Pai Por Acaso.
Fic by: Fer Ferreira | Beta: Fê
Capítulo Um
- A papelada está toda em ordem, senhorita . A senhorita já pode começar suas funções amanhã cedo, se for a sua vontade.
- Claro! Eu adoraria - Eu disse animada, tentando parecer séria enquanto me levantava e apertava forte a mão do Sr. , que havia acabado de me contratar como secretária de seu filho. Não era bem o trabalho dos meus sonhos, mas sendo mãe solteira em um país que não é o meu, não há muito que exigir.
- Como eu havia comentando, senhorita , meu filho, , volta de viagem na semana que vem... Você só terá que organizar os compromissos dele, por hora. - O homem disse simpático, mas firme. E me conduziu até a porta com um sorriso no rosto. - Tenha uma boa tarde.
Antes que eu tivesse tempo de me despedir, a porta se fechou na minha cara, delicadamente. Como se houvesse um jeito delicado de bater a porta na cara de alguém.
- Conseguiu, mamãe? - me perguntou enquanto estávamos no carro, indo para casa. Eu havia acabado de buscá-lo na creche.
-Consegui! Consegui! Yeees! - Eu disse animada enquanto ele batia palmas no banco de trás. - Começo a trabalhar amanhã, filho. E você vai precisar ficar com a babá, mas é por pouco tempo. - Eu me apressei em dizer, eu sabia que ele não gostava de ter que ficar com a babá.
- Tudo bem, mãe. - Ele disse sem entusiasmo.
- É só até você ter idade suficiente para ir à escolinha, tudo bem? Não falta muito, meu amor. - Eu tentei animá-lo.
O trânsito demorou mais do que eu imaginava. dormiu no carro e eu tive que levá-lo no colo por seis lances de escada, graças à minha fobia a elevadores.
Chegamos exaustos ao apartamento. Quer dizer, deve ser muito cansativo ser carregado no colo, não? Coloquei na cama e fui direto para o banho. Comi um pedaço de bolo que havia na geladeira e desabei na cama.
- Merda! , nós estamos atrasados! - Eu gritava enquanto corria do meu quarto para acordar , e do quarto dele para o banho. Atrasada no meu primeiro dia de trabalho, ótimo! Em quinze minutos, e eu já estavamos arrumados e pronto para sair de casa. Eu tinha meia hora para chegar de carro até o escritório, considerando o trânsito caótico de Londres. - , vamos filho!
- Mãe, meu boneco do Darth Vader sumiu. - Ele reclamou, revirando a sala.
- Procura quando chegar, , anda! - Eu estava impaciente, ter um filho tão cedo havia me mudado de muitas maneiras. Eu fiquei mais responsável, mais disciplinada, pé no chão. O que não havia mudado era a minha falta de paciência e de pontualidade, o que era absurdo, já que eu morava em Londres há mais de cinco anos. Londres, sabe? A terra da pontualidade.
- Mãe, eu não vou sair daqui enquanto eu não achar meu Darth Vader! - choramingou.
- Vai sim, ! Eu quero que você pegue suas coisas agora e entre no elevador. - Eu disse elevando o tom de voz.
- Mas, mãe... - Ele tentou argumentar.
- Agora, ! - A conversa se encerrou e saiu batendo o pé até o elevador, não falou uma palavra e nem me pediu ajudar para tirar o cinto, quando eu o levei até a escolinha.
- Tchau, filho! - Eu falei deixando-o na porta, entregue a uma professora sorridente.
- Eu não quero falar com você. - Ele disse rudemente e entrou, batendo o pé.
- Mas que malcriado. - Eu sussurrei.
Cheguei ao escritório faltando dois minutos para o meu horário. Uma secretária mais experiente me mostrou minha mesa, o refeitório e todas as outras partes do prédio que eu, eventualmente, deveria saber onde ficavam.
O prédio era enorme, dividido em setores. O meu era a presidência, no andar mais alto; logo, eu teria bastante tempo para exercícios quando estivesse subindo pelas escadas, ao invés de usar o elevador.
- Essa é a sua mesa, . Ali é o escritório do ... - A secretária me explicava.
- pai? - Eu perguntei curiosa.
- Não, o filho. - Ela sorriu - O escritório do Dr. fica no andar de baixo, eu vou estar lá. Me chame se precisar de ajuda!
Ela havia sido muito simpática. Me ajudou com o 'reconhecimento do lugar', me explicou o máximo que pôde e ainda me ensinou a usar a cafeteira.
- Muito obrigada... É... Perdão, como é mesmo o seu nome? - Eu perguntei envergonhada - É que eu tenho uma péssima memória, e com o nervosismo do primeiro dia de emprego minha cabeça está uma confusão, e eu ainda nem conheci meu chefe.
- Tudo bem, querida. Eu me chamo Ella. O nervosismo é normal, já estou aqui há mais de quinze anos e me lembro como se fosse ontem o meu primeiro dia. - Nós rimos - Quanto ao seu chefe, não se preocupe. Ele é um bom rapaz, um bom chefe também. Só tenha cuidado, não se apaixone por ele.
Ela só pode estar brincando, por que diabos eu me apaixonaria pelo meu chefe? Ele deveria ser muito mais velho, talvez até casado. Que maluquice!
- Pode ficar tranquila, Ella. Eu não sou do tipo que se apaixona pelo chefe. - Eu disse descontraída.
- Eu estou falando isso para o seu bem, minha filha. - Ela me encarou serena - Bom... Eu já vou indo!
- Mais uma vez, Ella, muito obrigada pela ajuda! - Eu disse, acompanhando-a até o elevador.
Assim que as portas se fecharam eu voltei para o meu lugar e observei cada detalhe da sala. Era muito bem iluminada por uma janela enorme com vista para o Big Ben, os móveis eram de um material branco e polido, os eletrônicos de última geração e minha própria cadeira de secretária deveria valer mais que meu carro. Era uma sala um tanto quanto vazia, havia só o essencial. Mas minha cabeça já estava maquinando algumas dicas de decoração pro lugar. No fim da sala havia uma porta de vidro, do tipo que quem está dentro vê tudo que se passa ao lado de fora, mas não o contrário. Minha curiosidade estava palpitando, era maior que o nervosismo de fazer alguma besteira no primeiro dia. Eu estava sozinha ali, que mal faria uma olhadinha? Caminhei com cautela até a pesada porta, senti a frieza da maçaneta de metal e, quando tentei puxá-la, vi que estava trancada.
- Certo, vou fingir que isso não aconteceu. - Falei comigo mesma - Vou me sentar aqui e agir como uma pessoa normal.
O dia passou no mais absoluto tédio: nenhum telefonema, ninguém apareceu para ver se eu estava viva, absolutamente nada. Eu fiz as unhas, joguei paciência, comi um sanduíche que Ella mandou me entregar na hora do almoço, e foi só. Puro tédio!
Por volta das 18h horas, o telefone tocou e me desconcentrou do meu FarmVille.
- Alô? - Eu disse entediada, sem perceber o erro fatal - Merda! - Pensei.
- Alô. - A voz masculina do outro lado da linha pareceu confusa, e, a propósito, que voz!
- Construtora , pois não? - Eu disse, reparando o erro.
- Ok... Você deve ser a nova secretária, . Certo? - Ele perguntou, inseguro.
- Certo.
- Aqui é o . - Ele se apresentou - . Meu pai deve ter lhe dito que eu chegaria de viagem amanhã...
- Sim, ele disse. - Eu fui simpática.
- Certo... Eu preciso que me faça um favor. - Eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Primeiro, eu passo o dia sem nenhuma tarefa, nenhum compromisso para encaixar na agenda dele, e agora, há menos de uma hora para o fim do expediente, ele quer um favor?
- Claro, é só dizer. - Eu me prontifiquei enquanto batucava na mesa com as unhas.
- Anota aí! - Ele pediu e eu puxei papel e caneta para perto de mim enquanto ele começou a dar as ordens. - Você vai pedir a Ella que lhe entregue a chave e o endereço do meu apartamento. No caminho para lá, você vai parar numa floricultura e vai pedir duas caixas de pétalas vermelhas, e pode pedir umas velas aromáticas também se eles tiverem. Continuando o caminho, vai parar numa confeitaria e pedir uma caixa do chocolate mais caro que eles tiverem.
- Ahn, certo... - Eu quis dar um sinal de que estava ouvindo tudo o que ele dizia, apesar de ter me perdido na parte do apartamento.
- Continuando, o porteiro vai te deixar subir e você vai entrar e espalhar as pétalas por todo o apartamento... - Ele não via, mas eu fazia uma cara confusa a cada palavra dita, afinal, eu era secretária e não uma guru do sexo. - Depois, você pode deixar a caixa de bombons em cima da minha cama, e pegar uma garrafa de Moët na geladeira e colocar num balde de gelo com duas taças em algum lugar perto da banheira. E, depois, pode ir para casa dormir. - Ele disse e eu pude ouvir um risinho.
- Ahn, Senhor ? - Eu chamei, insegura.
- Sim?
- Duas perguntas. Como eu vou pagar por tudo isso? E o senhor vai chegar a tempo de usufruir disso tudo? - Eu dei ênfanse à palavra usufruir, porque, no momento, era a única na minha cabeça.
