
História por Camissss. | Revisão por Carol Mello
Foi você o sonho bonito que eu sonhei.
Foi você, eu lembro tão bem, você na linda visão.
E me fez sentir que o meu amor nasceu então!
O ardor que causam as palavras não é comparado aos que causam a imagem. É pior, é intensificado. A imagem pode nos enganar diversas vezes. Uma foto é facilmente falsificada. Um momento é facilmente mal-interpretado. Um vídeo é facilmente manipulado.
As palavras, não.
As palavras são pensadas antes de serem proferidas. Mal pensadas, sim. Mal calculadas, sim. Mas não impensadas. Não manipuladas. Não administradas. Palavras machucam em um grau diversificado; aterrorizante.
É curioso.
Sua vida era curiosa. Seus pensamentos eram involuntários, mas suas atitudes eram manipuladas da pior maneira possível.
Suas palavras, no entanto, nunca mentiram.
A cabana onde vivia nunca estivera tão desabitada. O silêncio que ali pairava nunca fora tão incômodo. O único ruído que lhe adentrava os tímpanos era o farfalhar das folhas de árvores roçando-se uma às outras. O vento gélido e tortuoso que adentrava pela janela aberta, balançando sua cortina verde-musgo e enlouquecendo seu cata-sonhos não provocava-lhe muito mais do que pequenos arrepios no corpo nu.
Oh, sim. Estava nu. Exceto pela pequena camada fina de lençol que cobria-lhe a região pélvica, dando a impressão angelical ao corpo másculo que repousava sobre a cama. Uma das pernas levemente dobrada, enquanto a outra permanecia esticada ao máximo. Um dos braços sob a cabeça, servindo como um perfeito travesseiro que, devido à rápida fuga, fora esquecido em seu apartamento. O outro braço repousava na barriga, a mão sobre o umbigo, acompanhando o movimento de expiração e inspiração. Os olhos abertos, escancarados. Fitavam o teto feito por tábuas de madeira. Um belo teto, ele pensava. Exceto pela má proteção contra temporais. As íris reluziam à luz da lua; única iluminação que lhe adentrava a cabana. Os fios de cabelos caíam-lhe sobre a face em um corte malfeito e, ainda assim, sedutor. A barba rala, por fazer, dava-lhe um visual ainda mais sensual e interessante; misterioso.
Um suspiro longo e exausto escapou por seus lábios entreabertos. O vento adentrara novamente pela janela, uivando em resposta. não se moveu. Não o faria nem se quisesse. O frio não lhe provocava nada; estava entorpecido. O silêncio lhe incomodava, mas não tentaria preenchê-lo com som algum. Os olhos escancarados começavam a lacrimejar. Pediam silenciosamente para que o rapaz fechasse suas pálpebras; estavam secas. Pediam por um minuto de descanso daquela única visão que haviam tido durante tanto tempo.
deixou que suas pálpebras caíssem e lhe entregassem à completa escuridão.
Flashback.
Luzes cegantes; os tons em neon escolhidos para aquela noite prejudicavam totalmente seus olhos. Verde limão; vermelho sangue; amarelo sol; azul cintilante; rosa pink.
Seus olhos doíam.
Alterado minimamente pelos efeitos do álcool que jaziam em suas veias, cambaleou até o bar. O barman lançou-lhe um olhar reprovador, mas não se opôs a entregar-lhe sua bebida. Não o faria. Estava ganhando para que os outros ficassem bêbados até esquecerem sua própria identidade.
conseguira encontrar um único ponto bom naquele lugar; o banheiro era ao lado do bar.
Odiava festas. Não fora sempre assim, no entanto. Seus lugares preferidos eram boates, principalmente se fossem de strip-tease. No entanto, boates se tornaram dispensáveis depois de serem tão constantemente frequentadas; seu interesse havia se perdido. Mas aquela era a festa de seu melhor amigo. Sean completava sua segunda década de vida e, como o bom amigo que sempre fora, não poderia deixar de comparecer em sua comemoração.
A festa não estava completamente inútil, no entanto. Por mais que seus olhos ardessem a cada lampejo de luz, ou que sua cabeça rodasse a cada inspiração feita daquela fumaça aromatizada, seu amigo havia feito de tudo para que aquela festa saísse exatamente como fora planejado. O DJ reproduzia boas músicas; nada de gazelas berrantes como Justin Bieber ou Miley Cyrus, que pensavam ter voz para um estilo pop. estava farto de frequentar festas e ser surpreendido com uma música de algum desses cantores juvenis prepotentes. As bebidas não eram das piores; Sean conseguira um bom contrato com barmen experientes.
— Espero que esteja se divertindo, meu amor.
virou o pescoço para o lado, podendo ver – em meio aos lampejos de luzes – os olhos amendoados de Sean. O rapaz passou-lhe o braço pelos ombros, puxando-o para um abraço de lado, enquanto se movimentavam em direção ao outro lado do salão de festas.
— Você fez uma boa festa. — respondeu . Apesar de sua mente lhe implorar para dar o fora daquele lugar, o rapaz jamais revelaria tal coisa ao seu melhor amigo. — Mas acho que já vou indo. Minha cabeça dói.
Sean parou onde estava, ficando de frente para . Colocou as duas mãos sobre o ombro do amigo, dando uma leve chacoalhada no rapaz. rolou os olhos, sabendo o que Sean diria e martirizando-se por saber que não poderia recusar.
— Eu não acredito que você vai embora antes dos parabéns.
rolou os olhos, assentindo com a cabeça. Sean logo abriu um sorriso satisfeito, voltando a puxar seu amigo em direção ao outro lado do salão. Os dois tinham alguma dificuldade para sair do meio de todas aquelas pessoas que dançavam a dança do acasalamento. Era incrível como Sean conseguia lotar uma festa e, ainda assim, permitir penetras.
