Fic by: Ray | Beta: Lilá | Revisada por: Mel
Capítulo 1 – Da próxima vez eu acerto mais embaixo.
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 10:57, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- Jennifer? – perguntou, colocando metade do cachorro-quente na boca. Continuou, com a maionese escapando por entre seus dentes. – Ela é gostosa e não é nada parecida com uma Miss Inteligência. Ontem na aula de geografia ela disse que o Canadá ficava na África do Sul e que os Judeus eram uma raça de chipanzés extinta. Cai fácil na sua conversa.
- Não... – suspirei, cansado de tentar achar a garota certa. Porque a garota certa para o que eu precisava parecia não existir. Ou talvez existisse, mas em algum universo paralelo onde macacos fossem os seres superiores e os humanos não passassem de meros escravos.
Espera aí. Isso é um filme, não é?
- Joanne? – sugeriu, apontando com a cabeça para a morena, que jogava vôlei na quadra com as amigas. – Ela sabe jogar vôlei.
- E o que diabos isso tem a ver com o que eu estou procurando, ? – perguntei, curioso.
- Sei lá, eu só queria parecer participativo... – ele respondeu, dando de ombros.
- Não... Eu preciso de alguém que ninguém conheça! Alguém que seja boa em convencer as pessoas... Alguém como...
- ? – perguntou, distraído, olhando meio vesgo para o horizonte. Segui seu olhar, e percebi que ele observava uma garota esquisita; ela andava olhando para baixo, com uns cinco livros enfiados embaixo do braço, e o cabelo preso em um rabo de cavalo alto, com fios soltos por toda a volta da cabeça. Ela parecia meio alheia ao resto do mundo, o que era um pouco engraçado.
- ? – perguntou, estranhando. Eu sabia que ele tinha estranhado a sugestão, porque sua sobrancelha quase tocou o começo da testa. Era uma coisa bizarra de ser ver, mas com o tempo você se acostumava. – O que poderia fazer por nós? Pelo , na verdade... Ela é só uma punk esquisita!
Olhei direito para ela. Usava um blusão masculino da Hurley preto por cima da camisa branca do uniforme e a calça de moletom azul escura com um “M” vermelho estampado. A calça era um pouco larga demais pro padrão tô-usando-apertado-assim-porque-quero-que-você-olhe-pra-minha-bunda das alunas, o que era uma combinação engraçada para uma garota. Principalmente uma garota mackenzista. Seu cabelo caía nos olhos e ela andava apressada, com passos firmes, enterrando seu Vans preto Old School na terra. A música alta do fone em seu ouvido podia ser escutada à metros de distância por um velho surdo, e não foi difícil reconhecer o som das duas únicas notas de “I Wanna Be Sedated”. Sua mochilha preta estampada com arames farpados batia em suas costas, e os vários bottons e chaveiros brilhavam à luz solar.
- É, , no que ela pode me ajudar? – perguntei, interessado, me ajeitando no banco de concreto.
Como se isso fosse possível.
- Líder do Grêmio Estudantil, capitã do time de Handball, está sempre nas listas de melhor aluna da sua sala, ano e escola. – ele foi listando, como sempre fazia. era filho único e mimadinho, então como bom organizadinho e veadinho que era, sua maior diversão era prestar atenção nos outros e fazer listas. E, claro, tocar com a gente no McFLY. Mas, mesmo sendo mimado, era um cara legal. E pegava mais garotas que eu, e juntos. – Além do mais, você viu a cara dela? Ela dá medo... Se ela não convencer com palavras, convence com um rosnado.
Olhei de novo para onde ela estava havia cinco segundos mas ela não estava mais lá.
- Algum de vocês a conhece? – perguntei, me levantando.
- Não. – eles disseram em uníssono.
- Vocês não prestam pra nada, eim!? – disse, virando os olhos. Andei decidido até a estradinha de terra que dava ao outro pátio – o pátio dos nerds, losers e afins – quando me chamou de volta.
- Você não vale nada mas eu gosto de você. – gritou, piscando o olho direito pra mim e mordendo o lábio inferior de um jeito provocativo. Pelo menos essa era a intenção, porque pra mim pareceu um porco babando no próprio beiço.
- Aaaah, tá cantando música de mulherzinha, tá? Tá piscando que nem mulherzinha, tá? – perguntei, fazendo todos rirem. Joguei o resto da minha esfiha de carne em , que jogou o papel do seu cachorro quente em , que jogou o celular – falei que ele era rico e mimado – em , que jogou a primeira coisa que viu na frente em mim. E a primeira coisa que estava na sua frente era .
Era fácil planejar alguma coisa com eles por perto. Porque, no final das contas, eu não planejava porra nenhuma...
Mas eu precisava mesmo da ajuda de alguém, e, de algum jeito, aquela garota chamou minha atenção... Qual era mesmo o nome dela? Kelly? Amanda? Mary? Ah, sim, ! Ela era uma daquelas garotas que só de olhar você sabe, você percebe, que ela convence qualquer um. E era de uma pessoa assim que eu estava precisando. Então, consequentemente, eu precisava dela, senão adeus McFLY, adeus escola pública, adeus guys e adeus sonhos de uma noite de verão.
E, se para não perder tudo o que eu mais gostava no mundo teria que chavecar uma nerd punk, eu o faria.
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 10:57, intervalo do Colégio Mackenzie.
Girls:
Deixei meu celular cair no chão. Abaixei-me com pressa, e acabei derrubando minha mochila por cima da cabeça. Meu iPod foi levado pela enxurrada e meu blusão foi parar no pescoço. Ao tentar arrumá-lo, deixei todos os meus livros e cadernos caírem.
E a desastrada ataca novamente!
Bom, não era uma cena de se admirar. Onde as palavras ‘coordenação motora’ estivessem, o nome ‘ ’ não estaria junto. Era simples e prático: Eu não havia nascido para ser delicada. Eu era uma garota meio... Bruta. E meu celular riscado e com o visor quebrado sabia muito bem disso.
- Mas que porra de celular idiota! – falei comigo mesma, ficando em pé e observando a catástrofe. Todos os meus livros estavam sujos de barro, e minha mochila, antes preta, agora era marrom. – Por que a gente tem essas coisinhas mesmo? – perguntei, mesmo estando sozinha. O que era um pouco patético. Mas eu era um pouco patética, então não me importava.
- Pra evitar que falemos sozinhos, mas acho que não adiantou muito no seu caso.
Dei um pulinho de susto, daqueles em que um ‘ai’ sai cortado da garganta, e fica uma coisa meio ‘aun’, e dei um passo para trás. Será que eu estava tão louca a ponto de ouvir vozes? Pisquei os olhos algumas vezes, e entrou no meu campo de visão.
Virei os olhos involutariamente, como sempre fazia quando algo me enojava. E se tinha alguém que me enojava, esse alguém era . Ele era tão imbecil que eu poderia descrevê-lo em 3 palavras: ‘Babaca pra cacete’. Ou ‘Idiota de montão’, o que ficava um pouco infantil, então eu preferia não usar.
era aquele tipo de menino folgado. O palhaço da turma; o imbecil da galera. Aquele tipo de garoto que zuava alguém só pelo simples fato desse alguém usar óculos ou simplesmente por não estar usando o uniforme do colégio mostrando a bunda e os peitos. Estava sempre meio chapado, e quando não estava, enxia o saco de meninas como eu, que só queriam um pouco de tranquilidade pra estudar e conversar com as amigas. Aquele era , e eu o odiava com todas as minhas forças.
Suspirei e o olhei de cima a baixo, não me contendo. É como sempre diziam: Os cafajestes são os mais bonitos. E não era a exceção da regra. Muito pelo contrário, ele era gato demais! Naquele dia, por exemplo, ele usava a bermuda azul escura do colégio na metade da canela, com um All Star branco e a camiseta branca com o “M” vermelho estampado justa nos ombros.
Santa perdição!
- Ha ha ha, santa comédia. – arrumei meu blusão e peguei minha mochila. – como todos os chamavam – se ajoelhou e pegou o resto das minhas coisas, entregando-as para mim. – Obrigado. Eu acho.
- Não foi nada. – ele respondeu, piscando aqueles olhos brilhantes para mim e sorrindo de um jeito meio sarcástico. Seu cabelo caía na testa de um jeito fofo, e ele mordia o lábio inferior, como sempre fazia quando estava pensando antes de dizer algo.
Não que eu prestasse atenção nele e nesses pequenos detalhes durante as aulas de geografia e física que tínhamos juntos nem nada do tipo. E se alguém disser que eu seco ele quando as aulas de educação física são juntas e ele joga futebol com os amigos sem camiseta, estará mentindo! Nada disso! Eu só sou uma ótima observadora.
Só isso.
- Afinal, é pra isso que servem os amigos. – então ele colocou um dos meus fones do iPod no ouvido e balançou a cabeça, despreocupado. – Rough Draft... Boa escolha.
Puxei o fone do seu ouvido com força.
- Ai! – ele exclamou, colocando a mão na orelha. – Por que diabos você fez isso?
- Porque eu não gosto que mexam nas minhas coisas. – ‘e não gosto de você’ pensei em dizer, mas aí seria um pouco grosseiro demais.
- Beleza, não mexo mais... A gente pode só conversar. – ele disse, como se fôssemos velhos amigos e converssássemos o tempo todo.
Aquilo já estava começando a ficar esquisito, e eu não estava nem um pouco afim de receber um banho de Coca-Cola no meu blusão novinho em folha da Hurley, e eu sabia que era isso o que eles faziam com garotas como eu. Sabe como é, puxavam papo e depois “POOM!”, humilhação pública.
E era por isso que eu o odiava e tinha que colocar um fim naquele papo furado.
Coloquei as duas mãos no quadril – ou nas ‘cadeiras’ como diria minha avó depois de meia taça de vinho – e destrambelhei a falar:
- O que você quer, eim? As únicas duas vezes que você falou comigo foram pra perguntar se a professora de artes estava interessada em alguém e se você teria chance com ela, e as duas vezes eu disse que não. Então não venha com esse papinho de “vamos só conversar” e dar uma de charmoso pra cima de mim, porque nós dois sabemos que você só quer zoar com a minha cara ou se aproveitar de alguma coisa que eu possa te dar, e levando em consideração que eu não sou nem de longe o seu tipo, sei que essa “alguma coisa” tem a ver com fazer trabalhos ou impedir que você leve mais uma suspensão.
Respirei fundo depois do discurso. Estava sorrindo por dentro, porque pela cara de incrédulo que ele estava fazendo, eu sabia que havia causado algum impacto.
Mas então ele se recompôs e a única coisa que pareceu absorver de tudo o que eu havia falado fora:
- Você errou. Ela estava afim de mim.
Bufei. Não perderia mais meu tempo com um babaca como ele. Guardei meu celular no bolso da calça do uniforme e continuei andando. Mas não passados 5 segundos, ele estava andando novamente ao meu lado.
- Você sabe que eu vou te ignorar, não sabe? – perguntei, enquanto andava apressada.
- Sei. – ele respondeu.
- E você sabe que eu posso contar para a diretora todas as vezes que você cabulou aula esse ano se continuar me enxendo o saco, não sabe? – perguntei novamente, já avistando minhas amigas, sentadas na nossa mesa de sempre, na cantina dos excluídos.
- Sei.
- Ótimo.
Andei por mais alguns segundos, e a cada passo que eu dava, ficava mais puta. No bom sentido, claro. Não que ‘ficar puta’ tenha algum bom sentido... Mas não era como se eu fosse encurtar a roupa e rodar a bolsinha. Estava ficando puta de ficar brava mesmo.
Mas é claro que você já entendeu.
O negócio era que eu não era boa com pessoas. Claro que eu era boa em argumentação, e em convencer. Só que quando se tratava de ‘fazer amizades’, eu era péssima. Mais péssima ainda com meninos. Mais péssima ainda com meninos que me seguiam. Mais péssima ainda com meninos que me seguiam para conseguir algo. Mais – muito mais – péssima ainda com meninos que me seguiam para conseguir algo, babacas pra cacete e que se chamavam .
E não ser boa com pessoas, e não estar nem um pouco afim de ao menos conversar com , estava me irritando. Por isso, parei de andar e me virei para ele, que parou junto e sorriu, prepotente.
- Finalmente! – ele disse. – Pensei que não fosse parar nunca.
- Certo, eu desisto. O que você quer? – perguntei, cruzando os braços.
- Quero ser seu amigo! – ele respondeu, ingênuo.
- Fala sério, ! – quase gritei, fechando a cara. – E fala rápido, porque eu estou com fome, quero sentar e comer sossegada.
- Ok, ok... Eu falo! Pensei que poderíamos estabelecer algum tipo de relação antes de...
- ! – gritei, não me contendo. – Rápido!
- Certo... Bom, o negócio é que eu preciso de um favor seu.
- Isso eu já tinha percebido. – disse, com sarcasmo, porque fome me deixava sarcástica. – Que tipo de favor?
- Preciso que você seja minha groupie.
- Sua o quê? – perguntei, fechando meu punho de raiva. Quem ele pensava que era para me pedir algo como aquilo? Quero dizer, ele nem me conhecia! Por que ele pensava que eu iria aceitar um pedido idiota daqueles? Onde ele viu em mim uma groupie em potencial? Quero dizer, eu tinha um piercing no nariz, mas não era como se isso me transformasse imediatamente em vadiazinha de banda.
- Sabe como é, gritos histéricos nos shows, montar fãs clube, ligar pra pedir nas rádios, dormir com os integrantes da banda... Brincadeira! A última parte foi brincadeira! – ele tentou corrigir, depois de ver minha expressão de vingadora do futuro. – E aí, topa?
Olhei bem para ele, tentando descobrir se ele estava falando sério ou se era mais uma de suas brincadeiras.
Mas sim, ele estava falando sério.
Francamente... Tinha como ser mais patético?
- Mas é claro! – exclamei, e ele abriu um sorriso gigante, sendo esmagado pelo o que eu disse a seguir. – Que não.
- Por que não?
- Por 3 motivos. Primeiro, eu tenho média global 9,8 e não vou desperdiçá-la sendo groupie de uma banda que ninguém conhece. Segundo, eu não tenho tempo para perder com sua brincadeira de ter uma banda, que nem ao menos é conhecida. E terceiro, eu não gosto de você.
Continuei a andar, mas dessa vez ele não veio atrás de mim. Caminhei rapidamente até a mesa, onde minhas amigas me olhavam espantadas. Porque, sinceramente, não costumava se misturar com pessoas como eu.
Sentei-me na mesa e peguei o embrulho que estava ansiosa para abrir desde às sete horas da manhã. Desembrulhei meu sanduíche de peito de peru com requeijão e dei a maior mordida que pude. Tudo isso sendo observada por , e .
- O quê? – perguntei, depois que deixou suas bolachas caírem no chão. E como eu conhecia muito bem, sabia que algo estava errado. Ela não desperdiçaria comida. Bolachas, então? Nunca!
- Você estava falando com ou foi só ilusão ‘idiótica’? – ela perguntou, colocando o dedo no queixo e rindo da sua própria piadinha ruim.
- É, eu estava conversando com ele. – respondi, dando de ombros. – Vocês foram bem na prova de química? Eu me dei mal... Eu acerto tudo na aula e na prova me dá um branco...
- ... O que queria com você? – voltou a perguntar, ignorando a minha pergunta.
- Ai, gente, que interesse idiota... Ele só queria ser idiota, é só isso que ele sabe fazer mesmo! – respondi, dando outra mordida no meu sanduíche. – Ele queria me pedir um favor.
- Que tipo de favor? – perguntou, e eu vi seus olhinhos brilharem.
- Ai, sua imbecil, não é nada disso! – respondi, e nós rimos. – Ele queria que eu desse uma de groupie para a bandinha idiota dele com o , o e o ... Como se chama mesmo? McMosca? McFlurry?
- McFLY. – me corrigiu. – E não é uma ‘bandinha idiota’, ! É simplesmente a melhor banda de rock desde que o Blink acabou! – nós duas suspiramos. Eu porque sentia falta do pop punk adolescente do Blink, e ela porque, bem, porque era louca por . E todas nós sabíamos. Ele, por outro lado, nunca acertava seu nome. Ela era constantemente chamada de Rachel ou Alison. – Você não vê? Acabou de jogar fora a única chance que eu teria com o ! Agora todos os meus sonhos estão arruinados! Para sempre!
- Para de drama ... Algum dia ele vai olhar no fundo do seus olhos e descobrir que você é a garota dos sonhos dele – não que eu acreditasse muito nisso, mas nada melhor do que animar as amigas –, enquanto isso não acontece, eu fico na minha, e na minha quer dizer BEM longe dele e dos seus amigos. – coloquei o fone no ouvido, e Linkin Park estourava na caixinha de som. Eu não voltei a conversar, mas continuei a observar minhas amigas, que falavam sem parar. Só que como a música me impedia de ouvir, eu só conseguia ler seus lábios e sincronizar com a música.
- I don't know what's worth fighting for! – disse, fazendo e gargalharem.
- Or why I have to scream, I don't know why I instigate... – respondeu, e as outras duas concordaram com a cabeça.
- And say what I don't mean, I don't know how I got this way, I know it's not alright! – disse, repentinamente séria.
- So I'm... – olhou para as duas, esperando uma resposta.
- Breaking the habit! Breaking the habit... Tonight! – as duas disseram, e caíram na risada de novo.
Chega de Linkin Park. Eu precisava saber o que elas estavam falando.
- Certo, o que vocês estão rindo aí? – perguntei, guardando meu iPod na mochila.
- Nada. – elas disseram em uníssono.
Olhei para um lado, depois para o outro. Então as encarei.
- Ou vocês falam, ou eu digo pra todo mundo que você – apontei para – fez cocô naquele banheiro nojento do último churrasco do terceiro ano, que você – apontei para – chorou assistindo Bob Esponja e que você, mocinha – apontei para –, tem medo do escuro até hoje e dorme com uma lâmpada do Batman acesa.
As 3 se entreolharam, com os rostos um pouco verdes.
Nada como uma chantagem emocional!
- Se você quer mesmo saber, sua bisca, estávamos tentando resolver o seu problema e o da ao mesmo tempo. – deu de ombros, fingindo estar ofendida.
- E como vocês pretendem fazer isso? – perguntei, curiosa.
- Fazendo você aceitar o favor de . – respondeu, indiferente.
- , eu já disse que nã... – comecei, quando me interrompeu.
- ! Para e pensa: Se você fizer isso, todos saem ganhando!
- Não consigo pensar em nada que me faça sair ganhando em fazer um favor baixo ao . – eu disse, séria.
- Mesmo? – olhou com o canto dos olhos para e , daquele jeito nós-temos-um-segredo-e-você-quer-muito-saber-o-quê-é. – Mesmo se isso te ajude com sua mãe que está chegando daqui a exatamente duas semanas e vai te matar se souber que você ainda não penteia o cabelo de manhã, tem um piercing no nariz e um no freio da língua e, o pior de tudo, não tem um namorado pra levar no baile de inverno que é daqui 16 dias?
Arregalei meus olhos. Mamãe estava chegando em duas semanas? Minha mãe estava chegando em 14 dias?
Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu estava TÃO perdida!
Lá se ia minha única chance de ganhar um carro... Quero dizer, onde eu arranjaria um namorado e roupas de menina em 16 dias? Era muita coisa... Principalmente as roupas! Quero dizer, quem consegue usar aquelas regatas cheias de brilho que pinicam mais que sentar num formigueiro?
Não que eu já tenha sentado em um... Eu só imagino como deve ser.
- Ai, meu Deus do céu! – exclamei, colocando a mão na boca. – Mamãe chega em duas semanas? Como eu podia ter esquecido disso!?
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 11:07, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- E aí, dude, deu certo? – perguntou, assim que cheguei e me sentei na mesa. Ele engolia a segunda lata de Coca-Cola e mastigava algo que eu tinha medo de saber o que era.
- Claro, se quase ser mordido é dar certo... – respondi, desanimado. – A menina é um capeta em forma de guri!
- Que droga... – disse, não por estar se sentindo mal por mim, mas por que um cara entrou na frente dos peitos da menina que ele estava olhando. Então ele se virou pra mim. – Mas e agora, o que você vai fazer?
- Não sei... Só sei que se não tiver pelo menos uns 200 fãs até o show do próximo final de semana meu pai vai cortar a verba da banda e me tirar da escola!
- Que droga... – disse, e ele estava mesmo chateado. – O que eu vou fazer nos meus tempos livres sem a banda?
- Pegar mulher? – sugeriu.
- Andar de jatinho? – ajudou.
- Entrar pro Busted? – perguntei. Porque, bem, ele tinha dinheiro o suficiente para juntar dois deles e entrar no lugar de alguém – que eu esperava que fosse Charlie, aquele desmancha bandas.
- Nada disso me interessa. – ele disse, se deitando na mesa de concreto. Eu fiz o mesmo.
O que seria de mim sem o McFLY? Sem a casa em que morava com os guys, no final da rua do colégio, onde algumas latinhas de cerveja estavam sempre jogadas no jardim e alguma garota estava sempre saíndo escondida, semi-nua? O que seria de mim sem os guys, que estavam juntos comigo desde o primeiro ano? O que seria de mim sem a escola pública, que mesmo sendo uma escola pública em um lugar com ótimo ensino como Londres era uma tremenda de uma moleza? E, o mais importante: O que seria de mim morando novamente com o burguês mesquinho do meu pai e a desiquilibrada da minha mãe?
Quer mesmo saber?
Seria uma bosta.
E eu tinha que fazer algo! Tinha que agir, tinha que mostrar à eles que o McFLY seria grande, e que quando eu fosse muito rico não emprestaria um tostão sequer à eles.
É... Era isso que eu tinha que fazer!
- Eu não vou deixar uma idiotice dessas acabar com os meus sonhos! – disse, levantando novamente da mesa. – Aquela punk do satã vai ajudar por bem ou por mal!
Dito isso, saí pisando duro.
Ah, se arrependimento matasse...
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 11:10, intervalo do Colégio Mackenzie.
Girls:
- Sim zita, sua mamãezinha chega em duas semanas, e se você não der um jeito nisso, e o que eu digo em dar um jeito é fazer com que seja seu namorado em troca de deixar sua banda famosa, você vai perder seu carro e sua orelha de tanto que ela vai reclamar e berrar. – disse, sorrindo. Ou ela tinha prazer em me ver sofrer ou queria mesmo ficar com . – E para de drama, todas nós sabemos que você consegue transformar uma banda de garagem ruim em uma loucura nacional em dois segundos!
- Eu não posso fazer isso... Eu simplesmente não posso! – exclamei, desesperada. As pessoas nerds das outras mesas me olhavam de relance, mas nerd que é nerd não fuxica sobre a vida dos outros. Nerd que é nerd faz um blog sobre isso e dá um jeito de colocar Star Wars no meio. – Ele é ! Ele é nojento, encarado e gosta de molhar papel higiênico e grudar no teto! – eu estava mesmo tendo um chilique. O que era estranho para uma garota meio fechada – punk para os desinformados – como eu. Mas minha mãe me deixava em estado de nervos toda vez que vinha me visitar. O que acontecia, mais ou menos, de 3 em 3 meses.
Se eu fosse morrer de alguma doença, com toda a certeza seria do coração.
- Sim, ele é tudo isso, mas ele é ! – exclamou, tentando me fazer entender algo que eu estava deixando passar. Então ela arregalou os olhos de um jeito esquisito. – E ele esta vindo em nossa direção agora mesmo. – disse, apontando discretamente com a cabeça para atrás de mim. Eu me virei sem cerimônia, avistando ele, que descia as escadas quase que correndo.
Eu tinha que pensar rápido. Mamãe ou orgulho. Carro ou princípios. Orelha ou virar groupie. Morrer do coração ou morrer de ódio.
A vida conseguia mesmo ser cruel às vezes.
se aproximava a toda velocidade, e eu tinha que tomar uma decisão.
"Pensa , pensa!" eu gritava comigo mesma, os pensamentos ecoando. "Pensa logo porque ele já está quase aqui... Ai meu Deus, pensa AGORA porque ele está na sua frente e abrindo a boca para falar algo! Diz logo que sim , diz logo que sim! Ai Jesus, ele começou, você tem que aceitar e... Hey, espera aí... Ele disse mesmo isso ou eu estou ouvindo coisas?"
Sim, senhoras e senhores, , o garoto que eu estava pensando seriamente em "contratar" como meu falso namorado em troca de favores sujos, veio até mim – e olha que eu estava quase me decidindo por aceitar ajudá-lo – e disse exatamente o seguinte:
- , olha, eu sei que você é aquele tipo de menina que me odeia e odeia meus amigos. Mas isso não vem ao caso! O negócio é que eu preciso mesmo disso, porque se não tiver uns 200 fãs até o final da semana que vem, meu pai corta o meu pau fora! Então eu não vou aceitar um não de uma punk com problemas de auto-estima como você, por isso voltei aqui para ter certeza que você diria sim. Eeee, eeee – ele me cortou, quando eu abri a boca para pronunciar algo – algo como "seu filho de uma puta de merda" – e continuou, como se estivesse fazendo um grande favor em estar falando comigo –, se você não aceitar, eu posso te pagar, posso mesmo... Não muito, mas você não pode querer cobrar muito, não é? Posso até te pagar com outras coisas... Você não é de todo o mal se soltar o cabelo e passar menos lápis no olho...
Quando ele acabou, sorrindo como um imbecil, eu senti meu coração se acelerar como nunca havia se acelerados antes com minha mãe; Minhas veias pulsavam. E todos ao redor olhavam e comentavam. Aquela era nova, até os nerds estavam fofocando! Meu Deus, conseguira provocar a ira dos nerds e losers.
E a minha ira.
- Sabe de algo que iria te ajudar muito com o que você precisa? – perguntei, e ele fez que não com a cabeça. – Tomar vergonha nessa sua cara e comer muito cérebro de porco pra ver se algum neurônio funciona nesse seu cabeção. Mas enquanto isso não acontece, você pode ficar com esse presentinho... – dei dois passos em sua direção e ele levantou a sobrancelha de um jeito malicioso. Mas logo em seguida sua boca se abriu em um "o", quando recebeu meu chute no estômago e caiu no chão, agonizando. – Da próxima vez eu acerto mais embaixo.
Virei nos calcanhares e saí dali pisando duro.
Preferia encarar minha mãe do que passar dois segundos com alguém como ele.
Capítulo 2 – Eu não preciso de você. Preciso?
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 15:32, casa dos McGuys.
Guys:
Eu estava jogado no tapete felpudo do estúdio. Estávamos dando uma pausa no ensaio e os guys tinham ido lá fora fumar. Meu maço estava no meu quarto, no andar de cima, e a preguiça me impedia de subir lá e pegá-lo, então fiquei dentro do estúdio, respirando fundo pra tentar aspirar o pouco oxigênio que ainda existia na salinha. Quem disse que tocar em uma banda não é um grande esforço? Nunca tentou em um quartinho sem janelas, forrado de espuma, com três jovens de 17 anos soando e peidando.
Enquanto fazia minha sessão de ioga fedida, tentava pensar em algo ou em alguém que pudesse me ajudar, já que depois daquele chute no estômago, estava definitivamente fora da jogada.
Foi então que meu celular vibrou.
- Alô? – disse, ao abrir o flip, mas me arrependi no mesmo instante em que ouvi a voz do outro lado.
- . – meu pai disse, frio como pedra.
- Rascunho do demônio. – eu disse, com a mesma voz entediada.
- Acho que eu não estou bancando essa bandinha de garagem pra você me tratar assim, . – ele comentou, indiferente. Eu odiava o jeito como ele falava o meu nome inteiro. Me fazia sentir com 90 anos e as bolas caídas. – Mas não foi para brigar que eu te liguei.
- É bom mudar os ares às vezes... – eu disse, fazendo de tudo para irritá-lo, mesmo sabendo que isso seria humanamente impossível. A última e única vez em que vira meu pai irritado fora nas férias de verão de 2001, quando um sócio seu perdeu 1 milhão e meio em ações. Ele recebeu a notícia assim que pisamos no aeroporto. Estávamos na Suíça, e eu tinha 10 anos e uma vontade imensa de esquiar. O que, claro, não foi possível, porque nós voltamos à Inglaterra no primeiro voo que conseguimos. Depois disso, nunca mais vi nenhuma emoção se manifestar em seu rosto e voz.
- Gostaria de saber se você já se inscreveu para alguma faculdade? – ele perguntou.
Não ligou pra brigar? Ha ha ha...
- Ainda não pai, estou esperando o Titanic passar por aqui ou chover hambúrguer. – respondi, entediado. – Pai, você sabe que eu não pretendo me inscr...
- Qual foi o nosso acordo ? – ele me cortou. – O Ensino Médio pra essa bandinha dar certo ou faculdade de administração pra cuidar dos negócios da família. Esse é o nosso acordo.
- Eu me lembro perfeitamente, você liga para me lembrar duas vezes por dia, pai. – eu disse, pegando uma bolinha de tênis debaixo de alguns pratos quebrados da bateria, que estavam jogados no chão, jogando-a para cima e para baixo. – Mas eu não vou precisar disso, minha banda vai dar certo.
- Basta, ! – ele disse, sem se alterar. – Se daqui duas semanas eu atravessar a Europa pra chegar nessa lixeira que você chama de país e não encontrar resultados dessa brincadeira estúpida, eu juro que te coloco num internato e faço você repetir todo Ensino Médio numa escola que te ensine a escrever pelo menos!
- Eu sei escrever! – exclamei, ofendido.
Então veio o 'clic' e logo em seguida o ‘tu, tu, tu, tu’.
Joguei o celular em cima do sofázinho todo rasgado e furado ao meu lado e me levantei. Abri a porta do estúdio e senti aquela lufada de ar gelado e cheiroso soprar. Subi correndo para meu quarto e peguei meu Malboro Vermelho. Depois fui até a cozinha e abri a porta que dava para os fundos da casa. , e estavam sentados nos bancos de madeira que ficavam em cima da grama, perto da piscina. O dia estava ensolarado, e aquelas nuvens estilo esqueleto de baleia cobriam o céu. Sentei-me ao lado de , pegando seu óculos escuro e colocando-o em meu rosto. Ele não fez nenhuma objeção, só pegou o óculos de , que, por sua vez, pegou o de , que ficou sem.
- E aí. – eu disse, acendendo um cigarro com as mãos trêmulas. Eu estava muito nervoso, mas não pretendia descontar nos meus amigos. – O que nós vamos fazer pro seu aniversário, ? É esse sábado, não é?
- Não sei... – ele respondeu, jogando a bituca do cigarro acabado no quintal do vizinho. – Eu estava pensando em um churrasco de dia ou uma festa à noite... O que vocês preferem?
- Vamos fazer um churrasco de dia e uma festa à noite. – simplificou as coisas.
- Boa. – eu e dissemos.
- Nós podemos tocar de dia pro pessoal da escola... Agora que temos 5 músicas prontas, é um bom momento pra mostrar o potencial do McFLY! – exclamou, apontando para o alto para mostrar a ‘força’ de que falava, só que o gesto ficou uma coisa meio ‘heil Hitler!’.
Ficamos conversando até o sol começar a se pôr. Foi quando resolvi colocar o assunto do o-que-vamos-fazer-em-relação-ao-meu-pai em pauta novamente. Aquilo já estava começando a ficar chato e constante, mas nós tínhamos que achar alguma solução.
- Meu pai me ligou de novo... – eu disse, num dos poucos momentos em que ficamos em silêncio.
- Nossa, manchete da semana! – ironizou, voltando da cozinha com mais 4 latinhas de cerveja. Eu estava na sexta, mas tinha quase certeza que e já haviam passado da décima.
- O que ele queria? – perguntou.
- Deixa eu adivinhar! – exclamou, com a voz um pouco mole. – “, e a faculdade? Você não se esqueceu do nosso trato, esqueceu?” – ele disse, imitando com perfeição a voz de tédio do meu pai.
- Isso mesmo. – concordei, dando um gole na cerveja e fazendo uma careta. Ela estava um pouco quente, mas tomável. – Eu preciso fazer alguma coisa logo! Ele vem em duas semanas... Como diabos nós vamos conseguir 200 fãs em duas semanas?
- Mas nós já temos alguns fãs! – protestou.
- Seus pais não contam, . – eu disse. – Nem nossos amigos do colégio, porque eles geralmente estão bêbados demais pra ouvir as músicas.
- Bom, então... É, não temos nenhum fã... – ele suspirou. – Mas nós ainda vamos ter! O problema é que estávamos ocupados demais nos dois primeiros anos do Ensino Médio em dar festas e passar de ano, e, bom, é meio difícil fazer 13 músicas em um ano só... Mas nós já temos 5! É um ótimo começo...
- Devíamos ter começado com isso no primeiro ano... – eu disse, sentindo meu corpo ficar quente. Já estava começando a ficar bêbado.
- Agora não adianta ficar chorando pela vodka derramada. – disse. – Precisamos agir! E agir significa pedir ajuda àquela garota. Qual era o seu nome mesmo?
- . – ajudou.
- Eu não vou pedir ajuda a ela de novo. – eu disse, quase podendo sentir o chute no estômago de mais cedo. – Isso está fora de cogitação... Não quero perder a capacidade de ter filhos antes de ter tido um.
- Então nós estamos ferrados... – suspirou, o otimismo em pessoa.
Passados alguns minutos, fui para o meu quarto, prometendo encontrar uma solução. Estava bêbado demais para admitir que eu não a encontraria, nem se ficasse no meu quarto meditando até o natal de 2099.
Na verdade, o máximo que conseguiria seria uma barba branca e o apelido de Dumbledore.
Depois de mais ou menos 5 segundos pensando, não sentia mais meus lábios e minha cabeça rodava. Decidi ligar o computador e entrar no nosso MySpace, onde uma versão porca de Five Colours In Her Hair estava salva desde o meio do ano passado.
Zero amigos, zero plays e zero auto-estima musical.
Acabei a noite na Webcan com Lallie, minha garota fixa. Sabe aquelas meninas que você leva para os casamentos chatos da sua família só pra poder pegar em alguma coisa a não ser as mãos enrugadas de suas tias-avó e ela fica achando que vocês são namorados e que uma aliança e um compromisso pro resto da vida está quase acontecendo? Aquela era Lallie. Doce na maioria das vezes, devassa em algumas ocasiões e eternamente apaixonada por uma pessoa irremediável como eu.
Lá pelas 4 horas da manhã eu desliguei o pc. Teria que acordar em mais ou menos 3 horas, então me joguei na cama com a intenção de dormir, só que a única coisa que consegui foi uma dor de cabeça ferrada, por pensar demais em uma solução para o meu maior problema. E a única conclusão que cheguei, antes de pegar no sono, foi que eu precisava de ajuda da cria do satã, mais conhecida como .
Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 14:12, casa.
:
- , sua mãe ligou. – fui recebida pela péssima notícia assim que pisei meus pézinhos cansados em casa. Sue, minha madrasta, estava jogada no chão, jogando o X-Box do meu pai e tomando uma cerveja, quando me jogou a bomba.
- Tem certeza? – perguntei, jogando-me ao seu lado e observando-a acertar todas as notas de alguma música desconhecida – ela estava com fones no ouvido – no Guitar Hero. – Pode ter sido seu agente de viagens avisando que ela comprou uma passagem só de ida pra Terra do Nunca!
- Hum-hum. – ela negou, concentrada em seu solo de guitarra, com o controle apoiado na montanha de pele que se concentrava em sua barriga. Ela estava grávida – “prenha”, como meu pai gostava de brincar – de 8 meses e não podia mais voltar ao estúdio onde trabalhava de produtora para muitas bandas legais, como o The Kooks, e a falta de barulho e guitarras estridentes em seu ouvido a fazia jogar Guitar Hero o dia inteiro.
- Sue, você não pode beber! – eu exclamei, pegando a sua cerveja do chão e tomando um gole, quase cuspindo em seguida. – Sem álcool? Eca, melhor nada do que isso!
- É o que acontece quando você resolve carregar um bebê pra cima e pra baixo dentro das suas entranhas. – ela respondeu, sem tirar os olhos da televisão.
Fiquei observando-a jogar para tentar prolongar ao máximo a hora de ligar para minha mãe. Não estava preparada emocionalmente para ouvir tudo que ela tinha a dizer. O que, basicamente, envolvia minha falta de higiene com o cabelo e coisas do tipo.
Por isso que Sue era ótima. Nunca me enxia o saco e sempre me apoiava. Sem contar que tinha 39 anos, só que mentalmente tinha no máximo uns 16. Eu, sinceramente, não sabia o que ela havia visto em meu pai. Quero dizer, ela era toda piradinha, rock ‘n roll e feminista, enquanto meu pai era um quarentão – 46 anos pra ser mais exata – que se divertia lendo o jornal. Mas como ela mesma sempre dizia, o amor era cego e sem capacidade de diferenciar gostos e texturas.
Por outro lado, eu sabia exatamente o que meu pai havia visto nela. Além dos seus olhos azuis e seu cabelo negro como a noite e lisos como alguma coisa bem lisa – não consegui pensar em nada legal e liso porque estou com inveja demais do seu cabelo para encontrar adjetivos para ele –, ela fazia meu pai o cara mais feliz do mundo.
Meus pais haviam se casado muito cedo, porque minha mãe engravidou com 18 anos... Então, com 20 anos, lá estava meu pai, se responsabilizando por seus atos. Era de se esperar que o casamento não duraria muito, os dois eram muito novos e imaturos... Então, cinco anos depois, os dois assinaram os papéis do divórcio. Papai ficou arrasado. Eu era muito criança para entender, só sabia que algo estava errado.
Fui morar uns dois anos com minha mãe, mas quando ela se casou com Joan, meu padrasto, pedi ao juíz para morar com meu pai. Mesmo com 7 anos eu entendia que ele precisava de mim e entendia que não poderia viver mais um dia naquela casa cheia de gente mesquinha. E, claro, minha inteligência além-de-pessoas-normais me ajudou a perceber isso. Então ficamos só nós dois por mais 5 anos. Ele melhorava aos poucos, mas eu me lembro de vê-lo chorar em seu quarto no começo. Ele ainda amava minha mãe quando os dois se separaram, mas ela estava ocupada demais tendo filhos idiotas com seu marido mais idiota ainda pra perceber isso.
Então, num fatídico dia – mais precisamente no meu aniversário de 12 anos –, ele conheceu Sue. Nós – eu, ele, , e – estávamos comemorando no Hard Rock Cafe quando os dois se trombaram. E meu pai só saiu da lá com o seu telefone anotado na mão. Seis meses mais tarde ela veio morar com a gente, e dois anos depois eles se casaram, e eu posso dizer, com sinceridade, que a única vez que eu me senti desconfortável com aquele relacionamente foi quando tive que usar um vestido horrendo de dama com o aspecto de um saco de batatas.
Laranja.
Fora isso, ver meu pai mais feliz do que jamais vira era maravilhoso. E poder ter uma mulher em casa também. Não para conversar sobre roupas e coisas fúteis, mas para poder conversar sobre coisas que só mulheres entendiam, como... Bom, não consigo me lembrar de nada agora.
Só sei que Sue era ótima.
E papai sabia disso.
- Bom, hora de lavar o rinoceronte! – Sue exclamou, referindo-se ao fato de ela estar indo tomar banho. Olhei no relógio, e já haviam se passado duas horas desde que eu chegara ali. – Me dá uma ajuda, ?
Levantei-me e a puxei. Mais alguns dias e ela só levantaria dali com um guindaste. Ela estava enorme e seus pés inxados, e não havia nada de beleza de mulher grávida nela. Só mau-humor e comida sempre faltando em casa.
Ela comia tudo.
Fomos juntas pela escada e ela entrou em seu quarto. Dei mais alguns passos e entrei no meu. Joguei-me na minha cama, pegando meu telefone de Mestre Yoda e disquei o temido número. Ele tocou algumas vezes e caiu na secretária eletrônica.
- Alô, mãe? É a , sua filha... Mas é claro que você sabe que é sua filha, você só tem uma... – eu sempre me sentia estúpida deixando aquelas mensagens. Secretária idiota. – Então, estou ligado pra...
- ? – ouvi a voz sonolenta de Joan do outro lado.
- Oi. – respondi, trocando o telefone de orelha. – Minha mãe tá aí?
- Sim, só um minuto. – “Maryaaaaaaaaaaaah? Sua filha!” ouvi ele berrar, e afastei um pouco o telefone da orelha. Dois segundos depois, ela estava na linha.
- Pode desligar, Joan. – ela ordenou, e ele obedeceu, como um cachorrinho domesticado. – , finalmente!
- Oi, mãe. – eu disse, roendo as unhas, porque subconscientemente eu sabia que ela odiava que eu roesse as unhas. – Me ligou?
- Sim, te liguei... Sua madrasta não te avisou? – ela perguntou. Ela nunca dizia o nome de Sue. Era só “sua madrasta” ou “ela”. Nunca Sue.
- Sim, se não tivesse me avisado eu não estaria ligando. – respondi, tentando não ser muito irônica. Ela odiava ironias. Mais do que unhas roídas.
- Só liguei para perguntar se está tudo pronto para minha visita. – ela disse. – Você não espera que eu vá dormir em um hotel, espera?
- Não, mamãe, não espero. – suspirei, repentinamente cansada. – Está tudo pronto. Quarto de hóspedes limpo e toda essas frescuras.
- Ótimo. Então podemos conversar sobre outras coisinhas. – ela disse, e eu apertei o telefone contra o ouvido. – Você andou fazendo o que eu te pedi pra fazer?
Bom, depende do que ela queria dizer com “andou fazendo”. Andei pensando em fazer, mas fazer fazer mesmo, não.
Mas é claro que eu não disse isso em voz alta.
Eu ainda queria ganhar meu carro.
- Sim, mais ou menos... Você sabe que não é a coisa mais fácil do mundo arranjar um namorado, não é, mãe? Ainda mais quando não se é loira e peituda. – olhei para baixo. Meus peitos eram normais, nem grandes nem pequenos, mas estavam – e quase sempre ficavam – devidamente escondidos embaixo do meu blusão da Hurley.
- Eu já disse que você ficaria linda loira, você que não quer me ouvir... – ela suspirou. – Mas trate logo de arrumar um, não quero passar a vergonha de ter que explicar às minhas amigas que minha filha de quase 18 anos nunca teve um namorado!
- Sim, mãe...
- E faça alguma coisa com esse cabelo, ! Ontem eu entrei na sua página do MySpace pra ver suas fotos e vi que você continua com essa franja escorrida na cara! Por favor, isso não é um cabelo, é um pedaço de tecido costurado na sua cabeça!
- Sim, mãe...
- Agora eu preciso ir, Dylan tem jogo de futebol e eu preciso levá-lo.
- Sim, mãe...
- Beijos, e não se esqueça de arranjar um namorado até no máximo esse fim de semana pra você poder levá-lo no baile de inverno, daqui 16 dias. Se não, adeus carro novo!
- Sim, mãe.
Então ela desligou.
O que eu iria fazer???
Capítulo 3 – Infelizmente, ninguém é melhor que você.
Terça-feira, dia 3 de Novembro, 7:28, atrasado pra primeira aula.
:
- Você é uma idiota, sabia disso? – perguntei à , que andava ao meu lado, ouvindo Miley Cyrus ou alguma outra robôzinha da Disney no iPod e olhava para cima, avoada. – Vir morar aqui só vai prejudicar sua educação... Não é só por que o irmão mais velho fez que você tem que fazer também!
- Cala boca, . – ela pediu. – Eu já tenho 16 anos, já posso dirigir e sei muito bem me cuidar sozinha.
- Se cuidar sozinha eu sei que pode, mas se vestir sozinha já é outra história... – olhei para ela de cima à baixo. Ela usava uma mini-saia verde escura, um All Star branco de cano médio e um blusão rosa. – Tá parecendo uma retardada.
Ela parou de andar e eu continuei.
- Vamos logo, eu já estou atrasado e preciso fazer sua matrícula, se não mamãe me castra.
Virei-me para trás. se olhava embasbacada.
- Meu Deus! – ela murmurou, perplexa. – Eu estou parecendo mesmo uma retardada! Eu não posso aparecer assim na frente dos outros! – ela levantou os olhos estilo gatinho do Shrek pra mim. – Me ajuda, !
- Tá me chamando de veado? – perguntei, num sussurro quase inaudível. – Como eu posso te ajudar com a sua roupa?
- Por favor, , não precisa se fazer de machão na minha frente, eu sei que você é louco por rou...
Tapei sua boca com força, antes que terminasse a frase. Olhei em volta e suspirei aliviado. Ninguém que eu conhecia passava por ali.
- Eu te ajudo se você calar essa sua boca grande, gorda e... Grande! – exclamei, puxando-a pela mão para atrás do prédio da pré-escola, onde sabia que ninguém ia. Só alguns casais pra se pegar, mas ninguém curte se pegar às 7:28 da manhã com aquele gostinho de bafo matinal.
- Antes de tudo, se você contar à alguém que eu sou bom com roupas e essas coisas, vai morrer virgem. – “Assim espero” pensei. – Segundo, tira essa blusa. – ordenei, puxando o zíper e revelando uma regata preta básica por baixo. – Hm... Nada mal... Agora, me dá seu lápis de olhos. – ela me entregou, pegando-o na bolsa azul escura. Agachei-me e desamarrei seu All Star, transformando-o em um tênis de cano baixo. Então peguei seu lápis e fiz alguns desenhos no tecido branco. Levantei-me e a observei novamente. – Preto, verde, branco e preto, bolsa azul e preta... É, melhorou. – falei comigo mesmo. Depois com ela. – E trate de esconder essa blusa na bolsa e depois queimá-la.
Ouvi algo se mexer ao meu lado. Virei meu rosto e não encontrei nada. Achei esquisito, mas estava tão nervoso com minha irmã que não me importei. Saí de trás do prédio com ela nos meus calcanhares. Agora os caras que passavam por mim me comprimentavam e olhavam para os seus peitos no decote princesa.
“Droga!”, pensei, “Deveria ter deixado como estava...”
Estávamos quase chegando ao prédio da secretaria quando eu ouvi novamente algo se mexer nos arbustos. Olhei rapidamente para o lado e eles pararam de se mexer. Olhei para o chão e vi um chaveiro preso nos últimos galhos.
- , vai na minha frente, eu já te alcanço. – pedi a ela, que não pensou duas vezes, principalmente porque Jamie, um loiro do segundo ano, não tirava os olhos dela. Quando ela sumiu de vista, agachei-me e peguei o chaveiro. Nele estava escrito: “Sue , produtora musical”.
Várias perguntas se formaram na minha cabeça. A mãe de era produtora? Ela deixara o chaveiro cair de propósito porque queria me ajudar? Sua mãe iria ajudar o McFLY?
E a mais importante de todas: estava me seguindo?
Terça-feira, dia 3 de Novembro, 7:35, primeira aula.
Girls:
- Eu não sei mais o que eu faço! – eu afundei na cadeira branca de plástico da sala do 3ºB, assim que o professor de filosofia me deixou entrar atrasada.
- Do que você está falando? – perguntou, levantando o rosto vermelho e sonolento da carteira. fez o mesmo e nem se deu ao trabalho.
- Da minha mãe! Da minha falta de namorado e consequentemente falta de carro... Do jeito que eu me visto, que foge completamente do tipo de menina que ela quer que eu seja – olhei para baixo. Usava a calça do uniforme meio larga, Adidas branco com listras vermelhas e um blusão da GAP preto. –, e do idiota do , que eu acabei de descobrir que é uma porra de um estilista. Porra, o que eu faço!?
- Você vira pra frente e para de conversar, antes que eu me arrependa de tê-la deixado entrar atrasada. – o professor berrou de cima do palco da frente da sala. Arrumei meu corpo na cadeira e abri meu fichário. puxou uma folha do seu caderno e começou a rabiscar algumas palavras. Peguei a caneta no estojo, pronta para responder o bilhete. Passados alguns segundos, ela jogou o embrulho na minha mesa e nós quatro ficamos trocando mensagens instantâneas.
- é uma porra de um estilista? Explique-se!
– É, eu não entendi nada, mesmo porque fica meio difícil entender com aquela voz fanha ao fundo, explicando sobre caras que viveram há muito tempo atrás e que desenvolveram teorias que até minha vó bêbada poderia desenvolver.
– Sua avó bêbada é engraçado, ... Do que vocês estão falando?
– Sim, eu vi ele arrumando a roupa de uma garota, acho que é sua irmã, eles são idênticos... Só sei que ele transformou ela de hippie drograda em modelo alternativa em dois segundos! E, , se você prestasse mais atenção nas coisas saberia que eu estou tendo um surto psicótico.
– Mais um motivo pra você pedir ajuda a ele, ! Você não vê? Só ele pode te ajudar! Mesmo porque ele precisa da sua ajuda... Que outro garoto se passaria por seu namorado sem querer nada em troca?
– Uau... Será que também é bom com roupas? Será que quando nós namorarmos vamos ao shopping juntinhos e ele vai me ajudar a comprar roupas? *sonhando*
– Hahaha, vai se ferrar, , você sabe que eu não presto atenção em nada pela manhã... Mas eu concordo com a , só ele vai poder te ajudar... Acho que você vai ter que engolir esse orgulho estúpido e pedir ajuda à ele em troca da sua própria ajuda.
– Muito obrigada pela parte que me toca, ! É, eu odeio admitir, mas vocês estão certas... Ok, o professor está olhando pra cá, acho que vou jogar esse papel fora antes que ele decida ler pra classe inteira.
– Apoiado... Ele com aquele olhar assassino não pode ser coisa boa!
– Adios muchachas!
– Fui! =*
Apoiei a cabeça na carteira.
Teria que tomar uma decisão.
Rápido.
Terça-feira, dia 3 de Novembro, 10:43, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- Sue? Sue ? – deixou parte do seu cachorro quente prensado cair no chão. – Dude, estamos feitos! Era disso mesmo que nós precisávamos! Sue é a produtora mais quente da Inglaterra!
Olhei para e , que também não entendiam nada.
- Deixa eu ver se eu entendi. – coçou a nuca, como fazia quando tentava raciocinar. – A mãe de é uma produtora de eventos gostosa?
- Não, seu imbecil! – deu um tapa em sua testa. – Sue é uma das melhores produtoras musicais do país. Ela tem todos os contatos e faz um excelente trabalho!
- E ela é a mãe de ? – perguntei.
- Que eu saiba Sue não tem filhos... Ela deve ser a madrasta de .
Revirei o chaveiro em meus dedos e olhei para os guys.
Agora que sabia daquilo, precisava tomar uma decisão já tomada.
É, pra infelicidade das minhas bolas, teria que tentar de novo.
Capítulo 4 – Todo jogo tem suas regras.
Terça-feira, dia 3 de Novembro, 20:17, parque Cloverfield.
:
Eu suava em bicas. Meu shorts agarradinho estava quase entrando em meu corpo por osmose. Minha camiseta branca, largona, estilo estou-grávida-e-ninguém-pode-saber, estava transparente de suor. Minhas pernas queimavam e meus pulmões trabalhavam em dobro.
Cara, aquilo era bom.
Um dos meus maiores vícios era correr. Eu corria todos os dias no mesmo lugar – no parque Cloverfield, o mais tranquilo da cidade e do lado da minha casa – e no mesmo horário – às 19h. Na terça-feira eu só corria uma hora, e já havia ultrapassado 17 minutos, então resolvi parar quando percebi que meus músculos não queriam mais me obedecer.
- Chega. – ofeguei comigo mesma. Joguei-me no banco onde havia deixado minha mochila da Nike e tomei um longo gole de água da minha garrafinha. Tirei os fones de ouvido porque estavam machucando minha orelha e fechei os olhos, sentindo a brisa esfriar meu rosto e corpo.
Tudo estava quieto.
Paz.
- Finalmente! – abri os olhos assustada, dando de cara com ninguém mais ninguém menos que . – Você sabia que existem 5 parques Cloverfield nessa cidade? Tive que rodar vários quilômetros e gastar mais de 50 libras em táxi pra te encontrar!
Inferno.
- Você tá me seguindo? – perguntei, procurando algo para fazer sem que precisasse olhar para sua cara. Por dois motivos: 1 - Eu não gostava dele. 2 - Ele era muito bonito. Afinal, eu tinha 17 anos e nenhum controle sobre os meus hormônios. Então coloquei minhas pernas em cima do banco e comecei a desamarrar e amarrar meus cadarços.
- Tecnicamente eu somente forcei esse encontro, o que não seria exatamente “seguir”. – ele disse, sentando-se ao meu lado, pegando minha garrafa de água e tomando um gole. – Seguir você seria mais algo como o que você fez hoje de manhã.
Virei meus olhos. Será que ele pensava que o mundo girava em torno do seu próprio umbigo?
- Eu não segui você. – me defendi. – Eu estava procurando meu isqueiro que deixei cair ontem no meio dos arbustos e ouvi você estilizando sua irmã. Ótimo olho para roupas, aliás.
- Você fuma? – ele perguntou, ignorando minha língua venenosa.
- Sim... – admiti, porque eu sabia que era um péssimo hábito.
- E como consegue correr como eu te vi correr agora mesmo? – voltou a perguntar.
Aquela era uma ótima pergunta.
- Prática. – respondi, dando de ombros. – Vai me dizer ou não por que estava me seguindo? Eu ainda preciso voltar pra casa, tomar banho, jantar e terminar o trabalho de psicologia.
- Eu não te segui! – ele exclamou, ofendido. Soltei uma risadinha, achando graça na sua indignação, mas logo fiquei séria. Do jeito que ele era, podia pensar que eu estava lhe dando mole só por rir ao seu lado. – Eu perguntei às suas amigas onde eu poderia te encontrar. Pelo menos elas são simpáticas.
“Vagabundas!” pensei.
- Uns amores. – disse de fato. – E porque você queria me encontrar?
Ele pegou minha mão. Dei um pulinho e uma das minhas pernas escorregou pra baixo. Olhei para ele. Cabelo no rosto, uniforme desalinhado e um sorriso idiota na cara.
Porque Deus não colocava cérebro em garotos bonitos?
- Porque eu estou apaixonado por você! – ele sussurrou. Arregalei meus olhos e ele ficou me olhando, sem dizer nada.
- V-você o q-que? – gaguejei, e ele caiu na risada.
- Brincadeira! – exclamou, soltando minha mão. Voltei a olhar para todos os lugares menos para ele. Depois quando eu dizia que ele era idiota ninguém acreditava em mim. – Você sabe porque eu estou aqui, ... Eu preciso mesmo da sua ajuda. Agora ainda mais, porque eu descobri que sua mãe é uma produtoras das boas! – ele estendeu um dos chaveiros da minha bolsa da escola.
- Madrasta. – murmurei, pegando-o da sua mão.
- Hãm?
- Madrasta, ela é minha madrasta. – falei mais alto.
- Que seja, madrasta, mãe, tudo a mesma coisa... – ele respondeu, me ignorando. – Você não entende? – perguntou, tirando o Malboro Vermelho do bolso e acendendo um cigarro. – Pra uma aluna de média global 9 e alguma coisa, até que você é bem lerdinha... – disse, soltando a fumaça na minha cara.
Cretino.
- Sabe, moleque, se você fosse um pouco mais humilde, talvez eu pensasse em te ajudar... – eu expliquei, guardando minha garrafa na mochila e pegando meu Luke Strike Silver.
- Não sei porque você está criando tanto caso. Nem parece que sua madrasta é uma das melhores produtora do país e você só vai ter que estalar os dedinhos pra ela estalar os dedinhos dela! – ele acendeu o isqueiro e colocou na frente do meu cigarro. Traguei profundamente, acendendo toda a volta.
- É meio difícil uma mulher grávida estalar os dedos, eles estão gordos demais pra isso... – eu disse, soltando a fumaça de volta na sua cara. – E eu nem sei porque estamos discutindo isso, eu já disse que não vou te ajudar.
bufou e escorregou no banco, ficando com as costas no assento. Tirei meu pé de cima do banco e peguei minha garrafa de água das suas mãos, colocando-a na minha mochila.
Era de se pensar que eu levantaria e iria embora, certo?
Errado.
Por algum motivo obscuro, eu não saí dali. Fiquei ao seu lado, olhando para o nada. E olha que nós ficamos uns bons 5 minutos daquele jeito! Não sei explicar porque fiquei... Acho que eu esperava que ele implorasse, porque eu sabia que se o fizesse eu aceitaria.
Eu faria tudo por um carro.
- Por favor? – ele finalmente fez o que eu estava esperando. Virei-me para o lado. Ele ainda mantinha aquele sorriso debochado no rosto, mas eu via no seu rosto que estava desesperado.
Dois desesperados.
Não tinha mais escolha... Eu teria que aceitar.
- Não sei... – cedi um pouquinho. Eu queria mesmo vê-lo implorar. Seria como chocolate pro meu ego.
Essa frase existe?
- Por favor, eu preciso de você! – ele exclamou, se arrumando no banco, quando percebeu que eu estava cedendo. – Por favor, por favor, por favor! – suplicou, pegando minhas mãos e balançando-as de um lado para o outro. Seus dedos estavam quentes e macios.