- Eu havia esquecido esse detalhe. Você vai pegar com a Ella um cartão de crédito e vai usá-lo, a senha é pegador. - "What?" Eu pensei enquanto ria silenciosamente - Quanto à segunda pergunta, meu vôo foi cancelado e eu consegui trocar por um antecipado, aliás, estou aqui no aeroporto de Nova York nesse momento, vou chegar a tempo de usufruir disso, não se preocupe. - Ele deu ênfase novamente na palavra usufruir e eu senti um tom irônico em sua voz. - Nos vemos amanhã cedo?
- Mas é claro, claro que sim! Aproveite a noite, senhor . - Eu disse, me sentindo uma idiota.
- Com certeza. - Disse com sarcasmo e desligou o telefone na minha cara.
Eu estava exausta, morava na cobertura e eu ainda estava no 15º andar, além de ainda estar carregando as sacolas com as 'exigências' do chefe. Quando eu cheguei para falar com Ella, ela já estava inteirada de tudo e me deu chaves e cartão. Na confeitaria, o chocolate mais caro custava o preço que eu paguei num Prada, quando ainda morava no Brasil; era o mais caro, mas não era o melhor. E se tem alguma coisa que eu entendo é de chocolate, comprei o mais saboroso, e não era necessariamente o mais caro. E ele não tinha que saber disso.
O apartamento era enorme, com certeza todo meu apartamento caberia naquela sala. Era bem decorado, com quadros famosos nas paredes, janelas espalhadas por todo o apartamento, um sofá gigante e todo tipo de eletroeletrônico que existe. Eu me dei ao luxo de me esparramar no sofá e descansar por alguns minutos, não é fácil subir vinte lances de escada carregando sacolas.
Eu não era bem uma expert em noites românticas, minhas noites eram geralmente sexo selvagem e casual; mas eu tinha um acervo enorme de filmes e seriados em casa. Criei um caminho de pétalas desde a porta até o quarto dele, joguei o restante na cama e acendi algumas velas com o máximo de cautela possível. Era possível eu colocar fogo na cobertura de e só me dar conta quando os bombeiros estivessem arrombando a porta. Fiz exatamente o que ele pediu com a garrafa. Achei alguns morangos na geladeira e os coloquei junto com o resto da 'decoração'. Deixei os chocolates em cima da cama e saí como se nunca estivesse estado lá. Eu estava cansada, não era eu quem teria uma noite de amor. Eu só queria ir para minha casa e me desculpar com o meu filho.
Na manhã seguinte, eu acordei cedo. Indiretamente, tinha a intenção de causar boa impressão ao chefe. Fiquei mais arrumada do que o habitual, levei à escola e parei numa padaria para comprar alguma coisa açucarada que ajudasse a me manter calma.
- Bom dia, Ella! - Eu disse sorridente enquanto entrava no elevador, cheio de gente, óbvio!
- Bom dia, ! Você está muito bonita. - Ela disse apertando minhas bochechas, me lembrou minha avó quando eu aparecia no Brasil.
- Preciso concordar, Ella, a moça está muito bonita realmente. - Um rapaz jovem e bonito se meteu na conversa e me fez corar com os comentários. - Sou !
- É um prazer, ! - Eu lhe estendi a mão e o elevador parou imediatamente no meu andar; com um sorriso simpático, despedi-me de e Ella e rumei para o meu encontro fatal. Exagerado, eu sei.
A manhã estava agradável. Tirei o blazer e pendurei-o na cadeira. Em cima da mesa havia um bilhete, em uma caligrafia masculina:
"Saí para resolver um assunto pessoal. Volto logo, me espere. Xoxo, ." Eu ri enquanto, num reflexo, guardava o bilhete na bolsa.
- Xoxo? Alguém anda vendo muito Gossip Girl por aqui! - Eu ri sozinha.
O telefone já havia tocado três vezes e eu já havia agendado quatro reuniões para ele naquela quarta-feira. Eu havia me acalmado, estava ansiosa para conhecê-lo, mas a demora era tanta que havia até esquecido. Foi quando vi saindo do elevador um homem jovem, tinha aparentemente a minha idade; era loiro, lindo e estiloso. Era como se eu o estivesse vendo em câmera lenta, como se o tempo tivesse parado. Se eu acreditasse em contos de fadas poderia ter justificado aquela cena como um imprinting*
- ? - Ele perguntou apoiando-se na mesa e me olhando com os olhos mais azuis que o pacífico. Eu estava sem ar, não conseguia dizer uma palavra que fosse. Estava ficando inebriada com o perfume amadeirado dele, assim como eu ficava quando fumava maconha na adolescência.
- E você quem é? - Eu perguntei apesar da certeza em minha cabeça. Eu o encarava tentando parecer calma e controlada, enquanto ele dava o xeque-mate com um sorriso torto, deixando à mostra os dentes perfeitamente brancos.
- Quem mais eu poderia ser? , é claro. - Ele disse enquanto passava a ponta dos dedos por todo meu rosto e se retirava para sua sala. parou por um instante, antes de fechar completamente a porta. Colocou a cabeça para fora e disse simpático:
- Um café, por favor. Com bastante creme.
Eu demorei alguns segundos para processar tudo que havia acabado de acontecer. Meu chefe era lindo, tinha um ótimo senso de humor e, pelo jeito, era do tipo que dá em cima de tudo que se mexe.
A 'sala do café' era uma saleta ampla, com mesinhas espalhadas e decoradas com um ótimo bom gosto, como era todo o resto do prédio. No canto, um sofá enorme de couro preto com detalhes em metal servia de dormitório para um senhor gorducho e careca. Fiz o máximo de silêncio, preparei o café como havia pedido e me permiti dar um toque especial, salpicando canela em pó. Talvez ele gostasse e eu causasse boa impressão, pensei.
- Senhor? - Eu disse em tom baixo enquanto abria delicadamente a porta, trazendo o café em uma das mãos e um envelope na outra.
- Ah, meu café. - Ele disse, levantando-se e pegando o copo alto de minha mão. - Obrigado.
- Ahn, os investidores ligaram, e eles querem uma reunião o mais rápido possível - Eu disse um tanto sem jeito. Ele riu e tomou um gole de café. Por um momento fez-se silêncio na sala enquanto ele saboreava o café. - Bom... Eu coloquei uma pitada de canela em pó, era como eu costumava pedir no Brasil. - Ele me olhou enquanto tomava outro gole - Mas, se o senhor não gostou, sem problemas. Eu busco outro agora mesmo. - Eu disse nervosa.
- Eu gostei, a partir de agora esse é o meu preferido. E o envelope? - Ele perguntou enquanto tirava da gaveta a caixa de chocolates que eu havia comprado na noite anterior.
- Chegou para o senhor enquanto eu preparava o café. - Eu disse.
Ele estendeu a mão e eu lhe entreguei o envelope. Ele sorriu e observou o conteúdo. Abriu a caixa de chocolates e comeu um bombom decorado, tampou-a e me entregou.
- Pra você. - Ele disse sorrindo enquanto eu o olhava, confusa.
- É a caixa que eu comprei ontem, Senhor , fiz a escolha errada?
- Não! Pelo contrário, eu adorei esses chocolates. Mas esse é um risco que se corre quando se tem uma modelo complexada como namorada. Ela comeu um e disse que já era doce o suficiente para o mês inteiro. - Ele contou.
- Ah, entendo. E... Sinto muito? - Eu disse num sussurro nervoso enquanto pegava a caixa das mãos dele com um 'obrigada' sem som.
- Sente? - Ele quis saber, sarcástico.
- Eu deveria sentir? - Eu perguntei sorrindo agora com mais segurança ao falar com ele.
- Não. Não deveria. Eu estou acostumado. - Ele fingiu tristeza. - É o preço que se paga por sair com mulheres bonitas.
*imprinting:Não é como se fosse amor a primeira vista, na verdade. É mais como a ação da gravidade. Quando você a vê, não é mais a Terra que te segura aqui. Ela te segura. E nada mais importa além dela. Você faria qualquer coisa por ela, seria qualquer coisa por ela. Você se torna qualquer coisa que ela precise que você seja. Seja como seu protetor, ou como um amante, ou um amigo, ou um irmão. (Citação do livro Crepúsculo).
Capítulo Dois
Eu já estava trabalhando para há quase um mês, o suficiente para ver de perto todos os tipos de mulheres famosas que entravam no escritório dele e saiam uma ou duas horas depois com a maquiagem borrada e cabelos desgrenhados. Eu apenas as anunciava e cuidava para que eles não fossem interrompidos por ninguém. Ah, e cuidava de confirmar as desculpas esfarrapadas que ele dava para a namorada. Mas era um bom chefe, me levava em casa, às vezes. Trabalhar para ele exigia horas e horas depois do expediente organizando documentos e fazendo ligações internacionais. Nos primeiros dias eu era capaz de sentir os olhos de me observando toda vez que eu era chamada à sua sala, ou quando ele passava por mim a caminho do elevador. Com o passar dos dias, ele continuava a me observar, agora com olhos mais misteriosos do que desejantes. Nós costumávamos conversar sobre o trabalho enquanto esperávamos ligações dos investidores madrugada à dentro, algumas vezes chegávamos até a falar sobre nossas vidas pessoais. Eu já estava até me acostumando a chamá-lo pelo nome ao invés de senhor. Pedido dele.
