Onde o Sol se Põe
História por Lolly Vieira | Revisão por Gabriella
Capítulo 1 - Novo lar
Eu tinha tudo programado, uma vida inteira escrita com alguns rabiscos na passagem. Eu estava pronta para o último ano do colegial, estava disposta a me dedicar ao ano com os estudos, acordar às cinco horas, como todos os dias, e ir à escola com meu pai e minha irmã caçula, Maggie. Como fazia desde a 5º série. Estava pronta para as tagarelices da mesma enquanto voltávamos da escola em um dia cansativo, ouvir mamãe murmurar que uma de suas colegas de trabalho sofria em um casamento desastroso e agradecer por não ter esse tipo de problema.
E, enquanto eu estivesse em meu quarto, em uma pilha de livros ou simplesmente absorta, mamãe estaria na sala, lendo, e Maggie estaria assistindo um dos seus milhares de DVD’s. Papai chegaria a alguns minutos, reclamando de sua pressão alta, e Maggie estaria batendo na porta para me chamar para o jantar. Tudo parecia familiar, programado em uma rotina.
Mas ir para Londres não fazia parte dos meus planos. Como estar nesse avião, por exemplo, encarando a janela com a sensação de ter algo embrulhado no estômago.
FLASHBACK ON
Senti meus olhos arderem desconfortavelmente. Não deveria começar assim, não do fim para alguns.
-, gostaria de dizer alguma coisa? - antes mesmo de minha avó Berta acabar a frase, eu sacudi negativamente a cabeça. Eu saberia que me arrependeria depois por não ter me despedido, mas ela não insistiu e eu agradeci mudamente.
Desviei o olhar dos caixões de madeira polido, o lugar era lindo, de fato. Era um jardim amplo, um lago bem cuidado e alguns patos ao redor. O sol morno do fim de tarde caía sobre a vista intocável. Irônico.
-Gostaríamos de deixar aqui os nossos pêsames... - um dos responsáveis pelo cemitério clamou uma fala nitidamente decorada. Voltei a prestar atenção, perguntando-me como uma pessoa se acostuma com aquele tipo de emprego.
O homem extremamente alto e magro vestia um terno preto bem cuidado, um olhar que desejava transmitir compaixão exibia um tom frio em sua íris negra.
Após a terra já cobrir boa parte da minha última imagem, algumas pessoas vieram me cumprimentar, algumas me abraçavam calorosamente, outras acenavam, nenhuma delas estava perdendo, naquele momento, o que eu havia acabado de perder.
- Sua mãe era uma mulher de classe... - murmurou algum parente que eu nunca havia visto. - E seu pai também. Lembro-me perfeitamente... – e mais uma das histórias que eu não tive tempo de escutar o final. Já tinha acumulado uma dúzia delas.
- Sem dúvida nenhuma, sua mãe era uma das pessoas mais amigas que eu já conheci. – sorriu uma mulher robusta e baixinha, uma das únicas que eu havia simpatizado ali. - Seu pai era um pouco duro e sincero demais. - um sorriso nostálgico surgiu em seus lábios finos. - Tenho um imenso orgulho de tê-los conhecido.
Eu balancei a cabeça, pretendendo sair como um agradecimento. E antes que mais alguém viesse me atormentar com lamentos, histórias e afogamentos em lembranças, Susan me puxou pelo punho, levando-me a algum lugar separado.
Sue era uma amiga que eu havia encontrado há dois anos, quando eu havia quebrado o pé em uma das competições que eu odiava. Havia me ajudado, seu coração era gigante. Seus cabelos eram negros, lisos e que escondiam seu olho direito, tinha uma pele quase albina. Era péssima em química, mas boa com palavras reconfortantes.
Ela me puxou até um pequeno alojamento existente, com uma bandeja de café ou chá e algumas barrinhas de cereal espalhadas.
- Escolha uma, por favor. - pediu, enchendo um copinho de plástico com chá.
- Estou sem vontade. - respondi com a voz rouca. Ela me encarou com seu olhar transbordante de compaixão, mas com uma pena evidente. Depois, voltou a encarar a bandeja, pegou uma barrinha com sabor banana e aveia.
- Vamos lá, . - falou com a voz controlada. - Você não come nada desde a manhã.
- Sue... - sussurrei. Ela me cortou, estendendo o copo e a embalagem.
- Se não faz por você... - engoliu em seco, com medo de falar alguma besteira. - Faça por eles e pela Maggie.
Maggie, meu pequeno detalhe. A caçula de seis anos, que meus pais tanto paparicavam, estava na casa de uma tia-avó, provavelmente sendo reconfortada por biscoitos e histórias sem sentido. A garotinha ainda estava absorta com tudo aquilo ou talvez sua ficha ainda não tivesse caído, afinal, não é em todos os desenhos animados que seus pais morrem em um incêndio na própria casa, enquanto você estava em um aniversário infantil, acompanhada de sua irmã mais velha.
Antes que eu conseguisse processar a ideia, já bebericava o chá adocicado além da medida. Tentando encontrar alguma resposta no líquido quase sem cor, procurando uma saída que não havia ali e, por um momento, eu achei que não havia em lugar nenhum.
- Se você quiser, meus pais te levam. - começou Sue, indecisa, encarando as próprias sapatilhas beges. - Você não precisa ficar aqui, pode ir lá pra casa... - sorriu docemente. – Ia ser ótimo para você.
Eu tentei sorrir, saiu como uma careta, tentativa errante de um esticar de lábios.
- Obrigada, Sue, mas acho que vou ficar mais um pouco. - Seus olhos se ergueram e ali estava o mesmo olhar que de antes, a mesma compaixão, afinal, ela era a Sue. Aproximou-se rapidamente, envolvendo-me com seus braços reconfortantes.
- Você sabe que estou aqui e sempre vou estar, não é?
Eu sorri, sorri com os olhos ainda marejados, abraçando-a com mais firmeza.
- Obrigada, Sue.
A morena sorriu, deixando que seus olhos continuassem prestes a transbordar, e se afastou, ainda hesitante, com a sapatilha ecoando sobre o chão mortiço do recinto.
Vovó Berta estava ao redor de várias pessoas, sendo reconfortada pela família ausente, que eu só conhecia em alguns Natais. Meu avô estava sentando em um dos bancos, brincava com os dedos, perdido em algum pensamento melancólico. A mulher idosa balançava a cabeça, claramente impaciente por tantas pessoas indesejadas na roda que havia sido formada. Seus olhos verdes fitaram os meus e, além do vermelho marcante, eles transmitiam o desespero e a saudade recente, assim como os meus.
Desviei o olhar. Pretendendo controlar o choro que se aproximava. À minha volta estava uma das vistas mais belas que eu já vira, o sol morno da tarde se escondia nas árvores grandiosas, por detrás dos morros desconhecidos por mim.
E, assim como o dia, a vida de duas das pessoas mais importantes da minha vida acabava.
FLASHBACK OFF
Não estava na programação do ano ter que morar com meus tios e também não estava perder meus pais num incêndio sem causas aparentes. Já desejara me separar de minha irmã caçula, mas nunca havia pensado que seria tão doloroso. E eu tentei, acredite, de todas as formas, ficarmos juntas, não estava disposta a perder toda a minha família, mas meus pais não eram prevenidos o bastante e nossa guarda foi acertada pelos próprios parentes e o juiz.
Meus avós paternos não tinham condições de sustentar nós duas, eu me ofereci para trabalhar, eles alegaram dar "um jeito" para o meritíssimo, mas o mesmo não se convenceu. Minha família materna tinha abandonado minha mãe por ela ter engravidado cedo e não tínhamos nenhum vínculo com a mesma. E a "família" fez questão de garantir que esse peso não iria cair em seus ombros, ou sobrenome.
Meus pais não tinham grandes amigos, éramos um grupo fechado que passava os feriados e alguns domingos com os meus avós paternos. A minha última sugestão foi meu tio Yago, que havia se mudado para Londres com sua noiva há exatamente três anos.
E, assim, meus pedidos e promessas de "vou dar um jeito" foram negados, até mesmo para meus avós, que concordaram que seria a melhor opção eu morar com meu tio. Depois de uma longa e dolorosa despedida, eu embarquei no avião rumo à Londres, ao aeroporto Heathrow, com a passagem paga com uma parte da poupança de meus pais, que eu só poderia controlar a partir da maior idade.
E após uma série de perguntas cansativas de segurança, visto extremamente demorado em meu passaporte e mais perguntas, eu fui liberada.
O que eu poderia dizer de tio Yago? Que ele lembrava estranhamente meu pai alguns anos mais novo? Talvez. A mesma forma de andar e por as mãos para trás quando conversava. Tinha uma voz cuidadosamente mansa e os olhos cobertos por um Ray Ban. Eu puxava minha mala de rodinhas vermelha como se estivesse carregando alguma sentença de morte.
Não precisei procurar muito o homem da foto mais recente que vovó Berta tinha me entregado, ali estava ele. O irmão caçula da família, que havia se aventurado perigosamente na vida rumo à Londres. Esboçou um largo sorriso ao me ver, ele e uma mulher grávida se aproximaram.
Ela tinha cabelos castanhos claros caídos nas costas como uma cascata, um sorriso acolhedor, olhos castanhos e era um pouco mais alta que eu, o que fazia ser bem mais baixa que tio Yago. Uma das mãos depositada maternalmente na barriga, que a destacava ainda mais.
-! - ele encostou o rosto com a barba rala ao meu, fazendo com que o cheiro de perfume masculino me consumisse. Deu-me um abraço um tanto quanto reconfortante. Afastou-se e me encarou de cima a baixo. - Você cresceu tanto, será que se lembra de mim?
-Um pouco. - sorri da forma mais educada que eu consegui. E, de fato, poucas lembranças eram juntadas quando se tratava do meu tio.
- Bem... - ele pareceu gostar da minha resposta e se virou para a mulher sorridente ao seu lado. - Espero que se lembre de Rachel.
- Olá, querida. - a mulher se aproximou e me abraçou desajeitadamente, dando leves batidinhas em minhas costas e balançando meu corpo para os lados. Eu estranhei, seu modo reconfortante e acolhedor era diferente do abraço firme e seguro, de costume brasileiro. Ingleses estranhos.
- Oi. - Acenei meio desconfortável. Vovó Berta falou sobre a gravidez da inglesa antes de eu embarcar, sem detalhes.
- Vamos indo. - meu tio sorriu e pegou minha mala.
Eu prestava atenção em Londres enquanto meu tio tagarelava de como eu gostaria dali. Prevenindo-me que eu não encarasse ninguém na rua, que os britânicos levavam como uma ofensa e também me contou que tinha uma pizzaria que era uma herança da família de Rachel. Contou-me também - orgulhosamente - que essa carregava seu primeiro filho, que tinha sete meses incompletos. Eu perguntei se já sabiam o sexo da criança, ele me respondeu de forma seca que era costume da família de Rachel não querer saber se era menino ou menina.
Eu tentava não me prender muito às suas palavras, mas mais na vista, não era a primeira vez que eu saía do Brasil, mas a primeira que eu iria sozinha e sem previsão de volta. Lógico que eu voltaria, sem sombra de dúvidas, e voltaria definitivamente quando completasse dezoito anos, o que aconteceria no próximo ano.
- Moramos logo acima da pizzaria, nos mudamos para lá. Seria melhor de administrar, sabe?
Meu tio possuía um sotaque puxado e a mulher ao seu lado também parecia distante, Rachel encarava sua janela. Talvez ela tenha aprendido um pouco de português ou não estava interessada na conversa com seu nome no meio.
Inglaterra. País dos Beatles, do meu futuro marido, Príncipe Harry e a corte inteira ou David Beckham, não tenho grandes problemas com crianças, eu até aceito, se forem mandadas para um colégio interno. Mas o Ringo ainda está vivo. Nada contra o Paul. Enfim...
Não sei quanto tempo demoramos a chegar na cidade, mas era fantástica. E aquilo me dava um aperto. Londres era linda, mas não era meu lugar.
- Aqui estamos. - sorriu tio Yago, abrindo a porta do carro, eu repeti seu ato. Encarei a estreita propriedade, como ele havia dito, a pizzaria ficava no térreo e acima estava um apartamento. O estabelecimento estava escuro e uma pequena placa de "closed" pendurada na maçaneta da porta, a vista de todos pelo vidro.
