Última atualização: 24/12/2017

PRÓLOGO

9:27am

Ele, por entre as poucas árvores que cercavam o colégio naquela manhã nublada, encarava sua presa sem muita emoção. Não era nem de longe seu tipo preferido de caça, muito menos em locais tão promissores quanto uma escola pública.
O velho murmurava com seus pensamentos enquanto tentava, de forma quase inútil, varrer a neve do campo de baseball, tendo em mente que o time não poderia ficar mais uma semana sem treinar por causa das fortes tempestades que estavam trancando pessoas em casa e fazendo outras sumirem — era uma boa desculpa.
Agachando-se em seus próprios calcanhares, seus olhos encolheram-se ainda mais quando o velho parou e subitamente girou o pescoço enrugado em sua direção, tombando sutilmente o tronco para avaliar melhor a sombra que o observava por quase meia hora, em silêncio, já sem paciência — aquela dádiva nunca havia sido sua.
Ele, como um deus, levantou-se devagar, fechando os punhos, travando o maxilar. Entortou a cabeça para o lado, sorrindo de forma maníaca pelo canto dos lábios ao sentir o cheiro do medo do velho, que arregalou os olhos esverdeados para sua figura desnuda. Sentiu o sorriso alargar em sua boca.
O movimento fora tão rápido que o único som fora a coluna do velho se partindo ao meio, o corpo abrindo e os órgãos se expondo como uma mulher que abre as pernas para ser fodida.
Ele segurou o homem pelas extremidades de seu jaleco de zelador e o jogou em direção às árvores, deixando uma poça significativa de sangue onde o corpo havia caído.
Fodam-se os rastros. Sua estadia naquela cidade já havia ultrapassado o limite do entediante.
Ao tombar com o tronco, o corpo separou: a metade de cima em um canto e a outra, em outro.
Algo o fez olhar para trás. Um arrepio, uma voz, um sussurro. Com as mãos e abdome sujos de sangue, ele encarou a figura de uma garota magra e alta que o encarava com os olhos arregalados e boca aberta. Ela estava longe demais para conseguir enxergá-lo, mas ele a via com perfeição.
sorriu.
Lá estava seu próximo alvo.



1. hunter


CAPÍTULO UM

despertou com o som de porcelana quebrando. Encarou os filetes de madeira do teto de seu quarto e, em questão de segundos, antes mesmo de seus olhos se acostumarem com a claridade, os gritos começaram. Em um movimento involuntário, rolaram-se e ela bufou, girando o corpo na cama bagunçada e roçando as pernas desnudas por cima do lençol gelado. Não queria se levantar, não queria ter de enfrentar outro dia de uma rotina extremamente entediante e fingida. Piscando os olhos com força, bufou antes de jogar o edredom com raiva no chão e colocar-se de pé sem a mínima vontade. Melhor seria caso nenhum de seus pais viesse lhe dirigir nenhuma palavra, pelo menos não antes de bons quinhentos ml de café preto e um grosso cigarro de maconha.
Seguiu para o banheiro e bateu a porta com força, ligando o registro d'água para que o jato forte ecoasse em sua cabeça e os gritos de seus pais fossem silenciados pelo menos por alguns minutos.
Encarando-se no espelho, não se lembrava de quando havia se tornado aquela mulher tão deprimente. Os olhos fundos, com olheiras, o cabelo opaco, quebrado, sem vida, o corpo ainda mais magro, com ossos quase evidentes de uma forma pouco saudável. Recuou o olhar segundos depois. Não se reconhecia.
Tirou o blusão que usava como pijama e logo encarou as cicatrizes em suas coxas e barriga, evitando olhá-las também. Sentia vergonha. Reluziam rosadas e peroladas, algumas ainda cicatrizando. Entrou na banheira e deixou que a água quente do chuveiro batesse forte em suas costas, molhando os cabelos, o rosto, o peito. De alguma forma aquilo a aliviava em uma ilusão de que toda a sujeira de seu corpo, alma e passado fosse embora pelo ralo.
respirou fundo, jogando o pescoço para trás, sentindo as pontas do cabelo roçarem em seu quadril. Levou as mãos para o rosto, escondendo-o entre os dedos.
Quando tudo ficou tão fodido?

O colégio estava tão infernal quanto nos outros dias, talvez ainda pior. Os corredores estavam amarrotados de gente, pessoas fúteis conversando sobre suas vidas miseráveis, seus namorados falsos e suas amigas mais falsas ainda. Um engolindo o outro.
sentia vontade de incendiar todos e aproveitar o fogo para acender um beck.
Não havia motivos para ela estar ali, na verdade. Não previa nenhum futuro, não almejava nenhum curso na faculdade, não se via trabalhando em nada. Todos em sua sala já tinham suas carreiras programadas, os casamentos arranjados, os nomes dos filhos na ponta da língua. , por outro lado, ficaria surpresa caso conseguisse seu diploma de ensino superior.
Alguém esbarrou nela, fazendo-a virar quase o corpo inteiro na direção do desconhecido. Seu olhar na direção do rapaz, que ria, foi de intenso ódio. Ele mal percebera o encontrão. O peito de queimava em ódio, o nariz ardendo, a garganta fechando em um nó que sufocava. Olhando ao seu redor, não havia ninguém que lhe passava confiança. Nenhuma pessoa na qual ela pudesse se jogar sem pensar, sem ter medo.
girou nos calcanhares e seguiu pelo corredor até o banheiro, empurrando a porta e uma garota loira que saía naquele mesmo momento.
— Ei, esquisita! Olha por onde anda — reclamou a menina. não a encarou.
Empurrou a porta do box e puxou com força a tampa do sanitário.
— Ela deve estar tendo crise de abstinência — riu sua amiga. — Deve estar cheirando cocaína agora — as duas gargalharam.
, com os olhos cheios de lágrima de ódio, encarou a luz branca acima de sua cabeça e esperou que a porta batesse e ambas as garotas saíssem para buscar em sua bolsa a caixinha de fósforo que guardava suas lâminas. Os dedos finos e compridos estavam trêmulos, gelados. Ela segurou uma e a encarou com delicadeza, puxando a manga do moletom para cima, expondo uma fileira de cicatrizes em quase todo seu antebraço. Respirando fundo, encostou a ponta da lâmina no canto superior do pulso, arrastando-a com força até a outra extremidade, em diagonal, fazendo uma linha reta e comprida.
O êxtase fora imediato.
O coração bateu forte, o ardor a fez perder o fôlego.
Uma lágrima escapou de ambos seus olhos e ela os fechou, lambendo os lábios ao sentir o sangue começar a brotar em pequenas gotículas avermelhadas. Relaxando a coluna na parede, ela abaixou o queixo e as encarou, pressionando a ponta do indicador por cima daquele novo corte, aquele novo dengo. O sangue criou um caminho alaranjado, onde novas gotas foram saindo de forma mais vigorosa.
sorriu.
Ali estava algo que ela conseguia controlar: sua dor, seu prazer, ambos andando lado a lado. Ninguém era capaz de dizer qual era seu limite e quando ela deveria parar, nem se deveria parar. Não havia gritos ou julgamentos, apenas ela, seu coração batendo forte, o sangue que ele bombeava, a prova de que ela estava viva e o que estava dentro dela era real. Toda a raiva expelida, controlada, exalada. Estava calma, em paz.
Endorfina. Um sorriso. Sangue.

Estava sentada na arquibancada externa do colégio, onde, pelas gigantescas janelas de vidro, conseguia ter uma visão perfeita de todos os alunos se espalhando pelo refeitório em sua diária falsidade coletiva. sempre preferiu comer, quando comia, sozinha, do lado de fora, mesmo quando o tempo estava insuportavelmente frio, como naquele exato dia.
As nuvens encobriam todo o céu e não havia nenhum resquício de que o sol haveria de sair mais tarde. O vento estava forte, as árvores dançavam com a melodia quase fantasmagórica daquela área externa deserta, exceto pelo zelador Collins — ele já deveria ter se aposentado há uns dez meses, mas, por insistência do próprio, que alegara não ter nenhuma outra ocupação na vida a não ser limpar a bagunça daqueles meninos, o diretor do colégio o havia dado mais dois anos de trabalho remunerado. Contudo, depois da data acertada por contrato, não haveria nada que pudessem fazer.
levou o cigarro de maconha até a boca e tragou forte, sentindo a garganta queimar e segurando nos pulmões no mesmo momento em que encarava aquele velho senhor murmurar — ou estava cantarolando? — enquanto varria a neve do campo de baseball.
A escola era conhecida pelas vitórias destruidoras em todos os campeonatos regionais e, como o tempo andava mais frio que o comum, com neve quase todos os dias, os meninos estavam sem treinar por quase duas semanas, algo que o treinador Knitz não aceitava de forma alguma. Que queimassem no inferno, mas não perderiam aquela temporada por causa de gelo.
Ela desviou os olhos azuis para o céu apenas por um instante, enquanto exalava a fumaça e acompanhava o vapor se dissipar junto ao ar. Então, quando tornou a olhar para onde o zelador estava, seu corpo havia sido substituído por uma imensa poça de sangue.
Seu peito subitamente apertou em uma estranha sensação. Ela inclinou o rosto para o lado e no mesmo instante se colocou de pé, descendo as arquibancadas para ver aquilo mais de perto.
Estava alucinando?
Os passos na neve pareciam ainda mais barulhentos conforme a erva fazia efeito em seu organismo, assim como a cor berrante do vermelho reluzindo brilhante na neve extremamente branca. Ela se abaixou, tocando no líquido ainda quente. Seus dedos ficaram sujos, assim como a manga de seu moletom cinza estava, devido ao corte que havia feito mais cedo. Ela não estava alucinando.
Erguendo o pescoço para as árvores, encarou um vulto se colocando de pé. Seu coração bateu mais forte, então, silenciosa, ela também ficou ereta. Não percebera os olhos arregalados até que o homem — que usava apenas uma calça jeans e estava descalço — virou em sua direção. Os cabelos ondulados estavam bagunçados de uma forma animalesca, assim como o sorriso que lhe lançou.
Ela não conseguia ver seu rosto.
Quando o homem se virou em sua direção, o primeiro instinto foi recuar um passo.
O sino do colégio tocou, fazendo-a pular ressaltada para trás, com a mão no peito que batia extremamente forte, o rosto sem cor, os lábios secos, as mãos geladas. Respirando ofegante, ela se voltou novamente para a figura das árvores, mas ele não estava mais lá.

Assim que seu despertador tocou, puxou o rosto para trás e piscou os olhos um par de vezes até acordar de seu transe, lembrando-se do homem e do sangue do zelador. Aquela imagem não saía de sua cabeça.
Imaginou do que e, principalmente, como Collins havia morrido. Porque ele estava morto. Ela não estava ficando louca. Precisava falar daquilo com alguém, mas quem?
Bufando, encarou as horas em seu celular, xingando enquanto levantava rápido da cadeira e corria em direção ao ginásio fechado, no último bloco do colégio.

