... Estive por ali e por lá, mas nenhum desses lugares me levaram a querer um retorno imediato, nenhum detalhe me fez querer algo a mais, nenhum desses lugares me trouxe a metade das lembranças que New York me trouxe. Nenhum desses lugares me marcarou tanto como esta cidade fascinante e interessante por si só.
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A espera já era de quase uma hora e meia.
Pés nervosos e impaciência me dominando.
Odeio ter que ser sempre a que se arruma rápido, não me importo com detalhes e isso às vezes até me assusta. Não notar e tampouco me importar se notarem. Odeio também o tipo de gente que se atrasa para tudo, deveriam começar a se arrumar meia hora antes ou mais.
Mayne é assim. Exatamente a garota mimada da família, a filhinha do papai e o docinho da mamãe, é o tipo de garota delicada e obcecada por vaidade. Sinceramente me causa alergia tipo de gente assim, May é exceção. Lá vem ela, com um vestido novo, rosa lanvin. Modéstia a parte, estava linda, mas não chegava aos pés desse meu vestido preto colado, com direito a pernas quase totalmente amostra.
- Foi mal, - falou em tom sarcástico ao ajeitar o decote - estava retocando a maquiagem que havia derretido com todo esse calor.
- Fiquei trocando sms com a Isa e nem percebi. - tive que mentir, aliás não tínhamos tempo para discussões.
- Melhor assim. Então vamos?
- Vamos. - Falei levantando cansada por toda aquela espera.
Chamamos o táxi, passamos para pegar a Isa, que já esperava ansiosa para a noitada sentada na calçada de sua casa, por incrível que pareça não muito animada.
- Será que a turma toda vai tá lá? - perguntou Isa.
- Espero que sim, hoje a noite é nossa e quero que seja inesquecível. - respondi.
- Vai ser a melhor noite de nossas vidas, pena que vai ser a última juntas. - Mayne disse meio tristonha.
- Não pensa assim... Eu volto logo, prometo. Só estou precisando desse tempinho para voltar ao meu estado normal e me encontrar nessa bagunça. - lhe disse, quase deixando as lágrimas escaparem.
O silêncio predominou e a tristeza fez-se moradia por uns 15 minutos.
A boate estava lotada e, como o esperado, toda turma estava lá. Dentro da boate avistei holofotes, refletores e um globo de luz no centro da pista. Tocar todos os DJs tocam, mas agitar a galera era mesmo com aquele DJ. Fomos logo até o bar, pedi uma dose de whisky, assim como Isa. Mayne preferiu uma dose de vodka. Virei o copo de uma só vez pra noite começar do jeito que eu queria. Senti aquilo descer ardendo pela minha garganta, os efeitos não podiam ser dos melhores, mas foda-se aquela dor chata e esse arrependimento inútil também nunca me somaram pontos positivos. Ficamos sentadas nos banquinhos em frente à pista e por uns minutos viajei em devaneios. Desejava estar livre, extinta de tudo sem exceções de sentimentos. Queria a mente aberta, mas não tão aberta para que meus pensamentos não fossem capturados por uma dessas cabeças espertas a procura de alguém carente. Queria a alma leve, leve como uma poesia escrita após um daqueles pesadelos horríveis que quase sempre nunca acabam. Queria estar vazia, mas vazia eu não me encontro, então por que desejar estar? Talvez eu esteja desordenando as coisas, querendo muito e não podendo ter. Minha lista de metas já passou da hora de começar a ser cumprida. Ao som de uma música internacional qualquer, puxei as meninas para a pista.
Dancei como se não houvesse amanhã, olhos fechados e a música invadia meus ouvidos e vibrava dentro de meu interior, como se a pista estivesse vazia e ali existisse apenas eu dançando e cada passo era como se fosse planejado, o sorriso no rosto não mentia. Mas a verdade ninguém via. Ninguém via. Por trás desses olhos de turmalinas tão profundos e desse meu sorriso forjado tentando parecer perfeito, contém tudo que se refere à tristeza. As olheiras eram percebíveis, por de trás delas houve muitas noites em claro encarando o telefone em busca de um sinal. Um toque pra dizer que está tudo certo, mesmo que não esteja e na realidade esteja tudo irresoluto. Por de trás delas houve muitas lágrimas, quase tantas que já não eram mais contáveis, apenas avistáveis como um oceano profundo de carência própria. E eu devia parar de ficar aqui com o pensamento longe, pensando nas mil possibilidades que podem ou não enxergar se quiserem avistar o fundo de minha psique. Um "eu esqueço" hoje não e sim um "a vida continua”. Anda, ! Para de medinho e vai lá perto da turma, chama aquele novato que está com o olhar vidrado em você. Antes, uma vodca.
M e dirigi ao balcão do bar e fiz sinal para o garçom que de imediato entendeu o meu recado. Peguei a primeira dose e mais uma vez virei de uma só vez, não me contentei, pedi a segunda e logo em seguida a terceira. Parei por um minuto e me senti satisfeita com aquele encorajamento tomado. A iniciativa foi tomada e caso algo desse errado poderia dizer que foi só curtição ou apenas uma pegação. A galera ia entender que um pouquinho de whisky deixa a gente mais pra lá do que pra cá e essa seria a desculpa.
Taylor’s POV
Lá vem ela, com aqueles cabelos sedosos, encaracolados nas pontas, caindo suavemente pelo seu decote. Com aquele sorriso desavergonhado, um olhar safado e aquelas pernas torneadas acompanhando o ritmo da música.
- Taylor, vem dançar, - Para tudo, ela está fazendo biquinho e implorando para que eu dance ao lado daquele corpo escultural? Está quase me obrigando a passar a mão naquelas belas curvas. Assim você me ganha, morena - poxa, as meninas sumiram, devem estar com algum "cacho" e eu fiquei sozinha na pista.
- Ér, eu danço com você, , - As palavras saíram quase que meio atrapalhadas e sem pausas - não deixaria você sozinha dando sopa por aí.
Taylor ‘s POV OFF
Arrastei o Taylor para a pista, não deixaria passar de hoje, eu precisava de um dengo a mais e eu mais do que ninguém sabia que They é tão fofo nesses assuntos de "sou tua por essa noite".
Play na música perfeita do The Wanted!
Virei de costas para o They e pude ouvi-lo sussurrando "Não faz isso" e dei um sorrisinho sarcástico de quem provoca e depois corre. Senti suas mãos se apoiarem na minha cintura e seu corpo colar no meu, dei um leve suspiro e logo fiquei toda arrepiada. Dançamos em um ritmo intercalado do acelerado pro devagarzinho, They ia ao delírio. A música estava quase acabando quando de repente não sentia mais meu corpo grudado ao dele, um puxão no meu braço esquerdo e pude ver com clareza aqueles olhos azuis tão enciumados, cheios de rancor por me ver em outros braços. Me segurava com tanta força, como se segura a felicidade pra não ir embora. Estava em estado de choque para ter qualquer reação e decidir me soltar, os efeitos daquelas doses já tinham me afetado e por mais que negasse, aqueles olhos eram tão hipnotizantes. Ficamos parados ali por um instante, meio, talvez. Estava de volta em minha frente quem tanto desperdiçou meu amor. Seus braços se entrelaçaram aos meus e logo aquele perfume barato me impregnou. Notei They dar de ombros, meio desentendido. Nunca imaginei sentir tanta falta daquela fragrância doce, daquele abraço sufocante e daqueles olhos tão brilhantes. Será ira ou amor? Mais provável irá do que amor. Se afastou por um momento e me fitou sem ao menos desviar seu olhar do meu, apenas um "check up" de como eu estava e um resignar de que eu realmente estava embriagada. Suas mãos grotescas se alojaram em meus ombros e seu corpo novamente se aproximou do meu. Fechei os olhos e desejei que nada daquilo estivesse acontecendo. Me apoiei em seu braço. Tudo ao meu redor girava e não ouvia absolutamente nada. Delicadamente ele aproximou meu rosto ao seu e sussurrou alguma coisa que custei a entender.
Era isso mesmo? me pedindo pra não ir embora? Produção, erro no script. Alguma coisa tinha de errado. Em um dia eu não sou nada, sou a imprestável e sempre o erro. No outro sou a lembrança mais marcante, o sorriso mais bonito e o abraço mais reconfortante. Se essa for mais uma de suas investidas, coitado dele. Mal sabe ele que meu sentimento de pena foi simplesmente deixado de lado.
