Stockholm Syndrome

Capítulo um

Toquei a campainha da enorme mansão dos Peterson. Havia acabado de chegar a Londres, em intercâmbio, e moraria um ano com essa família. Brasil e suas praias e pessoas maravilhosas iriam fazer falta, é claro. Mas estou em Londres e esse pequeno detalhe pode ser relevado. Toquei mais uma vez e em menos de 30 segundos a porta foi aberta por uma mulher baixinha, rosada, de uniforme de empregada e sorridente, que fez uma pequena reverência ao me ver. Sorri tímida.
- A Srta. deve ser a Srta. . – Sua voz suave me passou uma certa confiança, mostrando como eu seria bem recebida naquele lar, o que valia muito para mim.
- Eu mesma. – Respondi. Ela deu espaço para que eu entrasse por uma das duas enormes portas brancas de madeira da casa. Eu o fiz, puxando minhas duas gigantescas malas atrás de mim e com minha mochila nas costas. Olhei ao redor e cheguei à conclusão de que aquela era a ‘sala de entrada’. Muito maior que a minha no Brasil, o que eu achei ser meio impossível algum dia. Eu morava em Ipanema, no Rio de Janeiro. Já me mudei milhões de vezes pelo Brasil, mas nunca para fora, não “quase-definitivamente”. Enfim, minha família nunca passou despercebida.
Olhei para uma escada que levava ao lado direito da casa (a outra levava para o lado esquerdo e elas se juntavam no 2º andar) e lá estavam três pessoas: O Sr. e a Sra. Worlings e filha deles, Courtney. Ela era loira, alta, magra até demais, de olhos prateados e se vestia como qualquer garota européia nas condições dela se vestiria: Prada, Gucci, Dolce & Gabanna etc. Courtney era bem mais bonita pessoalmente. Nós nos conhecíamos apenas via internet há uns dez meses quando eu comecei a pensar em vir. E aqui estou.
- Bem-vinda. – O casal disse ao mesmo tempo. Court revirou os olhos, sorrindo, e desceu, vindo até mim.
- Vamos ver seu quarto. – Já indo direto ao ponto de mais interesse. Ela me puxou até o outro lado daquele ‘salão’, e subimos as escadas do lado esquerdo, encontrando um corredor comprido. Caminhamos por umas portas e a minha era a oitava. Quando Court abriu, eu fiquei meio boba. Mas me conformei, meu quarto teria que ser daquele jeito. Era grande. Muito grande. O closet era grande também, mas eu até que precisava de muito espaço. Jogamo-nos ao mesmo tempo na espaçosa e fofa cama de casal. – Pensei que nunca iria te conhecer.
- Mas eu cheguei. – Rimos juntas.
- Como está com o Robert? – Perguntei. Como eu disse: já nos conhecíamos e muito bem.
- Ah, ele foi pra Rússia. – Deu de ombros nem um pouco desanimada. – Mas eu ainda tenho o Mike.
- É o do irmão gêmeo? – Ri.
- Sim, e o gêmeo dele, o Mark, está aqui. – Um sorriso se espalhou no rosto dela.
- Ele é bonito? – Levantei uma sobrancelha.
- Claro! – Respondeu como se fosse óbvio.
- Hm... – Murmurei. Court se levantou, arrumando o cabelo.
- Vem, vamos ver o pessoal. – Ela se referia aos seus amigos ricos, bêbados e mimados. Levantei também. – Ou... está muito cansada? – Me olhou sugestiva.
- Dormi demais no avião. – Ela soltou uma gargalhada com uma vozinha aguda. Apenas sorri. Eu vestia uma regata branca justa, uma calça jeans skinny preta, um scarpin vermelho e um sobretudo xadrez preto e branco. Meu cabelo estava solto e um brilho discreto pintava meus lábios. Não era a melhor roupa para ir, mas eu nunca me importei muito com isso. Saímos de lá, indo direto para a garagem. Okay, a garagem conseguia ser maior que a sala de entrada! Andamos até um Jaguar prata.
- Meu bebê. – Courtney passou a mão pelo carro, cheia de si.
- Seu bebê? – Um cara num terno preto, blusa social, também preta, com gravata vermelha e um all star vermelho apareceu, rodando um molho de chaves em seu dedo. A outra mão estava cerrada em um bolso. Ele usava óculos escuros ray-ban pretos. Seus cabelos estavam impecáveis, penteados para trás suspensos com gel. Lindo, diga-se de passagem.
- Ah, tá, tanto faz, okay? – Court fazia gestos com as mãos. – , esse é o Sr. , o meu motorista. Só até eu tirar carteira. – Sorriu. – E Sr. , essa é a . A brasileira.
- Prazer. – Sorri fraco para ele, que me fitou de cima a baixo.
- Todo meu. – Sr. sorriu de lado.
- Sabe o que fazer. – Ela disse e ele assentiu, abrindo o carro. Court e eu entramos atrás e o Sr. na frente, óbvio. Ele acelerou e, como a capota estava levantada, meus cabelos soltos dançavam com a velocidade do carro. O vento era tão gelado que quase doía ao respirar. Eu estava sentada bem atrás do Sr. , e seu perfume entrava pelas minhas narinas sem eu querer. Ele era um homem cheiroso – e lindo –, o que me forçava a ter certos pensamentos não apropriados para nenhum dos nossos mundos.
- Ele é muito novo para ser motorista. – Pensei alto demais e Court ouviu, assim como o motorista. Sorri sem graça enquanto ela soltava uma de suas gargalhadas exageradas.
- Ele tem vinte e sete anos, . – Respondeu, respirando fundo. Chegou mais perto para que ele não ouvisse: – Qualquer pessoa com o salário dele largaria a faculdade para dirigir carros caros. – Piscou. Soltei um ‘hum’, ainda sem graça. Olhei para o retrovisor e um sorriso de lado enfeitava o rosto dele. Peguei-me sorrindo e logo parei, segurando o cabelo com as mãos para que não voassem, sem sucesso. Soltei. Não demorou muito para que ele parasse o carro no meio de uma rua. O Sol estava se colocando. Court saiu do carro e eu a acompanhei, me perguntando por que o motorista também saía do carro. Demos alguns passos e eu olhei para trás, vendo-o encostado com uma certa pose no carro. Sorri e virei para frente.
- Ele não vai para casa? – Perguntei, quando estávamos mais distantes.
- Vai nos esperar, ué. – Ela piscou. Eu já devia imaginar que ele esperava Courtney nos lugares que ela frequentava. Entramos numa boate, mas ela estava completamente vazia a não ser por três pessoas. Silver, Mark e Mike. Courtney me mandou umas fotos deles. Os quatro me faziam sentir em Gossip Girl. Sinceramente, a diferença era nula.
Mark e Mike, seu gêmeo, eram muito bonitos. Cabelos loiros escuros, os de Mike eram curtos e os de Mark lisos e longos, picotados no rosto; olhos azuis bem claros e altos, com o corpo bem definido. Vestiam roupas de marcas caras masculinas nas quais eu sempre mordi a língua ao pronunciar rápido. Silver era linda. Ruiva de olhos verdes escuros; sua pele branca tinha umas sardas imperceptíveis; mais alta que eu, magra como Court e vestia um vestido Dior preto. Os três bebiam algo azul numa taça.
- , povo. Povo... . – Court falou e nós duas nos sentamos com os outros. Ela já foi para o colo de Mike, beijando-o. Courtney se recuperava bem rápido e era um tanto assanhada para o meu gosto. Mas como ela não realmente sentou no colo dele, apenas de pernas fechadas em uma das pernas de Mike, eu relevei.
- Brasil, huh? – Mark – que sentava ao meu lado – falou com a voz arrastada. Provavelmente era o efeito do liquido azul que fez com que Silver ficasse de cabeça baixa, excluída.
- Sim... – Sorri, olhando para minhas mãos que estavam espalmadas em minhas coxas. Mark segurou uma delas.
- Court falou muito de você. – Com a outra mão ele sustentou o meu olhar no dele. Corei rapidamente.
- Ela falou muito de vocês também. – Tentei manter a voz. Mark era bonito demais e inglês! Era minha primeira vez com ingleses. Ele riu.
- Toma. – Me deu seu copo com o líquido azul. Bebi um gole, achando que o gosto seria tão “bonito” quanto a cor. Pura ilusão. Era amargo e pareceu evaporar em minha boca quando eu ousei engolir. Minha garganta respondeu ao ato, assim como meu rosto, que se contorceu em uma careta involuntária que fez Mark rir. – Fraca. – Falou baixo. Encarei-o com uma sobrancelha levantada. Peguei a garrafa que tinha um pouco mais que a metade daquela bebida e mandei para dentro o máximo de goles que pude. Se não me engano, no quinto gole (no qual eu quase estava vomitando, de tamanha recusa que meu organismo teve à bebida) não tinha mais gosto amargo. Era apenas água na minha garganta doía, agora, por mais e não por negação. Sorri vitoriosa para Mark, enxugando o lábio.
- Fraca é a tia. – Pisquei, bebendo mais um gole.
- Temo em discordar. – Rimos. Eu parecia rir mais do que respirar naquele momento. O pior de tudo, ou melhor, é que no dia seguinte era segunda-feira. Meu primeiro dia de aula e de ressaca... Viva Londres! Umas horas, que eu não tive capacidade de contar, passaram enquanto eu e Mark conversávamos. Eu estava bêbada, mas tive certeza de que Mark era um cara legal. Muito legal.
- É melhor eu ir antes que fique inconsciente. – Falei, me levantando.
- Já? – Court choramingou. Puxei-a para longe de Mike, que bufou.
- Sim, já. – Ri com Mark. Silver havia ido embora há um tempo. Carreguei Court para fora. Mark quis nos acompanhar e Mike ficou para fechar a boate. Andamos até o Jaguar parado mais à frente. Parecia vazio, mas eu sabia que o motorista estava ali. Abri a porta de trás, sem nem olhar para nada a não ser para o banco de trás e joguei Court ali, que deitou ocupando todo o espaço. Fechei a porta e me virei para Mark, para me despedir.
- Até amanhã. – Ele disse, sorrindo.
- At... – Não tive tempo de responder. Mark havia colado nossos lábios com suas mãos em minha cintura. Uma sensação vitoriosa passou pelo meu corpo enquanto eu retribuía seu beijo com vontade e com a ajuda do álcool. Cortei o beijo, olhando-o. Ele perecia nervoso. Dei-lhe um selinho, sorrindo. Mark piscou e eu entrei no banco de carona, ao lado do motorista que tinha a roupa bagunçada e fechava o cinto. Bufei.
- Sexo no carro? – A bebida entra e a verdade (no caso, o que pensamos) sai. O Sr. não pareceu se importar. – Não sabia que se arranjavam prostitutas tão facilmente em Londres. – Falei sarcástica, colocando o cinto.
- Não esperava que eu fosse ficar aqui de braços cruzados, esperava? – Ele me olhou com certa raiva. O lance da prostituta deve tê-lo afetado.
- Na verdade, nem me lembrei de você. – Sorri vitoriosa.
- Você é rápida. – Ele disse, referindo-se ao Mark e ao beijo que demos. – Não sabia que se arranjava prostitutas tão facilmente em Londres. – O Sr. sorriu de lado e acelerou. Encarei-o de olhos cerrados, puta.
- Seu patrão sabe do que faz enquanto “espera”? – Perguntei calmamente.
- Digamos que tenho um... trato com Court. – Respondeu mais calmo que eu. Claro, ela podia negociar com ele.
- Court? Quanta intimidade. – Encostei a cabeça na janela do carro, com vontade de vomitar.
- Você nem imagina... – Sr. disse, rindo. Ele deve ter percebido meu mal estar: – Não vou limpar sua sujeira. – Falou, abrindo a janela para mim já que a capota cobria o carro. – Álcool e irresponsabilidade dão nisso.
- Na verdade, é você que me dá ânsia. – Fechei a janela, sorrindo irônica. – E eu vomito onde quiser. Se bem que seus sapatos parecem tão convidativos... – Fiz uma voz sedutora e ele me olhou, debochado.
- Você teria que lamber cada gota. – Respondeu e eu ri.
- Se te tirasse do sério, valeria a pena. Mas como seria para seu divertimento, nem fodendo. – Falei rápido.
- Sei que ainda vou me divertir muito, Srta. . – Um sorriso que eu não soube descrever se formou em seu rosto. Estremeci. De alguma forma, era maligno. Virei para frente, sem vontade nenhuma de dirigir uma palavra a ele.
Meu estômago parecia dar voltas junto com as curvas que o carro dava. Finalmente, acabamos chegando antes que eu desmaiasse com um estranho dos bem estranhos ao meu lado. Abri a porta do carro, tonta, e saí. Caminhei até a porta de Court, abrindo-a. Ela estava dormindo. Respirei fundo, tirando o sobretudo para ajudá-la pelas escadas até seu quarto sem que seus pais nos vissem nesse estado. Quando o sobretudo caiu por meus braços, deixando-os nus, Sr. os segurou com suas mãos quentes. Olhei para ele por cima do ombro. Queria perguntar o que ele ia fazer, mas ao respirar fundo para acalmar meus sentidos e para encontrar minha voz, o cheiro dele me invadiu, fazendo-me esquecer o que estava acontecendo.
- Deixe comigo. – Sua voz era quase inaudível. Assenti, saindo de perto dele o mais rápido que meu corpo permitiu. Cruzei os braços e andei rápido – pelo menos tentei – para dentro da casa, passando pela sala, escadas, corredor e, finalmente, parando em meu quarto. Meu coração estava à mil. Talvez porque o motoristazinho se aproximou demais, deixando-me com um certo nojo. Qual é, um motorista tarado e um pedreiro sujo não faziam diferença para mim. A não ser pela aparência, cheiro...
Balancei minha cabeça, espantando esses pensamentos, e fui para meu banheiro tomar um banho gelado para me dar um pouco de sobriedade. Dizem que isso é apenas um boato, mas comigo funciona. Talvez seja efeito placebo, mas quem realmente se importa no momento? Liguei a água fria e me despi, dando falta do meu sobretudo Armani que estava no chão do lado de fora da casa no momento. Respirei fundo, tomei coragem e entrei debaixo daquela água fria que machucava ao cair em mim. Em meio de pulinhos eu passava as mãos pelos cabelos, para molhá-los por inteiro. Choques passavam por meu corpo cada vez que a água chegava em minha barriga, me fazendo ficar nas pontas dos pés e trincar os dentes.
Meia hora de sofrimento e eu saí do chuveiro, agradecendo pela sensação de limpa e por ter perdido a vontade de vomitar ou de me jogar de uma ponte. Tenho sensações estranhas nesses estados. Corri para o closet. Uma das empregadas desfez minhas malas, colocando minhas roupas, sapatos, perfumes, cremes e acessórios no closet e arrumando meus cds e livros nas estantes. Aquilo me irritou um pouco, odeio que mecham nas minhas coisas. Mas era apenas o trabalho da coitada da moça.
Peguei um shortinho preto de lycra e vesti com uma regata branca e meiões que iam até acima do joelho, pretos com estrelas coloridas. Penteei meus cabelos e os sequei na toalha. Ouvi duas batidinhas na porta. Olhei para o relógio, eram duas da manhã. Mordi o lábio inferior para ouvir uma bronca logo no primeiro dia. Abri a porta toda, sem me lembrar do meu estado. Quase caí dura ao vê-lo ali, agora encostado no batente da minha porta, segurando meu sobretudo. O que era aquilo? Assombração? Encarei-o de cima abaixo. Seus cabelos agora estavam bagunçados no rosto, sua social estava aberta nos primeiros botões. Ele vestia uma boxer preta e meias brancas. Arregalei os olhos, incrédula.
- Obrigada. – Peguei o sobretudo de sua mão, escondendo minhas coxas – nas quais ele encarava –, fingindo não me importar. Sr. sorriu de lado, de braços cruzados.
- Então você tem educação... – Murmurou pensativo.
- Também tenho coragem de te socar. – Sorri irônica, fechando a porta. Mas ele segurou-a, me olhando. Fiquei em silêncio, encarando-o, esperando que falasse algo. Porém, ele apenas riu, balançando a cabeça e recuou, tornando meu ato de fechar a porta possível e eu o fiz, trancando-a em seguida. Joguei meu sobretudo na cama, deitando em seguida.
Mas algo não me deixou fechar os olhos e finalmente dormir, como eu pretendia. Algo me incomodou. Algo despertou um desejo em mim. E algo não me deixaria dormir, aporrinhando meus pensamentos. Respirei fundo, sendo intoxicada por esse algo. Peguei meu sobretudo com força, e o joguei na cesta de roupas sujas abaixo do armário do banheiro. Andei em passos longos até minha cama, com seu cheiro ainda em minhas narinas e deitei, me cobrindo. O que ele fez com o sobretudo? Vestiu e brincou com ele enquanto eu tomava banho? Como o cheiro dele ficou tão forte ali? Pior, o cheiro dele está na minha cama, onde o sobretudo estava jogado. Bufei. Aquilo parecia um tipo de praga. Fechei os olhos com força, deitando ali mesmo, sem soluções no momento para aquele cheiro. Para minha surpresa, eu não demorei a dormir. Muito pelo contrário, dormi rápido demais. A viagem e o fuso-horário devem ter tido algum efeito no meio daquilo tudo.

Capítulo dois

A porta do quarto batia insistentemente. Levantei da cama, amaldiçoando o ser que me acordou às seis da manhã, a escola e o frio que vinha com o vento que invadia o quarto pela janela aberta. Se no Brasil já é frio de manhã, aqui é congelante. Abri a porta, ainda de olhos cerrados de sono. Mas logo minha expressão mudou. Ele não dormia, não? Sério, às seis da manhã ele já estava impecavelmente arrumado? Bufei. Okay, ele era uma assombração, com um cheiro “impregnante” e que não largava do meu pé.
- Estou saindo daqui à uma hora. – Falou sério. Levantei uma sobrancelha. Sr. se aproximou, falando mais baixo: – Tenho ordens a cumprir. – E saiu andando pelo corredor, sumindo pelo mesmo ao descer as escadas. Bufei e fechei a porta com força. Não estava nem um pouco a fim de andar no mesmo carro que ele novamente. Em quarenta minutos, meu recorde, tomei banho e vesti meu uniforme: uma blusa social vinho justa, com o símbolo da escola no peito esquerdo e com os três primeiros botões abertos; gravata preta com o nó frouxo; saia pregada curta (ainda ia tirar satisfações com Court) xadrez em tons de marrom, vinho e vermelho e calcei meu all star branco de couro. Meus cabelos estavam soltos e secos. Peguei minha mochila e desci para a varanda, onde tomavam café. Apenas a Sra. Peter, Meredith, estava lá tomando café, a não ser por um garoto de cabelos pretos lisos, olhos castanhos, pele branca, estatura média, forte e hot sentado com ela. O Sr. estava de pé, ao lado da mesa do café.
- ! – Meredith disse sorridente. – Esse é Martin, meu primeiro filho.
- Olá. – Ele sorriu. Sorri de volta, calada.
- Court já acordou? – Perguntei, mudando de assunto.
- Verdade, onde ela está? – Martin olhou para a mãe que não soube responder.
- Está gripada. – Sr. respondeu e Meredith apenas assentiu. Ou seja, de ressaca. Ontem ela exagerou mesmo.
- Bom, vou indo. – Falei rápido, já me virando.
- Não vai tomar café? – Martin perguntou.
- Ah, não. Tô com pressa. – Dei de ombros, tímida.
- Quer carona? É caminho da minha faculdade. – Martin sorriu fofo.
- Não, obrigada, tenho que sair agora. – Sorri de volta.
- Okay, eu te levo. – Sr. se manifestou.
- Faça isso. – Meredith mandou, me mandando dois beijinhos. Forcei um sorriso e segui o Sr. até o Jaguar na garagem. Court nunca mais ia beber tanto em véspera de aula, fato. Entrei no carro, ao lado do Sr. , e ele acelerou, nos tirando dali.
- Dá para não correr tanto?! – Perguntei, me segurando no banco.
- Bom-dia para você também. – Sr. desacelerou. Ficamos em silêncio – Por que é assim? –, mas só até ele quebrá-lo. Suspirei.
- Bom, minha mãe e meu pai se amavam muito e então não usaram camisinha. Logo, eu surgi assim, graças a algo chamado genes. – Sorri irônica. Sr. bufou.
- Isso eu sei, okay? – Acelerou o carro. Estávamos bem rápidos novamente. – Só quero saber por que é tão idiota. – Falou normalmente.
- É assim que ajo com cafajestes. – Dei de ombros. Estava decidida a não me estressar por causa dos comentários e “elogios” dele.
- Você não me conhece. – Falou convicto.
- Está rápido de novo. – Deixei de lado o que ele disse. Sim, eu não o conhecia, mas nem estava disposta a conhecer.
- A arte de mudar de assunto... – Pensou alto e eu o encarei, já desistindo de ter um diálogo normal uma hora ou de pelo menos nunca falar com ele, o que seria, da minha parte, um grande prazer.
- Só não fui com a sua cara desde ontem quando te vi. – Encostei a cabeça na janela. Ele começou a dirigir devagar.
- Por que não? – Perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
- Porque você come qualquer prostituta. – Falei rápido, me referindo à mulher que ele pegou ontem. – Isso faz de você um cafajeste.
- Isso é ciúmes ou...? – Me olhou, sugestivo. Eu o olhei, incrédula. – Brincadeira! – Riu. Ri com ele, o que mais faria? – Viu? – Virou-se para a estrada.
- O quê? – Perguntei calma.
- Eu te fiz rir. – Respondeu, com outro sorriso que eu não soube descrever. Mas esse não era maligno.
- E...? – Olhei para frente também.
- E isso mostra que: ou você também é cafajeste... – Rimos. – ou que eu não sou um.
- Talvez... – Dei de ombros. – “Mas você não me conhece”. – Sorri vitoriosa.
- Você que pensa. – Sr. falou baixo, mas sabia que eu tinha escutado. Dei de ombros, ignorando esse seu comentário, e liguei o som, deixando The Used tocar. Logo, ele estacionou em frente à escola. Saímos do carro. Olhei-o, sem entender. – Pode deixar, a essa hora não tem prostitutas rondando a escola. – Piscou, se apoiando de braços cruzados no carro. Ri, balançando a cabeça. Era bom que ele me esperasse sem ninguém mesmo. Nem imagino a vergonha que passaria se entrasse no carro assim que uma puta saísse. Dei-lhe as costas e andei até os enormes portões da escola, entrando pelos mesmos. Assim que o fiz, uma mão pegou a minha. Mark.
- Como vai, linda? – Perguntou, me beijando. Encarei-o, perplexa. Um: “linda” e dois: o beijo. Mas coitado, eu fiquei com ele ontem, certo? Só me senti desconfortável por todos os seres ambulantes daquela escola que pararam para nos olhar e começaram a cochichar. Provavelmente os boatos começariam, mas eu não dava a mínima no momento.
- Vou bem... – Dei de ombros.
- Ah, Courtney está “gripada”. – Silver apareceu. Não foi uma pergunta. Rimos. O sinal tocou, fazendo a expressão de sono e de sorridente de todos os alunos daquele gramado ser substituída por uma expressão de tédio e de preparo psicológico para mais horas de exaustão mental. Mark pegou em minha mão.
- Qual seu primeiro tempo? – Perguntou enquanto todos caminhavam para seus prédios e consequentemente para suas salas de aula. Peguei um papel amassado em minha mochila e olhei meu horário.
- Física. – Falei com uma voz de tédio, revirando os olhos. Ele riu.
- Vou ter Biologia. – Fez careta. Fingi rir com ele e fomos para o prédio dois, já que estávamos no segundo ano. Mark me levou até minha sala e tentou me beijar antes de eu entrar. Mas eu fui mais rápida e me despedi com um selinho, passando logo pela porta. Nem Mike ou Silver estavam na sala de Física. Suspirei em alívio. Não ia muito com a cara deles. Não que eles não fossem simpáticos, mas são esnobes e amam se gabar pelo muito que têm. Isso inclui Mark. Sentei na única carteira vazia que havia ali: a última colada na parede. Ótimo, sempre amei me apoiar na parede. Joguei minha mochila no chão ao meu lado e sentei, com os braços apoiados na mesa.
- Nova? – Uma menina sentada ao meu lado perguntou. Sorri. Ela parecia... original.
- Yep. – Respondi simpática.
- . – Estendeu a mão, também sorrindo. – .
- . – Apertei. – Ou . – Dei de ombros.
- É, eu sei. Na verdade, a escola toda sabe quem você é. – falou calmamente. Arregalei os olhos, odiando o que ela acabou de dizer.
- Como?! – Perguntei, indignada. Sempre detestei ser o centro das atenções, por mal ou por bem.
- Não recebemos uma intercambista brasileira sempre e não é uma escola tão grande assim, as notícias correm. – Respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo. Bufei.
- Merda... – riu de mim. O professor de física entrou na sala. Era como todos os outros professores homens que eu vi naquela escola no pouco tempo que já havia chagado: gordo, baixo, calvo, de óculos e com uma maleta com seus materiais. Nem sequer um professor bonito tinha ali. Boa, , no Brasil você só tinha professor gato!
A aula estava se arrastando lentamente e eu estava mais que entediada. Mas só no começo, porque eu e começamos a conversar, o que foi ótimo. Ela sim valeria como uma amiga em Londres. Não que Court não valesse, mas ela só era muito mente fechada em seu mundo consumista, com seus amigos mimados. Quando o sinal do recreio finalmente tocou, me levantei, sentindo um certo alívio.
- Já conhece a escola toda? – perguntou enquanto caminhávamos pelo corredor. Dei de ombros.
- Não... – Nem fazia questão de conhecer. – Só sei que vai ser um longo ano. – Dei um suspiro pesado.
- O que te irrita? – Ela perguntou, me entendendo. Sorri.
- Bom... O motorista dos Peterson. – Revirei os olhos. – Ele é estranho! – Rimos. Eu sabia que com eu poderia falar sobre essas coisas e que com Court seria complicado.
- Ele é hot, . – falou calma como se estivesse falando da pessoa mais normal do mundo. – Digo, já o vi buscando Court várias vezes. E God... – Fingiu-se suspirar e eu ri.
- Ele é cheiroso... – Pensei alto demais. me olhou com uma sobrancelha erguida.
- Hummm... – Murmurou, me cutucando. Nos conhecemos há minutos atrás, mas me deixava confortável para falar de qualquer coisa que fosse. Não foi diferente no recreio, sentamos debaixo de uma árvore baixa, conversando como já era de se esperar. Estávamos rindo de algo que ela disse sobre seu irmão, quando vi que Silver, Mark e Mike nos olhavam de longe. Sorriram quando os olhei, acenando. Retribui o gesto discretamente. Mark falou algo para os dois e andou à nossa direção.
- Ô, merda... – Murmurei. olhou para onde eu olhava, parando de rir. Soltou uma risada irônica. Falei para ela sobre Mark. Ele era um garoto legal, mas não passava disso. Não para mim.
- Hey, linda. – Sentou na nossa frente. Assim que ele o fez, todos da escola, novamente, voltaram sua atenção para nós três. Provavelmente não andava com pessoas como eles.
- Oi, Mark. – Sorri. Minha mãe me deu educação e eu sabia como usá-la. Não ia deixar Mark no vácuo, ele não fez nada de ruim, apenas seu jeito que não era de meu grado. soltou um bocejo, me fazendo querer rir. Mas eu reprimi o riso. – Como foi a aula? – Perguntei.
- Cansativa... Queria te ver logo. – Um sorriso fofo surgiu em seus lábios. Retribuí.
- Hum... – Franzi o cenho, “interessada”. – ficou de me mostrar o colégio. Vou com ela... – Falei, vendo a expressão dele mudar para uma de desapontamento. Me aproximei, beijando-o levemente. Terminei com um selinho e Mark sorriu. Me levantei, esperando que fizesse o mesmo e saímos dali, entrando no banheiro feminino.
- Você é do mal, Hon. – Ela disse enquanto arrumava o cabelo despreocupada, já que estava perfeitamente arrumado.
- Ah, ... o conheci ontem e já tá nesse apego? Se eu gostasse dele, aí beleza. Mas nem isso, sabe? Eu estava bêbada quando ficamos. Ele é bom pra ser amigo, aí sim. Nada mais que isso.
- Uma pena, porque perdeu um amigo. – me olhou, mordendo o lábio inferior. Era verdade, claro que não seria amiga de Mark. Ou seria ficante, ou falaria que não queria mais ficar com ele, o que o faria não olhar mais para mim.
- Obrigada pela parte que me toca. – Me fingi de afetada. Ela deu de ombros, como quem diz que não pode fazer nada. Continuamos falando no banheiro sobre coisas aleatórias até que o sinal tocou e eu tive que ir pra aula de Inglês e ela para aula de cálculo. Nos despedimos e seguimos para nossas respectivas salas. Senti um certo desânimo, eu havia gostado dela e queria continuar conversando o resto da aula. Mas como ultimamente não tenho tido sorte, já era bom demais tê-la conhecido.

e eu caminhávamos lentamente para fora da escola e a cada passo eu lamentava por ter mais trinta minutos com o arrogante Sr. dentro de um carro. Ele estava encostado no carro, de braços cruzados e com uma perna apoiada no mesmo. Os óculos estavam numa das mãos e o Sol iluminava seus olhos cerrados pela forte luz, fazendo-os ter um brilho e uma cor a mais. Não podia negar que ele era lindo.
- Boa sorte. – me deu um beijo na bochecha. Ri.
- Brigada. – Retribuí, acabando com todo e qualquer espaço entre mim e o carro. Quando eu ia abrir a porta traseira, Sr. abriu a dianteira para mim, me esperando entrar. O encarei por um instante, com os olhos também cerrados pela luz do Sol.
- Não sou motorista de táxi. – Falou baixo para mim. Dei de ombros e entrei, sentando-me e colocando o cinto. Ele fechou a porta e dirigiu-se ao seu lugar, sentando e também colocando o cinto. Vi um violão no banco de trás.
- Violão? – O olhei e ele riu.
- Vai julgar tudo o que faço enquanto espero, é? – Acelerou com tudo. Dei de ombros, me segurando no banco.
- Só acho que você não tem cara de músico. – Falei simplesmente, olhando pela estrada à nossa frente que parecia nem se mexer com a velocidade do carro.
- Desculpe informar, mas já tive uma banda e não toco só violão. – Sr. parecia ofendido com o que eu disse, o que não me importou nem um pouco.
- Okay, Sr. . Não precisa se estressar. – Disse com voz de tédio mor. Estava disposta a irritá-lo.
- Você não me estressa fácil. – Piscou, passando a mão pelos cabelos jogando uma mecha teimosa para trás com o resto das outras.
- Pelo amor de Deus, desacelera essa merda. – Pedi, já não aguentando mais aquela velocidade toda. Ele dirigiu mais rápido. – Vai levar uma multa! – Quase gritei, olhado-o. Sr. continuou me ignorando. A raiva e a náusea subiram à minha cabeça e eu pude sentir meu sangue literalmente esquentar. – Para. Essa. Porra. Agora. – Pedi pausadamente. – Ou então eu abro a porta e pulo. – Ameacei, já com a mão na “maçaneta”. Ele riu, travando as portas. Puxei, crente que a porta abriria, mas não aconteceu. Soltei um grito, revoltada. – Para esse carro! – Eu gritava. Já estávamos na rua deserta coberta por uma pequena floresta. Esse era o caminho da casa dos Peterson, um pouco afastado da civilização. – !! – Coloquei a mão no volante sem pensar, fazendo o carro ir para direita e deslizar no barro fora do asfalto. Nós dois nos olhamos assustados. Seu rosto estava diferente. Não era arrogante nem sarcástico, parecia preocupado. Bufei, puta da vida e tirei o cinto, indo até ele, destravando as portas. Para isso, fiquei por cima dele, sem nem perceber ao certo o que estava disposta a fazer só para sair dali.
Fui recuar para sair de cima dele e abrir a porta do carro para sair dali, mas ele segurou minha cintura e, inconscientemente sentei em seu colo, apenas me importando com seu rosto, que naquele momento era convidativo demais. Sua pele parecia mais macia do que nunca. Mordi o lábio inferior e o sorriso torto o enfeitava. Minhas mãos estavam em seus ombros largos e pareciam querer explorar mais. Naquele momento eu me senti totalmente bêbada e intoxicada não só por seu perfume, mas ele todo. Seus olhos estavam cada vez mais perto e suas mãos pareciam apertar mais minha cintura a cada distância que era cortada. Meu coração reagia ao toque e ao olhar, bombeando sangue rapidamente, como se o ritmo normal não fosse suficiente para acompanhar minha respiração falha. Ele fechou os olhos e eu também o fiz, logo não vi mais nada, apenas senti. Senti seu lábio tocar o meu com a maior delicadeza que nem parecia que era ele quem me beijava. Sua língua pediu permissão e eu a dei, abrindo a espaço para ela. O beijo de era totalmente diferente dele. Não sei como explicar isso, apenas era. Não tínhamos pressa alguma e nosso corpo estava estático, podia ser a vergonha de nos rendermos tão fácil um ao outro.
O celular dele começou a tocar, me fazendo acordar e perceber o absurdo que aquilo havia se tornado. separou nossas bocas, atendendo-o, ainda com a mão desocupada em minha cintura. Balancei a cabeça negativamente, saindo do colo dele. Nem escutei o que ele dizia ao celular, a voz dele parecia um zumbido e a imagem dele parecia se distorcer. Não literalmente, mas eu não o via com ódio ou repulsa, o via com desejo. Saí do carro, correndo para o asfalto e andando rápido em direção à casa dos Peterson. O bom é que era só seguir reto a partir dali. O frio atacava o ambiente sem piedade e eu só tinha meu próprio abraço como um aquecedor inútil. A imagem de seu rosto invadia minha mente tão sem piedade quanto aquele maldito frio. Eu nem prestava atenção por onde estava andando, só olhava para frente com a mente longe.
- ! – Ouvi me chamarem. Por um momento achei que estava louca, que estava ouvindo vozes, mas olhei para trás e o vi correndo até mim, provando que eu estava sã. Virei para frente, andando mais rápido. Não queria mais olhar para ele. Okay, eu queria e queria mais do que apenas olhar, mas eu não queria querer isso, se é que entende. – , espera. – parou ao meu lado, andando no mesmo ritmo que eu, que o ignorava completamente. – Vamos pro carro, . – Parei de andar e o olhei.
- Ninguém aqui te deu intimidade para se dirigir a mim como , ! – Me assustei com minha própria fala, mais especificamente com o final dela. riu.
- Temos intimidade para nos dirigirmos pelos nomes, . – Ele gostava de falar meu nome ou eu estava achando que tudo iria conspirar contra mim para eu me estressar?
- Intimidade é algo que nunca teremos, . – Revirei os olhos.
- Não foi isso o que acabou de provar. – Deu de ombros, com as mãos nos bolsos. – E sabe por que está tão estressadinha? – Se aproximou, colocando meu cabelo atrás da orelha. – Porque você gostou e quer mais. Só que não se conforma com isso. – Ele fez questão de responder, me deixando mais confusa ainda.
- Ah, claro, amei beijar um cafajeste que soube da existência ontem! – Bufei e voltei a andar.
- Se você aparecer lá à pé, eu perderei o emprego. – segurou minha mão e me puxou pelo sentido contrário no qual eu seguia. Não havia o que fazer, apenas segui-lo, e eu o fiz, com a mão entrelaçada na dele. Quando já estávamos quase chegando ao carro, eu soltei a mão dele e entrei atrás, deitando-me no banco. entrou na frente, colocando o cinto e olhando no retrovisor.
- Pode ir o mais rápido que puder dessa vez. – Pedi, de olhos fechados. O sono que eu sentia hoje ao acordar parecia ter voltado à tona. Apenas relaxei meu corpo até cair no sono naquele pequeno caminho que restava até em casa. Tudo aquilo havia me confundido muito. Eu o conheci ontem, pelo amor de Deus, o que estava acontecendo comigo?!

Acordei e lá fora o Sol estava se pondo. Fiquei olhando-o da minha cama, deitada. Não conseguia me lembrar de ter deitado ali, apenas do que aconteceu antes de eu dormir, o que não me desanimou, muito pelo contrário, me peguei sorrindo. Eu teria que acabar com aquele humor bipolar o quanto antes, assim como tinha que acabar com toda aquela loucura. Respirei fundo e o perfume de entrou pelas minhas narinas. Não era de minha surpresa ele ter me levado até minha cama e seu perfume ter ficado.

Capítulo três

Eu estava com fome, não havia comido nada desde o café da manhã. Me levantei lentamente de minha cama, tonta. O crepúsculo lá fora parecia mais vivo do que nunca, não soube por quê. Saí do meu quarto, descendo para a cozinha. Courtney estava lá e não estava sozinha. Fiquei estática, não sabia o que fazer, não sabia se era um sonho ou se eles dois me viram. Simplesmente não pude acreditar na cena que eu presenciava, e não, eles não me viram, porque continuaram se amassando na pia. Se eu já estava enjoada pela fome, agora parecia que eu ia vomitar o nada que havia no meu estômago. Saí dali para não passar vergonha ao ser vista.
Courtney e se amassando na cozinha. A ficha não havia caído e minha fome não ia passar tão facilmente. Pelo visto, nem minha inexplicável raiva passaria. Subi correndo para meu quarto e troquei de roupa, vestindo a primeira que vi no closet: um vestido vermelho tomara-que-caia balonê que ia até o meio das coxas e coloquei um casaco preto da GAP, calçando meus chinelos logo em seguida. Saí do quarto com minha bolsa, e desci novamente, fazendo barulho para que qualquer um na casa soubesse da minha existência. Abri a porta da frente, dando de cara com Martin sentado na escada da porta. Olhei-o sem entender.
- Ah, oi. – Ele isolou o cigarro que estava em sua mão, tímido. Forcei um sorriso educado.
- Oi. – Falei, passando a mão pelos cabelos.
- Aonde vai? – Martin perguntou, me olhando. Dei de ombros.
- Comer algo... – Respondi. – Tchau. – Falei, começando a andar.
- Quer companhia? – Ele se levantou, tirando as chaves do bolso. Dei de ombros novamente, sorrindo.
- Pode ser. – Fomos até o Roll preto que estava estacionado fora da garagem e entramos. Ele ligou o som e Asthenia, do Blink-182, começou a tocar. – Está fazendo faculdade pra quê? – Perguntei, fuxicando seus cds. Ele tinha bom gosto musical.
- Fotografia. – Sorriu. – Mas não vou ser um fotógrafo falido – Filho, nem que você fosse gari você seria falido, olha sua família! –,vou trabalhar no estúdio da minha mãe.
- Hum... – Murmurei.
- E você? Vai fazer pra quê? –Martin fazia muitas perguntas para meu gosto, mas era só o rumo que o assunto tomava.
- Não sei ainda... – Rimos. – Provavelmente algo que deixe meus pais felizes. – Respondi, lembrando dos meus pais. Me senti uma criança por ter sentido saudades deles, sendo que estava há poucos dias fora de casa.
- E quanto a você? – Outra pergunta. O olhei, sem entender. – Digo, não quer nada que a deixe feliz?
- Sim, mas... – Eu não soube responder. Ele tinha razão, eu não pensei em mim, o que era frequente quando se tratava do meu futuro. Suspirei em derrota e Martin riu.
- Desculpe. – Falou, me olhando quando o carro parou no sinal.
- Não é culpa sua. – Sorri. – Aonde vamos? – Me lembrei de que não sabia aonde íamos.
- Starbucks, sei lá. – Ele deu de ombros. – Pode ser?
- Okay. – Virei para frente, em silêncio. Martin aumentou o som, percebendo que eu queria ficar calada e apenas a música acabava com o silêncio. A imagem de Court e se beijando na cozinha invadiu minha mente de novo.

“- Court? Quanta intimidade. – Encostei a cabeça na janela do carro, com vontade de vomitar.
- Você nem imagina... – Sr. disse, rindo.”


Essa lembrança ecoava na minha cabeça enquanto a imagem dos dois a acompanhava como um tipo de filme macabro. Fechei os olhos com força, me sentindo perturbada com aquilo tudo. Tombei a cabeça na janela fria, tentando organizar meus pensamentos.
- Está se sentindo bem? – Percebi que o carro já estava parado em frente à Starbucks. Me sentei direito, fazendo que sim com a cabeça. Martin parecia desconfiado de que havia algo de errado comigo, mas não falou mais nada. Apenas saímos do carro e entramos na milagrosa Starbucks. Sentamos numa mesa qualquer e pedimos algo qualquer. Nada parecia ser importante naquele momento e eu só queria minha sanidade mental de volta, minha tranquilidade de volta. Eu bebia meu cappuccino em silêncio enquanto Martin brincava com o canudo de sua coca-cola. Aquele silêncio parecia só piorar as coisas, eu precisava de uma distração o quanto antes. Encarei Martin e ele sorriu. – O que tá achando de Londres?
- Poderia ser melhor. – Respondi sincera, bebendo outro gole de cappuccino.
- Nossa. – Ele franziu o cenho. – O que estraga?
- Nada é perfeito. – Dei de ombros. Minha voz era baixa e calma.
- Bom, você ainda não teve uma noite boa. – Piscou. Arregalei os olhos. – No bom sentido, okay? – Ele fez uma voz ofendida.
- Qual seria o bom sentido? – Quis saber o que teria que fazer para me divertir.
- Ué! Você está em Londres, babe! – Fez gestos exagerados com as mãos. – Tem boates pra ir, shopping, cinemas, pontos turísticos, melhores lojas de cds... Muitas coisas, e você fica assim! – Ri sincera. Na verdade, eu queria saber o que teria que fazer para me acalmar.
- Vou sair, você tem razão. – Respondi, pensando. Realmente, Martin tinha razão. Ficamos conversando por um tempo até que resolvemos voltar para casa porque eu teria que acordar cedo no dia seguinte. Ao chegarmos, Martin me deixou e foi ver uns amigos na casa de alguém. Deu pra perceber que eu não prestei muita atenção na conversa da volta de carro. Entrei na casa e Court estava vendo televisão na sala. Fui até lá e sentei ao seu lado, calada.
- Oi, né! – Sua voz nunca me pareceu tão irritante. Respirei fundo, de olhos fechados.
- Oi. – Forcei um sorriso. Ela me dava nojo. Não pelas roupas curtas que usava, pelas coisas obscenas que falava ou pela sua voz irritante, mas por se misturar com alguém como . E eu ainda não sabia me responder por que não aceitava isso. Era Court, minha... amiga.
- Onde estava? – Perguntou, passando os canais.
- Comendo algo... – Dei de ombros.
- Hum... Como foi a aula hoje? – Perguntou novamente.
- Normal... – Menti. Claro que não foi normal, principalmente a volta. – Conheci a . – Courtney desatou a rir.
- Ela é estranha, ! – Courtney ainda não havia parado de rir. Por que era estranha? Porque não andava com os amigos bêbados de Court e porque não queria pertencer àquele mundo fútil?
apareceu na sala vestindo uma bermuda larga no meio da bunda, uma pólo preta e Reef. Seus cabelos estavam como ontem à noite. Mordi o lábio inferior, encarando-o. Ele sentou entre eu e Court, assistindo 90210, o programa que Courtney havia deixado. Provavelmente ele ficava à vontade naquela casa quando os Peterson estavam trabalhando. Bufei alto sem querer e os dois me olharam.
- Er... – Corei. – Por que ela é estranha? – Eu tentava olhar para Court, mas tapava a visão. Percebi que ele me olhava de lado. A mão dele passava pela de Court e subia até seus ombros.
- Sei lá, ela e toda... er... como vou dizer? Por exemplo, ela vai de all star pra escola! All star é moda da época da minha mãe. – gargalhou, tapando o rosto com as mãos. Sim, ele deve ter me visto usando all star hoje de manhã. Dei um beliscão em seu braço para que parasse e sua expressão de riso mudou para uma de dor, logo, mudou para uma de “interessado” no programa. Agora suas mãos estavam em suas coxas, dando umas apertadas. Corei, me sentindo uma intrusa ali.
- Não acho isso. Julgar as pessoas pelos sapatos é tão fútil, Courtney! – Falei calmamente e me levantei, indo para a o quarto. Ainda não havia feito nenhum dever. – Boa noite. – Falei para os dois. Já disse sobre minha educação, certo? Ótimo.
Subi as escadas devagar e entrei em meu quarto. Aquele ato já estava ficando cansativo. Deitei em minha cama, com meu material, e comecei a fazer a pilha de deveres idiotas nos quais eu nem prestava atenção, apenas fazia. Quando finalmente terminei, guardei aquela porrada de livros em minha mochila e armário e olhei no relógio. Já eram dez e meia! Demorei horas só para fazer aquilo. Okay, eu demorei horas pensando na vida só para responder as questões simples.
Liguei meu iPod na caixinha de som e Stars, do Swichtfoot, tocava baixo. Deitei de olhos fechados sem nenhuma vontade de dormir e a imagem dele veio à minha cabeça. Cobri o rosto com as mãos, o que estava havendo? Tudo aquilo era uma bagunça. Por que não fiz prova pro Canadá?! Ouvi umas batidas na porta. Me levantei e a abri, bufando.
- Que foi?! – Perguntei grossa e seca, mas aquilo já saiu tão natural que nem ligou. Ele estava sem blusa e milhões de pensamentos dele com Court se comendo no sofá me invadiram. Olhei para o chão de braços cruzados, espantando aqueles pensamentos.
- Só pra avisar pra ligar o despertador. – Disse, sorrindo de lado. O olhei com desprezo.
- Ah, se isso impedir sua visita logo no começo do meu dia, eu faço. – Forcei uma voz calma, como quem se importava.
- Tive que ficar ouvindo Court falar um monte lá embaixo por causa de você, sabia? – Ele se aproximou devagar.
- E eu com isso?! – Perguntei, sem me importar nem um pouco. se aproximou outro passo. Empurrei a porta com força, para fechá-la, mas ele a segurou, entrando no quarto e a fechando. O encarei incrédula. Encarei seu tanquinho e ombros, também incrédula, releve.
- Bom, metade da culpa é sua. Ninguém mandou contrariar Courtney Peterson. – foi se aproximar de novo, numa proximidade na qual nossos narizes iriam se tocar, mas eu recuei e fui para minha cama, sentar. Minhas pernas estavam bambas demais. Não era toda noite que um cara daqueles entrava em meu quarto, mesmo sendo um completo puto.
- Não posso fazer nada se Courtney realmente é fútil. – Dei de ombros e ele sentou ao meu lado na cama, tirando meu cabelo que tapava minha orelha.
- Não estava falando de Court quando disse que a culpa era sua. – Sussurrou, fazendo-me levar choques. O empurrei pelo peito para longe de mim, mas ele segurou meus pulsos. – O quê? Não estava fazendo nada que você detestasse. – Um sorriso cínico surgiu em seus lábios. Alguém bateu na porta e eu olhei para a mesma desesperada enquanto continuava tranquilo.
- ? – Era Court. Virei para , tentando libertar meus pulsos.
- Se esconde no closet! – Sussurrei, desesperada. – Espera aí, não entra! – Gritei para ela.
- Não. – sussurrou de volta com um sorriso vitorioso. O medo tomou conta de meu corpo.
- Pelo amor de Deus, faço o que você quiser, só se esconde no closet! – Eu falava tudo rápido, sem pensar. o fez, em silêncio. Abri a porta, com as mãos e as pernas trêmulas.
- Oi, Court. – Falei, ainda nervosa.
- Hey... aconteceu algo?
- Não, como assim? – Minha voz me entregava. O bom é que Court não me conhecia tão bem assim.
- Nada, é que acho que você ta chateada comigo. Na verdade, tenho certeza. – Ela andou pelo quarto e eu torcia cada vez mais que ela não visse o closet.
- Não há nada de errado. – Menti, desejando por tudo que fosse mais sagrado nesse mundo que ela e evaporassem.
- Qual é, ? Você não falaria daquele jeito comigo à toa. Mas já sei por que está assim. – Court sentou em minha cama, me olhando. – É o . – Assim que o chamava? Whatever, eu senti meu chão sumir. Fiquei calada, meus músculos da boca fizeram questão de não dar sinal de vida. – Você tá assim porque eu não te contei sobre meu caso com ele. – Um alívio percorreu meu corpo. Era como se tirassem um mamute de minhas costas. Sorri sem graça. – Mas pode ficar calma, eu ia te contar, mas tem o lance do Mike no meio, sabe? E o é lixo pra mim, é só pra eu ter o que fazer quando não tenho o que fazer, porque convenhamos, ele é hot, mas não é do nosso nível. – Piscou.
- Hum, verdade. Tô me sentindo bem melhor agora que me contou. – Menti, dando um falso bocejo.
- Mas me diz... Como descobriu? – Ela perguntou e rimos.
- Vocês estavam na cozinha. – Pisquei, abrindo a porta do quarto para que ela saísse. – Tô morrendo de sono. – menti de novo – Amanhã te conto sobre Mark. – Ela assentiu e saiu do quarto. Outro mamute desceu de minhas costas. Fui até o closet e estava lá, fuxicando minhas coisas com uma expressão de puto. Óbvio, ninguém gostaria de ouvir o que ele ouviu, e essa era uma ótima oportunidade de irritá-lo. – Nossa... ouviu o que Court disse? – Fingi um riso. – Ela tem razão, você é um nada. – Me encostei de lado na parede, observando-o. – Faz pouquíssimo tempo que sei da sua existência e já sei que você não vale o chão que pisa. – Ele me olhou, esperando que eu continuasse. – E sabe do que mais? Você precisa de uma prostituta pra fazer sexo, ou de acordos no caso de Court. Mas Mike, o cara que ela tá pagando, consegue tê-la com o que compra e com sua simpatia. – Ri de novo. A cara dele não mudava. Era a mesma cara de quando eu apareci para tirá-lo dali. – , você devia ter semancol. – Pisquei. Ele veio rápido até mim, sua expressão de puto o acompanhou. – Vai me bater, é?! – Permaneci onde estava, sem medo dele.
- Não. – segurou minha cintura, encostando minhas costas na parede e juntou nossos lábios. Foi tudo muito rápido, e enquanto eu respirava pesado por causa do beijo, novamente sentia seu magnífico perfume! Era demais para eu aguentar e o desejo de tê-lo se manifestou, ficando em mais evidência quando minhas mãos exploraram seu peito nu. Nossas línguas dançavam rápidas em sintonia enquanto nossas respirações eram quase inexistentes, assim como minha vontade de tirá-lo dali. Mas minha consciência permanecia “acordada” e eu sabia que teria que acabar com aquilo antes que aquilo acabasse comigo. Empurrei, com mau gosto, o peito dele fazendo-o sair de perto de mim.
- É... errado – Falei, ofegante, puxando o máximo de ar que podia, aproveitando a ótima sensação dos meus pulmões enchendo com facilidade.
- O que é errado? – perguntou.
- Sai daqui. Agora. – Pedi, rindo, apontando para a porta. Ele suspirou em derrota, desapontado, e faz o que mandei. Raro. Assim que ele fechou a porta eu fui para o chuveiro. Não era o cheiro dele em mim que me perturbava e sim que eu só havia tomado banho de manhã naquele dia.

Acordei com o barulho idiota e irritante do meu celular impiedoso. Havia passado uma semana que tive meu incidente com e depois daquilo não nos falamos mais. Ele me olhava como se eu só fosse um cachorro na casa, só quando me olhava, porque nem isso ele fazia. Mas era melhor assim. Era quinta-feira ainda e só sexta à noite eu iria sair com Court e seus amigos idiotas. Só que implorei para que fosse comigo e ela aceitou. Íamos à boate do pai de Mike, a mesma que fui com Court quando cheguei em Londres. Quando já estava pronta, desci para o café-da-manhã. Meredith, Martin e Courtney estavam na mesa. , como sempre, estava em pé ao lado da mesa do café. Não olhei para ele, como nessa última semana, e sentei.
- Bom-dia. – Martin falou, sorrindo. Sorri de volta. Nessa uma semana eu o conheci melhor. Ele me levou ao London Eye, tudo bem que eu quase morri lá. Martin era muito simpático e não demorou para começarmos uma amizade. Quanto à Court, ainda finjo que está tudo bem e que não a odeio. Também ainda não sei por que a odeio, por isso continuo de bem com ela. Já Meredith parecia chateada. Talvez seja pela longa viagem do Sr. Peterson, Jimmy, para Paris. Ele partiu à noite, no dia em que cheguei, depois que eu e Court subimos. Claro que ele ligava todos os dias, mas para Meredith isso não parecia o suficiente.
- Bom-dia. – Respondi, me sentando. Meredith e Courtney conversavam algo importante. Court estava sem uniforme e provavelmente faltaria aula hoje, só porque a educação física seria na piscina e ela não queria que a chapinha saísse. – Vai pra faculdade hoje? – Perguntei para Martin.
- Por quê? – Ele sorriu. Seus olhos castanhos brilhavam na pouca luz do Sol que invadia a varanda de tão claros.
- Queria carona. – Sorri, bebendo um gole do meu suco de laranja.
- Hum, hoje não vou. – Martin fez uma careta. – Mas posso te deixar lá se quiser.
- Não, que isso, Martin! Deixa, vou com o Sr. mesmo. – Tentei não demonstrar a tristeza em minha voz.
- Amanhã prometo que te levo. – Piscou e eu ri, fazendo um jóinha. Terminei meu suco e me levantei.
- Tchau. – Dei um beijo em sua bochecha. Não queria atrapalhar a discussão de Meredith e Court, então apenas saí andando. veio atrás, com seu visual impecável de todo dia de manhã, e fomos até a garagem. Assim que ele destrancou o carro, eu entrei na frente, já ligando o som alto. Jimmy Eat World tocava e eu cantava junto. entrou, colocou o cinto e acelerou. Já nem me importava mais com a velocidade do carro quando ele quem dirigia. Ele abaixou o som, deixando a música virar um zumbido. Eu aumentei novamente, cantando, sem nem olhá-lo. repetiu o maldito ato e eu repeti o meu.
- Porra! – Falamos ao mesmo tempo, nos olhando.
- Eu que liguei o som, praga! – Falei, olhando para frente. também olhou para frente.
- Eu que estou dirigindo. – Respondeu calmo.
- Mas você é um empregado e deve saber o limite do seu espaço e o limite do meu. – Disse simplesmente e ele riu, parando o carro ainda no meio do nada, mais ou menos perto de onde tivemos nosso primeiro incidente.
- E se eu quisesse invadir seu espaço? – Perguntou, me olhando nos olhos, algo que nunca havia feito. Gelei. Nunca reparei que seus olhos fossem tão perfeitos e brilhantes. Ele se aproximou e eu me preparei, de olhos fechados. Eu o queria novamente e queria muito mais do que beijá-lo. Isso já fazia tempo, mas eu não podia. Era , faça-me favor. Tinha orgulho demais para admitir para mim mesma. Abri os olhos novamente e ele puxou meu cinto, colocando-o e voltou para seu lugar. Suspirei. – Sabe que odeio pessoas sem cinto enquanto eu dirijo. – Falou, me olhando nos olhos de novo.
- Sabe que não me importo com seu estado de humor. – Tirei o cinto devagar, para irritá-lo. Já deu pra perceber meu prazer nisso. Mas além do prazer em irritá-lo, eu sentia um certa tristezazinha bem pequenininha por não ser o que eu pensava.
- Eu me importo e não vou andar com esse carro até que coloque o cinto de novo. – Falou, ainda me olhando nos olhos. Enquanto choques corriam em meu corpo, eu permaneci parada, não iria obedecê-lo. – Teimosa.
- Só estará fazendo um favor para mim. Seria ótimo chegar em casa e dormir. – Sorri vitoriosa. Ele bufou.
- Claro e ia dizer o que para Sra. Peterson? – passou a mão nos cabelos arrumados – Que não quis pôr o cinto por ser idiota e aí matou aula? Nossa, isso não é um bom comportamento, . – Um sorriso torto surgiu em seus lábios. Revirei os olhos.
- Você é hipócrita, sabia? – Me virei para frente.
- Como assim? – Levantou uma sobrancelha.
- Dirige à quase cento e vinte quilômetros e ainda quer falar sobre segurança? – Cruzei os braços, tombando a cabeça para trás no banco, vendo o dia nublado pela janela de . Voltei a olhá-lo na mesma posição.
- Não falei de segurança em momento algum. – Sua voz era severa, mas sua expressão era normal.
- Então por que quer que eu coloque o cinto? – Perguntei.
- Na verdade, eu não quero. Mas se eu pedisse para você continuar sem, você o colocaria. – Ele tinha razão, eu nunca o obedeceria. Dito isso, ele se aproximou de mim, segurando meu rosto. Fitar os olhos dele tão de perto foi uma experiência gostosa e a sensação era incrivelmente indescritível. Sua mão quente em minha bochecha nem se fala. Mas eu não podia, por mais que eu quisesse, eu sabia que não podia. Se em uma semana conhecendo-o eu já me sentia assim, imagine se deixasse isso passar dos limites? O pior de tudo é que eu não precisava me rebaixar a ele. Eu nem gostava dele, como já disse, era desejo físico, a coisa mais normal no mundo! Desobedecendo minha vontade, mas obedecendo minha consciência, que no momento não tinha nada de puro, o empurrei de leve para longe de mim.
- Não quero me atrasar. – Eu disse, finalmente colocando o cinto, já que sabia que só assim ele dirigiria e que ele não fazia questão alguma que eu colocasse. , revoltado, acelerou rápido como de costume. Não dissemos uma palavra sequer.

Eu estava no recreio, procurando por . Ela não havia ido à aula de Física, mas disse que mataria para dormir.
- . – Mark apareceu, sorrindo.
- Hey, Mark. – Sorri amigável. – Tudo bem? – Perguntei, sem aproximar-me dele.
- Sim... Bom, quero dizer... Não. Ou mais ou menos, sei lá. – Ele mexia nos cabelos, nervoso.
- O que houve, Mark? – Perguntei preocupada, olhando-o. Paramos de andar, nos encarando.
- Você tá me evitando? – Mark perguntou, ainda nervoso. I’ve got busted, okay. Eu estava, mas não era pra tanto, eu só não ligava pra ele, nem atendia as ligações dele, nem saía com ele, só. – Courtney falou que você tem saído muito com Martin e sei lá... Tá ficando com ele?
- Eu? Não tô evitando ninguém. Só acho Martin legal, nada demais. Ele tá me mostrando Londres e a gente ficou amigo, só isso, Mark. Por quê? – Tentei ser o mais cautelosa possível.
- Nada... – Ele deu de ombros. – Court ficou colocando coisa na minha cabeça, só. – Ah, claro. Só faltava. Era o típico grupo de “amigos” do filme “Meninas Malvadas”. Sorri, dando-lhe um soquinho de leve.
- Não a escute. – Pisquei, sorrindo. Vi perto da árvore que costumávamos ficar no recreio. – Ahn... tenho que falar com . Te vejo por aí. – Saí andando, sem deixá-lo responder, até , que me viu já de longe. Enquanto eu caminhava até ela, eu tentava encontrar palavras para contar o que houve entre mim e . Seria bem difícil contar a ela se eu tentava me convencer que nada havia acontecido, que era fruto de uma fértil imaginação, ou que eu acordaria daquele sonho. Mas eu sabia, tinha certeza que era real. Só quero entender uma coisa: quando algo é maravilhoso, parece que é apenas um sonho e temos medo de acordar dele. Mas quando é insano, pensamos em mil e uma possibilidades daquilo não estar acontecendo. Ótimo, estou filosofando!
- Olá, Dear! – Ela sorriu, beijando minha testa. – Como estás? – Perguntou.
- Que formalidade toda é essa, ? – Perguntei, com a mão na cintura.
- Tenho prova de Inglês hoje. – Fez careta. Ri, me acalmando um pouco.
- Hey, preciso te contar algo... – Falei, mordendo o lábio inferior. – Eu preciso contar para alguém e desabafar... você é a única pessoa que pode saber disso...
- Okay. – parecia preocupada e curiosa ao mesmo tempo. Sentamos abaixo da árvore e eu respirei fundo, pensando como contar tudo o que houve e o fiz. estava surpresa, principalmente com o fato de eu ter evitado o beijo de hoje. – Eu tô cho-ca-da! – Disse, com a mão na boca ainda. Seus olhos estavam arregalados e um sorriso de incredulidade se formava em seu rosto. – , se você tem vontade de ficar com ele, fica. Como você mesma disse: desejo é a coisa mais normal do mundo. Não precisa conhecer bem a pessoa para querê-la... fisicamente. Apenas tem que saber como a pessoa é... fisicamente também. – Rimos. E lá se vai mais um mamute que estava em minhas costas.
- Sei lá... Somos orgulhosos demais, . Eu odeio ter que me entregar e pelo visto ele também. – Falei, agora com um sorriso.
- Uuhh... – Ela murmurou com uma cara safada. Rimos.
- Assanhada! – Falei divertida. Ficamos mais um tempo conversando e voltamos para nossas respectivas salas para mais três tempos de tortura mental. E logo depois desses três tempos, eu e saímos da escola. estava de pé no Jaguar como sempre. Enquanto andávamos até ele, minhas pernas começaram a tremer, assim como minhas mãos. Tentei me manter calma, espantar aquela sensação, mas preciso dizer que foi em vão?
- Tchau, . Te ligo hoje. – e eu beijamos nossas bochechas. Eu não falei nada, apenas sorri, concordando. Nada sairia da minha boca no momento. Talvez pelo fato de eu estar disposta a atender aos meus desejos se estivesse pensando o mesmo. Courtney tinha que faltar hoje? Merda. A distância entre mim e a porta aberta sendo segurada por era nula. Sentei-me, sentindo seu perfume impregnado no carro. Sorri de lado e ele entrou no carro, colocando o cinto. O fiz também, sem querer causar qualquer tipo de discussão. Por mim, poderíamos ficar calados o caminho inteiro, porém não parados. Impressão minha ou minha mente tem estado poluída demais? acelerou e eu liguei o som. Stars, do Switchfoot, tocava num volume normal. me olhou, com uma sobrancelha levantada.
- Não vai aumentar e cantar que nem uma maluca? – Perguntou, ainda me olhando. Eu olhava para frente, mas sua posição estava em meu campo de visão. Fiz que não com a cabeça. – Tá passando mal de novo? – Virou-se para o botão que abriria minha janela.
- Não. – Respondi, olhando-o pela primeira vez naquele momento. Me amaldiçoei por ter feito isso.
- Por que tá pálida? – Perguntou, parando o carro no último sinal do caminho. Depois daquele sinal, iríamos para uma entrada onde percorreríamos o caminho deserto que naquele momento parecia agradável para mim.
- Não sei... – Minha voz saiu quase falha, percebi que minha respiração não estava normal. Coloquei as pernas em cima do banco, abraçando-as. Um frio tinha me invadido e parecia cruel a forma como atuava em mim.
- Algum cara? – Sua voz era monótona. O sinal abriu e ele acelerou com tudo.
- Não. – Respondi, não tirando minha visão da estrada. – Bom... mais ou menos.
- Desiste dele. – Disse como se fosse a coisa mais normal do mundo. Por mais que ele não soubesse quem era, ele tinha razão. Onde eu estava com a cabeça?
- Você não é a melhor pessoa pra me dar conselhos amorosos. – Forcei um riso.
- Você ama esse cara? – Perguntou. Sua voz tinha uma pontada dolorida de curiosidade.
- Não, claro que não. – Aquilo era mais que verdade.
- Então eu não estou dando nenhum conselho amoroso aqui. – Dei de ombros.
- Ainda assim... você não é a melhor pessoa pra me entender, . – Eu falei, com o coração na mão quando entramos pelo maldito e/ou bendito caminho.
- Tente. – Respondeu, parando o carro e me olhando. Meus batimentos cardíacos eram anormais. Olhei para ele, sem mover um músculo do meu corpo, continuando em minha posição.
- Não sou do tipo de tentar algo improvável. – Respondi convencida. Aquilo também era mais que a verdade.
- Talvez por nunca ter tentado. – Sua voz saiu quase num sussurro enquanto ele encarava minha boca.
- Talvez por ter tentado demais. – Meu tom de voz não saiu muito diferente do seu.
- Você que desiste fácil. – Piscou, com o famoso sorriso de lado. Percebi que nossos corpos estavam tão próximos que eu sentia sua respiração levemente bater em meu rosto. Bizarra a maneira que mudamos de posição tão rápido, sem eu nem ao menos perceber.
- Você que tá dizendo coisas sem sentido. Pelo amor de Deus, , nem sabe de quem estou falando! – Revirei os olhos.
- Por isso pedi pra que desistisse. – Dito isso ele me puxou pela nuca selando nossos lábios. Não recuei, apenas abri espaço para que sua quente língua com sabor de seu Trident entrasse em minha boca e dançasse com a minha. me encaixou em seu colo, passando suas mão por minhas costas. Uma de minhas mãos o segurava pela gravata e outra bagunçava seus cabelos da nuca. Lembrei de Courtney. Por mais gostoso que fosse ficar com ele, eu o estava “roubando” dela. Mesmo que ela nem ao menos ligasse para ele. Percebi, não sei como, que Please Don’t Go, do Manchester Orchestra, tocava, e com o pé, girei a bolinha do volume, aumentando. cortou o beijo, me olhando, e sorriu. – Teimosa. – Disse ofegante. Sorri de volta e voltei a beijá-lo, mais intensamente que antes. Courtney disse que ele era um nada para ela, o que provavelmente era verdade, mas se ela ainda ficava com ele é porque algo devia ser. Por mais fútil que fosse o mundo que ela vivia ou seus amigos, ela ainda era minha amiga. A garota que conheci há dez meses e que abriu as portas de sua casa pra mim, dividiu seus amigos comigo (por mais eca que fossem) e que não era falsa comigo apesar de tudo. A culpa pesou em minha consciência e eu percebi que não beijava mais e que minhas mãos estavam na testa. Uma forte dor de cabeça veio à tona. Ele me olhava, esperando, sem entender por que parei.
- Desculpa. – Nunca imaginei que diria algo do tipo para ele.
- O que houve? – Perguntou, sério, com indignação queimando em seus olhos. Respirei fundo, tentando acalmar meu corpo.
- Eu não posso. – Pousei minhas mãos em seus ombros.
- Eu deixo, logo você pode. – Disse como se fosse prático assim.
- Não é isso, ! – Falei, bufando.
- . – Me corrigiu. – Não gosto de .
- Que seja! – Revirei os olhos. – Não posso fazer isso com Courtney. – Dei de ombros.
- Eu nem fico mais com ela! – , ou melhor, disse como se fosse óbvio. – Prefiro alguém que preste... Ou que me valorize. – Falou pensativo.
- Como assim? Ela nem me disse nada! – Falei inconformada.
- Parece que você nem a conhece... – Grunhiu.
- Só não acredito em você. – Pisquei, sorrindo. Saí de seu colo, sentando no banco de novo. Ele suspirou pesado e acelerou sem dizer nada.