— Para onde está me levando? — ousou perguntar. Sean arqueou as sobrancelhas rapidamente por duas vezes consecutivas, mas não lhe respondeu. Continuou seguindo até que se vissem livres de todas aquelas pessoas, dando de cara com a porta de vidro que os levaria para a parte externa do salão. Sean não hesitou em atravessá-la com em seu encalço.
— Você vai precisar de muito mais que um simples obrigado para me agradecer por isso. — o garoto finalmente disse, sem revelar muito mais do que aquilo. relutava em segui-lo, por mais que não fizesse muito esforço para pará-lo.
— Agradecer pelo quê, exatamente?
O som nasalado da risada de Sean fora sua única resposta. reparou que estava sendo guiado até a borda da piscina daquele lugar, onde um grupo de amigos estava reunido à volta de uma mesa. Uma garota, no entanto, estava com os saltos na mão, enquanto suas pernas balançavam frequentemente dentro da piscina. Ela parecia não se preocupar com sua meia-calça preta se encharcar, ou com sua saia rodada vermelha correr o risco de ser molhada; estava completamente sozinha na beira daquela piscina.
— Esse é meu querido , pessoal. — exclamou Sean ao que já estavam próximos o suficiente da mesa para que todos compreendessem o que ele falava. O som da batida da música era alto o suficiente para que o lado de fora do salão também fosse abalado. — Tenho certeza de que sabem como interagi-lo ao grupo.
— Me interagir? — perguntou, um sorriso debochado crescendo ao longo de seus lábios. — Sean, por acaso está pensando que não sei me divertir com minha própria companhia?
— Você sabe que não é nada disso, . — o rapaz rolou os olhos, puxando uma cadeira para poder se sentar. permaneceu de pé. — Percebi que aquela festa lá dentro não estava te divertindo. Esse pessoal é legal, vai gostar da companhia deles.
olhou para as pessoas sentadas em volta da mesa.
— Esses são Louis, Sharon...
— Prometa não rir do meu nome feminino, por favor. — pediu o rapaz loiro de nome Sharon. — Eu sei o quão ridículo esse nome é para um homem.
— Não se preocupe. — respondeu.
— Victorie, Kyle, Greta, Ivy, Kurt e Sharon-garota. — terminou Sean. A garota chamada Sharon cruzou os braços, emburrada.
— Já cansei de pedir que não me chamasse de “Sharon-garota”. — resmungou a loira, revirando os olhos. — Não é minha culpa se Sharon foi nomeado com o meu nome.
— Tudo bem, Sharon. — Sean rolou os olhos, não se preocupando com a chateação da garota. — Oh, sim! Quase me esqueci. — exclamou Sean ao que seus olhos se puseram em uma figura além de . — Essa é...
— . — virou o corpo rapidamente, dando de cara com a garota que, antes, divertia-se sozinha à beira da piscina. Os olhos reluziam à fraca luz da pequena lâmpada acesa, e seus lábios sorriam de um modo perfeitamente harmônico. Seu rosto todo parecia acompanhar o sorriso encantador que a garota dava. não pôde reprimir um sorriso em correspondência. — .
/Flashback.
abriu seus olhos novamente; sentia-os doloridos. Seu corpo, mesmo em uma posição relaxada e descontraída, parecia pesar o triplo de seu peso. O rapaz sentia como se uma bola de chumbo estivesse quicando em seu cérebro. Doía e incomodava, mas ele não se levantaria à procura de um remédio. não estava em condições de se importar com uma simples dor, uma simples... pulsação. Seu corpo entorpecido cuidaria de deixá-lo sem sentido algum.
Ele não fitava mais o teto. Seus olhos , geralmente tão brilhantes e cheios de vida, demonstravam opacidade. O único brilho que havia em suas íris era aquele proporcionado pela lua. Mas o brilho que, anteriormente, lhe habitava por si só... O seu brilho único, aquele que só ele conseguia carregar no olhar, não era mais, tão longe, existente. O brilho que era proporcionado por apenas uma razão, já não a encontraria mais para retornar a brilhar.
E, novamente, suas pálpebras se viram obrigadas a descansar.
Flashback.
Sua gargalhada ecoou pela escadaria vazia e escura. Uma gargalhada gostosa, alta e única. sabia que não existiria ninguém capaz de gargalhar da maneira que gargalhava. Era uma gargalhada longa, extensíssima, e feita em solavancos. E, quando encontrava seu ponto máximo de fôlego, a gargalhada se tornava silenciosa, mas não menos eufórica. O silêncio era apenas o resultado da sua falta de ar e sua busca por ele. Mas a garota permanecia curvada para frente, as mãos apertando a barriga e a boca escancarada; os olhos apertados, derrubando lágrimas de riso.
E ele, , via-se na exata mesma situação.
se oferecera para acompanhar até seu apartamento. Era a terceira vez que saía com os amigos que Sean lhe apresentara. A quarta vez que via . A quarta vez que ouvia sua gargalhada tão contagiante e histérica. A quarta vez que sentia seus olhos brilharem intensamente pela imagem da garota à sua frente. Nenhum dos dois estava bêbado, por mais que os modos como agiam denunciassem o contrário. Estavam apenas se divertindo como dois amigos que se conheciam há tempos, por mais que aquela fosse apenas a quarta vez que permaneciam sob o mesmo teto.