Sua respiração quente se misturava com a minha. Sua boca pedia pela minha e lá no fundo, bem lá no fundo, a minha desejava a dele. Quando tive tempo para uma reação: surpresa. Um beijo incendiado de saudade e desesperado pelos meus lábios. A sua língua explorava todos os cantos de minha boca, o sentimento se manifestou e eu correspondi. Correspondi àquele beijo apaixonante e tão nostálgico. Suas mãos faziam um percurso agradável entre minhas coxas e uns leves apertões que me arrancavam suspiros. É incrível, quando nossos lábios se encontram nada mais importa. Nada mais importa... Foram essas suas palavras na semana retrasada e agora estamos aqui se entregando novamente, eu não deveria deixar isso acontecer - pensei comigo. Empurrei-o com toda força para longe, qualquer um podia reparar fúria em meus olhos. Gritei “Some da minha vida”. Aquelas palavras como se quisesse que cada uma delas cortasse seu coração a cada sílaba. De fato queria. Saí bufando e um tanto desnorteada, todos me olhavam. Não vi Isa, muito menos Mayne. Caminhei dois quarteirões para longe dali e chamei um táxi.
8 horas e 25 minutos de um domingo nublado e clima tenso.
*Celular tocando*
- Alô - A voz saiu um tanto rouca.
- Oi, - fez uma pausa esperando que dissesse oi, mas estava cansada demais para desperdiçar palavras – ontem, quando voltamos para pista, não te encontramos, apenas o lá no bar enchendo a cara e toda hora se lamentando sei lá o porque.
- Talvez eu saiba. Vim direto pra casa depois de um desentendimento com ele, pois não achei vocês - com uma voz de ressaca, respondi.
- Hm, então mais tarde eu e a Isa combinamos de assistir filme aí, ok? - May respondeu rapidamente.
- Tá bom, até mais tarde. - nem esperei ela responder, terminei a chamada e observei que tinha 12 ligações perdidas e 4 mensagens novas, ri por obviamente saber de quem eram e taquei o celular longe.
Dei uma geral no meu quarto, troquei de roupa e desci pra cozinha. Uum bilhete na geladeira dizia: “Filha, vou passar a tarde toda fora com seu pai. PS: coloque a roupa pra lavar, te amo”. Coloquei, como havia pedido minha mãe, a roupa pra lavar e fui esperar as meninas chegaram na sala, antes que pudesse me acomodar no sofá senti o celular vibrar no bolso esquerdo. O pesadelo começou cedo. estava me ligando, provavelmente para lançar uma daquelas suas frases clichês que eu, feito tonta, sempre caía. Dessa vez não. Estava errada. Era uma mensagem, nunca foi de me mandar mensagens. É, milagres acontecem, ou não era dele.
*1 nova mensagem*
Olhei rapidamente e nem notei de quem se tratava.
Liguei o rádio e a nossa música estava tocando. O refrão soou como uma espada em meu peito:
"O tempo passa depressa quando estou com você
As horas viram minutos, não consigo entender
Que o que eu mais quero é viver ao seu lado...
Cada segundo, amor."
Eu não vivi, não é? Cantei tantas vezes ao seu lado da boca pra fora. Não soube dar proveito a tanto amor alimentado apenas pela sua parte. Peço desculpas e só agora percebi o quanto você me fazia ver o mundo de outra forma. O meu mundo foi colorido, hoje é preto e branco e talvez esse seja meu destino, caminhando sozinho, pois não soube dar importância a um sorriso que tanto quis meu bem.
.
Reli várias vezes, pois era inacreditável ter me enviado aquilo. Senti meu coração disparar e minhas pernas bambearem, era o amor dando sinal e tentando me levar a cair na cilada novamente. Era duas e meia da tarde, as meninas telefonaram que estavam a caminho. Fui até a cozinha, ainda um pouco em choque com aquela situação, e coloquei a pipoca no microondas.
Vamos ver quem ganha essa. Não vou atender e muito menos responder a mensagem. Vou dar o gosto dele se enfezar pela minha ignorância. Um dia inteiro sem sinal de vida e no outro simplesmente sumo sem vestígios. Isso, plano perfeito! Vamos ver quem é a esperta da história agora, quem vai dar a volta por cima.
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13 ligações não atendidas do e 5 mensagens de voz. Por mais que a vontade de ouvi-las fosse desesperadora, o orgulho falava mais alto e certamente ele estava com total razão quando se trata de .
O sol estava quase a raiar, e eu ansiosa pela viagem, já estava de pé. A tarde passada tinha sido ótima e até um pouco tristonha, as meninas escolheram para assistir o filme: “O menino do pijama listrado”, para reforçar um pouco nosso laço afetivo. Aquelas cenas só resultaram em choros. Lágrimas que não se cessavam, ainda mais depois de ter lembrado que na manhã seguinte meu coração embarcaria em um avião, em um rumo por novos acontecimentos, histórias e memórias. Não comentei nada sobre as ligações de , até porque a situação não era apropriada.
8:50 de uma segunda-feira chata, mas, tudo iria melhorar após o embarque no avião. Estava arrumando as malas, faltava apenas pegar meu notebook, descer as escadas e ir em direção a uma nova vida. Fui interrompida. Fixei meu olhar àquele papel de parede, fiquei alguns minutos sem reação, apenas relembrando aquele nosso dia no parque...
Flashback ON - Reality OFF
- zinha, promete que enquanto existirem balanços tão mágicos quanto esses você estará ao meu lado, segurando minha mão e dizendo que vai ficar tudo bem, mesmo que não fique? - indagou Isa com uma carinha tristonha, imaginando o que ainda não aconteceu.
- Com certeza, prometo. - Pude ver a cara enciumada da Mayne e apenas murmurei.
- Promete pra mim também?
- Prometo, Mayzinha, prometo.
Puxei as duas para um abraço e a mãe da Isa aproveitou para registrar aquela dedicação recíproca.
Flashback OFF - Reality ON
Lágrimas insistiram em rolar pelo meu rosto, pude conter algumas. Porém uma teimosa escapou e se fez moradia a saudade. Aquela saudade gostosa, que nem quilômetros ainda nos separavam e já podia senti-la. Respirei fundo e apertei o porta-retratos contra o peito, enxuguei aquela insistente lágrima e desci as escadas em direção à porta.
- Querida, chegamos. - acordei com mamãe me sacudindo.
Desci do carro com uma cara nem agradável, tampouco desagradável, estava feliz e ao mesmo tempo infeliz por tamanha distância. Convenhamos que São Paulo fica um tanto longe de New York, nada mais, nada menos que 10 horas de voo. Isa e May me aguardavam na sala de espera no aeroporto. Assim que as vi, corri logo para um abraço triplo e cheio de nostalgia precipitada.
- , nos mantenha informadas. - disseram as duas juntas, em coro.
- Quero saber cada detalhe, da escola, das pessoas e também como irá acostumar esse coraçãozinho por lá – Isa toda carinhosa apontou para meu surrado e fraco coração.
- Também quero saber dos gatinhos, das baladas e adoraria ir passar as férias lá - toda empolgada e com um olhar com um aspecto meio-termo.
- Podem deixar, eu vou mantê-las em contato, vou telefonar todos os dias no fim da tarde e mandar sms todas as manhãs.
- Não esquece de atualizar o instagram, além de noíicias precisamos de fotos, né?! - com um tom um tanto irônico, Isabela riu no final da frase.
- Tá bom, tá bom.
*Atenção passageiros do voo 149, com destino a New York: Última chamada para o embarque.*
- É, chegou a hora - disse mamãe se lamentando.
- Uma foto para a despedida - Em meio a um sorriso, disse papai.
*Click*
Um abraço demorado após a foto e pude ver as lágrimas escondidas no canto dos olhos de cada uma.
- Não se preocupem, eu volto. - fiz uma pausa e acrescentei - volto renovada e pronta para outra.
Apenas assentiram com a cabeça e segui em frente, em busca de um novo rumo. Um novo recomeço e histórias longe de me causarem mágoas.
Pausa para explicação - On.
Papai havia conseguido uma vaga em um emprego disputadíssimo em New York. Ficamos em dúvida se mudaríamos ou não, aliás, a oportunidade era única, mas também um pouco questionável.
