Prólogo

O céu estava escuro, ameaçando tempestade quando atravessei a rua decidida a voltar para casa. O frio parecia cortante e o vento, cada vez mais forte. Já era hora de voltar. Embora meus olhos parecessem impossibilitados chorar mais lágrimas, eu ainda sentia meu coração doer. Doer muito. Mais não choraria mais. As coisas estavam bem difíceis ultimamente, minha relação com minha mãe estava cada vez pior. A única coisa da qual eu tinha vontade era de sumir, ir para um lugar bem longe dali, outra cidade, quem sabe outro país? Ou até outra vida. Como se fosse possível. Mas sonhar não era impossível, era? Enxuguei uma lágrima que insistiu em descer mesmo que eu não permitisse e olhei o céu, que foi iluminado por uma trovoada. E então, no segundo seguinte, grossas gotas de chuvas começaram a cair. Apressei meu passo, apertando o casaco no corpo, estava muito longe de casa. Os ônibus já não deveriam estar mais passando pelo horário. Provavelmente só chegaria em casa pelo amanhecer. Xinguei-me por isso. Uma luz forte veio em minha direção rápido, sem que eu tivesse tempo de me desviar, chocado-se contra mim e tirando meu corpo no chão. Então a única coisa que senti em seguida foi o baque da minha cabeça no chão, e tudo escureceu.

Um.
O barulho insuportável de um bipe irritava meus ouvidos e eu tinha vontade de gritar para aquilo parar, mas não conseguia abrir a boca, e tenho certeza que se fizesse isso, não sairia nenhum som dali. Minha garganta estava seca e doendo. Eu podia sentir isso. Com o máximo de esforço que tinha consegui mexer meu braço e por incrível que pareça as coisas depois ficaram mais fáceis. Meus olhos ainda pareciam pesados, mas eu consegui abri-los, e era como se eu tivesse areia nas orbes. Eles arderam e coçaram com a claridade. Assim que meus olhos se acostumaram com a repentina claridade e focaram o lugar onde eu estava, tive vontade de gritar. O quarto branco parecia vazio, e então eu identifiquei o barulho irritante que eu ouvia. Puxei meus braços com força, sentindo uma pontada e uma leve dor. E então eu consegui me mexer normalmente Minha cabeça latejou quando eu fiz o movimento de me sentar, e por segundos eu achei que pudesse cair.
- Hey, hey, vai com calma aí. – um rapaz disse, segurando meu braço e fazendo com que eu me deitasse. – Assim você vai acabar caindo.
- Quem é você? – consegui perguntar, fazendo minha garganta doer muito reclamando o ressecamento. – Onde eu estou?
- Hey, calma aí. – ele disse de forma suave. – Deita aí que eu vou chamar uma enfermeira pra falar com você, ok? – acenei positivamente com a cabeça, observando-o enquanto ele se afastava até uma porta. Não se passou muito tempo até que ele voltasse com uma mulher toda vestida de branco trazendo uma prancheta em uma das mãos. Ela me examinou rapidamente sem dizer uma palavra e só depois de apertar alguns lugares que ela se dirigiu a mim:
- Meu nome é Elizabeth, eu tenho sido sua enfermeira desde que você chegou aqui. Você foi atropelada. – ela sorriu simpática. – E esse daqui é o , ele quem te trouxe pra cá depois de te encontrar caída na rua. – ela deu uma pequena pausa, esperando que eu dissesse alguma coisa. Um flash de uma luz branca vindo em minha direção me chegou à memória, mas eu não disse nada. Apenas esperei que ela continuasse. – Nós procuramos seus dados pelo cadastro de alguns hospitais, mas não encontrei nada, e também não foi encontrado nada sobre você no registro de pessoas desaparecidas nas últimas semanas.
- Últimas semanas? – perguntei estranhando. – Há quanto tempo eu estou aqui?
- Três meses – a enfermeira disse e eu senti meus olhos saltarem nas órbitas.
- Três meses? – perguntei para ter certeza de que minha audição não tivesse falhado naquele momento.
