Numa cidade britânica, longe da cidade caótica, vivia uma jovem solteira, de cabelos lisos, com alguns cachos naturais nas pontas. Ela era espontânea, cheia de energia. Vivia para o trabalho. Apesar de ser uma Designer de Interiores, seu apartamento era simples, com paredes brancas e objetos coloridos. Os tecidos davam vida ao lugar arrumado perfeitamente. O único cômodo da casa que não era um exemplo de organização era seu home office. Era um pouco bagunçado, mas ela se entendia lá dentro, por isso, quase não deixava ninguém entrar ali. Tinha medo de se perder, e arrumar aquela papelada seria terrível.
Em relação ao coração, ela conseguia viver muito bem sem ter um homem. Aliás, ela tinha um homem em sua vida, e se chamava , mas ele era apenas amigo de longa data. Eram crianças ainda quando se conheceram, mas com o passar do tempo, cada um tomou um rumo e nos dias atuais, eles se falam, saem, se divertem, mas ainda existe uma distância entre os dois. Bom, pode ser porque ele é mulherengo, fuma, gosta de beber 'para esquecer'... Mas é gente boa.
A personalidade dele, ela só lembra de quando este era criança, quando brincavam nos parques que haviam nas redondezas de casa. Personalidade de hoje, é completamente desconhecida por ela, já que foram poucas as vezes em que sairam e ele estava completamente sóbrio. Pode-se dizer que são amigos distantes. Amigos para diversão, e não para contar um com o outro quando realmente precisam.
O cansaço tomava conta de seu corpo agora. Sua coluna doía muito, por ficar tempo demais em pé desenhando numa mesa grande e quadrada. Dentre folhas pequenas, folhas grandes, réguas de vários tamanhos, lápis de cor e canetas, seu celular tocou. Demorou para achar, já que sua mesa estava uma bagunça. Quando achou, fitou bem o visor e entortou os lábios em dúvida: atendia ou não?
Decidiu atender:
- Oi, Grace. - disse, fitando um ponto qualquer de seu escritório, colocando as mãos na cintura. Grace sabia que não gostava quando ela ligava em seu horário de trabalho. Tirava completamente sua atenção.
- Oi, amiga! Como estão as coisas por aí? - perguntou ela, com a voz animada.
- Tudo normal e aí? - retribuiu a gentileza, mas com indiferença na voz. Agora fitava seu trabalho sobre a mesa, analisando o que ela tinha acabado de fazer.
- Bem... Só tenho uma notícia para te dar. E não é muito boa - imediatamente, ficou em alerta.
- O que houve? - quis saber, suspendendo a sobrancelha.
- Bom... Eu conversei com meu advogado agora, para saber mais sobre a papelada que precisamos ter para que possamos adotar uma criança e tudo mais. Poxa, estamos há um ano e meio esperando. Ele disse que falta pouco para ficar tudo certo, e que só tá faltando a gente apresentar um documento, provando que somos casadas. Já falei com meu marido, e ele vai ver isso para mim. Só falta você decidir o que vai fazer.
Capítulo 1 - Os sonhos estão ali, esperando que você tome a atitude de realizá-los.
O som alto parecia que a ensurdecia. Naquele dia, ela não estava com mínima vontade de estar ali, sentada sobre uma banqueta do balcão de um pub. Seus pensamentos estavam longe, seu semblante numa mistura de tristeza e preocupação. Olhou para trás devagar e ainda dançava com uma mulher na pista de dança. De longe, pareciam um só, de tão grudados que eles estavam. Embalançou a cabeça negativamente, voltando seu olhar ao balcão. Levantou a cabeça e pediu mais um drink ao garçom, ao notar que o seu havia acabado. Não era muito de beber, mas nesse dia preferiu parecer um pouco com : bebeu para esquecer.
Seus pensamentos ainda rondavam sua cabeça, até que ouviu uma voz praticamente gritar:
- Hey, não vem dançar hoje, não?! - ela virou a cabeça para onde vinha a voz e avistou , com o rosto marcado de batom, os cabelos mais arrepiados que o normal. Ele sorria, mas ela sabia que ele já não estava tão 'na real' assim.
- Hoje, não... To a fim de ficar sentada e beber um pouco. - deu um sorriso de lado, pedindo em pensamentos para ser compreendida.
- Você não é de beber... - estranhou, franzindo o cenho. Ele sentou na banqueta ao seu lado, ainda se virado para ela. - Sei que não somos tão íntimos assim hoje em dia, - soluçou, devido à bebida - mas aconteceu alguma coisa grave? - perguntou, arrastando o copo de para ele e tomando um gole em seguida. Ela rolou os olhos.
- Não aconteceu nada demais, . Relaxa, só é o estresse do trabalho - e sorriu, tentanto ser convincente.
- Bom, você quem sabe. - sorriu após beber quase todo o drink. - Para relaxar mais ainda, vamos dançar, vai... - fez cara de cão sem dono, e ela riu fraco.
- Tudo bem... - concordou. Quem sabe, ela não relaxava realmente.
fazia umas danças esquisitas, ele realmente não estava muito sóbrio. apenas ria, dançando também. Mas ao mesmo tempo em que dançavam, ela reparou que uma loira tentava se aproximar com discrição. Ele dançava tão animadamente que não percebeu quando deu lugar à loira. Disfarçadamente, ainda dançando, ela foi saindo da pista de dança. Deu um suspiro e foi em direção à saída, pegando seu celular na bolsa preta de mão. Futucou e mandou mensagem para , saindo do pub:
'Curta a loira. To indo embora, acho que por hoje já deu...' E foi embora, cruzando os braços e tentando se esquentar. Sua cabeça estava dando voltas ainda, pensando no seu maior sonho ter sido jogado por água abaixo. Ela não era casada, nunca pensou nessa possibilidade, mas seu maior sonho era adotar uma criança. Agora estava perdida, sem ter o que fazer. E, novamente, sua amiga Grace seria aquela que 'roubaria seus sonhos'.
Flashback - Pov's .
1990. 5 anos.
- Pai, vamos naquela loja legal que tem perto da nossa casa? - perguntei, interrompendo minha 'tia-avó' que conversava com ele. Meus olhos estavam radiantes só de pensar na tal loja.