Levei na escola e corri para o escritório, teria uma reunião pela manhã com os investidores japoneses e quis que eu o ajudasse servindo meu 'café do Brasil', como ele chamava. Eu tentaria fazer tudo o mais rápido possível, minha melhor amiga viria do Brasil para aprimorar o inglês e se curar de uma traição do noivo. Eu havia dito que a buscaria no aeroporto, teria que sair mais cedo, mas provavelmente não seria problema.
- Bom dia, Ella! - Eu disse sorrindo enquanto chegava à sua sala para lhe entregar papeis que havia mandado para o pai - Aqui estão os papeis do Senhor .
- Bom dia, . - Ela sorriu enquanto guardava os papeis numa pasta - Dia cheio, não?
- Não quero nem pensar, está uma pilha de nervos. - Eu disse preocupada - Se não fecharem o negócio hoje, será um problema.
- ? - Ella perguntou, desconfiada - Já está o chamando pelo primeiro nome, ?
- Bom, ele me pediu, e eu não vi problema algum. - Eu me justifiquei.
- Cuidado, minha filha, eu já te pedi isso. - Ela disse preocupada - Ele é um ótimo homem, mas um homem de muitas mulheres, assim como o pai. Eu odiaria vê-la sendo mais uma secretária na lista dele.
- Ella... - Eu disse calmamente, segurando suas mãos - Eu já disse que terei cuidado. Eu assumo que nós já trocamos alguns olhares sim, mas eu tenho um filho e preciso desse emprego. Eu sei como funciona, eu durmo com ele e ele arruma uma desculpa para me mandar embora. Eu não sou idiota, Ella.
- Eu sei, minha querida. Mas eu também sei que os podem ter qualquer mulher que desejarem. - Ela disse calmamente - Só... Tenha cuidado com o seu coração.
estava andando nervosamente de um lado para outro em sua sala. Quando entrei para avisá-lo sobre os papeis, ele estava trêmulo e ofegante.
- , eu preciso de ajuda. - Ele disse nervoso - Os investidores chegarão a qualquer momento, eu não sei o que fazer. Se eles não gostarem do plano de investimento...
- Ei! - Eu disse enquanto segurava seu rosto com as mãos, fazendo-o olhar para mim - Fique calmo, . Você é ótimo no que faz, e se eles não aceitarem investir nos seus negócios eles é quem vão perder! Você me entendeu? - Eu perguntei calmamente enquanto sorria para ele.
- Entendi. - Ele respondeu mais seguro, respirando fundo - É, eu entendi.
- Eles já devem estar chegando, você deveria dar um jeito nesse cabelo. Eu cuido da gravata - Ele deu um sorriso torto que me fazia perder o chão, mas eu me mantive controlada enquanto arrumava o nó na gravata dele e ele passava a mão pelos cabelos loiros. Eu pensei sobre o que Ella disse e talvez eu estivesse escondendo de mim mesma a atração que sentia por ele. Ele foi até o banheiro e voltou de lá com os cabelos no lugar e o rosto mais saudável.
- Que tal, ? Estou bonito? - Ele perguntou rindo e dando uma volta em torno de si mesmo.
Você já foi feio alguma vez na vida, ? Eu pensei.
- Uh, um gatão! Se houver alguma japonesa entre eles, pode apostar que esse negócio já está fechado. Então... Eu acho que eu devo ir para a minha mesa e anunciá-los quando chegarem.
Eu me virei, sorrindo internamente enquanto caminhava para a porta. Eu havia conseguido deixá-lo confiante e podia não significar muita coisa, mas ele teria um bom motivo para se lembrar de mim. E eu queria que ele lembrasse.
- ? - Ele chamou e eu me virei instantaneamente, com um sorriso no rosto. Ele veio em minha direção, pegou uma de minhas mãos e a beijou. - Obrigado.
- Eu confio em você, . - Eu sorri o mais verdadeiramente que consegui e me retirei da sala. Quando cheguei em minha mesa meu coração parecia querer sair pela boca. Tomei um gole de água e decidir falar com para ver como estava a viagem. No momento, ela estava fazendo escala nos Estados Unidos, consegui falar com ela pelo celular e ela estava muito animada.
- , eu estou tão animada, nem acredito que vou vê-la tão rápido. - Ela dizia feliz - Seus pais estão me fazendo levar uma mala gigante cheia de coisas, é bom você se preparar para redecorar a casa.
- Eu estou morrendo de saudade, nós temos tanta conversa para pôr em dia. Eu queria começar agora, mas tem uma reunião importante daqui a alguns minutos e ele está muito nervoso. - Eu disse, distraída.
- O bonitão de quem você falou? - perguntou, maliciosa.
- Ele mesmo, . Meu chefe - Eu dei ênfase à palavra chefe, isso estava se tornando uma mania. Nós éramos como irmãs, fazíamos tudo juntas quando eu morava no Brasil, mas aí eu me mudei para Londres e as coisas mudaram um pouco. Eu estava ansiosa para vê-la, não era a primeira vez que ela vinha me visitar, mas dessa vez ela ficaria muito mais tempo. - está doido para vê-la também, falou de você a semana toda. - Nós rimos - Vou fazer o impossível para pegá-la no aeroporto, mas você sabe como o trânsito daqui é caótico. Mas você sabe o caminho, certo? Já deixei liberada a sua entrada no prédio e você sabe que mi casa es su casa.
- Eu sei disso, amiga. Não tem problema se você não puder ir, eu pego um táxi. - No momento em que nós iamos falar sobre as pessoas que nós não gostávamos no Brasil, apareceu e fez um sinal para que eu o seguisse. - Eu preciso ir, o dever me chama. - Nós fizemos mini declarações, eu deixei o celular em cima da mesa e me apressei para seguir , que já ia bem adiantado.
- Me desculpe por isso, eu... - Eu tentei explicar o porquê de eu estar batendo papo com a minha melhor amiga na hora de serviço.
- Não precisa explicar nada, sem problemas. - Ele disse sério - Nós vamos receber os japoneses.
- Nesse caso, o elevador não deveria estar indo para o saguão? - Eu o questionei, já que o elevador em que estávamos estava subindo ao invés de descer.
- Não seja boba, . Eles vêm de helicóptero.
A reunião durou quase a tarde toda. Modéstia à parte, o meu café com creme e canela contribuiu muito para tudo fluir positivamente. Os investidores me parabenizaram várias vezes pelo café enquanto os servia pela milésima vez. ficou sozinho na sala de reunião por algum tempo, eu achei que eles talvez estivessem comemorando o négocio que acabara de fechar e resolvi não incomodar. Minha falta de atenção me fez esquecer no aeroporto. Quando dei por mim, já estava duas horas atrasada. Tentei ligar, mas ela foi mais rápida, me ligou dizendo que já havia desembarcado e estava chegando em casa. Disse também que já havia pegado na escola e que os dois estavam indo matar as saudades.Falamo-nos um pouco e ela me assegurou que não era incômodo alguma ficar com caso eu precisasse chegar mais tarde, mas meu plano era ir para casa o mais rápido possível.
A porta da sala de reuniões estava entreaberta, eu podia vê-lo do outro lado da sala observando Londres pela janela, que tomava metade da parede. Caminhei devagar até estar perto o suficiente para que ele pudesse me ouvir e eu pudesse admirar a vista. Sem olhá-lo, sorri e o parabenizei.
- Você fez um ótimo negócio.
- Graças a você, se você não tivesse dado um nó decente na minha gravata, eles poderiam ter uma primeira impressão ruim. - Ele disse rindo e mordendo o lábio enquanto me olhava e me quebrava em mil pedacinhos com aquela proximidade.
- Eu só fiz o meu trabalho, Senhor . - Disse com certa ironia.
- Muito bem feito, diga-se de passagem. Eu não poderia ter secretária melhor. - A voz dele agora era quase um sussurro carregado de malícia, e o corpo dele se projetava para frente de modo que eu tinha que me encostar à parede para evitar qualquer contato físico. Eu olhava-o sem reação, mas minha cabeça estava a mil. Meu cérebro estava trabalhando duro para guardar cada detalhe daquele rosto em minha mente: os lábios rosados que, quando fechados, escondiam a fileira de dentes perfeitamente brancos, a pele macia - que eu não sabia se era de fato macia, mas minha cabeça não aceitava isso como resposta -, as bochechas coradas, os cabelos arrumados de modo a parecerem bagunçados e os olhos azuis. Aqueles malditos olhos! Bastava eu encará-los por dois segundos e já era o suficiente para eu perder todo o controle que eu tanto luto para manter quando ele está por perto. Eu sentia a respiração dele chegando fraca em meu rosto, sentia meu coração bater tão forte a ponto de doer; minhas mãos tremiam assim como as pernas em cima do salto. passou uma das mãos pelo contorno do meu rosto e parou no queixo. Segurou-o delicadamente e se aproximou a ponto de nossas respirações se confundirem. Eu fechei meus olhos e respirei devagar, o que foi uma ação perigosa já que eu estava ciente de que o menor toque dos lábios dele nos meus poderia ter resultados catastróficos. Criei coragem e fiz o que deveria fazer.
Capítulo Três
- Quer café? - Eu perguntei nervosa tentando não falhar. - Eu vou buscar pra mim, eu posso trazer um pra você, se quiser. - Eu me distanciei dele o mais depressa que minhas pernas bambas me permitiam e caminhei rapidamente para fora da sala. Pude ouvi-lo bufar e juro que o ouvi sussurrar algo como 'Droga, !' cheio de frustração enquanto se jogava numa cadeira.
