THEATER
Escrita por Abby


Capítulo 1

- Então como o senhor me explica a nota máxima na prova bimestral de Física, sendo que nem a uma aula foi? – o diretor Martin indagou. Estava sentado em sua confortável cadeira de couro preto; seu único relaxamento naquele colégio. Mais uma vez, estava à sua frente, com toda certeza, por merecimento.
- Eu não preciso ir às aulas para saber sobre as leis da Física, diretor. – o garoto respondeu com seu melhor e mais cínico sorriso. Mais uma vez, Darrel Martin estava perdendo a calma, com toda certeza, pelo descaramento do aluno.
- Tenho certeza que seus pais não sabem sobre todas as suas faltas, não é mesmo? – o senhor disse após mexer em seus cabelos grisalhos, evitando perder o controle.
- O senhor não os incomodaria com uma bobagem dessas, não é mesmo? – o garoto continuava com o mesmo tom de cinismo. – Afinal, eles andam bastante ocupados, e estressados, com os próprios problemas. Nem sequer poderiam parar para ouvi-lo.
Na verdade, estava escondendo o medo de seus pais tomarem ciência das besteiras que havia fazendo há um tempo. Nunca fora um aluno bom (ou sequer regular) e seus pais nunca acompanharam seus anos letivos. Este fato o levava a cometer mais atos dignos de advertências ou até suspensões sem que os senhores soubessem. Notas baixas eram descartadas, rasgadas, queimadas ou até mesmo atiradas em outros alunos durante as aulas que conseguia frequentar. As advertências também tinham destino parecido.
- Pelo contrário, senhor . – Martin disse com um sorriso satisfeito ao perceber a preocupação do aluno, desfez seu sorriso para manter sua autoridade. – Acho muito válido que seus pais saibam como anda o desempenho escolar do senhor.
- Não se preocupe, diretor...
- E para não haver motivos para eles não saberem – o senhor levantou-se de sua cadeira. Circulava de um lado ao outro pela sala sem destino algum –, vou eu mesmo até sua residência contatá-los.
- Ainda acho que o senhor não devia se preocupar tanto. – o garoto riu baixo, tentando mostrar-se confiante ao mostrar que aquela era uma saída estúpida. – Se meus pais não souberam até agora, não vão se importar depois da visita do senhor.
- Pensa errado, se pensa assim. – Martin disse em tom exageradamente indignado. – Se eles não se importarem, o juizado de menores se importará. – então sorriu, mais uma vez satisfeito. – Estou certo que seus pais não gostariam de ver o tão querido filho deles sendo levado pelo serviço social.
- Pois bem, diretor Rick. – levantou-se também de sua cadeira, tomando em mãos sua mochila.
- Não é Rick, senhor . É Martin!
- Que indelicadeza a minha. – o garoto abaixou o rosto fingindo vergonha. Estava gargalhando por dentro. – Ainda não consegui gravar o nome do senhor, acredita?
- É difícil acreditar. – o senhor murmurou.
- Enfim... Será bem recebido, já que quer tanto visitar minha casa. Sexta-Feira à noite, então? – o garoto propôs. – Peço à minha mãe que faça um jantar caprichado para o senhor.
tentava parecer amigável com o convite, porém a simpatia despertou a desconfiança do renomado pedagogo, que negou.
- Deixe que eu combine com seus pais. – o homem disse. – Assim poderemos encaixar os horários melhor, sem que haja imprevistos.
- Sendo assim, posso me retirar?
- Claro. – assentiu. – Aguardarei ansiosamente pra conhecer seus pais.
- Vai esperando, babaca. – bufou após fechar a porta do gabinete de Martin.

- Você viu o que havia no mural da entrada? – disse com os olhos um tanto quanto alucinados, passeando-os de Noel à , que se encontravam sentados no jardim social do colégio.
- Não, o quê? – seu irmão disse. Pelo tom da garota, previu que estava alegre, então sorriu.
- Vão fazer uma adaptação de Moulin Rouge pro teatro de verão! – a menina respondeu com a voz mais estridente, fazendo os outros rirem. Sua empolgação era maior que de muitos do colégio com aquela notícia. Sempre fora membro do grupo de teatro e sempre que pode, participou das dramatizações que a instituição propunha. Porém, a peça que estavam para lançar era de uma história da qual ela era apaixonada desde que vira o longa-metragem do musical. Seu irmão Noel sempre dissera que ela deveria viver na França antiga, de tanto que a menina pesquisava sobre os ideais da revolução boêmia acontecida na época. Aquela peça não seria só mais uma peça de colegial. Seria uma realização pessoal. Queria e muito participar da peça, mesmo que fosse só como Nini.
- Por que não se inscreve pra fazer Satine? – sugeriu. – Você ficaria perfeita como uma cortesã francesa, mademoiselle.
- Não sei ao certo. – mordeu o lábio inferior em sinal de temor. – Eu não tenho voz como a da Nicole Kidman e muito menos sou ruiva!
- Você tem uma voz linda, . – Noel disse. – A senhora Vallens era completamente apaixonada pelo seu timbre!
- E quanto à cor do cabelo, a gente pode dar um jeito. – disse mexendo em alguns fios dos cabelos cacheados da amiga.
- Mas a senhora Vallens era velha e meio surda. – disse, rindo junto aos dois em seguida. – E não sei se quero mudar a cor do meu cabelo por uma personagem. – acalentou os próprios cabelos, beijando-os em seguida em um ato cômico de demonstração de carinho.
- Pelo menos tente! – o garoto disse. – Você não vai perder nada, não é mesmo?
- Eu concordo com teu irmão. – a amiga disse. A garota ponderou um pouco, finalmente assentindo.
- É, eu realmente não tenho nada a perder! – disse sorrindo. – E, se por acaso eu ganhar o papel, serei a melhor Satine já interpretada em um teatro amador!
- Isso, ! – sorriu também, estendendo a mão para que a amiga tocasse. – Pensamento positivo!
- Vamos mandar boas energias pra você no teste, não se preocupe. – Noel disse, também sorrindo.
- Por acaso você acha que não vão ao teste comigo? – pôs a mão na cintura após ter tocado a de sua amiga. – Vocês que me botaram isso na cabeça, agora vão ter que me ver chorar, seja de alegria ou tristeza!
- Já que insiste. – os outros dois disseram juntos, rindo em seguida.

- O que o velho queria? – Allison indagou.
- Aquele esclerosado quer falar com os meus pais! – disse transtornado. – Ele desconfiou sobre termos roubado o gabarito e me deu uma prensa!
- Mas como ele descobriu? Era quase impossível! – , até então calmo, desesperou-se. – Agora aquele filho da puta vai vir falar com todos nós!
- Se ele vier, é só negar. – Emma disse serena, tentando acalmar o eufórico namorado. – Ele não pode nos acusar sem provas.
- Mas e se ele tiver provas? – Allison disse, irritando mais .
- Se tiver, fodeu. – o garoto bradou. – Nós vamos ser expulsos dessa joça e meus pais vão querer me mandar pro País de Gales!
- Pelo menos é perto da Inglaterra. – disse tentando amenizar a situação, não obtendo sucesso. o reprovou com o olhar e deu as costas, caminhando para o nada; Allison e Emma abaixaram a cabeça e negaram, ocasionalmente sincronizadas. – Eu só tentei melhorar o clima!
- Emma, cale a boca desse energúmeno antes que eu faça isso. – Allison levantou-se da mesa do pátio, indo atrás de .
- Juro que não foi por mal! – ainda tentava justificar.
- Eles estão de cabeça quente, esquece isso. – a garota beijou a bochecha do namorado e recostou-se melhor no banco, vendo o casal sumir.
O senhor e senhora não podiam saber disso. Não podiam sequer cogitar a ideia de que seu filho havia furtado o gabarito da terceira prova bimestral. Martin não devia ter nem desconfiado que isso aconteceu. Conforme o planejado por , ele faria a prova, passaria de ano já no terceiro bimestre e teria férias adiantadas. O plano perfeito.
Se não fosse o fato de e seus amigos não terem pensado em fingir prestar atenção às aulas.
Obviamente um professor desconfiaria de seus piores alunos se eles tivessem acertado 100% da prova programada para ser de grau de dificuldade grande, mesmo que houvesse força de vontade por parte desses. Seria justo desconfiar de não só esses tipos de alunos, mas de todos, com exceção dos que frequentam todas as aulas, prestam atenção em todas ou a maioria delas e conseguem atingir uma boa nota desde o primeiro bimestre. O caso de , Noel e .
- Me disseram que o roubou o gabarito da prova de Física. – comentou. , que estava distraída, continuou olhando para a entrada do colégio.
- Mas como ele fez isso? – Noel perguntou um pouco surpreso.
- Também não faço ideia. – a garota respondeu. – Mas pra ele ter feito isso, devia estar muito desesperado.
- , você tá ouvindo isso? – o garoto virou para a direção em que presumia ser onde sua irmã estava. Não obteve resposta. – ?
- Hm? – finalmente respondeu, voltando seu olhar para o banco onde estavam seus amigos. Suspirou pesadamente. – O que foi?
- Eu ainda acho engraçado você se virar pra onde as pessoas estão sem nem poder vê-las. – riu baixo, assim como Noel.
- Da última vez que ela falou alguma coisa, estava pra esse lado. Eu não gosto de ficar virado sempre pra frente pra falar com as pessoas, me sinto estranho. – ele explicou, virando-se novamente para a irmã. – A disse que possivelmente roubou o gabarito de Física.
- Bem a cara dele. – resmungou. – Não sei como ainda não foi expulso do colégio.
- Sorte. – sugeriu. – Só pode ter sido.
- Ou provavelmente os pais dele subornam o professor. – Noel disse e as duas concordaram. Ouviram o sinal tocar indicando fim do intervalo. Levantaram-se os três. – Agora sigam-me os bons.
- Olha que besta esse garoto! – disse rindo, dando um tapa fraco no braço do garoto.
- Anda muito confiado, esse aí. – disse rindo também. Começaram a caminhar em direção ao corredor, onde alguns alunos se espremiam para passar.
- Mas também, cercado de garotas bonitas, quem não vai se achar?
- Cercado de garotas bonitas sendo que uma é sua irmã e a outra tem namorado? – riu mais uma vez.
- Desde que ninguém saiba isso, estou feito! – Noel riu também.
- É melhor esperarmos um pouco. – disse indo para o canto. – Está muito cheio.
- O que é isso nas suas costas, ? – se referia a um pequeno inseto pousado no ombro da amiga. A garota tentava enxergar o que havia, enquanto a amiga tentava espantar o inseto. Saindo da multidão de pessoas, ainda era seguido por Allison, que tentava inutilmente conversar com o garoto. Já bastante estressados, os dois começaram uma discussão ainda na entrada do colégio. Ao virar-se para sair, acabou trombando de frente com Noel, que estava distraído com a amiga e a irmã. Os dois foram ao chão, cada um para um lado. Com a diferença de que rapidamente se levantou. e rapidamente acudiram Noel.
- Some da minha frente, idiota! – esbravejou antes de voltar a caminhar.
- , cuida dele que eu vou atrás desse babaca. – a garota disse já soltando o irmão.
- Não, , volt... – a amiga tentou impedir. – Já foi.
- Deixa, daqui a pouco ela volta. – Noel disse recompondo-se.