- Vamos. Mas vou logo avisando que não comprarei nada, porque papai está sem dinheiro. - ele avisou, mudando nosso rumo, já que íamos para casa após sair do club. Tanto este quanto a loja eram próximas de casa, mas em ruas diferentes. Íamos à pé, todos os domingos, para relaxar enquanto mamãe preferia relaxar em casa, já que ela trabalha a semana inteira no caos da cidade.
Chegamos à loja e papai parou em frente a ela, segurando minha mão. Olhei para a vitrine e meu sorriso aumentava ao fitar cada detalhe de um urso de pelúcia. Ele era grande e marrom e era capaz de eu não conseguir segurá-lo direito, pois o bicho era maior que eu!
- Vó Sophie, - não tirei meus olhos da vitrine - meu pai tá me olhando? - eu só ouvi umas risadas, as quais eu não entendi o motivo.
- É, Grace! Você precisava ver, ele era lindo! - falei com gestos exagerados e animada, na hora do recreio do colégio. - Mas meu pai disse que não vai poder comprar pra mim agora, porque ele tá sem dinheiro. - e murchei, pensando na possibilidade de nunca ter aquele ursinho lindo. Ela me olhou, entortou os lábios, mas não disse nada. Aliás, nem deu tempo, já que o sinal que avisava o início das próximas aulas, acabou de tocar.
No dia seguinte fui à escola, passando de carro em frente à loja, e o ursinho não estava lá. Fiquei triste, pois, na minha cabeça, já não o venderiam mais.
Quando cheguei ao colégio, Grace estava sentada na mesma carteira de sempre e sentei ao seu lado, como de costume. Ela sorriu e me deu um beijo na bochecha.
- Vamos lá pra casa hoje? - ela ainda sorria, virando-se para mim para saber a resposta.
- Tá bom! - sorri de volta.
Liguei para meu pai no recreio para avisar que iria para casa de Grace no final das aulas e tanto ele quanto minha mãe concordaram.
- Tenho uma coisa pra te mostrar! - ela dizia enquanto andávamos pelo corredor de sua casa, puxando nossa mochila de carrinho. Eu sorri e ela abriu a porta de seu quarto. - Eu comprei um ursinho para mim! - e lá estava o ursinho que eu queria, fazendo eu murchar meu sorriso. Eu via que o que eu mais queria, agora era da minha amiga.
Fim do Flashback - Pov's off.
Acordou um pouco tonta, devia ser a bebida que não estava acostumada a ingerir. Olhou o relógio na parede de ser quarto branco e aconchegante: 10h.
Levantou com preguiça e decidiu que não tomaria café, já que estava quase na hora do almoço; e então ouviu seu telefone apitar (ele soava toda vez em que tinha uma mensagem não lida ou uma chamada não atendida). Resmungou e foi andando devagar, coçando os olhos, em direção à sala, procurando seu aparelho. Estava sobre o sofá, próximo da bolsa em que usou na noite anterior, e viu que era uma chamada de . Entortou os lábios e decidiu retornar. Chamou várias vezes, até que ele atendeu:
- Oi... - atendeu arrastando a voz. Não devia nem ter visto quem era.
- Que voz é essa? - perguntou, rindo um pouco, já sabendo a resposta:
- Ãw,- gemeu - ressaca. Maldita ressaca! - soltou uma risada, indo em direção à cozinha americana. - , me liga daqui a uns dois minutos. O outro telefone tá tocando e eu estou sem crédito. - ele soltou uma risada, enquanto ela abria a geladeira e sorria fraco, concordando. Ele desligou e ela ficou alguns segundos fitando o interior da geladeira, escolhendo o que fazer. Batendo uma preguiça, decidiu que não faria nada: almoçaria fora.
Foi dar uma geral em seu escritório e lembrou que deveria retornar a ligação de . Pegou seu celular novamente. Ligou, mas não foi ele quem atendeu:
- Oi... Quem está falando? - ela perguntou, simpática, mas estranhando a voz.
- Oi, é Cheryl - ela disse, sua voz mostrando um pouco de desespero.
- Aconteceu alguma coisa? Cadê o ? - perguntou, sentando em sua cadeira confortável do home office.
- Você é amiga dele? Pelo amor de Deus, venha para cá porque eu to sem saber o que fazer, ele está muito nervoso! - o semblante de ia mudando aos poucos, ficando confusa e sem entender nada. Ela chegou a olhar o visor do celular, verificando se discou certo.
- Calma. - disse, tentando acalmar a garota do outro lado. - Primeiro me fala quem é você e o que aconteceu.
- Certo - suspirou. - Eu sou uma garota que ele conheceu ontem, e eu... Bom, eu dormi aqui. Agora o recebeu uma ligação de alguém, e depois que desligou, ele não para de chorar. Eu estou ficando desesperada! Tudo bem. - ainda estava confusa, apesar de achar a garota do outro lado da linha um pouco tapada. - Fala pra ele não sair enquanto eu não chegar, ok?
- Certo. - desligaram.
Estava nervosa, mesmo sem saber o que tinha acontecido. Tinha seu problema para se preocupar e agora, mais um.
Chegou ao apartamento de e se identificou na portaria, subindo pelas escadas mesmo: ele morava no segundo andar. Tocou a campainha e não demorou muito para que uma loira abrisse a porta. A mesma loira que ela havia dado espaço para dançar com . sorriu de lado, a menina usava um vestido curtíssimo.
- Er, cadê ele? - perguntou entrando, um pouco tímida, não sabia o porquê.
- Foi tomar um banho, está um pouco mais calmo agora. Ele ligou para os amigos, daqui a pouco estão chegando. - dizia com pressa, andando rápido em direção ao sofá - Não se importa se eu for embora? Eu acho que não tem nada a ver eu aqui e... - pegou sua bolsa no sofá e olhou para . - Bom, até mais - foi em direção da porta, após ter acenado. A loira saiu e continuou sentada no sofá, esperando que saísse do banho.
Ela olhou em volta e o apartamento era uma bagunça! Não, ela nunca havia entrado em seu apartamento.
Seu celular vibrou na bolsa. Era uma mensagem de Grace:
', o nosso advogado precisa dos papéis para sexta feira que vem. E agora?!' Ao ler, sentiu um frio na barriga. Não teve tempo nem de pensar no que fazer. Apenas pensou em desistir do seu maior sonho, apesar de não ser uma pessoa que desiste assim, tão fácil. Mas não havia nada que ela pudesse fazer. A voz de a tirou do transe:
- ... - ele chamou, a voz fraca e os olhos vermelhos e inchados. Ela nunca o tinha visto assim. Ela levantou e foi em direção a ele, o rosto contorcido em confusão.