Capítulo quatro
[n/a: Carregue Blue and Yellow – The Used]

Terminei de vestir minha calça de moletom listrada roxa e verde limão com minha regata justa preta quando a empregada bateu na porta anunciando que o jantar estava servido. Calcei minhas pantufas do Frajola e prendi o cabelo num nó frouxo, indo até a sala de jantar. Todos, menos Jimmy, estavam lá. Inclusive . Ele sempre jantava e almoçava com a família, na mesma mesa! Dude, ele é só um motorista, onde o mundo ia parar? Courtney disse que o pai dele foi motorista da família antes de morrer e morreu quando tinha 15 anos. Os Peterson criaram-no até os 19, quando começou a ser motorista da família e ser (muito) bem pago por isso. Eu não sabia detalhes e não me importava com a vida dele, nem um pouco.
- Onde esteve o dia todo? – Martin perguntou baixinho, no meu ouvido. Estava sentado ao meu lado enquanto , que nos encarava, sentava à minha frente. Não estava arrumado como durante o dia, mas não estava com roupa de ficar em casa.
- No meu quarto... estudando. – Inventei qualquer coisa. Sim, eu passei o dia no meu quarto, mas não foi estudando. Nem tive cabeça para isso. Só pensava no absurdo que era eu ficar com um cara, motorista, diga-se de passagem, que conheci há uma semana e querer ficar com ele sempre que o vejo, mas ao mesmo tempo querer socá-lo. Sem contar com o fato que esse mesmo cara é ficante da minha amiga. Oh, merda!
- Ah, sim... Hey, quero te mostrar minha nova letra. – Martin tinha uma banda, Boys Like Girls, e era o vocalista e guitarrista. Sua voz era linda.
- Ok, depois do jantar eu passo no seu quarto. – Sorri, ansiosa para lê-la.
- , deram muita matéria hoje? – Meredith perguntou enquanto Court bufava.
- Er... – Pensei na aula de hoje. Bom, eu não havia prestado atenção em nada. – Sim, sim. Deram. Deram muita, nem sei como consegui colocar os deveres em dia hoje. – Fingi um sorriso, aliviada. balançava a cabeça negativamente enquanto mastigava o salmão. Dei um chute em seu joelho e ele me olhou como quem reclama de algo. Revirei os olhos.
- Viu, Courtney Peterson?! Hoje teve matéria nova e a senhorita fez o favor de faltar por idiotices! – Meredith aumentou o tom de voz com a filha. Court me olhava como quem diz um cínico “obrigada!”. Mordi o lábio inferior.
- Eu pego a matéria com a das aulas que fazemos! – Courtney tentava melhorar a situação, mas Meredith nem ligava para o que ela dizia. Apenas a olhava com um ar de desapontamento.
- Courtney, pelo amor de Deus! Quando você vai crescer e ter algo chamado RESPONSABILIDADE? – Deu um soco na mesa, tentando se conter, ao falar a última palavra. Ao soco ser dado, eu e Martin demos um pulinho de susto. Eu iria rir se o negócio não fosse sério.
- Que tal quando EU quiser?! – Court desafiava a mãe, que parecia querer jogar a panela quente com salmões na cabeça da filha.
- Então é assim que pensa? Acha que pode ser o que quiser quando quiser? – Não podia descordar de Meredith, mas Court estava ferrada por minha causa. Mas não foi por mal, foi sem querer!
- Sim, mamãe. – Disse, com uma voz doce e irônica. – Eu posso tudo, certo? – Levantou uma sobrancelha.
- Sua... – Meredith não continuou a frase. Novamente, me senti uma intrusa ali.
- Com licença. – Me levantei, não querendo fazer parte daquilo. Court me olhou com puro ódio no rosto. Parte daquilo era culpa minha, mas eu sentia uma certa alegria dentro de mim. Desviei meu olhar dela e fui até o quarto de Martin, que vinha logo atrás de mim. Entramos e eu me joguei em seu puff azul.
- Vai se acostumar. – Disse, pegando o seu violão preto e uma folha de papel.
- Como sabe? – Perguntei, olhando-o.
- Eu me acostumei... – Martin deu de ombros, dedilhando no violão.
- Como assim, Martin? – Perguntei novamente, sem entender.
- Bom, eu não sou um Martin “Peterson”, se é que me entende. – Disse sem me olhar. Eu ainda não havia entendido.
- E...? – Falei, curiosa.
- Eu sou adotado, . – Disse como se fosse normal. – Meredith e Jimmy nunca esconderam de mim e mesmo sabendo disso, eles são meus pais. Digo, eles me criaram, entende? – Finalmente ele me olhou.
- Então Martin já era seu nome? – Sentei ao seu lado na cama, tirando minhas pantufas.
- Sim. Martin Johnson. Mas meus pais tiraram o Johnson. – Rimos.
- Claro, você é um Peterson. – Pisquei. – Com quantos anos veio pra cá?
- Um ano. – Respondeu. Ok, então ele já cresceu acostumado com aquilo, não valia!
- Ok, vamos ler a letra. - Mudei de assunto, pegando a folha e lendo. Martin começou a tocar o violão. O nome era Hero/Heroine. Era linda e, God, ele tinha talento pra escrever e tocar.
- E aí? – Ele me olhou, sorrindo.
- Dava pra melhorar… - Fiz careta. Martin, de repente, ficou com uma cara de medo e timidez ao mesmo tempo. – Brincadeira, Mart! – Falei, apertando suas bochechas.
- Idiota! – Rimos e ele me jogou para trás, nos deitando, e fazendo cosquinha na minha barriga. Meu ponto fraco, beijos.
- Ai, ai, ai, ai! Martin, pelo amor de Deus, eu vou morrer! – Eu falava entre gargalhadas, tentando me libertar de suas mãos. Ele parou, me olhando e rindo comigo. – Minha barriga tá doendo agora! – Fiz bico, batendo nele.
- Okay, não precisa me bater. – Martin se levantou, sentando-se. Fiz o mesmo.
- Preciso sim. – Dei língua.
- Falta um mês para as férias! – Ele levantou os braços numa comemoração. Ri da rápida mudança de assunto.
- O que vai fazer nas férias? – Perguntei, deitando a cabeça em seu colo. Martin era a pessoa perfeita para você conversar e se esquecer de qualquer coisa que atormenta sua cabeça. Naquele momento, não existia pra mim.
- Fotografar, dormir, ensaiar e compor. – Disse simplesmente. Ri, tendo uma certa inveja. – E você?
- Não sei… acho que vou ao Brasil. Mas ainda tô pensando. Talvez eu fique aqui, sei lá. – Dei de ombros.
- Nossa, quanta animação! – Deu um leve tapa em minha cabeça. Ri. – Meus pais sempre arrumam uma viagem louca. Mas eu e Courtney sempre temos uma desculpa pra ficar. – Riu.
- Que horror, por que não os acompanham? – Perguntei, brincando com sua calça.
- Bom, eles têm que ter um tempo pra eles. – Respondeu, acariciando minha cabeça.
- Que desculpa, hein? – Falei com os olhos já fechados.
- Pois é. – Foi a última coisa que ouvi antes de apagar completamente num sono profundo e bastante confortável.

- ? Hey, acorda! – Me balançavam. – Vai se atrasar. – Martin dizia, ainda me balançando. Abri os olhos devagar, olhando-o.
- Te odeio. – Murmurei, emburrada.
- Sei, sei. – Ele dizia irônico. – Anda, você tem aula, vagaba! – Rimos. Levantei e percebi que havia dormido em sua cama. Prendi os cabelos num nó frouxo e vi que Martin estava de boxer e cabelos molhados. Ri, saindo dali para que pudesse se arrumar. estava encostado ao lado da minha porta, de braços cruzados com um olhar acusador.
- Que feio, hein? – Falou, com o sorriso de lado que já era natural dele. Bufei, revirando os olhos.
- Que foi? Triste por eu não estar saindo do seu quarto de manhã? – Sorri irônica, entrando em meu quarto e batendo a porta na sua cara. Em uma hora, como sempre, já estava arrumada. Desci, com minha mochila, até a mesa do café, sentando-me ao lado de Martin e Meredith. As únicas vezes que eu a via era nas refeições, apesar dela ser uma mulher com o corpo quase melhor que o meu. Courtney estava, arrumada, já saindo da mesa do café com a maior cara de bunda que já fez no tempo que estive lá. Suspirei.
- Não vai ligar pra isso, vai? – Martin disse ao meu ouvido. Sorri, me acalmando. Ele tinha razão.
- Não. – Respondi, bebendo o suco como sempre fazia todas as manhãs. Ao terminar, me levantei, beijando sua bochecha.
- Tchau, pequena. – Ele disse.
- Tchau, Martin. Tchau, Meredith. – Falei, indo até a garagem. Estava acostumada com meu rápido café da manhã, já que era um suco apenas. Desci as escadinhas que levavam à garagem, me sentindo, de novo, uma intrusa. e Courtney rapidamente se desgrudaram um do outro, ajeitando-se ao me ver. Bufei, andando até o carro e entrando na parte de trás. Coloquei meus fones de ouvido no máximo, ouvindo Try it Again, do The Hives. Não demorou muito até que Courtney entrasse no carro, no canto ao contrário do meu e no lugar de sempre. Ele me olhou pelo retrovisor e eu cocei o olho com o dedo do meio, sorrindo. acelerou, nos tirando dali. Enquanto a música tocava, eu olhei para o lado e Courtney me encarava séria. Pausei a música, tirando um fone.
- Você tem noção do que eu ouvi da minha mãe ontem? – Ela perguntou como se eu fosse um nada ali. Levantei uma sobrancelha.
- Com licença, ninguém mandou a Vossa Alteza Real faltar aula! – Respondi, já sem um pingo de paciência. Não só por ter mentido sobre o fato de não ficar mais com ela, mas pelo ódio inexplicável ter aumentado mais.
- E o que você tem a ver com isso, hein? – Do jeito que ela estava, parecia querer me matar ali mesmo.
- Olha, eu odeio baixaria. Então vamos fingir que você tem algo chamado RESPEITO – imitei sua mãe, apenas trocando as palavras e isso a fez ficar mais puta ainda – e vamos caladas pra escola, porque eu não suporto gente da sua laia, Darling. – Falei, colocando os fones de volta e continuando a música. Ela falava algumas coisas que eu nem ouvia, apenas tentava não rir por vê-la falando sozinha. O caminho todo foi assim, até que chegamos à escola, onde já estava no portão. Saí do carro, indo até ela e deixando Court para trás, entrando sozinha. Não preciso dizer que os comentários e fofocas começaram a encher aquele pátio de lunáticos sem uma merda de inteligência sequer no cérebro. Mark me olhava do prédio dois com certa raiva. Não entendi o porquê da raiva, só sabia que não me importava nem um pouco com ele. deve ter percebido meu estado de espírito e não falou nada. Fomos caladas até nossa sala, mas ao passarmos pela entrada do prédio dois, Mark me chamou. Mais uma vez, tirei os fones e disse para me esperar na sala. Ela o fez com prazer. Fui até ele, cerrando os olhos pela forte luz do Sol, o que era um fenômeno ali, que batia em mim.
- Sim? – Falei, com a voz mais doce que pude, como se não percebesse a raiva dele.
- Me beija. – Falou como se estivesse me desafiando.
- Por quê? – Perguntei, sem entender.
- Porque sim. – Disse.
- Não vou te beijar à toa, Mark! – Aquilo era ridículo.
- Courtney estava certa! – Grunhiu.
- Como é? – Pensei não ouvir direito. Não estava entendendo nada ali.
- Isso mesmo, ! Ela me ligou ontem à noite e disse que você estava dormindo com Martin! – Ele falava rápido e ainda puto comigo. Eu não pude acreditar no que estava ouvindo.
- Eu?! Olha, eu não dor… Quer saber? – Contive um grito. – Se dormi ou não, é um problema meu! Você já devia saber que eu não faria isso, okay? – Dei-lhe as costas, entrando (puta) no prédio. Caminhei rápido pelo corredor, até que Silver me chamou. Fui até ela que estava sozinha encostada na porta da sala. – Chamou? – Perguntei um tanto ofegante.
- Olha, eu admiro você, . – Disse, olhando para as unhas. – Tento pegar Martin desde quando conheci Court, e você, darling, o conseguiu uma semana depois. – Finalmente me olhou sem nenhuma sombra de divertimento. – Não sei se ela já deixou claro que eu gosto dele, certo?
- Silver, eu nem…
- E você já chega achando que manda em alguma coisa aqui? – Me interrompeu, indignada.
- Silver, pelo amor de Deus, que criancice! – Revirei os olhos. – Pra quem mais ela contou isso? Pro resto do mundo, porra?! Eu não dormi com ele, e se ele não dormiu com você até agora, é porque pensa o mesmo que eu: você é fútil e criança. – Pisquei, andando até a sala de Física, deixando outra pessoa patética para trás. me esperava em seu lugar, ao lado do meu. Sentei e respirei fundo. – Dá pra acreditar?
- O quê? – Ela perguntou, calma.
- Eu “dormi” com Martin agora. Era só o que me faltava. – Bufei.
- Sabe que não quero saber de Martin, . Até porque, era pra ter “dormido” com outra pessoa. – O famoso sorriso safado de apareceu.
- Eu não consegui… A gente estava quase lá, mas eu não consegui. – Mordi o lábio inferior. Ela me olhava pacientemente, esperando para que eu continuasse a contar. – Bom, ele e Court estão ficando, você sabe… aí na hora eu pensei nela e achei que seria sacanagem. Mas agora mudei de ideia! – Grunhi, já imaginando em mil e uma coisas para fazer com ela. – Ele me disse que não estavam mais ficando, só que hoje os vi quase se comendo na garagem! – riu.
- Então já sabe o que fazer. – Sorriu. – Hey, vou aparecer na sua casa às oito pra gente se arrumar, okay?
- Okay. – Sorri e virei para frente quando o professor começou a falar. Minha mente estava repleta de imagens de tortura que eu poderia fazer com Courtney. Não só pelo fato dela ter mentido que eu dormi com Martin, mas por eu ter aumentado meu ódio por ela. Sejamos sinceras: saber que pode se vingar de alguém que não gosta dá uma sensação muito boa. Durante o recreio eu contei para sobre Silver e Mark. Eles estavam sendo mais que ridículos, fato. Então, quando finalmente a aula acabou, eu e estávamos saindo da escola, como de costume. Mas eu quase morri ao vê-lo em cima de uma BMW S1000 RR, com um casaco de couro preto, all star e calça jeans xadrez. Aquilo só pioraria minha situação. Olhei para o Jaguar onde Silver, Courtney, Mark e Mike me encaravam. Ele desceu da moto, tirou o capacete e veio até nós. Eu e nos olhávamos, pensando no que fazer.
- Olá, pequena. – Martin beijou minha bochecha.
- Hey, Mart. – Sorri. – Essa é a , esse é o Martin. – Os dois se cumprimentaram.
- Bom, , tenho que ir. Minha mãe chegou. – Ela beijou minha testa. – Tchau, Martin. – Saiu andando rápido.
- Não foi pra faculdade hoje? – Perguntei, cagando e andando pra todos ao nosso redor.
- Bom, fui. Mas aí soube de um show de uma banda muito boa que teria num pub e vim te buscar. Disseram que o vocalista é o mais gato. – Piscou, me dando um capacete. Ri, pegando-o. Ele me avisou que sua banda iria tocar hoje, eu só havia me esquecido completamente. Coloquei o capacete e subimos na moto. Logo ele acelerou enquanto eu segurava em seu abdome. Eu amava andar de moto, meu pai tinha uma e nos finais de semana costumávamos sair por aí. Sempre amei sentir que estava voando, e em Londres a sensação parecia ser maior ainda. Não demorou muito até que chegamos ao pub. Achei estranho o show ser num pub em plena luz do dia, mas relevei. Descemos e tiramos o capacete.
- Soube da Courtney? – Perguntei. Ele tinha direito de saber e eu não ia esconder aquilo. Era até engraçado.
- O quê? – Perguntou, guardando os capacetes. Adentramos o pub.
- Ela disse que dormimos juntos ontem. – Bufei e ele riu.
- Bom, tecnicamente dormimos. – Disse simplesmente. – Só não tivemos nenhuma intimidade física. – Sorriu.
- Pois é, mas Silver quase me matou. – Falei, me sentando numa das cadeiras altas do bar. Ele sentou comigo.
- Nossa, ela ainda existe? – Martin perguntou, rindo. – Ela gostava de mim.
- Ainda gosta… eu acho. – Dei de ombros.
- Pelo menos, depois dessa, acho que ela vai desistir. – Rimos.
- Mart, tá vazio… – Falei, sentindo uma certa pena.
- O show não é agora, mongol! – Disse, me dando um pedala. – A gente vai preparar tudo e à noite vamos tocar. – Sorriu. – Só queria te tirar daquela casa onde você fica trancada no quarto sem fazer nada.
- Mart, hoje à noite? – Mordi o lábio inferior. Mas pensei bem e achei que seria melhor ir ao show deles com a , até porque, eu não estava a fim de ver os amigos de Court e nem ela mesma. – Okay, vou vir com a . – Falei.
- Tá bom. – Ele se levantou quando os meninos chegaram. Martin me apresentou ao Bryan, Paul e ao John. Ajudei-os com o som e com os ajustes enquanto o dono do pub e os empregados arrumavam o lugar. Ficou, de modesta parte, muito bom. Quando terminamos já eram umas quatro da tarde. Nós cinco nos jogamos no sofá, exaustos. Eu precisava de um banho e de uma cama quente, fato. Os amigos de Martin eram totalmente diferente dos amigos de Courtney. Eram muito mais simpáticos e pareciam prestar.
- Já vou indo, Gwen vai me matar se não vê-la hoje. – John se levantou, vestindo o casaco. Despediu-se de todos nós e saiu. Olhei para Martin.
- Vamos? Preciso arrumar meu quarto porque hoje vou receber visita. – Falei, rindo. Martin e eu nos levantamos e nos despedimos, indo direto para sua moto. Após colocarmos os capacetes, subimos nela e fomos para casa.

- Claro que não, Courtney! Você foi ridícula, sério. – Eu ouvia ao descer as escadas depois do banho enquanto ia até a sala. Court e Martin brigavam de pé enquanto os encarava, sentado.
- Ai, credo, Martin! Foi só uma brincadeira, okay? – Ela revirou os olhos, de uma maneira que eu fiquei com nojo. Encostei na parede, assistindo para ver até que ponto eles conseguiriam aguentar.
- Nem parece que fomos criados na mesma casa! – Martin gritou, já sem paciência. Ela se aproximou dele, com um sorriso vitorioso.
- Se você ainda não percebeu, você é que não faz parte dessa família! – Meu sangue ferveu ao ouvi-la dizer aquilo. Andei rápido até ela.
- Como você tem coragem, hein? – Quase gritei. Martin estava estático, encarando-a.
- Você não se meta, sua brasileira de merda. – Court me empurrou de leve, com o dedo indicador. Levantei o braço, para dar um tapa em seu rosto, mas foi mais rápido e segurou minha mão, me olhando.
- Nem perca seu tempo. – Falou baixo para que só eu ouvisse.
- Não toca em mim. – Falei com desprezo, tirando minha mão da dele. Martin continuava na mesma posição.
- Como você soube? – Ele perguntou com a voz falha. Doía vê-lo daquele jeito.
- Bom, eu vi os documentos do papai. – Courtney disse, ainda se sentindo a vitoriosa.
- Eu posso ser adotado, Courtney. Mas eu tenho mais pena de você. E sabe por quê? – A voz dele ainda era falha, mas um sorriso enfeitava seus lábios. – Porque eu consigo amar Meredith e Jimmy acima de tudo por me criarem como filho. Já você é uma ingrata infeliz. – Dito isso, ele saiu da sala com pressa, e saiu pela porta da frente indo para a rua. Não o segui, talvez quisesse ficar sozinho. Courtney também saiu da sala, mas subiu as escadas. Olhei para , que também me olhava.
- Cerveja? – Perguntou.
- Por favor. – Falei, seguindo-o até seu quarto. Era no primeiro andar mesmo, passando por um corredor estreito. Os quartos dos outros empregados também eram ali. Ele abriu a porta e eu entrei primeiro, sentando numa cadeira giratória verde. Seu quarto era bem legal, diga-se de passagem. Tinha uma vista para o segundo andar... para o meu quarto. – Fica me olhando daqui? – Ousei perguntar, incomodada.
- Como assim? – Me olhou, abrindo uma pequena geladeira e tirando da mesma duas cervejas.
- Dá pra ver meu quarto daqui. – Falei, pegando uma. Ele puxou uma almofada, sentando no chão, ao meu lado.
- Nem reparei. – Respondeu olhando para a janela. – Obrigado por avisar. – Piscou, bebendo um gole. Bufei, fazendo o mesmo.
- Você sabia? – Perguntei, brincando com o gargalo da garrafa.
- Claro, . – respondeu. – Eu brincava com ele quando era criança. Eu sou mais velho, mas quando ele tinha 5 anos, eu tinha 9. Era divertido vê-lo chorar com qualquer sacanagem. – Riu, perdido em pensamentos. – Mas eu não vinha todos os dias, só quando meu pai me trazia. Aí eu fiz uma banda e nunca mais vim. Até que meu pai morreu e Meredith e Jimmy me criaram até os 19 anos. Já planejavam me colocar em alguma faculdade, mas eu recusei. Pedi para ser o motorista, como meu pai. Eles entenderam e aqui estou. Claro que com meu salário, foi uma sábia escolha.
- Nossa... – Falei, absorvendo tudo o que ele disse. – E sua mãe?
- Morreu no parto. – Respondeu simplesmente. Bebi outro gole, encarando sua janela. Ficamos em silêncio por um tempo. – Eu não te entendo.
- Por quê? – Perguntei.
- Uma hora você é supergrossa comigo. Outra hora, está no meu quarto bebendo cerveja. – Rimos.
- Agora você não está sendo um completo babaca. – Respondi, olhando-o.
- E eu achei que eu era cafajeste, hein? – Falou, irônico. Ri, balançando a cabeça negativamente.
- Você consegue ser os dois sem esforço. – Dei de ombros.
- Quem disse que não me esforço pra te encher o saco? – Perguntou.
- Nah, você não faria isso. – Respondi, convencida.
- Como sabe? – Levantou uma sobrancelha.
- Porque você ama quando te trato bem, então tenta ser o fodão só pra me beijar. – Pisquei, sorrindo vitoriosa. A cerveja não estava me ajudando em nada. [n/a: pode soltar, hon!]
- Hum... não deixa de ser uma teoria. – Disse pensativo. – Mas talvez eu queira algo que você odiaria me dar. – Gelei, olhando-o um tanto perplexa. O que ele queria dizer com aquilo?
- O quê? – Perguntei, curiosa. Ele soltou a garrafa no chão, se levantando e me puxando até ele.

And it's all in how you mix the two
And it starts just where the light exists
It's a feeling that you cannot miss
And it burns a hole
Through everyone that feels it


- Se eu te contar, não vou conseguir fazer metade do que planejei pra agora. – Disse, pousando as mãos em minha cintura. Eu não aguentaria deixar, depois de beber uma cerveja, um homem de terno, cheiroso, escapar. Até porque eu queria me vingar de Courtney, não só por hoje mais cedo, mas por hoje mais tarde.

Well you'll never gonna find it
If you're looking for it
Won't come your way, yeah
Well you'll never find it there
If you're looking for it


Segurei em sua gravata, puxando-o para um beijo. Não posso negar que beijá-lo nunca é um esforço, mas ainda assim, sentia minha consciência me repreender, mandando-me socá-lo, xingá-lo de pedófilo que deu bebida para uma menor, porém ao mesmo tempo, ela mandava eu arrancar aquela blusa dele e explorar seu peito nu. Era confuso, era gostoso e era completamente errado. Poderia ser melhor? Não, acho que não.

Should I've done something
But I've done it enough
By the way your hands were shaking
Rather waste some time with you


Meus olhos permaneciam fortemente fechados enquanto nos beijávamos com força e com uma certa pressa. nos deitou na cama, tirando minha blusa. Voltamos a nos beijar enquanto eu tirava seu terno, que escorregou pelos seus braços, e agora desabotoava sua blusa social branca. Ao terminar, arranquei-a, passando a mão pelo seu peitoral e costas, finalmente matando essa vontade infernal.

And you never would have thought in the end
How amazing it feels just to live again
It's a feeling that you cannot miss
It burns a hole
Through everyone that feels it


tirou meu short devagar, passando a mão por minhas coxas. Puxei seus cabelos, mordendo seu lábio inferior. Ele soltou um gemido baixo, sorrindo, e tirou sua própria calça, ficando só de boxer. Ao tirá-la, pegou a camisinha dentro do criado-mudo ao lado da cama, ainda sem desgrudar nossos lábios. Conseguiu, numa rapidez incrível, tirar meu sutiã e minha calcinha. Talvez não tenha sido rápido, mas eu nem prestava atenção direito no que fazíamos, e sim no que sentíamos e queríamos sentir um com o outro. Logo, uma mistura de sentimentos, emoções e prazeres pareciam correr com meu sangue à mil por hora em meio a tantos movimentos e gemidos. Minha respiração falha não dava a energia necessária para as minhas células, mas o que eu mais tinha naquele momento era energia.

Well you'll never gonna find it
If you're looking for it
Won't come your way, yeah
Well you'll never find it there
If you´re looking for it


Minutos depois, seu corpo pesado caiu sobre o meu. Nossas respirações estavam rápidas e pareciam cantar juntas. saiu de cima de mim, indo para o outro lado de sua cama, sem largar minha cintura. Me cobri, tímida. Nunca me acostumaria com aquilo e, por mais triste que parecesse, com certeza era a última vez. Ele não parecia o tipo de cara que precisava transar mais de uma vez com uma garota.
- Você não está com frio! – Tirou o lençol de mim, rindo. Cerrei os olhos, sorrindo. Claro que não estava, o suor me entregava.
- Que merda, merda, merda! – Falei, escondendo o rosto em seu peito.
- O que houve? – perguntou, acariciando minhas costas.
- Eu fiz sexo com... você! – Sentei na cama, olhando-o.
- Bom, disso eu sei, . – Disse como se fosse óbvio. Saí da cama, me vestindo.
- Onde eu estava com a cabeça?! – Me perguntava em voz alta e ele apenas me encarava sentado na cama, sem entender nada. – Okay, . Respira. – Falei para mim mesma e respirei fundo, terminando de me vestir. Olhei-o, arrumando o cabelo.

Should I've done something
But I've done it enough
By the way your hands were shaking
Rather waste some time with you


- Espera aí, você transa comigo e vai embora assim, do nada? – Perguntou.
- , querido... – Sorri. – Agora a Court não vai poder cantar de galo. – Pisquei, indo em direção à porta. Ele correu até mim, segurando a porta e meu braço ao mesmo tempo.
- Okay, você fez isso por causa dela? – Perguntou, me encarando sério.
- Sim... – Respondi da mesma maneira.
- Uau... E eu achando que ela era a garota mais fútil do mundo. Olha só quem a superou. – Abriu a porta, agora fazendo questão com que eu saísse. Assim fiz, sentindo um imenso arrependimento.

Should I've said something
But I've said it enough
By the way my words were faded
Rather waste some time with you


Por mais ridículo que fosse, eu consegui ser pior. Nem Court faria aquilo com alguém. Ele se sentiu usado, um nada. Não que pra mim ele fosse mais que um nada. Só que todas as pessoas são mais que nada. Eu fiz o que queria, por que estava me sentindo daquele jeito?
Saí dali o mais rápido que pude e percebi que seu cheiro estava em mim. Até seu cheiro parecia querer me culpar naquele momento, me castigar com a maravilhosa lembrança do que acabamos de sentir juntos. De repente, Martin veio à minha cabeça. Onde ele devia estar agora? Se dependesse da rapidez de sua moto ou de seu carro, estaria já muito longe. Suspirei, querendo-o ali tocando algo para me acalmar. Fui até seu quarto, ver se estava lá, mas não. Estava vazio. Olhei na mesa e vi um maço de cigarro com um isqueiro. Peguei-os e andei até meu quarto, não muito longe do dele. Abri a janela e sentei na mesma, acendendo um cigarro e dando a primeira tragada. Minha garganta coçou e eu, automaticamente, dei umas tossidas. Eu merecia destruir meus alvéolos, brônquios, sangue e qualquer outra parte do meu corpo com aquele pedaço de poluição.
Meus olhos estavam marejados. Não fazia muito tempo que eu estava lá e já havia interferido na vida de três pessoas. Como eu era egoísta! Deixei as lágrimas caírem sem ousar enxugá-las. Olhei para baixo e vi . Pensei que estava louca e tendo miragens, mas era ele. Sentado perto da sua janela, me olhando. Apaguei o cigarro, saindo da janela e fechando as cortinas.

Capítulo cinco

já estava aqui em casa e estávamos nos arrumando. Eu havia contado a ela, chorado um pouco, mas conseguiu me acalmar e me animar. Só havia um problema: Martin ainda estava sumido. Talvez ele estivesse na casa de um dos amigos ou algo do tipo. Eu terminei de vestir uma calça jeans skinny preta com uma blusa verde escura e scarpin e arrumei meus cabelos, deixando-os soltos. Lápis de olho, rímel, blush e gloss foram suficientes e discretos. Do jeito que eu gostava. usava um vestido cinza que ia até as coxas e sandálias pretas baixas. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo simples.
- Cadê a sra. Peterson? – perguntou, arrumando as coisas.
- Trabalhando, né. – Respondi, ajudando-a. Alguém bateu na porta, fui até a mesma e a abri. estava arrumado novamente, me olhando com um olhar vazio.
- Eu estou saindo daqui a cinco minutos. – Falou e saiu andando. Suspirei, fechando a porta. me olhou, pronta.
- Courtney vai sair como? – Perguntou, relevando minha cara de bunda pelo ato dele. Ri, sincera.
- Mike a buscou, já. – Respondi. – Vamos logo, não quero irritar ... não mais. – Ela pegou sua bolsa e nós descemos as escadas, indo até o Jaguar. Entramos atrás e , assim que fechamos a porta, acelerou com tudo. Nem sequer me olhar pelo retrovisor ele olhava. Mas era melhor assim, para mim e para ele. Por mais sem graça que pudesse ser, era o certo.
- Hey, conseguiu falar com Martin? – me perguntou e eu fechei o flip do celular.
- Er, não... Droga, eu tô morrendo de preocupação. – Mordi o lábio inferior. – Ele não faltaria ao show.
- Com certeza ele vai estar lá. – Ela sorriu, confiante. Não pude deixar de retribuir o sorriso. Ao chegarmos, estacionou e nós duas saímos do carro. O pub estava cheio e eu desejava mais do que nunca que uma daquelas pessoas fosse Martin.
- . – me chamou enquanto eu e íamos para dentro. Ela parou, me esperando e eu fui até ele.
- Sim? – Perguntei, sem olha-lo.
- Vou estar estacionado no outro lado da rua. – Disse, girando as chaves na mão.
- Por quê? – Perguntei, não querendo andar, depois de estar exausta num show, até o outro lado da rua.
- Tem mais prostitutas facilmente lá. – Bufou irônico.
- , eu... – Falei, finalmente olhando-o. Mas ele me deu as costas e entrou no carro, me ignorando, e acelerou. Bufei e andei até novamente e entramos no pub. Estávamos um pouco atrasadas e eu ouvi a música dos meninos já tocando. Era a única que eu conhecia, a que Martin tocou para mim. Andei rápido pelas pessoas, me perdendo de , na esperança de vê-lo lá em cima cantando. E sim, ele estava lá. Um alívio percorreu meu corpo, ele estava bem, pelo menos parecia bem. Sorri, contente. Mas lembrei de e meu sorriso se foi, meu corpo pediu por um pouco de álcool. Andei até o bar e me sentei no único banco vago. Pedi uma cerveja, não queria exagerar. Enquanto via Martin cantando, eu bebia sem nem perceber que bebia rápido demais e bebia muito. Olhei para o balcão e vi quatro garrafas. Estranhei, recontando. Merda, não podia ficar bêbada, não naquele dia. Me levantei, um pouco tonta, indo ao banheiro. No caminho, vi com um garoto, conversando. Acenei e ela retribuiu, sorrindo. Voltei para o meu caminho de pessoas até o banheiro, finalmente inalando um cheiro agradável lá dentro. Me olhei no espelho e lavei o rosto, secando-o em seguida. Parando para pensar em tudo na minha vida, tudo parecia perfeitamente bem: eu, uma brasileira filha de um italiano e uma brasileira ricos, estava em Londres a intercâmbio e tinha feito sexo com um motorista. Digo, o que tem de ruim nisso tudo? Por que essa merda de vazio? Eu era ingrata, era isso? Uma garota tipo Courtney, fútil, como disse? E por que ele teria razão? Ele não precisava ficar puto comigo só porque fiz sexo com ele por um certo interesse. Sendo que eu queria, tinha certeza disso, mas era melhor ele não saber mesmo. Enxuguei o rosto com o papel e saí de lá de dentro. Aquele cheiro de cigarro, bebidas e de sujeira invadia minhas narinas e tudo o que eu queria agora era estar deitada em uma cama com cheiro de amaciante. Voltei para meu lugar no bar, tendo mais vontade de um pouco de álcool. Só mais um pouquinho não faria mal... Pedi, agora, tequila. Não ardia tanto quanto ardia quando eu bebia sóbria, logo eu continuei bebendo. Um enjôo tomou conta de mim e a tontura chegou.
Percebi, ao olhar para o palco, que estava vazio. Martin deve ter saído e eu nem sequer lhe dei os parabéns pelo show. Me levantei, arrependendo-me por tê-lo feito, já que tudo parecia se movimentar junto com as pessoas que passavam coladas umas nas outras. Eu sabia que não estava andando normalmente, mas eu tinha que chegar até Martin mesmo que fosse mancando. Entrei no bolo de gente, sabendo que procurar por alguém ali e achar seria a coisa mais impossível, principalmente bêbada. Mas eu continuei tentando, até porque, eu só estava num lugar daqueles para ver Martin. Eu havia chegado ao palco e algo óbvio passou pela minha cabeça: eles podiam estar atrás do palco. Fui até lá, tentando andar um pouco mais rápido. Os meninos estavam lá, conversando e rindo com cerveja e cigarro nas mãos. Martin estava entre eles, mas não tinha nenhuma cerveja em sua mão, apenas um cigarro.
- Martin! – Falei, sem pensar, assim que meus olhos bateram nele. Um sorriso idiota de alívio estava estampado em meu rosto. Ele sorriu, vindo até mim. – Hey, você foi ótimo! – O abracei, sentindo seu cheiro de cigarro misturado com seu perfume.
- Brigado, . – Disse simplesmente, me abraçando também. Quando cortamos o abraço, eu o olhei. Não, não estava bem como parecia quando estava no palco e eu longe, na platéia.
- Você... tá melhor? – Perguntei, com as mãos em seus ombros. Martin bufou.
- Pareço melhor pra você, ? – Falou, com os dentes trincados. O encarei, incrédula. Court quem fez aquilo com ele, não eu! Na verdade, eu nem fiz nada.
- Okay, acho melhor eu ir, então. – Dei-lhe as costas, saindo dali e entrando de novo naquele bolo de gente. Ele estava em sua posição de estar puto, só que com Court! Mas eu tinha que ser mais compreensível, e seria melhor se fosse embora mesmo, não queria brigar com ele. Nunca havíamos brigado e imaginar a primeira vez parecia tortura. Quase não acreditei quando finalmente encontrei . Fui até ela, mais tonta do que nunca.
- , desculpa, mas eu já vou. – Falei, com a voz falha. Sempre odiei que me tratassem mal, parece coisa de criança, mas é verdade. Principalmente se essa pessoa é Martin, o qual eu nunca pensei que faria isso comigo. Até porque estávamos tão bem!
- Okay, . – Ela sorriu. – Meu pai vem me buscar. – Falou, de mão dada com um menino. Sorri, trocando dois beijinhos na bochecha com ela e saí do pub, respirando um ar mais agradável e bem mais gelado. Finalmente deixei minhas lágrimas caírem. Lembrei que teria que andar até o final da rua para achar . Porra, até o final da rua! E bêbada! Ele ia ouvir muito quando eu entrasse naquele carro. Com certeza não fazia noção do puta frio que eu estava sentindo. Meu scarpin parecia amassar meu pé a cada passo que eu andava, de braços cruzados pelo frio. Continuei andando, tonta, por uns longos minutos, quando a visão que eu mais queria ter se manifestou. Naquela rua vazia e escura, havia apenas um poste de luz iluminando um Jaguar prata com um encostado no mesmo. Sorri, tirando os sapatos, e correndo até o carro. Quando finalmente toquei no vidro, tive a melhor sensação de alívio do mundo.
- Vai manchar. – Ele me puxou com força dali, me sentando na frente e colocando meu cinto em mim. Deixei meus sapatos no chão e encostei a cabeça no banco, enjoada.
- Tinha que parar aqui?! Já sentiu o frio que tá lá fora, é? Você tem noção do que é andar isso tudo bêbada e com um salto alto que esmaga seu pé?! Pior, já viu quantos homens tarados passam nessa rua, gritando: “Oi, delícia!”?! – Eu o enchia de perguntas acusadoras, sentindo puro ódio dele naquele momento.
- Cala a boca! – Disse simplesmente. Eu calei, mas não por obediência, e sim por incredulidade. Quantos foras eu ia guardar hoje, huh? Nenhum, honey.
- Ótimo! – Saí do carro, batendo a porta com o máximo de força que consegui. Meus pés, ao tocarem no cimento gelado, agradeceram pela sensação. Pelo menos isso de bom. Andei apenas uns 2 metros para longe do carro e sentei em uma calçada. Algum táxi teria que passar ali. O Jaguar começou a andar devagar e parou na minha frente. abriu minha porta, de dentro do carro mesmo.
- Entra agora. – Falou irritado, me olhando. Levantei uma sobrancelha e o ignorei, pegando meu celular que tinha onze chamadas não atendidas... de Martin.
- Vou esperar um táxi. – Respondi, lembrando, finalmente, de enxugar meu rosto. Droga, ele me viu chorando! Um desespero percorreu meu corpo.
- Ah, claro, . Você vai encontrar um táxi logo aqui a essa hora! – Disse sarcástico. Eu estava prestes a negar e a xingá-lo de coisas bem horrorosas, mas uma chuva forte começou a cair. Irônico o modo como a minha vida andava hoje. Em pouco tempo eu já estava encharcada, mas permaneci ali, sentada. saiu do carro, sem seu terno, e me pegou com jeito, sentando-me no carro e colocando meu cinto, pela segunda vez, sem se importar com meu estado. Meu queixo batia forte no ritmo do meu coração. Ele entrou no carro, ligando o mesmo. – Toma. – me deu seu terno cheiroso. Coloquei, sem falar nada. Não queria falar nada. A chuva só parecia piorar enquanto ficávamos em silêncio no carro, encarando cada gota grossa e pesada cair. O barulho que as gotas faziam ao cair no carro era quase ensurdecedor. Eu tinha que dizer uma coisa para ele.
- Desculpa. – Parecia doer quando finalmente disse. me olhou, surpreso.
- Por... – Disse, se divertindo (de novo) com a minha situação. Revirei os olhos.
- Desculpe por ter deixado entender que fiz sexo com você por causa de Court. – Falei, ainda sem olhá-lo diretamente.
- Deixado entender? – Repetiu, me fazendo olhá-lo, segurando meu queixo. Seus cabelos molhados grudavam na testa e nas bochechas. Não posso negar que estava realmente lindo.
- Bom... eu até que queria. – Corei, dando de ombros. – Hoje à tarde você não estava tão ridículo quanto sempre foi desde quando te vi. – Expliquei, querendo morrer ali.
- Pode deixar. – Disse, acelerando. – Não vai se repetir... não pode se repetir, . – Dito isso, um alívio e uma tristezinha percorreram meu corpo, deixando-me muito pensativa. Chegamos em casa em silêncio. parou o carro na garagem e eu saí, dando-lhe seu terno e deixando-o sozinho, andando rápido até meu quarto. Algo estava errado. Essa sensação eu tive desde quando cheguei aqui. Algo estava tão errado quanto tudo aquilo que era errado naquela casa. Só não sabia me responder o quê. Olhei em meu celular, ao chegar no meu quarto, e agora tinham vinte chamadas não atendidas de Martin. Pensei em ligá-lo de volta, mas ele merecia umas férias de mim. Andei com cuidado pelo meu quarto, tirando minha roupa molhada e ficando completamente despida. Fui até meu banheiro e liguei a água quente, vendo o vapor embaçar o vidro do espelho e, aos poucos, minha imagem sumir do mesmo. Entrei debaixo da água, com a famosa dorzinha que o jato de água quente que sai do chuveiro causa. Meus cabelos rapidamente já estavam molhados. Em meia hora eu tinha terminado meu banho, mas continuei debaixo da água quente, pensando nos poucos dias que havia chegado. Alguém bateu na porta do banheiro e eu, irritada por terem me atrapalhado no meu momento de “meditação”, desliguei a água e vesti um roupão, ainda molhada. Abri a porta, dando de cara com Martin.
- Hey... – Falei, olhando-o de cima abaixo. Não estava diferente desde a última vez que o vi, mais cedo.
- Desculpa, eu... tava irritado, okay? Não devia descontar em você... – Falou, me olhando com um sorriso delicado. Não pude deixar de sorrir também. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me abraçou.
- Tô molhada! – Falei e Martin tirou a blusa, se enxugando com a mesma e segurando-a.
- Pronto. – Falou, dando um sorriso. – Você viu mesmo o show? – Perguntou.
- Claro que vi, Martin! Eu cheguei quando você tava tocando a primeira música ainda. – Respondi, um tanto ofendida. Martin assentiu, me olhando sério ainda.
- Eu fui mesmo bem? – Sua voz era constrangida. Sorri, apertando suas bochechas.
- Foi ótimo. – Beijei uma delas, molhando-o mais.
- , você deixou o seu... – entrou no quarto, nos encarando sem entender. –... sapato no carro. – Terminou a fala jogando-o no chão. Tirei as mãos de Martin rapidamente. Ele havia entendido errado e eu sabia muito bem o que ele havia entendido.
- Obrigada, sr. . – Falei, forçando um sorriso. Martin apenas nos olhava, sem se importar com nada.
- Bom, vou te deixar dormir. – Beijou minha testa e saiu do quarto. ainda estava na minha porta, de braços cruzados.
- Eu juro que achei que você fosse diferente. Depois de hoje tive certeza que não passa de uma retardada mimada, mas agora... – Falou com desgosto transbordando em sua voz e com raiva queimando em seu rosto. – Não sei como, você continua me impressionando.
- Do que está falando? Do Martin? Faça-me favor, ! – Quase gritei, mas a sorte é que fechou a porta para ninguém nos ouvir. – Você vive pegando Court e eu nem estava fazendo nada demais com Martin, okay?
- Ah, claro. Eu vi! – Seu tom de voz era o mesmo que o meu. Me aproximei dele, devagar.
- E se eu tivesse algo com Martin, huh? Ia fazer alguma diferença no babaca que você consegue ser na maioria das vezes que estou com você? – Falei e sua expressão era de descrença agora.
- Como você consegue, hein? Como você consegue ficar com ele e com um motorista ao mesmo tempo? – Perguntou, novamente, no mesmo tom de voz que o meu.
- Ah, olha só quem fala! – Falei, já estressada. – Você mesmo disse que isso não pode se repetir, ! E eu concordo com você, a gente não pode continuar com esse absurdo! As primeiras vezes tudo bem, foram só divertimento. Mas eu não quero... – Eu ia continuar, mas não tive coragem. se aproximou mais ainda de mim.
- Você não quer... – Pediu que eu continuasse. Desviei meu olhar do ele, olhando para o chão.
- Não quero deixar isso ficar sério. – Dei de ombros, suspirando em derrota. Ele soltou um risinho.
- Não sou o tipo de cara de ter algo sério, . – Disse, com um sorriso na face. – Principalmente com qualquer uma. – Finalmente o olhei. Ele não estava brincando. Apesar de estar sorrindo, seu tom de voz era muito sério. – Não sei de onde tirou a idéia de eu ter algo sério com você um dia. – Eu fiquei calada. Um certo constrangimento se formava dentro de mim, mas eu não podia me sentir assim por causa dele.
- Só... sai daqui. Já estamos cientes que nunca vamos trocar uma palavra sequer. – Desviei meu olhar do dele, novamente. Nunca conseguiria encarar seus olhos frios e vazios por muito tempo. Nunca... esse tempo parecia tão pequeno quando se referia à ele... quando se referia a esquecê-lo de vez ou quando se referia ao desejo insaciável que tínhamos um com o outro, que só podia ser saciado de uma maneira: a mais errada e insana de todas.
- Esperarei ansiosamente até “nunca” para te ver em meu quarto novamente, sabe disso. – Deu-me as costas e simplesmente saiu do quarto, fechando a porta em seguida. Fiquei parada, encarando a mesma. Naquele momento, naquele exato momento, senti nojo de mim. Senti nojo das lembranças de cada toque que dividi com ele, dos mais simples aos mais perigosos e prazerosos. Eu queria me despedaçar ali mesmo, cair em pedaços e, se possível, me reconstruir de uma maneira diferente e inteira, como se uma peça não estivesse colocada no lugar certo dentro de mim nesse momento. Uma peça intrusa ou simplesmente uma peça perdida. Não queria encontrá-la e sim, enterrá-la se possível. Terminei de me enxugar no banheiro e vesti meu pijama, me deitando logo em seguida. Aquela foi, se não A, uma das piores noites da minha vida. Aquele seu rosto e cheiro não saiam da minha cabeça. Eu não queria pronunciar seu nome, nem pensar no dono do nome. Mas parecia ser mais forte que eu...


A pouca luz do Sol que invadia meu quarto fazia questão de atormentar meu sonho maravilhoso de que eu estava no Brasil, nadando numa praia sozinha e livre de qualquer perturbação. Mas pareceu ter durado segundos enquanto eu dormia, até o Sol atrapalhar. Não estava com disposição alguma de levantar da cama, mas meu celular começou a tocar e eu apenas estiquei o braço, no cúmulo de sedentarismo, e o peguei, atendendo-o.
- Alô... – Minha voz saiu rouca e sonolenta. No outro lado da linha eu ouvia risos.
- ? – Rapidamente dei um pulo na cama, ficando de joelhos.
- Mãe?! – Quase gritei, tamanha felicidade e alívio era ouvir sua voz.
- Querida, que saudades. – Dizia, rindo.
- Mãe, imagine eu... – Ri junto, querendo estar ao seu lado nesse momento.
- O que vai fazer aí nas férias, querida? – Perguntou, já sem rir, apenas com afeto na voz.
- Não sei ainda... – Dei de ombros, olhando minhas unhas que não estavam feitas há tempos.
- Eu e seu pai vamos para Austrália... – Falou. – Queríamos poder te ver aí em Londres. Mas infelizmente não vai dar porque seu pai cismou de ir logo. Aí combinamos de te presentear quando chegar ao Brasil.
- Hm... – Murmurei, um tanto triste. – Okay, então. Meu pai está aí? – Perguntei.
- Oh, ele está dormindo agora. Mas peço para ele ligar depois, está bem? Te amo, . – Falou. Eu não podia vê-la, mas sabia que estava sorrindo.
- Também te amo, mãe. Beijos.
- Qualquer coisa liga, está bem? Beijos. – Desligamos e eu pude sentir toda a proximidade que um simples telefonema garantia ir embora. Suspirei, passando a mão no rosto e levantando da cama. Fui ao banheiro e lavei o rosto, vestindo um short jeans com uma pólo verde limão e chinelos de dedo. Prendi o cabelo em um nó bem frouxo e fui até a varanda. Todos estavam lá. Até Jimmy! Sentei no único lugar vago, colocando o suco no copo. estava, como sempre, à minha frente, sentado. Ele só tomava café conosco nos finais de semana, quando tirava uma “folga” por não ter que levar eu e Court à escola cedo. me olhava descaradamente e Court pareceu perceber. Bebi meu suco, fingindo não me importar e nem ligar para ele. Veja bem, fingindo.
- , querida... Vai ao Brasil nas férias? – Meredith perguntou, sorrindo. Neguei com a cabeça.
- Meus pais vão estar na Austrália. – Falei simplesmente.
- Então todos podemos ir para Bolton. – Jimmy disse. Martin e Court negaram na hora, inventando boas desculpas e todos da mesa me olharam, esperando minha resposta.
- Erm... não sei, talvez eu vá ver meus pais na Austrália mesmo... Ou talvez eu fique aqui, já que quero muito... er... conhecer Londres. – Eu falava o que me vinha à cabeça e isso pareceu convencê-los.
- Bom, então eu irei sozinha com Jimmy? – Meredith perguntou e Court e Martin responderam:
- Sim. – Sorriram. Ela deu de ombros e voltou a conversar com Jimmy. Martin me olhou, sorrindo.
- Que cara é essa? – Perguntou, percebendo que eu não estava nos meus melhores dias.
- Que cara? – Perguntei, forçando um riso. fazia questão de prestar atenção na conversa.
- Essa... – Passou o indicador na minha bochecha levemente. Dei de ombros, forçando agora um sorriso.
- Nada, ué... Deve ser sono. – Respondi, calmamente. – Vou ao shopping hoje. – Falei, bebendo outro gole do suco, mudando de assunto.
- Pra quê? – perguntou, num impulso. Todos, menos o casal, o olhamos. Descontei todo meu nojo e receio por ele naquele olhar.
- Pra fazer coisas. – Respondi seca. Martin riu e Courtney apenas me olhava com raiva.
- Foda-se. – respondeu simplesmente bebendo seu café. Revirei os olhos, saindo da mesa.
- Vou caminhar um pouco. – Falei para Martin e ele assentiu, beijando meu braço, já que estava na altura do mesmo. Subi até meu quarto e calcei meus tênis Adidas, descendo logo em seguida. Mas eu nem passei na varanda, fui direto para fora da casa na porta de entrada. Me desanimei ao ver que o Sol não estava tão forte quanto eu imaginava e parecia sumir nas nuvens negras. Suspirei, cerrando as mãos nos bolsos e andando lentamente sem prestar atenção aonde ia. Se pudesse, eu iria para o mais longe possível.
Caminhei por um bom tempo até perceber que estava longe e cansada o suficiente. Sentei na calçada daquela rua vazia, sem vontade de voltar. Dava para ouvir algumas trovoadas, mas nada que assustasse e nada que eu não tenha escutado lá. Fiquei encarando a estrada completamente deserta que parecia não ter fim, assim como meus pensamentos. A imagem de seu rosto molhado, com os cabelos também molhados grudados no mesmo era tortura demais. Fechei os olhos com força, tentando eliminá-lo de minha mente, mas era quase impossível. Quando sua imagem finalmente sumia, ela fazia questão de voltar e voltar com mais força e... sentimento. Duas semanas eram o suficiente para você começar a... erm, gostar de alguém? Okay, até que é. Mas é o suficiente para começar a gostar de alguém como ele? Não, não era. E eu era uma aberração da natureza que conseguia complicar a vida em duas semanas por causa de um motorista hot. Por que aquela ansiedade ao me lembrar de nós dois em seu quarto vinha com força? Por que eu sentia cócegas ao pensar ou pronunciar seu nome? Não eram cócegas normais, eram cócegas doloridas. Sim, eu estava gostando dele e aquela era a coisa mais estúpida e absurda do mundo, fato.
Escondi o rosto nas mãos. Tudo aquilo poderia desaparecer, tudo aquilo poderia evaporar ou simplesmente se desintegrar. Tudo aquilo podia ser um sonho no qual eu acordaria, deitada na minha cama do meu quarto da minha casa no Brasil. Eu não pertencia àquele lugar e nem àquelas pessoas. Eu queria voltar no tempo e ter ido para o Canadá, ou até mesmo para Congo! Okay, Congo não. Mas eu não queria estar ali, não queria que tomasse conta da minha mente e dos meus sentidos. Ele não era ninguém para fazer isso comigo!
Minhas lágrimas ardiam de raiva e de vergonha pelo meu orgulho ter sido quebrado por causa de . Prometi para mim mesma nunca chorar por alguém que gostava, mas com ele era diferente. Era impossível me afastar, porque cada vez que eu o queria longe da minha vida, ele se aproximava me fazendo querê-lo de novo e de novo... Era complicado demais e eu sabia disso, vivia repetindo isso. Só que eu estava dividida entre a razão e o querer, entre o fato e as ilusões, entre o óbvio e o codificado. Eu queria abraçá-lo naquele momento, porém era impossível, já que ele fazia questão de apenas querer meu corpo e, quando conseguiu, me descartou. Existe coisa pior que isso para uma mulher? Não, não existe. E eu queria me matar por ter cedido, por ter transado com ele. Eu não devia ter me entregado ao ! Só que ele tinha esse poder sobre mim...
Eu poderia escrever um livro melancólico agora sobre um romance inútil e desorganizado no qual a mocinha gosta do vilão que não liga para ela. Eu poderia ficar o dia inteiro naquela rua, sem comer e sem beber nada, apenas me torturando mentalmente por ter deixado tudo chegar a esse ponto. A culpa era minha, não dele. Porque eu tive escolha, eu fiz a decisão de deixar levar e olhe até onde cheguei! Enxuguei meu rosto, já parando de chorar. O vento gelado londrino soprava sem dó e meus ossos pareciam doer, tamanho o frio que eu sentia. Me abracei, sem me importar com o frio. Não queria voltar tão cedo e mesmo se quisesse, não o faria, já que não sabia o caminho de volta. Começou a chuviscar, mas eu não movi um músculo sequer, apenas encarava a estrada. Estava um tanto escuro por causa das nuvens carregadas e horas passavam enquanto eu continuava me torturando me lembrando de seu rosto e seu corpo. Olhei em meu relógio e não acreditei quando vi que eram quatro da tarde. Não estava com fome nenhuma, o que era um certo milagre. Provavelmente alguém naquela casa devia estar me procurando, mas eu não queria ser achada. Sim, eu queria, mas eu queria ser achada por um alguém que nesse momento deve estar aos beijos com Courtney. Abracei meus joelhos e os chuviscos agora eram gotas pesadas. Fechei os olhos, sentindo a chuva me molhar toda. Ao abri-los, enxerguei dois faróis no final da rua que se aproximavam lentamente. Por que eu não estava tão surpresa assim? O carro parou na minha frente e saiu do mesmo, me olhando.
- Você tem problema?! – Perguntou gritando, já que o barulho da chuva competia com nossa voz. Sorri, olhando-o. Sua blusa branca estava transparente e colada no corpo. – Meredith e Jimmy mandaram o coitado aqui te buscar! – Continuou gritando e eu apenas o encarava sorrindo. – Você me dá muito trabalho. – disse, ao se aproximar, mais baixo. Apenas me aproximei também, acabando com a distância e envolvendo seu pescoço com meus braços. Logo o beijei com calma e apenas retribuiu, enrolando os braços em minha cintura. O beijo era calmo e, como eu disse, totalmente diferente da personalidade que mostrava a mim.
- Como me achou? – Perguntei, enquanto ele beijava meu pescoço.
- Já disse que está errada sobre eu não te conhecer... – Respondeu, sem parar com os chupões e mordidinhas.
- Então como me conhece mais que eu mesma? – Perguntei, puxando seus cabelos molhados.
- Você é tão previsível quanto qualquer outra pessoa que eu conheci... Mas você é confusa. Mesmo sendo a pessoa mais previsível, você consegue me surpreender. – Finalmente me olhou. Seus olhos ainda eram vazios e inexpressivos. Só conseguia expressá-los quando ele estava com raiva. Voltamos a nos beijar, agora com uma certa pressa. Ficamos uns minutos naquilo, totalmente molhados. Cortamos o beijo, nos olhando nos olhos. A sensação era maravilhosa, mas eu desviei... não conseguia. riu. – Vem. – Entrelaçou sua mão na minha e andou, me levando junto, após trancar o carro. Não perguntei onde estávamos, aonde iríamos e nem por que estávamos andando na chuva, apenas o segui sem muitas opções no momento. Após andar um bom tempo, entramos em uma luxuosa recepção de apartamento e o segurança nos olhou de cima abaixo.
- Boa tarde, sr. . – Disse, segurando um riso. acenou, sorrindo, então subimos de elevador, parando no vigésimo andar. Saímos do mesmo, indo até sua porta e entramos. Seu apartamento era espaçoso para uma pessoa só e com uma vista linda da cidade. Principalmente agora que estava escurecendo e as luzinhas estavam acesas, como se fosse uma maquete. Olhei para trás, vendo encostado na porta, de braços cruzados, me encarando.
- Tenho que ir... – Falei, me virando para ele. Por mais que eu não quisesse, eu devia ir. veio devagar até mim, colocando as mãos em meu rosto.
- Você quer ir? – Perguntou e eu fechei os olhos, pousando as mãos em seus pulsos. Balancei negativamente a cabeça. – Então fique... – Sussurrou antes de selar nossos lábios. Recuei, não deixando-o tornar aquilo um beijo.
- A gente não pode. – Abri os olhos. Ele tirou as mãos do meu rosto, mexendo nos cabelos.
- Okay, se seca e eu te levo pra casa. – Disse antes de sumir pelos cômodos da casa, me mostrando onde era o banheiro.

Capítulo seis

Tenso. Ouvir o barulho estridente do sinal – que anunciava o término da aula – cantar pela escola e não me animar era realmente grave. Principalmente quando se tratava do último dia de aula, ou seja, não precisaria mais acordar às seis da manhã todos os dias e não teria dever de casa ou provas por uns meses. Por isso eu estava "preocupada" com meu ânimo que, de umas semanas pra cá, não foi o dos melhores. E por culpa do meu mau-humor, briguei feio com . Claro que a culpa era minha, eu do nada gritei com ela porque não aguentava mais ouvir sua voz contando sobre algum garoto, então começamos a discutir. Me arrependi assim que meu grito saiu pela minha boca. era a última pessoa que merecia me ouvir gritar enquanto contava seus problemas para mim. Logo ela que sempre me ouviu com vontade de ajudar...
Isso foi há uma semana, mas eu ainda não pedi desculpas. Não por orgulho, muito menos por medo ou vergonha, mas é que eu precisava de um tempo só pra mim. Um tempo pra eu organizar meus problemas que, no momento, pareciam estar resolvidos sozinhos. Mas eu sou tão egoísta e ambiciosa que estou insatisfeita com o modo que esses problemas estão resolvidos. Pelo simples fato de nem sequer me olhar. Era para eu pular de alegria porque, sem ele, tudo está bem e perfeitamente organizado. Mas o desejo e necessidade que eu sentia de tê-lo eram quase doentios. Eu cheguei a ponto de ter medo de mim mesma, de ter medo do que eu seria capaz de fazer para que largasse Courtney e pelo menos me olhasse. Todavia... Court parece ter um poder sobrenatural sobre ele, parece seu cachorrinho e aparenta estar bem com isso. E eu não tinha como competir com Courtney... qual é, ela é a gostosona e eu sou só uma garota vulnerável e sem armas que caiu na armadilha dele. Ele só precisava de uma distração em um dia qualquer e conseguiu.
E eu estava arrependida. Arrependida por tê-lo rejeitado em seu apartamento, porque depois desse dia que a ignorância máster dele começou. Parecia até que eu era invisível naquela casa. Mas graças a Deus eu tinha Martin, meu... "refúgio". Ainda não sei o que faria sem ele, e prefiro nem pensar. Impressionante como ele consegue me consolar sem nem ao menos se esforçar ou saber que está me consolando... sem nem ao menos saber o que está acontecendo comigo. Realmente me impressiona o quanto sua presença é cativante e como ele consegue me fazer sorrir enquanto eu me afogo nesse poço de hipocondria pessoal e escondida. Claro que ele já reparou em minha mudança de comportamento, o quanto menos retardada fico a cada dia que passa. Mas eu simplesmente não posso evitar essa sensação, não posso bloquear minha mente e expulsar de cada pedaço de mim e... wow, veja a que ponto chegou: já me sinto completamente dele. Isso é bizarro e injusto e eu, minha cara, odeio, não suporto ser injustiçada.
Me levantei da carteira lentamente, ajustando minha mochila aos ombros e vendo sair sozinha da sala de aula. Sua expressão não era das melhores e eu me odiava cada vez mais por ser vulnerável a todo e qualquer gesto de e por fazer se sentir assim por minha causa, só porque eu tive meus minutos de estupidez mor. Suspirei, andando mais do que devagar até a saída. Não estava em condições de ver e Courtney naquele maldito Jaguar prata, principalmente pelo motivo de não desgrudarem os olhos um do outro. Se eu não achasse a pessoa mais fria do universo – e se Court não fosse "linda e gostosa" –, eu acharia que ele estava apaixonado. Mas sabemos que isso é impossível.
Atravessei os portões mil vezes maiores que eu e meus olhos não demoraram para encontrar encostado no carro com seu terno de cada dia. Sem perceber que estava parada na entrada do colégio, continuei encarando cada parte de seu corpo de baixo a cima e de cima a baixo, lembrando de todo e qualquer toque de minha parte depositado nele. Seus olhos estavam escondidos atrás dos óculos, mas sabia que olhava em minha direção, já que sua cabeça virava para a mesma. Sorri sem querer, vendo algumas mechas de cabelo – que hoje estava sem gel e me fazendo delirar – voando para um só lado. Ele sorriu de lado, tirando as mãos dos bolsos e desencostando do carro. Andei lentamente em sua direção e, quando estava menos longe, senti um vento forte, provocado por alguém correndo, quase me atirar ao chão. De repente, a dona do vento entrou na frente, ao lado de , que já estava pronto dentro do carro. Bufei seca, revirando os olhos e me xingando mentalmente enquanto continuava com a minha calma caminhada. Não iria correr por causa deles.
Mas, assim que minha mão tocou a maçaneta, o carro acelerou com os pneus cantando. Eu, graças ao reflexo, dei um pulo para trás, não deixando apenas a minha mão pegar carona com aqueles dois pedaços de lixo. A raiva subiu à minha cabeça e isso não era muito bom, principalmente com tanta mágoa dentro de mim. Um grito estava preso em minha garganta e eu não podia soltá-lo no meio do colégio, mas foi quase inevitável quando vi o Jaguar sumir pela rua e nem sequer voltar para me buscar. Enquanto eu prendia o choro – infantil, porém eu não aguentava mais aquilo –, eu peguei meu celular em minha mochila, já discando o número de Martin que eu sabia de cor. Chamou apenas duas vezes e ele atendeu com voz de sono. Formou-se na faculdade antes de eu entrar de férias e fica hibernando em casa, o que não é difícil na Inglaterra.
- Mart... – Falei, tentando manter a voz. Ele soltou um gemido, como quem pede para continuar. Ri, deixando duas pequenas lágrimas escorrerem e respirei fundo. – O babaca do Sr. me esqueceu na escola. – Impressionante como eu tinha meus momentos criança. Ouvi um bocejo, seguido de um "já estou indo" e logo depois os "pipipi" na linha. Enxuguei o rosto, me sentindo um pouco melhor, e respirei fundo aquele ar gelado e seco. Meu número de hemácias devia estar absurdamente diferente desde quando saí do Brasil.

Eu estava calada, apenas olhando a rua passar perante meus olhos. Encarava cada pessoa que me chamava atenção, imaginando qual seriam seus problemas ou se elas teriam problemas, imaginando por quem estavam apaixonadas ou se já se apaixonaram, imaginando se já choraram por alguém, se estavam felizes com o tipo de vida que tinham... A maioria das pessoas que eu observei não parecia ter uma boa vida, mas ainda bem que esse é apenas o meu ponto de vista. Martin – com sua cara de sono – devia estar cansado demais ainda para reparar na minha falta de felicidade com o fim das aulas. Que bom, porque não seria nada legal inventar outra desculpa para meu humor, o que se tornou parte da minha rotina, e eu não tinha criatividade, nem vontade, de mentir no momento.
Eu estava quieta no carro, me sentindo calma. Mas só até entrarmos na rua onde tudo começou. Meu coração parecia ter tomado êxtase e um nó em minha garganta se formava mais rápido que o ritmo da minha falha respiração. Lembranças, fortes lembranças me invadiam, fazendo-me inundar em pensamentos passados de cicatrizes não fechadas que doíam ao serem tocadas e, agora, pareciam levar socos e murros bem fortes. Eu merecia... Não merecia? Talvez, mas a dor era insuportável e minha saúde pedia para que eu me esquecesse de por um segundo. Apenas um segundo não era pedir muito, mas por que eu não conseguia?! Meus olhos já estavam molhados e eu lutava contra a vontade de piscar para não deixar que grossas e pesadas lágrimas caíssem. Respirei fundo, eu necessitava de paz mental ou minha cabeça iria explodir!
Coloquei minha mão na coxa de Martin, que freou o carro no mesmo instante, me olhando nervoso. Ainda estávamos na maldita rua, mas eu nem pensava mais, era uma necessidade: não Martin, mas esquecer . Puxei-o pela gola da camisa, juntando nossas bocas e beijando-o com força e desespero. Mart, por sua vez, retribuiu o beijo com vontade, o que me surpreendeu por uns segundos. Enquanto sua língua guiava a minha no meio de fortes carícias do pescoço até onde alcançávamos, eu senti minha mente vazia. A única coisa que a ocupava era: "tira essa blusa, tira!" e algumas outras coisas. Minha respiração era tão forte que eu – estou tentando ser o menos exagerada possível – sentia o gosto de seu perfume.
Minhas mãos já estavam na barra de sua blusa e, em poucos segundos, puxaram-na para cima. Quando cortamos o beijo para a blusa passar, Martin não o continuou. Só reparei isso quando parei de encarar seu abdome e olhei em seu rosto com o contorno da boca vermelho e a expressão séria. Eu podia ouvir o alto barulho do meu corpo sendo jogado contra alguma parede, tamanha era minha vergonha de ter feito aquilo. E, pelo visto, não o agradou.
- Eu... exagerei demais? – Perguntei já com a voz trêmula. Com tantas pessoas no mundo, fui escolher logo Martin? Okay, não me arrependo disso – porque só o beijo foi muito bom –, mas ele era a última pessoa na qual eu esperaria uma rejeição.
- Não, não é isso. Desculpe, é... – Ele respirou fundo, pegando a blusa da minha mão e vestindo-a. – Só não quero que seja aqui. – Sorriu, virando-se pra frente. Eu não me movi, continuei sentada de lado, virada para ele, encarando cada movimento seu. O que eu estava pensando? Em nada, meu cérebro apenas absorvia aquela imagem, como se quisesse guardá-la. Não tive vontade de chorar pela "rejeição", nem de gritar por ter sido esquecida. Apenas queria olhá-lo durante aquele pequeno percurso até em casa.