“Para de pensar nos dedos quentes e macios da pessoa que você mais odeia no mundo, !” pensei comigo mesma, soltando minhas mãos das dele. Eu tinha que me manter assustadora pra ele não ficar de gracinha. Não queria que ele passasse dos limites porque sabia que se o fizesse, eu cairia fácil na sua conversa. Nada disso. Nunca que ele iria conseguir alguma coisa comigo!
Nunca!
Nunca?
- Olha, que fique bem claro que eu só vou te ajudar porque você pediu com educação. E porque eu também preciso da sua ajuda. – finalmente aceitei.
abriu o maior sorriso do mundo e começou a beijar minhas mãos, meus braços e minha bochecha. Comecei a rir porque tinha cócegas, mas depois fechei a cara e o empurrei para longe. Ele caiu de um jeito engraçado do outro lado do banco, sem tirar o sorriso idiota do rosto.
- Você ouviu a última parte? – disse, chamando sua atenção. – Eu preciso de um favor seu!
- Faço tudo que você quiser! – ele exclamou, ficando em pé de frente pra mim. – Corto seu cabelo, pago seu lanche pelo resto do ano, qualquer coisa! É só me pedir!
- É só pedir mesmo? – perguntei, sorrindo maliciosamente.
- Sim.
- Eu quero que você seja meu namorado.
Terça-feira, dia 3 de Novembro, 20:32, parque Cloverfield.
:
Namorado?
Como assim?
- Hm... – cocei minha nuca. – Tipo, pra valer? – porque ninguém era tão desesperado ao ponto de pedir aquilo em troca de outro favor. Quero dizer, eu o faria, se fosse pela banda, mas o faria de má vontade. era bem bonitinha, mas não era meu tipo.
Nem um pouco.
Mas acho que me preocupei à toa. Porque então ela começou a rir.
Tipo, rir de verdade. Gargalhar!
O quê? Eu estava cagado ou algo do tipo?
- Você precisava ver sua cara, ! – ela disse entre as risadas. – Impagável!
Uni as sobrancelhas.
Do que diabos ela estava falando?
- Eu preciso que você finja ser meu namorado pro baile de inverno no próximo sábado. – ela explicou.
- Esse sábado? – perguntei, apreensivo, porque seria a festa de e eu estaria mais ou menos – mais ou menos lê-se muito – de ressaca.
- Não, no próximo. Depois do show de sexta de vocês.
- O show com mais de 200 pessoas, certo? – perguntei, me certificando de que ela iria mesmo me ajudar.
- Sim, o show com mais de 200 pessoas... – ela revirou os olhos. Aquilo estava ficando frequente. Eu era tão repulsivo assim? Porque se fosse, não era recíproco. Sim, ela era muito estranha, mas não era feia.
Mas por que eu estou falando da aparência dela mesmo?
- É, acho que isso eu posso fazer. – concordei, mais feliz do que uma cadela no cio.
Hm... O quão gay isso ficou?
- Mas não é só isso, . – ela disse, e foi minha vez de virar os olhos. Eu sabia! Quando a esmola é demais até santo desconfia.
- Do que mais você precisa? – perguntei, sentando-me novamente. Tinha a impressão de que aquela conversa seria longa.
- Alguma noção de estilo. – ela respondeu, passando a língua pelo lábio inferior, distraída. E não sei por que, mas esse ato em particular prendeu minha atenção, e eu me arrepiei todo. O que era bizarro, porque garotas passavam a língua na boca especificamente para mim todos os dias. Porque uma punk esquisita causaria o efeito que causou, quando o fez sem nenhuma segunda intenção?
Sei lá... Talvez fosse o sono.
Sim, com certeza era o sono.
- Não sei do que você está falando... – respondi. Por que diabos todos queriam minha ajuda com roupas? Eu nem era tão bom assim, eu só... Sabia escolher as cores.
Isso era muito veado ou veado demais?
- Eu acho que você sabe muito bem do que eu tô falando. – ela se levantou, colocando a mochila nas costas. – E essas são minhas condições. Faço sua banda virar se você fingir ser meu namorado e me ajudar no quesito roupas. Você tem até amanhã pra pensar.
E então ela se foi, me deixando ali, sozinho.
Quarta-feira, dia 4 de Novembro, 8:54, troca de aulas.
Girls:
- Você o quê? – perguntou, abrindo a boca.
- Eu aceitei. – suspirei, derrotada. – É o único jeito de impressionar minha mãe... é daquele tipo de menino que impressiona qualquer um.
- Com certeza. – ofegou, olhando fixamente para o final do corredor. Acompanhei seu olhar e observei , , e virarem o corredor. vinha abraçado com uma loirinha do primeiro ano, e conversavam e andava desleixado, com as mãos nos bolsos e uma postura de fodão. Quando me percebeu parada no armário, olhando pra ele, saiu de perto dos amigos e se aproximou de mim.
E isso não fez meu coração disparar.
Não mesmo.
- Oi. – ele disse, acenando para as meninas. – E aí, nerd. – disse, dando um peteleco no meu nariz.
- Oi. – respondi, imediatamente me arrependendo de ter aceito aquela proposta.
Eu havia, por um momento, me esquecido do quanto o odiava, e de o quanto odiava aquela postura de eu-sou-foda-mesmo. Mas nem eu sabia explicar o que havia acontecido! Na noite anterior ele estava tão... Fofo.
Droga de hormônios!
- Então, eu andei pensando... – ele se curvou e sussurrou, seu hálito gelado soprando na minha bochecha. – Vou aceitar suas condições.
- Hm... – murmurei.
É, não tinha mais volta.
Droga de hormônios!
- Beleza... Eu só preciso dar umas ligações... – mordi a boca, pensando no que faria primeiro. – Vocês já têm alguma música?
- Sim, temos umas cinco. – respondeu por , chegando perto de nós. , ao meu lado, estremeceu. – Mas boas mesmo só duas. Five Colours In Her Hair e Surfer Babe.
- Cala boca, Get Over You é muito boa! – exclamou.
- É... Um bom nome. – concordou, ficando vermelha logo em seguida.
- Viu só, ela gostou. – sorriu como uma criancinha.
Olhei de relance para ela, e sabia que estava se punindo mentalmente por ter aberto a boca perto dos McGuys. olhava para o chão, mais especificamente para o Nike cano médio de , e parecia uma estátua.
Virei os olhos.
Minhas amigas podiam ser bem patéticas quando queriam.
- Beleza, vou marcar um horário no estúdio, provavelmente vocês já gravem hoje... Vocês tem MySpace?
- Sim, senhora! – disse, batendo continência. riu, e, pela primeira vez em todos aqueles anos de paixão platônica, ele olhou diretamente para ela, que ficou mais vermelha que um pimentão.
Mas eu não posso dizer que ele parou de sorrir.
- Mas ele tá um pouco... Preto. – entortou a boca. – Tipo, nenhum de nós sabe mexer naquilo.
Ou nenhum deles teve tempo de mexer, entre as festas e as ressacas.
Mas é claro que eu não disse aquilo. Eu ainda queria o meu carro.
- Tudo bem, eu mesma posso dar um up nele hoje à noite. – disse, anotando mentalmente tudo que deveria fazer.
- Muito obrigado por nos ajudar, . – agradeceu.
Se ele soubesse o porquê de eu estar ajudando, não estaria agradecendo. Estaria rindo como um hiena. Mas ele não sabia. Pelo menos eu pedia a Deus que não soubesse.
Olhei para com o canto dos olhos. Ele estava um pouco lento demais, olhando para algumas meninas do primeiro ano que passavam, então eu sabia, com certeza, que ele havia bebido antes de vir à escola. Não que eu soubesse que quando seu cabelo estava mais bagunçado do que o normal e seus olhos estavam vermelhos ele estava chapado. Nada disso! Era só uma coisa... Óbvia demais.
- ? – estalou os dedos na minha frente. Balancei a cabeça, piscado os olhos várias vezes. – Eles já foram... Você está bem?
Hm... Levando em consideração de que as próximas duas semanas seriam um desastre, que meus hormônios estavam impedindo a oxigenação do meu cérebro e que eu não sabia no que diabos poderia me ajudar de verdade, além de ficar chapado e dizer que meus peitos ficariam bem em determinado vestido, não. Eu não estava bem.
Mas quem disse que eu me importava?
Capítulo 5 – Pequenas mudanças, grandes negócios.
Quarta-feira, dia 4 de Novembro, 16:16, estúdio.
Guys:
- Wow! – exclamou, assim que entrou no estúdio. Eu estava atrás dele, e como o seu cabeção – o de cima, que fique bem claro – estava na frente, não conseguia ver nada. Não sabia por que, mas estava muito ansioso pra ver aonde nós iríamos gravar. Nunca havia estado num estúdio de gravação de verdade antes. Na verdade, nós só havíamos tocado no nosso quartinho improvisado. Então, quando nos ligou mais cedo avisando que gravaríamos às 16h, meu coração se acelerou de um jeito que nunca havia acelerado antes. Nem mesmo quando tive minha primeira vez, e eu jurava que nunca mais ficaria nervoso daquele jeito.
Sim, garotas, homens também ficam nervosos na primeira vez. Tive um amigo que chegou a vomitar um pouco antes de saber que ia rolar. Mas eu nunca faria isso. Nunca mesmo... Eu sou macho! Macho que é macho não vomita antes de algo importanto como isso!
- Vai vomitar de novo, ? – perguntou, e os três desataram a rir.
Droga!
Assim que eu entrei, meus pés não me obedeceram mais. e , que entraram atrás – entraram atrás de mim no estúdio, que fique bem claro – assoviaram ao mesmo tempo, daquele jeito uau-isso-tudo-é-pra-mim?
As paredes e o carpete da sala técnica eram revestidos de madeira, e três cadeiras de couro gigantes estavam ocupadas por dois caras gordos e um magricela, que eu pensei ser o estagiário ou algo do tipo. O ar-condicionado estava na temperatura ideal, e, em cima da mesa vermelha – e gigante – encostada no fundo da sala estavam vários sacos do McDonald’s e vários copos da Starbuck’s. Em frente à porta grande e de aspecto pesado que dava acesso à sala de gravação, nos esperava, com uma cara nada boa.
- O quê? – perguntei, alto o suficiente para que todos ouvissem, mas os três caras sentados com fones de ouvido nem sequer olharam para nós quatro ali parados.
- Regra número um, : Nunca, e quando eu digo nunca, é nunca – ela entortou a boca de um jeito sombrio –, chegue atrasado em uma gravação. É o melhor jeito de impressionar seu produtor de uma maneira errada.
Uau. Ela sabia mesmo como ser assustadora às vezes.
- Foi mal, , nós... – foi tentar se desculpar, mas ela só deu as costas e entrou pela porta pesada que dava à sala de gravação. Nos entreolhamos e olhamos para os caras nas cadeiras, que ainda nos ignoravam. Então eu fui atrás dela, e os guys foram atrás de mim – novamente, de um jeito totalmente heterossexual.
Lá dentro, o ar-condicionado estava bem alto, mas eu sabia que depois de três segundos tocando estaria morrendo de calor, e ele seria necessário. O chão era forrado por um carpete cinza felpudo, e nós quatro tiramos os tênis e os deixamos na porta, imitando , que estava descalça. As paredes eram duplas e fortemente revestidas por espuma, e a porta parecia aquelas de frigoríficos. No fundo da sala, uma bateria Mapex completa com pratos Zildjian reluzia, preta e perfeita. Ao seu lado, um baixo Musicman Stingray sunburst com o escudo preto estava descansando no apoio. Um pouco mais à frente, mais ou menos no meio da sala, uma guitarra Fender Stratocaster preta com escudo preto era a que mais chamava atenção. Um pouco para o lado dessa Fender, uma guitarra Gibson Les Paul vermelha com o escudo branco que, na minha opinião, era a mais bonita, fechava o círculo de instrumentos mais-caros-que-a-nossa-casa.
Meu queixo caiu.
Nós... Nós iríamos tocar com aqueles instrumentos ou só estava tendo delírios?
- Esses, hm, instrumentos agora são seus. – me tirou do devaneio. Virei meu rosto completamente para ela. Seu queixo estava tenso, e seu cabelo solto, jogado pelos ombros. Os olhos, como sempre, pintados de preto, e as unhas roídas eram metade cor de unha, metade pretas. Mas, mesmo assim, conseguia ser bonita. Imaginei como seria quando eu a transformasse em uma garota vaidosa. Será que eu me apaixonaria por ela?
Haha, no way!
Mas, espera... Ela havia dito que os instrumentos seriam nossos e eu estava mais preocupado em pensar em como ela ficaria com as unhas pintadas?
Meu Deus, eu tinha que parar de assistir Extreme Makeover de madrugada!
Rápido.
- Isso é sério!? – perguntou, com os olhos arregalados. – Isso é sério mesmo?
- Sim... Eu pensei que, bom, já que vocês vão ser produzidos pela equipe da minha madrasta, precisariam de instrumentos melhores, pro trabalho deles não ficar ruim. – ela deu de ombros, colocando a correia preta da Gibson Les Paul nos ombros. – E tomem um cuidado especial com essa aqui. Foi minha primeira guitarra.
Quem tem uma Les Paul como primeira guitarra?
Ah, espera aí: A enteada de uma das melhores produtoras do mundo tem.
Ela devolveu a guitarra no pedestal e colocou as mãos na cintura.
- E, por favor, me chamem de . – então ela puxou as baquetas do bolso da calça e apontou para nós quatro. – E aí, vamos começar?
Quarta-feira, dia 4 de Novembro, 23:05, Starbuck’s.
Girls:
- , tem certeza disso? – perguntou, esfregando as mãos uma na outra, nervosa. – Quero dizer, só eu e você... Por que não chamou as outras meninas?
- Porque as outras meninas não têm uma paixão reprimida e totalmente sem nexo por ! – virei os olhos. – E não era você mesma que queria que eu me aproximasse de pra poder ter a chance de falar com o ? Bom, eu me aproximei. Continuo o odiando, mas me aproximei. Passei o dia inteiro modificando as músicas dele, agora você aproveita a deixa ou eu avacalho esse plano idiota. Mesmo porque eu perdi a conta de quantas vezes fui chamada de “nerd” e “geek” por ele hoje, e isso é uma coisa que eu não sei se posso aguentar por muito tempo. Então ou você faz se apaixonar agora mesmo ou desiste.
Esfreguei as mãos pelos meus braços, não de nervosismo, mas de frio. Eu e os meninos havíamos acabado de sair do estúdio, e aquele bafo gelado da noite londrina estava me congelando, principalmente depois de sair de uma sala com quatro caras suando em bicas. Eles, pelo menos, haviam entrado na Starbuck’s, quentinho e aconchegante. Eu, por outro lado, estava esperando , que chegou com um vestido cinza curto, meia calça arrastão preta, uma bota de cano baixo de camurça preta e aparentemente nenhum frio, porque estava há meia hora me enrolando do lado de fora.
- Por favor, , eu tô congelando, preciso ir embora e tomar um banho quente! – implorei, pois estava mais do que cansada. Os caras até que eram legais, tirando , claro, e eu me diverti bastante nas gravações, mas, mesmo assim, estava cansada e só queria uma coisa naquele momento: minha cama!
piscou aqueles seus cílios longos, implorando para não entrar, mas não adiantou muita coisa, porque ela não entrou, mas saiu com um cigarro entre os lábios.
- ! – ele exclamou, deixando o cigarro cair. Se abaixou para pegá-lo, e eu olhei para de relance. Ela estava com aquele olhar por-que-ele-está-te-chamando-de-?, mas sorriu assim que ele se lavantou e olhou para ela e disse: – Oi.
- O-oi... – ela gaguejou.
Então ele se virou para mim e desembestou a falar.
- Pensei que estivesse no banheiro até agora. Mas, anyway, hoje foi demais! Eu já te disse que foi demais? – “já, umas quinze vezes”, mas é claro que eu não disse isso. , ao contrário de , claro, era um cara legal e gentil, e eu não estava afim de acabar com seus sonhos de rockstar. – Tipo, ver aquela transformação em Five Colours In Her Hair, e dar aquela repaginada em Get Over You... Tenho certeza que no meu aniversário, sábado, as pessoas vão curtir o som, e não somente bater os pés no chão pra não perder a amizade! Vocês vão, né? – ele perguntou, meio lesado, olhando pra e depois pra mim. Nem esperou a resposta e continuou a falar. – E aquele magricela então? Nós pensamos que ele era, tipo, um estagiário, e o cara era dono de uma das melhores gravadoras Underground da Inglaterra! Isso é simplesmente demais! Servida? – ele estendeu um cigarro na minha direção. Fiz que não com a cabeça. Não gostava de Camel. Então ele ofereceu para , que pegou o cigarro entre os dedos trêmulos. Ela geralmente só fumava quando estava muito nervosa, e aquela situação era o suprassumo do nervosismo pra ela, então não disse o que sempre dizia: “Se continuar fumando vai ficar que nem eu, com cheiro de cigarro em todas as roupas e os dentes amarelos!”
Ele estendeu o isqueiro para ela, colocando a mão por cima das suas. olhou para cima, atordoada, e a chama acendeu o cigarro. Depois ele retirou a mão e guardou o isqueiro.
- , essa é a . – ele seguiu minha mão, interessado. – , esse é o . – “como se você não soubesse”. Mas eu não disse isso, claro.
- Você faz inglês comigo, não é? – ele perguntou à ela, puxando assunto.
- Sim! – ela exclamou. – Acho que sim... – terminou, um pouco indiferente. riu, deixando-a vermelha.
- E você fez aquele trabalho animal sobre Shakespeare, não foi? – perguntou novamente, ficando de costas pra mim.
Ótimo, meu trabalho ali estava concluído.
Saí de perto dos dois e entrei de fininho no aconchego da Starbuck’s. Logo de cara, esbarrei na mesa em que , e estavam.
- Foi dar um voltinha no bairro, ? – perguntou, fazendo os outros dois rirem. Virei os olhos e escorreguei para a cadeira mais afastada dele, que somente continuou a sugar o conteúdo chocolátrico do seu copo.
- Bom, hoje à noite eu arrumo o MySpace de vocês e coloco os áudios de Five Colours e de Room On The Third Floor. – expliquei, cansada.
- Mas amanhã tem prova de matemática! – me avisou. Dei de ombros.
- Já passei em matemática...
- Desculpa aew! – exclamou, dando uma dentada no seu Muffin de chocolate. Pelos papéis jogados na mesa, era o seu terceiro, e mais dois esperavam ansiosos para serem devorados.
- Bom, vou pra casa agora, tenho que pegar dois ônibus para chegar e tenho certeza que se continuar aqui vou gastar todo o meu dinheiro da passagem em alguma coisa altamente calórica. – disse, me impulsionando para cima.
- Eu te levo pra casa. – ofereceu, se levantando também. Enruguei a testa. estava sendo simpático comigo? – Afinal, tenho que fazer uma média pra sua madrasta, se não ela corta as nossas asinhas.
É, foi o que eu pensei.
- Beleza, eu só vou aceitar porque meus pés estão pegando fogo. – respondi, me inclinando pra dar um beijo de tchau em e . bateu no ombro dos dois e saiu pelas portas pesadas, não sendo cavalheiro e não as segurando para mim.
Era de se esperar.
Procurei em volta por e , mas os dois não estavam mais ali. Torci para que estivessem em algum canto mais sossegado e que ele pelo menos se lembrasse de chamá-la pelo nome correto. Ou pelo menos por um nome que começasse com a letra do seu.
estava ao meu lado, acendendo outro cigarro. Pelas minhas contas, ele já havia fumado uns 14, só no pouco tempo em que ficamos juntos. Fechei minha blusa até o final do pescoço e respirei fundo, soltando o ar e observando a fumaça branca que se formava.
- Pronta pra ir? – ele perguntou, abrindo pela chave sua Pajero Tr4. Ela piscou do outro lado da rua.
Convencido.
- Claro... – virei os olhos. De repente, meu adidas estava grande demais, minha calça larga demais, meu cabelo solto demais... Aquela sensação de me sentir feia estava me sufocando!
O engraçado era que eu nunca havia me sentido feia perto de alguém. Não que eu fosse algum tipo de Miss, mas, sei lá, eu estava confortável com a minha aparência.
Até aquele momento.
girava as chaves do carro no dedo indicador enquanto atravessava a rua, e toda vez que batia um vento mais gelado, ele dava um pulinho.
Não que eu já soubesse disso. É claro que eu nunca ficava observando-o caminhar pelos corredores da escola nos dias de frio, só para vê-lo pular daquele jeito. Hã-hã, nada disso. Foi só uma coincidência ter percebido aquilo! Afinal, ele era bonito, não posso negar, mas não era meu desejo de consumo de alguns anos pra cá... Com certeza não!
escorregou para dentro do carro, nem se dando ao trabalho de abrir a porta para mim. Então eu tive que abrí-la e sentar minha bunda gelada no banco de couro bege gelado.
- Então, qual é o caminho? – ele perguntou, ligando o carro e avançando devagar pela rua deserta.
- Segue reto e vira à esquerda. – indiquei, apontando com o dedo ao mesmo tempo em que ele foi limpar o vidro embaçado com as mãos. Nossos dedos se tocaram, e eu olhei para ele, meio zonza.
Recolhi a mão no mesmo instante em que percebi que ele também me olhava com o canto dos olhos, de um jeito nada legal.
Jesus, eu conseguia ser bem retardada às vezes! Me deixar impressionar assim por um cara como ... Agora eu entendia porque algumas mulheres matavam seus maridos na TPM. Esse negócio de hormônio não é mole não!
- Então, quando nós começamos a te ajudar? – ele perguntou, virando a esquerda no final da rua.
- Agora quinta à direita. – expliquei. – Bom, não sei... Talvez eu só precise da sua ajuda no próximo final de semana!
- Você não vai à festa do ? – ele perguntou.
Aquilo era um convite ou uma boa ação?
Dei de ombros, indicando incerteza. Ficamos em silêncio.
Mas, veja bem, ficar em silêncio dentro dos próximos 15 minutos até a minha casa estava completamente fora de cogitação! Para alguém que estava sempre em contato com a música, ficar em silêncio era a pior coisa que poderia acontecer.
Depois de perder a voz, claro.
Então eu simplesmente liguei o rádio e sintonizei na única rádio que prestava em Londres. E não me surpreendi quando ouvi as primeiras estrofes de London Calling, do The Clash.
- London calling to the faraway towns, now that war is declared and battle come down… - cantarolei junto com a melodia. Mais uma vez me olhou com o canto dos olhos. Mas dessa vez ele sorria.
- Então você é mesmo uma punk esquisita. – ele comentou, virando à direita.
- Agora segue reto até o cruzamento e vira à esquerda. – comecei a roer minhas unhas. – Eu não diria punk esquisita... Eu diria que sou uma pessoa que não compartilha o mesmo gosto musical que o resto dos alunos. Quero dizer, quem vai gostar de The Clash hoje em dia se a única coisa que se vê na Tv são rappers e garotas peladas?
- The ice age is coming, the sun is zooming in! Meltdown expected and the wheat is growing thin… Engines stop running but I have no fear! London is drowning and I live by the river… - cantou junto, olhando pra frente, com um sorrisinho desprezível no rosto.
Então gostava de The Clash?
Isso mudava um pouco as coisas... Ele havia passado de babaca pra cacete pra só babaca. Um babaca lindinho.
“Foco, , foco!”
- E agora? – ele perguntou, virando à esquerda no cruzamento. – Caramba, você mora longe! Só ia chegar amanhã de ônibus!
- É por isso que eu preciso de um carro, e, consequentemente de você. – me ouvi dizer. Droga! Por que eu não podia manter a boca fechada? – Minha mãe só vai me dar um carro se eu levar um namorado na porra do baile de inverno.
- Aaaah... Tá explicado. – ele murmurou. – E porque seu pai não te dá um carro?
- Meu pai está prestes a ser pai novamente, você acha que ele tem cabeça e dinheiro pra me dar um carro? – perguntei, virando os olhos. Pergunta idiota tolerância zero. – Agora vira à direita naquele muro vermelho.
- Nossa, sua mãe está tão desesperada assim? – ele perguntou, me deixando um pouco constrangida com aquela pergunta. Era difícil de admitir, mas sim, minha mãe tinha muito medo que eu ficasse para titia.
- Talvez... – respondi vagamente. Olhei para ele de relance, e seus olhos brilhavam enquanto seu rosto se contorcia em uma tentativa frustrada de não rir do meu comentário.
fez a curva fechada e entrou na minha rua.
- Aquela casa azul clara. – apontei, mesmo que todas as casas da rua tivesse aquele tom de cinza-querendo-ser-azul.
Ele parou a Pajero bruscamente em frente à minha casa, desligando o rádio. Eu me inclinei para o lado e estava quase saíndo do carro imune a qualquer tipo de despedida, quando ouvi sua porta sendo aberta. Entrei no carro novamente, não entendendo o que estava acontecendo, e virei meu rosto em sua direção, observando-o sair pela porta do motorista.
O que diabos ele estava fazendo?
Quarta-feira, dia 4 de Novembro, 23:21, QG inimido.
:
- Oi, Sue. – acenou para uma mulher imensa que assistia ‘Um Virgem de 40 anos’ na televisão assim que entrou em casa. A mulher se virou com alguma dificuldade e apertou os olhos para focalizar a imagem.
- Oi, ! – acenou, alegre. – Oi, estranho! – disse, olhando pra mim.
- Esse é o , o menino que eu estou ajudando. – ela falou, um pouco relutante.
- Oi, ! – Sue me comprimentou novamente, agora um pouco feliz demais. – Meus funcionários me disseram que vocês são ótimos! Se eu pudesse pegava sua banda pessoalmente, mas como vê, estou sem condições no momento... – ela apontou para a barriga enorme. – Mas vocês estão em boas mãos!
- Muito obrigado pela oportunidade, Sra. ! – agradeci.
- Sue, você não deveria estar descansando? A qualquer momento seu hipopótamozinho sai daí e você vai reclamar que “está cansada demais para ter um filho!” – dizia, enquanto subia as escadas. Fui atrás dela, sem saber exatamente o que fazer.
- Já estou subindo, mamãe! – ela gritou. – Não faça nada nesse quarto que eu não faria! – então nós entramos no quarto de e tudo emudeceu.
A casa dela até que era aconchegante. Um pouco diferente do castelo do Drácula que eu imaginei... Alguns quadros na parede, um poodle toy saltitante e carente e muitas sacolas coloridas. Roupas, brinquedos e todo o necessário para colocar um monstrinho no mundo.
Já seu quarto era outra coisa.
Paredes num tom de verde escuro, pôsters forrando cada metro cúbico de tinta, uma cama desarrumada e muitos livros espalhados por todo lado. Se eu tivesse claustrofobia morreria assim que a porta se fechasse.
Ela se dirigiu ao banheiro sem dizer uma palavra, obedecendo meu discurso “temos que começar a te ajudar, urgente” que fiz antes de entrarmos na casa, e eu joguei um frasco de shampoo tonalizante em cima dela, acertando suas costas. Ela gemeu algo parecido com um “ai” e bateu a porta, mas antes pude ver sua calça escorregando pelas pernas.
Isso me perturbou um pouco.
Mas de um jeito bom, preciso admitir.
Deitei-me em sua cama e ela era tão fofa e quente que eu apaguei por alguns instantes. Mais ou menos meia hora depois ela saiu, forrando o quarto de fumaça. Acordei com o barulho do ‘clic’ da porta e fui até seu armário, como se já estivesse rondando pelo quarto há muito tempo.
- Não acredito que eu vou deixar você me mutilar desse jeito! – resmungou, esfregando uma toalha preta pelo cabelo. Estava com outra enrolada pelo corpo, mas as alcinhas do que eu pensei ser um sutiã estavam a vista, então ela não estava pelada. E eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim... – Sério, eu nem sei onde eu estava com a cabeça pra te colocar nesse rolo pra começo de conversa! Eu gosto do meu cabelo como ele é, não quero ele mais claro...
- Lixo, lixo, lixo... – eu ia jogando todas as calças desgastadas, todos os moletons rasgados e todos os tênis desbotados no chão. As únicas coisas bonitas que havia visto até aquele momento foram uma calça jeans skinny preta e um scarpin roxo de verniz. – Francamente, até o se veste melhor que você!
Nossa, aquela tinha doído até em mim.
jogou a toalha preta no chão e eu me virei de volta para o armário. Depois me virei para ela novamente, porque provavelmente eu estava vendo coisas. Mas eu não estava... continuava ali, e o que eu havia visto também.
Pisquei os olhos várias vezes. Não era possível. estava... Bonita!
Meu Deus, não acredito que eu disse mesmo isso.
Mas ela não estava só bonita. Ela poderia muito bem participar de um concurso de miss!
Todos os seus traços estavam a mostra, e com o cabelo um pouco mais claro, eu podia ver seus olhos. Suas maçãs do rosto eram rosadas e me davam vontade de apertar. Seus olhos eram grandes e expressivos, e seus cílios quase tocavam o começo das sobrancelhas, que, por sua vez, eram desenhadas com perfeição.
- Eu... Da... – tentei dizer algo, mas não conseguia. Minha língua parecia estar presa ao céu da boca.
- Quê? – ela perguntou, rabugenta como sempre, pegando um dos moletons que estavam chão. – Eu gosto desse... O que ele tem de feio!?
Olhei para o moletom verde musgo com o Pateta desenhado, piscando sem parar, perplexo.
- Eu... É... – minha boca não me obedecia. Graças a Deus ela não percebeu minha súbita gagueira. Na verdade, ela só jogou os cabelos molhados para o lado e deitou-se na cama, observando o teto do seu quarto forrado de pôsters. – É feio. – murmurei, ao poucos voltando a conversar como um ser humano.
Eu estava pasmo. Como um banho bem tomado e uma pequena mudança na cor de um cabelo poderia transformá-la de olha-ali-aquela-menina-que-esquisita em meu-deus-acho-que-estou-apaixonado!?
Balancei minha cabeça, tentando apagar tudo o que eu estava pensando. E tentando esfriar meu corpo, que parecia um carvão em brasa.
Então, para piorar tudo, ela se levantou com um salto, ficou de frente para mim, desenrolou a toalha que tinha em volta do corpo e ficou só de calcinha e uma segunda pele preta.
Na minha frente.
Na minha fucking frente!
Mas o que diabos estava acontecendo naquele quarto?
- Então me diz: Em que tipo de roupa eu ficaria bonita!? – ela perguntou, como se não estivesse quase pelada na minha frente. Na verdade, era como se fosse normal para ela ficar de calcinha na frente de pessoas estranhas. E só de pensar que mais alguém a viu daquele jeito me deixou nervoso.
Mas o que diabos estava acontecendo naquele quarto?
- Eu preciso mudar alguma coisa!? Porque não acho que eu tenha o corpo feio... – ela deu uma voltinha, se olhando no espelho do armário. – Tenho?
- Lindo... – murmurei, hipnotizado. Ela tinha o quadril largo e a cintura fina. Seu colo era proporcional ao resto do corpo e sua barriga chapada.
- O quê? – ela perguntou, ficando um pouco constrangida – ou fingindo estar constrangida – pelo jeito que eu a olhava. Não a culpava... Quero dizer, se eu parecesse estar tão obcecado por fora quanto eu estava por dentro, eu ficaria com medo de ficar no mesmo quarto que eu mesmo.
Deu pra entender?
- Limpo! Limpo... – respondi, balançando a cabeça e desviando os olhos do seu corpo semi-nu. – Agora seu rosto está limpo, já separei tudo que você não pode usar nunca mais e eu acho que nós vamos comprar algumas roupas amanhã... Você tem cartão de crédito!? – perguntei, tentando mudar de assunto, olhando para sua janela, com o rosto completamente oposto à ela.
O que diabos ela estava pensando? Tirar a roupa na frente de um homem!? Se ela fosse feia, como eu pensava que era por debaixo de todas aquelas roupas, tudo bem, mas pra piorar as coisas ela tinha tudo em cima!
- Nossa, eu sou tão repulsiva assim!? – ela perguntou, pegando suas roupas no chão.
“Nem um pouco!” pensei. Mas era claro que eu não poderia dar o braço a torcer... Se ela soubesse de um quarto dos meus pensamentos naquele momento, eu estava ferrado.
Então eu só disse:
- Nem tanto, só um pouquinho.
- Idiota... – ela murmurou, colocando uma roupa qualquer que pegou no chão.
“Droga!” pensei, enquanto ela vestia um blusão pela cabeça.
Assim que acabou de colocar a roupa, veio em minha direção. Todo o calor que eu estava sentindo antes voltou com força total. Meus olhos não me obedeciam, cravados em seus lábios vermelhos.
Meus Deus, eu nunca havia ficado daquele jeito na presença de alguma garota antes! Tudo bem que eu geralmente estava chapado demais pra ao menos perceber a garota perto de mim, mas aquilo era estranho demais! Eu nem conhecia direito! Porque estava me comportando como uma criancinha andando numa montanha-russa pela primeira vez?
- Compras amanhã? – ela perguntou, assim que ficou de frente pra mim. Balancei a cabeça feito um idiota. – Ótimo, então... – ela se curvou, passando com o rosto muito próximo ao meu. Ela estava dando em cima de mim ou o quê? – Pode ir embora. – disse, voltando a ficar de frente pra mim, me entregando as chaves do carro, que estavam atrás de mim na sua escrivaninha.
Claro... Como pude ser idiota ao pensar que ela estaria dando em cima de mim? Quando uma menina como conheceria os efeitos do flerte!? Ela só estava sendo repulsiva e ingênua como sempre...
- Valeu, nerd, até amanhã. – dei um peteleco no seu nariz e caminhei rumo a porta. Mas antes de ir embora, me virei, só por desencargo de consciência. E eu posso jurar que a vi sorrindo debilmente enquanto pegava suas roupas do chão.
Capítulo 6 – Fama com gostinho de vômito.
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 11:32, matando a quinta aula.
Girls:
Minha cabeça rodava, e não era do vinho barato que estávamos tomando. Para o meu alívio, deu a ideia de matarmos aula para ouvirmos sobre a noite anterior que passou conversando com , então não tive que ouvir ninguém falar – fora minhas amigas.
Eu estava um cocô. Não dormira direito na noite passada, ocupada demais pensando na conversa que tivera mais cedo com e na sua indiferença em me ver quase como vim ao mundo. E quando percebi que estava perdendo meu sono por causa daquele idiota, fiquei mais brava ainda, e não consegui dormir de vez. Fiquei rolando na cama até dar o horário de levantar, tomei banho e vim para a escola.
Para piorar minha dor de cabeça, ao chegar à escola, as meninas estranharam minha aparência e ficaram me zoando. Não que eu estivesse loira ou usando arquinhos coloridos, mas meu cabelo estava um pouco mais claro e meu uniforme um pouco menos largo, o que já era uma grande mudança para elas.
Vimos as três primeiras aulas – na verdade eu dormi nas primeiras três aulas – e fomos para o intervalo, graças a Deus não encontramos com os McMoscas pelo caminho. Deviam estar galinhando pelo pátio cool, nos deixando um pouco em paz.
Na verdade, não tinha mais nada contra os outros meninos, mas estava tão brava com que se o encontrasse pelo caminho não me responsabilizaria por meus atos. E eu nem sabia exatamente por quê. Porque, quero dizer, eu não estava nem aí pra sua opinião ou falta dela sobre a minha aparência!
Bom, talvez eu estivesse um pouco aí, se não teria dormido como um anjo na noite passada...
Mas, anyway, nós assistimos a quarta aula e lá pelo final dela, sugeriu que fôssemos ao nosso lugar secreto para ela terminar de contar a interminável e tediosa história de amor. Mas, como eu disse lá em cima, não poderia me queixar. Na verdade, estava pulando de felicidade pela brilhante ideia.
- Droga, gente, eu tô perdendo matéria de química! – reclamou, bufando. Eu dei de ombros, continuou a observar os meninos do primeiro ano jogarem futebol e continuou falando sem parar, como se tivesse uma vitrola na garganta:
- Aí nós fomos dar uma volta no quarteirão! Foi lindo... Ele me emprestou a blusa porque eu estava com frio e tropeçou no meio fio e ficou me perguntando quais eram minhas bandas favoritas e... Vocês pelo menos estão fingindo que estão me ouvindo? – perguntou, apertando os olhos com cara de hiena faminta.
- Eu estou te ouvindo! – virou-se para ela, sorrindo carinhosamente. – Mas prefiro ouvir enquanto olho praquele repetente do primeiro ano... – virou o rosto novamente, encarando com luxúria um garoto que estava no gol e mais parecia pai dos colegas de classe de tantos pêlos faciais que tinha.
- Eu também estou. – disse, ainda com a cara amarrada. – Mas preferia estar ouvindo a aula de química... – terminou, resmungando baixinho.
- Eu estou. – disse, dando de ombros. – “ é o cara mais fofo do mundo” e blábláblá... – imitei sua voz e ela mostrou o dedo do meio pra mim. – Ele acertou seu nome dessa vez!?
- Vaca! – exclamou, enquanto o resto de nós ria.
Eu só estava zoando. Queria que ela fosse feliz, mesmo que sua felicidade dependesse do amor de .
Que decadência amorosa...
Mas eu nunca me meteria nos gostos delas... E até que era ajeitadinho!
De algum modo bizarro.
- Por falar nisso, e aí, , como vão seus novos amiguinhos!? – provocou, sorrindo de um jeito detestável. Não que ela conseguisse ficar detestável... Era adorável demais pra isso. Mas a pergunta conseguiu me irritar. Aliás, tudo que lembrava o estava me irritando.
- Não enche o saco, . – mostrei o dedo do meio para ela. – Eles não são meus amigos, são só quatro garotos que vão me fazer ganhar um carro. Aliás, ontem eu terminei o MySpace e adicionei 300 amigos novinhos em folha, todos de Londres... Até o próximo final de semana, com a minha ajuda e seus rostinhos de boy-band, pré-adolescentes de todo o país vão chorar aos pés deles, minha mãe vai ter seu/meu namorado e eu vou poder ter sossego enfim.
- Então é isso? – perguntou. – Você só vai mostrá-lo para sua mãe e o quê? Dizer que ele sofre de amnésia e não quer mais saber de você?
- Aí eu vou enrolar ela por uns 3 meses e dizer que nós terminamos. – sorri vitoriosa. – Simples assim! Sem dor, sem drama, sem sentimentos!
- Sabia que quando você não está sendo nerd você está sendo amedrontadora? – perguntou, com os olhos esbugalhados.
- Eu sei... – suspirei. – Essa é minha sina...
- Duvido que você esteja fazendo tudo isso só por causa de um carro. – murmurou, como um pensamento alto, logo em seguida fazendo aquela cara de droga-deixei-escapar.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei.
- Nada... – ela deu pra trás, dando de ombros.
- O que ela quis dizer, , é que nós sabemos que você sempre achou o bonito, e que talvez esse planinho seja só para se aproximar dele! – disse, recebendo um empurrão de . – O quê!? Vocês também pensam assim!
Virei os olhos.
Então minhas amigas tinham teorias sobre minhas verdadeira intenções!?
Ótimo...
Era claro que eu o achava bonito. Por quê? Porque ele era! Lindo... Mas para se apaixonar por alguém era preciso mais do que um rostinho – e corpo, cabelo, olhos, mãos... – bonito. E eu definitivamente nunca me apaixonaria por !
Nunca!
Nunca?
- Sim, eu o acho bonito. – concordei, e ela sorriu daquele jeito sou-a-próxima-sherlock. – Mas também acho ele idiota, imbecil, sem graça, burro e muitos outros adjetivos não muito legais... E, não sei se vocês se esqueceram, mas foi ele quem veio me procurar! Eu não fiz com que ele formasse uma banda e muito menos fiz seu pai cobrar uma coisa que ele não conseguiria fazer sozinho. Ah, claro, e o ataque de esquizofrenia também afetou em suas cabeças o fato de que foram vocês que me encheram o saco para aceitar ajudá-lo. - olhei para de relance. - E outra, mesmo se eu o achasse bonito e quisesse me aproximar dele, vocês sabem muito bem que ele sempre me veria como uma nerd esquisita!
Novamente me lembrei da conversa da noite anterior e senti meu rosto queimar. Passei o dia inteiro tentando não pensar naquilo, mas, por mais que eu tentasse, as lembranças do seu rosto contorcido em surpresa sempre apareciam na minha mente como um flash. Por favor, ele deixou bem claro que não se sentia nem um pouco atraído por mim! Até virou o rosto para não me ver quando eu tirei a roupa na frente dele!
E olha que eu me depilei inteira enquanto tomava banho...
Quero dizer, que tipo de garoto vira o rosto diante de uma garota semi-nua!?
Não que fosse minha intenção deixá-lo apaixonado por mim tirando minha roupa de um jeito sexy e sedutor. Nada disso! Eu só queria saber o que ele achava sobre o meu tipo de corpo... Só porque eu usava uma calcinha preta e fazia cara de garota indefesa não queria dizer que eu queria conquistá-lo. Longe disso! Só queria uma opinião sincera baseada em uma prova concreta, mais nada. E só porque eu me curvei em sua direção para pegar a chave do seu carro não queria dizer que eu queria tentar impressioná-lo uma última vez. Nunca... Só queria mandá-lo embora.
Mas, mesmo se tudo isso fosse intencional, ele não demonstrou o menor interesse.
Claro que a gagueira e a cara de nervoso apontavam ao contrário... Mas me agarrei perdidamente ao fato de que ele virou o rosto para mim.
Definitivamente ele não queria nada comigo.
Mas é claro que minhas amigas não precisavam saber desses detalhes sórdidos.
- E aí, o que vamos fazer hoje!? – mudou de assunto, percebendo que eu não iria ceder tão cedo. – Não quero ficar em casa, meus pais só sabem brigar! E quando não estão brigando entre eles, estão brigando comigo!
- Sei lá, nós poderíamos... – comecei a falar, mas fui interrompida por um barulho baixinho vindo da porta de acesso ao telhado. Todas nós olhamos em direção a ela. Então o barulho começou a ficar mais alto e mais rápido; depois vieram as risadas.
Nos entreolhamos, assustadas.
Aquele era nosso lugar secreto! Ninguém daquela escola inteira teria cérebro o suficiente para ter a ideia de subir as escadas de incêndio e matar aula no telhado! O máximo que os alunos faziam era pular o muro e ir encher a cara no Loui’s, o pub em frente ao colégio.
Quem diabos poderia conhecer o nosso esconderijo!?
Escondi meu maço de cigarros e colocou a garrafa de vinho dentro da bolsa. Sentamos-nos corretamente e esperamos. O barulho ficava mais alto, e nós começamos a reconhecer palavras e expressões. “Dude” e “Foda-se” eram as mais faladas.
Então a porta se abriu...
...E eu fiquei com vontade de morrer.
O que os McMoscas estavam fazendo ali!?
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 11:36, matando a quinta aula.
Guys:
Aquilo já estava virando perseguição. Agora, além de tirar a roupa na minha frente - e me deixar completamente surpreso e de barraca armada, diga-se de passagem -, ela estava roubando meus lugares favoritos!?
Mas claro que tudo aquilo era minha culpa... Onde eu estava com a cabeça para pedir sua ajuda? Ela provavelmente era uma daquelas stalkers que só sossegavam quando tinham o que queriam. E o que queria era o meu lindo pescocinho na sua estante.
Não que eu me importasse em morar na sua instante, observando-a trocar de roupas todos os dias depois do banho.
Meu Deus, eu disse mesmo isso?
Mas então olhei direito para ela. Seu cabelo mais claro estava preso num coque desfiado, e sua calça do uniforme estava um pouco menos larga do que o normal. Seus olhos estavam limpos, exceto por uma fina camada de lápis preto na parte inferior, e ela havia passado um gloss rosa claro nos lábios. Estava muito bonita... Daquele tipo de garota que você vê na rua e pensa: “Nossa, se eu fosse me casar um dia seria com essa menina...”, muito diferente da menina que ela era há dois dias atrás, que você veria na rua e pensaria “E lá se vai outra garota que vai ficar para titia!”. Ela ainda não sorria, claro, mas, de qualquer jeito, eu não esperava que a transformação fosse completa no primeiro dia.
Lembrei-me da noite anterior, quando ela cantou The Clash ao meu lado do carro. Eu nunca sentira tanta compaixão por alguém como por naquele momento...
Mas, espera aí, eu estava mesmo pensando em como um garoto apaixonado?
- O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei, tentando não olhar para ela. O que era irônico, porque nós estudávamos juntos desde o primeiro ano do ensino médio e meus olhos sempre passavam despercebidos por , e agora que eu queria, não conseguia pensar em olhá-la sem contrair todos os meus músculos.
- Perguntamos o mesmo! – ela rosnou, soltando faíscas. – Esse é o nosso lugar!
- Odeio te decepcionar, , mas esse é o nosso lugar desde que descobrimos que matar aula era legal! – entrou na discussão, bagunçando seu cabelo de um jeito amoroso. Aquilo me fez sentir ciúmes. Eles já eram amigos? Sendo que nunca haviam nem conversado antes?
Meu Deus, eu estava ficando louco. Louco de pedra!
Vodu! Com certeza ela havia feito algum vodu pra cima de mim!
Bom, pelo menos se alguma galinha morta aparecesse na minha janela eu saberia com quem brigar...
- Oi, ! – chegou por trás de nós e acenou para , que estava sentada ao lado de , sorrindo. – Chegou bem em casa ontem?
- Oi, ! – ela respondeu, acenando com a mão, mesmo estando a menos de um metro de distância dele. – Sim, obrigada por andar comigo até a esquina de casa!
- “Oi, !” – imitou , sentando-se ao lado de , fazendo com que fizesse um gesto bem feio, envolvendo seus países baixos. – E aí, o que vocês estão fazendo de bom aqui? Estudando física?
- Na verdade – tirou uma garrafa de vinho barato da mochila. –, algo um pouco mais interessante.
- Opa! – exclamou, sentando-se ao lado de e pegando a garrafa de sua mão. Olhei com o canto dos olhos para , que olhava despreocupada para as unhas. De um jeito lindo. “Foco , foco...” – Não sabia que garotas nerds enxiam a cara!
- Nós nem somos tão nerds assim... – deu de ombros, finalmente parando de olhar o jogo de futebol dos alunos do primeiro ano e olhando para nós. – Somos garotas como todas as outras, só que, diferente delas, tiramos boas notas... Mas vocês nunca se deram ao trabalho de descobrir isso, nos chamando de nerds o tempo todo, não é? – perguntou, e eu percebi alguma mágoa em sua voz. Seus olhos passaram por todos nós, se demorando um pouco em .
- Nós não nos damos ao trabalho de fazer nada. – deu de ombros, tentando se justificar. – Só queremos nos divertir, não nos preocupamos muito com o que os outros vão pensar. Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha, certo? Não vamos atrás de ninguém, as pessoas que se sentem atraídas por nossa estupidez.
E dá-lhe !
Elas se entreolharam.
Eu não entendia muito bem essa troca de olhares das garotas. Era tão intenso, como se elas estivessem descobrindo a porra da cura pro câncer. Mas em seguida sempre saía algo do tipo “Haha, essa blusa não é linda?”, o que era um pouco bizarro demais pra minha cabeça.
- Até que isso faz sentido. – disse, concordando com a cabeça.
Sentei-me no único lugar que sobrava, ao lado de . já estava conversando animadamente com e , , e bebiam o vinho barato de , conversando sobre banalidades, como se fôssemos um grande e feliz grupo de amigos.
Gay!
- E aí, nossos planos ainda estão de pé? – perguntei para ela, tentando evitar aquele silêncio constrangedor.
- Sim. – ela respondeu, seca.
- Às 14:30?
- Sim.
- Hm... – o que havia acontecido com a garota da noite anterior!? voltara a ser a boa e velha assustadora de sempre?
Temia que sim... Mas pelo menos agora ela estava mais bonita ainda...
Ficamos mais um pouco em silêncio, enquanto todos os outros pareciam se divertir. estava até abraçando , enquanto ela ria das suas piadas.
Por que não podia ser divertida assim?
Por que eu não conseguia parar de pensar nela, mesmo que indiretamente?
Por que eu estava sempre querendo chamar sua atenção, desde o dia em que nos conhecemos?
Por que ela não podia ser legal comigo, como todas as outras garotas?
Por que eu não conseguia parar de fazer perguntas para mim, mesmo sabendo que elas não seriam respondidas?
- Eu arrumei o MySpace. – ela disse, se virando para mim. – E chamei todas as pessoas pra festa do .
- Opa, quanto mais mulher, melhor. – sorri para ela, que fez uma cara de nojo e voltou a olhar para frente. – Eu só estou brincando... Por que você tem que ser desagradável sempre?
- Por que você tem que ser idiota sempre? – ela rebateu, ainda sem olhar pra mim.
- Porque esse sou eu. – dei de ombros. – Eu sou idiota.
- Que bom que admite.
- Bom, quer saber? Foda-se. – me levantei. – Vou enxer a cara no Loui’s, lá ninguém me trata mal.
- Ótimo, assim eu tenho paz. – ela respondeu, o que por um lado me deixou aliviado em saber que, mesmo se eu estivesse louco e quisesse algo a mais, ela não iria querer. Mas, por outro lado, fiquei um tanto quanto depressivo. De algum jeito completamente mórbido e distorcido, eu gostava de tê-la por perto.
Deixei o telhado sem dizer nada a ninguém. Ninguém precisava saber da nossa pequena briga, pois iriam distorcer as coisas. “Só brigam porque se gostam”, e como eu poderia gostar dela? Como ela poderia gostar de mim? Éramos de mundos diferentes! Nunca daríamos certo juntos...
Nem sei por que estava pensando em tudo aquilo... Era só mais uma garota, nada que pudesse interferir nos meus planos de vida. Tantas garotas vieram e foram, por que com ela seria diferente?
Seria por que, diferente de todas as outras, ela não estava interessada em mim? Talvez... Mas decidi que não me importaria mais. Se ela quisesse, ela que viesse atrás!
Pulei o muro e entrei no Loui’s. Bebi até dar o sinal da última aula. Loui - que surpresa -, o dono do bar, ficou preocupado quando eu disse que iria sair de carro, principalmente pelo meu estado de loucura, mas não pôde fazer nada. Expliquei a ele que tinha compromissos e que não poderia perdê-los de jeito nenhum.
Afinal, eu era um homem de palavra!
Mas porque algo me dizia que minha promessa de esquecer de uma vez por todas aquela obsessão idiota por não daria certo?
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 15:02, estacionamento do shopping.
:
Ótimo... Era simplesmente ótimo! Agora, além de ter que aguentar seu desprezo por minha pessoa, tinha que segurar sua cabeça para que não vomitasse no próprio pinto!
Espero que minha mãe não leia isso.
- Pelo amor de Deus, por que foi beber tanto assim sabendo do nosso compromisso? – perguntei, mesmo sabendo que ele não me daria uma resposta racional.
- Queria evitar a fadiga! – ele citou uma frase do Chaves e começou a rir, enquanto se balançava para frente e para trás, quase me derrubando no seu vômito. Estávamos no fundo do estacionamento do shopping, onde os hippies costumavam fumar maconha, e ele estava apoiado no muro de tijolos marrons. Era o típico cool boy vomitando: em pé, apoiado em alguma coisa. Na verdade era só pose, porque só metade do seu peso estava descarregado no muro. O resto estava em mim.
- Ha ha ha, que engraçado. – virei os olhos.
- Na verdade, eu só bebi pra poder encarar a fera! - ele apontou para mim, rindo. - Sabe como é, você não é flor que se cheire...
Senti meu peito encolher.
Então era isso que ele pensava sobre mim?
- Mas, no fundo... - ele soluçou. - No fundo do meu coraçãããão, eu sei que eu só bebi assim pra poder te dizer algumas verdades! - ele disse, passando seu braço, antes apoiado no muro, envolta dos meus ombros. - Mas agora que você está aquiii... Eu... Num sei! - ele desatou a rir, e eu virei os olhos, me desvencilhando dos seus braços. - Hey, hey, me desculpe! – ele limpou a boca com a manga do uniforme. – Não quis te deixar mais chateada comigo... Mas, hey, esse sou eu! “, seu idiota!” – ele tentou imitar minha voz, mas as sílabas embaralhadas estavam atrapalhando seu desempenho, então ele riu mais um pouco.
- Sim, agora você está mais idiota do que o normal! - disse, mordendo o lábio inferior com força.
- E você mais linda do que eu já havia visto! – ele murmurou, enfiando sua mão direita por detrás do meu cabelo, segurando minha nuca com força. Senti meu rosto ficar quente, mas retirei sua mão de perto de mim antes que fizesse alguma bobagem. – Qual é, , eu não estou brincando! Por que você não me dá uma chance?
- Quem te deu a liberdade de você me chamar de ? – perguntei, ignorando sua pergunta e andando firme em direção ao shopping, deixando-o para trás. – Vamos, você já está melhor, está até dando em cima de pessoas alheias, acho que pode me ajudar com algumas compras. - critiquei, mas sabia que se me virasse para olhá-lo, cairia em contradição.
O que ele estava querendo dizer com "Por que você não me dá uma chance"? Era mais uma de suas brincadeiras ou ele falava sério?
Continuei andando, sentindo sua respiração logo atrás de mim. Não que eu me importasse, claro. Ele havia conseguido me deixar com muita raiva! Ao menos uma vez, desde que fechamos nosso acordo, ele poderia ter deixado seu egoísmo de lado e ter me ajudado! Mas não, ele era , e eu temia que não pretendesse mudar nunca.
Mais uma vez, não era como se eu me importasse...
Dei mais alguns passos, então não podia mais ouvir sua respiração. Agradeci por não estar mais sendo seguida de perto por ele. Mas quanto mais me aproximava do shopping, mais sentia que algo estava errado.
Então olhei para trás, só por precaução.
E vi desmaiado no chão.
27 minutos e 23 segundos depois...
Provavelmente quem visse aquela cena acharia que eu o havia matado. Quero dizer, eu estava sentada no banco de trás de seu carro, com sua cabeça mole em meu colo, enquanto tentava reanimá-lo, dando tapinhas leves em seu rosto. Com certeza se algum coxinha passasse por ali, eu seria levada presa.
já estava desacordado por vários minutos, com alguns momentos de lucidez em que abria os olhos e ria, ou somente ficava me olhando de um jeito idiota. Era como se eu fosse uma obra de arte e ele estivesse me analisando. Por um lado me senti lisonjeada, mas por outro eu só queria sair correndo dali. Aquela proximidade estava me fazendo mal. Eu até estava passando a mão por algumas mechas do seu cabelo de um jeito despreocupado! Como se ser carinhosa fosse uma coisa natural pra mim!
Não que eu fosse um monstro sem sentimentos... Mas nunca fora muito de beijos e abraços, e aquela preocupação que estava sentindo não era normal... Na verdade, me sentia uma traidora dos meus próprios limites.
Então, do nada, ele arregalou os olhos.
Pensei que fosse mais um dos seus momentos de loucura, mas dessa vez ele se levantou, colocando as duas mãos na nuca e empurrou a cabeça para baixo. Pensei que ele fosse vomitar e me arrastei para o lado. Mas ele só se curvou e pegou uma garrafa de água debaixo do banco. Deu um grande gole e a jogou no banco da frente.
- Por quanto tempo eu apaguei? - ele perguntou, ainda meio grogue, mas lúcido.
- Não sei... Uns 25 minutos... - respondi.
Ele não respondeu nada, só deitou-se novamente em meu colo e fechou os olhos. Senti todo o meu corpo esquentar, e de repente aquele carro ficou pequeno demais pra nós dois. O que ele pensava que estava fazendo? Só por que cuidara dele bêbado agora pensava que tinha o direito de deitar-se em meu colo sempre que pudesse?
Me remexi, desconfortável.
- Só dois minutos. - ele percebeu minha falta de jeito, falando mais sério do que eu havia visto desde... Desde sempre! - Minha cabeça está quase explodindo... Só dois minutos e eu já levanto.
- Relaxa. - murmurei, rezando para que esses dois minutos passassem bem devagar.
Não que eu quisesse sentir seus cabelos roçarem meu joelho pelo buraco da minha calça do uniforme, muito menos queria ele no meu colo nem nada do tipo... Só queria que os dois minutos passassem devagar para que ele ficasse bem logo e saísse de cima de mim.
Só por causa disso.
Passados alguns segundos, ele se levantou e abriu os olhos de vez.
- E aí, vamos fazer compras? - perguntou, me perfurando com os olhos.
- Então é assim? Você desmaia no meio da rua, eu te carrego até o carro, fico meia hora aguentando você sem dizer nada e o máximo que você consegue chegar perto de me agradecer é dizer "e aí, vamos fazer compras?" - perguntei, me arrependendo de ter sido tão legal. Deveria tê-lo deixado no meio da rua.
Pensei que ele fosse me xingar ou me zoar. Pensei que ele fosse me ignorar e sair do carro. Pensei até que ele fosse me expulsar do seu carro e ir embora.
Mas nunca pensei que ele faria o que fez a seguir.
se arrastou para mais perto de mim e, surpreendentemente, segurou minhas duas mãos, sem perder o contato visual.
