by Bruna Emygdio
Beta-Reader:Carol F.


PRÓLOGO

Já passavam das duas da madrugada quando uma sombra se moveu silenciosamente pela noite afora, entrando no pátio central da aldeia, a essa hora já deserto. Vestindo uma túnica que cobria da cabeça aos pés, sentou-se em um dos bancos enquanto deixava a mente vagar. Mas antes que pudesse pensar em qualquer um de seus problemas ouviu, vindo de algum lugar não muito longe, um leve farfalhar de folhas que aguçou seus instintos de guerreiro. Tateou por baixo da túnica se assegurando de que estava com sua espada e então segurou firmemente em sua bainha. Caminhava em passos lentos e silenciosos na direção da floresta que dividia os dois reinos e que produzira o ruído de passos. Cada vez mais fundo nas entranhas da floresta, como que seduzido pelo desejo de uma batalha que pudesse distraí-lo do turbilhão de pensamentos que ele registrava no momento. Uma coruja soou ao alto o fazendo se desequilibrar por alguns segundos, tempo suficiente para que uma outra sombra, que definitivamente não era a sua, se postasse no lado oposto em que estava. Se recompôs imediatamente desembainhando a espada com firmeza e a apontou para o estranho, que acabou por imitar seu gesto. O brilhos dos cristais e rubis que cravejavam as espadas à luz da lua, que agora apontavam uma à outra, os fez fecharem os olhos por alguns segundos. E não precisaram de nem mais um minutos após abrirem os olhos para reconhecerem um ao outro.
- . – Falou com desdém o homem que se encontrava antes na aldeia.
- James. – Respondeu ainda mais amargamente o estranho na floresta.
Como se travassem uma batalha visual, continuaram se olhando mortalmente por alguns minutos, até que James se manifestou.
- O que faz o bondoso Rei de Icemoon vagando pela floresta essa hora da noite? – Disse enquanto desenhava um sorriso maldoso em seus lábios.
- O mesmo que você, Rei de Firesun! Atormentado demais para ficar ao lado do leito da mulher enquanto ela pari nossa cria. – Ele respondeu com firmeza fazendo uma expressão de choque passar pelos olhos de James, que logo embainhou a espada e tentou parecer mais cordial.
fez o mesmo e estendeu uma das mãos para que James pudesse cumprimentá-lo. Depois de um aperto cordial e firme se fizeram uma pequena reverência e estouraram em risos. Como se fossem bons e velhos amigos apoiaram-se um no ombro do outro e trotaram pela floresta conversando sobre os acontecidos do dia.
A esposa de ambos estava dando a luz em seus respectivos castelos, enquanto eles tentavam manter a calma do lado de fora. Era impossível continuar ouvindo os gritos e lamúrias de dor que ecoavam pelo salão principal, o que os fez saírem para refrescarem os pensamentos. Chegando ao ponto em que se encontraram.
- Meu velho amigo James, o que faremos com o tempo que passa rápido demais? – Disse enquanto se sentava em cima de um tronco seco.
- Parece-me que ainda ontem nós corríamos por essa floresta acertando pombas com estilingues. – O amigo gorducho completou rindo.
- Bons tempos. – suspirou. – Aqueles em que conseguíamos correr. – Ele emendou olhando pra James e passando as mãos em sua barriga igualmente redonda quando caíram na gargalhada.
Riram por mais um tempo se lembrando de como eram quando crianças. Eles sempre foram amigos, mas sempre mantiveram isso em segredo devido aos seus ancestrais. Vinham de famílias tradicionais que eram inimigas desde o início dos tempos. E se soubessem a amizade que cultivavam acabariam por serem cruelmente castigados. Felizmente haviam conseguido esconder perfeitamente toda a camaradagem e seus pais se foram, os deixando responsáveis por seus reinos. se tornou rei de Icemoon, e James, rei de Firesun. Acabaram perdendo o contato, pois tinham que manter as aparências cada um para com seu povo. Estavam tão acostumados a se tratarem mal que sempre que se encontravam faziam uma pequena cena como a de alguns minutos atrás. Mas há poucos meses haviam se reunido e decidiram que, assim que seus herdeiros nascessem, seriam prometidos um ao outro, se possível, na esperança de reinar a paz entre os dois reinos e de finalmente poderem voltar a se encontrar sem ser as escondidas. Esse assunto não demorou a surgir naquela noite. Foi entre risadas e lembranças que eles puderam escutar a comemoração em ambos os castelos.
- Pois que com este barulho só pode ter nascido meu descendente! – Disse James todo orgulhoso.
- Digo o mesmo, meu caro amigo. - Completou . – Tenho que ir agora, meu caro. Vemo-nos daqui a uma semana para resolvermos tudo que há de ser resolvido, passe bem James.
Ele disse enquanto praticamente corria em direção ao castelo. Antes que James sumisse de vista também lembrou de gritar.
- Felicitações, meu velho amigo!
- Para você também, . – Ele ouviu de um James que se embrenhava na mata em direção ao seu castelo.

Capítulo um

As notícias corriam rápido e todos já sabiam dos herdeiros reais, herdeiros de dois reinos que não encontravam paz há tantos séculos. Já estava perto do nascer do sol quando uma mulher e seu marido se dirigiam ao castelo de Firesun. As vielas ainda estavam vazias devido ao horário adiantado, mas Alan, marido de Judith, já estava quase atrasado para o começo da terceira reunião pela paz dos condados da Inglaterra. Ele era representante do povo de Icemoon, fora escolhido pela pouca idade e boa habilidade de falar, tinha duas filhas na idade de dez e oito anos e já podia imaginar que, novamente, a reunião não daria em nada. Essas reuniões aconteciam a cada quatro anos, sendo que esta era apenas a terceira. Foi criada pelos reis de Firesun e Icemoon logo após a morte dos antigos reis e rainhas. As reuniões tinham um objetivo claro, mas que nunca fora alcançado: fazer a paz reinar entre os dois reinos inimigos.
A medida que se aproximavam do castelo, burburinhos e sussurros iam tomando formas. Judith foi na frente se apresentar aos guardas da ponte levadiça, mas seu marido não demorou a alcançá-la. Os guardas baixaram a ponte e depois de atravessarem-na, se despediram. Judith foi tomar seu lugar como babá da pequena e Alan foi em direção ao salão onde era realizada a reunião. Assim que entrou pôde notar que não estava tão atrasado assim, pois ainda faltavam algumas pessoas importantes. Seguiu seu caminho até a mesa dos representantes, mas antes que se sentasse avistou o Rei conversando com um de seus conselheiros e se encaminhou até ele fazendo uma reverência profunda ao cumprimentá-lo.
- É um prazer, Vossa Majestade! - Ele disse voltando a postura ereta quando lhe puxou para um abraço.
- Já lhe disse que não precisa dessas formalidades, meu caro Alan. Judith trabalha conosco desde menina e você já pode sentir-se em casa. – disse simpático fazendo Alan corar um pouco.
- Eu vim parabenizá-lo pelo nascimento da pequena . – Disse amistoso.
- Obrigado amigo, ela com certeza é uma benção em minha vida. Aquela pequena será ardente e impetuosa como seu cabelo de fogo. Vou ter que preparar meu arsenal de armas para quando começarem os pretendentes. – brincou antes de se dirigir ao seu lugar.
E então a idéia veio tão clara e repentina na mente de Alan que ele não sabia como não havia pensado nisso antes. Era uma solução tão simples para tudo que eles queriam que ele ainda não acreditava que ninguém tivesse pensado em algo assim. Sorriu feliz consigo mesmo e marchou para o seu lugar de costume. E então a reunião começou.
James e se sentavam em cantos opostos nos dois lugares de mais destaque que tinha no salão. Lord Byron, um dos conselheiros reais de James, abriu a reunião falando sobre um acordo de paz entre os exércitos do norte que dera muito certo e que poderia ser feito também um acordo entre as aldeias para selarem a paz entre elas. Como o maior problema entre os reinos eram exatamente as aldeias que se declaravam inimigas uma das outras, logo vieram protestos e mais protestos contra essa solução. Os representantes do povo não iriam admitir esse acordo sem nada em troca.
Alan esperava paciente sua hora de falar enquanto mais idéias falhas como a primeira foram jogadas no lixo. Estava tão entretido pensando em todo um plano que não notou que todos lhe encaravam esperando que falasse até lhe gritar o nome, fazendo-o saltar da cadeira.
- Perdão Majestade. – Disse fazendo uma reverência com a cabeça.
- E sua sugestão? Qual é? – Perguntou um Lord Byron ainda desgostoso por ter sua solução rejeitada mais uma vez.
- Pois bem, - Ele começou enquanto se levantava. – Se bem estou, informado o Rei e sua esposa nos presentearam com a doce , exato? – Olhou para que concordou com a cabeça tentando descobrir aonde Alan queria chegar. – E o Rei James e sua esposa com o adorável ? – Encarou James que também confirmou com a cabeça. – Bom, minha mãe, quando eu era ainda um menino, adorava me contar histórias antigas.
- Ninguém quer ouvir o que sua mãe fazia quando você era um bebê, Alan. – Lord Byron o interrompeu.
- Deixe ele terminar, caro Byron. – olhou duro para o Lord que se encolheu na cadeira e murmurou algo antes de Alan retornar a falar.
- Como eu estava dizendo, ela me contava histórias antigas. A maioria delas sobre reinos inimigos que encontravam a paz em um casamento.
Todos se encararam confusos com o rumo que Alan dava na reunião.
- O que teria um casamento a ver com nossa situação Alan? – Perguntou James.
- Tudo. Pensem comigo, os dois reinos estão atrás de mais riquezas e de paz. Ambos tiveram herdeiros, uma menina e um menino. Um casamento pela paz entre eles acabaria com todos os problemas. Seria como uma união dos dois reinos. Poder em dobro, riquezas em dobro, soldados e guardas em dobro. E até a floresta que divide os dois reinos poderia começar a ser usada para cultivo.
e James já não ouviam mais o que Alan falava e se encaravam esperançosos, podiam ver nos olhos de todos que estavam ali que a paz estava mais perto do que podia imaginar.
Naquela mesma noite foi feita uma festa em comemoração ao novo acordo. Os aldeões dos dois reinos nunca haviam visto tal fartura e por isso estavam felizes por finalmente selarem a paz entre os dois reinos. Podiam-se ouvir as comemorações mesmo do outro lado da montanha e aldeões de reinos vizinhos apareceram curiosos pra saber o motivo de tanto alarde.
Quando a festa terminou e todos se retiravam para suas casas, os dois reis se reuniram com seus conselheiros para selar o acordo oficialmente. Demoraram horas pensando nas condições para que o casamento acontecesse e por fim decidiram que o melhor seria redigir um contrato pré-nupcial. Chamaram o escrivão e mais alguns conselheiros reais para ajudarem nas cláusulas do contrato. Passaram quase a noite toda trancados naquela enorme sala até o contrato estar de acordo com todos os lados.


Contrato da União do Reino Firesun e do Reino Icemoon pelo casamento de e Antonieta de Castanha .


1- Fica decidido que, para o bem dos dois reinos, as respectivas crianças, Antonieta de Castanha e , se casarão no dia 3 de setembro de 1480, quando terão 10 anos de vida, e viverão em seu próprio castelo, que já está em obras, o Castelo de SunMoon. As obras estão sendo ministradas pelos dois reinos.
2- Por concordância de ambas as partes, suas riquezas serão divididas igualmente, incluindo os feudos espalhados do outro lado da montanha. Os dois herdarão TUDO que está dentro da área que cerca os dois reinos.
3- Para melhor garantir o futuro e a saúde dos herdeiros, serão chamados os mais ágeis servos para cuidarem do bem estar dos futuros noivos em SunMoon.
4- Devido a circunstâncias em que se casarão, fica constatado que será de má fé os obrigar a uma noite de núpcias. Então decidimos que, pela integridade física e moral do casal, os votos do casamento não serão acompanhados do envolvimento carnal.
5- E por fim, para a garantia de herdeiros, assim que completarem dezoito anos, fica decretado que terão a adiada noite de núpcias. Será realizada uma cerimônia para o ritual do casamento, que será o segundo, e logo após os empregados deverão deixar o castelo ao anoitecer para a privacidade dos noivos.