O quarto estava com a luz apagada e já estava escurecendo, fazendo com que recebesse um tom azulado escuro. Eu estava de roupão e com os cabelos molhados, deitada na cama e encarando o teto. Não tinha mais dever de casa, já tomado banho... é, já tinha feito tudo o que fazia nesses últimos dias. Meus dias têm sido sempre assim e eu não posso reclamar, nunca é incômodo, para mim, ficar deitada o dia todo pensando na vida. Eu pensava no porquê de ter beijado Martin, no porquê de ser tão bom e no porquê de ter me deixado envolver com . Era a mesma coisa de sempre: eu ficava me lembrando de tudo, mas mudando grande parte do que aconteceu... evitando todos os beijos, abraços, toques, sexo que tinham acontecido, como se eu realmente pudesse mudar o passado e, como eu já disse, ter ido para o Canadá.
Ouvi a porta abrindo e um vento vir dela, acompanhado da luz do corredor que iluminou parte do quarto. Mas logo ela se fechou e tudo ficou escuro novamente – mais do que antes, já que era noite – e a única coisa que eu via era um vulto silencioso andando até a minha cama e deitando-se ao meu lado. Mas isso não me chamou atenção, apenas atiçou uma curiosidade sem igual dentro de mim, me incomodando. Quando me virei para o lado para perguntar algo, fui calada, antes mesma de emitir qualquer som, com um beijo nervoso. Não tive nenhuma reação, porém eu sabia muito bem de quem era aquele gosto. Antes que eu comandasse meus músculos, meus braços já foram puxando o tronco de Martin para mais perto de mim. Percebi, ao tocar suas costas frias, que estava sem blusa... provocante, posso assim dizer. Ele ficou por cima de mim, encaixando suas pernas nas minhas.
As mãos dele estavam em meus ombros, descendo o roupão – que estava largo – à altura de meu umbigo, depositando suas mãos nas minhas costas, fazendo-me levantar um pouco. Esse lado de Martin eu, sinceramente, não conhecia. Minhas mãos foram até seus cabelos, desarrumando-os. Mas eu sabia que aquele não era meu cabelo favorito... sabia que por mais que eu fechasse os olhos, Martin não viraria outra pessoa. Porém eu continuei beijando, sem nem ao menos perceber que já tínhamos ido longe demais: Mart estava apenas de boxer e eu, bom... e eu não sabia onde meu roupão havia parado.
Enquanto ele desceu seus beijos para meu pescoço, eu fiquei encarando o escuro, pensando no que fazer. Não queria fazer aquilo com Martin pensando em ... mesmo que ele me fizesse esquecer , eu lembrava muito bem agora. De repente, toda a vontade que tive de ter Martin, mais cedo, parecia ter sumido e eu não conseguia achar... Não podia fazer aquilo, era loucura! Coloquei minhas mãos em seu peitoral, empurrando-o – com força – para cima. Martin se levantou, mas eu não conseguia ver sua expressão direito, só que eu sabia que ele não estava sorrindo e sabia que isso não era bom.
- O que houve? – Perguntou parecendo confuso. Eu não sabia o que responder. Nem tinha o que responder!
- Eu não consigo, desculpa. – Mentindo eu não estava, certo? Ele saiu da cama, mexendo em sua calça e indo até minha janela, abrindo as cortinas. Ficou de frente pra mesma e acendeu um cigarro, calado. Pensei em dizer algo ou até mesmo em contar sobre , mas isso só me fez perder toda a coragem. Agora sim eu não contaria.
- Mart... – Chamei baixinho, mas ele não me olhou. Mordi o lábio inferior, sentando-me na cama e encarando sua silhueta. – Mart... – Chamei mais uma vez, agora um pouco mais alto. A silhueta nem se moveu, a não ser a mão levando o cigarro à boca. Respirei fundo e andei devagar até ele, em silêncio. Agora a merda estava feita e eu não o queria chateado comigo... só havia uma maneira – sem ser a de contar tudo – pra tentar fazê-lo me olhar sem raiva.
Me aproximei mais, colocando as mãos nos seus ombros e depositando beijos nas suas costas, que se contraíram com meus lábios gelados. Eu sentia calafrios com a brisa gélida que penetrava pela janela junto com o cheiro do cigarro que, sinceramente, nunca fora o meu favorito. Mas o perfume de Martin participava do cheiro, fazendo o odor do cigarro gostoso. Ele continuou me ignorando, movendo-se apenas para fumar. Então, com uma das minhas mãos que estava em seu ombro, peguei o cigarro de sua boca e o lancei pela janela, sem precisar fazer muita força pra isso. Mart apenas virou a cabeça, tentando me olhar por cima do ombro, sem muito sucesso graças à diferença de tamanho.
- Desculpa. – Sussurrei, na ponta dos pés, em seu pescoço. Envolvi sua cintura com os braços e o puxei para trás, pra voltarmos pra cama, mas ele parou.
- Não quero te forçar a isso. – Disse sério e eu parei, pensando. Será que valeria a pena arriscar nossa amizade contando a verdade ou arriscar nossa amizade fazendo sexo com ele e depois contar a verdade? Aquela não era a melhor hora pra pensar e eu sabia muito bem que a primeira opção era a mais racional. Porém, eu era egoísta demais pra perder Martin sem nem ao menos ter tentado continuar com aquilo e ver se valeria a pena tentar esquecer ... Mas a última coisa que eu faria seria machucar Martin com a minha idiotice. O soltei, dando mais passos pra trás. Ele suspirou pesado e se virou pra mim. Agora eu conseguia vê-lo perfeitamente. – Acho que isso é um... não? – Disse indeciso. Coitado, mal sabia que eu estava mais indecisa que ele.
- Só acho que a gente tem que esperar mais... – Minha voz era quase inaudível. Minha falta de roupa começou a me incomodar, então caminhei até um pano branco que se destacava no escuro e o vesti, de costas pra Martin. – Você não pode ficar comigo. – Dizer essas palavras, de alguma forma, doía. Não me pergunte por quê, pois eu nunca saberia responder, mas as lágrimas que se acumulavam em meus olhos me mostravam que eu não queria dizer e esperar aquilo. Merda!
- Por quê? – Odeio essas duas palavras. Tudo tem que ter uma explicação? Tudo tem que ser óbvio? Minha vida era a mais confusa e eu não chegava pra perguntando por que isso, por que aquilo. Claro que eu tenho os meus "Por quês" na cabeça, mas não fico confundindo os outros com minhas perguntas.
- Martin, se você soubesse que tem tanta garota melhor que eu... – Eu tentava ao máximo não chorar, mas Mart me conhecia demais e era inútil ficar de costas se minha voz me entregava.
- Quem? Silver? – Perguntou com ironia e eu quase concordei. Com certeza Silver o machucaria menos que eu. Isso é óbvio.
- Eu que não sou. – De novo... Mais uma vez... Novamente as palavras que eu disse me fizeram querer cair no choro. Eu mantinha meu olhar fixo no closet, tentando me acalmar, mas era inútil, tudo era inútil. Qualquer tentativa de amenizar o nervosismo, raiva, tristeza era inútil.
- Então eu aceito esperar. – Martin saiu do quarto assim que disse isso. Menos de um segundo depois que ouvi a porta bater, fechei os olhos, deixando as lágrimas caírem.
- Merda! – Bati na parede, recebendo dela a mesma força e machucando meu punho. Bufei, andando em passos pesados para minha cama e deitando na mesma. Uma hora eu ia acabar dormindo. Será que ele ia esperar? Seria a maior perda de tempo... Droga, agora sim tudo fugiu do meu controle. Agora sim eu não sabia o que fazer a não ser dormir.

Fiquei com medo de abrir os olhos naquela manhã. Algo já me dizia que aquele dia não seria bom e eu queria ter sono suficiente para dormir o dia todo ou pelo menos a metade dele, para passar mais rápido. Mas seria impossível, já que minhas preocupações me mantiveram mais acordada. Olhei no relógio e eram sete da manhã ainda. Logo eu, achando que não acordaria cedo nas férias... Mas como eu dormi cedo...
Saí da cama e fui tomar um banho. Resolvi que iria passar o dia fora, inventando o que fazer. Talvez livraria, cafeteria e loja de CDs. É, meu dia estava pronto. Sempre amei esses três lugares e, ultimamente, não os tenho frequentado. Uma pena, claro. Quando saí do banho, vesti uma blusa social branca, calça jeans e all star vermelho, sem muitos caprichos, queria estar completamente confortável para passar o dia fora. Peguei meu sobretudo favorito, o xadrez, minha bolsa e saí do quarto, indo em direção à porta. Assim que atravessei o salão, já girando a maçaneta da porta da frente, ouvi a voz atrás de mim:
- A essa hora da manhã, ? – Olhei para trás, sem tirar a mão da maçaneta da porta. estava de boxer, com os cabelos bagunçados.
- Você não dorme, não? – Perguntei, encarando sua cara de disposição. Ele era um monstro, com certeza. riu, balançando a cabeça afirmativamente.
- Durmo, mas tô acostumado a acordar cedo... um velho hábito. – Deu de ombros, encostando-se no final do corrimão da escada e cruzando os braços, com o sorriso de lado me dando bom dia. Deus, como eu amava aquela sua posição e aquele sorriso torto! Graças a Deus estávamos longe um do outro.
- Ah... – Franzi a testa, me virando novamente para a porta, abrindo-a. Minhas pernas tremiam junto com minhas mãos, mas eu não queria mostrar a ele minha repentina fraqueza só por vê-lo. Era ridículo e inevitável, dava pra piorar?
Dava. E como dava! Cheguei a essa conclusão quando, não sei como, sua mão fechou a porta à minha frente, me encostando de frente para a mesma e pressionando-se contra mim. Eu estava paralisada, sem saber que movimento fazer, graças a Deus minha respiração falha e meus batimentos mais que acelerados eram comandados automaticamente, já que eu não estava em condições de mover algum músculo.
- ... – Minha voz saiu falha, com meus olhos já fechados. Eu sentia perfeitamente a sua respiração bater em meus cabelos e ouvidos, fazendo todo e qualquer pelo do meu corpo arrepiar, dando choques em um de cada vez. Minhas mãos estavam espalmadas na porta, tocando-a cada vez com mais força conforme eu sentia as mãos de descerem mais e mais abaixo da minha cintura. – É errado, a gente não pode... – Toda a raiva que eu sentia dele estava em algum lugar bem longe dali, guardada a sete chaves. Naquele momento eu não me lembrava de nenhum deslize seu, apenas me lembrava de como era bom tê-lo perto – bem perto – de mim. Encostei a testa na porta, tentando acalmar meus sentidos para afastá-lo de mim. Era tão difícil!
- Pare de resistir... – Sussurrou em meu ouvido, passando as mãos por minhas coxas e subindo até minha bunda. Mordi o lábio inferior, tentando acalmar minha respiração e empurrá-lo para longe. Seu cheiro, que eu já conhecia melhor que o meu próprio, me fazia querer respirá-lo como se fosse um novo odor.
- Por favor, , é sério. – Tentei manter a voz autoritária, mas só o fiz rir, fazendo-o soprar seu hálito quente em meu pescoço.
- Está certa de que tem forças o suficiente pra me recusar isso de novo? – Perguntou e eu assenti rapidamente, torcendo mentalmente para que eu realmente tivesse autocontrole naquele momento. – Estou tentando te dar uma chance, . – "Só mais um pouco... só mais um pouco, , foco! Ele já vai desistir", pensei, esperando que ele me soltasse.
- Não quero, . Me deixa ir, por favor. – Argh! Por que é tão difícil recusá-lo?! Merda, ele não ia desistir tão fácil, ia?
- Tem certeza? – Uma de suas mãos foi até minha barriga, por baixo da minha blusa, fazendo-a se contrair ao sentir seu toque. Seu abdome, que estava grudado em minhas costas, estava me esquentando mais que o necessário, e eu estava com medo de me deixar levar. Mas eu não podia, sabia que ia me machucar muito mais se continuasse com isso. Não só a mim, mas ia machucar Martin também, e isso seria péssimo. Respirei fundo, ignorando – na verdade, tentando – seu cheiro.
- Absoluta. – Aproveitei que ele não segurava mais a porta e levei minhas duas mãos à maçaneta, girando-a e abrindo com força, empurrando-o para trás. não me impediu de sair, ficou parado enquanto eu deixava a casa com pressa, andando sem rumo na direção contrária da maldita rua na qual eu nunca soube o nome. Ainda bem, porque seria um nome a mais ecoando na minha mente enquanto eu tento encontrar alguma paz pra dormir.

Agradeci mentalmente quando vi uma Starbucks. Acho que fiquei uns trinta e cinco minutos andando pelas ruas sem saber ao certo onde estava. Maldita mania! Entrei, sentando-me em uma poltrona de couro que ficava de frente para uma pequena mesa quadrada. Estava bem quentinho lá dentro e eu sentia o maravilhoso cheiro de café e chocolate se espalhar pelo local. Pedi um café, já que nem comi quando acordei. Ficar com o enjoo de fome matinal era horrível...
já devia estar indo pra França e eu nem sabia o que poderia dizer a ela quando voltasse. Sempre fui péssima pra pedir desculpas, nunca soube que palavras usar. Suspirei, bebendo um gole do café quando ele chegou. Apoiei o rosto em cima da mão, perdida em pensamentos. Eu tinha certos problemas com isso, porque eu nunca reparo quanto tempo perco só nos meus pensamentos. Foi suficiente pro meu café esfriar e me fazer ficar enjoada com o cheiro doce e antes agradável da Starbucks. Deixei o dinheiro em cima da mesa e saí da cafeteria, amarrando o "cinto" do sobretudo em minha cintura e enfiando as duas mãos dentro dos bolsos abertos dele. Parecia estar mais frio que o normal.
Continuei andando pelas ruas, procurando alguma livraria ou loja de CDs. Passei por várias, mas eu queria uma com aparência antiga. Sempre amei esse tipo de construção e me fazia bem ficar dentro dela, principalmente com livros e/ou música. Não foi difícil de achar uma livraria assim. Era pequena e tinha uma aparência de velha e cuidada, construída a tijolos, com apenas a vitrine sendo feita de vidro. Entrei, passando por uma pequena porta de madeira, ouvindo um sino tocar baixo assim que a porta abriu e quando fechou. Fiquei andando de um lado para o outro, observando cada livro, cada sinopse, cada estante, cada capa e cada nome. Não eram ruins, porém não chamaram a minha atenção. Eu apenas me lembrava das palavras de e de Martin. Eu tentava equilibrar as duas causas: estava me dando uma "chance" e Martin iria esperar que eu estivesse pronta para ele... Oh, como eu queria poder dirigir agora! Ir pra longe por um tempo. Eu bem que podia ir pra Austrália ver meus pais e depois voltar. Mas fugir dos meus problemas não os faria se resolverem sozinhos, infelizmente.
Resolvi sair da livraria, estava entediando-me demais. Logo depois dessa livraria tinha uma grande loja de cds, bem moderna. Optei por ela mesmo, já que estava vazia. Andei sem pressa alguma até ela, odiando o ar-condicionado ligado ao entrar. Esses ingleses têm um fogo!...
Oasis, Arctic Monkeys, AC/DC, Guns N' Roses, The All-American Rejects, The Hives, The Smiths, The Vines, Ramones, The Beatles, Jimmy Eat World, Never Shout Never, The Used, Avenged Sevenfold, Paramore, Avril Lavigne, Anna Nalick, Good Charlotte, Franz Ferdinand, Blink-182, John Mayer, We The Kings, Travis, The Veronicas e algumas outras bandas... Havia escutado cada música de cada CD. Por mais que eu conhecesse a letra e a melodia, ouvi todas, sem pressa ou ansiedade. Foi bom, e posso dizer que foi produtivo. Consegui me acalmar e me impressionei em como algumas letras têm a ver com o que a gente passa, sem contar com outras letras que te dão coragem de fazer certas coisas... Ou aquelas letras que xingam tudo o que você quer gritaria até suas tripas explodirem – exagerei, desculpe.
Mas não comprei nenhum CD, não queria ficar carregando nenhuma sacola pra cima e pra baixo. Sem contar que uma hora eu teria que voltar pra casa. Não sei como, mas eu teria que voltar, até porque dessa vez nem se eu quisesse me encontraria.

O carro parou em frente à casa dos Peterson. Graças a Deus existia táxi, e ainda bem que eu sabia dizer mais ou menos a referência da casa ao motorista, que nem teve dificuldade em chegar. O paguei, saindo do carro e entrando em casa. Eram duas da tarde e eu estava faminta por ainda não ter almoçado. A mesa na sala estava pronta e , Courtney e Martin comiam em silêncio. Sentei no lugar de sempre: de frente pra e ao lado de Martin. Eu ainda não conseguia entender como eles conseguiam sentar na mesma mesa. Digo, não sabe sobre Martin e vice-versa, mas Courtney sabia de tudo – claro, era mais fofoqueira que cabeleireira – e ficava fuxicando a casa, sabendo de tudo o que se passava nela. Martin não estava no seu humor feliz de sempre, tinha a expressão fechada e batia o garfo com força no prato para comer. Já tinha a expressão vitoriosa e ao mesmo tempo vazia de sempre, me olhando descaradamente, como se nada tivesse acontecido hoje mais cedo. Odeio isso, odeio a forma como ele consegue ser indiferente a tudo ao seu redor.
- Chamei Mark pra passar a tarde aqui, . Talvez Silver venha... – Courtney disse do nada, quebrando a atmosfera pesada. A olhei sem entender, mas logo peguei seu raciocínio. Ela tinha ciúmes de ... tinha ciúmes do "nada" que ele era pra ela.
- Eu acho que isso não é do meu interesse. – Respondi... erm, educadamente à ela, que me olhou séria. Martin estava rígido e ainda sério ao meu lado, com o prato quase intacto. – Por que Mike não vem? – Provoquei, finalmente colocando comida no meu prato. a olhou como quem também quer saber a resposta.
- Ele vai tá ocupado. – Respondeu já sem me olhar. Murmurei um "hummm..." e me calei, comendo. Quando terminei, Martin me olhou, parecendo menos sério.
- A gente tem que conversar, né? – Falou baixo, mas o silêncio era tão profundo que todos ouvimos. Assenti, concordando, e ele se levantou rápido, subindo as escadas. Saí da mesa, o seguindo até seu quarto. Não deitei em seu puff como sempre, nem na sua cama. Fiquei parada na porta, encarando-o sentado numa cadeira giratória. Seu silêncio estava me agoniando e eu tinha muito o que dizer, mas nada parecia fazer sentido em minha cabeça.
- Se eu soubesse que o clima ficaria assim, nem te beijaria ontem no carro. – Falei, andando devagar até sua cama e deitando na mesma. – Eu até sabia que não seríamos como antes, mas não pensei que seria tão ruim assim. – Fechei os olhos, sentindo o cheiro e aconchego do quarto dele.
- Eu só quero saber o que você quer, . – Finalmente disse algo. Eu respirei fundo, abrindo os olhos, mas sem olhá-lo, encarando apenas o teto.
- Se eu soubesse, juro que te contava. – Ele se levantou da cadeira, deitando ao meu lado.
- Você tem razão... A gente tem que esperar mais. – Virei a cabeça para seu lado, encontrando seus olhos castanhos encarando os meus.
- Será que vale a pena? – Perguntei e Martin não respondeu. – Digo... não sou tão especial assim, não quero que espere por mim. Até porque eu vou embora um dia...
- Eu sei que vai. – Respondeu rápido, me interrompendo. Resolvi não falar mais, não havia o que ser dito. Okay, havia, mas não agora.
- Qualquer coisa eu tô no meu quarto. – Me levantei, saindo de seu quarto e indo até o meu. Fechei a porta e peguei meu Ipod, conectando na caixa de som. Deixei a música alta e deitei na cama. Nenhuma novidade, claro.

Eu me sentia completamente relaxada, de olhos fechados absorvendo a música que ainda tocava. Eu poderia passar dias assim e o de hoje já estava acabando. Meus pés acompanhavam a batida calma da bateria e minha cabeça balançava lentamente com o som da guitarra enquanto minhas mãos batiam juntamente com os pés em minha barriga. Continuei assim até a música terminar e outra começar, mas não durou muito. De repente o som havia parado e tudo estava em silêncio. Abri os olhos – encontrando meu quarto com o mesmo azulado escuro – e olhei diretamente para a caixa de som, porém outra coisa me chamou mais atenção: Martin estava completamente arrumado, encostado na porta. Sério, ele me surpreendia cada vez mais.
- Lá embaixo em uma hora, por favor. – Disse com seu maravilhoso sorriso acompanhando a voz. Conectou o Ipod novamente na caixa de som e saiu do quarto sem falar mais nada. Fiquei uns minutos absorvendo aquilo e me levantei, indo até o banheiro tomar um banho.
Finalmente algo estava quase voltando ao normal. Ao terminar o banho, fui direto ao closet enquanto penteava o cabelo. Como Martin estava bem arrumado, eu não poderia fazer feio. Já que não sabia onde iríamos, optei pela boa e velha calça jeans com uma bata preta e scarpin vermelho. Passei um pouco de lápis de olho e rímel, não me preocupo muito com a parte da maquiagem. Vesti um casaco e dei umas sacudidas no cabelo.
Desci as escadas, sem ainda saber o que Martin queria fazer, mas até que uma saída de casa me faria bem. Quando cheguei ao último degrau, olhei para o lado, vendo Mark, Silver e Courtney sentados e rindo de algo. Tentei passar em silêncio até a porta, fazendo barulho apenas ao fechá-la. Do lado de fora, o Roll estava com a porta do passageiro aberta e Martin estava sentado com as duas mãos no volante. Sua blusa social azul marinho o camuflava no escuro do lado de fora que invadia o carro. Sorri, aumentando a rapidez dos meus passos até finalmente entrar no carro, fechando a porta. Antes de qualquer coisa, ele acelerou para o sentido contrário da rua sem nome, fazendo-me agradecer mentalmente. Martin ligou o som e Elvis cantava e tocava animadamente.
- Posso saber pra onde está me levando? – Perguntei, sorrindo. Mart deu de ombros, sem tirar os olhos da rua.
- Pra jantar. Sei que comida não é erro pra você. – Sorriu. Fiz uma careta, sem poder discordar de sua informação desnecessária. Se bem que eu não estava com fome ainda, mas tudo bem, eu apenas queria uma noite normal e, quem sabe, boa.

Sinceramente? Eu estava entediada. Aquele piano tocando lentamente – não que odeie pianos, na verdade, sem amei, mas o momento não era o certo – enquanto Martin falava sobre o crescimento da banda estava me fazendo querer voltar pro meu quarto. A maldita sensação de que algo estava esquisito não me largava e eu contava os minutos pra irmos embora. Quando Martin parou de falar, sorrindo, retribuí seu sorriso e me levantei.
- Vou ao banheiro, já volto. – Eu precisava respirar um pouco. Sem contar que nem havia prestado atenção direito ao que ele disse e não teria o que falar. Olhei para trás, vendo-o sentado sem tirar aquele sorriso da cara. Ri sozinha, virando-me para frente e entrando no banheiro. Fiquei com um peso na consciência, de repente, por não ter prestado atenção em Martin, me preocupando apenas com meus problemas. Ele estava todo feliz, contando que Boys Like Girls conseguiu uma gravadora e eu com a maior cara de bunda. Me abaixei na pia, lavando o rosto e o enxuguei. Ao me levantar e me olhar no espelho, eu não estava sozinha.
- Te assustei? – perguntou como se sua presença ali fosse a coisa mais normal do mundo. Ele estava quase mais arrumado que Martin. Se sua blusa social vinho não estivesse pra fora da calça jeans e se não calçasse um adidas preto e branco, com o cabelo bagunçado e a chave do carro nas mãos, com certeza não estaria bem mais... elegante.
- O que tá fazendo aqui? – Perguntei, olhando seu reflexo sorridente.
- Vim te buscar, só isso. – Deu de ombros e eu bufei, virando-me para .
- Defina buscar. – Pedi, cruzando os braços. Ele suspirou, revirando os olhos.
- , por favor, não me faça tomar providencias exageradas, vem comigo agora. Não posso enrolar mais. – Mandou, já sem nenhuma gora de paciência.
- Não posso, . – Dei-lhe as costas, caminhando até a porta de saída do banheiro. Mas quando cheguei perto, apenas senti sua mão segurando em minha nuca e o choque da minha testa contra o azulejo branco e gélido, acompanhando um som que me assustaria, se não tivesse desmaiado.

Capítulo sete

Sabe quando você acorda no meio da noite, no escuro, e não sabe em qual lado da cama se encontra? E fica tateando ao redor, tentando ter alguma pista. Ao encontrá-la, percebe que era apenas coisa da sua cabeça e do sono que fez com que você não se situasse. Foi o que aconteceu comigo, agora, neste exato momento. Porém eu não me situei, não percebi que era loucura e que estava do mesmo lado no qual dormi. Pra falar a verdade, nem me lembro de ter me deitado... muito menos numa cama fofa e confortável, com os lençóis de seda ou algum tecido frio parecido. Meus olhos estavam mais abertos que o normal, tentando enxergar qualquer movimento no escuro, sem algum sucesso. Ao me movimentar para me sentar naqueles travesseiros macios, percebi a dor que latejava em diferentes partes do meu corpo: sem saber por que, minhas partes íntimas doíam mais que qualquer outra parte, incluindo a minha testa. Automaticamente, lágrimas se acumularam em meus olhos, tamanha eram as dores. Da minha testa até minha nuca a dor era aguda e forte, porém eu aguentava. Da nuca, descendo pela minha medula espinhal eu podia sentir meus ossos gritando quando eu ousava mexer ou mudar minha posição, investindo um peso diferente nas costas. Minhas coxas estavam doloridas, bem doloridas, mas perto das outras dores não era nada. Já meus joelhos pareciam ter um machucado sério, já que quando eu os dobrava, sentia como se eu tivesse caído da bicicleta e ralado – deixando sem pele – e dobrado após umas horas, rasgando a primeira camada de cicatrização. Minhas pernas estavam como a coxa e meus pés pareciam pouco prejudicados. Já as partes mais íntimas... Oh, doíam como o próprio inferno. A dor não se representava apenas aguda, mas forte, ardente, como se tivessem dilacerado-as... Com trauma do susto da dor que tomei há uns segundos, permaneci parada. Só então veio a minha cabeça o instinto de me amedrontar. Onde estava ? Será que o pegaram também?
Ao pensar nisso, meu coração deu um salto, trabalhando a mil enquanto eu tentava entender o que acontecia. A dor, definitivamente, não estava ajudando em nada. Fiquei olhando e tateando para fora da cama. Só então lembranças do banheiro vieram à minha mente... Será que eu estava aqui por causa de ? Assim que eu fiz essa pergunta, mais lembranças fortes – como se não bastasse a anterior – se chocaram contra a minha cabeça, fazendo-me ter a sensação que doía mais que o normal.

Flashback
Tudo estava rodando, embaçado e em movimento. Eu piscava os olhos, tentando lembrar como parara ali. Mas minha mente só me conduzia até o momento que minha cabeça bateu contra a parede... falando nela, estava doendo mais que qualquer dor que já senti durante esses anos. Pisquei mais algumas vezes, levantando um pouco a cabeça. Estava dentro de um carro, numa estrada escura que era iluminada apenas pelos faróis. A estrada passava por mim mais rápido que devido, fazendo-me sentir meu enjôo piorar. estava ao meu lado, rígido.
- Para o carro. – Pedi fraca, levantando-me mais da minha posição deitada. Ele não me deu ouvidos. Me enfureci, querendo voltar para o restaurante. Martin acharia que eu o havia abandonado e não era o caso. – Já mandei parar essa droga de carro! – Gritei. Aquele filme iria se repetir?
Me arrependi de ter gritado. Não apenas porque minha cabeça doeu mais, mas porque me fuzilou com o olhar. Apenas dois segundos desse olhar foram o suficiente para que eu perdesse minha voz, mas, claro, eu tinha que sair dali. Só Deus sabia onde ele me levava e, aparentemente, não seria um bom lugar. Fiquei quieta por alguns segundos, pensando no que fazer. Lembra-se da minha sensação estranha? Pois bem, ela agora parecia ter se transformado em outra sensação... diferente, porém ainda estranha. Mesmo com ao meu lado, deixando seu perfume maravilhoso circular pelo carro – que a propósito não era um Jaguar prata –, eu não estava gostando nada daquilo.
Na beira da vazia estrada havia uma espécie de casa de três andares, extensa e iluminada. Era bem simples e arrumada e havia um estacionamento à sua frente com apenas sete carros... Não apenas esse número, pois parei de contar quando estacionou perto deles e desceu do carro. Segurei com força o fecho do meu cinto; não sairia dali nem por um decreto. O homem de olhos , cabelos loiros e terno preto veio ao meu lado da carro, abrindo a porta. era estúpida, perigosa e ironicamente lindo. Ele me olhou com seu olhar obscuro mais uma vez, ao abrir a porta, como quem me manda descer do carro. Recuei, me encostando mais ao banco e segurando com mais força naquele maldito fecho do cinto.
- Não vai querer que eu mesmo te tire daí, acredite. – Sua voz nunca soou tão seca e maldosa. Com a iluminação da placa "Parking" pude ver seus olhos – que recebiam parte dourada da iluminação – e estremeci. Seus olhos estavam mais do que maldosos... Além de ainda misteriosos e raivosos, estavam melancólicos e depressivos. Nunca imaginei que algo de triste, sentimental pudesse brotar daquele par de círculos provocantes. Tive vontade de abraçá-lo, mas a vontade de correr até Martin gritava mais alto. Naquele momento tive certeza absoluta que nada estava bem. – Não vou pedir mais uma vez... – disse entre dentes, espremendo um pouco os olhos e cerrando os lábios.
Continuava absurdamente lindo, mesmo parecendo suar ódio. Não me movi, continuei na mesma posição, com meu corpo quase vacilando e deixando-me vulnerável ao que ele quisesse. Mas nem deu tempo para que isso se realizasse: suas mãos vieram até mim, abrindo o cinto. Me segurei ao banco, mas me puxou pela cintura, com força. Um gemido dolorido escapou da minha boca quando ele me jogou com força no chão. fechou a porta do... do Land Rover e o trancou, puxando-me para dentro do "Motel". Seu toque estava me machucando e eu não queria ficar mais nem um segundo perto dele. Ao entrarmos, quase vomitei. Tinha um cheiro de mofo e, a parte interior, era de paredes de madeiras vagabundas. O chão era de um carpete vermelho desbotado e sujo e o teto era pintado de branco, já descascando. Ao contrário da parte exterior, a parte de dentro daquela espelunca era vergonhosa. O recepcionista, mais sujo que um rato, olhou para que apenas levantou o que parecia ser a chave de um quarto, sem parar de andar. O cara sorriu e nós subimos uma escada, também de madeira vagabunda. Cada degrau tinha um rugido mais alto ou baixo que o outro. Uns chegavam a se mover quando pisávamos, como se fôssemos afundar. abriu a porta do quarto e nós entramos. Aparentemente, éramos os únicos no andar... Ele acendeu a luz, jogando-me para dentro do quarto. Cambaleei até me sustentar e parei para analisar aquela... Desgraça de quarto. As paredes, assim como a recepção, eram de madeira vagabunda, mas eram bem mais velhas, gastas e escuras – quase pretas. O chão também era de carpete... pelo menos parte dele, uma vez que aquele tecido marrom não cobria todo o chão, deixando partes de cimento aparecerem. O teto estava tão descascado e sujo de mofo quanto o da recepção e a cama... argh, aquela cama era alta, com lençóis brancos – amarelados – manchados e uma espécie de manta verde escura – assim como o carpete – acima dos lençóis. Os dois travesseiros eram finos e sem fronhas... Mas nada era pior que o cheiro. Aquele cheiro que me assombra até hoje... O cheiro era sem igual. Indescritível. Se dependesse do lugar, provavelmente era o cheiro de um cadáver, mas sinto informar que conseguia ser pior... E sim, eu sei como é o cheiro de um cadáver, o cheiro de bactérias se alimentando daquilo que já teve vida... Daquilo que já teve sentimentos. Sabe quando você vai à uma loja de perfumes e espirra um deles em um papelzinho branco? Ao cheirá-lo com força, não sente que se sufoca por alguns segundos e logo consegue fazer com que a sua respiração volte ao normal? Esse cheiro era exatamente assim, as duas e únicas diferenças eram: o perfume tem um cheiro bom e esse, como eu disse, era mais do que horrível. E a segunda é que eu não conseguia fazer minha respiração voltar ao normal... Parei de observar, segurando em meu braço machucado e encarei que tirava o terno, ficando apenas com a blusa social. Ele abriu os primeiros botões, tirando-a de dentro da calça. Isso tudo sem tirar os olhos de mim por um segundo sequer. Ao terminar esse procedimento, tirou os sapatos e, com coragem porque naquele chão eu não ficaria de meias, veio devagar até mim. Enquanto ele vinha, eu apenas conseguia dar dois lentos e indecisos passos pra trás. segurou meus braços com força, jogando-me contra a parede oleosa e velha, e juntou nossos lábios com ferocidade. Minhas unhas correram pela madeira atrás de mim e ao meu lado enquanto as mãos dele desabotoavam minha calça. Seu corpo forte se prensava tanto contra mim que eu me sentia mais sufocada ainda, sem saber o que fazer. Pela primeira vez, seu beijo me deu nojo. Sua língua correndo na minha era como veneno pra mim e meu corpo não tinha os choques de arrepios de sempre e sim choques daquela maldita sensação estranha. cortou o beijo, dando um passo pra trás. Quando achei que finalmente iria parar, respirei fundo... Estava tonta e tentando regular minha respiração, mas aquele cheiro me dava mais vontade de vomitar. Mas ele não havia parado. Suas mãos pousaram no cós da minha calça e ele a puxou para baixo, levantando cada um de meus pés para tirar meu scarpin. Assim que o fez – mais do que rápido – terminou de tirar minha calça.
- , não... – Sussurrei sem forças, tentando abrir os olhos normalmente. não me deu ouvidos, nem sequer me olhou, apenas se levantou, passando as mãos por dentro da minha blusa e arrancando-a com raiva e rapidez.. Agora eu também sentia nojo daquele chão nojento e úmido sob meus pés. Eu só queria ir pra minha casa no Brasil... mas agora eu não tinha como fugir, muito menos pra onde ir. Eu sabia o que ele queria, mas eu não queria também! Sentia que era uma perda de tempo reagir, mas eu tentava com o pouco de forças que tinha. Eu podia sentir meus pulmões pulsando como se eu estivesse sem ar. me puxou para si, colando-me em seu corpo. Consegui respirar melhor e seu perfume disfarçou um pouco daquele cheiro apavorantemente ruim. Mas ainda assim, eu queria sair dali. – Eu não quero... – Minha voz já estava falha. Meu peito doía, assim como minha cabeça e o nó na minha garganta ia se formando à medida que me explorava cada vez mais com suas mãos ágeis. Ele se separou de mim para terminar de desabotoar sua blusa. Fiquei um tempo piscando, tentando fazer a imagem dupla – como se eu enxergasse vesga – voltar ao normal. Consegui, mas ainda me sentia tonta. Aproveitei sua distração e corri para uma porta branca velha e acabada, o banheiro. A fechei com força, mas ela não tinha a chave, pois a tranca ficava na própria maçaneta. Quando fui finalmente trancá-la, a maçaneta caiu. Merda de lugar velho! bateu com força na porta, querendo entrar. A empurrei com toda a minha força, jogando meu peso nela. Meus pés escorregavam pelo azulejo marrom e quase chegavam à banheira enferrujada ao competir com a força de ... e ele venceu. se jogou contra a porta, fazendo-me cair para trás, batendo as costas na banheira. Soltei um grito alto pela dor que correu pela minha espinha. Sem exagero nenhum, senti que ficaria tetraplégica.
- Não me faça perder tempo, sua puta! – Me puxou de novo com força pelo braço e me arrastou até a cama. Minhas lágrimas rolavam sem parar pelo meu rosto enquanto eu tentava fazer com que eu acordasse daquele pesadelo. Mas a dor me fez perceber que era mais real que parecia... abriu sua calça, tirando-a e subiu em mim, encaixando nossas pernas. Minhas mãos estavam abertas em seu peito, tentando empurrá-lo, mas ele nem se movia, continuava a me tocar como se eu fosse... como se eu fosse uma boneca ou outro objeto sem vida e sentidos. A cama fedia a mofo e eu queria desaparecer, como de costume.
- , por favor! – Eu gritava, suplicando. Minha garganta doía pelos meus gritos. Ele estava realmente me machucando... Sem outra solução, peguei seu rosto com minhas duas mãos e o fiz olhar meus olhos. Eu achava que era impossível vê-los mais melancólicos e tristes, mas ele me mostrou o contrário. A profunda tristeza e sofrimento encontrados em seus olhos pareciam contagiantes. Chegava a ter um tom avermelhado bem clarinho ao redor. Fiquei longos segundos com meus olhos fixos nos seus, mas desviou nosso olhar e voltou a fazer o que estava fazendo com a mesma raiva e força. Seus toques em minhas coxas pareciam socos, assim como suas mordidas em minha barriga e pescoço pareciam tirar pedaços de mim. Se não tivesse a convicção de que Bella Swan nunca existiu, eu a abraçaria e diria que entendia como deve ter sido para ela fazer sexo com Edward como humana... Suas mãos desceram, deixando um rastro avermelhado, pelas minhas costelas até chegar à minha calcinha, a qual ele quase rasgou ao tirar. Fechei minhas pernas, deixando as coxas grudadas uma à outra e tentei mais uma vez:
- Por favor, ... – Falei entre soluços, com a garganta e o resto do corpo doendo. tirou meu sutiã com cuidado, lançando-o para o chão e ficou de frente para minhas coxas. Me olhou inexpressivo e eu não disse nada além de súplicas para que parasse e não fizesse aquilo. Ele sorriu de lado, tirando sua boxer e abriu minhas pernas com facilidade, segurando minhas mãos contra a cama. De um segundo para o outro minha vida mudou completamente.
me penetrou com ódio e desrespeito. A dor foi, literalmente, tão grande que eu soltei um grito de horror. O mais alto e depressivo que já dei naquele dia e em toda a minha vida. Após este, fiquei calada, surpresa, chocada. Me senti mais suja do que qualquer coisa naquele quarto. Senti que a culpa era minha e que eu devia me responsabilizar pelo que fiz... e aquilo era apenas uma consequência. nem sequer amenizava a força dos movimentos, fazendo a dor, não somente física, piorar. Agora era mais forte de maneira que eu não sentia as outras dores. O olhei, encarando por um segundo sua expressão desconhecida... Guardei essa expressão: ele estava suado, com algumas mechas de cabelo úmidos quase escondendo por completo os olhos que me encaravam. Abaixei a cabeça, com as lágrimas cada vez mais grossas molhando meu rosto. Se eu pudesse, morreria naquele momento. Morrer nunca pareceu tão convidativo e meu corpo ansiava descanso. Virei a cabeça de lado, fechando os olhos com força, esperando que aquilo acabasse. Meu corpo pequeno não tinha mais forças para lutar contra o de . A fraqueza, cansaço e desapontamento me venceram. A última coisa que se passou por minha mente foi a imagem de Martin sentado à mesa no restaurante, sozinho. Se voltasse pra casa, nunca mais o deixaria...
- Nunca mais... – Sussurrei pra mim.

saiu de cima de mim sem dizer nada. Levantei a cabeça, tentando ver seu rosto, mas ele desviou o olhar, vestindo uma boxer. Catou suas roupas pelo quarto e saiu, me deixando sozinha. Me encolhi, abraçando meus joelhos e voltei a chorar, encarando o chão.Eu estava abaixo daquele chão... eu era mais barata que aquele carpete fedido, que esses lençóis e manta, era mais baixa que qualquer piranha de escola. Eu me sentia exatamente assim. Me sentia um lixo, um nada, me sentia oca e sem utilidade. Tão pequena quanto um átomo.
A profunda depressão em que me encontrei era indescritível. A sensação estranha se fora – ou mudou para uma conhecida –, mas não fazia falta. Fechei os olhos, tentando conter meus soluços altos. Eu queria Martin, era tudo o que eu sabia. Fiquei cantarolando, a melodia da música que cantou para mim. Aquilo não me trouxe conforto algum, meu corpo todo – principalmente certas regiões – doíam como o inferno. Abri um pouco meus olhos, enxergando embaçado por causa das lágrimas. Pisquei algumas vezes e encarei meus pulsos com grandes hematomas. Rapidamente os fechei... Não queria ver o estrago formado por em meu corpo... já era demais não poder ter a opção de não enxergar o estrago que ele fez em minha mente e em meus sentimentos... o estrago que ele fez em tudo que eu acreditava. Eu me sentia outra pessoa, uma mais barata. Agora sim eu queria morrer, mais do que nunca. Definitivamente, a maldade dentro dele me corroia e me machucava... literalmente me machucava.Eu não conseguiria dormir tão facilmente aquela noite. Não só porque meus pensamentos estavam assombrados pela maldade e loucura de , mas porque meu corpo doía demais.

Da cortina velha, alguns raios de luz invadiam o ambiente, deixando-o claro e mostrando a poeira pelo ar. Abri os olhos devagar, sentindo todo meu corpo dolorido. Não, não foi um pesadelo. Com esforço, me sentei na cama e saí da mesma, pegando minhas roupas, algo que eu faria em menos de um minuto e demorei quase quinze devido ao estado em que me encontrava. Fui até o banheiro descuidado e deixei minhas roupas em cima da pia. Na parede da mesma, um espelho ali permanecia, quebrado. Prendi meu cabelo – com dificuldade – em um nó alto e me analisei. Parte da minha testa tinha um hematoma com um tom roxo escuro e com uma espécie de verde e amarelo contornando-o. Meus lábios estavam arranhados e meu ombro direito estava bem avermelhado, recebendo um tom roxo. O espelho só ia até os ombros, mas eu não queria ver todas as partes.
Liguei a banheira e, para minha não surpresa, a água era gelada. A banheira quase nem tinha mais seu tom branco, era pura ferrugem. Não me importei com tétano ou com qualquer outra coisa. Minha mente, surpreendentemente, estava completamente vazia. Mas, em alguma parte do meu corpo, eu sentia tristeza, desprezo, medo, insegurança e todos os sentimentos que citei quando me... bom, sabemos o que ele fez. Minha mente parecia ter bloqueado essa palavra e bloqueado tudo o que já senti pelo Sr. . Eu nem me lembrava mais como era estar apaixonada por ele, parecia loucura. Entrei na água gelada, me arrepiando. Sentia choques passarem por meu corpo, me fazendo tremer e bater o queixo. Me deitei na banheira, fazendo a água me alcançar toda, exceto acima da minha nuca. Olhei para a água e a cor avermelhada de sangue se misturava à água e juntava-se à cor marrom-avermelhado da banheira. Mordi o lábio inferior, evitando barulho no meu choro, esquecendo que estava todo arranhado. Assim que senti o gosto de sangue em minha boca, tirei os dentes dos lábios inferiores, deixando meu choro ecoar pelo banheiro. Respirei fundo e encarei minha barriga. Não acreditei que fazia parte de mim... a região das costelas estava com vários hematomas menores e marcas de dentes. Desci a visão e, da minha virilha até meus tornozelos, eu tinha hematomas nada diferentes do que havia em minha testa. Por que fez aquilo? Agora sim minha mente não estava vazia.
Dei um mergulho na água, molhando meus cabelos e mais sangue se misturou à água e ao marrom da banheira. Torci meus cabelos e me levantei. Pequei uma toalha dentro do armário abaixo da pia... era a única coisa limpa daquele lugar, mas ainda assim, o cheiro não era agradável. Me enxuguei bem devagar e com cuidado. Me vesti da mesma forma e voltei para o quarto, andando até a janela fechada, com o vidro que deixava a luz do Sol invadir. Abri a cortina e a parte de vidro, encarando a rua completamente sem nada a não ser uma estrada e árvores. Fiquei ali, perdida em pensamentos... mais especificamente pensando em Martin, querendo estar com ele agora e sempre... Ele sim me protegeria, não é? Martin nunca me tocaria com a mesma intenção que ... Nunca! Ouvi o barulho da porta se abrindo e entrou no quarto. Estremeci, encostando-me na parede.
- Vamos. – Disse, sem me olhar, apenas encarando o quarto desarrumado. Fiquei parada, não queria que ele chegasse perto de mim. A insegurança e medo nunca me atormentaram tanto! – , vamos! – Disse entre dentes, com a voz mais autoritária. Neguei com a cabeça e, quando aproximou uns passos, soltei um gemido de medo, me agachando no chão. Abracei minhas pernas e escondi o rosto em meus joelhos... Meu coração estava acelerado e eu estremecia de medo. Ouvi seus passos virem mais devagar, logo senti sua mão gelada tocar meu braço. – Agora. – Sussurrou e eu neguei com a cabeça de novo. Com cuidado e uma certa insegurança, me pegou no colo. Minhas costas responderam ao seu toque, assim como meus ombros e costelas. Seu perfume, pela primeira vez, me deixou enjoada e eu queria ter uma faca para desfigurar aquele rosto perigoso e maravilhoso. Ele me levou até o carro, me deixando no banco de carona e indo para seu lugar de costume. A partir dali, eu fechei os olhos, encolhida no banco. As únicas coisas que ocupavam a minha mente eram lembranças de quando eu era pequena... bem pequena... uns seis, sete anos de idade, no máximo.
End Flashback


Eu me sentia sem ar. Tentei procurar fatos que fizessem daquelas lembranças apenas um pesadelo... sem sucesso. Eu precisava sair dali o quanto antes. Finalmente pude interpretar a sensação estranha: medo. Não era um medo qualquer como o de uma criança por um tubarão. Mas sim um medo agonizante que me fazia estremecer cada vez mais ao perceber que era real. Um medo que eu nunca senti na minha vida. Tentei me levantar no escuro, mesmo com meu corpo doendo como se eu estivesse sendo jogada várias vezes na parede, e encontrar algum interruptor. Antes mesmo que eu completasse meu quinto passo, meu corpo vacilou, fazendo-me cair no chão. Por reflexo, meus braços procuraram algo para segurar e conseguiram achar, porém tarde demais, o tal objeto caiu junto comigo, fazendo um estrondo. "Merda!", foi o que pensei. Não só pela dor maior que senti ao cair, mas pelo barulho que chamaria atenção de alguém. Não demoraram nem dez segundos e a porta foi brutalmente aberta. Uma luz entrou junto com uma silhueta, mas meus olhos não foram capazes de enxergar tamanha claridade. Por quanto tempo devo ter dormido?
A pessoa acendeu um abajur que deixou a iluminação amena e fechou a porta. Finalmente, pude ver o rosto e percebi que não conhecia aquele par de olhos azuis. O cara era alto e aparentava ter a idade aproximada a de . Sua pele branca e cabelos eram invejáveis, principalmente a combinação perfeita que fazia com os profundos olhos. Sua expressão era de preocupação, o que me surpreendeu. Sem jeito, ele me levantou devagar, colocando-me de volta na cama. Eu não sabia o que fazer, então fiquei calada. Tudo que eu sabia era que eu estava aliviada pela pessoa não ser .
- . – Disse o cara, sentando ao meu lado na cama. Ele pegou meu pulso, primeiramente, e analisou, passando os dedos umas vezes. Levantei meu olhar para ele, encontrando-o com o seu olhar baixo em meus hematomas. Fiquei rígida, querendo voltar a ficar sozinha.
- Eu quero ir pra casa. – Eu disse, deixando algumas lágrimas de dor escaparem. Meu momento infantil era deprimente, sem sombra de dúvida. sorriu de leve, me olhando com seu par de olhos azuis.
- Tudo tem seu tempo. – Falou, voltando a analisar meu corpo. Ele desabotoou a blusa social vermelha que eu vestia - não me pergunte como e nem por que era a única coisa que eu vestia além da minha calcinha – e a abriu, analisando minha barriga e seios. Fechei os olhos, envergonhada. Não só envergonhada, mas porque eu não confiava mais em nenhum toque masculino.
- É bom que seja algum médico. – Falei entre dentes e ele soltou uma risada abafada. Por que estava tão feliz, afinal?
- Tenho idade o suficiente para ter habilidades em corpos femininos. – Dito isso, abri meus olhos, encarando-o assustada. Fechei a blusa, segurando-a, e me encolhi. pareceu confuso com minha rapidez de movimentos desajeitados (eu tentava me movimentar de maneira que a dor não atrapalhasse) e me encarou por uns instantes, até voltar a si. – , eu sou formado em medicina e não vou fazer nada. – Disse, agora, sem senso de humor algum. Ele sabia meu nome? Não me movi, continuei naquela posição, encarando minhas pernas roxas. suspirou, passando a mão pelos cabelos. – Não devia começar com brincadeiras agora... Desculpe. – Seu tom de voz soava arrependido. Continuei na minha posição, sem vontade de olhá-lo. Ele se levantou da cama, abrindo a porta que há pouco recebeu umas batidas baixas. Quando a abriu, ninguém entrou, a não ser a voz de e sua sombra.
- Ela acordou? – Perguntou e assentiu. Meu corpo todo se arrepiou ao ouvir a voz dele. Eu tentava bloquear meus ouvidos e fazer a sensação de medo sumir, mas era impossível. – Como ela está? – Ele deu de ombros, me olhando, mas logo voltou seu rosto para .
- Ela leva brincadeiras a sério. – Foi tudo o que disse antes de enfiar a cabeça dentro do quarto. Quando nossos olhares se encontraram, eu senti vontade de gritar, sair correndo, me esconder, continuar parada, chamar Martin... Enfim, tudo ao mesmo tempo. Não me sentia segura ali com dois estranhos me encarando e, agora, sussurrando entre si. Aquele par de olhos pareciam transbordar veneno diretamente nas minhas sensíveis veias. saiu do quarto e entrou.
A porta foi fechada.
Meu coração acelerou.
Minhas mãos começaram a suar e eu não conseguia mais me mover.
Minha respiração, de repente, ficou mais pesada que o normal.
As lágrimas em meus olhos se acumularam em tamanha quantidade que eu quase sentia meus olhos mais pesados que o normal.
Não eram como os sintomas que eu tinha quando ficava sozinha com . Era puro medo correndo dentro de mim e se apoderando da minha mente enquanto se aproximava da cama. Quando ele sentou na mesma – no lugar de – eu achei que ia explodir. Seu cheiro – agora mais forte dentro de mim – fazia meu estômago revirar sem parar. respirou fundo, pegando uma mecha de cabelo minha e colocando-a atrás da minha orelha. Sua mão pousou na minha que estava segurando a blusa desabotoada. O nervosismo e medo dentro de mim eram tão grandes que eu apaguei novamente depois de rapidamente tirar minha mão debaixo da dele.

Não sei se foi a claridade, mas algo me fez acordar. Não era nem um pouco saudável ficar desmaiando e eu teria que arrumar um jeito de evitar essa proeza. Meus olhos, quando os abri, não aguentavam a claridade que banhava o quarto branco. As dores não cessaram, nem melhoraram, mas eu já estava começando a aprender a me mover melhor com elas. Virei a cabeça para o lado, vendo e conversarem de costas pra mim, encarando a janela. Só então seus zumbidos fizeram sentido em minha cabeça:

- A gente tem que sair daqui hoje. A essa hora já perceberam a ausência da ... e a sua. – falou com um tom sério. balançou a cabeça, concordando. Ficaram um tempo em silêncio. O tempo foi o suficiente para que meus olhos se acostumassem à claridade e eu pudesse enxergar minhas malas cheias perto dos dois. – ... – disse e suspirou, como um garoto que se preparava para ouvir um chato e longo sermão. – Você fez exatamente o contrário que planejamos.
- Não é você quem deve me dar esporro. Você também teve um relacionamento com Juliet antes de a pegarmos. – cruzou os braços. Nenhum dos dois se olhavam, e minha cabeça começou a se encher de perguntas. Por que eu estava ali, afinal? E quem era Juliet? E o que queria dizer com relacionamento? Sim, nós tivemos um. Um que não era sério e, pelo visto, nem real.
- Mas eu te aconselhei a não fazer o mesmo que eu! – finalmente olhou para o amigo que continuava estático na posição anterior. – Sabemos o que houve com Juliet, e não quero que você passe pelo mesmo que eu quando acontecer com a... com a . – Primeiramente, ele hesitou em dizer meu nome. Mas logo o cuspiu fora como se isso desse um pesado e árduo trabalho.
- Foi a única saída, ... – quase sussurrou, abaixando a cabeça. suspirou, passando as mãos no rosto.
- Nada, ... Nada justifica o que você fez. Eu mesmo te disse que não adiantaria quando fiz isso, só pioraria tudo... – também abaixou o tom de voz. Eu não entedia tudo o que diziam, mas absorvia, tentando interpretar partes que não entravam em minha mente. Ficaram mais um bom tempo em silêncio, antes de se colocar novamente: – é só uma crian...
- Ela tem idade o suficiente pra saber que não pode confiar em estranhos. Muitos menos tentar seduzi-los. Agora pare de ser hipócrita, pois ambos sabemos que não sou só eu que estou sendo amaldiçoado pelo meu ato. – disse seco e grosso, como se tivesse desgosto das próprias palavras.
- Eu amo a Juliet, . E meu orgulho não foi capaz de esconder isso, desculpe se te incomoda o fato de eu não querer que tudo dê errado novamente. Não podemos ter nenhum tipo de relacionamento com as vítimas, e achei que meu erro seria o suficiente para você entender. e pareceram dar conta do recado. – tinha a voz falha. Senti um choque percorrer meu corpo ao ouvir sua voz triste e pesada. Era... surpreendente pra mim, mesmo sem conhecê-lo.
- Que irônico. – bufou, rindo. – Você ama uma morta. – Assim que deu as costas para , eu fechei os olhos novamente, fingindo ainda dormir. Um peso me afetou e eu odiava sofrer pelos outros. Mas a pena que eu sentia por agora era inexplicável. Ouvi seus passos se distanciarem e a porta ser fechada com força. Logo após, ouvi passos mais baixos e cuidadosos se aproximarem de mim e uma mão grande e quente em meu ombro. Abri os olhos, sem querer, rapidamente, encontrando . Ele subitamente tirou sua mão de mim, como se tivesse levado algum choque.
- Eu ia te acordar... – Disse, sorrindo. Me sentei desajeitada, sentindo meu corpo doer. Era inevitável sentir dor em todas as partes do meu corpo.
me ajudou a levantar para eu tomar um banho. Disse que íamos ter que sair o quanto antes. Claro que eu não entendi nada, mas eu estava com medo de estressá-los com alguma pergunta e acabar apanhando e sentindo mais dor. Eu sempre pensava no pior que iriam fazer comigo: me vender para algum cafetão e participar do tráfico de mulheres, tendo que ser obrigada a virar prostituta, me entregar como pagamento para drogas, me abrir e tirar meus órgãos para fazerem algum ritual, me abrir e doar meus órgãos para ganharem dinheiro, me abrirem por diversão ou para praticar necrofilia. Enfim, eu não me sentia segura e tinha que arrumar um jeito de fugir dali antes de irmos para outro lugar. Assim que saímos do quarto, eu encarei o corredor e a sala. Eu conhecia aquele lugar e não fiquei muito surpresa ao ver que era a casa de . Entrei no banheiro, trancando-o logo após e ligue a água quente do chuveiro. Me lembrei da primeira vez que estivera ali... Havia me secado nesse banheiro e nunca imaginei que estaria aqui de volta. Pelo menos não nesse estado.
Enquanto eu tirava a roupa e entrava no banho, eu ficava imaginando como seria o lugar que me levariam, quem eram e e, ainda, por que me queriam ali. O lugar, para mim, seria um cativeiro podre e imundo. Já estava me preparando metal e fisicamente para tentar sair do apartamento de e pedir ajuda ao primeiro vizinho que encontrasse, ou até mesmo o porteiro. Quando terminei o banho, me enxuguei, vestindo as roupas que ou havia deixado já penduradas em uns ganchos de metal na parede antes de eu entrar. Penteei meu cabelo com a primeira escova que encontrei e abri devagar a porta, olhando para os dois lados. estava deitado na cama onde eu havia acordado, com o rosto enfiado no travesseiro. 1x0 pra mim. Fui mais para o corredor, andando nas pontas dos pés com meu all star que também me esperava no banheiro - junto com minhas roupas - e cheguei à sala. Vazia. 2x0. A porta estava com a chave na tranca, logo não foi difícil de abri-la. Tentei fazer menos barulho possível e consegui destrancá-la, abrindo-a. Porém, esta rangeu alto com a pouca velocidade que investi ao abri-la e o som ecoou até pelo corredor do andar. "Corre!", foi a única coisa que disse mentalmente para mim mesma. Um problema: meu corpo estava completamente machucado e dolorido. 2x1. Minha velocidade era afetada pela dor e pela minha maneira desajeitada de correr para evitá-la. Ao chegar ao elevador, ouvi passos mais altos atrás de mim. Desisti de esperá-lo e corri pela escada de incêndio, descendo-a com o máximo de rapidez que eu não reconhecia dentro de mim. A adrenalina era tão forte correndo em mim que a dor parecia ter desaparecido enquanto meus pés, em sincronia, batiam nos degraus inacabáveis. O que mais me agoniava eram os ecos dos passos rápidos atrás de mim enquanto eu corria sem rumo. Depois do que pareceu ser o último lance de escadas, eu vi uma porta grande do estacionamento do prédio e me joguei contra a mesma, abrindo-a e saindo no imenso estacionamento. Era muito grande e eu não conseguia ter mais fôlego, uma vez que parei de correr. Pelo visto, não fui só eu quem parei, já que não ouvia mais os passos atrás de mim. Andei devagar pelos carros, respirando com força e sentindo a dor voltar em dobro. Me contorci, sem parar de andar, seguindo as placas de saída que, finalmente, começaram a fazer sentindo em minha cabeça. Uns segundos se passaram enquanto eu caminhava sem jeito e eu pude ouvir passos bem vagarosos ao meu redor. Olhei para todas as direções, não encontrando ninguém. As lágrimas se misturavam ao meu suor, enquanto eu andava olhando para trás. Finalmente, virei minha cabeça para frente, encontrando . Meu corpo estremeceu e enrijeceu, senti que tinha congelado. Nem pensar eu conseguia.
- Bu! – Disse baixinho, pegando-me pelos ombros e me jogando contra a parede. Segurou minhas costas, mantendo meu tronco e minha face direita encostados nessa tal parede. – Mais uma tentativa inútil de fugir e eu acabo com a procura do mundo. – Beijou meu pescoço, fazendo-me querer morrer. – Mas creio que não gostariam de te encontrar em pedaços, querida. – Me soltou, segurando apenas minhas mãos e me levando consigo para o Land Rover. vinha logo atrás, cansado e segurando minhas duas malas. Em choque, entrei atrás no carro, deitando-me encolhida no banco. Os dois entraram e logo deu a partida, levando-me para o lugar que minha curiosidade e medo queriam distância. Enxuguei meu rosto, sentindo o ar condicionado me refrescar e, de uma certa forma, "acariciar" meus machucados.
- Me promete uma coisa? – Pedi, quebrando o silêncio. sabia que estava falando com ele, logo levantou o olhar para o retrovisor. – Prometa que não tocará em Martin... – Eu já havia parado de chorar, as quando lembrei de Mart, minha vontade voltou. Aquilo estava ficando sério.
- Minha palavra é a única coisa que tenho, . – virou-se para a estrada, ligando o som num rock pesado. Aquilo sim me ajudaria a me acalmar, uma vez que essa era minha terapia quando me sentia estressada, confusa e com vários outros sentimentos misturados. Fechei os olhos, sem sono algum, querendo absorver a música e aproveitando o ar que vinha diretamente em mim. – E não a darei a você. – Rapidamente, arregalei os olhos, sentindo como se o carro tivesse freado. Mas tudo estava como há dez segundos atrás, menos a minha mente que tentava achar sentido nas palavras de .
Eu tinha a convicção de que era um monstro.

Capítulo oito

Era como se eu estivesse morta. Mesmo sentindo meu coração bater, sentindo e ouvindo minha respiração e estando relativamente quente, parecia que eu estava morta. Não apenas por dentro, mas por fora também. Não apenas mental, mas fisicamente também. Eu estava acabada, cansada, entediada... mas não sentia nada além de um vazio. Minha mente? Vazia. Meu coração? Vazio. Com meu estômago, boca e ouvidos não era diferente. Aquele lugar era tão silencioso que às vezes parecia que eu estava apenas dormindo naquele quarto ironicamente bonito e arrumado. O lugar onde eu estava não tinha nada a ver com um cativeiro... Primeiro porque era no meio do nada, mas não um "meio do nada" qualquer, era lindo. Havia apenas verde cobrindo toda a área ao redor da casa que tinha parte feita de pedra, parte feita de tijolos. Era aconchegante e me lembro muito bem da primeira vez que a vi. Tive que admitir pra mim mesma – com desgosto – que a casa era linda. Era típica casa inglesa isolada no meio de um enorme campo.
Seguindo o imenso campo que dava para minha janela, bem no final desse onde eu quase não enxergava mais chão, podia-se ver uma estrada. Eu não sabia se era realmente uma estrada ou se era alguma ilusão de ótica. Porém, nesses últimos dias, vi dirigindo um carro velho até o final desse campo, seguindo – depois de um tempo dirigindo – pela suposta estrada. Falando nele... parecia que eu havia sido transformada. Eu não era a mesma, como eu disse, eu não me sentia viva. Parecia oca e estava completamente indiferente ao que estivesse acontecendo. Logo eu devo mencionar que meus sentimentos por estavam guardados, ainda. Porém em algum lugar bem longe de mim... no mais fundo dos mares, na estrela mais distante ou apenas escondido atrás do meu medo de me deixar levar mais uma vez. De me deixar levar por minha mente ou lembranças que eu bloqueei surpreendentemente bem. Desde quando cheguei, nada passou pela minha cabeça a não ser as imagens que eu via. Nem falar comigo mesma eu falava, nem lembrar de Martin eu lembrava. Apenas imagens e sons externos entravam e saíam de mim sem pedir, sem serem expulsos ou ainda menos autorizados. Eu não tinha mais visto , apenas de longe, aparecia para deixar alguma comida e para recolhê-la. Mais dois homens perambulavam pela casa, mas não entraram muito no meu quarto. Os vejo mais de longe, também, quando passam por debaixo da minha janela.
- ? – Ouvi uma voz me chamar por trás da porta de madeira fechada. Devagar, virei minha cabeça para a mesma e a encarei por um tempo. Ainda lenta, saí do pequeno sofá que ficava na janela – suspenso pela parede – e caminhei até a porta. Encostei meu ouvido na mesma, esperando que a pessoa continuasse falando. – Está acordada? – Não foi necessário muito tempo para que eu me desse conta que a voz era de . Fechei os olhos, relaxando mais a cabeça na porta. Suspirei alto e pude ouvi-lo fazer o mesmo. – Posso entrar? – Ele pediu. Não entendi o porquê da pergunta... Ele quem estava no controle, certo?
- Não. – Minha garganta pareceu queimar quando finalmente falei. Só então pigarreei, sentindo-a doer mais um pouco. Não falei uma palavra sequer durante essa primeira semana e não comia há dois dias. Não era drama nem nada, mas eu realmente não estava me sentindo bem. Depois de uns segundos, ouvi a maçaneta se mover e abri os olhos, dando dois passos pra trás e encarei-a se abrindo. veio da mesma, com os cabelos organizadamente bagunçados, uma blusa branca, bermuda xadrez e descalço. Parecia um garoto... Senti como se não o visse de perto há anos. Seu cheiro me invadiu, fazendo meu estômago revirar e eu me arrepiei, mas não como de costume. Era medo, ansiedade, nervosismo e várias coisas ao mesmo tempo, que eu perderia muito tempo descrevendo. Quando seus olhos encontraram os meus, achei que não fosse aguentar, e novamente senti que explodiria. Agora eu não estava vazia, estava transbordando sentimentos e meus olhos pareciam mostrar isso. Ele desceu seu olhar por todo meu corpo, parecendo insatisfeito com algo. Eu vestia apenas uma camisola que chegava à metade das coxas, de alças finas. Meus braços, pernas, pescoço e peito estavam completamente descobertos ainda com os hematomas aparecendo. No meu rosto também permanecia os mais fortes. Os machucados ainda doíam, principalmente quando eu me deitava ou quando eu tomava banho. Mas a dor já fazia parte de mim, logo eu só estranharia quando parasse de senti-la, e não quando encarasse aqueles hematomas agora num tom de roxo mais claro que antes.
- Você precisa sair daqui um pouco. – disse, olhando para o chão. Ele fechou a porta por trás de si e se encostou na mesma. Parecia evitar me olhar. Mas, quando finalmente o fez, eu me senti pior. Parecia ter mais dor e melancolia em seu olhar do que antes e, por alguma razão estúpida, eu sentia que era minha culpa.
- Não quero... – Respondi de imediato, sem nem pensar na proposta. me fuzilou com o olhar e eu engoli a seco. Suavizei a voz: – Não... preciso. – Odiava aquele seu olhar. Ele deu de ombros levemente, abrindo a porta.
- Não perguntei. – Falou de maneira rude, olhando pela janela – que antes eu encarava – por cima do meu ombro. Voltou seus olhos para mim, me encarando mais uma vez. Inocente e estupidamente, me perdi em seus olhos, lábios, cabelos, pele... Fiquei totalmente hipnotizada, encarando-o como se fosse a primeira ou última vez que o via. Vagarosamente, se aproximou de mim, com passos calmos, porém firmes.
Levantou sua mão antes mesmo de parecer pensar e a levou até meu rosto, descendo até meu ombro. Fechei os olhos novamente, sentindo seu cheiro... meu estômago pareceu se acostumar com ele novamente, sem querer se contorcer. Ele encarava profundamente cada canto que passava sua mão, como se esse seu ato – de alguma maneira – fosse me curar ou me fazer ter a vida de antes. Eu apenas me arrepiava e tentava me manter de pé. Novamente, entrei em conflito comigo mesma: parte minha me mandava tirar sua mão suja de mim. Outra parte queria que eu me aproximasse mais e o abraçasse, para tentar tirar aquela dor em seus olhos. era irresistível e estava me acariciando no momento que eu mais precisava de alguém, como eu poderia reagir?
Por impulso, pousei minha mão gelada na sua, sentindo a dele se mover por menos de um segundo, como se levasse um susto. Abri os olhos devagar e agora, quem fechava os olhos era ele. Subi sua mão que estava em meu pescoço até minha bochecha, alcançando-a com a boca. Depositei um beijo delicado na mesma, ainda encarando seu rosto inexpressivo e sereno. Como se tivesse levado um choque, abriu os olhos e tirou rapidamente sua mão de mim. Ele suspirou pesadamente, se afastando com alguns passos. Porém, ao invés de seguir para a porta e me deixar, ele se direcionou à janela, sentando-se no pequeno sofá onde antes eu estava sentada. Me virei para ele, ficando no mesmo lugar.
- Eu acabei com tudo, não foi? – Ele disse, rindo... triste? passou a mão na testa, respirando fundo e juntou as mãos no colo, mexendo uma com a outra. Continuei sem tirar os olhos dele, quase sem piscar. – Eu poderia ter mudado isso tudo, mas eu sou tão idiota. – Ele parecia querer explicar algo, mas eu não entendia nada, apenas o escutava e tentava prestar atenção. – Você devia ter ficado longe, mas por que não me evitou quando tentei me afastar? – Eu não sabia o que responder – principalmente quando me olhou. Na verdade, eu nem ao menos sabia se era pra responder.
- Onde quer chegar, ? – Perguntei e meu tom de voz soou como se eu expressasse desdém.
- A nenhum lugar. Apenas queria te fazer entender. – Ele deu de ombros. Um vento bateu contra a janela, entrando pelo quarto. Nossos cabelos voaram e eu podia ver cada fio brilhando com a luz do sol, mesmo com os meus próprios atrapalhando um pouco minha visão.
- Nunca vou entender essa sua doença. – Tentei não expressar nada com essa frase, porém era difícil. Como eu disse, eu estava transbordando sentimentos. Queria fazer várias coisas diferentes ao mesmo tempo... coisas que não tinham aderência.
- Não posso te tirar a razão. – Ele deu de ombros, se levantando. Novamente, o vento entrou no quarto, fazendo nossos cabelos voarem como antes. Eu poderia vê-lo passando por mim como se estivéssemos em câmera lenta. Seu ombro bateu no meu e eu me senti arrepiar mais uma vez. não demorou para me deixar o quarto. Era algo tão fácil para ele.

