Nicest Thing
por: Jess Cavalcanti



Prefácio

“É o momento de ir e dizer que foi bonito, que, mesmo se os atores saem de cena, o palco da vida permanece aberto e pronto para novos espetáculos, que lhe desejo tudo de bom e que sinto muito. Mas que o final chegou.”

Foi assim que começou a conversa sobre nossa separação e esta citação bonita, de nada amenizou a situação. Porque eu não gosto de fins e não podia acreditar que ela estava realmente me dizendo adeus. Só que lá estava ela, com todas suas coisas arrumadas aos seus pés, listando-me os motivos que a levaram aquilo. Segundo ela, não era feliz e eu deveria respeitar seus sentimentos. E ela, que respeito estava tendo com os meus, me deixando assim?
Tentei não prestar atenção, olhei a mobília enquanto ela gesticulava e andava para lá e para cá. Nossa, como eu realmente odiava aquela escultura “conceitual” que ela me fizera a comprar. Aquela coisa horrorosa ela não levava. Deixava como uma lembrança para mim. A obra e o vazio na conta que ela deixou. Então ela se vira para me acusar novamente, dizendo que eu nunca ouvia. Queria dizer-lhe que eu a ouvia sim, era só que na maior parte do tempo ela não fazia nenhum sentido.
Fui me dar conta da seriedade da situação quando ela deixou a sala, munida de seus pertences e batendo a porta as suas costas. Apoiei meus cotovelos nos joelhos e segurei o copo de whisky, fitando-o a procura de uma resposta, ouvindo o silêncio do vazio da casa, sussurrá-la para mim. Então isto era estar sozinho.

1

Gostaria de dizer, que encarei aquela separação como todas as outras que tive antes. Que aproveitei todos os benefícios da fama e da beleza que meus pais me propiciaram. Ou que ao menos houve alguma dignidade nos dias que seguiram a partida de , mas seria mentira. Os dias que seguiram para mim foram um grande esforço. Me sentia confuso, frágil e com algumas lágrimas repentinas que vinham o vazio de não mais tê-la. Tentei fingir estar bem, mas atuar nunca fora meu forte e foi por isto que eu acordei várias vezes encarando o teto do quarto, sem a mínima vontade de levantar. Foi com a mesma não vontade que encarei as semanas, quase mês, que seguiram a nossa separação.
Só havia uma coisa que eu podia aturar menos do que a falta de ao meu lado, do que a incompreensão sobre sua partida: a pena de meus amigos. As conversas cuidadosas ao meu redor, não citando ela ou qualquer relacionamento. Me acolhendo em suas casas. Suas namoradas me analisando clinicamente procurando as aparências físicas das feridas que tinha deixado em mim.
Talvez tenha sido motivado por toda raiva que tenho daquela pena que eu aceitei o convite de para sair hoje. Uma amiga de estava chegando do Brasil, e os dois me convidaram para um jantar acompanhado da amiga em questão. Entenda bem, eu não vinha saindo muito com meus amigos. Todos eles tinham suas namoradas, ficar sobrando na mesa só me fazia lembrar mais ainda de , o que conseqüentemente aumentava os olhares de compaixão e juntamente crescia minha vontade de não estar ali. Então, por mais que a idéia de sair aquela noite não me animasse, sabia que estava devendo aquela para os meninos. Ainda que desta vez fossemos só eu e . Acho que eles ficariam menos preocupados, se eu ao menos fingisse estar seguindo em frente.
Olhei através da parede de vidro de minha sala, assistindo a neve dançando em direção ao chão e vi minha vontade que estava pequena ir ao zero. Ainda assim, respirei fundo, desliguei a TV e vesti o sobretudo antes de deixar o apartamento. Liguei o rádio baixo no carro, ouvindo uma voz masculina melódica cantar uma música meio tristonha e ao fundo o motor silencioso do carro, o atrito das rodas contra a rua, mais nada. As ruas não estavam muito cheias, já era um pouco tarde e com o frio que começava a fazer, sentia que só eu seria o louco fora de casa hoje. Com este pensamento, ultrapassei um cruzamento sem olhar para os lados. O sinal estava verde para meu sentido, mas eu tinha mania de checar. Como diria minha avó, seguro morreu de velho. Só que hoje eu não estava realmente ligando para nada, nem mesmo para minha segurança. Ao invés de olhar para pista, subi meus olhos na direção de um grande outdoor na lateral de um prédio onde sorria olhando para o lado. Foi quando um impacto na lateral esquerda de meu carro, a tempo de ver uma moto tombando para o lado carregando seu ocupante. Arregalei meus olhos com o susto, saindo apressado do carro na direção onde o veículo estava caído. Dando uma pequena olhada para cima, observando que no outdoor sorria bem naquela direção, como se rindo de minha desgraça. Ignorei a ironia do destino, sacudindo a cabeça e voltando a olhar para o motociclista acidentado, percebendo que se tratava de uma mulher. Já estava levando a mão ao meu telefone, quando ela começou a levantar-se e eu resolvi ajudar.
-Você está louco?! Não viu o sinal?
Ela gritou em minha direção, logo depois de retirar o capacete. Não respondi instantaneamente, distraído por sua beleza exótica. Os lábios cheios, os olhos amendoados, o cabelo que agora caía em camadas ao redor do rosto... Meus olhos estavam caindo por seu corpo, quando me detive para respondê-la.
-Está chapado... Não acredito!
Ela resmungou para si mesma, colocando o capacete no braço e apoiando a mão na cintura enquanto passava a outra pelo cabelo de uma forma meio estupefata, meio irritada, que eu achei estranhamente atraente.
-Não estou chapado, coisa nenhuma! E foi você quem ultrapassou o sinal vermelho!
Respondi, e ela me olhou parecendo admirada pela minha habilidade de falar ou ultrajada por ter colocado a culpa nela. Talvez os dois.
-Ainda vou ter que ligar para uma oficina... Eu nem tenho o número de uma oficina! Com certeza vou chegar atrasada e a... Caramba, você tinha que entrar no meu caminho logo hoje?!
Ela começou falando consigo mesma e terminou olhando para mim, parecendo estar realmente à procura de uma resposta enquanto encaminhava-se até sua moto ainda tombada.
-Você fala como se fosse a única com prejuízos aqui! Olha, esta lataria toda arranhada! Sua moto nem teve nada. E eu não entrei no seu caminho, se você não tivesse ultrapassado o sinal vermelho.
Respondi enquanto a ajudava levantar a moto, muito cavalheiro.
-Minha moto não teve, nada?! Este eixo quebrado é nada para você, é? E foi você quem ultrapassou a droga do sinal vermelho.
Olhei para baixo, observando o pneu ligeiramente direcionado para direita enquanto segurávamos a moto completamente para frente. Subi meus olhos, já não vendo os estragos da motocicleta e sim reparando nas curvas da mulher que estava ao meu lado. Eu estava triste por ter sido deixado, mas não estava morto.
-Olha, a gente pode continuar aqui discutindo a noite inteira ou podemos resolver nossos problemas.
Ela chamou e eu voltei atenção para seu rosto novamente, aliviado por ela ter achado que eu estava apenas analisando os estragos em sua motocicleta.
-O carro eu resolvo com o seguro. A sua moto, eu já não sei...
-Como assim, não sabe? Você foi o culpado pelos estragos na Marilza...
-Marilza?
Cortei sua fala estranhando aquele nome, assistindo-a olhar-me como se estivesse diante de uma criança perguntando algo muito evidente.
-É o nome da moto, oras!
Ela explicou como se fosse algo óbvio, logo voltando a reclamar com a mesma indignação de antes.
-E agora não quer pagar pelos estragos? Eu nem estou ligando para a polícia, nem nada. Você sabe que perderia vários pontos na carteira por ter ultrapassado o sinal deste jeito, não é? Eu poderia ter morrido.
-Ligar para a polícia? Dirigindo com estes saltos, você é que perderia pontos! Sem dizer que eu não ultrapassei sinal nenhum!
Retruquei um pouco exasperado, ouvindo-a bufar e abaixar a cabeça como se já estivesse cansada daquilo.
-Olha, ta frio para caramba e eu já estou para lá de atrasada. Então será que você poderia pelo menos me dar o número de um mecânico?
-Eu tenho cara de páginas amarelas?
Respondi ríspido, arrependendo-me logo depois, quando ela mirou-me parecendo realmente magoada e cheia daquilo. Quer dizer, a menina nem tinha feito nada demais para mim. Na verdade, ela tinha feito sim. Meu carro estava com um arranhado horrível, mas pelo menos ela estava me livrando da tortura que seria aquele Double date armado pelo .
Observei-a caminhar até um orelhão que tinha por ali e acabei por segui-la.
-Desculpa. Eu tenho um número sim.
Falei, vendo-a parar e olhar para trás desconfiada, depois rolando os olhos e vindo em minha direção.
-Ninguém tem culpa do seu dia estar ruim, ok?
Ela murmurou para mim, tomando de minha mão o celular que eu a estendia e digitando o número em seu próprio aparelho.
-Na verdade, você tem parte da culpa sim. Bateu no meu carro, esqueceu?
-Vamos entrar nesta questão de novo? Foi você quem ultrapassou o sinal vermelho!
Estava pronto para retrucar, mas ela o indicador em minha direção pedindo para que eu esperasse e começou a falar com a pessoa do outro lado da linha e eu me limitei a colocar as mãos nos bolsos e olhar para cima, me arrependendo em seguida. Lá estava o outdoor de brilhando e fazendo o conhecido misto de dor e raiva cruzar meu corpo. Não sei bem que expressão meu rosto demonstrou, porém seja lá qual foi, fez com que a menina também levantasse seus olhos naquela direção, olhando-me como se eu fosse louco logo em seguida.
-E então?
Perguntei ao vê-la guardar o celular e encostar-se na lateral de meu carro, encostando-me ao seu lado.
-Falou que em dez minutos está aqui.
Ela respondeu-me, começando a brincar com a fumaça que sua respiração causava na noite fria pouco tempo depois, fazendo-me sorrir.
-Fazer isto sempre me fez sentir um pouco dragão quando eu era criança.
Comentei para puxar assunto, vendo-a corar levemente ao notar que estava sendo observada.
-Por quê? Só a sua feiúra já não te dava esta impressão?
Ela perguntou fazendo-me estreitar os olhos e rir falsamente em sua direção.
-To brincando! Sempre achei isto bem mágico também. Frio, neve, fumaça da respiração... Fico tratando tudo como novidade.
-Você não é daqui, é?
-Não. Sou do Brasil.
Ela respondeu com um sorriso, fazendo-me sorrir de volta. Só ali percebi que ela estava me tratando com naturalidade. Não que todo mundo saísse me adorando por aí só porque eu tenho uma banda, mas quando você é famoso é difícil encontrar alguém que te trate com real naturalidade. Só mesmo se não te conhecer. E pelo jeito, ainda que o McFLY já tivesse uma proporção no Brasil, acho que ela não conhecia. Era bom ser tratado só como . Ou melhor, só como um estranho já que ela ainda não sabia meu nome. Nem eu o dela.
Não perguntei imediatamente porque engatamos numa conversa sobre seu país de origem, seus olhos brilhando numa mistura de saudades e orgulho enquanto falava de sua pátria. E eu não menti quando a disse que amava seu país. Gostei de tudo no Brasil. As pessoas, as praias, a intensidade do público, a comida, as boates... Na verdade, só tinha uma coisa brasileira que eu não tinha gostado: a cerveja. Mas isto eles compensam muito bem com a caipirinha... Acabamos entrando numa discussão sobre bebidas e sorri o ver que ela concordava comigo. Aproveitando para perguntar seu nome assim que o assunto rareou.
-.
Ela respondeu com um sorriso e eu estendi minha mão em sua direção, cumprimentando-a.
- Poynter, prazer.
Estava prestes a recomeçar uma conversa quando a caminhonete do mecânico estacionou em nossa frente. Ajudei-o a colocar a moto na caçamba enquanto perguntava coisas como quando a moto ficaria pronta e onde ficava sua oficina. Em menos de cinco minutos, o homem já estava indo embora sob o olhar quase desolado de ao meu lado.
-Então...
Comecei, sem saber exatamente o que dizer, brincando com a chave do carro dentro de meu bolso para disfarçar o certo nervosismo que sentia nem sei por quê. Só não sabia o que eu deveria fazer agora.
-Bom, você vai me dar uma carona, não é mesmo?
meio perguntou, meio exigiu olhando em minha direção enquanto eu estava momentaneamente incrédulo. Ela bate no meu carro, insiste que foi minha culpa e ainda quer carona. Mas eu mereço mesmo!
Se bem que ela era bem bonitinha, isto eu não posso negar. E é até bem legal, apesar de aparentemente daltônica. Sem dizer que aquele lugar não era lá muito movimentado, só alguns carros tinham passado por nós e ela nem conhecia a cidade, seria muita sacanagem deixá-la ali. Rolei os olhos, tirando as chaves do bolso e caminhei até o lado do motorista, vendo-a acomodar-se no banco do carona.
-Sabe, eu nem sei se você é uma serial killer que aborda suas vítimas com uma batida.
Comentei em tom de brincadeira enquanto ligava o carro.
-E eu não sei se você é um estuprador maníaco, pirado e daltônico que insiste que o seu sinal era verde.
Ela continuou minha brincadeira e eu sorri, o silêncio tomando o carro até que ela aumentasse o volume do rádio começando a acompanhar a música que tocava. Olhou surpresa em minha direção quando eu também comecei a cantar junto e eu pisquei em sua direção, os dois dando um show particular dentro do carro.
-Hei, eu não sei para onde você vai.
Constatei um tempo depois, já perto do restaurante onde havia marcado o jantar.
-Caramba, é mesmo. Bem... Acho que é aqui perto. É um restaurante italiano, sabe?
-O Nonna?
-Este mesmo! Sabe, eu nem estava muito a fim de sair hoje. Mas uma amiga me ligou e pediu para eu jantar com ela e o namorado, queria me apresentar um amigo do cara e tal... Eu nem gosto muito dessas coisas, normalmente só me sobram os caras altamente bizarros e nada a ver comigo, mas como faz muito tempo que não a vejo resolvi aceitar.
comentou e eu pude ouvir as peças se encaixando dentro de minha cabeça. É impossível! Amiga brasileira, Double date, o Nonna. Será que era a amiga brasileira de que queria que eu conhecesse?
-, qual é o nome desta sua amiga, hein?
-Benny, por quê?
Soltei o ar que eu não percebi que estava prendendo ao ouvir sua resposta. Ela não era a amiga de , afinal. Não posso esconder que fiquei um pouco desapontado com esta informação e acho que ela também percebeu isto, seus olhos passeando por meu rosto procurando respostas para a dúvida estampada no seu.
-Nada... É só que eu também tenho que encontrar um casal de amigos aqui hoje. E eles iriam me apresentar uma amiga do Brasil.
-Caramba, que coincidência. Imagina se fosse você o cara que eles quisessem que eu conhecesse hoje? Seria tão bizarro... Quer dizer, você bateu na minha moto. Com certeza não é um bom início.
-Que diga a lataria arranhada do meu carro. E foi você quem bateu.
Retruquei com humor seguindo o tom de seu comentário. Nenhum dos dois admitiria culpa nunca. Caminhamos conversando besteiras até a porta do restaurante, ambos hesitando em frente sua entrada, observando as pessoas pela vitrine de vidro.
-Então...
Ela começou, sem parecer saber bem o que dizer e sem olhar para mim. No entanto, nada mais falou ou mesmo se moveu. Permanecemos os dois ali.
-Quer ir ao Pizza Hut? Quer dizer, eu não estou muito a fim de macarronada... E também já estava destinado a jantar com uma brasileira desconhecida hoje mesmo. O que acha?
Convidei como quem não queria nada, observando-a considerar minha proposta pelo canto do olho. Estava nervoso e eu não fico nervoso com mulheres em geral. Culpei o tempo que fiquei com por aquele nervosismo. Talvez tenha perdido a prática, ainda que nem todo o tempo eu fosse fiel... Acho que na minha posição nenhum homem seria.
-Eu realmente adoraria. Tipo, nada melhor do que aquela pizza de calabresa. Só que eu não posso, . Desculpa mesmo. Sabe... É minha amiga e eu não a vejo há muito tempo. Sem dizer que ia ser sacanagem com o guri que está me esperando. Com a menina que está te esperando também, né.
Seu discurso que começou apologético, terminou com uma acusação bem humorada em minha direção. Sorri ao ver seus olhos apertados em minha direção, vendo-a sorrir em resposta e depois ficarmo-nos encarando sem saber o que dizer. Ela mordeu o lábio inferior e eu também. Talvez nenhum dos dois quisesse se despedir. Eu não queria.
-Me dá seu celular.
Ela pediu e eu entrei o aparelho em sua mão, recebendo o dela em troca e observei o objeto com dúvida.
-Anota seu número!
exigiu, rindo ao perceber que eu não começara a mexer no celular ainda. Observei-a sorrir em direção ao telefone, tirando uma foto que provavelmente seria sua identificação na chamada. Fiz o mesmo e destrocamos os celulares, sabendo que agora teríamos que nos despedir.
-Tchau.
Murmuramos um para o outro e eu senti os braços de englobarem-me, antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa. Abracei-a de volta, inspirando um pouco do cheiro doce de seu cabelo e pele.
Entramos separados no restaurante, ela andando em uma direção e eu em outra. A comida estava boa, parecia feliz com minha presença e a amiga de era até bonita. Só que foi em outra brasileira que eu prestei atenção durante toda a noite.
Sai do restaurante cansado, mas ainda assim dei uma carona à amiga de . Não troquei telefones com a menina, acho que nem eu nem ela ficamos muito interessados. Sorri brevemente quando passei pelo cruzamento onde houve minha batida, desta vez prestando atenção. Mas o impacto que eu senti desta vez foi ao chegar em casa. O impacto da realidade, aquela tristeza que insistia em não me deixar e que só tinha resolvido me dar um descanso por uma noite. No entanto, já não era como uma ferida aberta. Sentia como um corte de papel, doendo só para dizer que está ali. E quando eu fechei os olhos, estava em meus pensamentos de novo.

