver do meu melhor amigo. Havia muitas pessoas vestindo preto, algumas choravam compulsivamente em volta de um caixão fechado. Tentei identificar algumas daquelas pessoas, mas não havia ninguém que eu conhecia.
- Foi ela.... – Alguém gritou no fundo. Todos os olhos naquela sala se voltaram para mim. O caixão se abriu lentamente e o corpo que estava dentro, uma caveira, sem pele, se levantou e apontou para mim. Minha respiração se tornou falha, eu queria gritar, correr, fugir, mas não havia nada. Eu estava paralisada.
- Ei... – Senti algo cutucar meu ombro freneticamente. Meu corpo gelou. – Acorda... – Meus olhos se abriram rapidamente e eu me deparei com o rosto de um tanto preocupado.
- O que houve? – Minha respiração estava ofegante.
- Eu quem pergunta, você me assustou!
- Foi só um pesadelo. – Respirei aliviada. – Só um pesadelo.
- Nós já chegamos... – Ele avisou.
Olhei em volta e havia um grupo de pessoas desembarcando. Só então eu percebi que havia dormido toda a viagem. Coloquei a mochila nas costas e segui até o final do corredor, onde nos despedimos das aeromoças.
Era por volta das sete da noite no Brasil. se sentiu um pouco perdido ao não conseguir entender nada que estava a sua volta, mas eu tentei deixá-lo um pouco calmo. Ingleses são muito dramáticos.
Pegamos um táxi e pedi ao mesmo que nos levasse direto para o hotel, afinal, precisava se instalar antes que eu pudesse encontrar meus pais.
- Uau, aqui é tudo bem diferente. – Comentou enquanto observava a praia de Copacabana. – Podemos ir? – Apontou para a mesma.
- Agora? – Arqueei a sobrancelha.
- É claro. – Animou-se. – Eu te pago aquele sorvete que você gosta. – Era impossível resistir aquele olhar pidão que me lançava. Acabei por concordar. Pedi ao taxista que nos deixasse ali mesmo, na praia.
Eram quase cinco bagagens para carregar, mas parecia não se importar. Caminhamos até um quiosque, onde um senhor simpático permitiu que guardássemos nossas coisas.
Ficamos alguns minutos caminhando pela praia. O céu brasileiro era completamente diferente, havia muitas estrelas, e eu confesso que sentia um pouco de falta daquele calor.
- Seu país é bem bonito... – Resmungou.
- É, eu sei. – Suspirei. – Você ainda me deve um sorvete, vamos.
Caminhamos de volta ao quiosque, onde me comprou um sorvete de menta com chocolate.
- Vamos até a beira do mar. – me puxou pelo braço até a beira do mar. Tiramos os sapatos e ficamos sentindo o frio do mar tocar nossos pés. tinha uma expressão calma, leve. Era como se tivesse deixado todos os seus problemas em Londres.
- O que foi? – Perguntou ao perceber que eu o estava observando.
- Sua expressão... – Sorri.
- Você é muito engraçadinha. – Riu, espirrando um pouco de água em mim.
- Garoto! Você parece que tem o demo... – Eu não tive tempo de terminar a frase, acabou me pegando nas costas e me rodando. Quando percebemos, já estávamos no meio das ondas do mar, completamente molhados.
Não nos importamos. Aliás, naquele momento, esquecemos quem éramos, ou o que passamos desde que nos conhecemos, e nos tornamos apenas e .
- Esse é um daqueles momentos, certo? – Estávamos sentados na beira do mar, apenas sentindo a brisa tocar nossa pele.
- Momento? – Ele me olhou confuso.
- Existem aqueles momentos em que você esquece que o mundo lá fora gira. Esquece os problemas e todas as coisas que te chateiam. – Sorri, abraçando meus joelhos. – Esse é um daqueles momentos. – Suspirei.
- Talvez seja... – Ele deu os ombros, deixando seus olhos e seus pensamentos se perderem no céu estrelado acima de nós. De alguma forma, eu sabia que compreendia o que se passava comigo, e aquela era a sua maneira de mostrar que as coisas ficariam bem. Pelo menos, eu gostava de pensar assim.
Caminhamos novamente de volta ao quiosque. Tomamos um banho rápido em uma ducha que havia ali perto. fez questão de trocar de roupa, mas eu estava confortável do jeito que estava. Seguimos direto para o hotel. O recepcionista se assustou ao nos ver parecendo mendigos, mas a cena estava tão engraçada, que ele nem se importou tanto.
- Isso é legal. – Comentou, observando a estrutura do lugar. Eu apenas ri. – Tem certeza que não quer que eu vá com você? – Eu assenti. Eu não precisava de um guarda costas ou qualquer coisa assim. Iria visitar meus pais e não assassinos em série.
Despedi-me de , lembrando que no dia seguinte voltaria para que ele fosse até a casa dos meus pais conhecê-los. Era bem provável que meu pai planejasse algum passeio de barco de última hora e enchesse os ouvidos de com suas histórias.