Um menu grande de ofertas era divulgado na calçada. Mas nada era comparada à fachada acima de nossas cabeças, com palavras vermelhas e destacáveis "PIZZA EXPRESS".
Pisquei repetidas vezes, até sentir uma mão pousar em meu ombro e a esposa de meu tio, Rachel, sorrir ao meu lado.
- Você vai adorar os . Phil, o couzeinheiro, sua mulher-r, , e um dôs filiôs deles, , eles ser adoráveis. - ela disse, em um português decorado e confuso.
Eu assenti e sorri da forma mais natural que consegui, imaginando que eu seria feita de escrava pelo resto de minha vida ou até os dezoito.
- São poucas escadas, não se preocupe. - Yago foi primeiro, apoiando a mala no chão, pegando o molho preso em um chaveiro enorme e chamativo, escolhendo uma das chaves para abrir a porta de vidro.
A pizzaria era simples, mas possuía um ar simpático, com panos quadriculados de verde, vermelho e branco nas mesas, um balcão largo de granito do outro lado e a cozinha logo atrás, vista por um vidro grosso.
Segui tio Yago e sua mulher, atravessando o estabelecimento até chegar a uma escada espiral em um canto mais separado por um corredor, onde, debaixo dela, dava acesso a mais uma porta, a qual o homem que nos guiava comunicou ser a porta dos fundos. Ofereci ajuda com a mala, não fazia mais do que minha obrigação, afinal, a mala era minha. Ele recusou prontamente e nós subimos as escadas que davam para um pequeno corredor, pouco menos de dois metros, uma porta de madeira polida, com um olho mágico ao meio, uma campainha do lado. Tio Yago, mais uma vez, recorreu ao seu chaveiro chamativo.
- É simples, mas é nosso cantinho.
Eu o fitei por longos segundos, mordendo o lábio de tal forma, que senti o gosto de sangue logo depois. Pode ser bagunçado, velho ou pequeno. Mas é nosso e o que é nosso, ninguém irá tirar. Mamãe costumava dizer, em seu lado otimista de ser. Mesmo quando o telhado tendia a cair, quando a mesa da copa balançava desconfortavelmente ou sua cama quebrava, ela tinha essa frase como desculpa. Nosso.
- Pronta para conhecer Luke? - eu arqueei uma sobrancelha. - Espero que goste de cachorros...
Tio Yago ignorou minha muda resposta e abriu a porta com um empurrão, fazendo com que ela batesse contra a parede. Dei um pequeno salto para trás quando um cachorro bege, um pouco mais alto que meus joelhos, pulou em cima do homem, abanando o rabo em forma de lontra para um lado e para o outro, com a língua para fora. Rachel deu um risinho e novamente batidinhas em minhas costas, incentivando-me para mais uns passos. Eu entrei no apartamento.
O cachorro se aproximou e esticou as patas na minha direção, seus olhos caramelos fitaram rapidamente os meus e ele se esticou ainda mais para me encarar mais de perto, sendo advertido logo depois por Yago, ele voltou ao chão, com as orelhas abaixadas e um sentimento de culpa. Passou o focinho pelos meus pés, analisando-me curiosamente.
Espiei rapidamente o apartamento, não era grande e nem pequeno, possuía poucos móveis, um sofá vermelho em forma de L preenchia a sala, defronte a uma grande estante com uma TV de plasma e vários CD’s, DVD’s e livros. As paredes cuidadosamente pintadas de branco. Um balcão americano separava a sala da cozinha, onde os móveis eram pretos e brancos. Do outro lado, dava espaço a um pequeno corredor com quatro portas. Somente uma na esquerda e separada de outras duas do outro lado por poucos passos e a última porta do corredor ficava no final do mesmo.
- Esse não será seu quarto, querida. - informou-me ele. - Vamos reformar o apartamento o mais rápido possível e iremos fazer um quarto pra você.
- Não precisa se incomodar com isso.
- Lógico que sim! - esbravejou ele, abrindo a primeira porta da esquerda. - Aqui é nosso quarto. - Anunciou sem muita vontade, abriu a da direita. - Aqui é um banheiro. - Andou tão rápido para a última porta do corredor (ignorando a segunda porta da direita), que eu quase tropecei no minúsculo corredor sufocante e no cachorro que nos seguia. - Iremos reformar esse quarto para você.
Ele abriu a porta, dando vista a um quarto escuro, com tons pastéis nas paredes, uma escrivaninha de madeira coberta por verniz, com uma cadeira giratória preta do outro lado. O quarto cheirava a documentos antigos, mofo e cachorro. Possuía várias estantes cobertas por livros e pastas de cores diferentes, tinha um sofá vermelho e desgastado no outro canto da sala.
E eu me perguntei onde eles colocariam todas aquelas coisas quando eu me "mudasse". Tio Yago abriu a porta tão rápido quanto a fechou, sorrindo incomodado e empurrando-me para a segunda porta da direita, que fora ignorada minutos atrás. - Será seu quarto provisório.
Exatamente. provisório, nada dali era permanente, diríamos uma pequena viagem de férias. E quando eu voltasse, estariam todos a minha espera, voltando a ser tudo como era antes.
Por fim, ele abriu a última porta e eu pude ver um quarto todo lilás, com pequenas estantes pregadas nas paredes, brancas e com bichinhos de pelúcia. Uma cadeira com aparência extremamente confortável, branca, em um canto, ao lado de uma cômoda de quatro gavetas, igualmente branca. Um tapete de urso panda no meio do quarto, separando um berço branco luxuoso e uma cama de ferro, claramente intrusa e improvisada.
Olhei para o casal que analisava cada movimento meu. Fitei-os, sem uma expressão definida.
- Não precisam se incomodar comigo. - Murmurei, esperando que eles gritassem o quanto eu estava sendo indesejada, que uma garota de quase dezessete anos não estava no prato "família feliz" e que me mandariam de volta para o Brasil no próximo voo.
Mas, ao invés disso, Tio Yago sorriu, sem antes demonstrar os olhos marejados. Acomodou minha cabeça desajeitadamente em seu ombro.
- Não está sendo incômodo algum, querida. - Pude notar que ele dizia as palavras tanto para mim quanto para ele. - Vai ser um pouco difícil de aceitar, eu sei. Mas aqui é seu novo lar.
Capítulo 2 - Tempo
Há coisas em que você se acostuma, querendo ou não, acostuma-se. Você se molda a uma forma desconhecida, mas isso não garante que o resultado seja um bolo perfeito, sem deformações, sem queimaduras ou sem rachaduras. Todos estão ocupados demais, querendo moldar a vida de alguns para notarem que as suas próprias vidas estão desmanchando em um forno de alta temperatura.
E era exatamente assim que eu me sentia. Sendo acomodada forçadamente em uma nova forma de vida.
Estava sentada ao lado do balcão de granito da Pizza Express, naquela tarde chuvosa de domingo. Rachel apressou-se em me apresentar , seu marido, Phil e o filho mais velho do casal, , o qual trabalhava meio período. Eles haviam vindo para me conhecer e para organizar algumas coisas pendentes para a segunda-feira.
tinha os cabelos loiros presos em uma touca fina, éramos quase do mesmo tamanho, mas ela continuava sendo um pouco mais alta, tinha os passinhos ágeis, olhos castanhos suaves, braços extremamente acolhedores (experiência própria) e uma boca que não parava.
era um sujeito diferente da mãe, concentrava-se pouco no trabalho, o que resumia-se a servir os clientes, geralmente cantarolava alguma música, ria das minhas tentativas frustrantes de comunicação e, se sabia algo de mim, fingia que não. Pouco menos de duas horas e eu já me sentia à vontade do seu lado, ao contrário de muita gente.
Phil era um sujeito alto e forte, os poucos cabelos que restara de sua calvície precoce eram bastante loiros, tinha os olhos azuis, porém sua pupila estava tão grande que ocupava praticamente sua íris inteira (N/A: Eu preferi deixar como Phil mesmo, assim diminui o número de perguntas). Era calado e preferia ficar na cozinha, preparando os recheios de suas futuras "queridinhas", como definia em relação às suas pizzas.
estava, nesse momento, tentando me explicar a história de como tinha tido sua única filha em um táxi a caminho de um hospital público, enquanto organizava as mesas do local.
Rachel gargalhava enquanto mexia na caixa registradora, traduzindo boa parte da conversa para que eu entendesse. estava absorto, limpando as mesas, e Phil não dissera uma só palavra até ali.
- Mas esse príncipe caçula é um danado! - exclamou , jogando o jornal no balcão, que deslizou até meu lado.
Estava aberto na seção de fofocas e nada como infernizar a vida fantasiosa da família real. Abri o jornal ao meu lado no classificado de empregos, era mais fácil na forma escrita.
Rachel espichou a cabeça para o lado, espiando o que eu vasculhava. Parei de ler a linha onde se procurava uma assistente para loja de roupas e a fitei, incomodada.
- Eu ê seu tio ter uma pro-posta para voucê. - começou, mordiscando um biscoito. - Eu saber quê voucê estar a perguntar sobrê à pizzaria. - estreitei os olhos, começando a me interessar no rumo da conversa. – Voucê poder nos ajudarr aque na pizzaria, das segundass aos sábadous, à tarrde, umas 17 houras até a houra dê fechar.
Ela ergueu as duas sobrancelhas enquanto atacava o pote de biscoitos à sua frente. O som familiar de porta rangendo anunciou que tio Yago chegara, fazendo com que todos o encarassem. Tinha as roupas um pouco molhadas e uma sacola nas mãos.
- Já está conhecendo o lugar? - ele sorriu de forma simpática, beijando o topo da cabeça de Rachel, acenando para , Phil e , jogando a sacola plástica numa das mesas. Acomodou-se ao lado da esposa, roubando o pote de biscoitos de sua mão.
Ela fez um muxoxo de desagrado.
- Acabei de passar na escola pública não muito longe daqui, é a mesma escola em que o estuda, uma das raras escolas com só o turno da manhã, ficará mais fácil de você se acostumar à rotina. – o garoto soltou uma risadinha irônica, levando um tapa na cabeça, de sua mãe. - As suas aulas começam amanhã, já comprei os uniformes e materiais. - informou. - Não temos o dinheiro suficiente para a escola para estrangeiros, tudo se torna uma fortuna na Inglaterra. - seu tom de voz estava um pouco mais baixo.
-Conseguiu falar com o Mr. Wilde? - cortou Rachel, puxando de volta seus biscoitos, em claro inglês.
- Ah , sim. - tamborilou os dedos no balcão. - Falei com um amigo nosso. Ele irá te dar aulas particulares, segundas, quartas e sextas para que você se adapte melhor.
Pisquei os olhos várias vezes, tentando não me acostumar com a ideia de que teria que recomeçar o ano letivo no começo de outubro. E ter várias pessoas me encarando como um ET ambulante.
- Você só estará um mês atrasada, . - falou. - As aulas começaram em setembro.
Ótimo, nada como começar novamente o ano letivo.
- Bem... - ele trocou olhares rápidos com a mulher ao seu lado. - Suponho que Rachel já tenha falado sobre nossa proposta.
A mulher balançou a cabeça positivamente.
- Não podemos pagar um salário mínimo, umas 455 pounds por mês, esse é o valor exato para um salário da sua idade. - explicou-me calmamente. – Mas pode aumentar de acordo com a utilidade e o desempenho.
Imaginei que eles tivessem tirado a ideia de algum livro de auto-ajuda para pais, no capítulo "negocie com seu filho". Peguei um dos biscoitos.
- Quando começo?
Rachel sorriu abertamente, logo se transformou numa careta dolorosa e já estava com os olhos encharcados. Arregalei os olhos, engasgando-me com o biscoito, levantei-me com um pulo.
- Ai, meu Deus. Ai, meu Deus. Ok... Eu lembro que mamãe dizia: Tente manter a calma, é a melhor coisa nesses momentos. - tagarelava freneticamente, enquanto tentava abanar a mulher grávida à minha frente.
- ...
- Mãe, isso não funciona! - será que eu era a única preocupada com o estado horrível que Rachel se encontrava? Meu Deus, ela tentava falar alguma coisa enquanto estava aos prantos.
- ...
- Tio! O senhor quer que eu faça alguma coisa?
Tio Yago me encarou com o cenho franzido, enquanto acariciava tranquilamente a mão de Rachel.
- Está tudo bem, ela só fica emocionada rapidamente. - ele sorriu docemente para a esposa, que tentava retirar os vestígios de choro.
