
Vinte – Rendição
[N/A: Músicas do capítulo: Closer – Nine Inch Nails e Wicked Game – Stone Sour (cover)]
abriu um sorriso malvado, ao mesmo tempo em que fechava a porta com uma delicadeza que não combinava com suas intenções. Então pareceu acordar do transe de olhos arregalados e boca entreaberta em que se encontrava.
- O que faz aqui, ? – ela praticamente gritou, gesticulando com as mãos.
sorriu mais ainda com isso. Não soube o motivo, mas o desespero dela o deixava loucamente mais vidrado.
- Acho que precisamos terminar algo, doutora... Não gosto de deixar as coisas que eu começo pela metade. – cruzou os braços e apoiou o corpo contra a porta. Sua ação seguinte foi girar a chave e trancá-los ali, apenas para mostrar a que ela não sairia daquele lugar tão cedo.
Não enquanto ele não conseguisse o que queria, obviamente.
A iluminação precária e amarelada do lugar a deixava ainda mais atraente, ele precisava admitir. E o brilho de seu olhar, que agora transmitia medo, principalmente, era muito mais cativante.
- Do que está falando, ? – a voz de saiu trêmula e insegura.
não conseguia conter a excitação pela situação que todo aquele medo dela estava causando, como se fosse um afrodisíaco a mais.
- Você sabe do que estou falando, doutora... – piscou maroto e a fez engolir seco – Se quiser que eu refresque a sua memória, estou à disposição, mas tenho certeza de que não sai da sua cabeça...
- Sai da frente dessa porta, . – pediu e , apesar da luz fraca, percebeu o quanto as mãos dela tremiam.
E ele arriscaria dizer que era pela mesma ansiedade que o consumia e não por medo de ele tocá-la. sabia que ela queria aquilo tanto quanto ele. Era só uma questão de convencê-la de que aquela negação não a levaria a lugar algum. E que seria vencida no final das contas.
- Você tem duas opções, doutora: ou tenta me tirar daqui ou admite de uma vez que minhas intenções agradam, e então nós entraremos em um consenso.
- Eu não sei quais são as suas intenções, , mas eu garanto que não concordo com elas. – fincou o pé e abriu ainda mais o sorriso, como se a cada tentativa de fuga dela, ele desse um passo a mais na direção da vitória.
E, de fato, era assim que enxergava todo o panorama da situação.
- Sinceramente, doutora, você é uma péssima mentirosa... – balançou a cabeça em negação e estalou os lábios como quem reprova uma conduta – E, mais uma vez, você vai me chamar de pretensioso, mas eu tenho a impressão de que a sua negação é apenas um pedido mudo para que eu refresque a sua memória...
- Você enlouqueceu! – ela deu um passo para trás quando ele avançou um.
- Provavelmente... – deu de ombros, indiferente – Depois de três anos aqui, eu já não sei mais qual a condição do meu estado mental, mas eu posso garantir que a culpa dessa minha obsessão é toda sua.
- Minha culpa? – exaltou o tom de voz e deu outro passo para trás. avançou dois de modo lento e gracioso. Lembrou um felino à caça de sua presa. – Olha, , eu realmente não sei o que se passa pela sua cabeça, mas você não pode continuar com isso! Não vai acontecer nada mais entre nós! Foi um erro e eu sinceramente prefiro que você mantenha distância! – pediu ela de modo quase desesperado, dando dois passos para trás quando ele avançou três.
A mão estava espalmada na direção de , como se daquele modo pudesse afastá-lo. Mais alguns passos e ela estaria encurralada por uma das paredes mofadas.
- Claro que você prefere que eu mantenha distância... – avançou os dois passos que finalmente encurralaram – Sabe que se eu me aproximar assim... – disse ele enquanto dava o último passo que separava seus corpos. Prensou na parede com força, ao mesmo tempo em que sua mão apertava a cintura dela com possessividade – Você não consegue resistir... – sua boca foi ao ouvido dela sussurrar essa última frase.
sorriu satisfeito ao observar o arrepiar de pele no pescoço de e o vacilar de suas pernas. O sorriso só se desfez ao sentir as mãos dela, de maneira firme, empurrando seu peito para longe.
- Eu não quero. – ela sentenciou em um tom frio que destoava do estado de vulnerabilidade em que se encontrava. podia ver em seus olhos, quando eles se encontraram com os dele, que ela lutava com todas as suas forças. – Por favor, entenda e respeite isso. Não é o certo, pelo contrário, é um absurdo que eu simplesmente não posso suportar.
suspirou derrotado, afrouxando o aperto na cintura dela ao sentir a rejeição lhe atingir em cheio. Mesmo que acreditasse ser, no fundo, uma mentira. Acima de tudo, deveria respeitar as decisões dela, não deveria? Seus olhos analisaram por alguns instantes os dela, que tentavam, com custo, manter a decisão de mandá-lo embora. podia ver os diferentes tons de azul claro que os tornavam acinzentados brilhando encantadoramente. Não conseguia entender o pedido mudo que sabia haver escondido naquele brilho todo, mas quando ela deixou de encará-lo para fazer o mesmo com o chão sujo do arquivo, baixou a cabeça e deu a passagem para que ela se fosse.
A falta do toque na pele de e a ausência de seu perfume cítrico tão característico, entretanto, geraram um imediato buraco no peito dele. Um absurdo desespero lhe tomou em seguida. Não poderia suportar a mínima ideia de não tê-la de todas as formas possíveis...
A decisão de impedi-la levou um milésimo de segundo para ser tomada. Menos de dois segundos depois, virou na direção de , que ainda caminhava até a saída do arquivo. Deu os passos rápidos e fortes que o fizeram alcançá-la e prensá-la outra vez contra a parede.
Dessa vez, pega de surpresa, ela ofegou com o susto. Encarou atônita o intenso que, mais uma vez, não economizava em lhe apertar a cintura, como se, com aquele simples gesto, mostrasse ao mundo que ela pertencia a ele. A outra mão dele foi com calma e sem pressa caminhar desde a base do pescoço de até sua bochecha, tocando-a com delicadeza.
- Eu não posso te deixar ir... – ele sussurrou baixinho e o tom quase desesperado em sua voz não lhe surpreendeu.
, pelo contrário, parecia mais do que surpresa.
- , me deixa ir...
guiou-se até o pescoço dela e inalou com força o perfume que tanto lhe deixava envolvido. Um poderoso entorpecente de essência .
, como reação instantânea, fechou os olhos. O hálito quente que escapou dos lábios de a deixou, mais uma vez, arrepiada. A ponta gelada do nariz dele lhe roçando com leveza a fazia estremecer. E dessa vez ele não sorriu.
- Tarde demais, doutora... Eu nunca mais vou te deixar ir. – voltou a encará-la, tocando mais uma vez em seu rosto com um cuidado cirúrgico, como se ela fosse desintegrar a qualquer segundo. Os olhos dela ainda estavam fechados e isso o deixou tomado de agonia – Olhe para mim, por favor...
- Eu não vou. Deixe-me em paz. – continuou de olhos fechados e dessa vez arriscou protestar com as mãos, tentando, sem sucesso, empurrá-lo para longe.
- Você é a minha salvação dentro desse inferno, doutora... Não posso te deixar em paz. – dizia em tom baixo de voz – Você tem que me ajudar a fugir de mim mesmo...
Foi nesse instante que conseguiu avançar um passo no caminho até o paraíso que buscava com tanto afinco.
Lentamente, os olhos de foram abrindo, como se realizassem tal gesto pela primeira vez em anos. Em seguida, ela pôs-se a encará-lo com a mesma intensidade que ele a observava. Os olhos dela faiscaram quando suas pálpebras abertas lhe deixaram fazê-lo. esperou pela reação dela, torcendo para que não fosse negativa. Ele não saberia o que fazer se fosse rejeitado outra vez.
- Tenho outros meios para te ajudar, ...
- Mas eu sei que você quer me ajudar desse jeito. – não conteve, mais uma vez, um sorriso maroto, que fez morder o lábio. E o modo inocente com que o fez o deixou ainda mais sedento – É o seu beijo que acalma meu coração e que organiza a minha mente, doutora. É o seu toque que afasta a violência do meu coração e que me traz de volta à razão. Eu preciso de tudo isso. – ele deixou o sorriso sumir e voltou a levar os lábios até os ouvidos dela, para que seu sussurro a deixasse balançada novamente – Eu preciso de você. Eu quero você. Quero você inteiramente pra mim.
Ele não esperou qualquer resposta. No pescoço dela, após proferir a última sílaba, deixou um rastro de beijos lentos e quentes. Sentir a pele de seda de sob seus lábios era excitante e ao mesmo tempo reconfortante. O perfume dela penetrava em suas narinas de forma tal que ele tinha certeza que ficaria impregnado em sua memória. E, de fato, era o que tencionava. Precisava lembrar-se de cada detalhe dela, porque apenas isso acalmaria sua mente nos momentos tempestuosos.
Em seguida, subiu seus beijos ao pé do ouvido dela. O lóbulo de escorregou por entre seus dentes, que depositavam a mordida que tanto a enlouquecia. Da mandíbula ele foi chegando ao queixo dela, mordendo- o com carinho. A todo momento, ele não continha um sorriso ao ouvir a respiração dela se tornar mais forte e descompassada. Por fim, ele roçou seus lábios nos dela.
Ao atingir tal ponto, parou, deixando que milímetros separassem seus lábios, encarando-a nos olhos e esperando por qualquer reação contrária. , entretanto, não parecia ser capaz de fazer outra coisa senão encarar direta e desejosamente a boca de , que já formigava de ansiedade e vontade de tocar a dela.
Com um último roçar carinhoso de seus narizes e lábios, sorrindo, acabou com aquela distância que os torturava, chocando suas bocas com força e necessidade. Sua língua lutava com a dela em uma batalha controversa. Ao mesmo tempo em que parecia querer beijá-lo, ela também parecia querer acabar com tudo aquilo. Suas mãos pareciam indecisas entre espalmarem inertes na parede ou tocarem com o mesmo desejo que recebia os toques.
forçava seu corpo contra o dela, apertando-a com volúpia em todos os pontos daquele corpo quente que suas mãos conseguiam chegar. Enquanto isso, sua boca tentava domar a dela. Seus lábios chegavam a doer e tinha plena certeza de que os dela não estavam em melhor situação, mas a dor, naquele momento, era um quê a mais em sua excitação, que crescia em velocidade irrefreável. Ele aprendera a ter apreço pela dor desde que chegara ao St. Marcus, e se ela estava aliada a um momento recheado de tensão sexual com como aquele, não havia melhor sensação de prazer.
A mordida forte que empregou em seus lábios, quando tiveram que separar aquela loucura em que suas bocas se empenhavam com tanto afinco, fez uma fisgada puxar o estômago de em excitação.
Quando, porém, foi buscar a boca dela com a sua outra vez, ela se afastou, abrindo os olhos e atraindo os seus a se abrirem também. Seu olhar era um misto de confusão, arrependimento e a mesma luxúria que dominava tão completamente a . Então as mãos de tentaram se guiar até o peito de para afastá-lo, mas ele foi mais rápido.
Em um movimento brusco, e até mesmo violento, juntou os dois pulsos dela com apenas uma de suas mãos, prendendo-os sobre a cabeça de sem qualquer dificuldade ou cerimônia. Ver o peito dela disparado mais uma vez, e não só pelo calor do momento, mas pelo medo que sempre o atiçava, foi um deleite. Os seios dela, descobertos por um discreto decote, o fizeram perder alguns segundos de observação.
Queria poder tocar os seios de ...
sorriu maldoso outra vez enquanto seu olhar satisfeito subia pelo colo delicado dela. Pelo pescoço fino em que ele adorava perder-se em carícias. O vermelho que inchava os lábios dela, que ele tanto desejava tocar mais uma vez, era estupidamente sensual.
A mão que não segurava os pulsos de caminhou do peito dela, que subia e descia, para seu colo, então ao pescoço, onde ele apertou com a força suficiente para fazê-la paralisar por alguns instantes.
- Você pode tentar fugir, doutora, e talvez torne tudo isso mais interessante... – sussurrou contra o rosto de . A testa encostada na dela – Mas para que possamos desfrutar do prazer que sabemos que podemos nos proporcionar... Eu aconselho que você deixe de lutar contra o desejo que sabe que a está dominando e se entregue a mim como eu estou me entregando a você...
- Eu não quero. – ela sussurrou em resposta, tão baixinho que nem ao menos foi capaz de convencer a si mesma, pensou .
Com as mãos presas sobre cabeça daquela forma e o pescoço fino tomado por seus dedos dominantes, ela parecia enlouquecidamente sexy. não conseguiu evitar outro sorriso maldoso.
- Resposta errada, doutora. – ele lançou-lhe um olhar ironicamente reprovador.
Não pôde conter o caminho atrevido que sua mão passou a fazer pelo corpo submisso de . Queria torturá-la, até que ela admitisse que queria ser dele, que precisava ser dele, assim como ele precisava ser dela.
A mão de foi do pescoço ao colo de , ao seio direito, então à cintura e aos quadris, apertando com a força que podia e onde podia. E ela suspirava com cada vez mais urgência a cada mínima força a mais que empregava em seu toque.
- Eu sinto medo... – disse.
Seus olhos se fecharam apertados e ela recostou a cabeça contra a parede, como se lutasse com o último vestígio de suas forças. Ela estava se rendendo enquanto sentia a ansiedade e excitação subirem-lhe à cabeça, de modo que o deixava louco. Ele levou a boca até o ouvido dela, fazendo os lábios umedecidos por sua língua roçarem em seu lóbulo ao pronunciar as palavras que tinha planejado:
- Seu corpo me diz que você sente outra coisa... – a voz saiu rouca e estremeceu entre seus braços.
não poderia estar mais satisfeito. Decidiu levar o atrevimento de sua mão até o glúteo dela, apertando-o com a avidez que seu desejo reprimidamente obsessivo lhe obrigava. Ainda afastou o rosto a tempo de vê-la mordendo o lábio inferior com força, quase como se tentasse se penitenciar pela rendição aos desejos.
Ele mordeu seu próprio lábio ao vê-la fazendo isso, então, ao deixá-lo deslizar por entre seus dentes, levou-o ao pescoço dela mais uma vez. Sua língua fez um caminho quente e molhado da base daquela pele, que ele sentia o perfume entorpecê-lo, até o pé de sua orelha. soprou o rastro que deixou e ela estremeceu violentamente.
Um sorriso maldoso figurou em seus lábios quando ele proferiu as palavras seguintes:
- Deixa o desejo dominar a sensatez, doutora... – sussurrou e, imediatamente, deixou que sua boca se movesse ao queixo dela, onde distribuiu leves mordidas.
Em seguida, fez um caminho quente até a outra orelha dela, mordiscou e lambeu ao pé, onde sabia que a deixava suspirando ofegante. E repetiu o mesmo processo que havia feito do outro lado de seu pescoço, deixando sua língua acariciá-la por toda a extensão, sentindo seus poros se arrepiando sob seu tato.
Quando a vontade de beijá-la já era demais para ser ignorada, encostou seu nariz ao de , a testa também, e passou a roçar seus lábios contra os macios e chamativos dela. O hálito doce dela batia em seu rosto no mesmo ritmo descompassado de seu peito e de seu coração, que ele podia sentir pulsar por suas veias.
- Diz que você me quer, doutora... – sussurrou contra seus lábios, enquanto eles por pouco se tocavam, trazendo a loucura do desejo a dominá-lo.
A mão que apertava o glúteo dela voltou ao quadril e, mais atrevida do que nunca, subiu a barra da blusa branca dela. Tocou pela primeira vez a pele sensível e macia de sua barriga. encolheu-a imediatamente e sorriu de lado, fechando os olhos enquanto subia sua mão da barriga até o seio direito dela, apalpando-o com a força necessária para que lhe fizesse ofegar baixinho. Então deixou que seus dedos espertos atravessassem o tecido do sutiã e tocassem pela primeira e desesperada vez seus mamilos quentes e tão macios quanto o restante de seu corpo, que formigava sob seu tato.
Ela era naturalmente quente e o quanto aquilo o instigava não poderia simplesmente ser expresso por meras palavras. A força com que seu quadril pressionava o dela e que suas mãos lhe acariciavam diziam muito mais.
- Diz que você me quer e eu te levo ao paraíso... – voltou a sussurrar, e dessa vez abriu os olhos ao perceber que ela mesma o fizera.
Então fitou aquele mar acinzentado recheado de dúvidas e incertezas, mas que transbordava o mesmo tanto de desejo que ele próprio fazia. A voz dela saiu baixinha e fraca, mas ele pôde distinguir cada palavra com perfeição.
Sentiu o sangue ferver por dentro quando aconteceu:
- Eu... Eu quero você... – ela ainda o encarava quando disse, e o sorriso maldoso retornou aos lábios de com toda a carga de intensidade no segundo seguinte.
- Se eu soltar seus braços você vai se comportar?
resumiu-se a assentir com a cabeça, parecendo alheia demais à realidade para qualquer outro tipo de reação.
- Boa garota...
, então, afrouxou seus dedos aos poucos, descendo a mão pelos braços ainda suspensos dela, acariciando-lhe cada centímetro de pele que era possível, sem deixar que o contato visual se quebrasse. Do braço ele passou ao seio, por cima da roupa, enquanto a outra mão voltava à sua barriga e ao quadril.
Não podia negar que imaginava a aparência de tudo aquilo sem a inconveniência dos tecidos para cobrir. Também não podia negar que queria tocar tudo aquilo sem a inconveniência dos tecidos.
As suas duas mãos, em seguida, se encontraram nos glúteos dela mais uma vez. ainda fazia questão de deixar os rostos tão próximos que podia contar as pintinhas mínimas que enfeitavam o nariz dela, apenas esperando a sua reação. Estar tão próximo assim era quase tão prazeroso quanto beijá-la.
Podia acompanhar de camarote o crescer da excitação que se expressava com clareza nos belos traços que formavam seu rosto de anjo. O olhar inconscientemente felino dela era um estímulo poderoso.
pareceu atônita por um segundo, entendendo a proximidade. Ela ainda ofegava quando suas mãos repentinamente foram aos cabelos de , puxando-os com força, trazendo o rosto dele na direção do seu. Ela buscou o contato visual dele, prendendo-o com o cinza de seus olhos com um tipo de algema virtual. Fitou os lábios de com desejo, e então acabou com a distância que os separava, chocando suas bocas de modo que beirava a violência. De modo que deixava ainda mais ligado, ainda mais instigado, ainda mais desejoso, ainda mais excitado, ainda mais... Obcecado.
A obsessão que nutria em seu peito por aquela mulher não era algo a ser medido, apenas saciado pela luta interminável que travavam suas línguas precisas no interior de suas bocas, enquanto seus lábios se deslizavam na perfeita sincronia de sempre. Era a expressão incontestável do que chamaria o romântico de “o encaixe perfeito”.
As mãos puxavam um ao outro como se não houvesse outro modo de viver se não estivessem colados, sem saber onde um começava e o outro terminava. Mais um pouco e se fundiriam.
levava as mãos dos glúteos dela até o quadril, então até a cintura, onde apertava e invadia o tecido da blusa, subindo por suas costas e descendo. ainda lhe puxava os fios de cabelo sem dó, arranhava-lhe a nuca de um jeito que fazia a dor proporcionada pelas unhas parecer o mais singelo dos carinhos. Aquilo enlouquecia de uma maneira que ela não fazia ideia. E se soubesse, talvez não o instigasse tanto...
Ele queria invadi-la com a toda a sua virilidade, senti-la por dentro inteiramente, o ferver de seu corpo que o chamava para si como um ímã poderoso. Precisava possuí-la, ou talvez não sobrevivesse para ver o sol nascer no dia seguinte, de tão consumido que estava pelo desejo, que chegava a ser doentio.
Era doentio.
Ele não estava em suas perfeitas faculdade mentais, obviamente. Jamais desejara tanto alguém para si como a desejava. E cada mínimo tocar de língua com a dela era como se a reclamasse para si. Era dele e de mais ninguém. Não conseguia cogitar a ideia de qualquer outro homem a tocando daquele jeito além dele próprio.
forçou o quadril contra o dela outra vez, apertando com uma força que não mediu, apenas para confirmar a si mesmo de que era o responsável por enlouquecê-la. afastou seus lábios dos de e recostou a cabeça na parede. assistiu encantado o fechar de olhos dela e, mais uma vez, o morder de seus lábios. Sua respiração saía entrecortada, buscando o ar que, àquela altura, já era escasso. Apesar de tudo, o deleite em seus traços era nítido.
pôs-se a beijar cada centímetro do pescoço de que foi capaz, usando os lábios que agora sentia inchados, a língua quente que tinha o gosto dela, os dentes para morder-lhe o ombro com uma força a fez gemer. Mas o teor de seu gemido não era de protesto por dor, apenas uma expressão clara da luxúria que tomava aquela sala de arquivo quente e escura.
sentiu a movimentação no baixo ventre começar a atingir seu máximo e o tocar de seu membro entre as pernas dela era demais para que aguentasse por tanto tempo... Sua vida sexual durante os três últimos anos não havia passado por atividades tão excitantes como o simples suspirar de deleite de . O fato de que precisava possuí-la logo era uma necessidade vital a ser sanada.
Quando voltou a abrir os olhos, lhe sorriu maroto, puxando-a para cima, fazendo-a entrelaçar as penas na cintura dele. Ela agarrou-lhe os ombros com força e mais uma vez tomou a iniciativa de beijá-lo.
comemorou por dentro, retribuindo a carícia da língua dela, que agora era bem menos desesperada e muito mais intensa, quase invasiva, ele diria. Ao beijá-la, sentia que a entregava parte de sua alma. O palpitar de seu coração entregava o quão deliciado ele se sentia enquanto suas bocas dançavam e vez ou outra permitiam um sugar de língua ou um morder de lábios.
Em seguida, juntou-a em seus braços, ainda com suas pernas entrelaçadas em sua cintura. Passou a caminhar meio sem rumo pelo arquivo, em busca de uma superfície em que pudesse apoiá-la. Fazer isso ao mesmo tempo em que ela lhe beijava com tanto fervor e lhe bagunçava os cabelos com tanta destreza era uma difícil tarefa. Mas ele conseguiu cumpri-la ao sentir as coxas baterem contra algo duro, que julgou ser uma mesa.
então se afastou de e, ao abrir os olhos, constatou que, de fato, tratava-se de uma mesa. Sem qualquer delicadeza, antes de sentá-la ali, ele jogou todas as folhas e pastas que jaziam sobre a superfície com um único movimento brusco de seu braço. lançou-lhe um olhar reprovador, o qual ignorou com um rolar de olhos. Voltou a beijá-la e a invadir sua pele, puxando a blusa que vestia para cima.
Tinha pressa, tinha sede, tinha urgência.
não hesitou em cooperar, erguendo os braços e já levando as mãos à própria camisa de , levantando-a com pressa e quase desespero.
O olhar cheio de dor que lançou em sua direção deixou confuso por um instante. Onde fora parar toda aquela excitação, todo aquele desejo? Mas quando ela levou o dedo indicador até um dos hematomas roxos que pintavam sua pele, ele entendeu o motivo.
Ela lhe tocou com delicadeza e o brilho de seus olhos foi complacente quando lhe encarou. sentiu algo mais do que excitação rugir dentro de seu peito naquele momento. Ele não sabia dizer o que era, mas tinha plena certeza de que era bom demais para ser ignorado ou simplesmente descartado.
- Está tudo bem. – sussurrou baixinho, pegando a mão dela entre a sua e beijando a palma.
- Não consigo suportar a ideia de te ver assim...
Ela sorriu e ele poderia jurar que ouviu passarinhos cantando.
- Você é o suficiente pra acabar com a minha dor. – foi o que ele lhe respondeu, e não hesitou em beijá-la com força.
Não podia conter suas mãos, que viajavam como se tivessem vida própria pelo corpo de . Seus lábios conectados aos dela era tudo o que necessitava naquele momento. A troca significativa de sentimentos e emoções que um simples beijo poderia proporcionar. Era íntimo e doce, e valia o mundo para naquele momento.
Quando o beijo se partiu, eles se afastaram. Os olhos cinzentos de penetravam a pele de , analisando cada um dos contornos de seus músculos. Quando ela levou a ponta dos dedos em seu peito e o acariciou delicadamente, sorriu. Mas o riso sumiu assim que percebeu o poder do desejo expresso no olhar dela sobre seu corpo. Não pôde conter o grunhir baixinho no fundo de sua garganta quando ela abriu as pernas e o encaixou entre si, pondo- se a beijá-lo do peito aos ombros, depois ao pescoço.
Ela era delicada e cuidadosa, fazendo vagar pela pele quente dele seus lábios macios feito a mais pura seda. Cada marca roxa que exteriorizava o quanto ele estava machucado foi acariciada por aquela boca que parecia conter poderes medicinais, curando a dor de fora para dentro. ateava fogo em cada célula viva do corpo de .
Ela não deixava que o contato visual se partisse, prendendo naquela intensidade que só ela era capaz de emanar. A cada beijo distribuído, era como se dissesse a ele que estava tudo bem, que ele estava bem cuidado nas mãos dela. E era assim que ele efetivamente se sentia.
estava sinceramente surpreso. Não esperava qualquer tipo de iniciativa de , mas estava deliciado demais para sequer pensar nisso. No final, ela também o desejava tanto quanto ele a desejava. E isso era mais do que ele poderia pedir...
Quando conseguiu voltar à realidade, ele contornou as laterais descobertas do corpo dela com as mãos, chegando mais uma vez aos seios, os quais acariciou com a mesma força com que suas costas eram arranhadas. mordia o pescoço dele e, logo após, acariciava o local arranhado por seus dentes com sua língua quente.
As mãos de , por sua vez, tocavam o contorno perfeito daquela carne macia e erótica que eram os seios de , tão bela que ele não hesitou em libertá-la. Abriu o fecho do sutiã com a destreza dos tempos de faculdade que não havia se perdido. deixou de beijá-lo no pescoço, encarando-o de um jeito envergonhado que o fez ter vontade de beijá-la em todas as partes do corpo até que cansasse. E ele duvidava de que algum dia fosse cansar de beijá-la.
lhe sorriu, então, muito mais carinhoso do que jamais fizera em toda a sua vida, buscando com delicadeza as tiras do sutiã que lhe caíam pelos ombros. Puxou com sutiliza, até que finalmente libertaram os seios dela. O olhar de adoração que faiscou não pôde ser contido ou disfarçado. Era como uma bela peça de arte. A beleza e perfeição que emanavam deixaram disperso por alguns segundos. Duvidava que fosse cansar um dia de observá-los também.
O tempo que não observava as partes mais femininas do corpo de uma mulher de perto poderia explicar o quão envolto estava, mas duvidava que essa chula justificativa fosse a verdadeira... Três anos inteiros sem possuir uma mulher, sem poder tocar um corpo feminino como fazia agora, e tudo parecia muito mais mágico do que de fato era. No final das contas, porém, o motivo de tudo era . duvidava que se fosse qualquer outra ali se perdendo em seus braços, seus hormônios estariam tão enlouquecidos...
Era o anjo chamado , sua salvação da loucura, sua redenção...
A timidez, entretanto, pareceu dominar . As bochechas dela coraram mais do que já estavam e ela levou os braços a cobrir os seios. fez uma careta desgostosa e sorriu, envergonhada.
- Você é linda, não se esconda de mim... – foi o que ele disse, pegando os braços dela. Com delicadeza, tirou-os do local que ele mais desejava pôr os olhos naquele momento.
não protestou quando seus seios ficaram mais uma vez expostos. Ela apenas se limitou a encarar diretamente nos olhos, como se o desafiasse a tocá-la.