...

passou os olhos pelo contrato mais uma vez, só pra se certificar de que tudo estava mesmo correto. Então virou seus olhos para a menina que estava parada em frente ao espelho. Ela tinha cabelos longos que desciam abaixo dos ombros e brilhavam na cor do fogo. Eram levemente ondulados, o que lhe dava um ar angelical, que contradizia totalmente sua personalidade. Seus olhos de um verde translúcido continham medo e determinação em seu brilho. Vestida com um longo vestido branco todo bordado e com um arranjo floral na cabeça, ela aparentava ter muito mais idade do que realmente tinha. Seus olhos passeavam pela imagem refletida no espelho até encontrarem os olhos de seu pai logo atrás de si.
- Papai, eu não quero me casar. Não com aquele pateta do ! – Ela suplicou enquanto se virava para encará-lo.
- Minha pequena , eu não posso fazer nada quanto as desavenças entre vocês, mas esse é único jeito de decretar a paz, meu anjo. – respondeu enquanto a fitava carinhoso.
Os olhos da pequena se fecharam por alguns segundos deixando que algumas lágrimas deslizassem pela sua face rosada e deixando um rastro úmido nas maças de rosto.
- Mas vocês viveram em paz todos esses anos sem que eu precisasse me casar. Porque você veio com isso agora? – Ela perguntou levantando uma das mãos para secar as lágrimas teimosas.
- Vivemos sim, querida. – Seu pai respondeu sereno enquanto a ajudava a limpar as poucas lágrimas. – Porém com a esperança desse casamento que hoje vai acontecer. Você já conhece toda a história, meu bem, e também conhece o povo do reino. Eles mais do que nunca estão depositando sua confiança em você.
Ele encarou os olhos de sua filha, que com apenas dez anos já tinha tanta responsabilidade nas costas. Por um momento ele pensou em desistir de tudo e não permitir que sua filha sofresse se casando, mas ele logo voltou à realidade se lembrando que era isso ou o povo se revoltaria contra eles. sabia que ela continuaria teimando até entrar na igreja e a única solução que viu para que ela não se expressasse por um bom tempo não o agradou. não gostava de ter que ser rígido com ela, de cobrar coisas dela, mas não viu outra escapatória senão essa. Ela era uma garota determinada e orgulhosa e ele tinha certeza que ela não o desapontaria caso ele pedisse isso dela. Virou as costas para a garota tentando controlar sua expressão e quando se voltou para ela novamente mantinha o queixo travado e os olhos sérios.
- E eu também, espero que você não me decepcione . – Ele completou a encarando duramente. Mesmo com o coração dolorido ele sabia que isso era o certo a se fazer. A menina desistiu logo de seus argumentos e marchou com o pai para fora do quarto observando cada pequeno detalhe do castelo que talvez não voltasse a ver tão cedo. Deixou um sorriso escapar ao encontrar sua sorridente mãe a esperando na beira da escadaria. Ela pegou as mãos de sua pequena com delicadeza enquanto admirava sua aparência. Mesmo na infância, tinha uma beleza fora do comum. E isso não passava despercebido aos olhos de ninguém, a não ser daquele que fora prometido a ela. Desde que se conheciam por gente se tratavam como cão e gato. Eles eram totalmente diferentes, como preto e branco, dor e prazer, vinho e água, trevas e luz. Nenhum dos reis ou rainhas sabiam qual seria, ao certo, o destino daquele jovem casal, todos temiam que isso tudo fosse um erro que os perpetuaria a uma vida desgostosa. Mas era tarde demais pra desistir. A catedral estava lotada e um burburinho de empolgação tomava conta do local. Se desfez assim que os primeiros acordes da marcha nupcial ressaram no templo. segurou firme na mão de seu pai e seguiu em direção ao altar. fez questão de colocar uma careta horrenda no rosto quando viu a menina apontar do outro lado do tapete vermelho que se estendia por quase toda a igreja. Seu pai não perdeu tempo e lhe deu um discreto beliscão, que o fez forçar um sorriso nos lábios. A melodia parecia lenta demais e tudo que os dois queriam era que aquela tortura terminasse o mais rápido possível. O arcebispo parecia tão cansado e fraco e o cheiro da colônia forte do pajem revirava o estômago das duas crianças, tudo parecia colaborar para que o tempo se arrastasse como numa tortura lenta que dilacerava toda sua vontade de sorrir ou pensar em coisas boas. Tudo aconteceu lentamente. O arcebispo ditava palavras que eles nem ao menos conheciam o significado e seus pais sorriam como adolescentes o tempo todo. Uma das amas de trouxe dois anéis dourados incrustados de brilhante, os quais as duas crianças enfiaram as pressas no anelar esquerdo. E então o padre falou algo que fez todo o povo presente comemorar. Finalmente parecia haver acabado e os herdeiros suspiravam aliviados enquanto as pessoas iam até eles para os cumprimentarem. Filas e mais filas se estendiam pelos corredores da igreja, todos interessados em chegar logo ao local da festança e se esbaldar no vinho e na carne. Enquanto isso as duas crianças saíam pelos fundos da igreja indo direto para uma carruagem enorme e branca. Os cavalos que a puxavam eram os mais bem tratados das redondezas e por isso a viagem até o novo lar deles não demoraria pouco mais que seis horas.
sentou-se o mais distante possível de apoiando os braços em cima do volumoso vestido de noiva e analisando a perspectiva de não poder, ao menos, participar de sua festa de casamento. Enquanto todos se divertiam em sua antiga casa ela rumava para um futuro indefinido ao lado do garoto que mais odiava no mundo. brincava com seu violão recém comprado na Itália, fazendo um barulho altamente irritante por ser sua primeira vez no instrumento e, sabendo que isso irritava a menina, acabava por arranhar com mais força as cordas do instrumento. respirava fundo e as vezes contava até dez para não gritar, mas era difícil. Era penosamente doloroso ter que pensar no resto de sua vida enclausurada ao lado daquele animal irritante ao qual teria que chamar de marido.
A garota fechou os olhos e com uma maturidade incomum pra uma criança de dez anos se pôs a pensar no rumo que sua vida tomara. Ela ficou dias sem entender o porquê de tanto fuzuê no castelo até seu querido pai lhe contar sobre o casamento. Mesmo sabendo que não adiantaria se rebelar contra isso ela tentou fugir na calada da noite, mas descobriu que seu quarto estava sendo vigiado. Só o que lhe restava era se conformar com o seu destino e esperar. Durante dias ela tentava encontrar a maneira perfeita de lidar com tudo isso, e a solução que sua pouca idade lhe permitiu encontrar foi ignorar o garoto que estava agora ao seu lado fazendo um barulho grotesco e ensurdecedor ao seu ouvido.
Ela procurou então se concentrar em outros assuntos e deixou sua mente explorar por entre seus maiores desejos, e acabou escolhendo pensar em como ela desejava viver um verdadeiro conto de fadas. Ela podia imaginar um campo aberto enorme, onde as flores cobriam tudo como um delicado véu colorido. O vento elevava seus cabelos cor de fogo para trás e fazia seus olhos se fecharem algumas vezes. Um cavalo branco se fazia ouvir descendo uma colina ao longe, cavalgado por um belo cavalheiro que não tinha absolutamente nada em comum com a realidade que agora lhe estourava os tímpanos. Ela sorriu desiludida enquanto observava a estrada passar e nem notou quando desistiu de tocar seu novo instrumento para observá-la.
- Me desculpe por ter te jogado naquele rio. – O menino disse tirando do transe repentino.
Ela olhou assustada pra ele até entender do que ele falava. Na última briga que tiveram ele acabou jogando-a em um riozinho que corria atrás da aldeia de FireSun. Ela sentiu o sangue ferver apenas com a memória, um de seus melhores vestidos foi para o lixo por causa daquela brincadeira estúpida dele.
- Não. – Ela respondeu dura virando novamente os olhos para a estrada de terra.
Ele a encarou frustrado e revirou os olhos antes de voltar a falar.
- Deixe de ser chata e me ajude a tentar melhorar a nossa convivência.
Ela suspirou e respondeu sem tirar os olhos da janela.
- Mesmo que eu tente, você sabe que de nada vai adiantar. Você sempre está arranjando motivos para me atormentar.
- E se eu prometer que irei parar? – Ele sugeriu enquanto guardava o violão debaixo do banco.
- Você não iria parar. E agora, por favor, me deixe com meus pensamentos e cuide de sua vida. – Ela respondeu acidamente para , que botou um bico na cara e se virou para o outro lado.
Ela acabou, por fim, adormecendo e não pôde notar o olhar constante do menino sobre ela. Ele não sabia se a asfixiava propositalmente para não ter que aturar a convivência ou endeusava sua beleza extraordinária. Ela parecia tão delicada e frágil que o fazia ter vontade de provocá-la a vida toda só para ver o lindo tom de vermelho que invadia seu rosto quando estava raivosa. No meio de tudo isso ele nem percebeu quando a carruagem adentrou os terrenos da aldeia de SunMoon. Foi só quando a carruagem parou abruptamente, acordando uma confusa, que ele pôde notar que haviam chegado. Um dos cocheiros abriu a porta para ajudar a princesa a descer. Ela ainda estava um pouco sonolenta, por isso ao invés de andar por si própria agarrou-se ao pescoço do cocheiro, que sorriu ao entender o que ela queria, e a carregou até o castelo, com ao seu encalço observando todo o terreno. “O castelo é realmente lindo!”, pensou o menino encarando a grande construção a sua frente. Era exatamente como a inovada arquitetura da França, só que localizada na Inglaterra. O tom de azul do telhado combinava perfeitamente com o branco que decorava o resto das paredes. Havia várias e enormes janelas, o que o fazia imaginar o quão claro e aconchegante deveria ser. Como todo bom castelo era protegido por um fosso enorme e cheio d’água, que contornava toda a extensão do castelo, e recheado de crocodilos enormes. Uma ponte os levava direto ao grande portão principal, que estava aberto à espera deles, e logo depois um pátio enorme e com imensos jardins floridos. Entraram por um caminho no jardim do meio e seguiram em direção ao castelo.
Assim que entraram pela porta um sorriso veio aos lábios dos Reis e Rainhas que os esperavam sentados em seus tronos. correu para abraçar a mãe e pegou dos braços do cocheiro, agradecendo-o e dispensando-o com um leve movimento da cabeça. Não demorou muito e estavam sozinhos na grande sala central. Os reis conversavam animadamente com enquanto as rainhas levaram para o seu quarto no segundo piso do castelo. A menina abriu os grandes e castanhos olhos assim que foi colocada na cama e sorriu ao ver a mãe.
- Mamãe! – Disse enquanto abraçava ternamente a rainha. – Pensei que você não fosse vir junto comigo! – Ela confessou aliviada por ver a mãe ali.
olhou pesarosa para a filha e sorriu docemente enquanto dizia:
- Meu bem, eu não vou poder ficar. Eu só vim me certificar de que tudo está no lugar certo. – Ela acariciava os longos cabelos da menina que agora suspirava desanimada.
As duas rainhas se entreolharam e se sentaram ao lado da menina até que ela dormisse novamente e quando desceram, encontraram seus maridos ainda conversando e dormindo em um dos tronos. Sorriram e chamaram a atenção de Paul e , que até então estavam entretidos numa conversa sobre a criação de gansos na Floresta conjunta onde se encontraram dez anos atrás. Eles carregaram até o quarto e cuidadosamente ajeitaram-no em uma cama do lado oposto a de . Desceram, encontrando suas rainhas e dando os últimos avisos pra que tudo corresse bem no castelo no período em que eles não estivessem presentes, afinal só iriam fazer visitas uma vez por mês. Antes de saírem se entreolharam sorrindo cúmplices e desejaram que estivessem mesmo tomando a decisão certa.