- Meu Deus, ! - Eu disse encarando minha imagem pálida no grande espelho do banheiro de funcionárias, agora vazio - O que foi isso?
Eu me sentei num banquinho de madeira que geralmente era usado para deixar as bolsas enquanto as funcionárias usavam o banheiro, me sentindo fraca e confusa. Eu sabia que queria beijá-lo; talvez, ir pra cama com ele, mas eu tinha um filho e precisava me manter no emprego. Precisava parar com as aventuras e ter algo sério com alguém, e eu sabia que esse alguém não seria .
Eu não queria seduzi-lo, também não podia negar que sentia meu coração pular sempre que ele chegava perto, mas eu era da terra do 'quando um não quer dois não vão pra cama' e isso me fez tomar uma difícil decisão. Eu aguentaria firme até aquele sentimento passar, não iria beijá-lo e nem ir para cama com ele, não se eu estivesse totalmente consciente. Quando tudo se acalmasse dentro de mim, eu esqueceria tudo isso.
Eu não sei ao certo quanto tempo fiquei lá dentro, tudo que eu sei é que pareceram minutos, mas quando eu saí metade dos funcionários já haviam ido embora. Corri até minha mesa para juntar minhas coisas, a maioria dos andares do prédio já estava vazio e completamente escuro. Deus me livre de ficar sozinha naquele lugar! Quando bati o olho na mesa, algo me fez sorrir. Em cima do teclado do computador havia uma rosa branca e na tela, um pedido de desculpas. Eu sorri e me derreti na mesma hora, apesar de me sentir mal por ele achar que era culpado por alguma coisa além de me fazer perder o chão a cada vez que respirava. Eu não tinha certeza se ele já havia ido embora, mas não queria criar outra situação constrangedora indo até o escritório confirmar.
- AMIGA! - gritou correndo em minha direção assim que entrei em casa.
- Amiga, que saudade! - Eu disse abraçando-a por longos minutos.
- , você tá tão linda! Tão inglesa. - Ela disse aos risos enquanto me olhava dos pés à cabeça. - O dormiu, tadinho, queria te esperar, mas estava tão cansado.
Nós ficamos ali por toda a noite até a madrugada. Rimos como duas adolescentes, comemos todas as besteiras da geladeira, ela me mostrou todos os presentes que meus pais tinham mandando, me contou sobre o acontecido que a trouxe pra cá e sobre os planos para a nova vida de solteira.
- Café, ? - Ela me interrogou perplexa quando eu lhe contei sobre o que havia acontecido mais cedo.
- Fiz mal? - Perguntei receosa enquanto arrumava a bagunça da sala e me sentava no sofá para falar sério, já que durante todo o bate papo animado nós havíamos ficado jogadas no chão.
- Garota, qual é o seu problema? - Ela perguntou pausadamente como se eu fosse uma criança lerda. - Eu posso ter chegado agora, mas eu te conheço há muito tempo, eu sei que isso mexeu com você e tá na cara que tem alguma coisa a mais por trás dessa 'atração sexual' - Ela disse com os olhos semicerrados e fazendo aspas com a mão.
- Eu não sei o que fazer, ele mexe comigo de um jeito que nem eu entendo... - Eu disse frustrada.
- Eu achava que entendia a cabeça dos homens, amiga. - Ela falou pensativa - Mas eu vi que não, o que eu sei é que se ele quisesse só te levar pra cama, ele teria te jogado em cima daquela mesa gigante, rasgado a sua roupa e...
- Chega! Chega, , eu já entendi. - Eu tratei de interrompê-la, ela era uma ótima pessoa, mas tinha uma mente terrível.
- Você deve estar cansada da viagem, eu arrumei o quarto de hóspedes pra você. Amanhã já é sexta-feira, eu vou tentar chegar mais cedo pra te levar em um tour pela terra da rainha. Fechado, garota de Ipanema? - Eu pisquei para ela enquanto apagava as luzes e a acompanhava até o quarto de hóspedes, e depois ia me deitar.
Enquanto caminhava para entrada do prédio após ter deixado na escola e no centro, me concentrava para não esquecer as falas que havia ensaiado na noite anterior. "Tudo bem, . Vamos esquecer o que aconteceu" Não, isso soa muito indiferente. "Ahn... Nós podemos passar uma borracha em cima do que aconteceu." Isso também não.
- Ei, garota do ! - Eu senti meu coração estremecer quando alguém me chamou, quero dizer, teoricamente eu estava sozinha no saguão, então só podia ser comigo. Estava prestes a começar a subida até o último andar, já que o elevador estava vazio, quando apareceu ao meu lado.
- Garota do ? - Eu perguntei sorrindo discretamente.
- É como eu costumo chamar as secretárias dele. - Ele disse abrindo um largo sorriso. - Eu soube que você é brasileira... Eu morei lá por uns tempos, estou pensando em voltar.
- Sério? - Eu já estava me soltando, ele caminhou para o elevador e eu o segui. Eu não estava muito segura, preferia ter um número alto de pessoas no elevador, pelo menos eu não morreria sozinha se algo acontecesse. - Onde você morou? Porque eu morei no Rio, e é uma cidade realmente maravilhosa. Quer dizer, tem muita violência, mas a gente acostuma. Eu adorava passar o dia em Ipanema, você conheceu? É uma praia linda, um pouco longe, de carro. Eu morava em Angra dos Reis, sabe? A ilha, então. - Ele me ouvia com atenção e um sorriso simpático no rosto, como se estivesse revivendo as memórias. - Eu sinto muito, eu falo demais. Não é todo dia que eu encontro alguém com quem eu possa falar sobre o Brasil. - Eu me desculpei enquanto gesticulava e sentia minhas bochechas ficarem quentes enquanto ele ria.
- Não é problema algum - Ele disse sorridente - Eu amo aquele país. Talvez eu não tenha me apresentado direito aquele dia, eu trabalho na contabilidade. Alguns andares abaixo do seu, aliás, o meu andar já passou e eu nem me dei conta.
- Eu te distraí, não foi? Mil perdões, é que... - Eu disse nervosa e ele colocou uma das mãos no meu ombro num modo gentil de me fazer calar a boca.
- A gente pode conversar mais sobre isso, quer dizer, se você quiser, é claro. - Ele disse um tanto nervoso - Eu não quero que você ache que eu estou dando em cima de você...
- Almoçamos juntos? - Eu o convidei sem cerimônias.
- Ahn... É claro! - Ele aceitou com um sorriso tímido. - Bom... É o seu andar. - Ele apontou para a porta aberta do elevador que nos permitia ver toda a vista da enorme janela.
- Então eu vou indo, te encontro no restaurante da esquina. Ok? - Eu disse saindo do elevador e observando a porta se fechar atrás de mim.
- Ok! - Eu pude ouvi-lo falar por trás das portas fechadas.
A sala estava vazia e silenciosa, era mais como um convite para eu me perder observando a cidade da janela. Já estava virando hábito, várias vezes ao dia eu me pegava distraída, olhando Londres do alto.
"Talvez eu não deva falar nada. Ele pode até ter esquecido" Pensei. O telefone tocou me tirando do trase. Do outro lado da linha, Senhor falava rápido. Perguntou pelo filho e pediu para que ele fosse até o escritório para uma conversa de 'homem para homem'.
- Tudo bem, Senhor . Eu aviso a ele. - Eu disse rapidamente. Queria evitar qualquer contato físico ou visual o máximo que eu pudesse. Dei o recado por telefone e quando passou por mim, abaixei os olhos e fingi estar digitando algo.
Alguns minutos depois ele voltou, estava nervoso e inquieto. Eu não queria cometer o erro de criar qualquer tipo de vínculo, mas eu me preocupava com ele.
- Algum problema, ? - Perguntei sem jeito enquanto ele fingia estar concentrado na vista da janela.
- Minha noiva está voltando. - Ele disse seco e se trancou na própria sala.
Noiva? Que noiva? Eu me perguntei confusa. Voltando de onde, se outro dia mesmo ele me fez preparar um templo sexual para matar a saudade da namorada? Eu estava realmente confusa e curiosa. Queria saber mais sobre aquele homem tão misterioso.
- Eu sei que não é da minha conta, eu sou só a secretária e você nem precisa responder, se não quiser - Eu disparei a falar assim que entrei na sala dele, o pegando desprevenido enquanto montava um castelo de cartas. - Mas que história é essa de noiva? E aquela modelo de quem você falou? Quer dizer, você me confunde com tantas mulheres, é...
- De fato, isso não é da sua conta. - Ele disse calmo sem tirar a atenção do castelo - Mas se você quer tanto saber, eu digo. Eu sou um homem de muitas mulheres, você acha que eu teria uma noiva se eu tivesse escolha? Nossos pais são sócios, ela é apaixonada por mim, eu tive que cooperar para o bom andamento dos negócios. Eu nunca disse a nenhuma das mulheres com que eu dormi que elas seriam as únicas, e mesmo assim elas quiseram se entregar pra mim. Só o que eu faço é me divertir quando a Frankie viaja e vestir a roupa de bom rapaz quando ela está no país. É assim que funciona.
Por essa eu não esperava, quer dizer, eu sabia que ele já havia saído com muitas mulheres, mas ele tinha uma noiva, era uma coisa estranha para imaginar.
