NOMEDAFIC



Capítulo 1


"A medida do amor é amar sem medida." (Santo Agostinho)


- Mãããe! Cheguei! - gritei assim que fechei a porta de casa. Subi para meu quarto e me despejei na cama. Estava exausta, mesmo sendo nove e meia da manhã.
Desde quando eu tinha 17 anos, meu médico disse para correr todo dia de manhã, pelo menos uma hora. Os piores dias eram aqueles que tinha que acordar as cinco e meia da manhã, voltar, tomar banho e tentar não chegar atrasada na faculdade.
Estava deitada na cama sem trocar a roupa de ginástica. Hoje estava mais cansada, devia ser a ansiedade que tomava conta de mim. Dormi como uma pedra, e se sonhei, não lembrei nesse dia tanto esperado. Acordei já era mais de onze horas da manhã.
- Ah! Tempo, passa logo! - disse com a voz ainda grogue.
Decidi ir tomar banho para ver se passava a ansiedade, que estava embrulhada no meu estômago desde quarta-feira. Isto é, estava há três dias sem falar com , sem um sinal do ser humano que fazia borboletas quererem sair voando de meu estômago. Estava enlouquecendo! Ele disse que iria gostar da surpresa que estava preparando, mas que veria somente no sábado. Saí do chuveiro enrolada em uma toalha e me arrepiei com a diferença de temperatura que estava entre os dois ambientes.
- Mãe! O que você está fazendo? - perguntei abrindo a geladeira da cozinha.
- Bolo - disse sem tirar os olhos da receita.
- Hmm... de que? - perguntei já dando uma bisbilhotada na receita.
- ! Daqui a pouco vamos almoçar! Sem comida agora. - disse finalmente olhando para mim e tirando minhas mãos de um pote de iogurte.
-Ah! - choraminguei fazendo bico.
Sentei na cadeira da bancada e fiquei olhando os imãs da geladeira. Estava tão desesperada por hoje a noite ou a tarde, ah! Eu não sabia direito, não falava comigo há três dias, portanto não sabia nem o que comi no dia anterior.
- Mãããe??!
- Fala, ! - disse limpando a mão, sinal de que o bolo já tinha ido ao forno.
- Eu vou sair com o hoje. - disse com um sorriso maior que meu rosto.
- Hmm... - disse se virando para o armário de copos.
- Mãe! Você como minha mãe deveria querer saber aonde eu vou! Pelo que eu sei... – fiz uma pausa dramática – As mães sempre querem saber aonde os filhos vão - falei cruzando os braços.
- Certo! Certo! Aonde você vai? - perguntou.
- Não sei! - respondi rindo.
- Então por que me perguntou?- perguntou ela. Na hora que eu ia responder, meu celular tocou em meu quarto.
- AH! Deve ser o ! - disse já pulando da cadeira e subindo as escadas de dois em dois.
Chegando ao meu quarto, meu sorriso desapareceu quando eu vi quem era no celular, era só a .
- Ah! Fala, ! - disse deitando na cama e agarrando um anjinho segurando uma cereja escrita ' Eu te amo'. me dera no nosso primeiro aniversário de namoro.
- Nossa, que desânimo! - falou com sarcasmo - Ainda sem saber do seu amado? - perguntou.
- É! - disse com a cara mais emburrada - Você tem falado com os garotos?
- Uhum - respondeu parecendo animada.
- E...? - incentivei a continuar.
- Bom... Nós saímos ontem. - ela respondeu.
- Vocês saíram ontem e não me chamaram? - falei abrindo os olhos e sentando na cama.
- É isso ai... Quer dizer, o não estava junto, se é isso que queria saber.
- Hmm... E isso é motivo para não me chamarem? - perguntei zangada, estava realmente brava.
- É que pensamos que você estaria cansada com toda essa coisa de faculdade, trabalho e namorado desaparecido...
- Mas VOCÊ sabe onde ele está, não sabe? - perguntei desconfiada.
- Nesse exato momento?
- Sim.
- É... Eu sei.
- Sim. Você sabe? - perguntei ainda mais histérica - SÓ ISSO?! Você sabe onde o meu namorado está, sabe o que ele esta fazendo, tem contato com todo mundo, e eu não sei de nada?
- Calma, ! Você vai gostar da surpresa dele. De verdade! - disse parecendo estar realmente tentando não me contar.
- Tá. Mas me dá uma dica. Só uma! - implorei fechando os olhos com força.
- Desculpa, , mas eu não posso - respondeu triste.
- Se você fosse realmente minha amiga... - comecei a dar o meu velho sermão.
- Como sou sua amiga de verdade, eu não vou te contar o que é... Só posso contar que você vai gostar! – Finalizou o assunto.
- Tudo bem - falei por vencida - Então? Por que me ligou?
- Ah! Eu queria matar saudades! Como é ser mais uma formanda?
- Nada demais - falei dando de ombros - Quer dizer, é legal, muito legal. Mas vai demorar um tempo até eu conseguir me adaptar com isso. Sem faculdade, trabalho, provas...
- Hmm... É, ainda bem que a sua acabou. A minha ainda tem três meses! E eu ainda nem comecei o trabalho de conclusão de curso! Tô ferrada.
Quando ia responder, minha mãe entrou no quarto.
- ? Posso falar com você? - perguntou dando um sorriso.
- Ah! ? Vou ter que desligar! Uma pessoa com codinome mãe quer falar comigo... - disse olhando para o chão.
- Tudo bem. Tchau, ! E... Boa surpresa!
- Tchau! - respondi finalizando a ligação – Fala, mãe!
Minha mãe era uma mulher elegante, alta, realmente alta 1,78, magra e com uma expressão ''mãe coruja'' no rosto.
- Aonde você vai com o ? - perguntou sentando do meu lado.
- Ah! Se eu soubesse, estaria mais feliz.
- Você vai dormir em casa hoje? - perguntou pegando meu anjinho de pelúcia.
- Não sei - disse fitando o nada. Odiava quando minha mãe começava a fazer esse tipo de pergunta, era muito embaraçoso, mesmo ela sendo minha mãe.
Aliás, acho que era por isso que era tão chato responder essas coisas.
- Bem, só tenho uma coisa a dizer: Você vai gostar da sua surpresa - disse minha mãe levantando e abrindo a porta do meu quarto.
- AAH! Não acredito que você também sabe! - falei indignada.
- Se acalma filha. E se eu fosse você atenderia seu celular. Pode ser ele. - falou antes de fechar a porta atrás de si.
Despertei do transe indignado e percebi que realmente meu celular estava tocando. Peguei-o rapidamente e sorri quando vi na tela o nome ‘’ piscando.
Cliquei para atender e vi que estava tremendo. ‘Ai ansiedade idiota!’ pensei.
- Alô? – perguntei mesmo sabendo muito bem quem era.
- ? – só de ouvir sua voz meu coração já ficava descompassado e meu joelho amolecia. Tudo culpa dele!
- ! – falei com um sorriso que não cabia no meu rosto – Você é um completo idiota, sabia?! Por que não me ligou nenhum dia desses? – perguntei. E como resposta tudo que eu ouvi foi apenas risadas gostosas! RISADAS! Eu não merecia isso. Não mesmo.
- Por que você está rindo? – perguntei curiosa.
- Adoro ver você brava!
- Mas você não está me vendo – falei com a cara fechada só na hipótese de não ver ele novamente.
- É... Eu irei vê-la em breve – falou parecendo sorrir do outro lado da linha.
- Que horas? – perguntei. E foi ai que senti meu estômago embrulhando mais.
- Duas e meia – disse por fim.
- Já estou esperando então...
- Está com tanta saudade assim? – perguntou soltando risos.
- Você não sabe como – respondi suspirando. Tirando mais risadas de sua boca.
- Calma, daqui a pouco eu vou ai te buscar...
- ? Que roupa eu coloco? – perguntei abrindo meu armário.
- A roupa que quiser. Você fica bem com qualquer roupa.
- Não, não posso colocar qualquer roupa. Eu não sei aonde você vai me levar! – falei dando ênfase no ‘não’ – Porque está tão misterioso?
- Porque gosto de ver você ansiosa e acabando com sua unha. O que imagino que você deve estar fazendo agora.
Percebi que realmente estava acabando com meu esmalte, e me amaldiçoei por isso.
- Seu chato!
- Sua linda!
- ?
- Hmm?
- Tenho que desligar, vou me arrumar.
- Tudo bem...
- ?
- Fala pequena... – falou rindo
- Te amo – disse com os olhos fechados e deslizando pela parede do quarto.
- Também te amo, lindinha! – disse carinhosamente.
Desliguei o celular e entrei no chuveiro novamente. Não sei por que estava tomando banho novamente, mas parecia que me ajudava a relaxar. Tomei um banho demorado, para tirar toda a tensão do meu corpo.
Decidi colocar uma calça jeans e uma bata vermelha com desenho da Minnie. Ele adorava aquela camiseta. Coloquei uma rasteirinha da mesma cor e fui secar meu cabelo.
Estava pronta quinze minutos antes das duas e meia, então desci até a cozinha e peguei uma maçã. Não quis almoçar, porque não sabia se almoçaria com ele ou não. Mas se o conhecia bem, ele traria alguma coisa pra comer.
Estava ajudando minha mãe na cozinha quando meu celular tocou. E logo me despedi dela e do meu pai e desci até a portaria, encontrando seu carro parado e seu dono dentro dele. Lindo como sempre.
Talvez fosse a ansiedade ou talvez a saudade, mas hoje ele estava tão lindo que qualquer uma se apaixonaria, quer dizer, qualquer uma já se apaixonava, independente do jeito que ele estava.
Nota mental: Matar por ele ser tão lindo.
Estava distraído quando me aproximei e percebi que estava ouvindo Beatles, não identifiquei a música, mas era legal.
- Oi, pensador! – disse apoiada na porta com os vidros abertos. tomou um susto que quase me fez cair de tanto rir.
- Ei! Você quer me matar? Não faz mais isso – disse se recuperando.
- Tá, tá. Vou tentar. – disse tentando abrir a porta, mas estava trancada. – Ei, moço! Pode abrir a porta?
- Só com senha, moça – disse sorrindo.
- Ótimo, como eu vou entrar se eu não sei a senha? – perguntei arqueando as sobrancelhas.
- A senha é: O é o cara mais gato, sexy, bonitão e gostoso da face da Terra! – disse sorrindo e arqueando as sobrancelhas me imitando.
- Nananinanão! – falei rindo – Não vou falar isso.
- Então não entra – falou decidido.
- Tudo bem – disse me virando e me apoiando na porta.
- Tudo bem. Não sou eu que estou esperando desesperado para ver uma surpresa que está escondida há três dias... – falou me chantageando.
- Ah ! Isso não é justo! – reclamei me virando em sua direção e fazendo bico.
- Adoro quando você faz bico! – riu.
- Vai! Para de ser chato! Me deixa entrar bobão!
- Nossa! Fiquei magoado agora. Ia te deixar entrar, mas agora só com a senha mesmo.
- Te odeio! – falei fazendo birra, mas ainda assim sorrindo.
- E eu te amo! – falou com um sorriso maior que o rosto.
Devo ter ficado uns cinco minutos encostada no carro, mas não agüentava mais não ter ele perto de mim. Precisava de seus lábios grudados aos meus.
- Ok! Você venceu! Você é o cara mais gato, sexy, bonito e gostoso da face da Terra!
- Fala com gosto, lindinha. - Não. - Então não entra. - Mas que droga, ! Você é o cara mais gato, sexy, bonito e gostoso da face da Terra! - disse revoltada, mas achando graça daquilo tudo que ele fazia. - HAHA! Sabia que você não ia resistir a minha gostosura.
- Ah! Não fala... - sentei o mais depressa possível, fechando a porta atrás de mim. E o beijei.
O beijei com toda a saudade que sentia dele.
Quando fui aprofundar o beijo o infeliz celular do garoto tocou, fazendo com que nos separássemos. Dei um olhar matador para e mais uma vez ele riu! Acho que ele não sabe o que posso fazer quando viro assassina de celulares.
- Calma, ! Vamos ter muito tempo hoje – sorriu malicioso, me fazendo ficar vermelha.
- Adoro quando você fica envergonhada – dizendo isso atendeu ao telefone – Fala, ! – disse ao infeliz que ligou.
A conversa seguiu com risadas e palavrões. ‘Garotos’ pensei. Estava olhando para o movimento da rua, quando uma parte da conversa me interessou.
- Tudo bem, , ela ta no carro. Cala a boca, cara. É eu já tô indo... – falou batendo a mão no volante. percebeu que eu estava olhando e saiu do carro batendo a porta com força.
Fiquei observando e com certeza ele estava irritado com .
não demorou muito para voltar ao carro e logo quando fechou a porta deu a partida. Ficamos em silêncio, até chegarmos à estrada. Isto é, uns vinte minutos.
- Pra onde você está indo? – perguntei fazendo carinho na sua nuca.
- Ah! A caminho de um... Lugar... – responder apertando mais ainda o volante.
- ? Tá tudo bem? – questionei olhando em dúvida para ele.
- Uhum – resmungou sem tirar os olhos da estrada.
- ! Você vai deformar o volante assim! – falei rindo. Mas percebi que não adiantou muita coisa – Tudo bem. Não quer falar comigo? Ótimo. – emburrei olhando para a janela.
Mais quinze minutos e nada, nem uma palavra dele. Comecei a ficar frustrada.
- Ah! Qual é... Olha, não entendo o porquê você está assim, se é porque você esqueceu de fazer reserva no restaurante no fim do mundo, por mim tudo bem... Tudo bem mesmo. Não me importo de comer no meio do mato. Ou se... Não vamos comer – Fiz uma careta com essa idéia, mas ele nem se quer estava olhando pra mim – Também não tem problema. Só quero que você pare de me ignorar, e olha pra mim, e tira essa cara... Dessa sua cara! – disse parando para pensar no que eu tinha acabado de dizer.
Finalmente ele começou a rir e fez uma curva entrando numa ruazinha.
- Como eu vou tirar a minha cara da minha cara? – falou fazendo uma careta.
- Ah! Você me entendeu, .
Paramos perto de uma barraquinha onde nós iríamos almoçar. Na verdade não era uma barraquinha e sim um chalé. Não fazia idéia de onde estávamos ou aonde íamos. Estava muito confusa.
- ? Onde estamos? – perguntei segurando sua mão e olhando para os lados.
- Eu sei que você gosta de comida caseira. Então... Consegui "alugar" esse restaurante – disse ele coçando a nuca.
Não estava acreditando nisso. tinha alugado um restaurante lindo! A cabaninha tinha um jardim maravilhoso com a grama verdinha e várias tulipas e copos-de-leite - minhas flores preferidas. Tinha um chafariz que jorrava água de um jeito que o sol batia nas gotinhas d’água e fazia um lindo arco-íris. Estava totalmente encantada. Senti um perto familiar nas mãos, me acordando do transe e quando olhei para frente tinha uma senhora nos esperando na entrada. Caminhamos até a entrada onde a – o que creio que era a balconista – nos esperava.
- Bom tarde, senhor ! – disse a senhora com um sorriso no rosto.
- Boa tarde, Katlyn! – disse sem tirar o sorriso do rosto.
‘Perai... Eles se conhecem?’ pensei. Olhei para arqueando a sobrancelha.
- Você já vai ver... – disse olhando pra mim – Katlyn mesa pra dois! – disse piscando pra ela.
PISCANDO!
Fechei a cara, mas quando Katlyn abriu a porta do chalé, esqueci de tudo a minha volta.

Capítulo 2
Um amor pobre aquele que se pode medir. (William Shakespeare)


Tudo era tão lindo! Não estava acreditando que estava lá. Meus olhos brilhavam como finos chuviscos caindo no vidro do carro. Meu sorriso se alargava cada vez mais com cada surpresa que recebia de . Não podia ser mais maravilhoso, como minha mãe sempre dizia.
- Você fez tudo isso?! – perguntei abismada.
- Umhum... – beijou o topo da minha cabeça, somente fechei os olhos e aproveitei o momento - Enquanto você estava na faculdade eu comecei a buscar algumas coisas...
A parede tinha algumas letras de música que ele próprio compôs, havia colheres e pratos decorados feitos por mim quando tinha onze anos, tinha também vários instrumentos musicais que eu conhecia como sendo do . E o que eu mais me emocionei: todas nossas “cartinhas de amor” que trocávamos quando tinhamos dezessete anos.
Comecei a rir descontroladamente lembrando como éramos idiotas, e como nossas palavras eram simples, mas eu sabia que representava muito mais do que somente simplicidade. Havia muita coisa envolvida, e o meu amor por aquele garoto era um dos mais valiosos tesouros que eu tinha.

- Mas isso faz semanas! – exclamei. Fazia mesmo semanas que tinha acabado a faculdade. Como que ele poderia “alugar” aquele chalezinho por três longas semanas?
- Eu sei. Mas você nunca vai estar em segundo plano. – Sorriu carinhosamente, olhando nos olhos. - Primeiro você, depois os problemas que você pode causar. – disse rindo.
- Ei! – disse o abraçando pela cintura. – Essa foi à melhor a surpresa que alguém poderia me dar. – Falei para ele, dando um selinho em seguida.
sorria tão abobado que me fez rir. Éramos dois bobos apaixonados!
- Essa é só uma parte da surpresa! - disse bagunçando meu cabelo.
- É? E cadê a outra parte? – perguntei curiosa, alargando mais meu sorriso encostando as pontas de nossos narizes.
- Só mais tarde. – respondeu dando de ombros.
- Duvido que seja melhor que essa. Quer dizer... Vindo de você, não posso falar nada. – falei dando outro selinho demorado. começou a aprofundar o beijo, mas se ele queria brincar com minha ansiedade também iria brincar com a dele.
Dei as costas e fui em direção a janela do fundo, ouvindo um suspiro de indignação. Sorri com isso.
O “jardim” era ainda mais bonito que a frente. Era na verdade uma praia. Com a areia branca como giz e um mar tão azul que meus olhos encheram-se de lágrimas com a imagem. Meu coração apertava cada vez que eu percebia que nunca tivera nada aquilo antes, e conseguira realizar um dos meus sonhos. Mais um. Uma brisa gelada vinha do mar, deixando arrepiada e lágrimas nos olhos. A única coisa que conseguia pensar era por que fazia tudo aquilo por mim? Nunca conseguiria entender que o nosso amor um pelo outro era equivalente. Ele era a minha vida, e eu era a dele. Nos completamos, como uma peça de um quebra cabeça gigante que faltava poucas peças para se completar.
- Ei! – exclamou me abraçando por trás, encostando seu queixo no meu ombro. – Feliz oito anos de namoro! – falou, fazendo com que as lágrimas que estavam acumuladas em meus olhos caíssem repetidamente.
Não tinha como negar. era o melhor namorado de mundo! Estávamos juntos desde os meus quinze anos e nunca, nunca me deixou de me fazer feliz. Claro, tivemos brigas como qualquer casal tem, mas sempre conseguia se redimir. E sempre, sempre me surpreendia. Com músicas, presentes, beijos inesperados ou até com notas quando estávamos na escola.
Eu amava . – FATO
Virei-me para ele e o beijei. Dessa vez ninguém atrapalhou, sem brincadeiras e sim muita ansiedade.
O beijo foi profundo e como se estivéssemos por um milênio sem nos ver. me beijava com ansiedade que nunca tinha visto antes. Bem... não ficamos separados por um milênio. Mas ficamos por três dias! E isso nunca aconteceu. Ah! Com exceção de uma vez que ele teve que viajar para a Austrália por que seu tio falecera, mas nos falávamos todo dia por telefone. Dessa vez, foi realmente diferente.
Sorria durante o beijo e dava mordidas de leve em seu lábio inferior. O que fez sorrir também. Recebia beijos nos olhos, na orelha, nas bochechas, e finalmente nos lábios, alargando meu sorriso mais ainda. O olhei nos olhos e encostei as pontas de nossos narizes um no outro.
- Ainda bem que você consegue ler minha mente! – disse me abraçando pela cintura.
- Senti sua falta! – disse olhando nos seus lindos olhos .
- Eu também, pequena, eu também. – Falou sorrindo mais que podia.
De repente minha barriga fez um barulho engraçado, alegando que eu estava com fome, fazendo com que ríssemos.
- Que tal se nós almoçarmos comida típica inglesa? Feita por uma cozinheira fantástica, no meio das nossas lembranças mais marcantes? – perguntou carinhosamente.
- Acho uma ótima idéia! – falei dando um selinho nele.
Sentando em uma mesa preparada com toalha de piquenique, com porta pratos com pães e frutas e dois pratos feito à mão.
puxou a cadeira para eu sentar e sorri agradecida. Mais uma coisa que amava nele: cavalheirismo.
Íamos almoçar arroz, peixe de água salgada e batatas fritas! EBAAA! Uma das minhas comidas preferida. Estava observando o pequeno chalé, transformado em restaurante, quando Katlyn trouxe os pratos. Estava com cheiro maravilhoso! É... Realmente estava com fome.
- Hm... Delícia... – disse esfregando as mãos, passando a língua pelos lábios.
A comida estava realmente gostosa. A-D-O-R-A-V-A comida assim.
Katlyn foi muito amigável e simpática conosco, trouxe e levou os pratos e quando eu e estávamos entretidos em alguma conversa, ela não aparecia. Pelo menos ela tinha senso de privacidade, diferente dos meninos, sempre nos atrapalhavam.
Conversávamos sobre como todo mundo sabia daquilo e eu não, e a meu mais novo diploma. estava compondo novas canções para mostrar para mostrar ao empresário da banda. Estavam à procura de uma gravadora para as musicas feitas, e se tudo desse certo gravassem um disco.
Quando acabamos, perguntei se podíamos dar um passeio na praia antes de irmos para minha próxima surpresa. Pegamos as cartinhas que estava cobrindo boa parte da parede e as colocamos nos bolsos.

- Você pensa em tudo não é? – perguntei enquanto passeávamos de mãos dadas.
- Não. Só em você. – disse olhando nos meus olhos, me deixando completamente vermelha. – Já disse que adoro quando você fica envergonhada?
- Já. E eu odeio isso. – respondi com a cabeça baixa.
Estávamos andando e vendo o pôr-do-sol, que estava muito lindo por sinal, tons de rosa, laranja e roxo predominavam o vasto céu a cima de nós, passarinhos piando e voltando aos seus ninhos completavam a paisagem mais que maravilhosa aos meus olhos.
- Tá lindo o dia hoje, não? – perguntou de repente.
- É... – respondi sem olhar para ele.
Começou um vento gelado que me fez ficar toda arrepiada, fazendo com que me abraçasse.
- Vamos ver as cartinhas? – perguntei avistando um banco de madeira na beira da praia.
- Você já não as viu um milhão de vezes, ? – perguntou ainda me abraçando
- Já, mas eu nunca canso. – respondi já o puxando pela mão para sentarmos.
- Bem a sua cara... Humph... – respondeu sentando ao meu lado.
Tiramos as cartinhas dos bolsos e espalhamos pelo banco.
- Velhos tempos... – suspirei sorrindo.
Comecei a pegar uma que tinha forma de coração.
- Ah! Adoro essa! – falei com os olhos brilhantes.
- Qual é? – perguntou olhando por cima do meu ombro.
- O da Bela e a Fera... – falei.

