Haviam luzes e pessoas. Muitas pessoas, andando como formiguinhas, todas juntas, rindo e fingindo que não era inverno. Que o frio não havia chegado e os consumido, tornando as respirações mais lentas e as bochechas ligeiramente rosadas. Mas era somente outra noite de sexta-feira metropolitana, com cheiro de fumaça e concreto gelado sob os pés de cada casal aparentemente feliz que cruzava as ruas com as mãos entrelaçadas. Outro dia dos namorados, com seus corações flutuantes e maçãs do amor decorando cada centímetro visível do centro comercial da grande cidade. Outro lembrete miserável para corações solitários.
estava afundado em seu longo sobretudo negro, os óculos escorregando até a ponta de seu nariz cada vez que uma de suas botas de combate acertavam uma pedra sobressalente em seu caminho. Como se convencera a sair de casa num dia como aquele ainda era um mistério absoluto para ele. Deveria ter ficado em seu apartamento, debaixo de cobertas de lã marrom e cercado por xícaras de chá vazias e livros lidos e relidos mil vezes. Um fim de semana comum para um professor de história comum. Mas o homem sofria de um mal chamado Lana. Uma irmã ruiva, cleptomaníaca e extremamente cuidadosa em relação a sua vida. Então, se ela dizia que ele iria ao circo no dia dos namorados, ele iria ao circo no dia dos namorados. Fim da história.
Era só mais uma ideia boba da caçula, um modo desastroso de conferir ao irmão mais velho algum tipo de vida social, algo que todos ao seu redor sabiam que ele não possuía. Ou somente outra tentativa de Lana de assaltar as garrafas caras de uísque que nunca havia bebido. Talvez não fosse uma má ideia, afinal. Ele costumava gostar de circos quando criança, seus palhaços e trapezistas, o cheiro de pipoca e a plateia alvoroçada. Mas isso fora há tanto tempo atrás, numa época onde ele ainda tinha seus sonhos e seus pais. Ambos já haviam partido, deixando-o numa solidão perpétua e amaldiçoada. Tanta amargura para alguém tão jovem, vinte e cinco anos nas costas e olheiras arroxeadas contornando os olhos cor de avelã.
As luzes se tornavam mais intensas à medida que ele se aproximava da grande entrada feita de arcos de madeira verde pintados com estrelas douradas. Dois menininhos recolhiam os ingressos, narizes de borracha azul e roupas de segunda mão, nenhum parecendo ter mais de dez anos de idade. O circo era um lugar estranho, refletia enquanto adentrava a lona vermelha gasta e imensa. Como um mundo à parte, uma realidade distante e quase intocável, uma magia oculta em cada lantejoula e em cada gota de tinta que cobria o rosto de seus integrantes. Tomando um lugar no alto da arquibancada de gelados bancos de madeira, ele observava os sussurros das pessoas ao seu redor, o picadeiro iluminado, os vendedores e seus tabuleiros caminhando despreocupadamente. Aquele lugar parecia tão intocável, tão livre de problemas. Não era à toa que houvessem tantas lendas de antigos cidadãos que haviam fugido com trupes antigas, riu amargamente. Tudo parecia fácil e simples naquele lugar.
Um alto-falante preso a uma das estruturas centrais anunciou o inicio do espetáculo em cinco minutos. Tudo ficou ligeiramente mais escuro, um único holofote de luz branca apontando para um conjunto de cortinas douradas. A excitação do público crescia a cada segundo, e até mesmo já parecia um pouco mais animado com a ideia. Uma hora e meia de distração colorida e brilhante. Uma hora e meia de mágica.
Então, num sopro singular de cornetas, as cortinas se abriram. E naquele momento, não sabia se estava pondo seus olhos em uma das estrelas mais brilhantes do céu ou se era o próprio sol que se fazia presente naquela fria noite de inverno.
Porque ela era incandescente, radiante. Os cabelos loiros penteados como os de Marilyn Monroe, o corpo bem desenhado envolto em um maiô de pedras dos mais variados tamanhos e cores, do clássico prata ao cor-de-rosa exuberante. Havia também um blazer de veludo negro, os botões dourados abertos, a cauda dupla mais comprida na parte de trás e os sapatos dourados com os saltos mais altos que uma pessoa conseguiria se equilibrar. A cartola preta, elegante, finalizava o figurino. Mas o sorriso era a parte mais preciosa de tudo aquilo. Era como uma vista gratuita da infinitude do universo, um conhecimento do mundo e de seus mistérios. Era nada, e era tudo.
