Story Of Us
Escrita por: Marcella
Betada por: Vanessa
Prólogo
- Eu sei que o que eu to fazendo é errado, e eu quero parar! Mas eu não consigo... – falava com grande esforço, com os olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas que se confundiam com o suor. – Me ajuda, por favor? – já era, tinha perdido, não conseguia vê-lo daquela forma. Por que diabos ele tinha esse poder sobre ela? – Por favor, ! Eu preciso de você!
Desistindo de se fazer de forte, passou a mão por aqueles lindos cabelos, agora embaraçados. Colocou um dedo em seus lábios para impedi-lo de falar novamente. Não precisava ouvir mais nada. Simplesmente não aguentava vê-lo daquela forma. Faria qualquer coisa para colocar de volta aquele lindo sorriso no rosto do garoto. Lentamente, aproximou-se dele e passou os braços por cima de seus ombros, aproximando os corpos, em um primeiro abraço. Um primeiro abraço há muito tempo esperado. Sentiu as mãos do garoto em sua cintura e se sentiu bem, de um jeito estranho, mas bom.
- Vai ficar tudo bem – sussurrou em seu ouvido – eu vou te ajudar.
- Promete? – ouviu o garoto perguntando, sentindo a respiração quente dele em seu pescoço – Promete que não vai desistir de mim dessa vez?
Riu de leve, sem humor nenhum.
- Prometo que vou te ajudar – respondeu – e não vou sair de perto de você. Só se você não me quiser. – deu um beijo na bochecha dele e se afastou. Pegou-o pela mão, do modo como sua mãe fazia com ela quando era pequena e o tirou dali, em silencio. Ninguém precisava saber o que havia acontecido. Não importa o que pensem nem o que dizem a respeito dele. O que importava era que ele estava ali, ao seu lado, segurando sua mão.
- Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai. – disse baixinho, mais para si mesma do que para aquele garoto alto andando ao seu lado.
Capítulo 1
Nunca pensei que fosse dizer isso, mas: finalmente de volta aos longos dias na escola! Não aguentava mais aquele hospital, muito menos meus pais, que pareciam que iam morrer a cada vez que me viam. Uma coisa que eu não gosto: pessoas preocupadas comigo. Quer dizer, às vezes é bom, mas não em exagero, né?! E também porque eu não morri, morri? Não! E bom... O ajudou um pouco nessa parte, mas eu não morri! Ah, meu Deus, onde está a minha educação?! Prazer, meu nome é , tenho 17 anos e estou no último ano da escola. E pra você não ficar aí viajando na maionese (alô, mãe, estou usando suas expressões tensas!) eu vou resumir o que aconteceu: quase morri. É. E sim, foi ruim. Quer dizer, não é nada legal capotar com o meu carro lindo. Estava chovendo muito e era bem tarde, e assim, eu estava muito cansada. Mesmo. Bom, foi nessa parte que apareceu o e me levou pro hospital. Se não fosse ele, eu não sei o que teria acontecido. A rua estava vazia e, sinceramente, ainda não entendi o que ele estava fazendo lá. Acho que eu vou falar com ele quando o ver. Tenho que agradecer. Mas confesso que estou com um pouco de medo porque, bom, sempre que falam dele, não é elogiando-o.
O nome é . Estudo com ele desde a 8ª serie. Mas nunca tinha falado com ele. Nunca mesmo. Ele era do tipo de garoto isolado, que não queria a companhia de ninguém, e quando tinha companhia, era aquela turminha da pesada e aquelas garotas atiradas que estão na listinha de todo mundo, e, bom, eu era filha do diretor e tinha um monte de gente falsa ao meu redor. E pelo que falam dele, ele não deveria querer fazer alguma coisa além de beber, fumar e dormir, então nunca cheguei muito perto. Bom, estou começando a achar que as pessoas possam estar enganadas. Então aqui estou eu, no carro da , minha melhor amiga, junto com o , meu primo e namorado da , porque eles estão me levando pra escola e me paparicando tipo, um monte. E eu, claro, estou fingindo que estou escutando o que eles dizem, e assentindo com a cabeça, porque afinal, a pode ser pior do que minha mãe quando quer. Eles não estudam comigo, já terminaram a escola há dois anos, mas disseram que iam me trazer no meu 1º dia de volta à escola, já que meu carro estava acabado, coitado. Depois de muitas recomendações de como pegar um ônibus (como se eu não soubesse) pra voltar pra casa, eu consegui me livrar deles. É nessas horas que eu agradeço o fato de que minha mãe mora em outra cidade e meu pai sempre está ocupado com os assuntos da escola e só volta pra casa pra dormir. E como eu moro com ele, vou ter a casa só pra mim e ninguém pra me perturbar perguntando se tem algo doendo. Não que não tivesse nada doendo, porque tinha, mas ninguém precisava saber disso.
As aulas se passaram rapidamente, com alguns “bem vinda de volta” de alguns “amiguinhos” e professores. Não tinha muitos amigos de verdade ali. No intervalo entre as aulas, eu procurei pelo , não que eu estivesse muito ansiosa pra falar com ele, mas eu procurei, de verdade, e não o vi em lugar nenhum. Existem uns boatos que na hora do intervalo ele saía pra fumar alguma coisa e sempre voltava chapado. Quando as aulas finalmente chegaram ao fim, dei mais uma olhada por ali e depois no estacionamento, mas nem sinal dele. Peguei um ônibus e fui pra casa.
Essa rotina continuou pelo resto da semana.
Mas na sexta ele apareceu no fim das aulas. Estava parado no estacionamento, falando com um dos colegas. Ou discutindo com um dos colegas, pelo que parecia. Esperei por ali e quando ele deu as costas ao amigo e foi em direção ao seu carro, corri atrás dele e segurei em seu braço.
- O que você quer agora? Já não falei... Ah, é você. – ele virou-se de volta ao carro logo que viu quem era. Sacudiu o braço, forçando-me a soltá-lo. – O que foi? – ele disse, continuando a andar ao seu carro.
- Só queria agradecer pela ajuda – disse, em uma voz fraquinha. – Obrigada.
- Ótimo, já agradeceu, pode ir agora.
Foi como levar um tapa na cara. “Ótimo, já agradeceu, pode ir agora.” Que garoto estúpido!
- Precisa ser tão grosso? – não me contive, e falei mais alto do que deveria, chamando a atenção de algumas pessoas em volta. – Só vim agradecer.
Ele se virou lentamente, com o rosto vermelho de raiva e disse alguma coisa que eu não prestei atenção. Ele estava com o olho esquerdo inchado e um pouco de sangue escorrendo do canto da boca.
- Ah, meu deus, o que aconteceu com você? – falei, surpresa, levantando uma mão para tocar em seu rosto. Ele empurrou minha mão para o lado oposto.
- Isso não é da sua conta. Cuide da sua vida.
Abriu a porta do carro, entrou, e simplesmente foi embora. E eu fiquei ali, que nem idiota, olhando até o carro desaparecer.
Queria dizer que não, mas passei o fim de semana inteiro criando um milhão de possibilidades pra ele estar naquele estado. É isso que dá ter uma vida social nula e nenhum namorado. Mas decidi que não iria falar com ele na segunda feira. Quer dizer, não nos conhecemos direito e quando eu vou agradecê-lo por salvar a minha vida, ele é grosso comigo daquele jeito e eu ainda vou atrás dele depois? De jeito nenhum! O problema seria a minha curiosidade, mas eu iria suportar.
Capítulo 2
Já havia se passado dois meses desde aquela conversa super amigável, e eu estava muito ocupada com os preparativos pra uma ‘exposição’ que um dos professores inventou de fazer. E bom, eu sou vice-líder do grêmio estudantil da minha escola, então grande parte do trabalho ficou pra mim e pro William, o líder do grêmio. Na verdade, só entrei pra esse grêmio porque meu pai praticamente me obrigou, ele acha, como todas as outras pessoas da escola, que só porque sou filha dele, tenho que participar de tudo e conhecer todos. Mas o que eu menos quero eram a atenção e a companhia daqueles idiotas que se acham o máximo.
Depois de alguns desentendimentos, estava caminhando para casa finalmente. Estava nervosa e não queria ter que pegar um ônibus e me estressar mais e muito menos pedir carona pra algum “coleguinha” daquela escola estúpida.
Já não bastava ter brigado com o idiota, estúpido do na hora da entrada, só porque esbarrei nele sem querer, ainda tive que ficar o dia todo na escola por causa daquela exposição idiota e tive que ouvir “gracinhas” do meu próprio pai, como se fosse minha obrigação fazer com que aquela exposição desse certo, como se só eu fosse responsável por ela.
Estava a, mais ou menos, quatro quadras longe dali, quando vi se pegando com uma garota sei-lá-de-onde perto de seu carro. Rolei os olhos e continuei andando, tentando ao máximo não ser vista.
- Hey! Espera aí!
Pelo visto não adiantou.
- O que você quer agora? – usei as mesmas palavras que ele usou comigo uma vez. Claro que ele não ia perceber, mas sei lá.
Ele deu um sorrisinho sarcástico. Já disse que odeio quando as pessoas sorriem assim pra mim? Sinto-me burra e incapacitada. Não me pergunte o porquê.
- Vai voltar pra casa a pé? É meio longe, não acha?
- Se é longe ou não, isso não te interessa. – eu sei, fui grossa, mas e daí? Ele era assim comigo também! E eu ainda estava decidindo se achava que ele sabia que a minha casa era longe ou se apenas imaginou que fosse.
- Uau, alguém está precisando de um calmante por aqui.
- E uau, alguém está precisando se tocar de que não tem nada a ver com a minha vida por aqui.
Virei e continuei o meu caminho, ignorando a cara de espanto dele. Mas não dei nem dois passos e senti um braço me segurando e me virando de volta.
- Ok, foi mal por hoje de manhã. Acho que fui um pouco grosso e...
- Ah, você acha? – interrompi-o, revoltada. – Na verdade, você deveria ter certeza de que foi grosso. Aliás, você é assim sempre, já deve ser normal, não é? – ele me lançou um olhar tão diabólico que me dá medo só de lembrar.
- Você não devia falar assim com quem já salvou a sua vida de patricinha popular. Só ia oferecer uma carona.
- Patricinha popular? – ri disso – Você pode até ter salvado a minha vida, mas isso não te dá o direito de falar dela como se soubesse como ela é. E não, muito obrigada, mas eu não quero uma carona com um ser tão desprezível como você. E acho melhor você voltar, a garota ali ta te esperando – apontei pra garota, impaciente, encostada na porta do carro dele, virei-me e continuei o meu caminho, sem olhar pra trás.
E era sempre assim. Nas poucas vezes que nos falávamos, ele era um grosso e eu o tratava da mesma forma que ele me tratava. Até aquele dia.
Capítulo 3
Aquele dia eu acordei com uma sensação estranha. E quando eu digo estranha, eu quero dizer estranha mesmo. Como se algo tivesse pra acontecer. Algo importante. Ignorei e levantei da minha cama linda e aconchegante porque meu pai estava lá embaixo, mandando-me descer. Não sei pra que isso. Ele iria viajar esse fim de semana com uma ‘namoradinha’ que ele arrumou e que tenho grandes suspeitas de que seja a nova professora de matemática lá da escola e queria que eu descesse pra ele me falar as mesmas coisas de sempre.
- Muito cuidado se você for sair, tranque a porta direitinho, não fique acordada até muito tarde, faça todas as suas lições, não esqueça nada no fogão. Qualquer coisa, tem dinheiro no armário da cozinha, mas use somente para emergências. E, por favor, não faça uma festa na minha casa! – Viu? Era sempre isso que ele me falava. Mas espera, ainda falta uma coisa – Se cuida e vem aqui dar um abraço no papai.
Andei até ele, dei um abraço e um beijo e ele foi embora. Voltei pro meu quarto e me joguei na cama. Acordei três horas depois, com o telefone tocando.
- Alô? – atendi sem nem olhar quem era, o que é bem perigoso, poderia ser aquele garoto… Como é mesmo o nome dele? Ah, Lucio, um que ficou mais ou menos três meses me ligando todos os dias, fazendo-me declarações de amor. Até que um dia ele resolveu “tornar público” o “nosso” amor e falou na rádio da escola que queria namorar comigo. Eu mereço, não é?! Bom, depois disso, eu tive que dar um jeito nele, fazer o que…
- Oi, ! É a Anne. – Ouvi aquela voz irritante do outro lado da linha. É, eu deveria mesmo ter olhado antes de atender – Você vai à festa da Natalie com a gente, né?
- Não sei, Anne, acho que eu vou ter umas coisas pra fazer e tal…- Respondi, sonolenta, querendo desligar na cara daquela vadia.
- Ah, não, , você tem que ir com a gente, a festa não vai ser nada sem…
Desliguei o celular e levantei, caminhando até o banheiro. Gente falsa. Só se aproximam de mim quando querem algo. Aposto que quando eu chegasse nessa festa, ela logo ia me pedir algum favor. Tomei um banho e me troquei.
Meus planos eram: ficar em casa e assistir às minhas comédias românticas favoritas e melosas. Eu sei, são grandes planos. Mas não tava com nem um pouco vontade de ficar em casa. Resolvi visitar o , já que ele mora perto da minha casa. Provavelmente a ia estar lá, então poderia ser divertido.
Fiquei lá por volta de duas horas jogando vídeo game e comendo besteira. Só fui embora por que não gosto de ficar de vela atrapalhando eles, né. Mas, por mim, ficaria o dia todo lá. É engraçado, porque no começo eles não se suportavam, mas aí, eu usei os meus poderes de persuasão e os obriguei a conversar por dez minutos. Não dizem que o ódio e o amor são sentimentos semelhantes, e que eles podem mudar de um pra outro facilmente ou alguma porcaria desse tipo? Então, foi o que aconteceu. E eu fiquei feliz de verdade, porque eles combinam, tipo, muito mesmo.
Voltei pra casa, tomei um banho e comi alguma coisa. Mas quando me sentei no sofá pra assistir televisão, aquela sensação estranha voltou. Ignorei-a e fui procurar algum filme pra assistir. Vi que ainda eram cinco horas. Decidi que não estava com vontade de assistir TV. Levantei-me, tirei o meu pijama e coloquei uma roupa qualquer. Peguei o dinheiro que meu pai deixou “somente para emergências” e saí de casa.
Não sabia para onde estava indo, mas entrei em uma Starbucks e comprei um café. Fui para uma praça que havia em frente e me sentei em um dos bancos. Sempre gostei daquela praça, era um pouco longe da minha casa, mas meus pais e eu vínhamos aqui quando eu era criança. E mesmo depois, quando saía mais cedo da escola, sempre passava ali nos dias de sol, só pra olhar as árvores e as crianças correndo e brincando. E não, eu não gosto de crianças, mas até que elas são divertidas quando estão longe de mim.
Àquela hora não tinha muitas crianças por ali, mas mesmo assim, ainda era um bom lugar.
Já tinha escurecido e eu ainda estava ali fazendo porcaria nenhuma, até que notei uma certa agitação na rodinha de velhinhos jogando xadrez. É, eles ficam ali o dia todo, e se você quer saber, eles não são nem um pouco agitados. Então, eu estranhei, claro, e comecei a prestar atenção ao que eles estavam falando. E se você está pensando que eu sou uma pessoa curiosa, você está absolutamente certo. Não consegui ouvir muita coisa, porque não estava tão perto, mas o que eu ouvi foi algo parecido com isso:
-…Lá no beco… Jogado.
- Sangrando?
- Não sei, não olhei.
- Isso é perigoso, pode ser um daqueles assaltos combinados.
- Ele parecia realmente mal. Usava um uniforme de escola.
- Qual escola?