“ Somos eu e você
Você com a igualdade
E eu com as diferenças
Você com as qualidades
E eu com os defeitos
Por isso denomino-te
Você a Bela
E Eu a Fera”


- Ah! – falou envergonhado. Mesmo depois de tanto tempo, ficava sem graça me mandando cartas românticas.
- Adoro quando VOCÊ fica envergonhado. – falei lhe dando em selinho.
- Chega com essa melação! – falou me soltando e olhando para o mar.
- Tá, eu sei que você não quer ler nenhuma. – bufei.
- Eu só não quero ficar sentado. – falou olhando ainda para o mar.
não estava no seu estado normal. Sei lá, ele parecia tenso. Como se alguma coisa estivesse errada.
- Que tal andarmos então? – perguntei carinhosamente.

O sol já tinha praticamente se posto, mas estava um vento bom nos rodando. Isso era o que sempre quis. Passear com meu namorado ao pôr-do-sol em uma praia maravilhosa, como a que estávamos.
Estava tão concentrada nas ondas e na minha mão entrelaçada na de , que nem percebi que ele estava olhando para mim.
Ele começou a rir e finalmente virei o rosto em sua direção com um sorriso tímido nos lábios.
- Por que você tá rindo? – perguntei.
- To lembrando da gente no colégio... – falou com um sorriso maior que a distância que estávamos do carro.
- Nossa! Nem me fala! – falei cobrindo meu rosto com as mãos.
- De quando nos conhecemos... – continuou.


“ Fazia duas semanas somente que estava na Billyard High School. Meu pai tinha acabado de ser transferido permanentemente para Londres. E eu com meus quinze anos, tive que largar tudo, amigos, escola, dança...
Mas as meninas – , Isa, e a Bubys, como pediram para chamarem recepcionaram tão bem, que me sentia em casa.
Claro, as aulas eram um pouco diferente, pois era em outra língua, mas me dava bem em inglês. Minha avó era inglesa e todo mês eu passava uma semana com ela, então me entendia razoavelmente com as pessoas de lá.
Mas uma coisa eu não suportava: gente mesquinha. E lá tinha de monte. Porém, estava naquela escola com bolsas de estudo, e ela era a melhor da região, ou talvez de toda Londres.
Estava seguindo para minha aula de cálculo, a matéria que mais gostava, quando esbarro em um dos seres mais mesquinhos, idiota, nojento, idiota e... Idiota de toda a escola.
- Ops... – falou olhando para mim com um sorriso maravilhoso.
Foco ! Foco! Você odeia gente dessa laia. Engomadinhos... Humph...
- Desculpa. Não vi você. – disse sem olhar para ele.
Saí correndo e entrei na devida sala.
- Está atrasada Srtª . – Falou Sra. Night.
- Desculpe. – respondi de cabeça baixa, seguindo ao meu lugar.


- Calma, ! Vou derrubar meu suco em alguém! – Falei apressada enquanto ela corria segurando minha mão.
- Não vai não! – falou correndo agora de costas. – Tenho que te mostrar uma coisa.
Comecei a rir e abrir meus olhos de forma assustadora. Tinha alguém na nossa frente.
- ! Você vai bater em alguém! – assim que falei, ela desviou. Mas como sempre comigo só acontece tragédia. Tropecei em alguma pedrinha que estava esparramada no chão e cai de cara no chão. Mas, ao invés do suco de laranja ir pro chão comigo, ele voou da minha mão e foi parar na camiseta de algum garoto mais a frente. De repente toda a escola parou e focou os olharem entre eu e a vitima do suco de laranja.
- Ai, meu Deus! – falei me levantando e limpando a minha calça rapidamente. – Desculpa! Não era pra eu cair! – falei olhando para o chão. É claro que não era pra eu cair, dãã.
- Cacete, garota! Olha o que você fez! Idiota! – falou se virando e pude ver que era o mesmo garoto que esbarrou em mim no corredor!
- Desculpe! – falei assustada e com medo do que ele pudesse fazer comigo. O cara era o triplo do meu tamanho!
- Você vai limpar isso, não vai? – perguntou praticamente gritando e olhando diretamente nos olhos.
- Com que? – perguntei cruzando os braços, um pouco mais confiante. Ele estava sendo totalmente ridículo! Tinha sido um pequeno acidente!
- Com a língua, imbecil! Pega um guardanapo! - falou mais uma vez irritado.
- Ah! Dá licença! Não sou sua babá! – falei agora irritada, deixando uma boa parte da população da escola de cochichos e risadinhas, e o cara atrás de mim vermelho como um pimentão de raiva. Acho que ele nunca recebera um fora de uma garota, só podia ser.
Dei as costas para o indivíduo infeliz e fui de encontro as minhas – não mesquinhas – amigas.
Elas eram totalmente estranhas. Quando cheguei à rodinha que formavam perto de um jardim florido, a conversa morreu. Já ouviu falar que quando você chega aos lugares e a conversa morre, quer dizer que estavam falando de você? Pois é, estavam falando de mim, e de como sou completamente burra de falar daquele jeito com . No meio disso tudo descobri o nome dele, o quanto irresistivelmente irresistível ele era, segundo as garotas da Billyard High School. Mas para mim ele sempre seria somente – ah se eu soubesse disso. O garoto era metido a boyzinho só para conseguir “fama” na escola, que mané.
- A só ta te enchendo por que ela tem uma queda gigante por , o outro garoto ao lado do .
E dito isso, todos se viraram, inclusive eu. Estavam entretidos em alguma conversa – que eu imaginava ser de música, pois faziam gestos como se estivessem tocando guitarra, idiotas...
- Uma queda? Tem certeza? Ela se perdeu no poço, isso sim. – falou , rolando os olhos.
- Ah é? E você, hein? ‘Ai o Harry está com uma camisa xadrez que ressalta seus olhos!’ – falou , imitando a voz de , e esta somente rolando os olhos. – Não fala pra Isa, mas ela tem uma paixonite pelo Billy, um amigo deles.
Comecei a rir feita boba. Na verdade, tinha amigas apaixonadamente bobas!
Mais uma semana se passou e nem um sinal de vida do . Não que eu quisesse que ele viesse falar comigo. Não, de jeito nenhum. É que do jeito que ele é... Pensei que traria a conta da lavanderia, mas nenhuma palavra vinda da boca dele se dirigiu pra mim naquela semana. Às vezes dava umas olhadas para a minha bunda, o que me deixava um pouco incomodada.
No Brasil estudava em um colégio de freiras. Então acho que para mim era tudo errado. Mas ao longo do tempo, percebi que garotos eram mesmo pervertidos. Principalmente nessa bentida fase.
Mas meus dias de sossego estavam contados.
Aula de história? Para que ter aula sobre o passado? Para mim deveríamos estudar o futuro. Daí assim, poderíamos mudar o presente e...
Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi alguém chamar meu nome.
- Srtª ? – o Sr Marple me chamou atenção.
- Hm? Ah Sim? – falei levantando a mão.
- A diretora está lhe chamando.
Claro, era típico de mim. Era ótima aluna e tal, mas as diretoras sempre gostavam de me chamar à sua sala. Incrível, e olha que eu ainda não tinha feito nada!
Da última vez que eu fui para a diretoria, foi por que tive uma ótima idéia para o jardim da escola. A Freira Mary gostou tanto que me colocou no Grêmio Estudantil! O que eu achei completamente ridículo. Não conseguia me enturmar facilmente, muito menos fazer parte do grêmio estudantil...
Passava pelos corredores cumpridos e cheios de murais falando horários de aulas, notas escolares e apresentações da turma de teatro.
Entrei em uma salinha pequena, mas muito organizada, com muitos troféus e medalhas. Cheguei perto do balcão, tímida e curiosa.
- Oi... – disse envergonhada. – Hm... A diretora mandou me chamar? – perguntei enfiando as mãos no bolso do casaco.
- Ah... Você é a ? – a moça da recepção perguntou.
- Sim.
- Então sim querida. Só esperar. Ela está numa reunião.
Por que então me chamou agora? Pensei. Bem... Tudo era melhor que aula de história. Sentei nas muitas cadeiras que lá tinha e coloquei os fones do meu Ipod nos ouvidos. Sempre os levava para todos os lugares.
Estava ouvindo together do Bob Sinclair, quando alguém sentou ao meu lado. E logo reconheci: .
- Ei! Você é garota do suco de laranja! – disse animado.
Lindo... Agora vou ser chamada de garota do suco de laranja. Ninguém merece!
- Oi... – disse sem olhá-lo e sem tirar os fones.
Alguns minutos se passaram e me mexi desconfortável. Por que toda diretora demora em uma reunião?
- Hm... Olha... – começou. – Desculpa se gritei com você aquele dia...
- Umhum. – falei indiferente
- É serio! Estou arrependido! – falou olhando para a parede. PAREDE! Ah! Por favor, que cara de pau!
- SE você quisesse se desculpar olharia para mim. – falei tirando os fones e colocando-os de volta no bolso.
se virou e começou a olhar nos meus olhos. Aqueles olhos ... Foco !
- Desculpa! Eu não sabia que suco de laranja não manchava! – falou coçando a nuca.
Comecei a rir. Ele tinha gritado comigo por que pensou que laranja manchasse?
- É serio! Não ri! – falou também rindo!
- É que... Não posso acreditar que você achasse que uma mísera laranja manchasse! – fiquei com medo... Ele tinha me fuzilado com os olhos. – Certo, certo.. Vou tentar parar de rir.

Silêncio

Ah! Como odeio silêncio. Mas assim que pensava em como odiava silêncio, começou a rir. Olhei com a sobrancelha arqueada e ele falou:
- Ainda não sei seu nome...
- AH! . Mas só , por favor.
- Tudo bem, , acho que você já sabe o meu nome, certo? – perguntou sorrindo
Que cara mais... mais, tá, não acredito que vou falar isso, só que, que cara mais lindo. Pois é, vou me internar.
- Não? Nunca ninguém falou de mim? – perguntou abismado
Tá tudo bem. Sabia o nome dele, quantos anos tinha, mas poxa... Não iria dar o privilégio para ele se achar o gostosão na minha frente.
- Bem... Meu nome é . Mas todo mundo me chama de .
- Muito prazer .
- Então, ... – começou sorrindo
Nota mental: Chegar em casa, ligar o chuveiro e me enforcar. Falam que é melhor se enforcar tomando banho. Pois bem, eu achava o garoto mais bonito, quer dizer idiota, ah! Vocês entenderam!
- Acho que podemos ser amigos. – continuou.
Hãã? Certo, eu não estava preparada para isso.
- Hã? ah! Bem... – comecei a me enrolar legal, olhando naqueles olhos hipnotizadores e o perfume que chegava ao meu nariz... E ele começou a rir. ÓDIO! – Legal! Acho que sim...
- Legal. – falou se virando e fitando o nada.
Decidi colocar os fones novamente, mas sem ouvir nada. Só para não falar que ele era um chato sem assunto.
Estava pensando em que perdi na aula de história, quando me chamou a atenção.
- Acho que é a sua vez... – disse apontando para a porta que saía um casal de adultos.
- Ah! Sim. Hm, tchau então. – falei levantando da cadeira e indo em direção à grande porta branca. Mas parei assim que me lembrei de perguntar uma coisinha. – Por que veio aqui, ?
- Cabulei. – falou indiferente
Ri
- Não podia falar que viria para cá e ir para outro lugar? – arqueei as sobrancelhas.
- A inspetora me trouxe para cá. E ela ta lá fora – apontou para a devida porta de vidro com uma mulher robusta parecendo guarda costa do lado de fora. – E só vai me deixar sair com um papel assinado pela diretora.
Entrei rindo e balançando a cabeça. Mesmo ele sendo um completo idiota, acho que seríamos bons amigos...”


- Há há há... Ainda bem que laranja não manchava, não é? – falei rindo.
- Ei! Não ria de mim! Eu não sabia, tá legal? – falou tentando soar bravo, mas tudo que conseguiu foi mais risada vinda de mim.
Já tínhamos entrado no carro, pois começou a chover e não é legal ficar na praia com chuva. Com certeza não.
continuava tenso, desde a ligação de . E toda vez que perguntava algo, ele trocava de assunto. Mas se não queria me contar é por que não era grave. Ou era?
Meu dia estava perfeito, tinha um namorado perfeito, comi uma comida perfeita. Mas não estava preparada para o que vinha a seguir. Não achava que alguma coisa podia ficar mais perfeita, ou totalmente ao contrario...
subiu com o carro uma ladeira meio íngreme, mas parou em frente a casa mais linda do mundo!
Estava chuviscando, então consegui sair do carro, sem mesmo esperá-lo sair. Fui até as muretas que davam para o final da colina. Meus olhos embasaram e as luzes que faziam a vista tornaram-se borrões aos meus olhos.
Não tinha paisagem mais linda do mundo. Já era a noite, portando conseguia ver a cidade inteira, o rio Tamisa, a London Eye, o Big Ben! Era tudo tão perfeito e iluminado! Tão lindo! Aquele era o mirante mais lindo do mundo!
Minhas mãos congelavam de frio, e meu nariz estava mais gelado e vermelho que qualquer outra coisa, mas não perderia a oportunidade de gravar aquele momento tão maravilhoso e grandioso comigo. Nada mais seria esquecido.
Abri minha bolsa e peguei a máquina fotográfica, comecei a tirar de todos os ângulos possíveis, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, quando me abraçou por trás e encostou o queixo em meu ombro.
- Calma, ! Você vai ter muito tempo para tirar fotos... – disse rindo com um sorriso maior que o mundo. Um sorriso sapeca. Um sorriso que eu sabia que tinha alguma coisa por trás daquilo tudo.
- Como assim? – perguntei assustada e admirada, ainda não conseguia tirar os olhos da imagem deslumbrante em minha frente. Aquela casa maravilhosa, com cara de um milhão de libras era hotel?
sorriu mais ainda com meu desentendimento e falou:
- Bem vinda a nossa casa de campo!

Capítulo 3




Arregalei os olhos, não acreditando naquelas palavras ditas a poucos segundos. Era impossível aquela casa ser... nossa.
Virei o corpo para lentamente, ainda absorvendo a informação que me dera. Aquilo era um absurdo completo, tinha que ser.
- O que? Você está falando sério? – perguntei com uma avalanche em meu estômago. Minhas mãos tremiam em dúvida, mesmo tendo certeza que ele falava sério, deixando meus olhos brilhando.
- Umhum. – chegou mais perto e sussurrou em meu ouvido. - Só para nós dois. – disse com sua voz rouca e logo sorriu, me abraçando apertado.
- Você deve estar brincando. – falei com os olhos marejados, fixos na construção em minha frente.
A casa era realmente maravilhosa. A pintura branca com detalhes em tijolinhos de construção, com vitrais imensos e cortinas igualmente brancas com detalhes em marrom, não deixando ver seu ambiente interior. No jardim havia um banco de madeira rústica envolto com pedras, fazendo caminho para a porta de entrada. E que porta! Era gigante! Toda envidraçada, dando vista para duas escadas no hall da entrada, e deixava os últimos raios de sol entrarem, iluminando o ambiente interno.
Andei um pouco, ainda assustada e entorpecida, para o jardim dos fundos, e quase caí quando vi sua beleza. Melhor que qualquer jardim que já tinha visto. Com palmeiras e bromélias coloridas, uma rede trabalhada que prendia em dois coqueiros altos e formosos. Mais a frente, uma cascata soprava harmonia no ambiente, refletindo os meros raios solares que ali caiam. Dois balanços altos e igualmente belos balançavam com o vento que soprava levemente.
Aquela casa era igualzinha a de uma revista que havia visto na casa de . E, logo que a vi, fiquei apaixonada pela imagem da bela construção, simples e complexa ao mesmo tempo.
- Sabia que meu sonho é ter uma casa de campo que nem essa? – falei sorridente.
Parei um minuto e comecei a pensar no que eu via em minha frente. Não podia ser a casa da revista, era praticamente impossível!
- AAAAAAAAAHHH!! – gritei, correndo em sua direção com a cabeça nas nuvens. – Não acredito! Não acredito! - falei, quase o derrubando quando pulei em seu colo, distribuindo milhões de beijos em seu rosto. – Muuuuuito obrigado! – comecei a chorar com um sorriso gigante nos lábios.
- Xiii...! Não quero ver você chorando! – disse sorrindo, fazendo carinho na minha bochecha, limpando as pequenas lágrimas que caiam de meus olhos.
- ‘Tô chorando de felicidade! – falei, passando as costas da mão nos meus olhos e corando levemente, sentindo sua respiração perto de meus lábios.
Com uma mão em meu rosto e a outra apoiada em minhas costas para eu não cair, me beijou. Sua língua contornou meus lábios e eu senti aquele famoso arrepio de quando nada pode mudar aquele momento. Muito clichê? É, talvez, mas sempre me surpreendia, não importava com o que eu estava lidando.
andava, me carregando com minhas pernas cruzadas em sua cintura. Andando mais lentamente que o normal, abriu a porta sem parar de me beijar e adentramos à casa. Naquele momento, queria muito ver o interior, mas a saudade e o desejo eram maiores.
Nossas línguas travavam uma luta desesperada, desesperada de saudades, não deixando nos separar por sequer um segundo. começou a subir as dezenas de escadas e abriu com o pé uma porta, me colocando entre a parede.
- Espera! – disse, partindo o beijo com a respiração descompassada. me olhou em dúvida, me fazendo gargalhar docemente – Preciso de ar. – suspirei em seu ouvido e, assim que terminei de falar, beijou meu pescoço, deixando pequenas marcas no local que eu sabia que ficariam visíveis no dia seguinte.
Aos poucos me empurrava para o lado e, quando percebi, já estava deitada na cama do meio do quarto. não se decidia onde deixar suas mãos, as passando desde minha nuca às minhas coxas, tão levemente que os arrepios constantes tomavam conta de mim. O puxei para mais perto ainda com minhas pernas entrelaçadas em sua cintura e deitamos um de frente para o outro, quebrando o beijo tanto esperado. As risadas preencheram o quarto e meu sorriso se alargou quando percebi que aquilo não era um sonho. Nada aquilo era minha imaginação.
- Obrigada, por tudo! – soltei aquelas palavras sinceramente e dei um selinho demorado em seus lábios.
- , não tem o que agradecer. – acariciou minhas bochechas com as costas da mão – Você faz a minha vida valer a pena. – sorriu, encostando seu nariz no meu.
Nunca conseguiria acreditar que aquele homem na minha frente seria o meu namorado por tanto tempo. Como se um furacão tivesse passado e mudado os destinos ou tudo fosse da minha cabeça e nada mais importasse, só ele.
- Ai! – gritei assustada ao sentir algo atingir minhas costas na cama.
- Que foi? – perguntou, arregalando os olhos, preocupado, saindo de cima de mim.
- Acho que tem alguma coisa nas minhas costas. – choraminguei, me virando para trás e vendo meu... - ÁLBUM DE FOTOS! – aumentei a voz, surpresa por ter encontrado um presente tão antigo em um dia tão perfeito como aquele estava sendo. Não conseguia acreditar que tinha guardado por tanto tempo. Aquele álbum eu tinha dado a ele no nosso primeiro aniversário de namoro, para colocar todos os momentos especiais que passamos e passaríamos.
A capa era azul bebê de camurça com as margens em dourado e, no centro, estava escrito:
“Result of our Magic!”
No momento em que dei o álbum, ele ficou em dúvida, claro, quem daria um álbum de fotografia ao namorado? Mas eu sabia que gostava de fotos e aquele seria o presente certo, na hora certa.
Ele sempre me surpreendia e, pra variar um pouco, aquele dia não tinha sido diferente.
- Vou matar o quando formos para casa. – falou bufando, cruzando os braços – E ainda falou que você nem iria ligar! E você viu a hora que ele me ligou? – falou indignado, me deixando confusa sobre o que ele estava falando.
- Do que você tá falando, ? – beijei seus ombros delicadamente e apoiei minha cabeça neles, relaxando e abrindo o álbum.
- Combinei com que ele traria algumas coisas para cá até eu terminar de resolver as papeladas e essas coisas, só que o anta não entendeu nada disso e não trouxe nada do que eu tinha pedido. Era para estarmos aqui desde ontem... – disse um pouco mais calmo, mexendo em meus cabelos.
- , tudo saiu perfeito, não, saiu mais que perfeito. Tudo foi fabuloso! – fechei os olhos, inspirando seu perfume e o guardando na memória para que aquilo tudo que estávamos fazendo ficasse em meus pensamentos para sempre.
- Que bom que você gostou. – respondeu carinhosamente e entrelaçou nossas mãos.
Ficamos aproveitando o silêncio, não era assustador, muito menos constrangedor. Nossa falta de fala significava e falava muito mais do que qualquer palavra.
O mais importante de tudo isso, da minha vinda para Londres, mudado de escola, foi ter conhecido e ele ter me conhecido, mudando, talvez, a vida de todo mundo. De todos com quem ele convivia antes de me conhecer. Me introduzindo para um mundo que nunca imaginaria.
- Você não me faz bem, ! – exclamou, rindo.
- Por quêêêê? – perguntei fazendo bico.
- Você me deixou mais meloso que qualquer mel de colméia. – respondeu, gargalhando.
- É por isso que eu te amo! – falei, apertando suas bochechas, as deixando avermelhadas.
- Só por isso? Por que sou romântico? – perguntou, indignado na medida do possível.
- Lógico que não. – falei, passando meus olhos por mais fotografias. – Porque você é o cara mais dramático, idiota e tolinho da face da terra! – o olhei, segurando o riso, vendo sua cara deixar de ser indignada para uma feição inacreditável.
- Também te amo. – falou com a cara fechada.
se levantou e começou a andar em direção à porta, fazendo com que eu tropeçasse no tapete antes de conseguir correr em sua direção e me segurar na porta, do que eu imaginava ser o closet, rindo pela confusão não entendida.
- Ei! – exclamei, o abraçando pela cintura. – Não quis te deixar chateado.
- Deixa pra lá. – falou seco, dando de ombros e me deixando com cara de paisagem enquanto descia as escadas.
Saí correndo e gritei no travesseiro assim que pulei na cama com raiva de mim mesma por ser tão estúpida.
– Eu sou a garota mais idiota de todos os tempos! – continuei gritando. O bom era que o travesseiro tapava o som, então poderia gritar o quanto quisesse.
me dava o melhor dia da minha vida e eu contribuía chamando-o de idiota? O que eu tinha na cabeça? Era melhor ter me enfiado na cascata do quintal do que ter falado aquilo.
Sentei-me novamente com a cabeça menos quente e peguei o álbum que agora estava jogado no meio da cama. Passava as fotos mais sem sentido da face da terra! Nossa turma inteira na praia, nós dois na London Eye; a e o jogando batatinhas no cabelo de , nós na noite da cabana e do luau... Mas uma foto tinha me chamado a atenção...