No outro dia, todos os meninos estavam animados no estúdio. A neve tomava toda a cidade causando um caos aéreo, mas ao mesmo tempo noticiando a proximidade do natal que deixava todos em polvorosa. A data era realmente apelativa e até eu estava animado. Presentes, comida, família... E férias! Ainda que o tempo que passamos nos EUA produzindo e mixando o novo álbum tenha sido bastante livre, a correria com o lançamento e a turnê que estava por vir, me fazia ansiar um descanso. Sem câmeras, sem revistas, sem programas de fofoca espalhando por todo país quão triste eu estava com meu término.
Meu celular tocou no meio de uma discussão com os garotos sobre onde iríamos gravar o último webchat do site. Vi me recriminar com o olhar, continuando, porém, a argumentar com . Não sei o que me deu, mas subitamente fui invadido por uma esperança de ser ela, . Desde que fora embora ela não havia tentado fazer nenhum tipo de contato e na minha mente fez sentido que ela estivesse ligando agora. Talvez ela só precisasse de um tempo como antes...
-Alô.
Atendi sem nem olhar o visor do celular, me afastando da mesa onde os meninos estavam conversando.
-Oi, . Tudo bem? É a .
-Tudo ótimo. E você?
Respondi com um esboço desapontado de sorriso nos lábios.
-Então, recebi uma ligação do mecânico e ele disse que minha moto estava pronta. Só que eu estou totalmente perdida com metrô, ônibus e não faço idéia de onde é a oficina dele. Pensei que como você conhece, podia me levar lá.
-, sabe nas ruas costumam ter uns carros pretos que existem exatamente para isto.
Falei com um tom de humor, brincando com . Levá-la ao mecânico não era lá a coisa mais divertida do mundo para se fazer, mas era alguma coisa para distrair a mente que não envolvia trabalho.
-Você poderia ser um pouquinho menos insensível. Lembra que é culpa sua que a minha moto foi pro conserto?
-Hm... Acho que nós não chegamos a um consenso quanto a isto.
Respondi contendo um riso, sabendo que ela voltaria a argumentar sobre eu ter furado o sinal vermelho. Coisa que eu sabia que não tinha feito. Voltei a falar assim que a ouvi tomar fôlego do outro lado da linha.
-Mas eu concordo em te levar com uma condição.
-Erm... E qual seria?
Ela perguntou desconfiada e eu mordi o lábio antes de responder.
-Vai ter que almoçar comigo. Quer dizer, está bem na hora mesmo e você já me enxotou ontem...
-Tá, , não precisa implorar.
respondeu rindo do outro lado da linha, fazendo-me rir levemente também sentindo o mesmo nervosismo que sentira no dia anterior abandonar meu corpo.
-Você me busca?
-Claro, só me diz onde.
Corri de volta na mesa onde os meninos estavam, fazendo todos observarem-me sobressaltados, enquanto eu anotava o endereço passado por antes de desligar o telefone.
-Onde estávamos?
Perguntei, guardando o endereço em meu bolso e voltando a me sentar, ainda com todos me fitando.
-Escolhendo o lugar onde nós vamos fazer o webchat do site...
-Hm... Eu acho legal o London Eye. Tá frio para fazer em um local aberto e é um lugar legal da cidade.
Continuamos discutindo aquilo durante algum tempo. O lugar, quais músicas iríamos tocar e se iríamos tocar. Achava meio inútil, uma vez que no fim nunca acabávamos fazendo exatamente o planejado. Cerca de meia hora depois, estávamos todos prontos para ir.
-Quem era no telefone?
me perguntou, enquanto vestíamos nossos casacos caminhando em direção ao elevador.
-Por quê?
-Por causa da cara idiota que você ficou ao atender. Era uma garota, não era?
Ele continuou e eu fiquei assustado com toda aquela investigação. Será que eu havia ficado tão mal por assim? nunca havia sido tão invasivo, normalmente eu mesmo contava as coisas. Talvez ele estivesse pensando que eu estava falando com a amiga de .
-Hm... O nome dela é . Conheci ontem quando estava indo encontrar vocês no restaurante.
Respondi indiferente, vendo murmurar qualquer coisa como sinal de compreensão.
-Achei que fosse a .
Ele comentou fazendo-me franzir o cenho com o nervosismo que ele parecia tentar esconder.
-Hã... A é legal, mas não rolou química, sabe? Acho que ela pensa o mesmo.
Falei lembrando-me da menina de ontem. Ela era linda e simpática, mas não havia me atraído. Não era exatamente meu tipo de mulher, ainda que se tivesse a chance e estes fossem outros tempos, eu ficaria com ela.
Despedi-me de assim que chegamos na garagem, ainda estranhando aquele seu comportamento enquanto caminhava em direção ao meu carro. Tirei o endereço que havia me dado do bolso e apressei-me naquela direção. As ruas naquela área eram movimentadas e não parecia muito fã de esperar.

Cerca de uma hora depois, estávamos adentrando um pequeno restaurante que ficava próximo do local de trabalho de . Já havíamos ido ao mecânico, mas a moto de acabara não sendo liberada. Parece que havia outro problema que eles não tinham notado antes e demoraria mais alguns dias até que ficasse pronta. Ela pareceu desapontada, mas não havia muito a ser feito.
-Cara, comida inglesa é sempre tão difícil de encarar.
comentou enquanto examinava o cardápio, percebendo pouco depois que eu não fazia o mesmo, só a observava.
-O que foi?
-Nada...
Respondi antes de pegar o cardápio, que estava na minha frente e examiná-lo, acabando por pedir o mesmo de . Começamos a conversar sobre coisas supérfluas, como o tempo e algo que tinha passado da BBC na noite passada.
-E o que você faz aqui em Londres, hein ? Eu não largaria o calor do Brasil se pudesse...
Comentei assim que nossos pratos chegaram, observando as primeiras gotas de chuva começarem a cair lá fora. Nada atípico.
-Eu voltei para cá para trabalhar com meu primo. A gente estudou juntos na Central St. Martins, sabe? Eu voltei pro Brasil e comecei a trabalhar na marca da minha tia e ele ficou aqui. Ele precisou de ajuda e eu voltei. Depois que você mora aqui, não tem como ficar longe.
-Então você trabalha com moda?
-Sim...
Ela respondeu olhando ao redor parecendo ligeiramente incomodada com alguma coisa. Estava pronto para perguntar o que a estava incomodando, quando ela aproximou-se por cima da mesa, falando mais baixo.
-, você percebeu que as pessoas estão te encarando?
Olhei ao redor e percebi um grupo de meninas me encarando enquanto cochichavam entre si, além de mais algumas pessoas do recinto. Encarei com certa dúvida, se ela havia vivido em Londres antes, como ela não me conhecia?
-, você já ouviu falar do McFLY?
Perguntei como quem não queria nada, observando-a franzir levemente o cenho enquanto tentava lembrar-se.
-Hm... O nome não me é estranho, por quê?
-É a minha banda. Nós somos... Hm, famosos sabe? Talvez seja por isto que elas estejam olhando.
Falei sem jeito observando fitar-me atentamente, como se a procura de um traço de escárnio ou tentando lembrar-se de mim. Ao tempo que eu achava toda aquela situação muito estranha, afinal de contas nunca precisara dizer para garota nenhuma quem eu era. Normalmente elas já vinham sabendo meu nome, idade, estado civil...
-Deve ser por isto que eu sentia que te conhecia de algum lugar.
falou por fim, voltando-se novamente a seu prato e dando ombros. Não sei por que, mas aquilo me fez sorrir. Parecia não fazer diferença para ela o fato de ser famoso ou não, o que depois de namorar uma celebridade fazia bastante diferença. Continuamos conversando descontraidamente por algum tempo, mas logo precisava voltar ao trabalho.
-Mas , se você já morava em Londres antes, por que ficou perdida para o metrô hoje, hein?
Perguntei desconfiado enquanto esperávamos a garçonete voltar com a conta, vendo-a parecer sem graça.
-Era tudo uma desculpa para me ver, não era? Eu sei que sou irresistível...
Continuei, passando a mão por meu peito enquanto falava o que a fez rir.
-Ah, só queria companhia.
admitiu fingindo desolação, seu lábio inferior ligeiramente sobrepondo o superior como uma criança chorosa fazendo-a parecer adoravelmente frágil. Não pude me conter em olhá-la com desejo, mordendo o lábio levemente.
-Pode ligar sempre que precisar.
Ofereci, assistindo-a sorrir ao mesmo tempo em que a garçonete chegava à mesa e entregava-me a conta. Rapidamente retirei o dinheiro da carteira, entregando a mulher e pedindo que ela ficasse com o troco.
-Eu achei que a gente iria rachar.
comentou enquanto deixávamos o restaurante.
-Nah, eu convidei, eu pago.
-Não é muito justo, .
-Por que não fazemos o seguinte: saímos outra vez e desta vez rachamos a conta, se te incomoda tanto.
-Hm... Quem está com desculpas para ver quem, hein?
acusou brincando, enquanto me encarava com certo desafio brilhando nos olhos.
-Talvez eu também esteja um pouco sozinho...
Comentei instigante, sorrindo e observando-a sorrir em resposta. aproximou-se, englobou-me em seus braços como na noite anterior e plantou um beijo em minha bochecha, o que me fez ficar desnorteado, até perceber que estávamos parados em frente ao prédio onde ela trabalhava.
-Tchau, .
-Tchau, .
Respondi vendo-a rolar os olhos.
-Pode me chamar de, .
Ela pediu, logo me dando as costas e adentrando o prédio enquanto eu ficava parado ali em meio a calçada a observando. Seu corpo esguio, seu andar tão diferente das outras, suas roupas bem combinadas, seu jeito espontâneo... Rolei os olhos e tomei meu caminho assim que percebi o que estava fazendo. De certa forma agradecendo pela certeza de que nos veríamos de novo.