— Quem é vivo sempre aparece, não é, senhorita Burwell? — Ava Braslavschi era uma velha senhora magrela e enrugada que, ao colocar aquele collant de ballet, mais parecia uma bruxa que uma dançarina respeitada da Rússia.
— Eu me atrasei — resmungou , jogando sua bolsa no chão enquanto desabotoava a calça, expondo sua meia-calça rosa. Sentia-se ridícula naquilo.
— Estou vendo — retrucou em seu sotaque irritante. — Alongue — ordenou.
respirou fundo e, no canto da sala, tirou seu moletom, sentindo as costas aquecerem com os olhares que eram lançados em sua direção. Tratou de pegar logo sua blusa de mangas compridas, colocando-a por cima do body preto, vestindo também um short de lycra. Prendeu os cabelos em um coque bem apertado e respirou fundo, sentando-se para calçar as sapatilhas.
Por que porra ainda fazia aquelas malditas aulas de ballet?
— Olá, linda — sorriu Yurio. , mesmo sem querer, abriu um sorriso sincero. — Gata, você está cheirando a maconha. Não tem um perfuminho aí, não? Se Ava sentir, vai pegar ainda mais no seu pé.
— Não tenho — disse ela.
Yurio então se esticou na ponta dos pés e pegou sua bolsa branca, abrindo-a sem muitas dificuldades. Remexeu em seu interior por apenas alguns segundos até pegar uma nécessaire rosa e, dentro dela, um vidro de perfume âmbar, olhando timidamente para trás antes de dar borrifadas no pescoço e pulsos — fazendo-a puxar o ar e morder os lábios com o ardor — da garota. O menino sorriu.
— Pronto, perfeita — encarou a amiga. — Tirando esse cabelo horroroso... Olha, amiga, não é por nada não, mas você precisa melhorar — choramingou.
— Já está alongada, senhorita Burwell? — reclamou Ava. molhou os lábios e rolou os olhos.
— Sim — mentiu, abrindo um sorriso extremamente falso. Yurio lançou uma piscadela em sua direção e lhe estendeu a mão para que ficassem de pé.
Mesmo sendo baixa, sentia-se alta quando perto de seu único amigo. Ambos caminharam lado a lado até a barra posta à frente do espelho, ficando um de frente para o outro. Yurio levantou o queixo na posição que ela, em seu íntimo, considerava orgulho cínico de todo bailarino. Respirando fundo, ela segurou na barra, ajustou os pés em plié e olhou nos olhos de seu parceiro, segurando o riso — algo que também o fez tentar não sorrir, desviando os olhos para o teto.
— Estão todos na posição? — Ava bateu palmas, olhando seus alunos. — Música! Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito. E um, dois, três, quatro...
— Ei, preciso te contar — sussurrou Yurio, enquanto repetia roboticamente os principais passos do adágio na contagem de Ava. — Nikolai vai dar uma festa hoje, na casa dele — o garoto arregalou os olhos em empolgação, contendo um enorme sorriso.
— E daí? — disse com nojo, jogando o pescoço para o lado e alongando o corpo quando percebeu Ava em sua direção. — Você sabe que eu odeio essas merdas — sussurrou.
— E você sabe que eu sempre fui a fim dele! — reclamou o garoto, franzindo sutilmente o cenho. — Larga de ser egoísta, eu te emprestei meu Chanel Nº 5!
— Eu não pedi! — retrucou, sussurrando um pouco mais alto e bruta.
— A conversa está boa, senhorita Burwell? — gritou Ava, interrompendo a contagem e a música. Todos olharam em sua direção.
— Na verdade, Ava, está bem boa, sim — disse sem paciência, mostrando sua total falta de vontade de estar ali. Algumas garotas soltaram o ar ao abrir suas bocas. A professora molhou os lábios e olhou para os lados, incrédula, então tornou a encará-la com a raiva explícita nos olhos escuros.
— Basta! Já é sua terceira notificação neste semestre, senhorita, en...
— Não precisa se preocupar, chérie — interrompeu , esticando a mão na direção da professora. — Eu não quero participar desse caralho de apresentação, obrigada — então pisou duro, ouvindo os murmúrios e risos das demais alunas e a risada baixa de Yurio. Caminhou até sua bolsa, pegando sua carteira de cigarros e isqueiro, olhando para o amigo. — Dez horas, hoje, lá em casa? — apontou para ele, jogando a atenção para seu corpo rijo e olhos amendoados. Com as bochechas vermelhas, ele assentiu timidamente. — Nos vemos, então — ela colocou um cigarro na boca, acendendo-o e tragando antes de empurrar a porta e esticar o dedo do meio ao sair pelo corredor.

Seu relógio marcava nove e meia, e a única coisa que faltava era um pouco de rímel.
A verdade era que se arrependera profundamente de ter aceitado tal convite. Estava com raiva, não queria sair de casa. Rolando os olhos maquiados de preto, pegou sua máscara de cílios e apoiou os cotovelos sem nenhuma paciência na pia, passando algumas vezes e se contentando com um resultado mediano.
Encarou-se no espelho, balançando a cabeça nem em reprovação, nem em aprovação. Estava ok. Escolheu uma regata branca simples, jaqueta, calça jeans skinny e bota de cano curto pretos. Os cabelos estavam soltos, bagunçados, jogados para o lado em um volume considerável.
Respirou fundo e olhou pela janela de seu quarto, que dava uma vista exata para a rua de seu condomínio. Nenhum sinal do carro de Yurio. Talvez ele tivesse parado algumas casas atrás para que seus pais não percebessem que ela fosse sair — como se fosse capaz.
abriu a janela e, sem nenhum esforço, colocou-se para fora e buscou apoio no tronco da árvore da casa vizinha, agachando-se para melhorar o equilíbrio. A queda não era tão horrenda e ela já estava acostumada: desde os nove anos, costumava fugir por ali para evitar ouvir as brigas constantes dos pais. Se eles se odiavam tanto, por que simplesmente não se divorciavam?
Ela caminhou pela madeira cilíndrica até o tronco principal, segurando-se ali. Olhou para baixo e, colocando os fios de cabelo que caíram em seu rosto para trás, molhou os lábios, sentou-se e simplesmente pulou, caindo agachada. Olhou para cima, mordendo os lábios, e depois para a janela da sala, encarando seu pai assistindo à TV e sua mãe, na cozinha. Levantando-se ainda côncava, correu em direção à rua e enfim começou a andar normal, com os braços cruzados.
Jogou o pescoço para trás e encarou o céu estrelado, sentindo-se estranhamente aliviada. Tinha tempo que não saía de casa para respirar.
Caminhou em direção à pracinha do condomínio, na qual haviam improvisado um parquinho para que as crianças brincassem nos dias em que o sol ousasse sair. Não era nada especial: havia uma gangorra, um balanço e um trepa-trepa.
Aproximou-se do balanço e, vendo que não estava molhado, ela sentou-se ali para esperar o amigo. Molhando os lábios, buscou o celular no bolso da jaqueta e rolou os olhos.
22:10.
A noite estava silenciosa e escura. A única alma que pairava pela rua parecia ser a dela, pelo frio que fazia. O arrependimento voltara, e aquele mísero de felicidade por estar fora de casa havia se esvaído naquele instante.
— Bosta — rolou os olhos, colocando-se de pé. Discou os números do amigo.
— Eiii, aqui é o Yurio! Não posso atender agora, mas deixa uma mensagem que te retorno quando e se eu quiser. Beijinhos!
— Não está se esquecendo de alguma coisa, filho da puta? — e desligou.
A gangorra, em um baque estrondoso, bateu no chão. saltou no balanço e o ferro velho rangeu com seu peso. Aquela mesma sensação de antes havia tomado seu peito. A respiração acelerada a fez dar um passo para trás, tombando em alguém.
Ao virar-se, não havia corpo algum.
— Merda — resmungou. — Quem quer que esteja aí, vá pra puta que te pariu, filho da puta! — gritou, sua voz ecoando por entre as casas. — Desisto dessa porra. Eu vou voltar pra merda da minha casa.
Então, subitamente, sentiu dedos enroscando em seu cotovelo, e seu braço foi brutalmente puxado para trás, fazendo-a, sem querer, soltar um grunhido de susto.
Pareceu tomar um soco no estômago ao encarar seus olhos, que, tão intensamente azuis, mais pareciam cristais, sutilmente ainda mais anis quando, em um ato que mais parecia mania que charme, ele unia as sobrancelhas extremamente escuras, não tão grossas, retas, em um franzir de cenho. Os cabelos eram cacheados e compridos, na altura do pescoço, ondulados e castanhos bem escuros. O nariz era reto, grande, os lábios, grossos, com o desenho perfeito de duas ondas em seu lábio superior. As mandíbulas fundas, travadas, eram adornadas por uma barba por fazer bem cuidada e aparada, que lhe marcava o queixo quadrado e rígido.
puxou com força o braço, sem muitas dificuldades para se soltar, embora a visível força do rapaz. Ele levantou as duas mãos, os músculos dos bíceps e antebraços marcados por veias, rendendo-se junto a um sorriso galanteador, abaixando a cabeça.
— Não queria te assustar — disse baixo, subindo os felinos olhos em direção a ela. não conseguia respirar, ainda sentindo o coração bater extremamente forte.
— Bem, você foi um merda nessa parte — embora tivesse tentado, a voz não saíra tão forte como deveria. E ele percebeu. Depois de incontáveis segundos que mais pareciam horas, seu cérebro registrou o barulho estridente de seu celular tocando. Os olhos perturbadores do garoto se guiaram para suas mãos.
— Você não vai atender?
Balançando a cabeça para acordar de seu transe, colocou o telefone no ouvido sem ao menos saber quem era.
— Ei, gata, onde você está?
— Yurio? Yurio, porra, onde você está? — rosnou.
— Estou onde você deveria estar, garota! Na casa daquele gostoso, delícia, tesu...
— Você deveria ter vindo me buscar! — gritou.
— Deveria? — seu tom era de surpresa. — Quando combinamos isso?
— Na aula daquela vac... — ela levou a mão para testa, apertando a sobrancelha. — Quer saber? Esquece. Eu não vou mais.
— Não, gata, espera! O Nikolai ainda não bebeu, ele só ‘tá um pouco chapado, mas pode ir te buscar!
— Esquece, Yurio — então ela desligou com raiva.
Assim que levantou a cabeça para seguir de volta para sua casa, o garoto estava novamente parado à sua frente.
— Caralho, qual é o seu problema? — resmungou, puxando os cabelos para trás. — O que você quer, mano?
— Te ajudar — disse ele. Ela franziu o cenho e o encarou com nojo.
— Que porra você ‘tá falando?
Burwell, da International District? — ele alargou seu sorriso quando percebeu seu espanto. — Sou amigo do Nikolai. Também estou indo para a festa dele. Você quer carona?


2. ice blue


CAPÍTULO DOIS

— Eu não te conheço — resmungou entediada, começando a caminhar de volta para sua casa com os braços cruzados. O garoto foi em seu encalce. — Eu nem sei seu nome, cara, por que você não me deixa em paz? — ela rolou os olhos.
— ela conseguiu ouvir o som irônico em sua fala. Aquilo a fez bufar, parando de andar subitamente, virando-se para ele. Não eram tão diferentes de altura, embora ele ainda fosse uma cabeça mais alto. Arqueando os olhos claros na direção dos dele, de forma felina, estreitos, acompanhou-o abrir tal ironia outrora sorridente nos lábios.
— O máximo que você pode fazer é me sequestrar e me estuprar durante alguns meses até enjoar da minha cara e sair perseguindo outra garota, não é, ? — olhando para o lado enquanto passava a língua no lábio inferior, ele inclinou a cabeça sem afirmar ou negar. — Então foda-se, porra, eu não tenho nada a perder mesmo. Tenho? Onde está a merda do seu carro?

O caminho fora rápido e silencioso. encarava entediada as árvores passando rápido e ignorava qualquer tentativa de conversa vinda do outro, resmungando alguma resposta monossílaba ou sorriso falso. Ele, por outro lado, parecia cada vez mais interessado no tédio dela. Trocava as marchas com leveza, acelerando cada vez mais.
A casa de Nikolai era ridiculamente clichê. O jardim lotado de adolescentes bêbados, a música ecoando alta desde o começo da rua, o som de risadas inundando seu cérebro de forma irritante.
Quando estacionaram o Camaro preto um pouco distante da casa (talvez por pura precaução, talvez para não chamar atenção – ela pouco se importava), empurrou a porta e, batendo continência de forma falsa e forçada, agradeceu e logo se perdeu em meio ao cheiro suor e ao hip-hop que tocava em meio à fumaça de cigarro e maconha.
Ela não conhecia ninguém, mas tinha quase certeza de que todos ali a conheciam, pelo menos de vista. Colocou a mão nos bolsos traseiros da calça e respirou fundo, procurando, entre tantos rostos embriagados, o de seu amigo. Seguiu pela cozinha, desviando de alguns casais e garotos seminus que babavam de rir de tão bêbados, abrindo a geladeira e se servindo de uma cerveja barata.
, você veio! — gritou uma voz conhecida. Depois de um longo gole que gelou sua garganta, ela se virou e fitou os olhos caídos e vermelhos de Yurio. Ela sorriu.
— Consegui uma carona — disse simplesmente. — Você fez tanta questão que eu viesse para isso? — olhou ao seu redor com certa repulsa. Estava deplorável. Pareciam crianças que enchiam a cara quando os pais saíam de férias.
— Ah, querida, a festa não é aqui — ele riu, segurando seu pulso.
Seguiram pelas pessoas até a escada, caminhando até o segundo andar. Foram até a última porta do corredor, onde o garoto deu duas batidas seguidas. Pouco depois, Nikolai, um garoto de cabelos ruivos grandes, ondulados e volumosos, presos em um meio rabo, abriu a porta com um sorriso largo nos lábios finos e rosados. Deu espaço para que o menino entrasse e, assim que passou pelo maior, deu-lhe um tapa na bunda. Rindo, Yurio largou o braço de para apresentá-los.
— Já nos conhecemos — disse . — Você faz francês comigo — Nikolai, nitidamente chapado, apenas concordou.
— Estamos brincando de verdade ou consequência — gritou uma garota do fundo do quarto.
— Você só pode estar fodendo comigo — disse baixo, dando outro gole de sua cerveja.
— Onde conseguiu isso, fofa? — perguntou Nikolai em seu sotaque afetado de gay, apontando para a garrafa. encarou o vidro amarelado em suas mãos e deu de ombros, franzindo levemente o cenho.
— Eu me servi. Pensei que estava tudo bem.
— Não, não, não é esse o problema. Mas, fofa, cerveja? Não. Você não vai ficar bêbada nunca. Clary, garota, pega uma dose dupla de vodca para essa menina. Pura, tá? Sem gelo — uma garota morena se levantou da rodinha improvisada e buscou em um minibar uma garrafa cheia de vodca.
arqueou a sobrancelha em aprovação.
Bem... Talvez possamos tirar proveito disso.