- Exatamente. – ela acenou com a cabeça. - Você sofreu um trauma muito forte na cabeça e acabou entrando em coma poucas horas depois de vir pra cá. - minha boca agora que parecia seca demais. Era como se eu tivesse acabado de engolir um quilo de sal. – E já que você acordou, precisamos de algumas informações básicas sobre você. Como nome, endereço, idade, entre outras coisas. Assim podemos tentar entrar em contato com sua família. - ela sorriu de uma forma simpática. O rapaz ao seu lado mantinha as mãos nos bolsos e me olhava de forma curiosa. – Podemos começar pelo seu nome, você pode me dizer?
- Meu nome? – respirei fundo. – Meu nome. – afirmei, ainda a olhando e pela primeira vez busquei algo em minha mente que fosse relacionado a mim. Mas não encontrei. Fechei os olhos com força, rezando internamente para que eu pudesse lembrar meu nome. Mas não consegui. Era para ele ter vindo em minha mente assim que ela me perguntou, mas nada veio. "Meu nome, meu nome" sussurrei para mim mesma, mas nada me veio. Fechei os olhos e sorri leve, é claro que eu sabia meu nome, qual pessoa em sã consciência não sabia o próprio nome? Tentei buscar um nome, endereço, ou qualquer coisa que pudesse me lembrar, mas minha mente estava vazia, era como se não houvesse nada ali, como se eu nunca tivesse vivido algo, ou conhecido algo. Minha mente estava totalmente vazia. Abri os olhos, sentindo-os marejar quando encarei a mulher à minha frente, que me olhava de forma curiosa e preocupada, e disse a única coisa que perambulava pela minha mente naquele momento: – Eu não sei.

Capítulo 2

O sol ainda estava nascendo quando eu me levantei da cama e caminhei até a janela. As ruas pouco movimentadas podiam ser vistas do quarto onde estava. Minha mente parecia vazia, eu não conseguia me lembrar de nada da minha vida até o momento do acidente, do qual, por sinal, eu só conseguia lembrar uma forte luz branca vindo em minha direção. O hospital em que eu estava havia realizado alguns exames, porém nada que pudesse fazer minha memória voltar. Eles diziam que podia ser por causa do trauma, e que ela poderia voltar ou não. Isso só o tempo diria. A porta de meu quarto foi aberta e um com a cara meio inchada entrou por ela. havia sido uma espécie de salvação para mim ultimamente. Ele que havia me encontrado na rua sangrando e me trazido para o hospital, e, pelo o que eu entendia, ele que estava pagando a conta. Eu não conseguia entender o motivo disso, afinal, pelo que ele havia me dito, nunca havia me visto na vida. Então não tinha obrigação nenhuma com isso. Mas ao mesmo tempo eu percebia que ele era um rapaz de bom coração. Ou vai ver é só um engano?
- Você vai receber alta hoje. – ele disse no lugar do habitual "bom dia" que eu já estava acostumada a receber quando ele vinha me visitar. Sempre pela manhã e sempre com o mesmo sorriso enviesado e a mesma cara de quem ainda não dormiu. Uma semana já havia se passado desde que eu acordara do coma. E desde que eu o conhecera.
- Como assim alta? – perguntei assustada, eu não tinha para onde ir. Caminhei novamente até a cama, sentando-me de frente ao rapaz. Era engaçado como eu já me sentia íntima dele. Bem, acho que "íntima" não era a palavra. Eu me sentia confortável. Ele era divertido. Ele sempre me fazia rir quando vinha pela manhã.
- Alta, ué. Você vai poder sair do hospital. – ele sorriu, passando a mãos pelo cabelo, que estava molhado. Não sei se eu era assim antes, mas eu tinha o hábito de observar as pessoas. E era uma pessoa legal de ser observada. Mas, ainda assim, eu não conseguia entender o motivo da sua bondade comigo.
