Pai Por Acaso
Fic by: Fer Ferreira | Beta:


Capítulo Um



- A papelada está toda em ordem, senhorita . A senhorita já pode começar suas funções amanhã cedo, se for a sua vontade.
- Claro! Eu adoraria - Eu disse animada, tentando parecer séria enquanto me levantava e apertava forte a mão do Sr. , que havia acabado de me contratar como secretária de seu filho. Não era bem o trabalho dos meus sonhos, mas sendo mãe solteira em um país que não é o meu, não há muito que exigir.
- Como eu havia comentando, senhorita , meu filho, , volta de viagem na semana que vem... Você só terá que organizar os compromissos dele, por hora. - O homem disse simpático, mas firme. E me conduziu até a porta com um sorriso no rosto. - Tenha uma boa tarde.
Antes que eu tivesse tempo de me despedir, a porta se fechou na minha cara, delicadamente. Como se houvesse um jeito delicado de bater a porta na cara de alguém.
- Conseguiu, mamãe? - me perguntou enquanto estávamos no carro, indo para casa. Eu havia acabado de buscá-lo na creche.
-Consegui! Consegui! Yeees! - Eu disse animada enquanto ele batia palmas no banco de trás. - Começo a trabalhar amanhã, filho. E você vai precisar ficar com a babá, mas é por pouco tempo. - Eu me apressei em dizer, eu sabia que ele não gostava de ter que ficar com a babá.
- Tudo bem, mãe. - Ele disse sem entusiasmo.
- É só até você ter idade suficiente para ir à escolinha, tudo bem? Não falta muito, meu amor. - Eu tentei animá-lo.
O trânsito demorou mais do que eu imaginava. dormiu no carro e eu tive que levá-lo no colo por seis lances de escada, graças à minha fobia a elevadores.
Chegamos exaustos ao apartamento. Quer dizer, deve ser muito cansativo ser carregado no colo, não? Coloquei na cama e fui direto para o banho. Comi um pedaço de bolo que havia na geladeira e desabei na cama.

- Merda! , nós estamos atrasados! - Eu gritava enquanto corria do meu quarto para acordar , e do quarto dele para o banho. Atrasada no meu primeiro dia de trabalho, ótimo! Em quinze minutos, e eu já estavamos arrumados e pronto para sair de casa. Eu tinha meia hora para chegar de carro até o escritório, considerando o trânsito caótico de Londres. - , vamos filho!
- Mãe, meu boneco do Darth Vader sumiu. - Ele reclamou, revirando a sala.
- Procura quando chegar, , anda! - Eu estava impaciente, ter um filho tão cedo havia me mudado de muitas maneiras. Eu fiquei mais responsável, mais disciplinada, pé no chão. O que não havia mudado era a minha falta de paciência e de pontualidade, o que era absurdo, já que eu morava em Londres há mais de cinco anos. Londres, sabe? A terra da pontualidade.
- Mãe, eu não vou sair daqui enquanto eu não achar meu Darth Vader! - choramingou.
- Vai sim, ! Eu quero que você pegue suas coisas agora e entre no elevador. - Eu disse elevando o tom de voz.
- Mas, mãe... - Ele tentou argumentar.
- Agora, ! - A conversa se encerrou e saiu batendo o pé até o elevador, não falou uma palavra e nem me pediu ajudar para tirar o cinto, quando eu o levei até a escolinha.
- Tchau, filho! - Eu falei deixando-o na porta, entregue a uma professora sorridente.
- Eu não quero falar com você. - Ele disse rudemente e entrou, batendo o pé.
- Mas que malcriado. - Eu sussurrei.
Cheguei ao escritório faltando dois minutos para o meu horário. Uma secretária mais experiente me mostrou minha mesa, o refeitório e todas as outras partes do prédio que eu, eventualmente, deveria saber onde ficavam.
O prédio era enorme, dividido em setores. O meu era a presidência, no andar mais alto; logo, eu teria bastante tempo para exercícios quando estivesse subindo pelas escadas, ao invés de usar o elevador.
- Essa é a sua mesa, . Ali é o escritório do ... - A secretária me explicava.
- pai? - Eu perguntei curiosa.
- Não, o filho. - Ela sorriu - O escritório do Dr. fica no andar de baixo, eu vou estar lá. Me chame se precisar de ajuda!
Ela havia sido muito simpática. Me ajudou com o 'reconhecimento do lugar', me explicou o máximo que pôde e ainda me ensinou a usar a cafeteira.
- Muito obrigada... É... Perdão, como é mesmo o seu nome? - Eu perguntei envergonhada - É que eu tenho uma péssima memória, e com o nervosismo do primeiro dia de emprego minha cabeça está uma confusão, e eu ainda nem conheci meu chefe.
- Tudo bem, querida. Eu me chamo Ella. O nervosismo é normal, já estou aqui há mais de quinze anos e me lembro como se fosse ontem o meu primeiro dia. - Nós rimos - Quanto ao seu chefe, não se preocupe. Ele é um bom rapaz, um bom chefe também. Só tenha cuidado, não se apaixone por ele.
Ela só pode estar brincando, por que diabos eu me apaixonaria pelo meu chefe? Ele deveria ser muito mais velho, talvez até casado. Que maluquice!
- Pode ficar tranquila, Ella. Eu não sou do tipo que se apaixona pelo chefe. - Eu disse descontraída.
- Eu estou falando isso para o seu bem, minha filha. - Ela me encarou serena - Bom... Eu já vou indo!
- Mais uma vez, Ella, muito obrigada pela ajuda! - Eu disse, acompanhando-a até o elevador.
Assim que as portas se fecharam eu voltei para o meu lugar e observei cada detalhe da sala. Era muito bem iluminada por uma janela enorme com vista para o Big Ben, os móveis eram de um material branco e polido, os eletrônicos de última geração e minha própria cadeira de secretária deveria valer mais que meu carro. Era uma sala um tanto quanto vazia, havia só o essencial. Mas minha cabeça já estava maquinando algumas dicas de decoração pro lugar. No fim da sala havia uma porta de vidro, do tipo que quem está dentro vê tudo que se passa ao lado de fora, mas não o contrário. Minha curiosidade estava palpitando, era maior que o nervosismo de fazer alguma besteira no primeiro dia. Eu estava sozinha ali, que mal faria uma olhadinha? Caminhei com cautela até a pesada porta, senti a frieza da maçaneta de metal e, quando tentei puxá-la, vi que estava trancada.
- Certo, vou fingir que isso não aconteceu. - Falei comigo mesma - Vou me sentar aqui e agir como uma pessoa normal.
O dia passou no mais absoluto tédio: nenhum telefonema, ninguém apareceu para ver se eu estava viva, absolutamente nada. Eu fiz as unhas, joguei paciência, comi um sanduíche que Ella mandou me entregar na hora do almoço, e foi só. Puro tédio!
Por volta das 18h horas, o telefone tocou e me desconcentrou do meu FarmVille.
- Alô? - Eu disse entediada, sem perceber o erro fatal - Merda! - Pensei. - Alô. - A voz masculina do outro lado da linha pareceu confusa, e, a propósito, que voz!
- Construtora , pois não? - Eu disse, reparando o erro.
- Ok... Você deve ser a nova secretária, . Certo? - Ele perguntou, inseguro.
- Certo.
- Aqui é o . - Ele se apresentou - . Meu pai deve ter lhe dito que eu chegaria de viagem amanhã...
- Sim, ele disse. - Eu fui simpática.
- Certo... Eu preciso que me faça um favor. - Eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. Primeiro, eu passo o dia sem nenhuma tarefa, nenhum compromisso para encaixar na agenda dele, e agora, há menos de uma hora para o fim do expediente, ele quer um favor?
- Claro, é só dizer. - Eu me prontifiquei enquanto batucava na mesa com as unhas.
- Anota aí! - Ele pediu e eu puxei papel e caneta para perto de mim enquanto ele começou a dar as ordens. - Você vai pedir a Ella que lhe entregue a chave e o endereço do meu apartamento. No caminho para lá, você vai parar numa floricultura e vai pedir duas caixas de pétalas vermelhas, e pode pedir umas velas aromáticas também se eles tiverem. Continuando o caminho, vai parar numa confeitaria e pedir uma caixa do chocolate mais caro que eles tiverem.
- Ahn, certo... - Eu quis dar um sinal de que estava ouvindo tudo o que ele dizia, apesar de ter me perdido na parte do apartamento.
- Continuando, o porteiro vai te deixar subir e você vai entrar e espalhar as pétalas por todo o apartamento... - Ele não via, mas eu fazia uma cara confusa a cada palavra dita, afinal, eu era secretária e não uma guru do sexo. - Depois, você pode deixar a caixa de bombons em cima da minha cama, e pegar uma garrafa de Moët na geladeira e colocar num balde de gelo com duas taças em algum lugar perto da banheira. E, depois, pode ir para casa dormir. - Ele disse e eu pude ouvir um risinho.
- Ahn, Senhor ? - Eu chamei, insegura.
- Sim?
- Duas perguntas. Como eu vou pagar por tudo isso? E o senhor vai chegar a tempo de usufruir disso tudo? - Eu dei ênfanse à palavra usufruir, porque, no momento, era a única na minha cabeça.
- Eu havia esquecido esse detalhe. Você vai pegar com a Ella um cartão de crédito e vai usá-lo, a senha é pegador. - "What?" Eu pensei enquanto ria silenciosamente - Quanto à segunda pergunta, meu vôo foi cancelado e eu consegui trocar por um antecipado, aliás, estou aqui no aeroporto de Nova York nesse momento, vou chegar a tempo de usufruir disso, não se preocupe. - Ele deu ênfase novamente na palavra usufruir e eu senti um tom irônico em sua voz. - Nos vemos amanhã cedo?
- Mas é claro, claro que sim! Aproveite a noite, senhor . - Eu disse, me sentindo uma idiota.
- Com certeza. - Disse com sarcasmo e desligou o telefone na minha cara.

Eu estava exausta, morava na cobertura e eu ainda estava no 15º andar, além de ainda estar carregando as sacolas com as 'exigências' do chefe. Quando eu cheguei para falar com Ella, ela já estava inteirada de tudo e me deu chaves e cartão. Na confeitaria, o chocolate mais caro custava o preço que eu paguei num Prada, quando ainda morava no Brasil; era o mais caro, mas não era o melhor. E se tem alguma coisa que eu entendo é de chocolate, comprei o mais saboroso, e não era necessariamente o mais caro. E ele não tinha que saber disso.
O apartamento era enorme, com certeza todo meu apartamento caberia naquela sala. Era bem decorado, com quadros famosos nas paredes, janelas espalhadas por todo o apartamento, um sofá gigante e todo tipo de eletroeletrônico que existe. Eu me dei ao luxo de me esparramar no sofá e descansar por alguns minutos, não é fácil subir vinte lances de escada carregando sacolas.
Eu não era bem uma expert em noites românticas, minhas noites eram geralmente sexo selvagem e casual; mas eu tinha um acervo enorme de filmes e seriados em casa. Criei um caminho de pétalas desde a porta até o quarto dele, joguei o restante na cama e acendi algumas velas com o máximo de cautela possível. Era possível eu colocar fogo na cobertura de e só me dar conta quando os bombeiros estivessem arrombando a porta. Fiz exatamente o que ele pediu com a garrafa. Achei alguns morangos na geladeira e os coloquei junto com o resto da 'decoração'. Deixei os chocolates em cima da cama e saí como se nunca estivesse estado lá. Eu estava cansada, não era eu quem teria uma noite de amor. Eu só queria ir para minha casa e me desculpar com o meu filho.

Na manhã seguinte, eu acordei cedo. Indiretamente, tinha a intenção de causar boa impressão ao chefe. Fiquei mais arrumada do que o habitual, levei à escola e parei numa padaria para comprar alguma coisa açucarada que ajudasse a me manter calma.
- Bom dia, Ella! - Eu disse sorridente enquanto entrava no elevador, cheio de gente, óbvio!
- Bom dia, ! Você está muito bonita. - Ela disse apertando minhas bochechas, me lembrou minha avó quando eu aparecia no Brasil.
- Preciso concordar, Ella, a moça está muito bonita realmente. - Um rapaz jovem e bonito se meteu na conversa e me fez corar com os comentários. - Sou !
- É um prazer, ! - Eu lhe estendi a mão e o elevador parou imediatamente no meu andar; com um sorriso simpático, despedi-me de e Ella e rumei para o meu encontro fatal. Exagerado, eu sei. A manhã estava agradável. Tirei o blazer e pendurei-o na cadeira. Em cima da mesa havia um bilhete, em uma caligrafia masculina:
"Saí para resolver um assunto pessoal. Volto logo, me espere. Xoxo, ." Eu ri enquanto, num reflexo, guardava o bilhete na bolsa.
- Xoxo? Alguém anda vendo muito Gossip Girl por aqui! - Eu ri sozinha.
O telefone já havia tocado três vezes e eu já havia agendado quatro reuniões para ele naquela quarta-feira. Eu havia me acalmado, estava ansiosa para conhecê-lo, mas a demora era tanta que havia até esquecido. Foi quando vi saindo do elevador um homem jovem, tinha aparentemente a minha idade; era loiro, lindo e estiloso. Era como se eu o estivesse vendo em câmera lenta, como se o tempo tivesse parado. Se eu acreditasse em contos de fadas poderia ter justificado aquela cena como um imprinting*
- ? - Ele perguntou apoiando-se na mesa e me olhando com os olhos mais azuis que o pacífico. Eu estava sem ar, não conseguia dizer uma palavra que fosse. Estava ficando inebriada com o perfume amadeirado dele, assim como eu ficava quando fumava maconha na adolescência.
- E você quem é? - Eu perguntei apesar da certeza em minha cabeça. Eu o encarava tentando parecer calma e controlada, enquanto ele dava o xeque-mate com um sorriso torto, deixando à mostra os dentes perfeitamente brancos.
- Quem mais eu poderia ser? , é claro. - Ele disse enquanto passava a ponta dos dedos por todo meu rosto e se retirava para sua sala. parou por um instante, antes de fechar completamente a porta. Colocou a cabeça para fora e disse simpático:
- Um café, por favor. Com bastante creme.
Eu demorei alguns segundos para processar tudo que havia acabado de acontecer. Meu chefe era lindo, tinha um ótimo senso de humor e, pelo jeito, era do tipo que dá em cima de tudo que se mexe.

A 'sala do café' era uma saleta ampla, com mesinhas espalhadas e decoradas com um ótimo bom gosto, como era todo o resto do prédio. No canto, um sofá enorme de couro preto com detalhes em metal servia de dormitório para um senhor gorducho e careca. Fiz o máximo de silêncio, preparei o café como havia pedido e me permiti dar um toque especial, salpicando canela em pó. Talvez ele gostasse e eu causasse boa impressão, pensei.
- Senhor? - Eu disse em tom baixo enquanto abria delicadamente a porta, trazendo o café em uma das mãos e um envelope na outra.
- Ah, meu café. - Ele disse, levantando-se e pegando o copo alto de minha mão. - Obrigado.
- Ahn, os investidores ligaram, e eles querem uma reunião o mais rápido possível - Eu disse um tanto sem jeito. Ele riu e tomou um gole de café. Por um momento fez-se silêncio na sala enquanto ele saboreava o café. - Bom... Eu coloquei uma pitada de canela em pó, era como eu costumava pedir no Brasil. - Ele me olhou enquanto tomava outro gole - Mas, se o senhor não gostou, sem problemas. Eu busco outro agora mesmo. - Eu disse nervosa.
- Eu gostei, a partir de agora esse é o meu preferido. E o envelope? - Ele perguntou enquanto tirava da gaveta a caixa de chocolates que eu havia comprado na noite anterior.
- Chegou para o senhor enquanto eu preparava o café. - Eu disse.
Ele estendeu a mão e eu lhe entreguei o envelope. Ele sorriu e observou o conteúdo. Abriu a caixa de chocolates e comeu um bombom decorado, tampou-a e me entregou.
- Pra você. - Ele disse sorrindo enquanto eu o olhava, confusa.
- É a caixa que eu comprei ontem, Senhor , fiz a escolha errada?
- Não! Pelo contrário, eu adorei esses chocolates. Mas esse é um risco que se corre quando se tem uma modelo complexada como namorada. Ela comeu um e disse que já era doce o suficiente para o mês inteiro. - Ele contou.
- Ah, entendo. E... Sinto muito? - Eu disse num sussurro nervoso enquanto pegava a caixa das mãos dele com um 'obrigada' sem som.
- Sente? - Ele quis saber, sarcástico.
- Eu deveria sentir? - Eu perguntei sorrindo agora com mais segurança ao falar com ele.
- Não. Não deveria. Eu estou acostumado. - Ele fingiu tristeza. - É o preço que se paga por sair com mulheres bonitas.

*imprinting:Não é como se fosse amor a primeira vista, na verdade. É mais como a ação da gravidade. Quando você a vê, não é mais a Terra que te segura aqui. Ela te segura. E nada mais importa além dela. Você faria qualquer coisa por ela, seria qualquer coisa por ela. Você se torna qualquer coisa que ela precise que você seja. Seja como seu protetor, ou como um amante, ou um amigo, ou um irmão. (Citação do livro Crepúsculo).

Capítulo Dois



Eu já estava trabalhando para há quase um mês, o suficiente para ver de perto todos os tipos de mulheres famosas que entravam no escritório dele e saiam uma ou duas horas depois com a maquiagem borrada e cabelos desgrenhados. Eu apenas as anunciava e cuidava para que eles não fossem interrompidos por ninguém. Ah, e cuidava de confirmar as desculpas esfarrapadas que ele dava para a namorada. Mas era um bom chefe, me levava em casa, às vezes. Trabalhar para ele exigia horas e horas depois do expediente organizando documentos e fazendo ligações internacionais. Nos primeiros dias eu era capaz de sentir os olhos de me observando toda vez que eu era chamada à sua sala, ou quando ele passava por mim a caminho do elevador. Com o passar dos dias, ele continuava a me observar, agora com olhos mais misteriosos do que desejantes. Nós costumávamos conversar sobre o trabalho enquanto esperávamos ligações dos investidores madrugada à dentro, algumas vezes chegávamos até a falar sobre nossas vidas pessoais. Eu já estava até me acostumando a chamá-lo pelo nome ao invés de senhor. Pedido dele.

