If I Should Fall Behind
Fic by: Ticiana Kilpp | Beta: Fê
I
Tudo bem, estava perdido. Não imaginava que a universidade seria todo esse caos logo no dia da inscrição, o que era uma inocência da parte dele. E para piorar, seu nervosismo o deixava desastrado. Todos os documentos na mão dele estavam amassados e misturados, e ele nem lembrava mais para que diabos serviriam cada um deles. Por um instante, lembrou da praticidade de Glasgow e desejou ter resolvido cursar Direito lá mesmo. “Ah, cala a boca, . Isso aqui é Londres!”. Vida melhor, ensino melhor e pronto. Ele iria se acostumar e rezava para um dia poder se achar tão facilmente quanto os jovens que ali estavam e que se moviam sem dificuldade.
- Com licença? – cutucou uma garota parada em frente ao mural cheio de listas. – Eu sou o . Bem, pelo menos eu acho que esse é meu nome; estou tão perdido que não sei mais de nada. – Ela se virou, rindo da graça do garoto. – Será que você pode me ajudar?
- Bom, posso tentar.
- Onde acho o meu local de inscrição?
- Certo, essa eu sei! – Risos. – A parte difícil é achar o seu nome em alguma dessas listas infinitas aqui no mural, elas te indicarão o seu andar e a sua inscrição. E então, lá em cima, eles te guiarão ao balcão que você deve se inscrever. E aí?
- Ótimo, agora me sinto um idiota por não saber isso. Mas, obrigado! – mostrou seu sorriso de agradecimento.
- De nada, que é isso! E boa sorte! – E então a garota se afastou, deixando-o com um sorriso ao ouvir seu celular tocar.
“Educada” pensou ele, esperando que todos em Londres fossem assim. Apesar de ter nascido lá, ele se mudou para Glasgow com apenas cinco anos, e não há muito a ser lembrado com essa idade.
- Alô? Oi, mãe. – O menino atendia o celular enquanto procurava seu nome nas listas. – Confirmou, é? Aham. Que bom. Aham. – “Cadê meu nome, cadê meu nome?” – Certo. Entendo. Ótimo mesmo. Aham. – “AQUI!” anotava seu andar e seu número de inscrição enquanto a mãe tagarelava alguma coisa do outro lado da linha. – O que vai ter hoje?
- Como assim, ? Eu acabei de te contar. Hoje iremos à casa daquela família amiga nossa, que éramos vizinhos quando moramos aqui em Londres. Já te contei isso, meu filho! – A mãe do garoto se sentia ignorada pelo filho, que começara a prestar atenção na conversa apenas agora.
- Oh, certo. Lembro sim, mãe. Pode deixar, assim que eu acabar aqui eu peço um táxi e vou para casa para irmos juntos. Aham. – “Terceiro andar, aqui!” – Aham. Tenho que desligar, mãe.
Até que não tinha demorado tanto assim, meia hora no máximo e ele já estava chegando em casa. Com sua inscrição feita, ele estava mais tranquilo. Suas aulas começariam dali a algumas semanas e esse era o tempo que ele tinha para se acostumar com a cidade. A mudança tinha sido muito rápida e ele ainda não tinha tido tempo para pensar em como seria essa nova vida, mas agora sua barriga pesava com o frio que chegava de repente. Não seria tão fácil mudar; se afastar da namorada, fazer novos amigos. Nunca desejou tanto como agora que a distância não fosse assim tão ruim, não queria que ela acabasse com os laços que tinham de continuar. Tentava amenizar a situação pensando na família conhecida que eles tinham em Londres e que reencontrariam dali a pouco; o casal amigo de seus pais tinha uma filha de sua idade, mais ou menos, na qual ele vivia colado quando menor, e isso já era um começo para novas amizades. , por fim, sabia que, por mais doloroso que fosse, a vida teria de continuar.
“Será bom, , será bom...”
- Filha, você demorou! Esqueceu que iremos reencontrar os aqui, hoje? – Elizabete falou com ao vê-la adentrando a casa.
- Calma, mãe, não esqueci não. Não esqueci e já estou aqui, só preciso tomar um banho rapidinho, tá? Já volto. – E sorriu antes de subir para seu quarto.
Antes de seu banho, viu o álbum de fotos em cima de sua cama. Sua mãe havia deixado ali ontem para mostrar as fotos antigas das famílias juntas, antes de seus vizinhos se mudarem para Glasgow. Por mais que tentasse, não conseguia se lembrar de nada, nem de rostos ou momentos. Nicholas e Lya, os pais, e , o filho deles, com o qual ela tanto brincou. Sabia também que ele era um ano mais velho que ela, com 19 anos, e veio para Londres para cursar a universidade; por causa dele que seus pais vieram. E isso era tudo o que podia saber por enquanto.
- Oi, amor! – Atendeu o telefonema do namorado. – É, eu estou esperando os chegarem aqui em casa. Meus pais estão tão animados, estou feliz por eles! Certo. Mas eu não posso falar agora, Adam, vou tomar banho para poder encontrar com eles. Mais tarde eu ligo, tá? Beijo. Também te amo.
podia escutar as conversas vindas do andar de baixo. Eles já tinham chegado e sua mãe com certeza estava uma fera por ela não ter estado presente para recebê-los. “Droga, droga, droga...” pensava ao vestir sua roupa. Esperava que toda a felicidade de seus pais por reencontrarem os antigos amigos amenizasse a situação; rezava. Roupa, perfume e maquiagem para a cara de defunto que estava acima de seu pescoço; pronto. Queria poder tomar um remédio para levar embora o nervosismo que a invadia; não era muito boa com conhecidos afastados. Nunca sabia o que falar, ou como agir. Mas dane-se, ela teria de ir de qualquer jeito. Respirou fundo. Abriu a porta.
E se esbarrou em quem estava de passagem pelo corredor, levando o outro corpo ao chão.
- Oh, meu Deus, me desculpe! Me desculpe, me desculpe, me desculpe... – , que de repente estava pintada de vermelho, levava as mãos ao rosto quando ouviu o gemido do rapaz ao cair no chão.
- Não foi na... ai! Nada. – Ele tentava se levantar com a ajuda da garota que, de tão envergonhada, só olhava para o chão, o impedindo de ver seu rosto.
“Ótimo jeito de recomeçar uma amizade, sua idiota. Parabéns!” ela se amaldiçoava pela situação enquanto oferecia suas mãos para ajudar o garoto a se levantar. Era o e ela sabia, mesmo ainda não conseguindo olhar para a cara do rapaz, ela percebia que não podia ser uma pessoa mais velha. Isso amenizou a culpa; um rapaz de 19 anos caindo no chão não teria tanto problema assim, né?
- Olá, você deve ser o ! – Disse uma completamente envergonhada antes de ficarem finalmente de pé e a um segundo de olhar para o garoto. Mas os segundos passam.
- E você deve ser a... – Eles se assustaram ao se olharem, por fim. – ?
- Ah, não acredito! Você não é... – Teve sua surpresa interrompida.
- ...a garota lá da faculdade?
- Hoje de manhã. Você me pediu informação. Sim, sim! – Ela disse animada e confusa com tamanha coincidência.
- Meu Deus, era você! Quem podia adivinhar! – Ambos sorriam no meio do corredor.
Pareciam felizes, animados por se reencontrarem em uma situação tão inusitada, mas o estranhamento chegou junto com um abraço. Um abraço é algo normal, certo? Mas, ao se esquivarem em ânimo, a timidez bateu e o abraço ficava naquele vai-não-vai entre sorrisos nervosos. Até que se formou um abraço carinhoso cheio de lembranças que nenhum dos dois lembrava, mas o cheiro da infância estava presente. Não me lembravam de nada, mas sabiam que tinham sido importantes um para o outro, e isso deveria valer alguma coisa.
- Certo, agora eu estou ainda mais envergonhada por ter te derrubado.
- Relaxa, , não foi nada. No máximo uma dor na coluna por um mês, mas tudo bem... – Ela o olhou, desesperada. – Brincadeira! Sério, fica calma, não teve nada. To legal.
- Promete?
- Prometo. – Ele sorriu antes de rirem.
Ambos sabiam das histórias de quando eram pequenos, mesmo que não lembrassem. E uma delas era essa; seus pais contavam que tudo deles envolvia um “promete?”. A discussão acabava apenas quando as promessas eram feitas. E, enquanto atravessavam o corredor e desciam a escada, agradeciam em pensamento por um ótimo reencontro.
- , aleluia, e... Nossa, vejo que vocês já se reconheceram! – A mãe vibrou ao vê-la finalmente descendo a escada com .
- Na verdade a gente já se reencontrou hoje de manhã na faculdade, mas ainda não sabíamos de tudo isso. – disse sorrindo ao se sentar no sofá junto com seus pais, que abraçavam, com muita saudade, a garota que viram nascer, iniciando uma tarde coberta de lembranças, risadas e planos para continuarem matando as saudades.
finalmente se sentiu bem. Tinha ficado tão nervoso, com medo de não conseguir se enturmar novamente. Vai que o achassem chato ou algo do tipo? Vai que não gostasse dele e resolvesse excluí-lo? Exagero, , exagero, ficou nervoso à toa. Mas agora estava tudo bem, e ele estava aliviado pelo reencontro ter sido bem divertido ao invés de ser constrangedor, como imaginava que seria. Pode relaxar também sobre a mudança; poderia ter deixado uma vida em Glasgow, mas agora tinha certeza que a nova vida em Londres não seria tão ruim. Ficou feliz por seus pais e os pais de e pela alegria que eles demonstravam por terem se reencontrado; era como se nunca tivessem ficado separados por tantos anos. A tarde passava rápido entre risos e lembranças tiradas de álbuns de fotografias abertos, que se espalhavam pelo chão da sala. O clima estava muito bom e ele gostava disso. Mesmo que não se lembrasse de quase nada daquela época, se divertiu junto com a garota ao ouvirem histórias contadas por seus pais, conhecendo algumas novas ao invés de ouvirem apenas aquelas que eles já sabiam de cor. E, enfim, pode ter certeza de que sua amizade com não precisaria de muito tempo para parecer que nunca haviam se separado. Assim como aconteceu com seus pais, e tão rápido quanto ficaram bêbados.
- Ei, , quer dar uma volta? – o perguntou tentando se esquivar das latas de cerveja que caíam no chão.
- Claro, por favor! Não quero ficar ouvindo tanta merda desse jeito. – O garoto respondeu entre risos, mencionando as conversas absurdas que rolavam pela sala.
- Ok, espera só eu pegar um casaco.
- E então, conseguiu fazer a matrícula?
- Consegui sim. Sei que pareci um idiota, mas não sou... Pelo menos não tanto! – arrancava risos da garota enquanto caminhavam pela rua.
- Veremos! E o que fazia lá em cima antes de ser derrubado por mim?
- Fui ao banheiro... E o que é isso? Um interrogatório? – levantava as mãos como um refém tentando se inocentar.
- Me desculpe! É que não é sempre que um estranho passeia pelo meu corredor. – Ela sorriu em deboche.
- Estranho? Assim você me ofende, ! – O garoto mostrou um sorriso charmoso e atraente que quase a fez tremer as pernas, mas ela nem percebeu. - Mas e então, o que você vai cursar?
- Farei Línguas, finalmente, meu sonho! E você?
- Línguas, sério? Nossa, cara, que legal. Ainda não tinha conhecido alguém que faria isso... Eu vou cursar Direito. – O ânimo com a notícia da garota deu lugar ao sorriso indiferente.
- E é seu sonho? Você não me parece muito feliz com a ideia.
achou engraçado o modo como ela usara a palavra “sonho”. Foi de uma forma tão inocente, mas tão real ao mesmo tempo em que o deixara confuso. Ela estava certa, não era uma vontade imensa fazer Direito, e o jeito desanimado de ter assumido isso entrou em contraste com a felicidade da garota ao dizer que faria Línguas. No fundo, ele sentia inveja. Não pelo curso que ela faria, mas pela certeza que ela demonstrava ter de que era isso que queria fazer. Inveja do sorriso confiante e animado que ela emitia ao assumir aquilo; a vontade dela se mostrava tamanha que dava quase para poder pegá-la no ar, concreta. E, se pudesse pegar, ele guardaria um pouco para si. À parte isso, ele apenas continuava vivendo e dizendo que queria cursar Direito para ver se esse “querer” entrava por osmose.
- Não dá para explicar, . Mas, de qualquer forma, fico feliz por você. – a presenteou com um sorriso e um olhar censurado, tentando virar os holofotes para ela. Não queria que ele e o seu sonho não encontrado fossem o foco da conversa e agradeceu por ela ter entendido o recado.
- Bom, só uma última coisa. Meu namorado vai entrar no segundo ano de Direito lá na Universidade, ele pode te ajudar em algo, caso você precisar. Tirar dúvidas, explicar o curso, essas coisas... – Ele assentiu em sinal de agradecimento e ela percebeu que esse assunto era um lugar minado no qual ela preferiu parar de se meter.
Passado o assunto “faculdade”, todo o resto da conversa voltou a se tornar agradável. A imagem do céu mesclado em diferentes tons de laranja, por conta do pôr-do-sol, sobre as árvores no horizonte, parecia amenizar a situação e anunciava a hora de voltar para casa.
Talvez ele não tivesse exagerado. Talvez ele e levariam mesmo pouco tempo para firmarem uma amizade e isso o era bom; nada melhor do que já ter alguém por perto para começar sua nova vida. Ela era mais que agradável e ele nunca imaginou que pudesse se dar bem com uma pessoa em tão pouco tempo. Mesmo que não parecesse, ele nunca foi muito o tipo de cara amigável e, ao decidir se mudar, decidiu também tentar mudar o seu jeito de lidar com as coisas. Se é para mudar, que mudemos tudo então, né? Decidiu pôr fim ao mau humor tão fácil - só o deixou se mostrar ao acordar cedo, vai - e a antipatia que tinha por pessoas das quais tinha vergonha alheia. Na cabeça dele existem algumas pessoas que nunca deveriam ter pisado o pé nessa terra, e vamos combinar que ele não está tão errado. Mas decidiu mudar, e isso já é um começo que, pelo o que foi visto com , estava dando certo. Lembrou de Glasgow e como estariam as coisas se tivesse continuado lá, e, depois de um triste suspiro, forçou-se a relembrar de que tudo ficaria melhor desse jeito. Por mais doloroso que fosse, seria melhor. No entanto, por mais forte que ele fingisse ser, a saudade e a tristeza aumentavam a cada dia. , após o reencontro, tinha o convidado para passar o resto do mês com ela e os amigos em uma casa de praia depois de Londres, mas ele recusou. Não se viu totalmente preparado para encarar muitos dias com pessoas novas, ainda não tinha atingido tamanho nível de integração social, mas sabia que deveria ter aceitado. Ter ficado sozinho só aumentou o rancor de ter escolhido se mudar para Londres. Não passou nenhum segundo sem pensar no que ficara para trás. Seus amigos, naqueles dias, deveriam estar vivendo em festas por conta das férias, e ele estava trancado em uma casa nova. Entretanto, não tão fraco, obrigou-se a sair todos os dias, precisava conhecer a cidade e se acostumar, para ver se tudo ficava mais fácil. Parques, shoppings, cinemas e tudo mais que o fizesse desviar sua atenção de Glasgow nem que fosse um pouco. Ficou a par de todos os shows e festas que teriam nas semanas que se passaram, mas não teve coragem de não ir sozinho a nenhum desses dois. Fazia também uma semana que não falava com sua namorada, que tinha viajado para os Estados Unidos visitar seus primos, e isso o deixava pior ainda. Triste, carente e sem nenhum programa de TV que prestasse, a preguiça o invadia cada vez mais. Todo aquele ânimo que teve após chegar à cidade e conhecer parecia ter cruzado a esquina e ido embora. Passou as tardes também com os pais dela juntos com os dele, o que o proporcionava alguma alegria. Mas felicidade não, era demais; ele estava sozinho com o seu - demasiado - drama, e sabia disso.
- Alô? - atendeu o celular que o tirou de seus devaneios.
- ? Tudo bem? - Ele sorriu ao reconhecer a voz de e dizer um "oi" - Então, eu cheguei de viagem esta madrugada com o pessoal e já estamos programando uma saidinha hoje. Vai ter festa na casa de uma amiga nossa, topa ir?
- Na casa de uma amiga sua, ? Tem certeza que eu posso ir e...
- Oh, meu Deus, claro, ! Se tivesse problema eu não te chamaria, né? - A garota disse entre risos com a pergunta idiota do amigo - E eu não aceito "não" como resposta, eu estou mal por não ter te forçado a ir comigo para a praia e ter deixado você sozinho aí.
- Então tudo bem, já que você insiste, eu darei sim o ar de minha graça. - se forçava para parecer amigável, fazendo-a rir, mas mal sabia ela que ele estava realmente sufocado por não tê-la acompanhado.
- Ótimo! Te mandarei uma mensagem com o endereço e algumas referências para te ajudar! Até lá!
Ufa, pensou ele, agora sim poderei me divertir finalmente. Pelo menos, era o que ele esperava e tentaria conseguir. Uma festa é ótima para conhecer gente nova e trazer seus pensamentos de volta à Londres. Dançar, conversar e beber um pouco com certeza faria bem para sua cabeça e para o seu corpo, que já estava enferrujado de tanto sofá. Agradeceu também por ter andado pela cidade enquanto estava fora, isso o ajudaria a encontrar o local da festa mais rápido. Olhou para o relógio, 13h40, e se perguntou como uma pessoa que passara a noite na estrada poderia estar acordada àquela hora e ainda aguentar uma festa à noite. É, não parecia muito o tipo de pessoa calma; e nem ele. Por mais anti-social que ele tivesse sido, nunca ignorava uma boa festa com os amigos, e olhe que nem precisava ser assim tão boa. No entanto, sua preguiça o pedia para domir ao invés de ficar assistindo o especial de filmes românticos da HBO, e romântico ele não era mesmo. Não se engane, ele amava, mas não gritava para todos em cima de uma bancada no corredor do colégio como o Seth Cohen, jamais. (n/a: ah, que saudade!). E, depois de sete horas de sono, finalmente acordou com o seu celular vibrando com uma mensagem de , com o endereço da festa e um "estou te esperando aqui", que só o assustou depois de alguns minutos de preguiça.