A mulher então abriu os lábios, a voz suave como uma carícia. Cumprimentou-os, agraciou-os, conduziu-os para uma noite tão exuberante quanto seus olhos verde-oliva. A mestre de cerimônias certamente era um show à parte, e mesmo contrariado, o coração de parecia bater mais rapidamente toda vez que ela reaparecia. Coração tolo e burro, cérebro imprestável, ele repreendia-se, os olhos grudados num engolidor de espadas qualquer. Era só mais uma mulher bonita, como tantas outras que ele já havia visto em sua vida. Mas havia algo nela que o deixava intrigado. Ele limpou a garganta mais uma vez. Bobagem. Tudo aquilo não passava de um apelo insignificante de seu corpo, há tanto tempo privado de um contato intimo com alguém. Hormônios adolescentes reprimidos.
deixou-se levar pelos malabaristas, equilibristas e domadores de animais. Engoliu um pacote de pipocas salgado demais e um refrigerante qualquer. Quando todos se levantaram para ovacionar um casal que havia interpretado ‘O Soldadinho de Chumbo’, levantou-se junto, bateu algumas poucas palmas. Até mesmo sorriu quando uma menininha de no máximo cinco anos, sentada ao seu lado, lhe ofereceu uma de suas balas de goma em forma de patos. Tinha que admitir que não fora uma total perda de tempo arrastar-se até ali aquela noite. Agradeceria Lana mais tarde. Talvez até a presenteasse com uma das malditas garrafas de uísque se ela fosse boazinha. Principalmente por todas as vezes que a apresentadora aparecia, fazia alguma piada, hipnotizava cada espectador ali.
Mas então o show acabou, a trupe reuniu-se no picadeiro, mãos dadas e sorrisos no rosto, agradecendo a presença de todos naquela noite de dia dos namorados. tentou não olhar uma última vez para aquela mulher. Não precisava memorizar seu rosto, não para que ela assombrasse seus sonhos depois. Somente aplaudiu sem entusiasmo e seguiu a multidão para fora, lentamente. O vento acertou-lhe o rosto sem aviso prévio, a temperatura visivelmente mais baixa do que antes. Mas as pessoas não se dispersavam como ele gostaria. Somente juntavam-se em pequenos grupos, impedindo a passagem, rindo alto e deixando extremamente nervoso. Pegou um atalho qualquer, o único livre de congestionamento, as mãos nos bolsos e o nariz enfiado na gola de seu casaco. Não reparou exatamente para onde caminhava, somente seguia o rumo que era mais conveniente no momento. Até que chegou ao final da linha.
Um beco sem saída. bufou, contando os cinco trailers que formavam um pequeno círculo no meio da calçada. Provavelmente pertenciam ao circo, já que eram absurdamente extravagantes e iluminados. Preparou-se para dar meia volta, tentar achar o rumo de casa. E foi então que os gritos começaram.
Vinham nitidamente do maior dos trailers, pintado de dourado e com o nome do circo escrito em letras vermelhas e garrafais na lateral. As palavras não eram exatamente compreensíveis, mas o timbre de vozes masculinas e femininas ecoava cada vez mais alto e irritadiço entre o pequeno espaço formado por paredes tão finas. Os pés de pareciam presos ao chão, não sabendo exatamente o que fazer ou como reagir. Provavelmente a melhor opção era dar as costas e ir embora. Se ele fosse um homem esperto, um professor de história respeitado por seus alunos do ensino médio e só um pouquinho sensato, ele sairia dali. Infelizmente, alguma força superior parecia estar bloqueando a capacidade do seu cérebro de raciocinar perfeitamente. Então, como uma estátua de mármore, manteve os olhos cor de avelã atentos e totalmente alertas para qualquer tipo de problema.
O problema prontamente apareceu. Um problema loiro, de olhos de um verde-oliva vivo e raivoso e usando nada além do maiô de pedras que usava durante o espetáculo. A mestre de cerimônias parecia a ponto de explodir, ou de matar alguém. O que fosse mais rápido e eficiente. Sem os saltos gigantescos, ela parecia mais nova e vulnerável. Mas o cigarro aceso preso aos lábios tirava toda a inocência que poderia transparecer naquela mulher quase angelical.
engoliu em seco. Tentava formular a melhor rota de fuga na escuridão que o envolvia. A multidão havia se dispersado, mas qual era a possibilidade de escapar sem que ela o notasse? Não muito alta, ele conformou-se lentamente, odiando-se pela estupidez que acabara de cometer. Mas tentar ainda não custava nada. Girou em seus calcanhares, apertando os olhos em nervosismo e preparando-se para o primeiro passo em direção a liberdade. Mas a sola de sua bota mal encostou no concreto sujo.
- Quem é você?