Levei na escola e corri para o escritório, teria uma reunião pela manhã com os investidores japoneses e quis que eu o ajudasse servindo meu 'café do Brasil', como ele chamava. Eu tentaria fazer tudo o mais rápido possível, minha melhor amiga viria do Brasil para aprimorar o inglês e se curar de uma traição do noivo. Eu havia dito que a buscaria no aeroporto, teria que sair mais cedo, mas provavelmente não seria problema.
- Bom dia, Ella! - Eu disse sorrindo enquanto chegava à sua sala para lhe entregar papeis que havia mandado para o pai - Aqui estão os papeis do Senhor .
- Bom dia, . - Ela sorriu enquanto guardava os papeis numa pasta - Dia cheio, não?
- Não quero nem pensar, está uma pilha de nervos. - Eu disse preocupada - Se não fecharem o negócio hoje, será um problema.
- ? - Ella perguntou, desconfiada - Já está o chamando pelo primeiro nome, ?
- Bom, ele me pediu, e eu não vi problema algum. - Eu me justifiquei.
- Cuidado, minha filha, eu já te pedi isso. - Ela disse preocupada - Ele é um ótimo homem, mas um homem de muitas mulheres, assim como o pai. Eu odiaria vê-la sendo mais uma secretária na lista dele.
- Ella... - Eu disse calmamente, segurando suas mãos - Eu já disse que terei cuidado. Eu assumo que nós já trocamos alguns olhares sim, mas eu tenho um filho e preciso desse emprego. Eu sei como funciona, eu durmo com ele e ele arruma uma desculpa para me mandar embora. Eu não sou idiota, Ella.
- Eu sei, minha querida. Mas eu também sei que os podem ter qualquer mulher que desejarem. - Ela disse calmamente - Só... Tenha cuidado com o seu coração.

estava andando nervosamente de um lado para outro em sua sala. Quando entrei para avisá-lo sobre os papeis, ele estava trêmulo e ofegante.
- , eu preciso de ajuda. - Ele disse nervoso - Os investidores chegarão a qualquer momento, eu não sei o que fazer. Se eles não gostarem do plano de investimento...
- Ei! - Eu disse enquanto segurava seu rosto com as mãos, fazendo-o olhar para mim - Fique calmo, . Você é ótimo no que faz, e se eles não aceitarem investir nos seus negócios eles é quem vão perder! Você me entendeu? - Eu perguntei calmamente enquanto sorria para ele.
- Entendi. - Ele respondeu mais seguro, respirando fundo - É, eu entendi.
- Eles já devem estar chegando, você deveria dar um jeito nesse cabelo. Eu cuido da gravata - Ele deu um sorriso torto que me fazia perder o chão, mas eu me mantive controlada enquanto arrumava o nó na gravata dele e ele passava a mão pelos cabelos loiros. Eu pensei sobre o que Ella disse e talvez eu estivesse escondendo de mim mesma a atração que sentia por ele. Ele foi até o banheiro e voltou de lá com os cabelos no lugar e o rosto mais saudável.
- Que tal, ? Estou bonito? - Ele perguntou rindo e dando uma volta em torno de si mesmo. Você já foi feio alguma vez na vida, ? Eu pensei.
- Uh, um gatão! Se houver alguma japonesa entre eles, pode apostar que esse negócio já está fechado. Então... Eu acho que eu devo ir para a minha mesa e anunciá-los quando chegarem.
Eu me virei, sorrindo internamente enquanto caminhava para a porta. Eu havia conseguido deixá-lo confiante e podia não significar muita coisa, mas ele teria um bom motivo para se lembrar de mim. E eu queria que ele lembrasse.
- ? - Ele chamou e eu me virei instantaneamente, com um sorriso no rosto. Ele veio em minha direção, pegou uma de minhas mãos e a beijou. - Obrigado.
- Eu confio em você, . - Eu sorri o mais verdadeiramente que consegui e me retirei da sala. Quando cheguei em minha mesa meu coração parecia querer sair pela boca. Tomei um gole de água e decidir falar com para ver como estava a viagem. No momento, ela estava fazendo escala nos Estados Unidos, consegui falar com ela pelo celular e ela estava muito animada.
- , eu estou tão animada, nem acredito que vou vê-la tão rápido. - Ela dizia feliz - Seus pais estão me fazendo levar uma mala gigante cheia de coisas, é bom você se preparar para redecorar a casa.
- Eu estou morrendo de saudade, nós temos tanta conversa para pôr em dia. Eu queria começar agora, mas tem uma reunião importante daqui a alguns minutos e ele está muito nervoso. - Eu disse, distraída.
- O bonitão de quem você falou? - perguntou, maliciosa.
- Ele mesmo, . Meu chefe - Eu dei ênfase à palavra chefe, isso estava se tornando uma mania. Nós éramos como irmãs, fazíamos tudo juntas quando eu morava no Brasil, mas aí eu me mudei para Londres e as coisas mudaram um pouco. Eu estava ansiosa para vê-la, não era a primeira vez que ela vinha me visitar, mas dessa vez ela ficaria muito mais tempo. - está doido para vê-la também, falou de você a semana toda. - Nós rimos - Vou fazer o impossível para pegá-la no aeroporto, mas você sabe como o trânsito daqui é caótico. Mas você sabe o caminho, certo? Já deixei liberada a sua entrada no prédio e você sabe que mi casa es su casa.
- Eu sei disso, amiga. Não tem problema se você não puder ir, eu pego um táxi. - No momento em que nós iamos falar sobre as pessoas que nós não gostávamos no Brasil, apareceu e fez um sinal para que eu o seguisse. - Eu preciso ir, o dever me chama. - Nós fizemos mini declarações, eu deixei o celular em cima da mesa e me apressei para seguir , que já ia bem adiantado.
- Me desculpe por isso, eu... - Eu tentei explicar o porquê de eu estar batendo papo com a minha melhor amiga na hora de serviço.
- Não precisa explicar nada, sem problemas. - Ele disse sério - Nós vamos receber os japoneses.
- Nesse caso, o elevador não deveria estar indo para o saguão? - Eu o questionei, já que o elevador em que estávamos estava subindo ao invés de descer.
- Não seja boba, . Eles vêm de helicóptero.

A reunião durou quase a tarde toda. Modéstia à parte, o meu café com creme e canela contribuiu muito para tudo fluir positivamente. Os investidores me parabenizaram várias vezes pelo café enquanto os servia pela milésima vez. ficou sozinho na sala de reunião por algum tempo, eu achei que eles talvez estivessem comemorando o négocio que acabara de fechar e resolvi não incomodar. Minha falta de atenção me fez esquecer no aeroporto. Quando dei por mim, já estava duas horas atrasada. Tentei ligar, mas ela foi mais rápida, me ligou dizendo que já havia desembarcado e estava chegando em casa. Disse também que já havia pegado na escola e que os dois estavam indo matar as saudades.Falamo-nos um pouco e ela me assegurou que não era incômodo alguma ficar com caso eu precisasse chegar mais tarde, mas meu plano era ir para casa o mais rápido possível.
A porta da sala de reuniões estava entreaberta, eu podia vê-lo do outro lado da sala observando Londres pela janela, que tomava metade da parede. Caminhei devagar até estar perto o suficiente para que ele pudesse me ouvir e eu pudesse admirar a vista. Sem olhá-lo, sorri e o parabenizei.
- Você fez um ótimo negócio.
- Graças a você, se você não tivesse dado um nó decente na minha gravata, eles poderiam ter uma primeira impressão ruim. - Ele disse rindo e mordendo o lábio enquanto me olhava e me quebrava em mil pedacinhos com aquela proximidade.
- Eu só fiz o meu trabalho, Senhor . - Disse com certa ironia.
- Muito bem feito, diga-se de passagem. Eu não poderia ter secretária melhor. - A voz dele agora era quase um sussurro carregado de malícia, e o corpo dele se projetava para frente de modo que eu tinha que me encostar à parede para evitar qualquer contato físico. Eu olhava-o sem reação, mas minha cabeça estava a mil. Meu cérebro estava trabalhando duro para guardar cada detalhe daquele rosto em minha mente: os lábios rosados que, quando fechados, escondiam a fileira de dentes perfeitamente brancos, a pele macia - que eu não sabia se era de fato macia, mas minha cabeça não aceitava isso como resposta -, as bochechas coradas, os cabelos arrumados de modo a parecerem bagunçados e os olhos azuis. Aqueles malditos olhos! Bastava eu encará-los por dois segundos e já era o suficiente para eu perder todo o controle que eu tanto luto para manter quando ele está por perto. Eu sentia a respiração dele chegando fraca em meu rosto, sentia meu coração bater tão forte a ponto de doer; minhas mãos tremiam assim como as pernas em cima do salto. passou uma das mãos pelo contorno do meu rosto e parou no queixo. Segurou-o delicadamente e se aproximou a ponto de nossas respirações se confundirem. Eu fechei meus olhos e respirei devagar, o que foi uma ação perigosa já que eu estava ciente de que o menor toque dos lábios dele nos meus poderia ter resultados catastróficos. Criei coragem e fiz o que deveria fazer.

Capítulo Três



- Quer café? - Eu perguntei nervosa tentando não falhar. - Eu vou buscar pra mim, eu posso trazer um pra você, se quiser. - Eu me distanciei dele o mais depressa que minhas pernas bambas me permitiam e caminhei rapidamente para fora da sala. Pude ouvi-lo bufar e juro que o ouvi sussurrar algo como 'Droga, !' cheio de frustração enquanto se jogava numa cadeira.
- Meu Deus, ! - Eu disse encarando minha imagem pálida no grande espelho do banheiro de funcionárias, agora vazio - O que foi isso?
Eu me sentei num banquinho de madeira que geralmente era usado para deixar as bolsas enquanto as funcionárias usavam o banheiro, me sentindo fraca e confusa. Eu sabia que queria beijá-lo; talvez, ir pra cama com ele, mas eu tinha um filho e precisava me manter no emprego. Precisava parar com as aventuras e ter algo sério com alguém, e eu sabia que esse alguém não seria .
Eu não queria seduzi-lo, também não podia negar que sentia meu coração pular sempre que ele chegava perto, mas eu era da terra do 'quando um não quer dois não vão pra cama' e isso me fez tomar uma difícil decisão. Eu aguentaria firme até aquele sentimento passar, não iria beijá-lo e nem ir para cama com ele, não se eu estivesse totalmente consciente. Quando tudo se acalmasse dentro de mim, eu esqueceria tudo isso.
Eu não sei ao certo quanto tempo fiquei lá dentro, tudo que eu sei é que pareceram minutos, mas quando eu saí metade dos funcionários já haviam ido embora. Corri até minha mesa para juntar minhas coisas, a maioria dos andares do prédio já estava vazio e completamente escuro. Deus me livre de ficar sozinha naquele lugar! Quando bati o olho na mesa, algo me fez sorrir. Em cima do teclado do computador havia uma rosa branca e na tela, um pedido de desculpas. Eu sorri e me derreti na mesma hora, apesar de me sentir mal por ele achar que era culpado por alguma coisa além de me fazer perder o chão a cada vez que respirava. Eu não tinha certeza se ele já havia ido embora, mas não queria criar outra situação constrangedora indo até o escritório confirmar.

- AMIGA! - gritou correndo em minha direção assim que entrei em casa.
- Amiga, que saudade! - Eu disse abraçando-a por longos minutos.
- , você tá tão linda! Tão inglesa. - Ela disse aos risos enquanto me olhava dos pés à cabeça. - O dormiu, tadinho, queria te esperar, mas estava tão cansado.
Nós ficamos ali por toda a noite até a madrugada. Rimos como duas adolescentes, comemos todas as besteiras da geladeira, ela me mostrou todos os presentes que meus pais tinham mandando, me contou sobre o acontecido que a trouxe pra cá e sobre os planos para a nova vida de solteira.
- Café, ? - Ela me interrogou perplexa quando eu lhe contei sobre o que havia acontecido mais cedo.
- Fiz mal? - Perguntei receosa enquanto arrumava a bagunça da sala e me sentava no sofá para falar sério, já que durante todo o bate papo animado nós havíamos ficado jogadas no chão.
- Garota, qual é o seu problema? - Ela perguntou pausadamente como se eu fosse uma criança lerda. - Eu posso ter chegado agora, mas eu te conheço há muito tempo, eu sei que isso mexeu com você e tá na cara que tem alguma coisa a mais por trás dessa 'atração sexual' - Ela disse com os olhos semicerrados e fazendo aspas com a mão.
- Eu não sei o que fazer, ele mexe comigo de um jeito que nem eu entendo... - Eu disse frustrada.
- Eu achava que entendia a cabeça dos homens, amiga. - Ela falou pensativa - Mas eu vi que não, o que eu sei é que se ele quisesse só te levar pra cama, ele teria te jogado em cima daquela mesa gigante, rasgado a sua roupa e...
- Chega! Chega, , eu já entendi. - Eu tratei de interrompê-la, ela era uma ótima pessoa, mas tinha uma mente terrível.
- Você deve estar cansada da viagem, eu arrumei o quarto de hóspedes pra você. Amanhã já é sexta-feira, eu vou tentar chegar mais cedo pra te levar em um tour pela terra da rainha. Fechado, garota de Ipanema? - Eu pisquei para ela enquanto apagava as luzes e a acompanhava até o quarto de hóspedes, e depois ia me deitar.

Enquanto caminhava para entrada do prédio após ter deixado na escola e no centro, me concentrava para não esquecer as falas que havia ensaiado na noite anterior. "Tudo bem, . Vamos esquecer o que aconteceu" Não, isso soa muito indiferente. "Ahn... Nós podemos passar uma borracha em cima do que aconteceu." Isso também não.
- Ei, garota do ! - Eu senti meu coração estremecer quando alguém me chamou, quero dizer, teoricamente eu estava sozinha no saguão, então só podia ser comigo. Estava prestes a começar a subida até o último andar, já que o elevador estava vazio, quando apareceu ao meu lado.
- Garota do ? - Eu perguntei sorrindo discretamente.
- É como eu costumo chamar as secretárias dele. - Ele disse abrindo um largo sorriso. - Eu soube que você é brasileira... Eu morei lá por uns tempos, estou pensando em voltar.
- Sério? - Eu já estava me soltando, ele caminhou para o elevador e eu o segui. Eu não estava muito segura, preferia ter um número alto de pessoas no elevador, pelo menos eu não morreria sozinha se algo acontecesse. - Onde você morou? Porque eu morei no Rio, e é uma cidade realmente maravilhosa. Quer dizer, tem muita violência, mas a gente acostuma. Eu adorava passar o dia em Ipanema, você conheceu? É uma praia linda, um pouco longe, de carro. Eu morava em Angra dos Reis, sabe? A ilha, então. - Ele me ouvia com atenção e um sorriso simpático no rosto, como se estivesse revivendo as memórias. - Eu sinto muito, eu falo demais. Não é todo dia que eu encontro alguém com quem eu possa falar sobre o Brasil. - Eu me desculpei enquanto gesticulava e sentia minhas bochechas ficarem quentes enquanto ele ria.
- Não é problema algum - Ele disse sorridente - Eu amo aquele país. Talvez eu não tenha me apresentado direito aquele dia, eu trabalho na contabilidade. Alguns andares abaixo do seu, aliás, o meu andar já passou e eu nem me dei conta.
- Eu te distraí, não foi? Mil perdões, é que... - Eu disse nervosa e ele colocou uma das mãos no meu ombro num modo gentil de me fazer calar a boca.
- A gente pode conversar mais sobre isso, quer dizer, se você quiser, é claro. - Ele disse um tanto nervoso - Eu não quero que você ache que eu estou dando em cima de você...
- Almoçamos juntos? - Eu o convidei sem cerimônias.
- Ahn... É claro! - Ele aceitou com um sorriso tímido. - Bom... É o seu andar. - Ele apontou para a porta aberta do elevador que nos permitia ver toda a vista da enorme janela.
- Então eu vou indo, te encontro no restaurante da esquina. Ok? - Eu disse saindo do elevador e observando a porta se fechar atrás de mim.
- Ok! - Eu pude ouvi-lo falar por trás das portas fechadas.
A sala estava vazia e silenciosa, era mais como um convite para eu me perder observando a cidade da janela. Já estava virando hábito, várias vezes ao dia eu me pegava distraída, olhando Londres do alto.
"Talvez eu não deva falar nada. Ele pode até ter esquecido" Pensei. O telefone tocou me tirando do trase. Do outro lado da linha, Senhor falava rápido. Perguntou pelo filho e pediu para que ele fosse até o escritório para uma conversa de 'homem para homem'.
- Tudo bem, Senhor . Eu aviso a ele. - Eu disse rapidamente. Queria evitar qualquer contato físico ou visual o máximo que eu pudesse. Dei o recado por telefone e quando passou por mim, abaixei os olhos e fingi estar digitando algo.
Alguns minutos depois ele voltou, estava nervoso e inquieto. Eu não queria cometer o erro de criar qualquer tipo de vínculo, mas eu me preocupava com ele.
- Algum problema, ? - Perguntei sem jeito enquanto ele fingia estar concentrado na vista da janela.
- Minha noiva está voltando. - Ele disse seco e se trancou na própria sala.
Noiva? Que noiva? Eu me perguntei confusa. Voltando de onde, se outro dia mesmo ele me fez preparar um templo sexual para matar a saudade da namorada? Eu estava realmente confusa e curiosa. Queria saber mais sobre aquele homem tão misterioso.
- Eu sei que não é da minha conta, eu sou só a secretária e você nem precisa responder, se não quiser - Eu disparei a falar assim que entrei na sala dele, o pegando desprevenido enquanto montava um castelo de cartas. - Mas que história é essa de noiva? E aquela modelo de quem você falou? Quer dizer, você me confunde com tantas mulheres, é...
- De fato, isso não é da sua conta. - Ele disse calmo sem tirar a atenção do castelo - Mas se você quer tanto saber, eu digo. Eu sou um homem de muitas mulheres, você acha que eu teria uma noiva se eu tivesse escolha? Nossos pais são sócios, ela é apaixonada por mim, eu tive que cooperar para o bom andamento dos negócios. Eu nunca disse a nenhuma das mulheres com que eu dormi que elas seriam as únicas, e mesmo assim elas quiseram se entregar pra mim. Só o que eu faço é me divertir quando a Frankie viaja e vestir a roupa de bom rapaz quando ela está no país. É assim que funciona.
Por essa eu não esperava, quer dizer, eu sabia que ele já havia saído com muitas mulheres, mas ele tinha uma noiva, era uma coisa estranha para imaginar.
- Eu vou almoçar com o meu pai - Ele continuou enquanto pegava o paletó e saia da sala, e eu ia logo atrás dele. - Você já pode ir também.

Capítulo Quatro



- Então você morava no Rio? Eu estive lá algumas vezes. - comentou enquanto nos sentávamos numa mesa próxima à porta no restaurante.
- É, eu morava. Voltaria pra lá se eu pudesse. - Eu disse pensativa.
- E não pode? - Ele perguntou curioso.
- Meu filho adorava essa cidade, eu já tentei convencê-lo, mas ele disse que se eu o levar, ele foge de casa e volta pra cá. É um menino bem difícil. - Eu expliquei.
- Me surpreende saber que você tem um filho, quer dizer, eu nem sabia que você era casada. - Ele se justificou.
- Eu não sou - Eu expliquei enquanto comíamos - As pessoas tomam algumas decisões erradas às vezes, e uma dessas me deu .
- Eu adoro crianças, desde que elas não sejam minhas, é claro! - Ele riu.
- ?
- Sim?
- Você conhece o há muito tempo? - Eu questionei.
- Nós nos conhecemos na faculdade, eu tinha acabado de voltar do Brasil. - Ele explicou - Ele é uma pessoa difícil, mas melhora com o tempo. E já deveria ter melhorado com você.
- Deveria? - Eu perguntei surpresa. - Ele tinha algum motivo em especial?
- Eu não sei se você já notou, , mas ele tem algum interesse por você. No dia em que vocês se conheceram ele me disse exatamente isso "Ela é linda, dude. Você precisa vê-la. Eu não sei como o meu pai pretende que eu mude esse jeito quando ele contrata secretárias tão..." Ele não terminou a frase, mas vindo de quem veio nós podemos imaginar. Ele fala muito de você, , mas sempre as mesmas coisas. Ele diz que você é diferente e ele tenta manter uma relação de trabalho porque não quer que você seja afetada pelos erros dele. Ele não sabe quase nada sobre você, então eu tenho que ouvir comentários sobre como você se veste bem, ou como seus cabelos são sedosos, coisas bem gays desse tipo. - Nós rimos. Enquanto falava, eu sentia meu estômago revirar, eu não sabia o que pensar. Não sabia o que fazer diante daquela maré de informações.
- Eu tenho saudade da comida de lá. - Ele comentou.
- Hã? - Eu perguntei distraída.
- Do Brasil, sinto saudade da comida de lá. - Ele explicou.
- Minha melhor amiga chegou há pouco tempo de lá, acho que vocês iriam adorar se conhecer. - Eu sugeri - E por você ter me dado o prazer de ter um ótimo almoço, eu vou te fazer uma surpresa amanhã.
- Adoro surpresas. - Ele disse fingindo uma voz misteriosa.