Mamãe decidiu larga seu emprego de atendente balconista e embarcar nessa nova vida. Eu não discordei em nada, estava precisando mesmo ficar longe por uns tempos e me esquecer daquele metido a play boy do .
Pausa para explicação - OFF.
*Atenção, senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante do voo 149, com destino a New York. Obrigado por escolher Tam Airlines. Estamos nos preparando para a decolagem. Por favor, mantenham os cintos afivelados, as bandejas fechadas e travadas, as poltronas na posição vertical e logo chegaremos ao destino.*
Foi a última voz que ecoou em meu ouvido e em seguida apaguei. Acordei com aquele céu anuviado, com uma sensação de alívio e sem culpa por ter fugido de todos os problemas. Tinha dormido exatamente 4 horas e meia. Faltavam mais 5 horas e meia pela frente. Olhei para o lado, papai e mamãe dormiam feito anjos. Resolvi ler um livro e me deparei com a frase: "O negócio era ser corajosa e ousada a realizar alguma coisa". Completei: e mesmo que te atormente siga em frente, siga em frente.
Passara-se 1 hora, todas aquelas páginas melosas e cheias de conselhos babacas me enjoaram. A fome bateu e pedi para a aeromoça que me trouxesse qualquer uma daquelas besteiras que servem no avião. Mamãe tinha acordado e papai nem sinal, apenas roncos. Roubou de meu colo o livro que estava lendo e começou a folheá-lo. Após encher o estômago, voltei a dormir.
3 horas e meia depois.
Acordei com meu Iphone ligado no último e a aeromoça pedindo para desligá-lo, o fone de ouvidos tinha escapado, dormi demais e nem percebi. Fiquei algumas horas observando o pessoal se distraindo. Dona Marry roncando e Augusto se empantufando de porcarias.
Uma hora passou rápido, quando me dei conta a aeromoça já estava anunciando que iremos pousar.
*Senhoras e senhores, permanecem sentados e dentro de minutos iremos pousar*
Pisei com o pé direito no primeiro degrau da escada de saída do avião pra dar sorte, fiz o mesmo ao adentrar na parte interna do aeroporto. Tudo era diferente, as pessoas, o ambiente e até mesmo eu estava me sentindo mudada. Novos acontecimentos estavam por vir e nada dali em diante iria me impedir de ser feliz. Mamãe e papai estavam fascinados com tamanha diferença e com a nova experiência de estar em outro país. O chefe do papai nos aguardava perto das lanchonetes, acompanhamos ele até seu carro, as bagagens seriam levadas depois pelos funcionários da firma.
Depois de 1 hora e meia de trânsito e aquela vozinha chata daquele tal chefe do meu pai, chegamos.
Avistei um prédio com exatos quinze andares, tinha sua beleza exterior e seu ar enriquecedor, era luxo demais para apenas uma família que nem sequer imaginou morar fora do país. Seu nome era "Landeker", localizado em um bairro rotulado como "bairro dos brasileiros" em Newark – Nova Jersey. Nosso apartamento era o 512, que ficava no sétimo andar. Três quartos, uma suíte, sala, cozinha, lavabo e sala de jogos, assim o chefe de meu pai, Sr. Afonso, definiu nosso apartamento. Chegamos ao estacionamento privado, diferenciado do estacionamento comum dos moradores, aquele era apenas para os funcionários da grande empresa “Small Boat”. Chegamos a recepção e Afonso nos convidou para conhecer seu apartamento presidencial, eu recusei por estar meio cansada da viagem e decidi subir junto com o ascensorista - que era um pedaço de mal caminho - e as malas.
- Você prefere elevador ou as escadas? - deu uma leve mordida nos lábios e falou.
- Elevador. - corei no mesmo instante.
Nunca pensei que sete andares fossem uma eternidade dentro do elevador, aproveitei para apreciar aquele belos músculos ao meu lado, inquieto e tímido, mas com um olhar atrevido. Enfim chegamos ao andar esperado, ele me dirigiu ao apartamento, me entregou o cartão-chave e com o mesmo abri a porta. Parei um momento para notar aquela sala logo na entrada, era tudo detalhado, nada mal acabado e mobílias todas intactas, pura modernice. Sofás almofadados com um tom amadeirado, confortáveis e luxuosos. Uma televisão de 42 polegadas full HD, uma mesinha de centro e um lindo tapete aveludado estendido pelo chão. Não pude observar mais detalhes, voltei a pôr os olhos naquele garoto de mais ou menos dezessete anos e com um olhar fascinante.
- Ér, onde coloco as malas? - segurou o riso ao notar que minha total atenção era para ele.
- No meu quarto, só preciso achar aonde é - dei uma leve gargalhada.
Depois de horas percorrendo aquele apartamento e abrindo cômodo por cômodo, encontrei meu sonhado quarto. As paredes eram intercaladas, roxo e rosa, assim como meu guarda roupas. Um detalhe o diferenciava, estampado nele estava a foto que eu, Isa e Mayne tiramos no shopping. Segurei o choro e fiz pose de durona, agradeci por ter carregado as malas, peguei-as e antes que pudesse acompanhá-lo até a porta, fui interrompida.
- Deve ter sido difícil pra você deixar uma vida inteira lá fora, né?
- Não muito, era preciso... - entristeci.
- Preciso e doloroso, entendo.
- Não, não entende.
- Eu sei dessa história do começo ao fim, moça.
- Talvez. A propósito, prazer, .
- Prazer, , mas pode me chamar de . Pra você só , ou mepega. - fez uma cara de safado e um sorriso assim de lado, tão desavergonhado que ficou impossível não rir.
- Então pra você, . Ou até mesmo zinhagatinha. - falei com um tom irônico, mas sério, enquanto lhe empurrava pra trás, rindo em seguida.
Ele me puxou pelo braço e disse "adoro gatas".
Paramos um minuto, apenas olhares fixos, corpos colados e corações acelerados. A carência predominou no momento e quando me dei conta sua respiração já estava próxima a minha e seus lábios querendo devorar os meus. Suas mãos seguravam firmemente os dois lados de minha cintura e lentamente seu rosto se aproximava cada vez mais. Afastei-o de mim e notei, logo em seguida, o outro ascensorista com o restante das malas entrar pela sala. Mostrei o caminho do quarto dos meus pais e segui com o até a porta, meia intimidada com a situação.
- Então vou indo, . - passou as mãos entre os cabelos e aquilo literalmente mexeu comigo. Virou as costas e se dirigia ao elevador antes mesmo que eu pudesse lhe dizer algo.
- ESPERE! – gritei - onde posso te encontrar novamente? Quero dizer, pra falar daquele assunto que você disse que sabia como era... - me interrompeu.
- Bom, meu turno acaba daqui a pouco, exatamente as 7:30 pm. Posso te ligar e a gente combina alguma coisa pra hoje?
- Hoje não vai dar, vou apagar daqui a pouco.
- Outro dia então, fica com meu número. - anotou em um papel qualquer e me entregou.
- Tá bom, um dia desses te ligo ou a gente se esbarra.
- Combinado.
Agradeci ao outro ascensorista, que saiu rapidamente logo em seguida. Voltei para o quarto, liguei o notebook e o coloquei em cima da cama. Fiz minha higiene pessoal e fui explorar os cantos da casa. Como era tudo belo! Não me refiro só ao apartamento e também a New York. O meu sonho estava sendo concretizado e lembranças nostálgicas de e de ninguém irá me fazer desistir disso tudo. Voltei para meus aposentos reais e me conectei a rede do prédio. De imediato fiz login no messenger, atualizei o status para: "Até que enfim, New York, cheguei!". e me chamaram para uma conversa em conjunto/vídeo, com direito a webcam e microfone.
Histórico de conversação, Isabela Marquês/Mayne Hyliari/ .
6:45 - diz: Meninas, que saudades.
6:45 - Isabela Marquês diz: Como é tudo por aí? Que horas você chegou? Já conheceu bastante gente?
6:46 - Mayne Hyliari diz: , sua ameba, já estava fazendo falta aqui.
6:46 - diz: Calma, garotas. Respondendo: tá tudo ótimo, cheguei agora a pouco, mamãe e papai foram convidados, assim como eu, para conhecer o apartamento do chefe no 13°andar, não quis ir junto e acompanhei o ascensorista ao quarto e que ascensorista, hein?! Foram as únicas pessoas que conheci e, Mayne, sua cachorrinha, estou com saudades das suas crises existenciais de segunda-feira, haha.