- Me desculpe. - ele disse, obviamente sem saco para ficar brigando. - Obrigado por ter me ajudado. Estou devendo essa.
É, por aquela eu não esperava...
- N-não foi nada. - gaguejei, surpresa.
Então, para o meu espanto total, ele se curvou para me dar um beijo na bochecha.
Mas, como sempre, eu não podia ser normal e receber um beijo normal de agradecimento no rosto. Eu tinha que ser a maior idiota do mundo e me virar bem na hora, fazendo sua boca acertar a minha.
Vi estrelas.
Não foi devagar, não foi romântico e muito menos apaixonado. Foram só duas bocas se encostando e logo em seguida se separando. Mas mesmo assim eu senti como se fosse desmaiar quando ele saísse de perto de mim.
Assim que nos separamos, deixou escapar um sorriso calmo, saindo do carro logo em seguida sem dizer nada. Observei-o se distanciar e o local onde havia recebido o beijo começou a formigar. Coloquei a mão debilmente por cima dos meus lábios e eles se curvaram, num sorriso idiota.
Aquela, com certeza, era a última coisa que eu esperava que iria acontecer entre eu e ! Um pseudo-beijo depois de um porre. Não é uma coisa que se imagina todos os dias... Mas, de algum modo, eu esperava por aquilo desde que ele viera me procurar no parque. Sentia que nós dois iríamos nos ligar de algum modo, mesmo sendo tão opostos.
De qualquer jeito, saí do carro alguns segundos depois. Ele estava apoiado do lado de fora, colocando um Ray Ban para se proteger do Sol das 15h. Fui até ele, e sem dizer nada, nos dirigimos ao shopping. Entramos, e ele passou na minha frente, me guiando a uma das lojas mais patricinhas de lá. Antes de se quer olharmos algo na vitrine, uma atendente reconheceu e começou a perguntar como estava - que depois descobri ser sua irmã mais nova - e quando percebi, estava no provador, com pilhas e mais pilhas de roupas. estava calado, e só falava o necessário. Alguma coisa nele estava esquisita, mas não questionei. Ainda estava um pouco anestesiada do beijo de mais cedo. No final, escolhemos três conjuntos calça jeans e blusinha, dois vestidos, algumas sandálias, duas rasteirinhas e vários brincos, colares e essas coisas, e em menos de uma hora saí de lá com várias sacolas e ele com a promessa de trazer mais vezes.
Ao sairmos, ele já estava totalmente sóbrio.
Andamos lado a lado, em silêncio. Às vezes ele atendia o celular para falar com os amigos, e uma das vezes com uma garota, mas nosso silêncio parecia ser para sempre.
Até que eu o quebrei.
Por um ótimo motivo, diga-se de passagem.
- Fondue! – exclamei, apontando para o quiosque branco e rosa no final do corredor. – Aaaah, que vontade de comer um!
Olhei para ele, por um momento me esquecendo com quem estava falando.
- Acho que essa foi a primeira vez em que a vi dar um gritinho de mulher. – ele disse, recobrando o humor sarcástico.
Nenhum dos dois iria comentar sobre o beijo muito cedo. E aquilo não me incomodava, de jeito nenhum.
Fomos até o quiosque, e ele, mais uma vez provando que tirara o dia para ser cavalheiro - tirando o porre, claro -, e comprou um pra mim e um pra ele. Então fomos para fora do shopping, sentar nos banquinhos perto da área em que as mães apressadas deixavam seus monstrinhos.
- Então, estamos bem? – ele perguntou, virando seu corpo pra mim. – Não era minha intenção te dar todo aquele trabalho. Às vezes eu consigo ser bem irresponsável... Prometo nunca mais fazer isso com você!
- É, pode ser... – me esforcei para não sorrir, deixando um deslize do canto da boca transparecer. – Se você levar a promessa a sério... Porque tudo que eu me prontifiquei a fazer eu fiz. Não posso só te ajudar sem receber nada em troca!
- Prometo que vou tentar! – ele cruzou os dedos ao lado da cabeça. – Palavra de escoteiro!
- E você já foi escoteiro para dar essa palavra? – perguntei, ignorando a palavra "tentar" e não segurando a risada.
- Não – ele pareceu confuso. –, precisa?
Nós dois caímos na risada, e só paramos quando um grupo de garotinhas histéricas se aproximou do shopping. Olhamos para elas, e uma delas olhou para nós dois. Depois sussurrou para a amiga, que também olhou para nós dois. Logo as 10 meninas nos olhavam e se cutucavam.
Era a minha deixa!
- Ok, você vai fazer exatamente o que eu mandar. – sussurrei para ele, pegando um bloco de papel na minha mochila. Ele concordou com a cabeça, um pouco assustado, mas se divertindo às custas da minha aparente loucura. – Você vai dizer, bem alto, “claro que eu te dou um autógrafo, linda!” quando eu disser três. – Olhei para as garotas, que agora estavam paradas em frente à porta automática. – Um... Dois... Três!
- Mas é claro que eu te dou um autógrafo, linda! – ele disse, um pouco mais alto do que eu queria, mas deu certo. Não passados cinco segundos, todas as 10 garotas estavam em cima dele, estendendo cadernos e puxando suas máquinas fotográficas da bolsa.
- Você é o do McFLY, certo? – uma delas gritou. – Adicionei vocês no MySpace ontem! Adorei as músicas!
- Cadê o !? – uma delas perguntou.
- E o !? Cadê o !? – três gritaram.
Saí de perto, assistindo a cena ao fundo. Aquelas 10 garotas colocariam as fotos no Facebook, cada uma deixando 10 amigas com inveja, querendo uma foto também, mesmo sem conhecer a banda. A corrente estava formada.
Mas o mais curioso foi que, no meio de toda a muvuca, me olhou, sorrindo de um jeito de quem está assustado mas está adorando. E eu pisquei pra ele. Simples assim.
Sentia que estava caindo cada vez mais fundo num poço que não tinha volta. Por mais que mentisse pra mim, sabia que não odiava mais . Talvez até gostasse dele. Um pouco mais do que eu poderia controlar.
Coloquei a mão novamente por cima dos meus lábios e sorri.
Quer saber? Eu estava gostando...
Capítulo 7 – Consequências.
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 19:58, em frente à minha casa.
Guys:
- Tá, quem foi o engraçadinho que colocou pó de mico nas minhas coisas? - perguntou, descendo as escadas com uma mão em cada nádega, coçando-as como louco.
- Ninguém. - assoviou, olhando para todos os lados menos para . Eu e fizemos aquele som de estamos-segurando-a-risada e as meninas se entreolharam, também se segurando para não rir.
"As meninas" das quais eu me refiro são , , e , mais conhecidas como , , e . E, sim, elas estavam na nossa casa. E, sim, estavam bebendo com a gente. E, sim, o queria pegar a . E, sim, e pegavam até bonecas infláveis se fosse possível. E, sim, eu ainda estava pensando no quase-beijo com de mais cedo.
Agora me diz, quando, em mil anos, eu estaria presenciando aquela cena? Quatro garotas que sempre passaram despercebidas por nós quatro, alvos das nossas piadinhas matinais, nerds de carteirinha, na nossa sala de estar, com os pés em cima da mesa, tomando cerveja e jogando video-game?
Nunca!
Pra você ver como o mundo dá voltas...
Mas, pra dizer a verdade, elas eram bem mais divertidas que as outras garotas que frequentavam nossa casa, que só queriam saber de tirar a roupa e falar mal das amigas. Quero dizer, nós pelo menos podíamos conversar com elas. E arrotar alto.
Arrotar alto rocks!
- Isso vai ficar um mês coçando... - ele reclamou, sentando-se ao lado de e esfregando a bunda no sofá desesperadamente. Depois de ter feito isso, não aguentou, e caiu na risada, contagiando todos nós.
estava sentada ao meu lado, na quarta cerveja, com um cigarro na mão e viajando na música. estava ao seu lado, conversando sem parar com . e brincavam de soco-soco-bate-bate-eu-sou-retardado-mental e coçava a bunda sem parar, fazendo rir até perder o fôlego. Estávamos sentados em roda, e alguma música putz putz tocava ao fundo no rádio.
Olhei para o lado, discretamente.
Relembrei-me dos acontecimentos do dia. Eu bêbado, eu beijando ela, nosso momento compras, meu momento fama, convite precipitado e minha casa.
Claro que, antes de chamá-la para ir em casa, levei-a até a sua. Fui do shopping até lá monologando sobre como seria legal quando as pessoas me reconhecessem na rua como as garotinhas fizeram mais cedo, e ela só ouvia minha narração, rindo de vez em quando, um pouco distante, talvez até com medo de que eu a atacasse novamente.
Não que eu não quisesse...
Ao chegarmos à sua casa, entrei para fazer uma média com a madrasta dela, que estava brincando com massinha - é, isso mesmo, massinha de criancinha - no chão da sala. Quando já estávamos no pé da escada, prestes a nos despedir, convidei-a para comer uma pizza comigo e com os guys, sem nem ao menos pensar na proposta. Eu só gostaria de passar mais algum tempo com ela... Não sei, algo na sua companhia me deixava mais animado.
O mais incrível de tudo foi que, quando pensei que ela iria recusar e subir as escadas correndo, ela só sorriu e aceitou. E ainda me pediu para ajudá-la com a roupa, dizendo que era sua primeira prova de figurino.
Subimos as escadas e eu de repente fiquei tímido. Não sei se por que estava me lembrando do papel de idiota que havia feito mais cedo ou se estava com medo/vontade de que aquele pseudo-beijo evoluísse para um beijo de verdade.
No final, eu só fiquei sentado na sua cama enquanto ela foi ao banheiro – por que dessa vez não decidiu se trocar na minha frente de novo? - e depois de meio segundo saiu de lá com uma calça jeans velha e uma camiseta do Mikey. Fiz ela entrar lá de novo por 5 vezes, eu só aprovei o visual quando ela saiu de lá com uma skinny preta, uma segunda pele preta por baixo da blusa morcego vinho que caía nos ombros e um Adidas preto e cinza.
Quando estávamos descendo as escadas, perguntou se podia levar as amigas, porque elas provavelmente iriam ficar em casa. Disse que sem problemas, e logo eu estava rindo das três meninas socadas no banco de trás que contavam piadas sobre portugueses e zoavam sobre o fato de ter a perna torta.
E depois de toda essa saga, nós estávamos ali, rindo, comendo pizza e enchendo a cara.
- E aí, vocês vêm no meu aniversário né? - perguntou para as meninas, pelo que parecia ser a décima sétima vez só naquela semana. Elas só concordaram com a cabeça, talvez já de saco cheio da festa que nunca chegava. - Legal, porque vai ser a primeira aparição do McFLY em público depois das gravações!
- Já estão se achando mais que chuchu na cerca... - comentou, e todos nós rimos da sua comparação idiota.
- Dá uma palinha aí pra gente, McMoscas! - pediu, fazendo beicinho. Olhei discretamente para os guys, e eles fizeram o mesmo.
- Sei lá, não sei se um acústico vai ficar legal... - disse, parando um pouco de se coçar para prestar atenção na conversa.
- É, nossos violões estão meio empenados... - eu completei, ficando desconfortável.
No fundo no fundo, nós estávamos com medo de não conseguir impressioná-las, e sabíamos disso. Quero dizer, elas tinham a maior média da escola, gostos musicais distintos e eram gente boa pra caramba. Tem como impressionar uma menina dessa?
Mas é claro que não daríamos o braço a torcer... Por isso terminou:
- Vocês vão ter que esperar como todos os outros!
- Covardes... - disse, mostrando a língua para nós quatro.
Levantei-me, no intuito de pegar outra cerveja, e fui acompanhado por , que levantou-se junto.
- Onde eu pego outra? - ela perguntou, levantando a latinha vazia.
- Vem comigo. - disse, caminhando até a cozinha com ela atrás de mim. Ao chegarmos lá, ela jogou a latinha no lixo e pegou outra na geladeira, um pouco mole. - Agora é minha vez de cuidar de você? - perguntei, rindo.
- Vai sonhando! - ela exclamou por cima do barulho de "tchisssss" do lacre. - Eu sou tão durona quanto aparento.
- Mas até que você está menos "dumal" hoje. - eu disse, escaneando-a de cima a baixo. Ela jogou a tampinha no lixo e deu um longo gole da sua cerveja.
- Eu tenho um bom professor. - finalmente disse, depois do longo gole, sorrindo de um jeito meigo.
Estava na dúvida sobre o que eu achava sobre aquilo. Ou ela seria o meu melhor projeto ou seria minha maior dor de cabeça. Eu sabia que ela precisava, mas eu queria que ela mudasse o seu jeito meio bruto de ser! Quero dizer, ela, dentre todas as outras meninas que passaram por minha vida, fora a única capaz de me prender por mais de dois dias. Não que eu estivesse apaixonado nem nada do tipo - eu acho - mas aquela obsessão era divertida, e eu acabaria com ela transformando em mais um ser sem conteúdo?
Mas era claro que eu estava subestimando sua capacidade mental. seria vestida de macho ou de coelhinha da playboy.
- E aí, o que as mulherzinhas estão fazendo aqui? - perguntou, entrando na nossa cozinha caótica com 4 latinhas vazias. Colocou em cima da pilha de latinhas vazias e pegou mais quatro na geladeira. - Tá frio, né? A gente não pode nem ficar pelado...
riu da sua observação, saindo da cozinha com ele, me deixando ali parado em pé, sozinho.
Qualquer outra garota ficaria ali, conversando comigo, até que eu estivesse afim de parar de conversar e partir para a ação. Mas não ... Ela simplesmente virou as costas e foi embora. Sem mais nem menos. O que me deixava com uma bifurcação mental: Ou ela não estava nem um pouco interessada ou ela estava fazendo jogo duro. Porque, quero dizer, ela não estava pegando os sinais? "Errei" sua bochecha, convidei-a para ir à minha casa, fiquei fazendo gracinhas perto dela...
Mas o que eu estou dizendo? Eu nem estava afim dela!
Ou talvez nem tanto...
Quinta-feira, dia 5 de Novembro, 21:23, habitat natural masculino.
Girls:
- , dá uma ajudinha aqui? - pediu, com dificuldade para abrir o botão da calça.
- Sempre, né, ? - perguntei, rindo com ela. Aquela era nossa piada interna, porque sempre que bebia demais não conseguia abrir o botão da calça, e eu tinha que acompanhá-la ao banheiro.
Cambaleei para perto dela, me apoiando em qualquer coisa que via pelo caminho. Minhas pernas estavam bambas, e não me obedeciam mais, mas eu ainda estava boa o suficiente para me lembrar das coisas. Abri seu botão vagarosamente, e sentei-me no chão, enquanto ela fazia xixi. Sei que aquela cena era um pouco nojenta, mas nós estávamos bêbadas e achávamos tudo muito engraçado. Olhei para o teto, apertando os olhos por causa da luz da lâmpada que me cegava.
- Você acha que o algum dia vai querer ficar comigo? - perguntei, debilmente, me esquecendo de que não havia falado à ninguém que talvez estivesse um pouco afim dele.
Só um pouco!
- Acho que eu estou afinzassa dele... - suspirei.
É... Talvez um pouco mais do que só um pouco.
Como ele havia passado de lixo imprestável para possível paixonite no meu conceito???
- EU SABIA! - ela gritou, caindo na risada enquanto dava descarga. Fechei a cara de brincadeira e ela riu mais um pouco antes de recomeçar a falar. - Bom, se quer saber minha opinião sincera, acho que ele tá afim de você, mas também acho que ele vai conseguir o que quer e depois jogar fora, como fez com todas as garotas da escola...
Era por isso que eu adorava minhas amigas bêbadas, eram sempre sinceras.
- É, eu sinto o mesmo... - suspirei.
- , eim? Quem diria... - ela riu, retocando o rímel em frente ao espelho, acertando tudo menos seus cílios. - Acho que a tequila tá subindo agora... - ela mudou de assunto, ficando de frente pra mim. Ajudou-me a levantar e nós duas saímos do banheiro de braços dados, dando de cara com e , que esperavam do lado de fora, tão bêbadas quanto nós duas. Elas nos puxaram novamente lá para dentro, e nós quatro ficamos socadas num cubículo que cheirava xixi.
- Reunião? - perguntei, pegando o copo de sei-lá-o-que da mão de e entornando-o garganta abaixo.
- Estou com um probleminha! - exclamou, sentando-se na tampa da privada. - disse que queria ficar sozinho comigo e eu só ri. Então ele fez uma cara estranha e disse que ia pegar mais cerveja. E agora está todo estranho comigo...
- E por que diabos você foi rir? - perguntou.
- Sei lá, eu pensei que fosse uma piada, ele só faz piada! - ela exclamou, colocando a mão na frente da boca logo em seguida. - Será que ele ouviu isso?
- Claaaaro, ele tem audição super sônica! - brinquei, rindo sozinha da piada ruim.
- O que eu faço? - ela perguntou, aflita, arrumando o cabelo em frente ao espelho.
- Você quer ficar com ele? - perguntou, já um pouco cansada do cu doce de .
- Não sei... - ela entortou a boca.
- Não sei é sim. - comentou, maliciosa. sorriu nervosa.
- Faz o seguinte, : Volta lá, senta do lado dele e diz que você também quer ficar sozinha com ele! - eu disse, me surpreendendo com as coisas que estavam saindo da minha boca. Desde quando eu dava conselhos amorosos? Eu era sempre a que dava conselhos sobre músicas boas e como fazer o exercício de física mais rápido, não sobre como ficar com um cara! - Quero dizer, sempre foi o amor da sua vida e agora que você tem a chance de ficar com ele fica fazendo cu doce?
Olhei para elas, que me olhavam de volta de um jeito estranho.
Qual era o problema? Eu estava bêbada! Não podia ser sincera ao extremo como todos os outros bêbados normais?
- Meu Deus, o que eu ainda estou fazendo aqui? - ela perguntou, arregalando os olhos. Depois se virou para a porta, girou a maçaneta e saiu gritando: - Me desejem sorte!
foi atrás dela, sempre cuidando para que ela não fizesse nenhuma besteira, e eu saí com , rindo da foto de um cachorro com uma manga na boca que estava colada na parede do hall.
Chegamos na sala depois de quase fazer xixi na calça de tanto rir e encontramos comendo o último pedaço de pizza de peito de peru com catupiry, contando quantas pintas tinha nos braços e dando um gole no que parecia ser sua vigésima terceira cerveja. Claro que não era, mas eu não duvidava nada...
- Outro porre, ? - eu perguntei, me jogando ao seu lado. Para mim tudo o que eu estava fazendo era engraçado e sem segundas intenções, mas sabia que quem estava me vendo de fora estava pensando outra coisa. Quero dizer, normalmente eu não me jogaria em ninguém e muito menos em .
Mas estávamos todos bêbados, então, who cares?
- Pergunto o mesmo a você! - ele brincou. sentou-se ao seu lado e entrou na conversa de e .
- Cadê a ? - perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
- Sei lá, acho que foi dar uma volta com ... - ele respondeu. - Quer? - ele colocou um shot de tequila na minha mão.
- Você quer me embebedar, ? - perguntei, pegando o copinho da sua mão e mordendo o lábio inferior. Ele seguiu meus movimentos e por um instante ficou travado em meus lábios. - Porque eu continuo não te suportando, bêbada ou sóbria!
sorriu sarcástico e virou um shot ele mesmo. Imitei seu gesto e enchi novamente o copo com a Jose Cuervo que brilhava na mesa central de vidro.
Já havia sacado que ele estava me dando bebidas a noite inteira, porque tudo o que eu havia bebido até ali fora retirado das suas mãos, mas resolvi deixar as coisas aconteceram. Tinha algum problema nisso?
Bom, talvez algumas consequencias...
Continuei virando, e ficava cada vez mais bêbada. Quando eu estava naquela fase não-sinto-mais-nada, começamos a jogar Sueca. [N/a: Pra quem não sabe o que é, jogo de cartas com cada carta significa algo.] Eu só estava perdendo, porque minha coordenação motora estava péssima, e cada vez que perdia tinha que beber mais.
As brincadeiras estavam me aproximando de , e nós estávamos rindo sem parar, sentados um ao lado do outro. Num determinado momento, senti sua mão se entrelaçar com a minha, mas estava tão ausente do mundo real que só a mantive lá, esquentando meus dedos gelados. Estávamos rindo, bebendo, comendo, e tudo estava ótimo, até que eu comecei a ficar enjoada e tonta, e as memórias começaram a vir como flashes: Eu tendo que lamber sal da curvinha do queixo do , tudo preto, o jogo acabando porque derrubara batida nas cartas, tudo preto, e voltando, tudo preto, me levando ao banheiro para vomitar, tudo preto, eu abraçada na privada e e segurando meu cabelo, tudo preto, e se beijando num canto escuro, e pulando no meio da sala e rindo, com o braço em volta dos meus ombros, sentados no sofá.
Aí eu apaguei.
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 2:32, meu quarto.
:
O celular de vibrava incessantemente em minhas mãos. "Sue", "Papai", "Mãe" e "Casa" eram os que mais tocavam. Além de mais três nomes que eu não conhecia, provavelmente seus meio-irmãos e seu padrasto. Eu não sabia o que fazer... As meninas já haviam ido embora - depois de eu prometer a elas que levaria para casa quando ela estivesse melhor, pois ela não poderia ir pra casa naquele estado - e os guys já estavam no décimo segundo sono. E eu estava ali, sentado na poltrona do computador há umas duas horas, curvado para frente, morrendo de sono e olhando fixamente para a boca entreaberta de , com medo de que a polícia invadisse minha casa a qualquer minuto.
havia bebido demais. Assim como eu mais cedo, apagou. E eu duvidava que iria se lembrar de tudo que fizera na madrugada. Quero dizer, não era quem estava ali. Era provavelmente a que ela gostaria de ser, mas definitivamente não era ela mesma. Espontânea, falante e feliz. E louca, porque beijar suas três melhores amigas e brincar de passar a carta com a boca não eram coisas que a normal faria. Aliás, se a normal estivesse ali, quando soubesse que tinha que lamber meu queixo, provavelmente vomitaria na minha cara. Mas não, a -crazy-life somente riu e lambeu, de um jeito que me deixou completamente paralisado por falta de sangue em todos os membros menos um, se é que você me entende...
Se a acordasse, ela provavelmente ainda estaria bêbada, ou, na melhor das hipóteses, tonta. Se deixasse-a dormir, seria morto por toda sua família. Desviei os olhos da sua boca para seus olhos. Tinha que acordá-la!
Levantei-me da poltrona, sentindo uma pontada na espinha por me mexer tão bruscamente depois de tanto tempo na mesma posição. Minha cabeça doía de tanto pensar, e meus pés formigavam. Caminhei até ela, deitada de bruço na minha cama, e sentei-me ao seu lado. Passei a mão por sua cabeça, não com a intenção de acordá-la, mas porque estava com vontade de fazê-lo desde que a carregara desmaiada no colo para o meu quarto. Seu cabelo era macio e gelado, e meus dedos se embaralharam na montanha de fios... Meu coração de um pulo no peito.
O que eu estava fazendo?
Chacoalhei a cabeça para parar com aquilo e, com as duas mãos, comecei a balançar seus ombros.
- ? - chamei baixinho. Nada. - , acorda, você precisa ir embora! - ela se remexeu. - ?
- Quem disse que você pode me chamar assim? - ela perguntou sonolenta, e eu sorri.
- Há quanto tempo está acordada? - perguntei.
- Há uns 15 minutos... Aliás, obrigada pelo cafuné. - ela brincou, apoiando-se nos cotovelos e olhando ao seu redor. - Seu quarto é legal. - disse, observando os pôsteres na parede.
- Valeu. - agradeci, esquecendo o que deveria dizer a ela e me sentindo meio idiota, mesmo que sem motivo nenhum. Mas o celular chato recomeçou a vibrar, e eu me lembrei instantaneamente da aflição que estava me consumindo nas últimas horas. - Você está ferrada!
- Por quê? - ela perguntou, me encarando nos olhos. Suas pupilas estavam muito dilatadas, e eu podia ver, mesmo no escuro, que ela ainda estava um pouco bêbada.
- Família. - levantei o celular na altura dos seus olhos.
- Porra... - ela xingou, fechando os olhos pela claridade do visor, saltando da cama e quase caindo ao tentar se equilibrar. Pegou o celular das minhas mãos e atendeu no primeiro toque. - Alô?
- , aonde diabos você se meteu? - ouvi uma voz masculina exclamar do outro lado. afastou um pouco o celular da orelha, fazendo uma careta.
- Estou na casa de um amigo, pai, o celular estava na minha bolsa e eu nem percebi ele tocar... - ela mentiu, nervosa.
- Mentirosa! Eu liguei para os pais de suas amigas e eles me disseram que elas chegaram alteradas em casa! O que diabos vocês fizeram, NÃO MINTA PRA MIM! - ela olhou pra mim, suplicante. Num ato de coragem inconsequente, arranquei o celular da sua mão.
- Oi, Sr. , eu sou o , amigo da sua filha, e ela está na minha casa. - disse, tentando ao máximo soar responsável. - Sei que não tenho moral com o senhor para dizer que sua filha está bem, mas eu vou levá-la para a casa se o senhor me permite.
- Sem essa de senhor pra cima de mim! - ele berrou, mas pelo menos estava mais calmo do que quando falava com ela. - Quero ela aqui em 20 minutos, senão eu mando te prender!
- Sim, senhor! - disse, sendo respondido pelo tu tu tu do telefone desligado. Fechei o flip do celular e devolvi a ela, que acendia a luz para procurar seus tênis. Quando os achou, foi ao banheiro se arrumar, e eu fiquei rodando pelo meu quarto, procurando minhas chaves.
Assim que estávamos pronto, descemos as escadas silenciosamente, passando pelos guys que roncavam na sala e fomos até o carro. Dirigi o mais rápido que pude, com muda ao meu lado. Chegamos em 7 minutos na sua casa, e ela logo saltou do banco de passageiro, com o olhar do seu pai na janela do andar de cima do sobrado. Mas antes que ela saísse por inteiro do carro, peguei no seu braço num movimento involuntário. Ela se virou para mim na mesma hora, como se já esperasse minha reação.
- Me desculpe. - pedi, sério.
- A culpa não é sua. - ela disse, dando de ombros. - Já passei por isso antes, não esquenta.
- Beleza... Fica tranquila, se eles te prenderem em casa eu venho te salvar. - brinquei, e ela sorriu.
- Só tente não vir bêbado.
- Tente não estar bêbada.
- Idiota!
- Ignorante!
- Otário!
- Imbecil!
- Boa noite, . - ela desejou, mostrando os dentes num sorriso engraçado, batendo a porta do meu carro logo em seguida.
Observei ela entrar correndo em casa e fiquei por um bom tempo observando a movimentação na sala de estar da casa. As luzes se acendendo e apagando e alguns "CASTIGO" que saíam pelas frestas das portas.
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro.
- Boa noite. - sussurrei, antes de sair de lá e voltar para casa.
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 2:42, sala de estar.
:
- Você tem IDEIA do que nós passamos hoje? - meu pai perguntou, cuspindo as palavras na minha cara. Sue estava ao seu lado, pressionando a barriga e tentando ser severa, olhando sério para o além. - Sua família INTEIRA está te ligando desde as DEZ horas da noite! Sabe o que são quatro horas desesperados para saber o seu paradeiro? Sabe o que é isso? Sabe o que é ficar pensando em todas as desgraças do mundo?
- Não... - murmurei, com a cabeça baixa, tentando não transparecer minha não sobriedade.
- Você é uma mentirosa, uma incosequente, dissimulada... - ele ia dizendo, enquanto eu só concordava com a cabeça. - Irresponsável, imatura...
- , nós nos preocupamos muito com você hoje! Pra quê sumir assim? - Sue perguntou, e eu dei de ombros.
- Não tem nada a dizer? - meu pai perguntou, irritado.
- Sei lá, eu estou errada e vocês certos? - perguntei, me segurando para não rir.
- Essa foi a pior coisa que você já fez, . - meu pai disse, um pouco mais controlado. - E eu quero que você suba para o seu quarto e só saia de lá amanhã de manhã para ir à escola. Vai ficar um mês sem Internet, telefone, celular e sem sair de casa, pra você aprender a medir as consequencias dos seus atos.
Assenti com a cabeça, ainda sem responder. Retrucar seria pior. Meu pai estava irado... Contando com as suas, tinha mais de 40 ligações perdidas no meu celular! Era um exagero, mas não tentaria me defender, eles nunca iriam me ouvir. E eu sabia, no fundo, que estava errada.
Levantei do sofá e subi os degraus de dois em dois. Entrei no meu quarto e me joguei na cama, sem trocar de roupa ou tomar banho. Retirei meus tênis de qualquer jeito e me cobri até a cabeça. Que noite! Aliás, que dia!
Apesar de todos os acontecimentos, adormeci com um só pensamento na cabeça: Não poderia mais ir à festa de ...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 7:43, sala de estar.
Guys:
- Que dor de cabeça infernal! - reclamou, depois que terminou de tomar uma garrafa inteira de água.
- Pelo menos você pegou alguém... - disse, jogado no chão da sala.
- É? Engraçado. - ele virou os olhos, abrindo outra garrafa de água.
Olhei para , que olhou para , que olhou para mim.
Ele não se lembrava?
- Você... Você não se lembra? - perguntou.
- Lembrar do que? - ele tirou a garrafa da boca, já pela metade, deixando um fio de baba escorrer pelo queixo.
- Que você ficou com a ? - completou, franzindo a testa.
- Ah, conta outra, vocês não vão me convencer com essa história! - ele riu, pousando a garrafa em cima da bancada. Não que alguém ainda fosse beber aquilo... - Bem que eu queria, mas aquela menina é osso duro de roer! Nunca que ela ficaria comigo...
- Hm, bom, acredite no que quiser, mas que vocês trocaram saliva no sofá ontem, vocês trocaram... - eu disse, rindo. - E eu não estava louco o suficiente para estar imaginando coisas!
- Vocês estão falando sério? - perguntou, arregalando os olhos. - Ela ficou comigo? Eu fiquei com ela? Nós ficamos?
- Bom, se você ficou com ela, ela ficou com você, consequentemente... - deixou a frase no ar.
- Nós ficamos! - ele completou, com um ar de bobo na cara. - E eu não me lembro!
- Aparentemente... - dei de ombros.
Enquanto os três discutiam, subi para o meu quarto. Entraríamos na segunda aula devido à ressaca forte, e eu precisava de um banho. Despi-me e entrei no banheiro, ligando o chuveiro no quente. Entrei debaixo da água e deixei ela varrer de mim todos os vestígios de cansaço. Eu não estava só cansado fisicamente. Minha cabeça doía e meus olhos pareciam não querer abrir. Estava preocupado com alguma coisa, só não sabia o quê; Aquilo estava me incomodando muito. Aquela sensação de fracasso... O que poderia estar me deixando daquele jeito?
Então me lembrei.
.
Sabia que encontraria com ela mais tarde na escola, mas algo me dizia que ela havia se ferrado feio, e parte da culpa fora minha. Ela estava sempre sendo legal comigo, mesmo que de um jeito estranho, e eu só havia mancado com ela. Primeiro ficava zoando com a sua cara, depois aparecera bêbado quando deveria ajudá-la, e depois a fizera ter problemas com a família.
Será que ela seria capaz de me perdoar?
Terminei de tomar banho e me enrolei na toalha. Chegando ao quarto, coloquei uma boxer preta e enfiei minha calça jeans cinza clara de qualquer jeito, segurando-a na metade da bunda com um cinto preto de fivela prata. Coloquei minha camiseta God Save The Queen e baguncei com as mãos meu cabelo. Peguei meu laptop e deitei-me na cama, apoiando ele em minha barriga. Esperei ele resolver funcionar direito e entrei no MySpace, no Facebook e no Twitter. Vários amigos novos e 230 plays no MySpace até aquele momento. Sorri abobalhado, enquanto respondia algumas pessoas. Quando já eram 8:10, veio bater na porta para irmos à escola.
- Então não rolou nada mesmo? - perguntei, enquanto descia as escadas com ele ao meu lado.
- Não, eu não consegui chegar... - ele suspirou. - Nem sei o que me aconteceu, eu sempre fui direto ao ponto e com ela eu arreguei! Sei lá, eu me sinto burro perto dela...
- Viado. - brinquei, mas eu sabia exatamente como ele se sentia.
Despedi-me deles - sem motivo, pois os encontraria dali 15 minutos no colégio - e subi na minha Pajero. Ao chegarmos ao final da rua, peguei a direita e eles a esquerda. Liguei o rádio no máximo e dirigi por uns 4 minutos, até chegar à república em que estava morando. Ela subiu no carro, depois de se despedir de suas amigas - que me secavam descaradamente -, e mudou de estação para alguma música pop chata.
- Quando você vai comprar um carro? - perguntei, contrariado.
- Quando papai decidir qual vai me dar. - ela sorriu, sarcástica.
- Engraçadinha. - disse, mudando de estação.
Fomos nessa disputa até chegarmos ao colégio. Deixei-a no portão do primeiro ano e fui até o estacionamento. Assim que cheguei, dei de cara com e .
- Oi, meninas. - acenei, e elas acenaram de volta. Fui até elas. - Estão encrencadas?
- Eu não. - respondeu. - Meus pais não estão nem aí pra mim.
- Eu mais ou menos... - suspirou. - Sem mesada por dois meses.
- Que chato... - comentei. - E ?
Elas se entreolharam.
- Nós ainda não sabemos, mas aparentemente ela está bem encrencada...
Entortei a boca, aflito. Não queria ter causado problemas a ela...
- Bom, nos vemos por aí...
- ! - chamou, depois que eu já havia me virado. Olhei para ela. - Você, por acaso, hm, saberia me dizer se...
- Sim. - respondi. - Você ficou com ele.
- Droga! - ela exclamou, mas o sorriso débil no seu rosto indicava o contrário. - Bom, obrigada pela informação...
- De boa.
Atravessei o pátio em largas passadas, encontrando os caras sentados nas escadas do prédio do ensino médio. Sentei-me junto a eles e acendi um cigarro. acendeu um também.
Fiquei ouvindo eles conversarem sobre coisas sem sentido e sobre estar virando bicha. Não comentei nenhuma vez, e só ria quando eles estavam me olhando. Não tinha saco para piadinhas sem noção. Estava estressado e cansado, e nem tinha um motivo concreto. Aquilo tudo não podia ser por causa de !
Podia?
O sinal bateu e nem sinal dela - desculpe o trocadilho do caralho. Será que havia sido proibida de ir à escola? Será que os pais haviam transferido ela? Será que ela estaria trancada no porão de sua casa só a água e pão? Será que havia sido morta???
Entrei na escola sentindo um peso anormal na minha mochila. Não sabia se era a blusa que havia colocado ou se era minha consciência moral. Não deveria ter dado tanta bebida a ela, não deveria tê-la chamado para ir em casa, não deveria ter pedido sua ajuda, não deveria tê-la conhecido! Agora estava com mais problemas do que nunca tivera em toda minha vida, e era tudo sua culpa! Eu nunca havia me preocupado com alguém tanto assim, além de mim mesmo. Por que ela tinha que chegar e balançar o meu coreto?
- , aonde você está indo? - perguntou, me puxando pela alça da mochila. - Temos biologia agora!
- A é... - disse, num torpor inexplicável. - Cadê o e o ?
- Eles têm química na segunda aula... O que houve com você?
- Nada... - suspirei, jogando minha mochila na primeira carteira que vi.
O professor entrou na sala e começou a falar sobre fibras, nutrientes, sais minerais, água, blá blá blá whiska sachê, e quando eu vi já estava quase dormindo em cima da carteira.
Apaguei.
- Sr. , cite duas funções importantes do ferro. - o professor me cutucou e eu levantei a cabeça, com os olhos fechados e um fio de baba escorrendo pela minha boca.
- Hm... Hemoglobina... - vasculhei minha cabeça em busca de informações, e a única coisa que consegui dizer foi: - E ser puxado por caras gigantescos que tomam suplemento e ficam com o pinto pequeno.
A sala inteira explodiu na risada e eu abaixei a cabeça novamente.
- Menos meio ponto na sua média, . - ele disse, se virando para a lousa.
Aquele dia estava sendo péssimo!
Peguei meu celular na bolsa e fiquei mexendo no plano de fundo. Então tive uma ideia! Abri a caixa de mensagens e comecei a digitar...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 9:13, meu quarto.
:
Acordei com alguns passarinhos piando lá fora. Abri os olhos e meu quarto estava um breu. Olhei no relógio: 9:13. Dei um pulo da cama. Por que meu pai não havia me acordado?
Ah, claro, ele ainda estava muito puto comigo pra manter qualquer tipo de contato direto.
Levantei-me da cama e abri a janela, sendo atingida por uma claridade absurda. Tirei minha calça jeans e minha segunda pele, ficando só de calcinha e sutiã. Peguei meu celular em cima do criado-mudo e abri as quatro mensagens de texto. A primeira era da e dizia: "E aí, morreu e esqueceu de avisar?", a segunda era , e era mais direta: "Vc ñ vem pra escola vaquita?", a terceira era de e dizia: "Hahahaha, acabei de ver um casal de anões na rua enquanto vinha pra escola!!!", e a quarta e última mensagem era de ninguém mais, ninguém menos do que . "Precisa que alguém vá te salvar?"
Ri sozinha, enquanto procurava uma toalha pra tomar banho.
"Ainda não cheguei a esse ponto, mas precisava de um cigarro mais que tudo nesse mundo!" respondi, deixando o celular em cima da cama e indo tomar banho.
Pelo menos aquela festa havia trazido consequencias boas ao invés de só ruins. Agora eu sabia que se preocupava comigo. A questão era: Ele se preocupava por interesse ou de verdade?
Capítulo 8 - Pegou pesado!
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 10:37, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- Eu não acredito nisso! - exclamou, olhando descer as escadas para o outro pátio com e . - Sério, acho que essa foi a coisa mais bizarra que já me aconteceu! Eu fiquei com a última pessoa do mundo que pensei que ficaria e não me lembro de absolutamente nada! Agora não sei se foi bom, se foi ruim, se eu gostei, se eu odiei...
- Relaxa, velho, o churras do é amanhã, você tem o dia inteiro pra descobrir! - disse.
- É isso o que você pretende fazer, ? - perguntou, arrancando algumas risadas de .
- Vai se foder, , a tava se jogando em cima de você e você não fez nada, nem vem tirar uma com a minha cara... - ele murmurou, estressado, pois estávamos zoando com ele desde a primeira aula.
Eu ri e abaixei os olhos, abrindo o celular quando o senti vibrar. Havia respondido à que eu tinha um maço fechado de cigarros e só daria à ela se ela viesse maquiada para a escola, como seu primeiro teste, e ela havia acabado de responder: "Estou estacionando, pode tirar o maço da bolsa!". Guardei o celular no bolso e levantei os olhos, procurando por ela, mas ao invés de encontrá-la, encontrei Lallie, Vincent, Hayley, Peter e Billy, alguns dos nossos amigos do terceiro ano, andando em nossa direção.
Engoli a seco. Aqueles eram meus "amigos" de longa data. Aqueles que ferrariam com a minha reputação se encontrassem qualquer coisa de errado nas minhas atitudes ou amizades.
Engoli mais uma vez a seco.
Algo daria muito errado naquela situação. Eu sabia que daria.
- , o queridinho da Inglaterra! - Billy exclamou, me cumprimentando. Lallie sentou-se ao meu lado, depois de cumprimentar todos os guys, e quando percebi, todos estavam sentados em volta de nós. - Quando vocês vão começar a tocar nas rádios, eim!? Pra eu poder dizer que tenho um amigo famoso!
- Ah, cara, espero que logo. - respondi, olhando mais para o pátio do que para ele. De longe, avistei atravessar os portões com a mochila nas costas e vários livros nas mãos. Logo de cara percebi seu All Star preto básico surrado e seu uniforme um pouco mais feminino, mesmo que ainda fosse alguns números maiores. Seu cabelo, agora com alguns fios meio dourados, brilhava embaixo do Sol e seu rosto estava impecavelmente maquiado.
Uma gata!
Eu não disse isso. Não mesmo.
Olhei para o pessoal que havia se juntado na mesa. Eles conversavam sobre o que teriam que levar ao churrasco de . Olhei novamente para ela, que agora havia me visto e acenado discretamente com a cabeça, andando em minha direção. Olhei novamente para o pessoal, e agora eles olhavam para onde eu olhava.
Ai Jesus, ai Jesus, ai Jesus!
Eu teria coragem de fazer o que meus amigos queriam que eu fizesse depois de ter ferrado com sua vida com a festa da noite anterior? Depois de toda a ajuda que ela estava dando? Depois de pensar nela por um bom tempo antes de dormir?
Opa, contei.
- Por que a esquisita tá vindo pra cá? - Hayley perguntou, se olhando num espelhinho de bolsa.
- Sei lá, ela tem uma espécie de fixação por mim. - menti, sentindo gotículas de suor se formarem em minha nuca. Olhei para os guys, que me olhavam desacreditados. Dei de ombros, desviando meu olhar do olhar de censura deles.
- Que loser. - Peter comentou, agora fixado nela.
- É... - concordei, rezando mentalmente para que ela mudasse de ideia e fosse embora. - Mas e aí, vamos para outro lugar? - perguntei, balançando minha perna de nervosismo. estava se aproximando e uma bola do tamanho de uma melancia se formou no meu estômago. - Aqui tá muito sol!
- Não, agora eu quero ver o que vai acontecer aqui! - Billy comentou, com maldade nos olhos.
A cada passo que ela dava meu coração se acelerava mais. Eu suava frio. Sabia o que faria se ela falasse comigo na frente de todas aquelas pessoas. Faria o mesmo que sempre havia feito com todos que tentavam se aproximar de mim e do meu grupo: Seria grosso, nojento e idiota.
Mas por que tinha que ser ela? Por que ela não percebia que algo estava errado e ia embora?
Ela sabia da minha reputação, viu quem estava ao meu lado, por que simplesmente não ia EMBORA?
Apertei as têmporas com os dedos.
Talvez ela pensasse que tudo o que falavam sobre mim fosse mentira, porque nunca havia falado comigo antes de eu ter precisado dela, então meus alvos de zombações eram outros, e seu nome e de suas amigas só entravam em pauta quando nos cansávamos de zoar as mesmas pessoas. E agora ela estava ali, chegando perto de mim, e eu sabia que iria magoar a única menina que fora boa comigo sem segundas intenções.
Era demais pra mim. Eu teria um infarto ali mesmo.
- Oi, . - ela finalmente disse, ignorando as risadinhas que ecoaram na mesa. Sabia que os olhares dos guys estavam cravados nas minhas costas, porque já havia se tornado uma grande amiga em menos de uma semana, e eu sabia que eles não iriam se meter na conversa, mas esperavam uma reação de homem vinda de mim, não de garoto.
Que eu tinha certeza que não conseguiria dar. Não em frente àquelas pessoas.
Entre homem e saco de pipocas, naquela situação eu escolheria a segunda sem pestanejar!
Vincent, o mais centrado de todos ali, viu que aquilo não seria legal e comentou:
- Se eu fosse você iria embora daqui.
Olhei para ela, suplicando para que ela entendesse o recado e saísse dali o mais rápido possível, mas ela simplesmente me olhou nos olhos, como se não estivesse entendendo nada.
Então eu soltei, de uma vez só:
- Tá falando comigo? - perguntei, levantando a sobrancelha. Hayley e Lallie soltaram uma gargalhada gostosa, e Peter e Billy sorriram sarcásticos.
- Acho que não tem nenhum outro por aqui. - ela disse, começando a sacar o que estava rolando. Deu um passo pra trás, na defesa.
- Bom, se está querendo falar com esse aqui, está perdendo seu tempo. - comentei, entortando a boca num sorriso. - Ele não está interessado.
- Uuuuuh! - Peter e Billy soltaram ao mesmo tempo, Vincent bufou, virando os olhos, e Hayley e Lallie se contorciam de tanto dar risada.
Senti as mãos de nos meus ombros, me censurando, mas agora que havia começado, não voltaria atrás.
- Por que você não volta pro seu pátio de perdedores que lá é o seu lugar e deixa quem é agradável aos olhos aqui no pátio de cima? - perguntei, rindo. Quando vi que os quatro riam tanto ao ponto de fechar os olhos, fechei o rosto e olhei para ela, tentando explicar o que estava acontecendo. Mas com certeza ela não entenderia minha situação. Quero dizer, eu estava sendo um belo de um canalha pra manter o status quo, sendo que ela, a pessoa que mais estava me ajudando no últimos dias, estava sendo magoada.
- Me desculpe por atrapalhar. - ela murmurou, trincando o maxilar e puxando de volta uma gota d'água que quase escorrera por seu rosto. - Não pretendo mais ocupar seu tempo.
Então ela se virou e foi embora, pisando duro.
- Ai, caralho, , você é foda! - Billy disse, ainda rindo.
- , preciso ir. - Lallie anunciou, levantando-se e me dando um beijo no canto da boca. - Me liga mais tarde. - terminou, sussurrando. Hayley foi com ela e as duas sumiram entre as pessoas. Logo um Vincent emburrado, Billy e Peter foram também, me deixando sozinho com , e .
Virei-me para eles, já esperando a bronca.
- Cara... - começou, mas segurou a língua.
- É, eu sei, eu fui um animal. - eu disse, suspirando. - Mas o que eu poderia fazer?
- O que você poderia não ter feito, não é, ? - disse, visivelmente estressado. - Eu sei que a gente vive zoando o pessoal, mas nunca humilhamos alguém desse jeito. Ela não merecia isso, é uma garota legal com um ótimo coração, dude.
- É, velho, sou seu amigo, mas dessa vez você foi muito escroto. - disse.
Fiquei quieto, pensando na besteira que havia feito. O sinal bateu e nos levantamos. Fui atrás dos guys, com as mãos nos bolsos, pensativo. Será que meus "amigos", que nunca haviam feito nada para me ajudar, valiam tudo aquilo? Uma posição idiota na escola era o suficiente para fazer com que eu magoasse uma pessoa tão especial!?
Eu era assim tão idiota?
- Falou, gente. - disse, assim que chegamos no primeiro andar. Ele e tinham geografia, tinha psicologia e eu tinha educação física. - E, dude, vê se pede desculpas pra !
- É, cara, foi mancada. - concordou.
- Pegou pesado demais, . - terminou, antes de me deixar ali sozinho, com o maior peso na consciência do mundo.
O que eu havia feito???
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 11:03, educação física.
Girls:
- Não acredito que ele fez isso! - exclamou.
- Que idiota! - disse, nervosa. - Meu Deus, nunca pensei que ele pudesse ser tão imbecil!
- Nem eu. - respondi, catatônica.
- O que você vai fazer sobre isso? - perguntou, pois sabia que eu não deixaria barato uma situação daquelas.
- Nada que ele não mereça. - respondi, dando de ombros.
Elas se entreolharam. Sabiam que minhas vinganças eram radicais, e não podiam nem imaginar o que eu faria com o lindinho rosto de , que por algumas horas pensei que fosse um rosto verdadeiro.
Como pude ser tão idiota?
Nós estávamos descendo a rampa para as quadras, onde aconteciam as aulas de educação física, e mesmo clima ensolarado não estava me deixando feliz. Na verdade, tudo o que eu queria era quebrar a cara de alguém.
E esse alguém sabia quem.
De qualquer jeito, eu meio que já esperava por aquilo. Quero dizer, ele havia feito isso com todas as outras pessoas como eu, por que comigo seria diferente? Só por que eu o estava ajudando? Por que ele olharia por esse lado? não precisava pensar nessas coisas, pois todos queriam ser seus amigos, mesmo ele pisando nas pessoas como se fossem formiguinhas.
Ah, mas comigo não seria assim.
Não senhor.
Se ele pensava que eu tinha sangue de barata, estava muito enganado.
Como já diria o grande filósofo Seu Madruga: "A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena!"
que me aguardasse...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 11:27, diretoria.
:
Bom, por mais que tudo aquilo fosse o pior que poderia ter me acontecido, eu meio que não estava tão surpreso. Quero dizer, eu sabia que era osso duro de roer. Claro que nunca pensei que fosse tão dura àquele ponto, mas tudo bem... Aquele era um modo de eu me redimir com ela. Ou de ela se vingar de mim, o que se você parar pra pensar, dá na mesma.
- ? - a cabeleira loira e bem cuidada da diretora Mary apareceu pelo vão da porta. Ao contrário do que a imagem negativa de senhora malvada dizia, nossa diretora era bem nova e muito bem cuidada.
Ô lá em casa...
Levantei-me com dificuldade, pois minha bunda ainda doía. Meus braços estavam esfolados e meu rosto com resquícios de lama dura. Quem me visse de fora pensaria que eu havia levado o tombo do século. Ninguém poderia imaginar que tudo aquilo era uma pequena vingança de uma punk nerd.
Entrei na sala da diretora e ela fez sinal para que eu fechasse a porta.
- Senhor ... Como vai você? - ela perguntou, batucando com uma caneta na tampa de vidro da mesa.
Sentei-me lentamente.
- No momento não muito bem, como você pode reparar. - respondi, abrindo os braços para que ela pudesse me analisar.
- Sim, isso eu pude ver muito bem. - ela apertou os pequenos olhos de raposa, estalando o lábio em seguida. - Bom, eu já ouvi a versão da Alana - ao ouvir esse nome, um calafrio subiu pela minha espinha -, agora quero ouvir a sua.
- Bom, tudo começou quando...
Flashback on.
Eu estava descendo para a educação física sozinho. Ouvia Beatles no meu iPod e, de longe, observava , que descia mais a frente, conversando com as amigas. Enquanto andava e a observava, tentava criar uma desculpa convincente na minha cabeça para dar à ela. Tinha consciência do que havia feito, e estava mais do que arrependido.
Não se humilhava uma pessoa daquele jeito, de maneira alguma, ainda mais uma pessoa que estava te ajudando.
E que provavelmente fosse sua obsessão nos últimos dias.
Quando estava quase chegando às quadras, perdi-a de vista, mas assim que contornei a pista de corrida, encontrei-a em um canto isolado com Alana Memphis.
Gelei.
O que poderia querer com Alana Memphis, uma repetente do primeiro ano?
Algo estava muito errado ali. Porque, vejam bem, Alana não era o tipo de menina que não faz mal a ninguém.
Ela era amedrontadora.
E não era pra menos: Tinha 1,86m, pesava 172kg, tinha barba e bigode, lutava boxe, pintava o cabelo chanel de roxo e tinha dois alargadores de 30mm na orelha.
Na real? Eu me cagava de medo perto de Alana Memphis!
Escondi-me atrás das arquibancadas para poder ouvi-las melhor, pois sabia que estava aprontando algo contra mim. E se esse algo envolvia Alana Memphis, eu precisava me preparar psicologicamente.
- ...100 libras e não se fala mais nisso. - sussurrou, pegando duas notas na carteira.
- Fechado. - Alana concordou, com a voz mais grave que a minha, fechando o acordo ao pegar as duas notas da mão de .
Agachei-me como um criminoso, e observei as duas seguirem caminhos distintos. Tinha a impressão de que estava me olhando com o canto dos olhos, mas imaginei que fosse somente uma peça da minha consciência e continuei ali, estático.
Olhei para Alana, que se afastava como um elefante, e , que balançava a cabeça ao ritmo da música que tocava no seu iPod, indo em direção às quadras cobertas, onde faria educação física. Olhei novamente para Alana, e ela se dirigia aos últimos prédios.
Decidi seguir Alana ao invés de , para ver qual seria o seu misterioso plano.
Ledo engano.
Mal sabia eu que era exatamente isso que queria. Como um patinho, caí na sua armadilha.
Segui Alana por debaixo da arquibancada até ela entrar atrás de um prédio e eu a perder de vista. Saí do meu esconderijo e caminhei como uma sombra por entre os prédios. Fui encontrá-la novamente ao lado do vestiário feminino, amarrando os cadarços. Passei correndo por trás dela e fui para os fundos do prédio.
A tinta amarela da parede do fundo estava toda preta, e alguns cacos de vidro e pontas de baseados descansavam no chão. A única coisa material ali era um caixote de madeira, que estava estrategicamente localizado embaixo da única janela da parede. Olhei para um lado, depois para o outro. Sem nem pensar, subi em cima do caixote e abri a janelinha emperrada. Coloquei minha cabeça para dentro do vestiário e só pude ver Alana olhando com cara de sacana pra mim, antes de dar um grito ensurdecedor e me assustar. Bati a cabeça na moldura do vidro e fiquei tonto, me desequilibrando e caindo do caixote em cima de uma moita de folhas ásperas.
Quando finalmente consegui me levantar, meus dois braços estavam ensanguentados. Bati com as mãos na minha calça suja de barro e senti duas mãos segurarem meus ombros.
Virei-me lentamente.
- Me bisbolhotando, ? - ela perguntou, sarcástica.
Olhei para um lado e depois para o outro.
Antes que pudesse pensar em algo para responder, me vi correndo pelo campão, com Alana no meu calcanhar. Todos os alunos que estavam na educação física nos observavam, pois o grito de Alana despertara a curiosidade em todos, enquanto eu corria esbaforido dela - nunca pensei que corresse tão rápido.
Corri em círculo por uns bons cinco minutos, gritando para ela parar pra eu poder explicar o que havia acontecido, mesmo sabendo que ela já sabia o que havia acontecido, até que tropecei em um montinho irregular de grama e caí de cara numa poça de lama.
- Isso é pra você aprender a respeitas as pessoas! - Alana grunhiu atrás de mim, me dando um chute bem dado nas costelas. Virei-me de barriga pra cima com dificuldade, limpei os olhos e observei todos os alunos que faziam educação física tirarem fotos de mim com seus celulares e apontarem para mim, rindo.
No plano de fundo, pude ver .
Ela gargalhava.
Flashback off.
- E foi isso que aconteceu. - terminei, satisfeito com a minha narrativa.
- E você acha mesmo que eu vou acreditar nessa história fantástica envolvendo uma de minhas melhores alunas, que nunca me deu trabalho e nunca veio até mim por mau comportamento? - ela perguntou, me olhando por cima dos óculos Armani preto.
- Hm... Sim? - perguntei, sorrindo como criança.
- Saia já da minha sala, . - ela disse, nervosa. - Dois dias de suspensão pra você, e eu quero seu pai na minha mesa na quarta-feira com sua suspensão assinada.
- Meu pai? Por quê? - berrei, pois aquele era meu único ponto fraco.
- Sem porquê, , saia! Observar garotas no vestiário seria motivo de expulsão, mas como eu gosto muito do sr., eu vou perdoá-lo dessa vez. Mas não abuse da minha boa vontade!
Saí da sala puto, batendo a porta.
Se queria guerra, guerra ela teria!
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 13:17, praça de alimentação do shopping.
Girls:
- Meu Deus, acho que eu nunca ri tanto na minha vida! - exclamou, devorando seu BigMac.
- Nem eu! - concordou, sugando sua Coca com o canudinho.
- Mas eu sei que isso não vai ficar barato. - eu disse, já imaginando qual seria a vingança de . - Mas só pela sua cara e por todos os seus "amigos" estarem comentando sobre estar olhando Alana pelada, já ganhei meu ano! - ri mais um pouco.
Amassei meu papelzinho dos nuggets e joguei dentro da caixinha do meu quarterão.
O dia havia começado mal, mas terminara bem. Minha vingança fora completa e muito bem bolada, e agora estava humilhado e machucado.
Não tinha como ficar melhor!
Mesmo que algo bem no fundo do meu rim dissesse que eu não deveria ter feito aquilo, eu estava tão feliz por ter o feito passar pelo o que havia me feito passar mais cedo que nem me importei.
Não me importei até ouvir sua voz bem de longe gritando "!".
Virei minha cabeça, achando que estava ficando louca, mas ele estava ali, parado ao lado do Burger King, com um olhar assassino.
O que ele fez?
Me apaixonou.
Capítulo 9 - Falling, yes I am falling...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:11, meu quarto.
:
Eu nunca imaginei que algo como aquilo fosse acontecer. Quero dizer, no máximo, imaginei que ele fosse jogar Coca-Cola em mim e dizer que eu era uma aberração da natureza. Mas nunca - nunquinha mesmo - pensei que fosse capaz de fazer o que fez.
Bom, as aparências enganam, não é?
Era como Sue sempre dizia: "As pessoas te surpreendem a cada segundo!"
É... Surpresa era pouco!
Assim que ouvi gritar meu nome, me virei na cadeira, pensando que estava imaginando coisas. Então eu o avistei parado, me olhando com ódio nos profundos olhos . Levantei uma sobrancelha de desprezo, e virei-me novamente, encarando minha Coca. As meninas se cutucaram por debaixo da mesa, apontando com o queixo para onde estava. Então sussurrou:
- Ele está vindo pra cá, !
- Deixa ué, o que eu posso fazer, prendê-lo no chão? - perguntei, dando de ombros.
- A cara dele não é das melhores, , acho que ele vai te matar com a faquinha sem serra do pão! - disse, arregalando os olhos.