Juliet. Depois da visita de – que foi há umas boas horas atrás – minha cabeça encheu de pensamentos. E o que mais me atormentava era sobre quem era a tal Juliet. Era como se em segundos eu tivesse criado uma obsessão por ela, uma curiosidade agonizante. Queria saber como era, o que sentia, como morreu, se ficou nesse mesmo quarto, se foi... hum, sequestrada como eu. Queria saber tudo, saber cada passo dela que tivesse algo a ver comigo. Talvez não custaria nada tentar perguntar para e ver se conseguiria ter alguma informação. Me ajeitei no sofá da janela que eu sempre sentava, abraçando minhas pernas. Naquele lugar conseguia ser mais frio do que na cidade, o que é comum quando só há verde cobrindo uma área. Mas eu amava a sensação de frio, amava me arrepiar e sentir algo me esquentar aos poucos até eu me sentir completamente quentinha. Meu casaco de moletom solto fazia isso para mim agora. Minhas pernas estavam descobertas, uma vez que eu vestia apenas um short jeans larguinho. Enquanto eu encarava o céu estrelado e claro pela lua do lado de fora, ouvia passos se aproximando da porta. Era , com certeza, e eu já estava preparada para falar com ele quando ele tentasse levantar assunto. Nos dias que eu fiquei aqui, todas as vezes que ele entrava, tentava tirar algo de mim. Ou com uma piada ou com um simples cumprimento. Porém eu sempre permanecia calada, logo hoje eu iria finalmente respondê-lo. entrou no quarto como sempre, segurando uma bandeja com um prato e uma lata de refrigerante. Ele acendeu a luz e colocou tudo sobre a cômoda, em silêncio.
- Boa noite. – Disse, soltando um sorriso. Forcei um de volta.
- Já se apaixonou, ? – Finalmente perguntei. Ele parecia não esperar essa pergunta de mim. Ele não parecia sequer esperar que eu falasse algo. me olhou por uns segundos, parecendo atormentado.
- Não. – Respondeu, sentando-se na ponta da cama de casal que ficava por perto. Encarou os pés e voltou a falar: – Ainda estou... – Dessa vez sua voz estava mais baixa. Mordi o lábio inferior, pensando se devia prosseguir com as perguntas ou se eu deveria parar de torturá-lo. Ficamos calados por uns segundos e eu voltei a observar o céu estrelado. – Ela tinha as mãos pequenas... – Ouvi dizer, distraído. –... os dedos eram finos e as unhas eram perfeitamente desenhadas. Seu corpo todo era assim... e pálido. Seus cabelos castanhos que quebravam toda sua branquidão. Eram longos e incrivelmente cheirosos. Nunca mais senti tal cheiro... Nem antes nem depois de tê-la. – Voltei a olhá-lo e ele ainda encarava os pés, mas agora tinha suas mãos juntas e mexia uma na outra, como se estivesse nervoso. Porém estava completamente calmo, sem pressa de falar. Parecia que eu nem estava ali, era como se ele tivesse pensando alto, sozinho. – Mas... – Fez uma longa pausa. Ele respirou e vi que seus olhos estavam vermelhos. Num susto, virei o rosto de novo para o lado de fora, como se não tivesse visto que estava prestes a chorar. Poderia ser humilhante pra ele, talvez. –... quando fazemos uma coisa errada... – Voltou a falar, porém pausou novamente. Dessa vez, a pausa durou apenas alguns segundos. –... todo o resto dá errado. E eu comecei com equívocos, achando que só tinha uma solução para acabar com eles. Só que agora eles viraram minhas assombrações e pesadelos durante a noite e o dia. – Engoli a seco, quase mordendo a língua para não perguntar mais coisas sobre ela.
Ainda bem que decidiu fazer isso sozinho, uma vez que ele voltou a falar sem eu nem ao menos pedir ou me mover. Como eu disse, era como se eu não estivesse ali.
- Juliet era tão inocente... Nunca teve nada a ver, mas eu estraguei tudo. A coloquei no meio de outro mundo, a fim de poder ficar mais perto dela. Só que eu não admiti pra ninguém... Nem mesmo pra mim mesmo. Então só merda poderia acontecer... porque quando pessoas como eu estão felizes, tudo tem que dar errado. É como se fosse uma lei da natureza. Se eu pudesse voltar atrás, eu a tiraria do mundo em que vivia novamente, mas não a traria para cá. Largaria tudo e fugiria com ela. Largaria isso, largaria essa vida, os meninos, tudo que tenho e simplesmente desapareceria. Mas a fiz ter medo de mim. A afastei de mim ao invés de tê-la apenas comigo... e acabei com tudo. Um simples momento de crise, de raiva, foi o suficiente para que ela não respirasse mais no meu pescoço... para que eu não sentisse mais seus batimentos no meu peito durante a noite. Foi o suficiente para que eu não visse mais razão no mundo. – Levei a mão à boca, tentando não mostrar minha surpresa e admiração. Desde quando alguém doce como poderia fazer mal a alguém?
Ele se levantou da cama, andando até a porta. Quando – já do lado de fora – foi fechá-la, me olhou mais uma vez.
- Só estou aqui ainda para impedir que acabe como eu. – Não esperou nem que eu pudesse dizer algo e fechou a porta com força e rapidez. Demorei para assimilar as coisas que estavam em minha mente. Eu precisava organizá-la, precisava juntar as informações e fazer tudo ter sentido.
Como já era de se imaginar, a minha noite não foi das melhores. Passei quase todo o tempo acordada, pensativa. Eu acendia e apagava a luz, conforme queria me deitar ou andar pelo quarto. Mas onde eu passei mais tempo foi sentada no lugar de sempre, encarando o céu. Quatro da manhã e lá estava eu, sem saber como ainda não havia ficado com torcicolo. Ouvi uns sons de galhos e olhei para frente, sem enxergar nada.
Neste momento, a luz do quarto estava apagada e apenas a lua iluminava o campo, fazendo-me enxergar perfeitamente apenas o que estava perto de mim. Continuei olhando para frente, onde tudo estava um completo breu. Em questão de segundos, uma lanterna acendeu, iluminando o rosto da própria pessoa que a segurava. Era medonho, mas eu sabia que era . Ele apontou a lanterna na minha direção, ficando estático com ela que iluminava todo o caminho entre nós dois. Encarei este por uns segundos e não hesitei em pular da janela. Descalça, senti a grama úmida e gelada sob meus pés e sorri. Não estava com a roupa mais adequada para uma caminhada noturna, porém eu não me importava. Minha mente estava vazia novamente, e eu nem me dava conta disso, como se eu tivesse mudado de personalidade. Andei devagar, seguindo o caminho até a bolinha amarela que aumentava e iluminava mais ao redor à medida que eu me aproximava. Quando finalmente a silhueta de virou sua imagem completa, eu involuntária, inútil e loucamente sorri, parando de andar. Ainda não estávamos completamente próximos, tinha mais de um metro nos separando, porém eu conseguia manter meu olhar fixo em seus olhos, que brilhavam estupidamente com a lua e a lanterna.
- Gostou? – perguntou, dando mais passos até mim. Nossos corpos ficaram como de dois indivíduos normais ao conversarem. Ri, soltando uma nuvem de fumaça da minha boca. Não sei ao certo o que me fez rir, mas eu estava amando ficar ali fora.
- Do quê, exatamente? – Perguntei de volta, com um sorriso bobo de criança. Se minha mente estivesse com os mesmos pensamentos de dois minutos atrás, eu estaria me perguntando o porque da euforia dentro de mim. Mas minha cabeça estava em outro lugar, estava no 'agora'. Não no 'antes' ou 'depois' deste exato momento.
- De sair daquelas quatro paredes. – falou, também soltando uma nuvem de fumaça da boca. Seu hálito acompanhou seu perfume até o meu nariz e eu apenas fechei os olhos, abrindo os braços. Tombei a cabeça para trás e respirei fundo. Um cheiro de terra, grama e chuva me invadiram, misturando-se com os cheiros de .
- Isso aqui é maravilhoso. – Falei baixo, mas o volume da minha voz foi o suficiente para que ele escutasse e soltasse um riso.
- Foi pra isso que te trouxe aqui. – pareceu dizer isso com indecisão, como quem não sabe se fala algo ou não. Abaixei os braços, voltando ao normal e o olhei, ainda sorrindo. O vento, que até então era apenas uma brisa, soprou forte contra o campo e umas mechas de cabelo caíram em meu rosto, porém eu continuei parada, olhando-o, assim como ele fazia comigo. – E não pra te ver nostálgica, na janela... sozinha. – Completou, parecendo receoso. Ficamos em silêncio por uns minutos, apenas nos olhando ou dando alguns passos, mas sempre voltando ao mesmo lugar: para o lado do outro. – Está começando a entender? – perguntou de repente, tirando as palavras da minha boca.
- Não... – Fui sincera. Ainda não sabia por que ele precisava ser do jeito que era; por que ele tinha que fazer coisas erradas e por que me queria ali. – Mas acho que um dia vou poder.
- Achei que nunca fosse entender essa minha doença. – Falou num tom irônico, rindo. Sua risada não me passou felicidade alguma, mas também – agora – não parecia vazio ou triste. Parecia apenas... alguém normal.
- Eu também. – Ri de volta, colocando as mãos nos bolsos do meu moletom. – Mas acho que não custa nada eu tentar. – Finalmente o olhei de volta. se aproximou mais de mim, colando quase que por completo os nossos corpos. Com a mão livre, ele desviou as mechas de cabelo do meu rosto, colocando-as para trás da orelha. Desceu a mesma mão até meu queixo, segurando-o com toda cautela possível, como se eu fosse algo facilmente quebrável. Seu rosto juntou-se ao meu, com seus lábios no meu nariz, depois nas minhas duas bochechas. Eu mantinha meus olhos fechados, a fim de não me mover muito, como se não quisesse acordar daquele sonho. Quando os senti perto dos meus, meu coração bateu a mil. Porém, o senti se afastar de novo.
Abri os olhos e sentou-se no chão, deitando logo após. Colocou a lanterna ao seu lado, virada para cima. A mesma iluminava um pouco de nós mesmos. Ele sorriu e deu duas batidinhas com a mão no espaço coberto por grama úmida ao seu lado. Fiz uma careta, deitando ao seu lado. Sem nos tocarmos, sem proferirmos uma palavra sequer, sem nos olharmos, ficamos ali. Eu apenas aproveitava a presença do que eu pouco via ao meu lado... Aproveitava a ausência do sr. naquele corpo deitado ao meu lado. Enquanto eu encarava minha melhores companheiras naquele céu imenso, continuava com a minha mente vazia. Quando eu voltasse a mim, quando eu ficasse "sóbria" novamente, iria me xingar mentalmente por ter me deixado chegar aqui. Mas como eu ainda estava "zen" e sem nada me preocupando, eu pude relaxar. Como eu estava ao chegar aqui, mas agora eu estava feliz, não apenas vazia.
- Você se sente perdida? – Ouvi sua voz soar perto do meu ouvido e eu senti sua respiração na mesma região. Me arrepiei, sabendo que sua cabeça estava virada pra mim, mas continuei com a minha posição, olhando para cima.
- Depende da hora. – Sorri com a minha resposta. Ela parecia sem sentido, porém fazia todo sentido pra mim. Aquele era o lugar no qual eu me sentia mais bipolar possível. Na verdade, era perto de que eu me sentia assim.
- Hummm... – Ele murmurou, pensativo. Senti sua mão gelada pegar a minha que estava aberta na grama. Fechei os olhos, mordendo o lábio inferior e virei meu rosto para ele, abrindo-os novamente. Seus olhos pareciam quase puxar os meus para fora. Eram tão... intensos. E ilegíveis agora. Ficamos uns segundos apenas naquela posição e, do nada, a imagem de seu rosto suado e obscuro em cima de mim veio à minha cabeça, logo depois a imagem que eu me olhava no espelho pela primeira vez, com os hematomas gritantes. Me sentei na grama com rapidez, puxando todo ar possível com a boca. O barulho que provocou parecia com o de uma pessoa sendo sufocada. , calmo, sentou-se ao meu lado, me olhando como quem espera uma explicação ou, pelo menos, uma reação. Ofegante, puxei minha mão de volta, segurando-a com a outra como se tivesse me queimado. – ... – tocou meu ombro, mas eu o mexi, como se o mandasse tirar sua mão de mim. Levei uma mão à boca, tentando me acalmar, mas meu corpo estava a mil. Fechei os olhos com força, sentindo cada machucado meu doer mais, como uma espécie de "don't forget".
tentou me tocar novamente, mas agora parecia que toda cautela do mundo estava depositada em suas mãos. Com as duas, ele colocou meus cabelos para trás, deixando meu rosto livre e limpo. Virou-se de frente para mim, sem me tocar mais. Seus olhos estavam fixos nos meus e parecia pensar em algo para dizer. Sua expressão era serena e tranquila, o que não entrou bem na minha cabeça.
- ... – Disse mais uma vez, descendo seu olhar pelas minhas pernas. Não havia segundas intenções nesse olhar, muito pelo contrário, havia preocupação ou curiosidade, ou os dois... era difícil decifrar sempre. Ele passou uma de suas mãos pelas marcas roxas e eu pude senti minhas pernas adormecerem. Uma paz foi reinando aos pouquinhos dentro de mim à medida que os segundos passavam. Era como se eu ainda estivesse "sóbria", porém me conformando que não era uma ameaça pra mim. Ou como se eu não precisasse mais entrar naquele espírito de mente vazia para evitar qualquer perigo ou pensamento. – Bom, eu... – Ele começou falando, subitamente pausou, voltando a pensar. Ainda não me olhava e isso parecia ser proposital. – Eu sinto muito. – Finalmente disse. Os cabelos cobriam um pouco da sua testa até seu nariz, mas eu conseguia ver que ele fazia uma careta de dor. – Me perdoa? – Eu sabia que era difícil ouvir aquelas palavras vindo diretamente de . E sabia que a vontade de ouvir seu pedido de perdão era um pouco maior que a enorme vontade de perdoá-lo. Sorri, mesmo sabendo que não veria e me levantei, sem dizer nada. Eu tinha todo o tempo do mundo para respondê-lo, não precisava fazer isso agora. Até porque, um sono gostoso me alcançou, fazendo meus olhos arderem, principalmente quando eu piscava ou quando o vento batia neles por muito tempo. De alguma forma sem razão e inexplicável, eu me sentia cheia e completa. Como se não tivesse espaço para nada. Porém, eu sabia que, no mínimo, 7% do que me deixava cheia era ruim, mas estava escondido, disfarçado ou apenas era invisível perto de coisas gostosas e boas que eu sentia.

Era a primeira vez que eu acordava feliz desde quando havia chegado. Não era necessariamente uma felicidade o que eu sentia, era menos que isso. Mas era algo bem perto... Saí da minha cama e tomei um banho, me arrumando para tomar café da manhã. Eu não tinha mais vontade de me prender no quarto. Se tinha alguém me prendendo ali era eu mesma, então resolvi sair e assim o fiz. Porém, meu sentimento de "quase-felicidade" durou muito pouco. Assim que terminei de descer as escadas, fui recebida com um "bom dia" educado dos meninos e os respondi com apenas um sorriso, sentando-me à mesa. Quando ia começar a beber meu suco, um barulho de motor veio do lado de fora da casa. Não foi necessário muito esforço para que eu enxergasse a janela e visse Courtney saindo do Jaguar prata. Meus músculos pareciam ter se paralisado, enquanto meus olhos arregalados a encaravam. levantou rapidamente da mesa, correndo até ela, que o esperava do lado de fora, encostada no carro. Olhei para , que colocou o indicador na boca, me pedindo para fazer silêncio. Me aliviei um pouco ao me dar conta de que ela não sabia que eu estava aqui, que não estava envolvida nisso. Porém o mundo inteiro sabia que eu havia sumido e o motorista tinha culpa nisso, uma vez que sumimos junto.
Enquanto a observava conversar com , senti uma pontada de inveja. Ela era bem mais bonita e sedutora. Mas ele não parecia ver isso, a encarava vazio, apenas balançando a cabeça como resposta ao que ela dizia. Eles se beijaram por uns segundos e eu virei o rosto, encarando outra coisa. Pigarreei e finalmente bebi meu suco, mandando-o todo para dentro em grandes goles seguidos. Disfarcei, olhando mais uma vez para os dois, e vi segurando os braços de Courtney, afastando-a com cuidado. A levou de volta para dentro do carro e ficou de pé, sozinho, até o mesmo se afastar. Sem me dar conta, virou-se para entrar na casa, mas nossos olhares se encontraram, fazendo-me corar. Ele pareceu sorrir... mas pareceu segurar o sorriso. realmente devia gostar de Courtney e não era pouco, porque nem se escondendo do mundo ele deixava de vê-la. E isso, de certa forma, me incomodava. Não me deixava feliz. Ao passar por mim, agachou-se ao meu lado, alcançando meu ouvido.
- Preciso falar com você mais tarde. – Sussurrou, fazendo meu pelos arrepiarem e meus olhos fecharem. Sorri e, quando abri os olhos, já havia saído da sala e seus passos ecoavam pelo lugar. Os meninos conversavam naturalmente, como se tudo estivesse normal.

Capítulo Nove

Eu estava sozinha. Estava sentada debaixo de uma árvore que não ficava muito longe da casa. O que me surpreendia era a segurança deles de me deixarem sozinha e a falta de surpresa ao verem que eu não tentei fugir nenhuma vez dali. Mas eles sabiam que eu estava ciente das consequências que mais uma tentativa de fuga traria, logo eu cedia ao máximo para que tudo se resolvesse mais rapidamente. A última vez que falou comigo foi há dois dias, no café da manhã, após ver Courtney. Eu sabia que estava esperando uma resposta. Não sabia o que queria me dizer, mas não era irrelevante, uma vez que era raro ele querer falar comigo. Pelo menos normalmente. E esse era um dos motivos de eu estar sentada debaixo daquela árvore: esperava-o falar comigo. Foi assim nos últimos dois dias.
Eu não tinha o que fazer naquele lugar, logo não precisava esperar muito tempo para perdoar ou não , já que eu tinha tempo suficiente para pensar. E pensar era o que eu mais fazia agora, a única coisa que me parecia divertida ou menos cansativa. Mas eu não pensava em tudo, não pensava sensatamente como deveria. Só pensava se perdoaria ou não. Convenhamos: para vir a mim pedir perdão, se humilhar a esse ponto, é porque ele realmente se arrependeu. Não que eu o conheça, mas sei como se comporta, sei que é orgulhoso demais pra voltar atrás em algo, para se arrepender ou algo do gênero. Porém... eu nem ao menos sabia mais o que era real, se ele realmente fez aquilo, então como poderia perdoar um erro que eu nem acreditava ter acontecido comigo de tão maléfico que era? Como eu poderia perdoá-lo, sabendo que a qualquer momento sua "imprevisibilidade" atacaria novamente trazendo surpresas boas ou, na pior e mais provável das hipóteses, ruins? Era estranho, porque eu queria perdoá-lo e não era só parte de mim que queria isso, era todo o meu ser. Mas eu tinha medo, medo de quebrar a cara, medo do que poderia acontecer dali em diante.
Eu estava, claro, perdida em pensamentos, roendo a pobre unha do meu indicador, com as pernas dobradas encostadas contra meu peito. Minhas costas estavam apoiadas no tronco grosso da baixa árvore atrás de mim. Minha cabeça estava encostada na mesma enquanto eu encarava o campo, com o pouco do sol que sobressaía das nuvens iluminando-o um pouco. Eu me sentia confusa, perdida, descolada. Sabia que não pertencia àquele lugar, àquelas pessoas. Eu me sentia assim já na casa dos Peterson, mas eu tinha Martin para me confortar. Aqui eu não o tenho, mas não acho que era por isso que eu me sentia mais deslocada e confusa do que nunca.
Mordi o lábio inferior, me abraçando. Lembrar de Martin sempre fazia meus olhos marejarem e uma bolha de ar ficar presa na minha garganta. Olhei para frente, encarando todo o terreno que fazia com que eu me sentisse em "Pride and Prejudice". Era lindo, mesmo com o céu cinzento e o interminável vento gelado que fazia minha pele nua - já que eu vestia apenas minha camisola com um short lycra por baixo - arrepiar. Não era muito bom sentir vontade de chorar naquele cenário que parecia ter sido criado perfeitamente para momentos de solidão e/ou tristeza. Virei minha cabeça para o lado, encarando a casa de longe. Vi a porta se abrindo e saindo pela mesma. No mesmo momento, eu passei as mãos pelos meus olhos, tirando o acúmulo de água dos mesmos. Dei uma rápida fungada enquanto engolia a tal bolha de ar, evitando que eu começasse a chorar. Virei minha atenção novamente para o que estava à minha frente e voltei à minha posição anterior, esperando que sentasse ali por perto. Foi o que ele fez: sentou-se à minha frente - em silêncio - escondendo as mãos dentro dos bolsos do seu casaco de moletom. Seus pés brancos estavam descalços, um pouco sujos de grama e terra, mas a verdadeira sujeira estava nas bainhas da sua calça jeans. Meus pés não estavam muito diferentes dos dele, a única diferença era as minhas unhas roxas pelo frio. E provavelmente meu vestido não estava nada limpo na região na qual eu estava sentada por cima.
Sem dizer nada, continuei rígida e pensativa, como se não estivesse ali, pelo menos era o que eu tentava transmitir a ele. Eu sempre fui do tipo de ficar calada, nunca achei necessário o excessivo uso da voz em um diálogo, até porque sempre odiei que falassem à toa, coisas inúteis. Principalmente pela manhã, é. E parecia-se comigo... parecia não fazer questão que falasse algo, assim como eu não fazia questão de o fazer. Ele finalmente me olhou e eu podia jurar que eu nunca diria que aquele foi o homem que fez aquilo comigo. Não agora.
- Hey... - Disse com a voz embriagada, como quem acaba de acordar. O que foi o caso, uma vez que o sol estava quase se pondo e ele havia sumido uns minutos depois do almoço. Eu não havia entendido o por que da simpatia dele ultimamente, mas neste momento eu não tinha o direito de querer entender mais nada. Continuei calada, apertando meu próprio abraço quando o vento pareceu esfriar mais. Trinquei os dentes, evitando que batessem uns nos outros. Cheguei à conclusão que era quem esperava que eu dissesse algo, aliás, eu teria que respondê-lo. Não sei por que eu me cobrava tanto uma resposta... talvez eu estivesse curiosa sobre a mesma, uma vez que não sabia mais o que se passava comigo.
- Não tem como te perdoar, ... digo, eu não sei como. Eu nem sei quem você é, eu tenho tanto, tanto medo. - Me surpreendi com o número de palavras que saíram da minha boca. O planejado era somente as duas primeiras orações, porém eu continuei. E só então minha ficha caiu, eu admiti pra mim mesma algo que nenhum sentimento bom poderia esconder: medo. Era ele o motivo de toda e qualquer dúvida dentro de mim, o que deve ser comum com todos. O medo de me machucar, o medo de perder alguma coisa, era um medo coletivo. Apenas um medo para todas as coisas.
- Medo? Você? - perguntou num tom surpreso. Mas quem estava mais surpresa era eu... como ele não percebeu antes? Eu sentia que cada ato meu era claro, sentia-me um livro aberto e ele não sabia como eu me sentia? Surpreendente, devo dizer. - De quê?
- Não sei. - Fui breve. Na verdade, eu tinha medo de tudo. Tinha medo que algo me fizesse chorar... me sentia uma criança. Uma completa criança. E não era a primeira vez. - Mas sei do que você é capaz de destruir e não estou assim tão inteira para que o faça de novo. - O silêncio se instalou e eu podia sentir a atmosfera pesada contra meus ombros, me empurrando cada vez mais para baixo. Dessa vez o silêncio foi longo, bem mais longo que o normal. - O que... - Comecei e tirou o olhar das mãos que estavam escondidas nos bolsos, me olhando. Respirando fundo, medindo as palavras. Não era o momento apropriado para eu fazer uma pergunta daquelas, mas simplesmente não me contive. - O que houve com Juliet? - Perguntei baixinho, como se as árvores tivessem ouvidos. Ele continuou me olhando por um bom tempo e suspirou.
- Um erro. - Disse simplesmente, dando de ombros. - Nem tudo é como planejamos, infelizmente. E quando algo dá errado, a gente parece virar outra pessoa para corrigir a burrada que fizemos. Mas isso só complica ainda mais as coisas... eu sou a prova viva disso. - Corei. Foi a reação imediata que tive. - Na verdade... nós somos a prova viva disso, . - Meu nome. Ele disse meu nome. Se fosse capaz de suspeitar de como me fazia sentir ao pronunciar meu nome, acho que nunca mais o faria. Ou, por algum motivo, faria mais vezes. Talvez para provocar, quem sabe?
- Defina "nós", por favor. - Pedi, já sem olhá-lo. Eu havia virado minha cabeça para o lado e agora encarava o sol se esconder, parecendo mergulhar no chão plano que corria até o mais longe que eu podia enxergar. Ele não aparecia direito, estrava por trás das nuvens mais iluminadas que o resto das outras do céu.
- Eu, você, simples. Eu errei, por isso peço perdão. - Era incrível. podia ser sem sentimentos, maldoso, grosso, rude, seco, severo, mas não escondia o que fazia. Mais uma vez, senti inveja dele.
- Pede perdão por ter... - Eu não queria dizer a palavra, mesmo com a mesma escrita e ecoando em minha mente. Mas não era por falta de capacidade, porque eu sabia que podia dizer. Mas ia soar rude demais... e não importava dizê-la, ele sabia o que havia feito e uma palavra não mudava nada. - ...me machucado?
- Não, . - Me arrepiei e não foi pelo frio. Me senti confusa... se não era por aquilo que pedia perdão, então eu não fazia ideia do que ele estava falando. - Peço perdão por ter deixado você se aproximar, por ter lhe dado brecha de aparecer e bagunçar completamente tudo o que eu havia me matado pra deixar organizado. Peço perdão por ter tentado te fazer me odiar e ter falhado... bom, pelo menos você não parece me odiar. - Tive vontade de retrucar. Aliás, quem havia aparecido e me bagunçado fora ele, apenas . Mas permaneci calada, não queria interrompê-lo. - Já disse que não é assim tão previsível? - Não pude conter um sorriso e também não. - Só me arrependo do que fiz com você porque agora vejo que não foi necessário... eu falhei, de novo, achando que afastaria você de mim te machucando, te deixando insegura. Não sabe como foi difícil pra mim também. - Eu não havia reparado, mas estava bem próximo de mim agora. Só percebi por causa do seu cheiro que veio com o vento que não parou de soprar desde minutos atrás. Eu estava tão absorta, me perdendo em pensamentos que só dessa maneira percebi que havia se aproximado tanto de mim. Aquilo parecia um sonho. Eu só descobri que era tudo o que eu queria ouvir quando finalmente disse... eu precisava daquelas palavras. Eu precisava saber se eram reais e eu sentia mais do que nunca que eram. Ele não perderia tempo falando aquelas coisas por falar... e além disso, é um ser humano. Por mais estranho que pareça, ele falha, se arrepende, sente... eu fiquei tanto tempo vendo-o como alguém frio, com dupla personalidade que não reparei que era sempre ele mesmo, porém com suas dúvidas, opiniões, preocupações, confusões, problemas, alegrias, tristezas, prazeres e lembranças. Encarei seus olhos com vontade, sentindo como se uma bolinha de fogo percorresse toda a região da minha barriga até meu peito, deixando toda essa área queimar por segundos. Bem devagar e com cuidado, ele tocou meu queixo com uma de suas mãos quentes. Eu sentia sua respirações se misturar com a minha e segurei um sorriso com o pouco de sanidade que restara em mim. Havia me esquecido do quão bom era tê-lo por perto. Tê-lo verdadeiramente por perto. Me sentia uma vencedora por conseguir arrancar palavras verdadeiras e, de certa forma, profundas de . Eu queria tanto gritar "sim!" milhões de vezes, dizer que o perdoava, mas não estava vivendo um conto de fadas. Sabia que eu não o teria pra mim, sabia que perdoá-lo não faria com que ele me quisesse como eu o quis um dia. E agora, neste exato momento... por mais insano que seja. - Eu preciso que você me odeie... - sussurrou, arrastando seu nariz pelo meu. Ele fechou os olhos e eu fiz o mesmo, sentindo seu rosto acariciar minhas bochechas e toda a região ao redor.
- Sou estúpida demais para conseguir. - Sussurrei também, involuntariamente. Eu queria me dar a liberdade de tocá-lo, de apertá-lo e abraçá-lo, mas meu corpo permanecia estático. Nem no ataque nem na defesa, apenas esperando o que estivesse para vir. apertou um pouco mais meu queixo, nos aproximando. Agora seu nariz acariciava o meu com mais força, correndo para todo meu rosto. Eu mordi o lábio inferior, fechando as mãos em punho.
- Por favor, . - Acho que ele sabia sim o efeito que causava em mim ao dizer meu nome. Sua outra mão pousou em meu pescoço, esquentando-o no mesmo momento. - Pedir é a minha única solução. Prometi a mim mesmo que não tocaria em você. - Ri abaixando a cabeça, fazendo com que apenas sua mão que estava em meu pescoço me tocasse.
- E o que está fazendo agora? - Perguntei, olhando-o. abriu os olhos, colocando as mãos nos bolsos novamente.
- Me desobedecendo. A última vez que me obedeci, deixei tudo dar errado... - Ele sorriu de lado, sentando-se, já que estava de joelhos.
- Eu não te entendo, ... - Falei séria, escondendo meu sorriso. Coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e abracei minhas pernas novamente. se afastou e sentou no mesmo lugar de antes, sem me olhar. Ele encarava os pés descalços, severo. - Não sei o que você quer de mim... não sei o que espera de mim. - se levantou, batendo na calça fim de tirar a lama e grama que havia na mesma.
- Só pedi duas coisas, . Que me perdoasse e que me odiasse. Não peço que olhe pra mim e sorria todos os dias, não estou pedindo para que faça sexo comigo ou algo do tipo... só peço perdão e perdoar é simplesmente esquecer. Queria poder te fazer esquecer do que aconteceu... eu queria que eu mesmo pudesse esquecer. Mas é tão difícil pra mim quanto pra você, porque eu poderia ter evitado, estava nas minhas mãos. - Ele disse, de costas pra mim. Eu encarava suas costas e subi minha visão até sua cabeça que estava um pouco virada para o lado, como quem olha por cima do ombro. - Eu sei que se eu tivesse pensado melhor, eu te teria. - Disse tão baixo que o vento quase foi mais alto que a sua voz, mas eu escutei e guardei essas palavras com vontade. pareceu rir e balançou a cabeça. - Você é tão inocente. Eu queria poder te fazer entender.
- Tente. - Disse rapidamente antes que saísse dali. Ele balançou a cabeça negativamente, olhando para baixo.
- Não posso mais fazer o que quero com você. Agora você não é mais um passatempo, é um trabalho e não é só meu, sabe disso. - Um nó começou a se formar na minha garganta. Parecia que eu estava tentando engolir a mesma bolha de ar de uns minutos atrás entalada na minha traqueia. Meus olhos estavam marejados e eu tentava prender minhas lágrimas ao máximo.
- Eu não quero ser de outra pessoa. - Sem sucesso algum de forçar a voz, esta soou trêmula. Era idiota, era estúpido, mas se fosse pra ser de alguém, eu sabia que eu queria ser dele. Eu devia confessar pra mim mesma que, independente do que fizesse, eu ainda sentiria algo por ele. Tudo o que eu sentia parecia, há um tempo, que havia sumido ou que estava bem guardado. Agora estava estampado em mim, para mim. Como uma espécie de um belo tapa na cara e um "você se enganou". Agora eu sabia que continuava sentindo o que não queria por .
- Acha que eu quero que seja? - disse grosso, quase levantando o tom de voz. Mas pareceu se conter.
- Eu sinto muito medo, mas não de você. Não de quem você é. - Reconheço que foi muita ousadia da minha parte dizer aquilo, como se eu soubesse quem era. Mas eu sabia que havia me apaixonado por ele e que isso ficava mais em evidência quando ele não era sombrio. Quando deixava sua máscara de lado, quando parecia ser ele mesmo e mais ninguém. Assim que disse essas últimas palavras, virou-se rapidamente pra mim, totalmente inexpressivo. Riu baixinho, irônico, balançando a cabeça e virou para frente novamente, caminhando para a casa. Quando ele já estava significativamente longe, eu abaixei a cabeça, escondendo o rosto entre os joelhos e me entreguei ao choro.
Uma vontade de sair correndo cresceu dentro de mim. Eu precisava me isolar e, mesmo longe de muitas pessoas, eu não estava longe de quem eu realmente precisava. Eu tinha noção que confiar em era algo no qual devia-se pensar muito antes de fazê-lo. Não que ele minta ou que seja falso. Mas é grosso e tem as palavras na ponta da língua para cuspi-las como fogo quando você ousar entendê-lo, "entrar" nele. Eu estava cansada de ser atingida, mas ainda assim, eu queria mais dele pra mim. Queria mais de mim nele, porque - convenhamos - não foi só eu quem gostou da sensação que tivemos juntos. Senti minhas lágrimas descerem quentes pelas minhas bochechas e serem congeladas pelo ar frio. Eu tentava manter os lábios selados para não soluçar alto. Mesmo sem ninguém para escutar, eu não queria emitir som. Aquele era um dos poucos momentos em que eu finalmente me sentia invisível e, deixando algum som escapar, estava me "expondo".
Eu só queria ter coragem. Se eu tivesse coragem, meu medo seria inútil e pequenino, sem força alguma de me atingir quando fizesse questão disso. Eu o enfrentaria cara a cara e iria descobrir a causa dos seus gestos, atos, comportamento. Iria tentar entrar em sua cabeça e decodificá-lo. Mas eu não tinha coragem... não tinha essa arma e nunca conseguiria fazer nada disso, apenas sofrer em silêncio e me desmanchar por ele. Sorrir por ele. Chorar por ele. Queria poder deixá-lo me tocar da maneira que quisesse, mas, só de pensar em ir para a cama com outra vez, eu me arrepiava e meu estômago parecia se contrair, como se desse nós em si mesmo. Eu sabia que só tendo aquela relação eu poderia vê-lo, poderia tê-lo. Mesmo que por vinte minutos, mas eu não me importava. Não antes. Talvez se eu não tivesse sido tão idiota, se tivesse sido mais firme e convicta, não faria o que quisesse comigo. Mas eu não conseguia ser forte, apenas nas palavras e isso não era o suficiente para afastá-lo. Parte disso era culpa minha e da minha demência, eu sabia disso. E o que mais machucava não era o fato de ele ter me sequestrado ou me batido... o que mais machucava era a decepção de ter me apaixonado por . Quando nos apaixonamos por alguém, todos os seus atos são perfeitos. Mas os de só me degradavam por dentro e, consequentemente, por fora. Eu estava cansada disso e não queria continuar com um sofrimento tolo. Era uma loucura eu ainda não ter imaginado uma forma de escapar... veja bem, imaginado, não tentado. Foi aí que eu percebi: eu não queria ir embora. Não o suficiente para fazer o que fosse preciso para me libertar. Eu estava presa a sem ele nem ao menos fazer muito esforço.
Ainda com a cabeça abaixada, molhando minhas coxas com minhas lágrimas, eu juntei meus dedos e soquei minhas pernas. Sem pensar, claro, porque quando atingi meus machucados, senti uma dor maior do que deveria. Me xinguei... o que não estava perto de ser raro desde quando coloquei os olhos em .

Martin's P.O.V. on:

Sabe quando você se sente injustiçado? Que algo foi tirado de você? Eu me sentia exatamente assim. Mesmo nunca sendo minha, só de imaginar a possibilidade dela ter fugido com me fazia querer quebrar tudo. Havia várias teorias, várias histórias de como ou por que ela sumiu. As mais prováveis pela polícia são: ou ela fugiu com , ou ele fez algo com ela. Os dois sumiram e a chance de algo ter acontecido com ele também foi descartada há um tempo. Eu sabia que não iria embora do nada, sem me avisar. A conhecia... não conhecia? Se precisasse dizer algo, me contaria, se estivesse em perigo e soubesse disso, com certeza recorreria à mim. Mas não devia saber antes... era tão frágil ao meu ver que a preocupação só piorava a cada dia que passava. Suas roupas haviam sumido, assim como seus sapatos, cds, livros, tudo. Seu quarto estava limpo, como se ela nem tivesse existido ali. Aquilo me corroía, acabava comigo.
Meu desempenho na banda não tem sido o mesmo, minhas fotos não tem tido significado nem um tom de profissionalismo. Assim como , tudo ao meu redor parecia sumir, escapar das minhas mãos. Courtney não parecia nem um pouco afetada, mas isso não me surpreendeu em nenhum momento. A possibilidade de ela ser psicopata já passou pela minha cabeça, mas como a conheço desde quando nasceu, tirei essa ideia louca da mente. Eu precisava de algo que anestesiasse minha aguda dor por um tempo e como tenho tocado em pubs ultimamente, não foi difícil encontrar o tal remédio. Não, não era sexo. Não só sexo. Olhei pelas cortinas vermelhas e velhas que separavam o pequeno palco das pessoas que apareceram pra assistir o show, que agora já estavam de costas para o palco. Eu estava suado e cansado, tocar nunca foi tão exaustivo como tem sido ultimamente. Passei meus olhos para os meninos, que fingiam não me ver conversar com Noel. Noel era um cara alto, magro que estava sempre em todos os pubs, não me pergunte como. Há pouco tempo soube que ia atrás de bandas que já estavam conhecidas e a um passo de fazer sucesso. Ele me deu a seringa que parecia conter apenas água dentro. No mesmo momento que a vi, sorri, agradecendo por poder ter uns minutos de paz, longe dos meus pensamentos. Um tempo com a "alma fora do corpo". Noel apertou a borracha que estava envolvida um pouco acima do cotovelo e eu injetei ali mesmo, fechando os olhos. Outro sorriso me acompanhou, mas dessa vez era completamente involuntário. Aos poucos, o rosto de foi desaparecendo, como uma fumaça soprada pelo vento.

Martin's P.O.V. off.

Abri a boca, segurando os cabelos e senti minhas barriga se contrair. Em segundos, um vomito acompanhado de gemidos saiu pela minha boca. Uma careta involuntária estava estampada em meu rosto, enquanto meu peito e joelhos doíam de tanto que eu me jogava na frente do vaso, sendo suspensa pelos joelhos e batendo meu peito conta a privada. Era a quarta vez que eu vomitava naquele dia... sabia que não estava bem, mas não queria chegar para os meninos dizendo que estava doente. Acho que não seria necessário, uma vez que precisou vir ao meu quarto deixar a comida, já que não desci para comer com eles. Ele percebeu que eu nem toquei na refeição e, quando tentei, foi com mal gosto. Me levantei, sentindo meu sangue voltar a circular nos joelhos e apertei a descarga. Fechei a tampa do vaso, indo até a pia e escovei meus dentes, me olhando no espelho. Minha pele estava sem cor alguma, abaixo dos meus olhos tinham semi-circulos roxos e inchados. Meus lábios não estavam avermelhados, como de costume, e minhas pálpebras pareciam caídas, como se quisessem fechar-se sozinhas. Revirei os olhos, enxugando o rosto e saí do banheiro. Logo em seguida, eu saí do quarto, descendo as escadas.
Como sempre acontecia, eu e não nos falamos desde a nossa última conversa. Agora já havia passado mais umas semanas que eu estava aqui. Assim que cheguei ao primeiro andar, vi os quarto sentados na mesa de jantar, sérios, conversando baixinho. Continuei parada ali, em silêncio, querendo ouvir o que diziam. Todos sussurravam uns com os outros, quase brigando pela vez de falar, mas permanecia calado, com as mãos entrelaçadas levadas à boca. Apenas seus olhos e parte do seu nariz apareciam. Estava completamente parado, movendo só os olhos pelos outros. Por instinto ou não sei o quê, eu me preocupei. Meus olhos percorriam , , e parecendo pedir ajuda. Estavam tão distraídos em sua discussão que nem perceberam minha presença ali. Foquei minha visão em , desesperada por pelo menos um olhar seu. E ele o fez, me olhou por uns segundos. Revirou os olhos, parecendo suspirar e se levantou, fazendo um barulho alto e proposital ao arrastar sua cadeira para trás. Os outros três se calaram no mesmo momento, finalmente me vendo.
- Vem. - pegou na minha mão. Engoli a seco, confusa. Encarei nossas mãos dadas por uns segundos... estava tão mal humorada, tão enjoada que isso me fazia ligar o foda-se para tudo. subiu as escadas, me levando consigo. Eu apenas o segui, em silêncio. Percebi, então, que algo não estava nada bom.

Capítulo dez

e eu chegamos ao seu quarto. Ele trancou a porta, lentamente se dirigindo a sua cama. Sentou-se na mesma e ficou encarando o nada, como se estivesse sozinho. Eu não sabia o que fazer, como me mover, me senti deslocada ali, de pé. Cruzei os braços, pigarreando e esperei que fizesse ou dissesse algo. Ele me olhou, ajeitando a sua postura. Me senti nervosa, sem saber o que aconteceria. Era sempre assim, ele era imprevisível, e isso me matava.
- Eu não sei como dizer isso... - começou a falar. Agora meu nervosismo cresceu junto com curiosidade. Chegava a doer. Tentei parecer calma, colocando uma mecha de cabelo para trás, e o olhei, como quem pede para continuar. Ele passava uma mão na outra, como quando você risca sua palma com caneta e quer apagar... a única diferença é que não havia nenhuma sujeira em nenhuma palma. Senti minhas mãos soarem, esperando que me contasse o que fosse para contar. Tinha quase certeza que tinha a ver com o que estavam sussurrando no andar debaixo. Só que tinha um problema... ao mesmo tempo que eu queria saber o que era, eu tinha medo, não queria que fosse ruim e, aparentemente, não era bom. O silêncio dançou pelo quarto junto com a brisa que vinha do lado de fora, me incomodando por dentro. Então, depois de não sei quanto tempo - que para mim durou uma eternidade -, se levantou da cama. Como vestia apenas uma regata preta, foi até seu armário e pegou uma blusa de flanela xadrez vermelha. Sem nem ao menos fechar as portas do armário, caminhou até a janela e sentou na mesma. Me olhou, me chamando com a cabeça e, com pressa, pulou. Eu estava parada, apenas observando enquanto ele fazia aquilo tudo. Pisquei algumas vezes e andei devagar até a janela, olhando para baixo. estava lá, me esperando descer. - Já fez isso uma vez... - Disse com um tom paternal. Sorri sem graça, me sentando e pulei. Era bem mais fácil à noite... Na verdade, pular do segundo andar não era nada doloroso e difícil, uma vez que a terra fofa e molhada escondida pela grama - que possua um verde vivo - amortecia bem a queda. Tudo que se podia sentir era um impacto nos joelhos e as pontas dos dedos das mãos levarem um pequeno choque. Nada que durasse mais de dois segundos. Assim que cheguei ao chão, quase de joelhos, eu me levantei, batendo uma mão na outra. Depois que o fiz, se aproximou, fazendo questão de pegar minha mão novamente. Não me senti incomodada, o deixei me tocar sem me preocupar e me senti sorrir por dentro. Deus, como era bom tocar sua pele! Fechei meus dedos nos seus - que seguravam minha mão com firmeza - e o acompanhei enquanto andava. Acredito que não tínhamos um rumo certo, mas eu queria que desembuchasse logo e se ele se sentisse mais confortável para fazer isso fora da casa, então que fôssemos para fora.
Imaginei a cena que esta devia ser: o céu completamente azul, com o sol radiando como se aproveitasse o dia sem uma nuvem o escondendo. O som das folhas dançando com o vento e nossos cabelos voando para várias direções em diferentes períodos de tempo. Era bom tê-lo ao meu lado assim, dessa maneira. Fazia-me até esquecer de quem realmente éramos... ali eu era apenas uma garota, e ele, um cara qualquer. Era como se nada tivesse acontecido, como se nos conhecêssemos há anos e aquilo fosse normal de acontecer. Porém... sempre chega o momento de realidade. Sempre tem a hora da ficha cair e você se dar conta de que coisas assim não acontecem com você. De que você está sonhando ou que aquilo não duraria. E eu tinha a convicção que não seria sempre assim. Eu e não fomos feitos para andar de mãos dadas, sem preocupações. O universo ou Deus ou seja o que for não aceitava isso, não era para ser dessa forma. Então a boa sensação de uma garota e um cara ordinários andando sem motivo com vidas felizes ia embora e o desapontamento de eu nunca ter essa vida com quem eu queria me veio à tona. Nem percebi que havia parado de andar e estava com a cabeça abaixada, encarando meus pés um pouco sujos de terra, uma vez que eu usava chinelos. me olhava, mas não parecia confuso. Parecia até que sabia o que eu pensava, como se pensasse o mesmo. Lentamente, levantei minha cabeça, encontrando seu rosto com os cabelos voando para o lado. Os meus também voavam, mas eu não os arrumei, não perdi meu tempo com isso... eles atrapalhavam um pouco minha visão, mas não fazia diferença: continuava com aquela plena beleza e tranquilidade. Senti que meus olhos começariam a encher de lágrimas, então tentei ao máximo evitar que isso acontecesse. Em vão, claro.
soltou minha mão e tirou a blusa xadrez, estendendo-a no chão. Sentou ao lado dela e pegou minha mão novamente, me fazendo sentar acima da blusa, ao seu lado. Mordi meu lábio inferior com força e respirei fundo, tentando me controlar. O tempo foi passando, assim como o vento e nós não proferimos uma palavra sequer. Ficávamos pensativos e reflexivos, como se o outro não estivesse ao lado. Depois de um bom tempo encarando o começo de floresta que aparecia no horizonte - a uns bons quilômetros de onde estávamos - eu desci meus olhos para nossas mãos entrelaçadas, apoiadas na coxa de . Mais uma vez, tive a maldita sensação de que aquilo não se encaixava, me senti errada, deslocada no tempo e nos acontecimentos.
- Por que me trouxe aqui? - Perguntei, sem tirar os olhos das nossas mãos. não me respondeu, não moveu um músculo sequer. Apenas piscava os olhos, mas não os desviava por nada no mundo. Odiava quando fazia isso... eu sabia que havia me escutado, mas ele parecia não querer me responder. - ?! - Aumentei o tom de voz, apertando sua mão. Ele bufou, revirando os olhos. Tirou os cabelos do rosto, bagunçando-os para o lado.
- Não pode simplesmente aproveitar? - Perguntou apontando para o campo, como quem se sente ofendido. Balancei a cabeça negativamente, sabendo que ele não me via.
- Se você soubesse o quanto eu quero te entender... - Murmurei, tirando minha mão da sua. A enxuguei na minha calça e cruzei meus braços, me protegendo do vento. O céu podia estar limpo, mas ainda era frio ali. suspirou e me olhou, colocando uma mecha do meu cabelo - que voava para o meu rosto - atrás da orelha. Desceu a mão pelo meu pescoço, mas não a deixou ali por muito tempo, uma vez que eu mexi o ombro pedindo para que a tirasse.
- Você acha que tudo isso é fácil para mim, não é? - Ouvi sua voz dizer como se aquilo lhe exigisse muito esforço. Dei de ombros, sabendo que estava ciente da resposta. - É mais difícil para mim do que para você. - "Ah, é?", pensei para mim mesma.
- Me poupe de ficar lhe ouvindo dizer essas coisas. - Bufei como uma criança. Até o vento me estressou, não aguentava mais meus cabelos batendo no meu rosto. Com força, os juntei e dei um nó firme neles.
- Como? - pareceu não entender, não esperar que eu dissesse aquilo. O olhei, descruzando meus braços e juntei minhas mãos para dentro das minhas pernas que estavam dobradas em chinês. Minha pele se arrepiou com um vento mais gelado que o normal e precisei trincar os dentes por um tempo antes de falar.
- Se for para se lamentar de coisas que não pode me contar, de coisas que não pode me explicar, então cala a boca. - Até eu me surpreendi agora com meu tom de voz. Não eram muitas as vezes que eu fazia isso. me olhou por uns segundos, sem dizer nada. Logo os cantos de sua boca se puxaram, numa forma fofa de sorriso.
- Você sabe o que acontece depois que fica grossa assim, certo? - Droga, ele sempre tinha respostas na ponta da língua. No mesmo instante, eu corei, sentindo como se meu rosto estivesse pegando fogo. Apenas revirei os olhos, virando minha cabeça para frente e fingi que não me importava com ele. Quando eu achei que fôssemos ficar calados por mais um longo período de tempo, mostrou que eu estava enganada... como sempre.
- Não trouxe você aqui para falar de mim. Nem de você. - Ele disse com seu jeito sedutor natural. - E sabe o que é mais engraçado quando tenta me entender? - Eu sabia que ele queria tirar algumas palavras de mim, queria que eu respondesse e entrasse no seu joguinho de palavras que ele sempre vencia. Mas eu resolvi ficar calada e apenas dei de ombros. aproximou o rosto do meu ouvido, o que não era nada difícil, uma vez que não estávamos longe o suficiente - como deveríamos estar - um do outro. - O mais engraçado é que você se revela cada vez mais. - Fechei os olhos, sentindo seu hálito e respiração alcançarem minha orelha e meu pescoço. Vagarosamente, ele passou a mão no meu joelho, seguindo pela minha coxa. Eu achei que não teria coragem nem ousadia suficiente para ultrapassar, mas ele teve, claro, por que não teria? Chegou à minha virilha e a enfiou entre minhas pernas. Quando fui procurar forças que quisessem o contrário daquilo para tirá-lo dali, apenas pegou minha mão novamente a puxou para si, colocando de novo na sua coxa. Mas é mais que óbvio, que ele a colocou mais acima que antes. Nada que fosse obsceno, mas eu entendia perfeitamente o que queria com aquilo. Era só o que ele queria de mim, certo?
- Você é repugnante, sabia? - Falei, sorrindo com desgosto. riu alto, dando de ombros. Apertou mais minha mão, pegando-a com vontade dessa vez.
- Você gosta, . Não faço nada que não goste... - Ele disse, mas logo parou de rir ou sorrir. Ficou sério e pensativo, isso tudo durante dois segundos. - Bom... nunca mais farei. - Pode soar estranho, eu até poderia omitir o que estou prestes a dizer. Mas como ninguém esteve no meu lugar - até onde eu sei - eu vou dizer mesmo assim: assim que ele disse isso, eu me senti confortável, livre e com vontade de fazer o que fazíamos de melhor, sem irritar nenhum de nós. Estava com vontade de ter aquele momento no qual nós podíamos nos ver sem disfarces. Não sabia se era efeito do tempo ou dos caprichos de , mas a vontade nasceu em mim. Ou... ou poderia ser apenas por eu ser humana. Falha. Imperfeita. Fraca. Medrosa... Era como se o que tivesse acabado de falar mostrasse que ele nunca me machucaria, como não fosse sua intenção. Pelo menos não fisicamente. Ah, não podia acreditar, tinha caído de novo. havia dito três palavras e eu as estava interpretando como se ele realmente fosse seguir aquilo. Eu ia me dar muito mal se continuasse esperando coisas muito boas dele.
- Por que você é assim, ? - Ele me olhou, dando de ombros e juntando as sobrancelhas, com os olhos cerrados, como quem pergunta "assim como"? - Uma hora quer que eu o odeie, mas agora me traz aqui... o que pode fazer amanhã? Não sei o que mais virá de você. Isso... isso me assusta. Não custa nada me explicar tudo isso, ser claro...
- Em primeiro lugar, custa. Custa simplesmente tudo. Em segundo... - Fez uma longa pausa, passando as mãos pelos cabelos. Me olhou, parecendo que ia levantar, mas logo desistiu. Segurou meu rosto, forçando-me a olha-lo. Não desviei, deixei-me ir com ele. Aos poucos aproximou nossos rostos, finalmente tocando nossos lábios. Não avançamos, ficamos estáticos, com os lábios grudados. Meus olhos permaneciam abertos e arregalados, mas os dele estavam fechados com força. Meu coração pareceu ter levado um choque e meu corpo todo queimava. Eu não fazia ideia do que deveria fazer, então apenas esperei que se afastasse e voltasse a ser o babaca de sempre. Ele tirou suas mãos do meu rosto e, finalmente, seus lábios dos meus. Abriu os olhos, me olhando, mas eu abaixei a cabeça, sem saber o que sentia. Não sabia se era raiva, medo, alegria... apenas tentava acalmar meu corpo, esfriar um pouco, uma vez que parecia estar pegando fogo. - Em segundo... - continuou - nem eu sei como me comportar perto de você.
- Pode começar tentando não ser um babaca. - Sugeri sem nenhum tom de brincadeira. pareceu rir, deitando-se na grama. Senti sua mão em minhas costas, acariciando-a com o indicador. Fechei os olhos, abraçando meus joelhos e coloquei a cabeça sobre eles. Meus pelos arrepiavam-se cada vez que subia demais e mais ainda quando descia demais com seu dedo.
- Poderia ter começado não te conhecendo. - Ele começou a mexer nas pontas dos meus cabelos, fazendo-me sentir um frio sobrenatural na nuca. Meus ombros levantaram um pouco involuntariamente e eu sorri sem querer. Fiquei repetindo para mim mesma que poderia ser a pior pessoa do mundo fazendo aquilo e, cientificamente, eu sentiria o mesmo efeito.
- Por que não o fez? - Perguntei, imaginando como seria mais fácil se realmente não tivéssemos nos conhecido. Se ele fosse apenas o motorista e eu nem soubesse como era sua voz, seu olhar, seu jeito... Assim que fiz essa pergunta, parou de mover sua mão e seus dedos por um tempo, mas logo voltou a fazê-lo.
- Bom... você mexeu com quem estava quieto, . - Respondeu com uma voz propositalmente provocadora. Não falamos mais nada. Ficamos ali por um bom tempo. Acho que até cochilei por uns minutos, tentando afastar o enjoo que não passara. Eu odiava ficar assim, mas não era raro eu ter esses enjoos doidos que vêm do nada. Desde quando me conheço por gente, eu tenho esses momentos assim ou de dor de cabeça e desmaios repentinos. Mas não era nada sério, nada que cama, frio, cobertor não resolvessem. Foi só pensar nisso e foi automático: tive vontade de deitar na minha cama, com o edredom macio me acolhendo, mas com o ar condicionado ligado, uma vez que na minha casa não é frio como aqui, lógico. Como eu não podia saciar este desejo, tive que me dar conta que só teria o "meu" quarto dessa nova casa para fazer isso. Mas não era problema algum para mim, eu estaria de olhos fechados e descansando da mesma forma.
- ... - Chamei baixinho, levantando a cabeça. Olhei para trás e o vi de olhos fechados, com um dos braços dobrado debaixo da cabeça. Tive vontade de me jogar para trás e ficar deitada ao seu lado, mas tirei essa ideia maluca da cabeça. Enquanto o observava, eu chegava a algumas conclusões... uma delas era que era o única cara no mundo que ficava bem de regata.
Um barulho me chamou atenção, fazendo-me olhar para frente. estava de pé com e , nos encarando. Pareciam cansados, como se estivessem procurando por nós. Olhei para trás e só então me dei conta que a casa quase sumia do nosso campo de visão... não havia reparado que andamos tanto. se sentou rapidamente, com os cabelos arrepiados e encarou apenas , que também o olhava. Ambos estavam mais sérios que o restante, como se conversassem por telepatia ou algo do gênero.
- ... - me chamou. Só havia falado com ele umas duas vezes e nunca fora nada demais. Não me senti confortável quando ele estendeu sua mão para eu me levantar e me chamou para voltar para casa com ele. Mas como o olhar de me assustava, eu resolvi ir. Até porque eu queria tomar um banho e me deitar o quanto antes. Assim que me levantei e me pediu para acompanha-lo, eu olhei para mais uma vez, desejando que nada de ruim estivesse para acontecer. - , vem. - chamou mais uma vez, falando calmo e doce como em todas as vezes que já o ouvi falar. Me virei e fui com ele, sem dizer nada.
- Estamos encrencados? - Perguntei, me abraçando novamente. Aquilo estava virando uma mania. riu daquela maneira que as pessoas riem quando sabem de algo que você não faz ideia. E bom, ele sabia mesmo muito mais que eu. deu de ombros, com as mãos nos bolsos.
- Depende. - Falou com calma. Deus, como esses homens conseguiam ser assim tão calmos e controlados? Mordi o lábio inferior, apertando meu abraço. - tem andado preocupado e estressado demais ultimamente. - Ele deu de ombros, acelerando o passo. Automaticamente eu fiz o mesmo, pensativa.
- O que o fez ficar assim? - Tentei parecer o menos curiosa e enxerida possível, mas era impossível com uma pergunta dessas com alguém que não tinha nada a ver comigo. Fiquei com medo que minhas perguntas fossem capazes de fazer mudar o tom de voz e me chutar para longe, mas não custava nada tentar. suspirou, como quem pensa se responde ou não.
- Ele acha que pode não dar certo. - "O que não pode dar certo?", tive vontade de perguntar em voz alta, mas me contive. Até porque, já havíamos chegados à casa. Entramos e sentou-se no sofá, ligando a televisão. Eu não continuei ao seu lado, subi as escadas desejando um banho e um ótimo tempo de sono.

Abri os armários do banheiro do quarto que eu estava enquanto esperava a água esquentar. Era impressionante como eles haviam planejado toda a minha estadia aqui: tinha de cera fria até creme para as unhas. Claro que eu não era estúpida e porca de não usar nada daquilo. Agradecia mentalmente pela inteligência e atenção deles por colocarem todos aqueles produtos ali sempre quando me depilava, fazia minha sobrancelha, passava algum creme... quando o espelho começou a embaçar, eu tirei a toalha do corpo e entrei no box, sentindo todo meu corpo ser recebido pelo quentinho do vapor ali dentro. Fechei os olhos, como sempre fazia, ao passar as mãos pelos cabelos, fazendo com que ficassem mais molhados. Demorei mais que o normal no banho de hoje. Lá fora já havia escurecido quando saí do banheiro, com as pernas e todas outras partes sem um pelo sequer. Ainda não havia me acostumado a me depilar toda sozinha, mas eu não viraria uma macaca só porque estava longe de algum profissional.
Fui até o armário, pegando um conjunto de moletons pretos e os vesti, penteando meus cabelos logo em seguida. Apaguei todas as luzes e deixei a janela aberta, andando devagar até a cama. Assim que deitei na mesma, senti meu corpo amolecer mais que o normal. Meus olhos pesaram de uma maneira sobrenatural e eu nem pude pensar, já estava sonhando.

Martin estava de pé, no fim de uma escadaria. Não existia mais nada ali além da escada e Martin - tinha eu, claro, no andar de baixo. Eu comecei a correr, subindo, tropeçando pelos meus próprios pés, tentando alcança-lo. Quanto mais eu subia, mais espantada sua expressão ficava, como se eu fosse um monstro horrível querendo pega-lo. Quando consegui chegar ao último degrau, joguei meus braços nele, abraçando-o. Mas meus braços pegaram o nada, o vazio, o ar. Virei-me para trás e ele corria de mim, descendo as escadas como se estivesse flutuando. Voltei a correr e tentei gritar seu nome. Mas minha voz era apenas um eco, como se apenas eu a escutasse. Eu gritava desesperadamente, com meus pulmões e olhos doendo, mas Martin não parava de correr de mim. A escada agora era interminável e eu não conseguia chegar ao fim dela, como Martin fez. Ele sumiu do meu campo de visão e eu fiquei dando tontas e ofegantes voltas, procurando-o com agonia. Continuei correndo como se estivesse dentro da água, mas eu não saía do lugar. Olhei para baixo, vendo meus pés descalços sangrando de tanto que eu os arrastava no chão com vontade. As palmas das minhas mãos também sangravam, uma vez que eu as apertava com força, fazendo minhas unhas as machucarem. Meus lábios também deixavam sangue cair, mas era pela raiva que me fazia mordê-los com toda força que meu corpo permitia. Dei um último grito, que também parecia que eu o fazia dentro da água, e senti a escada tremer.