6:47 - Isabela Marquês diz: vou ter que ir no mercado pra mamãe, vamos comigo, May?
6:47 - Mayne Hyliari diz: Vamos, estou no tédio mesmo.
6:47 - diz: Ei, eu estou aqui, viu. Podem ir lá, vou dar uma descansada e daqui uns dias dou sinal de vida.
6:48 - Isabela Marquês diz: Nos ame menos, zinha, e vá se divertir aí.
6:48 - Mayne Hyliari diz: Isso aí. A gente vai, mas volta e você não.
6:49 - diz: Vão lá e me deixem com meu drama, x.o.x.o.
6:50 - Sua chamada de vídeo foi encerrada.
Mayne Hyliari desconectou-se.
Isabela Marquês desconectou-se.
As mensagens que você enviar serão entregues quando esses contatos entrarem.
Fechei a janela e logo outra piscou na barra de ferramentas. Cliquei e notei o Nick: . Tive vontade de fechá-la sem nem ao menos lê-la, mas precisava dar o gostinho de que estava dando a volta por cima. Abri.
Histórico de conversação, / .
6:40 - diz: Você não viu minhas 13 ligações e 5 mensagens de voz? E mais aquela mensagem?
6:51 - diz: Vi sim, , vi sim. Mas estava ocupada arrumando as malas para respondê-las.
6:51 - diz: Malas, ? Malas? Quê história é essa?
6:52 - diz: Sim, malas, estou morando em New York agora.
6:52 - diz: Você não fez isso comigo.
6:53 - diz: Eu não te fiz nada, .
6:54 - diz: Isso não me fez nada, me fez tudo.
6:55 - diz: Foi como você disse, tudo acabou na noite retrasada.
6:55 - diz: Não acabou, eu estava cego e naquele dia na festa eu fui atrás de você pra tentar voltar. Mas você não estava lúcida e senti uma enorme vontade de cuidar de você, lhe acariciar e te fazer feliz, nem que se fosse apenas por aquela noite. Você não me deu atenção, se entregou, mas depois foi embora, fiquei sem reação e fiz o mesmo.
6:56 - diz: Tarde demais, cansei de sempre cair nesse teu papo e nessa tua pose de conquistador. Aprendi a cultivar uma coisa: amor próprio.
’s POV
" está desconectada(o). As mensagens que você enviar serão entregues quando esse contato entrar."
Li aquilo e foi como se levasse um tiro na minha própria cabeça. Era isso mesmo, eu realmente estava caindo por aquela garota de cabelos longos pretos e aquele corpão de 18 anos, mas que não passava de 16 anos. Porra! , você não podia ter feito isso comigo, você vai ser minha de novo e dessa vez não vou deixar você escapar. Que eu chore muitas noites, mas que nas outras você me faça sorrir.
’s POV OFF
Coloquei o notebook na escrivaninha e não vi mais nada.
Acordei com minha mãe chamando para ir ao jantar de boas-vindas. O meu vestido já estava posto à cama, era rosa, todo trabalhado com vidrilhos. O comprimento era um pouco mais acima do joelho e para acompanhar uma melissa Skycraper Pink. Prendi meu cabelo atrás com grampos e passei uma leve maquiagem, nada exagerado. Espirrei perfume e já estava pronta.
O salão estava lotado e várias meninas da minha idade vieram me cumprimentar. Logo me enturmei e descobri que estudaríamos na mesma escola. Começo de nova vida perfeito, já tinha novas amigas: Alice, Joyce e Laurem. Papo vai e papo vem. Lembrei, então, que fiquei de ligar para o e marcar alguma coisa. Aquela festa estava uma chatice só, então resolvi encontrá-lo hoje mesmo. O barulho me impediu que ligasse e então mandei uma mensagem:
"Oi, , então, e aquele papo? Vai rolar? Ta mó tédio essa festa. Quero sair e curtir um pouco. Esquecer os pesares, pode ser? Eu sei que tinha lhe falado que hoje não, mas tô sem sono, rs.
zinha ."
As meninas tiraram todas as minhas dúvidas sobre a escola e o pessoal de lá. Passaram-se uma hora e já parecia que as conhecia há anos.
Senti o celular vibrar e no visor:
*Uma nova mensagem*
"Oi, delícia, pode ser sim. Passo aí te pegar daqui 15 minutos, ok? ou fazer você esquecer todos esses problemas. Ah, e a propósito, esse é teu sobrenome? rs
Beijos, ."
Abri um sorriso e tratei logo de enrolar as meninas. Disse que estava cansada e iria para o quarto, me despedi e avise meu pai que iria dar uma saída com uma nova amiga. Fiquei esperando na esquina, que em menos de 10 minutos já estava lá. Que garoto era aquele? Suspirei, naquele momento fiz cara de boba e com certeza ele percebeu porque riu de um jeito tão gostoso que quase pedi para rir mais. Fiquei o admirando por segundos, ele estava com uma blusa social preta aberta e por baixo uma camiseta branca simples, uma calça jeans e tênis. E o cabelo todo bagunçado e aquele sorriso em seus lábios que, meu Deus, ainda me mata.
- Não vai entrar? - tirou as mãos do volante, se curvou entre os bancos e abriu a porta.
- Não é desse jeito que vai me convencer a entrar. - fiz bico e cruzei os braços, olhando pro nada.
Ele encarou o volante por um minuto, abriu a porta e veio até mim. Senti seu perfume forte se aproximando, antes mesmo que pudesse olhá-lo senti seus braços se entrelaçando em torno de meu corpo e falou bem baixinho para que só eu ouvisse, em um tom desavergonhado e arrepiante: "Oi, princesa". Me soltou e abriu a porta, sorri por dentro e entrei no seu carro, um Gol Rallye branco. Não houve mais diálogos, apenas troca de olhares. O tédio aumentava e o trânsito complicava. Ele ligou o rádio e começou a tocar:
Play na música.
"Tonight I want all of you tonight
(Esta noite, eu quero você inteira esta noite)
Give me everything tonight
(Me dê tudo esta noite)
For all we know we might not get tomorrow
(Pelo que sabemos, podemos não chegar no amanhã
Let's do it tonight
(Vamos fazer esta noite)"
Mordeu os lábios e me encarou por uns segundos.
Depois de meia hora naquele devorar de olhares...
- Chegamos, vou te mostrar um lugar tranquilo onde costumo vir para esfriar a cabeça. - Disse ele.
Era uma estrada impecável atravessando o vazio. Nenhum sinal de civilização, nenhum restaurante e nem mesmo um posto de gasolina por quilômetros e quilômetros. Ao fundo, montanhas e nada, completamente deserto. A brisa assobiava perigo e a lua iluminava um momento tão sei lá o que. Ele me olhou, me passando segurança, e fez sinal para que saíssemos do carro, acordei do meu transe e o acompanhei para fora. Encostou-se ao capô e eu me sentei quase perto dele e observei o nada. O silêncio predominou o momento, exceto por uma risadinha de ao perceber que eu estava em outro planeta, não só uma risadinha, aquela risadinha de cantinho de boca (SEXY, MEU DEUS, SEXY).
- Então, perfeito aqui para quem gosta de ficar só, né?
- Perfeito sim, se estivéssemos sós - dei um sorrisinho e ele entendeu o recado.
- Ah, a música, tinha me esquecido.
- Pois é...
Rapidamente ele foi até o painel do carro e desligou o rádio.
- A sós agora.
- Enfim sós - completei.
- ... Posso te fazer uma pergunta? - fez cara de curioso.
- Claro, .
- Como que você "conhece" um cara, pede o telefone dele e de cara já aceita dar uma volta e ainda mais nesse deserto? Como sabe que eu não tenho segundas intenções ou algo do tipo? - ele fez cara de "hein?" e eu ri daquilo.
- Porque eu sei, , eu sei.
- Como sabe?
- Primeiro que se você estivesse com segundas intenções ao me trazer no meio do nada não me questionaria, partiria logo pro ataque.
- E se eu quisesse saber?
- Não ia querer, iria apenas querer se dar bem e no outro dia esquecer de tudo.
- Você é esperta.
- Experiência.
- , por que veio parar aqui em NY?
- Meu pai tinha essa única oportunidade e achamos melhor não perdê-la.
- Disso eu sei, eu digo por que decidiu vir?