E a verdade era que precisava tocar-lhe os seios sem o infortúnio do tecido. E foi o que fez. Com uma calma que pareceu deixar impaciente, ele levou as pontas dos dedos até a pele arrepiada dela. Sentiu cada um dos poros eriçados sob seu tato, fazendo o contorno arredondado daquela pele cor de creme. Em seguida, a ponta de seu dedo fez o perfeito desenho do mamilo dela, que quase que imediatamente se enrijeceu. suspirou baixinho e sorriu, sem deixar que o intenso contato visual entre eles se partisse por um segundo sequer.
Se os olhos eram a porta da alma, ele não saberia dizer, mas tinha certeza de que enxergava um pedaço da essência dela naquele significativo momento.
Quando finalmente tomou toda a extensão do seio dela em sua mão, usou da força necessária para arrancar um gemido de deleite de seus lábios constantemente presos entre os dentes.
A excitação de era mais do que latente. Ele precisava mostrar a ela o quanto ela o deixava louco...
Então desceu suas mãos pelas costelas dela, chegou à barriga, subindo uma de volta aos seios, ao colo, ao pescoço e finalmente ao rosto, enquanto a outra descia ao zíper de sua calça. A mão que lhe rodeava com delicadeza o rosto puxou-o para mais perto, possibilitando sua intenção de mordiscar-lhe o queixo, os lábios e finalmente voltar a beijá-la quando pediu passagem mais uma vez com sua língua. concedeu-a imediatamente enquanto arranhava o abdômen de com as unhas, deixando-o arrepiado.
Quando finalmente conseguiu se livrar do zíper da calça de , levou o atrevimento de seus dedos até a parte do corpo dela que seus hormônios mais ansiavam. Acariciou-a primeiro por cima do tecido macio de algodão da calcinha. Podia perceber a excitação que já tomava também apenas nesse simples toque. sorriu entre o beijo, ao mesmo tempo em que nesse segundo ela tomava fôlego para suspirar. Então ele dedicou seus esforços a se afastar dela por um mínimo segundo. Com um sorriso maroto e a lentidão proposital, ele levou seu dedo até a boca entreaberta dela. Por um instante, a malícia no sorriso dos dois foi a mesma. Então sugou o dedo de sem pressa, numa lentidão erótica que fez algo se remexer nas partes dele que eram controladas por hormônios em ebulição. O olhar de , cativo do de , era intenso e transbordava segundas intenções.
A essa altura, nenhum dos dois estava mais sob controle...
sorriu mais uma vez ao retirar o dedo da boca dela, passando-o com leveza na ponta de um de seus mamilos rígidos enquanto acompanhava tudo com os olhos cerrados. Em seguida, percorreu o caminho do colo dela até a linha na barriga que chegaria ao seu umbigo. Quando ele tocou o baixo ventre dela, se encolheu e soltou uma risada sonora que apenas fez sorrir junto. Finalmente ele adentrou o tecido que o separava da intimidade dela, abrindo suas pernas com calma. Deu tempo apenas para que ela soltasse outro de seus suspiros, que eram música em seus ouvidos, então voltou a beijá-la com o fervor devoto de sempre.
A primeira sensação que teve ao senti-la tão intimamente foi de puro êxtase. Era um veludo quente, molhado, macio... Quis estar dentro dela de todas as maneiras possíveis imediatamente.
passou a movimentar seus dedos com precisão e velocidade que beiravam a calmaria. se tornou uma máquina de suspirar e respirar descompassado, completamente entregue nos braços de . Vez ou outra, ela não era capaz de continuar o beijo, afastando os lábios para soltar o ar que ofegava em seus pulmões. sentia as unhas dela se fincarem em seus braços, suas costas, sua nuca, e estava realizado. A umidade dela se espalhava entre seus dedos com cada vez maior intensidade e o estímulo era proporcional. Até que finalmente pareceu desistir de tentar manter a concentração nos beijos e, ao mesmo tempo, nas carícias ininterruptas que mantinha entre suas pernas. Ela apoiou seu queixo no ombro dele, vez ou outra depositando um demorado e molhado beijo no pescoço, uma mordida forte em sua carne, para abafar o gemido quando ele aumentava e reduzia a velocidade de suas carícias. De vez em quando, ela jogava o seu hálito quente na orelha dele. E quando isso acontecia, fechava os olhos com força, deliciando-se com a sensação de arrepio que lhe pegava daquela mínima célula até todas as outras que lhe formavam o restante das partes do corpo, até os seus lugares mais remotos.
Ele queria que ela sentisse tudo o que ele estava sentindo, queria que ela passasse pela mesma experiência de explosão de hormônios por que ele estava passando.
Em seguida, escorregou os dedos finalmente para o interior dela. Primeiro um, movimentando-o com leveza, apreciando o suspirar forte dela em seu ouvido, acostumando-se à elasticidade de sua cavidade, que fervia. Depois escorregou outro dedo, o que fez morder seu ombro com uma força que lhe fez ofegar com força. Então ele aumentou a velocidade com que seus dedos se movimentavam gradualmente, fazendo os suspiros dela passarem a leves gemidos que se misturavam a um “” sofrido. Na voz rouca dela, era o paraíso.
passou a mexer seus quadris contra os dedos de e ele não foi capaz de deixar de sorrir em malícia e satisfação. A sensação de que proporcionava prazer a ela com aquele simples gesto era algo a ser apreciado...
sentiu as mãos de , que antes eram apenas capazes de acariciar com leveza seu abdômen, irem fazer um carinho atrevido de unhas em suas entradas. E ali era definitivamente um ponto fraco que o pegara despreparado. não pôde conter um suspiro de prazer tão sonoro quanto os que ela soltava irrefreavelmente. Ele sentiu sorrir contra a pele de seu pescoço, os dentes dela arranhavam sua pele e faziam um arrepio gelado subir por sua espinha e se espalhar por seu corpo.
foi aumentando a velocidade dos movimentos de seus dedos, brincando com o ponto em que o clitóris de ficava cada vez mais rígido. Os outros dois dedos ainda entravam e saíam do quente e molhado de seu interior. não pareceu ser capaz de conter um gemido mais alto e sôfrego, o que instigou ainda mais.
Uma das mãos dela foi levar suas unhas a se cravarem na nuca dele, sem qualquer dó, arranhando-o, fazendo com o que o suor, que agora escorria por seu corpo, tornasse o ardor da sensação ainda mais prazeroso.
E chegou o momento em que agarrou-se ao corpo de com mais força, puxando-o para si, fincando suas unhas nas costas dele. Os lábios dela roçavam na orelha dele a cada estocada de ar quente que lhe escapava por ali. sentiu o corpo dela começar a estremecer. Primeiro com calma, de maneira lenta, tomando proporções mais intensas à medida que ele acelerava os movimentos dos dedos o máximo que era capaz. Ao ouvir o sussurro dela em seu ouvido, sentiu que ele mesmo poderia atingir o orgasmo a qualquer segundo ali:
- Não... Não pára... – ela pediu e então mordeu o ombro de com certa força.
A dor foi um estímulo. Em seguida ao seu próprio suspiro, ele buscou o rosto dela com uma das mãos que apertava a cintura dela há algum tempo. Encostou suas testas suadas. A visão dos olhos dela entreabertos e da boca sendo mordida pelos dentes desesperadamente foi enlouquecedora. Ficou cravado na mente de quando a umidade em seus dedos aumentou repentinamente e ela chegou ao êxtase.
não sabia quanto mais tempo poderia aguentar sem possuí-la... Cada mínimo gesto de , a essa altura, era mais do que excitante. Até o lento piscar de seus olhos, que derramavam a essência do torpor que havia conquistado.
Eles ficaram naquela mesma posição por alguns instantes. ofegava, o corpo inerte e deliciado pelo momento de prazer. apreciou de modo extasiado a reação dela, quando finalmente se afastou. Os olhos acinzentados dela brilhavam tanto que chegavam a iluminar a escura e mórbida sala de arquivos. Eram dois faróis gerando luz alimentada pelo mais puro exemplo do que deveria ser o pecado capital da luxúria.
O cheiro de mofo, que fazia o nariz de coçar anteriormente, era agora bem substituído pelo doce aroma que emanava naturalmente de . Ele tirou o dedo da intimidade dela para que pudesse ele mesmo provar de seu gosto. Quando cravou o olhar no dela, soube que ela não seria capaz de desviar. Então abriu um sorriso enviesado ao levar o dedo coberto por seu mel à boca e provou com calma, deixando que o líquido dela se espalhasse por sua língua e dominasse suas papilas gustativas.
não parecia estar apta a fazer outra coisa, senão observar à cena, atônita que estava. Ela só acordou do transe quando tirou o dedo de sua boca e levou-o à dela.
hesitou por um instante, então agarrou o pulso de com as mãos trêmulas e sugou-o com uma vontade quase desesperada. Aquela cena era, provavelmente, a mais erótica que presenciara até ali em sua vida. Porque ele imaginava os lábios e língua de produzindo aquela mesma sensação em outras partes de seu corpo, e a fantasia fazia sua cabeça rodar perigosamente.
Em seguida, retirou o dedo de da boca, apenas para que pudesse beijá-lo com fervor e uma intensidade que chegava a doer. Sua língua quente e tomada pelo doce se espalhava e explorava cada mínimo canto da boca de . E ele correspondia a tudo da mesma forma, apenas um pouco extasiado demais para entender que, de fato, tudo aquilo estava acontecendo... Em seus melhores sonhos, não fantasiara que tudo aconteceria da forma com que estava se desenrolando diante de seus olhos, nem na intensidade com que se passava. completamente entregue em seus braços, confessando que o queria, que precisava dele... Era o tipo de sorte com a qual jamais se deparara em sua vida.
Ao se afastar de , sugou o lábio inferior dele com força, fazendo-o gemer baixinho em protesto, mas ao mesmo tempo deliciado. E ela lhe sorriu. Então sentiu algo se movimentar em seu peito, descendo imediatamente para a parte sexual de seu corpo já mais do que pronta para ela. O olhar de prendeu o de e a malícia que transformou o sorriso dela levou o dele junto.
A mão dela desceu do peito dele em direção à barriga, deixando que os dedos desenhassem todos os músculos que se destacavam. Na entrada dele, ela usou do poder de suas unhas. Então finalmente tocou o membro dele, ainda por cima de sua calça. usou de força suficiente para que fosse com perfeição degustado o toque, e teve que fechar os olhos. Quando uma mão dela se movimentou na direção de seu zíper e a outra ainda lhe acariciava com autoridade, não conteve outro gemido baixinho. Os olhos continuavam fechados, mas ele sabia que ela sorria.
baixou o zíper dos jeans dele na lentidão torturante que ele mesmo usara com ela anteriormente. Então usou as unhas para fazer com que a calça chegasse ao chão. entrou em um estado de expectativa quase insuportável.
Ela primeiro brincou com o elástico da boxer dele, passando o dedo gelado por seu baixo ventre, arranhando suas entradas novamente. Ao mesmo tempo, ela deslizava os lábios pelo pescoço de . E ele estava sem reação, tentando controlar a vontade de tomá-la de uma vez em seus braços e invadi-la com a vontade animalesca que o consumia.
Era isso... Queria invadi-la como um animal, queria deixar que a selvageria de sua loucura e obsessão por ela se libertasse...
E ela continuava a brincar com ele, deixando que o tecido da boxer separasse seu corpo da mão dela que ele queria que estivesse lhe tocando intimamente. abriu os olhos e quase se arrependeu dessa simplória atitude... Porque o que viu à sua frente era a perfeita descrição do que a excitação poderia causar a um homem. Ele perdeu os sentidos, porque não havia nada mais o que focar a atenção no mundo do que ela. O lado selvagem masculino dele foi despertado e não havia mais o que fazer a respeito. era o fruto proibido em carne e osso. Não haveria redenção para ele, porque ao ver os cinzentos olhos dela brilhando por ele, tudo o que ele pensava era que queria pecar o quanto fosse possível antes que perdesse o fôlego. E duvidava que pudesse parar, mesmo sem ar adentrando seus pulmões. Era de que precisava para se manter vivo, nada trivial como oxigênio.
Ao sentir o toque dos dedos finos e macios de afastando finalmente o elástico da boxer, , sem querer, prendeu a respiração. Então os dedos dela tocaram seu membro e pareceram frios em contato com aquela parte de seu corpo que fervia. O choque térmico o fez estremecer por um breve instante.
A vontade primitiva e sexual de possuí-la, de tomá-la para si, não pôde mais ser controlada. Ela mal lhe envolveu em suas mãos e ele sentiu que não seria capaz de se resguardar por muito mais tempo... Era tempo demais esperando por aquilo.
puxou o rosto de com delicadeza na direção do seu, buscando seus lábios em um beijo urgente. Com as mãos incrivelmente trêmulas na cintura dela, voltou a sentá-la sobre a mesa.
Os tênis de voaram pelo arquivo, assim como suas meias, e, sem qualquer cerimônia, puxou as calças dela pelas pernas, jogando-as longe também. Apenas fitou-a nos olhos, buscando a autorização para fazer o que viria a seguir. Nos olhos dela, encontrou a luxúria reluzindo por cada mínimo tom que o tornava cinza. Era a confirmação de que precisava, o gritar mudo de seus olhos anunciava que ela precisava dele dentro dela, que não havia modo de voltar atrás.
, então, encostou suas testas e sorriu fraco, dando um beijo na ponta do nariz de . Ela não conteve um sorriso tímido como resposta. Em seguida, com uma delicadeza absurda para o momento de quase desespero em que vivia, ele puxou as pernas dela, de modo que estavam prontas para recebê-lo.
Sem qualquer aviso, invadiu com força e vigor, de uma só vez.
[N/A: Dá o play na primeira música aí!]
gemeu longa e profundamente. fechou os olhos, deliciando-se com o efeito que o som de sua voz meio rouca lhe proporcionou. O timbre doce dela reverberou por seus ouvidos, então fez vibrar em excitação cada uma de células. estremecia involuntariamente.
O primeiro impacto lhe deixou meio perdido por alguns instantes... Seus olhos se fecharam apertados. O ar saiu em uma lufada única e forte por seu nariz e boca. Ele precisava se acostumar com a sensação dela primeiro, então talvez fosse capaz de continuar sem acabar com tudo rápido demais. O interior dela era quente e apertado, e lhe acolheu com um fervor úmido, como se ele pertencesse àquilo. Uma caverna profunda que escondia a pura essência do prazer...
Acima de tudo, entretanto, vinha o medo de decepcioná-la, vinha o medo de não conseguir levá-la ao paraíso que havia prometido com tamanha confiança... Era tempo demais. Talvez não aguentasse nem a primeira estocada. Então permaneceu onde estava. Levou seus braços a envolverem a cintura dela, apreciando a maciez de sua pele ente seus dedos. Ele sentia o coração de bater forte contra o seu. A alta e aconchegante temperatura do corpo dela era a pura expressão da beleza, ela parecia estar em chamas. Talvez estar tão próximo assim não fosse o melhor escape de suas incertezas, mas o perfume adocicado que exalava naturalmente da pele de foi a salvação.
inspirou com força no pescoço dela, apreciando o carinho leve que ela lhe fazia nas costas. E então estava seguro para continuar o que tinha começado. Primeiro, partiu o abraço e apenas deixou que suas mãos apoiassem a cintura dela. Depois, retirou com calma todo o membro e uma estranha sensação de incompletude fez seu coração disparar em desespero. Sem esperar que um segundo se passasse, voltou a invadi-la inteiramente mais uma vez.
era força, vigor e a possessividade de suas mãos apertando a cintura de , como se ninguém mais no mundo pudesse fazê-lo. E, de fato, achava que não podia. A partir daquele momento, era dele e apenas dele. Mostraria isso ao levá-la ao céu inúmeras vezes durante o ato sexual que ali se consumava.
saiu e entrou rapidamente, saiu novamente e voltou... E repetiu esse padrão, aumentando a velocidade e a força a cada estocada. também aumentava o volume da expressão de sua satisfação. ofegava com força, deleitando-se com a sensação além do inexplicável que era estar finalmente dentro dela, sentindo suas entranhas fundindo-se com as dele; sentindo a alta temperatura de seu corpo, que agora borbulhava pelo dele, sentindo a umidade de sua excitação que era por ele e para ele, apenas.
Há tanto tempo não fazia aquilo, que talvez não se lembrasse de quão maravilhosa era a sensação. Duvidava, porém, que nos milhões de vezes em que transara com garotas aleatórias nos tempos de colégio e faculdade, havia sido tão inexplicavelmente prazeroso.
Era quem fazia isso com ele, era e apenas ela que o instigava a entrar e sair com toda aquela robustez. Era ela que o fazia querer dar o melhor de si, seu melhor desempenho, o limite que todo seu sexo poderia atingir...
passou a acariciar um dos seios de com os dedos. Depois abaixou a cabeça para levar finalmente seus lábios até lá. Sentiu o gosto doce que a pele dela parecia exalar como aroma natural no ar. Rodeou os mamilos rígidos com a língua, diminuindo proposital e tortuosamente o movimento de seu membro para a intimidade dela. Ele sugava com destreza, de modo que seu desejo era irrefreável e incontrolável. Não havia modo de controlar a vontade de estocar o mais profundamente possível, com a maior força que seus músculos trêmulos poderiam lhe proporcionar.
Ao sair completamente de dentro dela, mordiscou seu seio. Deixou que sua língua explorasse cada mínimo canto que o formava. Passou ao outro mamilo, sugando sua rigidez, saboreando-o com a língua. Sua mão acariciava lentamente a intimidade de enquanto estava fora e dava atenção aos seus seios. Logo em seguida, , com uma força prazerosa beirava a violência, pôs-se para dentro dela outra vez.
gemeu alto. sorriu maldoso. Em seguida, abriu os olhos para encontrar uma doutora completamente entregue a ele. Levou a mão que estava na cintura dela até seu pescoço e o envolveu com seus dedos. Não ensaiou antes de dizer as palavras seguintes:
- Mais baixo, doutora... – sussurrou contra seu rosto, roçando os lábios nos dela – O St. Marcus todo não precisa saber que eu estou te levando à loucura...
limitou-se a rolar os olhos, quase indignada. Após um suspiro sôfrego, beijou-lhe a boca com força e brutalidade. sorriu enquanto retribuía o beijo e voltava a estocá-la, agora com calma. Seu quadril ia e vinha com leveza, se chocando com o dela de modo que julgaria até mesmo carinhoso. O movimento de seu membro invadindo o interior aveludado de era fácil e simples, lento e erótico. Uma dança sexual que não precisava de ensaio para ser perfeita. Sua sede desesperada era um instinto animalesco sendo saciado no simples movimento de ir e vir. De preencher a mulher que tinha o estranho poder de fazê-lo sentir que sua metade faltante estava completa. Uma lascívia descontrolada e primitiva que ateava fogo no ar ao redor, cheirando a sexo e a luxúria pecaminosa.
Quando deixou de beijar , os movimentos de vai e vem voltaram à velocidade quase desesperada. Os gemidos voltaram a escapar pelos lábios dela, ao mesmo tempo em que o próprio ofegava e suspirava com força.
, então, soltou seu corpo sobre a mesa, deixando toda a extensão de seu tronco exposta. deliciou-se completamente com a maravilhosa visão, podendo acariciar seus seios do jeito que bem entendia. Continuava a ir e vir, sem parar um segundo sequer. Seus olhos não conseguiam deixar de lado a perfeita visão que era o corpo de completamente exposto e vulnerável. Ele sentia que poderia fazer o que quisesse com ela, e ela estaria de acordo, pois já havia se entregado de corpo, e ele poderia arriscar... De alma também. Os seios dela se movimentavam no mesmo ritmo em que mantinha suas estocadas firmes, e isso era até demais para ele e seu pobre autocontrole falho. Ele a segurava pelas coxas, enfiando suas unhas curtas naquela pele já escorregadia de suor.
atingia fundo o interior de . Deixava seu membro a completando por alguns instantes e, quando saía, voltava com leveza e calma. gemia alto, sem conseguir se controlar, e naquela mesma velocidade torturante em que era invadida. A mesa balançava e rangia, arrastando seus pés pelo chão empoeirado do arquivo na medida em que fazia suas investidas. Complementava o som ambiente do sexo. O barulho era inconveniente e perigoso, mas nenhum dos dois conseguia pensar em qualquer outra coisa além do puro e simples ato sexual que se consumava. Os hormônios falavam mais alto.
sorriu enviesado, quase sádico, e então levou o polegar até o lábio dela. Enquanto ela o sugava, pelo menos era silenciada. Ninguém ali queria chamar atenção. fez o que tencionava que fizesse, e à medida que parecia perder o controle de seu corpo, fechou os olhos. não permitiu, entretanto. Apertou o queixo dela, trazendo seu rosto próximo ao dele:
- Olhe para mim, ... – ordenou ele, com a voz firme, em um sussurro rouco e erótico – Eu quero ver o prazer nos seus olhos quando eu te levar ao céu...
Ela sorriu boba, tentando com custo, aparentemente, fazer o que lhe fora mandado. Demorou um longo instante para que ela finalmente demonstrasse por seus olhos tudo o que explodia em excitação dentro de seu coração e de sua mente.
, sentindo a proximidade de seu próprio êxtase, retirou o dedo da boca dela. Levou-o mais uma vez ao seu ponto de prazer, passando a acariciá-lo em movimentos circulares na mesma velocidade louca em que entrava e saía.
mordeu os lábios e manteve os olhos fincados nos dele, transbordando aquele mesmo tipo de satisfação que ele mesmo provavelmente fazia. Era absolutamente encantador assisti-la daquela forma. As bochechas coradas, os olhos brilhando em satisfação, os fios de cabelo despenteados só porque ele deixara assim, a respiração sendo um esforço absurdo porque o momento era irreal demais para acreditar que fosse realidade... O movimentar de seu corpo na direção do dele, de seu quadril acompanhando as investidas de seu membro rígido e insaciável.
Ao sentir, finalmente, o crescer do frio na espinha que anunciava o ponto máximo do prazer, o estremecer involuntário de seus músculos que trabalhavam na direção de , aumentou o máximo que pôde a velocidade.
Puxou o rosto dela na direção do seu e levou os lábios ao ouvido dela para sussurrar:
- Goza comigo? – pediu, e a voz soou rouca e falha.
Nesse mesmo instante, o corpo dela entrou em combustão entre seus braços, estremecendo enquanto ela gemia baixinho e abafado em seu ouvido. A voz dela soou profunda e afrodisíaca.
Foi o limite.
sentiu todo um frenesi percorrer cada centímetro de seu corpo e se reunir em seu membro, sendo expresso logo em seguida para preenchê-la em toda a completude que era possível. Ele apertou em seus braços, sem se importar se a machucava ou não, e então a onda de prazer começou a passar lentamente... Ambos ofegavam, jogando o quente de seu hálito na pele arrepiada e molhada de suor do outro.
O cheiro de sexo era o que comandava o ar espesso e pesado ao redor deles. O único som era o das respirações entrecortadas de ambos. Não havia nada para ser dito, apenas apreciado.
Por um tempo, eles continuaram naquela mesma posição. Os braços envolvendo seus corpos, que tentavam com custo se recuperar do absurdo frenesi. ainda preenchia , temeroso demais do que aconteceria se a conexão sobrenatural que se formou entre eles fosse quebrada. Não queria se afastar dela, não agora. Queria poder repetir toda aquela loucura mais uma vez. Queria poder cometer aquela loucura pelo resto de sua vida. Ele não sabia o que se passava na cabeça de , e também não queria arriscar olhar em seus olhos e encontrar por suas íris acinzentadas o arrependimento predominando. Talvez ele não sobrevivesse...
Depois de um tempo, que não soube quanto, finalmente ele foi capaz de criar coragem para se afastar. Primeiro saiu de dentro dela, e aquele medo de que algo ruim pudesse acontecer se apoderou dele. Depois, seus braços deixaram o abraço se partir. E ele teve motivo para sorrir quando as mãos dela não abandonaram o local em que acariciavam suas costas. Então deixou apenas seus dedos envolverem a cintura de . Quando buscou seus olhos, entretanto, ela olhava para baixo, para o chão. Resolveu que precisava falar, senão entraria em algum tipo absurdo de colapso nervoso. Precisava ter certeza de que não era odiado por ela, porque se fosse, sua vida não teria mais um sentido.
[N/A: Dá o play na segunda música!]
- Como foi a primeira viagem ao paraíso? – foi o que perguntou, e sua voz saiu rouca e tão baixa que mais pareceu um sussurro.
O silêncio na sala de arquivo, contudo, era tamanho, que não fazia diferença. ouviu com perfeição todas as palavras da pergunta maliciosa dele. Ela demorou mais do que o normal para responder, mas um mínimo repuxar dos lábios dela demonstrou a timidez de um sorriso que queria ser contido.
- Eu achei que sua pergunta seria mais romântica... – respondeu.
Ainda encarava o chão com tanto afinco que se arriscou a olhar o ponto que ela observava. Não havia nada demais ali. Ela talvez só não estivesse preparada para encará-lo diretamente nos olhos, e respeitava isso. Ele ainda agradecia internamente o fato de que as mãos dela continuavam a acariciar suas costas em um gesto tão casual que, por um momento, pareceu que eles já haviam feito aquilo muitas vezes antes. E talvez tivessem, em outras vidas, porque a perfeição do encaixe entre eles não poderia ser explicada de outra forma.
- O que você acha romântico, doutora? Posso me esforçar...
- Eu não sei... – deu de ombros.
Sua voz saía tão fraca quanto a de . Talvez ainda estivesse em recuperação também. Seus olhos ainda fitavam o chão com insistência. estava começando a ficar nervoso.
- Se você não me der uma ideia, fica difícil... Eu não sou exatamente o último dos românticos...
sorriu mais abertamente dessa vez, e sua voz saiu mais firme quando falou:
- Um “Nossa, doutora, esse foi o melhor momento da minha vida” seria aceitável...
se ateve à imitação que fez de sua voz por um instante. Não conteve um riso de satisfação. Um que ele não via sair de seus lábios há muito tempo. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele estava, de fato, satisfeito, mesmo que rodeado de problemas. fazia se esquecer do mundo. Ela acompanhou seu riso.
- “Essa foi a melhor transa da minha vida” é equivalente?
- Não... É mais excitante do que romântico, depende de como você quer agir...
- Não posso ser os dois?
- Uma mulher precisa saber que satisfez o homem depois que... Fez... Amor... Com ele. – falou pausadamente, e a timidez era latente em sua voz.
abriu um sorriso tão grande que não cabia em seu rosto e esticava seus lábios.
- Olhe para mim... – ele pediu, e com a ponta dos dedos e profunda delicadeza, levantou o queixo dela.
Demorou um instante para que aquele brilho intenso e erótico faiscasse na direção de , mas eventualmente aconteceu.
- Por acaso parece a você que eu não cheguei ao ápice da satisfação na minha vida? – perguntou com calma.
Do queixo dela, seus dedos subiram até o rosto, o qual foi envolvido pela mão ainda trêmula de . Sua voz guardava um tipo de carinho que ele julgou esquisito. Queria fazer feliz, porque somente se ela estivesse feliz, ele poderia se dar ao trabalho de se sentir da mesma forma.
- Você está tremendo... – ela comentou quando levou sua mão para pousar sobre a dele.
Ao entrelaçar seus dedos, sentiu uma coisa misteriosa e intrigante agitar seu peito. Não entendia o modo de agir daquela , mas sabia que apreciava cada mínimo gesto tímido dela.