Ela não sabia responder quanto tempo havia se passado. Uma, talvez duas horas e meia. Só sabia que estava bêbada. Muito bêbada e bastante chapada. Começou com maconha, não queria misturar. Mas, depois, um garoto que ela já não se lembrava do nome apareceu com cocaína e heroína. Fazia tempo que ela não cheirava umas carreiras. Foram só algumas, mas cortou o efeito do álcool. Não estava mais tão engraçado quanto antes. Então, optou por algumas bolinhas de ecstasy e um pouquinho de LSD para completar a onda. Um garoto chamado Teddy começou a preparar alguns drinks com nomes eróticos, colocando tudo quanto era bebida que encontrava escondida no quarto de Nikolai. Naquele momento, ela já não sabia o que estava bebendo, porém era escuro e tinha um gosto bom, bem forte. Descia queimando e sempre a fazia rir de sua própria careta ao engolir.
Estava com tesão.
O jogo continuava rolando, sendo interrompido diversas vezes por conversas paralelas, mas o foco sempre acabava sendo foder alguém com outra pessoa e arrancar verdades constrangedoras de outro alguém daquele meio. Ela já não se lembrava do nome da maioria das pessoas, dirigindo-se por apelidos que havia criado para cada um deles.
Giraram a garrafa. Bateram à porta.
— Meu amigo chegou! — gritou um Nikolai visivelmente alterado, já sem blusa, com a calça aberta depois de receber um boquete de algum dos meninos. — Gente, ele não é daqui. Então, por favor: sem zoar com o sotaque do cara e, principalmente, sejam legais com o ele!
— De onde ele é? — alguém perguntou.
— Sei lá — rindo, Nikolai abriu a porta, e o meio das pernas de palpitou tão alto quanto seu coração.
Era . Ela não esqueceria tais olhos da cor de gelo. O garoto sorriu e ambos bateram as mãos, se cumprimentando. Ela engoliu em seco, olhando de soslaio para Yurio, que não percebera seu pedido de socorro.
— Galera, esse é o . Ele é da Inglaterra — ouviu-se um coro de "uuh", arrancando risadas bêbadas. Os olhos de gelo caíram sobre a garota, que tinha os lábios entreabertos e os olhos alertas, as pupilas dilatadas tanto de tesão quanto da quantidade de droga que circulava por seu corpo.
— Estamos brincando de verdade ou consequência. Senta aí — ele arqueou a sobrancelha reta, ainda encarando a garota, que pigarreou, esticando a mão para pegar a garrafa.
— Não, não! Você acha que eu não vi? Caiu em você, piranha. Eu vou te fazer uma pergunta! — gritou Clary, que, àquela altura, já havia se autointitulado sua melhor amiga.
colocou as mãos para trás, apoiando o corpo, empinando o peito, evitando olhar na direção de , embora sentisse o calor que ele emanava a encará-la sem menor vergonha. Molhando os lábios, soltou um suspiro alto.
— Ok... — a garota, que estava sentada no colo de um moreno de olhos claros, que constantemente passava a mão por dentro de sua blusa, indo e apertando seus peitos, fazendo-a rir e desconcentrá-la de tal maldita pergunta, mordeu os lábios e abriu um sorriso malicioso. — Já sei! — gritou, arrancando palmas dos demais. — Me conta uma coisa suja que você faz na hora do sexo. Uma coisa que só você e o cara que ‘tá te comendo sabem. Sei lá, uma coisa que você não falaria para qualquer um.
— Um fetiche? — sentiu o sangue sair do rosto. — Sério?
— Eu sei! — gritou Yurio. — Se ela mentir, eu vou falar! — gargalhou.
— Que bosta, Clary. Não podia perguntar minha cor preferida?
— Eu também sei! — Nikolai riu, empurrando Yurio da cama.
— Ah... — ela respirou fundo, olhando para o teto. — Eu curto levar uns tapas — deu de ombros.
— Ah, mas não é assim, não! — gritou seu amigo, da cama, ao lado de Nikolai. — Ela gosta é de levar porrada mesmo! Teve um dia que ela chegou na escola com o braço todo marcado de corda, a perna toda roxa. Nossa professora de ballet pensou que ela tinha sido atropelada — gargalhou.
— Tipo bondage? — retrucou o moreno de Clary.
— É, tipo bondage, mas aquela coisa bem feita — respondeu, rendendo-se. — Não aquela coisinha ridícula tipo Cinquenta Tons de Cinza. Aquilo não é sadomasoquismo em lugar nenhum. Gosto da parada que não te deixa se mexer mesmo, submissão, aquilo que o cara te venda, te amordaça, cospe na sua boca, pega um chicote de cavalo e bate na sua bunda só porque você não respondeu na hora certa, o que ele queria, e bate para deixar vergão mesmo, não um tapinha meia boca para deixar marca de mão, só na hora. Pinga cera de vela no seu peito e dá na sua cara se você desobedecê-lo, puxa seu cabelo, usa brinquedo... — pigarreou. — Vocês entenderam — seu rosto começou a corar conforme falava, principalmente porque sentia todos os olhares em sua direção, mas o mais pertinente era o de . Ele simplesmente a engolia com os olhos.
— Que horror, garota! Quem gosta de sexo assim? Tem que ter amorzinho... — gemeu a ruiva de cabelos crespos.
— Tem amorzinho, mas do nosso jeito — ela deu de ombros. — O negócio do sadomasoquismo é sentir acima de tudo. Tem que ter muito respeito entre os dois.
— Tá a fim de levar uns tapas meus, ? — o garoto ao seu lado perguntou, o que usava óculos quadrados e tinha cabelos lisos. Ela negou com a cabeça, lançando um sorriso falso em sua direção.
— A parte mais legal no sadomasoquismo é que a gente escolhe para quem dar e, desculpa, mano, você ‘tá longe de fazer meu perfil. Você não deve dominar nem seu cachorro — os demais da roda riram, exceto , que ainda a encarava.
— E eu, , faço seu perfil? — indagou. Um som rouco e excitado saindo de seus lábios.
— Eita, agora que a parada ficou séria! Pensei que britânicos não tivessem senso de humor — Teddy bateu palmas, incentivando. — Eu preciso de mais álcool, gente.
Molhando os lábios, ela os manteve fechado.
— Vai, , responde! — gritou Clary.
— Desculpa — ela rodou a garrafa. — Mas não é mais minha vez de responder.

Já passavam das seis da manhã e o sol estava começando a nascer. Alguns garotos já estavam indo embora, enquanto outros se espalhavam pela sala, quintal, área externa da piscina, desmaiados bêbados ou transando.

