História por Sah Oliveira | Revisão por Gabriella



Prólogo



Ver. Ouvir. Sentir.
Poucas pessoas no mundo conhecem o verdadeiro significado desses verbos. Não é nada fácil lidar com o oculto; aquilo que te tira o sono, escurece e muda as suas visões, conturba os sons e controla seus sentimentos. A facilidade de enfrentar todos esses fatores vem com o autocontrole, a ajuda dos entes queridos e o aperfeiçoamento de habilidades. Só é preciso aperfeiçoar o que se possui.
Sem mais delongas, o que conto na minha história é algo muito comum entre as pessoas; só são elas que custam a não querer ver e compreender. Meu nome é e meu sobrenome é , sou médium e se você não quiser me conhecer essa é a hora exata de recuar.

Capítulo 1



Eu não sou uma pessoa normal. Às vezes, eu penso que nem sou uma pessoa. Relaxem, não é nenhum problema de baixa-estima. Eu sou muito bonita ao ver da sociedade atual. E à meu ver também, ok? É que eu não sou exatamente como qualquer garota de 18 anos. Tenho problemas e sofrimentos muito maiores do que, "ai, meu ficante pegou outra" ou "minha melhor amiga deixou de falar comigo" e todos esses blá-blá-blás de garotinhas fúteis, como várias que eu conheço por aí. Responda rápido e sem pensar muito: O que você faria se pudesse ver, ouvir e falar com os mortos? Complicado, não é mesmo? Pois bem, essa é a minha sina.
Desde criança, os tais espíritos me perseguem. Eu não podia evitar. Eles que vinham me procurar, assim como fazem até hoje. Uma criança de sete anos que ouvia vozes do além que mais ninguém escutava só podia ser rotulada como louca. E era exatamente assim que me tratavam. Até então, minha mãe era totalmente leiga nesses assuntos de mediunidade e me levou em diversos psicólogos e até os conselheiros da escola me acompanhavam. Só que era IMPOSSÍVEL fazê-los desaparecer de minha mente e dos meus olhos. Medo? Confesso que nunca tive. Sou muito corajosa e enfrento qualquer situação. Mesmo que existam milhares de fantasmas rodando o mundo à procura de uma mísera mortal VIVA que os possa ajudar a seguir o seu caminho, ou, para simplesmente zombar, apenas como uma simples diversão. Espíritos filhos de uma puta que não têm mais o que fazer.
Foi então que aprendi minha primeira lição a respeito dos fantasmas: só eu sou capaz de vê-los. Minha mãe não podia, meu irmão não podia... Ninguém na minha família podia. Quer dizer, é claro que as outras pessoas também podem vê-los. Caso contrário, não teríamos centros espíritas, casas mal-assombradas e tudo mais. Mas existe uma diferença. A maioria das pessoas que vêem fantasmas só vêem um, já eu vejo todos os fantasmas. Todos mesmo. Qualquer um. Qualquer pessoa que tenha morrido e por algum motivo ainda esteja por aí, em vez de ir para onde deveria, eu sou capaz de ver.
E isso significa um BOCADO de fantasmas.
A situação só veio melhorar um pouco, aos 15 anos, quando eu descobri que a morte recente de meu pai havia o tornado meu mentor espiritual. Essas foram uma das notícias mais felizes que recebi nesses anos de mediação. Papai é o anjo que eu realmente necessitava. Nesse ponto, poder ver os espíritos me fez curar a falta carnal que tinha do meu pai, pois se eu podia ver e ouvir aquela presença paterna, já era bom demais para mim. Foi meu próprio pai que, finalmente, me explicou tudo. De modo que num certo sentido é bom que ele tenha morrido, pois de outra forma eu nunca ficaria sabendo. Sou médium para os que acreditam, mediadora para os simpatizantes e uma farsa para os religiosos fervorosos e céticos. Mas preconceitos para mim nada são, perto de toda a infinidade de almas que vivem junto a mim, durante todos os dias de minha vida. Meu maior desejo é encontrar alguém, pelo menos um ser, que tenha metade da minha habilidade e que se disponha a trabalhar ao meu lado, realizando e terminando trabalhos que os ditos cujos aqui deixaram. E quem me iludiu? Não é qualquer sangue de barata que agüenta ser assombrado - literalmente assombrado - pelos mortos, a cada minuto de cada dia da sua vida. Você vai ali ao McDonald's comer batatas fritas, opa, falecido na escada rolante. Alguém o esfaqueou. E se você puder levar o sujeito à quem fez aquilo, ele pode finalmente descansar em paz. E você, infelizmente, não pode. Eu sou a mediadora.
Pode crer que não é o destino que eu desejaria à alguém.
E a propósito, pode me chamar de , eu não mordo.

Capítulo betado por Camila A.

Capítulo 2


Era tudo escuridão. Nenhum ponto de luz. Ou não. Acho que tem alguma coisa ali... Caminhei, caminhei e caminhei. Porém, nunca conseguia chegar ao meu destino, àquela única luz que me chamava a atenção.
Frio, arrepios. Ventos fortes. E uma voz. A luz havia desaparecido.
“Você precisa procurar...” Era uma voz feminina, delicada, que surgia do nada e se esvaía, como se aquelas rajadas de ventos a trouxessem e a levassem novamente de onde ela se originara.
“Procure Agnes!” ouvi mais uma vez, mas era diferente da outra. Não conseguia decifrar esta, era um enigma, uma voz estranha, não parecia ser humana.
Girava em torno de mim mesma, procurando algo ou alguém, mas tudo que eu encontrei foi o chão, e...

O meu travesseiro. Levantei e sentei-me em minha cama, eu estava pingando suor.
Olhei para o relógio digital, que estava em cima do meu criado-mudo, e verifiquei as horas.
Onze e quarenta e cinco da noite. Eu mal havia me deitado e já acordo atormentada com esses sonhos estranhos, que na verdade não pareciam sonhos. Não tinham imagens, eram apenas auditivos. Eram os que eu mais odiava. De todos esses anos de sonhos sem nexo, os que tinham apenas vozes eram os mais proféticos.
- Quem diabos é Agnes? Meu deus, eu já cansei disso tudo! – gritei no fim da frase, e ainda assim, Deborah, minha irmã mais velha (um ano apenas), continuava dormindo o seu sono dos anjos, bem feliz. Ela até sorria. Inveja mode on.
Desci as escadas, zonza de sono, chegando à cozinha. Abri a geladeira, buscando o jarro de água. Peguei o copo na prateleira, virando de frente para a bancada e quase derrubando o jarro. Eu disse QUASE. Já estava me acostumando com essas aparições.
- Ok, Dr. , se ainda pretende ver a mamãe e a Deb felizes, não tente mais me matar de susto e me levar para junto de você. Só de vez em quando... – falei, brincando e sorrindo por vê-lo. Geralmente, ele só aparece quando bem entende e quando tem um motivo. – E aí, coroa, qual é a novidade? Missão contra espírito do mal das profundezas? – disse, bebendo a água logo depois, me refrescando e me livrando do calor que aquele sonho me causou.
Meu pai sorriu das minhas indagações, afastando-se da cadeira branca em que estava apoiado.
- Quer dizer que agora eu nem posso mais visitar a minha família? – sorriu e se aproximou de mim, emanando toda aquela luz que sempre possuiu.
- Teoricamente não, paizinho. Só eu posso vê-lo. – disse, soltando uma risadinha e me dirigi à sala de estar, me jogando no sofá - Mas na prática, tudo certo. Pode ir lá em cima. Cuidado, nos últimos dias, a mamãe está com um sono levíssimo!
Como se ele pudesse acordá-la, HAHA.
- Mocinha, você está muito animada para o meu gosto, ainda mais com o que eu acabei de presenciar no seu quarto!
Olhei para ele, um pouco mais séria, e perguntei:
- Já que o senhor SEMPRE sabe de tudo e fica bisbilhotando minhas noites mal dormidas, me explica que porra é essa agora? – fui falando, me levantando e me alterando, cada vez mais. – Sabe pai, eu não aguento mais isso, eu tenho dezoito anos, quero curtir a minha vida, a juventude, e nem consigo direito. E sabe por quê? Porque eu nasci e vivo TODOS OS DIAS de minha existência, tendo que carregar essa maldição de salvar e ajudar os fantasminhas camaradas!
- , mantenha a calma... – papai, como sempre, calmo – Eu estou aqui exatamente para isso, te ajudar e te proteger, seja em vida, durante quinze anos, ou desencarnado, como estou agora... Você sempre foi centrada e forte, agora não é hora de se desesperar!
Rendendo-me e desistindo do meu estresse, baixei a cabeça, comovendo-me com suas palavras. Era tudo verdade, ele sempre esteve ao meu lado, e eu não me dava conta do quanto isso me fazia bem.
- Me desculpe paizinho... – disse, ainda de cabeça baixa – Eu realmente me descontrolei. É que você não faz ideia da falta que o seu abraço me faz. – levantei minha face, olhando-o nos olhos, deixando cair lágrimas que antes eram raivosas e agora, de pura saudade.
- Nada é por acaso, minha filha. E quanto ao abraço e ao seu sonho – ele disse, sorrindo, se aproximando e tocando meu nariz -, existem mais coisas entre o céu e a terra do que acredita a sua vã filosofia.
A sua velha e conhecida frase. Era de praxe. Meu pai sempre dizia aquele verso, quando eu perguntava algo sobre espíritos ou sobre os fantasmas poderem me tocar e eu não poder, o que era um saco.
- Eu sei que é ruim. A mediadora é você, e você tem suas dúvidas. Mas está no caminho certo. Lembre-se, eu amo você.
E desapareceu, levando com ele minhas últimas lágrimas.

Abrindo a porta do meu quarto com cuidado, acendi o abajur e deitei em minha cama. Fiquei refletindo sobre tudo o que sei e sobre a imensidão de coisas que quero descobrir.
Agnes? De quem eram aquelas vozes? O que meu pai quis dizer?
Eu odeio ficar na dúvida. E sabe o que eu faço quando isso acontece? Eu corro atrás, eu tento descobrir. E quando encontro uma boa oportunidade, eu a agarro com todas as forças.

Estou a te esperar, oportunidade.

Capítulo 3


Ouvia o som de meu despertador e levantava sonolenta até demais. O dia amanhecia cinzento, triste. Não havia muita luminosidade, era a típica manhã que vem depois de uma madrugada chuvosa. E eu odiava manhãs assim. Qual é? Eu moro no Golden State! Califórnia, Los Angeles. Eu sou guiada pelo sol. Se o sol não aparece, minha personalidade também não. Por isso que eu não me mudo para Londres. Minha mãe vive me dizendo que lá tudo é mais desenvolvido e que a Imperial College London seria a melhor opção para mim e todas essas conversas de mãe. Mas não dá. Não sei que problema ela vê na UCLA, eu amo essa universidade! E falando nela, hoje é segunda-feira, as férias acabaram e volta a vida dura. Rotina pesada no curso de Medicina. E sim, eu pretendo ser muito rica!
Correndo para o banheiro, entrei no box e tomei um banho rápido, me apressando para não perder o horário. Saindo do banho, vesti minhas roupas íntimas, acompanhadas de uma blusa branca com estampas divertidas e uma calça jeans de lavagem clara. Nós pés, um all star preto. Passei o mínimo de maquiagem possível, apenas o necessário para que eu ficasse com uma cara apresentável e desci as escadas, rumo ao meu café da manhã.
- Bom dia, mãe. – beijei a sua face carinhosamente me sentando à mesa – Onde está a Deb?
- Ela saiu cedo, . Disse que o Mike estava esperando para fazer algo que ela não quis me dizer, mas que seria uma surpresa, e vindo da sua irmã, surpresa é apelido – minha mãe disse.
Mike é o meu querido cunhado, e ele, literalmente, tomava a Deborah da gente. Ela não vivia em casa, raras eram as vezes que eu a via dormindo na cama ao lado da minha. Mas, pelo menos, ele era um rapaz legal e direito. Eu acho né? Eu não via nenhum espírito ao seu lado querendo influenciá-lo, então, isso significava mil pontos a seu favor.
- Desde que a notícia não seja que eu vou ser tia, está tudo ótimo – falei, mordendo o último pedaço da panqueca que minha mãe havia preparado.
Levantei, escovei os dentes e peguei minha bolsa, já ouvindo as buzinas na frente de casa.
- Tchau mãe. Vou indo!
Fechei a porta e fui correndo ao carro de , entrando e a abraçando. era minha melhor amiga, desde que eu me entendo por gente. Ela mora próximo a minha casa e por isso sempre íamos para a universidade juntas. Ela cursa Cinema, no mesmo campus que eu e como eu não tenho um carro, o que é uma vergonha, vou de carona com ela todas as manhãs.
- Bom dia flor do dia! Também amo você, mas agora pode me soltar, parece que não me vê há anos, ! Estou sufocada... – soltei , sorrindo. - Preparada para mais um ano corrido, cheio de missões a se desvendar, trabalhos a se fazer e espíritos para deportar? – ela falava com um tom de mistério, que era bem engraçado por sinal, girando a chave e acelerando o carro, sem aviso.
A primeira pessoa VIVA que conheceu o meu dom foi a minha mãe. Mas, desde que ela percebeu que eu não tinha mais solução, preferiu ignorar toda essa situação. E a segunda e última, é a .
- Eu sempre estou preparada.
- Eu tinha certeza que essa seria a sua resposta, .
Depois de alguns minutos de trânsito, com paradas em semáforo e muitas risadas da nossa parte, chegamos ao campus. estacionou o seu carro e saímos. A faculdade continuava a mesma, enorme e perfeita, com seus diversos tipos de alunos. A UCLA era uma miscigenação de turmas, bondes, estilos e raças. Tinha a turma das estilosas, que cursavam Moda. Os populares e cantores, Música. Os intelectuais e comedores de livros, Direito e Psicologia. As loiras metidas e fúteis que abusavam das roupas curtas... Bom, elas eu não sabia bem o que faziam lá, deviam servir só para enfeite. Eu sabia bem onde eu me encaixava nisso tudo. Sou inteligente, bonita e me visto bem, acho que me encaixo em todos, exceto nas loiras líderes de torcida. E nem sou modesta.
Caminhando até a entrada, me despedi de , que iria para outro prédio. Subi as escadas que se dirigiam aos enormes arcos que davam passagem para o interior da universidade e me deparei com um calouro que chamou a minha atenção, vindo na direção oposta. Aquele garoto me atraía de uma maneira diferente que nem eu mesma podia explicar. A gente já se conhecia? Era essa a minha impressão, mas, é claro que não, eu nunca tinha visto aqueles músculos tão definidos em toda a minha vida. Ele era bonito DEMAIS para estar tão perdido quanto parecia. Pelo o que eu conhecia das garotas da universidade, já deveriam estar em cima da carne nova e o fazendo compan...
Espera aí... Ele tinha companhia sim. E eu aposto que vocês sabem bem que companhia era essa.

Capítulo 4


Ainda estava encarando aquele rapaz de olhos brilhantes (ou talvez, não exatamente ele) e perdendo o início da minha preciosa aula de Anatomia II. Saindo do meu ponto de repouso, dei alguns passos curtos, indo em frente, cruzando o corredor entupido de estudantes. O tal menino estava vindo em minha direção e acenava, como se quisesse perguntar algo e eu tinha certeza que foi porque o seu acompanhante, alto, loiro, magro e MORTO tinha soprado a ideia em seu ouvido.
- Hey, você poderia me ajudar? – sorriu e eu tentei retribuir, mas, é meio difícil quando tinha um cara atrás dele, parecendo um guarda-costas e que me encarava. – Sou novo aqui e bom, eu não sei onde é o prédio de Música, já verifiquei e vi que não é aqui.
- É – tentei ser simpática –, esse prédio é o Departamento de Saúde. O Departamento de Artes é depois da biblioteca – sorri e apontei para que ele visse onde era.
- Ah, muito obrigado, e a propósito, qual é seu nome? – olhava para mim e perguntava descontraído.
- , mas, prefiro que me chamem de . – eu, pelo contrário, estava tensa e gostaria de saber por que o tal loiro tinha aparecido do nada na UCLA e porque ele seguia o garoto lindo dos olhos que eu ainda não sabia o nome...
- Prazer, e pode me chamar de , eu também prefiro assim. Agora eu preciso ir, estou atrasado e acho que você também. Depois a gente se vê, ok? – ele se despediu e saiu.
Virei para ver a ida de e infelizmente, algo que não deveria estar ali, estava. Apressei-me para a sala, ignorando aquele fato e abri a porta da sala do meu curso, me desculpando pelo atraso e por estar atrapalhando a aula. Sentei-me e coloquei os cotovelos sobre a carteira, apoiando o queixo nas mãos.
- Eu sei que você pode me ver, não adianta fingir que eu não existo. Estive procurando um da sua “espécie” – fez as aspas com os dedos – há exatamente três anos, três meses e 15 dias. – parou pensativo, para depois continuar - É, faz isso tudo que eu já morri.
Realmente, não podia fingir que tais seres não existiam. Isso não cabe a mim.
Estava ciente que não podia me comunicar com ele, pensariam que eu sou uma louca que fala sozinha e sinceramente, eu já havia cansado desse rótulo.
O fantasma magricela estava calado, apenas me observando e esperando alguma atitude minha. Estava intrigada com a observação contínua dele e fiquei me perguntando por que ele não desaparecia de repente, da mesma maneira que apareceu. Se ele estava esperando, eu iria tomar uma atitude. Prazer, meu sobrenome é Curiosidade.
A aula de Anatomia II acabou e o sinal tocou no exato momento em que me levantei, saindo da sala antes de todos os outros colegas e indo para o banheiro feminino. Apoiei-me na pia, olhando para baixo.
- Certo, se você não percebeu ainda, isso é um banheiro feminino. – falei como se estivesse conversando com a torneira. Levantei o rosto e olhei para o espelho – Primeiro, quem é você? – fui indicando cada numeral com meus dedos. Indicador - Segundo, qual o seu nome? – Dedo médio - E terceiro, - anelar - desembucha o que quer comigo.
O espírito atrás de mim se manifestou e começou a falar:
- Eu sou um fantasma, como pode ver. Meu nome é James e eu quero aquilo que você faz de melhor. Me mandar para onde eu já deveria estar.
Analisei bem sua fisionomia e percebi que seus olhos eram fundos, com muitas olheiras. Estavam com uma vermelhidão extrema, assim como seu nariz. Sua imagem agora, provavelmente deve ser a mesma de quando morreu.
- E se você não sabe, provavelmente por ter morrido há apenas três anos e por ser um pouco burro, isso não depende apenas de mim. – eu não tinha que ser educada com ele. Primeira lição de “Como ser uma mediadora: fantasmas que te incomodam não merecem seu respeito”. Simples. Eu bem que poderia escrever um livro com todas as lições, ajudariam bastante. – Me fale como morreu e eu te digo as coordenadas para que você me deixe em paz.
James olhou para mim com uma expressão que eu não entendi muito bem. Estava ofendido? Machucado? Triste? Irritado? Sinceramente, eu não conseguia decifrar.
- Eu morri de overdose. – Ótimo, eu tinha um drogado em mãos – Em uma noite, estava na casa de um amigo, no subúrbio de Los Angeles. Nós bebíamos bastante e eu me encontrava fora de mim. Contratamos duas prostitutas. – ele me contava a sua história, e ao decorrer da história, ficava cada vez mais triste e abatido. – Eu nunca me arrependi tanto em minha vida. Fizemos com elas tudo que tínhamos direito, e depois de horas e horas de diversão, eu adormeci. Mas, acho que me esqueci de te dizer. – eu o ouvia atentamente, tentando não me comover com todo aquele conto do James - Eu era comprometido, eu traí a minha namorada naquela noite. Além de acabar com a minha vida. Kate chegou na casa em que eu estava, pela manhã, e presenciou a cena: eu, semi-nu na cama com duas mulheres totalmente nuas e meu amigo, bom, ele tinha se mandado. Ela me acordou aos gritos. Chorava e dizia o quanto era idiota, burra, entre tantas coisas. Por fim, o mais óbvio, ela terminou comigo e NUNCA MAIS quis olhar em minha cara. E tinha toda a razão. Depois do término, além do álcool, eu me entreguei a outras drogas, tanto lícitas, como ilícitas. Gastei todo o meu dinheiro com maconha, cocaína, heroína e tudo que pudesse me destruir. E consegui. E agora, aqui estou: morto, arrependido e vagando entre os vivos.
Olhei para seu rosto, que expressava tristeza e disse:
- Obviamente, eu vou te ajudar. Eu sei qual o seu real problema. Ouça e entenda: nenhum espírito entra no plano superior com dívidas e arrependimentos deixados aqui na vida terrena. É impossível. E você tem arrependimentos de sobra. Então, a solução é o perdão da sua ex-namorada. E para você conseguir isso, você precisa de mim, certo? - ele balançou a cabeça afirmando.
Era a minha deixa, eu tinha que saber.
– Mas antes me responda... Por que, entre tantas pessoas para seguir, você escolheu o ? – curiosidade me atentava.
- Ele é a chave que você precisa para me ajudar. Eu tinha que botá-lo no seu caminho.
- E porque exatamente, James? – perguntei confusa.
- Porque o é irmão da Kate, mediadora.