- Eu vou almoçar com o meu pai - Ele continuou enquanto pegava o paletó e saia da sala, e eu ia logo atrás dele. - Você já pode ir também.
Capítulo Quatro
- Então você morava no Rio? Eu estive lá algumas vezes. - comentou enquanto nos sentávamos numa mesa próxima à porta no restaurante.
- É, eu morava. Voltaria pra lá se eu pudesse. - Eu disse pensativa.
- E não pode? - Ele perguntou curioso.
- Meu filho adorava essa cidade, eu já tentei convencê-lo, mas ele disse que se eu o levar, ele foge de casa e volta pra cá. É um menino bem difícil. - Eu expliquei.
- Me surpreende saber que você tem um filho, quer dizer, eu nem sabia que você era casada. - Ele se justificou.
- Eu não sou - Eu expliquei enquanto comíamos - As pessoas tomam algumas decisões erradas às vezes, e uma dessas me deu .
- Eu adoro crianças, desde que elas não sejam minhas, é claro! - Ele riu.
- ?
- Sim?
- Você conhece o há muito tempo? - Eu questionei.
- Nós nos conhecemos na faculdade, eu tinha acabado de voltar do Brasil. - Ele explicou - Ele é uma pessoa difícil, mas melhora com o tempo. E já deveria ter melhorado com você.
- Deveria? - Eu perguntei surpresa. - Ele tinha algum motivo em especial?
- Eu não sei se você já notou, , mas ele tem algum interesse por você. No dia em que vocês se conheceram ele me disse exatamente isso "Ela é linda, dude. Você precisa vê-la. Eu não sei como o meu pai pretende que eu mude esse jeito quando ele contrata secretárias tão..." Ele não terminou a frase, mas vindo de quem veio nós podemos imaginar. Ele fala muito de você, , mas sempre as mesmas coisas. Ele diz que você é diferente e ele tenta manter uma relação de trabalho porque não quer que você seja afetada pelos erros dele. Ele não sabe quase nada sobre você, então eu tenho que ouvir comentários sobre como você se veste bem, ou como seus cabelos são sedosos, coisas bem gays desse tipo. - Nós rimos. Enquanto falava, eu sentia meu estômago revirar, eu não sabia o que pensar. Não sabia o que fazer diante daquela maré de informações.
- Eu tenho saudade da comida de lá. - Ele comentou.
- Hã? - Eu perguntei distraída.
- Do Brasil, sinto saudade da comida de lá. - Ele explicou.
- Minha melhor amiga chegou há pouco tempo de lá, acho que vocês iriam adorar se conhecer. - Eu sugeri - E por você ter me dado o prazer de ter um ótimo almoço, eu vou te fazer uma surpresa amanhã.
- Adoro surpresas. - Ele disse fingindo uma voz misteriosa.
Voltei para o escritório com quinze minutos de atraso, era um cara legal e me deu informações que agora estavam flutuando em minha mente. Então, queria manter uma relação de trabalho para me poupar? Será que isso é bom? Me questionei. Será que eu chegaria a ser a única na vida dele algum dia? Quer dizer, não que eu fizesse questão, eu acho que eu estava mesmo gostando dele, mas ele não era pra mim.
- Preciso de você!
- Hã? - Perguntei assustada sendo arrancada da minha reflexão momentânea pela voz de , que vinha da porta que ele segurava aberta, fazendo sinal para que eu entrasse.
- Aqui na sala - Ele disse sem paciência - Pra resolver aquilo que eu te falei. Dos papeis.
- Claro. - Eu disse sem ânimo, entrando na sala e me sentando em uma cadeira ao lado dele na mesa de vidro, que tomava metade da sala.
- Eu preciso desses documentos separados por datas, e esse, por países. - Ele me entregou uma pilha de papeis decorados com símbolos de bancos e empresas.
Eu comecei a fazer o que ele havia pedido, era uma chatice absurda separar aqueles papeis, mas me distraiu completamente. Eu lia, separava e grampeava os papeis de acordo com as categorias, e os colocava em pastas. "Beije-o!" falou uma voz na minha cabeça, provavelmente era minha consciência querendo que eu arruinasse tudo de uma vez. "Não seja idiota, . Beijo-o agora!"
- Ahn... ? - Eu o chamei, decidida. Ele respondeu com um ruído sem tirar a atenção do notebook. - Me beija!
- O quê? - Ele perguntou surpreso virando-se para me encarar. Eu deixei de lado todos os pensamentos que rondavam minha cabeça e o beijei. No início, era mais como uma colisão. Nossos corpos estavam se tocando graças à proximidade das cadeiras; era um beijo desesperado, como se estivesse esperado muito tempo para acontecer. Eu havia me esquecido de respirar. Minhas mãos tocavam timidamente os cabelos dele enquanto as mãos dele estavam imóveis em minhas costas. Nossas línguas faziam uma dança veloz e ele dava pequenas e delicadas mordidas em meu lábio inferior. Era como ir ao céu e voltar. Aos poucos meus sentidos foram voltando, eu podia sentir meu corpo inteiro formigar de uma maneira boa, podia ouvir nossas respirações ofegantes se fundirem em uma só e podia sentir ainda a melhor das sensações: o coração de batendo junto ao meu. Um barulho chato e repetitivo interrompeu meu momento de glória, eu não identifiquei no início, mas logo pude perceber que vinha do celular de em cima da mesa. o beijo cessou imediatamente. Ele me olhou por alguns instantes com olhos curiosos antes de atender a ligação.
- Ah, é você... - Ele disse sem vontade - Eu estou ocupado, Frankie. - Eu não podia ouvir a voz do outro lado da linha, mas sabia de quem se tratava.
- Dancei. - Eu disse baixinho enquanto voltava ao trabalho com a cabeça a mil.
- Não, Frankie, eu não posso te buscar no aeroporto. Ligue para o seu pai ou pegue um táxi. - Ele disse rudemente - Talvez eu passe lá para ver você, se eu tiver tempo. Tchau... Ok, eu também.
Eu pensava em como ele havia tratado a noiva e pensava mais ainda em tudo que havia acontecido nos último cinco minutos. Definitivamente, não foi um beijo qualquer. desligou o celular e o jogou em cima da mesa onde estava antes, me olhou tímido e eu retribuí o olhar sentindo minhas bochechas arderem.
- Então... Onde paramos? - Ele perguntou sem cerimônias.
- Nos executivos russos. - Eu respondi quebrando o clima de 'vamos fingir que o celular não tocou e continuar no paraíso'.
Ele me deu o tal sorriso torto que me tirava a concentração e voltou a atenção para o que estava fazendo. Não nos tocamos mais nenhuma vez pelo resto do dia.
- Você é muito chata! - falou emburrado quando eu me recusei a deixá-lo passar da hora de dormir.
- É, eu sei disso. - Respondi desanimada. - Boa noite, filho. - Eu dei um beijo em sua testa, arrumei o cobertor de modo que ele ficasse embrulhado como uma bala e apaguei a luz, deixando apenas a do abajur.
- Mãe? - Ele chamou manhoso.
- Sim? - Eu parei no batente da porta para olhá-lo.
- Você se esqueceu de olhar embaixo da cama. - Ele disse receoso. Era um hábito dele me fazer olhar todos os cantos do quarto com potencial para serem esconderijo de algum monstro antes de dormir. Eu me abaixei e fingi olhar tudo; na verdade, eu apenas me abaixei.
- Não tem nada aqui, tá tudo certo. Boa noite, meu amor. - Eu saí do quarto e fechei a porta atrás de mim. estava na sala vendo um filme da Disney e me cedeu espaço no sofá quando eu cheguei. Ela não me olhou, mas eu sabia que ela estava me avaliando.
- Qual é o problema? - Ela perguntou ainda sem tirar os olhos da TV.
- Por que você acha que há algum problema? - Eu perguntei enquanto comia um nacho dos muitos que havia feito.
- Eu te conheço, esqueceu? - Ela falou com voz doce, me olhando finalmente.
- Bom... Nós nos beijamos. - Eu disse soturna. - Na verdade, eu o beijei.
- E foi ruim? - Ela perguntou me oferecendo outro nacho.
- Não, não foi. - Eu disse.
- E então? - Ela quis saber. Eu contei tudo para ela, desde o almoço com até o beijo e o telefonema. Ela fazia expressões alternadas entre surpresa, malícia, dúvida e raiva. - Tá na cara que você gosta dele.
- Não gosto não! Eu só... - Eu tentei argumentar.
- Você gosta sim, não tente me enganar. - disse aos risos.
- Não tem graça, . - Eu disse brava.
- Não tem graça mesmo, desculpa. Mas, ... Eu não reconheço você. Cadê aquela minha amiga que quando gostava de alguém não sossegava até conseguir o que queria? - Ela disse enquanto me puxava para perto e me abraçava carinhosamente.
- O problema é que eu não sei o que ele quer. - Eu disse pensativa.
- Então pergunte a ele. - Ela disse como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Antes de dormir, nós vimos outro filme, vimos o telejornal e fizemos uma twitcam para falar com os nossos amigos no Brasil.
- Eu preciso que você busque amanhã na escola, tudo bem? - Eu pedi - Com a chuva que eles anunciaram é provável que eu fique presa no trânsito.
- É claro, né? - Ela disse animada - Eu estou aqui para isso. E para paquerar uns britânicos também.
- Toma jeito, . - Eu brinquei enquanto ia para o quarto. - Boa noite.