Voltei para o escritório com quinze minutos de atraso, era um cara legal e me deu informações que agora estavam flutuando em minha mente. Então, queria manter uma relação de trabalho para me poupar? Será que isso é bom? Me questionei. Será que eu chegaria a ser a única na vida dele algum dia? Quer dizer, não que eu fizesse questão, eu acho que eu estava mesmo gostando dele, mas ele não era pra mim.
- Preciso de você!
- Hã? - Perguntei assustada sendo arrancada da minha reflexão momentânea pela voz de , que vinha da porta que ele segurava aberta, fazendo sinal para que eu entrasse.
- Aqui na sala - Ele disse sem paciência - Pra resolver aquilo que eu te falei. Dos papeis.
- Claro. - Eu disse sem ânimo, entrando na sala e me sentando em uma cadeira ao lado dele na mesa de vidro, que tomava metade da sala.
- Eu preciso desses documentos separados por datas, e esse, por países. - Ele me entregou uma pilha de papeis decorados com símbolos de bancos e empresas.
Eu comecei a fazer o que ele havia pedido, era uma chatice absurda separar aqueles papeis, mas me distraiu completamente. Eu lia, separava e grampeava os papeis de acordo com as categorias, e os colocava em pastas. "Beije-o!" falou uma voz na minha cabeça, provavelmente era minha consciência querendo que eu arruinasse tudo de uma vez. "Não seja idiota, . Beijo-o agora!"
- Ahn... ? - Eu o chamei, decidida. Ele respondeu com um ruído sem tirar a atenção do notebook. - Me beija!
- O quê? - Ele perguntou surpreso virando-se para me encarar. Eu deixei de lado todos os pensamentos que rondavam minha cabeça e o beijei. No início, era mais como uma colisão. Nossos corpos estavam se tocando graças à proximidade das cadeiras; era um beijo desesperado, como se estivesse esperado muito tempo para acontecer. Eu havia me esquecido de respirar. Minhas mãos tocavam timidamente os cabelos dele enquanto as mãos dele estavam imóveis em minhas costas. Nossas línguas faziam uma dança veloz e ele dava pequenas e delicadas mordidas em meu lábio inferior. Era como ir ao céu e voltar. Aos poucos meus sentidos foram voltando, eu podia sentir meu corpo inteiro formigar de uma maneira boa, podia ouvir nossas respirações ofegantes se fundirem em uma só e podia sentir ainda a melhor das sensações: o coração de batendo junto ao meu. Um barulho chato e repetitivo interrompeu meu momento de glória, eu não identifiquei no início, mas logo pude perceber que vinha do celular de em cima da mesa. o beijo cessou imediatamente. Ele me olhou por alguns instantes com olhos curiosos antes de atender a ligação.
- Ah, é você... - Ele disse sem vontade - Eu estou ocupado, Frankie. - Eu não podia ouvir a voz do outro lado da linha, mas sabia de quem se tratava.
- Dancei. - Eu disse baixinho enquanto voltava ao trabalho com a cabeça a mil.
- Não, Frankie, eu não posso te buscar no aeroporto. Ligue para o seu pai ou pegue um táxi. - Ele disse rudemente - Talvez eu passe lá para ver você, se eu tiver tempo. Tchau... Ok, eu também.
Eu pensava em como ele havia tratado a noiva e pensava mais ainda em tudo que havia acontecido nos último cinco minutos. Definitivamente, não foi um beijo qualquer. desligou o celular e o jogou em cima da mesa onde estava antes, me olhou tímido e eu retribuí o olhar sentindo minhas bochechas arderem.
- Então... Onde paramos? - Ele perguntou sem cerimônias.
- Nos executivos russos. - Eu respondi quebrando o clima de 'vamos fingir que o celular não tocou e continuar no paraíso'. Ele me deu o tal sorriso torto que me tirava a concentração e voltou a atenção para o que estava fazendo. Não nos tocamos mais nenhuma vez pelo resto do dia.

- Você é muito chata! - falou emburrado quando eu me recusei a deixá-lo passar da hora de dormir.
- É, eu sei disso. - Respondi desanimada. - Boa noite, filho. - Eu dei um beijo em sua testa, arrumei o cobertor de modo que ele ficasse embrulhado como uma bala e apaguei a luz, deixando apenas a do abajur.
- Mãe? - Ele chamou manhoso.
- Sim? - Eu parei no batente da porta para olhá-lo.
- Você se esqueceu de olhar embaixo da cama. - Ele disse receoso. Era um hábito dele me fazer olhar todos os cantos do quarto com potencial para serem esconderijo de algum monstro antes de dormir. Eu me abaixei e fingi olhar tudo; na verdade, eu apenas me abaixei.
- Não tem nada aqui, tá tudo certo. Boa noite, meu amor. - Eu saí do quarto e fechei a porta atrás de mim. estava na sala vendo um filme da Disney e me cedeu espaço no sofá quando eu cheguei. Ela não me olhou, mas eu sabia que ela estava me avaliando.
- Qual é o problema? - Ela perguntou ainda sem tirar os olhos da TV.
- Por que você acha que há algum problema? - Eu perguntei enquanto comia um nacho dos muitos que havia feito.
- Eu te conheço, esqueceu? - Ela falou com voz doce, me olhando finalmente.
- Bom... Nós nos beijamos. - Eu disse soturna. - Na verdade, eu o beijei.
- E foi ruim? - Ela perguntou me oferecendo outro nacho.
- Não, não foi. - Eu disse.
- E então? - Ela quis saber. Eu contei tudo para ela, desde o almoço com até o beijo e o telefonema. Ela fazia expressões alternadas entre surpresa, malícia, dúvida e raiva. - Tá na cara que você gosta dele.
- Não gosto não! Eu só... - Eu tentei argumentar.
- Você gosta sim, não tente me enganar. - disse aos risos.
- Não tem graça, . - Eu disse brava.
- Não tem graça mesmo, desculpa. Mas, ... Eu não reconheço você. Cadê aquela minha amiga que quando gostava de alguém não sossegava até conseguir o que queria? - Ela disse enquanto me puxava para perto e me abraçava carinhosamente.
- O problema é que eu não sei o que ele quer. - Eu disse pensativa.
- Então pergunte a ele. - Ela disse como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Antes de dormir, nós vimos outro filme, vimos o telejornal e fizemos uma twitcam para falar com os nossos amigos no Brasil.
- Eu preciso que você busque amanhã na escola, tudo bem? - Eu pedi - Com a chuva que eles anunciaram é provável que eu fique presa no trânsito.
- É claro, né? - Ela disse animada - Eu estou aqui para isso. E para paquerar uns britânicos também.
- Toma jeito, . - Eu brinquei enquanto ia para o quarto. - Boa noite.

Capítulo Cinco



- ! - Eu o surpreendi aparecendo sem avisar em seu escritório.
- Ei, você por aqui! A que devo a honra? - Ele brincou.
- Eu te trouxe paçocas. Era a minha surpresa, deduzi que você pudesse estar com saudade disso também. - Eu sorri enquanto me sentava numa cadeira macia e depositava uma caixa decorada em cima da mesa.
- Eu adoro paçoca, cara! Você é demais, . Demais! - Ele disse animado, admirando as paçocas dentro da caixa trazida diretamente do Brasil por .
- Eu sei, eu sei. - Eu brinquei.
- E então, parece que nossa conversa do almoço rendeu frutos, não? - Ele disse discretamente.
- Eu não sei do que você está falando. - Eu menti.
- , é meu melhor amigo. Eu sei tudo. - Ele disse com o semblante sério - Ou quase tudo, algumas coisas eu faço questão de fingir que não escutei. O que eu quero dizer, , é que vocês tem que ter cuidado. Relacionamentos entre funcionários aqui são estritamente proibidos depois do que aconteceu com a mãe do . Então... Tenha cuidado.
- O que aconteceu com ela? - Eu quis saber.
- Eu acho melhor ele te contar sobre isso, é um assunto delicado. - Ele disse pensativo. - Eu não quero ser um mala, , você é quem sabe da sua vida, certo? - Ele sorriu.
- Talvez. - Eu sorri também.
- Eu adorei a surpresa, vou comer paçoca o dia inteiro, no almoço e no jantar, e no lanche da noite. - Ele disse de boca cheia.
- Eu vou voltar para o meu andar antes que eu arrume outro assunto e passe o dia inteiro aqui falando. - Eu me levantei, indo em direção às escadas.
- Por mim não seria problema, baby! - Nós rimos.

Eu já estava devidamente acomodada em minha mesa. O telefone tocava a cada cinco minutos e eu estava fazendo milagres para encaixar todas as reuniões e compromissos na agenda de . Depois de ele ter conseguido fechar negócio com os japoneses, as coisas na construtora estavam a mil! Eu não havia o visto desde a hora em que cheguei do escritório de .
Eu estava distraída dando uma olhada em documentos ultra-secretos que eu não deveria ler quando uma moça alta, loira, bem vestida e antipática chegou ao escritório, me lançou um olhar desdenhoso e seguiu para a sala de . Eu sabia que ele odiava ser pego de surpresa e fazia questão que todos fossem anunciados antes de invadirem sua sala.
- Cof, cof. - Pigarreei sutilmente e ela me olhou com desinteresse. - A senhorita marcou uma hora? - Eu perguntei seca.
- Marcar hora? Faça-me o favor! - Ela disse irritada enquanto parava a poucos passos da porta do escritório. - Desde quando eu tenho que marcar hora para falar com o meu noivo? Por favor. - Disse com arrogância e entrou na sala sem que eu tivesse tempo de anunciá-la.
Claro! Deveria ser a tal Frankie, noiva dele. Que mulherzinha antipática, pensei. Precisava mesmo era levar uns tapas. Onde já se viu falar assim comigo?
- ... eu não preciso ser anunciada, ! Você tem obrigação de me receber. - Eu ouvi gritos vindos do escritório e fui arrancada dos meus próprios pensamentos.
- Obrigação de te receber, Frankie? - falava alto, mas não gritava - Aqui é o meu local de trabalho, sabe? Trabalho, aquilo que as pessoas fazem pra ganhar dinheiro e não precisarem depender do papaizinho rico!
- Você não pode falar assim comigo, eu sou sua noiva! - Ela gritava - Você tem que me amar!
- Amor não se compra, Frankie! - gritou em resposta e eu ouvi um baque surdo. Eu estava perplexa, sabia que ele não estava de acordo com tudo aquilo, mas não fazia ideia do quanto ele era contra. Não sabia também se deveria intervir, os dois poderiam se matar lá dentro.
- E você deveria saber disso, . - Ela disse mais calma sem abaixar a voz - Mendigou o amor do seu pai a vida inteira, tentou a todo custo comprar o amor dele e agora vem me dizer que amor não se compra? Ora, faça-me o favor. Eu não sou obrigada a ficar aqui, a gente conversa em casa.
Eu me apressei a sair de perto da porta onde estive ouvindo a conversa, agi como se estivesse ficado sentada em minha mesa o tempo todo. Frankie saiu do escritório e a porta foi batida com um estrondo alto. Não sei ao certo se ela bateu a porta ao sair ou se bateu a porta atrás dela. Ela me olhou com raiva, levantou o nariz e saiu pisando forte. O telefone tocou, era , e ele estava visivelmente abalado. Nós estávamos a poucos metros de distância; eu estava acostumada a vê-lo me chamar pessoalmente, mas tentei parecer calma como se não tivesse escutado nada.
- ... Eu preciso de você aqui e um café. - Ele disse com voz trêmula. Rapidamente organizei os documentos em cima da mesa, preparei um café forte para ele e um cappuccino para mim.
- ...? - Disse baixinho enquanto entrava na sala, que sempre fora bem organizada e que agora tinha um vaso estilhaçado no canto da parede. estava sentando no sofá; o corpo tenso e as mãos cobriam o rosto vermelho. - Tá tudo bem? Eu trouxe o seu café.
Ele não respondeu, pegou o café sem nem ao menos mover o pescoço para me olhar. Eu me sentei na outra extremidade do sofá em silêncio, não sabia o que fazer e muito menos o que falar, mas não queria sair e deixá-lo tão transtornado. Nós ficamos em silêncio por longos minutos. Eu esperava que ele dissesse alguma coisa, mas só o que ele fez foi tomar todo o café e soltar um profundo suspiro. Eu caminhei até a janela, a temperatura havia caído desde a hora em que saí de casa e agora flocos de neve e pingos de chuva cobriam as ruas e os desavisados que saíram de casa sem guarda-chuva.
- Tudo bem se você quiser conversar, . - Eu disse calma. Não achava que ele iria querer conversar sobre os problemas pessoais comigo, mas eu sabia melhor do que ninguém como era ruim não pode dividir os problemas com alguém. - Eu não vou falar nada, se você não quiser. Eu posso só ouvir, eu posso só...
- Ela é louca! Todos eles são - me cortou, virando-se para me encarar com os olhos vazios. - Todos acham que nós somos um casal perfeito, Frankie e eu. Ela é maluca, doentia e ciumenta. Meu pai acha que eu tenho que fazer todas as vontades dela, caso contrário o pai dela acaba com a sociedade que rende tantos milhões ao meu pai. Eles estão me enlouquecendo, . Assim como fizeram com a minha mãe.
Eu voltei a me sentar no sofá, agora mais próxima dele. Eu não o conhecia há muito tempo, mas agora tudo começava a fazer sentido. Pessoas sofridas tornam-se frias com o tempo. Eu coloquei uma de minhas mãos suavemente em suas costas. Era evidente que ele precisava falar sobre isso com alguém e eu queria ajudá-lo.
- O que aconteceu com ela? - Eu disse com a voz baixa.
- Ela se matou. - Ele disse me olhando nos olhos enquanto lágrimas e mais lágrimas corriam por seu rosto.

Capítulo Seis



Eu estava horrorizada ao vê-lo daquela maneira, queria fazer alguma coisa, queria dizer algo que o fizesse se sentir melhor, mas tudo o que eu pude fazer foi chegar mais perto e passar um braço pelo peito dele segurando-o pelo ombro. Ele deitou a cabeça no meu ombro, o que me deixou surpresa porque eu esperava que ele me colocasse para fora de lá aos berros. Eu acariciei os cabelos dele com as mãos trêmulas; aos poucos eu senti os músculos do corpo dele relaxarem e a respiração se acalmar. Ele pegou minha mão mais próxima e a segurou. Eu senti um arrepio percorrer meu corpo e meu estômago revirar. Segurei em resposta e apertei-a com delicadeza, entrelaçando nossos dedos. Ficamos em silêncio por mais algum tempo. A chuva e a neve embaçavam a janela e eu ouvia o telefone tocar enlouquecido ao lado de fora, mas não me mexi.
- Minha mãe era uma mulher maravilhosa. - Ele sussurrou quebrando o silêncio; eu fiz um gesto delicado para tentar me afastar dele, mas ele me segurou num abraço ainda mais apertado. Era uma posição desconfortável para mim, mas não importava. Me lembrava Chuck e Blair numa cena da terceira temporada. - Eu a amava, ela era linda. - Ele disse docemente.
- Eu imagino que sim. - Eu sussurrei em seu ouvido.
- Mas ela cometeu um erro... - Ele continuou hesitante - Ela se casou com o meu pai. E ele nunca ligou pra ela, tratava-a como um canalha. Ele levava mulheres para nossa casa e dormia com elas na cama deles e minha mãe não podia fazer nada, ela bebia e chorava até pegar no sono. Eu era só uma criança, .
Eu não sabia o que falar, tinha sido pega de surpresa por aquela atitude dele de me contar coisas tão íntimas. Eu apenas o apertava contra o meu corpo delicadamente para mostrar que estava ouvindo.
- Um dia ela resolveu acabar com tudo e aí ela tomou todos os comprimidos que tinham em casa e teve uma parada cardíaca. - Ele continuou - Meu pai achou isso a melhor coisa do mundo, já que ele voltou a ser um homem livre, como ele dizia. Ele levava mulheres para casa toda a noite, algumas eram legais, mas quando eu estava começando a me acostumar a elas, ele as trocava. Eu era solitário, ele nunca tinha tempo para mim e achava que compensaria tudo com dinheiro. Ele só tinha tempo para o trabalho. E aí ele conheceu o pai da Frankie, e começou a me usar para ganhar dinheiro. Ele disse 'você precisa me ajudar, meu filho. Somos só nós dois agora' e eu me senti usado, mas eu não tinha escolha. A Frankie é insuportável, ela é mimada e totalmente diferente de mim. Mas são só negócios. - Ele disse entre soluços - Eu nunca quis ser igual a ele, mas olha o que eu me tornei, . Um canalha sem coração que mal sabe o nome das mulheres que leva pra cama.
- Mas você pode mudar, . - Eu disse fazendo-o olhar para mim - Todo mundo pode. Ele me olhava com os olhos tristes. Já estava calmo e o rosto havia recuperado a cor normal.
- E eu quero, . Eu quero mudar - Ele disse encarando a janela embaçada. - Mas eu não sei se eu consigo... Cada fio de cabelo meu é igual àquele desgraçado! - Ele se levantou e socou a parede; o rotou voltou a ficar vermelho, mas dessa vez de raiva. - Ele se impregnou em mim com aquele mau caráter e aquela ambição... E aquele jeito nojento de tratar as pessoas.
Eu me postei à frente dele, segurei-lhe o rosto e o olhei nos olhos.
- Olha, , eu não era assim. Eu vim pra cá começar a faculdade e eu era bem nova, eu saia com vários rapazes, eu até fumava. Olha só - Eu sorri discreta - Mas eu tomei uma decisão errada e isso mudou minha vida, eu não queria mudar, mas eu tinha que mudar. Ser mais responsável, e tive que deixar toda minha vida perfeita de lado pra arcar com as consequências. Mas foi bom, agora eu vejo, foi muito bom. Eu sou uma pessoa melhor agora, porque eu tive um motivo maior pra toda essa mudança. - Eu confessei.
- E que motivo era esse? - Ele quis saber.
- Não vem ao caso agora, outro dia eu te conto. - Eu sorri e arranquei um sorriso dele. Eu o ajudei a arrumar o escritório, e a essa altura a tarde já começava a cair.
- Eu vou indo lá pra minha mesa - Eu gesticulei - Já devo ter perdido uns três telefonemas.
- Tudo bem, eu... - Ele estava tímido, sem jeito, uma graça. Eu tentei me fazer de moderninha, mas no fundo eu também estava morrendo de vergonha. - Eu vou ficar aqui... é isso. Ahn... ?
- Sim?
- Não conta pra ninguém, pode ser? Sobre o que aconteceu aqui hoje... É... Você sabe. - Ele pediu.
- Claro! - Eu disse prontamente - Vai ser um segredo nosso, eu prometo. E... Não fique tímido quando precisar conversar, você sabe onde me encontrar. - Eu sorri.
- Você é linda, alguém já te falou? - Ele perguntou caminhando em minha direção com um sorriso lindo nos lábios perfeitamente desenhados.
- Já, claro! Todos os dias - Eu brinquei - Mas é sempre bom ouvir de alguém como .
Ele se aproximou ainda sorrindo. Eu poderia sair dali e acabar logo com tudo antes de começar, mas eu fiquei parada sentindo a parede gelada em contato com o meu corpo quente. Eu apertei a maçaneta da porta com umas das mãos, pronta para sair correndo como uma criança, para manter a promessa de ficar longe dele. Mas parou a poucos passos de mim e fez bico, me olhou como se fosse uma criança e, num segundo, toda minha promessa estava indo por água abaixo juntamente com o meu auto controle, eu o puxei pela gravata e nós rimos. Ele colou nossos corpos me puxando pela cintura e me deu um selinho. Eu passei meus braços em volta de seu pescoço e ele iniciou um beijo, e sua língua rapidamente desenhou o contorno dos meus lábios, e eu a mordisquei de leve. Nossas línguas se tocaram suavemente, sem pressa, como da outra vez. Nosso beijo foi calmo e delicado, chegava até ser inocente.
Eu sorri, quebrando o beijo; ele acariciou meu rosto e nossas testas se tocaram. Eu fechei os olhos e inspirei todo o perfume dele, como se o tempo tivesse parado.
- ? - Ele me chamou novamente quando eu tentava sair do escritório. Eu arqueei a sobrancelha em resposta. - Posso te levar para jantar hoje? - Ele deu um sorriso torto.
- Eu adoraria! - Falei, saindo finalmente da sala.