Capítulo betado por Ana Caroline Mello

Capítulo 5


Eu não sabia o que era mais óbvio: ter que me aproximar do para ajudar James ou a notícia de que a Deb iria comprar uma casa pra morar com o Mike. Nem estava tão surpresa com a segunda opção, na verdade. Porém, minha mãe ficou bastante abalada, e eu odiava vê-la assim. É meio estranho, parece que eu conseguia absorver todos os sentimentos das pessoas, bons ou ruins. Eu já disse para vocês que sou anormal? Pois é, acostumem-se.
Deborah namora Mike desde os 15 anos, ou seja, cinco anos de namoro e já querem morar juntos. Eles nunca tiveram muito juízo, sabe? Nossa casa é perfeita, nossa família também. Mas Deb não via as coisas dessa maneira, ela fugia. Foge da falta que nosso pai lhe faz e sofre escondida, sem querer demonstrar a dor. Que bom que eu tenho meu pai para me contar essas coisas, assim, sei como lidar com seus desaparecimentos constantes. Minha mãe, eu, nossa casa, nosso quarto, qualquer canto daquela casa tinha símbolos de meu pai e isso a fazia mal. Deborah é uma fraca, igual a nossa mãe. Eu sou o seu oposto e espelho de meu pai, e agradecia muito por isso.
Minha outra preocupação era James, o mais novo fantasma que eu teria que ajudar. Eu já tinha em mente tudo o que iria fazer, mas antes, precisava do . Infelizmente, não sabia como incluí-lo em toda essa história. Ah! Já sei. Iria chegar ao campus e falaria: “Oi, , não que você esteja me convidando, mas hoje eu vou até a sua casa, pois preciso despachar o fantasma do seu cunhado, certo? Estarei lá às 20:00.” Sem chances. Vou ficar esperando uma luz dos céus.

Uma tarde de sábado. Eu estava sentada em minha cama, folheando algumas das apostilas que já havia recebido da universidade, não muito concentrada.
- Hey, ! – ouvi aquela voz arrastada me chamando. Que intimidade era aquela, hein? Ousadia e verme todo fantasma tem. Vou te contar, viu?
- Para você, sou apenas a mediadora, James. Até o momento em que você parar de aparecer do além, aí, eu posso ser . – olhei-o com desprezo e ele riu sem mostrar os dentes, sarcástico.
- Você quer que eu bata na porta, então? – sorriu com ironia, me olhando, sentado no parapeito da janela do meu quarto.
- Se você pode me tocar, não pode tocar a porta? Poupe-me... Vocês poderiam deixar minha vida um pouco mais prática. – falei impaciente.
- Não deveria ser tão má com os espíritos, sabia? Ao invés de James, fantasma bonzinho e ex-drogado, eu poderia ser um serial-killer morto. – ele disse, apontando o dedo indicador para mim depois que terminou e eu observei a sua colocação.
- Às vezes você consegue ser engraçado, James! – eu, como sempre, um poço de sarcasmo – Vamos ao que interessa, eu nem vou perguntar por que está aqui, já sei a resposta. Vai me ajudar a me aproximar do seu cunhado ou não?
- O que você quer que eu faça? Domine a cabeça do ? – ele falou, ingênuo, acreditando que aquela poderia ser a solução.
- Claro que não, James. – eu ri alto da sua pergunta e ele me olhava confuso. – Por sinal, não deveria pensar assim. – Mais uma aula de mediação - Fantasmas não devem usar de sua capacidade de comunicação com os vivos para influenciá-los. Isso atrapalha toda uma evolução e a sua querida passagem para o andar superior, - apontei meus dedos para cima - se é que me entende. - Ele me escutava como uma criança que ouve uma história entediante de seus avós.
- Certo, certo, não vou usar da minha enorme capacidade que eu nem sabia que tinha. – falou entediado, balançando as mãos e a cabeça de um lado para o outro.
Bufei alto com seu desinteresse e ouvi California Gurls, da Katy Perry tocando e indicando que alguém me ligava. Li no visor, era . Fiz gestos com as mãos, mandando James embora, e ele não rebateu, desaparecendo como uma fumaça.
Atendi a ligação de , empolgada.
- Diga baranga. Qual é a novidade?
- Hey, vadia. me chamou pelos nossos apelidos ‘carinhosos’.
- Pô amiga, agora você pegou pesado, vadia é bem pior que baranga, eu fico sentida.
- Ofensa é a intenção, sister riu e eu a acompanhei. – , a galera do meu curso tá organizando uma festa de volta às aulas e de boas vindas aos calouros! Você vai, isso é uma intimação da polícia e eu vou me arrumar com você, ok? Estarei aí às 18! Vou desligar, tem chamada na espera. Beijos, amiga! E ela desligou na minha cara. Nem esperou que eu respondesse. Bitch.
Então, eu tinha uma festa para ir. E como mulheres são como são na hora de se arrumar, eu preferi adiantar meu banho. Eram cinco e meia da tarde, chegaria em meia hora. Retirei minhas roupas e deixei num canto qualquer da suíte. Demorei nesse banho um pouco mais que o normal, sentindo a água morna tocar minha pele e meus cabelos. Ao terminar, me enrolei na toalha e saí do banheiro, rumando em direção ao meu guarda-roupa. Ouvi a campainha tocando lá embaixo e em menos de dois segundos, entrava em meu quarto com, acredite se quiser, três mochilas. Olhei-a com uma cara surpresa e fazendo uma careta.
- , não sabia que estava de mudança, amiga! – a abracei, brincando com a sua situação.
- Que melhor amiga engraçadinha eu fui arranjar. Vai debochando, vai. Queria ver como você ia se virar sem mim com esses seus cabelos molhados, impossíveis de fazer um penteado decente. Além dessas olheiras horrorosas que você adquiriu. Meu deus, ! Ser porta-voz te tira o sono, né? – falava sem parar, tagarelando – Como você vai desencalhar se não se esforça, hein? Desse jeito, o roteiro que eu fiz para sua vida vai desandar e eu... – ela parou o monólogo ao ver a minha expressão cansada de tudo aquilo. Ela tinha feito um roteiro de minha vida?
- Precisa acabar logo essa faculdade para fazer seus próprios filmes, Spielberg... – ri da cara dela, empolgada com a comparação - Eu não quero desencalhar, me apaixonar ou o que estiver no roteiro de seu documentário, ! Você sabe que eu não quero envolver mais ninguém, além de você, nessa minha vida fantasmagórica. É difícil esconder algo quando isso não sai da sua visão, nem de seus pensamentos. Você sabe como eu sou. Às vezes, eu até gosto que minha mãe ignore tudo. – falei e me sentei na cama, abrindo uma de suas bolsas e vasculhando tudo o que havia lá dentro.
- Certo, , mas não é preciso paixão. Atração é o suficiente para você hoje. Calouros adoram veteranas, acorda. Estamos com vantagem. – piscou para mim e eu gargalhei. parece palhaço de festa infantil, anima qualquer um.

Quando os ponteiros marcavam 21 horas, nós duas estávamos prontas. Eu me vestia com uma legging preta, blusa cinza longa com um cinto vermelho, mesma cor do meu scarpin, além de jóias da cor prata. Meu cabelo estava preso num coque frouxo e com alguns fios soltos. Minha amiga estava muito linda. Usava um top preto com uma saia rendada e um cinto marrom grosso por cima. Seus acessórios eram dourados e ela calçava uma sandália fechada com um laço na frente. Seus cabelos estavam num rabo de cavalo baixo. Estávamos ambas maquiadas levemente, com pouco rímel e batom, apenas disfarçando algumas imperfeições em nossos rostos.
Descemos as escadas devagar devido aos saltos e passamos na cozinha, cumprimentando Deborah, Mike e minha mãe. - Mãezinha, estamos saindo, ok? Não nos espere. – falei, sorrindo – Tchau para vocês. E a propósito, irmã, cunhado, parabéns pela casa nova! – eles sorriram e acenaram com a cabeça agradecendo. Peguei a chave e rumei para fora de casa, sendo puxada pelo braço por .

Chegamos ao Midnight, um dos pubs mais frequentados de Los Angeles, e como tínhamos convites para a área vip do local, entramos rapidamente. Parece que a festa é mais do que eu esperava! Área vip? Esses aspirantes de músicos, estilistas e produtores cinematográficos estão com a bola toda. Ou você acha que eles estudam na UCLA por meio de bolsas? É muito dinheiro investido, meu bem. E não que eu fosse pobre, mas nossas contas bancárias são bastante diferentes, tenha certeza. é a única bolsista, mas, em contrapartida, é a aluna mais inteligente e mais dinâmica do curso. É óbvio, é minha amiga.
Por onde eu passava, atraía olhares de todos os homens e até que eu gostava disso. Levava meu ego às alturas. estava certa. Paixão? Que nada, hoje eu vou curtir mesmo! Separei-me dela, que tinha parado para conversar com alguém irrelevante. Fui em direção ao fundo do pub, onde era a área vip, e entrei no local enorme de paredes aveludadas vermelhas com lustres baixos, iluminando as mesas. Havia também um pequeno bar com bancos altos. As pessoas presentes observaram minha chegada, cochicharam algo com seus amigos e depois voltaram às suas conversas, que deveriam ser muito interessantes. Vários bebiam e outros, sinceramente, já estavam no limite do atentado ao pudor.
“Veio a uma festa e nem me convidou? Que coisa feia.” Não via, mas pude ouvir a voz irritante do fantasma da vez. James riu e falou novamente: “Meu cunhadinho vem à essa festinha, estive observando-o, isso é uma boa notícia para você, mediadora? Espero que não perca sua chance, estou ficando impaciente.” E o silêncio se instalou, mas não do som altíssimo das músicas que tocavam, mas da voz daquele James petulante. Ele faz as idiotices dele, se droga, bebe, morre e ainda está impaciente? Tsc, tsc...
Fui em direção ao bar, andando entre as pessoas que dançavam com animação e fui entrando no clima descontraído que aquela festa estava me trazendo. Realmente, era uma festa para calouros. Eu não reconhecia ninguém. Cheguei ao bar e pedi um dry martini ao barman alto, com uma pele morena que parecia ser descendente de incas ou astecas, ou qualquer desses tipos de povos antigos. E depois de umas quatro doses daquela bebida, eu não me importava se era índio brasileiro, se era maia e se a profecia deles dizia que o mundo acabaria em 2012. Ele já estava acabando desde o momento em que eu encostei-me àquela bancada e desde que havia me deixado sozinha naquele pub, bebendo como uma fraca. Aí estava algo que me enfraquecia. Álcool. E eu odiava me render nessas situações. Nem fantasmas me derrubavam!
- Você tinha que sair, vir numa festa e beber, não é, ? – olhei para frente, onde deveria estar o tal barman filho de índios e lá estava meu pai com um olhar repreensivo.
- Não enche, pai. – rolei os olhos, virando mais um copo daquele líquido, que desceu queimando a minha garganta. – Isso lá é hora de querer me moralizar? – bati o copo na bancada e acenei, pedindo mais uma dose de Martini, que foi rapidamente atendida. - Não quero ser protegida agora.
- Você não escolhe ser protegida ou não, . E também não escolhe os espíritos ruins e obsessivos que estão loucos para se aproveitar de sua bebedeira. – meu pai dizia e eu fingia que escutava.
Joguei a cabeça sobre minhas mãos e segurei os cabelos fortemente enquanto suspirava fundo. Eu estava impaciente. Para falar a verdade, sou impaciente por osmose. Me considero uma pessoa muito negativa, pessimista e tinha inúmeros motivos para isso. Motivos, vulgo, fantasmas. Quando penso em meu dom, penso em usá-lo para coisas boas, mas não é isso que eu recebo de retorno. Aprendi nesses anos todos que o medo era o mínimo sentimento que eu poderia ter em relação à minha mediunidade. O que eu mais necessitava era de paciência, isso sim, porque até o meu pai conseguia me tirar do sério às vezes. Ou então, era só a bebida que me deixava irritada. Whatever...
Quando me dei conta, papai havia sumido. Tinha consciência que ele estava certo em suas palavras, por mais que a minha consciência estivesse meio afetada.

"Seu pai está errado. Você tem o poder de nos manter longe, mas não por muito tempo. Continue a se enfraquecer, é disso que eu preciso."

Como impulso, eu me levantei, totalmente confusa e assustada. Olhei para os lados e em minha volta e não tinha ninguém. Pessoas, pessoas... Não era uma pessoa. Não com um corpo sólido, digo...
Comecei a me movimentar, andando numa velocidade razoável e com pouca dificuldade apesar do salto alto, buscando a saída do pub e implorando para aparecer. Ela sumira e levara meu celular e meus dólares em sua bolsa. Estava sem carro para ir para casa, e bêbada.
Esbarrava nas pessoas que dançavam, me desequilibrando. Visualizei a enorme porta que dava para a avenida pouco movimentada àquela hora da noite, ou madrugada. Nem noção das horas eu tinha. Ao ficar um pouco mais livre, retirei meu par de sapatos e corri para fora do pub com todas as forças que eu ainda possuía. Vultos materializavam-se, repetidamente, em minha frente. Transparente, opacos e que se dissolviam no ar muito rápido.

"Não adianta fugir, correr, se esconder. Sempre saberei onde te encontrar, mediadora."

Outra voz, diferente da primeira. E que absurdos estavam dizendo? Eu já não assimilava nada, eram apenas sopros de vozes estranhas, e pela primeira vez na minha vida, eu estava amedrontada. Passei pela avenida, atravessando-a, e corri um pouco mais pela calçada, até que senti as minhas têmporas arderem, minha visão embaçar e enegrecer, minhas pernas cederem e, por fim, senti mãos me apoiando e braços quentes me envolvendo.

Capítulo 6


(N/A: Coloque essa música para carregar e aperte play no meu aviso)

Acordei, sem abrir os olhos por completo, com receio, esperando que a bebida tivesse me vencido e me privado de lembrar a noite assustadora que eu tivera ontem. Ilusão minha, eu lembrava de tudo. Do início ao fim e de todas as palavras pronunciadas. Decepcionada, me movimentei na cama, sentindo algumas dores musculares. Virei o lado que estava deitada e não me deparei com a cama de Deb, e sim com uma estante lotada de CDs, DVDs, fotos, livros, além de um notebook posicionado no meio dela. Também havia uma janela, que estava com uma cortina, impedindo a entrada dos raios solares naquele quarto desconhecido. Tinha consciência que desmaiara na noite passada e ainda me lembrava que alguém havia me pego no colo, quase no mesmo momento em que caí na calçada da North Highland Avenue. Mas quem? Se fosse , eu estaria em casa, deitada em minha cama, bem coberta e sem maquiagem nenhuma na cara. E claro que não era ela, não tem forças nem para me derrubar, imagine me levantar do chão. Ficar especulando não ia levar a nada. Me sentei na cama e percebi que não estava com minhas roupas da noite passada. Certo que eu me recordava de tudo, mas não de ter dormido com algum homem e raciocinando bem, se fosse alguém inteligente, não abusaria de mim em sua própria casa... Opção descartada. Pelo menos, eu acho. E as roupas que eu usava eram femininas, só não eram minhas.
Depois de esfregar meu rosto, buscando acordar, retirei o lençol que me envolvia, levantei e fui em direção à estante que vi antes. As fotos que estavam expostas chamaram muito a minha atenção. Uma delas continha quatro pessoas, dois adultos que pareciam ser um casal e duas crianças, um menino e uma garota, ambos de íris e cabelos lisos. Outra foto mostrava dois adolescentes com o rosto entupido de espinhas, normal para essa idade e a menina beijava a bochecha do menino, que sorria, mostrando dentes perfeitos e brilhantes. Eram as mesmas crianças da primeira foto e sentia que aqueles rostos eram conhecidos, mas não me lembrava de onde. A última foto que encontrei fez meus olhos quase pularem da órbita. Uma mulher sendo abraçada por um homem alto, loiro, magro, porém, ainda vivo. Era James. Peguei o porta-retrato e o segurei, olhando o rosto do homem que hoje, é um fantasma arrependido. Suas feições eram mais leves, ele sorria, um sorriso de ponta à ponta. Ambos estavam felizes.
A porta do quarto que eu me encontrava abriu de repente, fazendo com que me assustasse e deixando o porta-retrato cair no chão, quebrando o vidro que protegia a foto. Olhei na direção da porta e vi a mesma moça na minha frente.
- Oh, mil desculpas – ela sorria fraco – Não foi minha intenção quebrá-lo, é que me assustei quando você entrou. – me abaixei, recolhendo os vidros quebrados e juntando-os num lugar só. Pus o papel da foto em cima da estante novamente.
- Não se preocupe, é besteira, compro outro hoje mesmo – seu sorriso aumentava, enquanto ela direcionava suas mãos à foto e a mirava com vários sentimentos transbordando por seus olhos. Iria perguntar seu nome, por mais que já imaginasse quem era aquela mulher.
- Me responde uma coisa? – cocei a cabeça, desconfortável e ela levantou o rosto – Como é seu nome? – sorri de canto.
- Que indelicadeza a minha – mexeu em seus cabelos e me estendeu a mão – Sou Kate e já sei que você é a .– Kate sorria. All right, era ela mesma. Meu raciocínio está meio lento nessa manhã, só pode. Tava na cara dela, bem escrito na testa: Eu sou irmã do , prazer. Os olhos, os cabelos, o sorriso igualmente lindo. Mas nada disso explicava, o que eu fazia lá com suas roupas, provavelmente no seu quarto, dormindo na sua cama. Como eu tinha chegado lá? Aposto que minhas feições demonstravam bem o que eu pensava naquele momento, porque Kate me pegou pelo pulso, me puxando e disse:
- As respostas de suas perguntas estão lá na cozinha, devorando o café da manhã como um leão faminto. Vamos!
Fomos em direção à cozinha e eu observava a casa, perfeitamente mobiliada, com cômodos cada um, maior que o outro. A casa era enorme, muito espaçosa. Não era o tipo de lar que eu me sentia bem. Mas, os objetos, quadros, poltronas davam um toque especial e único naquele lugar e até que parecia um pouco com a minha. Minha mente estava a mil, pensando em várias coisas ao mesmo tempo, misturando imagens e lembranças.
Estava decidida a nunca mais ficar vulnerável àqueles espíritos obsessores, da maneira que fiquei ontem. Não sei por que diabos eu ingeri tanto álcool. Poucas doses e nada de vozes. E eu, sempre preferindo o pior caminho. Sei que aquelas vozes eram de almas atormentadas, impuras e desocupadas. Nada do que elas dizem faz sentido, são só algumas de suas falcatruas e brincadeiras que enganam pessoas de mentes fracas e despreparadas. Não a mim. Existem três tipos de espíritos, que eu pude conhecer nesses anos de mediunidade.
1º tipo: Missionários. Geralmente, esses fantasmas são evoluídos demais para vagarem aqui na Terra atrás da coitada da , entende? Eles são bons demais, caridosos demais. Não precisam da ajuda de uma simples mediadora para resolverem seus problemas. Fazem seus trabalhos sozinhos. E para melhorar ainda mais a vida após morte deles, não precisam de um novo corpo aqui. Eles estarão como almas para sempre, porque simplesmente não precisam sofrer as provas que esse local (que equivocadamente, chamamos de lar) nos expõe. As dificuldades e sofrimentos que estamos fadados a enfrentar. Sorte a deles.
2º tipo: Camaradas. São legais, não me enchem o saco e até que me entendo bem com alguns. Sua grande maioria depende de mim, pois alguns são inexperientes.
3º tipo: Obsessores, vulgo, os da noite passada. Os piores. Não querem saber de plano superior e adoram dificultar a minha vida de médium. Me perseguem, tentam me influenciar e não gostam do ‘trabalho’ que eu faço. Ligados a todos os piores sentimentos que tiveram como humanos, não se desgrudam do rancor, mágoa, ódio e da inveja. E o pior de tudo é que, são muito inteligentes. Não são inexperientes como os camaradas. Sabem do poder imenso que possuem e utilizam-no, das piores formas.
Voltando à realidade e deixando de lado meus pensamentos, entrei na cozinha, logo atrás de Kate. estava em pé, colocando o prato e os talheres que tinha utilizado na pia. Analisei sua fisionomia, vestido apenas com uma calça de moletom cinza, sem camisa, deixando seu abdômen à mostra e trazendo novos pensamentos para minha cabeça que eu, naquele momento, preferi ignorar. Olhei para seu rosto e sorri, sem ter o que dizer, nem saber como agir. Kate puxou uma cadeira e sentou.
- Hey ! Bom dia! – falou, mostrando, sem piedade nenhuma, aquele sorriso perfeito para mim. Era impressão minha ou eu estava admirando tudo que viesse daquele homem?
- Aí está a sua Bela adormecida, irmãozinho. – brincou, olhando para mim e apontando com a cabeça em minha direção. – Mas ela está tão perdida, que mais parece a Branca de Neve, sem os seus queridos anões. – riu abertamente, passando suas mãos pelo seu cabelo bagunçado. Kate era extrovertida, eu gostava disso. Me identificava. Algo me dizia que aquela seria uma grande amizade.
Pedi licença a Kate para que pudesse me sentar e puxei uma cadeira.
- Estou perdida mesmo, ok? E como fui avisada que as minhas respostas estariam aqui com o Sr. Leão faminto, então... – olhei pro , sorri e fiquei batucando na mesa com minhas unhas e depois apoiei meu queixo em minha mão – estou esperando. - Olha como fala comigo, viu, mocinha? Não devia ser tão autoritária assim – falava e eu percebia que nossas conversas fluíam rápido demais para duas pessoas que eram apenas conhecidos da universidade. – Eu te salvei de ficar lá, jogada no chão frio e perigoso da North Highland. Mal agradecida. – me deu língua. Ele falava, descontraído, arrancando risos meus e de sua irmã. – Você estava muito estranha no pub, eu havia percebido, porque quando ia chegar perto de ti no bar para te cumprimentar, você levantou de supetão e saiu andando sem olhar para trás. E estava cambaleando que nem uma bêbada, - lhe lancei um olhar, o repreendendo e ele continuou, rindo de minha expressão - então eu te segui até a saída e quando cheguei perto de você, prestes a te chamar, você apagou. Sem bolsa, documentos, endereço ou celular. A opção que eu tinha era minha casa. E aqui está você. E a propósito, trocada, medicada e bem cuidada pela enfermeira Kate .
- Ah, obrigado, vocês dois. Muito obrigado mesmo. Não é qualquer um que bota uma mulher estranha e feia dentro de casa, sabem? – sorri e me levantei, ajeitando a cadeira. – Sem querer incomodar mais uma vez, mas será que posso usar o telefone? – pedi – Acho que tenho uma amiga e uma mãe que estão surtando nesse exato momento com o meu sumiço.
- Claro, . – foi Kate quem respondeu. – Fique a vontade, e quando terminar, venha vestir suas roupas, certo? – afirmei com a cabeça e ela se dirigiu à – Você leva a nossa hóspede em casa! Porque o meu bebê está sem gasolina. – ouvi a voz distante dela, que já estava no fim do corredor que levava para os quartos. Ri e olhei rindo também, vindo com o telefone sem fio para me entregar.
- Pare de se chamar de estranha e feia, , - pegou algumas mechas de meu cabelo, sorrindo - mentir é muito feio. – e saiu na mesma direção que a irmã.