Estava tarde e frio. percebera quando a garota estremecera e, no instante seguinte, anunciara sua hora de ir para casa. Agindo por impulsividade, como sempre se repreendera por agir, ofereceu-se para acompanhá-la até seu apartamento e estendeu-lhe o agasalho que vestia; ele estaria indo para casa, também. Não permaneceria em pub algum se não estivesse lá para fazê-lo gargalhar com sua própria gargalhada, ou fazer seus olhos brilharem ao ver sua beleza estonteante.
não recusara sua oferta.
Ambos, então, encontravam-se na escadaria do prédio de três andares da garota, debruçando-se sobre os corrimãos para gargalhar sobre um acontecimento idiota qualquer que acabaram de presenciar. Mas não se importava em rir de algo idiota quando estava ao seu lado, rindo junto.
— Eu não acredito, ! — a garota exclamou no momento em que sua gargalhada diminuiu. No entanto, sua respiração ainda encontrava-se descompassada e seu coração ainda batia descontroladamente. — Eu não acredito que vi isso!
E, então, voltou a rir.
tentou controlar um pouco as risadas.
— Parece até que você nunca viu um mendigo perder as dentaduras, ! — exclamou . Sua gargalhada se intensificava tanto que o garoto precisou sentar-se sobre o degrau da escada. — É tão comum andar às três da manhã na rua e ver um mendigo cuspir a dentadura enquanto pede dinheiro! — ironizou.
— Credo, que nojo! — a garota voltou a exclamar. Ela limpou as lágrimas que escorriam por seus olhos com as costas da mão, respirando fundo para conter uma nova leva de gargalhadas. — Eu poderia ter dormido sem essa visão. Eu realmente poderia!
balançou a cabeça negativamente, ainda rindo. Levantou-se do degrau da escada e bateu as mãos algumas vezes em sua calça para limpá-la. Estendeu sua mão para que a pegasse e, assim, os dois continuaram a subir o restante de degraus até atingirem o terceiro andar. apertou o agasalho de em seu corpo quando a porta da escadaria foi aberta e o vento gelado voltou a bater em sua pele; a janela daquele corredor fora deixada aberta.
— Como é possível fazer tanto frio assim? — perguntou a garota, enquanto revirava sua bolsa atrás de seu molho de chaves.
— É o começo do inverno. — deu de ombros, encostando-se no batente da porta do apartamento de . — Logo começará a nevar.
— Nem me fale, eu vou me tornar um boneco de neve ambulante! Achei!
deu espaço para que pudesse destrancar seu apartamento. Seus olhos não conseguiram desviar a atenção da garota tão concentrada em abrir a porta de casa. Os cabelos, presos no topo por uma boina preta, caíam na frente do rosto em leves ondas desreguladas. Suas bochechas estavam completamente rosadas devido ao frio que fazia e, mesmo com o agasalho duas vezes maior do que seu corpo pequeno, a garota permanecia maravilhosa.
Virou-se para ; o sorriso extremamente aberto, enquanto um suspiro saía de seus lábios.
— Bem, obrigada pela companhia, . — falou , enquanto sua mão empurrava a porta. — Eu te convidaria para entrar, mas está tudo uma bagunça e eu estou com sono... — admitiu.
— Não se preocupe, eu... — se perdeu nos olhos profundamente da garota, que o fitavam com um brilho ainda mais intenso do que antes — Eu... já estava indo, de qualquer jeito. Preciso chegar logo em casa.
— Certo, então... Até depois.
assentiu enquanto fechava a porta. Vendo-se parado como um idiota no corredor, o rapaz voltou-se para as escadas, descendo a primeira leva em segundos. No entanto, suas pernas não queriam mais obedecê-lo. Pararam, enquanto deveriam permanecer descendo. Suas mãos se fecharam em punhos, tentando controlar o desejo próprio de suas pernas de voltar escada acima e bater à porta de .
Um frio estranho passou pela sua barriga quando percebeu que não estava mais nas escadas e, sim, em frente à porta de . Deu-se por vencido. Já estava ali, de qualquer jeito. Ele respirou fundo antes de bater com os nós dos dedos na porta e esperar que esta se abrisse. E ela se abriu.
— ? — perguntou. Ainda vestia suas roupas, com exceção da boina preta. — Está tudo bem?
— Eu, er... — não sabia o que dizer. No entanto, encontrou sua fuga ao observar seu casaco ainda no corpo da garota. Respirou fundo antes de falar. — Você não me devolveu... — apontou o casaco.
— Oh, sim. — riu. Aquela risada que não conseguia resistir. Àquela entonação gostosa que sua risada tinha, música para seus ouvidos. Era isso o que pensava. começava a retirar uma das mangas do agasalho. — Me desculpa, esqueci de...
sabia exatamente o que a garota diria a seguir. Mas isso não tornava aquilo tão importante. Nada tornava aquilo importante. Porque, em meio à risada descontraída da garota, agiu, novamente, por impulso. Ao invés de contentar-se com a ideia de receber seu casaco de volta e voltar para seu apartamento, fingindo nunca ter regressado ao de , sua impulsividade descontrolada agira por si só. Antes que pudesse se refrear, seus dedos alisavam a cintura da garota, enquanto seus lábios tocavam os dela. Uma mão envolvia-lhe o pescoço por baixo dos vários fios de cabelos, puxando-a cada vez mais para perto, enquanto a mão que lhe acariciava a cintura mantinha-se firme ali. arriscou mais dois passos, juntando, finalmente, seu corpo ao dela. mantinha as mãos caídas, pega de surpresa pelo beijo de . No entanto, seus lábios se abriram quando sentiu a língua de contorná-los, num pedido mudo de passagem para um aprofundamento.
poderia jurar que constelações criadas por ele dançavam em frente aos seus olhos, por baixo das pálpebras. Suas línguas se encontraram como um choque e, logo, os dois entraram em uma intensa sintonia. jogou seus braços por cima dos ombros de , cruzando-os por trás de sua nuca. desceu sua mão pelas costas da garota, fazendo uma leve pressão enquanto passeavam por ali, de modo a juntá-la ainda mais ao seu tronco. Ele conseguia sentir os batimentos cardíacos da garota contra seu peito, e sabia que ela também podia sentir os dele.