- Puta que pariu! - E olhou para o relógio, que marcava quase nove horas da noite. - PUTA QUE PARIU!
saltou da cama de repente e foi direto para o banheiro tomar seu banho corrido. Tirou qualquer roupa do armário para vestir e até que ficou legal quando se viu ao espelho. Era o típico cara que deixaria você maluca com aquela calça colada - na medida certa -, camisa branca com gola V e a clássica camisa xadrez vermelha, aberta por cima. Oh, Deus. Mesmo que não tivesse reparado, não dava para negar a beleza de , que te arranca suspiros quando você o olha atenciosamente. Um salve para , que vivia em seu mundo da lua com os dois olhos fixados em seu namorado. Colocou o perfume - que também te enfeitiçaria fácil - e entrou no carro direto para a festa depois de se despedir dos seus pais e informá-los onde iria, e que não sabia que horas fosse chegar. Estava na hora de se divertir.
II
Não demorou muito para chegar à festa. Com poucas dificuldades, que logo puderam ser superadas por respostas amigáveis de quem passava pela rua, em pouco tempo ele pode avistar a casa dentro do condomínio descrito. E que casa! Era enorme, assim como a quantidade de pessoas que estavam lá. Exatamente como aquelas festas de filmes americanos que os filhos dão enquanto os pais viajam; em Glasgow tinham algumas assim, mas não tão grandes como aquela. Depois de estacionar seu carro e se aproximar da casa, já pôde ver as latas de cervejas espalhadas pelo chão e os diversos casais se agarrando pelos cantos - o que aumentou sua carência. A música estava alta e parecia chamar pelo seu nome; tudo o que ele queria era esquecer um pouco dessa tensão que percorria seu corpo e sua cabeça durante as últimas semanas. "Nada de Glasgow, . Nada de Glasgow." E então uma voz o despertou de suas frases prontas.
- EI, ! - gritava enquanto corria ao seu encontro. - Nossa, você demorou! Mas que bom que você veio!
- Desculpe, , é que acabei dormindo demais... - Ele disse envergonhado depois do abraço, fazendo a menina rir em deboche. - Mas pelo menos não tive muitas dificuldades em achar a casa.
- Ótimo! Agora posso me redimir em ter deixado você sozinho essas semanas. Venha! Vou te apresentar o pessoal mais legal que tem aqui!
E então o puxou pelo braço e o empurrou para dentro da casa, atravessando-a até chegar ao jardim. E que jardim... Mas chega disso. Enquanto passava, já era de se esperar que todos os olhos femininos o acompanhavam e, se olhar tirasse pedaço, não existiria mais até o final da festa.
- É... Parece que você fez sucesso. - disse com uma cara safada para o garoto, o fazendo gargalhar. - Cuidado, , as meninas daqui são perigosas...
já estava um pouco alta e ele percebeu isso. O álcool, capaz de transformar uma garota recém conhecida em caras safadas estava presente na visível quantidade de cerveja que ela já devia ter bebido. E ele não queria ficar para trás. Antes de chegar ao grupo de amigos de , foi rapidamente ao bar pegar a sua latinha. Também queria sorrir à toa pela festa, talvez desse jeito seria mais fácil ainda fazer amizade.
- Galera! Esse aqui é o do qual eu falei para vocês! - E ela assentiu enquanto um dos amigos ali perguntou "O vizinho?" - , esses são o , , , e Juliana!
É, os achou simpáticos enquanto os cumprimentava.
- E eu, meu amor, não serei apresentado, não?
- Oh, meu lindo, mas é claro! - E ao chegar e abraçar a cintura de , ele pôde perceber quem era. - , esse é o Adam, meu namorado.
- Fala, dude! - Ele cumprimentou com uma batida de mãos. - , vamos dançar?
"O quê? Não, não me deixa aqui sozinho com um bando de desconhecidos agora, , puta que pariu!"
- Claro, Adam! Pessoal, façam companhia pro , ok? Não sejam tão maldosos por enquanto. - E saiu com uma piscadinha, deixando todos rirem do comentário.
- Ei, cara, senta aí! - reconheceu fazendo um sinal para sentar à mesa e se juntar a eles. - E então, você chegou quando?
- Há mais ou menos um mês... Cheguei mais cedo para me acostumar com a cidade.
- Ah, relaxa, vai ser fácil se acostumar. Muita festa, muito show e muita gente legal. Fique tranquilo... - se pronunciou um tanto bêbado gerando risadas ao redor da mesa. Mas ele não estava errado, pelo menos isso.
- E se chegou faz tempo, por que não foi com a gente para a praia? - perguntava com certo interesse na voz. Um pouco mais alta que , era óbio que ela era apenas mais uma das mulheres da festa a se interessar por . Ahá, entre na fila.
- Ah, , não conhecia vocês ainda, fiquei meio... Me desculpem a viadagem... Envergonhado em ir. Achei melhor esperar um pouco mais. E ainda tinha algumas coisas para resolver por aqui. Aposto que se eu tivesse ido, não faria tanta diferença assim. - Ele deu de ombros de uma forma engraçada. Já estava tranquilo, o pessoal realmente parecia legal. Ufa. Cada vez ele se aliviava mais.
- Ia sim, , oh se ia... - Juliana, a mais bêbada de todas, praticamente o comia com os olhos.
- Epa! - segurava as amigas, que pareciam prestes a pular em cima de . - Desculpa aí, dude. Juntar álcool e caras novos deixa essas mulheres mais piradas do que o normal... - O garoto disse o fazendo rir. Gostava da sensação de ser desejado. Estava tão carente que nem se lembrava mais como era ter alguém nos braços dele.
E, depois de mais conversas, e o namorado apareceram.
- Olha, vejo que já estão se dando bem! - A amiga disse sorrindo enquanto se sentava no colo do namorado.
Mais algumas conversas com todos, já estava se sentindo totalmente à vontade. Talvez fosse o efeito de tanta cerveja e vodka percorrendo pelo seu sangue. E, não satisfeito, se levantou com o Adam para pegar mais bebidas.
- Puta que pariu, . Onde foi que você arranjou esse Deus? - cochichou com as amigas enquanto observava-o se afastar com Adam, deixando , e em uma conversa empolgada, sozinhos.
- Eu ia perguntar isso agora. De onde veio esse tem mais? Porque logo, logo não vai sobrar nada dele pra gente... - Juliana falava enquanto praticamente babava na mesa por estar impressionada com a beleza dele e por conta da grande quantidade de álcool que tinha consumido.
- Nossa, dá para se acalmar? Vocês estão exagerando... - Mas foi interrompida por , que pegou seu rosto e o virou para que ela pudesse observar todas - todas - as garotas que secavam enquanto ele passava. Ela assentiu. - Tudo bem, talvez eu não tenha reparado... Mas me deixem fora dessa. Não tem nenhum "a gente", eu estou ótima com o Adam, obrigada. Eu passo.
- O QUÊ? - As amigas gritaram em solo - Quer dizer que a gente pode atacar? - Juliana continuou parecendo uma selvagem, e, quando fez que sim com a cabeça, ela se levantou. E caiu no chão de tão bêbada.
- Menos você, sua idiota. - carregou a amiga e a colocou de volta na cadeira depois de rirem da cara dela. - Nesse estado você só vai conseguir vomitar nele!
- Eba! Então eu vou! - pulava na cadeira ao lado das amigas até a parar.
- Calma aí, amiga. Desculpe, mas preciso dizer que ele tem namorada...
- O QUÊ?
- Caralho, parem de gritar! - dava tapas nas amigas. - É, ele tem uma namorada que deixou em Glasgow.
- Em Glasgow? - A amiga riu ironicamente. - , minha querida, você acha que ele vai conseguir ser fiel por muito tempo? Já faz quase um mês... Ele deve estar carente... - falava com a cara prestativa mais tarada de todas enquanto a olhava incrédula. Depois deu de ombros fazendo a menina se levantar rapidamente à procura de .
"Coitado", pensou ela rindo da confusão que ele ia arranjar.
- Caralho, que festão! Era raro ter uma dessas lá em Glasgow... - conversava empolgado com Adam enquanto iam até o bar.
- Então seja bem-vindo, dude! Você verá muitas dessas a partir de agora. Digamos que estamos entre os populares aqui de Londres. Pode esperar pelas melhores, sempre! - Adam dava tapinhas no ombro de , que se animava. Álcool. Música. Álcool. Garotas. Ops, garotas não. Mas não conseguia evitar olhar para as mulheres ali presentes. Realmente, Londres dava um show de mulher gostosa. Sabia que tinha namorada, lembrava disso. Mas o álcool deixava sua namorada ainda mais distante. Ela deveria ter vindo com ele. Ela deveria estar o visitando todo fim de semana... A bebida o deixava ingrato. Ele sabia que ela não podia fazer essas coisas por conta do colégio, tendo o prometido que no próximo ano, na faculdade, ela iria para Londres. Mas ele estava ingrato. E lembrar que ela não tinha ligado para ele fazia quase duas semanas o deixava irritado também. Sabe Deus o que ela estava fazendo; ingrato com uma namorada que o amava loucamente, mas todas as cervejas não o deixavam se lembrar disso e só aumentavam sua carência. só conseguia lembrar desse mês que não teve ninguém para beijar. Nossa, como sentia falta de beijos. De sexo. Sua mão já estava cansada de tanto o acompanhar. "Pare de ser idiota, , sua namorada te ama e... Caralho, que gostosa." tentava ser forte e pensar na namorada, mas tudo o que conseguia ver era um bando de garotas lindas o secando enquanto passava. Só conseguia imaginar ele e alguma daquelas garotas se pegando em qualquer lugar daquela casa, enquanto olhava os casais se chupando pelos cantos.
- Adam! - Ouviu duas garotas o chamarem fazendo-os se aproximar. Elas estavam encostadas em um carro, em um lugar mais distante.
- Oi, garotas. - Adam falou apreensivo, mas nem se tocou, apenas tentou não reparar nas pernas e nos peitos que os vestidos delas deixavam praticamente descobertos. , totalmente bêbado para perceber o que Adam, quase sóbrio, fazia ou conversava. Ao chegarem ao lado delas, ambas abraçaram Adam na mesma hora e cochicharam alguma coisa no ouvido dele. Agora lembrei que não ressaltei a beleza de Adam, que também era enorme. As mãos delas percorriam as costas de Adam enquanto davam risinhos em seus ouvidos e ele usava suas mãos para "falar" com elas. Mas , totalmente aéreo, foi pego de surpresa quando uma delas largara Adam e o puxou pela gola da camisa, empurrando-o de costas para o carro.
- Olá, bonitão... Você que é o ? - Ela dizia enquanto se aproximava do pescoço do garoto e enroscava suas pernas na dele. - A ... Falou muito... de... você... - Ela parava a frase para dar chupões em seu pescoço enquanto ele, sem conseguir se controlar, apertava sua bunda.
- É? E ela falou o quê...? - Ele disse ao puxar o cabelo dela para trás fazendo sua cabeça cair antes de passar a língua em seu pescoço e começar a chupá-lo.
- Não importa... Mas sei que você é bem melhor do que o que ela falou. - A garota dizia enquanto passava a mão por seu peitoral antes de ouvir alguém chamá-la e deixar sozinho, sem entender porra nenhuma.
"O quê...?" estava fora de si. O álcool e o tesão tinham subido à cabeça e só então ele foi perceber que estava realmente sozinho. Não sabia que horas e para onde Adam tinha ido. Foda-se, ele estava bêbado demais para se preocupar e só pensava em mais álcool. Enquanto adentrava a casa em direção ao bar, percebeu que essa pegação toda só tinha aumentado a sua vontade. Por que tinha de estar sozinho? Por que tinha de namorar à distância? Abriu sua cerveja e quase a bebeu toda de uma vez só, se não fosse o interromper em uma proximidade perigosa.
- Ainda bebendo, ? Não acha que está na hora de fazer outra coisa, não...? - A garota pegou a latinha de sua mão e bebeu o pouco que ali tinha de uma vez só antes de se aproximar mais ainda dele, deixando a latinha no balcão. De perto ela era ainda mais deliciosa. - Não acha melhor a gente dançar um pouquinho?
E então ele sentiu uma mão o puxando para o meio da sala. Se queria o deixar mais eufórico com a dança, ela conseguiu. parecia cada vez mais sem noção e sem autocontrole. Se ele se lembrasse de sua namorada, ia ser uma memória muito fraca. Pobre . se aproximava mais a cada segundo, já estando com as mãos em volta do pescoço do rapaz. Ele mantinha suas mãos envolvendo o corpo dela um pouco acima de sua bunda. E o sorriso dele a deixava maluca - não só ela, vale declarar. Ela dava leves puxões em seu cabelo enquanto passava suas mãos pelas costas e peitoral de , e ele já tinha esquecido de tentar se controlar. Suas mãos percorriam toda a extensão das costas da garota e, sem mais delongas, pararam em sua bunda, apertando-a. A garota enroscava suas pernas na dele e partiu para dar chupões em seu pescoço enquanto as mãos dele já procuravam pelos peitos dela, os massageando ao encontrá-los. Sem aguentar aquelas provocações por muito tempo, eles juntaram os lábios em um beijo faminto, com línguas que não se cansavam de brincar. Ela arranhava as costas dele, agora por baixo de sua camisa, enquanto ele levava uma de suas mãos abaixo da bunda da garota, colocando suas mãos um pouco dentro do vestido, apertando sua coxa coberta por ele. Ela então parou o beijo, o levou correndo para um lugar do jardim mais afastado onde não havia muita gente por perto, e, quem estava por ali, estava ocupado se agarrando com outra pessoa.
- Boa ideia... - Ele disse voltando para a pegação depois de colá-la contra a parede, colando suas cinturas. Seus lábios estavam famintos um pelo outro e o beijo aumentava a velocidade cada vez que ela apertava as costas dele e ele, os peitos dela. Ela então voltou a passar as mãos e arranhar seu peitoral e suas costas por dentro da camisa dele, e ele voltou a se concentrar na barra de seu vestido colado. E a subiu mais um pouco, deixando-o apertar mais áreas descobertas abaixo de sua coxa. então começou a desabotoar a camisa xadrez dele e passar sua língua pelo peitoral dele, subindo e descendo, provocando baixos gemidos dele. , de repente, começou a subir mais um pouco seu vestido enquanto olhava para os lados para se certificar de que não tinha alguém olhando, mas ela o interrompeu.
- Não tem problema, apenas continue... - Ela disse gemendo em seu ouvido antes de beijá-lo por fim.
Ele subiu o vestido dela até a metade da bunda da garota e, quando foi apertá-la, percebeu. - Sem calcinha? Bem melhor... - E disse enquanto apertava a bunda da menina sem pano para atrapalhar, fazendo-a gemer. Ela então deu um impulso para cima e abraçou a cintura do garoto com suas pernas, e deixou que ele a segurasse, apertando cada vez mais sua bunda e a parte interna de suas coxas antes de massagear sua intimidade, enquanto ela gemia mais alto. Ele a colocou sentada em cima de algo plano que nenhum dos dois se preocupou em ver o que era. E continuaram se beijando e se apertando. Mas, quando se preparava para colocar suas mãos dentro da calça de , uma voz os chamou.
- Ei! - disse envergonhada fazendo os amigos pularem em um susto e ajeitarem suas roupas. - Desculpa atrapalhar o momento, mas temos que ir...
amaldiçoou a amiga em pensamentos enquanto ainda estava alheio, perdido em algum lugar. Enquanto já parecia totalmente sóbria, ele permanecia sob o efeito do álcool.
- Vamos, se mexam! Já são quase 4h30 da manhã! - disse enquanto puxava os dois, cada um pelo braço. estava praticamente bem, mas mal sabia andar.
Depois de se despedirem dos amigos, ele e iam em direção ao carro.
- , olha pra mim. ! - Ela dava tapinhas no amigo. - Lembra onde está seu carro? - E depois do garoto apontar para algum lugar do estacionamento, ela o tomou pelo braço e usou toda a sua força para conseguir levá-lo até o carro. Lá, procurou as chaves no bolso de e o colocou sentado no banco do carona com o cinto de segurança e, depois, sentou-se no banco do motorista.
- Aonde v-vamos? - Ele perguntou com dificuldade, com os olhos quase fechando, sem entender nada.
- Vamos para minha casa, . Eu não sei onde você mora... e nem você sabe, provavelmente.
E, depois disso, tudo o que ele se lembra era de deitar em uma superfície macia antes de apagar.
III
Sem conseguir abrir os olhos, tudo o que pôde sentir foi uma dor de cabeça filha da puta e a claridade tentando invadir sua visão. Estava suado e se sentiu um inútil por isso, já que conseguiu ouvir o barulho do ventilador ligado. Levou as mãos ao rosto totalmente amassado e o apertou em um gemido cansado; não se lembrava de nada. Ainda de olhos fechados, tentou descobrir o porquê de tanta dor, e então caiu a ficha: álcool. Só ele era capaz de fazer isso com . Podia sentir o forte cheiro de cerveja vindo de seu corpo e seus cabelos e então suspirou, derrotado. Mas, antes de levantar e abrir seus olhos percebeu que cerveja não era a única coisa que cheirava por ali. Perfume. Perfume feminino. Perfume feminino delicioso e...