- Deus! Você come como um adolescente em fase de crescimento. - disse rindo enquanto olhava para o meu prato no restaurante em que jantávamos.
- Deus, você é muito indiscreto. - Eu reclamei. - Você acha que eu to gorda? Eu deveria comer menos, não é? O vive dizendo que eu to gorda...
- Oh! Desculpa, ... - Ele disse visivelmente envergonhado - É que a maioria das mulheres com quem eu saio, e mesmo Frankie, o que você está comendo no jantar seria o suficiente para elas se alimentarem por uma semana. E quem é ?
- O que eu posso dizer? Preciso manter meu corpo de brasileira. Não vem ao caso - Eu ri do comentário.
- Você também faz o cabelo e todas aquelas coisas antes de dormir pra acordar 'fabulosa'? - Ele perguntou fazendo aspas com as mãos.
- Tá brincando, ? É claro que não, se bobear eu durmo até de sapatos. - Eu falei fazendo-o dar risada. - É sério, eu não me encaixo no perfil dessas mulheres com quem você sai, eu sou normal. Só isso.
- Eu nunca saí com uma mulher normal - disse malicioso.
- Quem sabe um dia você tenha essa sorte. - Eu o cortei. - Se você disse que elas não comem, que tipo de programa vocês fazem?
- Elas não comem, mas eu sim. - Ele disse fazendo cara de anjo e eu logo entendi o duplo sentido.
- Seeei. - Eu ri.
- Eu gosto de você, . - Ele disse pegando minha mão por cima da mesa e me olhando docemente. - Você é uma ótima secretária, e amiga também.
Talvez eu pudesse ser mais que isso, pensei.
- Fico sem jeito quando me elogiam. - Confessei encarando a toalha de mesa do restaurante italiano.
- E fica linda! - O celular de tocou e sua expressão mudou para indiferença enquanto atendia.
- Oi. - Ele disse sem ânimo. - Estou no trabalho, onde mais eu estaria? Eu não me lembro de ter prometido que jantaria com você, Frankie!... Eu sei que você acabou de chegar de Paris, como eu esqueceria, não é?... Olha, não começa a fazer drama, eu não tenho saco pra isso. Quando eu chegar, a gente conversa... Ela não se cansa de ser chata. - Ele comentou infeliz. Eu sorri amarelo e terminei de comer, peguei a bolsa e chamei o garçom.
- Acho melhor nós irmos andando, é uma caminhada daqui até a minha casa. Eu deveria ter vindo de carro. - Suspirei.
- Tá louca? Eu vou te levar em casa, é claro! - disse se levantando e colocando o dinheiro em cima da mesa. Nós saímos para a rua iluminada e o vento era cortante. Eu vestia apenas camisa social e blazer e me arrependi na mesma hora de não ter escolhido roupa melhor.
- Que frio. - Eu comentei batendo os dentes e me abraçando.
- Aqui, veste isso. - Ele tirou o terno caro e o colocou nos meus ombros. Eu teria recusado aquilo, mas estava morrendo congelada e não estava em condições de recusar nada.
- Obrigada. - Eu sorri.
Nós fomos em silêncio até a minha casa. Sempre que parávamos no farol, me olhava e sorria como uma criança. Eu ficava tímida e desviava o olhar.
- Acho que eu mereço um último beijo, não? - Ele perguntou me puxando para perto dele quando chegamos à entrada do meu prédio. Eu o beijei no rosto com um sorriso vitorioso.
- Eu acho que não. - Eu tirei o terno e o deixei no banco onde estava sentada, olhei-o uma última vez e caminhei para casa.

Capítulo Sete



Acordei na manhã seguinte. O tempo continuava fechado e o relógio marcava 9:29 am; já estava pronta para começar a reclamar quando me lembrei que, por sorte, era sábado. Pensei em me levantar da cama, mas o tempo frio me deixava com preguiça. Fiquei deitada olhando para o teto, com o cobertor até o pescoço; pensei em tudo que havia me acontecido nos últimos meses: em como eu havia ignorado os conselhos de Ella e me apaixonado. Agora sim tudo fazia sentido pra mim: era um cachorro por culpa do pai, e eu não podia deixar de sentir pena por isso. Eles pareciam tão unidos e, na verdade, era só fachada. As palavras de e a imagem dele chorando nos meus braços me dava arrepios.
- Que merda! - Falei dando um murro no travesseiro - Eu estou tão apaixonada.
Me sentei na cama e abracei os joelhos. A temperatura havia caído muito e a janela do meu quarto, antes com vista para um pequeno jardim, agora estava totalmente coberta por uma espessa camada de neve. A porta foi aberta lentamente e entrou no quarto carregando o cobertorzinho e um boneco Darth Vader de pelúcia.
- Oi, mãe. - Ele disse sonolento deitando-se ao meu lado e puxando o cobertor.
- Oi, amor... - Eu disse vagamente dando-lhe um beijo na testa e me deitando junto dele.
- Sonhei que a gente ia pra Disney... - Ele disse brincando com uma mecha do meu cabelo.
- Nós já conversamos sobre isso, . - Eu disse encarando o teto - Não podemos ir só nós dois... E eu nem tenho tempo pra isso. Você sabe.
- É... - Ele disse desanimado.
- Que cheiro é esse, ? - Eu falei desconfiada enquanto entrava na cozinha e dava de cara com ela, literalmente, com a mão na massa.
- Resolvi fazer o almoço hoje! - Ela disse animada.
- E eu posso saber qual vai ser o cardápio, chef? - Eu disso indo me sentar com para ver desenho.
- Surpresa! - Ela sorriu - Mas eu posso garantir que vai te fazer se lembrar da sua terra.
Eu concordei com a cabeça, olhando-a de maneira engraçada, e isso acendeu uma lampadazinha na minha cabeça.
- Amiga, tudo bem se eu chamar uma pessoa pra almoçar aqui? - Eu perguntei ansiosa.
- É o ? Porque, se for ele, é claro que pode; eu posso até colocar alguns temperos afrodisíacos na comida e... - Ela viajou.
- Não, não é ele. - Eu disse acabando com a alegria dela. - É o , um amigo meu. Acho que vocês vão gostar de se conhecer, ele morou um tempo no Brasil.
- Por mim, tudo bem. - Ela fez cara de decepcionada.
- , ... Você viaja demais, garota! - Eu brinquei. - ? - Eu disse simpática e animada quando ele atendeu o celular. - É a !
- Hei! - Ele disse animado.
- Algum compromisso para hoje? - Perguntei andando de um lado para o outro na sala.
- Não - Ele disse desconfiado - Quer me levar pra sair? - Nós rimos.
- Na verdade, eu queria te chamar pra almoçar aqui em casa mesmo. - Eu disse um tanto envergonhada - Aquela amiga que eu te falei, tá lembrado? Ela vai cozinhar hoje, e ela cozinha super bem. Garanto - Eu o convidei. Passei meu endereço e ele confirmou que viria, estava meio desanimado, mas quando eu comentei da comida brasileira ele se animou na hora.
- Ele vem? - perguntou curiosa deixando o avental na cozinha e se sentando em frente à TV com .
- Vem. - Eu disse sorrindo. - Vocês vão adorar um ao outro, aposto. - Agora me diz - Eu olhei para ela com os olhinhos pequenos - O que você tá aprontando naquela cozinha?
- Você é muito chata, hein! - Ela reclamou - Eu usei aquela receita de cuca da minha avó.
- Ai, ... Você não tem noção - Eu disse séria e ela me olhou assustada.
- O que foi agora?
- E adoro as comidas que a sua avó fazia! - Eu disse gesticulando - Quando eu estava grávida, andei a cidade inteira procurando algum lugar que vendesse cuca, mas não fui muito feliz na minha caçada. - Fiz cara de triste.
- Então foi por isso que o nasceu com essa cara. - Ela brincou apertando as bochechas dele.
A casa estava inteira cheirando à comidinha de vovó. estava se montando toda porque, segundo ela, 'nunca se sabe quando alguém pode se apaixonar por você'. Tentei beliscar um pedaço da sobremesa que ela havia acabado de colocar em cima da mesa, mas ela me bateu com uma colher de pau e exigiu que esperássemos pela visita. Visita essa que estava atrasada.
- Deve ser ele! - Eu corri para a porta ao ouvir a campainha tocar. - !
- Ei, ! - Ele sorriu assim que eu saí da frente para ele entrar timidamente e me entregar um buquê de flores. - Eu me atrasei um pouco... Não queria chegar de mãos vazias e... - Ele estava visivelmente muito tímido.
- Relaxa - Eu sorri. - A casa é sua! Você pode ficar aqui com um pouquinho enquanto eu chamo a pessoa que eu quero te apresentar. - Ele sentou ao lado de , que sorriu para ele e ofereceu biscoitos.
- Você gosta de Bob Esponja? - Eu ouvi perguntando. - Eu deixo você assistir comigo, eu tenho uns brinquedos também, se você quiser brincar, eu te empresto.
- ? - perguntou surpresa enquanto chegávamos à sala.
- ? - abriu um sorriso de orelha a orelha. - Eu não acredito!
- Peraí... Desde quando vocês se conhecem? - Eu perguntei confusa com os olhos semicerrados.
- , eu nunca te contei? - perguntou ainda surpresa, agarrada a num abraço.
- Pelo jeito, não. - Eu disse enquanto me sentava ao lado de , que nem havia percebido a situação confusa. - Mas pode começar agora.
- Na verdade, e eu saímos algumas vezes quando ele ainda morava no Rio. - explicou ainda sorrindo ao lado de .
- É... - continuou. - E aí, quando as coisas estavam ficando sérias, eu tive que voltar pra cá e nós perdemos totalmente o contato.
- Deixe eu ver se eu entendi - Eu, lentamente como se eles fossem dois bebês - Você tiveram um caso no Brasil e agora se reencontraram aqui, na sala do meu apartamento?
- Exatamente! - concluíu indo até a sala de jantar, onde ela tinha arrumado para o almoço.
- Eu vou querer saber mais sobre isso mais tarde. - Eu reclamei fazendo uma cara séria e eles riram.
Nós sentamos finalmente para almoçar depois de elogiar (lê-se: puxar o saco) tudo que havia feito, desde a decoração da mesa até a comida, e como ela estava mais bonita do que da última vez. tagarelava com sobre um novo jogo de vídeo game que havia sido lançado e tentava dividir a atenção entre ele e . Eu fiz questão de saber da história inteira enquanto comíamos a sobremesa. Os dois se dividiam para contar a história inteira, com pausas para sorrisinhos melosos e olhares. Pelo que eu consegui entender os dois se gostavam de verdade. Foi na época em que eu fiquei grávida. Se não me falhava a memória eu até me lembrava de um telefonema em que comentou sobre um britânico com quem ela estava saindo, mas eu nunca pensei em imaginar que poderia ser o . Mundinho pequeno esse, não?
- Sabe do que eu to com vontade? - Eu soltei a pergunta no ar enquanto e tiravam a mesa, e estava jogado no tapete da sala com a barriguinha prestes a explodir depois de repetir três vezes a sobremesa.
- Do quê? - perguntou curioso.
- Caipirinha! - Eu disse aos risos enquanto ria junto sem nenhum motivo aparente.
- É aquela bebida de limão com vodka e açúcar? - perguntou.
- Essa mesma. - respondeu abrindo a geladeira e tirando uma garrafa preta de absolut 100, seguida por alguns limões. Eu sorri para ela adivinhando que ela mataria minha vontade, e ela sorriu de volta pegando o açúcar e os copos no armário.
- Essa vodka não é muito forte? - perguntou receoso.
- Tem uma absolut vanila aqui também se você quiser, . Mas é de mulherzinha - disse como quem não quer nada, mas eu sabia que aquilo seria suficiente para fazer mudar de ideia. Ele se inclinou para olhar dentro da geladeira e fez uma cara que fez rir escandalosamente.
- , você anda fazendo contrabando de bebidas ou o quê? - Ele perguntou pasmo. - Eu nunca vi uma geladeira de mulher com tantas garrafas assim, é uma coleção! Pode até competir com o .
- Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, ! - Eu ri e ele riu também.
havia cortado os limões e colocado-os numa bandeja do Mickey, que eu havia comprado na Disney, fez um malabarismo e equilibrou todos os objetos nas mãos até a mesa na varanda. A temperatura havia subido um pouco, mas nada que pudesse ser considerado calor. Nós três nos sentamos como três desocupados e começamos a beber drink atrás de drink. foi o que mais bebeu e, talvez por não estar acostumado, ficou bêbado rapidamente. Eu não estava exatamente sóbria, mas era a que tinha mais condições de dirigir pelas ruas escorregadias de Londres para levá-lo em casa. Já era noite quando ele resolveu ir embora e foi um trabalho e tanto para fazê-lo entrar no carro. ficou encarregada de colocar no banho e fazer o jantar enquanto eu fazia meu dever de 'motorista da rodada'. Por sorte, a empregada de estava em casa e me ajudou a levá-lo para dentro. Prometeu que cuidaria dele e que ele estaria novinho em folha até segunda-feira. Eu me despedi de e ele murmurou algo como:
- Diga a ... que... eu quero vê-la... outra vez. - Pelo menos foi o que eu consegui entender, falar com bêbados não é uma das coisas mais fáceis.

Capítulo Oito



- Então... você e o ... parabéns. - disse assim que entrei no escritório segunda de manhã, o que me fez rir um pouco alto demais.
- Eu e o ? - Eu perguntei enquanto ele me olhava sério. - A gente não tem nada, . Nunca tivemos.
- Não? - Ele parecia surpreso, e até feliz, eu diria. - Mas eu vi seu carro em frente à casa dele no fim de semana e...
- Não, , eu convidei para almoçar lá em casa porque ia cozinhar - Eu expliquei calmamente enquanto me sentava no sofá. - E você nem adivinha, os dois se conheciam do Brasil e eu não fazia ideia! Nós ficamos a tarde toda conversando e o exagerou nas caipirinhas, tive que bancar a motorista da rodada e levá-lo em casa.
- Ah - Ele disse visivelmente envergonhado. - Me desculpe. Quer dizer, você nem me deve satisfações nem nada...
- Tudo bem. - Eu sorri - Você ficou com ciúme? - Eu brinquei, com o coração acelerado com a possível chance dele sentir alguma coisa em relação a mim.
- Fiquei. - falou distraído, mas logo retomou a atenção e se apressou em se contrariar. - Quer dizer, não. Não fiquei, só fiquei... curioso.
- Entendo. - Eu disfarcei um sorriso. Nós ficamos em silêncio. Eu fingia observar a vista, e ele fingia ler um relatório.
- Posso te beijar? - quebrou o silêncio, me fazendo congelar dos pés à cabeça com o pedido. Eu engoli em seco e assenti automaticamente. Esse havia sido um dos pedidos mais inesperados que eu já havia escutado. Ele sorriu timidamente, me fazendo rir também. Eu me levantei e caminhei até ele; antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele passou as mãos pela minha cintura e me apertou, fazendo com que nossas testas se tocassem. Eu sorri quando ele encostou os lábios nos meus e eu tive certeza de que ele podia ouvir meu coração batendo. Eu passei os braços delicadamente pelo pescoço de , parando umas das mãos na nuca. Minhas mãos sentiam falta de tocar os cabelos tão macios, e meu nariz, agora tocando o dele, sentia falta de inspirar o perfume tão bom. Ele permitiu imediatamente que nossas línguas se tocassem e eu me apressei em intensificar o beijo.
- Você tem gosto de chá gelado. - Ele sussurrou entre o beijo - Eu amo chá gelado.
Nós caminhamos até a mesa de vidro ao lado oposto da sala, sem interromper o beijo. Ele me pegou pela cintura e me colocou sentada em cima da parte de madeira. Eu agradeci por isso em pensamento, não queria correr o risco de não me aguentar em pé em cima das pernas trêmulas. Não sei por quanto tempo ficamos nos beijando ali, mas quando me lembrei de como respirar, me lembrei também de todas as reuniões que tinha marcadas para hoje.
- ... - Eu tentei falar enquanto ele mordia meu lábio - Você tem uma reunião daqui a dez minutos.
- Jura? - Ele perguntou frustrado enquanto tentava se afastar de mim e me dava vários selinhos - Não brinca!
- É sério... - Eu disse enquanto descia da mesa e fechava os botões da blusa. - Dá próxima vez, não precisar pedir. - Eu pisquei e sorri.
- Bom saber. - Ele riu e meu deu um selinho; eu fui para minha mesa com a cara mais deslava do mundo enquanto ele pegava o material que precisaria para a reunião e saia do escritório, logo atrás de mim - Janta comigo?
- Talvez... - Eu disse em meio a um sorriso, e ele desapareceu atrás das portas do elevador.

Eu visitei Ella, fui ao terraço, pedi uma torta de framboesa, tomei três cafés, organizei papeis, arrumei o escritório, anotei recados, falei com , cochilei, fui ao banheiro, fiz as unhas e ainda não havia voltado. Eu não tinha muito do que reclamar do meu emprego, ganhava bem e não fazia muita coisa, diferente de todas as outras secretárias pseudoescravas dos outros setores, mas era um pouco entediante às vezes. Tipo agora.
O céu já estava tingido de um tom arroxeado e o vento entrava calmo pela fresta aberta na janela. Dias assim eram raros, e me enchiam de esperança.
- ... interrompo? - perguntou entrando sorrateiramente na sala e se pondo ao meu lado.
- Não, claro que não. - Eu disse sem tirar os olhos da vista - Eu estava só... observando.
- Eu queria saber se... não tem problema pra você se eu fosse até a sua casa hoje, sabe, falar com a - Ele disse meio acanhado - Eu queria conversar mais e... me desculpar pelo estado em que fiquei depois das caipirinhas. E, por sinal, obrigada pela carona.
- , você pagou muito mico. - Eu disse em meio a gargalhadas, agora parando para olhar para ele - Mas tudo bem, a não ficou muito atrás de você. - Ele relaxou e riu também.
- Minha vontade é de cavar um buraco até a China toda vez que eu me lembro disso. - Ele confessou.
- Quanto a você ir ver , eu acho que você já deveria estar lá. - Falei - Sabe, a casa é dela também e eu não me importo nem um pouco que você frequente minha casa. Eu gosto de você, .
- Obrigado, ! - Ele me abraçou e me girou no ar, sorrindo - Eu tenho muita coisa pra falar pra ela.
- Então corra, oras - Eu o encorajei - A propósito, já é meio caminho andando se você der uma passadinha na confeitaria da esquina. - Ele levou alguns segundos até entender a dica e abriu um sorriso cheio de vida; sem perder tempo, ele voou por entre a fresta aberta na porta do elevador, ficando com um pedaço do terno para fora sem perceber. Eu começava a achar que havia algo a mais por trás da história que os dois haviam me contado sobre como eles se conheciam. Eu ri sem perceber que alguém se aproximava, e então senti um par de mãos grandes envolverem minha cintura. estava perigosamente perto, e seus lábios gelados depositaram um beijo em meu pescoço descoberto pelo cabelo preso em um coque malfeito, e as mãos apertavam, delicadas, minha cintura. Eu sorri involuntariamente e me virei para olhá-lo. Bastou um segundo para que eu entendesse a expressão sorrindo com os olhos, porque era exatamente o que ele estava fazendo, sorrindo para mim com os olhos mais lindos do mundo. Eu concentrei o olhar em um ponto qualquer da cara gravata em seu pescoço e ele depositou um beijo carinhoso em minha testa, me fazendo rir um pouco menos discreta do que eu gostaria.
- Eu gostaria de te levar a um lugar. - Ele sussurrou próximo ao meu ouvido, me provocando um arrepio dos pés à cabeça. Eu selei nossos lábios e ele me puxou delicadamente para o elevador, apagando a luz por onde passava.
- As minhas coisas ficaram lá. - Eu argumentei enquanto ele me beijava.
- Depois você pega. - Ele disse enquanto apertava o botão da garagem no subsolo - Quando nós chegarmos ao lugar onde eu falei, você não vai nem se lembrar - Ele sorriu torto.