Assim que o mesmo sumiu da minha vista, entreguei ao recepcionista um cartão com o nome do meu pai. Pedi que servissem muito bem, pois era um convidado da família , e que todas as suas despesas fossem colocadas em nossa conta. Ele apenas concordou e sorriu.
O táxi me aguardava na porta do hotel. Indiquei o apartamento dos meus pais. Não ficava muito longe do hotel onde estava, apenas alguns quarteirões de distância.


Assim que desci do táxi, o porteiro do meu prédio me reconheceu e logo correu para me ajudar com a bagagem. Infelizmente, meus pais gostavam de morar em lugares altos, logo eu teria que ir de elevador até a cobertura.
- Menina, há quanto tempo eu não te vejo! – Comentou o porteiro.
- Ei, seu João. Como vai? Seus filhos estão bem? – Eu gostava daquele senhor, estava sempre preocupado com o bem estar das pessoas.
- Ah, estão todos bem. – Ele sorriu. Colocamos minhas bagagens no elevador e eu me despedi, dizendo que voltaria para que pudéssemos conversar um pouco. Eu costumava ficar uns vinte minutos conversando com ele antes de voltar para casa depois da escola.
Quando a porta do elevador se fechou, eu conseguia ouvir meu coração pulsar no ritmo em que a luz subia nos botões do elevador. O ar começava a me faltar nos pulmões. Respirei fundo antes de tomar coragem de deixar aquela caixa de metal. Arrastei minha bagagem para o corredor, tirando minha chave do bolso para abrir a porta.
- Pietro? – Era o meu melhor amigo que estava ali, deitado no sofá apenas de cueca com uma garrafa de cerveja na mão. Seus olhos se arregalaram ao me ver. Olhei em volta e não havia sinal dos meus pais.
- ... Eu posso explicar... – O encarei sem entender. O que ele tinha que me explicar além da sua ausência durante todo esse tempo?
- Pie... meu amor, o filme já começou? – Minha mãe surgiu na sala com uma bacia de pipoca nas mãos vestindo apenas a camisa de Pietro que eu havia dado a ele de presente no natal passado. Seus olhos também se arregalaram quando me viu parada na porta tentando digerir o que estava diante de mim.
- Filha... O que você... – O único som que ecoou naquele lugar, foi o da bacia se quebrando em vários pedaços.
- O que eu estou fazendo aqui? – Meus punhos estavam cerrados. – Aparentemente eu vim visitar a minha família. – Minha voz estava fria.
- , eu posso te explicar... – Pietro tentou se aproximar de mim, mas eu dei um passo para trás.
- Cala a boca. – Disse séria. – Se alguém vai me explicar alguma coisa, é ela.
O silêncio tomou conta do lugar. Ninguém se movia, ninguém tinha coragem de pronunciar nenhuma palavra.
- Começou há um tempo... – As lágrimas escorriam pelo seu rosto.
- Engole o choro. – Resmunguei.
- O quê? – Ela me perguntou sem entender.
- Engole a merda do choro. – Seus olhos se arregalaram mais uma vez e ela limpou o rosto rapidamente.
- Pietro e eu nos envolvemos. Não foi de propósito, simplesmente aconteceu. – Meu rosto se mantinha sem expressão, eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo.
- , eu me apaixonei pela sua mãe... – Olhei para Pietro com censura e ele rapidamente se calou.
- Tudo começou naquele feriado em que convenci seu pai a te levar em um curso em São Paulo. Eu e Pietro trocávamos olhares e eu tinha necessidade de tirar a limpo o que estava acontecendo. Aquela foi a primeira vez que dormimos juntos, e depois disso... – Eu me lembrava daquele dia. Minha mãe convenceu meu pai de que eu precisava participar de um curso de línguas que estava tendo em São Paulo. Eu me neguei a ir, mas ela insistiu tanto, que ele acabou fazendo a vontade dela. Quando eu voltei, Pietro estava completamente diferente. Víamo-nos pouco, saíamos poucos e ele evitava frequentar a minha casa. No começo, eu achei que era apenas uma fase, mas agora as coisas faziam sentido.


Flashback

Eu não estava concentrada na aula de história naquele dia. Meus pensamentos vagavam entre os cochichos das pessoas atrás de mim e a atitude inquieta de Pietro na carteira da frente. Tentei chamar sua atenção, mas ele se manteve em silêncio durante toda a aula. Quando veio o intervalo, ele simplesmente desapareceu. O procurei por toda a escola, até que um dos disciplinares veio avisar que ele precisou deixar a escola mais cedo.
Ainda não eram nem dez da manhã, o que Pietro tinha para fazer de tão importante a ponto de me deixar sozinha naquele dia? Não era a primeira vez que ele se comportava de maneira estranha, e também não era a primeira vez que ele arrumava uma desculpa para deixar a escola no meio do dia.
Quando o sinal tocou, segui direto para sua casa, afinal, eu precisava entender o que estava acontecendo.
- O Pietro ainda não voltou pra casa, querida. – Proferiu a mãe dele pelo o interfone. Tentei o celular, mas só dava caixa postal. Então acabei decidindo ir pra casa.