A mesma voz deliciosamente suave agora parecia tomada por uma amargura eterna, como se não houvesse felicidade nenhuma no mundo ou na sua mera existência. congelou em seu meio passo, um arrepio percorrendo sua espinha. Voltou a sua posição original, tentando não encarar aqueles olhos que pareciam conter o segredo do tempo e do espaço. Fixou o olhar em uma lâmpada queimada logo acima da cascata de cabelos loiros, a voz falhando por um segundo.
- Eu, hãn, ninguém – ele pigarreou, mordendo o lábio inferior numa mania incorrigível – Peguei o caminho errado, desculpe. Estou de saída.
- Você – ela chamou novamente. Os olhos estreitos e os lábios abertos, o rosto todo formando uma interrogação aparente – Eu vi você no espetáculo. Fileira de cima, ao lado de uma menininha – Sua voz parecia cheia de angústia ao mencionar a garotinha das balas de pato – Sorriso nos lábios que não chegava ao olhar. Bonito, mas triste. Qual seu nome?
- – Chocado. Totalmente chocado. De tantas pessoas na plateia, por que ela reparara logo no sem graça e melancólico professor de história? Ele não sabia exatamente se queria descobrir – Eu realmente estou de saída. Desculpe, mais uma vez.
- Espere! – ela gritou ao mínimo movimento do corpo de , antes de tragar o cigarro uma última vez e jogar o resto longe – Eu vou com você – Olhou uma última vez para o trailer atrás de si, antes de correr no encontro do homem a sua frente. Ele não pode deixar de reparar nos tênis de corrida extremamente brancos que ela usava.
O silêncio perdurou por alguns minutos, os dois caminhando lado a lado. Era a situação mais estranha de toda a vida de ambos, mas de um jeito mais estranho ainda, era confortável. Quieto, seguro, saudável. Absurdamente esquisito. Mas nada além disso.
- Meu nome é – ela sussurrou, quebrando a monotonia quando eles alcançaram a lona brilhante do circo e pode notar que ela evitava olhar naquela direção. Mais alguns passos depois, eles estavam na beira da estrada principal. Ele limpou a garganta, uma sensação estranha percorrendo seu corpo.
- Hãn, você vai ficar por aqui? Eu preciso ir até o final dessa rua – ele indicou, sem emoção.
- Hm – compartilhava da mesma mania que ele, o lábio inferior preso em seus dentes. – Na verdade, eu não tenho lugar nenhum para ir. Eu só queria, sabe, sair de lá. Acho que vou dar mais algumas voltas pelo quarteirão antes de encarar a fera.
acenou com a cabeça, forçando um pequeno sorriso. Sussurrou um boa noite, dando as costas para , que continuava parada em cima da calçada. Dois, três, quatro passos. O final do quarteirão. Esse foi o mais longe que ele conseguiu chegar antes de olhar para atrás. Braços cruzados, olhar perdido e pés chutando qualquer pedrinha que encontrasse pelo caminho. Um leão rugiu em seu peito. Não parecia certo. Tarde da noite, uma mulher tão pequena, bonita e semi-nua andando sozinha pelas ruas geladas daquela cidade tão grande. Mesmo que fosse uma garota do circo, que devia saber se defender e provavelmente era mais valente do que ele, o pensamento o incomodava. Antes que se desse conta de seus atos, já estava tirando seu casaco e andando em direção a pequena figura loira e solitária diante das luzes amarelas do circo.
- Você deve estar congelando – as palavras saiam involuntárias, e não havia nada além da vontade de dar um tiro na própria cabeça, enquanto suas mãos se ocupavam em vestir com seu casaco números maior que ela – Talvez, eu não sei, você gostaria de uma xícara de café? Pra passar o tempo? Tem uma cafeteria bem decente a umas duas quadras daqui.
- Eu... – ela olhou para trás, um tanto incerta, mas ao mesmo tempo afundando-se no casaco de . Uma ruga de raiva passou pelo seu rosto, e então aquele sorriso que iluminava a noite surgiu – Eu acho que um café é uma ótima ideia.
Os passos eram curtos, calmos e lentos, assim como a respiração das duas figuras que cruzavam entre os prédios altos e iluminados. As bocas permaneciam fechadas, até que deixou a curiosidade natural que lhe acometia escapar por sua língua, os óculos escorregando novamente para a ponta do nariz e os braços cruzados sobre o suéter vermelho que usava.
- Como você foi parar no circo?
pareceu um tanto surpresa pela pergunta, os olhos verde-oliva estudando o rosto suavemente anguloso do homem ao seu lado. Depois de um suspiro demorado, deixou que as palavras lhe escapassem.