- Eu... – soluçou. - Só... São esses... - mais um soluço, seguido de uma fungada. – Ho-r-r-môunios.
Eu os encarei, incrédula, ainda gargalhava da minha reação exagerada e histérica.
- Vamos lá pra cima? - ele sugeriu a ideia do ano, dando leves batidinhas em suas costas. - Você toma um dos calmantes naturais e dá um cochilo.
- Eu não quero aquelas porcarias. - fez birra como uma criança. Tio Yago suspirou pacientemente, ajudando-a levantar. - Yago...
- Rachel, eu estou falando sério.
- Eu também!
Sua pequena discussão em inglês não foi muito acompanhada por mim. Logo, o casal estava subindo e eu continuava debruçada no balcão, após dar uns tapas de leve para que o garoto parasse de rir e perguntar pela 36° se não gostaria de uma ajuda.
A tarde em Londres passava lentamente, o dia estava fechado, fazendo com que eu tremesse de frio da cabeça aos pés, como se até meus ossos sentissem a temperatura e rangessem a cada movimento para tentar amenizar a situação, eu vestia um grosso casaco velho que tio Yago havia me doado. Esperava o dia inteiro a ligação do Brasil, já que vovó Berta e eu havíamos negociado que era ela que ligaria. A pizzaria não funcionava aos domingos, mas eu preferia continuar ali e observar o movimento das ruas.
A United Kingdom era movimentada, segundo as informações de , era uma zona de comércio, com várias lojas ao redor e um edifício enorme espelhado na outra esquina, que poderia ser perigoso dependendo do horário, mas nada comparado ao Brasil, dissera-me ela.
Phil me ofereceu um Ploughman’s Lunch, um prato local feito de pão crocante, queijo e picles doces. Não digo que adorei, acho que ainda não me acostumei com o novo tempero inglês, mas era comestível.
e eu engatamos uma conversa sobre desenhos animados. Muito apropriado para nossa idade mental, obrigada. Ele ria das minhas tentativas frustradas para me comunicar com mímica, enquanto meu rosto estava mais vermelho que brasa. Parecíamos dois idiotas.
- É melhor você falar, , mesmo que seja embolado ou errado. Como você está fazendo agora, as pessoas vão pensar que você é muda, não... Vão pensar que você tem problemas mentais. - Ele sorriu. - Não que você não tenha, mas...
Escancarei a boca, indignada. Estava pronta para retrucar a ofensa quando alguém me cutucou.
- .
- Hm?
Tio Yago me estendeu um telefone sem fio. - É do Brasil.
Peguei o telefone rapidamente, olhando sugestivamente para , que sorriu de canto e girou-se para falar algo com a mãe. Coloquei o aparelho na orelha.
- Alô?
- Alô, querida. – A voz firme de Berta me paralisou por breves segundos. – Está tudo bem por aí?
-Está, está sim.
- Yago está te tratando bem? - era quase como uma pergunta de segurança.
- Todos estão, mas e vocês e... Maggie? – Uma risadinha familiar seguiu-se.
- Vamos bem também. Sua irmã está aqui no meu pé, vou passar pra ela. Tchau, .
- Tchau.
- ! - a voz fina e infantil de Maggie preencheu a linha.
- Maggie, como você tá? - levantei, caminhando até o banheiro feminino, a fim de obter uma privacidade maior.
- Eu to bem, todo mundo me fazendo a mesma pergunta, assim eu fico cansada. - resmungou. Eu sorri. - E você? A vovó me disse que a Inglaterra é o país da rainha, é verdade?
Apoiei-me na pia, o banheiro estava escorregadio por ter sido lavado recentemente.
- É, é sim. Mas eu não cheguei a conhecer o país ainda.
- Ah. – um suspiro de decepção.
- Mas... - Não doeria omitir alguns fatos, não é?Afinal, Maggie era uma criança e se o Papai Noel despencasse na sua frente, não seria algo totalmente assustador. Não tanto quanto seu vizinho vestido de Papai Noel, caindo na porta da sua casa, mas isso é outra história. - Eu soube que a família real faz festas. Dizem que eles chamam praticamente todos da cidade.
- Sério? Imagina que legal seria se você fosse à uma. - a garotinha do outro lado gargalhou.
- Unhum. Lembra do casamento de um príncipe que...
- AimeuDeus, , é mesmo! Ainda tem um príncipe. – falou, histericamente, empolgada. – Você pode ser a princesa! - quase pude ver a garotinha sorrindo animada e esconder a boca escancarada com uma das mãos.
- Vida de princesa não é pra mim.
- Será maravilhoso, . Você e o príncipe num cavalo branco, andando pela rua. - ela deu um sorrisinho. - Eu vi num filme na TV, a menina não sabia que ele era um príncipe e pá! Ela era uma princesa sem nem saber.
Se ela pedir para vir à Inglaterra a culpa não seria minha, não é?
- Vamos deixar o príncipe Harry para mais tarde. - brinquei. - Como vai a escola?
- Hm... - pareceu pensar por poucos segundos. - Todo mundo anda legal comigo... Você acredita que a professora brigou com a Moára porque ela colocou o pé para eu cair? Mas eu quase caio.
- Foi mesmo? Que vaca...
- , isso são modos de se falar? - repreendeu. Aquilo sim era um clone da minha mãe. Desculpa, Jade, Lucas e o roteirista de "O Clone", mas nada se compararia à Maggie.
- Tá... Tá. - revirei os olhos, feliz por ela não estar vendo tal ato. - E por que você quase caiu?
- Ah! - soltou um gritinho de empolgação - Essa é a melhor parte... - um breve silêncio.
- Conta logo, Maggie.
- ... O Rodrigo me segurou. - um longo suspiro. - Ele é tão legal, , nós vamos nos casar quando crescer.
- "Nós vamos nos casar quando crescermos". Maggie, você tá estudando mesmo? - Ela não respondeu. - E eu posso saber quem é esse Rodrigo?
- Ele é o meu mais-que-amigo. Mamãe dizia que pra gostar de alguém, a pessoa tem que gostar da gente também, porque se não, não faria bem, né?
Mordi os lábios. - É, eu me lembro disso.
- E ele gosta de mim também. - sua voz ficou ainda mais fina. - Nós dois ficamos felizes assim.
- E como você tem tanta certeza assim de que ele gosta de você?
-Ah, porque todos dizem que gostam de mim, menos ele. – tagarelou. – Mas eu sei que ele me ama porque ele contou pros amigos dele quando a gente tava brincando de esconde-esconde, me pediu em casamento e...
Ouvi alguém gritar do outro lado, algo como "se despeça dela, querida", enquanto eu tentava segurar a gargalhada.
- Eu tenho que ir, vovô disse que a conta vai ficar cara. - resmungou ela.
- Tudo bem. - Não, na verdade não estava. - Mande um beijo para vovô e vó Berta, ok?
- Ok.
- E vê se não dá trabalho, se comporte direitinho.
- Eu sou uma santa, , todos me amam e sabem disso.
Eu sorri. - Sim, todos sabem, até o Rodrigo.
- É, ele me ama demais.
- Até amanhã.
- Até.
Então, o telefone ficou mudo. Segurei o aparelho nas duas mãos, sentindo algo me rasgar por dentro, sentindo saudade daquilo que nunca dei devida importância. Exatamente daquilo que eu sempre julguei estar do meu lado, agora eu já não tinha mais nada, nem mesmo minha garantia de que tudo ficaria bem no final. Porque, na verdade, não existia a mínima possibilidade de eu me tornar a última princesa da corte, era apenas uma doce ilusão que eu tentava passar para Maggie e, de certa forma, para mim. A doce ilusão de que tudo ficaria bem.
Senti meus olhos voltarem a arder, mas forcei para que as lágrimas continuassem no mesmo lugar, Maggie não precisava de alguém que chorasse todas as vezes que não soubesse o que fazer, ela precisava de uma irmã mais velha, um escudo de proteção que permaneceria inativo durante um ano. Precisava juntar o dinheiro suficiente durante um ano e três meses e, depois disso, um número já não seria o problema se alguém tentasse me impedir.
Porém, o problema é que os sonhos traem com o tempo.
Capítulo 3 - Troco
Meu pai tinha uma frase que dizia para meia dúzia de respostas, uma frase que eu tinha começado a repudiar: "a vida continua", foi isso que ele disse quando minha cadela morreu atropelada e eu tinha 10 anos, foi exatamente isso que ele falou enquanto eu choramingava no colo reconfortante de minha mãe.
Ele apenas queria que eu visse a vida exatamente como ela é. Não alisando na cabeça de ninguém.
As pessoas entram e saem de nossas vidas da mesma forma que elas embarcam num avião. Algumas não ousam olhar pra trás e notar o "estrago" que foi feito, outras espiam, acenam tristemente, mas todas elas... Com sentimentos bons ou ruins, todas elas se vão.
E eu estava tentando me convencer disso, sentada num dos bancos em frente ao balcão de granito, ao lado de um que soltava roncos ritmados, debruçado sobre o balcão, vestidos com o novo uniforme do colégio. Somente eu tomando o café da manhã composto por pães frescos, cookies e uma xícara de chocolate quente, esperando apenas tio Yago e Rachel descerem. Quando um homenzinho adentrou pela porta que rangia, fazendo com que seu alarmante barulho preenchesse o ambiente silencioso. Era um senhor de idade com uma boina quadriculada de tons verdes na cabeça, um jornal debaixo do braço, andava de forma curvada e praguejava algo para si próprio, baixinho.
esticou os lábios com uma compaixão transbordante. Há poucos minutos, havia mudado a placa de "closed" para "open" e lá estava o homem, sentado numa mesa afastada, com seu jornal cobrindo-lhe a face.
- É Mr. Housen... - ela murmurou ao meu lado, encontrei seu olhar e ele me pareceu sugestivo. - Não gostaria de conhecê-lo?
Ela não me deu chances de responder, já estava me arrastando para a mesa 17. O homenzinho abaixou o jornal minimamente, deixando apenas à vista seus olhos curiosos.
- Bom dia, Mr. Housen. - lhe estendeu um cardápio preto.
- Dia. - Cumprimentou, desconfiado, ainda me estudando, senti minhas bochechas corarem.
- É nova na família. - a mulher deu longas batidinhas em meu ombro. - Sobrinha de Yago, chegou ontem.
O velho abaixou completamente o jornal, apoiando-o na mesa. Acenou com a cabeça, com um olhar neutro e estendeu o cardápio à .
- O de sempre, por favor.
Além de sua aparência física, agora eu sabia que o Mr. Housen vinha todos os dias pela manhã, no mesmo horário, às 7 horas, das segundas aos sábados. Desde que sua esposa morrera, há quatro anos, ele fazia a refeição das manhãs no Pizza Express que, segundo sua falecida, tinha o melhor ambiente para um café da amanhã.
Poucas pessoas se juntavam ao idoso, a freguesia não era comum durante o turno matutino, já que servíamos nossa especialidade à noite, hora do verdadeiro show.
- , ! - chamou-me tio Yago, aproximando-se rapidamente. - Vamos? Vocês já estão atrasados.
Os ingleses, de fato, não eram os melhores anfitriões e receptivos, mas eram, definitivamente, criativos. Pelo menos 3 pessoas até agora, das quais eu tinha ouvido, chamavam-me de prostituta fugida ilegalmente. Eles realmente acreditavam que eu saí fugida do país e agora estava tentando corromper a límpida alma deles.
Gostaria que me poupassem de suas ideias. Um grupo de meninos havia perguntado pra mim algo sobre futebol e se eu poderia dançar a música de "remexer o bumbum". Eu pude esticar os lábios e dizer que não sabia de nenhum dos dois. Até que me fez o favor de aparecer e me puxar pelo pulso o mais distante dali.
E agora eu estava nas pontas dos pés, tentando encontrar , que simplesmente havia sumido. Por estar em outra turma, tinha me prometido que estaria na frente da porta que dava para a sala de Inglês, onde eu teria a última aula do dia, mas ele não estava e nem apareceu depois de 15 minutos.