- Martin! - Gritei, dando um pulo na cama. Senti dois braços me envolverem enquanto eu dava altos soluços. Senti gosto de sangue na minha boca e meus lábios e mãos latejavam de dor.
- Sh... - Ouvi dizer. - Foi só um sonho. - Reconheci a voz de que me abraçava com força, como se pudesse me tirar daquele abismo de medo. O abracei sem pensar, encostando meu rosto em seu peito enquanto ainda chorava alto. A sensação dentro de mim era horrível, era como se eu não pudesse salvar Martin, como se nunca mais o veria.
- Martin... - Eu continuava dizendo, como se ainda estivesse no sonho. Senti me tirar dos seus braços, enxugando meu rosto. Ele dizia coisas que nem entraram na minha cabeça, para me confortar. Embora eu não as tenha absorvido, sua voz me acalmou. saiu da cama, indo até o banheiro. Trouxe uma toalha molhada e abriu minhas duas mãos, passando a toalha por elas. Os cortes nas mãos não eram tão feios como no sonho, mas ardiam. Ele levantou sua visão para meu rosto, encarando minha boca. Hesitou por uns segundos, mas logo dobrou a toalha ao lado contrário e começou a passar pelos meus lábios e queixo.
- Você é a pessoa mais violenta enquanto dorme... - dizia com calma, passando bem devagar a toalha na minha boca. - Já te disseram isso?
- Isso não costuma acontecer. - Respondi muito tempo depois de ele falar.
- Eu pensei em te acordar. - Disse, enxugando o suor frio no meu rosto. - Mas fiquei com medo de levar uma unhada. - sorriu, me fazendo sorrir também. Ele jogou a toalha para trás, colocando meus cabelos no lugar com calma. Só então me dei conta que já estava amanhecendo no lado de fora. Passei as mãos no rosto, olhando para .
- O que estava fazendo aqui, huh? - Perguntei, me cobrindo e deitando novamente. deitou-se ao meu lado e deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.
- Te vendo dormir. - Levantei uma sobrancelha, encarando o teto. estava virado para mim, com sua respiração batendo na minha face. Conforme o dia ia clareando, cinzento - claro - nós ficávamos calados, apenas vendo o tempo passar. - Sente falta dele? - A voz de esmagou o silêncio, fazendo com que eu o olhasse. Não consegui fazê-lo por muito tempo, logo abaixei minha visão, tentando fixar meu olhar em outro ponto no quarto. Outro ponto que não me acusasse ou criticasse quando eu o encarava.
- Muita. - Respondi com toda sinceridade possível.
- O ama? - Era uma pergunta simples que exigia uma resposta simples: ou sim ou não. Mas eu travei, não sabia o que responder. Se fosse outra pessoa perguntando, Giovanna, por exemplo, eu poderia responder sem nem pensar duas vezes. Mas era . Não que minha resposta fosse afeta-lo, porque eu sabia que não ia. Só que eu não conseguia saber ao certo... basicamente, perto de , eu não sabia a resposta.
- Acho que sim. - Respondi depois de um bom tempo pensando, calada, apenas respirando e olhando ao nosso redor. - Eu sempre gosto de estar ao lado de Martin... e bom, ele nunca fez nada que me fizesse mudar de ideia a respeito dele. Então acho que nada me impede de ama-lo, certo?
- Sei lá. - deu de ombros, concentrado no meu braço, descobrindo-o aos poucos com o indicador que o acariciava me fazendo arrepiar cada vez mais a cada instante.
- Você nunca amou ninguém... - Não foi bem uma pergunta, fazendo com que não respondesse de imediato. Ficamos os dois pensando no que eu acabei de falar. Depois de uns longos minutos apenas pensando e ouvindo nada mais do que nossas respirações, finalmente soltou a voz.
- Você sabe o que penso? - Ele perguntou e eu balancei a cabeça negativamente. - Sabe tudo que gosto? Ou não gosto? - Mais uma vez, balancei a cabeça, em negação. - Sabe tudo o que já ocorreu comigo? - Novamente... balancei a cabeça. - Então, . Se nem eu sei o que já senti direito, você não pode julgar o que nunca senti. - Não foi um fora. Por alguma razão, o tom de voz de era perfeitamente carinhoso e compreensível. - Eu nem sei o que é amor, acho que ninguém sabe. Digo, não tem sintomas nem nada, como sabem que aconteceu? Acho tão arriscado quando dizem "eu te amo" uns para os outros, sem saber explicar realmente o que é o amor... Creio que eu não seria capaz disso.
- De quê? De verdadeiramente amar? - Perguntei, já arrumando em minha cabeça milhões de argumentos para contradizê-lo.
- Não. Eu não seria capaz de prometer isso a alguém. De me entregar, eu acho. - Só então comecei a perceber que estávamos conversando sobre coisas muito profundas, coisas melosas que não costumamos falar com ninguém. Pelo menos nós dois parecíamos nunca ter falado sobre coisas de amor e seja lá o que for com ninguém. Era como se finalmente estivesse me deixando entrar.
- Por medo? Ou por orgulho? - Achei minha pergunta divertida. era uma das pessoas mais orgulhosas que eu conhecia. Logo, nunca admitiria o medo que tinha; se fosse a segunda resposta, orgulho, seria medo também, mas omitido.
- Por medo. - Merda. Era sempre assim... imprevisível e/ou elementar demais que faz com que eu não espere que seja realmente isso. riu da própria resposta ao ver minha expressão de surpresa. - Chega disso, você devia conversar sobre essas coisas com , não comigo. Ele é o mais gay daqui. - Falou divertido, tocando o indicador por um segundo no meu nariz quando se faz ao brincar com uma criancinha indefesa. Fechei os olhos, sorrindo por pouco tempo e tornei a abri-los.
- O que houve com você e hoje?
- Você está cheia de perguntas.
- Sempre estive... desde quando te vi.
- Eu também...
- Como por exemplo?
- Como por que não posso ter uma vida normal? - disse como se a pergunta fosse para mim. Dei de ombros, balançando a cabeça.
- A escolha é sua... - Assim que eu disse essas palavras, senti a vontade de vomitar me assaltar novamente. Fechei os olhos, respirando fundo, sentindo minha boca parecer mais inchada e encher de saliva.
- Só até um certo ponto. Fiz tudo errado... - Ele percebeu meu desconforto. Se afastou, alargando o "abraço" e me analisou. Tentei disfarçar, escondendo o rosto com as duas mãos enquanto respirava forte.
- O que fez de errado? - A cada segundo eu queria saber mais e mais, sem nem me importar muito com meu enjoo. Mas não me respondeu, ignorou minha pergunta.
- Acho melhor te deixar descansar.
- Já dormi demais.
- Mas eu não. - Ele se levantou com cuidado, deslizando suas mãos com cautela por mim ao me soltar na cama fofinha e desarrumada. - Pode me chamar se tiver outro pesadelo. - disse baixinho, deixando o quarto. Me levantei e, com uma força que eu não conhecia, corri para o vaso e vomitei "água".

- Obrigado. - falou, com um pequeno sorriso nos lábios. Depois de um tempo, quando o dia ficou mais claro, eu desci e me sentei no sofá da sala. Ao me ver ali, pediu ajuda para cortar as frutas essa manhã. O cheiro que se encontrava na cozinha era delicioso. Uma mistura de morango, laranja, abacaxi e outras frutas. O maracujá cortado ao meio, em cima da janela, dava um cheiro maior no meio daqueles odores, me dando vontade de lambê-lo todo. O problema seria o sabor.
Me encostei no balcão da cozinha, ao lado de , e peguei um facão igual ao dele. Começamos a cortar os morangos, calados. Mas aquilo pareceu deixar desconfortável.
- O que está achando daqui? - Ele perguntou, conseguindo cortar os morangos em quadrados quase perfeitos em pouco tempo, enquanto eu cortava quase tudo irregularmente demorando séculos em um só morango. Enfiei um morango na boca. Estava tão maduro que o senti desmanchar pela minha língua sem nenhuma força exercida por mim. Seu suco encheu minha boca e senti que tinham morangos circulando com meu sangue naquele momento. Fechei os olhos por uns segundos, sentindo aquela maravilhosa e rápida sensação de um segundo. Aquela nostalgia... uma lembrança de quando eu era criança, uma lembrança que - até então - nunca me visitara, a não ser no passado, no presente daquele passado. Pude sentir novamente a mesma sensação, o cheiro que sentia naquela lembrança. Mas a rápida nostalgia se foi, fazendo-me voltar a minha realidade.
- Hummm... é mesmo para responder? - Perguntei, engolindo o morango amassado e suculento que eu havia mantido em minha boca por um tempo. Rimos rapidamente, baixinho.
- Não acho que esteja odiando. Ainda nem te maltratamos... - falou com uma voz sedutora e perigosa. Parei de cortar os morangos no mesmo momento, estática. Arregalei os olhos e senti que estava ofegante. Ele me olhou e não demorou para que sua gargalhada enchesse a cozinha de vida, junto com as frutas e suas cores e odores. Revirei os olhos, sentindo-me mais leve e não pude deixar de rir também.
- Isso foi desnecessário, sabia? - Fiz uma careta, terminando todos os meus morangos. Olhei os meus, picadinhos, bonitinhos. Mas logo olhei os do e vi que meus morangos pareceram ter sofrido o pior dos massacres. Dei de ombros mentalmente e peguei a manga que possuía um amarelo vivo. Comecei a cortá-la, assim como , em quadradinhos novamente. Tive mais facilidade com a manga. Ficamos ali, ouvindo o barulho de nossas facas batendo no descanso de madeira, comendo vez ou outra um pedaço das frutas. - Mas... bom, o que pretendem fazer comigo? Digo. Não vamos ficar nisso para sempre, vamos? - Tentei ao máximo fingir desinteresse, mas - ao ver rir com meu medo - cheguei à conclusão de que falhei.
- Er... agora você me pegou. - Ele disse sério. Era a primeira vez, naquela manhã, que ficara sério. Levantei uma sobrancelha, olhando-o. me olhou também, vendo a dúvida em meu rosto e voltamos a olhar nossas frutas e a cortá-las. - Seria o planejado, o que sempre fazemos. - Lembrei de Juliet naquela hora. Esteve pelo mesmo que eu. E estava morta... mordi o lábio inferior, sentindo um nó querer se formar em minha garganta. Mas não fora o suficiente para me fazer querer chorar. - Mas só se deixar. - riu, como se fosse alguma piada interna entre eles. Senti minhas pernas moles. Não sabia se ria, se ficava feliz, ou se chorava e ficava triste. Então apenas mantive a mesma sensação, como se fosse algo voluntário.
- O que ele não deixa? - Minha voz estava banhada de curiosidade, assim como o suculento morango em minha boca minutos atrás. sorriu de lado, aproximando-se de mim, mas ainda virado para o balcão, discretamente.
- Tocarmos em um fio de cabelo seu. - Aquilo era divertido demais para . Prendi um sorriso, assentindo como quem diz "ah, sim". - Apenas , mas ele é médico, não vale. - Riu novamente. Nunca que eu imaginaria que era tão risonho e brincalhão. Senti um vento gelado em meu estômago, as famosas "borboletas" fazendo-me cócegas com suas asas apressados.
- ?
- Sim?
- Você já esteve no lugar de ? Ou de ? - Ele entendeu o que eu queria saber. Eu queria saber se também precisou trazer alguém. Como aconteceu com Juliet... e comigo.
- Você ainda não comeu nada. Vai tomar café, deixe que eu termino. - ignorou minha pergunta, pegando a faca da minha mão.
- Argh, ... - Gemi infantilmente, emburrada. Ele apontou a ponta da faca para o meu rosto, sorrindo de lado.
- Anda, não gosto que mexam na minha cozinha. - até tinha razão. parecia o mais gay de todos eles. Fui até a mesa que estava posta, enchendo um copo de suco. Só então lembrei que ainda não havia me dito o que diria ontem. Eu estava convicta de que não iria embora daqui sem saber tudo que queria.

Capítulo Onze

Após terminar meu café da manhã, fui até a sala. estava lá, lendo um livro no sofá. Sentei no mesmo, de frente para a televisão e encarei o controle remoto. Não ditaram nenhuma regra quanto a televisão, não me proibiram de vê-la, nem me ameaçaram se eu tentasse assistir, então por que não? Peguei o controle lentamente, garantindo que havia percebido e finalmente liguei a televisão, diminuindo o volume. Fazia tempo que eu não a assistia, então fiquei passando por todos os canais, sem prestar muita atenção. Minha mente voava quando eu via algum programa que não assistia há muito tempo como House, Law and Order: SVU, Cold Case, The Big Bang Theory, Lost entre outros programas que eu acompanhava sempre que podia. Havia passado pelos canais de desenho, música, filmes e estava chegando nos canais de noticiário. Porém antes que chegasse, pegou o controle da minha mão com pressa, me fazendo olhá-lo confusa. Ele sorriu, parecendo sem graça e por sua pele clara no rosto pude vê-lo quase corar.
- Está me deixando tonto. - Disse. Colocou em um canal de filmes, pousando o controle ao seu lado, no braço do sofá e voltou a ler. Dei de ombros, virando minha atenção para a Tv. Estava passando "Atonement". Eu já tinha visto aquele filmes uma vez. Mas ainda assistindo-o novamente, eu desejava que Briony não dissesse nada, ficasse calada e não fizesse com que Robbie e Cecilia se separassem por um segundo que fosse. Desejava que o casal ficasse junto, feliz, para todo o sempre. Desejava que Briony encontrasse seu amor e que um dia pudesse convidar Robbie e Cecilia para almoçar em sua casa num belo dia de verão na Inglaterra. Mas nada disso aconteceu. Eu sabia que não ia acontecer, sabia que não podia mudar nada que havia acontecido, mas ainda assim uma esperança tola dentro de mim gritava para os personagens o que deviam fazer.
Eles não me ouviam.
Seguiam suas vidas, seguiam sua história, seguiam o que o autor queria que seguissem. Como ele pôde ser tão mal? Como o autor pôde escrever algo tão lindo e cruel ao mesmo tempo? Como um filme cheio de tristeza pode ser tão maravilhoso e como pode fazer com que quem assista - pelo menos no meu caso - deseja ter uma história de amor tão linda assim em meio a conflitos familiares, mentiras, assédios, guerra... como? Sem que eu percebesse, eu estava chorando, exatamente na cena que mostra o que realmente aconteceu ao Robbie e à Cecilia. Não sabia por que estava tão sensível, mas aquela cena conseguiu me fazer chorar, sendo que na primeira vez que assisti, apenas senti uma pontada no meu peito, nada mais. Agora parecia que eu havia passado por tudo aquilo, que estava distante de quem amava, que eu havia perdido tudo o que tinha, me sentia no lugar de cada personagem, chorando o que cada um deve der passado. Acho que o que mais doeu foi quando me coloquei no lugar de Briony. Estava tudo nas mãos dela. Talvez se não fosse por ela, tudo estaria bem. E bom, ela sofria todo os dias as dores da culpa que devia consumí-la. Briony estava arrependida e não podia mudar o passado, apenas em seu livro. Sua dor devia ser avassaladora.
me olhava discretamente, com o livro perto do rosto. Meus soluços eram baixos e solitários, enquanto minhas lágrimas molhavam minhas bochechas incontrolavelmente. Subitamente, pensei em , arrependido, no momento em que pedia perdão pelo que fez. Não sei se foi pela minha sensibilidade momentânea, mas eu pude - não me pergunte como - sentir como seria se estivesse em seu lugar, mesmo nunca estando. Só então percebi que eu podia perdoá-lo, que eu devia perdoá-lo. Não havia motivo aparente - pelo menos agora - para não fazê-lo. Finalmente enxuguei o rosto, me levantando do sofá em um pulo. Ignorei os olhares curiosos e confusos de e e subi as escadas correndo. De repente, senti meu corpo queimando, principalmente em algumas regiões específicas. Precisava ver logo.
Como sempre aconteceu e sempre aconteceria, só me aquietei quando fiquei de frente para a porta dele. Fiquei encarando-a, ofegante, com meu coração quase saindo pela boca, podendo ser ouvido por mim tamanha era a força e rapidez que batia. Como de costume, entrei em conflito comigo mesma: parte imaginava um filme em minha em minha cabeça, me colocando no lugar da principal e colocando no lugar de mocinho. Esta era a cena na qual a principal e o mocinho trocariam juras de amor, ofegantes, com um em cima do outro, em movimentos que os deixariam exaustos e sem ar. Outra parte me mandava colocar os pés no chão, me mandava ir para o quarto e planejar uma fuga foda, mas eu não podia fugir. Eles me encontrariam na metade do caminho - o caminho seria outro problema - e fariam mal a alguém. Ou a mim, ou para ambos. Eu não queria isso.
Todos meus pensamentos foram interrompidos pelo som das minhas batidas teimosas na porta. Não houve resposta. Talvez não estava em seu quarto, talvez queria ficar sozinho, talvez sabia que era eu e não queria abrir. Mais uma vez, meus pensamentos foram interrompidos, mas agora pelo frio que senti nas mãos ao tocarem na maçaneta e ao girarem-na. Eu tomei cuidado para não fazer barulho e nada mais estava em minha em mente, como se até esta pudesse estragar a imagem que eu espiava, enfiada na pequena brecha aberta por mim, como se me protegesse de tiros atrás da porta, mas ainda assim quisesse ver cada bala que me atacava: estava deitado em sua cama, com seu quarto escuro por causa das janelas fechadas cobertas pelas cortinas. Com a ajuda da luz que vinha do corredor e dos meus bastonetes, pude ver seu peito subir e descer, com calma, enquanto seus olhos permaneciam fechados. A cabeça estava apoiada no travesseiro e os cabelos cobriam parte do rosto. Só então vi como cresceram desde quando chegamos. dormia de um jeito tão lindo e sereno que tive uma vontade incontrolável de abraçá-lo e cheirar seus cabelos. Sorri sozinha, fechando a porta por trás de mim. Na ponta dos pés, segui até a cama, agachando-me na ponta da mesma, encarando - de perto - seu rosto. Estava tão calmo que tive a sensação de poder ler seus pensamentos, tive a sensação de que ele me via e que sonhava comigo. Pobre tola, eu reconheço. Não sei quanto tempo fiquei ali, encarando-o, respirando sua respiração, sentindo seu cheiro, encarando seus olhos fechados. O tempo parecia inexistente dentro daquele quarto, sem ser rápido, nem lento demais. Sem me conter, toquei seus cabelos com delicadeza, escolhendo apenas uma mecha e passando meus dedos por ela. Os olhos de começaram a se mover e, devagar, ele os abriu. Piscou algumas vezes, esfregando-os e, ao me ver, ficou parado. Seu rosto era calmo e seus lábios pareciam um pouco puxados para cima nos cantos.
- Hey. - Murmurou, bocejando. Apoiou a cabeça na mão, parecendo finalmente acordar. Tive dificuldade para ver seu rosto direito, devido a escuridão. Fiquei procurando em seus traços mal iluminados alguma semelhança ao maníaco que estava no hotel. Não encontrei.
- ... - Falei, baixinho. Meu tom de voz era o suficientemente alto para ele devido o curto espaço entre nossos rostos. continuou me olhando, esperando que finalmente falasse. Hesitei, mas o fiz. - Você se arrepende?
- Sim. - Não demorou para responder, o fez assim que terminei minha pergunta. Sabia do que eu falava e, após responder, abaixou o olhar. - Por que quer saber? - Perguntou, mexendo no lençol que forrava a cama abaixo de si. Dei de ombros, suspirando.
- Porque quero saber. - Respondi simplesmente. Era o suficiente, eu poderia dizer as palavras, mas por que não saíam da minha boca? Sabe quando tem um terrível pesadelo no qual precisa chamar uma pessoa e grita, mas ela não te ouve? Eu precisava gritar que o perdoava, mas minha voz não saía. Meus lábios não se moviam e meus olhos, bem, estes estavam completamente hipnotizados, fixos em . Fixos em sua figura que era mais uma silhueta do que sua imagem perfeitamente nítida. Pisquei algumas vezes e, quando me olhou e eu encarei seu rosto intensa, inigualável e puramente airoso. Era tão convidativo que eu sentia que prendia minhas mãos, para que não fossem até sua pele. Meu corpo desejava calorosamente um contato com ele, mas... era permitido? Eu me permitia isso? Por que não? Só sexo tinha problema?
Para mim não seria só sexo. Mas qual seria, então, a diferença de fazer e querer? Querendo, eu estaria disposta a fazer, uma vez que o ser humano visa ceder às suas necessidades, é quase involuntário. Eu me imaginava embolando-me com entre aqueles lençóis... agora, qual seria a diferença entre fazer e imaginar? Tudo bem, fazer seria real, mas o que é o real? O que vemos? Tocamos? Então amor não é real? Eu acredito que é, então acredito que imaginar está quase aos pés de fazer, uma vez que imaginando eu estaria disposta a fazer, assim como querendo. Eu queria, eu me imaginava fazendo e, se nada atrapalhasse, eu faria.
Atordoada com meu momento filosófico, resolvi bloquear aqueles pensamentos, acalmar a mente e o corpo. Porém um pensamento permaneceu: aquele em que eu e rolávamos sem roupa alguma em sua cama, com os lençóis nos seguindo. Mordi o lábio inferior. Finalmente, minha boca parecia livre. Eu havia me libertado, me permitira dizer:
- Eu te perd...
- Não seja estúpida. - me interrompeu, com uma expressão que me acertou no peito. Era uma súplica baixa, grave, tocante.
- Convivência. - Dei de ombros, segurando um sorriso, ao contrário de que deixou que suas pontas dos lábios fossem puxadas para cima novamente. Mas não era um sorriso alegre, nem feliz. Parecia triste, como se ele tivesse tido esforço para mostrá-lo.
- Não diga isso, . - Mais uma vez suplicou, agora mais baixinho. Pude ver, novamente, dor em seus olhos. Era estranho isso... era estranho reconhecer algo em alguém, principalmente em . Talvez eu estivesse errada, talvez não fosse tristeza, mas era tão aparente que senti que queria que eu percebesse. E eu percebi.
- Dizendo ou não, , não muda nada. Não é você quem decide, sou eu. Não me pergunte por quê, nem como, porque não sei. Mas eu perdoo. - Falei tudo muito rápido, finalmente respirando quando terminei a última frase. virou-se, encarando o teto. Suas mãos desceram até a barriga, subindo e descendo com a mesma conforme ele inspirava e expirava.
- Não pode pode me perdoar se nem eu me perdoo. Como você consegue ser tão inocente? - perguntou, com a voz transbordando curiosidade. Parecia que tinha sede pela resposta, como se a quisesse como uma espécie de receita. Talvez para ser inocente também. Porém eu não me considerava inocente. Não agora que pensamentos perversos permaneciam em minha mente, fazendo meu corpo sentir cada vez mais calor e desejo. Como ainda não havia reparado? Eu precisava vê-lo de verdade, precisava sentir que era dele e que nada desgrudaria-nos.
- Não é você quem dita o que posso ou não. Eu posso e o fiz. Quanto a minha inocência... podemos discuti-la depois? - Levantei uma sobrancelha. , que havia virado sua cabeça para mim, finalmente pareceu perceber meu verdadeiro motivo de estar ali. Ele sorriu de lado, balançando a cabeça em forma de convite. Sorri, subindo na cama devagar, sentindo as partes intactas e geladas do colchão forrado abaixo de nós. puxou-me até si pela minha cintura, fazendo com que da cintura para cima eu ficasse por cima dele. Uma de suas mãos adentrou minha nuca, explorando-a enquanto a outra acompanhava seu braço que ainda me envolvia, como se eu fosse evaporar a qualquer segundo tamanha era a força que usava para me manter ali, entrando em minha blusa de moletom e tocando minha pele nas costas. Sua boca investia em meu pescoço e ombros, tentando libertá-los da blusa. Minhas mãos estavam espalmadas em seu peito, sem ter muita opção devido a nossa posição no momento.
passou suas duas mãos por debaixo da minha blusa, fazendo-a subir pela minha barriga e deslizar pelos meus braços esticados, livrando-se desta, jogando-a para fora da cama. Não fez caprichos, foi logo para o sutiã e, sem nenhuma demora, abriu-o dando a este o mesmo destino que a blusa de moletom. Minhas mãos foram até a barra da sua blusa, tirando-a com a ajuda de . Quando a tirei, deitei-me novamente por cima dele, sentindo meus seios e barriga tocando seu abdome e peito nus. Foi nesse segundo, e apenas nesse, que eu me senti em casa tamanha era a sensação que aquela simples toque proporcionou. Porém a sensação se foi, assim como nossa paciência: a boca de foi de encontro com a minha, enquanto minhas mãos desciam até a barra da sua samba-canção. Nossas línguas finalmente tiverem os primeiros contatos depois de um longo tempo, o que me fez ficar quieta por uns segundos, me esquecendo que havia muito o que fazer ainda. Era como se apenas o beijo bastasse. Mas não bastava mesmo, uma vez que as mãos de desceram até as minhas - que estavam intactas no término de sua barriga - fazendo-as tocar cautelosamente no seu 'desejo' por mim que parecia maior - bem maior - que o meu por ele. Resolvi tirá-la dele, mas quando tentei, se sentou, afastando-me, ofegante. Ficou uns segundos sentados, quase completamente de costas para mim, recuperando o fôlego. Não tive muito tempo nem cabeça para pensar no motivo que o fez parar, apenas esperei que se explicasse, enquanto também recuperava o fôlego.
Depois de uns minutos naquilo, quando eu comecei a ficar com frio, me puxou para seu colo, fazendo-me sentar no mesmo.
- Eu não consigo. - Disse, com uma expressão de desapontamento, como quem pede desculpas. Ele abaixou o rosto, colocando a cabeça em meu ombro, fazendo com que seu nariz, lábio e respiração brincassem com meu pescoço, fazendo-me arrepiar. Sentada em , pude sentir que seu desejo se fora, mas não me importava. Também havia perdido a vontade e não era problema nenhum ter só aquele tipo de contato, de intimidade, o que era o suficiente para mim. Ter suas mãos espalmadas em minhas costas, me sustentando, seu rosto em meu pescoço, minhas pernas envolvendo sua cintura... eu não trocaria esse momento por nenhum outro no mundo. - Não disse que era mais difícil para mim? - perguntou, com a voz abafada. Afaguei sua cabeça, sorrindo, mesmo sabendo que ele não olhava.
- Eu sei que é. - Falei a verdade. Realmente, isso devia ser mais difícil para , principalmente agora que havia se arrependido, entendido o que fez. Se eu tivesse feito algo assim com Martin, independentemente do motivo, e tivesse me arrependido... nossa, eu iria querer morrer, com certeza. - Não tem problema. - Sussurrei, sabendo que conseguia ouvir. O tempo foi passando e eu não cansava de sentir seu cheiro, seu toque. Não me importava o tempo que passava, eu só queria ficar ali, com .
- Eu amo o seu cheiro. - Ouvi sua voz soar abafada em minha pele. Fechei os olhos, sorrindo novamente. Não queria que aquilo acabasse, não queria que essa parte de fosse guardada nunca mais, não queria ter dúvidas sobre o que aconteceria depois disso. - ? - Ele perguntou, me surpreendendo, uma vez que achei que tinha cochilado.
- Hum?
- Vá colocar uma roupa e depois desça. - pediu, com jeito. Fiz que sim com a cabeça e saí de seu colo. Catei minhas roupas, colocando-as contra o peito e dei uma corridinha até meu quarto.

Fiz o que ele pediu, tirando minha calça de moletom e vestindo um vestido branco que ia até o meio das minhas pernas. Calcei um par de chinelos de dedo, finalmente reparando que eles não esqueceram de trazer uma peça de roupa minha, nada. Comecei a me perguntar por que aquele era o "cativeiro", por que agiam normalmente, como se fôssemos cinco amigos saindo de férias e não faziam nada de ruim. Ali não era ruim, era apenas longe... pensei em Martin no mesmo momento. Longe de , eu tinha certeza de que queria estar ao lado de Mart, abraçando-o. Espantei meus pensamentos, saindo do quarto. Desci as escadas, encontrando já arrumado no andar debaixo. estava de pé ao seu lado e permanecia sentado ao lado de no sofá. apareceu na escada atrás de mim, fazendo com que eu terminasse de descê-la. Ficamos os cinco olhando-nos por uns segundos e só então levantou a voz.
- Temos que conversar. - Disse. Eu sabia daquilo, já escutara aquilo. Assenti, para que continuasse. apontou para o sofá, para que eu me sentasse no mesmo. Me dei conta que a televisão estava ligada, no canal de noticiário, muda. Reconheci o rosto de Martin e nada mais era importante, enxergava apenas sua expressão de sono. Por que estava daquele jeito? Só então reconheci o que estava ao redor dele, uma sala de hospital, abaixo dele estava a famosa cama branca que acomodou milhares de doentes antes dele. Me perguntei, atordoada, por que ele estava ali. Só então li o que grandes letras gritavam em vermelho, abaixo da imagem de Martin "Overdose". Inspirei, prendendo a respiração involuntariamente, e tampei a boca. Minha garganta parecia ter fechado e uma vontade de chorar começou a me perturbar. Não ligava se tinham cinco pares de olhos em cima de mim, me entreguei às lágrimas como se estas pudessem resolver alguma coisa.
Aquilo me assolava por completo. Senti que era minha culpa... pelo menos eu poderia ter impedido. Se eu estivesse lá, nunca o deixaria fazer uma besteira dessas, não deixaria a fama subir à sua cabeça trazendo as típicas consequências. Se eu não tivesse deixado as coisas acontecerem entre mim e , se não tivesse sido tão egoísta, talvez eu estivesse lá para impedí-lo. O verbo impedir no pretérito imperfeito do subjuntivo ecoava em minha mente com várias outras palavras, me culpando de não estar com Martin, de não ter estado com ele. Virei para , ao meu lado, procurando forças para falar em meio a tantos soluços. Mas não consegui, apenas encontrei força para correr e foi o que fiz. Corri para fora da casa, tirando os chinelos dos meus pés - não me pergunte por quê. Quando meus pés tocaram na grama e na terra, não me senti melhor, mas aquilo me deu um conforto a mais. Não parei de correr, claro, mas enquanto corria, tive mais uma lembrança. Mais um daqueles momentos de nostalgia. que duram dois (ou menos) segundos: lembrei de quando tinha cinco anos. Estava na varanda, descalça, pisando nas flores da minha mãe, porém sem maldade nenhuma. Eu havia voltado do primeiro dia de aula na nova escola e não havia gostado, era uma estranha para o resto dos alunos (as crianças sempre são cruéis nessa idade) que riam de mim, falando coisas estúpidas, que eu nunca havia feito, relacionadas a cocô e meleca, o que para eles era o máximo. Assim que cheguei em casa, corri para o jardim da minha mãe, pisando nas rosas - mais especificamente na terra abaixo delas, querendo me transformar em uma flor. As flores eram tão lindas, não poderiam ser maldosas, não iriam inventar coisas bobas sobre mim e rir, iriam, com toda sua graça, me receber e cantariam comigo, como no Alice no País das Maravilhas. Minha mãe apareceu no jardim com um pedaço de bolo, cantando Strawberry Fields Forever dos Beatles. Só então viu o estrago que eu havia feito, com terra até na bochecha. Sorriu, me abraçando e me dando um pedaço do bolo de chocolate que apenas ela conseguia fazer. Nesse momento a varanda cheirava a bolo que acabara de sair do forno, junto com o perfume de minha mãe. Da cozinha, vinha o cheiro da calda de chocolate que também acabara de ficar pronta. Só minha mãe conseguia deixar aquele sabor magnífico no bolo. Acho que até ela ficou surpresa com sua reação. Demoramos semanas para deixar as flores como antes.
A sensação se fora, junto com o cheiro, o que eu sentia naquele momento e com a voz da minha mãe nos meus ouvidos. Tudo se fora e eu voltei à realidade, ainda correndo, pensando em Martin e em como eu era estúpida de tê-lo deixado, de não ter me agarrado a apenas ele. Eu sabia que estava atrás de mim, mas ele não corria. Me seguia com as mãos nos bolsos, andando calmamente. Eles entendiam que eu precisava de um tempo meu, mas talvez sabiam que eu estava disposta a fazer o que fosse preciso para ver Martin, logo nenhum deles poderia me deixar sozinha. Depois de um tempo, minhas costelas começaram a doer, o ar começou a fazer falta e eu corria pesada e lentamente, já perdendo o ritmo e o jeito. Tropecei nos próprios pés, meio que de propósito, com preguiça de me sentar normalmente no chão, optando em cair logo no mesmo. Mas pegou meus braços, não me deixando tocar na grama abaixo de mim. Não havia percebido que estava tão próximo. Ele me deixou sentar no chão com jeito, sentando-se perto de mim. Não ao lado, nem atrás, apenas perto. Enxuguei meu rosto, sem fôlego até para chorar. Mágua e raiva faziam parte de mim agora. Eu queria matar o otário que tivesse oferecido algo para Mart, queria dar uma surra em Martin por ter usado, queria me socar por ter me envolvido com o motorista e ter parado aqui, longe de Mart, sem poder cuidar dele, queria dar uns chutes em , mas só para descontar a raiva, não havia nenhum motivo aparente no momento. Mas, acima de tudo, eu queria abraçar Martin. Ver com meus próprios olhos que ele estava bem. Virei para , que estava à minha diagonal, encarando o horizonte. Respirei fundo.
- Eu quero vê-lo. - Pedi, sabendo o peso das minhas palavras, sabendo o que significavam, sabendo do risco de não ser levada a sério. não disse nada, parecia até que não havia me escutado. Mas me olhou, assentindo. Fiquei sem reação, sem ter o que dizer. Então ele me deixaria ver Martin? Me deixaria sair daqui?
- Posso tentar te levar... e te trazer. - Enfatizou a última oração. - Vai pro seu quarto agora e não saia até eu aparecer, está bem? - Concordei com a cabeça. Nós dois nos levantamos e, ainda incrédula pela atitude de , voltei para a casa. Ele ficou, de pé, sozinho. Olhei para trás umas duas vezes enquanto ia até a casa, mas permanecia na mesma posição. Parecia pensativo. Me perguntei se ele pensava em Juliet... cheguei à conclusão de que era um tanto óbvio que sim.
Como disse, eu subi e fiquei no quarto, com a porta e janelas fechadas. Estava ansiosa, sentada na cama, imaginando como seria quando visse Martin de novo, o que diria, o que faria... era como se eu fosse uma adolescente prestes a conhecer meu maior ídolo. Não conseguia ficar parada... minhas unhas eram inexistente nesse momento e eu esperava que aparecesse, com a fuga perfeita planejada para nossa ida e volta.
Se antes eu estava triste e com raiva pelo estado de Mart, agora eu estava feliz e ansiosa por estar tão perto da chance de vê-lo novamente, de abraçá-lo, de poder dizer algumas palavras e depois ir embora um tanto satisfeita. Os minutos pareciam eternos e, só para piorar, não aparecia.

Eu não saía do quarto há três dias. Conforme as horas passavam, eu ia perdendo a esperança, ia perdendo a crença em . Comecei a me perguntar se ele realmente disse que poderia me levar. Talvez eu estava louca, pode ter sido um sonho ou estava mentindo. Porém era difícil imaginar essa última hipótese... não parecia ter motivos para dizer que me levaria até Martin só por dizer, ignorando a minha vontade. Nesses três dias que eu estava isolada no quarto, quem trazia e buscava a comida. Ele não era rápido, muito pelo contrário. Sempre que entrava no quarto, ficava observando-o, como se fizesse notas mentais que eu não fazia ideia do que se tratavam. Imaginei que tenha contado para os outros que eu queria ver Martin, que aceitaria uma rápida saída, mesmo que fosse contra a única regra que me deram: não fugir, então os quatro podem ter resolvido colocar câmeras no quarto enquanto eu dormia, ou pensavam nas estratégias que eu poderia usar para fugir e quem observava tudo.
Eu não conseguiria fugir sozinha, não tinha coragem nenhuma para isso. Só a ideia me dava arrepios, então eu me imaginava no meio desse campo, perdida, sem ter onde ficar. Aqui, querendo ou não, eu tinha cama, comida e banho.
Ouvi passos do lado de fora do quarto. Como já era noite, provavelmente seria com o jantar.
Sim, era . Ele entrou, mas não tinha nada nas mãos. Fechou a porta, enfiando as mãos nos bolsos, andando até a janela, abrindo-a. Eu estava sentada na cama, vendo-o encarar a janela. A cada dia me confundia mais.
- Okay. - Ele disse, fechando a janela novamente. Virou-se para mim, com um sorriso vitorioso nos lábios - Amanhã pode te levar. - Eu não sabia se saía correndo, se ficava nervosa, se gritava ou se simplesmente ficava feliz. Me senti tremer da cabeça aos pés, estava mais que nervosa. Minha cara de surpresa entregaria qualquer mentira que eu tentasse contar para que não atrapalhasse-nos, para que ele não contasse aos outros, se é que já não sabiam. Ele pareceu perceber minha reação, a confusão em meus olhos e se acalmou, uma vez que estava eufórico. Sorriu, passando as mãos no rosto, como quem tenta se conter e me olhou. - me pediu. - Disse e assim que essas palavras saíram pela sua boca, um alívio percorreu meu corpo. Eu não entendia por que aceitara ajudar, mas qualquer ajuda era bem vinda. foi inteligente... uma vez que eu não saía mais do quarto e apenas entrava, logo só me via e, sabendo disso tudo, seria mais fácil disfarçar minha presença. - Amanhã à noite, mais ou menos uma hora e meia depois de e irem para a cama, eu vou passar aqui, para te buscar. Então você vai apenas sair pela janela e eu te acompanho até a estrada, onde vai estar esperando no carro. Só não enrole, . não é tão difícil de se deixar ser manipulado, preciso que esteja aqui depois de amanhã, sem falta. - ficou severo por uns minutos, ao completar a frase. Apenas assenti, ainda sem reação alguma. A única coisa que eu sentia era uma alegria e ansiedade loucas, que pareciam aumentar a cada respiração minha.
A fixa não caía. Provavelmente já era madrugada e eu ainda estava deitada, apenas rolando pela cama. Nenhuma posição era confortável o suficiente, o sono era inexistente e meus olhos pareciam estar programados para não fecharem por mais de um segundo. Quase coloquei band-aid nas pontas de cada dedo das mãos para não acabar com todas as minhas unhas. Em momentos assim, ficar na cama não era nada confortável. Logo me levantei da mesma, vestindo minha camisola. Abri a porta devagar, conseguindo não provocar nenhum ruído, caminhando com calma pelo corredor escuro. A única iluminação ali era a luz que fugia ao redor da porta do quarto de , que estava entreaberta. Por incrível que pareça, aquilo não foi nada convidativo. Quando me preparei para continuar meu caminho e descer, vi uma sombra humana no chão do corredor, que nascia da porta entreaberta. Fiquei estática, sem saber o que fazer. colocou a cabeça para fora da porta e eu desejei com todas as minhas forças para que ele não tivesse feito aquilo.
Ao ver seu rosto, eu amoleci. Parecia ter acordado há pouco tempo, com os cabelos mais bagunçados e os olhos cerrados. Minha respiração pareceu pesar, como se eu estivesse respirando mercúrio e eu tive vontade de correr até ele. Tive vontade de pular em seu colo e sentir suas mãos deslizando pela minha pele, vontade de sentir seu gosto e poder arranhar suas costas.
- ? - O ouvi quase sussurrar. Abri a boca para responder, mas nada saía, eu não sabia o que dizer. Esse momento mostrava perfeitamente o que nós éramos: iluminado pela luz que saía de seu quarto, com sua beleza inigualável me encarando. E eu no escuro, mal iluminada, desejando que estivesse escuro suficiente para ele não ter me visto. Era exatamente assim que eu sempre nos via, metaforicamente, claro. Desisti de tentar responder, andando de volta até meu quarto. Quando abri a porta, a expressão de pareceu enrugar, perder a vida, principalmente quando seu olhar fixou-se no chão abaixo de nós. Meu coração levou uma fisgada bem merecida, então eu entrei no quarto, indo até a cama. Finalmente pude fechar os olhos, sentindo o desânimo e cansaço irem se abrigando cada vez mais dentro de mim, até que eu finalmente adormeci.

Demorei para acordar naquela manhã. Talvez porque a iluminação não foi o suficiente para atrapalhar meu sono, uma vez que eu mantinha a janela fechada sempre. Ainda sem abrir os olhos, eu os esfreguei, subindo com minhas mãos até a cabeça, onde enfiei meus dedos pelos fios de cabelo. Bocejei, começando a abrir os olhos e encarei o quarto onde me encontrava. Só então todos os acontecimentos dessas últimas semanas que passei aqui me vieram à cabeça, fazendo com que eu me lembrasse de que eu estava longe de casa. Encarei o teto, com um nó na garganta. Casa... essa palavra era tão gostosa. Quando ela passava pela minha mente, eu podia perfeitamente imaginar meus pais, minha família, meus cachorros, tudo que eu amava. Tudo estava longe, mas esperando por mim. Eu sabia que eles esperavam. Só então parei para pensar e ver como sentiam... imaginei o que poderiam pensar sobre toda essa situação, sobre como eu estava e tudo mais. Sem querer pensar em nada que me entristecesse, eu afastei meus pensamentos, me levantando da cama. Segui até o banheiro, fazendo a gloriosa higiene de todas as manhãs, totalmente indiferente.
A fixa finalmente caiu: era hoje. Hoje à noite eu estaria perto de Mart e isso me acendeu por dentro, com um fogo de ansiedade me cumprimentando logo de manhã. Me encarei no espelho, meus olhos receberam um brilho a mais. Só então sorri, vendo meu sorriso acompanhado de uma pequena felicidade.

Capítulo doze
[N/a: coloque 21 Guns - Green Day & American Idiot Cast para carregar (:]

Na madrugada, me encarei no espelho, quase não reconhecendo o reflexo que me encarava de volta. Me olhei cautelosamente, vendo cada detalhe: meus novos cabelos, ruivos e picotados em chanel, escondiam meus cabelos naturais. Parte das pontas vinham quase até minha boca, que estava pintada com um vermelho claro. Meus olhos possuíam uma sombra bem brilhante, me fazendo sentir a Kesha ou um ser do gênero. A sombra, que era o sonho de consumo de qualquer criança, era acompanhada pelo lápis de olho preto forte. O blush foi a única coisa que concordou quando pedi para que fosse discreto, uma vez que eu tentava ao máximo não parecer uma palhaça. Desci meu olhar pelo meu pescoço e peito nus, chegando à bata bem colada ao corpo, cinza - também com uns brilhos discretos, só vistos contra a luz - que ia seguindo cada curva até minhas coxas, onde era um pouquinho mais larga. Depois da blusa, vinha a calça de couro preta - que me fazia sentir uma das amigas de Blair em Gossip Girl - seguindo cada centímetro das minhas pernas, até chegar próxima aos calcanhares. Então cheguei com o olhar até meu par de scarpin vermelho, que deixava pouca parte do meu pé à mostra.
Virei-me, encarando . Ele sorria de lado, ainda animado, me esperando na janela com uma jaqueta de couro na mão. Me perguntei se ele queria que eu dançasse em algum clipe da Britney Spears e desejei com todas as forças para que não fosse o caso. Segui até ele, que me esperou pular a janela primeiro. Senti parte dos saltos afundar na lama, mas agradeci mentalmente quando vi que não havia me sujado muito. , que segurava a lanterna do segundo andar, mirava-a em cima de mim para que eu visse onde estava. Finalmente pulou, ainda segurando a jaqueta, me entregando-a, então eu a vesti.
apontou a lanterna para o horizonte, encarando-o por uns segundos. Então me olhou, acenando com a cabeça para que o seguisse e eu o fiz, com o coração na mão. Ele andava seguro, fazendo eu me perguntar novamente por que os homens conseguem ter tanto controle. Depois de uns minutos andando, tomou a liberdade de assobiar, o que piorou meu estado de preocupação e loucura. A cada ruído que eu escutava, achava que era alguém nos seguindo, nos vigiando. Sempre fazia rir quando segurava seu braço com força ao escutar algum galho quebrando, algo típico nos filmes e algo que devia ser amaldiçoado.
Eu estava quase entrando em pane, quase tendo um ataque e perdendo a capacidade de ter meu coração batendo. Mas todas as minhas preocupações foram deixadas de lado quando meus saltos cantaram no cimento da estrada e eu avistei os faróis do carro. desligou a lanterna, uma vez que seu uso não era muito necessário. Agora não tinha mais volta.
Virei-me para , que já havia parado de andar e lhe lancei um sorriso, sussurrando um "obrigada", ainda meio insegura quanto ao barulho, mesmo estando a quilômetros e quilômetros de distância. Ele apenas sorriu de volta, assentindo, então me deu as costas, acendendo novamente a lanterna e se afastando cada vez mais. Fiquei vendo-o ficar cada vez menor, cada vez menos nítido, até que sumiu no meio da escuridão. Mordi o lábio inferior, caminhando até um carro aparentemente caro. Abri a porta do carona, sentando-me no banco, então acelerou assim que o fechar da minha porta provocou um barulho não muito alto. Coloquei o cinto, percebendo a expressão severa de . Olhei para a estrada, então meus olhos seguiram para o painel onde mostrava 120km/h. Mordi o lábio inferior, me encolhendo no banco. Não fazia ideia do por quê de estar dessa maneira.
- Toma. - Disse, me estendendo uma venda preta. Quase gritei quando ele tirou uma das mãos do volante, já que consegui imaginar perfeitamente o carro derrapando e capotando. Peguei a tal venda rapidamente, para que pudesse colocar as duas mãos no volante. Assim que ele o fez, me senti menos preocupada com a velocidade. - Venda os olhos. - Disse, como se fosse óbvio, falando um pouco alto - sem nenhum tom de grosseria - para que eu voltasse à Terra. Parei de pensar em diferentes formas de acidentes que poderiam acontecer e assenti, vendando os olhos.
Me aconcheguei no banco, virando a cabeça para o lado da janela e fechei os olhos, mesmo que não fizesse diferença nenhuma. Meus ouvidos iam absorvendo a música e a voz do locutor que me ajudava a reconhecer as vozes e as maneiras de tocar de cada banda. Só então percebi que havia perdido parte do meu dom de saber qual e de quem era a música assim que começasse a tocar.
Daqui a pouco já estaria amanhecendo e eu não havia dormido muito bem nos últimos dias. Então optei em tentar tirar um cochilo, pelo menos. Mas era algo árduo demais, uma vez que minha mente não parava de ficar processando informações, não parava de me fazer pensar em e em Martin. Quando eu pensava que finalmente veria alguém além de quatro pessoas que eu não conhecia bem, me sentia aliviada. Mas ao pensar no que poderia acontecer se algo desse errado, no que seria capaz de fazer, eu me sentia estremecer. Só agora eu percebi que ainda tinha medo dele, não muito, mas o suficiente para fazer meu estômago revirar e certos flashes de lembranças me assolarem. Porém de uns tempos para cá eu aprendi a controlar melhor meus pensamentos, então eu apenas fechava os olhos com força e pensava em qualquer outra coisa para que e até mesmo Martin saíssem da minha cabeça e parassem de me atordoar.

Senti que meus olhos começaram a abrir e que comecei a me situar, logo notei que havia dormido. Poucos raios de luz penetravam na venda preta, fazendo com que eu soubesse que havia amanhecido. Sem perceber, eu estava procurando um ângulo na venda que conseguisse me fazer enxergar alguma coisa, mas logo senti a mão de puxar a venda para cima, libertando meus olhos. Estes receberam a luz do sol que estava à nossa frente na estrada, como se estivéssemos indo em direção a ele. O asfalto recebia um tom alaranjado sobre seu cinza, como se tivesse sido mergulhado em bronze. Tirei completamente a venda da minha cabeça, deixando-a no banco de trás, com meus olhos semicerrados. Um frio que eu sempre sentia ao acordar veio com maior intensidade agora, fazendo-me arrepiar, uma vez que o ar condicionado estava ligado. Me abracei automaticamente, chegando à conclusão que isso havia virado uma mania gostosa.
, que ainda dirigia a mais ou menos 120km/h, ajeitou o retrovisor, encarando o carro atrás de nós. Quando achei que essa velocidade era o limite do carro, ele aumentou para 150km/h, o que fez meu coração disparar. Não que a diferença tenha sido tão grande, mas para mim aquilo era um pedido oficial de morte. seguiu a estrada numa curva, nos tirando da direção do sol, enquanto o outro carro continuou reto, passando por nós e afastando-se. Quando finalmente consegui abrir os olhos sem sentir um frio na barriga - mas ainda com as mãos segurando o banco abaixo de mim - pude ver os primeiros prédios antigos de Londres nos receberem. Mordi o lábio inferior e diminuiu a velocidade para 75km/h. Acho que nunca me esquecerei da imagem do começo da cidade com o sol da manhã deixando-a alaranjada. Poucos carros passavam nas ruas, enquanto o comércio ainda começava a abrir. Poucas eram as pessoas que passavam e, quando passava alguém, era provavelmente um estudante atrasado para a aula. Acredito que nunca fiquei tão feliz ao entrar em uma cidade. Me sentia como uma criança entrando no parque da Disney pela primeira vez, com os olhos brilhando.
Em poucos minutos pela cidade, parou em uma cafeteria com estilo francês que parecia ter acabado de abrir. Tirou o cinto, abrindo a porta do carro. Fiquei parada, esperando algum ato vir dele. Então apareceu na minha porta, abrindo-a para que eu saísse. Agradeci baixinho, saindo, finalmente sentindo minhas pernas esticarem. Amava a sensação de finalmente levantar ou a de finalmente sentar. Era um alívio acolhedor e nunca duradouro que tomava conta do seu corpo. Ao entrarmos na cafeteria, um aroma de café nos recebeu, fazendo meu estômago - adormecido até então - dar sinal de vida. Nós dois pedimos apenas café, indo até a mesa nos sentar. Fiquei observando o atendente, que passava nosso pedido para uma garota magra e baixa. Ela, por sua vez, pegou dois copos de papel típicos para café e os encheu. Os dois pareciam tão normais, tão ordinários que senti inveja deles. O atendente bocejava, olhando fixamente para a televisão, que estava situada em um canal de clipes e uma música baixa tomava conta do ambiente. A garota veio até nossa mesa, deixando os dois copos de café. A olhei tão intensamente que ela deve ter achado que eu era homossexual ou algo do gênero.
Ao contrário de , eu não conseguia beber meu café. Apenas olhava ao meu redor, para as pessoas que entravam, sentindo meus olhos querem encher de água. Eu havia sumido e nada havia mudado, não para os ingleses e qualquer outra pessoas de qualquer outra nacionalidade que não me conhecia. Me perguntei se Mart estava indiferente com isso tudo, se seus dias eram normais como o dessas pessoas aqui dentro. Com puro egoísmo em cada neurônio, desejei que não, que estivesse sentindo minha falta. Principalmente quando pensei em minha família, em meus amigos. Queria que todos lembrassem de mim pela manhã. Mas o tempo havia passado, suas vidas continuaram. Já havia perdido a conta dos dias que passei na casa no campo, então me questionei se foi o suficiente para eu ser esquecida.
Uma garotinha loira, de maria chiquinha nos cabelos, me olhava, provavelmente estranhando minhas roupas. Abri um pouco mais meus olhos, tentando engolir a bolha em minha garganta e contendo as lágrimas. A olhava como um pedido de socorro, mas era inútil, o que uma garota de aproximadamente sete anos poderia fazer? O que entenderia? Sua mão me olhou, pousando a mão no ombro da menina, puxando-a para perto. Percebi que estava quase curvada sobre a garotinha, olhando-a quase sem piscar. Optei em parar de reparar nas pessoas e aceitar o fato de não ter como pedir ajuda.
Fiquei encarando meu café, bebendo vez ou outra. Senti vontade de ri ao banheiro, então olhei para , procurando fazer a vontade de chorar passar. Bebi outro gole de café, engolindo-o com força, vendo a expressão séria dele encarar o lado de fora da cafeteria pelo vidro ao nosso lado.
- Quero ir ao banheiro. - Falei baixinho. Ele me olhou, parecendo despertar e fez uma careta, como se não tivesse jeito. Olhou para o lado, onde havia uma placa "toilette" numa das paredes e se levantou. Acenou com a cabeça para que o seguisse, então o fiz. Entrei no banheiro feminino, onde havia três cabines. Apenas uma estava ocupada. entrou logo depois de mim, ficando de frente para a cabine que eu entrei, fechando-a para que eu trancasse. Abaixei a calça de couro com dificuldade, descendo minha calcinha e logo após e me agachei, sem tocar o vazo, tentando ao máximo não deixar meu xixi fazer barulho. Quando terminei, balancei um pouco, passando papel e me vestindo novamente, abrindo a porta. estava encostado na pia, como se fosse permitida a sua entrada ali. Percebi então, ao ver seus olhos baixos, que não estava sério. E sim triste. Lavei as mãos cuidadosamente, sentindo a água gelada. Não era bom ver assim, de alguma forma me deixava mal, mas não o ajudei, nem disse nada. Preferi ficar calada e deixá-lo em paz, já que já estava fazendo muito por mim me trazendo aqui.
- Vamos para o apartamento de Martin agora. - Franzi a testa, enxugando as mãos com as folhas de papel macias. As joguei no lixo, cruzando os braços e esperei que voltasse a falar. Mart sozinho em um apartamento... quando isso iria prestar? - Seu nome é Norah Hampshire e você é da revista Sketch, uma revista fútil de fofocas para adolescentes femininas. No carro tem uma câmera, gravador e caderno com caneta, tente ser convincente, está bem? - Ele falava tudo sem me olhar um segundo sequer, parecendo que poderia morder a língua a qualquer momento, uma vez que falava rapidamente. - Ele está te esperando, a gente não pode se atrasar. - Ouvir a primeira oração fez com que meu coração parecesse levar um soco, acordar, batendo a mil por hora como se estivesse em minha garganta. "Ele está te esperando". Mart estava me esperando... bom, ele esperava Norah, mas de qualquer maneira, me ver em um apartamento sozinha com ele era reconfortante. - Só não tente nenhuma gracinha, . Não vou ter piedade nenhuma quando passar pela entrada do prédio. - Me arrepiei ao ouví-lo falar assim, com a voz mais grossa e autoritária, mas logo sua voz doce voltou. - Vamos.
Mart não morava muito longe dali. Na verdade, foi preciso dirigir cinco minutos - naquele carro absurdamente rápido - para que chegássemos. Olhei da janela, encontrando um prédio bem alto e muito bem construído. Me perguntei se os pais de Mart que pagaram isso ou se sua banda lhe rendeu alguns trocados. Alguns muitos trocados.
Com uma Nikon D5000 no pescoço e um gravador, caneta e caderno em uma bolsa grande, eu deixei o carro, tomando cuidado ao fechar a porta. Mordi o lábio inferior, sentindo que estava prestes a desmaiar. Quando cheguei no hall de entrada, minha visão ficou turva.
- Norah Hampshire. - Foi tudo o que consegui dizer para um homem bem vestido que aparentava ser o porteiro. Ele franziu a testa, como quem se lembra de algo que esquecera há tempos e sorriu, me guiando até o elevador. Deste até a porta de Martin eu segui sozinha, com o coração na mão. Ao ver os números 1702 em prata na sua porta branca, pude sentir gosto de café na boca, percebendo que podia vomitar a qualquer momento. Odiava esses meus enjoos, isso já deve estar bem claro. Fechei a mão em punho por um segundo, levantando lentamente o indicador e toquei a campainha. O som da mesma nunca pareceu ser tão longo, alto e incômodo antes, logo no mesmo momento o imaginei abrindo a porta e me socando por tocar aquela campainha de manhã.
Ouvi um barulho de chave destrancando a porta, logo a maçaneta foi puxada para baixo e a porta finalmente se abriu. Minha respiração parou e eu finalmente pude vê-lo. Senti meus dedos gelados e me segurei para não cair em pranto à sua frente. Martin estava bem magro, sem blusa, vestindo uma calça jeans que devia servir nele antes de emagrecer tanto. A mesma começava no meio de suas coxas por baixo de uma cueca xadrez. Seus pés pálidos estavam descalços e suas unhas estavam um pouco roxas de frio. Subi a visão, indo para seu rosto, encarando seu maxilar que estava mais à mostra devido a perda de peso. Finalmente cheguei em seus cabelos, que não haviam mudado nada. Nem um fio sequer. Mart os deixou da mesma forma, cortando da mesma forma, bagunçando da mesma forma. Um sorriso escapou de mim, então finalmente voltei à realidade. Martin sorriu, tinha os lábios um pouco pálidos e olheiras fundas. Entrei, deixando-o fechar a porta. Encarei a sala que era bem grande: estava um caos.
- Não repare a bagunça. Voltei do hospital há pouco tempo e usaram meu apartamento para umas festas. - Martin disse, chutando uma latinha de cerveja amassada para debaixo do sofá, enquanto andava pelo cômodo. O segui pelo corredor, até que ele abriu uma outra porta branca que nos permitiu passagem para um outro cômodo, um bem mais arrumado, um que provavelmente era seu quarto. Tinha cheiro do seu perfume, o que me fez ter que conter a vontade de chorar e sorrir simultaneamente. Ele se jogou em sua cama, como se Norah Hampshire fosse íntima e virou a cabeça para mim, esperando que eu começasse. Me sentei em uma poltrona azul perto da parede. - Se soubesse que iria tirar fotos, teria me arrumado melhor. - Martin disse, sorrindo cansado. Estava extremamente sexy com esse jeito desleixado, apesar de ser consequência de uma puta de uma overdose. Peguei o caderno dentro da mochila que continha perguntas para eu fazer, então passei os olhos por elas, parando em uma que criou certa curiosidade em mim. Procurei minha voz. Antes que a soltasse por entre meus lábios, tentei mantê-la firme e mais fina:
- Como é se dividir entre namorada e fãs? - Mordi o lábio inferior (outra mania gostosa que me tomou já há um tempo) após fazer a pergunta, olhando-o atentamente para ver se havia reconhecido minha voz forçada. Ao perceber que não havia, relaxei meus músculos. Aquilo estava ficando divertido, principalmente com seu jeito surpreendente sensual. Martin riu, fazendo com que o som de sua risada desse vida ao quarto. Me peguei sorrindo ao ouvir tal melodia, mordendo o lábio novamente para evitar que outro sorriso idiota fugisse de mim.
- Não tenho uma namorada, ela é só um fantasma criada pela mídia, nunca a conheci. - Disse num tom brincalhão. No mesmo momento, tive vontade de rir vitoriosa, mas me contive, fingindo que anotava sua resposta no caderno, enquanto na verdade fazia rabiscos com minhas mãos trêmulas e geladas. Assim que Mart me respondeu, uma pergunta me veio à cabeça. Qualquer fã iria querer saber isso:
- E por que não tem nenhuma namorada, Martin? - Admito que não pensei nas fãs que supostamente leriam a matéria sobre Martin na Sketch e sim na minha curiosidade. Ele parou parou por uns segundos, parecendo pensar. Seu sorriso torto o abandonou, deixando apenas um olhar perdido e uma expressão confusa. No mesmo momento, também fiquei séria. O desejo de subir naquela cama e beijá-lo era imenso, não me pergunte por quê. Talvez fosse seu jeito meio Kurt Cobain que estivesse me atraindo.
- Bom, eu... - Martin pareceu ter travado, sem respostas. Logo sua expressão anterior voltou, junto com o sorriso torto e o olhar que me enlouquecia. - Não posso ficar com uma só. - Se eu estivesse com ele na sala vendo televisão e uma entrevista dele aparecesse com essa resposta, iria encarnar Mart pelo resto de sua vida. Mas então o pensamento de que ele teria mudado, de que ficava pegando todas me encontrou, tirando de mim a sensação de divertimento. De repente a ficha finalmente pareceu cair: estou com Mart, em seu quarto. O que faria? Em silêncio é que não poderia ficar. Folheei o caderno, sem capacidade de ler uma palavra sequer. Minhas mãos e corpo soavam frio, então tirei o casaco. Meu silêncio já era longo e muito fora do comum, então pigarreei, sentindo a vontade de vomitar voltar.
- Er... Martin, hum... de onde tirou inspiração para escrever Hero/Heroine? - Um alívio percorreu meu corpo, como se eu tivesse sido atirada em uma piscina gelada em um dia quente. Porém não pude aproveitar a sensação de alívio por muito tempo, novamente a expressão de Martin mudou, mas agora parecia mais forte. Ele se levantou um pouco da cama, mexendo a cabeça para frente e espremeu um pouco os olhos, como um velho quase cego faria para reconhecer alguém. Fiquei em choque, parada.
[N/a: pode colocar para tocar. :) Não colocarei a letra aqui, espero que não se importe.]
- Essa música não foi divulgada ainda... . - Quando disse meu apelido, eu fechei os olhos. Fiz o máximo de força possível para guardar sua voz o pronunciando exatamente do jeito que havia feito. Quando abri os olhos, Martin estava ajoelhado à minha frente, me olhando nos olhos. Aquele olhar parecia fazer cada pedaço de mim ser substituído por um pedaço novo, um pedaço bom, um pedaço melhor. - Você. Não é. Real. - Disse entredentes, mais para si do que para mim.

Martin's P.O.V. on:
Quando achei que não seria mais assombrado por alucinações de voltando, uma simples aparição me mostrou que estava enganado. O que mais doía era - apesar da certeza de que ela desapareceria quando tentasse tocá-la - a merda da esperança que pesava dentro de mim, fazendo com que eu iludisse a mim mesmo achando que finalmente conseguiria tocar em sua pele novamente. "Dessa vez é ela", eu sempre dizia a mim mesmo. Optei em não tocá-la, não queria perdê-la de vista, não queria que isso acabasse tão cedo. A sensação de tê-la por perto, de sentir seu cheiro que, por sinal, agora era mais intenso.
Eu não conseguia nem ao menos piscar. Meus olhos estavam grudados à sua pele, aos seus olhos marejados, seu nariz levemente avermelhado. mordia parte do lábio inferior, seu queixo tremia de vez em quando, constatando que prendia o choro. Meu cérebro era cruel comigo. levou uma de suas mãos até os cabelos vermelhos, puxando-os. Por dentro dos fios vermelhos, os fios se libertaram, caindo sobre sua cabeça, ombros e costas.
Automaticamente, levantei uma das mãos, indo em direção a uma mecha que caía em cima de seu nariz. Assim que senti sua pele e cabelos em minha mão, meus olhos se fecharam, enquanto meu corpo parecia ser anestesiado. Era como se eu flutuasse. Senti as palmas geladas e trêmulas de segurarem minha mão com mais força contra seu rosto também gelado. Logo senti seus lábios nos meus e pude ter certeza de que estava prestes a desmaiar.

Deixei que sua cabeça tocasse na cama, com minha mão por baixo. Nossos corpos estavam grudados, nenhuma roupa nos separava. possuiu um tom mais avermelhado nos lábios, talvez fosse pelo nosso beijo bruto de segundos atrás. Delicadamente, desci minhas mãos por seus quadris, acariciando cada pedaço seu, enquanto depositava beijos - agora bem menos ferozes - em seu pescoço. Suas mãos estavam em meus cabelos e, sinceramente, eu não aguentava mais me segurar.
Uma vez que todas as precauções foram tomadas, levantei minha cabeça, encarando seu rosto. Bastou encarar seus olhos e pude ver que não era sua primeira vez. De certa forma, aquilo me deixou aliviado, porém eu nem me deixei imaginar como poderia ter sido quando perdeu a virgindade. Tal pensamento com certeza estragaria tudo e, definitivamente, isso estava fora de cogitação.
abriu mais as pernas, então não houve mais dúvida ou pensamento que me fizesse demorar para que finalmente realizássemos isso. A penetrei devagar, ainda inseguro. Meu corpo estava em conflito, não distinguindo fantasia de realidade. Caso não passasse de um sonho, eu aproveitaria ao máximo, abusaria de todo privilégio que me fosse concedido neste momento. Um deles era passar meu nariz por sua pele... pode não parecer grande coisa, e realmente não seria com qualquer outra mulher, mas sentir seu cheiro novamente era uma dádiva indispensável.
fez mais força para que nossos corpos se aproximassem, como um pedido de aumento de velocidade. Obedeci sem nem hesitar, finalmente me sentindo livre para deixar escaparem alguns gemidos.
Mas infeliz-puta-mente, nada dura para sempre; sou homem; sou humano; sou sedentário (não tanto, mas okay) e, bom, chegamos ao orgasmo. Não foi ruim, óbvia e definitivamente não foi nada ruim. Eu só queria ter aguentado mais tempo, mas não fez tanta diferença. Logo o sorriso de surgiu em seu rosto, me fazendo sorrir também. Ela estava um pouco suada, com as raízes dos cabelos perto do rosto um pouco molhadas, mas continuava linda.
Mais uma vez: meu cérebro era cruel comigo. Acho que seria capaz de dar um tiro na cabeça quando simplesmente desaparecesse, escapando de meus braços como um vento, sem me permitir segurá-la e protegê-la de qualquer perversidade ou maldade.
Martin's P.O.V. off.

De todos os pensamentos que tive de como esse momento teria sido, posso jurar que em nenhum deles eu fiz sexo com Martin. Em nenhum deles eu falei tão pouco como falei na realidade. E, definitivamente, mesmo que imaginasse que isso aconteceria, acho que não seria capaz de imaginá-lo saindo de cima de mim, me dando as costas e saindo da cama.
Martin andou até o banheiro, deixando suas costas magras, porém definidas, à mostra. Bateu a porta, logo o barulho do chuveiro chegou até meus ouvidos, fazendo com que uma vontade de tomar um banho gelado despertasse dentro de mim.
Aquilo tudo era estranho demais, mas não posso negar que foi ótimo. Martin estava bem experiente, não deixei de reparar nisso, porém quem sou eu para julgar alguma coisa nele? Já tinha mais de vinte anos e não era nada feio ou irritante, provavelmente já vinha fazendo isso há anos. Ri sozinha ao imaginá-lo com outra garota, desajeitado e nervoso. Mas esse Martin meio perturbado que encontrei agora não parecia ter agido como bobo na hora H. Ri novamente, agora um pouco mais alto, ao lembrar do dia que quase transamos.
"Então eu aceito esperar"
Sua voz dizendo cada palavra ecoou em minha mente. De todas as lembranças que já tive longe daqui e longe de casa, como pude me esquecer dessa? Senti meu estômago borbulhar, então com uma força sobrenatural eu me levantei da cama.

Martin's P.O.V on:
Eu não ouvia nenhum barulho, nem um ruído sequer, vir do quarto. Fechei os olhos com força, sem me mover debaixo da água fria. Ela havia ido, minha mente estava sobrecarregada, seria exaustivo demais imaginar mais um minuto impossível perto de . Era necessário muita loucura e eu não tinha capacidade para lidar com a perda. Não a perdi apenas no dia que fui deixado sozinho no restaurante, mas a perdi todas as vezes que minha mente mentia para mim mesmo, mostrando-a aparecendo. Ou era na rua, em meio a várias pessoas e, quando eu corria até ela e tocava em seu rosto, não havia nada em minhas mãos a não se ar. Ou, como acontecia mais frequentemente, nos shows: sempre via na grade, sorrindo, cantando comigo, só que não durava muito, uma vez que as pessoas se moviam por cima de sua imagem, fazendo-a desmanchar-se em segundos.
Levei um susto ao ouvir a porta ser aberta com força. Olhei na direção da mesma, vendo completamente nua andando até mim e entrando no box. Fiquei estático e, só então, me dei por mim: ela está aqui. "Ela está aqui", era a única coisa que eu pensava, que repetia-se com ecos em minha mente. Um sorriso involuntário fugiu de mim e, automaticamente, minhas mãos a puxaram para mais perto. A abracei com força, sentindo seu corpo contra o meu novamente. Assim que o fiz, senti suas mãos pequenas espalmarem-se em minhas costas e, no mesmo segundo, um pensamento óbvio em encontrou. Ela chegou disfarçada... provavelmente não era para nada disso ter acontecido. Só uma coisa era plausível para mim:
- Você vai embora de novo, não vai? - Minha voz estava carregada de ódio e tristeza, assim como todo meu corpo. Aquilo tudo era demais para mim. não respondeu, mas a ouvi fungando e logo senti suas unhas fincando-se contra minha pele, abraçando-me mais forte. Entendi aquilo como um "sim".

Saí do banheiro, enxugando os cabelos. Vi de pé, de toalha, encarando o mural de fotos. Havíamos passado horas no banheiro, o que foi culpa da banheira (que se encontrava ao lado de box). Mas a fome foi mais forte e conseguiu nos tirar da água quente. Não havíamos trocado muitas palavras até agora. apenas tinha o olhar sempre intenso quando eu encarava seus olhos e um sorriso contagiante. Andei devagar, ficando atrás dela e envolvi sua cintura com meus braços. Segui seu olhar, encontrando uma folha em branco, com a letra de Hero/Heroine na mesma.
- Essa letra faz muito mais sentido agora. - Minha voz soltou as palavras de forma rouca. Minha garganta não estava tão bem nos últimos dias. apoiou a cabeça em meu peito, colocando os braços por cima dos meus.
Martin's P.O.V. off.