- ! - apareceu no quarto de camisola quando ele conseguiu sentar finalmente na cama e abrir os olhos. Mas preferiu tê-los deixado fechados, porque ou ele ainda estava bêbado, ou ela estava terrivelmente gostosa. E ele então não entendeu nada.
- MEU DEUS! ? O que você tá fazendo aq... Aqui onde? Onde eu to? AHN? - não reconheceu o lugar onde estava; não era seu quarto. Ele lembrava que nunca colocaria um espelho imenso ocupando toda a parede em seu quarto e nem teria uma colcha de florzinha e...
- Ih, relaxa, . - Ela começou a se aproximar, o deixando perturbado. - Fica calminha, princesa. Respira. Solta. - o encontrou e ajoelhou no chão, de frente para ele, ainda sentado na cama, e pôs suas mãos nos ombros do garoto, o encarando. - Respira. Solta. - Ela inspirava e expirava devagar com os olhos no dele. - Está melhor?
"Ah, to melhor sim. Daqui a pouco eu tenho um orgasmo de tão bem resolvido que estou com essa sua camisola."
- O. Quê. Está. Acontecendo. - Ele perguntou calmamente para a amiga enquanto exibia um sorriso amarelo. Estava apavorado por dentro. Percebeu que teve muito álcool na noite passada e... A festa. "Teve uma festa, não teve?" Mil coisas terríveis passavam na cabeça de . "Puta que pariu, qual a merda que eu fiz dessa vez?" E se assustou com a possibilidade. Ele. . Camisola. Cama de casal. "Jesus, eu comi a ? Não, não, não... Quer dizer, belos peitos. PORRA." O rapaz não sabia se focava no corpo da amiga ou na história terrível que devia ter acontecido.
- Certo. Olha, , a gente transou. - Ela falou séria olhando nos olhos do amigo, que derramavam confusão.
"Certo, e eu fico feliz ou triste agora? Digo... PORRA, EU TO NAMORANDO" E então o pavor o invadiu.
- O QUÊ? COMO ASSIM?
E, enquanto buscava respostas, tudo o que ele pôde ouvir eram risadas altas da garota, que já estava deitada no chão de tanto rir. Péssima ideia, , agora seu vestido está descendo e...
- . Pelo amor de Deus. Eu estou namorando e você também. E nós somos amigos de infância, e... Puta que pariu, dude, como assim?
- Ai, , como você é otário! É claro que a gente não transou, se toca! To só tirando uma com essa tua cara de apavorado aí, tu precisava ver o seu estado! - Ela tentava parar de rir para conseguir falar, mas estava difícil. Pôde então ver o alívio no rosto do pobre rapaz. Que maldade. - Ei, relaxa, . Não teve nada. Você só bebeu demais ontem, bem demais mesmo, e, como eu não sei ainda onde é tua casa e você não estava em condições de me dizer, te trouxe pra cá.
então se levantou do chão e deitou em sua cama, ao lado dele, que ainda estava sentado, imóvel. Ao virar, pôde perceber que o lado da cama, onde ela acabara de deitar, estava desarrumado, e imaginou que ela tivesse dormido ali. Ao lado dele. "Porra, por que eu to tão excitado?"
- Mas , eu preciso te dizer isso... - E ele pôde ver que ela mostrou uma feição envergonhada. "Fudeu, ." - Não aconteceu nada... entre a gente. Mas você, hm... Parece ter se esquecido ontem que tinha namorada.
tentava fazer a piadinha para amenizar a feição do rapaz, mas não havia funcionado. Seu rosto mudava de sério para confuso, para incomodado, para sério de novo, e ela já estava tensa. Nada saía da boca dele e ela então tinha de continuar falando.
- Certo, é melhor falar logo, já entendi. Bem, você acabou bebendo demais, como eu já disse e... Ficou com a , minha amiga.
Demorou um pouco para ele se situar para se lembrar da tal da , mas logo retomou a lembrança dos amigos dela. E pôde, então, ficar apavorado.
- Como assim eu fiquei com a , ? Explica direito, por favor.
- Hm... Digamos que, se não fosse eu interromper, você teria arranjado abrigo pro seu amigo aí de baixo em outras casas, se é que você me entende. - E ele voltou para a feição de confuso. - Porra, , vocês quase transaram, sorte que eu cheguei a tempo e...
- Puta que pariu, . PUTA QUE ME PARIU! Você tá falando sério? Não pode ser...
- Ei, calma, ... Você tava bêbado. Eu te garanto que você não tinha nenhuma noção mesmo do que estava acontecendo... - agora estava sentada na cama, de frente para ele, tentando consolá-lo.
- Mesmo assim, . Eu não devia ter bebido tanto, era óbvio que ia dar nisso. Caralho, eu estou namorando. Eu amo a minha namorada. Não podia ter feito isso, puta merda...
- Essas coisas acontecem, , vocês estão afastados, carentes, sem ninguém. Por favor, não fique assim. - acariciava o amigo, que já estava deitado novamente na cama, com o rosto mergulhado no travesseiro. - Vamos, , levanta daí, vamos comer alguma coisa e tentar tirar isso da sua cabeça...
Depois de muito esforço, conseguiu tirar da cama e empurrá-lo no banheiro para tomar um banho. Deu graças a Deus por ter, mais ou menos, o tipo de corpo de seu pai, o que pôde fazer com que ele pegasse uma roupa emprestada para poder sair. Bermuda simples e blusa branca, a garota pode perceber o incômodo que sentia com as mangas que estavam apertadas em seu braço. "Oh, , ninguém mandou ter esses músculos de Deus" pensava ela. Eles estavam sozinhos na casa; os pais de deixaram um bilhete avisando que iriam ao mercado e que, se pudessem, era melhor irem tomar café fora. E lá foram eles ao Starbucks, clássico.
se sentiu melhor quando saiu da casa da amiga. Não sabia por que, mas estava desconfortável lá dentro. Ele estava com vergonha de si mesmo, nojo, não gostou nem um pouco do que tinha feito na noite anterior e a ideia de ter dormido ao lado de piorava ainda mais a situação. Será que ele, em algum momento, teria dado em cima dela? Quem sabe. Tudo indicava que a quantidade de álcool no sangue dele na noite passada era extremamente grande, e isso o aliviava um pouco. Não lembrava mesmo do que tinha acontecido, mas ainda assim o estava detestando. Ele tinha decidido mudar. Decidido não ser mais aquele idiota que ele era antes. Mesmo que nunca tivesse traído alguém, os erros eram sempre cometidos, e ele, que agora tinha prometido mudar, já havia caído no primeiro pecado. Fora fraco, e sabia. Enquanto se amaldiçoava, pegou seu celular no bolso e olhou pela primeira vez a tela do aparelho. Nada. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nada. E isso ia aos poucos amenizando sua culpa. Ele estava mesmo sozinho e carente, estava certa; foi normal.
- E então, já aliviou um pouco? - A amiga o tirou de seus devaneios com uma batida leve de ombros e um sorriso sugestivo no rosto.
- Estou tentando... prometo. - Eles riram, finalmente. - Mas não tá fácil, ainda não me conformei em ter feito isso.
- E talvez nem se conformará, só precisa aceitar que fez e pronto. Se deixar esquecer. É como eu disse, , essas coisas acontecem... E a saudade vai apertar cada vez mais, você terá apenas que aprender a lidar com ela.
fazia tudo ficar mais fácil e ele gostava disso. Mesmo com poucos dias de convivência eles já tinham atingido a amizade. Estavam se tornando rapidamente especiais um para o outro, independente de relações e amizades antigas. Agora era novo, e verdadeiro. Teve sorte em poder conviver com alguém como ela. Tão simpática, legal e... Linda. Tá, ele ainda estava excitado. Mas o short e o decote dela não cooperavam para a sanidade do garoto. Era a primeira vez que ele tinha percebido o quanto ela era realmente bonita, mas isso não mudou muita coisa. Ele estava namorando, mesmo que tivesse traído sua namorada. estava namorando também, e o Adam parecia ser um cara legal - até aonde as memórias de iam. E tudo o que ele menos precisava agora era de outra confusão.
- Posso confessar uma coisa? - A garota perguntou ao se sentar na frente de após pegarem seus pratos. Ele assentiu. - Odeio quando vocês homens acordam de pau duro.
- Nossa, por que isso do nada? - perguntou entre risos sem entender a confissão da amiga, que estava constrangida.
- É sério, idiota! Não ri! - Ela dava tapas no ombro de . - É só que... Sei lá. É estranho... E tentador. - Ela assumiu mais uma vez rindo junto com o amigo.
- Tentador? Como assim, ... Quer dizer que você é daquelas que acordam já dispostas? - As risadas ficavam cada vez mais intensas e latejava. Não era um bom momento para aquele tipo de conversa, ele não estava em condições seguras.
- Sou, confesso! Sempre que durmo com o Adam, ele acorda assim, só que ele é todo molenga de manhã, sem disposição pra nada. Aí eu fico com a maior cara de lixo, na tentação.
Os risos já eram tão altos que algumas pessoas olhavam em estranhamento, mas nenhum dos dois se importava. Conversas chulas eram um passo para a amizade fluir.
- Hoje você acordou assim... - A garota assumiu uma feição envergonhada, mas sugestiva. E se segurou para não ficar todo arrepiado. "Droga, se controla, !"
- Ah, foi? Você devia ter me acordado... Eu sou ótimo pela manhã. - Olhar tarado. - E já que já fiz merda ontem, não teria mais problema...
- Uh, , obrigada pela dica. Acho que irei dormir com você mais vezes.
- Sem problemas. Desde que você use aquela camisola de novo... - Estava difícil conter os risos, mas eles se esforçavam ao máximo para continuar com as caras sedutoras.
- Ela te tentou muito?
- Não, o que me tentou foram seus peitos e suas pernas... Que ficariam melhores sem elas. - Mas não podia mais continuar com aquilo e soltou o riso e ela o acompanhou. Risos forçados, mas nem dava para perceber. Ele tinha ficado mesmo tentado com o corpo dela. E ela já tinha percebido também o quanto ele era lindamente gostoso. Por um instante, ambos se lembraram que dormiram juntos na noite que passara, e se arrepiaram discretamente. Excitações, às vezes, não tem explicação, e são nessas que a gente se da mal. Vão crescendo nas escuras, sem ninguém ver e, quando percebemos, elas já estão explodindo nas nossas bocas e mãos do nada. E nós viramos escravos da tentação. Do desejo. Da fome. Mas esse não era o caso agora.
Depois que terminaram o café, ele a deixou em casa e partiu para a sua. Estavam com o carro de , já que o teria dirigido na noite passada, o que foi ajudado por ela ter ido à festa de táxi. Assim que chegaram à suas casas, tomaram analgésicos para as dores que percorriam toda a extensão do corpo e voltaram ao sono; sem preocupações com as conversas tentadoras ou corpos delirantes. No entando, aliviados pela crescente aproximação. estava feliz de ter por perto, ele tirava sua vergonha e a arrancava risadas sem o menor esforço. Ele também havia conquistado seus amigos, o que era difícil. estava feliz em ter por perto, ela o deixava mais leve e o fazia se despreocupar sem o menor esforço. E o dava a certeza que Londres não seria assim tão ruim e que sua mudança psicológica estava melhorando. Passaram toda a tarde em suas casas, comendo porcarias e vendo TV enquanto descansavam da noite anterior. não conseguia se perdoar por ter traído Mandy, sua namorada, mas o fato de ela continuar sem dar notícias amenizava um pouco a culpa que o garoto colocava em cima de si. Ele tinha ficado bêbado, tão bêbado que não conseguia se lembrar de nada, e isso amenizava ainda mais. No entanto, sabia que eram apenas desculpas à curto prazo: ele não conseguiria manter essa relação à distância por muito tempo. Ainda mais com tantas tentações...
- Alô? ?
- Oi, ! Tudo bem? - O garoto foi obrigado a voltar para a realidade quando o ligou.
-Tudo ótimo! E então, já se recuperou da noite passada?
- Mais ou menos, ... Você me deixou quebrado. - Ele disse em tom sarcástico arrancando risos da garota. - Mas diz aí, por quê?
- É que o , um amigo meu que você conheceu ontem, chamou a gente pra ir lá pra casa dele hoje ver um filme e tal... Algo mais light, só pra relaxar. Topa?
- Meu Deus, , vocês não param, né? Mas vem cá... A estará lá? - O garoto perguntou receoso. Não queria correr o risco de repetir a merda que tinha feito.
- Hm... Vai. - E, antes de dizer um "acho melhor não", a amiga continuou - Mas não terá álcool. E a é uma garota legal, ela não vai te atacar, prometo!
não conseguia resistir ao "prometo" da amiga. Mesmo com medo, ele queria ir. Não ter álcool já era um grande passo, já que seus efeitos que eram sempre o problema. E ele queria ir. Muito. Suas férias estavam chegando ao fim, não tinha nada passando na TV, estava sem sono, pois dormira o dia inteiro... Sua namorada não ligou de novo. Enfim. Ele iria se controlar.
- Certo, que horas e que endereço?
-Isso aí! Assim que se fala, ! Nada de fossa e arrependimentos! - se empolgava com a resposta do amigo, o deixando ainda mais contente. - Te busco em uma hora!
IV
foi pontual. Foi só o tempo de desligar a tv, levantar do sofá e ir tomar um banho para a amiga chegar em sua casa. Vestido em uma roupa simples, ele reparou que ela não estava tão simples assim. Não sua roupa, mas ela. Por inteira. Droga. Ele ainda estava excitado. Quando isso iria parar? E quando ele pensou em uma resposta, resolveu desviar a atenção. Sabia que todo esse fogo só apagaria quando ele se enfiasse dentro de uma... banheira, por assim dizer. Mas o corpo da amiga não ajudava em nada. E ele iria ver . E sua namorada nem se preocupava em dar sinal de vida. E...
- ? ! - chamava pelo amigo, despertando-o de seus devaneios.
- Ah, o-oi, , desculpa. Acabei viajando aqui...
- Aconteceu alguma coisa, ? - A garota perguntou preocupada com a reação dele; por mais que tentasse, não conseguia o decifrar.
- Não, não, tá tudo bem. - E ela o olhou em sinal de dúvida. - Sério. Prometo.
- Olha lá hein, , se continuar assim, vou ter de te dar algumas cervejinhas...
E ele gelou só de pensar. E, mesmo caindo na risada junto com a amiga, ele sabia que aquilo não poderia acontecer. NÃO. Ele estava decidido a não fazer merda de novo. Não importava se não o ligava; ele tinha decidido mudar. E iria. Só precisava se livrar das tentações, ou melhor: precisava que as tentações se livrassem dele. Mas o short de não ajudava. Nem o decote. E ele não queria nem ver o que seria dele quando visse .
- Fala dude, e aí, qual a boa? - o recebeu de forma simpática, e ele retribuiu. Lembrou de alguns flashes da noite anterior e estava presente em muitas risadas.
tinha, realmente, amigos legais. E estavam todos ali; , , e... , que o recebeu normalmente como se nada nunca tivesse acontecido. E ele gemeu baixo. A bebida, ainda bem, não o tinha ferrado tanto: ela era sensacional. E ele latejava de tanta excitação. , percebendo o desconforto - ou o conforto imenso, quem sabe - do amigo, o puxou pelo braço e o levou para o sofá, mantendo-o afastado de , mas ao lado dela. não sabia se ficava aliviado por estar afastado de ou nervoso por estar ao lado da amiga. "Puta que pariu...", era tudo o que o garoto conseguia pensar.
- Ei, , já viu esse filme? - jogou a capa do dvd do filme de “terror”, Garota Infernal. "Megan Fox? Ah, to bem tranquilo pra vê-la..."
- Nem vi, dude, deve ser bom... Eu topo!
tentava esconder o nervosismo que o invadia. Ele era simplesmente louco pela Fox e estava, igualmente, louco para terminar o que havia começado na noite anterior com . E com certeza o filme aumentaria essa vontade... Mas ele iria se controlar. então entregou os baldes de pipoca, os refrigerantes, as almofadas e as cobertas após ligar o ar condicionado. E, quando ele colocou o DVD, sentiu o olhar de queimando sobre ele. A garota o olhava com vontade e tinha um riso torto brincando em seus lábios; o desejava enquanto ele apenas tentava desviar a atenção. E, como se não bastasse isso, rapidamente viu se ajeitar deitando a cabeça na almofada em cima das pernas dele, sem aviso prévio. “To fudido...”
- ...? – o chamou baixo, receosa, e continuou após ele murmurar um “oi” – Faz cafuné?
Foi impossível não rir sozinho com o pedido da garota; pelo menos algo ainda conseguia o fazer rir sem ser de nervoso. Ao levar as mãos ao cabelo da amiga, pode ver o olhar confuso de e riu por dentro ao imaginar o que ela estava pensando. Será que achava que eles estavam tendo um caso? Oh, não. “Queria eu...”, disse ao dar uma rápida olhada nas pernas da amiga e parou em seu decote que, por estar deitada, mostrava mais do que o que deveria mostrar. Bem mais.
sentia o amigo distante e ficava triste com isso. Sentia-se culpada por ter deixado dar em cima dele na festa, mesmo não sabendo que isso o deixaria tão mal. Também não poderia usar a desculpa do álcool, visto que ela nem estava assim tão bêbada; a imprudência sozinha a invadira. No entanto ela não havia agido na má intenção; nem imaginava que fosse o tipo de garoto fiel e certinho que estava se mostrando ser. E mal ela sabia que ele estava apenas se mostrando ser. Ela não gostava de saber que alguém tão alto astral como estava para baixo, impedindo que os novos amigos pudessem rir de suas piadas, que ela tanto gostava de ouvir. No entanto, mesmo que não a fizesse se sentir bem com suas piadas, o fazia com o cafuné. A garota, que o sentia rígido e distante, amolecia-se com os toques que ele dava em sua cabeça e arrepiava-se quando as mãos de subiam e desciam por suas costas e nuca até alcançarem novamente seu cabelo. E então ela corou rapidamente por pensar, sem controle, no ótimo movimento de suas mãos – dedos – e como eles podiam dar mais prazer e, num impulso, sem querer, ela apertou depressa o joelho do amigo.