Capítulo Cinco
- ! - Eu o surpreendi aparecendo sem avisar em seu escritório.
- Ei, você por aqui! A que devo a honra? - Ele brincou.
- Eu te trouxe paçocas. Era a minha surpresa, deduzi que você pudesse estar com saudade disso também. - Eu sorri enquanto me sentava numa cadeira macia e depositava uma caixa decorada em cima da mesa.
- Eu adoro paçoca, cara! Você é demais, . Demais! - Ele disse animado, admirando as paçocas dentro da caixa trazida diretamente do Brasil por .
- Eu sei, eu sei. - Eu brinquei.
- E então, parece que nossa conversa do almoço rendeu frutos, não? - Ele disse discretamente.
- Eu não sei do que você está falando. - Eu menti.
- , é meu melhor amigo. Eu sei tudo. - Ele disse com o semblante sério - Ou quase tudo, algumas coisas eu faço questão de fingir que não escutei. O que eu quero dizer, , é que vocês tem que ter cuidado. Relacionamentos entre funcionários aqui são estritamente proibidos depois do que aconteceu com a mãe do . Então... Tenha cuidado.
- O que aconteceu com ela? - Eu quis saber.
- Eu acho melhor ele te contar sobre isso, é um assunto delicado. - Ele disse pensativo. - Eu não quero ser um mala, , você é quem sabe da sua vida, certo? - Ele sorriu.
- Talvez. - Eu sorri também.
- Eu adorei a surpresa, vou comer paçoca o dia inteiro, no almoço e no jantar, e no lanche da noite. - Ele disse de boca cheia.
- Eu vou voltar para o meu andar antes que eu arrume outro assunto e passe o dia inteiro aqui falando. - Eu me levantei, indo em direção às escadas.
- Por mim não seria problema, baby! - Nós rimos.
Eu já estava devidamente acomodada em minha mesa. O telefone tocava a cada cinco minutos e eu estava fazendo milagres para encaixar todas as reuniões e compromissos na agenda de . Depois de ele ter conseguido fechar negócio com os japoneses, as coisas na construtora estavam a mil! Eu não havia o visto desde a hora em que cheguei do escritório de .
Eu estava distraída dando uma olhada em documentos ultra-secretos que eu não deveria ler quando uma moça alta, loira, bem vestida e antipática chegou ao escritório, me lançou um olhar desdenhoso e seguiu para a sala de . Eu sabia que ele odiava ser pego de surpresa e fazia questão que todos fossem anunciados antes de invadirem sua sala.
- Cof, cof. - Pigarreei sutilmente e ela me olhou com desinteresse. - A senhorita marcou uma hora? - Eu perguntei seca.
- Marcar hora? Faça-me o favor! - Ela disse irritada enquanto parava a poucos passos da porta do escritório. - Desde quando eu tenho que marcar hora para falar com o meu noivo? Por favor. - Disse com arrogância e entrou na sala sem que eu tivesse tempo de anunciá-la.
Claro! Deveria ser a tal Frankie, noiva dele. Que mulherzinha antipática, pensei. Precisava mesmo era levar uns tapas. Onde já se viu falar assim comigo?
- ... eu não preciso ser anunciada, ! Você tem obrigação de me receber. - Eu ouvi gritos vindos do escritório e fui arrancada dos meus próprios pensamentos.
- Obrigação de te receber, Frankie? - falava alto, mas não gritava - Aqui é o meu local de trabalho, sabe? Trabalho, aquilo que as pessoas fazem pra ganhar dinheiro e não precisarem depender do papaizinho rico!
- Você não pode falar assim comigo, eu sou sua noiva! - Ela gritava - Você tem que me amar!
- Amor não se compra, Frankie! - gritou em resposta e eu ouvi um baque surdo. Eu estava perplexa, sabia que ele não estava de acordo com tudo aquilo, mas não fazia ideia do quanto ele era contra. Não sabia também se deveria intervir, os dois poderiam se matar lá dentro.
- E você deveria saber disso, . - Ela disse mais calma sem abaixar a voz - Mendigou o amor do seu pai a vida inteira, tentou a todo custo comprar o amor dele e agora vem me dizer que amor não se compra? Ora, faça-me o favor. Eu não sou obrigada a ficar aqui, a gente conversa em casa.
Eu me apressei a sair de perto da porta onde estive ouvindo a conversa, agi como se estivesse ficado sentada em minha mesa o tempo todo. Frankie saiu do escritório e a porta foi batida com um estrondo alto. Não sei ao certo se ela bateu a porta ao sair ou se bateu a porta atrás dela. Ela me olhou com raiva, levantou o nariz e saiu pisando forte.
O telefone tocou, era , e ele estava visivelmente abalado. Nós estávamos a poucos metros de distância; eu estava acostumada a vê-lo me chamar pessoalmente, mas tentei parecer calma como se não tivesse escutado nada.
- ... Eu preciso de você aqui e um café. - Ele disse com voz trêmula. Rapidamente organizei os documentos em cima da mesa, preparei um café forte para ele e um cappuccino para mim.
- ...? - Disse baixinho enquanto entrava na sala, que sempre fora bem organizada e que agora tinha um vaso estilhaçado no canto da parede. estava sentando no sofá; o corpo tenso e as mãos cobriam o rosto vermelho. - Tá tudo bem? Eu trouxe o seu café.
Ele não respondeu, pegou o café sem nem ao menos mover o pescoço para me olhar. Eu me sentei na outra extremidade do sofá em silêncio, não sabia o que fazer e muito menos o que falar, mas não queria sair e deixá-lo tão transtornado. Nós ficamos em silêncio por longos minutos. Eu esperava que ele dissesse alguma coisa, mas só o que ele fez foi tomar todo o café e soltar um profundo suspiro. Eu caminhei até a janela, a temperatura havia caído desde a hora em que saí de casa e agora flocos de neve e pingos de chuva cobriam as ruas e os desavisados que saíram de casa sem guarda-chuva.
- Tudo bem se você quiser conversar, . - Eu disse calma. Não achava que ele iria querer conversar sobre os problemas pessoais comigo, mas eu sabia melhor do que ninguém como era ruim não pode dividir os problemas com alguém. - Eu não vou falar nada, se você não quiser. Eu posso só ouvir, eu posso só...
- Ela é louca! Todos eles são - me cortou, virando-se para me encarar com os olhos vazios. - Todos acham que nós somos um casal perfeito, Frankie e eu. Ela é maluca, doentia e ciumenta. Meu pai acha que eu tenho que fazer todas as vontades dela, caso contrário o pai dela acaba com a sociedade que rende tantos milhões ao meu pai. Eles estão me enlouquecendo, . Assim como fizeram com a minha mãe.
Eu voltei a me sentar no sofá, agora mais próxima dele. Eu não o conhecia há muito tempo, mas agora tudo começava a fazer sentido. Pessoas sofridas tornam-se frias com o tempo. Eu coloquei uma de minhas mãos suavemente em suas costas. Era evidente que ele precisava falar sobre isso com alguém e eu queria ajudá-lo.
- O que aconteceu com ela? - Eu disse com a voz baixa.
- Ela se matou. - Ele disse me olhando nos olhos enquanto lágrimas e mais lágrimas corriam por seu rosto.
Capítulo Seis
Eu estava horrorizada ao vê-lo daquela maneira, queria fazer alguma coisa, queria dizer algo que o fizesse se sentir melhor, mas tudo o que eu pude fazer foi chegar mais perto e passar um braço pelo peito dele segurando-o pelo ombro. Ele deitou a cabeça no meu ombro, o que me deixou surpresa porque eu esperava que ele me colocasse para fora de lá aos berros. Eu acariciei os cabelos dele com as mãos trêmulas; aos poucos eu senti os músculos do corpo dele relaxarem e a respiração se acalmar. Ele pegou minha mão mais próxima e a segurou. Eu senti um arrepio percorrer meu corpo e meu estômago revirar. Segurei em resposta e apertei-a com delicadeza, entrelaçando nossos dedos. Ficamos em silêncio por mais algum tempo. A chuva e a neve embaçavam a janela e eu ouvia o telefone tocar enlouquecido ao lado de fora, mas não me mexi.
- Minha mãe era uma mulher maravilhosa. - Ele sussurrou quebrando o silêncio; eu fiz um gesto delicado para tentar me afastar dele, mas ele me segurou num abraço ainda mais apertado. Era uma posição desconfortável para mim, mas não importava. Me lembrava Chuck e Blair numa cena da terceira temporada. - Eu a amava, ela era linda. - Ele disse docemente.
- Eu imagino que sim. - Eu sussurrei em seu ouvido.
- Mas ela cometeu um erro... - Ele continuou hesitante - Ela se casou com o meu pai. E ele nunca ligou pra ela, tratava-a como um canalha. Ele levava mulheres para nossa casa e dormia com elas na cama deles e minha mãe não podia fazer nada, ela bebia e chorava até pegar no sono. Eu era só uma criança, .
Eu não sabia o que falar, tinha sido pega de surpresa por aquela atitude dele de me contar coisas tão íntimas. Eu apenas o apertava contra o meu corpo delicadamente para mostrar que estava ouvindo.