Chegamos ao hall de um luxuoso edifício no centro. O piso era de mármore e colunas altíssimas se erguiam do chão, indo até o teto, onde uma pintura renascentista dava vida ao lugar no melhor estilo "olimpiano". Eu fazia o possível para captar todos os detalhes, desde a pintura e o chão de mármore à luminária de cristal e as flores, que ajudavam na decoração.
- Isso é... é lindo! - Eu sussurrei enquanto me abraçava em frente ao elevador dourado.
- Você ainda não viu a melhor parte. - Ele sorriu e nós fomos até a cobertura. Meu apartamento inteiro caberia dentro daquele elevador. segurou uma de minhas mãos, e com a outra cobriu meus olhos assim que o elevador parou na cobertura. Me conduziu pelo que parecia um pequeno corredor gelado e eu pude ouvir uma pesada porta se abrindo. Subir escadas com os olhos fechados não é lá uma das coisas mais fáceis do mundo, mas tomou o máximo de cuidado para que eu não despencasse em nenhum degrau e acabasse quebrando o pescoço.
- Cuidado com o degrau - Ele sussurrou animado em meu ouvido - É o último.
Eu tive que me segurar em parar não ir ao chão; minhas pernas tremiam e eu estava simplesmente encantada. havia pensado em tudo: nas velas que formavam o caminho da porta até a cama e eram a única iluminação do quarto, as flores espalhadas aos montes por todos os espaços, a música, os morangos. Eu sei. A típica decoração que diz "finjo ser romântico, mas quero te comer", mas ali era diferente. Eu sabia que sim. E eu queria que fosse. Eu desejava aquele homem mais que tudo e meu corpo só reforçava isso, meu coração pulsava tão rápido que chegava a doer dentro do peito, minha respiração era falha, minhas mãos estavam suadas e meu sentidos, embaraçados. Eu o beijei com vontade e com desejo. O mesmo desejo que eu vinha reprimindo durante todo esse tempo e não fiz questão de ser romântica. Eu o desejava e eu o queria agora! Nós fizemos amor em cada espaço naquele quarto, destruímos a decoração, fizemos sexo, e depois amor, e sexo com amor, e com desejo, e vontade, e tudo que eu conseguia pensar era no quanto eu estava fodidamente apaixonada por ele. Respirei fundo. Me livrei dos pensamentos ridículos e começamos tudo outra vez.

O sol que entrava pela fresta da cortina aberta enchia todo o quarto e me permitia enxergar os estragos feitos na noite anterior; as velas apagadas e espalhadas por todo o chão. As taças de champanhe, uma marcada com meu batom e a outra com o líquido pela metade derramado em cima do criado-mudo. Eu sorri silenciosamente. está ali, quem diria. Dormindo feito um anjo ao meu lado, com os braços delicadamente envolvendo meu corpo, o que me permitia olhá-lo de perto, sentir o perfume amadeirado, entrelaçar meus dedos nos cabelos bagunçados e cheirosos e sentir o coração dele tão calmo bater tão perto do meu desesperado, lado a lado. O Rolex dourado no pulso de me fez acordar do transe, o sonho havia sido o melhor de toda minha vida, mas meu filho e minha melhor amiga estavam em casa sem notícias minhas, e minha mesa continuava lá do lado de fora do escritório de esperando por mim.
Eu me livrei cuidadosamente dos braços de e me sentei na cama. Minha mente estava adormecida e me impedia de fazer qualquer movimento que não fosse piscar os olhos, que se perdiam em um canto qualquer do quarto amplo.
- Tudo bem - eu pensei com dificuldade - Só preciso encontrar as minhas roupas e dar o fora daqui!
Eu me levantei cuidadosamente, tentando não tropeçar em nenhuma das roupas espalhadas pelo chão. Recolhi as minhas e me vesti em silêncio. Optei por não calçar os saltos, que com certeza fariam barulho suficiente para acordá-lo quando eu começasse a caminhar. Eu já havia pegado todos os meus pertences, estava atrasada, e com certeza já deveria estar tendo uma síncope com o meu desaparecimento. Meu filho estava em casa sem notícias minhas, e eu estava me sentindo uma adolescente irresponsável. Antes de sair do quarto, fui tomada por uma onde repentina de consciência pesada. Aquele emprego havia me permitido retornar aos meus hábitos de consumista sem limites, eu não precisava da ajuda dos meus pais e eu havia acabado de ir pra cama com o meu chefe. No mínimo eu seria demitida por isso. se mexeu na cama, mas não acordou. Eu parei para olhá-lo dormir por alguns segundos, me aproximei da cama e me ajoelhei ao lado dele. Eu sorri enquanto passava os dedos por entre os cabelos macios de e perdi a noção do tempo. O despertador quebrou o silêncio e me fez ficar em pé num pulo. Corri em direção à porta, mas infelizmente não fui rápida o suficiente.
- ? - Ele chamou com a voz de sono e eu me virei para olha-lo com o corpo inteiro anestesiado. - Por acaso você não estava fugindo de mim, estava?
Eu sorri nervosa, me sentindo a rainha das idiotas por estar tentando sair sem ser vista depois de uma noite daquelas do alto dos meus vinte e seis anos como uma adolescente.
- É claro que não. - Eu menti enquanto me encostava ao batente da porta com a bolsa e os sapatos ainda em uma das mãos e o celular na outra. - Eu só não queria te acordar tão cedo.
- Agora eu já estou acordado - Ele sorriu e mostrou o espaço vazio na cama - Volta pra cá.
- Não posso. - Disse imediatamente - está sem notícias minhas desde ontem e...
- É isso, então? - Ele me interrompeu, ficando sério de repente - Você é casada? Tem alguém te esperando em casa? Eu sabia...
- Não! - Eu disse imediatamente enquanto mil maneiras de contar a ele sobre passavam pela minha cabeça. Eu sabia que, provavelmente, esse seria o cheque-mate, e depois que eu contasse ao que tenho um filho ele daria um jeito de esfriar as coisas entre nós até finalmente voltarmos a ser apenas chefe e secretária. Eu me sentei na enorme poltrona perto da janela e abandonei a bolsa e os sapatos num canto. Estralei os dedos um por um como eu fazia quando estava nervosa ou sob pressão, como era o caso, nervosa e sob pressão. - Eu vim pra Londres pra começar a faculdade, pouco tempo antes das aulas começarem eu descobri que estava grávida - abriu a boca para falar, mas eu fiz que não com cabeça. - e isso atrasaria tudo. Meu namorado na época era vocalista de uma banda falida, ele era drogado e sem perspectiva de vida... O pai o colocou numa clínica de reabilitação afastada da cidade e eu nunca mais tive notícias. Meus pais queriam que e eu voltássemos para o Brasil, mas eu já estava disposta a criar raízes por aqui. está em casa agora, provavelmente desesperado por notícias ou fazer de gato e sapato, porque ela não tem muito jeito com crianças e...
- Isso é tão legal! - me interrompeu, sentando-se na cama com os olhos brilhando de excitação. - Eu quero dizer, você ter um filho. Isso é fantástico. Eu sempre pensei em ter filhos; particularmente, sou ótimo com crianças. Eu posso conhecê-lo?
Eu estava incapaz de pronunciar qualquer som. Esperava que ele arrumasse uma desculpa e me mandasse embora em alguns minutos; talvez, uma criança envolvida fosse demais para ele, mas ele havia me surpreendido. E eu havia gostado.
- , eu...
- Tudo bem - ele riu - Você achou que eu te dispensaria, não é? Que eu usaria seu filho como desculpa. Mas há muitas coisas sobre mim que você ainda não sabe, . E isso é uma delas, eu adoro crianças. Sempre quis ter filhos.
me observou com um sorriso imenso no rosto. Eu estava congelada, tentando processar todas as informações. Quando eu achava que já tinha motivos o suficiente para estar apaixonada, ele me mostrava um lado que me fazia pensar em amá-lo um dia.

Capítulo Nove



- Eu preciso ir agora. - Eu disse me levantando da cama e calçando os sapatos. Digamos que e eu repetimos a dose da noite passada, depois da sessão de confissões. Eu evitei pensar no encontro dos dois porque não fazia ideia de qual seria a reação de , ou talvez porque eu estivesse ocupada demais com . Eu me despedi dele com um beijo na testa, era minha forma de demonstrar afeto. Eu sou fofa, o que posso fazer?
- - Ele chamou quando eu ia chegando no elevador, e ele me olhava da porta com um lençol enrolado na cintura - Não me enrole. Quando e eu poderemos nos ver?
Eu havia evitado pensar nisso durante a manhã inteira, mas parecia que eu não poderia fugir agora.
- Eu vou levá-lo para ver um novo filme de super-heróis no cinema esse final de semana. - Eu sugeri com a intenção dele achar o programa infantil demais e desistir da ideia. Eu teria mais tempo para preparar . - Você pode vir, se quiser.
- Esse final de semana? - Ele ficou pensativo por alguns instantes - É claro! Eu estarei lá. As entradas são por minha conta.
- Ótimo - Eu sorri frustrada. - Te ligo mais tarde para combinarmos, sim?
- Claro! - Ele parecia realmente animado - Eu estarei esperando.

- Achei que tivesse esquecido o caminho de casa, . - falou séria enquanto eu jogava a bolsa no sofá e ia para o banho.
- Eu sei que te deixei preocupada - Eu lamentei - E só... esqueci de avisar.
- Esqueceu-se de avisar? - Ela parecia brava - Como é que alguém se esquece de avisar que vai passar a noite fora de casa quando se tem um filho?
- Eu não fiz por mal, ok? - Eu me desculpei enquanto me sentava no chão do banheiro de calcinha e sutiã e encarava encostada na porta. - Eu estava tão feliz que... eu me esqueci. Me desculpe, eu sei que fui uma irresponsável...
- Tudo bem. - Ela suspirou - Desculpe por ter sido tão chata. Você é esquecida, eu sei disso. e eu ficamos bem sozinhos... dormiu aqui, espero que não se importe.
- ? - Eu perguntei lançando-lhe um olhar malicioso - É claro que não, essa é sua casa também.
- saiu com um coleguinha, eles vieram buscá-lo não faz muito tempo. - Ela tentou mudar de assunto.
- Ele havia me falado. - Eu comentei - Eles foram ao parque ver uma apresentação de mágica ao ar livre.
- É - ela concordou - Foi isso mesmo que ele me disse.
- Mas, então... - Eu continuei enquanto me livrava do resto da roupa e entrava debaixo do chuveiro; e eu éramos amigas há tempo demais para ter vergonha de ficar sem roupa uma na frente da outra. Já havíamos nos visto em situação muito pior - Você e , hein...
- Não começa, . Por favor - Ela pediu, mas em seguida teve um ataque de riso que me deixou confusa.
- Já pode começar, - Eu falei séria enquanto a encarava atrás do vidro do boxe.
- e eu resolvemos nos dar uma segunda chance. - Ela confessou, ficando séria outra vez - No Brasil, quando nos conhecemos, éramos muito novos. Concordamos que entre nós ficou inacabado.
- Nhaaaaaw, isso é tão fofo - Eu fiz um barulho estranho com a boca e riu - Eu estou tão feliz por vocês.
- Eu acho que vai dar certo agora - Ela disse pensativa. - E você e ?
Eu contei a ela tudo sobre a noite passada. Não tudo, na verdade. Só a parte que poderia ser interessante pra ela. Ela disse que talvez fosse bom e se conhecerem, se ele gostava tanto de crianças não poderia ser tão ruim assim. E eu pensei nisso a tarde inteira enquanto saiu com depois do trabalho, que, por acaso, eu havia faltado, porque meu próprio chefe havia me dispensado, e ainda não havia voltado. Fazia tempo que eu não ficava sozinha no apartamento, era bom, mas ao mesmo tempo estranho, silencioso. Eu aproveitei para assistir O Diabo Veste Prada pela milésima vez, pedi comida mexicana e peguei emprestado alguns doces de que haviam na geladeira.
- Eu estava esperando você ligar, mas você não ligou o dia todo, então...
- Tudo bem, . - Eu disse enquanto atendia ao telefone e dava pause no filme com a boca cheia de donuts - Eu me esqueci de ligar, me desculpe.
- Falou com ele? - quis saber, ansioso - Com , eu quero dizer.
- Eu sei, meu amor. - Eu disse calma - Ele saiu com um colega, mas ele vai gostar da ideia.
- Jura?
- Sim, é claro... - Eu menti, já que sabia que era uma criança teimosa e de temperamento explosivo. Ele não era do tipo que se dava bem com as pessoas logo de cara, ainda mais quando a pessoa em questão está indo pra cama com a mãe dele.
- Isso é ótimo. - falou e eu pude perceber que ele estava tentando conter a ansiedade. Nós marcamos às 20h em frente ao cinema; eu resolvi que não diria nada a . Iria fingir que encontramos por acaso, e assim seria mais fácil se ele tivesse um ataque de fúria no meio do shopping. Não sei se era minha péssima memória ou os problemas que estava ocupando minha cabeça, mas eu estava falando do "final de semana" como se ainda faltasse muito tempo, sem me dar conta que já era sexta-feira à noite.
- Oi, mãe. - disse enquanto entrava em casa e ia direto para o quarto. Eu ouvi simpaticamente enquanto a Sra. Hastings dizia o quanto era uma criança obediente e educada e que queria sair com ele mais vezes. Agradeci os elogios enquanto alternava pensamentos como "deve ser porque ele estava em público" e "mãe bem educadas criam filhos bem educados."
- Como foi o passeio? - Eu quis saber, me sentando na beirada da cama enquanto ele tirava algumas coisas da mochila. E eu tentava identificar. Um jogo de cartas "mágicas", uma varinha, algumas moedas e um manual de "Como se tornar um mágico em 10 lições".
- Foi ótimo - Ele disse calmo - Eu aprendi alguns truques e o mágico era muito legal, ele me escolheu para ser o ajudante e me deixou segurar o coelho que saiu da cartola.
- Isso é ótimo, meu amor - Eu sorri - Que tal um banho agora? E depois nós podemos jantar.
- Talvez mais tarde - O temperamento de estava em mudança constante, como um tipo de bipolaridade. Ele era calmo, mas às vezes tinha ataques de fúria incontroláveis e eu suspeitava que ele tivesse herdado aquilo do pai.
- Tudo bem, então. - Eu assenti, deixando-o sozinho - Vou preparar algo gostoso pra nós.
Eu não era exatamente a melhor mãe do mundo, não era saudável e não fazia questão que meu filho fosse. Fiz hambúrguer com batata-frita e copos gigantes de coca-cola. apareceu de pijama na cozinha, com o cobertor e travesseiros que quase o afogavam.
- Isso parece gostoso - Ele disse com a boca cheia enquanto jogava tudo em cima do sofá, se sentava numa cadeira alta e enchia a boca de batata.
- Achei que você só fosse tomar banho mais tarde - Eu comentei enquanto levava os pratos para a sala e colocava um filme no DVD.
- Mudei de ideia - Ele justificou calmo enquanto apagava a luz e ia se sentar ao meu lado embaixo dos cobertores. Ele comeu metade do hambúrguer e deitou a cabeça no meu colo. O filme era chato e eu estava morrendo de sono. Mas achei que seria uma boa hora para prepará-lo.
- , o que você acharia se eu tivesse um namorado? - Eu perguntei.
- Eu iria odiar - Ele disse sincero - Estamos bem assim, só eu e você. E a tia . Você não acha?
- Acho - Eu sorri nervosa - Claro que acho.
me mandou uma mensagem por volta das 2:00 da manhã avisando que não iria voltar pra casa e que estava me mandando um beijo. estava dormindo no meu colo e o filme já havia acabado há muito tempo. Eu estava com preguiça de levá-lo para a cama e arrumar a bagunça. O sofá estava me parecendo muito atraente àquela hora.

estava me apressando enquanto eu procurava meus brincos por todos os cantos do apartamento. Isso incluía dentro de armários, embaixo das camas e dentro da geladeira. Tem esse fato estranho sobre mim: eu costumo esquecer coisas dentro da geladeira. ainda não havia dado as caras desde que me mandou a mensagem, havia me ligado pelo menos três vezes para ver se o encontro dele estava de pé e estava começando a ficar irritado.
- Mãe! - Ele gritou da sala enquanto eu finalmente colocava os malditos brincos e calçava os sapatos. - Nós vamos nos atrasar... e a culpa vai ser toda sua.
- Tudo bem, reizinho mandão. - Eu disse enquanto pegava todo tipo de coisa que eu sempre levava quando saia de casa: chaves, bolsa, um cachecol, pro caso da neve resolver cair, e empurrava para fora de casa, trancando a porta logo atrás de nós. - Nós já estamos de saída.
Eu estava nervosa. estava achando que era um tipo de criança comum, fofa, boba e doces resolvem qualquer coisa. Mas eu sabia que ele provavelmente surtaria e jogaria a pipoca no chão, ou sairia correndo pelo cinema gritando feito louco. Ele não era uma criança fácil. Sem contar com o fato dele ser um mini gênio matemático.
- Mãe - Ele chamou sem tirar os olhos da rua que passava através dos vidros semiabertos. Eu fiz um movimento com a cabeça para mostrar que o estava ouvindo e ele sorriu. - Eu te amo.
- Eu também te amo, meu amor.
- Podemos comprar marshmallow ao invés de pipoca? - Ele quis saber.
- Claro - Eu tentei parece relaxada - O que você quiser.
A fila, quando chegamos ao cinema, era imensa. Crianças acompanhadas dos pais por todos os lugares, casais de namorados e alguns jovens solitários faziam parte dessa fila. estava nos esperando perto da bilheteria, e se me permitem dizer, ele estava lindo. Vestia jeans escuro e um casaco pesado marrom, cachecol, e carregava uma sacola da loja temática do filme Os Vingadores. Era pra colocar um pouco de charme, Deus derramou o pote todo naquele homem. Ele sorria para nós, meio tímido, meio ansioso, e eu tentava retribuir o sorrisinho da maneira mais simpática quanto fosse possível.
- Eu convidei um amigo meu para vir conosco, - Eu disse baixinho enquanto me abaixava para arrumar o cachecol dele - Espero que não se importe.
- Tudo bem, mãe - Ele parecia desinteressado - Desde que ele não se atrase, porque eu não quero perder os trailers.
- Ele já chegou, está vendo? - Eu apontei discretamente para e confirmou com a cabeça. - O nome dele é . Seja simpático, . Por favor.
me fez comprar um saco enorme de marshmallows, balinhas, chocolates e um copo maior que ele de coca-cola.
me abraçou pela cintura e encostou o nariz gelado em meu pescoço na parte em que o cabelo deixava livre. Eu ignorei o olhar desconfiado de e fiz questão de acabar logo com aquilo.
- , esse é o - Eu apresentei e abriu um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira.
- E aí, garotão! - cumprimentou animado e meio sem jeito.
- Oi, - retribuiu simpático e um tanto irônico - Qual é o seu herói favorito?
- Homem de Ferro, sem dúvidas. - respondeu de imediato e eu percebi que ele estava entrando no jogo de .
- É... Eu gosto dele também - comentou pensativo - E seu personagem mais favorito de todos?
- Darth Vader, é claro! - respondeu e eu me questionei se ele estava apenas fazendo uma média com ou se eu teria que cuidar de duas crianças.
- Seu jogo favorito de Playstation? - continuou o questionário.
- Gears of War 2 - respondeu com um sorrisinho malicioso - No Xbox.
- Acho que nós podemos dar um jeito nisso - sussurrou mais para si do que para . - Eu gostei de você. Acho que podemos ser amigos.
Eu não era o tipo de mãe controladora, e nem poderia. Não passava autoridade e sabia disso, por isso, apesar da pouca idade, passava horas na frente do videogame e entendia mais do que muito adultos de jogos e essa coisa toda. Mas, aparentemente, estava o amolecendo.document.write(Dougie) se animou enquanto tirava da sacola três camisetas temáticas com todos os heróis na frente e uma frase do filme atrás. Ele tirou o casaco e vestiu a maior por cima da blusa, nem se deu ao trabalho, e depois de alguns minutos conseguiu finalmente vestir a dele por cima do casaco e do cachecol. me entregou uma que me parecia feminina, a julgar pelos detalhes em roxo, diferente das outras duas. Eu sorri incrédula enquanto pegava a camiseta e abria a bolsa para guardá-la.
- Qual é, ? - reclamou pegando a camiseta da minha mão e vestindo em mim como se eu fosse uma criança. - Você tem que entrar no clima, . Não é mesmo, ?
- Mamãe, por favor... - pediu fazendo beicinho. - Ou vou contar ao que você chora quando assiste A Bela e a Fera.
Eu o fuzilei com o olhar e vesti a maldita camiseta, finalmente. tinha comprado também copos temáticos e um livrinho para colorir.
Eu não era exatamente fã de super heróis, mas havia conseguido os melhores lugares e, nesse caso, até um filme chato poderia se tornar interessante. Eu queria sentar ao lado de , mas , por sua vez, queria sentar-se com . E sentou entre nós dois. O pouco tempo que antecedeu o início do filme me pareceu uma eternidade, porque meu futuro namorado e meu filho não paravam de falar um minuto sobre quem iria matar quem, quem tinha o poder mais legal e eu me sentia um completo peixe fora d'água. Ao menos, os dois estavam se dando maravilhosamente bem. E eu aproveitei para saber de como havia sido a noite dela e tentar explicar por SMS toda a situação do presente momento.
Não havia nem chegado até a metade, mas para mim o filme já estava completamente confuso. Desisti de vez de entender quem era o vilão e quem era o herói e surrupiei o saco de M&M's de para procurar somente os marrons com a luzinha fraca do celular.
- Esse filme foi demais - começou hiperativo enquanto saia no colo de e eu ia logo atrás, apenas ouvindo a conversa dos dois sem poder fazer sequer um comentário, já que eu era completamente oca nesse assunto. - Você viu como eles lutavam? Foi incrível.
- Eu não vi nada demais nesse filme - Eu comentei rabugenta.
- É porque você não entende de assunto de meninos - provocou.
- Mãe, tudo bem se o for lá em casa qualquer dia me mostrar os jogos dele? - perguntou e me fez sentir uma pontada de felicidade; então, eles realmente haviam se dado bem e conseguiu vencer a ferinha.
- Claro - Eu sorri - Por mim, tudo bem.
havia deixado o carro em casa e foi logo tomando conta das minhas chaves. Resolvemos, em cima da hora, irmos jantar num restaurante inaugurado há pouco tempo no centro, e falava sem parar. O telefone de tocou, mas ele desligou imediatamente e ficou branco feito papel.
- Tudo bem, ? - Eu perguntei preocupada.
- É só um pequeno problema. - Ele assegurou.
Apenas um problema alto, loiro, magro, com uma conta bancária recheada de milhões, e um pai disposto a fazer todas as suas vontades.