- Porque aconteceram umas coisas e se eu ficasse lá no Brasil iria ser pior.
- Quer desabafar?
- Bom, não gosto de reviver as dores.
- Tudo bem, se é melhor pra você. - ele falou se sentindo um pouco ofendido.
- E você, por que veio parar aqui? - tentei mudar de assunto.
- Quase o mesmo motivo.
- E qual foi?
- Se você contar, eu conto.
- Tá bom, tá bom. - Fiz cara de "tudo bem, você venceu" e continuei - Era um namoro de um ano e quatro meses, eu estava perdidamente apaixonada, ou melhor dizendo, cegamente. Tudo ia bem, eu tinha o namorado perfeito e o amor que tanto sonhei sentir. Mas nem todo sonho acaba bem. Íamos fazer um ano e cinco meses, até que ele me liga terminando tudo, me esculachando e dizendo que já não significava mais nada na vida dele, disse que estava com outra e o pior, era minha pior inimiga. Ela me odiava e vice-versa e quando eu e começamos a namorar ela disse que não iria sossegar enquanto eu não estivesse infeliz. Dito e feito, ela cumpriu sua promessa, pena que ele não cumpriu as dele - Uma lágrima escapou do meu rosto e rapidamente a secou.
- Então é esse o nome dele, ? Esse é o filho da puta que te fez mudar de país e derramar essa lágrima agora? - Falou em tom de fúria - eu juro, , eu juro que se eu estivesse lá eu teria resolvido as coisas de outro jeito, não é assim que se trata uma mulher. Ainda mais sendo você, .
- Ei, . Tudo bem, já passou. Não se preocupe, eu vou ficar legal, eu precisava disso, vir pra NY e espairecer a cabeça e conhecer pessoas como você -Grudei nossas testas e o acalmei com meu olhar de "vou ficar legal".
- Mas não importa, , olha o que ele fez com você. -Já se acalmando, mas ainda um pouco nervoso, me questionou, como se eu não soubesse o que aquele otário do tinha me feito.
- O pior você não sabe. Não sabe. - Repeti as últimas palavras tentando esquecer de tudo.
- Vou saber agora.
- Ele foi capaz de me procurar na noite seguinte e se aproveitar da minha embriaguez.
- O que mais esse cafajeste te fez?
- Ele se aproximou, me segurou com firmeza e me beijou a força. Se não fosse pelos meus perfeitos sentidos eu não teria conseguido me soltar e ir embora. Claro que antes o avisei para me esquecer e que nunca mais iria sentir o gosto do meu beijo.
- Ah, se eu estivesse lá teria dado umas boas porradas na cara daquele pilantra.
*risos*
- Então, já contei a minha história e a sua, ? Vai me contar ou não?
- Bom, foi assim: conheci ela há uns 3 anos atrás, éramos apaixonados cegamente. Eu via nos olhos delas que morria de amores por mim. Eu tinha a plena certeza de que era ela o amor de minha vida, então eu decidi pedir ela em namoro. Ela aceitou, mas já os pais dela não. Foi difícil segurar aquela barra com toda a família dela se declarando contra o nosso amor. Mesmo assim não me deixei intimidar, eu queria somente ela e quanto mais sofríamos com represarias, mais nosso amor crescia, se fortalecia. Éramos de gênios totalmente diferentes e por isso muitas vezes brigávamos e acabávamos terminando. Mas eu sedia e logo voltava pra perto dela. Até que um dia, numa dessas brigas de casais, nem me lembro do motivo, ela me confessou que já havia me traído. Foi aí que o meu mundo desabou, meu chão se desfez e toda a minha luta para que ficássemos juntos de um minuto para o outro já não tinha mais sentido e todo aquele nosso amor jurado ser eterno por ambas as partes parecia ter virado uma grande mentira. A única coisa que fiz foi adiar o inevitável... O fim. Dei pausa naquele amor imaginado por mim. Declarei o fim daquela minha ilusão e depois de cinco meses vim estudar em New York, buscar uma nova vida, assim como você. Estudo na International Academy e trabalho aqui para o meu sustento. O dinheiro mensal que meus pais mandam não estava dando para as festinhas, por isso atualmente sou empregado do Dr. Afonso.
- Que menina louca. Louquinha. Eu nunca seria capaz de trair um rapaz bonito como você e ainda mais apaixonadíssimo como você estava. Não acredito que vou estudar na mesma escola que você, pelo menos não vou me sentir sozinha por lá – risos - então você adora festas? Eu também, agora vou querer te acompanhar em todas. Mas e essa barra você superou? Eu tô aqui viu - me inclinei para ele e olhei profundamente em seus olhos - pra qualquer coisa.
- Não acredito que eu tenha superado, apenas acostumei a viver com a falta dela -levantou a cabeça que estava abaixada e deu um sorriso tão sofrido e muito magoado - você e eu na mesma escola? Não vai dar certo, ainda mais nas mesmas festas? Vai dar rolo. Mas relaxa, ela não foi tão filha da puta como seu ex bundão, eu ainda pego ele, falou?
Eu ri e ele ficou olhando pra mim.
- O que foi? - perguntou sem entender.
- É que parece que te conheço há anos e que proteção é essa, hein?
- Sei lá, a raiva subiu aos nervos e se eu tivesse lá descontaria toda nele, todinho.
Ele já estava na minha frente parado e dominando meu olhar.
- Pode descontar em mim se quiser. Com delicadeza, claro - Falei esperando que ele risse e não que levasse a sério.
- Não fala assim.
- Assim como?
- Desse jeito.
- Que jeito?
- Esse de mandona, me da vontade de... - ele parou no meio da frase.
- Do que?
- De te calar. - ele corou e eu corei junto pela sua timidez.
- Então cala. - Me arrependi no outro segundo por ter dito aquilo e senti meu coração bater forte e uma grande concentração de sangue em minhas bochechas.
Ele fez o que mandei e me beijou, foi impossível dizer não e retribui. Era um beijo suave e muito, muito delicado. Um beijo tão doce e ao mesmo tempo tão quente, aquele beijo me fez sentir um turbilhão de sentimentos. Era um beijo tão surpreendente que eu esqueci de respirar. Suas mãos frias se apossaram nas minhas costas, faziam leves movimentos, me acariciando e aquilo me arrepiava inteira, logo suas mãos que eram sempre quentes. Entrelacei meus braços em torno dele e acelerei o beijo. intercalava suas mãos entre minhas costas e coxas e isso me deixava maluquinha. O aticei dando leves puxões em seus cabelos e ele pareceu gostar disso. O beijo calmo se tornou desesperado e muito acalorado das duas partes. O puxei mais contra mim, e isso fez com que nossas intimidades se encaixassem. Desgrudei meus lábios dos dele e pude vê-lo morder os lábios, sorri e ele colocou a mão na minha cintura e me beijou novamente. Decidi deixar rolar e pensei: que se dane tudo. Logo desuni de novo nossos lábios e novamente sorri e ele mordeu os lábios. Não durou dois minutos e ele começou a me beijar e dar leves mordidas em meu pescoço. Arranhei seu peitoral de leve e ouvi ele dizer baixinho "ai", o puxei novamente para um beijo desta vez ardente. Eu realmente queria isso, eu queria que curasse o trauma que tinha deixado em mim. Eu realmente queria que ele fosse o primeiro (bem, ele era o primeiro depois de ). Ele me tirou do capô, fez com que eu ficasse de pé e me encostou de novo e me amou, tão loucamente, tão perigosamente, enquanto sussurrava no meu ouvido.
- Eu juro, zinha, que nunca mais teus olhos irão transbordar de lágrimas e muito menos ficarem marejados. Eu tô aqui agora e tudo vai ficar bem.
Levei um tempo para processar aquelas palavras e aquela sua voz rouca fez novamente com que eu entrasse em transe. Minha mente se esvaziou, por um momento havia apenas eu e ele ali e quando me vi acordada de meus devaneios ele me chamava e me perguntava algo. Eu me entreguei totalmente a ele e, meu Deus, como isso é bom.
- O que? - perguntei voltando pra realidade.
- Deixa eu cuidar de você, izinha? - sussurrou tão lentamente para que dessa vez eu entendesse, certamente a sinceridade nas palavras.