- Um dia ela resolveu acabar com tudo e aí ela tomou todos os comprimidos que tinham em casa e teve uma parada cardíaca. - Ele continuou - Meu pai achou isso a melhor coisa do mundo, já que ele voltou a ser um homem livre, como ele dizia. Ele levava mulheres para casa toda a noite, algumas eram legais, mas quando eu estava começando a me acostumar a elas, ele as trocava. Eu era solitário, ele nunca tinha tempo para mim e achava que compensaria tudo com dinheiro. Ele só tinha tempo para o trabalho. E aí ele conheceu o pai da Frankie, e começou a me usar para ganhar dinheiro. Ele disse 'você precisa me ajudar, meu filho. Somos só nós dois agora' e eu me senti usado, mas eu não tinha escolha. A Frankie é insuportável, ela é mimada e totalmente diferente de mim. Mas são só negócios. - Ele disse entre soluços - Eu nunca quis ser igual a ele, mas olha o que eu me tornei, . Um canalha sem coração que mal sabe o nome das mulheres que leva pra cama.
- Mas você pode mudar, . - Eu disse fazendo-o olhar para mim - Todo mundo pode.
Ele me olhava com os olhos tristes. Já estava calmo e o rosto havia recuperado a cor normal.
- E eu quero, . Eu quero mudar - Ele disse encarando a janela embaçada. - Mas eu não sei se eu consigo... Cada fio de cabelo meu é igual àquele desgraçado! - Ele se levantou e socou a parede; o rotou voltou a ficar vermelho, mas dessa vez de raiva. - Ele se impregnou em mim com aquele mau caráter e aquela ambição... E aquele jeito nojento de tratar as pessoas.
Eu me postei à frente dele, segurei-lhe o rosto e o olhei nos olhos.
- Olha, , eu não era assim. Eu vim pra cá começar a faculdade e eu era bem nova, eu saia com vários rapazes, eu até fumava. Olha só - Eu sorri discreta - Mas eu tomei uma decisão errada e isso mudou minha vida, eu não queria mudar, mas eu tinha que mudar. Ser mais responsável, e tive que deixar toda minha vida perfeita de lado pra arcar com as consequências. Mas foi bom, agora eu vejo, foi muito bom. Eu sou uma pessoa melhor agora, porque eu tive um motivo maior pra toda essa mudança. - Eu confessei.
- E que motivo era esse? - Ele quis saber.
- Não vem ao caso agora, outro dia eu te conto. - Eu sorri e arranquei um sorriso dele. Eu o ajudei a arrumar o escritório, e a essa altura a tarde já começava a cair.
- Eu vou indo lá pra minha mesa - Eu gesticulei - Já devo ter perdido uns três telefonemas.
- Tudo bem, eu... - Ele estava tímido, sem jeito, uma graça. Eu tentei me fazer de moderninha, mas no fundo eu também estava morrendo de vergonha. - Eu vou ficar aqui... é isso. Ahn... ?
- Sim?
- Não conta pra ninguém, pode ser? Sobre o que aconteceu aqui hoje... É... Você sabe. - Ele pediu.
- Claro! - Eu disse prontamente - Vai ser um segredo nosso, eu prometo. E... Não fique tímido quando precisar conversar, você sabe onde me encontrar. - Eu sorri.
- Você é linda, alguém já te falou? - Ele perguntou caminhando em minha direção com um sorriso lindo nos lábios perfeitamente desenhados.
- Já, claro! Todos os dias - Eu brinquei - Mas é sempre bom ouvir de alguém como .
Ele se aproximou ainda sorrindo. Eu poderia sair dali e acabar logo com tudo antes de começar, mas eu fiquei parada sentindo a parede gelada em contato com o meu corpo quente. Eu apertei a maçaneta da porta com umas das mãos, pronta para sair correndo como uma criança, para manter a promessa de ficar longe dele. Mas parou a poucos passos de mim e fez bico, me olhou como se fosse uma criança e, num segundo, toda minha promessa estava indo por água abaixo juntamente com o meu auto controle, eu o puxei pela gravata e nós rimos. Ele colou nossos corpos me puxando pela cintura e me deu um selinho. Eu passei meus braços em volta de seu pescoço e ele iniciou um beijo, e sua língua rapidamente desenhou o contorno dos meus lábios, e eu a mordisquei de leve. Nossas línguas se tocaram suavemente, sem pressa, como da outra vez. Nosso beijo foi calmo e delicado, chegava até ser inocente.
Eu sorri, quebrando o beijo; ele acariciou meu rosto e nossas testas se tocaram. Eu fechei os olhos e inspirei todo o perfume dele, como se o tempo tivesse parado.
- ? - Ele me chamou novamente quando eu tentava sair do escritório. Eu arqueei a sobrancelha em resposta. - Posso te levar para jantar hoje? - Ele deu um sorriso torto.
- Eu adoraria! - Falei, saindo finalmente da sala.
- Deus! Você come como um adolescente em fase de crescimento. - disse rindo enquanto olhava para o meu prato no restaurante em que jantávamos.
- Deus, você é muito indiscreto. - Eu reclamei. - Você acha que eu to gorda? Eu deveria comer menos, não é? O vive dizendo que eu to gorda...
- Oh! Desculpa, ... - Ele disse visivelmente envergonhado - É que a maioria das mulheres com quem eu saio, e mesmo Frankie, o que você está comendo no jantar seria o suficiente para elas se alimentarem por uma semana. E quem é ?
- O que eu posso dizer? Preciso manter meu corpo de brasileira. Não vem ao caso - Eu ri do comentário.
- Você também faz o cabelo e todas aquelas coisas antes de dormir pra acordar 'fabulosa'? - Ele perguntou fazendo aspas com as mãos.
- Tá brincando, ? É claro que não, se bobear eu durmo até de sapatos. - Eu falei fazendo-o dar risada. - É sério, eu não me encaixo no perfil dessas mulheres com quem você sai, eu sou normal. Só isso.
- Eu nunca saí com uma mulher normal - disse malicioso.
- Quem sabe um dia você tenha essa sorte. - Eu o cortei. - Se você disse que elas não comem, que tipo de programa vocês fazem?
- Elas não comem, mas eu sim. - Ele disse fazendo cara de anjo e eu logo entendi o duplo sentido.
- Seeei. - Eu ri.
- Eu gosto de você, . - Ele disse pegando minha mão por cima da mesa e me olhando docemente. - Você é uma ótima secretária, e amiga também.
Talvez eu pudesse ser mais que isso, pensei.
- Fico sem jeito quando me elogiam. - Confessei encarando a toalha de mesa do restaurante italiano.
- E fica linda! - O celular de tocou e sua expressão mudou para indiferença enquanto atendia.
- Oi. - Ele disse sem ânimo. - Estou no trabalho, onde mais eu estaria? Eu não me lembro de ter prometido que jantaria com você, Frankie!... Eu sei que você acabou de chegar de Paris, como eu esqueceria, não é?... Olha, não começa a fazer drama, eu não tenho saco pra isso. Quando eu chegar, a gente conversa... Ela não se cansa de ser chata. - Ele comentou infeliz.
Eu sorri amarelo e terminei de comer, peguei a bolsa e chamei o garçom.
- Acho melhor nós irmos andando, é uma caminhada daqui até a minha casa. Eu deveria ter vindo de carro. - Suspirei.
- Tá louca? Eu vou te levar em casa, é claro! - disse se levantando e colocando o dinheiro em cima da mesa. Nós saímos para a rua iluminada e o vento era cortante. Eu vestia apenas camisa social e blazer e me arrependi na mesma hora de não ter escolhido roupa melhor.
- Que frio. - Eu comentei batendo os dentes e me abraçando.
- Aqui, veste isso. - Ele tirou o terno caro e o colocou nos meus ombros. Eu teria recusado aquilo, mas estava morrendo congelada e não estava em condições de recusar nada.
- Obrigada. - Eu sorri.
Nós fomos em silêncio até a minha casa. Sempre que parávamos no farol, me olhava e sorria como uma criança. Eu ficava tímida e desviava o olhar.
- Acho que eu mereço um último beijo, não? - Ele perguntou me puxando para perto dele quando chegamos à entrada do meu prédio. Eu o beijei no rosto com um sorriso vitorioso.
- Eu acho que não. - Eu tirei o terno e o deixei no banco onde estava sentada, olhei-o uma última vez e caminhei para casa.
Capítulo Sete
Acordei na manhã seguinte. O tempo continuava fechado e o relógio marcava 9:29 am; já estava pronta para começar a reclamar quando me lembrei que, por sorte, era sábado. Pensei em me levantar da cama, mas o tempo frio me deixava com preguiça. Fiquei deitada olhando para o teto, com o cobertor até o pescoço; pensei em tudo que havia me acontecido nos últimos meses: em como eu havia ignorado os conselhos de Ella e me apaixonado. Agora sim tudo fazia sentido pra mim: era um cachorro por culpa do pai, e eu não podia deixar de sentir pena por isso. Eles pareciam tão unidos e, na verdade, era só fachada. As palavras de e a imagem dele chorando nos meus braços me dava arrepios.
- Que merda! - Falei dando um murro no travesseiro - Eu estou tão apaixonada.
Me sentei na cama e abracei os joelhos. A temperatura havia caído muito e a janela do meu quarto, antes com vista para um pequeno jardim, agora estava totalmente coberta por uma espessa camada de neve. A porta foi aberta lentamente e entrou no quarto carregando o cobertorzinho e um boneco Darth Vader de pelúcia.