(n/a: coloque para tocar)
Depois de ligar para minha mãe e para a , ouvindo vários sermões de ambas, desliguei o telefone e andei pela casa enorme dos ’s, que aparentemente moravam sozinhos. Não tinha sinal nem de e nem da Kate. Fui seguindo pela sala e entrei no corredor largo com umas cinco portas espalhadas pelas paredes. Cheguei perto da porta do quarto em que havia dormido e ouvi alguns ruídos vindos de lá de dentro. Abri a porta devagar e me deparei com Kate, sentada no chão com a cabeça entre os joelhos, chorando. A foto com James se encontrava ao seu lado, com um rasgo, partindo-a no meio e separando o casal. Me abaixei, ficando na mesma altura dela.

I miss those blue eyes
Eu sinto falta desses olhos azuis
How you kiss me at night
De como você me beijava de noite
I miss the way we sleep
Eu sinto falta de como a gente dormia

- Kate, Kate! – a chamei, tentando levantar seu rosto, levemente com minhas mãos. – O que está acontecendo? Olhe para mim.
- , por favor, saia daqui, você não devia presenciar isso. – sua voz saía abafada e embargada devido ao seu choro intenso.
- Por favor, digo eu, , levante seu rosto! Eu te devo uma, você se preocupou comigo durante esta noite toda! Só quero saber como posso te ajudar! Me diz o que está acontecendo, Kate...
- Não existe forma de me ajudar. O que eu tenho guardado dentro de mim, o que me aflige, só eu posso entender. Só eu vivi. – ela, finalmente, tinha levantando o rosto. Seus olhos estavam vermelhos e transpareciam mágoa, muita mágoa. Eu sabia de onde vinha tanta agonia. E foi na origem dela que eu pensei e como, que instantâneo, ele apareceu. Olhei fundo nos olhos de James, como se quisesse atravessar o seu corpo fluídico e vi milhares de outros sentimentos ali.

Like there's no sunrise
Como se não houvesse nascer do sol
Like the taste of your smile
Como o gosto do seu sorriso
I miss the way we breathe
Eu sinto falta de como a gente respirava

- Ajude-a, e assim você, me ajudará. É só o que eu preciso. Cesse o sofrimento da Kate, .
- Sempre tem uma forma. A gente sempre dá um jeito de expulsar de dentro de nós o que nos faz mal. Eu tenho certeza que isso que você sente, é muito ruim. Vejo isso nos seus olhos. Rancor? Culpa? Nada disso vale a pena. Vamos, conte-me – segurava as duas mãos de Kate com as minhas e olhava fundo nos seus olhos, passando confiança. Suas lágrimas não paravam de escorrer por suas bochechas rosadas.
James estava no quarto, junto conosco, observando a cena e sofrendo com cada lágrima que caía dos olhos dela.

But I never told you
Mas eu nunca te disse
What I should have said
O que eu devia ter dito
No, I never told you
Não, eu nunca te disse
I just held it in
Eu simplesmente segurei dentro de mim

- Oh, , meu ex-namorado. Ja... Mes... – Kate soluçou ao proferir o nome do fantasma que estava ao meu lado – Me traiu, nós terminamos com uma briga horrorosa, cheia de ofensas e depois, ele faleceu, overdose. Se drogou porque eu me separei dele. Isso me corrói todos os dias por dentro. – pegou a foto rasgada, só do James. Sua expressão era de dor - e eu nem tive oportunidade de falar com ele uma última vez.
- Fale a ela que eu a amo, que preciso de seu perdão. Que ela siga em frente sem mim e sem culpa. A culpa não foi dela, eu que sempre fui um idiota. Diga, , diga!
James estava desesperado e eu tinha que arranjar uma maneira de dizê-la tudo aquilo. Sentia que podia falar a verdade para a Kate, sem mascarar o que realmente sou e nesse momento, eu acho que não tinha outra escolha.

And now, E agora, I miss everything about you
Eu sinto falta de tudo sobre você
Can't believe that I still want you
Não acredito que eu ainda te quero
and after all the things we've been through
E depois de tudo o que a gente passou
I miss everything about you
Eu sinto falta de tudo sobre você
Without you
Sem você

Coloquei minhas mãos em suas bochechas e comecei: - Eu vou te dizer algo, Kate e não sei se você acreditará em mim. Mas, nesse momento, peço que não seja cética. Peço que confie em mim. E que não me faça perguntas sobre. Isso é de uma natureza muito complexa até para mim, imagine para você. Só quero que escute. - ela afirmou com a cabeça, me olhando sem entender – O James está aqui nesse momento. – coloquei para fora aquelas palavras, com determinação e seriedade, a vendo arregalar os olhos – E ele me pediu para te falar algumas coisas. – parei minha fala, olhei para James, mostrando que iria prossegir e ele abaixou a cabeça lentamente e a levantou, afirmando. Olhava Kate, com amor.

I see your blue eyes
Eu vejo seus olhos azuis
Everytime I close mine
Todas as vezes que eu fecho os meus
You make it hard to see
Você deixa dificil de ver
Where I belong to
À que lugar eu pertenço
When I'm not around you
Quando eu não estou com você?
It's like I'm alone with me
É como se eu não estivesse comigo.

– Ela a ama, Kate. Independente da barreira que existe entre vocês, ele continua a te vigiar, a te amparar, eu sei disso. Porém, o seu coração está partido. Você não se curou do trauma que foi viver três anos se martirizando por algo que não foi culpa sua. – falava, calma e sentimental – Perdoe-o, perdoe a si mesma. Siga em frente, continue a amá-lo, mas um amor para recordar e não para se arrepender. – sorri fraco para ela e então, eu pude perceber a mudança. Kate chorava continuamente, mas agora, era diferente. Seus sentimentos eram de aceitação, resignação. Ela confiava em mim. Acreditava em tudo que eu dizia, isso estava estampado na sua feição.

But I never told you
Mas eu nunca te disse
What I should have said
O que eu devia ter dito
No, I never told you
Não, eu nunca te disse
I just held it in
Eu simplesmente segurei dentro de mim

James, que se encontrava ao meu lado, levantou-se. Seus movimentos eram leves e cuidadosos, como se nenhum peso estivesse sobre ele, como se a gravidade não tivesse nenhuma força naquele momento. E ela não tinha. A gravidade dos problemas havia se esvaído, nada mais impedia James de ir para onde era o seu real lugar. Onde é o real lugar de todos nós. Caminhou até Kate e se abaixou, se apoiando nos joelhos e juntando as duas partes da imagem no chão. Eu observava aquela cena atentamente e Kate seguia meu olhar, derramava lágrimas carinhosas e exibia um pequeno sorriso nos seus lábios. James usou o seu indicador, passando-o pelo meio da foto rasgada e conforme seu dedo se movia, uma luz tênue e brilhante aparecia, realizando a junção da foto. Aproximou-se do rosto de sua amada Kate, selou seus lábios com carinho aos dela e ao fim, sussurrou: ” When I'm not around you? It's like I'm alone with me.”
- Quando eu não estou com você? É como se eu não estivesse comigo.– repeti a frase e Kate olhou-me assustada, como se reconhecesse a frase e no mesmo momento em que viu meu olhar terno, desabou em meu abraço.
E então uma luz. Branca, brilhante, tomou todo o quarto.
Estava na hora de partir, James.

Obrigado pela ajuda, . Cumpriu seu dever com maestria.

James foi envolvido pela luz que emanava por todo o recinto, até que a última coisa que vi, foram seus olhos verdes, brilhando de pura alegria.
E como estava antes, a única luz a iluminar o quarto foi a que vinha do corredor, que adentrava o quarto, junto com .
E eu sorri para ele, mas não por estar vendo os seus lábios se abrirem também, mas porque estava com a maravilhosa sensação de dever cumprido.

Capítulo 7

Ir para a universidade nessa segunda-feira estava sendo diferente. Tinha um gosto novo. Eu sabia que quando chegasse ao campus, iria encontrar com . Sabia que vê-lo traria de novo aquela sensação boa de liberdade. Liberta de meus deveres extracurriculares espirituais, pelo menos, por enquanto. Encontrar com significava também, outras coisas e sentimentos. Sem porque, nem explicação, ele me trazia segurança. E depois da tarde de ontem, com a sua irmã, o olhar dele distribuía gratidão. Só deve sabe o quanto Kate sofria com a falta de James. Na verdade, pelo que eu soube, ele era a única pessoa que Kate podia contar e confiar.

Flashback

Depois do ocorrido com o James, fiquei mais na casa dos irmãos , até à noite, amparando e conversando com Kate, pois ela era um poço de perguntas, mesmo com o meu aviso para que não me interrogasse. Não tinha como fugir. Ela seria mais uma envolvida em meu mundo e o seu irmão também não tinha como escapar dessa.
Depois de colocar a “baby” Kate para dormir na mesma cama que fora meu ponto de descanso noite passada, me posicionei na janela larga do quarto. Observando a claridade fraca que entrava pela janela e me entretendo com o brilho que a lua cheia trazia, nem percebi que estava ao meu lado e olhava na mesma direção.
- Que dia! Até agora estou sem entender o que ocorreu. – ele disse, sem tirar os olhos da paisagem, mexendo as mãos inquietamente. – E quem estava perdida era você, não é?
- Sim, mas parece que as peças que estavam separadas se encaixaram. – sorri fraco, com os pensamentos rondando o casal que se “conciliara” na minha frente, algumas horas atrás.
- Peças separadas? Assumo não entender nada do que está falando, . – parecia confuso. – Mas, acima de qualquer explicação, quero te agradecer. Eu não sei como você conseguiu. Passei anos tentando fazer algo que você conseguiu em um dia. Não sei qual poder você tem, , mas te admiro muito. – disse, virando seu corpo em minha direção, olhando nos meus olhos e sorrindo.
- Poder? – agora quem estava em total confusão, era eu.
- A maneira que você amparou Kate. Como a fez chorar e te abraçar como se te conhecesse há séculos. Minha irmã se criou uma mulher fechada depois que nossos pais se foram. E se fechou ainda mais quando James morreu. Na visão dela – olhou para a irmã e depois para mim novamente – seus sentimentos tinham que ser guardados para ela mesma. Como eu sofri a mesma coisa e convivi dia após dia com sua decepção, eu sabia o que ela sentia. Mas não que Kate tivesse me contado. Eu via o sofrimento em suas ações. O seu sorriso...
- Mudou, não é? Por trás de cada sorriso, eram refletidos milhões de sentimentos contrários a ele. Sorrir era um esforço necessário.
- Está vendo como você entende, ? Demorei muito tempo para perceber que minha irmã vivia sob uma máscara e você, simplesmente... – ele parou e estalou as pontas dos dedos - consegue desvendá-la em um momento. O mesmo momento em que desmanchou a fortaleza que ela se escondia. E você nem a conhecia direito. Isso me surpreende.
Ouvir aquelas coisas me fazia bem. Mas não tinha muito mérito por isso. Eu não descobri aquilo, não foi minha intuição. Eu só estava cumprindo uma das minhas missões. Mas nenhuma fora como essa. Meus sentimentos estavam envolvidos e isso a diferenciava. Era como se, além de dever, fosse um prazer ajudar.
- Bom, isso é ser mulher. – sorri, olhando fundo nos seus olhos, assim como ele fazia. Parecia querer me desvendar. – Entender tudo que se passa no coração da outra é especialidade. – pisquei, fazendo-o rir, tentando desviar do assunto e das seguintes perguntas que viriam. – Você disse que seus pais foram embora? – o olhei e vi a sua expressão murchar.
- Não gosto de falar nisso, mas sinto que em você posso confiar. – começou a falar – Eles nos deixaram aqui com nossa avó. Fugiram para Londres, sua cidade natal. E nunca mais apareceram. Foi só o que ela disse. Não tinha motivo, explicação. E se tem, nunca vai revelar. Ela fugiu também, . Mas teve a decência de nos deixar bem financeiramente, pelo menos. – apertou as mãos em punho, suspirou e finalizou. Demorou alguns segundos para falar novamente. – Vamos, eu vou te levar para casa, chega de ouvir lamentos. – passou seu braço direito por meus ombros e sorriu, saindo do quarto, passando pelo corredor e indo em direção ao seu carro, estacionado na frente da casa.

Flashback off

Quando cheguei à faculdade, mal esperei estacionar e pulei para fora do carro, pois estava atrasada, como sempre. Mas dessa vez, não tinha avistado nenhum fantasma (graças aos céus) e nem encontrado me pedindo informações, foi apenas minha querida amiga, que demorou meia hora para me buscar, além do terrível trânsito que pegamos.
Nesse momento, não tinha condição alguma que eu entrasse na aula da Sra. Collins, então a minha correria havia sido em vão. Sentei em um dos bancos de madeira da universidade, olhando para o relógio de pulso, notando que ainda faltavam bons minutos para que a aula que eu perdia acabasse. Cruzei minhas pernas e puxei de dentro da bolsa, aquela mesma apostila que eu tentava estudar no sábado à tarde. Perdendo-me entre as imagens que explicavam o funcionamento do sistema circulatório, além daquelas nomenclaturas estranhas que eu já conhecia de cor, olhei para cima, distraída e me deparei com alguém em pé, me analisando e sorrindo. Pelo o que eu pude perceber, adorava me analisar. Retribuí com meu sorriso fraco, porém, o mais sincero que já consegui dar, mesmo estando estressada por estar perdendo uma das aulas mais importantes para meu currículo.
- Se perdeu novamente, ? – inicio minha fala, brincando e me desviando do que estava fazendo, olhando para o alto.
- Eu pareço perdido, ? – ele sorriu, entrando na brincadeira e sentando ao meu lado, numa distância razoável.
- Na verdade, não. Mas tem certas manhãs que eu acordo com esse senso de humor maravilhoso, então tenho que aproveitar.
- Será que é isso? Ou me ver logo cedo te deixa feliz? – E me lançou um daqueles sorrisos debochados. Gargalhei alto com sua hipótese.
- Sua humildade me assusta, , falo sério.
- Está vendo como sua gargalhada está gostosa? Bem melhor rir comigo, do que ler essa apostila chata. – ele puxou o papel que repousava em meu colo e leu rapidamente, citando as palavras - Veias, artérias, átrios e ventrículos. – olhei com uma expressão mortífera para ele, que o fez rir mais ainda.
- Pois bem, preciso disso – indiquei os desenhos da apostila e tomei de sua mão - para ser uma médica de sucesso e salvar as suas futuras fãs de morrerem do coração quando avistarem você subir no palco. – retruquei, piscando e mostrando que me importava com sua carreira, enquanto ele dizia que minha apostila era chata. Como eu adorava ficar por cima e ver a cara dele sem nenhuma resposta concreta para me dar. Sou má.
- Me deixou sem palavras, Dra. . Então, você acredita que eu serei um cantor famoso e deixarei todas caídas aos meus pés? – ele arqueou uma sobrancelha – Depois ainda quer que eu seja humilde. – e sorriu. Aquele sorriso que eu estava aprendendo a admirar e ficar vidrada.
- É, basicamente isso, mas eu tenho que saber se você é bom mesmo...
- Isso não é problema. Nessa sexta-feira, vou me apresentar num restaurante em Santa Monica. A galera de minha turma frequenta muito esse local. E me chamaram para ir com eles, porque, modéstia a parte, gostaram de minha voz. – ele arranhou a garganta, num gesto de brincadeira. Brincadeiras reinam por toda nossa conversa. – Se você for, me verá cantando e assim, terá uma opinião sobre mim, que tal?
- Será uma oportunidade para te lançar tomates, , eu adorei. – levantei os braços em sinal de alegria. Ele me lançou o mesmo olhar mortífero que eu havia enviado para ele minutos antes.
- Isso foi um sim?
- É, eu quero ver você cantando e encantando, . – sorri, apertando a sua bochecha direita.
Caminhando em direção à sala de aula, logo depois de ter me despedido dele e de todas as nossas risadas que encheram o início da manhã, fiquei pensando em como a gente se dava bem. Era impressionante como só aquela conversa me fazia sorrir que nem uma besta. Impressionante como sua presença me fazia bem. Sentia que tinha algo de diferente. Diferente de todos os outros garotos que eu conhecia. E a diferença era que ele conseguia me fazer esquecer o que realmente sou. Me faz esquecer que quando eu virar meu rosto na direção oposta ao dele, posso ver um espírito. E isso é bom o bastante para mim. Por isso eu queria estar cada vez mais perto dele e da alegria que ele irradiava.