Capítulo Dois

Quase sete meses depois e tudo o que se ouvia durante as tardes naquele castelo eram os gritos inconformados e revoltados de para com as travessuras de . Ela não podia acreditar que ele pudesse ser tão infantil, tudo bem, ele tinha só dez anos. Mas ela também tinha e estava lidando com tudo muito melhor do que ele, que só queria saber de irritá-la até a morte.
Ela bufava raivosa enquanto olhava o estrago que ele havia feito nas plantas que ela tentara cultivar no imenso jardim. Um arrependido se encolhia logo atrás dela, preparado para o pior quando ela se virou para ele. Mas pelo contrário do que ele esperava, ela não gritou, simplesmente jogou as mãos para o alto e fechou os olhos com força procurando se acalmar. Quando falou sua voz saiu fraca.
- Eu desisto, ! – Ela disse o encarando frustrada. – Desisto. Você parece que não quer que isso tudo dê certo, só faz bagunça. Eu não quero ter que levar esse casamento nas costas!
Ele a olhou triste e suspirou pesadamente antes de se pronunciar.
- Me desculpe, ! Eu realmente não queria que você pensasse isso. É só que... – Ele respirou um pouco antes de falar. – Eu, bom, eu sinto falta deles... – Ele disse e logo entendeu que ele se referia aos seus pais. E então a realidade a atingiu como um baque. Ela tentara, a todo custo, afastar a memória de que seus pais não haviam voltado ao castelo depois do casamento, e ter isso na mente mais uma vez fez sua expressão se contorcer numa careta enquanto outro suspiro escapava de seus lábios.
Nesse momento Alan apareceu ao lado de Judith pedindo que eles entrassem, pois o jantar seria servido. O jantar transcorreu silencioso e após estarem fartos os dois se retiraram, sendo seguidos por seus fiéis servos, que foram dispensados quando chegaram ao quarto. lhe desejou um boa noite e apagou o castiçal que ficava do seu lado no quarto antes de se deitar. seguiu o exemplo dele, mas simplesmente não conseguiu dormir. Se revirava inquieta na cama e seus pensamentos só tinham uma direção: seus pais! Eles não tinham mais ido visitá-los e isso a machucava por dentro. Sentia falta deles, mas não queria admitir isso pra si mesma, sempre fora bastante orgulhosa para deixar de lado sua pose de forte. Mas as lágrimas que começaram a descer pelo seu rosto levaram quase todo o orgulho para longe e ela deixou escapar um longo soluço. Em menos de um segundo sentiu a beirada de sua cama afundar e o olhar preocupado de queimar na sua nuca, mesmo no escuro.
- Você está bem? – Ele perguntou com a voz baixa.
Ela engoliu outro soluço e falhou na tentativa de fazer uma voz firme quando disse:
- Eu estou ótima! Vá deitar, .
Ouviu-o bufar insatisfeito e esperou que ele se levantasse e voltasse para sua cama. Mas ele nem se dignou a movimentar um músculo.
- Você está tão bem que está até soluçando de emoção por isso. – Ele disse com sarcasmo enquanto revirava os olhos. – Me diga o que você tem, , eu só quero lhe ajudar.
Ela apertou os olhos, impedindo que mais lágrimas caíssem, e se sentou na cama. Encarou a silhueta que a sombra dele formava e deu um meio sorriso ao perceber a bagunça que o cabelo dele estava. Mas logo seu sorriso sumiu quando sentiu que as lágrimas voltavam a deslizar pelo seu rosto. Mesmo no escuro percebeu um brilho descendo pelo rosto de , e assim que entendeu que ela havia voltado a chorar, subiu sua mão até o rosto da menina e limpou a lágrima que caía.
- ! – Ele disse quando ela se jogou em seus braços e disparou a soluçar desesperada.
Sentiu sua camisa do pijama ficando molhada mas não se importou, ver a garota daquele jeito lhe apertava o coração e ele só podia pensar em consolá-la. Apertou os braços em volta dela tentando lhe passar segurança e isso pareceu funcionar, pois aos poucos a garota foi se acalmando. Quando ele percebeu que ela já não chorava mais, a guiou para trás até que ela estivesse deitada. Se levantou e , pensando que ele voltaria pra cama dele, disse em um tom um pouco alto demais.
- Não! – Ao notar que estava segurando firmemente a mão do garoto a soltou e sentiu as bochechas queimarem. Deu graças aos céus que estava escuro e escondeu a cara no travesseiro.
sorriu abertamente e pulou para o outro lado da cama da menina, se deitando embaixo das cobertas, de frente para ela. Passou uma das mãos pelos cabelos avermelhados da garota e sussurrou para que ela ouvisse.
- Eu não ia embora, eu só estava tirando os calçados.
Ela o olhou confusa e sorriu envergonhada ao perceber a gafe que cometera, ia esconder o rosto novamente no travesseiro quando sentiu a mão dele lhe impedindo.
- Não fique com vergonha. - Ele disse enquanto lhe acariciava as bochechas.
Ela encostou calmamente o rosto no travesseiro de modo que pudesse olhar diretamente nos olhos dele.
Ficaram se encarando por um longo tempo até que ela suspirou e disse.
- Você sente falta deles? – Sua voz saiu num sussurro.
imediatamente entendeu o porquê dela estar triste e sentiu uma vontade imensa de abraçá-la mais uma vez.
- Sinto. – Ele respondeu depois de um tempo. – Mas eu tento não me ocupar muito com esse sentimento porque eu sei que eles devem ter muitos bons motivos para não aparecerem depois de seis meses e meio. Acho que tudo que eu faço pra te irritar tem o intuito indireto de me distrair. – Ele confessou enquanto um sorriso divertido surgia em seus lábios. o encarou incrédula e lhe deu um tapinha no braço que estava descoberto, fazendo gargalhar. – Me desculpe. – Ele disse enquanto se recuperava dos risos.
O silêncio voltou a reinar e sentiu que era hora de cortar o assunto. Esticou o pé até tocar o de e enquanto encarava aquele olhos extremamente lhe disse:
- Boa noite, .
Ele sorriu ao ouvi-la chamar-lhe pelo seu apelido. Deslizou um dos dedos pelo rosto dela e antes que ela pudesse reagir grudou seus lábios aos dela num selinho totalmente desajeitado. Mas não durou muito e ele já estava com a cabeça no travesseiro novamente.
- Boa noite, .

...

A chuva castigava o telhado do castelo, tirando o pouco sono que restava de . sumira com um dos empregados após o jantar e não havia voltado ainda. Antes de sair de perto dela, ele a olhara de um jeito indecifrável e um pouco culpado, e isso a deixou totalmente confusa. Depois daquela noite eles estavam se entendendo melhor, mas ela podia sentir que isso não duraria muito, um aperto dolorido no peito lhe informava que sua tranqüilidade ia ser brutalmente abalada, mas ela preferiu ignorar esse sentimento.
Enquanto ela encarava os estranhos desenhos que as gotas de chuva formavam na sua janela, conseguia imaginar muitos motivos para ele não estar ali agora, mas infelizmente, ou não, nenhum deles era plausível o suficiente para que ela acreditasse ser verdade. Ela riu ao pensar na possibilidade de ele estar com outra, era totalmente incabível. Não fazia nem um ano que haviam se casado e um garoto com dez anos não significava perigo ou traição, mas sim aventuras. Ele devia estar resolvendo alguns problemas em relação ao reino e isso a perturbava, ele era tão novo para começar a se preocupar. Sentiu que não conseguiria mais dormir e enquanto se levantava decidiu que merecia um pouco de diversão. Em sete meses de casamento ela já tinha esquecido o que era ser criança com tantas responsabilidades novas lhe assombrando. Calçou sua sapatilha, acendeu um par de velas do castiçal que pendia na parede do quarto e saiu pelos corredores do castelo para explorá-lo, ainda conhecia pouco daquela construção enorme e maravilhosa. Entrou em uma das inúmeras portas e ali encontrou algo que lhe chamou a atenção. A sala estava completamente vazia a não ser por uma tela em branco sobre um suporte, algumas tintas espalhadas graciosamente no chão ao lado da mesma e vários pincéis. Colocou o castiçal no chão e foi em direção à tela, alguns meses antes fora a algumas aulas de pintura e simplesmente havia adorado, mas então toda essa confusão de casamento pela paz não permitiu que continuasse a freqüentar as aulas e ela acabou esquecendo de como se sentia bem quando pintava. Suas mãos coçavam para que ela pintasse algo, mas mal tinha acabado de começar a descobrir as coisas desse castelo, ainda tinha muito o que ver. Sorriu para si mesma e voltou a pegar o castiçal do chão enquanto saía da sala. Parou em frente à porta da mesma e memorizou o local onde ficava, para que pudesse fazer um visita mais tarde. E então voltou ao seu caminho visitando mais salas, todas praticamente iguais, enormes quartos com camas estupendamente convidativas. Um pouco irritada por ter desistido de pintar para ver vários quartos iguais, nem notou quando topou com uma escrivaninha de madeira no meio do corredor. Abismada se perguntou o que ela estava fazendo ali, mas logo entendeu ao notar que ela tampava o acesso a uma porta pequena e escura. A curiosidade lhe comichava as orelhas e ela deu um passo em direção ao canto da escrivaninha, no intuito de empurrá-la para longe, mas uma voz fez seus músculos congelarem onde estavam. Ela conhecia muito bem aquela voz, e virou o rosto procurando por escondido em algum lugar, mas ele não estava a vista. Sacudiu a cabeça, certa de que já estava alucinando, e ia se afastar dali, quando a risada dele ecoou pelo corredor. Mas não era só a risada dele, outra risada mais fina e tímida o acompanhava, e encarou estupefata a porta pequena e escura quando concluiu que a voz de vinha de dentro daquele cômodo. Mas que diabos ele estava fazendo ali e quem estava com ele? subiu delicadamente, tentando não fazer barulho algum na escrivaninha, e encostou o ouvido na porta, tentando escutar o que acontecia ali.
- É só um beijo, ela não vai nem descobrir. – Ela ouviu uma voz infantil e anasalada falar e arregalou os olhos, tamanha sua indignação.
- Mas eu não sei se isso é certo... – tinha a voz trêmula e insegura e sentiu como se um bolo estivesse entalado no meio de sua garganta a lhe asfixiar lentamente.
- Eu sei que você quer, , e ela nem ao menos gosta de você!
Foi o que bastava, lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de e ela não queria ficar ali nem por mais um minuto! ! Ela tinha o chamado pelo apelido!
Enojada com o diálogo que ouvira, ela saiu correndo a esmo pelo corredor e antes que pudesse perceber, sentiu uma porta batendo atrás de si e encarou a tela em branco que continuava no mesmo lugar. Deixou seu corpo deslizar pela porta até o chão e as lágrimas lhe escaparem junto com soluços incontroláveis. Como ele ousava? Eles tinham um compromisso para com o outro e lá estava ele, quebrando-o totalmente. Ela sentia como se alguém lhe tivesse espalmado a cara e a única coisa em que conseguia pensar era que nunca deixaria que a tocasse novamente. Nunca mais se permitiria sentir o estômago dando voltas quando ele lhe dirigisse a palavra, se é que ela o deixaria fazer isso novamente. Enxugou as lágrimas na manga do vestido e também jurou que não derramaria mais nenhuma lágrima por ele. Encarou a tela novamente e suspirou pesadamente, desfez a trança que amarrava seus cabelos e com os grampos o prendeu em um coque desajeitado, mas pelo menos não correria o risco de sujá-los, já bastava o vestido que ficaria bem manchado. Sorriu tristemente e, levantando as mangas do vestido até acima do cotovelo, pegou um dos pincéis no chão, molhou-o na tinta vermelha e o afundou furiosamente na tela, que agora já não estava mais totalmente branca.

coçou a cabeça em sinal de nervosismo e sorriu amarelo para a menina a sua frente. Será que ela não entendia que ele não queria aquilo? Quando aceitou passar a noite brincando e se divertindo com ela nunca pensou que ela lhe pediria aquilo. Um beijo! Por Deus! Onde ela estava com a cabeça, ele era casado, e logo agora que as coisas estavam indo tão bem, a estranha filha de Judith lhe pedia um beijo. Ela nascera um pouco depois de o acordo do casamento ser firmado e cresceu junto de . Por muito tempo fora sua melhor amiga, mas então ele se casou. E agora ela reaparecia do nada reivindicando sua atenção e querendo um beijo. Ela só podia estar delirando, concluiu , enquanto afastava a garota pelos braços delicadamente antes que ela conseguisse o que queria. Viu o sorriso da mesma murchar e não evitou sentir um aperto no coração, apesar de tudo ela fora sua amiga por todos esses anos. Mas era de que ele deveria gostar e foi isso o que ele disse a ela.
- Sinto muito Kate! Mas eu devo lealdade a minha esposa. – Ele disse enquanto dava as costas a ela, pronto para sair da sala. Mas antes que pudesse, ouviu um soluço, e quando se virou novamente pra ela deu involuntariamente um passo para trás.
A expressão da menina se transformava e ela agora carregava um ódio imenso no olhar que direcionava ao garoto. sentiu a voz falhar quando ela apontou o dedo na sua cara e ele deu mais um passo pra trás, batendo as costas na porta e começou a procurar pela fechadura disfarçadamente enquanto a menina se colocou a falar num tom maldoso.
- Você vai se arrepender disso tudo que está fazendo, , você verá. Seu casamento nunca dará certo e quando você vier me procurar mais tarde eu vou rir na sua cara.
Ela dizia num tom furioso e , assustado, se perguntava onde ela havia aprendido a ter tanta raiva. Ela era apenas uma criança, mas falava como uma adulta revoltada, e foi exatamente por isso que, assim que encontrou a fechadura, deu um passo pra frente e puxou a porta que abriu para o lado de dentro. A menina interpretou isso de outra forma e sua expressão se suavizou formando um meio sorriso surpreso, mas que logo desapareceu quando lhe deu novamente as costas e saltou por cima da escrivaninha desaparecendo logo em seguida pelo corredor. Correu apressado para o quarto, ansioso por ver , mas a decepção lhe atingiu em cheio quando ele notou a cama dela vazia. Tudo o que lhe restava fazer era dormir e foi o que ele fez, deitou-se, e com os pensamentos perdidos em onde a garota havia se metido ele adormeceu.