- Aquela, perto da boate chique.
Ok, não me culpem, mas eu fiquei muito, muito curiosa depois disso. Quer dizer, mais do que eu já sou. Principalmente na parte que falaram da minha escola. Qual é, a cidade era pequena, não tinha outra escola perto da “boate chique” que nem é tão chique assim. E por que alguém estaria com o uniforme da escola em pleno sábado? E mais: por que alguém estaria com o uniforme da escola em pleno sábado e jogado em um beco?
Fiquei morrendo de vontade de ir ao tal beco, ver o que tinha acontecido, podia ser algo grave, mas como os velhinhos do xadrez disseram, podia mesmo ser um assalto daqueles combinados. Esses dias, passou no jornal que tinha uma mulher caída lá no bosque e aí uns caras pararam pra ajudar e… Enfim, eu decidi que era melhor ir pra casa, já estava escurecendo, só que pra ir pra casa eu precisava passar na frente daquele beco. Pensei em dar a volta no quarteirão, mas não queria andar, e poxa, se fosse algo perigoso mesmo, seja lá o que tenha naquele beco, já teriam descoberto, não é? Decidi que ia passar por lá e não ia parar de jeito nenhum. Sou alguém que gosta de ajudar as pessoas que precisam e tudo o mais, mas a verdade é que eu sou uma medrosa nível dez mil e não queria arriscar.
Quando estava chegando perto do tal beco, ouvi uns gemidos. Parei por um instante. Não ouvi mais nada, mas fiquei com medo, estava escuro e eu era a única na rua. Decidi continuar andando o mais rápido possível. Já tinha passado do beco e os gemidos tinham parado, continuei andando, mas chutei alguma coisa que fez um barulho enorme. Olhei pra baixo e encontrei um relógio quebrado. Peguei o relógio e o analisei, era diferente, caro e eu tinha a sensação de que já tinha visto ele em algum lugar. Continuei andando e coloquei o relógio no bolso, talvez tivesse conserto. Então eu parei. Peguei o relógio de novo e lembrei onde tinha visto ele antes.
Era o relógio do .
Capítulo 4
Voltei correndo em direção ao beco e só parei quando caí por cima de algo. Ou alguém. É, como eu imaginei, era ele quem estava lá. Ele tossiu e gemeu quando eu caí em cima dele, mas logo levantei e peguei o celular, pra tentar clarear um pouco aquele lugar pavoroso, de tão escuro. Ele estava mal. Muito mal mesmo. Ele estava tentando falar alguma coisa, mas não conseguia. Depois que eu me acalmei o suficiente pra pensar em alguma coisa, tentei levantar ele, enquanto tentava ligar pra uma ambulância. Ele segurou a minha mão e fez que não com a cabeça.
- O que é? Você é idiota, garoto? Vou chamar uma ambulância, fica quieto – empurrei a mão dele pra longe, mas ele segurou a minha mão de novo e conseguiu dizer:
- São só… Uns machucadinhos bobos…
Então eu ri. É, eu ri! Daquela situação, da cara dele e do jeito que ele falou. Quer dizer, o garoto estava com o nariz sangrando, o olho roxo, a boca inchada e estava apertando com uma das mãos a barriga e me dizia que eram só uns machucadinhos bobos.
Tudo bem, eu sabia que morrer ele não ia, mas eu estava realmente preocupada.
- Ei, você acha que quebrou alguma coisa? – perguntei, tentando me acalmar e iluminar com o celular o rosto e os braços dele. Ele negou com a cabeça. – Você devia ir pro hospital…
- Não devia não, me deixa em paz, eu me viro. – As palavras eram rudes, mas ele falou de um jeito tão fraquinho, como se pra falar cada palavra doesse, então nem me importei muito com a ignorância.
- Vem, vou dar um jeito de te levar pra casa… É muito longe?
- Não precisa – ele tentou levantar e quase caiu.
- É obvio que precisa. Vem, te ajudo.
Ajudei-o a levantar mesmo que ele continuasse resmungando. Por algum milagre conseguimos sair daquele beco. Ele apontou o carro dele, estacionado no fim da rua, embaixo de uma árvore. Andei com dificuldade até lá, enquanto ele se apoiava em mim. Peguei a chave no bolso dele e o ajudei a se sentar no banco do carona. Dessa vez ele nem reclamou.
Sentei em frente ao volante e ainda estava tentando decidir se era melhor levá-lo pro hospital ou pra casa dele.
- Onde é a sua casa? – perguntei. Se fosse perto do hospital, eu parava lá e dane-se ele, se não queria ir. – Ok, esquece – liguei o carro e tentei sair o mais rápido possível dali.
- Não, eu não quero ir pro hospital! – ele gritou de repente e eu dei um pulo. – Pode me deixar aqui, eu dirijo.
Encostei o carro de novo e olhei pra ele.
- É o seguinte: você é um grosso e você merece levar mais porrada do que já levou. Já que você não quer ir pro hospital, beleza, vou te levar pra minha casa e cuidar desses machucados, porque não estou a fim de deixar uma pessoa no estado que você tá ir pra casa sozinho, mesmo que seja você. Então, só cala a sua boca.
Virei pra frente e liguei o carro. Depois de um tempo de silêncio, ouvi uma risada, virei pro lado e ele estava rindo e fazendo caretas. Aparentemente, rir doía.
- O quê? – perguntei.
- Nada… - ele disse - Só… Só tenta não capotar com o meu carro também, tá? Dessa vez não vou poder te salvar.
- Vai à merda, .
Estacionei perto de casa. Ajudei-o a entrar e o deixei sentado no sofá da sala enquanto ia pegar a caixinha de primeiros socorros.
Quando voltei, ele estava exatamente do jeito que eu deixei, olhando ao redor. Ajoelhei-me em frente a ele e comecei a limpar os machucados. Por incrível que pareça, ele ficou quieto, só fazia umas caretas de vez em quando. Ele estava com um cheiro esquisito. Quer dizer, tudo bem que ele ficou sei lá quanto tempo jogado em um beco escuro e mal cheiroso, mas não era só isso.
Ele tinha traços realmente bonitos. E delicados também, mas, nem por isso, femininos. Sacudi a cabeça e continuei com meu trabalho.
- É melhor você tomar um banho – eu disse, quando terminei – o banheiro é a segunda porta à direita, subindo a escada. Vou pegar umas roupas pra você. Acha que consegue subir?
- Não precisa, eu já estou indo pra casa. – ele disse, levantando-se. Entrei na frente dele.
- Para de ser teimoso, garoto. Não vou te deixar sair desse jeito. Você não tá bem.
Ele me olhou com raiva. Muita raiva mesmo.
- Você é uma patricinha idiota, sabe? Eu faço o que eu quiser, você não pode me prender aqui.
- … – comecei, tentando controlar a raiva.
- Não, eu quero ir embora. Eu não gosto de você, eu não gosto da sua companhia, eu não gosto de ficar na sua casa e eu não preciso da sua ajuda. – Ele terminou de falar e ficou ali, encarando-me, esperando a minha reação.
Saí da frente dele, caminhei até a estante e peguei a chave do carro dele. Joguei a chave na direção dele, mas ele não pegou e a chave caiu no chão. Caminhei até a porta e abri.
- Tchau. – disse, apenas.
E aquele idiota, ao invés de sair da minha casa de uma vez, ficou ali, me encarando.
- Anda, pode ir. – apontei pra porta aberta e fui até a cozinha. Abri a geladeira e peguei um pote de sorvete pela metade. Peguei uma colher e voltei pra sala.
- Tá aí ainda? – disse, quando percebi que ele ainda estava ali, parado no meio da sala – Sabe, você já pode ir, se quiser.
Sentei no sofá, abri o pote calmamente e liguei a TV. E ele continuava ali parado. Tentei ignorar a presença dele, mas foi impossível, porque ele andou até onde eu estava, arrancou o pote da minha mão, colocou ele na mesinha ao lado do sofá, segurou os meus braços e me fez levantar.
- Qual é o seu problema? – perguntou-me. Empurrei-o pra longe e ele quase caiu. Fiquei me sentindo mal por isso, ele ainda estava fraco.
- Qual é o SEU problema? – gritei, com raiva – Você não queria ir embora? A porta tá aberta, querido. Já que você é tão autossuficiente e não precisa da minha ajuda – enquanto falava, fui até a chave que estava no chão e a peguei, caminhando de volta pra onde ele estava. – então, pega essa sua chave – coloquei a chave com violência na mão dele – vai até a merda do seu carro, liga ele e some!
Ficamos nos encarando por um tempo, então ele disse:
- Ótimo, é exatamente isso o que eu quero. Ficar longe de você. Tchau. – ele foi caminhando até a porta com dificuldade, passou por ela e a fechou com força. Ouvi um barulho do lado de fora e logo depois ele praguejando.
Caminhei calmamente até a porta e a abri. Como eu imaginei, ele estava lá, jogado no chão porque escorregou nos degraus logo em frente à porta da minha casa.
- Tenha cuidado com os degraus na próxima vez – eu disse, com um ar superior, mas mesmo assim, caminhei até ele pra ajudar.
- Não, fica longe. – ele falou, com raiva. Parei onde estava e fiquei observando enquanto ele levantava. Ou tentava levantar, porque ele não conseguiu.
- Tem certeza que não precisa da minha ajuda? – eu disse, chegando mais perto. Queria que soasse como se eu estivesse o esnobando, mas na verdade, soei como uma idiota, preocupada e prestativa.
Ele não respondeu, então presumi que ele precisava da minha ajuda, sim, mas era orgulhoso demais pra admitir.
Depois que ele já estava de pé, peguei a chave do carro que tinha caído no chão de novo e entreguei pra ele.
- Tem certeza que consegue ir pra casa? – perguntei, como uma estúpida. Quer dizer, ele é um grosso e não merece nem o mínimo esforço vindo de mim. Pra minha surpresa, ele olhou pra baixo e falou baixinho:
- Não sei. – depois de um tempo em silêncio ele olhou pra mim e continuou. – Eu não sei se consigo ir pra casa. – suspirou.
- Tudo bem. Anda logo, é melhor você entrar, tá frio aqui fora. Amanhã eu te levo.
Capítulo 5
Talvez eu devesse ter trancado a porta. Talvez eu não devesse ter dormido tanto e talvez eu devesse ter escondido a chave do carro dele. O fato é que quando acordei, ele não estava mais lá. Quase pensei que tinha sonhado aquilo tudo, até olhar um bilhetinho na geladeira, escrito às pressas, com apenas duas palavras:
Muito obrigado.
Arranquei o bilhete dali e o guardei. Queria procurá-lo, falar com ele, mas nem o número do celular dele eu tinha. Achei o relógio dele na mesinha da sala, no mesmo lugar em que o coloquei. É, ele não poderia ter se esquecido de tudo, não é? Não percebi o tempo passar, enquanto pensava em tudo o que tinha acontecido.
“Entrei em casa, ajudando a entrar e coloquei-o no sofá de novo. Subi e peguei umas roupas do meu pai que ele não usava mais. Quando desci, percebi que ele não estava mais no sofá. ‘Ah, que droga! ’ pensei, mas então o vi, no cantinho da sala, olhando uns retratos.
- Ei, ei, ei… Isso é particular. – afastei-o dali e o fiz sentar-se de volta no sofá. Ele não disse nada e isso me preocupou. Ele não é do tipo que fica calado. E eu, sinceramente, preferia-o gritando comigo do que aquele silêncio incômodo. Ele foi até o banheiro tomar banho e eu fui preparar o jantar. Comemos em silêncio. Arrumei o sofá da sala do melhor jeito que pude, por que ele disse que não queria atrapalhar mais do que já tinha atrapalhado. Achei até um pouco gentil, mas, como sempre, ele falou daquele jeito rude dele, como se odiasse o mundo inteiro e fugiria pra Marte pra viver sozinho se pudesse. Depois que ele deitou, fiquei sem ter o que fazer. Por fim, depois de enrolar duas horas na cozinha, subi até o meu quarto. Não estava com sono nenhum, até deitar na minha cama quentinha. Fechei os olhos e dormi imediatamente.”
Ficamos tanto tempo sem nos falar, que teria me esquecido de como é seu rosto, se não o visse quase todos os dias na escola. Vários desses dias, ele aparecia com um olho roxo ou com a boca inchada. Eu ficava intrigada e algumas vezes, passei noites em claro com a , quando ela ia dormir na minha casa, conversando sobre as possibilidades do que acontecia com ele.
Eu sempre tinha vontade de me aproximar, talvez puxar uma conversa, mas tinha medo. Medo de acabar gostando daquele imbecil e me machucar depois, porque eu tenho o incrível dom de fazer coisas ruins se aproximarem de mim e me apaixonar por elas depois. Pois é, caro leitor, sou idiota assim mesmo.
Na última semana de aulas, cheguei atrasada na escola, corri pro meu armário pra pegar meus livros e encontrei o parado ao lado do bebedouro, encostado na parede, com fones de ouvido, fumando um cigarro.
- É proibido fumar nas dependências da escola, sabia? – Falei, em um tom divertido.
- E a filha do diretor vai chamar o papai aqui pra me dar uma detenção? – ele falou, cínico.
- Não, porque o diretor não está na escola hoje, mas a filha do diretor poderia dar uma detenção pra você, se ela quisesse. – sorri, ainda falando em um tom divertido, como se nem ligasse pra ele.
- Duvido.
- Eu também – disse, abaixando-me pra beber água. – Não abuso do meu poder – endireitei-me, dei as costas a ele e fui em direção à sala de aula.
- Ei, espera – esperei ele chegar até onde eu estava e depois continuei andando – Aula de que, agora?
- Matemática.
- Com o Binns?
- É – confirme, encarando-o. – Por que o interesse?
- Por nada. Só não acredito que você está mesmo indo. – riu
- Sim, eu estou. Tem uma sugestão melhor?
- Se tenho?! Claro! E muitas – seu tom amigável estava me assustando, mas me assustei mesmo quando ele me puxou e me prendeu contra a parede, antes que eu pudesse bater na porta da sala de aula.
- O que você tá fazendo? – perguntei, surpresa.
- Te salvando – ele disse, com um sorriso brincando nos lábios – Mas acho que você não quer ser salva… Quero dizer, a filha do diretor, matar aula? Não, acho que não!
Ele me soltou, como se esperasse que eu fosse correndo pra sala, dizendo que fui atacada por uma péssima influência que não queria me deixar assistir à aula.
- Acha que só porque o diretor é meu pai eu não posso matar aula como todos os outros alunos? – sorri.
- Acho, mas se você quiser me provar o contrário…
- Isso foi um convite? – perguntei – sério, você tá começando a me assustar!
Ele riu e quando olhei em seus olhos, vi que era um riso de verdade, diferente de todos os outros que já tinha visto ele dar. Percebi que ele era realmente lindo quando não estava coberto por aquela máscara impenetrável de frieza.
- É um convite sim. Não estou com vontade de ficar na escola e…
- Você nunca está! – cortei-o e ele riu de novo
- Ok, nunca estou. Mas é a última semana de aula. Tipo… é tão desnecessário assistir aulas de matemática.
- Verdade. Pra onde nós vamos? – soltei, sem querer. O ânimo dele estava me contagiando e eu percebi que queria mesmo passar mais tempo com ele.
- Não sei – ele respondeu, sorrindo – Que tal ir lá pro pátio? Não vamos sair da escola, então, se nos pegarem, não podem dizer que não viemos na última semana.
Eu ri e fomos andando. O corredor estava vazio aquela hora e, enquanto conversávamos sobre como a inspetora era chata, velha e enrugada, uma vozinha chata dentro da minha cabeça me dizia: “Como você é idiota… Vai cair nas garras de outro imbecil que só quer se divertir um pouquinho com você.” “Quem disse que ele é assim? E quem disse que eu quero algo com ele?” respondi. “Você quer sim e…” “Cala a boca.” Mandei.