Imaginei que qualquer outra pessoa pediria ajudar, tentaria fugir, contaria tudo que tinha acontecido e tentaria explicar que não havia ido embora e sim tirada do lugar de onde devia estar. Mas que diferença isso faria? Eu iria embora do mesmo jeito, sem nem saber se voltaria. Não queria estragar tudo, queria continuar nessa calma, continuar aproveitando o resto do dia e noite que ainda tinha para estar perto de Martin, que era o mais perto do conceito "casa" que eu tinha agora e, provavelmente, sempre.
Me virei para ele, ainda sendo envolvida pelos seus braços. Fiquei com o olhar perdido em seu rosto... Martin era lindo. Eu tinha certeza disso. Mas nenhuma beleza me era tão chamativa, tão convidativa, tão atrativa quanto a de . Me enrijeci, um tanto enfurecida, por uns segundos ao pensar em . Nem agora, onde eu conseguia ter uns segundos em paz, ele deixava minha mente. Sem sombra de dúvida, era uma calamidade.
- Estou com fome. - Fiz uma careta, pronunciando as palavras. Martin sorriu, soltando um "vou providenciar isso" e me deu as costas novamente. Mas dessa vez, levou uma das minhas mãos consigo, fazendo com que eu o seguisse até a cozinha que estava mais do que desarrumada. Mordi o lábio inferior, me encostando na pia, observando Mart abrir a geladeira e encarar o interior quase vazio, que continha algumas latas de cerveja. Percebi um dos motivos da sua magreza. - Por que você fez isso com você, Mart? - Perguntei, sentindo um peso em meus ombros. Não conseguia tirar da cabeça a ideia de aquilo ser minha culpa. Ele suspirou pesadamente, deixando os ombros caírem, como se estivesse exausto. Passou uma das mãos pela nuca, fechando a geladeira.
- Porque sou um idiota. - Respondeu simplesmente, dando de ombros. Virou-se para mim, sem mudar a posição. Tive vontade de tirar a roupa e levá-lo para o quarto novamente, mas não me movi.
- Você não pode ficar sozinho...
- Então fique.
- ...você tem que ir a uma clínica. - Martin cortou minha frase, mas eu a continuei como se ele não tivesse dito nada. Ignorei o que dissera, sem força alguma para dizer "não" à sua oferta. Ele revirou os olhos, cruzando os braços.
- Acha que meus pais não viram isso? - Riu sem nenhum tom de humor, encarando os pés. - Daqui a dois dias. - Disse, mordendo o lábio. Pude ver que estava com medo, sem ter ideia do que fazer. Aquilo doeu em mim... daqui a dois dias Mart passaria por horrores em uma clínica e eu não estaria por perto. Mas foi uma escolha dele, uma escolha escrota, mas foi feita e não tinha como voltar atrás. Se tivesse, eu faria tudo diferente, caso tivesse oportunidade.
- Vem cá. - Falei baixinho, levantando um pouco os braços. Martin andou até mim, prensando-me contra a pia. O envolvi com meus braços que, agora, pareciam menores do que o normal, encostando minha face em seu peito nu.
- Feche os olhos. - A voz de Martin sussurrou em meu ouvido. Suspirei, fazendo que não com a cabeça. O sol estava se pondo do lado de fora e eu estava exausta. Mexi um pouco a cabeça por cima do travesseiro, passando a mão lentamente pelo rosto de Mart.
- Não quero. - Respondi, me encolhendo mais para me encaixar melhor em seus braços. Meus seios e barriga estavam descobertos, assim como todo o corpo de Mart até sua cintura. Ele riu, mordendo minha bochecha com força. - Vou te acordar daqui a pouco.
- Não vai. - Minha voz saiu falha, uma vez que eu estava tomada pelo sono. Pensei melhor, abrindo um pouco os olhos. - Promete? - O vi assenti, então minha pálpebras caíram como se tivessem levado uma pancada, fazendo com que eu adormecesse, finalmente tendo paz suficiente para isso.

Capítulo treze

Era tudo maravilhoso. Meus olhos iam se abrindo lentamente enquanto eu sentia os lençóis quentinhos sob mim. Os braços de Mart me aqueciam, assim como seu peito em minhas costas. Devido a noite, o quarto estava escuro, fazendo com que meus olhos demorassem para se acostumarem e poderem enxergar um pouco.
Pisquei algumas vezes, coçando os olhos. O cheiro de Mart estava em todo meu corpo e aquilo só me reconfortava. Virei-me lentamente, fitando a janela, fazendo com que Martin - que dormia como uma pedra - me libertasse de seus braços, virando-se para o lado contrário. Eu encarava a lua do lado de fora, que iluminava pouca parte da janela e menos ainda o que estava perto da mesma. Porém não foi preciso muita luz para que eu enxergasse a poltrona na qual me sentei quando cheguei ao quarto. Minha boca secou no mesmo instante e meus olhos travaram naquele foco. Meus dedos pareciam paralisados, assim como todo meu corpo, fazendo com que eu tivesse a mesma sensação quanto ao meu coração e pulmões. Puxei o lençol para mim, numa tentativa inútil de cobrir parte do meu corpo. Tudo parecia girar, não fazer sentido. Só podia ser o pior dos pesadelos.
Os olhos de me fuzilavam. Só faltavam soltar uma luz vermelha para que ele completasse a imagem de um demônio à minha frente. Suas mãos estavam entrelaçadas e os dedos indicadores estavam juntos levados à boca. Os cotovelos apoiavam-se cada um em cada braço da poltrona e uma de suas pernas permanecia cruzada sobre a outra. Eu só via menos da metade de sua figura com clareza, mas era o suficiente para eu desejar sumir naquele momento. Só então lembrei de Mart ao meu lado, e minha boca - que antes estava seca - agora enchia d'água, assim como meus olhos, enquanto meu estômago dava sinais de que libertaria tudo dentro dele. Mordi o lábio inferior com tanta força para não vomitar que comecei a sentir gosto de sangue. Pelas minhas bochechas, eu sentia finas lágrimas descendo... estava tudo fodido. Eu, Mart, e teríamos que sofrer com a consequência.
- Você é imunda. - disse cada palavra com convicção, emanando repulsa não só na voz, mas na expressão. Aquelas palavras pesaram, obviamente, dentro de mim. Eram cruéis, mas eu tinha a certeza absoluta de que eu merecia ouvi-las. Sim, eu era imunda e já fazia tempo. Esta frase se repetia em minha mente, ecoando, como se eu tivesse tido uma parada de funcionamento acidental, mas ao invés de ser a voz de ecoando pela minha mente, era a minha culpando-me pela puta tolice que cometi. - Tem dez segundos para sair da minha frente. - Disse no tom necessário para que só eu escutasse. Me levantei com pressa no mesmo instante, curvada, com os braços juntos ao peito na tentativa de esconder parte dos meus seios. Corri catando minhas roupas, mas deixei o chanel vermelho no quarto. Não tinha tempo de escrever um bilhete ou algo do gênero para me despedir de Martin, mas não o queria achando que tinha sido apenas uma alucinação novamente.
Vesti minha calcinha com pressa, colocando a blusa. se levantou, então segurei o par de sapato, a calça e a jaqueta de couro e o resto das coisas, me direcionando à porta. Quando a abri, ouvi a voz de , que ainda permanecia de pé.
- está lá embaixo te esperando. Não tente nenhuma idiotice, se não aparecer lá em dez segundos, tenho a ordem de te... - Não o deixei continuar. Fechei a porta do quarto com cuidado, sentindo o chão sob mim sumir. seria capaz de matar e essa certeza aumentava minha dor. Mas eu não tinha tempo para simplesmente parar no corredor e chorar, muito menos para vestir uma calça de couro, então corri para fora do apartamento, entrando direto no elevador. Me olhei no espelho, vendo meu cabelo bagunçado e como eu estava "vestida": parecia uma puta expulsa da casa de algum homem casado pela mulher do mesmo. Aquilo arrancou de mim um riso inusitado, me fazendo esquecer da realidade na qual eu me encontrava. Ao ouvir as portas abrindo-se novamente, encontrei , de pé, à frente do elevador. Ele tinha a expressão fechada quase igual a de , mas de alguma maneira seu olhar me passava um ar de divertimento, como se aquela correria toda fosse excitante para ele. me deu as costas e eu o segui. Não vi nem o carro usado para chegar aqui, o que me causou um desespero maior. Logo outro pensamento me veio à cabeça: Martin. O que estaria fazendo com ele lá em cima? Eu não fazia a mínima ideia. Só sei que entrei em um outro carro, uma BMW preta, na parte de trás. entrou na frente, no carona, e eu nunca desejei tanto ver . Não no bom sentido, mas quanto mais tempo ele passava no apartamento de Martin, mais tortura eu imaginava para ele, o que me matava.
Creio que mais de dez minutos se passaram. Pensei em tentar vestir a calça, mas não quis me mover. Estava encolhida, abraçando minhas pernas, com a cabeça apoiada no vidro da janela. Encarava fixamente a entrada do apartamento, esperando ver saindo sem sangue ou a cabeça de Mart nas mãos.
Tive vontade de me socar enquanto me xingava mentalmente. Fechei os olhos com força, agora deixando grossas lágrimas completarem o percurso que as anteriores marcaram. Como se já não bastasse, outro momento de lembrança, nostalgia, me envolveu.
"Pronta ou não, lá vou eu." a voz da minha mãe ecoou pela sala. Tampei a boca com as duas mãozinhas para não rir, espionando-a por de trás de um dos pés da mesa. Ela tinha seus olhos vendados por uma fita grossa rosa clara, vestia um vestido branco que uns anos depois me deu. Sem aguentar, soltei uma gargalhada. De alguma maneira, para minha mente de cinco anos, vê-la tateando tudo ao seu redor, me perguntando onde eu estava, era engraçado. Ao invés de seguir minha voz e declarar que me encontrou, ela colocou as mãos na cintura, rindo, perguntando novamente onde estava. Logo voltou a girar, fazendo o vestido dançar com seu corpo. Ficou tanto tempo assim, em silêncio, que eu até havia me esquecido de que era uma brincadeira. Não estava mais agachada, agora eu me encontrava sentada, me perguntando se conseguiria ser linda como minha mãe era.
Lembranças só pioram seu estado quando ele já não é dos melhores. Principalmente quando a saudade parece te espetar no peito, abrindo um buraco cada vez maior. Queria mais do que nunca ver minha família, mas depois de agora tive certeza absoluta que não iria mais ver ninguém a não ser os quatro homens que haviam me sequestrado.
Finalmente vi a imagem de aparecendo no meu campo de visão. Seu comportamento era o mesmo que o do quarto, logo eu não sabia se devia me preocupar ou não. Só sabia de uma coisa agora: eu queria poder dormir e nunca mais acordar, principalmente quando vi jogar a peruca vermelha por trás de si, fazendo-a cair ao meu lado.
Não consegui dormir na viagem de volta. Nem sequer prestei muita atenção no caminho e, ao dar conta disso, percebi que nem , nem tamparam meus olhos para que eu não visse o caminho. Isso criaria um certo pânico em mim se eu não desejasse me livrar disso tudo logo. Mas a única conclusão que eu pude chegar com tudo isso era: eles me deixavam ver seus rostos e, agora, me deixaram ver o caminho. Se pretendessem me libertar e, obviamente, saírem impunes, teriam que ter sido mais cautelosos, o que não fizeram. Logo não devia estar nos planos deles me deixar ir embora um dia... muito menos depois de hoje.
Cobri o rosto com as duas mãos. Como fui tão idiota? Como? Como? Eu me perguntava mais de quarenta vezes por minuto, desejando ter um chicote para eu mesma chocá-lo contra minhas costas até não aguentar mais segurá-lo. Como fui tão tonta a ponto de deixar que tudo isso acontecesse, diante dos meus olhos, sem nem ao menos lutar para ir embora? Lembrei da noite no hotel, a qual eu perdia as forças e o fôlego tentando afastar o corpo de de mim. Não... eu tinha lutado, eu tinha me esforçado para que nada de ruim acontecesse, mas eu fui fraca demais. Fui tomada pela vulnerabilidade que não me deixou um segundo desde meu primeiro beijo com . O que dava raiva era a minha falta de ódio por ele; eu não sentia ódio algum de , apenas de mim e do que ele fazia na maioria das vezes.
Ao contrário do caminho de ida, o caminho de volta pareceu ter sido bem rápido. Finalmente levantei meu olhar, encarando a casa antiga no meio de todo aquele verde iluminado pelo sol da manhã. Era lindo demais, entretanto não pude desfrutar de tal vista, uma vez que abriu a minha porta para que eu saísse. Puxei a barra da blusa para baixo com uma mão - a fim de esconder parte das coxas - enquanto segurava "minhas" coisas com a outra e desci do carro. parecia diferente agora, parecia bem mais calmo, mas optei em não olhá-lo por muito tempo, muito menos em esperar que tivesse mudado de humor novamente. Acho que foi a partir daí que comecei a ter medo do que poderia acontecer comigo dali em diante. Só então eu caí em mim, toquei meus pés no chão firme e espinhoso e me dei conta de que aquilo não ia ter um daqueles finais felizes. Seria algo impossível e, de certa forma, eu me conformava com isso. Por algum motivo eu achava que merecia tudo que ocorria e que ocorreria comigo.
Andei devagar, sentindo meus pés tocarem a grama novamente. Eu amava essa sensação, a Natureza sempre foi algo esplêndido para mim. Quase me esqueci, por uns segundos, de tudo e fiquei ali, parada, sentindo o gelado das folhas e da terra começar a dominar meu corpo. Porém senti uma mão de nas minhas costas, tocando-me levemente para que acelerasse o passo. Automaticamente olhei para o lado, vendo seu rosto que encarava a casa com seriedade. Reconheci a melancolia e tristeza em seus olhos, que já o visitaram há uns meses diante de mim, sentindo aquilo me afetar de uma maneira que deveria ser proibida na realidade na qual nos encontrávamos. Ouvi o carro ligando novamente e o ouvi se afastar, me dando conta de que fora embora. Olhei ao redor, cautelosamente, sem encontrar mais nenhum carro. "Fodeu", logo pensei, sentindo um calor por todo meu corpo assim que meu coração começou a bater mais forte. Ao entrarmos à casa, pude ter certeza de que e não estavam lá. Tentei disfarçar quando deixei meus olhos encherem d'água, me segurando para não chorar novamente.
- Não posso negar que você é esperta, . - disse, com a voz grave, um pouco rouca. Apontou para o sofá e eu me dirigi até o mesmo, obedecendo, e me sentei. Ele ficou de pé à minha frente, com os braços cruzados. Seu cheiro já tomava conta das minhas narinas, como se fosse alguma novidade, fazendo parecer que elas caçavam-no. Ele sorriu irônico, enquanto andava de um lado para o outro sem sair da minha frente. Parou, me olhando, para falar novamente. - De onde tirou a ideia de que conseguiria sair daqui se seduzisse a mim ou ao ? - Levantei as sobrancelhas involuntariamente, surpresa. Só então me lembrei do dia em que apareci em seu quarto. Eu havia escolhido o momento errado, sem saber do que descobriria logo em seguida e agora ele achava que havia sido apenas uma tentativa de seduzí-lo e sair daqui. - Você nunca vai conseguir fazer comigo o que fiz com você. Nunca vai conseguir fazer com que eu te tire daqui, porque é a última coisa na qual eu posso até mesmo pensar! - bradou a última frase com tanta força que chegou a ficar vermelho. Me encolhi automaticamente, cruzando os braços e encarei meus joelhos. Ele se aproximou, ajoelhando-se, tocando-os com cuidado. - Você não tem noção, não é mesmo? - Sussurrou, novamente mudando subitamente de humor, parecendo mais calmo agora. Porém, ofegante. Tocou meu queixo, obrigando-me a encará-lo. - Só posso te ter viva aqui, então pare de ser estúpida. Você parece pedir para morrer às vezes. - Disse, com dor saindo junto de sua voz. Logo, como se eu já não estivesse surpresa o suficiente, me abraçou com força. Não soube o que fazer, apenas permaneci parada, tentando fazer com que minha mente funcionasse normalmente, uma vez que parecia borbulhar informações. - Deu tudo errado... - O ouvi murmurar, com a voz abafada, já que sua boca estava contra a curva entre meu ombro e pescoço. - Tudo, tudo, tudo, tudo errado... - Repetiu, sem mudar de posição um segundo sequer. Eu poderia quebrar a qualquer momento, mas a sensação de ter seus braços fortemente em volta de mim era indiscritível. Podíamos estar na pior das situações, mas era gostoso, era como se se preocupasse comigo. Como uma mãe faria depois de dias sem encontrar o filho...
- O que deu errado, ? - Perguntei, com a voz meio trêmula. Ele não respondeu, apenas tinha sua respiração e batidas cardíacas contra meu corpo constatando que ainda estava vivo. O resto de seu corpo permanecia estático, como se fosse uma estátua de gelo. Longos minutos se passaram, porém não eram importantes. Eu não me importava com nada no momento, não me importava com o que aconteceria dali a cinco minutos ou dali a dois dias. Me sentia tão segura agora que nem fazia diferença. Veja bem: segura, não feliz. Feliz eu não estava, obviamente, mas nada me atingiria nos braços dele a não ser ele mesmo. E, por alguma razão insana, eu tinha certeza que não tentaria nada idiota agora.
- Tudo. - Finalmente me respondeu, me soltando. No mesmo momento o ar gelado do ambiente envolveu meu corpo, fazendo-me arrepiar. andou até a cozinha e, assim que sumiu pela mesma, apareceu pela porta, assobiando, e tirou os óculos escuros. Tinha os cabelos bagunçados e estava suado. Segurava em uma das mãos duas luvas típicas para andar de moto e, só então, eu olhei para o lado de fora. Bem longe, via-se uma massa preta de fumaça subindo lentamente e, mais próxima à casa, havia uma Harley Davidson preta monstruosa. Eles deviam gozar ao acabar com carros caros.
- Me livrei do carro. - Disse, encarando a cozinha, para . Este veio até a sala novamente, sem nem me olhar. Encarou o lado de fora, também encontrando a fumaça e logo sua expressão deixou uns leves traços de espanto à mostra.
- Essa fumaça chama atenção, sua mula. - Disse com a voz mais calma possível, porém conseguia deixar clara sua indignação. - De onde tirou a moto?
- Comprei e deixei lá a noite inteira. - apontou levemente para a fumaça toda. Finalmente pareceu dar conta que eu estava ali, logo me olhou por longos segundos. Não consegui ler sua expressão, muito menos imaginar no que pensava. Apenas tinha um certa ideia de que não devia ser nada bom. Logo os olhos de foram até que, pela primeira vez desde quando o vi, tinha um rosto perdido, confuso, como de quem pensa no que dizer sem ter palavras para isso.
- Eu ainda vou cuidar disso. - disse quase entredentes, coçando a nuca, tentando inutilmente fazer com que sua voz chegasse a mim. Não me olhou um segundo sequer, apenas encarava o chão.
- É bom mesmo. - voltou a me olhar. Fixei meus olhos em , implorando para que fizesse algo, uma vez que eu não sabia o que devia fazer. Como se tivesse sentido meu espanto chegando até ele, finalmente me olhou.
- Suba. - Disse, com o olhar agora vazio. Obedeci no mesmo instante, subindo lentamente até o cômodo no qual eu nunca me senti confortável para chamar de meu quarto. Desejei estar segura novamente, nos braços de , uma vez que agora me sentia mais frágil do que nunca. Até um sopro de vento seria capaz de me despedaçar neste instante. havia conseguido me amedontrar, principalmente quando vi que podia fazer com que se sentisse desconfortável. Para mim, agora, tudo poderia acontecer e eu não tinha mais esperança alguma agarrada a mim. Havia apostado tudo que tinha em e , mas falhamos. Porém, na verdade, eu ainda tinha um pouco de esperança. Entretanto era quase nula e estava toda em . Eu apenas desejava, gritando dentro de mim, que ele não me decepcionasse de novo. Precisava dele, uma vez que apenas ele conseguia me fazer sentir segura agora. Apenas poderia me salvar, porém ao mesmo tempo ele conseguia ser um dos meus maiores perigos.
Depois de uns minutos na porta do quarto, finalmente entrei, jogando tudo que segurava num canto da parede. Andei devagar até o armário, abrindo-o, mas minhas coisas não estavam lá. Havia roupas ali, mas não eram minhas. Por uns segundos, me senti desnorteada, tonta, me perguntando se era mesmo aquele o meu quarto. Olhei ao redor, encarei a vista, e sim, era. Voltei para o armário, pegando um vestido marrom, sentindo um desespero se alojar dentro de mim.
Nunca, jamais, tive tanta certeza de que tinha pouco tempo para continuar respirando.
Me vesti, indo até o banheiro. O dia estava mais nublado que o normal, do lado de fora ventava forte. Mais cedo o tempo não estava assim tão ruim. Abri um dos armários: vazio. Abri outro: vazio. Abri o último, encontrando um pote com minha escova de dente, creme dental e fio-dental. Ao lado havia uma escova de cabelo perto de três pacotes de vinte absorventes, então a peguei. Fizeram a limpa no quarto, todavia eu tentava ao máximo não me perguntar por quê, uma vez que não queria pensar na única razão para se livrarem das minhas coisas. Na realidade, eu não queria pensar em nada e estava perto de entrar no vazio - o mesmo das minhas primeiras semanas aqui - que me desligava completamente, envolvendo-me como uma armadura.
Sentei na janela do quarto, com as pernas no lado de fora. O vento continuava soprando com força, cortando meu rosto e fazendo meus cabelos dançarem por trás de mim. Peguei a mecha mais próxima ao meu rosto, penteando-a devagar.
- "On me dit que nos vies ne valent pas gran chose, elles passent en un instant comme fanent les roses. On me dit que le temps quis glisse est un salaud, que de nos chagrins il s'en fait des manteaux. Poutant quelqu'un m'a dit que tu me m'aimais encore, c'es quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore. Serais ce possible alors?" - Eu cantava, de olhos fechados. Meu choro me acompanhava, mas este não possuía som e sim toque.
- "On dit que le destin se moque bien de nous, qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout. Parait qu'le bonheur est à portée de main, alors on tend la main et on se retrouve fou..." - Finalmente me dei conta de que uma segunda voz me acompanhava. Subitamente, virei-me para trás, segurando na madeira na qual me apoiava, encontrando . Ele sorria triste, com as mãos nos bolsos. Senti um alívio ao vê-lo bem. fechou a porta por trás de si, sentando-se na cama. Enxuguei o rosto e desci para o pequeno sofá logo abaixo da janela, sentando-me de lado nele, com as costas apoiadas em um dos pequenos braços. No outro braço, minhas pernas estavam dobradas, enquanto meu corpo estava virado para .
- Como você está? - Perguntei baixinho. Ele riu, igualmente baixo, sem nenhum humor e deu de ombros.
- Nada vai acontecer comigo... - Respondeu simplesmente. - Nem com . - Finalizou, me passando mais alívio. O qual foi inútil no estado que eu me encontrava. - E você?
- Não sei. - Minha voz ameaçou a sair falha, mas eu me mantive firme. - Vocês sabiam que ia dar merda, não sabiam?
- De certa forma, sim... te fareja, ele me ligou assim que você entrou no apartamento, mas não havia mostrado que sabia de alguma coisa. Depois ele e apareceram e o resto você sabe.
- Vocês sabiam do risco, . - Encarei minhas unhas do pé, roxas com o frio que eu sentia. Suspirei, jogando os cabelos para trás. - Por que aceitaram me ajudar? - Perguntei, ainda sem mudar o tom de voz. riu, agora com um pouco de bom humor estampado em seu rosto.
- Somos viciados em perigo, adrenalina, etc. - Deu de ombros novamente, voltando com a expressão anterior. Cheguei à conclusão que os quatro faziam tudo aquilo por pura diversão. A mais macabra e egoísta de todas. Um silêncio se instalou por muito tempo, enquanto o vento vez ou outra soprava mais forte que o normal, cantando dentro do quarto. - E bom... - Logo a voz de voltou a encher meus ouvidos. Olhei para seu rosto no mesmo instante, sentindo uma pontada no peito. - Você é tão... - Pausou, como se não fosse mais capaz de falar. - Tão parecida com ela. - Aquilo foi a morte para mim. Um dos meus maiores defeitos era sentir as dores dos outros e, agora, eu podia sentir a dele. - É meu pior castigo. - Acenou com a cabeça para o armário. Só então constatei que as roupas eram de Juliet. Como conseguiriam ser tão cruéis com o próprio amigo, porra? Me arrepiei, me abraçando. Estava totalmente embaraçada, vestindo o vestido de Juliet em frente a ele.
- Por que você continua aqui, ? - Consegui achar voz para perguntar. Ele parou de me olhar, encarando o chão. Virei a cabeça para o lado, observando a paisagem, com medo de ver chorando. Se ele o fizesse, eu não seria capaz de assistir. - Você é uma pessoa tão doce.
- Não sou, não. - Respondeu como se fosse uma criança. - Eu fiz muita coisa. Já sou sujo suficiente para continuar com tudo isso, não faz diferença.
- O que houve com ela, ? - Não era muito educado da minha parte querer adentrar neste assunto, mas eu não aguentava mais ficar sem saber. Observei os movimentos das copas das árvores ao redor do campo, assim como o das gramas mais altas. Mesmo no meio de toda aquela confusão, eu conseguia buscar abrigo nas coisas mais naturais. Nas coisas que não foram afetadas pelas minhas escolhas e que, provavelmente, nem seriam. Cruzei os braços com força, sentindo minha pele gelada. demorou para responder, mas tínhamos todo o tempo do mundo agora e eu não me importava em esperá-lo dizer.
- Fugiu do meu controle. - Disse após respirar fundo. Mordi o lábio inferior, ainda sem olhá-lo. - Eu fugi do controle...
- O que eles fizeram com ela? - O interrompi, virando a cabeça lentamente e fixando meus olhos nele.
- Eu - Enfatizou, amargurado. - me envolvi. A gente não pode se envolver tanto com as vítimas, tudo tem que ser falso. Mas eu fui fraco demais. Eu sou fraco demais, . - Fiquei sem palavras. Minha garganta estava seca e havia poucas coisas que eu queria dizer agora. Senti meus olhos marejados novamente, encarando que ainda inundava em amargura. Ele não chorava, mas lágrimas não eram nada perto do estado no qual seus olhos, fracos e derrotados, encontravam-se. Lágrimas não significavam ou provavam nada, uma vez que o corpo dele dizia por si.
- Você a amava, ? - Não tive vergonha de me deixar levar pelo choro à sua frente. Na realidade, eu não devia sentir vergonha de nada perto dele. Não só porque criei uma confiança inexplicável por , mas porque ele parecia tão aberto, sem medo de me deixar vê-lo, que nem me preocupei com o charme de me manter séria.
- Absurdamente. - Ele disse, tombando a cabeça para frente, com as mãos escondendo os olhos. Os cotovelos estavam apoiados nas pernas e, irracionalmente, pensei se poderia fazer algo para consolá-lo ao menos por agora. Mas não havia nada para tirar essa dor de , pelo menos eu não podia fazer isso, uma vez que cheguei à conclusão de que eu realmente não tinha muito tempo. Ainda que eu dependesse de amor para ser salva - o que nem isso conseguiu tirar Juliet daqui - eu estaria perdida. Eu estava perdida. não me amaria de uma hora para outra. Nem eu mesma sabia se o amava, apenas sabia que era masoquista o suficiente a ponto de estar apaixonada por ele.
- Quanto tempo tenho? - Não sei como não estava farto das minhas perguntas. Ele balançou a cabeça negativamente, tirando as mãos dos olhos. Tive certeza absoluta que ele sabia, porém não aparentava disposição para contar.
- Isso não importa. A gente nem sabe o que vai acontecer ainda... fica aparecendo com umas ideias e... - Não escutei mais nada. Tudo ficou embaçado, minha boca encheu d'água e meu estômago parecia se contorcer. , , , tudo . Ele planejava esse caralho todo. Essa burrada toda e eu ainda tinha umas inúteis ilusões, uma pequena esperança de que ele sentia algo - ainda que pequeno - por mim e que poderia me tirar daqui. Antes que eu pudesse perceber, já havia apagado.

Capítulo quatoze
[N/a: coloque Isaac Shepard - Gentle para carregar, sim? (:]

Eu não queria abrir os olhos, queria continuar sem escutar ou enxergar nada. Porém não foi possível, uma vez que eu já havia despertado. Abri os olhos devagar, sentindo um incômodo em ambos, mesmo com a pouca iluminação do lugar. Meus lábios estavam secos, logo passei a língua lentamente neles, molhando-os, e cocei os olhos, só então me dando conta de que estava em um outro quarto. Um que eu não visitara antes, entretanto, pude constatar de que ainda estava na mesma casa, já que a construção do quarto combinava com os outros cômodos do lugar. Olhei para o outro lado da cama, encontrando , que estava começando a acordar. Seu rosto era tão inocente e meigo que me fez rir, virando-me para ele. Assim que o fiz, a porta se abriu e entrou no quarto. Não sei o que me deu, mas no mesmo instante, dei um pulo para fora da cama, arrumando o cabelo. Logo percebi que esse meu ato deixou certas suspeitas, sem contar com o fato de estar sem blusa.
não disse nada, tinha o rosto sério e também estava sem blusa. Seus pés descalços me chamaram atenção. tinha lindos pés.
- Você está bem? - Perguntou, ainda sério. Assenti, vendo sentar-se na cama, parecendo não perceber a tensão toda que só aumentava ali dentro. - Venha... - Quase sussurrou, acenando com a cabeça para fora do quarto. Pensei em questionar, mas optei em ficar em silêncio, seguindo - também descalça - para fora do quarto.
Acompanhei para fora da casa, para outra caminhada. Agradeci mentalmente quando respirei o ar frio do dia cinzento, sentindo a grama sob mim. Deu para perceber meu vício pela sensação que isso causava que, por sinal, é inexplicável. Para mim, havia muitas coisas por trás da sensação gostosa que uma grama proporcionava aos pés e, consequentemente, ao meu corpo todo.
não parecia disposto a parar de andar tão cedo. Estava bem frio, nuves negras escondiam qualquer vestígio do sol ou do céu azul e nós não estávamos devidamente preparados para a caminhada. Continuamos andando com pressa, na verdade, andava com pressa. Eu apenas o seguia.
Depois de um bom número de passos apressados, reconheci a floresta que começava no horizonte. Foi ali perto que e nos encontraram na última vez que saímos andando pelo campo. Eu me encontrava ofegante, cansada e suava frio. Porém, ao ver aquele número de árvores juntas - mesmo estando bem longe - tive vontade de sair correndo. Obviamente não o fiz, me contentei em apenas fitar a floresta de longe. A dor nos pés e na parte de trás das pernas começou a tornar-se insuportável, passando de uma queimadura para uma dormência. Involuntariamente, segurei a mão de , quase deixando gemidos escaparem junto com minha respiração pesada. Não consegui soltar a voz e pedir para descansarmos um pouco, apenas parei de andar, respirando com força para não desmaiar.
[n/a: solte :D]
De repente só senti as mãos de segurarem meu rosto brutalmente. Logo seus lábios vieram de encontro com os meus, fazendo-me lembrar do machucado que provoquei na noite anterior. Não tive reação, apenas permaneci parada enquanto nossas línguas se acariciavam com ferocidade. Eu não sabia de onde tirava forças ou fôlego, meus movimentos pareciam ser automáticos. Porém, cheguei a um ponto que necessitei de mais ar, separando-me de . Só então tomei consciência do que acabara de ocorrer.
- Você só pode estar brincando comigo. - Falei com dificuldade, me jogando no chão. Fiquei deitada, sem me importar em me sujar, tentando acalmar meus batimentos cardíacos, minha respiração e meus pensamentos. Minhas mãos tremiam e eu sabia que estavam geladas. Parte do que eu sentia não era pelo cansaço e sim pelo incidente de segundos atrás. sentou-se ao meu lado, afundando os pés na grama e na terra, como se os protegesse. Um vento forte bateu contra nós, fazendo seus cabelos voarem. Ele fechou os olhos, tocando meu pescoço nu. Desceu a mão pelo meu peito, apenas ameaçando a entrar com ela no vestido e chegar em meus seios. Nem hesitei, somente fechei os olhos, deixando meu corpo totalmente livre para .
Seus dedos exploraram meus braços, tocando minha pele com tanta delicadeza que eu poderia adormecer a qualquer momento. Logo sua mão desceu até encontrar a minha, levando-a de encontro com seus lábios, depositando ali um leve beijo, sem sequer mover sua boca. Aproximou minha mão presa à sua do seu nariz, aparentemente cheirando-a, e logo a deixou perto do meu corpo novamente. Continuou me acariciando, agora usando meu abdome como ponto de partida. Desejei estar sem o vestido - mesmo quase congelando de frio - para poder sentir melhor o seu toque. Sua carícia foi descendo lentamente, fazendo-me arrepiar cada vez mais, chegando perto da minha virilha. Automaticamente, mordi o lábio de leve, fechando minhas mãos em punho. nem sequer pensou, continuou descendo e explorando por entre minhas pernas, sem medo algum da minha reação. De alguma forma, ele parecia saber que eu não o impediria de nada, que agora eu estava com o verdadeiro e que não iria demorar muito para que o quisesse perto de mim. Para que o quisesse em mim.
Abri a boca para suspirar, soltando um gemido sem querer. Abri os olhos, encontrando sorrindo, mas não retribuí sorriso algum. Talvez ele tenha interpretado mal a minha expressão séria, logo ameaçou a tirar a mão de mim. Entretanto, eu não deixei. Segurei-a com força contra meu corpo, usando-a como ajuda para me levantar e ficar sentada. Me aproximei e com sua ajuda sentei em seu colo. começou a desabotoar meu vestido, agora deixando claro que estava com um pouco de pressa. Nossas bocas encontraram-se novamente, só que dessa vez estavam mais confiantes de que realmente nos queríamos. Finas gotas de chuva começaram a vir de encontro com minha pele. Primeiramente, achei que meu corpo estivesse dormente e que eu desmaiaria logo agora, mas logo reconheci as gotas da chuva quando se engrossaram. À medida que explorávamos mais os nossos corpos, a chuva parecia aumentar. Todavia, ela não nos atrapalhou em momento algum. Muito pelo contrário, eu finalmente tive a chance de poder olhar com os cabelos molhados com total liberdade, sabendo que o teria. Ele tirou meu vestido sem nenhuma dificuldade. O ajudei, jogando a peça de roupa - que parecia mais pesada, uma vez que se encontrava molhada - para o nosso lado. Minhas mãos finalmente chegaram a sua bermuda. tirou-a sozinho, com mais habilidade, e logo voltamos à posição anterior, libertando-nos - um pouco desajeitados - de nossas peças íntimas. Não demorou muito para que estivéssemos completamente nus, ofegantes, tendo em nós apenas a água e o corpo do outro. me segurava com força, com a boca contra minha pele, incentivando-me da maneira que podia.
Finalmente chegamos ao limite. não me soltou, me abraçou com mais força contra seu corpo quente. Fiquei sem saber o que fazer, então apoiei minha testa em seu ombro, deixando a chuva possuir minhas costas. Ele passou a mão em meus cabelos, fazendo-os espalharem-se em meu ombro e braço, caindo uma parte em meu seio que se encontrava novamente contra o peito dele. Agora sim a chuva possuía minhas costas por completo, deixando-me arrepiada. Parte de mim estava aquecida em , mas outra recebia as pancadas gostosas das gotas grossas e geladas libertadas pelas nuvens negras.
- A gente não devia ter feito isso, . - Meu tom de voz competia com o som da chuva, mas eu sabia que ele me escutara. O senti suspirar, afagando minhas cabeça. Minhas mãos acariciavam seus cabelos com cautela.
- Eu sei. Eu perdi o controle. - disse perto do meu ouvido, sem precisar falar alto. Os trovões cantavam como se estivessem num coro, sem parar por mais de dez segundos. - Você não tem ideia do meu desespero quando não te encontrei aqui. - disse, sério, mas não muito rude. Silêncio. Foi tudo o que saiu de mim, mesmo com milhões de dúvidas ecoando em minha cabeça. - Vamos sair daqui. Você vai ficar doente. - Novamente doce, ele tirou as mãos da minha cabeça, beijando meu ombro. Peguei o vestido, sem nem torcê-lo. Chovia com tanta força que talvez o uso de roupa nem era necessário, uma vez que a chuva escondia tudo como se fosse um véu. Ainda assim, eu teria que entrar vestida na casa.
Coloquei o vestido, repetindo palavrões mentalmente até que conseguisse vesti-lo perfeitamente no meu corpo. Segurei minha calcinha e sutiã, passando a mão em meus cabelos para que saíssem do meu rosto. colocou a boxer e a bermuda com facilidade, segurando meu braço no seu logo em seguida. Ele estava mais sujo de terra do que eu, claro, mas não parecia se importar. nos guiou de volta para casa, agora sem pressa. Meu queixo batia insistentemente, enquanto meu corpo todo tremia, apesar da minha tentativa de me manter firme.
Assim que chegamos à varanda, eu soltei meu braço do de . Torci meus cabelos e o vestido, olhando para suas pernas, que já estavam limpas, porém molhadas. Percebi que eu também já estava limpa, já que as fortes gotas tiraram o excesso de terra dos nossos corpos. Ele me olhou, sorrindo, abrindo a porta da casa. Passei pela mesma, entrando sem me mexer muito para não molhar todo o chão.
- Vou pegar toalhas. - Ouvir essa frase me passou um certo alívio. Assenti, esperando que voltasse com as toalhas na mão. Ele subiu e eu fiquei parada, ouvindo meus dentes baterem.
Não demorou para que ele aparecesse novamente, com duas toalhas grandes. Já estava com a sua sustentada em seus ombros e carregava um seca em uma das mãos. Na outra carregava dois shorts seus e duas blusas, também suas. Me entregou esta e eu a envolvi em meu corpo no mesmo instante.
- Chá? - Perguntou, com os lábios roxos. Finalmente reparei como parecia pálido. Fiz que sim com a cabeça, ainda sem ter coragem de tentar falar. Fomos até a cozinha, onde eu sentei na pia. Enquanto preparava a água para ferver, peguei uma das blusas e um dos shorts. Demorou um pouco para que eu os vestisse sem tirar todo o vestido, mas consegui. Após colocar a água no fogo, pegou o vestido e as peças íntimas, colocando-os na janela. Talvez se nada estivesse tão esquisito e fora do controle, eu me sentiria embaraçada por tê-lo estendendo minhas roupas assim. Mas como isso tudo parecia um daqueles sonhos doidos que quando você acorda nem acredita que - mesmo no sonho - fez aquilo, eu nem me importava mais.
Comecei a secar meus cabelos com a toalha, ainda sentindo frio. Porém não poderia mais me esquentar, uma vez que o pano felpudo nas minhas mãos já estava encharcado. Deixei a toalha no canto da pia, cruzando os braços com força. tinha as duas mãos juntas, por cima da água fervendo, absorvendo o vapor e provavelmente sentindo-se mais aquecido que eu. Meu queixo voltou a bater e eu tremia de novo. Ainda tentava me controlar, tentava me manter rígida para que não ficasse tremendo ali, mas estava quase impossível me conter.
- Vem cá. - Ouvi a voz de . Meus olhos automaticamente focaram nele. Seu rosto era tão senero, seu sorriso de lado era tão acolhedor, que eu - por uns segundos - esqueci de tudo. Apenas me lembrava do momento que tivemos minutos atrás, na chuva. Não conseguia associar este com o de ontem ou com o sr. do hotel. Simplesmente parecia estar com outra pessoa, a que eu realmente queria perto de mim. Porém, a realidade sempre te fode e machuca em toda oportunidade que encontra, tirando de você qualquer fantasia ou ilusão. Deixando no lugar de ambas apenas dor e desesperança. Apenas drama e um vazio cheio... deixando apenas a complexidade, falta de lógica e uma confusão tremenda na sua cabeça, sem lhe deixar pensar direito. Mas eu me esforcei, gritei para mim mesma que aquele era, em uma só pessoa, o , e o sr. .
- Não. - Respondi baixinho, sofrendo silenciosamente no frio que me dominava. A pia debaixo de mim também estava gelada, mas meu corpo estava começando a deixá-la mais quentinha sob minhas coxas. me olhou com cautela, observando todo meu corpo. Me senti um tanto incomodada e exposta, mas só porque tinha medo que seus olhos encontrassem e julgassem os defeitos no meu corpo nada perfeito.
- Por que não? - Perguntou baixinho, ameaçando se aproximar de mim. Virei a cabeça para meu ombro, encarando o chão. Mordi o lábio inferior desajeitadamente, sentindo todo meu corpo ainda arrepiado e tremendo.
- Porque não quero ficar perto de você. - Menti, deixando meu tom de voz baixinho para que não reconhecesse minha total falta de sinceridade. Dizer essas palavras me fez sentir uma pancada no peito. Automaticamente, fechei os olhos, me segurando para não deixar a vontade de chorar me dominar e me vencer.
Senti o cheiro de com mais intensidade, percebendo que se aproximou. Ele tocou minhas coxas com delicadeza, abrindo minhas pernas. Encaixou-se entre elas e, novamente, moveu meus cabelos de lugar, deixando meu pescoço totalmente exposto.
- Por que sempre estragamos tudo? - Ele perguntou, tocando com os lábios em meu ouvido. Meu coração no mesmo momento disparou, me deixando com a sensação de que iria morrer a qualquer momento. tinha razão. Não era só ele, mas eu também estragava tudo. - Sempre dizemos o que não queremos... - Continuou com seus caprichos, beijando meu pescoço. - ... e fazemos o que não queremos. - Finalizou sua fala, segurando em meu rosto para que eu o olhasse. Os olhos de não estavam como ontem, pareciam normais e me passavam uma confiança surreal. Parecia que ele sabia que eu não queria dizer muitas das coisas que disse e o foda é que tinha razão.
- Pra que isso tudo, ? - Suspirei, aparentemente cansada. Senti suas mãos me acariciando e fechei os olhos. Ter assim era perfeito. Mas eu não podia desfrutar muito desses momentos, uma vez que sabia que não durariam.
- Que graça teria, ? Tudo é tão intenso perto de você... Talvez não seria assim se eu fizesse tudo certo.
- Pra mim, isso tudo não passa de uma brincadeira. Vocês se divertem às minhas custas enquanto eu tento entender o que vão fazer comigo. O que querem fazer comigo. - Eu continuava tentando não me deixar levar por sua conversa. riu baixinho, ainda com o rosto em meu pescoço. Enquanto depositava beijos no mesmo, eu me mantinha firme para prosseguir. - Vocês são egoístas.
- Que diferença isso faz? - perguntou, quase num sussurro. Suas mãos não saíam das minhas coxas, continuavam alisando-a com total liberdade. Não era porque eu estava confusa que eu não gostaria de tê-lo me acariciando.
- Toda! - Aumentei meu tom de voz, espalmando minhas mãos em seu peito para que se afastasse. obedeceu, mas ainda tinhas suas mãos em minhas coxas, agora paradas. A vontade de chorar estava sendo mais forte que meu controle, tomando conta dos meus olhos. - Não quero terminar como Juliet... - Murmurei, com a voz trêmula. não fez nada, ficou calado. Estava inerte, apenas com seus olhos fixos em mim. Retribuí seu olhar, vendo-o perdido pela segunda vez.
- Enquanto eu estiver aqui, você não vai nem sequer precisar cogitar a possibilidade de eu fazer com você o que fez com Juliet. Fui idiota antes de te trazer, mas não pretendo seguir os passos dele novamente, . - Sua mão veio de encontro com minha face, esquentando-a no mesmo momento. Seu polegar passou pela minha bochecha, fazendo-me dar conta de que havia deixado minhas lágrimas se mostrarem. Ouvir este "enquanto eu estiver aqui" me fez estremecer.
- Você vai embora? - Perguntei, ainda com a voz da mesma maneira. não respondeu, continuava olhando em meus olhos e enxugando minhas lágrimas, que faziam questão de me humilhar à sua frente. Ele sorriu, sem parecer ter vontade nenhuma. - Vai me deixar aqui?
- Nunca. - Balançou a cabeça negativamente, grudando seus lábios em minha testa por um bom tempo. Fechei os olhos, já me acostumando à sensação de quase-enfarto perto de .
- ?
- Hum?
- Onde estão minhas coisas? - Ele separou-se de mim, finalmente me soltando. Seguiu até o fogão, apagando o fogo. Pegou a pequena panela de água - que já borbulhava - e encheu duas xícaras. Preparou o chá sozinho, do outro lado da cozinha, de costas para mim. Não parecia que iria me responder, muito pelo contrário, estava claro que ignoraria minha pergunta. Resolvi esperar, até que finalmente veio até mim, entregando-me uma xícara. Ele suspirou pesadamente, bebendo um gole do seu chá.
- Vou cuidar disso ainda, não se preocupe.
- Não estou preocupada. - Menti, também bebendo um gole de chá para que não percebesse. - Só não sei porque castigam dessa maneira. Não sei como conseguem fazê-lo me ver com as roupas de Juliet. Isso é muita maldade, . - Parei de falar ao perceber que estava começando a soltar muitas palavras sem pensar. Novamente, suspirou. Não estava frio, nem rude. Estava calmo e aparentemente desapontado.
- , nós quatro temos um trato. Isso tudo é perigoso demais, você sabe como. Não podemos matar por ter te levado para ver Martin, não temos coragem para isso. Nos conhecemos há tempo demais para simplesmente matar uns aos outros a sangue frio. - Era estranho ouvir isso vindo de . Porém, só de ouvir "matar" e "" na mesma frase, por minha causa, eu me senti mal. - Algum castigo ele tem que encarar. - Desviei meu olhar dele, encarando o chão. Não queria olhar para falando sobre castigo, punições ou por que razões mataria ou não. Aquilo fazia meu estômago revirar e meu peito queimar. Deixei o chá ao meu lado, na pia. se aproximou, deixando sua xícara perto da minha. Ambas ainda estavam cheias. Ele tocou meu rosto novamente, agora segurando-o com as duas mãos. - exigiu isso, eu não... merda! - Xingou ao perder as palavras. O olhei de relance, esperando que continuasse a falar. Finalmente prosseguiu. - Não acho que punições sejam necessárias. - Amoleci no mesmo momento. Minhas pernas pareciam dormentes e, se não segurasse meu rosto, eu seria capaz de virar uma gelatina. Eu sabia que não devia abrigar esperanças, mas ouvir dizendo que não era a favor de punições me passou um conforto maior do que deveria ser.
- O que ...
- . - Ele tentou me interromper, revirando os olhos. Mas eu o ignorei.
- ...tem contra mim?
- Ele só tem medo do que você pode causar. - Para mim não fazia sentido. Comparada a , eu não era nada, não havia motivos para que eu o amedrontasse.
- Mas o que eu posso fazer com ele? Nada! - Falei, ainda inconformada, esquecendo-me da nossa situação e aumentando um pouco o tom de voz. Logo me contive, voltando ao meu silêncio.
- A questão não é o que você pode fazer com ele, . E sim o que eu posso fazer por você. Isso o assusta. E eu não tiro a razão dele, realmente não sei do que sou capaz pra que nada te aconteça. - Senti que meu corpo queimava, que estava finalmente protegida. Ouvir o que disse me deixou melhor. Então eu ainda tinha uma chance, mesmo que minúscula...
- Por que você me protegeria? - O olhei, esperando que me respondesse com sinceridade. me encarou por longos segundos, como se nem ele soubesse a resposta. Mesmo não querendo, mesmo que a ideia parecesse absurda, eu começava a achar que sentia sim alguma coisa por mim. Podia não ser nada demais, mas devia ter algo. Porém, não durou muito:
- Bom... - Ele mediu as palavras, desviando seu olhar de mim. Ficou olhando para cima por um momento, pensativo. Logo me encarou novamente, suspirando. - Minha pena a cumprir na justiça seria muito maior se você sofresse danos sérios, não posso me arriscar muito. - Fiquei sem palavras. falou com tanta certeza que eu não pude duvidar do que dizia.
- Só por isso? - A pergunta saiu automaticamente pela minha boca, fazendo-me me arrepender ao ouvi-la. Ele parou de me olhar, encarando as xícaras. Senti que suas mãos apertaram minha coxas antes que respondesse, com os olhos temporariamente fechados.
- Por que eu teria outro motivo? - Ele perguntou baixinho, levantando uma sobrancelha. Não aparentava estar brincando, muito menos mentindo. Apenas assenti, já não aguentando mais tentar disfarçar meu choro. Finalmente senti que minhas lágrimas não seriam mais poucas correndo calmamente, e sim jatos horrorosos que cairiam sem parar.
Afastei de mim, descendo da pia. Saí da cozinha em passos largos, subindo as escadas até chegar ao quarto. Fechei a porta com força, tampando o rosto com as mãos. Não sei quanto tempo fiquei encostada na porta, chorando alto, sem nem me importar com quem pudesse ouvir. A ideia de que sentia algo inútil por mim se esvaiu, deixando dentro de mim a certeza de que apodreceria aqui, nesse vai-e-vem constante de e sr. . Ele me desgastava, sugava minha energia e me deixava me sentindo um lixo sempre que podia. O poder que exercia sobre mim era pavorosamente obscuro e mágico ao mesmo tempo.
Finalmente andei até a cama. Ainda com as mãos no rosto, já sabendo de cor o caminho, me joguei sobre a colcha, encolhendo-me. Senti que o colchão estava diferente, como se outro corpo estivesse ali do lado.
Eu não estava errada.
Esfreguei os olhos para consertar minha visão embaçada. Logo enxerguei o rosto de , deitado ao meu lado, me encarando. Me perguntei se não estava delirando, mas logo senti sua mão tocando meu braço.
- O que você está fazendo aqui? - Perguntei, esquecendo-me do meu estado. Finalmente percebi que ele devia estar me vendo chorar há um bom tempo.
- Por que está chorando? - Não tive o que responder. Me limitei ao silêncio, encarando a colcha sob nós. As palavras pareciam ter escapado de mim, era como se minha voz tivesse partido. Eu sentia minha garganta seca, não sabia o que iria dizer. - Você ama ? - Engoli em seco, fazendo a mim a mesma pergunta que .
- Eu não sei. - Respondi sincera, fechando os olhos. Percebi como ainda estava cansada, mesmo depois de estar apagada por um bom tempo.
- Por que você é diferente, ? - O ouvi perguntar. me olhava com tanta curiosidade que senti que seu olhar atravessaria meu corpo. Como se já não bastasse, fiquei confusa com sua pergunta. - Não é como as outras... o que ainda faz aqui? - Franzi a testa. Além da própria pergunta em si, o termo "outras" me chamou atenção. Não se tratava apenas de mim e Juliet. Eles já deviam estar experientes o suficiente nisso tudo.
- E eu por acaso tenho a opção de ir embora? - Bufei, virando-me na cama, deixando minhas costas tocar no colchão. Fiquei encarando o teto, sem ter muito no que pensar.
- Você nem ao menos tentou escapar. - disse como se fosse um absurdo. Fechei os olhos, exausta demais para falar alguma coisa. Porém não podia ignorá-lo.
- Se eu fugir, vocês me encontram. Se me encontrarem, ou não, vão fazer alguma coisa terrível comigo ou com outra pessoa. Seria egoísmo demais da minha parte ir embora, não só com outra pessoa, mas comigo mesma.
- Essa é a desculpa que você engole. - Ele disse com certeza. Abri meus olhos, sentindo uma facada na garganta. De certo modo, eu estava convencida de que não estava errado. - Você não sabe porque está aqui, mas não parece querer ir embora.
- De certa forma, eu não quero... - Me virei para , sentindo a vontade de chorar voltar. Odiava isso, odiava o modo como meu corpo se comportava. Choros e mais choros, quando essa merda de drama iria parar? "Fraca!", gritei para mim mesma como se fosse mudar alguma coisa. - Eu quero entender vocês, . Poder entrar na mente de cada um, mas vocês não deixam. Eu estou mais confusa do que nunca e ninguém nem ao menos tenta me explicar o que está acontecendo.
- Eu deixo. - Ele disse simplesmente, com a voz baixa. Levantei as sobrancelhas, não entendendo onde queria chegar. Ele suspirou, piscando devagar. - Eu deixo você entrar na minha mente. Sou completamente aberto com você... - Não tive o que falar. Ninguém teria o que falar no meu lugar, teria? Fiquei olhando-o, recebendo dele o mesmo olhar. - O problema é que você quer entrar na mente de .
- Pare de me examinar.
- Não sou psicólogo nem nada disso. Mas sei o que busca aqui, , e não vai encontrar. Conheço há anos, você não vai conseguir mudar a natureza estranha dele. É como se você quisesse fazer um pássaro nunca mais voar ou mudar o planeta de lugar. Vai estragar tudo ao seu redor se entender , e ele sabe disso mais do que eu mesmo. - Novamente, as palavras sumiram da minha boca. Esta, por sua vez, estava seca e não queria me obedecer, permanecia parada enquanto eu a queria dizendo algo. - Vocês dois são como duas bombas atômicas. Temos que ser cautelosos com ambos e não podem se chocar nunca. Caso o façam, quase tudo que é vida morre, e tudo que não é vida simplesmente estraga. - estava profundo demais no seu discurso, mas eu não podia discordar de nenhuma palavra. Até porque, o que tinha de errado no que dizia? Nada. Sua mão veio de encontro com meu rosto, me fazendo sentir incomodada.
- ... - Falei, segurando sua mão e a afastei de mim, soltando-a. Ele sorriu, obedecendo. - Preciso tomar um banho e descansar. - entendeu, assentindo e saiu do quarto.
Assim que ele o fez, eu fui até o banheiro. Abri todos os armários vendo-os do mesmo jeito que antes, quase vazios. Porém agora tinha cera para depilar, algumas pinças, alicate de unha e coisas do gênero. Me senti mal ao ver que entravam e saiam do quarto quando queriam, mexiam nas minhas coisas e nas coisas que deixaram para mim na hora que queriam. Mas que regra eu poderia colocar aqui? Eu praticamente não tinha voz perto deles, mas eu os entendia. Não podiam me dar todo o conforto do mundo depois do que fiz. Foi errado ter ido ver Martin e deixado entender que tentei fugir... se bem que eu não sabia o que seria capaz de fazer fora daqui. Provavelmente, se tivesse uma chance... uma boa chance, talvez poderia... balancei a cabeça, bloqueando-a desses pensamentos.
Aproveitei que tinha uma caixa de folhas de cera fria para depilar e tirei a tarde para cuidar do meu corpo. Percebi que ainda tinham umas marcas no mesmo, mas me esforcei ao máximo para ignorá-las.
Quando terminei de me depilar toda, o que levou um bom tempo, eu tomei um banho. Não tinha pressa alguma aqui nessa casa, e achei isso bom. Era confortável poder dormir a hora que quisesse, sem ter um compromisso no dia seguinte. Se bem que eu sentia falta da cidade, do barulho de carros, das cores do semáforo brilhando dia e noite. Ainda assim, a natureza que cercava essa casa conseguia me encantar muito mais, mesmo não mudando muito, apenas crescendo. Me dei conta que a primavera estava chegando e fiquei curiosa para ver como seria aquele campo em meio a tantas flores.
Quando saí do banho, me enxuguei e vesti outro vestido de Juliet. Este era azul claro e parecia um desses vestidos de contos de fadas, bem delicados e com movimento. Calcei um par de chinelos e penteei meus cabelos. Ouvi um barulho alto vindo do andar debaixo, algo que parecia vários cacos de vidro caindo no chão. Depois escutei alguém batendo na porta, como se insistisse em entrar. Desci correndo, vendo na sala, com o copo quebrado perto de seus pés. estava na cozinha, estático, enquanto caminhava até a porta, ajeitando a blusa. Senti me puxar para o canto da sala com força, me prensando contra a parede para que não me vissem. fez o mesmo na cozinha, saindo pela janela da mesma antes que a porta fosse aberta.
nos olhava, certificando-se de que eu e não aparecíamos. Assim que a porta foi aberta, ele pareceu se transformar, sorrindo e andando para o lado de .
- Sim? - perguntou simpático, como qualquer dono de casa comum. , ao seu lado, tinha uma das mãos na cintura de um modo afeminado, tocando um dos braços em . A outra segurava um revólver nas costas. Percebi que também tinha uma pose nada masculina e entendi o jogo deles.
- Recebemos queixa de um carro queimando. - Ouvi a voz que parecia ser de um senhor. me prensou mais contra a parede, fazendo com que eu sentisse dificuldade para respirar. Eu nem ameacei sair, estava com mais medo do que ele de ser encontrada, até porque estava armado. Olhei para e , que estavam de mãos dadas agora, ainda com uma pose nada a ver com a que eles tinham normalmente. - E ele era roubado. - O homem completou. Como se fosse ensaiado, os dois fizeram uma expressão de desapontamento e tomou a palavra.
- Não é a primeira vez que isso acontece. - Falou, com a voz falha como se estivesse prestes a chorar.
- Esses garotos vivem ligando para cá, jogando coisas aqui... sabe como é. - levantou sua mão que estava entrelaçada na de . Este por sua vez sorriu delicadamente, ainda com a expressão triste.
- Essa do carro é novidade.
- E por que não fizeram queixa alguma? Não foi de vocês que recebemos. - tossiu, aparentando não ter mais o que dizer. Mas parecia saber.
- Olhe para nós. Quem iria vencer em alguma queixa: um casal de homossexuais escondido da sociedade que os exclui ou um bando de garotos que têm pais que os mimam? - Revirei os olhos. Eles sabiam mentir muito bem. Olhei novamente para a cozinha, vazia, me perguntando para onde havia ido. O senhor, que me pareceu ser da polícia, se despediu de e , saindo em seguida. Assim que fecharam a porta, soltaram as mãos, voltando ao normal.
- Você tem problema, ?! - Ouvi perguntar, enfurecido. Era a primeira vez que o via assim. o olhou, rindo.
Percebi que ainda estava me esmagando contra a parede, então puxei um pouco de ar, tossindo. Ele deu uns passos para trás, me libertando. Fiquei parada, com medo de me mover. era a última pessoa que eu queria com um revólver ao meu lado. Ele o colocou dentro da calça, escondendo com a blusa e catou os cacos de vidro do chão. Percebi que uma das suas mãos sangravam, como se ele quem tivesse apertado o corpo e deixado-o cair. Não duvidava disso, uma vez que o temperamento deles era... difícil.
- Onde está ? - Perguntei baixinho para . Ele suspirou, me olhando.
- No porão. - Nem sabia que nesta casa tinha um porão. - Vem. - Me chamou e eu o acompanhei. abriu a porta, olhando antes de sair. O carro da polícia já estava bem longe, andando rapidamente. Nós dois saímos da casa, dando a volta na mesma. Na parte de trás, tinha a porta dos fundos - que dava para a cozinha - e perto da mesma uma porta de madeira no gramado. a abriu e uma escada que levava à escuridão nos recebeu. - Quer ir lá chamá-lo? - Ele perguntou, rindo. Revirei os olhos, bufando, negando com a cabeça. Descemos a escada devagar. Quando não víamos mais os degraus, colocou uma de minhas mãos em seu ombro, segurando-a. Ele finalmente acendeu a luz e eu pude observar o local.
Não era como um porão qualquer. Parecia uma sala gigante da máfia. De um lado, vários tipos de armas penduradas na parede, logo vinham vários tipo de ferramentas. Em outra parede havia estantes. Uma delas possuía várias identidades juntas, cada bolo possuindo um elástico para segurá-las.
O lugar era bem arrumado. Possuía duas geladeiras, uma cafeteira, televisão e um sofá imenso. estava sentado no mesmo, também segurando um revólver. Quando me viu atrás de , soltou o mesmo, deixando-o no chão. Agradeci mentalmente, largando o ombro de .
- Já foram? - perguntou, bebendo um gole da sua garrafa de cerveja. fez que sim com a cabeça, andando até a escada novamente.
- queria te ver. - Disse, me fazendo ter vontade de pegar uma daquelas armas e atirar na cabeça dele. Como tinha coragem de dizer algo assim para ?
Senti minhas bochechas queimarem, enquanto subia as escadas. Ouvi a porta do porão fechando no teto, constatando que estávamos a sós. sentou-se direito, colocando a mão ao seu lado para que eu também sentasse. Andei bem devagar, fazendo o que pediu, sentindo seu cheiro misturado com o da cerveja. Continuava bom.
se aproximou, envolvendo-me em seus braços. Enrijeci na mesma hora, me arrepiando. De certa forma, algo parecia fora do lugar. Era estranho tê-lo me abraçando do nada, sem que depois ganhe meu corpo.
- O que foi? - Ele perguntou, reparando na minha mudança repentina de postura. Suspirei, balançando a cabeça negativamente. Preferi ficar em silêncio a ter que dizer algo, me magoar, me estressar comigo mesma e ir embora. Estava bom aqui, era quentinho nos braços de , mesmo eu me sentindo um tanto deslocada, como se eu não merecesse aqueles braços e tivesse plena certeza disso. - Eu não vou te machucar, . - disse, olhando para o chão. Segui seu olhar, enxergando o revólver ali jogado. Nem tinha lembrado daquilo. Dei de ombros, então parei de olhar para o chão, encarando minhas mãos que se aqueciam entre minhas pernas. Dogie encarava meu ombro. Ele inclinou um pouco a cabeça, alcançando minha pele e começou a beijá-la. Meu coração disparou e eu torcia mentalmente para que ele não reparasse. Minha pele se arrepiou por inteiro, enquanto eu tentava manter meus olhos abertos. - Nunca mais... - Completou, sussurrando.
- Eu sei. - Falei sem nem pensar, me aconchegando mais em seus braços. continuou me abraçando, me esquentando, me acolhendo. Não havia coisa melhor do que simplesmente ter seu corpo tocando o meu, me deixando ouvir as batidas calmas do seu coração, enquanto as minhas pareciam prestes a perfurar meu peito.
- Não sabe. - riu sem nenhum humor. - Você não confia em mim e eu não dou motivos para que o faça.
- Realmente, você não ajuda em nada. - Sorri levemente, logo voltando a ficar séria. - Mas ainda assim eu confio, de certa forma. Só sei o que é capaz de fazer.
- O que sou capaz de fazer, ? - Ele perguntou, me olhando. Retribuí seu olhar, mordendo o lábio. Acho que nunca cansaria de encarar seus olhos .
- Algo pior que fez com Juliet. - Murmurei, voltando a morder o lábio, deixando a pequena ferida dolorida. Era uma dor gostosa, prazerosa. ficou em silêncio por uns segundos, mexendo as pontas dos meus cabelos.
- Não mesmo. - Não pude acreditar no que ouvia. Pude jurar que estava alucinando, que estava sozinha naquele porão e que na verdade ele era imundo e cheio de ratos roendo meus pés. - Nada vai te acontecer enquanto eu estiver aqui, não vou deixar. Vou sempre arrumar um jeito de te deixar assim - passou o indicador rapidamente pelo meu braço, voltando a me abraçar -, do jeito que está agora. - Talvez a dor me fizesse delirar, como uma defesa do meu corpo. Me fez imaginar que algo maravilhoso estava acontecendo, quando na verdade eu estava sendo devorada aos poucos, com a carne na boquinha de vários ratinhos sujinhos.
- Por quê?
- Prometi a mim mesmo que não faria mais nada ruim com você. ... - me segurou, fazendo-me olhá-lo novamente. - ... eu não posso aguentar de tudo, mesmo que aparente isso. Não posso te ver daquele jeito e encarar algum erro. Te ver com hematomas, lembrar dos seus gritos e da minha falta de noção me corrói. Não vou continuar me torturando ao te torturar. Já que não me odeia nem por mal, não há o que possa fazer. - Continuei com o olhar fixo no verde interminável de seus olhos. foi tão sincero que nem havia explicação para que mentisse. Apenas o abracei, encostando minha cabeça em seu peito. Seus braços me envolveram de novo, agora com mais força. Senti seus lábios contra minha cabeça, então fechei os olhos.
- ... - Chamei baixinho.
- Hum? - Ele murmurou, ainda com os lábios contra minha cabeça. Respirei fundo.
- O que fez com Juliet?

Capítulo quinze

Seu par de olhos me olharam por um bom tempo. Me surpreendi por eu ter aguentado devolver seu olhar por tantos minutos, sem desviar um segundo sequer. parecia procurar em meu rosto alguma coisa, algo que eu não sabia o que era, logo eu não podia ajudar. Ele suspirou.
- Vou conversar com antes. Então ele vai te contar tudo. - Disse pacientemente cada palavra. Me mostrava tanta certeza que eu realmente acreditei que chegaria até mim, contando tudo o que houve. Nem ao menos estranhei o fato de ser algo particular dele, algo que o fazia sofrer. Como já imaginava, tinha algum poder sobre ou apenas conhecia muito bem o amigo que tinha.
- Eu quero que você me conte. - Minha voz soou insistente demais. sorriu, levando sua mão ao meu rosto. Acariciou minha bochecha com o dedão cautelosamente, puxando meu rosto para o seu. Juntou nossas testas e logo voltou a encarar meus olhos. Eu sentia um frio na barriga, como se estivesse fazendo bungee jump.
- Não posso fazer tudo assim... - Ele me beijou rapidamente, apenas tocando nossos lábios, voltando ao normal. - Depois que ele te contar, quero que vá ao meu quarto. Então vou explicar tudo melhor. - Assenti. Estava ansiosa, mas para ter que explicar algo melhor, então não sabia de alguma coisa. Porém isso não me incomodou, apenas ignorei qualquer pensamento que pudesse me confundir.
Ouvimos a porta do porão ser aberta, iluminado mais na escada. No mesmo instante, se afastou de mim, se levantando antes que a pessoa pudesse nos ver - e nós a vermos. As pernas de apareceram, descendo as escadas, logo seu corpo todo entrou em meu campo de visão.
- Temos um problema. - Ele disse para . Este pareceu entender, assentindo, então subiu com pressa. não me olhou nenhuma vez, mas eu já estava acostumada com isso.
Me levantei, seguindo calmamente até sairmos do porão. Enquanto , agachado, trancava o cadiado que juntava as duas portas de madeira, eu observava uma caminhonete que estava ali perto parada. Era preta, antiga e meio acabada. Estava suja de terra e era monstruosa. Logo encontrei , que andava por ali, em frente à varanda. Quando eu e nos aproximamos, ambos se olharam por uns segundos, como se pudessem entender o que o outro pensava.
Apesar de me sentir totalmente por fora de qualquer assunto ali, eu não me incomodei. entrou na casa, então eu fiz o mesmo, uma vez que não havia razão para ficar com . Levei um leve susto ao encontrar sentado no sofá, assistindo televisão. Não me sentia confortável perto dele.
- Vai pro seu quarto. Daqui a pouco te chamo para comer. - me disse, sorrindo. Fiquei inconformada com sua simpatia e seu sorriso doce que voltaram. Se comportava do mesmo modo que naquela manhã quando cortamos frutas. Sorri de volta, meio retardada, então subi as escadas. No caminho, olhei de relance para a cozinha, sem encontrar . Assim que cheguei no segundo andar, todas as portas do corredor estavam fechadas, apenas a do quarto que eu dormia estava aberta. Resolvi ouvir o que disse e apenas entrar em seu quarto depois que me contasse tudo. O que ainda iria demorar, uma vez que provavelmente ainda não sabia que teria que me contar algo.