2

Foi uma quarta-feira o dia que almoçamos juntos. Recebi uma ligação de mais tarde, quando já estava em casa e sorri ao pegar o telefone prevendo que iríamos nos encontrar. Não sei se minha dedução é horrível ou se é imprevisível demais, só sei que não nos encontramos aquela noite. Me arrependi amargamente de ter sido um maricas e não ter chamado-a para sair. Depois fiquei ainda pior ao perceber que o motivo pelo qual eu queria sair de casa era evitar aquele vasto vazio que eu encontrava ali. Por fim, passei aquela noite bebendo cervejas com a TV ligada, mas sem assisti-la. Ao invés disto, ficava olhando ao redor. Para as cores das paredes que eu não gostava, para a obra de arte que eu nunca quis, sentindo o sofá desconfortável no qual sentava. Coisas que se faz por amor, até o dia que ele vai embora do nada, sem razão aparente e faz você odiar tudo aquilo muito mais do que antes.
Não posso dizer que a ligação de na quinta tenha sido uma surpresa. Lá no fundo eu estava contando com aquilo, talvez me acostumando a isto mesmo com o histórico recente dos acontecimentos. Lá no fundo do peito, enquanto conversava e ria com ela no telefone, crescia uma vontade de vê-la e não só escutá-la sorrir que não foi possível naquele dia. Nem na sexta. Naquele dia, fui resolvendo meus problemas, dando entrevistas aqui e ali, ensaiando para uma passagem rápida que faríamos pro Portugal dali a uns dias e encarando meu celular na esperança que isto fizesse o aparelho tomar vida e tocar. E ser ela. No entanto, nada. Nada por tanto tempo que me fez pegar o celular e ligar para ela, soltando o ar que não percebi que prendia assim que ela disse “Oi, ” do outro lado da linha.
Agora eu estou aqui, estacionado embaixo de seu prédio esperando que ela desça para irmos ao cinema do shopping. Uma programação bem adolescente no meu ponto de vista, mas insistia que precisava comprar umas coisas e queria muito ver determinado filme. Marcava o tempo da música que tocava no rádio batendo com minhas mãos sob o volante, um pouco alheio ao mundo até que ouvi o portão de seu prédio abrir-se. Observei-a sorrir para mim enquanto caminhava em direção ao carro, enquanto eu encontrava-me tão absorto por ela que acabei perdendo o compasso que fazia e com uma cara de idiota até que ela chegasse ao carro.
-Oi, .
Ela cumprimentou sorrindo, inclinando-se e me abraçando como já era de costume. Correspondi a seu abraço, sentindo o cheiro doce exalado por seus cabelos e corpo desejando que ela não tivesse se afastado quando o fez.
-Pronto para encarar uma tarde no shopping?
-Hm... Se eu disser que não a gente vai poder fazer outra coisa?
Perguntei com um tom quase torturado.
-Na verdade não.
respondeu sorrindo adoravelmente, fazendo-me rolar os olhos e partir com o carro. Estava bastante interessada em saber como haviam sido meus dias e eu saciava sua curiosidade, enquanto fazíamos o pequeno trajeto que separava sua casa do shopping.
-E os seus dias, como foram?
Perguntei, quando já havíamos alcançado o estacionamento, só ali percebendo o tanto que havia falado, mesmo que os dias mais recentes não tivessem sido assim tão cheios. Talvez fosse o fato dela se importar o bastante para perguntar e, não só isto, parecer mesmo interessada em saber. Nunca havia experimentado aquilo e nem nunca tinha agido assim com ninguém. Não era extremamente interessante, mas especial. Sei lá, minúcias diárias só minhas e dela.
-Hm... Difíceis. Os desfiles primavera-verão estão chegando, então é toda aquela correria de conferir como estão às roupas na confecção, escolher modelo, DJ, locação, brinde e outras milhares de coisas para um desfile.
continuou falando, sem me enfadar, no entanto. Eu fazia umas perguntas aqui e ali, sem entender metade do que ela falava, mas gostando da paixão que ela usava para descrever aquilo que fazia. Numa destas perguntas, o assunto acabou por mudar totalmente. Quando chegamos ao primeiro andar do prédio, discutíamos entre zumbis e vampiros.
-Zumbis são nojentos. Quer dizer, eles são pessoas em estado de putrefação, . Como você pode preferir isto a vampiros?
Ela parecia extremamente estarrecida com minha escolha, eu apenas balançando a cabeça com suas afirmações, firme em minha escolha pelos zumbis.
-Eles dão muito mais medo do que vampiros.
-Isso porque os vampiros têm aquela áurea dark de sedução e tudo mais. Mesmo porque, não tem condições de se atrair por uma coisa tão nojenta como um morto vivo.
-Áurea dark de sedução? Mas não são eles que agora brilham no sol?
Comentei provocativo, vendo apertar seus olhos tentando parecer ameaçadora antes de responder e não consegui não rir daquilo. Era a expressão menos amedrontadora do mundo e ela parecia realmente se achar muito letal fazendo uso dela.
-Que foi?
Ela perguntou sobressaltada por minhas risadas e eu respondi em meio a elas.
-Nada... Só esta sua cara de “As panteras detonando”.
-Hei! É um olhar muito intimidador.
disse ultrajada, dando um leve tapa em meu braço, do qual eu tentei me esquivar.
-Claro... E o urso Barney é ninja!
Respondi e caminhamos em silêncio durante algum tempo, até parecer ligeiramente confusa.
-, da onde você tirou o urso Barney?
Perguntou rindo e eu expliquei que falei a primeira coisa que veio a cabeça. Foi o bastante para começarmos a discutir sobre programas infantis e logo depois embarcarmos numa disputa onde falávamos a palavra que mais rápido chegasse a cabeça que tivesse relação com o que o outro falou antes. A brincadeira não fazia muito sentido e eu perdi na primeira rodada. Três vezes. Seguidas. Depois desisti de jogar. É claro que estava se sentindo por isto e me zoando a cada cinco segundos.
-Tem bastante gente com a camiseta da sua banda por aqui, percebeu?
Ela chamou atenção, apontando para duas meninas que estavam na nossa frente e um grupo que estava mais adiante.
-Olha, acho que quero uma daquelas!
comentou um pouco a diante, apontando para uma camiseta que estampava “ come into my Woods”.
-Hm... É mesmo, é?
Respondi com malícia, percebendo corar quase anormalmente.
-Não precisa virar o Pikachu, . Eu sei que sou irresistível.
Comentei com um sorriso convencido nos lábios, recebendo um tapa no braço de e afastando-me uns dois passos dela, só para depois aproximar-me de novo.
-Ainda é idiota. O Pikachu é amarelo.
-Mas tem as bochechas vermelhas... Como você àquela hora.
-Olha que eu também posso dar choques...
Ela falou ameaçadora, um sorriso malicioso desenhando-se sobre meus lábios.
-Isso só tornaria a brincadeira mais divertida.
A malícia sobrepôs meu tom e observei corar novamente, seus lábios num leve bico de contragosto que faziam querer beijá-los mais do que o normal. Quer dizer, é uma mulher atraente. Qualquer um que estivesse ao seu lado e não quisesse beijá-la, teria a masculinidade, pelo menos, duvidosa. E quando ela fazia aquela cara de brava... Bom, era um esforço sobre-humano resistir.
-Caramba, , tem realmente muita gente fã sua hoje aqui.
disse depois de andarmos mais um tempo em silêncio. Olhei na direção que ela mirava, vendo um grupo de quase vinte meninas reunidas algumas com camisetas da banda e outras não. Continuamos andando até a entrada do cinema, onde avistamos a faixa “McMeeting” pendurada em uma pilastra e um grupo de quase cem meninas conversarem.
-Acho que não dá para passar pra lá sem elas verem.
cochichou para mim, parecendo levemente assustada e eu mordi os lábios pensando no que fazer.
-Simples: damos a volta e saímos sem ninguém perceber. Tudo bem?
Respondi-a vendo-a acenar discretamente que sim. Estávamos dando a volta, quando ouvimos uma menina gritar chamando atenção de todas as outras.
-Ai meu Deus, está aqui!
Segurei a respiração e arregalei os olhos assustado ao ver todas aquelas meninas se virarem em nossa direção.
-Corre, !
Foi tudo que tive tempo de falar antes de sair correndo com em meu encalço e todas aquelas meninas atrás, algumas se juntando ao grupo conforme avançávamos. Não que eu fosse uma dessas celebridades idiotas que fogem e maltratam fãs, só que elas estavam num grupo muito grande e se eu fosse parar para atendê-las, provavelmente levaria toda minha tarde e com certeza iriam surgir ainda mais pessoas com o tempo e eu não sairia dali nunca. E isto não era exatamente o que eu planejara para meu dia.
Percebi ficando um pouco para trás e peguei sua mão, ajudando-a a seguir meu ritmo. Já estávamos alcançando o estacionamento e, apesar de terem tomado uma distancia, as meninas continuavam a nos seguir.
-Toma, dirige.
Pedi, tirando as chaves do carro do bolso e entregando nas mãos de que me olhou assustada.
-Não! Você dirige. Anda! Anda!
Ela devolveu-me a chave, olhando apreensiva para as meninas que se aproximavam. Não deu para ficar confuso durante muito tempo, então assim que as chaves estavam de volta em minhas mãos, desativei o alarme e entrei no veículo correndo seguido por , partindo exasperado.
Paramos pouco distante dali, encarando um ao outro durante alguns segundos antes de cairmos em gargalhadas.
-Nossa, suas fãs tem um ótimo preparo físico.
comentou com a respiração entrecortada, em partes pelas risadas e pelo esforço feito.
-É... Isto porque dizem que adolescentes são sedentários.
Reforcei seu comentário, deixando de rir e olhando para frente encarando o movimento da rua pelo pára-brisa do carro. Ficamos por algum tempo ouvindo apenas a respiração um do outro, sem nem mesmo nos olharmos, até eu me lembrar da cena da direção.
-Por que você não quis dirigir, hein?
Perguntei quebrando o silêncio, virando o pescoço para observá-la sem que ela me olhasse.
-Porque não gosto, oras.
Ela disse simplesmente, dando de ombros.
-Você parecia à beira de uma crise de nervos quando entreguei a chave.
Retruquei, vendo-a olhar em outra direção, tentando fugir dos meus olhos.
-É difícil manter a calma com cem adolescentes nas suas costas.
Ela replicou sarcástica desta vez me olhando. Continuei encarando-a a procura de algum traço que denunciasse sua mentira, que para mim era óbvia. Só não sabia o que ela escondia.
-Tudo bem. Então você pode dirigir agora? Acho que estou com estresse pós-traumático.
-Pouco dramático...
ironizou e eu continuei encarando-a. Seu rosto bem delineado, seus olhos amendoados que transpareciam uma paz e doçura inigualáveis, seu nariz pequeno e bem desenhado, os lábios atraentemente volumosos e avermelhados que me faziam morder os meus. Continuei entretido por suas formas até que ela cedeu, confessando o segredo que eu sabia existir.
-Eu não sei dirigir.
Falou como quem confessa assassinato, seu olhar fugindo do meu quando o procurei.
-Sério?
Ela acenou que sim com a cabeça, voltando a me olhar.
-Na verdade, nunca teve muita necessidade. E agora eu me sinto um pouco velha para entrar em aulas, sabe? Ainda tem esta coisa da faixa aqui ser diferente da brasileira.
Acenei que a entendia, observando-a olhar pela janela do carona e cairmos no silêncio mais uma vez.
-Hoje é seu dia de sorte.
Falei quebrando o silêncio, virando-se confusa em minha direção.
-Hã?
-Eu vou te ensinar a dirigir.
-Sério?!
-Uhum.
Ela sorriu para mim, parecendo animada com a perspectiva e eu sorri de volta. Estava ligando o carro quando ela me impediu.
-Só não dá para ser hoje. Preciso mesmo comprar um vestido! O meu primo vai se casar na semana que vem e eu não tenho nem idéia do que vestir.
-Aquele que é dono da marca que você trabalha?
-Ele mesmo. Imagina a loucura que não vai ficar a minha vida, não é? Com ele se casando, indo para lua de mel e tudo mais. Além do mais, vou ter que arranjar outro alguém para dividir apartamento.
fechou os olhos e balançou a cabeça, como se com aquele gesto fosse espantar todas aquelas preocupações, abrindo-os novamente logo em seguida.
-Vamos?
Acenei que sim e deixamos o carro em direção a uma rua cheia de lojas que ficava ali perto. Admito que a perspectiva de passar o dia atrás de em lojas não me animou nem um pouco, mas ceder faz parte da vida e eu iria passar por aquela tortura em algum momento. É claro que o vislumbre de suas pernas torneadas e seios fartos nos vestidos que ela provava era um deleite, mas eu não era nenhum pré-adolescente virgem para que aquilo justificasse. Justificaria sim, se ela viesse comprar com outra pessoa e fosse usar um daqueles trajes para mim. Justificaria ainda mais se o vestido acabasse no chão de meu quarto, junto com toda e qualquer outra roupa que estivéssemos vestindo.
Notei que deveria parar meus pensamentos ali antes que a coisa ficasse pior, vendo dirigir-se satisfeita ao caixa depois de passar apenas por cinco lojas tendo levado sapato e jóias das primeiras lojas que entramos em seguida.
Logo estávamos longe dali, caminhando na beira do Tamisa com as tradicionais batatas fritas enroladas em jornal britânicas. Implicávamos um com o outro, pisoteávamos a neve que começava a derreter e virar lama em poças, vez ou outra encarando assuntos sérios. O sol se pondo era o único indicativo das horas que se passavam.
-Está realmente esfriando, né?
comentou depois de um tempo, soprando o ar e vendo a fumaça causada por sua respiração como há dias atrás tinha feito. Tomei aquilo como um sinal que deveríamos ir para casa e assim fiz. Deixei-a em frente a sua casa, recebendo meu costumeiro abraço e com promessas de que no outro dia nos encontraríamos para aulas de direção. Não sei porque, mas o último fez-me desejar pela ajuda de Deus. Algo me dizia que direção e não combinavam nada... Com um sorriso de expectativa nos lábios, segui para casa.