- Oi? - a despertou de seus pensamentos eróticos com um sussurro em seu ouvido, a fazendo virar rapidamente, ficando a poucos centímetros do rosto do amigo.
- Hm, na-nada... Não foi nada... – A resposta saiu após alguns longos segundos de olhos nos olhos e frio nas barrigas, constrangidos pela pouca distância que os separava.
então se voltou para a televisão e fingiu estar prestando atenção ao filme, deixando achar que ela o apertou por medo das cenas de suspense que já começavam a aparecer. A garota começou a ficar distante, assim como o amigo, e perturbada com o que havia acontecido. Tinha aparecido certa... Vontade. Um desejo de vencer a distância e alcançar a boca que estava do outro lado, de aproximar os corpos. Os gostos. E isso tudo ferrou com . Esse, que já estava na excitação por causa da noite passada, piorou ainda mais depois desse momento. O corpo da amiga o chamava e ele não conseguia tirar os olhos dos seios, que estavam bem à mostra para ele. Ele estava errado, sabia que não podia pensar nisso; tinha namorado e ele também tinha a . E ele não queria mais um problema para se preocupar. No entanto, as vontades vão aparecendo ou vão crescendo silenciosamente, sendo impossível de controlar. , imerso em pensamentos, aumentava o ritmo do cafuné cada vez mais, fazendo se arrepiar com mais frequência. Ela, arrepiada, olhava para a televisão e só enxergava o corpo de e o sorriso dele colado no seu, e estremecia a cada leve puxão que ele dava em seu cafuné. E, sem aviso, se levantou brusca e rapidamente, deixando a cabeça da amiga cair no sofá. Seguindo caminho para a cozinha, resolveu acreditar que um copo de água bem gelada ajudaria a apagar o fogo que crescia dentro dele e, se possível fosse, ele se enfiaria dentro de uma banheira de gelo, se funcionasse. Estava passando, ou aliviando, pelo menos. Ambos, mesmo em cômodos diferentes, suspiraram de alívio quando se afastaram. A garota começou a apertar as almofadas para dar um escape à tensão que a invadira. , na cozinha, bebia compulsivamente copos de água gelada intercalando com fortes respirações para afastar os pensamentos. Aos poucos eles iam voltando ao normal, esquecendo as imagens e os desejos que passaram pelas suas cabeças há minutos. No entanto, a calmaria não durou muito. Um pouco depois de entrar na cozinha, seguiu o mesmo caminho agradecendo por estarem – quase – todos compenetrados no filme que passava. Ela ia devagar e silenciosa e, quando entrou na cozinha, pulou em um susto, quase derrubando seu copo d’água.
- Olá, ... Como vai? – se aproximou dele e roubou seu copo de água, terminando o resto que havia ali dentro. E lembrou que, na noite passada, ela havia chegado do mesmo jeito... Mas não iria terminar do mesmo jeito. Nem chegaria perto, inclusive.
- Vou muito bem, obrigado. E você? – Ele se esquivou e saiu de perto da garota, indo para frente da janela em uma tentativa de respirar melhor e mandar embora novamente todos os pensamentos que voltavam a aparecer. Mas não desistiria tão fácil.
- Olha, , eu até que estou bem... Mas ficaria bem melhor se você me desse uma atençãozinha, vai...
- - se virou cuidadosamente para encará-la, segurando os braços dela para mantê-la distante de seu corpo –, presta atenção aqui. Aquilo tudo foi um puta erro. Você aproveitou que eu estava bêbado e eu, sem noção nenhuma, caí nessa... Fiz merda. E não irei repetir isso.
- Olha bem pra mim, . – Ela se afastou um pouco, deixando que ele pudesse olhá-la por inteiro e, depois, voltou a grudar no garoto nos pés de sua orelha – Você acha mesmo que foi só a bebida? Eu vi o jeito que você me olhou hoje...
- Você anda vendo coisas demais. – tentava fugir dos braços de e dos sussurros que ela dava em seu ouvido, mas ele não conseguia força de vontade o suficiente para isso.
- E é coisa da minha cabeça também ou tá rolando algo entre você e a ? – A garota agora brincava com a gola da camisa dele, ainda mantendo os troncos colados, e falava com a voz mais manhosa que poderia fazer.
- O q-quê? Você tá... Maluca? – conseguiu, por fim, se afastar da menina, que tocou nesse assunto tão... Absurdo. – Ela tem namorado, minha filha, e eu também! Inclusive, é por causa disso que não quero você por perto.
- Sei lá, eu vi algum clima, mas você tá certo, até... Se rolasse algo entre vocês ela nunca teria me deixado dar em cima de você. – agora caminhava de um lado para o outro da cozinha, antes de avançar novamente para ele. – Mas quanto à sua namorada, ... Ela também não está por perto.
não soube de onde conseguiu uma força de vontade tão grande para sair dali. Ela quase havia o tirado da Terra com tamanha aproximação; chegara tão perto que ele quase beijava sua boca sem o menor esforço, e suas mãos estavam – sem querer, querendo – tocando nas coxas descobertas dela. No entanto, mesmo que estivesse aéreo e imerso em pensamentos impuros com ela, conseguiu se afastar e retirar-se dali e, quando percebeu, estava trancado no banheiro com seu pênis totalmente ereto. Num impulso irracional, ele levou suas mãos ao órgão e começou a se masturbar em uma velocidade que ia aumentando cada vez mais. o iria enlouquecer. E sem mais, nem por que, lembrou de momentos antes, quando rolou o “clima” – nas palavras de – entre eles dois. o enlouqueceria... Mas era que o faria perder a cabeça. E era ela que estava reinando em sua mente enquanto ele tentava apagar sozinho o seu fogo. Se pensasse em , broxaria; não por falta de amor, mas por raiva. Momento ingratidão chegando e ele voltava a culpá-la por tudo isso. Ela não mandava notícias, ela não ligava, ela não mandava aos céus um sinal de SOS. Nada. E estava ali, ao lado dele... Extremamente linda. Atraente. E quando ele não conseguiu mais segurar seu orgasmo e gozou por fim, alguém bateu na porta.
- ? - “Puta que pariu”, era só o que passava na cabeça dele agora. - ! Abre a porta! - falava do outro lado enquanto dava batidas na porta.
- Não dá, ... Espera um po-pouco... – O menino estava nervoso. Ou melhor: estava perdido.
- . Abra. Essa. Porta. AGORA! – gritou a última palavra ainda com o cuidado de não deixar ninguém na sala ouvir seus berros e batidas. “Merda, merda, merda...”, pensava enquanto se ajeitava em sua bermuda. Infelizmente, não broxou. Pelo contrário, imaginar-se no banheiro com estava contribuindo ainda mais para a sua excitação. E estava difícil esconder a ereção, mas não tinha outro jeito e, então, entreabriu a porta.
- Oi? – O garoto colocou apenas a cabeça para fora, acreditando que poderia enrolar a amiga, fazendo-a ir embora.
- Como assim “oi”, garoto? Abre logo essa porta, eu preciso entrar, estou apertada e...
- , vai no outro banheiro, por favor?
- Não tem outro banheiro aqui, animal, só tem esse, então abre logo essa portaaaaa... – forçou tanto até que, por fim, conseguiu empurrar e abrir a porta para entrar no banheiro e... – Oh, meu Deus! ! – E então a garota não conseguiu parar de rir.
- Para, , shiu... Fica quieta...
- ! Você tá se masturbando no banheiro do ! – E mais risadas...
- É isso aí mesmo. E daí? Nunca viu, né... Quer fazer um carinho aqui também? – se estressou; já era humilhante demais ter sido pego fazendo isso logo por . E, por um instante, desejou mesmo que ela o tocasse. Assim também ela o fez, e a timidez reinou no lugar.
- Certo, desculpa... Mas, afinal, foi a que fez isso aí? – perguntou em um misto de divertimento e preocupação. Ela havia visto que o seguira até a cozinha e depois ele saíra em disparada, se trancando no banheiro.
- Nem me fale, ... Que garota impulsiva. Só eu sei o quanto foi foda dispensá-la, viu.
- É... Ela é bonita, mesmo. Mas relaxa, assim que ela entender que você não quer mesmo nada com ela, ela vai parar.
- Certo, assim espero... Agora vira pra lá que eu preciso tentar arrumar isso aqui. – Ele fez sinal para ela se virar pra janela enquanto ele tentava esconder ainda mais o seu amigo.
A menina o obedeceu, o que foi uma péssima – ou não – ideia. Depois de alguns segundos fitando a paisagem fora da janela, enquanto tentava se ajeitar, ela de repente soltou um som inteligível, mas facilmente reconhecido como uma indignação. Já era.
- Mas o quê...? Como assim? Não pode ser... – se inclinava o máximo para a janela e forçava os olhos na tentativa de enxergar melhor. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Sem pensar, se virou de volta para dentro do banheiro, mas nem sequer percebeu . Ela sabia que tinha um binóculo no banheiro; ele o usava para ver a vizinha gata do outro prédio enquanto se masturbava. Tenso e nojento, pois é. ficou paralisado, sem entender nada, enquanto abria todas as gavetas do armário à procura do tal binóculo. E, quando o achou, correu desesperadamente para a janela novamente e o colocou em frente aos olhos.
Não podia ser.
Mas era.
conseguiu reconhecer o carro de Adam, seu namorado, e, com o binóculo, pode confirmar que era mesmo o dito cujo. Com outra. Conversa vai, risinhos vem, e então apareceu o beijo. Um beijo demorado de despedida antes de ela sair do carro. Uma vadia loira e gostosa em um mini vestido saía do carro entre sorrisos, jogando beijinhos ao ar para Adam. “Filho da puta.” quis abrir a janela e gritar. Quis jogar alguma coisa no carro dele, na cabeça dele. Um tiro, talvez. Ele havia a enganado durante todos aqueles meses. Havia a prendido, proibido de outros caras gatos para, no fim, receber um par de chifres. Ou talvez até mais pares, quem sabe. Ela estava cheia de ódio, por pior que isso fosse. Detestava a ideia de ser traída, de ser enganada... De ser feita de idiota. “Desgraçado.” Ele não podia ter feito isso com ela. sempre fora boa com ele. E boa até demais, no sentido sexo, inclusive. Mas sempre o tratou bem para agora receber isso em troca? “Pinto pequeno.”
- ...? Tá tudo bem? – , já ajeitado, perguntou cuidadoso para a amiga; ficara preocupado com a mudança repentina.
E tudo passou muito rápido na cabeça de após ela ter sido puxada de volta para a realidade por . Estava com raiva, muita raiva; mas estava trancada no banheiro com um completamente excitado. E ela só conseguia pensar em quanta coisa ela perdeu por estar com Adam. Quanto tempo perdido. Quanto prazer perdido. A loira que estava com Adam era gostosa, mas sabia que era melhor e ele era um idiota. Ou, pelo menos, era nisso que ela se forçava a acreditar. Por fim, se virou de volta para o banheiro e pode ver parado em sua frente, preocupado com o misto de emoções que se encontravam no rosto da amiga. E, de repente, não existia mais Adam. Não existia mais loira. Só existia o fogo que subia por suas pernas, igual ao momento antes no sofá. Só existia o olhar dele no seu, e a feição dele, que mudou de preocupação para desejo novamente. Num impulso totalmente surpresa, se afastou da janela e diminuiu a distância entre as bocas em um beijo intenso. A distância entre os corpos também não existia mais. A garota abraçou o pescoço de enquanto apertava sua nuca, e ele automaticamente levou seus braços para a cintura da amiga, puxando-a ainda mais contra ele. a empurrou contra a parede ao lado da janela e começou a beijar desesperadamente o pescoço dela, enquanto levava suas mãos para baixo da camisa dele, o arranhando desde a nuca até a cintura. Ambos se arrepiavam a cada toque de corpos, a cada toque de línguas. Ela soltava gemidos baixos nos ouvidos de , deliciada com o movimento dos lábios dele em seu pescoço, enquanto ele dava chupões cada vez mais fortes na região. então se apoiou forte nos ombros largos do garoto e, num impulso, ficou em seu colo envolvendo a cintura dele com suas pernas, o deixando livre para tocar as coxas que ele tanto olhava. Mas tocar era pouco, apertava as coxas de enquanto subia a outra mão por dentro da blusa da garota. Essa, em seu colo, pôde sentir melhor o pênis do amigo, que já voltara a dar sinal de vida abaixo dela e, então, desceu do colo dele rapidamente e o empurrou sentado no vaso sanitário, sentando em seu colo e cruzando suas pernas novamente em volta da cintura dele logo em seguida. Ela não podia se segurar, estava a deixando maluca com cada toque que ele dava. Então, quando ele puxou levemente os cabelos dela para trás, ela deixou sua cabeça cair, o permitindo invadir toda a área de seu colo. alternava seus chupões e beijos pelo pescoço e colo da amiga, até chegar ao decote, realizando seu desejo. E quando ele começou a passar a língua em seus seios, o pressionou ainda mais contra ele, podendo sentir melhor o pênis abaixo dela, e começou a se movimentar em vai e vem acima dele. a abraçava cada vez mais, alisando as costas e apertando a nuca da amiga enquanto concentrava sua boca no decote, aumentando a rapidez conforme perdia o controle com a movimentação dela. , com as mãos por dentro da camisa dele, apertava e arranhava cada parte das costas do amigo, sentindo seus músculos enrijecerem a cada toque seu.
E, quando eles se preparavam para jogar as camisas longes, o celular de começou a tocar, quebrando todo clima. Clássico. Foi como um sinal de volta à realidade; eles acordaram e perceberam, por fim, o que estavam fazendo. saiu do colo de , desnorteada, e ele continuou ali, parado, alheio a qualquer tipo de acontecimento à sua volta. Ela olhou para o celular e depois olhou para a janela. Eles ainda estavam ali, conversando. E, por fim, olhou pra . Com todo o cabelo bagunçado, blusa amassada e arranhões pelos braços. Ele estava... Lindo. Enquanto respiravam alto e rápido, pensavam na merda que havia sido feita. A traição voltava a reinar. Ela estava toda vermelha, marcada de chupões e com o cabelo praticamente em pé. E pior... Estava totalmente entregue a ele. E ele era de outra.
Olhou de volta para a janela e se sentiu culpada. estava como ela; traída. E nem fazia a menor ideia.
Por fim, voltou-se pra e, em um olhar de desculpas, se ajeitou e saiu do banheiro, fechando atrás a porta.
V
Certo. não sabia que merda era aquela. Alguns segundos tinham se passado e ele continuava ali, sentado na tampa do vaso sanitário, enquanto saía pela porta deixando-o sozinho novamente. Era mentira? Ele apostava que era sacanagem, só podia. Há poucos minutos ele estava no banheiro sozinho, se masturbando enquanto pensava nela, e então aparecia e o agarrava de repente. se levantou, ainda confuso, pegando o caminho da janela. Precisava de ar, aquilo realmente estava o deixando louco e...
- Que porra é essa?
, ao se apoiar em frente a janela, avistou Adam e a garota desconhecida que - sim - continuavam a conversar no outro lado da rua. O garoto continuou olhando quando os dois trocaram um beijo e Adam arrancou finalmente o carro e a deixou seguir seu caminho. O queixo de caía enquanto ele tentava segurar sua raiva; agora sim estava entendendo o que acabara de acontecer. havia visto o namorado com outra.
- Aquele filho da mãe...
queria sair correndo atrás de Adam e acabar com a raça do infeliz. E, então, as lembranças vinham como flashes em sua memória. lembrou-se da festa e que Adam havia o deixado sozinho de repente, depois de se encontrar com duas outras mulheres. Claro. Ele havia se deixado levar pela simpatia do cara e não conseguia entender como foi tão idiota ao ponto de acreditar que aquela popularidade com as mulheres, juntamente com a beleza, seriam fieis. Ok, estava generalizando e ele sabia, mas não se importava. Odiava o fato de sua amiga ter sido traída por um idiota desse nível. Se bem que ele também havia traído ... Mas era outra situação. Era isso que ele se obrigava a acreditar. Se bem, também, que ele já não sabia se ainda era apenas uma amiga. Vontades estavam começando a surgir. Coisas estavam começando a serem feitas. E, mais uma vez, ele se sentiu um idiota.
Ela tinha visto seu namorado - futuro ex? - com outra. E, então, havia agarrado ele? A raiva começava a subir à cabeça de e talvez tenha sido essa mesma raiva que havia feito se pendurar no pescoço do amigo. "Então ela me usou?", era tudo o que ele conseguia pensar. Para ela, então, não teve sentimentos, não teve vontades... Só raiva, só dor. Só vontade de dar o troco. Em um impulso, fechou seus dedos e atingiu a parede em um soco sem piedade; doeu, mas a raiva era maior do que qualquer dor física que ele pudesse sentir. De onde vinha tanta raiva, afinal? Ela era apenas uma amiga... Ela era apenas uma amiga que tinha visto o namorado beijando outra, e então tinha o agarrado pra valer. Que não tinha se preocupado com o fato de ele não se sentir bem por ter traído sua namorada. E que estava o deixando maluco.
- Puta que pariu...