“– Joga pra mim! – exclamei, correndo para trás.
Estava um dia maravilhoso, o que era muito raro, porque nunca fazia muito sol. E justo aquele dia estava ensolarado e sem nuvem alguma.
Eu e as meninas decidimos ir ao parque relaxar um pouco. A semana de provas e trabalhos tinha acabado, portanto estávamos livres para desencanar da escola e curtir nosso domingo ensolarado em paz.
Fazia já seis meses que tinha mudado de país, cidade, amigos e escola. Mas por mais difícil que seja, consegui me socializar muito bem com todos e com tudo. Parecia tão mais fácil do que era. Como se eu já me sentisse em casa, como se eu já pertencesse àquele lugar há muito tempo. Com uma única exceção que eu abominava: .
Não sei por que, mas aquele garoto não ia com a minha cara nem eu com a dele. Desde o dia da diretoria, isto é, fazia cinco meses, se ele falou comigo quatro vezes já era muito. Talvez ele tivesse algo contra garotas como eu, ou minhas amigas não foram legais com ele no passado. Mas prefiro a primeira opção, as garotas não fariam mal à nenhuma mosca! Como poderiam fazer algo àquele bundão?
Estávamos tentando jogar futebol, tentando mesmo, por que, eu jogando já era um terror, ensinando então, pior ainda. Risadas constantes eram dadas lembrando das pernas erradas e das bolas sendo chutadas para muito longe.
Tínhamos feito piquenique na hora do almoço com tudo o que tínhamos direito e mais tarde tocaríamos violão. Quer dizer, a tocaria. Só ela sabia.
tentava não cair chutando o próprio pé, eu tentava falar que era para chutar a bola, mas a menina teimava com seu tornozelo, deixando todas fazerem piadinhas de que o estava atrapalhando a mente dele por estar em seus pensamentos constantemente.
Decidimos parar um pouco, até que um frisbee passou pela minha cabeça, prendendo minha atenção. Olhei para os lados e não achava ninguém de quem poderia pertencer aquele disco amarelo e vermelho.
- De quem será? – perguntei a elas, mostrando o objeto em minhas mãos. Todas deram de ombros mais interessadas na própria comida do que em um brinquedo qualquer que caiu no gramado.
- Deve ser daqueles garotos ali. – Isa apontou para um grupinho pequeno de adolescentes que tocavam alguma música melodiosa e riam muito.
Levantei-me e me aproximei lentamente de cabeça baixa, com o frisbee em mãos.
- Hm... Esse frisbee é se vocês? – perguntei timidamente, levantando o olhar. Quando observei com quem eu estava conversando e quem eu tinha encontrado justo naquele dia, meu queixo trocou de lugar com meus pés.
Bem, nada menos que e companhia estavam lá. Para quem não falava comigo fazia um bom tempo, parecia bem surpreso em me ver ali.
- O que você ta fazendo aqui? – perguntamos juntos.
- Eu... – respondemos juntos novamente, começando a rir um da cara do outro.
- Você primeiro. – decidiu .
- Não te interessa – falei, dando de ombros, e me virei para ir embora.
Estava a poucos passos de chegar à nossa linda toalha de piquenique, quando me toquei que ainda estava com o devido disco colorido em mãos.
Voltei decidida a entregar a porcaria do disco voador e nem olhar na cara do maníaco. Assim que me aproximei, meu estômago deu voltas e mais voltas e meus braços se arrepiaram, me deixando com uma cara duvidosa, nem estava ventando para eu sentir frio, o que estava acontecendo? Percebi que estava rindo com meus pensamentos indecentes e parei imediatamente, mas era tarde.
- Perdeu alguma coisa aqui, Rivaldo? – perguntou seco e grosso. Mas que garoto mais horrível. O que eu tinha feito a ele?
- Ei, ! Não fala assim com ela. – contestou , sorrindo para mim.
Sorri agradecida a e vitoriosa ao idiota sentado em minha frente.
- Tanto faz. - deu de ombros, voltando a verificar as cifras da música que tentava tocar.
- Esse frisbee é de vocês? – perguntei, olhando para , e .
- Não. – respondeu , mexendo em sua mochila e voltando seu olhar para mim.
- Certo. – respondi, me virando de volta para nosso almoço.
- Quer sentar? – Perguntou , indo para o lado tocando o espacinho para mim.
Olhei para que estava com a cara ainda mais emburrada e dei meu melhor sorriso.
- Claro! – soei convencida demais.

Estávamos numa conversa boa sobre música e bandas, até chegar e interromper toda a minha felicidade de deixar fora da conversa.
- ! Com quem você t... – parou de falar e ficou mais vermelha que um tomate. E logo percebi que era porque estava lá.
- Ah! Oi... – falou envergonhada, desviando o olhar para o chão.
- Oi! – falaram em coro e sorriram encantadoramente.
- Hm... , a agente vai começar a jogar de novo. – continuou falando.
- Estão jogando o que? – perguntou, fazendo-a ficar com mais vergonha ainda.
- Futebol. – respondeu rapidamente.
- Ah! Adoro futebol! Podemos jogar? – perguntou animado, já levantado.
- Claro! – falou , animada, rumando para a nossa área de jogo.

Estava sentada olhando todos jogarem, por estar muito cansada, quando a grama ao meu lado afundou e percebi que sentara ao meu lado por pura vontade.
- Oi. – o cumprimentei ainda focada no jogo em minha frente.
- Olha, eu... Por que não está jogando? – perguntou tímido, olhando para mim.
- Sem vontade. – dei de ombros.
- ‘Tá com vontade de dar uma volta?
UAU! Arregalei os olhos, surpresa com o convite.
- me convidando para dar uma volta? – levantei as sobrancelhas.
- Bem... – falou, coçando a nuca e as bochechas vermelhas – Se não quiser, tudo bem.
- Não... – disse de repente. Não sei de onde veio a vontade de conversar com ele, mas em todo caso... – Eu ‘tô com vontade sim...
Levantamos e fomos em direção a várias árvores. Não conhecia aquele parque, então me guiava, me deixando completamente perdida com a situação e a localização daquilo tudo.
E o mais constrangedor de tudo? Ninguém falava nada.
- Não vai falar comigo? – perguntou de repente.
- Por que não falou comigo esse tempo todo? –me referi desde quando nos conhecemos acidentalmente.
- Talvez eu não possa te responder agora.
Andamos mais um tempo, ainda tentando assimilar o que estava acontecendo. Por que ele não poderia me responder? Já estava desejando não ter aceitado o “convite”.
- Quer sorvete? – perguntou, me despertando dos meus devaneios.
- Ah! Eu não trouxe dinheiro. – respondi, olhando para meus pés.
- Sem problemas. – finalizou, andando em direção ao sorveteiro.
Achei um banco de madeira próximo de onde estávamos e sentei espaçosamente.
- Toma. – me deu o picolé que imaginava ser de...
- Laranja? – perguntei com as sobrancelhas erguidas, segurando o riso.
- Imagino que você goste de laranja. – respondeu sorrindo, já imaginando o que aquilo lembrava.
Ok. Ele pode ser fofo quando quer.
- É, eu gosto. – sorri experimentando o picolé, deixando o silêncio reinar novamente no banco. – Como eu adoro o silêncio. – pensei ironicamente, um pouco mais alto do que queria.
- Então por que falou? – perguntou cínico.
Suspirei e decidi perguntar novamente.
- Por que não falou comigo todo esse tempo?
- Por que... Sei lá. – respondeu mais rápido, olhando para os próprios pés. – Hm... O que você faz no sábado?
- Por quê?
- Quero algum assunto.
- Bem... Não quero ser SEU assunto. Fala o que você faz no sábado.
- Também não quero ser o seu assunto.
- Você nunca foi o meu assunto. – rebati.
- Ai... Essa doeu. – encenou uma flecha entrando em seu peito, me fazendo rir. Um sorriso surgiu em minha boca involuntariamente.
- Por que você está sorrindo? – questionou.
- Nada.
- Fala.
- Não.
- Ok, então. O que você faz no sábado? – riu com a repetição da pergunta.
- Mas você é impossível! – ri.
Gargalhamos durante muito tempo até ele comentar do por que estarem naquele parque e começarmos um assunto animado.
- Estamos tentando montar uma banda, sabe? Temos que treinar e arranjar uma música legal para mostrarmos ao produtor e, como hoje tem sol, nada melhor do que sol e água fresca.
- Na verdade, é sombra e água fresca. – o corrigi.
- Tanto faz. – deu de ombros, voltando seu olhar para o horizonte. - Você quer dar mais um volta? – perguntou, me assustando por um segundo pela proximidade que se instalara sem minha percepção.
- Claro! – não recusei.
Observava silenciosamente o gramado verde esmeralda e o cheiro de grama que o lugar exibia. Os pássaros cantando alegremente animavam o lugar e as flores dos canteiros deixavam tudo mais bonito. Uma orquestra juvenil tocava um pouco mais longe de onde estávamos, mas eu conseguia ouvir perfeitamente as notas clássicas voando pelo ar e aconchegando o local, deixando como se estivéssemos em um sonho. Começamos a conversar novamente sobre sua banda e quais os tipos de músicas que tocavam até que um ganso chegou por trás de e roubou sua carteira, começando a correr desesperadamente e soltando gruídos extremamente bizarros.
- Minha carteira! – exasperou , começando a correr atrás do ganso, me deixando com a cara toda vermelha de tanto rir.
Os dois corriam em círculos e depois em quadrados e depois em uma forma estranha, que não consegui identificar. Pareceu até que conseguiram a atenção do público, pois várias pessoas que por ali andavam vieram assistir a “atração” de homem persegue ganso.
- Aquele é seu namorado, querida? – uma velhinha me perguntou sorridente, me deixando sem palavras por um instante.
- Não, não... – balancei as mãos exageradamente – Nada disso, ele é só um garoto da minha escola. – confirmei com a cabeça.
- Bem, vocês fazem um belo casal! – disse, virando as costas e saindo do meio da multidão com um pacote pardo e minhas palavras, por que elas não saíram de minha boca até aquele momento.
Dez minutos depois de tanta correria, veio em minha direção com a cara derrotada e todo suado. Cadê a carteira?
- Conseguiu a carteira de volta? – perguntei, segurando a vontade de rir.
- Não. Mas tudo bem, eu compro outra. – falou como se o que estivesse dentro daquela bolsinha não importasse.
- ! Devia ter mil coisas ali dentro! E seus documentos? – me preocupei sem necessidade alguma.
- Tudo bem, . É só uma carteira. Eu vou comprar outra depois. Não estava levando tanto dinheiro assim...
- Quanto você estava levando? – começamos a caminhar, mas mesmo assim olhava para trás a cada cinco segundos e enxergava o animal branco xeretando e virando a carteira de um lado para o outro.
- Quinhentas libras e alguns dólares que eu troquei em algum dia aí... – deu de ombros mais uma vez – , já foi. Não vou correr atrás de um ganso. – enfatizou o nome do animal.
- Primeiro: pra você ainda é , não . Segundo: ! São quinhentas libras! Não é qualquer coisa. Isso tem muito valor, sabia? – o adverti, começando a ficar irritada. Se ele esperasse pelo menos alguns minutos o pássaro encheria do novo brinquedinho e largaria no meio da grama, podendo, assim, recuperar a carteira, mas parecia que tudo o que ele queria fazer era deixar o ganso fazer umas comprinhas úteis para o lago dele. - Você é muito mimado, não sabe dar valor as coisas e, sinceramente... Não preciso da sua amizade para me sentir bem. – praticamente gritei, enumerando as coisas nos dedos que eu começaria a contar, mas quem era eu para dar minha opinião sobre o que faz ou deixa de fazer, não é mesmo?
Comecei, então, a seguir o mesmo caminho pelo qual viemos, porque iria me perder por qualquer outra trilha existente.
- Espera! – gritou em alto e bom som. E o senti segurando meu braço.
- O que você quer? – cuspi as palavras, enojada de quem estava na minha frente.
- Você acha minha vida perfeita? – perguntou abismado. Ele apertava cada vez mais forte meu braço. Tudo que consegui foi balançar a cabeça afirmativamente.
- Você não me conhece. – falou, colocando as mão nos olhos e andando de um lado ao outro.
- Não mesmo, se você parasse de ser mesquinho e... – mas ele me interrompeu.
- Não! Você não sabe de nada sobre mim! ! Eu acho a sua vida perfeita! Você tem pai e mãe que ficam em casa e jantam todos os dias, tem irmãos que se metem em encrenca, tira boas notas... Eu não tenho nada disso! Minha mãe viaja mundo afora como chefe de cozinha! Só para em casa aos feriados, quando não tem que trabalhar. Meu pai é advogado e é contra tudo que falo e faço! Ganha milhares de libras todo mês e não está nem aí com quem, ou com o que seu filho gasta! A única coisa que tenho são meus amigos! A pior coisa do mundo é você saber que algum dia você não vai ter mais o que sempre quis. Olha ‘pra você! Linda, talentosa, orgulhosa de si mesma, inteligente e cheia de amigos a sua volta! Sua vida que é perfeita! – terminou ofegante e nenhum de nós dois tinham mais palavras. Alguns segundos depois meu coração se apertava pelo modo como ele descrevia sua vida. Eu realmente não sabia nada sobre ele.
- Desculpa – murmurei arrependida.
- Eu quero sim ser seu amigo. – continuou. – Só que... Você é diferente, entende? No sentido bom, é claro. Só que nunca ninguém me ignorou, ou me xingou ou fingiu que eu não existia quando passava por perto.
- ? Eu... Eu sinto muito. De verdade, não queria ter dito aquilo. – me desculpei, chegando um pouco mais perto e olhando em seus olhos um pouco assustada.
- Você gosta de dança, não é? – perguntou sem responder a minha desculpa quase inaudível.
- Claro! Adoro! – disse com um sorriso sincero no rosto, vendo-o mexer no bolso da calça.
- Toma. – disse, me entregando dois papéis retangulares com detalhes em prata e cheiro de novo.
Arregalei os olhos e soltei uma exclamação de felicidade quando percebi que tinha me dado dois convites para ver Lês Sylphides! Um dos ballets mais lindos e um dos meus favoritos de todos os tempos!
- ... – comecei sem palavras. – É sério, eu fui horrível com você hoje. Não mereço isso. – empurrei os convites em sua direção.
- Vai comigo. – sorriu, se aproximando mais e pegando em minha mão direita - Daí você me conhece e vê que não sou tão mesquinho quanto aparento ser. – continuou a observar nossas mãos coladas uma na outra, a sua cobrindo a minha, como se a protegesse de algo.
- ... Como sabia que eu ia estar aqui no parque hoje? – perguntei após ele mencionar que sabia que me encontraria naquele lugar em uma de nossas conversas naquela tarde.
- Sabia que o anda observando a com mais atenção? – respondeu com outra pergunta e sorriu malicioso.
Olhei para baixo, totalmente envergonhada. Não sabia se olhava para os convites ou para a cara fofa que ele fazia, mostrando os dentes enquanto sorria e pegando minha outra mão, a entrelaçando também com a dele.
- O que você quer, ? Você não é assim comigo... – conclui o que martelava em minha cabeça diversas vezes naquele dia. Meu coração estava tão acelerado que não ouvia mais nada. Meus olhos estavam paralisados em seus lábios. Não sei por que. Mas não conseguia parar de olhar. Pareciam tão convidativos e avermelhados. Nem o canto dos pássaros, nem os de violino existiam mais. Tudo o que eu conseguia enxergar era a sua boca se movendo lentamente e seus olhos mais escuros do que antes fixos em meus lábios.
- Isso. – respondeu minha pergunta, eliminado o espaço entre nós e selando nossos lábios.
Definitivamente não estava esperando por isso. Sua língua de encontro com a minha fez meu estômago quase sair para fora, mas suas mãos que acariciavam as minhas me acalmavam por tempo suficiente para eu concluir que aquele beijo estava sendo o melhor da minha vida inteira.
Nos separamos lentamente e eu não sabia se sorria ou ficava totalmente constrangida. Aquilo não estava planejado. Acho que ficar vermelha é um ato involuntário, então olhei para baixo envergonhada.
Ninguém falou durante alguns bons minutos. E pelo canto do olho, vi que também olhava para baixo, mexendo os pés. Parecíamos adolescentes de doze anos que acabavam de dar o primeiro beijo de suas vidas. Era uma cena engraçada e constrangedora. Mas meu estômago ainda não tinha parado de me mexer e me incomodar pelas sensações engraçada que aquilo provocava.
- Hm... Bom, decide se você vai aceitar ou não. – sussurrou perto do meu ouvido - Depois me fala a resposta. – finalizou e virou as costas seguindo um caminho diferente do qual viemos. Me deixando com os olhos arregalados e o olhando para onde tinha acabado de ir.
Suspirei pensando no que tinha acabado de acontecer. O que foi aquele beijo? Nunca sentira aquela sensação antes, parecia até que tinha algum poder sobre mim. Quer dizer, agora tem. Ele com certeza é o melhor beijador dos meus lábios de todos os tempos possíveis! Ou era isso que o meu estômago indicava. Ri envergonhada por pensar aquelas coisas de logo depois de falar coisas horríveis a seu respeito. Um pouco constrangida, coloquei as mãos no bolso e senti alguma coisa sendo amassada pela minha mão. De lá tirei um papel minúsculo com uma caligrafia torta e desregulada, mas, mesmo assim, conseguia identificar a quem percebia aquele bilhete.

Desculpa ser tão... não eu com você. Vou tentar melhorar. Prometo.
Mas o que acha? Quer sair comigo ou não?
. xX”

- ? – perguntei assim que desci as escadas à sua procura.
Ele realmente estava bravo comigo. Eu tinha que ser a namorada mais idiota mesmo.
Entrei em uma sala e o achei vendo TV.
- – comecei educadamente – desculpa. – sentei ao seu lado dando vários beijinhos em seu pescoço.
- Umhum... – falou ainda prestando atenção na tela a sua frente, mas tinha certeza que nem sabia o que estava passando. Por que...
- Polishop, ? – perguntei, rindo encostando em seu ombro direito, recebendo cafuné em meus cabelos.
- É... – disse, dando de ombros. – Quero deixar meu bumbum mais definido. – fez cena de atleta e começou a rebolar exageradamente.
O olhei com uma sobrancelha erguida e com um sorriso no rosto. Começamos a rir como crianças e logo percebi que estava tudo bem de novo.