3

Já fazia algum tempo que eu e estávamos dentro do carro, rodando nas ruas pouco movimentadas do meu bairro. Ela dirigia exatamente como eu pensara: extremamente mal. Não conseguia estacionar, deixava o carro morrer quando ia trocar a marcha... Eu mal conseguia parar de rir com ela ao volante, só quando era lembrado de que aquele era o meu carro. Aí o desastre que ela era no volante deixava de ser tão engraçado assim e eu começava a ficar preocupado se o seguro cobriria todos aqueles arranhões e pequenos amassados. Ainda nem tinha consertado aquele que ela deixara com sua moto outro dia.
-Vamos, ... Mais uma vez.
Pedi enquanto a encarava de braços cruzados e emburrada no banco do motorista.
-Para você continuar rindo de mim? De forma alguma.
Ela retrucou parecendo realmente brava, olhando continuamente para frente sem me encarar ao tempo que eu não tirava meus olhos dela, tentando segurar os risos sem ser sempre bem sucedido. Algum tempo depois ela pareceu começar ficar incomodada com meu olhar, mudando de posição e mexendo em seu cabelo até verbalizar sua irritação.
-Vai ficar me encarando?
Perguntou levemente irritada.
-Até você tentar de novo.
Respondi, voltando a encarar o fim da rua através do pára-brisa.
-Então se prepare para olhar pra sempre.
-Tudo bem, estou bastante confortável aqui.
Adicionei ajeitando-me em meu banco, observando virar-se em minha direção com um suspiro depois de algum tempo.
-Só mais uma vez?
Ela perguntou e eu acenei que sim, mirando-a ligar o carro e apertar a embreagem antes de mexer na caixa de marcha, apanhando um pouco para trocar do ponto morto para primeira, mas sendo mais bem sucedida do que nas tentativas anteriores.
-, você tem que continuar acelerando depois que trocar de marcha... Não pode deixar o carro morrer! Não pode parar!
Orientei rindo quando ela novamente pisou no freio após pisar na embreagem para trocar de marcha, ouvindo-a murmurar qualquer coisa sem sentido em resposta. Conseguimos dar a volta no quarteirão sem nenhum grande sobressalto, mas encontrando problemas de novo na hora de estacionar. desligou o carro assim que eu soltei mais uma risada.
-Chega! Não sei o que tem de tão engraçado em me ver dirigir!
Ela protestou ultrajada, cruzando os braços firmemente e me encarando com certo desdém.
-Tem você, parecendo jogar GTA enquanto estaciona.
Respondi e a observei engolir seco e levantar o queixo, como se para provar que era superior e não estava ligando nem um pouco para o que eu falava.
-Acho que nada mais de lições de direção hoje, não é?
Perguntei e olhou em minha direção com uma expressão levemente sarcástica que eu encarei como um sim. Percebi o quão bonita ela ficava irritada. Ali emburrada, ela personificava a menina mulher e por pouco eu não me lancei sob seus lábios. Tinha um brilho, uma coisa quase infantil, que reluzia em seus olhos de mulher e enfeitiçava. Te instigava a mergulhar no universo daquela menina, que ainda era um tanto desconhecida de mim, mas que me envolvia de uma forma que parecia que nos conhecíamos desde sempre.
-E o que nós vamos fazer agora?
perguntou, voltando a olhar para frente e eu mordi os lábios, voltando a realidade e encarando a mesma direção.
-Não tenho idéia.
Respondi antes de cairmos em um silêncio, ambos pensando nas opções que tínhamos.
-Ah, droga!
resmungou, fechando os olhos e apertando a ponte do nariz com o polegar e o indicador.
-O que foi?
Perguntei levemente sobressaltado, observando o certo suplício que passava por seu rosto.
-Esqueci que tinha que fazer compras. Normalmente meu primo que vê estas coisas, mas ele já se mudou e eu não tenho nada em casa.
Ela informou-me virando-se para pegar sua bolsa no banco de trás e procurando algo lá dentro.
-Tudo bem... Eu posso ir com você ao supermercado, se você quiser.
Sugeri e ela desviou o olhar da bolsa para mim com um sorriso gentil no canto dos lábios.
-, ir ao supermercado é um martírio que eu te poupo, ok?
Ela disse solidária, voltando-se novamente para sua bolsa em seguida.
-Você não vai comprar tanta coisa assim lá, vai?
Perguntei e vi estender-me sua lista de compras, que era o que ela provavelmente procurava.
-Sorvete, pizza, miojo, biscoito... Isto é o que eu chamo de alimentação saudável!
Brinquei com vendo-a dar língua para mim em deboche.
-Eu vou com você. Aproveito e compro algumas coisas que estão faltando lá para casa.
Anunciei e deu ombros sinalizando que estava tudo bem.
-Agora, pelo bem de nossas vidas, eu dirijo.
Disse depois de um tempo, vendo apertar os olhos como sempre fazia, quando queria parecer ameaçadora e ri daquela expressão, trocando de lugar com ela no carro.
Chegamos ao supermercado bem rápido, já que o trânsito de fim de semana em Londres é bem pequeno. Conversávamos e ríamos como sempre, algumas vezes entrando em disputas idiotas de quem chegava mais rápido ao final da sessão ou escolher a coisa mais estranha da prateleira.
Tínhamos quase terminado de comprar o que precisávamos, o carrinho de cheio enquanto o meu só tinha alguma coisa de comida e um pote de sorvete que ela me convencera a comprar argumentando que era o sabor do céu. Estava pegando alguns cereais e debatendo com a falta daqueles cereais coloridos da arara, que nem eu nem ela lembrávamos o nome, nos supermercados de um tempo para cá, quando uma menina aproximou-se nervosa, segurando uma revista entre suas mãos e encarando-me sem quase nem piscar.
-Oi, . Você pode autografar para mim, por favor?
Ela pediu, virando a capa da revista e estendendo-a em minha direção enquanto eu sentia minhas bochechas corarem. Aquilo nada mais era do que a edição da Attitude que eu e os caras tínhamos fotografado. Claro que já tinha assinado muitas daquela, mas não sei se sabia da existência daquilo e a consciência de que ela iria me zoar me deixava sem graça.
-Hm... Claro. Você tem uma caneta?
Perguntei prestativo, vendo a menina entregar-me uma caneta e assinando a revista logo em seguida. A fã mordeu o lábio encarando a capa assinada ainda parada ao nosso lado enquanto eu e a observávamos.
-Será que você poderia tirar uma foto também?
-Claro.
Ela tirou o celular do bolso e posicionou-se para tirar uma foto de nós dois juntos quando ofereceu-se para fotografar.
-Ela é sua namorada?
Perguntou quando pegou o celular de volta, deixando tanto eu quanto um tanto sem jeito.
-Hm... Não.
Respondi sem graça observando na mesma situação enquanto os olhos da menina oscilavam de mim para ela.
-Que pena. Ela é realmente melhor que a .
A menina disse antes de se afastar, murmurando algo para si mesma enquanto olhava para capa da revista, uma senhora a esperando no final do corredor com olhos meio arregalados de surpresa em minha direção. Mordi o lábio sem graça, passando a mão pelos cabelos e voltando para os cereais.
-Você saiu na Atittude?
Não era muito bem uma pergunta.
-Nossa, isso é tão legal!
concluiu sorrindo em seguida, fazendo-me encará-la um tanto surpreso. Caminhamos até o caixa conversando sobre como tinha sido sair na revista, quando tinha acontecido e etc.
-Hm... Quem é ?
perguntou como quem não queria nada, quando já estávamos saindo com o carro do estacionamento e eu hesitei um pouco antes de responder. Expelindo o ar pesadamente antes de fazê-lo.
-Minha ex-namorada.
Respondi seco, sem querer muito estender o assunto.
-E ela é famosa?
-Uhum. Atriz, modelo e cantora...
-Ah.
disse antes de começar a encarar a janela e nós dois ficarmos em silêncio.
-Vocês terminaram há muito tempo?
Perguntou após algum tempo e eu respondi, ainda que levemente incomodado.
-Faz alguns meses. Mas foi difícil de superar. Aquele dia que a gente bateu, acho que era a primeira vez que eu saía para conhecer alguém depois dela. Claro que eu fiquei com algumas garotas neste meio tempo, mas...
-Pós-término clássico, entendo.
completou e eu sorri amargo com o canto dos lábios. Ficamos em silêncio algum tempo depois disso, me convidando para subir quando chegamos na porta de seu prédio. Era a primeira vez que ela me chamava para lá e, provavelmente, era porque queria que alguém carregasse suas sacolas, mas não me importei. Segui-a até o terceiro andar do prédio, contando para ela a história do início da banda e como eu tinha apego aos terceiros andares por isto.
Seu apartamento tinha uma decoração simples, todas as paredes pintadas de branco com móveis práticos de design arrojado. Livros, revistas e filmes cobriam a estante ao redor de sua TV, que eu observava sentado em seu sofá, enquanto ela guardava as coisas que poderiam estragar se ficassem fora da geladeira.
Aproximei-me da estante, checando os títulos que ela tinha enquanto ela não chegava à sala.
-Bela e a Fera, ?
Perguntei pegando a capa do DVD da prateleira.
-O que foi?! É um clássico!
retrucou colocando-se ao meu lado e analisando os filmes comigo. Em sua maioria eram dramas, comédias românticas e outros desenhos “clássicos”.
-Você realmente precisa melhorar seu gosto para filmes.
Falei quando nos sentamos em seu sofá, desistindo de analisar seus filmes.
-Falou o cara do Oscar. Duvido que você goste de filmes bons assim também... Aliás, qual é o seu filme preferido?
Perguntou curiosa e eu quase rolei os olhos. Tinha respondido aquela pergunta tantas vezes.
-De volta para o futuro. E o seu? Não vale desenhos clássicos!
Restringi vendo-a ficar levemente estupefata com isto.
-Ué, por que não? E não é um desenho, de qualquer forma. É... Moulin Rouge!
respondeu dando ombros com superioridade.
-Definitivamente você precisa de um gosto melhor para filmes.
Afirmei, fingindo desgosto e recebi uma almofada na cabeça, olhando-a surpreso por um momento e depois sorrindo malicioso em sua direção enquanto corria para trás do sofá.
-Guerra!
Gritei antes de atacá-la com uma almofada em seu esconderijo, recebendo almofadas em todo meu corpo como resposta e ouvindo pequenos gritinhos e risos de conforme as minhas a atingiam. Agarrei-a pela cintura para tirá-la dali, tentando conter também seus contra-ataques, mas acabei tropeçando em alguma coisa que estava no caminho, levando nós dois ao chão. Cai sobre seu corpo, apoiando meu peso num cotovelo e ficando bem ao nível dos olhos de . Seus olhos turvos, profundos e misteriosos de menina mulher, que me convidavam risonhos sem que precisassem de seus lábios para expressar esta risada. Baixei meus olhos para seus lábios carnudos que instigavam uma vontade de cobri-los com o meu a qual eu quase me rendi. Quase. Porque naquele momento eu me lembrei que havia outra mulher em meu pensamento; Outra mulher em meu coração. Eu, mais do que ninguém, sabia que poderia prosseguir com aquilo sem nenhuma objeção. Sabia que conseguiria esquecer meus pensamentos e fazer exatamente aquilo que meu corpo mandava sem importar-me com nada. Eu poderia, mas não com ela. Não com . Voltei a olhar seus olhos, agora confusos com minha hesitação.
-Sabe, , você não é leve...
comentou divertida, ainda que seus olhos expressassem certa confusão. Meus lábios virando uma linha tensa enquanto eu rolava para o lado, permanecendo deitado no chão encarando o teto branco da casa de .
-Eu tenho que ir.
Expliquei genericamente, colocando-me sentado, olhando para que acenou que me entendia, mas que permaneceu deitada ali enquanto eu me encaminhava até a porta. Dentro de mim, um sentimento estranho queimava. Algo que eu desconhecia. Um descontentamento crescente que eu não sabia exatamente a que se relacionava.
Cheguei em casa, tirando meu casaco e jogando-o em qualquer lugar antes de sentar-se em meu sofá, encarando o dia escurecer e me lembrando do que tinha feito. Não só com o que tinha acabado de não acontecer, e sim com toda minha vida. Se eu tivesse agido da forma certa e não tivesse ido.
E em determinado momento, precisei me lembrar que ela se foi. Que ela me deixou aqui. Me deixou com todas as minhas expectativas, meus sentimentos e vontades. Me deixou desapontado e confuso, talvez da mesma forma que eu deixei hoje. Joguei-me contra o frio couro do sofá pensando em quando o fantasma de pararia de assombrar minha vida.