- Vai passar... – ele pegou a mão dela e beijou a palma, então a ponta de cada um de seus dedos.
assistia à cena com o olhar cerrado e um sorriso tão frouxo em seus lábios, que parecia perdida em uma espécie de torpor. Saber que era o responsável por aquilo deixava os hormônios de se agitando mais uma vez.
- Quem é você e o que fez com a minha doutora? – finalmente perguntou, sorrindo.
Ele deixou a mão dela cair sobre seu colo, então ela ganhou vida própria ao subir ao rosto de e desenhar com delicadeza os traços de seu rosto.
- Sua doutora? – ela perguntou, ainda parecendo distante, perdida na análise de .
- E de quem mais seria? Não tem mais volta, eu agora tomei posse. – foi o que respondeu.
Sua mão esquerda afagava a cintura dela com carinho, mas sem deixar de lado a impressão da possessividade. A mão direita subiu pela cintura dela, contornando as laterais daquele corpo ainda quente e molhado de suor e da essência da luxúria. Quando chegou ao seio dela, ele contornou-o com calma, apreciando com os olhos atentos o caminho que seus dedos precisos faziam.
- Eu estou tão perdida que nem consigo protestar contra esse seu senso de macho alfa. – respondeu.
Seu dedo indicador marcava o contorno dos lábios de , distribuindo seu toque de seda, fazendo a boca dele formigar de prazer e de vontade de beijá-la mais uma vez. Da boca dele, desceu ao queixo, desenhando a forma arredondada até chegar à mandíbula. Dali ela pulou para a testa dele e para as linhas de expressão que a marcavam.
- Está preocupado com o quê?
- Em acordar e me dar conta de que isso tudo foi só um sonho. – sorriu fraco.
Não conseguiu controlar o impulso de seus dedos, que se utilizaram de suas pontas para tocarem mais uma vez o mamilo dela. Aquele pedaço rosado de pele se arrepiou, mostrando os poros que o formavam. Enquanto a ponta do dedo de lhe acariciava, ele enrijecia aos poucos. levantou os olhos para acompanhar a maravilhosa cena que era os dentes de mordendo a carne vermelha e deliciosa de seus lábios.
- Você precisa parar de se preocupar e viver o momento, sabe? Para quem diz que eu não gosto de aventuras, está pensando demais, ... – afagou a bochecha ainda corada de , então levou a mão até o peito dele. Alisava com carinho todos os hematomas que encontrava enquanto continuava a falar em seu tom doce que abraçava como um cobertor quente em dia de frio – Quem deveria estar surtando e preocupada sou eu... Você é quem deveria estar tão extasiado a ponto de mal saber o que fala.
- Acho que invertemos os papéis aqui. – sorriu, fechando os olhos ao apreciar o carinho que ela fazia agora em seu cabelo – Mas eu tenho razão de estar preocupado... Nada garante que você acorde a qualquer momento e perceba que pode ter feito uma grande besteira.
- Shiu! – levou o dedo indicador aos lábios de . Ele não hesitou em sorrir e tomar o pulso dela em sua mão.
O beijo cálido que depositou naquele dedo subiu à mão dela, ao pulso, então ao seu braço, por toda a extensão. Por fim, chegou ao pescoço dela, no qual ele inspirou com força a mistura de suor, sexo e perfume que o deixavam absurdamente mais atrativo. Quando ela riu, ele arranhou a pele dela com os dentes. Por fim, depositou um beijo molhado ao pé do ouvido de , que se encolheu e arrepiou.
- Eu acho que você pode falar “essa foi a melhor transa da minha vida, doutora”, chega de momento romântico e dramático.
- A doutora tem medo de se envolver? – abriu um sorriso maldoso.
- Não... – ela balançou a cabeça – Eu não tenho, mas prefiro não falar de coisas negativas quando está tudo bem... Nesse caso, eu prefiro falar de coisas... – ela pigarreou antes de continuar, e sua bochecha corou naturalmente – Excitantes.
- Eu acho que posso lidar com isso. – respondeu em um sussurro.
Seus lábios estavam contra os lábios de e roçaram neles a cada sílaba proferida. não hesitou em tomar a coxa direita dela em sua mão, então puxou até que se enroscasse em sua cintura. Mais uma vez, ambos os sexos entraram em contato, e a agitação nos dois foi arrebatadora e se iniciou ao mesmo tempo.
- Sinto que você poderia fazer sexo o dia todo e nunca ficar saciado.
sorriu e inclinou com delicadeza o corpo dela, apoiando-o em sua mão. Os seios dela estavam eriçados e pareciam pedir por sua atenção. Ele mordiscou e lambeu cada um dos mamilos já rígidos, antes de responder:
- Nada me impede de tentar, se for com você...
sorriu fechado e deixou que ele trouxesse seu corpo de volta à posição anterior.
- Só não lanço isso como um desafio porque daqui a pouco darão falta de você e começarão a procurar pelo St. Marcus inteiro...
- Enquanto isso não acontece... – beijou o canto da boca dela – Acho que podemos aproveitar bem o tempo que nos resta.
- Quais são as suas ideias, ? – arranhou a nuca dele ao envolver seu pescoço com as mãos.
- Só porque eu acho muito sexy quando você me chama de ... Posso te levar a outra viagem ao paraíso.
- Você vem comigo, não vem? – ela sorriu em um gesto que pareceu a safado e sujo.
E ele apreciou aquilo como nunca antes.
- Só de ter a sorte de presenciar seu lado malicioso dando as caras, eu já cheguei lá. – foi o que respondeu.
Em seguida, seu lado animalesco mais uma vez tomava as rédeas da situação. Não tinha controle nenhum sobre seus atos. Os hormônios dominavam tudo e queriam distribuir a selvageria que rugia em seu peito e clamava por . Por sentir mais uma vez seu interior quente e apertado, que o aconchegava com perfeição.
envolveu as coxas de com as mãos. Em seguida, pegou ela no colo e enquanto recebia os beijos dela em seu pescoço, prensou o seu corpo na parede mais próxima. As unhas dela arranhavam seus ombros e as suas arranhavam as coxas dela. Marcas seriam a única prova de que aquilo acontecera de verdade e era capaz de se contentar, por enquanto. Naquele momento, contudo, a única coisa que queria fazer era invadi-la com toda a sua virilidade mais uma vez, apenas para ter certeza de que a sensação de puro êxtase era verdadeira e que ficaria cravada em sua memória.
buscou a boca de com a sua e não hesitou em transformar um beijo que começou calmo em algo selvagem e perigoso.
Ele tinha fome, ela era a única que podia saciá-lo inteira e completamente.
Suas línguas já velhas conhecidas, sabiam com exatidão o que fazer dentro de suas bocas. A batalha travada entre elas, intercalada por mordidas com uma força descontrolada nos lábios inchados, era uma expressão do desejo desenfreado que passou a dominá-los. As mãos de percorriam cada mínima parte do corpo de que podiam, tentando memorizá-la através de seu tato. Ele precisava levar para sua cela no helvete o maior número de lembranças possível.
ofegando no ouvido de era um perfeito estímulo. Os dois já estavam prontos para receber um ao outro. Ele, mais uma vez, não hesitou. Segurou seu membro com uma das mãos, enquanto a outra sustentava o corpo de contra a parede. Na entrada úmida e fervilhante da intimidade dela, ele pincelou a sua glande. Olhando nos olhos de , ele a provocou, recebendo um gemido de súplica e unhas lhe cravando as costas e o ombro como resposta. A malícia era detectada em cada canto do sorriso que esticou seus lábios vermelhos. os umedeceu com a língua e o olhar de acompanhou seu gesto. Ele forçou sua glande na entrada e viu apertar a boca e fechar os olhos. Sorriu mais ainda. Então se forçou mais um pouco para dentro. encostou a cabeça na parede e suspirou. Suas mãos, que se apoiavam no ombro de , foram aos seus fios de cabelos suados que grudavam em sua testa. Ela os tirou dali e, quando voltou a abrir os olhos, fez sua investida final. Então estava inteiramente dentro de mais uma vez.
Aquele mesmo turbilhão de sensações da primeira vez arrebatou seu corpo e o deixou desorientado. Tudo parecia acontecer em dobro dessa vez e pensou que seus joelhos fossem vacilar quando ela gemeu, mas se mantiveram firmes.
respirou fundo e saiu completamente. E estocou com força e virilidade de uma vez. mordeu seu próprio dedo indicador para conter o que ele imaginou ser um gemido chamativo demais. não conseguia parar de sorrir com os olhos cerrados e transbordando luxúria. Ele entrava e apreciava de camarote a expressão de prazer que retorcia lindamente os traços de . Os olhos dela estavam cerrados como os dele. Seus seios pulavam à medida que ele investia com cada vez mais força, sem se preocupar se a machucaria. Era difícil para ele pensar em qualquer coisa naquele momento. Sua obsessão por ela era maior do que qualquer outra coisa, mais importante do que sua própria vida. Ele precisava acalmar a fera que se abrigava em seu peito e pedia por ela como um esfomeado pede por comida.
O adentrar de seu membro na cavidade quente dela era algo que ele apreciava, sentindo cada uma de suas células respondendo aos estímulos. Quanto mais o interior dela se contorcia para ele, mais ele ficava tentado a invadi-lo e explorá-lo.
entrava e saía. Entrava e saía. suspirava e ofegava. Levava as mãos aos próprios cabelos, aos próprios seios e aos ombros dele. E o aroma do ato sexual, mais uma vez, impregnava cada canto da sala do arquivo. O som do sexo preenchia o ambiente e elevava o alto teor de luxúria dominante.
Nenhum dos dois soube quanto tempo passou. Poderiam ser longas horas ou reles minutos. Mas o ritmo de não diminuía, o ofegar de também não. A junção perfeita de seus corpos parecia não ter um fim, e era assim que ambos preferiam que fosse. O alto teor de prazer, entretanto, não permitiu que eles se conectassem pelo resto da vida.
foi o primeiro a ser tomado pela onda de êxtase, que percorreu sua espinha e fez tudo parecer frio e, então, quente demais. Ele estremeceu e perdeu o controle de seus músculos. Mordeu o ombro de enquanto derramava sobre ela a expressão pura de seu desejo. não tardou a alcançar seu ápice também, e se agarrou ao corpo suado de como se sua vida dependesse daquilo. Suas pernas prenderam a cintura dele e sua boca beijou a dele para que calasse os gemidos que perigavam escapar de sua garganta. E então tudo chegou ao fim.
Mais uma vez, eles estavam ofegantes, tentando assimilar os variados tipos de sensações que deixavam seus corpos em estado de torpor.
O silêncio agora era sepulcral. Eles estavam estáticos, repassando o momento anterior em suas mentes perdidas. A luxúria e êxtase surpreendentes do momento ainda pairavam pelo local, como uma nuvem negra de chuva. só sabia que aquela havia sido, disparada, a melhor experiência de sua vida, e não queria pensar em mais nada, apenas relembrar cada segundo como se daquele modo pudesse reviver tudo de novo.
foi o primeiro a se manifestar, sentindo que faltava um pedaço seu ao sair de dentro dela. Buscou, então, o olhar de , puxando seu queixo com delicadeza. Ela o olhou completamente atônita, meio perdida até.
Parecia, entretanto, diferente daquela dócil e calma de antes. Alguma coisa deixava seu olhar cinza enegrecido. O peito subia e descia no ritmo da respiração que, aos poucos, voltava ao normal.
Então, depois um tempo, ela pareceu acordar do transe, afastando com certa calma. Passou a buscar suas roupas e a vesti-las. Não dizia uma palavra. Não voltou a olhá-lo. então achou que era melhor subir suas calças e vestir sua camiseta de volta. Quando terminou, pôs-se a observá-la, que, por sua vez, observava a janela empoeirada do arquivo com as mãos na cintura, como se pensasse.
De repente, ela virou na direção de , e a voz que se fez ouvir o deixou meio assustado.
- Diga uma palavra sobre isso e vai para a solitária por fugir da sessão de terapia em grupo. Fique quieto e eu te livro de umas boas sessões de tortura que, a julgar pelo nível de raiva que eu estou sentindo agora, até acho que você merece...
fez um sinal de quem fechava a boca com os dedos, dando de ombros logo em seguida, fingindo a indiferença de sempre, que quase nunca estava ali. Quando ela saiu do arquivo, a seguiu pelo caminho que tomava de volta à sala de terapia em grupo.
Ele sorria mais do que satisfeito, entretanto. Entendendo que o último passo havia sido dado. só precisava de uma noite de sono para chegar à óbvia conclusão que era de que ela precisava e sempre precisou. E ele daria esse tempo a ela. A confusão teria um fim, e a certeza seria o prêmio final.
Vinte e um – Mensagem sobrenatural
Já passava do meio-dia, o local era o refeitório lotado de médicos, enfermeiros e demais funcionários do St. Marcus Institute, mas estava presa em uma dimensão paralela. Desde a tarde anterior, seus movimentos eram puro reflexo de sua rotina. Acenava com a cabeça quando tinha a impressão de que se dirigiam a ela e soava dispersa quando ao menos o fazia. Não voltou à sessão de terapia de grupo. Apenas entregou aquele que ela preferia nem mais pensar no nome ao primeiro guarda que viu e seguiu em direção ao seu dormitório, sem dar qualquer explicação. O olhar confuso do guarda com certeza pedia por uma, mas ela ignorou o fato de devê-la.
Desde então, era apenas uma projeção imperfeita de uma que agora parecia um fantasma do passado. Havia um antes e depois daquele acontecimento na sala de arquivo. Sua mente estava presa e não via jeito de se libertar dos momentos de intenso prazer e loucura que se permitira viver menos de vinte e quatro horas antes. O sexo desprotegido com um possível psicopata definitivamente não era a maior de suas preocupações. Ela era precavida quanto a isso, tomando seu anticoncepcional regularmente. Se arrependimento matasse, entretanto, ela já estaria morta e enterrada pelo menos umas três vezes. E o arrependimento era justamente por não se arrepender de ter feito o que fez.
não se lembrava de experiência mais marcante em toda a sua vida pacata e simples. O insucesso de seus relacionamentos amorosos, que não foram muitos, explicava com quase precisão o nível de encanto e êxtase em que ela se encontrava naquele momento por seu paciente atrevido.
Ao lado de todo esse domínio de sua libido descontrolada, no entanto, estava um incômodo e insistente sentimento de culpa. Assim que o torpor do ponto máximo de prazer liberou seu corpo, enquanto ela tomava o banho mais longo e quente de sua vida, a primeira coisa que lhe veio em mente foi o que diriam as pessoas ao seu redor se soubessem o que havia acontecido naquela sombria sala de arquivo. Kate, a enfermeira com quem fizera tão bonita amizade, o doutor Thompson (nesse ponto, ela fechou os olhos apertados e segurou a vontade de bater a cabeça contra a parede), os pais (aí ela teve vontade de chorar) e então veio a imagem do sempre cativante e sorridente ... Ela o havia traído, não havia? Beijar aquele que preferia não nomear era uma coisa, mas transar com ele... Ah, já era um nível elevado e completamente diferente. Era um tipo de traição com . Logo ela que sempre abominara esse tipo de conduta... E então permitir que a culpa lhe corroesse por dentro como ácido sulfúrico era como um tipo de tortura em razão de seu comportamento reprovável.
sentia-se impura, no final das contas. Era a palavra que definiria a sua atual condição com perfeição.
- Não é mesmo, ? – uma voz conhecida soou a quilômetros de distância.
Ela estava perdida demais na análise do jardim do St. Marcus – procurando por algo que sua consciência sabia o que era, mas ela mesma não queria admitir – para identificar a quem pertencia a tal voz. E também não se sentia tentada a deixar de fazer o que estava fazendo para tentar descobrir. Mas um cutucão dolorido em seu braço a forçou a voltar à realidade.
- Terra chamando ! – o sorriso incerto de apareceu em seu campo de visão e então a realidade caiu como um piano de cem toneladas em sua cabeça.
De repente, se sentiu enjoada.
- Falou comigo?
- Sim, eu estava falando sobre aquele restaurante que quero te levar em Londres...
imediatamente arregalou os olhos, olhando em volta. Ninguém prestava atenção na conversa e apenas Kate lhe sorria, parecendo encantada com o romantismo do assunto. E de novo se sentiu tão suja que um banho em um tanque de álcool agora não desinfetaria seu corpo.
Ele tinha que se lembrar de um estúpido convite para jantar em Londres logo naquele momento? andou tão distraída na noite anterior que nem se lembrava de uma visita surpresa de em seu dormitório. E nem da desculpa de que havia se utilizado para mandá-lo embora logo. Aparentemente, entretanto, tivera que aceitar um convite para jantar como um artifício para se livrar dele.
- O que tem o restaurante? – a voz dela soou incerta e seu sorriso comparável a uma careta de dor.
Kate pareceu perceber seu desconforto e passou a encará-la de forma preocupada e, principalmente, desconfiada.
- Estava falando como a comida é ótima e a vista linda e... Será que você pode me ajudar aqui? Supostamente você deveria estar contando tudo pra Kate toda encantada...
- Eu sei, eu... – pigarreou e transferiu seu olhar para , se arrependendo logo em seguida. Não poderia ficar ao seu lado por mais nenhum segundo. Pelo menos por enquanto – Eu não estou me sentindo bem...
- O que você tem? Está doendo alguma coisa? – e se transformou no cavalheiro preocupado que a deixava ainda mais culpada – Você nem tocou na sua comida...
- Não. – se afastou prontamente quando ele fez menção de se aproximar – É só um mal estar, logo passa... Eu vou... Vou ao meu quarto tentar dormir um pouco antes da próxima sessão... – e forçou um sorriso.
Não se atreveu a olhar Kate e não conseguiu impedir de se aproximar assim que se preparava para levantar.
- Estou com saudades... – foi o que ele sussurrou em seu ouvido, depositando um discreto beijo em sua bochecha.
Se ele soubesse o que ela havia feito, nunca mais olharia em sua cara, nunca mais a tocaria ou se preocuparia com ela... E a sensação era horrível.
segurou o estômago e a vontade de chorar que apertou seu peito impiedosamente, sorrindo pra ele e saindo apressada do refeitório. Já no corredor, poderia permitir que o desespero retorcesse seus traços e a vontade de chorar se transformasse em soluços descontrolados que faziam seu peito subir e descer conforme ofegava. Torcia para que ninguém a encontrasse naquele estado, então correu na direção de seu quarto. O cheiro familiar de seu perfume tomou seu nariz e então ela fechou a porta com urgência, se encostando à mesma para ter certeza de que estava, de fato, fechada. Logo depois girou a chave para trancá-la.
Quando finalmente achou que estava segura e sozinha, as lágrimas não queriam cair, apenas brincavam no canto de seus olhos e ao mesmo tempo com sua paciência. Ela não sabia o que fazer. Só estava ali, encarando seu próprio teto, buscando por uma resposta para uma pergunta que nem ao menos existia. O peito apertava a cada segundo mais e deu um salto quando, de longe, ela ouviu uma risada. Vinha lá do jardim. nunca tinha ouvido aquela risada antes, mas sabia que a conhecia como se ela fizesse parte dos melhores momentos de sua vida. Hesitou por duas ou três vezes, considerando se era mesmo seguro sair do apoio que era sua porta de madeira trabalhada. Quando engoliu os soluços e a vontade teimosa de chorar, fez os poucos passos que a separava da janela.
O que procurava minutos antes estava ali. E o sorriso feliz e satisfeito que figurava nos lábios dele e mostrava seus perfeitos dentes brancos, ela nunca imaginou ver um dia por ali. Era sempre tão sarcástico, irônico, malvado, insano... Psicótico. Não reconhecia aquele que preferia nem pensar no nome, mas sabia bem o motivo do sorriso cheio de dentes para o carcereiro chefe do helvete. E, então, não se sentiu culpada, como achou que se sentiria, por ser o motivo daquela mudança repentina de humor. Uma mudança que ela, particularmente, achou encantadora. Era orgulho aquilo ou certa excitação tomando conta de seu peito que antes era esmagado pela culpa? Poderia passar a tarde toda ali, só o observando conversar como uma pessoa normal e sorrir como se fosse feliz.
Engraçado como a sensação de ser a pior pessoa do mundo passou como por um passe de mágica. Através do reflexo do vidro, podia ver um mínimo sorriso se formar em seus lábios antes curvados em tristeza. E então, de repente, outros lábios se materializaram no reflexo do vidro, e não eram os seus próprios. Pertenciam a outra pessoa. Eram pálidos e sem vida, expressando um estranho tipo de tristeza que fez congelar. Havia mais alguém ali, alguém que finalmente resolveu dar as caras.
A temperatura caiu em velocidade inimaginável. Era o conhecido frio a lhe deixar paralisada. A mesma conhecida sensação de ser observada, de ser acompanhada por alguém. Os músculos de enrijeceram de imediato e seu corpo passou a tremer ao mesmo tempo em que o reflexo do vidro era quebrado pelo gelo que dali passava a tomar conta. Ela paralisou, tomada pela surpresa e susto que a situação repentina lhe trouxera. Não conseguiu evitar que seus olhos curiosos deixassem de observar o congelado formato daqueles lábios finos e arroxeados para se fixarem nos olhos sofridos de um tom verde claro que lhe fitavam com insistência. se sentiu invadida, como se aquele olhar profundo tomado de dor e desespero pudesse enxergar sua alma, queimando-a como fogo em brasa.
A parte racional de seu cérebro já não era mais a responsável por controlar seus movimentos, então, instintivamente, ela girou o corpo com lentidão e encontrou a figura responsável pelo reflexo a alguns passos de si. Era uma garota, uma moça, alguns anos mais nova do que ela própria. Tinha alguns centímetros a menos também. E era translúcida, como se não tivesse qualquer substância, apenas forma. Pairava poucos centímetros acima do chão e a olhava como se fosse sua salvação para alguma coisa. O coração de estava disparado demais para que pudesse ter qualquer reação. Os olhos provavelmente estavam arregalados e a boca aberta como se aquela fosse a coisa mais maluca e impressionante que já tivesse visto em vida. E, de fato, era.
Principalmente maluca! Aquilo não fazia sentido! Era um fantasma? O fantasma que a vinha perseguindo pelos corredores do St. Marcus aquele tempo todo?
Ela não teve tempo de assimilar qualquer informação e a figura evaporou como mágica. O aquecedor voltou a funcionar como se nada tivesse acontecido. O silêncio era mortal.
piscou os olhos algumas vezes, quando finalmente se deu conta do que tinha acontecido, provavelmente um par de minutos depois, ficando com apenas uma certeza: conhecia aquele rosto de algum lugar. E tinha uma pequena ideia de onde poderia encontrar a peça que faltava naquele quebra-cabeça sobrenatural.
levou as duas mãos ao rosto, apertou os olhos entre os dedos, agarrou os cabelos como se quisesse ter certeza de que estava acordada e, com um último suspiro, conseguiu dar o devido comando a suas pernas. Hesitou um segundo antes de passar pelo ponto em que tivera aquela visão, mas ao cruzar o local, nada lhe aconteceu. Então ela fez o caminho que se desenhava em sua mente na direção de seu consultório.
Ao abrir a porta, caminhou com pressa na direção de seu velho arquivo de metal. Foi diretamente na direção daquela pasta mais recheada de papéis e fotos. Assim que se sentou em sua cadeira, preparando-se para o momento em que confirmaria sua absurda suspeita, abriu o elástico que fechava a pasta de cor amarela. Os olhos estavam fechados, como se ela tentasse se censurar por olhar alguma coisa que não deveria, como um garotinho olhando as revistas adultas do irmão mais velho sob as cobertas. Tinha medo do que poderia descobrir e, então, talvez confirmasse a suspeita de que estava, definitivamente, ficando louca. Depois de alguns minutos de debate interno e suspiros de derrota, finalmente abriu os olhos.
A primeira coisa que viu foi a ficha dele, com sua foto no departamento de polícia chamando a atenção. A tristeza em seus olhos opacos lhe deixou angustiada pelos segundos em que se permitiu observá-lo. Então ela virou a página, encontrando imediatamente o que procurava.
Uma manchete de jornal destacando o nome dele e o assassinato pelo qual estava sendo acusado. Logo em seguida, vinha o nome dela, em letras garrafais, e ele brilhou para como se fosse feito de neon:
BARBER PAAY.
Seu rosto feliz e sorridente estava estampado em uma foto logo abaixo. Tinha o rosto pendido levemente para o lado direito, para o lado dele, que a abraçava como se pudesse protegê-la de qualquer mal que o mundo a quisesse causar. Mal sabia ela que talvez aquele ao seu lado fosse o responsável pelo fim de sua vida...
O verde claro dos olhos não era reconhecível pelo preto e branco que lhe expressava, mas os traços finos dos lábios e as bochechas arredondadas eram mais do que suficientes para identificá-la. É claro que o sorriso era muito distinto da sofreguidão que demonstrava em sua aparição, mas não tinha dúvidas de que a figura que aparecera em seu quarto e que a vinha perseguindo desde que chegara ao St. Marcus era Barber Paay. A namorada que aquele que ela preferia não nomear supostamente assassinara há três anos. E quando essa conclusão pipocou em sua mente, ela teve uma vontade quase incontrolável de rir. E foi o que fez, logo em seguida sentindo-se assustada o bastante para ser dominada pela vontade de chorar.
Vinha sendo assombrada por um maldito fantasma esse tempo todo? Pelo fantasma da namorada falecida daquele maldito paciente que a deixava encantada e enlouquecida? Desde quando ela tinha sensibilidade suficiente para se comunicar com os mortos? Ou melhor, desde quando acreditava que espíritos, de fato, existiam? A confusão em sua cabeça agora não era minimamente comparável com aquela que lhe atormentava desde a tarde do dia anterior.
, então, virou as páginas seguintes do arquivo, procurando por mais fotos dela, apenas para ter certeza de que não estava enganada (ou buscando a certeza de que estava enganada e que era apenas fruto da sua imaginação), mas o rosto de Barber Paay só lhe tornava cada vez mais conhecido. Desistiu então, fechando a pasta em um movimento brusco e até mesmo irritado.
Era a hora em que ela podia começar a entrar em pânico, hiperventilar e deixar que o medo do sobrenatural lhe tomasse de vez... Apoiou a testa nas mãos e abaixou a cabeça, fechando os olhos, acreditando que daquela forma tudo se colocaria de novo no seu devido lugar. Sua sanidade, principalmente. Não estava adiantando. A imagem mórbida da sofrida Barber Paay tinha se tatuado em sua mente e não via jeito de tirá-la dali. Foi aí que as lágrimas começaram a cair de vez, em um misto motivado pelos momentos com aquele que não queria nomear e a aparição de sua infeliz namorada morta. E chorou como uma criança desesperada em busca da mãe. Todas as lágrimas que queria chorar desde que chegara ao St. Marcus Institute e sua loucura, que estava impregnando nela e a deixando completamente sem saída. Aquele lugar era amaldiçoado e agora tinha certeza de que também era assombrado.
chorava tanto que ficou sem ar, soluçando em busca dele. Seu peito subia e descia na velocidade frenética do desespero. As lágrimas lavavam seu rosto sem cerimônia e a força para fazer silêncio quase a sufocava. Queria ir embora dali, voltar para casa, para a tranquilidade de seu bairro familiar em Oxford, para a simplicidade da mãe dona de casa e do pai contador. Mas alguém batia à sua porta e os planos de sair fugida tiveram que esperar um segundo. imediatamente parou de chorar e secou com urgência as lágrimas com a manga do suéter.