Entrei na sala e me sentei, vendo meus colegas que eu não tinha muita amizade, entrarem e se acomodarem. Cada pessoa que passava no meu campo de visão era irrelevante, eu não conversava com quase ninguém. Só aquelas vezes que eram por precisão, como um trabalho ou seminário. Ser mediadora não te permite ter uma vida normal, muitos amigos e dividir segredos. E deve ser por isso que vivi anos revoltada com meu dom. Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber que um dom não deve ser desperdiçado, por mais que trouxesse consequências ruins e problemas inimagináveis.
Ver aquilo que ninguém vê. Saber coisas que ninguém sabe.
No fundo, isso é bom. E eu estava aprendendo a gostar disso, ainda mais depois do caso Kate&James. O amor daqueles dois e poder continuar vendo meu pai me mostraram que há males que vem para o bem.
Minha mediação faz parte deles.

Acabada a aula, fiquei esperando na entrada na faculdade para que fôssemos embora. O sol da Califórnia estava castigando os desavisados alunos que vieram para a UCLA de calça jeans e blusas de manga longa, acreditando que o tempo ruim que teve semana passada iria se repetir. Engano deles. E sorte a minha, que raramente vestia roupas longas. Mas nem assim o calor me perdoava. Olhando com os olhos apertados em direção ao campus, avistei de longe. Ela chegou correndo, dando pulinhos de alegria.
- VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU TENHO PARA TE DIZER! – os olhos dela brilhavam e seu sorriso ia de orelha a orelha - Vai chutando, você nunca vai acertar.
- A única coisa que eu vou chutar é você, , por me deixar esperando duas vezes num só dia.
- , não estraga a minha alegria... Eu nunca recebi uma notícia tão boa em toda a minha vida. Sabe o que eu vou ter que fazer para concluir meu curso?
- Não sei. Dirigir um filme? – chutei, provavelmente a coisa mais óbvia. E a expressão dela foi de decepção, mas não uma decepção verdadeira, mas de brincadeira, como tudo aquilo que envolvia a nossa amizade.
- Que coisa, amiga, poderia arriscar em outras coisas, só para me dar o gosto de saber que você nunca acertaria. – começamos a andar em direção ao carro dela, rindo.
- Tá, certo, você tá me dizendo que vai dirigir um filme em vez de escrever um artigo científico? – ela balançou a cabeça afirmando e batendo palminhas. – Certos momentos eu gostaria de cursar Cinema, , sério. – sorri para ela, continuando – Você é tão talentosa, amiga, que finalizar seu curso será fácil, fácil.
- Eu sei , sempre soube. – talentosa e convencida – Mas, eu vou precisar de você. Você será minha artista principal e protagonista. – gargalhei alto, irônica. Chegamos ao carro vermelho de e eu abri a porta, me sentando, enquanto ela ia pelo lado do motorista.
- Eu? Artista? Não seria melhor alguém experiente, tipo os alunos do seu departamento da universidade, ? – Quando pensei no departamento dela, automaticamente pensei em . Esse negócio de pensar nele estava ficando rotineiro. – Tipo assim, uma atriz, um cantor? – novamente. - Eu sou só uma aluna de Medicina que pretende salvar vidas e não encenar filmes.
- É mesmo? Uma aluna de Medicina, ? Quem disse que quero pessoas experientes? – ela disse, olhando para frente e segurando no volante – Quero o seu talento, . O meu filme vai ser sobre o seu dom. E vai ser o maior sucesso.
- Posso pelo menos pensar se vou deixar você me filmar?
- Pode, tenho um ano para entregar, então, você tem um tempinho. O mesmo tempo que eu terei para ir atrás dos figurantes, cenários, programas de efeitos especiais, além de encontrar um jeito de projetar os fantasmas e ainda...
E eu me calei, porque simplesmente não dá para continuar falando quando começa os monólogos dela.

Capítulo betado por Ana Caroline Mello

Capítulo 8


(n/a: Músicas do capítulo: 1ª música - Hero - 2ª música - Bailamos

Caminhando pelas ruas devagar, sentia a brisa que vinha do mar batendo em meu rosto levemente. A tarde estava indo embora e eu já avistava o sol se pondo no horizonte distante. Gostava de vir para esse lado da cidade, mais próximo da praia, para relaxar e pensar um pouco, ainda mais quando tinha um tempo sobrando. Entrei numa lanchonete, a Langer's, para comer algo. O local era bem iluminado e suas janelas de vidro temperado, deixavam a luminosidade que ainda existia do sol entrar. A decoração era baseada nos anos 50, com aqueles bancos vermelhos e compridos que comportavam até três pessoas, uma mesa branca no meio e outro banco igual do outro lado. Era um ótimo lugar para ir com os amigos. Sentei e quando a garçonete veio me atender, pedi apenas um refrigerante.
Olhava pela janela, o intenso movimento de carros que passavam e as pessoas que andavam apressadas na calçada. Para morar em uma das maiores cidades dos Estados Unidos é preciso saber conviver com toda essa agonia urbana e capitalista.
Um sino pequeno soou, indicando que alguém entrara na lanchonete. Continuava a observar a rua, até que ouvi uma voz fina, gritando meu nome.
- ! - levantei alegre quando percebi que a dona da voz era Kate . - Que bom te encontrar aqui! O que faz por essas bandas? – Abracei a morena de olhos e recebi beijos na minha bochecha.
- Passeando. Gosto de vir perto da praia para pensar, refletir. Ou apenas, olhar o mar. – sorri e Kate se sentou em frente a mim. – E você? Veio ver a praia também?
- Que nada, . Queria eu estar passeando que nem você. O hospital que trabalho é no outro quarteirão, então, sempre que me dá fome e tenho uma folga, venho aqui. – havia me esquecido que Kate era enfermeira. O comentou algo comigo no dia que estive lá, mas achei que era mais uma de suas brincadeiras. Para variar.
- Que bom te encontrar, Kate. Como anda a vida? Já tem um tempinho que não te vejo.
- É mesmo, sou uma ingrata. – ela riu e eu a acompanhei – Mas, você também... Parecia que estava fugindo de mim.
- Fugindo de você? Porque eu fugiria? Logo eu, que gosto tanto de você, . Como pôde pensar isso de mim? – arqueei uma sobrancelha, fingindo indignação.
- Ah, você sabe, . Não se faça de desentendida. Essa coisa toda de querer me esconder que você falou com o James. E de me explicar como acontece. – ela sorriu descontraída e acenou para a garçonete, fazendo seu pedido.
- Eu já sabia que não conseguiria escapar de você. E céus, como você é direta, hein? Custava um simples agradecimento e uma reciprocidade por eu gostar de você e sentir a sua falta? – continuava com minha falsa indignação e Kate apenas me olhava, esperando que eu terminasse minha fala, com uma cara impaciente.
- Não fuja mais do assunto, . Eu tenho um tempinho de folga, então, sou toda ouvidos. – sorriu e colocou uma mão no queixo, olhando diretamente para mim.
- Ok, ok. O negócio é: – comecei a falar mais baixo para não chamar atenção para a minha fala – eu vejo, ouço e converso com os espíritos. Simples, não? – pisquei os olhos inúmeras vezes e a olhei com uma expressão infantil. Kate bufou. Meu deus, cara de um, focinho do outro. E você já sabe bem de quem estou falando.
- Agora, me diga uma coisa que eu já não saiba. – Ela estava disposta a saber de todo o meu segredo (que nem é tão secreto assim, já que milhões de espíritos por aí, sabem que eu existo) ali, naquela mesa de uma lanchonete qualquer? Bufei como a Kate e continuei.
- E por ter esse dom, eu descobri alguns anos atrás, que além de vê-los, eu precisava ajudar os fantasmas, espíritos ou como você quiser chamar, a passar para o plano superior.
- E o James foi um desses espíritos que você ajudou.
- Bom, você entendeu essa mínima parte. – sorri e a garçonete chegou à mesa, com o lanche da Kate.
- Isso deve te trazer problemas, né, ?
- Mais ou menos. – sorri fraco - É bom ver meu pai de vez em quando – e ao falar dele, senti um aperto no coração. Fazia tempos que papai não aparecia e isso me preocupava, apesar de saber que está tudo bem com ele. Eram só saudades apertando meu peito. – E também foi ótimo ajudar o James, por mais que ele me irritasse às vezes. Olha só, isso tudo me levou à você – e ao seu irmão – e hoje, eu já te considero uma amiga, pois, se não considerasse, pode ter certeza, eu não teria aberto a minha boca. - fingir passar um zíper por meus lábios e Kate riu – E agora, que tal mudar o assunto?
- Que tal você me contar o que fará hoje à noite?
- Hoje à noite, você quer dizer, daqui a pouco... – e foi, então, que eu assimilei o dia de hoje e CÉUS, sexta-feira. Arregalei meus olhos rapidamente. Kate olhava minha expressão desesperada, rindo. Como eu havia esquecido? – Deus, , que horas são? – falei, me levantando abruptamente.
- Relaxe, . – Kate olhou o relógio e me informou - Ainda faltam boas horas para você se arrumar.
- Mas eu prefiro me adiantar, sabe? Sou uma pessoa muito complexa para me vestir. – sorri para ela e a abracei forte. – Você não vai? Digo, ver seu irmão cantor desafinado hoje à noite? – disse depois que a soltei e ela balançou a cabeça.
- Tenho plantão toda sexta. Eu quase não tenho vida social! – ela brincou.
- Realmente, está quase uma freira. – ri alto - Estou indo, Kat. Falo contigo depois. – a beijei na bochecha e saí da lanchonete, sem nem ter comido nada.

Estava em pé, de frente para meu closet, olhando para os pares de sapatos que estavam lá à minha escolha e percebi que meu celular vibrava em cima de minha cama. Caminhei rapidamente e atendi o telefonema, sem reconhecer o número no visor.
- Alô? – atendi interrogativa.
- Espero que você esteja pronta, Dra. . – a voz falava com um tom humorístico aparente e eu já sabia a quem pertencia aquele telefonema que, de certa forma me surpreendeu. – Pois, eu estou aqui embaixo te esperando, e você não quer que eu aperte a campanhia e diga à sua mãe que sou seu novo namorado, não é? – eu ri alto com a ameaça e com a “doutora” no início da frase.
- Espere só mais alguns segundos, estou terminando. E por favor, nada de revelações absurdas para a minha mãe.
Coloquei o celular dentro da minha bolsa e peguei o calçado que faltava no meu look. Terminei de me arrumar e dei uma última olhada no espelho. Eu
estava simples, mas, muito bonita, era preciso dizer. Desci as escadas, passando por minha mãe, que estava assistindo algum programa na TV, a beijei na testa, desejando-a uma boa noite. Abri a porta branca de minha casa, e avistei encostado em seu carro. E eu não me assustei com a presença dele ali, mesmo sem eu nunca ter dito onde era minha casa. Assustei-me com o tamanho do seu automóvel
. Para alguém que não vivia com os pais e que fora abandonado pela avó, ele estava muito bem. Pior estava eu, que via espíritos e andava a pé. Mundo injusto.
também estava lindo e muito bem arrumado. Vestia uma camiseta gola V cinza, com um blazer por cima, além de suas calças jeans um pouco folgadas em seu corpo. Calçava tênis de coloração bege.
Caminhando na sua direção, ele olhava cada movimento que eu realizava atentamente e eu mirava suas íris . Remexi meus cabelos e coloquei algumas mechas atrás da orelha, ficando de frente para ele.
- Boa noite, . – sorri abertamente – Sinto que tem algo errado por aqui.
- Errado? – ele arqueou uma sobrancelha e abriu a porta do carona para que eu pudesse entrar. Eu caminhei até a porta aberta e ele saiu da frente, dando a volta e sentando no seu banco.
- Eu nunca ter dito a você onde é minha casa, nem ter te dado meu celular e do nada, você aparece aqui? – minha vez de arquear a sobrancelha e fingir raiva. – Isso está cheirando à . – riu e afirmou com a cabeça.
- Foi ela mesma. Mas, , – ele se virou no banco de couro, direcionado para o meu lado – ainda não consegui ver o que está errado. Muito pelo contrário, - ele foi encostando sua mão em meu rosto e eu acompanhava cada movimento seu – você está muito linda e vai sair comigo, não com outro cara. Isto está mais do que certo. – ele finalizou, alisando minha bochecha levemente.
Eu sentia minha face formigar por cada canto que seu polegar passava e tinha quase certeza que minhas bochechas ruborizaram. Eu não sabia o que dizer e também não conseguia bloquear os olhares que nós estávamos trocando naquele simples momento, que tinha uma atmosfera diferente de tudo que eu já havia sentido com . Era algo novo. Novo e maravilhosamente bom. Mas, eu não identificava o que era. Até que uma pergunta veio à minha mente e eu pronunciei-a.
- Então, isso é um encontro? – falei, sentindo a ligação entre nossos olhos se quebrar e olhar para outra direção, pensando numa resposta.
- Isso importa? Nós estamos aqui. Mesmo se não for um encontro, eu estou com você. E é isso que realmente importa agora – ele sorriu fraco, arrancando de mim, um pequeno sorriso também. se afastou de mim e arrancou com o carro. E eu fiquei estática por um curto espaço de tempo, refletindo sobre como ele havia me surpreendido. De novo.

O Yuca’s era um local muito bem freqüentado e se localizava em Santa Monica, um dos melhores bairros para ir à noite, em LA. O bairro era morada de muitos descendentes mexicanos que viviam no país e a predominância de restaurantes, lojas e festas relacionadas com o México era visível. Yuca’s era um desses.
Eu nunca havia estado num restaurante mexicano e estava adorando. Assim que passei pelos arcos verdes, na área externa do restaurante, acompanhada por ao meu lado, percebi que a decoração era perfeita, bem típica com cores vermelhas e verdes por todos os cantos, além de cactos fictícios e chapéus gigantes de palha pendurados nas paredes. As mesas e cadeiras eram todas de madeira lisa, envernizadas, assim como o teto, que sustentava luminárias redondas acima de todas as mesas. O palco, que eu deduzi que cantaria era de tamanho médio, também revestido em madeira e havia duas pessoas de pele morena cantando alguma música na língua espanhola. Na frente do mesmo, tinha um grande espaço onde as pessoas dançavam em casais, a música romântica.
foi andando em direção à uma mesa, onde estavam sentados 3 casais, não sei se eram exatamente namorados, mas estavam juntos.
- Boa noite dudes – falou e cumprimentou seus colegas homens com as mãos e as mulheres com beijos no topo da cabeça. – Essa aqui é a . – ele apontou para mim – Ela cursa Medicina lá na UCLA. – todos me olharam e deram sorrisos alegres, enquanto, eu apenas levantei a minha mão direita em sinal de um cumprimento tímido. – , esses são Brad, Ian e Robert com suas respectivas namoradas, Jessica, Lexi e Emma. – sorri de volta para eles e me sentei ao lado de , no círculo de amigos dele.
Ele estava ali, conversando com animação com seus colegas e eu preferi ficar quieta, só ouvindo e observando, com minhas mãos repousadas em minhas pernas descobertas. Desviei minha atenção da conversa paralela na minha frente e olhei para o palco, me envolvendo na música que tocava e vagando entre pensamentos. Quando retornei meu olhar para as pessoas na mesa e me desviei de meus pensamentos aleatórios, senti a mão direita de parar sobre as minhas e encostar seu corpo mais perto do meu. O que era isso? Esses arrepios? Essa vontade impulsiva de também tocá-lo? E porque ele estava fazendo tanta questão de estar tão próximo de mim hoje? Eram perguntas que eu não queria, nem ia responder. Eu só iria sentir todas essas sensações da melhor maneira. Sua boca encostou-se a meu ouvido e ele sussurrou:
- Está tudo bem contigo, ? – a sua pergunta soou tão preocupada e naquela situação, tão envolvente. A proximidade que estávamos adquirindo era algo que não dava para controlar.
- Sim, tudo bem, só estou pensando, como sempre... – sussurrei de volta e o olhei.
- Pensando em mim? – sorriu presunçoso. Se ele soubesse que era nele mesmo que eu pensava.
- Talvez sim, talvez não. Depende da maneira que você vá reagir a isso – falei baixo, sorrindo fraco.
- E se a minha reação for essa? – e se aproximou o bastante para que nossos lábios roçassem um no outro. Estava paralisada, só esperando o que viria a seguir. A reação dele era um beijo? Então fazia sentido estar pensando nele. Ah, fazia MUITO sentido. Acho que sentimentos estranhos e repentinos estavam sendo correspondidos.
Estávamos naquela situação por alguns segundos. parecia esperar alguma correspondência minha, foi quando eu fechei meus olhos lentamente e Ian gritou de longe, lá perto do palco, onde conversava com um homem, que parecia ser o organizador das apresentações ali no Yuca’s:
- , é a sua vez de cantar! – abri meus olhos e pareceu sair de um transe ao ouvir a voz do amigo. Desviou seu olhar de minha boca para meus olhos, levantando-se de sua cadeira.
- Volto já – falou, sem som algum, apenas com os movimentos de seus lábios.

Acompanhei caminhar até o palco e posicionar-se no microfone. Acordes calmos de violão começaram a tocar e ele fechou seus olhos, sentindo a melodia e começou a cantar.

Would you dance if I asked you to dance
Você dançaria se eu te pedisse pra dançar?
Would you run and never look back?
Você correria e nunca mais olharia para trás?
Would you cry if you saw me cryin'
Você choraria se me visse chorando?
Would you save my soul tonight?
Você salvaria a minha alma hoje à noite?

Tinha que assumir, ele realmente tinha uma voz muito bonita. Ele abriu os olhos e me encarou firme, no mesmo momento em que terminou a última frase da estrofe. Se eu salvaria a sua alma? Eu deixaria de lado qualquer alma para salvar a dele. Poderia ser a mediadora de uma alma só. Era um instinto que existia dentro de mim e que crescia a cada segundo que eu ouvia a sua voz sedutora e rouca e seus olhares em minha direção.

Would you tremble if I touched your lips?
Você tremeria se eu tocasse seus lábios?
Would you laugh?
Você sorriria?
Oh please tell me this.
Oh por favor me diga isso!
Now, would you die for the one you love?
Agora,você morreria pela pessoa que você ama?
Hold me in your arms tonight.
Agarre-me em seus braços esta noite.

A escolha dessa música havia sido tão oportuna, feita para aquele momento. A maneira que seus lábios estavam próximos dos meus agora a pouco. segurava forte no microfone que estava suspenso pelo suporte e fazia movimentos com suas mãos a cada palavra que saía de sua boca. Eu apenas estava observando-o, como ele cantava. Ele se entregava a cada tom do violão. Vivia a música. Qualquer um percebia que era aquilo que ele gostava de fazer. E que tinha talento para tanto.

I can be your hero, baby.
Eu posso ser o seu herói, baby
I can kiss away the pain.
Eu posso te beijar e afastar a dor.
I will stand by you forever.
Eu vou esperar por você para sempre
You can take my breath away.
Você pode tirar o meu fôlego

Sem desviar de mim, ele começou o refrão, subindo vários tons em sua voz, como se quisesse enfatizar o que estava cantando. Parecia que tudo o que estava sendo cantado era verdade. Que ele seria meu herói. Que poderia afastar a dor. Tudo parecia tão complicado, mas, ao sair da boca dele, se tornava simples. Não tinha como negar, eu estava totalmente envolvida com . Mesmo com a pequena distância da mesa para o palco, sentia uma conexão nos unindo. Como se fôssemos só nós dois naquele lugar.

Would you swear that you'll always be mine?
Você juraria que você vai ser sempre minha?
Would you lie?
Você mentiria?
Would you rub in mind?
Passaria na sua mente?
Am I in too deep?
Estou tão profundo?
Have I lost my mind?
Perdi minha cabeça?
Well,I don't care you're here tonight.
Bem, eu não me importo, você está aqui esta noite

I can be your hero, baby.
Eu posso ser o seu herói, baby
I can kiss away the pain.
Eu posso te beijar e afastar a dor.
I will stand by you forever.
Eu vou esperar por você para sempre
You can take my breath away.
Você pode tirar o meu fôlego

I just wanna hold you.
Eu só quero te abraçar
Am I in too deep?
Estou tão profundo?
Have I lost my mind?
Perdi minha cabeça?
Well, I don't care you're here tonight.
Bem, eu não me importo, você está aqui esta noite

E então, apontou para mim. Foi baixando a mão lentamente, enquanto terminava de cantar o último refrão da música.