Assim que cheguei, encontrei minha mãe cantarolando na cozinha. Aparentemente ela estava pegando a mania de dispensar a empregada e cozinhar. Ela não me ouviu entrar. Subi diretamente para o meu quarto quando ouvi um barulho de chuveiro vindo do quarto da minha mãe. Estranhei, afinal, meu pai estava viajando e minha mãe estava lá em baixo.
Em cima da cama, encontrei o uniforme de Pietro jogado pelo chão. Encarei aquela cena sem entender nada.
- ? – O garoto se assustou ao me ver ali parada. Estava enrolado na toalha, e rapidamente começou a recolher suas coisas do chão.
- O que tá fazendo aqui? – Arqueei a sobrancelha.
- Vim te ver, mas como não estava, sua mãe me deixou tomar um banho por aqui mesmo... – Explicou.
- Onde você se meteu o dia todo? – Arqueei a sobrancelha.
- Tive que resolver uns trabalhos do meu curso de inglês, mas como acabou cedo, eu vim passar um tempo com você – Sorriu.
- Pie...tro. – Minha mãe se assustou ao nos ver ali. – Ah, então você já chegou. Vou servir o almoço daqui a pouco. – Ela sorriu.
Deixei que Pietro trocasse de roupa e aproveitei para tomar um banho. O almoço inteiro foi puro silêncio e meu melhor amigo não ficou mais do que vinte minutos comigo durante a tarde, alegando que precisava terminar algumas coisas em casa.


Flashback's end

- Aquele dia em que ele estava aqui em casa, tomando banho no seu quarto... – Pietro apenas concordou com a cabeça. O horror tomou conta do meu corpo, minha mãe e o meu melhor amigo estavam dividindo a mesma cama bem debaixo dos meus olhos e eu nem ao menos havia percebido. – E o meu pai?
- Seu pai descobriu alguns meses depois. Ele nos pegou juntos na cama, quando voltou mais cedo dos Estados Unidos. Você estava no pré-vestibular nesse dia. – Explicou.
- Porque não me contaram? Onde está o meu pai?
- Seu pai achou que seria muita coisa pra você assimilar ao mesmo tempo. – Agora foi a vez de Pietro falar. – Ele garantiu o divórcio para sua mãe, e permitiu que ela ficasse com a casa e em troca... – Ele fez uma pausa.
- O quê? O quê? – Eu estava agoniada.
- Em troca você nunca poderia descobrir o que aconteceu. – Minha mãe completou. Agora tudo fazia sentido, tudo se encaixava. Eles nunca me perguntaram se eu realmente queria me mudar para Londres, simplesmente me colocaram dentro do avião e me despacharam para outro país.
Esse tempo todo Pietro não me escrevia porque estava dormindo com a minha mãe. Meus pais quase nunca me ligavam porque estavam se divorciando e eu nunca poderia sequer desconfiar.
- Vocês são dois monstros... – Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não me permiti chorar. Aquelas pessoas não mereciam que nenhuma lágrima minha fosse derramada. Eu sentia nojo deles, nojo.
- Filha, por favor... – Minha mãe tentou me abraçar, mas minha única reação foi espalmar minha mão em seu rosto.
- Não encosta em mim. – Proferi séria. – Nunca mais me chame de filha, eu não tenho nenhuma ligação com você. – Meu corpo tremia, a respiração estava pesada, eu mal conseguia entender como me mantinha em pé.
Os dois me olhavam assustados, piedosos. Eu não reconhecia as pessoas que estavam na minha frente. Ele era meu melhor amigo e a única pessoa que esteve comigo quando meus pais não podiam estar. Ela era minha mãe, a pessoa que me deu à luz. Traidores, todos traidores.
E o meu pai? Como ele pode esconder isso de mim? Ele amava aquela mulher, fazia tudo para que ela pudesse ter a vida que merecia. Eu era testemunha, eu estava lá em todos os dias em que ele se fez ausente apenas para colocar uma jóia a mais na coleção dela. – Eu tenho nojo de você. Nojo! – As palavras saiam cuspidadas. Meu estômago se revirava. – Você dormiu com ele na mesma cama em que dormia com o meu pai! Como você teve coragem de fazer algo assim?
- ... calma. – Pietro tentou segurar meu braço, mas eu o afastei rapidamente.
- Não me toca. – Rosnei. – Nenhum de vocês merece respeito. Vocês têm ideia do que esse romancezinho causou as pessoas? Eu tive que largar o meu país, as pessoas que eu conhecia, para vocês poderem foder dia e noite.
- Filha eu não queria...
- Já falei para não me chamar assim! – Gritei. Ela levou as mãos a boca e Pietro correu para abraçá-la. – Meu pai fez tudo o que podia por você. Ele se privou de viver para te dar essa casa, jóias e todo o luxo que você tem. E o que você fez? O traiu com o melhor amigo da filha dele, na cama dele, na casa dele!
- , tente entender, nós não temos o controle dos nosso sentimentos... – Não importava o quanto Pietro tentasse justificar, aquilo não tinha como ser perdoado.