Passamos tanto tempo nos fundos da escola, que só percebemos quando começou a escurecer.
- Caramba, que horas são? – perguntei.
Ele fez menção de olhar no relógio, mas não havia relógio nenhum pra olhar.
- Devem ser umas seis horas…
- Esqueci de falar, o seu relógio ainda tá lá em casa.
- Eu sei – ele disse, me olhando de lado.
- Por que não foi buscar?
- E por que você não me entregou? – rebateu e eu ri.
- Porque… – comecei
- Porque todo mundo tem medo de mim e de falar comigo nessa escola. – ele disse sorrindo sarcástico, mas parecia haver um tom de tristeza em sua voz que ele tentou esconder.
- Quem disse que eu tenho medo de você? – desafiei e virei de lado pra encará-lo. – você não me dá nem um pouco de medo, se quer saber.
Ele me olhou como se quisesse encontrar em mim palavras que não disse a ele, perfurando-me com aqueles olhos profundos, que pareciam tirar um raio-X de mim.
- Não, você não tem – ele concordou – você é diferente.
Encarei-o, tentando entender o que ele quis dizer, mas ele olhou para o lado oposto e eu olhei também.
- Quem fez aquilo com você? – perguntei e ele me olhou com cara de dúvida. – você sabe… aquele dia lá no beco…
Percebi que fiz a coisa errada, porque ele se levantou na mesma hora e andou pra longe de mim.
- Talvez não seja da sua conta. – disse, voltando a usar seu tom sarcástico tão irritante, se afastando ainda mais de mim.
Suspirei e voltei a olhar pra frente depois que o vi virar o corredor em direção às salas de aula. Queria muito ajudar, mas ele não queria ajuda. E depois de conhecer esse outro lado dele, um lado quase sensível, quis conhecer mais. Quis estar perto dele e quis decifrar cada parte dele, aos poucos. Quis que ele fosse meu amigo.
“Você é diferente” ele me disse. E eu queria poder ser “diferente” do lado dele.
“Eu sabia que você se apaixonaria…” ouvi aquela vozinha irritante, e respondi, brigando comigo mesma: “Não estou apaixonada!”
Não ainda.
Capítulo 6
No último dia de aula, cheguei à escola com um peso a mais no bolso e logo detectei o cara alto, encostado na parede ao lado do bebedouro. Caminhei até ele e quando me viu, pareceu surpreso.
- Oi – disse cordialmente – acho que você esqueceu isso comigo. – tirei o bonito relógio do bolso e dei a ele.
Percebi que muitas pessoas nos olhavam, enquanto ele pegava o relógio da minha mão e colocava no pulso.
- Hmm... O brigado.- ele disse, me olhando de um jeito estranho.
- Qual é a sua próxima aula? – perguntei, meio desconfortável com toda a atenção voltada pra mim, mas decidida a ignorar tudo aquilo.
- Sei lá – deu de ombros. Soltei uma risadinha
- Qualquer que seja, duvido que você esteja com vontade de ir – disse calmamente – Quer matar algumas aulas com a filha do diretor? – perguntei com uma sobrancelha erguida. Ele sorriu e o sinal das aulas bateu. Os alunos foram se encaminhando para suas salas e ele continuou me encarando, como se quisesse ter certeza de que ouviu direito e não estava ficando louco.
- Você está querendo arrumar problemas – disse, por fim – Vamos pro pátio de novo? – perguntou, com um sorrisinho fofo. Apenas confirmei e fomos caminhando até lá, rindo do fato de que dessa vez, eu, filha do diretor, estava salvando ele.
Contei tanta coisa sobre mim… Como eu era quando era criança, o que gostava de fazer, que livros gostava de ler, porque meus pais haviam se separado, como conheci a e como juntei ela e o , como sempre quis fugir dessa escola e como odiava todas aquelas pessoas. No começo ele parecia meio retraído, como se tivesse medo de que eu perguntasse sobre a vida dele, mas com o tempo, ele pareceu querer ouvir mais sobre mim. Fazia comentários irônicos e até engraçados. Há muito tempo não me sentia tão bem.
- E os seus pais? – perguntei – São casados? – ele demorou um tempo pra responder e achei que iria mudar de assunto, como fez quando perguntei diretamente algo sobre ele ou a vida dele.
- Meu pai morreu quando eu tinha três anos, mas não cheguei a conviver muito com ele, porque ele se separou da minha mãe logo depois que eu nasci.
- Ah… Sinto muito, não devia ter perguntado. Desculpa. – falei, sem graça.
- Tudo bem… Não me faz tanta falta, sabe? Minha mãe dá conta de tudo. Mas, às vezes, é ruim não ter um pai.
Ficamos um tempo em silêncio. Mas não era um silencio desconfortável, de certa forma, era bom.
Fiz mais perguntas sobre ele e ele pareceu disposto a responder todas. Ficamos tanto tempo ali, que quase esqueci que tinha uma casa, até que fomos interrompidos pela minha barriga roncando.
- Nossa, tem um leão aí dentro? – ele perguntou, rindo, apontando pra minha barriga e eu bati nele, mas ri também.
Fomos até uma lanchonete ali perto e comemos uns pãezinhos.
- Você não é tão ruim quanto as pessoas pensam – disse, com uma cara pensativa – até que você é legal.
- Hmm… Obrigado, eu acho. – ele disse e riu.
Fomos caminhando até a escola, onde estava o carro dele.
- Você não vai me contar, não é? – perguntei, logo depois que ele me ofereceu uma carona.
- Contar o quê? – perguntou.
- Quem fez aquilo com você. – falei.
- Já disse que não é da sua conta – ele disse um pouco bravo, enquanto entrava no carro. – Vai ficar aí? – perguntou, apontando pra mim, que ainda estava parada ao lado da porta.
- Não.
- Então, entra.
- Não, vou andando pra casa, obrigada por oferecer a carona, mas não precisa. Boa noite. – saí andando, mas ouvi a porta do carro batendo e passos atrás de mim.
- Para de ser teimosa… – começou
- Para você de ser teimoso! – falei, virando-me pra encará-lo – eu só queria te ajudar, só isso. Porque já deu pra perceber que a pessoa que fez aquilo com você, continua fazendo. Você aparece na escola com alguma parte do corpo roxa ou quebrada toda semana! Mas você é sempre tão grosso comigo… – percebi que havia um pouco de mágoa na minha voz e me forcei a fazê-la voltar ao normal – se você não quer a minha ajuda, tudo bem, também não preciso da sua ajuda pra nada. Portanto, obrigada pela carona, mas não quero! – virei-me e continuei meu caminho.
- Você não pode me ajudar. – ainda o ouvi dizer, antes do som da porta do carro batendo chegar aos meus ouvidos e antes de saber que meu mais novo quase-amigo estava indo embora e talvez eu não o visse mais.
Capítulo 7
Estava de pijama, sentada no sofá da sala, lendo um pouco. O som da chuva lá fora me reconfortava. Aquele era um idiota e eu não deveria mais falar com ele.
Fechei o livro com um estrondo, quando percebi que já havia lido o mesmo parágrafo 5 vezes e não tinha absorvido nada daquilo. Quando levantei pra ligar a TV, ouvi a campainha tocar. Será que era meu pai, a essa hora? Ele havia dito que voltaria somente na outra semana…
Abri a porta e levei um susto. Era ele. . Todo molhado, com um olhar meio desesperado.
- Desculpa, desculpa… Eu não estou acostumado com tanta atenção de alguém, sabe? Você só quer me ajudar e eu só te trato mal… Você até foi falar comigo na escola – riu, sem graça – ninguém faz isso, nunca. E eu já estou tão acostumado a guardar as coisas pra mim, a ser sozinho, que eu não sei como agir com você – sacudiu os braços, exasperado – Você me entende, não entende?
Fiquei encarando-o um tempo, tentando absorver tudo o que ouvi e tentando saber se eu não estava sonhando com tudo aquilo.
- Fala alguma coisa! – ele disse, batendo o pé e eu achei tão engraçado que comecei a rir. – Sabia que não devia ter vindo – ele disse, com um tom de raiva misturado com mais alguma coisa que não consegui identificar. Decepção, talvez. – sabia que não devia ter vindo aqui essa hora, sou um idiota mesmo. Boa noite. - ele virou as costas e saiu andando.
- Ei, espera – saí correndo atrás dele e só o alcancei quando ele já estava entrando no carro – espera, espera! Eu não queria rir de você, juro. Desculpa. – Ele já havia ligado o carro, mas desligou e saiu de dentro, apoiando-se na porta, encarando-me frustrado.
- Por que mesmo eu achei que você deveria ser diferente? Que você se importasse? – colocou as mãos na cabeça, enquanto me olhava – eu não devia ter vindo, desculpa te atrapalhar.
,
Eu tremia por causa da chuva que já havia me encharcado. Afastei o cabelo molhado do rosto e reuni coragem pra responder.
- Quem te disse que não me importo? Se não me importasse, não teria ido atrás de você pra tentar te ajudar, mesmo depois de você ser um grosso comigo. Não teria te trazido pra minha casa, pra cuidar de você quando você precisou. Não estaria tentando ser sua amiga… – comecei a falar mais alto, alterando-me – e não sei se você percebeu, mas por sua causa, eu estou na rua, de pijama e toda molhada. Então, por favor, não diga que eu não me importo! – encarei-o e esperei que ele dissesse algo.
Ele fechou a porta do carro e andou em minha direção, com um olhar decidido. Achei que ele fosse brigar comigo, ser grosso, como ele sempre é, mas para a minha surpresa, ele colocou as mãos em meu rosto e me beijou.
Preciso dizer que foi o melhor beijo da minha vida? Acho que não… Mas digo mesmo assim: foi o melhor beijo da minha vida. E eu nunca pensei que um beijo fosse capaz de me fazer sentir todas as coisas que senti àquela hora. Eu tremia e, dessa vez, não era por causa do frio.
Quando ele me soltou, continuei de olhos fechados, como se pudesse, de alguma forma, prolongar o momento.
- Desculpa, ah… Droga, eu não devia ter feito isso! – ele começou, e instantaneamente abri os olhos, sentindo as palavras me ferirem como facas recém-afiadas. – Agi por impulso, não devia ter feito isso e…
- É melhor a gente entrar – respondi, com a voz mais fria que consegui, tentando não deixar transparecer a revolução que acontecia dentro de mim – A chuva está aumentando…
Puxei-o comigo e entrei em casa, indo buscar toalhas pra nós dois, enquanto pensava no quão idiota eu era. Ele pediu desculpa. Pediu desculpa por ter me beijado e disse que não deveria ter feito aquilo. Talvez a vozinha dentro da minha cabeça estivesse certa. Talvez eu fosse tão idiota que acabei tendo esperanças de novo e quando o que eu vinha negando há tanto tempo que queria aconteceu, eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Mas agora eu percebia que era a mais imbecil do mundo. Ele pediu desculpas. Ele só queria uma amiga, agiu por impulso. Ele não me queria. Mas por que aquele idiota, imbecil, retardado me beijou, então? Quem ele pensa que é, pra fazer esse tipo de coisa? E agora tudo o que eu queria era voltar pra sala e beijá-lo outra vez, mas depois do que ouvi me sentia tão infeliz, que nem sabia se queria olhar nos olhos dele novamente.
Quando voltei pra sala, entreguei a toalha a ele e subi pro meu quarto pra trocar de roupa. A chuva lá fora havia aumentado muito e eu me senti pior. Desci as escadas e entreguei a mesma muda de roupas que havia emprestado a ele da ultima vez. Ele pegou da minha mão, mas continuou parado.
- A chuva aumentou… – disse, e ouvir a voz dele de novo, me fez reviver a cena que eu sabia que iria ficar por muito tempo na minha cabeça. – Mas eu posso tentar ir embora, se você quiser… – me olhou nos olhos pela primeira vez e nada do que eu pensei conseguiu me obrigar a dizer que ele podia ir.
- Não, é melhor você ficar, daqui a pouco essa chuva passa. – respondi aliviada, por perceber que a minha voz estava normal.
- Olha, sobre o que aconteceu…
- Deixa pra lá – eu disse, antes que ele pedisse desculpas novamente – é melhor você ir se trocar – apontei pras roupas encharcadas dele e ele concordou.
Sentei no sofá e tentei me controlar. Era isso que a esperança sempre fazia comigo: decepcionava-me. Por que mesmo eu me permiti ter esperanças? Quis que a vozinha voltasse pra me falar tudo o que eu merecia ouvir, mas até mesmo ela me abandonou. Ouvi os passos dele se aproximando e me levantei, indo até a cozinha. Ele me seguiu até lá.
- Você quer comer alguma coisa? – perguntei
- Não, não estou com fome – disse. Ele ainda me olhava como se quisesse explicar o que havia acontecido, mas eu não daria oportunidade pra ele fazer isso.
- Você está horrível – disse, rindo, quando reparei que ele ficava realmente mal com as roupas do meu pai.
Ele riu também e um ar de naturalidade apareceu entre nós e eu soube o que devia fazer. Ele não me queria do jeito que eu o queria. Mas eu não sabia se conseguiria ficar longe dele depois de tudo. Decidi que seríamos amigos, assim como eu era amiga do e da , somente amigos. Prometi a mim mesma que iria esquecer qualquer outro tipo de sentimento por ele. Talvez eu estivesse apenas confundindo as coisas.
Voltamos pra sala e me lembrei que da última vez que o veio aqui, ele deixou um baralho que usamos pra nos distrair, perguntei ao se ele queria jogar e ele aceitou.
Ficamos muito tempo jogando e conversando, até percebermos que a chuva havia diminuído e ele poderia ir pra casa.
Estávamos olhando pra janela quando percebi seu olhar voltado pra mim. Virei-me e o vi levantar uma das mãos, como se fosse acariciar o meu rosto, mas logo a abaixou.
- Acho que eu tenho que ir – disse. Sorriu aquele sorriso lindo e eu me senti enjoada. Como eu podia sentir tantas coisas em um dia só?
- Tudo bem – disse – eu te levo até a porta.
Fui com ele até lá e esperei ele ir até o carro. No meio do caminho ele virou e voltou até a minha porta, me deu um beijo no rosto e disse, com um sorriso:
- Até amanhã.
- Amanhã é sábado e as aulas já acabaram – eu disse, em um tom de dúvida.
- Eu sei…- ele falou, aumentando o sorriso.
- Então… – comecei - como vamos nos ver?
- Achei que você queria ser minha amiga… - ele disse, em um tom muito meigo pra ele – Já desistiu? – perguntou, sorrindo de novo.
- Bom… Não. – respondi.
- Ótimo – disse – passo aqui às 2 horas pra gente dar uma volta.
Fiquei tanto tempo parada na soleira da porta que só percebi quando o telefone tocou. Atendi e falei um pouco com a . Tive o cuidado de não mencionar nada sobre hoje, contaria a ela outro dia. Depois que desliguei, deitei no sofá e tentei não pensar, mas era impossível.
“Achei que você queria ser minha amiga… Já desistiu?” o sorriso dele voltava a minha mente o tempo todo e me obriguei a falar pra mim mesma que seríamos amigos. Apenas amigos.
Capítulo 8
Acordei às nove horas, tomei um banho e fiquei umas duas horas pensando no que vestir. Depois que percebi o que estava fazendo, me senti tão idiota que desci as escadas correndo e fui preparar o almoço. Quando acabei de comer, tomei outro banho e voltei pro quarto. Não havia deixado nada separado e não sabia o que usar. Coloquei uma calça jeans, uma blusa preta simples e um tênis. Olhei-me no espelho e não sabia o que fazer com o meu cabelo. Deixei-o solto, liso e sem graça como ele sempre foi e desci pra assistir um pouco de TV.