Duas semanas se passaram e eu e nos encontramos pouco no decorrer dela. Ela estava atordoada com as finalizações de sua campanha e desfile, ao mesmo tempo em que eu estava tocando em programas de TV, gravando especiais de natal e divulgando o cd recém lançado. Liguei para ela no dia seguinte de nosso quase beijo, temendo que ela não me ligasse e sorrindo ao perceber seu tom animado como sempre do outro lado da linha. Não toquei no quase ocorrido e nem ela, não só naquela ligação como em todas as outras vezes em que nos vimos ou falamos. Não evitou um clima estranho de vez em quando, um ar de que nem tudo estava certo. No entanto, eu sabia que iria ficar. E era aí que eu começava a ficar confuso.
Não que eu não quisesse que as coisas voltassem ao normal com , sem que sentíssemos aquela lacuna que o quase beijo deixou, mas também sabia que se deixássemos aquilo passar nos tornaríamos apenas amigos. E, apesar de tudo, este era um status que eu não queria. Achava pouco. Pouco porque me instiga de uma forma que eu mal consigo entender. Entender esta vontade de estar perto, de conversar que em muito tempo eu não sentia por ninguém e que tão abruptamente surgiu por ela. Ficava passando os nossos dias juntos, cada vez mais alerta a cada aspecto dela: seu humor irônico, seus olhos de menina mulher, o quão adorável ela é.
Conforme o tempo passava, os meninos já começavam a me pentelhar, querendo saber quem era aquele para quem eu tanto ligava e de quem tanto recebia ligações. parecendo especialmente obstinado em saber que não era com que eu estava falando. O que me chamava atenção para quão estranho ele estava quando o assunto era esta menina. Porém, absorto em meus próprios assuntos sobre outra brasileira, nem dei muita atenção a isto. Só mesmo algumas notas mentais.
-Eu até perguntaria com quem você estava falando, se o seu sorriso já não me contasse.
comentou quando eu entrei no estúdio onde estávamos ensaiando, desligando o telefone e guardando-o no bolso de trás da calça.
-Hm... A coisa está ficando séria com esta menina.
continuou, tirando os olhos de sua guitarra e fitando-me com expectativa.
-O nome dela é .
Informei, cansado de que a chamassem de “menina”.
-E por que você ainda não a apresentou? Já deve fazer um mês que vocês estão juntos. Com a não foram nem duas semanas.
perguntou e eu mordi os lábios, sentindo um misto de frustração e raiva possuir-me e espelhar-se em meu tom quando falei novamente.
-Porque não faz sentido!
Resmunguei observando os meninos entreolharem-se preocupados antes de olharem novamente em minha direção.
-...
-A gente não tem nada. Nada que justifique apresentá-la a vocês, pelo menos.
Expliquei rapidamente, querendo fugir daqueles olhares de pena que eu tinha suportado durante tanto tempo.
-Vocês estão saindo há um mês e nada ainda? Você já foi mais ágil, ...
provocou e eu rolei os olhos.
-Não foi por falta de oportunidade, ok?
Retruquei, arqueando as sobrancelhas e levantou as mãos como quem se rende.
-E então qual é o problema?
retomou a discussão e eu mordi o lábio incerto, perguntando para mim mesmo qual era o problema. Eu queria tanto aquilo. Um motivo para apresentá-la aos meninos, para ligar a qualquer hora sem que estranhassem aquela amizade, para tê-la.
-Seja lá qual for, , você precisa saber que está bem melhor assim do que antes todo cabisbaixo pela .
-É... E esta menina já está aprovada só por isto.
começou, sendo completado por , o que acabou esboçando um sorriso por meus lábios. Ouvir aquilo deles me fez ter certeza lá dentro que eu estava finalmente seguindo em frente.

4

Observava minha mala mais ou menos bem arrumada aberta em cima da cama, tentando achar algo que faltasse para a semana que passaríamos em Portugal. Os fãs de lá estavam se esforçando bastante para nos colocar em evidência e isto acabou fazendo com que marcássemos um show lá antes de entrarmos de férias. Não conseguia conter minha expectativa, pensando no público, nos pioneiros que iríamos conhecer... Era a primeira vez que estávamos lá para um show só nosso e ainda tocaríamos as músicas novas.
Estava tão concentrado em meus pensamentos que mal ouvi o celular tocar, correndo até o criado mudo para atendê-lo pouco antes que a ligação caísse na caixa postal.
-Eu fiz uma besteira muito grande.
falou meio desesperado do outro lado da linha, fazendo-me franzir o cenho.
-Sabe, , normalmente as pessoas começam ligações com alô, oi, tudo bem...
Tentei descontrair, mas ele parecia realmente tenso do outro lado, então eu resolvi levar a sério.
-Qual é o problema?
Perguntei ouvindo-o expirar pesadamente antes de responder.
-Preciso de um lugar para a morar.
Ele falou rapidamente e eu demorei algum tempo para assimilar a mensagem.
-O que exatamente você fez, ?
Questionei quase inquisidor em seguida, respirando profundamente do outro lado da linha e me avisando que chegava a minha casa em pouco tempo para me explicar tudo. Não fazia nem dois minutos que eu havia desligado o telefone quando o porteiro me avisou de sua subida.
-Eu fiz uma merda das grandes.
Ele noticiou e eu rolei os olhos.
-Isto eu já tinha reparado por telefone, agora fala o que foi.
Exigi, apoiando o cotovelo nos joelhos e vendo sentar-se na poltrona em frente ao sofá onde eu estava sentado.
-Não sei exatamente por onde começar... Ahn... Eu beijei a hoje, quando fui me despedir da .
Ele explicou simplesmente e eu arregalei os olhos, a surpresa dominando meu tom quando falei novamente.
-Como assim, ?
-Eu beijei a garota, oras! E bem na hora que a estava chegando na sala. Você sabe que as duas moram juntas, né? Ou pelo menos moravam... Você não ia acreditar no quão brava a ficou. A também não está nenhum poço de felicidade.
continuou falando enquanto eu permanecia em quase choque no sofá.
-Mas por que isto de beijá-la, ?
-As coisas não estavam muito boas comigo e com a há muito tempo já. Tudo muito monótono, previsível... É claro que não foi por isto que eu beijei a . A parecia estar numa TPM diária nestes últimos meses e eu sempre acabava passando mais tempo com a do que com ela quando ia visitá-la. Não percebi quando comecei a gostar dela... Só sei que a beijei hoje.
explicou mais calmo e eu relaxei também, mal acreditando naquela história. Então era por isto que ele ficava me perguntando se era com que eu vinha falando tão constantemente.
-Ok, . Eu só não entendi onde você precisa da minha ajuda.
Falei depois de um tempo, endireitando-me no sofá e vendo os olhos de brilharem esperançosos para mim fazendo-me automaticamente desconfiar do que ele iria pedir. Aquela expressão sempre precedia bomba.
-Eu preciso de um lugar para a ficar. A a expulsou e quando eu mencionei que ela poderia ficar lá em casa ela não pareceu muito feliz. É só por algum tempo... Até ela achar um apartamento ou coisa assim.
explicou simplesmente e eu encarei-o desacreditado.
-Por que eu?
Perguntei quando finalmente percebi que era sério.
-Porque você é o meu melhor amigo e está me devendo uma.
Ele prontamente respondeu, com direito a um sorriso encorajador no final da frase.
-Ahn?
-Lembra quando estávamos em Atlanta e eu te livrei daquela briga. Bem, estou cobrando o favor.
falou obstinado e eu o encarei perplexo.
-Sério, , ela está lá embaixo fula da vida comigo. Por favor! Fico te devendo uma.
Continuou, mudando de estratégia até que eu cedesse mais por pena da menina do que por pena dele. Antes que ela subisse, perguntei como ficara com e ele disse simplesmente que acabou. Nem pareceu triste, chocado, magoado ou mesmo tocado por isto. Pensei de minha reação quando terminei com e me senti um maricas.
Algum tempo depois, a menina já estava devidamente instalada no quarto de hóspedes e eu e atrasados para o vôo que pegaríamos. Se pegássemos algum trânsito no caminho até o aeroporto estávamos realmente ferrados, mas isto não aconteceu. Não pude discutir o acontecido com durante o caminho até o aeroporto, porque estávamos em carros separados e depois Fletch reclamara tanto sobre nosso atraso que também não pudemos nos falar. Pensei na menina na minha casa, mais uma brasileira em minha vida.

Joguei-me na cama do hotel exausto. Fomos recebidos por fãs no aeroporto assim que chegamos a Portugal com direito a gritos, fotos e autógrafos como sempre. Era muito legal sentir todo aquele carinho que aquelas pessoas sentiam por nós. No entanto, depois de chegar, dar entrevista por telefone e da maratona que tivemos antes de sair de Londres, eu estava realmente exausto.
Meus olhos caíram sob o telefone que estava ao meu lado na cama, como se estivesse esperando que ele criasse vida a qualquer momento e me conectasse exatamente com quem eu queria. Mesmo que eu não soubesse exatamente com quem eu queria falar naquele momento. Eu esperava que o fizesse, porém lá no fundo uma pequena esperança de que me ligaria ainda persistia. Mais fraca a cada dia, mas ainda lá me fazendo sentir miserável por isto. Por pouco não joguei o aparelho longe, sendo impedido somente pela consciência de que aquele era um iphone e não valia nem um quarto disto.
Estava cantando no banho, quando ouvi o celular tocar no quarto. Sem pensar duas vezes, saí correndo para pegar o aparelho, acabando no chão do quarto, decepcionado por ser apenas minha mãe querendo saber se eu tinha chegado bem. Para piorar a situação, o shampoo que eu usava para lavar o cabelo tinha acabado de escorrer para meu olho. Voltei ao banheiro reclamando, terminando meu banho e me jogando na cama só de boxers pronto para me entregar ao sono, mas antes disso assistindo um pouco de TV sem entender nada que falavam.
Não sei quanto tempo dormi, mas amaldiçoei o celular que me acordou. Ainda estava xingando alguns palavrões quando apertei o botão para atender.
-Hey, .
Ouvi quase sussurrar do outro lado da linha, fazendo-me esboçar um sorriso automaticamente enquanto me arrumava na cama. A raiva que sentia antes se dissipando ao som de sua respiração.
-Hey.
-Tudo bem?
-Sim, só estou cansado. E você?
-Estou enlouquecendo com o trabalho. Já fez alguma coisa legal em Portugal?
-Chegar do aeroporto e dormir conta?
Perguntei num tom preguiçoso, ouvindo rir do outro lado da linha.
-Você é mesmo um bunda mole. Um país lindo para se conhecer, com uma culinária ótima e você aí dormindo...
-Eu não tenho culpa de estar cansado, ok? Assim que der eu saio para conhecer as belezas do país. Hm, o disse para eu aprender umas palavras de português contigo para falar aqui.
-O ?
-É, meu colega de banda.
-Quer dizer então que você fala de mim para seus colegas de banda, é?
perguntou convencida e eu podia até imaginar a cara que ela estava fazendo do outro lado do telefone, enquanto eu rolava os olhos e sorria.
-Como se você não falasse de mim para seus colegas de trabalho.
-Verdade. Eles querem até te conhecer. Estão duvidando que o cara que eu falo todo dia é um, como eles dizem, lindinho do McFly.
-Lindinho?
-É, eu também duvidei que fosse você quando eles te chamaram assim.
comentou desdenhosa do outro lado da linha e eu apertei os olhos, exatamente como ela fazia quando fingia estar brava ou queria parecer ameaçadora.
-Como se você não pensasse o mesmo.
Respondi com despeito, ouvindo-a rir do outro lado da linha.
-Para mim você não é lindinho, é estonteante.
-Sério?
-Não!
respondeu rindo e eu apenas rolei os olhos, sabendo que era só para me provocar.
-Sabia que tem uma menina na sua casa?
Ela comentou como quem não queria nada algum tempo depois, mas eu pude discernir algo estranho em sua voz. Insegurança talvez. Respirei fundo antes de contar toda a história de e .
-Caramba... Bom, eu acho que posso te ajudar com isto quando você voltar para cá.
-Está com medo de eu te trocar por outra brasileira, é?
-To com pena da coitada que vai ter que te aturar.
disse divertida, mudando de assunto logo em seguida. Cinco minutos depois, ainda estávamos no telefone e eu ouvi alguém bater na porta, caminhando preguiçosamente até a mesma.
-Nós estamos descendo para jantar e os caras pediram para te chamar.
disse parado na porta e eu o convidei para entrar, mantendo uma conversa com ele e com colocando o celular no viva voz para poder mexer na mala e me vestir ao mesmo tempo.
Os dois desenvolveram uma conversa independente de mim, ambos rindo enquanto eu tentava não parecer incomodado terminando de me arrumar, penteando o cabelo e passando perfume. Tentava não pensar no fato de ter acabado de se apaixonar subitamente por uma brasileira, querendo que ele não desenvolvesse uma paixão pela minha e chacoalhando a cabeça assim que estes pensamentos me passavam pela mente, porque eu e não éramos nada. Ainda.
-Vamos?
Perguntei quando já estava pronto, tomando o telefone da mão de que sorria e desligando o viva voz.
-, nós estamos indo jantar. Depois eu te ligo, ok?
-Ok.
-Tchau, !
gritou do meu lado e eu franzi o cenho para ele não só pelo grito bem perto do meu ouvido. Eles já estavam se tratando pelo apelido depois de menos de dez minutos no telefone? Pelo visto não era cativante só para mim.
-Boa noite, .
disse algo que não pude entender, franzindo ainda mais o cenho e questionando-a sobre o que ela tinha falado ouvindo-a rir levemente antes de me responder.
-Te desejei boa noite em português.
Ela explicou e eu sorri, tentando repetir o que ela tinha falado antes e a ouvindo gargalhar do outro lado antes de nos despedirmos de verdade.
-Ela parece ser legal.
comentou, enquanto deixávamos o quarto, chamando o elevador assim que alcançamos o hall do andar.
-Ela é legal. Já falou com a ?
Enfatizei, logo cortando o assunto, aquele incomodo de volta a mim mesmo com o tom amistoso de .
-Sim. Ela não está muito mais feliz comigo do que antes.
-Só você para se meter numa furada dessas, ...
-Nem todo mundo bate com alguém legal depois de ficar solteiro, né.
-É... Deus guarda está sorte para os bons.
Falei convencido, puxando levemente a camisa como faziam em alguns rappers em videoclipes, observando rolar os olhos bem a tempo das portas do elevador se abrirem no saguão principal onde , e nossa equipe nos esperavam para jantar.
-Eu perguntaria por que vocês demoraram tanto, mas não tenho certeza de querer mesmo saber.
disse olhando para nós dois com suspeita e eu abracei pela cintura.
-, você não pode condenar o nosso amor!
Brinquei vendo rolar os olhos e parecer estupefato, também entrando na nossa brincadeira.
-Mas, , eu achei que você fosse meu!
-A fila anda, querido.
Desdenhei, fazendo pose e todos riram. Não fomos muito longe do hotel para jantar, já que nós todos estávamos cansados e no outro dia teríamos que acordar cedo. Sorri assim que o prato chegou à mesa, não só porque estava com fome e ela estava prestes a ser saciada, mas porque ele me lembrou alguém que estava bem longe daqui. Não pude me segurar de pegar o telefone e enviar uma mensagem: “adivinha o que tivemos no jantar?”.
Liguei para durante cada dia da semana que passamos em Lisboa, mais de uma vez ao dia. Isto quando ela não me ligava, nem que fosse para falar nada. Sentia saudade da respiração dela do outro lado da linha e me perguntava se era normal alguém se tornar tão especial com tão pouco tempo, sem nem querer saber a resposta; Gosto do jeito que ela me fazia sentir.
Então talvez não fosse só a perspectiva de férias de verdade que estava me deixando tão animado quanto a voltar para Londres, mas também ela. Só que eu não admitia isto nem para eu mesmo.