- O que houve? Você estava tão bem! - disse, aproximando-se, ficando de frente a ele. Tentou olhar em seus olhos, apesar de ele ser bem alto.
- Cadê a Cheryl? - perguntou, olhando em volta.
- Bom, ela foi embora. Disse que não queria ficar - ela apenas o encarava.
Ele abaixou a cabeça e foi em direção ao sofá, sentando-se e colocando a cabeça entre as mãos. Ele começou a chorar baixinho. entortou os lábios, e, sem saber o que fazer, sentou ao lado dele e fez um carinho em sua nuca, esperando a hora que ele quissesse dizer o que estava acontecendo.
Ele a abraçou e ficaram naquele abraço uns 3 minutos. Até que ele a soltou e a olhou, ainda com os olhos inchados e vermelhos.
- Minha mãe faleceu, . - ele sussurrou. Ela ficou assustada, até piscou os olhos para a ficha cair. Nunca a conheceu, mas sabia que era bastante grudada com ela. Sobre o pai, ele nunca comentou.
- Eu... - estava sem ter o que dizer - Eu sinto muito, - ela disse, ainda desconcertada, enquanto ele se virava para frente e encarava os dedos.
- E agora, o que eu faço? - ele questionou mais a si mesmo do que para ela. - Para onde eu vou?! Eu... Eu a amava demais, . - disse triste, ainda fitando seus dedos.
- , eu... Eu não sei o que te dizer. Eu...
- Tudo bem, eu não quero ouvir nada agora. Eu só quero pensar. E começar a me preocupar sobre o que farei da minha vida agora. - ela o abraçou mais uma vez. Estava sentida por ele. não trabalhava, quem pagava suas contas era a mãe dele.
A campainha tocou, fazendo com que ela o soltasse.
- Posso atender? - perguntou baixinho.
- Pode. O porteiro não avisou, devem ser os caras. - comentou, levantando-se e indo à cozinha beber uma água.
Ela foi em direção da porta e a abriu, sorrindo de leve para os três caras que a encararam de sobracelha suspensa.
- Podem entrar. O está na cozinha... - disse, dando-lhes passagem.
Eles foram em direção ao amigo e ela fechou a porta, indo para o sofá e pegando sua bolsa. Foi para a cozinha, dizendo da porta:
- Hey... - chamou a atenção de todos - Eu estou indo, er... , se precisar, pode me ligar. À cobrar, eu atendo. - sorriu de lado, enquanto este vinha em direção a ela.
- Obrigado mesmo, ... - ele sorriu fraco.
- Imagina. - sorriu também. - Fica bem, e me dê notícias. - sorriu mais uma vez, acenou para os meninos e deu as costas, indo em direção à porta.
Saiu nas ruas frias ainda chocada. Só que ela não poderia fazer nada por ele.
Pensou e pensou, agora no seu problema, e teve uma ideia. Deu meia volta e voltou ao apartamento do amigo. Era muito impulsiva, nem pensou na hipótese de dar errado. Só tinha uma coisa na cabeça: ajudaria a ela, e a ele.
O porteiro a deixou subir, e foi correndo em direção ao apartamento novamente. Tocou a campanhia, ansiosa e esperançosa. A porta se abriu com um confuso, com um copo d'água na mão. O que ela estava fazendo ali novamente?
- Tenho uma proposta pra você. - disse, sorrindo. A cara confusa dele foi reforçada. Ela o puxou pelo braço para fora do apartamento e o pediu para encostar a porta.
- E então... - incentivou, bebendo um gole da água.
- Assim, por acaso... Você quer casar comigo? - ele cuspiu toda a água em cima dela.
Capítulo 2 - Não prometa quando você estiver feliz, não responda quando você estiver com raiva e não decida quando você estiver triste.
Alguns meses depois.
- , essa é a miléssima vez que vou te dizer isso: NÃO MOLHE O CHÃO DO BANHEIRO. Tá legal? - ela saia apressada com seu roupão, indo em direção ao seu lado do armário enquanto ele calçava seus sapatos.
Ela havia conseguido um cargo de mensageiro para ele na empresa onde ela trabalhava, mas ele precisava ser pontual e seu horário era flexível, como o de . Eles precisaram fazer uma reforma no apartamento, já que havia apenas dois quartos. O quarto com suíte, que era o de antes, continuou sendo somente dela até conseguirem adotar a criança. O que era o home office, passou a ser o quarto de . Com a chegada de mais um, precisou dormir na sala por uns tempos, mas depois deu um jeito: vendeu a cama grande e comprou duas de solteiro. Uma em cada lado do quarto. poderia dormir no outro quarto, com o bebê, ou até melhor: ficaria com o outro quarto, enquanto a criança dormia com ela. Mas ele se recusava a dormir num quarto azul bebê com decoração infantil. Ela não se importou, afinal, ela sempre foi compreensiva e não se estressava à toa.
- Desculpa de novo... - ele disse, automaticamente. Dizia isso toda vez que ela reclamava do banheiro molhado. Praticamente todas as manhãs.
- Tudo bem... Vai tomar café? - perguntou, escolhendo sua roupa no armário.
- Não dá tempo - ele estava apressado, pegando suas coisas e enfiando tudo de qualquer maneira na mochila.
- Qualquer dia você vai precisar comprar outra mochila... - comentou, já sabendo perfeitamente o que o amigo fazia. Ela jogou uma camisa de banda na cama e uma saia jeans.
- Até lá, essa aqui aguenta - ele soltou uma risada baixa, colocando a mochila nas costas. - To indo - foi até e a deu um beijo na testa.
- Beijos, bom trabalho - disse após receber o beijo, voltando sua atenção às roupas. Precisava ser rápida. Daqui a pouco Bernardo acordava com fome.
Vestiu-se e foi preparar seu café. Apesar de não ter parido um filho, ela estava de licença maternidade. Conseguiu com seu chefe.
Ela lia seu jornal tranquilamente sobre a bancada da cozinha americana, enquanto a TV estava num volume baixo, num canal de clipes.