- Era outubro. – ela riu, um tanto amarga – Semana do baile na minha escola. Eu tinha quinze anos e uma mãe extremamente preocupada – seus olhos se perdiam pelo caminho a frente, as mãos nos bolsos do casaco – Cliché de filmes colegiais: o cara mais popular, capitão do time de futebol, queria ser meu par. – perguntou-se se naquela época já possuía aquele poder e aquele sorriso, o modo de hipnotizar as pessoas ao seu redor – Mas mamãe não achou uma boa ideia. Eu podia ser esquartejada, envenenada, sufocada, sequestrada! Não, não, eu precisava ficar quieta em meu quarto, lendo um livro qualquer, ou meditando. Eu fiquei tão frustrada. – Ela se encolheu mais ainda entre o material do casaco, a voz expirando, quase que morrendo – Mas então meu pai apareceu com a ideia perfeita pra me deixar feliz: toda a família indo ao circo, num tipo de diversão saudável onde eles poderiam manter os olhos em mim o tempo todo. Eu nunca havia sentido ódio na minha vida. Não até aquela noite. Nós fomos ao circo. E tudo parecia tão mágico e fácil lá. Eu estava zangada e queria punir minha mãe de algum jeito. Falei com um dos malabaristas na saída, alegando que ia pedir um autografo. E ele embarcou na minha loucura. – Alguns minutos se passaram. não ousava quebrar o silêncio. Mas prosseguiu – Três horas e quarenta e três minutos. A trupe me buscou, fugi pela porta dos fundos. Nunca mais vi ninguém.
assentiu, não sabendo que reação esboçar. Era uma história e tanto. Egoísta, mesquinha, infantil. Mas a mulher ao seu lado parecia arrependida. Como se não só a saudade da família fosse o único motivo que a mantinha longe de algum tipo de felicidade. O silêncio se restaurou, durando até o momento em que chegaram as portas de vidro da cafeteria que ele havia mencionado previamente. ‘Capuccino grande’ foram suas palavras, mas ela não quis acompanhá-lo. Sentou-se na beirada da vitrine, deixando que entrasse na loja quente e perfumada.
Dúvidas explodiam como fogos de artifício em sua cabeça. Dúvidas, questões, pensamentos deslocados. O que começara como uma noite comum, uma ida ao circo planejada por sua irmã maluca, havia se transformado numa caminhada desajeitada e estranha ao lado da mulher mais bela e problemática que ele já havia conhecido. Pagou pelo café rapidamente, relutando em deixá-la sozinha por muito tempo do lado de fora.
segurava seu celular nas mãos pequenas e pálidas, um meio sorriso constrangido no rosto.
- Alguém chamada Lana ligou. – ela soprou, agradecendo pelo copo quente que ele lhe entregou – Desculpe, eu não achei correto atender.
- Não, não tem problema. Ligo pra ela depois – deu de ombros, colocando o celular no bolso traseiro da calça, olhando para os lados, preocupado – Nós podemos sentar naquela pracinha do outro lado da rua, se você preferir.
Ela concordou, deixando que ele lhe conduzisse. Era um lugar agradável, mesmo durante a noite, as luzes brancas iluminando todo o concreto e o topo das árvores. recusou os bancos de madeira polida, preferindo sentar-se em um velho balanço branco de dois lugares no lado sul.
- Lana – ela repetiu quando juntou-se a ela, tomando um grande gole de seu café – Sua esposa?
- Irmã mais nova – respondeu simplesmente.
- Ah. O que você faz da vida?
- Leciono história numa escola pública perto daqui – gesticulou, apontando para uma rua que levava ao leste da cidade.
- Parece emocionante – riu baixinho, levando o copo aos lábios – Bonito demais para um professor de história. Mas um grande nerd, eu aposto. Noites em seu quarto, sozinho, com a maior quantidade de livros que um ser humano possa aguentar. Poucos amigos, muito trabalho. Miopia avançada, provavelmente herança de família.
- O circo faria um bom dinheiro se te colocasse em uma tenda envolta por lençóis dourados, uma bola de cristal e muito incenso. A grande vidente , ou algo do tipo – o seu sorriso não tinha emoção, uma de suas sobrancelhas erguidas ao observá-la sorrindo como uma criança – Sou tão óbvio assim?
- Não. Sou boa observadora, só isso. – Ela terminou seu café, pousando o copo na calçada, os balançando sem pressa.
- Deve ser boa de briga, também – ele sussurrou.
- Aquilo... Quanto você ouviu?
- Nada. – não a olhava. Não gostava daquela sensação de estar metendo o nariz em algo que não lhe dizia respeito. – Só muitos gritos e raiva.