Fiquei um bom tempo sentada na janela, como de costume. Pude ver aparecendo e sumindo, andando ao redor da casa. Me perguntei no que pensava, até que ele finalmente pareceu me notar. Para tê-lo feito apenas agora, deveria estar muito perdido em pensamentos. Ele sorriu, acenando. Retribuí antes de pular e chegar ao solo. Meu corpo todo entrou em contato com a grama, eu perdi completamente o equilíbrio. Após rolar um pouco, me lembro de estar completamente deitada, rindo.
correu até mim, ajoelhando-se ao meu lado. Antes que conseguisse dizer alguma coisa, desatou a rir comigo, ajudando-me a levantar.
- Você é doida. - Ele disse enquanto eu me limpava. Apenas dei de ombros, já parando de rir. Como se fosse ensaiado, ambos olhamos para a caminhonete, olhando um para o outro em seguida. mordeu o lábio inferior, suspirando.
- De quem é? - Perguntei. Ele balançou a cabeça negativamente, olhando para outra direção.
- É melhor você entrar para jantar. - Assim que disse isso, apareceu, nos chamando para dentro. Todos sentamos à mesa, menos . Não perguntei por ele, na verdade, não disse nada durante todo o jantar.
Ainda não havia anoitecido, mas só quando coloquei a primeira garfada na boca eu percebi o quanto estava faminta. Não havia almoçado, nem tomado café direito naquele dia. Quando terminei de comer, esperei que os três terminassem. Eles conversavam da mesma maneira: como se fossem amigos de férias numa casa alugada. Eram sempre simpáticos entre si e eu nem parecia existir. Eu observava com cautela o comportamento de , sempre feliz com e .
Enquanto os três riam, a voz de me chamou atenção. Vinha do segundo andar.
- ! - Foi apenas isso. Olhei para as escadas automaticamente, não conseguindo vê-lo. se levantou, então e voltaram a conversar.
Me levantei da mesa, levando meu prato para a cozinha. Não tinha nenhum resto de comida, então coloquei tudo na pia. Voltei para a sala, então os dois se levantaram, fazendo o mesmo. Quando terminamos de tirar a mesa, me convenceu a assistir um filme com eles. Não prestei atenção em nenhuma cena, nem sequer me lembro o nome do filme. Apenas encarava a escada, esperando que ou descesse.
continuava surpreendentemente simpático e engraçado, como se eu nunca tivesse feito nenhuma merda ali dentro. Finalmente, em meio a uma cena alta com tiroteios e gritos, apareceu na escada. Não a desceu por completo, apenas o suficiente para que eu o visse me chamando com a mão.
Pulei para fora do sofá, subindo com ele até seu quarto. Assim que entramos, ele fechou a porta. Sentei em sua cama, descalça, com as pernas dobradas. fez o mesmo, à minha frente. Percebi que seus olhos estavam um pouco avermelhados, mas já era o que eu esperava.
- Você já deve saber que a gente faz isso por diversão. Já te disse que achamos excitante poder mudar de nome, identidade, cidade e fazermos o que quiser sem sermos punidos por isso. Há pouco tempo começamos a trazer garotas, mas não foi nada tão sádico. - disse a última frase como quem tem medo do que eu iria pensar, explicando-se rapidamente. - Enfim, a Juliet foi a segunda que eu estava trazendo. O problema é que eu simplesmente me apaixonei por ela... E obviamente eu contei para , e . Não há nada que a gente não saiba sobre o outro. Só que ficaram irados e não tiro a razão deles. Até o dia que eu entrei no quarto de Juliet e a vi deitada com . - desviou o olhar, encarando o edredom. Quase pedi para que parasse de contar, sentia que estava torturando-o. - Ambos estavam sem roupa nenhuma, conversando deitados como se fossem um simples casal. Eu pirei. Literalmente, eu pirei. Saí completamente do controle. Assim que me viram, saiu pacientemente da cama, mas Juliet ficou. Só me lembro de ter avançado nela, gritando horrores. Ela ficava calada, só chorando. - Ele parou de falar. Percebi que ele iria chorar, então virei o rosto. Novamente, eu não era capaz de vê-lo chorando. Fiquei encarando sua janela, sem poder ver muito, uma vez que estava sentada na cama. - Eu a amava...
- Eu sei, . - Respondi baixinho. De novo me encontrei sem nada para reconfortá-lo.
- Não, não sabe. Eu a amava muito. - Mais uma vez, silêncio. Esse durou uns bons minutos. Percebi que já havia perdido a vontade - pelo menos por fora - de chorar, então pude voltar a olhá-lo. - Eu perdi o controle e a sufoquei.
A notícia veio em mim como um tiro. Não esperava que contasse tão diretamente assim. Eu fechei os olhos, deixando algumas lágrimas escorrerem. Repeti o filme que minha mente formou sobre o acontecimento, até chegar à conclusão de que era um babaca. Já Juliet mudava de imagem para mim aos poucos.
"Depois que ele te contar, quero que vá ao meu quarto. Então vou explicar tudo melhor.", lembrei da frase de . Não estava com muita vontade de ir ao seu quarto agora, sabia que seria capaz de socá-lo se o visse, mas tinha que ir. Infelizmente, não conseguia recusar algum convite dele.
Me levantei da cama, enxugando meu rosto. Meu nariz provavelmente estava vermelho, assim como minhas bochechas. Ainda assim, eu estava disposta a ter as explicações de .
- . - Senti segurando meu braço. O olhei, já de pé. - Eu não sou bom. - Disse, vitorioso, como se me provasse que não era doce, uma vez que discutimos isso. Revirei os olhos, bufando. Era um tanto engraçado vê-lo dizendo isso com seu jeito doce.
- Você não é mal. Só foi insensato, mas nunca conseguiria fazer isso de novo com alguém. - Ele largou meu braço, um tanto receoso, dando de ombros. Fingia não se importar, mas eu sabia que se importava. O observei por pouco tempo, enquanto parecia insistir que eu ficasse lá dentro. Até que saí do quarto, um tanto depressa, sem deixá-lo me impedir novamente. Fechei a porta, cortando a voz de que me chamava para dentro novamente.
Estava mais ansiosa do que nunca. Me aproximei da porta de , respirando fundo antes de tocar na maçaneta e girá-la. Empurrei um pouco, colocando a cabeça para dentro. Rapidamente tirei, batendo a porta com força. Corri para o primeiro quarto que consegui: o de . Quando entrei, continuei correndo. Minha boca enchia de água, enquanto meu estômago parecia se espremer. Ao chegar no seu banheiro, me atirei no chão, a tempo de alcançar o vaso sanitário e vomitar.
Senti duas mãos segurando meus cabelos para trás. Uma os soltou, deixando a outra segurar tudo sozinha. A mão livre passava por minhas costas, mas eu nem sequer me importava.
- Calma... - dizia. Assim que terminei, fiquei ali, parada, jogada em frente ao vaso. Ele afastou um pouco a minha cabeça do mesmo, dando a descarga. Me ajudou a levantar, uma vez que meu corpo estava mole. Tudo que eu conseguia pensar era na cena de uma figura feminina, com as costas nuas, os cabelos loiros cobrindo parte da mesma em cima de . O lençol o cobria, não conseguia vê-lo perfeitamente. Nem pude ver a própria mulher direito, uma vez que estava de costas para mim. Só sabia que aquilo me devorava por dentro.
lavou meu rosto com água gelada, enxugando-o logo após. Me carregou até sua cama, me deixando deitada na mesma. Deitou-se ao meu lado, me dando um trident de menta para mastigar. Aceitei, já que queria tirar aquele gosto horrível da boca.
- Courtney ainda estava lá? - perguntou. Como se já não fosse suficiente, fiquei tonta. Gelei no mesmo instante, tendo o dobro de vontade de socar . Fechei os olhos, relembrando da mulher. Sim, era Courtney.
- O que ela está fazendo aqui? - Peguntei, abrindo os olhos novamente. sorriu docemente, como se tivesse pena de mim. Odiava isso, mas não era culpa dele.
- Ela conhece o lugar... fica enrolando Courtney, só pra que ela não atrapalhe em nada.
- E como ela não sabe de nada? - Eu estava com raiva. E não era pouca. O foda é que eu não estava com raiva de . Novamente, eu mesma jogava a culpa em mim. não respondeu. Parecia ser ruim demais para ser verdade, mas se Courtney sabia de tudo, então só podia estar brincando comigo. - Oh, merda... ela sabe?! - Minha voz saiu mais alta, com mais indignação.
- Calma, não. - apressou-se em responder. Respirou fundo, fechando e abrindo os olhos bem devagar. - Como eu disse, ela conhece o lugar. a trouxe uma vez, só para passarem uma noite juntos. Então vez ou outra ela aparece, só pra vê-lo.
- Então como ela não sabe de nada? O mundo todo tem como o principal suspeito de tudo, .
- Você não entende, ?! - Ele também aumentou o tom de voz, mostrando incredulidade. Não estava sendo grosso, apenas pareceu perder a paciência ao tentar se explicar. Respirou fundo, se recompondo. - Era para Courtney estar no seu lugar. Ele a trouxe aqui para ela se sentir especial, a seduziu sem sentir nada de verdade... Estava tudo pronto para a pegarmos. Só que você apareceu e ele resolveu te trazer. Realmente, ficaria muito na cara, ele conhece a família desde pequeno. Ou não, ou poderiam cogitar que e Courtney fugiram juntos... mas ele não a quis aqui. - Aquilo estava acabando comigo. tinha mentido, não tinha como ele ser louco por mim. Dizia que me protegia, mas na verdade protegia Courtney. - Ele diz pra Courtney que está escondido aqui e que tem medo de sair porque podem prendê-lo. Ela acha que ele não faz ideia de onde você está.
- Já ouvi demais. - Quando completei a frase, percebi que estava soluçando de tanto chorar. Eu chorava de ódio, tristeza e mais ódio. Não aguentava nem sequer pensar no rosto de sem sentir um impulso me fazendo chorar mais.
Senti me abraçando, alisando minhas costas novamente. Segurei sua blusa, molhando-a com minhas lágrimas. Eu realmente precisava de um abraço agora.

Acabei adormecendo nos braços de . nem sequer bateu na porta ou tentou me chamar. De madrugada, acordei, encontrando acordado também. Sem dizer nada, saí do seu quarto. Ao passar pelo corredor, pude ver a porta de um pouco aberta novamente, deixando um pouco de luz escapar e iluminar parte do corredor. Me segurei ao máximo para não olhar para dentro do quarto, mas não foi preciso, uma vez que vi uma sombra de alguém movendo-se ali dentro.
Rapidamente, entrei no meu. Fui até minha cama, deixando a janela completamente aberta. Estava escuro, o céu estava sem lua nem estrelas. Ventava forte, mas eu não me cobri. Queria ficar com frio, queria dormir assim. E consegui.
Acordei na manhã seguinte, sem fazer ideia de que horas eram. Provavelmente era cedo, eu não costumava acordar tarde. Me levantei da cama, me dirigindo ao banheiro. Estava tranquila, até que entrei debaixo da água quente do box e, como se tivesse levado um choque, toda a noite anterior veio à minha mente. Só me lembro de estar caída, de joelhos, no azulejo do box com a água caindo em cima de mim. Senti que iria vomitar novamente, mas comecei a respirar fundo e com força para não vomitar no chuveiro.
Ouvi a porta abrindo, então olhei para fora do box. O vidro estava embaçado e eu só podia ver uma silhueta branca vindo até mim.
Segurei na bolinha de aço, para que a pessoa - provavelmente - não empurrasse a porta, abrindo-a. Senti que ele tentou, mas ao ver que eu segurava, desistiu.
- Quero falar com você. - Ouvi a voz de dizer impacientemente.
- Vai embora.
- Agora.
- Vai. Embora! - Falei pausadamente, também impaciente. Ele não disse nada. Apenas vi sua silhueta agachando-se e sentando-se ali no banheiro. Nenhum de nós proferiu palavra alguma, talvez porque não havia o que ser dito ou talvez porque não adiantaria de nada dizer alguma coisa.
Minha pele recebia um tom avermelhado devido à temperatura da água. O vapor tomava conta do banheiro que possuía a porta e janela fechadas. Encostei minha cabeça no vidro, podendo ver através do mesmo, uma vez que a parte que eu toquei não estava mais embaçada. Espiei , que abraçava os joelhos, com a testa apoiada nos mesmos. Lentamente, passei o indicador pelo vidro, podendo ver cada vez mais o que estava fora do box. Tive vontade de abraçar e ser olhada por ele. Mas ao mesmo tempo queria me livrar dele. Queria não depender nem querer . Me sentia doente, algo estava errado em mim, não podia continuar sentindo algo tão forte por ele depois de tanta coisa.
Me levantei devagar. Minhas mãos foram de encontro com uma das torneiras do azulejo, girando-a, fazendo com que a água parasse de cair em um segundo. Abri um pouco da porta de vidro, vendo ainda estático, esticando minha mão para alcançar a toalha felpuda branca, presa num gancho de aço na parede. Quando a peguei, me enrolei na mesma, sem me secar. Saí do box, finalmente encontrando os olhos de me fitando. Ele afastou um pouco as pernas, abrindo-as e abriu os braços. Estava sem blusa, apenas de bermuda - como de costume - e, independente desse detalhe, não tinha como negar. Me sentei no chão, à sua frente, então pela segunda vez ele me abraçou por trás, envolvendo-me com força para perto de si.
- Isso não significa que te perdoo. - Minha voz saiu razoavelmente alta no banheiro. demorou para responder.
- Não pedi perdão. - Surpreendentemente, não me senti constrangida. Dei de ombros, sentindo as mãos de acariciando meu corpo por cima da toalha branca. - Não adianta pedir, não tenho como pedir, não tenho o que te dizer. Já me sinto cara de pau o suficiente de ter coragem de estar à sua frente.
- Sabe que acabo perdoando.
- Isso que me intriga.
- Somos dois. - Fechei os olhos, sentindo a boca dele encontrar meu pescoço molhado. - Mas continua não significando que te perdoei.
- Eu sei disso. Mas eu prometi que explicaria a história melhor para você, então vou explicar. Queira você ou não.
- Eu quero ouvir.
- Pois bem... - se afastou do meu pescoço, me juntando mais ao seu corpo. Era a melhor forma de estar brigada com alguém, devo admitir. - Você deve me achar um filho da puta por ter dormido com Juliet. Mas só fiz isso porque um apaixonado e uma Juliet tapada atrapalhariam tudo. E além de termos que nos livrar de Juliet, teríamos que nos livrar do . Foi difícil conseguir seduzi-la, ela parecia respirar . Mas ainda o amando, era humana e tinha desejos, necessidades. E se entregou completamente uma noite... Foi tudo como planejado: nos encontrou e perdeu o controle, acabou tomando coragem para fazer o que deveria: matá-la. Foi o primeiro de três momentos que mais me senti culpado durante toda minha vida... Mas não queria que um amigo meu morresse por estupidez e falta de profissionalismo.
- No caso, se apaixonar? - Perguntei. O senti assentir atrás de mim.
- Mas não é por causa disso que você deve achar que te odeio. Já disse que sou louco por você, mas se expressar isso, você corre perigo e pode... - Ele não continuou. Não precisava continuar. Eu estava em cima do muro... acreditava ou não que gostava de mim? Parte minha queria ser realista e não acreditar. Essa mesma parte me mostrava Mart, do jeito fofo e maravilhoso que era. Ele sim sabia mostrar algum sentimento. Outra parte me dizia "Por que ele mentiria que é louco por você? O que ganharia com isso, afinal?". Infelizmente, ambas eram sensatas demais.
- Por que faz sexo com Courtney? Por que me trouxe ao invés de trazê-la? Por que não me diz a verdade, merda?! - Aumentei o tom de voz na última frase, me levantando. Havia me perdido um pouco, mas era bom desabafar assim. Fechei a tampa do vaso sanitário, me sentando na mesma. ficou em silêncio, tinha a expressão severa. Pareceu ofendido com o que eu havia dito.
- Não ache que tem razão de alguma merda aqui. Muito menos que eu gosto de fazer sexo com outras pessoas além de você... - Me senti corar. De certa forma, era tão bom brigar com ele. Era quando finalmente me dizia algo. - Ela sabe onde estou escondido e é muito difícil achar um lugar tão fora do mapa e excluso como este hoje em dia. Ela pode a qualquer momento se revoltar e resolver me entregar, mesmo que ache que não fiz nada. Sem contar que seria muito arriscado trazê-la, ao invés de você. Court tem o gênio forte e com certeza ninguém a aguentaria aqui dentro. - Ele pausou, ainda com a mesma expressão. Fixou seu olhar nos meus olhos enquanto eu fazia o mesmo, sentindo um frio na barriga sem igual. - E se for pra ficar longe de tudo com alguém... prefiro que seja com você.
- Queria acreditar completamente nisso.
- Não pedi que acreditasse, apesar de querer. Não consegui provar nada disso que eu disse, nem vou tão cedo. Nem tenho como te provar que não estou te usando e que tento mudar a cabeça de todo mundo pra que nada te aconteça... - Outra pausa. Desta vez foi longa, torturante. Finalmente, entendi o que quis dizer quando falou que mudava de planos toda hora. Era aliviador. Eu queria que falasse mais, que se abrisse mais para mim. - Você não faz ideia do quanto te quero só comigo. E demorou para eu descobrir isso. Desculpe... - Ele sussurrou a última palavra, se levantando. Abriu a porta do banheiro, segurando na maçaneta. Ainda dentro, continuou: - Não era para você ver uma parte falsa de mim que eu tenho que alimentar todos os dias. Queria poder fugir com você e ser eu mesmo toda hora.
- Então fuja comigo, . - Falei de imediato, sem pensar ou nem mesmo ponderar o assunto. riu triste, assentindo.
- Quem sabe. - Saiu do banheiro, deixando o quarto em seguida.
Meu coração parecia estar prestes a ultrapassar meu peito. Tive vontade de correr atrás de e dizer que acreditava sim que ele era louco por mim. Minha visão parecia ter mudado, dentro de mim alojava-se uma alegria até então desconhecida. Percebi que agora sim estava apaixonada e que nunca havia experimentado tal calor e alegria antes. Podia sentir que meus olhos brilhavam, meu corpo queimava e meu coração mostrava-se mais vivo do que nunca. Sentia-me invencível.
Abri a pequena janela do banheiro, indo até o quarto. Estava com vontade de gritar, pular, cantar, dançar, girar, me jogar do lugar mais alto. Dentro de mim sentia uma inquietação imensa, mas era gostosa. Era maravilhoso se sentir admirada, sentir que alguém - principalmente - me queria.
Abri o armário, encontrando ainda as roupas de Juliet. No mesmo instante, parte da chama dentro de mim foi apagada. Era como se eu me visse minhas coisas ali, sendo usadas por outra garota inocente. Balancei a cabeça, espantando essa ideia da mente. Observei as roupas por um estante, até que - preso no ganho da porta - já havia um conjunto escolhido. Reconheci que eram minhas roupas. No gancho do cabide preso na parte de dentro de uma das portas, havia presa uma fita de cetim, passando por um furo de uma carta, suspendendo-a. A peguei, encarando o pequeno papel que possuía letras bonitas.
"Seja obediente: de madrugada, quando vir a lanterna piscar para sua janela, venha até ela. Como da última vez."
Parecia idiota. Meloso. Típica cena clichê de um filme escroto. Apesar disso, eu estava lisonjeada pelo convite. Sabia que era de , era mais que óbvio. Sua última frase substituiu seu nome na carta. Sorri sozinha, vestindo por enquanto um conjunto de moletom.

Quanto terminei, fui ao banheiro dar um jeito nos meus cabelos. Eles ainda estavam molhados e eu não tinha mais cremes ou sprays para usar, então tive que dar um jeito de deixá-los bonitos com as próprias mãos e um pouco de condicionador (nojento, mas é nosso pequeno segredo). Ao estar satisfeita com a pequena mudança no cabelo, o que demorou, voltei para o quarto. Obviamente, já estava escuro lá fora, mas não passava nem sequer das onze da noite.
A ansiedade me consumia. Não conseguia ficar sentada na cama, nem mesmo na janela. Chegava a imaginar que tinham luzes piscando, quando na verdade o céu continuava negro e solitário, assim como a imensa escuridão na região onde a iluminação interna da casa não alcançava. Quando olhei para fora da janela pela milésima vez, vi que a caminhonete havia partido. Me senti aliviada, deixando o quarto.
Resolvi descer para assistir televisão ou conversar com quem estivesse lá embaixo. Só pude encontrei e , assistindo televisão. Tinham uma cara de tédio sem igual e eu não tirava a razão deles. Ao me verem, afastaram-se um do outro no sofá, ma dando espaço para sentar. Eu o fiz, entre os dois, então olhei para a televisão. Antes que eu reconhecesse o canal ou até mesmo visse o que estava passando, mudou de canal.
- Posso ver as notícias? - Perguntei. Não costumava assistir ao noticiário todos os dias na minha casa, mas estava curiosa para saber o que se passava fora daquela casinha no campo.
- É melhor não. - respondeu, quando na verdade eu estava me dirigindo a , que por sua vez concordou com apenas assentindo lentamente. Não costumava falar muito, pelo menos não perto de mim.
- Mas eu quero saber o que está acontecendo lá fora. - Eu me mantinha educada e calma, mas apenas por fora. suspirou impaciente e apenas o deu um tapa para que se acalmasse.
- Gente morrendo, gente matando, políticos roubando, os EUA dominando a economia, a maior parte da África continua sofrendo, assim como a Ásia, por puro egoísmo e ignorância do ser humano, algo que já é histórico. O capitalismo continua pesando cada vez mais, influenciando as crianças a cada dia com brinquedos novos. As menininhas continuam ganhando bonecas desde pequenas, sendo induzidas a serem donas de casa sem nem elas ou seus pais terem noção disso. Os menininhos continuam amando seus soldadinhos que os ensinam que a pátria vem antes de qualquer outra pessoa que esteja sofrendo, a não ser que ela te pague, é claro. É isso, , que o mundo anda fazendo. E não parou depois que você sumiu, piora cada vez mais e ninguém consegue mudar isso. - respirou fundo, sem ar depois de falar sem pausar uma vez sequer.
- A culpa do mundo estar uma merda não é dela, . Recomponha-se. - Ouvi dizer, vendo da cozinha. Tinha em uma mão um pano de prato e enxugava um copo de vidro que se encontrava na outra mão.
- Desculpe. - falou baixinho, sem me olhar. Eu concordava plenamente com tudo o que disse, mas ainda assim não era razão para ser rude comigo. Obviamente, o desculpei, nem sequer havia me ofendido. já era como um amigo para mim naquela casa, me sentia confortável perto dele.
- Venha me ajudar na cozinha, , e deixe esses revolucionários idealistas sedentários sozinhos. - me chamou, ainda simpático. Sem dizer nada, apenas forçando um sorriso, fui até a cozinha com ele.
- O que quer que eu faça? - Perguntei, encarando o balcão vazio. tirou da geladeira um monte de frutas novamente. As espalhou pela pia, separando algumas para mim e outras para ele. Pegou dois grandes potes, novamente separando um para mim e outro para ele. O observei pegar um maracujá, cortando-o ao meio e deixando-o em cima da janela novamente, como antes. O cheiro logo me invadiu, era bom demais.
- Por que faz isso? - Peguei a faca que me entregou, começando a cortar as bananas descascadas em rodelas. deu de ombros.
- Peguei o costume. - Tive vontade de perguntar "de quem?", mas não queria explorá-lo agora. Talvez um dia o entenderia, assim como aconteceu com .
se afastou da pia, levando sua faca consigo. Ligou o som que parecia um pouco antigo, aumentando o volume. Não estava gritante, nem muito baixo, apenas no volume exato para que escutássemos nossas facas batendo harmonicamente contra o fundo de madeira, atravessando a fruta. Cada fruta possuía seu som, até mesmo mamão, o qual eu cortava agora.
- Gosta de Travis? - Me perguntou, enquanto Mid-Life Krysis tocava. Senti um nó na garganta. Meu pai escutava essa banda. Sempre colocava o cd para tocar no carro, quando viajávamos. Ou então era The Police, U2, Sting, The Beatles, John Mayer, etc. Aprendi a gostar dessas bandas e de outras a partir dele. Nossa, como eu o queria agora!
- Muito. - Respondi baixinho, abaixando mais a cabeça por um segundo para que meus cabelos escondessem meu rosto de . Ele voltou a cortar as maçãs em cubinhos.
- É difícil encontrar alguém que os conheça. - disse no mesmo tom que eu. Não falei mais nada, apenas continuava cortando as frutas e pegando outras. Percebi que estava mais ágil e experiente desta vez. Ou era simplesmente uma ilusão minha para fazer o tempo passar. E passou.
- . - Chamei, levando minha faca e o descanso madeira para a pia. Arregacei mais as mangas.
- Diga.
- Vocês são um grupo de revoltosos? Tipo, que são contra a política e que matam pessoas para se vingar da sociedade? - Girei a torneira, sentindo cair uma água gélida nas minhas mãos. Peguei a esponja, passando lentamente pela faca.
- Mais ou menos isso. - deu de ombros. Também terminou de cortar suas frutas, virando-se para mim. - Na verdade, é exatamente isso. Mas também é prazeroso, como um jogo. Somos livres, fazemos o que queremos. Assim que o ser humano deveria nascer e não debaixo de milhões de leis que não ajudam na harmonia entre as pessoas. É tudo inútil, tudo para ganhar dinheiro.
- Hummm. - Murmurei. Estava gostando do assunto. Encontrei-me novamente concordando com as críticas contra a sociedade atual. Na verdade, muitos concordavam com isso também, mas não faziam nada. Tipo eu.
- Só está errada em um ponto.
- Qual?
- Não matamos. Pelo menos não pela mesma razão que nos rebelamos. - Peguei a faca e o descanso de , passando a esponja neles também. O olhei de relance, voltando a encarar a louça.
- Por que matam, então? - Me senti queimar de curiosidade.
- Por tédio. Ou quando sabemos que algo vai dar errado. Simples. - Enxaguei tudo. Ao terminar, me entregou o pano de prato húmido. Agradeci baixinho, enxugando as mãos. Em silêncio, colocamos os potes transbordando de frutas picadas na geladeira.
Saímos da cozinha após conversar mais um pouquinho. Era uma da manhã e e se despediram, subindo para dormir. Menos dois.
Eu e ficamos sentados na sala e ainda não havia aparecido de novo. Me perguntava constantemente o que estava tramando, quando vi que estava começando a ficar com fome de novo.
- , tem alguma coisa para comer? - Eu sabia que tinha. Havia olhado dentro da geladeira, que estava farta.
- Também estou com fome. - Ele riu. Nos levantamos e lá estava eu de novo na cozinha. Antes que chegássemos perto da geladeira, virou-se para mim, parando de andar. Fez com que eu esbarrasse nele, mas logo recuei dois passos. Ele se aproximou dois passos, fazendo meu queixo tocar seu peito, uma vez que eu levantava um pouco o olhar para vê-lo. - Mas você não pode comer agora. - Recuei novamente, com o cheiro de dentro de mim. - Daqui a pouco comerá. Na verdade, já é hora de se arrumar.
Calada, apenas assenti. provavelmente contara para , mas eu não via motivos para que não o fizesse. Até me senti bem ao ver que um confiava no outro, o que mostrava mais que estavam bem entre si.
Agradecida, cheguei ao quarto, vestindo o conjunto separado por . Resolvi colocar um casaco, já que estava com frio lá fora, mas não tinha nenhum. Não me importei, apenas apaguei as luzes do quarto e do banheiro. Andei devagar até a janela, já tendo o caminho decorado, e me sentei na mesma. Alguém no andar debaixo apagou as duas luzes que iluminavam a parte de fora da casa, apagando as de dentro também. Senti meu coração acelerar, então apenas esperei pelo piscar de algum luz ali longe.
Parecia que eu estava num abismo, mergulhando num mar de escuridão. Era como se não houvesse nada em volta de mim a não ser ar. Talvez era essa distância de aviões, postes de luz, carros e barulhos urbanos que eu gostava tanto daqui. Finalmente, vi uma lanterna acender-se ao longe. Era uma pequena bolinha acesa, que acendia e apagava, até que se manteve acesa. Abri um largo sorriso, pulando da janela cautelosamente. A sensação foi a melhor do que todas as que tive pulando daqui. Eu não sabia onde era o chão, mas a leve queda não durou nem dois segundos. Ao chegar ao solo, segui até a bolinha acesa que ficava cada vez maior à medida que eu me aproximava. Depois de dez minutos andando, percebi como estava longe. De repente fiquei com medo de ter uma hipotermia ou de cair de cansaço. Mas eram duas coisas meio difíceis agora.
Depois de mais um tempo andando, ainda calmamente para não me cansar muito rápido, a luz de apagou. Parei no mesmo instante, desesperada. Olhei para trás, mas não vi nada a não ser escuridão. Antes que pudesse chorar ou gritar, a lanterna acendeu-se de novo. Estava bem mais próxima, então ouvi uma risada.
. Finalmente... .
- Seu merda. - Falei, me aproximando mais. Pude vê-lo por trás de tanta luz, que já estava me cegando. Ele a colocou para cima, fazendo-a iluminar um pouco o seu redor, "como da última vez". O senti me abraçar, então fixei meu olhar no seu rosto mal iluminado.
- Você está gelada. - Disse, tocando nossos lábios rapidamente. Logo me soltou, tirando algo do bolso. Logo, quando saiu fogo do objeto, reconheci um isqueiro nas suas mãos. se agachou, estendendo o fogo para umas velas, acendendo-as. Sorri sozinha, me sentando na manta vermelha. acendeu umas sete velas que estavam dentro de copos de vidro pequenos. O vento as soprou em menos de dez segundos. - Merda! - Xingou, tentando novamente. Segurei sua mão, fazendo-o largar o isqueiro. Ele virou-se para mim, provavelmente ouvindo meus queixos baterem.
- Deixa. - Minha voz saiu baixinha. sorriu, derrotado.
- Vamos ter que ir para o porão. - Se levantou, me ajudando a levantar em seguida. Pegou a manta vermelha e a bateu algumas vezes, colocando-a sobre meus ombros. Agradeci, me cobrindo por completo. Apenas deixei minha mão fora para que a segurasse. Logo voltei a andar, agora de volta para a casa. Agora com .
Ele desligou e ligou a lanterna três vezes, apontando para a casa. As luzes do lado de fora imediatamente acenderam-se e eu me senti aliviada por saber a localização da casa no meio do escuro. Ele desligou a lanterna de vez, uma vez que sabíamos que luzes seguir para chegar até o porão.
A caminhada de volta foi muito mais rápida e não trocamos nenhuma palavra. Eu apenas lembrava das velas e das palavras de , sorrindo sozinha a cada cinco segundos.
destrancou o cadeado do porão, abrindo as duas portas. Descemos as escadas juntos e eu me decepcionei por ter achado que estaria bem quentinho: estava um gelo também. trancou as portas por cima de si, então acendeu as luzes. Quando cheguei ao chão de madeira, vi que o que antes parecia uma enorme e misteriosa sala de mafiosos, agora era um local que possuía uma outra manta esticada no chão, com algumas bandejas, duas taças e três garrafas diferentes de vinho. Havia velas acesas por toda a parte. Assim que vi tudo, olhei para , que sorria e logo apagou a luz novamente. Andamos até a manta e eu, sinceramente, não sabia onde esconder a cara.
Nos sentamos, então abriu um dos vinhos, enchendo as duas taças.
- Nunca fiz isso antes. - Ele disse, derramando um pouco. Percebi que sua mão tremia.
Tive vontade de chorar.
- Nem eu. - Admiti, apertando mais a manta contra meu corpo. sorriu fofo novamente, bebendo um gole do seu vinho. Olhei para as garrafas, sem reconhecer nenhum rótulo. Na realidade, nunca fui expert em bebidas.
Peguei minha taça, levando-a à boca. Estava completamente cheia, já que estava desajeitado, mas ainda assim eu terminei de beber em questão de segundos. Ele percebeu. Ai, Deus.
- Acho que eu tenho roupas mais quentes que essa, . - Falei antes que ele dissesse qualquer coisa sobre meu nervosismo. riu.
- Não resisti à saia. Desculpe. - Sorriu de lado. Eu conhecia aquele sorriso, era o pervertido. Ainda assim, não deixava de ser fofo. E me deixava tonta.
- Pare de se desculpar. - Falei, deixando a taça à minha frente. Meu peito queimava.
- Não dá... - Ele sussurrou, também deixando sua taça à sua frente. Ainda não havia terminado.
- Por que está fazendo isso? - Perguntei. Preciso dizer que me arrependi? Não era minha intenção, mas minha frase soava acusadora, desconfiada. Porém eu só estava curiosa.
sorriu antes de responder.

Capítulo dezesseis

Seus olhos me encaravam com tanta intensidade que eu me constrangia com a ideia de que conseguiria ler meus pensamentos. Ele respirou fundo, como se falar fosse um árduo trabalho.
- Não era para isto estar acontecendo. Não era para ser real e, até certo ponto, eu realmente caguei para você. Mas em pouquíssimo tempo, você conseguiu me chamar a atenção. Eu nunca me importei muito com você, serei sincero, mas antes mesmo de fazer aquilo contigo, eu sabia que estava ao menos interessado em ti. O que já era anormal para mim, eu nunca aceitei nada que viesse de bom à minha cabeça e que tivesse a ver com você. Tive que me privar disto, tive que calar qualquer voz em minha cabeça, qualquer impulso da minha mente que vivia me mostrando seu rosto.
“Porém, apesar de tudo, foi quando você sumiu. Quando acordei de madrugada e fui até o seu quarto, sem te encontrar, eu pirei. Um desespero sem igual tomou conta de mim, o que era inútil, já que sempre encontramos quem queremos. Ainda assim, eu sentia uma horrível sensação ao imaginar que não te veria nunca mais. Foi aí que eu percebi que estou perdido sem você. Tive que admitir a mim mesmo que me deixei sentir o sentimento que mais evitei durante toda a minha vida. E foi você, uma garota ordinária, que me mudou. Isso não entrava na minha cabeça, me deixava cada vez mais puto a ideia de que eu te queria. Pior ainda era saber que você me queria porque, convenha, eu sei o que sente por mim. Sirvo para isso, para atrair, e sei que te tenho como minha. Entretanto, não sei como me comportar contigo. Não sei se devo dizer as verdades, se devo continuar mentindo, se minto para mim mesmo, se te afasto, se mato meu desejo de te ter ao meu lado... ora eu acho melhor me afastar e não lhe deixar sofrer, ora o egoísmo me cega e eu preciso ao menos te tocar quando dorme ou quando está perto de mim.
“Nunca mais de duas coisas me amedrontaram em toda minha vida. Mas te perder, definitivamente, é a maior de todas. Eu sou um monstro, sei disso, mas não sei o que fazer. Vivo confuso e tudo que quero é viver normalmente. Sabe que queria simplesmente fugir com você.
- Então fuja comigo. – Repeti. Minha voz seguiu a sua, fazendo-o sorri triste como na última vez que pronunciei estas palavras.
- Eu estou dividido. – Não foi bom ouvir isto. Eu o queria dizendo que tinha a plena certeza que me queria. O queria sussurrando que fugiria comigo assim que pudesse. O queria me acariciando sem medo que nos encontrassem. Queria que pudéssemos fazer o quiséssemos sem nos preocuparmos com olhares de outras pessoas... queria um lugar totalmente deserto para mim e para ele e poder ouvi-lo dizendo para mim, antes de dormir, um pouquinho sobre si todas as noites.
- Não o quero dividido. – Minha voz era baixa. Eu estava com medo. – Me assusta. – me aninhou em seu colo. Libertei-me da manta, querendo senti-lo me tocar.
- Sabe que não precisa se assust...
- Não quero lhe ouvir dizendo que me quer e um dia vê-lo me sufocando. – O interrompi, falando sem pensar, como já acontecia há um tempo. Senti enrijecer, me afastando de si em seguida. De fato, era minha maior preocupação. Seria uma decepção misturada com um pesadelo que eu nunca tive.
- Então saia de perto de mim. - Ele se levantou, pegando as garrafas de vinho. Colocou-as em cima de uma pequena mesa encostada na parede. Voltou para pegar as taças de vidro, levando-as até o fundo do porão, o qual não estava iluminado. sumiu do meu campo de visão, eu apenas ouvia seus passos na escuridão à minha frente. Ouvi um barulho de pedaços de vidro chocando-se contra o chão. Logo um “merda!” com a voz dele alcançou o meu ouvido, fazendo-me levantar no mesmo instante. Peguei uma vela que estava ao meu lado e a apontei para frente, até encontra-lo agachado no chão. segurava uma de suas mãos, esta estava sangrando tanto que metade de sua mãe estava coberta de sangue. Cheguei à conclusão que o copo quebrara em suas mãos. – Saia, vou apagar as velas. – disse ríspido, levantando-se. Eu sentia a cera quente da vela tocando minha pele, fazendo-me sentir uma dor gostosa nos dedos que a seguravam. Ele andou para a parte iluminada, recebendo um tom amarelado em meio a tantas velas. Seus cabelos brilhavam, me fazendo sorrir sozinha por menos de dois segundos. estava de costas para mim, encarando a escada. Eu não queria sair dali, queria continuar ao seu lado, o que não era mera novidade.
Andei lentamente até , ficando à sua frente. Apaguei a vela, deixando-a cair no chão. As pontas de dois dos meus dedos estavam cobertas de cera branca. evitava me olhar, conseguindo me ignorar sem apresentar nenhum esforço. Segurei seu rosto, obrigando-o a fixar seus olhos em mim. Ele o fez, me deixando mergulhar em seu olhar verde tão misterioso e conhecido para mim.
- Você sai do sério à toa. – O senti trincar os dentes. Pegou em minhas mãos, tirando-as de seu rosto com força. Respirou fundo, revirando os olhos. Mostrava repulsa, eu conhecia esta expressão.
- Já mandei sair. – Sorri, assentindo. Não me deixaria levar pela sua grosseria. Sabia que poderia sair do porão porque, ainda assim, voltaríamos a nos abraçar. Era maravilhoso me afastar de com a plena certeza de que nos tocaríamos novamente. Querendo ou não, ele viria atrás de mim. Ou eu atrás dele. E então teríamos mais um momento para nossa coleção.
Ao entrar à casa, subi mais escadas. Assim que pisei no corredor, percebi que não estava com vontade alguma de me trancar no quarto onde dormia.

’s P.O.V. on:

Minha mão latejava. Provavelmente um caco filho da puta penetrou minha pele com tudo. Eu não parava de sangrar e, de certo modo, sentia que merecia. Novamente, eu havia passado dos limites. Em todas as situações possíveis em uma só noite. conseguia me levar a fazer coisas absurdas. Ela estava me desgastando e eu não tinha energia o suficiente para oferecê-la. “Desculpe, mas, por favor, fique longe de mim.”
Após passar um bom tempo arrumando o porão a fim de deixa-lo exatamente como algumas horas atrás (e me xingando pela perda de tempo), eu finalmente deixei o porão, trancando-o. Entrei em casa segurando um pano contra minha mão machucada enquanto estava lentamente o sujava de vermelho, tomando-o quase por inteiro. Pensei em acordar ; precisava de um curativo logo. Entretanto, tudo que eu queria era dormir. Precisava descansar e simplesmente relaxar. O dia foi mais que cansativo e, para no fim, não ter dado em porra nenhuma.
Entrei no meu quarto, sendo recebido por uma escuridão mórbida. As portas, janelas e – provavelmente – as cortinas estavam fechadas. Fechei a porta pela qual entrei, seguindo o caminho que sabia de cor até minha cama. Ao sentir a mesma contra minha perna, apenas estiquei o braço na direção do criado-mudo, alcançando o abajur após um tempo movendo a mão às cegas. Dei somente um toque, deixando-o se sacrificar ao espalhar sua luz quase sem intensidade pelo quarto. Assim que a pouca luz caiu em minha cama, encontrei o corpo de totalmente nu.
Fiquei sem reação por longos segundos. Nada vinha à minha mente, a não ser a imagem que eu encarava neste momento. Eu tomava cuidado até mesmo para respirar, com medo que fosse alguma alucinação. ficou de quatro, engatinhando até mim, ajoelhando-se à minha frente. Contive-me, deixando a indiferença me tomar. Ela pareceu não se importar, segurando na gola da minha blusa. Perguntei-me se já aprendera a estudar meu rosto, se já descobrira quando minha indiferença era falsa. Pelo seu olhar inocente e, ao mesmo tempo, quente, a única resposta que me encontrou foi “não, ela nada sabe”. Isso me aliviou, me fez simplesmente ligar o foda-se e tocar seu corpo após largar o pano que absorvia meu sangue.
Com seus pequenos e gélidos dedos ágeis, desabotoou minha blusa, libertando-me dela quando a ajudei, esticando os braços para trás por alguns segundos. Logo deixei minhas mãos espalmadas em suas costas, sentindo que uma de minhas mãos a sujava. pareceu perceber, mas em momento algum pareceu se importar.
Seus dedos, uma de minhas partes favoritas em seu corpo, alcançaram minha calça. Em pouco tempo ela conseguiu abrir minha calça, apenas empurrando um pouco para baixo. Esta deslizou por minhas pernas, uma vez que era larga.
Sem paciência, deitei na cama, ficando por cima dela. Seu corpo quente e delicado contra o meu me fazia não pensar em mais nada. Minha mão continuava latejando, mas – surpreendentemente – isso me excitava. Eu estava sendo bruto, porém com o máximo de delicadeza possível. Esquisito, porém possível. esperou que eu tirasse minha boxer, algo difícil de fazer de um modo sensual, principalmente com uma ereção.
Fiquei por cima dela, encaixando nossos corpos. A penetrei com certa necessidade, mantendo meus olhos abertos. mantinha os seus fechados, abrindo-os vez ou outra para me ver. Eu queria aproveitar ao máximo, ver seu sorriso de prazer, ver seus lábios mexendo, vê-la suja de um vermelho que saiu de mim. Aos poucos, ia suando. Sua pele brilhava conforme eu me movimentava.
Infelizmente, eu não consegui prolongar o momento, embora tenha tentado ao máximo. chegou ao orgasmo sem perceber meu esforço, o que me deixou satisfeito. Ela fechou os olhos, ainda sorrindo, ofegante. Sua barriga me tocava com sua respiração forte. Seu corpo, antes gelado, agora parecia febril.
’s P.O.V. off.

Era bom demais. era bom demais. Seus movimentos eram bom demais. Tê-lo dentro de mim era bom demais. Seu sangue secando em minha pele era bom demais. Seu cheiro, gestos, toques... Tudo, simplesmente, fazia-o parecer que havia sido programado para mim. Antes que eu caísse no sono, me acariciou com mais calma, tomando cuidado para que não me despertasse para uma segunda vez. Eu, honestamente, não me importaria. Porém, apenas aproveitei. Não era toda noite que eu dormia com suas mãos em mim, me acariciando em partes que nem eu mesma explorava.

O mundo poderia ter parado de girar. Poderia ter simplesmente parado naquele momento. Desse modo, todos estariam dormindo para sempre e eu e estaríamos em sua cama no momento mais íntimo de todos que já tivemos. Infelizmente, as horas passaram e a claridade que banhava o quarto irritou meus olhos, me despertando. Não os abri. Senti minhas costas quentes, já que estava de bruços e coberta apenas até a cintura. Estiquei apenas um dos braços, alisando o espaço vazio ao meu lado. Abri os olhos no mesmo segundo, sem ver ao meu lado. Desci o olhar, me sentando na cama, encontrando sentado na ponta da mesma. Um nó de horror prendeu-se em minha garganta, sem me permitir gritar ou chorar. Apenas uma coisa prevalecia em mim: “fodeu”.
- . – Não foi uma pergunta, entretanto, assentiu. Ele parecia triste, mas eu pouco me importava com o que ele sentia. Subitamente, pulei para fora da cama, me vestindo. Não me incomodei com a presença de no quarto, uma vez que eu sabia que ele não se aproveitaria nem um pouco de mim ao me vestir desesperadamente.
- Ele te espera no seu quarto. – falou sem ânimo algum. Tinha o olhar perdido no chão, como se estivesse hipnotizado. Paralisei por uns segundo, encarando-o. – Sinto muito... – A voz falha de me surpreendeu. Assim que a ouvi, o nó de horror em minha garganta foi substituído por uma bolha de ar. Não podia chorar agora, não prestes a ver . Funguei, tentando arrumar meu cabelo. Vi as manchas vermelhas do sangue de em meus braços, agora coagulado.
Deixei o quarto, indo até o onde eu estava hospedada. Abri a porta com tanto cuidado e indecisão que nem eu mesma me ouvi entrando. A fechei do mesmo modo, encostando-me nela. Vi encarando a janela que eu tanto amava observar. O modo como movimentava o braço deixava claro que estava fumando. Lentamente, ele virou-se para mim, me encarando de cima a baixo.
- Achei que havia me livrado dessa roupa. – Sua voz dissipava ironia, junto com um sorriso cínico. levou a ponta do cigarro diretamente contra a madeira da janela, jogando-o para fora da mesma. Meu sangue ferveu. Minhas pernas estavam bambas e era claro que eu precisava de um alicerce. Entretanto, eu me esforçava ao máximo para que não caísse mole no chão. – O que você pensou, ? – Perguntou docemente, sem perder a voz irônica. - Que eu não perceberia nada? Pensou que realmente se importa com você? – Eu não respondi. estava ofegava de raiva. – Hein?! – Percebi que esperava uma resposta minha.
- Ele se importa comigo. – Ambos não acreditamos quando minha voz se posicionou. abriu mais seus olhos, me fuzilando com os mesmos. Riu loucamente, se aproximando de mim com passos largos que cantavam no chão.
- Você é inacreditável. - Disse, olhando para o lado. Não demorou para que seus olhos caíssem em mim novamente. - Já conversei com . Ele não precisa fingir mais nada, está livre de você. – Falou, deixando forte a ideia de que eu era um peso para , - Agora eu que cuido de você. E mais... Não fale com ele. Em hipótese alguma nem sequer o olhe, você me entendeu?
Doeu.
Ouvir aquilo tudo vindo de doeu. Eu não sabia o que pensar, nem o que sentir. Apenas procurava um sentido em tudo que disse. Por que mentiria? Se não estivesse mentindo, logo estaria. E então, por que mentiria? Não havia motivos para ele dizer coisas sobre para me fazer sentir mal e me afastar. Bastaria apenas pedir e ele sabia que eu não o desobedeceria.
- Se ainda acredita em alguma coisa que sai de nossas bocas, então é muito mais estúpida do que eu pensava. – parecia capaz de me matar com apenas um cuspe. Senti a porta me empurrando, logo entendi que alguém a abria. Dei alguns passos à frente, ainda tentando não chorar. entrou no quarto, olhando diretamente para .
- Acho que já é suficiente. – Disse para que, por sua vez, concordou com a cabeça.
- , ela está avisada. Depois não diga que não tentei melhorar as coisas. – disse entredentes, ainda furioso. assentiu, concordando. Abriu mais a porta, basicamente pedindo para que deixasse o quarto. Ele o fez, ainda com seus passos fortes. tornou a fechar a porta, desta vez completamente, me encarando em seguida.
Era bom ter ali. Ele parecia saber quando eu precisava dele me consolando, mesmo que parecesse em vão. Passei a tarde deitada com ele, ao seu lado na cama. Não nos tocamos. Apenas vez ou outra enxugava meu rosto ou segurava minhas mãos. Nada que nos preocupasse. Sabíamos que nada aconteceria, nem se quiséssemos. Após um bom tempo chorando e sentindo ao meu lado, eu finalmente senti meu corpo pedir por descanso. A única forma que eu tinha para me afastar seria dormindo, sonhando.
Acordei com me chacoalhando lentamente. Não queria abrir os olhos, não queria acordar, queria continuar dormindo sem me preocupar com nada.
Virei-me de lado, escondendo o rosto no travesseiro. continuou me chamando, pacientemente. Provavelmente já era tarde. Lentamente, levantei a cabeça, olhando-o.
- Você tem que comer. – Quando o ouvi falar, percebi o quanto estava com fome. Não comia desde o jantar da noite anterior. Olhei para suas mãos. Não segurava bandeja nenhuma. Sentei-me na cama, procurando-a pelo chão, sem sucesso. - quer que você desça. – Eu odiei ouvir aquela frase. Senti-me tão presa. “ quer”... Foda-se o que quer ou não. Balancei a cabeça negativamente.
- Estou sem fome. – Menti. Não iria obedecê-lo. Não iria comer olhando para sua cara.
- Não pode deixar de comer por causa de . – Eu estava começando a me cansar. Estava sem energia para aguentar estes jogos deles. O motivo pelo qual eu não descia não era apenas pelo fato de não querer obedecer e sim porque estaria lá. Eu me sentia humilhada, não queria que ele me visse. Não queria que risse de mim lembrando da minha cara ridícula acreditando em tudo que dizia. – Nem por causa de . – Às vezes eu esquecia que era médico. Eu tinha certeza que ele me obrigaria a comer o quanto pudesse. Até porque, desejava que eu descesse.
Suspirei pesadamente, passando as mãos no rosto. Meus olhos ardiam.
Depois de um bom banho, no qual eu tirei os vestígios coagulados de do meu corpo, eu vesti outro vestido de Juliet. Este era preto, ia até as coxas, bem feminino como as outras roupas dela. Senti-me, como acontecia nestes últimos dias, mais incomodada que o normal ao colocar as roupas íntimas dela. Não soube explicar por que, mas apenas sentia que não era para eu vestir. Após me arrumar, desci sozinha para o primeiro andar. havia deixado o quarto enquanto eu tomava banho.
Sentindo que estava prestes a perder a fome, me sentei à mesa. , e comiam em silêncio, sem trocar olhares. Isso era raro, mas não me assustou. A ausência de me confortou, não estava com vontade de vê-lo, embora estivesse curiosa. Queria falar com ele, queria ouvir dele que tudo que disse ontem foi mentira. Enquanto comia, minhas mãos apertavam os talheres mais que o normal, uma vez que os olhos de em cima de mim me perturbavam. Senti que estava começando a formar feridas nas palmas das mãos. Relaxei-as ao terminar de comer. Insegura, empurrei a cadeira para trás. Ao não ser repreendida, peguei meu prato e talheres, deixando-os na pia da cozinha. O cheiro neste continuava como sempre, com o maracujá aberto na janela. O dia estava ensolarado, deixando a casa bem iluminada. Caminhei com rapidez até a escada, subindo-a torcendo para que não me chamasse para o andar debaixo novamente. Uma vez em cima, me certifiquei que os três estavam ocupados comendo. Lentamente, andei até o quarto de , sendo tomada pela famosa e cruel dúvida se deveria ou não entrar. Ao finalmente tomar coragem a abrir a porta, minha covardia torceu para que não houvesse ninguém no quarto.
As janelas estavam abertas, deixando que o sol iluminasse o quarto. Os lençóis haviam sido trocados. estava deitado, lendo um livro grosso no qual eu não identifiquei a capa. Ao me perceber, levantou a cabeça, tirando os óculos de grau que estava usando. Vestia apenas uma boxer e um par de meias branco. Olhou-me indiferente, esperando que eu dissesse algo. Eu tentava fazer minha voz sair, mas sabia que – se tentasse – soluçaria de tanto chorar. Respirei fundo, engolindo a seco.
- falou comigo. – Minha voz estava trêmula. ficou parado por uns segundos, apenas me olhando. Desviou o olhar, colocando os óculos novamente.
- Que bom. – Voltou a ler o livro, como se eu nem estivesse mais ali. Aquilo foi como um soco no estômago. Antes que começasse a gritar ou chorar, entrei no quarto, batendo a porta com força. ficou surpreso com a minha reação, fechando o livro. Andei com raiva até ele, ficando próximo o suficiente para que minhas pernas tocassem a lateral de sua cama.
- Você é um filho da puta, . Se soubesse a vontade que tenho de lhe socar, tenho certeza que...
- Me soque. – Falou calmamente, enquanto eu transbordava de raiva. – Anda, ... Me soque. – tirou os óculos novamente, ficando de joelhos na cama. Estava um pouco maior que eu. Juntei os dedos da mão, sentindo minhas unhas piorarem o machucado que os talheres formaram. Antes que minha mão colidisse com seu rosto, senti seus dedos fecharem nela, escondendo-a dentro de sua mão.
Minha vista estava embaçada. Eu lutava o máximo que podia para não chorar à sua frente. Porém, era impossível encarar seus olhos e não ter vontade de chorar. Os encarei em tantos momentos diferentes. Momentos bons, ruins e horríveis. Ainda assim, eu o queria. Era doentio o que eu sentia por . Talvez mais doentio do que as coisas ele fazia comigo.
- Você acaba comigo. – Cantei baixinho, sentindo algumas lágrimas teimosas escaparem. Percebi que minha mão estava começando a doer de tanto que a apertava. No mesmo instante que falei isso, ele a amoleceu e o que antes era um aperto firme virou apenas um toque.
A porta do quarto abriu. entrou, fechando-a no mesmo segundo. Provavelmente ouvira o barulho da porta batendo. Tirei minha mão de dentro da de , virando-me para .
- Saia daqui agora. – Falou mais como um aviso do que como um esporro. Assenti para com o pouco de respeito que ainda tinha por ele, saindo do quarto. Não estava mais aguentando. Sentia que estava prestes a explodir. Tudo aquilo não passava de uma tortura psicológica para me confundir cada vez mais.
Entrei no meu quarto, sentindo minhas mãos tremerem de raiva. Descontei novamente na porta, batendo-a com o máximo de força que consegui. Consequentemente, a porta respondeu à altura com um alto som. Deparei-me com sentado na cama que eu dormia.
- Não faça barulhos desnecessários na minha casa. – continuava com seu sorriso cínico, emanado desprezo. Odiava isso. Odiava sua voz irônica, odiava seu cabelo bagunçado e odiava sua barba por fazer. Odiava seu jeito sujo e desleixado de se vestir, odiava seus grandes e brilhantes olhos. Odiava sua voz sonolenta e, principalmente, seu abdome mexendo com sua respiração, sem uma blusa cobrindo. Odiava mais ainda achar tudo isto atraente. Nada que me levasse a cometer alguma loucura.
- Em todo tempo que fiquei aqui, poucas foram as vezes que me ouviu. Poupe-me, . – O respondi no mesmo tom, revirando os olhos. Queria soca-lo. Abri a porta novamente, sem deixar um ruído escapar.
- Se é o caso, te farei provocar sons agora mesmo. – sorriu malicioso, com a voz mais baixa. Levantou-se, aproximando-se de mim com pressa. Olhei para porta, calculando se conseguiria abri-la e sair correndo. Eu queria fugir, mas nunca conseguiria.

Capítulo Dezessete

(Carreguee solte já no início. Não colocarei a letra, espero que não se importe.)

Não conseguiria sequer reagir, principalmente sentindo o cano de sua arma contra a minha barriga. No mesmo segundo, senti uma cólica sem igual. Era puro medo correndo pelo meu sangue. levou seu nariz contra minha pele, me cheirando com tanta força que parecia prestes a me devorar. Fechei os olhos, sentindo algumas lágrimas molhando meu rosto. A arma estava gelada, fazendo minha barriga se contrair. Ele a movimentava dentro da minha blusa, fazendo-me ter repulsa daquele objeto. Repulsa dele mesmo.
- ... – Choraminguei, segurando sua mão que tentava abrir minha calça. – , por favor. – Eu implorava. Não queria aquilo. Não queria sentir a mesma dor de antes. Não queria me sentir mais humilhada e imunda, não queria...
- Cale a boca! – Ele gritou, levando a arma contra minha cabeça. Cerrei os lábios, mordendo-os em seguida para que não deixasse nenhum som escapar. Estava apavorada; tinha que ficar parada enquanto me tocava e fazia o que bem queria com meu corpo.
Ele conseguiu abrir minha calça, ordenando que eu a tirasse. Obedeci, ainda com as mãos tremendo, porém agora era de medo. Também me mandou tirar a blusa e, ainda submissa pelo medo que sentia, obedeci novamente, ficando apenas com roupas íntimas.
Estava frio. Eu queria ir para casa. Queria abraçar meu gato e dormir com ele na minha barriga.
pressionou mais a arma contra minha cabeça, como um pedido para que eu me ajoelhasse. Eu queria morrer, queria que ele puxasse o gatilho. Queria gritar e obrigá-lo a me matar. Entretanto, alguma coisa dentro de mim parecia implorar pela vida, implorar que eu continuasse respirando. Por mais que eu não encontrasse sentido na vida, eu continuei obedecendo-o. Mandou que abrisse sua bermuda e que a tirasse. Em silêncio, fiz o que mandou, com toda a lentidão que pude. Queria ao máximo adiar aquilo. Ou, se pudesse, adiantar para que acabasse. De qualquer modo, eu teria que fazer coisas que não queria para livrar aquele objeto contra meu corpo.
me jogou para a janela, fazendo com que eu caísse de joelhos no pequeno sofá.
- Levante-se! – Gritou, puxando meu braço para que eu ficasse de pé. Fiquei de pé, de frente para ele. sorriu, apenas acenando com a arma para minha calcinha. Balancei a cabeça negativamente, prestes a implorar novamente. O barulho baixo da arma sendo carregada foi o suficiente para que eu obedecesse. – Vire-se antes. – Virei-me para a parede, descendo a calcinha de Juliet pelas minhas pernas. Assim que o fiz, colocou uma de suas mãos nas minhas costas, obrigando-me a me curvar. Coloquei as mãos na parede, quase fincando minhas unhas nela quando ele me penetrou por trás. Uma dor sem igual se alastrou em meu corpo. Eu não conseguia pensar, contorcia o corpo e o rosto, como se ajudasse alguma coisa. Sentia-me completamente invadida, explorada, aberta, machucada. Nunca sentira nada igual antes. Nem mesmo quando me levou ao hotel.
Foi a pior coisa que já senti. Era uma ardência tão grande que eu sentia sangue escorrendo pelas minhas coxas, continuando seu caminho até minhas pernas. O som de atrás de mim me dava vontade de vomitar. Finalmente, depois de incontáveis minutos, ele saiu de mim. Quando suas mãos me libertaram, eu me joguei no chão, me encolhendo no mesmo. Não conseguia parar de chorar. Não conseguia respirar. Não conseguia parar de sentir dor. Queria minha casa novamente, minha cama, meus pais me acariciando...
- ! – Ouvi a voz de , que entrava no quarto. Eu estava virada para a parede, ouvindo seus passos se aproximando. Um deles fechou a porta. – O que... – não conseguiu completar a frase. riu, provavelmente fazendo um gesto estúpido. – , você é doente?! – Ele gritou, provocando um som estranho de dois corpos: um carregando o outro até o armário, batendo com ele no mesmo. continuava rindo, provavelmente sendo segurado por contra as portas de madeira.
- , para que mais ela serviria? – Eu queria pedir para que ele parasse de falar. Cada som ou toque que vinham de pareciam me destruir. ficou em silêncio por longos segundos.
- Okay, deixe-me limpá-la, pelo menos. – Finalmente falou. provavelmente deixou, saindo do quarto.
Reconheci o toque frio de . Encolhi-me mais. Queria continuar no chão, continuar parada, continuar sentindo dor sozinha. Limpar uma ferida sempre doía mais.
- Eu sinto muito. – disse, com a voz falha. Não respondi, nem sequer reagi. Sabia que ele não precisava sentir nada, mas não estava com vontade alguma de dizer que não era culpa sua ou o que deveria ou não sentir. – Venha. – Me pegou no colo sem dificuldade. Juntei mais as pernas, numa tentativa de esconder partes que não queria mostrar e, se possível, evitar que meu sangue sujasse o chão da casa de .
me levou até seu quarto, fechando a porta com apenas um chute. Seguiu até o banheiro, me colocando dentro de uma banheira. Abriu a torneira da mesma que, por uns segundos, possuía uma água gelada. Logo foi esquentando. Percebi que eu tremia, meus dentes batiam. Não sentia frio, mas vários choques passavam pela minha pele, me fazendo arrepiar à toa.
O banho foi constrangedor. , que provavelmente já possuía experiência, demorou a me limpar toda. Não aparentava ter pressa e não conseguia me olhar nos olhos. Reconheci sua expressão de choro, mas a ignorei. Ainda com a voz sensível, ele falava como massagear ou lavar partes que ele não podia ou simplesmente não tinha coragem de tocar. Agradeci pelo respeito dele. Algo que eu valorizava muito agora.
Quando finalmente terminamos, me levantei. Qualquer movimento que eu fizesse, eu sentia uma dor aguda, uma dor louca, que me fazia querer morrer pela segunda vez em um só dia. Ainda assim, eu continuava com aquela vozinha pedindo que eu não desistisse. Queria calá-la, mas estava absorta, apenas escutando as coisas sem realmente ouvi-las.
Ele me ajudou a me enxugar. Ajudou-me a andar até a cama. Ajudou-me a deitar. Ajudou-me a virar de lado. Pediu que eu dobrasse as pernas e eu o fiz, sem dignidade alguma restando dentro de mim. Atrás de mim, tentava fazer um curativo ou passar alguma coisa que aliviasse a dor. Por mais que o tempo passasse, o que eu sentia só parecia piorar. A lembrança doía, dilacerava meu corpo.
Após uma hora, disse que era o máximo que conseguiria fazer. Eu apenas assenti. deu a volta na cama, ficando à minha frente. Deu-me uma camisola para vestir, a minha camisola, a que eu estava usando nas primeiras semanas que fiquei aqui. Agradeci com um leve sorriso, vestindo-a com a ajuda dele.
- Preciso do seu sangue. – disse baixinho, parecendo entender que, agora, qualquer um naquela casa representava uma grande ameaça para mim. – Faz tempo que está aqui, preciso saber se está tudo bem com você. – Novamente, assenti. Estiquei o braço esquerdo, então amarrou um pedaço de borracha no mesmo. Esperou uns segundos, pedindo que eu fechasse minha mão. Finalmente, enfiou a agulha próxima a dobra do braço, fazendo com que a parte transparente da seringa recebesse um tom vinho. Após encher dois vidrinhos de sangue, finalmente tirou a agulha de mim, colocando um band-aid no local. Se alguma vez na vida já me senti vulnerável, então eu já não mais sabia o que era essa fraqueza dentro de mim agora. Todas as palavras que já usei para descrever algo que já ocorreu comigo pareciam pequenas e sem significados fortes o suficiente para descrever como eu estava. Era como se nada pudesse explicar ao certo como eu me sentia ou como eu queria estar.
- Agora apenas descanse. – parecia inseguro com suas palavras. Guardou os dois vidrinhos cheios de sangue que possuíam uma cor morta, voltando a ficar do meu lado. Não se deitou na cama. Nem sequer sentou-se nela. Ficou apenas agachado à minha frente, me olhando com uma das expressões que eu menos gostava: pena.
Ele pegou uma mecha do meu cabelo, distraindo-se com ela. Consegui perceber que ainda tentava não me olhar nos olhos. Parecia evitar que o fizesse. Para mim, não fazia diferença. Tudo o que eu queria era o calor da minha casa, o colo da minha mãe e o abraço do meu pai. Não queria mais ficar ali, não queria mais sentir dores. A de hoje foi a pior de todas. era cruel.
- Está bem grande. - Disse baixinho, largando-a cuidadosamente. Eu não o olhava, não estava com vontade de conversar. - Quer cortar? - Ele pareceu um pouco animado. Deu para perceber que estava sendo um tanto artificial. também não parecia bem, embora parecesse querer mostrar o contrário. Fiz que não com a cabeça, em resposta. O ouvi suspirar, então o senti deitando-se ao meu lado. Virei-me para o teto.
Minha ferida reclamou do gesto. Fiz uma careta involuntária, deixando escapar um leve gemido de dor.
- Fique de lado. – disse baixinho. Obedeci, ficando de costas para ele. – Vai continuar doendo por um bom tempo, não vou mentir.
- Não faz diferença. – Menti. Fazia toda diferença. Eu não aguentava mais sentir dores e essa era quase insuportável. – Só quero que isso tudo acabe logo.
- Eu também. – sussurrou. Fechei os olhos, chorando em silêncio.
Dessa vez, eu não consegui dormir. Sentia mexer algumas vezes ao meu lado, ainda não entendendo por que ele simplesmente não ia embora.
- Por que fica aqui? – Perguntei, encarando o chão de madeira.
- Quer que eu saia? – Sua voz continuava baixa e sem vida. Suspirei, fazendo a mim a mesma pergunta. Não. Eu não queria que ele saísse. Queria que continuasse cuidando de mim. Queria me sentir protegida, mesmo que não estivesse.
- Não. Eu quero sair. – Minha resposta saiu um tanto ríspida. De qualquer modo, ser simpática também não era minha intenção. se levantou, dando meia volta na cama. Ficou à minha frente, estendendo os braços para me ajudar. – Sozinha. – Completei. Ele revirou os olhos, segurando meus braços teimosamente. Não o afastei, muito pelo contrário: aceitei sua ajuda que, por fim, realmente era necessária.
Andar doía. Sentar... Eu nem ousava. Dava passos lentos e silenciosos, sendo guiada por pela casa. Ainda no corredor, pude ver que a porta do quarto de estava aberta. Obriguei-me a não virar a cabeça e olhar. No entanto, desobedecendo a mim mesma, olhei ao menos de relance para dentro de seu quarto. Estava uma bagunça. Em pouquíssimo tempo tudo estava revirado. Roupas no chão, a cama quase completamente descoberta... Um caos. Sorri sozinha, por alguma razão que nunca saberei explicar. Queria que realmente me amasse. Desse modo, ele sofreria de um modo sem igual enquanto me fodia no meu quarto, perto ao seu.
Eu estava reconhecendo o ódio dentro de mim. Sentia que estava prestes a pular em cima de todos eles e espanca-los. No caminho para fora da casa, pensei como socaria cada um deles. , no entanto, foi o que menos sangrou. O que menos gritou. O que eu nem sequer toquei. Fechei minhas mãos em punho, sentindo-me já ofegante.
Na varanda, havia duas cadeiras de madeira. Uma ao lado da outra. me sentou em uma, sentando-se na cadeira ao lado. Novidade: doía. Latejava. Ardia. Mas eu me acostumei. Fiquei parada, sentindo a chata presença de uma dor inútil que, se não fosse por minha idiotice, não estaria ali.
Olhando para o campo que não me parecia mais convidativo, percebi que não havia nenhum carro do lado de fora. Olhei para , procurando minha vontade de falar. Esta quase escapou de mim, porém eu consegui agarrá-la.
- Onde estão? – Perguntei, voltando a encarar as plantas que dançavam lentamente com o vento. O sol aparecia hoje, sem nenhuma nuvem com coragem de escondê-lo.
- Foram à cidade. tem família. – Se eu não estivesse tão indiferente com tudo ao meu redor, ficaria surpresa. Eu não queria ficar parada. Não queria que meus pensamentos começassem a me perturbar. Precisava me ocupar. Normalmente, quando eu me sentia desse modo, um bom videogame ajudava. Mas eu não tinha isso aqui. Percebi que meu único modo de chegar perto da distração seria continuar conversando com .
- Como...? – Eu não me conformei com a fala de .
- é policial. Pelo menos já teve seu distintivo. Isso lhe ajudou a se juntar a nós... Até porque, é uma ótima desculpa para quase nunca estar em casa. Sua mulher é professora e ele tem um filho de dois anos. é o antigo amigo de família... Do tipo que aparece nos fins de semana para um café da manhã. trabalhou pouquíssimo tempo na polícia. Mas ele é esperto, foi o suficiente para que conseguisse pegar a manha de como tudo realmente funcionava. Então ele saiu e até hoje consegue mentir para a esposa.
- E o filho. – Completei, vendo assentir ao meu lado. se tornou a pessoa mais sem noção que eu conheci. - E como começaram com isso? Digo, de onde tiraram a estúpida ideia de se divertir com o horror dos outros? – Eu continuava um tanto rude, involuntariamente, e ainda sem me importar com isso.
- Fizemos uma vez. Pegamos uma garota e a manipulamos... A sensação era impagável. Era maravilhoso se sentir superior e ver alguém confuso à sua frente, acreditando no que você a quer que acredite. Nós a matamos com facilidade. Até que continuamos com isso. Virou praticamente um vício, principalmente quando havia dinheiro envolvido. Sempre que saíamos juntos, o que era raro porque fingíamos não nos conhecer, ficávamos pensando em quem escolheríamos, o que faríamos, como faríamos. Era divertido. Um jogo. Até que depois de um tempo começou a ficar sério e agora nossa vida basicamente gira em torno disso. não pode largar a família... Sempre que pode, está lá. vai junto algumas vezes, mas é raro.
- E ? Onde está? – não podia simplesmente circular na rua. Também não poderia ir à casa de , uma vez que ele era policial e aparecer em casa com um suspeito não faria sentido. sorriu, perdido em pensamentos. Provavelmente achava engraçado algo que imaginava.
- O idiota está indo para França. Disse que queria viajar um pouco. – Ótimo. Senti que perdi o ar por uns segundos. Eu estava sentindo uma dor maçante enquanto fazia questão de viajar pela Europa. Mordi o lábio inferior. Nunca me senti tão abandonada, mesmo que não houvesse razão para isso.
- Como ele pode viajar? – Eu tentei disfarçar a mágoa na minha voz. A mágoa na minha reação. A mágoa em mim.
- Não possuímos só uma identidade. Por exemplo, você acredita que o realmente é ? Ele pode estar usando sua verdadeira identidade agora e estar indo para França. – Entendi o que quis dizer. Mas uma coisa parecia errada.
- Mas não há razão... – Falei, pensando. Perdi-me uns segundos, olhando para . – Vocês só precisam mentir lá fora. Comigo não é necessário... Aqui vocês são realmente vocês mesmos. – Minha voz era baixa.
"Eu sou completamente louco por você."
"Muito menos que eu gosto de fazer sexo com outras pessoas além de você..."
"E se for pra ficar longe de tudo com alguém... prefiro que seja com você."
"Você não faz ideia do quanto te quero só comigo."
"Queria poder fugir com você e ser eu mesmo toda hora."
“Queria poder fugir com você e ser eu mesmo toda hora."
“... Eu mesmo toda hora."
"Queria poder fugir com você e...”
Puta. Que. Pariu. Não havia dúvidas, estava falando a verdade sobre .
- Aqui somos o que queremos. Somos o monstro e o mocinho dentro de nós... Cada gesto e palavra afundados nas paredes e na terra silenciosamente. – sorriu, divertindo-se com sua fala. Entretanto, sua tristeza continuava presente em seus olhos caídos. – Você também é o que quer aqui.
- Não sou. – Neguei de imediato. Lembrei-me de quando era criança, chupando um picolé na praia. Meus primos me acompanhavam. Nossa felicidade dependia daquilo, de um ordinário picolé de morango. Hoje, parecia que minha felicidade dependia do que nunca aconteceria comigo. Creio que, aos seis anos, se eu soubesse como seria quando estivesse com dezessete, iria chorar. Não iria me aceitar. Tornaria minha pior inimiga e nunca aceitaria ser como sou agora. Já eu, nesta idade, só tenho a admirar o que um dia já fui. Se naquela casa eu fosse o que quisesse, eu estaria tentando resgatar o que já fui. Tentaria recuperar a essência e vida que tinha aos seis anos. De fato, eu não era o que queria ser. Apenas desejava e ficava parada, deixando tudo acontecer. Não podia reagir, não podia questionar... Não podia sequer sorrir sem que sentisse dor.
- O que você mais quer agora? – A pergunta de era infantil. Mas, a meu ver, esperava uma resposta madura.
- Minha casa. – Não consegui respondê-lo sem que minha voz ficasse falha. No mesmo segundo meus olhos se encheram de lágrimas enquanto, no meu peito, eu sentia um aperto de saudade. A resposta soou mais infantil que a pergunta... Entretanto, eu continuava enxergando maturidade. Talvez porque eu estava baixa demais, humilhada e pequena demais.
Não consegui conter o choro. Soluços escaparam de mim, assim como grossas lágrimas. Tudo o que fiz foi tampar o rosto, deixando minha voz fugir de mim com um som que eu não gostava. Meu nariz escorria e eu tentava evitar que continuasse dessa maneira. Era quase impossível.
se levantou, provocando barulho com sua rapidez. Estranhei, vendo-o quase correr para dentro de casa. Ignorei sua atitude, continuando sentada na cadeira de madeira.
Como muitas vezes acontecia, eu acabei adormecendo de tanto chorar.
Meus olhos ardiam, ainda que estivesse acordando. Não havia dormido pesado, apenas cochilei, ainda soluçando. Não acordaria se não fosse o som de motor cantando nos meus ouvidos. Assim que reconheci o som de um carro, abri os olhos devagar. Os senti molhados e inchados, assim como meu nariz que, por sua vez, encontrava-se entupido. saiu de um antigo carro, trancando-o. Desci o olhar para a grama, sem querer vê-lo. Ouvi e enxerguei seus passos se aproximando de mim. Ele se agachou à minha frente, fazendo com que seu cheiro viesse até mim. Em seguida, segurou meu queixo, fazendo meu corpo se arrepiar de medo com seu toque. Sustentou meu olhar no seu, uma de suas torturas.
- Olá. – Disse com uma voz tranquila, sorrindo. Tentei, mas não encontrei simpatia dentro dele. – Como está? – Abriu mais o sorriso, se divertindo. Fiquei parada, me limitando ao silêncio para que ele fosse embora logo. – Vamos subir? – Baixou o tom de voz, descendo sua mão, que antes se encontrava no meu queixo, pelo meu pescoço. Antes que alcançasse meu peito, apareceu.
- . – O chamou um tanto ofegante. apenas virou a cabeça, esperando que falasse. olhou dele para mim, perdido. Respirou fundo.
- Preciso falar com você... No porão. – Engoliu em seco, ainda olhando para mim. Voltei a fixar meu olhar no chão, agradecendo mentalmente a quando se levantou e os dois caminharam com calma até o porão.