O céu amanheceu extremamente limpo depois da tempestade da noite anterior e o sol brilhava no alto das montanhas distantes do reino. se mexeu incomodada e acabou despertando com alguns feixes de luz que atingiram seus olhos. Ela se sentou, mas com o movimento, logo levou as mãos ao pescoço devido a dor que se instalava ali. Coçou os olhos com a outra mão e ao observar a sala em que se encontrava, lembrou-se dos acontecimentos da noite anterior e se deixou cair no chão novamente. Ela havia pintado até cansar as mãos e logo depois adormeceu ainda chorando no chão, devia ser por isso que seu pescoço e suas costas doíam tanto. Ela havia dormido no chão e agora se sentia como se tivesse enfrentado uma batalha algumas horas antes; o que não deixava de ser verdade, ela havia travado uma batalha com seu coração. Fechou todos os sentimentos bons que tinha em relação a no canto mais obscuro e vazio que existia lá e prometeu a si mesma nunca mais abrí-lo. Seus olhos se acostumaram com a claridade que entrava pela janela e ela encarou a tela pintada. Uma linda flor alaranjada enfeitava o quadro, com folhas azuladas e um fundo todo preto e branco. Era o que se podia chamar de alegre e doce, não fosse pelas centenas de filetes de sangue que escorriam em todas as pétalas da delicada flor. se levantou e sacudiu um pouco o vestido para tirar a poeira, mas foi em vão, já que ela estava toda grudada na tinta que secara durante a noite. Mais um vestido para o lixo, mas pelo menos dessa vez não tinha nada a ver com isso. Ela bateu na própria testa para afastá-lo novamente de sua mente e foi em direção a tela. Tirou do suporte e a colocou virada ao contrário encostada na parede de trás. Não queria ter que encarar a sua realidade no momento e antes que quebrasse a pintura no meio saiu apressada da sala. No caminho para o lavatório encontrou Judith que olhou, espantada, o estado que a menina se encontrava. Os cabelos totalmente revoltos presos a um coque que desmoronava aos poucos, o rosto, os braços e o vestido completamente sujos de tintas de várias cores e uma expressão vazia e derrotada. Sem nem uma palavra a serva a pegou pela mão, continuando para o caminho do lavatório.
parecia mais uma boneca de pano, não falava e nem fazia questão de ajudar Judith a tirar seu vestido, apenas encarava o nada. Judith desembaraçou com cuidado os longos cabelos da menina e deu um banho quente nela enquanto a mesma não dava sinais de vida interior. Colocou nela um vestido novo que chegara pela madrugada por um mensageiro do reino de seus pais e foi só quando ouviu isso que encarou Judith surpresa e pronunciou algo.
- Meus pais? – Ela sussurrou enquanto Judith suspirava aliviada por ela aparentemente voltar a parecer um pouco normal.
- Sim, veio junto com uma mensagem de que eles chegam logo e um pedido de desculpas pela demora. John, o mensageiro, ainda disse que agora eles só poderão vir uma vez por ano. A criação de gansos está dando mais trabalho do que eles planejavam. – A serva respondeu docemente enquanto terminava de pentear os cabelos da menina em uma longa trança.
Assim que ela terminou, se virou de frente pra ela e sorriu triste.
- Me desculpa por isso Judith, eu não queria que você me visse assim.
Judith abriu um enorme sorriso diante da maturidade da menina e disse, enquanto acariciava os cabelos da mesma.
- Não se preocupe meu anjo. Você sabe que eu sempre estarei aqui, só não me apareça mais uma vez com essa expressão vazia, me promete? – Pediu enquanto estendia uma das mãos para a garota.
apertou a mão de Judith e, com um sorriso um pouco mais alegre, prometeu antes de ser avisada que o desjejum estava servido. Respirou fundo e desceu as escadas, sentindo seu coração se perder dentro de um buraco sem fundo e os nervos doerem quando avistou a silhueta de sentado ao lado de sua cadeira. Havia uma semana que ele tinha se mudado da cadeira mais distante dela para a mais perto, havia uma semana que eles tinham se aproximado subitamente, havia uma semana que ele tinha a beijado. A garota tratou de chutar esses pensamentos pra longe antes de se sentar a mesa e nem ao menos respondeu o animado bom dia de . Sentou-se totalmente ereta e instantaneamente notou o olhar confuso dele sobre si. Pegou um pedaço de pão com ele ainda a observando e, assim que o levou a boca, o garoto pareceu decidir que não havia nada com ela e pegou um pedaço ainda maior que o de e o enfiou na boca. bufou enquanto se virava pra ele, que comia com a boca aberta deixando alguns farelos escaparem.
- Será que dá pra você se comportar como um ser humano? – Ela disse rudemente antes de voltar a mastigar o pão.
se virou quase que instantaneamente pra ela com os olhos arregalados e engoliu o pão antes de responder.
- O que há de errado com você, ? Passou a noite toda fora e agora vem com essa educação de elefante me xingar! – Ele disse irritado pelo jeito seco dela.
Ela parou tudo o que estava fazendo e encarou furiosamente os olhos de , que a fitava irritado.
- Como você ousa? – Ela disse com ódio enquanto seus olhos dilaceravam os dele. – EU passei a noite toda fora? Tem certeza, ? – Ela perguntou sarcástica antes de virar a cara novamente.
E então entendeu, ou pelo menos pensou que entendeu. Ela estava assim porque ele havia saído de noite, e devia ter sido por isso que ela não estava no quarto quando ele voltou, deve ter ido procurá-lo e acabou desistindo e dormindo em outro lugar.
- , eu... Me desculpe. – Ele disse sincero enquanto se apressava para tomar a mão dela nas suas. Mas a atitude dela ele não poderia esperar nunca.
Ela se afastou dele com um pulo e no seu olhar continha um ódio palpável.
- Nunca... Mais... Me toque! – Ela sibilou essas palavras antes de desaparecer pelas escadas, deixando um totalmente confuso encarando o lugar em que os olhos dela estiveram antes.

Capítulo Três

- < !
O grito agudo da jovem ressoou no castelo todo, deixando sua voz pavorosamente medonha e alta. , que se escondia embaixo de uma das mesas gigantes do salão principal, onde se fazia um banquete todas as noites com os aldeões do reino, tentava inutilmente controlar o riso para não ser pego por .
A menina, que agora já tinha 17 anos, passava pelos corredores como um furacão, deixando atrás de si somente a sombra de seus enormes cabelos vermelhos. Quem olhasse em seus olhos naquele momento pediria por piedade, a não ser um único ser que, nesse exato momento, devia estar escondendo a cara depois de ter roubado-lhe o cachecol enquanto ela aguava as flores com Ignácio. A raiva tomava conta de sua mente, já era a milésima vez que ele saía, roubando-lhe o cachecol, e partia em disparada para não ser apedrejado por ela.
- SE EU PEGO VOCÊ NÃO SEI NEM O QUE VAI SOBRAR PARA EXPOR NO MEIO DA ALDEIA! – Ela gritava furiosa enquanto tentava controlar o vestido, que insistia em deixá-la mais lenta.
Por fim, quando passava pela cozinha, ouviu os risos baixos do ser detestável que a irritara. Sorriu vitoriosa e tirou os sapatos para que ele não a percebesse em seu encalço. Entrou cuidadosamente no Salão Principal, revistando o lugar com os olhos sem encontrar nada. Mas ela sabia que não estava louca, tinha certeza que ele estava lá, só precisaria procurar melhor. Porém, sem que ela soubesse, ele podia ver cada movimento dela e empanturrava seu coração cada vez que ela estremecia de raiva, fazendo os olhos brilharem perigosamente. Ele afastou esses pensamentos e quando ela virou-lhe as costas saiu de seu esconderijo fazendo um barulho desnecessário, mas proposital, pra que ela o enxergasse. Ela virou rapidamente o rosto e, assim que o viu, correu os braços pela mesa agarrando uma sacola cheia de ovos de gansos e sorriu maldosamente. Quando ele entendeu o que ela pretendia, pulou em cima da mesa e saiu correndo por toda a extensão desta em direção à outra ponta. esbravejou e mirou um ovo na cabeça dele, errando por pouco, antes de subir na mesa e sair em disparada atrás do marido. Ele iria aprender a não lhe irritar. AH! E como iria!

...