Capítulo Dez



Desde o encontro de e , eles estavam como carne e unha. me levava em casa quase todas as noites e ficava para jantar e jogar vídeo game. havia decidido juntar as escovas de dente com e me abandonou. Preciso dizer a falta que ela faz? não morava muito longe, mas não ter com quem conversar no meio da noite estava me enlouquecendo um pouco, especialmente quando coisas estranhas começaram a acontecer. Os dias estavam passando muito depressa, dois meses já haviam se passado e e eu estávamos tendo algo realmente sério. Não como um namoro, porque ainda não tínhamos tocado no assunto, mas não éramos apenas ficantes. Saíamos sempre com como uma família, eles se divertiam e não raramente eram confundidos com pai e filho, e de qualquer maneira, isso me dava uma pontinha de esperança. ficava com quase todos os finais de semana, em parte porque ela e eram apaixonados por e competiam com para ver quem o deixava mais mimado. E em parte porque eles sabiam que e eu precisávamos de um tempo sozinhos.
Era uma dessas sextas-feiras. Ter algo com me dava bônus como, por exemplo, faltar ao trabalho sem ter o salário descontado. aparecia pouco menos de duas ou três vezes por semana na empresa, e me dava passe-livre para ficar em casa também, já que eu não teria trabalho para fazer quando ele não estivesse presente. Eu havia buscado na escola com , e depois de passarmos no shopping para comprar um jogo violento de vídeo game (sem minha autorização, que fique claro! Não aprovo esse tipo de jogos, mas tem um enorme poder de persuasão), o deixamos com na portaria do prédio para irem buscar no centro.
- Tudo bem... se você for minha... agora... - sussurrou pausadamente enquanto entrávamos aos beijos no meu apartamento - eu estou com saudade... você sabe.
Eu sorri e ele me deitou no sofá. Nós ficamos em silêncio por alguns minutos e eu o beijei. Eu não preciso dizer o que veio depois, certo? Em algum momento enquanto me fazia inteiramente dele, ele me olhou no fundo dos olhos, fazendo uma promessa silenciosa.
- Você é linda, . - Ele sussurrou - Eu tenho sorte por ter você.
- Eu é que tenho sorte, - Eu sorri, adorava chamá-lo pelo sobrenome - Eu te...
- O que você quer? - O celular em cima da mesinha de cabeceira tocou, me interrompendo. O humor dele mudou de repente, e ele atendeu com má vontade. - Eu estou ocupado agora. Tudo bem, que seja.
- Está tudo bem? - Eu perguntei preocupada.
- Problemas. - Ele respondeu enquanto se levantava e vestia as roupas, que estavam espalhadas pelo chão.
Problemas. Problemas. Ultimamente todos os telefonemas estranhos que recebia eram chamados de "problemas". E eu já tinha um nome em mente.
- Você já vai... - Eu sussurrei. Era mais como uma pergunta retórica. Eu sabia que ele ia.
- Eu preciso ir - Depositou um beijo em minha testa e sorriu sem vontade - Me desculpe, ok? É a última vez.
- A última vez... - Eu sorri irônica.
- Eu prometo, .
É claro que promete. Eu pensei. Alguma coisa estava muito estranha e eu sentia isso. e eu estávamos juntos, mas era mais como um namoro adolescente, escondido, por baixo dos panos. Eu quase nunca esquecia que ele era noivo, e que precisava casar para salvar o futuro da empresa. Eu ainda estava deitada apenas de roupas íntimas no sofá, que agora parecia muito mais espaçoso do que realmente era. Era assim que eu me sentia quando ia embora. Mais vazia do que eu realmente sou. Londres estava de bom humor, eu pude ver pela varanda da sala. O vento continuava gelado, mas era um dos dias em que o sol havia resolvido dar às caras. Londres era uma cidade um pouco bipolar. Um dia de verão 40º, outro dia de inverno -30º. A pequena praça bem cuidada do outro lado da rua me parecia bastante chamativa. Uma hora e meia depois, eu estava saindo de casa um pouco mais agasalhada do que o normal, já que parecia que o frio me atingia muito mais do que ao resto da população. Passei num pequeno café discreto e convidativo no final da rua, e por um momento quase mudei meus planos e resolvi ficar por lá. Era quente e aconchegante, o que mais eu precisava? Comprei um café forte, alguns docinhos engordativos e decorados e caminhei pensativa até o banco mais afastado da praça. O que me permitia ficar embaixo de uma enorme árvore envelhecida de folhas secas e alaranjadas. Me sentei com perninhas de índio, como diria , e me perdi com o olhar congelado em algum ponto fixo do pequeno lago de águas escuras. Suspirei.
- A senhora está bem, moça?
Eu pisquei algumas vezes tentando voltar à realidade. Sentia meu rosto molhado e a visão embaçada. Eu havia chorado.
- Precisa de ajuda? Quer que eu ligue para o seu marido ou algum amigo? - Dois pares de olhinhos incrivelmente verdes me olhavam preocupados. Dois meninos de diferentes idades, mas provavelmente irmãos, estavam parados em minha frente e me olhavam apreensivos.
- Tudo bem - Eu tentei responder, mas minha voz saiu falha e embargada - Eu estou bem, de verdade.
- Mas a senhora está chorando - O menor deles falou enquanto me sorria com doçura - E quando as pessoas choram, é porque algo está errado.
- Algumas pessoas choram de emoção. - O mais velho comentou.
- Mas ela não parece emocionada, parece triste. - Ele continuou e me fez parar por um momento. Eu estava chorando, sozinha na praça, chorando. Com um café provavelmente frio e chorando. Com uma caixa cheia de docinhos que mais pareciam enfeites de geladeira de tão bonitinhos e chorando. Por que diabos eu estava chorando?
- Eu vou ficar bem - Eu sorri chorosa - Vocês são crianças muito fofas, sabiam? Vocês gostam de doces?
- Gostamos! - O menor respondeu por ele e pelo mais velho. Eu sabia que não iria comer nem metade daqueles doces; na verdade, eu não iria comer nenhum deles. Entreguei a caixinha para o pequeno, mas antes tirei dois docinhos decorados com rostinhos sorridentes.
- Vocês podem ficar com eles - Eu sorri.
- Mesmo? - O menor parecia realmente feliz - Obrigado!
- Mesmo. Vocês merecem, foram bons comigo - Eu sentia meus olhos se encherem de lágrimas outra vez. Antes que eu pudesse perguntar seus nomes ou qualquer outra coisa, uma moça de meia idade apareceu procurando por eles, e eu engoli o choro antes que desabasse na frente dela.
- Me desculpe se eles te incomodaram - Ela disse com voz severa, mas não parecia que ela realmente estava se desculpando por algo - Eles são meninos mimados e sem limites.
- Tudo bem - Eu falei séria - Eles são ótimas crianças, só estavam me ajudando. A senhora tem filhos muito bem educados.
- Não são meus filhos. - Ela disse desinteressada. - Eu sou apenas a babá.
E saiu puxando os dois pelas mãos, sem me dar tempo para agradecê-los. Enquanto os três se afastavam, o menor dos irmãos se virou para trás e me lançou um sorriso carinhoso. Eu pude perceber que estava faltando um dente da frente e não pude deixar de sorrir de volta. Mas quando os três finalmente sumiram no pequeno caminho de pedras que dava para a parte aberta da praça, sem tantas árvores ou bancos onde as pessoas se deitavam em dias quentes e liam livros e as crianças brincavam de correr de um lado para o outro, eu estava sozinha novamente, e agradeci por isso. No segundo seguinte, desabei outra vez e ainda não sabia o motivo. Ou talvez eu soubesse, e as coisas começaram a clarear em minha cabeça. Eu chorava porque o amava. E por sabia que aquilo era um erro. E porque nada deveria ter passado de sexo casual com o chefe. E chorava por ele ser tão perfeito como ser humano, e como pai para e como amigo para e como chefe e como... Eu não achei a palavra que pudesse definir o que tínhamos. Mas ele era bom para mim, e eu chorava especialmente por isso. Mais cedo ou mais tarde as coisas iriam tomar o curso traçado pelo destino, e o destino dele não era ter uma vida ao meu lado, e sim ao lado de Frankie. Querendo ou não, ela também o amava. E por mais que ela não merecesse, era com ela que se casaria. Chorava porque o amava e não deveria amar.
Eu queria vê-lo e abraçá-lo, e me sentir única pra ele mais uma vez, mas provavelmente ele estivesse muito ocupado e seria constrangedor aparecer no apartamento dele e dar de cara com uma reunião de negócios ou uma coisa do tipo.
Eu fui pra casa. O café estava gelado e eu o joguei numa lixeira no meio do caminho. Fui pra casa, e chorei mais um pouco. (n/a: TPM feelings tanto da autora quanto da personagem, omg.).
- Você vem, ? - dizia do outro lado da linha enquanto me implorava para que eu fosse almoçar com ela e e levasse junto. Fala sério, era domingo e eu havia passado a noite em claro me castigando com pensamentos maldosos sobre o quão ridículo foi o que eu fiz no dia anterior. Eu só queria ficar deitada e quietinha na minha cama, mas estava apelando, e eu aceitei apenas para não voar através do telefone e matá-la.
- Tudo bem, - Eu falei fingindo animação - Eu estou aí em duas horas.
Na verdade, havia me ligado 10:37 da manhã. Eu não havia mexido um fio de cabelo ainda e já eram quase 12:30 quando eu resolvi me levantar e ir para o banho. Peguei um táxi por pura preguiça de tirar o carro da garagem e lá estava eu, sorrindo por fora e quebrada por dentro.
A verdade é que eu morria de medo de ser deixada. Era isso. Eu ficava feliz quando estava comigo, mas quando ele ia embora eu tinha medo de que ele nunca mais voltasse. E isso tinha bastante fundamento, não era novidade pra ninguém que a curto e médio prazo, eu sempre seria "a outra".
- Mãe! - correu em minha direção e quase caímos os dois no hall assim que eu coloquei os pés no apartamento de . - Ele vem? - ele se referia a . Filho ingrato.
- Como assim, ? - Eu fingi estar séria - Nem um beijinho? Nem um "que saudade, mãe". Já vai logo querendo saber de outra pessoa.
- Eu estava com saudade, mamãe. Mas eu me diverti muito aqui com a tia . - Ele sorriu e me beijou - Mas então, ele vem?
- Eu não sei. - Eu disse séria, de verdade, dessa vez. E olhei na direção de , que parece ter entendido o recado. - Ele vem?
- Ele ligou e disse que vem mais tarde... - interviu.
Já passava das 14:00h quando almoçamos, ainda não havia dado as caras.
e foram fazer a única coisa que sabiam: matar zumbis no vídeo game.
- Pode começar a falar... - exigiu enquanto nos sentávamos numa namoradeira macia. Eu fiquei em silêncio e me fiz de surda. - ...
- Tá tudo bem, . - Eu garanti - É sério. Tá tudo sob controle.
- Eu não acredito! - Ela disse com voz calma - Mas eu espero até você estar pronta para contar.
Eu não sei ao certo quanto tempo passamos, mas quando eu passei pela sala para ir ao banheiro, e tinham companhia. Imediatamente, meu coração ficou descompassado, minhas pernas tremiam e meu estômago revirou-se com violência. abriu um sorriso irresistível e correu em minha direção, me pegou pela cintura e me levantou alguns centímetros do chão, depositando um beijo em minha testa. Eu sorri involuntariamente e encostei a ponta do nariz no pescoço dele.
me carregou até um canto da cozinha ao lado da geladeira e sorriu de lado enquanto beijava minha mão e subia beijando todo o meu braço à mostra. E segurei o rosto dele de um jeito delicado e sorri; impossível ficar brava com uma belezura dessas.
- Tudo bem se eu levar vocês pra casa? - Ele consultou o Rolex dourado no pulso enquanto eu via pela janela que a noite já estava presente.
- Claro. - Sorri enquanto ia avisar ao que já estávamos de saída e me despedia de com um abraço apertado que quase quebrou algumas costelas minhas, e um beijo na testa. me abraçou também e me pediu para ter juízo. dormiu no banco traseiro a caminho de casa e foi obrigado a levá-lo no colo até a cama quando chegamos ao prédio. Eu tratei de tomar um banho rápido e me enfiar numa camiseta gigante que eu usava para dormir. Sentei no sofá e comecei a mudar de canal na televisão sem parar em nenhum deles. ter saído daquela maneira no outro dia ainda me deixava na defensiva. Ele se sentou ao meu lado e me entregou uma xícara de chocolate quente que ele havia feito do jeito que eu gostava como se quisesse se desculpar por algo. Homens. Tão previsíveis...
- Eu trouxe seus chocolates preferidos... daquela loja do centro. - Ele se levantou e depositou um beijo na ponta do meu nariz enquanto pegava a chave do carro e saia em direção à porta. - Ficaram no carro. Eu vou buscar.
Talvez ele queira só me mimar um pouco. Eu pensei enquanto tentava afastar pensamentos obscuros da minha mente. Talvez seja apenas isso.
voltou com uma caixa tamanho "coma chocolates o ano inteiro" e um buquê de flores coloridas que eu interpretei como uma confusão sentimental, levando em consideração aquele papo furado de que cada flor quer dizer alguma coisa.
Quando acordei sem roupa no meio da noite, dormia tranquilo ao meu lado, parecendo um anjo. Tínhamos feito sexo por umas cinco horas, e depois ele dormiu. Eu sabia que tinha algo errado, eu sentia e isso me dava medo. se mexeu na cama, mas não acordou. Por um momento, eu percebi que podia perdê-lo a qualquer hora, e senti meu coração diminuir até quase o tamanho de uma azeitona. Eu o amava. E o amava. Não podíamos perdê-lo.
- Bom dia, meu amor - me acordou com um beijo e segurava uma bandeja com café da manhã suficiente para alimentar um exército. Eu fingi estar feliz com tudo aquilo e nós tomamos café juntos e vimos três novos episódios de Sex and The City, que por acaso odiava. Mais tarde, tomamos banho juntos e ele me deixou vestir sua camisa caríssima enquanto me abraça, e ficamos deitados em silêncio, olhando para o teto. Dentro de mim o silêncio era algo impossível, meus pensamentos gritavam e meu coração batia descompassado. Eu esperava que em qualquer momento ele terminasse tudo comigo por eu não ser boa o suficiente, ou por ele não conseguir lidar com a ideia de uma criança de outro homem.
- Nós precisamos conversar... - Ele se virou de frente para mim e me olhou nos olhos.
Eu sabia. Pensei enquanto respirava fundo para não desabar tão já. Fiquei em silêncio, mas fiz sinal com a cabeça para que ele continuasse. - Eu vou viajar, . Uma viagem de negócios na Argentina.
- Por quanto tempo? - Eu questionei com a voz falha.
- Duas semanas, um mês no máximo. - Ele passava as costas da mão sobre meu rosto numa tentativa de tornar o momento menos tenso. - Eu queria que você fosse comigo, seria ótimo. Mas...
- Mas...? - Ele parou e pareceu que estava escolhendo as palavras certas para falar.
- Frankie vai junto. - Ele soltou de uma vez e pareceu tirar um peso das costas. - Quer dizer, o pai dela vai também para uma reunião com os futuros sócios. Ela vai porque adora se meter no que não lhe diz respeito.
- Quando? - Eu questionei seca ainda em dúvida se deveria me sentir com raiva, triste ou com medo do que poderia acontecer naquela viagem.
- Daqui a três horas. - Ele suspirou.
- Ótimo! - Eu despejei a tristeza camuflada de ironia enquanto me levantava e me vestia com a minha própria camiseta e devolvia a de enquanto ele me olhava confuso. - Acho melhor você ir, então... pra não se atrasar.
- , olha só... - Ele começou a se justificar enquanto se vestia.
- Para. Pode parar, ! - Eu o interrompi - São negócios. Seus negócios. Seu futuro e da sua empresa. E sua noiva. Você não tem que se explicar.
ficou em silêncio e me olhava com tristeza nos olhos, mas eu não podia dar o braço a torcer. Claro que não! Não podia me ajoelhar e implorar para que ele ficasse comigo e não com ela. Não podia me humilhar por um homem. Por mais que eu o amasse. - Eu preciso me trocar e levar até a escola.
- Eu já fiz isso mais cedo. - Eu não havia me dado conta de que já passava das 11h da manhã e nós estávamos sozinhos no apartamento. De repente, tudo que eu menos queria aconteceu. Lágrimas. No começo, eram tímidas, mas depois passaram a cair descontroladamente me fazendo parecer uma ridícula na frente dele. - Por favor, , não...
- Tudo bem. - Eu disse enquanto ele tentava secar minhas lágrimas prestes a se entregar a elas também, mas eu o afastei. Senti gosto de sangue na boca e me dei conta de que estava mordendo os lábios com mais força do que deveria na tentativa de fazer as lágrimas cessarem. - Vai embora, . Por favor, eu não quero que você se atrase por culpa minha.
Ele relutou, mas eu praticamente o expulsei. Já havia sido ridícula o suficiente por um mês inteiro tendo chorado na frente dele. me beijou, mas não foi correspondido. Com um último olhar desesperado e triste, ele saiu pela porta da frente e a fechou com calma. Eu estava brava. Não. Eu estava enfurecida com a ideia de ter meu homem dormindo na mesma cama da vadia magrela que sonhava em tê-lo para sempre. Pensamentos obscuros tomaram conta de todos os cantos da minha mente, sem deixar nenhum em branco. Eu corri e enfiei as malditas flores no triturador de alimentos, eu sabia que algo estava errado naquilo tudo. Joguei a caixa de bombons no lixo da cozinha e chutei longe a bandeja com a louça decorada que havia trazido do Brasil, e chorava desesperadamente enquanto o resto de suco de morango manchava o tapete do quarto pela jarra de vidro que estava aos pedaços no chão. Abracei meus joelhos e me encolhi num canto qualquer do quarto. Meu Deus, como doía pensar em todas aquelas possibilidades!