Ele pode ouvir suspirando, e então um peso a menos no balanço. Ela caminhava em círculos, quase uma dança silenciosa, tão delicada que era uma das coisas mais bonitas que ele já havia visto. Os cachos loiros começavam a se desmanchar, cair ao redor do rosto fino e pálido. O vento tornava tudo mais frio e parecia que o mundo não era mais nada além daquelas duas pessoas, numa pracinha abandonada de uma grande metrópole.
- Desculpe – sussurrou algum tempo depois, os olhos perdidos no horizonte.
- Por?
- Te tirar de casa numa noite fria para fazer exatamente nada na companhia de uma estranha. No dia dos namorados! Você deve ter coisas muito melhores pra fazer, e eu aqui, no seu caminho. Alguém deve estar te esperando pra comemorar a data.
- Provavelmente um Sherlock Holmes gasto e uma xícara de chá frio – riu sem humor – Eu escolhi estar aqui, não escolhi? Não se desculpe. E... - ele não sabia se devia tocar no assunto, ou se novamente estava sendo intrometido demais – Você pode desabafar, se quiser. Dizem que eu sou um bom ouvinte.
- Dizem?
- Lana diz. Mas na verdade, ela não sabe calar a boca e dar a palavra aos outros, então qualquer um é um bom ouvinte pra ela.
O sorriso estava de volta, mais largo e esplêndido, deixando-o tonto e desorientado. Do que estavam falando, onde estavam mesmo? Mas não durou muito. Os olhos verde-oliva despencaram, tornando-se um mar de melancolia e dor acumulada. O sorriso desapareceu numa linha fina, quase invisível.
- Eu sempre gostei do dia dos namorados – ela começou, o maiô brilhando na luz fluorescente a medida que ela dava mais um passo perdido, cronometrado, quase ensaiado, como uma coreografia fantasma – É tão bonito, não? As rosas vermelhas, o perfume no ar, os corações e os doces. Minha data do ano favorita. As pessoas admitem que amam. Permitem-se amar, ao menos uma vez do ano. Eu só queria um jantar, uma companhia. Uma taça de vinho e um pouco de carinho. É pedir muito, ? É algo muito grande pra alguém que te jura que te ama, que diz que você é a lua e as estrelas de sua vida? Mas em troca, eu só ganho raiva. Proibições e olhares zangados. Insultos. Porque eu não sou digna. Eu não mereço nada disso.
Ele podia ver as lágrimas se formando no canto de seus olhos, cristalinas e brilhantes, sentimentos puros prontos para escorrerem por sua face. levantou-se, mãos nos bolsos, aproximando-se lentamente de , que agora parecia dançar algum tipo de coreografia lenta demais, mas que ao mesmo tempo a acalmava.
- Ele...?
- Noah. Dono do circo. Meu companheiro. – sua voz nunca esteve tão amargurada, nunca demonstrara tanto ódio – Ou eu deveria dizer meu carcereiro? – Nojo. Dor. Tudo misturado naquela voz tão bonita, tudo estampado naquele rosto tão jovem – Monstro. Mas eu também sou uma idiota, não sou? O que eu esperava de um homem como aquele? Que ele me levasse para um jantar à luz de velas, me desse um anel de diamantes e me jurasse amor eterno e carinho e cuidado? Tola, burra, idiota. – agora estava próximo, os olhos preocupados por trás das lentes dos óculos. Uma mão pequena e gelada procurou pela sua, segurando-a firme. Macia como uma nuvem – Meu bebê, – as lágrimas caiam levemente agora, manchando seu rosto, escapando por entre seus lábios – Meu bebê era tão pequeno e indefeso...
procurou pela outra mão da mulher, juntando-as contra seu peito, desenhando círculos com os polegares sobre a pele fria, tentando confortá-la. Ela chorava abertamente agora. Ele não queria pressioná-la, nem assustá-la.
- Dois anos atrás. Noah me perseguia desde que me juntei à trupe, mas eu nunca, nunca quis nada com ele. Como poderia? Ele é um homem terrível. Mas ele me dizia que eu era tudo pra ele. Sua lua e suas estrelas. Eu tentava fugir, os trapezistas me protegiam. Então naquela noite de abril, ele me drogou. Alguma coisa no meu chá – os soluços eram cada vez mais rápidos, sua testa apoiada nas mãos entrelaçadas dos dois enquanto ela falava – Eu não me lembro de nada, , nada. Mas um mês depois tudo fez sentido. Uma das bailarinas me comprou um teste de farmácia. Grávida. E eu só queria morrer. E tenho certeza que ele queria me matar também – Sussurros. Nada além de sussurros. – Mas os meses se passaram, e tudo o que me dava forças era meu bebê. Uma menina. E então ela nasceu. Era tão linda, , tão linda. Ártemis.