O tom de sua voz era de carinho... E eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Meu sorriso chegou ao canto dos olhos e ele retribuiu com um sorriso tão ingênuo. Ele queria ser meu, mas não inteiramente, carinhosamente. Um afeto a mais, mas não chega a ser a mais ou menos. O afeto que seu olhar me pedia era um laço afetivo nem tão intimo, nem pouco. Era apenas ternura, meiguice, era amizade. Vim pra New York em busca de uma nova vida e encontrei um amor de irmão. E isso mais do que tudo fez com que minha mudança valesse a pena.
- Sim – Eu sussurrei de volta – Eu sou sua agora e terá que cuidar muito bem de mim ou faço bem pior do que fiz com .
- Esse cara de novo não. - emburrou e continuou - eu vou cuidar de você e não te maltratar assim como esse filho da mãe fez.
- Bobo.
- Boba.
Corei no mesmo instante, tava precisando disso de um ombro amigo. , que agora estava sentado ao meu lado no capô do carro, veio lentamente até mim e me beijou na bochecha, carinhosamente e afetivamente. Sorri e retribui. Ficamos ali por mais ou menos uma hora, observando o nada.
Capítulo 4 - Primeiro dia de aula.
06:45 AM, Segunda-Feira de um dia tão aguardado.
Abri meus olhos e vi que ainda permanecia na mesma posição de quando fui me deitar, agora estava mesmo certa de que a noite foi cansativa, mas divertida e, acima de tudo, especial. Delirei em pensamentos por mais ou menos uns 15 minutos na cama ao lembrar daqueles músculos entrelaçados ao meu corpo e suas mãos delicadas a cada toque, me acariciando. Ah meu Deus, esse ainda me mata. Me espreguicei e finalmente me "livrei" da minha linda e confortável cama, tomei uma ducha e em menos de 10 minutos estava pronta. Confesso que aquela blusinha branca básica com o emblema da escola e aquela saia vermelha toda detalhada em dourado me deixou um pouco mais linda, modéstia a parte. Deixei meu cabelo solto e fiz uma trança francesa em cascata. Desci para tomar um café e acabei apenas comendo uma maçã. Me despedi de mamãe e papai e me dirigi ao elevador do prédio. Cinco minutos parecem uma eternidade para quem está tão ansiosa para seu primeiro dia de aula. O motorista já me esperava na frente do carro, fez a gentileza de abrir a porta e eu entrei. Chegamos em frente e pude ver aquele prédio enorme e muitos alunos espalhados em sua frente.
Assim que o carro foi estacionado pude ouvir a diretora anunciar ao microfone.
*Sejam bem vindos, estudantes da Internacional Academy*
Dei um leve sorriso e me convenci de que seria um bom começo de ano letivo. Eu tremia feito uma corda bamba, minhas pernas bambeavam a cada passo, e eu estava totalmente arrepiada. Estava muito quente e eu me perguntava por que estava daquela forma. O nervosismo batia na porta e a ansiedade o esperava sentada. Eu estava em meio à multidão para meu primeiro dia de aula naquela escola totalmente fora do meu costume, e com a linguagem pra lá de diferente. Pelo jeito não era a única ansiosa para o começo das aulas, todos ali estavam adiantados, esperando a abertura dos portões e olhando todo mundo daquela forma, e eu ali em um canto, sozinha, me soava tão amedrontador. Rejeitada eu não poderia ser, aliás, todos gostam de mim pela primeira impressão, então minha única preocupação seria isso. Mas, são pessoas diferentes, é tudo diferente. E se eu não for boa o suficiente para permanecer aqui? Meu Deus, to encrencada! Tenho que me dar bem com todos. Não quero ser a excluída e muito menos a invisível. Tentei focar nos detalhes e tudo que eu via eram os grupinhos separados e pensava em qual grupo eu me encaixaria. Era tudo estranho e tudo naquele lugar me soava tão sério que me dava medo. Resolvi me distrair mandando sms para as meninas.
*SMS ENVIADO* 7:15 AM.
Isa, tô aqui na frente da famosa International Academy. Pensa em uma tremedeira e um puta medo de ser rejeitada. Sei lá, povo estranho, já estou sentindo falta do meu Brasil e de todas vocês *carinha de choro*.
Beijos, te amo.
*SMS RECEBIDO - ISA* 7:17 AM.
Ô meu dengo, segure as pontas aí.
O acabou de passar do meu lado pelo corredor com um ar tão triste que deu dó. E você, como está? Não pense assim. Vai dar tudo certo, você vai ver. Quando puder responde.
Beijos meu e da May, te amamos.
Os portões se abriram e os alunos logo foram em direção a sala de aula. Eu procurava a minha sala, olhava no papel e olhava aquelas plaquinhas em cima das portas, mas nada correspondia com o escrito. Estava olhando porta em porta, e quando estava no fim do corredor senti uma mão em meu ombro.
- Olá, sou Keyte, vejo que está perdida, certo?
- Ah, olá, sou e sim, estou perdida, pode me dizer aonde fica a diretoria?
- Mas é claro, siga em frente e vire a direta, verá logo a sala verde.
- Muito obrigada.
- Imagina.
Me dirigi a diretoria para saber ao certo meu horário, assim como a sala de aula. Me sentei pacientemente no confortável sofá clichê de todas as escolas e me acomodei à espera da diretora.
- Você dever ser , estou certa? - aproximou-se de mim aparentemente feliz com seus cabelos grisalhos e ar de sabedoria, me perdi na minha imaginação, chacoalhei a cabeça e lhe respondi.
- Certíssima. - Me levantei e apertei a sua mão, cumprimentando-a.
- Bom, Srta. , conversamos muito a respeito da sua entrada na I.A e ficamos muito felizes ao rever seu histórico escolar. Vejo que no Brasil o aprendizado é excelente. - Fiquei uns dois minutos impressionada como o português dela era claro.
- Eu me esforçava bastante, mas o ensino é de fato muito bom.
- Bom, você está no segundo ano A, aqui é um pouco diferente na troca de horários, são duas salas, ao decorrer do tempo irei lhe acompanhar até a sua primeira aula e pedirei para que algum aluno lhe explique melhor sobre todo esse processo. Alguma dúvida?
- Ah sim, todos falam português?
- Sim, todos os alunos de diversos países antes de entrarem para a I.A passam por um curso de linguagem que dura 06 meses.
- Ficou claro agora, rs.
- Me acompanhe.
Fiz o que ela pediu e desfilamos naquele corredor imenso e barulhento. Paramos perante os armários e ela fez sinal, apontando para o meu devido "guarda-livros" escolar.
- Bom, esse será seu armário, a senha você que escolhe.
Rapidamente digitei a senha de minha escolha: 741. Abri o armário e me deparei com vários livros, passes de corredor e um espelho preciso.
- Pegue esses primeiros livros e este caderno ao lado, precisará disso no decorrer do dia.
- Ok.
Fechei aquele belo armário e a acompanhei até a sala 14, onde iria passar meus próximos 100 minutos (1 hora e 40 minutos). Minhas pernas novamente falharam e eu me vi novamente perante uma corda bamba, minha respiração falhava e minhas mãos suavam, quase totalmente os efeitos do primeiro beijo. Chegamos perto da porta e eu já não me aquietava. Tensão tomava conta de mim e o medo me assombrava.
A diretora bateu na porta umas 3 vezes e nessa última tentativa o professor abriu.
- Me desculpe, Srta. Cida, estávamos entretidos em saber um pouco de cada um.
- Primeiramente, por favor, Srta. Cida Guerra.
- É claro, me desculpe novamente. - Ele não sabia aonde enfiar a cara e todos lá no fundão da classe riram.
- Bom, não estou aqui pra isso. - Adentrou a sala e pediu para que eu fizesse o mesmo.
Com passos firmes e nervosos eu caminhei logo atrás dela, mantinha a cabeça para baixo, era vergonha demais.
- Bom, turma, essa é a Srta. e irá acompanhar vocês neste ano letivo e esperamos que no próximo. Deem as boas vindas a ela e estarei de olho caso a tratem com indiferença. Ela veio de muito longe e espero que tenha uma boa impressão de você. É isso, professor William, obrigada.
- Não tem porquê, - continuou em seguida após a diretora se retirar - antes de escolher seu lugar, , se apresente e diga seu nome e de onde veio para a classe, por favor.
- Ok, - suspirei e pensei nas palavras adequadas, encarei a classe e fiquei surpresa por ver as meninas acenarem para mim e isso me encorajou à continuar - me chamo , . Morava no Brasil e devido a uma crise familiar fomos obrigados a testar outra cultura.