- Sair pra onde? – perguntei sentindo que começaria a chorar. – Eu não tenho pra onde ir. – eu ainda não conseguia lembrar absolutamente nada. Nada.
- Eu já resolvi isso pra você. – ele sorriu sem mostrar os dentes. – Você vai ficar na minha casa. – senti meus olhos crescerem em meu rosto e, não sei se pela minha reação, o rosto do rapaz tomou uma tonalidade mais avermelhada, como se ele tivesse se sentindo intimidado, com vergonha. Exatamente da forma que ficou quando eu o acusei de ter sido o meu 'atropelador'.
- Sua casa? – perguntei incrédula. – Sua casa? – repeti a pergunta para ter de certeza que eu havia entendido direitinho. Eu estava desmemoriada, mas os médicos não disseram nada de surda.
- É, minha casa. - ele coçou a cabeça. – Eu moro a poucos quarteirões daqui e eu já conversei com o diretor do hospital. Você já não precisa ficar mais aqui, então eu assinei um termo me responsabilizando por você.
- Um termo se responsabilizando por mim?
- Exatamente, pelo menos até você recuperar a memória, ou ter condições de se manter sozinha. Enquanto você não tiver nenhum dos dois você estará sob minha responsabilidade.
- Não sei se eu posso aceitar isso, eu... Você já pagou pelo hospital e eu nem sei quando eu vou poder te pagar por isso, e agora ficar na sua casa? , desculpa, mas eu nem te conheço. – eu me sentia apavorada pela possibilidade de morar na casa de uma pessoa que eu não fazia nem noção de quem era. As únicas coisas que eu sabia sobre ele é que ele era músico, e que seu nome era . E se nem isso fosse verdade? Ele sorriu, aproximando-se e se sentando na cama ao meu lado, provavelmente em alguma tentativa de me tranquilizar.
- Bom, pelo que eu me lembre você também não se conhece, exato? Eu sei que pode parecer estranho, mas fui eu quem vi você caída no chão toda machucada, fui eu quem te trouxe para um hospital, então de certa forma eu me sinto responsável por você. Eu moro sozinho, tenho uma casa confortável e condições de te ajudar. Eu não vou te sequestrar nem nada, eu assinei um termo com essa cláusula. – ele sorriu, e eu me permiti fazer o mesmo, mesmo que estivesse me sentindo apavorada.
- Ok. – eu disse me dando por vencida, mas ainda assustada com a possibilidade de morar com um estranho, ou talvez nem tão estranho assim, certo? Eu sei que quando a enfermeira me explicou que ele me trouxe para o hospital a primeira coisa que eu fiz foi acusá-lo de ter me atropelado. Porém a única coisa que ele me respondeu foi que o carro dele já havia passado por uma perícia para ver isso. E, bom, havia sido confirmado que não poderia ter sido ele.
- Toma. – me tirou dos meus devaneios me entregando uma sacola que só então eu percebi que ele tinha em mãos.
- O que é isso?
- Uma peça de roupa. – ele se levantou, caminhando até a porta. – Você não vai querer ir pra casa assim, vai? – ele sorriu antes de sair do quarto e então eu olhei minhas vestes. Uma enorme camisola branca. Não, eu literalmente não iria querer ir para casa assim.

Capítulo 3

- Bom, essa daqui será sua casa por enquanto. – disse, jogando as chaves de suas mãos em cima de uma mesinha que ficava ao lado da porta de entrada. - Pode vir comigo. – disse, atravessando o Hall, que era onde estávamos, e caminhando para uma sala. Preciso dizer que estava surpresa? Porque eu estava. Sua casa era simplesmente linda. A sala era muito bem arrumada e com uma enorme TV na parede, um sofá e algumas muitas fotos e tipos de prêmios sobre a estante. Caminhei até um porta-retrato, pegando-o e lendo o nome McFly escrito. – Essa é a sua banda? – eu perguntei sacudindo o objeto em mãos.
- Aham. – ele acenou positivamente com a cabeça, observei bem a foto em minhas mãos e senti uma estranha sensação de familiaridade. - Esse nome não me é estranho. – disse sincera, colocando o objeto de volta no mesmo lugar.