Após fechar a porta do banheiro atrás de si, se ajeitou e correu para a sala para pegar suas coisas. Não poderia continuar ali. Não depois do que tinha visto... Não depois do que tinha feito. Se despediu rapidamente dos amigos, que não entenderam nada - o suspense do final do filme ajudou a situação -, entrou no carro e seguiu adiante. Deixara para trás, ele iria arranjar um outro meio de voltar para casa. Deixara para trás, com o cabelo bagunçado, roupas amassadas e mãos vazias. As mesmas mãos que a apertavam há poucos minutos agora socavam paredes e apertavam a nuca, sem entender absolutamente nada; ou entendendo tudo, o que é pior. A garota não sabia se sentia mais raiva de si própria ou de Adam. Sim, parece estranho; mas, por mais que Adam tenha sido um completo idiota, ela havia agarrado seu melhor amigo sem quê nem por quê. E pior, sabendo que ele estava mal por ter traído . não merecia isso... Mas ela também não merecia alguém como Adam.
- Ah, por favor, ... Você não era tão apaixonada assim.
Ela estava certa; Adam era apenas um cara bonito que era uma boa companhia e gostava dela. Quer dizer, ela achava que ele gostava. Mas se sentia bem com ele... No entanto, aquele amor das primeiras semanas de namoro havia acabado rápido demais. Estava com ele por rotina, por carência e por risos; mais nada. Apesar disso, continuava magoada. Não conseguia entender o porquê de alguém fazer isso; mesmo que não o amasse como queria amar um namorado, ela nunca havia o traído. E agora ela sabia que bem que ele merecia ter ganhado um belo par de chifres, porque homens não faltaram - ui. Odiava ter sido idiota por não ter percebido. Odiava por ter sido idiota e fazer o que fez com . Sem perceber, estacionou o carro na esquina de sua rua e começou a chorar. No rádio tocava algum rock pesado desconhecido que podia abafar os soluços de raiva que insistiam em sair pela garganta da garota. Não era tristeza, era raiva. Quanta raiva. E esse era o motivo ideal para ela chorar e gritar junto com o solo de guitarra que invadia o carro. não parava de repetir um "idiota" enquanto estava escondida em seu carro. Um "idiota" sem destinatário certo; ela, Adam ou até , por ser tão irresistível. E mais "idiotas" surgiam por ela pensar isso de seu amigo, que era praticamente um irmão. Era. Porque ela nunca faria o que fez com um irmão de verdade... Nunca desejaria continuar fazendo essas coisas com um irmão de verdade. Idiota, de novo. Por mais que estivesse chorando, com raiva e ciente da traição de seu namorado, ela continuava pensando em .
havia saído da casa alguns minutos após , dando a desculpa de que sua mãe havia o chamado, mas ninguém havia o dado importância direito graças à Megan Fox coberta de sangue na tela da televisão. Sua mão latejava, mas sua cabeça estava pior. E, para piorar, tinha o deixado sozinho, tendo de pegar um táxi. O garoto deu o endereço de ao motorista sem pensar; queria ir para casa, mas seus pensamentos insistiam em se voltar para ela. Em contra partida, ele insistia na raiva. Na decepção. Insistia em sentir isso por ela ter desrespeitado sua consciência pesada por ter traído ; mas, na verdade, era decepção e raiva por não ter sido verdadeiro. "Idiota. Ela é sua amiga... Não tinha por que ela ter te agarrado.", ele se amaldiçoava por ser ter se iludido. O que o garoto não esperava era se deparar com o carro de estacionado na esquina da rua dela.
- Cara, vai devagar aí! - cutucou o motorista do táxi.
Ao desacelerar o carro, pode perceber que estava dentro do seu veículo e chorava. Parecia também gritar enquanto dava tapas no volante; devia estar escutando alguma música. , por um instante, desejou ir até ela e abraçá-la, deixá-la chorar em seu ombro e despejar toda a raiva de ter sido traída. Raiva. Mas ele também estava com raiva dela. "Pare de ter pena, seu idiota!".
- Ela faz merda e depois vai chorar sozinha, escondida em seu carro. Ótimo. Deveria ser forte o suficiente para pedir desculpas...
- Desculpe, senhor? - O motorista interrompeu os devaneios altos de , sem entender nada.
- Oh, me desculpe, não foi nada... Pode parar aqui, por favor.
O motorista, então, parou em frente à casa de e foi embora após pagar e descer do táxi. O garoto não sabia o que fazer; parecia ter sido petrificado na calçada dela enquanto forçava sua visão tentando, em vão, ver o carro da amiga parado no fim da rua. À parte a distância, sua imaginação o trazia os sons do choro dela. Os soluços. Por que chorava? Por que parecia gritar e se debater dentro do carro? Queria saber se a culpa que ela parecia sentir era por conta da traição dele - Adam - ou da dela. Queria olhar nos olhos dela e descobrir o que se passava naquela cabeça. Puxá-la pelo braço e a chamar de criança, de ridícula - ou simplesmente a colocar contra ele mesmo e continuar a cena do banheiro. A criança dele. "Merda. Que porra você tá pensando, ?!". Ele sabia que não iria dar certo, que ia querer tê-la em seus braços de novo. Não iria conseguir olhá-la e não tocar naquele corpo todo no lugar - no lugar dela, mas o queria no lugar dele. E, com as mãos nos bolsos, o garoto olhou pela última vez no horizonte do carro de , deu meia volta e seguiu em frente para sua própria casa.
Ainda bem que coincidências nem sempre dão as caras.
se sentia uma estúpida por chorar por Adam. Por ter agarrado . E por querer fazer tudo de novo. Forçando-se a engolir o choro, ela respirou fundo e limpou o rosto com lenços que guardava no porta-luvas. Um pouco do rímel fugia de seus cílios e soluços queriam rasgar sua garganta, mas ela era forte. Levantou a cabeça e ligou novamente seu carro, arrancando devagar pela rua que parecia deserta em pleno fim de tarde. Estaria deserta se não fosse por uma única pessoa quase virando a esquina. Com as janelas abertas, mesmo de longe, a garota ainda conseguia sentir o cheiro; o perfume de . Não sabia se a fragrância havia ficado presa em sua roupa ou se o vento podia carregá-lo por tantos metros, mas era ele e ela sabia. Semicerrando os olhos, ela pode enxergar quase nitidamente a roupa que confirmava a já certeza de que aquele era . E, ao vê-lo virando a esquina e desaparecendo de seu campo de visão, um frio invadiu sua barriga sem pedir permissão para entrar. A garota estacionou o carro por automático, ainda alheia às coisas à sua volta, e agradeceu por estar sozinha em casa se livrando, assim, de perguntas sobre seu humor indecifrável. Deitou em sua cama e encarou o teto vazio em contraste com sua cabeça cheia de dúvidas. "O que queria? O que ele tinha vindo fazer? Por que ele não tinha a esperado? Oh, meu Deus, será que ele descobriu sobre Adam?". Infelizmente eram perguntas que esperariam muito por respostas; esperariam deitadas, assim como estava. E sozinhas. E confusas. A garota quis ir atrás dele, atravessar as ruas que os separavam e arrancar-lhe as respostas. Arrancar-lhe outro beijo. E então ela voltava a se odiar por querer mais, por não entender o lado dele. Por não se entender. "Que diabos tá acontecendo comigo?". não sabia de onde aquela vontade estava surgindo, por que aquele fogo aparecia só de pensar em ser tocada e tocá-lo de novo. Mas talvez nem quisesse saber. Não queria se assustar, não queria pensar... Nem perder tempo pensando em um motivo, pois esse conhecimento não iria mudar nada. O beijo dele iria continuar parecendo uma droga viciante, não dando vontade de parar. As mãos dele ainda saberiam os caminhos certos e seu cheiro continuaria em seu nariz, em sua mente. Por quê? Por quê? Dane-se. O circo já estava armado. E ela, além de se sentir uma palhaça, se diria uma leoa.
Totalmente em função do seu domador.
VI
Uma semana havia se passado com tentando, com sucesso, evitar . Sempre que seus pais iam visitar os amigos, ele inventava um telefonema com - que finalmente tinha dado sinal de vida -, e, quando sabia que iriam até a casa dele, inventava uma compra de última hora para a faculdade, que começaria em poucos dias. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde teria de encarar a situação, mas não queria. Não era só a raiva que o atingia, era também o desejo, apesar de tudo. Ele não pensava em 24h por dia; na verdade, não pensava nem por cinco minutos - a não ser para lembrar da raiva. Entretanto, sabia que, assim que estivesse ao lado dela, iria querer agarrá-la novamente e terminar o momento do banheiro. E começar outros.
não havia tentado entrar em contato com o garoto. Entendeu sua vontade de distância assim que ele não veio com seus pais em uma visita e não estava em casa quando foram até a casa dele. Sendo assim, não o ligou. Não o procurou na internet. E se arrependia cada vez mais de ter se atirado nos braços dele e de ter sido tão idiota por ter caído no papo de Adam. E por querer se atirar de novo nos braços de . Se perguntava até quando isso iria durar, o desejo e a raiva dele por ela. Queria ter a chance de se explicar e de pedir desculpas pelo que fez, mas sabia que não ia conseguir olhá-lo e não sentir vontade de ter um outro beijo. E que beijo. Pensando bem, ela sabia, era melhor que eles se afastassem por enquanto para ver se o fogo abaixava.
- Já vai! - A campainha tocava e já sabia que era Adam que havia chegado. - Oi, Adam.
- Oi, minha linda! - O garoto entrou quando ela abriu a porta e se inclinou para dar um beijo, que foi negado.
- Bem... Não se preocupe, serei breve. O namoro está terminado.
- Ahn? Como? O quê? - Adam estava perdido... Ela foi mais breve e direta do que ele imaginava. E como assim estava terminando com ele?
- O. Namoro. Está. Terminado. Posso soletrar ou desenhar, se você quiser. - A garota disse indiferente, ainda segurando na maçaneta da porta aberta.
- Por que isso, ? DO NADA! Você não pode estar terminando comigo... Qual é!
- Porque sim, ora bolas. Não quero mais continuar com isso. Não te amo mais. Se bem que nem sei se um dia te amei de verdade, mas enfim... Chega. - Ela não entendia o drama do menino. "Mas que porra, você ta me traindo, seu idiota, para de draminha e fique feliz logo!" Mas ele não entendia o porquê daquilo tudo. E não ia falar o verdadeiro motivo, óbvio que não. Nem a pau que ela diria que descobriu e estava terminando por isso, dando uma de vítima indignada. Ele não iria ficar sabendo que ela sabia, e então ela sairia por cima. É, aprendam.
- , por favor, não faz isso. Claro que você me amou, a gente se ama. A gente é tão feliz, cara... - Sério que ela tava terminando tudo? Ele não podia acreditar, não queria acreditar. Tudo bem que ele sempre dava as escapadas dele e nem era assim apaixonado pela . Ficava com ela só porque ela era muito gostosa, popular e divertida. E porque era legal para ele ser comprometido, dava mais status... Ela não podia terminar. "Qual o problema dessa idiota?"
- Blá, blá, blá. Já chega, Adam. Cansei de você, me deixa em paz. Não quero mais e pronto, adeus.
- COMO ASSIM NÃO QUER MAIS E PRONTO? SE TOCA, GAROTA. OLHA PRA MIM! ONDE VOCÊ PENSA QUE ACHARÁ OUTRO COMO EU?
- Você? - "Grande merda você", ela pensou. Mas não quis falar para não piorar a situação. - Olha, Adam. Não é como se eu estivesse querendo outro... - Mentira! - Nem que eu esteja acabando com você pra me ver livre para ter algo com outro... - Mentira dupla! - Eu simplesmente não tenho ninguém em mente - Tripla! - e nem quero achar alguém. Eu apenas não quero mais namoro, cansei. Pra que me prender sendo que não gosto mais de você? Vai viver sua vida e me deixa viver a minha, tá legal?
- Ma-mas... ...
- Adeus, Adam.
- Quer saber? Adeus, sua ridícula. Que alívio você me deu.
E com isso ele foi embora, deixando a garota rir sozinha. Como se ela fosse se abalar com essa revolta de drama queen, fala sério. Era um baita de um alívio mesmo se ver longe dele, agora ela sentia os chifres pesando em sua cabeça. A raiva já havia passado em parte, ela percebeu que foi melhor assim. Realmente não tinha mais os mesmos sentimentos por Adam, e se sentia péssima por ver realmente que estava sendo apenas um namoro de fachada... Mas o colegial já havia terminado, não tinha por que continuar com isso, já que agora, na faculdade, seria uma vida nova. Tudo bem que continuaria o vendo pelo campus, mas e daí? Ele estava livre para experimentar as novas garotas abertamente - já que experimentaria de qualquer jeito, só que escondido - e ela estaria livre para conhecer e se envolver com quem quisesse. Entretanto, quem ela queria no momento não estava assim tão livre e... "Caralho, . Para de pensar no !" Mas era inevitável. Quando se descuidava, era atingida pelas lembranças do beijo, do toque de , e se arrepiava dos pés à cabeça. Só que ele estava morrendo de raiva dela. E ela tinha de parar com esse desejo.
- Iuhuuuu, cheguei. - adentrava o apartamento de para a reunião de amigos. Já estavam todos lá, , , e , apenas esperando ela para decidirem a noite.
- E aí, vadia. Qual a boa?
- Vadia é a tua mãe, ! Eu ainda não sou... Mas já posso começar a ser! - disse com um sorriso malicioso no rosto, como se tivesse algo para contar. E percebeu:
- ? O que está acontecendo por aqui?
- Segurem os homens dessa cidade, porque está solteira! - A garota falou começando a correr atrás de , que, assustado, tropeçou e caiu antes de ela chegar até ele.
- Levanta, idiota - Ela ajudou o amigo a levantar. - Pois bem, deixem-me explicar logo para tirar essas caras de suspresa do rosto de vocês. Eu terminei com o Adam... Eu descobri que a vadia aqui, na verdade, é corna. Eu o vi com outra pela janela do banheiro do aquele dia que fomos ver Garota Infernal... Mas já tá tudo bem - ela tentou acalmar os amigos, que estavam espantados -, eu to legal. Vocês sabem que nem era um namoro assim tão... amoroso. Mas enfim, acabei dizendo que não gostava mais dele e que estava cansada. Então, por favor, não espalhem que eu já sabia que sou corna. E, por favor de novo, não toquem mais no nome dele. Tudo que quero agora é aproveitar o tempo perdido! - levantou a mão e fez uma pose ridícula de heroína, que levou os amigos ao riso.
- Ui, que poder! Assim que se fala, amiga! - pulou na garota, zoando, enquanto todos davam gritinhos animados.
- Então, pra comemorar... Que tal você cair na balada, beber todas e dar pra todos os caras de Londres?
- Credo, ! Que asqueroso! - Ela dava tapas no ombro do amigo - Mas... O cair na balada e beber todas eu aceito. Dar... a gente vê.
A tarde passou agradável e, quando começava a anoitecer, cada um foi para suas casas se arrumar para sair à noite. queria chamar , mas sabia que ele não iria nem atender a sua ligação, quanto mais ao seu convite. E assim era melhor, não queria se descontrolar de novo perto dele. Se aliviou também por saber que não corria o risco de encontrá-lo na boate, já que ele ainda não tinha feito amigos em Londres além dos que ela mesma apresentou. No entanto, isso logo iria terminar. Já era sábado e as aulas começavam na segunda-feira. Ela teria de encarar finalmente e ele, com certeza, faria amigos logo de cara, fazendo com que ela já começasse a correr o risco de encontrá-lo por Londres. E esperava, desejava mais que tudo, que eles ficassem bem, e que esse fogo todo passasse. Então ela que o apagasse com algum outro qualquer por aí.
- ... ! Vamos, me segura... - conseguia ouvir seu nome sendo chamado em algum lugar, e deveria ser em algum lugar muito longe, porque as vozes estavam quase mudas. E essa música alta que não parava de tocar era o quê? Ela não entendia. A garota levava as mãos aos ouvidos e se contorcia em meio à risadas e murmúrios que reclamavam da música e das pessoas que a chamavam. -, para! Tá me ouvindo? ... - E tudo o que ela conseguia fazer era soltar sons impossíveis de gerar um sentido e mal se aguentava em pé. E aquele cheiro? Forte. Era perfume de homem? Blé. Por que tão enjoativo? E forte? E enjoativo? Havia cerveja também, mas ela não conseguia separar um cheiro do outro e não suportava mais respirar aquilo. Muito forte. Muito enjoativo. Essas eram as únicas palavras que ela conseguia se lembrar de pensar antes de parar um riso histérico e sem motivo para dar espaço ao vômito. Ouviu então o barulho de carros e, graças a Deus, havia vomitado fora da boate. Sim, boate, ela estava em uma boate! E ela riu mais ainda depois de sua conclusão brilhante enquanto ouvia barulhos em reprovação ainda por causa do vômito.
- Táxi! - gritou, mas ela não pode reconhecer a voz do amigo. Enquanto isso, os outros tentavam apoiá-la nos ombros, um de cada lado dela, mas não estavam tendo tanto sucesso assim já que ela insistia em rir feito louca e se curvar para todos os lados. Ela então se sentiu sendo suspendida do chão e, logo após, já estava sentada em algum lugar em movimento. No táxi.
- E-e-e-ei, esperem aí... E a minha festinha, ahn? Casa não, casa não... Ainda está tãoooo... cedoooo... - falava com dificuldade, e a dificuldade maior era para os seus amigos entenderem. Mas a ignoraram. Depois de alguns minutos, a garota fora novamente retirada de seu conforto pelos braços de enquanto procurava a chave do apartamento da amiga na bolsa dela. Poucos segundos depois, pode sentir uma superfície macia e quente embaixo de seu corpo e mãos que percorriam ele e trocavam suas roupas. Mas seus olhos estavam muito pesados para ela ver alguma coisa, e sua boca muito mole para conseguir dizer algo decente. Os amigos a deixaram dormir e então foram para casa com pena de , imaginando a ressaca que ela teria quando acordasse. E, pior, a ressaca moral que ela teria quando descobrisse o que tinha acontecido.