Um garoto, que andava a passos rápidos, esbarrou-se em mim enquanto eu zanzava pelos corredores, procurando a saída, fazendo com que um pequeno caderno com algumas folhas dentro caísse e espalhasse os poucos papeis pelo chão. Suas bochechas coraram instantaneamente e nós dois nos abaixamos para recolher os papéis. Estava nervoso, com a respiração acelerada, engolindo em seco a cada segundo. E não, não nos apaixonamos, eu não era muito a fim de homens mais novos e nem quando eles aparentavam ter 10 ou 11 anos. Já estava pronto para dar no pé quando eu o chamei e perguntei-lhe seu nome, ele esticou a mão com o rosto em chamas e sorriu, gaguejando seu nome baixinho.
- P-p-percy. - foi o que ele dissera.
Eu sorri de forma aliviada e, o que eu esperava ser, de uma forma simpática. Estendi minha mão e disse meu nome. Ele tinha os cabelos ruivos e pequenas sardas no rosto, era baixinho e encarava sempre seus sapatos, mas eu consegui ver, durante uma espiadela para cima, da parte dele, que tinha os olhos verdes claros.
E, por incrível que pareça, aquele garoto extremamente tímido se tornou meu único amigo naquela escola gigantesca, depois do desnaturado a que eu havia sido apresentada. Um aceno especial ao aqui, por favor.
~*~
Willian Wilde era um senhor na casa de seus 40 ou 50 anos, era baixinho e robusto, tinha óculos quadriculares que escorregavam pelo nariz a cada 3 minutos, usava de seu sorriso educado a maioria das vezes e os poucos cabelos que restaram de sua calvície eram grisalhos.
Estava, nesse momento, apontando o dedo miúdo para uma frase do livro grosso aberto, falando tão rápido que, mesmo se fosse um claro português, seria difícil de acompanhar, estávamos numa das mesas mais reservadas da Pizzaria Express.
Era uma tarde de segunda-feira fria na rua United Kingdom. Uma leve chuva de outono, garantiu-me Rachel, sorrindo abobalhadamente. Apenas começo de outubro e Londres já prometia muito mais do que uma garoa que se aproximava timidamente e ia ganhando destaque a cada movimento nos ponteiros do relógio pregado na parede da Pizza Express ao alto, à vista de todos. Um pouco mais embaixo dele, havia o garoto que tentava equilibrar todos os pratos sujos até a cozinha, estava completando seu percurso, quando uma faca despencou de suas mãos, fazendo com que o barulho estridente preenchesse o local, soltou um palavrão baixo enquanto fazia uma careta. Podendo-se ouvir depois uma reprovação alta de sua mãe.
Abafei o riso.
- Você entendeu? - a voz do homenzinho foi como um estalo em minha cabeça.
- O quê? - pisquei repetidas vezes, tombando o braço, o qual antes apoiava minha cabeça.
- ... - sua voz soou reprovadora. - Eu sei que é cansativo. Mas você tem que se esforçar.
Abaixei a cabeça, brincando com a ponta da página do livro.
- Eu conheço seu tio há alguns anos e eu nunca o vi tão preocupado, sabe, ele quer realmente que você se sinta bem. Realmente se sinta em casa.
Ajeitei-me no banco desconfortável e engoli em seco. Tendo em minha cabeça o peso de uma consciência rígida.
- Podemos recomeçar? - levantou mais uma vez os óculos que escorregavam. Balancei a cabeça positivamente. Ele sorriu.
Um pequeno fato sobre Willian Wilde que deveria ser levado em conta: ele era paciente.
~*~
Alguém comentou alto, enquanto eu passava um pano numa das mesas, quão estúpida a vida era. Eu ergui os olhos para encarar a pessoa e lá estava ele, com um copo de vidro na mão, estendido para o alto.
- E para todas as pessoas que já perderam alguém... - sorriu sem humor. - Um brinde!
Era uma noite de sábado, eu estava com os pés latejando nas sapatilhas pretas. Era o mesmo cara que tinha vindo na segunda, na quarta e na quinta. Mas, diferentemente dos dias semanais, agora ele estava com um grupo de amigos e uma garota sentada ao outro lado, murmurando algo.
Ele trazia diferentes delas, morenas ou loiras, sempre trazia consigo um sorriso malicioso e olhos atentos.
E agora ele estava ao redor de vários amigos, sorrindo bobamente. Perguntei-me se sua história seria suficiente para eu sentir o mínimo de compaixão pela sua existência, esgueirei-me no balcão de granito escuro. Já que havia faltado, pois tinha prova de Química, História, Matemática, Inglês, Espanhol e Francês na próxima segunda, minha vítima foi , que mexia na caixa registradora, a mulher me fitou pelo canto do olho.
- Quem é o bêbado? - tentei fazer com que minha frase soasse mais despreocupada possível.
A mulher soltou um sorrisinho, respondendo logo em seguida. - .
Encontrei seus olhos, perguntando silenciosamente mais do que simplesmente o nome completo e seu número da carteira de identidade.
- O conheço desde que usava fraldas. - um sorriso nostálgico surgiu. - Vinha todas as terças e sextas com o pai e a mãe, corria por todos os lados e ainda vinha procurar pelo Phil na cozinha. - Algo em sua fisionomia mudou e, no segundo seguinte, seus olhos estavam opacos, uma tristeza desenterrada dolorosamente. - Acho que ele tinha 14 anos quando a Mrs. descobriu o câncer.
Ela fungou baixinho, tentando disfarçar em um espirro. Seus olhos se perderam, encarando a mesa em que o grupo estava reunido.
- A doença já estava bem avançada, Mr. tentou de tudo. Mas a mulher insistia em continuar na cidade, nunca abandonaria a comodidade de sua casa por um quarto estranho de hospital.
Fechou a caixa registradora, encarou-me nos olhos.
- Três meses depois, ela faleceu. - um silêncio incômodo se instalou por um momento. - Nunca mais vi o Mr. , mas soube que ele se casou de novo.
A conversa foi finalizada quando ela me apontou para uma mesa no canto.
- Estão pedindo a conta.
Um homem extremamente alto e com a cara séria me entregou o valor necessário e saiu, sendo acompanhado por uma mulher que segurava nas mãos um bebê embrulhado em uma trouxa pequena e uma menina de uns nove anos, que puxava a mão de uma garotinha menor preocupadamente, as duas tropeçando nos próprios pés. E eu me peguei imaginando o que havia acontecido. Talvez eu os tivesse tratado mal? Não... Provavelmente, problemas pessoais, alguma briga sem sentindo ou, então, uma palavra errada, dita em um momento errado, somente isso.
- Hey! - a garota da mesa do outro lado abanou a mão em minha direção.
Segui até lá, arrastando os pés, sem a mínima vontade de atender a mesa dos garotos que faziam com que suas gargalhadas ecoassem pelo lugar. Peguei o bloco de papel que carregava no bolso do avental e tirei a caneta de atrás da orelha.
- Olá. - cumprimentou-me. Respondi um "hi" baixinho.
- O que vai querer, sweetheart? - espalhou seu sorriso malicioso e pretensioso pelo rosto.
- Cala a boca, . - A garota revirou os olhos.
Segurei o riso em minha garganta, passando os olhos rapidamente pelo garoto, que se mostrou extremamente ofendido. Então, ela não era apenas mais uma do garoto da segunda, quarta e quinta.
- Mais uma Coca, tudo bem? - sua voz era decidida, quase adquirindo um tom profissional, estranho, já que pedia apenas um refrigerante.
Balancei a cabeça, anotando o pedido e, de cabeça baixa, voltei a falar minhas últimas palavras da noite perante o grupo.
- Mais alguma coisa?
~*~
Meus pés latejavam e pareciam sincronizar com minha cabeça. Era quarta-feira. A única mesa ainda ocupada era de um casal. havia me dado umas 68 recomendações e tarefas antes de fechar a pizzaria e eu estava crente que só sairia depois da meia noite.
Segui até o banheiro com um esfregão, balde, rodo e uma vassoura. Tio Yago me demitiria se visse aquela cena, mas ele tinha sido convidado de forma insistente para uma comemoração em um interior e só voltaria no dia seguinte. E depois de uma longa insistência minha e de , Rachel abaixou as guardas e admitiu que o melhor lugar para o bebê fosse sua cama macia, naquele momento. Além do que, as bolhas em meus pés mostravam o quão rápido eu necessitava de um descanso, então ignorei os clientes indesejáveis e segui até o banheiro. Retirando a sapatilha incômoda e a deixando do lado do corredor.
Afinal, era o mesmo garoto da semana com garotas diferentes a cada encontro, não precisavam de um atendimento especial. E nem eu o queria dar.
Apenas dar um jeito no banheiro, varrer ao redor das mesas, limpá-las, cobrir com um pano branco o balcão da cozinha, não se esquecendo de verificar todas as janelas, desligar todas as luzes e fechar por completo o portão de ferro. Então, minha cama estaria com o colchão confortável e o travesseiro convidativo, até que o alarme apitasse às seis e tudo recomeçasse.
Cantarolava Eduardo e Mônica animadamente, esperando que Renato Russo não estivesse se contorcendo no caixão uma hora dessas, quando ouvi uma risadinha contida. Girei nos calcanhares e o garoto sorridente me encarava, murmurou algo rápido que não consegui entender, apontando para a garota que se encarava num espelho minúsculo na mão, enquanto passava algum tipo de pó na cara.
- O quê? - franzi o cenho.
- Eu preciso ir, babe. – guinchou a garota, segundo minha narrativa, e vocês não estavam aqui para falar que ela "suplicou amorosamente".
- Volto já. - ele fez um sinal com a mão e saiu.
Ok. Ele disse "volto já", não é? Não iria sair assim, do nada, com uma conta do tamanho da metade de meu salário (exagerada, eu?). Até porque, o conhecia e se fizesse o tipo de gente que faz "fiado", ela me avisaria... Provavelmente.
Apoiei-me no rodo que tinha em mãos, espiando por debaixo do portão de ferro, conseguindo ver um táxi parar e os dois corpos se aproximarem. Balancei a cabeça, tentando me concentrar na lista de tarefas e não no que acontecia atrás do portão de ferro.
A porta rangeu e o garoto voltou sorridente, bagunçando os cabelos com as mãos.
- Novata? - perguntou, enquanto se sentava numa mesa. Havia colecionado essa palavra em meu dicionário mental, alguns se referiam à minha pessoa dessa forma carinhosa.
Assenti.
- é mais esperto do que eu achasse que fosse... – e tagarelou sobre a forma que o filho de tinha me deixado na mão e dado no pé. Partes do corpo humano em inglês, aprendi na 1º série, mamãe muito orgulhosa.
Ignorei, pegando os pratos e os equilibrando até a cozinha, o garoto colocou o restante ao lado da pia.
- Obrigada. - Balançou a cabeça e murmurou algo como "não é nada".
- Você não é daqui. – lançou-me um olhar curioso, apoiado em algum lugar, enquanto eu lavava os pratos, escancarada na pia de granito. - Brasileira?
- Yep.
- Hm, filha de Yago? - arqueou uma sobrancelha.
Neguei rapidamente, sentindo as bochechas corarem, sim, corava por qualquer coisa, por qualquer suspiro mal dado ou palavra diferente.
- Sobrinha.
- Então, novata... - ele sorriu. - Poderia acrescentar em minha conta uma cerveja?
Ergui os olhos, encarando-o acusadoramente.
- Quantos anos?
- Quase 18.
Desliguei a torneira e sequei as mãos em um pano branco largado ali. Abri a geladeira enorme, que eu sabia que encontraria o que procurava e estendi para ele uma Red Bul.
- 18 não é o suficiente aqui. - Dei de ombros.
Ele não respondeu e abriu a lata, tomando metade com um gole.
- . - estendeu a mão. - .
Encarei sua mão.
- ... - cumprimentei-o. - Mcfly.
Odiar meu sobrenome é algo inevitável. Um mero sobrenome da minha família materna, que decidiu desenterrar ele no Brasil, após minha avó ter tido um casamento arranjado com um americano. Algo que eu nunca entendi da parte de meus pais, que decidiram adquirir o sobrenome tanto para mim quanto para Maggie. Esperava que minha mãe sentisse por sua família e seu sobrenome o mesmo que eles sentiam por nós. Repudia. Mas ela repetia todas as vezes que não se pode simplesmente ignorar a família, não poderia tentar esconder metade de sua vida no presente e que eu fazia parte daquela família, quer sim, quer não.
Já estava pronta para uma brincadeira da parte dele, já não bastava as lembranças do sobrenome, tinha a questão do Marty, digo Marty Mcfly, do De volta para o Futuro.