- Como a deusa grega? – murmurou e pode ver um pequeno sorriso se formando naquele rosto tão belo e devastado.
- Amo mitologia grega. Ártemis sempre foi minha favorita. – seu rosto despencou novamente – Ele tirou meu bebê de mim. Proibiu-me de ficar com ela, de vê-la, de cuidar dela. Largou-a em um orfanato. E então passou a me chantagear. Obrigou-me a ser sua esposa. Ameaçou acabar com a vida da minha filha. Minha pequena Ártemis... - o abraçou, firmemente, e deixou que suas lágrimas encharcassem seu suéter. – Vê como sou tola? Como posso esperar qualquer coisa de um homem assim? E a culpa é toda minha. Toda minha.
- Shhh – ele a trouxe mais perto, sussurrando contra seu cabelo loiro – Não é culpa sua. Nunca poderia ser culpa sua. Mas também é sua escolha, . Deve haver algum modo de livrar-se de tudo isso. Há sempre, sempre uma opção.
Permaneceram em silêncio, abraçados por inúmeros minutos, e então a dança silenciosa de recomeçou. E a seguiu.
Ali, sem música alguma, sob alguns holofotes de uma pracinha vazia, sob o concreto frio, eles dançaram. Rodopiavam, iam e voltavam. Ela já não chorava. Havia só a tranquilidade, a quietude e dois corpos que se moviam um contra o outro. Como se houvessem sido feitos para dançar ali, naquela hora, naquele lugar. Noah estava tão enganado, era tudo que se passava pela mente de . Porque não era fria como a lua, sem brilho próprio, esperando pelo show de algo maior. era o sol, quente, brilhante e majestoso, dono de sua própria glória.
Não era possível dizer quanto tempo passaram naquela dança silenciosa, ou quando recomeçaram a caminhar sem rumo, mãos entrelaçadas e olhares perdidos. Mas era agradável, era confortável, era certo. Como se a menina do circo e o professor de história houvessem sido desenhados juntos e separados por alguma ação cruel do destino. Algumas quadras depois, quebrou o silêncio.
- Você é uma pessoa singular. Diferente. Você é único, .
- Por que diz isso?
- Não são todas as pessoas no mundo que levam estranhos pra tomar café tarde da noite. Principalmente se esse estranho for do circo. Ou uma mulher em um maiô brilhante. Nada disso acontece sem segundas intenções.
- Você descobriu meu segredo – ele a encarou, sério – Fiz tudo isso só para obrigá-la a me dar esse maiô fabuloso. Combinaria perfeitamente com as minhas meias três quartos de lantejoulas cor-de-rosa.
- Você é...?
- É brincadeira, – e pela primeira vez, ele riu de verdade - Eu sei o que é sofrer. E infelizmente eu sou um cavalheiro. Ou ao menos me dizem que sou.
- Você é – ela apertou sua mão mais firmemente, sorrindo – Obrigada... Por me ouvir. Pelo café. Por tudo.
- Não há de quê.
Mais algumas voltas depois e estavam novamente no quarteirão que abrigava o circo. tremia sob suas mãos e ele sabia que não era de frio. precisava admitir a si mesmo que estava totalmente encantado com aquela mulher. Não só pela sua beleza estonteante, mas pela personalidade, pela dor, pela paixão que demonstrava. Ele a queria. Queria colocá-la em seu colo e fazê-la chorar todas as suas mágoas, abraçá-la até que ela dormisse, curar cada ferida em seu coração partido. Mas não podia. Não tinha o direito. Então se contentaria em ver seu sorriso, só mais uma vez.
- Acho que é hora de ir – ela sussurrou, os olhos verde-oliva perdidos na lona vermelha do circo.
concordou, abraçando-a mais uma vez. Sussurrou em seu ouvido cada palavra, para que ela não esquecesse.
- Há sempre outra alternativa, . Um caminho. Procure direito e você achará. Boa noite.
Beijou sua testa, antes de girar os calcanhares e começar a andar na direção oposta. Era mais frio, mas não pela falta de seu casaco. Era mais frio simplesmente porque havia se acostumado com a presença de perto dele. Tentava afastar o pensamento, porque sabia que aquilo o machucaria mais tarde. Na calada da noite, esparramado entre seus lençóis, imaginando cada cena perdida e se perguntando o que poderia ter sido. Como teria sido. Deveria deixar pra lá, continuar caminhando e esquecer-se daquelas horas perdidas. seria só um capítulo sem sentido de sua história. Mas algo cutucava o fundo de sua mente, uma vozinha irritante e ameaçadora, uma consciência que pelo seu bem próprio deveria ficar adormecida. Não ficou. Aumentou, até que virasse um grito, seguido de outros tantos.