Durma bem, Cinderela.
VII
mal conseguia abrir os olhos de tanta dor de cabeça que a atingia. Ainda bem, pensou ela, que as cortinas estavam fechadas e não permitiam muita luz entrar, fazendo com que a luz mais forte no quarto fosse a de seu relógio digital, que anunciava faltar pouco para às três da tarde. Fez todo o esforço que pôde para se levantar e sentar na cama; a tontura era tanta que ela não se atreveria a ficar em pé tão rápido. Sua cabeça pesava e seu pescoço parecia sem forças para sustentá-la logo acima. O cheiro de álcool invadiu as narinas da garota e logo ela sentiu o enjoo que a fez correr, sem nem pensar em seu equilíbrio, para o banheiro. Enquanto vomitava, se arrependia amargamente de ter bebido tanto... Por que ela tinha feito isso mesmo? Demorou algum tempo para se lembrar da traição de Adam e, quando percebeu esse nome, vomitou ainda mais. Nojo. Mas tinha mais... Tinha mais enjoo dentro daquela barriga. Tinha mais nomes naquela cabeça. .
E então ela sorriu.
Mas voltou a enjoar quando se lembrou de suas ações e das reações que elas geraram e, mesmo assim, mesmo enjoada, ela continuava querendo mais o gosto dele. Mesmo sabendo que esse desejo que ela tinha a fazia ter nojo de si mesma. Era um ciclo que ela não sabia quebrar, mas então caiu a ficha: já era domingo. No outro dia, a faculdade começaria e ela teria de avistá-lo pelo campus. Avistá-lo lindo, e vendo outras percebendo também. Será que ele continuaria a evitá-la? Será que ele a daria uma chance para se explicar e se desculpar? Quem sabe.
Percebendo que já estava menos enjoada, a garota se levantou enquanto se apoiava nas paredes e foi se forçar a comer algo. Seus pais já não estavam mais em casa, o que a tranquilizava, já que não teria de dar explicações. Enquanto devorava um almoço que improvisou e tomava suco de laranja, via a enorme quantidade de ligações não atendidas e mensagens não lidas que estavam no seu celular. Provavelmente eram todas de seus amigos, preocupados com o estado dela e se ela ainda sobrevivia.
- Alô? ? Ai, aleluia! - atendeu o celular logo no primeiro toque. - Como você está? Eu te liguei milh... -
- Oi, amiga! Me desculpe! - disse interrompendo o sermão de - Eu acabei de acordar. Liguei só pra avisar que está tudo bem, só estou meio enjoada e cansada... Mas, sim, sobrevivi. Pode dar a notícia aos outros navegantes que também encheram minha caixa postal e de entrada.
- Não é pra menos, né, ? A gente te deixou praticamente morta na sua casa de madrugada. Deu até medo de te deixar sozinha. Você estava piradona, não falava nada com nada, isso quando falava alguma coisa! E... Fez cada absurdo...
- NÃO FALA! - deu um grito antes que a amiga pudesse continuar e contar o que acontecera na noite passada. - Eu não quero saber, . Acho melhor deixar isso suspenso da minha cabeça. Já foi, né? E eu tava bêbada. Desde que eu não tenha transado com alguém sem camisinha ou matado alguém, coisas que eu duvido muito que eu tenha feito, eu não quero saber.
- Bom... Ok então, né... - percebeu que a voz da amiga estava baixa e demorada demais, mau sinal. Mau sinal. Então resolveu acabar logo com isso.
- Amiga, vou desligar aqui. Tenho que terminar de comer e arrumar minhas coisas para amanhã. Avise a todos que estou bem, certo? Beijos!
O que diabos ela tinha feito na noite passada? Bem, ela não estava assim tão curiosa, mas desejava que não tivesse ficado com nenhum cara muito nojento. Nem que tivessem a filmado e colocado o vídeo no YouTube. Mas dane-se, ela não estava se importando muito com isso. Quem nunca ficou bêbado, não é? E nem se atreva a dizer "eu", porque, se ainda não ficou, um dia ficará. Olhando as mensagens e ligações, percebeu que nenhuma era de . Droga, até quando isso iria durar? Tudo bem que nem fazia tanto tempo assim que estavam sem se falar, mas também eles não tinham feito nada de demais. Foi só um beijo. E algumas outras pegadas quentes, mas e daí? Ele já tinha traído uma vez, duas vezes e, se duvidar, já deve ter traído antes da também. Ele não deve ser assim tão certo e estava duvidando de seu caráter. Quer dizer, tentando duvidar. Mas, mesmo assim, ela se arrependia. E seu arrependimento, apesar de enorme, ainda era menor que a vontade de fazer de novo. Cansada de seus pensamentos que não paravam de se voltar para , ela se levantou, lavou seu prato e copo e foi tomar banho. Passou a tarde preparando suas coisas para a faculdade, ansiosa para começar logo os estudos que sempre quis fazer. Também entrou nas redes sociais para ver se o tal estrago da noite passada chegou até elas, e ver que nada se tratava de sua bebedeira a acalmou. Tomou, então, alguns remédios para enjoo e foi dormir cedo para conseguir descansar mais.
O "amanhã" prometia.
passara o dia resolvendo as coisas relacionadas à sua grade da faculdade. Incrível como nada ali o atraía; tantas matérias e nenhuma parecia o agradar. Durante anos ele achou que, no fim, ele iria encontrar algo que o preenchesse, um curso que o fizesse, de fato, feliz, por mais clichê que isso possa parecer. Mas isso não aconteceu. No colegial, ele sempre gostava de tudo e achava defeito em todas as matérias ao mesmo tempo. No fim, acabou optando pela influência de seu pai, que era advogado, e resolveu entrar na faculdade de direito mesmo não sentindo aquela satisfação que as outras pessoas sentem quando estão no curso que as realizam. não se lembrava de ter visto seu pai tão feliz quanto como ele ficou quando soube que seu filho o seguiria na profissão e tratou de conversar com sua mãe para que viessem para Londres de volta, onde pudesse cursar a mesma faculdade que ele cursara quando mais novo. No começo, foi difícil de aceitar. Deixar toda uma vida formada para trás, todas as conquistas, os amigos, as lembranças... Mas à ideia de entrar na mesma faculdade que o Sr. somava-se uma melhor oportunidade de trabalho ao pai em Londres, e isso foi o que faltava para a decisão da mudança se tornar definitiva. E , por fim, teve de acatar.
O garoto levantou-se da cama e pegou seu violão. Dedilhava algumas coisas aleatórias enquanto pensava que talvez as coisas não sejam assim tão ruins. Que talvez ele acabe gostando do curso. No entanto, apesar de saber que essa hipótese realmente existia, queria sentir um frio na barriga de ansiedade antes de entrar na faculdade amanhã. Queria ter conseguido abrir um sorriso quando disse que ia cursar Direito. Um sorriso... como o de quando ela disse que cursaria Línguas. E riu quando pensou na piada de que queria que ela estudasse a língua dele. E, então, se lembrou da dela. Do beijo dela. No quanto ele queria aquilo de novo e como estava sendo difícil a evitar. Pois é, ainda tinha mais essa. Além de iniciar o curso de Direito, ele teria de encará-la novamente. E se segurar para não fazer merda. Lembrou, então, de e a última conversa que tiveram. Fora boa, ele estava realmente com saudades da namorada e percebeu que ela também estava dele. Isso fez com que se arrependesse mais ainda pelas coisas que ele tinha feito e colocado como enfeites na cabeça da namorada. já estava voltando da sua viagem pois suas aulas também iriam iniciar, e ela falava animadamente sobre o quanto queria que o ano acabasse logo para que ela pudesse ir para Londres cursar a faculdade de Medicina e ficar mais perto dele. ainda queria isso, mas parecia que estava perdendo o ânimo que tinha com essa ideia. parecia cada vez mais distante e ele sabia que era culpa de . Mas que diabos. Só um beijo e ele já estava assim? Tudo bem que esse "assim" também não era nada de demais e que esse "beijo" foi um tanto caloroso... Mas ele estava cada vez mais atraído. E ele precisava contornar essa situação; as coisas não podiam ficar assim. Ele tinha uma namorada longe dali que estava esperando o ano acabar para poder voltar a morar do lado dele. Ele não podia se preocupar com a filha do casal amicíssimo de seus pais, que achavam que eles eram praticamente irmãos, primos, ou coisas do tipo, que não tinha nenhuma relação certa com ele. E só Deus sabe se poderiam ter. Mas ele tinha namorada e estava determinado a focar nela.
E só Deus também sabe até quando essa determinação iria durar.
Se não soasse tão clichê, acordaria com um sorriso no rosto dizendo que o dia estava lindo. E estava mesmo, à parte a felicidade dela com o primeiro dia na faculdade. Seis da manhã e o sol estava claro no céu completamente limpo; no entanto, para o dia parecia um temporal. Acordou com o maior mau humor do mundo, sem a menor vontade de sair da cama, mas determinado a dar uma chance ao curso que teria de aguentar nos próximos anos. E, mesmo com humores tão distintos, encontraram a sintonia quando um pensou no outro. O frio na barriga só de pensar que iriam se ver depois desses dias sem se falar, depois do acontecido. O desejo que se camuflava na raiva pelas ações, pelo afastamento, parecia aumentar agora que corriam o risco de se ver. não queria continuar com esse plano de distância entre eles e , queria uma chance para se explicar e tentar se aproximar de novo. Mas essa aproximação era o que dava medo em ambos. E, com a mistura de desejo pelo outro e ansiedade pela faculdade, tomaram o banho menos quente que o normal. E se arrumaram mais que o normal também. , apesar de disposto a ouvi-la, queria estar impecável só para o afastamento poder doer mais, e queria parecer irresistível para parar com essa palhaçada de distância o mais rápido possível. Era como uma guerra onde ou ambos ganhariam ou ambos perderiam.
A universidade não era longe, mas o campus era enorme. Os prédios eram divididos pela área do curso e ficou feliz e ansiosa ao saber, então, que estaria nos mesmos prédios que ela por conta de humanas. Também poderia encontrar , que estaria nesses mesmos prédios, diferente do resto dos amigos, que fariam coisas diferentes. No entanto, tinham combinado de chegarem mais cedo para conversarem um pouco antes de terem de se perder entre os alunos e prédios desconhecidos. O pessoal queria saber se a amiga estava bem e se tinha descansado da bebedeira da noite de sábado e se contiveram ao contar sobre o que tinha acontecido na boate. Ela continuou firme com a ideia de não querer saber o que tinha ocorrido e eles acataram o pedido. Ansiosos, todos foram a procura de seus prédios enquanto acompanhava até a ala de humanas.
- ... Viu o por aí? - perguntou como quem não quer nada, mas mesmo assim deixando a amiga confusa.
- Não, . Por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Oh, não. Quer dizer, sim... - tentava se explicar de um jeito que não demonstrasse a seriedade da situação. Era difícil e ela não iria conseguir esconder por muito tempo da amiga o que tinha acontecido entre eles. Mas ia dar um escândalo quando soubesse e aquela não era a hora certa. - Ei, amiga. Aqui é o prédio 23! Não é o seu?
Salva pelo gongo! (Ainda falam isso?)
- É, é sim! Vou indo, então. Mas não pense que você vai escapar, ... - olhou desconfiada para a amiga, dando um sorriso maroto (não a banda, ein) - Eu sei que está acontecendo algo e você vai ter de me contar. Boa sorte, nos vemos mais tarde!
E, com isso, a amiga seguiu o caminho para seu prédio e se perdeu no meio da multidão enquanto continuava seguindo à procura de seu prédio. Foi um alívio, mas sabia que seria a curto prazo; mais cedo ou mais tarde ela teria de contar, e nem seria um problema tão grande assim, já que ela não pretendia esconder da amiga.
- Ai! Ai, meu Deus, me desculpe! - Perdida em seus pensamentos, só reparou que estava para se esbarrar em alguém quando a outra pessoa já estava no chão junto com ela e com todos os materiais espalhados ao redor.
- Não foi nada, fique tranquila! Não é tão ruim assim quando nos esbarramos em uma garota tão bonita. - Ouvindo uma voz de homem seguida de um riso fácil, tratou de procurar o rosto dono daquela voz grossa e... OK, aquele rapaz era direto. E mais: era lindo. E não era estranho.
- Oh, obrigada. Você se machucou? - Ela devia estar corada, mas ele a olhava de um jeito desconfortável. O garoto a ofereceu a mão para que ela pudesse se levantar e a olhou como se tivesse a reconhecido também. Mas era impossível. Ela não se esqueceria do dono de um sorriso tão bonito. E aquele cheiro... Era tão familiar.
- Não. Estou bem, relaxa... Vem cá... Você se chama ? - Bingo!
- Sim, sim. Me desculpe, mas não me lembro de você. Deveria? - Ela perguntou já em pé, pela ajuda dele, tentando ser simpática. Droga. De onde diabos eles se conheciam?
- Bem, até que deveria sim. Mas acho que às vezes a gente bebe demais e acaba se esquecendo das coisas mesmo! - Ele ria numa simpatia incrível, tentando quebrar o gelo. - Eu sou o Liam... - E então a olhou, esperando que ela desse alguma confirmação de lembrança, mas nada veio, o forçando a continuar. - A gente se... hm... Conheceu na boate no sábado, antes de ontem.
Pausa. Silêncio. Que merda era essa? Ela estava determinada a não saber o que tinha feito na noite de sábado e agora a vida coloca logo o cara com o qual sabe Deus o que ela tinha feito, na frente dela. Entre tantos, logo ele? olhava perplexa para o menino, que não tirava o sorriso lindo do rosto. Sua pele era clara e entrava em contato com seus olhos e cabelos escuros; ele tinha um cheiro incrível e se vestia de forma impecável, como um garoto de boyband. Ele era lindo e, se ela tivesse feito algo com ele, pelo menos não tinha sido assim tão mal. NÃO. Nem ela acreditou no que estava pensando.
- ? Está tudo bem? - Os lábios naturalmente vermelhos do garoto se moviam para tirá-la do transe.
- Ah, sim! Me desculpe, eu realmente não me lembro de você... E agora tenho de ir, Liam. Ainda nem achei meu prédio e minhas apresentações começarão em poucos minutos. A gente se vê por aí!
E então , nervosa e envergonhada, saiu correndo, deixando o garoto totalmente confuso. E agora? Teria mesmo de "conviver" com o desconhecido conhecido que tinha vivido com ela coisas das quais ela não lembrava. Ela se sentiu então a garota mais baixa daquela universidade. A curiosidade a invadia mais a cada passo que ela dava à procura do seu prédio. só conseguia se lembrar das vozes que a chamavam no sábado, distantes, e o cheiro de um perfume masculino que agora ela percebeu que era do tal do Liam. Tantas pessoas que ela tinha para se esbarrar naquele campus e ela se esbarrara logo no que a deixaria com mais vergonha, sabendo coisas das quais ela não queria lembrar. Alguém cave um buraco nesse jardim lindo aqui, por favor, para ela enfiar seu humilde rosto? Obrigada.
Voltando para a realidade, a garota finalmente havia chegado em frente ao seu prédio e sorriu involuntariamente. Paraíso era exagero, mas ela pôde sentir uma das melhores sensações da vida. Seu sonho começava a se realizar no momento que ela subiu os degraus e adentrou o prédio. Iria estudar as coisas que ela mais admirava, se aperfeiçoar no que ela mais queria fazer, e isso não tinha preço. Enquanto andava pelos corredores à procura de sua sala e olhava as pessoas que ali passavam,se lembrou das dificuldades em assumir o que queria fazer. Seus pais, ambos médicos, poderiam facilitar sua vida se ela estivesse escolhido começar os estudos de medicina. Trabalho fácil sempre pesa, não? Mas ela não queria. Não amava. E teve de escutar que nada é cem por cento perfeito e que toda profissão tinha seus contras. Mas ainda assim ela não conseguia desistir de seu sonho de curso, e agora, tendo enfrentado todos os preconceitos para chegar até lá, parecia sim ter encontrado algo cem por cento perfeito. E nenhuma dificuldade iria superar isso.
As pessoas pareciam sorrir para ela enquanto ela estava parada em frente sua sala, olhando perplexa para a porta. Podia parecer uma idiota, mas estava feliz. Em paz. As mãos trêmulas procuravam a maçaneta enquanto seu pé direito entrava primeiramente na sala, entre um suspiro nervoso e ansioso.