- Pode entrar. – disse, se esforçando para a voz não sair chorosa. Não obteve sucesso, entretanto. Como não obteve sucesso em esconder que esteve chorando copiosamente até o momento em que fora interrompida.
Kate, que colocou a cabeça pra dentro do consultório, percebeu de imediato o estado deplorável em que a outra se encontrava e fez uma careta preocupada.
- Nem adianta tentar me convencer de que não tem nada errado. – foi o que ela disse, fechando a porta atrás de si e se encaminhando até a cadeira destinada aos pacientes.
Sorria compreensiva e passava a um tipo de segurança bastante assustador para o momento. Não era hora de se sentir segura, muito pelo contrário...
- Eu não vou. – fungou, tentando segurar as lágrimas que queriam cair novamente.
- Eu sei que já tem um tempo que você precisa conversar com alguém... Sou toda ouvidos!
- Eu acho que você não iria entender o que está acontecendo comigo, Kate...
- Por que não tenta? – ela sorriu de novo e aquilo soou a tão maternal que ela teve, por um segundo, vontade de abraçar Kate.
- Eu realmente acho que não vai fazer sentido... Para mim não faz sentido algum! – soltou uma risada nervosa.
- Tem alguma coisa a ver com ? Ele fez alguma coisa com você?
- Não. – franziu o cenho, estranhando a repentina preocupação num misto de seriedade da enfermeira – Não tem nada a ver com o ... Por que haveria de ter?
- Bem, ele tem um certo... – Kate suspirou, balançando a cabeça de um lado a outro e voltando a sorrir como se não estivesse com medo do mundo explodir a qualquer segundo. passou de quase tentada a falar a desconfiada – Fico feliz que não seja nada com ele... Você sabe, ele está bastante envolvido e talvez você não esteja tanto quanto ele, então eu pensei que talvez...
- Não. Não é isso. – negou de pronto.
- Então fala comigo... Eu juro que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance pra te ajudar...
suspirou depois disso, considerando se deveria ou não falar sobre o que a atormentava. Talvez nem ao menos devesse pensar nisso, apenas esquecer... Talvez sua cabeça voltasse a funcionar normalmente como sempre funcionou. Mas no segundo seguinte, chegou à conclusão de que se não falasse com alguém, explodiria a qualquer segundo em um colapso nervoso. Aí talvez seu desequilíbrio psicológico nem fosse mais colocado a prova. Poderia confiar em Kate, não poderia? Suas bochechas rosadas, olhos naturalmente brilhantes, cabelos loiros sempre impecáveis em seu corte chanel tendiam a passar a imagem de uma pessoa confiável. E até agora ela se mostrara uma boa colega de trabalho, sempre a ajudando quando requisitado, apesar de assustá-la vez ou outra com seus olhares espertos de quem sabia até demais. Então, depois de suspirar novamente, agora em derrota, ela pigarreou hesitante e escolheu as palavras que diria a seguir:
- Eu quero que você me prometa que não vai comentar sobre isso com ninguém, principalmente com o ...
- Sou um túmulo!
- E, por favor, não pense que eu sou louca ou que estou enlouquecendo... Eu mesma estou tentando me impedir de chegar a esse diagnóstico, mas eu juro que é tudo real demais pra ser imaginação!
- Tudo bem... – Kate sentou-se na ponta da cadeira e se aproximou da mesa, apoiando os cotovelos na mesma – Agora, você além de curiosa, está me deixando assustada... O que está acontecendo?
trancou a garganta por alguns segundos e piscou variadas vezes. O choro a queria dominar de novo e ela não poderia se deixar levar por ele. Então fechou os olhos por alguns instantes e quando os abriu, tinha certeza de que voltava a figurar tão desesperada quanto antes. O teor do olhar que recebia de Kate lhe informava isso.
- Eu... – ela pigarreou ao sentir a voz vacilar perigosamente – Eu estou... Tem algo me perseguindo...
- Algum paciente?
- Não, não é um paciente. – negou urgente com a cabeça e se aproximou da mesa, repetindo o gesto da outra.
Sua voz saiu bem mais baixa, porém mais segura. Os olhos estavam arregalados, entretanto, tudo o que ela não queria que acontecesse. Ia parecer bastante insana desse modo, mas não havia jeito de voltar atrás. Teria que falar.
- Não é uma pessoa!
- Então o quê? – Kate franziu o cenho em confusão.
- Eu acho que... – sorriu nervosa e rolou os olhos antes de continuar – Eu acho que é um fantasma!
Kate arqueou as duas sobrancelhas no segundo seguinte, mas o olhar que lançou a não foi “Você está louca”, foi apenas um olhar impressionado de quem tentava assimilar o que acabara de ouvir.
- Você tem certeza? – e então ela voltou a falar com o tom amigável maternal de sempre.
- Não, eu não tenho, mas eu também não tenho ideia do que diabos poderia ser uma imagem meio transparente que sussurra por aí e faz baixar a temperatura toda vez que aparece... – respondeu impaciente e agora não tinha dúvidas de que parecia uma louca.
- Tudo bem... – Kate apaziguou em seu tom compreensivo – E você sabe de quem é o tal fantasma?
- Não vai nem questionar o fato de eu ter te dito que sou perseguida por uma assombração?!
- Se eu disser que realmente posso te ajudar, vai continuar me contando? – Kate agora soava tranquila e decidida, algo que levou a se acalmar levemente.
- Como?
- Vai soar estranho e talvez até uma coincidência, mas eu passei uma vida toda convivendo com uma avó espírita que tentava se comunicar com os mortos quase vinte e quatro horas por dia... – Kate sorriu agora – O que praticamente me obrigou a acreditar que os mortos estão entre nós...
- E como ela se saiu com isso?
- Razoavelmente bem. – a moça deu de ombros – Então, quer me contar sobre esse fantasma? Sabe de quem é?
hesitou por um instante, fazendo Kate rir da careta que retorceu seus traços. Ficou pensando no nível de loucura que a outra lhe atribuiria quando dissesse a quem achava que pertencia a tal assombração, mas no fim preferiu dar de ombros e soltar tudo de uma vez. Agora que já tinha começado, talvez lhe enlouquecesse ainda mais se parasse. No entanto, ao invés de falar, voltou a abrir a pasta amarela que ainda apertava entre os dedos. Com calma, virou-a na direção de Kate quando chegou ao ponto que interessava. A foto em que abraçava Barber Paay com tanto carinho que não daria a impressão a alguém que via a cena de que a mataria de forma tão brutal.
Kate, primeiro, arqueou as duas sobrancelhas, cerrando os olhos e franzindo o cenho quando finalmente pareceu reconhecer quem estava retratado ali. Então puxou a pasta para mais perto de si, analisando de perto a foto para depois voltar o olhar confuso a .
- A ex-namorada de ? – Kate soou um pouco mais aguda do que geralmente fazia.
sentiu um frio na barriga e logo depois o arrependimento por ter começado a espalhar a loucura que até agora só incomodava a ela mesma.
- Eu não estou ficando louca, Kate!
- Não disse que está ficando louca... Só... Não entendo! Por que diabos o fantasma dela iria te perseguir?
- E eu é que sei?! – se exaltou – Para começo de conversa, há cinco minutos eu nem acreditava que fantasmas existiam! Então o motivo de um deles estar me perseguindo ainda é um mistério, sabe?
- Tudo bem... E ela tentou se comunicar com você de alguma forma?
nem queria pensar no quão estranho era aquele papo todo de Kate, como quem sabia do que estava falando, como quem acreditava no que dizia. Talvez só estivesse a incentivando a falar, apenas para ter certeza do diagnóstico de sua esquizofrenia. Ou talvez ela estivesse sendo verdadeira ali, então continuou a falar quando sua consciência lhe convenceu da segunda opção.
- Bem, ela sussurrou meu nome algumas vezes, o nome dele também, uma palavra que eu não tenho ideia do significado e... – suspirou antes de revelar o fato que ela achava ser a maior loucura dentre todas as que haviam acontecido – Uma vez ela escreveu uma palavra no espelho usando meu próprio batom. – finalizou e esperou ansiosa pela reação negativa de Kate.
Uma risada debochada, um olhar de mesmo tom ou qualquer outra coisa, menos o acenar compreensivo com a cabeça. Ela mantinha o olhar de seriedade o tempo todo.
- Você se lembra dessas palavras?
- E-eu, ah... Talvez, eu não sei, acho que sim...
- Tem um lugar que a gente pode descobrir o significado delas.
- Como a gente vai descobrir o significado se a gente nem sabe que raio de língua é aquela?
Kate apenas lhe sorriu e apontou uma das grandes manchetes de jornal arquivadas na pasta amarela. As letras garrafais destacaram os dizeres “A HOLANDESA DE CAMBRIDGE” sob os olhos atentos e ainda assustados de . Ela balançou a cabeça em sinal afirmativo, entendendo o que a outra queria dizer e se martirizando por não ter tido essa brilhante ideia antes. suspirou antes de se pronunciar:
- Tudo bem, o que temos a perder?
- Ótimo! – Kate sorriu, satisfeita, e se levantou em um pulo, já caminhando com energia em direção à porta.
- Espera! Onde estamos indo? – foi pega de surpresa pela rapidez da enfermeira e se levantou meio cambaleante – ainda abatida pelo susto – tentando acompanhá-la.
- A um lugar não exatamente autorizado a nós, reles funcionários, mas acredito que estamos seguras nesse horário. – Kate parou minimamente para lhe lançar um olhar esperto, então voltou a caminhar com a mesma destreza de antes pelo corredor.
Os saltos de seus sapatos impecavelmente brancos estavam deixando particularmente nervosa àquela altura.
- Que lugar, Kate? – ela soou preocupada quando perguntou ao, finalmente, chegar ao lado da outra.
- O escritório do doutor Thompson. – disse com naturalidade. se deu ao trabalho de ficar ainda mais alarmada.
- Eu realmente não acho que possamos entrar lá assim, sem a permissão dele e principalmente sem sermos chamadas por ele!
- Relaxe, , ele está em casa almoçando a esse horário e só volta depois das duas da tarde... Temos meia hora! É mais do que suficiente.
- Ainda acho que é melhor não nos arriscarmos...
- Confie em mim, tudo bem? Vai dar tudo certo! – Kate lhe sorriu daquele modo maternal que deixava meio que anestesiada.
Era como se estivesse segura de todos os perigos do mundo, como se sentia quando sua própria mãe lhe sorria quando criança.
- Se você está dizendo... – deu de ombros – Por que mesmo a resposta do que precisamos estaria na sala do doutor Thompson?
- Já deu uma olhada naquela biblioteca dele? Aposto um dedo que deve ter um dicionário que traduz holandês pra inglês lá! – elas já estavam no corredor do andar térreo do prédio administrativo a essa altura.
- Como pode ter tanta certeza assim? Não é exatamente uma coisa fácil de se encontrar por aí!
- Bom, tirando o fato de que ele deve falar umas quinze línguas, ele é o cara mais intelectual que eu já conheci em toda a minha vida, então nossas chances são grandes!
- Não seria mais fácil olhar na internet? – parou hesitante quando finalmente chegaram à porta do diretor do St. Marcus.
A plaquinha com seu nome gravado reluzia de forma que ela julgou bastante alarmante naquele momento.
- Já deu uma olhada nos computadores do St. Marcus? São da época que eu e você começamos a deixar as Barbies de lado!
- Ah, não seja exagerada! – protestou, franzindo o cenho enquanto observava Kate buscar algo no bolso de seu jaleco.
- Talvez eu esteja exagerando, mas eles são mesmo antigos e não tem internet! Estamos no fim do mundo e praticamente incomunicáveis com o restante dele! – Kate pareceu achar o que procurava e retirou um objeto de metal com cabo vermelho do bolso. Era um canivete – Já reparou como o sinal do celular só funciona ao pé da colina?
- Sim, já reparei... – pendeu a cabeça para o lado, tentando decifrar o que Kate desmontava em suas mãos. Quando ela mostrou um objeto pontudo, seus olhos se arregalaram – O que vai fazer?
- Abrir a porta! – Kate enfiou o objeto na fechadura da porta e começou a retorcê-lo, realmente aparentando saber o que fazia – Você não achou que o doutor Thompson ia pra casa almoçar e deixava a sala destrancada pra qualquer um, não é?
- Ah, isso está muito errado! – balançou a cabeça de um lado para o outro em urgência e preocupação – Vamos deixar pra lá, tudo bem?
- Pare de ser tão prudente, ! Cadê seu espírito aventureiro? – Kate disse quando girou a maçaneta e a porta se abriu, revelando a elas o elegante escritório do doutor Thompson – Você quer ou não descobrir o que Barber Paay está tentando te dizer?
não hesitou nem meio segundo, sendo quase forçada por sua curiosidade ao afirmar com a cabeça e seguir a Kate que adentrou o escritório do doutor Thompson, fechando a porta com cuidado.
- Eu não vou nem perguntar onde foi que aprendeu a fazer isso! E muito menos por que carrega um canivete! – comentou, dando passos leves, sentindo-se uma criminosa.
- adoraria contar a história! – Kate riu.
Todas as paredes ali eram cobertas de prateleiras que iam até o teto, todas forradas de livros com capa de couro azul, vermelho e preto, em sua maioria. olhou em volta e se sentiu um pouco menos tentada pela curiosidade quando se deu conta do tanto de livros que teria que olhar para achar o único que procurava.
- Eu acho que vamos precisar de um pouco mais de meia hora se tivermos que procurar entre tantos livros, Kate...
- Além de tudo, ele é metódico e sistemático até o último fio de cabelo, então está tudo em ordem alfabética! – ela dizia enquanto caminhava na direção da parede do lado esquerdo e analisava os títulos dos livros – Então nós vamos até a letra “D” e... – Kate parou quando pegou um livro pesado de capa cor de vinho em mãos – Achamos o que procuramos! – ela virou o título na direção de , que pôde ler então com clareza os dizeres: “Dicionário Holândes-Inglês”.
Não pôde evitar sorrir satisfeita para Kate, então a seguiu até a mesa do doutor Thompson, onde ela apoiou o livro que parecia pesado.
- Quais são as palavras?
- A que ela, ah, escreveu no espelho era algo como “ITJUES-qualquer-coisa-que-eu-não-me-lembro-agora”. – disse, incerta – Não me julgue, eu estava apavorada.
Kate pôs-se a procurar pelas páginas velhas e amareladas do dicionário. Procurou por tempo demais e seu cenho, franzindo cada vez mais, não passava a muita segurança.
- Não estou encontrando nada que se pareça com isso aqui.
analisou as páginas do dicionário, apenas para que pudesse concordar com a afirmação de Kate.
- Talvez não seja holandês. – foi o que disse.
- Talvez você não se lembre da palavra...
- Talvez... Ela só estava brincando com a minha cara. – sorriu irônica.
- Talvez... – Kate torceu os lábios e sua expressão era tão concentrada que preferiu não interrompê-la. Apenas esperou paciente pela conclusão a que chegaria. E não demorou tanto para acontecer.
- Talvez seja um anagrama... Sabe? Talvez as letras estejam embaralhadas...
- Por que um fantasma se daria ao trabalho de fazer um anagrama?
- Você espera mesmo que eu entenda a cabeça de um fantasma? Talvez ela goste de mistérios...
- Talvez ela devesse seguir a luz branca e me deixar em paz... – rolou os olhos.
- Sinto informar, mas ela não vai fazer isso enquanto você não entender a mensagem dela e resolver o que ela deixou para trás. Então eu sugiro que a gente descubra o que esse anagrama quer dizer...
- Como começar? Eu não falo holandês e nem tenho ideia do que isso pode significar...
- Eu gostava muito de quebra-cabeças quando era criança, acho que posso dar um jeito nisso.
- Ótimo, porque eu gostava de brincar de boneca quando era criança. – estalou os lábios, cruzou os braços e passou a analisar a biblioteca do doutor Thompson enquanto esperava pela mente brilhante de Kate resolver o problema. Ela não achava que seria de muita ajuda nesse quesito, principalmente no estado de nervos em que se encontrava.
Pelo que pareceram uns dez minutos, Kate rabiscou um papel e resmungou palavras desconexas que não estava interessada em saber. A todo minuto, olhava no relógio, com medo de ver o doutor Thompson entrar pela porta de seu escritório e descobri-las ali. Não seria uma cena agradável e isso só lhe deixava cada vez mais nervosa. Quando finalmente Kate chamou , com um sorriso radiante no rosto, ela se aproximou desconfiada.
- “Justitie”. – disse, quando apontou com as unhas vermelhas uma palavra no alto da página.
- “Justitie”? – franziu o cenho, apurando a visão para enxergar a tradução logo ao lado.
“Justiça”
- Como chegou a essa conclusão? Tinha letras faltando...
- Foi o que eu mais achei compatível. Mas quer dizer... Que outro tipo de justiça ela pode querer? – Kate se manifestou – Ele já está preso, pagando pelo crime que cometeu, no pior tipo de inferno que pode haver na Terra.
- Eu não sei, talvez a outra palavra nos ajude a entendê-la melhor...
- Qual é a outra palavra?
- Ela escreveu alguma coisa que começava com onschul-alguma coisa... E também sussurrou no meu ouvido essa aí.
- Tudo bem. – Kate acenou com a cabeça, virando com rapidez as páginas até chegar à letra “O” – Seria isso? – perguntou, quando seu dedo de unhas vermelhas, mais uma vez, apontou uma palavra na página, agora no meio dela.
ONSCHULDIG se destacou como se fosse aquelas letras em seu velho batom rosa perdido no meio do gramado do St. Marcus. A tradução piscou como neon do verde mais chamativo.
INOCENTE.
- Inocente? – Kate foi a primeira a falar.
encontrava-se atônita demais para tanto. Incrível o poder das palavras. Principalmente o daquela específica, de apenas oito letras e quatro sílabas. O furacão de pensamentos que causou em sua cabeça era digno de um desastre destruidor de uma cidade inteira.
- Isso quer dizer que ela quer justiça porque era inocente e foi morta daquela maneira brutal ou... – Kate voltou a falar.
completou quando finalmente recuperou a capacidade de se expressar.
- Ou ela quer justiça porque ele é inocente e não foi o responsável pelo seu assassinato brutal.
As duas, então, se encararam. Os olhos meio arregalados, as bocas meio entreabertas. As íris das duas transpassavam as mesmas dúvidas, como se trocassem figurinhas repetidas.
- Se for isso mesmo, nós temos um sério problema! – Kate disse. E soou preocupada pela primeira vez.
- E como é que vamos saber o que ela quer dizer realmente? Eu não tenho ideia de como me comunicar com uma morta! Eu nem sei se isso é possível, pra começo de conversa! Nem sei se acredito nesse tipo de coisa!
- Eu tenho uma ideia. – Kate disse, fechando o livro em seguida – Mas vamos sair daqui antes que sejamos pegas e eu te conto. – completou, quando caminhou até a prateleira de onde o havia retirado e o colocou cuidadosamente no lugar.
As duas saíram calmamente do escritório do doutor Thompson. ainda sentia-se uma criminosa enquanto caminhava pelo corredor, em silêncio, deixando que todas as ideias sobre aquele que não queria lembrar o nome tomassem sua mente outra vez mais.
Quando chegaram à recepção do prédio administrativo, foram surpreendidas pela entrada agitada do doutor Thompson, que caminhou ansioso até elas quando as enxergou. Não puderam deixar de trocar um olhar preocupado por um segundo.
- Ah, esse encontro com vocês duas vem a ser muito oportuno! – bradou ele quando se aproximou.
- Algum problema, doutor Thompson? – foi Kate quem perguntou.
- Na verdade, temos sim um problema, e vem a ser no helvete.
- Outra briga? – Kate perguntou novamente.
- Não, por incrível que pareça, dessa vez não é uma briga. Temos um paciente causando certo transtorno em sua transferência para o prédio B.
Ao fim da frase do doutor Thompson, sentiu a espinha gelar. E um péssimo pressentimento deixar seus músculos rígidos e sua barriga tomada por um frio vergonhoso.
- Quem?
- está requisitando sua presença no helvete, doutora . – doutor Thompson ignorou a pergunta curiosa de Kate e se dirigiu diretamente a .
Seu estômago deu três voltas ao ouvir o nome dele.
- Como assim? – forçou um sorriso. Estava nervosa.
- Ele se recusa a ser transferido até que tenha a oportunidade de conversar com você em sua cela.
engoliu em seco e sentiu cada mínima célula do corpo arrepiar quando pensou na possibilidade de estar sozinha com em sua cela no helvete. Seus instintos e hormônios falaram mais alto do que sua razão mais uma vez e antes que se desse conta, estava acenando afirmativamente com a cabeça.
Vinte e Dois – O inferno se converte em paraíso
[N/A: Música do capítulo: Gorgeous Nightmare – Escape The Fate. Dá o play no “JÁ!”]
O coração batia tão forte e acelerado contra as costelas de que lhe passava uma intensa e quase real sensação de dor. Dor de ansiedade, que deixava seu peito cheio de algo que o queimava como se por aquela região corresse ácido em lugar de seu sangue. Ou talvez fosse seu fluido vital fervendo verdadeiramente. Toda aquela reação urgente que beirava o desespero só lhe dava a simples e crucial impressão de que estava viva. O ar que lhe entrava pelas narinas e chegava aos pulmões nunca lhe pareceu tão necessário.
Era ele.
Era por causa dele que seu organismo se encontrava tão ridiculamente agitado, saindo de sua rotina. Era por causa dele que seu psicológico se encontrava tão desequilibrado quanto jamais antes esteve.
Era por causa deleviva.
E não havia nada que pudesse fazer para evitar. Já estava perdida. E talvez não houvesse mais um jeito de se achar.
As mãos suavam e ela não via jeito de parar de remexer os dedos entre os fios de cabelo. Queria evitar pensar que tentava melhorar o visual relaxado de um dia de trabalho. Suas intenções não deveriam se voltar para o simples deleite dele, e mais uma vez ela se via sem alternativas para contornar tal situação. A julgar pelo acontecido do dia anterior, não deveria jamais, sob qualquer hipótese, se permitir vê-lo em circunstâncias distintas das obrigatórias consultas – sob a supervisão do guarda brutamontes, de preferência.
Talvez fosse mais sensato pedir ao doutor Thompson que o mudasse de médico mais uma vez, e que dessa fosse definitiva. Mas qualquer vestígio de sensatez havia ido embora quando seus lábios tocaram os macios e cheios dele pela primeira vez. Agora era refém do lado irracional de sua consciência, o que era de maneira imprudente dominado pela libido, enganado pelas sensações de intenso prazer e frio na barriga que aquele misterioso prisioneiro era mestre em provocá-la.
Então mesmo que tentasse, não seria capaz de impedir seus passos lentos e incertos que a levavam na direção do helvete. Não era forte o bastante para tanto. E algo lá no fundo lhe dizia em uma voz irritante que ela não queria realmente fugir. Talvez quando lá chegasse, tentaria fingir para si mesma que não queria o mesmo que ele, talvez tentasse negar o quão enlouquecida estava por ele e talvez essa falsa rejeição só instigasse tudo a um nível mais elevado.
Perversão a mais, malícia a mais, hormônios a mais, insanidade a mais, nervos a mais, então estaria tudo perdido mais uma vez.
É claro que o que obrigava a si mesma a acreditar era que ele queria apenas conversar, mas sabia também, lá no fundo, que nenhuma das atitudes dele eram tomadas de inocência. Talvez fosse esse o maior motivo do frio na barriga, da ansiedade, das mãos suando, do coração batendo rápido como se fosse sair pela boca...
não era inocente quando se tratava de .
Tudo nele inspirava segundas, terceiras e quartas intenções, e esse fator a deixava com frequência de pernas bambas.
A entrada sombria do helvete se materializou na frente de , como se de repente se erguesse das entranhas da grama fofa e verde do jardim do St. Marcus. Viu sua mente vacilar, particularmente assustada, quando se deu conta de que havia chegado ao seu destino. O ar ao redor daquele imponente e sempre assustador edifício era pesado de uma forma tão natural que chegava a ser irônica.
Cinco guardas comparáveis ao armário em seu quarto a observavam atentos e ameaçadores do alto da escada de pedra envelhecida e coberta de musgo. Os pesados rifles eram seguros com firmeza nas mãos. só tinha estado no helvete uma única vez, mas se lembrava com clareza da sensação de carregar um piano nas costas a cada passo que dava e se aprofundava mais entre as paredes imundas e mal cuidadas. Não poderia haver no mundo melhor representação do que seria um inferno. Era quente, abafado, escuro e a atmosfera negativa que o envolvia tinha o poder de deixar qualquer um mais desavisado em estado de passageira depressão.
Ao subir cada degrau em direção à sua imponente porta de entrada, a sensação era a de que estava sendo levada à forca. Foi somente quando se lembrou do motivo de estar ali, após passar pelos alarmados guardas, que o aperto no peito passou. E voltou a dar lugar àquela ansiedade misturada com um gostoso e perigoso frio na barriga.
- Doutora ? – perguntou um homem tão corpulento quanto os demais, apenas com uma aparência mais amigável.
Era mais velho também. Tinha os cabelos brancos e uma barba por fazer de mesma cor. o reconheceu imediatamente. Era Pete, o carcereiro chefe.
- Eu mesma. – ela forçou um sorriso.
- a está aguardando. – foi o que ele disse, analisando-a com um ar enigmático por alguns segundos, chamando com o dedo em seguida.
se lembrava com precisão qual era a cela daquele que a chamava. A imagem de lhe apontando a porta de ferro travada automaticamente quando fechada lhe veio à cabeça, então ela seguiu Pete pelos corredores compridos, largos, que pareciam não ter um fim. Ou o fim seria um abismo. Era tudo negro no final de cada um deles.
Os prisioneiros nas celas se agitavam ao vê-la passar. Alguns se manifestavam com palavras do nível que Jhonnatan Reagan seria capaz de proferir. Outros continuavam com seus atos metodicamente lunáticos. E poucos observavam em silêncio, com curiosidade e atenção. preferia fingir que não havia ninguém ali. Nem aquele bando de psicopatas lunáticos, nem aquele bando de guardas que não provocavam menos arrepios do que os pacientes, nem o carcereiro chefe que a deixava tão instigada a saber a razão de ter o privilégio de ouvir as palavras daquele que preferia não pensar no nome.
Talvez não conseguisse terminar seu caminho se desse realmente conta a seu cérebro de onde estava. O instinto de sobrevivência e manutenção de sanidade falaria mais alto, então ela sairia correndo como uma vítima desesperada foge de seu assassino. A ironia do pensamento a fez sorrir nervosa, ao mesmo tempo em que chegava à cela com o número treze pintado em branco na porta negra.
- Fique à vontade... – foi o que Pete lhe disse, sorrindo de soslaio.
Ele apertou o botão vermelho ao lado da porta, que a destravou e revelou o interior do que lhe pareceu um pequeno, porém aconchegante quarto de hotel.
lhe encarou desconfiada por alguns instantes, se perguntando se ele sabia do acontecido do dia anterior. Preferia pensar que não. Então respirou fundo e deu os dois passos que a colocaram para dentro de uma cela do helvete.
Uma cela que diferia completamente das demais, ela pôde constatar assim que observou com calma e atenção seus arredores. As paredes eram brancas e limpas. Uma cama de solteiro, aparentemente macia, estava encostada na parede à direita. A colcha azul estava desarrumada. À sua esquerda, havia um armário maior do que o que ela própria dispunha em seu quarto. Uma escrivaninha estava na parede oposta à janela protegida por barras de ferro da grossura de seu braço. Um único caderno de capa de couro preto era disposto ali.