- Não ligo. Se ele me matar ele vai ser preso. - respondi, rindo, mas por dentro borboletas atacavam meu estômago.
Esperei durante uns bons cinco segundos, apertando meu copo na mão. Quando ouvi sua respiração ofegante nas minhas costas, virei-me lentamente, com medo de ser abordada por uma espingarda na cara.
estava parado, com as mãos nos bolsos e cara de mau.
- O quê? - perguntei, indiferente.
- Quero falar com você. - ele respondeu baixinho.
- Pode falar. - disse, sorrindo sarcástica.
- Sozinho. - ele disse, com os dentes cerrados.
Olhei para as meninas, que discretamente fizeram que sim com a cabeça.
- Bom, eu já volto. - disse em voz alta, me levantando. Coloquei a mochila nas costas e peguei meu fichário na mesa.
foi na frente, andando com passos largos, e eu fui atrás, rezando 10 pais-nossos e 5 ave-marias, pedindo para que ele não fosse um psicopata que me mataria com nada mais do que uma colher de sopa.
Ele foi até a entrada do shopping, depois de descer dois lances de escada rolante, e virou à direita, contornando a construção. Quanto mais ele se afastava, mas eu me arrependia de ter aceitado ajudá-lo desde o princípio. Se eu não tivesse cedido aos meus hormônios no começo de tudo, não teria metade dos problemas que estava tendo, como os estagiários da minha mãe me ligando e perguntando qual rádio era melhor para colocar o McFLY depois da meia-noite, meus professores falando que eu estava distante, minhas amigas me enchendo o saco pela minha aparente "paixonite" por ele, meu pai brigado comigo e minha morte previsível, atrás do shopping municipal.
Chegamos aos fundos, e ele parou.
Adeus pai, adeus amigas, adeus vida!
- Pode falar. - eu disse, tentando ser durona, mas a única coisa que eu queria era sair correndo dali.
- Eu queria... Bem... - ele tossiu, visivelmente conturbado. - Queria te pedir desculpas. - ele finalmente conseguiu terminar a frase.
Pera aí...
Ele... O quê?
- Desculpas? - perguntei, me certificando de que não estava ouvindo coisas.
- Sim, desculpas, sabe quando você dá uma mancada, mas gosta muito da pessoa e quer que ela te perdoe? - ele perguntou, falando bem devagar, como se eu fosse uma criança.
Ele disse algo depois disso, mas eu parei no "gosta muito de uma pessoa e quer que ela te perdoe?".
Ele gostava de mim?
gostava de mim?
- Não pareceu hoje de manhã. - disse, com a voz afetada.
- Eu sei, eu fui um completo idiota... - ele disse, abaixando o rosto.
- Foi. - respondi, com o meu jeito grossa de ser. - Mas eu revidei na mesma moeda.
Ele gargalhou.
- Sabe, você é exatamente como eu pensei que fosse. - ele disse, ainda rindo. - Grossa, meio anti-social, só ouve coisas pesadas pra uma garota e sabe muito bem cortar as pernas de alguém com as respostas.
Olhei para ele, sem saber ao certo o que pensar.
- E eu pensei que nunca fosse me dar bem com uma garota como você, quando eu estava acostumado com aquele tipo de garota fácil de lidar. Mas, sei lá, com você eu me sinto bem. - seu rosto corou. - Você é a única amiga que eu tenho. - ele terminou.
Sorri por dentro. Só pelo fato de ser considerada "amiga" por ele já me deixava feliz.
O que significava estar feliz só por uma bosta daquelas é o que eu não sabia explicar...
Mas não era só porque ele havia dito aquilo que eu iria perdoá-lo tão rápido assim. Mesmo não demonstrando, havia ficado muito magoada com a sua atitude. Quero dizer, estávamos trocando mensagens há poucos instantes antes dele fazer o que fez!
Era muita sacanagem.
- Não vai dizer nada? - ele perguntou.
- Desculpas aceitas. - murmurei. - Mas não pretendo voltar a ser sua amiga. - me ouvi dizer. - Não volto atrás em uma decisão, e o que você fez só me provou que eu nunca deveria ter deixando você se aproximar tanto de mim.
- Para com isso, meu! - ele exclamou, nervoso. - Não fala isso! Se você quiser eu peço desculpas pra você amanhã na frente de todo mundo!
- Você faz o que você sentir que tem que fazer, mas não vai adiantar. - respondi, dando de ombros.
- Eu quero ser seu amigo! - ele disse, aumentando consideravelmente a voz.
- Eu também queria. - eu admiti, antes de me virar para ir embora.
Dei dois passos antes de parar ao ouvir sua voz.
- Isso, vai embora mesmo! Constrói um muro em volta de você como você faz com todo mundo que tenta se aproximar! - ele disse, ácido.
- Prefiro deixar só boas pessoas se aproximarem do que ser amigo de quem não vale a pena. - respondi a altura, dando mais dois passos.
Ele não disse mais nada, e eu continuei caminhando, até sentir cinco dedos gelados envolverem meu braço e me girarem para trás.
- Que merda é es... - disse, mas fui interrompida por algo maciço que se chocou com minha boca.
Foi tudo em câmera lenta. Senti os dedos de se soltarem do meu braço, logo que eu comecei a me debater, e se envolverem nos meus ombros, me prensando contra a parede, imobilizando minhas pernas com o quadril. Meus olhos estavam abertos enquanto os deles estavam fechados e tão apertados que quase sumiam.
Eu me contorcia com uma mistura de nojo e vontade. Não sabia o que fazer, como fazer e quando fazer. Quanto mais eu me mexia, mais me apertava na parede. Tentava empurrá-lo para longe de mim, mas evidentemente ele era bem mais forte do que eu. Fechei os olhos para ver se encontrava mais forças, e quase consegui me soltar, quando ele encostou todo o corpo no meu, fazendo o dobro de força que eu poderia suportar.
Parei de me debater, ficando estática.
Então, para ser sincera, eu meio que comecei a gostar daquilo.
Sua boca na minha, sua língua pedindo permissão pra entrar, seu corpo encostado ao meu, sua cabeça inclinada para baixo para poder me alcançar... Tudo aquilo era demais! Não tinha muita experiência em beijos e essas coisas, mesmo por que os garotos tinham medo de se aproximar de mim, mas aquelas sensações eram mais fortes que eu.
Soltei meus ombros e enganchei meus dois dedos indicadores nos passadores de cinto de sua calça, no ápice da minha demonstração de afeto. Abri a boca, aprovando sua passagem.
se empolgou, se apertando mais contra mim, e eu apertei os olhos, tentando não gargalhar. Como diabos aquilo havia acontecido? me prensando na parede dos fundos do shopping! E porque diabos eu estava rindo quando deveria estar empurrando ele pra longe de mim depois do que fizera mais cedo comigo?
Soltei meu peso na parede e relaxei. Se aquilo estava acontecendo mesmo, o melhor seria aproveitar.
Comecei a me apegar nos mínimos detalhes. O cheiro de , uma mistura de perfume - aparentemente um dos bem caros - com nicotina, suas mãos ásperas, roçando minha pele nas poucas vezes em que ele movimentava os braços, sua bochecha com a barba por fazer, roçando na minha bochecha, seu hálito amargo de cigarro, sua respiração no ritmo do coração... Tudo era percebido. Meus sentidos estavam aguçados e minha vontade era de abraçá-lo e nunca mais sair do seu lado.
Senti um pinguinho bater no meu ombro. Depois mais um. Depois dois. Então ouvi um trovão rasgar o céu.
De súbito, parti o beijo no meio e dei um pulo para trás.
- Meu Deus, eu tô ferrada! - exclamei, olhando no relógio. - Preciso ir! - anunciei, não me explicando, dando meia-volta e me afastando dele.
- Espera aí! Eu te levo! - ele gritou.
- Não precisa, eu pego um táxi! - exclamei, sem olhar para trás, encontrando um amarelinho parado no ponto de táxi, como se estivesse me esperando.
- Espera aí, , não vai embora! - ele pediu mais uma vez, com as mãos no bolso e a boca vermelha. Mas eu já entrava no táxi, e só mandei um tchau pra ele com a cabeça, antes de gritar meu endereço para o taxista e pedir para que corresse.
Fui o caminho inteiro pensando na cara que ele havia feito, como se quisesse mesmo que eu ficasse lá com ele. Em contra partido desses pensamentos, fui me lembrando da humilhação que sofrera mais cedo... O que eu deveria pensar? Que ele estava mesmo arrependido? Que aquilo fora só um golpe para eu não parar de ajudá-lo? Que foram seus hormônios falando mais alto?
O que eu deveria pensar?
Entrei em casa - logo depois de pagar o taxista - que agradeceu e deu uma boa olhada nos meus peitos escondidos embaixo da camiseta da escola - e subi as escadas correndo, passando por Sue, que lia Senhor dos Anéis na sala. Ela só acenou com a cabeça, não se dando conta de que eu estava meia hora atrasada pelo horário do castigo, e eu subi os degraus, de dois em dois. Abri a porta do meu quarto de supetão e me joguei na cama, observando o teto, com o coração na boca.
Fiquei por algum tempo em estado de embriaguez. Minha cabeça rodava e meus olhos não conseguiam se focar em nada, enquanto eu pensava em trilhões de coisas ao mesmo tempo.
Mas no final, só cheguei a uma conclusão: Eu estava me apaixonando por ele.
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:12, meu quarto.
:
Eu não estava no meu estado normal. Não era minha intenção beijá-la! Eu só queria me desculpar... Mas quando ela se virou para ir embora, não me dando tempo para nada... Não sei o que deu em mim! Eu simplesmente precisava impedi-la! E a única coisa que eu pensei em fazer... Bom, foi o que eu fiz.
E o mais estranho fora que depois de todo o esforço para se soltar, ela passou a curtir! Enganchou os dedos no passador de cinto da minha calça jeans e relaxou os ombros, abrindo a boca para minha língua passar.
E, meu Deus, que beijo foi aquele? Não sei dizer se foi o momento, se foi a adrenalina ou se foi ela... Só sei que nunca havia provado nada igual! Seus lábios eram doces, seu cheiro floral, sua pele lisinha...
Então de repente ela foi embora, sem mais nem menos, me deixando ali com cara de idiota.
Fiquei um bom tempo parado no mesmo lugar, tentando processar o que havia acontecido, e como havia me envolvido tanto naquela história louca, mas depois desencanei. Acendi um cigarro e fui para o estacionamento procurar meu carro. Encontrei-o e saí dali, sem saber ao certo para onde ir. Não queria ir para casa, pois os guys a estavam arrumando para o churrasco e eu não conseguiria pensar direito. Também não queria ficar parado em algum lugar sem ter uma segunda opinião.
De repente, lembrei-me do único lugar que poderia ir e receber conselhos de graça.
Olhei no relógio.
Teria que correr.
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:13, meu quarto.
:
Depois que dei um tempo no meu quarto, decidi estudar um pouco para ver se esquecia de uma vez por todas todos aqueles problemas. Troquei meu uniforme por um conjunto velho de moletom cinza e prendi meu cabelo num rabo de cavalo alto. Peguei meus livros de química e desci as escadas, indo até o escritório do meu pai. Passei novamente por Sue, que agora tomava uma de suas cervejas sem álcool e assistia Era do Gelo, rindo de gargalhar.
Entrei e joguei meus livros em cima da escrivaninha, ligando o computador logo em seguida. Ouvi as mensagens na secretária eletrônica e até elas me lembravam de , pois os estagiários da gravadora de Sue queriam permissão para colocar uma das músicas do McFLY nos créditos de um filme americano. Desliguei-a com um tapa e abri meu caderno e logo em seguida o livro. Circulei os exercícios que precisava fazer e abri o LimeWire no computador, colocando Rise Against para tocar.
Abaixei os olhos para o livro, lendo o exercício um. Li e reli umas 4 vezes, mas não conseguia entender o que estava escrito.
"Sim, desculpas, sabe quando você dá uma mancada, mas gosta muito da pessoa e quer que ela te perdoe?"
Chacoalhei a cabeça, tentando mais uma vez me concentrar.
"Sabe, você é exatamente como eu pensei que fosse. Grossa, meio anti-social, só ouve coisas pesadas pra uma garota e sabe muito bem cortar as pernas de alguém com as respostas."
Merda, merda, merda! Por que eu não conseguia parar de reviver aquela cena de mais cedo?
Deixei minha cabeça tombar em cima do livro, murmurando um "autch" assim que bati minha testa nele. Ainda com a cabeça baixa, pausei o Rise Against e suspirei.
Merda de química, merda de Rise Against, merda de Era do Gelo, merda de !
Batidas na porta atrapalharam minhas maldições.
Mais aquela! Eu não podia nem xingar a vontade!?
- , a porta! - Sue berrou da sala.
"Ah, jura?"
Mas ao invés disso, respondo com um "tô indo", porque não se brincava com uma mulher daquele tamanho. Principalmente uma mulher daquele tamanho cuspindo hormônios.
Atravessei a sala me arrastando. Parecia um fantasma, e quando me vi no espelho pude jurar que minhas olheiras estavam roxas e inchadas.
Cheguei ao hall e fiquei com preguiça de olhar pelo olho mágico da porta, abrindo-a com tudo, assustando , que estava do lado de fora com as mãos no bolso e os olhos tímidos.
Ai, Jesus Cristo, o que ele estava fazendo ali?
E porque tinha que ser tão gato?
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:14, meu quarto.
:
Depois que saí do shopping, voltei ao colégio, parando no portão do ensino fundamental. Saí do carro e me apoiei na porta, esperando , que sairia em 3 minutos.
Ouvi o sinal bater e o primeiro grupo de alunos saiu. Algumas garotas se cutucavam e apontavam para mim, e eu pude ouvir "ele estava vendo Alana no vestiário" sair da boca de uma delas. Sorri para duas amigas de , que saíram rindo, e percebi que minha reputação estava manchada depois do episódio Alana-no-vestiário.
Mas eu merecia.
Avistei minha irmã saindo com um garoto ao seu lado. Ele era alto e meio magrelo, seu cabelo era de um loiro escuro daquele tipo "bagunçado de propósito" e seus olhos verdes olhavam para ela com interesse. Ele levava os seus livros e os dois dividiam um fone de ouvido, rindo da música que tocava no fundo.
Apertei os olhos, pronto para o ataque. Quem aquele idiota pensava que era para dar em cima da minha irmãzinha?
Meus olhos encontraram o de , e ela pegou os livros do garoto e soltou o fone de ouvido, correndo em minha direção.
- ! - ela exclamou, jogando os livros dentro do carro pela janela aberta e me abraçando.
- Meu Deus, nem parece que eu te levei pra escola hoje de manhã! - disse, abraçando-a de volta.
- Estou feliz em saber que não vou ter que voltar a pé pra casa. - ela assumiu, rindo.
- Gordinha! - disse, apertando sua barriga.
- Para, idiota! - ela riu. - E aí, o que você tá fazendo aqui?
- Vim te buscar, mas parece que você já tem companhia melhor... - murmurei, apontando para o garoto que estava descendo as escadas com ela, que agora conversava com um grupo de garotos.
- Victor? - ela perguntou, ainda rindo. - É um intercambista da França, só estou sendo simpática!
- Ahã, e eu nasci ontem. - disse, destravando o carro. - Entra aí.
deu a volta e sentou-se no banco de passageiro, ligando o rádio baixinho logo em seguida. Sentei-me ao seu lado e dei partida no carro.
- Tá, no que você se meteu dessa vez? - ela perguntou.
- Mulheres... - suspirei. - Uma em especial.
- Uau, meu maninho apaixonado? - ela perguntou, surpresa. - Essa é novidade! Quem é a sortuda?
- Não é nada disso! - exclamei, embora não tivesse tanta certeza. - É uma amiga, mas eu me queimei com ela e agora ela não quer me perdoar!
Fui o caminho inteiro contando o que havia acontecido entre eu e , desde que pedira sua ajuda até o beijo de mais cedo. Quando acabei de contar a história, estava estacionando na garagem da sua república.
- E agora ela não quer mais me ver nem pintado de ouro, e eu preciso da ajuda dela. - terminei, observando me olhar com um sorrisinho de canto da boca. - O quê?
- Meu irmãozinho apaixonado! - ela exclamou. - Nunca pensei que isso fosse acontecer! Ela deve ser especial mesmo... ... Um bom nome pra minha futura cunhada.
- Cala boca, , não viaja! - disse, virando os olhos. - Como eu poderia me apaixonar por uma garota que não tem nada a ver comigo?
- E o beijo? Como você explica o beijo? - ela perguntou, cínica.
- Foi só para calar sua boca! - respondi, dando de ombros.
- Bom, eu sei que você nunca vai admitir, mas se quer mesmo ouvir o conselho de uma garota, vai atrás dela e implora! Se não você vai perder a ajuda com a banda e a "amiga". - ela desenhou aspas no ar durante a palavra amiga.
- E como eu faço isso? - perguntei, ignorando seu sarcasmo.
- Vai atrás dela. Agora! - ela completou, vendo minha cara de idiota. Depois saiu do carro num pulo e mandou um beijo no ar para mim. - Obrigado pela carona, zinho!
sumiu pela porta da casa e eu dei partida no carro.
E era por isso que eu estava ali, na frente de , que usava um conjunto de moletom cinza e duas olheiras roxas embaixo dos olhos.
- Oi. - murmurei, sem saber ao certo o que dizer. Estava com vergonha por estar ali sem saber exatamente o porquê, mas não daria para trás. No bom sentido. Não daria pra trás no mal sentido também, não. Mas isso é óbvio.
O engraçado era que se fosse alguma loirinha peituda do colégio que eu tivesse passado a noite, não estaria com a vergonha que estava na frente de . Eu estava daquele jeito por causa de um beijo?
estava certa? Eu estava apaixonado? Por ?
De jeito nenhum!
Ou de algum jeito...
- O que você quer aqui? - ela perguntou, seca, apoiando-se no batente da porta. - Se meu pai te encontrar aqui ele manda te prender, e você sabe muito bem disso.
- E estou pouco me fodendo pro seu pai - disse, e ela não se manifestou. -, e só saio daqui se você disser que vai voltar a ser minha amiga.
olhou de um lado para o outro, saindo da casa e encostando a porta.
- O que você realmente quer comigo, ? - ela perguntou, com os olhos fixos aos meus. – Por que não me deixa em paz e procura outra idiota pra atormentar? Por que eu fui a escolhida da vez?
- Sei lá... Destino? - perguntei, irônico.
- E foi o destino que me beijou hoje? - ela quis saber, sem expressão no rosto, dessa vez me deixando sem saber o que responder.
Era óbvio que eu queria beijá-la. Mas há quanto tempo? E por quê?
- Não. - respondi, olhando dentro dos seus olhos, sentindo a mesma sensação de perda que sentira mais cedo, antes de beijá-la. - Fui eu.
- E por que você fez isso? Sou só mais uma conquista ou você queria me beijar? - ela perguntou, abaixando os olhos pela primeira vez.
Olhei em volta, envergonhado. Não sabia o que responder! Por todos aqueles anos era uma criatura nula na minha vida, vivendo no seu mundinho, enquanto eu vivia no meu. O que eu deveria responder àquela pergunta? Era inusitado demais para mim! E se eu respondesse errado? E se ela tomasse minha resposta como uma coisa ruim e resolvesse me apagar da sua vida de uma vez?
Agora que ela tinha nas mãos boa parte do meu futuro, e boa parte dos meus pensamentos, seria prudente dizer a verdade? Seria prudente dizer que talvez eu tivesse mais do que interesses "profissionais" nela?
E, mais importante do que isso: Eu teria coragem de admitir que ela era mais do que qualquer uma pra mim, sendo que nunca o havia feito na vida?
- Eu... - olhei para baixo. - Não sei.
deixou escapar um suspiro de impaciência.
- Então só venha conversar comigo quando se decidir. - ela disse, e eu encarei seus olhos nervosos. - Não tenho vocação pra idiota. E não se preocupe, não vou quebrar minha promessa.
Ela se virou de costas e entrou em casa, colocando a mão na porta para fechá-la, mas eu a fiz parar com uma pergunta.
- Só eu tenho que dar meu parecer? - perguntei, começando a ficar irritado. - E você? Porque pelo o que eu percebi você gostou do beijo!
- Como você é prepotente! - ela exclamou, arregalando os olhos. - Será que você ainda não percebeu que o mundo NÃO gira em torno do seu umbigo?
- Nossa, como cansa tentar argumentar com você... - eu disse, virando os olhos. - Só você está certa, só você sabe das coisas... Da onde eu venho isso se chama arrogância.
- Por que você não vai se foder? - ela perguntou, quase gritando.
- Olha só, por falta de argumento você me xinga... Bem maduro isso, viu? - disse, irônico.
- Só dirija a palavra para mim novamente quando tiver algo interessante a dizer. - ela murmurou, sombria, antes de bater a porta na minha cara.
É, as coisas iam de mau a pior...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:15, meu quarto.
:
Eu espumava de raiva. Fui até a cozinha, peguei meu maço de cigarros do esconderijo - no pote de bolachas que nem Sue nem meu pai comiam por serem de aveia - e subi as escadas correndo, deixando química de lado. Tranquei a porta do meu quarto e abri a janela, acendendo meu cigarro com as mãos tremendo. Observei arrancar com o carro rua abaixo e sumir na esquina. Ao acabar meu cigarro, joguei no quintal do vizinho e me virei para a imensidão do quarto. Meu estômago estava pesado, doendo, e eu pensei em descer e tomar algum remédio, mas sabia que não adiantaria. Estava daquele jeito pela briga com , e o mal-estar só iria embora quando nós dois estivéssemos bem.
Eu estava apaixonada por .
Mas do jeito que era orgulhosa, não admitiria isso nem que a vaca morresse de câncer na traqueia!
Joguei-me na cama. Teria que esperar para ver no que aquilo iria dar...
Sexta-feira, dia 6 de Novembro, 16:16, meu quarto.
Guys:
Cheguei em casa e joguei as chaves do meu carro em cima da mesa de jantar. Ouvi música sair do quarto de e subi as escadas, cansado psicologicamente. Entrei no quarto e encontrei os três na frente do PC. tocava alguma coisa no violão e e cantavam. Coloquei a cabeça no meio e olhei uma página do twitter aberta.
- Olha só quem chegou, meninas! - disse, parando de tocar o violão. - O !
- O que tá rolando aqui? - perguntei, achando engraçado ver conversar com a tela do computador.
- Estamos online na Twitcam, ! - disse, apontando para o número "345". - Diz oi aí, !
- Oi! - exclamei, sentando-me no braço da cadeira de . Assim que disse o "oi", várias "oi, !" apareceram do lado da nossa imagem na webcam. Ri sozinho. "Como foi o seu dia, ?" uma das meninas perguntou. - Foi uma merda... Mas pelo menos eu estou vivo! - respondi.
- Que música vocês querem ouvir agora? - perguntou, dedilhando o violão.
Ficamos por mais meia hora na twitcam, e eu aprendi que não se deveria dar o número do celular na internet e que elas podiam ouvir tudo que eu falava a quilômetros de distância. Quando desligamos, deitei-me na cama de , encarando o teto.
- Imagina que legal vai ser quando não pudermos mais sair sem disfarce na rua. - comentou, rindo.
- É, e quando pudermos entrar nas festas de graça! - concordou.
- Vai ser legal... - suspirou. - Mas tudo isso depende de uma só pessoa. Que fez o favor de afastar.
- Estava com ela essa tarde. - eu disse.
- E aí? Ela mandou o McFLY pro inferno? - perguntou.
- Não, disse que vai manter a promessa. Mas me mandou pro inferno... - disse, e eles riram.
- Mereceu! - disse, antes de sair do quarto. foi atrás dele e me expulsou do quarto porque queria "dormir". Saí, me arrastando, e entrei no meu quarto. Joguei-me na cama.
O que faria pra reconquistar ? Porque depois da segunda briga do dia, só dizer que havia beijado-a porque queria não mudaria muita coisa... Teria que fazer algo que a deixasse de boca aberta.
Mas o quê?
De repente, uma ideia me ocorreu. Sabia o que fazer pra voltar a confiar em mim!
Fiquei por um bom tempo pensando no meu plano e quando tinha tudo perfeito na minha cabeça, virei para o lado e dormi quase que instantaneamente.
seria minha.
Capítulo 10 - Cinderela.
Sábado, dia 7 de Novembro, 10:53, Records.
Girls:
Acordei com Sue gritando. No início pensei que fosse só um sonho, mas sua voz entrava cada vez mais no meu cérebro, e eu percebi que era real. Em estado de alerta, pulei da cama e saí correndo pela casa. Na minha cabeça, Sue estava parindo meu irmãozinho - ou irmãzinha - no chão da cozinha, e quando eu chegasse lá, só encontraria um bebê chorando no piso frio e um poça de sangue em volta.
- Sue, respira como um cachorrinho! - gritei, assim que atravessei a porta balcão branca da cozinha, encontrando Sue parada no balcão de mármore chupando o dedinho da mão esquerda e meu pai me olhando por cima do jornal, curioso. - Você não está tendo minha irmã? - perguntei.
- Não, eu cortei meu dedinho com a faca do pão. - ela mostrou o corte minúsculo do dedinho, antes de colocá-lo de volta na boca. - Irmã ou irmão, , já conversamos sobre isso.
Suspirei, aliviada.
- Querida, relaxe, você está mais nervosa que eu com a chegada do bebê! - ela riu, sentando-se ao lado do meu pai, que voltara a ler o jornal, me ignorando.
Olhei para a mesa, procurando algo digerível que não fosse integral ou sem gosto. Encontrei um restinho de Nescau Ball e coloquei na minha tigela favorita do Bob Esponja. Reguei com leite e comi silenciosamente na outra ponta da mesa, enquanto Sue comia torradas com geléia e meu pai saboreava seu café escuro sem açúcar - que eu, particularmente, achava nojento.
Acabei de comer e coloquei a tigela na pia, olhando para meu pai, que não havia se manifestado. Sue olhou de mim para ele, dele para mim, e deu de ombros, voltando sua atenção às torradas com geléia.
- Quando você vai voltar a falar comigo? - perguntei, direcionando ao meu pai, que só pigarreou, sem tirar os olhos do que lia. - Não vai responder? Ótimo.
Para bom entendedor, meia palavra bastava. Saí da cozinha pisando duro, fazendo birra, e subi as escadas fazendo o maior barulho possível. Ouvi Sue e meu pai conversando, mas entrei no quarto e bati a porta. Coloquei a única calça jeans velha que - evitei pensar nisso, pois só seu nome me dava nojo - deixara em meu armário, pesquei minha camiseta "Never Mind The Bullocks" e calcei meu Vans Slip On quadriculado. Fui até o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes, prendi meu cabelo num rabo alto e coloquei meu RayBan Wayfarer preto. Desci as escadas, peguei as chaves do Vectra GT de Sue e gritei:
- Estou indo pro estúdio, Sue! Algum recado?
- Pede praquele novo estagiário que eu não sei o nome bloquear as ligações direcionadas pra cá daquela banda do Sul da Irlanda, eles estão deixando uma grávida nervosa! - ela gritou de volta, fazendo meu pai rir.
Saí de casa, pegando meu celular no bolso e colocando , e numa conexão.
foi a primeira a atender.
- Nossa, caiu da cama? - ela perguntou, com voz de quem já estava acordada há muito tempo, já havia feito esteira, tomado banho e comido seu café integral.
era totalmente diferente de mim em relação aos cuidados com o corpo, mas nós nos dávamos super bem.
- Quase isso. - respondi, colocando o celular no viva-voz e jogando-o em meu colo, enquanto colocava o cinto de segurança e ligava o carro. - Sue quase me matou do coração.
Contei o que havia acontecido mais cedo na cozinha enquanto dirigia pelo bairro, rumo à gravadora de Sue para fiscalizar as coisas por lá.
- Nossa, que tenso! - comentou, assim que terminei de contar.
- É, teeenso... Mas e aí, o que vamos fazer hoje?
- Bom, eu meio que... - ela ia dizendo, quando entrou na conversa.
- Vaquinhas do meu presépio! - ela exclamou.
- ! - eu e dissemos ao mesmo tempo.
- Qual é a graça de me acordar cedo? - perguntou, entrando logo em seguida.
- ! - eu, e dissemos juntas.
- Nossa, desde quando você atende nossas chamadas de manhã? - perguntou, rindo.
- Minha mãe me acordou para poder limpar o quarto. - ela grunhiu. - Estava indo dormir na sala quando vi o celular piscando. Resolvi atender só pra ser legal.
Virei a esquina, avistando o prédio de quatro andares todo espelhado onde " Records" brilhava na porta de entrada. Parei o carro na frente da bancadinha onde Jeff, o faz-tudo, estava parado com outro segurança. Enquanto ouvia o papo-furado das minhas amigas, saí do carro antes que alguém abrisse a porta - odiava que fizessem algo que eu poderia muito bem fazer sozinha - e sorri.
- Bom dia, Jeff. - desejei, entregando as chaves em suas mãos.
- Bom dia, ! - ele respondeu, pois sabia que eu odiava que me chamassem de "Srta. ".
Caminhei até a entrada da gravadora e tirei o celular do viva-voz, entrando novamente na conversa.
- ...meu desodorante acabou e... - ia contando quando eu a cortei.
- Ei, ei, o que vamos fazer hoje? - perguntei, sendo respondida por um silêncio constrangedor. - O que foi?
- É que nós meio que estávamos pensando em ir ao churras do hoje... - respondeu, envergonhada.
- Ah... - suspirei, passando minha carteirinha no leitor da catraca. - Então deixa quieto, a gente faz alguma coisa no domingo...
- Ah, , você não pode mesmo ir? - tentou, com a voz baixinha.
- Não, tenho que estar em casa às 21h. - respondi, rouca.
- Que bosta... - resumiu tudo o que eu estava sentindo naquele momento.
- Bom, vou entrar no estúdio agora - menti, entrando no elevador -, depois a gente se fala.
- Beleza, , a gente se fala durante o dia! - disse.
- Beijos! - disse, antes de fechar o flip do celular.
É, meu dia seria pior do que eu havia pensado...
Sábado, dia 7 de Novembro, 13:11, churras.
Guys:
Eu parecia uma dona de casa com três filhos endiabrados. Caminhava pelo mercado empurrando um carrinho abarrotado de carne e cerveja, enquanto , e sumiam e apareciam de dois em dois segundos, trazendo mais e mais coisas.
- Sal! Carvão! - gritava, riscando os itens na lista.
- É pra já! - e obedeciam, e os três desapareciam de novo.
Virei os olhos.
- Francamente...
Mesmo ansioso para o nosso primeiro show com público, estava com a cabeça na lua. Meu plano rodava pela minha cabeça, e eu procurava alguma falha, algo que pudesse dar errado, porque se as coisas fossem por água abaixo, meu pescoço que estaria em jogo. E eu não estava nada afim de ter que ligar pro meu pai ir me buscar na cadeia e logo depois pedir pra ele assinar minha suspensão. Já ia me ferrar pela suspensão, ser preso não estava na minha listinha de coisas-para-irritar-meu-pai.
Parei no corredor de salgadinhos e coloquei vários pacotes de Ruffles Original no carrinho, pois nosso estoque havia acabado. Caminhei até o caixa, pois não estava com saco de ficar andando como idiota pelo mercado, e parei na seção de revistas, folheando algumas enquanto os guys apareciam e jogavam coisas alheias no carrinho. Depois de mais ou menos meia hora nessa enrolação, finalmente riscou o último item da lista - fósforos - e nós fomos pagar a estrondosa conta. Colocamos tudo no carro e fomos para casa. Assim que chegamos, e foram colocar as cervejas e as carnes na geladeira de fora, foi conectar o iPod nas caixas de som e eu fui para o meu quarto atualizar o MySpace e o Twitter, anunciando que quem quisesse já poderia colar no churras.
Depois que fiz tudo que estava ao meu alcance, fui tomar um banho pra me arrumar.
Saí do banho, coloquei uma calça jeans preta, um All Star preto velho, uma camiseta preta e uma camisa xadrez azul e cinza por cima. Sai do quarto bagunçando os cabelos e desci as escadas, encontrando já algumas garotas da nossa escola no hall de entrada. Cumprimentei-as e apontei onde estavam as bebidas. Elas foram até lá e eu fui atrás, ouvindo cada vez mais alto a música eletrônica que tremia o chão da casa. Lá fora, alguns meninos da nossa sala estavam sentados em uma mesa de plástico tomando cerveja e rindo. e estavam com eles, enquanto conversava com duas meninas do segundo ano. Fui até a mesa e me sentei.
- ! - exclamou, passando uma cerveja para mim. - Que horas as meninas do MySpace vão chegar?
- Sei lá, eu já avisei no twitter, agora temos que esperar...
- Acho que a espera terminou. - sussurrou, apontando com a cabeça para algum lugar atrás de mim.
Virei-me devagar. Ali, na porta de correr que dava acesso à churrasqueira e à piscina, um grupo de 10 meninas estava parado, procurando por nós. Logo que nos viram, vieram em nossa direção, e atrás delas outro grupo de 7 meninas estava parado. Quando dei por mim, umas 40 meninas estavam em volta de nós. E todas elas falavam ao mesmo tempo!
- Oi, ! Atravessei a cidade pra poder ver vocês!
- Autografa meu CD? Eu que gravei... Aliás, quando sai o CD de vocês?
- Minha melhor amiga te adora, mas não pôde vir... Você grava um vídeo pra ela?
Olhei para , sem saber o que fazer. Ele parecia estar na mesma. Só parecia a vontade com aquele assédio. Do outro lado, perto da churrasqueira, ria com algumas das meninas.
Já estava vendo que o meu dia seria tenso...
Sábado, dia 7 de Novembro, 14:57, Records.
Girls:
Eu estava sentada na laje do prédio. O dia estava quente e ventava bastante. Meu maço de Lucky Strike estava acabando, então eu aproveitava um dos meus últimos cigarros sozinha, ouvindo o som dos carros lá embaixo. O prédio não era muito alto, mas era o suficiente para me dar vertigem, então eu estava bem longe das beiradas, com os olhos fechados.
Estava de castigo, abandonada por minhas amigas, ignorada pelo meu pai, trabalhando pela minha madrasta e muito - muito mesmo - brava com a única pessoa em quem eu pensava antes de dormir. Não podia ir ao churrasco ver a banda que eu estava ajudando, não podia me divertir... Resumindo: Não podia nada.
Suspirei.
Pelo menos estava sozinha, ouvindo meus próprios pensamentos, sem ninguém para encher o...
- Srta. , um cliente está lá embaixo te procurando. - Jeff me assustou, colocando a cabeça no vão da porta, e eu joguei o cigarro fora num reflexo. - É urgente.
- Já estou indo. - levantei-me, batendo as cinzas da minha calça jeans. - Peça para esperar na sala de Sue.
- Sim, srta. - ele fez uma mesura que sabia que eu odiava e fechou a porta, devolvendo o silêncio para mim.
Suspirei novamente.
Adeus paz.
Abri a porta e desci um lance de escadas, chegando ao último andar. Então peguei o elevador e desci para o primeiro, indo até a sala de Sue. Quando abri a porta, crente de que ia encontrar alguma banda chata me bajulando, encontrei nada mais nada menos que , e , conversando entre si.
Mas eim!?
- Oi, ! - exclamou, quando me percebeu ali parada.
- O que vocês estão fazendo aqui? - perguntei, surpresa.
- Bom, resolvemos passar o dia com você e só ir ao churrasco quando você estiver cansada da gente. - explicou, sorrindo.
- Legal, né? - perguntou.
- Na verdade, a tá com medo de encontrar o , porque ela acha que vai vomitar na cara dele. - deu de ombros. - E eu não quero ver o com todas aquelas fãzinhas em volta dele...
- Vocês são loucas! - exclamei, rindo, sentando-me ao lado delas. - Estão perdendo um puta churrasco!
- Com moleques idiotas e putinhas. - deu de ombros. - Preferimos ficar com você.
- Diz aí, nós somos as melhores amigas do mundo! - exclamou, abrindo os braços para um abraço.
- Você sabe que ela não tem coração, , nem adianta abrir os braços... - suspirou, e eu ri. encolheu os braços e fez beicinho.
- Ela está certa... - dei de ombros. - Eu não tenho mesmo. Mas agradeço... Meu dia seria um saco sem vocês. - disse, num dos meus raros momentos de demonstração de afeto.
- Oooown, que coisa mais fofa! - elas exclamaram, pulando em cima de mim.
Como criaturas tão peculiares eram minhas melhores amigas?
Sábado, dia 7 de Novembro, 14:37, churras.
Guys:
Eu estava parcialmente escondido atrás dos amplificadores. Minhas mãos soavam. Mexi minha cabeça um pouco para o lado e pude ver testando os microfones, conversando com algumas fãs e estralando os dedos.
Seria possível que só eu estava nervoso?
Pelo menos umas 100 pessoas iriam assistir ao "show"! E se nós errássemos? E se eu desmaiasse? O que seria do McFLY!?
Senti o chão sumir. Minha visão ficou preta.
Sei que pode parecer idiota, ainda mais para um "artista", mas eu sempre tivera medo de palco. Desde que minha mãe me inscrevera para o Coral da escola e eu vomitara - aliás, vomitar é um ato constante na minha vida - na pianista.
Eu nunca mais fui o mesmo...
- , vamos lá? - perguntou, tranquilo, me puxando para frente de todo mundo. - O tá um pouco nervoso, gente, mas relaxa que nós já demos um remédio pro estômago dele. Sem vômitos hoje.
"Ainda bem!" Hirata, um japonês do segundo ano, gritou do fundo das pessoas, levantando uma cerveja, fazendo todos rirem.
Olhei para tentando fazer uma cara de mau, mas a única coisa que consegui foi fazer uma careta torta.
- Bom, vamos tocar uma música do - me abraçou pelos ombros -, ela se chama Obviously!
As meninas deram gritinhos, nossas amigas da escola cochicharam umas com as outras e os caras gritaram uns "manda ver!".
Fui até o meu lugar, respirando curto. Sentia que poderia apagar a qualquer momento.
Não percebi a música começar e muito menos acabar. Tocava num torpor, evitando olhar para as pessoas, encarando o horizonte o show inteiro. Meu cabelo cobria a testa e eu podia sentir as gotas de suor se formarem. Quando os últimos acordes cessaram, olhei para frente, ouvindo um barulho estranho.
Aquilo eram aplausos?
Estavam me aplaudindo?
Sorri fraquinho, enquanto alguns caras assoviavam e as meninas gritavam.
- Valeu! - fui até o microfone e murmurei.
- É isso aí, pessoal! Aproveitando que o não vomitou, vamos de Five Colours In Her Hair! Quem souber, canta junto! - disse, recomeçando a tocar.
E todos os sintomas voltaram...
Aquela tortura não acabaria nunca!?
Por que não coloquei meu plano em prática antes do show!?
Onde estava quando eu precisava dela!?
Sábado, dia 7 de Novembro, 18:23, meu quarto.
:
Cheguei em casa depois de algumas horas zanzando com as meninas pela cidade. Pedi para que Jeff não contasse à Sue, peguei o carro e fomos até o parque Cloverfield. Ficamos o dia inteiro conversando, tomando/comendo raspadinha de framboesa e rindo de todos e de tudo. Quando encaixei a chave na fechadura da porta, sentia-me feliz. As meninas haviam ido para o churrasco, mas nem isso estava me abalando - pelo menos não muito.
Dei oi para Sue, que respondeu com um aceno de cabeça, e perguntei pelo meu pai. Ela me disse que ele havia ido para a empresa em que trabalhava, pois um dos estagiários havia ferrado com as coisas. Com essa explicação, subi as escadas e entrei no meu casulo. Liguei a TV no MTV Hits, tirei a roupa e coloquei meu bom e velho conjunto de moletom. Joguei-me na cama e relaxei.
Por meio segundo.
Tinha acabado de fechar os olhos e ouvi um barulho baixinho de algo acertando meu vidro. Abri os olhos. Passados alguns segundos, o barulho veio mais forte. Coloquei os pés no chão, calçando minhas pantufas do Bob Esponja. Mais um barulho. "Porra, eu já vou!", pensei, estressada. Fui até a janela e afastei as cortinas, abrindo-a. Procurei por alguém e não achei. Apertei os olhos e encontrei um isqueiro no parapeito da janela. Enrolado à ele, um pedaço de papel.
Mas eim!?
Peguei o isqueiro na mão e coloquei a cabeça para dentro do quarto. Puxei o pedaço de papel e li o que estava escrito.
"Se você está sem calcinha, dá uma risadinha!"
Olhei de um lado para o outro antes de cair na risada. O que era aquilo? O que estava acontecendo?
Mais um barulho.
Dessa vez fui mais rápida e coloquei a cabeça para fora da janela ainda rindo, mas o riso cessou no exato momento em que encontrei parado em frente a minha casa. Olhei para o horizonte e avistei seu carro do outro lado da rua.
- Ouvi sua risada de dentro do carro. - ele disse, descruzando os braços.
- O que você quer aqui? - perguntei, séria. - Sue está na sala, pode te ver, e meu pai pode chegar a qualquer momento. E você não tem mais o que fazer, não? Chamei umas 100 garotas pra sua casa assistir ao seu show e você não está lá?
- Vim exatamente para te levar para o churrasco. Já fiz o show. - ele sorriu. - Quero que você vá comigo como amigos. Sem segundas intenções. Na paz. Pode ser?
Suspirei, cansada.
Ele gostava tanto assim de me infernizar?
- , mesmo se eu quisesse, eu não posso sair de casa! - exclamei.
- Eu tenho um plano. - ele disse, com aquele sorrisinho sarcástico dele.
- Aaah, jura? Eu também tenho, vários! Mas nem por isso saio por aí jogando isqueiros na janela das pessoas! - respondi, e ele gargalhou.
Ouvi a porta da frente ser aberta. se enfiou no meio das plantas e eu coloquei a cabeça para dentro, sentindo que meu coração ia sair pela boca. Sue foi até seu carro, abriu a porta, ficou por alguns segundos lá dentro e retornou para dentro de casa. Coloquei a cabeça para fora de novo e estava lá, olhando estático para a porta.
- Isso mesmo, bonitão! Depois é preso e diz que é destino! - eu disse, bufando.
- Vamos fazer o seguinte: Você deixa eu colocar meu plano em prática. Se der errado, eu continuo te ajudando, mas você pode esquecer do McFLY e de todos os problemas que nós te trouxemos!
Hm... Tentador!
Apoiei o rosto na mão, como se pensasse, mesmo que já soubesse a resposta.
- Hm... - fiz um suspense. - É, beleza, pode ser.
- Ótimo! Mas você tem que fazer tudo o que eu mandar! Começando por entrar em seu quarto e agir como se nada estivesse acontecendo. Espere Sue ir te chamar, e quando descer, me convide para entrar.
Ri, já imaginando aonde aquilo iria acabar, mas obedeci, fechando a janela e deitando-me na cama. Fiquei assistindo a Beyoncé rebolar até que Sue entrou mesmo em meu quarto, começando na barriga e terminando nos longos cabelos.
- Querida, tem um garoto aí dizendo que você está com os cadernos dele!
Desci as escadas atrás dela, lentamente, e quando cheguei ao pé da escada arregalei os olhos e abri a boca. estava parado na porta, mas eu só o reconheci pelos seus olhos , porque todo o resto havia sumido. Ele usava uma peruca ruiva crespa, que ia até o começo das costas. Na boca usava um aparelho móvel nojento, todo babado. Uns óculos de armação tartaruga cobriam seu rosto e algumas pintas pretas estavam espalhadas pelas bochechas. Olhei para baixo, não podendo acreditar naquilo, e reparei que ele vestia uma camisa social bege grande demais para ele, enfiada dentro de uma calça de veludo marrom. Nos pés, mocassins verde musgo.
- Masquemerdaées...
- ! - ele exclamou, com a voz fanha e fina. - Preciso dos meus cadernos de física.
Sue me olhava incrédula, como quem diz "porque diabos você foi pegar os cadernos dessa pessoa?", mas mal sabia ela...
- Tudo bem, Roger, pode entrar, sobe comigo que eu preciso procurá-los na bagunça do meu quarto. - eu disse, inventando um nome qualquer e fazendo sinal para que me acompanhasse.
Nós fomos em silêncio, seguidos pelos olhos interrogatórios de Sue. Quando entramos em meu quarto e eu fechei a porta, não pude mais segurar a risada.
- Meu Deus! Que... Coisa é essa? - perguntei, apontando para ele inteiro.
- Um disfarce. - ele piscou para mim, e eu parei de rir na hora. - Ok, eis aqui a salvação do seu sábado à noite. - dito isso, tirou da mochila que levava nas costas quatro objetos. Um parecia uma agulha, que ele prendeu no chão com uma fita isolante. O outro era um pequeno fone de ouvido sem fio, que ele deu na minha mão. Os dois últimos eram dois Walk Talk, um ele também me deu e o outro ele colocou entre meu edredom. - Seguinte: Esse microfone no chão capta todos os sons do seu quarto e do corredor, e os sons são transferidos para esse ponto que está na sua mão. Então se seus pais te chamarem ou algo do tipo, é só você apertar seu Walk Talk que o som da sua voz sai do aparelho que está na sua cama. Nós vamos trancar a porta, e se tudo der errado e alguém quiser entrar aqui, eu te trago correndo para casa.
Olhei para ele, embasbacada.
Qual era o propósito daquilo tudo?
- Você pode estar achando tudo isso demais só por um churrasco, mas não é por isso que eu estou fazendo isso. - olhei para baixo, de repente com vergonha de olhar nos olhos dele. - Eu só queria arranjar um meio de me desculpar por tudo que fiz à você. Esse foi o único jeito que encontrei...
Suspirei e levantei os olhos, encontrando os seus olhos suplicantes.
E mais uma vez eu caía no conto do vigário... Mas eu não conseguia! Simplesmente não conseguia dizer não àqueles olhos! Eles eram tão... Apaixonantes.
Deixei meus ombros caírem e sentei-me na cama.
- E então? - ele perguntou, esperançoso.
- Eu só tenho uma pergunta. - eu disse, me segurando na última ponta de orgulho que restava em mim.
- Pois não?
- Como eu vou sair daqui?
Sábado, dia 7 de Novembro, 18:58, churras.
Guys:
- Mentira! Não posso acreditar que você fez isso! - ria, com uma cerveja na mão. estava ao seu lado, rindo com ela. Os dois não demonstravam qualquer tipo de afeição, mas todos nós sabíamos que algo estava acontecendo. Olhei para o meu lado, e jogava os cabelos para trás, rindo com a amiga. Ela usava um vestido tomara-que-caia preto e sapatos do tipo boneca pratas; seu cabelo estava solto pelas costas e ela estava muito bonita. Mais bonita do que eu jamais havia visto. - Como você saiu pela janela com esse vestido? Aliás, da onde você tirou esse vestido?
- Só Freud explica. - eu comentei, e todos caíram na risada. deu um tapa no meu braço e colocou a mão na orelha, arrumando o ponto, como estava fazendo de mais ou menos cinco em cinco segundos.
- Aonde você arranjou esses aparelhos high-tech? - perguntou.
- Com um amigo do meu pai que tem uma agência de segurança particular. - dei de ombros. - E isso não é nada, tem coisa que até Deus duvida lá!
- Voltei! - exclamou, equilibrando várias cervejas no peito. Entregou uma para mim, uma para , uma para , uma para , uma para e ficou com uma para ele. estava bebendo água pois estava com dor de cabeça e estava enrolando há um tempão na mesma cerveja. - Que parte da história eu perdi?
- A saindo pela janela de vestido e salto alto. - explicou.
- Queria ver isso. - ele disse, malicioso, e todos riram. Tentei rir também, mas só consegui mexer as bochechas.
- Pessoal, acabou a cerveja! - Hirata veio nos avisar.
- Como isso!? - exclamou. - Nós compramos toneladas!
Hirata deu de ombros e foi embora. Todos nós olhamos para .
- Hey, não me olhem assim! - ele disse, fanho.
- Mas nós estamos bêbados para dirigir! Você não quer que seus amigos morram, quer? - perguntou, pegando um cigarro do maço.
- Você são os piores amigos do mundo... - ele reclamou, levantando-se e estendendo a mão para . - Quer ir comigo?
- Pode ser. - ela disse, levantando-se com a sua ajuda e sumindo com ele no meio das pessoas.
Olhei para o lado, observando contar uma piada para , que já meio alta ria escandalosamente. Ao lado deles, ficava vermelha toda vez que olhava para , que tentava puxar assunto com ela, mas era sistematicamente ignorado. E, ao lado deles, fitava o nada, com uma cerveja na mão e o olhar vago.
Fiquei olhando para ela. Como eu nunca havia reparado, em quase 15 anos estudando juntos, que ela era bonita? Por que eu somente havia reparado na sua inteligência e não na sua beleza? Em como os ombros dela, quase sempre escondidos, formavam total simetria com o quadril? Em como seu cabelo levemente ondulado batia no meio das costas? Em como sua pele do rosto era lisa como seda? Como eu nunca havia reparado nisso?
Fui levado pelas sensações. Quando percebi, estava segurando seu braço. Ela me olhava curiosa, e eu só encarava seu rosto.
- O que foi, ? - ela perguntou, erguendo a sobrancelha.
- Vamos sair daqui? - perguntei, meio tonto. Era esquisito o que eu estava sentindo, mas eu só queria ficar sozinho com ela.
- Como assim? - ela perguntou, fazendo uma careta.
- Vamos dar uma volta? - perguntei de novo, levantando-me da cadeira e estendendo a mão para ela. - Preciso tomar um ar.
- Sei lá... Pode ser... - ela disse, aceitando minha mão. - Meninas, eu já volto.
As garotas só acenaram com a mão, voltando a conversar com e . riu e se levantou. Fui andando sem nenhum rumo aparente, sentindo sua presença atrás de mim. Saí de casa e fui para a rua. Comecei a andar para a direita e estava ao meu lado.
- Pronto, o bom e cheiroso ar londrino. - ela brincou, tirando outro cigarro do maço. Imitei seu gesto e peguei um do meu próprio. - Será que esse ponto está funcionando mesmo?
- Você está ouvindo alguma coisa? - perguntei.
- Só alguns chiados... - ela respondeu, dando de ombros.
- Então está funcionando. - respondi. Estava me sentindo acuado por ela... Não pensava em nada interessante para dizer, e ela parecia não querer puxar assunto.
Andamos em silêncio, observando tudo e todos, menos nós mesmos. Paramos no final da rua. O lugar estava deserto, e eu ainda podia ouvir a música alta que saía da minha casa, a vários metros de distância. A noite chegara fria, e esfregava suas mãos em seus braços. Peguei minha blusa e estendi para ela, que sorriu e aceitou, colocando-a.
- Então... - ela disse, indo para frente e para trás. - Será que chove hoje?
- Provavelmente... - olhei para cima, encontrando o céu carregado.
Que porra de conversa era aquela? Será que eu não conseguia pensar em nada mais construtivo para dizer? Qual era o meu problema?
No fundo, eu sabia por que não estava conseguindo conversar direito. Eu estava com a resposta da sua pergunta do dia anterior na ponta da língua, e se abrisse a boca não teria mais volta. "Sou só mais uma conquista ou você queria me beijar?" Se pensasse naquilo no meio de uma conversa, não conseguiria me conter... E eu não queria que ela soubesse. Não queria que ela me tivesse em suas mãos.
Ou queria?
Um pingo caiu na minha cabeça, escorrendo pela minha testa e acabando no meu queixo.
Chuva. Que legal.
- Droga. - murmurou ao meu lado. No meio do meu devaneio, havia me esquecido que ela estava ali, em pele e osso, do meu lado. Tomei até um susto ao ouvi-la. - Apagou meu cigarro.
Ela o jogou longe, quase inteiro, e colocou a touca do meu blusão na cabeça.
- Vamos voltar? - ela pediu, quando a chuva começou a apertar.
- Sim. - eu disse, não conseguindo me conter. - Eu queria te beijar. Eu queria e ainda quero.
Sábado, dia 7 de Novembro, 19:27, no meio da rua.
:
Não posso fingir e dizer que não sabia do que ele estava falando. Porque eu sabia muito bem... Sabia muito bem que aquela era a resposta para minha pergunta. Não pensei que ele fosse ter a coragem de admitir aquilo. Aliás, não pensei que aquela seria sua resposta. Para mim, ele só estava afim de brincar comigo. Mas aquela declaração mudava um pouco as coisas...
- Essa é sua resposta? - perguntei, dando um passo para trás. Não queria correr o risco de cair nas suas garras novamente.
A chuva estava forte, e eu sentia muito frio. Estava me segurando para não tremer.
- Sim, essa é minha resposta. - ele disse, dando dois passos para frente, segurando o cordão da minha touca. Seus cabelos caíam na testa e seu maxilar tremia. - E o que você me diz sobre isso?
Olhei para baixo. O que eu diria à ele?
- Não sei... - encarei seus olhos. - O que você me diz sobre isso?
- Eu também não sei. - ele disse, ficando mais próximo ainda, me segurando pela cintura. A música que vinha da casa era Secret Valentine, de uma banda chamada We The Kings. Ela estava baixinha, mas parecia penetrar na minha cabeça.
Encostei minha cabeça em seu peito. Não sabia o que estava fazendo, só sabia que queria fazer.
encostou o queixo no topo da minha cabeça, e nós ficamos parados no meio da rua, ouvindo a música. Quando percebi, estávamos nos mexendo ao ritmo dela. Poderia parecer patético, mas eu gostaria de estar ali, com ele, pro resto da vida...
Ele estava quente, apesar da chuva, e afagava minhas costas. A música, nós dançando no meio da rua... Tudo aquilo estava me deixando louca!
- Eu quero te beijar. - ele murmurou de repente.
- Eu também. - disse, levantando minha cabeça. Encotrei seus olhos, e nós encostamos nossas testas. Nossas bocas estavam muito próximas e...
", você está aí?" ouvi a voz de Sue no meu ouvido.
Olhei para com os olhos arregalados. Ele não entendeu nada e ficou me encarando com cara de ponto de interrogação.
Eu estava ferrada. Eu estava MUITO ferrada.
Capítulo 11 - Amigos novamente. Amigos?
Sábado, dia 7 de Novembro, 20:56, churras.
:
Eu estava no meio de um jogo. E era um jogo difícil. já havia desistido e estava jogado no chão. ainda jogava. olhava e ria. se recusou a jogar. estava de mão dada com - depois do nosso pequeno coro de aleluia -, e só estava na parada. Além de nós, Hirata, Yorran, Hayley, Lallie, Vincent, Peter, Billy e muitos outros que eu só conhecia de vista.
- Vamos lá, no três. Quem gorfar dá um passo pra trás. - Hirata anunciou. - Um... Dois... Três!
Peguei o primeiro shot que vi pela frente. Virei. Senti a tequila descer rasgando. Sal e limão. O segundo. Sal e limão. O terceiro. Sal e limão. Quando fui virar o quarto, Hirata gritou:
- Opa, podem parar, saiu da parada. - depositei o shot em cima da mesa e assisti ir calmamente atrás dos nossos anões de jardim e vomitar em cima de um deles. - Agora só restam 15!
Olhei para a mesa, toda suja e nojenta, cheia de sal e bebida. Já estava bem idiota, mas não o suficiente pra não ouvir meu celular vibrar. Assim que Hirata começou a contar de novo, avisei que estava saindo da brincadeira e fui até a frente de casa. Só encontrei uma menina chorando e falando baixinho ao celular. Fui um pouco mais para frente, sentei-me no meio fio e atendi.
- Oi. - disse, baixinho. - E aí?
- Oi. - disse do outro lado, mais baixo que eu. - Deu tudo certo, eles não desconfiaram.
- Tem certeza? - perguntei.
- Absoluta. - ela disse. - Sue só ficou perguntando por que eu estava molhada, mas viu a toalha verde em cima da minha cama e eu inventei que estava tomando banho.
Pigarreei, num silêncio constrangido.
- Bom, pelo menos as coisas deram certo dessa vez. - eu concluí.
Mas pelo rumo que estavam tomando, eram pra ser uma catástrofe...
Flashback on.
", você está aí?" uma voz feminina perguntou no ponto. Da distância em que eu estava, só pude perceber que era uma mulher, mas não pude ouvir o que ela havia dito. Mas pela cara de , não poderia ser algo bom. Ela ficou branca como um fantasma e abriu a boca, respirando fundo. As gotas caíam pesadas em seu cabelo, já totalmente molhado, e eu comecei a sentir frio por ela.
- O que foi? - perguntei. Não havia me esquecido de que em apenas alguns segundos atrás estávamos prestes a nos beijar, e segurei sua mão, mas ela permaneceu imóvel, gelada. - , o que foi?
- Sue acabou de me chamar no ponto. - ela balbuciou. Bom, aquilo era bem sério. Ela nem havia me xingado por chamá-la de !
Então ela pareceu voltar ao cosmos.
- Meu Deus, que merda eu faço agora? - ela perguntou, dando a volta nela mesma. - Cadê a porra do walk talk?