sentia seus olhos pesarem. Estava na hora de ir embora e a melhor forma de fazer isso, no estado que estava, era ir a pé. Não queria dar para nenhum daqueles caras, principalmente depois do que havia falado naquela brincadeira idiota. Além do mais, chegaria cansada o suficiente para deitar e dormir.
O quarto de Nikolai estava habitado por corpos inanimados. Yurio estava desmaiado ao seu lado, na cama, e ela tomou todo cuidado necessário ao levantar para não acordá-lo, embora tivesse certeza de que, mesmo se houvesse um terremoto, aquele garoto não iria despertar.
Pegando suas botas, ela abriu a porta com cuidado e a fechou com tal, virando-se lentamente, segurando o fôlego ao chocar-se com um corpo quente, um perfume que já havia se tornado familiar. Respirando fundo, ela deixou que ele tocasse sua cintura e levasse os lábios para seu pescoço, cheirando sua nuca e puxando seus cabelos compridos para a lateral. Apertando os dedos nos ossos de seu ilíaco para encoxá-la, deixou-a sentir seu membro duro em sua bunda. sorriu, levando a mão livre para seus cabelos ondulados, jogando a cabeça para trás, deixando que a boca dele beijasse e mordesse a pele branca de seu ombro, clavícula, base do pescoço.
Suas pernas estavam trêmulas, seu corpo inteiro ardia em excitação. Ele sentia seu cheiro.
Ele a virou com certa brutalidade, empurrando-a contra a parede em um baque baixo, fazendo-a largar as botas no chão. Um riso mudo saiu soprado dos lábios da garota, contendo um gemido de satisfação ao encarar tais olhos que a hipnotizavam sem necessidade. Ela encarou seus lábios desenhados retos, sem esconder ou mostrar nenhum sorriso.
Respirava tranquilamente, dono da situação, sem mostrar nenhum tipo de descontrole. sabia o que estava fazendo.
Segurou seus pulsos com o polegar e indicador, unindo-os em um V acima de sua cabeça, descendo a outra mão para o zíper da sua calça sem desconectar os olhos dos dela. Desabotoou a calça, colocando a mão por dentro da calcinha molhada, exibindo um mínimo sorriso de satisfação ao percebê-la completamente ensopada. Ele já sabia que estava assim. Ele pressionou o indicador e médio em um vai e vem em seus grandes lábios, massageando-os com a ponta dos dedos, fazendo movimentos circulares ao chegar ao clitóris. entreabriu os lábios e os mordeu, soprando o ar preso na garganta.
Quando ela tentou puxar as mãos para apoiá-las no ombro dele, sentiu-o apertar com mais força, então esboçou sua risada embriagada.
— Você realmente quer levar isso a sério, não quer? — sussurrou ela. Ele inclinou suavemente a cabeça para o lado, soltando-se dela e largando-a com as pernas abertas no corredor.
Molhando os lábios, ele abriu a porta do banheiro e a deixou aberta, esperando que ela entrasse. Sem responder, ela obedeceu. Assim que a garota entrou, fechou a porta e a empurrou com força contra a pia, segurando-a pelo pescoço e puxando sua calça para baixo, mostrando sua bunda branca, linda e redonda, que implorava por um tom mais vermelho.
Enrolando a mão em seus cabelos para que as mechas pretas não lhe escondessem o rosto, ele a puxou para que visse seu reflexo no espelho. Seus olhos transbordavam luxúria. espalmou a mão na pele macia da bunda de , começando a acariciá-la lentamente e apertando-a quando chegava próximo à coxa.
— Você não respondeu minha pergunta — disse ele, fazendo-a encará-lo. Ele, por sua vez, olhava o caminho que sua mão traçava, nitidamente interessado e excitado com tal visão.
— Que pergunta? — franziu o cenho, mordendo o lábio quando a mão dele chegou perto demais da sua intimidade, ousando lambuzar-se em sua excitação. riu de sua fraqueza, deixando um sorriso no canto dos lábios.
— Se eu fazia seu perfil — soprou uma risada, negando com a cabeça. Os olhos cor de gelo subiram em sua direção como um raio, fitando-a pelo espelho. Ela sentiu um arrepio passando pelo corpo.
Naquele momento, levantou o braço e deu um tapa estalado, pesado, ardido em sua bunda. O corpo dela foi para frente e teve a impressão de que aquilo ressoou pela casa, acordando metade de quem estava lá. Muda, ela apertou e rolou os olhos em extrema dor. Quando o quente de onde os dedos e palma dele haviam tocado deu espaço para o ardor e formigamento, um gemido baixo escapou dos lábios fechados, o corpo indo automaticamente para trás, pedindo outro. a acariciou mais uma vez e, quando ele subiu a mão para batê-la de novo, puxou seu cabelo ao perceber seu instinto de se encolher, de se proteger, como todo animal acuado. Ela abriu os olhos sedentos por desejo e se encararam ao ser estapeada novamente, um gemido alto de prazer ecoando pelas paredes do banheiro, as sobrancelhas encolhidas, os lábios mordidos com força.
a puxou novamente, desta vez para que seus corpos se unissem. Começou a massagear sua vulva, masturbando-a enquanto mordia seu pescoço, sentindo sua pulsação acelerada passando leve por cima da pele fina de seus lábios. Ele encarava seu pecado, seu desejo, sua luxúria, sugando ele.
Quando a soltou, largando-a na pia, tirou a calça e a blusa, parando por um segundo e perdendo total o foco ao vê-lo tirar sua própria roupa. Seu corpo era escultural, rijo, quase sem pintas e marcas.
Antes de piscar, ele a virou com força e tomou seus lábios, beijando-a com força. Sua boca era quente, feroz, macia, doce. Suas mãos guiaram-se para seus quadris e a ergueram para a pia, colocando-a sentada ali. Ela inclinou o tronco, levantando as pernas para que se encaixassem melhor. Ele segurou suas coxas, arranhando-as com força, deixando vergões e gotículas de sangue. Separando seus lábios para gemer, acompanhou enquanto se agachava para lamber seu sangue. Sua língua quente a lambeu até o interior da coxa, mordendo-a suavemente. Ela arfou, sentindo o peito explodir em tesão.
Naquele momento, então, sentiu algo diferente em seu organismo. Ao seu redor, as cores ficaram mais vibrantes, assim como o toque de seus corpos, os sons, o eriçar de seus pelos, seus sentidos e sentimentos. Percebia sua força aumentar, assim como a vontade de fodê-la incontrolavelmente até que seus músculos não aguentassem mais e literalmente explodissem. Sentia cada célula de seu corpo se preenchendo com prazer, cada mínima mudança na fluidez de seu sangue. Sentia cada centímetro da sua excitação.
Ao encarar-se de relance no espelho, percebera os olhos mais brilhantes e, por milímetros, os dentes mais afiados. A pele parecia mais dura, avermelhada.
sorriu, jogando a cabeça para trás, sentindo os lábios de ali, beijando-o e chupando-o. Ele a segurou com força, desatando-o o próprio cinto e calça, masturbando-se enquanto esfregava a glande na intimidade encharcada dela antes de começar a meter com força.
Cada vez que a garota escorregava para trás, a puxava para que o contato fosse maior e a penetração, mais funda. Encarava-se pelo espelho, abaixava os olhos para assistir enquanto seu membro brilhante pela excitação dela entrava e saía de , ela gemendo e arranhando sua nuca, ombro e costas cada vez que ele metia mais forte. A cada momento sentia-se mais invencível.
Segurou-a pela cintura e a pegou no colo, apoiando seu corpo na parede. Segurando-a pelas coxas, começou a meter com força, apertando sua bunda, fincando as unhas em sua pele. Levou a boca até seu pescoço, começando a chupar e morder sua jugular, sentindo o gosto doce de seu sangue passando pelos poros de sua pele. Ele queria mordê-la, acabar com aquilo da melhor forma possível, mas não podia. Ainda não. Não ali.
impulsionou o corpo com os ombros, fazendo desencostá-la da parede e colocá-la no chão. Voltando para a pia, ela se colocou apoiada de quatro, olhando-o por cima do ombro.
segurou-a pela nuca e quadril, encaixando-se nela. Meteu lentamente, sentindo-a fundo e devagar, fazendo-a gemer baixo. rebolou com seu membro rijo dentro dela, indo e vindo algumas vezes, até que ele começou a meter. Beijaram-se rapidamente, mas o banheiro estava infernalmente quente, o ar lhes faltava, seus corpos estavam extasiados.
ofegava conforme sua intimidade ficava cada vez mais sensível, o orgasmo crescendo e se tornando cada vez mais forte, explodindo em seu corpo como uma bomba atômica e fazendo suas pernas tremerem. Ela franziu o cenho, gemendo alto enquanto sentia seu corpo inteiro palpitar. começou a meter mais forte, encarando seu rosto enquanto ela gozava. Ele levou a mão até seu clitóris e começou a masturbá-la novamente, até que ela arregalou seus olhos e impulsionou o corpo para frente, levando a mão para a dele. riu – um riso sujo –, começando a meter com ainda mais força.
— Eu que decido a hora de parar — rosnou, puxando o quadril dela, seus corpos chocando-se com força. Ele mordeu os lábios e franziu o cenho, o corpo inteiro entrando em transe conforme a garota gemia em agonia de tanto prazer, palpitando forte em seu membro e contraindo-se embaixo dele.
Soltando os lábios, arfava conforme metia cada vez mais rápido, sentindo o orgasmo vir. Puxou o cabelo de novamente para que pudesse ver seu rosto no reflexo do espelho, seu olhar completamente rendido a ele. Segurou seu queixo, virando sua boca para que pudesse mordê-la, sentindo o gosto de seu sangue novamente em sua boca. Aquele fora o ápice de seu gozo. Tirou rápido o membro de dentro dela e se masturbou enquanto a beijava com ferocidade e velocidade, gemendo conforme o corpo arrepiava a cada jato de prazer, sentindo a mão ficar melada.
se virou para ele, segurando seus maxilares para que continuassem se beijando. Com a ponta dos pés e um impulso pequeno, sentou-se na pia, respirando com dificuldade. Ele se meteu no meio de suas pernas, retribuindo seu beijo com mesma vontade.
Ao separarem-se, ela levou à mão a boca e riu, segurando o lábio cortado.
— Isso vai inchar — soprou uma risada, encarando-o nos olhos cor de gelo. Ele sorriu pelo canto dos olhos, afastando-se alguns centímetros dela. Ela respirou fundo e assentiu. — Preciso ir embora — ela se levantou.
— Eu sei. Quer carona? — ela negou com a cabeça.
— Não. É melhor ir a pé — ele assentiu enquanto abria a porta do box. Ela sorriu pelo canto dos lábios, seguindo para junto dele. Ele abriu o registro e se meteu embaixo d'água. Mais uma vez ela se perdeu em seu corpo, em seus detalhes.
Quando ele abriu os olhos e percebeu que ela o encarava, riu. Não escondeu tal sorriso, dando espaço para que uma visivelmente envergonhada se molhasse também.
— Acho que não preciso mais responder se você faz ou não meu perfil — respondeu enquanto deixava a água escorrer pelos cabelos suados.
— Faço seu perfil físico, mas não foi essa minha pergunta — ele começou a se esfregar com um sabonete líquido com cheiro de erva doce. Ele odiava aquele cheiro.
— Eu seria sua submissa, se é isso que tanto te interessa saber — respondeu depois de alguns segundos, pegando o sabonete também. — Mas é uma pena que nunca mais nos veremos — deu de ombros, ficando embaixo d'água para sair antes dele, enrolando o cabelo em um coque, enxugando-se com a toalha de rosto jogada no chão.
Vestiu-se rápido, abrindo a porta com mesma rapidez.
sorriu, esfregando os cabelos embaixo d'água, deixando-a cair quente por todo o corpo eletrizado.
— É o que veremos, Burwell.


3. stairway to heaven


CAPÍTULO TRÊS

7:12am

Ela havia andado por quase quarenta minutos e, por mais que a pele estivesse fria, por dentro ela estava quente. Aquele... homem havia depositado algo em suas veias que a fazia ferver. Podia acompanhar, no horizonte, as cores alaranjadas da aurora se iluminando junto das nuvens de chuva que se espaçavam pelo céu esbranquiçado.
O bairro estava quieto e as casas, adormecidas, exceto por uma, que gritava com as luzes acesas. Ela parou sua caminhada de passos tortos e observou com o cenho franzido as silhuetas que se empurravam de um lado ao outro na sala, esticando os dedos um na cara do outro. O mais alto segurou o cabelo comprido da mulher e a jogou brutalmente no chão, fazendo uma completamente dopada de sono e maconha trazer o queixo para trás em um ato de repulsa. Os ouvidos lesados demoraram mais tempo que o normal para associar as palavras de ódio que as paredes deixavam escapar. Se xingavam, faziam juras de morte, desejavam os piores tipos de desgraça um para o outro.
— Eu espero realmente que aquela puta tenha te passado todo tipo de doença, seu merda!
— NÃO LEVANTA ESSA PORRA DE VOZ PARA FALAR COMIGO, LUCE! OU EU JURO QUE–
— JURA QUE O QUÊ, PORRA?! VAI ME MATAR? Então me mata de uma vez, caralho!
resolveu entrar. Não havia um motivo real, mas simplesmente sentiu os pés guiando-a para sua casa.
A cena era pior do que realmente aparentava – estava tudo quebrado. Praticamente todos os porta-retratos da família, do casamento e de viagens estavam jogados no chão, as fotos rasgadas espalhadas pelo tapete. O abajur de canto que ficava ao lado da lareira estava destruído, jogado próximo da bancada americana que dividia a sala de estar da cozinha, com gavetas reviradas. Luce estava com o cabelo bagunçado e o rosto vermelho coberto por lágrimas, a maquiagem toda borrada – nunca havia visto a mãe daquele jeito.
Sempre bem arrumada, Luce era uma figura impenetrável, sempre com o cabelo liso muito bem preso em um rabo de cavalo perfeitamente alinhado, a maquiagem sempre muito bem feita, os lábios sempre contornados em um vermelho-vivo, que a deixava com a pele ainda mais branca. Os olhos grandes e esbugalhados estavam assustados e transpareciam o medo que ela sentia, passando-o para quem a encarava de volta.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou inutilmente, a voz saindo como um miado.
— O que parece, porra? — gritou Charlie. — A merda da sua mãe está surtando — ele rolou os olhos.
A cena que viu a seguir foi tão rápida que ela mal teve tempo de piscar, parecendo acontecer em câmera lenta. Com um ódio tão repentino quanto a ação, Luce rugiu de raiva e, contorcendo o rosto, saltou como um gato nos ombros de Charlie, empurrando-o no chão, fazendo-o bater a cabeça com força na pedra da lareira, sangrando. Ela o unhou o rosto, gritando todas as vezes que levantava os braços para dar-lhe outro golpe.
Eu te odeio, eu te odeio! — ela repetia gritando. , depois de alguns segundos assimilando as informações, correu até a mãe e a segurou pela cintura, separando os pais. O homem enfurecido levantou-se e pegou o primeiro objeto que estava ao seu alcance: um pedaço de ferro que usavam para mexer o fogo na lareira.
Luce estava de costas para o marido, respirando com dificuldade, com a cabeça baixa. segurava seus ombros para tentar acalmá-la, afagando-a a fim de esquentá-la e confortá-la de toda a situação, sem ao menos saber todo o porquê daquela briga. Ao levantar os olhos do suspiro da mãe, encarou os ombros abertos do pai e o pedaço de ferro voando na direção das duas.
O movimento fora quase instantâneo, instintivo para proteger seu bando. empurrou os ombros de Luce para o lado com tanta força que o corpo da mulher caiu na mesa de centro, fazendo o vidro quebrar. O pedaço de ferro a atingiu em cheio na lateral do pescoço, na jugular, fazendo-a tombar para o lado, caindo no sofá e, depois, no chão. O ar não entrava, a garota soluçava e ofegava alto em tentativas dolorosas de conseguir respirar. Com um corte profundo no braço, Luce levantou e começou a gritar – algo dolorido, como um animal sofre por sua cria que acabara de ser abatida. Ela olhava para a filha, que se debatia com os olhos arregalados, o rosto roxo e pescoço vermelho, que inchava e, depois, para Charlie, que ainda segurava o ferro, completamente paralisado.
— SAI DAQUI! — urrou ela, a voz rasgando a garganta. — SAI DAQUI ANTES QUE EU TE MATE! SAI DAQUI! SAI DAQUI! SAI DAQUI! — as veias de seu pescoço saltaram conforme seu grito aumentava.
O barulho do ferro caindo no chão soara como um trovão.
Charlie saiu correndo, deixando a porta aberta.