- Então... - ele sorriu galanteador. - , não quer dar uma volta? - Franzi o cenho, perguntando-me se ele tinha noção do horário e quem é que deveria estar sofrendo pelo fuso. - Sabe, uma volta para o futuro.
Meus lábios se esticaram sem minha autorização e o sorriso que há um mês não surgia, apareceu. Cruzei os braços e o encarei com as sobrancelhas erguidas.
- Confesse, foi boa. - seus olhos encararam os meus e, por um momento, senti-me desprotegida, como se o muro que eu construíra até ali, tivesse sido demolido com uma simples troca de olhares. Desviei os olhos.
- Talvez. - sussurrei, não tendo certeza se ele ouviu ou não, só sei que, no minuto seguinte, ele me puxava para fora da cozinha e, enquanto ele se sentava em cima da uma das mesas, eu ocupei minhas mãos com a vassoura.
- se é que eu poderia chamá-lo assim - tagarelava sobre o quanto desejaria conhecer o Brasil, ele tinha ouvido falar das mulheres brasileiras, sobre o tamanho de seus biquínis, conhecia o futebol brasileiro e dizia que não era seu tópico favorito, mas ele admirava.
Meus pés latejavam, podia sentir bolhas em meu dedo mindinho.
- Eu nunca quis que isso acontecesse... - sussurrou ele, repentinamente mudando de assunto, prendendo os olhos no chão. - Já sentiu tanta falta de alguém que chegou a doer lá dentro?
Seus olhos encontraram os meus, engoli em seco.
"Já, você não imagina o quanto." Quis responder, mas apenas balancei a cabeça positivamente.
- Dói, não é? - ele voltou a murmurar rápido, fazendo com que eu me perdesse em suas palavras, elas já não faziam sentido.
Sentei-me no balcão plano, tamborilando os dedos ao meu lado, deixando que o frio os congelasse aos poucos no granito gelado.
Passaram-se talvez minutos, talvez os minutos tenham se tornado uma hora e novamente minutos. erguia sua nona lata azul e parecia ficar cada vez mais estranho, energético.
Remexia-se em cima da mesa, inquieto, passava a mão desocupada nos cabelos, encarava o relógio de pulso, porém, o que costumava fazer pelo canto do olho era me espiar. Seus olhos cravados em minhas costas me faziam quase tremer internamente.
Acabei de limpar a última mesa. Virei o corpo e fui pega de surpresa com a proximidade repentina do garoto, ele estava encostado em uma das mesas na minha frente, seus olhos ergueram-se lentamente até os meus. Sorriu.
A forma que ele me olhava... Seus olhos presos aos meus, fazia eu me sentir extremamente vulnerável, como uma garotinha prestes a contar todos os seus medos e angústias.
E talvez fosse por isso, ou somente pelo instinto, que eu me afastei.
ergueu uma sobrancelha, quase em tom ofensivo. Levantou as duas mãos, em sinal de que não faria nada.
- Não está tarde demais? – perguntei, a fim de achar uma saída daquela situação, qualquer que fosse ela.
- Horas só são números.
- É que...
Ele me interrompeu, repetindo mais uma vez que "estava tudo bem", continuou me encarando por breves segundos, então relaxou os ombros e enfiou a mão no bolso da calça jeans.
- Quanto estou devendo? - falou com a voz rouca.
Pisquei algumas vezes, andei apressadamente para o balcão, certificando-me de todos os pedidos, acrescentando os outros.
- 35 pounds. - Respondi de maneira robótica.
Puxou a carteira, fisgou alguma nota, e com a mão espalmada, colocou-a no balcão. Enfiou novamente a carteira no bolso e mostrou-me seu meio sorriso galanteador, começando a andar com passos rápidos até a saída. Abaixei o olhar e pude notar uma nota de 50 libras esterlinas, abri a boca para chamá-lo. Mas foi quando sua voz preencheu mais uma vez o lugar, antes de sumir de minha vista pelas ruas da pacata Londres.
- Fique com o troco.
Capítulo 4 - Ela é sempre assim?
É, aos poucos que nós notamos o quanto aquelas pessoas são indispensáveis nas nossas vidas. Aos poucos que elas nos conquistam. Aos poucos que nós aprendemos a conviver com seus defeitos. Começa com um sorriso e quando se vê, seus olhos já brilham. Não existe e nunca existiu realmente um motivo para tê-las ao seu lado, mas você se sente confortavelmente agradecido por tê-las ali. E talvez seja por isso que a partida dói tanto. Porque é tão lento o começo, tão "seguro", tão "tímido"... E a partida é exageradamente rápida e arrasadora.
- . - silêncio. - !
- Sim, professora Wats?
- Poderia prestar atenção na aula? - ou pelo menos foi o que eu entendi.
- Desculpe-me. - ajeitei-me na carteira.
Mais algumas palavras sem sentido e murmúrios da turma ao redor. Tamborilei os dedos na carteira, impaciente e com uma vontade louca de sair dali. Parecia que algo prendia minha garganta, sufocava-me ficar entre as quatro paredes daquela forma.
Mais longos minutos e finalmente o sinal tocou, deixando de lado meu mecanismo de encarar a professora de cara amassada por alguns segundos, desenhar coisas sem sentido no meu caderno, anotar palavras soltas do assunto, encarar o teto e depois a professora, exatamente nessa ordem.
Rumei apressadamente até o portão, como se sai de um sufoco recente ou então de ter a sensação de ar em seus pulmões após ter a respiração presa por muito tempo. Londres e sua forma mais calorosa de ser gélida, a melhor maneira que a terra da Rainha poderia me conceber.
Tio Yago havia me apresentado ao sistema de cartões, pagava-se uma taxa para o uso semanal ou mensal de metrô ou ônibus. Segundo o próprio, os ônibus de dois andares e vermelhos eram em si mais seguros e assegurando-me que eu não ficaria cansada e irritada, exatamente como eu ficava no Brasil, me entregou o cartão, garantindo-me que me ajudaria a qualquer momento.
Comparações. Estou cheia delas.
A pizzaria estava vazia e na sua porta estava pendurada a placa "closed". Abri a porta. Ela rangeu, indicando estrategicamente que havia mais alguém presente no recinto, ou no caso, mais dois, pois me acompanhava todos os dias, idas e voltas. Rachel alargou um sorriso um tanto quanto já familiar no meu ver, levantou-se, com certa dificuldade, vindo cambaleante até mim, apertando-me contra seu corpo.
Afastou-se. Acariciou a barriga, num gesto muito seu. E então fez a mesma pergunta que sempre fazia durante as duas últimas semanas:
- Como foi a escola, querida?
Respondo como das outras vezes, balanço a cabeça, murmuro um "ok" e passo pelo balcão. não me vê. Avanço até a cozinha, Phil estava tão ocupado em remexer algo na panela, que nem me viu abrindo a porta da geladeira desejando encontrar algo de normal aos meus olhos lá dentro. Abro-a, e mais uma vez sou interrompida por ser descoberta.
- O seu almoço e o de já estão saindo, ! – grunhiu a mulher robusta, dando batidinhas precisas na porta da geladeira, fechando-a de forma delicada. – Já estamos quase servindo.
- Estou com fome. – Repito, como sendo meu melhor argumento.
- Espere só mais um minuto. – Ela sorri e dá batidinhas com a colher de pau na minha mão ainda apoiada na porta branca da geladeira. E segue mais uma vez para a parte da frente.
Suspiro. Seguindo-a e sentando-me num dos bancos a frente do balcão, debruçando-me sobre o mesmo, enfiando a cabeça entre as mãos.
- Agora você notou quanto minha infância foi sofrida? – Levantei a cabeça para me deparar com , enquanto colocava seu clássico avental, que ele preferia se referir como: uniforme de trabalho.
- Está quase me convencendo – pisquei um dos olhos.
sorriu, caminhando até a cozinha. Alguém cutucou meu ombro e a voz de Rachel soou timidamente:
- Vai trocar de roupa, sweet heart.
~*~
Poderia ser em qualquer país ou planeta, mas matemática sempre continuaria a mesma droga de sempre. Eu estava sentada no balcão americano da cozinha do apartamento, com Luke aos meus pés, o focinho gelado espremido entre meus dedos.
Segundo Rachel, o cachorro andava sozinho e depressivo, sugerindo sorridente, que eu ficasse na parte de cima até que desse meu horário de trabalho para que minha companhia o consolasse. Não pestanejei, na verdade, tinha gostado da idéia. Um tempo comigo ou com Luke era do que necessitava.
Passei o peito do pé pelas orelhas caídas do cachorro, alisando-o até a barriga.
Lembro-me do cachorro que Sue tinha, era uma raça pequena e peluda, seus olhinhos miúdos eram cobertos de pêlos que escapavam de sua xuxinha, ele era agitado e desconfiado.
A quanto temo parece que nós não nos víamos? Não falava com ela desde...
Sinto sua falta. Da forma que ela dizia "vamos apostar, então?" ou até da forma que ela me abraçava, quase me sufocando. Não respondia minhas mensagens, nem ao menos meus e-mails, me prometera cartas, mas do correio só chegava contas.
Rabisquei no final da folha com palavras de forma e tortas, o português que pouco usava ultimamente: Saudade da minha vida. E fechei o caderno. O relógio da cozinha marcava 16h:30min, tempo suficiente para um bom banho.
A água escorria, fazendo com que um leve tremor percorresse meu corpo e eu logo o abraçava encolhida bem ali, era morna e tranquilizadora. Minha cabeça estava tão cheia para pensar em algo, que acabei me pegando admirando o belo nada.
Com um rabo-de-cavalo mal feito e vestida com as roupas máximas que eu havia colecionado nos invernos do Brasil, desci a escada espiral rapidamente, quase tropeçando nos pés e confundindo o chão com apenas mais um degrau, equilibrei-me antes que desse de cara com a parede.
- Ah , que bom que chegou – apareceu, me puxando para a parte principal. – Faz um favor? – Não esperou por minha resposta. – Coloca um pouco de juízo na cabeça de sua tia.
Colocou-me de frente para a grávida, seus olhinhos castanhos fitaram os meus, reclamava baixinho.
- Rachel... – comecei, timbre acusador.
- Eu já estou subindo! – ergueu as duas mãos – Não posso competir com você, garota. Tem o mesmo dom persuasivo de seu tio e não, não sorria, isso não é um elogio!
- Eu a levo lá em cima. – me cutucou, estendendo um avental para mim. – Vai atendendo umas mesas e depois eu venho te ajudar.
O bloco e o lápis já estavam no bolso direito, como de costume. Fui até o balcão, estava atrás dele, na sua intima caixa registradora.
- Mesa 3, 14 e 17, meu bem.
Girei nos calcanhares. Desviando-me de mesas e pessoas, anotei o pedido da mesa 3 rapidamente, entregando-o para Phil automaticamente. O grupo de idosos na mesa14 demorou tanto para escolher seu pedido, que eu os deixei em seu pequeno caos e me dirigi à mesa 17.
Um riso forçado e alto, uma garota de cabelos castanhos com mechas loiras artificialmente lisas estava praticamente deitada na mesa 17, tentando encontrar com urgência o rosto do cara do outro lado. Sorri ironicamente. Afinal, era uma segunda-feira. era o tal cara.
Aproximei-me, desejando que seu nível de idiotice estivesse bastante elevado na ultima noite em que nos vimos para ele se lembrar de algo. Essa idéia foi cruelmente eliminada pelo sorriso que ele me mandou assim que me viu parada ao lado de sua mesa.
- Boa noite e bem vindos. – Lápis na mão e o bloco na outra. Não esperei por respostas. – Já sabem o que pedir?
- Hm. – Ele analisava o cardápio, mão depositada debochadamente no queixo, sobrancelha arqueada, como se já não o soubesse de có. – Sugestões?
-Que tal um pouco de inteligência nessa sua cabeça? – desejei profundamente falar isso, mas ao invés, falei:
- Qualquer uma das nossas pizzas são maravilhosas, o Phil é um ótimo cozinheiro e só depende do gosto de cada um.
O mesmo sorriso irônico nos lábios, eu já odiava a forma que ele ficava em seu rosto.
- Gostaria de escolher, Monica? – virou-se para a garota a sua frente.
- É Monique – corrigiu, como se fosse a coisa mais linda e fofa que acontecesse em um encontro.
- Do que você gosta, Monica? – ele voltou ao cardápio. Revirei os olhos, me arrependendo amargamente de ter deixado a mesa do grupo do bingo e sua indecisão.