- Oi, mãe. - Ele disse sonolento deitando-se ao meu lado e puxando o cobertor.
- Oi, amor... - Eu disse vagamente dando-lhe um beijo na testa e me deitando junto dele.
- Sonhei que a gente ia pra Disney... - Ele disse brincando com uma mecha do meu cabelo.
- Nós já conversamos sobre isso, . - Eu disse encarando o teto - Não podemos ir só nós dois... E eu nem tenho tempo pra isso. Você sabe.
- É... - Ele disse desanimado.
- Que cheiro é esse, ? - Eu falei desconfiada enquanto entrava na cozinha e dava de cara com ela, literalmente, com a mão na massa.
- Resolvi fazer o almoço hoje! - Ela disse animada.
- E eu posso saber qual vai ser o cardápio, chef? - Eu disso indo me sentar com para ver desenho.
- Surpresa! - Ela sorriu - Mas eu posso garantir que vai te fazer se lembrar da sua terra.
Eu concordei com a cabeça, olhando-a de maneira engraçada, e isso acendeu uma lampadazinha na minha cabeça.
- Amiga, tudo bem se eu chamar uma pessoa pra almoçar aqui? - Eu perguntei ansiosa.
- É o ? Porque, se for ele, é claro que pode; eu posso até colocar alguns temperos afrodisíacos na comida e... - Ela viajou.
- Não, não é ele. - Eu disse acabando com a alegria dela. - É o , um amigo meu. Acho que vocês vão gostar de se conhecer, ele morou um tempo no Brasil.
- Por mim, tudo bem. - Ela fez cara de decepcionada.
- , ... Você viaja demais, garota! - Eu brinquei.
- ? - Eu disse simpática e animada quando ele atendeu o celular. - É a !
- Hei! - Ele disse animado.
- Algum compromisso para hoje? - Perguntei andando de um lado para o outro na sala.
- Não - Ele disse desconfiado - Quer me levar pra sair? - Nós rimos.
- Na verdade, eu queria te chamar pra almoçar aqui em casa mesmo. - Eu disse um tanto envergonhada - Aquela amiga que eu te falei, tá lembrado? Ela vai cozinhar hoje, e ela cozinha super bem. Garanto - Eu o convidei. Passei meu endereço e ele confirmou que viria, estava meio desanimado, mas quando eu comentei da comida brasileira ele se animou na hora.
- Ele vem? - perguntou curiosa deixando o avental na cozinha e se sentando em frente à TV com .
- Vem. - Eu disse sorrindo. - Vocês vão adorar um ao outro, aposto. - Agora me diz - Eu olhei para ela com os olhinhos pequenos - O que você tá aprontando naquela cozinha?
- Você é muito chata, hein! - Ela reclamou - Eu usei aquela receita de cuca da minha avó.
- Ai, ... Você não tem noção - Eu disse séria e ela me olhou assustada.
- O que foi agora?
- E adoro as comidas que a sua avó fazia! - Eu disse gesticulando - Quando eu estava grávida, andei a cidade inteira procurando algum lugar que vendesse cuca, mas não fui muito feliz na minha caçada. - Fiz cara de triste.
- Então foi por isso que o nasceu com essa cara. - Ela brincou apertando as bochechas dele.
A casa estava inteira cheirando à comidinha de vovó. estava se montando toda porque, segundo ela, 'nunca se sabe quando alguém pode se apaixonar por você'.
Tentei beliscar um pedaço da sobremesa que ela havia acabado de colocar em cima da mesa, mas ela me bateu com uma colher de pau e exigiu que esperássemos pela visita. Visita essa que estava atrasada.
- Deve ser ele! - Eu corri para a porta ao ouvir a campainha tocar. - !
- Ei, ! - Ele sorriu assim que eu saí da frente para ele entrar timidamente e me entregar um buquê de flores. - Eu me atrasei um pouco... Não queria chegar de mãos vazias e... - Ele estava visivelmente muito tímido.
- Relaxa - Eu sorri. - A casa é sua! Você pode ficar aqui com um pouquinho enquanto eu chamo a pessoa que eu quero te apresentar. - Ele sentou ao lado de , que sorriu para ele e ofereceu biscoitos.
- Você gosta de Bob Esponja? - Eu ouvi perguntando. - Eu deixo você assistir comigo, eu tenho uns brinquedos também, se você quiser brincar, eu te empresto.
- ? - perguntou surpresa enquanto chegávamos à sala.
- ? - abriu um sorriso de orelha a orelha. - Eu não acredito!
- Peraí... Desde quando vocês se conhecem? - Eu perguntei confusa com os olhos semicerrados.
- , eu nunca te contei? - perguntou ainda surpresa, agarrada a num abraço.
- Pelo jeito, não. - Eu disse enquanto me sentava ao lado de , que nem havia percebido a situação confusa. - Mas pode começar agora.
- Na verdade, e eu saímos algumas vezes quando ele ainda morava no Rio. - explicou ainda sorrindo ao lado de .
- É... - continuou. - E aí, quando as coisas estavam ficando sérias, eu tive que voltar pra cá e nós perdemos totalmente o contato.
- Deixe eu ver se eu entendi - Eu, lentamente como se eles fossem dois bebês - Você tiveram um caso no Brasil e agora se reencontraram aqui, na sala do meu apartamento?
- Exatamente! - concluíu indo até a sala de jantar, onde ela tinha arrumado para o almoço.
- Eu vou querer saber mais sobre isso mais tarde. - Eu reclamei fazendo uma cara séria e eles riram.
Nós sentamos finalmente para almoçar depois de elogiar (lê-se: puxar o saco) tudo que havia feito, desde a decoração da mesa até a comida, e como ela estava mais bonita do que da última vez. tagarelava com sobre um novo jogo de vídeo game que havia sido lançado e tentava dividir a atenção entre ele e . Eu fiz questão de saber da história inteira enquanto comíamos a sobremesa. Os dois se dividiam para contar a história inteira, com pausas para sorrisinhos melosos e olhares. Pelo que eu consegui entender os dois se gostavam de verdade. Foi na época em que eu fiquei grávida. Se não me falhava a memória eu até me lembrava de um telefonema em que comentou sobre um britânico com quem ela estava saindo, mas eu nunca pensei em imaginar que poderia ser o . Mundinho pequeno esse, não?
- Sabe do que eu to com vontade? - Eu soltei a pergunta no ar enquanto e tiravam a mesa, e estava jogado no tapete da sala com a barriguinha prestes a explodir depois de repetir três vezes a sobremesa.
- Do quê? - perguntou curioso.
- Caipirinha! - Eu disse aos risos enquanto ria junto sem nenhum motivo aparente.
- É aquela bebida de limão com vodka e açúcar? - perguntou.
- Essa mesma. - respondeu abrindo a geladeira e tirando uma garrafa preta de absolut 100, seguida por alguns limões. Eu sorri para ela adivinhando que ela mataria minha vontade, e ela sorriu de volta pegando o açúcar e os copos no armário.
- Essa vodka não é muito forte? - perguntou receoso.
- Tem uma absolut vanila aqui também se você quiser, . Mas é de mulherzinha - disse como quem não quer nada, mas eu sabia que aquilo seria suficiente para fazer mudar de ideia. Ele se inclinou para olhar dentro da geladeira e fez uma cara que fez rir escandalosamente.
- , você anda fazendo contrabando de bebidas ou o quê? - Ele perguntou pasmo. - Eu nunca vi uma geladeira de mulher com tantas garrafas assim, é uma coleção! Pode até competir com o .
- Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, ! - Eu ri e ele riu também.
havia cortado os limões e colocado-os numa bandeja do Mickey, que eu havia comprado na Disney, fez um malabarismo e equilibrou todos os objetos nas mãos até a mesa na varanda. A temperatura havia subido um pouco, mas nada que pudesse ser considerado calor. Nós três nos sentamos como três desocupados e começamos a beber drink atrás de drink. foi o que mais bebeu e, talvez por não estar acostumado, ficou bêbado rapidamente. Eu não estava exatamente sóbria, mas era a que tinha mais condições de dirigir pelas ruas escorregadias de Londres para levá-lo em casa. Já era noite quando ele resolveu ir embora e foi um trabalho e tanto para fazê-lo entrar no carro. ficou encarregada de colocar no banho e fazer o jantar enquanto eu fazia meu dever de 'motorista da rodada'. Por sorte, a empregada de estava em casa e me ajudou a levá-lo para dentro. Prometeu que cuidaria dele e que ele estaria novinho em folha até segunda-feira. Eu me despedi de e ele murmurou algo como:
- Diga a ... que... eu quero vê-la... outra vez. - Pelo menos foi o que eu consegui entender, falar com bêbados não é uma das coisas mais fáceis.
N/A: Eu queria agradecer a todas as leitoras, eu fiquei muito feliz quando vi os comentários e a fic no top fictions. Obrigada! Quando eu mandei essa fic pro site eu achei que não passaria nem dos 50 comentários, eu to muito orgulhosa. E quero agradecer principalmente a Lays, linda, que é a crítica oficial dessa fic e me apoiou desde o início. Pra não falar muito, me perdoem se eu demoro pra atualizar, a fic ainda não foi terminada e eu prometo que vou tentar atualizar toda semana pra não deixar vocês desesperadas. Não se intimidem e socializem comigo no Twitter, suas lindas!
Atenção, qualquer erro nesta fic, notifique a beta.