Flashback
Eram 14h50 quando deixou a cliente no shopping, já que a deu uma carona e deixou o carro por lá mesmo, indo à pé à Starbucks. Abriu a grande porta e logo avistou , sentado no canto, fitando a rua. Nem tinha visto que ela havia chegado, já que estava de costas para ela.
Ela pôs a mão em suas costas e o deu um beijo na testa quando ele se virou para olhá-la. Deu a volta e sentou-se de frente para ele.
- E aí, como foi? - ele puxou assunto, sem ter o que dizer.
- Tranquilo. Apesar de ter cliente mulher é péssimo, já que elas querem tudo de uma vez e acha que temos todo tempo do mundo para mudar tudo de um dia para o outro - gesticulava, arrancando risos fracos de . - Não vai almoçar?
- Não, não. Comi no Subway, eu to legal - sorriu de lado.
- Então, - ela suspirou e fitou a mesa. Era agora - eu sei que somos amigos, mas, como você sabe, nossa amizade é um pouco distante, e penso até que eu não tenha tanta intimidade para te pedir isso. Mas não vejo outra saída, e esse é meu maior sonho! - ela atropelava as palavras, gesticulando muito. Respirou fundo. - Eu queria que você se cassasse comigo, só no papel, porque eu gostaria de adotar uma criança, e... O advogado da minha amiga disse que só falta apresentar os papéis do casório. Nossa, meu mundo caiu quando ela disse isso. Eu estou há quase dois anos esperando e eu não queria desistir disso agora... - mordeu o lábio, esperando uma reação do cara à sua frente. Mas os pensamentos dele estavam enrolados, quase um quebra-cabeça.
- , calma - a vez dele respirar fundo. - Então você não me ama, você quer casar por causa de um sonho, é isso? - ele só queria entender.
- Exato - confirmou.
- Desculpa perguntar, mas como eu seria ajudado nisso? - suspendeu a sobrancelha.
- Bom, eu vou te convidar a morar lá em casa. Eu sei que seus amigos moram com os pais ainda, e que sua mãe pagava suas contas. Posso te arrumar um emprego temporário lá na empresa e você mora lá até você organizar sua vida - ela sorriu de lado, ainda com uma esperança. Ele ficou pensativo, fazendo com que ela desanimasse aos poucos.
- , isso não é arriscado? - perguntou após alguns minutos - Sei lá, você já está acostumada a morar sozinha e tudo mais...
- , adotar uma crian...
- Em relação a casar, tá tudo bem pra mim, contanto que eu não precise ter obrigações de marido. Você sabe como eu sou - deu uma risada baixa, fazendo-a rir também.
- Não, . É só casar e pronto. Eu só preciso mostrar que sou casada, nada mais.
- Certo - sorriu confiante. - Agora, morar na sua casa, eu já acho abuso... - coçou a nuca.
- Eu estou te convidando, . É como forma de agradecer - ela torcia para que ele aceitasse. Não consegueria continuar, sabendo que ele a ajudou a realizar um sonho, mas que o deixou desamparado.
E, novamente, ele ficou pensativo.
- Por favor, aceita... - ela sussurrou.
- Tudo bem, eu aceito - ele sorriu, sentindo uma alegria enorme por dentro por saber que não ficaria abandonado. - Mas nem pense que você fará tudo sozinha. Eu vou te ajudar com tudo o que você precisar e com a criança também - ele sorriu de felicidade, mas por dentro ainda incerto se aquilo daria certo.
Fim do Flashback
Estava sentada no sofá, pensativa. No dia seguinte ela teria uma palestra importante para ir pela manhã. Levantou-se e foi até o criado mudo de , pegando seus horários: no dia seguinte ele não trabalharia pela manhã, só depois das duas da tarde. Sorriu aliviada e pediria a ele para ficar com Bernardo, já que ele tinha apenas 8 meses. Em falar nele, ouviu a porta da sala bater e foi correndo em direção a sala. a olhou com cara de poucos amigos:
- Mochila arrebentou - e jogou esta no sofá, entortando os lábios em tédio. soltou uma risada.
- Eu avisei! - ela ainda ria, indo em direção a mochila e vendo o estrago. - Amanhã eu compro outra, é seu dia de folga, né?! - largou a mochila pra lá e jogou-se no outro sofá. Olhou-o com cara de criança pidona, enquanto ele pegava água na geladeira.
- É... por quê? O que você está aprontando? - ele conhecia aquele sorriso.
- Fica com o Ben pra mim? Vou precisar ir à uma palestra, mas eu juro que não demoro! - piscou os olhos repetidas vezes. Ele bebeu sua água tranquilamente, enquanto desviava seu olhar para televisão.
- Uau, que gostosa! - comentou alto demais, fechando a garrafa d'água.
- ! - repreendeu-o, sentando no sofá e fazendo um bico.
- Não faça esse bico, sabe que sou insensível. Tá fazendo à toa... - disse, indo em direção ao seu quarto com ela atrás.
- Ah, ! O que te custa, vai... - implorava. Sentou na cama e o assistia escolher sua roupa na gaveta.
- Ai, tá bom, tá bom! Só porque é pra você... Mas... - ele se virou - Eu não sei cuidar de criança, - contorceu o semblante, realmente confuso e preocupado.
- Eu te ensino! - falou animada, dando um ataque foquinha enquanto ele revirava os olhos e ia em direção à suíte. - E NÃO DEIXA O BANHEIRO MOLHADO, ENTENDEU?
Ele não respondeu. Apenas fechou a porta na cara dela, fazendo-a rir baixo; esperava essa reação.
Levantou correndo quando ouviu o choro de Bernardo, indo em direção ao quarto, dizendo coisas que só mãe consegue dizer.
- Acordou, meu amor? - ela fazia caretas idiotas para o filho, pegando-o no colo. - Cadê o bebê mais lindo de mamãe?! - é claro que ela não dizia nessa clareza toda. Quem tem irmão pequeno, sabe exatamente como sua mãe fala com ele.
Ela o colocou no chão forrado de vinil e brincou com os brinquedos que estavam ali por perto, por um tempo. Depois o colocou no berço novamente, voltando a fazer caretas e falar coisas sem noção, como se o bebê fosse entender.
- Bem que meus amigos disseram que uma mulher quando vira mãe, vira palhaça também - ouviu a voz de e não pôde deixar de rir baixo, virando-se e jogando nele um lenço que estava pendurado no berço. Ele se encolheu, mas continuou apoiado no batente da porta, com os braços cruzados.