- Bom, nossa banda até que é bem conhecida aqui na Inglaterra. - caminhou até a escada, chamando-me com um aceno de cabeça. Segui em seu encalço e logo estávamos na parte superior da casa, e mais uma vez eu preciso dizer que era simplesmente linda. Muito bem arrumada e cheirosa. abriu a porta de um quarto e entrou. Eu o segui.
- Esse daqui vai ser seu quarto. – dei dois passos, entrando em um enorme quarto. Com uma TV grande, uma cama enorme que me fez ter vontade de pular nela. – Bom, tem roupas no guarda-roupa. Mas eu sei que você vai precisar de mais, amanhã nós podemos sair para comprar. Acho que hoje você quer descansar, né? – ele coçou a cabeça. Ele estava sem graça, assim como eu. Ele era um desconhecido. Eu era uma desconhecida. - Vou te deixar à vontade. - disse e eu não falei nada, ainda estava surpresa com tudo. saiu do quarto sem mais delongas e eu me joguei na cama, sentindo a maciez daquele colchão. Tão diferente do hospital. Minha mente começou a vagar por um branco total e quando me dei por mim, adormeci. Acordei com um cheiro gostoso invadindo minhas narinas e uma batida forte na porta.
- A janta está pronta. – disse, colocando a cabeça para dentro do quarto e me olhando de forma engraçada. – Vejo que alguém aí capotou, hein. – ele sorriu antes de me deixar sozinha. Levantei-me, caminhando até o banheiro – é, eu estava em uma suíte - e lavando o rosto. Uma escova de dente nova e uma toalha estavam em cima da pia e eu não pude resistir a tomar um banho de verdade, que há muito tempo não fazia. Liguei o chuveiro, sentindo o forte jato de água morna cair sobre meu corpo, lavei meus cabelos, sentindo-os se desembaraçarem conforme eu ia passando meus dedos pelo mesmo. Em pouco tempo eu já me sentia nova em folha. Enrolei-me em uma toalha e caminhei até o guarda-roupa, e quase caí para trás de susto ao ver a quantidade de roupa que havia ali. Assustei-me com isso. Como assim ele havia dito que talvez eu precisasse comprar mais? Acabei escolhendo uma calça de moletom e uma camiseta para pôr. Penteei meus cabelos e desci as escadas, ainda não conseguia deixar de me sentir impressionada pela beleza da casa. Não sei dizer se a minha própria casa era mais bonita do que essa, ou tão bonita quanto. Também não sei dizer ao certo se eu tinha uma casa. Mas acho que com o tempo eu acabaria descobrindo isso. O cheiro me guiou até a cozinha. mexia em algo na geladeira e nem se deu conta da minha chegada, apenas quando se virou e me viu parada encostada no balcão que ele me notou. - Que susto. – ele disse, levando a mão ao coração. E eu sorri sem graça. – Não estou acostumado com gente em casa, bem, pelo menos gente silenciosa, os meninos quando estão chegando você consegue ouvir a quatro quarteirões de distância. – ele gargalhou, entregando-me uma latinha de coca-cola e indo até o balcão, sentando-se em um banco lá em seguida. – Pode se servir à vontade. – disse, apontando uma travessa cheia de macarrão em que ele já começava a mexer.
- Onde você arrumou toda aquela roupa de mulher? – perguntei, sentando-me à sua frente e pegando um prato.
- A comprou pra mim. – ele disse e eu arqueei a sobrancelha. - Quero dizer, pra você. Mas ela não sabe que é pra você, e ela tá achando que eu devo ter algum fetiche gay, já que ela já me pegou experimentando roupas de mulher, então... – ele me encarou e, vendo que eu o encarava engraçado, acrescentou: – Acho que é melhor eu calar a boca, né? – ele encheu a boca de comida e eu gargalhei.
- Não, pode continuar a falar. Eu só não entendi o porquê de você comprar aquelas coisas. Sério, não precisava. – disse, servindo-me de macarrão.