- Ficou em cima da cama do . - eu disse, meio em pane.
- MERDA! - ela exclamou, antes de sair correndo para minha casa.
Fui atrás dela, mas antes que pudesse entrar em casa ela murmurou um "vai ligando o carro". Obedeci, ainda sem acreditar naquilo. Nunca pensei que fossem procurá-la em seu quarto... Quero dizer, de quantos por cento eram as chances daquilo acontecer?
Liguei meu carro e esperei ela voltar. Avistei-a sair pela porta alguns segundos depois, falando alguma coisa no walk talk e passando uma toalha verde limão com um bordado "Propriedade do " em preto na cabeça. Ela entrou no carro terminando a frase com "no seu banheiro". Depois olhou para mim e exclamou:
- Vai, , acorda! Corre!
Pisei no acelerador e posso jurar que cheguei em sua casa em dez segundos, sendo que ela morava a várias quadras de mim. No caminho, ela foi falando com a madrasta, coisas como "deve estar no banheiro lá de baixo", "eu vou procurar aqui, pera aí" e "eu estou com creme na cara Sue, não quero te assustar!". Assim que parei perto de sua casa e ela desceu do carro, respondendo mais uma vez no walk talk: "Ok, eu abro, deixa só eu tirar isso da cara e procurar a chave!". Então ela olhou para mim, desesperada.
- Eu desci, agora como eu subo? - ela perguntou, num sussurro assustado. Fomos até a frente da sua casa e ficamos parados embaixo da sua janela. A chuva já havia cessado, e agora só uma garoa fininha nos atingia.
Fiquei procurando algum apoio. Sua janela não era alta, mas também não era "alcançável" sem pelo menos uma escadinha de madeira... A única coisa que serviria eram as grades da janela da sala, por onde ela havia descido, mas a sala deveria estar ocupada pelo seu pai, pois a luz da TV piscava nas cortinas.
Olhei de um lado para o outro. Depois olhei para cima.
Então tive uma ideia.
- Espera aqui, eu já volto. - disse, indo até meu carro. Chegando lá, abri o porta-malas e peguei uma das várias rodinhas de skate quebradas de , peguei um corda que nós pretendíamos usar para tirar um tênis de do telhado e peguei minha case de madeira revestida de couro. Fui até a porta da casa de , que falava no walk talk algo como "já estou indo, Sue, espera um minuto que a chave sumiu!" e coloquei a case no chão. Subi em cima e fiquei na ponta dos pés, encaixando a rodinha em uma das calhas baixas do telhado, na lateral da sua casa. Passei a corda por detrás dela, criando algo parecido com um guindaste.
- Vai, sobe aqui. - eu disse, envolvendo sua cintura para ajudá-la a subir na case. Depois enrolei uma das pontas da corda em sua cintura e enrolei a outra em minha mão.
- Olha, pra quem tem QI de babuíno, até que você foi inteligente. - ela brincou, antes que eu a puxasse para cima. Para me vingar, dei um tapa em sua coxa a mostra e ela mostrou o dedo do meio pra mim.
Icei-a - icei, que palavra bizarra - até sua janela e ela pediu para que eu não olhasse. O que eu, discretamente, não obedeci. Coloquei a mão no rosto e espacei os dedos, observando-a colocar as pernas para dentro do quarto.
Bela calcinha preta...
Assim que entrou, colocou a cabeça para fora, jogando a corda para baixo. Fez sinal para que eu me mandasse e eu pedi que me ligasse. Ela me ignorou e passados alguns segundos ouvi vozes em seu quarto.
Entrei no carro e voltei para o churrasco. Chegando lá, os caras brincavam de virar shots.
Flashback off.
E lá estava eu, ao telefone com .
- Muito bem pensado, meu caro Watson. - ela disse, sobre minha conclusão de que pelo menos tudo dera certo, e eu ri. - Bom, só liguei pra avisar, já que você pediu... Agora eu vou dormir.
- Dormir às nove horas? - perguntei, e ela riu.
- O tédio consome minha alma. - ela suspirou. - Mas tudo bem, melhor do que nada. Pelo menos pude ficar um pouco no churrasco!
- Nós estamos brincando de virar shots. - eu disse, rindo.
- É claro que estão! - ela riu. – Tchau, .
- Boa noite, zinha.
- Já pedi pra não me chamar assim! - ela exclamou. - Só porque você me levou no churrasco não quer dizer que eu vou virar seu capacho.
- Mas você me perdoou, certo? - perguntei, apreensivo.
- Sim.
- E você vai voltar a ser minha amiga, certo?
- Sim... - ela suspirou. - E só.
- Só? Nem uma amizade colorida? - perguntei, e ela riu do outro lado.
- Idiota!
- Otária.
- Imbecil.
- Gostosa.
- Canalha.
- Bons sonhos, . - eu disse.
- Bons sonhos, . - ela respondeu, e antes que desligasse, eu murmurei:
- Eu disse que se eles te prendessem em casa eu viria te salvar.
- Obrigado por isso. - ela sussurrou e desligou o telefone.
Guardei o celular no bolso da calça jeans.
A tequila me aguardava.
Domingo, dia 8 de Novembro, 11:23, casa da .
Girls:
No dia seguinte, acordei às 9 horas com meu celular vibrando. Abri a mensagem de , que só continha uma palavra: "Beijei."
Ri sozinha, guardei-o na gaveta do criado-mudo - pois meu pai não poderia saber que eu o estava usando - e voltei a dormir.
Acordei algumas horas mais tarde com Sue me balançando na cama. Ela me entregou o telefone e saiu do quarto. Era mais uma vez, pedindo para que eu fosse à sua casa. Resmunguei que iria e me levantei, meio sonâmbula. Tomei banho rápido, coloquei uma calça jeans skinny, uma camisa xadrez que havia comprado com , calcei minhas papetes pretas e prendi meu cabelo molhado num rabo de cavalo. Se me visse naquele estado me mataria, mas como ele não iria ver, eu estava pouco me ferrando. Avisei à Sue que estava indo para a , que era praticamente minha vizinha, já que morava no final da rua. Ela concordou e pediu para que eu não demorasse, pois meu pai havia saído cedinho para encontrar alguns amigos, mas deveria voltar pelo final da tarde. Fui a pé e cheguei em sua porta dois minutos depois.
Sua mãe atendeu. Ela estava com roupa de ginástica e os longos cabelos loiros presos num rabo de cavalo alto.
- ! Como vai? - ela perguntou, abrindo a porta para que eu entrasse. - A está lá em cima.
- Valeu, tia. - eu disse, subindo os degraus da escada de dois em dois.
Atravessei o corredor e cheguei ao último quarto, onde plaquinhas de "não entre sem a minha permissão" estavam penduradas. Sem bater na porta, entrei no quarto, encontrando sentada em frente ao computador. Ela se virou na cadeira e sorriu. Joguei-me em sua cama e olhei pra ela.
- Conta. - pedi, sorrindo. Estava feliz por ela. Afinal de contas, sempre fora sua obsessão.
- Nós fomos comprar cerveja, certo? - ela começou, sem nem ao menos me dar "oi". - Compramos e tudo mais, e voltamos para o churrasco. Aí ele pediu para que eu o ajudasse a descer os violões que estavam no seu quarto, então nós subimos. Sentei-me em sua cama e ele começou a procurar alguma coisa. Então ele achou um violão dentro do armário e sentou-se com ele ao meu lado. Acho que você já viu ele, é um todo assinado, vi sua assinatura lá.
- Ahã, ele levou para o estúdio, disse que era seu violão de estimação.
- Então, aí ele pediu para que eu assinasse e me entregou uma caneta. Assinei na mão e ele agradeceu, colocando o violão de lado. Então ele ficou me olhando, sem dizer nada. E eu ficava pensando "e aí, , ou caga ou sai da moita!". Mas depois de algum tempo, fiquei com vergonha de ficar olhando pra cara dele com cara de idiota e abaixei o rosto. Ele é tão lindo, pensei que fosse fazer alguma besteira se continuasse olhando pra ele...
"Sei muito bem como é isso..." pensei, mas permaneci calada, escutando o resto da história.
- Aí eu pensei que ele fosse levantar, contar alguma piada e descer pra encher a cara, mas ele só inclinou a cabeça e me beijou! Do nada! Foi tão fofo, !
- Ooooown, que gay! - exclamei, e ela riu. - Mas e depois? Ele desceu e ficou longe de você ou vocês ficaram se amando?
- A gente ainda ficou um bom tempo lá em cima. Metade do tempo se beijando e a outra metade conversando. Aí quando resolvemos descer, ele pegou minha mão e nós fomos até a piscina. As pessoas ficaram olhando, principalmente aqueles amigos idiotas deles, o Peter, e a Hayley, aqueles idiotas, mas ele não soltou e ficou segurando minha mão! Então a , que passou o churrasco inteiro se escondendo do , me chamou para ir embora. Aí ele me deu um selinho na frente de todo mundo e disse que ligava hoje.
- E ele ligou?
- Não, mas provavelmente ele está dormindo. - ela suspirou. - Mas me conta, o que aconteceu ontem? tentou me explicar, mas ele estava brincando de virar tequilas e não estava no seu estado normal...
Relatei o que havia acontecido na noite anterior, sem tirar nem por, e ouviu tudo com atenção. Quando acabei, ela abriu a boca para comentar, mas meu celular gritando Feel Good Drag do Anberlin a atrapalhou. Fiz sinal para que ela esperasse e atendi, me arrependendo amargamente disso.
- Alô?
- ? - minha mãe chamou do outro lado.
- Oi, mãe. - respondi, fazendo uma careta.
- Eu estou indo para Londres, devo chegar em meia hora, estou indo com umas amigas, será que você poderia nos encontrar para almoçarmos juntas no Ritz?
- Claro. - respondi, fingindo que dava um tiro na cabeça, fazendo rir.
- E como andam seus planos de arranjar um par para o baile de inverno? - ela perguntou, e por um instante estremeci. Mas me lembrei que não precisava mais me preocupar com isso.
- Já arranjei um par, mamãe. - comentei, satisfeita.
- Que ótimo! Qual seu nome?
- . - respondi, e riu.
- ? Da contabilidade ? - ela perguntou, surpresa.
- Sim. - respondi, me sentindo superior.
- Que bom! Então traga-o hoje para nosso almoço, ok?
- Mamãe, hoje não va... - comecei, mas ela me interrompeu.
- Beijos. - ela mandou, antes de desligar.
Droga, eu tinha que ter a boca do tamanho de um bueiro?
Domingo, dia 8 de Novembro, 12:03, carro.
:
Bom, trato é trato, certo? Ela estava fazendo minha banda começar a tocar nas rádios, conquistar algumas fãs e provavelmente colocaria 200 pessoas num show e salvaria minha vida. Então não custava nada eu me enfiar numa camisa pólo, jeans normais, esconder a samba canção e usar um sapatênis.
Bom, não muito.
Eu estava meio escondido, esperando ela sair de casa. Combinamos que eu a esperaria no final da rua, e era o que eu estava fazendo. Fumava um cigarro atrás do outro, pois não me sentiria confortável naquela situação. Agiria como seu namorado, pois estava no "contrato", mas não sei se aguentaria só fingir.
Avistei-a pelo retrovisor. Usava o vestido xadrez rosa claro, marrom e branco, um colar de pérolas branco com um lacinho na ponta e uma sapatilha perolada, roupa que eu a havia instruído a usar. Estava com uns óculos de sol branco e andava olhando para os lados, provavelmente com medo de que o pai a visse entrar em meu carro. Assim que entrou, pegou um cigarro do meu maço e acendeu.
- Além de motorista e namorado agora eu sou fornecedor de cigarro?
- Não deu pra pegar o meu em casa. - ela deu de ombros, ligando o rádio. Parecia estressada. - Vamos?
- Sim, madame. - fiz uma mesura. - Aonde exatamente nós vamos?
- Ritz.
- Beleza, comida boa e de graça. - brinquei, dando partida. ficou remexendo nos meus CD's até que encontrou um Riot! e colocou pra tocar. Ficou balançando a cabeça no ritmo, cantarolando junto.
Fui devagar, pro cheiro do cigarro sair. Percebi que ela havia tirado o piercing do nariz e o do freio da língua, e seus dentes estavam mais brancos que o normal. Ela cheirava a algum perfume caro e suas unhas estavam pintadas de branco. Porcamente, mas estavam.
- Quem pintou suas unhas? - perguntei, me segurando para não rir.
- Sue. - ela deu de ombros. - Acho que a barriga atrapalhou um pouco.
Nos olhamos, sérios. Depois caímos na risada.
Chegamos ao Ritz e ela saiu do carro antes mesmo que eu pudesse pensar em ajudá-la. Entreguei as chaves do carro para o manobrista e fiquei atrás dela, que discava o número do celular de sua mãe. Trocou algumas palavras com ela e desligou, colocando o celular dentro de uma bolsinha de mão branca. Então pegou minha mão como se fôssemos namorados e me arrastou para dentro do restaurante. Não reparou que eu havia ficado meio pasmo com aquela atitude e me arrastou para uma mesa em que três mulheres de uns 40 anos conversavam.
parou em frente a mais perua delas. Ela usava um vestido longo estampado, brincos de pérola e uns óculos estilo gatinha vermelho. Era loira e tinha pelo menos quinze aplicações de botox. Mas fora isso era idêntica a .
- Oi, mamãe. - ela disse, contrariada.
- , você está atrasada. - ela comentou, seca. Depois colocou os olhos ferinos em cima de mim. - E você deve ser !
- Sim, Sra. Prazer em conhecê-la! - estendi a mão. Ela me cumprimentou. Depois repeti o gesto com suas amigas.
Eu havia nascido na burguesia. Sabia muito bem como me portar com senhoras malucas que dedicavam a vida inteira aos maridos bêbados e a projetos de caridade hipócritas.
- Sem essa de senhora, pode me chamar de Maryah! - ela exclamou, chamando o garçom, que correu até a mesa e puxou duas cadeiras ao seu lado.
Sentei-me no meio de Maryah e , que parecia extremamente desconfortável com tudo aquilo. Eu, no meio delas, só queria rir. Quando eu pensei que estaria fingindo ser namorado de alguém? Era uma situação cômica.
- Mas conte-me, , há quanto tempo vocês estão juntos? - uma das amigas da mãe de perguntou.
Olhei para , sorrindo como um anjinho. Ela fez que não discretamente com a cabeça, sorrindo amarelo para mim, mas minha língua estava formigando.
- Tudo começou no campo de golfe...
Aaah, aquele seria um ótimo almoço.
Domingo, dia 8 de Novembro, 13:13, parque Cloverfield.
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- Você é tão babaca, mas tão babaca, que eu não sei como minha mãe caiu na sua conversa... - eu disse, e riu, lambendo meu sorvete de flocos. - Desde quando eu jogo golfe?
- Desde quando você descobriu sua paixão pelo esporte! - ele comentou, e foi minha vez de rir.
Nós havíamos acabado de sair do almoço com minha mãe - que estava perdidamente apaixonada pelo - e estávamos sentados embaixo da sombra de uma árvore gigante, no meu parque favorito de Londres. havia comprado uma casquinha para nós dois, e estava comendo o resto da minha.
O negócio foi que inventou uma história ridícula sobre como nos conhecemos - eu me machuquei jogando golfe e ele estava no campo, me levou para o ambulatório e no dia seguindo me levou para jantar e me deu rosas vermelhas -, e eu fiquei o almoço inteiro beliscando ele por debaixo da mesa, me segurando para não rir. Mas minha mãe, cega por toda a vantagem que contava, achou a coisa mais fofa do universo. E eu pude sentir a inveja nas feições de suas amigas, e quanto mais suas amigas tinham inveja dela, mas ela se sentia superior.
sacou muito bem minha mãe. Mais do que eu mesma, em 17 anos.
Que grande ironia do destino...
- Mas e aí, pronto para encontrar seu pai amanhã? - perguntei, e fez uma careta.
- Ainda nem contei pra ele... Aliás, vou fazer isso hoje à noite. Você miou meu role, viu ... Meu pai vai comer meu toba! - ele suspirou.
- Quem mandou me tratar feito cocô. - dei de ombros. - Mereceu.
- É, eu sei... Aqui se faz, aqui se paga. Só queria ver quais vão ser os comentários sobre o fato de eu supostamente estar bisbilhotando Alana. - ele riu, rouco, e olhou pra mim. - Jogada de mestre em ?
- . - corrigi.
Paramos de conversar um pouco e olhamos para o horizonte.
Estávamos bem novamente. Éramos amigos novamente.
Então porque eu tinha a sensação de que algo estava faltando?
- Acabou o assunto? - ele perguntou, me tirando dos pensamentos.
- Provavelmente. - respondi.
- Ótimo, agora eu já posso partir pro ataque. - ele disse, me abraçando pelos ombros e jogando seu peso em cima de mim, me tombando para o lado. Comecei a rir, e empurrar ele pra longe, segurando seu rosto entre as mãos.
Ele dizia coisas como "agora você vai ver quem é o idiota" e eu só conseguia rir e virar meu rosto de um lado para o outro, evitando que ele me lambesse. Depois de algum tempo de luta, desisti, soltando os braços ao longo do corpo. deitou-se ao meu lado, rindo e arfando como eu.
- Idiota! - exclamei.
- Olha que eu faço de novo, eim!? - ele ameaçou, apertando meu braço.
- Desculpa, desculpa. - pedi, e ele o soltou. Depois virou-se de lado, e eu fiz o mesmo.
- Oi. - ele disse, todo cheio de grama pela roupa.
- Oi. - respondi, sorrindo.
- Posso... - ele parou, mordendo o lábio inferior. Então colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, deixando a mão na minha nuca. - Posso terminar o que começamos ontem?
- Pode. - respondi, hipnotizada pelos seus olhos .
Ele se aproximou, primeiro roçando seu nariz no meu, depois encostando seus lábios no meu.
Coloquei minhas mãos entre seu cabelo e relaxei.
O que estava acontecendo entre nós dois?
Capítulo 12 - Discussão de Relacionamento.
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 7:13, sala de espera da diretoria.
:
O tique-taque do relógio era insuportável. O cheiro de mofo do banco de couro também. As paredes brancas estavam me cegando. O maço de cigarros do meu bolso parecia gritar "me fume! me fume!". Eu estava ali há mais ou menos quinze minutos, mas meu relógio biológico acusava alguns meses de diferença. Sabia que a qualquer momento a porta de madeira iria se abrir, e meu pai sairia de lá, sorrindo audaciosamente, com a diretora atrás de si, me pedindo para limpar o armário, pois minhas transferência para um colégio interno na Suécia estava assinada.
Limpei minhas mãos suadas na calça jeans.
Maldita Alana.
Olhei em volta, procurando algo para me distrair. Só encontrei a secretária de novecentos e quarenta e sete anos da diretora jogando paciência no computador e algumas revistinhas de orientação vocacional em cima da mesinha de centro da sala de espera. Pesquei uma ao acaso e comecei a folheá-la. "Administração de Empresas" era a primeira profissão.
Maldita administração de empresas!
Joguei a revistinha em cima da mesa, passando os dedos pelo cabelo.
- ... bom, então acho que temos um acordo! - a voz grave do meu pai atravessou meus tímpanos. Levantei os olhos dos meus tênis e o encontrei parado à porta, chacoalhando a mão da diretora, que sorria amigavelmente para ele.
"Finalmente!" pensei, observando a conversa calado.
- Sim, sr. , e espero que o senhor converse com o seu filho. - Ela olhou para mim, com a sobrancelha levantada. - O tem muito potencial, e espero que ele não seja desperdiçado.
- Não será. - ele prometeu, olhando para mim com nada mais do que indiferença. - Vamos?
- Sim, querido papai. - respondi, me levantando e saindo da sala atrás dele.
Ao sair no corredor, encontrei minha mãe falando ao celular. estava ao seu lado, entediada, e sorriu ao me ver.
- Vamos, Anabelle. - meu pai ordenou, e ela obedeceu, indo atrás dele. Fui atrás dos dois com nos meus calcanhares.
- O que você está fazendo aqui? - sussurrei para ela.
- Eu não fui suspensa, então, teoricamente, eu estava na aula. - ela apontou para nossa mãe. - Ela me pegou saindo pelo portão principal.
- Boa, maninha, é assim que se faz! - murmurei, sarcástico.
- Aprendi com o melhor. - ela sussurrou, pisando no meu pé.
Fui atrás dos meus pais até o portão principal. Chegando lá, despediu-se e voltou para a aula. Então o rascunho do capeta, vulgo meu pai, me olhou de cima a baixo. Eu estava sem o uniforme, com uma calça jeans surrada, uma camiseta branca furada e meu Adidas com listras pretas. Ele fechou a cara o máximo que conseguiu, dando a ligeira impressão de que era um limão.
- Fiz um acordo com sua diretora. - ele começou, e eu virei os olhos. - Mais alguma gracinha e você está expulso. Ela não vai nem mandar me chamar. Só vai limpar seu armário e te impedir de entrar de novo no prédio. Você está ouvindo?
- Não sou surdo. - respondi.
- Ótimo. Tente não estragar as coisas como sempre. Essa é sua última chance. - ele me entregou um papel e puxou minha mãe pelo braço, que me mandou um beijo no ar e entrou no carro. Mas antes dele entrar, terminou sua sentença: - Semana que vem eu volto, e se perceber que todo o meu investimento foi em vão, você vai para Estocolmo comigo.
- Sim, senhor! - bati continência e ele entrou no carro, arrancando e virando a esquina.
Suspirei de alívio.
Esperei mais alguns segundos e puxei o maço do meu bolso. Acendi um cigarro trêmulo e sentei-me no meio fio. Pelo menos não estava indo embora para a Suécia com eles naquele momento.
Peguei o celular no bolso e digitei a frase "E já se foi o disco-voador!". Enviei e coloquei-o de volta no bolso da calça.
Assim que ela lesse, entenderia.
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 7:17, primeira aula.
Girls:
Senti minha bunda vibrar. "Ui, vibrou!" murmurei, fazendo , que copiava a matéria da lousa ao meu lado, rir. Larguei a caneta em cima do fichário e peguei o celular no bolso da calça do uniforme, abrindo a mensagem de . "E já se foi o disco-voador!" Sorri fraquinho, digitando a resposta. "Então eu vou poder assistir Contatos de Quarto Grau?" perguntou quem era, sem tirar os olhos da lousa, e eu respondi vagamente que era Sue. Ela não se importou com minha resposta monossilábica e deu de ombros, continuando a copiar a matéria. Do seu lado, também copiava a matéria, e atrás de , encarava o chão, com o olhar triste.
não havia ligado.
Arranquei um pedacinho de folha e escrevi "Não fica com essa carinha, vai ver ele estava ocupado!" Joguei na carteira de , que leu o papel e sorriu fraquinho. Escreveu no verso e jogou de volta na minha carteira. "Ou talvez eu fui só um beijo e nada mais..."
Entortei a boca para ela, que fez uma careta e nós duas rimos.
Meu celular vibrou de novo. Novamente uma mensagem de . "Claro que vai, zinha. Por falar nisso, a sessão é às 14h ou às 15h? Sou péssimo com números!"
"Ai, que idiota!" pensei, me segurando para não rir.
"zinha é o seu orifício anal. Às 14h em frente ao Burguer King. Não deleta essa mensagem, eu tenho certeza que você vai esquecer! Agora xiu que eu quero assistir aula sr. Suspenso."
Guardei o celular na minha bunda e voltei a copiar a matéria de geografia, mas por mais que eu tentasse me concentrar, só conseguia me lembrar da tarde anterior. A boca dele na minha, seus dedos afagando minha nuca, sua risada tão perto do meu ouvido... Eu havia passado uma tarde perfeita ao seu lado!
Depois do beijo no parque - que foi demorado e gostoso -, eu fiquei meio atrapalhada, sem saber direito o que fazer, então ele me levou a um pequeno café em um deck artificial do outro lado da cidade e não me forçou a nada. Nós só ficamos conversando um tempão, nos conhecendo melhor, e às 21h eu estava no meu quarto, sã e salva. Mas antes de sair do carro, dei um selinho nele, sentindo todo o meu corpo estremecer. Não era do meu feitio fazer aquilo, mas eu queria beijá-lo mais que tudo no mundo!
Assim que havia fechado a porta do meu quarto, ele me ligou, e perguntou se eu queria ir ao cinema com ele no dia seguinte. Aceitei, e ele agradeceu. Não sabia que poderia ser tão amável... Ele estava se mostrando uma pessoa bem diferente da sua fama, algo que eu pensei que só acontecesse em filmes.
Não sabia onde estava me metendo, disso eu tinha certeza. Eu sabia muito bem equações de velocidade, matrizes e meiose, mas não sabia nem um pouco sobre o funcionamento de um "relacionamento", se é que eu posso chamar assim. Mas, bom, nada como se aventurar em coisas desconhecidas uma vez na vida!
Olhei de novo para , que olhava fixamente para o chão.
Mas, antes de pensar em mim, tinha algumas coisas a resolver com .
Ele iria me pagar!
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 8:22, vagando pelo mundo.
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Sabe quando você precisa espairecer, mas não tem nenhum lugar específico para fazê-lo, então começa a andar pela vida e de repente se encontra em um lugar totalmente desconhecido e simplesmente não está nem aí?
Eu estava passando por isso, sentado em um banco de madeira em uma pista de cooper random. A única pergunta sem resposta que eu ainda tinha era a que mais me irritava: O que estava realmente acontecendo entre eu e ?
Recapitulando: Eu tinha minha vidinha, com meus amiguinhos, tomando minha cervejinha e tocando na minha bandinha. Então meu pai-trocinador resolveu atravessar minha rotina e cortar minhas asas. Tive que procurar alguém pra salvar minha vida, e sugeriu uma punk esquisita que estava atravessando pelo pátio. Fui atrás dela e... Recebi um chute no estômago. Depois disso, fui mais uma vez forçado a procurá-la, e ela finalmente aceitou. Aí... As coisas começaram a sair do controle.
Foi ela sem roupa, foi ela bêbada, foi ela curtir The Clash, foi ela ter uma Les Paul... Foi ela ser ela. Ela... Me dominou.
Ela atravessou minha vida de um jeito bizarro, me conquistou com seu jeito bizarro e agora nós estávamos num relacionamento bizarro.
Bizarro...
Enquanto pensava em tudo isso, dobrava e desdobrava o papel em minha mão. Eu estava sendo vigiado, e aquele papel era mais do que uma prova de que mais uma merda, por mais simples que fosse, e eu estava fora da escola.
Deitei-me no banco, cansado.
Minhas pálpebras estavam pesadas... Acordada muito cedo para a "reunião".
Talvez se eu fechasse os olhos só um pouquinho...
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 10:12, intervalo do colégio Mackenzie.
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estava conversando de canto com Hayley. Não a Williams, Hayley sua amiga. E ela parecia bem à vontade, com uma mão em sua coxa e a outra envolvendo seus ombros.
Os dois estavam muito perto um do outro.
Muito perto...
Apertei meus olhos de raiva e agradeci aos céus por já estar no outro pátio.
Se eu fosse uma garotinha com medo do que os outros pensariam de mim, daria meia-volta e diria à esquecer porque ele não era bom o suficiente para ela.
Mas eu não era uma garotinha com medo do que os outros pensariam de mim.
Caminhei tranquilamente até o banco em que os dois estavam de gracinha. Ao perceber minha aproximação, se arrastou um pouco para o lado e abriu um sorriso encantador para mim.
- ! - ele exclamou, e Hayley virou os olhos.
- ! - fiz a mesma voz de felicidade, sentando-me ao lado dele. - Posso falar com você?
- Agora? - ele perguntou, olhando para Hayley com o canto dos olhos.
- É, agora. - respondi, sorrindo sem mostrar os dentes. - De preferência.
- Hm... Hayley, a gente continua depois, pode ser? - ele perguntou, segurando as mãos dela. Hayley olhou para com sangue nos olhos mas obedeceu e se levantou, me ignorando completamente. - Pronto. Pode falar. É alguma coisa com o McFLY?
- Você sabe quais são os significados da palavra canalha? - perguntei, e ele levantou a sobrancelha, surpreso. - Se eu não me engano, de acordo com o dicionário, canalha significa a plebe mais vil, gente desprezível, pessoa sem moral, desonesta, patife, infame, velhaco.
- Não estou entendendo. O que você quer dizer com isso?
- . - respondi, seca.
- O que tem ela? - ele perguntou, se fazendo de inocente.
- , acho que você ainda não entendeu. - suspirei. - A não é o tipo de menina que você está acostumado. - apontei com a cabeça para onde agora Hayley estava com Lallie, conversando com um grupo de jogadores de basquete. - Ela não está nem aí se o cara que ficou na noite passada não ligou. Ela raramente se envolve com alguém, e quando isso acontece, é porque se sentiu confortável e segura o suficiente. Você passou essa segurança pra ela, mas, aparentemente, você é daquele tipo que passa esse tipo de segurança para todo mundo. Então só me faça um favor, ok? Abre o jogo com ela, diz que ela entendeu as coisas errado, e seja homem de assumir seus erros.
- , você entendeu errado, eu... - ele tentou se justificar, mas eu o interrompi, levantando do banco.
- Eu não entendi e nem quero entender, só não quero ver minha amiga magoada. E não se esqueça que vocês têm ensaio amanhã.
Caminhei para longe dele, satisfeita com o recado dado.
Comigo era assim, no bico da chuteira!
Eu não acredito que eu disse isso...
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 14:32, shopping.
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- Ah, qual é, não atrasei tanto assim! - exclamei, ao avistar apoiada na parede ao lado do Burguer King, me olhando com instinto assassino e apontando para o relógio. - Só... Meia hora!
- O que aconteceu? Furou o pneu do carro? - ela perguntou, fazendo cara de quem não estava caindo na minha conversa.
- Na verdade eu meio que... Dormi. - disse, envergonhado.
Contei toda a história, de ter saído para pensar, deitar no banco e adormecer, e no final ela já estava rindo sem parar.
- Dormiu no banco da praça? Estilo seu guarda eu não sou vagabundo? - perguntou, rindo.
- Foi mal... Mas pelo menos eu não esqueci! - exclamei, segurando sua mão. Ela se contraiu um pouquinho, e eu dei dois passos pra frente, tentando fazer com que ela se sentisse confortável. - Nunca que eu esqueceria. Você é meio vingativa.
- Ah, nem tanto assim! - ela disse, rindo.
Olhei para ela de cima a baixo. Usava um Adidas preto e cinza, uma calça jeans skinny, uma regata preta e o cabelo solto. Estava no estilo dela, e eu percebi que há alguns dias atrás, quando havia dito que me apaixonaria por ela quando a transformasse em uma bonequinha, eu estava errado. Eu me apaixonaria por ela quando conhecesse sua personalidade.
Ela era uma bonequinha do mal.
- Vamos comprar as entradas? - sugeri, e nós dois fomos até a bilheteria. Minha mão ainda estava entrelaçada com a dela, e nós dois não sabíamos exatamente o que fazer.
Compramos para a próxima sessão, das 15h15, pois havíamos perdido a das 14h, e descemos para fumar. Ficamos sentados no mesmo banco em que algumas meninas pediram autógrafo para mim, discutindo sobre quem era melhor, Plus 44 ou Angels and Airwaves. Chegamos à conclusão, depois de dois cigarros e muitos argumentos, de que o Blink era e seria sempre melhor. Depois começamos a discutir sobre qual série era melhor, Fringe ou Lost, e concluímos que Life on Mars era a melhor série de todos os tempos, bem melhor que essas séries americanas enlatadas.
Embora existisse uma versão de Life On Mars norte-americana. Mas ela nunca chegaria aos pés da boa e velha versão britânica.
- São dez pras três, será que já pode entrar? - ela perguntou, depois de alguns segundos de silêncio.
- Acho que só quando faltam quinze minutos pro filme começar. - respondi. - Você quer tanto assim ficar no escuro comigo? Eu sou tão feio assim?
- E mais uma vez, pensa que o mundo gira em torno do seu umbigo! - ela brincou, imitando voz de narrador.
- E não gira? - perguntei, fazendo-a rir.
- Bom, do jeito que aquela gravadora me enche o saco, realmente minha vida está girando em torno da sua. - ela me olhou, sorrindo, e me encontrou com a sobrancelha arqueada. - Através do McFLY, claro!
- Ahã. - balancei a cabeça, concordando.
- Por que essa ironia? - ela perguntou, apertando os olhos.
- Nada... Nada... - respondi, dando de ombros.
- O que você está querendo dizer, eim, seu idiota!? - ela exclamou, me dando dois tapas no ombro.
- Você é muito desconfiada, ! - eu ri, enquanto tentava me defender dos tapas. - Não estou querendo dizer nada!
- Hunf. - ela murchou, parando de me bater. - Bom mesmo. - ameaçou, fazendo um bico engraçado.
- Mas que você nega que não vive sem mim, nega... - sussurrei, fingindo que falava comigo mesmo, mas falando alto o suficiente para que ela voltasse a me bater.
Deixei que ela me atingisse por alguns segundos, como se estivesse sem defesas, mas depois peguei seus dois braços com força e de surpresa, e a puxei para mais perto de mim. Ela soltou um gritinho e fechou os olhos, apertados.
- Calma, linda, eu não vou bater em você. - comentei, achando graça da situação. - Pode abrir os olhos.
- Se bater leva 50 mil voltz no pescoço. - ela murmurou, abrindo os olhos devagar. - Não me subestime.
- Nunca. - eu disse, aproximando nossos rostos.
Eu queria mais uma vez beijá-la. Queria mais uma vez sentir seu gosto. Nunca havia sentido tanta vontade de beijar alguém como estava sentindo naquele momento. Pensei que fosse ser como todas as outras, que a vontade de ficar ia diminuindo, mas toda vez que encontrava tinha mais e mais vontade de beijá-la e ficar com ela!
Respirei fundo, olhando seus olhos bem de perto. Ela deixou a respiração vacilar e mordeu o lábio inferior.
Quando dei por mim, já estava com os braços envolvendo sua cintura e sentia suas mãos se enrolarem no meu cabelo.
Ficamos algum tempo nos beijando, quando ela separou nossas bocas e sussurrou:
- O filme vai começar.
Ri baixinho e apoiei minha cabeça em seu ombro.
- Você quer mesmo assistir ao filme? - perguntei, distribuindo beijos pelo seu pescoço.
Seu pescoço cheirava a tangerina.
Eu amava tangerina.
- Quero. - ela riu, provavelmente com cócegas.
- Mesmo? - insisti, subindo os beijos para a almofada da orelha.
- Corujas que viram ET's? Claro que eu quero! - ela exclamou, e eu encostei minha testa na dela, fazendo beicinho. - Você não vai me convencer.
- Nem se eu cantar pra você? - perguntei, procurando na minha memória alguma música que tivesse a frase "prefiro ficar te beijando do que ir ao cinema assistir ET's que na verdade são corujas".
- Não! E vamos logo se não a gente vai perder a sessão. De novo. - ela me fuzilou com os olhos.
- Merda... - reclamei, sendo guinchado para dentro do shopping. - Que tipo de garota que gosta de ET's?
- E dinossauros. - ela completou. - Sou do tipo de garota que gosta de ET's E dinossauros.
- Meu Deus, aonde eu fui amarrar meu burro? - perguntei, e ela riu meio constrangida.
Chegamos ao cinema e nos sentamos na última fileira. Assim que encostamos nossas bundas geladas nas poltronas, agarrei-a e recomecei a beijá-la loucamente, estilo crazy life. Ouvi os estalos de que o filme ia começar e ela não deu sinal de que ia parar tão cedo de me beijar. Estava até esperançoso de que todo aquele papo de amar ET's e dinossauros fosse só uma desculpa para ela me agarrar no escuro do cinema, mas assim que as primeiras palavras do primeiro trailer ecoaram pelo cinema, ela separou mais uma vez nossos rostos e fixou seus lindos olhos de gatinha na tela do cinema.
Passei o filme inteiro tomando sustos com corujas e tentando chamar sua atenção, mas ela só ria e de vez em quando dava beijinhos no topo da minha cabeça, como se eu fosse uma criança assustada.
Não bastasse ela se importar mais com, sei lá, um cachorro cagando, agora eu teria que adicionar à minha lista de disputa os malditos ET's.
E os malditos dinossauros.
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 19:19, meu quarto.
Girls:
- Estamos no meio de uma crise! - exclamou assim que entrou em meu quarto. , que vinha atrás, fechou a porta com uma careta, como se soubesse que aquilo ia ficar feio.
- Espero que isso não seja mais uma de suas crises existenciais, porque você me tirou do aconchego do lar. - comentou, bocejando.
- Você - apontou para mim, ignorando o comentário. - não confia mais em nós. Você - o dedo acusatório pousou em . - é uma mentirosa e essa daqui - ela segurou pelos ombros. - é uma medrosa.
Olhei curiosa para e . riu nervosa e praticamente rosnou.
Eu não estava entendendo nada. Depois de assistir ao filme, fiquei andando pelo shopping com , até que nós cansamos e fomos fumar um cigarro. Ficamos um bom tempo conversando e quando vi já eram 18:45 e eu pedi para que ele me levasse para casa. Ele aceitou e me deixou na esquina, se despedindo com um beijo hollywoodiano, que me deixou meio bamba. Mas assim que pisei meus pésinhos para fora de seu carro, me ligou e disse que queria conversar comigo e com as meninas. Combinamos de nos encontrar em minha casa e dois minutos depois, apareceu com cara de zumbi.
- E você é louca! Qual é? O que nós fizemos pra você? - exclamou, ofendida.
- Sou louca, mas pelo menos não minto sobre meus sentimentos para minhas melhores amigas! - rebateu.
- Se minhas amigas não estivessem tão ocupadas com elas mesmas eu não mentiria! - ela gritou, visivelmente alterada.
Olhei para , assustada.
- O que diabos está acontecendo aqui? - atravessei a briga com a voz autoritária, antes que elas voassem no pescoço uma da outra. - Vocês podem me explicar? Porque até hoje de manhã vocês eram normais!
- A tá curtindo o , a não olha pra cara do mesmo ele perseguindo ela pela escola e você, , está ficando com e aparentemente "esqueceu" de nos contar.
- Eu não estou "curtindo" ninguém! - protestou.
- Mentirosa! Eu vejo como você olha pra ele! Eu vi vocês conversando no bebedouro como dois bons e velhos amigos!
- Eu não estou fugindo de ninguém... - falou baixinho, mais para ela mesmo do que para nós.
- Está sim, , e você sabe disso. - suspirou. - Qual é pessoal, o que aconteceu entre a gente? Porque tantas mentiras?
- Ah, qual é, como se você fosse a senhora transparência! - bufou.
Então as três entraram numa briguinha infantil regada de "pelo menos eu" e "nossa, cala boca!", e eu continuei estática, sentada na minha cama, olhando fixamente para o chão.
Onde eu estava que não percebera que minhas amigas estavam ficando loucas por causa de garotos idiotas?
Ah, claro. Eu estava ocupada demais ficando louca por causa do mais idiota dos idiotas.
Levantei os olhos, observando minhas amigas brigarem entre si.
Aquilo não estava certo.
- EU POSSO FALAR? - gritei, assustando as três, que se viraram instantaneamente para mim. - É verdade, eu beijei o . Mais de uma vez. E é verdade, eu não contei pra vocês. Mas não foi por que eu não confio nas minhas melhores amigas, é só que... - suspirei. Se tinha alguém com quem eu pudesse ser sincera, esse alguém eram minhas amigas. - Eu estava com medo de ouvir o que eu não queria ouvir. "Você não pode gostar dele, ele é um canalha galinha!", porque eu fico me dizendo isso todo segundo, e não preciso de mais três pessoas me dizendo isso... - parei para respirar, encontrando-as de boca aberta.
- Você... Gosta dele? - enfatizou a palavra "gosta".
- Gosto. - admiti, deixando meus ombros caírem. De que adiantava mentir? - Foi mal não ter contando isso antes, mas as coisas aconteceram muito rápido, e eu não sei o que fazer com tudo isso! Eu... Eu me senti melhor desabafando.
Joguei-me de costas na cama, sendo vigiada pelos seus olhares pasmos.
Silêncio.
Era tão estranho assim eu gostar de ?
Bom, estranho era, principalmente por eu odiá-lo com todas as minhas forças.
Antes de conhecê-lo.
Mais silêncio.
Aquilo estava ficando chato.
- Acho que... - cortou o vazio. - Acho que eu posso mesmo estar "curtindo" o . - ela admitiu, com a cara fechada.
- Eu gostaria de beijar novamente, só para ver como é... - confessou, colocando o dedo na boca para roer as unhas.
- E o me ligou hoje. - suspirou. Nós três olhamos para ela na expectativa. - Ele disse que gostou muito de ficar comigo, mas não estava a fim de algo mais sério...
Ela sorriu fraquinho, seus olhos enchendo-se de lágrimas.
- É só que... Eu gosto tanto dele!
Então ela caiu no choro, enterrando as mãos no rosto.
Senti meu coração se apertar. Levantei-me na mesma hora e a abracei apertado, sendo seguida por e .
Nós não falamos nada.
Estávamos todas em crise.
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 19:19, quintal.
Guys:
- Mas o que você fez que deixou ele tão bravo? - perguntei, parando um pouco de rir.
- Eu mandei ele tomar no cu! - disse, sincero. - O filho da puta disse que eu só ia jogar quando aprendesse, aí eu mandei ele tomar no cu e fazer uma academia pra perder a barriga, porque professor de educação física gordo não era muito normal.
- Dude, ele saiu chorando do ginásio! - exclamou, se rolando de rir. - Eu juro!
- Velho escroto... - bufou. - Suspensão de dois dias por mandar alguém tomar no cu? Escroto...
- Não acredito que perdi isso... - suspirei, tragando meu cigarro.
- Perdeu a suspensão de e as muitas piadas sobre sua possível paixão por Alana. - tentou me consolar de um jeito meio cuzão.
- Por falar nisso, aonde você foi hoje à tarde? - perguntou.
- Fui ao cinema com a .
- Legal. Já estão de boa? - quis saber. - Porque a me ignora desde aquele fatídico dia em que nós nos beijamos e não nos lembramos disso. - ele sorriu amargurado.
- Claro, você corre atrás dela feito um cachorrinho! - riu. - Eu também te ignoraria.
- Falou o senhor "legal o seu fichário". - imitou o comentário que havia feito para mais cedo.
Ficamos mais um tempo conversando sobre nada quando atendeu o celular e foi até um canto excluído falar com alguém. Quando voltou, ficamos enchendo o saco para saber quem era, e ele finalmente cedeu, explicando quem era e por que estava ligando.
Nossos queixos caíram.
- Hayley? Ela quer dar pra você? - exclamou. – Por quê?
- Sei lá, só sei que hoje ela veio "avisar" que os pais iriam viajar e que só voltaria depois de amanhã, se eu não gostaria de passar na casa dela. - comentou, dando de ombros. - Facilitou, perdeu.
- Uou... Essas meninas não perdem tempo, não é? - riu. - Foi só você ficar com a que ela resolveu liberar o badaró!
Olhei para , rindo do comentário de , e observei uma sombra atravessar seus olhos. Sua expressão mudara, mesmo que ele ainda estivesse com o sorriso malicioso no rosto, e nós percebemos que algo estava errado, mas ficamos quietos.
É, maluco, homens também amam.
Capítulo 13 - Se você magoar minha filha eu corto seu pipizinho fora!
Segunda-feira, dia 9 de Novembro, 21:03, meu quarto.
:
Ok... O que diabos acabara de acontecer? Já não bastavam minhas amigas, agora meu pai também estava usando drogas? Porque depois daquela conversa eu tinha quase certeza de que encontraria uma seringa na sua gaveta de cuecas. Ou talvez um pacotinho de seda.
Se você não está entendendo nada, eu explico melhor: Logo depois que contou o que havia acontecido, nós combinamos de nos encontrar no dia seguinte para conversar melhor. Então elas foram embora, eu atualizei as coisas do McFLY na Internet, fiz minhas tarefas e me joguei nos cobertores, com o terceiro livro da série Mediadora para ler. Estava lendo tranquila quando vejo pelo canto dos olhos um vulto na minha porta. Levantei os olhos e encontrei meu pai me encarando, meio pálido.
- Pai? Aconteceu alguma coisa? - perguntei, porque ele não estava com a sua cara de trabalhei-o-dia-todo de sempre, e sim com uma expressão de medo. - A Sue está bem?
- A Sue está ótima. - ele respondeu, um tanto quanto esquisito. - Mas tem algo de errado acontecendo sim. Entre nós dois.
Ajeitei-me na cama, fechando o livro e colocando-o de lado. Meu pai entrou no quarto e fechou a porta, sentando-se na cadeira do computador e olhando em volta, com cara de reprovação para todos os meus pôsteres de bandas e filmes. Depois fixou os olhos em mim e sorriu fraquinho.
- Sua mãe acabou de me ligar. Disse que você está namorando.
Engasguei, colocando a mão no pescoço. Tive um acesso de tosse e fiquei uns bons dois minutos tossindo sem parar. Sue entrou no quarto, preenchendo todo o lugar com a sua barriga, e perguntou se estava tudo bem. Meu pai disse que sim, ainda sério, e ela foi embora.
Depois que o acesso passou, engoli em seco e tive que encará-lo.
Eu pretendia contar pra ele da minha farsa. Quando ainda era uma farsa... Mas naquele momento eu não tinha certeza sobre o que estava acontecendo entre e eu, e eu não podia dizer para ele "ah pai, relaxa na bolacha, ele é só uma fachada", e depois levá-lo em casa e dizer "ei pai, lembra da minha fachada?".
... Sempre me metendo em problemas...
- É verdade. - murmurei, envergonhada.
- E por que não me contou antes?
- Porque, não sei se vai se lembrar, mas você não estava falando comigo. - me segurei para não terminar com um "dã!", porque, bom, era óbvio demais.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos.
Meu velho estava ficando velho... E teria um filho! Ou uma filha... Eu teria um irmão ou irmã. Meu Deus... Eu não conseguia nem cuidar de um peixinho, imagina cuidar de um futuro irmão?! Ele provavelmente seria aquele menino de 2 anos que fumava 40 cigarros por dia.
Brincadeira.
Mas com certeza Sue não me deixaria segurá-lo... Ou segurá-la. Bom, tanto faz, por que eu estou falando disso quando deveria estar contando sobre a conversa que tive com meu pai?
- Sim, querida, mas foi você quem voltou bêbada para casa. - ele comentou. - Mas não vamos falar sobre isso agora. Já passou, voltei a ser seu pai. Eu só queria que você tivesse me contado... Quem é esse garoto? O que ele faz da vida?
Engoli mais uma vez em seco. Eu sabia que não mentiria pra ele, pelo menos não agora que havia voltado a falar comigo.
- Bom, acho que você não vai gostar muito de saber... - murmurei.
- Experimente.
- Éaquelegarotoquevocêameaçoudemortenotelefone, . - falei rapidamente, mas ele entendeu muito bem.
Muito bem.
- Aquele que te embebedou? - ele perguntou, gritando. - , pensei que você tivesse alguma coisa nessa sua cabeça oca!
- Ah, pai, para de frescura vai, você sabe muito bem que quando um não quer dois não fazem. Se eu bebi foi por que eu quis. E eu nem sei por que ficou tão bravo! Como se eu nunca tivesse voltado bêbada pra casa... - suspirei.
Meu pai deixou os ombros caírem e suspirou. Ficou um bom tempo em silêncio, olhando para mim. E eu, como sempre uma grosseirona, abaixei os olhos, envergonhada. Mas eu não gostava que ficassem olhando para mim fixamente. Fazia cócegas.
- Não sei. Eu sinto que eu estou perdendo minha menininha... Você está tão grande... E quando seu irmão chegar, ou irmã, eu vou ficar tão preocupado em protegê-lo que talvez possa me esquecer um pouco de você... E isso está me matando por dentro, ...
Então uma lágrima escorreu pela sua bochecha direita.
WTF? O que estava acontecendo? Por que diabos todas as pessoas estavam chorando perto de mim?
Bom, não todas, só e meu pai. Mas por quê?! Será que eles queriam me deixar tão desconfortável assim? Eles ainda não tinham percebido que eu era péssima com sentimentos?
- Pai, não viaja! Como você poderia se esquecer de mim? Você paga minhas contas! - exclamei, e ele riu, passando o dedo pela lágrima. Levantei-me e fui até ele, agachando-me em sua frente. - Para com isso, papai, você sabe que eu vou sempre ser sua menininha! Namorando, não namorando, casada ou lésbica! Você é o melhor pai do mundo!
Levantei-me e fiz uma tremenda força para abraçá-lo. Ele me apertou forte nos braços e eu repousei minha cabeça em seu ombro.
Agora estava tudo bem...
- Gostaria de conhecê-lo direito, . - ele comentou, ainda abraçado comigo.
É, nem tão bem assim...
Terça-feira, dia 10 de Novembro, 13:37, bar.
Guys:
No dia seguinte acordei no susto, com uma bigorna em cima de mim. Semicerrei os olhos e olhei para o relógio no criado-mudo, constatando que ainda eram nove da madrugada. Quem era o filho da puta que estava me pentelhando àquela hora?
A vá! Quem poderia ser?
- Caralho, , para com isso, velho... - exclamei, ainda com os olhos fechados, sentindo um peso imenso nas minhas costas. Meu braço direito já estava ficando dormente.
- Vai, levanta, mocinha, vamos fazer alguma coisa, compor uma música, fumar um cigarro, sei lá, eu só não aguento mais olhar pro teto! - ele pediu, me chacoalhando com seu peso, indo pra frente e pra trás.
- Já sei, vamos brincar de dormir. - eu disse, ainda sem abrir os olhos.
- Nem. - ele descordou, saindo de cima de mim.
Mal pude respirar aliviado quando senti um frio cortante nas minhas pernas. O frio começou a subir e quando abri os olhos vi todas as minhas cobertas no chão.
- Eu te odeio. - murmurei, coçando os olhos e sentando-me só de samba canção na cama. - Muito.
- É, blá blá blá, toma um banho pra gente fazer alguma coisa. - ele ordenou, saindo do quarto com minhas cobertas nos braços.
Maldita suspensão de . Se os professores soubessem o quão pentelho ele era, não davam tantas suspensões assim para ele. Principalmente quando seu colega de casa também estava suspenso.
Primeiro deitei-me de novo na cama, tentando voltar a dormir, mas o frio londrino não me deixou. Então me levantei e fui até o banheiro, ligando a água no mais quente e esperando o banheiro virar uma sauna. Aí tirei a samba canção e entrei embaixo do chuveiro. Tomei um banho demorado, só para irritar , e quando saí não conseguia ver nada dentro do banheiro de tão espessa que estava a nuvem de vapor.
Saí do banheiro, espalhando o vapor quente pelo quarto, e me vesti. Coloquei uma calça jeans escura, uma camiseta preta, uma camisa xadrez de flanela preta e branca de manga cumprida por cima e um blusão preto da Hurley. Enfiei uma touca cinza na cabeça, ainda com o cabelo molhado e calcei meu All Star preto.
Entrei no quarto de e o encontrei jogando Call Of Duty modern warfare 2 no Play 3. Sentei-me ao seu lado e fiquei assistindo ele jogar, até que ele se cansou, salvou o jogo e desligou o videogame.
- E aí, tá a fim de fazer o que? - perguntou, coçando o joelho por cima da calça jeans.
- Sei lá, você me acordou, você sugere. - disse, levantando-me e pegando seu violão em cima da cama.
- Eu tava a fim de esperar os guys sair no campão, aí a gente fica por lá e espera o ensaio começar. Você tá sabendo que tem ensaio hoje, né? - ele perguntou, levantando-se também.
- Sim. Com seu carro ou o meu? - perguntei, já pegando a chave do seu carro. - Com o seu, né? Beleza.
Pegamos os instrumentos e descemos as escadas, passando pela zona de roupas, comidas, copos, latinhas, bitucas de cigarro e tigelas da sala sem ao menos nos importar. Saímos pela porta da garagem, colocamos as coisas no carro, entramos e guiou nos próximos minutos devagar como uma mulherzinha. Chegamos ao campão, um parque aberto em frente à escola, estacionamos o carro e saímos, nos sentando com algumas amigas do primeiro ano que estavam cabulando aula.
Ficamos falando besteira até que o sinal bateu e seus respectivos namorados - e nossos amigos - chegaram. Elas foram embora e nós ligamos para os guys, avisando que estávamos no campão. Passados alguns segundos, eles estavam sentados com a gente, contando sobre o que havia acontecido de legal na escola, ou seja, nada.
Estávamos no meio de uma conversa sobre quem era mais gostosa, Megan Fox ou Angelina Jolie, quando avistou , , e atravessando a rua. Ele assoviou o mais alto que pôde, antes mesmo que pudéssemos impedir, e começou a acenar para elas, que se entreolharam e depois olharam para , que estava séria, quase com cara de choro. Olhei para , e ele olhava para o lado contrário, como se estivesse com vergonha de olhá-las.
- Cara, não acho que seja uma boa id... - comecei a falar, mas já gritava para que elas viessem se sentar com a gente. - eia...
- Por quê? - ele perguntou, confuso, mas elas já se aproximavam, e eu fiz sinal para que ele deixasse para lá.
- Oi, gente. - disse, sentando-se ao meu lado. Não sabia direito o que fazer, porque ainda não havia dito aos guys que nós estávamos meio que juntos - nem para os guys nem para mim mesmo -, mas para não ser cuzão de novo, segurei-a pela cintura, puxando-a para mais perto de mim.
- Oi, zinha. - respondi, sorrindo sem mostrar os dentes para ela, que balançou a cabeça negativamente, rindo.
- Eu já disse pra não...
- ...me chamar assim! - completou sua frase de praxe, e todos nós rimos.
sentou-se entre e , ficando de frente com . sentou-se entre e , com os olhos no chão, e sentou-se entre e , jogando em o chiclete que ele havia pedido.
Todos começaram a conversar - menos - e os alunos da escola começavam a sair, espichando os olhos curiosos para o fato de que eu estava abraçando , a punk nerd esquisita.
Chupem essa manga, filhos da puta! Quem estava vendo Alana pelada mesmo?
Dei um beijo na bochecha de quando vi que um grupo de jogadores de futebol nos olhavam, pegando-a de surpresa. Ela se virou para mim, depois para o grupo de jogadores, e riu.
- Não sei se eles vão achar super foda você ter trocado Alana por mim... - ela comentou, rindo. - Eu ainda sou uma perdedora, sabia disso?
- Uma perdedora lindinha. - sussurrei, beijando a ponta do seu nariz.
- Bom, depois não diga que eu não avisei. - ela disse, séria, me dando um beijo na testa.
- Pera aí, essa é nova, vocês estão juntos? - perguntou, quando finalmente percebeu nossa proximidade. - Tipo, juntos juntos?
- Mais ou... - ia dizendo, quando eu a cortei.
- Sim. - respondi, e ela me olhou com a boca aberta. - O quê?
- Que coisa mais fofa! - exclamou, fazendo todos rirem. - Lindo! Lindo!
- É, o amor é lindo. - comentou, amarga, levantando os olhos pela primeira vez e encontrando os olhos de .
Olhei para com o canto dos olhos. Ela estava olhando para , como se pedisse algo que ela se acusava a aceitar.
Como eu já disse, eu tinha medo dessa troca de olhares entre mulheres... Muito medo.
- Tão lindo... Um dia a gente pensa que a pessoa gosta mesmo de você, e no outro dia ela te liga pra dizer que você estava enganada. - continuou, não obedecendo as súplicas silenciosas de . - E depois você fica sabendo que essa pessoa já está por aí comendo uma vadiazinha qualquer... Realmente, o amor é maravilhoso...
- , para com... - ia dizendo, quando a cortou.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou, sério.
e estavam no meio do campo de batalha, e nós seis éramos os espectadores.
- Não quis dizer nada, mas se a carapuça serviu... - ela comentou, dando de ombros.
- Você não sabe quem eu sou, não julgue o que você não conhece. - ele disse entre os dentes.
- Pelo pouco que você me mostrou, não preciso conhecer o resto. - ela disse, e riu, amargo.
- Tá bom, , não vou discutir com você. - disse, acendendo um cigarro. Ela riu sarcástica e voltou a olhar para o chão.
Ficamos algum tempo em silêncio, observando as pessoas que passavam. Odiava esses climas chatos. Era um tanto quanto... Chato.
Peguei um cigarro do meu maço e ofereci para , que pegou e colocou entre os lábios, olhando para sem dizer nada. pigarreou, e olhou para ela, que sorriu envergonhada. tirou os óculos de sol e os limpou na camiseta. olhou as horas no celular.
Puta clima chato.
- Que horas é o ensaio? - perguntei, querendo mudar o astral.
- 16:30. - disse, soltando a fumaça do cigarro. - A gente podia fazer alguma coisa enquanto espera, né?
- Vamos tomar cerveja em algum lugar? - sugeriu. - Tem um bar legal perto do estúdio, não é caro.
- Pode ser. Mas só o está de carro. - disse, apontando para o Mini Cooper vermelho estacionado na rua. - Acho que não cabe oito pessoas lá.