Vamos lá!
estava admirado com o tamanho do campus da universidade; era enorme. E ele, por um instante, agradeceu mentalmente por ter tido a chance de estudar lá, cursasse o que estivesse cursando. Mas, ainda assim, não estava feliz. Se movimentava rapidamente pelos jardins, já que não conhecia ninguém - ou quase ninguém - que o fizesse parar para conversar, como estava acontecendo com muitos por ali. E, ao olhar para as pessoas ao redor, pôde perceber um pouco distante, do outro lado do caminho, fazendo que um arrepio subisse sua espinha. O vento bateu no rosto do rapaz e ele teve certeza de que estava sentindo o perfume dela; linda. Como conseguia ficar tão linda em apenas um short jeans, uma blusa de renda e um velho all star? Simples e linda. E gostosa. Mas que coisa, isso não ia passar nunca? Era tudo que ele se perguntava. No entanto, tentou deixar o desejo para lá e decidiu ir até ela para acabarem logo com esse afastamento. E quando ele deu por si e foi levantar o primeiro pé na direção da garota, ela já havia iniciado uma conversa com outro cara. Boa pinta, por sinal. E ele ria e a deixava corada. Ótimo. estava ficando para trás... E o que é isso, ? Agora é uma competição? Ele se indignava com ele mesmo por pensar daquela forma. Mas também não gostou do jeito que ele ria para . E, de repente, algo a desconcertou e pôde ver isso de longe. Será que ele tinha dado em cima dela? "Mas é óbvio, , olha o quanto ela é linda..." Será que ele tinha ofendido ela? Filho da mãe.
pôde ver arrumar suas coisas, dar meia volta e sumir entre aquele mar de gente. Assim sendo, teria de ficar mais algum tempo sem ela, mas não tanto. Ele estava decidido a acabar com isso de uma vez por todas, ainda mais agora que viu o jeito que o tal cara bem aparentado a olhava de um modo gentil e conquistador. ... precisava cuidar dela para ela não se meter com otários novamente. Era isso. E então ele retomou seu caminho para o prédio das aulas de Direito e voltou a pensar na sua vida e no quanto ele queria ter um sorriso como o da amiga enquanto caminhava em busca de seu prédio. Parecia leve. Feliz. Coisa que ele não estava nem um pouco. No entanto, se lembrava a todo momento que tinha decidido dar uma chance ao curso, para ele o deixar, no máximo, confortável. Pela felicidade de seu pai.
Quando finalmente encontrou o prédio, ele começou novamente a observar as pessoas. As felizes, as tristes, as indiferentes com seus fones de ouvido. Se ele tivesse uma trilha sonora agora, ela seria melancólica. Como a de alguém que não vive a própria vida em função dos outros. Mas ele continuou. E foi atrás de sua sala enquanto o que mais queria era voltar para casa. Voltar para suas férias. Ir atrás de . Quando encontrou sua sala, ele parou. Respirar estava tão difícil e de repente todas aquelas pessoas pareciam estar confortáveis e felizes ali enquanto se preparavam para o início da aula. Mas , enquanto encarava a porta de sua sala, se sentia um menino de 5 anos que não queria ir tomar banho só para não perder o desenho. Entretanto, no fim, eles sempre acabam indo pro banho. E os desenhos sempre ficam pra depois.
Vamos lá...
As aulas passavam arrastadas para , e olhe que elas nem estavam assim tão chatas. Eram, basicamente, apresentações de professores, de matérias e do curso que eles iriam fazer a partir daquele momento. O garoto estava suportando facilmente, até, mas tudo acabou quando ele, já sentado em outra sala - pois era troca de matéria -, avistou o mais novo amigo boa pinta de . É, o cara do pátio. O cara que deve ter falado algo que ela não gostou. O bem aparentado. E, como se não bastasse perceber que aquele idiota estava na sua turma de economia política, o cara ainda sentou-se do seu lado. Parecia ser simpático; tinha um sorriso pendurado no rosto, mas nada muito idiota, e cumprimentava com um aceno de cabeça quem passava por ele. No decorrer da aula e das apresentações, descobriu que o risonho se chamava Liam e percebeu que as garotas ao redor suspiraram ao ouvir sua voz grossa. "Fala sério...Que babaca." Sim, ele era realmente simpático. Fazia comentários legais e engraçados que sempre levava todos ao riso, até mesmo o professor. E as garotas começavam a querer chamar sua atenção e ele atendia sempre. o observou; bem vestido em uma calça jeans skinny e uma pólo, um tênis estiloso e um perfume bom, sempre sorrindo e dando atenção às mulheres. Por um instante jurou que Liam era gay, mas mudou de ideia quando percebeu seus olhares desejosos no corpo da garota que acabava de passar andando por ele. Ela nem era isso tudo, mas tinha uma bela bunda disfarçada, e nenhum gay iria perceber isso.
Derrotado, voltou para a realidade e descobriu que o professor havia mandado eles irem para os jardins do campus, pois teriam discursos de boas vindas para todos os alunos. Ao sair da sala, viu que todos os outros alunos do seu prédio e os outros do mesmo complexo também estavam se dirigindo para os jardins e pensou em encontrar antes que Liam o fizesse. No entanto, só a encontrou quando chegou lá; ela já estava sentada, sozinha - lê-se "sem Liam" -, e conversava pouco com uma menina que estava ao seu lado. Sem querer perder mais tempo e dar a chance para outros passarem à sua frente, iniciou seu caminho até ela e sentou-se ao seu lado sem falar nada e a assustando com a surpresa.
- ? - Opa, arrepios. - Oi... - A garota estava visivelmente envergonhada, surpresa e receosa. Não sabia ao certo o que dizer e não imaginava que essa reaproximação seria tão "fácil".
- Oi, ! Como vai?
"Certo, ele tá tirando com a minha cara, né?" Era tudo o que conseguia pensar quando o viu cumprimentá-la com um sorriso enorme e lindo... Estava fazendo calor também. Muito.
- Eu estou ó-ótima... E você?
- Melhor agora. Sabe. Senti sua falta esses dias. - Ele disparou sem gaguejar, diferente dela. Viu a expressão confusa na face da amiga e, quando ia continuar, foi interrompido.
- Ei, ! E... ? Nossa, vocês se conhecem?
Mas vá se fuder. Que porra era essa agora? Perseguição? Sim, era ele mesmo quem acabara de chegar.
- Oh, olá, Liam... - pode sentir o desconforto da amiga sentada ao seu lado e então continuou, sem vontade, por ela.
- É, é. Somos amigos sim. E vocês?
- A gente se conheceu no fim de semana! - falou mais rápido, deixando Liam de boca aberta sem nada para dizer, e parecia mais desconfortável que antes. Isso deixou confuso; o que será que estava acontecendo? - Mas e vocês...? Se conhecem?
- tem uma aula comigo. Lembra de mim, cara? Liam.
- Aham. Sei sim. - A má vontade de entrava em contraste com o divertimento do bem aparentado; sempre sorrindo. E estava com uma vontade incrível de socar a cara dele para ver se ele continuaria sorrindo feito um idiota. Quando voltou para a realidade, deixando seus pensamentos de lado, percebeu que ele já havia iniciado uma conversa com e estava se preparando para sentar do outro lado da garota. Epa!
- Dude, na boa. Será que você pode dar licença? - WHAT? Os dois se viraram incrédulos para ele. Como assim? Por que aquilo do nada? Liam foi pego de surpresa com tanta hostilidade; logo ele, sempre tão educado, estava sendo tradado assim? E o cara nem o conhecia direito... E parecia começar a sentir raiva. Quer dizer que some, não dá chances de ela se explicar e, de repente, senta ao seu lado como se nada tivesse acontecido e expulsa o cara bonito que dava em cima dela? Tudo bem que ela estava terrivelmente envergonhada por não lembrar o que diabos devia ter feito com ele, mas e daí? não sabia disso e era injusto a forma como ele havia tratado Liam. Enquanto pigarreava, Liam mostrava claramente que estava incomodado com aquele pedido e, quando ia impedir sua ida, já era tarde. O avistou mais distante parando para conversar com algum grupo que conversava do outro lado do jardim.
- O que foi isso, ?
- Ah, qual é, ! Eu estou aqui tentando conversar com você e do nada esse babaca vem atrapalhar? Por favor, né! - estava indignado com a raiva da garota.
- Babaca? Pelo amor de Deus, você nem o conhece direito! E pelo menos ele não ficou dias sem falar comigo e sem nem me dar explicações!
- Claro. EU que tinha de te dar explicações! Óbvio! Até porque foi eu que te agarrei sem mais nem menos no banheiro do e nem lembrei que você estava comprometida, né? Foi bem isso! - Eles haviam alterado um pouco a voz fazendo com que poucas pessoas ao redor os olhassem, e isso deixou com mais raiva ainda. Ninguém tinha que saber o que se passava entre eles e não parecia entender disso. Irritada, ela ligou o "foda-se" para a tal apresentação, pegou sua bolsa e saiu correndo para onde ninguém pudesse vê-la envergonhada das coisas que expôs. No entanto, sua paz durou apenas alguns segundos antes de ouvir passos correndo para se aproximarem dela.
- ! Espera... !
- O que é, ? - Ok, ela estava muito irritada. - Desculpe por vir pra cá, sinto muito, mas aqui ninguém pode ouvir você me taxar de vagabunda.
- O que é isso? Eu não te chamei de vagabunda!
- Mas nem precisava, não é? Só deixou bem claro pra todo mundo que estava ouvindo que eu te agarrei, mesmo você tendo namorada. Que santa!
- Desculpe te informar, linda, mas foi isso mesmo que você fez.
- Só que isso, , não te dá o direito de gritar pra todo mundo o que aconteceu! E muito menos de tratar o Liam daquele jeito, ele não te fez nada, garoto!
- Liam, Liam, Liam. Ele é o quê, afinal? O seu novo namoradinho? Você o usou também pra esquecer a merda do Adam? - Ok, ele tinha pegado pesado e percebeu quando petrificou-se na sua frente. Então ele sabia de Adam? Que vergonha; a garota procurou com os olhos, mas não achou nenhum buraco naquele jardim imenso para enfiar a cara. Universidade de merda.
- Caralho, , desculpa, tá legal? Desculpa, eu errei... Mas, porra! Por que você não assume seu erro também? Eu tava mal porque eu traí a minha namorada e você vem e me agarra só porque você viu a merda do seu namoradinho com outra? Você quer o quê? Que a se sinta como você, é? Traída? Eu não tinha nada a ver com isso!
- Só não esqueça que você já tinha traído antes, meu querido. Não me culpe sozinha sendo que seu fogo já estava bem alto, !
- Pois é, e eu estava puto comigo mesmo e você sabia! "Mas calma, , isso acontece... Não fica assim, você estava inconsciente." - imitava a voz da garota - E eu caí na sua, caralho! Eu estava quase conformado em ter traído e aí vem você e, de repente, me agarra e me usa pra camuflar a raiva pelo Adam!
- Ah, claro! Eu te agarrei feio! E mais... Você foi forçado a me beijar! Eu praticamente te estuprei, não foi? Você nem queria! Eu que te puxei, mas você não tem força pra me afastar. - tinha ido, com toda a raiva, de encontro a e o segurado pelos braços. - Porque você não conseguia me segurar assim e me afastar de você enquanto eu te abraçava e te beijava sozinha, não é, ? Eu que te empurrei contra a parede e forcei suas mãos a passarem pela porra do meu corpo e sua língua percorrer meu pescoço... - Ok, eles estavam muito próximos e a raiva parecia ter dado lugar para o desejo começar a falar enquanto o ritmo dos tapas de ia diminuindo. - Eu que forcei seus braços ao meu redor e fiz suas mãos apertarem meu corpo, não foi? Eu que quis, sozinha... - Mas, se ela não parasse, ele iria enlouquecer só de lembrar e de tanto querer. No entanto, a forma que ele a parou não teria consequências diferentes do que se ela tivesse continuado. Antes de voltar a falar, a segurou pelos braços e aproximou os corpos em um impulso automático.
- Não... Não foi só você. - Ele dizia baixo enquanto as respirações atingiam a boca do outro e eles se encaravam nos olhos. - Mas eu estava tentando me controlar para não te agarrar. Pra não te empurrar contra a parede...- e, ao dizer isso, a empurrou contra a árvore mais próxima, que ele nem tinha percebido estar ali, e colou seus corpos sem pensar - Pra não deixar minhas mãos passarem pela porra do seu corpo... - soltou os braços da garota, que caíram e permaneceram imóveis em vez de o empurrar, e começou alisar seus ombros e descer seu tronco, fazendo ambos se arrepiarem - Para não deixar minha língua percorrer seu pescoço - e então ele deu uma leve lambida subindo o pescoço de e parando no ouvido, começando a sussurrar um pouco mais baixo ali - Me controlando para não deixar meus braços te prenderem... - Com uma mão, a puxou para mais perto - e para minhas mãos não apertarem seu corpo - com a outra, o garoto começou a apertar a bunda de , arrancando dela um gemido baixo.
E esse gemido o provocou mais do que deveria. Era pra parar, a ideia de era apenas provocar, mas ele não conseguia se afastar dela. A mão que apertava sua cintura já havia subido pelo tronco da garota e passava a massagear seus seios, enquanto a outra a mantinha colada nele e apertava sua cintura. já estava mole e, sem pensar, já o segurava perto dela pela nuca. Ele tinha que parar... Mas, ao invés de parar, tinha voltado a passar a língua pelo pescoço da garota e estava começando a dar chupões. - Não foi só você... Que me beijou.
"Para, , para..." O pouco de sanidade que restava na cabeça dele o alertava, mas a voz estava muito distante e baixa. Era "para" ou era "beija"? Devia ser beija, porque ele, de repente, largou o pescoço de e colou os lábios no dela em um beijo faminto. Incrível como o beijo combinava e os corpos pareciam responder igualmente a cada sensação. O desejo vinha de ambos, enfim. estremecia com o toque da língua de e ficava mole quando ele chupava seu lábio no meio do beijo; mas ele a mantinha segura em seus braços. Suas mãos não se decidiam entre apertar a bunda, a coxa ou levantar a blusa de enquanto ela alisava seu peitoral por baixo de sua camiseta. Os toques, os corpos juntos... Era a melhor sensação que ambos já haviam sentido. Ou era saudade de ? Ou era saudade do prazer que há muito tempo Adam não conseguia dar? As línguas famintas atrás do gosto do outro e as mãos procurando dar prazer ao corpo foram, então, injustamente interrompidas por uma maldita voz que soava ao fundo. Os ritmos foram diminuindo e, quando finalmente perceberam que não eram suas cabeças os alertando para parar, eles se afastaram bruscamente. Uma voz masculina vinha do outro lado do jardim e eles se lembraram das apresentações. E tudo voltou a ficar estranho novamente. estava todo amarrotado e , com cabelos bagunçados e pescoço marcado pelos beijos. A "sensação boa por causa do beijo x a culpa" estava voltando. Culpa... Culpa... se sentiu um monstro de novo. Havia, mais uma vez, traído , e pior: agora em uma situação que dava para ter evitado. Mas ele fora fraco e estava piorando cada vez mais. E agora parecia estar com mais raiva enquanto ia em busca de sua bolsa. Então ele dava todo aquele showzinho exigindo desculpas por ela ter agarrado ele e agora faz isso?
- Se quer desculpa por aquele dia, , ótimo. Me desculpe, errei e sei que não deveria ter feito aquilo. - A garota disse o pegando de surpresa e tirando-o de seus pensamentos, o fazendo olhar para ela - Mas espero que você se toque que, dessa vez, eu não te agarrei. E não fique de mimimi exigindo desculpas. - Ela já havia dado as costas para ir embora quando parou e voltou a encará-lo por uma última vez - Ah... E, por favor, fique à vontade para sumir de novo dessa vez.
VIII
Não foi preciso que fizesse esforço para sumir dos dias seguintes de ; ela estava fugindo dele com muito êxito. Não que eles não se vissem pelo campus, pelo contrário, se viam bastante. No entanto, era só a garota sentir o cheiro dele por perto que ela começava a ir à direção contrária; muitas vezes nem precisava do cheiro, já que ela se arrepiava involuntariamente quando estava por perto dele, mesmo não o vendo. O último acontecimento tinha amenizado o seu desejo. Ela se sentia mais tranquila quando o via andando pela universidade com suas roupas justas na medida certa, que o deixava ainda mais gostoso, com seu ar de garoto solitário e seu cabelo desorganizadamente organizado que faziam todas as garotas suspirarem por ele e... Ok, talvez ela só parecesse mais tranquila quando, na verdade, não tava coisa nenhuma. Os pelos da nuca se eriçavam e ela começava a suar frio quando se lembrava do toque de , mas, ainda assim, ela insistia em achar que estava mais tranquila em relação a ele. Talvez fosse o costume... Talvez ela tenha percebido que não, isso não iria mudar tão cedo. O que era uma droga, já que ela se sentia um pouco culpada, ainda que tenha sido ele que tenha agarrado-a dessa vez. No entanto, pensou em e no quanto ela mesma ficou como descobriu que Adam a traía: não gostou da sensação. Sempre procurou se colocar no lugar do outro e agora não iria ser diferente. Mas não dava pra esconder a vontade que ela tinha de ficar com de novo, o desejo só fazia aumentar e a única salvação que ela encontrava era que algo dizia que o namoro à distância de não iria durar muito. Era horrível e ela sabia, mas não podia evitar essa descrença em amores à distância.
O afastamento de era inversamente proporcional à aproximação de Liam. O garoto não se deixava passar despercebido por ela, fazendo com que eles se falassem todo dia. Ele se mostrava interessado enquanto procurava manter firme a sua decisão de não saber o que houve na boate quando eles se conheceram; não deve ter sido nada de demais, afinal, já que não veio à tona durante esses dias. Liam era um bom rapaz - que coisa mais "mãe" de se dizer -; era simpático, estudioso, atencioso e, além de tudo, estava entre os caras mais lindos que ela já tinha visto na vida. Estranho ele não ter fama de galinha. Estranho ele não ir atrás de qualquer rabo bonito de saia que encontrasse... Se bem que os rabos de saia que iam até ele. As garotas pareciam o farejar, era quase impossível ver Liam sozinho pelo campus, mas, ainda assim, ele não parecia dar mole para elas. Tá, não para todas. Algumas tinham mais atenção que outras e era a que recebia a maior parte dos sorrisos e conversas do britânico bem aparentado. Pena que ela estava com um fogo que só seria capaz de apagar.
passava seus dias tentando não se sufocar com toda essa história de , , traição e Direito. Sua namorada estava em outra cidade e demorava para dar notícias, a pessoa que estava o deixando cheio de desejo tentava ao máximo evitá-lo e conseguia, e Direito estava começando a tirar grande parte do seu tempo para estudo e não conseguia conquistá-lo de jeito algum. Falando em Direito, ainda tinha de aguentar ver Liam andando para cima e para baixo, e, muitas vezes, com ao seu lado. Qual era a dele, afinal? Sempre estava acompanhado com alguma garota, mas não tinha a menor fama. Não tinha a menor malícia no olhar com a maioria delas. não conseguia imaginar nem ele agarrando e... Ok, conseguia sim. E não gostou de imaginar. Será que eles já tinham se pegado? Será que ele tinha conseguido transar com ela? Tinha de haver alguma explicação para eles ficarem grudadinhos assim, de uma hora para outra. Tá, nem todos os caras necessariamente comem suas amigas e ele sabia disso, acreditava mesmo em amizade entre homens e mulheres. Casos raros... Bem raros... Muito raros... Mas existem. E o jeito que Liam olhava pra era diferente do jeito que ele olhava pras outras garotas; conseguia perceber isso, um cara sempre percebe quando outro cara tá dando em cima de alguém, assim como mulheres percebem quando uma garota está a fim ou não de um cara só pelo olhar. E não gostava disso. Ah, qual é! Ele parecia o Sr. Perfeição em roupas da moda com seu sorrisão branco, cabelos lisos e olhos claros. Que clichê! Estamos em pleno século 21 e as mulheres ainda se derretem por caras românticos que parecem ter saído de contos de fadas?