You can take my breath away.
Você pode tirar o meu fôlego
I can be your hero, baby.
Eu posso ser o seu herói, baby

Palmas de todo o restaurante explodiram. As pessoas sentadas na mesa, inclusive Emma, Jessica e Lexi, olhavam para mim, esperando encontrar algo na minha feição que denunciasse um possível relacionamento com o . É óbvio que todo mundo percebeu que a música era para mim. Todos os movimentos, olhares e aquele apontamento no fim. Estava na cara. Quem não notasse, seria muito burro.
Estava paralisada, como todas as vezes que me surpreendera. Eu pensava milhões de coisas, mas não tinha nenhuma ação. Sorria fraco, um sorriso discreto. Afinal, que mulher não gostaria de ter uma canção direcionada a ela por e ainda mais, com uma letra tão convidativa e romântica como aquela? Essa mulher não seria eu.

agradeceu a todos e desceu do palco. Mas, não veio na direção da mesa, e sim, para o bar pouco iluminado e pediu alguma bebida. Tomei coragem e me levantei, indo até lá. Alguma coisa eu tinha que fazer. E aqui estava eu. Quando cheguei perto dele, ele percebeu a minha presença e sorriu abertamente, sendo acompanhado por mim.
- Você realmente canta bem. Ouviu todas aquelas palmas? – ele balançou a cabeça, afirmando.
- Que bom que eu canto bem. Sendo assim, me livrei de seus tomates, ?
- Tecnicamente, sim. – sorri.
- Eu sabia que não iria decepcioná-la – ele ficou de frente para mim, com cada braço de um lado de meu corpo, me empresando na bancada do bar e próximo a meu pescoço – ainda mais, quando essa música foi inteiramente dedicada para você. – como de costume nessa noite, ele sussurrou em meu ouvido, me causado arrepios e provando de vez o interesse que sentia por mim. E que eu também sentia por ele.
- Você consegue tirar meu fôlego, . – suspirei pesadamente
- Isso não é nada, . – ele tirou seus braços que estavam em minha volta e pegou a minha mão esquerda, a beijando. - Você dançaria se eu te pedisse pra dançar? – afirmei com a cabeça, sorrindo da colocação do trecho da música em nossa conversa. Ele puxou minha mão, indo em direção ao salão, onde vários casais já estavam esperando o próximo cantor. Quando chegamos, me levou para o meio e uma música sensual, tipicamente espanhola, começou.

Esta noche bailamos
To doy toda mi vida
Quedate conmigo


Ele me puxou pela minha cintura devagar, juntando nossos corpos. Eu sabia dançar, mas esperava que me guiasse e foi o que ele fez, me mostrando que também dominava esse tipo de dança. Sua mão esquerda estava segurando meu quadril e a sua outra mão pousou sobre meu rosto, passando as costas da mesma na lateral da bochecha e mexendo em alguns de meus fios de cabelo. A melodia se juntou à voz do cantor que dominava o espanhol, tanto quanto o inglês. Nesse momento, me girou num movimento devagar, porém, no ritmo. De frente para ele novamente, envolvi seu pescoço com meus braços e as suas mãos estavam apertadas em meu corpo, na altura da cintura, uma de cada lado.

Tonight we dance
Nothing is forbidden anymore
Nothing can stop us.


Mexia meus quadris no ritmo certo e provocava a mesma reação nele. Nossos movimentos eram sincronizados. Pareciam ter sido ensaiados por dias e dias. Onde o pé dele ia, era seguido pelo meu e vice-versa. Desci minhas mãos para seus ombros, quando ele me virou de costas para ele e beijou a base de meu pescoço descoberto, ainda com as mãos em minha cintura. Eu simplesmente me balançava, acompanhando-o e senti inúmeras descargas elétricas passando pelos meus músculos e arrepiando meus braços e pernas completamente. Estávamos uma atmosfera sensual e provocante e ele fazia questão de me mostrar isso. A letra da música e o seu ritmo ajudavam bastante nesse ponto.

Bailamos
Let the rhythm take you over
Te quiero amor mio


Ainda de costas para , ele falou no meu ouvido:
- De onde tiramos tanto desejo? Há semanas atrás, eu nem te conhecia e hoje, estou sofrendo por um beijo seu. Pedindo por cada vez mais contato. Para nunca mais sair de perto de ti. O que você fez comigo, ? – suas palavras eram sussurradas e eu sentia meu ego subir com suas palavras.
- Também estava buscando explicações e desisti, . Vamos apenas – virei de frente para ele, ainda dançando – esquecer e curtir esse momento.

Tonight I'm yours
We're gonna dance through the night
I'm gonna reach for the stars


Dançamos mais um pouco, sem falar nada e num passo da dança, cruzei minha perna na dele e segura em seus braços, me joguei para trás, deixando meus cabelos caírem, erguendo meu busto para cima. Voltei lentamente e fiquei em pé.
- Essa noite significa muito, . Você significa muito.
- E o que eu significo para ti, ? – falei baixo no seu ouvido.
- Mi sueño¹ – ele soltou as três palavras como se não pensasse. Como se elas estivessem lutando para sair de sua boca. Ele falou como se não tivesse noção. Foi com a alma. Era a alma dele gritando o que eu era. Então, eu sorri. O sorriso perfeito dele acompanhou o meu e então, ele juntou nossos lábios. A boca quente de contra a minha despertou várias sensações. Nossas línguas se encontraram e dançavam conforme nossos corpos. Passei minhas mãos por entre os cabelos curtos dele e puxei de leve. Tudo parecia tão distante. As vozes, as palmas no fim da música. Éramos nós dois ali no meio, como se refletores nos iluminassem e todo o resto ficasse na escuridão.
Quando nos separamos, eu levantei meu rosto para analisar a sua expressão e o vi sorrindo.
- Sonhos são utópicos, . Eu nunca serei uma utopia para você. Não é á toa que estamos aqui. – ele sorriu abertamente.
- Foi o que você significava para mim naquele instante. E simplesmente, isso veio no meu pensamento. É inexplicável, como tudo que nos envolve.
- Sabe, para que explicar? Gosto da ideia de ser seu sonho. E também gostei da maneira de como disse isso. – sorri, com os braços em volta de seu pescoço. – Espanhol? E eu pensava que você não poderia me surpreender mais.
- Bésame, . No hay nada que hablar². – ele sorriu convencido e me puxou para si, grudando nossas bocas novamente.

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¹ - Meu sonho
² - Me beije, não há nada para falar.

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Capítulo 8


Capítulo 9

Narração em 3ª pessoa

O local em que ele se encontrava não era um dos melhores. Muito pelo contrário, era o pior lugar que um espírito poderia estar. O lar do Hades grego ou o próprio purgatório não se comparavam em nada àquilo. Sua natureza era de pântanos, caminhos escuros, bastante enfumaçados, com imensos labirintos, estradas perigosas e cheia de almas em dores e sofrimento. A névoa densa que cobria toda atmosfera dificultava a penetração da luz solar e da lua. A impressão que se tinha era que o dia era formado por um longo e sombrio fim de tarde.
Ele já conhecia aquelas terras de cor, de tanto tempo que estivera lá. Foram minutos, horas, dias e anos incontáveis. Sempre esperando por uma luz. Sempre buscando o último pingo de esperança. Seu apego material ou até o próprio descaso com assuntos religiosos fizeram de sua chegada ao umbral um verdadeiro inferno. Sua vibração espiritual atraia as piores almas que ali se encontravam. Verdadeiros assassinos, suicidas e almas desajustadas rondavam-no diariamente, trazendo à sua memória, as cenas daquela noite obscura. Trazendo de volta e incessantemente, seus erros que ele procurava esquecer.
Ele não podia contar, mas passara doze anos naquela escuridão solitária, sentindo fome, sede, frio e calor inenarráveis. Mas ele não morria. Não morria, porque simplesmente, já estava morto.

/fim da narração em 3ª pessoa

Abri os olhos devagar e encarei o teto do meu quarto. Já havia amanhecido e se remexia ao meu lado, na antiga cama de Deb. Ela murmurava coisas sem sentido enquanto dormia e eu ri baixo de sua situação. estava me esperando aqui em casa ontem à noite, simplesmente, para eu contar tudo o que aconteceu no meu encontro com , isso porque ela estava por trás de tudo, o tempo todo. Se não fosse minha amiga desde as fraldas, eu ficaria surpresa. Quando eu a contei sobre o beijo, ela só fez uma cara de “eu já sabia” e disse com todas as letras que já estava na hora de desencalhar. Só me restou rir e ficar que nem uma adolescente apaixonada, pensando no o tempo inteiro.
Senti meu celular vibrar em algum ponto da minha cama e levantei o cobertor à sua procura. Era uma mensagem dele. Permiti que um sorriso se abrisse em meus lábios e li a mensagem que dizia:

Se eu disser que sonhei com você, seria muito irônico?
Pois saiba, é a pura realidade, você não sai de minha cabeça.
Beijos, .


Ele, definitivamente, sabe conquistar uma mulher. Fiquei lendo e relendo aquela mensagem várias vezes e pensando na nossa ligação sobrenatural. É isso mesmo. Sobrenatural, não tinha outra hipótese. E olhe que dessas coisas inacreditáveis, eu entendo bem. Como eu podia sentir o que eu estava sentindo pelo se eu sempre fui fechada para paixões e amores? Se eu nunca me deixei envolver? E assim, do nada, ocorre uma explosão de desejo dentro de mim? Eu me sentia extremamente bem, segura e disposta a enfrentar todo e qualquer problema. Não sabia o que significava, mas iria descobrir.
Levantei e fui direto ao banheiro realizar minha higiene matinal. Olhava-me no espelho e desviei meus pensamentos para meu pai. Lembro-me que uma vez ele comentou comigo sobre amor além da vida.

Flashback

- Pai, não adianta, não dá para acreditar nessas coisas! – fiz um cara de incredulidade e ri baixo sem humor.
- Algo que é muito estranho, já que você tem uma missão totalmente relacionada com esses assuntos. – eu estava na cozinha, preparando o almoço e meu pai se encontrava sentado à minha frente, do outro lado da bancada de mármore.
- Olha, paizinho... Eu acredito em reencarnação, fantasmas e até na honestidade dos políticos, mas, acreditar que Deus criou uma alma gêmea a minha e que está perdida em algum lugar por aí? Isso é romântico demais para mim. – meu pai suspirou alto.
- Você é tão cabeça dura, . – ele sorriu e balançou a cabeça. – Quando irá perceber e aceitar as coisas que estão bem na frente do seu nariz? Almas gêmeas existem sim, mas não nessa sua concepção.
- Então, pai, conceitue, por favor. – disse irônica.
- Almas gêmeas são aquelas que se juntam por uma grande afinidade. É uma ligação de amor, carinho e fraternidade tão forte que ultrapassa as barreiras do plano espiritual. Elas não se buscam, simplesmente... Se encontram, se atraem. – suspirei alto, evitando o máximo possível que meu pai percebesse a minha inquietação.
- E se eu disser que eu já conheço a sua? O que você me diria? – me olhou profundamente e levantou a sobrancelha. Eu senti minhas mãos tremerem levemente. E se tivesse mesmo alguém à minha espera?
- O senhor não me diria quem é, eu tenho certeza. - ergui os ombros e continuei meus afazeres culinários.
- Não diria mesmo, mas isso não é motivo para você desacreditar. Mas, o tempo, , é o mestre de tudo. Quando você encontrar a sua alma afim, você sentirá, não precisarei te dizer. O amor irá te esclarecer. – ele sorriu e eu o acompanhei, involuntariamente.

/flashback off

Almas gêmeas? Isso soava tão romântico, coisa de apaixonados e ao mesmo tempo, condizia tanto com a realidade de uma mediadora. Eu estava passando a acreditar. Era mais do que óbvio para mim. Se eu não havia encontrado ainda, iria esperar ou simplesmente, arriscar. Afinal, não é de atitudes, riscos e boas iniciativas que os relacionamentos são feitos?

Narração em 3ª pessoa

Cansado, desgastado, era assim que se sentia. Havia caminhado muito por aquela escuridão, buscando alguma saída. Saída essa que não estava ao seu alcance. O que ele não sabia, nem pudera imaginar, era que aquela imagem infernal que via era oriunda de seu interior. Via o que desejava e o que acreditava.
Seu cansaço era psicológico, mas foram seus pés feridos e calejados de tantas caminhadas sem rumo que o fizeram ceder. Ele caiu sobre o chão sujo e enlameado daquele submundo, batendo suas costas com força contra uma pedra. Fechou suas pálpebras pesadas rapidamente e já ouvia as vozes daquelas almas desajustadas que ele sempre conseguiria afastar, porém naquele momento, suas forças estavam esgotadas. O fogo, o ar que faltava, os gritos, tudo que acontecera naquela noite voltava para seus pensamentos de maneira agressiva, dolorosa. Ele sabia que merecia sofrer, mas não naquele grau. Passaram-se muitos anos, tendo que agüentar e lutar contra o mal que prevalecia ali, mas agora todas as esperanças pareciam terminadas.
Sua vontade era de mudança, de renovação e por isso, ele resignou-se. Pediu com toda a sua alma, que alguém o salvasse, pediu pelo amor daquele ser divino que ele havia rejeitado durante toda a sua vida. Ele pediu com fé.
As vozes insuportáveis cessaram, os umbralinos se dissiparam e uma luz refletiu pelo local, atravessando até mesmo as barreiras de suas pálpebras fechadas. Ao abrir seus olhos, viu uma figura feminina, estendendo a sua mão e dizendo:
- Levante-se, Hector, esse não é mais o seu lugar.

Hector’s POV

Abri os olhos rapidamente com receio do que iria encontrar. Se eu ainda estivesse naquele local obscuro, então, meus esforços teriam sido em vão e aquela mulher que eu tinha visto só seria mais uma de minhas alucinações.
Estava deitado em uma superfície macia, acolchoada. O local em que eu estava era bem iluminado e várias outras pessoas dormiam em macas iguais a minha. Ao meu lado, tinha uma cômoda de tamanho mediano com uma taça de água cheia e um comprimido sobre um prato. Ao ver aquele líquido transparente que há tanto tempo não bebia, pensei em me levantar para pegar, mas uma voz interviu:
- É melhor que fique bem quieto, Hector. Não está totalmente curado. – a mesma moça de cabelos dourados que me salvara da escuridão apareceu na minha visão. Ela encostou-se à minha maca devagar. – Como se sente?
- Muito confuso.
- Era de se esperar. Mas, eu estou aqui para te ajudar. Meu nome é Agnes. – ela sorriu fraco e depois, começou a vestir luvas transparentes.
- O que, exatamente, você é? – virei meu rosto, para a direção em que ela se encontrava.
- Sou a mesma coisa que você, um espírito. – terminou com as luvas e virou-se para mim novamente – Agora, não se movimente. Vou tentar curar umas dessas feridas.
- Então... eu morri? – ignorei sua advertência.
- Pensei que já soubesse disso, Hector. – ela começou a movimentar suas mãos lentamente sobre o meu joelho, circularmente, sem tocá-lo.
- É claro que eu sabia, mas não imaginava que a morte me levaria àquele lugar. – eu podia sentir a minha pele cicatrizar, só com aqueles movimentos e me espantei. – Como é que você consegue fazer isso?
- Nós, anjos guardiões, mentores espirituais ou como prefiram nos chamar, temos um poder muito grande, pelo simples fato de nos responsabilizarmos pela proteção da vida de outro ser, de outro espírito encarnado. Não é uma tarefa muito fácil, se quer saber... Precisamos de muitos artifícios especiais, como esse de cura, por exemplo.
- Você é um anjo? – olhei-a com dúvida – Não deveria estar cuidando de seu protegido agora?
- A minha protegida sabe se virar muito bem sozinha. – ela terminou o seu trabalho de cura e retirou suas luvas - E de uma forma ou de outra, cuidar de você envolve cuidar dela.
- E o que eu tenho a ver com a sua protegida?
- Hector, chega de perguntas por hoje. Ou por um bom tempo. Todas as suas dúvidas serão respondidas em breve. – ela sorriu, coisa que fazia constantemente – Agora, tome esse comprimido aqui e descanse, você precisará, pois amanhã iremos fazer um passeio que te esclarecerá inúmeras coisas. – ela me deu o comprimido junto com a taça e eu engoli tudo rapidamente.
Ela se afastou de minha maca, dirigindo-se à saída, quando eu a chamei:
- Agnes, por favor, me chame de Jesse. O nome Hector é muito formal. – ela concordou e sorriu, para variar e desapareceu de minha vista.

/Hector’s POV

Um dia depois...


Mesmo depois de um bom tempo do episódio com a Kate, eu ainda me lembrava de como chegar lá. Estava na frente da casa do , parada dentro do carro de , só observando. Estava sozinha, e apesar de não ter carro, eu sabia dirigir. Sai do automóvel e me dirigi à porta. Eu não sei o que havia me levado até ali, a única coisa que eu sabia era que eu estava prestes a apertar a campainha, sem medir se aquilo era precipitado demais ou não.
Ao soar estridente, a pessoa que estava em domicílio não demorou a me atender e quando eu encarei aqueles olhos e aquele sorriso inconfundível, não consegui esconder minha alegria. Ele veio em minha direção, botou as mãos na minha cintura e me deu um selinho carinhoso.
- Que visita inesperada. Adivinhou que eu estava querendo te ver?
- Devo ter adivinhado ou nossas mentes estão ligadas.
- Será que um espírito bondoso te enviou até aqui? – ele arqueou uma sobrancelha e me puxou para dentro de casa, sem desgrudar de mim. – Será que você é um anjo?
- , deixe de exageros. – sorri brincalhona e nos sentamos no sofá enorme de sua sala de estar.
- E aquilo que você fez para o James e a Kate? Não te faz digna de ser um anjo?
- Longe disso! Ajudar é apenas o meu trabalho.
- Trabalho interessante esse.
- Nem tanto. – mantinha meu olhar fixo á minha frente, raramente piscava meus olhos.
- ? Está tudo bem? Para onde você está olhando?
Essa não era a pergunta exata, . Deveria perguntar para quem eu estava olhando. Eu imaginava como estava a minha expressão. Abismada, surpreendida, encantada, era um misto de sensações.
Os espíritos presentes ali eram diferentes. Era um casal, a mulher era linda, suas madeixas loiras com enormes cachos caindo sobre os ombros e olhos azuis brilhantes. Pelo que eu pude observar em tantos anos de mediação, ela era evoluída. Não estava ali em busca de minha ajuda.
Já o homem era indescritível. Tinha uma beleza estonteante, uma pele bronzeada e cabelos pretos e lisos, caindo naturalmente pelo seu rosto. No mínimo momento em que nossos olhares se encontraram, vi que sua reação fora a mesma da minha. Ele estava estranho, não sabia exatamente para quem olhar, para mim ou .
Alucinação ou não, na mesma medida que apareceram, evaporaram. E eu fiquei olhando para o nada. Quando me toquei do olhar de sobre mim, encostei minha cabeça no seu peito e disse:
- Não foi nada, estava apenas pensando em você.
- Para quê pensar, se eu estou aqui?
- Exatamente. Você está aqui e nada mais importa. – falei mais para mim mesma do que para ele.

Capítulo 10


Por que essa aula não acabava logo? Parecia que o tempo gostava de conspirar contra mim. Pela primeira vez na minha vida de aluna aplicada, eu não estava com vontade nenhuma de estar na faculdade. Não via a hora de chegar em casa, me jogar na minha cama, dormir e afastar de vez aqueles pensamentos que insistiam em me dominar. Pensamentos que se resumiam em fantasmas lindos e estranhos que aparecem para mim sem qualquer explicação e... . Já estava ficando fora do meu controle pensar nele o tempo todo, ainda mais quando eu o via todas as manhãs e ele fazia questão de me cumprimentar de uma forma bem íntima, se assim podemos expressar.