A segunda coisa que constatou foi que não havia ninguém por perto. Constatação derrubada por chão quando, ao se virar na direção de Pete para avisar que o prisioneiro não estava ali, a porta se fechou em uma lentidão que não lhe pareceu real por um instante.
O corredor escuro e imundo do helvete foi desaparecendo aos poucos. O fato de que estava agora trancada em uma cela do helvete foi anunciado pelo baque surdo e metálico da porta quando ela finalmente se trancou. O cheiro de podridão e sangue deu lugar ao perfume amadeirado que lhe impregnara de forma tal no dia anterior que não houve banho que lhe livrasse.
fechou os olhos e inalou aquela fragrância como se dela dependesse, como se a ela fosse presa por um vício. Esse momento absurdo de distração durou muito pouco, entretanto. Apenas os poucos milésimos de segundos que sua consciência levou para se dar conta de que estava presa em uma cela do helvete. Com um prisioneiro que era anunciado antecipadamente por seu perfume e pelo calor que já começava a percorrer o corpo de .
Ela hesitou, mordendo o lábio inferior com uma força além da necessária, antes de respirar fundo e dar o passo ao lado que a permitiria virar para trás. Encontrou o que esperava, encostado na parede ao lado da porta, o braço ainda esticado pelo movimento que fizera para trancá-los ali. O sorriso sarcástico que lhe era peculiar agora era tomado toda e completamente pela malícia.
estremeceu com isso.
E perdeu completamente o controle sobre as pernas quando seu olhar recaiu sobre os olhos dele que brilhavam exalando a ânsia e luxúria de suas intenções.
Não haveria conversa alguma ali.
Não se ele pudesse evitar.
Principalmente levando em conta o fato de que, na maioria das vezes, ele preferia evitar o uso das palavras. Fato era que seu olhar dizia muito mais do que qualquer palavra que pudesse ser dita. não precisava lembrar a si mesma que era essa uma das qualidades (ou defeitos) dele que mais a atraía e a deixava cativa dele. E bem, ali estava ela, mais uma vez, sem qualquer reação ou perspectiva de demonstrar alguma. Os pés estavam fincados no chão como se presos ao concreto. O olhar não era capaz de desviar do dele. Ela não soube de onde veio a força para controlar suas cordas vocais quando falou:
- O que você quer, ?
Falar o nome dele lhe causava um rebuliço interno. Era gostoso e assustador ao mesmo tempo.
Ele cruzou os braços e pendeu a cabeça levemente para o lado antes de responder. Seu timbre soou mais provocativo do que todas as suas atitudes mal intencionadas haviam soado até ali.
- Preciso mesmo falar, doutora? – e a sobrancelha esquerda arqueou quando ao final da frase ele abriu outro sorriso malicioso que repuxou o canto de seus lábios.
- Olha, , eu não tenho tempo para os seus joguinhos de sedução baratos! – lutou para adotar uma postura firme pouco convincente – Estou em horário de trabalho e tenho certeza de que há muitos outros pacientes precisando de mim enquanto você está me fazendo perder tempo aqui e...
- Joguinhos de sedução baratos? – a interrompeu.
E sua voz soou fria, de modo que deixou arrepiada. O cenho franzido e olhar claramente ofendido a fizeram recuar um mínimo passo.
Ela hesitou por um segundo. Talvez se o ofendesse ainda mais, se o deixasse irritado, ele a deixaria sair e desistiria de seu plano absurdo e absolutamente tentador. Ela só precisava de uma brecha para se livrar daquela bolha de tensão sexual em que ele a prendia com tanta naturalidade, então seria capaz de fugir. A voz falhou quando ela falou:
- Sim... Joguinhos de sedução baratos! – cruzou os braços e essa atitude fez rir divertido, como se ela tivesse acabado de contar uma boa piada. não gostou.
- Se minhas técnicas de sedução fossem tão baratas assim, você teria caído em todas elas?
engoliu seco então, visivelmente desconcertada. Tinha que admitir que ele era muito bom no que fazia e que quando falava, geralmente a deixava sem a resposta afiada que ele sempre tinha para ela. Isso era frustrante e, ao mesmo tempo, irritantemente sexy. Claro que ela não admitiria algo tão vergonhoso em voz alta, mas sua consciência tinha pleno entendimento de tal inevitável fato.
- Como você chama o que faz comigo então? – perguntou, e no segundo seguinte se arrependeu amargamente. Antes de ao menos receber a resposta mal intencionada e maliciosa dele.
A verdade é que ela tendia a falar besteiras demais quando o interlocutor da conversa era . Sempre se sentia uma menininha inocente assustada pela astúcia do psicopata.
- Eu tenho várias denominações de como eu deixo você com a minha sedução barata, doutora... Louca de desejo, com os hormônios explodindo, sedenta por sexo... Você é quem escolhe!
- Seu atrevimento é tanto que eu nem sei se consigo ficar irritada! – foi o que respondeu.
- Claro que não consegue ficar irritada, doutora! Você adora!
- Arrogância, impertinência, orgulho... Como você vive com você mesmo, ?
- Não vivo nos últimos três anos. Venho tentando fugir todos os dias.
parou nesse instante. Mais uma vez, a seriedade havia baixado sobre os dois. já não tinha mais o sorriso espalhando malícia para quem quisesse figurando em seu belo rosto. A sobrancelha já não se arqueava mais e seu tom de voz era a pura expressão do rancor. Ela o encarou por longos segundos, sentindo quase tudo o que ele sentia.
O mundo parou ao seu redor. Se pegasse fogo, talvez não houvesse qualquer reação. Eram apenas os dois ali, naquela já costumeira bolha de tensão. Uma pessoa que sofria, era o que podia ver no fundo daqueles olhos . E apesar disso, ainda havia um fio de esperança escondido em algum lugar por ali. podia senti-lo, como uma chama que queima precária, porém ainda viva, só à espera de alguém para alimentá-la. E ela sabia que era a responsável por manter a frágil chama acesa, era a responsável por trazê-la de volta à exuberância que lhe fora tão brutalmente tomada. E o peso da responsabilidade caiu sobre sua cabeça como uma bigorna de algumas toneladas. Medo foi o que veio logo em seguida. A verdade é que quando se tratava de , o medo disputava acirradamente com a luxúria pelo controle da razão de .
Ela respirou fundo antes de continuar:
- Olhe, ... Se está precisando conversar comigo, ótimo, sou toda ouvidos... Mas não acontecerá nada além disso aqui. – ela cruzou os braços mais uma vez e esperou que sua tentativa de parecer firme quanto à sua posição surtisse efeito.
- Tudo bem então, doutora. Eu tenho um joguinho para propor. – também cruzou os braços e acompanhou sua sobrancelha esquerda arquear naquele tom de malícia.
- Não vou jogar nada com você, .
Ele soltou uma risada debochada e cerrou os olhos.
- Eu tenho a leve impressão de que você está disposta a fazer qualquer coisa que eu te proponha, doutora.
- Eu realmente não sei de onde você tira essa ideia de que tem controle sobre mim.
- Não é uma ideia, é pura realidade, .
Ao ouvir seu nome dito pela voz dele em um tom tão sujo e ao mesmo tempo doce, teve que sucumbir a um leve e delicioso arrepio. Durou pouco o momento em que ela fraquejou e quase admitiu que era fraca. Fraca por ele e toda a sua atitude sexual. não perdia nada, entretanto.
- Está vendo? Eu digo seu nome, você quase se derrete. – o sorriso dele era grande e convencido.
- Impressão sua. – deu de ombros.
- Acho que não. – negou com a cabeça, mas não se moveu um único passo.
A distância começava a deixar nervosa, e ela nem tinha ideia do motivo de tal incômodo. Não queria pensar nisso também. Não queria pensar no fato de que ela queria o mais próximo possível. E essa constatação lhe deixou levemente irritada.
- A psiquiatra na sala sou eu, e não você. Pare com essa mania de achar que pode me entender!
- Não tenho culpa de você ser um livro aberto. E eu adoro ler, aliás. – piscou.
engoliu em seco, pois naquele particular momento, aqueles dois faróis pareciam reluzir mais do que uma estrela em noite de céu negro.
- Infelizmente, eu não estou interessada na leitura que você quer fazer da minha vida, obrigada.
- Mas no joguinho que eu quero propor você está?
- Ainda não desistiu disso? – rolou os olhos de forma dramática – Não. Também não estou interessada.
- Não quer nem ouvir a proposta?
- Vinda de você? – ela riu em deboche – Não espero nada menos elegante do que... Strip Poker, ou seja lá como chamam isso.
riu, uma risada gostosa e satisfeita, e poderia jurar que o mundo pareceu mais colorido naquele instante. Ele sorria e ela parecia completa, porque a felicidade dele lhe pareceu uma prioridade intocável naquele instante. E ela não conseguiu censurar tal pensamento a tempo de ele não ser realmente analisado.
- Eu adoraria jogar Strip Poker com você, doutora, mas acho que terá que ser em outra ocasião. – torceu os lábios como em decepção.
- Esse é o tipo de coisa que nunca vai acontecer, pode apostar, !
- Nunca diga nunca, doutora. – ele piscou.
- Você é um clichê ambulante, sabia? – levou as mãos à cintura.
Naquele momento, estava mais irritada com a impertinência dele do que com o fato de que estava morrendo de vontade de ser agarrada por ele.
Outro pensamento que não foi preso pelo filtro de sua consciência.
- Eu aposto que você é daquelas que sonha com o príncipe encantado no cavalo branco. Quer algo mais clichê do que isso?
- Péssima impressão sobre mim, .
- Posso reformular então... Você é daquelas que sonhava com o príncipe encantado no cavalo branco.
- E agora? – perguntou.
E se arrependeu logo em seguida. Fazer perguntas a era como caminhar em um campo minado.
- A dura realidade é que eu estou preso e todos acham que eu sou um psicopata sem coração, então a fantasia se tornou um pouco deturpada, não é mesmo?
- Está insinuando que você é o meu par ideal?
- Não, estou afirmando que eu sou o dono dos seus sonhos.
teve que rir. Mais de nervoso do que o intencionado deboche. A verdade é que ela engoliu em seco e desviou o olhar, com medo de se entregar. Que era o dono de seus sonhos, não havia qualquer dúvida, mas ele não precisava saber disso. Embora já estivesse completamente convencido. Se ele soubesse o tipo de sonho em que estava envolvido, talvez retirasse seu time de campo...
Mas jamais iria trazer tal assunto à tona. Então preferia que ele pensasse o que quisesse sobre seus sonhos, clichês e príncipes em cavalos brancos.
- Psicopatas não sentem, .
- Não estou falando de sentimentos aqui, doutora. Estou falando da libido. Já ouviu falar dela? – descruzou os braços, apenas para guardar as mãos nos bolsos.
Nenhum de seus movimentos, entretanto, era na direção de . A essa altura, ela estava à beira de um colapso nervoso. Enquanto suas palavras tentavam afastá-lo, seu corpo gritava pelo dele.
- Então você admite que é um psicopata? Esse é um grande passo, . – ela arqueou uma sobrancelha e, pela primeira vez, pareceu firme de verdade.
- Você acredita mesmo nisso?
- Em quê?
- Que eu matei Barber e não tenho um pingo de remorso. Acredita nisso?
parou por um instante. Tudo o que lhe veio à cabeça foi a imagem fantasmagórica de Barber Paay dizendo que era inocente. Ou pelo menos foi assim que escolheu interpretar enquanto não tinha a chance de se comunicar verdadeiramente com ela.
- Isso não vem ao caso. – foi o que respondeu logo em seguida, com medo de deixar que suas reais intenções transparecessem.
Não era correto naquele momento dizer a que andara vendo o fantasma de sua ex-namorada assassinada.
A reação de à resposta evasiva de não foi nada além do esperado. Uma risada debochada, um arquear de sobrancelhas e um olhar recheado de ironia e malícia.
- Eu entendo você, doutora... O perigoso sempre é mais atraente, não é?
- Não sei do que está falando. – se agitou em seu ponto solitário no meio da cela de .
O fato de que o queria agora fazia sua pele formigar de ansiedade. E o fato de que a sua racionalidade o queria bem longe lhe deixava trêmula e de mãos suadas.
- Posso assegurar, doutora, que o único distúrbio psicológico que eu tenho é essa obsessão maluca por você.
Outra vez, teve que engolir seco. E sua respiração parou por um instante, à medida que ela prendia o fôlego. Ou que perdia o fôlego. tinha esse maravilhoso poder de roubar de qualquer coisa que lhe dava vida. Porque ele mesmo poderia ser sua fonte de vida, ela quase tinha certeza disso.
- E-Eu... – pigarreou, antes de achar a voz para continuar – Acho que isso precisa ser tratado. Imediatamente. – ela afirmou com a cabeça e guardou as mãos, que suavam em bicas, nos bolsos do jaleco.
- Eu não quero ser tratado, doutora. Pelo menos não disso. Pensar em você o tempo todo, desejar você o tempo todo... São as únicas coisas que ainda me fazem sentir vivo de verdade.
- Isso... Isso não faz sentido, . – sorriu nervosa.
O coração batia tão acelerado que saltaria por seu peito a qualquer segundo, ela tinha certeza. Uma estranha sensação de estar em queda livre fazia o sangue ferver e os poros sucumbirem aos arrepios. Era uma maravilhosa sensação, tinha que admitir.
- Eu sei, eu... Eu sei que na maioria das vezes ajo como um... Pervertido sem cura, mas é inevitável, é o tipo de loucura a que meu desejo por você me leva...
- Eu não vou nem dizer que uma abordagem mais sutil seria a ideal. – riu nervosa, mais uma vez, e então rolou os olhos.
- Não consigo ser... Sutil quando se trata de você. É como se meu lado animal de homem comandasse tudo, entende? Não consigo evitar. Você desperta o que há de pior em mim. E ao mesmo tempo o que há de melhor também. É como se eu pudesse finalmente revelar meu verdadeiro eu. E isso nunca aconteceu antes. Com ninguém. É só por causa de você, doutora.
Quando terminou seu discurso, percebeu que mais uma vez esteve prendendo o fôlego durante todo aquele tempo. Quando o ar entrou por seus pulmões, ela se sentiu leve como nunca antes. Sentiu-se bem, feliz, desejada... Amedrontada. Era impossível não se intimidar pelas palavras belas e insanas que saíam da boca de . não sabia o que pensar, o que fazer... Sua cabeça rodava em um caos confuso de desejos e temores. a enlouqueceria e não demoraria a acontecer.
- Já que... Já que... Conversamos... Acho... Acho que... Posso ir. É. Já... Está na hora... Na hora de ir.
A postura de se transformou novamente naquela tentativa patética de parecer determinada. Ela mesma achava que a única coisa que conseguiria com aquilo era convencer do quanto indeterminada era.
- Acha mesmo que vou te deixar sair daqui, doutora? Você não é tão ingênua assim... Além do mais, ainda nem brincamos do meu jogo...
- O que quer de mim, ?! – deixou escapar, e em sua voz havia um leve tom de desespero.
Seu coração disparado estava apertado em angústia e ansiedade. Mais um sinal de que o colapso nervoso se aproximava se ela não fizesse nada para impedi-lo.
Havia duas opções: se entregar a ou dar um jeito de fugir dele. Naquele momento, ela não tinha ideia do que fazer.
- Quero você, pura e simplesmente. – ele disse.
O modo sereno e decidido com que suas palavras reverberaram por aquelas paredes frias causou uma onda de arrepio em . Ela estremeceu e o contato visual daqueles dois orbes , que brilhavam em desejo e luxúria, não deixava o dela se desviar. As correntes de a estavam prendendo e a cada minuto que passava, ficava mais difícil quebrá-las. Logo seria tarde demais...
- Não posso ser sua. – respondeu, sua voz saiu baixa e fraca.
- Talvez não possa, realmente, mas você quer. E é isso o que conta, não é mesmo? – ele sorriu.
respirou fundo.
- Seria tão mais fácil se você fosse apenas meu paciente. Era tão mais fácil quando você não falava...
- Posso me calar se quiser, doutora, mas não vai mudar o fato de que você será minha.
- Por favor! – ela fechou os olhos e levou as mãos à cabeça – Pare com isso!
- Você deve saber que eu não vou desistir. Você pode sair hoje daqui sentindo-se realizada porque conseguiu resistir a mim, mas não faltarão oportunidades de te provar que a sua realização é uma mentira. E eu tenho certeza de que a sua satisfação depois de estar comigo vai ser milhões de vezes maior.
riu e o nervosismo transformou sua risada que deveria ser irônica em uma trêmula e insegura.
- Por que eu não posso ser uma médica normal, com pacientes normais?
- Tudo bem, doutora, me analise!
- Se as coisas fossem tão simples quanto você faz parecer...
- As coisas são simples, doutora, você adora complicá-las. – sorriu e foi singelo o gesto, não malicioso como sempre.
resistiu ao impulso de sorrir em retorno, apenas porque ele sorria. Era como se o sorriso dele puxasse o dela a se abrir, como um poderoso ímã.
- Homens tendem a achar que as mulheres complicam as coisas, mas eles nunca analisam as situações com um pouco de racionalidade.
- Mulheres complicam demais justamente porque analisam demais. – foi o que ele respondeu, e então caminhou na direção da escrivaninha.
Quando passou por , intoxicou seu olfato sensível com o perfume marcante que não saía da cabeça dela. Por um momento, ela se permitiu inspirar com força o ar ao seu redor, mas quando ele voltou a encará-la naquela intensidade de sempre, voltou ao estado normal de negação. Para todos os efeitos, o perfume de não causava qualquer reação física e psicológica nela.
- Sente- se, doutora. – apontou sua cama.
- Não quero me sentar. – protestou e fechou a expressão em uma carranca impaciente.
A verdade é que sentar no local em que ele dormia parecia íntimo demais para alguém que tentava fingir que não estava bastante tentada a se deitar ali.
Ao lado dele.
Com ele.
Para fazer sabe-se lá quais tipos de loucura.
acordou do transe de seus pensamentos dominados por hormônios com a voz dele voltando a soar no tom sexualmente malicioso.
- Como quiser, . Fique em pé, mas acho que pode se cansar.
- O que está tentando fazer? – o nome dela na voz dele, mais uma vez, foi capaz de causar um arrepio.
- Conversar. Já que a abordagem selvagem não está funcionando, vou tentar a sutil. Quero saber mais sobre você.
riu e coçou a testa, assimilando o absurdo daquela proposta.
- Era esse o joguinho que estava tentando fazer?
- Basicamente, mas tive que operar algumas mudanças. A regra de tirar a roupa foi vetada dessa vez. – ele piscou e pareceu um moleque maroto.
sorriu com aquilo e nem teve conhecimento da razão. Não queria ter, na verdade. Nem quis resistir como antes. O simples fato de ele fazê-la sorrir com simples coisas deixava seu peito inchado com algo que parecia bom demais para ser realidade.
- Você deveria fazer mais isso...
- Isso o quê? – franziu o cenho, confusa.
- Sorrir. – observou, e o sorriso que se abriu em seus lábios pareceu verdadeiramente sincero, apenas porque ele apreciava o fato de estar feliz. Pelo menos momentaneamente. – Você tem um sorriso lindo. É até um crime me privar de vê-lo aparecer.
- Não é como se eu fosse uma pessoa carrancuda o tempo todo e nunca sorrisse... – protestou. O sorriso foi embora porque suas bochechas passaram a corar. Ela ainda estava tentando assimilar o elogio que acabara de receber.
- Você não sorri com frequência perto de mim.
- E nós dois sabemos o motivo.
- Eu sei. Só não concordo com ele. – deu de ombros – Correndo o risco de parecer brega aqui, eu só queria dizer que você fica... Radiante quando sorri.
- Mais um momento clichê de ... – rolou os olhos, apenas para disfarçar o fato de que teve vontade de suspirar com a declaração simples e batida dele.
A verdade é que, àquela altura, vinda dele, qualquer declaração brega parecia um soneto Shakespeariano.
- Qual o seu problema com os clichês, doutora? Algum ex-namorado-príncipe-encantado-do-cavalo-branco totalmente clichê partiu seu coração? – ele perguntou, de modo que fez parecer o assunto totalmente casual.
, entretanto, não gostava do assunto. E a julgar pelo próprio passado amoroso, também não deveria gostar.
- Muito esperto, . – foi o que ela respondeu.
Trocava o peso de pé o tempo todo. Ainda estava tentando ignorar o fato de que logo cansaria e teria que sentar na cama dele.
- Esperto por quê? – ele sorriu novamente. Os braços cruzados na frente do peito a partir dali passaram a destacar os músculos tatuados de seus braços, torneados pela camiseta preta simples e justa que vestia.
Por um instante, perdeu o juízo na análise daquelas linhas coloridas que formavam diversos desenhos e inscrições que ela não era capaz de decifrar. Ela quis perguntar o que tudo aquilo significava, mas temia abrir brecha para uma pergunta de mesmo teor. Tatuagens poderiam ser coisas muito íntimas, e intimidade era algo que ela preferia não compartilhar com .
- Está dando voltas até me fazer cair no seu joguinho de perguntas e respostas.
- Eu preciso tentar, não é mesmo?
- Não vamos jogar uma versão pornô de verdade ou desafio, pode esquecer!
- Eu já disse que a parte de tirar a roupa pode ser esquecida. – ele fez um bico de uma criança desapontada. conseguiu conter o sorriso dessa vez – Qual o grande mal de eu querer saber sobre seu passado?
suspirou por um instante, sendo vencida pela vontade de se sentar na cama de . O colchão macio lhe apoiou e ela levou as mãos aos lençóis de seda que lhe cobriam. Um luxo que ela não esperava encontrar.
- Lençóis de seda em um manicômio judiciário... – ela comentou enquanto assistia seus dedos deslizarem sobre as dobras do tecido nobre – Interessante...
- Minha mãe pode ser bastante... Cuidadosa quando quer. – ele torceu os lábios, como se não concordasse com aquela medida.
- Sei como se sente.
- Olha só! Temos uma evolução aqui! Um comentário sobre a proteção exagerada das mães... Conte sobre o excesso de cuidado da sua!
- Eu não vou falar sobre o meu passado, . – respondeu, curta e grossa. O sorriso satisfeito que estava nos lábios dele foi sumindo aos poucos.
- Por que não?
- Porque não tem nada de interessante nele.
- Tenho certeza de que eu vou achar interessante.
- Não, não vai. – ela cruzou os braços e fechou a cara – Além do mais, eu sou paga para ouvir sobre você e não para contar sobre mim para você.
- Esse papo de ética no trabalho não combina mais com você. Transar com um paciente em tratamento não é exatamente um exemplo de comportamento, não é mesmo?
- Você não precisa ficar lembrando isso o tempo todo.
- Não é como se eu fosse capaz de esquecer... – abriu outro sorriso, e dessa vez era daqueles recheados de malícia – E nem você. – então ele piscou.
engoliu em seco e pigarreou antes de continuar. Suas bochechas pegavam fogo.
- Que tal mudar de assunto? Que tal... Contar você sobre o excesso de cuidados da sua mãe?
a analisou por alguns instantes, e dessa vez havia um sorriso misterioso escondido no canto de seus lábios. Ele não aparecia, mas sabia que estava ali, porque nos olhos dele havia um brilho distinto. Então ele finalmente respondeu:
- Eu costumava gostar do luxo, hoje em dia eu encaro como um excesso de cuidado.
- Você era um menino mimado, então? – sorriu e se ajeitou no colchão.
A verdade é que estava corroendo de curiosidade para saber tudo o que pudesse sobre ele. Seu interesse por talvez fosse obsessivo também, ela ainda não tinha condições de diagnosticar. O fato de que era difícil pensar perto dele jamais era ignorado.
- Era uma das muitas definições que eu recebia. Para a maioria das mulheres, era “cafajeste sem coração” e coisas de nível mais baixo que eu prefiro não reproduzir na frente de uma dama distinta.
- Você partiu muitos corações, ?
- Mais do que tenho conhecimento, provavelmente. Mas não me orgulho disso. Não mais. – ele ficou sério e se remexeu inquieto em sua posição.
- Sabe o que te fez mudar de ideia sobre tudo?
- Ver Barber morta naquela árvore não foi exatamente um dos melhores momentos da minha vida... – o tom dele foi levemente cínico.
balançou a cabeça em negação e ganhou em troca um olhar confuso.
- Você só mudou a sua posição em relação a tudo porque se viu preso em uma situação completamente diversa de tudo o que já havia experimentado antes. A sua natureza é extremamente egoísta, , e não fico feliz em saber que tenta disfarçar isso dizendo a si mesmo que o fato de Barber ter sido assassinada daquela forma é o real motivo da sua mudança. Nós dois sabemos que a reviravolta aqui dentro do St. Marcus aconteceu porque você finalmente teve conhecimento do que é realmente o mundo. Da sua mansão em Londres parecia tudo muito distante, não parecia?
finalizou seu discurso e esperou pacientemente pela resposta de . Por um longo instante, ele se limitou a encará-la, e o modo como fazia parecia queimar a pele dela. A sensação, apesar de intensa e pesada, era deliciosa. Ela não tinha ideia do que se passava pela cabeça dele naquele longo momento de reflexão, mas pela primeira vez não teve medo do que estava por sair de sua boca.
Quando finalmente respondeu, conseguiu respirar com calma outra vez.
- Eu não... Eu realmente acredito que o assassinato de Barber mudou alguma coisa na minha vida.
- Partindo do princípio de que você não matou Barber... E isso é apenas uma suposição! – reiterou, quando ele pareceu querer sorrir – Você foi preso injustamente, é claro que o fato de ela estar morta mudou a sua vida! E eu entendo que a única mudança que isso causou em você foi a revolta e o seu fechamento para o mundo exterior.
- Talvez você tenha razão... – ele suspirou longamente.
- Mas eu vejo você tentar operar uma mudança em toda essa situação...
- Antes de você aparecer na minha vida, a última coisa que eu buscava era uma mudança de atitude. A verdade é que você me faz querer ser um homem melhor, doutora.
gostaria de poder ter um controle melhor sobre suas atitudes, mas era fraca demais para tanto. Antes que se desse conta, a informação havia sido processada em seu cérebro entorpecido por e ela estava sorrindo com um tom avermelhado de vergonha tomando todo o seu rosto. A reação seguinte foi abaixar a cabeça enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha. E ela ainda queria parecer desinteressada...
acompanhou todas as ações tímidas de com um meio sorriso nos lábios.
- Você cora com tanta facilidade... – foi a observação que ele fez, e apenas causou o acúmulo de um fluxo ainda maior de sangue na região das bochechas dela.
- Pare com isso, ! – ela pediu, tentando transpassar seriedade. No momento, parecia quase impossível.
- Eu aprecio sua sensibilidade, doutora. Se começar a contar sobre o quanto meu pai e eu éramos ligados e sobre o abandono dele quando fui condenado... Arrisco a dizer que te veria chorar.
- Isso é algo que você nunca, jamais, vai ver na sua vida! – retrucou e conseguiu finalmente ser firme.
- Realmente, doutora, ver você chorando não é algo que eu deseje.
- Argh! Por que você sempre contorna a situação e te faz parecer um romântico incurável e eu a insensível sem coração?
- Eu sou um grande manipulador, ainda não te contaram? Ou você ainda não foi capaz de diagnosticar? Esqueceram de receitar um remédio para isso.
- Eu sei que você é um daqueles rebeldes que escondem o remédio embaixo da língua para enganar as enfermeiras e depois joga fora.
- O que é isso, doutora? – fingiu estar ofendido, mas um sorriso maroto não deixou de acompanhar a reação dramaticamente exagerada – Se eles querem me dopar, quem sou eu para dizer não?