’s P.O.V.

- Quem você pensa que é, seu imbecil? – ouvi uma voz estridente atrás de mim. Virei pra ver quem era e vi a garota estranha da minha sala. Qual o nome dela mesmo?... Dane-se, não me importa.
- Que você quer? – tentei ser o menos grosso possível, pra evitar que aquela coisa ficasse me enchendo o saco.
- O que eu quero? – ela repetiu parecendo espantada com o que eu tinha dito. – Que você tenha pelo menos um pouco de noção das merdas que faz!
- Pode ser mais específica? – disse com desinteresse. Queria era aproveitar a brecha pra sair daquele colégio logo.
- Ah, além de tudo é burro. – riu com ironia, o que me fez ter menos interesse ainda em ficar ouvindo. – Você acabou de derrubar o Noel e não teve um pingo de semancol pra ajudar! – ah, foi esse o motivo do chilique. – E se algo tivesse acontecido a ele? Você não pensa nos outros, não? Não, não precisa nem responder! Dá pra ver isso pelas suas atitudes! – sorri por segundos, como se dissesse que não me importava a mínima com ela. Dei as costas e continuei a andar até o portão. Eu tinha pouquíssimo tempo pra escapar. – Volta aqui! Aonde pensa que vai?
- Pela primeira vez, estou pensando em mais alguém. – disse com a mesma ironia que ela usou. – Estou pensando em ficar bem longe de você e seu ataque.
- E você vai fugir do colégio pra fazer isso? – garota chata. Ergui meu braço mostrando o polegar pra ela. – Você sabe que eu posso fazer você se encrencar e muito, né? – parei de caminhar.
- Você não faria isso. – disse de modo confiante.
- Duvida?
- Sinceramente... – girei sobre os calcanhares, encarando a peste. – Sim. – sorri vitorioso. – Isso seria contra os seus princípios de “menininha doce e amada por todos”.
- Vai pagar pra ver, então? – ela estava me desafiando. Psicologia inversa não estava funcionando com ela.
- Faça o que quiser. – dei de ombros e então sai. Consegui despistar o porteiro, mandando o cara ir até o pátio porque havia briga. Não sei como ele ainda cai na minha.
Peguei as chaves do meu Mustang Coupe e girei nos dedos enquanto andava, distraído com os peitos de uma ruiva que passava no sentido contrário ao meu na calçada. Abri um sorriso de soslaio e recebi resposta. Ponto pra mim. Desativei o alarme, chamando a atenção da mulher brevemente, como se perguntasse a ela se queria dar uma volta. Ela voltou a olhar pra mim e negou, ainda com um sorriso no rosto. Dessa vez meu amigo não ajudou muito.
Eu corria muito, precisava ir pra longe de casa. Ir a Southsea talvez fosse uma boa; praia é sempre uma boa. Enquanto dirigia, flashes daquela manhã passavam na minha cabeça. Tinha que arrumar um jeito de não ser expulso, não quero morar em outro país nem que me paguem – bom, se me pagarem eu até penso no caso, mas duvido que o façam. Aquele pseudo-menudo vai me pagar, se for falar com meus pais. Sem bem que, se eu saísse, não ia conseguir um colégio já no final do semestre, então ficaria um bom tempo sem aulas. Não iria precisar aguentar a coisinha estranha e seus amigos aberrações. Com toda certeza, se eu tivesse ignorado de início, não seria chantageado pela namoradinha do cegueta. Malditos seres do submundo desse colégio.

Capítulo 2

- O que você foi fazer, ? – indagou ao ver a amiga se aproximar. tinha expressão firme, fechada. Era notável que sua conversa não havia sido boa.
- Ficamos preocupados. – Noel completou.
- Noel nem tanto, mas eu sim. – a amiga disse, rindo baixo. – Então, o que foi fazer?
- Tentei tirar satisfações, mas aquele imbecil nem me deu ouvidos. – a outra disse com rancor, os olhos semicerrados somente de lembrar-se do olhar dissimulado de . – Acreditam que ele ainda fugiu do colégio?!
- E foi pra onde? – dessa vez, seu irmão indagou.
- Tomara que pro inferno. – ela respondeu entre dentes, ele franziu o cenho.
- Não diga uma coisa dessas! – a repreendeu.
- Tudo bem, como queira. – a garota deu fim ao assunto. Virou-se para sua amiga. – , vamos logo levar Noel, antes que nos deixem fora de sala. – deu a mão ao irmão, começando o trajeto até a sala dele.
- Claro. – a outra respondeu, os acompanhando. Assim que deixaram o caçula em sua sala de aula, e tiveram de correr para assistir à aula de História – que já decorriam seus primeiros minutos.
Por sorte, , a presidente do clube de teatro, estava por iniciar seu recado.
- Ainda bem que chegou, ! – a garota disse sorridente. – Já ia falar tudo sem você aqui!
- Você não faria uma loucura dessas depois de meses me escondendo isso! – brincou, indo até sua carteira acomodar-se. fez o mesmo, sentando ao lado.
- Agora que todos já estão aqui... – começou. – Pra quem não me conhece, sou , presidente do grupo de teatro. Vim aqui em nome do clube e da professora Moore informar que na peça de verão desse ano será feita a reprodução do musical Moulin Rouge, como alguns puderam ver no cartaz exposto no hall do colégio. A peça foi toda redigida por mim e terá a direção da Sra. Moore, claro...
- Como você só soube disso hoje? – indagou, virada para sua amiga.
- A Sra. Moore quis fazer uma surpresa pro grupo. – respondeu rapidamente, os olhos ainda presos na presidente do clube. Sorria com empolgação pela notícia. – E realmente conseguiu.
- As inscrições serão feitas até meio dia de quarta-feira, que será o dia das audições para os papéis principais. Todos podem se inscrever; a peça dessa vez precisará de um número grande de atores e o clube não tem tantos alunos para isso. Vocês poderão se inscrever indo ao grêmio estudantil, que fica na sala ao lado do clube de filatelia; no clube de teatro, que fica na sala cinco do terceiro andar; ou diretamente comigo. Vou estar no auditório Claude Monet, aquele da porta azul, perto da enfermaria, depois da saída, com a relação de nomes pra audição.
- As audições serão em pares ou individuais? – Cecile, que fazia parte do coral do colégio, questionou.
- Se você tiver um par, pode fazer o teste com ele sim. Desde que o garoto esteja inscrito também. Mais alguma pergunta?
- Você não vai participar não, ? – a Sra. Schatzman perguntou. – Você tem a voz tão incrível!
- Não, dessa vez vou ficar só na produção mesmo. – a garota respondeu visivelmente desapontada. acresceu seu sorriso ao ouvir. – Não seria muito justo eu redigir a peça e inda me nomear protagonista. Vou dar chances pra outras meninas daqui do colégio. – recebeu o olhar de , desfazendo seu sorriso para não parecer totalmente feliz com a resposta. – Garanto que vai haver alguém melhor que eu.
- Ouviu isso? – virou-se para ligeira, proferindo as palavras com discrição e pressa, enquanto ainda eram respondidas as perguntas dos alunos. – Se a não vai participar, eu tenho mais chances de conseguir o papel!
- Tecnicamente, todas no colégio têm chances. – a garota disse. Riu do próprio comentário, sendo censurada com o olhar. – Mas falando sério agora, tenho certeza que esse papel já é seu.
- Será?
- Não conheço ninguém mais dedicado e com melhor preparo que você! – encorajou a amiga.
- Melhor preparo, eu? – desacreditava.
- Claro! – disse fervorosa. Receberam as duas os folhetins com mais informações. – Quantas peças já interpretou?
- Cinco. – pegaram um para si e passaram para trás mutuamente.
- E quantas como protagonista?
- Três.
- Quer mais alguma coisa que comprove? – sorriu vitoriosa, negou, rindo baixo.
- Não precisa. – e começou a ler o folhetim, ignorando toda a aula, como muitos na classe.

- , aonde você tá, cara? – dizia ao celular, esgueirando-se pelas instalações do colégio. Já havia tocado o sinal da saída, grande parte dos alunos já havia partido. Restava apenas ele e mais alguns gatos pingados pelo térreo.
- Quase em Southsea. – o outro respondeu com certa pressa.
- O que você tá fazendo indo pra Southsea?! – mesmo sem querer, gritou. – Você tá chapado?!
- Não fala merda. – o outro respondeu com acidez. – Vou passar o dia por aqui, amanhã de tarde já estou de volta. Tô dirigindo, depois falo contigo.
- Espera, ! – gritou mais uma vez, chamando a atenção de alguns por ali. – ? ?!
- Me desculpa pela intromissão... – disse baixo. –... Mas acho que já desligaram. – e riu. fez o mesmo.
- Ele não conhece educação. – comentou. Ficaram um tempo em silêncio, os sorrisos estampados ao rosto sem nem hesitarem em sair dali. Estendeu a mão à garota. – .
- . – ela disse, apertando a mão oferecida. – Acho que já te conheço... – analisou as feições dele ao soltar sua mão. – Aliás, quem não conhece os amiguinhos do ?
- Prefiro ser lembrado não só por isso. – ele desfez um pouco de seu sorriso, mas ainda o mantendo vivo.
- Ah, claro, desculpa... – ela agitou-se um pouco, mexendo seus dedos dentre os cabelos. – De novo.
- Relaxa, você não é a única a fazer isso. – ele riu da reação dela. – O que ainda faz aqui? Digo, porque ainda está aqui, depois do horário, em plena segunda?
- Nada demais, só esperando uma amiga. – a garota respondeu um pouco acelerada, fazendo a frase parecer poucas palavras.
- Se importa se eu ficar com você? – disse inocente. Ao ver a confusão no rosto da garota, tocou-se do que havia falado. – Quero dizer, ficar com você esperando sua amiga. – explicou, rindo baixo em seguida.
Estaria ele embaraçado por estar falando com uma garota? Logo ele, que já teve tantas?
- Você não precisa dizer nada, se não quiser, claro. – tentava completar. – É só que... Er, dizem que é bom ter sempre a presença de alguém... – abaixou o volume da voz gradativamente.
- Sei... – ela abafava um riso curto.
- Eu não costumo acreditar nisso! – ele disse do nada. – Mas é que... Sei lá, eu não tenho nada melhor pra fazer e... Não que eu esteja te menosprezando, é só que...
- Já entendi, . – a garota riu. – Por mim, tudo bem.
Permaneceram um tempo em silêncio, procurando o que dizer em cada canto daquele pátio quase deserto. Passados alguns minutos, era quem se embolava com as palavras ao tentar explicar o livro “Admirável Mundo Novo” sem deixar passar nenhum detalhe. sequer entendia o que ela desastrosamente explicava, entretanto, mantinha o mesmo interesse. Estava gostando do humor contagiante da garota.
Humor esse que fazia jus às cores alegres – e chamativas – das roupas dela.