- Sentimentos? Vocês não têm sentimentos por ninguém além de vocês mesmos. – As palavras saíam cuspidadas da minha boca. – Mentiram e enganaram pessoas que amavam vocês, que se preocupavam. – Encarei os dois mais uma vez. – Eu realmente espero que um dia vocês paguem por todo o sofrimento que causaram.
Eu não sei de onde tirei forças para sair daquele lugar. Peguei todas as minhas coisas rapidamente e corri para longe dali. Ao chegar na portaria, João me olhou com piedade, como se soubesse todos os pensamentos que estavam na minha cabeça naquele momento. Até ele sabia da traição daquelas pessoas.
- Pode chamar um táxi pra mim? – Pedi. Ele assentiu com a cabeça. Encarei meu reflexo no espelho da recepção. Eu estava pálida, com uma aparência morta. Havia olheiras profundas em volta dos meus olhos, nem ao menos parecia a garota que entrara ali horas atrás.
Assim que o táxi chegou, pedi a João que não dissesse a ninguém sobre meu paradeiro. Eu não queria correr o risco de me deparar novamente com aqueles traidores. Por alguns segundos, me passou pela cabeça o sofrimento do meu pai ao descobrir que a mulher que ele tanto amava estava indo para cama com o melhor amigo da sua filha. O mesmo garoto que ele jurava que um dia chamaria de genro. Ele não merecia, eu não merecia aquilo.
- O que aconteceu com você? – Os olhos de estavam sonolentos, mas rapidamente se arregalaram quando ele percebeu meu estado deplorável. Eu não tinha para onde ir, nem mesmo para onde correr. Pedi ao taxista que me levasse diretamente para o hotel.
deu espaço para que eu adentrasse ao quarto e eu o fiz. Seus olhos sobre mim ainda estavam confusos, mas eu não tinha forças para explicar o que havia acontecido horas atrás. Como eu ia explicar que a minha mãe e meu melhor amigo estavam juntos? Existiam palavras no mundo para explicar o que eles estavam fazendo pelas minhas costas?
Eram tantas perguntas e dúvidas, que as minhas pernas simplesmente vacilaram. Foi quando eu senti os braços de me envolverem com força, me mantendo de pé mesmo quando meu corpo já não aguentava mais.
Ele me arrastou até a cama com dificuldade. Ficamos encarando um ao outro, enquanto as lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto. Mesmo sem entender o que se passava comigo naquele momento, me abraçou tão forte que eu pude sentir toda a dor deixar meu corpo.
- Por favor, me diz o que aconteceu com você... – Ele sussurrou em meu ouvido. Seu timbre era preocupado, e suas mãos envolviam meu corpo cada vez mais forte. Era como se ele tentasse me proteger de algo. – Me diz... por favor...
Meus olhos se encontraram com os dele, mas eu não conseguia encontrar palavras para explicar o que eu estava sentindo naquele momento. As pontas dos seus dedos limparam as lágrimas que escorriam pelo meu rosto, e, carinhosamente, ele depositou um beijo na minha testa. No fundo, ele sabia que eu precisava de alguém para me segurar naquele momento, e ele era o único a quem eu podia recorrer.
ergueu meu corpo com cuidado, me colocando confortavelmente deitada na cama. Depositou outro beijo na minha testa, e me cobriu com a colcha.
- Espero que não se importe se eu dormir aqui também... – Sussurrou ao deitar do outro lado. Eu neguei com a cabeça, encarando seu rosto preocupado. segurou a minha mão, entrelaçando nossos dedos e depositando um beijo nas costas da minha logo em seguia.
Não sei quanto tempo ficamos nos encarando antes que eu finalmente conseguisse pegar no sono.


Capítulo 13

A água gelada fazia com que a minha pele arrepiasse. Meu corpo estava extremamente exausto, mas, apesar disso, meus pensamentos finalmente começavam a se encaixar.
Há alguns meses, Pietro começou a ficar estranho comigo. Todo o tempo que costumávamos passar juntos passou a ser gasto em trabalhos do curso de inglês e outras coisas que eu nem ao menos sabia que ele fazia. Meus pais sempre foram distantes, mas, naquela época, eu pude notar que minha mãe começava a evitar a presença do meu pai, sempre o incentivando a passar mais tempo fora de casa. Como eu nunca fui muito apegada a essa coisa de ter meus pais unidos e felizes, não me envolvia.
As coisas realmente estavam estranhas quando decidiram que eu faria intercâmbio. Foi muito de repente e os argumentos nem eram tão válidos assim. Pietro não se pronunciou sobre o assunto e estava muito frio. No começo eu achei que ele estivesse com dificuldade para se despedir, mas agora eu conseguia entender perfeitamente o porquê de tudo.
E o meu pai? Como ele conseguiu enfrentar um divórcio sozinho? Onde ele estava? Não tínhamos família, nem mesmo amigos onde ele pudesse ficar, logo, depois de deixar o apartamento para aquela mulher, ele não teria um lugar para morar.
Assim que saí do chuveiro, me esperava sentado na cama. Ele passara a noite toda acordado e preocupado comigo. Quando acordei, ele estava do mesmo jeito de antes de eu dormir, com os olhos pregados em mim, preocupado, agoniado. Eu não queria deixá-lo daquele jeito, afinal, ele não pretendia se envolver nisso.