- Ah... – ela abriu um dos cardápios. – Tanto faz, docinho.
Se estava odiando aquilo tanto quanto eu, deveria admitir que ele era um ótimo ator , pois o sorrisinho dele perante a sua cena, continuou intacto.
- Um tanto faz, novata – estendeu-me o cardápio. Olha só, ele tinha ganhado o prêmio de comediante com piadas do tempo de meu avô!
A garota me estendeu o cardápio. Rabisquei no bloco de notas "um tanto faz com bastante pimenta e veneno, Phil" me arrependendo logo depois pela forma infantil que isso soava, arranquei a folha, substituindo por "o sabor mais pedido".
O movimento estava grande, eu corria para todos os lados, anotando, entregando ou pegando. ajudava Phil na cozinha, ora me ajudava, ora comandava a caixa registradora, se dividindo em dois para me ajudar.
No final da noite, o movimento estava menor, faltavam poucos grupos de pessoas (insira o nome de nesse grupo). Alguns conversavam, outros gargalhavam e havia aquele que ficava com uma conversinha idiota com uma garota que sorria abobalhadamente, dando pulinhos na cadeira a cada coisa retardada que ele dizia e fazendo com que seu vestido levantasse até a altura da cintura, não, eu não sou exagerada. Mas era algo surpreendente, porque, mesmo com o aquecedor existente na pizzaria, fazia um frio de rachar os ossos e a garota estava ali, em quase strip-tease.
-Se eu continuar trabalhando desse jeito, meus pés vão virar meros cotocos – resmunguei, jogando-me num dos bancos na frente do balcão ao lado de , que teclava freneticamente numa calculadora.
- O quê? – gargalhou ao meu lado, provavelmente não entendendo nenhuma palavra se quer. O coitado mal entendia inglês, imagina português...
- Hm, nada. – Retirei a sapatilha preta, que espremia meus dedos da forma mais cruel já vista.
-Ah! – olhou de meus pés para meus olhos, sorriu – Você tem que usar algo confortável. – Apontou para os próprios pés, um tênis aparentemente aconchegante ao extremo os revestia.
- Eu perdi meu all star e minhas coisas no Brasil – dei de ombros, tentando não demonstrar a mentira que ali continha, com um flash rápido de todas as minhas coisas queimadas, reduzidas a um pó ou algo encardido, cinza, sem valor.
Alguns porta-retratos foram algumas das únicas coisas que eu consegui encontrar a metade, com vidros rachados, as fotos com pontas encurvadas, parecendo velhas. E uma delas eu carregava comigo, o resto das imagens eu guardava na lembrança.
- Hey! – me cutucou no ombro, encarou em meus olhos, pude ver sua fisionomia mudar, o nervoso e a preocupação mesclados. – Ta incomodando tanto assim?
Eu sorri e neguei: - Está tudo bem.
apoiou os cotovelos no balcão, inclinando o corpo para trás, observando cautelosamente cada movimento dali.
- Você poderia trabalhar como segurança. – Revirei os olhos por tamanha precaução.
- Você que não deveria ser tão desligada assim, Brazilian – aconselhou-me, esticando uma das mãos até mim e bagunçando meu cabelo, resmunguei alto, tentando ajeitar seus fios rebeldes recém cutucados e acordados.
Murmurei um palavrão baixinho, esperando que somente o vento e eu compartilhássemos das duas palavras, mas o ouviu e gargalhou alto, fazendo questão de me puxar pelos ombros para um abraço desajeitadamente sufocante.
- Ah ... – bagunçou ainda mais meus cabelos, como um pai americano fazia com seu filho quando ganhava um jogo de beisebol.
- , seu idiota! – tentei me separar de seus braços apertados – Sai! – comecei a distribuir soquinhos, com o objetivo de serem extremamente fortes, mas ao invés de um urro de dor, da sua garganta, saiu mais uma gargalhada.
- Hey! – alguém nos chamou a atenção. Imediatamente senti meu corpo sendo empurrado para o lugar de origem, meu líquido da cóclea ainda estava em estado de alvoroço quando eu pude notar que esse alguém parecia muito diferente do habitual.
- E ae, ? – o cumprimentou com batidinhas nas costas. Coisas de homem, mais uma vez revirei os olhos.
- E ae, dude? – Em momento algum, fez questão de olhar em meus olhos, ao menos para minha figura inquieta ao lado deles.
Enquanto os dois trocavam algumas palavras rápidas e sem sentido para mim, eu vasculhava o lugar com os olhos, a miss-mamãe-vou-ser-prostituta não estava ali, provavelmente no banheiro, pensei. Desejando quase no mesmo momento que alguma criança levada fizesse algo positivo essa noite e deixasse o banheiro feminino encharcado, como algumas vezes no final do dia. E talvez uma trabalheira antes de ir pra cama, fosse bem recompensada por algum gritinho histérico.
- ? – uma mão passava freneticamente por meu rosto.
Olhei pra meio impaciente: - Que foi, carma?
O garoto fez uma careta, como se tivesse realmente se importado com o apelido, seguida por um bico emburrado.
- Mesa 19.
Eu segui até o local apontado, mas antes pude ouvir perguntar:
- Ela é sempre assim?
Capítulo 5 - Noite
- Todas as crianças crescem, mas Peter Pan não! Ele mora na Terra do Nunca. – Aconcheguei-me na cama, dando tapinhas de leve no travesseiro, tentando ao máximo concentrar-me no sono. – Um dia, junto com a Fada Sininho, foi visitar seus amigos Wendy, John e Michael.
Girei na cama. Mãos espalmadas apoiadas na barriga. Abri os olhos. Escuro.
-Peter levou-os para conhecer a Terra do Nunca. Com a mágica de Sininho, eles saíram voando – continuou pausadamente. O timbre de voz suave e controlado.
-Deixa-me ler agora, Yago – uma cortada e eu já poderia imaginar a careta habitual de meu tio perante aquela cena. Hormônios de grávida são complicados, dizia ele. – Mas como assim os meninos perdidos não vão para casa?
A forma que a frase saiu parecia um absurdo grotesco. Pisquei mais algumas vezes. Já podendo distinguir o teto lilás, tão claro que chegava a ser praticamente branco.
- Mas é só um livro, querida.– Uma fungada e eu sabia que a história já estava totalmente interrompida.
- Mas é tão triste Yago. Como assim todas essas crianças não têm pais? – a voz realmente rouca de Rachel, me fez sentir ainda mais deprimida. Encolhi-me com meu cobertor grosso. – Como nosso bebê ficaria sem um de nós ou pior, sem nós dois?
É só uma fase difícil para Rachel, repetia para mim mesma. Ela estava num desses momentos delicados da gravidez, que uma mudança nos pratos é motivo para olhos marejados. Uma de suas amigas sugeriu que ela conversasse mais com a criança durante esse tempo, contando-lhe histórias, cantarolando cantigas... E chorosamente, pedia a tio Yago que comparecesse a todas as "reuniões familiares" – que se resumiam a conversarem durante um longo tempo no quarto ao lado, ou seja, do casal – e assim eles se punham a conversar, cantarolar e havia noites como essa, eles contavam histórias.
Não que odiasse essas "reuniões familiares" só não fazia a mínima questão de aparecer e estragar o momento que era pra ser somente deles, somente da família. Era o primeiro filho e eu nunca havia visto um casal tão ansioso e feliz.
- Mas... mas... – mais uma fungada – E a ? E a menininha Maggie?
- O que têm elas, Rachel? – a voz um pouco mais firme de Yago, denunciava a forma que ele ainda se sentia com isso. Eu sabia. Ele sabia. Todos sabiam.
- Que triste... que triste, Yago. – voltou a choramingar, os soluços atravessando tão facilmente a única barreira do som que eu poderia ouvi-los abafados, mas ainda sim, de forma quase nítida. – Nós nunca conseguiremos substituir os pais daquela garota e você sabe disso.
Apertei a borda do cobertor, espremendo-o contra a palma da minha mão. Fechei os olhos com força.
Fumaça. Fogo. Gritos.
- Nós daremos um jeito – murmurou ele, baixo.
- Eu gosto de pensar nisso – continuou Rachel, a voz menos chorosa.
- Vamos dormir – anunciou o homem, praticamente implorando – Vem, vamos dormir, Darling.
E assim acabava mais uma noite. Era só mais um dia chegando ao fim. Meus olhos ardiam, minha mente borbulhava e tudo acontecia como nas outras noites: eu me sentia cada vez mais perdida.
~*~
Eu tinha os olhos pregados em um canto qualquer da pizzaria, meu caderno estava aberto com algumas palavras em Francês rabiscadas, era uma das matérias obrigatórias na escola, como se já não bastasse espanhol...
Tinha a cabeça apoiada na mão esquerda, estava tão cansada que não duvidava que daqui a alguns minutos eu me renderia ao sono. havia escolhido tirar o dia de folga, a qual lhe era concebida duas vez por mês, e como hoje era sábado o trabalho seria dobrado para mim.
Ainda era cedo e poucas pessoas estavam devidamente acomodadas em suas mesas, aguardando seus pedidos ou somente conversando enquanto comiam. Uma parte de mim admitia que eu estava sim, esperando o grupo de amigos e entrarem por aquela porta a qualquer momento, e confirmando minha teoria dos dias da semana: segunda, quarta, quinta e sábado, eles entraram.
conversava animadamente com um garoto risonho, enquanto o conversava com a garota. Ela tinha o semblante sério, olhos maquiados com uma cor preta e murmurava algumas coisas de volta em sua conversa sem grandes interesses.
Tentei encontrar outra pessoa no recinto para que atendesse os recém-clientes, mas Yago falava com Rachel do outro lado do balcão e bem distante de mim, ajudava o marido na cozinha e a ultima alternativa estava bem aqui. Suspirei. Coloquei uma borracha como peso entre as duas páginas. Peguei alguns cardápios na pilha ao meu lado.
Francês. Definitivamente, não era minha língua favorita.
Vasculhei em meu bolso da frente o bloco de notas e já com o lápis nas mãos, repeti minha fala:
- Boa noite, bem vindos. – lancei um sorriso, o qual classificava como "educado", entregando os cardápios – Já sabem o que pedir?
O garoto que antes conversava com , sorriu-me debilmente por um momento, para logo depois voltar sua atenção ao cardápio. Arqueei minimamente a sobrancelha, balancei a cabeça.
A garota me olhou fixamente, suas pestanas longas e seus olhos deixavam-na com uma fisionomia assustadora.
- Não ligue muito para ela – murmurou o garoto sorridente para mim – Só está um pouco chateada hoje.
-Pare de falar de mim como se eu não estivesse aqui, – resmungou ela, revirando os olhos impacientemente.
O garoto ao seu lado estendeu-me um sorriso simpático.
- Ignore o casal.
Os dois bufaram e sussurraram alguns palavrões para o dito cujo.
- Hm... - apoiei o peso do corpo no outro pé - Ok.
- Está gostando de Londres? - engatou uma conversa, fechando o cardápio. Eu fitei por alguns segundos o cardápio na mesa, desejando que ele apenas fizesse o pedido e não tentasse ser tão simpático.
- O caminho do colégio para aqui é bem legal. - Disse por fim, quando quase todos estavam começando a pensar que eu era uma garota com problemas auditivos ou sonoros.
Tanto o como o garoto sorridente soltaram um riso engraçado. e a garota assustadora não se pronunciaram, continuaram vendo a cena lastimável.
- , certo? - o sorridente me estendeu a mão. Balancei positivamente a cabeça, me perguntando como saberia meu nome, mas graças ao um muxoxo de desagrado do , um estalo veio a minha cabeça. - Sou , só . - Pude notar que a garota mais uma vez bufou, brincando com o guardanapo na mesa, tentando de todos os modos nos ignorar. - Esse é ... - O acenou, com um meio sorriso nos lábios. Acenei de volta, podendo pressentir minhas bochechas em estado de alerta como o resto do meu rosto. - E essa emburrada é a .
A garota permitiu uma leve espiadela para cima e depois voltou a se concentrar nos guardanapos e suas dobraduras em origami.
- Por onde anda aquele safado do ? - perguntou-me.
Soltei um risinho nervoso, também me perguntando a mesma coisa.
- Estou à procura dele - dei de ombros - Aproveitando sem mim sua noite de folga, gostaria de acompanhá-lo mas...