Eu sentia o peso do mundo em minhas costas, enquanto empurrava o carrinho com minhas bagagens, já de volta a Inglaterra. Todo o cansaço dos dias corridos em Portugal faziam-me ansiar por minha cama o mais rápido possível. Algumas fãs nos esperavam no aeroporto, não tantas quanto em Portugal, uma vez que estarmos na Inglaterra não era grande novidade. Tinha acabado de tirar uma foto com uma fã, quando vi um exemplar da revista Atitude que fomos capa ser estendido em minha direção para um autógrafo observando sorrir mordendo o lábio inferior assim que levantei os olhos em direção a quem me oferecia o objeto.
-!
Exclamei surpreso, assistindo-a rir deliciosamente e puxando-a para um abraço.
-Parece que alguém sentiu minha falta...
Ela sugeriu com um sorriso, enquanto eu me desvencilhava de seu corpo, mantendo apenas um braço ao redor de sua cintura.
-Quem? Eu não senti nem um pouco.
Esnobei falsamente, rolando os olhos quando ela me deu um pequeno tapa no antebraço e aproximando-a mais ainda de meu corpo em seguida, nossos lábios ficando perigosamente perto por alguns segundos, os olhos dela examinando os meus lábios tão incertos quanto os meus ao examinar os dela. Por mim, aquele espaço entre eles estaria extinto. No entanto, se afastou com uma risada nervosa e pareceu brotar do nada em nossa frente.
-, eu estou indo embora... Você vai querer uma carona?
perguntou meio abobado, seus olhos fitando com curiosidade e seu cenho franzindo-se assim que eu olhei para mesma antes de lhe dar uma resposta.
-Que foi?
perguntou encabulada quando percebeu nossos olhares sob ela.
- quer me arrastar para casa... Você tinha algum plano em mente quando veio me buscar aqui?
-Estava pensando em pizza, mas você parece cansado. Melhor ir para casa, não?
disse preocupada, seus dedos acariciando levemente a área levemente escura debaixo de meus olhos. Aquele carinho e aquela preocupação me aqueceram tanto, que eu odiei quando cinco segundos depois cortou totalmente o clima. Eu realmente tive que me segurar para não dar uns socos naquele cara.
-Espera, você é a ?!
Ele perguntou animado vendo sorrir ligeiramente corada e afirmar que sim. Mas é claro que a menção do nome atraiu os outros meninos curiosos e nós ficamos ali, no meio do saguão do aeroporto conversando. Em certo momento, eu a abracei pela cintura. Sem nenhum motivo para fazê-lo, observando-a franzir o cenho surpresa para mim por alguns segundos antes que os meninos chamassem sua atenção para alguma outra coisa.
-Eu preciso ir ou a me mata. , te espero na nossa festa de ano novo, ok?
despediu-se, sendo seguido por . Enquanto continuou ali nos encarando e só então eu lembrei a questão que estávamos falando antes.
-Eu vou comer com a , . Depois te encontro para pegar minhas coisas.
Disse rapidamente esperando que ele fosse embora, mas ele continuou ali.
-Não, ... Vamos comigo! Sabe, era uma desculpa para eu encontrar a também...
Olhei incrédulo para ele e estava pronto para dizer “sinto muito, meu amigo” quando tomou a frente na conversa.
-Já sei! Você chega primeiro com as coisas do e nós dois chegamos depois com as pizzas. Assim vocês vão ter um tempo sozinhos e... Bom, é isto que você quer, não é?
Pouco tempo depois estávamos nos separando no estacionamento. em seu carro partindo para minha casa e eu e caminhando um pouco mais até sua moto que estava de volta.
-Hm... Tem certeza que não podemos pegar um táxi? Não confio em você dirigindo qualquer coisa.
Brinquei, fingindo medo assim que ela me entregou um capacete e observando-a me dar língua enquanto colocava o seu capacete e subia na moto. Acompanhei-a, abraçando-a pela cintura e rindo pela situação enquanto partíamos. Em qualquer filme, seria o menino dando uma carona para a menina em sua moto, mas parece que nada para a gente era convencional. E eu adorava isto.

Quase uma hora depois, conseguimos chegar a meu apartamento, estacionando logo atrás do carro de . É claro que nem eu nem tínhamos pensado em como carregaríamos uma pizza numa moto, mas no final lá estávamos com ela. E ela até que guiava bem sua moto, não que eu tenha admitido isto a ela. Aproveitamos para passar também por uma locadora, o que tomou a maior parte do nosso tempo, já que ela queria assistir uma comédia romântica e eu um filme de ação. Optamos por um drama.
Cumprimentei o porteiro e logo nós já estávamos entrando em meu apartamento, encontrando uma nem tão feliz e um esperançoso em meu sofá.
-Oi, !
disse caminhando em direção a para abraçá-la sob um olhar incrédulo meu e de .
-, onde eu pego os pratos?
perguntou e eu apontei a cozinha para ela, seguindo-a enquanto ela ia em direção a mesma.
-Você e a se conhecem?
Perguntei atordoado e sorriu de lado para mim, rolando os olhos.
-Não até ela vir morar aqui. Eu liguei e ela atendeu em português. Bom... É legal encontrar alguém do seu país de vez enquanto e como ela é nova por aqui, a gente saiu juntas algumas vezes. Inclusive, posso dizer que o até tem pontos com a garota. Se ele pelo menos não a tivesse feito brigar com a única pessoa que ela conhecia por aqui.
explicou, permanecendo com seus olhos sobre mim por algum tempo e largando os pratos que tinha pegado em cima da mesa antes de envolver-me em seus braços.
-Eu senti sua falta.
Ela murmurou, sua voz abafada contra meu peito me fazendo sorrir enquanto afagava seus cabelos dizendo que eu também havia sentido sua falta e esperando que ela não sentisse o quão forte meu coração batia só por tê-la ali.
Não demorou muito para voltarmos à sala e começarmos a assistir o filme enquanto comíamos. e sentados em um sofá, eu e em outro. Ela acomodou sua cabeça em meu ombro e eu brincava com suas mãos, até que não consegui mais assistir o filme. e continuavam focados, discutindo algumas cenas e ali eu percebi que os dois tinham futuro, mesmo com o início bagunçado.
-Vem comigo.
Sussurrei para , segurando sua mão e puxando-a comigo para o segundo andar do meu apartamento. Ela parecia um pouco confusa, mas mantinha um sorriso nos lábios, parecendo uma criança a ponto de cometer uma travessura. Atravessamos meu quarto em direção a minha área preferida da casa. Uma varanda com sofás baixos, meia luz e a piscina que esta época do ano estava vazia. Dali eu tinha uma bela vista, ali eu escrevi muitas músicas e não sei quantas vezes eu fiquei ali encarando um céu sem estrelas.
-Você tem uma ótima vista aqui.
murmurou atrás de mim e eu me virei em sua direção com um sorriso no canto dos lábios.
-É o meu lugar preferido da casa.
-Boa escolha.
Ela disse encaminhando-se a um dos sofás e deitando nele e eu a imitei, deitando-me ao seu lado. Ficamos em silêncio até que eu comecei a cantar uma música que tinha composto ali mesmo, virando-se para me observar até que eu me virei para olhá-la. Estávamos tão próximos que eu podia sentir a respiração quente dela acariciar minha bochecha. Meus olhos mais uma vez passeavam entre seus olhos e seus lábios, mas desta vez eu não hesitei. Colei meus lábios naqueles lábios macios e doces, pedindo passagem e recebendo em seguida. Minha mão firmemente posta em sua cintura enquanto ela acariciava minha nuca e cabelo de um jeito que eu adorava que fizessem. E depois daquele beijo, outro. E mais um. E mais muitos até que eu ouvisse alguém gritar do primeiro andar que estava indo embora.
-Talvez seja melhor eu ir também... Está tarde.
murmurou em seguida, afundando seu rosto em meu pescoço e eu passei meus braços ao redor dela.
-Fica aqui hoje.
Pedi com a voz mais desolada que consegui, assistindo-a separar-se sensivelmente de mim para olhar-me nos olhos.
-Isto não é justo.
-Eu nunca disse que jogava segundo as regras.
Respondi num estilo gangstar assistindo-a gargalhar e beijar-me novamente.
-Minha moto está do lado de fora.
-É um bairro seguro.
-...
-Gata, eu não vou fazer nada que você não queira...
Brinquei, fazendo rir de novo.
-Ok, eu fico.
Ela cedeu algum tempo depois, me fazendo sorrir como uma criança que acabara de receber seu presente, aproveitando para beijá-la mais vezes. E assim foi durante grande parte da noite. Até ela ameaçar nunca mais dormir lá em casa porque eu não a deixava dormir, na verdade. Dormi com ela acariciando meus cabelos e acordei com meus braços apertados ao redor de sua cintura. Um sorriso em meus lábios durante todo aquele tempo. Um sorriso porque ela estava ali.

No outro dia, acordei sem ao meu lado, mas podia ouvir sua voz soando do primeiro andar do apartamento, aparentemente cantando algo que eu não conseguia entender. Uma ligeira preguiça de levantar abateu-me, mas eu precisava encontrar os meninos na gravadora então retirei os edredons de cima de meu corpo e parti em direção ao banheiro.
Estava na metade da escada apenas de boxers quando lembrei que talvez também estivesse na cozinha e voltei a subir, sendo surpreendido por .
-Uh, que bela visão pela manhã!
Ela exclamou divertida, mordendo os lábios fingindo desejo e fazendo-me rolar os olhos caminhando em sua direção, colando nossos lábios rapidamente.
-Você fugiu da cama...
-Foi por uma boa razão... Vim fazer panquecas!
explicou animada e eu dei a volta por ela caminhando em direção a cozinha, sendo segurado pela única peça de roupa que eu estava usando.
-Hey! Vai ficar andando assim por aí?
perguntou arqueando as sobrancelhas com certo ciúme que me fez sorrir e voltar para o seu lado.
-Tem razão. Esqueci que só você pode ver minhas roupas íntimas a partir de agora.
-Hm... Eu também não sabia disto.
falou incerta e eu voltei minha atenção a ela novamente.
-Não seja boba, .
-É sério mesmo, .
-Olha... Eu não sei o que se passa por esta sua mente, mas nós estamos tendo algo agora. E as pessoas costumam ser fiéis quando estão tendo algo com outras...
Expliquei simplesmente observando com uma expressão quase engraçada de compreensão.
-Mas você é músico.
-E?
-E todas as fãs, groupies, produtoras lindas e etc.
-Eu tenho você.
Afirmei, imitando algo que ouvi dizer a há um tempo. Mas é claro que não sabia disso e fez a expressão mais derretida que eu já vi naqueles olhos, enquanto dentro de mim crescia uma insegurança sobre ela não querer algo sério. Sei lá, ela estava contestando tanto. E depois de ... Bem. Eu queria mesmo alguma segurança num relacionamento.
Não falamos mais nada, então eu voltei a subir as escadas até que ouvi falar mais uma vez.
-Ah, não precisa colocar a bermuda. A não está aí.
Ela disse simplesmente e eu a olhei sem entender.
-É que não é todo dia que eu vou estar aqui para te policiar, não é. Vai que você desce só de boxers um dia que ela está. Não quero minha amiga te olhando deste jeito não... E garanto que o pensa o mesmo.
confessou e eu sorri voltando até ela e dando-lhe uma pequena mordida na bochecha, seguida de um beijo. Os dois caminhando em direção a cozinha. Só ali percebi que dormi mais do que pensei depois que deixou a cama. Havia geléia, panquecas e suco na mesa que eu tinha certeza de não ter em casa, ainda mais recém chegado de viajem.
-Você preparou isto tudo?
-Eu e a fizemos compra enquanto você estava fora... Não tinha nada de saudável na geladeira.
-Diz a mulher em que a lista de compras se resume a biscoitos e sorvete.
Impliquei e vi dar-me língua em resposta.
-Mas ela também resolveu que vai lá para casa. Não quer te incomodar...
continuou dando de ombros e eu murmurei qualquer coisa em concordância. Ficamos algum tempo apenas comendo até que eu falasse.
-O que você estava cantando mais cedo hein?
Perguntei, parecendo retirar de uma linhagem de pensamento e chamando sua atenção para mim.
-Hm... Barão Vermelho. É uma banda brasileira antiga. Te empresto uns CDs se você quiser.
Ela explicou e nós seguimos conversando sobre música e outras coisas até que chegasse a hora dela ir para o trabalho e a minha de ir encontrar os meninos. Fui com um sorriso nos lábios, contente com a perspectiva de contar para os caras que eu finalmente estava seguindo em frente. Ainda podia ouvir o fantasma de ecoando na mente, no entanto cada vez mais distante e mais baixo. Abandonei os pensamentos para acelerar no trânsito, evitando que chegasse mais cedo e contasse minhas novidades antes de mim.