O sinal havia tocado e os meus colegas já estavam se retirando da sala, junto com o professor. Ainda anotava alguns pontos importantes sobre o assunto que o professor havia explanado hoje e demorei um pouco a sair. Quando acabei, coloquei todo o meu material dentro da minha bolsa de modo desajeitado e levantei. Ao passar pelo vão da porta, distraída, esbarrei num corpo quente, alto, másculo e bom... Era o .
- Hey, estava aí há muito tempo? – Sorri para ele e olhei rapidamente para seu rosto, desviando depois para me recompor do esbarrão.
- Não, têm poucos minutos. Estava só te observando de longe, analisando como você consegue ser linda e tão nerd ao mesmo tempo – ele sorriu de canto, com uma expressão irônica. – Você existe, ? – Ele apalpou minhas bochechas brincando e arrancou sorrisos de mim.
- Por que não existiria? Do lugar que você veio não existiam meninas lindas, estudiosas e inteligentes, todas no mesmo pacote? – O encarei e depois comecei a andar pelos corredores do departamento de saúde da UCLA.
- Bom, , se existia, eu não sei, mas nenhuma deve se comparar a você. – Corei com o que ele havia dito e olhei diretamente para seus olhos. Aquela situação estava me deixando muito envergonhada.
- Obrigada, . – Foi o que eu consegui formular para respondê-lo.
- Eu digo essas coisas lindas de você e a única coisa que você me responde é um “Obrigada”. – fingiu indignação e cruzou os braços. – Você é mesmo uma menina muito má, . Vou desistir de você.
- Oh, você não conseguiria – ri de sua cara emburrada, que segurava risos. – Olhe para isso, nem fingir que estar irritado comigo você consegue.
- Além de má, é convencida? Merece um castigo dos grandes. – Ri alto.
- Qual o seu plano?
- Ainda estou pensando nele, ok? Você não vai se livrar fácil, senhorita .
- Ok, enquanto você pensa, eu vou andando, pois estou louca para chegar em casa. – Me aproximei dele e dei um beijo na sua bochecha.
- E onde está a ? – Ele me segurou pela cintura, enlaçando seus braços ao meu redor.
- A adoeceu e não veio hoje. Vou para casa a pé, uma coisa inédita. – Sorri fraco e encarei sua expressão estranha.
- Hum... – Ele fez uma cara de criança traquina. – Então já sei qual será o seu castigo...
- É mesmo? E qual... – Parei de falar quando senti me pegar no colo. Parecíamos um casal de namorados. As pessoas nos olhavam estranhas, rindo daquela cena ridícula de uma mulher crescida sendo carregada no colo. Mas para mim parecia tão certo, tão bom e tão divertido. – , me coloque no chão. O que você vai fazer comigo? – Ria, sendo acompanhada por ele.
- Eu vou te levar em casa, esse é o seu castigo. Ficará meia hora presa comigo. – Chegando à sua Hilux prata, ele me colocou no chão.
- Só? Mas isso não é castigo. – Cheguei mais perto dele e falei no seu ouvido – isso é bom demais. – Desviei e dei um beijo no canto de sua boca.
- Não me provoque, mocinha. Preciso de concentração para dirigir. – Ele me deu um selinho demorado, assim como em todas as manhãs, e se separou. – Vamos, entre no carro. – Eu sorri e abri a porta, entrando no carro no mesmo instante que ele.

Passamos um bom tempo conversando, ouvindo músicas e algumas vezes colocava sua mão na minha coxa e vice-versa. O carro dele virou a esquina e entrou na minha rua. Ele parou em frente à minha casa e eu me virei para :
- Obrigada pelo castigo, digo, pela carona.
- Por nada, esse foi o melhor castigo que eu já apliquei em alguém. – Ele sorriu.
- Então, até amanhã na faculdade.
- Até amanhã, . – Abri a porta do carro e ele me segurou pelo braço, olhei para ele e fiz cara de interrogação. – Não vai se despedir devidamente?
- Acho que o seu estoque diário de beijos meus já se esgotou. – Olhei-o e ri baixo.
- Aham, até parece. – me puxou e me beijou. Mas desta vez não havia sido um selinho, foi um beijo mais aprofundado. Ele colocou sua mão na minha nuca e eu o envolvi levemente com meus braços. Ele nos separou e ficou com seu rosto bem próximo ao meu. – Agora sim está liberada do castigo. – Ri e não falei nada, apenas dei um selinho nele e saí de seu carro, entrando em casa.

Rumei para meu quarto, joguei a bolsa em cima da poltrona e me aproximei da janela. A Hilux ainda andava pela minha rua, vagarosamente, já bem distante e eu apenas sorri, porque eu não tinha outra reação. Fiquei observando desaparecer da minha visão e fiquei ali só pensando em como aquele momento tinha sido diferente. Estava cansada de tentar desvendar o nosso relacionamento, era tempo perdido, iria simplesmente aproveitar todos os momentos e esquecer minhas dúvidas. A verdade viria e tudo iria se esclarecer. Não era isso que o Dr. sempre dizia?

Então eu comecei a sentir aquela sensação. Meu sensor de espíritos estava apitando dentro de mim, pois aqueles arrepios e calafrios não eram normais. Já estressada, sabendo da presença de algum fantasma que havia afastado os lindos olhos de de minha mente, virei devagar, reclamando:
- Oh, meu Deus. Santa providência divina! Será que alguém me ouve aí em cima? Parem de ensinar a esses fantasmas onde encontrar a minha casa. Mediadoras também precisam de férias, sabiam? – Falava, olhando e apontando para o alto.
Quando baixei meu rosto e encarei o espírito, calei minha boca imediatamente. Era o mesmo cara lindo e bronzeado que apareceu para mim na casa de . Porém, desta vez, ele estava sozinho.
- Então, aquele rapaz... ele é seu namorado? – Sua voz soou e eu fiquei parada, como estava antes. A voz dele era tão envolvente quanto a sua imagem sedutora em minha frente. Usava uma camisa branca com vários botões abertos e uma calça um pouco apertada. – Ele a beijou.
- O que, exatamente, você tem com isso? – Coloquei as mãos na cintura e fiquei o encarando. Encarando a sua beleza fora do comum e sobrenatural, mas também irritada com o seu intrometimento. – É difícil entender que eu estou cheia de vocês me perseguindo e achando que sou uma amiguinha de infância que não vêem há anos?
- Mas eu não te persigo.
- E como sabe que ele me beijou, coisa esperta?
- Assumo que vi apenas essa pequena cena no automóvel. Nada mais.
- Oh, claro. Agora quer logo me dizer o que deseja e vazar daqui? – Falava alto e apontei para a porta.
- Por favor, se acalme. Não vou te fazer mal algum. – Suspirei pesadamente e sentei no parapeito da janela.
- Certo, irei me acalmar. – Falei irônica, porém mais calma. Aquele fantasma maldito tinha um efeito sobre mim que eu desconhecia. – Vamos começar de novo e da maneira certa. Qual é o seu nome?
- Meu nome é Hector.
- Ok, Hector, meu nome é e eu sou uma mediadora, mas disso você já sabe. O que você quer que eu faça por você? Tem alguém que você deseja mandar um recado na secretaria eletrônica? Porque é para isso que eu sirvo. – Ri baixo e o encarei.
- Não desejo contatar ninguém, senhorita. – Ele me olhava sereno. Seria possível existir um espírito daquele jeito?
- Então que diabos você quer aqui? – Com as mãos apoiadas no quadril, indaguei.
- Este é o meu espaço, é onde eu devo estar. – Hector falou pausadamente e me permitir gargalhar.
- Preciso ressaltar que este é o meu quarto... Então, este é o meu espaço!
- Porém nem sempre foi. Você não sabe quantos anos essa casa possui?
- Não... Mas não interessa! Você não pode ficar aqui. Não tem ninguém para assombrar? Ou então, eu faço uma magia para ver se te despacho. É só pedir que estarei às ordens. – Pisquei para ele, irônica.
- Senhorita, eu não vou a lugar algum. Este local é onde eu preciso estar. – Ele gesticulava com as mãos e eu começava a ficar alterada novamente.
- Era só o que me faltava mesmo, um fantasma que agora quer ser dono do meu quarto. – Bufei e caminhei para fora do quarto, dando as costas para Hector.

Ao chegar à sala, procurei por minha mãe e vi que ela não se encontrava; nem havia deixado nenhum bilhete. Peguei a chave que estava jogada no sofá e saí, indo para a casa de para ver se ela havia melhorado. Ou para me distrair um pouco desse fantasma lindo e irritante.
Na verdade, eu achava todos os fantasmas irritantes, para mim eram todos da mesma laia e só serviam para fazer da minha vida um inferno. Menos meu pai, claro. Depois de tantos anos mediando, eu comecei a generalizar, sem me importar se era um missionário ou obsessor. Simplesmente ser grosseira, mal-educada e irônica era um modo de descontar minha raiva, minha infância perdida por conta dessa vida de visões e audições, as críticas de todos ao meu redor e o afastamento repentino de minha família, tradicionalmente religiosa, que achava que eu era um tipo de aberração.
Chegando à casa de , peguei a chave extra no meu molho, que ela havia me dado para ocasiões especiais, e abri a porta. Entrei, me deparando com a TV ligada, sendo assistida pela minha amiga. Quando ela ouviu o barulho da minha entrada, se virou.
- Oi, ! Pensei que nunca ia vir me visitar... Já estava desolada. – Eu me aproximei e a abracei.
- E aí, , como você está se sentindo?
- Agora já estou melhor. Foram só aquelas enxaquecas insuportáveis de sempre. – Ela sorriu. – E você, amiga? Como foi andar a pé pela primeira vez no ano?
- Só para cortar seu barato, eu não fui para casa a pé.
- É mesmo? – Ela se interessou e arregalou os olhos, confusa. – Como você voltou?
- Com o . – Falei como se fosse algo normal, mas deu um gritinho estranho.
- Sério? Olha que evolução... Primeiro uma música romântica dedicada e dança sensual seguida de um beijo e agora ele está te dando carona?
- E seguida de beijo também. - Dei um sorrisinho de canto, olhando para . – Acho que você precisa faltar mais vezes, . – Pisquei para ela, que riu alto.
- Você é muito esperta, . Querendo que sua melhor amiga fique doente só para dar umas beijocas no ? Que coisa feia... – Ela balançou a cabeça negativamente e eu sorri.
- É a intenção. – fez uma cara de ofendida.
- Agora, me conta logo como foi essa carona especial... – Mudei minha expressão sorridente quando me lembrei do Hector.
- , será que a gente poderia falar do depois? Eu estou com um grande problema. Tem um fantasma no meu quarto e ele que se apossar do meu espaço. – Falei rapidamente.
- Como é que é? – Fez uma expressão confusa.
- Isso mesmo que você ouviu. Ele acha que o meu quarto é a casa antiga dele, eu imagino.
- E por que você ainda não o mandou embora?
- Porque não é simples assim, . Ele tem que me dizer o que quer, com quem ele tem uma ligação aqui na terra e quais os seus problemas. Só que a única coisa que eu consegui arrancar é que o meu quarto é o lugar onde ele deve estar e nada mais. – Conversava normalmente com ela, explicando tudo.
- , eu nunca te vi assim. Olha a calma que você está falando... O assunto é sobre espíritos. Você deveria estar arrancando os cabelos e xingando aquele fantasma de todos os nomes obscenos conhecidos.
- O problema é exatamente esse. Hector é calmo, sereno e não quer meu mal. Ele mexe comigo, . – Ela me olhou assustada – Não no sentido atrativo, claro, apesar de ser o espírito mais bonito que eu já pude conhecer. Ele consegue apagar de mim todo o meu estresse, toda a minha raiva, porque ninguém consegue se alterar de verdade com a presença dele. Esse é o meu problema. Eu estou deixando um espírito me controlar e sabe o quão isso é ruim?
- Isso é péssimo.
- Pois é, isso é extremamente péssimo e ridículo.
- Você precisa fazer algo, . Conversa com ele e tenta ser amiga, vai que ele entende que você não o quer lá e vai embora.
- Olha que loucura você está dizendo, ! Ser amiga... Isso não é certo! Não é natural. Eu fui criada para deportá-los sem nem saber seus nomes e tratá-los muito mal.
- Eu acho isso muito errado, ok? É só a minha opinião. Ser menos grosseira não vai doer, . Você tem plena consciência que esse é seu trabalho, que não dá para querer matar metade da população californiana toda vez que um fantasma vier pedir sua ajuda.
- , você é a pessoa que mais sabe de tudo que eu sofri nesses anos.
- Sei, mas isso não é mais motivo. Enfrente isso e tente fazer da maneira certa.
- Vou pensar. Você está mesmo empenhada em me fazer mudar. Por quê?
- Que pergunta idiota, , eu só quero o seu bem.
- É mesmo? – Olhei para ela, arqueando uma sobrancelha. – Na verdade, eu acho que você se interessou só porque eu disse que o Hector é o fantasma mais bonito que eu já vi. – Ela gargalhou alto e eu a acompanhei.
- Bom, se eu pudesse vê-lo, poderia confirmar. – Ela falou e levantou do sofá. – Vamos, estou morrendo de fome, vamos caçar algo para comer! – Levantei com ela e fui até a cozinha.

Depois de sair da casa de , cheguei em casa com um sentimento estranho. Eu estava em dúvida agora do que fazer. Não sabia se Hector ainda estaria no meu quarto à minha espera. Se ele estivesse, que atitude eu deveria tomar? Faria o que falou. Mas e se ele estivesse ido embora? Então eu nunca saberia o que ele queria comigo. Andei lentamente pela minha casa e cheguei em frente à porta do meu quarto. Estava fechada. Devagar, fui abrindo-a e entrando, podendo ver um brilho fraco emanando. E então pude ter a certeza: Hector ainda estava lá.

Capítulo betado por Batwoman

Capítulo 11



Narração em 3ª pessoa

O Plano Superior estava um grande alvoroço. O local que as pessoas preferem chamar de Céu ou Paraíso tinha um alerta de perigo. Todas as almas, mesmo as mais calmas e pacientes, encontravam-se nervosas pela notícia que havia acabado de chegar. Os Arcanjos, chefes dos mentores espirituais e principais informantes mensageiros daquele local, traziam péssimas notícias do umbral.
ainda se encontrava alheio à toda essa situação, por estar vigiando a sua filha, tendo assim permanecido fora por muito tempo. Tinha acabado de adentrar o portão imponente e sólido do Plano Superior, quando viu Agnes correndo em sua direção.
- ! Por onde você andou? – a loira estava desesperada e colocou as mãos sobre a cabeça.
- Estava cumprindo o meu papel, que, aliás, também é seu. Cuidando de . – o homem de meia idade falou com um pingo de sarcasmo.
- Pelo amor de Deus, , você acha mesmo que sua filha precisa de cuidados? Ela é uma mediadora! E, além do mais, eu enviei Hector. Com certeza, ele poderá nos avisar se algo ocorrer... – ela falava rapidamente e estava ofegante.
- Obviamente, o espírito que acabou de voltar do umbral e só pensa em seduz... – ele começou a falar, mas foi cortado.
- Por favor, pare! Não difame o Jesse. Sabemos o quanto é importante para nós dois, porém, algo muito ruim está para acontecer, . É algo que está fugindo do nosso controle e, até mesmo, dos mais superiores.
- O que é? Você conseguiu me assustar. – ela começou a andar e ele a seguiu, tentando acompanhar o passo veloz da mulher.
- É mesmo? Acho que agora você se deu conta da gravidade do problema. – Ela disse irônica e mantinha as expressões tensas.

’s POV

Encarava Hector que estava à minha frente, sentando na janela, absorta nas informações que havia acabado de ouvir.
- Então, o terreno da minha casa, há 100 anos, foi parte da propriedade da fazenda de seus pais? Foi isso mesmo que eu entendi?
- Sim, , praticamente o quarteirão inteiro era o meu antigo rancho. Por isso estou aqui.
- Mas por que a minha casa? Você tinha várias casas para escolher nesse bloco. – olhei meio confusa para o homem que, especialmente hoje, tinha mais botões abertos na camisa do que o normal.
- Não imagino que você seja tão tola. – Hector se encaminhou à minha cama e se sentou ao meu lado. – Vim ao seu encontro porque você é médium. Teria outra explicação?
- Certo, isso é algo óbvio. Se você está aqui por causa da minha ajuda, por que não me diz logo o que eu tenho que fazer? – olhei para seu rosto, evitando encarar suas íris esverdeadas. – Você só fica fazendo rodeios e nunca decide ir embora. Eu tenho uma vida para encaminhar, sabia? E essa vida não envolve somente fantasmas!
- Envolve certo rapaz de olhos , estou correto? - desta vez, levantei meu rosto e o encarei profundamente.
- Já disse que esse assunto não te interessa! Qual o seu problema? Veio das profundezas para me atormentar? – falava com rapidez e muito irritada, porém o fantasma continuava calmo, sem modificar sua expressão. Como aquilo me transtornava! – Vá embora, Hector. Eu quero ficar sozinha.
O fantasma se levantou vagarosamente e me olhou, caminhando para a janela do meu quarto e subindo no parapeito.
- Eu vou, mas eu volto. – ele se segurava na parte superior da janela, como se fosse pular. – Porque no fundo, você não quer me ver longe, hermosa. – e desapareceu junto com uma rajada de vento que passava por ali.

Hector era prepotente, irritante e intrometido. Que diabos ele queria comigo? Estava me cansando dele e pensava seriamente em pedir ajuda ao meu pai, só que o mesmo nunca mais tinha aparecido para mim e isso também era motivo para minha irritação e preocupação.
Meu pai sempre esteve comigo e, de uns tempos para cá, ele desapareceu. Especificamente quando o fantasma lindo, irritante e com sotaque espanhol apareceu para mim.
Falando nele, quando eu voltei da casa de , ele estava no meu quarto. Na verdade, ele estava no telhado, o que era um tanto estranho para um espírito. O que era mais surpreendedor era que a sua luz brilhava tão forte, que eu conseguia identificá-la mesmo por trás da porta e pelo teto do quarto. E isso é um tanto estranho, já que eu sabia reconhecer o seu tipo e ele ainda não era um espírito evoluído. Muito menos um obsessor. Ele só era um fantasma diferente e essa diferença realmente me atraía. Eu queria desvendá-lo, conhecê-lo e, então, enviá-lo de uma vez para onde ele tem que ir. Quem sabe assim, ele pararia de me seduzir involuntariamente e eu seguiria em frente com o meu verdadeiro trabalho.

Meu celular tocou quando eu estava na cozinha, preparando algo para comer. Corri para meu quarto, seguindo o toque, e o encontrei debaixo de meus cadernos e folhas aleatórias.
Olhei no visor e verifiquei o nome de Harry, sorri fraco e atendi.
- Oi, .
- Olá ! Como está?
- Bem... E você? Já com saudades de mim?
- Desde o primeiro minuto que você saltou do meu carro.
- Minuto? Eu pensei que você contasse os segundos, .
- Doutora , não aprendeu nada com o castigo?
- Claro que aprendi. Aprendi que o seu beijo melhora a cada dia.
- Hum, uma coisa boa, ao menos. Pensei que continuaria convencida. – ri do seu comentário. - Eu estive pensando, , você estará ocupada sábado à noite?
- Eu acho que não, . Nunca estou ocupada. Só quando resolve invadir minha residência, trazendo sua pilha de filmes, e se apossa de meu sofá.
- Então, você estará livre. Eu mesmo cuido para que a nem apareça por aí.
- O que iremos fazer?
- Te busco às oito horas. É surpresa.
- Adoro surpresas.
- Tenho certeza que irá amar essa. Beijos, .
- Beijos, .
Desliguei o celular e o coloquei no bolso. Mantinha um sorriso no rosto.

Narração em 3ª pessoa

A mentora e o pai de haviam conversado durante muitas horas e ainda não sabiam o que deviam fazer. A solução veio depois de Agnes receber a ordem do seu arcanjo superior. Ao ouvir a decisão pela boca de Agnes, congelou da cabeça aos pés.
- Eles não podem sobrecarregar minha filha dessa maneira! Isso é loucura!
A ordem que a loira havia trazido era que , como uma das poucas mediadoras que havia no plano terreno e sendo também a mais corajosa e experiente, mesmo com apenas 18 anos, deveria combater a rebelião que vinha do umbral.
O grande problema do plano superior era esse. Os arcanjos descobriram que moradores desajustados do submundo estavam armando uma entrada na Terra e que pretendiam causar grandes catástrofes. O ponto escolhido por eles era a Falha de San Andreas, que é conhecida por gerar terremotos de grande intensidade como o registrado em 1906 que, na época, assolou a cidade de São Francisco.
Há anos que não havia terremotos na Califórnia e a população estava estabilizada. Com uma notícia daquelas, pôde entender o porquê de tanto alvoroço. Eles sabiam que o número de espíritos malfeitores que queriam fazer tal desastre era baixo, porém as energias negativas que eles juntavam eram suficientes para causar mal a muita gente. Eram fantasmas com grande poder materialista, que podiam mover coisas, independente do seu tamanho. E isso envolvia placas tectônicas. Casas destruídas, edifícios abalados e pânico iriam se espalhar pelo estado.
Estava decidido: Agnes, e dois arcanjos, Miguel, Rafael e Gabriel, iriam ajudar nessa missão que, por sinal, ela nem sabia que existia.