Quando os dois se separaram, minutos depois, pôde ver o sorriso satisfeito de . Ela o olhava graciosamente, com um sorriso ainda mais gracioso, como se o agradecesse pelo beijo. Ele sorriu de volta a ela.
nunca mais reclamaria de sua impulsividade incontrolável.
/Flashback.
Os olhos de tornaram a se abrir. Por mais que se recusasse a admitir, ele sabia exatamente o que estava se passando ali. Sua mente, malfeitora e traidora, estava torturando-o com lembranças de seus melhores momentos com . Momentos jurados a serem esquecidos, condenados em seu mais íntimo para que nunca retornassem à tona, faziam exatamente o contrário daquilo que lhes era obrigado. Todo o sofrimento que aquelas lembranças lhe obrigavam a passar, no entanto, não eram tão dolorosas quanto as que ele estava vivendo diariamente; lembranças não o machucariam com toda aquela realidade acontecendo em torno de si.
O rapaz sentiu algo escorrer lentamente de seus olhos avermelhados e exaustos, dissolvendo-se no canto de seus lábios ao encontrar tal obstáculo. Em um instinto, passou a ponta da língua pelo local, sentindo, então, o gosto salgado de sua lágrima sofrida. Estava chorando, constatou. Sempre tentara convencer-se de que chorar era um verbo usado apenas por garotas apaixonadas, sendo os homens proibidos de experimentá-lo. Mas não poderia encontrar um momento de sua vida para dar menos importância àquele pensamento. Dentre todas as suas idealizações malucas, aquela seria extinta tão rapidamente quanto havia sido instalada. Ele percebeu que, logo após, involuntariamente, os cantos de seus lábios foram preenchidos com outras gotas de lágrimas salgadas, que faziam um rastro úmido pelas suas bochechas. não se negaria o direito do choro; era dele, afinal. Chorar ou não chorar não faria com que tudo retrocedesse e não traria de volta; mas, ele constatou segundos depois, que aliviaria a dor lancinante que lhe esmagava o coração, como se este estivesse sendo apertado pelos dois punhos de um monstro.
não se preocupou em limpar as lágrimas que escorriam. Seu rosto permaneceu deitado sobre o braço, enquanto o outro seguia o movimento de inspiração e expiração que sua barriga encenava devido aos poucos solavancos causados pelos soluços guturais. Uma respiração fraca e rala, quase inexistente, saía por seus lábios entreabertos. Tratada como se não houvesse importância alguma. Como se o oxigênio, afinal, fosse tão dispensável quanto qualquer outra coisa daquela cabana, naquele momento em questão.
As lágrimas pareciam ganhar intensidade e terreno por todo o seu rosto; demarcavam o caminho que percorriam, e serviam de mais motivos para uma vermelhidão sob seus olhos. Mas chorava silenciosamente, imobilizado, melancólico; entorpecido.
Dessa vez, a opção de descer as pestanas foi escolhida por ele mesmo, e não pela necessidade de descansar os olhos. Ele, então, fechou-os, procurando pela escuridão confortavelmente.
Flashback.
O vento gélido chocava-se violentamente contra a pele pálida e fria, tornando-a levemente enrubescida na região sob os olhos. Uma palidez que, apesar de dar a leve impressão de ser consequência de uma pele sem vida e descuidada, talvez doente, apenas servia para embonecar ainda mais o rosto dócil e angelical da garota que o tinha. via-se perdido em seus traços, tão curvilíneos e delicados, parecendo terem sido feitos sob medida para ela, e apenas ela. O rosto de sua amada, agora esbranquiçado, tornava-se cada vez mais avermelhado em uma região, acentuadamente. As cheias maçãs do rosto da garota tornavam-se cada vez mais rubras, em um tom escarlate vivo. Seus lábios inchados e sedutores, completamente aprovados e idolatrados por , adquiriam um tom arroxeado enquanto, em resposta ao frio daquela noite, tremiam violentamente no ritmo em que seus dentes tilintavam um ao outro, produzindo o sonoro bater de queixos.
sabia que estava perdido; soube desde que seus olhos puderam observar a figura pequena e inusitada de sentada na beira de uma piscina completamente só, como se presa em seu mundo de fantasias, balançando as pernas para frente e para trás, como se aquela água não molhasse sua meia-calça ou respingasse em sua saia vermelha. Como se nada pudesse interromper seus pensamentos fantasiosos; como se não existisse o mundo real. Soube desde que ouvira sua voz pela primeira vez, soando melódica como uma orquestra sinfônica perfeitamente ensaiada, interrompendo a apresentação feita por Sean para apresentar-se por si só, mostrando-se dona da situação. Perdeu-se em seus olhos extremamente que incidiam um brilho completamente hipnotizante, que adquiriam um tom mais escurecido desde sua pupila e, em um dos mais belos dégradés já vistos por ele, iam enfraquecendo sua tonalidade conforme aproximavam-se de sua esclera.
não poderia enganar a si mesmo, enchendo de mentiras o seu subconsciente sobre como se sentia, nem mesmo se pretendesse fazê-lo. Seu corpo lhe denunciava como nunca havia sido denunciado antes; seu modo de agir lhe denunciava como se todas as palavras fossem dispensáveis; seu sorriso verdadeiro e o brilho em seu olhar o denunciavam como se não houvesse algo que pudesse acobertá-lo. Até mesmo a pessoa mais cética e lesa de sentimentos poderia enxergar em apenas um segundo de observação, em uma distância consideravelmente grande, tudo o quê se passava no interior confuso de .