A garota ergueu a cabeça, fazendo com que eu me interrompesse e só então, pelo seu olhar, eu pude notar o que havia dito.
- Não... - esbafori com os braços - Não era pra ser nesse sentido... Sabe? - Os dois garotos gargalhavam perante o meu estado e eu já não conseguia me imaginar mais vermelha. - Não, o ... é só... Ele tá... Ele pegou uma folga.
espremeu os lábios em uma linha reta, ao coro de gargalhadas. Recolheu os cardápios e me entregou.
- Vamos querer uma coca para cada um, uma pizza grande e os sabores de sempre, tudo bem?
Assenti de cabeça baixa, equilibrando os cardápios debaixo do braço, anotando tão rapidamente o pedido que o transformou em um garrancho pior do que o habitual.
- Vocês deixaram a garota constrangida - pude ouvir resmungar.
- O está evoluindo...
- Ah, cala tua boca, . - Foi a ultima coisa que eu prestei atenção, quando a voz de soou pela primeira vez nitidamente aquela noite.
Estava sentada mais uma vez em um dos bancos de frente ao balcão, agradecendo imensamente ao por me "emprestar sem tempo indeterminado" um dos seus all stars surrados. Ele era preto misturado com um amarelo ou marrom, pelo uso. Eu havia me sentindo tão surpresa que retribui com um abraço inesperadamente forte.
O mesmo caderno de francês me encarava desafiadoramente.
Já tinha uma absoluta certeza do que faria com uma parte do meu salário que seria abdicado da economia: compraria um notebook. Faria uma extrema ajuda em duas principais coisas: eu poderia entrar em contato com Sue e o Google estaria de volta para os meus braços, onde nunca deveria ter saído, eu usufruiria de sua inteligência e o dia acabaria mais lindo. Google, seu lindo.
Alguém passou por mim tão rapidamente que, pelo susto, fez com que os cardápios despencassem para o chão.
Olhei carrancuda para o ser e encontrei , a garota estranha se desculpar rapidamente, recolhendo os cardápios. A pizzaria estava muito mais vazia, após a noite de sábado tumultuada, enquanto Tio Yago cumprimentava alguns dos clientes, eu aproveitava para adiantar na atividade para próxima aula. colocava os cardápios de volta ao seu lugar de origem, quando espiou pelo meu caderno.
- É francês? - arqueou uma sobrancelha.
- Nem me fale... - suspirei.
Continuou olhando por mais alguns segundos, estendeu a palma da mão em minha direção e eu fiz uma careta confusa.
- O lápis. - Ela apagou alguma coisa e quando eu estava prestes a choramingar meu trabalho árduo perdido em um passar de borracha, ela rabiscou algo no caderno. - É je voudrais, que significa eu gostaria.
Eu arregalei os olhos em sua direção e ela me mostrou um sorriso tímido, largando o lápis no balcão logo em seguida.
- Hm... - limpou a garganta - É que eu nasci na França, mas vim muito cedo pra cá, sabe... trabalho de minha mãe e tal.
- Gosta de francês?
- Tem como não gostar? - devolveu-me.
- Acredite, tem sim - fiz uma cara cansada para o caderno escancarado. - Estou a horas tentando fazer esse treco.
- Português é muito mais difícil - retrucou ela.
- É, talvez. - Dei de ombros. - Mas mesmo assim...
Ela me ignorou e pegou novamente o lápis, rabiscou algumas coisas no caderno e virou a folha.
- A palavra certa é plaisir não plaise. E sempre o som vai se tornar meio cantarolado, é um jeito bonito de se falar. A frase é simples, ficaria Plaisir, vous parlez français?
A garota falava tão ritmado, com um sotaque bem acentuado que eu a encarei por poucos segundos.
- Sente falta de lá?
Seus olhos ergueram-se e me fitaram quase como se dissessem "não te interessa", mas ao invés disso, ela deu de ombros e voltou a rabiscar o caderno.
- Em compensação odeio espanhol. - Resmungou, como se mais para si mesma do que para mim.
- Somos duas, então.- murmurei em desagrado - Inglês é necessário.
Ela assentiu. Tão absorta em meu caderno para notar que estava sentada em meu lugar e eu em pé. era a garota mais próxima da minha idade que não tinha o slogan "olá, estou procurando alguém essa noite para uma ida rápido ao motel" estampado na cara e eu estava feliz com isso.
Uma gargalhada interrompeu o ambiente e pude ver girar a cabeça e revirar os olhos, na direção da sua mesa.
- Ignore o , é o que eu faço... e acredite, é a melhor opção, já que infelizmente matar não é uma delas.
- E o outro... o garoto...
- O ? – Arqueou uma sobrancelha, olhando-me torto. Assenti. – Idiotas. Todos são meros idiotas.
- Mas seus amigos...
- Amigos? – ela riu forçadamente – Eles... – apontou para o grupo na mesa, acabava de mostrar a obra prima feita de ketchup no prato branco. – Meus amigos?
- Bem...
- Olha, eu só respiro o mesmo ar que o porque minha mãe decidiu que tava tendo um daqueles trecos de adolescentes acéfalas e sem vista para um futuro promíscuo. Então foi – fez aspas com as mãos, sem antes de fazer uma careta – "amor a primeira a vista". O Mr. não é um cara ruim, mas meu Deus... ter um filho como esse... É ter sofrido crimes contra a humanidade na vida passada!
- Sua mãe se casou com o Mr. ? – ela parou sua narrativa, encarou-me, balançou a cabeça positivamente então voltou a falar, como se não tivesse sido interrompida:
- O deveria ser um caso para estudo, se a mãe dele o internasse numa dessas clínicas para experimentos lucraria muito mais. E aquele ? – bufou – Um idiota com carteirinha, fã-clube e até um site oficial. Cérebro é uma coisa que ele definitivamente não usa, pode até estar lá, mas duvido muito, entende-me?
E então pausou, olhou por meus ombros, revirou mais uma vez os olhos.
- Falando de mim, querida? – se aproximou.
- Planejando sua morte – respondeu .
- Eu sei que você me ama, .
A garota cerrou os olhos na direção dele, girou nos calcanhares e voltou ao livro aberto no balcão. sorriu em minha direção e eu lhe devolvi com um meio sorriso.
- Ela tenta esconder esse amor por mim – ele sorriu galanteador.
- Não estou muito certa sobre isso, .
- Até a Brazilian agora? – falou, indignado.
Soltei uma risada enquanto seus olhos se tornavam cada vez mais arregalados, juntamente com sua boca.
- Está rolando reunião e não me chamaram? – apoiou-se nos ombros do amigo, fazendo com que resmungasse e tentasse tirar a aproximação existente.
- Já tínhamos idiota o suficiente – ouvi falar, apoiando a cabeça numa das mãos.
- Nunca será suficiente o estoque de idiotas, querida – deu uma piscadela em sua direção.
- Não estou tão certa disso, irmãozinho – o tom sarcástico em sua voz foi prosseguido de um longo silêncio entre o grupo.
Enfiei minha mão em um dos bolsos do casaco gigantesco, tentando aquecê-la.
- Você se acostuma com o frio – disse Tom, sentando-se ao lado de .
- Vai ser meio difícil.
- Nada como uma boa ajuda – me abraçou de lado, fazendo com que meu rosto entrasse em chamas com seu simples ato. – Já está um pouco mais corada está vendo? Resultados imediatos.
Até riu da cena. Mas foi ao passar rapidamente os olhos por que pude notar seu maxilar contraído e um sorriso um tanto quanto estranho em seu rosto.
finalmente me soltou e passou minha mão a sua, os meus dedos gélidos sendo esquentados minimamente. remexeu-se na cadeira, tentou puxar assunto com , mas foi rapidamente cortado. O garoto olhou de mim para e me soltou, com um sorriso envergonhado, coçou a nuca.
- Está ficando tarde – murmurou .
-"Horas só são números" – cruzei os braços, arqueei as sobrancelhas e sorri.
O garoto olhou-me pelo canto do olho, antes de esticar os lábios suavemente.
- E eu sei que você costuma se confundir com os números, Brazilian.
- Como você se confunde com você mesmo, . – respondi com o tom irônico.
aproximou-se dois passos, ele era visivelmente mais alto. Levantei um pouco a cabeça para olhá-lo nos olhos, desafiadoramente.
- E você por o caso sabe quem eu sou? – Havia tomado uma postura diferente, tinha os olhos sérios e semicerrados e as mãos enterradas nos bolsos da calça jeans.
- Não é muito difícil... – falei zombeteiramente – Um garotinho mimado que nem sabe sobre ele mesmo e espera que os outros saibam e compreendam.
Soltou uma risada nasalada, antes de revirar os olhos.
- Está se achando tão esperta, Brazilian.
- Mas é o que eu sou – dei de ombros.
Uma risada escapou ao nosso lado. Até tapar sua boa com as mãos.
- Podem continuar – demonstrou um sorrisinho, bastante interessada no assunto. Estava juntamente com os outros dois, espremida entre o balcão e os bancos, os olhos curiosos e arregalados.
suspirou alto, voltando à atenção novamente pra mim, mordendo o lábio inferior de uma maneira que senti algo metralhar em meu estômago. Seus olhos fuzilando-me de uma maneira tentadora.
- Está se achando muito sortuda porque os papais podem bancar a viagem, não é? – arqueou uma sobrancelha.
- Ok, ... – chamara .
- Mas seus pais deveriam estar procurando uma forma bem prática de se livrar de você – continuou ele, o tom de voz baixo e arrastado.
- – insistia a garota.
- É muito fácil falar dos outros.
O que estava tentando fazer comigo, afinal? Ele se aproximou de mim, pude senti o calor de seu corpo mais próximo. Levantei a cabeça.
- Ou talvez você também não saiba quem é.
- já chega, ok? – o puxou pelos ombros, enquanto a garota apareceu subitamente ao meu lado. Ela me olhou rapidamente e seus lábios se estalaram em um claro nervosismo.
- Olha... – Alana me fez sentar em um dos bancos – É o que eu disse, ele é idiota.
A garota estava tão nervosa pelo meu estado repentino que podia quase prever que no próximo segundo ela estaria me abanando em pleno gelo de Londres com um dos cardápios.
- Você tem razão... – mordi o lábio inferior – Uma pena que matar não seja uma das opções.
Relaxou um pouco os ombros, sorriu de forma cúmplice. Estendeu a mão.
- Pode me chamar de .
- – apertei sua mão.
- Enfim... – seu olhar estava mais leve e descontraído. Ao fundo eu tentava ignorar as palavras emboladas que praticamente cuspia para o .
- ! – acenou freneticamente , se aproximando de nós desajeitadamente. – Então , meu amor, já disse que eu te amo tan...
- Que é que tu quer, ? – arqueou uma sobrancelha, o olhar penetrante de volta.
- Faz assim não , você sabe que eu gosto tanto de vo...
- , ! – ela estalou os dedos em seu rosto, parecendo cada vez mais impaciente.
O estendeu um pedaço de papel, que depois notei ser a nota fiscal, junto com três notas de 10 libras. Ela a pegou com raiva, analisou e revirou os olhos. Vasculhando algo nos bolsos.
- E você, ? – Seus olhos brilhantes voltaram-se pra mim.
- Eu?
- É, você, como tá?
- Estou ótima, ué. E você, como está?
Ele me analisou por um momento e depois me puxou para um abraço apertado e sufocante.
- Não ligue muito para o , ele também não está em umas de suas melhores semanas – sussurrou em meu ouvido. Senti minhas bochechas corarem e assenti minimamente.
- Bem... – levantou-se e me entregou o papel com mais uma nota de 10 libras – Vamos indo, não é ?
O assentiu, meio absorto em algum canto da pizzaria.
- É melhor irmos – disse , espiando para a porta, os outros dois garotos estavam prestes a sair. – Não estou afim de mais alguma aventura na noite.
Capítulo 6 – Ai... Meu... Deus!
- Desde quando se interessa por esportes? – mordisquei um pedaço do apetitoso cupcake bem na minha frente.
- Eu não me interesso – o garoto deu de ombros. – Mas meu padrasto foi um dos maiores jogadores de críquete e ele convenceu a minha mãe que...
- Você deveria começar a pensar por você mesmo, Percy – cortei-o. – Quantos anos você tem? 10?
- 11 – corrigiu-me.
- É idade suficiente para escolher se quer ou não praticar um esporte que envolve andar sobre o gelo...