— Não houve nenhuma complicação além de uma pequena fratura no atlas — explicou o médico, indicando no raio-x a primeira vértebra do pescoço de com uma leve fissura —, como pode ser visto aqui. Fizemos exames de sangue para avaliar possíveis inflamações e não detectamos nada fora do normal, exceto uma leve infecção urinária — ele ajeitou seus óculos quadrados e arqueou seus olhos castanhos para Luce, que fitava, com os seus inchados, a filha ainda desacordada. — Entramos com medicação para dor, antibióticos para a infecção e estamos administrando tudo no soro glicosado para ajudar na desidratação causada pelo álcool. Sua filha bebe muito?
— Se minha filha...? O quê? — ela encarou o médico ridiculamente jovem e piscou um par de vezes antes de franzir o cenho. — Minha filha mal sai de casa.
— Ela tinha altos níveis de álcool no sangue, senhora.
— Por favor, me chame de Luce — ela balbuciou no ar, negando com a cabeça.
— A senh... — ele molhou os lábios, recebendo um olhar reprovativo da mais velha. Sentindo-se incomodado, prosseguiu: — Você já conversou com sua filha sobre problemas psiquiátricos como a depressão? — ela soltou uma risada nervosa.
— Não acho que é um tipo de conversa adequada para se ter com filhos, doutor. Quando for pai, Deus queira que demore tempo suficiente, entenderá meu argumento.
— Na verdade, senhora, já sou pai — ele permaneceu sério. Luce o encarou sem dizer nada. — E acho de extrema importância notar os comportamentos de sua filha. Ela apresenta sinais de automutilação recentes.
— Quê? — Luce franziu o cenho com força. — Tipo... cortes, essas coisas? — Thomas respirou fundo e anotou algo em sua prancheta.
— Prescrevi orientação psicológica para a senhora e para sua filha também, Luce. Sessões de terapia semanais para as duas. Acho que isso irá ajudar muito tanto na questão do álcool quanto das drogas e dos cortes, sim. Não sou da ala psiquiátrica, não posso dar diagnósticos ou prescrever medicamentos para ajudar no problema de .
— Drogas?
— Altos níveis de THC no sangue, também — ele respirou fundo novamente e apoiou o peso do corpo na parede ao lado, encarando de soslaio o corpo adormecido da garota. — Escuta, Luce. está quase com vinte e um anos. Legalmente falando, você ainda tem poder para ajudá-la porque, por sorte de um azar, viemos a interná-la depois de uma farra. Não sei se as saídas e as drogas são constantes, mas o álcool, pelo exame de sangue, é. A automutilação, também. Eu não poderia estar lhe dando essas informações sem o consentimento dela daqui a alguns meses.
— Eu entendo — assentiu ela, puxando o lábio inferior. — Obrigada, Thomas.
— Cuide da sua família — sorriu. — Com licença — ela assentiu e o assistiu ir embora.
Encarando a garota adormecida pelo vidro de observação, ela imaginou sua vida sem sua filha, o pesadelo que seria. Imaginou as mil situações das quais teria pedido sua ajuda silenciosamente e ela, cega pelo casamento catastrófico, não teria escutado. Indagou-se desde quando ela se machucava, desde quando havia tanta dor e de onde havia surgido tal refúgio e, principalmente, seu porquê.
Ela respirou fundo, encarando, pelo reflexo, o policial que aguardava por seu depoimento. Engolindo em seco, olhou para as pontas ensanguentadas de suas sapatilhas e se virou nos calcanhares, seguindo para o homem.

04:15am

Demônios existem desde a criação do Éden.
Diferentemente de como a Criação cita, Lúcifer, o Primeiro Anjo Caído, não é um demônio, mas, sim, um anjo que teve sua alma celestial negada quando a ganância em enxergar além o levou a ser superior ao seu próprio Criador. Quando caíra, trouxera consigo 666 Legiões de seguidores. Vagaram por um vasto de terra inabitada até a iniciação do Terceiro Mundo, quando, enfim, foram condenados e designados às suas respectivas funções, reconhecendo seu verdadeiro Líder.
E, dentre os murmúrios no Inferno, nenhum era tão poderoso quanto aquele que for dono de um Sangue Amaldiçoado.
Tão raro quanto a aparição da figura demoníaca de Lúcifer, Sangues Amaldiçoados são seres capazes de fornecer energia em demasia para demônios, uma jura clamada por bruxas há séculos para a desgraça de todos eles. Pelo vício instantâneo de algo tão raro e único quanto um Sangue Amaldiçoado, o demônio que provasse tal sangue nunca mais se alimentaria de outro e morreria por inanição, acabando, assim, com a praga causada pela Queda.
A sensação de poder infinito, o formigamento de todos os membros, êxtase e deleite, força como nenhum outro, a capacidade de comunicar-se com criaturas noturnas e comandar seus bandos, adquirir outra forma, conhecimento além de seu normal. Minutos. A sensação de um orgasmo intensificado pelo uso de uma droga. Qualquer demônio inteligente faria qualquer coisa por mínimas gotas, porque sabe que sua quantidade não importa, mas, sim, o quão puro era, o quão próximo aquele amaldiçoado era da Primeira Linha.
O Éden existia em sua perfeição e a humanidade crescia em volta como um bando de parasitas. Alguns dos Escolhidos se misturavam com seres de outras raças e criavam aberrações impuras, com sangue sujo, com apenas resquícios de poder. Por menor que fosse seu elo com algum antepassado Sangue Puro, se houvesse qualquer gene da Primeira Linha em seu sangue, aquele ser poderia atiçar o paladar de qualquer demônio.
Mas , como filho do próprio Diabo, conhecia muito bem um Sangue Puro e sabia muito bem onde encontrar um: Hospital Saint Ephonine.
As janelas enfileiradas o faziam se lembrar de um presídio. Nenhum murmúrio, nenhuma brisa. Ele conseguia escutar a respiração e o bater ritmado do coração dela, conseguia sentir seu cheiro quente – o cheiro de seu sangue misturado ao perfume doce que usara na noite passada – estava hospedada no segundo andar. Seus olhos refletiram luz em meio à escuridão e, deixando-os fixos em sua direção, conseguiu vê-la perfeitamente.
estava deitada de barriga para cima, com o colar ortopédico protegendo seu pescoço quebrado. A respiração tranquila era auxiliada por pequenos tubos em seu nariz e sua veia – sua perfeita e larga veia – era inundada de soro e antibióticos, remédios para dor e para dormir – algo que o fez retorcer o nariz e rosnar de nojo e raiva. Seu sangue estava sendo contaminado. Mesmo assim, ainda havia uma necessidade animalesca de vê-la mais de perto.
Arrastando-se como um réptil pelas sombras até o hospital, deu um único salto até a janela do quarto dela, fincando as unhas na parede para estabilizar-se ali. Sabia que ninguém podia vê-lo. Um silêncio mórbido circulava pelo prédio naquela hora da madrugada e, tão perto do quarto de , conseguia escutar seu corpo ainda mais alto. O fluxo sanguíneo, a respiração, o mover dos órgãos. Indo um pouco mais para perto do vidro, deixou-se hipnotizar por sua silhueta: os lábios, o nariz, os cílios. Sentiu o corpo consumir-se em ódio quando viu os hematomas.
Ao recostar os dedos no vidro frio da janela, vapor formou-se em volta de suas pontas, deixando suas digitais ali. Seu corpo fervia. Empurrou gentilmente a janela, ouvindo-a ranger. Pulou para dentro do quarto e sentiu o chão, que, da mesma forma que o vidro, moldava-se em vapor a cada passo que dava. Cada centímetro mais próximo, mais forte seu cheiro ficava.
Ele encarou, com o cenho e nariz franzidos de raiva, os fios que intoxicavam seu sangue, chegando próximo o suficiente do pulso exposto dela, sem pulseiras, sem curativos– apenas pele e cicatrizes, que brilhavam peroladas com a luz da lua. Subindo o rosto para seu pescoço, ele respirou fundo o cheiro de sua pele, sentindo-se salivar.
Ouviu passos, mas não olhou para trás. Ergueu os olhos para seu rosto, perdendo-se em seus detalhes. Olhou sua boca. Lembrou-se de como gemia.
Queria fodê-la, mas sabia que seria inapropriado.
Ergueu a coluna, tornando as feições sérias, impenetráveis. Olhou seu reflexo pelo vidro embaçado do espelho e viu, pelo de observação, o corpo esguio de Luce se aproximar do quarto da filha – ela havia levantado durante a noite para comprar café enquanto flertava com os enfermeiros. Reclamava tanto das traições do marido, quando, na verdade, fazia o mesmo, apenas não assumia por falta de coragem.
sentia nojo. Nojo e pena.
Com aquele sentimento, afastou-se de sua protegida, pulando pela janela, deixando o vapor de sua mão no vidro aberto.


4. night of the hunter


CAPÍTULO QUATRO

— Você se lembra da casa da sua avó, onde costumávamos passar os finais de semana quando você era pequena? — dizia uma Luce animada, andando de um lado ao outro no quarto. acompanhava-a apenas com os olhos, por causa do colar ortopédico. — Acho que seria uma ideia maravilhosa caso fôssemos passar alguns dias lá. Só nós duas, o que acha? — encarou a filha. não queria dizer, pelo menos não de uma vez, que achava aquilo repentino e um pouco idiota.
— Você está fazendo isso por causa do papai?
— Você ainda o chama assim? — a mais velha franziu o cenho. deu de ombros. Estava perdendo a paciência e ficando entediada. Toda aquela animação matinal, isenta de qualquer tipo de estimulante, a estava deixando enjoada e irritada.
— Não vou mais à escola? — perguntou de repente.
— Acho que podemos trancar o resto do semestre, que tal? — deu de ombros, lembrando-se daquele detalhe. — Você termina ano que vem — arregalou os olhos e esboçou um sorriso irônico lateral, arrancando um suspiro da mais velha. — Vamos tirar umas férias, filha, só eu e você — disse, esperançosa, sentando-se ao lado da garota e segurando em suas mãos frias. Ela molhou os lábios antes de falar: — Tudo bem, vamos ser sinceras. Nada de segredos. Sim, é por causa de Charlie. Não acho que ele é uma boa influência para você. Principalmente... — ela engoliu em seco, apertando a mão da mais nova. — Principalmente depois do que descobri. Precisamos conversar — ela sentiu encolher-se sob os lençóis. — Não quero perceber, no final, que não fiz nada para te ajudar.
Um nó se formou na garganta de e ela percebeu que não conseguia falar. A verdade era que não havia nada para ser dito. Não assumia seus problemas nem para si mesma, conversaria sobre isso com sua mãe, uma pessoa que mal conhecia? Amava-a, disso não tinha dúvida, mas não falariam sobre isso.
— E então? — tentou Luce. — O que acha? Podemos tentar. Caso você não se acostume, podemos voltar para a cidade. Você volta para a escola, para o ballet, para Yurio...
— Deus, não — ela relaxou na cama, olhando para o teto. Suspirando, assentiu. — Tudo bem, mãe — molhou os lábios. — Vamos para casa de campo.