- Idiota - ela ainda ria fraco, voltando seu olhar para o berço novamente e voltando a brincar com Bernardo.
- O que tem para jantar? - quis saber, virando-se após analisar e sorrir com isso.
- Pode voltando aqui! - ela se virou para ele, puxando-o pela camisa. - Antes de comer, - ela o virou para si - vou te ensinar a dar banho no bebê - e sorriu, radiante com a ideia.
- Se você continuar assim, você vai afogar meu filho - disse, de braço cruzados, vendo , sem jeito algum, segurar Bernardo pela barriga, deixado o bebê escorregar na banheira.
- É assim, oh... - e o tirou dali, ensinando-o a segurar a criança. Ele apenas observava com os braços cruzados, morrendo de fome.
- Já entendi... - resmungou. - Agora, eu posso ir?
- Claro que nã... - ia dizendo alto, olhando-o nos olhos, mas desistiu. - Tudo bem, vai. Isso não é obrigação sua, mesmo - disse, cabisbaixa, voltando a dar banho em Bernardo. E foi. Estava realmente com fome.
Ela terminou de dar banho em Bernardo, com milhões de pensamentos rondando sua mente. Após trocar o bebê, levou-o para o quarto e, após dar de mamar, colocou-o para dormir. Quando ele adormeceu, ela saiu devagar e passou pela sala, vendo sentado no sofá, comendo tranquilamente enquanto assistia a um filme qualquer.
Pensou, pensou, pensou. Não deixaria seu filho com , ainda não se sentia segura para isso. Para quem ela poderia ligar? Todos trabalhavam de manhã. Mas tentaria ligar para mesmo assim.
- Alô, ? - sentou-se na cama, fitando um ponto qualquer do quarto.
- Oi, amiga! Quanto tempo... Como está meu futuro afilhado lindo? - perguntou manhosa, fazendo a mãe sorrir.
- Ele está bem... É sobre ele mesmo que eu gostaria de falar - mordeu o lábio.
- O que houve? - sua voz agora demonstrava preocupação.
- Ah, eu queria saber se você poderia ficar com ele amanhã, pela manhã... Tem uma palestra para eu assistir, e não posso deixá-lo sozinho, mas também não posso levá-lo. Essa palestra é importante para mim, é sobre o meio ambiente e... - ela foi interrompida.
- Hey, - chamou, recebendo atenção - pode desmarcar com sua amiga. Eu fico com o Bernardo - ele deu um sorriso fraco, dando as costas e voltando para sala em seguida.
- , depois eu te ligo - e desligou, jogando o telefone na cama e seguindo . - Você não precisa ficar com ele se não quiser - dizia, parando próximo ao sofá onde ele sentara. - Eu só pedi porque vi que amanhã é sua folga, então achei que não fosse se importar...
- Ok. Mas eu fico com ele, tá legal? - disse, sem olhá-la. Seus olhos estavam mais preocupados com a TV.
- Tudo bem, então - disse, um pouco incerta, indo jantar em seguida.
POV's ON
Olhando assim, eu não sei o que se passa na cabeça de um cara para sentir tanto calor ao ver a bunda de uma mulher na TV. Eu queria nascer homem, só para saber qual a sensação. Eu estava ali, deitada no sofá ao lado do dele, enquanto este não piscava nem desgrudava os olhos da TV. Estava sentindo em enjoo só de olhar aquelas mulheres de biquini bem cavadão, mas como eu não me interessava por outro canal naquele momento, deixei-o se divertir olhando. Estava sem sono algum, mas precisava dormir, já que no dia seguinte eu teria que acordar cedo.
O celular de tocou em cima da bancada da cozinha americana, mas ele nem se deu ao trabalho de levantar, simplesmente disse:
- Pega ali, por favor - ele nem me olhou!
Resmungando, eu levantei, mas só porque eu não tinha nada mais interessante para fazer. No visor estava escrito 'Danny', então joguei o telefone no sofá onde ele estava, ouvindo-o resmungar qualquer coisa e fui em direção ao meu quarto. Eu já tinha levantado mesmo, não ousaria a voltar a ver aquela coisa na TV.
Peguei meu notebook no armário, fui para a varanda e sentei na cadeira de ferro. Eu não ligava em ficar ali só porque estava de camisola. Era um lugar fresquinho, era isso que importava. Deixei a babá eletrônica em cima da mesa e liguei meu notebook, cruzando minhas pernas e sentindo um ventinho gostoso bater em meu rosto. Pelo canto do olho, vi que foi para o banheiro; bom, eu poderia ir para sala agora, mas ali estava muito bom.
Passaram uns 30 minutos e eu estava tão ligada nos sites de moda abertos que eu não percebi o cheiro de perfume que chegava à varanda. Só me toquei quando ouvi a voz de :
- , - olhei-o, suspendendo a sobrancelha por vê-lo de camiseta, calça jeans e cabelos arrepiados. Ele ignorou minha provável cara de confusa - vou ao pub com os caras... Mas daqui a pouco eu estou de volta - e sorriu, colocando um pé na varanda e dando-me um beijo na testa. Eu apenas concordei.
- Mas não esque... - ia dizendo, mas ele me interrompeu.
- Já sei, já sei... - disse alto e sem olhar para trás, indo em direção a saída. Dei de ombros e voltei minha atenção às sandálias lindas na tela do computador.
1h30. Apesar de ele dizer que 'daqui a pouco' estaria de volta, eu sabia que ele chegaria lá pelas 3, 4 horas. Ele sempre chegava esse horário. Preparei minha cama - só desforrei a dele - e fui dormir, deixando a babá eletrônica sobre o criado-mudo.
Acordei com o sol iluminando meu quarto. Olhei meu celular que estava ao lado do travesseiro: 7h. Hora de levantar. Enquanto eu me espreguiçava e levantava, fui enumerando, em mente, o que eu tinha que fazer: preparar o café, dar de mamar ao Bernardo, deixar o almoço pronto, tomar ban... Ué, cadê o ?! A cama estava do mesmo estado em que eu havia deixado. Fui até a sala, de repente ele dormiu por lá. Mas nada... Decidi adiantar o que eu tinha para fazer. Provavelmente ele dormiu na casa dos amigos.