Uma e meia. Eu estava tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse o fato de que ele passaria ali às duas horas. Uma e quarenta e cinco. Estava tentando colocar na minha cabeça que somos apenas amigos, aquele beijo foi um erro que não se repetiria mais e tudo o que eu queria era ajudá-lo, não importava o que ele tivesse. Olhei no relógio. Duas e cinco. Será que ele não viria? Senti-me enjoada de novo e me perguntei o que foi que aquele garoto fez comigo. Fui até o banheiro me olhar no espelho e escovar os dentes. De novo. Duas e quinze. Devia ter acontecido alguma coisa, talvez ele esqueceu algo em casa e voltou pra buscar… Ou talvez ele esqueceu que marcou de dar uma volta comigo, pensei com amargura. Duas e vinte e cinco. É, ele não viria mais. Sentei-me no sofá e tirei o tênis. Fui procurar um filme pra assistir e escolhi um que sempre me fazia chorar e refletir: Sociedade dos Poetas Mortos. O tema do filme ficava vindo a minha cabeça “Cape Diem”, “aproveite o dia”. Que belo jeito o meu de aproveitar o dia. Desisti de ver o filme e sentei no sofá, olhando pro relógio o tempo todo, como se quisesse que ele voltasse a me dizer que ainda era uma e meia, portanto, ele ainda poderia vir. A campainha tocou e eu dei um pulo. Duas e quarenta e dois. Será que era ele? Abri a porta, e sorri ao vê-lo, com uma bermuda cinza e uma blusa azul, os cabelos jogados pra qualquer lado.
- Desculpa a demora – ele disse, olhando pra mim e me avaliando. – Eu tive que comprar umas coisas... Você já está pronta? – Perguntou e então olhou pros meus pés. – Acho que não – disse, rindo.
Deixei-o entrar e fui colocar meu tênis. Perguntei se ele queria algo e ele negou.
Fomos até a praça que eu adoro e nos sentamos lá, olhando as poucas crianças que brincavam. Começou a chover e as crianças foram embora. Corremos pra debaixo de um toldo de uma lojinha que tinha ali perto e começamos a rir de nada, parecíamos dois idiotas. Ficamos ali até a chuva diminuir e depois voltamos pra minha casa. Fomos até o mercado perto de casa e compramos salgadinho e refrigerante. Quando voltamos, peguei um velho jogo de tabuleiro que eu tinha em casa e jogamos até a madrugada. Quando ele foi embora, não consegui tirar o sorriso dos lábios. Fui dormir tão bem que nem percebi que naquele dia não tinha sentido vontade de fazer o que eu fazia todas as noites, depois de viver um dia normal como todos os outros e saber que não teria ninguém do meu lado.
Os dias se seguiram e quase entramos em uma rotina. Dois dias na semana íamos ao cinema, nos outros dias ficávamos na minha casa ou na dele, conversando, assistindo filme, comendo besteira e rindo das nossas histórias. Claro, brigávamos bastante às vezes, mas ao invés de continuar com aquele estranho clichê:“Você me irrita, eu te irrito e depois vamos embora sem nos falar”, tentávamos consertar as coisas, ou mudávamos de assunto ou, ainda, ríamos como idiotas por sermos tão incrivelmente irritáveis.
Depois de umas três semanas dessa rotina, em uma sexta feira, esperei ele chegar às duas horas, como ele sempre fazia. Mas ele não chegou. Quando percebi que ele não viria fui até a casa da e passamos o dia juntas. Contei a ela sobre tudo o que aconteceu na semana.
- E como você se sente a respeito dele? – ela perguntou.
- Ele é meu amigo, só isso. É como você e o . Apenas amigos. – Falei, mas sabia que ela conseguiu detectar a decepção na minha voz.
- … – ela começou cautelosa, e eu sabia sobre o que ela ia perguntar – Você não está fazendo aquilo de novo, está?
- Não, , juro que não – disse, quando ela me olhou desconfiada. – No dia que ele me beijou, sim, mas não foi por causa dele, entende? – eu comecei a falar muito rápido, como sempre fazia quando falava sobre isso, como se prolongar o assunto prolongasse a dor – Foi por minha causa, como sempre é. Eu me senti, sei lá, mal com aquilo. Senti como se ninguém me quisesse… – ela me olhou com pena, e eu senti um pouco de raiva. Odiava quando ela me olhava assim – Mas eu não tenho feito mais isso – falei – ele me faz bem. Passar o dia com ele me faz bem. – Olhei nos olhos dela, querendo que ela visse que o que eu dizia era verdade. – Eu não senti mais necessidade de fazer isso. – terminei. Ela pegou meu braço, e eu já estava preparada para aquilo. Sabia que ela ia querer checar. Não afastei. Apenas a deixei puxar a manga da blusa pra cima e ver que os cortes mais recentes estavam se cicatrizando.
- Continua assim, por favor – ela disse, com lágrimas nos olhos. – Por favor.
- Eu vou continuar. Não vou fazer mais. – Prometi, pela milésima vez, e a abracei forte.
No fundo, eu sabia que a vontade era mais forte que eu. No fundo, eu sabia que só iria quebrar outra promessa. Mas eu odiava vê-la daquele jeito. E de qualquer forma, os cortes estavam sumindo. Talvez eu diminuísse a frequência com que os fazia. E quem sabe um dia eu pararia com isso.
Mas eu sabia que ia demorar. E eu não disse nada pra ela.
Capítulo 9
Ele também não apareceu no sábado nem no domingo. Liguei na casa dele na segunda, mas ninguém me atendeu. Comecei a ficar preocupada que algo tivesse acontecido com ele e igualmente preocupada com o fato de que, talvez, ele já estivesse cansado de ter uma amiga.
Quando ele chegou, na quarta-feira, às duas horas, eu entendi porque ele não tinha aparecido. Ele tinha um olho um pouco roxo. Já estava sumindo, mas eu ainda podia ver. Quando eu perguntei a ele o que tinha acontecido, ele disse que se envolveu em uma briga em uma boate, mas não entrou em detalhes. Alguma coisa me dizia que ele estava mentindo, mas preferi deixá-lo me contar por vontade própria, porque na primeira vez que perguntei, ele me ignorou e na segunda, disse que já havia me falado o que houve, então eu não devia continuar perguntando. Um grosso, como sempre.
Saímos em direção ao carro dele e ele dirigiu até a cidade vizinha – onde as praias eram mais limpas – enquanto conversávamos.
Saímos do carro e a praia estava vazia. Ninguém gostava de ir à praia em pleno inverno. Caminhamos até a areia e nos sentamos. Percebi que ele estava com uma sacola nas mãos, e quando começou a tirar as coisas de lá de dentro, entendi o que ele queria fazer.
- Piquenique! – gritei, feliz, quase pulando no lugar em que estava. Nunca havia feito um piquenique. Ele riu e continuou tirando as coisas de dentro da sacola. Sanduíches naturais, suco de laranja, bolachas e salgadinhos.
- Quase pensei que íamos fazer um lanche saudável até ver isso. – apontei pro salgadinho.
- Se não tivesse um pouquinho de besteiras, não seria um piquenique perfeito. – ele falou, com um sorriso.
Comemos enquanto olhávamos pro mar. Quando acabamos, começamos a conversar sobre as pessoas da escola e a relembrar o que acontecia lá. Ele também não gostava dos alunos e só falava mal. Eu ri muito.
- E aquela vez que aquele menino que eu não lembro o nome pediu pra namorar com você na rádio da escola? – ele disse, gargalhando. Eu ri também.
- Ah, o Lúcio, aquele idiota. - eu senti minhas bochechas queimarem de vergonha.
- Pior mesmo foi a música que ele dedicou a você. – ele riu mais ainda e eu o acompanhei, lembrando da música velha, cheia de saxofones e outros instrumentos que eu não sei o nome. A música era horrível.
- Ele até fez um poema pra mim! – eu disse e coloquei a mão no rosto, como se estivesse com vergonha. Ele riu e puxou a minha mão.
- , flor do meu jardim, meu gramado sem capim, minha rosa sem espinhos... Meu coração palpita por você – ele disse, imitando o poema exatamente como ele foi feito, ainda segurando a minha mão – diga que também me ama e te ensinarei tudo o que sei – ele continuou, tentando conter o riso. – me dê seu coração, que eu te darei o meu...
- Ok, chega, chega! – eu gritei, interrompendo-o e rindo muito. Ele ria tanto, que estava ficando vermelho. Mas uma de suas mãos ainda segurava a minha. Quando percebi, puxei a mão e ele me olhou, surpreso, parando de rir.
- Desculpa...
- Não, tudo bem – falei, tentando rir um pouco, mas até para os meus ouvidos aquela risada soou falsa.
Começamos a conversar novamente e contei a ele mais sobre o e a . Combinamos de passar na casa do qualquer dia pra jogar vídeo game. Ficamos um tempo em silêncio, observando o sol se por.
- Eu e minha mãe vínhamos aqui quando eu era mais novo – ele disse de repente, e o tom de tristeza em sua voz me assustou. Olhei pra ele enquanto ele continuava a falar. – Gostávamos de vir aqui no inverno... Não tinha muita gente e sempre fazíamos um piquenique. Eu contava a ela como estava indo na escola, ela me falava sobre o trabalho... Era bom. – ele terminou, olhando-me nos olhos.
- E por que vocês não vêm mais? – perguntei.
- Eu... Eu comecei a andar com uma turma que não era, digamos, uma boa influência. – Ele disse, voltando a olhar o mar. – Então comecei a achar uma idiotice perder meu tempo vindo aqui com ela nas férias de inverno se eu podia estar com eles, entende? – ele ainda não me olhava, esperei que ele falasse mais alguma coisa. – É impressionante o que as “amizades” erradas podem fazer com as pessoas. – ele falou, e pareceu esperar que eu falasse algo.
- E você continua... Hmm... Andando com essa turma? – perguntei, receosa.
- Não. – ele disse – Mas você queria saber quem fez aquilo comigo, lembra? – olhou pra mim pela primeira vez desde que começou a contar e então eu entendi.
- Por que eles estão fazendo isso com você? – eu perguntei, chocada, um pouco brava por achar isso tão errado.
Ele me olhou como se estivesse ponderando se deveria continuar me contando ou não. Percebi que ele não havia contado isso pra mais ninguém e que tinha sido por isso que ele havia me trazido até ali.
- Eu estou devendo um dinheiro pra eles... – ele começou – muito dinheiro. E eu não tenho como pagar tudo. Eu já paguei uma parte – ele falou – mas ainda falta muito pra minha dívida acabar.
- E por isso eles batem em você? – eu perguntei, ainda completamente atônita.
- Eles batem em mim porque a minha dívida está aumentando ainda mais. – ele me olhou nos olhos. – um deles ameaçou a minha mãe e bom... Eu bati nele. Aquele dia no beco foi a “vingança” deles – ele disse, com raiva, e quando olhou pra frente de novo, consegui ver nitidamente o roxo no olho dele e fiquei com muita raiva também – e eles disseram que se eu não arrumar o dinheiro até o mês que vem, eles vão cobrar dela. Você entende o que isso quer dizer? – perguntou.
- Acho que sim – falei. – eu quero te ajudar. A gente pode conseguir esse dinheiro! – falei.
- Eu vou conseguir – ele disse, apontando pro carro – está quase vendido. – falou.
- O que foi que você comprou deles pra estar devendo tanto? – perguntei, já sabendo qual deveria ser a resposta.
Ele colocou as mãos no cabelo e se balançava pra frente e pra trás, suas mãos tremiam e eu não tive dúvida do que o tinha feito dever tanto.
- Eu não quero te envolver nisso, não quero. Eu tenho medo de que, se eles descobrirem sobre você, te usem pra me ameaçar. Eles já estão me chantageando, usando a minha mãe... E eu não posso deixar nada acontecer com você – ele falou, desesperado – mas eu não consigo parar, eu não consigo parar. – ele repetia, olhando pra mim, e eu não sabia o que fazer. – Eu sei que o que eu estou fazendo é errado, eu sei, e eu quero parar! Mas eu não consigo... – ele disse, com grande esforço, com os olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas que ele agora deixava cair. – Você disse que queria me ajudar – ele disse, pegando a minha mão. – Então, me ajuda, por favor? – eu sabia que não tinha como dizer não, mesmo que eu quisesse. Meu Deus, como era horrível vê-lo daquela forma! Por que ele tinha tanto poder sobre mim? – Por favor, ! Eu não aguento mais decepcionar minha mãe, eu não aguento mais essa situação e eu preciso de ajuda, mas eu não sei a quem pedir. Eu preciso de você!
Desistindo de me fazer de forte, passei a mão por aqueles lindos cabelos, agora embaraçados, e comecei a chorar junto com ele. Coloquei um dedo em seus lábios para impedi-lo de falar novamente. Não precisava ouvir mais nada. Simplesmente não aguentava vê-lo daquela forma. Faria qualquer coisa para colocar de volta aquele lindo sorriso no rosto dele. Lentamente, aproximei-me dele e passei os braços por cima de seus ombros, aproximando os corpos, em um primeiro abraço. Um primeiro abraço há muito tempo esperado. Senti as mãos dele em minha cintura, e me senti bem, de um jeito estranho, mas bom.
- Vai ficar tudo bem, . – sussurrei em seu ouvido – Eu vou te ajudar.
- Promete? – ouvi-o perguntando, sentindo a respiração quente dele em meu pescoço – Promete que não vai desistir de mim? – ri de leve, sem humor nenhum.
- Prometo que vou te ajudar – respondi – e não vou sair de perto de você. Só se você não me quiser por perto. – dei um beijo na bochecha dele e me afastei. Peguei-o pela mão, do modo como minha mãe fazia comigo quando era pequena e o tirei dali, em silêncio. Ninguém precisava saber o que havia acontecido. Não importa o que pensem nem o que dizem a respeito dele. O que importa era que ele estava ali, ao meu lado, segurando minha mão e querendo a minha ajuda.
- Vai ficar tudo bem. Eu sei que vai. – disse, baixinho, mais para mim mesma do que para ele.
É realmente incrível o que amizades erradas podem fazer com as pessoas. Era realmente incrível o poder das más influências, das pessoas que só queriam o mal dos outros e, mais incrível ainda, era o poder que as drogas tinham sobre uma pessoa. Mas eu não as deixaria destruir a vida dele, como já havia destruído tantas vidas. Não, eu cuidaria dele. Ainda não sabia como, mas cuidaria. Eu o tiraria dessa.
Capítulo 10
Decidi que o melhor que podia fazer por seria distraí-lo pelo máximo de tempo que conseguisse, pra evitar que ele sentisse vontade de se drogar novamente. Ele me prometeu que continuaríamos nos vendo e que ele não me abandonaria, assim como eu não pretendia abandoná-lo. Aquela noite, deitada em minha cama, pensando em algo que fosse suficientemente bom para distraí-lo, relembrei grande parte da nossa conversa durante a tarde, enquanto o meu sono não vinha.
“Eu dirigia o carro dele e ainda não tínhamos trocado sequer uma palavra, enquanto ele tentava se controlar e parar de chorar. Percebi como deveria ter sido difícil pra ele se mostrar daquele jeito pra mim e soube quase que de imediato que ele se sentiria com vergonha depois, por isso prometi a mim mesma que não o deixaria se sentir assim. Quando chegamos à minha casa, mandei-o subir até o meu quarto e fui à cozinha buscar um copo de água pra ele e tentar pensar no que falar.