Ele estava irrevogável, indiscutível e inconfundivelmente apaixonado. Apaixonado pela dona dos olhos sorridentes mais lindos que já havia tido o prazer de conhecer algum dia. .
A garota corou ainda mais na região das bochechas, despertando a leve dúvida de . Ele, agora, tinha alguns indícios de dúvida sobre a fonte daquele sangue concentrado naquela região. Algo lhe dizia que a garota não repousava mais em seu sono, tendo a consciência de ser observada pelo namorado há algum tempo. Mesmo assim, seria aquilo por conta do frio, ou pela maneira como ele a observava?
Ela, então, pigarreou.
— Pare de me olhar assim, ! — Pediu. Os olhos cerrados de um modo suplicante, demonstrando seu pleno desconforto e constrangimento com toda aquela situação. Ser observada parecia deixar-lhe sem defesas. riu de um jeito nasalado, balançando a cabeça de um lado ao outro enquanto seus lábios demonstravam um sorriso ladino e irresistível. — Qual é a graça?
— Você faz ideia do efeito que provoca em mim, garota? — Perguntou ele, mordendo o canto do lábio inferior ao que sua frase, aparentemente inocente, causara em o efeito que desejava. A garota baixou o olhar, assim como o rosto, escondendo-se entre um travesseiro fofo da cama de e o braço do rapaz. — Você não imagina... Não faz ideia de nem mesmo um terço de quão perfeita é, não é, pequena?
A garota ergueu os olhos, mas não desenterrou seu rosto do travesseiro. a imaginou como um cãozinho olhando para seu dono, em súplica, esperando pelo conforto merecido do dia. E ele, no entanto, reconhecia-se como nada mais do quê o cão acuado do vizinho, observando diariamente aquilo que jamais mereceria ter para si próprio.
— Você é um bobo. — Ela revirou os olhos, por fim. Sentou-se na cama, cruzando as pernas como um índio faria, tomando cuidado para que suas pernas cobertas pela calça de moletom não saíssem debaixo do aquecido cobertor felpudo. — Aumenta os elogios como se eu fosse um monumento magnífico, digno de Michelangelo ou Pablo Picasso.
— Você não é um simples monumento feito por dois velhacos para ficar em exposição! — Exclamou , indignado. Ele permanecia deitado de lado, com um braço dobrado de modo que sua mão segurasse sua cabeça erguida do travesseiro. Com a mão livre, o rapaz passou a brincar com as leves ondulações dos cabelos macios e bem hidratados de . — Você é como se fosse... A Oitava Maravilha do mundo, disputando lugar com todas as outras para atingir a primeira posição. — Decidiu.
arqueou uma sobrancelha para o rapaz. Aquilo passaria uma imagem desafiadora, talvez até mesmo prepotente, se não soubesse perfeitamente que seu olhar denunciava confusão e dúvida. Ele riu nasalado uma vez mais, enquanto preparava palavras que pudessem lhe explicar.
— Você deveria ser presenteada com um feriado internacional, tamanha é sua beleza. Mas eu cuidaria muitíssimo bem da beldade idolatrada para que nenhum tipo de homem chegasse perto de você e lhe incomodasse com fotos e autógrafos. Ou incomodasse a mim com cantadas baratas.
segurou o travesseiro no qual se escondia antes e, revirando os olhos, lançou-o contra inesperadamente. Pego de surpresa pelo ataque da garota, o rapaz foi acertado em cheio no rosto, desequilibrando-se de cima do braço e caindo de barriga para cima no restante do colchão. gargalhava gostosamente, mordendo o lábio inferior de tempos em tempos a fim de conter suas risadas debochadas, mas era apenas uma atitude vã e, para , muitíssimo provocante. Ele recuperou-se logo, sentando-se na cama exatamente como a garota estava e arqueando as sobrancelhas do modo mais desafiador que era capaz de imitar.
— É assim? — Perguntou ele, sua voz tendo um toque severo, mas que não escondia a brincadeira planejada. — Eu lhe faço um elogio e, ao invés de milhões de beijos, sou atacado como se fosse um inimigo?
rolou os olhos, cobrindo a boca com as mãos na tentativa falha de manter-se calada. Suas risadas ainda tomavam conta do apartamento.
— É guerra que você quer, ? — entrelaçou os dedos de uma mão na outra e, esticando os braços ao seu máximo à frente do corpo, estalou-os de uma vez só, produzindo um ruído de ossos. Ele viu o arrepio crescer pelos braços da garota à sua frente. Um sorriso perverso lhe preencheu os lábios. — É guerra que você terá, pequena.
soltou uma gritinho esganiçado, soando ainda mais histérica, enquanto, subitamente, jogava as cobertas para o lado e punha-se de joelhos sobre a cama. Tentou engatinhar até a ponta do colchão e sair correndo dali para proteger-se do inusitado atacante, mas , mais forte e mais rápido do que a garota jamais seria, agarrou-a pela cintura com seus braços musculosos antes que a garota conseguisse levantar o joelho para dar a primeira “engatinhada”. Ela arqueou a cabeça para trás, deixando que uma gargalhada intensa e ainda mais alta que a anterior escapasse, saindo do fundo de seu ser enlouquecido, enquanto a jogava de costas no colchão e subia por cima dela. O rapaz posicionou-se com uma perna de cada lado do quadril da garota, prendendo-a com a pressão que fazia com os joelhos em seus quadris, enquanto ela esperneava a fim de sair dali de qualquer maneira. Com um movimento rápido e forte, prendeu seus dois pulsos em apenas uma mão e ergueu-os acima da cabeça da garota, deixando-a completamente imobilizada, exceto pela cabeça, que se mexia de um lado para o outro.