Olhei o relógio e já eram 9h. Pensei em ligar para ele, porque, além de já estar preocupada, eu já estava atrasada - tinha que estar no centro às 10h. Bernardo já estava alimentado, já tinha feito o almoço e tomado café, estava de banho tomado, só faltava calçar os sapatos porque eu sempre deixo por último. Até que a porta batendo chamou minha atenção, e sim, era ele.
- Hey, - ele disse com uma dificuldade absurda. Seus olhos estavam vermelhos, seus cabelos bagunçados (bagunçados, não arrepiados), ele não conseguia trancar a porta da sala. Fui até ele.
- Chegou tarde hoj... - ia dizendo, mas... que cheiro! - Puts! Que horror! - eu abanava o ar, ele fedia a cerveja e cigarro juntos.
- Que foi, gatinha? - ele me olhou, os olhos estavam quase se fechando. Arranquei a chave da mão dele e o dei um leve empurrão para trancar a porta, mas foi o suficiente para ele esbarrar na pia e derrubar copos de plásticos e talheres. - Ops! - soltou, se abaixando para pegar o que tinha derrubado. Respirei fundo. Não acredito que ele chegou bêbado. Estava ficando, aos poucos, fula da vida.
- Deixa que eu pego, , vai tomar um banho, vai - falei, meio sem paciência, mas me agachando para catar tudo.
- N-não, deixa que eu pego - ele insistia, e aquele cheiro estava me enojando.
- Sai, ... - eu aumentei um pouquinho o tom de voz, mas foi por impulso.
- Tsc, tá bom - resmungou, se levantando e - tentando - caminhar até o quarto, mas, acredite, ele bateu de cara na parede. - PUTA QU... - já ia gritando.
- Ei! - repreendi. Ele continuou dizendo alguns palavrões, mas baixo, enquanto eu o observava passar a mão no rosto. Voltei minha atenção ao que estava fazendo.
- ... - chamou baixinho, ainda com dificuldade em falar. Soltei um 'que é?', lavando o que tinha caído. - Me leva no banheiro ai... - bufei e lavei as mãos, indo em direção a ele após secá-las. Ele ainda esfregava a testa.
- Eu não acredito que você chegou nesse estado, ! - eu o puxava pelo braço, arrastando-o para o banheiro.
- Ei, não fala assim comigo! Você não é minha mãe! - disse, na defensiva, soluçando de vez em quando.
Ignorei o que ele disse e o sentei no vaso. Eu não sabia como agir com um bêbado. Para não perder tempo, fui ao registro e liguei o chuveiro, levantando-o pelo braço em seguida e o empurrando de roupa e tudo para dentro do box. Ele reclamou, claro, mas eu estava sem tempo. Estava atrasada e... Perai! Eu não deixaria meu filho com um semi-bêbado!
- Não acredito! - falei por impulso, dando um soco na parede, senti o olhar de em mim. - Caramba, essa palestra era importante pra mim! - comentei mais para eu mesma, não me interessava se ele me ouvia ou não. Bati com a cabeça na parede de raiva. Antes tivesse falado com .
- Mas, , eu posso cuidar dele... - ele disse me fazendo olhá-lo de rabo de olho. Ele engolia água que caia da sua cabeça.
- Fala sério, olha seu estado! Não vou te deixar com meu filho! - fui aumentando o tom de voz aos poucos. Eu, realmente, estava com raiva. Poxa, ele tinha prometido. - Quem mais precisa de cuidados especiais hoje é você, e não ele! - seu rosto foi ficando vermelho. Ele desligou o registro do chuveiro.
- Eu já disse que estou bem, e que posso ficar com ele...! - ele também aumentou o tom de voz, mas ainda arrastava as palavras.
- E eu já disse que não! E é não! Você bateu com a cabeça na parede, , porque não tá conseguindo andar direito e você ainda quer que eu deixe meu filho com você?! Nunca! Se eu soubesse, teria te ignorado ontem e veria se a poderia ficar com ele pra mim - à essa altura eu não sabia nem que timbre tinha minha voz.
- Quer saber? - seu rosto estava coberto por ira. - Foi ótimo! Eu não tenho obrigação nenhuma com essa criança e, aliás, por que diabos você não se casou e teve seu próprio filho como uma mulher normal, ao invés de me alugar com essas idiotices?
Ele gritou, e eu fiquei sem reação. Minha respiração estava pesada, muito pesada. Eu estava com uma mistura de sentimentos dentro de mim. Eu queria esganá-lo ali mesmo, ele não sabia o que estava dizendo. E não fazia ideia do quanto aquilo me machucou.
Capítulo 3 - Não julgue as minhas escolhas se você não entender os meus motivos.
Fechei meus olhos vagarosamente, tentando acalmar minha respiração falha devido à raiva que eu sentia naquele momento. Me recompus e dei as costas a ele, saindo da suíte praticamente marchando. Sem pensar muito, fui em direção ao quarto de Bernardo e me aproximei do berço, olhando-o com carinho. Essa criança ainda não sabia o quanto eu a amava, mesmo ele não sendo biologicamente meu. Sorri por vê-lo acordando e conversei com ele, como toda mãe faz. Peguei-o no colo, ele me passava uma energia positiva.
Continuei a brincar com ele em meus braços, mesmo ainda estando sentida com as palavras de . Eu perdi a noção do tempo, pensando na minha infância e pensando em quão mal-agradecido ele foi em dizer 'me alugar com essas idiotices'. Respirei fundo e preferi deixar a raiva passar; era o que eu sempre fazia.
Dali a uns tempos, ele dormiu novamente. Coloquei Bernardo no berço e apaguei a luz. Voltei ao meu quarto e estava jogado na cama, de cueca samba canção com os olhos fixados no teto. Ignorei-o completamente e peguei um short e uma camiseta qualquer, indo para o banheiro trocar de roupa.
***
Passei o resto do tempo no quarto de Bernardo, tentando distrair minha cabeça com o notebook em meu colo. Até que a porta abriu, fazendo-me olhar para esta impulsivamente, mesmo sabendo quem era. Um descabelado com rosto amassado apareceu.
- Não vai almoçar? - ouvi-o perguntar com a voz arrastando, mas eu já tinha minha atenção no notebook novamente.
- Não agora. Só esquentar seu prato no microondas - disse-lhe num tom normal, porém baixo, ouvindo a porta bater de leve em seguida.