- Você está melhor? – Sua voz estava calma, porém eu podia ver claramente sua expressão cansada, mesmo com ele tentando disfarçar.
- Estou. – Suspirei, sentando-me ao seu lado enquanto secava os cabelos com a toalha. – Desculpe por ter aparecido aqui desse jeito, feito essa cena...
- Tudo bem. – Passou os dedos pelos cabelos, e sorriu. – Pode me dizer o que aconteceu?
Respirei fundo, tentando reunir forças e palavras para explicar o que me ocorrera. Eu não poderia ficar sofrendo por aquilo para sempre, afinal, eles não sofreram nem um pouco ao me despacharem para o outro lado do oceano.
- Ontem, quando cheguei em casa... – Fechei os olhos por um tempo e gentilmente segurou uma de minhas mãos. -... encontrei Pietro de cueca na minha casa, na sala. – Ele arregalou os olhos. – Minha mãe apareceu logo em seguida, o chamou de amor, e só quando percebeu que eu estava ali, se assustou. – Respirei fundo antes de continuar. – Os dois estavam dormindo juntos há meses e, quando meu pai descobriu, exigiu que eu nunca ficasse sabendo de nada...
- E então te mandou para Londres... – Ele completou e eu apenas concordei com a cabeça.
- Minha mãe e meu melhor amigo... – Sussurrei. – É difícil de acreditar, sabe? – As lágrimas me vieram aos olhos de novo, mas de antecipou, secando-as com a ponta dos dedos. – Eu passei todo esse tempo pensando que havia acontecido algo, que eu havia feito algo, mas a verdade é que eles estavam muito bem juntos.
me abraçou mais uma vez. Talvez essa fosse a única coisa que ele pudesse fazer por mim naquele momento.
- Espere um minuto. – Ele se levantou e foi até o guarda roupa, pegando seu violão no meio das coisas jogadas. – Você gosta de Beatles, pelo o que eu me lembro.
Eu sorri. Na primeira vez que falei com sobre música, ele havia sido um tanto grosso comigo, pelo menos não esqueceu meu gosto musical. Sentou-se ao meu lado novamente, tentando esconder aquele sorriso no canto dos lábios.
– Acho que isso vai te fazer bem.
começou a dedilhar algumas notas, tentando afinar um pouco seu violão, logo aquela melodia conhecida encheu meus ouvidos e aliviou meu coração.
- Hey Jude, don't make it bad, take a sad song and make it better, remember to let her into your heart, then you can start to make it better. – O timbre de era um tanto rouco e seu sotaque britânico deixava a musica ainda mais perfeita no seu tom de voz. Seus olhos estavam presos aos meus, e eu podia sentir algo extremamente bom percorrer a minha pele e fazê-la se arrepiar - Hey Jude, don't be afraid, you were made to go out and get her. The minute you let her under your skin, then you begin to make it better. – Por mais improvável que fosse, aquela eram as palavras mais gentis que eu havia ouvido na minha vida, mesmo se tratando da letra de uma música. Os olhos de me passavam confiança e força, por mais que as minhas bochechas estivessem coradas involuntariamente, eu não conseguia desviar meu olhar nem por um instante. - And anytime you feel the pain, hey Jude, refrain, don't carry the world upon your shoulders. For well you know that it's a fool who plays it cool by making his world a little colder. dedilhou mais alguns acordes da música e a terminou, deixando o violão de lado. Nenhuma palavra saiu da minha boca, enquanto ele me encarava com aqueles olhos. Eu sempre me pegava hipnotizada por aqueles olhos. – Eu até queria poder cantar mais, mas eu não consigo lembrar a letra toda. – Ele riu.
Deixei que um sorriso me escapasse os lábios e que me envolvesse em outro abraço. Ficamos um bom tempo naquela posição, nos sentíamos bem confortáveis daquela maneira.
- Acho que eu não sou tão perfeitinha quanto você pensava. – Dei os ombros.
- Eu nunca pensei que você fosse perfeitinha. Chata, talvez. – Ele riu, passando a ponta dos dedos pela minha bochecha. – O que vai fazer agora?
- Procurar meu pai, eu acho. – Suspirei. – Eu preciso saber onde ele está e preciso dizer que eu sei de toda a verdade. Talvez eu nem volte para Londres.
- Por que não? – Ele arregalou os olhos. – vai ficar decepcionada se você não voltar...
- O único motivo de eu ter ido parar na sua casa foi para não saber da traição da minha mãe, mas agora que eu sei... – Outro suspiro me escapou. – Meu pai provavelmente precisa de mim aqui.
apenas assentiu com a cabeça, passando as mãos novamente pelo cabelo. Agora não se tratava apenas de uma visita ao Brasil, eu tinha que decidir o que seria melhor pra mim e para o meu pai. Não podia deixá-lo sozinho agora que sabia de toda verdade, principalmente agora, depois do divórcio. Tudo deveria estar extremamente complicado pra ele.
- Onde acha que ele está?
- Talvez na empresa, não sei. – Suspirei. – Ele não tem muitos lugares para ir, já que o apartamento ficou com aquela mulher.