— , por favor, não! — Implorava ela, prevendo o que viria a seguir, em meio às risadas escandalosas de ambos. apenas negou com a cabeça, um sorriso maldoso no canto dos lábios. — Por favor, meu amorzinho, não faça isso comigo!
— Diga que me ama. — Mandou ele, agora sério. Suas íris encontrando-se com os olhos de , que estavam miúdos devido às risadas, procurando demonstrar a necessidade de ouvir as palavras que tanto esperara por ouvir.
— Jamais me renderei ao inimigo. — Disse ela, por fim.
— Então aguente as consequências.
Antes que a garota pudesse remodelar sua resposta, a mão livre de fora de encontro à sua cintura, exatamente abaixo de seu esterno, e seus dedos pressionaram o local diversas vezes em seu ponto frágil. fechou os olhos com força, esforçando-se ao máximo para não demonstrar fraqueza, mas suas gargalhadas soavam silenciosamente, enquanto ainda lutava para sair debaixo de e terminar com aquelas cócegas.
— Você quer me dizer alguma coisa, querida? — Perguntou , parando com as cócegas por um momento e virando a cabeça para o lado sutilmente, indicando seu ouvido. — Sabe, você pode dizer a qualquer instante. Sou todo a ouvidos. — negou com a cabeça, decidida a entrar no jogo de .
— Não vou me render! — Decretou como uma guerreira faria.
a olhou maliciosamente, negando ironicamente com a cabeça. Ela mordeu o lábio inferior com força, sem querer deixar que outra gargalhada escapasse quando os dedos de voltaram a lhe provocar cócegas. Entretanto, suas tentativas de conter uma risada foram vãs, já que era mestre em cócegas e, no momento seguinte, a garota se contorcia novamente sob o corpo de , fazendo cada vez mais força para livrar-se dali. Seus olhos já lacrimejavam e ela se sentia cada vez mais sem ar, chegando ao seu limite àqueles sentidos. Começava a se desesperar.
— Tudo bem! — Exclamou ela, enquanto seu corpo se virava para o lado e suas costas se arqueavam — Certo! Chega! Eu digo! — Anunciou, desistindo. parou com as cócegas, mas sua mão ainda segurava as dela firmemente sobre a cabeça e suas pernas ainda a prendiam entre si. Ele sentia seu interior se retorcer, suas entranhas desaparecerem, enquanto sua expressão levava um tom sério e repleto de expectativa. Adoraria ouvi-la dizer aquelas palavras. Tinha certeza de que soariam maravilhosas pela voz dela. — Você venceu, . — Disse ela, por fim. Suspirou pesadamente, enquanto seus olhos buscavam os de , mirando-os e deliciando-se nas profundezas – intensamente brilhosos – que a fitavam cheios de ternura. — Eu amo você. Como se nada no mundo fosse mais importante do que amá-lo.
procurou por algum vestígio de mentira no olhar da garota. Entretanto, diante do calor repentino que surgira em sua pele diante da revelação daquele sentimento e da respiração mais falha que surgira, sabia que não ela não estaria mentindo sobre aquilo; se não o amasse realmente, intensamente como havia explicitado, teria dito francamente, naquele instante, sabendo que ele pararia com as cócegas e a respeitaria por não correspondê-lo. E, mesmo sabendo disso, preferira dizer-lhe que o amava. Preferira revelar os sentimentos que esperava tão ensandecido que fossem recíprocos aos dele. Olhando em seus olhos.
sorriu. Não poderia fazer diferente.
Ele afrouxou o aperto nos punhos da garota, descendo a mão pela pele macia de sua bochecha, contornando-a até o queixo. Sua mão repousou na lateral do rosto da garota e, no momento seguinte, seu nariz roçava o dela em um carinho singelo e gostoso. Seus olhos, ainda entreabertos, fitavam os já fechados dela, que apenas aguardavam até que seus lábios finalmente fossem de encontro aos seus. mordeu o lábio inferior, tomado pela felicidade que lhe invadira o coração e aquecera o sangue que circulava por suas artérias. Deixou-o escapar lentamente. No instante seguinte, seus lábios entravam em contato, e suas línguas dançavam em uma perfeita sintonia.
/Flashback.
Capítulo betado por Jess
poderia ouvir o som do desespero. Tão silenciosamente macabro que seria capaz de fazê-lo ouvi-lo. O desespero, afinal, gritava dentro de seu peito. Gritava intensamente, recordando-o do quão completamente ferido emocionalmente ele estava. Os sons tinham a voz de ; melódica, suave e doce. Ele nunca cansaria de ouvi-la. Exceto agora, que sua voz entoava tão desgraçadamente.
Ele saberia dizer perfeitamente o motivo daquele grito exacerbado. Não precisaria ser um gênio para saber. Afinal, por qual outro motivo permaneceria naquela cabana se não o motivo que o levara até ali? Aquela cabana tão perdida em um terreno desconhecido que, por ironia do destino, ele havia tido a felicidade de encontrar; uma cabana abandonada, porém mobiliada. Com coisas simples, sim. Velhas e puídas. Várias coisas que haviam sido deixadas ali precisaram ser descartadas. Os donos, para a sorte de , nunca retornaram; ele duvidava que realmente o fizessem algum dia.