Os reis e rainhas de Firesun e Icemoon estavam ansiosos por encontrar seus filhos. Devidos a alguns problemas na aldeia, fazia quase um ano que não os viam, e somente o que podiam pensar enquanto atravessavam a ponte era em como estaria o relacionamento dos dois. Temiam que ainda continuassem se odiando, principalmente agora que estava chegando a hora de gerar herdeiros. Mas tiveram a atenção desviada quando ouviram risos altos de e a voz de furiosa e ofegante.
- VOLTE AQUI, SEU GROSSEIRO! DEVOLVA MEU CACHECOL!
Todos, espantados, seguiram em direção as vozes e se depararam com a cena mais engraçada que poderiam ter presenciado: perseguindo por cima de todas as mesas e tentando acertar-lhe ovos na cabeça enquanto ele apenas ria e se ocupava de não errar o passo e cair. Mas assim que avistou seus pais parados na porta do salão se distraiu por um momento, estando um pouco boquiaberto, o que foi suficiente pra que acertasse dois ovos seguidos em sua cabeça e suas costas. Ele gemeu em protesto e levantou as mãos em sinal de rendição, deixando o cachecol cair no chão, encarando os pais enquanto sorria amarelo. , ainda sem notar a presenças de seus familiares ali, colocou os ovos de volta na mesa e correu para pegar o grosso cachecol rosa berrante. Mas acabou tropeçando desastrosamente indo de encontro ao chão, o que fez que explodisse em risadas. A garota sentiu o sangue ferver e se levantou o mais rápido que pode enquanto apontava o dedo furiosa no rosto dele, mas antes que pudesse falar algo uma tosse proposital de chamou a sua atenção para os visitantes ainda perplexos na porta.
- MAMÃE! PAPAI! – comemorou enquanto corria em direção aos seus pais e somente caminhou atrás dela, sorrindo sem graça para a sua mãe, que o olhava penalizada.
- Se não tivéssemos chegado, creio que meu filho estaria morto agora! – brincou enquanto diminuía a distância do filho com um abraço.
sentiu as bochechas arderem quando ouviu isso e sorriu sem graça para a Rainha, que riu gostosamente se virando para abraçar a nora.
- Relaxe, minha menina! Eu imagino que você tenha motivos suficientes para querer bater nele. – Ela sorriu, arrancando gargalhadas de todos.
- Sim, eu tenho. – riu. – Oh! Estou tão satisfeita que tenham vindo, vocês não imaginam como fazem falta por aqui. Mas vamos todos para dentro, vamos levá-los aos seus aposentos para que se preparem para o jantar que será servido daqui a duas horas.
- A nossa cozinheira é mesmo muito boa! – Exclamou . – Graças a Deus vocês a contrataram, não consigo me imaginar vivo depois de uma refeição preparada por . – Ele completou com um sorriso maroto no canto dos lábios, fazendo revirar os olhos e bufar enquanto subia as escadas guiando os pais.
- Você não sabe aproveitar as delícias da culinária Francesa. – A garota disse, mal se dando o trabalho de virar o rosto na direção dele.
- Delícias? Seriam delícias se você não tivesse queimado todo o jantar por ser avoada. – Respondeu indignado, fazendo os reis e rainhas sufocarem um risinho.
o encarou frustrada e, numa última tentativa, disse:
- Eu só queimei porque você fazia questão de me importunar o tempo todo. Se você não fosse tão infantil e teimoso, talvez eu pudesse não queimar propositalmente seu jantar na próxima vez. – Ela disse, com ênfase no propositalmente, sorrindo maldosamente com uma das sobrancelhas arqueadas e se virou novamente para as escadas, deixando um confuso e apaspalhado no pé da mesma. Colocou os sogros em um enorme quarto dourado e parou em frente ao quarto em que seus pais ficariam para abraçá-los mais uma vez.
- Mamãe, eu senti tanto a falta de vocês esse ano! – Ela disse manhosa enquanto se pendurava no pescoço de . – Parece que faz um século que não os vejo. – Terminou e abraçou o pai.
- Mas nós mandamos mensagens junto com os presentes. – Protestou . – Não bastou?
- Ovos de ganso, travesseiros de penas de ganso e uma carta só me fizeram notar o quão bem está indo a criação de gansos. – sorriu. – Eu queria saber como vocês estavam! – Ela reclamou.
- Agora nós estamos aqui, querida. – sorriu para a filha e adentrou o quarto, deixando a sós com sua mãe.
- Eu vou querer conversar com você sobre o que eu vi no salão mais tarde, viu, mocinha? – disse, fazendo bufar.
- Eu não sei como eu ainda não me matei mamãe, ou melhor, como eu não O matei!
- Está tão ruim assim? – perguntou fazendo uma careta.
- Ruim? Está péssimo! Ele é um imbecil que não tem nada melhor para se ocupar que não seja acabar com a minha paciência.
riu sonoramente antes de ouvir seu marido a chamar de dentro do quarto.
- Vá cuidar de seu marido, meu anjo. Nos encontramos mais tarde. – Disse se despedindo de com um abraço.
desceu as escadas receosa e encontrou o rosto vermelho de raiva do seu marido a encarando mortalmente ao pé da escada. Sorriu satisfeita e parou um degrau acima dele, encarando-o nos olhos.
- O que aconteceu, querido? – Ela disse docemente enquanto levantava as sobrancelhas sugestivamente.
Ele apertou os olhos e deu um passo para o lado, livrando o caminho dela, mas assim que ela deu um passo pra fora da escada ele segurou em seu braço e a empurrou até a parede mais próxima, prendendo-a entre seu corpo e o concreto.
- Então quer dizer que você me obrigou a comer aquela porcaria por vingança pessoal? – Ele disse com a voz rouca e baixa enquanto a encarava.
ficou totalmente desnorteada quando sentiu o perfume dele invadir suas narinas e não pôde formular nenhuma resposta coerente, o que o deixou mais revoltado e assim diminuiu ainda mais a distância entre eles. Era a primeira vez que ficavam tão próximos um do outro e não deixou de perceber em como a pele dela deslizava sob o aperto de sua mão, como se fosse feita de algodão. As bocas quase se tocavam, mas os olhos de captaram algo que desviou sua atenção e ela o empurrou para longe, antes de marchar em direção ao seu cachecol jogado no meio do salão.
- Não reclame, , você mereceu aquilo. – Ela disse enquanto tentava normalizar a respiração, mas sem nem mesmo se atrever a olhá-lo, se abaixou para pegar o cachecol e logo depois o enrolou no pescoço.
- Isso não vai ficar assim, querida esposa. – Ele disse baixo antes de se virar e subir as escadas com passos fortes.
se deixou cair na cadeira mais próxima enquanto aspirava profundamente o ar a sua volta. Não sabia exatamente o que sentira quando praticamente a agarrou, mas tinha certeza de que, pro seu total desgosto, havia gostado. Detestou-se por isso, mas não se deu ao trabalho de chorar ou correr, apenas fechou os olhos e deixou que as memórias do acontecido a levassem para o mundo dos sonhos.

Capítulo Quatro

- Senhora ? – Disse a serva enquanto empurrava gentilmente o corpo da patroa, que pendia vagamente para o lado da cadeira. – Senhora ? – Ela tentou um pouco mais alto, fazendo abrir os olhos assustada.
- O que houve? – Ela perguntou, procurando vestígios de uma tragédia por todos os cantos da sala.
- Vossa majestade dormiu, minha ama. – Disse a serva sorrindo docemente. – E o jantar será servido em dez minutos. Seus pais já devem estar descendo.
- Oh! Obrigada Judith! – Agradeceu enquanto levantava rapidamente e, com a ajuda da serva, desamassava o vestido. – Como estou? – Perguntou à Judith.
- Impecável como sempre, minha ama. – A serva sorriu antes de fazer uma leve reverência e se locomover pra fora do cômodo.
respirou fundo enquanto se encaminhava para a sua grande cadeira, ornamentada por um dos mais requisitados arquitetos da época, e se sentou. Cruzou as mãos no colo e as encarou por breves segundos antes de dar ordem para que abrissem os portões do castelo. Ela ainda podia sentir as pernas fraquejarem por se lembrar da proximidade compartilhada com o marido quando os aldeões começaram a adentrar o grande salão. Todos sorriam e faziam reverências, as vezes exageradas, para ela, que correspondia o sorriso com um maior ainda e um aceno de cabeça. Algumas das crianças se postaram do seu lado para lhe beijar as mãos e ela colheu a menorzinha ao seu colo enquanto as outras se afastavam. Era Julieta quem segurava, a neta de Judith, sua serva. Ela vira a garotinha nascendo e criara desde então um imenso afeto pela menina de pele parda, cabelos negros e olhos azuis.
- Como você cresceu, pequena Julieta! – disse sorrindo para a garota que batia descontroladamente as mãozinhas, rindo.
- Mamãe disse que sou quase uma mos! – Ela olhou divertida e confusa para a menina que agora brincava com seus cabelos.
- E o que seria uma mos? – Julieta olhou aborrecida pela falta de entendimento de .
- MOS! Você é uma mos! – Ela dizia enquanto cutucava o ombro de .
- Ah! Uma moça! – Ela disse rindo e apertando as bochechas da pequena. – Você é mesmo quase uma moça! – Completou, fazendo Julieta se agarrar em seu pescoço lhe dando um forte abraço.
Nesse mesmo instante os reis e rainhas adentraram o salão com os guiando. Mas assim que ele botou os olhos na esposa e a viu abraçando afetuosamente a neta de Judith, seu coração deu uma volta de 360° e pareceu querer sair pela boca no mesmo momento que uma onda de carinho invadia seu ser, o obrigando a sorrir quase que instantaneamente. Sua mãe notou isso e lhe disse ao pé do ouvido para que só ele ouvisse.
- Logo será o fruto de vocês dois a quem ela vai abraçar. – Sorriu e passou à sua frente para se sentar perto da nora.
respirou fundo, sacudindo a cabeça para afastar esses pensamentos, e depois de encaminhar os outros se postou em pé ao lado da esposa, que falou algo no ouvido da menina e a colocou delicadamente no chão, tão logo a menina desapareceu no meio das mesas cheias, se levantando prontamente.
Assim que os dois estavam de pé o silêncio se fez presente no grande salão e sorriu abertamente para todos, sendo acompanhado pela esposa.
- Tenho a imensa satisfação de saudar os reis e rainhas que depois de um bom tempo vieram compartilhar desse banquete conosco! – Ele levantou seu copo já cheio do melhor vinho que sua aldeia produzia e fez uma saudação na direção de seus pais e dos pais de .– Venho também lembrar que dentro de um mês minha ‘adorável’ esposa – Ele disse dando uma ênfase irônica no adorável que só percebeu. –, completará 18 anos! Preparem seus melhores trajes, pois todos estarão convidados!
Assim que ele terminou a frase pode-se ouvir que a palavra “Viva!” ecoava por todos os cantos do salão. Mas não durou muito, pois ele bateu levemente com o talher no próprio copo e tudo entrou em silêncio novamente.
- E que comece o banquete! – Ele terminou se sentando e concentrando sua total atenção no enorme prato de comida que estava a sua frente.
Tratou logo de enfiar uma grande coxa de frango na boca, enquanto o observava enojada e incrédula.
- Tente ao menos parecer civilizado ! – Ela disse enquanto cuidadosamente separava a carne do osso em seu prato.
- Mugesha cume! – Ele disse sem olhá-la enquanto ela o encarava sem ter entendido uma palavra do que ele disse. Ele a olhou impaciente depois de engolir tudo e repetiu. – Me deixe comer! - Enfiando mais um bom pedaço de carne goela abaixo e fazendo revirar os olhos voltando ao seu plano de sempre: ignorar .
Não demorou muito e todos alisavam as barrigas, totalmente satisfeitos. bebia e ria alto enquanto conversava com seu pai e , enquanto encarava, frustrada, os aldeões irem se retirando sem deixar de sorrir para ninguém.
A medida que o salão ia ficando vazio, as risadas escandalosas de seu marido iam ecoando mais e mais e ela pensava em que diabos ela estava pensando quando achou que poderia estar atraída por ele. Ela tinha se casado com um completo animal, tinha certeza disso agora. E teve mais ainda quando sentiu o cheiro forte de álcool que ele emanava enquanto se aproximava do lugar onde estava.
- Queridinha, nossos pais querem conversar com nós! – Ele disse embaralhando as palavras. – Ou com a gente, eu não sei! – Riu da própria piada sem graça enquanto bufou e tomou a frente dele, seguindo direto para onde seus pais e os pais dele estavam. Ela não sabia por que, mas borboletas pareciam comer seu estômago e ela sentia que o que estava por vir não era nada bom.
Sua suspeita se confirmou quando encontrou os sorrisos cúmplices dos mais velhos, que se encontravam no escritório de . Eles só iam até lá para tratar de assuntos importantes, como da última vez quando ‘acidentalmente’ colocou fogo em mais da metade dos vestidos de . Ela afastou essas lembranças antes que resolvesse estrangular o marido e se sentou em uma das cadeiras indicadas por seu pai. Esperou pacientemente, enquanto tamborilava os dedos no braço da cadeira, conseguir encontrar um lugar pra sentar e se jogar ao seu lado. Ela rolou os olhos quando viu ele sorrindo galante e bêbado para os próprios pais.
- Podem falar, meus ‘contranheiros’! – Ele disse antes de tapar a boca e soltar um: – ‘Ops’, quis dizer companheiros!
As mulheres o fitavam desgostosas enquanto os reis riam divertidos, definitivamente aquele rapaz lembravam-lhe eles mesmos em seus tempos de mocidade.
- Bom, nós temos um comunicado para fazer aos dois. – Disse um pouco receosa.
- Pois façam. – Respondeu , ainda tamborilando os dedos.
- Quando vocês nasceram, - Começou . – foi feito um contrato, vocês sabem disso. – concordou com a cabeça enquanto brincava com os dedos um pouco alheio ao diálogo. – Foi esse o contrato que permitiu que o casamento acontecesse em tais circunstâncias. Todas as clausulas daquele contrato foram obedientemente cumpridas até hoje, menos uma. – Ele disse se sentando.
- A última clausula trata de um assunto delicado, por isso os chamamos aqui. – Disse em um tom doce, mas ao mesmo tempo extremamente autoritário. – Todos aqui sabemos o quão ‘bem’ vai a relação de vocês, então sabemos que nenhum dos dois irá ceder para que resolvamos esse assunto. Mas eu estou informando-lhes agora que vocês não terão escolha, antes que comecem a se lamuriarem. O aniversário de minha filha está chegando e assim que completar dezoito anos vocês terão a noite de núpcias. – Ela terminou em um tom inquisitivo, atraindo finalmente a atenção de , que agora não parecia mais estar tão bêbado e sim muito consciente do que acabara de ouvir além de definitivamente boquiaberto.
Os olhos de estavam desfocados e ela não sabia o que pensar, é claro que ela havia imaginado que esse dia chegaria, mas pensou que fosse demorar bem mais. O pavor foi lhe subindo a mente e antes que ela pudesse gritar ou espernear se notou absolutamente sozinha com no escritório e somente ouviu o barulho da porta atrás deles se fechando. Eles tinham os deixado lá. Eles tinham deixado-na sozinha com aquele ser. Ela se levantou revoltada e foi para o outro lado da sala, o mais longe possível de . Ele encarava o chão ainda confuso até o entendimento passar pelo seu rosto e seus olhos encontrarem com o dela, ambos confusos e assustados, mas algo fez com que não conseguissem desviar os olhos um do outro. sentiu as pernas falharem e um arrepio subir pela sua espinha, fazendo todo seu corpo arder, exatamente como acontecera horas antes, quando esteve tão perto de pela primeira vez na vida. Ela estava a ponto de dar um passo na direção dele quando um sorriso malicioso e divertido brotou nos lábios de .
- Parece que você vai ter que se entregar a mim, ‘querida’! – Ele sussurrou ainda a encarando enquanto se aproximava devagar dela.
sentiu o ventre se contrair e deu um passo pra trás, assustada com as reações do seu corpo.
- Nunca. – Ela disse com a voz falha. – Eu tenho nojo de você, . – Deu outro passo pra trás e amaldiçoou a parede que agora encontrara suas costas.
sorriu ao perceber que ela não poderia escapar assim que ele estivesse perto o suficiente e deu mais dois passos na direção dela, fazendo-a encolher sutilmente o corpo contra a parede, como se pudesse atravessar a mesma.
- Tem certeza, minha doce esposa? – Ele sussurrou contra seu ouvido enquanto suas mãos apertavam a cintura dela.
sentiu as pernas falharem e cerrou as pálpebras tentando afastar a visão do rosto atraente do marido, mas ele permanecia gravado em fogo na sua mente. ainda sorria malicioso, mas sabia que também estava a ponto de perder o controle se não se segurasse. Apertou ainda mais o corpo no de , fazendo-a jogar a cabeça um pouco para trás deixando a pele de seu pescoço totalmente entregue para ele. mordeu os próprios lábios para conter a vontade de beija-la naquela região, mas foi em vão, pois antes que pudesse controlar, seus lábios quentes deslizavam pela pele descoberta. sentiu o corpo todo se arrepiar e ouviu um suspiro escapar de seus lábios antes que pudesse controlá-lo. Isso a fez voltar à realidade do que estava acontecendo ali. Ela empurrou com toda a força que tinha e ele acabou caindo para o lado, incrédulo com sua própria falta de controle. Levantou-se carrancudo e sem nem ao menos olhar para , que ainda continuava no mesmo lugar, parada e ofegante. Esmurrou a porta até um dos empregados abrir, avisando que seus pais já haviam se retirado para dormir. Ele subiu as escadas e entrou no quarto sem nem se dar o trabalho de fechar a porta. Deitou-se e assim que ouviu entrar no quarto e se deitar na cama que ficava do outro lado do quarto ele soube que não conseguiria dormir nem que quisesse.