- Vai tentar protagonizar mais essa, ? – perguntou checando a assinatura da garota. assentiu.
- Acho que eu seria doida de não tentar. – concluiu, dando passos para o lado para dar vez à outra aluna. – Depois de tanto tempo enchendo o saco da Sra. Moore, eu tinha a dívida de pelo menos tentar.
- E você vai conseguir, tenho certeza! – a outra disse esperançosa, pegando mais uma vez a lista e checando o nome assinado. – Só é uma pena que eu não possa entrar na peça nem como Marie.
- Sem chances?
- Nenhuma. – respondeu desapontada. – Mas tenho certeza que vai haver uma Satine melhor do que eu faria.
- Não diga uma coisa dessas, . – a repreendeu. – Você sabe que é a melhor desse colégio, tanto é que te colocaram como presidente do grupo.
- Já não tenho sido a melhor há cinco peças. – a garota disse por fim. – Sério, quando eu me formar, não duvido que você seja escolhida a nova presidente.
- Se isso acontecer, algumas pessoas irão ficar loucas de raiva! – as duas riram.
- Aconteceu o mesmo comigo. – confessou, rindo um pouco mais.
- Tenho que ir agora. – disse descontente.
- Aaah, mas já? – a outra tomou a mesma expressão ao vê-la assentir. – Não pode esperar o aparecer, não? Eu também já estou indo, vou só esperar ele chegar.
- tá me esperando e Noel foi sozinho pra casa. – ela explicou. – Tenho que ir mesmo.
- Ok, até mais então, . – despediram-se com um abraço por sobre a mesa.
- Até, .
Andava com certa pressa do auditório para o pátio. Queria encontrar logo , mas a grandeza daquele colégio atrapalhava um pouco.
devia estar bastante certa, para dizer aquilo. era boa atriz, porém nunca teve ambição de chegar à presidência do clube. Exercia as aulas por gosto, sem nenhuma pretensão. Tomar a frente de um grupo seria responsabilidade demais para ela. E responsabilidade era algo que consumia muito de seu tempo.

’s P.O.V.

Eu? No lugar da ? Eu? Não mesmo.
Não que eu não queira – eu até gostaria. Mas... Presidente do clube de teatro? Isso seria tão... Inusitado.
Não, retiro o que disse!
Inusitado é ver e aquele amiguinho do . Isso se era ela. Mas duvido que alguém fosse vestir tantas cores em um modelito só.
- ? – disse meio insegura, torcendo pra que fosse ela.
- Oi? – era ela. – Ah, oi !
- Vamos? – sugeri, sem nem dirigir a palavra ao garoto. – Noel deve estar me esperando pra almoçar ainda.
- Certo. – ela assentiu. – Até mais, . – disse e acenou pro garoto, que fez o mesmo.
Viramos a caminho do portão, sem dizer uma palavra. Eu ouvia músicas no meu iPod e ela estava entretida com os próprios dedos. Olhei algumas vezes de rabo de olho e ela permanecia em sua brincadeira de subir e descer dedos. Não proferiu uma palavra sobre o tal , mas seu sorriso já dizia muita coisa.
- Terra para ! – brinquei.
- Hm? – ela acordou, finalmente. Ainda tinha o mesmo sorriso bobinho no rosto.
- No que tava pensando?
- Eu? – assenti. – Não, nada; nada, não.
- O caminho de casa te deixou feliz, é? – ri.
- Não é nada, só algo que eu tava lembrando. – ela chacoalhou a cabeça, negando. Ok, eu sou o Bozo. – E como foi lá com a ? Tinha muita gente pra se inscrever também? Quem você acha que tem grandes chances de interpretar Christian?
Alegria em excesso.
- Ah, foi normal. O que poderia haver de tão bom em assinar um papel? – ri de novo. – Tinha algumas pessoas quando eu fui me inscrever, mas eu não conhecia muitas. Também não deu pra ver quem ia fazer audições pra fazer o Christian. – respondi. – Fiquei um tempo conversando com a e ela pareceu triste por não participar.
- Mesmo se ela participasse, teria que ser como figurante, porque ela já tá bastante ocupada produzindo a peça.
- Verdade que... – disse animada.
- E do jeito que você tá louca pra fazer papel de Satine, mesmo se ela tentasse, não ia conseguir o papel. – educação mandou lembranças!
- Eu acho que... – tentei dizer, um pouco menos animada por causa da interrupção.
- E também ela é...
- Posso falar?! – berrei, assustando a tagarela. Rimos em seguida.
Pela euforia dela, a conversa com o garoto foi boa.
- Ok, desculpa, fala. – ela disse ainda rindo.
Corrigindo: a conversa foi ótima!
- Obrigada. – disse ainda rindo, também. – Verdade que eu fiquei bem empolgada por ela não participar, mas acho que várias meninas vão competir comigo na audição de quarta. – desânimo estampado em mim. – E se aparecer alguém tão boa quanto ela?
- Deixa de ser insegura, mulher! – me censurou com um tom de voz engraçado. – Você é experiente, capacitada e empenhada, além de ter o apoio da , que eu bem sei. A Sra. Moore não seria doida de colocar uma amadora qualquer!...
Parei pra pensar e vi que ela estava certa. Eu estava sendo insegura, como sempre.
Mas eu estava sendo insegura com razão.
Assim como eu, outras garotas – do grupo de teatro, canto ou qualquer outro – que admiram o musical irão fazer o teste para o papel principal. Existem enormes chances de uma garota qualquer surpreender e acabar tendo seu nome no cartaz da peça.
Eu queria – e ainda quero – estrelar a peça;
Eu vou estrelar a peça.
- Vou dar o meu melhor nesse teste! – interrompi a falação de . – Vou fazer o possível e impossível pra ganhar o papel e vou ser a melhor Satine vão ouvir falar.
- Só espero que a fama não suba sua cabeça! – ela disse rindo e eu não consegui não rir também.
- C’est vos trope!* – reprovei seu comentário, ainda rindo.

*Isso é exagero!

Capítulo 3

Passou toda a tarde jogado sobre a areia. Queria fugir de sua realidade e ali conseguira. Por um instante, sabe-se lá quanto tempo foi, sentiu arrependimento por todas as besteiras que havia feito.
Nem todas, melhor dizendo; algumas serviriam como boas lembranças dali a um tempo. Procurou forças para levantar seu corpo adormecido, passos lentos afundavam seus tênis nos grãos finos. Chegou àquela casa que há tanto não visitava. Previu que, ao abrir o portão, um senhor alto viria lhe receber e chamá-lo de ‘grandão’, como fazia.
Mas não houve nada disso.
Abriu a grande e pesada porta de carvalho, fazendo ecoar o mesmo rangido dos velhos tempos.
Aquela casa, vazia daquele jeito, trazia tanta melancolia...
Um aroma familiar evadiu suas narinas, levando-o à cozinha. Encontrou a mesma velha senhora baixa e rechonchuda cantarolando os mesmos velhos boleros. Apoiou-se no batente da porta, soltando um riso curto, o que despertou Victoria.
- Oh, ! – a senhora exclamou, deixando a colher que usava sobre a bancada da pia. – Quanto tempo! – foi de encontro a ele, que estendia os braços. – Como você cresceu! – o abraçou. – E como está magro! Não tem comido não?
- Também senti saudades, Vica. – o garoto disse ainda rindo.
- Sente! – ela disse ao soltá-lo, indicando uma das cadeiras da mesa em tabaco ao centro da espaçosa cozinha. – Estava fazendo suco de laranja pra pôr no bolo.
- Não quero incomodar. – ele disse, acomodando seu corpo sobre a cadeira.
- Que incomodar o quê, menino! – ela riu. Voltou-se para o forno, onde espetou uma garfada na massa do bolo. – Você é o dono da casa!
- Mas você quem está cozinhando! – ele retrucou. – Não precisa se preocupar comigo, eu como uma fruta. – e esticou-se um pouco, pegando uma maçã verde sobre a fruteira ali perto.
- Você vai comer a maçã e o bolo. – a senhora ordenou.
- Tudo bem, tudo bem. – ele riu, finalmente mordendo a maçã. – E onde tá o Jonsey?
- Em Manchester. – a governanta respondeu. Provou um pouco da massa. – A filha dele entrou em trabalho de parto logo no início da tarde, ele teve que ir correndo pra lá.
- Qual filha, a Livie?
- Isso. – pôs o tabuleiro quente sobre o centro da mesa. – Vocês dois costumavam brincar bastante, quando eram pequenos.
- É... – ele respondeu, rindo por dentro. Se Dona Vica soubesse quais eram as brincadeiras... – Faz tempo que não a vejo.
- Ela esteve aqui mês passado pra ver seus pais, mas você, como sempre, não veio. – a senhora sentou-se à mesa.
- Eu tenho preferido ficar em Londres mesmo.
- E o que te trouxe aqui, então? – olhou de forma desconfiada para . – Andou aprontando, por acaso?
Mesmo depois de anos, ela ainda o conhecia bem. Victoria não perdia seu jeito peculiar. - Foi nada demais. – ele mentiu.
- Eu te vi nascer, não tente me enganar. – ela disse em tom divertido. Riu mais uma vez, fazendo-o rir também. – O que houve, ?
- Nem sei por que ainda tento.
- Teimosia igual a do pai! – implicou, rindo um pouco mais.
- Eu roubei o gabarito de Física. – o garoto interrompeu as risadas da senhora, abaixando o olhar para a maçã mordida em sua mão.
De todas as pessoas do mundo, a governanta era a única que o fazia temer.
- Você o quê? – ela disse previamente espantada. – Por quê?
- Eu nunca fui um gênio e nem mesmo um aluno bom. – estava transtornado. – Eu precisava e ainda preciso tirar mais que 10 pra não reprovar. E eu não quero nem cogitar a ideia de ficar mais um ano em um colégio. Quero terminar logo o segundo, fazer o terceiro, e tchau escola!
- Você teve quase oito meses pra estudar e só se preocupou agora no final?! – a senhora indagou. – O que você quer da vida agindo desse jeito?
- A senhora não precisa me dar sermões. – ele finalmente a encarou. – Se nem meus pais fazem isso, não é a senhora quem vai fazer.
- Ah, isso é pra chamar a atenção dos seus pais, então?
- Não, de jeito nenhum!
não achava uma razão plausível para seu comportamento. Parecia que, ao fazer o errado, sentia-se aliviado. A todo tempo, procurava fazer algo dito como proibido. A adrenalina do momento o confortava e não havia quem o parasse.
E realmente nunca houvera alguém que o parasse.
Por mais que tentasse se convencer que não, a causa dessa revolta era, sim, os senhores . Ou a ausência deles. Victoria sabia muito bem disso.

O teto parecia lhe pender a atenção. As pálpebras nunca pareceram tão insistentes em se manter abertas. Não tinha sono, não tinha vontade de dormir. Seus pensamentos eram nulos, era só tentar fechar os olhos e milhares de coisas o surgiam à mente, sumindo assim que despertava mais uma vez.
Cansado desse maçante jogo, levantou-se. Pegou seus pertences e saiu de casa depressa para não ser interrompido pela velha senhora.
Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols era o CD que tocava em seu Mustang. Era o cd que se repetia por todo o percurso até Londres.