Mas não havia se importado com o fato de ter encontrado uma cabana no meio do nada. De fato, sentira-se aliviado. Por mais ameaçador e aterrorizante que pudesse parecer, era, na verdade, romântico. Ele havia tomado aquela cabana como refúgio para seus próprios medos. A descobrira desde que recebera sua carteira de motorista, há nove anos. Em uma de suas voltas pela cidade, acabou por perder-se em uma rua desconhecida e, inconscientemente, encontrou tal lugar. E então, desde sempre, quando se sentia desamparado e sem saídas, não hesitava em passar um tempo naquele lugar que lhe proporcionava tanto conforto.
A cabana sempre fora seu lugar secreto; nem mesmo Sean conhecia.
— Você está me deixando louco... — sussurrou ele ao seu próprio subconsciente. Tinha plena certeza de que sua mente não deixaria de brincar com a sanidade do rapaz, fazendo-o reviver cada segundo de suas melhores experiências. Ele fechou os olhos, sabendo o que viria a seguir.
Aquela cabana não era um segredo apenas de .
Flashback.
Completaria um ano desde que e estavam juntos. Naquele mesmo dia, os dois sairiam para comemorar.
Diferentemente do que aconteceria com qualquer outra garota, não pudera, nem tentando, esquecer-se daquele dia. Seu subconsciente lhe lembrara, durante a última semana, todos os dias de que aquela data estava se aproximando. E, junto com a lembrança constante do aniversário de namoro, o desespero em preocupar-se com algo romântico o alcançara igualmente.
Buscou por toda a sua mente algo que lhe indicasse a maneira correta de surpreendê-la. Joias seriam clichês demais; ele queria algo novo. Flores morreriam e, por mais românticas que fossem, deixara escapar em uma conversa qualquer que odiava ser presenteada com elas. Chocolates eram os preferidos da garota, mas seria um presente momentâneo; e, é claro, clichê demais para os padrões de .
poderia telefonar ao Osteria Don Boseggia - um ótimo restaurante, conhecido por sua especialidade com jantares românticos -, mas ele certamente não teria dinheiro o suficiente para bancar a conta. Estava desesperado e via-se completamente sem saída. Sem ideias, sem ter com quem se aconselhar. Gostaria de algo especial para comemorar a data que lhe era importante, já que a passaria com a primeira pessoa que realmente amava.
Então, sua mente iluminou-lhe as ideias. Saindo pela tangente, de um modo completamente inesperado, viu-se completamente satisfeito com o que lhe surgira à mente. Por mais egoísta que pudesse ser, não se importaria em levar a garota que amava ao lugar que amava.
Sua cabana. Seu refúgio.
E por mais que aquele lugar fosse mal-acabado e simples demais para aquele dia, sabia exatamente o que fazer para torná-lo inesquecível.
— Que lugar é esse, Anjo? — a garota perguntou pela quinquagésima vez, se a contagem de não estivesse errada.
Desde que saíra com o carro da porta da casa de , a garota não parara de perguntar para onde o rapaz a estava levando; principalmente quando a estrada se tornou mais simplória e, conseguintemente, de terra.
Agora, tampava os olhos da garota com as duas mãos enquanto tentava guiá-la sem maiores danos do que leves tropeços até a portinha da cabana.
— Você está a dois passos de saber. — respondeu ele rente ao seu ouvido, fazendo-a estremecer. Não conseguia conter um sorriso de ansiedade. Passou a língua pelos lábios, umedecendo-os, enquanto retirava uma mão dos olhos da garota e, rapidamente, abria a porta. — Pode abrir os olhos.
ergueu as pálpebras, tendo completa visão da bagunça daquela cabana diminuta. No entanto, aquilo seria, de longe, o que ela notaria. Seus olhos se arregalaram em surpresa quando, pelo chão, a garota encontrou como sendo a única iluminação do local pequenas velas brancas, já acesas – se preocupara em acendê-las minutos antes de buscar a garota e levá-la até lá, de modo que as velas já se encontravam um pouco gastas.
Mas aquilo, obviamente, não era tudo. Além das velas que se espalhavam estrategicamente pelos cantos da cabana, arrumara a pequena mesa velha com um castiçal de capacidade de três velas, sendo elas – a cor favorita de . Sobre a mesa, um saco plástico com algo dentro denunciava que o jantar provavelmente já estava pronto. pôde ver que algumas pétalas – poucas, nada exagerado – de lírios se espalhavam sobre o cobertor que o rapaz levara até a cabana em uma de suas primeiras noites ali.
mantinha sua postura paralisada, esperando pela reação de ; a garota, por sua vez, não conseguia expressar nada mais que surpresa. De todas as ideias que pôde supor que planejaria para aquele dia, jamais pensou em uma velha cabana com uma decoração tão simplória e autossuficiente. A luz fraca que era emanada pelas velas deixava tudo ainda melhor, superando tudo pelo que já passara em outros relacionamentos.
Ela não poderia acreditar que realmente existia.
— Isso é... — balbuciou ela, adentrando a cabana com dois passos vacilantes, ainda olhando tudo ao seu redor. — Você não pode ser real. — dizia, incrédula.
— Oh, mas eu sou real. — afirmou, deixando um sorriso satisfeito crescer em seus lábios arroxeados pelo frio. A onda de insegurança que passava por seu corpo fora completamente extinta ao que virava-se para ele, denunciando em seus olhos o quanto amara aquilo e quão surpresa estava.
— Como você fez tudo isso? De quem é essa cabana? — perguntou ela, mordendo o canto do lábio.
— Tive a tarde toda para fazer. — ele deu de ombros, revelando uma falsa indiferença. Adentrou a cabana, indo de encontro a e posicionando suas mãos na cintura coberta por uma grossa blusa de lã da garota, enquanto ela colocava as suas nos antebraços dele. — Você é a primeira pessoa que trago até aqui. — confessou. A garota ergueu o olhar ao dele, perdendo-se em suas íris que irradiavam um brilho completamente diferente de todos os que ela já havia visto antes. — Esse é meu refúgio; meu lugar preferido. Nem mesmo Sean o conhece. E agora é seu também.
sorriu mais largamente, seu coração palpitando com urgência dentro do peito. Suas mãos pequenas deslizaram pelo braço do rapaz, até atingirem seus ombros e seguirem para a curvatura de seu pescoço. Ela fez um leve agrado no local com o dedão.