- Obrigado, . Pode se sentar.
Fui ao encontro delas e as cumprimentei com dois beijos nas bochechas e com um sorriso de orelha a orelha, me sentei em uma carteira vaga ao lado de Laurem. Aquela aula até que estava interessante, mas minha concentração estava totalmente nos olhos verdes de um garoto da terceira carteira da segunda fileira, que não parava de olhar para mim. Ele era o cara perfeito, estiloso, mais para brasileiro mesmo, e isso, ah, isso me fascinava. Senti minha cabeça ser atingida por uma bolinha de papel, e em seguida minha fantasia sendo desmoronada. A classe inteira estava olhando para mim e rindo da minha situação.
- Algum problema, ? - importunou o professor.
- Nenhum, William.
Rapidamente uma grande concentração de sangue atingiu minhas bochechas. Peguei o papel e abri timidamente e um tanto desnorteada ainda:
Não fique brava comigo quando este pedaço de papel atingir sua cabeça. *risos*
Não acredito que estamos na mesma turma e já notei seus olhos em cima do popular e gatíssimo Turner, hein?!
Garota, estou de olho no amigo dele, poderíamos ajeitar nosso lado, não?
HAHA, adorei te ter por perto, se concentra aí agora e tire os olhos dele.
Alice, x.o.x.o
Dei uma leve e baixíssima gargalhada ao terminar de ler, meus olhos procuravam pela sala o então gato de Alice, amigo do dono daqueles fascinantes olhos verdes. Eu já sabia o nome dele e isso fez com que meus suspiros ficassem ainda mais fortes. Virei o bilhete e respondi com minha caneta pink:
Olha bem que eu já encontrei o cara dos meus sonhos. *risos*
Preciso contar a vocês tanta coisa que aconteceu ontem. Haha.
Pois então, gatinhos, né? Quem sabe não rola um sentimento.
Preciso do seu número e também o da Laurem e da Joyce.
Me manda por mensagem, meu número: 47845632.
Beijos, gata. .
Não sabia nem ao menos em qual parte da explicação o professor estava, arranquei meu Iphone do meu bolso e lembrei que não havia respondido o sms da . Digitei rapidamente, pois não parava de vibrar anunciando a mensagem de Alice.
Ai, gata, meu dia já começou bem. Preciso ligar pra você e pra May hoje a noite, contar o que houve ontem. Não tenha dó, e sim tenha pena de mim, rs.
Falei com ele no msn e tals, depois te conto, tenho que prestar atenção na aula agora, beijos pra vocês.
:*
Em seguida abri a mensagem da Alice contendo os números das três, rapidamente compartilhei minha noite de ontem via sms com elas. O sinal bateu e, junto com todos, eu caí na realidade e vi que havia perdido três aulas com sms's e aquele belo par de olhos verdes me examinando, cada detalhe, despercebido que fosse. Arrumei as minhas coisas e fui para o armário junto com as meninas para guardar os livros e separar os outros para a próxima aula. Fui para um lado e elas para o outro, quando de repente eis que surge aquele deus grego ao meu lado.
- Ér, oi. Te assustei? Desculpe. - falou até meio sem jeito, passando uma de suas mãos entre os cabelos e deixando a outra pousada e tímida em seu bolso. Puta que pariu , ele nem me conhece e já sabe como mexer comigo.
- Você está bem? - perguntou chegando um tanto mais perto.
- Ah, oi. Não me assustou, rs. Desculpe, é que estou meio perdida.
- Entendi. Prazer, Turner. - estendeu sua mão firme a espera da minha.
- Prazer, , como já deve saber. - com muito custo minha mão nervosa apertou aquela mão tão macia.
- Preciso ir, as meninas estão me esperando.
- Tudo bem, vai lá.
- Tchau.
- Tchau, beijo.
Fui em direção à elas e todos estavam de queixo caído, ainda podia sentir seus olhos sobre mim e que sensação boa era. Desconversei sobre aquele assunto e elas logo me interrogaram sobre ontem, desconversei outra vez e descemos para o intervalo.
O recreio foi mais calmo, ficamos um pouco isoladas da turma e mesmo assim aqueles olhos verdes ainda conseguia me encontrar. Já estava começando a ficar sem jeito, até que o meu celular toca e junto com ele o sinal do fim de recreio.
1 chamada perdida: .
Estava começando a pensar em quantas pedras atirei na cruz, pois não era possível não me deixar em paz. Está certo que o tempo que passamos juntos foi marcante, mas a decisão foi dele, eu deveria estar deprimida, mas não. Assim fica difícil reconstruir minha vida. Eu tenho que ser forte, eu ainda o amo, mas amor não é o suficiente para que uma relação dure. Que pena, pois eu realmente achava que ele seria meu verdadeiro amor.
As três últimas aulas foram totalmente sem graça e percebi que o meu segundo horário não era o mesmo de Turner, isso já me deixou irritada, tudo começou a dar errado , e no meu pé só fez com que meu dia piorasse. Novamente não prestei atenção nas aulas e quando me dei conta o sinal já havia batido, me despedi das garotas e entrei no carro, esperando que o resto do meu dia não piorasse.
Capítulo 5 - Não atrapalhe meus planos.
Cheguei até o apartamento que agora definitivamente seria minha nova casa. Descobri que minha mãe havia sido chamada para trabalhar como secretária de papai por um bilhete grudado na geladeira. Estava exausta, decidi me deitar e os pensamentos invadiram minha mente.
Finalmente a coragem tocou a campainha da minha porta e desta vez eu estava pronta para abrir, eu estava decidida a encará-lo pela última vez, escutar sua voz que era música para meus ouvidos e, mesmo que fosse pela ultima vez, eu o amaria ali, pelo fio de telefone, pelas ondas que transportavam minha voz até os seus ouvidos, pela sua respiração forte e seu pedido: que eu volte. Eu o amaria, por uns quinze minutos ou mais, que fosse. O adeus que eu não soube dar eu daria, que seja por uma conversa online, ou via webcam, qualquer meio de comunicação serviria...
“Everything's hurting inside, everything is destroyed. Again, I am completely in tatters”
“Estava tudo machucado por dentro, estava tudo destruído. Mais uma vez, estava completamente em cacos.”
"Não quero mais essa dor chata e este arrependimento inútil de ter feito tudo errado e até mesmo de ter me apaixonado. Quero vontade de viver, quero menos lágrimas e mais sorrisos, não quero mais tormento do remorso por não ter dado ouvidos a quem me avisou o quanto é ilusório o amor. Não quero apetecer felicidade, quero apenas um terço dela. As lembranças não me deixam e nem a culpa por ter deixado escapar quem mantive presa a tempos, minha felicidade. Preciso me libertar de vivências anteriores e algo que só me trouxe mágoa e rancor. Preciso focar no presente, apenas no presente. Essa rotina melancólica é preciso esquecer, uma dose de amnésia se preciso for, talvez. Não quero que continuem a me julgar sempre como o motivo do problemas, a razão de estar tudo incerto e até mesmo meio anarquizado. Queria que nunca tivesse existido em minha mente esses fonemas e estes milhares de aditamentos pensares. Odeio essa condolência interminável em busca por amor próprio, uma pequena dose que seja. Se há uma coisa que detesto com certeza é me achar tão substituível e, por às vezes ser meramente frágil, acabo tendo grandes recaídas e me deixando abalar por pequenas despedidas, pequenos adeus."
Era uma tarde melancólica e muito nostálgica. Digitei por entre tantas lágrimas palavras tão cheias de afeto. Fechei o notebook e notei que já se passavam das seis horas da tarde, havia apenas mais uma hora de solidão. Sentia meu coração se quebrar em pedacinhos ao perceber que era a hora de terminar com a dor. Era hora de chorar muito, chorar tudo, e depois ainda assim acreditar em sorrisos inesperados e histórias mais intensas. Chegou o momento de ouvir dizer com ou sem palavras, que o que demos foi pouco, quando o tempo todo ele poderia ter se esforçado mais. Procurei seu nome na agenda, respirei fundo e suspirei baixinho: adeus. Me encorajei, porque é preciso para encerrar uma história de amor, ainda mais a nossa. E por mais que me machucasse, entristecesse e dilacerasse, eu sabia que não havia outra alternativa. Eu tinha que ser forte e parar de brincar de ser vítima, de gato e rato, de queda de braço. Era preciso muito coragem para retomar minha própria vida, para aprender a estar comigo mesmo. Para me permitir começar tudo de novo, quando o novo vier. Meus dedos já estavam nervosos e minhas unhas se tornaram chocolates para minha boca. Minhas nervosas pernas tremiam e meu coração batia descontroladamente como quando me pediu em namoro. Droga tudo poderia ter sido diferente!