Descansou os olhos e um turbilhão de coisas lhe veio à mente. O sono, que deveria aparecer, não se fez. Encarou o teto e viu o contorno das estrelas fluorescentes. Tinham poder hipnotizante sobre a garota.
Mais uma vez a passagem dos resquícios de luz foi impedida. Uma vez mais pensamentos surgiram.
Casa, escola, estudos, futuro... Tudo, absolutamente tudo, a impedia de tirar sua pestana.
Mantras de diversos tipos foram usados; concentração não seria voluntária àquela hora mesmo que por um minuto. A leitura só engoliu ainda mais os indícios de sono.
A porta pareceu colaborar não fazendo nenhum ruído. Fechou o casaco e jogou o capuz sobre a cabeça. Os cabelos com cachos grossos e pesados envolviam o pescoço. Ventava muito.
Tomou uma condução até redondezas de Camden, por onde andou algum tempo. Sentou sobre o meio fio, ouvindo Iron & Wine cantar suas canções folks. Seus olhos vagavam nos faróis de carros que iluminavam um pouco mais o chão da rua.
Olhos dissimulados lhe vieram à cabeça; os olhos de lhe vieram à cabeça.
Aqueles olhos lhe passavam mais do que queriam. Eles lhe passavam raiva, lhe provocavam raiva. Raiva e outro sentimento que sua mente nem mesmo sabia qual era, só sabia que era obscuro. Expirou forte o ar, sentindo a corrente de ar quente bater em suas mãos sobre as pernas. Levantou e continuou a caminhar.

Após pouco mais de uma hora, já estava na capital. O desânimo de encontrar seus pais àquela hora o fez não entrar em casa. Voltou à rua e andou poucos metros até um portão de grades pretas. Agradeceu por não haver ninguém ali naquele horário. Rumou a um banco que havia ao centro daquele jardim particular.

Um portão de grandes grades pretas estava entreaberto, chamando a atenção da garota. A curiosidade para ver o que havia ali era grande, apesar do receio. Andou pelo caminho curvilíneo de concreto que levava a uma árvore ao centro. Ao lado da árvore, um banco. No banco, uma pessoa que se virou rapidamente ao ouvir o suspiro de .
- Esse lugar é particular, não sabia? – o garoto disse ríspido, levantando-se do banco.
- Desculpe, eu não sabia que... Desculpe. – ela tentou amenizar a situação. , por um instante, reconheceu a voz da menina, mas não ligou à pessoa. – Eu já vou. – a garota deu o primeiro passo à saída.
- Espera! – ele pediu. Andou até a garota assustada e constrangida, que ameaçava correr dali a qualquer momento. – Eu não sou nenhum tarado, não se preocupa. – ele disse em um tom divertido e pode ouvi-la rir.
- Você não vai chamar a polícia por eu ter entrado aqui sem permissão, né? – indagou, tentando enxergar o rosto escuro do garoto. – Até eles chegarem, eu posso muito bem correr e sumir!
- Não, não... – ele riu. Tentava distinguir os traços faciais da garota, sendo impedido pela pouquíssima iluminação. – É que... – franziu o cenho. – Ah, esquece.
- Não faça isso comigo! – ela disse manhosa.
O jeito com que falou levava qualquer um a pensar que se conheciam. Ela sentia que o conhecia. De um modo estranho, confiava que ele não a machucaria.
- Isso o quê? – ele perguntou um pouco espantado. – Não fiz nada!
- Você me deixou curiosa. – ela resmungou.
- Ah, sim... – o garoto balançou a cabeça em sinal de entendimento. – E por que você ainda tá falando comigo? – indagou. – Você tem noção de que eu poderia ser um estuprador?
- Um estuprador me atacaria de uma vez, você não fez isso. – ela concluiu. – E, sinceramente, eu não sei por que ainda estou falando contigo.
- Hm... Aproveitando que você ainda não quer fugir, como entrou aqui?
- Pelo portão, estava entreaberto. – riu ao vê-lo coçar a cabeça e olhar para o portão. – Que barulho é esse? – apavorou-se ao ouvir galhos sendo mexidos. Enroscou os braços nos dele, que riu baixo de sua reação.
- Cuidado! – ele disse baixo. – Deve ser algum cachorro de rua, ele pode tá raivoso! – gargalhava por dentro com sua própria mentira e por ver que ela estava sendo levada a sério. – É melhor a gente ficar quieto e, de preferência, juntos, pra que ele não avance em nós.
- Tem certeza?
- Absoluta. – respondeu sério. – Não se mexe. – pôs-se atrás da menina, segurando firme seus braços.
- E se ele vier aqui? – a garota respirava rápido, temerosa.
- Deixa ele sentir teu cheiro, não faz mais nada. – ele respondeu, mordendo o lábio inferior para não rir.
Santi, o golden retriever da casa vizinha, saiu de trás dos arbustos, indo em direção aos dois. fechou os olhos com medo do pior acontecer. Abriu o olho por curiosidade, vendo o contorno escuro do que parecia uma coleira. Foi então que estranhou o fato de um cachorro de rua ter coleira. Sorriu de soslaio, entendendo as reais intenções de .
- Será que se você me abraçar, ele vai perceber? – sussurrou.
- Acho que não... – ele respondeu, incerto sobre o que ela queria. – Vou tentar. – levou as mãos à cintura dela, cruzando os braços sobre sua barriga.
- E se a gente ficar um de frente pro outro, ainda juntos? – ela sussurrou mais uma vez, enquanto o cachorro rondava os dois.
- Você quer tentar? – ele a viu assentir.
Aos poucos, virou para , que havia afrouxado um pouco os braços envoltos a ela. Quando puderam ver-se de frente, a garota colou seus lábios aos dele. Foi algo inesperado por ele, mas prazeroso na mesma proporção.
- Desculpe, eu não devia ter feito isso. – ela disse, partindo o beijo. – Eu não costumo fazer isso e...
- Foi... Diferente. – ele riu.
- É, pra mim também. – ela também riu. – Foi o mais estranho primeiro beijo que eu já dei em alguém, mesmo tendo sido um ‘quase’ beijo.
- Obrigado por não ter fugido. – ele sorriu, mesmo tendo noção de que a escuridão a impediria de ver. Ela fez o mesmo, também tendo ciência de que seria inútil.
A presença do outro era estranha para ambos. Talvez pela falta de descanso, estivessem fantasiando todas aquelas ações, feições, reações, mas tudo era muito real.
Só não sabiam como aquilo veio a acontecer.
abraçou-se mais forte ao garoto ao conhecer a corrente gelada que batia. Com aquele garoto sentia-se protegida, mesmo não sabendo quem era seu protetor. Todas suas preocupações e frustrações que a tiraram de casa em meio à madrugada desfaleceram junto ao vento frio.
O desconhecido a confortava de tal forma que não havia conhecido em anos.
Porém aquele conforto não poderia se prolongar por aquela noite. Ela ainda tinha compromissos a cumprir, responsabilidades para ter, toda uma rotina fora dos padrões de sua idade para levar.
- Droga! – ela murmurou ao lembrar-se, os olhos ainda fechados. – Eu tenho que ir. – afrouxou o abraço. Àquela hora, Santi mordia um galho mais à frente.
- Não, fica. – ele a abraçou mais forte. Ao notar o que havia feito, arregalou os olhos.
- Eu não posso. – a garota se soltou rapidamente, deixando apenas alguns dedos pendendo aos dele. – Mesmo. – soltou-os, caminhando rápido em direção à saída do jardim.

’s P.O.V.

- Espera, mas e o seu nome? – perguntei alto. A garota se virou pra mim.
- Se a gente se encontrar outra vez, eu digo. – respondeu. Mas como eu ia encontrá-la eu não tinha ideia.
- Me dá seu telefone, então? – apelei. Nunca precisei pedir o telefone de uma garota, porque elas me davam.
- Vamos deixar isso com o destino, ok? – ela sugeriu. – Se for pra nos encontrarmos de novo, é porque temos que ficar juntos. – franzi a testa.
De onde ela tirou essa de destino?
- E se isso não acontecer?
- Esse terá sido o melhor beijo que eu já dei. – me peguei sorrindo ao ouvir isso. – E eu vou guardar sempre.
- Eu moro... – minha última chance.
- Não, não, não! – ela me censurou. – Não diz! Deixa estar.
- Tudo bem, então. – finalmente concordei. Não tinha jeito mesmo.
Vi os cachos voarem para trás assim que o capuz caiu. Ela corria para a saída. Provavelmente não morava por aqui e tinha que voltar pra casa.
No mínimo, ela deve ser maluca. Maluca que eu até simpatizei, assumo.
O pior é que eu nunca mais vou encontrar essa garota... Ah, maravilha! Eu virei no mínimo afeminado pra pensar em nunca mais ver uma garota. E daí se eu não a ver? Eu posso ter várias, de todos os tipos! É pra isso que servem os puteiros!
Ou colégios mesmo, é quase igual.
Se bem que eu queria distância de colégios. E ainda quero. Contudo, eu ainda tenho que frequentar o meu até julho, pelo menos.
Até lá terei que ver Ally...
Depois desse estranho episódio, acho melhor ir pro meu quarto. Meus pais já devem ter desistido de me esperar, como sempre.
Nota mental: Comprar biscoitos pra cachorro. O esganiçado do Santi mereceu, dessa vez.

Joguei todo meu peso sobre o king size e tirei só os tênis. O sono finalmente tinha aparecido e eu não lutei contra ele nem um pouco.
Acordei alguns minutos depois com minha mãe me chamando. O que ela queria comigo às... Sete da manhã?!
- Estamos atrasados. – seu rosto não estava nenhum pouco amigável.
- Estamos? – arqueei a sobrancelha, me pondo sentado sobre a cama. Esfreguei as mãos com força no meu rosto, tentando me despertar. – Quem ‘estamos’?
- Eu, você e seu pai. – ela respondeu como se fosse óbvio. – Nós vamos te levar ao colégio. E, a propósito, não vai precisar levar sua mochila.
- Vocês o quê? – gargalhei. Ela só podia estar brincando com a minha cara. – Isso foi uma piada, né?
- Não, não foi. – meus olhos quase saltaram do rosto. – O diretor Martin ligou e disse que precisava falar conosco com urgência e eu disse que iríamos hoje até lá resolver o assunto. – filho duma puta. – Reze pela sua vida tranquila aqui em Londres, . Você vai precisar.
Aquela manhã não seria boa, era altamente perceptível. E a única coisa que eu conseguia pensar era: Fodeu.