Quando me viu entrar no quarto, ele sorriu e estendeu a mão pra pegar o copo. Percebi que ele parecia bem melhor.
Sem nenhum motivo aparente, pensei no meu pai e no que ele diria se soubesse que eu e o garoto-problema estávamos sozinhos no meu quarto. Afastei esse pensamento e me sentei na cama, dei umas batidinhas no lugar a minha frente, sinalizando que queria que ele se sentasse ali. Ele se sentou e, confirmando o que eu havia pensado que ele faria, disse:
- Me desculpa, não devia ter desabado daquele jeito, eu não costumo fazer isso...
- Tudo bem – falei, acariciando a mão dele que estava próxima a mim – Eu sou sua amiga, lembra? Você não tem que aguentar tudo sozinho. E eu fico feliz de saber que você me escolheu pra compartilhar isso – fui o mais sincera que pude, falei o tempo todo olhando em seus olhos e ele assentiu, sorrindo. Como alguém podia ser tão lindo?
- Você é linda, sabia? – ele disse, me assustando e rindo depois de ver a minha cara de espanto – É serio! – percebi que ele estava corando um pouco e tentei ignorar esse fato, mas achei bonitinho – e se você não quiser – ele continuou, parecendo reunir toda a força que tinha – não precisa me ajudar, não é sua obrigação fazer isso.
Suspirei e me levantei. Caminhei até a janela e pude sentir seu olhar em mim.
- Eu não preciso te ajudar e não, não é minha obrigação fazer isso – comecei e me virei lentamente pra ele – mas eu quero te ajudar.
Ele sorriu, triste, e se levantou também. Olhou pela janela lá fora e apontou pra uma casa em frente a minha.
- Eu morava ali, sabia?
Olhei pra ele, incrédula.
- Quando?
- Morei ali até os 10 anos. Morava com o meu avô e com a minha mãe, mas depois que ele morreu, ela não quis mais morar aqui – ele fez uma pausa e voltou a olhar pra mim – eu me lembro de quando você se mudou pra cá – ele falou, sorrindo – era inverno e eu tinha uns 8 anos. Estava fazendo um boneco de neve na frente de casa quando vi você chegando com o seu pai.
Sorri, lembrando-me vagamente daquele dia. Ele deu uma risada e continuou.
- Você estava brava, e muito fofa, devo dizer, com as bochechas vermelhas e a carinha de irritada. – ele riu mais uma vez.
- Eu me lembro – falei – eu não queria vir pra cá! – senti uma nostalgia enorme se apossando de mim.
- É, e você bateu o pé e disse que a casa era feia e que não ia entrar nela. Detalhe: a sua casa é a mais bonita da rua. – ele me olhou sorrindo e balançando a cabeça negativamente, como se não aprovasse a birra que eu havia feito aquele dia – Você ficou bem uns dez minutos brigando com o seu pai dizendo que não ia entrar...
- Nem mesmo eu me lembro muito bem disso – disse, rindo – E por que está me falando isso agora?
- Porque, naquela época, eu achava as garotas chatas e sem graça. Na escola, eu fugia delas – ele disse, com um sorrisinho sapeca – Mas quando te vi, não sei por que, mas quis ficar perto de você. Acho que porque, mesmo quando você era mais nova, você era uma menininha decidida – ele riu – eu gosto de pessoas decididas.
Eu ri também, sentindo algo se remexendo loucamente no meu peito.
- Me diz o que eu posso fazer pra te ajudar. – falei, de repente.
- Você já me ajuda – ele riu da minha cara de dúvida – Você me distrai, me faz querer passar mais tempo conversando com você do que... Fazendo outras coisas – percebi que ele ainda se sentia incomodado por falar naquele assunto – E eu parei um pouco... Diminuí a frequência, entende? – ele me olhou nos olhos e entendi que estávamos na mesma situação, que eu também havia diminuído a frequência com que me machucava porque ele me fazia bem. Sorri com o pensamento de que eu fazia bem a ele.
- Não sei... Mas acho que se você me deixar ficar mais tempo com você – ele começou, constrangido – já ajuda.
- Claro – falei rápido demais e ri – por mim, tudo bem, eu posso te aguentar mais um pouco.
- Se eu soubesse que ser seu amigo ia me fazer tão bem, teria começado nossa amizade antes – ele falou, rindo e bagunçando o meu cabelo.
Ri junto com ele, enquanto sentia um aperto no peito.”
Soube o que devia fazer pra ajudá-lo. Precisava mantê-lo distraído por tempo suficiente... Não poderia deixar brechas. “Você pode fazer isso... Não vai ser nenhum sacrifício” sorri com meus pensamentos, até ouvir uma vozinha chata me dizer “ele só quer a sua amizade, idiota”. O sorriso se desmanchou e senti vontade de chorar. “Quer saber?” respondi “estou muito satisfeita em ter a amizade dele”. Percebi que já estava adormecendo e me entreguei ao sono, mas ainda pude ouvir a vozinha dizer: “Porque isso é tudo o que você pode ter... Amizade.”
Capítulo 11
Os dias se passaram e eu e fizemos tantas coisas que eu me sentia exausta. Falei com o meu pai sobre ele, porque agora ele nos veria muitas vezes juntos. Já havíamos limpado a minha garagem em um dia e tinha tanta tralha lá dentro, que até agora não consigo entender como aquilo tudo cabia lá. Outro dia limpamos os fundos da minha casa e no outro ajudamos a mãe dele com a mudança. O aluguel do apartamento deles havia aumentado e o dinheiro que ela usava pra pagar era o dinheiro do aluguel da casa do avô de . Como a casa não era alugada pra ninguém há meses e eles não tinham como manter duas casas, se mudaram de volta pra minha rua. Agora éramos vizinhos e eu estava tentando não me empolgar demais com isso, mas admito que as coisas ficaram bem mais fáceis.
Ficamos entretidos com a mudança durante uns bons três dias, revezando entre trazer as coisas e arrumá-las na casa. Divertíamo-nos muito, por mais incrível que pareça, falando besteiras e rindo das fotos de quando era bebê, que a mãe dele ainda guardava.
vendeu o carro e pagaria a dívida no sábado. Ainda não sabia o que ele disse pra mãe dele sobre o carro, porque ele não comentou nada comigo. Insisti em ir com ele entregar o dinheiro, mas ele não deixou e, todas as vezes que eu tocava no assunto, ele fugia.
Já era sexta feira e eu acordei um pouco tarde demais. Me troquei e comi alguma coisa. Quando terminei, dei um beijo no meu pai e disse que ia ver o .
Toquei a campainha, mas ninguém me atendeu. Toquei de novo e nada. A mãe dele devia estar trabalhando e o , provavelmente, dormindo. Tentei abrir a porta e estranhei o fato dela estar aberta.
- ? – chamei. Ninguém me respondeu.
Subi as escadas e parei em frente ao quarto dele. Achei que não devia entrar, porque ele poderia estar de cueca e tudo o mais, e seria constrangedor. Meu coração estava acelerado e eu ainda não sabia o porquê. Abri a porta devagar, tentando olhar lá dentro.
- , a porta estava aberta e...
Parei quando o vi jogado no chão, com as mesmas roupas que ele usava quando saiu ontem da minha casa.
Corri até ele e percebi que ele não estava machucado. Tentei acordá-lo, mas ele não se mexia. Estava entrando em pânico, quando percebi o cheiro estranho que eu havia ignorado até então e que emanava dele.
- Ah, não... – disse, sacudindo-o, desesperada, querendo que ele acordasse e dissesse que estava bem. Coloquei os dedos em seu pescoço, tentando sentir pulsação. Lenta. Muito lenta. Ele respirava pesadamente e eu fiquei com medo, não sabia o que fazer. Estava começando a me sentir enjoada, sentei ao lado dele e coloquei a cabeça entre os joelhos, tentando acabar com o enjoo e pensar no que fazer.
- ? – ouvi-o sussurrar e dei um pulo.
- Graças a Deus – disse, desesperada, olhando pra ele que parecia se esforçar pra manter os olhos abertos. – Você consegue levantar? – perguntei, infeliz, lembrando que já havia feito a ele essa pergunta.
Ele não respondeu e tentei levantá-lo. Levei-o até o banheiro e o coloquei embaixo do chuveiro, rezando pra que a água gelada o fizesse melhorar. Liguei o chuveiro e o deixei lá, de roupa e tudo, e ele pareceu acordar. Encostei-me à parede oposta, tentando me acalmar. Ele me encarava com uma expressão triste que me fez sair dali.
Peguei uma toalha e entreguei a ele enquanto separava algumas roupas. Saí do banheiro, fechando a porta, pra esperar ele se trocar. Voltei para o quarto e abri as janelas, querendo que aquele cheiro fosse embora quando o ouvi entrar no quarto e se deitar de bruços na cama, com os cabelos molhados. Ele olhou pra mim e eu me ajoelhei ao lado dele.
- Desculpa – sussurrou – eu não consegui.
Levantou a mão e tocou o meu rosto, secando uma lágrima que eu não percebi que havia deixado cair.
- Eu não consegui – repetiu, como uma criança.
- Tudo bem – eu disse. Fiz um carinho rápido nos cabelos dele e o vi fechar os olhos – descanse. Vou preparar algo pra você comer - disse, me levantando.
- Não! - ele quase gritou e agarrou a minha mão. - Fica aqui comigo, por favor.
Sentei ao lado dele na cama e ele apoiou a cabeça no meu colo. Enquanto eu mexia em seus cabelos, o vi suspirar e fechar os olhos. "Droga", pensei, triste, desejando que se eu fechasse os olhos e os abrisse novamente, ainda estaria deitada na minha cama, preparada pra um dia feliz com .
Ele acordou três horas depois, parecendo melhor e, quando disse que ia pra minha casa, ele pediu que o esperasse.
Tomou outro banho e comeu alguma coisa. O silencio entre nós estava me consumindo e eu não sabia o que dizer. Muito menos o que sentir.
,
- Desculpa – ele disse quando nos sentamos no sofá da sala. – eu não queria fazer isso, mas eu estava nervoso, achei que podia me acalmar um pouco... Desculpa!
- Não me peça desculpas – falei, irritada – você não fez nada pra mim.
- Te decepcionei. – ele falou com a cabeça baixa.
- Decepção não é nada comparada ao que você fez com você mesmo! – falei friamente.
O silencio se prolongou e eu queria ir embora. Sentia-me decepcionada, frustrada, um lixo.
- Não quero te levar porque não sei o que eles podem fazer com você. – falou, de repente, se referindo aos traficantes que estavam cobrando ele.
- Você acha que eles podem fazer algo? – perguntei, receosa, me esquecendo de ser fria.
- Não sei, mas não vou arriscar – ele respondeu, decidido.
- Não quero que você vá – disse – não sozinho.
- Eu não vou te levar, nem adianta, já conversamos sobre isso.
- E se acontecer algo com você? – perguntei, me levantando – e se eles te baterem de novo ou fizerem algo pior? Eu quero ir! – ele ia protestar e eu gritei – Você me deve isso, . Eu tentei esse tempo todo te ajudar e no fim, você simplesmente esqueceu de tudo isso, foi lá e se drogou de novo! – ele fez uma cara tão triste, que quase me arrependi do que disse. Quase. – E se acontecer algo com você? – repeti, diminuindo o tom de voz.
- Se acontecer algo comigo – ele me olhou nos olhos, também se levantando – não quero que aconteça com você também.
- Então pode mesmo acontecer algo? – falei, irritada, apontando um dedo na cara dele – você me disse, me garantiu que eles não fariam nada!
- Eu sei – ele gritou – eu sei o que eu falei, mas eu não tenho mais tanta certeza.
- Então você devia ter me dito antes! – gritei também – Eu tinha o direito de saber, não acha?
- Saber do que? – com a nossa gritaria, nem ouvi a mãe dele chegar em casa e agora ela nos olhava, curiosa.
- Nada, mãe! – disse, com raiva. Virando-se de costas pra mim.
- É, não é nada! – eu falei, olhando pra ele. – Nada com o que eu ou a senhora devêssemos nos preocupar – falei, com amargura.
- ... – ele chamou.
- Tenho que ir pra casa. Boa noite.
Dei um beijinho na senhora e tentei sorrir, mas tenho certeza que tudo o que consegui foi fazer uma careta.
Fechei a porta e atravessei a rua, sentindo o ar frio do início da noite bater em meu rosto.
Entrei em casa e meu pai estava jogado no sofá, assistindo TV.
- Mas já...? – perguntou. Sem responder, subi em direção ao meu quarto e bati a porta.
Capítulo 12
Senti-me horrível. Joguei-me na cama e tentei não pensar. Sabia onde aquilo acabaria e eu não queria. “Não pense!”, dizia pra mim mesma, mas não adiantava.
Eu estava me sentindo forte, tão forte com ele ao meu lado aquele tempo todo. Fazia muito tempo que eu não cedia àquela minha vontade idiota, doentia... Por causa dele.
Sentei-me, tentando secar as lágrimas e corri para o banheiro. Encostei-me à parede e ainda tentei resistir. Já havia resistido por tanto tempo. Nós havíamos resistido por tanto tempo! Mas depois de saber que ele não aguentou, me senti encurralada, como se segurasse a ponta de uma corda onde ele havia soltado o outro lado. Foi quando percebi que estava o usando como apoio, me agarrando ao fato de que ele havia resistido às drogas por tanto tempo, que o mínimo que eu deveria fazer seria resistir àquela mania doentia de me mutilar constantemente, vezes e vezes seguidas.
Mas ele se rendeu, por que eu tinha que permanecer forte? Por que tinha que resistir?
Abaixei-me e vasculhei o fundo do armário, procurando a minha velha amiga-inimiga que eu escondia em uma caixinha. Quando achei, me encostei de volta na parede e levantei a manga da minha blusa. Olhei para as cicatrizes dos cortes antigos friamente, posicionei a lâmina e puxei. A dor me invadiu e eu senti aquele pequeno alívio antigo. “Doentio”, pensei, posicionando a lâmina novamente, tentando enxergar através das lágrimas.
Havia conseguido. Não pensava em mais nada, só na dor e no que eu acabara de fazer. Parei depois que fiz o terceiro corte, quando ouvi meu pai gritar de lá de baixo que estava saindo. Pensei ter ouvido vozes lá, mas logo depois ouvi o barulho da porta. Comecei a chorar mais ainda e tentei me controlar. Sequei o rosto depois de largar a lâmina no chão, indo lavar os cortes. Ardeu tanto que quase gritei. Estava observando meu sangue correr pelo ralo misturado com a água...
- O que você fez? – ouvi e dei um pulo, assustada. Virei-me e não acreditei que estava vendo parado na porta do meu banheiro, olhando da lâmina no chão para o meu braço.
- O que você está fazendo aqui? – gritei e tentei fechar a porta.
Ele a empurrou e me encarou, me segurando pelos ombros.
- ... O que foi que você fez? – ele me olhava, incrédulo, mas ainda consegui ver a decepção nos olhos dele, o que me cortou por dentro, mais fundo do que qualquer lâmina poderia ter feito.
Tentar explicar foi a pior parte. Achei que tinha sido difícil quando a descobriu, mas foi um milhão de vezes pior contar pra ele. Ver a decepção nos olhos dele a cada palavra que eu dizia. Tentar explicar pra ele o que eu estava fazendo estava acabando comigo.
Comecei a andar de um lado para o outro, tentando me acalmar e querendo que ele falasse alguma coisa. Não aguentava mais aquele silêncio. Comecei a pensar que ele sentiria nojo de mim, agora que sabia o que eu fazia comigo mesma.