- Isso está muito errado. – abanou a cabeça, fingindo preocupação.
- Eu sei que você é a última que vai me dedurar, sabe que eu não preciso de nenhum desses remédios.
- Prefiro não entrar no mérito da questão. – tratou de responder rapidamente – Contanto que você continue cooperando comigo nas sessões...
- Eu não vou deixar de cooperar com você, doutora. – ele piscou. cerrou os olhos.
- Ótimo, então... Fale sobre... A sua infância... – ela pediu, contando com o fato de que, se o mantivesse falando, ele esqueceria que queria levá-la para a cama.
A parte difícil é que ela mesma não esqueceria que, de momento, queria ser lavada para a cama por ele. Mas não poderia dizer como estaria sua consciência dali a cinco minutos.
- Foi uma ótima infância, na verdade... Muito feliz, nada de dramas familiares... – deu de ombros.
- Barber esteve sempre presente?
- Sim, desde que eu me conheço por gente. – esticou os braços atrás da cabeça, de forma relaxada.
O modo com que ele falava da pobre Barber Paay dava a impressão de que ela ainda estava viva e bem. Era estranho, tinha que admitir.
- Houve um tempo em que foi só amizade ou vocês são prometidos desde o berço?
- Está com ciúmes, doutora? – abriu um sorriso esperto.
corou e piscou em velocidade acima do seguro para alguém que queria disfarçar algo que estava escrito na testa.
- Não. – ela se limitou a responder, com medo de que qualquer outra reação pudesse lhe entregar.
- Não é como se o meu destino e o de Barber estivesse escrito nas estrelas... – ainda sorria – A ideia de que deveríamos ser um casal sempre esteve presente, mas a amizade valia mais do que tudo para nós.
- Entendo... – cruzou os braços e balançou a cabeça em afirmação – Você estava ou não apaixonado por ela naquela época?
A pergunta saiu com tanta rapidez da boca de , que ainda levou um tempo para ela se dar conta do que havia acabado de perguntar. Era íntimo demais, invasivo demais... Passara a pisar em um terreno muito perigoso ali. Ela achava que deveria cuidar mais do filtro que deveria haver ente seu cérebro e sua boca. , entretanto, não se abalou com a pergunta repentina tanto quanto e foi capaz de respondê-la com a tranquilidade que lhe era peculiar.
- Sinceramente... Eu não sei. Acho que na verdade eu tinha aquela ideia fixa de que deveria protegê-la, em qualquer circunstância... E sempre a amei, mesmo sem ter certeza, naquele momento, do sentido daquele amor.
- Você acha que deveria ter feito alguma coisa para mudar o que aconteceu? Entende que esse era o seu papel, pois supostamente deveria zelar por ela?
- No começo, eu achava que sim, mas depois comecei a entender que não havia nada que eu pudesse ter feito... Quem a matou não fez isso porque eu surtei e a abandonei... Pelo menos eu imagino que não.
- Tem alguma ideia de qualquer motivação?
- Para uma brutalidade daquelas? Acho que nenhuma motivação no mundo é forte o bastante. – ele respondeu, o rancor tomou seu tom de voz e o deixou rouco e frio.
passou a não gostar do que via à sua frente. Ele era o mesmo destruído que ela conhecera em sua primeira consulta no St. Marcus. Havia muito tempo que ele tinha desaparecido e o retorno não agradou. A verdade era que ela havia provocado tal retorno, mas achava ser necessário enfrentá-lo, para que se fosse de uma vez por todas. A conversa havia tomado proporções muito mais íntimas e profundas do que ela imaginava quando entrou no helvete mais cedo. Jamais esperou conseguir arrancar de todas aquelas informações. E aliado ao fato de que o fantasma de Barber aparecera com mensagens perturbadoras... precisava pensar. Precisava de ar fresco. Precisava estar longe de , pelo menos naquele momento.
Foi como se ela tivesse se dado conta de onde estava e com quem estava. Remédios, diagnósticos, manipulações...
Uma cela do helvete.
Um paciente.
.
Psicose elevada.
Ela precisava sair dali antes que a cama dele parecesse tão confortável que deixá-la não seria uma opção interessante. Foi como se tivesse acordado de um sono profundo, então sua consciência racional estava de volta à ativa.
- Eu... – ela pigarreou, criando a coragem necessária para falar – Eu preciso ir. – disse e já se levantou de imediato.
Perder tempo era perigoso demais em uma terra que era dominada pelos poderes de sedução de .
- Por quê? Você não precisa ir... Pode ficar aqui comigo.
- As coisas não funcionam assim, .
- Então como? Me explique! Qual é a sua, doutora? Por que ainda tenta fugir? Por que não admite de uma vez que precisa de mim tanto quanto eu preciso de você? Está escrito na sua testa, negar é uma perda absoluta de tempo!
suspirou. Não queria responder. Se falasse, confessaria tudo o que se passava por sua cabeça, e a última coisa que precisava naquele instante era que tivesse conhecimento de sua insanidade temporária. Talvez não quisesse estar ali por causa do fantasma de Barber Paay. Talvez não quisesse estar ali porque ele era um prisioneiro em um manicômio judiciário. Ou talvez ela quisesse estar ali porque ele era , simplesmente. Era difícil raciocinar, entretanto.
Tinha que aproveitar a oportunidade para ir antes que fosse tarde demais e fugir não fosse uma opção.
Ou fosse apenas a opção que ela não queria escolher.
- Me deixa sair daqui, . – pediu.
A voz soou baixa, porém segura. Ela engoliu em seco logo em seguida.
- Não.
- Me deixa sair, senão...
- Senão o quê? – ele arqueou a sobrancelha esquerda e a imposição do desafio deixou perdida por alguns instantes.
Ele era persuasivo, ela fraca demais para resistir.
- Eu... Eu vou gritar! – bateu o pé.
Os braços cruzados com força na frente do peito eram uma falha tentativa de parecer decidida. pegou sua resistência e pisoteou no chão como se fosse nada. Ele riu, jogando a cabeça levemente para trás, deixando transparecer toda a perfeita fileira de dentes brancos. A rouquidão de seu riso era dominada por ironia.
- Só se for de prazer, doutora...
Ele deixou de mostrar os dentes para manter o sorriso brincando maroto no canto de seus lábios. Seus olhos reluziram na direção dos de com uma intensidade arrebatadora. Como se livrar da corrente de ferro bruto que lhe prendia, ela não tinha ideia. Seu estômago era tomado por um tufão produzido pelo bater de asas das mil borboletas que escolheram lhe habitar. Era tão forte a ansiedade e aquela outra sensação que preferia não nomear que sentia seu peito inflar de modo quase insuportável.
Algo grande, algo poderoso, algo irrefreável iniciava o domínio de seu corpo por inteiro. Não havia como impedir os efeitos de em seu fraco e desprotegido organismo. Era difícil se manter em pé quando suas pernas anunciavam a conversão dos ossos e músculos em gelatina. E ainda assim, ela ainda encontrou forças para um último protesto, o de honra, aquele que devia ao seu orgulho já estraçalhado.
- Me deixa em paz, ! Você não vai conseguir mais nada de mim! – disse e olhou para baixo, para os próprios pés, dando o comando às pernas para que caminhassem decididas na direção da porta.
Foi impedida de chegar a seu destino, como previa o instinto e a pura lógica. não a deixaria ir tão fácil. Ela estava presa ali com ele, não estava? Literalmente. E a constatação lhe deixou mais propensa ao domínio da luxúria do que da razão sempre falha.
Ao sentir as mãos fortes e ásperas dele lhe tocarem a cintura com autoridade, soltou um suspiro de susto. Sua pele esquentou de imediato, formigando em cada mínima terminação nervosa possível. O frio na barriga voltou com força total. O coração não foi capaz de manter a regularidade das batidas quando ela teve a brilhante ideia de levantar a cabeça e encontrar os olhos instigantes dele mais uma vez.
A erótica e sedenta ânsia que era peculiar a estava ali, reluzindo em cada tom que deixava suas íris . Ele sorriu de lado e levou os lábios ao ouvido de para proferir com calma e excesso de malícia as palavras que havia preparado:
- Você quer apostar que eu vou conseguir o que quiser de você, doutora, ou prefere se poupar da vergonha da derrota?
estremeceu, como vergonhosamente já previa, à medida que as palavras dele iam fazendo eco em sua pele. Ele sorriu contra a pele do pescoço dela em satisfação.
- Foi o que eu pensei. – se pronunciou mais uma vez e forçou o corpo de a caminhar para trás, na direção de sua cama.
Ela protestou, tentando se debater entre as mãos dele, que agora lhe seguravam os braços.
- Me larga, ! – disse entre dentes, tentando manter a calma em seu tom de voz.
- Daqui a cinco minutos você vai pedir exatamente o contrário disso, doutora, e pode ser que eu fique tentado a não atender de imediato. – ele sussurrou contra o rosto de , os lábios roçando em sua bochecha fervente.
engoliu seco mais uma vez. A proximidade era tão íntima que ela poderia jurar ser capaz de enxergar cada um dos fantasmas que assombravam a sanidade de .
Em uma rapidez invejável e assustadora, ele em seguida passou uma mão atrás dos joelhos já bambos de ; a outra mão apoiou com firmeza suas costas e quando ela se deu conta, era carregada na direção da cama de solteiro encostada junto à parede.
No segundo seguinte, seu corpo era jogado sobre o colchão sem qualquer delicadeza. Seus olhos estavam arregalados e sua respiração descompassada pelo susto. riu maldosamente intencionado e não houve tempo para qualquer protesto por parte dela. Ele apoiou uma mão de cada lado da cabeça de , as pernas fizeram o mesmo com seus quadris, prendendo-os em um aperto de ferro. Então ele estava sobre ela.
As mãos livres e trêmulas de demoraram um tempo para tentar empurrar o peito forte e rígido de . Sua boca demorou o mesmo espaço de tempo para proferir as palavras rebeldes:
- Sai de cima de mim, ! – disse.
E sua voz saiu uma ou duas oitavas mais alto do que o normal. A força de suas cordas vocais lhe surpreendeu, dada a conjuntura da situação em que se encontrava. Talvez se gritasse...
- Quantas vezes nós vamos ter que passar por isso, doutora? Você me negando, eu te forçando até você ficar tão excitada que mal lembra seu nome? – dizia calmamente enquanto juntava as duas mãos de que teimavam em afastá-lo e estapeá-lo acima de sua cabeça – Não que eu esteja reclamando, é claro! Você não tem noção do quanto me excita quando fica arisca desse jeito! – ele sorriu e se viu obrigada pelo poder de sedução desse gesto a parar de se contorcer e pôr-se a observá-lo.
O inferno que se instalara em sua cabeça não lhe deixava pensar com coerência e clareza. Um lado queria gritar e correr, o outro ficar e explorar todo o prazer que a situação poderia lhe proporcionar... Era um tipo de colapso nervoso. O que mais temia, no final das contas. lhe libertou do pequeno momento de reflexão antes que pudesse se perder em sua consciência confusa.
- Nós dois sabemos que no final você vai ceder e tentar fingir que não houve nada. E, francamente, parei de me preocupar com isso! Eu só preciso ter você agora, aqui, e então a minha mente vai estar um pouco tranquila por hoje.
fechou os olhos e bufou irritada. Já não bastava o olhar arrebatador, ele tinha que se utilizar daquelas palavras que a deixavam sem qualquer tipo de resposta, fosse ela positiva ou negativa. Ele era algum tipo de carma, do qual ela não podia se livrar. Não conseguia se livrar.
Quando abriu os olhos, tentou passar a ele toda sua irritação e frustração. Tudo que ganhou em troca com suas palavras ameaçadoras foi mais um sorriso daqueles que só ele sabia dar.
- Sai de cima de mim agora! É o último aviso!
- Eu não vou sair, doutora. – as palavras de foram como a mais pura seda se esfregando contra a pele de . Era doce e causava arrepios.
- Eu vou gritar! – avisou.
deu de ombros, torcendo os lábios em indiferença. tomou o fôlego necessário e forçou suas cordas vocais o máximo que pôde ao juntar as sílabas da palavra “socorro”. O reverberar de sua voz foi seguido de uma risada alta e divertida de . Era puro escárnio.
- Do que está rindo?! – ela gritou de novo, dessa vez contra ele. Tinha se irritado de verdade agora – Não contei nenhuma piada!
- Shiiiu! – prendeu as duas mãos de com apenas uma sua, e a mão dele, então livre, foi na direção da boca dela, tampando-a.
Os resmungos de eram abafados com eficiência pela força com que ele lhe pressionava. sorria de um modo que deixou assustada. O medo passou assim que ele aproximou os lábios outra vez de seu ouvido, então ela se preparou para arrepiar mais uma vez:
- As paredes são revestidas... Nenhum barulho entra, nenhum barulho sai... Pode gritar o quanto quiser, doutora, mas eu sugiro que guarde sua voz e fôlego para gritar meu nome quando eu te levar ao céu.
E foi assim, com essas exatas palavras, que venceu a resistência de . Ela não via mais razão para lutar quando tão tentadora proposta lhe era oferecida. Ela não era de ferro, e estava sendo ridiculamente seduzida por ele. Qual o propósito de fingir não sentir algo que praticamente rasgava seu peito de tão forte e intenso?
Os músculos de doíam pela relutância, então ela os relaxou. Arrancou com tal gesto um sorriso mais do que satisfeito dos lábios de que agora ela queria, admitidamente, beijar.
- É seguro descobrir sua boca agora? – ele perguntou com a calma de um adulto que conversa com uma criança.
fechou os olhos por alguns instantes, respirando fundo pelo nariz. Em seguida, balançou a cabeça em confirmação. Abriu os olhos a tempo de vê-lo sorrir novamente e liberar o peso de suas mãos. puxou o ar pela boca e as mãos de voltaram a se ocupar dos braços dela mais uma vez. Uma precaução, com certeza, para que ela não tentasse fugir novamente. , porém, havia chegado ao estágio em que, mesmo se apontassem uma arma para sua cabeça e a ameaçassem de morte, não fugiria. Tinha que ficar para ver o que aconteceria, era o que seu ego lhe dizia.
Estar entre os braços fortes de era o que mais queria, o desejo mais forte e reprimido em seu peito.
- Boa garota. – ele disse e piscou de modo maroto.
Não houve jeito de controlar a comoção de hormônios que fez seu estômago repuxar naquele frio prazeroso que o tomava. Quis tê-lo o mais próximo possível. Quis que ele a beijasse daquela forma forte e dominadora que só ele sabia.
- Que bom que finalmente conseguimos nos entender, doutora.
- Você vai ficar de papo furado ou vai começar logo o que se propôs a fazer? – adotou um tom rude e provocativo que não soube de onde veio. Tudo o que sabia é que queria o corpo de grudado ao seu o mais rápido possível, caso contrário, enlouqueceria. – Não comece o que não pode terminar, .
riu em ironia e diversão. Balançando a cabeça de um lado a outro, finalmente libertou as mãos de . Em seguida, suas mãos foram caminhar com lentidão pelos braços dela, chegando ao seu colo, onde pararam.
- De onde veio essa dominadora? – ele pendeu a cabeça levemente para o lado e falou na mesma calma que começava a deixar impaciente. Seus dedos brincavam com a pele sensível do colo dela, desenhando círculos por onde passava – Quer saber? – então ele continuou, ao perceber o franzir de testa dela – Eu adoro mulher que sabe o que quer... Mas hoje... – seus dedos agora se movimentaram sem pressa na direção dos botões que fechavam o jaleco branco de – O controle é meu. – disse e quando o fez, puxou com força e sem cerimônia cada uma das partes do jaleco para um lado, de modo que seus botões se arrebentaram e se perderam pelo chão de pedra.
- ! – ralhou, após assimilar o que ele havia feito – Você acabou de estragar o meu jaleco!
- Olha a minha cara de quem se importa... – ele sorriu de lado, antes de levar os lábios a se roçarem provocativamente pelo pescoço dela.
ainda estava irritada demais pelo momento para se render às carícias de .
- Pois deveria se importar! – agarrou- he pelos ombros e tentou afastá-lo. Não teve forças, obviamente – Eu só tenho um! Como vou explicar o fato de que, de repente, ele partiu ao meio?
- Mas esse, doutora... – pôs-se a encará-la novamente. O brilho insano de luxúria transbordando pelos olhos – Realmente... – e então suas mãos foram para a gola em “V” da blusa branca de malha levemente decotada que ela usava – Não é problema meu. – então puxou com força a peça de roupa, do mesmo modo que havia feito com o jaleco.
Em segundos a blusa de estava ao chão, em frangalhos.
Dessa vez ela nem conseguiu exprimir em palavras sua indignação. Limitou-se a arregalar os olhos e deixar a boca escancarar. Quis xingá-lo, bater nele, qualquer coisa que vingasse sua blusa favorita. Não teve tempo de fazer nenhuma dessas coisas, entretanto.
soltou uma risadinha baixa de escárnio, dando de ombros como quem diz ‘ops!’, e finalmente pôs-se a encará-la daquela maneira intensa que sempre anunciava um de seus maravilhosos e viciantes beijos.
Os dedos fortes se entrelaçaram entre os fios de cabelo bagunçados de sobre o travesseiro. Seu rosto se aproximava em uma lentidão torturante do dela. podia sentir a aproximação pelo perfume amadeirado que a cada centímetro tomava suas narinas para si. O fogo ardente da pele de passava para a dela, já à mínima distância. A boca de pedia seca pela dele.
se atreveu a levantar a cabeça na direção de , apenas para ser impedida pelo olhar repreensor de diversão que ele lhe lançou.
- Eu disse que quando você quisesse, eu não ia dar assim tão facilmente. – ele sussurrou em seu ouvido.
O arrepio provocado por seu hálito quente foi esperado e, ainda assim, arrebatador.
prendeu a respiração enquanto sentia o roçar dos lábios de algodão de na pele de seu pescoço. A textura macia que corria com delicadeza, para depois então deixar que sua saliva marcasse por onde passava a quentura do ato provocativo. Ele finalizava o gesto com uma mordida que fazia seus dentes arranharem os poros de já eriçados totalmente perdidos em arrepios.
prendeu a respiração, tentada a não suspirar alto demais para não demonstrar o quanto ele lhe agradava ao fazer aquilo. Seu orgulho lhe dizia que ela não deveria demonstrar o quão deleitada em prazer ficava ao mínimo toque do perigoso homem que lhe dominava entre seus braços fortes e tatuados.
- Eu não aconselharia a se reprimir desse jeito, doutora. – dizia enquanto distribuía os beijos agora pela região de sua garganta, passeando a língua sedenta por todo o espaço de pele que conseguia alcançar. Em seguida, chegou ao pé do outro ouvido dela – Garanto que logo vai ficar difícil reprimir os gemidos, então acho melhor ir libertando a expressão de seu prazer desde já.
- Cala a boca, ! – resmungou, levando uma das mãos aos cabelos dele e puxando seu rosto na direção do dela.
- Já disse que o comando hoje é meu. – ele pegou a mão rebelde de e voltou a prendê-la juntamente com a outra sobre sua cabeça.
acompanhou assustada e extremamente excitada o olhar insinuante dele ir dos seus acinzentados para o chão. Ela não soube o que ele encontrou por ali, mas o sorriso sádico que pintou seus lábios no segundo seguinte a fez arrepiar dos pés à cabeça. Ele buscou com uma das mãos o que reconheceu ser os restos de sua blusa de malha favorita e o viu juntar suas mãos na cabeceira da cama sem protestar de qualquer forma. Os pulsos, em pouco tempo, estavam firmemente amarrados à velha cabeceira de ferro negro e tudo o que ela conseguia fazer era buscar o olhar insano dele com o seu. Era a realização de um de seus pesadelos/sonhos eróticos, não era? Sua mente estava em puro êxtase agora, assim como todo o seu corpo, que passou a implorar pelo dele.
- Já que você não quer se comportar...
- Isso é algum tipo de fetiche seu? – sorriu, tremendo dos pés à cabeça, mas tentando manter a voz a um nível digno.
Mal sabia ele que era um tipo de fetiche dela, mesmo não tendo ideia disso alguns dias antes.
- Na verdade, não, mas no momento me parece mais interessante do que qualquer coisa que eu já tenha imaginado em toda a minha vida. – abriu outro sorriso mal intencionado e viu seus lábios acompanharem os dele como se fossem presos por uma linha imaginária – Até hoje meu maior fetiche era ver você deitada na minha cama enquanto eu te possuía, mas a ideia de você amarrada à minha cama enquanto eu te possuo me parece muito mais excitante. Não sei como não tinha pensado nisso antes...
- Isso mostra que você não é tão insano quanto dizem ser...
- Vamos ver o quão insana eu posso te deixar, doutora? – ele piscou e mordeu os lábios em uma força além do recomendado.
A ansiedade a essa altura lhe consumia por dentro como o fogo consome a cera de uma vela.
Lenta e tortuosamente.
Chegava a doer o quanto desejava começar aquilo tudo de uma vez. Mas não parecia ter pressa e se limitou a roçar os lábios com hálito de canela contra os dela calmamente. Seus superiores nos inferiores dela, os superiores dela em seus inferiores. E então sua língua foi fazer esse mesmo trabalho, abandonando a boca já entreaberta de quando ela tentou avançar. jogou um sorrisinho sonoro e maldoso no ar.
Os beijos, em seguida, foram distribuídos para o queixo dela, que ele mordeu levemente. O pescoço veio logo a seguir, então para o colo e quando sua boca molhada e quente atingiu os seios ainda cobertos pelo sutiã dela, ele lhe lançou um olhar safado e um sorriso que ultrapassava os limites da safadeza. engoliu seco e acompanhou de olhos cerrados e atentos o movimento vagaroso da mão dele na direção de seu sutiã. Ele não lhe desgrudava os olhos um segundo sequer. Transpassava com precisão o quão sedento, desejoso e excitado estava. E, consequentemente, deixava da mesma forma.
- Quer fazer o favor de não rasgar pelo menos meu sutiã? – pediu, quando os dedos dele tocaram a parte descoberta de seu seio. O formigamento na pele foi imediato.
- Será que eu vou ter que te amordaçar com ele, doutora? – ameaçou com um tom divertido, dominando o timbre rouco que sua voz adotara.
- Contanto que não o rasgue... – rolou os olhos, agora já completamente inserida na brincadeirinha dele.
- Vou ser bonzinho com você dessa vez, doutora. Eu quero ouvir você chamar meu nome... – deixou que um de seus dedos se infiltrasse pela renda rosa do sutiã, depois outro e outro. E então eles encontraram o mamilo de com delicadeza – Você fica incrivelmente sexy de rosa. Mas não garanto nada quanto à calcinha. Ela simplesmente me pede para ser arrancada à força. Ou com os dentes, talvez... – ele soprou, quando sua boca foi beijar o seio esquerdo de , o que ele não tocava com delicadeza com a mão.
A mínima imagem de um lhe arrancando a calcinha com os dentes, levando-a por suas pernas, deixou desnorteada por um instante. Instante esse que perdurou até o momento em que ele finalmente buscou com os dedos habilidosos o fecho frontal do sutiã dela e com calma o abriu. Revelou finalmente os seios dela. O olhar de adoração que lançou foi tão ou mais intenso do que da primeira vez e fez , mais uma vez, maltratar seus lábios entre seus dentes.
Ele tinha o olhar de puro desejo de sentir os mamilos dela umedecendo e enrijecendo entre seus lábios habilidosos. E era o que queria que ele fizesse. Antes que a peça de renda fosse parar ao lado dos restos da vestimenta de , os lábios de já lhe tomavam com vigor e calma, ao mesmo tempo.
Ele lhe beijou com devoção, toda a carne dos seios, como se fossem a maior maravilha que tivesse encontrado em vida. A língua brincava com leveza e destreza admiráveis. As mãos passeavam pelo corpo de : a barriga, o outro seio, o pescoço, e então faziam o caminho inverso. Os olhos nunca, jamais, deixavam os dela. E esse pequeno, mas significativo gesto, a deixava fervendo por dentro, excitada como jamais antes esteve em toda a sua vida. O fato de que suas mãos estavam inutilizadas, presas à cabeceira, era um afrodisíaco a mais para toda aquela maluca situação.
Se dissessem a , alguns meses antes, que estaria amarrada à cama de um assassino condenado a um manicômio judiciário, no mínimo, ela morreria de dar risada. Mas a vida é estranha e nos leva a estranhos lugares, por mais ainda estranhos caminhos. E ali estava ela, naquela estranha vida, com um louco estranho, tendo a mais estranhamente prazerosa experiência de sua vida.
Os lábios de , em sua abençoada habilidade, foram de um seio a outro, beijando-a na mesma devoção de antes. Sua língua envolvia o mamilo rosado de , deixando-o arrepiado a cada carícia, enrijecendo-o ao ser agraciado por sua saliva quente. A mão tomava o outro seio entre os dedos, apertando-os em uma força prazerosa, arranhando-os com as pequenas unhas.
Os beijos de foram então acariciar a barriga de . A língua passeava lentamente por cada centímetro de pele. O olhar sempre sobre o dela. não tinha ideia de como ainda era capaz de mantê-los abertos. Mas fechá-los significaria perder a visão de lhe levando ao paraíso. Isso ela não se perdoaria jamais por deixar escapar.
Ele mordiscou a pele ao redor do umbigo de , sorrindo entre o gesto, e então levou as mãos ao fecho da calça jeans que ela vestia. Os sapatos já tinham tomado o caminho do chão a essa altura. abriu, então, o botão e o zíper da calça dela, e agradeceu por essa ele não ser capaz de rasgar em duas.
Ele desceu a calça pelas pernas de lentamente, jogando-a por cima dos ombros. E fez o caminho de volta beijando-lhe a perna, as coxas, chegando à virilha. O estômago de deu milhares de voltas de excitação quando ele sorriu maldosamente e levou os dentes brancos que se mostravam à tira de renda de sua calcinha. Ela sorriu também, balançando a cabeça em negação, não acreditando na cena que se realizava bem à sua frente. Enquanto o dente baixava um lado da calcinha, seus dedos ágeis baixavam o outro, e assim ele fez até que ela passou por seus pés e foi descartada juntamente com o restante de suas peças de roupa.
O fato de estar completamente nua enquanto ele ainda estava completamente vestido seria um problema se, no segundo seguinte, não tivesse baixado sua cabeça na direção da virilha de , deixando que sua língua brincasse sobre a pele macia dela. Um movimento involuntário contraiu a barriga de , o que pareceu chamar a provocá-la ainda mais, antes de finalmente fazer o que aparentava completamente disposto e enlouquecido de vontade.
A língua dele trilhou um caminho quente e molhado por todo o interior da perna dela. Foi dos tornozelos ao interior do joelho e da coxa, parando muito próximo ao ponto em que ela estava ansiosa para que ele chegasse.
Um suspiro longo e sofrido escapava dos lábios de toda vez que não acabava logo com a tortura. Não, parecia achar que ela ainda precisava sofrer mais um pouco. A mesma sequência de carícias quentes e molhadas foi feita em sua outra perna enquanto ele não deixava de olhá-la um segundo sequer. O olhar torturado e sofrido, quase suplicante, que recebia de volta, era naturalmente sustentado por , que sentia o sangue correr fervendo pelas frágeis veias.