Capítulo 4


Sentei no sofá, estufando as almofadas, e puxei o controle da sua mão. Ninguém merece ter que assistir Polishop em plena noite de sábado.
- Diário de Uma Paixão! – exclamei com os olhos brilhantes. Esse era um dos meus filmes preferidos e um dos que eu mais chorava. Com certeza. Talvez pela Allie ser tão boa para o Noah, e eles serem tão inconvenientemente perfeitos um para o outro. Aquilo era surreal.
- Ah, amor, você já assistiu tantas vezes esse filme! – reclamou, fazendo bico.
-Ah! Só uns minutinhos! – continuei respondendo com os olhos fixos na tela.
“Se você é um pássaro, também sou!” Noah gritou, correndo para Allie e me fazendo dar pulinhos de alegria no sofá e começar a apertar a barriga de , deixando-o vermelho de tanto dar risada.
Éramos patéticos, patéticos apaixonados.
Alguns minutos de distração me trouxeram novamente de volta para o filme e para o mundo surreal do romance inacreditável que me mostravam do outro lado da tv. Nada daquilo parecia poder acontecer na vida real. Tudo era somente um livro, um livro com as mais belas passagens de um amor verdadeiro.
Senti a respiração de em meu pescoço e seus lábios encostarem perto do meu ouvido, me causando arrepios por todo o corpo. Acho que ele não entendeu muito bem o que eu quis dizer com uns minutinhos de filme. Mas é claro que ele não me afetaria assim tão fácil. Nada me afetava tão fácil quando Noah e Allie se apresentavam exclusivamente para mim.
Levantei decidida e saí de perto dele, indo para o outro lado do sofá. Podia ter feito isso, claro, só se meu corpo não proclamasse pelo dele naquele momento. Meu acordo interno de não me afetar com seus beijos foram por água abaixo. Ele sempre me afetara. Até mesmo o Noah não conseguia superar o que eu sentia por . Por mais minúscula que a coisa fosse. Mas é claro.
Seus carinhos subiram a minha bochecha e vagarosamente seus lábios tocaram os meus, encostaram como cristais prestes a quebrar. Sentíamos um ao outro com os narizes grudados e olhos fechados, mas nossos corações pareciam saltar cada vez que chegávamos mais e mais perto. Sua boca querendo a minha e os arrepios contínuos mexiam com o meu corpo. Abri lentamente os lábios, sentindo seu gosto mais uma vez, mas como se fosse a primeira. Totalmente incansável. Suas mãos agarraram minha cintura fortemente e me deitaram no sofá.
Minhas pernas enroscadas nas suas me trazia alegria por estar compartilhando aquele momento com ele. Até quando lembrei como tudo começou. Aquilo realmente não era esperado, nem um pouquinho. Selinhos fazendo uma trilha até meu ouvido nos acalmaram, terminando com risadas abafadas e seu perfume contagiante preenchendo o ambiente.
- Quer conhecer o resto da casa? – sussurrou.
fechou a cara e virou de costas para mim, me deixando confusa. Me aconcheguei no fundo do sofá e só esperei para ver o que ele faria.
- Bom dia, Senhorita ! – fez uma referência para mim.
Fiquei surpresa, soltando risadas escandalosas com suas caretas constantes, ele parecia um...
- Sou seu monitor particular para conhecer a casa. – brincou, mostrando meu sorriso preferido.
- Sério? – falei, tentando ficar com uma cara muito surpresa. – Bem, qual é o seu nome?
- .
- Bem, senhor , gostei muito de você. Só devo dizer que tenho namorado. Então para de me olhar assim. – Ri envergonhada pelo modo como me olhava, entrando na brincadeira.
- Eu compreendo. – falou, abaixando a cabeça, tirando-me muitas risadas. – Acho que seu namorado terá que tomar cuidado... – chegou mais perto e me deu um beijo estalado na bochecha, me fazendo sentir meu rosto ficar quente e meu sorriso se alargar com seu gesto.
Seguimos por um corredor branco que ainda não tinha reparado. Só tinha uma porta, bem no fundo do corredor. As paredes eram cheias de quadros com desenhos e pinturas diferentes, com detalhes em madeira, deixava a passagem aconchegante e infinita.
Meu suposto monitor parou em frente à porta e alegou que eu realmente gostaria daquele cômodo. Só queria ver o que tinha lá.
A porta se abriu e meu queixo caiu.
As paredes brancas e uma em vermelho deixava um contraste impressionante na sala, os móveis de mogno escuro e um tapete felpudo combinavam com a decoração. Olhei mais ao redor e avistei meu notebook desaparecido. Então lá estava ele, finalmente o achei.
- Vem aqui... – fiz o gesto com meu dedo, o chamando para mais perto – Não acredito que você fez isso. – balancei a cabeça negativamente, olhando para baixo e entrelaçando nossas mãos.
- Vou aceitar isso como um elogio. – levantou minha cabeça na direção de seus olhos. Me enxergava na profundidade que eles traziam e via todos os sentimentos que por ele passavam, como se fossem muito fortes para se esconderem. Era bonito de ver.
Sob a mesa central estava vários porta–retratos. Eu e minhas melhores amigas, eu e meus pais, e uma das minhas preferidas: eu e no parque. No mesmo parque que nos beijamos, quer dizer, que ele me beijou. Me beijou inesperadamente pela segunda vez.
Só que dessa vez estava nevando, nós dois com narizes e lábios vermelhos. Estava abraçada a ele, dando um beijo de esquimó. E o mais bonito de tudo: um pôr-do-sol lindo atrás.
Peguei o porta–retrato com um sorriso de ponta a ponta. Nunca esqueceria aquilo.
- Esse aqui é o meu namorado! – apontei para o suposto monitor, rindo da sua cara.
- Ele é um cara de sorte. – , o monitor, exclamou ficando a menos de 10 centímetros de distância.
- Claro que não, eu é quem sou. – me desvencilhei dele e segui em direção a cortina, a abrindo.
A vista para o quintal era ainda mais bonita vista de frente, de onde eu estava. Vários bancos de madeira e pufes com flores ao redor decoravam a parte coberta do quintal. A cascata ainda podia ser ouvida e a rede pendurada balançava com o vento mínimo que passava pela região.
- Ah! Eu sabia que meu namorado não deixaria de colocar um forno de pizza! - falei, segurando o riso, olhando um pouco mais à direita.
Em uma área coberta se encontrava uma mesa redonda gigante com mais de 18 lugares e logo atrás um enorme forno de pizza! Com um balcão e pia logo ao lado.
A beleza surpreendente do lugar me deixava sem fôlego.
- Vamos para o outro lugar? – perguntou o suposto monitor.
- Claro! – despertei do meu transe admirado.
Entramos na sala de jantar e, mesmo sem muitos móveis, ainda estava absolutamente incrível. Um lustre magnífico pendia no teto e as luzes que refletiam nele faziam diversos raios coloridos em nossos rostos.
- Estou vendo que seu namorado tem muito bom gosto. – o monitor falou, andando pela casa em direção ao outros cômodos.
- Você quer ter uma ninhada? – perguntei de repente e ri da sua cara de surpresa após a pergunta
- O que? – riu – Ninhada?
- É... Acho que você quer que eu seja um coelho... Tantos quartos pra quantos filhos? – se assustou tanto com a pergunta que quase rolei no chão de tanto rir. Fala sério, ele acreditou mesmo no que eu disse.
Já era mais de seis horas da noite quando saímos do último quarto, totalmente derrotados pelo cansaço e pela fome que nos abortara.
- To com fome, !
- Ah! Esqueci de te mostrar a cozinha! – exclamou, levantando as costas e correndo em direção a geladeira.
E esta era ainda mais bonita, coberta com azulejos brancos e eletrodomésticos de inox, com a bancada de vidro e cadeiras altas com forro branco. Era “clean”, branco e perfeito.
abriu a geladeira e tirou um pote de vidro. Em seu interior havia uma salada de frutas muito apetitosa. Peguei dois potinhos de sobremesa e duas colheres para pegar as frutas.
- Hm... – experimentei. – Ta muito boa. Quem fez? – falei com a boca cheia, prendendo a risada para desastres não acontecerem.
- Eu... – se aproximou mais, respondendo minha pergunta.
- Você? Quando? – levantei as sobrancelhas interessadas. na cozinha era uma total novidade para mim.
Ele não era muito chegado em cozinhar, quer dizer, nenhuns de nós éramos. Não imaginava que ele tinha feito aquilo.
- Umhum... Enquanto você estava lá em cima, vendo o álbum de fotografia. – deu de ombros.
- Parabéns! Adorei sua salada de fruta. – sorri, o deixando sem graça e vermelho.
- Quer sorvete? – perguntou inocentemente, abrindo um pote cheio de massa de creme.
- Claro, ! Quem não iria querer sorvete?
- Então experimenta isso.
Ao contrário de mim, estava tomando sorvete. Pegou uma colher e colocou na minha boca. Até o sorvete estava bom! Mas esse tinha certeza que não foi ele quem fez. Mas logo depois que estava com o sorvete na boca, me beijou. Calafrios e choques percorreram meus braços quando senti a diferença de temperatura. Gelado e quente. E muuuuuito gostoso.
Coloquei as cegas o pote da salada de frutas no balcão e tudo que ouvi foi gemidos baixos. Envolvi seu pescoço com meus braços e comecei a bagunçar todo o seu cabelo. O que imaginava estar fazendo o mesmo comigo. Nada naqueles dias que fiquei sem ele mudaram-no. Tudo era o mesmo, cada toque, cada gesto. Tudo completamente perfeito. Eu devo ter sido muito boa na outra vida para ter um para mim.
- Caraca, ! Senti muito a sua falta. – murmurou entre meus lábios e voltou a me beijar como antes. Senti-o me pressionando contra – a que eu supunha ser – a geladeira, fazendo em barulho alto, mas nenhuns dos dois queriam parar. Seus braços colaram em minha cintura, me prendendo junto a ele, e o outro levantando a barra da minha camiseta, deixando-me completamente arrepiada.
Tudo o que eu precisava agora era dele. Nada me tiraria daquele desejo, não naquela hora. Desci minhas mãos para a barra da sua camisa e a levantei desajeitadamente. Seus beijos passaram ao meu pescoço enquanto minha blusa fazia o mesmo trajeto que a dele. Entrelacei minhas pernas em sua cintura e a bancada de mármore ao nosso lado serviu de apoio, nos colocando na mesma altura em uma intensidade de beijos muito maior que antes.
O empurrei pelo peito, mas ele não se importou, começou a beijar toda a extensão do meu pescoço. Isso se resume a uma coisa: Sexo. Claro, acho que agora só por que não nos víamos há três dias achava que era hora que fazer o que ele quiser com a senhorita aqui. Tinha vezes que não percebia o que fazia. Não que nós nunca tivemos feito aquilo, mas só que eu por algum motivo não me sentia confortável no momento.
- Que tal a gente estrear a cama, hein? – sussurrou em meu ouvido pervertidamente, com sua voz rouca.
Ri descaradamente do jeito de como tentava ser sexy em horas erradas. era um babaca. Com certeza.
- Fala sério, . Ainda não consigo acreditar que você não aprendeu como se faz. – balancei a cabeça negativamente, inconformada e com um sorriso malicioso no rosto.
- Me mostra então, sabichona. – ergueu as sobrancelhas, duvidando das minhas especialidades.
Olhei em seus olhos profundamente enquanto tirei a calça jeans e joguei o mais longe que consegui, deixando-o de boca aberta, inconformado com meu ato.
- Acho que ainda não me acostumei com isso... – sorriu abertamente, pregando suas mãos em minha cintura descoberta.
Franzi a testa, não deixando pista do que faria em seguida. Não seria assim tão fácil pra ele. Não era boba de deixar tudo por isso mesmo. Claro que não. Me desvencilhei dos seus braços e andei vagarosamente em direção a porta da cozinha, para longe dele. Alguns segundos depois suas mãos me envolveram com mais força e sua risada mais alta contagiou o ambiente, mas eu ainda não deixaria ele se levar. Encostei nossos corpos, não deixando nenhuma distância entre nós. Levei meus lábios a sua orelha e sussurrei maliciosamente:
- Você não queria ir lá pra cima? – gemeu baixinho quando o soltei e corri as escadas a procura do nosso quarto.
Chegando ao andar de cima e ouvindo as risadas escandalosas dele, abri a primeira porta, e lá estava nosso quarto. Lindo e aconchegante. Parei na entrada e o olhei com um meio sorriso, me insinuando. Aquilo não me traria bons resultados, estava lutando contra um lobo faminto.
O chamei com o dedo indicador o mais lento possível e quando nossa distância era praticamente nula, andei até a cama, ouvindo-o bufar impacientemente logo atrás de mim. Aquilo estava sendo divertido. Muito divertido.
- Vai parar com essa palhaçada agora? – rosnou baixinho no meu ouvido, me jogando na cama.
- Nossa, tá bravinho hoje, não é? – minhas mãos faziam carinho em sua barriga, levemente despertando seus famosos arrepios.
- Você vai ver o que vai estar bravo daqui a pouquinho... – mordeu o lóbulo da minha orelha, me fazendo gemer baixinho com sua voz tão próxima.
Sua mão desceu a minha barriga e parou na barra da minha calcinha, não se decidindo entre pará-la lá ou subir para meu rosto novamente. Fechei meus olhos quando senti seus beijos descerem calmamente pelo corpo. Aquilo estava sendo muito melhor do que eu imaginava.
- Sabe... – parou de repente e sentou na cama, me deixando completamente furiosa – Eu tenho outra coisa para lhe dar. – pensou alto, olhando para o teto, mas sabendo das consequências que teria, pois seu sorriso de lado me falava tudo.
- AGORA? – perguntei agressiva. gargalhou da minha reação e levantou indo em direção ao armário.
- Tántantan! – riu, mostrando uma caixa média com bolinhas coloridas.
- Hm... O que será? – fiz suspense, pegando a caixa.
- Abra. – sugeriu inteligente.
Tirei a tampa que cobria o presente e de lá tirei uma...
- Máquina fotográfica! – gritei. Não era qualquer máquina fotográfica, era daquelas que sai as fotos logo depois que tiramos. Tipo aquelas de antigamente.
Eu tinha uma queda enorme por tecnologias do passado. Era tão legal ver como saímos na foto logo depois. Eu sei que dá pra gente fazer isso numa máquina digital, mas pegar a foto dá uma sensação totalmente nova dentro de você.
Pode ser porque eu amo tirar fotos e aparecer nelas. Posso estar com qualquer coisa que me deixa de mau humor, mas somente uma foto me deixa melhor.
Observava o objeto em minhas mãos, maravilhada. Já falei que era o melhor namorado do mundo?
- ... – comecei – Como você consegue ser tão perfeito? – falei com lágrimas já escorrendo nos olhos.
- Você é que me faz ser tão perfeito – limpou minhas lágrimas que escorriam pela bochecha do seu jeito meloso e romântico. Transformando minhas reações passadas em meros pontos no infinito sem valor.
- Agora meu presente vai ser um nada perto disso aqui. – fiz bico revoltada.
- Claro que não. O que é?
- Você gosta... É redondo – dei pistas.
- PIZZA! – bateu palmas.
- Não, ! Sou mais capacitada para te dar mais do que uma pizza – debochei.
- Então é uma pizza e mais uma coisa...
- Não, não tem pizza no meio. Que gordo! – deitei de barriga pra cima, sendo acompanhada por ele.
- Ah! – se decepcionou.
- Espera aqui!
Desci as escadas com pressa, colocando o primeiro roupão que achei e fui até a porta de entrada. Abri o carro e de lá tirei minha bolsa. De repente ficou frio e bateu uma brisa gelada, fazendo com que os pêlos de meu braço se arrepiassem. Olhei ao redor, estranhando algum movimento aleatório na mata ao lado, mas dei de ombros e voltei correndo, tentando me proteger do frio. Estava voltando para casa quando ouvi algo se mexer na moita ali perto. Era estranho, porque ali não parecia que vivia algum animal e era muito escondido para alguém ir assim, sem mais nem menos.
Entrei rapidinho e tranquei a porta. Subi as escadas de dois em dois com a mesma pressa que havia subido e quando abri a porta do quarto, estava deitado com os braços cruzados atrás da cabeça, assistindo alguma besteira na televisão.
- Até que enfim! – falou sorrindo, sentando na cama novamente, batendo no lugar ao seu lado, me chamando para sentar.
- Mas que frio! – reclamei e fechei a janela. Me virei para ele e entreguei o minúsculo pacote azul reluzente.
- Hmm... O que será que é? – pensou rindo da minha expressão debochada.
abriu o presente, rasgando o pacote e encontrando um caixinha comprida e fina. Olhou para mim esperançoso e jogou a tampa da caixinha longe.
- Não acredito nisso! – riu anasalado com um brilho nos olhos maravilhoso – , muito obrigado! – soltou o relógio que tanto queria, me enchendo de beijinhos em todo meu rosto.
- Que bom que você gostou. – sorri abertamente, o abraçando, sentindo seu perfume me deixar fora de mim e totalmente entregue. - Mas ainda acho que você vai gostar mais de outra coisa... – soltei seus braços e o olhei com os olhos semi- serrados.
Seu corpo caiu sobre o meu e iniciamos mais uma vez o que estamos tentando terminar desde quando chegamos.

Capítulo 5


POV

Perfeito era uma palavra muito fraca para descrever como estava sendo aquele dia/noite. Era tudo tão tranquilo e tão natural que, por vezes, pensava que era o destino nos guiando a uma única direção, sem nenhuma vez parar e fazer uma pausa. Posso parecer completamente inútil pensando essas coisas, mas nada me tiraria a melhor sensação do mundo naquele momento.
era o meu porto seguro, aquela que salvaria minha vida diversas vezes e não cansaria de me ouvir reclamar quando estivesse velho. Ela com toda a certeza era mais do que alguém especial. Eu a amava. E isso já bastava para nós dois.
Estava fazendo carinho em suas costas nuas e observando suas curvas descerem e me envolverem num ritmo lento e maravilhado com a miragem em minha frente. Nada conseguiria me livrar dela. Nem mesmo com um pedido suplicante. Tá, isso foi careta.
- ... – começou a falar com um sorriso maravilhoso no rosto. - Tô com fome. – E como sempre reclamando de alguma coisa. É incrível a quantidade de comida que cabe na barriga dessa garota.
- Meu Deus, ! Acabamos de comer! – me referi a suposta salada de fruta comida há duas horas atrás.
- Nananinanão... Já faz duas horas que comemos. E você nem deixou eu terminar de comer minha salada de frutas.
- O que você quer comer? – ergui as sobrancelhas pensando em algo fácil, rápido e que não sujasse muito a nossa nova cozinha.
- Não sei. Que tal se pedirmos pizza? – perguntou com os olhos brilhando.
- Que tal fazermos pizza? – respondi com outra pergunta, fazendo com que levantasse as sobrancelhas. Eu sabia que aquilo sujaria muito mais do planejávamos, mas pizza era extremamente bom. Fim.
- Tudo bem, vou me trocar. – disse por fim. Levantou e entrou no banheiro, deixando-me sozinho naquela cama gigante e solitária e sem nenhuma diversão e... Tenho que parar com isso.
Fiquei procurando meus pertences que haviam caídos no chão. Vesti-me rapidamente e abri a porta que dava à varanda. Não sei por que ela havia fechado. Mulheres... Só sabem sentir frio.
Estava observando o brilho da cascata quando algum movimento no andar debaixo me chamou a atenção. As luzes da parte coberta do quintal estavam acesas e eu tinha certeza que tinha visto uma sombra. Uma sombra grande e desconhecida.
Saí da varanda e fechei a porta, devia estar louco, mas não custava nada checar. Estava tocando na maçaneta quando a voz que eu conhecia há oito anos me chamou. Virei-me e lá encontrei a mulher mais linda da face da Terra. vestia um vestido verde com flores e o cabelo estava preso numa trança que ia até seus ombros.
O vestido era solto, mas marcava cada curva de seu corpo, me deixando salivando só de olhar. Estava cada vez mais desesperado por estar longe dela. Aproximei-me e tirei algumas mexas de cabelo que caiam em sua face e vislumbrei suas bochechas levemente rosadas e quentes. Selei nossos lábios, como se fossem um só, começando um beijo desesperado, mas ao mesmo tempo lento e romântico, como se tivéssemos todo o tempo do mundo para acabar com aquilo. Andamos às cegas e prensei-a na parede devagar e minhas mãos já percorriam toda a extensão de seu corpo, procurando por alguma coisa que não me deixava tão animado, mas nada era encontrado. Não por mim.
- , você ta muito tarado para o meu gosto! – falou, dando minha risada preferida, me afastando um pouco.
- Um tarado que você ama. – respondi perto de seus lábios.
olhou para baixo, balançando a cabeça negativamente e segurando a risada. Descemos as escadas brincando “do que tem nas minhas calças”. Na verdade, essa brincadeira era bem legal e hilária e... velha.
Decidimos fazer macarrão, porque pizza iria fazer muita sujeira. Fui para a cozinha enquanto ela ia para a sala de TV procurar alguma coisa na televisão - óbvio. Pegava o pacote de macarrão do armário quando ouvi um grito agudo vindo de um cômodo perto de onde estava. Sabia de quem era aquele grito desesperado. A única vez que havia gritado assim foi quando estávamos na praia e veio uma onda muito forte pra cima dela e começou a afundar. Arrepiei quando lembrei daquela cena sombria e desagradável. Balancei a cabeça rapidamente e corri em direção ao som que continuava e continuava.
Nessa hora lembrei-me da sombra que tinha visto na varanda. Quando abri a porta, meu estômago revirou, como se eu tomasse um soco, e dobrei meu corpo desesperado.
- ! – gritei. Ela tinha um revolver na cabeça e outro na barriga. Havia dois homens muito musculosos na sala, cada um apontando para um lugar no corpo da minha .
- Ei, ei, calminha aí, playboy – se aproximou o mais forte com seu hálito de bebida e qualquer coisa nojenta.
- Essa é a sua garota? – passou suas mãos imundas no rosto dela e desabotoou o primeiro botão do vestida da minha garota.
- Tira... Suas... Mãos... Sujas... Dela – falei pausadamente e trancando os dentes. Minha sanidade estava quase indo por água abaixo.
- Hm... Pablo, acho que essa é a garota dele.
Não podia ver aquela cena, e o pior de tudo é que não podia me mover, qualquer movimento em falso poderia acontecer algo a ela.
- Tire suas mãos dela. – repeti, fechando as mãos com força.
- Escuta aqui, playboy, não mexa com a gente que não mexemos mais com você, queremos somente algumas informações.
- Eu posso responder, deixa ela em paz.
- Não... – riu maldosamente o mais magro. – Vimos essa doçura entrar e sair dessa casinha bonitinha aqui e gamamos nela, acho que dá para o gasto, não é, Lucio? – sorriu, mostrando os poucos dentes tortos que ainda restavam na boca. - O que acha de a devirmos?
se mexia repetidamente e soltava gritos abafados pela toalha em sua boca. Dei um passo em sua direção e um dos ladrões apontou a arma para mim.
- Mandei ficar calminho aí, playboy. – Dei um passo para trás, ouvindo o cara preparar a arma. Logo depois que recuei voltou sua atenção a ela.
não conseguia gritar, mas seus olhos gritavam por ela. Olhava-me com tanta agonia que fazia com que parecesse que tinha levado outro soco no estômago.
O homem com o nome de Pablo tampou a visão que tinha dela, me deixando mais nervoso e agitado. Quando fiz menção de aproximar-me novamente, Lucio me prensou na parede, dando-me vários socos na cabeça e no estômago.
Sentia meu cérebro ir de um lado para o outro, assim como alguma coisa molhada sair do meu nariz, sangue. Tentei revidar, mas parecia como se meus braços tivessem diminuídos e como se eles, do alto, fossem muito maiores que eu. Estava em desvantagem.
- Mandamos você ficar aí – rosnou para mim enquanto sentia o gosto de sangue e ouvia soluços vindo dela.
Esperei o homem virar de costas e começar a andar, consegui pegá-lo de surpresa e dar uma revanche, não muito boa, porque ele claramente era muito maior que eu e tudo o que consegui foi abrir sua sobrancelha e sua boca.
- Acho que você não entendeu, não é? Mandei você ficar parado perto da porta, ou sua namorada vai sofrer as consequências. – me desafiou, dando outro soco no estômago, caí no chão sentindo minha camisa mais molhada de vermelho do que antes.
- ! – conseguiu desvencilhar-se do pano em sua boca e tentou chamar minha atenção, mas tudo começou a sumir de minha mente. Não importava o que aconteceria, estaria com ela, prometi. Tudo estava embaçando e ficando com pontinhos pretos. Balancei a cabeça e tentei tirar o suor da cara, mas minhas mãos não me respondiam mais. A última coisa que ouvi foi um grito, soluços e algum idiota chamando MINHA de docinho...

“- Mas eu não sei patinar, ! – reclamou para mim, enquanto a levava à pista de patinação no gelo.
No fim, ela aceitou ir comigo ao ballet, mas não rolou mais nada entre nós. Apenas amigos. Eu sabia que aquilo aconteceria.
Começamos a nos falar mais e até minha mãe, que ficava pouco em casa, falou que eu andava meio estranho. Era uma sexta-feira a noite e as amigas dela chamaram os garotos para darem uma volta no parque. Era inverno em Londres e estava nevando. Fomos ao parque onde nos encontramos, podemos dizer, pela segunda vez. não queria mesmo patinar com os outros; enquanto todo mundo ia em direção ao lago congelado, ela ia em direção ao banco coberto por uma camada branca: neve.
- Vamos, ... – comecei a puxá-la em direção a todos.
Talvez seja estranho de repente estarmos todos unidos daquele jeito. Mas é simples. O eu dentro de mim, podemos dizer, me mandou aproximar-se dela, quando consegui sua amizade, suas amigas também viraram nossas amigas. Desde então, a está com o , a com o e a com o . Tinha certeza que a outra amigas delas, a Isa – como costumava chamá-la – gostava do Bill, mas nenhuns dos dois admitiam isso.
- ! Eu não sei patinar, e ninguém tá patinando! Olha só... – apontou com cara de superior.
Virei a cabeça para trás e só vejo dois casais no maior amasso no gramado gelado. Ri envergonhado e pensei em alguma coisa para falar. Era estranho, mas ela me deixava sem fala.
- Sabia que a já gostava do antes deu chegar aqui? – disse olhando para mim.
Era incrível como eu sempre me perdia em seus olhos. Me via refletido neles. Tinham um brilho que eu nunca havia visto em nenhuma outra pessoa...
- Sério? – perguntei, tentando não parecer desnorteado.
Ficamos em silêncio depois da troca de olhares e sua resposta afirmativa. Tentaria convencê-la novamente a fazer alguma coisa que não seria ficar sentada.
- Quer dar uma volta? - chutei a grama, sentando ao seu lado no banco.
- Nãããooo... – fez bico e logo começamos a rir.
– Sabe brincar de “O que tem nas minhas calças”? – perguntei de repente e ela começou a rir. Sua risada me contagiava, porque também comecei a rir. Até parar e fazer uma pergunta totalmente idiota. – Porque estamos rindo?
- Como se brinca disso? – perguntou sem fôlego.
- Eu falo: “Nas minhas calças têm...” e invento alguma coisa.
- Ah! Ta, vamos ver no que vai dar... – deu um sorriso no canto da boca.
Começamos então a jogar “O que tem nas minhas calças”.
- Nas minhas calças tem um chapéu de cowboy! – comecei.
- Nas minhas calças tem um castelo da Barbie!
- Nas minhas calças tem uma fotografia! – olhei em seus olhos que riam sozinhos.
- Nas minhas calças tem um pedido.
- Nas minhas calças tem uma resposta.
- Nas minhas calças têm palavras.
- Nas minhas calças têm frases.
- Nas minhas calças têm pensamentos.
- Será que elas estão pensando a mesma coisa que eu? – perguntei.
- Talvez, não tem como saber se não tentar.
Continuei a olhar, mas agora com a testa franzida. Ela estava mesmo me pedindo para...
Nós dois sorrimos ao mesmo tempo e me aproximei tocando nossos narizes gelados. fechou seus olhos e ficamos assim, somente sentindo a presença um do outro. Até que não aguentei aqueles lábios vermelhos convidativos e os beijei. Só que desta vez foi um beijo de verdade. Sem medo, talvez muitas dúvidas e muitas respostas. A senti colocar seus braços, envolvendo meu pescoço, não deixando nenhum espaço entre nós.
A beijava com todo o cuidado do mundo. Parecia tão frágil, como se qualquer passo errado a despedaçaria. Isso poderia parecer totalmente... não eu, mas, quando estava com ela, tudo desaparecia. Ficava somente eu e ela e o ambiente, mais ninguém. Desde quando derrubou aquele suco de laranja em mim, minha cabeça despertou alguma coisa dentro de mim, o modo como pedia desculpas e ficou preocupada com o que eu pensaria de uma aluna nova caindo em cima de uma pessoa que nem conhecia, tudo me encantou. O único problema era que não queria admitir a mim mesmo que algo cresceu em mim. E só depois que a beijei pela primeira vez no parque que percebi que não tinha jeito. Tentaria conhecê-la melhor e conseguir sua confiança.
Aproximei-me ainda mais, não queria deixar nenhum espaço entre a gente. separou nossos lábios suavemente sorrindo e sua respiração descontrolada se igualava a minha.
Ríamos feitos bobos, um olhando para a cara do outro.
- Sabe o que eu acho? – perguntou de repente.
- O que? – quis saber.
- Que você cabulou aula com um objetivo em mente... – se gabou, colocando os cabelos para trás, relembrando o episódio da diretoria.
- Não comece a se achar não, mocinha... – ri com as bochechas começando a esquentar.
Meus olhos voltaram aos seus lábios convidativamente vermelhos e inchados, e tudo o que eu desejava naquele momento era que ela não me rejeitasse mais. Porque querendo ou não, ela já fazia parte da minha vida de um jeito único e incontrolável. começou a se aproximar novamente e não esperei nem mais um minuto para receber novamente sua boca na minha.
Já falei que quando estava com ela, tudo sumia ou ficava em silêncio? Só que naquela hora foi um silêncio real.
- Caraca! – exclamou, fazendo com que nos separássemos e eu descobrisse que estava com a mãos dentro de sua camiseta, a deixando totalmente vermelha e muito fofa.
- Até que enfim, né? – falou, sentando ao lado de na maior cara de pau. Igualzinho ao namorado, pensei.
Nos mexemos desconfortáveis no banco e com certeza ela tinha os mesmo pensamentos que eu: acaba logo com isso.
- Ei... Por que ta todo mundo aglomerado aqui? – chegou os quatro que faltavam. Começaram a abrir caminho no meio da rodinha que se formou e abriu os olhos como se descobrisse algo.
- , tá tudo bem? – ajoelhou, correndo em frente a nós dois. – O que houve com a sua boca? – disparou perguntas inúteis.
- Ela é sempre assim? – sussurrei em seu ouvido. percebia o que se passava e levantou totalmente constrangida pela quantidade de perguntas.
- Desculpa. – murmurou de cabeça baixa, fazendo todos rirem, inclusive que estava quieta o tempo todo.
- Viu, ? Me deve cinco libras! – falou rindo e cruzando os braços no peito.
- Nada a ver cara! E além do mais, vocês nem começaram a tirar fotos... levantou subitamente e separou a discutição que havia se formado no meio de todo mundo, nos levando a mais gargalhadas.
Passamos a tarde no parque. Ora tirando fotos ora tocando alguma coisa no violão. Era mais de oito horas quando decidimos ir embora, principalmente por causa do frio.
- , o vai me levar, tudo bem? – perguntou , olhando para nossas mãos entrelaçadas. Eu digo, minha e da .
- Mas com quem eu vou voltar para casa? – protestou, fazendo careta.
- Eu te levo. – apertei mais sua mão e sorri confiante.