- Mas é aqui do lado! Podem ir quatro no carro e quatro a pé! - sugeriu. - São só duas quadras daqui!
- Já que você sugeriu, você é uma das que vai a pé. - disse, rindo.
- Eu vou com você. - murmurou.
- Eu também, o não deixa ninguém fumar no carro dele. - comentou.
- Eu também vou então. - disse.
- Então fechou, no carro vai eu, a zinha - me deu um soco no ombro e todos riram -, o e o . O resto vai a pé.
Levantamo-nos e fomos para o carro. e foram na frente e eu fui atrás com , que estava linda com o cabelo solto e seus óculos de leitura.
Meu Deus... havia me transformado no ser mais gay da face do universo!
Fomos ouvindo Ooh La do The Kooks até o lugar que havia sugerido. Estacionamos o carro e pedimos uma mesa do lado de fora. Sentamo-nos e pedimos quatro garrafas de Heineken. Passados alguns minutos, os quatro chegaram e sentaram-se com a gente, comentando sobre o tombo que havia tomado no caminho.
Apoiei minhas costas no encosto da cadeira, colocando as mãos na nuca e esticando as pernas. Através do meu RayBan podia observar meus sete amigos, três antigos, quatro novas e uma delas a garota por quem eu provavelmente estava apaixonado. Pela primeira vez. E pela primeira vez eu tinha amigas de verdade, não só colegas que na verdade só queriam ficar comigo e contar para o resto da escola no dia seguinte.
Olhei para , que mexia nas unhas. Depois olhei para que, de óculos de sol, olhava para ela e tomava sua cerveja. Virei meu rosto para frente e observei conversando com , que só ria, e às vezes ficava vermelha, mas pelo menos não estava fugindo dele. Ao lado deles, conversava com sobre Iron Maiden, que aparentemente era a banda favorita dos dois. Então virei meu rosto para o lado, e fez o mesmo, no mesmo instante.
- E aí, zinha, o que conta de bom? - eu disse, e ela riu.
- Sério, eu me sinto uma ameba quando você me chama assim!
- E aí, Amebinha, o que conta de bom? - disse, e nós dois rimos.
- De bom nada, mas conto algo de novo. - ela disse, tomando um gole da cerveja. - Só não sei se você vai gostar... - terminou, com um bigodinho de espuma no lábio superior. Apontei com o dedo para o meu próprio lábio e ela passou a língua em cima do bigode, rindo. O que foi sexy. Muito sexy. - Meu pai quer te conhecer.
Sério, aquela passada de língua no lábio foi muito boa e...
Espera aí.
O pai dela queria me conhecer?
- Hã?
Terça-feira, dia 10 de Novembro, 20:55, meu quarto.
:
Eu estava me agarrando com . E, na boa? Estava muito bom.
Nada como aliviar a tensão.
Nós estávamos sentados na minha cama, a TV estava ligada e minha cachorra estava dormindo tranquilamente na sua caminha. Enquanto isso, estava com uma mão na minha nuca e a outra na minha coxa. Eu estava com uma mão no seu rosto e a outra bagunçando seu cabelo. Nosso beijo estava ficando quente demais, nossas línguas pareciam estar brigando... Mas era necessário respirar.
Fui diminuindo a velocidade e terminei o beijo com um selinho, distribuindo alguns beijos na sua bochecha e pescoço.
Respirei fundo, puxando todo o oxigênio do quarto.
- Você estava realmente tenso, eim? - perguntei, com o rosto bem perto ao dele, podendo contar as pintinhas em seus olhos .
- Bastante. Mas acho que você deve ter percebido isso. - ele respondeu, com um sorrisinho sacana. - Mas a melhor coisa é aliviar essa tensão...
- Concordo... - eu disse, e ele riu. - Mas até um hamster perceberia.
Era a mais pura verdade.
Flashback on.
- Meu Deus, , não acredito que tudo isso seja medo do meu pai! Ele nunca fez mal a ninguém! - exclamei, pegando na mão gelada dele, que estava petrificado na frente da porta da minha casa. - Eu sei que é meio cedo pra isso, mas eu não podia mentir pra ele... Me desculpe, mas trato é trato...
- Seu pai ameaçou mandar me prender, está lembrada disso? - ele perguntou, ignorando completamente o que eu havia falado, olhando fixamente para a porta de entrada da minha casa. - Ele vai atirar em mim com uma espingarda. Certeza.
- Para com isso. - resmunguei. - Tenho certeza que você só está nervoso porque nunca conheceu nenhum pai de alguma garota antes.
- Hã hã, não fale o que você não sabe. - ele disse, ainda sem tirar os olhos da porta.
Virei os olhos e o puxei para dentro da casa.
Claro que ele tinha motivos para ficar nervoso. Mas só na hora em que ia realmente conhecer meu pai, não o DIA INTEIRO! Porque depois que eu avisei que meu pai queria conhecê-lo, ele ficou travado o resto do dia! Não conversou mais no bar, não tocou direito no ensaio e não riu das piadas de . Ele simplesmente entrou em pânico!
Meu pai era assim tão assustador? Porque pra mim ele parecia o papai noel magrinho e sem barba!
E sem a roupa vermelha. E sem o saco.
Ah, você entendeu.
- Pai, cheguei. - anunciei, fechando a porta. – Oi, Sue. - disse, encontrando-a lendo O Diário da Princesa na sala.
Pra você que pensa que Sue é uma retardada mental que fica vendo filmes de criança e lendo coisas de adolescente, eu explico: Ela não era assim, mas depois que engravidou, os hormônios mexeram muito com ela, então ela praticamente voltou a ser uma pré-adolescente.
- Oi, querida. Oi, . - ela acenou. - Você é muito corajoso.
Olhei para ele com o canto dos olhos. Seu rosto estava verde.
Arrastei-o pela mão gelada até a cozinha, onde encontrei meu pai tomando suco direto da caixa.
- Sue vai adorar saber disso, pai. - comentei, tirando da minha sombra e colocando-o ao meu lado. Meu pai descansou o suco em cima da bancada e olhou para sem expressão. - Pai, esse é o . , esse é meu pai.
Momento de tensão.
Meu pai olhou para , olhou para o meu pai.
Uma gotinha de suor escorreu no pescoço dele.
- Prazer, sr. . Novamente. - ele estendeu a mão trêmula para meu pai, que a apertou com firmeza.
- Espero que você apague a minha primeira impressão, sr. . - meu pai disse, com os olhos apertados.
- Vou me esforçar. - ele murmurou, tossindo fraquinho e falando um pouco mais seguro de si. - Só queria te pedir desculpas antes de tudo, por ter te preocupado.
- Tudo bem, é só manter minha filha viva. E sóbria. - ele falou a última palavra entre os dentes, como uma ameaça. - Fica para jantar? Sue pediu comida chinesa.
- Claro. - ele respondeu, soltando o ar aliviado. - Claro.
Nós fomos para a sala e ficamos conversando com Sue sobre a banda, até a comida chegar. Comemos e subimos para o meu quarto com a desculpa de que eu iria "ensinar biologia" pra ele.
E então começamos a nos pegar.
Flashback off.
Olhei no meu relógio do Star Wars e vi que já eram cinco pras dez, e no dia seguinte nós dois teríamos aula. Não que eu quisesse parar de beijá-lo nem nada do tipo, porque eu não queria mesmo, mas eu não queria acordar no outro dia com cara de louca. Mesmo por que tinha marcado na minha agenda que na quarta-feira começaria a divulgar o show de sábado na escola e na Internet.
Ah... Compromissos...
- , eu sei que quase sempre eu sou grossa com você, e hoje eu vou ser de novo. - ele gargalhou, jogando a cabeça para trás, e por um instante eu perdi a fala. - Eu... Eu preciso dormir.
- Tudo bem, linda, eu preciso ir também... - ele concordou, me dando um beijo na testa. - O só dorme depois que eu cantar pra ele.
Levantamo-nos e eu fui com ele até a porta. Meu pai acenou com a cabeça e Sue falou para ele voltar mais vezes. Fiquei morta de vergonha porque, bem, na verdade nós não éramos namorados nem nada do tipo. Só amigos que estavam ficando... Eu nem sabia se ele estava beijando outras garotas, e ele também não sabia se eu estava beijando outros garotos - ou sabia, porque minha vida amorosa era praticamente nula, diferente da dele. Então era simplesmente vergonhoso meus pais estarem nos tratando como namorados. Mas, bom, o que eles poderiam fazer? Não sabiam a verdade inteira...
- Bom, boa noite. - disse, fechando a porta atrás de mim e ficando sozinha com ele no frio londrino.
- Boa noite. - ele desejou de volta, se inclinando e dando um beijo no meu rosto.
Ele foi se afastando de costas para mim até começar a descer os degraus, quando se virou para se equilibrar. Assim que ele atravessou o portão e abriu a porta do carro, não me segurei e o chamei de volta.
- !
Ele se virou para mim e ficou esperando.
Respirei fundo.
- O que você quis dizer com "não fale o que você não sabe"? - perguntei, me arrependendo no mesmo instante, porque ele caiu na gargalhada, tendo que se segurar no muro para não cair.
- zinha, você é muito engraçada. - ele respondeu, e entrou no carro, disparando pela rua.
Mas eim!?
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 00:12, meu quarto.
:
Nem se eu quisesse, eu conseguiria dormir. Nem rolar na cama estava adiantando mais... Eu estava olhando fixamente para meu relógio, que parecia preso no tempo. Tantas coisas na minha cabeça... Será que as pessoas achavam que só por que eu era meio aloprado eu não tinha sentimentos?
Começando pelo pai de . Pensei que já estivesse tudo bem entre eu e ele... Mesmo que eu soubesse que eu e não éramos namorados coisíssima nenhuma, eu queria ter seu respeito. Não sabia dizer exatamente o porquê, só não queria ter um relacionamento ruim com uma pessoa importante em sua vida. Dá pra entender isso?
Bom, de qualquer jeito, eu pensei que nós estávamos de boa. Estávamos todos na sala conversando sobre música quando ele se levantou e fez sinal para que eu o acompanhasse. Deixei passar alguns segundos e não sabia exatamente o que faria para sair dali, mas por sorte me pediu para pegar mais Coca-Cola na geladeira, e eu pude ir atrás dele.
Chegando à cozinha, encontrei-o apoiado na bancada de mármore me observando através dos óculos de armação quadrada.
- Queria falar comigo? - perguntei, me apoiando na batente da porta.
- Olha, eu não sei do que se trata esse namoro de vocês, e nem quero saber, porque não posso me meter na vida da minha filha. - ele disse, e eu levantei a sobrancelha, sem entender o que estava acontecendo. - Mas eu posso tentar impedir que algo ruim aconteça, e eu estou te avisando agora garoto, se você magoar minha filha eu corto o seu pipizinho fora!
Abri a boca para responder, mas ele estendeu a mão para eu me calar.
- Guarde suas desculpas para você mesmo. Isso é só um aviso.
Então ele passou por mim e voltou para a sala. Peguei as Cocas e voltei logo em seguida, e ele estava agindo como se nada tivesse acontecido. Fiz o mesmo.
Mas, porra! O que diabos ele queria de mim!?
Não contei aquilo para , claro. Ela provavelmente iria rir. Eu já tinha percebido que ela não era a pessoa mais indicada para se contar alguma coisa envolvendo sentimentos, por isso procurava ser o mais frio possível para não afugentá-la. Não queria perdê-la... Se aquilo que nós estávamos tendo não evoluísse para uma coisa mais séria, pelo menos eu teria uma amiga para o resto da vida. E demonstrar o que eu estava sentindo de verdade era uma das coisas que eu tinha certeza que a afastaria de mim. Assim como contar que seu pai ameaçou cortar meu pinto fora.
Além disso, tinha Lallie.
Desde o dia em que conversara com ela pela webcam, ela andava meio sumida. Mas como a vida adorava conspirar contra mim, assim que cheguei em casa e entrei no computador, ela veio me encher o saco, me chamar para sair e essas coisas... Sabia que ela era uma menina legal, e não queria magoá-la, mas eu não estava muito a fim de sair com ela. Aliás, não estava muito a fim de sair com nenhuma menina desde que beijara no estacionamento do shopping. Parecia esquisito, principalmente para um galinha sem cura como eu, mas eu já havia desistido de tentar entender o que eu sentia por ela... Decidira deixar a vida me levar. Só que essa vida me levar não incluía sair com Lallie. Eu podia ser tudo, galinha, cafajeste, idiota, mas quando eu estava com alguém, e não traía. E no final só me ferrava...
E isso nos leva ao último item da minha lista de coisas que estavam me atormentando: A pergunta de sobre meu comentário, que me transportara para um passado remoto que eu julgava estar morto e enterrado. Mas pelo jeito ninguém esquece o primeiro pé na bunda...
Quando ela disse que eu nunca havia conhecido os pais de nenhuma garota, foi como um chute no estômago. Mas como eu estava nervoso em relação ao seu pai, deixei passar e soltei sem querer aquela frase. "Não fale o que você não sabe". Porque, bom, ela não sabia mesmo. Depois que tudo passou, e eu já havia esquecido daquilo, ela jogou na minha cara novamente, como um tiro. E só o que eu consegui fazer foi gargalhar e dar o pé dali.
O que ela não sabia era que eu tive uma ex-namorada. Estava no segundo ano e ela no primeiro. Não era da mesma escola, eu a conheci em um pub em que fora assistir o show de uns amigos meus. Namoramos 8 meses, e eu cheguei a conhecer seus pais. E quando finalmente percebi que estava curtindo tudo aquilo e que namorar era legal, mais legal do que sair por aí ficando com todo mundo, ela me deu um pé na bunda e eu descobri dois dias depois que estava sendo traído.
Por isso eu era um galinha sem controle. Por isso eu ficava com todas as garotas sem remorso nenhum.
Mas lembrar dela - Laureen - ainda doía. Não que eu gostasse dela... Ela era linda, e eu curtia ficar com ela, mas não passou disso. Só que até namorá-la, nunca ninguém havia me passado a rasteira desse jeito.
E tudo isso estava na minha cabeça, não me deixando dormir.
Fechei os olhos bem apertados, lembrando do show que estava se aproximando e que mudaria minha vida. Mais um chute no estômago.
Porra de vida complicada!
Capítulo 14 - Pacto e aposta.
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 10:52, intervalo do Colégio Mackenzie.
Girls:
- Estou me sentindo estúpida. - reclamou, segurando uma pilha de cartazes nos dois braços que quase cobriam sua cabeça. - Estúpida e idiota.
- Não é a mesma coisa? - perguntou, grampeando um cartaz no mural de avisos do corredor.
- Sim, só que ao dobro. - respondeu por , colando um cartaz na porta do banheiro feminino. - Pronto, já conseguimos 200 cadelinhas no cio.
- É, inclusive você, porque você vai ao show, sabia disso? - eu disse, e nós três rimos, fazendo mostrar o dedo do meio.
- Meninas! - gritou no final do corredor, fazendo todas as meninas que passavam pelo corredor olhar para ele. - Os nossos cartazes já acabaram, tem mais aí?
- Tem uma pilha ambulante bem aqui! - brincou, abraçando pelos ombros.
veio até nós e pegou metade da pilha. suspirou agradecida e sorriu envergonhada quando piscou para ela e saiu atrás dos seus amigos, que colavam cartazes no prédio do ensino fundamental.
Olhei para ela, que colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e abaixou o rosto, envergonhada.
Meu Deus, será que ela ainda não havia percebido que só queria conversar com ela? Ele não a atacaria!
Pelo menos não de novo.
Dei de ombros e continuei a colar os cartazes nas paredes, enquanto alunos curiosos liam o que estava escrito e riam. "Primeiro show do McFLY com os integrantes sóbrios! Você não vai perder essa, vai? Sábado, dia 13, às 14h no TacoPlace. Compre logo seu ingresso, os primeiro cinquenta ganharão o CD do primeiro single, 5 Colours In Her Hair. Ingressos com os integrantes ou no próprio TacoPlace." Alguns ainda passavam perguntando entre si porque eu e minhas amigas losers estávamos colando os cartazes e não algum grupo de gostosas do segundo ano.
Não que nós não fôssemos bonitas, de rosto e corpo, mas nós só não éramos bonitas de acordo com o padrão de beleza do colégio.
Nós éramos as garotas que todos os caras maus queriam.
Espera aí... Isso é uma música, não é?
- Acabou, minha gente! - anunciou, depois de alguns minutos, apontando para , que estava massageando os braços livres. - Estamos livres! Livres!
- Ótimo, agora é só divulgação online. - falei, mais para mim mesmo do que para elas. - Muito obrigada, meninas, vocês são demais!
- Acho que a sofreu alguma lavagem cerebral. - comentou. - Desde que começou a beijar o senhor "idiota pra caralho", ou sei lá como ela o chamava, ela está nos tratando bem!
- Eu estou até me sentindo amada! - suspirou, e as três riram.
- Vocês são muito idiotas! - eu ri, apertando os olhos para o final do corredor.
, , e vinham pelo corredor em nossa direção, rindo. parecia estar contando alguma coisa para os três, que gargalhavam. Hayley vinha ao lado de , rindo também, e Lallie vinha ao lado de , com cara de quem não estava entendendo.
Olhei para as meninas, sentindo sangue nos olhos. estava com o mesmo olhar que eu. e só olhavam para eles, cada uma com um sentimento oculto batendo no coração.
Porra! O que Lallie estava fazendo ao lado de , com seus cabelos loiros platinados e seus peitos desproporcionais?
Respira fundo, , respira fundo. Você não tem esse direito. Ele é só seu amigo colorido. Nada mais do que isso.
Eu tinha o direito de sentir ciúmes pelo menos, certo?
Conforme eles foram chegando perto, pudemos ouvir sobre o que estava falando.
- ... aí ele pulou na piscina sem cueca e completamente bêbado, e nós tivemos que salvá-lo de um suposto afogamento! - terminou a narrativa, e todos eles, menos Lallie, riram.
- Tinha alguma coisa a mais naquelas cervejas, dude, eu tenho certeza! - afirmou, rindo de perder o fôlego.
- Não entendi... - Lallie comentou, e os cinco olharam pra ela. - O quê?
- Hm... Nada não... - deu de ombros, olhando para nós. - Acabado nosso trabalho?
- Sim, agora só vou divulgar na Internet. - respondi a ele. Percebi os olhares de Hayley e Lallie em cima de mim, mas não me importei.
Pelo menos não muito.
- Valeu, zinha! - agradeceu, me dando um beijo na bochecha. Senti a mesma esquentar.
Ele voltou para o mesmo lugar, me olhando com um sorriso aberto, como uma criança. Estava de uniforme - o que era raro, porque quase sempre ele tomava suspensão por ir sem ele à escola - e com o cabelo bagunçado. Usava um adidas de listras vermelhas e seus olhos estavam brancos. Nada de chapado.
Aquilo era uma evolução.
Um vento frio atravessou o corredor e ele deu um pulinho. Aquele era um gesto conhecido meu... Lembrei-me de quando o observava nas aulas em que tínhamos juntos. Mesmo sempre o odiando, eu tinha uma certa fixação por ele, e não sabia explicar o porquê.
Bom, aparentemente o destino costuma brincar com suas vítimas.
- E aí, Alana! - ouvi a voz cheia de deboche de Billy atrás de mim se dirigindo à . Virei-me e dei de cara com ele, que vinha sozinho cumprimentar os guys. Mas antes que pudesse, seus olhos maldosos se fixaram em mim. - Olha só, , sua admiradora secreta! Me diga, , como você se sente sabendo que ele prefere ver Alana pelada à você?
Hayley e Lallie riram da sua piada e ele sorriu sarcástico.
- Do mesmo jeito que você se sente ao saber que pode debochar de todos nessa escola, mas nunca vai deixar de ser o baixinho espinhudo que nenhuma menina em sã consciência ficaria. - respondi, fazendo todos rirem. Algumas pessoas - aquelas com faro para briga - já paravam no corredor para olhar.
- Escuta aqui, sua vagabundazinha de... - ele colocou o dedo no meu rosto, falando alto, mas antes de terminar a ameaça, deu um tapa em seu braço e entrou na minha frente.
Olhei para ele, de costas para mim. Eu sabia muito bem me defender sozinha, mas ver que estava desafiando os próprios amigos e responsáveis por sua fama por minha causa era muito confortante.
Quem eu estou querendo enganar? Aquilo era demais!
- Calma aí, cara, pra que faltar com respeito? - ele perguntou, e Billy riu.
- Qual é, , o que aconteceu com você? Faz uma semana que não sai pra beber com a gente, que não mata aula com a gente, e agora vai defender essa perdedora? Aliás, o que aconteceu com todos vocês? As pessoas estão comentando, cara! Vocês bateram alguma aposta ou estão fazendo caridade? - ele apontou para nós quatro.
Posso jurar que ouvi rosnar.
- Billy, cara, tá pegando pesado já. - se intrometeu. À essa altura, quase todas as pessoas do corredor estavam nos olhando curiosas. - Elas nunca fizeram nada pra você.
- Claro que fizeram, nasceram pra deixar o mundo menos bonito! - ele respondeu, e todas as pessoas que estavam olhando riram.
O que se seguiu foi algo que eu nunca, em todos os meus quase 12 anos estudando naquela escola, pensei que fosse acontecer.
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 11:34, diretoria.
Guys:
- Fodeu, fodeu, fodeu! - eu repetia sem parar. Quase nem sentia mais meu lábio partido, de tão preocupado que estava. - Eu vou ser expulso, vou ter que estudar num colégio interno na Suécia e meu pai vai me transformar num playboy bombado!
- Cala boca, cara, não vai acontecer nada. A culpa não foi sua! - tentou me acalmar, mas nada no mundo me acalmaria naquele momento. Eu havia começado a briga, a culpa era toda minha!
Suspirei. Minhas mãos estavam tremendo. Levei o dedo indicador ao meu lábio inferior, estremecendo. Meu coração batia na velocidade cinco do créu, e minha respiração estava falha.
Eu iria perder tudo. Minha vida estava acabada. E o mais impressionante era que, por mais nervoso que eu estivesse, não estava arrependido de ter dado uma sussa em Billy. Nem um pouco. Aliás, poderia ter batido bem mais se não tivesse me puxado pela camiseta.
Otário. Quem ele pensava que era pra ofender assim garotas que nunca haviam feito nada a ele?
Não que eu fosse o cara mais legal do mundo, mesmo porque havia magoado alguns dias antes, mas algo em mim havia mudado. E esse algo em mim que havia mudado não suportava mais as brincadeiras de Billy.
- Sr. , quero só você aqui dentro. - a diretora colocou sua cabeça para fora da sala.
Olhei para os guys, que me incentivaram com joinhas nas mãos. Levantei-me, ainda na adrenalina da briga, e sentei-me na cadeira em frente à mesa dela.
Respirei fundo, esquecendo todo o discurso que havia preparado e repassado na cabeça no quinze minutos em que fiquei esperando ela me chamar.
- E então? - ela sorriu, quase que com afeição.
Teria que improvisar. Ou simplesmente falar a verdade.
- Olha, me desculpa, eu sei que eu errei de novo, e eu estou ciente do "contrato" que você fez com o meu pai, mas eu não aguentei! Ele estava humilhando minhas amigas! E você, mais do que ninguém, sabe que eu já vim parar aqui muitas vezes por causa disso, mas depois que eu conheci a e suas amigas que eu percebi o tipo de amizade que eu tinha. - parei para respirar sob o olhar ávido e curioso de Mary. - Percebi que o que eu fazia não me levava a lugar nenhum! Quero dizer, pra que humilhar alguém que nunca te fez nada? Eu não me segurei, Mary, me desculpe, mas por favor não me expulse, por favor!
Ela me olhou por cima dos óculos, pensativa.
- Se fossem em outras ocasiões, sr. , eu te expulsaria agora mesmo. - minha garganta se fechou. - Mas como vários alunos vieram aqui enquanto você estava na enfermaria, inclusive , relatar o que havia acontecido, eu mudei de ideia. Você não vai ser expulso.
Abri a boca, incrédulo.
- Isso... Isso é sério!? - perguntei, com vontade de sair pulando.
- Sério. Entretanto... - claro que havia um entretanto. Mas só de não ser expulso eu estava radiante. - Você participará de um projeto que a própria está organizando, um projeto de cultura que acontecerá aqui na escola na segunda-feira que vem. Você fará exatamente o que ela te pedir. Isso não é um pedido, é uma ordem.
- Claro, tudo, eu faço tudo que a senhora me pedir! - exclamei.
- Está liberado.
Saí da sala da diretora com um sorriso de orelha a orelha. Os guys entraram logo em seguida, e a sua secretária me enxotou para a sala de aula. Entreguei a autorização para professora de história e sentei-me na última carteira.
Estava tão bem humorado que até prestei atenção na aula.
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 13:28, shopping.
Girls:
Depois de briga não encontramos mais os meninos, supondo que deveriam estar em aula. Matamos a última aula e fomos para o shopping almoçar, porque estava "louca por um Temaki". As três só sabiam falar da briga, e como fora o cara mais fofo do universo por ter me defendido daquele jeito. Eu concordava com elas, ele fora realmente maravilhoso, mas só queria esquecer daquele acontecimento. Cada vez que ele era legal comigo daquele jeito só me lembrava que nós dois éramos muito diferentes e que aquilo, no final de tudo, não nos levaria a nada.
Suspirei, enfiando o resto do meu Temaki na boca.
Finish him!
- Sim, ele foi um amor, mas também agradeceu muito bem! - comentou, gesticulando com os hashis na mão e jogando molho shoyo por toda a mesa.
- É mesmo, foi muito legal da sua parte, ! - confirmou.
- Ele bateu em um dos melhores amigos por mim, acho que era o mínimo que eu podia fazer... - dei de ombros, coçando meu nariz e sem querer tirando o piercing. - Ai, bosta!
- Mas e agora? Você vai colocar ele pra fazer o que no seu projeto? - perguntou, acabando seu precioso Temaki.
Dei de ombros mais uma vez.
Não tinha a mínima ideia. Quero dizer, não era exatamente uma mente brilhante... Não quero parecer malvada, mas era a mais pura verdade! Onde eu o colocaria no meu projeto? Como Bobo da Corte?
- Sei lá, eu dou um jeito. - respondi, desanimada.
- , tá tudo bem? - perguntou, me analisando mentalmente. - Se o cara que eu estivesse ficando desse uma surra em um dos melhores amigos por minha causa eu estaria feliz a beça, mas você só está mais grossa do que o normal!
É, minhas amigas me conheciam mais do que eu mesma.
Sim, eu não estava nem um pouco legal. E sabia muito bem por quê.
- Não sei... Algo me diz que eu vou acabar me magoando, só que a cada prova que me dá de que ele não é um idiota completo eu me apaixono mais e mais. Como por exemplo hoje: Eu estava morta de ciúme porque Lallie estava com ele, e toda a escola sabe da história de com Lallie, mas então ele me protegeu daquele jeito, e eu esqueci completamente porque estava brava com ele. Mas essa não sou eu! Eu sou orgulhosa, chata e implicante! Eu não deixo as coisas passarem desse jeito... Aliás, eu nunca senti ciúme da alguém a minha vida inteira! Nem quando meu pai se casou! Ciúme meninas! Eu quase morri de ciúme hoje! - deixei minha cabeça tombar na mesa e falei com a boca colada na madeira. - Eu só queria que ele me decepcionasse logo pra eu poder dar um fim nisso tudo. Eu não sou assim, essa não sou eu!
Fiquei algum tempo sem obter resposta. Pensei que nem iria e levantei a cabeça. As três me olhavam com sentimentos distintos. se identificava com a minha situação, estava com cara de preocupada e estava indecisa sobre me dar ou não algum conselho.
Mas como eu conhecia muito bem, ela não aguentaria ficar com a boca fechada e estaria falando em 3, 2...
- Ah, , não sei... - ela suspirou, colocando seus hashis de lado. - Isso tudo é muito recente! Há quanto tempo você não se interessa por alguém? Desde o primeiro ano, quando ficou a fim do Robert... E, para ser sincera, eu nunca te vi tão em crise existencial como você está com o . E por te conhecer tão bem, isso só significa uma coisa: Você gosta tanto dele que tem medo de admitir até para você mesma! E você pode estar se fazendo a pergunta de todas nós nessa mesa "como eu posso gostar de um garoto em menos de uma semana e que até pouco tempo odiava tanto?", mas acho que essa é a vida! Provando para nós que as aparências e famas enganam! Não acho que ele vai te magoar... Ele não está provando que tá curtindo ficar com você? - balancei a cabeça afirmativamente. - Então! Aproveita esse sentimento que você nunca conheceu, ! Mas, bom, é o que eu acho.
Ela olhou para e , que concordavam com ela.
- Eu só acho que você deveria aproveitar que o cara que você está afim também está afim de você. - aconselhou. - Porque veja só minha posição: Eu gostei dele desde o primeiro ano do ensino médio, depois de quase três anos finalmente fiquei com ele e depois ele me deu um pé na bunda. Você gostaria de passar por isso?
Neguei com a cabeça.
- Concordo com tudo, mas só acho uma puta hipocrisia! - finalmente abriu a boca. Viramos-nos para ela, sem entender nada. - Vocês, e eu, com certeza estão sentindo a mesma coisa que a , e não colocam os conselhos que dão em prática. Isso pra mim é hipocrisia.
- É verdade... - suspirou. - Acreditam que hoje o veio me chamar para sair e eu não aceitei?
- Acredito. Eu fiz o mesmo... - também suspirou.
Ficamos quietas, fitando a mesa, perdidas nos próprios pensamentos, até que quebrou o silêncio.
- Vamos fazer um pacto?
- Pacto? - nós três dissemos em uníssono.
- Sim! Vamos tentar ignorar nossos medos e nossos orgulhos e deixar o destino nos guiar. Sempre que ouvirmos nossas vozes interiores, vamos tentar ignorá-las! - ela exclamou, animadinha.
Entreolhamos-nos.
Bom, é... Aquele pacto era praticável. Pelo menos em teoria.
- Por mim, de boa... Estava querendo mesmo um empurrãozinho pra parar de ser bixa e aceitar sair com o . - disse, e nós rimos.
- Ok, fechou. O que me aguarde... - concordou.
Então as três me olharam.
O quê? Eu tinha que fechar o pacto?
Sempre eu, sempre eu...
Suspirei. Por que não?
- Claro, por que não? - falei em voz alta, forçando um sorriso. - Se é pra viver, que seja direito.
O pacto estava feito.
Sorri, meio comovida, meio envergonhada. Mas meu celular vibrou bem na hora, me tirando daquele constrangimento. "Nova Mensagem de ". Mostrei para elas, que gargalharam. Abri a mensagem, que só continha "pode me encontrar no Cloverfield em uma hora?". Mostrei para elas, que me encorajaram com a cabeça.
Bom, pacto era pacto, certo?
Respondi com um "sim", usando meu mais novo modo de viver: "Seja o que Deus quiser!"
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 14:32, parque Cloverfield.
:
Eu estava me sentindo um babaca. Na verdade, eu ficava repetindo várias vezes na minha cabeça "você é um babaca, você é um babaca, você é um babaca". E, bom, se você pudesse me ver, parado em pé com um rosa na mão no meio de um parque, você também pensaria "nossa, olha aquele babaca parado ali com uma planta na mão".
Mas, bom, eu tinha que agradecê-la de algum jeito. Só tinha a ligeira impressão de que ela não gostava de flores...
Cansei de esperar em pé e me sentei nas raízes da árvore onde havíamos ficado no domingo. Coloquei a flor no chão e apoiei-me no tronco, tirando meus fones de ouvido.
Olhei para frente e a avistei através dos meus óculos de sol. Mesmo de uniforme, mesmo com o cabelo preso, mesmo com os olhos rebocados de lápis, ela estava linda. Ela sempre fora linda, só eu não havia percebido.
- Desculpe, o taxista demorou três horas pra trocar meu dinheiro... - ela chegou se desculpando. Levantei-me, antes mesmo que ela pudesse me cumprimentar, e a puxei pela cintura, beijando-a.
Ela cheirava limão.
Por que estava sempre cheirando tão bem?
Beijamo-nos por vários minutos, como se o mundo em volta não existisse. E, na verdade, só paramos porque ouvimos comentários não muito agradáveis, se não teríamos continuado. Abri os olhos devagar, encontrando os dela fechados.
- Obrigado por hoje. - murmurei em seu ouvido.
- Eu que deveria agradecer. - ela sorriu, com os olhos fechados. - Não precisava ter me defendido.
- Eu sei que não. Só queria te provar que podia.
- Você pode ter e provar tudo, incrível, . - ela encostou sua cabeça em meu peito.
- Então por que eu tenho a impressão de que você ainda não é minha? - perguntei, e ela riu.
- Porque eu não sou de ninguém. Sou só minha.
- Então teremos que trabalhar nisso. - disse, nos separando para poder olhar em seus olhos, que acabavam de se abrir. - Pra você. - agachei-me e entreguei a rosa para ela, que sorriu, mostrando seu piercing no freio da língua.
Nice...
Tinha certeza que todos os bad guys da escola, que ficavam pelos cantos escrevendo poemas, batiam uma pensando em à noite.
Certeza!
- Valeu, . Vou guardar com carinho.
- Bom mesmo. - respondi, apontando para a árvore. - O que acha de ficarmos por aqui hoje? Como no domingo?
- Eu adoraria. - ela me deu um beijo no rosto, sentando-se nas raízes da árvore. Sentei-me atrás dela, com uma perna de cada lado, e ela se apoiou em mim, me olhando de ponta-cabeça.
Beijei sua testa e ela beijou meu queixo.
- , posso te fazer uma pergunta? - ela encostou sua cabeça e meu peito, observando um cachorro que corria atrás do próprio rabo.
- Pode.
- O que nós somos?
Apoiei meu queixo em sua cabeça, olhando para o céu.
Aquela era uma ótima pergunta.
- Posso te fazer uma pergunta antes de responder?
- Pode.
- Você tá curtindo ficar comigo?
Ela jogou a cabeça para trás, me olhando.
- Sim. - admitiu, voltando a cabeça para frente.
- Isso responde sua pergunta. Somos o que quisermos ser. - concluí, beijando sua nuca.
Quarta-feira, dia 11 de Novembro, 19:08, sala de estar.
Guys:
Nossa casa estava um caos. Depois que cheguei do "encontro" com a , me deparei com e sentados no chão, rodeados de salgadinhos e Cocas, jogando videogame.
- Ah, cara, não acredito, perdi de novo! - reclamou assim que eu entrei, jogando o controle no chão. - Não sei o que está acontecendo comigo...
- As mulheres fazem isso com a gente. - respondeu, ao seu lado.
- Eu acho que vocês são duas bixonas. - eu comentei, pegando o violão e me sentando ao lado deles. - Se estão tão afim delas assim, vão atrás!
- Pra você é fácil dizer. Nós não somos pegadores como você e o . - deu de ombros.
- Que mentiraaa! - eu e exclamamos juntos, e riu.
Ouvimos passos na escada e logo estava esborrachado no sofá da sala.
- Velho, acho que eu fiz uma merda. - ele murmurou, com a cara achatada no sofá.
- A vá! - brincou.
- Não, é sério, acho que eu troquei uma menina legal por uma não tão legal assim. A estava ao meu lado, não forçando as coisas, deixando tudo rolar, e eu estava gostando dela, sério... Nós tínhamos os papos mais insanos! Mas aí apareceu a Hayley, e, bom, eu sempre quis pegar a Hayley e... Agora não sei o que eu faço!
- Duvido que esteja na dúvida. Você sabe o que você quer, só está arrependido da escolha errada. - comentou. - Mas existem coisas piores, como por exemplo, eu, que nem tive o prazer da dúvida.
- Eu acho que vocês são umas bixonas. - revirei os olhos. - Aliás, vou até propor uma aposta!
Eles se arrumaram no sofá, interessados.
- Vocês têm até sexta pra ficar com elas. Se perderem, tocarão pelados no sábado!
Eles se entreolharam, rindo.
- Fechado!
Capítulo 15 - Traição.
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 7:17, auditório.
Girls:
- Eu me sinto muito velha nessas palestras! - reclamou, coçando os olhos vermelhos de sono. - Só tem criança nessa escola! Ano passado não era assim...
- Deve ser por que ano passado você estava no segundo ano e agora você está no último. - sussurrou em seu ouvido, fazendo-a rir.
No palco do auditório um homem gorducho falava sobre os malefícios das drogas, mas absolutamente ninguém parecia prestar atenção.
Viciados de merda!
Embora um cigarro pra fugir daquela chatice não iria mal...
- E é por isso, garotos, que esses vícios fazem mal e não vão acrescentar nada em suas vidas! - o gorducho terminou, sendo aplaudido por meia dúzia de alunos. Ele, um pouco encabulado pela indiferença dos alunos, entregou o microfone na mão da diretora e o auditório inteiro ouviu gritar das primeiras fileiras:
- Ae, acabou, posso sair pra fumar um cigarro?
Todos caíram na risada.
- Muito engraçado, Sr. . - Mary, a diretora, falou séria ao microfone, mas nós sabíamos que ela era fumante ativa e deveria estar pensando o mesmo. - Estão dispensados.
Levantei-me, colocando minha mochila de arame farpado nas costas, sendo imitada por , e . Estava esperando a enxurrada de alunos sair para poder me movimentar e não percebi quando Billy, de óculos de Sol para esconder os roxos, passou por mim. Só fui perceber quando ele trombou em mim de propósito, arrastando Lallie pela mão. Ignorei, e ela me olhou de cima a baixo, com aquele mesmo olhar que todos as pessoas "cool" da escola me olhavam, aquele que parecia dizer "aberração", e continuou andando. Olhei para as meninas, que tinham a mesma cara de que-vaca-idiota que a minha e ignorei os dois. Assim que abriu um espaço no corredor me enfiei entre os alunos e senti dois braços me envolverem pela cintura. Nem tive tempo de ver quem era e já estava sendo beijada.
Segurei em sua nuca e respirei fundo.
Hm... Gostinho de cigarro e menta...
- Oi, ! - arfei, depois que ele separou nossas bocas. Ao seu lado, e riam.
- Bom mesmo que você sabe que sou eu! - ele brincou, ficando ao meu lado e me abraçando pelos ombros, estilo jogador de futebol americano abraçando a cheerleader.
Ele mascava um chiclete de boca aberta e seus olhos estavam vermelhos. Beber às 7 horas da manhã era um dom que só tinha. E eu sabia disso graças aos meus estudos sobre ele durante os três anos do ensino médio.
- É ressaca ou você já bebeu? - perguntei, apontando para o branquinho - agora vermelhinho - dos seus olhos.
- Ressaca. - ele riu. - Ficamos bebendo e tocando ontem.
- Tocando em que sentido? - perguntou, e nós rimos.
me guiava pela multidão de alunos - alguns deles ainda comentando sobre nós dois e o casal estranho que formávamos - e ia contando sobre como havia pintado todo o rosto de pela manhã e ele nem havia percebido. andava ao seu lado e parecia se esconder de alguém. estava ao lado de , conversando animadamente com , e mais atrás e conversavam sobre a prova de história do dia anterior.
- Quando você imaginou andar com as perdedoras do Mackenzie? - perguntei à , que me deu um beijo no rosto.
- Só nos meus sonhos.
- É um galinha mesmo... - eu ri, e ele mordeu minha orelha, ficando por lá mesmo para poder sussurrar:
- Me encontra depois da aula no campão pra gente poder passar o dia juntos?
- Claro, Romeu. - sorri, me soltando do seu abraço e apontando com a cabeça para o corredor da direita. - Tenho inglês agora.
- Eu não sei o que eu tenho agora. - ele arqueou a sobrancelha. - , o que nós temos agora?
- Xiu, dude, não fala meu nome em voz alta! - ele murmurou, dando um soco em seu ombro. Olhei para onde ele olhava e pude observar Hayley procurando por alguém. - Educação Física.
- Opa, então eu tenho que ir. - ele disse, me puxando pela cintura. - Mais um atraso e eu pego recuperação de verão! - fez uma careta bonitinha e nós dois rimos.
Nossos rostos se encontraram e ele riu maliciosamente. O hall agora estava vazio, só com alguns perdidos procurando seus horários, e ele juntou nossas bocas num beijo apaixonado. Puxou-me para mais perto pela cintura e eu envolvi minhas duas mãos em seu cabelo. Ele começou a andar para frente e me prensou contra os armários, me fazendo rir no meio do beijo. Ficamos algum tempo nos beijando até que a inspetora veio nos separar. Ri e mandei um beijo no ar para , que fingiu pegar o beijo e guardar no coração.
Beijos no ar!? Piadinhas melosas!? Encontros depois da aula!?
Quem é você e o que você fez com a ?
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 7:23, educação física.
Guys:
Meus pulmões de fumante não me permitiam correr, então eu só trotava pelo campo. Mas pelo menos tinha meus amigos também fumantes para me acompanhar.
- Foi mais fácil do que tirar pirulito de criança! - contava, animado. - Eu só disse "ei, tem um bar legal no centro e hoje vai tocar uma banda cover de Iron, tá afim de ir?", e ela nem pensou duas vezes antes de responder "claro!".
- Cara, que mancada roubar pirulito de criança... - comentou, arfando.
Eu e olhamos para ele com a sobrancelha erguida.
- Por falar em mancada, o que foi você se escondendo da Hayley lá no auditório? - perguntei, fazendo gargalhar.
- Dude, hoje de manhã eu liguei meu celular e tinha uma mensagem de voz dela. - ele disse, como se fosse a coisa mais estranha do mundo.
- E daí? Você transou com ela, acho que seria o normal... - estranhou.
- Não, eu não transei com ela. - ele murmurou, envergonhado. Fiz sinal para não comentar, embora ele estivesse louco para zoar com a cara de . - E normal seria ela me mandar "bom dia!", não "bom dia, coisa fofa, tudo bom meu gatuxo?" Agora imagina se eu transo com ela!? Ela ia me pedir em casamento!
Eu e começamos a rir, parando um pouco de trotar para poder respirar. nos alcançou e se agachou do nosso lado, morrendo.
- Eu preciso parar de fumar... - ele arfou. - Rápido...
- Para de ser bicha. - disse, recobrando o fôlego. - Primeiro não come a Hayley, depois diz que vai parar de fumar...
- Vai se foder, . - ele disse, fazendo rir, dar um soco em seu ombro e ficar cantando "bichinha, bichinha, bichinha!".
- , e , já que vocês não estão fazendo nada, pro chuveiro antes que eu suspenda vocês também! - o professor berrou em seu megafone, ainda ofendido com a atitude de e descontando em nós, seus amigos.
Ah! Não precisava nem pedir duas vezes!
Saímos do campo e fomos para o vestiário. disse que só ia tomar banho antes de sair com e saiu para fumar um cigarro, deixando eu e sozinhos.
Ainda de roupa, que fique bem claro.
- Qual é sua próxima aula? - ele perguntou, entrando em um dos chuveiros e fechado a porta.
- Sei lá, acho que é matemática. - respondi, entrando no chuveiro mais distante do dele. - E a sua?
- Física. - ele respondeu, orgulhoso, pois era o único de nós quatro que fazia física avançada. Ligou o chuveiro e gritou por cima do barulho da água corrente. - Depois da aula eu vou na casa do Hirata jogar video-game, tá afim?
- Nem rola, , vou ficar um pouco com a . - respondi, também gritando. - Mas você tá ligado que de noite tem ensaio, né?
- Sim, relaxa, eu já tô sabendo.
Ficamos em silêncio. Eu fiquei embaixo da água, olhando fixamente para a porta de alumínio, sem me mexer. Fiquei pensando no beijo que dera em mais cedo... Chegara a conclusão de que o beijo de era o melhor que eu já havia provado - e que não eram poucos -, só que o mais surpreendente era que a cada beijo ele só melhorava!
Encostei a cabeça na divisória de mármore. Será que ela estava sentindo tudo aquilo por mim também?
- Você tá curtindo ela pra caralho, né? - gritou, como se pudesse ler meus pensamentos.
- É... - suspirei. - Mais do que eu posso gerenciar...
- Sei lá, cara, só relaxa e aproveita. - ele aconselhou. - Eu fiquei com esse mesmo medo em relação à , e acabei desperdiçando o que eu tinha de especial com ela. Só ontem que eu fui perceber que eu estava gostando mesmo dela... No fundo eu já sabia, mas, sei lá, não quis admitir...
- É o que eu estou tentando fazer, cara, relaxar e aproveitar, mas sei lá, acho que ela não confia em mim ainda. Mas também, depois de tudo que deve ter ouvido sobre mim...
- Então ganha a confiança dela! - ele gritou, desligando o chuveiro. Desliguei o meu também. - Você quer alguém além dela?
- Não, cara...
- Então! Diz isso pra ela!
- É, vou tentar... Mas e aí, o que você vai fazer pra ter a de volta? - perguntei, mudando de assunto. Não estava muito acostumado a dividir certas coisas com os meus amigos, principalmente sobre o meu "primeiro amor". Era simplesmente homossexual demais para mim.
Peguei minha boxer que estava pendurada na divisória dos chuveiros e a vesti.
- Sei lá, vou tentar me desculpar. - ele respondeu, e saiu do box. - Só espero que ela me perdoe. Ter ficado com Hayley foi o pior erro que eu já cometi...
Saí do box já com o uniforme. Fui até minha mochila, coloquei meias secas e calcei meu All Star. Esfreguei a toalha na cabeça e a joguei no cesto de toalhas molhadas. fez o mesmo e nós dois saímos do vestiário.
- Finalmente! Já bateu o sinal! - exclamou, acendendo o que parecia ser o segundo cigarro.
Peguei meu maço na bolsa e acendi um também. fez o mesmo e nós subimos a rampa em direção aos prédios. Chegando lá em cima, apagamos nossos cigarros para a inspetora não ver. avistou entrando no segundo prédio e foi atrás dela. Eu e entramos no primeiro prédio e subimos até o último andar. foi até sua sala de física e eu fui até matemática, passando pela sala de geografia, onde e estavam na porta, conversando animadas.
Não me aguentei e tive que ir até elas. Pedi para não contar e cubri os olhos de com as mãos. Ela gargalhou.
- , como você consegue fumar aqui dentro? - ela perguntou, soltando minhas mãos de seus olhos. Virei-a para mim, que beijou meu queixo. - Você não tem medo de ser expulso, não é?
- Medo eu tenho, mas não vou parar de fazer as coisas que eu gosto só porque tenho medo. - respondi, e ela deixou uma mexa cair em seus olhos, como se estivesse envergonhada com o meu comentário. – Bom, zinha, vou pra minha aula.
- Ok, . No intervalo a gente se vê. - ela sorriu de um jeito fofo, mostrando todos os seus dentes alinhados e brancos.
Senti meu estômago revirar. Apaixonado. Eu estava apaixonado.
- Sabe o que essa resposta que você me deu significa? - perguntei, e ela negou, levantando a sobrancelha.
- Que eu já posso te chamar de zinha. - sorri, mordendo a ponta do seu nariz.
Ela fez uma careta e me deu um soco de levinho no ombro, antes de entrar na sala. Ainda fiquei um pouco na porta, observando ela se sentar distraída ao lado de , enquanto o professor comentava sobre as provas. Tive que me forçar a ir embora, pois poderia ficar olhando para sempre.
Ri sozinho. Eu e . Quem diria...
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 8:05, geografia.
Girls:
- Ai meu Deus, você está apaixonada! - exclamou, rindo. Segurei-me para não rir, enfiando a cabeça no ninho que havia feito com a minha blusa em cima da carteira. - Apaixonada por ! Apaixonada, amando, com cara de idiota e tudo que tem direito!
- Vai se foder, ! - exclamei, mas como estava com a cara enfiada na blusa, saiu uma coisa meio "bai be bober Bah!". Levantei o rosto, que provavelmente estava vermelho, e a encarei. - Estou mesmo. Pronto, está feliz?
- Estou. - ela sorriu, com os olhos brilhando. - Eu sabia. Desde aquele primeiro dia que você deu um chute no estômago dele eu sabia que vocês dois iam ficar juntos... - ela suspirou.
- Ahã, senta lá Cláudia... - brinquei, e ela gargalhou.
- Mas e aí, ficou sabendo que a colocou em prática nosso pacto? Está com um encontro marcado com o e tudo...
- Uou! Ela foi rápida! - exclamei. O professor fez "xiu" para nós duas, então eu abaixei a voz. - Agora só falta você e a .
- Sei lá se eu vou ter coragem de fazer isso... - suspirou. - Sabe, ele me magoou muito...
- Mas todos merecem uma segunda chance. - sussurrei. Depois completei: - Mas você só vai dar se ele parecer arrependido e insistir muito!
- Pode deixar, mamãe. - ela sorriu triste.
- Meninas, por favor, eu já pedi educadamente, da próxima vez as duas vão pra fora. - o professor abriu os braços num gesto de frustração. Concordei com a cabeça e abafou a risada. Fiz sinal para que ela parasse e nós duas voltamos a prestar atenção na aula.
Na verdade eu voltei a prestar atenção no nada, porque minha cabeça estava bem longe... Estava no beijo de mais cedo... Comecei a imaginar como seria um relacionamento mais sério com . Imaginei nós dois no sofá de casa, assistindo a algum filme e comendo pipoca. Então nos ligaria e apareceria em minha casa algum tempo depois com . e viriam mais tarde, com e , e nós seríamos um grupo de 4 casais idiotas assistindo filmes na minha casa. Então comentaria que estava cansado e que no dia seguinte teria um show. Todos iriam embora e no dia seguinte ele me acordaria com uma mensagem dizendo "bom dia, meu amor!". Eu acordaria de bom humor e ligaria para ele, ouvindo o mega público gritando por seu nome. Ele diria que estava entrando no palco e antes de desligar gritaria: "Te amo, zinha!".
Então, depois do show, nós...
- ? Você tá legal? - perguntou, me cutucando. Balancei a cabeça.
- Tô, por quê?
- Porque o professor te fez uma pergunta. - ela sussurrou, apontando com a cabeça para frente.
Olhei para cima e o professor estava parado na minha frente. Toda sala me olhava.
- Então srta. , em que península se encontra o Reino Unido?
- Península da Cornuália. - respondi, sem piscar os olhos.
O professor deu de ombros e voltou para o seu palquinho, escrevendo o que eu havia acabado de responder na lousa.
Olhei para , que ria sozinha. Ela fez círculos em volta da cabeça com os dois dedos indicadores, como se eu estivesse louca, e eu mostrei o dedo médio pra ela, antes de mergulhar novamente em meus devaneios.
Eu era uma punk esquisita, mas eu também podia sonhar, não?
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 9:23, diretoria.
Guys:
- Eu acho que você deveria falar com ela. Sei lá, dude, só tenta. - aconselhei, quando vi a cara de idiota que fez quando passou ao seu lado, ignorando-o como se ele não existisse. - Ninguém morre por tentar.
Ele balançou a cabeça, como se afastasse alguma coisa, e continuou andando. fez uma careta ao meu lado e nós três nos dirigimos à conhecida e aconchegante sala da diretora Mary.
Dessa vez eu não tinha feito nada. Pelo menos nada de que eu me lembrasse.
- Sentem-se, meninos. - ela apontou as três cadeiras à sua frente.
Sentamo-nos, com o cu na mão, e esperamos ela se pronunciar.
- Meninos, o professor de educação física me disse que está difícil trabalhar com vocês. - ela começou, cautelosa. Olhei com o canto dos olhos para e , que olhavam atentos para a diretora. - E ele me pediu para que transferisse vocês da turma. E a única coisa que eu posso fazer é colocar vocês junto com as meninas. Sei que isso é chato, mas o professor está passando por problemas em casa e está uma pilha de nervos! Tudo bem pra vocês? É só por algum tempo, até ele se acalmar...
Entreolhamos-nos, embasbacados.
Depois de três segundos, caímos na risada.
Sem professor pé no saco, sem aulas chatas de basquete e sem homens suando e pulando em cima de você. Tinha como melhorar? Sim! A visão perfeita de todas as meninas da sala correndo, com seus peitos balançando e seus mini-shorts suados!
Obrigado, Senhor!
- Não estou entendendo. Pensei que seria ruim para vocês! - Mary comentou, confusa.
- Não, não, é péssimo... - concordou, enxugando as lágrimas e tentando ficar sério. - Mas se é a nossa única opção.
- Ótimo! Vocês começam semana que vem. - ela sorriu. - Agora estão liberados.
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 10:35, intervalo do colégio Mackenzie.
Girls:
- Aposto 10 libras que eles vão marcar um encontro hoje. - comentou, segurando-se para não rir.
- Aposto 10 libras que ela dá um fora nele. - concordou, tirando o braço dos meus ombros para apertar a mão de .
- Nunca ganhei 10 libras tão fácil... - ela sussurrou em meu ouvido.
Dei uma mordida em meu lanche de queijo branco com peito de peru, aproveitando o Sol gostoso que batia onde estávamos sentados. estava com o braço direito em volta dos meus ombros, conversando com os guys. Eu conversava com as meninas despreocupada. Nós não pretendíamos nos sentar ali, mas nos chamou e insistiu, então não teve jeito. Era esquisito sentar onde eu sempre lançava olhares reprovadores.
Assim que chegamos, pediu para conversar com , que foi, depois de fazer um cu doce. Eles foram para um lugar afastado, mas nós ainda podíamos vê-los. estava apoiada na parede, enquanto gesticulava sem parar. Ela só balançava a cabeça de vez em quando, concordando ou negando.
Eu sabia que ela não resistiria por muito tempo. Ela era loucamente apaixonada por ele, desde que ele entrara na escola, na oitava série. Lembrava como se tivesse acabado de acontecer.
Flashback on.
Nós estávamos subindo as rampas do prédio do ensino fundamental. estava reclamando do aparelho fixo que acabara de colocar nos dentes para nós três, e estava receitando alguns remédios que tomava para tirar a dor. Assim que entramos no prédio avistamos um garoto novo entre , , , Hayley, Lallie, Peter, Billy e Vincent. Achei esquisito a panelinha mais cobiçada acolher um novo membro, mas deixei passar. não.
- Quem é aquele menino? - ela perguntou, colocando a mão na frente da boca.
- Sei lá. - respondi, dando de ombros. Reparei que me olhava e comentava alguma coisa com Hayley, que riu. - E nem quero saber.
- Ele é lindo! - ela exclamou, com os olhos brilhando.
- Todos eles são. Grande coisa. - comentou, rindo.
- Acho que eu estou apaixonada. - ela travou, sem conseguir se mexer. - Meu Deus, ele é lindo demais!
- Vai lá falar com ele. - eu brinquei, sabendo muito bem que se ela fosse sairia de lá humilhada. - Quem sabe ele não descobre que você é o amor da vida dele?
- Vai brincando, . Você vai ver... Eu nem sei o nome dele, mas ele ainda vai se rastejar aos meus pés. - ela disse, jogando os cabelos para trás. Nós quatro rimos e ela passou ao lado dele, olhando bem dentro dos seus olhos.
Ele piscou com indiferença.
Flashback off.
- Aonde vai ser o ensaio hoje? - perguntou, me tirando das lembranças.
- Lá em casa mesmo. É melhor do que todos aqueles estagiários nos olhando. - brincou que estava arrepiado.
- Você tem que ir treinando pra não vomitar no público. - comentou, e mandou ele ir se foder.
Apoiei minha cabeça no peito de . Ele não estava esperando por aquilo, então riu e beijou o topo da minha cabeça.
- O que foi, linda? - perguntou, ainda com a boca em meus cabelos.
- Nada. Eu só... Gosto de ficar assim com você... - sussurrei, quase que inaudível. riu, me dando outro beijo no topo da cabeça.
- Eu também gosto. Adoro.
Inclinei meu rosto para cima, ficando com a boca a centímetros da sua. Ele mordeu a língua - de um jeito que me fez arfar - e sorriu sem mostrar os dentes. Aproximou seu nariz do meu e fechou os olhos. Fiz o mesmo. Nossas bocas se encostaram suavemente e nós dois sorrimos. Abri minha boca devagar, deixando sua língua entrar. Com uma mão comecei a brincar com o seu cabelo e com a outra segurei sua mão. Beijávamos-nos com mais vontade que o normal, e tirou o braço dos meus ombros e me envolveu pela cintura. No meio do beijo ele dava mordidas no meu lábio inferior e me fazia rir.
Eu estava hiperventilando.
Estávamos no meio do beijo quando o sinal bateu.
- Hm... - ele gemeu, separando nossas bocas. – Por que, Deus?
Encarei seus olhos, que me olhavam divertidos.
- É a vida... - entortei a boca. - Uns dias a gente perde, nos outros a gente ganha...
- Ha ha ha, gracinha. Vai pra aula vai, manter sua média 9,95.
- 9,98. - corrigi, e ele virou os olhos.
já se levantava, e voltava com , os dois sérios.
Despedi-me de com um selinho e fui com e para dentro. Passamos por Hayley e Lallie, que sussurravam no corredor. Assim que nós passamos, elas pararam de falar e nos olharam com desdém. Quando viramos o corredor elas recomeçaram a conversar baixinho.