Um sorriso meio sádico escapou por entre os lábios de , antes que os levasse na direção da virilha dela. fechou os olhos apertados e agarrou a cabeceira da cama com tanta força que os nós dos dedos se tornaram brancos e a palma da mão doeu.
lambeu com uma lentidão notável sua virilha, de um lado a outro. Então, enquanto as mãos dele faziam um caminho tortuoso pela parte interna de suas coxas, pressionando-as sem qualquer piedade, deixou que a língua finalmente chegasse ao lugar de seu destino. Deslizou-a por toda a intimidade dela, já devidamente estimulada, de uma extremidade à outra, com força e leveza ao mesmo tempo.
O brilho de satisfação que faiscou das íris de ao ouvir o gemido longo e naturalmente rouco que escapou pela garganta de a deixou mais perdida do que nunca.
Ele sorriu, levantando a cabeça somente para enxergá-la com a própria cabeça recostada precariamente no ferro negro da cama. arqueou uma sobrancelha e sorriu transtornada, como se o incentivasse a continuar. , entretanto, ignorou o pedido mudo e visivelmente desesperado dela. Ele não continuou de onde havia parado. Sua língua, que parecia deter um sobrenatural poder de excitação, percorreu novamente a área arrepiada da virilha de . Um sorriso sádico brotou nos lábios dele em seguida, quando voltou a encará-la na intimidade invasiva de sempre.
- O que está fazendo? – a voz fraca e descontrolada de perguntou.
- Eu disse que quando você pedisse, eu não iria atender de imediato. É só uma vingança por essa sua mania insuportável de fingir que não me quer. – comentou casualmente, como se não tivesse nua amarrada em sua cama.
Ele sorriu e então puxou a perna direita dela, beijando de seu tornozelo até a parte de trás dos joelhos, a qual mordiscou com uma força que fez arquear as costas e conter um gemido. Zonas erógenas eram uma especialidade de que não tinha conhecimento ainda. E estava deleitada por ter o prazer de conhecer.
- Como se você não achasse a parte mais excitante aquela em que tenta me convencer a me submeter às suas loucuras.
- Nunca neguei essa informação, doutora, você sabe... Seduzi-la é meu passatempo favorito. – ele piscou, e na outra perna dela repetiu o mesmo processo de língua e mordidas atrás do joelho.
O sorriso maldoso dele fazia cócegas na pele dela, transformando seu fluxo sanguíneo em um descontrolado rio de hormônios. A ansiedade lhe matava por dentro. A língua de lhe beijando intimamente era uma necessidade vital a ser sanada, a partir do momento em que ele voltou a se abaixar na direção dela. O interior de suas coxas foi agraciado pela habilidade dele, então sua barriga, o espaço entre seus seios, seu colo, o pescoço... E ele desceu, na lentidão sensual e torturante que fazia se contorcer entre os lençóis, tentando, sem sucesso, soltar as mãos amarradas.
- Uma hora você vai ter que fazer o que eu quero.
- Eu sei... – ele sorriu e mordeu o baixo ventre dela. Suas mãos incontroláveis subiram pela extensão do corpo de , até chegarem a seus mamilos, delicadamente acariciados. Ela conteve um suspiro.
- Você é um tipo de sádico?
- Não... – lambeu sua entrada com tanta leveza, que quase não percebeu – Só estou te ensinando a lição... Da próxima vez, não vai ficar tentando fingir que não me quer.
- Próxima vez? – riu.
- Ainda terão muitas, doutora... – ele piscou e finalmente deixou sua língua passear precisa e quente por toda a extensão já molhada de . Ele fez uma pressão maior quando chegou ao ponto de prazer dela.
Uma das mãos de desceu para explorar as coxas de e subiu lentamente por aquele pedaço de pele macio. Atingiu o baixo ventre dela e então a barriga, chegando novamente ao seio eriçado e totalmente tomado por arrepios que se destacava entre seus dedos. A língua dele, que abençoava naquele instante, ainda continuava seu trabalho lento, torturante, e a mão massageava no mesmo ritmo a rigidez de seus mamilos.
suspirava pesado constantemente, vez ou outra não conseguindo conter um gemido mais audível. Sua barriga se contraía em leves espasmos enquanto ela retorcia o corpo ritmadamente, bagunçando os lençóis sob si. Seu quadril passou a se mexer de um lado a outro, acompanhando a língua dele. sugou com destreza seus grandes lábios e arrancou dela um gemido abafado pelos lábios que ela a tempo mordeu. Então a língua dele passou a lhe proporcionar movimentos mais rápidos e ritmados no ponto que lhe levaria ao céu.
contraía-se em espasmos de cada vez maior prazer. Seu coração batia em um ritmo cada vez mais acelerado sob os dedos dele, que lhe apertavam os seios. Sua pele era tomada por uma coloração avermelhada e por uma camada fina de suor. Seus olhos cerrados em satisfação encaravam com a mesma intensidade que ele a encarava. Seus lábios ficavam presos entre seus dentes enquanto ela tentava conter gemidos que agora lhe eram inevitáveis. A respiração, que saía pesada através de lufadas de ar, parecia ser um estimulante poderoso, tendo em vista o vigor com que se empenhava em sua tarefa.
não era capaz de se sentir presa pela gravidade à Terra. Ela levitava. E a língua dele continuava na precisão de movimentos rápidos, acariciando em sua constância incansável o órgão inchado e rígido dela. A umidade começava a aumentar entre suas pernas e tinha plena consciência da proximidade de seu ápice. Não pôde evitar pronunciar o nome dele em um sussurro lento e totalmente sensual no momento em que o sentiu introduzir o dedo indicador em sua intimidade.
Ele sorriu absolutamente extasiado outra vez enquanto, com a língua, estimulava o clitóris de e o dedo perdia-se no calor do interior úmido e fervente dela. Pela testa franzida de escorria uma linha insistente de suor e pelo interior de um frio prazeroso brincou sem piedade.
Então quando o corpo dela começou a sofrer maiores espasmos involuntários, sua mão quase arrancou um dos ferros que formava a cabeceira à qual estava agarrada, tamanha a força que empregou em seus dedos. O desespero de tocá-lo era tamanho que parecia consumi-la e queimar seu interior sem qualquer resquício de piedade. Ela queria tocar os músculos rígidos e definidos dele, queria sentir a pele quente dele em suas mãos trêmulas. Seu coração batia acelerado pelos dedos que não deixaram de acariciar seus seios em momento algum, pelos dedos que invadiam seu interior e saíam em uma velocidade além do recomendável para a manutenção de sua sanidade.
sugou com firmeza sua pele de veludo, mordiscando carinhosamente o ponto de prazer. E foi aí que ela finalmente explodiu, seus músculos se enrijeceram, sua garganta gemeu inconscientemente e seu lindo e delicado rosto se contorceu prazerosamente enquanto seus olhos se fechavam apertados, para logo depois abrirem-se em um brilho perdido de satisfação. E ela sorriu, bobamente, enquanto lambia pela última vez sua intimidade impregnada de seu gosto doce.
O coração batia forte e rápido, como se ela tivesse corrido uma maratona, mas o corpo não estava cansado. Muito pelo contrário, estava leve como uma pena, satisfeito, completo.
- Eu realmente espero que na próxima meu nome saia um pouco mais alto... – se pronunciou, após um curto espaço de tempo em que ambos ficaram se encarando, encantados demais pelo momento para agirem.
- Se dê por satisfeito que ele tenha escapado! Não vai acontecer de novo! – resmungou em resposta.
Ele, como esperado, sorriu na maior das ironias, enquanto se ocupava de retirar sua camisa preta que marcava com perigosa precisão seus músculos.
- Isso é o que nós veremos, doutora. – respondeu e acompanhou com um brilho divertido no olhar o dela caminhar diretamente na direção de seu tronco nu.
engoliu em seco e desviou o olhar para o teto quando percebeu que ele a observava com uma expressão desejosa além do limite seguro. Suas bochechas provavelmente coraram, dado o fato de que haviam esquentado de uma hora para a outra, mas duvidava que no pós-estado de êxtase desse para perceber qualquer coisa.
, em seguida, saiu de cima dela e parou em pé ao lado da cama, apenas para retirar sua calça jeans de lavagem escura e a boxer branca que mostrava o poder da ereção que ele já carregava no meio das pernas. Dessa vez, não teve como desviar o olhar e nem se deu ao trabalho de corar quando foi pega no flagra mais uma vez. Ela não podia evitar olhar quando ele mostrava tão descaradamente.
Deu graças, entretanto, quando ele, com calma para não depositar seu peso, voltou a se postar sobre ela. Com as duas mãos, agarrou as coxas de e puxou seu corpo na direção do dele. Sorriu maliciosamente por um instante, analisando a súplica silenciosa que emanava do olhar dela. retorcia as mãos presas contra a cabeceira da cama, desejando que elas fossem livres para que pudesse acabar com aquela distância torturante de uma vez por todas.
não a invadiu de imediato. Abriu as pernas de com as mãos autoritárias e aproximou seu membro da entrada pulsante dela. A seguir, fez o que ela menos esperava naquele momento: levou seu rosto de traços fortes e belos na direção do delicado de , roçou a ponta de seus narizes como se estivessem em um momento carinhoso de intimidade. O hálito quente dele bateu em seus lábios e ela não evitou o movimento dos músculos que fecharam seus olhos lentamente, se deleitando com a proximidade. Ao mesmo tempo, ele brincava com seu membro na entrada dela, passando sua glande por toda a extensão encharcada que estava pronta para recebê-lo.
Quando seus lábios se roçaram, sorriu, e mesmo de olhos fechados soube que ele também o fez. lhe deu um selinho e quando sua língua pediu passagem para o beijo que ela tanto esperava, ele lhe invadiu completamente.
[N/A: JÁ!]
O movimentar habilidoso nos lábios de nos seus a impediu de gemer profundamente quando sentiu o membro dele lhe adentrar com força e agilidade.
O corpo de , entretanto, reagiu ensandecido. O coração disparou como se fosse rasgar seu peito, o sangue ferveu e ela se sentiu quente como jamais esteve, como se fosse seu próprio sol. Não tinha tempo de respirar com o beijo que recebia, e talvez nem se lembrasse de fazê-lo ou como fazê-lo. Tudo o que tinha noção naquele segundo era o toque de suas línguas e do entrar e sair de sua intimidade na sua.
Sua percepção se tornou mais aguçada do que o normal, sua cabeça estava em estado de puro êxtase. Suas mãos se remexiam ainda presas pela malha que agora começava a afrouxar pela força que recebia em protesto. Os dedos atrevidos de lhe percorriam todas as partes possíveis do corpo, agarrando-lhe com força os seios vez ou outra. Quando foram ao seu cabelo, puxando-o naquela força que ela julgava estranhamente prazerosa, abriu os olhos, sem achar que seria capaz de se perdoar se perdesse a expressão de satisfação que dominava cada mínimo traço do rosto dele. sugou seu lábio longamente, acariciando-o entre os seus, e lhe sorriu num misto de malícia e a mesma encantada satisfação que ela mesma cultivava naquele instante. As testas estavam no segundo seguinte grudadas, envoltas pelo suor quente que emanava da pele em chamas, exalando com precisão o aroma da luxúria, os hormônios literalmente à flor da pele. As pontas dos narizes roçavam vez ou outra, em um carinhoso beijo de esquimó não planejado. O contato visual era de tal intensidade, que poderia o mundo desabar do lado de fora e a troca do brilho libidinoso e sexual não seria interrompida.
Os cotovelos de se apoiaram no macio colchão, coberto pelos lençóis de seda já inevitavelmente molhados. As mãos passaram a fazer um carinho relaxante pelos cabelos, ainda que completamente bagunçados, macios e sedosos de .
Entre suas pernas, sentia o movimento ritmado e preciso do membro grosso e rígido dele. Era rápido, forte, beirando o desespero, e tudo o que ela queria era mais. Mais dele, mais de sua pele áspera contra a delicada dela, mais de sua masculinidade em seu interior. queria todas as partes de fundindo-se com as dela, porque isso era uma necessidade. Era como o ar para respirar, a água para matar a sede, a comida para matar a fome. Sem não haveria vida, sem não haveria razão para a vida.
Ele deixou que uma de suas mãos que se embrenhavam pelo cabelo dela saísse para explorar o corpo trêmulo de êxtase que tinha em seus braços. Passou pelos seios fartos e empinados de mamilos rígidos. Deslizou em seguida o tato pela delicada pele do tronco e barriga, para então fazer o caminho inverso. Seus quadris jamais deixavam de se chocar, suas intimidades jamais deixavam de se tocar, seus olhos jamais deixavam de se encarar, demonstrando naquele gesto invasivo a satisfação que a luxúria e perigo do momento poderiam proporcionar.
A cada estocada, lançava seu fôlego quente e excitante nos lábios automaticamente abertos de , que buscavam em desespero por oxigênio.
Ele entrava e soltava o ar.
Ele saía e puxava o ar com todas as forças que seu pulmão cansado permitia.
A sincronia entre seus movimentos precisos e seus suspiros pesados era a exata descrição da perfeição.
Haviam nascido para aquilo.
, vez ou outra, tentava conter um gemido mais audível que teimava em escapar, resultado de uma investida mais forte e profunda por parte de . Seus lábios inchados, entreabertos, deixavam escapar o ar que vinha em lufadas descompassadas de seu pulmão. No entanto, era inevitável que sua voz levemente rouca deixasse de expressar a satisfação e prazer que lhe levava aos céus naquele momento. E toda vez que ela, sem querer, gemia, um brilho devasso perpassava os olhos de , levando-o à loucura de aumentar a velocidade dos movimentos, atingindo fundo dentro dela, para logo depois tortuosamente diminuí-los outra vez.
quase delirava em um pedido abafado por mais, sentindo o arrepio na espinha e queimação em seu baixo ventre se intensificarem gradativamente, na exata medida da provocação de .
Ela mordeu o ombro dele com força quando ele parou os movimentos de repente. Quis protestar, quis xingá-lo, quis esmurrá-lo, quis fazer qualquer coisa que o obrigasse a voltar com os movimentos que a levavam gradativamente ao prazer verdadeiro. Mas a mordida de nada funcionou. Ele riu maldosamente e então se retirou de dentro dela. soube que seu olhar de desespero e desentendimento era a própria expressão de uma caricatura.
- Você ainda não gritou meu nome, doutora. – foi o que lhe disse enquanto lhe puxava pelos braços, fazendo-a levantar do colchão e se ajoelhar, e então girou o corpo dela até que ficasse de costas.
Nesse momento, se empenhou mais do que nunca em tentar libertar as mãos. Soube as intenções dele quando ele empurrou seu corpo com autoridade na direção da parede e seu rosto se apoiou ali. afastou suas pernas mais uma vez e antes de adentrá-la, agora por trás, brincou por um tempo com seu membro pulsante em sua entrada, que gritava pelo preenchimento mais uma vez.
- Eu não vou me dar por satisfeito até que grite com todas as letras! – ele sussurrou no ouvido de , mordendo o lóbulo dela em seguida e novamente, sem aviso prévio, a invadiu.
Dessa fez não foi com força, não foi com avidez. Foi lentamente. podia sentir cada centímetro do membro dele ser abraçado por seu interior e a sensação ia além do extasiante. Ela desistiu de tentar desatar as mãos, agarrando-as mais uma vez no ferro da cabeceira. Seu rosto era cada vez mais pressionado contra a parede fria enquanto investia, aumentando a cada entrada o ritmo.
Uma de suas mãos lhe acariciava os seios, indo de um a outro, tomando-os sem qualquer pudor, como se a ele pertencessem. E a julgar pelo estado de entrega em que se encontrava, talvez pudesse dizer que todo seu corpo pertencia a ele. Principalmente se a cada toque ele lhe levasse mais perto da entrada do tão sonhado paraíso.
A outra mão de lhe agarrava o rosto sem muita delicadeza, e tal modo rude de agir a deixava mais do que estimulada. Então o dedo indicador dele lhe adentrou a boca, calando os gemidos sôfregos e ininterruptos. Ela sugou o dedo dele com força e vontade, estimulada pela respiração forte e descompassada que ele soltava em seu ouvido, vez ou outra deixando que um mínimo de seu timbre rouco reverberasse pelas paredes. Quando tirou o dedo da boca de , o levou diretamente a sua intimidade, e passou a estimular seu clitóris com força e no mesmo ritmo agora alucinado em que investia sua penetração.
Seus quadris se chocavam, as peles banhadas em suor e luxúria provocavam o ruído que era a exata expressão do ato que ali se consumava. Estavam conectados como um só, como duas almas que se completavam, duas almas que foram feitas para se completarem. O pecado da carne nunca pareceu tão certo a . Se pudesse, não deixaria ir nunca mais. E esses pensamentos, que em outros momentos ela julgaria insanos, se multiplicavam em sua cabeça enquanto o membro dele continuava o trabalho de lhe trazer o extremo do prazer. E logo atingiriam seu objetivo. Os dedos dele em seu clitóris eram o estímulo a mais que precisava para chegar ao segundo orgasmo do dia e gritar, de uma vez por todas, o nome dele.
Por um tempo que nenhum dos dois soube calcular, aquela insanidade sexual continuou. não diminuiu seu ritmo a partir dali. Era constante, forte, viril, e lhe acolhia inteiramente. Os gemidos e suspiros faziam a trilha sonora, juntamente com a cama que batia contra a parede na mesma velocidade das investidas incansáveis. Talvez se pudessem continuar com aquilo para sempre... Era o que se passava pela cabeça de , enquanto se entregava sem qualquer pudor. E mesmo com selvageria, ainda encontrou espaço para delicadamente puxar os cabelos de e liberar seu pescoço. Em seguida, ele depositou um demorado selinho que, devido à velocidade de suas estocadas, foi desajeitado. Mas não deixou de causar em uma revolução interna.
Logo após isso, aconteceu o que tanto queria. Ele foi beijar o pescoço dela mais uma vez, roçando seus lábios, passeando sua língua quente, e arrepiou dos pés à cabeça. Ele apertava seus mamilos na força precisa e sua visão ficava turva e perdida. Estava perdendo o controle sobre os músculos de seu corpo, que passavam a se movimentar em espasmos involuntários. O crescer da ansiedade junto com o característico frio na barriga anunciava a proximidade do ápice. E quando ele chegou, a garganta de gemeu mais alto do que planejava e um ‘’ tomado de satisfação escapou por seus lábios sem que ela nem ao menos se desse conta.
Uma risada maldosa, maliciosa, irônica e acima de tudo vitoriosa reverberou bem pertinho do ouvido de e a sensação do corpo sendo tomado por choques elétricos se prolongou por mais alguns segundos, enquanto dava as últimas estocadas e finalmente chegava ao ápice também.
Então o silêncio tomou o aposento para si. Era sepulcral. Tudo o que se ouvia eram as respirações fora de compasso dos dois corpos ainda em processo de recuperação dos movimentos. Ambos mantinham os olhos fechados com força.
Novamente, o primeiro a se manifestar foi :
- Eu disse que você ia gritar meu nome! – ele disse e riu logo em seguida, finalmente saindo de dentro de .
Ela não respondeu. Não tinha forças nem neurônios funcionando corretamente para formular qualquer coisa. Manteve-se em silêncio, buscando o ar que seus pulmões gritavam com necessidade. Ao sentir o beijo calmo e demorado dele em suas costas ainda suadas, ela sorriu. O rosto escondido na parede fria. Ele não viu e ela jamais se perdoaria se tivesse visto.
Ainda de olhos fechados, sentiu a amarra de suas mãos afrouxar e elas finalmente se libertarem. Não pensou duas vezes antes de deixar seu corpo mole cair de bruços sobre o colchão. O de veio se deitar ao seu lado e ela não viu maneira de fugir do braço dele, que envolveu com doçura sua cintura e a puxou para mais perto.
não queria fugir. Queria que sua pele formigasse quente por mais um tempo. O pouco tempo que tinha com ele. Sua cabeça descansava no travesseiro impregnado do cheiro dele e dificultava a organização de seus pensamentos. A respiração quente dele em seu pescoço não ajudava em nada. Era difícil ficar próxima de e não perder o controle dos atos. Era como se ele fosse algum ser sobrenatural.
Por cinco minutos o silêncio absoluto predominou mais uma vez no aposento. Nenhum dos dois ousava se manifestar. Apenas sentiam o toque de suas peles, os olhos fechados, como se pudessem prolongar aquele momento para todo o sempre. Não era possível, entretanto, e foi a primeira a ser atraída de volta à realidade do St. Marcus Institute. Estava trancada na cela de um prisioneiro do helvete há tempo demais para não parecer suspeito. Duvidava que Pete, provavelmente combinado desde o início com , fosse dizer alguma coisa, mas era sempre melhor prevenir do que remediar.
- Pode começar a pensar na desculpa que eu vou dar se alguém me pegar com as roupas todas rasgadas antes que eu chegue ao meu quarto. – foi o que ela disse enquanto se levantava lentamente e começava a buscar suas roupas espalhadas.
sorria de lado como sempre, e enrolado em seu lençol branco, observava particularmente interessado a nua que rodeava seu quarto e se abaixava quando ia buscar uma peça de roupa.
- Nada te impede de dizer a verdade.
- Eu não vou nem começar a discutir com você sobre isso, . Perda de tempo.
- Você é quem sabe... – ele deu de ombros – Torça pra passar bem despercebida então...
não respondeu. Vestiu suas roupas – ou o que restavam delas – e fechou o jaleco ao cruzar os braços por cima dele.
- Eu só quero deixar bem claro que... – apontou o dedo na direção dele. E foi interrompida.
- Que o quê, doutora? Que isso nunca mais vai acontecer? Que nunca mais quer me ver? Que vai me transferir de médico? – ele riu e balançou a cabeça em negação – Não acredito que tenha coragem de fazer nenhuma dessas coisas, então eu fico satisfeito com apenas um ‘obrigada’ e até a próxima!
não soube o que responder, como na maioria das vezes. Apenas bufou indignada e, alcançando a porta de ferro negro, bateu nela repetidas vezes, quase desesperadas. O barulho da tranca destravando fez seu coração se acalmar finalmente. E sem olhar para trás, deixou o que sorria sarcástico e brincava com um pedaço de sua blusa de malha para trás.
Vinte e três – Não há compaixão com a morte
Atordoada. Era o adjetivo que definiria com extrema precisão o estado em que a doutora se encontrava enquanto atravessava os jardins gelados do St. Marcus Institute. Ao sair da cela de no helvete, não olhou para os lados e ignorou o olhar curioso que Pete lhe lançou com tanta veemência. Tudo o que tinha que fazer era chegar à segurança de seu quarto sem que ninguém percebesse. A tarefa era difícil, entretanto.
O horário era o mais inoportuno possível. Banho de sol das alas A e B. E os pacientes encaravam a doutora descabelada e apressada que cruzava o gramado verde, tentando com custo deixar as roupas despedaçadas no lugar. Megan Janeth McPhierson lhe lançou de longe um olhar esperto, que ignorou encarando os próprios pés. Não é como se ela fosse capaz de saber de algo, mas o fato de a mulher sempre lhe lançar olhares incriminadores lhe deixava nervosa de qualquer jeito.
Quando atingiu o prédio administrativo, respirou parcialmente aliviada. A calefação lhe libertou do frio quando ela fechou a porta atrás de si, logo depois de atrair o olhar sempre mal humorado da recepcionista-mascadora-de-chiclete-profissional. Teve de ignorar um olhar assustado e surpreso dela, dessa vez, baixando a cabeça e seguindo diretamente para a escada que a levaria ao seu dormitório. Só mais alguns passos e então estaria segura. Mas a sorte não estava ao seu lado nesse fatídico dia. Assim que colocou os pés no corredor sempre escuro e naturalmente sombrio, um par de olhos faiscou em sua direção como o farol de um carro em uma rodovia abandonada.
A primeira reação de foi sorrir, mas quando passou os olhos pelo corpo desconcertado de , transformou o olhar cativante em preocupado. E depois em desconfiado, poderia jurar. O cenho dele franziu e a boca fez o mesmo, antes que ele se colocasse a andar através de passos rápidos e fortes na direção dela. não esperou que ele chegasse e caminhou pelo corredor, tentando parecer despreocupada. Os dedos apertavam com força o que restara do jaleco contra seu corpo. A outra mão tentou disfarçadamente ajeitar os fios de cabelo fora do lugar, mas era difícil. E foi inútil. Ele já havia percebido que nada ali estava em seu devido lugar.
- Você acabou de ser atingida por um furacão? – foi o que perguntou quando finalmente lhe alcançou.
- Não exatamente. – ela forçou um sorriso inocente.
Soou mais forçado do que se simplesmente tivesse optado por não sorrir.
- Não vai me contar o que aconteceu? – cruzou os braços. engoliu seco.
- Não aconteceu nada, , não se preocupe comigo.
- Onde você estava?
- Hum... Conversando... Com um paciente...
- Qual paciente?
- Isso é um interrogatório? – franziu o cenho e apertou mais ainda o jaleco contra o corpo.
- Só se você assim entender.
- Não estou gostando do tom que está usando comigo, .
- Qual paciente você estava atendendo, ? – deu um passo à frente e não ousou recuar. Tinha que se manter firme.
- Megan Janeth McPhierson. – ela disse o primeiro nome que lhe veio à cabeça. O olhar acusador da mulher ainda lhe atormentava.
- Kate acabou de me dizer que estava no helvete.
- Eu posso ter ido atender Megan depois de ter saído de lá, não posso?
- Kate também disse que estava com .
- O que está insinuando, ? – perguntou após um segundo. Seu cenho franziu.
- Nada. – ele deu de ombros casualmente – Você parece preocupada demais. E aparece com as roupas nesse estado, toda descabelada e... Não vou nem completar sua descrição. Acho que deve ter ideia de como está agora. Ou não.
o encarou atônita por um instante. E no segundo seguinte, estava sorrindo ironicamente enquanto balançava a cabeça em negação.
- Não te devo satisfações. – foi o que ela lhe disse.
A voz saiu fria e autoritária. Com um último olhar severo, ela abriu o restante do caminho que lhe levaria, finalmente, ao seu dormitório. Agradeceu por não ser seguida. Não hesitaria em não economizar nas grosserias com . Até porque ela não estava com cabeça para qualquer tipo de discussão com ele. Principalmente envolvendo .
Quando fechou a porta do quarto e girou a chave duas vezes, certificando-se de que estava devidamente trancada, jogou o que restava de suas roupas ao chão. Antes de chegar ao banheiro, estava nua novamente e entrou embaixo da água gelada que fez cada célula de seu corpo arrepiar em protesto.
Talvez aquilo fosse tudo o que precisava: um banho frio. Então acalmaria os ânimos e esfriaria os pensamentos. Era o que sua mãe dizia, pelo menos. Um banho frio era a solução para os problemas dos nervos na família . , particularmente, nunca acreditara nesse método, até porque parecia mais tortura no frio cortante inglês do que uma terapia contra nervos fora do lugar, mas não custava nada tentar no momento. Além do que, precisava tirar todo e qualquer vestígio de de seu corpo. O cheiro, a lembrança vívida do toque áspero das mãos fortes dele em partes de seu corpo que nem sabia serem tão erógenas, os rastros quentes dos beijos deixados com tanto vigor. Tudo. Tinha que se livrar de tudo, caso quisesse parecer normal novamente. Parecer, apenas.
Porque depois dos minutos trancados naquela pequena cela do helvete, tinha plena certeza de que nunca mais poderia figurar entre as pessoas que a sociedade costumava classificar como ‘normais’. Ela era um erro na sociedade, como uma erva daninha que estraga a beleza do jardim. Já não se sentia mais a que chegara ali há um mês. Era o mesmo corpo, mas outra pessoa o habitava. A inicial jamais se deixaria levar por um psicopata assassino. A atual lutava para não admitir que talvez estivesse completa e perdidamente apaixonada por um psicopata assassino. Rir ou chorar?