Passava por ruas arborizadas e casas grandes, todas com o jardim da frente muito bonito. me dava instruções para chegar até sua casa. Ouvimos uma música no rádio e cantávamos trechos desta. Dois adolescentes que mal se conheciam, mas faziam de conta que tudo estava bem e que nada iria acontecer. Paramos em frente a um condomínio não muito grande nem muito pequeno. Tinha altas paredes amarelo claro e trepadeiras cobrindo boa parte delas.
- E é aqui que eu fico... – me tirou de minhas observações silenciosas.
Quando abriu a porta, algo vazio começou a preencher meu peito. Sabia que se a deixasse ir embora assim, talvez não voltássemos ao ponto de onde paramos. E isso era a última coisa que queria. Recomeçar tudo outra vez.
- Espera! – exclamei, fazendo-a sentar novamente assustada e confusa. Tirei o cinto de segurança e envolvi seu rosto quente e macio com minhas mãos, selando mais uma vez nossos lábios.
- Já vou indo, . – falou perto dos meus lábios e começou a rir carinhosamente, fazendo carinhos em minha nuca.
Quando a vi passando pelo grande portão de entrada e sumindo de vista, soube que ela era A garota que nunca tive.”

Abri meus olhos vagarosamente e me vi deitado no chão da sala de TV com a camiseta ensanguentada e minhas costas doendo pela posição em que caí. De repente as imagens que se passaram naquela sala vieram em minha mente, fazendo com que eu levantasse rapidamente.
Comecei a ficar realmente tonto e tive que sentar durante longos minutos no grande sofá que havia ali. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. O que eu tinha feito para merecer aquilo? Justo naquele dia. No nosso aniversário de namoro e quando eu... Tirei aqueles pensamentos da cabeça, balançando-a e gemendo de dor. Ela estava explodindo! Depois de algum tempo que a tontura passou, subi as escadas correndo e troquei a camiseta o mais rápido possível. Cheguei ao carro ofegante e dei partida, cantando pneu.
Não importava quantas horas demorasse para achá-la, a encontraria e aquele que colocasse as mãos na minha enfrentaria as consequências.

Capítulo 6


Escuro, frio, medo.
Uma combinação perfeita e apavorante que me deixava cada vez mais agitada e meu estômago embrulhado. Mais lágrimas caíam de meus olhos, como se nunca mais parasse. Não sabia onde estava e quando iria sair daquele lugar, a única coisa que vinha em minha mente era que estava muito frio, muito escuro e eu estava com muito medo. Tinham me levado para uma casa com portões verdes, não muito longe dali. Mas seu ambiente comprovava que era muito diferente. Tudo cheirava a esgoto e esterco, havia várias garrafas de vidro quebradas, trazendo o cheiro de bebida e cigarro.
Encostada na parede, encolhida e ainda chorando baixinho ouvia vozes da porta entreaberta que dava para o outro cômodo. Não tinha mais forças pra tentar ouvir ou segurar a angústia que meu coração trazia, era tudo tão... estranho. Por quê? Por que justo naquele dia? Meu sexto sentido me dizia que alguém que conhecia estava envolvido naquilo, mas balançava a cabeça veemente crente que nada daquilo fazia o menos sentido.
- Você acha que é ele mesmo? – somente sussurros grosseiros e mal cheirosos eram ouvidos e sentidos.
- Lógico que sim. – exasperou outra voz.
Tentei me cobrir mais com a peça de vestido e tudo que consegui foi alargar mais minha alça e deixar meu corpo mais a mostra. Qual era o meu problema? Minhas lágrimas ainda caíam em sinal de desespero, mas o choro já havia cessado e meus olhos ardiam incansavelmente quando dois homens entraram no quarto, escancarando a porta, me assustando, recomeçando o ciclo de desespero.
- Nós decidimos tentar pegar algumas informações com você, docinho – o homem mais alto se aproximou, chutando as diversas garrafas para o lado e colocando a mão em meu queixo, se aproximando o bastante para poder sentir o cheiro do álcool em sua respiração e a luxúria que seus olhos demonstravam quando caíram pelo meu decote. Nojo.
- Tira a mão de mim. – tranquei os dentes e tentei me afastar.
- Sabemos que seu namoradinho tem bastante dinheiro e queremos saber o quanto. – o outro apertou meus ombros sem nenhuma delicadeza e tirou algumas mechas de cabelo que caiam sobre meus olhos. Meu cabelo era o que menos importava naquela hora.
- Tudo o que queremos saber são os números... – me olhou ameaçadoramente, trazendo suas mãos imundas para perto dos meus seios.
Olhava para os lados constantemente, horrorizada com o que estava preste a acontecer. Virei meus ombros contra suas mãos nojentas e fedidas, mas a única coisa que aconteceu foi o olhar de adoração por me ver tentar me soltar com inutilidade.
- Eu não sei de número nenhum. – solucei, voltando meu olhar para baixo e sentindo meus dedos se cortarem em cacos de vidro espalhados pelo chão.
- Números – estralou os dedos na minha cara como se eu fosse idiota – Números de barco...

“Um dos lugares que mais gostava de ir era o píer. Onde a água era cristalina e dava para ver as pedras e peixes que por ali ficavam, as ondas que batiam incansavelmente nas rochas e o piar que pelicanos e gaivotas faziam a procura de peixes. Sem contar com as lanchas gigantes, umas de mais de dois andares com o reflexo do oceano batendo na polpa das lanchas brilhantes. Era dos únicos lugares que ficava realmente a sós. Eu e o oceano. O silêncio não me incomodava, ficava de bem comigo e eu com ele. O mais bonito de tudo era ver os raios de sol penetrarem na água parecendo pequenos cristais refletidos. Diversos diamantes de corais coloridos.
Era meu aniversário de dezesseis anos e , não sei por que, estava me levando ao píer. Não fazia ideia do que ele iria aprontar daquela vez.
- Tá... Agora feche os olhos – pediu carinhosamente. Ele me guiava pelo chão de madeira devagar. Era incrível como em um ano tudo já tinha mudado. Eu e já estávamos namorando há quatro meses, e já me sentia totalmente protegida ao seu lado. Protegida e... confusa. O que ele estava fazendo?
- Cuidado com o degrau. – me avisou, pulando os obstáculos do caminho.
Parecia que estava em um lugar coberto, pois o sol não penetrava mais em minha pele e começava a ouvir sussurros, o que eu não estava ouvindo perto do grande oceano que antes via; somente os barulhos das ondas batendo contra as rochas era possível ouvir.
- Pode abrir. – abri meus olhos com sua ordem, que se arregalaram imediatamente.
- SURPRESA! – todos meus amigos gritaram e meus olhos já estavam repletos de lágrimas, assim como minhas bochechas estavam escarlates.
Encontrava-me numa sala totalmente linda. Rodeada de vidros, dando vista para o gigante mar. Os sofás eram brancos com uma mesa de vidro coberta de um bolo de três andares e vários docinhos, bebidas e até uma bacia de sorvete.
- Não acredito que vocês fizeram isso! – falava ainda com os olhos e a voz grogue.
Depois de agradecer todo mundo, , toda sorridente, apareceu com uma câmera em mãos.
- Não... – choraminguei – Sem fotos! – fiz uma dancinha com os pés, me afastando dela.
- Ah! Para de ser chata, ! É o seu aniversário de dezesseis anos! Data de comemoração! – bateu palmas como uma criança feliz.
Dei-me por vencida e fui em direção a todos que estavam no cômodo. Apreciando mais uma vez a vista da água com meus melhores amigos.

- Ainda não sei exatamente onde estou... – sussurrei no ouvido de , assustando-o, distraído vendo o cobertor azul que se estendia a nossa frente.
- Você está num barco. – riu da minha cara de zombação pela sua resposta.
- Sério, ? – perguntei com sarcasmo, balançando a cabeça para cima e para baixo em minha pergunta. Ele me puxou para mais perto, dando um selinho demorado. - E de quem seria esse barco? – perguntei entre beijos e risadas.
- Do meu pai, ele nos emprestou. – deu de ombros.
- Uau! To vendo que seu relacionamento com seu pai está mudando – o abracei forte, encostando minha cabeça em seu ombro. Era tão bom abraçá-lo, sentir seu perfume, o cheiro de sabonete que sempre tinha, e o melhor: sentir o quão quente ele era, desejando ficar ali para sempre, debaixo de suas asas, sempre aquecida e protegida. Era assim que me sentia quando estava com ele.
- Ele gosta de você. – nos separou o bastante para conseguir olhar em meus olhos – Você é especial. – me beijou carinhosamente - Uma das muitas! – jogou a cabeça para trás rindo da minha expressão. Desgraçado.
- !! – parei de abraçá-lo e comecei a socá-lo, literalmente.
- Ai! Ai! – fazia careta, mas meus tapas não o machucavam, só estava fazendo cena. – É brincadeira! Você é a única das únicas. Se fosse para ter uma única no grupo das únicas, ela seria você! – puxou minha cintura ainda se protegendo das minhas mãos furiosas.
- O que? – não entendi sua frase mal feita.
- Estou tentando ser um pouco mais romântico, ok? – protestou sério. – Vem aqui, pequena! – me beijou com vontade. Era bom senti-lo perto novamente, sentir seu gosto, seu abraço e tudo que ele podia proporcionar.
Quando percebi, estávamos sentados na cadeira de sol perto ao deque. Quer dizer, estava sentado, eu estava totalmente jogada em cima dele. Ele explorava toda a extensão da minha barriga e minhas costas, arrepios constantes eram sentidos e gemidos praticamente inaudíveis eram soltos.
- ... – chamei sua atenção. – Não gosto disso. – respondi perto de sua boca.
- Do que?
- Da gente ficar se beijando assim, na frente de todo mundo, acho coisa de gente fula...
- Gente fula? – perguntou confuso.
- É, sabe, não acho legal. Acho falta de educação. – achei uma palavra que conseguisse descrever aquilo que ele não entendia.
- E assim? – me deu um selinho, sorrindo como uma criança travessa.
- Assim eu acho fofo... – dei um sorriso envergonhado.
- Ótimo. – disse me dando vários beijinhos seguidos por todo o meu rosto, me deixando vermelha e começando mais gargalhadas pelas cócegas que sentia.
Depois de um tempo juntos, conversando ou trocando carinhos, apareceu com uma câmera fotográfica, mais uma vez.
- Olha o casal! – soltou o flash, quase me cegando ou quase tonta a ponto de me cegar.
- Ótimo, agora a sessão de fotos acabou! – abanei as mãos no ar e tentei arrancar a câmera de suas mãos. Sem sucesso.
- Oh! Não ficou fofa essa foto, ? – perguntou, mostrando a foto.
- Ficou, a é fofa, não é? – falou apertando minhas bochechas.
- Dá para vocês pararem? – perguntei totalmente vermelha. Enquanto discutíamos feito três criancinhas, Isa chegou balançando as mãos para o alto e exclamando:
- Gente, o ta chamando todo o mundo lá pra sala! Ele quer dar um recado. – entortou a boca como se não soubesse de nada.
Todos seguiram para a sala com caras de desentendidos e sentamos no sofá perto da porta. Apertei os olhos quando vi que se encontrava em cima de uma bancada. Ele estava suando? Qual era a dele afinal?
Quando nos viu, engoliu em seco e nos mandou ficar quietos. Ok então.
- ? Não está sentindo falta de ninguém? – perguntei na dúvida. Ele parecia nervoso e ansioso para alguma coisa. E percebi que só falaria quando a última pessoa chegasse.
- Ela já ta vindo...
Nem quinze segundos depois, aparece estranhando o silêncio no barco e uma mão levantada de fez nossos sussurros acabarem. nos olhava sem entender nada, mas os nossos olhares eram iguais como respostas. Ninguém sabia exatamente o que estávamos fazendo amontoados no sofá da sala enquanto podíamos estar vendo um lindo pôr-do-sol.
- – começou, sentando na bancada para ficar em uma altura nem tão diferente da dela. - Faz três anos que te conheço, mas nunca tive coragem suficiente para te chamar para sair. – Ai. Meu. Deus. começou a ficar vermelho ao ver os olhos de se arregalarem, mas continuou firme com suas pausas respiratórias - Talvez tudo isso seja uma mera coincidência do destino, mas eu estou completamente apaixonado por você, desde o primeiro beijo, ao sentir o toque firme de suas mãos nas minhas, do seu sorriso encantador, eu não consigo te tirar da cabeça e depois de muita reflexão, mesmo sabendo que eu poderia perder os jogos de sexta a noite e os bares no sábado, percebi que não me importaria se passasse eles com você ao meu lado, porque no final, tudo o que eu quero é que você seja minha garota.
“Quer ser minha namorada?” – finalizou o pedido com olhos pidões e envergonhados pela declaração.
Depois dessa não sabia o que mais poderia me surpreender. estava completamente em choque. Todo mundo estava em choque! Acho que nem o sabia que pediria em namoro naquele dia. Lógico que eles eram apaixonados um pelo outro e ambos não sabiam. Quer dizer, eles sabiam mais ou menos. O que era realmente estranho, porque eu namorava o melhor amigo dele e minha melhor amiga amava o melhor amigo dele, isso é realmente confuso.
A única coisa que estava funcionando era o meu cérebro, tudo havia parado, mas conforme as pessoas assimilaram o que eu já havia assimilado há muito tempo, suas consciências voltavam e a respiração também.
me olhava com um sorriso que eu conhecia bem e dei um olhar encorajador de volta. O casal foi se aproximando lentamente até ela sussurrar algo no ouvido de e os dois se beijarem amorosamente, tirando “vivas” de todo mundo, até de mim.

O sol já havia se posto e eu estava sem fazer nada (mesmo sendo meu aniversário). Todo mundo já tinha ido embora e os únicos habitantes da lancha era eu e , e por falar nele, não fazia ideia onde o garoto estava.
Saí da “varanda” e caminhava dentro da gigante lancha. Acendia as luzes em todos os cômodos que passava, lembrando-me que ainda não havia conhecido todo o seu interior
- ? – perguntava toda vez que entrava em algum quarto, mas nada.
Olhava para o teto por alguma razão e acabei descobrindo uma porta, como se fosse uma porta ao sótão. Só que em barcos não existem sótãos. Decidi abri a portinha, dando de cara com uma noite incrível! A lua estava cheia e o céu totalmente estrelado, com somente a luz da noite e as continuas ondas do mar. O ar fresco invadiu o ambiente e assim que virei o olhar novamente o céu parecer que chamar. Com a pouca claridade, ficava cada vez mais nítido o brilho de cada estrela.
Lembrei dos dias em que era pequena e estava no sítio de meu avô. Ele sempre me dizia que no espaço há um espetáculo de estrelas. Uma mais bonita que a outra e sempre competiam entre elas. Mas somente uma ganhava entre todas as outras.
“Quem vovô?” perguntava com os olhos brilhando de emoção
“A estrela-cadente” dizia carinhosamente. “Só que ela é rara, só aparece quando temos um desejo muito forte dentro da gente.”
Eu sempre prestava atenção nas histórias do meu avô. E sempre dizia que ele era o melhor contador de estórias da face da Terra! Sempre contava para minhas amigas seus contos. E cada vez mais ficava entusiasmada como pequenas palavras podem transformar tudo a sua volta.
Naquela noite eu me lembrei dele, de como queria que ele estivesse ao meu lado me contando mais uma de suas genialidades.
Avistei um pouco mais a frente, debruçado na grade de proteção.
- Aí está você! – exclamei, chamando sua atenção. Uma garrafa de champanhe estava em sua mão e a outra me chamava para mais perto dele. No exato momento em que vi a garrafa quase esmagada entre seus dedos, não consegui reconhecer o garoto que tanto gostava.
- ! Pensei que nunca viria me procurar – esboçou um sorriso bêbado e desengoçado.
- ! Pelo amor de Deus! O que houve? – corri em sua direção, tentando tirar a bebida de seu alcance. Mas foi em vão.
- Ei! Deixa meu bebê em paz! – fez careta, levantando o braço para eu não alcançar.
- Seu o que...? – perguntei indignada – Qual é, ! Você se embebedou por quê? Por que sumiu? – disparei perguntas encurralando-o contra a grade.
- Eu... Eu – tentou responder.
- Me dê aqui essa garrafa. – estendi as mãos.
- Não. – fez bico, deixando-me perder a paciência.
- ! Me dê agora essa garrafa. – mandei sem tirar meus olhos dos dele. Senti ele se arrepiar inteiro, descendo o braço. Quando fui pegar o vidro de suas mãos, tudo ficou em câmera lenta. se desequilibrando e caindo no mar já escuro me assustou e minha cabeça não começou a raciocinar.
- ! – gritei desesperada. Tirei minha camiseta e meu shorts às pressas e saltei no mar, sentindo o vento gelado na direção do oceano. – ! – falei engasgada, deixando a água salgada entrar em minha boca. O mar estava mais forte do que eu esperava. O vento tinha aumentado drasticamente, deixando tudo mais gelado.
- ! – nadou rindo em minha direção – Ei, calma! Eu tô bem! – nadou até ficar a alguns centímetros de distância, colocou suas mãos em meu rosto, tentando me fazer entender o que se passava. Pegou em meu ombro, afundando junto com ele. Mergulhamos juntos, olhando um para o outro. Ele sorrindo e eu com água na boca. Minha raiva estava começando a me afetar. Não estava entendendo a situação, em um momento ele estava completamente fora de si e depois já conseguia mergulhar e querer me beijar debaixo d’água?
Quando entendi o que se passava, me desvencilhei de seu abraço quente e fui nadando totalmente furiosa em direção a lancha.
- Você é idiota ou o que, ? – berrei com as pernas tremendo de frio - Eu fiquei preocupada, tá legal? Por que você estava bebendo? – gritei quase perdendo a cabeça
- Ei! Calma aí... Eu só estava brincando... – se defendeu.
- Isso não é coisa que se brinque! – tremia de frio e vi que minha mão ficara roxa com a temperatura que a noite estava.
e eu estávamos juntos a pouco tempo, portanto, me sentia envergonhada. Ele me olhava de cima a baixo e percebi que só estava de lingerie, e ainda por cima, molhada. Não estava nas melhores condições.
Tinha acabado de descobri que briguei com um bêbado que na verdade estava em sã consciência, estava completamente molhada, só de lingerie na frente do cara que eu mais gostei em toda a minha vida.
- Desculpa, toma. – desfez o sorriso brincalhão do rosto e me deu uma toalha para eu me secar.
- Por que você é tão infantil? – perguntei ainda me secando.
- Eu não quis cair na água! A brincadeira com a garrafa foi de verdade. – levantou as mãos justificando. - E nem vem me dizer que não achou engraçado por que eu sei que você achou!
- Deixa meu bebê em paz! - o imitei, fazendo voz grossa e bico.
- Você sabe que a minha única bebê aqui sempre foi e sempre será você... – se aproximou e colocou seus braços ao meu redor.
Sempre essa meiguice que me tirava do ar por um bom tempo. Cruzei os braços ainda tremendo de frio, olhei para cima e vi seu olhar sobre mim.
- Se bem que... – começou falando, vindo em minha direção.
- Se bem que...? – o incentivei.
- Você tirando a roupa para me “salvar” foi bem sexy! – abaixou, roçando os lábios em minha orelha com sua voz rouca e carregada de desejo.
- ! – pulei assustada. – Não foi não! Nada de sexy, nada de lindo! A única coisa que teve naquela hora foi infantilidade de sua parte! – discuti, tentando me cobrir com a toalha, o que era meio difícil por ser uma toalha de rosto. – Por que você me deu essa toalha, afinal? – perguntei impaciente.
- Era a única que tinha aqui perto. – deu de ombros. – E você estava tremendo muito. – falou ainda me olhando.
- Dá para parar de me olhar assim? – coloquei as mãos na cintura como costume. E como sempre só eu passo vergonha, a toalha que eu tinha conseguido “prender” em meu corpo deslizou ladeira abaixo, me deixando completamente vermelha e praticamente nua.
- Eu... Eu vou tomar banho. – finalizei as trocas de olhares, deixando o deque rapidamente e seguindo para um dos banheiros.
Após estar satisfeita com a água quente, saí do box me enxugando e vestindo o roupão que estava pendurado. Encontrei minhas roupas dobradas na porta. Abri um sorriso no rosto. Como que eu secaria minhas roupas íntimas? Elas estavam encharcadas! Tive a brilhante ideia de secar a parte molhada da roupa com o secador de cabelo, mas não deu muito certo, demoraria séculos até as gotinhas de águas evaporarem da minha roupa. Então entrei num dos quartos e acabei achando um biquíni preto. Muito bonito, por sinal.
- Acho que sua dona não vai se importar, vai? – me peguei conversando com o biquíni.
Nova em folha e limpinha, percebi que não estava mais com raiva de .