- Alô? - ele atendeu no quarto toque.
- Oi, . - minha voz saiu um pouco arrastada.
- ?
Ouvi a voz rouca que tanto gostava do outro lado da linha.
- Sou eu. - disse, já com a voz de choro.
- Por que ligou? Aconteceu alguma coisa? - ele disse deixando transparecer saudade.
- Liguei porque ainda te amo e está mais difícil aceitar este afeto do que lhe expulsar de mim. Liguei porque tua fala ainda continua sendo música para meus ouvidos e sua voz rouca me soa tão sexy, é porque você sempre me fez sentir-me completa, , mesmo não tendo motivos eu não desisti até o último segundo, até aquele minuto que fui mandada embora, em que meu papel já não era mais preciso, aquele mesmo minuto que você fez questão de deixar claro que eu era a protagonista errada para sua história e meu romantismo nunca foi o bastante para você. Mas na verdade você fugiu do script da minha cabeça, do roteiro todo ensaiado que eu gastei longas e intermináveis horas de sono pra deixar pronto. - na última frase coloquei uma ênfase e aquela lágrima teimosa escapou de meus olhos. Caralho, como eu odeio despedidas!
- Me desculpa, eu sei que eu errei e sou homem de assumir isso. Sinceramente eu não sei em que estado mental eu estava quando te mandei embora, longe de meus braços, longe de meus lábios, eu realmente não sei o que se passou pela minha cabeça. Eu fui muito burro, um trouxa, até mesmo um otário. Perdi meu coração que fora brutalmente arrancado e levado junto com você para bem longe, muito longe de meu alcance. Te perdi por uma noite qualquer, um lance com a loira da padaria e uma bebedeira com os amigos. Mesmo sabendo de tudo você esteve ali, , você continuou ali esperando minhas desculpas, um beijo inesperado e a certeza de que isso não aconteceria novamente, mas não, eu fui muito precipitado, achando que aquelas festinhas substituiriam você, mas não passavam de diversão, enquanto o que eu queria era amor, um aconchego e um abraço mais demorado. Sei que nenhum buquê de flores e todas as desculpas possíveis irão fazer com que me perdoe. Eu tive a chance e não soube aproveitar, você ultrapassou os seus limites e isso sim que é amor. Demorei demais para entender que tudo só tem sentido se eu te viver¹.
- Mesmo que eu te desculpe e que meu coração esteja apertado por te dizer não, eu direi. Porque o mesmo que acontece com uma folha amassada, após você pedir desculpas, acontece comigo, nunca mais serei a mesma. Eu me doei para você de corpo e alma, jurei para mim mesma que nem se custasse meia vida minha eu iria ficar do seu lado, pois eu sentia, eu via e tinha razão, você precisa de mim. Só que fechei os olhos para não ver que eu nunca precisei de você. Eu tinha minha meta de mudá-lo e enquanto isso não acontecesse, eu não me libertaria de você, nada aconteceu. E eu que tanto tempo desperdicei, tantas vezes chorei e pela última vez me humilhei, me cansei. Isso mesmo, aquela garota de São Paulo toda romântica e cega de amores por você se cansou, eu soltei o cabelo, me vesti de rainha, coloquei salto, me pintei e era linda como nunca você me fez sentir. Pra você eu não passava de um nada e minhas lágrimas eram a única coisa que caíam aos seus pés. Sabe o que era olhar para o espelho e não me encontrar? Não, você não sabe. Aliás, você sempre foi muito seguro quando se tratava de beleza e afins, mas comigo era diferente, eu sempre estava ajeitando ali ou lá para te agradar para que de algum modo você percebesse minha presença e não só me quisesse como última opção. Eu achava ser sua namorada enquanto eu era a outra. Outra hora eu ligo pra ela, outra hora eu mando um torpedo, outra hora aviso se tô vivo, outra noite eu a chamo para JANTAR. - fiz questão de não retomar o fôlego na última palavra, além de enfatizar, gritar.
Cinco minutos se passarem e apenas seus soluços pude ouvir, resolvi continuar.
- É claro que eu adorei NY, adorei o meu apê, o porteiro, meus novos amigos, o chefe do papai, o carinha popular da escola me dar mole e estar aprendendo inglês. Agora definitivamente minha vida está se ajeitando aos poucos. Mas nenhuma dessas coisas se comparava ao prazer que eu tinha ao ouvir o barulhinho de uma mensagem sua que era rara chegando. Ou de quando o porteiro dizia seu nome e o meu coração disparava tanto que eu tinha medo de morrer antes de o elevador abrir a porta. E olhar para você com seu sorriso de pior e melhor pessoa do mundo, com essa cara de preciso de você, mas ande logo porque a vadia do 501 está me esperando. Enfim: te encarar e me sentir errando tanto e acertando muito. Isso tudo fazia valer as duas, três semanas sem saber se você ainda respirava ou não. Mas aí resolvi começar o ano fora dessa palhaçada. Aquela não era história de menina esperta ou de boa garota que merece muita coisa melhor. Quem pode cobrar da vida histórias marcantes se fica alimentando esse tipo de coisa que não chega perto nem de um misero conto? Chega. Sempre me gabei de nunca ter sido usuária de nenhuma droga e nem ao menos ter tragado um cigarro ou ter dado trabalho com bebedeiras. Sempre fui saudável além da conta. Até que me caiu a ficha de que você era pior do que cocaína. E talvez do que uma pedra de crack. Pior, porque os New Yorkinos de cabelo espetado e braços másculos são bem mais interessantes do que esse pozinho branco que corrói o nariz. E melhor porque o efeito "mulher maravilha, que pode mover uma parede com apenas um dedo" continuava. Não existia depressão, solidão ou qualquer coisa do tipo. A esperança de que você me ligasse ou aparecesse ou resolvesse ficar para sempre tirava aquele meu tédio diário que vez ou outra me sufocava. - na última frase as lágrimas e os soluços já me atrapalhavam e de fundo o choro dele fazia com que meu coração se espremesse.
E depois de tantas coisas não ditas terem sido reveladas à ele, a única coisa de prestável que saiu de sua boca foi:
- Você me ama?
Fiquei calada, com o coração sufocado e com um nó na garganta que eu não saberia explicar, e então respondi.
- Eu amo e não é pouco, mas quando o respeito acaba não há amor que consiga suportar. Você não vai atrapalhar os meus planos, pode ter certeza, não vai.
E desliguei...
Juntei todas as minhas forças e mais algumas que peguei emprestadas de amigos, pai de santo e sorrisos perdidos, e disse adeus à única coisa que realmente me dava alegria nesta vida. Por isso, com muito custo, chacoalhei minha carcaça. E só eu sei o quanto doeu ver a pior-melhor coisa do mundo indo embora. Doeu um, dois dias. No terceiro, a pior-melhor coisa do mundo virou a piorzinha-melhorzinha. Que virou a décima pior-melhor. Que não virou nada. Tanto medo de não conseguir parar de fumar e no fim a gente descobre que realidade esfumaçada só dá bafo e dor no peito. Tanto medo de ficar sem o tal álcool e no fim a gente descobre que um litro de vodca e um celular na mão só da "caca".
¹ - “Eu te amo está muito normal hoje em dia. Passa uma semana e a pessoa já está amando. Existe algo mais forte do que te amo que é 'te vivo'. Quando a pessoa vive a outra é muito mais forte do que amar” - Luan Santana.
Continua...
Nota da Autora: Demorou, mas até que enfim consegui atualizar. Mas só um capítulo, Rhay? Sim, será assim até que a fic tenha o número de comentários suficientes para receber mais capítulos, por isso, além de lerem, comentem. Grata e até a próxima. XX
Nota da Beta: Hey, pessoa! Só pra avisar que se você encontrar qualquer erro na fic pode entrar em contato comigo por e-mail ou pelo twitter. E não custa nada deixar um comentário pra fazer uma autora feliz, porque ela merece.
Letii