Encontrei uma apostila de meu interesse e de graça, então não perdi tempo para clicar em 'download', colocando o notebook no criado-mudo em seguida. Eu me deitei, sentindo meu corpo pesado e cansado, apesar de não ter feito nada de mais nos últimos dias. Ficava em casa o dia inteiro e Bernardo não me dava trabalho, mas acabei caindo no sono, mesmo com os pensamentos rondando sem parar. Só acordei com meu filho chorando.
Acordei assustada e me levantei, aproximando-me do berço com um bico enorme por vê-lo chorar. Sussurrei algo como 'mamãe esqueceu de você, uh?' e o peguei no colo, fitando a janela atrás do berço. Só então eu percebi que já haviam estrelas no céu. Suspirei e voltei minha atenção à criança em meu colo. Ele deveria estar com fome, então me virei para a porta, indo em direção a cozinha e o colocando na cadeirinha azul de bebê, preparando uma mamadeira rápida em seguida. Eu podia ver a TV ligada, mas de onde eu estava era impossível ver se um certo alguém estava assistindo, apesar de o volume estar bem baixo. E eu tinha certeza de que ele tinha faltado ao trabalho. Balancei a cabeça negativamente com este pensamento e fui preparar meu prato após Bernardo estar satisfeito. Sentei na banqueta, de frente ao meu filho e de costas para a TV, comendo sem a menor vontade, mas conversando baixinho com Bernardo. E, distraída, vi uma sombra pelo canto do olho e pude ver sentar-se na banqueta ao meu lado. Fingi que não vi e continuei a remexer a comida em meu prato.
Passaram-se alguns minutos, eu sabia que ele me olhava.
- Podemos conversar? - ele sussurrou bem próximo, mas seu jeito receoso não me fez hesitar.
- Se for pra me questionar novamente por que eu não...
- Não é nada disso! - ele me interrompeu com a voz cansada, bufando em seguida. Olhei-o rapidamente e ele mantinha as mãos sobre a bancada, com o rosto amassado e contorcido em confusão.
- Então o que você quer? - eu ainda estava sem paciência com ele, mas minha voz saiu baixa e firme.
- Só quero pedir desculpa por ter reagido daquela maneira - seu olhar não deixava de me analisar e pude notar um sorriso pequeno no cantinho de seu lábio, mas continuei com um tom forte, beirando o raivoso:
- Deixa eu te falar uma coisa... - deixei meu prato de lado, mas com a cara virada para ele. Eu queria que ele gravasse bem o que eu estava prestes a dizer e queria olhá-lo nos olhos para ter certeza de que ele me entendeu. - Eu não fiquei chateada com sua reação, não. Eu também gritei com você, então você podia gritar comigo o quanto quisesse. O que me chateou foi o que você disse - disse essas últimas palavras com ênfase, como se eu falasse com uma criança.
- Mas...
- Eu não terminei de falar - interrompi e ele murchou. - Você não sabe nem metade da minha história, então você não tinha o direito de me perguntar aquilo. Poderia perguntar em outra ocasião, mas não naquele momento - ele suspirou, concordando de leve. - Você lembra? Você tinha prometido que ficaria com ele para mim e eu confiei em você, . Eu deixei de chamar minha amiga para confiar em você para ficar com ele. E mais: eu ainda ia te lembrar antes de você sair e você disse que já sabia! - soltei um riso pelo nariz, nervosa. Eu tentava controlar minha voz para não assustar Bernardo, que assistia a tudo. - Mas, pelos menos, em uma coisa você tinha razão: você não tem obrigação nenhuma com ele. Então, pode relaxar que agora eu não vou te pedir absolutamente nada - deixei bem claro - em relação a ele. - terminei, parecendo aliviada e ele mantinha uma expressão derrotada. Não o encarei por muito tempo, apesar de seus olhos não se desgrudarem de mim, e voltei minha atenção ao meu prato. Peguei-o e levantei, indo em direção a pia em silêncio. Se eu não estava com fome, agora menos ainda.
Ele não disse mais nada e, enquanto eu lavava minha louça, pensei em contratar uma babá. Eu voltaria a trabalhar em dois dias e não poderia contar mais com . Ele, realmente, tinha razão em relação a não ter obrigação quanto a isso. Ouvi o barulho da banqueta se arrastando de leve, mas o ignorei, secando minhas mãos e me guiando para perto de Bernardo, pegando-o no colo. Levei-o para o quarto e o fiz dormir, voltando para a sala em seguida com meu notebook. havia deitado no sofá e a TV continuava ligada, mas ele olhava o teto. Preferi ir para meu quarto, procurar alguma empresa de babás. Deitei em minha cama e futuquei bastante. Até que achei uma, que é afiliada à empresa em que eu trabalho.
O custo era um pouco alto, mas eu tentaria. Afinal, ela não trabalhará aqui por muito tempo, já que quando ele tiver um 1 ano e meio, terei coragem de colocá-lo numa creche.
Era possível ver informações sobre a babá e tinha até algumas estrangeiras. Me interessei por uma que, pela foto, parecia ter uns 19 anos. Um pouco mais nova que eu. Cliquei em seu perfil e pude ver que ela era de Dublin, mas veio para Inglaterra para tentar crescer aqui. Não tinha filhos e possuía carro. Cliquei no campo indicado para entrar em contato com ela e deixei claro que seria por pouco tempo. Agora era torcer para que desse certo.
Entrei em outros sites até eu pegar no sono. E dali a uns minutos, eu recebi um email. Era a resposta da tal babá.
Mas já?
"Olá, ! - posso chamá-la assim, né?
Estou disposta a trabalhar sim, mesmo que seja por curto tempo. Isso conta muito para mim. Só gostaria de saber se é trabalho somente com criança, ou é geral, tipo, faxineira também.
Obrigada pela oportunidade e gostaria de começar o quanto antes, pois, apesar de gostar de sair à noite e me divertir, eu preciso me sustentar. Espero que me entenda.
Atenciosamente,
Jane."
Respondi:
"Oi, Jane! Claro, fique à vontade para me chamar de . Não sou tão velha assim, ha!
Bom, se você quiser, podemos nos ver amanhã para combinar tudo direitinho, e se você começasse a trabalhar na segunda, seria ótimo.
Beijos."
"Então amanhã na Starbucks próximo ao shopping, às 10h. Pode ser?"
"Perfeito! Vou estar de calça jeans, blusa roxa e tênis vans jeans.
Até amanhã!"