- Você gosta tanto do mar assim? – perguntei tímida, o abraçando pela cintura.
- Umhum... – depois de um tempo de silêncio ele decidiu falar alguma coisa. – O que você ta fazendo com o biquíni da ? – perguntou, levantando as sobrancelhas.
- Acho que ela não vai se importar, depois eu devolvo. Prometo! – fiz um ‘x’ em meu peito – gesto de escoteiro! – por mais que tivesse gostado da vestimenta.
- Que números são esses? – apontei para uma plaquinha no chão, mudando de assunto e a direção do seu olhar.
- São os números de identificação dos barcos. Todos os barcos, lanchas, veleiros, bom, todos tem identificação. – respondeu sabichão.
- Interessante. – admiti.
- Eu nunca falei isso para ninguém, ninguém mesmo, então não conta pra ninguém, ok? – olhou para mim sério. – Esses números é a senha do banco do meu pai. Teve uma época que ele não podia confiar em ninguém da empresa, pois o pessoal de lá e umas outras pessoas envolvidas estavam tentando adivinhar, mas nunca ninguém pensou nos números do barco.
- Por que você está me contando isso? – olhei em seus olhos castanhos profundo.
- Por que confio em você. – esboçou um sorriso maravilhoso que me fazia derreter.
- É bom saber disso. – alguns instantes se passaram somente sentindo um ao outro e a brisa gelada que ia e vinha do mar.
- Hoje eu cheguei a uma conclusão. – resolveu se pronunciar em meio ao barulho da noite.
- E qual foi? – dei um selinho com nossa aproximação perigosa.
- Eu te amo, . – deu o MEU sorriso favorito, e no exato momento em que ouvi essas três palavras meu coração disparou e tudo o que eu enxergava era somente ele. Somente .
- Eu também te amo, . – respondi com meu coração.
E o beijei com toda a vontade do mundo. De um jeito que só ele saberia que existia. A partir daquele dia eu soube que tinha encontrado O cara certo para mim”.


- Eu não sei de nada! – insisti, voltando a realidade com os olhos arregalados, lembrando de tudo.
- Escuta aqui, docinho, nós sabemos que você sabe até demais. Não queremos ir para o outro lado. – pegou meu queixo, olhando em meus olhos. – Seus olhos são realmente bonitos... – riu com desgosto, me jogando na parede com mais força.
- Eu não vou falar nada! – disparei sem querer, mexendo em minha cabeça que latejava de dor. Imediatamente tapei minha boca com as mãos, desejando não ter aberto a boca.
- Então você sabe... – falou o sujeito com seu bafo de álcool.
Meu medo se intensificava cada vez mais.
- Sabe, eu realmente não queria apelar para esse lado, mas esse seu vestido não ajuda em nada, não é, Pablo? – deu uma risada maliciosa, o que me fez tentar me afastar mais ainda.
- Vem aqui, princesa, por que está fugindo? – me seguiu pelo quarto escuro quando tomei coragem para levantar rapidamente e apalpar qualquer coisa que me guiasse a sair daquele quarto imundo. Eu tropeçava em cacos, mas continuava andando até sentir que estava encurralada. Mãos grandes, calosas e nojentas pegavam em meus braços e sentia rastros serem deixados em meus ombros, assim como diversos botões do meu vestido se soltarem bruscamente e eu me sentir nua, somente com o fino tecido da minha calcinha me protegia. Soltei o grito mais agudo possível e comecei a chorar escandalosamente, me contorcendo e revirando, recebendo um tapa ardido no rosto como resposta.
- Não grita, vadia! Não queremos companhia, queremos? – ameaçou, apertando minhas bochechas e a lambendo nojentamente. Meus soluços já estavam me enlouquecendo, assim como suas mãos que passavam pela minha barriga. Tudo estava borrado e meu corpo já mole de cansaço, mas eles não tocariam em mim.
- Aaaaah! Para – implorava debilmente, chutando com minhas pernas ainda livres. Gritava com mais força quando sua ereção tocou minhas pernas. Minha garganta não parecia me obedecer. Eu. Tinha. Que. Sair. Dali.
Uma luz, uma porta explodindo, um barulho de sirene me deixou alerta.
Uma dúzia de policiais entravam armados na sala, meu choro voltava com mais força. Fui empurrada ao chão com força, como se eu queimasse, me cortando em várias partes do corpo, me deixando à mercê de quem quiser. Eu não tinha mais forças pra nada.
- ? ? Amor, ta me ouvindo? – uma voz me chamava, mas não conseguia mais manter os olhos abertos. Eu sabia de quem era a voz, porém nem meu cérebro quis reconhecer de quem era aquela voz conhecida. Flashes pretos contornaram a minha vista e fechei meus olhos, tentando tirar o que quer que fosse da minha mente.

Capítulo 7


Cada parte do meu corpo doía como se tivesse acabado de ser atropelada e ido a um chá de cozinha logo depois. Básico. Típico.
Meu pé formigava como se não recebesse circulação suficiente fazia muito tempo. Mexendo meu braço percebi que algo estava grudado nele. E isso me incomodava muito.
- ? Tá me ouvindo, pequena? – uma voz me chamava lá no fundo da consciência. Por mais que eu quisesse abrir os olhos e descobrir quem estava suplicando para eu acordar, não conseguia. Minhas pálpebras pesavam mais que chumbo. Tentei relaxar o máximo possível e abri minha boca devagar, percebendo que estava completamente seca.
Finalmente consegui abri olhos, sentindo a claridade invadir o quarto. Ou só senti isso porque estava de olhos fechados. Mas realmente incomodou, fazendo com os fechassem novamente. Piscando rapidamente, absorvi os raios solares que entravam pelo quarto e comecei a me perguntar onde estaria.
Ao meu lado se encontrava o rosto que procurava ao redor do quarto. Um rosto que assim que viu que correspondia ao seu chamado abriu seu maior sorriso, o meu sorriso, me deixando tonta.
- Até que enfim! – sorriu .
- Quantas horas eu dormi? – me sentei com cuidado, ainda um pouco zonza, observando o quarto claro.
- Dormiu? Você praticamente hibernou! – soltou risos baixinhos, me deixando vermelha. – Quase 19 horas! – continuou.
- Dezenove horas!? Meu Deus, estou tão tonta... – segurei minha cabeça que parecia girar e girar.
- Bem, você desmaiou depois que aqueles canalhas te jogaram no chão – disse entre dentes, fechando a mão com raiva.
- O que eles queriam? – choraminguei e meus olhos se encheram de lágrimas.
- Não chora... – limpou cuidadosamente as lágrimas que já escorriam pela minha bochecha.
- O que eles queriam? – repeti insistente.
- A senha do banco do meu pai. – suspirou vencido.
- Eu não conseguia lembrar... – solucei mais forte.
- Não precisa ficar com medo, amor. A polícia já os pegou.
Parava aos poucos de chorar e procurei sua mão. Sempre quando estava com medo, doente ou alguma coisa do gênero procuro uma mão para apertar a minha. Me acalmava e me confortava.
- O que aconteceu com você? – perguntei assim que vi o corte fundo em seu rosto.
- Mari! Para de se preocupar! – virou o rosto em outra direção.
Consegui mexer meu braço para abraçá-lo, mas logo a espetada da agulha me trouxe um pouco de dor.
- Ainda está doendo, pequena? Onde?!
- Você sabe que odeio agulhas, ! Tira isso de mim – ri com a expressão assustada em seu rosto.
fez carinho em minhas mãos com o polegar. Depois de alguns minutos de silêncio alguém – – resolve se pronunciar.
- Sua mãe e seu pai estão aqui, mas só pode entrar uma pessoa de cada vez. – me alertou – Quer dizer, uma família de cada vez.
- Eu quero vê-los, !
saiu do quarto silenciosamente, não olhando para trás. Eu sempre soube quando algo estava errado com ele. E naquela hora com certeza tinha alguma coisa errada. Enquanto meus pais não chegavam, observava os detalhes do quarto. Não era muito diferente de um quarto normal de hospital: paredes beges ou amarelas claro, poltronas não muito confortáveis e uma televisão perto do teto. Só que esse quarto não era normal, a não ser pelas paredes.
Ao invés do sofá, tinha uma cama toda arrumada e cheia de almofadas, ao contrário da pequena televisão tinha uma televisão de plasma. Percebi também, assim que a cortina se abriu com a brisa gelada, um lindo jardim, com direito a uma gigante fonte ao centro.
Tudo só podia ser obra de uma única pessoa: . Ele tinha pagado por aquele quarto.
Meus pais, meus amigos, os amigos dos meus amigos, os pais do meu namorado, todos vieram me ver, sem exceção, e a cada visita ficava emocionada, nunca tinha reparado na importância que eu tinha para eles. E claro, meu sentimento era recíproco.
No final da tarde, o médico me deu alta, mas somente com uma única condição: teria que frequentar algumas sessões no traumatologista. E não teve jeito de fazerem mudar de ideia. Ou eu fazia ou teria que ficar mais alguns dias para observação. Tudo o que eu queria era sair logo daquele lugar com cheiro de remédio.
Em menos de uma hora estava em casa sendo levada para meu quarto nos braços do meu namorado. me colocou devagar embaixo dos cobertores e me deu um beijo na bochecha.
- Espera! – gritei antes que fechasse a porta e desaparecesse. – ! Vem aqui! – o chamei com a força que restava dos meus dedos.
Veio ao meu encontro novamente, puxou uma cadeira e me olhou com dúvidas.
- O que foi, ? – acariciei sua face macia e preocupada.
- Nada. – abaixou a cabeça
- Quem nada é peixe! Você está estranho... - continuei
- Não queria que tudo fosse assim. – suspirou. – Nada disso teria acontecido se eu...
- Não – o interrompi séria, colocando o dedo indicados sob seus lábios. – Você não teve culpa de nada! E se começar a se culpar, quem vai ter que ir ao um psicólogo vai ser você!
- Se eu tivesse esperado mais um pouco, só até terminarem de fazer o muro de segurança...
- ! Para! Agora! – ordenei. Ele me olhou triste e voltou a olhar para baixo.
- Boa noite, Mari! – beijou levemente meus lábios e foi em direção a porta.
- Não estou com sono, ! – falei um pouco mais alto para ele escutar atrás da porta já meio fechada, pois sabia que ficaria ali um tempo, até saber que já tivesse adormecido.
- Você tem que descansar, ! – disse atrás da porta – como previsto.
- Posso te pedir uma coisa antes?
- Qualquer coisa. – voltou para perto da cama e ajoelhou para ficar da minha altura.
- Na verdade... São duas coisas. – fiz cara de criança.
- Não me escravize, hein? – levantou as sobrancelhas.
- Não é pra tanto assim. – levantei e deitei de costas, deixando-o confuso – Faz massagem em mim? – pisquei os olhos inocentemente.

“Primavera! Como adorava a estação das flores, frutos, cores... amor.
Com o sol batendo firmemente na janela, olhava para o céu como se fosse a última coisa que faria na vida. O vento soprava meus cabelos e o cheiro de jasmim contornava a atmosfera ao redor do quarto. Meu sorriso não saia dos meus lábios nem por um segundo, mesmo eu não sabendo o porquê de tanta felicidade.
O colégio estava de recesso e meus pais sairiam a tarde toda, deixando a casa todinha pra mim. Quer dizer, pra mim e pro . Mas meus pais não precisavam saber daquilo. Definitivamente não.
- Filha? Tem certeza que não quer ir comigo? – minha mãe abriu a porta do quarto e deu uma espiada no que eu estava fazendo.
- Tenho... – respondi sorrindo mais ainda com devaneios nada próprios para ela.
- Posso saber o que você pretende fazer a tarde inteira sozinha em casa? – Levantou as sobrancelhas.
- Olhando o céu. – dei de ombros – Está uma tarde incrivelmente linda para ficar andando de carro, só isso. – simplifiquei ao máximo meus pensamentos – Talvez eu chame as meninas para vir me fazer companhia, não sei.
- Hm – refletiu na minha mentira encorajadora – Qualquer coisa me ligue, ok?
Assenti rapidamente e voltei a atenção à vista maravilhosa que tinha em minha frente. O que será que eu faria naquela tarde?
Peguei o celular e disquei os famosos números que sabia de cor e salteado. Esperando ao menos ouvir um: Ok, estou a caminho.
- Oi, você ligou para mim. Se você não sabe quem eu sou não adianta me deixar recados, porque provavelmente não sei quem você é também. Caso contrário, sabe o que fazer. BIIIP. – ótimo. Caixa postal.
- Oi, . Hmm... Vai mesmo me fazer deixar recado? Enfim, quer vir aqui em casa? A gente assiste um filme, olha o céu, faz comida, sei lá. Me liga, ok? – desliguei o aparelho revoltada demais para voltar para a janela e decidi descer e ir até a cozinha preparar alguma coisa para a minha barriga esfomeada.
Abri os armários refletindo no que poderia fazer para assistir filme, além de pipoca, é claro. A despensa não estava, como posso dizer, muito cheia para conseguir soltar a imaginação e me divertir no fogão. Acho que pipoca era a única besteira que me restava naquela tarde solitária.
- Será que se eu derreter o chocolate em você ficará magnífico? – me peguei conversando com o saco de milho, totalmente esperançosa que me respondesse.
- Com certeza. Mas eu faria com groselha. Fica muito melhor, acredite. – Uma voz conhecida respondeu a pergunta, me assustando. Claro, não foi o milho, eu não estava totalmente maluca assim. Mesmo assim, sementes e mais sementes de pipoca caíram espalhadas no chão da cozinha, estragando meu plano de fazer pipoca.
Meu único plano.
- ! Caramba! Por que você fez isso? – arregalei os olhos com as mãos no coração, olhando em sua direção – Derramou pipoca para a China inteira e ainda vai me fazer passar fome! – choraminguei com bico nos lábios.
- Na verdade, foi você quem derramou o milho no chão. – começou a se aproximar lentamente e seu sorriso surgia de acordo que a nossa distância diminuía – Eu sei que você está só fingindo estar assustada. Está adorando me ver aqui! – deu seu olhar convencido e lindo pra cima de mim.
- Na verdade, eu me assustei sim. E você é idiota. – balancei a cabeça, fingindo estar convencida do que ele era. Claro que eu gostei de ver ele ali, mas quem sou eu pra deixar minhas pernas tremerem tão fácil assim?
- Alguém já te disse que você fala demais?
- Não. – coloquei a mão no queixo pensativa – Mas eu nã... – arruinou nossa distância e colou sua boca na minha. Doce e delicada, amarga e selvagem ao mesmo tempo. Muito cedo se separou e sorriu. Aquele sorriso que eu tanto gostava e que me fazia entender o significado de ‘borboletas no estômago’.
- Vou começar a falar mais a partir de hoje. – me aproximei novamente maliciosa.
- Nossa. Como você é safada, menina! – afetou a voz, gargalhando em seguida.

**

- Massagem? – meus olhos cintilaram com o pedido desesperado. Qual é, eu precisava de uma massagem mesmo. E nada melhor do que um colocando seus lindos dedinhos nas minhas costas.
Eu precisava parar com aquela safadeza toda. A primavera estava me afetando com aqueles aromas florais e casaizinhos bonitinhos.
Ao contrário do que eu pensava, deixei as coisas rolarem. Um beijo aqui, outro ali, uma risadinha acolá... Percebi que chegamos em meu quarto de uma forma impressionantemente rápida e sem fôlego. Nossos lábios se encontraram novamente e senti sua língua contra a minha. Uma sensação conhecida, mas ainda assim parecendo nova aos dois. Seu hálito de mente me preenchia e minha mão em sua nuca puxava os pequenos fios de cabelo bem cortado que restavam. Senti sendo pressionada contra a parede e um tronco nu contra o meu ainda totalmente coberto. não sabia onde parar suas mãos e nossos beijos ficando cada vez mais urgente, dificultando a sanidade dos dois lados do jogo.
- Você é só minha... – resmungou em meu pescoço, continuando a falar palavras desconhecidas.
- Ual, me senti lisonjeada agora! – prendi o riso com o que eu escutei e o que acabei de falar. Eu com toda a certeza não estava totalmente sóbria naquele dia. Bêbada de açúcar. parou de me beijar e olhou em meus olhos profundamente. Droga. Prendi a respiração com a intensidade com que nos olhávamos e imaginei tudo e todos dentro de seus olhos brilhantes e encantadoramente . – Que? – perguntei em dúvida do porque da pausa repentina.
Depois da minha provável quebra de clima ou falta dele, deitamos de costas na cama como derrotados.
- Eu tenho que te dar um apelido... – riu das nossas posições fracassadas, me fitando.
- Apelido? Mas eu já tenho um. – discordei.
- Não, boba, um apelido diferente. – rolou deitando mais próximo ao meu lado – Tipo, eu era chamado de Omelete quando criança. Isso pegou, não que eu goste muito, mas foram pessoas especiais que me deram e só elas podem usar, entendeu?
- ... – virei de bruços, o encarando docemente – Se você gosta de mim, não importa o apelido que os outros te dão ou com qual nome você me chama. Se isso for verdadeiro não vai mudar por um simples nome ‘falso’. Você não tem que inventar um outro apelido pra significar mais que os outros. O meu nome já soa diferente quando você o fala. – acariciei suas bochechas, me envergonhando de ter sido tão sincera com ele daquela maneira.
- Você acha mesmo que seu nome é melhor quando eu falo ele? – perguntou baixinho no meu ouvido.
- Com certeza! – afirmei sorrindo, abraçando-o deliciosamente – Eu me pergunto todo dia o que eu vi em você para me deixar desse jeito, sabe?
- Isso é muito óbvio! – simplificou todo metido – Um dia eu estava em casa sem fazer nada e decidi fazer uma lista do que as pessoas mais gostam em mim. – fez um faixa no ar com as mãos aberta, mostrando o seu título.
- Sério? Mesmo? – me segurei para não rir da coisa mais idiota que já tinha ouvido na vida.
- Não. Mas eu posso fazer isso agora mesmo. – afirmou sério, sentando e começando a enumerar os fatos grandiosos que o faziam ser tão legal. U.a.l.
- Primeiro: meu estilo. Todo mundo adora ser descolado e querer conversar comigo. Segundo: Meus olhos. Eu sei que todos se apaixonam por ele. Terceiro: gente boa. Eu sou legal com todo mundo. Quarto: O me...
- Chega! – gargalhei o puxando pela camisa e deitando ao seu lado mais uma vez – Que tal parar de ser metido pelo menos uma vez na sua vida? Tem que colocar esse fato na sua lista, viu? – empurrei seu ombro me divertindo.
Comecei a observá-lo sem nem mesmo perceber. Seus ombros largos e sua respiração me hipnotizando. A linha do seu pescoço se perdia na camiseta e seus braços fortes, mas ainda em formação, tão convidativos me aninhavam num abraço que eu desejava nunca mais acabar. Eu sempre perdia a vontade de resistir quando ele me abraçava daquela forma.
- Eu sei que você adora quando eu faço isso! – gargalhou com um suspiro mal intencionado saindo da minha boca. Me abraçou pela cintura, de modo que não houvesse espaço entre nós e começou a sussurrar em minha orelha.
- Isso o que? – me fiz de desentendida.
- Disso. – mordiscou o lóbulo da minha orelha, me arrepiando até o último fio de cabelo – Isso. – Enterrou sua cabeça na curva do meu pescoço e mordiscou a região com outras intenções.
- Você que acha. – dei de ombros, me controlando – Não me abalei nem um pouquinho.
- E disso... – começou a beijar minha bochecha, nariz, minhas pálpebras (fechadas, quase me rendendo ao momento), testa e descendo sutilmente até o canto da minha boca, parando brevemente para me observar sofrendo, pedindo por mais. Sua boca encostou-se à minha e somente aproveitando o momento ficou lá, desfrutando da minha sanidade quase esgotada. Ele sabia o quanto me deixava louca aquele tipo de comportamento.
Separei meus lábios levemente e ele o sugou com adoração, começando mais um dos muitos beijos que eu daria dele. Em um clima envolvente, não me importava mais que horas eram ou o que acontecia na rua naquele momento. estava comigo ali, me sentindo protegida e de alguma forma amada (mesmo nós não tendo muito mais que um grau a cima de amizade). Deitada ali em seus braços e ouvindo diversas histórias sobre a sua família, me senti mais do que feliz, como se ele me pertencesse a muito mais tempo do que realmente deveria sentir.
O que era aquilo que eu tanto escondia? Por que mesmo eu estando com ele e toda a felicidade que existisse no mundo entrasse em meus poros e me consumisse, alguma coisa me prendia aquela famosa sensação de dúvida e desespero? Eu não podia simplesmente me entregar e deixar fluir como deveria. Ele não era qualquer cara. Ele era disputado. E eu tinha que fazer ele disputar por mim.
- ?
- Hm?
- Você está ouvindo alguma coisa? – me afastei o bastante para começar a ouvir passos na escada. – Acho que é meu pai! – me desesperei, desvencilhando dele o mais rápido possível.
- O que? Mas você me disse que ele estaria fo...
- Disse. Porque era pra ser assim. – arrumei o cabelo todo bagunçado.
- O que nós fazemos? – arregalou os olhos quando duas batidas interromperam o barulho do meu coração já disparado.
- O que nós fazemos, eu não sei. Mas você vai ter que pular a janela!
- O que? – quase gritou com os olhos arregalados, ouvindo batidas insistentes na porta. – Não quero morrer!
- Pula logo, medroso. É uma laje aqui. Você não vai morrer e nem cair. Pensa em um telhado reto. Pronto, é isso. Vai logo.
- ? Você está aí? – meu pai mexia na maçaneta insistentemente.
- Peraí, pai! Já vou! – gritei em resposta – Vai logo, ! – sussurrei ficando mais nervosa pela demora de pular uma janela. Até eu fazia isso com mais decência.
se escondeu na laje debaixo da janela e ficou lá esperando o que aconteceria. Se meu pai descobrisse sobre aquilo eu estava totalmente ferrado. E ele também.
- Oi, pai! – controlei a respiração ao abrir a porta rapidamente, mostrando só parte do meu corpo.
- Por que você trancou a porta? – questionou, tentando ver o interior do cômodo.
- Porque... Porque eu tenho um pouco de medo de ficar sozinha, sabe... É sempre bom se precaver. – assenti, esperando que acreditasse naquela mentira ridícula. – Questão de hábito.
Resmungando, virou as costas e entrou em seu quarto pegando alguma papelada desinteressante. Quase fechando a porta que me salvaria daquilo tudo, a pergunta que fez a seguir me atingiu como um taco no estômago:
- Como está o ?
- O que? – fingi que não entendi o que perguntara. Ele percebera alguma coisa?
- O , como ele está? – insistiu – É esse o nome daquele garoto que você mencionou, certo?
- Ah! É... Pois é. Ele está ótimo. Eu acho... – terminei me referindo na posição física em que ele se encontrava naquele momento, embaixo da janela. Mas só eu (felizmente) sabia daquilo.
- Vocês se veem todo dia? – continuou com o interrogatório.
- Pai, nós estudamos juntos... – quis encerrar logo o assunto o voltar ao meu quarto.
- Você poderia chamar ele para jantar qualquer dia desses.
- O que? – essa era uma palavra que eu costumava falar muito.
- Eu sei que você não chamaria ele pra vir aqui em casa sem que eu o conhecesse primeiro. Então estou falando que ele pode vir aqui jantar e ficar tudo resolvido.
Ótimo. Muito bom esse comentário, pai. Realmente... Eu não poderia esperar por fala melhor para esse momento. Pensava comigo mesma, fazendo caretas ao imaginar meu pai, do jeito que era, conhecendo o , do jeito que ele era.
- Mas é claro que ele não viria aqui sem que você o conhecesse, pai. É claro que eu não faria isso... – disse afirmando com a cabeça sem deixar de fazer caretas com as mentiras que contava durante o dia inteiro – Vou comentar isso com o . Talvez ele venha sim.
Assim que a conversa se encerrou e ele encontrou a papelada que estava bem escondida, por sinal, pude voltar ao meu quarto com o coração acelerado e os pensamentos a mil. e meu pai se conhecendo ia ser a maior comédia. Eu teria que gravar a cena do aperto de mão e ouvir meu pai falar: ‘Então foi você quem começou a beijar a minha filha?’ Como da última vez que isso aconteceu. Constrangedor.
Fechando a porta com cuidado, observei o ambiente e avistei deitado em minha cama cochilando.
Que beleza.
O sol já havia se posto e vinha uma brisa gostosa do céu já estrelado. Olhava para o céu com admiração e desejo. Admiração porque fazia tempo que o céu não estava tão limpo e todas as estrelas apareciam no manto azul. Desejo porque às vezes eu queria ser uma estrela. Estrelas são coisas que nós nunca esquecemos, entende? E por mais que esteja chuvoso e nublado, elas nunca saem de lá. Sempre são os mesmos pontinhos brilhosos no meio da noite. E quando as olhava, sentia uma vontade repentina de estar ao lado de meu avô, envolta com seu cheiro de cachimbo e aconchego, sentada em frente à lareira, escutando suas histórias sobre o passado e de como era legal sair bem cedinho de casa para tomar banho no rio. Meu avô era um máximo.
Absorta em pensamentos, vi uma estrela cadente e olhei imediatamente para o garoto que dormia tranquilamente em minha cama. Talvez a estrela atendesse o meu pedido. Talvez isso seja apenas uma conspiração maluca que algum filósofo tenha feito em relação às estrelas. Talvez a palavra talvez seja muito relativa no seu significado, depende do momento certo, no lugar certo, com a pessoa certa.
Sentada na rede, lia um livro sobre química do corpo humano, um livro entediante lia obrigatoriamente para o colégio. acordou e, como se fosse uma criança perdida, perguntou se tinha dormido muito.
- Como você consegue ler isso? – perguntou pegando o infeliz livro e sentando na rede comigo.
- Sei lá. Nós meio que temos que ler isso né, ?! Esqueceu?
- Não. Eu até tentei, sabe? Mas essas imagens não deixaram… - fez careta apontando para os órgãos expostos na capa. – Médico: fora de cogitação.
- Que bom! – sorri – Não iria deixar você ficar com aquelas enfermeiras de segunda... - fiz bico, fazendo-o rir.
- Bom, eu teria motivos para não dar bola às mulheres de segunda… - sorriu malicioso, me dando um selinho demorado.
- E qual seria?
- Eu teria uma de primeira bem ao meu lado! – beijou minha bochecha, me deixando não só com total vergonha pela declaração, como também com muita vontade de enchê-lo de beijos.
Como se lesse minha mente, beijou-me doce e sutilmente, acariciando a curva de minha cintura e mexendo em meu cabelo. E assim ficamos, sem segunda intenções.
- Acho melhor você ir embora, antes que alguém apareça na escada e me faça mais um interrogatório… - ri sem graça por ter que fazê-lo se esconder na laje do quarto
- Tudo bem… - deu de ombros, não me largando do seu abraço um minuto sequer.
Chegando na porta de entrada, meu coração se apertou e um arrepio no estômago me preencheu. Provavelmente me avisando que eu tinha me envolvido e não dava pra voltar atrás.
- Aliás, quer vir jantar aqui em casa amanhã? – ergui uma sobrancelha e mordi o lábio em dúvida.
- E conhecer o seu pai? – gargalhou – Mas é claro! Te vejo amanhã! – me beijou em despedida e sumiu no meio da escuridão.
Até o dia seguinte, então...”