Ele se mexeu na cama e eu olhei pra ele. Vi ele se levantar e caminhar até a porta, fechando depois de sair. Estava tudo acabado. Qualquer coisa que estivesse acontecendo entre nós, havia acabado. Não teria nem a amizade dele.
Fiquei parada lá, sozinha, me sentindo menos que um nada. Ouvi um barulho na porta e o vi entrar de novo.
- Você não pode mais fazer isso! – esbravejou, indo em minha direção e não liguei quando ele agarrou os meus braços e me sacudiu, de tão aliviada que eu estava por ele ter voltado. – Está me entendendo? Não pode! – ele gritava como um louco – Isso é insano, doentio! Já imaginou que você pode se cortar de um jeito sério? Pegar em alguma veia importante? Você tem que parar com isso! É doentio, é perigoso!
- Olha quem fala! – eu ri, me livrando dele – Tem noção do que você faz? – encarei-o, a raiva explodindo no meu peito. – Eu sei que o que eu faço não é certo, mas quem é você pra me falar que o que eu estou fazendo é perigoso? Acha que se drogar é saudável? – gritei e joguei um travesseiro nele – eu pelo menos não dependo de ninguém, não apanho de ninguém e não fico devendo pra ninguém! – joguei outro travesseiro na direção dele, mas ele desviou – Eu não corro o risco de ter um ataque e morrer – joguei o edredom e já estava pensando quanto tempo levaria até conseguir jogar o colchão naquele rosto bonitinho – O que eu faço é errado, eu sei disso! Sei disso e não me orgulho! E você? O que você pode falar de mim? Você é um hipócrita! – terminei e percebi que lágrimas cobriam meu rosto. Minha respiração estava acelerada e eu tentei me recompor. Abaixei a cabeça e, para a minha surpresa, senti braços me envolvendo, em um abraço desajeitado, mas definitivamente um abraço.
Eu estava nos braços dele.
Capítulo 13
Estávamos sentados na cama e ele ainda me abraçava. Ficamos tanto tempo em silencio, que me assustei quando ouvi sua voz de novo.
- Não sei se você se lembra do Mike, um loiro alto, repetente e tal...
- Lembro – eu disse, em uma voz fraquinha.
- Ele estava na detenção e eu também – não entendi aonde ele queria chegar com esse papo, mas escutei, prestando atenção – Não sei o que ele fez, mas eu havia jogado umas bolinhas de papel higiênico molhado no teto do banheiro...
- Eca! – interrompi, olhando pra ele.
Ele riu e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
- Eu sei – continuou – Sabe como é... Primeiro ano na escola, queria fazer algo pra me divertir, mas...
- E o seu jeito de se divertir é jogando papel higiênico molhado no teto da escola?
- Melhor do que jogar travesseiros nas pessoas, não acha? – ele disse, rindo – comecei a achar que você ia querer jogar a cama também.
Dei um tapa nele e fiz sinal pra ele continuar.
- Enfim, a inspetora me pegou no ato e me levou até a diretoria. E, além de pegar três dias de detenção, ainda tive que limpar aquela sujeira.
- Que você mesmo fez... – interrompi novamente, sorrindo.
- Ok, senhorita Eu-Adoro-Interromper-O-, posso continuar agora? – Ele perguntou, com uma sobrancelha erguida.
- Só mais uma coisa – falei e ele assentiu, de má vontade, me deixando falar. – Meu pai é foda. – falei e ri da cara dele de indignado.
- Ele me fez limpar aquela porcaria todinha e você diz que ele é foda?
- Sim, você mereceu! – falei, com um sorriso e ele bagunçou meu cabelo.
- Agora eu já posso continuar?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Bom... Ele estava na detenção e eu também. Começamos a conversar e logo fizemos amizade. Ele me chamou pra ir a uma festa na casa dele e eu fui. Lá rolava de tudo o que você possa imaginar – ele olhou pra mim e continuou. – Já tinha ido a festas assim antes, mas essa era bem pesada. O Mike me ofereceu um cigarro. Era maconha, claro, e eu não queria parecer um idiota perto da turma dele, então aceitei – ele sacudiu a cabeça, como se estivesse pensando que idiota mesmo foi ter aceitado – Depois do primeiro, fumei o segundo, o terceiro e assim por diante. Eu não estava acostumado, fiquei mal e então o Mike me disse pra dormir na casa dele, porque não ia ser legal minha mãe me ver naquele estado. Depois que acordei, achei que tinha ganhado um ótimo amigo, ele não queria que eu me desse mal. – ele parou e eu esperei. – Pensei em não fazer mais isso, mas comecei a sair com a turminha dele e sempre acabávamos do mesmo jeito, jogados na rua, chapados. Eu era o excluído no colégio, me senti bem por ser aceito entre eles, entende? – assenti e ele continuou – Passei da maconha pra cocaína, o Mike sempre me oferecia e eu aceitava. Percebi que não conseguiria mais parar quando eu comecei a pedir pra ele. Quando o que eu tinha em casa acabou, fui atrás do Mike. Até então, ele não me cobrava nada, mas naquele dia ele disse que eu tinha que ir até o fornecedor com ele e ajudar a pagar, se quisesse mais. O lugar era bem tenso, na pior parte da cidade, mas eu já estava lá mesmo, então fui até o fim – ele apertou a minha mão e começou a falar mais rápido, como se quisesse acabar logo com aquilo. – Eu voltei lá mais vezes, mas não tinha dinheiro suficiente. Eu aumentava a quantidade e eles o preço. Começaram a cobrar mais caro do que deveria ser. Roubei a minha própria mãe pra comprar mais droga – ele olhava pra frente, como se estivesse perdido em lembranças ruins. E estava mesmo - Ela desconfiava, eu negava, a gente brigava... Tentei arrumar um emprego pra pagar o que eu já devia, eles abriram uma espécie de conta pra mim e ela só aumentava. Não parei em nenhum emprego, eu me irritava, xingava as pessoas, era grosso e quebrava tudo nas piores situações – ele me fitou, envergonhado, parecendo só se lembrar agora da minha presença – A minha mãe ficou sabendo dessas coisas e teve que pagar os estragos que eu fazia. Nessa época, os poucos colegas que eu tinha na escola se afastaram de mim, não queriam mais papo. Briguei sério com a minha mãe depois que o dinheiro do aluguel sumiu e ela me acusou. Saí de casa e não tinha pra onde ir. Fui pra casa do Mike e dormi lá, fiquei uns três dias, mas ele me disse que não podia mais ficar, que ele não era a minha mãe e que não tinha nada a ver com a minha vida e meus problemas. Briguei com ele e saí de lá arrasado, sem saber o que fazer, fiquei uns dias na rua, que nem mendigo, e sempre drogado, usando tudo o que eu havia pego na casa do Mike. Voltei pra casa quando não aguentei mais. Minha mãe estava horrível – pude ouvir o arrependimento na voz dele - Tinha chamado a policia pra me procurar e tudo... No outro dia o Mike apareceu, disse que a policia tinha ido à casa dele me procurar e acharam drogas lá. Ele não estava em casa, mas o seu pai havia sido preso. Me senti pior e não sabia o que fazer. Começaram a me ligar, me cobrando, e, um dia, um dos caras foi lá em casa, atrás da minha mãe – ele olhou pra mim e eu entendi o que ele quis dizer. Ele bateu no cara que cobrou a mãe dele e aquele dia que o encontrei caído no beco tinha sido a vingança dos caras. – e mesmo depois de tudo isso, de ver a decepção nos olhos da minha mãe, de a ouvir dizer que não sabia o que fazer comigo, depois de mentir pra ela todos os dias e me odiar por isso, mesmo depois de passar dois dias como um mendigo, de pensar que iam me matar, eu ainda queria mais. Arranjei com um velho amigo e tenho usado aos poucos, com medo de que acabe, mas começou a ficar difícil. Os traficantes me ameaçaram, cobraram bem mais do que o que eu devia pelo atraso, eu não sabia o que fazer... Então você apareceu. – ele fez uma pausa, suspirou e recomeçou - Depois que eu te contei, resisti por muito tempo. Até ontem, pra ser mais exato. Mas então eu me senti um merda. Estava com medo, tinha vendido meu carro e não queria mais ver aqueles caras. Queria relaxar, me desligar um pouco do mundo. Depois que saí daqui, andei por aí, sem rumo, e encontrei com o velho amigo de quem eu falei, ele me levou pra uma festa do outro lado da cidade. Alguém deve ter me trazido pra casa, não sei, porque só me lembro de ter chegado até a festa, de me oferecerem droga e depois apaguei. E lembro de que, quando acordei, te vi do meu lado – ele falou, me olhando nos olhos com uma intensidade enorme – você estava lá quando eu mais precisava de ajuda.
Ficamos muito tempo em silêncio. Fiquei pensando em tudo que ele passou, tudo que ele renunciou por causa das drogas. Encarei-o e ele retribuiu meu olhar. Houve um trato silencioso entre nós: não falar mais sobre isso.
Senti que devia a ele uma explicação também e me surpreendi quando percebi que queria contar a ele, desabafar, como ele acabara de fazer.
Passei a mão no meu braço e me preparei pra contar, mas percebeu isso e colocou um dedo nos meus lábios.
- Você não precisa se sentir na obrigação de me contar.
- Eu quero contar. – falei de um jeito estranho, porque o dedo dele ainda estava na minha boca. Ele riu e abaixou a mão.
- É serio, não precisa...
- Eu quero contar – repeti – vai me ouvir ou não? – falei com grosseria demais e me arrependi na mesma hora. Pra minha surpresa, ele colocou uma mão na minha nuca, me puxando pra perto, colando a minha testa na dele.
- Você sabe que não precisa. - ele disse, com uma voz rouca.
Percebi que tinha prendido a respiração quando respirei fundo em seguida, sentindo o cheirinho dele. Meu coração batia tão forte que não me surpreenderia se pudesse ouvi-lo.
- E-eu quero contar... – Falei. Ele sorriu e me deu um beijo na testa.
- Então, conta.
Comecei pela parte mais difícil. Minha mãe. Contei a ele que ela havia traído o meu pai, por isso se separaram. Que ela foi embora de casa sem mais nem menos quando eu tinha seis anos, e ficou meses sem dar notícias. Contei como meu pai ficou destruído e que havíamos nos mudado porque ele não queria ter mais nenhuma lembrança relacionada a ela. Disse que eu não queria vir pra cá porque ainda tinha esperanças de que ela aparecesse na nossa antiga casa, pra ficar, e queria estar esperando por ela. Depois de quase um ano sem notícias, ela entrou em contato, disse que estava vivendo com seu amante e que estava grávida.
- Meu pai pareceu definhar – contei – ele bebia muito e descontava em mim, às vezes. Até hoje não sei se ele se recuperou totalmente. Minha mãe aparecia, às vezes, dando uma de preocupada, me perguntando sobre a escola e os garotos. Conforme fui crescendo, entendi melhor as coisas e comecei a me culpar por ela ter ido embora. Comecei a achar que a vida era injusta com o meu pai, que nunca fez nada de errado. Ele melhorou um pouco e, então, começamos a fingir que nada havia acontecido, não tocávamos no nome dela. Mas eu ainda me sentia culpada, sempre me senti. E o meu pai nunca disse o contrário. O tempo passou e eu me acostumei a ser sozinha. Passava muito tempo em casa, sem ninguém. Meu pai arranjava um milhão de coisas pra fazer e eu percebi que era pra se distrair, pra não pensar nela. Me sentia muito sozinha às vezes, não tinha amigos na escola e o único que eu sabia que podia contar era o , mas ele morava em outra cidade. Teve uma época que cansei de ser forte. Chorava todas as noites, minha vida era uma bagunça, minha mãe não me queria, meu pai provavelmente estava pior que eu e eu não sabia o que fazer pra mudar isso. Começou a voltar a raiva que eu sentia do mundo pra mim. No começo, fazia cortes pequenos e percebi que pensar neles, na dor que eles causavam, me distraía, eu não pensava tanto em tudo o que eu queria mudar e não conseguia. Aliviava. Eu tinha treze anos quando comecei. Então mudei pra nossa escola e as coisas melhoraram um pouquinho, porque conheci a . Mas ela já estava no ultimo ano e eu tinha medo que ela fosse como todas as outras coisas da minha vida: passageira. Ela iria se formar, iria pra uma faculdade e iria me esquecer. No meio do ano, se mudou pra cá, então as coisas ficaram realmente boas. A única coisa ruim é que eles não se entendiam, não conseguiam ficar muito tempo juntos perto um do outro porque sempre brigavam. Tentei mostrar a eles que não era tão ruim ficarem juntos e então eles se tornaram amigos e tudo ficou perfeito. Eles começaram a namorar, fiquei muito feliz por eles e percebi que teria a minha melhor amiga, mesmo depois que ela saísse da escola. Eu havia parado de me cortar. Mas então me senti trocada de novo. Me senti uma intrusa na relação deles. Sempre atrapalhava quando eles queriam ficar sozinhos. Eu era um peso. Eles diziam que não, me queriam por perto, o me apresentou alguns amigos dele, mas nenhum deles combinava realmente comigo. Uma vozinha chata na minha cabeça me dizia que eles tinham pena de mim, porque eu era sozinha. Me afastei um pouco deles e então comecei a fazer de novo... – toquei no meu braço e deixei minha voz morrer no silêncio.
Ele me abraçou forte quando percebeu que não conseguiria dizer mais nada. Quando me soltou, sentou-se de frente pra mim e puxou pra cima a manga da minha blusa, deixando à mostra as marcas que eu mesma havia feito. Não senti vergonha, pela primeira vez.
Ele passou a mão pelo meu braço, cobrindo toda a extensão dos machucados. Devagar, como se tivesse medo de que eles reabrissem, mas com toda a determinação que pôde demonstrar através de seu toque, como se quisesse fazer com que cada uma das feridas sumisse.
- Você não precisa mais disso – ele disse – Não precisa mais se sentir sozinha, porque você não está! Eu vou sempre estar aqui – prometeu – não precisa mais fazer isso – ele repetiu, me abraçando.
- Não vai mais sair do meu lado? – perguntei, retribuindo o abraço.
- Eu não posso – ele disse, com um estranho tom de voz – e mesmo se pudesse, não iria querer.
Capítulo 14
Já era sábado, véspera de Natal, e eu andava de um lado para o outro no meu quarto, esperando ele me ligar quando estivesse voltando pra casa. Almoçamos juntos aquele dia, e eu relembrei nossas últimas horas juntos.
“- Para, seu idiota – eu dizia, rindo, enquanto ele me puxava pra dançar com ele uma música estranha que tocava no rádio. Parecia salsa.
- Anda, , você tem que se distrair, tá parecendo a minha mãe! – ele disse e riu alto da cara que eu fiz – Agora você tá parecendo ainda mais com ela.
Bati nele, mas acabei não resistindo. Ficamos dançando muito tempo na cozinha da Sra. , enquanto ela preparava o almoço e ria de nós, arriscando algumas dancinhas de vez em quando.
Eu, supostamente, estava ali para ajudá-la, mas não deu muito certo.
- Estou sentindo um ar de preocupação por aqui – ela disse, depois de quase dez minutos em silêncio, nos quais eu e apenas trocávamos olhares ansiosos – O que está acontecendo?
- Nada… – respondemos juntos e rimos, ainda nervosos.
- É só… Bom, não gosto muito de Natal. – ele disse o que pareceu ser a primeira coisa que veio à cabeça. Quase cuspi o suco que estava na minha boca, de tão tosca que achei aquela resposta.
- Pelo amor de Deus, , o que isso tem a ver? – a mãe dele disse, rindo, e resmungou algo sem sentido. Logo mudamos de assunto e ela não perguntou mais nada sobre aquilo.