- Você não poderia ficar andando pelada pela casa. O é tarado! – ele falou de forma engraçada. – E nem custou nada, só o silêncio da vana, mas isso a gente compra fácil, fácil.
- Por que o silêncio dela? – perguntei estranhando e começando a comer, e, dude, sério a comida estava uma delícia. - Bom, eu não quis dizer a ela que era pra você, mas ela sabe que é pra você porque ela não é burra, mas eu não quero que saibam que você está aqui em casa, quero dizer, não ainda. Acho que isso não seria muito bom pra você, pode te atrapalhar. Aqueles meninos sabem ser assustadores.
- E eles sabem quem sou eu? – arqueei a sobrancelha. - Aham, só não te viram ainda. Só a , um dia que ela apareceu lá atrás de mim. Mas os meninos ainda não te viram, e, bem, quando isso acontecer eu tenho certeza que eles são capazes até de te enlouquecer.
Sorri com aquilo e continuamos a comer em silêncio.
- Posso te fazer uma pergunta? – ele acenou positivamente com a cabeça. - Você ia muito ao hospital? – perguntei curiosa.
-Todos os dias. – ele respondeu meio... Envergonhado?
- Por quê? – eu gostaria de entender, afinal, ele não tinha nenhuma responsabilidade comigo. Não havia sido ele quem me atropelara.
-Eu fiquei realmente preocupado. Sério.
-Onde você me achou?
- Aqui em frente. Pra dizer a verdade, eu meio que vi acontecer. – abri a boca assustada.
- Como assim? - Eu tinha ido à sacada fechar a janela porque tinha começado a chover. Foi quando eu te vi. Você estava atravessando a rua sem olhar e o carro acabou te atropelando. Na hora eu fiquei tão assustado que eu nem me preocupei em ver a placa do carro. Eu fui lá, e, tipo, na hora você parecia que estava morta. Depois que eu percebi que você estava viva eu te levei pro hospital. Depois que não foi achado nenhum registro sobre você e eu vi que você estava lá sozinha eu meio que me senti responsável, sabe?
- Obrigada. – eu sorri sentindo vergonha.
- Eu só contei pros caras uma semana depois. – ele riu baixo. – Porque o me obrigou a dizer por que eu estava dormindo no todo dia.
- E por que você estava?
- Dude, você já viu alguém sendo atropelado? – arqueei a sobrancelha fazendo uma cara irônica. – Ah é, você não lembra, pois eu te digo, é assustador saber que alguém pode ter perdido a vida na sua frente assim do nada, sabe?
– Quantos anos você tem, ? – perguntei curiosa.
- Quantos anos você me daria? – ele perguntou brincalhão e eu sorri.
- Sinceramente, pela cara, uns treze. - ele fez careta. - Mas pela tatuagem imagino que uns dezoito, dezenove. Vinte no máximo.
- Treze? Poxa, tô bem então, vou chegar aos quarenta com cara de vinte. - ele gargalhou. -Tenho dezenove.
- E já é totalmente independente? – eu perguntei incrédula. – Dude, acho que vou montar uma banda. – eu ri e ele fez o mesmo. Fiquei encarando-o, seu cabelo loiro caía um pouco nos olhos em uma franja escorrida, sua pele era tão branquinha e tão lisinha que lembrava muito a pele de um neném, e seus olhos azuis davam um ar de perfeição ao seu rosto. Ele vestia uma camisa verde e uma bermuda branca. Possuía um piercing no lábio e usava alargador. Dude, como ele é lindo. Suas bochechas foram tomando uma tonalidade rosada e só então eu percebi que eu o secava descaradamente. – Desculpa – eu pedi, ficando com vergonha. – Eu não queria te secar, ou dar a impressão de estar te secando é só que... Às vezes eu tenho a impressão de te conhecer de algum lugar.
- Bom, não é querendo ser convencido, mas já sendo, eu sou famoso, não só eu, mas a banda inteira.