Ela não sabia o que fazer enquanto as gotas geladas escorregavam por seu corpo trêmulo. A intenção era que o frio não a deixasse pensar, mas nem de longe estava funcionando. Enquanto sua bucha produzia vergões vermelhos em sua pele e o sabonete escorria pelo ralo, tudo o que lhe vinha à mente eram imagens dos momentos de puro e intenso prazer que vivera apenas alguns minutos antes. E os olhos dele. Os , profundos, escuros, eróticos olhos dele. Aqueles que não pararam de lhe encarar por um segundo sequer durante toda aquela loucura sem sentido. Pareciam gravados em suas pálpebras, porque eram nítidos toda vez que ela fechava os olhos com força na intenção de apagá-lo da memória. Parecia que enxergavam através de sua carne, chegando à sua alma.
Depois de uma hora, desistiu de tentar se livrar de , principalmente de seu perfume amadeirado, que parecia ter penetrado seus poros. Ela fechou o registro e saiu do banheiro. O corpo molhado fez o mesmo com o chão.
A água fez um rastro até sua cama, onde ela se enfiou entre os edredons quentinhos que fariam seu corpo parar de tremer como se estivesse sofrendo uma convulsão. Ela queria desaparecer, sumir do mundo. Sabia que tinha obrigações, sabia que ainda tinha consultas naquele dia, mas não sairia de seu quarto nem se o St. Marcus de repente pegasse fogo. Era ali que ficaria. Até que tivesse coragem de voltar a encarar seu reflexo no espelho, sendo capaz de reconhecer a si mesma.
O dia não havia amanhecido quando acordou naquele sábado frio de tempo fechado. Algumas gotículas de chuva batiam em sua janela, enquanto ameaçavam se tornar mais grossas e violentas. Um temporal estava por vir. O relógio na cabeceira ainda não havia chegado ao ponteiro das 6 da manhã. Lá ao fundo, na paisagem naturalmente sombria do St. Marcus, o helvete se sustentava intacto e imponente, como sempre, em meio à escuridão. se pegou por um instante pensando se ele ainda estaria dormindo, se sonhava com ela, assim como ela havia sonhado com ele; se rolava na cama em que tinha estado com ela, recordando os melhores momentos do dia anterior; se já tinha sido transferido para o Prédio B... desviou o olhar e foi na direção do banheiro, tomar outro longo banho, antes que as lembranças do dia anterior lhe atingissem. A água quente dessa vez acalmou seus músculos e ela se esforçou ao máximo para manter na mente as lembranças de infância, os bons momentos com os amigos, os melhores trechos do último livro que havia lido. Tudo pra não se atrever a pensar nele.
Uma hora depois ela já estava devidamente vestida e buscava o secador na confusão de seu pequeno armário quando ouviu uma batida na porta. De início, ela se assustou, olhando em volta. Não poderia negar que a aparição de Barber Paay em seu quarto ainda lhe deixava atormentada, agora que havia se recordado dela. então fechou a porta do armário e abriu a de seu quarto, dando de cara com uma Kate bem agasalhada e sorrindo incerta.
- Tudo bem com você? – foi a primeira coisa que ela perguntou. O tom maternal de sempre agora mais evidente que nunca.
- Não. – respondeu simplesmente.
- Posso entrar? – Kate perguntou, após suspirar complacente.
limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça e deu passagem à outra. A porta foi fechada e Kate então se sentou na cama ainda desarrumada de .
- Dormiu bem?
- Na medida do possível. – deu de ombros, escorando o corpo no seu armário.
- Encontrei no corredor ontem à tarde e ele me disse que você não parecia muito bem. E que tinha brigado com você. Pedi ao doutor Thompson que lhe desse a tarde de folga. – Kate sorriu.
sorriu de volta, bem menos animada, entretanto.
- Obrigada, Kate.
- Quer me contar o que aconteceu no helvete? É por causa de que está assim?
- Eu realmente gostaria de não ouvir esse nome por um bom tempo.
- Tudo bem. – Kate assentiu – Então suponho que não queira saber por que o fantasma da ex-namorada dele anda te perseguindo por aí?
mordeu os lábios e pensou por alguns instantes. Seu olhar foi da ansiosa Kate ao teto, então ao chão e seus cobertores enrolados. Ela estava curiosa para saber mais sobre Barber Paay e seu insistente fantasma. Não poderia negar. E, além de tudo, estava assustada. Nada mais justo do que tirar essa história a limpo para se livrar de uma vez da assombração que não cansava em lhe perseguir.
- O que tem em mente? – perguntou.
Kate sorriu de novo, dessa vez radiante.
- Vista uma roupa quente e botas, porque vai cair o céu daqui a pouco. – ela ordenou e foi na direção de , tirando-a da frente do armário enquanto abria as portas, jogando roupas na direção dela.
riu brevemente e pegou as roupas entre os braços, indo até o banheiro.
Meia hora depois, e Kate atravessavam os jardins molhados e escorregadios do St. Marcus na direção do estacionamento. levava em mãos alguns biscoitos roubados do refeitório. Kate levava a chave do carro de , o qual ela tomou “emprestado” e jurou de pés juntos a que ele estava ciente do empréstimo. duvidava dessa última parte. Mas não estava tentada a se preocupar com isso. Tinha outros assuntos mais importantes a tratar. Como o fato de estar sendo perseguida por um fantasma. entrou no lado do passageiro e esperou que Kate entrasse no do motorista. Quando ela sentou no banco, segurou o volante com força e encarou dispersa o vazio da vegetação que contornava o St. Marcus. entrou em estado de alerta. Alguns pingos mais grossos começavam a lavar os para-brisas.
- Kate, você sabe dirigir, não sabe?
- Sim, eu sei... – ela pigarreou e finalmente colocou a chave no contato – Só... Faz algum tempo.
- Tem certeza que vai conseguir? Eu posso dirigir, se quiser...
- Não, está tudo bem. – ela sorriu para o painel e então deu a partida no carro.
segurou seu cinto com força, esquecendo-se de comer os biscoitos que agora jaziam em seu colo.
Kate guiou calmamente o carro na direção dos portões de ferro negro que trancavam o St. Marcus Institute. O motor quase não fazia barulho. , a essa hora, provavelmente já estava acordado e reconheceria o som do motor de seu Audi sendo temporariamente furtado por sua melhor amiga e sua... Qualquer coisa que não queria pensar no momento.
Quando saíram na rodovia, Kate já parecia mais confiante de sua direção, e mais confiante para manter um diálogo. Preferia não distrair a outra enquanto não achasse que estava completamente segura.
- Vai me dizer agora onde estamos indo? – perguntou enquanto finalmente comia um dos biscoitos. Estava com fome.
- Bedford.
- E o que tem em Bedford?
- Minha avó mora lá.
- Acha que ela consegue se comunicar com a Barber?
- Provavelmente. – Kate confirmou com a cabeça. Mantinha os olhos atentos na estrada. agradeceu por isso – Mas só vamos saber quando chegarmos lá, não é mesmo? – e então ela sorriu.
- Você já viu alguma vez?
- O quê?
- Sua avó... Falando... Com alguém... Morto? – quis saber. A voz soou incerta e até mesmo amedrontada.
Kate riu brevemente antes de responder.
- Uma vez.
- E como foi? Não teve medo?
- Eu morri de medo. Assistir a possessão de uma pessoa, no caso, a sua avó, que praticamente te criou, por um espírito, não é das coisas mais agradáveis que você pode ver na vida. – Kate deu de ombros – Por isso eu nunca mais me atrevi a espiar pela porta. Minha avó obviamente não me deixaria assistir uma sessão. estava comigo. Tive que pegar na mão dele porque ele tremia mais que vara verde. Estava mais assustado do que eu. – ela riu no final, os lábios curvados em saudosismo.
- Você e tiveram uma infância feliz...
- Sim. Tivemos nossos altos e baixos, mas no geral foi bastante feliz. Passávamos todas as férias em Bedford. Eu na casa da minha avó, ele na casa do avô dele. Eles engataram um romance por um tempo, mas acabou não dando certo.
- Sua avó e o avô de tiveram um romance? – riu.
- Sim.
- E por que não deu certo?
- O avô dele dizia que a minha avó era moderna demais. Você vai ver quando chegarmos lá.
- Acho que vou gostar de conhecer sua avó.
- Sim, ela é provavelmente a pessoa mais legal que eu já conheci na vida. – Kate sorriu de novo. também.
- E como eram você e na adolescência? – arriscou a pergunta. De repente, estava muito interessada no passado dos dois.
- foi o cara normal com amigos normais até os 15 anos, quando as meninas começaram a perceber o quanto ele era bonito. Aí então ele se tornou o garoto popular cheio de amigos e inimigos. Bem diferente do que eu conhecia desde que nasci.
- E você?
- Eu era uma garota popular, mas não era desprezível como .
- Desprezível? – se surpreendeu. E se assustou. As sobrancelhas arquearam e ela passou a figurar levemente boquiaberta. Não era o tipo de descrição que esperaria de Kate sobre o melhor amigo, .
- Era outra pessoa. O que a minha mãe chamava de “boçal”. Eu chamava de “marginal”. A popularidade subiu à cabeça dele. Mas melhorou um pouco quando foi para Cambridge. Aparentemente, começou a namorar uma garota por lá que conseguiu colocar a cabeça dele no lugar de novo.
- E o que aconteceu com a garota?
- Eu não sei – Kate deu de ombros – Paramos de nos falar por um tempo e voltamos a nos encontrar coincidentemente no St. Marcus anos depois.
- E hoje? É o que você conheceu quando criança? – perguntou temerosa da resposta.
O passado de não era o que ela imaginava. O homem bonito, simpático e cheio de sorrisos bondosos disfarçava uma adolescência negra. E a julgar pelo modo como explodia com ela repentinamente, cheio de ciúmes de , talvez ele não tivesse mudado por completo. A resposta de Kate confirmou sua teoria.
- O sorriso que cativa é o mesmo, mas a pessoa ainda tem traços daquele adolescente idiota que achava que era melhor do que todos.
apenas assentiu levemente com a cabeça, comendo um biscoito com calma. Os olhos se voltaram para a paisagem verde que se estendia pela rodovia. Os pensamentos estavam perdidos na descoberta sobre a real personalidade do doutor .
Bedford não era muito longe de Winchelsea. Em três horas, elas já adentravam as fronteiras da cidade, que era razoavelmente grande, se comparada à pequena Winchelsea. Estava frio e o céu cinzento que rodeava Winchelsea era negro e pesado por ali. O vento levava as gotas de chuva a baterem com violência contra os vidros do carro. Um raio cortou o céu e o clarão assustou por um segundo. Não poderia haver cenário mais assustador para a coisa mais assustadora que faria na vida.
A cidade de Bedford, entretanto, mesmo que tomada pelo negro da tempestade, era muito bonita. As ruas estavam relativamente vazias para um sábado de manhã, mas o temporal que ameaçava despencar e trazer junto consigo o céu explicava a ausência de pessoas. A rua que parecia ser uma das principais da cidade estava cheia, no entanto. Kate rodou por ela até o seu fim e então parou o carro em frente a um prédio de três andares revestido de tijolos vermelhos.
No térreo, as portas eram de vidro e expunham uma grande quantidade de artefatos coloridos que não reconheceu, atrapalhada pela chuva que finalmente começava a cair. No segundo e terceiro andar, as janelas eram cobertas por cortinas cor-de-rosa e vermelhas. Os canteiros eram tomados de flores das mais variadas cores. O letreiro em neon que brilhava em verde e roxo anunciava que aquela ali era a “Good Vibrations Store” – Tudo para deixar sua casa mais feliz.
saiu do carro, quando Kate o fez, e correu para a marquise, ainda assim, chegando ensopada. Kate abriu a porta de vidro e o barulho do sininho preso a ela anunciou a entrada das duas. A porta bateu então, deixando o ar frio do dia chuvoso lá fora. Ali dentro era quentinho e os casacos pesados (e agora molhados) não eram mais necessários. O cheiro era de incenso de canela. As prateleiras que se estendiam pelo aposento comprido eram todas tomadas de artefatos de decoração do tipo que a mãe de não escolheria colocar dentro de casa. Era tudo muito colorido, espalhafatoso, talvez até com uma pitada hippie. Em todos os corredores de prateleiras havia um lustre de cristal de luzes amareladas, dando a iluminação baixa e aconchegante que deixava o lugar meio misterioso. olhou encantada ao seu redor, achando tudo muito bonito.
Do fim do corredor principal, o que levava a um balcão que era indicado por uma grande placa com os dizeres “CAIXA”, vinha andando uma senhora de meia idade, magrela, pelo menos dez centímetros menor do que . Suas roupas, entretanto, não condiziam com sua idade. Usava uma calça jeans mais justa do que a que a própria usava, e sobre uma blusa de malha preta e rasgada do Black Sabbath grudada contra o corpo, vinha uma jaqueta de couro gasta. Nos pés, a senhora trazia um coturno. As mãos tatuadas eram visíveis ainda de longe. Os lábios pintados em carmim. Os cabelos tão loiros quanto os de Kate. sorriu antes mesmo que ela se aproximasse completamente. Entendia bem o que Kate queria dizer quando disse que sua avó era moderna.
- Kate! Que saudades! – a senhora disse, dando um abraço apertado na neta.
De perto parecia ainda mais jovial. Não poderia ter mais do que 50 ou 55 anos. E algumas plásticas.
- Senti saudades também, Charlotte. – foi o que Kate respondeu.
nem se surpreendeu por vê-la chamando a avó pelo nome. Duvidava que a mulher aceitasse muito bem o fato de ser chamada de ‘avó’.
- E essa deve ser a amiga que mencionou... , certo? – ela virou na direção de e nem esperou a moça responder. Deu um abraço forte nela também. retribuiu na mesma intensidade.
- É um prazer conhecê-la.
- O prazer é todo meu, meu bem! – a mulher acenou com a mão – Vamos para a minha sala. Poderemos conversar mais tranquilas lá. – disse, virando uma plaquinha pendurada na porta de vidro. O ‘Fechado’ estava para o lado de fora agora.
Elas seguiram Charlotte pelo corredor, na direção dos fundos da loja. As botas molhadas faziam um barulho engraçado quando entravam em contato com o piso de madeira escura. Atrás de uma grande réplica da estátua de Davi, estava uma garota meio gordinha de uns dezoito anos, mais ou menos. Ela tentava com custo limpar a cabeça da estátua, enquanto se equilibrava sobre uma escada que era segura por um garoto de cabelos jogados pelo rosto, de modo que mal se podiam ver seus olhos verdes. Deveria ter dezoito anos, mais ou menos, também. Os braços eram tatuados e a roupa era preta. Seria bonito, se não assustasse .
- Carrie, Max... – ela chamou os dois, que imediatamente pararam de discutir baixinho entre si.
- Sim, Charlotte? – foi a garota quem se manifestou.
- Temos trabalho a fazer.
- Certo. – a garota desceu da escada e então seguiu junto com o garoto para uma porta, cuja entrada era anunciada por uma cortina de miçangas coloridas.
não a teria visto, entretanto, se os dois não tivessem entrado e Charlotte não a tivesse chamado. Ela foi logo atrás de Kate.
A sala que adentraram era redonda e forrada por papel de parede vermelho com pequenas flores douradas. No centro dela era disposta uma mesa de madeira negra também redonda. Ao redor dela estavam cinco cadeiras forradas de veludo vermelho. A única luz provinha de um pequeno lustre com lâmpada amarela fraquinha que balançava precariamente sobre a mesa. Ao redor de toda a sala, estavam mil velas brancas, dispostas pelo chão, formando um círculo também. Na mesa, entretanto, havia apenas uma vela. Todas elas estavam apagadas e eram acesas pelos garotos Carrie e Max. E à medida que elas iam sendo acesas, deixavam toda a atmosfera do local mais sombria. Era pesado por ali. podia sentir um leve arrepio na espinha e aquela sensação esquisita que lhe tomava toda vez que Barber estava por perto.
- Sentem-se, meninas. – Charlotte sentou em uma das cadeiras, indicando duas para e Kate. As duas obedeceram de imediato, sentando de frente para ela, lado a lado – Então, quem vai me contar o que está acontecendo?
Kate olhou para , que olhou incerta para as mãos que se entrelaçavam nervosas em seu colo. Elas começaram a suar. Ela não sabia bem se deveria prosseguir com aquela loucura ou apenas entrar no Audi “emprestado” de e voltar para Winchelsea. Talvez pudesse lidar sozinha com o fantasma de Barber Paay.
Ou talvez não pudesse lidar sozinha com o fantasma de Barber Paay e a louca continuasse lhe assombrando pelo resto da vida. Não havia nada a perder, no final das contas. pigarreou antes de falar:
- Eu... – ela coçou a cabeça – Acho que... Posso estar sendo perseguida por um fantasma. – disse e mordeu o lábio, incerta, enquanto lutava para não parecer uma louca.
Charlotte lhe encarou de modo tão sereno, entretanto, que lhe deixou um tanto mais segura.
- Sabe a quem pertence a entidade? – ela cruzou as mãos sobre a mesa. A postura era séria. Não condizia com suas vestimentas e o modo rebelde com que penteava seu cabelo Chanel.
- Acho que sei. – confirmou com a cabeça e sentou mais próxima da mesa – Eu tenho um paciente que foi preso por um assassinato brutal. E acho que pode ser a garota que ele assassinou quem está me perseguindo, a ex-namorada dele.
- Acha que tem algum motivo especial para ela tentar se comunicar justo com você?
engoliu seco. Era óbvio que tinha. Só não sabia que fantasmas poderiam ser ciumentos, se é que era esse o motivo da perseguição.
- Além do fato de que eu o estou ajudando no tratamento psiquiátrico, acho que não. – ela negou e sentiu que Charlotte podia ler em suas entranhas, assim como a própria Kate fazia, que estava mentindo.
- Já teve outras experiências com o sobrenatural, querida?
- Não, nunca.
- Mas você claramente tem o dom da mediunidade esperando para ser desenvolvido dentro de você. Senti isso assim que entrou pela porta da minha loja. – Charlotte sorriu.
olhou para Kate, o olhar era assustado. Kate sorriu como a avó. não se sentiu mais segura com isso. Não queria desenvolver mediunidade nenhuma, apenas descobrir o que diabos Barber Paay queria com ela e então se livrar do maldito fantasma.
- quer saber qual o motivo de Barber Paay tentar se comunicar com ela. – Kate se manifestou, vendo que não o faria.
Nesse instante, os garotos Max e Carrie terminavam de acender as velas e se sentavam nas duas cadeiras restantes. O ambiente estava mais quente, além de mais assustador. As chamas das mil velas bruxuleavam contra a parede, dançando, formando sombras desconexas que davam a impressão de que iriam se materializar a qualquer segundo. E isso deixava ainda mais apreensiva.
- Você disse que ela sofreu uma morte brutal? – Charlotte voltou a perguntar a .
- Sim.
- Quanto tempo faz?
- Três anos.
- Provavelmente é uma entidade perturbada que ainda sofre com alguma coisa que deixou para trás. Algo que não está bem resolvido.
- Ela... Ela deixou duas mensagens para mim. – se remexeu na cadeira, chegando à parte em que ela se sentia mais idiota.
- Mensagens?
- Sim. Uma delas dizia “inocente” e a outra dizia “justiça”.
- Você disse que seu paciente está preso.
- Sim.
- Obviamente ela não está satisfeita com a justiça que foi feita. – Charlotte disse, se ajeitando em sua cadeira, acendendo a última e única vela sobre a mesa com um isqueiro em formato de caveira de prata.
Ela estendeu as mãos sobre a mesa e Carrie e Max as pegaram, estendendo as suas próprias em seguida. Kate e se entreolharam, levemente preocupadas por um instante, e então deram as mãos.
- Vamos tentar contato com a garota... Como chama mesmo?
- Barber Paay. – informou, sentindo as mãos suarem mais ainda em contato com a de Kate e a da garota Carrie.
Suas pernas começaram a tremer inconscientemente, enquanto ela tentava disfarçar o quanto estava nervosa. A respiração começava a acelerar e seu peito apertava tanto que parecia que uma mão invisível se encarregava desse trabalho. A sensação esquisita estava ali, era latente. O ar pesado e quente deixava a cabeça dela rodando.
Charlotte, Carrie e Max fecharam os olhos. e Kate mantiveram os seus abertos, encarando uma a outra de modo que variava do assustado ao desconfiado. O silêncio era sepulcral. Nem a chuva que caía com força do lado de fora era ouvida. O mínimo ato de suspirar já era uma afronta. E foi o que Charlotte, de repente, começou a fazer.
Em um segundo, ela estava imóvel, os olhos fechados com serenidade, e no seguinte, seu peito subia e descia com força enquanto sua respiração saía alta. O ar saía de sua boca e provocava um estranho sibilar. arregalou os olhos e os de Kate fizeram o mesmo em sua direção. Apesar de já conhecer o procedimento, ela não parecia mais tranquila do que . Muito pelo contrário. Sua mão também suava e podia sentir pelo chão de madeira que tremia aos arredores que sua perna subia e descia impaciente.
Charlotte continuou naquele respirar forte e sibilar sinistro por alguns segundos. Os olhos nunca abriam. Max e Carrie estavam imóveis, sem exibir qualquer reação. Pareciam dormir um sono tranquilo depois de um dia cansativo. começava a ficar impaciente. Enquanto o calor proporcionado pelas velas crescia, totalmente o contrário do que ela esperava se por ali tivesse mesmo um espírito, a agonia lhe apertava ainda mais o coração. Talvez sua pressão estivesse baixando. Ela não se sentia bem. Então olhou para Kate, buscando seu olhar. De sua testa escorreu uma fina gota de suor, ao mesmo tempo em que ela começava a abrir a boca para protestar. Não ia acontecer nada por ali, era o que ela pensava. Mas o olhar repreensor de Kate na sua direção lhe fez calar de imediato.
então voltou o olhar para Charlotte, que agora tinha a testa levemente franzida. Os olhos apertavam vez ou outra, parecendo se remexer nas órbitas. A imagem rodeada pelas sombras amareladas das velas era particularmente assustadora. O sibilar entre seus lábios cresceu e sentiu um arrepio muito forte percorrer de uma extremidade a outra de seu corpo. Nesse instante, ela quis se levantar e sair daquele lugar. Quando fez menção de fazê-lo, entretanto, Kate segurou sua mão, no exato instante em que tudo aconteceu. A primeira impressão é de que não era real. Talvez uma cena forçada de filme de terror.
Mas era real.
O frio.
O frio que lhe perseguira pelos corredores do St. Marcus, que lhe aprisionara na sala do arquivo, ele estava ali. Um vento forte soprou de algum lugar desconhecido, e então todas as velas se apagaram de súbito. ofegou assustada, juntamente com Kate. Charlotte, Max e Carrie não esboçaram qualquer reação. Pareciam nem se dar conta do que acontecia ao redor. A única lâmpada que balançava precária presa ao lustre começou a piscar, do mesmo modo que piscava aquela luz na sala do arquivo. O barulho irritante era o mesmo. Lembrava o inseto que ficara preso em uma sala fechada e batia contra o vidro para conseguir sua liberdade. O ar começou a se condensar em fumaça toda vez que saía da boca das cinco pessoas ali presentes.
Os músculos de se retesaram, protestando contra a repentina queda de temperatura, mas suas mãos continuavam a suar. As pernas, no entanto, tremiam violentamente sem pudor ou vergonha alguma. Os braços e mãos faziam o mesmo. Os lábios eram maltratados pelos dentes, que teimavam em bater. Mas foi quando a luz que piscava finalmente se apagou que o medo dominou todos os sentidos de alerta que ainda restavam em . Seus nervos pareciam derretidos como ferro em fogo. A sala entrou em silêncio profundo mais uma vez.
E então Charlotte o quebrou novamente. Do seu peito saiu um gemido agudo, sofrido. De seus lábios, um suspirar sôfrego. e Kate pularam assustadas na cadeira.
E então a viu.
Parada, logo atrás de Charlotte, os braços finos e brancos pendendo morbidamente ao lado do corpo.
Era Barber Paay.
As roupas estavam rasgadas e ensanguentadas, como na noite em que fora encontrada morta. Sua figura era cinzenta e transparente. Entre os fios ruivos de cabelo, o sangue se camuflava. O olhar escuro e perdido estranha e assustadoramente preso aos olhos impressionados de . O olhar que parecia carregar toda a dor do mundo, transpassando com clareza a sensação sufocante a ela. Era como se sentisse toda a dor que Barber Paay sentiu naquela noite, como se sofresse toda a decepção que Barber Paay sofreu naquela noite, como se sentisse todo o medo que Barber Paay sentiu naquela noite.
- Ela sofre. – a voz estranhamente rouca de Charlotte falou, cortando o silêncio mais uma vez.
mantinha os olhos fixos na imagem de Barber, que também não se atrevia a perdê-la de vista. Parecia enxergar dentro de sua alma, invadindo-a toda e completamente. Era como se ela soubesse todos os seus mais profundos segredos. Era agonizante.
- Po-pode perguntar a ela o que quer co-comigo? – conseguiu juntar um tanto de voz que deixou sua frase compreensível.
O tom saiu trêmulo e incerto, entretanto. O frio que fazia bater seu queixo não lhe ajudava muito.
- Ela diz que você precisa ajudá-la. E fica repetindo que está sofrendo.
- Se ela me disser o que eu preciso fazer fica muito mais fácil... – respondeu, impaciente, ainda sem ser capaz de desviar os olhos de Barber.
Não sabia como tinha a força e a coragem para falar em um momento como aquele. Talvez não se conhecesse realmente.
A dor em seu peito crescia de modo alarmante, o frio já chegava perto de graus negativos, provavelmente.
- Ela diz que tem um nome. – Charlotte disse, e seus olhos reviraram nas órbitas. Seu rosto se contraiu como se ela tivesse acabado de comer um limão azedo.
- Qual nome? – dessa vez quem perguntou foi Kate. Sua voz saiu bem mais firme que a de .
Charlotte suspirou novamente, um sibilar breve saiu dos lábios e ela finalmente falou:
- .
Um vento forte voltou a perpassar cada canto da sala outra vez, levantando os cabelos de , jogando-os sobre seus olhos. A imagem de Barber Paay vacilou no ar e os olhos negros e profundos permaneceram fitando insistentemente e intensamente por mais alguns segundos, antes que ela finalmente desaparecesse.
As velas então voltaram a queimar como antes, alheias ao que havia acontecido ali. A luz brilhou novamente no lustre que ainda balançava. O ar voltou a ser quente, dominado pela eficiente calefação. Todos soltaram as mãos. Max e Carrie abriram os olhos, olhando atordoados ao redor, como se, de fato, tivessem acabado de acordar de uma longa noite se sono. Charlotte foi a última a reagir. Quando abriu os olhos, eles brilhavam na direção de .
- Ela só tinha esse nome? – perguntou, quando achou que não soaria patética demais.
- Não quis me dizer mais nada.
- Me perseguiu esse tempo todo para me dar apenas um nome? Ela nem ao menos disse quem é ?
- Não. Mas tenho absoluta certeza de que está envolvido em seu assassinato.
suspirou derrotada, rolou os olhos e balançou a cabeça em negação. Que havia envolvimento no assassinato, ela já tinha chegado à óbvia conclusão. Talvez fosse o verdadeiro assassino de Barber Paay, mas ela não poderia ter certeza enquanto não conversasse com a pessoa mais interessada no assunto. Teria que se encontrar com mais uma vez.