Capítulo dezoito

Duas semanas e meia se passaram. Eu já não suportava mais encarar a vista que minha janela proporcionava. Principalmente sentindo atrás de mim. Já não suportava mais deitar em minha cama e sentir seu cheiro. Já não suportava mais levar tapas e ouvir gritos que me ordenavam a me movimentar de uma maneira que nunca me levaria a sentir nada de bom. Estava com cada vez menos força. Sentia que precisava de recarga para que não desligasse. Quando andava, eu precisava do apoio das paredes para não cair. estava começando a ficar muito violento com os toques.
O pior era o cigarro.
Quando aquela ponta tocava minha pele, me fazia gritar de um modo que eu nunca fiz antes. Era uma ardência torturante, que parecia penetrar minha pele. A ponta, embora fosse macia, queimava como o inferno. Estava colecionando quatro pequenas queimaduras. Duas no braço, uma na nuca e outra na coxa.
não apareceu mais. não falou sobre ele. Na realidade, eu nunca mais perguntei. Nem sei se alguma voz saiu de mim, a não ser por sinais de dor. Quando aparecia de madrugada para me limpar ou simplesmente cuidar de mim, eu nunca falava. Embora ele fizesse questão de cantar ou dizer algumas coisas. Falava-me sobre algumas notícias, alguns fatos que ocorreram no mundo. Mundo este que eu havia sido retirada, esquecida, expulsa...
A cada dia que passava, minha esperança de voltar para casa se esvaía. Se ao menos tivesse força para correr, tinha certeza que daria um jeito. Só que teria que ser de madrugada... Enquanto dormia, ou então eu sentiria o cano de sua arma contra minha pele, fazendo-me sentir a pior das cólicas de nervosismo.
Humilhação. Já fazia parte de mim, estava na minha pele, no meu sangue. Dor. Era frequente, principalmente quando eu me movimentava. Não havia mais posição que fosse um pouco mais confortável; todo meu corpo possuía feridas causadas de diversas formas. Saudade. Quase não cabia dentro de mim. Formava em minha garganta uma bolha de ar bem grande e grudenta, impossível de segurar. Esperança. O que era isso mesmo?
Estava deitada na cama. Fechei as janelas, uma vez que fazia frio agora e também porque eu não queria ver o campo escuro do lado de fora. Meu corpo gritava de dor, mas eu não podia fazer nada. entrou no quarto, segurando alguns comprimidos e um copo de água. Às vezes funcionava, às vezes não. Esperava que essa noite eu conseguisse dormir.
- Aqui. – disse baixinho, sentando-se ao meu lado. Agradeci com um simples aceno de cabeça, pegando um comprimido e colocando-o dentro da boca. Evitei sentir seu gosto, já dando dois longos goles de água. Um para o comprimido para a dor descer. Outro para que o gosto leve deixado na boca saísse. Eu sentia um constante gosto de sangue, uma vez que havia batido em minha boca com tanta força que, ao entrar em contato com os dentes, parte do meu lábio rasgou-se.
- Para que serve esse? – Apontei para o comprimido que não havia me dado. Ele deu de ombros.
- Isto é Prozac... Quer? – Ponderei. Assenti, estendendo a mão. deixou o comprimido cair delicadamente na minha mão estendida. O joguei dentro da boca, assim como fiz para o comprimido para a dor e bebi mais dois grandes goles de água.
- Que horas são? – Perguntei, como se fizesse diferença. olhou para o relógio em seu pulso. Eu não queria silêncio essa noite. Queria ouvir a voz de respondendo a minha.
- Três e quinze. Ainda é madrugada, temos tempo. – Ele sorriu de um modo meigo. Estava estranho nessa madrugada. Mesmo que não tivesse falado muita coisa, eu sentia que havia algo de errado. Seu olhar não era o mesmo, a respiração parecia mais pesada. estava arrumando alguma coisa e eu não fazia ideia do que era.
- Não quero saber do tempo. – Dei de ombros. levantou uma sobrancelha.
- Por que perguntou a hora, então? – Sentou-se na cama, ficando à minha frente. Dobrou as pernas, mostrando as meias brancas que aqueciam seus pés. Eu vestia um conjunto de moletom de Juliet, para variar.
- Não sei. Para saber quanto tempo tenho até amanhã, talvez... – Novamente, dei de ombros. assentiu, mostrando – ou fingindo – que havia entendido.
-Ainda sente dores? – Era uma pergunta inútil. Ele sabia a resposta. Eu tinha certeza que ele sabia. Mas só Deus sabe por que perguntou. Poderia ser para que o silêncio não nos envolvesse ou simplesmente para mostrar preocupação. A causa ao certo eu nunca saberei. Mas quem disse que eu me importava?
- Estou me acostumando. – Estava começando a pegar o hábito de mentir. Eu não estava me acostumando. Sempre que repousava minha cabeça no travesseiro, eu temia o dia que me esperava. O dia que destruiria. O dia que me marcaria, mostrando para mim e para todos que sou dele agora.
- Fui à cidade ontem, de novo. – Semana passada, havia sumido por dois dias. me disse – sem que eu ao menos o olhasse – que ele havia ido à cidade. – Passou um noticiário sobre você.
- O que dizia? – Perguntei, embora não quisesse saber a resposta.
- Como a mídia enterra assuntos. Quando você sumiu, foi assunto no mundo inteiro. Menos de um mês depois, todos simplesmente esqueceram e então mais rostos desaparecidos apareciam na televisão.
- Já percebi isso algumas vezes.
- Courtney está estudando fora. – Eu não queria ouvir o nome dela. Não queria saber sobre ela. Mas quanto mais falasse sobre outras pessoas, menos eu pensaria em mim. – Está em um colégio para meninas.
- Onde? – Novamente, eu não queria saber a resposta. hesitou antes de responder. Aparentou, apenas aparentou, por uns segundos que mentiria. Mas então suspirou, passando as duas mãos nos cabelos.
- França.
- Hum. – Franzi o cenho, fingindo indiferença. Obviamente, com isso eu me importava. Não havia dúvidas de que estava na França para vê-la. Tudo o que ele um dia me disse sobre ela se desmanchava, tornava-se mentira para mim. Todas as suas palavras e gestos não passavam de atuação e isso era algo pelo qual eu sofria. Mas só por alguns minutos até conseguir me fazer esquecer esse sofrimento e chorar por outro.
- está grávida. –Arregalei os olhos, sentindo meu peito queimar. Um sentimento de surpresa tomou conta de mim, fazendo-me sentir até mais quente. sorriu, balançando a cabeça negativamente. – Okay, brincadeira. – Fez-se silêncio. Eu não ri, não o xinguei, não o bati. Apenas forcei um sorriso, abaixando a cabeça. Sentia falta de também, embora não pensasse constantemente nela. Lembrei que ainda devia desculpas a ela. Pensei em quantas coisas eu deixei pela metade quando fui embora. Várias coisas que eu deixei para depois e agora não acreditava ter chance de cumpri-las. – Já Martin... – não continuou. Subitamente, o olhei, esperando ansiosa que continuasse. Ele fingiu que nada falou, olhando para os lados como se estivesse perdido em pensamentos.
- Continue. – Pedi. Estava prestes a implorar, quando revirou os olhos, dando-se por vencido.
- Ele engravidou uma fã. Parece que eram namorados... – Mordi o lábio inferior. Por alguma razão, eu sentia ciúmes. Não conseguia imaginar Martin deitado na cama com alguma garota que não fosse eu. -... Há mais de dois meses. – Não falei nada. Não me senti mal por ter transado com o namorado de uma garota ordinária, mas sim porque ele nem se deu ao trabalho de me avisar. Isso não me entristeceu. Fiquei um tanto feliz ao saber que Mart não estava sozinho. Mas isso apenas porque eu sabia que ele se lembrava de mim. Eu tinha certeza absoluta que Martin seria a última pessoa que se esqueceria de mim algum dia. Cruel, porém, reconfortante. – Sua mãe está com os cabelos curtos.
Senti uma facada no peito. Abri mais os olhos. , ainda com sua expressão triste, sorria levemente.
- Seu pai sente sua falta. Bastante. – Eu não sabia como sabia daquilo tudo. Apenas tive forças sobrenaturais que me ajudaram a me impulsionar para frente, abraçando-o com força. Meus machucados responderam reclamando de dor, mas eu simplesmente não me importava.

Era manhã. Eu não havia dormido mais de duas horas. Quando acordei do meu cochilo, não estava mais no quarto. Abri as janelas, sentindo o frio de outono me receber. Havia algumas flores espalhadas pelo campo, mas eu as ignorei. Fui ao banheiro, realizando minha higiene de todas as manhãs. Assim, eu tinha um tempo meu comigo mesma. Um tempo meu sendo minha.
Após um banho, eu vesti um vestido de Juliet, tendo que pegá-lo jogado no fundo do armário. Estava amassado, mas eu não dava a mínima. Após me vestir, calcei um chinelo em um pé. O outro tinha sua metade escondida abaixo do armário. Agachei-me com cuidado, a fim de não sentir muitas dores. Peguei o chinelo, que trazia junto de si uma folha de papel. Estava amarelado, aparentemente velho. Possuía o desenho de uma possível criança. Era uma mulher – ou menina, difícil de identificar devido ao desenho de bonecos “palito” – de mãos dadas com uma bebezinha. Havia flores pequenas e coloridas desenhadas ao redor. Entretanto, ao fundo, tinha uma casa destruída. Voltei a olhar para o rosto das duas bonecas-palito, vendo um sorriso em seus rostos. Franzi a testa, achando aquilo um tanto maléfico.
Pensei em empurrar o armário e ver se encontrava mais coisas, já que não teria a sorte de deixar o chinelo trazer algo para mim novamente. No entanto, eu pensei melhor. Seria bom fazê-lo quando estivesse dormindo ou na cidade. Sabia que durante o dia ele poderia entrar e, seu eu encontrasse algo, definitivamente não o deixaria saber.
Deixei o papel debaixo do armário novamente, numa distância que eu conseguiria pegar de novo. Levantei-me, passando as mãos nos joelhos doloridos. Assim que fiquei de pé, abriu a porta do quarto. Suspirei pesadamente, com vontade de chorar.
Estava cansada. Dolorida. Não queria.
Prendi a respiração, perguntando-me se ele chegou a tempo de me ver colocando o papel debaixo do armário novamente.
- O que houve? – Ele perguntou, com uma expressão de preocupado. Parecia um homem normal. – O que está escondendo de mim? – sorriu de um jeito pervertido. Dei de ombros, balançando a cabeça.
- Nada. – Ele se aproximou, após fechar a porta. Segurou em minha cintura com cuidado, aproximando nossos corpos. Relutante, eu tentava me mover de modo que ele não me tocasse.
- Me abrace. – Sussurrou severo. Sem nem pensar duas vezes, obedeci, pousando minhas mãos em seus ombros. Sabia que seria muito pior se eu não obedecesse. Ele desceu suas mãos para minhas coxas, chegando à ponta do vestido.
- . – Falei, sentindo suas mãos entrando pelo vestido, apertando minhas coxas. – Estou cansada... – Sussurrei, com a voz falha. Ele sorriu, balançando a cabeça negativamente.
- Cale a boca. – Falou firme, levando uma de suas mãos contra minha face. Bateu-me com tanta força que meu corpo caiu para o lado, livre de suas mãos. – Desça para comer. – Não estava com fome. Entretanto, eu queria sair do quarto; não queria ficar sozinha com um sádico.
Corri do quarto, deixando sozinho. Desci as escadas, ainda correndo, parando apenas quando passei do último degrau. Precisei segurar o corrimão com força, para não cair no chão. Meu coração parecia prestes a perfurar meu peito.
.
fucking .
Ele estava de pé, na sala. Em uma de suas mãos tinha um papel desenhado. O mesmo que encontrei no andar de cima. Fiquei estática, olhando-o. Ele estava sorrindo, como se eu estivesse em perfeito estado. abriu a boca para começar a falar, eu podia sentir seu cheiro... Antes que sua voz me alcançasse...
- ? – veio da cozinha, com um pano de prato na mão. O olhei, muda. Não sabia o que dizer. Por que agiam tão normalmente, porra?! Olhei novamente para frente. havia sumido...
- ... – Falei baixinho, apontando para frente. suspirou, pegando em meu braço com cuidado. Levou-me até a mesa, deixando-me sentada.
- Você não viu nada. – Ele disse bem baixo, para somente eu ouvir. Assenti, com as mãos tremendo. – Foi só sua imaginação, mas ninguém precisa saber disso, certo? – sorriu, agachado à minha frente de um modo paternal. Assenti novamente, olhando para a mesa. Ele se levantou, sentando-se ao meu lado. Encheu minha xícara de café, colocando açúcar.
- Não quero comer. – me ignorou, passando geleia em uma torrada. Colocou à minha frente. – Eu. Não. Quero. Comer. – Falei pausadamente, segurando a mão dele com força.
- Você tem que comer. Nem que eu coloque soro em você. – Resolvi comer. Apenas eu poderia cuidar do meu corpo, não podia ajudar a destrui-lo. Antes que eu terminasse de comer, sentou-se à mesa. Eu não poderia me levantar até que ele pedisse que eu o fizesse. Pude perceber que esforçava-se para comer e continuar à mesa. Eu me sentia aliviada com sempre tentando evitar que ficasse sozinho comigo.
- volta hoje. – falou, mastigando seu pedaço de omelete. Tive vontade de vomitar, uma vontade diferente das que eu tinha normalmente. Dessa vez, meu corpo parecia apenas incomodado com a comida dentro de mim, sem me fazer sofrer com fortes contrações estomacais. fazia barulhos nojentos enquanto comia. Ele me dava repulsa como nunca senti antes. Comer perto de um homem assim é uma tortura. Sempre odiei pessoas que faziam barulhos estranhos ao comer, ao beber, ao falar... E Tom parecia um monstro.
- Achei que ficaria mais uma semana em casa. – estava aparentemente fingindo interesse. pode ter percebido, mas nem deu importância.
- vem com ele. – Meu peito queimou. Involuntariamente, apertei a coxa de , que estava sentado ao meu lado. Senti sua mão por cima da minha, delicadamente puxando meus dedos que estavam fincados em sua coxa. Ele havia se contido para não fazer uma expressão de dor na frente de . Assim que libertou sua coxa da minha mão, entrelaçou seus dedos nos meus, com força, parecendo entender que eu precisava daquilo. – Parece que ele se livrou de um trabalho sujo pendente. – Olhei para , curiosa, esperando alguma resposta. Mesmo que ele concordasse em me explicar, não poderia fazê-lo perto de .
- . – Chamei baixinho. Forcei um sorriso, respirando fundo. Teria que jogar o jogo dele, participar do modo que ele queria que eu participasse para conseguir o que queria. , obviamente, pareceu entender. – Posso subir? Já disse que estou cansada...
- Claro, querida. – sorriu. Levantei-me, arrastando a cadeira para dentro da mesa. Ele virou-se de lado, estendendo um pouco os braços. Andei devagar até ele, sentindo-o me abraçar por pouco tempo. Logo, ele me largou. Subi sem pressa, entrando no quarto.
Como estava esperando que entrasse, não iria pegar o papel debaixo do armário e nem procurar por mais. Decidi que não mostraria aquilo a ele.
Nos últimos dias pude perceber que teria que agradar a para que ele me tratasse um pouco melhor. Como meu orgulho sempre foi besta, mantive-me relutante. No entanto, hoje resolvi fingir que gostava do que ele fazia, fingir querer sorrir perto dele. queria mais que tudo que eu retribuísse o que ele fazia, sempre me queria correspondendo. De agora em diante, ele conseguiria isso. Não porque eu desejava o mesmo que , mas porque eu não aguentava mais apanhar por teimosia. Talvez fosse um pouco melhor se eu pelo menos fingisse que gostava.
Em pouco tempo, já estava entrando no quarto. Ele fazia silêncio, provavelmente sem querer chamar a atenção de .
- Eu vou tirar você daqui. – Ele sussurrou, inquieto. Fiquei totalmente sem reação. Senti que estava engasgada. Logo, tossi algumas vezes, tentando aliviar a dor que sentia na garganta. O enjoo permanecia em mim, o que era raro. Embora eu costumasse vomitar com certa frequência, eu quase nunca me sentia enjoada. O nervosismo e repulsa estavam me destruindo.
- Como? – Sussurrei de volta. Uma ansiedade tomou conta de mim. Pela primeira vez, vi-me totalmente disposta a qualquer coisa para sair daquela casa. sorriu. Ele estava nervoso, com movimentos rápidos e os olhos bem abertos. Parecia perturbado.
- Calma. Precisa ter calma... Em pouco tempo. Não vai ser nem um pouco difícil... Já comprei um carro, vou busca-lo logo. Então, vamos partir de madrugada. Não vai ser difícil, comprei um Volvo, bem rápido. – Ele sorriu novamente. Estava animado e excitado com a fuga. – Ainda essa semana eu tiro você daqui, . Juro.
Sorri levemente. Caminhei devagar até , abraçando-o forte. Não sabia o que dizer ou fazer para agradecê-lo por, mais uma vez, tirar-me de lá.
- O que estão fazendo, huh? – Após alguns segundos nos abraçando, entrou no quarto. Dei um pulo, afastando-me de . sorriu, aproximando-se de nós. – Você a quer, ? – o olhou com desdém, enquanto sorria maliciosamente. Ele andou até mim, segurando minha cintura ao seu lado. Aproximou a lateral dos nossos corpos, colocando parte do meu cabelo atrás da orelha. – É só pedir, , sabe disso. – era perturbado. O senti beijando minha bochecha, apertando meu rosto com uma das mãos em seguida. – Na minha frente, . Mostre que ainda tem alguma coisa aí.

Capítulo dezenove
(N/a: coloque Box Car Racer – Letters to God para carregar e solte assim que começar a ler)


(N/a: solte a primeira música)
não se movia. Olhava de para mim, sem saber o que fazer. Tinha o olhar perdido e confuso, como se se perguntasse se havia ficado completamente louco. pareceu perder a paciência, suspirando pesadamente.
- Vamos, . Admita, é excitante. – apertou o abraço lateral que dava em mim, quase fundindo nossas cinturas. – Você tem dez segundos. Ela está aqui, . Imagine que é a Juliet... Sabemos que são incrivelmente parecidas, huh? – riu alto, olhando para nós dois. Minhas pernas estavam bambas. Eu sentia pena de e medo por mim. não conseguia me olhar e seus olhos estavam vermelhos, acumulando água. – Lembre como Juliet era ótima de cama... Eu lembro. – Ele estava provocando cada vez mais. – não é ruim, já não grita mais. Não é mesmo, querida? – Olhou para mim, sorrindo de modo maléfico. – Tudo bem, eu começo. Vou te mostrar como ela é mansa, bem tranquila. Você assiste, então faz depois de mim. – me empurrou para a cama, sem nem olhar. Ele nem se importava se eu iria cair no chão. Por sorte, minhas costas chocaram-se contra o colchão, fazendo meu corpo subir e descer por alguns segundos, junto com a cama. Ouvi abrindo a bermuda, um som que eu jamais esqueceria. Pude vê-lo se aproximando. Seus olhos brilhavam, eu sabia que ele estava gostando daquilo.
- Pare com isso, . – A voz de se posicionou. ignorou, subindo meu vestido até os seios. Curvou-se à minha frente, cheirando minha pele. Meu choro escapava de mim involuntariamente, quase sem me deixar respirar. Eu não queria que visse, seria muito pior daquela maneira. – ! – gritou. levantou-se, virando apenas a cabeça para enxergar . – Pare com isso, pelo amor de Deus.
- Então venha, . Aproveite, não vou oferecê-la assim tão fácil novamente. – Eu estava quase implorando para que aceitasse. Seria um pouco, bem pouquinho, melhor se não fosse em cima de mim.
- Não posso, . Por favor, eu não posso. – estava receoso, com a voz trêmula. Parecia desesperado. Eu mantinha meus olhos fechados, deixando que minha voz escapasse algumas vezes com minhas lágrimas.
- Por que não? Elas são muito parecidas, você nem vai notar. Prometo, , você vai adorar. Você está há muito tempo sem fazer sexo mesmo, o que vier será lucro. – Não consegui escutar mais nada. Apenas passos correndo, o que me fez abrir os olhos e levantar a cabeça para ver o que estava acontecendo.
- Ela está grávida, porra! Grávida, seu filho da puta! – gritava desesperadamente, perdendo o controle. Ele havia pulado em , segurando a blusa dele. Seu rosto estava vermelho, enquanto suas mãos estavam pálidas, com a circulação presa, tamanha era a força com que segurava a blusa de . Meus braços vacilaram, incapazes de me manter inclinada, fazendo com que eu caísse para trás novamente. Eu não conseguia enxergar nada, uma vez que minha visão estava embaçada pelas lágrimas. Era inacreditável. Involuntariamente, minhas mãos estavam afagando a parte inferior da minha barriga, como se aquele gesto pudesse, de algum modo, proteger o suposto ser dentro de mim do inferno que eu vivenciava. Agora fazia sentindo por que fazia questão de cuidar da minha saúde, por que ele queria que eu comesse e por que ele queria me tirar dali.
Meus sentidos pareceram ter desaparecido. Eu não ouvia nem enxergava nada. Nada fazia mais sentindo e não possuía mais importância. Tudo o que eu sentia era algo diferente dentro de mim. Algo inexplicável. Nem sequer pensei em mais nada, a não ser no pequeno alien abrigado em mim. Queria protegê-lo, senti uma vontade louca de poder guardá-lo em um lugar seguro até conseguir sair daquela casa. No entanto, eu não conseguiria ficar longe “dele”. Mesmo que não o conhecesse, sabia que amava aquela coisinha dentro de mim. De repente, aquela vida era tudo o que importava agora.
Eu estava totalmente desligada, perdida em pensamentos. Pensava em tudo, menos no que estava realmente acontecendo comigo. Tudo vinha à minha mente, apenas não pensava nos últimos meses. Eu ria sozinha, sorria levemente, balançava a cabeça. Era como se estivesse louca, como se estivesse “alta”, sob o efeito de alguma droga. Consigo lembrar perfeitamente da diferente sensação que tomou conta de cada célula do meu corpo. O tempo parecia estar em câmera lenta. Levantei as mãos, brincando com os dedos.

- É na ordem. Fácil que é uma beleza! Um, dois, três, quatro e cinco. São só cinco, sei que consegue lembrar! – Minha mãe dizia sorridente. Com dificuldade, eu encarava meus dedos, mexendo com eles. - Vamos! Só cinco, . Você sabe.
- Não sei, droga. – Balbuciei. A sensação era ruim. Eu simplesmente não lembrava... Um, dois, três... Meus olhos encheram de lágrimas.
- Tudo bem, você ainda é muito novinha.


- Um, dois, três, quatro, cinco... – Eu cantarolava baixinho, vendo meus dedos mexerem à minha frente, brincando uns com os outros. Fiquei tanto tempo com os braços erguidos que os senti ficando dormentes, aos pouquinhos. Abaixei os braços, ainda deitada. Respirei fundo, piscando para que mais lágrimas escapassem dos meus olhos. Agora eu queria expulsá-las.
- Venha comigo. – Ouvi uma voz gostosa. Eu amava aquela voz, sabia disso. – Isso mesmo. – Sem que eu pudesse perceber, estava com os braços estendidos, aceitando o colo do dono da voz aveludada. Senti o calor de seu corpo me abrigando, fazendo com que eu sorrisse como uma idiota. O cheiro era quase tão bom quanto a voz. Abri os olhos devagar, sentindo-os fecharem involuntariamente, como quando acontece quando se está morrendo de sono e tenta se manter acordado.
- ... – Falei com dificuldade. Não pude ver seu rosto direito, a imagem estava distorcida. Parecia que eu estava presa em um sonho ou sob o efeito de algum cogumelo maluco.
Senti que estava sendo colocada em uma cama macia. Ri, abrindo os braços, movimentando-os pelo edredom macio e frio. Era uma sensação gostosa.

Acordei ao som de pássaros cantando. Sorri, respirando fundo. Ainda estava de olhos fechados, sentindo a cama fofa sob mim. Ria de mim mesma por ter me desesperado tanto: era apenas um sonho. Eu conseguia sentir o cheiro da minha casa, um cheiro tão familiar que, depois daquele maldito pesadelo, fez-me ter vontade de chorar.
Abri os olhos, sem ar. Pisquei algumas vezes, esfregando-os. Merda. Merda, merda, merda! O cheiro foi embora, deixando a horrível sensação de desapontamento. Não fora um pesadelo, tudo havia sido real. O que foi sonho foi imaginar que estava em casa, foi sentir o cheiro do meu quarto... Meus olhos encheram de lágrimas.
Uma bolinha de fogo pareceu correr do meu abdômen até meu peito. Automaticamente, minhas mãos voltaram a tocar o inferior da minha barriga. No entanto, não durou muito tempo. Em pouquíssimos segundos minhas mãos pararam de tocar a mim mesma, como se tivesse me queimado.
Um bebê.
Um bebê de alguém.
Um bebê de alguém que eu não sabia quem era.
Um bebê que, além de ser de alguém que eu não sabia quem era, era indesejado. Não que eu não o quisesse, não que eu não me importasse com ele. Porque, de alguma forma, aquele bebê era a coisa mais importante para mim agora. Mas porque eu sabia que aquela criança seria uma ligação eterna entre mim e alguém que um dia me fez muito, muito mal.
Respirei fundo, finalmente me situando na realidade. Sentei-me na cama, reconhecendo o quarto de . Eu precisava ir embora o quanto antes. sabia que eu estava grávida e eu não fazia ideia do que ele seria capaz de fazer. Na realidade, eu fazia: era capaz de qualquer atrocidade.
Precisei de mais força que o normal para me levantar da cama. A porta do quarto estava fechada, assim como a do banheiro do mesmo. Respirei fundo, andando lentamente até a janela. O carro antigo não estava lá.
- Está se sentindo melhor? – Uma voz surgiu atrás de mim. De súbito, virei-me, encarando a porta do banheiro. Estava aberta, com na passagem. Ele segurava a maçaneta e tinha uma toalha enrolada na cintura. Seus cabelos pingavam nos ombros e seu corpo brilhava. Por trás dele, o vapor do banheiro fugia e sumia lentamente.
Eu não soube o que fazer, muito menos o que dizer. estava à minha frente e, embora eu quisesse mais do que tudo espancá-lo, eu simplesmente não conseguia reagir à sua presença. era tão intenso, tão denso que até o ar parecia diferente, mais pesado, quando ele estava por perto. Perguntei-me, por alguns segundos, se ele já sabia das “boas novas”. Pelo seu jeito, provavelmente não.
aproximou-se de mim, dando passos lentos e confiantes. Seu olhar estava diferente, perdendo-se pelo meu corpo. Ironicamente, eu vestia a minha camisola. A cena de aproximando-se de mim e eu com medo repetiu-se. Aquele filme já havia passado antes e, honestamente, eu queria que continuasse passando.
- Você... – murmurou, incapaz de continuar. Aproximou-se mais, ficando a centímetros de distância do meu corpo. Vagarosamente, levantou uma das mãos e tocou meu ombro. Meu corpo todo se arrepiou em resposta e eu não soube dizer se queria que ele parasse ou continuasse a me tocar. Seu cheiro me invadia e, o que já não era novidade, meu corpo ansiava por mais perfume dele. Por mais que ele me fizesse odiar seus atos, ele conseguia me fazer querê-lo. Eram dois sentimentos que subiam cada vez mais em mim, deixando-me mais que confusa. Mais que bagunçada. Mais que fraca.
Seus olhos passearam com cuidado pelo meu corpo. parecia incrédulo e havia algo em seus olhos que eu simplesmente não soube decifrar. Ele mordeu o lábio inferior, descendo sua mão cautelosamente pelo meu braço. Senti seu toque enquanto durou, até que sua mão parou de descer quando chegou à minha. Não por vontade própria, mas meus dedos pareceram impedir involuntariamente que sua mão escapasse da minha pele. Nem precisei me mover e o tinha ainda tocando-me.
- Sai de perto de mim, por favor. – As palavras saíram automaticamente da minha boca. Meu corpo estava mais quente que o normal e um nó formava-se rapidamente em minha garganta. Eu o queria ali, à minha frente. Mas não podia continuar fingindo que estava tudo bem. Não podia continuar me maltratando e deixar fazer o que quisesse comigo. Eu simplesmente não podia ignorar as coisas ruins e enxergar apenas as boas.
demorou a entender o que eu dizia. Meu olhar estava fixo em seu peito, eu evitava encará-lo nos olhos. No entanto, sua mão, que antes tocava a minha, subiu até minha face. Acariciou-a com o dedão tão lentamente que me perguntei se era de fato uma carícia. Seu toque obrigou-me a olhar para seus olhos . Estavam um pouco arregalados, avermelhados.
- Acredite, eu sei q...
- Não quero acreditar. Não em você. Não mais. – Mordi o lábio inferior, fungando automaticamente. Senti que minhas lágrimas começariam a descer, porém contive-me o máximo que pude. Não podia chorar à frente dele, nunca mais. suspirou pesadamente, revirando os olhos. Deu mais dois passos para frente, fazendo nossos corpos se tocarem. Meus lábios alcançavam a pele do seu peito, assim como meu nariz.
- É melhor assim. – Ele disse baixinho. Por menos de um segundo, o senti beijando minha cabeça. No entanto, assim que o fez, afastou-se. Deu passos rápidos até sair do quarto. Parei e tentei absorver o que acabara de acontecer. Não soube me responder se, de fato, beijara minha cabeça ou se era apenas alucinação.
O que eu não entendia era o “é melhor assim”. Não era melhor daquele jeito, pelo menos não para mim. Eu não suportava ficar com , e agora estava grávida. Tinha que ver o mais urgente possível.
Deixei o quarto de . Pude vê-lo descendo as escadas, agora com calma. Sem pressa, fui até o quarto de . Sem nem ao menos bater, abri a porta, vendo-o sentado em sua cama. Estava de costas para mim, com a cabeça baixa. Fechei a porta com cautela, dando passos delicados e silenciosos até a cama.
- ... – Falei baixinho. Respirei fundo, obrigando-me a engolir a vontade de chorar. Ele não respondeu, continuou estático na cama. – Quando, mais ou menos, acha que posso ir? – continuou sem reagir. Preocupada, dei meia volta e ajoelhei-me à sua frente. estava com o olhar perdido na janela. Metade do seu rosto estava machucado, coberto de sangue. Apenas sua boca, de todo o lado esquerdo, havia se safado. Levei a mão à boca, incrédula.
- O mais cedo possível. Eu tenho que tirar você daqui o quanto antes. – Ele finalmente me olhou. Tocou meu rosto, fazendo-me sentir sua pele gélida. – Amanhã de madrugada. , e ainda estão pensando no que fazer com você... Posso enrolá-los por mais uma noite, e então te tiro daqui.
- Venha. – Falei, segurando sua mão que tocava meu rosto. Levantei-me, puxando-o comigo até seu banheiro. Abri a torneira, pegando a toalha de rosto. Molhei parte dela, fechando a torneira em seguida. Passei o pano molhado pelo machucado de . Parte da pele havia saído e ainda sangrava quando eu pressionava a toalha. – Quantos socos levou? – Eu não conseguia imaginar socos fazendo aquele tipo de estrago em um rosto.
- usou o abajur. – deu de ombros, naturalmente. – Vou dar uns pontos mais tarde, se precisar. – Disse, ainda com a naturalidade. Revirei os olhos, balançando a cabeça. Continuei limpando seu rosto, conseguindo tirar grande parte do sangue que o sujava. - Saímos do sério facilmente... Sabe como podemos ser agressivos. É natural.
- Não gosto de agressividade. – Falei séria. – Lave o rosto. – Pedi, afastando-me da pia. Deixei a toalha por cima da tampa do vaso e suspirei pesadamente, pousando as mãos na cintura. lavou o rosto, gemendo de dor ao passar o sabonete. Após se secar, olhou-se no espelho. Com prática, pegou o pedaço de pele morta, livrando-se dela lentamente. Era evidente a força que usava para morder os lábios e impedir um grito. De fato, devia doer como o inferno.
- Vou à cidade amanhã. – lavou o rosto novamente, uma vez que tornou a sangrar em grande quantidade. Pegou a toalha que eu tinha usado e colocou-a contra o rosto. Seu olho esquerdo nem mesmo abria. – De madrugada, vou aparecer para te buscar. – Assenti, concordando. tossiu algumas vezes, logo voltando a falar. – Por isso, se alguma coisa acontecer, esconda-se.
- Onde? – Perguntei, levantando a sobrancelha.
- Terá que se virar sozinha. Mas caso queiram fazer algo com você, te levar a algum lugar... Simplesmente esconda-se. E, de madrugada, volte que eu estarei esperando aqui mesmo.
- Acha que vão dormir caso eu me esconda? – Perguntei, sem crer. Encostei-me à parede, cruzando os braços. fez que não com a cabeça.
- Não, na verdade vão te caçar como tubarões. – Ele não tinha um pingo de humor na expressão ou na voz. – Mas não pode desistir. Se nada der errado, simplesmente corra. Corra até não aguentar mais, até encontrar uma estrada. Não fale com ninguém, só corra. – Um desespero e uma ansiedade alojavam-se no meu peito. Sem que eu pudesse perceber, já estava afagando minha barriga. – Não precisa ficar com medo. Já disse que eles ainda não sabem o que fazer, não vão decidir tão facilmente. Não comigo fora. – sorriu com dificuldade, aproximando-se. Colocou uma das mãos por cima das minhas, olhando para minha barriga como se pudesse ver o bebê ali dentro. – Tem uma mochila abaixo da sua cama. Caso realmente precise fugir, tem comida, água, cobertor... O suficiente para não morrer no meio do caminho. Não é difícil achar a estrada, espero que lembre. É só atravessar a floresta.
- Prefiro esperar que não façam nada comigo... – De fato, eu não estava nada preparada para me esconder caso eles decidissem o que fazer.
- está fora, está puto demais. Não vai voltar amanhã... Caso volte, vai esperar que eu esteja aqui para decidir alguma coisa. Fique calma, vai dar certo. – Novamente, sorriu, sem muito sucesso. Não pude deixar de devolver seu sorriso, assentindo sem muita fé.
Ouvimos a porta do quarto ser aberta. afastou-se de mim, andando com passos largos até o quarto. Ficou parado, encarando a porta. O segui, vendo entrando no quarto.
- O almoço está servido. – disse, sem muita animação. Olhou de mim para , sem uma expressão que eu conhecesse, e finalmente sumiu. Eu não estava com fome, não queria comer, não queria beber. No entanto, eu tinha que me manter o mais saudável possível.
Eu e descemos as escadas em silêncio. Sentamos juntos à mesa e continuamos sem proferir uma palavra. começou se servindo, colocando macarrão em seu prato. Meu estômago embrulhou; eu não queria comer massa.
apareceu, vestindo apenas uma calça jeans larga, aparentemente sem cueca por baixo. Continuava com os cabelos engrenhados e molhados. Ver todo seu esplendor passando por mim, deixando seu cheiro no ar, deixando algumas gotas me acertarem ao balançar os cabelos... Era hipnotizante. Fazia minha mente voar para momentos maravilhosos. Era sensual quando ele me ignorava, era sexy quando nem sequer olhava para mim. Eu me encontrava totalmente sedenta por atenção, mesmo depois de tanta atrocidade.


Meu coração batia aceleradamente. Nunca fiquei tão nervosa antes. Minhas mãos suavam e eu não conseguia ficar parada. Andava de um lado para o outro dentro do quarto, sem conseguir tirar os olhos da janela. Eram duas e três da tarde, já havia partido. Vez ou outra eu olhava de relance para a mochila debaixo da minha cama, esperando não precisar dela.
Eu não estava aguentando toda aquela emoção. Meu corpo e mente eram frágeis demais para lidarem com aquela situação. Era amor, ódio, mágoa, medo, tristeza... Tudo isso tomando conta de mim por dias. Era maçante, drenava minhas energias e forças. Sentia-me cada vez mais incapaz de acordar. era o que mais me machucava. O desapontamento, as lembranças... Era cruel o modo como a minha mente se comportava. Eu não conseguia buscar consolo em mim.
Respirei fundo, parando de roer a unha do dedão direito. Olhei para o armário, lembrando-me do desenho. Andei até o mesmo, ajoelhando-me. Fazendo uma força extraordinária para o meu fraco corpo, consegui empurrar o armário com lentidão e silêncio. Quando não foi mais necessário, parei, encarando mais folhas de papel. Entre elas havia um fino e já gasto caderno.
Peguei as folhas e o caderno, acumulando-os em minhas mãos. Coloquei o armário no lugar e fui, carregada com o que acabara de encontrar, até o banheiro. Fechei a porta, sentando-me no chão frio. Encostei minhas costas no azulejo frio, lembrando-me de quando apareceu e disse que era louco por mim. Disse que talvez fugiria comigo. Aquilo me despedaçava. Doía, era como se jogasse ácido sobre uma ferida aberta.
Funguei, passando as mãos pelo rosto. Suspirei pesadamente, pegando uma das folhas. Era outro desenho. Dessa vez não passava de rabiscos coloridos e abstratos. Era bonito de se ver, porém não parecia expressar nada, a não ser uma confusão. Deixei esse desenho de lado, pegando outra folha. Este não era colorido, foi feito a lápis. Era um piano perfeitamente desenhado, desfocado no fim. Sobre ele havia flores, cobrindo-o, crescendo por ele. Era lindo, mas não me dava respostas.
Parti para o caderno, abrindo-o na primeira página. Encontrei exatamente o que queria: no canto superior esquerdo, estava escrito Juliet. Escrito a mão. Mordi minha ferida no lábio inferior, passando a página.

Segunda feira, dia.
ainda não apareceu. Estou agoniada. Não consigo esperar, dói esperar. Faz apenas um dia que ele foi, mas eu me sinto tão desprotegida! Eu sei como sair daqui, mas eles sabem que eu sei. Isso é perigoso. Quanto mais sabem sobre mim, mais perigoso. Entreguei-me inteiramente a , ele sim sabe tudo o que sou. Mas acredito que não seja uma ameaça. Eu o amo, ele me ama. Certo? Errado. Era o que eu queria pelo menos pensar. não sente nada por mim, não depois de tudo que fez. Ele me trouxe a esse lugar, me sujou, me machucou... Não estou entendo. Não estou compreendo a razão de estar aqui. Em meio a tantos temores, sei que ainda busco esperança em .


Ouvi o som da porta do quarto sendo aberta. Subitamente, juntei todos os papeis novamente e fechei o caderno. Guardei tudo dentro do armário do banheiro, ajeitando-me. Acionei a descarga, abrindo a porta. Devagar, entrei no quarto, vendo de pé. Revirei os olhos, trincando os dentes. Só mais um dia...
vestia sua calça jeans, estava descalço e usava uma blusa preta. Seus cabelos haviam crescido nas semanas que ele passou fora. Estava bonito; lindo, na verdade. Seu rosto estava perdido pela vista, era como se eu nem mesmo estivesse ali dentro. Era bom vê-lo assim, de longe, sereno e tranquilo. Era bom não tê-lo me atacando.
- Eu não devia estar aqui agora. – disse baixinho, com a voz rouca. Parecia afetado com alguma coisa. Meu coração pareceu ter sido apertado por duas grandes e maldosas mãos. Eu sangrava por dentro. Sangrava e sangrava, gritava e chorava. Só então pude perceber como ele estava acabado. A expressão e postura de estavam decadentes. Seu estado era triste de se ver. Transbordava melancolia.
- Não se arrisque à toa. – As palavras saíram sem autorização. Nem mesmo eu sabia por que havia dito aquilo. sorriu triste, finalmente me olhando. Estava cabisbaixo e com os ombros encolhidos. Parecia um ser indefeso. – Quero ficar sozinha agora. Por favor. – Minha voz saiu baixa e com desgosto. Eu não queria que ele saísse. Não naquele estado. Queria abraçá-lo e lançar aquela misteriosa e aparente dor para longe.
- Eu preciso falar com você. – Não, por favor, não. Não me atrapalhe, não me convença de que é melhor ficar. Não...
- Mais tarde. – Eu disse de imediato, fixando meu olhar na cama. Não conseguia olhá-lo e dizer coisas que não queria. – Amanhã é melhor, quero descansar. – Respirei fundo, engolindo o nó em minha garganta. – Quero aproveitar que não está... – Falei a última frase com uma proposital dor na voz. fechou os olhos, fazendo-me perceber que eu o encarava novamente. Ele pareceu suspirar, então levantou mais a cabeça.
- Amanhã nos falamos, então. Pela manhã. – virou-se, finalmente me olhando. Aqueles foscos e vazios olhos pareciam acusadores. Tive vontade de me ajoelhar e chorar, de pedir ajuda a , embora ele fosse a última pessoa na qual eu poderia confiar. Desviei o olhar, encarando o chão. Assenti, esperando que ele saísse. Ouvir a porta bater fez-me sentir um aperto.
Obriguei-me a continuar sem chorar e voltei ao banheiro. Tranquei a porta novamente, pegando o caderno de Juliet dentro do armário. Abri, dessa vez, a terceira página.

Quarta feira, tarde.
Estou começando a me assustar. Sei que não há razões para isso, mas tem sumido demais. Sei que está preparando tudo para que possamos fugir, mas fico incerta quanto a isso. Eu confio nele, sei que confio. Aliás, eu o amo. Porém, não confio no que ou são capazes de colocar na cabeça dele. parece manso, raramente fala, é o mais quieto e doce de todos. é simpático de vez em quando, confesso que há vezes que ele aparenta não gostar muito de mim. Já é o mais próximo que tenho, além de . Mesmo sabendo um pouquinho de cada um, mesmo sabendo que em breve eu e iremos embora, eu fico assustada. Tenho medo do que possam fazer a .

Parei de ler, respirando fundo. Os papeis eram trocados, aparentemente. Era como se cada um escolhesse como se comportar, sabiam de tudo. Ler as pequenas anotações de Juliet apenas me deixava mais confusa. Passei as páginas, chegando à penúltima.

Sábado, madrugada.
está na cidade. Não estou suportando, a culpa me corrói. está me esperando, está na minha cama. Não sei o que fazer, me sinto tão só! Sei que se eu não obedecê-lo, coisas ruins podem acontecer. é cruel, me assusta mais a cada dia. Antes, o amor e confiança que eu sentia por eram suficientes para manterem minha sanidade aqui dentro. Mas agora estou morta de medo, não consigo nem mesmo tomar banho sem que meu coração palpite loucamente. Queria que chegasse agora, que ele me abraçasse e impedisse . Queria que ele me salvasse disso, dessas ameaças. não vai me deixar escapar, não dessa vez.
Eu sinto que estou cada vez mais perto do fim. Até hoje eu e não conseguimos sair daqui, e nunca conseguiremos. Esse lugar é... É fora do comum. , e estão por toda parte, têm ouvidos em todos os lugares, chega a ser perig

Não tinha continuação. Parte de mim achou melhor parar de ler. Aliás, aquilo só mudaria meu modo de pensar e me deixaria mais confusa. Outro lado, um bem curioso e inquieto, obrigou-me a virar a folha, encontrando a última página. Respirei fundo e li as poucas palavras.

Sinto-me um lixo. Suja. Se alguém me matasse agora, seria um grande favor. Não sei como vou olhar nos olhos de ...
É madrugada e eu não consigo dormir. Devo voltar para a cama e deitar ao lado de ?

Suspirei pesadamente, passando uma das mãos pelo rosto. Perguntei-me se sabia da existência daquele ‘diário’. Se não soubesse, continuaria desse modo. Era egoísmo da minha parte, mas não seria por mim que descobriria as coisas de Juliet. Se ela não mostrou a ele, se estava escondido sob um armário, se ele não acreditou no que ela sentia... O azar era o dele. Para mim, tudo havia sido um grande mal entendido. Era frustrante ver que a morte de Juliet não passou de um engano. Era como se me encontrasse na cama com e resolvesse me matar. Obviamente, ele não se importaria com isso como se importou. Ele não me ama, ao contrário do caso de Juliet e . me entregou a , fez uma escolha, foi da parte dele...
Juliet havia escrito que sabia como sair dali. Abri o caderno novamente, revirando as folhas. Não passavam de anotações a esmo, algumas extremamente inúteis. Havia páginas em branco, rabiscos, palavras viajando pela folha... Poucas coisas faziam total sentido. Na maioria das coisas que li, Juliet descrevia seu medo e sua total falta de coragem. Seu amor e seu receio. Passei a odiar Juliet, era como se eu me lesse. E eu me odiava.
Perguntei-me como me sentiria quando fosse embora. Não queria que a última vez que falasse com fosse daquele modo. Não queria deixar tudo subentendido ou mal resolvido. Eu não tinha como falar com , mas sabia que queria vê-lo mais uma vez. Teria que ser de longe, em silêncio, até porque... Bom, eu nem sei como ele seria capaz de se comportar ao me ver. Tinha medo de ele ser rude comigo e me machucar mais. Sempre conseguia me machucar.
Como faltava apenas algumas horas para o pôr do sol, resolvi tomar um banho. Um banho bem demorado. Nunca saberia dizer quanto tempo fiquei sob a água fria, sentindo meu queixo batendo e meu corpo contraído. Eu mantinha todos os meus membros juntos e rígidos, sentindo a água gélida passeando pelo meu corpo e criando choques em mim.
era um filho da puta. Era sujo, repugnante, melancólico, frio, sensual, egoísta e desumano. Ele foi o de Juliet. Ainda assim, eu queria vê-lo. Queria encarar aqueles olhos sem vida e aqueles cabelos macios. Queria sentir seu perfume e me perder nele. Eu aceitava perfeitamente a ideia de espiá-lo de longe. Eu não queria ouvi-lo sendo grosso comigo, não o queria me olhando com desdém ou soltando uma das suas frases cruéis. A distância seria saudável e satisfatória.

Eu me xingava constantemente. Minhas mãos, se não estivessem fechadas em punho, seriam capazes de me socar e me puxar de volta para o meu quarto. Inexplicavelmente, eu tinha vontade de rir de mim. Cautelosamente, desci as escadas. Sabia que aquilo era, literalmente, suicídio. Sabia que devia permanecer dentro do meu quarto. Sabia também que, se eu me amasse um pouquinho mais, nada daquilo estaria acontecendo. Ignorando minha mente, algo que eu só conseguia fazer quando estava prestes a foder de forma vergonhosa, continuei meu caminho até sair da casa. Não sabia se tinha permissão para sair como antes. No entanto, continuei ignorando.
estava longe, sentado sob a árvore na qual sentamos juntos uma vez. Estava sozinho, de costas para mim. Do lado de fora, o vento soprava forte. Estava nublado, nuvens negras estavam carregadas e tentadas a cair do céu. Fiquei parada na varanda, sentindo meus cabelos voando. O mesmo acontecia com meu vestido, mas eu não me preocupava em segurá-lo, era longo o suficiente para não levantar com o vento. Adorava observá-lo de longe, sempre calmo e tranquilo. Não fazia ideia do que se passava na cabeça de naquele momento, só desejava que ele pensasse em mim. Que ele estivesse pensando coisas boas sobre mim. Desejava que ele estivesse sofrendo por mim. Era cruel da minha parte, mas era a mais pura verdade.
O que eu tinha medo de acontecer acabou me atingindo: olhar de longe não era o suficiente. Como estava bem distante, não faria mal se eu me aproximasse só um pouquinho. Sem que fosse necessário, andei com cautela pela grama alta. As plantas alisavam minhas pernas, provocando uma coceira que eu facilmente ignorei. Meu coração acelerou seus batimentos. Senti um nó doloroso na garganta, porém tentei engoli-lo. Minha tentativa foi em vão, eu não era forte e sabia disso. Sabia que não tinha força nenhuma, ou até mesmo coragem, para não chorar. Eu sempre chorava. Sempre.
Sem que pudesse perceber, eu já estava ajoelhada, atrás de . Estendi a mão, mas não consegui tocar suas costas, ainda estávamos distantes. Não muito, aposto que ele podia ouvir minha respiração descompensada. levantou a cabeça, olhando por cima do ombro. Assustou-se ao me ver, virando-se bruscamente para mim. Ele também estava de joelhos, com uma expressão incrédula. Engoli a seco, com o olhar perdido. Pensei no que dizer, como me explicar, mas simplesmente não conseguia. Respirei fundo.
- Queria falar comigo, certo? – Foi tudo que consegui inventar. assentiu, receoso. Abaixei minha mão, amolecendo o corpo. continuava com a mesma postura deplorável. Algo estava acabando com ele, e devia ser bem forte.
- Não consigo. – mordeu o lábio inferior por poucos segundos. Passou as mãos pelos cabelos, deixando-os mais bagunçados. O vento fez os fios esconderem parte do seu rosto. Ainda assim eu era capaz de encarar aqueles olhos... Brilhantes? Avermelhados?
- Eu estou ouvindo. – Sussurrei, quase silenciada pelo som do vento nos ouvidos. Ele pareceu ouvir, balançando a cabeça negativamente.
- Eu consigo falar. Mas não consigo, simplesmente não consigo, viver com ou sem você. – disse com a voz um pouco rouca. Estava falhando, estava se entregando. Em parte eu não queria que ele continuasse. Queria que suas palavras não fossem absorvidas e calorosamente guardadas por mim. Entretanto, mesmo sabendo que não podia confiar nele, eu abraçava e acreditava – mesmo que um pouco – em tudo que ele dizia. Era isso que me acabava, era isso que me destruía. Eu vivia das incertezas de , alimentando-me para elas, respirando para elas...
- Eu não entendo seu comportamento. – Dei-me por vencida. Eu simplesmente não entendia nada daquilo. Participava daquele jogo sem saber as regras, os limites... Era cruel! Era horripilante. Era injusto. Os dados estavam nas mãos dele, decidindo por mim.
- Me perdoe por isso. – aproximou-se mais, juntando nossas testas. Fechou os olhos com força, segurando meu rosto com as duas mãos. – Por favor, por favor, perdoe-me por tudo isso. – não conseguia parar de implorar perdão. – Eu não sabia que chegaria a isso, acreditei que estava no controle... Eu não devia, , eu... – Ele respirou fundo, parecendo procurar se recompor daquele momento de “quase-total” entrega. – Eu não consigo escolher. – Eu não dizia nada. Não o interrompia. Queria que continuasse, embora aquilo fosse mais ácido nas minhas feridas. – Sou a pior coisa para você.
- Eu sei. – Concordei, vendo-o abrindo os olhos. Tocá-lo era a tortura mais prazerosa do mundo. – Eu quero matar você. – deixou um sorriso triste e com uma pitada de humor escapar. Sabia que eu não era capaz daquilo.
- Você já está me matando, só que com delicadeza. O que é bem pior, se pararmos para pensar. – Ele deixou seu sorriso sumir, mas seu estranho brilho nos olhos permaneceu.
- Não consigo me imaginar te fazendo algum mal. Nada afeta você. – juntou as sobrancelhas, parecia incrédulo com minha fala. Ele se levantou, estendendo sua mão.
- Vem cá. – Hesitei, balançando a cabeça negativamente. – Por favor. – Ele insistiu. Estendi o braço devagar, entregando minha mão à sua. levou minha mão até seu rosto, obrigando-me a acariciá-lo. Estava... Duro. Rígido. Magro. Finalmente passei os olhos novamente pelo seu corpo. Com a outra mão, passeei pelo seu abdômen, podendo sentir seus ossos à mostra. Mordi o lábio inferior, sentindo-o sangrar de tanto que o mordi naquele dia. O machucado ainda não havia sarado, e aquele defeito demoraria a sair da minha boca.
estava extraordinariamente mais magro. Suas olheiras fundas pareciam ser covas cavadas para um morto recente. Seus lábios estavam pálidos. Sem nem mesmo pensar, e com total naturalidade, tirei sua blusa. levantou os braços, ajudando. Passei as mãos pela sua pele, sentindo seu corpo movendo com sua respiração. Os ossos das suas costelas pareciam prestes a perfurar sua pele. Assim como as maçãs do rosto.
- O que você fez? – Sussurrei, subindo as mãos para seus ombros pontudos. Seus braços estavam quase mais magros que os meus.
- Não consigo ficar longe de você. Não mais. – pegou minha mão novamente, levando-a até sua calça. Puxou-me pela cintura, e eu tive que me deixar levar. Toquei seu rosto com a mão livre, com medo de quebrá-lo. Fechei os olhos, sentindo seus lábios secos e duros encontrando os meus. Eu sentia pena e preocupação. Estava confusa, mas sempre seria dele, sempre estaria aberta a ele. Sempre estaria com ele. Sempre.
afastou nossos rostos, segurando meu semblante com as duas mãos. O encarei por alguns segundos, totalmente perdida. Eu poderia socá-lo, nada me impedia. Poderia dizer a ele que estava grávida de , mesmo sem ter certeza disso. Poderia acerta-lhe na cara e mandá-lo para todos os lugares longe de mim. Mas eu simplesmente não conseguia. Aqueles olhos vulneráveis finalmente entregaram-se a mim. Estavam fracos e carinhosos.
- Por que você faz isso? – Perguntei baixinho, com medo que o espantasse. não esboçou reação ao que eu falei, continuou com a mesma expressão pós-choro.
- Isso o quê? – Ele sabia. Não precisava perguntar, ele sabia. Ou não... Pensando que não pudesse ficar mais decepcionada, encontrei-me sem chão. estava tão indiferente assim? Ele nunca percebeu tudo o que fez comigo?
- Você vai e volta...
- Por que você faz isso? – repetiu a minha pergunta. Levantei uma sobrancelha, não entendendo. Não queria que ele me interrompesse, não queria que mudasse de assunto. – Por que me aceita sempre que volto? Eu sou um babaca.
- Eu... – Não consegui responder. Abri a boca, porém minha voz recusou-se a sair. Não fui capaz de juntar palavras, não fui capaz de me entender. Não conseguia explicar nem a mim mesma por que eu o aceitava. Sim, eu era apaixonada por . Mas por quê?! Por que ainda sentia coisas tão fortes por ele?
- Eu faço porque não sei o que fazer. Não posso viver com ou sem você. – Ele repetiu. - Só me resta ficar morto... Longe. – Fechei os olhos, engolindo um grande nó na minha garganta. nunca soara tão sincero, e era justamente isso que me matava. – Você é contra a minha natureza. Você me leva contra tudo que sou. Me odeio quando estou com você, te odeio quando estou com você, mas longe também.
- Por quê? Por que me odeia tanto? Como pode se eu não consigo te odiar? – Não fui capaz de olhá-lo nos olhos. conseguia dizer coisas lindas e maldosas ao mesmo tempo. Não havia esperança para nós. Ele demorou a responder. Demorou até demais, o que me causou certa angústia. Por um lado, eu não queria saber a resposta, mas por outro, eu morria de curiosidade.
- Não importa o motivo. Até porque, tens uma parte de mim. – apontou para a minha barriga levemente, incapaz de falar aquilo. – Uma parte significativa. Eu realmente achei que não poderia estar mais entregue a você... Mas você continua me surpreendendo. Te destruir está me destruindo, acredite. – Perdi o ar. Senti-me flutuando, com meu coração passeando pela minha barriga junto com meu estômago. Minhas pernas falharam, fazendo com que eu caísse. me envolveu com seus braços, sustentando-me. Sentou-se novamente, encostando-se à árvore. Deixou-me em seu colo, afagando meu rosto com uma mão, levando-o ao seu peito. – Desculpe, não sabia que você ia... – disse baixinho. Balancei a cabeça negativamente, agitando a mão com lentidão.
- Fique longe de mim. – Fiz força para poder falar. Afastei-me do seu peito, passando as mãos pelo rosto. ainda segurava meu corpo. Por alguma razão, eu não me sentia segura. O que era raro, uma vez que estava nos braços dele.
- Odeio quando diz isso.
- Então entende um pouco, bem pouco mesmo, do que sinto aqui. – Eu ainda tinha mágoa dentro de mim. Mágoa, raiva, ódio. Sentia tudo isso. Tinha sede de vingança também. Tudo mesmo. No entanto, esses sentimentos eram silenciados e facilmente controlados pelo carinho inexplicável que eu tinha por .
- Quer que eu fique longe? Eu fico. Nada mais justo. – deu de ombros.
- Não importa o que eu quero, honestamente. – Levantei-me, precisando de uma força além do normal. Era terrível me afastar de . – Só não acho que você tenha que me dizer essas coisas agora. Eu estive aqui todo esse tempo, parada. Não precisava ter medo de me dizer as coisas, sabe disso. Sabe que eu nunca fui uma ameaça, sabe que eu nunca contaria a nenhum dos outros. Você teve seu tempo para fazer daquelas suas palavras verdade e, sinceramente, é essa sua falta de decisão que não me deixa acreditar que você sofre por mim. Teu físico fala por si, devo admitir. Mas é muito fácil não comer para resgatar a confiança de uma otária ordinária. Sabe-se lá o quanto você ganharia com isso. – Dei de ombros, surpresa com a dureza que encontrei para falar.
- Não fale sem saber. Tudo que fiz depois que chegou aqui foi para te proteger. – Ri irônica, balançando a cabeça.
- Me proteger? – Perguntei, juntando as sobrancelhas. Estendi meus braços, mostrando as marcas de queimadura de . – Isso é “melhor” pra você?! – Levantei o tom de voz. Mostrei minha coxa, apontando para meu lábio em seguida. – Você quis se proteger. Talvez pelo orgulho... Se é que sentiu algo.
- Eu sinto, não dig... – Eu não o deixava terminar as frases. O interrompia, deixando-o agoniado. estava com o rosto avermelhado, mas eu sabia que não era de raiva. Ver lágrimas descendo daqueles olhos melancólicos e maldosos fazia-me sentir como se minha alma fosse dilacerada.
- Não, . Não adianta, não adianta mentir ou tentar dizer a verdade. – Dei-lhe as costas. Não poderia continuar ali. Caso ficasse, retiraria tudo que acabara de dizer, e sabia que um dia me arrependeria. – Nada que você disser agora vai mudar o que planejam fazer comigo. - Pensar nas lágrimas de , ouvi-lo fungando, ouvi-lo me chamando baixinho para voltar... Queimaduras de cigarro eram como carícias perto daquilo.
Ao entrar na casa, subi as escadas até chegar ao meu quarto. Deitei-me na cama. Nada melhor do que dormir para fazer o tempo passar.

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