Capítulo 8


(Deixem a música carregando)

Duas semanas se passaram desde o trágico acidente. Minhas sessões ao traumatologista já estavam quase acabando (aleluia) e minha vida quase voltando ao ritmo normal.
O pai do começou a investigar mais a fundo quem estava por trás daquilo tudo, mas até aquele dia não conseguira nem uma pista de quem mandou me “raptar” e me ameaçar a contar a conta do banco do pai do meu namorado. O que, na minha opinião, era a coisa mais esquisita do mundo: raptar a namorada do filho do advogado (pai do ) para saber o número da conta do pai dele. Se fosse a conta do meu pai até fazia mais sentido, mas que eu, logo eu, iria saber os exatos números da conta do pai dele?
Claro, a não ser que os números do barco fossem realmente o número da conta dele. Do pai do , eu digo.
Na mesma semana consegui um emprego na Factory’s & CIA, uma agência de propaganda bem famosa nos arredores de Londres. Talvez eu começasse a pegar jeito pela coisa e me divertisse bastante no trabalho.
Como não tinha muita experiência, fui colocada em um cargo mais baixo no começo. Pelo menos eu achava... Minha função era conferir os catálogos de produtos já inspecionados pela boa parte da produção da empresa sobre a opinião pública dos produtos lançados na rede virtual.
Me falaram que essa era a nova “onda do momento”.
Bom, mas tudo bem. Desde que eu fique longe daquele psicólogo maluco falando sobre medo e afins, tudo ótimo para mim.
Dentro da Factory’s conheci ótimas pessoas que me acolheram tão bem que meus olhos se enchiam de lágrimas. Ceci é formada em marketing e promove as vendas dos produtos, e Rafael é diretor de fotografia.
me buscava todo dia e me levava para casa. Mas, mesmo com a nossa proximidade constante, parecia que nos afastávamos mais e mais. Algo dentro de mim me avisava que algo não muito bom aconteceria em breve, mas tentava não pensar naquilo tudo. Uma coisa de cada vez, eu sempre dizia.
- Você sabe que um dia você vai ter que esquecer o que aconteceu lá, não é? – me referia a ele no dia que conheci nossa casa de campo belíssima.
- Você sabe que um dia nós iremos lá de novo e eu não vou conseguir esquecer assim tão fácil o que fizeram com você. – retrucou, modificando minimamente minhas palavras.
Era sempre assim nossas discussões no caminho de volta para casa. O único erro era que esquecer ou não o que houve naquele dia não era o maior dos problemas dele.
- Sabe, essa semana você não tem compartilhado muito suas tardes comigo.... – deitei em seu ombro quando paramos em um semáforo qualquer.
- Por que você está muito ocupada trabalhando na empresa dos seus sonho, pequena. – não olhou para mim ao me dizer aquelas palavras. Ele sabia que eu não estava falando daquilo.
- Para. Você sabe muito bem que eu não estou me referindo a isso. – bufei chateada – Por que você está tão distante, ?
- Eu não estou distante.
- Se você não estivesse eu não estaria aqui, estragando um dos únicos momentos que a gente tem junto. – falei a frase mais óbvia do planeta.
- Eu não estou distante. – teimou ainda sem olhar para mim.

**

- Sabe, Ceci... Eu estou namorando há oito anos com o ! – disse à minha mais nova colega de trabalho. Aliás, depois do que aconteceu, parece que todas as minhas amigas sumiram do mapa. Além do , lá estavam elas se escondendo. E eu realmente não sabia o motivo.
- Uau... Mas que casal velho, hein? – respondeu com sua ironia típica na ponta da língua.
- Cala a boca. – retruquei emburrada – Eu só tô querendo dizer que, sei lá... Talvez seja a hora de usar um vestido branco reluzente e ter madrinhas e padrinhos. Essas coisas... – dei de ombros, pensando brevemente na possibilidade daquilo dar certo.
Claro que daria certo. Oito anos juntos não era para qualquer um. Tenho certeza que ele já tinha pensado em algo desse tipo também.
- Fala sério, ! Você não está pensando mesmo em propor ele em casamento, está? – arqueou as sobrancelhas exageradamente.
- Estou.
- Mas por que?! – quase explodiu os papéis em cima da sua mesa com a minha sinceridade à tona.
- Porque eu o amo. E é isso. Eu não consigo imaginar passar o resto da minha vida com outro alguém, sabe? – sentei na bancada ao lado esperando uma resposta que me alegrasse.
- Talvez você ache isso porque o único cara com quem você esteve desde quando você... – pausou para pensar delicadamente no que diria – sabe, da sua existência, é ele. é o único cara com quem você esteve, menina! – bateu na minha testa como se aquilo fosse entrar em minha cabeça. Qual era o problema dela afinal?
- Você está errada. Eu namorei outro cara antes de me mudar para cá.
- Uau. Isso há quanto tempo? E você tinha quantos anos? Três?
- Ah! Vê se me acha na esquina! – terminei a discussão pegando minha bolsa e o casaco e saindo da sala. Já era mais de uma hora da tarde. Estava com uma fome do caramba!
Quem ela pensava que era pra dizer aquelas coisa para mim? “ é o único cara com quem você esteve” e blá blá blá. era o único com quem eu estive porque eu não tive a necessidade de procurar outro, ou melhor, de me apaixonar por outro. Eu sabia tudo de casamentos. E o que eu mais sabia era que uma comunhão não era perfeita. Aliás, nenhum de nós dois éramos perfeitos. Por que não daria certo viver em um casamento?
Eu pensava na minha idade como o problema de tudo, talvez eu fosse muito jovem. Ou então eu pensava na dificuldade de morarmos juntos. As pessoas nos perguntavam por que depois de tanto tempo juntos não nos mudamos para o nosso cantinho. E claro, a resposta era a responsabilidade. Eu não queria me preocupar quando ele chegava bêbado com os meninos de onde quer que eles tivessem ido, nem de quando eu queria sair com minhas amigas sem dar satisfações. Era um acordo que cumpríamos e dava certo. Um confiava no outro e a vida continuava.
Por que não continuar em um casamento, não é mesmo?
Prestando atenção no chão encerado no saguão do prédio, descia a rampa devagar com o menor ânimo possível. Ceci tinha me desanimado pra caramba.
Parada olhando a rua, observei um carro chegar perto de onde estava e começar a parar. Estranhei o ato repentino, mas não liguei. Claro que era só alguém deixando de dar carona para outra pessoa. O que mais seria?
- O que vocês fazem aqui?! – quase gritei de surpresa quando , e apareceram na janela fumê do carro.
- Que tal almoçarmos juntos, ? – perguntou com a voz mais carinhosa que o normal.
Dei de ombros e entrei no carro que cheirava a menta e colônia masculina. Eu adorava nossos almoços, independente do momento. Era sempre divertido e apetitoso. Recebi abraços calorosos e um aceno de cabeça do que estava dirigindo firmemente com os olhos no trânsito.
Uma pontada no peito fez eu pular do banco traseiro e me assustar. Senti falta daquilo. De todos juntos indo almoçar e falando sobre como o dia estava maravilhoso e ensolarado, mesmo que estivesse preste a cair a maior tempestade. com seu jeito brincalhão de sempre me trouxe mais para perto do seu peito quando comecei a soluçar silenciosamente. sorriu como um pai cuidadoso e entrelaçou nossas mãos. Eu sabia que chorava de saudade, mas não precisava de tanto carinho como recebia naquele momento.
- O que aconteceu? – limpei as gotas salgadas em minha bochecha e comecei a falar novamente.
- Ué, não podemos mais almoçar com a que gostamos tanto?- riu da própria piada. Só ele, porque né...
- Eu quis dizer... Por que vocês vieram me buscar para almoçar, não me ligaram e o não está aqui? – enumerei os acontecimentos em meus dedos ainda encostada no peito de .
- Talvez você devesse largar mais o , sabe... – se pronunciou, levando uma bofetada na cabeça de . Qual era o problema deles afinal?
Eu tinha que parar com essa frase inútil.
- A gente não falou pro que vínhamos almoçar com você. – começou a explicar – A gente quis almoçar porque estamos com saudade. Fim. É isso.
Não discuti para não deixar o clima mais tenso do que já estava. Era como se o céu nublado deixasse minha mente fosca e confusa.
Passando pelas ruas movimentadas de Londres, paramos em uma esquina cheia de restaurantes bonitos e modernos. Só porque os meninos estavam com contrato na gravadora não queria dizer que eu podia gastar cem libras em um almoço. Qual era o probl... Parei.
- Gente... – chamei a atenção dos três que entravam normalmente no restaurante em nossa frente – Eu não posso pagar por isso. Sério. Sou uma mera funcionária sem importância. Que tal quando eu for promovida e etc? – balancei a cabeça afirmativamente, fazendo caretas.
- Sem problemas, ... O almoço de hoje é por nossa conta. – Piscou charmoso.
- De jeito nenhum! – levantei as mãos pro ar – Não posso deixar vocês pagarem o que eu vou comer.
- Por que quando você sai com o ele paga o que você come? – levantou as sobrancelhas, me desafiando de um jeito bobo.
- Por que o é meu namorado. Vocês são meus amigos! Amigos não pagam refeições de amigos. Só em caso muito extremo. – finalizei pensando no caso muito extremo.
- Bom, hoje é um caso muito extremo! – admitiu levanto outro empurrão de e um olhar chateado de .
- É, eu sei. Tenho que eu contar uma coisa para vocês. – pensei sobre o pedido de casamento.
Os três me olharam assustados e entraram quase correndo pelo corredor estreito, mas confortável do restaurante. Sentamos em uma mesa perto da janela e pegamos o cardápio já posto em cima da peça de vidro. Parecia que...
- Vocês tinham reservado a mesa? – perguntei séria, ligando os pontos desde quando os encontrei.
- Claro que não.... – engasgou.
- Você acha mesmo que faríamos uma coisa dessa?
- Claro que não... – repetiu , parecendo um tonto que eu conhecia há tanto tempo atrás.
- Ei! Vamos parar com isso, ok? Temos que parar de mentir pelo menos uma vez na vida! – praticamente explodiu com os dois. Ui. O que tinha neles?
Minha atenção passava do para o , do para o e do para o ... Confusão. O que eles aprontaram daquela vez?
Os dois babacas que eu amava tanto saíram da mesa meio enraivecidos deixando eu e o Sr. sozinhos. Pronto, hora de esclarecer mano a mano. Ou não. Talvez esclarecer tudo o que estava confuso, sem essa coisa de mano a mano.
Eu devia parar de comer tanto açúcar.
Pensamentos sobre o suposto casamento estava em minha mente. E mais uma vez as palavras cortantes de Ceci vieram em minha memória. Será mesmo que o era o meu amor de verdade? Por que aquilo tudo aconteceu comigo naquele dia? Por que o pai dele estava envolvido? Por que ele estava sendo tão frio comigo naquela semana?
Milhares de perguntas me atingiam como nunca. E mesmo assim aquilo não significava nada pra mim. Claro que era o meu amor de verdade. Se não fosse, quem mais seria? Eu não sabia responder do porquê eu quase fora estuprada (se posse dizer assim), e não sei responder o porquê o Sr. estava envolvido naquilo tudo.
- Euvouproporoemcasamento. – soltei em jato as sete palavras que viajam sobre mim o dia inteiro.
- Que? – tirou a atenção do celular que digitava furiosamente e me olhou como se eu tivesse batido a cabeça na privada no dia anterior.
- Eu vou pedir o em casamento. – suspirei – Estamos em uma época moderna. Chega de esperar que o homem tente assumir a relação. Eu vou propor à ele hoje à noite.
arregalou os olhos e cuspiu todo o suco de uva que tomava em cima da mesa. Como se não fosse possível mais tragédia, minha blusa branca ficou encharcada de uva, meu celular molhou inteirinho e ainda conseguiu derrubar todas as batatinhas do pote em cima da minha bolsa.
Por que uma reação tão exagerada? Qual é... Não fui inconveniente.
- O QUE? VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! – Cuspiu mais na minha cara. Acho que não foi de propósito. Não é possível.
- Caramba, ! Olha a minha camiseta! Que droga! – fiquei enojada da sujeira – Como você quer que eu volte a trabalhar assim?! – o fiz me analisar por completo.
- , você não pode casar com ele.
- Por que não?
- Você não vai casar com ele. – disse sério. Muito sério.
- , escuta só, meu bem. Eu sou grandinha pra tomar as minhas decisões. E a minha principal decisão foi viver pra sempre ao lado do . Sem mais e sem menos. Eu sei que é totalmente espontâneo, mas ele gosta desse tipo de coisa. Talvez ele estava estranho comigo a semana toda porque ele pensava a mesma coisa que eu.
- Acho que não. – olhou feio para o celular e para a minha blusa semitransparente – Se eu fosse você trocava essa sua blusa. Tem um cara na sua diagonal que não para de olhar os seus peitos! – me avisou, prendendo o riso.
- ! Olha o jeito que você fala! – o cutuquei, esquentando o rosto.
- O que? Quer que eu fale que o cara não consegue parar de olhar os seus mamilos? – gargalhou alto, esquecendo totalmente da nossa conversa a cinco segundos atrás.
Saiu bruscamente da mesa encharcada e fui procurar o banheiro, pouco ligando para quem visse minha camiseta molhada. Aquele dia estava sendo maravilhoso. O que mais podia dar errado?
Um pouco mais a esquerda havia uma portinha escondida e bonitinha com uma menina pregada na madeira. Banheiro feminino. Bingo! Entrei entusiasmada como nunca entrei em um banheiro e arranquei o pano cor de uva do meu corpo, colocando um pouco de sabonete e água quente da pia. Procurei alguma coisa que pudesse tampar o ralo para a água não escorrer e acontecer uma limpeza maravilhosa na minha blusa. No fim, foi um monte de papel higiênico que resolveu a situação. Cinco minutos depois de muito trabalho de esfregação, minha camiseta estava quase nova. Quase. A torci para sair o excesso de água e coloquei embaixo do secador de mão. Tinha que secar desse jeito.
- Alô? – a voz que fazia meu estômago revirar atendeu o telefonema assim que disquei.
- Oi. – disse simplesmente sentando no chão esperando ouvir só sua respiração para acalmar a minha.
- ? – pareceu assustado ao falar meu nome do outro lado da linha – Não sabia que era você. Desculpa.
- Hm. Tudo bem, ... – fui sincera. Chega de brigas. Chega de separação – Eu estava com saudades! – sorri sincera.
- ? Eu... não posso falar agora.
- Que? Por que não?
- Eu... A gente se vê mais tarde na sua casa, ok? – suspirou com a voz cansada e quase robótica do outro lado.
- Você vai mesmo me fazer voltar pra mesa com os seus amigos? – comecei – Sabe, tem dois idiotas chamados e que estão estressadinhos com o , não sei porque. E o seu amigo cuspiu suco na minha camisa novinha e agora eu estou no banheiro, sem camiseta, esperando esta secar no secador de mão. O que acha disso?
- Eu... hm – hesitou – , eu sinto muito se eles fizeram alguma coisa que te deixou chateada... O que eles falaram? – perguntou na mesma voz de antes, porém com um tom preocupado.
- Nada. Eles só estão, sei lá, tentando deixar o meu almoço feliz, sem sucesso, é claro. Eu não sei por que eles vieram e você não. Onde você está afinal? – a pergunta que não calava saiu de meus lábios o mais depressa possível.
- Hmmm.. Longe de onde você está. Não se preocupe, nos vemos de noite! – se alegrou um pouquinho, mas não o bastante para me deixar animada – Te amo, pequena! – e desligou, sem nem ao menos deixar eu me despedir.
Revirei os olhos e me enchi de fazer o papel da idiota do pedaço. Peguei a camisa úmida e vesti em meu corpo, me deixando um pouco desconfortável, mas valendo pela mancha de uva que estava ralo abaixo naquela hora. Peguei minha bolsa e saí às pressas do banheiro querendo encontrar os três que me levaram até lá para voltar ao trabalho.
- Desculpa, gente, só tenho dinheiro para a batatinha que caiu na minha bolsa. – que desperdício, fiz bico encenando – Então, tá. Foi legal. A gente se vê! – acenei de longe para as caras de desentendimento e saí correndo rua afora, chamando um táxi, indo direto para onde minha sanidade e meu espírito feliz voltariam em mim.