E então seus pés tomaram outro rumo, virando-se, carregando-o com eles. Porque uma figura pequena ainda permanecia no mesmo lugar, abraçada no casaco de , os olhos verde-oliva brilhando de esperança quando ele começou a andar mais rápido, quase correr, em sua direção. Loucura era tudo o que definia aquele momento, mas os gritos na cabeça de não o deixavam dar-se conta do quão insano ele estava sendo. As vozes só silenciaram quando seus braços envolveram a cintura de e seus lábios se chocaram nos dela.
Era doce, intenso e totalmente real. Corpos grudados, as mãos de automaticamente ao redor do pescoço de . Os lábios exploravam-se e ela logo os abriu para dar passagem a língua quente e macia do professor de história. Explosões por todos os lados, em todos os cantos, quietude em suas cabeças. Incrível como nada havia sido antes, extraordinário o modo como suas línguas dançavam da mesma maneira que seus corpos haviam feito pouco tempo atrás, num ritmo lento, sincronizado, perfeito. Era o céu para ela, tudo pra ele. Quando um simples beijo poderia ser tão devastador, revelador? A porta de um paraíso que nenhum dos dois havia sequer conhecido, o começo de algo que podia ao mesmo tempo destruí-los, e completá-los. Vida nova e antigos sonhos, antigas crenças, tudo misturado naquele simples beijo.
Quando o ar lhes faltou, as testas permaneceram coladas, respirações tão falhas e entrecortadas que parecia impossível que seus corações permanecessem batendo naquela velocidade. Mas batia. E chorava baixinho.
- E se você for o meu caminho? – um sussurro quase inaudível, que poderia passar despercebido para qualquer um, mas não para . Abraçando-a mais forte, ele respondeu.
- Eu não vou pedir para largar tudo e fugir comigo, . Não tenho esse direito, não posso interferir desse modo. A decisão tem que ser sua. Mas – ele beijou-a novamente, rápido e cheio de significados – Se você decidir que é esse o seu caminho, que isso vai mudar sua vida, então as portas da minha estão abertas pra você. Mais do que isso, as portas do meu coração também estão. – ele beijou-a novamente, dessa vez para acalmar as lágrimas que insistiam em cair. Soltou-a por um minuto, tempo suficiente para escrever seu número de telefone na palma da mão tão branca e macia. Um último beijo e uma última frase marcaram aquela noite pra sempre na memória de ambos.
- Feliz dia dos namorados, .
As manchetes de todos os jornais naquela manhã diziam a mesma coisa, em letras negras e pesadas, dolorosas demais para serem verdade, mas ao mesmo tempo tão verdadeiras que eram quase palpáveis. Um circo havia sido fechado algumas horas antes. Um crime havia acontecido.
‘Jovem é encontrada morta no centro da cidade, vítima de crime passional. Uma faca foi deixada junto ao corpo. Acredita-se que o crime tenha sido cometido por Noah Edmunds, dito companheiro da vítima e proprietário do circo onde ela trabalhava. Ciúme é apontado como a principal causa do crime contra a jovem de 23 anos’.
- Missie, devagar!
mantinha os olhos na filha, que praticamente voava à sua frente, os cabelos loiros balançando com o vento gelado do inverno. O homem a alcançou alguns passos depois, sorrindo para a menininha de cinco anos de idade. Ela procurava pela mão do pai, segurando-a firme para enfrentar o trajeto de pedras irregulares e musgo que cobria todo o chão. Era um dia escuro, nublado e carregado, e os dois preferiam estar em casa, assistindo algum filme debaixo de seus cobertores favoritos. Mas eles tinham um compromisso, algo que faziam anualmente e que não podia ser adiado ou esquecido.
- Você está com ela, meu bem?
Ela levantou a pequena mão, mostrando orgulhosa a rosa vermelha que carregava com cuidado. sorriu. Não havia nada mais precioso no mundo do que sua filha, em seu casaco vermelho e botas de borracha negra, os cabelos loiros caindo em cachos ao redor de seu rosto infantil. Ele sabia que era complicado para ela entender completamente o que eles estavam fazendo, mas que de algum modo ela sabia que era importante. Missie sabia que o dia dos namorados era uma data diferente das outras, e que eles fariam novamente o trajeto de pedras cinzentas.
Adentraram o cemitério alguns minutos depois, as botas tocando a grama verde à medida que iam para o lado sul. Haviam poucas pessoas ali, com buques de flores e lágrimas nos olhos, provavelmente visitando o túmulo daqueles com quem antes compartilhavam o dia dos namorados. Caminhando mais um pouco, chegaram a um túmulo simples, de pedra cinza, próximo a um grande lago de águas cristalinas. O vento era mais frio daquele lado, mas eles não pareciam se importar. A rosa vermelha fora depositada delicadamente sob as inscrições do túmulo. Os pequenos dedos de Missie desenhavam as letras ali gravadas, o pensamento longe. abaixou-se, ficando na altura da menina, abraçando-a junto a seu corpo. Depois de três anos, ainda doía.