Meu primeiro palpite era a empresa, aliás, era o meu único palpite. Conhecendo meu pai, ele evitaria lugares como hotéis, por ser muito movimentado. Poucas pessoas deveriam saber do seu divórcio e ele provavelmente gostaria de manter as coisas assim por um tempo. Devia ser difícil para ele explicar que a esposa o deixou pelo amigo da filha que nem estava aqui para ajudá-lo.
Troquei de roupa enquanto me esperava no restaurante do hotel para tomarmos café. Tentei ligar para a empresa antes de descer, mas ninguém atendia ao telefone, o que era bem estranho. Alguém sempre atendia, fosse final de semana ou feriado, alguém sempre ficava ali para atender aos telefonemas, anotar os recados e manter os dados da bolsa sempre atualizados. Era uma exigência do meu pai, nada nunca podia parar dentro daquele lugar.
Quando me encontrei com no restaurante, ele já estava se acabando nas comidas brasileiras. Não pude deixar de rir ao vê-lo todo lambuzado.
- Sério, limpa o rosto, que você tá me fazendo passar vergonha. – Ri. Ele apenas sorriu e se limpou com o guardanapo.
- Cara, a comida aqui é boa demais. – Comentou de boca cheia. Pedi um pão na chapa com manteiga e um chocolate quente, enquanto estava um tanto perdido entre as frutas, os doces e algumas outras coisas que o hotel estava oferecendo. Depois dizem que os brasileiros que não sabem se comportar.
- Conseguiu falar com seu pai?
- Não. – Bufei. – Acho que eu vou na empresa ver se encontro alguém.
- Eu vou com você. – Eu apenas assenti.


Era quase meio dia quando adentramos ao elevador da empresa. Não havia ninguém na recepção, mas todas as luzes estavam acesas, como de costume. Não demorou muito para que chegássemos ao andar onde ficava a sala do meu pai. Diferentemente do resto do prédio, as luzes estavam apagadas e aquele silêncio tornava o lugar muito assustador.
- Eu acho que ele não tá aqui. – Resmungou .
- Larga de ser cagão.
Acendi as luzes da sala de espera e acabei encontrando travesseiros e cobertores perfeitamente dobrados em cima do sofá. Sorri ao ver que eu estava certa sobre o paradeiro do meu pai. Era a cara dele se organizar daquela maneira, dobrando e arrumando todas as coisas.
Pedi que esperasse do lado de fora, enquanto eu dava uma olhada na sala do presidente. Nada havia mudado, nem mesmo as fotos da minha mãe ele havia tirado dos porta-retratos. Meu coração apertou ao perceber que ele deveria estar sofrendo há muito tempo.
Havia uma foto onde estávamos, meu pai, minha mãe e eu em uma viagem de barco que fizemos, eu nem sei pra onde, quando eu tinha uns sete anos. Aquela era uma das poucas fotos que tínhamos juntos.
Vozes do outro lado da porta me chamaram atenção. Eram e meu pai, rindo de algum vídeo no computador da secretária.
- Pai? – Seus cabelos estavam mais grisalhos do que eu me lembrava, mas seu rosto continuava com a mesma aparência jovem, estilo Richard Geere, que eu me lembrava.
- Oh, minha pequena... – Ele caminhou em minha direção e me abraçou. – Quando foi que você chegou? Nem avisou seus pais.
- Pai...
- Então esse garoto inglês é seu amigo ? – Eu apenas confirmei com a cabeça. nos encarava sem entender nada, afinal, falávamos em português. – Sua mãe vai adorar conhecê-lo.
- Pai, eu já sei de tudo. – Suspirei. Sua expressão se tornou séria e, ao mesmo tempo, triste. Ele passou a mão pelos cabelos grisalhos, tentando encontrar alguma coisa pra me dizer. fez sinal para que eu o levasse a sua sala e eu concordei com a cabeça.
O guiei para dentro da sala, mas o mesmo permaneceu um tanto desnorteado.
- Quem te contou?
- Ninguém. – Suspirei. – Eu voltei para cá sem avisar, mas quando cheguei em casa dei de cara com... aquelas pessoas juntas. – Seus olhos estavam tristes. Eu não queria que ele tivesse passado por tamanha decepção, ele não merecia.
- Eu não queria que você descobrisse... – As lágrimas vieram aos seus olhos e eu não pude conter a vontade de abraçá-lo. – Eu não queria te mandar pra longe, mas eu não queria que você sofresse...
- Pai... – Acariciei sua cabeça, tentando acalmá-lo. – Eu entendo que não queria me ver mal, mas eu tinha o direito de saber. Eu queria ter estado ao seu lado quando tudo aconteceu. – Dentre todas as lágrimas, um sorriso surgiu em seu rosto, seus dedos acariciaram as minhas bochechas e ele carinhosamente apertou meu nariz.
- Você é muito forte, minha pequena. – Eu apenas concordei com a cabeça. – Espero que não me julgue por desistir da sua mãe tão rápido, mas ela estava tão feliz com aquele garoto, que eu não tive coragem de tirar a felicidade dela.