5

Duas semanas depois, eu e estávamos nos encontrando todos os dias. Quando eu não dormia na casa dela, era ela quem estava na minha. O sempre atrás quando eu ia para casa dela, prosseguindo em sua tentativa de conquistar . Tentativas que todos nós víamos que estavam funcionando. O que era legal, uma vez que os dois combinavam e a era uma ótima pessoa. Se não fosse por , certeza que os dois já estavam juntos. Mas o mundo não é perfeito e às vezes faz você lutar mais pelas coisas. Quem sabe para você aprender a dar mais valor.
Apesar de ser quarta feira, eu e os meninos estávamos dando uma festa entre amigos porque não nos veríamos durante o natal. E esta era a razão de eu estar estacionado na frente do prédio de , decidido a não subir porque se eu o fizesse ela demoraria mais um ano para se arrumar. Sendo que ela já estava suficientemente linda antes. Conferi a hora no relógio do carro, lembrando que teria de passar em algum lugar para comprar cervejas antes de ir para a casa de e aumentando o volume do rádio que tocava Foo Fighters. Estava quase ligando novamente para quando a vi no hall do prédio caminhando em direção ao carro.
-Por que está fazendo tanto frio?!
Ela perguntou depois de colar nossos lábios rapidamente, seu lábio inferior sobrepondo-se ligeiramente ao superior como acontecia quando ela estava contrariada ou chateada.
-É inverno... É a magia do natal!
Exclamei infantil, vendo apenas a sombra de um sorriso alcançar seus olhos tenros.
-Se estas nevascas continuarem meu natal não vai ter magia nenhuma...
disse um pouco chorosa e eu a observei por minha visão periférica enquanto dirigia. Surpreendentemente ainda não tínhamos conversado sobre planos natalinos, mesmo que o feriado fosse dali a três dias.
-Quais são seus planos para o natal?
Perguntei, abaixando o volume do som para que pudéssemos conversar.
-Tenho passagens compradas para o Brasil, mas com estas nevascas não sei se vou poder viajar. Os aeroportos estão um caos. Se não melhorar amanhã, sem chances. E você, o que vai fazer?
-Devo ir para casa da minha mãe...
Respondi simplesmente, pela primeira vez incerto sobre meus planos natalinos. As nevascas deste ano estavam realmente ruins e prejudicavam também as linhas de trem, enchiam as rodovias. Com certeza eu teria algumas dores de cabeça para viajar desta vez.
-Já que a gente não vai passar o natal juntos, você podia pelo menos ir lá em casa me ajudar a montar a árvore.
pediu e eu a olhei fingindo ultraje.
-Menos de uma semana para o natal e você ainda não montou sua árvore?!
-Como se eu tivesse ficado muito em casa por estes dias, né...
Ela retrucou e eu respondi com um meio sorriso malicioso que a fez corar ligeiramente. Continuamos conversando até a casa de , parando para comprar as bebidas no meio do caminho como planejado e chegando lá cerca de meia hora depois.

Passadas algumas horas, já estávamos todos meio altos e só restavam os meninos, as namoradas e . Estávamos todos dispersos ao redor da lareira acesa, imersos em uma conversa amistosa sobre diferentes assuntos. Eu podia perceber alguns olhares observadores tanto de e quanto de e sobre , o que a fazia corar levemente ao perceber. No entanto, aquele pequeno traço de timidez não a fez contagiar menos a todos que logo já estavam envoltos por sua magia. E eu me senti extremamente especial ao perceber que agora aquela magia era minha.
-Eu não me sinto bêbado o suficiente para ir embora... Mas vocês todos juntos estão me deixando realmente deprimido.
resmungou depois de algum tempo, mirando tristemente sua garrafa fazendo todos nós rirem. Apesar da reclamação, ele continuou ali e algum tempo se passou até que chegasse à sala trazendo um jogo em suas mãos, sugerindo para quebrar a rotina de apenas ficarmos ali conversando e bebendo até ser suficientemente tarde.
-Mas nós não temos duplas... Como vamos jogar?
perguntou e gemeu sofrido em seu canto do sofá.
-, como você agüentou isto? Eu estou me sentindo sozinho... , por favor, fique comigo.
Ele lamentou, pegando a mão de entre as suas porque ela era quem estava mais perto dele e também porque os dois vinham desenvolvendo uma real amizade com tantas idas de a sua casa.
-Hei , sua brasileira é outra.
Rosnei num ciúme meio fingido, meio real, puxando a mão de e plantando um beijo na mesma antes de beijar também a ponta do seu nariz e finalmente seus lábios. Até que algumas almofadas nos atingiram junto com coros das mais variadas onomatopéias.
-Ok, casal, podemos continuar?
perguntou brincando arrumando as cartas do jogo que parecia ser imagem e ação em cima da mesinha de centro. Nós dividimos as regras e decidimos que para não sermos injustos, cada um jogava por si, a mímica podendo ser adivinhada por qualquer um.
Uma hora, ainda nos encontrávamos envoltos no jogo com muitas risadas e micos. Eu e estávamos empatados e como o sono pós-bebedeira já começava a abater todos, aquela era a última mímica a ser feita para que pudéssemos decidir um vencedor. acabou sendo sorteada para encenar e eu quase decidi que aquilo estava perdido, porque as mímicas dela eram sempre as mais difíceis de entender.
-Pão?!
Meio perguntei, meio afirmei depois de vê-la fingir estar cortando alguma coisa da mesma forma que a vi cortar o pão num café da manhã uma vez. Logo em seguida, ela ergueu os braços sobre a cabeça, abrindo as pernas ao mesmo tempo fazendo-me franzir o cenho tentando entender o que era aquilo. Concluí que estava adquirindo uma belíssima memória, depois de lembrar de uma menina fazer aquilo num filme. Torre Eiffel. Pão e torre Eiffel. Pão e Paris...
-Pão francês?
perguntou antes de mim e eu suspirei chateado, achando que já tinha perdido aquela quando acenou que não.
-Croissant!
Esbravejei com tanta certeza que todos os presentes riram inclusive que saiu de sua pose engraçada e pulou em minha direção.
-Isto, amor!
Ela disse espontaneamente, abraçando-me e rindo com os outros enquanto resmungava ao meu lado por ter perdido, apesar de também estar rindo. Porém só uma coisa martelava em minha cabeça naquele momento. Amor. Ela me chamara de amor.
-O que?
Perguntei baixinho quando todos já não estavam prestando atenção na gente.
-Você acertou a palavra, oras. Tenho que dizer que não achei que você fosse acertar...
desconversou, olhando para o chão até que eu levantasse delicadamente seu rosto para olhar em seus olhos novamente.
-Você sabe que eu não estou falando disto.
Eu disse resoluto e ela mordeu o lábio inferior, a insegurança transbordando em seus olhos de forma tão firme que eu tinha vontade de abraçá-la e nunca mais deixá-la ir.
-Você acha que isto está indo muito rápido? Porque às vezes eu não entendo como tudo pode estar acontecendo assim para a gente também...
perguntou depois de alguns segundos, sua voz esganiçada, presa, seus olhos grandes desta vez fincados em meu rosto a procura de uma resposta que minhas palavras não expressassem.
-Sim, eu acho e eu também não entendo.
Respondi inicialmente percebendo-a engolir seco e tentar afastar-se de meu corpo antes que eu a puxasse para mais perto.
-Mas o que eu sinto aqui dentro, não se entende, se sente. Só sinta, amor.
Terminei, vendo aquela insegurança derreter-se em seus olhos marejados com ternura e sem esperar colei meus lábios nos de . Naquele momento, não liguei se estávamos numa sala com mais cinco pessoas que poderiam estar nos observando e que poderiam nos zoar muito dali a poucos segundos. Eu era o seu amor e ela era o meu e eu precisava mostrar isto. Eu queria continuar mostrando em cada segundo de nossas vidas.

No dia seguinte, exatamente às sete da noite, eu estava parado em frente ao prédio onde trabalhava esperando que ela descesse para que fossemos comprar coisas para arrumar sua casa no natal. Milagrosamente, ela não demorou e no horário combinado já estava deixando o prédio, caminhando com um sorriso em minha direção.
-Ansiosa para me encontrar ou para parar de trabalhar? Nunca te vi tão pontual...
Impliquei depois de selar nossos lábios rapidamente, observando-a sorrir.
-Ansiosa para largar aqueles chatos. Ficaram me pentelhando o dia inteiro desde que eu disse que ia sair com você... Se você olhar para cima, aposto que eles estão na janela.
Ela confessou meio torturada e eu olhei na direção onde ela disse, observando algumas pessoas olharem para baixo e dividirem-se entre os que se escondiam e os que acenavam quando perceberam que eu olhava em sua direção. Na dúvida, acenei de volta.
-Aposto que você está louca para sair daqui, não é?
-Por favor!
Ri levemente antes de oferecer minha mão para que ela entrelaçasse nossos dedos, caminhando ao seu lado compartilhando minúcias do dia até que alcançássemos o carro e eu abrisse a porta para ela antes de encaminhar-me até o meu lado.

Continuamos conversando até que chegássemos à loja de artigos de natal, enquanto comprávamos e também depois de já estarmos no apartamento dela arrumando o mesmo. Por fim, estávamos os dois deitados no chão gélido profundamente cansados para uma tarefa tão boba. Pelo menos a decoração havia ficado bonita, mais por do que por mim. Minha própria árvore era prova disto, sendo que tudo que eu fazia era imitar a mesma decoração que uma antiga namorada fizera uma vez anos atrás.
-Depois do desfile, eu preciso redecorar esta casa e dormir mais.
listou mais para si do que para mim.
-Eu gosto da decoração da sua casa.
-Eu também, mas... Estou ficando cansada de tanto branco. Você deveria redecorar sua casa também... Quer dizer, se você quiser. É só que é tudo tão projetado e meio triste, sabe? Não tem muitos toques de você.
disse sincera e eu murmurei algo em concordância, lembrando da última vez que decorei minha casa. Lamentei o resultado desde o início. Muito cinza, muito metal, aquela obra de arte... Mas gostara. estava indo morar comigo e eu estava profundamente apaixonado por ela. Apaixonado o bastante para deixá-la fazer minha casa parecer tudo, menos minha. No entanto, eu não me arrependo. Eu estava sendo sincero comigo naquele tempo e isto é o que importa. Ainda que, se eu pudesse reaver aquele meu dinheiro gasto, eu faria tudo menos aquilo.
-Esquecemos de colocar a estrela...
choramingou algum tempo depois, colocando-se sobre os cotovelos e seu lábio inferior sobressaltando-se levemente como sempre e eu me coloquei de pé após beijar levemente sua boca, ajudando-a a levantar-se também para o ponto final.
-Este é o momento mais solene de toda a decoração. A estrela, por favor.
disse seriamente esticando a mão sem tirar os olhos da árvore para que eu lhe desse a estrela. Ela caminhou lentamente em direção a árvore, esticando-se para conseguir colocá-la, equilibrando-se na ponta dos pés.
Mordi meu lábio. Se ela tivesse idéia do quão sexy ela estava daquele jeito... Me entenda, tem coisas que as mulheres fazem que elas não tem idéia do quão sexy ficam. Coisas simples como prender o cabelo e deixar a nuca amostra e esticar-se daquele jeito... Andei até ela, abraçando-a pelas costas e beijando seu pescoço sentindo-a estremecer levemente antes de estabelecer a estrela e virar-se para mim. Deixamos a estrela, a decoração, a data... Tínhamos coisas mais interessantes a fazer.

Tive de me despedir de pela manhã, deixei-a no aeroporto e fui em direção ao terminal de trens. Com o caos aéreo que o país estava, imaginei que seria a melhor forma de chegar até a casa de minha mãe. Não demorou muito para perceber que estava errado. Mais uma nevasca tinha acontecido durante a madrugada e os trens também estavam impossibilitados de circular. Olhei a tela do celular para conferir as horas ainda em frente ao balcão para a compra de passagens, agradecendo a mulher pouco paciente atrás do mesmo e retornando para meu carro. Teria de tentar novamente amanhã.
Liguei para casa e posso dizer que minha mãe não ficou muito feliz com a notícia, mas também me preveniu tanto a não ir de carro que fiquei com medo de ir contra e cair numa daquelas “maldições de mãe”. Joguei videogame, assisti a filmes, toquei um pouco... Estava curtindo uma preguiça quando o celular tocou, quase caindo do sofá quando me estiquei para pegá-lo ao invés de levantar e ir até onde o objeto estava.
-Amor?
Perguntei assim que atendi, após ver o nome de na tela. Achei que provavelmente ela estava embarcando naquele momento e por isto me ligara, mas o soluço que ouvi do outro lado me disse o contrário.
-Alguma coisa errada?
-Não vão voar hoje.
Ela respondeu com a voz pequena do outro lado da linha e eu mordi o lábio receoso, sabia o quanto era importante para ela passar aquela data com a família.
-Nenhuma chance de você conseguir chegar lá a tempo?
-Não... Já tentei todas as formas, todas as companhias, alugar um jatinho. Nada.
respondeu do outro lado da linha, soluçando novamente e eu senti meu coração apertar. Não gostava de ver mulheres chorando, muito menos .
-Quer que eu vá te buscar no aeroporto?
-Vai me mimar pro resto da noite? Preciso de carinho.
disse do outro lado da linha, fazendo-me rir ligeiramente.
-Algum dia eu fiz diferente?
Respondi ouvindo-a sorrir do outro lado da linha, mas dispensando minha carona por não querer abusar. Algum tempo depois, o porteiro avisando de sua chegada. Abracei-a assim que ela cruzou as portas, não agüentando ver seus olhos e nariz levemente avermelhados pelo choro.
Por um bom tempo, ficamos assistindo aos filmes açucarados que tinha emprestado a mim. Se sua masculinidade fosse julgada pelos filmes que assiste, tinha um amigo, não um namorado.