Capítulo Cinco

Ela podia sentir o olhar dele enquanto comia o desjejum. Os dois não tinham trocado uma palavra desde a noite passada e isso não a incomodava nem um pouco, pelo contrário, ela queria manter distância daquelas sensações novas – ou pelo menos pensava que queria. Mas ele não havia tirado os olhos de cima dela desde que havia se sentado à mesa, e isso a estava incomodando. Ela queria levantar e tacar-lhe o mingau na cara, quem sabe assim ele percebia que ela não o queria por perto. Viu os criados se aproximando enquanto escoltavam os reis e rainhas e suspirou aliviada, pois pelo menos perto de seus pais ele não ousaria tocá-la e nem encará-la. Cumprimentou-os quando estes se sentaram e continuou revirando o mingau com a colher de prata. Seu estômago parecia não cooperar e a fazia ter ânsias só de pensar em comer mais um pouco. Era como se tivesse engolido uma grande bola de terra na noite passada, e ela estivesse lá até o momento. Suspirou pesadamente e, antes que pudesse realmente raciocinar, seus olhos percorreram a mesa e encontraram duas íris brilhantes que a encarava descaradamente, mesmo com a presença dos mais velhos ali. Por Deus, ela pensou, o que ele pensa que está fazendo? Passou uma das mãos por baixo da mesa e retirou o guardanapo de pano que recobria o vestido, entregou-o ao servo que estava prontamente ao seu lado, pediu licença e se levantou com a ajuda dele para depois sumir pela escada.

Os olhos de acompanhavam cada movimento dela e ele se perguntava por que diabos seus olhos pareciam ter vontade própria. Amaldiçoou baixinho quando a sombra dos longos cabelos ruivos desapareceu no alto. Podia sentir a cabeça latejar pela noite mal dormida, mas tinha muito a fazer. Encarou o mingau no prato e jogou a colher dentro dele, mas antes que se levantasse a voz de seu pai chamou seu nome.
- , está me ouvindo? – Ele tentou pela segunda vez enquanto a cabeça do filho se virava lentamente para encará-lo.
- Me desculpe, estava pensando em outras coisas. – Se ajeitou novamente na cadeira.
- Mais tarde quero me reunir com você e no escritório. Como vamos ficar bastante tempo por aqui, acho que não seria nada mal adiantarmos a Feira das Amostras Anual. – James esticou o braço para pegar um pão na tigela que estava no meio da mesa.
- Ah sim! – coçou a cabeça. – Acho bom mesmo, nos últimos anos eu quase não tive ajuda para as feiras.
- Então está dito! Mais tarde decidiremos tudo. – Ele concluiu, enfiando mais um pedaço de pão na boca.
A mãe de , que se sentara mais próxima ao rapaz, pegou em sua mão e sorriu docemente.
- Você parece não ter descansado muito ultimamente. Vá, suba e descanse. Quando seu pai for para o escritório eu te aviso.
sorriu agradecido e beijou a mão da mãe antes de se retirar para o quarto.

Já era a quinta vez que o pincel quase chegava a tocar a tela, mas a mão de o puxava relutante para trás. A inspiração simplesmente não vinha, e ela sabia exatamente por quê. Suspirou e jogou-o num dos potes de tintas abertos e distribuídos no chão. O quartinho ainda continuava o mesmo, nunca encontrara inspiração para pintar de novo. Era sempre a mesma cena, ela sentada em um banco com um pincel molhado a mão, mas ele nunca chegava realmente a tocar a tela. A única pintura que habitava o lugar estava virada ao contrário encostada em um dos cantos do lugar. A única pintura que habitava o lugar nunca mais tinha sido tocada.
se levantou e saiu frustrada do local, batendo a porta atrás de si, não havia dormido nada e precisava descansar. Deixou que seus pés a guiassem para o quarto, mas antes que entrasse completamente avistou a silhueta de deitado em sua própria cama. Retirou os sapatos e sem fazer barulho caminhou um pouco mais pra perto dele. O peito do garoto subia e descia conforme ele respirava e quase se bateu por ter reparado isso. Automaticamente uma de suas mãos coçou para que ela desse mais alguns passos e pudesse sentir a maciez da pele dele. E foi exatamente isso que ela fez, deixou que as costas de sua mão tocassem o rosto dele. Ele permaneceu imóvel e ela subiu um pouco a mão para sentir o cabelo dele, e o que acabou sentindo foi um choque repentino passar por todo o seu corpo quando seus dedos se embrenharam por lá. Assustada, ela se afastou rapidamente e, antes que se arrependesse, saiu do quarto.

O som de risadas altas fez com que se sobressaltasse no meio do sono, despertando logo em seguida. Levou uma mão aos olhos, coçando-os, e se assustou quando percebeu que o sol já não brilhava mais, provavelmente já era quase noite. Sentou-se na cama e lançou um olhar ao redor do cômodo, ele estava vazio assim como se lembrava antes de dormir, e a cama distante da sua permanecia intacta. Levantou-se esticando os braços para aliviar a tensão contida neles e um pensamento o fez parar com os movimentos no ar. Lembrava de ter ouvido passos e sentido uma calmaria gostosa, assim como quando era criança e sua mãe fazia carinhos até que ele pegasse no sono, mas desistiu de puxar a memória quando as risadas voltaram a ecoar. Dirigiu-se pra fora do quarto e apressou os passos, afinal os reis deveriam estar esperando-o desde algumas horas antes. Quando alcançou o corredor do escritório pode reconhecer a risada de Alan misturada com as de e James, e não pôde deixar de sorrir ao ver os três debruçados em cima da mesa, que estava repleta de pergaminhos espalhados, e com as faces vermelhas por conta das risadas.
- Alan, que bom vê-lo por aqui. – se anunciou enquanto adentrava o lugar. – Vejo que não perdeu o dom de contar histórias cômicas.
- É um prazer, Vossa Majestade. – Disse enquanto fazia uma reverência respeitosa, mas logo levantou os olhos, sorrindo para .
- Por Deus, Alan! Quantas vezes tenho que repetir para deixar de lado essas seriedades, você é quase como um tio para mim. – O garoto sorriu enquanto se sentava ao seu lugar na mesa.
- Acostume-se, meu filho, pois desde que eu conheço esse homem nunca consegui fazê-lo absorver que é considerado um grande amigo por nós. – James riu enquanto tomava alguns pergaminhos mais antigos nas mãos.
- Me perdoe Majestade, mas eu nunca vou aceitar ser tratado como igual só porque ajudei com algumas idéias. – Ele se sentou depois de fazer outra reverência.
- Algumas idéias? – perguntou incrédulo. – Você, além de praticamente ter ajudado Judith a criar minha filha, foi quem nos deu a solução para salvar os dois reinos. Você é o responsável pelo casamento que mudou o futuro das terras que predominam esse vale.
- Exatamente, essa foi a sua única idéia infeliz. – resmungou enquanto procurava alguns documentos específicos e ignorou quando escutou risadas sendo controladas. – Papai, você encontrou o livro de registros das feiras anteriores?
- Está logo ali. – James apontou para um livro amarelado e com aspecto antigo que estava num canto da enorme mesa. – Pensamos que esse ano poderíamos permitir a participação de mais agricultores, pois, de acordo com o livro, no último ano o registro de artesãos foi bem maior que o deles.
- Eu concordo plenamente. – pegou o livro e deu algumas batidinhas na capa para tirar a poeira. – Eu vou ficar louco se resolver enrolar, mais uma vez, durante o dia todo nas barracas de artesanato.
sorriu enquanto escrevia em um pergaminho, ele estava tomando notas de tudo o que estava sendo decidido. Alan analisava um mapa das barracas do último ano e, de acordo com a quantidade de excedentes de cada aldeão mercador, trabalhava em como organizá-las pra próxima feira.
- Andei pesquisando com alguns amigos e acho que seria melhor organizar as pontas de saída e entrada com os maiores números de excedentes, então o meio ficaria com os menores números. Acho que isso manteria a atenção dos visitantes por mais tempo, o que acham?
- Concordo com Alan. – James se pronunciou. – Precisaremos de muito mais chamativos que do último ano, com a nossa presença aqui o número de visitantes vai dobrar e não precisamos de ninguém insatisfeito.
- E a segurança? – largou do livro de registro e encarou o rosto do pai. – Se o número de visitas vai dobrar, precisamos dobrar o número de guardas também. Não podemos correr riscos de ataque enquanto essa gente estiver visitando nossas terras.
- Então que seja dobrado o número de soldados e guardas. – levantou os olhos do papel para encarar o genro. – Eu mandarei meus melhores homens para você.
sorriu, agradecendo, e voltou novamente a atenção para o livro de registro. Alan agora esboçava um novo mapa para as barracas e James fazia as anotações no lugar de , enquanto o mesmo redigia uma carta a ser entregue para o seu general. Só um garoto, no auge dos seus dezessete anos, não estava pensando em legumes e riquezas.
Naquele ambiente fechado, em meio à poeira de livros e registros velhos, a sua memória lhe traía. O cheiro da pele da esposa parecia estar cravado na sua memória como se ela ainda estivesse a centímetros de distancia, e estar naquele mesmo lugar, onde perdera o controle, não ajudava muito. Tratou de afundar o nariz dentro do pergaminho mais próximo e deixar que o cheiro de papel velho entrasse nas suas narinas.