Alguma coisa estranha estava acontecendo.
Mas não me importei. Tudo estava bem.
Pena que tudo que é bom um dia acaba...
Mais tarde...
Despedi-me das minhas amigas com um beijo no rosto. foi em direção à , que a esperava perto de seu carro. Os dois haviam combinado de conversar direito aquela tarde. foi com em direção ao carro de . Ele deixaria as duas na casa de e iria para sua casa encontrar e chamá-lo para ir junto ao bar.
Um encontro duplo. Fofura!
saiu mais cedo da aula - lê-se cabulou a última aula - e mandou uma mensagem avisando que me esperaria perto do carrinho de cachorro-quente do campão. Caminhei até lá, procurando-o com os olhos. Não o encontrei em lugar nenhum, estranhando. Coloquei minha mochila no chão e me sentei, esperando. Passados uns cinco minutos, nada de . Coloquei novamente a mochila nas costas e resolvi procurá-lo. Talvez existisse outro carrinho de cachorro-quente no parque...
Afastei-me dos alunos aglomerados e entrei na área mais silenciosa do campão, perto das árvores. Estava tudo quieto e fazia frio por estar longe dos raios solares. De repente ouvi uma voz feminina sussurrar. Parei, estática. Agucei o ouvido. Não consegui ouvir nada, então dei cinco passos para frente, reconhecendo Lallie. Ela conversava com alguém que estava apoiado no tronco de uma árvore. Não conseguia ver quem era, nem ouvir sua voz, mas os dois pareciam ser bem íntimos.
Em condições normais sairia dali e deixaria o casal em paz. Não era uma desocupada que vivia atrás de fofoca. Mas estava sentindo alguma coisa esquisita naquela situação, e esse sentimento me fez ficar ali, escondida atrás de alguns arbustos baixos, observando Lallie gesticular.
Grande erro.
Ela deu dois passos para trás, e duas mãos a puxaram de volta.
Congelei. Eu... Eu conhecia aquelas mãos!
Dei dois passos para a esquerda, no exato momento em que Lallie se inclinava para beijar .
O meu .
Capítulo 16 - "V" de Vingança.
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 13:26, campão.
:
Minhas costas doíam de tanta pressão que estava fazendo contra o tronco da árvore. Não tinha para onde fugir... Eu não havia esquecido da promessa... Mas como eu poderia prever tudo que aconteceria na minha vida? Eu estava bêbado, pelo amor de Deus! Que tipo de pessoa acredita em promessas de um bêbado?
- Lallie, por favor... - murmurei, desesperado. - Não faz isso comigo.
- , você prometeu! - ela choramingou, com os olhos marejados. - Você sabe que a última coisa que eu queria era que isso acontecesse... Porra, eu amo você! E agora a única coisa que me resta é a sua promessa!
- Eu estava bêbado, Lallie! Bêbado! - exclamei, exaltado. Ela abaixou os olhos, deixando algumas lágrimas caírem. Suspirei. - Me desculpe, não queria te fazer chorar... É só que... Você consegue me entender? Entende a sinuca que você me deixou?
- Tudo bem, ... Se você não preza nada do que nós passamos juntos, eu não posso fazer nada... - ela levantou a cabeça, limpando as lágrimas. Deu dois passos para trás, ameaçando ir embora.
Fechei os olhos. Se eu parasse para pensar, ela era mesmo o mais próximo que eu cheguei de gostar de alguém. Era minha melhor amiga, minha ficante fixa. E agora eu havia tirado tudo isso dela. Se eu pudesse escolher, claro que não o faria, pois não queria magoá-la depois de todos aqueles anos de idas e vindas, de amizade. Mas o que eu poderia fazer? Eu estava apaixonado por outra pessoa! E acima de tudo eu não queria magoar !
Mas eu já havia magoado Lallie por ficar com Laureen durante 8 meses. E ela fora carinhosa o suficiente ao curar minha fossa uma semana depois que nós havíamos terminado. E agora ela estava ali, pedindo que eu cumprisse uma única promessa idiota para que ela pudesse seguir em frente.
Porque eu ainda bebia mesmo?
- Lallie, vem cá... - murmurei. Virei os olhos e puxei-a de volta.
- Você é mesmo um cara perfeito. - ela sussurrou, rindo.
Ela juntou seus lábios aos meus, ainda sorrindo. Segurei-a pela cintura, sentindo seu perfume doce. Seus cabelos loiros e lisos caíram no meu ombro, e ela colocou as duas mãos em meu pescoço.
Beijei-a por alguns segundos. Era bom, com certeza era. Bom e conhecido. Mas não era quem deveria ser... Eu estava traindo a confiança de , e algo me dizia que aquilo não morreria ali. Só de pensar em vendo aquilo, um arrepio passou pelas minhas costas.
Fechei a boca, dando um selinho para terminar o beijo.
- Me desculpe, Lallie, você é ótima, e eu tenho certeza de que alguém muito melhor do que eu vai te encontrar e rir de mim por perder uma garota como você. Mas atualmente meu coração pertence à outra garota... - abri os olhos, encontrando os seus lindos olhos azuis fitando o chão. - Eu sinto muito.
Lallie mordeu o lábio inferior e olhou para cima, segurando as lágrimas.
- Ela tem muita sorte. Ser o primeiro amor de ... - então abaixou os olhos, dando de ombros. - Então acho que esse é o fim.
- Sim. - concordei, desapoiando-me da árvore. - Espero que ainda possamos ser amigos.
- Não sei se já estou preparada para isso... Mas quem sabe no futuro?
- Vou esperar ansiosamente por esse dia. - sorri, beijando sua testa carinhosamente.
Caminhei para longe dali. Assim que encontrei o Sol novamente, coloquei a mão em cima dos olhos, incomodado com a claridade. De longe pude avistar a mochila desenhada com arames farpados de , e sorri.
Até sua mochila me fazia sorrir.
Era claro que contaria para ela. Era a primeira coisa que iria fazer. Explicaria a promessa e pediria perdão. E se ela não me perdoasse não a deixaria em paz até que o fizesse.
Corri até sua direção. Quando estava perto o suficiente para que ela pudesse me ouvir, chamei:
- ! - como ela não esboçou nenhum tipo de reação, pensei que não tivesse me ouvido. - ! Atrás! - gritei mais alto, fazendo-a parar no lugar. Caminhei até ela, que se virava lentamente. - Oi, me desculpe, tive que resolver algumas coisas e...
- Eu não posso fazer isso. - ela murmurou, me cortando. Olhava o chão, estática. Levantei a sobrancelha. Quê? – Olha, , você é um cara legal e tudo mais, mas eu... Eu não posso ficar com você.
- Como assim, ? Estava tudo bem até hoje de manhã! - exclamei, exasperado. Será que ela... Será que ela havia visto alguma coisa? Apressei-me em me explicar. - , se você viu alguma coisa agora, eu posso explicar. Eu havia prometido à Lallie que...
- Não é nada disso. - ela subiu o olhar, me encarando. - Eu... Eu gosto de outra pessoa.
- Você o quê?
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 13:29, campão.
:
- Eu gosto de outra pessoa. - repeti, firme.
Fiquei alguns segundos encarando o chão.
- Quem? - ele finalmente perguntou, com cara e voz de incrédulo.
Era melhor assim. Nada de cenas de ciúmes, nada de brigas. Uma desculpa idiota pra terminar uma relação que estava fadada ao fracasso. Você pode não concordar, e dizer que o amor supera tudo. E sim, eu o amava, apesar de tudo. Mas eu simplesmente não sabia lidar com tudo aquilo. era um cara desejado, um cara que sabia encantar as pessoas. Qual era meu papel no filme que era sua vida? A nerd que no final ficava bonita e de sobra ganhava o príncipe encantado? Isso eu não poderia aturar. Porque eu tinha os melhores exemplos de que a vida real não era como nos filmes. A vida real era cruel e sabia te colocar em seu devido lugar. E foi o que eu fiz. Poupei esforços em vão, poupei problemas insolúveis. Coloquei-me onde não deveria nunca ter saído.
Além do mais, eu estava muito puta. Magoada, chateada, me sentindo traída. Estava um lixo... Não estava a fim de ouvir explicações furadas, mentiras deslavadas. Ele era um galinha, e mentir era o que ele fazia melhor. Criar ilusões era o seu dom... A ingenuidade foi minha de ter acreditado que comigo seria diferente. Aquele era o ponto final.
Mas por que, mesmo sabendo de tudo isso, eu estava sentindo como se tivesse acabado de receber um chute no estômago?
Mas o pior não foi mentir. O pior não foi fingir indiferença ao fato de que ele estava beijando Lallie. O pior foi ter que vasculhar minha mente em poucos segundos à procura de alguém que pudesse fazer sentir raiva de ter me conhecido. Alguém que ele odiasse, e que o odiasse de volta. Alguém como...
- Eric. - respondi, achando o cara perfeito. Sorri com o canto da boca com a minha esperteza, mas pareceu não perceber, tamanha sua surpresa.
- Eric Illing? - ele perguntou, deixando a boca aberta.
- Sim. - murmurei, não conseguindo encarar seus olhos , que brilhavam de raiva. - Sempre gostei.
- Que ótimo. - ele ironizou. - Que grande bosta eim, ? Como você usa alguém desse jeito?
Segurei-me para não rir. Olha só quem estava falando!
- Me desculpe... Não era minha intenção... As coisas foram acontecendo, mas eu não posso mais continuar com isso. - estava com vontade de xingá-lo de todos os palavrões que conhecia, ou jogar na cara dele como estava sendo hipócrita, mas me segurei. Eu queria acabar com aquilo de uma vez por todas. E queria que ele sofresse também.
You've never been so used, my little decoy!
- Bom, acho você já disse tudo... Obrigado por me fazer de idiota. - ele exclamou, dando as costas para mim e indo embora, sem se despedir. Deu alguns passos e acendeu um cigarro, ignorando algumas pessoas que o cumprimentaram pelo caminho.
"De nada" pensei em dizer, mas ele já estava longe, e eu não estava com ânimo para brincadeiras.
Suspirei, virei-me e fui em direção ao ponto de ônibus. Estava me sentindo vazia.
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 13:45, home sweet home.
Guys:
- Não pergunta. - comandei, assim que entrei em casa e percebi que e abriam a boca para perguntar o porquê de eu ter voltado tão cedo. - Sério, não pergunta.
Eles se entreolharam, confusos. Joguei minha mochila em cima do sofá com raiva e fui até a cozinha. Abri o armário de bebidas e peguei uma vodka solitária, que empoeirava desde o churrasco de aniversário de . Levei-a para a sala, pegando o cinzeiro no caminho. e agora ignoravam minha presença, como pedido, e jogavam Super Smash Bros. Acendi um cigarro e dei um longo gole na vodka, estremecendo, enquanto observava o jogo, sem prestar muita atenção.
Puta merda, o que acabara de acontecer? Estava tudo bem de manhã! Estava tudo ótimo! Que porra de tarde fora aquela?
Dei mais um gole na vodka. Não queria pensar, não queria pensar, não queria pensar.
PORRA! Eric Illing? Ela estava de brincadeira? Que tipo de atração um repetente idiota poderia causar em ? Que qualidade poderia tê-la agradado? Ele era um escroto que só sabia foder com a vida dos outros. Será que ela sabia que por causa dele eu quase morrera uma vez? Cara otário do caralho...
Vai tomar no cu... Vai se foder... Caralho...
- Cara, eu não queria dizer nada, mas você está xingando baixinho, e meu vô fazia isso. - comentou, e eu tomei mais um gole. - Cara, alguém te fodeu legal...
- É. - foi a única coisa que eu respondi, antes de pegar o cinzeiro e subir para o meu quarto. Não queria conversar com ninguém, e sabia que insistiria até eu mandá-lo tomar no cu.
Sentei-me em minha cama, dando mais um gole na vodka. As janelas estavam fechadas, mas a luz solar conseguia entrar por algumas frestas. Apoiei a cabeça no vidro da janela e fechei os olhos. Dei um longo trago, sentindo uma pressão em meus pulmões. Soltei a fumaça pra cima, embaçando minha visão.
Eu queria parar de pensar. Era a única coisa que eu queria. Mas não conseguia... Seria aquilo vingança por ter me visto beijando Lallie? Ou era mesmo verdade? Eric Illing? Justo Eric Illing? E por que ela havia me feito de idiota daquele jeito, se estava a fim de outro? Não podia ser verdade... Ela deveria estar puta comigo... Só podia ser...
Porra!
Dei mais um gole na vodka e terminei o cigarro. Foda-se a cirrose, foda-se o câncer no pulmão.
Deitei-me na cama e fiquei encarando o teto.
"Porque você fez isso comigo, ?" pensei, suspirando. "Você foi a primeira menina que eu amei de verdade..."
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 13:45, meu quarto.
:
- Maggie, Maggie... Como eu queria ser uma cadelinha saltitante como você agora... - comentei, acariciando as orelhas da minha cachorrinha. Ela encostou a cabeça em minha barriga e me olhou com seus olhos verdes. Lambeu a ponta dos meus dedos e abanou o rabinho. - Eu sei, querida, mas não estou com ânimo para passear agora...
Ela enterrou o fucinho no cobertor e suspirou.
Deitei a cabeça no travesseiro e encarei o teto. Sue estava na sala assistindo TV e meu pai ainda não estava em casa. Estava completamente sozinha com meus pensamentos.
A cena de mais cedo não me saía da cabeça. puxando Lallie para mais perto. O beijo... Toda vez que pensava naquilo sentia vontade de vomitar. Eu sabia que os dois eram amigos desde sempre, e sabia de seus pequenos casos, mas nunca, nem por um momento, pensei que ele trairia minha confiança. Não éramos namorados, e não havíamos prometido monogamia, mas acho que estava subentendido, não? Afinal, quem ele pensava que eu era? Uma qualquer que não se importaria em ver o cara que estava ficando agarrando outra nos arbustos? Porque se essa era a imagem que eu passava, tinha alguma coisa errada. Muito errada.
Ouvi o telefone tocar, mas ignorei. Sue atendeu lá embaixo e eu continuei bolando teorias de o porquê estar agarrando Lallie, até que Sue gritou do andar de baixo:
- ! Telefone! - por um momento achei que fosse , e meu coração parou. - É sua mãe!
Ah... Que bosta...
Peguei o telefone na base e gritei para Sue desligar. Assim que ouvi o clique na linha, murmurei, desanimada:
- Oi, mãe.
- Querida, você não imagina o quão lindo é seu vestido para o baile! - minha mãe piou do outro lado. Virei os olhos. "Tudo bem comigo, mamãe, obrigada por perguntar..." - Você está lembrada que é esse sábado, certo? Presumo que tenha um smoking... - ela tagarelava, mas eu havia parado na parte em que o baile era sábado.
O baile era sábado. Como eu conseguiria encarar ? Dançar com !
Ai, meu Deus...
Ouvi minha mãe delirar por alguns minutos, só grunhindo como resposta. Assim que ela terminou de despejar toda sua futilidade em cima de mim, avisou que precisava ir buscar meu meio-irmão na natação. Mas antes me deu uma ótima notícia: Eu já poderia escolher um carro.
Bom, pelo menos uma notícia boa para variar...
- Beleza, mãe, vou escolher e te mando por e-mail. - tentei parecer animada, mas saiu mais como um muxoxo.
- Ótimo, querida! Sábado de manhã mandarei o motorista para buscá-los. Um beijo para você e mande um beijo para !
- Pode deixar. - suspirei, desligando o telefone e o recolocando na base.
Comecei a contar na cabeça as vezes que precisaria encontrar antes do ano acabar. Ainda precisaria encará-lo na escola no dia seguinte, sexta no show, sábado no baile e segunda-feira no projeto - que aliás, precisava decidir onde o colocaria no maldito projeto. Talvez colocasse ele numa fantasia de cachorro-quente e estava tudo resolvido. Depois desses quatro dias, eu poderia esquecer que existira na minha vida e seguir em frente. No final do ano iria para a faculdade e esqueceria de tudo.
Deus, por que doía tanto pensar nisso?
Olhei para o celular em cima da mesa. e provavelmente estavam se arrumando para o encontro duplo, e com certeza estaria se agarrando com . Pra quem poderia ligar? Ninguém. Absolutamente ninguém.
Vida de merda...
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 14:07, colégio Mackenzie.
:
- E foi isso que aconteceu. - terminei a narrativa, observando os olhos de diminuírem. Depois de muito pensar em casa, resolvi ir buscá-la na escola, pois ela sempre fora minha voz da razão, e era bom ouvir o ponto de vista de uma mulher para variar. Estava meio alto, e ela percebeu, não me deixando dirigir e me fazendo parar o carro em frente à escola para conversar. - O que você acha que é? Vingança ou ela gosta mesmo do cara?
- , tá na cara que ela te viu e ficou puta. Aliás, se eu fosse ela nunca mais olharia na sua cara... - comentou, sombria. - Ou você acha que é legal ser feito de idiota?
- Pô, , dá um desconto, a menina estava quase chorando! E ela é minha amiga desde sempre, sempre me apoiou, sempre esteve ao meu lado... Também não achei justo com ela... - expliquei, e riu, amarga.
- Você acha mesmo que ela só queria que você cumprisse uma promessa idiota? - perguntou. - Ela queria mesmo era foder com a sua relação. Por que você acha que ela pediu pra conversar com você no exato momento E lugar em que você havia combinado de se encontrar com ? Me desculpe, , mas você foi muito idiota. Lallie pode ter ficado ao seu lado como acompanhante, mas nunca mexeu um dedo pra te ajudar, em nada. É a que está realizando seu sonho e é ela que vai impedir o papai de te mandar pra um internato. E eu gostava tanto dela... - ela murmurou, sentida.
- Você nem conhecia ela! - exclamei, incrédulo. Depois abaixei a voz, percebendo alguns olhares em cima de nós dois. – Porra, , você poderia ter me animado um pouquinho pelo menos...
- Porra, ! Mas você também poderia ter sido menos burro! Quem promete a uma garota apaixonada um beijo de despedida se "um dia se apaixonasse por outra"? - ela perguntou, visivelmente irritada, apoiando a bochecha na mão. Olhou triste para fora do carro, observando aquele garoto intercambista, Victor, conversar com duas meninas. - Além do mais, não estou no ânimo de te animar.
Bom, pelo menos eu não era o único com o coração partido.
- Ele pisou na bola também? - perguntei, curioso.
- Sim. Feio. Vocês não conseguem não ser idiotas?
- Não... - respondi, olhando para frente. - O que ele fez?
- O que ele não fez. Não me chamou para ir ao baile.
- Ele chamou outra menina?
- Não.
- Então ele ainda pode te chamar.
- Os ingressos acabaram. - ela disse, frustrada. Depois virou o rosto para mim. - Mas, de qualquer jeito, não estamos aqui para falar de mim, e sim de você. O que pretende fazer agora?
- Não sei. Pedir desculpas? - perguntei, indeciso.
- Sim, se você espera perdê-la, é uma ótima coisa a se fazer.
- Então o que eu devo fazer?
- Deve mostrar pra ela que está arrependido, de verdade. Além de explicar o que realmente aconteceu. Sério, , use sua criatividade. Eu sei que você consegue. - ela ironizou, dando um peteleco no meu nariz. - Você está em condições de ir para a casa?
- Até parece que você não me conhece. Eu dirijo melhor bêbado! - exclamei, fazendo-a rir.
- É, tá legal... Só não vai se matar, ok? Agradeço a carona, mas vou para a casa da Sarah fazer trabalho. - ela se inclinou para poder beijar minha bochecha. - Se cuida, .
- Você também, baixinha. - brinquei, e ela saiu do carro, batendo a porta.
Esperei ela atravessar a rua e se enfiar no meio de um grupo de meninas antes de ir embora. sabia dar conselhos, e não era por menos que queria fazer psicologia. Era a razão em pessoa. Era uma pena estar sofrendo por um metido idiota importado da França.
Agora teria que bolar um jeito de fazer me perdoar, só não sabia por onde começar...
Bom, teria tempo para pensar naquilo durante o ensaio.
Quinta-feira, dia 12 de Novembro, 15:12, casa dos meninos.
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Que constrangedor. Sério. Havia me esquecido que tínhamos ensaio àquela tarde. Quando me ligou quase caí de costas. Aliás, se não estivesse deitada, provavelmente teria caído.
- Eu preciso mesmo ir? - perguntei, implorando mentalmente para que ele dissesse que não.
- É melhor, . O show é amanhã, precisamos ver se está tudo certo e passar o setlist...
Ele estava certo. Então eu estava ali, encarando meus tênis, enquanto eles passavam as músicas.
Assim que cheguei à casa deles dei de cara com na sala, que abriu a boca para dizer algo, mas então a fechou e só ficou me olhando com cara de idiota. Acenei com a cabeça para ele, no melhor estilo me-desculpe-mas-não-é-você-quem-eu-amo e fui me sentar ao lado de , que estava contando como fora mais cedo com . Tentei ouvir, mas não consegui absorver as palavras. Teria que pedir para que ele contasse novamente mais tarde, pois não estava em condições de ouvir histórias de amor.
Fiquei um bom tempo viajando nos desenhos do tapete da sala até que avisou que estava tudo pronto para o ensaio. Caminhei ainda olhando para o chão, tentando ao máximo não cruzar olhares com . Sabia que se o fizesse não aguentaria e pediria uma explicação. Mas eu não queria ser mais uma vítima. Se eu nunca fora a vítima nas situações, por que dessa vez seria diferente?
Só podia ver da sua cintura para baixo, e também suas mãos. As mesmas que agarraram Lallie mais cedo...
Argh!
Achei estranho ele não querer conversar comigo direito, pois eu havia sido bem vaga mais cedo. Mas, bom, a julgar pelo beijo que dera, acho que ele não estava muito preocupado comigo naquele momento.
Isso fez meu pulso se fechar.
Por que eu me entregara tanto assim a ele? Sério, com o que eu estava na cabeça?
- O que você acha, ? - perguntou, e eu levantei a cabeça pela primeira vez em muito tempo. - Five Colours pra abrir?
- Sim. Depois Get Over You. Pra fechar... Não sei, Room? - opinei, ignorando , que estava apoiado na parede de espuma.
- É, pode ser... São quantas músicas mesmo? - perguntou, anotando em um papel o que estávamos falando.
- Oito músicas, mas sem a galera pedir, estourando nove. - respondi, roendo as unhas. Depois lembrei-me de minha mãe, e de me dizendo que homens reparavam muito em mãos feitas e limpas, e tirei o dedo da boca.
- Beleza, se pedirem a gente pode fazer um cover... Beatles é uma boa, todo mundo curte. - comentou. - Help ou, sei lá, I Wanna Hold Your Hand.
- A gente vê isso depois, vamos fechar o setlist principal agora. - cortou seu barato, querendo ser profissional.
Depois do setlist fechado, eles passaram as próximas duas horas ensaiando. E eu passei as duas horas me segurando para não dar uma só olhadela à . Foi quase impossível, mas quem acredita sempre alcança, e eu senti uma incrível sensação de vitória assim que desligou os amplificadores e pediu arrego.
Os quatro foram fumar, e eu os acompanhei. Peguei meu maço, acendi um cigarro e fiquei observando a pequena névoa que se formava em cima da piscina. Eu já era meio alucinada, e depois do tiro no coração que havia recebido mais cedo, estava mais louca do que o normal.
- Então, , como vamos fazer amanhã? - perguntou, estalando o dedo na frente do meu rosto.
- O show é às 14h. Já convidei todo mundo no twitter, facebook, myspace. Tivemos 130 ingressos comprados, mais umas 50 confirmações de compra na hora. Acho que vai chegar a umas 250 pessoas... - quando comentei isso, eles vibraram silenciosamente. - Vocês devem conhecer o lugar, ele é pequeno, com um palquinho no fundo, embaixo das luzes. No dia o restaurante vai fechar, então vai ser só pro show mesmo. O lugar aguenta 400 pessoas, mais do que isso o proprietário falou que não deixa mais entrar. Menos de 16 anos não entra, cerveja, vodka, água e refrigerante nos bares. Quando for umas onze horas vou passar aqui com a Van da gravadora, pegar vocês e os instrumentos. Uma hora da tarde o som já deve estar passado. A casa abre 13h30 e você entram às 14h. Às 15h30 uma outra banda vai tocar, então vocês tem uma hora e meia de show.
- Não vai ser uma putaria maluca, né? O pai do vai vir com a mãe dele... - perguntou, receoso.
- Não, tem um mesanino, onde só vips entram, os pais e essas coisas. - respondi, sentindo meu rosto esquentar por pensar que "conheceria" seus pais.
Meu Deus, eu estava agindo como uma completa babaca! Era só um garoto pelo amor de Deus. E eu era uma fria sem coração, por que não conseguia agir normalmente?
- Vai ser demais! - deu um gritinho afeminado.
- Esse é só o começo. Fim de semana que vem vocês tem mais dois shows e no primeiro final de semana de dezembro vocês vão participar de um festival grande, só estamos fechando alguns contratos. - comentei, fazendo-os rir como menininhas.
- , você é nosso anjo da guarda! - exclamou, animado.
- Nós seremos eternamente agradecidos a você. Não é, ? - disse, dando um tapa no ombro dele.
- Sim. Sim. Eternamente. - ele respondeu, meio seco.
Ele fazia a bosta e ainda me tratava mal!? Será que ele poderia ser menos imbecil?
- Bom, meninos, preciso ir porque amanhã é correria. Procurem dormir, sei lá, sem nenhuma festinha particular hoje à noite. Amanhã vocês têm a noite inteira pra fazer a after party, não precisa ser hoje. - recomendei, apagando meu cigarro no cinzeiro e me levantando. - Boa noite. Até amanhã.
- Boa noite, ! Nós te amamos! - gritou.
- Sim, você é nosso mascote! - brincou.
- Até que ela ficaria legal numa fantasia de mosca... - comentou.
- Há-ha, vão se foder. - mostrei o dedo do meio, fazendo-os ir.
Abri a porta de correr que dava para a cozinha. Passei pela sala e abri a porta da frente. Quando fui fechá-la, senti que algo impedia. Virei-me e dei de cara com , ofegante.
Aquilo já estava ficando frequente.
- Posso pelo menos te dar uma carona? - ele pediu, me mostrando as chaves do carro.
- Não precisa, eu vou de ônibus. - respondi, seca. Aqueles olhos que tanto me animavam só estavam me deixando mais nervosa.
- , por favor, eu sei que você só está brava comigo, que essa história de Eric é mentira. Não precisa inventar coisas, a gente pode conversar e resolver isso. - ele disse, segurando uma risadinha no canto da boca.
Imbecil! Idiota! Canalha! Prepotente! Ainda tinha a cara de pau de rir da MINHA cara?
- , sério, eu preciso ir embora. - me segurei para não fechar a porta em sua mão e me virei, descendo as escadas.
- , por que você não para de besteira e deixa eu me explicar? - ele suplicou.
Bufei. Eu era fria e calculista, mas era um ser humano. Tinha curiosidades e necessidades. E, acredite se quiser, sentimentos.
Virei-me, meio contra a vontade da minha consciência, e esperei. desceu dois degraus, ficando um acima de mim. Apoiou-se na grade da escada e respirou fundo.
- Eu tinha prometido à Lallie que se algum dia me apaixonasse por alguém, lhe daria um beijo de despedida. Eu estava bêbado, e ela ficou enchendo meu saco, então eu acabei prometendo. Já faz uns dois anos isso. E hoje ela veio me cobrar. - ele explicou, com os olhos suplicantes. - Por favor, você precisa acreditar em mim! Fiquei bolando algum jeito de te pedir desculpas hoje no ensaio, mas achei que ser sincero era melhor. Sério, , eu nunca quis te magoar, mesmo. Eu sei da minha fama, sei o que as garotas falam de mim pelo colégio, mas sei também que o que eu sinto por você é diferente, é especial. Eu... - ele pigarreou, meio constrangido. - Sei lá, eu... Eu amo você.
Deixei minha boca abrir um pouquinho. Afinal, era muita informação pra uma pessoa só. No começo do dia nós estávamos bem. Na metade ele havia me traído. No final da tarde estávamos nos ignorando e pra fechar com chave de ouro ele dizia que me amava?
WTF, ?
Fechei os olhos, tentando organizar as coisas. Mas o "Sei lá eu... Eu amo você" não me saía da cabeça. Como eu poderia ficar brava com alguém que me amava? E que, bom, eu amava de volta?
- Fala alguma coisa? - ele pediu, segurando minha mão.
Olhei para suas mãos. As mesmas que puxaram Lallie pela cintura mais cedo. As mesmas que me proporcionaram os piores segundos da minha vida. As mesmas que já estavam cansadas de agarrar garotas por aí. As mesmas que estavam cansadas de enganar garotinhas inocentes.
Eu não era mais uma garotinha. Não era inocente. E não cairia no seu papo furado.
- Bom, em relação à explicação, eu acredito em você. - respondi, calculando friamente o que poderia dizer para magoá-lo como ele havia me magoado mais cedo. - Mas em relação a você me amar, eu não posso fazer nada. Já te disse hoje de manhã que eu gosto de outra pessoa, e nada que você fizer ou disser vai mudar isso. Eu sinto muito, , mas eu não correspondo aos seus sentimentos.
Dito isso, soltei minha mão debaixo da sua e observei seus olhos , antes confiantes, murcharem um pouquinho. Não deixei ele dizer nada e praticamente saí correndo pela rua como uma doida. Cheguei ao ponto de ônibus bem na hora em que o meu passava. Subi esbaforida, sentei-me e apoiei a testa no vidro.
Agora tinha que dar um jeito de ficar com Eric Illing.
Só assim minha vingança estaria completa.
Capítulo 17 - Pay Back.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 10:34, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- Ah, cara, fala sério, isso só pode ser brincadeira. - reclamei, enterrando as mãos no meu cabelo. - Eu nunca vi ela conversando com esse otário antes, e do nada eles são amigos íntimos?
- Você nunca viu porque você nunca prestou atenção nela antes de precisar de sua ajuda. - criticou sem olhar para mim.
- É, isso é verdade. - provocou, acenando com os dois braços para , que saía do segundo prédio com e ao seu lado.
As três vieram até nós quatro rindo dos malabarismos de para chamar atenção. deu um selinho em , sentando-se ao seu lado, com o rosto vermelho. nos cumprimentou e cochichou algo no ouvido de , que riu. sentou-se entre e , e iniciou uma conversa sobre a doença da vaca louca com , que parecia uma criança empolgada.
Virei os olhos.
O amor estava no ar.
Menos para mim.
- É, , parece que ninguém vai tocar pelado amanhã. - sussurrou em meu ouvindo, fazendo rir.
Ignorei-o. Não conseguia tirar os olhos de e Eric, que estavam conversando animadamente desde o começo do intervalo. Ele a estava prensando na parede, no melhor estilo bad boy, e ela ria de quase tudo que ele falava. De vez em quando ele colocava uma mecha do seu cabelo que insistia em cair atrás de sua orelha, e ela abaixava o olhar, envergonhada.
Onde estava aquela garota fofa enquanto nós estávamos juntos? Sério, eu queria mesmo saber. Quero dizer, ela estava até maquiada pelo amor de Deus! Quando nós estávamos "juntos" eu tinha que brigar com ela para rolar pelo menos um cabelo solto!
Aquele cara ia me pagar... Ah se ia...
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 10:35, intervalo do Colégio Mackenzie.
:
- Então é esse o trato! - exclamei, sorrindo como uma santa, enquanto Eric brincava com o meu cabelo.
- Fechado. Mas você vai fazer todos os trabalhos, certo? - ele perguntou, dando um peteleco no meu nariz.
Aquilo me irritou.
Mas Eric era tão gato que eu meio que não me importei. Sabe como é, loiro, alto, olhos verdes, cabelos pro lado e ombros largos. Do tipo sedutor com cara de garotão.
Lindo!
- Eu já tenho todos eles feitos. - respondi, e ele sorriu, animado.
- E por quanto tempo vai precisar de mim? - ele perguntou, se aproximando.
Bom, pelo menos ele era um bom ator.
- Não sei, talvez alguns dias... Quando eu não precisar mais de você eu aviso, ok?
- Ok, gata. - ele disse, beijando minha bochecha.
- É, mas sem gracinhas, Eric. É só provocação.
Ele olhou para a direção de , que parecia estar com vontade de estrangulá-lo, e riu.
- Vai ser um prazer.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 10:36, intervalo do Colégio Mackenzie.
Guys:
- , cara, é sério, você tá parecendo um animal esfomeado. - chamou minha atenção. - Aquelas meninas da oitava série parecem com medo de você.
Ele apontou para um grupo de garotinhas sentadas no chão me olhando, espantadas. Então eu me olhei. Estava sentado na ponta da mesa de concreto, curvado, olhando para fixamente, com os olhos arregalados e a boca aberta. Só faltava babar.
- Ah, cara, foda-se, eu tô fora daqui. - murmurei, levantando-me.
- Cara, eu não ligo pra onde você vai, você sabe que não, mas, por favor, esteja em casa às 11h. - gritou, e eu só acenei com a cabeça, já longe da mesa.
Atravessei o pátio, passando indiferente por , que não desviou os olhos de Eric. Passei também por Lallie, que me lançou um sorriso angelical ao lado de Hayley. Ignorei-as também. Fui até os fundos do colégio, pulei a parte mais baixa do muro e entrei no Loui's. Ele estava atrás do balcão limpando alguns copos, e me cumprimentou com a cabeça, sem tirar os olhos de dois garotos esquisitos no fundo do bar, que fumavam algo suspeito.
Algo natural, se é que você me entende.
- E aí, Loui. - acenei, sentando-me no bar. - Me vê uma breja.
- Jovens nojentos. - ele resmungou, colocando a cerveja na minha frente. Apoiou a barriga no balcão e continuou a limpar o copo, que ficava cada vez mais sujo. Ri sozinho e entornei o líquido da caneca, limpando o bigode de espuma que se formou com o dorso da mão. Pedi mais uma, e repeti o movimento. Quando dei por mim, encarava uns 5 copos no balcão e estava meio zonzo.
Olhei no relógio, e já eram 10h47. Eu tinha 13 minutos para chegar em casa, e estava ligeiramente bêbado.
Bom, , bom. Fazendo besteiras desde mil novecentos e alguma coisa.
Meu Deus, eu não sabia nem o ano em que tinha nascido!
- Aqui, Loui, valeu. - despejei todo o dinheiro que tinha no bolso - talvez até um pouco mais do que aquelas cervejas valiam - e saí do bar, fazendo sinal para um táxi que passava. Ele parou e eu deslizei pelo banco de trás.
Bom, se eu teria que fazer aquilo, que fosse com estilo.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 11:03, casa dos meninos.
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- Irresponsável! - gritei, estressada, assim que saiu do táxi, meio bambo. - Você é surdo ou o quê? Eu disso 11 horas EM PONTO aqui! E você além de nos atrasar chega bêbado!
- Cuida da sua vida, . - ele respondeu, olhando no relógio do celular. - Você não é minha mãe. E são 11h03, que diferença isso faz?
- Imbecil. - murmurei sem ser ouvida, entrando na casa. e conversavam e fumava um cigarro, olhando nervoso para a porta. Pelo menos alguém queria que aquilo desse certo. Ao contrário do idiota do . - Ele chegou. - anunciei, e os três ficaram em silêncio assistindo passar pela porta e subir as escadas como se ninguém mais existisse além dele. Desceu com as mãos vazias e só aí percebeu que todos os instrumentos já estavam na sala. Mas pelo menos ele estava trocado.
Usava uma calça jeans de corte reto preta, um All Star também preto, camiseta verde escura do Star Wars e camisa xadrez vermelha e cinza por cima.
Apesar de tudo, ele estava muito gato. Muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito gato.
Por quê, Deus!? Por que você tinha que me castigar assim!? Sempre fui uma menina tão boa!
- Hm... ? Tá tudo bem? - perguntou, passando a mão na frente do meu rosto. Tirei os olhos de , que estava com aquela risadinha de desdém na cara, e senti minhas bochechas esquentarem.
- Sim, tá tudo bem. - respondi, ríspida. Coloquei meus óculos de sol D&G e fui em direção à porta. - Vamos então?
Os quatro me seguiram, colocaram os instrumentos em uma Van prateada e entraram na outra, exatamente igual. Fui na frente com o motorista e , e os três foram atrás. O lugar ficava perto de um lago, e era super movimentado àquela hora do dia. Estava nervosa por eles, mas sabia que se sairiam bem. Afinal, pelo menos uma coisa eles faziam bem: Música. Eu crescera nesse meio, e sabia distinguir o que era bom e o que era ruim. E o McFLY estava a um passo do estrelato.
Infelizmente eu havia feito um puta favor a quem não merecia. Mas os outros três compensavam tudo.
- Sabe, ele não é tão idiota assim, só está nervoso com o show. - sussurrou ao meu lado. - Ele tem medo de palco. Palcofobia. - ele riu da própria piada.
- Como ele tem medo de palco e quer ser um rockstar? - perguntei, achando graça.
- Ele não quer ser um rockstar. Nunca quis. Mas ele se convenceu de que nasceu pra isso. - olhou para frente. - Pelo menos foi convencido por nós. Você deve saber disso, . Uns treinam e ficam bons, outros nascem com o dom, treinam e viram estrelas. Outros simplesmente nascem para ser. Esse é o caso do .
Olhei para trás com o canto dos olhos. Ele estava com a cabeça apoiada no vidro da Van, olhando distante para fora do carro. Por um instante me senti tentada a perdoá-lo.
Mas só por um instante.
- Ele é sempre idiota. - resmunguei.
- Não querendo me meter, mas já me metendo, o que houve entre vocês dois?
- Não houve nada. Eu só não o amo como deveria amar. - menti, sem nem pensar. Estava com aquela desculpa pronta para usar caso alguém perguntasse o que havia acontecido com o casal mais estranho de todos os tempos, mas mesmo assim fora difícil dizer.
- Não é o que parece. - ele comentou, voltando a olhar para frente. - Mas se é verdade, é uma pena. Ele gosta mesmo de você.
"Não foi o que pareceu enquanto ele enfiava a língua na goela de Lallie..."
Ótimo, agora além de traída eu receberia lições de morais dos companheiros de banda do cara que havia me traído? Eu quem deveria estar dando lições de morais! Claro que eles não sabiam na parte da traição, então eu não poderia dizer nada. Na cabeça deles, eu era a errada por fazer o pobre sofrer.
Afinal, mesmo que ele não tivesse me traído, quem faz uma promessa bêbado para uma oportunista como Lallie?
Olhei para fora, observando as casas voarem pelo vidro. Chegamos ao TacoPlace em quinze minutos, e o lugar parecia lotado. Algumas meninas com saias curtas e meias arrastão esperavam do lado de fora, e alguns caras com o cabelo de lado fumavam um baseado e andavam de skate pela rua. Depois de vários anos frequentando o lugar, nunca o havia visto tão cheio. Olhei para , que olhava maravilhado pelo vidro. Fiz sinal para que o motorista fosse mais para frente. Assim que chegamos aos fundos, ele estacionou e nós saímos. , e foram para a outra Van retirar os instrumentos, e se afastou para falar ao celular.
Deveria ser Lallie. Aquela vadia não desistiria nunca até acabar com a minha vida.
Fui até os meninos, que recusaram qualquer ajuda minha, e me encontrei sozinha com assim que eles atravessaram a porta do estabelecimento.
- É, pai, é exatamente onde você está! ... Não, não é brincadeira... Sim, pai, eu estou aqui atrás fumando um baseado com esses skatistas... Pai, eu tô brincando... Entra e dá seu nome pra recepcionista, ela vai te colocar no mezanino, onde você será o próprio intocável, ok? - ele desligou o celular e ficou olhando para o visor. - Tchau pra você também, papai.
Guardou-o no bolso, tirou o maço de cigarros e acendeu um, não suspeitando - ou apenas ignorando - que eu estava ali.
Olhei para baixo, me analisando. Usava um mini-vestido estampado com uma jaqueta curta e preta, meia-calça preta, scarpin preto, bolsa de couro preta, colar e pulseiras de prata e meu cabelo estava preso num coque desfiado. Quando a coloquei, pensei que era uma roupa legal, mas naquele momento eu só conseguia me sentir estúpida com toda aquela produção. Passei horas e horas escolhendo, tentando pensar como uma pessoa "fashion", e aquele era o melhor que poderia conseguir.
No fundo eu queria mesmo era uma aprovação de , como se houvesse passado de mais um teste rumo meu aprendizado, mas nós não estávamos nos falando direito, e eu não conseguia olhar para ele sem querer matá-lo.
Apoiei-me na Van, peguei meu maço de cigarros e acendi um. se virou, surpreso por não estar sozinho, e me olhou de cima a baixo.
- Pensei que estivesse sozinho. - ele comentou, diminuindo nossa distância ao dar alguns passos em nossa direção. - Você está linda.
- Obrigada. - soltei a fumaça, esperando que ela camuflasse minha vergonha. - Não vai ajudar seus amigos?
- Eles já levaram tudo. - ele apontou para a Van vazia.
Olhei para ele, que me encarava com seus lindos olhos . Nós estávamos bem próximos. Mais próximos do que eu poderia aguentar.
Por que ele tinha que ter me traído? Por quê?
- Vamos entrar, vocês precisam passar o som. - lembrei-o, apagando o cigarro com o bico do scarpin e dando dois passos para o lado.
- Você não quer conversar comigo? - ele perguntou, imitando meu gesto.
- Quero, mas vocês precisam passar o som. - respondi, seca.
- . Olha pra mim. - ele ordenou. Levantei meus olhos. - Eu quero que você olhe pra mim e diga que você não sente nada por mim e que ama Eric Illing. Eu só preciso de mais uma confirmação e eu te deixo em paz definitivamente.
Fiquei muda por alguns segundos, encarando seus olhos. Por que era tão difícil mentir para ele? Por que ele não podia me deixar em paz? Estava claro que ele só queria curtir com a minha cara, então por que não admitia de uma vez e ficava com todas as garotas que queria ficar?
- , pare com... - tentei dizer, mas ele me cortou com uma só palavra.
- Mentirosa.
Olhei para ele, incrédula.
- Você não consegue fazer o que eu te pedi porque você é uma mentirosa. Eu já te expliquei o que aconteceu com a Lallie, e você não quer me perdoar. E eu disse que te amo! Você sabe o quanto isso foi difícil pra mim? - ele parou para respirar, alterado. - Mas é mais fácil, não é? Me colocar de lado de uma vez por todas. Afinal, eu sou só um galinha idiota que não merece nenhum tipo de valor. É isso que você pensa, é isso que todas pensam. Mas eu não sou idiota, , então não tente dar uma de superior pra cima de mim. Eu sei que eu errei, e estou tentando consertar isso, mas você não me dá uma porra de uma chance!
Bom, eu realmente não esperava por aquela.
Era verdade, sempre o achei meio idiota, meio bobão. E agora ele estava ali, me provando o contrário.
Mas me chamar de mentirosa foi meio golpe baixo. O mentiroso traidor era ele, não eu!
Fiquei sem palavras, gaguejando coisas sem sentindo enquanto ele me olhava impaciente, esperando uma resposta.
- , cara, temos que passar o som agora. - nos interrompeu, jogando uma bolinha de papel amassada em sua cabeça.
- Beleza. - ele concordou, sem tirar os olhos de mim. - Estou indo.
Depois virou e entrou no TacoPlace, deixando-me completamente sozinha.
Bom, ele veria quem era a mentirosa.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 13:02, TacoPlace.
Guys:
Ver Eric Illing entrar no TacoPlace assim que as portas se abriram não foi nenhuma surpresa. Assim como não foi surpresa nenhuma avistar Lallie, Hayley, Billy, Peter e Vincet entrarem no lugar. Todos estavam ali para infernizar minha vida no exato dia em que o que eu menos precisava era de confusão. Porque aquele era eu. Azarado e cheio de inimigos. Alguns inimigos desde sempre, outros ex-amigos.
- Que merda, eim? - comentou ao meu lado, como se lesse meus pensamentos, olhando por entre a estrutura do palco para nossos ilustríssimos fãs.
- Que grande merda. - concordei, fazendo-o rir.
Virei de costas e saí do lugar para tomar um ar. não estava mais atrás do palco porque graças a Deus suas amigas a mantinham ocupada no bar, e eu podia pensar direito sem ter que estremecer toda vez que ouvia sua voz. O que era bem tranquilizador. Mas minha cabeça continuava confusa. Afinal de contas, ela gostava ou não de mim? Ela estava ou não me punindo por tê-la traído? Eu não conseguia entender, não conseguia ler suas expressões.
E por que, diabos, ela tinha que estar tão gostosa?
Eu nem havia percebido quando chegara em casa, tamanha era minha irritação, mas depois que analisei o conteúdo enquanto fumava um cigarro era que a ficha havia caído. Eu conseguira transformar numa gostosa, e eu tinha certeza que pelo menos 90% dos homens do lugar estavam babando em suas coxas.
O que não me deixava muito contente para dizer a verdade.
Apoiei-me na parede e fechei os olhos para tentar pensar direito naquela história toda. Mas a única coisa que consegui foi bagunçar meu cabelo. Porque, na verdade, não tinha no que pensar. Eu a amava. De verdade. E já havia parado de tentar me convencer que não. E eu havia estragado tudo.
O que era uma merda, porque mesmo sabendo que ficar com Lallie fora errado, eu não me sentia mal por aquilo em particular. Porque Lallie era uma grande amiga. Mas o fato de nem me deixar explicar o que realmente havia acontecido estava me matando!
- Vamos lá, , é o seu momento. - colocou a cabeça para fora, rindo. - Se for vomitar, faça agora.
Senti meu estômago embrulhar. Aquela até que não era uma má ideia!
Curvei-me e vomitei no chão, fazendo gargalhar. Depois de despejar as panquecas que havia comido mais cedo e metade do meu suco gástrico, coloquei um chiclete na boca e entrei. já contava a todos que eu havia vomitado, mas aquilo não me incomodara. Eu estava tão incrivelmente nervoso que bloqueei tudo que meus amigos falavam.
- Bom, vamos lá. - colocou a mão em meu ombro. Abracei ao meu lado, que abraçou que fechou o círculo com . - Vamos lá, dudes, nós sabemos tudo de trás pra frente, somos bons e vamos mostrar pro pai do o potencial que o McFLY tem!
- É isso aí! - gritou, antes de desfazer o círculo e subir no palco. foi atrás dele, sendo seguido por .
Olhei para a estrutura de ferro na minha frente. A escada que dava para o palco parecia mais assustadora do que nunca fora. Eu não queria subir. Aliás, dizer que não queria subir era eufemismo. Eu queria era sair correndo dali para nunca mais voltar.
McFLY! McFLY! McFLY! McFLY! as pessoas gritavam, animadas.
deu dois passos para trás e fez sinal para que eu subisse. Olhei novamente para a escada, estático.
"Vai, , você consegue fazer isso. É só um show. Só um show." pensei, mas minhas pernas não queriam me obedecer. Olhei para suplicante, que olhou assustado para mim. Depois desceu as escadas sob algumas vaias.
- Qual é cara, você já fez isso antes! Vamos lá! - ele implorou, me abraçando pelos ombros e me rebocando para o palco. Subi as escadas abraçado a ele e me posicionei, sem olhar para qualquer lugar que não fossem meus pés.
Fechei os olhos apertados, tentando me concentrar. Todas aquelas pessoas estavam ali por mim. Eu já havia vomitado. E música era o meu dom, minha vida. Qual era o grande problema?
O GRANDE PROBLEMA ERAM TODAS AQUELAS PESSOAS ME ENCARANDO!!!
- E aí, galera, prontos para mais um baile do McFLY? - gritou ao microfone, fazendo as pessoas rirem.
- Here we go! - gritou, e Five Colours In Her Hair começou.
Passei a música inteira encarando meus tênis. Eu queria ver se as pessoas estavam curtindo, cantando, queria ver a cara do meu pai ao ver mais de 200 pessoas ali, só por mim, queria ver se as meninas já estavam bêbadas e queria ver o que estava fazendo. Mas eu simplesmente não conseguia levantar os olhos!
A música acabou e Obviously começou. As meninas da frente gritavam animadas, e eu podia ouvir as risadas escandalosas das minhas amigas de longe.
Aquilo aos poucos foi me dando confiança. Se todos estavam curtindo, por que não aproveitar?
Primeiro levantei a cabeça num pique só para o mezanino, encontrando meu pai, que olhava curioso para a platéia e falava algo com a minha mãe, que concordava com a cabeça. Ele não parecia bravo, entediado nem indiferente. Ele estava presente em corpo e alma, e parecia até animado.
Ponto pra mim!
Desci a cabeça lentamente, avistando minhas amigas no bar, bebendo e rindo. Mas não estava com elas. Virei a cabeça para o lado, encontrando Lallie e Hayley, que dançavam animadas. Não encontrei nem Billy nem Peter, só Vincent, que conversava com uma garota muito bonita do segundo ano. Perto da porta Hirata e seus amigos enchiam a cara e gritavam.
Estava tudo legal. Tudo perfeito. Todos estavam curtindo.
Até... Bom, até que encontrei .
Beijando Eric Illing.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 13:00, TacoPlace.
Girls:
- , por favor, acho que por hoje já deu. - disse, autoritária, tirando o shot de vodka da minha mão. Ela colocou no balcão e fez sinal para que o barman o levasse para longe.
Virei os olhos, puta. Qual é, eu não podia nem encher a cara a vontade?
Olhei novamente para o palco, lenta. ainda não havia levantando a cabeça. Em que diabos ele estava pensando?
Olhei para o lado, observando Lallie dançar e seduzir todos os homens ao seu redor. Inclusive Eric, que parecia ter esquecido que eu estava ali, esquecido minha proposta e esquecido até qual era seu nome.
Olhei novamente para o palco, e percebi que , assim como Eric, olhava para Lallie. A primeira vez que o canalha tirava os olhos dos tênis era pra olhar para aquela vagabunda? Meu Deus, como eu fora idiota em acreditar que ele pudesse gostar pelo menos um pouco de mim!
Mordi a boca, espumando de raiva. Agarrei Eric pelo braço, o virei para mim e dei o beijo mais escandaloso que conseguia.
No começo ele ficou surpreso, mas depois curtiu e envolveu minha cintura com seus braços. Eu estava com a cabeça longe, ouvindo o som, que agora estava descoordenado. Eles não haviam errado nada até aquele momento, e depois do beijo pareciam uma banda de garagem que não tinha experiência nenhuma.
Soltei a cabeça de Eric preocupada e olhei para o palco, encontrando os olhos de cravados em mim e seus companheiros de banda olhando para ele desesperados.
- Bom, isso não estava no trato, mas eu posso me acostumar. - Eric brincou atrás de mim, mas eu o ignorei, sem tirar os olhos de .
", caralho, presta atenção!" pude ler os lábios de , que gritavam pelas costas de .
Mas não era preciso a bronca, porque assim que meu beijo com Eric terminou, a música voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Aliás, leigos na música provavelmente não haviam percebido o erro.
Eu estava me sentindo bem. Havia causado algo em . Mas não era minha intenção acabar com seu show, por isso tirei os braços de Eric da minha cintura e dei dois passos para o lado, que pareceu não se importar e voltou a observar o pequeno showzinho de Lallie e Hayley, hipnotizado.
voltou a encarar os tênis, e assim ficou até o final do show.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 15:12, TacoPlace.
Guys:
Eu observava , e de longe, enquanto eles conversavam com as pessoas que os rodeavam. Eu deveria estar junto, lambendo o cu dos meus supostos fãs, mas não estava nem um pouco a fim. Eu só queria ficar quieto, longe de todos, respirando fundo para tentar fazer meu coração parar de pular como louco no peito.
Meu medo do palco era maior do que eu pensava. E aquilo somado ao beijo de e Eric era tortura chinesa.
Para mim ela o ter beijado era o ponto final. Mais cedo pedi a ela que me desse uma prova de que não gostava de mim, e foi o que ela fez. Agora tudo estava acabado. E eu me sentia péssimo.
Eric Illing... Justo o filho da puta que quase me matou...
- Cara, vamos beber! - me chamou, levantando uma garrafa de cerveja. - Já passou, nós conseguimos!
- É... - murmurei, meio desanimado.
Peguei uma garrafa de cerveja e dei um gole. Logo em seguida meu celular vibrou. Atendi sem ver quem era, ouvindo a voz grave do meu pai do outro lado.
- Filho, venha aqui fora, preciso conversar com você.
Virei os olhos, entreguei a garrafa para e me dirigi à porta. Tive que passar por um mar de pessoas, todas me cumprimentando, animadas. Sorri amarelo para todas elas e finalmente me livrei daquele inferno.
Ao sair, meu pai me esperava ao lado de sua Land Rover com minha mãe e .
- Oi. - aproximei-me deles, que sorriam.
- Filho, foi lindo! - minha mãe exclamou, afetada. Depois me puxou para um abraço apertado.
- Obrigado, mãe. - "eu acho", pensei em completar, mas não ia estragar um dos raros momentos em que minha mãe não estava sob o efeito de seus remédios.
Depois foi a vez de , que só me abraçou, sem dizer nada.
Então foi a vez do meu pai.
Olhei para ele, indiferente. Ele me olhava com uma expressão engraçada... Quase como se sorrisse. O que era estranho, porque pra mim meu pai era o Darth Vader, e eu nunca o vira sorrindo. Nunca.
- Mais de 200 pessoas, pai. Você não pode reclamar. Esse era o nosso trato. - comecei, gesticulando. - Eu sei que você agora está procurando alguma brecha no nosso acordo, mas nem adianta. Combinado não é caro e você mesmo...
- Filho, não precisa se alterar. - ele disse, calmo. - Você cumpriu nosso trato. Está livre pra fazer o que quiser da sua vida.
Deixei o queixo cair. De verdade. Ele abriu sozinho.
Claro que eu fiz tudo aquilo para conseguir que ele parasse de encher o saco com a faculdade e blá blá blá. Mas no fundo, lá no fundo, eu sabia que ele não concordaria. Pensava que ele daria algum jeito de sabotar tudo e me mandar sem escalas para a Suécia. O que ele havia dito era realmente uma surpresa.
- Então eu posso continuar com a banda? Posso continuar em Londres? - perguntei, ainda boquiaberto.
- Sim, pode. - ele respondeu. E depois simplesmente abriu o carro com a chave e minha mãe entrou do seu lado.
Fiquei parado ao lado do carro, tentando processar aquilo.
Quero dizer... Era aquilo? Simples daquele jeito?
Se eu soubesse não teria ficado paranóico por tanto tempo!
- Tchau, filho. Cuide de sua irmã e... - ele apertou o botão e começou a fechar o vidro. - Parabéns.
O vidro se fechou e ele foi embora.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 15:34, TacoPlace.
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Eu estava sentada na frente do TacoPlace fumando um cigarro e olhando para o nada. Tinha despachado Eric para dentro da festa, que foi como um cachorrinho. , e vieram falar comigo, mas eu pedi para ficar sozinha um pouco. Não estava com saco de conversar com ninguém.
Estava me sentindo mal. Por que eu estava me sentindo mal? merecia aquilo. Merecia ter visto aquele beijo. Ele merecia!!! Ele havia beijado Lallie por causa de uma promessa estúpida! Se ele pelo menos tivesse falado comigo antes, ou pelo menos explicado as coisas... Claro que eu me importaria, mas saberia que não estava sendo enganada. Mas aquilo fora cruel demais... E eu ainda estava me sentindo mal por ter beijado Eric!
Talvez era pelo fato de eu saber que Eric quase matara uma vez, durante um viagem com a escola. Ou talvez fosse pelo fato de que eu não tinha o sangue frio dele, e não conseguia beijar alguém sabendo que meu coração pertencia a outro.
Ou talvez eu só era uma idiota apaixonada.
Mas só talvez...
Senti alguém se aproximar e virei os olhos. Não queria conversar com ninguém...
- Oi, . - Vincent, um dos amigos de , sentou-se ao meu lado.
Olhei assustada para ele.
Vincent tinha o nariz reto, os olhos castanhos e as sobrancelhas perfeitamente desenhadas. Seus lábios eram proporcionais e ele estava barbudo, o que adicionava uns 3 anos na sua real idade.
- Oi, Vincent. - respondi, ainda meio assustada. Porque, bem, caras como Vincent não eram legais com meninas como eu.
Nunca.
Ele olhou para frente e deu um gole na sua cerveja.
- Há uns dois meses atrás eu não faria isso. Provavelmente estaria lá com eles. Mas eu cansei de todas as merdas que meus amigos fazem. E você parece ser uma menina sensata, e vai impedir que alguma desgraça aconteça. - ele disse, enigmático. Deu mais um gole em sua cerveja, meio mole. - Nesse exato momento Billy e Peter estão encurralando lá atrás. Hayley e Lallie estão coletando alguns caras. Eles vão dar uma surra nele.
Capítulo 18 - Temos um caso de amor bipolar!
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 15:34, TacoPlace.