No dia seguinte, acordei mais cedo do que desejava. Claridade entrava pela fresta da cortina e o lado de na cama estava gélido. Bocejei e olhei ao redor tentando achar qualquer sinal dela, mas não consegui, levantando-me da cama para fechar a cortina e percebendo-a do lado de fora.
Lá estava ela observando a claridade que começava a surgir, já que algum sol era difícil de perceber por trás das grossas nuvens. Usava um casaco de moletom que eu havia projetado com os meninos para vender por nosso site, suas calças térmicas e pantufas. Surpreendeu-me virando em minha direção munida de uma máquina fotográfica profissional, disparando um flash inesperado em meus olhos e gargalhando em seguida. Eu era quem estava planejando dar um susto.
-Feliz véspera de natal, !
desejou em seguida, caminhando até mim e englobando-me em seus braços, selando nossos lábios em seguida.
-Feliz véspera de natal, amor.
Respondi iniciando um beijo profundo e apaixonado, separado apenas quando já não tínhamos mais ar e o frio começava a fazer efeito sobre nossos corpos.
-Por que você está aqui fora se tem uma cama tão quentinha lá dentro?
Perguntei inconformado ao pé de seu ouvido com os olhos ainda fechados, sentindo-a sorrir.
-Estava sem sono e aqui estava tão bonito...
justificou simplesmente, descansando sua cabeça em meu ombro, sua respiração quente aquecendo meu pescoço. Seu corpo junto ao meu aquecendo meu coração.
-Eu tenho idéias melhores do que se fazer quando está sem sono.
Sugeri malicioso assistindo levantar seus olhos na direção dos meus, uma malícia divertida brilhando neles.
-Acho que você vai ter que me mostrar quais são...
continuou e eu mordi levemente seu lábio inferior antes de iniciar mais um beijo ao mesmo tempo em que a guiava para dentro.

Algumas horas depois, ainda estávamos na cama. Ambos encarando a televisão com a mesma falta de entusiasmo enquanto dividíamos panquecas e bebericávamos chocolates quentes que havia feito. Não sei se estava com muita fome ou se ela realmente cozinha bem, mas tudo estava delicioso. Um programa qualquer de esportes passava na TV, não chamando muito minha atenção até que exclamasse ao meu lado.
-Gerard!
disse surpresa, segurando minha mão para que eu não trocasse de canal e eu a olhei desconfiado por seu interesse naquele cara. Bom, ela vinha do país do futebol e aquele era um jogador então... Talvez fosse uma simples admiração pro seu trabalho e não por seu belo par de olhos azuis que ela estava tão afetada. Ao menos eu realmente esperava que fosse isto.
-Quem é este?
Perguntei com alguma relutância depois de algum tempo observando-a morder o lábio inferior antes de responder. Eu realmente queria saber a resposta?
-Eu não acredito que você não sabe! Ele é o zagueiro da seleção espanhola e do Barcelona.
respondeu simplesmente e eu fiquei momentaneamente aliviado. Era só admiração pelo trabalho do cara. Mas este alívio não durou muito.
-E também meu ex-namorado.
Ela admitiu rapidamente e com uma voz baixa, sem realmente olhar em meus olhos, como quem estivesse listando só mais uma característica boba. Olhei novamente para TV, encarando aquele cara alto, loiro, de olhos azuis e de um sotaque forte falando. Droga. tem queda por sotaques. Ela dizia isto toda vez que conversávamos.
-Você está com uma cara engraçada.
disse algum tempo depois, desligando a TV e envolvendo-me em seus braços, dispersando beijos por meu pescoço, maxilar e orelha.
-Então você já namorou jogadores de futebol?
Perguntei e senti-a rir, afastando-se ligeiramente de mim para sinalizar que sim com uma expressão risonha. Não pude evitar pensar que havia me trocado por um jogador.
-Quando eu estava fazendo faculdade, ele estava jogando pro United. Nós nos conhecemos numa balada e começamos a sair. Depois percebemos que servíamos melhor como só amigos um do outro.
explicou olhando diretamente nos meus olhos, passando-me total segurança do que ela estava falando que acalmou, porém não aquietou meu coração. Afinal, nada mais normal que ciúmes. Ainda mais dela. Não suportava a idéia de dividir aquela beleza.
-Own, amor, você não vai ficar assim só por que eu te pedi para não tirar do canal, não é? Só fiquei surpresa de vê-lo. Assim como você ficaria de ver a , talvez. Ou não, porque ela está na TV toda hora, mas... Hm, acho que você me entendeu.
explicou ainda abraçada a meu corpo e eu esperei que ela não tivesse sentindo a tensão que tomou meu corpo quando ela citou o nome de diretamente. A verdade é que evitávamos ao máximo falar dela ou de qualquer relação de ambos os lados. Acho que neste âmbito haviam ainda existiam feridas muito profundas tanto para um quanto para outro.
-Nós nunca falamos sobre nossos relacionamentos anteriores, não é?
Comentei brincando com os dedos dela entre os meus, sentindo-a assentir que não.
-Mas eu andei pesquisando.
complementou fazendo-me gargalhar levemente. Imaginei-a pesquisando meu nome no Google e os absurdos que deva ter lido nos fãs site.
-E o que você achou do resultado?
Perguntei curioso, ainda com um sorriso no rosto.
-Você já esteve na cama de muitas mocinhas inglesas.
Ela respondeu espontaneamente fazendo-me rir mais ainda.
-Você realmente pesquisou, não é?
Questionei vendo-a acenar que sim.
-Culpe e o tédio de um domingo. As coisas também não ficaram nada boas para o lado do .
acrescentou fingindo uma ligeira preocupação e eu colei meus lábios no dela, ainda sorrindo. Ela era simplesmente perfeita. Ficamos apenas nos encarando por algum tempo e eu podia ler em seus olhos que ela tinha algo a mais para dizer. E eu sabia exatamente do que se tratava.
-Mais o que você achou, cara Holmes?
Tentei manter o clima leve e divertido sem muito sucesso, vendo-a esboçar um sorriso rolando os olhos.
-É elementar, meu caro Watson!
Argumentou risonha e eu plantei um beijo na ponta de seu nariz antes de respondê-la.
-Estou usando de licença poética.
Respondi arqueando uma de minhas sobrancelhas, assistindo-a sorrir antes que ambos caíssemos em silêncio. Era a hora da verdade.
-Você foi para rehab depois que terminou com a , não é?
mais afirmou que perguntou, seus olhos fixos em suas próprias mãos enquanto falava.
-Sim. Não é algo que eu realmente me orgulhe... Ficar tão mal por alguém e o mundo inteiro saber disso.
Respondi sinceramente, segurando seu queixo para olhá-la nos olhos. O sorriso amargo que geralmente preenchia meus lábios quando este era o assunto surgindo novamente.
-Não é como se ninguém tenha feito isto antes. E todas estas músicas de amor? O que mais elas são?
comentou encorajando-me e eu sorri carinhosamente em resposta a sua tentativa. Eu também havia escrito músicas. Não que ela precisasse saber disto.
-E, além disto, não importa mais. Passou. E teve seu lado bom... Me fez crescer. Também me fez ter você.
Eu disse, finalizando com um sorriso e colando meus lábios no dela numa tentativa de findar o assunto. Não por não querer discuti-lo, apenas por ainda me sentir ligeiramente incomodado. Imensamente fraco.
-Quero te mostrar uma coisa...
Fiz menção de sair da cama e fui segurado por ela, inicialmente pensando que iria ouvir argumentos preguiçosos, percebendo só depois de olhar fundo em seus olhos que era bem mais que isto.
-Você tem que se reconstruir, . Mas não pra ou por mim, para ela ou qualquer outra pessoa. Você tem que fazer isto por você primeiro. O mundo é incerto. As pessoas são incertas. Se você não fizer isto, você pode se machucar ainda mais numa próxima vez.
falou, sem desviar seus olhos dos meus por nenhum segundo e colando meus lábios aos dela com intensidade em seguida. Entreguei-me ao beijo e estava duvidando das minhas idéias de deixar aquela cama quando o beijo partiu-se.
-Eu poderia matar aquela vaca por ter te feito sofrer. Mas de certa forma eu sou grata, o erro dela me rendeu você.
continuou sorrindo e eu procurei seus lábios novamente em mais um beijo profundo e apaixonado.

Observava cozinhar sentado no chão da cozinha enquanto anoitecia e a neve caía serenamente do lado de fora. O tempo não melhorara, o que significou natal sem família para nós dois, mas ainda assim eu não me sentia tão mal porque ela estava do meu lado. Dançava de uma forma despretensiosa e charmosa ao passo que eu dedilhava algumas coisas no violão que estava em minhas mãos.
-Muito bonito! Eu aqui com o trabalho pesado e você aí a toa, não é ?
fingiu estar irritada enquanto colocava o que eu conhecia como torradas francesas, mas que ela insistia em chamar de rabanada na frigideira. Durante o dia havíamos encontrado alguma energia para irmos até o mercado e tentarmos fazer uma ceia legal nós mesmos.
-Nossa, mas que injusta! Eu estou aqui te dando um apoio moral, fazendo uma trilha sonora e ainda me segurando para não te atacar com estas danças sexys.
Respondi maroto e a observei corar levemente e rolar os olhos, deixando as torradas e indo até outra coisa que ela preparava que parecia ser bem mais complicada, toda cheia de ingredientes e alguns deles até alcoólicos. Era o que eu estava mais empolgado para comer, é claro.
-Não sei se vai dar certo... Lembro de a minha mãe deixar o chester curtir o tempero por dias.
Ouvi murmurar mais consigo mesma do que para mim, mordendo o lábio inferior, colocando o chester embrulhado no forno e depois voltando as rabanadas. Comecei a tocar Five colours in her hair e começou a cantar, surpreendendo-me tanto com sua voz, quanto por ela saber a música. E quando eu digo que ela surpreendeu-me com sua voz não é porque ela cantava bem, pelo contrário, era aparentemente completamente surda para tons.
-Você está estragando minha música.
Brinquei parando de tocar subitamente a tempo de ver olhar para mim com uma expressão magoada e voltar emburrada para seus pratos.
-?
Chamei suavemente sem obter resposta. Droga, parecia que eu a tinha chateado mesmo. Mordi o lábio inferior pensando em levantar e ir até ela ou sei lá. Não levantei, simplesmente voltei a dedilhar em meu violão, desta vez uma batida nova de uma música que não era minha, mas que refletia bastante o que causava em mim.

Something in the way she moves
(Algo na maneira em que ela se move,)
Attracts me like no other lover
(Me atrai como nenhum outro amor)
Something in the way she woos me
(Alguma coisa em seu jeito me agrada)

I don't want to leave her now
(Eu não quero deixá-la agora)
You know I believe and how
(Você sabe que acredito e muito)

Comecei a cantar e percebia-a ligeiramente afetada pela canção, parando momentaneamente com suas danças e até mesmo de cortar os legumes que estavam sobre a bancada de granito.

Somewhere in her smile she knows
(Algum lugar em seu sorriso, ela sabe)
That I don't need no other lover
(Que não preciso de outra)
Something in her style that shows me
(Algo em seu jeito que ela me mostra)

I don't want to leave her now
(Eu não quero deixá-la agora)
You know I believe and how
(Você sabe que acredito e muito)

Parei de tocar subitamente, chamando num quase sussurro e assistindo-a virar-se em minha direção mordendo o lábio inferior incerta de forma tão adorável que me fez levantar, esquecendo o violão no chão e caminhar até ela.

You're asking me will my love grow
(Você me pergunta se meu amor vai crescer)
I don't know, I don't know
(Eu não sei, eu não sei)
You stick around now it may show
(Fique por perto e você verá)
I don't know, I don't know
(Eu não sei, eu não sei)

Something in the way she knows
(Alguma coisa em seu jeito, ela sabe)
And all I have to do is think of her
(E tudo que tenho de fazer é pensar nela)
Something in the things she shows me
(Algo nas coisas que ela me mostra)

I don't want to leave her now
(Eu não quero deixá-la agora)
You know I believe and how
(Você sabe que acredito e muito)

Finalizei a canção, segurando seu queixo para que ela me olhasse dentro dos olhos sem desviá-los nem um segundo, colando nossos lábios suavemente em seguida e recebendo abertura dela. Uma de minhas mãos apertava sua cintura enquanto a outra continuava acariciando seu rosto, ao passo que brincava com meus cabelos e massageava minha nuca e ombros, como já me acostumara a ela fazer. Só nos separamos quando já não tínhamos mais ar, um sorriso brilhando em meus lábios quando percebi os de tão vermelhos.
-Eu te amo.
Sussurrei em seu ouvido, abraçando seu corpo contra o meu e distribuindo beijos por qualquer pedaço da pele dela que eu encontrasse, sentindo seu perfume doce intoxicar-me.
-Você é a vida que eu já tenho, você é a vida que me falta. ¹
murmurou de volta e eu sorri, mordendo levemente sua bochecha antes de voltar a seus lábios e sentirmos um ligeiro cheiro de queimado.
Ela não pareceu ligar pelo pouco arroz que ficou queimado no fundo da panela, muito menos eu. Adorava me distrair nos lábios, nos olhos, no corpo dela.

N/A: Uma atualização fofa e grande para desejar todo mundo um feliz natal. Obrigada por serem pacientes e continuarem lendo NT, agora que as aulas acabaram e que eu estou fazendo um monte de nada vou poder escrever mais, então as atualizações vão acontecer com mais freqüência. Não se intimidem em comentar, mesmo que seja uma coisa ruim, porque a opinião de vocês importa muito. Xx, .
P.s.: A frase em itálico no final do capítulo é parte da música La vuelta Al mundo da banda Calle 13.
P.s.²: Prometo responder comentário por comentário na próxima atualização. Não respondi nesta porque estou tentando apressar as coisas.

Leia também: Right Things To Say (McFLY – Em Andamento)

N/B: Qualquer erro nessa atualização é meu, só meu. Reclamações por e-mail ou pelo twitter, nada de e-mails para o site, ok?