Antes de visitá-la no hospital, seguiu o cheiro podre do sangue Impuro de Charlie. Estava forte como carniça se decompondo ao sol, levando-o para um bar pé-sujo no meio da periferia da cidade. Ele estava sentado no balcão com uma garrafa de uísque barato pela metade, o cabelo bagunçado e a aparência pior que sua usual.
Charlie não era um homem de boa aparência. Era largo, com porte físico atlético pelo emprego de educador físico na universidade local, mas tanto sua moral quanto sua índole o transformavam em um homem completamente desprezível. Ele sempre estava com cheiro de cigarro e suor e, quando sorria, os dentes amarelos destoavam com o tom avermelhado da pele causado pelo sol, que tomava todo dia de manhã. Os olhos anis eram iguais aos da filha, talvez a única coisa que ela havia herdado do homem — a maioria dos traços era distinta e de parentes distantes, uma mistura de raças e de pessoas que ela não conhecia. O único vínculo eram aqueles malditos olhos amendoados e claros, ainda mais transparentes pelo irritar das lágrimas frustradas que caíam insistentes por seu rosto oleoso.
O garoto sentou-se ao lado do homem, que, desesperado por atenção, logo ofereceu sua garrafa a ele, que gentilmente aceitou.
— Eu não queria ter acertado a garota, cara — murmurou para a bancada suja à sua frente. — Era pra ter acertado aquele pedaço de bosta que é a mãe dela, sabe?
— Sei — respondeu, educado, chamando atenção dos olhos embriagados de Charlie.
— Quantos anos você tem?
— O suficiente — engoliu todo o uísque de uma só vez, recebendo um sorriso bêbado de Charlie. — E você, Charlie, quantos anos tem?
— Como você sabe quem eu sou?
— Te vejo aqui muitos dias na semana.
— Eu gosto daqui — ele se virou de frente para o bar, encarando as prostitutas do outro lado da rua. — Gosto das pessoas daqui — o cutucou com o cotovelo, fazendo recolher-se com certo nojo. — São bem mais gente fina que os babacas lá do subúrbio, onde minha mulher metida e frígida quis que eu comprasse uma puta casa para ela. E para quê? Para ela nunca mais liberar aquela buceta pra mim, cara — bebeu mais uma dose do uísque. — Nunca se case com a namoradinha do colégio, cara, é sério.
— Pode deixar — ele se serviu de outro copo, servindo também.
— E o mais importante: não engravide a piranha. Nunca, gar... Garoto... Eu não sei seu nome.
.
. Nunca engravide ninguém, ! — ele ergueu o dedo e pegou a garrafa, terminando-a em seu copo ainda intocado.
— Por quê, Charlie? — ele tomou um gole.
— Ah, cara, criança só traz desgraça! — os olhos transparentes de viraram lentamente na direção do mais velho, que encarava o líquido âmbar com certo pesar. — É despesa atrás de despesa e, quando você percebe, você deu com um ferro no pescoço dela sem querer e aí acaba onde? Enchendo a cara num bar de merda sem saber o que fazer. Sem ressentimentos, Frank! — gritou para o barman, que nem os encarava. — Aquela piranha da minha mulher com certeza deve ter falado com a polícia... — ele colocou a mão na nuca, deixando o copo de lado. — Meu Deus, o que eu vou fazer, ?
Rolando os olhos, se levantou e estendeu a mão para Charlie.
— Vamos, cara, você não está em condição de ficar aqui. Eu te deixo em um hotel.
— Nossa, cara, você é realmente um amigão. Obrigado.
— Ah, é, sou. É que meu pai é padre. A gente se importa muito com todo mundo. É meu dever ajudar.
— E você bebe?! — ele realmente parecia ofendido, caminhando cambaleante ao lado de e recusando sua ajuda para apoiar-se em seu ombro. riu, sem querer dar continuidade àquela conversa.
Quando chegaram próximos a um beco, empurrou Charlie pelo pescoço com o antebraço, prendendo-o contra a parede e prensando seus corpos para que ele não se movesse. Seus rostos estavam próximos, os olhos na mesma direção. Ele conseguia sentir o hálito sujo de álcool exalando em sua garganta, o cheiro de sangue Impuro correndo forte pela artéria de seu pescoço.
— Pera aí, cara, o que você ‘tá fazendo? — Charlie falou com a voz rouca e falha, com dificuldade em puxar o ar.
espalmou sua mão na boca do mais velho com a outra mão, negando com a cabeça enquanto soprava uma risada, abaixando o queixo.
— Você é muito engraçado, Charlie. Além de ter estragado meu jantar, ainda diz que ela é a desgraça? Você é a porra da desgraça desse mundo, seu porra.
Ele o soltou com brutalidade no chão, dando um chute forte no alto de seu estômago e fazendo-o vomitar boa parte do uísque que havia ingerido pouco antes.
— Você fede à merda. Não sei como Luce conseguiu te aturar por tanto tempo. Na verdade — ele ergueu a mão e sorriu —, não sei como alguém consegue dar para você, mesmo que seja por dinheiro. Deveria ser contra qualquer lei da Vigilância Sanitária.
— Foi Luce quem te contratou? — ele murmurou, tossindo. jogou a cabeça para o lado com pena, franzindo as sobrancelhas. — Aquela vac
Cala a boca! — gritou, chutando Charlie para que ele virasse de barriga para cima, sentando-se em seu quadril. — Cala — o socou no supercílio — a porra — outro soco na boca — da sua — outro golpe no nariz — boca! — urrou, dando mais dois murros, um em seu pescoço, outro em seu olho.
Então, urrou mais uma vez, chegando o rosto bem próximo do outro e expelindo seus dentes de demônio — todos se tornaram afiados e quatro vezes maiores, a mandíbula movimentou-se para baixo para que a mordida fosse mais larga e mais forte. O cenho extremamente franzido enfatizava o vermelho das pupilas, que consumiam todo o olho, os lábios repuxados, salivando em um rosnado de ódio.
Ele sentiu, embaixo de sua calça, Charlie se molhar.
— Você se mijou, Charlie? Por favor — disse, rindo, a voz grossa, arranhando na garganta —, vê se não se caga, também. Não vai ser apropriado, você entende? Para um homem da sua idade, que faz o que faz... O pessoal vai comentar — ele abaixou o pescoço, os cabelos roçando no rosto do mais velho, então sorriu. — Está com medinho, seu bosta?
— Pelo amor de Deus, tenha piedade...
— DEUS?! — não evitou uma gargalhada. — Você tem coragem de falar em Deus uma hora dessas, Charlie? Já não te é prova o suficiente? — ele se aproximou da orelha do velho e, sussurrando, quase cantarolou: — Deus não existe — cuspiu, mordendo a orelha do mais velho, arrancando-a de trás dos maxilares. Mastigou um par de vezes, ensanguentando todo seu próprio rosto e roupas, engolindo-a rápido e abaixando para mais.

"Sente-se, aproveite o jantar. Nossa sonoplastia será encarregada por Senhor Charlie Burwell Bukovski e convidados: artérias, veias e ossos quebrados, além de sons tridimensionais de órgãos explodindo e intestinos se esparramando no chão — não se importe com a bagunça, pois a limpeza da área estará inclusa em nosso pacote. Ainda será possível sentir o vapor e ouvir o jorrar quente de sangue por suas principais entradas ou saídas (veias e artérias), a depender do tamanho do fissura exposta escolhida por nosso cliente.
Possivelmente as roupas terão de ser descartadas pela quantidade de sangue e dejetos a que serão expostas."


Ele balançou a cabeça com força, como quem tentava afastar um mosquito ou tirar água do ouvido, soltando um gemido de angústia e um rosnado baixo, respectivamente. Levou as mãos para as têmporas e, apertando-as junto dos olhos, lembrou-se de um rio de sangue, de fêmeas jogadas e inundadas com todo aquele vermelho inocente e escarlate. A voz em sua cabeça era doce e ria de sua confusão. Respirou fundo, abriu os olhos. Segurou a outra extremidade da cabeça de Charlie e a bateu com força repetidas vezes no chão, ouvindo-o gemer de dor até que simplesmente apagasse.
Com a mão em garra, ele a enfiou com força no meio da cintura de Charlie, em seu fígado, puxando-o para fora. Apertando-o entre os dedos ensanguentados, esfregou-o no rosto antes de mordê-lo com visível fome. Mastigou de boca aberta, como o animal que era, e depois jogou a víscera num canto no breu. Com a outra mão, enfiou a mão no meio de sua barriga e puxou seu intestino como se fosse o fio solto de uma roupa, rindo enquanto assistia o corpo de Charlie murchar conforme o órgão saia.
Lilith soava irritantemente irônica toda vez que ele agia por impulso de vingança, principalmente quando guiado por sua alma humana. Sabia que não era a própria mãe falando, mas seu simples sussurrar o deixava louco de ódio.
— Eu adoro essas coisas, Charlie, verdade. Você está se divertindo? — ele encarou o rosto paralisado do mais velho, que ofegava em puro medo, depois de acordar. — Eu realmente adoro esse cheirinho de medo que você está exalando... — ele piscou algumas vezes. — Esse cheirinho de... — ele lambeu os dedos, esfregando a mão no pescoço, nuca, boca. Jogou o pescoço para trás. Abrindo os olhos, encarou a lua cheia com os olhos brilhantes, azuis transparentes, sorrindo para o céu. Então, em um movimento rápido e forte, enfiou a mão dentro do peito de Charlie e arrancou seu coração, segurando o órgão entre seus dedos enquanto dava suas últimas batidas, jorrando sangue para os lados. — De maldição — então, abocanhou o órgão, engolindo-o inteiro quase com uma mordida só.
O saboroso do sangue de Charlie era a dor e culpa que carregava, além do amargo do álcool.
As veias entorpecidas de formigavam a cada gole que dava, a cada jorrar insistente de vida que teimava em sair pelas artérias expostas em seu pescoço, braço, barriga e peito. Ele estava estraçalhado.
Ofegante, ergueu o tronco e sentiu o sangue quente de Charlie escorrer por seu queixo e pescoço, sujando sua blusa e calça. Apoiando as mãos nos joelhos para dar apoio, levantou-se e, com certa dificuldade em juntar os pedaços, pegou os restos do corpo do velho como se ele fosse um saco de carne podre — e não era? —, voando para a floresta no extremo oeste da cidade.
Pousou silenciosamente, encarando a cidade como se fosse seu dono. Jogou o corpo em pedaços no chão, já sabendo que em poucos minutos sua matilha estaria ali para se alimentar.
Ser filho dos pioneiros — Lúcifer e Lilith — o trouxe certa vantagem acima dos demais demônios. Portando alma de ambos em seu corpo, além de um terço de sua própria humana, havia adquirido qualidades especiais que nenhum outro sobrenatural haveria de ter — ou talvez conhecer, já que sua existência, para alguns, não passava de pura lenda.
Ele tinha, por natureza, a capacidade de se comunicar com seres noturnos e, naquela floresta, tinha sua própria matilha, por mais que odiasse denominar-se alfa em um bando de lobos — sentia-se, na verdade, estúpido. Tinha asas maiores e penas mais firmes, pele mais dura, mais força nos golpes e destreza nos movimentos — algo que lhe ocupou grande parte de tempo ocioso. A mente, entretanto, era comandada por seu lado humano. Abafado pelo ensinamento rígido da mãe, mais pensava como humano que como demônio. Isento de remorso, com grande capacidade de manipulação e intensamente meticuloso, não media a consequência de seus atos.
Imerso em seu silêncio, escutou as passadas pesadas das patas de seus lobos. Caminhavam lentos, de cabeça baixa, respeitando seu líder. Olhando-os de soslaio, percebera-os se aproximando do monte de vísceras que Charlie havia se tornado e, como hienas, aproveitando-se de seus restos.
Ele sabia que aquilo não seria suficiente para seus filhotes.
O álcool de Charlie estava começando a fazer efeito nele, fazendo-o sentar na beirada do monte que estavam. Sentiu o segundo da linhagem se aproximar, sentando-se ao seu lado como um cachorro de estimação. Os olhos amarelos do lobo se conectaram com o gelo, então sorriu.
— Depois eu trago mais comida.
Voltando-se para o horizonte, começou a desabotoar a camisa ensanguentada para enterrá-la junto dos ossos roídos de Charlie, assim que seus bebês terminassem o jantar.
Ao despir-se completamente, sentiu-se leve. Um arrepio percorreu seu estômago, eriçando seus pelos como unhas afiadas. Completamente sujo de sangue, ele olhou para o lado no momento em que um da matilha uivou, sendo seguido pelos outros.
Demônios, no Terceiro Mundo, andavam nus. Era mais que plausível e, portanto, aceitável, que se portassem como os demais de sua espécie — animais sujos, esquecidos na escuridão, de acordo com os seres oriundos da Criação. A diferença, entretanto, era que tais seres não conseguiam aceitar a submissão de espécies: anjos e demônios primeiro, depois pessoas. Eles eram bonecos de carne, frágeis como porcelana e fáceis de matar. O que os fazia acreditar serem superiores a seres cuja alma era descendida de um ser celestial? Era essa a repulsa de sua raça. Era esse o motivo de ódio.
Não eram melhores; não eram nada. Não mereciam tamanho reconhecimento nem adoração, muito menos um território tão vasto e rico como o Segundo Mundo.
encarou o próprio corpo rijo coberto de sangue e sentiu-se invencível, jogando a cabeça para trás enquanto travava o maxilar e acompanhava o uivar de sua matilha. Quando abriu os olhos, só conseguia enxergar .
Ele a teria. Independente de qualquer coisa, ele a teria.
Dentre tantos, ele. era imensamente grato a Lilith por tê-lo escolhido para ser o Anticristo.
O mundo era dele, estava escrito. E, com ao seu lado, assim seria.
Eles, juntos, veriam a humanidade ser extinta.