’s POV

Levantei de minha cama mal-humorada com o som de meu despertador gritante. Espreguicei-me e rumei para o banheiro, retirando meu baby doll e entrando no box, esperando que a água esquentasse.
Ao terminar o banho, puxei minha toalha, desajeitada, e me enrolei na mesma. Já no quarto, verifiquei o horário e ainda estava cedo para ir à faculdade. Peguei minhas roupas: minha lingerie, uma bermuda folgada, tipo boyfriend, uma bata preta e meu amado All Star estampado. Resolvi me trocar no banheiro, com medo que Hector, tão inconveniente, pudesse aparecer ali sem nenhum aviso.
Saí pronta e, ao voltar ao meu quarto, deparei-me com meu querido pai andando pelo meu quarto, ansioso. Ao vê-lo, abri um imenso sorriso. Porém, ele não viera sozinho. A loira que aparecera junto com Hector da primeira vez também se encontrava com ele. Fiquei meio confusa com a presença dela e, ao mesmo tempo, estranhei a expressão tensa de meu pai, contrastando com a feição controlada da moça. Meu pai me notou, parou de andar em rodeios e parou ao lado da outra figura feminina.
- Pai! Senti saudades suas. – sorri fraco.
- Me perdoe, filha. Estive te observando, porém não quis aparecer. Estávamos com problemas. – ele apontou para a moça. – Eu e Agnes.
- , você não me conhece, estou certa. – afirmei calada, com a cabeça. – Sou sua mentora. Cuido de ti e de tudo que se relacione com a sua vida. – ela sorriu e continuou. – Nunca apareci porque não tinha permissão para isso, mas em certos sonhos seus, pude me expressar, tentando te mostrar o melhor caminho para você.
- Eu não sabia que tinha uma mentora. – disse estática e surpresa. – Sempre achei que fosse o meu pai.
- Desde que seu pai morreu, ele me ajuda, não é, ? – meu pai confirmou sem falar nada. – Mas eu vim antes dele, estou contigo desde o seu nascimento, menina.
- Agnes, por favor, conte logo isso. – disse meu pai, tenso. Juro que nunca tinha visto ele daquele jeito. Sempre tão calmo e paciente. Para ele estar assim, algo muito sério estava acontecendo.
- Pai, o que está ocorrendo? – arqueei uma sobrancelha e alternei meu olhar entre os dois espíritos em minha frente.
- , nós temos uma missão para você. E não é nada fácil. – disse Agnes. – Para ser mais sucinta, um punhado de espíritos ruins e obsessores estão armando uma entrada na Califórnia e querem provocar um terremoto, movimentando as placas da Falha de San Andreas.
- Calma! – franzi meu cenho e olhei diretamente pra Agnes. – Você está querendo dizer que fantasmas vão voltar do umbral e mexer com a estrutura geológica do planeta? Isso é possível?
- Pensei que você soubesse da capacidade deles, minha filha.
- Eu sei, ou melhor, imaginava. Agora, com essa informação, não tenho certeza de nada. – começava a me alterar, sentei na cama e passei minhas mãos pelo meu rosto. – E o que eu tenho a ver com isso?
- Seu dom é imenso, , você só não aprendeu a lidar com ele. Você tem capacidade de influência em todos os fantasmas que procuram a sua ajuda. – Agnes começou a me explicar – Mas, como prefere tratá-los mal e de maneira arrogante, eles deixam de te ouvir.
- Claro! Porque, com certeza, conselhos meus irão parar espíritos malucos e sedentos por destruir o planeta. Claro que sim... – falei irônica.
- Você não irá sozinha, estaremos contigo lá. Seu pai, eu e mais três arcanjos, que têm poderes materialistas maiores que os dos obsessores. Porém, preferimos evitar conflitos e tentar resolver o problema com o seu dom, . Nós não podemos atacá-los, o mundo não pode saber da existência desse tipo de força como a nossa e a dos malfeitores. Traria um impacto muito grande. Entende-me?
- Entendo. E quando eles virão?
- Nós não sabemos ao certo, mas qualquer mínima modificação que exista aqui no estado, estaremos à postos.
- Acho que eu não tenho escolha, não é? – olhei para os dois, que assentiram. – Então, estou dentro. – disse por fim.

Agnes sorriu para mim, mas meu pai continuou tenso. Parecia que ele não queria que eu participasse disso tudo. Só que depois do que Agnes falou, eu me toquei que era realmente perigoso atiçar espíritos, atacando-os de qualquer maneira. Eu não tinha medo da situação, se eles tinham me escolhido para fazer isso, é porque tinham consciência que eu conseguiria. Eu não iria deixar esses fantasmas colocarem em risco a minha Califórnia e todas as pessoas que aqui vivem. Pensei em minha mãe, minha irmã, e, sem querer, em . Eles não iriam se machucar, não se eu pudesse evitar.
Estou dentro. Repeti para mim mesma.

Capítulo betado por Isabela H.



Capítulo 12



Minha amada Califórnia.
Essa era a frase que rondava a minha mente quando eu, sentada nas areias da Malibu Beach, olhava para o mar. O vento fresco batia em meu rosto levemente e o sol refletia em minha pele. Depois de tantos dias chuvosos em L.A, o astro rei apareceu nesse sábado com toda a sua temperatura e luminosidade e eu estava aproveitando da melhor maneira: saindo com as amigas e curtindo a melhor praia da costa de Los Angeles. Avistava Kate e dentro d’água, conversando entre si e pulando quando as ondas batiam nelas.
Para variar um pouco, pensava em diversas coisas, e entrei tão rapidamente em meus devaneios que me esqueci do mundo ao redor e só conseguia pensar na bendita (ou não) missão que meu pai e minha nova mentora, Agnes, haviam me dado.
Comecei a pensar que aquilo tudo era uma loucura, um pesadelo que eu tinha formado em minha mente e que, talvez, eu não fosse capaz de resolvê-lo. Isso estava me deixando muito preocupada. Não era sem motivo. Apesar da minha impulsividade em aceitar o que Agnes e seus superiores tinham me proposto, eu comecei a pensar que não era possível influenciar tantos fantasmas ruins somente com minhas palavras. Eu comecei a sentir um arrepio partindo da ponta dos meus pés, que chegou até meu pescoço, fazendo-me tremer. Mas não era pela brisa que passava por ali, mas de medo.
Pronto, assumo. , mediadora de anos, com medo. Eu não conseguia aceitar esse sentimento que estava crescendo em mim e me consumindo. E se eu não tivesse sucesso e nenhuma ajuda necessária? Precisava de algo que me desse um mínimo de certeza que eu era capaz, mas o nervosismo de papai e o repente aparecimento do anjo de madeixas loiras, não iriam ajudar. Não era o suficiente, eu precisava de mais e tinha quase certeza de quem era que eu necessitava.
. Era a presença dele que eu queria para me acalmar. Na verdade, eu queria uma presença carnal, que não fosse um espírito, como Hector, papai ou Agnes. Porém, não o via desde a manhã de sexta que ele tinha me dado uma carona-castigo e isso, para mim, era muito.
Como se a minha intuição agisse de maneira sobrenatural, o celular soltou um dip dentro de minha bolsa. Procurei o aparelho e abri a mensagem recebida.
“Quais são suas coordenadas, doutora?”
Sorri abertamente e escrevi de volta.
”Latitude 118, Longitude 34. Encontre-me.”
Esperei a mensagem enviar e logo depois recebi mais uma.
”Você é uma garota de sorte.”
”É mesmo? Por quê?”
Enviei e fiquei esperando a próxima resposta, que demorou minutos para chegar. O celular vibrou e eu, rapidamente, li.
”Porque eu estou logo atrás de você.”
Virei meu tronco para trás e vi se aproximando, apenas de bermuda e chinelos, sem nenhum pedaço de tecido cobrindo seu peito e abdômen. Consertei-me ao perceber que estava olhando demais para seu corpo, sem piscar, e me levantei para esperar sua chegada.
- Você é bom em Geografia. – sorri e olhei nos seus olhos .
- Você ainda se surpreende? – ele riu e eu, involuntariamente, acompanhei.
- Só com a sua falta de modéstia.
- Mentira. – ele se aproximou e me puxou pela cintura. – Sempre fui péssimo em Geografia. Foi a Kate que me disse que estaria aqui contigo. – ele abriu seu sorriso para mim.
- Claro que sim. Como não imaginei isso? – coloquei meus braços em volta de seu pescoço e indaguei. – Então, essa era a sua surpresa?
- Obvio que não. – ele negou veemente. – Uma futura médica merece algo melhor e mais emocionante.
- Além de você? Já é algo muito bom e que mexe com minhas emoções. Será que existe algo melhor? – encostei meus lábios nos de , falando baixo.
- Está vendo? Você me deixa mal acostumado... – eu gargalhei. – Você me dá ousadia e espaço para que eu não use de minha humildade. É tudo sua culpa, ! – ele acompanhou meus sorrisos e retomou sua fala. – E sim, existe algo melhor. Estar com você.
- Podem parar de melação aqui no meio da praia! – ouvi os gritos de e me virei para vê-la, andando em nossa direção.
- Também acho! É muito amor no ar para essas duas encalhadas aqui, não é, ? – Kate disse, chegando até nós e cutucando , que fez cara de ofendida. Eu e apenas rimos.
- Oi, irmãzinha. Oi, . Curtindo o sábado? – perguntou.
- Não mais que vocês dois, maninho. – Kate disse e eu a olhei, repreensiva. – O que foi, ? Só falo a verd...
Antes que Kate pudesse terminar a sua frase, algo inesperado aconteceu. Uma média tremedeira fez com que a gente se desequilibrasse. Enormes ondas começaram a se formar perto da margem e a maré, de um instante para outro, encheu rapidamente. Arregalei meus olhos, surpreendida com tudo aquilo. Só tive um pensamento na cabeça e, sem raciocinar direito, com três olhares atentos sobre mim, peguei meus pertences e me levantei.
- Está começando. – disse baixo, mas o suficiente para que , e Kate pudessem ouvir.
- O que está começando, ? – perguntou.
- Algo muito ruim. Depois explico para vocês, mas agora é melhor a gente ir embora daqui. – e saí andando com todos me seguindo.

Meu maior desejo era chegar em casa. Eu precisava falar com meu pai e eu sabia que ele não apareceria dentro do carro com mais três pessoas que não viam espíritos. Ela tinha consciência que era um enorme constrangimento para mim. Por mais que essas três pessoas soubessem da minha mediação.
Eu estava sentada no banco traseiro da Hilux com do meu lado. Imagino que o meu nervosismo repentino tenha provocado uma enorme inquietação em , já que o motorista estava me olhando o tempo todo pelo retrovisor e fazendo muitas coisas que eram dignas de multas no trânsito. Ao andar em alta velocidade numa avenida em direção à minha casa, não viu um semáforo que se fechava. Kate gritou e ele freou bruscamente, fazendo com que eu e chocássemos nos bancos dianteiros.
- Inferno, ! Se eu soubesse que você dirigia tão mal assim, pegaria um táxi de volta para casa. – falou alto, fingindo raiva. – Que pena que meu amorzinho está no mecânico, com ele aqui, eu não sofreria com essas freadas loucas! Caramba! – ele gesticulava com as mãos e deu uma leve batida na cabeça de . Kate riu fracamente e eu apenas sorri sem graça. Eu não conseguia me animar nem com as melhores palhaçadas da naquele momento.
- Se reclamar muito, eu te boto para fora, hein? – ele falou.
- Coloca NADA! A não deixaria, né, amiga? – ela se referiu a mim, eu a olhei e deveria estar com uma cara de idiota, já que me olhou com cara de interrogação.
- Hã? Não ouvi o que vocês estavam falando.
- , minha querida, você estava em que planeta? – Kate perguntou.
- Também me faço a mesma pergunta desde que saímos daquela praia e você ficou com aquela expressão assustada. – se pronunciou, sem tirar os olhos da rua.
- Pois é, e até agora você não nos explicou aquele “algo muito ruim que está começando.” – acrescentou.
- Problemas de mediadora. Vocês realmente não vão querer saber.
- Mas é óbvio que eu quero saber, ! – replicou. – Primeiro porque eu nunca te vi assustada, já que nesses assuntos você é um coração insolúvel, frio e inquebrável. Segundo porque esses tremores não são normais e, se tem espíritos envolvidos nisso, com certeza, eu corro risco de morte! – ela falou mais alto ainda, fazendo os irmãos arregalarem os olhos.
é uma ótima conhecedora do assunto, porque, afinal, é para ela que eu conto os meus aprendizados sobre fantasmas, mas, às vezes, ela é um pouco exagerada.
- Como assim? Espíritos envolvidos com tremores? – Kate perguntou, muito curiosa.
- Sim, fantasmas com poderes materialistas e todo esse blá-blá-blá que eu queria esquecer. – Terminei de falar no mesmo momento em que estacionou o carro na frente da minha casa e virou subitamente para trás com um olhar questionador e, quando ele ia abrir a boca, eu pus um indicador nos seus lábios e falei.
- Sem mais perguntas. Vamos entrar e lá eu explico tudo que quiserem.

Quase meia hora havia se passado e eu tinha conseguido explanar tudo o que pretendia (e até um pouco mais das minhas mediações) para os ’s e para a minha melhor amiga. Os dois primeiros ficaram meio desorientados, porém entenderam perfeitamente a situação, e a já esperava tudo o que saíra de minha boca.
Estávamos na sala e eu fiquei de pé para ir à cozinha buscar água para mim e para meus “convidados”. Fui em direção à geladeira e peguei a jarra. Quando eu me virei para buscar os copos, esbarrei-me no corpo alto e forte de .
- Você está muito tensa, e isso me incomoda. – disse fraco e me olhando profundamente.
- Sério, , não quero que você se preocupe comigo. – sorri. – Eu estou bem, só não me acostumei ainda com essa ideia maluca de salvar a Califórnia. – ele coçou a cabeça.
- Olha, , não sei ao certo como agir numa situação dessas, mas saiba que pode contar comigo. - ele falou, alisando levemente minha bochecha.
- Obrigada, . – sorri fraco e ele aproximou seus lábios nos meus, ficando ali e, logo depois, pressionando-os, até que eu cedi ao nosso beijo, deixando nossas línguas se encontrarem de maneira carinhosa, como nunca tinha acontecido antes. Nossos beijos sempre eram rápidos, cheios de intenções, desejos ou brincadeiras. Esse era diferente. O sentimento que corria em mim era bom e calmante. Algo que eu estava precisando. Coloquei o jarro de água na bancada e me empurrou até que eu encostasse na parede. Suas mãos acariciavam meus cabelos e as minhas estavam pousadas em seus bíceps, alisando a região.
Separamo-nos e nossas testas ficaram coladas enquanto nossas respirações pesadas eram o único som do local. Fechei meus olhos e, quase no mesmo momento, ouvi uma tosse distante. Aquele ruído que fazem quando querem chamar a atenção de outras pessoas que estão bastante ocupadas, como nós dois estávamos.
Abri os olhos rapidamente e olhei para o lado, vendo meu pai parado em frente à porta de serviço que havia na cozinha, encostado na geladeira com apenas um ombro. Suspirei pesadamente e disse.
- , vocês precisam ir agora. – pausei a minha fala para encarar a expressão confusa de . – Realmente queria a companhia de vocês três, mas meu pai está aqui e a gente precisa conversar.
- Está certo. – ele disse sem contrariar, nem questionar. - Qualquer coisa, você me liga? – assenti com a cabeça e ele me beijou na bochecha para depois sair da cozinha.

Já anoitecia e eu esperei , Kate e saírem de casa para sentar no sofá da sala, olhando para meu pai.
- Você sentiu os tremores que aconteceram pela tarde? – ele perguntou curto e rápido.
- Como senti! O que foi aquilo?
- Foram tentativas frustradas dos Robinsons de atacarem a falha de San Andreas. – papai disse simplesmente.
- Robinsons? Agora eles têm um nome?
- Sim, os arcanjos conseguiram se comunicar com alguns. Eles se autodenominaram assim. Seguem lealmente um fantasma principal chamado Robin.
- Ah, claro. Robinsons, os filhos de Robin! Como eu não pude perceber! – papai me ignorou e continuou a falar.
- É com ele que você terá que se comunicar. Se o Robin decidir parar com a invasão, todos eles obedecem.
- Bom, olhando por esse ponto, parece ser fácil.
- Não se engane, minha filha. Lembre-se de que são fantasmas do umbral, sem nenhuma noção de certo e errado. Por mais que eu acredite que eles não moveriam placa nenhuma sem a ordem do chefe deles, Agnes preferiu prevenir.
- E como seria essa prevenção? – meu pai permaneceu em silêncio e só indicou com a cabeça algo atrás de mim.
Quando me virei, quase caí em gargalhadas. Não sei por que motivo, mas tive essa vontade.
- O Hector? – olhei incrédula para o jovem fantasma que estava sentado no parapeito da janela, com os braços e pernas cruzadas, definindo seus músculos. – Como esse invasor de casas poderia ajudar em algo?
- Primeiro, eu não invadi a sua casa e segundo, eu sou um fantasma. Não acha que eu conheço as minhas capacidades? – ele disse presunçoso.
- Capacidade de encher meu saco, na certa. – bufei, virei-me para papai e, quando terminei de falar, um vaso que estava em cima da mesa caiu numa enorme velocidade no chão. Virei-me de vez para olhar o estrago e arregalei os olhos para Hector. – Você fez isso? – ele assentiu. – Céus, agora eu vou ter que lidar com um intruso que move objetos. Só faltava essa.
- O que o Hector fez é o mínimo que aqueles 10 fantasmas farão quando quebrarem a barreira feita pelos arcanjos. – meu pai alertou. – E isso não está longe de acontecer, já que sentimos aquele abalo mais cedo. Então, pare de reclamar e aceite que Hector te acompanhe na missão, assim como eu, Agnes e os três arcanjos designados.
- Certo, certo. – disse impaciente. – Posso tomar um banho? Tenho que me aprontar. E se essa reunião extraordinária acontece e eu estou com roupas de praia? Não seria muito viável. – terminei a frase, já seguindo para meu quarto, deixando os dois sozinhos na sala.

Após o banho, vesti-me rapidamente com uma calça jeans e uma blusa de alça, já que fazia muito calor. Liguei a televisão e estava no momento do telejornal. Pude ouvir a repórter falando coisas aleatórias, mas prestei atenção num plantão que acabara de começar.
- Informamos que toda a costa oeste de Los Angeles está sem energia. A companhia de eletricidade não soube informar o motivo para o devido apagão e alguns moradores que saíram de suas casas assustados, informaram-nos que um tremor de alta escala teria acontecido há menos de 10 minutos e gerado todo esse caos...
Parei de escutar o plantão e relacionei tudo aquilo com os malditos Robinsons. Meus pensamentos rodavam sem parar em minha mente. Eu não esperava que a invasão pudesse acontecer hoje. A barreira estava se quebrando cada vez mais rápido e eu não sabia o que fazer.
As luzes começaram a oscilar e piscar freneticamente, os objetos em cima da bancada se mexiam, pulavam dos locais que, até então, estavam parados.
Levantei e saí do meu quarto. Ao abrir a porta, a imagem de Agnes se projetou na minha frente.
- Eles conseguiram, . Eles estão se dirigindo para a grande avenida da sua universidade. Você tem que ir e detê-los. Eu sei que você é capaz. – a loira desapareceu, dando espaço para Hector, que ficou calado, só me observando.
Peguei meu celular no meu bolso e disquei o número de . Tocou poucas vezes e ela atendeu. Não permiti que ela dissesse nada e soltei.
- Se você pretende ter o seu filme, é melhor se apressar. Pegue todo o seu material e me encontre na frente da faculdade.