- Mas não é justo, você deixou o apartamento com ela... – Argumentei.
- Eu sei, eu sei. – Suspirou, secando as lágrimas com as costas das mãos. – Mas a sua mãe não teria para onde ir. Ela não sabe fazer nada além de comprar, não serviria nem mesmo para atendente de botequim. – Eu ri. Isso era verdade, minha mãe era uma perfeita socialite e nada mais.
- O senhor não pode ficar morando aqui pra sempre.
- Por que não? A comida da lanchonete melhorou muito depois que eu comecei a dormir aqui. Sem falar que agora eu mesmo posso monitorar a bolsa e os dados. – Sorriu. Acredito que ele tenha passado tanto tempo trabalhando para realizar os desejos daquela mulher, que tudo acabou se tornando uma grande rotina.
- Eu quero ficar com o senhor! – Afirmei- Eu posso terminar a escola aqui, podemos comprar um apartamento pequeno em algum lugar perto daqui. – Ele apenas negou com a cabeça.
- Filha, não há nada para você aqui. Em Londres você pode começar de novo, aliás, já começou. Tem novos amigos, e a família daquele rapaz parece cuidar muito bem de você.
- Ninguém cuida melhor de mim do que você, velho. – Sorri, abraçando-o novamente. – Você podia se mudar pra Londres e começar de novo. – Sugeri.
- Mas e a empresa? Quem cuidaria dela?
- Você tem muitos empregados de confiança, vai encontrar alguém. – Afirmei. – Pode começar uma filial em Londres, expandir, começar outra coisa... não sei. – Respirei fundo. – Eu preciso do meu pai comigo.
- Vamos pensar sobre o assunto... – Revirei os olhos e ele riu. Eu odiava quando ele dizia que ia pensar. Era apenas uma maneira de me enrolar para que eu esquecesse o assunto. -... primeiro vamos levar aquele nosso amigo inglês para um passeio de barco.


Eu sabia que meu pai queria fugir do assunto. Nunca passou pela cabeça dele deixar tudo o que construiu nas mãos de outras pessoas, mas eu também não podia permitir que ele me deixasse do outro lado do oceano enquanto enfrentava os dias correndo o risco de encontrar com a minha mãe ou Pietro na rua. Eu não queria correr o risco de encontrar com eles.
parecia animado com o passeio. Acabou que ele e meu pai se deram muito bem para pessoas de idades tão diferentes. Conversaram sobre vídeo games, entre outros assuntos de adolescente. Eu sempre soube que aquele velho tinha uma queda por diversão adolescente que era sempre mascarada pela minha mãe. Ela sempre exigiu um certo tipo de comportamento da parte dele, na verdade, ela sempre exigiu muitas coisas da parte dele.
Um bobo apaixonado. Essa é a expressão que define o meu pai em relação a minha mãe. Depois que a conheceu, nunca mais se envolveu com outra mulher e quando se casaram, ele passou a trabalhar cada vez mais para conseguir dar a ela a vida de rainha que, segundo ele, ela merecia.
Eu nunca pensei que ela tivesse coragem de retribuir daquela maneira, com traição e mentiras. Mesmo que não fosse Pietro, que fosse um cara qualquer, eu jamais conseguiria perdoá-la por deixá-lo tão magoado. Por mais que ele sorrisse e tentasse se distrair, eu sabia que tudo aquilo lembrava nossos tempos de família.
- Qual vai ser o caminho? – Perguntei ao meu pai, enquanto organizava as coisas dentro da cabine onde eu iria dormir. O barco não era enorme, mas tinha um tamanho razoável, com quatro cabines pequenas.
- Vamos fazer todo o litoral do Rio, acho que ele vai gostar. – Sorriu.
- Então a gente vai passar a noite aqui? – Ele apenas concordou com a cabeça.
pareceu não se importar muito com aquilo, ele estava muito animado.
Terminei de organizar as coisas na cabine enquanto os dois conversavam com o capitão do barco. Meu pai gostava demais daquele barco, mas não tinha noção nenhuma para dirigir.
- Você tem um pai muito legal. – comentou assim que eu apareci no deck. Sentei-me ao seu lado, na poltrona, e fiz sinal para que ele me desse um gole do suco que estava tomando.
- Eu sei. – Suspirei, dando um gole no suco de laranja. – Ele não merecia passar por tudo isso.
- Larga de ser depressiva. – segurou meus braços e me sacudiu. – Animação, estamos passeando de barco. – Eu ri.
- Acho que seu feriado não foi tão ruim assim. – Ele concordou com a cabeça.
- Você está menos insuportável que o normal. – Riu, jogando uma das almofadas em mim.
- E você menos implicante. – Sorri. – Obrigada por ter me ajudado. Principalmente quando eu apareci no seu quarto no meio da noite
. - Eu sei que sou difícil, mas eu nunca ia deixar você largada por aí. – Sorriu.
- Acha que podemos ser amigos? – cerrou os olhos, me analisando da cabeça aos pés com um jeito bem pensativo.
- Talvez. – Ele deu os ombros. Eu apenas ri.