Capítulo 4

- Vem logo, ! – disse encostada à porta do banheiro feminino. – Você não tá igual a um macaco albino, eu gostei!
- Você tá falando isso porque é minha amiga! – a garota choramingou dentro de uma das cabines. – Eu falei para mulher só para clarear e ela descoloriu tudo! Tá horrível!
- Só para constar, eu gosto de cabelos descoloridos. – a amiga comentou. Deu passagem para duas garotas. – Por acaso tá dizendo que meu gosto é ruim?
- Não, eu disse que o meu cabelo tá horrível!
- Me deixa ver direito, pelo menos! – pediu. – Até agora só vi as pontas!
- Não! Ninguém vai ver!
- Por quê? – a atitude infantil da amiga a fazia rir. Para não ser censurada, ria baixo.
- Porque tá horrível, já disse! – gritou, assustando as garotas que se olhavam no espelho. As duas olharam para , que riu mais uma vez. – Você tá rindo de mim, por acaso?
- Não, nunca! – a garota mentiu, abrindo passagem para as apavoradas. – Estou rindo das meninas que acabaram de sair daqui com medo de você.
- Mas elas nem viram o meu cabelo!
- Mas ouviram o seu grito. – gargalhou. – Ah, anda! Sai disso aí!
- Não quero.
- A gente não tem o dia inteiro, ok? – disse um pouco mais séria.
- Se quiser ir assistir a aula, vai! – a outra retrucou. – Eu não vou te impedir mesmo, já que estou aqui dentro.
- Caso alguém te pega aqui, vai achar que você está matando aula.
- Verdade, né? – disse apreensiva.
- Você acha que eu ia falar isso de sacanagem? – revirou os olhos, voltando para dentro do banheiro. Parou em frente à cabine que a amiga se encontrava.
- Tudo bem. – disse. Suspirou pesadamente. – Aí vai. – destravou a porta devagar, com medo da reação da amiga. As madeixas com cores bastante claras então apareceram. Contrário ao que pensava, não disse nada. Apenas sorriu. – Que é? Por que essa cara estranha?
- Aaah, ficou tão lindo! – disse altiva. – Não sei para que a frescura toda!
- Eu não consigo me acostumar com... – a garota segurou alguns fios. Sendo reprovada pelo olhar da amiga. –... Isso.
- Com o tempo você se acostuma, relaxa! – a outra concluiu. – Agora vamos sair daqui, não aguento mais esse banheiro!
- Ok. – assentiu. – Hora de encarar o zoológico.

- Os senhores são os pais do aluno ? – o diretor Martin indagou. Os senhores assentiram, levantando-se da poltrona da sala de espera. ainda se mantinha sentado. Os cotovelos sobre joelhos, o rosto dentre as mãos e toda sua esperança de ainda ficar em Londres indo pelo ralo. – Queiram me acompanhar, por favor. – o pedagogo disse. – E o senhor também, senhor . – havia ironia na frase. O garoto ergueu o rosto, lançando seu pior olhar ao homem.
- Obrigado pelo convite, Rick. – levantou-se e adentrou a sala. Estaria pela última vez naquele ambiente.
- Já disse, é Mar...
- O senhor acha que eu não sei? – grunhiu. Não esperou a resposta do diretor, jogando seu corpo abruptamente sobre a cadeira à frente da mesa principal. – Vamos acabar logo com isso, por favor.
- Pois bem. – o homem disse. – A princípio, obrigado aos senhores por se predisporem a vir até as dependências do colégio.
- Puxa saco. – o garoto sussurrou.
- Não é necessário agradecer, diretor Martin. – a senhora disse mais alto, voltando seu olhar do filho para o diretor. – Só peço que seja breve, eu e meu marido temos afazeres para cumprir.
- Evidente que sim. – ele concordou. Respirou fundo. – Como vos informei, o assunto que tenho para tratar com os senhores é de grande prioridade e bastante delicado...

- E por que demoraram tanto? – Noel indagou.
- ficou de frescura por causa do cabelo novo. – respondeu.
- Cabelo novo?
- É. – respondeu desanimada. – Eu tinha hora marcada no salão para clarear um pouco os fios e fazer escova, mas a mulher que me atendeu era nova e acabou fazendo merda.
- Já falei que ficou bonito, para de frescura! – a amiga a repreendeu.
- Deve ter ficado bonito mesmo. – o garoto sorriu.
- E ficou! Ela que tá de frescura!
- Você é minha amiga, seu elogio não conta. – resmungou, cruzando os braços.
- Ah, obrigada pela parte que me toca! – a encarou, indignada.
- Não foi isso que eu quis dizer! – a outra riu. – É que, por você ser minha amiga, não iria dizer que ficou horroroso vendo o estado deplorável que eu estava naquele banheiro.
- Dramática! – Noel riu. As duas fizeram o mesmo.

- Sinto muitíssimo pelas besteiras que anda fazendo, senhor Martin. – o senhor disse, levando o olhar até o filho, que ignorava toda a conversa olhando janela a fora. – Sei que foi falha nossa por ele não ter controle.
- Tenho que concordar. – o diretor disse. – Porém, não com tudo. Houve negligência da seção pedagógica desta instituição. – completou. – Deveríamos ter comunicado diretamente aos senhores quando começaram as ocorrências das faltas e advertências, não mandando recados através do causador delas.
- Mesmo assim, nos desculpe, diretor. – a senhora disse apreensiva.
- Tudo bem. – o homem assentiu. Batia uma caneta tinteiro sobre a mesa de mogno, deixando um som irritante correr pela sala. – Em casos como o de , a punição seria exclusão. – alertou. finalmente prendeu atenção à conversa. – No entanto, houve falha da administração, como eu disse. Para não sermos muito radicais e nem mesmo imparciais, propomos aos senhores que o seu filho seja encaminhado para uma atividade extraclasse escolhida pelos psicólogos daqui.
- E qual seria? – sua mãe indagou, visivelmente aliviada pela proposta feita.
- Aulas de dramatização. – Martin respondeu.
- Você quis dizer teatro? – indagou. Gargalhou com sarcasmo ao ver o homem assentir. – Não vou entrar nisso nem que eu seja pago!
- Não é você que decide as coisas por aqui. – seu pai disse de forma rude.
- Muito menos você. – ele retrucou. Os olhos tão , naquela hora estavam avermelhados. Parte pela falta de descanso, parte pela ira que corria em veias. – Nenhum dos três aqui tem autoridade suficiente para me dizer o que fazer. – levantou-se de sua cadeira. Andou em direção à porta. – Prefiro ser expulso a ter que obedecer vocês. Ainda mais se for para participar daquele clube ridículo de teatro!
- Aonde pensa que vai?! – sua mãe disse exaltada.
- Pra longe daqui. – o garoto respondeu antes de bater a porta.
Andava rápido, sua cabeça baixa e olhos semicerrados afugentavam quem estivesse em seu caminho. Sentia o ardor de seus sentimentos reprimidos. Raiva, desolação, descontentamento.
Estava sozinho.
Por mais estranho que fosse, pensou na desconhecida da noite anterior. O destino estava se mostrando desleal.
Ao atravessar o portão, foi abordado por Allison, Emma e .
- ? – Allison tentou reconhecê-lo. Ele levantou o rosto, mostrando suas feições com traços fundos. – O que houve?
- Essa é a última vez que vocês me veem aqui.
- Como assim, cara? – indagou.
- O diretor contou para os meus pais todas as merdas que eu fiz aqui, inclusive eu ter fugido do colégio ontem depois de ter falado com ele sobre isso. – não olhava diretamente para a garota a sua frente. Não tinha coragem para contar o pior a ela olhando em seus olhos. – Ele disse que ou eu ia para o clube de teatro, ou eu era expulso.
- Mas por que você não escolheu o teatro? – a garota questionou. Proferia preocupação em todas as suas palavras.
- Eu não vou obedecer às ordens daquele mal comido, muito menos dos hipócritas dos meus pais! – ele bradou. – Se eles acham que vão conseguir mandar em mim depois de anos me deixando largado, estão fodidos!
- Não acha melhor pensar direito, ? – Emma tentava acalmar os ânimos. – Você mesmo disse que se fosse expulso teria de ir morar em outro país.
- A essa altura do campeonato eu já nem ligo mais para isso. – ele respondeu em timbre mais baixo. Levou as mãos ao rosto, elevando-as até a cabeça em seguida. – Se eu for para outro país, é até melhor. Não vou precisar aguentar aqueles dois todos os dias.
Allison o envolveu em seus braços. Seu rosto foi de encontro à curva de seu pescoço, onde ela depositou um beijo. , de primeira fase, não reagiu. Logo apertou o corpo da menina em seus braços, beijando o topo da cabeça da mesma.
Não estava sozinho.
Todavia, seus amigos não podiam lhe ajudar mais. Allison não podia lhe ajudar mais. Era a hora de partir seu coração.
- Me desculpa, Ally. – murmurou. – Isso não vai dar certo.
- Não diz isso. – ela disse abafada pela pele quente do garoto. – Eu vou estar sempre do teu lado, aonde você for. Eu te...
- Não! – ele a interrompeu, soltando a garota e dando passos para trás. – Eu não quero que se prenda a mim, vá viver sua vida! Já não faço mais parte dela.
- Por quê? – Allison tremia. A ideia de não ter consigo a enfraquecia. – Por que quer ir? Por que tá me dizendo isso?
- Isso não daria certo, já disse! – ele gritou. Ao ver os olhos arregalados da garota, respirou fundo. Deveria ter calma. – Você não pode ficar com um imbecil que nem eu. E eu não posso ficar com uma garota como você. É perda de tempo tentar.
- Eu tenho tempo o bastante. Eu quero passar ele com você.
- Você passaria o tempo com os meus problemas. A melhor coisa a fazer é se afastar. – deu fim ao assunto. – E não tente se aproximar de mim de novo. – esquivou-se para o lado, iniciando o caminho a algum lugar que nem mesmo sabia qual.
Por um momento, Allison manteve-se estática. Aquele era o fim. Não houve nem meios para prolongá-lo. A imagem de fugindo a fez pensar, mesmo que com pouca sanidade, sobre os motivos para a expulsão repentina.

- Já vai tocar. – disse.
- Daqui a pouco a gente vai. – Noel deu de ombros. – Por falar em ir, aonde a senhorita foi ontem, hein?
- Andar, ué. – a garota respondeu simplesmente. Um sorriso surgiu em seus lábios.
- Pelo visto, não só andar, né? – riu. – Bora, fala, o que houve ontem?
- Não foi nada de mais. – ela respondeu fugindo do olhar da amiga. – Eu só quis sair para esfriar a cabeça, estava ficando louca dentro de casa!
- Não adianta me enrolar, . – a outra enviesou o sorriso, mostrando-se confiante. – Houve mais alguma coisa. Tá estampado na sua cara!
- Bom, é que... – a garota mordeu o lábio inferior. – Ontem eu conheci um garoto e nós ficamos. Só que foi muito diferente, não sei...
- Sabia que tinha mais alguém nesse meio! – a amiga disse estridente. – E qual o nome dele?
- Essa é uma das coisas que deixa tudo diferente. – riu baixo. – Eu não sei o nome dele.
- Ah, até aí tudo bem, todo mundo já se esqueceu de perguntar o nome alguma vez... – ponderou. – Mas e como ele era?
- Eu também não sei. – a garota respondeu derrotada. – Foi tudo no meio da madrugada, estava escuro.
- E se ele for um desses estranhos daqui de Brent?
- É meio impossível, porque eu estava em Camden. – completou. – Ele provavelmente mora por lá, porque estávamos em um jardim particular.
- Aaah, sim... – a outra mexeu a cabeça, mostrando ter entendido. – E você sabe pelo menos alguma coisa dele? – negou. – Nadica?
- Neca. – respondeu. – Só sei que ele não é um estuprador, tarado e maníaco. – riu.
- Você perguntou se ele era tudo isso? – Noel finalmente se intrometeu.
- Claro que não! – ela disse entre risos. – A gente conversou um pouco e...
- A culpa é sua! – ouviram uma voz se aproximar. – Agora ele vai embora e a culpa é completa sua! – Allison acusou, apontando para . Pessoas ao redor prenderam atenção na cena.

’s P.O.V.