Seus olhos passearam pelo ambiente montado enquanto as vozes femininas que lhe davam alertas iam ficando incompreensíveis. Observou com cuidado a decoração que a cercava e deixou que sua mente voasse. As paredes, cobertas com arenito vermelho, davam um ar de privacidade ao cômodo, trazendo a tona todos os tons que, julgavam os tolos, inspiravam à paixão. Os móveis, ornamentados na França, de um marfim quase branco, combinavam perfeitamente com a enorme cama de casal que ocupava uma boa parte do quarto. O contraste entre o vermelho das paredes e o branco virginal dos móveis e da cama era exuberantemente agradável aos olhos. Presas nas paredes, as velas cuidavam da iluminação do local e, logo ao centro, bem em cima da cama branca de lençóis detalhados em linho vermelho, havia um enorme candelabro de cristal que distorcia a luz em pequenos feixes brilhantes.
Ela podia claramente imaginar o que seria feito naquela cama, e isso a assustava de um jeito que jamais conhecera. Era quase como um doce amargo, que surpreendentemente conseguia trazer a tona os opostos. O doce e o amargo, o amor e o ódio. Observou mais uma vez o quarto onde passaria a dormir depois do seu aniversário de dezoito anos e deixou que sua mãe a guiasse pra fora. Antes que percebesse estava de volta ao quarto da sogra e sentada em uma cadeira totalmente incrustada de diamantes. Sua mãe lhe penteava os cabelos e Judith a encarava um pouco nervosa no outro lado do cômodo. estava parada a sua frente enquanto passava nervosamente as mãos pelo longo vestido de renda azul marinho que vestia.
- Querida, - começou, após um longo suspiro. – Existem algumas coisas que nós vamos ter que te ensinar.
- Eu posso imaginar, Majestade. – sorriu calmamente. – Nunca fui a uma cerimônia formal de casamento, exceto a minha, que não teve os mesmos procedimentos de uma normal. Creio que terão que me ensinar o que fazer para não errar na frente do nosso povo.
deixou escapar uma risada alta e deixou de lado a escova para afagar com as próprias mãos o cabelo da filha.
- Minha doce menina, sua sogra estava querendo lhe falar sobre a noite de núpcias. – Ela disse naturalmente, fazendo o rosto de adquirir um tom rubro. – Para as cerimônias, o seu treinamento começará somente amanhã.
Do outro lado do quarto, Judith, a serva, quase se afogava em suas próprias lágrimas, o que naturalmente fez sorrir.
- Judith, vá buscar algumas frutas e aproveite para secar essas lágrimas. A felicidade não é para se comemorar com choro. – Ela soprou gentilmente e, em menos de segundos, a serva já tinha sumido pela porta. Seus olhos se voltaram para os de , a incentivando a começar.

coçou a cabeça uma última vez antes de se levantar. Deu dois passos em direção ao pai e o sacudiu gentilmente até que este voltasse sua atenção para o rapaz.
- Vou me deitar papai, acho que tudo que era urgente foi resolvido. Além de que eu tenho certeza que meu quadril vai gritar se eu não encostá-lo logo em um colchão macio de penas de ganso. – Ele sorriu e fez uma reverência antes de deixar o cômodo com a resposta de seu pai.
- Vá, meu filho, vá antes que sua mãe venha me repreender por te obrigar a trabalhar em pleno cair da escuridão.
Sua risada ecoou pelo corredor, agora vazio, ao imaginar sua mãe zangada a amolar o rei. Ah, como sentira saudades de tudo isso, poderia sair saltitando escadas acima não fosse o barulho repentino que aguçou sua audição. Prendeu a respiração e terminou de galgar os degraus que faltavam. Assim que viu o brilho afogueado de longos cachos sentiu a tensão se esvair e liberou um suspiro de alívio, era apenas . Andou silenciosamente atrás dela no caminho do quarto e, em dado momento, pousou-lhe uma das mãos em seu ombro esquerdo. sentiu seu coração pular tamanho foi o salto que a garota deu ao sentir o toque dele. Ofegante e com a mão no coração, se virou para xingar quem quer que fosse o insolente que havia lhe pregado essa peripécia, mas assim que deu de cara com os olhos do marido, que coçava nervosamente a própria cabeça de um modo bem casual, sentiu o rosto queimar e teve certeza que suas maçãs do rosto estavam tingidas de um vermelho vivo. A conversa que tivera com as rainhas ainda estava impressa em seu cérebro, e as imagens que agora lhe vinham na mente não a ajudavam com seu controle. Cada vez que uma imagem diferente vinha seu rosto queimava mais, ao passo que elas apareciam um logo atrás da outra.
agora a encarava confuso, não entendendo o motivo de ainda não ter levado um tapa ou algo parecido, mas antes que sequer pudesse perguntar algo, a sombra de sumiu pela porta do quarto, o deixando completamente sozinho no corredor. Continuou na mesma posição por alguns minutos, mas desistiu de tentar descobrir o que havia acontecido. Encarou frustrado a porta do quarto e entrou de uma no mesmo, fazendo questão do máximo som possível pra que ela notasse sua raiva. Arrancou as botinas e jogou-as em algum lugar antes de se jogar estrondosamente em cima da cama, murmurando num tom nada baixo.
- Mulheres, piores do que cavalos selvagens!

Capítulo Seis

O dia, que já tinha começado mal para , estava agora ainda pior. Seu cérebro ameaçava sair voando em poucos minutos e o discurso de seu pai não estava ajudando. Havia expositores demais para a feira e espaço de menos na aldeia para a exposição. Simplesmente haviam surgido pelo menos mais cem agricultores com fichas de inscrição preenchidas para inventos modernos e produtos raríssimos como ‘a maior batata da Terra’. A pequena aldeia mal suportava os – normalmente - cinqüenta inscritos, como colocariam o triplo de barracas por lá? E pra piorar as coisas ainda havia . A maldita havia fugido dele o dia todo com desculpas como cuidar dos cavalos. Desde quando ela sabia o que era um cavalo?
- Príncipe , receio que Vossa Majestade esteja cansado demais para resolver os problemas do reino nesse momento. – acenou em direção ao garoto, fazendo com que este voltasse a atenção para a mesa central, onde dez representantes do povo, Alan e os Reis se reuniram para resolver o novo problema.
- Perdoe-me Rei, eu estava um pouco distraído, mas tenho certeza de que isso não ocorrerá novamente. – coçou a cabeça em sinal de constrangimento.
- Assim espero. – completou antes de chamar um serviçal. – Por favor, mande que venha servir-nos o chá, diga que é parte de seu treinamento.
Os ouvidos de pareceram inchar horrores quando ouviu esta frase, como o rei queria que ele prestasse atenção em algo quando pedira para estar no mesmo cômodo que ele? E o que era esse treinamento? Antes mesmo que ela entrasse pela porta, sua cabeça fervilhava de perguntas e pensamentos, por Deus, ele estava perdido.
Assim que passou pelo portal em forma de arco, com a cabeça baixa, voltou a falar.
- Como estávamos discutindo, Alan nos passou o número bruto de expositores inscritos, que são 163 de nossos aldeões e 7 de aldeias vizinhas. Totalizando em um geral de 170 barracas.
- Isso mesmo, Vossa Majestade, - Alan largou os papéis que tanto havia verificado e tomou um gole do chá que a garota havia acabado de colocar em sua xícara. – e nossa aldeia mal suporta as 50 barracas anuais, não sei o que faremos com 170 barracas.
- Se nenhuma solução nos for apresentada em cinco dias, - James suspirou enquanto afundava a cabeça nas mãos. – infelizmente teremos que cancelar a feira desse ano.
Os olhos de , que antes não desgrudavam dos cabelos rubros que passeavam pela sala, se voltaram chocados para o pai. Desde que se conhecia por gente a feira existia, e não houvera um ano sequer em que ela fora cancelada. Podia imaginar o impacto que isso teria no funcionamento do reino, provavelmente metade dos aldeãos imigrariam para outras aldeias que fossem prósperas. Sua cabeça começou a trabalhar rápido procurando qualquer detalhe que pudesse ajudá-los a encontrar uma saída, mas antes que pudesse dizer algo, a voz rouca de invadiu a sala num tom de recém-descoberta.
- O castelo! – Ela disse de uma vez só, como se tivesse acabado de chegar em uma conclusão óbvia.
Todos a encararam confusos, o que só a fez enrubescer mais antes de abaixar a cabeça e continuar colocando a bebida líquida na xícara do pai. Este a encarava com um ar curioso e disse-lhe em bom som.
- Prossiga, minha filha. – Ela o encarou tímida a princípio, mas assim que encontrou os olhos do pai sentiu a confiança para contar a sua idéia.
- Bom, - Ela pousou o xale em cima da mesa central e encarou os homens ali presentes, desviando dos perigosos olhos que pareciam queimar em seu rosto. – vocês dizem que não há espaço na aldeia, certo? – Esperou que todos concordassem antes de prosseguir. – E se não fizéssemos a feira na aldeia?
- Loucura. – Um dos representantes do povo chiou. – Por mais que ela seja a princesa, ainda é uma mulher. Não faz sentido fazer a feira da ‘aldeia’, fora da ‘aldeia’.
- Leôncio, - tomou a frente da reunião. – Ela é sim uma mulher, a minha. E por isso merece respeito. Por favor, , continue, pois eu tenho certeza que poderemos aproveitar de sua contribuição.
As faces da garota não podiam estar mais coradas, e tudo o que ela pôde fazer foi sorrir timidamente em direção ao marido, agradecendo.
- Eu não estou sugerindo uma mudança brusca, pelo contrário, é uma mudança de apenas alguns metros. E se todos temos em nossa concepção o Reino como um todo, a feira continuara sendo na “aldeia”, só que localizada dentro dos terrenos do castelo. – Ela sorriu e observou a reação de todos, que agora a encaravam boquiabertos, e como nenhum ousou falar nada, prosseguiu. – Acho que já está em tempo de mudar os ares da feira, eu mesma já posso dizer em coro a ordem das barracas. Além de arranjar a solução para o problema do espaço, que nos nossos jardins tem de sobra, também estaremos inovando a feira e, consequentemente, atraindo mais visitantes. Eu acho que isso impulsionaria mais ainda o nosso domínio por aqui, e quem sabe até podemos pensar em expansão.
O silêncio reinava no cômodo e , sem mais nada a dizer, pegou novamente o xale e terminou de encher as xícaras com o chá de Gunpowder. Antes de sair deu uma olhada rápida nas expressões, e tirando a de , que sorria descaradamente para ela, todos estavam extremamente envergonhados, talvez por não terem pensado em algo tão simples. Ela sorriu pra si mesma e fechou a porta.
- Homens, quem os entende? – Sussurrou antes de sair rindo pelo caminho de volta para a cozinha.
Quando adentrou pela cortina que separava o local do corredor, sentiu um cheiro delicioso invadir-lhe as narinas. Sorriu ao ver Judith remexendo um caldeirão enorme e colocou o xale dentro da pia de concreto antes de pendurar-se ao lado da serva.
- Por Deus, Judith, é alguma poção do amor o que cozinha aí dentro? Cheira maravilhosamente bem e me faz querer correr por campos de margaridas. - A menina riu enquanto espiava o conteúdo da caldeira.
- Que poção do amor o quê, ama. É somente um simples cozido de faisão e galinha que a Majestade sua mãe me pediu para fazer. – Judith deu de ombros enquanto limpava as mãos no avental. – E a senhora, como foi com o chá?
- Você não vai acreditar, mas eu acabei de salvar o reino. – estufou o peito orgulhosa.
- Não me diga que você acabou de procriar com o seu marido? – Judith brincou fazendo um tom exuberante de vermelho fervilhar nas bochechas da menina.
- Por Deus Judith, não brinque com isso. – Ela respondeu enquanto tentava recuperar o ar, o que só fez a serva rir mais ainda enquanto se lembrava das expressões de sua ama quando a Rainha discorria sobre as relações entre um homem e uma mulher.
- Acalme-se garota, e me conte o que foi que aconteceu.
- Pois bem, - Ela começou depois de respirar fundo para retirar certas imagens profanas* da mente. – Alan deve ter lhe contado sobre o problema com a Feira, certo? – Judith concordou com a cabeça. – Quando eu entrei lá dentro eles pareciam todos um bando de ratos perdidos e pensavam até em cancelar a feira. – Disse usando de um tom teatral fazendo com que a serva tampasse a boca com uma mão, espantada. – Então me veio à mente uma idéia que eu tinha tido há alguns anos, mas que tinha deixado de lado. Só que eu acabei falando alto demais e meu pai me pediu para expor minha solução.
- Jesus, e o que você fez, menina? – A serva levou as unhas ao dente quando continuou.
- Eu comecei a falar, mas um dos representantes do povo me interrompeu.
- Leôncio? – Judith perguntou indignada.
- Como você sabe? – A garota curvou uma das sobrancelhas para a serva.
- Ele é o representante problema, nada para ele está bom. Imaginei que só podia ter sido o dito cujo.
- Exato, ele começou a dizer que mulheres não merecem crédito quando o assunto é de homens. – Sibilou enquanto cerrava perigosamente os olhos encarando a parede. – Mas antes que eu pudesse atirar meu sapato de salto nele, veio em minha defesa. E o pior foi que eu acho que gostei disso. – Sorriu tímida para Judith, que mordia os lábios para não rir. – Mas o fato é que eu disse que podíamos fazer a Feira dentro dos jardins do castelo, seriam dois coelhos em um tiro só.
- Você disse isso? – Judith a encarou espantada.
- Não com essas palavras, mas foi basicamente isso. – ela riu. – Eles ficaram todos quietos e eu terminei de servir o Gunpowder, agora estou aqui.
- Não acredito que você deixou catorze homens sem fala. – Judith soltou uma bela gargalhada. – É realmente fantástico, até o meu marido, que sempre tem uma resposta pra tudo. Você realmente puxou o seu pai, menina. – A serva disse enquanto voltava para o caldeirão. – Agora venha me ajudar, vou lhe ensinar a fazer um belo cozido.
O tempo passava tão rápido quando estava com Judith que quando deu por si já havia se passado uma hora e meia.
- Minha nossa, Judith, tenho que ir ou não conseguirei estar pronta para o jantar. – Disse, dando um abraço as pressas na serva e sumindo por detrás das cortinas da cozinha.
Subiu as escadas em disparada e assim que virou o corpo na direção do quarto, esbarrou fortemente em alguém. Seu cérebro lhe gritou para sair correndo quando encontrou um profundo revirando sua alma, mas seu coração lhe dizia que ainda tinha que agradecê-lo.
- , - Ela sussurrou antes de tomar coragem. – Obrigada por hoje mais cedo, você sabe, ter me defendido na frente de todos. Eu sei que deve ter sido mais por obrigação que por vontade, mas mesmo assim obrigada.
- Não foi pro obrigação, - Ele disse mais rápido do que desejava, fazendo se sobressaltar. – Eu, bem, quer dizer... – Levou uma de suas mãos para a nuca, constrangido. – Eu fiz porque eu queria. – Soltou, fazendo um sorriso surgir no rosto da garota. – E, bom, quanto à reunião, - Ele hesitou um pouco antes de falar. – Nós seguimos à risca suas instruções. Obrigado por nos salvar.
A garota sentiu o sorriso nos lábios se alargar e estendeu a mão para .
- Não tem problema, você vai ficar me devendo essa. – Piscou para o rapaz, antes que este pegasse sua mão por entre as suas e depositasse um beijo doce e longo nas costas da mesma. Encarou por um tempo, cujo sorriso já tinha dado lugar aos lábios entreabertos de surpresa, e sumiu pelas escadas abaixo.
A palpitação em seu peito não permitiu que ela se movesse por alguns segundos, mas assim que recobrou os sentidos, seu sorriso voltou maior ainda. Segurou a mão beijada junto ao peito e seguiu saltitante em direção ao quarto.