CAPÍTULO CÍNCO

Um mês e meio havia se passado, mas nada muito significativo havia acontecido. Os dias eram iguais, rotineiros, adornados a moletom, chá quente e becks de maconha — Luce sabia, mas não se importava. passava a maioria dos dias sem fazer absolutamente nada, acumulando tanto tédio e ociosidade como óleo nos cabelos pretos e compridos.
Naquela manhã em especial, não chovia, diferente da maioria dos outros dias naquela parte afastada da cidade.
Luce estava ficando louca, urrando em seu telefone com um dos fornecedores de uma loja a qual era sócia. Pelo que pôde ouvir em meio aos gritos histéricos da mãe, ele não estava mais querendo ser gente boa — parecia que Luce estava devendo mais de dois meses a ele e o cara não iria mais fazer entregas de graça. A parte financeira da família e da casa sempre fora função de Charlie, algo que sempre fora motivo de discussão entre eles, e como estavam separados e o pai não dava sinal de vida há semanas...
— Escute, Steve, apenas escute. Estou passando por uma crise no casamento. Preciso de um tempo para te pagar. A loja está indo bem, como sempre! Você é meu principal fornecedor, não posso ficar sem sua ajuda... Preciso de mais duas semanas. Sim, duas. Steve, Steve! Me escuta, caralho! Não... Não, não desliga. Calma, Steve. Ste– Merda! — gritou, jogando o telefone com força na parede, destroçando-o em pedaços. — Perdemos Steve — grunhiu como um rosnado, sentando-se ao lado da filha no sofá.
— Não me diga... — disse com ironia, pegando dentro do bolso da calça um beck. Ofereceu à mãe, que, por um segundo de falso espanto, arregalou os olhos e encarou a filha com censura. Depois, por fim, rolou os olhos e soltou um longo suspiro cansado, colocando o cigarro de maconha na boca, fazendo a mais nova soprar uma risada e buscar o isqueiro para acendê-lo.
— Onde você consegue essas coisas? — perguntou enquanto tragava, franzindo o cenho.
—Tenho uma grana salva que papai me dava quando era mais nova — deu de ombros, assistindo risonha enquanto a mãe tossia a fumaça que irritava seus pulmões e garganta. Ela pegou o beck e deu uma longa tragada, soltando leve.
— Eu já fui melhor nisso, já fui melhor em muitas coisas. Não deveria estar te incentivando a continuar com esses vícios — rolou e fechou os olhos, colocando a mão na testa. — Você continua a se cortar? — tomou um choque com a pergunta tão direta, levando certo tempo para responder. Tragou, expeliu, tragou de novo.
— Tudo bem — disse simplesmente, negando levemente com a cabeça. Não queria falar sobre aquilo.
— Que bom, filha — Luce abriu um sorriso sincero e mole, colocando a mão na coxa da filha, apertando e agradando-a. Estava chapada. riu. — Agora, sinceramente, acho que deveria tomar um banho. Você está fedendo.
assentiu enquanto assistia a mãe roubar seu beck para mais uma tragada, franzindo o cenho. Não sabia se achava estranho ou simplesmente aceitava o fato de estar sentada no sofá da sala da casa de sua avó fumando maconha com sua mãe desempregada e divorciada. Sabia que ambas estavam fodidas, principalmente agora que a loja, com certeza, fecharia.
Precisava arrumar um emprego.

Fez o que a mãe havia sugerido e tomou um demorado banho. Lembrava-se das vezes que, com a prima mais velha, ficava quase duas horas imersa naquela gigantesca banheira do quarto principal, o qual estava hospedada, e brincavam de sereia até tarde da noite, antes do jantar. Agora estava lá, sozinha, imersa em bolhas com cheiro de laranja enquanto terminava de lavar os cabelos pretos que pareciam dançar de alegria por cima da água esbranquiçada.
Levantou-se com frio, enrolando-se logo no roupão que a mãe separou para ela. Pegou algumas loções para o corpo, perfume, creme para o cabelo. Passou um pouco de maquiagem para esconder os cortes e as olheiras profundas, penteou as mechas escuras para trás e as secou suavemente com uma toalha de rosto.
Tudo parecia mais intenso, principalmente os cheiros. Gostava daquilo, por mais que achasse frescura quando sua mãe reclamava que já havia passado três dias desde a última vez que ela tomara banho. Passava as loções com delicadeza, esfregando o creme com suavidade por cima da pele, assistindo-o desaparecer por entre a ponta fria de seus dedos pálidos, de unhas curtas. O cheiro a deixava entorpecida e até um pouco enjoada.
Imersa no silêncio do campo, podia escutar o barulho de panelas vindo do andar debaixo e percebeu: hoje o jantar seria por conta da mãe. Sozinha, sorriu leve e, sem se dar conta, notou seu reflexo no espelho. Não sabia se era por causa do banho, depois de quase uma semana usando a mesma roupa, mas parecia brilhar. Sentia-se estranha, não sabia se era preenchida por uma sensação boa ou ruim. Abaixou a cabeça para evitar continuar encarando a si mesma, afastando tais pensamentos, e seguiu para o quarto, colocando uma calça jeans e um suéter branco com gola alta, secando os cabelos antes de prendê-los em um coque bagunçado, com mechas soltas. Colocou botas marrons de cano curto e pegou sua bolsa, guardando ali sua carteira de cigarros, isqueiro e identidade.
Descendo as escadas, escutou a mãe cantar e parou para observá-la. Era algo raro, talvez único. Não se lembrava da última vez que a vira daquele jeito, não com a presença de seu pai.
Com os cabelos soltos, ela dançava pela cozinha com um vestido longo de mangas compridas. Simples, descalça, como se todos seus problemas tivessem ido embora no momento em que ela quebrou aquele telefone, no momento em que aceitou que não teriam como voltar para o passado, para a vida que tinham. Que aquele era seu presente: aquela casa, aquele interior, Charlie longe. Mãe e filha, só elas duas. Endividadas, pobres, despejadas. O que viesse, continuariam juntas.
Sorrindo em silêncio, abriu a porta e seguiu pelo mesmo caminho de sempre, indo para a rodovia que a levaria de volta para a confusão suja do centro da cidade.

Diferentemente do interior, na cidade, o tempo estava frio, muito frio. Com os braços cruzados e os joelhos juntos, ela sentia os lábios tremerem e os cabelos congelados na cabeça. Olhando de um lado para o outro, parecia que sua alma era a única viva que ainda perambulava pelas ruas. Ergueu o queixo e viu o céu das cinco da tarde completamente tomado por nuvens pesadas, cinzas escuras, onde relâmpagos cortavam sua imensidão de sul a norte. Desistiu, por fim, daquela caçada. Virou-se nos calcanhares e empurrou a pesada porta de uma cafeteria barata, sentando-se em um sofá-cadeira de couro falso vermelho. Encostou-se na janela, soltando os cabelos e esfregando as mãos a fim de esquentá-las. Logo um rapaz de vinte e poucos anos colocou uma xícara e a ofereceu café, o qual ela aceitou.
— Você quer dar uma olhada no cardápio? — indagou com a voz fanha, gripada. imaginou se ele seria o responsável pelas preparações na cozinha. No momento em que ela puxou o ar para responder, sua mandíbula travou pelo vento gelado que cortou sua pele quando a gigantesca porta foi novamente aberta por duas mulheres muito bem vestidas, que riam alto e arrumavam seus casacos e cachecóis.
não pensou que aquele tipo de garota frequentava lugares como o que estavam. Pareciam as meninas que costumavam falar mal das roupas, dos cabelos, dos cortes, do cheiro, da existência de quando ela costumava frequentar a escola.
Uma era loira, magra, baixinha, cheia de tatuagens. A outra, em contraste, era corpulenta, com lábios fartos e olhos bem azuis.
— Oi? Você vai querer comer alguma coisa? — repetiu o garoto, fazendo-a piscar desconcertada e voltar a atenção a ele.
— Não. Não, obrigada. Vou querer só o café — sorriu amarelo, tornando a acompanhar as garotas, que, agora, conversavam um pouco mais baixo.
Sentaram-se uma mesa depois da sua, a loira de frente para ela. conseguiu reparar seus detalhes: os olhos de gato, amarelos, o piercing no septo e na narina esquerda, a boca em formato de coração, os peitos grandes e cintura fina. Usava uma blusinha muito pequena, por mais baixinha e mirrada que ela fosse. O cabelo da morena era aplique, embora muito bem feito.
Quando percebeu, estavam falando dela. A loira comentava algo, olhava para e, depois, para a morena, que virou sem nenhuma descrição para encará-la. Quando percebeu, seu rosto estava quente, e ela abaixou os olhos para a fumaça que saía de seu café.
— Oi — uma voz doce soou ao seu lado. Ressaltada, ela levantou a cabeça e quase deu de frente com a loira. — Meu nome é Alysha. E o seu?
— Sou Angel — disse a outra, com menos simpatia, sentando-se no banco da frente.
— pigarreou.
— Você está nervosa, ? — sorriu Angel. Ela tinha cheiro de essência de morangos com chantilly. Era tão forte que chegava a ser enjoativo.
— Não — respondeu um pouco mais firme, embora sentisse o coração bater forte no peito. Talvez um pouco antipática.
— Vamos embora, Aly — Angel rolou os olhos, já virando os joelhos para se levantar. Alysha passou a língua nos dentes e avaliou o corpo de . Por mais coberta que estivesse, sentiu-se nua e envergonhada.
— Ela é bonita, Ang. Veja bem. Estamos precisando de meninas novas. Rich vai gostar desta aqui.
— Desculpe, mas do que vocês estão falando? — ela soprou uma risada nervosa, sem menor vontade. Angel notara a falsidade, jogando a cabeça para o lado e rolando os olhos.
— Nada do que você se interesse.
— Quantos anos você tem? — indagou Alysha, ignorando o mau humor da amiga. — É maior de idade? Quero ver sua identidade, tem ela aí? Não podemos nos foder de novo.
— Tenho vinte e... — Alysha puxou a bolsa de , procurando sua identidade. Antes de pegar a carteira, segurou um dos becks com um sorriso safado, rindo baixo para Angel, que riu sujo. — Ei, calma aí! — puxou suas coisas de volta.
— Vinte está bom. Eu acredito em você.
— Você ainda não me disse do que se trata — reclamou.
— Você acha que não reparei você olhando para nós quando chegamos nesta espelunca? — gemeu Alysha. Ela tinha um jeito naturalmente sensual, até o modo com que piscava. O jeito que seus lábios se moviam ao pronunciar as palavras fazia com que os olhos de ficassem hipnotizados pelo rosado natural do contorno carnudo de sua boca. — Isso sempre acontece. Você não ia gostar que acontecesse com você também?
— Você sabe dançar? — perguntou Angel.
— Eu... Eu fazia aula de ballet.
— Que gracinha — ironizou a garota.
— Você é muito gostosa — disse Alysha. — Richard vai gostar muito de você. Nos encontre amanhã neste endereço — ela, com o indicador e médio, colocou um cartão no meio das pernas de . — Não se preocupe com a vestimenta. Você não vai usar por muito tempo — piscou, esticando-se para dar um selinho estalado na garota antes de se levantar rápida. Riu antes de sair para a chuva, que já começara a cair do outro lado das paredes.
Com a respiração descompassada, completamente desnorteada, pegou o cartão preto e leu, com letras garrafais vermelhas, “BURLESQUE”.

pousou em casa com certa destreza, jogando um pedaço de carcaça no chão do seu quintal mal cuidado. Encarou sem emoções os tijolos acinzentados daquela construção monumental esquecida pelo tempo, empurrando a porta de madeira, que rangia ao movimentar-se. A casa tinha um cheiro diferente. Franzindo o cenho, ele encarou o hall de entrada vazio e silencioso. Os mesmos quadros, os mesmos olhos, os mesmos adornos deixados por sua mãe há milênios, mas algo estava diferente.
Expondo os dentes pontiagudos, ele franziu o cenho em uma resposta hostil a quem ousasse invadir sua morada. Os pelos do braço e nuca já estavam eriçados quando ele pulou e fincou as unhas na parede, seguindo pelo largo corredor até a cozinha, tentando farejar aquele odor. Era misto doce com amargo, sangue quente com um toque de praga. Seguiu de volta para o hall, pulando para a escada. Pisou os pés descalços no veludo vermelho dos degraus, arranhando com as garras a madeira de lei do corrimão até o segundo andar e parando na varanda. Ali o cheiro era extremamente forte, mas se dissipava pelas paredes, como se alguém tivesse espirrado seu perfume pela casa inteira.
Já havia sentido aquilo antes, só não se lembrava onde, quando.
Relaxando os trapézios, ele recolheu garras e dentes, mantendo o cenho franzido. Seguiu pelo final do corredor até o quarto principal, empurrando lentamente a porta e encarando-o intacto. Suas coisas não estavam remexidas, embora tivesse a estranha sensação de que algum intruso passara ali poucas horas antes dele voltar.
Estava sendo observado e sabia disso.
Estava sendo observado e odiava isso.