Capítulo Onze



- O que diabos está acontecendo com você? - berrou enquanto tomávamos chá numa dessas casinhas meigas no centro de Londres.
- Mas, ... - Eu tentei argumentar.
- Não tem mas nem meio mas, . - Ela finalmente se acalmou e baixou o tom, mas a repreensão continuava lá. - Pelo amor de Deus, . Quando foi que você decidiu que ele poderia te usar desse jeito? Te procurar quando precisa de alguém pra sexo ou pra fingir que tem uma família, mas te esconder de todo mundo o tempo inteiro? Ele gosta de você, isso tá escrito na testa dele. E ? Deus, aqueles dois se merecem. - Ela tomou fôlego e sua voz agora era mais calma e centrada. - O que eu quero dizer, , é que ele nunca precisou lidar com escolhas. Ele sempre teve uma "terceira opção", ficar com as duas primeiras opções. Você não é segunda opção, . Não nasceu pra isso e eu não admito que você aceite esse lugar. Tá tudo errado.
Eu não disse uma palavra, e nem poderia. estava coberta de razão e eu sabia disso. Eu sabia disso e mesmo assim havia virado uma espécie de estepe para ele. Definitivamente, foi um choque de realidade necessário.
já estava fora há três dias e sequer se lembrou de me mandar um e-mail ou sms para dizer que havia chegado bem. Talvez ele estivesse curtindo a lua-de-mel antecipada. Eu também não procurei respostas, é certo que cheguei a discar o número dele duas ou três vezes, mas desisti antes mesmo que o telefone chamasse a primeira vez.
- Eu sei o que você está pensando, - minha voz estava trêmula quando eu finalmente pronunciei algo - Que eu o deixo emoldurar minha vida de acordo com a dele. Ele tem um tempo livre, ótimo, vamos sair os dois ou talvez levemos o . Se o trabalho o fizer ficar em reunião até mais tarde, tudo bem, marcamos outro dia. O problema é que eu nunca senti isso por homem nenhum, e Deus sabe o quanto eu lutei contra isso. - talvez não tanto assim - Eu tenho medo de colocá-lo contra a parede, exigir que ele escolha entre eu e os negócios e eu ser a descartada no final.
- - ela chamou com ternura na voz - Se ele for um homem inteligente, ele vai saber conciliar as duas coisas. E se ele não for, bom, você não precisa de um homem que não seja inteligente. - ela sorriu e me abraçou apertado.
- Eu não sei o que faria sem você. - confessei.
- Provavelmente mandaria uma daquelas tele-mensagens pro , com direito a carro de som e tudo!
Mais tarde, me levou para ajudá-lo a escolher um anel enquanto passava o dia em reunião. Nós conversamos sobre o plano de noivado que ele estava tramando e eu dei alguns palpites tipo uma tele-mensagem bem chamativa na frente do escritório dela com carro de som e tudo mais. riu, mas eu sabia que ele havia cogitado a ideia. Nós andamos durante horas, de joelheria em joalheria, entrando e saindo, perguntando preços, descartando alguns logo de cara e colocando alguns na lista do "talvez". Quando os meus saltos já estavam quase furando o chão do shopping, depois de ter passado pelo menos três vezes pelas mesmas lojas, avistamos uma loja Tiffany's e co. discreta, escondidinha no final da St James's Square.
- É esse! - ele apontou para uma aliança na vitrine. - Definitivamente, . É esse.
- Tem certeza, ? - eu falei com medo de acabar com o êxtase dele. - É bem caro...
- Tenho. - ele disse confiante. - Absoluta certeza. É a nesse anel!
Ele me pegou pela mão e nós entramos na loja atrás de uma pessoa que pudesse nos atender. Ele estava impossível, com um sorriso gigantesco que me fez sorrir também. Uma felicidade que transbordava pelos poros.
- Ficou perfeito - a atendente concordou enquanto nós três avaliávamos a aliança de vários ângulos em um dos meus dedos. - Vocês formam um belo casal.
Eu lancei um olhar engraçado e discreto para , e ele riu. Nós rimos, e não fizemos esforço para explicar a situação. Apenas tivemos paciência de ouvir a história da jóia contada com entusiasmo pela moça e pegamos a tão famosa caixinha azul, que em pouco tempo estaria nas mãos da , e logo depois em algum lugar no chão do apartamente e, quem sabe, até, coitada, sendo pisoteada por uma urrando de alegria com o pedido e impedida de encher qualquer coisa a não ser o futuro noivo à sua frente.
- Então - eu falei alguns minutos depois, quando já estávamos carregando a sensação de dever cumprido e a ocasião pedia um café grande com bastante creme, três colheres de açúcar e uma pitada de canela. - Como você pretende fazer isso?
- Eu não sei ainda, mas não quero planejar nada, sabe? Quero que seja natural, assim como foi nosso reencontro. Quando eu a vi com você, , eu pensei que só poderia ser coisa do destino. Que mundo pequeno! - ele falou, pensativo. - Eu voltei do Brasil apaixonado, sabe como eu respirava aquela mulher 24 horas por dia.
- E aquela safada nunca me contou de você - eu comentei. - Quer dizer, ela disse que se apaixonou por um britânico chamado , mas eu nunca pensei que...
- É - ele disse. - Realmente, é um mundo pequeno.
- Eu espero que esse casamento saia perfeito, e eu espero que EU seja a organizadora e madrinha oficial.
- Eu ainda não pensei nisso, - ele riu nervoso. - Nós nem sabemos se ela vai aceitar o pedido.
- Mas é claro que ela vai - eu o acalmei. - Ela te ama.
- E, por falar nisso - ele falou inseguro e eu já sabia qual seria o próximo assunto. - Você e têm se falado?
- Não.
- Ah.
- Quer dizer, ele não me ligou, sabe? - eu desabafei, tomando um grande gole do meu café. - Não deu notícia. Nem um mísero e-mail, uma chamada no skype, não se importou em ligar pra dizer que chegou bem, , e isso chega a doer. Estou apaixonada e sozinha, uma combinação bombástica, programada para me autodestruir em mais algumas semanas.
- Se isso te conforta - falou segurando carinhosamente minha mão por cima da mesa. - Ele também não me deu notícia. Sinceramente, eu não sei o que pode estar acontecendo. Mas tudo vai se resolver. Quando ele chegar vocês vão poder conversar e colocar os pingos nos "i's".
me levou para casa no final do dia no carro novo comprado há poucos dias. No caminho, passamos na casa dos Hastings para pegar , que havia sido convivado por eles para passar um dia na casa de praia da família e agora dormia esgotado no banco de trás, me obrigando a levá-lo no colo alguns lances de escada até o apartamento.
- Mamãe... - chamou, sonolento.
- O que foi, meu amor?
- Eu tô com saudade. Quando ele volta?
- Ele quem, meu anjo? - perguntei fingindo não saber.
- O .
- Ah, bebê, eu não sei. - Falei baixinho enquanto o colocava na cama. - Espero que logo.
Os dias passavam lentos e entediantes. Com fora eu estava em uma espécie de férias fora de hora. passava o dia inteiro fora e e estavam bastante ocupados com trabalho e planos de uma viagem para o Brasil. Sem que eu me desse conta, as duas semanas e meia passaram voando e logo ele estaria de volta. Eu estava ansiosa e magoada, e queria explicações. O celular tocou numa tarde esolarada e me fez dar pause em O Diabo Veste Prada para atendê-lo.
- ? - a voz do outro lado da linha era conhecida, meio rouca, como se o dono tivesse acabado de acordar.
- Quem é? - perguntei tentando manter a voz séria, mas perdendo a concentração e caindo na risada com o "ah, qual é? vai dizer que não sabe quem é" vindo do outro lado.
- Eu liguei pra saber se... ah... nosso almoço ainda está de pé? - Julian, um antigo amigo de faculdade que eu havia encontrado por acaso na saída de uma casa de chá há poucos dias. Nós conversamos e relembramos os tempos de rebeldia quando eu fazia História e ele, Filosofia. Julian era do tipo que qualquer mulher gostaria de ter: alto, olhos verdes que pareciam ter visão de raio-x, cabelos castanhos beirando o loiro, um senso de humor invejável, carinhoso, divertido e sabia lidar com as mulheres como ninguém. Nós já havíamos saído algumas vezes naquela época, alguns amigos incomuns diziam que ele era apaixonado por mim, mas nós estávamos em situações diferentes. Ele não mudou nada, havia continuado lindo, e talvez até mais. O relógio mostrava que eu só teria 40 minutos para me arrumar e chegar a tempo no restaurante para encontrá-lo. Impossível eu, , ficar linda em 40 minutos.
- Julian - falei. - Você deve se lembrar que pontualidade não é meu ponto forte. Não é que eu tenha esquecido, mas eu achei que ainda fosse cedo. Tudo bem se você vier pra cá e nós cozinharmos alguma coisa?
- ... ... Você é simplesmente perfeita! - ele disse animado do outro lado, nós tínhamos essa coisa, a gastronomia. Até fizemos algumas aulas juntos nos cursos que eles ofereciam no campus. Eu passei o endereço para ele e agradeci mentalmente por ter feito uma faxina de "cima a baixo" num dia entediante e por Julian morar a pelo menos uma hora e meia de casa. - Eu passo no supermercado e levo tudo que nós vamos precisar, ok?
- Tudo bem - eu falei. - Você pode subir assim que chegar, deixei sua entrada liberada.
- Like a boss - ele brincou.
- Yeah... Não esquece nenhum ingrediente.
Desliguei o celular e corri para o banho. Como eu previa, levei mais da metade do tempo para me arrumar, e ainda consegui deixar o apartamento apresentavelmente fofo para receber a visita.
- Eu trouxe tudo que você pediu, senhorita. - ele disse quando eu o convidava para entrar, e ele ia colocar as sacolas em cima da mesa e voltava em um segundo. Me abraçou, fazendo meus pés sairem do chão, e nós ficamos sorrindo um para o outro por algum tempo.
- Tá lindo, Julian - eu falei.
O plano era nós dois cozinharmos nosso almoço de "reencontro", mas Julian me proibiu de chegar perto da cozinha e alegou que precisava colocar em prática algumas coisas que aprendeu na viagem pela Índia e queria me fazer surpresa.
- Me diz, - ele falou. - O que você fez nesses três anos e meio?
- Me diz você, Julian. Sua vida sempre foi mais interessante.
- .
- Julian.
- Viagens, cursos de tudo que você possa imaginar - ele finalmente falou. - Alguns relacionamentos fracassados, mais viagens, saudade, um quase noivado e aqui estamos.
- Ual! - falei supresa. - Um noivado?
- Um quase noivado - ele frisou.
- E por que não deu certo?
- Você sabe - ele disse. - Ah, ela não gostava de gatos.
- Você odeia gatos, Julian! - eu berrei da sala.
- Eu acho que... eu não gostava dela. - ele fingiu tristeza.
- Você é um monstro.
- Se você não parar de me julgar - ele disse - Eu posso perfeitamente envenenar sua comida.
- Você não faria isso - brinquei.
- Eu faria sim.
- Não. Não faria - insisti.
- É, eu não faria.
Nós comemos enquanto Julian me contava detalhes do noivado fracassado e das viagens pela Índia, China e Tailândia. Eu estava interessada, interessada a ponto de quase virar o prato de sobremesa em cima de mim de tanto rir. Pensava, poderia ser eu viajando com Julian e poderíamos ser nós dois com um noivado bem-sucedido. Julian era lindo. Perfeito. Cuidadoso. Que sorriso lindo...
- ... - ele chamou, contendo o riso.
Eu fiz sinal com a cabeça de um "sim", já que minha boca estava cheia de pettit gateau. E ele riu mais ainda.
- Sua boca tá furada? - perguntou.
- Por quê? - eu questionei, seguindo o olhar dele para a minha blusa clara com uma mancha enorme de calda de chocolate recém feita. Pulei do sofá e arranquei a blusa sem um pingo de vergonha, corri para a pia do banheiro e tentei limpar com água e sabonete líquido, mas não deu muito certo. Joguei a blusa de qualquer jeito dentro da lava roupas e percebi um Julian vermelho jogado no sofá se chacoalhando de tanto dar risada. Corri feito louca e me joguei em cima dele, o fazendo rir mais ainda.
- Você é louca, garota. - ele brincou, me segurando pelos braços e me fazendo cair no espaço vazio ao lado dele.
- Louco é você, Julian. - Num ato inconsequente, eu o puxei pela gola da camisa fazendo com que nossos rostos ficassem a milímetros de distância. A respiração descompassada, o coração acelerado, eu podia ouvir. Podia ver o desejo naqueles olhos verdes. Me beija... E ele beijou. E eu o beijei de volta. Um beijo cheio de saudade, culpa e vingança. Ele me puxou para o outro lado do sofá e eu me ajeitei no colo dele. Julian beijava desesperadamente meu pescoço enquanto eu tentava arrancar a camisa dele.
- - ele chamou, ofegante. - Eu não posso.
- O quê? - perguntei sem entender.
Julian tinha o olhar fixo num porta retrato perto da televisão com uma foto minha com e , felizes na apresentação escolar em que foi o Romeu. E eu entendi.
- Eu não posso, . - continuou - Eu quero, mas não posso. Você sabe que eu sempre fui apaixonado por você. Mas... vocês se amam. E eu não vou destruir nenhum lar.
Então eu entendi. Ele era bom demais para compactuar com o meu plano nada planejado.
- Você tem razão - concordei enquanto saia de cima dele e me sentava no espaço vazio ao lado. - Eu espero que isso não mude nada na nossa reaproximação.
- E eu espero que isso não mude nada em nada, nunca aconteceu. - Julian se levantou e me pegou pela mão. - Eu acho melhor eu ir.
Nós nos abraçamos com um pouco de tensão e ele beijou minha mão e depois minha testa, com um sorriso lindo.
- Eu te ligo. - ele disse - Ou você me liga.
- Nós nos ligamos. - brinquei enquanto o acompanhava até a porta com um sorriso estampado na cara.
Mais tarde, o telefone tocou enquanto eu arrumava outra vez a sala e lavava algumas louças ao som de David Guetta.
- ... - atendi, sendo invadida por uma tensão ao ouvir a voz dele.
- , eu preciso que você me perdoe. Eu não pude dar sinal nenhum, Frankie fez reserva para nós num hotel "alternativo" sem sinal de celular, internet e, se duvidar, nem sinal de rádinho à pilha. - ele confessou - Eu morri de saudade.
- Tudo bem, - disse sem entusiamo. - Também senti saudade.
- Posso passar aí mais tarde? - ele pediu tenso - Nós temos muito o que conversar.

Capítulo Doze



-... foi isso, meu amor - ele concluiu. - Esse foi o motivo pra eu não ter dado notícia durante todos esses dias.
- Deixa eu ver se eu entendi direitinho - falei com voz seca enquanto andava pela sala e tentava me sentar o mais longe dele possível. - Sua noiva fez reserva num hotel alternativo no fim do mundo, sem sinal, sem internet, sem televisão, sem nenhum tipo de tecnologia. Durante todos os dias você e seu sogro trabalharam no projeto com os sócios argentinos e você não tinha tempo nem para respirar. Certo?
- É - ele confirmou com alívio - Foi exatamente o que aconteceu, . Eu sabia que você entenderia.
- Então você quer que eu acredite que um bando de executivos aceitou se hospedar num lugar desses por um mês? Sem notícias dos negócios, da família, da crise na Europa... - perguntei com a voz carregada de ironia e mágoa. – E durante a noite vocês faziam o quê, ? Jogavam paciência? Monópoly? Dormiam? Eu não sou idiota, !
- , não! - me olhava bem no fundo dos olhos enquanto segurava meu rosto com as mãos, me forçando a olhá-lo também. - Não aconteceu nada, nada! Eu não mentiria pra você, você sabe que eu não conseguiria. Nós dormimos no mesmo quarto, juntos, na mesma cama. Mas não aconteceu nada disso que eu sei que sua cabeça está imaginando. - Eu podia sentir meu rosto arder e minha visão ficar embaçada com as lágrimas que eu insistia em não deixar cair. - E mesmo que tivesse acontecido, eu teria pensado em você o tempo todo. Eu pensei em você o tempo todo. Por favor, ... acredita.
Eu não disse nada, apenas balancei a cabeça positivamente enquanto mordia os lábios na tentativa de não deixar cair lágrima nenhuma. Seria muito menos ridículo que ele tivesse me contado que conheceu pessoalmente o coelho da páscoa.
- Isso é tão complicado. - Desabafei. – Você é tão complicado, .
- Entende por que homens são confusos, ? Imagine cabeça, coração e pau, todos falando ao mesmo tempo. - Ele confessou.
Eu segurei uma das mãos dele entre as minhas, trêmulas, geladas. Ele me olhou com os olhos transbordando algum sentimento que eu não sabia definir.
- Eu senti saudade, - ele disse. - Bastam uns dias sem te ver pra eu já não saber o que fazer com os próximos. É complicado, eu não estou acostumado a sentir tanto com tanta intensidade.
Eu tinha muita coisa pra despejar em cima dele. A raiva por ter sido deixada pra trás, por ele ter ido viajar com outra, por me deixar ser a outra, por me esquecer por um mês, por ter conquistado meu filho, mas quando me olhou bem diretamente me queimando com aqueles olhos tudo sumiu da minha mente. Um branco, um clarão. Eu estava com saudade, chegava a ser físico. Eu o beijei.
- Não sei como consegui ficar tanto tempo sem você - ele falou baixinho enquanto mexia delicadamente numa mecha de cabelo meu. Eu estava deitada no peito dele, nu, macio e cheio de músculos, que subia e descia sem pressa numa respiração calma. Eu não havia engolido totalmente aquela história, me parecia meio sem sentido um grupo de executivo numa viagem de negócios hospedados num hotel sem nenhum tipo de tecnologia. se mexeu delicadamente e saiu da cama sem fazer nenhum movimento que pudesse me acordar, eu estava num estado tipo "dormindo, porém, acordada". Não sei exatamente quanto tempo ele ficou fora, mas quando eu finalmente acordei, já era noite, e eu ouvia vozes vindas de algum canto na sala.
- Olha só quem está aqui - brinquei dando um beijo demorado na cabeça de . Ele e estavam jogados no chão com os olhos vidrados na televisão e os controles do vídeo game frenéticos nas mãos.
- Eu não quis te acordar quando deu a hora de buscá-lo, nós já jantamos e eu já o coloquei pra tomar banho. Estávamos esperando você acordar, meu amor. - deu pause no jogo e levantou, me beijando na testa.
- Meu amigo vai ganhar um irmãozinho. - comentou e riu discretamente.
- Que ótimo, meu filho! - Falei. - Ele deve estar muito feliz.
- Tá mesmo, mamãe. Ele chegou na sala de aula contando pra todo mundo, ele acha que vão ser gêmeos.
- Gêmeos. Uau! - comentou.
- Sabem... eu queria ter um irmãozinho também.
caiu na risada e eu não pude contar o riso também, nós nunca havíamos falado sobre isso. Era totalmente "contra mão".
- Quem sabe um dia. - falou. E o rosto de brilhou de excitação.
- Você precisa mesmo ir embora agora? - questionou horas mais tarde, quando se despedia de nós e se preparava pra voltar à "vida real".
- Infelizmente, campeão. Eu preciso mesmo ir pra minha casa.