- Ei, cara! - Pronto. Estava bom demais pra ser verdade, o príncipe da voz grossa tinha dado o ar da graça enquanto não estava nem um pouco animado com sua aparição, e não fazia questão de esconder isso.
- E aí...
- Eu queria conversar com você sobre aquele dia lá na apresentação do primeiro dia de aula... Ficou um clima tenso entre a gente e isso é um saco. Somos colegas e agora a gente tá no mesmo grupo de trabalho. Queria ajeitar as coisas. - Ah, tem isso também, não contei? Na matéria que pega com Liam, o professor tinha passado um trabalho e eles haviam caído no mesmo grupo. Que sorte.
- Hm... Ok.
- Qual é, ! Dá pra parar? - Liam o segurou pelo braço antes que o desses as costas e aumentou um pouco o timbre de sua voz, se mostrando meio irritado com o fato de não dar importância à situação.
- Me solta, cara.
- Então me fale o porquê de você me tratar assim, dude. Que porra eu te fiz? - Liam continuava segurando enquanto esse tentava não se irritar.
- Me solta, Liam! - empurrou de leve o garoto, podendo, assim, se soltar. - Eu só não vou com essa sua cara de otário que vive sorrindo por aí. O santo não bate, falou? Me deixa quieto que eu te deixo quieto.
então deu meia volta e saiu andando, deixando o outro com cara de merda para trás. Liam não entendia; nunca tinha arrumado confusão com ninguém e, quando acontecia um desentendimento, ele sempre tentava resolver e tudo, no fim, ficava bem de novo. Seus pais haviam morrido quando ele tinha 3 anos, fazendo com que Liam fosse criado pelos avós paternos, e não há nada como avós para criar bem uma pessoa. Liam tinha uma base religiosa em casa, nada muito rígido, e seus avós deram a melhor educação que alguém pode dar, assim como haviam dado a seu pai. Princípios básicos como pedir desculpas, ser sincero e tratar bem as pessoas - principalmente mulheres - eram coisas fundamentais. No entanto, Liam nunca tinha se deparado com alguém como , que não gostava dele e não tinha o menor motivo para isso... Ou tinha? E, então, Liam se tocou que talvez existisse motivo sim e que muito provavelmente ele teria um nome: . Ok, se fosse isso, Liam entendia. era incrível e tinha muitos motivos para estar com ciúmes dela. Mas Liam quase não via os dois se falando, só tinha visto na vez da apresentação e pareciam não se dar assim tão bem e, depois daquele dia, Liam havia a visto virar a cara e as costas para todas as vezes que passava por ele. Será que eles eram aqueles tipos de namorados que vivem acabando e voltando, acabando e voltando? Ou aquelas pessoas que se gostam, mas não admitem? Ou... Ou... Liam não sabia. E, talvez, nem quisesse saber. que se resolvesse; mas Liam não ia mudar só por causa dele.
saiu de seu prédio de aulas em busca de ar, agradecendo aos céus por ele ter um horário livre, já que o professor precisou resolver algo de última hora. Era sua matéria mais chata e ele já tinha tido esse estresse com Liam; outro aborrecimento era desnecessário. Caminhou pelo campus rezando para não encontrar , ele não aguentaria uma rejeição dela, não naquele momento. Tudo parecia estar dando errado para ele. Um amor longe, um desejo que está perto, mas está sendo evitado, e um curso que não o agrada. Por que era tão difícil se encontrar, afinal? Olhou para as pessoas ao seu redor e todas pareciam estar felizes. não queria estar feliz, feliz é demais; ele queria, pelo menos, estar satisfeito. Satisfeito com a vida que estava levando... Mas não. As pessoas dizem que o fim do colegial é a época mais difícil: não para ele. O colegial tinha sido mole; ele sempre teve suas notas boas, saia constantemente com seus amigos e tinha uma namorada por perto. Agora tudo parecia que tinha virado de cabeça para baixo e ele se sentia péssimo por estar assim. Qual é! Ele estava em Londres, numa universidade incrível. Seus pais estavam orgulhosos dele e tudo o que ele queria era jogar tudo pro alto? Era impossível não ter algo para o qual ele tenha sido feito. Ele só precisava achar.
Depois de dar sua caminhada de distração, parou em frente ao prédio mais interessante do campus: o instituto de música, que ficava no pavilhão de artes. O ar parecia ser mais leve ali. As pessoas caminhavam para lá e para cá com seus cabelos legais, roupas estilosas e carregando seus instrumentos. Elas pareciam... Tranquilas. Nada mais justo, não? Dizem que a arte é uma das melhores formas de expressão e super concordava com isso, já que usava a música para desabafar, para não explodir a qualquer momento. E, sentindo como se ele pudesse ser contagiado pela paz daquele lugar, ele entrou no prédio. Era surreal! As pessoas se espalhavam pelos corredores; algumas sentadas em uma roda de amigos enquanto tocavam e cantavam alguma música, outras o faziam sozinhas. Havia gente que passava apressada pra lá e pra cá com mil partituras nas mãos enquanto tentava equilibrar seu instrumento abaixo do braço. também pode ver algumas pessoas sentadas, observando um lugar fixo enquanto, provavelmente, desenhavam no papel. Era incrível.
Ainda contagiado pela harmonia do lugar, continuou andando pelos corredores. Pareciam corredores musicais; tinham várias salas e, de cada uma delas, saía uma melodia diferente por qualquer instrumento. reconhecia músicas de Elton John tocadas no piano e clássicas dos Beatles tocadas por algum violão perdido dentro das salas. Será que ele podia tocar também? No fundo do corredor, encontrou uma sala vazia e, sem pensar duas vezes, entrou. Não era tão grande e tinha uma iluminação boa, apesar de amarelada. Viu os diversos instrumentos que tinham ali; violões, guitarras, piano, bateria, baixos, saxofones, violinos, violoncelos... Enfim. Será que alguém sabia tocar tudo aquilo? contou nos dedos o que sabia tocar: violão e guitarra ele dominava bem, logo depois vinha o piano, que ele conseguia arranhar algumas coisas, bateria e baixo ele sabia o básico... E tinha a gaita. Sua companheira de solidão. , desde pequeno, sempre gostou de música. Seu tio, irmão de seu pai, tinha tido uma banda de rock na década de 80 que tinha sido um pouco famosa no país, mas não durou muito. Quando era pequeno e ia, nas férias, para Liverpool, a cidade onde seu pai nasceu, ficava a maior parte do tempo em casa com seu tio Anthony ouvindo todos os tipos de música. Anthony tocava para tudo o que sabia; foi ele quem começara a ensinar violão para e o dera sua primeira gaita. Com o tempo, ia se aperfeiçoando em casa durante o ano em sua gaita e no violão para chegar nas férias e mostrar pro tio. Nas festas de fim de ano eles faziam shows para a família e adorava tanto que estava ficando viciado em música. Ele não se separava de seus instrumentos por nada; tocava o dia inteiro. Depois de um tempo, lá pelos seus 12 anos, seu pai havia diminuído a frequência de viagens para Liverpool e, quando ia, quase nunca Anthony estava lá e, quando estava, não tocava nem cantava mais com , só de vez em quando, quando não tinha ninguém vendo. Depois disso, começou a entrar nas aulas de música do colégio e aprendia guitarra, baixo, piano, bateria... De tudo um pouco. Seu pai não gostava muito e, por isso, ele nunca praticava em casa, só no colégio. Com 15 anos, começou a escrever suas músicas e colocá-las nos instrumentos que conseguia. As pessoas diziam que ele cantava tão bem quanto tocava e sua mãe adorava. Às vezes, quando seu pai não estava em casa, ela o pedia para cantar para ela em segredo. não entendia, mas achava que seu pai não gostava muito de música; nunca escutava rádio ou CDs e não queria nem saber sobre as composições e avanços do filho. Ele era reprimido... Mas nada iria mudar seu gosto pela música.
Sem perceber, já estava sentado no banquinho do piano combinando algumas notas que ele sabia tocar. Era um dos instrumentos que ele mais achava bonito... Era melancólico. E podia passar da melancolia para a felicidade num piscar de olhos, com intensidades extremas. Qualquer instrumento pode fazer isso e ele sabia, mas nada como o piano. No entanto, não sabia tocar direito e então desistiu. Quando estava se preparando para sentar no banquinho junto com o violão, avistou um caderno. Era um caderno de partituras em branco... Sem nome... O garoto então se lembrou do seu. já tinha tido dois daqueles cadernos, os quais comprava escondido, mas o pai havia achado os dois em seu quarto e jogado fora. Por sorte, se lembrava de suas composições e, depois da primeira vez, ele havia começado a scaneá-las e colocá-las no computador antes que o pai as encontrasse nos papeis perdidas por aí. Mas não havia nada como ter um caderno de partitura. Era, além de tudo, simbólico. Ele havia levado bastante tempo para aprender a compor e a entender partituras, e isso valia muito. O garoto, então, pegou o caderno - os alunos de música deviam ter vários mesmo - e o colocou na mesa em frente ao seu banco e apanhou uma caneta. Começou então a dedilhar algumas notas que ele já estava praticando e, com a facilidade de sempre, surgiu uma letra.
Life is getting harder day by day (A vida está ficando mais difícil dia após dia)
And I don't know what to do, what to say... (E eu não sei o que fazer, o que falar...)
And my mind is growing weak every step I take (E minha mente está ficando mais fraca a cada passo que eu dou)
So uncontrolable, now they think I'm fake (É incontrolável, agora eles pensam que eu sou uma farsa)
escrevia as frases rapidamente para não perdê-las e ia as colocando em suas notas enquanto anotava tudo no caderno. Gostava de suas composições, elas eram como um desabafo para ele. Costumavam representar sempre o que ele estava sentindo, pensando, etc. E, depois de alguns minutos praticando, o som de sua voz e do violão não eram os únicos que preenchiam o ambiente; passos estavam se aproximando e não teve tempo nem de se esconder quando ouviu a porta abrir.
- Oi! Desculpa, cara, é que eu... - O outro garoto parou de falar quando virou para olhá-lo - ?
- ! Fala aí, dude! - estava surpreso, o que estava fazendo ali? Será que ele também gostava de música e veio dar uma respirada que nem ele? pode ver se aproximando e, então, continuou sentado.
- E aí, cara! O que você tá fazendo aqui em música?
- Ah, vim só dar uma relaxada. Tocar um pouco e tal...Sabe como é. Gostei daqui. E você, o que tá fazendo? - dizia como quem não quer nada, como se fosse a coisa mais normal do mundo um estudante de Direito estar numa sala do instituto de música, e isso fez cair na gargalhada.
- Como assim, ? Eu estou aqui porque eu estudo aqui! Você que é o errado maluco de Direito que anda invadindo nossos prédios... - tentava parar de rir, mas fez uma cara de assustado e isso o fez gargalhar mais ainda.
- Puta que pariu, cara, eu não posso entrar aqui? Me desculpa, eu... Eu não sabia, juro! Que merda...
- Opa! Calma, ! Pode sim, qualquer um pode entrar aqui, to só tirando uma com tua cara! - se aliviou e pôde, então, se acalmar nos risos.
- Porra, , que susto! Mas e então, você cursa música?
- Sim, sim. Desde pequeno eu dizia que ia fazer música e ia ter uma banda famosa... Parece que não deu muito certo! Mas eu simplesmente não podia desistir desse curso, isso aqui é vida, dude. - sentiu inveja de . Para variar, ele havia conhecido uma pessoa feliz e realizada com o curso. E, ainda mais, com música.
- É, parece incrível mesmo! E sua banda, por que não deu muito certo?
- Ih, cara, nem tenho uma banda em si. Eu tentei fazer algumas audições e tal, mas não me sentia muito confortável com pessoas que não conheço, entende? Eu toco algumas coisas com os caras, o Harry e o Dougie, mas ainda tá faltando alguma coisa. Não tá muito bom e isso não os encoraja pra viverem só de música, como eu quero... - "Queria eu viver só de música", era tudo que pensava. - Mas e então, o que você tá fazendo aí?
- Ah, to só arranhando algumas coisas aqui e... - o interrompeu.
- Parece que você achou o que eu estava procurando. - não entendeu e então apontou para o caderno de partituras. - O caderno. É meu. Eu estava aqui antes ensaiando algumas coisas e, quando fui embora, lembrei que tinha deixado meu caderno de partituras novo aqui. E agora que voltei, encontro você com ele.
- Puts, , me desculpe! Eu não vi nome e ele tava em branco e eu tava querendo tanto um depois que meu pai jogou o meu fora e... - , desesperado, tentava se desculpar.
- Ei, ei, calma, ! Relaxa! Não tem problema não. Eu compro um lá embaixo, fica tranquilo. Pode ficar com esse... Parece até que você já começou a usar. - então pegou o caderno e olhou a composição que havia nele. - Nossa, está muito bom, cara. Agora que eu não vou mesmo tirar esse caderno de você!
- Valeu, ... Se bem que... Esse caderno nem vai durar muito na minha mão mesmo, mas tudo bem. Obrigado.
- Como assim, ? Tem a ver com o que você falou sobre o seu pai, é?
- É. Parece que meu pai não curte muito essa ideia de eu me envolver com a música. Eu cresci com ela, mas ele sempre me reprimiu. Já jogou fora dois cadernos meus de partituras e tenho certeza que ele não chegou nem a olhar as composições... - tinha assumido uma face triste enquanto contava para e relembrava as coisas.
- Entendi. E ele te proibiu de fazer Música para entrar em Direito?
- O que? Não, não... Eu nunca nem cogitei em fazer Música. E escolhi Direito porque... Porque... Sei lá. Acho que foi pela proximidade do curso, já que ele é advogado. Se eu fizesse Música acho que ele me botava pra fora de casa e eu ia viver sozinho por aí. - tentava fazer piada, mas entendia a gravidade da situação. Não tinha sido o caso dele, ele sempre teve o apoio dos pais e tudo o mais, mas diversos de seus colegas haviam comprado diversas brigas com os pais só por fazerem música.
- Não, , você não ia estar sozinho. Têm muitos alunos aqui que são brigados com os pais por fazerem música. E, assim como você, têm muitos que estão em um curso que não os agrada só para agradar os outros... No fim, a gente nunca está sozinho.
então pegou o caderno, agora de , e rabiscou alguma coisa.
- Agora eu preciso ir, tenho aula em 5 minutos. Pode ficar quanto tempo quiser, não se preocupe! E vamos ver se a gente marca algo pra fazer, eu chamo os caras e a gente sai pra tomar umas! - Eles riram - Até mais, ... Boa sorte!
E, então, colocou o caderno de volta em cima da mesa e saiu, deixando mais leve e ao mesmo tempo mais confuso atrás de si. Com muita inveja também. Inveja da coragem de fazer o que gosta e enfrentar tudo e todos. Inveja... de quem sabia o que queria enquanto ele continuava sem saber o que era perfeito para ele. Dando um suspiro alto, colocou o violão de volta no seu lugar e pegou seu caderno para jogá-lo na mochila e ir embora. Mas, antes de guardá-lo, se lembrou de ver o que tinha escrito.
E, ali, debaixo do refrão que ele tinha escrito, estava a frase anotada e com possíveis notas de violão:
'Cause I'm not alone... (Porque não estou sozinho...)
n/a (15/08/2012): Galera: ESTAMOS NO TOP FICTIONS!!!!!! Primeiro eu surtei, porque a IISFB tinha sido indicada nas indicações #63, e agora Top Fictions? É demais pro meu coraçãozinho, é um sonho, gente! E por isso eu queria agradecer ajoelhada a Malu Menezes - eu fui atrás dela no twitter para agradecer - porque, se não fosse ela dar essa primeira indicação, sabe Deus quando e SE um dia chegaria lá! Também quero agradecer a vocês que leem, comentam, me dão dicas e indicam. Essa "vitória" também é de vocês! Então vamos aumentar essa vitória? QUERO ESSA FIC EM PRIMEIRO LUGAR NO TOP FICTIONS! Então vamos indicar, botar em chats, twitter e tudo mais! Fechou? Um beijo especial pra minha beta linda, Fê, que disse que adora betar minha fic. Estou no céu! Enfim, COMEMTEM, e me sigam no twitter (@TicianaKilpp ou @McManolos) para me avisarem alguma coisa e ficarem atentos sobre as atualizações que eu faço fora do FFOBS! E não se desesperem, a próxima atualização não vai demorar! SE PREPAREM! Xxx
Atenção, qualquer erro nesta fic é meu e deve ser informado.