Era manhã cedo, o sol ainda estava nascendo. tratou de se arrumar o mais rápido possível e sair de casa sem fazer barulho para evitar as perguntas impertinentes de Luce. Ainda não havia conversado com ela sobre a possibilidade de começar a trabalhar para ajudar nas despesas de casa e sabia que seria uma longa e cansativa troca de palavras com uma porta. Mas estava decidido, entretanto. Começaria a trabalhar na tal da Burlesque, porque fora sua primeira e única oportunidade.
Não fora difícil de encontrar tal endereço. Era uma enorme construção preta, com o nome “BURLESQUE” escrito em letras que brilhavam em vermelho, como no cartão. As paredes eram de vidro preto fosco e a porta, seguindo mesma arquitetura, era comprida, ocupando os dois andares da construção.
Ela ficou parada ali por quase dez minutos antes que uma voz aguda a chamasse repetidas vezes. Olhando para a parte de trás da loja, encarou os cabelos platinados de Alysha presos em um coque bem amarrado. Ela estava sem maquiagem e usava um robe de seda rosa bebê.
— Vem, ! Você sempre vai entrar por aqui — ela seguiu a garota, entrando por uma portinha de metal preta bem estreita.
Por dentro, a Burlesque era extremamente fria, com piso de porcelanato espelhado branco e as mesmas paredes de vidro que mostravam a rua do lado de fora. As mesas eram dispostas nas extremidades do salão, quadradas e metálicas, com um sofá de veludo preto que a rodava em um U, como em lanchonetes. Mais no centro havia um bar e, no lugar do balcão comum, de madeira, havia uma enorme mesa redonda e espelhada, com postes de pole dance que subiam até o teto.
Então enfim entendeu. Era uma boate. Mas não uma boate qualquer. Era uma boate de strippers.
— O vestiário é por aqui — disse Alysha, parecendo sonolenta. Puxou pelo antebraço até a parte de trás de toda a boate, onde, escondidas por uma gigantesca cortina vermelha, como em um espetáculo, meia dúzia de mulheres despidas escolhiam suas lingeries dispostas em sacolas de supermercado. — Não precisa ter nojo, não, ‘tá? As outras casas fazem as garotas trazerem suas próprias roupas, mas o Rich compra as nossas porque ele, além de ter um excelente bom gosto, também gosta de saber e escolher o que suas garotas estão usando — ela levou a menor até uma sacola rosa fluorescente. — Essas aqui são as minhas. Acho que vestimos o mesmo número — por entre sua confusão e choque, ela se sentiu lisonjeada. — Vamos, garota — Alysha riu, e só então percebeu que passou tempo demais quieta e calada. — Começa a tirar a roupa.
— Alysha, olha, eu agradeço muito, mas acho que não consigo, que não faço o padr...
— Não é que ela veio mesmo? — era a voz enjoada de Angel. Um calor de ódio passou por .
Quando se virou, sentiu vontade de desviar os olhos no mesmo momento. Angel estava praticamente nua, com um fio dental dois números menores que o dela e um sutiã transparente azul bebê. Seu corpo era maravilhoso, mas aquilo simplesmente não comportava.
— Deixe-a de lado, é só ciúmes — sussurrou Alysha, puxando a regata de de dentro de sua calça. — Apenas tente, ok? — disse, olhando fundo em seus olhos. — Se ele não gostar de você, prometo que nunca mais te paro em nenhuma lanchonete — piscou e, então, deixou que ela tirasse sua blusa. Sentiu frio.
Depois de um minuto, estava completamente despida. Alysha empurrou para ela um conjunto rosa claro com pompom de coelhinho na bunda fio dental, o sutiã de bojo. Estava se sentindo ridícula e, por um segundo, quis não ter tido aula de Higiene Sanitária no primeiro semestre.
— Ele está chegando! — gritou uma das garotas.
Alysha segurou a mão de e ambas caminharam lentamente até o salão principal, destoando das demais, que corriam. Olhando as pessoas do lado de fora, sentiu-se exposta e com muita vergonha. Estava pelada e pedestres passavam do outro lado do vidro. Por mais que não conseguissem vê-la, não era essa a impressão que ela tinha.
Respirando fundo, olhou para os próprios pés. Estava de meia. No mesmo segundo se abaixou para tirá-las, jogando-as para o canto. Ouviu Angel rindo, então olhou em sua direção. Todas as garotas estavam enfileiradas como animais que esperam para serem abatidos. Molhou os lábios e engoliu em seco.
Que situação bosta.
Não era apropriada para aquele tipo de serviço. Claro que não! Primeiro: seu corpo. Segundo: suas cicatrizes. Terceiro: pelo amor de Deus! Stripper? Precisavam de dinheiro, ela e sua mãe, mas isso? Sério? Teria um cafetão.
O pensamento a fez soprar uma risada, levando a mão para os lábios a fim de esconder o sorriso.
Com certeza seria um homem detestável, com bafo e barriga saliente. Nenhum cara respeitável seria capaz de comandar um negócio como aquele.
Quem é essa? — uma voz grave a fez erguer os olhos para uma figura ridiculamente perfeita.
Os cabelos eram compridos e tinham cor de trigo, levemente ondulados, presos em um rabo de cavalo baixo. Com olhos felinos estreitos e pequenos, verdes, ele a encarava com um desprezo quase excitante. A barba cheia, os lábios finos ainda mais rosados. Por mais que não carregasse nenhuma expressão, com as sobrancelhas grossas retas, a boca carregava a sombra de um sorriso irônico, malicioso, que apenas encará-la por apenas existir. Ela não conseguiu ver seu corpo. Estava encantada demais com seu rosto.
— M-meu n-n....
— Essa é a ! A garota que falei que te arrumaria, Rich! — disse uma Alysha animada, aproximando-se dos dois. Os olhos felinos dele desceram pelo corpo dela e, depois, para as meias jogadas no chão. O homem arqueou a sobrancelha. — Ela não é bonita?
— Não — disse de uma vez. recebeu a resposta como um soco, travando a respiração. Sentiu as bochechas ficarem quentes. — Muito magra — ergueu uma das sobrancelhas retas grossas, franzindo o cenho. — Muito branca. O que ela vai me trazer? Prejuízo? — Alysha rolou os olhos. Angel riu.
— Ela dança. E dança muito bem! — retrucou a loira.
— Vocês, por acaso, estão se comendo? — ele apontou para Alysha e, depois, para , que arregalou os olhos em descrença.
— Não, Richard, e não é motiv– — ele ergueu a mão para ela.
— Deixe a garota responder. Ou ela é muda? — ele inclinou o rosto para o lado, encarando fundo os olhos de . A menor travou o maxilar com certa raiva, lembrando-se das figuras autoritárias que tanto odiava em sua vida.
— Nós duas não estamos nos comendo — respondeu seca. Ele assentiu, irônico.
— Isso foi o melhor que você me arrumou? É sério? — voltou-se para Alysha, que não respondeu. — Por favor, pegue suas roupas e vá embora.
Richard! — gritou Alysha.
— Cala a boca! — urrou de volta. — Será que vocês não entendem que quem manda nessa merda aqui sou eu? — gritou ainda mais alto. — Se eu disse que não, é não!
— Me dá uma chance — miou , um som quase inaudível em meio aos ecos do ódio dele. — Me deixa provar que sou boa o suficiente para trabalhar para você.
Richard se virou com o maxilar travado, os olhos fixos nela, que havia dado um passo à frente das outras meninas. Ela, agora, estava ereta, o corpo melhor posicionado. Seu coração batia tão alto que ela sentia medo que ele pudesse escutá-lo.
Ele a encarou de cima a baixo: os ombros estreitos, os peitos juntos, a barriga, a cintura fina, quadril largo, as coxas separadas. Chegou próximo o suficiente para que ela sentisse seu hálito de hortelã bater em seu nariz. Richard, então, não sentiu vergonha de passar a mão nas laterais dela, sentir sua pele fria sob o toque quente dele, descê-las macias até as nádegas, apertá-las, puxá-la para si, fazê-la ficar na ponta do pé. Encostou a barba no maxilar dela e, perto do lóbulo de sua orelha, sussurrou:
— Você acha que dá conta desse trabalho? Do toque dos homens, dos problemas deles? — ele, então, passou a mão no meio de sua bunda, acariciando sua intimidade quente. Passou os dedos no meio de suas pernas e, com a outra mão, puxou bruscamente seu cabelo. Ela arfou baixo, de dor e susto. — Acha que consegue suportar ser fodida por estranhos, gente que você não conhece? Acha que consegue ficar se esfregando num pau por dois euros por hora? Isso não é trabalho para você, garota. Volta para a sua mãe, para o se namoradinho. Isso é trabalho para essas vagabundas, para essas crackudas, para essas putas que não têm futuro. Você quer ser fodida por grana? Você quer dançar para os seus coleguinhas de faculdade baterem punheta para você? Para as piranhas que te odeiam terem mais motivos para te zoarem, para fazerem piada com sua cara, te chamarem de vadia?
apenas assentiu. Ele puxou com mais força seu cabelo, fazendo suas costas envergarem. Apertou com força sua bunda, apertando-a contra seu membro e roçando-o em seu quadril.
— Você quer ser chamada de vadia, né, garota? — ele soprou uma risada enquanto a encarava nos olhos. Ela sentiu, pela primeira vez, certa excitação, embora o coração batesse forte e, no meio do peito, sentisse medo. — Qual o seu problema?
— Não tenho problema.
Richard, então, puxou com delicadeza seu corpo novamente para perto do dele, encaixando a mão em sua nuca. Entrelaçou os dedos em seus cabelos, puxando-os para o lado em um carinho.
— Você quer trabalhar para mim, vadia? — indagou em um sussurro.
— Sim — sussurrou de volta, então sentiu um baque quando ele soltou seu corpo e se afastou bruscamente dela.
— Alysha te passará os valores. Você tem uma noite para me provar o quão boa é, Scarlett. Nada mais que isso.
A loira não conseguiu esconder que estava feliz: deu palminhas e soltou um gritinho, correndo até a nova amiga para abraçá-la.
— Eu sabia que ele ia deixar! — sorriu, dando pulinhos.
, por outro lado, estava extasiada. Encarou Richard se afastar em seu terno preto, com a cabeça baixa, e se perguntou de onde aquele homem havia surgido.


Continua...



Nota da autora: OI GENTE!! Espero que essa att não tenha demorado tanto quanto a outra. Resolvi mandar duplo porque:
1) Caguei muito com vocês quando demorei anos pra atualizar, ia ser sacanagem mandar um capitulozinho com cinco páginas;
2) Essa parte é muito chata.
Quem já leu sabe que o babado fica forte demais e que esse começo meio lenga-lenga clichê só tá aqui pra explicar os detalhes mesmo.
Então AGUENTA FIRME!! MUITA COISA BOA AINDA VAI ROLAR! <3
É nois galera. Até a próxima atualização.
Segue lá no insta e avisa que é leitora que eu sigo de volta.
Amo vocês, piranjas.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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