- Ele quem? Culpa de quê? – perguntei, assustada com a abordagem da garota. Olhei para os lados, vendo o tal , a namorada dele e mais alguns rostos conhecidos em volta.
- Se você não tivesse dedurado o ontem, ele não seria expulso! – a outra disse em picos de voz. Eu nem mesmo sabia que ele havia sido expulso! – Mas você tinha que ser uma vadia e ir contar tudo para o diretor!
- Eu não fiz nada disso! – retruquei. – O seu namorado que é um idiota! Ele que procurou ser expulso!
- Dobre a língua antes de falar assim do ! – Allison deu mais alguns passos. – Você não sabe nada sobre ele!
Eu já não estava tão tranquila há dias e ela queria briga.
Ela teria briga, então.
- O que eu sei é suficiente para me manter longe. – fiz o mesmo, ficando próxima dela o suficiente. – E não venha me atirando quatro pedras antes de saber o que houve!
- Eu vi você o chantageando ontem!
E ela acha mesmo que eu consegui o fazer ser expulso por isso? Coitada.
- Eu só estava tentando botar medo nele! Eu não iria me meter na vida dele! – soltei um riso curto. – E posso saber por que você tá tirando satisfações comigo?! Além de namorada, você virou cão de guarda dele?! – burburinhos puderam ser ouvidos.
- Você tem noção do que tá falando e para quem tá falando?! – Allison segurou meu pulso esquerdo, apertando com força.
Agora ou eu bato, ou apanho.
- Acha que me bota medo? – disse em tom de deboche. – Desculpa, mas vai precisar de bem mais que isso, se conseguir. – levei minha mão livre ao pescoço da garota, que tentou rapidamente se soltar. Quando senti a mão dela perder força sobre meu pulso, o soltei e o levei ao mesmo lugar que estava o outro: o pescoço dela.
- , solta a garota! – ouvi berrar. – Você não precisa fazer isso!
Se eu quiser finalmente me acalmar, realmente preciso.
- , faz alguma coisa! – a amiga de Allison berrou também.
Eu ouvia as vozes, mas não conseguia ver ninguém, só a garota na minha frente. Toda a raiva e todas as frustrações que eu tinha estavam indo das minhas mãos para o pescoço dela.
Aquele era um péssimo dia para ter mexido comigo.
- ! – dessa vez, ouvi Noel berrar. Olhei para o lado, vendo o espanto de e os outros.
Oh céus, o que eu estava fazendo?

Capítulo 5

- Não vou perder meu tempo dando sermões. – Darrel disse assinando papéis. – Seu nome, por favor?
- Allison Lewis. – a primeira garota disse, acariciando o pescoço.
- Aqui está, Allison. – o diretor lhe entregou o papel que assinara. Uma advertência. – Traga esse papel assinado por seus pais amanhã, se quiser assistir à aula novamente. – alertou. – Agora vá à enfermaria e veja se dá um jeito nesse avermelhado. – a garota assentiu, saindo da sala em silêncio. – E agora você, . – o homem a encarou. – Como se deixou entrar numa briga? Logo você?
- Eu já não estava com paciência há uns dias, acabei explodindo. – ela tentou justificar. Olhava um ponto fixo no chão. – O pior é que a Allison nem tinha culpa.
- Numa briga todos tem culpa. – o diretor corrigiu. Começou a assinar a advertência de . A primeira advertência de . – Por isso todos pagam o preço. – entregou o documento à garota. – Só espero que isso não se repita.
- Não vai, diretor.
- Traga assinado por seus pais amanhã. – ela assentiu. – Passar bem.
Levantou-se da cadeira ainda mirando o chão. Ergueu seu olhar para a folha escrita ‘advertência’ em letras maiúsculas. Respirou fundo, sentindo o ar falhar ao sair. Atravessou a porta sentindo o estômago revirar. Estava sendo punida com severidade, como um adulto. Estava sendo punida por ser infantil.
Olhou para o pulso, podendo ainda enxergar as marcas deixadas pela mão de Allison. Já não doíam tanto quanto nos primeiros minutos. A dor maior era em seu ego.
Deixou-se levar pela raiva da outra garota. E agora seria alvo de comentários maldosos por ter se metido nessa furada. Logo ela, que fazia o máximo para mostrar aos outros apenas seu lado bom. E seria seu lado ruim que se destacaria.
Bateu à porta e explicou para a professora o motivo do atraso. Foi permitida de ficar, então andou até sua carteira. Os olhares, mais uma vez, estavam voltados única e exclusivamente para ela.
- Como tá o pulso? – indagou.
- Só um pouco vermelho, nem dói mais. – ela respondeu, sorrindo amarelo.
- Levei Noel na sala dele depois que você foi para diretoria. – a amiga tentava fazê-la esquecer.
- Obrigada.
- Não se sinta mal por isso, . – disse terna. – Acontece.
- Mas não podia ter acontecido comigo. Eu podia, sei lá... Ter evitado. – a garota balbuciou. Cruzou os braços sobre a mesa, apoiando a cabeça nos mesmos. – E agora, como meus pais vão reagir eu não sei.
- Você tem muitas responsabilidades para uma garota de 16 anos. – virou o rosto para o lado, encarando a amiga. – Qualquer um no teu lugar perderia a cabeça, depois de um tempo.
- Exatamente por eu ter tantas responsabilidades, que eu devia pensar nas consequências.
- Pare de se autopunir, você não teve culpa. – disse firme. – Não vai adiantar de nada ser Judas de si mesma.
- Tem razão. – concordou. – E o diretor já me puniu mesmo. – riu baixo. – Deixa por isso, só.
Por conta do cansaço, dormiu grande parte da aula, sendo acordada pela professora. Por ordem da mesma, foi até o banheiro lavar o rosto. O caminho nunca lhe pareceu tão longo.
Jogou em si a água fria, despertando. Levou a mão ao rosto, deixando-as por ali algum tempo.
- Essa não é a garota que brigou com a Ally? – ouviu murmurarem. Abaixou as mãos, deixando-as sobre as bochechas ainda com os olhos fechados.
- Aham. – ouviu uma segunda voz. – E pelo visto foi por causa do .
- Eles devem ter alguma coisa, para Ally ter ficado tão puta da vida. – uma terceira disse.
- Eu posso estar de olhos fechados... – abriu os olhos. Três meninas de séries mais baixas a olhavam. – Mas continuo ouvindo bem. – virou-se para elas, encarando uma a uma. – Será que podiam pelo menos me respeitar?
- Oh, não entenda mal! – a moreninha disse. – Não queremos falar mal de você.
- Você é uma heroína agora! – a mais alta completou.
- Hm? – mostrou toda sua confusão em seu semblante.
- Allison é uma vaca. – a última disse. – Não gostamos dela. – estendeu a mão. – Kate.
- . – a garota disse incerta, apertando a mão da mais nova. – Mas pode me chamar de .
- Essas são Louise... – apontou para moreninha. –... E Holly. – indicou a mais alta.
- Prazer. – as duas disseram. concordou com um sorriso fraco.
- Se não se importam, preciso voltar para sala. – indicou a porta, dando passos para trás.
- Até mais, ! – acenou brevemente para Holly.
Assim que saiu do banheiro, ouviu o sinal para a segunda aula tocar. Correu até sua sala. Professor Prophet logo entrou na classe e fez algumas piadinhas, como de costume.
- Preciso te contar o que houve agora pouco! – comentou baixo com .
- O quê? – a garota perguntou curiosa.
- Dá licença, profê. – disse da porta. – Posso dar um recado?
- Já te digo. – disse.
- Claro, alú. – o professor respondeu.
- Brigads. – riu, pondo-se sobre o tablado da sala. – Gente, vim trazer uma notícia ruim, ou não, sobre a peça.
- Foi cancelada? – Cecile indagou com certo desespero.
- Não, não! – a garota respondeu, negando fervorosamente. – Se tivessem cancelado, seria uma notícia péssima! – completou. – Seguinte... Os testes para o papel de Christian estão cancelados. Quem ia fazer o teste com par, vai ter que descartar a possibilidade.
- Por quê?
- O diretor Martin resolveu por colocar um aluno para fazer o papel. – explicou. – Não se sabe se ele já interpretou ou não, o que vai complicar um pouquinho a vida das ‘Satines’, já que terão de ensaiar mais vezes com o novato.
- E quem é esse garoto, ? – questionou.
- Nem eu sei ainda, . – a outra respondeu. – Vou saber só quinta-feira de manhã, quando sair o resultado das audições para protagonista e antagonista. Torçam para que seja um garoto bonito! – fez figas com as mãos, rindo em seguida. – E ah, nem adianta subornar a Sra. Moore para conseguir informação! Eu já tentei e não funcionou. – fingiu decepção.
- Tirando o cancelamento de um dos testes para protagonista, tudo normal, né? – outra aluna perguntou.
- Isso! – assentiu. – Lembrando que os testes para o papel de Satine e Duque acontecerão na quarta-feira à tarde e dos papéis secundários, tirando as dançarinas de cancã, na quinta-feira. – esclareceu. – Mas alguma dúvida? – passou os olhos pela sala. – Não? Tudo certinho, então? – os alunos assentiram. – Sendo assim, acabei por aqui. Brigada de novo, profê!

- Onde você estava? – a senhora disse ao ver o filho.
- Por aí. – ele respondeu, indo a caminho de seu quarto.
- Só para te lembrar, você tem aula amanhã. – parou no meio da escada. Desceu os degraus, voltando à sala de estar.
- Só para te lembrar, eu fui expulso. – disse com as palavras carregadas de ironia.
- Eu não diria isso à toa. – a mulher disse seca. – Você tem aula amanhã e ainda tem ensaio no grupo de teatro. – o garoto gargalhou. – E isso não é uma piada, se não percebeu.
- Já disse que não vou àquele troço. – sorriu vitorioso. – Não adianta.
- Você vai sim. Nem que eu tenha que ir junto.
- Oh, você faria isso mesmo por mim? – pôs as mãos sobre o busto, fingindo admiração.
- Sem mais ironias, . – sua mãe levantou do sofá, indo levar a caneca que tinha em mãos para a cozinha. – Já está decidido e não tem mais como você retrucar. A menos que morra, não há jeito de fugir.
- Eu tenho meu carro, sabia? – ele disse alto da sala.
- Tinha. – ela disse ao voltar. – Ele está confiscado e vai ficar em Southsea até eu e seu pai decidirmos que você merece tê-lo de volta. – sentou-se novamente no sofá. – E não adianta ir até lá, porque ele está com travas nas quatro rodas e as chaves delas estão todas no cofre do escritório de seu pai.
- Isso é um complô? – o garoto disse indignado.
- Entenda como quiser, filho. – sua mãe respondeu. – E vá logo dormir, amanhã terá que acordar cedo para ir ao colégio.
Voltou a subir a escada, ainda incrédulo com as novas informações.
Teria de ir ao colégio novamente; teria que ver Allison novamente. Seria obrigado a ignorá-la para fazer valer as coisas rudes que disse pela manhã.
O que ele não sabia era que assim o destino estava a seu favor.