Ao terminar a ligação, passei pela porta de casa rapidamente com Hector em meu encalço. Vi um táxi subindo minha rua e quase me joguei na frente do automóvel. Entrei e disse ao motorista.
- UCLA, por favor.
- Mas as ruas estão interditadas por causa do tremor. Não tem como chegar.
- Me deixe o mais próximo possível! E, por favor, vai rápido.
O motorista do táxi assentiu, eu fechei a janela que separava a parte dianteira e traseira do carro e me virei para olhar o fantasma que me acompanhava. Mirei seus olhos verdes e logo após, desviei.
- Se vamos passar essa noite toda juntos, deveríamos nos tratar melhor. Eu não gosto de ser presunçoso, nem de te aborrecer, hermosa. Mas, às vezes, você não me dá opções. – ele se pronunciou com a sua fala macia e aquela voz rouca e sedutora demais para meu gosto.
- Hector, você é um fantasma. Eu não consigo impedir meu instinto de te tratar de maneira rude. Eu sou assim.
- Mas você tem que aceitar que eu não sou como os outros que você conheceu e mediou. – seu rosto estava totalmente virado em minha direção e seus cabelos caíam sobre sua testa.
Eu tinha que concordar com ele. Hector não era igual aos outros. Ele tinha uma luz diferente, uma aura diferente.
- Hector, eu... – fui cortada pelo fantasma.
- Eu te entendo. Deve ser difícil para você se acostumar com a minha presença. Ainda mais por minha aparição ter sido repentina. E quase sem nenhum sentido. – ele desviou o olhar do meu rosto para se prender em algum ponto fixo em sua frente. Sua expressão era de confusão, assim como a minha.
Preferi o meu silêncio e agradeci quando Hector se calou também. Eu não queria nenhum problema a mais para debater em minha cabeça zonza. Estava indo ao encontro de fantasmas ruins, que queriam destruir a California, e precisava impedi-los. Não queria pensar em mais nada. Hector me deixava em pleno estado de confusão com suas expressões inesperadas e suas falas recheadas de mensagens subtendidas.

O motorista parou a 100 metros da faculdade e abri a porta de vez. Paguei a corrida e fiquei de pé na calçada, observando o táxi ir embora. A avenida inteira estava interditada e o bloqueio de carros era dado com uma fita zebrada. O asfalto estava com uma rachadura enorme e os postes estavam apagados, menos um, no início da rua. Foi lá que eu vi um movimento.
- Você está vendo? – perguntei a Hector, sem me virar em sua direção.
- Sim, eu vejo. – o fantasma falou e eu apertei os olhos na direção do poste que piscava.
- Eles emanam luz negra. – uma voz feminina se expressou e eu pude ver Agnes, papai e os três arcanjos atrás de mim.
Apenas a olhei e assenti. Comecei a andar para o meio da rua, com o Hector ao meu lado. Aquela conversa no carro foi estranha e eu tentava me distanciar do fantasma o máximo possível, mas parecia que ele estava mesmo disposto a ficar comigo a noite toda, pela ordem de Agnes.
Ao me aproximar do único ponto de luz da avenida, eu vi a barreira dos dez espíritos formada à minha frente. No mesmo instante, os meus seis acompanhantes fizeram a formação idêntica a deles. Ao meu lado estavam Hector e Agnes.
Nunca tinha visto fantasmas com aquela aparência medonha. Pareciam mendigos e, talvez, deveriam ser. Vindos do umbral, eu poderia esperar qualquer coisa. O tal Robin devia ser o fantasma mais alto que estava no meio, usando roupas rasgadas e sujas. Seu olhar era carregado de maldade e más intenções.
- Eu me lembro desse rosto. – Hector se pronunciou e cerrou seus olhos. – Ele não me é estranho.
- Ele pode ter mudado suas feições. – Agnes falou e eu acompanhava a conversa paralela dos dois, sem entender nada e sem tirar meus olhos fixos dos fantasmas à minha frente. Todos eles tinham sorrisos presunçosos e isso me irritava demais. Porém, eu sabia que deveria manter a calma. – Com certeza, já que eles têm noção do poder que possuem. Se eles quebraram as barreiras dos arcanjos, sabem escolher o rosto que querem mostrar para nós.
- Como assim? – eu perguntei.
- Seus rostos, . De outras encarnações. Eles aparecem da maneira que desejam. – a loira explicou. – Todos nós já fomos outro alguém em vidas passadas, mas disso você já sabe.
Refleti com a explicação de Agnes e não tive tempo de falar mais nada, já que Hector saiu do meu lado e começou a caminhar em direção aos Robinsons.
- Ora, ora, se não é o espanhol resignado e arrependido... – aquele que parecia ser o chefe, o Robin, exclamou e riu debochado.
- Ora, ora, se não é o fantasma da ópera iludido! – Hector falou sem tirar a expressão tensa do rosto. - O que faz aqui, Erik? Ou é melhor chamá-lo de Robin? Não encontrou a sua Christine no umbral e veio para Terra atrás de sua amada? – ele debochou, sem mover um músculo de onde estava, frente a frente com Robin.
- Procurar por Christine é passado. Tudo aquilo era devaneio de minha mente. Eu tenho plena consciência de quem eu sou agora e da força que nós – ele indicou os seus comparsas logo atrás. - temos juntos! Viemos apenas nos divertir.
- Mas vocês não podem colocar em risco as vidas de várias pessoas, só porque querem se divertir. – eu intervi na conversa, pois não aguentava mais só ouvir as besteiras que aquele louco dizia.
- Vejam, pessoal, é a médium. – Robin me olhou e depois apontou, fazendo todas as visões se centrarem em mim. – Preciso dizer que eu nunca gostei da ideia de uma ‘humana’ poder me ver. Isso acaba com toda a brincadeira. – ele andou em minha direção, ficando a um metro de distância. Eu seguia seu olhar com muita tensão.
- Você não tem direito nenhum de estar aqui! Nem de causar terremotos! – falei num tom mais alto.
- Você tentará me impedir? Você não consegue nem me tocar, mediadora. – a maneira como todos os fantasmas me conheciam e chamavam era um tanto incômoda, aquele jeito de me chamar de mediadora, com desprezo, matava-me por dentro. - Nem a mim, nem nenhum de meus amigos... Você é fraca! – ele riu e as suas palavras me tocaram de maneira agressiva, deixando-me com mais raiva do que o normal.
- Eu não sou fraca. Eu tenho um dom e estou aqui para utilizá-lo. – falei com a mandíbula travada, segurando-me para não exaltar mais. Eu conseguiria, iria conversar com aquele fantasma estúpido.
- Acontece que seu dom não funciona comigo. Eu sou maior que você, que suas palavras. Maior do que esse seu coração bobo, cheio de emoções, lutando para salvar todos que ama. – falou com mais desprezo que o normal.
- Suas palavras não vão me atingir, Robin. Você pode tentar de tudo, mas eu estou certa do que vim fazer aqui. E eu vou conseguir. – fechei minhas mãos em punho e continuei a encará-lo.
Eu tinha certeza de que ele tinha um ponto fraco, mas não sabia qual era. Todos nós temos um ponto que nos atinge de maneira devastadora, até mesmo fantasmas.
Aquele momento parecia durar anos em vez de segundos, ninguém falava nada e eu ficava sempre esperando que os Robinsons atacassem de maneira violenta, o que não acontecia e me aliviava.
Ouvi um barulho distante de porta de carro batendo, mas não me virei. Pude saber o que era pela voz grave de meu pai.
- ! Você chamou sua melhor amiga? Está louca? – ele disse exaltado. Eu estava cansada dessas preocupações exageradas de meu pai. Apenas assenti sem paciência e continuei a olhar para o fantasma em minha frente. Algo tinha mudado na sua expressão. Algo que eu não podia entender. Seus olhos estavam paralisados e sua boca se abria em feição de surpresa. Aquele olhar de maldade tinha sumido e a sua postura enrijecida foi, aos poucos, mudando. Os seus comparsas seguiam seus movimentos com pequenos robôs manipulados.
Olhei para trás e vi , apenas com sua filmadora na mão, sorrindo fraco ao me ver.
- , é melhor se afastar e ficar atrás dos arcanjos. Eles vão te proteger melhor. – eu sabia que ela não via nada além de mim, mas eu podia guiar a minha amiga, já que eu tinha trazido-a para toda essa confusão.
Olhei para o arcanjo principal, Miguel, e ele apenas assentiu, sorrindo, como se quisesse me dizer que iriam protegê-la. A cara de meu pai não era muito boa, mas eu preferi não me preocupar com isso. Agnes e Hector eram os mais concentrados em toda aquela situação. Não paravam de olhar para os espíritos em momento nenhum e estavam em posição vigilante comigo e agora, com .
Virei novamente para frente e olhei para Robin, ele havia recuado um pouco, mas não mudara as suas feições. Começou a mexer a boca na tentativa de falar algo, mas a única coisa que saiu foi:
- Christine.

Capítulo 13
Música do capítulo!

Então tudo estava explicado. Robin (ou Erik, como ele se chamava anteriormente e em sua outra vida) tinha devaneios estranhos de ser um fantasma diferente. Um fantasma da Ópera?
- Antes de sair do umbral, quando eu ainda estava lá, ele usava uma máscara que tomava grande parte de seu rosto. – Hector disse, explicando algumas perguntas que vagavam por minha mente. – Robin vagava pelo local à procura de uma tal de Christine, mas nunca a encontrava. Atazanava e perturbava todos, julgando que a garota poderia estar sendo escondida dele. Robin é um fantasma desequilibrado, . Não é à toa que ele veio parar aqui, tentar algo ruim.
Ouvia as palavras de Hector ao meu lado e mantinha minha posição estática, buscando uma maneira de acabar logo com aquilo. A surpresa repentina de Robin com a chegada de me dava um espaço de tempo para pensar e analisar a situação.
Se ele era desequilibrado como Hector dizia, então não tinha nenhuma relação com ele. Eu esperava que não tivesse, mas já que Robin acreditava que sim, então, finalmente eu tinha encontrado sua fraqueza.
- Ela não consegue me ver, idiota! – me assustei ao ouvir o grito de Robin, falando com alguns de seus comparsas. Sua expressão, infelizmente, tinha voltado a ser dura e sombria. – Mas eu sei como mudar isso! – o fantasma começou a andar em minha direção, me olhando como se quisesse me atravessar com seu olhar.
– Façam ela me enxergar. AGORA! – ele apontou para , que estava alheia a toda aquela situação. O grito de Robin acompanhou um grande tremor que fez as únicas humanas ali se desequilibrarem. caiu ao chão e permaneceu lá, me olhando assustada, enquanto eu fui segurada por Hector. As mãos do fantasma envolveram meus ombros e me mantinham em pé. Exaltei-me, assustada, já que ele nunca havia me tocado e era algo muito novo. Arrepiei com o tremor, o grito e o toque de Hector. Olhei para ele que sorria sem humor, mas tinha seus olhos brilhantes quando encontravam meu olhar. Era uma sensação estranha, mas que eu tinha gostado. Balancei a cabeça como agradecimento e ele entendeu. A voz feminina de Agnes rompeu com aquele silêncio que tinha se instalado.
- Óbvio que isso não pode ser feito. – disse grossa com o fantasma mendigo.
- Claro que pode... Vocês três aí tem poder o suficiente para isso. – Robin apontou para os arcanjos que se movimentaram, juntando-se ainda mais para proteger . – Eu quero que ela me veja! Quero que Christine volte para mim! – ele gritava mais e, consequentemente, os tremores só faziam aumentar. A única luz que ainda existia na avenida se apagou. – Senão todos vocês irão pagar por isso!

Change
(Mude)
Everything you are
(Tudo o que você é)
And everything you were
(E tudo o que você foi)
Your number has been called
(Seu número foi chamado)


- Pagar pelo quê, Robin? – Eu intervi, falando alto e impaciente. Meus ombros já estavam soltos, então eu dei dois passos à frente e apontei na direção do rosto maltratado do fantasma. – Pagar pela sua solidão? Pagar pelos seus tormentos de vagar por anos atrás de uma pessoa que nem está ao seu alcance?
O fantasma inflou suas narinas e apertou os punhos em sinal de revolta.
- Você é muito corajosa mesmo. Mas coragem gera tolice. Não deveria me enfrentar assim, tão perto. – ele falou sarcástico. – Entregue Christine a mim ou simplesmente... – ele pausou sua fala para soletrar devagar. – MORRA!

Fights, battles have begun
(Brigas e batalhas começaram)
Revenge will surely come
(A revanche virá certamente)
Your hard times are ahead
(Seus tempos difíceis estão adiante)


- O nome dela não é Christine, fantasma idiota! Ela se chama e, como você já sabe, ela não pode te ver. Ela nem sabe como você é, mas se te visse, com certeza sairia correndo com medo da sua aparência medonha. – meus olhos estavam apertados e minhas sobrancelhas se juntavam em uma só. Eu definitivamente não tinha paciência com aquele fantasma. Na verdade, eu não tinha com nenhum. estava logo atrás de mim, já de pé, ouvindo atenta a tudo que eu dizia.
- ... – minha amiga me chamou com uma voz baixa, segurando fortemente sua filmadora na mão, ligada. – O que é que ele quer comigo? Eu estou segura?
- Está tudo bem, . Você está sendo protegida.
- Mas não por muito tempo, mediadora. – Robin expressou-se. – É melhor se adiantar com a Christine. Se despeçam porque eu vou levá-la embora.
- Você não vai a lugar nenhum, Robin! – gritei e cerrei meus olhos na direção do fantasma. – Só daqui para o inferno de onde você veio!

Best
(Melhor)
You've got to be the best
(Você tem que ser o melhor)
You've got to change the world
(Você tem que mudar o mundo)
And you use this chance to be heard
(E usar essa chance para ser ouvido)
Your time is now
(Sua hora é agora)


Eu estava alterada, botando tudo a perder. Mas eu só tentava mascarar meu desespero. Porque eu não sabia mais o que fazer. Se Agnes e os outros sabiam que Robin era desequilibrado, por que acharam que eu era capaz de influenciá-lo apenas com minhas palavras?
Na verdade, o que eu estava fazendo era exatamente isso. Mas para o lado ruim. Cada vez que eu abria minha boca e o insultava, Robin ficava mais nervoso e com raiva. Suas expressões estavam endurecidas, sobrancelhas juntas e uma feição impaciente.
Ao ouvir o que eu havia gritado, Robin se virou de costas e começou a dar ordens aos seus fantasmas comparsas. Todos eles assentiram com a cabeça, apesar de um se opor às ordens do mestre mendigo. Depois de falar com eles, olhou novamente para mim.
- Se é guerra que você quer, é guerra que eu vou te dar. Além de muito desespero. – Robin disse entre os dentes, com os olhos cheios de fúria.

Change
(Mude)
Everything you are
(Tudo o que você é)
And everything you were
(E tudo o que você foi)
Your number has been called
(Seu número foi chamado)


Todos ao meu redor enrijeceram os músculos e eu travei onde estava. Continuava encarando Robin, sem me mover, e me perguntando o que diabos ele tinha dito para os outros.
- Vocês não querem ceder, não é mesmo? – ele me olhou e sorriu de canto, um sorriso maléfico. – Estou vendo que a noite será muito longa. Vejo que terei que mexer com a sua Califórnia, mediadora. Literalmente. – depois de falar, Robin estalou seus dedos e em questão de minutos, outros oito fantasmas desapareceram, deixando Robin e apenas um, que parecia ser o mais teimoso e resistente às ordens do chefe.

Fights, battles have begun
(Brigas e batalhas começaram)
Revenge will surely come
(A revanche virá certamente)
Your hard times are ahead
(Seus tempos difíceis estão adiante)


Os três arcanjos que até então estavam atrás de mim, protegendo , saíram em disparada, correndo para o local que estavam os outros comparsas e quando chegaram numa velocidade alta, desapareceram com o vento ou como se estivessem entrando num portal invisível aos meus olhos.
Alguns tremores começaram, só que logo depois foram interrompidos, ficando nessa instabilidade, num vai e volta.
Robin abriu os braços, junto com seu comparsa, e, de uma forma que eu nunca tinha visto antes, levantou um carro que estava logo atrás deles. Com isso, empurrou suas mãos para frente, fazendo o carro vir girando no ar, na minha direção e dos outros.

Best
(Melhor)
You've got to be the best
(Você tem que ser o melhor)
You've got to change the world
(Você tem que mudar o mundo)
And you use this chance to be heard
(E usar essa chance para ser ouvido)
Your time is now
(Sua hora é agora)


Tudo aconteceu muito rápido depois desse instante. Pareciam cenas acontecendo em câmera lenta e tudo ao mesmo tempo.
Eu saí correndo para , puxei sua mão e abaixei, abraçando-a.
Meu pai se jogou contra o comparsa de Robin.
Agnes correu um pouco à frente e fez o mesmo movimento de Robin com as mãos, como se estivesse bloqueando o carro.
Hector, de onde estava, correu até mim e nos envolveu com seus braços, gerando uma luz muito fraca, mas que fazia um círculo no chão, em torno de nós.

O bloqueio de Agnes fez o carro mudar sua direção, bater num poste e cair dentro dos portões da UCLA. Robin fez uma expressão derrotada e irritada, mas continuou com o ataque. O poste em qual o carro bateu, caiu no chão com um estrondo e foi esse objeto que Robin resolveu arremessar em nós.
Mas não teve o mesmo efeito que ele esperava. Porque o fantasma, por mais perigoso que fosse, estava fraco. Meu pai estava tomando toda a atenção do comparsa, que até ali, estava ajudando seu chefe.
Eu estava com os olhos fechados, assim como minha amiga, somente sentindo o corpo de tremendo e a energia de Hector ao nosso redor.
- Três espíritos idiotas! Gastando suas energias para proteger uma humana. – Robin gritou.
Os tremores não haviam parado, mas a intensidade deles era fraca. Os arcanjos deviam estar cuidando disso, com certeza.
- Mas eu acho que o mais idiota é você, espanhol. – Robin parou de atacar, falando, e eu abri meus olhos para ver aquela cena.
A avenida da faculdade estava um caos completo. Hidrantes espichando água, carros pegando fogo, além da rachadura no asfalto que já tinha dois metros de largura, do início ao fim.
Hector olhou para frente, ainda agachado, e cerrou os olhos para Robin.
- Sim, eu tenho certeza. Além de ser o mais tolo, é o mais hipócrita. Não era você que sempre dizia, lá no umbral, para eu parar de correr atrás da minha amada? – Robin acusou o fantasma que me envolvia. – O mundo dá voltas. Olhe só o que você está fazendo.
Eu tentava assimilar aquelas palavras, mas minha cabeça estava girando demais, o cheiro de queima dos carros me deixava tonta e um pouco lenta, além de toda a fumaça que estava pairando no ar.
Agnes estava parada e olhou de relance para meu pai, que olhou logo depois para Hector. Os três assentiram ao mesmo tempo, fazendo sinais de entendimento, enquanto Robin olhava fixamente para , perdido na sua visão.

Don't
(Não)
Let yourself down
(Se deixe abater)
Don't let yourself go
(Não desista de você)
Your last chance has arrived
(Sua última chance chegou)


- O seu problema, Erik... – Hector se pronunciou, falando devagar. – É que você fala demais. Isso te distrai. E distrações fazem guerras serem perdidas.
Quando ele terminou de falar, meu pai, numa fração de segundos, se movimentou rapidamente e gritou:
- Agnes, AGORA!
Foi quando minha mentora saiu de sua posição e, muito veloz, se chocou com Robin, junto com meu pai que carregava sem muito problema, o comparsa fraco.
O choque dos quatro fez um estrondo enorme e parecia provocar ondas invisíveis que levaram a fumaça embora. O barulho me fez fechar os olhos e quando eu abri, não via mais nada, além de luzes fracas saindo da rachadura enorme que estava no chão. E mais ninguém. Somente eu e , ainda envolvidas nos braços fortes de Hector.
Numa avenida devastada.

Continua…

Nota da Autora: Vem pro Giraffas, gira gira, Giraffas! Venham ser feliz, please! *-*
Isso aí em cima sou eu querendo amenizar o clima da situação. HAHAHA
Olha, não quero que matem por causa dessa att, certo? Foi pequena e tudo o mais... podem encontrar os defeitos que quiserem, mas eu precisava acabar logo com essa missão da mediadora, que no final, nem foi muito dela, né? Whatever...
A partir de agora, nada mais vai sair da normalidade, vamos começar com mais romance, revelações e um dose legal de flashblacks para todas vocês!
Eu iria mandar uma att dupla, só que o capítulo 14 não está terminado, meninas :(( Para não deixar vocês ansiosas, mas do que o normal, eu resolvi mandar logo o capítulo! Porque eu sou linda e amo meus chuchus <3
Beijos e até a próxima!


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