Quando a Sra. se levantou para atender o telefone, disse pra mim:
- Para de fazer essa cara de assustada, ela tá desconfiando.
- Cara de assustada? – perguntei, indignada – Você deveria ver a sua cara, , parece que está esperando na fila da forca.
Ele riu, mas me ignorou, pois sua mãe havia voltado.
Quando acabamos, fomos para a sala, enquanto a Sra. se arrumava para visitar alguns parentes que disse decididamente que não iria sequer desejar um Feliz Natal.
- Quando você vai? – perguntei, receosa.
- Quando ela sair. – respondeu, simplesmente e sorriu pra mim, tentando me tranquilizar.
- Me deixa ir… - comecei.
- Nem pensar, , já te disse isso.
- Eu não vou aguentar ficar em casa sem saber quando você volta. Sem nem saber se você volta. – falei, chorosa, rezando pra que ele me entendesse.
Ele me olhou de um jeito que não soube explicar, mas que soube que seria o olhar dele que eu mais amaria. Era como se eu visse carinho nos olhos dele. Muito carinho. Sorri, sem querer, por pensar que, se estivesse certa, aquele carinho seria por mim.
sentou perto de mim no sofá e levantou uma das mãos para acariciar meu rosto, mas sua mãe entrou na sala e ele rapidamente abaixou a mão.
- Estou saindo, crianças – ela disse, de um jeito divertido – comportem-se!
Ela saiu e ouvimos o barulho de seu carro quando este ligou.
- Não vai acontecer nada comigo – ele disse, me olhando nos olhos e eu acreditei nele.
- Promete? – perguntei, como uma criança. – Promete que vai voltar pra mim? – acrescentei e logo senti meu rosto queimar de vergonha. Como sou estúpida.
Ele sorriu e se aproximou mais. Passou um braço por cima do meu ombro e com a outra mão levantou meu rosto, me fazendo olhar em seus olhos.
- Eu prometo – ele disse baixinho, com a voz um pouco rouca e aproximou seu rosto do meu.
Meu coração batia acelerado. Meus sentidos ficaram mais aguçados e eu sentia como se pudesse ler todas as letrinhas daquele livro que estava em cima da televisão, há cinco metros de distância.
- Uau – ouvi uma voz e logo nos afastamos, em um pulo – eu disse pra se comportarem – a mãe de dizia, com uma expressão de desapontamento no rosto, mas logo sorriu. – Voltei porque esqueci os presentes – acrescentou e subiu correndo as escadas.
Virei-me pra frente e apoiei minha cabeça nas mãos, sentindo meu rosto queimar. Tão perto.
- , tá tudo bem? – perguntou, tentando tirar minhas mãos do rosto. – Você tá chorando?
Ri ainda mais. Quando ele viu que eu estava rindo, começou a rir também, mas seu rosto também estava muito vermelho e eu não sabia o que falar.
Quando a Sra. desceu as escadas, ainda estávamos rindo. Ela balançou a cabeça e saiu, sem dizer uma palavra.
Olhei pra e ele parou de rir. Levantou e me encarou.
- É melhor você ir pra casa… – ele disse, em uma voz controlada.
- Ok – disse, me levantando e caminhei até a porta. – Boa sorte.
- Espera. – ele me puxou de volta tão rápido que, quando percebi, já estava em seus braços.
Ele me abraçou forte e eu não tinha vontade nenhuma de sair de dentro daquele abraço.
- Não se preocupa, eu vou voltar. Inteiro – acrescentou e riu. Senti o hálito quente dele no meu pescoço e suspirei.
- Tudo bem – eu disse, lutando pra me afastar dele. – Eu vou te esperar – pisquei e sorri, vendo-o sorrir de volta.”
Meu celular tocou e eu quase o deixei cair no chão, no nervoso pra atender.
- Alô? – falei, ansiosa.
- Feeeeeeeeliiz Nataaaaaaaaaaal, primaaaaaaaaa! – ouvi gritar e suspirei de decepção.
- Ah, oi, .
- Nossa, que animação pra falar com seu primo mais gato e gostoso. – ele disse, rindo. Ri também.
- Claro que você é o mais gato e gostoso. É o meu único primo – disse e ri, quando o ouvi protestar. Sentei-me na cama enquanto conversava com ele.
- A tá te mandando um beijo. Vamos viajar daqui a pouco pra casa da minha mãe, e você sabe, lá não tem sinal, por isso tô te ligando agora – ele disse.
- Manda um feliz Natal pra ela – eu respondi, tentando soar animada – E pra tia também! Você vai agora?
- Tô colocando a mala no carro.
Ouvi um “Feliz Natal, ” vindo da e sorri.
- Ouviu? – perguntou, rindo.
- Ouvi sim – eu disse, rindo também. – Manda um beijo enorme pra essa ridícula – eu disse, me empolgando – fala que eu amo ela, mesmo que ela seja uma idiota.
- Outch, é assim que trata o meu anjinho? – ele perguntou, indignado.
- Eca – eu disse - Para de ser meloso, !
- Não consigo – ele disse, com uma voz chorosa e eu ri alto. – Tenho que desligar agora, . Se cuida, pequena. E nada de ficar muito tempo com esse tal de . Ainda nem conheci esse moleque, portanto, ainda não te dei permissão pra ficar de agarramentos com ele!
- Agarramentos? – perguntei, rindo – Vai se ferrar, ! – ouvi a gargalhada escandalosa dele e sorri, sentindo saudades. – Feliz Natal, meu chatinho. Quando puder me liga, ok?
- Ok – ele disse – Te amo, prima. Se cuida.
Remexi-me inquieta na cama, me lembrando de e ficando ainda mais preocupada. Joguei-me pra trás e coloquei o travesseiro no rosto. Será que vai demorar tanto assim?
Ouvi o toque do celular e dei outro pulo. Dessa vez olhei no visor e meu peito se encheu de alívio quando vi que era uma ligação dele.
- Já saiu? – perguntei, sem nem dizer um oi.
- Já – ele disse, rindo. – Vem aqui me ver.
- Aqui onde? – perguntei surpresa, me levantando.
- Aqui na porta da sua casa. – ele disse e, como não obteve resposta, acrescentou – Tô aqui, inteiro, esperando você vir checar.
Soltei uma risada estranha e desliguei o celular, jogando ele na cama e correndo até as escadas.
Capítulo 15
Pulei no pescoço dele sem nem esperar que ele dissesse algo. Finalmente pude respirar aliviada.
Ele me abraçou forte, e eu pude sentir o cheirinho de sua pele. Soltei-o quando percebi que estava fazendo uma cena de novela mexicana no meio da rua.
- Como foi lá? – perguntei – O que eles falaram? O que eles fizeram? Eles te ameaçaram? Você conseguiu pagar? – Disparei tão rápido e desesperadamente que riu de mim.
- Respira, ! – ele disse – Eu consegui pagar. Não devo mais nada pr'aqueles babacas – ele me abraçou de novo e tinha um sorriso bobo no rosto. – A partir de agora, vida nova, ! – ele disse no meu ouvido e eu sorri. Quando ele me soltou, foi apenas o tempo suficiente pra parar de me abraçar e colocar as mãos no meu rosto, me puxando pra perto, encostando seu nariz no meu. Senti minha pele arrepiar. Não pude deixar de sorrir, vendo-o tão feliz como estava.
- Vida nova, – eu repeti, baixinho.
Ele me olhou no fundo dos olhos e parecia conseguir ver minha alma.
- Você é tudo – ele disse, se aproximando ainda mais, acariciando meu rosto – Você é tudo.
Estávamos na minha sala, arrumando os presentes de baixo da árvore. Íamos passar o Natal na minha casa. Meu pai disse que Chris, a professora de matemática e provavelmente sua namorada, ia passar o Natal conosco e disse que se eu quisesse, podia convidar . Ele aceitou, pois sua mãe ia passar o Natal com uma irmã e não queria ir.
Não havíamos conversado muito depois da pequena cena em frente a minha casa. Eu não sabia o que pensar sobre aquilo e muito menos o que dizer. Mas o que havia acontecido continuava voltando a minha cabeça, por mais que eu quisesse esquecer.
“Ele me olhou no fundo dos olhos e parecia conseguir ver a minha alma.
- Você é tudo – ele disse, se aproximando ainda mais, acariciando meu rosto – Você é tudo.
Mesmo sem entender o que ele queria dizer, sorri. Fechei os olhos e podia sentir sua respiração na minha boca. Impossível expressar o quanto eu queria aquilo, mas abri os olhos, lembrando da primeira (e única) vez que nos beijamos.
- Não, – eu disse baixinho, querendo mais que tudo dizer que aquilo era o que eu mais queria. Mas não poderia suportar ver o arrependimento em seus olhos depois, como vira da outra vez.
Ele se afastou e senti meu corpo inteiro doer. Abaixei a cabeça, derrotada, e quis ter coragem suficiente pra dizer tudo o que sentia por ele.
- Vida nova – ele repetiu e eu o olhei. Ele sorria e me deu um beijo no rosto – Vida nova, mas eu ainda quero você nela.”
A campainha tocou e eu fui atender. Não me surpreendi quando vi Chris parada ali, altamente produzida, com um sorriso simpático no rosto.
Senti uma pontada de ciúmes, mas ignorei. Afinal, depois da minha mãe, meu pai merecia ter a chance de seguir em frente.
Para minha surpresa, ela era bem legal. O silêncio de antes de sua chegada havia acabado completamente. Conversávamos sobre estilos de música quando meu pai me chamou na cozinha, alguns minutos antes da ceia. Deixei conversando com ela e me encaminhai até lá.
- – meu pai começou e eu esperei – Eu preciso conversar com você sobre um assunto muito importante… – ele disse, sem jeito.
- Agora? – perguntei, querendo correr. Já sabia que ele iria me contar sobre seu “namoro” com Chris, mas eu já tinha percebido tudo mesmo…
- E por que não agora?
- Pai… – disse - Já é quase meia noite… E eu já sei que você e a Chris estão juntos mesmo, então podemos pular essa parte – falei com um sorriso e ri da cara que ele fez. – Qual é, pai… Tava meio óbvio, não acha?
- Ah, é? – ele disse, afrouxando o nó da gravata. Assenti e ele olhou pra mim, confuso, como se esperasse algo. – Então… Está tudo bem? Quero dizer… Você não vê isso como um problema? Sem gritos, sem…
- Pai - interrompi, encarando-o – Você está feliz? – ele se surpreendeu com a minha pergunta e demorou alguns segundos pra se recuperar. Sorriu e olhou pra baixo.
- Ela me faz feliz – ele disse, ainda olhando pro chão – A Chris me faz feliz.
- Então, por mim tudo bem – eu disse segura, para aquele homem sofrido a minha frente, mas que apesar de tudo, continuara sendo forte. Ele não desistira. E ele merecia outra chance. - Você merece ser feliz, pai, e se é ela quem te faz feliz, por mim tudo bem.
Meu pai sorriu mais ainda e me abraçou. Aquilo foi tão inesperado que, por alguns momentos, não tive reação. Quando retribuí o abraço, senti um beijo na minha cabeça e o ouvi dizer:
- Eu… Eu te amo, minha filha. – Confesso que lágrimas vieram aos meus olhos quando, finalmente, ouvi tudo o que sempre quis ouvir dele.
- Pai, eu… - comecei a dizer, quando me afastei e o encarei, mas uma lágrima escorreu pelo meu rosto e parecia que havia algo em minha garganta, me impedindo de falar. Apenas sorri e ele sorriu de volta, me abraçando novamente.
- Ah, achei que vocês não haviam percebido que já é Natal – ouvi Chris dizer animada, enquanto entrava na cozinha. Consegui ver vindo logo atrás dela e ela me abraçou, impedindo que eu visse qualquer outra coisa. Logo depois, foi até o meu pai e o abraçou também.
Vi parado na porta da cozinha, olhando pra mim, mas me virei de costas, evitando que ele visse que eu havia chorado. Ouvi meu pai dizer um “Feliz Natal, , espero que nos dê menos trabalho quando as aulas voltarem.” Sorri sozinha e sequei o rosto.
Virei-me de novo e pude ver meu pai me dirigindo um sorriso feliz, enquanto saía de mãos dadas com a minha professora de matemática.
- Ei, Feliz Natal – disse, sem jeito.
Sorri e caminhei até ele. Abracei-o forte por muito tempo e ele retribuiu meu abraço.
- Feliz Natal, – sussurrei em seu ouvido e logo depois estalei um beijo em sua bochecha. – Feliz Natal…
Capítulo 16
Eram exatamente 04h16 da manhã e eu e estávamos sentados na sacada de seu quarto desde às duas e meia, que foi quando meu pai e Chris foram visitar a família dela. As coisas entre eles estavam ficando sérias.
A Sra. já havia voltado da casa de sua irmã e estava em seu quarto, provavelmente dormindo.
-... E então ela subiu na árvore a começou a gritar que aquela seria sua nova casa, que seria filha da natureza ou algo assim e que ninguém ia cortar aquela árvore, que ela chamava de Catherine. – me contava a história de uma de suas primas quando era criança.
- Tô com sono – eu disse, depois que acabamos de rir da história. – Mas não quero dormir agora. – encostei a cabeça em seu ombro e ele começou a brincar com meus cabelos.
- Então, fica aqui. – ele disse, animado, mas deixou sua mão cair de um lado e senti seu corpo ficar tenso. Levantei a cabeça e vi que ele estava com uma expressão estranha. Quando percebeu que eu estava observando, virou pro outro lado, tentando esconder o rosto.
- – chamei, colocando uma mão por cima da dele que estava mais próxima de mim, mas ele a puxou pra longe. – O que foi?
Ele continuou em silêncio e ainda não me olhava. Isso me incomodou.
- ...
- Você não queria, não é? – ele me interrompeu, finalmente olhando pra mim.
- Não queria o que? – perguntei, confusa com seu tom de voz.
- Você sabe... Você não queria, em nenhuma das vezes... – ele viu que ainda o olhava confusa e suspirou – Deixa pra lá. – Ele levantou e eu fiz o mesmo, segurando seu braço, impedindo-o de se afastar de mim.
- Do que você tá falando? – perguntei.
- Você sabe do que eu tô falando – ele gritou e pareceu se lembrar que sua mãe estava em casa e que podia acordá-la com seus gritos. Então diminuiu o tom de voz e continuou – Eu sei que eu sou uma pessoa difícil, mas eu realmente achei... Achei que poderia dar certo. – ele me olhou, triste – Mas você não quis, , você não me quis. – Olhei pra ele, incrédula, quando entendi o que ele estava dizendo. – E eu não aguento mais guardar isso pra mim! Não quero te ver longe de mim, , porque eu prefiro te ter como amiga do que... Do que não te ter. Naquele dia que eu fui atrás de você, no dia que tava chovendo e eu te beijei, foi porque desde o começo eu sabia o que eu queria. Eu queria você – meu coração estava acelerado e eu não sabia o que dizer. Ou pensar – Mas eu não sabia como agir, porque você é diferente das outras garotas, eu não sabia como me aproximar, não sabia nem se devia me aproximar! E aí, eu percebi que tinha feito besteira, te beijando daquele jeito, se nem sabia se você também queria! Mas eu quis você mesmo antes de te contar tudo o que te contei, antes de ser seu amigo, antes de ver a pessoa maravilhosa que você é! E ver isso só piorou as coisas, porque eu... Eu te quis mais ainda, entende? E eu tinha que te dizer isso, porque eu não aguento mais te ver todos os dias e fingir que não sinto nada, que não quero nada além de amizade.