- Quando você diz famoso, você quer dizer, muito famoso? – perguntei mordendo os lábios.
- Muito famoso. – ele riu da minha cara e eu bati minha testa na mesa.
- Fãs vão querer me bater na rua. – eu disse séria, o que fez com que ele risse mais ainda. – Isso é sério! O que a sua namorada está pensando sobre isso? Eu estar morando aqui? Ela deve estar querendo me matar.
-Eu não tenho namorada. – ele enrolou um pouco mais de macarrão em seu garfo.
-E a ?
- Namorada do . Eu não tenho namorada, o é o único em minha vida.
- Você é gay? - perguntei cautelosa, bom, homossexuais conseguem ser perigosos quando se sentem ofendidos. riu da minha cara.
-Não! é meu amigo, nós falamos que eu sou casado com ele e que o é casado com o . – ele disse rindo.
- Ai, que susto! Posso adivinhar? Novo demais pra compromisso? – eu perguntei. – Por isso você não namora?
- Pra que me prender a alguém se eu tenho fama, dinheiro e beleza o suficiente pra aproveitar várias? – ele disse, jogando o cabelo para trás e fazendo cara de gigolô, o que me fez rir alto. – Ta, eu não sou tão convencido assim, essa é a parte do . Eu só acho que não vale a pena se prender a alguém.
- Então é uma por noite sem direito a telefonemas no dia seguinte. – eu afirmei, bebericando minha coca.
- Também não é assim. Uma por noite já é exagero. Eu sou um rapaz decente. Não chega a trinta por mês, e nem 365 por ano. – ele riu, e eu percebi algo: toda vez que ele fazia isso seus olhos quase se fechavam, tornando a cena uma coisa fofa de se ver.
- Já entendim senhor oi-eu-sou-bonito-rico-e-famoso-entao-pego-quem-eu-quiser. – ele riu da minha frase.
- Ah, também não é assim. É mais fácil não se prender a ninguém, só viver a vida. Eu vejo o , quantas vezes ele tem que abrir mão de algumas coisas por causa da ?
- Ou talvez seja só porque você ainda não encontrou alguém que faça você pensar que vale a pena investir em uma parada séria. Que nem o encontrou a .
- É, talvez. Aí eu vou ficar que nem os dois. - ele parou um segundo, pensativo. – Não, acho que isso nunca vai acontecer. – ele riu. O silêncio caiu de novo no cômodo, mas foi quebrado minutos depois por : – Precisamos de um nome provisório pra você. Não tem como eu ficar pela casa te chamando de menina ou psiu. – ele deu de ombros. Deixe-me pensar... Gumercinda, que tal? – abri a boca pra falar algo, mas ele me interrompeu: - JÁ SEI! Emergina e não se fala mais nisso. – ele balançou a cabeça como se tivesse comemorando algo. Eu ri com aquilo, por incrível que pareça começava a me sentir à vontade.
- Esse nome é feio! Eu tenho certeza que esse nome não é meu!
- Bom, se não era vai passar a ser. – ele se levantou, indo até a geladeira. – Eu preciso de um nome pra te chamar!
- Você esta falando sério?
- Claro! – ele fez uma careta engraçada que me fez rir, mas aquela careta me era conhecida. Eu tinha certeza.
- Dude, eu te conheço.
- Emergina, desculpa a sinceridade, mas até o acidente eu nunca tinha te visto na vida. – ele entortou a boca como se pedisse desculpas.
- Quem me garante? Até onde eu sei, eu posso ser a sua ex-namorada que te traiu, e você, um maluco psicótico, contratou alguém que, quando eu viesse aqui pedir desculpas, me atropelasse quando eu fosse atravessar a rua. Eu sou estrangeira e por isso não acharam nenhum registro meu por aqui, porque você continua mandando emails pros meus amigos e parentes como se eu tivesse bem. Você sabia que eu ia perder a memória. - eu o encarei desafiadora, e segundos depois ri da minha própria história mirabolante.