- Envolve cavalos.
- Olha, Percy – girei o corpo em sua direção, encarando-o nos olhos. – Você quer realmente fazer esse tal de tricket?
- É críquete. – suspirou. – E não, eu não quero praticar nenhum esporte do gênero, mas minha mãe acha que deve ocupar meus domingos.
O garoto estudava italiano as segundas. Piano, saxofone, flauta e violão as terças e quartas. As quintas tinha aulas avançadas. Fica com sua avó das sextas aos sábados e percebia-se nítidamente que a mãe não queria ocupar seus dias da semana, e sim mantê-lo longe da sua vista. Afinal, colégios internos não estão mais tão famosos hoje em dia.
- Os problemas são os domingos? - mordisquei o bolinho. Ele balançou a cabeça. – Então porque não os passa comigo?
O garotinho me encarou surpreso, um misto de alegria e incredulidade.
- O que foi?
- Você quer gastar seu único dia de folga... Comigo? – apontou para si mesmo, ajeitando os óculos que escorregavam, como se isso fosse um absurdo.
- Bem... – limpei a garganta. – Podem ser domingos alternados. Tenho certeza que meus tios não se incomodarão.
Um sorriso radiante surgiu em seus lábios e a reação mais inesperada de todas perante o garoto: ele levantou-se com um salto e envolveu seus braços em meu pescoço.
- Vamos fazer coisas legais, – disse, animado. – Podemos construir experimentos extraordinários, você pode me ajudar a escrever as partituras e...
- Tenho certeza que será divertido – dei leves batidinhas em sua cabeça, sorrindo também.
~*~
- E nós estamos assim desde então. – concluí. – Ele de um lado e eu do outro, me ajuda atendendo a mesa dele.
-Hm – foi a única coisa que pronunciou. Havia marcado a conclusão de um trabalho no restaurante, mas seu grupo tinha lhe dado um bolo e agora estávamos as duas sentadas lado a lado, parecendo duas bêbadas (N/A: né não, comadre? -q) em plena tarde de sexta-feira, após mais uma aula cansativa com o Mr. Wilde, conversando. Quer dizer... Eu falava, ela rabiscava meu caderno de francês enquanto sibilava poucas palavras.
- Mas ele é orgulhoso pra pedir desculpas, sabe que está errado e...
- sempre foi assim – interrompeu-me. – Mas geralmente sempre voltava rastejando e pedindo perdão.
Minha boca estava entreaberta. Qual era o problema de comigo?
- Mas é um estúpido mesmo – bufei.
- Não é problema seu, – falou, meio hesitante. Passou as mãos nos cabelos, agarrando uma mecha e a enrolando no dedo. – É só que... – engoliu em seco. – Ele está numa semana difícil.
- Semana difícil? – perguntei, atônita. – Você tem razão, é problema dele, ele que não desconte nas pessoas que não tem nada haver.
- …
- Semana difícil...? – cerrei os olhos, repetindo sarcasticamente. O resto do meu ano estava sendo difícil.
- É um assunto dele, ok? – pareceu preocupada em defender o “irmão”.
- Não era você que dizia que ele era um idiota?
- E ele é um idiota. – concordou. – Mas essa semana é um idiota com motivos.
Seus olhos estavam tão expressivos naquele momento, que eu cheguei a me perguntar qual era o problema, no final das contas. Por fim, suspirei, sabendo que não o adivinharia e nem acabaria me contando.
Levantei do banco, recolhendo mais uma vez o bloco de notas.
- Quer mais alguma coisa?
A garota ajeitou-se desconfortavelmente na cadeira. Não respondeu. Rabiscou alguma coisa em meu caderno. Colocou o dinheiro mais que o suficiente no balcão e saiu pisando forte, fazendo com que seu salto ecoasse pelo vazio do recinto.
Peguei o dinheiro no balcão, notando que também havia números rabiscados numa das páginas do caderno. “Só pra você ter. Não me incomode. Só me ligue se for pra urgências.”
Era somente o jeito dela, resmunguei para mim mesma. Eu me acostumaria com isso. Arranquei o pedaço da folha e enfiei no bolso da calça.
- ainda não chegou? – apareceu do outro lado, mais uma vez abrindo a caixa registradora.
Seu amado filho não havia vindo comigo hoje, pois tinha tido umas aulas extras no final do horário. O que me fez ter uma aventura incrível, pegando dois ônibus errados.
- Não.
olhou para a porta de vidro, como se ela fosse trazê-lo para debaixo de suas asas.
- Ele deve estar conversando com alguém, . Não se preocupe. – a mulher sorriu nervosa em minha direção.
- sabe se cuidar, eu sei disso.
- Você está parecendo minha mãe – soltei um risinho, virando a página de meu caderno de inglês. – Ela sempre ficava assim quando a Maggie saia.
- É mesmo? – ergueu os olhos em minha direção, de forma suave.
- Unhum – sorri de maneira nostálgica.
Então a palma de sua mão encostou-se à minha. Um mudo “ficará tudo bem” e não sei o quanto eu fiquei grata por aquele gesto. Até que a porta rangeu e dali apareceu um garoto sorridente.
- Não precisam se preocupar, queridas, eu acabo de chegar - nós rimos.
- Até parece, . - revirei os olhos enquanto ele me envolvia com seus braços protetores.
~*~
- Será só uma semana, meu amor – murmurou tio Yago.
- Uma semana é muito, Yago – resmungou Rachel.
Eu estava tentando me segurar para não rir da cena, exatamente como , que comprimia os lábios em uma careta engraçada.
- Eu volto.
- Eu sei que sim – ela choramingou. Rachel se tornava ainda mais difícil com despedidas em tempos de gravidez. Difícil seria um elogio.
- Yago... – chamou um dos caras do ônibus.
- Porque você tem que ir, hein?
- Já conversamos sobre isso, Rach. – ele suspirou fundo, depositando um beijo carinhoso no topo de sua cabeça. – É um curso curto e bastante aprovado no mercado, podemos melhorar cada vez mais e....
- Não vai, Yago.
Meu tio suspirou mais uma vez, retirou as mãos (ou garras) de Rachel de sua cintura, demorou em um beijo na sua testa. - Eu tenho que ir, Rach.
- Mas...
- Não, Rachel. Já conversamos sobre isso.
Ela balançou a cabeça, com um muxoxo de desagrado. Tio Yago se despediu rápidamente dos outros, que também se encontravam fora da pizzaria e quando parou em mim, o sorriso em seu rosto se torno cheio de compaixão.
- Eu sei que você volta, tio. Estou um pouco mais conformada que Rachel. – disse em português e ele sorriu ainda mais. Puxou-me para um abraço e enterrou meu rosto em seu ombro.
- Cuide dela por mim, por favor? – perguntou, parecendo também choroso. – Cuida deles dois.
Eu balancei a cabeça. Ele colocou um pé no ônibus, que o levaria pra estação de trem, rumo a Paris.
Rachel estava sendo reconfortada por , e estava ao meu lado, com um sorriso zombeteiro.
- Que foi?
- Você está ficando como a Rachel – ele apontou para meu rosto e só então eu notei que meus olhos estavam úmidos. Dei um leve tapa em seu ombro.
- Cala a boca – esfreguei as costas das mãos em meus olhos. – Estou ótima.
- , sossegue um pouco, ok? – ele me puxou para um abraço sufocante e eu contornei sua cintura com meus braços.
- Vou tentar.
riu, bagunçando meus cabelos. Era apenas uma manhã de sábado. Tio Yago havia chegado com a notícia ontem à noite e após muitas lágrimas e palavras doces, Rachel estava mais conformada.
- Vem, vamos entrar – me puxou pelo punho para dentro, onde era mais quente e aconchegante. – Também estou meio triste.
Franzi o cenho, o olhando com desconfiança.
- Vamos perder a carona da manhã.
- , seu interesseiro – balancei a cabeça em descrença.
- Estou sendo sincero, acordar mais cedo não é meu forte.
- Aham – assenti.
- Não fique assim, Rach – tentava reconfortá-la – Você tem que se acostumar com isso.
- Eu sei, eu sei. – fungou baixinho. – É que estou com um pressentimento que...
- Nada vai acontecer – interrompi-a, sentando-me ao seu lado e acariciando sua mão. – Vai ficar tudo bem.
Ela sorriu em meio às lágrimas e se levantou cambaleante. Estava prestes a completar 8 meses e a cada dia que se passava, ficava ainda mais nervosa e ansiosa.
- Vou ficar com Luke um pouco. – é o que ela dizia, sentava-se no sofá da sala com o cachorro ao seu lado. Passava as mãos lentamente pela cabeça do canino, enquanto assistia uma programação qualquer na TV.
- Sabe de uma coisa? – debruçou-se em uma das mesas, erguendo a cabeça para me olhar.
- O quê?
- Você deveria passar a cobrar suas folgas também – comentou. – Conhecer Londres... Sabe?
Eu estava distribuindo pratos, talheres e coisas dos gêneros as mesas.
- Eu vou me perder. – disse, convicta disso. - Eu sou capaz de me perder até num flet.
riu e assentiu a cabeça. - Estou falando de conhecer Londres, não necessariamente sozinha.
- Pensei que já tinha usado suas duas folgas no mês – encarei-o rapidamente.
- E usei – deu de ombros. – Muito bem usadas, obrigada. – distribuiu um sorriso malicioso por seu rosto e eu joguei um pano em sua direção.
- Poupe-me dos detalhes, . Minha mente inocente não precisa saber de nada. Ele riu.
- Mas você não conhece só a mim, .
- Tem razão. No próximo domingo vou chamar Percy...
- ! – ergueu a cabeça. – Presta atenção, tá? – ele dizia pausadamente, como se estivesse falando como um recém-nascido. Um dedo especial para o . – Muito legal isso de chamar o garotinho em domingos alternados para que a própria mãe não o enxote pra fora de casa.
Abri a boca para protestar, mas ele fez um sinal para que eu me calasse e continuou:
- Mas pense um pouco em você, ok? O seria um bom cara pra dar uma volta e...
- Nem pense nisso, ! – o tom raivoso e incrédulo. – Não nos damos bem aqui, imagina em outro lugar? Provavelmente eu o colocaria no meio dos carros ou melhor, o empurraria do London Eye.
- Não tem como “empurrá-lo” do London Eye, .
- Nunca duvide da capacidade vingativa de uma mulher – retruquei. Ele riu.
- Foi só um conselho.
- Vou pensar no caso – disse, por fim, ajeitando a toalha da mesa. Falando baixinho logo depois. – Na parte de jogá-lo nos carros.
~*~
Um barulho dilacerou meu sono repentinamente. Cocei meus olhos e espreguicei-me. Ontem, noite de sábado, havia sido normalmente cansativa, meus olhos ainda ardiam e o relógio marcava 06h40min, virei o corpo de posição, aconchegando-me debaixo do lençol.
Um choramingo de cachorro soou. Afundei minha cabeça no travesseiro. Mais um choro repetitivo, seguido por um uivo tristonho. Bufei impaciente, erguendo o tronco e esfregando as palmas das mãos pelo rosto. Joguei a coberta em qualquer lugar e levantei cambaleante.
Provavelmente Rachel estaria tendo uma de suas “artes” na cozinha e não me surpreendi ao vê-la esbaforida e duas frigideiras no chão. Revirei os olhos e me aproximei sorrateiramente, encarando algo molhado, encarei raivosamente Luke, que se encontrava espremido ao lado do sofá, tremendo de medo.
Culpado.
- Bom dia. – cheguei à cozinha, soltando um bocejo longo
- ! – ergueu os olhos do chão até mim. Encharcados.
- Oi?
Rachel estava quase aos prantos, apertando a barriga com os braços apertados, como se fosse, de alguma forma, segurá-la e tentasse garantir que...
- Rachel? – gaguejei. Seus olhos cada vez mais úmidos.
- Eu preciso falar com o... Eu preciso... Preciso...
- O que aconteceu? – temi a resposta.
- Yago. – voltou a murmurar.
Olhei novamente pelo rastro do qual eu havia trombado. Comprovando, infelizmente, que ele levava até a cozinha.
-Ah, não! - eu encarei meu pé, alguma coisa no meu estômago revirou.
Voltei minha a atenção a Rachel, minha boca escancarada, soltando logo depois um grito abafado e desesperado.
-Ai... Meu... Deus!
Capítulo betado por Thais M
Continua...
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