- ... Você – comecei, balançando a cabeça, ainda não acreditando no que ouvia. As palavras fugiam de mim, eu nem conseguia pensar direito – Mas foi... Foi você quem não me quis! – eu disse, um pouco alto demais, quando finalmente consegui organizar meus pensamentos.
- O que? – ele disse, pasmo.
- É - eu falei, me empolgando, e as palavras que antes estavam presas, jorraram de minha boca – Quando você me beijou aquele dia, , você me pediu desculpas! Disse que não devia ter feito aquilo. O que você queria que eu pensasse?
- Eu... Eu só disse aquilo porque achei que tinha feito besteira, achei que você não me queria – ele disse, mais calmo, mas ao mesmo tempo agitado, como se as minhas palavras fizessem algum tipo de sentido que eu ainda não havia entendido. – Como você é boba...
- Boba? – eu disse, começando a ficar com raiva dele. – Boba? E por que você tá rindo, seu idiota? – o empurrei, quando vi que ele ria de mim. – Você acha isso certo? – eu continuei, tentando manter a voz baixa, pra não acordar a Sra. – Você acha certo ir à minha casa, me beijar daquele jeito, pedir desculpas e depois fingir que nada aconteceu? E você acha certo vir agora dizer pra mim que queria aquilo?
- ...
- Você acha certo brincar comigo desse jeito? Eu não sou um objeto, , e eu prometi pra mim mesma há um tempão que ia te ajudar, que ia ser sua amiga e que não ia sentir mais nada por você além de amizade, porque achei que amizade era tudo o que você queria ter de mim...
- Não, não era. – ele me interrompeu.
- Cala a boca que eu não terminei! – disse, irritada – E esse tempo todo eu pensei... Eu passei esse tempo todo tentando tirar você da minha cabeça, tentando fingir que não sentia nada por você! E por que, diabos, você acha que eu tinha que adivinhar que você queria algo comigo? – Senti meus olhos se encherem de lágrimas, mas segurei todas elas – Se você... Se você pudesse ver a sua cara de arrependimento depois que me beijou... Que direito você acha que tem de vir me dizer tudo isso agora?
- Pelo amor de Deus, , fui eu quem foi atrás de você! – ele disse, mais alto que eu – E sim, te acho uma boba, porque você é insegura! – ele disse, me encarando – Porque você acha que seria impossível alguém gostar de você e acha que eu não te queria porque, de alguma forma completamente idiota que só existe na sua cabeça, seria mais fácil explicar que eu me arrependi do que eu fiz do que explicar que sim, eu queria você! – pela pouca luz do quarto, eu podia ver que seu rosto estava muito vermelho – Só que, desde aquela vez, você parece fugir de mim! Eu tenho motivos pra achar que você não me queria...
- Eu tava com medo! – gritei, finalmente o interrompendo. – Com medo de realmente me apaixonar por você e perceber que você só queria curtir...
- Tudo bem... – ele disse, diminuindo o tom de voz – Eu te entendo... Mas eu não quero brincar com você, , eu não te quero só por uns dias! – ele se aproximou e tocou em meu braço, hesitante – Mas vê se entende o meu lado também! Você só fugia de mim e depois que eu te contei sobre as drogas, sei lá, a nossa amizade cresceu e eu achei que podia estragar tudo. Porque ter a sua amizade já parecia o máximo que eu poderia conseguir, considerando tudo o que eu te contei e, afinal, quem ia querer um drogado idiota que nem eu?
- Eu queria! – eu soltei, sem querer, mas repeti baixinho – eu queria.
Ele ficou em silêncio, apenas me encarando, e eu não suportava mais ficar ali. Retribuí seu olhar e sorri pra ele, triste, me virando pra ir embora.
- Não quer mais? – pude o ouvir perguntar, antes que eu alcançasse a porta – Você não me quer mais?
Virei-me e fiz o caminho de volta, chegando até ele. Senti raiva, surpresa, ódio, desejo, compreensão, paixão, tudo ao mesmo tempo, sem saber como era possível sentir tantas coisas de uma vez só.
Em um único ato de coragem que eu achei não possuir, coloquei a mão em sua nuca e o puxei pra perto, acabando com a distância entre nossas bocas que, desde que se separaram, eu sonhava em juntar novamente.
Beijei-o com toda a paixão que explodia em meu peito e que eu sabia que não poderia mais controlar. Ele colocou uma mão em meus cabelos e a outra em minha cintura, me puxando pra mais perto, e eu pude sentir seu coração batendo no mesmo ritmo que o meu.
Eu não sabia quem estava mais desesperado por aquilo. Já estava sem ar quando me afastei dele, contrariando a minha vontade de beijá-lo eternamente.
- Isso responde a sua pergunta? – eu disse, com a voz falha.
Ele deu o sorriso que eu amava e me olhou do jeito que me fazia ter a sensação de que ele podia ver a minha alma.
- Você pode calar a boca? – ele disse, de um jeito carinhoso, me puxando de volta pra si – Porque acho que a gente já perdeu muito tempo e eu não tô afim de desperdiçar mais.
Capítulo 17
Três semanas. Fazia exatamente três semanas que estávamos juntos. Que andávamos de mãos dadas, que assistíamos a filmes de terror abraçados no sofá da sala, que ficávamos o máximo de tempo juntos. Três semanas que me fizeram esquecer o que era ficar triste. Três semanas de paz, mesmo com todas as guerras que travávamos todos os dias. Contraditório? Completamente. Mas aquela era a contradição mais linda que eu já havia vivido, e eu não sentia a menor vontade de me livrar dela. E, o que era engraçado, várias vezes me peguei pensando que eu sempre achei realmente meloso quando a ou o me diziam algo assim e agora, eu é que estava nesse estado de idiotice amorosa.
- O é hilário – ele me dizia, fazendo carinho na minha cabeça, que estava em seu colo, enquanto estávamos apertados no sofá de casa. – E agora eu entendo por que a é a sua melhor amiga. Ela é muito legal!
- Tira o olho – eu disse, estapeando ele e fazendo uma cara de brava – Ela é minha, nem vem!
- Outch! Não precisa me bater, !
- É só pra você ficar esperto – eu disse, rindo da cara dele. – E você tá errado, porque ela é muito mais do que legal. E o meu primo é foda, eu sei.
riu e concordou.
- Gostei de conhecê-los, de verdade.
Sentei no sofá e olhei pra ele, tentando arrumar meu cabelo que estava todo bagunçado.
- Que bom que você gostou – eu disse, sorrindo, perdendo a luta pro meu cabelo – Eles são muito importantes pra mim.
- Eu sei. O único problema vai ser quando eu quiser te dar o fora, porque os dois vão querer me matar – ele disse, com uma cara pensativa, mas logo riu da minha cara de surpresa – Tô brincando, tô brincando, não precisa me bater!
Bati nele do mesmo jeito.
Tentei arrumar meu cabelo uma última vez, mas nem adiantou.
- Para com isso – ele disse, puxando a minha mão do meu cabelo – Você tá linda.
- Claro – eu disse, sarcástica – Muito linda mesmo, parecendo a medusa! Realmente, , o seu senso sobre o que é lindo está meio danificado, sabe?
Ele riu alto e eu voltei a deitar a cabeça em seu colo. Estávamos assistindo Star Wars pela vigésima vez, então deixei meus pensamentos vagarem enquanto me fazia cafuné.
“- Anda, , você parece uma noiva pra se arrumar – eu disse rindo e jogando um travesseiro nele, que estava de frente pro espelho do seu quarto, arrumando o cabelo pela centésima vez.
- Fica quietinha aí, , eu tenho que causar uma boa impressão – Ele disse, fazendo uma voz séria.
- Pelo amor de Deus, , é só o e a , não a Rainha da Inglaterra! – exclamei, em um tom óbvio – Pra falar com o meu pai você não se emperiquitou todo desse jeito – eu disse, emburrada.
- Talvez porque eu já o conhecia? – ele respondeu, me fazendo revirar os olhos.
Joguei-me na cama dele e o quarto ficou em silêncio. Quando decidi me levantar e apressá-lo novamente, senti mãos me fazendo cócegas.
- Não! – gritei, entre risadas – Para, , por favor! – eu me debatia, tentando me livrar dele e era difícil saber quem ria mais: eu, que estava sob um ataque de cócegas ou ele, que ria das caras que eu fazia.
- Para, por favor – gritei, quase chorando de tanto rir. Ele gargalhou e se jogou ao meu lado na cama, tentando normalizar a respiração.
Olhei pra ele e vi que ele me observava, com um sorriso nos lábios. Quando ele chegou mais perto para me beijar, virei o rosto e rapidamente subi em cima dele, com uma perna de cada lado de seu corpo e comecei a fazer cócegas nele.
- Vingança! – gritei, enquanto ele ria descontroladamente.
Como eu imaginei, minha vingança durou bem pouco, pois logo ele inverteu nossas posições e prendeu meus braços acima da minha cabeça.
- Ah, seu chato – resmunguei, fazendo bico – nem pra deixar eu me divertir mais um pouquinho. – ele riu alto e se aproximou de mim, me beijando carinhosamente. Quando nos separamos, ficamos apenas nos olhando durante vários segundos.
- Temos que ir pra casa do – lembrei, dando um selinho nele.
- Ok – ele disse, mas não saiu de cima de mim e riu da cara que eu fiz – Tudo bem, nós já vamos. Mas eu quero um beijo primeiro.
- Outro? – perguntei, revirando os olhos e fazendo uma voz de tédio.
- Nossa, tá assim já? – ele disse, indignado.
- Anda logo, vai – eu disse rindo – não quero ficar o resto do dia presa aqui por sua causa – ele balançou a cabeça negativamente e riu, antes de me beijar.
- Você é tudo – ele sussurrou no meu ouvido, depois de me beijar e eu sorri na mesma hora, enquanto sentia os beijos dele em meu pescoço.
Chegamos à casa do às quatro horas da tarde. Quando abriu a porta, a primeira coisa que fez foi olhar de cima a baixo.
- Já perdeu um ponto comigo, rapaz, pelo atraso – ele disse, com uma cara de desaprovação que eu sabia que era fingimento.
- ! – protestei, indo abraçá-lo, enquanto ria da cara de espanto do .
- Relaxa, cara, era só brincadeira – disse pra , descontraído - ainda não comecei a contar os pontos que você perdeu.
Gargalhei enquanto cumprimentava , sorrindo.
Quando entramos na casa, desceu as escadas correndo e pulou no meu pescoço, me abraçando.
- , esse é o – apresentei, quando nos separamos – , essa é a – ela deu um abraço nele também, como se fossem velhos amigos que não se viam há algum tempo.
- Ouvi falar muito de você! – ela disse, animada.
- Também ouvi falar muito de vocês.
- Bem, espero – disse, olhando pra mim.
- Bem? – perguntou sarcástico – Ela deve é ter falado muito mal, parece que não conhece a minha prima, !
riu com quando eu dei um tapa nele. Fui pra cozinha com a procurar algo pra comer, enquanto os garotos iam pra sala.
- Uau, , ele é um gato mesmo! – disse, piscando pra mim.
Ri alto e ela me acompanhou, fazendo sinal de positivo, aprovando .
Quando voltamos pra sala, e estavam rindo e conversando sobre música. Quando mencionou que tinha uma guitarra, os olhos de brilharam.
- Ele tocava – eu disse pro e ele sorriu, aprovando, como se tocar ou não tocar definisse se uma pessoa é legal ou não.
- Não toca mais? – perguntou, interessado.
- Não... Eu tive que vender a minha guitarra – disse, rapidamente, sem olhar pra .
- Que TRAGÉDIA! – disse, teatralmente, nos fazendo rir. – Sério, cara, como deve ser a sua vida sem uma guitarra? – ele continuou, pensativo – Se você quiser, eu deixo você tocar na minha.
- Nossa, , você gostou mesmo dele – eu disse, surpresa, enquanto meu primo ria e acrescentei para – Ele não deixa ninguém nem ao menos encostar na Joanna.
- Joanna? – perguntou.
- É o nome da minha guitarra – disse naturalmente, como se fosse normal uma guitarra ter nome. – Qual é, dude, ela tinha que ter um nome, é praticamente minha filha! – acrescentou, quando riu.
- Eu entendo – disse, compreensivo – A minha guitarra se chamava Lola.
Quando estávamos quase chegando ao carro da Sra. , gritou lá da porta:
- Ei, , quando quiser, aparece aqui pra jogarmos mais – sorriu a assentiu – E, se quiser, eu consigo uma guitarra emprestada pra tocarmos juntos, aí vou poder saber se você toca mesmo ou foi só fingimento pra conquistar a minha prima! – O sorriso de se alargou e ele deu tchau pro e pra , enquanto eu entrava no carro e também acenava.
- E cuida direito da minha amiga – gritou, com um sorriso, quando já havia ligado o carro – Se não eu mato você!
- Eles são demais – disse, quando viramos a esquina e olhou pra mim feliz – Me trataram como se eu fosse um velho amigo deles e o mais incrível é que foi exatamente assim que eu me senti.”
Abri os olhos, assustada, quando ouvi algo pesado cair no chão. Eu estava no meu quarto, deitada na minha cama e não me lembrava de ter chegado até ali. estava praguejando enquanto levantava a cadeira da escrivaninha, que ele havia derrubado quando tentou chegar até a porta, no escuro.
- ? – chamei, sonolenta.
- Desculpa, , não queria te acordar – ele disse, sussurrando e se ajoelhou ao meu lado, passando a mão pelos meus cabelos – Você dormiu na metade do filme, então te trouxe pra cá.
- Coitado – eu disse, bocejando – Me carregou isso tudo.
- Não tem problema. Você nem é pesada.
- Claro que não – falei, sarcástica – Por que não me acordou?
- Porque fiquei com dó de te chamar – ele disse e fez uma cara pensativa quando acrescentou - e também porque você fica tão linda dormindo.
Eu ri, ainda sonolenta. Ele se levantou e me deu um beijo na testa.
- Aonde você vai? – perguntei, me sentando.
- Pra casa. – ele disse, confuso.
- Não... – resmunguei, fazendo uma carinha triste – fica aqui.
Ele me olhou por alguns segundos e suspirou, derrotado. Sorri quando ele fez sinal pra eu dar espaço pra ele na cama e se deitou ao meu lado.
- Se o seu pai me vir aqui, ele vai querer me matar? – ele perguntou, refletindo, enquanto se acomodava na cama.
Deitei na cama novamente e fingi pensar um pouco.
- Provavelmente.
fez um som estranho com a boca e eu ri.
- Relaxa, eu te protejo! – falei com uma voz que supus ser corajosa e ele riu, virando-se pra mim. Fiz o mesmo e acrescentei - Mas você não tem que se preocupar agora. Meu pai vai dormir na casa da Chris hoje e aposto que ele tem coisas melhores pra fazer, portanto, não vai voltar tão cedo.
riu e acariciou meu rosto.
Olhei nos olhos dele, que eu só conseguia distinguir pela luz fraca da lua que entrava pela janela aberta. Ali, sentindo ele tão perto de mim, soube que sempre foi ele quem eu esperei. Quem eu sempre quis, sonhei, amei... Mesmo sem nem saber disso. Sorri e quando ele sorriu de volta, entendi algo que ele me dizia faz tempo. Ele era tudo.
Continua...
N/a: Oi pessoas *-* Tudo bom com vocês? rs' Enfim, um pouquinho de romance sempre é bom né? Espero que tenham gostado!
E pra quem lembra que na última att eu disse que ia mandar att's mais caprichadas... Juro que a próxim vai ser caprichada MESMO ok? ASHUHAUSHAS
Desculpa, mas é que nessa não deu mesmo. Falta de tempo e tal :/ Anyway... até a próxima att lindonas! =D
Nota da Beta: Erros na fiction? Comunique-me por email. Xx.