Passou a manhã inteira recluso. Ignorou seus professores, amigos e agora ex-namorada. Ir àquele colégio não tinha mais sentido, já que a vontade para continuar ali não existia de forma alguma. No horário do almoço, não comeu, nem bebeu. Não sentia fome, não sentia sede, não sentia nada. O infortúnio de estar naquele mesmo colégio, com aquelas mesmas pessoas o encarando – dessa vez de forma diferente – só fazia aumentar sua raiva.
E dessa vez ele não sabia por que os olhares eram tão surpresos e maldosos.
Afundou a cabeça entre o espaço que se formou entre seus braços apoiados aos joelhos. A grama do jardim social parecia a única coisa que prendia sua atenção.

’s P.O.V.

São horas assim que eu acho que não ter nascido seria a melhor coisa que podia me acontecer. Infelizmente eu já sou velho de mais para morrer antes de vir a esse mundo desgraçado. Se eu tivesse pelo menos nascido formiga, não teria tanta gente chata atrás de mim.
- . – virei para trás, vendo Ally me encarar com os olhos vermelhos. Dessa vez não era por causa do cigarro, tenho certeza. – Posso falar com você?
- Já não tá fazendo isso? – resmunguei, evitando olhar nos olhos dela. Eu só precisava ser rude.
- Sem ser agredida? – ela se sentou ao meu lado, fazendo o mesmo que eu ao evitar me encarar. – Só quero conversar, como amiga.
Olhei para o seu rosto um pouco mais pálido que o normal. As bochechas estavam vermelhas e ainda tinham brilho das lágrimas que já deviam ter secado segundos atrás. Eu tinha conseguido machucar a única pessoa que realmente se importou comigo e não estava me sentindo melhor por isso. Só não podia mostrar o remorso a ela, para não dar chances para que a gente volte.
- Tá, fala. – respondi, continuando a olhar seu rosto.
- Eu estive pensando nas coisas que você me disse... – soltou um suspiro pesado. Parecia desconfortável. – E reparei como fui burra em não perceber que você só queria uma companhia para as suas noites sem festas. Você sempre foi ausente, mentia e me traía. – enverguei as sobrancelhas ao ouvir um riso curto dela. – Pensa que eu não sei de todas as vezes que me traiu e com quem me traiu, ? – quando se virou para mim, me olhou com uma mistura de desprezo e raiva. Eu nunca tinha visto esse lado da Allison, e isso me preocupava. – Eu sempre soube de tudo, mas tentava não ligar porque amava de você. Ou só achava que amava... Eu me humilhava correndo atrás de você para receber só patadas e começar brigas. – seus olhos se encheram d’água; meu estômago pareceu se contrair todo. – Eu realmente namorava os seus problemas, não você. E assumo que eu preferiria namorar eles, porque todos os problemas que você tem não me incomodam um terço do que a sua frieza me incomoda. – voltou a olhar para frente. – Ontem eu estava prestes a te dizer que te amava e você fugiu. Como todas as vezes, você fugiu de algo sério que alguém podia te oferecer. A sua frieza é só para disfarçar que você é um medroso, um fraco. – uma lágrima espessa correu por uma só bochecha vermelha dela. – E eu fui uma burra por achar que você só era mal compreendido. – e ela mesma a secou.
- Eu só posso dizer que sinto muito. – eu só consegui pensar em dizer “sinto muito”.
- Não, você não sente. – acompanhei seu rosto, que se erguia junto ao seu corpo. – Você é frígido demais para sentir algo do tipo. Mas, mesmo assim, pode contar comigo quando precisar de alguém. Eu não vou me negar a ajudar um desconhecido.
Agora eu não me sentia nem digno de ser chamado de humano.

Capítulo 6

Já era quase duas da tarde. Depois de toda aquela parafernália que foi seu dia, ainda tinha o clube de teatro para enfrentar. Apagou seu cigarro no tronco da árvore que estava encostado, levou a mochila às costas e caminhou o mais vagaroso possível até o auditório. Muitos alunos já estavam realizando exercícios vocais, o que o fez franzir o cenho com tais sons estranhos que os nerds daquele lugar faziam. Sentou-se na última fileira, o mais próximo possível da saída.

A ansiedade a deixava ainda mais eufórica. Parecia ter tomado um choque de alta voltagem, de tanto que se mexia no assento. Estava sentada logo à frente do palco, com Noel e dos lados, rindo da ansiedade da garota.
Uma senhora de no máximo trinta e sete anos – e aparência Física de vinte e sete – pôs-se atrás da tribuna sobre o palco, com ao seu lado. Era Sra. Moore.
- Gostaria da atenção de todos, por favor. – falou ao microfone, instalando silêncio por todo o recinto. Levantou-se e foi ao centro do palco, retirando os óculos do rosto e levando-os ao decote enviesado de seu vestido de pequenas estampas florais, provocando alvoroço de alguns alunos. – Vou crer que há pessoas educadas aqui. – censurou. – Primeiramente, boa tarde a todos. Como muitos aqui devem saber, me chamo Elizabeth Moore e sou professora de literatura do ensino médio. Esse ano, junto à presidente do clube de teatro, – indicou a garota que conferia as listas –, vou produzir e dirigir a reprodução do musical Moulin Rouge, de Baz Luhrmann. Hoje, como todos devem saber, serão feitas as audições para o papel de Satine e Duque, protagonista e antagonista da trama. Lembrando que o papel de Christian já está ocupado. – mirou o garoto ao fundo do auditório, voltando a olhar mais à frente em seguida. – Todos terão chances e tempos iguais para mostrar um monólogo ou pedaço do roteiro e uma canção pertencente à obra, ficando a critério de vocês escolherem qual. Os resultados sairão amanhã pela manhã no quadro de avisos principal que fica logo na entrada do colégio. – criou um pequeno sorriso em seu rosto. – Enfim, que comecem as audições. Boa sorte a todos! – voltou a seu lugar atrás da tribuna.
- Pelo papel de Satine... – checou a lista mais extensa. – Farrah Canes.
A garota que atendia pelo nome subiu ao palco. Estatura média, cabelos longos, ondulados e ruivos. Fisicamente, a atriz perfeita para representar a cortesã. Porém, para seu azar, seus dotes líricos não eram tão bons quanto os que Sra. Moore almejava.
Grande parte das aspirantes a atrizes que foram ao palco apresentaram os mesmos discursos e canções, o que facilitava a vida de e aborrecia a de Elizabeth.
- .
- Desejem-me boa sorte! – a garota pediu.
- Boa sorte! – disse, sorrindo.
- Ganhe o papel! – Noel completou.

Ficar naquele auditório ouvindo vozes esgoeladas cantarem sempre a mesma música não era o que tinha em mente para aquela tarde. Se não estivesse ali por obrigação, não pensaria duas vezes em passar quilômetros de distância. Pelo menos podia ver uns rostos – e corpos – bonitos e diferentes, mas seu entusiasmo para isso era mínimo. Jogou a cabeça para trás pesadamente, apoiando a mesma sobre o topo da cadeira.
- My gift is my song! cantou, atingindo um agudo logo de primeira. O estômago parecia acalmar conforme a voz ecoava pelo auditório. Prendeu o olhar no garoto com o rosto jogado para trás, assim não teria medo de encarar a plateia, já que ele nem sequer prestava atenção. – And this one is for you. – pausou um pouco, respirando fundo. – And you can tell everybody that this is your song. – abaixou o tom. – It may be quite simple, but now that it’s done... – a voz firme e moderadamente aguda de despertou . Já de olhos abertos, preferiu continuar na mesma posição, apenas ouvindo a canção de Elton John. – Hope you don’t mind, I hope you don’t mind that I put down in words... How wonderful life is now you’re in the world. – mais confiante para olhar o público, arriscou olhar alguns rostos desconhecidos. Um par de olhos atentos lhe prendeu a atenção. – I sat on the roof and I kicked off the moss...
- Esse papel já é dela! – murmurou a Noel.
- Well, some of these verses... They got me quite cross...
- Não sei, . – ele negou. – Ainda falta Cecile, e ela é muito boa em canto.
- But the sun’s been kind while I wrote this song. It’s for people like you that keep it turned on…
- Eu não sou de fazer isso, mas vou torcer pra que ela seja péssima! – os dois riram baixo.
- So excuse me forgetting, but these things I do – desviou o olhar ao receber um sorriso aberto do garoto. – You see, I’ve forgotten if they’re green or they’re blue. – encarou aquele que parecia dormir mais uma vez como se algo exercesse atração sobre si. O garoto não moveu um músculo. – Anyway, the thing is... What I really mean – então voltou a olhar o que lhe dava atenção. – Yours are the sweetest eyes I’ve ever seen. – andou até a tribuna onde a Sra. Moore se encontrava. Segurou a mão da professora, encenando com charme a cena que seria de Christian. – And you can tell everybody this is your song. It may be quite simple, but now that is done... – soltou-a, voltando para o centro do palco. Fechou os olhos. finalmente cansou-se de apenas ouvir, olhando para a fonte daquela canção. – Hope you don’t mind, I hope you don’t mind that I put down in words. How wonderful life is now you’re in the world.