Meu agosto foi amargo e durou até outubro, dois longos meses de crise no meu relacionamento nada estável com . Mas parecia que agora as coisas estavam se ajeitando. e eu havíamos voltado pro trabalho, e para algumas pessoas o tão sonhado “mês do jantar anual” havia finalmente chegado. Eu não entendia exatamente como funcionava isso, só sabia que todo o ano a diretoria da empresa dava um grande jantar de gala que homenageava os empresários bem sucedidos. Era o que eu tinha escutado pelos corredores. Tanto faz, esse evento já estava me dando dor de cabeça antes mesmo de acontecer. estava atarefado demais e resolveu me colocar para ajudar o departamento de publicidade com os convites, que seriam enviados para todos os colaboradores da empresa, e isso me irritava profundamente, já que eu precisava ficar alguns andares abaixo do escritório de e quase não conseguia vê-lo.
Mais tarde, já havia passado bastante do horário do expediente quando foi me buscar para me levar em casa. Sua expressão era de cansaço e a minha, de desânimo.
- Então, quando é exatamente esse jantar? – Perguntei enquanto tentava achar um canal interessante na televisão portátil do carro dele.
- Daqui a quinze dias. – falou sem tirar os olhos da rua.
- Uhum... – Emiti um ruído estranho só para não deixá-lo no vácuo.
- E você vai comigo, certo?
- Eu vou? – Questionei.
- Não sei. Estou te perguntando.
- Isso é um convite?
- Se eu disser que sim você vai aceitá-lo?
- Talvez.
- Então, sim. É um convite.
- Não sei, , não estou a fim de ir...
- Por favor, meu amor. Vamos! – Ele insistiu. – Vai ser divertido, eu prometo.
- Tá, vamos.
fingiu uma felicidade exagerada, como se não soubesse que eu sempre fazia todas as vontades dele. Nós subimos e ele resolveu dormir comigo. No guarda-roupa ele já tinha tomado posse de uma metade inteira com os pertences dele. já estava dormindo e havia deixado um bilhete avisando que tinha o colocado na cama. Ultimamente não tínhamos quase nenhum contato pessoalmente, o casamento estava ocupando a maior parte do tempo dela e agora ela havia assinado um contrato com uma revista de moda para fazer algumas fotos. Mas sempre dava um jeito de pegar na escola quando eu precisava chegar tarde, e cuidava dele como se fosse seu filho.
pediu comida para nós num restaurante 24h e eu o fiz pedir seis tipos diferentes de sobremesa. Comemos enquanto víamos Noivas em Guerras pela milésima vez e conversávamos sobre assuntos sem nexo algum jogados no sofá, embrulhados num edredom pesado para enganar o frio que fazia àquela hora da noite.
- Você acha que nós seremos assim algum dia? – Perguntei enquanto brincava com os dedos de uma das mãos dele.
- Assim como? Brigando por ter escolhido o mesmo lugar para a festa de casamento? – Ele brincou.
- Que engraçado, . – Nós rimos. – Eu quero dizer, será que um dia nós iremos nos casar? E ter uma família? Passar as férias na Disney? E todas essas coisas que as famílias fazem?
- Claro que sim, . Eu prometo.
- Talvez demore um pouco... – Sussurrei.
- Eu vou fazer o impossível pra que isso aconteça o quanto antes!
Eu sorri e o beijei delicadamente, passei as mãos pelos fios macios que eram os cabelos dele, desci o toque até o rosto de pele morna, passei pelo pescoço, peito e abdômen por cima da roupa.
- Sabe por que eu gosto tanto de sentir saudade de você? Porque a nossa, além de recíproca, sempre cumpre o que promete. – Sussurrei no ouvido dele.
- Eu ia dizer que me lembrei de você esse tempo em que estivemos longe, mas acho que, tecnicamente, pra lembrar é preciso ter esquecido. – Ele sussurrou em resposta.
- Eu acho que... Eu acho que eu te amo. – Falei quando já estávamos deitados na minha cama, sem a metade das roupas.
- E eu tenho certeza disso. – Respondeu enquanto tirava o resto das minhas roupas. – Eu tenho certeza de que te amo.
Eu sorri enquanto sentia percorrer meu corpo com as mãos fortes enquanto me beijava, me fazendo ficar arrepiada de todas as maneiras possíveis. Nos raros momentos em que não estávamos aos beijos eu aproveitava para olhá-lo nos olhos ou reparar em casa detalhe do rosto dele e guardá-los na memória.
- Sabe, , às vezes eu tenho uma saudade do cheiro da sua pele, tanta, que às vezes me dá uma vontade ridícula de chorar. – Ele confessou enquanto beijava minha mão e subia os beijos até chegar ao meu pescoço e descansar a cabeça na curva entre meu maxilar e meu ombro, respirando pesadamente após todo o esforço físico que havíamos acabado de fazer. Eu só conseguia sorrir, era estranho pensar que estava ali comigo, me dizendo todas aquelas coisas quando nossa situação era uma coisa meio criminosa que ninguém podia suspeitar. Embora eu tivesse um pouco de certeza que qualquer pessoa no mundo saberia que havia alguma coisa entre nós pelo jeito que nos olhávamos quando ninguém estava nos olhando.
- Qual é a cor da gravata que você usará no jantar? – Perguntei de repente, arrancando alguns sorrisos dele.
- Azul. – Ele respondeu – Ou rosa, talvez. Por quê?
- Pra combinar com o meu vestido.
- Por que tudo que você faz é tão lindo? – perguntou, depositando um beijo na ponta do meu nariz gelado.
- Bom, eu não faço a mínima ideia. – E nós rimos enquanto nos aconchegávamos na cama em conchinha.
“Não é uma luta justa, eu lá me esforçando pra ser mulher e você estala os dedos, puxa meu queixo e me faz menina tudo outra vez.” Foi o que eu pensei enquanto admirava o vestido de seda que eu havia escolhido com a ajuda de . Parecia piada, há duas semanas eu estava totalmente certa de que não daria as caras nesse jantar, e agora, faltando menos de três dias, eu já havia escolhido um vestido. estava diferente nos últimos dias, a pressão para que tudo saísse perfeito era clara em todos os cantos da empresa, mas ele estava carinhoso, dormia em casa quase todas as noites, saíamos os três pra ir ao cinema ou jantar e ele já havia comentado algumas vezes que gostaria de ser pai num futuro próximo. Se eu não o conhecesse poderia pensar que essa era uma daquelas táticas masculinas de encher a namorada de mimos por consequência de alguma besteira feita por eles, mas ele não era assim. Meu não era assim.

O dia do grande evento finalmente chegou e eu pude perceber que todos ali estavam realmente esperando por isso. Alguns pela esperança de serem homenageados de alguma maneira, outros estavam ansiosos pelo show surpresa que sempre acontecia ao final da noite e que todos os anos surpreendia pela banda convidada. Eu não estava realmente empolgada, mas desde que apareceu com uma enorme maleta de maquiagem e três opções de vestido na porta do meu apartamento, por volta das 15h da tarde, eu não pude deixar de sentir um friozinho na barriga por fazer parte disso também. seria um dos oradores do evento e, como noiva, se via na obrigação de estar ao lado de quando ele subisse ao palco. Isso a fazia se sentir no direito também de me fazer de cobaia, me pentear, maquiar e vestir como se eu fosse a própria dona da festa. havia viajado para Brighton com os Hasting’s e eu me sentia mais segura por não ter que deixá-lo com uma babá.
- Muito bem, falou sem perder a concentração no que estava fazendo. – Ou você para de se mexer, ou esse curvéx vai acabar cegando você.
- Oh... Desculpa. Estou tentando ficar parada, mas meus olhos querem piscar. – Me justifiquei.
- Tudo bem, já terminei. – Ela me puxou pela mão até a frente do espelho e eu quase não me reconheci. Não que eu não fosse adepta às maquiagens e tudo mais, é só que eu levava bem a sério aquela história de “menos é mais”. – Você tá linda, ! O vai se apaixonar por você mais uma vez.
passou de carro para nos pegar por volta das 21h. pediu para que eu o encontrasse lá, pois ele teria que ir mais cedo para recepcionar os convidados junto dos outros diretores.
- Se minha noiva sonhar que eu estou dando carona pra duas gatas como vocês ela é capaz de arrancar minha cabeça do pescoço. – Ele brincou.
Nós descemos na frente de um dos hoteis mais caros de Londres e eu me dei conta de que aquilo seria muito mais do que um simples jantar. Fotógrafos e jornalistas enchiam a entrada principal e tentavam burlar a segurança enquanto carros importados chegavam o tempo inteiro, e deles saiam as pessoas mais elegantes que se possa imaginar. Por sorte, nossa mesa era uma das primeiras em frente ao palco, logo atrás da mesa principal (onde estaria sentado com o pai).
- Você está maravilhosa, . – Eu sorri ao sentir as mãos dele tocarem meus ombros e deslizarem pelos braços. Eu me virei e encarei os olhos dele por um momento. Ele estava realmente bonito. Os cabelos milimetricamente penteados, barba feita, terno caríssimo e um sorriso que poderia iluminar a Londres inteira. Ele me abraçou pela cintura e me beijou de leve enquanto eu sorria e o abraçava o mais apertado que minhas forças permitiam. Nós ficamos ali parados, nos abraçando em silêncio no corredor vazio que dava para a cozinha.
O jantar já havia sido servido e o Sr. estava na metade do discurso inicial quando eu reparei nela: Frankie estava sentada entre o pai e na mesa principal. Estava bonita, admito. Aos risos, radiante, enquanto conversava com uma moça elegante da cadeira da frente. Eu senti inveja porque aquele era o meu lugar, eu era quem amava e eu é quem devia estar ao lado dele. Ele segurava a mão dela e sorria discretamente enquanto conversava com o sogro. Ele havia se tornado um bom ator. E aquilo me matava por dentro.
- Agora, eu gostaria de chamar ao palco nosso ilustre – O Sr. anunciou enquanto o salão inteiro ficava em silêncio e aguardava para ver quem seria o último homenageado da noite. – O último, mas não menos importante Gerente Financeiro.
tentou em vão esconder o rosto vermelho e envergonhado enquanto caminhava até o palco. Ele fez um breve discurso sobre como adorava trabalhar na empresa e aproveitou para fazer uma discreta, mas fofíssima declaração para , que se derreteu ao meu lado, me fazendo rir.
-...e, se me permitirem, continuarei sendo gerente financeiro por muito tempo. – finalizou.
- Lamento, – Sr. interrompeu. - Sua carreira como gerente chegou ao fim.
Todos, inclusive , ficaram sem entender o que o Sr. estaria querendo dizer com isso. olhava apreensivo em nossa direção e o retribuía com olhares confiantes. – Se o senhor aceitar, a partir de agora passará a ser nosso Diretor financeiro.
O sorriso que surgiu no rosto de foi o suficiente para responder a pergunta, o salão se encheu em uma salva de palmas e, depois de apertar as mãos e trocar as últimas palavras com o Sr. , correu até nós irradiando felicidade. Ele merecia aquilo mais do que qualquer pessoa.
- Sem mais falatórios, aposto que vocês estão curiosos para ver a banda convidada esse ano. – Anunciou Sr. . – Queria agradecer a presença de todos e parabenizar os que tiveram a honra de subir ao palco. E aos que não tiveram essa honra, no próximo ano a chance estará esperando por vocês, basta querer. Então, acho que já podemos encerrar...
- Por favor, Sr. – Frankie o interrompeu enquanto subia ao palco e pedia o microfone. Ele o entregou rapidamente com um sorriso confuso e se colocou ao lado direito do palco enquanto ela tinha a atenção de todos, inclusive a minha, voltada para ela. Corri os olhos rapidamente pelo salão a procura de , ele permanecia sentado sem entender a situação. Mas quando nossos olhares se cruzaram ele sorriu e me mandou um beijo discreto. – Boa noite! A maioria de vocês deve me conhecer, imagino eu. Seja das passarelas, capas de revistas, como filha do grande empresário patrocinador desse evento ou como noiva de . Sou Francesca Sandford, modelo, futura esposa do e, em breve, mãe de um pequeno .
Nessa hora o salão se encheu de expressões como “own” ou “ela quer dizer que está grávida?”. Olhei pra e e os dois me olhavam com a mesma expressão confusa. tentava lidar com o pai e o sogro o parabenizando ao mesmo tempo e eu rezava em silêncio para que aquilo não fosse o que eu achava que seria.
- Eu quis deixar para dar essa notícia maravilhosa quando estivéssemos todos reunidos, como estamos agora. Nem mesmo sabia disso – Ela o lançou um sorriso e continuou a falar – Faz mais ou menos um mês e meio que eu descobri isso, fiz um exame rotineiro e então meu médico me deu os parabéns pelo bebê. Eu não poderia estar mais feliz, e eu sempre quisemos filhos. Imagino que tenhamos que adiantar o casamento ou eu não caberei no vestido. – Ela riu do comentário e todos riram com ela – Em breve um convite será entregue em suas casas, e eu faço questão da presença de todos vocês nesse dia tão especial. é um homem maravilhoso e eu imagino quantas mulheres dariam a vida para estarem no meu lugar. Eu sou realmente uma sortuda por tê-lo, e eu o amo. Sempre amei e sempre amarei. E prova disso é nosso filho, que foi concebido numa viagem de negócios que nós fizemos há pouco tempo e que acabou se tornando uma lua-de-mel adiantada. Bom, eu acho que já falei demais, mas vocês me entendem como mãe e noiva que não poderia estar mais feliz com esse momento, não é? Obrigada pela atenção e por fazerem parte desse momento.
Ela desceu do palco e foi em direção à mesa principal, sendo cumprimentada por todos no pequeno caminho do palco até lá. estava com uma expressão indecifrável, mas quando ela se aproximou com os olhos marejados pela emoção eles se abraçaram e ele a beijou. O mundo todo girou em câmera lenta e eu senti o ar sumir dos meus pulmões. me chamava, mas a voz dela era distante e eu não conseguia responder. Eu não sabia se devia me sentir humilhada, já que não era novidade para ninguém o caso “patrão e funcionária” que eu tinha com , ou se deveria me sentir triste por saber que ele havia mentido para mim sobre tantas coisas e eu havia acreditado cegamente. Eu o reparei me olhando apreensivo enquanto tentava, sem sucesso, se livrar das várias pessoas que o rodeavam para lhe dar os parabéns. Eu me levantei para ir embora, mas senti minhas pernas fraquejarem assim que dei o segundo passo. me segurou pela cintura e me levou até o banheiro enquanto eu ainda tentava assimilar tudo que estava acontecendo.
- ... Eu sinto tanto por isso. – sussurrou enquanto me abraçava. – Eu sinto tanto, tanto mesmo. Eu não sei como ele pôde. Não sei como teve a coragem de...
- – Eu falei enquanto me soltava do abraço e a encarava, tentando acalmá-la. – Não precisa se preocupar. Tá tudo bem. Eu vou acompanhar você até a mesa e vou embora. Não se preocupe, eu chamo um táxi.
E antes que ela pudesse me contrariar eu a peguei pela mão e a puxei para fora do banheiro. não estava na mesa, mas eu o avistei num canto falando com . gesticulava e apenas ouvia como se fosse uma criança levando uma bronca do pai. chegou à mesa antes que eu pudesse sair. Ele apenas me olhou nos olhos e me abraçou apertado. Eu senti meus olhos embaçarem. Disfarcei e me despedi dos dois enquanto tentava sair do salão sem correr o risco dos meus joelhos cederem. Me sentei num banquinho de madeira em frente ao hotel e respirei o ar gelado da madrugada, deveria ser por volta das duas da manhã. Finalmente a ficha caiu. As coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça e eu sentia o ódio queimar tudo dentro de mim. Como ele pôde mentir tão porcamente? Viajar em lua de mel sem nem ter se casado, e, pior, como é que ele podia odiá-la num momento e, no momento seguinte, ser o pai do filho dela? Como ele pôde? E como eu pude ser idiota a ponto de aceitar aquela história? Como eu pude aceitar ser segunda opção? Como eu pude me permitir amar aquele homem? Como eu pude amá-lo tanto?
- Tudo bem, moça? Você precisa de ajuda? Está passando mal?
- Tá tudo bem. Tudo bem. – Respondi sem saber quem era o homem que estava falando comigo.
Ela estava grávida dele. Grávida. Eles iriam ter um filho. E o meu filho? Será que havia pensado em enquanto criava sua nova família? Será que ele realmente se importava com ele? Eu não conseguia parar de pensar em como sofreria. Aquilo me matava.
Alguns táxis haviam sido disponibilizados para alguma emergência que pudesse vir a acontecer. Bom, aquela era uma emergência. Entrei no primeiro táxi da fila e fiquei em silêncio por alguns minutos enquanto o motorista olhava para mim, esperando para saber aonde me levaria. Dei o primeiro endereço que me veio na cabeça. Ainda não havia parado para pensar que um rio de lágrimas estava sendo contido desde a hora do discurso de Frankie, graças à minha dificuldade de chorar em público. O tempo inteiro eu sentia meu olhos ficarem marejados e meu rosto queimar internamente. O interior do táxi estava aconchegante, escuro, e o ar gelado entrava pelo vidro semiaberto e me acertava em cheio, fazendo meus descobertos ficarem arrepiados. Me perdi no tempo enquanto observava Londres de dentro do táxi, com todas as luzes e pessoas indo e vindo de todos os lugares.
- São 56 libras, moça. – O taxista anunciou enquanto eu tentava me recuperar do transe, e então me dei conta de que havia esquecido a bolsa no hotel.
- O senhor pode esperar enquanto eu pego algum dinheiro emprestado com o porteiro?
- Tudo bem, moça. Eu espero. – Ele deve ter notado minha cara de derrota durante o trajeto e foi bem compreensivo enquanto eu descia do carro e sem nenhum constrangimento pedia dinheiro ao porteiro, que estava de olho nas câmeras de segurança. Dei minha palavra de que o reembolsaria logo de manhã, mas ele foi gentil e me disse para não me preocupar porque “imprevistos acontecem”. Entrei apressada no elevador e apertei o botão do 17º andar com força, como se aquilo o fizesse subir mais depressa. Talvez meu subconsciente soubesse que eu estava chegando em um lugar seguro, porque senti meu corpo se arrepiar grosseiramente e minha vista ficar embaçada outra vez. Dessa vez não tentei fazer com que as lágrimas voltassem, provavelmente eu iria explodir em mil pedacinhos se continuasse guardando todo aquele choro. O hall estava vazio e silencioso. Toquei a campainha três ou quatro vezes seguidas e me apoiei na grande porta de madeira do número 223, e me entregava totalmente às lágrimas e à tristeza.

N/A: Epaaaa, demorou mas chegou, finalmente. Só posso me desculpar milhões de vezes pela demora e pedir pra que vocês continuem dando opinião e fazendo críticas porque minha moral pra ficar falando qualquer coisa não está lá das melhores depois desse chá de sumiço, anyway, estamos voltando á ativa.


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