**

- Olha essa aqui que coisa mais linda! – Rafael me deu um book de algumas crianças para olhar e me divertir já que não tinha mais nada para fazer a não ser pensar em como pedir o meu namorado em casamento. E isso eu não queria processar na memória de jeito nenhum.
Abri a caderno de camurça marfim e prendi a respiração quando vi a primeira imagem. Era a ruiva mais linda que eu já tinha visto na minha vida! Seu cabelo caía sobre seus ombros pequenos e terminava em cachos de dar inveja a qualquer uma.
- Uau! Ela é linda! Pra que o book? – entreguei o livro em suas mãos.
- Ela vai ser a cara da Sheela e Shiily, uma nova marca de roupas para criança. – deu de ombros.
- Uau! Ela é realmente fofa. Quero uma filha assim! – bati palmas, empolgada.
Começamos a reorganizar a sala entupida de fotos da porta a janela dos fundos, quando eu vi já eram mais de sete horas da noite!
O que eu fazia até tão tarde ali?
- Rafa, eu tenho que ir. O deve estar super irritado por eu estar aqui até altas horas... – ri anasalado dando um aceno e saindo da sala, indo em direção a estação de trem de volta para casa!
Com um frio cortante, entrei no vagão um pouco mais lotado do que o normal e dez minutos depois estava praticamente correndo até avistar minha casa. Doce e querido lar.
O céu, mesmo estando com cara de chuva, mostrava brevemente as estrelas e eu tive que parar e dar uma olhadinha apreciando, provavelmente, a última noite como “namorada”. Eu realmente queria que passasse uma brisa gelada, os pontos em meio a camada azul se ligassem e uma coragem humilhante se espalhasse em mim. Porque, se eu não ficasse com o , nada faria mais sentido. E nem o próprio sentido faria sentido, ele se perderia dentro das milhares de caixas que nos envolviam a viraria fumaça a qualquer momento.
Então, por que eu tinha um nó no estômago?
Ainda olhando os meros pontos brilhantes no céu, decidi entrar e encarar com precisão o que eu mais queria naquele momento. E era só aquilo para me completar e explodir de felicidade.
A casa vazia, como sempre, me deixava com expectativas de não ter um público pra ver o maior mico da minha vida. Quer dizer, talvez eu não devesse chamar de mico. Era pura coragem e modernismo. Peguei uma maçã na fruteira e subi para o meu quarto pronta pra me arrumar, caso chegasse cego demais e eu não tivesse refletido o bastante sobre o assunto C.
- ? O que você está fazendo aqui?! – quase pulei de susto quando vi sentada em minha cama, olhando o vazio. O que aquela menina estava fazendo?
- Ah! Oi, ! Desculpa entrar assim, mas eu tinha que te mostrar uma coisa. – me cumprimentou com a voz murcha e sem vida.
- Ah! Que bom que você sabe que é minha casa. – fiz careta e sentei ao seu lado, oferecendo-lhe minha preciosa e deliciosa maçã dos deuses. Mas ela recusou – O que você tinha pra me falar? – perguntei curiosa.
- Hm... Quero te mostrar umas fotos primeiro. – respondeu firmemente e abriu um álbum muito esquecido no passado. Não era o meu álbum azul, mas o dela. E por incrível que pareça ainda estava em bom estado. Todo aquele tempo eu pensara que aquele objeto não existia mais, devido a sua desorganização com tudo.
abriu exatamente em uma página que me deixou espantada, como se estivesse marcando aquela foto há muitos minutos me esperando chegar. A turma do último ano do colégio estava reunida no pátio, todos juntos e alegres. Esqueci como aquela época era maravilhosa. Todas as risadas, piadas sem graças, malícias, beijos, caricias, estudos, faltas de sono devido a tudo, ansiedade... Todas aquelas coisas que me faziam sorrir com uma simples lembrança de um mero passado não muito distante, mas inalcançável aos dias de hoje.
Lembro quando e os meninos decidiram formar uma banda e decepcionaram os pais quando escolheram suas profissões. Não era advogado, médico, jornalista, escritor, chefe de cozinha, mas sim músico. Músico de uma banda que um dia falou que seria famosa. O McFLY estava completo, junto com o meu mundinho particular que envolvia ele, ele e... ele.
Grandes festas e grandes bêbados foram marcados naquele ano, assim como nós fomos nomeados o casal perfeito. Naquela época, vergonha era pouco do que eu sentia quando viravam pra mim e falavam que eu tinha o melhor namorado do mundo e blá blá blá. Não entendia do porque de tanto entusiasmo, até... Até aparecer uma concorrência muito boa. Uma garota que podia me deixar nos pés com uma simples pisada de salto alto.
Victória Becker.
Uma ruiva esplêndida com mini saia e sapatinho, cabelos esvoaçantes, olhos azuis como o mar e uma carisma inebriante. Não a mim, é claro. Sentia uma arrepio toda vez que lembrava da sua voz tentando puxar assunto comigo nas aulas, ou quando dava em cima de todos os garotos comprometidos. E isso incluía na sua listinha preciosa.
A chuva fina caía do lado de fora da janela me chamando a atenção, virei o rosto novamente para e balancei a cabeça positivamente para prosseguir o que queria me dizer.
- Lembra da Victória Becker? – me fez a pergunta mais óbvia do universo.
- Claro, como poderia esquecer uma graça daquelas? – ironizei.
- Certo, bom, ela morreu semana retrasada. – continuou um pouco desconfortável, mas como se me dissesse que estava chovendo em Londres.
- Ai.Meu.Deus. Como assim, ? O que houve com ela? – questionei a sua insensibilidade. Mesmo eu odiando a vaca da Becker eu não podia continuar aquela conversa como se eu realmente falasse que estava chovendo em Londres.
- Bom, ela sofreu um acidente de carro. Mas a filha dela está bem... – terminou deitando em minha cama, parecendo extremamente cansada.
- Ela tinha uma filha? – arregalei os olhos. Como uma mulher daqueles tinha condição de ter uma filha? Bem , olha o que aconteceu...
Ok, foi maldoso. Não vou mais falar isso.
- Bom, é.
- Para de falar “bom”.
- Bom, ahh... Ok.
- Ótimo! – confirmei – E por que diabos você está me contando isso?
- Por q...
- AH! Não, espera! Eu tenho que te contar uma novidade simplesmente esplêndida! – meu sorriso se alongou pela minha cara inteira – Eu vou pedir o em casamento! – afinei a voz animada.
- O QUE? VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO, ! – gritou comigo como se eu acabasse de falar que eu iria me suicidar, ou qualquer coisa do gênero.
- Caramba! Você falou igualzinho ao ! Qual é a de vocês? Formaram um complexo pra me atazanar hoje? Justo hoje? – balancei a cabeça não dando ouvidos para o que ela falava – Aliás, é só um casamento. Estamos juntos há oito anos! O que pode dar errado? Isso não é uma história ou um filme em que quando a personagem finalmente está dando certo acontece uma tragédia.
- , querida, você sabe que nunca pensou direito em casamento, não é? – levantou desajeitada, colocando meu cabelo para trás como uma mãe preocupada, porque a minha tinha ido ao Caribe com meu pai.
- Claro que não! Eu sempre quis usar um vestido branco maravilhoso e beijar o homem que eu amo no altar! – arregalei os olhos, convencendo-a da verdade – Você sabe bem disso... – resmunguei chateada.
- Esse não é caso, ! – puxou os cabelos, inconformada – Voc...
Uma batida na porta a interrompeu e apareceu com um sorriso meigo no rosto, até que viu a e meu sorriso lindo e contagiante se desmanchou em milésimos de segundos.
- ? O que tá fazendo aqui? – perguntou seco.
- Nada. – respondeu como um cachorrinho sem dono – Já estou indo embora! – virou as costas para mim sem dizer tchau, mas logo voltou e sussurrou em meu ouvido a frase mais absurda do planeta – Não faça aquilo. Não hoje. Por favor. - E saiu de fininho do quarto sem olhar para , que estava na porta de braços cruzados, fulminando-a com seus olhos profundos e deliciosos.
Desencostou da porta, fechou-a e me olhou cansado, mas ainda assim sorrindo brevemente. Não conseguia decifrar que cara era aquela que ele fazia quando olhava de mim para o álbum aberto em cima da cama, ao meu lado. Medo? Nojo? Espera, nojo de quem? De mim ou do livro?
- , você está ficando verde... – o aconselhei indiretamente - Acho melhor voc...
correu ao banheiro e, conseguindo agachar no vaso sanitário, vomitou, de novo e de novo. O que estava acontecendo? Ele parecia bem até me ver. Continuei a segurar sua testa lhe dando mais conforto no momento mais desconfortável da vida. Talvez um deles. Depois de mais uma rodada, se podemos dizer assim, lavou sua boca e voltou a sentar no chão do banheiro, começando a chorar feito um bebê.
- ? Amor, o que está acontecendo? Você está mal assim desde quando? - disparei perguntas sentando ao seu lado no piso gelado.
- ... – pegou meu rosto entre suas mãos quentes e grandes – Me prometa uma coisa, só uma.
- Por favor, não fale que você vai morrer! – o olhei com os olhos começando a marejar. O que tinha de errado comigo? Por que diabos eu estava quase em prantos sem motivos? suspirou parecendo confirmar a minha reza. – Qual é, , você não vai morrer! – sussurrei o abraçando e tentando conter meu choro preso na garganta.
- Eu não vou morrer, ! Já estou morto! Morto! MORTO! – Exasperou, começando a chorar novamente.
Levantei de onde estávamos sentados e o levei para a cama, deitando-o e indo buscar um copo de água com açúcar. Daquele jeito eu não ia conseguir mesmo fazer o que eu tinha planejado.
- Toma isso. – ordenei com o líquido transparente dentro do copo de vidro – Agora, me fale o que está te dando tanto medo. – acalmei a voz.
- ... – choramingou fungando e tentando respirar ao mesmo tempo – Eu... eu tenho que te contar um coisa... – continuou e se afastou alguns centímetros – Lembra da Becker?
Me afastei brutamente como se tivesse sido queimada e me questionei o que estávamos preste a conversar. não podia ter feito aquilo de novo. Não de novo. Não com ela. Aliás, com nenhuma outra. Ele... simplesmente não podia.
- , deixa eu explicar! – levantou da cama e tentou se aproximar, mas tudo que conseguiu foi um tapa estalado e quente no meio da cara – Não é isso que você está pensando! Deixa eu me explicar! – praticamente implorou tocando o lugar ardido do tapa.
- Então explique, . Ninguém está te impedindo. – segurei minha raiva e minha mão.
- Acho que sua mão está. – revirei os olhos com a fala dele e continuei parada esperando uma explicação – Eu...
- Você...?
- Eu fiquei sabendo que ela teve um acidente de carro e... morreu. – fungou e sentou na cama, exausto.
Não estava acreditando no que estava ouvindo. Sinceramente. Eu não queria ser antipática, mas a garota nunca acrescentara nada na minha vida e me machucou até o último fio de cabelo. Naquele momento eu não estava interessada se ela morreu ou não.
- E você está assim por causa disso? – sentei ao seu lado, tentando compreender o que se passava.
- Na verdade, não. – deitou sem olhar pra mim um segundo sequer – Eu... não sei por onde começar...
- Que tal do começo? – ri anasalado deitando ao seu lado, mas, assim que fiz isso, levantou e começou a andar pelo quarto – Qual é a sua, ? Por que está fazendo isso comigo?
- Isso o que? Eu não estou fazendo merda nenhuma com você! – perdeu a paciência e gritou.
- É, é isso mesmo que você só está fazendo ultimamente! Merda! – levantei, ficando meio tonta pela rapidez, mas logo me recuperei e voltei a falar – Você me ignorou a semana inteira! Inteira! Quando eu te ligo parece mais um monólogo do que uma ligação telefônica, mesmo. Seus amigos estão estranhos pra cacete e quando vem pra casa, tipo... hoje, depois de UMA SEMANA, você chega e já começa metendo a bomba pra cima de mim! Sendo que eu não fiz merda nenhuma. – terminei o meu discurso sujo sem fôlego e querendo me enfiar na privada. O que eu tinha na cabeça?
Ficamos em um silêncio constrangedor por alguns bons segundos. Estava na cara que ninguém queria discutir, não assim. Não naquela hora. Eu estava morrendo de saudades dele e tinha certeza que aquilo era recíproco, por que era tão difícil calarmos a boca e deixar o assunto Victória Becker pra depois? Eu queria o seu abraço, seu hálito de menta no meu pescoço, seu beijinhos provocativos, sua gargalhada.
levantou a cabeça e, lendo meus pensamentos, praticamente correu em minha direção. Olhei-o com lágrimas nos olhos e pequenas gotas já caindo em minha bochecha, ele com toda a certeza era o amor da minha vida. Não tinha mais dúvidas sobre aquilo. Fim.
Seus dedos encontraram minha nuca e, agarrando pequenos fios, me puxou para mais perto encostando nossos lábios furiosamente. Meus braços automaticamente foram ao seu pescoço e diminui a distância que havia entre nós, sentindo sua língua de encontro a minha e uma dança já conhecida começar e arrepios insistentes percorrerem meu corpo como se fosse a primeira vez que fazíamos aquilo. Suas mãos desceram até minha cintura e acariciaram minha barriga por baixo da blusa, me fazendo contrair o abdômen e dar risadinhas com a boca ainda colada na dele.
- Senti falta disso. – afirmei distanciando minimamente nossos rostos, sorrindo.
- Eu também. Você realmente não sabe o quanto. – abriu o meu sorriso e continuou a acariciar minha bochecha, limpando as pequenas gotas salgadas que escorriam involuntariamente.
- , eu queria te perguntar uma coisa. – tomei coragem e perguntei, mesmo olhando para baixo.
- O que foi, pequena? – levantou meu queixo e olhou-me nos olhos. Os seus tão profundo e quente que me via refletida, como um espelho. O mais bonito deles.
Sorri infantilmente e lhe roubei um selinho, o fazendo rir e se aproximar, mas logo me afastei e ri com vontade. pegou meus braços e se aproximou novamente, recebendo mais um selinho e eu fora do seu caminho. De novo.
- Você vai mesmo fazer isso comigo? – levantou as sobrancelhas com um sorriso de lado.
- Vou. Você merece esse sofrimento! – gargalhei e saí andando para fora do quarto. Olhei para trás, mas ele não me seguia. Seus olhos se abaixaram e entristeceram novamente, escorregando para o chão como se fosse o fim do mundo. Suspirei e voltei devagar para o quarto quente e perfumado, sentando ao seu lado e entrelaçando nossos dedos. Eu iria descobrir o que estava acontecendo de errado.
- Sabe, hoje lá no trabalho eu vi a foto de uma menininha ruiva linda de morrer! – tentei puxar algum assunto – Rafael me disse que ela era garota propaganda de uma loja infantil. Acredita? Tipo, ela vai ser realmente linda quando crescer.
Parece que meus argumentos não adiantaram para muita coisa, pois começou a chorar repentinamente e não conseguia parar. Seus olhos já inchados e vermelhos olharam pra mim e pareciam suplicar. Suplicar pelo que?
- . Eu... Eu não posso fazer isso com você! – engasgou – Eu fui tão estúpido! Patético! Eu não sei o que fazer!
- Ei! , se acalma! Vamos, me conte o que aconteceu... – limpei seu rosto carinhosamente e ajoelhei em sua frente.
- Victória morreu, ! E ela teve um filho! – começou, mas não entendi direito onde ele queria chegar. – Bom, ele está vivo pelo menos... – deu de ombros, mas não conseguiu disfarçar a agonia que sentia.
- É, eu soube. Coitado do filho dela... – tentei soar positiva para ele não começar a chorar mais – Mas, , quem se importa realmente? Ela ou o filho dela não é da nossa conta. Pode ter certeza que o pai da criança vai cuidar do bebê. Ele não seria tão imbecil de deixar ela com a assistência social.
- Eu sei que ele vai. É só que... eu estou com tanto medo, . – cobriu seu rosto vermelho com as mãos, deixando seu voz abafada e inaudível.
- Então, viu? Tudo estará bem e você não tem com o que se preocupar!
- Não. Nada disso. – levantou a cabeça lentamente e me olhou – Nada ficará bem. Nada!
- Ah, ! Cala a boca, você sabe que está exagerando! – revirei os olhos e soltei o que estava na minha cabeça sem querer. Assim que terminei de falar seus olhos me fulminaram e ele levantou brutamente, me fazendo cair de bunda no chão duro.
- Na verdade, , cala a boca você! Você não sabe do que você está falando! – explodiu sem motivos – Qual é o seu problema? Você se acha a pessoa mais importante na vida de todo mundo! E sabe qual é a verdade? Você.Não.É. – parou de gritar e sentou na rede. Arregalei os olhos com a acusação e não consegui acreditar no que estava acontecendo.
- Então o que, ? Vai decidir ficar com a guarda da criança? É isso que estava te atormentando a semana inteira? Você quer tanto a criança porque a vadia da Becker significou algo na relação de vocês? É isso? – levantei furiosa e descontrolada. Qual era a dele pra falar aquelas coisa pra mim?
- Ela não tem com quem ficar. No testamento da Victória tinha o meu nome. – suspirou.
- Você não pode estar falando sério. – andei de um lado pro outro querendo sair pela janela e me molhar com a chuva. Seria mil vezes melhor ficar doente do que estar ali – Você não pode estar falando sério. – repeti ainda não acreditando em suas palavras - Quer dizer que vai assumir a responsabilidade do bebê de uma vadia como ela? Você tem certeza disso? – perguntei trancando os dentes e não querendo ouvir a resposta.
- Vou. – respondeu firmemente – E espero que conte com a sua ajuda, porque, , eu não faria nada sem você. – levantou e se aproximou de mim. Não conseguia me mexer, meus pensamentos estavam a mil e nada parecia se encachar.
- Ah é? – disse sarcástica – Não pareceu há um minuto.
- Por que você não coopera, cacete? – soltou seus dedos do meu rosto como se tivesse sido queimado.
- COOPERAR? EU? VOCÊ TEM CERTEZA QUE EU É QUE TENHO QUE COOPERAR? Fala sério! Você vai ser um idiota se assumir esse erro que ela cometeu. Claro que homem nenhum vai querer assumir o filho dela! Sabe por quê? Pu.ta. Ninguém quer filho com uma puta! – gritei tendo certeza que a vizinhança inteira estava ouvindo a nossa conversa, mas não estava nem aí. – Por que você está fazendo isso comigo? POR QUÊ? – lágrimas saltavam dos meus olhos e tudo o que eu queria era que aquilo tudo fosse um pesadelo e quando eu acordasse o sol estaria no céu e me ligasse pra darmos uma volta.

(coloquem a música para tocar)

- PORQUE EU SOU O PAI DA CRIANÇA, PORRA!
O chão desmoronou depois daquelas oito palavras. Não podia ser verdade. Não podia. Minhas pernas enfraqueceram e tudo ficou borrado como se a neblina do lado de fora tivesse alcançado meu quarto e nos tirado da bolha em que vivíamos há muito tempo. Muito tempo sem perceber o que rolava a nossa volta e o que perdíamos ao decorrer dos anos.
O que aconteceu entre a gente?
Ri da ironia da situação. Justo no dia em que estava certa que pediria o homem da minha vida em casamento, descubro que ele tem uma filha, que não era minha, por sinal. Balançava a cabeça ainda descrente do que eu ouvira há poucos minutos, sem conseguir profanar algum som. Dois mudos num ambiente cheio de pensamentos explosivos.
Fechei os olhos por alguns instantes, tentando relembrar de como aquilo era possível, por que aquilo era possível. Um estalo me ocorreu e desconfiei que todos sabiam há séculos daquela novidade. Todos os meus amigos já estavam informados do acontecimento trágico ocorrido com . Ou comigo, porque, por mais que ele chorasse e se desculpasse, quem estava sendo vítima era eu. E somente eu.
Pai? ?
Meu coração apertou com aquele pensamento rápido e sentei arfando na cama, como se acordasse de um sonho inesperado e ridículo. Soluços vieram à tona e lágrimas saltaram de meus olhos rapidamente sem parar. Com as mãos trêmulas escondia o rosto entre meus dedos e tentava respirar em meio a austeridade que sentia por dentro. Senti um encosto do ombro e me afastei como se levasse choque. estava ao meu lado, em uma situação talvez um pouco pior, mas provavelmente não sentia o que eu sentia naquele momento. Dor. Agonia. Frustação. Raiva.
- ? – soluçou – , me desculpa. Me desculpa, por favor. Por favor, pequena. – pronunciou sofredor.
- Nunca mais use essa palavra para mim. – olhei-o ainda com olhos marejados – Não sou mais a sua pequena, . Não mais.
- , por favor. Você sabe que foi um erro, você sabe disso! – aproximou-se pegando meu rosto de surpresa, não me dando escapatória a não ser olhar em seus olhos e mergulhar na ternura do seu olhar.
- Você escolheu isso, , não eu. – suspirei e me soltei do seu quase abraço. Não iria me render a sua falação desnecessária. Aquilo era absurdo.
- ! Você sabe que não! – suplicou se afastando como se minha mão tivesse acertado seu rosto de novo – Você acha mesmo que eu teria tido um filho com a Becker? Por que eu quis?
- Ah! Então você foi estuprado e não me avisou?! – perguntei cínica arqueando as sobrancelhas.
- Sem brincadeira... – avisou sério – Você sabe muito bem o que aconteceu naquele dia...
- Você transou com a Becker, . Eu nunca vou esquecer daquilo. Nunca! – respirei de uma forma desregulada, começando a andar em círculos e sentido gotas salgadas chegarem a minha boca.
- , por favor...
- O CACETE, ! – explodi não aguentando a suas desculpas estúpidas – Você sabe muito bem o que fez naquele dia e mesmo assim continuou a sair com aquela vadia depois que eu descobri. COMO VOCÊ PÔDE?
- Desculpa. Eu... Não sei o que aconteceu naquela época. – sentando derrotado – Mas eu sei que a gente pode superar isso. Eu... sei. Melanie não vai atrapalhar em nada na nossa relação. Eu juro.
- O que? – arregalei os olhos, não acreditando no que estava ouvindo – Melanie?
- É o nome del...
- , ela já atrapalhou a nossa relação. Da pior maneira possível, acredite. – confirmava com a cabeça – E não tem essa que a gente vai superar isso. Nós não vamos mais nada. Não existe mais nós no meu vocabulário. – me amaldiçoava por cada palavra grossa que saia dos meus lábios vendo sua expressão acabada se transformar em total desespero.
Apertei os lábios uns contra as outros e fechei os olhos sentindo sua aproximação me aquecer e seu hálito doce e gostoso envolver meu ouvido e sussurrar palavras enquanto me pegava nos braços e me levava pra cama totalmente vencida.
Chorava desesperadamente, não refletindo sobre o que estava acontecendo. Ouvi uma canção sair de seus lábios, me ninando vagarosamente. Eu sabia que ele estava machucado e queria que eu esquecesse o que houve e no dia seguinte voltasse tudo ao normal e me caracterizasse como “Mãe”, mas mesmo sua cantiga não me livraria das controvérsias alheias e de como me sentia no momento: usada.
- Acho melhor você ir embora, . – virei meu rosto para o lado oposto ao seu, admirando a parede.
- Não. , não acabou entre a gente. – acariciou meus cabelos calmamente com expectativas que aquela minha manha acabasse logo. Ele estava errado.
- Não. Acabou entre a gente, . – modifiquei sua fala com um tom que ele entenderia que eu estava falando sério.
- . – senti uma lágrima caindo em meu ombro e me mexi incomodada. Não queria ver seus olhos e me arrepender.
- Vai embora, . – afastei-me mais, quase grudando a barriga na parede fria como a chuva, sentindo mais uma rodada de tristeza chegar ao meu estômago e aos meus olhos já ardidos das lágrimas anteriores.
Sem dizer uma única palavra, a cama desafundou e a porta bateu fraco, indicando que estava sozinha. Virei-me já com soluços descontrolados e olhei o mural de fotos, vazio. O qu...
Desabei no chão quando percebi que assim que saiu levou as fotos que tiramos na casa da colina com ele, deixando meu mural “Nosso Futuro” vazio.
Branco e estranhamente vazio. E por mais estranho que parecesse, não sentia meu coração bater em meu peito, meus movimentos me responderem e meus olhos tirarem o foco da tela de metal branca e... vazia.
Olhei o teto e algumas estrelas penduradas não pareciam mais tão brilhantes como no dia anterior e pensava se o nosso futuro realmente seria vazio.
Fechei os olhos relutante e uma imagem feliz e encantadora apareceu em minha mente, mas não desfaria o que nós dois cometemos naquela tarde. Suspirei e encostei a cabeça no criado-mudo, relaxando e tentando prever os próximos meses sem ele.
Os próximos meses sem ao meu lado.

Continua...

N/A:
Oi, gente! Como vocês estão? Vou confessar, esse capítulo me deu uma dor no coração que vocês não conseguem imaginar. Sério. Cada fala, cada lágrima imaginada. Mas era necessário, eu sei que vocês vão entender *momento trágico*. O que acharam desse capítulo? O que acham que vai acontecer entre eles? Sugestões aceitas! Comentem, comentem e comentem!
Beijinhos xX
Mari

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Nota da Beta: Hey, pessoa! Só pra avisar que se você encontrar qualquer erro na fic pode entrar em contato comigo por e-mail. E não custa nada deixar um comentário pra fazer uma autora feliz, porque ela merece.
Letii