Enquanto e meu pai aproveitavam para dar um mergulho, eu permaneci no deck presa com meus pensamentos em “O Céu Está Em Todo Lugar”. Por mais que eu tentasse não pensar, sempre acabava voltando à cena de Pietro com minha mãe. Por mais que eu tentasse encontrar algum motivo para compreender aquilo, todo o meu esforço era em vão. Pietro era o meu melhor amigo e, pior, aquela mulher tinha acompanhado o crescimento do garoto desde os doze anos de idade. Como ela pôde se envolver com ele? Como ele pôde se envolver com ela? Como eles puderam não pensar em como eu me sentiria diante de tudo isso?
Senti meu estômago revirar só de imaginar ambos dividindo a mesma cama e meu pai assistindo à cena. Eu jamais teria coragem de perguntar como ele se sentiu ao encontrar a mulher a quem ele dedicava cada minuto da vida com outro, com uma criança, porque Pietro ainda era uma criança apesar do corpo de homem. Eu não conseguia entender, simplesmente não conseguia.
O melhor a fazer era seguir em frente, começar de novo e deixar aqueles dois pagarem pelos seus próprios pecados. Eu realmente desejava que meu pai decidisse começar uma nova vida ao meu lado. O clima de Londres, as pessoas, tudo ia contribuir para que ele começasse uma vida nova e até conhecer um novo amor. Ir para Londres, pelo menos no meu caso, não foi de todo o mal. Conheci , que foi a primeira amiga mulher que eu tive na minha vida. Os garotos se tornaram irmãos pra mim, principalmente , com seu jeito particular de tentar me ajudar nos meus momentos de dúvida. Até mesmo Amber foi importante, afinal, sua pseudo loucura me ajudou muito a decidir o que eu não queria ser na minha vida. Eu tinha Josh, que acabou se tornando um amigo inesperado, mesmo que, de alguma forma, eu sinta segundas intenções na sua aproximação. Não tenho palavras para Marisa, afinal, ela agia como se fosse uma segunda mãe, e era muito mais mãe pra mim do que a minha verdadeira. E tinha , eu não sabia exatamente o que pensar sobre ele. Tivemos um começo péssimo, principalmente quando ele fez questão de me deixar perdida em Londres. Sempre achei que iríamos viver em pé de guerra, mas, por algum motivo, meu ponto de vista sobre ele estava mudando. Ele já não se comportava de maneira estúpida e parecia estar fazendo de tudo para que o meu pai se sentisse bem. Ajudou-me muito quando eu desabei, na verdade, se não fosse ele, eu jamais conseguiria me manter de pé. A maneira carinhosa como ele cuidou de mim naquela noite. Minha pele sempre arrepiava quando eu me lembrava dos seus olhos preocupados sobre mim, do calor da sua mão entrelaçada na minha. Eu me senti protegida, segura. E cantar Hey Jude, dos Beatles, para que eu me sentisse bem... eu jamais me esqueceria daquela cena. Eu, sinceramente, queria manter as coisas como estavam, mantê-lo perto, sem brigar. Por mais que, de certa forma, ele se incomodasse comigo ali, eu queria me manter próxima do mundo dele.
- Filha, pode me jogar essa toalha? – A voz do meu pai acabou me acordando dos meus pensamentos. Joguei a toalha que estava em cima da poltrona pra ele, enquanto lutava contra o frio.
- Eu adorei esse garoto. – Meu pai comentou em português, e eu ri. Assim que terminou de se secar, ele sumiu em direção a cabine.
- ! – O chamei, jogando uma toalha seca em sua direção. Ele gesticulou um obrigado, enquanto tentava se esquentar. – Quer que eu busque uma camisa pra você?
- Seria bom... – Ele riu.
Corri em direção a cabine onde ele ficava. Não me surpreendi quando encontrei tudo bagunçado e revirado. Procurei alguma camisa menos amassada no meio de suas coisas, mas acabei encontrando algo que talvez eu não devesse. Era uma foto, um pouco antiga e um pouco amassada por causa do tempo. devia estar com quinze anos, seus cabelos estavam um pouco mais longos do que hoje e ele me parecia ter uma expressão sincera de felicidade, bem diferente das fotos mais recentes que Marisa me mostrara. Havia duas garotas com ele, a ruiva com certeza era Amber. Ela estava encostada no carro tentando fazer uma pose de modelo. Ao seu lado havia uma loira, que eu não conhecia. Ela mordia a bochecha de enquanto o mesmo a abraçava pela cintura.
- ? – Assim que ouvi a voz de , guardei a foto no lugar e peguei a primeira camisa que encontrei.
- Já tô indo. – Gritei, seguindo o caminho de volta.


Continua...

Nota da Autora: Ultima atualização: 21/01/2013
Se os últimos capítulos foram os mais dramáticos, certamente esse é um dos mais fofos. Finalmente podemos dizer que eles são amigos, e finalmente as coisas vão começar a acontecer em Hey Jude. Então, palpites de quem poderia ser a garota da foto? Uma dica: Ela é a razão pela qual o Guy namora a Amber. Mistério, mistério. Vou deixá-las pensando sobre o assunto. Até a próxima atualização!

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