Fiquei feliz por ter conseguido isso rápido e não precisar mais perturbar ninguém. Levantei e aproveitei o calor que eu sentia para tomar um banho rápido, deixando meu notebook sobre a cama.
Aquele banho me fez bem, eu relaxei meus músculos até dos dedos dos pés. Sentia-me leve e já ia me preparando psicologicamente para a mudança de vida: voltaria a trabalhar, mas teria uma babá desconhecida dentro de casa, um amigo mal humorado na maior parte do tempo - e trabalhando na mesma empresa que eu - e um bebê me esperando.
Sai do banho enrolada na toalha e os cabelos presos num coque. E levei um leve susto ao ver sentado na minha cama, olhando para meu notebook.
- O que está fazendo aí? - perguntei, num tom de voz razoável. Ele me olhou rapidamente ao ouvir minha voz. Parecia que não tinha me visto ali. E ficou me observando, seus olhos foram descendo até meus pés. Bom, eu estava ficando sem graça. Eu odeio que me olhem. - Estou falando com você, ! - chamei-lhe atenção, andando em direção a ele, sentindo minhas bochechas coradas.
- Ér, desculpa, eu... - ele desviou o olhar, enquanto o meu permanecia sobre ele. Fechei meu notebook sem me importar com o que ele olhava, colocando-o em meu armário de qualquer maneira. - Você... - o ouvi guaguejar e me virei para olhá-lo - Vai contratar uma babá? - perguntou, com um semblante enigmático. Eu não sabia bem se era tristeza, confusão... Mas raiva ou ódio é que não era.
- Vou, por quê? - a resposta saiu automática. Virei-me para o armário novamente, ouvindo-o dizer:
- Bom, acho que... Se eu pedir para não contratar, seria inútil, né? - sua voz era receosa. Mas não pude deixar de olhá-lo, só para checar se ele estava falando sério.
- Com certeza - fiz cara de poucos amigos, o que se passava na cabeça daquele cara?
Ele baixou os olhos, entortando os lábios. Voltei a escolher minha roupa no armário, meio desajeitada e sem paciência, e ouvi sua voz novamente.
- Está fazendo isso por quê? - sua voz ainda tinha receio.
- Porque segunda eu volto a trabalhar e não posso deixar meu filho sozinho - respondi como se fosse óbvio. Aliás, era óbvio.
Ele, simplesmente, respirou fundo e ficou quieto por um tempo. Fui ao banheiro trocar de roupa e, quando voltei, ele já estava na cama dele, com as mãos sob a cabeça com os olhos fixados no teto. Parecia que essa era sua posição favorita para pensar. Fiz uma trança e deitei, cobrindo-me em seguida. Dei um 'boa noite' de costume e fechei meus olhos, tentando me concetrar no sono. Eu dormi o dia inteiro, ele não viria tão cedo. Tentei não pensar em nada, mas ele decidiu falar novamente:
- Não vai ficar chateada se eu fizer uma pergunta? - eu abri os olhos, assustada com a pergunta.
- Sei lá, não sei qual é a pergunta... - respondi com a voz embargada. Eu estava de costas para ele, então me virei na cama, para olhá-lo. Ele ainda olhava o teto com a cabeça em cima das mãos, as pernas cruzadas.
- Então, posso fazer? - dei de ombros, e soltei um 'arrãm' baixinho, mas ele ouviu. - Por que preferiu adotar?
De certa forma, eu esperava essa pergunta, mas não agora. Demorei um pouco para responder, eu não tinha ideia de como organizar meus pensamentos e transmiti-los a ele.
- Tudo bem, descul...
- Quando eu era pequena, minha mãe faleceu no parto - engoli em seco, pensando em como continuar. Ele me olhou de soslaio, depois voltou sua posição inicial. - Tanto ela quanto meu pai eram jovens ainda. E isso foi um choque para ele, porque ele não tinha ideia de como cuidar de uma criança. Aí ele pediu para meus avós cuidarem de mim, mas ele queria continuar me vendo. Eu cresci com eles e meu pai me pegava de mês a mês para passar o final de semana na casa dele - eu parecia uma robô falando: minhas palavras não passavam emoções, elas simplesmente saiam; parecia que eu dizia tudo aquilo só para eu mesma. - Quando eu estava um pouquinho maior, me colocaram no psicólogo para me fazer entender que eu não sou filha dos meus avós, apesar de eu sempre chamar a vovó de 'mãe'. E então me contaram que eu era adotada por meus próprios avós. Acho que foi daí que surgiu essa vontade de criar uma criança que não fosse minha, entende? - vi-o assentir de leve. - E mais para frente, eu descobri que eu tinha um problema no ovário - engoli em seco novamente, tentando tirar algumas imagens indesejadas daquela época terrível. - Minha médica disse que era capaz de eu não poder engravidar e então eu não quis nem tentar. Eu preferi seguir no caminho do meu desejo e adotar uma criança. Eu não fiz testes nem nada para comprovar o que ela disse, porque eu não queria. Nem quero. Eu to feliz, sabe? É um sonho realizado pra mim, e tenho que agradecer a você também - sorri fraco por ter conseguido contar isso a alguém que não fosse ou a Grace. Eu pude vê-lo sorrir, e então ele me olhou ainda mostrando os dentes.
- Me desculpa perguntar, eu só queria entender... - ele permanecia a me olhar de lado e eu sorri fraco como resposta. Eu sentia a raiva passando vagarosamente e o sono chegando aos poucos.
- Era só isso? - perguntei, num tom risonho, não querendo ser grossa.
- Era... - ele riu baixo e fraco, ajeitando-se com os travesseiros. - Boa noite, - sussurrou, fechando seus olhos com o corpo virado para mim.
- Boa noite, - mas, dessa vez, não foi um 'boa noite' de costume.
Nota da autora: Bom, eu sei que alguns capítulos são chatos, mas eles são importantes para o entendimento do resto da história. Obrigada mesmo quem está lendo :D
» Outras fics:
Before He Cheats [McFLY // Finalizadas]
Emo Girl [McFLY // Finalizadas]
Conto de Farsas [Restritas // Finalizadas]
Conto de Farsas 2 [Restritas // Finalizadas]
Desire [Restritas // Finalizadas]
Office Hours [Restritas // Finalizadas]
Nota da Beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter. Quer saber quando essa fic vai atualizar? Fique de olho aqui. Obrigada. Xx.