— Seu segredo está seguro comigo, Anjo. — após o sorriso agradecido de , juntou seus lábios delicadamente e demoradamente, em um selo de alacridade.
— Eu trouxe sushi. — disse ele assim que seus lábios se separaram. fechou a porta da cabana atrás de si antes de entrelaçar seus dedos aos de e puxá-la até a pequena mesa. — Como aqui não tem fogão ou nada que sirva para aquecer um prato de comida, achei que sushi seria perfeito. Eu sei como você ama culinária japonesa.
— Está perfeito, . — falou ela. afastou uma cadeira da mesa, apontando para que se sentasse e assim ela o fez. Ele, então, deu a volta na pequena peça de madeira e sentou-se à sua frente, tirando as embalagens de sushi de dentro do saco plástico e jogando o último ao chão, longe dali. — Está tudo perfeito.
Os corpos nus aqueciam-se debaixo do cobertor grosso, porém gasto, que antes revestia a cama da cabana. estava deitado de barriga para cima, fitando o teto inseguro de madeira, não se preocupando com a probabilidade de cair chuva ou neve sobre seu corpo descoberto; o calor que transpassava por suas veias certamente anestesiaria o frio de fora. Seu braço esquerdo dobrava-se para trás, de forma a apoiar sua cabeça confortavelmente por cima dos travesseiros; a outra mão estendia-se ao seu lado, servindo de apoio e travesseiro à cabeça de , seus dedos fazendo vagarosas carícias em seus cabelos.
A garota, por sua vez, deitava-se sobre o lado esquerdo de seu corpo, de modo a ficar virada de frente para o rapaz. Ela mantinha a cabeça levemente curvada para cima, possibilitando sua visão do rosto sereno do namorado; os dedos de sua mão direita faziam leves carícias no peito nu do rapaz. Seus lábios mantinham-se encostados na pele dele, seu nariz aspirava seu cheiro. Os dois mantinham uma respiração leve, descansada; satisfeita. Os pés, única parte de seus corpos – além da cabeça - que estava para fora do cobertor, brincavam juntos, entrelaçando-se uns aos outros.
— Você sabe por quê a minha cor favorita são tons , meu Anjo? — indagou a jovem, quebrando o silêncio confortável que se instalara entre os dois. script>document.write(Daniel) suspirou deliciosamente.
— Não... Você nunca me contou essa história.
— É muito simples, na realidade... Minha cor favorita costumava serem os tons de dos meus olhos. Eu sempre os achei muito chamativos e únicos... — ela ergueu seu olhar para o rapaz, que a observava com nítido interesse e deslumbre. Um sorriso brotou nos lábios de ambos. — Mas descobri que os dos meus olhos não eram nada mais do que uma simples cor quando reparei nos tons dos seus.
— É uma completa besteira trocar seus tons pelos comuns dos meus. — ele a acariciava nos cabelos.
— Não ao meu ver. Assim como a palavra “Anjo” pode parecer forçado, talvez clichê, aos olhos dos outros... Mas só eu sei o motivo de usá-la como seu apelido.
— E qual é o motivo?
— Como um anjo da guarda, você cuida de mim para que eu não desmorone. É de onde surge a força vital que me faz continuar a viver. — o rapaz fitava-a seriamente. Não nervoso, não temeroso; admirado. — Mas esse é só mais um clichê perto dos outros. Algo que só eu poderia expressar e sentir.
poderia afirmar a qualquer um, qualquer coisa, qualquer fenômeno que o que sentia pela garota era amor. não afirmaria algo diferente.
Eles esperavam que durasse eternamente.
/Flashback.
Continua...
Nota da Autora: Olá, meninas lindas!
Pois bem, vou começar pedindo um grande perdão por ter demorado a enviar a atualização de Sleeping. Não foi intencional, eu juro! Acontece que estou no terceirão, e só quem passou por isso sabe o quão foda é! Não que eu estude muito (desculpem, mas eu não consigo deixar a preguiça de lado por causa da FUVEST), mas eu estou abarrotada de coisas pra fazer durante quase todas as tardes, e quando me sobra um tempo, eu procuro dar uma relaxada, ler algum livro e me divertir um pouco. Obviamente, às vezes, quando a criatividade me faz uma breve visita, ponho minhas histórias em dia.
Esse não é o caso de Sleeping, já que a short está completamente finalizada e salva em um documento no word. Mas eu ainda preciso corrigir, acrescentar/retirar/modificar alguns acontecimentos e tudo o mais antes de enviar pra Carol linda. De qualquer jeito, agradeço a todas vocês que ainda têm paciência pra dar uma passadinha aqui e ler as atualizações, de verdade!
E, pra quem quiser, tenho mais duas fics no site. Uma já está escrita e está há alguns capítulos de ser finalizada, chama-se Dangerous Love Affair e está na seção restrita do site. A outra, na minha opinião a melhor, chama-se ABC do McFLY e está situada, obviamente, na categoria McFLY. Se quiserem ler... aí está. Hahaha.
Mais uma vez, obrigada por lerem essa short, tendo sempre a paciência divina de esperar minha mente lembrar-se de que essa short de fato existe e precisa ser atualizada. morta/
Beijones, Camis. 10/04/2012
Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail, não utilizem a caixa de comentários. Obrigada, espero que gostem da fic. XX