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Aquilo era demais! A sensação de saber que estava livre era inacreditável! Queria contar aos guys, contar ao mundo... Mas, mais do que tudo, queria contar à e agradecê-la por ter me ajudado... Era o que eu mais queria. Queria beijá-la, pedir desculpas, dizer que faria com que ela esquecesse Eric. Queria abraçar o mundo e gritar aos quatro ventos que eu estava livre. LIVRE!
Fui até os fundos do TacoPlace, onde os guys disseram que estariam, mas não os encontrei. Só encontrei Billy & CIA, que pareciam estar me esperando.
Tinha algo estranho naquilo tudo. Algo muito estranho... E nem era pelo fato de que eu estava atrás do TacoPlace com meus antigos amigos que aparentemente me odiavam. E nem era pelo fato de que Peter fumava um baseado... Era algo no ar. Na atmosfera.
- ! Era você mesmo quem eu procurava! Pode me descolar um cigarro? - Billy exclamou, com um sorrisinho odioso no rosto.
Tirei um cigarro do meu maço e entreguei a Billy, que o acendeu com um Zippo.
- Valeu... Cara, tava mesmo querendo conversar com você... Na real, quero voltar a ficar de boa com você. - ele deu um trago no cigarro. - Acho que foi uma puta besteira a nossa briga... Eu peguei pesado com a garota... Qual o nome dela mesmo?
Olhei em volta, encarando os desconhecidos, que pareciam rir.
Tinha algo muito errado acontecendo.
- . - falei por entre os dentes.
- Isso! ! - ele lembrou. Hayley deu uma risadinha misteriosa atrás dele.
Não gostava do jeito que ele pronunciava seu nome. Não gostava do jeito que eles me olhavam.
- Mas, sabe de uma coisa, ? - Billy perguntou, olhando para algum lugar além de mim e me abraçando pelos ombros. - Acho que você também pegou meio pesado comigo. Afinal de contas, eu sou seu amigo desde... O quê? Desde sempre?
- Desde o primeiro ano do ensino médio. - respondi, desconfiado. - Qual é, Billy? Qual é a desse papo estranho?
- Você vai descobrir já, já, ... - ele riu, me soltando. Logo em seguida senti dois braços me prenderem por trás, e logo eu estava prensado na parede por dois carar gigantes. - Opa. Descobriu!
Billy veio até mim com a sua arrogância iminente e me presenteou com um soco bem dado no estômago.
Curvei-me, sem ar.
Quando subi o rosto, os caras que antes me olhavam rindo agora vinham pra cima de mim. A maioria deles estavam chapados.
- Me solta, seu filho da puta! - gritei para Billy, que riu. Peter, ao seu lado, tragou o baseado e ficou me olhando com um sorrisinho dançando nos lábios. Hayley olhava para o lado, e não passados cinco segundos, Lallie se juntou a ela, com cara de vitoriosa.
- Olá, meu amor! - ela disse, aproximando-se de mim. Beijou minha testa. - Está se divertindo?
- Vagabunda. - cuspi, e ela riu, voltando ao lado de Hayley.
- Opa, opa, opa! Meninos, vocês vão deixar ele chamar a nossa Lallie de vagabunda? - Billy perguntou a todos os caras que estavam ali.
Um deles, todo tatuado, aproximou-se de mim e me deu uma cabeçada na testa. Tudo apagou e voltou em alguns instantes. Logo em seguida recebi um soco no supercílio que doeu pra caralho.
Claro... Por que eu não havia percebido antes? Billy era vingativo, e estava muito quieto depois da nossa briga...
Ele estava combinando aquilo há dias. Lallie cobrar a promessa estúpida fora só um pretexto para que terminasse comigo. Eles sabiam que eu ia me encontrar com ela aquela tarde! Separar-me de foi o primeiro gole, porque eles sabiam que eu ficaria vulnerável, e, ficando vulnerável, eles podiam me abordar com tranquilidade, pois me conheciam e sabiam que quando eu estava triste preferia ficar sozinho.
Jogada de mestre! E eu caíra como um patinho...
Patético.
Outro cara deu um chute no meu estômago, e me curvei, cuspindo sangue no chão.
- Mas já? - Billy brincou. Os caras que estava me segurando me soltaram e eu caí com um baque surdo no chão, em posição fetal. - Quer arrego, ?
Eu não conseguia falar, tamanha era minha dor. Senti um chute nas costas e fechei os olhos. Pressentia o pior... Aquilo ia ser um belo de um estrago...
- O que vocês estão fazendo? - ouvi a voz mais doce, linda e suave esbravejar. - Seus covardes!
Não conseguia levantar a cabeça para ver o que estava acontecendo, e perder o controle da situação daquele jeito era pior do que apanhar.
Bom, talvez não pior, mas era tão ruim quanto.
- O que você está fazendo aqui, sua cadela imunda? Não está vendo que estamos dando uma lição no seu namoradinho? - Billy perguntou à , que gargalhou.
- Que bom que você admite o que está fazendo, Billy, porque eu tenho um presentinho pra você! - ela disse, ainda rindo.
Por que ela estava rindo? Eu estava apanhando, e se ela continuasse ali provavelmente apanharia também!
Tentei gritar para ela ir embora, mas nada saiu da minha boca.
Consegui abrir os olhos e virar um pouco a cabeça, sentindo uma lufada de dor na região do abdômen. Mas pelo menos não perdi o memorável momento em que todos saíram correndo como cachorrinhos quando dois policiais chegaram, armados. E também não perdi o exato momento em que eles conseguiram pegar e algemar somente duas pessoas: Billy e Peter.
Aquilo fora memorável.
O pacote completo seria Hayley e Lallie, mas eu me vingaria delas mais tarde...
O chão embaixo de mim estava frio, e a dor me impedia de raciocinar direito. De repente duas pernas apareceram na minha frente, apressadas. se agachou e tocou minha sobrancelha, o que me fez estremecer.
- Filhos da puta... - ela murmurou, sem olhar para mim.
- Obrigado. - sussurrei, ainda sem conseguir falar direito.
Ela finalmente cedeu e me olhou, contrariada. Ficamos nos olhando até ela interromper.
- Me desculpe a demora. Mas se eu viesse aqui sozinha provavelmente eles bateriam em mim também.
Menina esperta!
Sorri, e ela sorriu pra mim, mas com uma expressão de dor no rosto, porque provavelmente minha boca estava inundada de sangue.
Do nada , , , , e materializaram-se entre nós dois, estragando o momento.
- Caralho, dude, o que você fez dessa vez? - perguntou, assustado com a quantidade de sangue no chão.
- Meu Deus, , você está bem? - perguntou, provavelmente já sabendo a resposta.
Um dos policiais veio em minha direção, enquanto o outro levava Billy e Peter algemados para o carro.
- Você consegue se levantar ou precisa que eu chame uma ambulância? - ele perguntou.
- Sinceramente, eu não sei. - respondi, tentando me mexer e sentindo uma dor absurda, mas que diminuía gradativamente.
- Vamos lá, você precisa se levantar. - ele aconselhou, afastando todos. Agachou-se ao meu lado, colocando meu braço em volta do seu ombro. Senti outra pontada, mas pelo menos estava sentado. foi do outro lado e os dois me levantaram. Tive que me apoiar na parede para conseguir ficar de pé. - Certo, você vai ter que ir até a delegacia com a gente. Você e você também. - ele apontou para , que concordou com a cabeça.
Fiquei olhando para ela enquanto o policial anotava algumas coisas em uma prancheta e todos falavam ao mesmo tempo. Ela também olhava para mim, um tanto quanto envergonhada.
- Vamos? - o policial finalmente parou de escrever e chamou minha atenção. Desviei os olhos de e concordei.
Despedi-me de todos, depois de prometer contar o que havia acontecido mais tarde, e fui com o policial e em direção a uma viatura vazia. As pessoas que estavam por perto olhavam para nós assustados.
entrou primeiro e eu sentei-me ao seu lado no banco de trás.
- Minha mãe vai te matar quando vir essa sobrancelha. - ela comentou, sem olhar pra mim.
Foi a única coisa que ela disse nos quinze minutos de trajeto até a delegacia.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 16:40, delegacia.
:
Qual era o problema daquelas pessoas? Nós já estávamos ali há séculos! Já havíamos dado nosso depoimento, e eles teimavam em manter dentro de uma sala isolada. "Procedimento padrão" todos eles respondiam quando eu perguntava. Procedimento padrão é o caralho! Eu ia mostrar o procedimento padrão da minha mãe irritada pra eles sentirem na pele!
Bom, pelo menos um deles era legal e estava jogando tranca comigo enquanto era mantido em cativeiro.
- Então deixa ver se eu entendi... Aquele garoto todo machucado lá dentro é seu namorado de mentira? E você está triste porque ele te traiu? - ele perguntou, recolhendo todas as cartas da mesa e anotando o resultado no bloquinho de papel sujo.
- Ele era de mentira. Aí nós nos envolvemos... - senti minha bochecha corar. Eu estava mesmo tendo aquela conversa com um policial gordinho comedor de Donuts? - Aí ele me traiu.
- Aaaah... - ele finalmente entendeu, dando as cartas. - Bom, não tiro sua razão de ter revidado na mesma moeda. Quem traiu merece ser traído!
Ai meu Deus, alguém me entendia!
Meu celular começou a vibrar e meu coração deu um pulo no peito. Sabia que mais cedo ou mais tarde ela me ligaria. Mas não pensei que seria tão cedo assim.
- Só um instante. - pedi ao guarda, abrindo o flip do celular. - Alô?
- , mudança de planos! - minha mãe gritou do outro lado. Estava em um lugar barulhento. - Dylan quebrou o braço, eu não posso ir pra Londres hoje. Você vai ter que vir até aqui! Tudo bem?
Obrigada, Deus! Muito obrigada!!!
Suspirei, aliviada, rindo à toa. Não teria que explicar a minha mãe que me atrasara para buscá-la na estação de trem porque estava na delegacia! Porque explicar isso a ela seria um tanto quanto... Tenebroso.
- Tudo ótimo! - exclamei. - Ótimo!
- Que bom! - ela exclamou. - O último trem sai às 17h30. Te espero na estação.
- Pera aí, eu tenho que ir ho... - ia dizendo, quando ela desligou na minha cara. - je?
Desliguei o celular e suspirei. Ah, minha mãe...
- Problemas? - Bob, o policial, perguntou.
- Bom, ainda não, mas se prenderem lá por muito mais tempo eu vou ter. - olhei no relógio da parede, que mostrava 16h45.
- Se esse é o seu problema, problem solved. - disse atrás de mim.
Virei-me com um pulo, para encontrá-lo parado a alguns centímetros da minha cadeira. Sua sobrancelha estava com um curativo e sua boca não estava mais vermelha de sangue. Ele estava meio curvado, provavelmente pela dor no estômago, mas parecia saudável. Na medida do possível.
Senti uma pontada no coração. Coitadinho do meu !
Que não era mais meu...
- Bom, obrigada pela diversão, Bob! - agradeci, levantando-me e pegando minha bolsa na mesa.
- Não foi nada. Volte toda vez que se sentir entediada! - ele brincou, mostrando o baralho. - Mas volte sem esse vestido... - ele apontou para todos os guardas que me olhavam interessados. Depois entregou a seus pertences - relógio, carteira, uma palheta, 20 libras, um maço de cigarros amassado, dois isqueiros e algumas moedas - e sorriu para nós dois.
Saímos da delegacia em silêncio. colocou seu óculos de sol e ligou para avisando que estava tudo bem. Caminhamos até o ponto de ônibus no final da rua, ainda sem dizer nada. Quando nos sentamos resolvi quebrar o silêncio.
- O que eles ficaram fazendo com você até agora?
- Você nem queira saber... - ele brincou.
- Eu até já imagino... Com esses lindos olhos você virou a mocinha deles. - comentei, e ele riu.
- Eu nunca mais vou ser o mesmo...
Rimos juntos, mas a risada foi diminuindo, até nós voltarmos à estaca zero. Sabe aqueles típicos momentos de constrangimento? Estávamos passando por um daqueles. O que era bem chato, porque nós nunca calávamos a boca juntos. Naquele momento eu preferiria estar brigando com do que ficar naquele silêncio chato.
- Você quer que eu peça pra alguém vir buscar a gente ou prefere ir de ônibus? - ele perguntou, um pouco tímido.
- Vamos de ônibus até sua casa, pra pegar seu smoking, depois alguém nos leva até minha casa, para eu pegar minhas coisas e trocar de roupa, e depois vamos para a estação de trem. - respondi, esquecendo que ainda não havia contado a ele que iríamos para a casa da minha mãe.
- Hã? - ele perguntou, fazendo a cara de desentendido mais fofa do universo.
Tive que me segurar para não afagar seu cabelo e falar "oooown, cuti-cuti da mamãe!".
Sério.
- Lembra quando eu disse que estaria com problemas se você demorasse muito? - perguntei, e ele balançou a cabeça em afirmativa. - Então, meu problema era que o último trem para a casa da minha mãe é às 17h30. - ele parecia mais perdido ainda. - Ela não pôde vir para cá, meu meio-irmão quebrou o braço e ela teve que ficar em Brighton, mas disse que nos espera na estação. - expliquei e ele fez um "aaaaah" mais fofo ainda do que o "hã?".
- Entendi... Beleza. - ele concordou. - E obrigado mais uma vez por hoje. Você foi demais.
- Não foi nada. - dei de ombros, envergonhada. - Se não fosse pelo Vincent, você provavelmente estaria apanhando até agora...
- Sério? Por quê?
- Ele que me contou o que eles estavam armando.
- Por essa eu não esperava. - ele comentou. - Preciso agradecê-lo por isso...
Nosso ônibus virou a esquina, e eu me levantei. Ele fez o mesmo - um pouco lento - e logo nós dois estávamos subindo as escadinhas. Assim que cheguei no último degrau, tropecei e tive que me apoiar no motorista para não cair. atrás de mim gargalhou de perder o fôlego. Mandei-o ir se foder e nós dois começamos a rir. Sentamo-nos e ele começou a fazer piadas sobre a minha total falta de equilíbrio e coordenação, me fazendo rir.
Aquilo era muito bom. Por um momento me esqueci de Lallie, de Billy, de Peter, de Eric e de todos os problemas. Éramos dois idiotas sem nenhuma preocupação ou mágoa novamente. E ser idiota era demais.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 17:20, estação de trem.
Guys:
Aquilo era engraçado. Era muito engraçado.
- Para de rir, . - ordenou, autoritária, dando um tapa de leve no meu ombro, com medo de me machucar.
- Eu não consigo! - murmurei, acenando para os motivos das minhas risadas.
Não tinha como não rir. Os três casais acenando para nós dois na estação eram simplesmente hilários! abraçava pela cintura - os dois haviam se acertado, mas estava se vingando, tratando como um cachorrinho - e ao lado deles era abraçada pelas costas por , que estava com o queixo apoiado no topo da sua cabeça e nos dava tchau. Um pouco mais afastados, e estavam de mãos dadas, naquele começo de relacionamento, onde os dois não sabiam exatamente como agir.
Era hilário.
Quando finalmente o trem fez a primeira curva, pude me sentar direito e tentar parar de rir.
- O que tem de tão engraçado? - perguntou, um pouco brava com o meu acesso de riso, mas um pouco contagiada com a minha risada.
- Sei lá, toda a situação é engraçada... - respondi, evasivo.
- É, com isso eu tenho que concordar... - ela comentou, abrindo um bauzinho da onde pegou um travesseiro. - Será que se eu dormir com isso vou pegar piolho?
- É bem provável. - respondi, e ela jogou o travesseiro no baú com nojo. - Mas eu conheço algo que é bem mais fofo que um travesseiro, onde você pode dormir tranquila.
- A é? O quê? - ela perguntou, ingênua.
Dei duas batidinhas de leve no meu colo com as mãos, fazendo-a rir, meio constrangida.
- Vai sonhando. - disse, fazendo um embrulho com o seu blusão da GAP e deitando-se no acento confortável do trem.
- Bom, depois não reclama de torcicolo... - comentei, me ajeitando. Senti uma pontada no meu estômago. - Cara, eu não vou comer direito por um bom tempo...
só riu baixinho e fechou os olhos. Fiquei observando-a, sua respiração tranquila... Estava meio hipnotizado quando ela abriu os olhos sem emitir nenhum sinal. Tomei um susto interno e sorri pra ela.
- Acho que você não tem muita memória, não é, ? - ela perguntou, com raiva.
- O que você quer dizer com isso? - perguntei, estranhando sua mudança de humor.
Ela se levantou e virou os olhos.
- Bom, deixa eu refrescar sua memória. Você se lembra que antes de ontem você ficou com a Lallie, certo? - fiz que sim com a cabeça. - E você se lembra que eu disse que gostava de outro cara, certo? - repeti o gesto. - E você se lembra que eu beijei esse mesmo cara hoje, não se lembra? - tive que concordar mais uma vez. - Então por que você está agindo como se nada tivesse acontecido? Como se nós ainda estivéssemos ficando?
- Porque você me ajudou hoje, e se não fosse por você eu provavelmente estaria jogado na sarjeta em algum lugar. Eu já te pedi desculpas pelo negócio da Lallie, e hoje eu percebi que ela é uma vagabunda - ao mencionar seu nome senti um ódio descontrolado tomar conta de mim -, uma aproveitadora que estragou o nosso lance, e você não tem ideia do tamanho do meu arrependimento, mas essa não é a questão. - me controlei para não continuar a xingá-la. - A questão é que se nós não podemos ficar juntos, se você gosta de outro cara, nós podemos... Ser amigos. Não precisamos nos tratar mal. Infelizmente eu fiz uma escolha ruim, e você também fez sua escolha. Por que não conviver em paz?
Como foi difícil dizer aquilo! Porque eu não queria só ser seu amigo.
Não mesmo.
me olhou de um jeito esquisito e ficou calada. Num impulso, levantei e sentei-me ao seu lado. Ela se encolheu.
- Vamos lá, zinha, nós podemos fazer isso. - encorajei-a, estendendo minha mão.
- Não, eu não posso fazer isso... - ela finalmente abriu a boca e disse, suspirando.
- Por que não?
- Porque eu não quero ser só sua amiga. Eu não gosto do Eric e eu só fiz todo esse teatro porque estava muito magoada. Eu vi você e Lallie se beijando, e aquele foi o pior momento da minha vida. - ela dizia, sustentando nosso olhar. - Se pra você está de boa sermos amigos, pra mim não está. Eu não consigo ser sua amiga. Eu... Eu... - ela gaguejou, parando de falar.
- Você...? - queria que ela completasse a frase. Queria que ela dissesse que me amava. Era o que eu mais queria.
- Eu vou pegar algo pra beber. - ela completou, levantando-se e saindo do nosso pequeno quarto do trem, me deixando sozinho e boquiaberto.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 17:45, banheiro do trem.
:
Minha mãe estava certa, eu era uma péssima mentirosa. E agora estava trancada no banheiro fazendo aquela respiração ridícula de cachorrinho. Ele provavelmente sabia o efeito que tinha sobre mim, e continuava a brincar comigo daquele jeito.
Amigos... Ele queria mesmo só ser meu amigo?
Joguei água no meu rosto e me olhei no espelho. Minhas bochechas estavam coradas, e meu cabelo despenteado. Meus olhos estavam um pouco borrados da maquiagem e meu piercing no nariz estava meio inflamado, vermelho no buraco. Coloquei a língua para fora, e ela estava amarela, um tanto quanto nojenta.
Claro que ele queria ser só meu amigo. Quem gostaria de ficar com uma menina esquisita como eu? Quem?
Respirei fundo e abri a porta, tomando coragem para voltar à nossa cabine. Quando finalmente consegui abrir a porta, encontrei olhando para fora da janela, absorto em pensamentos.
Sentei-me no meu banco e fiquei olhando pra ele, calada.
Aquela viagem seria longa...
Ficamos uma eternidade em silêncio, olhando para a paisagem que passava voando pela janela. Queria que ele dissesse algo, mas ao mesmo tempo queria que ele permanecesse calado e me deixasse em paz, para pelo menos tentar esquecer o que eu sentia. Seria melhor...
- Você me deixou confuso. - ele balbuciou, depois de muito tempo quieto, ainda olhando pela janela. Meu coração deu um pulo no peito. - Você passou a imagem de quem não estava afim de uma coisa mais séria... - então ele me olhou, suplicante. - Não estou falando que o que eu fiz foi certo, nem estou tentando me justificar, mas é quase impossível ler suas reações, suas expressões.
- Digo o mesmo. - respondi, com uma coragem repentina. - Mas eu não imaginava que você pudesse me trair. Eu... Gostava de ficar com você.
- Me desculpe. - ele pediu, sincero. - É sério, , nunca quis te magoar.
- Tudo bem. Já passou. - dei de ombros, estendendo a mão. - Amigos?
Ele olhou para a minha mão estendida na sua frente e subiu os olhos para mim. Aí sorriu meio de lado, apertou minha mão e me puxou para ele. Desequilibrei-me e acabei caindo em seu colo.
- Não. - ele respondeu. - Não quero ser seu amigo.
Então ele me beijou.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 17:48, trem.
:
Muito bem, ! Você finalmente virou homem! Finalmente era o homem da relação!
Fuck yeah!
estava no meu colo, com as mãos em minha nuca, me arranhando e me arrepiando. Meus braços estavam em volta de sua cintura, impedindo-a de cair - ou tentar fugir - e seu cheiro estava me deixando louco. Beijávamos-nos com vontade, as testas se encostando a cada investida. Estávamos há uns três minutos nos beijando, mas para mim parecia uma eternidade, e felizmente ela não parecia estar com vontade de parar.
Encolhi um pouco meu braço direito, colocando minha mão na parte interna de sua coxa. Ela desceu sua mão até a linha da minha samba canção e desenhou minhas entradas com as unhas. Suspirei, e ela soltou um risinho de deboche. Mordi seu lábio inferior e lambi a curvinha de seu queixo, voltando para a boca. Sentia seu piercing do freio com a língua, e aquilo me excitava mais do que eu podia controlar. Ela desenrolou nossas línguas e foi distribuindo beijos pela minha bochecha, até alcançar minha orelha. Desci os beijos pelo seu pescoço, puxando de leve sua pele com os dentes. Ela ria e mordia a almofada da minha orelha, ofegando em meu ouvindo.
Coloquei a mão direita dentro de sua blusa - o vestido havia sido trocado por uma regata branca e preta e calça jeans, antes de nós embarcamos - e espalmei a esquerda na base de suas costas, para dar equilíbrio. Ela riu mais uma vez e voltou a selar nossas bocas, brincando de fugir dos ataques da minha língua.
- Você não vai mais fugir de mim. - murmurei, fazendo-a sorrir e abrir a boca para dar passagem à minha língua.
Minha mão subia e descia pela lateral de sua barriga, e ela se curvava, rindo. Finalmente parei de provocar e subi em direção a seu sutiã. Foi quando ela parou o beijo e olhou pra mim, com a sobrancelha erguida.
- Se você tem amor pela sua masculinidade - ela olhou para o Jr. com cara de maníaca - vai tirar sua mãozinha daí agora mesmo.
Imediatamente tirei minha mão da área proibida e voltei a segurar sua cintura. Ela deu um sorriso rápido sem mostrar os dentes e voltou e me beijar.
Era claro: Se o paraíso existisse, eu estava nele.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro, 18:35, trem.
:
- Na hora! - minha mãe gritou, animada. Deu-me um beijo no rosto e outro em . - O que é isso na sua sobrancelha?
- Tomei uma bolada... - respondeu, entortando a boca.
- Bom, vamos ter que maquiá-lo então... Espero que você não tenha enfiado seu smoking na mala de qualquer jeito... - ela comentou, olhando para a mala de no chão.
- Não. - ele calou sua boca, tirando de trás das costas o smoking intacto.
- Ótimo! - ela piou. - Vamos então?
Virei os olhos. Como ela podia me odiar por um mês por fazer um furinho no nariz e quando aparecia com um hematoma gigantesco na testa um dia antes do grande baile ela não se importava?
veio até meu lado e pegou minha mão discretamente. Olhei para ele, com um sorriso de cumplicidade, e ele fez uma careta. Andamos de mãos dadas atrás de minha mãe até chegarmos ao carro. Sentei-me no banco da frente e foi atrás com o smoking em seu colo.
- Mal posso esperar para te ver no vestido! - minha mãe disse assim que entramos no carro.
- Eu vou ter que ficar com ele a noite inteira? - perguntei, já imaginando meu sofrimento em um daqueles vestidos cobertura-de-bolo.
- Não, só na valsa. Pro resto da noite tenho outro vestido pra você. - ela curvou-se para mim e sussurrou: - Um bem sexy.
Minha mãe e seus comentários embaraçosos. Se pelo menos não tivesse ouvido, mas ele deixou bem claro que havia pela sua risadinha cortada.
Olhei pelo retrovisor para ele, que segurava o maço de cigarros através do tecido da calça jeans. Ele parecia meio nervoso, meio alheio ao resto do mundo. Minha mãe tagarelava sobre o acidente de Dylan, mas eu estava mais interessada em observá-lo. Suas bochechas vermelhas do Sol, seu cabelo despenteado, sua boca entreaberta...
É... Não era do meio feitio, mas parecia que havia conquistado meu perdão mais rápido do que eu pensava. E o meu coração também, que se acelerava toda vez que eu o via.
Se naquele exato momento eu pudesse realizar algum desejo, com certeza pediria para que nunca mais ficasse longe de .
Sem sombra de dúvidas.
- , você está me ouvindo? - minha mãe atrapalhou meus pensamentos. me olhou pela espelho e eu desviei os olhos dele.
- Claro que estou te ouvindo, mãe. - reclamei, fingindo estar magoada. - Dylan quebrou o braço jogando futebol!
- Querida, você vai amar o seu vestido! - ela piou, animadinha, mudando de assunto bruscamente. - , você vai se apaixonar pela minha menininha!
Abaixei os olhos, querendo matá-la. Primeiro por que eu não era sua "menininha", segundo por que odiava ser tratada como uma criança e terceiro por que riu de um jeito incrivelmente fofo, meio debochado.
- Eu já estou apaixonado pela sua menininha. - ele disse, focando o motivo do meu constrangimento.
Mesmo assim eu não pude conter o sorriso que brotou em meus lábios.
Passamos o resto do trajeto em silêncio. Bom, pelo menos eu e passamos, enquanto minha mãe continuava com seu eterno monólogo.
- ... Então ela me disse que o clube não permitia chinelos. Imagina!? Ah! Chegamos!
Olhei contrariada para a casa em que vivi alguns anos horríveis de minha vida. Ela continuava imensa e calorosamente estranha para mim. Nem um pouco como a ideia que eu tinha de lar.
- Bela casa, Maryah. - comentou, íntimo.
- Obrigada, querido. - ela agradeceu, olhando para ele com mais carinho do que jamais olhara para mim. Na verdade ela geralmente olhava com repulsa para o meu piercing no nariz.
Graças a Deus ela nem desconfiava do meu piercing no freio da língua.
Nós entramos e não esboçou nenhuma reação à monstruosidade da casa, o que me fez ter certeza que ele era tão rico quanto as pessoas do colégio diziam.
Meu padrasto apareceu nas escadas com sua típica cara de nojo e veio nos cumprimentar com um copo de whisky na mão. Ofereceu a - que obviamente aceitou - enquanto minha mãe me levava para o quarto, doida para me mostrar o vestido. Ela deu pulinhos de emoção ao abrir o zíper da capa onde o vestido estava, e eu tinha que admitir que ele era realmente lindo. Era um longo branco com o decote bordado com pedrinhas fruta-cor. O salto era prateado e simples. Aquele era o vestido para a valsa, pois eu seria "apresentada à sociedade", então era um vestido virginal, que não me preocupava. Eu queria mesmo era ver o outro, porque do jeito que conhecia minha mãe, sabia que alguma coisa extravagante estava por vir, e eu não queria ir como uma prostituta ao baile, mas ela bateu o pé e disse que só me mostraria no dia seguinte.
Nós descemos para a sala da lareira com Dylan e Taylor - meu outro meio-irmão. Dylan, de 12 anos, mostrava animado para seu gesso, como uma vitória, e Taylor, no auge dos seus 15 anos, resmungava sem parar e batia boca com a minha mãe por qualquer coisa.
Ficamos na sala o resto da tarde. Meu padrasto manteve - bêbado - ocupado com suas histórias entediantes e minha mãe me entreteve com sua conversa interminável sobre suas amigas do clube.
Quando a empregada nos avisou que o jantar estava pronto, o céu já estava escuro.
- Espero que você goste de cachorro-quente, . - minha mãe cantarolou assim que entramos na cozinha. Dylan deu gritinhos de excitação, porque provavelmente só podia comer comida saudável, feita por nutricionistas, e finalmente sairia do seu regime à base de alfafa e comeria alguma porcaria gordurosa. Taylor, ao contrário dele, só sentou-se e montou seu cachorro-quente, calado.
- Eu adoro. - exclamou, afetado.
Ri internamente e sentei-me ao seu lado.
Tivemos um jantar agradável, fora os protestos silenciosos de Taylor, que queria desesperadamente voltar ao seu quarto. Ao acabarmos, minha mãe nos levou ao andar de cima e eu descobri que teria que dormir no quarto de algum de meus meio-irmãos, pois meu antigo quarto fora transformado em uma sala íntima.
- Nada disso! - protestou, com a língua meio presa pela bebida. - Eu durmo no colchão e ela dorme no quarto de hóspedes! Não vou deixar minha namorada dormir no chão em sua própria casa.
Ele deu-me um beijo de leve na testa e minha mãe riu encantada.
- Então vamos fazer o seguinte: Eu coloco um colchão no quarto de hóspedes para você não precisar dividir o quarto e dorme na cama. - então ela olhou para com os olhos apertados. - Meu quarto é no final do corredor, ouviu, mocinho? Vou dormir de porta aberta!
Mais uma vez quis matar minha mãe.
- Sim, senhora! - ele respondeu, envergonhado.
Meu padrasto trouxe o colchão para o quarto e se despediu para ir dormir. Minha mãe ficou mais um pouco conversando com sobre coisas fúteis da alta sociedade - que ele parecia conhecer muito bem - mas percebeu que nós dois estávamos cansados e foi se deitar, avisando mais uma vez que se tentasse alguma gracinha comigo se daria mal.
Assim que ela fechou a porta me pegou pela cintura e nos jogou em cima da cama de casal, ficando em cima de mim.
- Finalmente! - exclamou, ofegante. Seus olhos estavam vermelhos e seu hálito amargo. - Pensei que ela não iria embora nunca!
- Eu também... - murmurei, enquanto ele beijava meu pescoço. - Senti falta disso.
- Mas nós acabamos de nos beijar no trem! - ele comentou, me fazendo rir. - Brincadeira. Eu também senti muita falta disso. Mesmo que nossa separação tenha durado menos de dois dias...
Suas mãos, mais do que experientes, passeavam por todo o meu corpo de um jeito tão suave que faria qualquer garota ter certeza de que aquilo não tinha segundas intenções.
Mas tinha. Ah se tinha...
- Esqueci de perguntar, o que seu pai disse? - desgrudei nossas bocas vermelhas e ele reclamou baixinho. - Sobre o show.
- Que eu posso continuar com a banda... - ele respondeu, inclinando a cabeça para voltar a me beijar. Fui mais rápida e a segurei entre as mãos.
- Mas isso é maravilhoso! - piei, me segurando para não gritar. – Por que você não me contou isso antes?
- Não sei, acho que me esqueci disso em algum momento do dia entre estar apanhando e bebendo whisky com o seu padrasto... - ele comentou, sarcástico. Tentou voltar a me beijar, mas eu o impedi novamente.
- ! Nós devíamos estar comemorando! - exclamei, com os olhos arregalados. Levantei-me sob seus protestos e saí do quarto. Peguei uma garrafa de vinho e duas taças na cozinha e voltei para o quarto, pé ante pé para não fazer barulho. Ao entrar no quarto, estava sentado na cama com cara de emburrado, mas ao ver o vinho na minha mão seu rosto se iluminou. - Bebemorar!
Ele veio até mim e pegou uma taça e a garrafa de vinho. Colocou para mim e depois para ele.
- Ao futuro promissor do McFLY! - levantei minha taça e ele a dele.
- Ao nosso futuro promissor! - senti meu rosto esquentar e bati nossas taças.
Virei o conteúdo de uma só vez.
- Uou! Nesse ritmo você me alcança! - ele brincou, colocando mais vinho. Virei novamente e ele riu, colocando nossas taças e o vinho em cima da escrivaninha. Depois envolveu as mãos em minha cintura e andou para frente devagarzinho, me apoiando na parede. Ele passou as mãos pela minha barriga e costas, e eu dei pulinhos de arrepio. - Já te disseram que você é muito gostosa?
- Não, mas pra tudo tem uma primeira vez. - brinquei, começando a beijar seu pescoço.
Ficamos nos acariciando e rindo, até que eu peguei o vinho e decidi que as taças não eram mais necessárias. Dei um longo gole no gargalo e fez o mesmo.
- Mas que elegância! - ele disse, me fazendo rir.
- Quem pode, pode, não é?
Voltamos a nos beijar sensualmente. Ele apertava o quadril contra o meu e puxava meu cabelo com um pouco de força, me fazendo gemer. Então ele envolveu minhas pernas em sua cintura e me segurou pela bunda, rebocando-me até a cama. Deitamos-nos e ele começou a morder de leve minha nuca e pescoço, enquanto eu brincava com a sua orelha. Parávamos para beber o vinho de vez em quando, e a última coisa que me lembro é de beber o último gole, sob os seus protestos.
Então eu apaguei...
Capítulo 19 - "Just the way you look... Tonight!"
Sábado, dia 14 de Novembro, 12:13, quarto de hóspedes.
:
Acordei sentindo meu braço vibrar. Abri os olhos vagarosamente, incomodado com a secura da minha língua. Tentei me mexer, mas fui impedido por um peso que pressionava meu peito.
Estava com aquela conhecida sensação de ressaca, e também não me lembrava onde diabos estava. Abri a boca para dizer "sai de cima de mim, , porra!", porque era o que sempre falava quando acordava com alguém em cima de mim, mas não precisei, pois o "peso" virou-se para o lado, revelando o rosto angelical de , que dormia tranquilamente com a boca aberta. Sorri involuntariamente, finalmente me lembrando da noite anterior.
Meu braço vibrou novamente.
Peguei o maldito celular de baixo das cobertas e atendi, com a voz arrastada.
- Você tem o dom de me irritar. - comentei, sonolento. Levantei-me da cama observando o caos no quarto. As roupas de estavam no chão e as minhas em cima da escrivaninha. A garrafa de vinho vazia rolava pelo carpete, manchando-o com as poucas gotas restantes, e as taças também estavam no chão, uma inteira e a outra quebrada.
- Cara, bateram na sua cabeça forte demais. - ele afirmou. - Porque, aparentemente, você ESQUECEU de nos contar o que a porra do seu pai, e o motivo das nossas noites mal-dormidas, disse ontem depois do show!
- Ah... Isso... - murmurei, pegando minha calça jeans do chão e vestindo-a por cima da samba-canção. - É, eu estava indo contar à vocês quando fui abordado por uma gangue de delinquentes. Tá lembrado disso?
- Blá blá blá, meu nome é e eu sou gay. - ele fez voz de mulher, ligeiramente irritado. - Cara, é sério, o que ele te disse?
- Disse, basicamente, que vai parar de me encher o saco e que o McFLY continua vivo. - contei indiferente, para criar um suspense - rimou! -, e gritou afetado do outro lado da linha. - Cara, cala boca, a tá dormindo aqui do lado.
- Dude, isso é sensacional! É a melhor notícia que eu recebi desde que descobri que aquela garota que eu peguei no churrasco da Miley não era um traveco! - ele gritou, e eu abaixei o volume do telefone para que seus gritos não a acordassem.
- Assim que eu chegar aí, nós vamos bebemorar! - sussurrei animado, sentado-me na beirada da cama para observar dormir. Sua perna direita estava pra fora da coberta, me causando calafrios.
- Dude, eu não consigo nem acreditar! Nós estamos livres! LIVRES! - gritou ao telefone. - Seu pai vai nos deixar em paz. FINALMENTE!
- , eu adoraria continuar essa conversa, mas você está muito alterado e vai acordar a fera. - olhei para ela, que se virou para o outro lado. - Assim que der eu te ligo. Conte a novidade aos guys, beleza?
- Falou, ! Até mais tarde! ! ! Acordem! - ele gritou antes de desligar.
Sentei-me mais perto de e tirei alguns fios de cabelo da sua cara. Ela sorriu sonolenta, sem abrir os olhos.
- Bom dia, zinha! - murmurei, beijando sua testa.
- Hm... - ela gemeu, ainda sem abrir os olhos.
- Você precisa se levantar e colocar uma roupa. - comentei. - Sua mãe não vai gostar muito de entrar aqui e te ver de roupas íntimas na cama comigo.
- Hm... - ela gemeu novamente.
Fiquei olhando para ela, segurando a risada. Surtaria em 3... 2...
- O QUÊ? - gritou, sentando-se com um pulo. Logo depois colocou a mão na boca e ficou olhando em volta, embasbacada. Depois olhou para baixo, confirmando que estava de calcinha e sutiã, e puxou o cobertor para cima, cobrindo todo o corpo. - ... - ela começou a falar, em choque. - O que exatamente aconteceu aqui ontem à noite?
- Ah, você sabe, nada de mais... - dei de ombros, e percebi que ela desceu os olhos rapidamente para o meu peito descoberto. - Nós só, sabe como é, transamos.
Levantei-me da cama novamente, pescando minha camiseta do chão e a vestindo. Coloquei minhas meias e olhei para ela com o canto dos olhos. Estava petrificada, branca. Eu sabia que era maldade fazer aquilo com ela, mas eu não consegui me controlar! Foi mais forte que eu!
- Nós o quê? - ela perguntou, fraquinho, com os olhos arregalados e perdidos. Peguei todas as suas roupas do chão ao ouvir passos no corredor e joguei em cima dela, que nem se mexeu. - Eu perdi minha virgindade e nem me lembro...? - balbuciou.
Tá, hora de parar de me divertir.
- , tô zoando com a sua cara. - assumi, rindo. - Nós não fizemos nada de mais ontem, só demos uns amassos... Você apagou quando eu fui ao banheiro, depois eu voltei, me deitei aqui com você e dormi. - resumi bem resumido a noite passada para ela, sob seus olhos assassinos.
- Você vai me pagar. - ela ameaçou entre os dentes, avançando em minha direção.
- , querida, acorde, bela adormecida! Nós vamos ao salão! - a mãe dela cantarolou pelo corredor. Sentei-me na poltrona correndo e começou a colocar as roupas desesperadamente de qualquer jeito. Quando a maçaneta começou a girar ela, já devidamente vestida, jogou-se na cama e fingiu pentear o cabelo, enquanto eu fingia amarrar os tênis.
Assim que entrou, Maryah varreu o quarto com os olhos e sorriu, não encontrando vestígios de que nós havíamos feito alguma coisa errada na noite passada. Graças a Deus eu tive a brilhante ideia de empurrar com o pé a garrafa de vinho e as taças para debaixo da cama.
- Temos horário marcado para às 13:45, querida, precisamos correr! - ela completou.
gemeu e suspirou.
- Mas e o ? - ela fez biquinho, lançando um rápido olhar Serial Killer para mim. - Vai ficar aqui sozinho?
- Não, ele vai ao salão também. - ela comentou, e eu arregalei os olhos. - Nada de mais, querido, só fazer as unhas, hidratar o cabelo e passar uma maquiagem nesse corte horrível na sua testa.
Coloquei a mão em cima do corte automaticamente. Estava tão feio assim?
Levantei-me, terminando de "amarrar os sapatos" e fiquei de frente para Maryah, que ainda olhava o quarto, procurando pistas de uma conduta indecente.
- Não demorem, meninos, o almoço já está pronto! - ela anunciou, antes de sair pela porta, decepcionada.
Olhei com o canto dos olhos para , que espumava de raiva.
- Agora você me paga, ! - ela murmurou, antes de me imobilizar no chão.
Sábado, dia 14 de Novembro, 12:16, quarto de hóspedes.
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- Diz que eu sou linda! - pedi, com as duas pernas em volta da cintura de . - Diz que eu sou a menina mais fofa do universo!
- Nunca! - ele exclamou, dramático, me fazendo rir. - Você nunca vai me vencer, !
- Isso poderia ser bem menos doloroso para você, ... - suspirei, fingindo compaixão. Depois encaixei meus dedos em sua barriga e comecei a fazer cócegas nele, que ria histericamente no chão, se contorcendo e implorando para que eu parasse. - Hã? O quê? Não estou te ouvindo!
Aquela era minha vingança pela mentira de mais cedo.
Eu adorava uma vingança. MUA HUA HUA!
Depois de alguns segundos ele finalmente conseguiu acumular forças para segurar meus pulsos e pedir, sem fôlego:
- Ok, ok! Chega! - arfou, ainda rindo. - Eu desisto! Eu falo o que você quer ouvir!
Curvei-me para frente, apurando meus ouvidos para ouvir sua confissão, e acabei caindo como um patinho na sua armadilha. Assim que abaixei a guarda, ele, num movimento ninja, aplicou-me uma gravata e imobilizou-me no chão, com um sorrisinho detestável no rosto.
Droga!
- Perdeu, playboy! - ele ria das minhas tentativas de fuga. - Nem adianta, , eu sou muito mais forte que você!
- Seu idiota! - exclamei, rindo. - Idiota, idiota, idiota!
- "Idiota, idiota, idiota!" - ele imitou minha voz perfeitamente -, mas você não resiste aos meus charmes.
- Quem disse? Quem foi o mentiroso?
- Bom, não fui eu quem tirou a roupa ontem e disse que estava pronta para virar mulher... - ele comentou, e eu senti meu rosto esquentar.
Ai. Meu. Deus. Eu precisava parar de beber!
- Então nós fizemos alguma coisa ontem à noite!? - perguntei nervosa. riu em cima de mim e passou a mão pelo o meu rosto carinhosamente.
- Não, zinha, eu não me aproveitei de você, se é isso que você quer saber... - ele virou os olhos, fingindo estar magoado com a minha falta de confiança nele, e eu fiz uma careta ao ouvir aquele apelido. Ele aproximou seu rosto do meu e sorriu sincero. - E quer saber de uma coisa? Você é a garota mais linda e fofa do universo. - ele tocou meus lábios delicadamente com os seus e levantou o rosto, passando o polegar pela minha bochecha. Fechei os olhos ao seu toque suave e ele completou: - Eu amo você.
Sábado, dia 14 de Novembro, 13:37, salão.
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Patético. Aquilo era patético. Eu me sentia patético. Incrivelmente patético. Patético, patético, patético.
Bufei, pelo que parecia ser a vigésima sétima vez.
- Querido, pare de se mexer ou eu vou te machucar! - a senhora de uns 50 anos à minha frente pediu, apontando com os olhos para o alicate em sua mão.
Olhei para o lado, ainda não me conformado que aquilo estava mesmo acontecendo - e pedindo a Deus para que nenhum dos guys soubessem daquilo - e avistei o padrasto de sair de outra sala com um cara todo de branco atrás de si.
Quando ele me oferecera a massagem fiquei tentado a aceitá-la, mas depois descobri que era feita por um homem e dei uma desculpa qualquer, recusando o convite. Era um cara! Suas mãos eram peludas! Pelo amor de Deus!
Ele acenou para mim com a cabeça entrando em outra sala para hidratar o cabelo.
Aquele lugar me dava náuseas.
Bufei mais uma vez.
- O que te incomoda, querido? - a senhora perguntou, sem tirar os olhos atentos das minhas mãos cascudas.
- Nada... - menti. Na verdade, o que eu mais queria era gritar para ela que o fato de estar fazendo as unhas me incomodava, o fato de estar em um salão de belezas me incomodava e, acima de tudo, o fato de que a garota que eu amava parecia não sentir o mesmo por mim me incomodava, mas não seria uma coisa muito legal de se dizer. Principalmente porque duas das coisas que me incomodavam eram relacionadas a ela.
- Bom, se quiser me contar, estou a sua disposição. - ela ofereceu, sorrindo.
Olhei para os dois lados, sentindo minha língua formigar.
"Não! Pare com isso, ! Você é homem, e não vai contar seus problemas a uma manicure, como uma garotinha indefesa e sem auto-estima!" pensei, mordendo a bochecha com força.
- Agarotaqueeuamonãomeama. - soltei de uma vez, sentindo um alívio no peito.
A manicure continuou séria, trabalhando em minha mão, e por um instante pensei que ela não tivesse ouvido. Preparei-me para repetir, quando ela me cortou com uma pergunta:
- Como você pode ter certeza? Ela chegou a dizer que não te ama?
- Hm... Não, mas eu já disse que a amo duas vezes e nas duas vezes ela deu um jeito de fugir do assunto. Hoje, por exemplo, ela ficou muda por um bom tempo, me olhando com cara de pastel, e quando eu pedi que dissesse alguma coisa ela fingiu se assustar com a sua mãe, que gritou pela escada que o almoço ia esfriar. - respondi, tentando convencê-la de algo que nem eu tinha certeza. Não sabia se ela me amava, mas também não podia afirmar que ela não gostava nem um pouco de mim. Afinal, depois de tudo que tinha feito para me ajudar...
- Se é esse seu problema, faça ela dizer que te ama. - ela aconselhou, olhando para mim pela primeira vez, por cima da armação dos óculos de gatinha. - Como fazer isso? Só você sabe.
Sábado, dia 14 de Novembro, 18:48, baile.
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- Finalmente! - exclamei, levantando-me da cadeira. Minha bunda estava quadrada e formigando. Virei-me para o espelho e sorri, maravilhada. Todo o trabalho tinha valido a pena. Phil, o cabeleireiro, havia transformado meu cabelo liso e sem graça num emaranhado de cachos rebeldes. A maquiagem era bem escura, mas suave ao mesmo tempo. Sombra dourada e preta nos olhos, blush pêssego e a boca rosa.
Se me ouvisse descrevendo uma maquiagem, ficaria orgulhoso de mim!
- Você está uma gata, ! - Phill exclamou, afetado.
- Lindíssima! - minha mãe comentou, sorrindo. Ela já estava com o seu vestido longo e lilás, e nós já estávamos um pouco atrasadas. Meu padrasto havia ligado minutos antes para avisar que já estava no restaurante do hotel onde o baile aconteceria, e eu só queria sair logo dali e encontrar de smoking, totalmente sexy, só meu.
Era o que eu mais queria!
- Bom, agora, o mais importante! - ela exclamou, correndo até a outra sala. Voltou dois segundos depois com o misterioso vestido curto. Ela havia passado a tarde inteira me cutucando, dizendo quão lindo o vestido era, e eu já estava mais do que curiosa para finalmente vê-lo. Mas não esperava pelo o que estava por vir e deixei meu queixo cair quando ela abriu o zíper da capa.
Era incrivelmente estonteante e completamente abusado! Eu não conseguiria usar aquele vestido! Era curto demais! O que pensaria ao me ver com aquele vestido? Se ele ao menos conseguisse pensar com a cabeça de cima ao me ver com ele! Onde minha mãe estava com a cabeça? O vestido era lindo, mas não era minha cara. Aliás, era bonito demais para mim...
- Mãe! - exclamei, horrorizada. - É curto demais!
- Ah, , vamos lá, seja ousada uma vez na vida! - minha mãe incentivou, e o cabeleireiro, Phil, concordou com a cabeça. - nunca mais vai ficar longe de você ao te ver com esse vestido!
Virei os olhos. O vestido seria perfeito para uma patricinha, coisa que eu nunca fora. Meu negócio sempre fora guitarras e desafios matemáticos. Bonecas e maquiagem estavam sempre em segundo plano. Aquilo era o total contraste da minha personalidade!
Engoli meu orgulho e fui até a sala ao lado me vestir. Tirei minha saia jeans branca e minha regata verde - que havia me orientado a usar de manhã e minha mãe suspirara de prazer ao me ver usando alguma cor sem ser preto uma vez na vida - e joguei as peças no chão, colocando o vestido com cautela para não estragar meu cabelo e maquiagem. Fechei o zíper com cuidado, enfiei-me na meia-calça e calcei os sapatos. Olhei-me no espelho, contrariada.
Arregalei os olhos.
Aquela era eu refletida no espelho? Quando eu havia ficado... Bonita?
- Saia, saia, nós queremos ver! - Phil exclamou, girando a maçaneta.
Saí da sala ainda meio fora de órbita, e fiquei algum tempo ouvindo Phil e minha mãe exclamarem o quão linda eu estava. Era estranho, mas eu me sentia mesmo linda! Alguma coisa naquele vestido, na atmosfera, dentro de mim, tinha mudado. E a sensação era boa.
Olhei-me novamente no espelho, agora hipnotizada, enquanto minha mãe andava frenética pelo salão, capturando nossas coisas espalhadas. Não conseguia acreditar que aquela era... Bom, eu! Com certeza se aquilo estivesse rolando duas semanas antes, eu estaria surtando, doida para arrancar aquele vestido idiota e colocar algum blusão confortável, batendo boca com a minha mãe enquanto ela se lamentava por não ter a filha que havia pedido a Deus.
Só que eu não estava com vontade de fazer nada daquilo.
Não naquele momento.
- Vamos, filha, já são quase sete horas e nós ainda precisamos fazer uma social. - minha mãe comentou, passando o cartão para pagar Phil. Concordei com a cabeça e me despedi de todos, animada. Sim! Eu estava animada! Para um baile idiota!
Entramos no táxi e minha mãe pediu para que o motorista fosse voando. Ela foi o caminho inteiro falando ao celular com meu padrasto, pois Taylor estava dando trabalho. Ele queria ir embora pra ir a uma festa com os amigos, que não paravam de ligar, e meu padrasto não sabia o que fazer. Minha mãe então teve que ficar o caminho inteiro convencendo-o a ficar pelo menos até a valsa, em que eu dançaria com .
Sorri ao ouvir aquilo. Havíamos treinado algumas vezes a temida valsa, mas eu sempre acabava pisando em seu pé ou miando a dança para fazer alguma coisa mais interessante, então tinha certeza que a tão esperada valsa seria um fiasco. Mas pelo menos nós iríamos nos divertir e rir bastante.
Finalmente chegamos ao salão. As amigas da minha mãe a esperavam na porta com suas filhas entediadas, que conversavam entre si. De imediato soube que odiaria todas elas, mas tentei ser simpática, cumprimentando-as com beijinhos no rosto e sorrisinhos falsos. As amigas da minha mãe elogiaram meu vestido com uma pontinha de inveja, e eu agradeci, morrendo de frio com os ombros nus, rezando para que elas parassem de falar e entrassem logo na porra do salão. Quanto mais rezava, mais elas demoravam, e eu tinha certeza que entraria em colapso quando uma delas sugeriu que toda nós entrássemos. Virei os olhos, aliviada, e as segui. Ao entrar no salão, um calor aqueceu minha pele e coração.
Procurei com os olhos e não o encontrei. Avistei nossa mesa, onde Dylan jogava game-boy e Taylor falava ao celular, ignorando meu padrasto, que bebia seu whisky distraído.
- Meninas, vou animar um pouco o Claive, nos falamos depois! - minha mãe brincou, indo até a mesa. Fui atrás dela sem me despedir e, ao chegar, Taylor desligou o celular e ficou me olhando boquiaberto. Dylan não se deu ao trabalho e continuou a jogar.
- Está muito bonita, ! - Claive comentou, sorrindo.
- Obrigada. - sentei-me ao lado de Taylor, que ainda não havia tirado os olhos de mim. - Onde está o ?
- No bar. - Taylor murmurou.
Era de se esperar que estivesse no bar...
- Bom, vou atrás dele. - anunciei, levantando-me. Assim que o fiz, reparei que metade do salão se virou para me olhar. Pela primeira vez na vida eu não passei despercebida. E quer saber de uma coisa? Eu gostei da sensação.
Caminhei por entre as mesas, sob cochichos de que eu era a ausente filha de Maryah e comentários invejosos sobre o meu vestido e aparência. Não que eu me importasse, eu era sempre o alvo de comentários... Na escola, então, sem comparação! Uma nerd punk e agora suposta namorada de ? Uou! Eu era o assunto do momento! Mas aqueles comentários não eram de desprezo, eram de pura inveja, e pela primeira vez na vida eu me senti alguém importante.
Cheguei ao bar, decepcionada por não encontrar . Onde ele estaria? Pelos cantos com alguma das filhas vadias das amigas de minha mãe? Meu sangue borbulhava só de pensar naquilo... Mais uma mancada e poderia me esquecer pra sempre. E eu não estava brincando.
Bom, já que estava por lá mesmo...
- Uma Cuba Libre, por favor. - pedi ao barman, que foi preparar minha bebida. Sentei-me nos banquinhos altos de couro do bar e olhei em volta. não estava em lugar nenhum! Senti um misto de sentimentos ruins...
Peguei minha bebida das mãos do barman e tomei um longo gole por que aquela seria uma longa noite...
Sábado, dia 14 de Novembro, 19:12, baile.
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Merda de zíper idiota! Merda de terno idiota! Merda de unhas idiotas! Merda de baile idiota!
Dei um chute na porta, depois de passar mais de quinze minutos lutando com minha roupa. Depois de mijar, a porra do zíper não queria fechar, a porra da manga do terno ficou toda molhada quando eu fui lavar a mão, as porras das minhas unhas lixadas eram o motivo de comentários dos caras no banheiro e aquela porra de baile idiota era o motivo de todas as minhas frustrações.
Qual era o sentido de eu ao menos estar ali se não estava!? E eu ainda tinha que aguentar as reclamações de um pré-adolescente cheio de hormônios e as palestras sem fim de um velho frustrado! A minha noite não podia ser pior! Ah, mas é claro que podia... Eu descobri que meus amigos estavam vindo ao baile. Sim, isso mesmo! Eles não conseguiam esperar para comemorar o futuro do McFLY e estavam chegando para surpreender . O que eles não haviam entendido ainda era que aquela festa era particular e restrita, e eles não poderiam agir como sempre agiam em festas: Enxer a cara e destruir as coisas. Aquilo simplesmente ia arruinar minha vida!
Saí do banheiro puto. Mas meu ódio passou em dois segundos, ao avistar a garota mais linda da festa no meio da pista de dança. .
Deixei meu queixo cair lentamente.
Ela usava um vestido curto de um ombro só estampado, meia calça cinza degradê, acabando no azul, com um sapato estilo boneca trançado na frente, com o salto trabalhado. Seu cabelo estava metade preso metade solto, com um pequeno topete feito com a franja. Ela estava com um copo na mão, bebendo vagarosamente um líquido escuro enquanto dançava sozinha ao som de Lady Gaga, atraindo todos os olhares.
Desde quando dançava? Desde quando dançava Lady Gaga?
Sorri sozinho e fiquei observando, com medo de que aquilo não fosse verdade. Com medo de que ela não fosse minha, e só minha.
Minha punk nerd do satã. Minha capeta em forma de guria. Minha osso duro de roer.
- Vai ficar aí parado ou vai até lá, ? - a voz de Maryah ecoou em meu cérebro. Não desviei os olhos de nem por um segundo.
- Ela está linda... - balbuciei, como um idiota.
- Ela sempre foi linda. - ela comentou, com a voz meio embargada. Forcei-me a desviar o olhar, observando lágrimas se formarem embaixo dos olhos de Maryah. - É uma pena que nós nunca nos demos bem...
- Não foi o que me pareceu esses dois dias em que eu passei com vocês. - respondi simplesmente.
Maryah sorriu, ainda com as lágrimas embaixo dos olhos.
- Espero que nossa relação esteja mudando. E se isso acontecer, vou dever tudo a você, querido. - ela afagou meu cabelo, como se eu fosse uma criancinha indefesa. - Obrigada por transformar minha garotinha em uma mulher mais feminina e menos... Dura.
Sorri. "Só na aparência, Maryah, só na aparência...".
Não respondi nada, ainda olhando para . Obedecendo o conselho de sua mãe, que continuou parada olhando para sua filha com carinho, caminhei por entre as mesas até o centro do salão. Quanto mais perto eu chegava, mais ela ficava gostosa.
Sério.
Cheguei por trás - sem nenhuma malícia, que fique bem claro - e a abracei. Ela tomou um susto e se virou, batendo seu nariz no meu.
- ! Que susto! - exclamou, rindo. - Finalmente, pensei que você tinha fugido...
- Fugir? Depois de até tomar banho para vir ao baile? Nunca! - brinquei, envolvendo sua cintura. Ela encaixou os braços em meus ombros e nós ficamos balançando de acordo com a melodia da música.
- Percebe-se... - ela cheirou meu pescoço. - Estou sentindo falta do cheirinho de cigarro...
- Não seja por isso... - comentei, pegando sua mão e colocando-a dentro do meu terno. Ela riu ao sentir o maço de cigarros e voltou o braço para a posição inicial, encostando a testa na minha.
- Sabia que de pertinho eu posso ver umas pintinhas verdes nos seus olhos? - ela perguntou, mordendo o lábio inferior.
- Linda. - respondi, beijando a ponta do seu nariz. - Você é lin