- Papai – ela sussurrava, quase como se fosse um segredo – Mamãe era bonita?
- Era linda. Tão linda quanto você. As pessoas ficavam felizes só de vê-la sorrir. Ela era sempre o centro dos holofotes.
- Você a amava?
pensou por alguns segundos antes de responder aquela perguntava. Suspirou, trazendo a filha para mais perto de si.
- Eu ainda a amo, Ártemis. Se há alguém nesse mundo que eu nunca vou conseguir esquecer, esse alguém é sua mãe.
A menina assentiu com a cabeça, os dois pousando os olhares sob o túmulo de novamente. Doía todos os dias, considerava para si próprio, a ideia do que foi e a do que poderia ter sido dilacerava seu coração. Mas adotar Ártemis fez com que a dor parecesse menos intensa, e também que parecesse mais próxima. Não fora difícil conseguir a localização do orfanato da menina, e Lana, mesmo que a contragosto, voltara a exercer a advocacia para ajudá-lo a conseguir a guarda. A menininha não sabia que não era seu verdadeiro pai, mas ele também não pretendia contar. Queria poupar sua garotinha da dor de saber que o verdadeiro pai era um monstro. Juntos eles eram felizes, e ele esperava que fosse assim para sempre.
- Papai?
- Sim, Missie?
- Você acha que tia Lana faria panquecas para o café-da-manhã se pedíssemos? Com morangos? São as coisas mais deliciosas do mundo – Os olhos verde-oliva dela brilhavam em animação, as mãozinhas agarrando a gola do casaco cinza de .
- Acho que se pedirmos com jeitinho, e se tivermos um pouquinho de sorte, ela fará algumas panquecas, sim – Lana fazia todas as vontades de Ártemis, era sua madrinha e adorava competir com na categoria de quem dava os melhores presentes. Provavelmente sairia correndo para a cozinha no momento em que a garota mencionasse panquecas.
- Podemos ir, então?
- Sim, podemos – ele olhou para o túmulo uma última vez – Se despeça de sua mãe.
- Adeus, mamãe – ela acenou para a pedra fria com as mãozinhas fofas – Eu amo você.
- Até mais, – suspirou lentamente, antes de pegar Missie no colo e dirigir-se até o estacionamento de pedra. Mais um dia dos namorados havia chegado e começava a partir. E naqueles dias, ele se esforçava ao máximo para fazer o que considerava ser o espírito da data: amar e permitir ser amado, o mais intensamente possível.
N/a (10/06): Alô, folks! Dia dos namorados, todo mundo bem feliz e apaixonado? Eu posso dizer que estou bem satisfeita com a minha relação à distância com o Darren Criss e o Grant Gustin. Ou não. Anyway, eu espero que todo mundo goste da minha pequena tentativa dramática de entreter vocês nesse dia. Não estava nos meus planos escrever para o especial, perdida entre atualizações prometidas de Holy Fool e Melancholia. Mas essa fanfic surgiu, acreditem se quiserem, durante uma partida de Song Pop com o meu irmão. Uma das músicas era Circus, da Britney Spears. Não sou uma grande fã dela (visto que sou uma little monster aparente), mas o álbum Circus sempre me agradou (tanto que If You Seek Amy é um dos motivos do meu pseudônimo), e eu sempre tive vontade de escrever algo inspirado nesse cd. A ideia de Spotlight (Holofote, numa tradução bem literal) surgiu como um estouro. E eu precisei escrever a história do professor de história e da garota do circo. Confesso que me apaixonei pelos personagens (principalmente pelo principal. Talvez porque Darren Criss de óculos é uma ideia que me agrade muito, obrigada) e foi difícil terminar essa história. Mas eu realmente espero que todo mundo goste. Eu gosto. E choro horrores. Antes que eu esqueça, um obrigada especial a minha beta linda, a Lara, primeira pessoa que leu isso aqui. Acho que era isso, por hoje. Me deixem saber o que acharam, sim? A opinião de vocês é sempre importante. Até a próxima! xx
Nota da Beta: Já disse que essa é com certeza a fic mais linda do especial? Já, né? Continuo com a mesma opinião. Chorei horrores com o final e acho que a Missie é uma das crianças mais lindas desse mundo todinho, tchau. :( Sério mesmo, Emme, parabéns por mais essa fic linda linda linda. <3 xx