Com o armário aberto há quase uma hora, ela ainda não havia decidido que vestido usar. Eram tantas cores e rendas diferentes que seus olhos não paravam em um só, por isso mandara chamar Judith.
- Me diga Judith, qual desses você acha que devo usar para uma boa impressão na ceia de hoje? – Ela perguntou enquanto tocava uma cauda longa de bordados claros.
Esperou a resposta vir, mas a serva não respondeu. Virou a cabeça e encontrou Judith com o olhar perdido enquanto acariciava a saia de um vestido verde esmeralda.
- Judith, você está bem? – perguntou enquanto se aproximava da serva.
- Oh minha Senhora, me perdoe por estar distraída. – Judith sorriu triste. – Recomendo-lhe este verde esmeralda, cairá muito bem com o fogo que carregas na cabeça.
sorriu e se dirigiu ao lavatório para se trocar com a ajuda da serva. Totalmente recoberta pelo veludo verde, se observava no espelho, mas não conseguia desviar os olhos da expressão triste que Judith carregava desde que entrara no quarto. O que será que tinha acontecido? Judith estava tão bem enquanto estava na cozinha e agora parecia que poderia cair em prantos a qualquer momento.
- Judith, o que está acontecendo? – perguntou suavemente enquanto guiava a serva para um sofá que havia ali.
- Me perdoe minha senhora, não quero te envolver em meus problemas. – Judith fungou enquanto limpava as lágrimas que começavam a cair.
- Não me incomodará, pelo contrário, exijo que você me fale. Só assim poderei te ajudar. – A garota pegou seu lenço de pano, escondido estrategicamente no vestido, e o entregou para a serva, que considerava como sua segunda mãe.
- É a minha filha mais nova, Majestade. Ela anda muito doente desde que voltou de um trabalho em uma aldeia vizinha. Eu estava comprando remédios com o curandeiro da aldeia, mas ela não mostrou melhoras. Acredita a Senhora que minha vizinha veio me avisar agora pouco que ela piorou? – A serva enxugou as lágrimas que não cessavam no lenço já úmido. – Não sei mais o que faço Majestade, não sei.
sentiu seu coração se apertar de um jeito estranho no peito, mas não podia deixar de ajudar a velha senhora que por anos cuidara dela. Sorriu gentilmente para Judith e disse-lhe:
- Traga sua filha para o castelo, Judith, eu me encarregarei de cuidar da saúde dela.
- Mas, mas senhora, o seu marido não iria ficar zangado? – A serva perguntou com os olhos esbugalhados.
- Não, tenho certeza que entenderá meus motivos. – A garota sorriu novamente. – Depois da ceia eu vou me encontrar com você no pátio central, esteja lá com ela.
- Oh Minha Ama, não tenho nem palavras para agradecer vossa bondade.
- Apenas vá servir a ceia e não se demore para ir buscar sua filha. – Ela completou enquanto levava a serva até a porta.
Judith lhe agradeceu ainda cinco vezes antes de sumir pelo corredor e decidiu ir arrumar o cabelo em um coque. Enquanto arrumava as madeixas, aquele sentimento estranho ainda lhe acompanhava, mas ela tinha total certeza de ter feito o certo, então só deixou que esse aperto ficasse de lado.
Quando desceu exuberante pelas escadas, pode sentir o olhar do único ser presente no pátio central percorrer toda a extensão do seu corpo, gravando marcas a fogo por sua pele. Seus lábios instantaneamente se curvaram num sorriso e ela ofereceu o braço para que lhe guiasse até o salão principal.

Os sons preenchiam o salão por todos os cantos e os murmúrios eram de alegria por toda a comida ingerida. O Rei esperou um pouco após ter terminado sua refeição até se levantar para chamar a atenção de todos. Assim que o salão caiu em silêncio ele começou a falar.
- Queridos Aldeãos, venho lhes dar um boa notícia hoje. – Ele ergueu a taça de vinho ao alto, gesto que foi repetido por todo o salão. – Graças a minha doce e amável filha, que hoje se revelou um águia nos negócios, nós encontramos a solução para o nosso problema com a Feira. – Ele sorriu, deixando todos na expectativa. – Senhoras e senhores, venho lhes dizer que a Feira das Amostras Anual será realizada nos Jardins do Castelo de FireSun!
Novamente o som preencheu o lugar, gritos e uivos de alegria tomaram conta do local, todos estavam felizes e sorridentes. Só uma pessoa se distinguia da felicidade geral.
Os olhos de percorriam cada lado do grande salão, e aquela sensação ruim agora parecia tomar conta de sua mente e corpo. Seus dedos tamborilavam sozinhos na madeira da mesa e ela já não podia mais esperar. Levantou-se, anunciando sua saída, e deixou o salão em passos curtos e precisos.
Assim que já não estava mais na vista das pessoas, aumentou o passo até chegar ao pátio, que ainda estava vazio. Sentou-se numa das poltronas que havia ali e, com os olhos pregados no relógio mecânico na parede, pôs-se a esperar.
Ainda no salão, não conseguia desviar o pensamento da esposa, que diabos havia acontecido com ela para sumir de lá? Mordeu os lábios antes de se levantar e sair, sem mesmo anunciar a partida. Andou pelos corredores sentindo o coração apertado e assim que avistou as luzes do pátio central acesas apressou o passo. Conseguiu distinguir a silhueta da esposa sentada no sofá, mas antes que pudesse ir até ela as portais frontais se abriram com um estrondo, fazendo com ela se levantasse rapidamente e ele se escondesse nas trevas do corredor.
Judith adentrou o pátio apoiando nos braços uma jovem de longos cabelos negros. Sua aparência era lastimável e podia-se dizer que não lhe restava muito tempo. não hesitou nem um segundo em correr até Judith para ajudá-la. Deixou que a jovem se apoiasse em um de seus ombros e junto com Judith a levou para a poltrona que estava de frente para as escadas.
- Por Deus, Judith, vou mandar chamar um médico agora. Não saia daqui, eu não demoro. – alardeou antes de correr para fora do castelo.
Judith se sentou ao lado da filha e pegou-lhe as mãos enquanto dizia que tudo ia ficar bem.
Curioso com o que estava ouvindo, resolveu espiar, mas antes do que pudesse prever, o arrependimento tomou conta de seu ser. Ele reconheceu naqueles olhos, agora apagados, o brilho que há dez anos havia lhe jurado vingança.
- Kate, tudo vai ficar bem, não se preocupe. – Foi a última coisa que ele ouviu antes de enfiar-se na escuridão sem fim dos corredores.

* Sorry, não resisti. :D

Continua.

N/A: DEEEUS, eu revivi das cinzas -n. Me perdoem, meus anjos, pela falta de atualizações. Mas é que estou com MUITAS provas e simulados desde que voltei a fazer cursinho, sabem como é, né? Eu não passei na faculdade, então bora fazer mais um ano de cursinho pré-vestibular, e acreditem quando te disserem: "Vestibulando não tem vida social, quanto mais a virtual". MAAS ok, mudando de assunto, eu estou de volta, ou pelo menos é o que eu acho. Escrevi esses dois capítulos em duas noites e ainda não tenho opinião formada sobre eles. Resolvi mandar antes que eu mudasse de idéia e apagasse tudo rs. Espero que sejam bem aceitos. COMENTEM, estou morrendo de saudades dos comentários. Amo vocês ;*
E CAROOL, valeu por não ter me chutado por todo esse tempo sem postar. Se você me desse um kick out eu ia me jogar da ponte, rs. -S Obrigada por ainda estar aí!!! ;*

N/B: Pára tudo! O que são esses capítulos, Bru? Sério, eles ficaram muuuuito bons *-* E eu tava com mtmtmt saudade sua, mimi. E gente, eu quero ver muuuuitos comentários, hein? *-* E como sempre (rs), qualquer erro, já sabem, email me here - ready2reload@gmail.com. Obrigada, Carol xx.