- Como você descobriu a verdade? – ele fez uma cara engraçada, jogando-me uma colher. – E eu aqui tendo tanto trabalho pra esconder!
Ele se sentou novamente com um pote de sorvete em mãos.
- Eu sou uma mulher muito inteligente. – mandei-lhe uma piscadela, afundando minha colher no pote da mesma forma que ele fizera segundos atrás. Engraçado, eu já me sentia em casa. O céu estava claro e eu podia sentir um vento gostoso bater em meu rosto, eu amava aquela sensação. A sensação do calor do sol contra a minha pele, então eu sorri. Sorri abertamente, abrindo meus braços conforme corria contra o vento que passava por meu rosto. Estava brincando de pique e pega e a menina de cabelos pretos corria atrás de mim. Olhei para trás quando gritaram meu nome. Meu nome. E então o sorriso sumiu de meus lábios quando eu me virei e como se estivesse tropeçado eu senti que estava caindo. Tudo ficou escuro e os gritos começaram. Muitos gritos. Meu peito estava apertado e eu queria gritar. Eu precisava gritar. Eu queria silêncio. Fechei os olhos, mas os gritos continuaram. “É sua culpa” era o que gritava, eu queria dizer que não era. Não. Não era, não fui eu. Mas eu não conseguia. Os gritos eram palavras, nomes. Eu sentia uma sensação angustiante. E eu finalmente consegui gritar. Tudo pareceu se afastar de mim e um sol muito forte começou a queimar meu corpo, mas eu gostava, e então o sol começou a vir rápido em minha direção, não era mais o sol. Era apenas uma luz forte, o barulho de freada pôde ser ouvido e em seguida algo ergueu meu corpo do chão.
- Hey, hey acorda! – me sacudiu em seus braços e então tudo acabou, abri meus olhos encarando seu rosto preocupado à minha frente e então me toquei que eu estava chorando e soluçando muito. O choro em meu sonho era meu. – Calma. – ele passou a mão em meu cabelo, puxando-me para mais perto. – Está tudo bem. – ele me abraçou e sem pensar duas vezes eu o abracei, sentindo que meus soluços ficavam mais fortes, eu não conseguia parar de chorar. Era como se eu parasse o aperto em meu peito e toda a sensação angustiante que eu senti no sonho fosse voltar. – Tá tudo bem, eu tô aqui, ok? – ele falou, embalando-me em seus braços como se eu fosse uma criança, acariciando meus cabelos enquanto eu me acalmava. Meus soluços aos poucos foram se acalmando e só então eu soltei o rapaz, que só então eu percebi que estava sem camisa à minha frente. Senti a vergonha tomar conta e abaixei a cabeça, enxugando algumas lágrimas. - Você lembrou alguma coisa? – perguntou cauteloso.
- Eu... Eu estava em um lugar que tinha muito sol, e depois tinham gritos, e estava tudo escuro, e alguém dizia que era minha culpa. Eu... Eu tentava dizer que não era, mas tinha uma coisa estranha, uma sensação estranha, era como se algo estivesse apertando meu peito, e uma sensação horrível que me fazia querer gritar e me deixava sufocada. – eu solucei baixo. – E depois tudo ficou claro de novo, e tinha, tinha uma luz vindo na minha direção. Então você me acordou. – eu gesticulava enquanto falava.
- E lugares? Você conseguiu se lembrar de lugares? De nomes? Ou de alguém?
- Tinha uma menina correndo na minha direção, ela gritava um nome.
- Você não lembra? – fechei meus olhos e a mesma imagem da menina correndo na minha direção voltou. Nós estávamos brincando de pique pega, mas eu não conseguia ver seu rosto. Apenas seu cabelo preto que balançava com o vento. Ela gritava meu nome. Abri o olho de repente encarando , que me olhava curioso e então acrescentei:
- , meu nome é .

Continua...

Outras fics:
My Very Crazy Life (McFly/ Em andamento)
Comatose (Restrita/ Em andamento)
Sugar Baby (McFly / Em Andamento)