- Nunca senti meu estômago revirar tanto! – confessou, sentando à mesa na praça de alimentação do colégio. Segurava o copo de suco que havia ido comprar. – Parecia que eu tinha uma criança aqui dentro correndo de um lado pro outro!
- Isso é normal em apresentações, . – sorriu pela alegria da amiga. Encontrava-se em frente a ela. – Toda audição ou peça que você apresenta, fica assim.
- Verdade... – a garota sorriu também. Tomou seu suco. – E aonde foi Noel?
- Ele tinha dito que ia falar com um amigo e que já vinha. – a amiga respondeu. Viu o garoto em questão aparecer por trás de . – Ah, olha ele vindo!
- Falavam de mim? – ele perguntou sorridente. A irmã assentiu, ainda sem olhar para trás.
- A gente estava falando que você anda muito saidinho esses dias. – riu baixo. Virou-se para trás, encontrando os olhos encantadores do auditório no amigo de Noel. Sentiu o rosto queimar. – Oi...
- Hey. – ele disse, com um sorriso largo no rosto.
- Preza a educação que as pessoas convidadas sejam apresentadas, Noel. – implicou. – Eu sou .
- Verdade! – concordou, desfazendo a expressão de pateta que estava. – , irmã desse mal educado.
- . – o garoto disse após cessar seus risos.
- Não precisaria apresentar, de qualquer forma. – Noel deu de ombros, indo sentar ao lado da irmã. – O fez audição para o Duque, sabia?
- Não, jura? – a garota sorriu, contente pela notícia.
- Pensei que tivesse visto, já que estava lá.
- Ela dormiu depois que desceu do palco! – acusou, rindo em seguida. lançou-lhe um olhar fulminante. – Estava muito cansada, mal conseguiu dormir durante a noite de tanta ansiedade.
- O bom é que minha amiga me entrega. – resmungou. Virou-se para , que continuava em pé. – Desculpe por isso, mas eu realmente estava cansada. – comprimiu os lábios, temendo um desaforo vindo do garoto.
- Tudo bem, eu te entendo. – ele soltou uma piscadela, indo sentar no lugar vago ao lado de . – A propósito, você foi muito bem.
- Bondade sua. – a garota não conseguiu conter o sorriso.
- Sua modéstia às vezes irrita, . – Noel reclamou. – Você foi bem, para de ser boazinha!
- Você quer que eu diga o quê? – ela se mostrou intrigada. – “Eu sou foda, já sei, beijos, me liga”? Não mesmo. – revirou os olhos, virando-se para o lado oposto ao do irmão. – Não repare, , a gente costuma ser animalesco sempre.
- Dá pra ver. – o garoto riu. Pôs-se atento ao discurso de Noel sobre as brigas dele e da irmã, enquanto olhava para a garota em questão, e não hesitou ao ver que ela percebera. se sentiu desconsertada, virou o rosto para o irmão, tentando esconder as bochechas que sabia que iam avermelhar. Os olhos sempre prudentes de a davam desconforto, um bom desconforto. passou o olhar rapidamente pela mesa, constatando o rápido acontecimento.
- A culpa é sempre sua, quadrúpede de tetas! – culpou o irmão, rindo em seguida. – Se você não fizesse tanta merda dentro de casa, não me culpariam e eu não iria encher teu saco.
- Você enche meu saco até quando eu respiro! – Noel parecia indignado, mas ria mesmo assim.
- Ah, o amor fraterno... – sussurrou para , que riu. – Ei, vocês dois! – chamou a atenção dos amigos. – Vamos embora? Tenho que passar na casa do Ben ainda.
- Aaaaaaah, mas pra quê? – Noel arrastou a voz. A preguiça de caminhar se mostrava em cada extensão dos fonemas das palavras.
- Pra falar com o meu namorado, ué!
- Não precisa – continuou mostrando sua falta de vontade na voz –, depois vocês se falam.
- Se não quer ir, não vai. Simples assim. – a garota resmungou. Levantou-se e pôs sua mochila nas costas. – Só sei que eu vou, porque preciso.
- Eu te acompanho. – seguiu os movimentos da amiga.
- Pra qual lado estão indo? – indagou, mencionando levantar-se também.
- Norte.
- Vou com vocês, se não incomodar. – procurou o olhar de , pedindo permissão sem proferir uma só palavra. Noel franziu a testa.
- Até você, cara? – assoprou as palavras.
- Fique quieto, abutre. – a irmã o repreendeu. e riram do elogio dado. – É claro que não incomoda, .
De modo algum a incomodaria. Se continuasse a ter o mesmo sorriso estonteante, qualquer tipo de incômodo que fosse causado seria esquecido.
Após lutarem contra a má vontade de Noel, partiram rumo ao norte de Brent. se distraía articulando as canções que tocavam em seu iPod; Noel havia esquecido toda a preguiça quando começou a falar sobre futebol; apenas ouvia; nem isso fazia. Seus ouvidos estavam completamente impedidos de exercer suas funções enquanto entrava em devaneios.

’s P.O.V.

Era tão estranho – e também irônico – eu prender minha atenção em um garoto desconhecido, sendo que ele era amigo de meu irmão. E ele ainda é mais novo que eu!
Se bem que... E daí olhei.
Acho que se eu tivesse olhado só pro tal desinteressado, não estaria agindo feito uma retardada do lado de . Imagine... Eu estava com vergonha, mas queria voltar a ver seus olhos; estava desconfortável pela presença dele, mas queria continuar a ficar perto.
Isso é tão ridículo! Não sou mais uma garotinha que descobre o primeiro amor. Eu não precisava me sentir assim! Se quisesse algo com , era só dizer e pronto.
Bem... Como se, justo eu, fosse ser tão objetiva assim.
Às vezes odeio essa timidez que me dá quando fico perto de garotos que me interessam.
- Sabe, ... – ouvi meu nome ser chamado, mas não identifiquei a voz. Olhei pro lado, vendo que quem me chamava. Enjoo repentino. – Já que fizemos testes pros papéis principais, isso quer dizer que vamos atuar juntos, não? – ele não me encarava. Estava desconfortável como eu, que graça. – Quero dizer, se conseguirmos.
- É. – respondi, sorrindo fraco.
- Então podíamos ensaiar juntos também. – meu sorriso se alargou. Ele olhou pra meu rosto com um sorriso como o meu – e, tenho que dizer, me derreteu toda.
Eu estava com uma queda pelo amigo do meu irmão, que patético. Parece tanto tema de filmes adolescentes feitos em Hollywood.
- É. – repeti. – Seria uma boa ideia. Mas onde? E quando?
- Pode ser na minha casa? – ele propôs. Parecia ter medo de eu não aceitar, pelo modo com que me olhou após a pergunta. – Sexta à tarde, depois do almoço? – continuou sem eu nem ter dado a resposta. – A gente pode ir ao restaurante dos meus pais e depois ensaiamos na minha casa. Tudo bem por você?
- Claro – respondi rápido. Rápido demais, até. Um pouco alto também –, claro. – abaixei o tom da minha voz. – Tudo bem por mim.
- Bom. – seu sorriso dessa vez mostrou seus dentes. – E se um de nós não conseguir, o almoço continua de pé, certo?
- Certo.
Ficamos mais um tempo com os olhos presos um no outro, ainda sem dizer nada. Pouco depois, dobrou a esquina e eu só pude ver seu contorno se distanciando enquanto atravessava a rua.
Sorrateiramente, eu tive vontade de fazer todos os tipos de promessas pra que fossemos os papéis principais. Seria um motivo a mais para ver , ainda que viéssemos a ser apenas amigos.
Dizem que amizade nunca é demais, não é mesmo?

Capítulo 7

Esgueirou-se pelo vasto corredor, arrastando a amiga pelo pulso. Nem mesmo esperou abrir espaço entre o pequeno aglomerado para checar os resultados dos testes.
- Protagonistas – lia pausadamente, a voz elevada pelo nervosismo. Fechou os olhos e respirou fundo; a ansiedade era menor que a frustração precoce. – como Satine! – criou um vasto sorriso. Voltou seu olhar para o rosto da amiga, que tinha expressão tão parecida quanto. Ao continuar a ler, desfez todo seu sorriso. – como Christian, como o Duque. Intérpretes reservas: Cecile Schwimmer, John Winter e Johan Kaufman.
- Acho que isso não é boa coisa. – tinha o olhar apreensivo sobre a amiga.
- Isso porque não é! – a outra sibilou. – Eu vou ter que conviver justo com ele.
- Fique você sabendo que eu também não tô feliz com isso. Nem um pouco. – a fitou pelas costas, os olhos transpassavam puro desdém. Sua voz em tom alto não se esquecia de transpassar a mesma emoção. Tanto quanto viraram-se para trás, encontrando o par de olhos , atordoadas com a surpresa.
- Mas... – tentou. Sua voz falha denunciava o nervosismo. Por um momento, teve a impressão de conhecer aquela voz. Assustou-se. Os olhos abriram de tal forma que era impossível não ver que estava assustada. – Então... – o olhar preso aos olhos dele a faziam inapta a raciocínio. Mesmo que não fosse de total agrado ter que construir uma relação, mesmo que superficial e breve, com , não sentia total conforto em ser pega pelo ele, julgando-o mal. Ainda mais se fosse quem imaginava.
- Poupe seu trabalho. – ele a interrompeu com a voz rouca e alta, revirando os olhos.
então relaxou as expressões. Era absurdo pensar o que pensava. Apesar de já convencida da controvérsia, continuava com a respiração pesada. arqueou as sobrancelhas, apontando de , que já caminhava até sua sala de aula, para , que tinha expressão confusa para sua compreensão.
- O que causou toda essa tensão aqui?
- Nada. – a amiga respondeu. – Eu só continuo não gostando da ideia de atuar com ele. – justificou, omitindo. – Mas por um momento eu pensei que... – olhou o contorno distante de .
- Que...? – gesticulou, pedindo que a garota prosseguisse.
- Ah, esquece. – balançou a cabeça de modo negativo. Deu o primeiro passo até sua sala, sendo seguida pela amiga.
- Agora fala!
- Não quero.
Ainda fora atormentada mais algumas vezes por , que queria saber a todo custo o que havia a assombrado. Adentrou a sala, indo sentar-se no lugar de costume: ao canto.
Atenta somente às vozes ao redor – e não ao que diziam –, ignorou as notícias dadas pela amiga. Todos aqueles timbres eram conhecidos, inclusive um em especial, digno de um tenor. Focalizou-se somente na voz grave, baixa e um pouco rouca, provavelmente pela pouca disposição, uma vez que nem oito da manhã era. Procurou o dono da voz enquanto corria os olhos pela sala, mas assim que o professor chegou, todos se calaram e começaram a conversar apenas por bilhetes e mensagens de celular.
- ! – sussurrou, cutucando o braço da amiga.
- Oi? – a garota disse, surpreendida.
- Tudo bem?
- Tudo, e você? – franziu o cenho, não entendendo a natureza daquela pergunta.
- Não era bem isso que eu queria saber, mas enfim...
- Hm. – tornou procurar alguém em potencial para ser dono da voz, sem sucesso algum. Encontrou somente o olhar dissimulado de sobre si. A repulsa que tinha pelo garoto mostrou-se no enjoo repentino semelhante ao que sentiu ao lado de . Contudo, era mais forte.

Aquela fora uma muito esperada manhã. Com um inesperado clima quente. Também com um inesperado acontecimento. De certo, não estava satisfeita. De certo, também, fazia pouco caso.
Uma parte ligava demais, outra de menos.
A parte que muito ligava, apesar do amor pelo teatro, depositava pessimismo em todas as possibilidades remotas de interação com a outra parte, que, por sua vez, pensava somente em um meio de não ser exclusa e, em consequência, extraviada.
Um inesperado meio de unir dois desesperados – um por tranquilidade, outro por sua antiga rotina desvairada.
Um dos desesperados, , manteve-se mais uma vez recluso. As poucas vezes que falou, fora para responder às perguntas que lhe direcionavam. Apenas ouvia músicas e passeava os olhos em todos os lugares que não fossem os rostos dos professores. Ao fim da última aula, fora o primeiro a sair, tão rápido quanto um vulto.
- Devia entrar pro Velozes e Furiosos. – riu do próprio comentário ao ver o garoto sair da classe. Levantou-se e esperou a amiga se levantar.
- Ou Need for Speed. – riu também. Fechou a mochila e a levou às costas, levantando e caminhando para fora de sala. – Vai ficar pras audições?
- Não vai dar. – a garota respondeu, balançando a cabeça levemente. – Tenho chá com a senhora Navarro. – explicou, pondo tom enojado na voz.
- Senhora Navarro?
- Vulgo Mãe-do-Ben – disse. A amiga suavizou as feições –, minha sogrinha querida.
- Você com a sogra, eu com o peste. – bufou. – E você ainda vai ter que aguentar o Noel no caminho de casa.
- Eu vou? – instigou. implorou sem nem mesmo dizer algo. – Tudo bem, eu vou.
- Te amo, tá? – abraçou a amiga, rindo.
- Sei desse amor... – a garota disse, rindo também. Despediu-se da amiga, que procurou um lugar para sentar.
lia o roteiro da peça, ouvia Norah em seu iPod, dividia sua atenção entre uma ação escrita e um biscoito de chocolate que comia. Em decorrência de todas as atividades, não se ateve a nada que acontecia ao redor. Ao ouvir seu nome ser chamado alto a seu lado, quase deu um pulo, engasgando-se com o biscoito. Um acesso de tosse e risos se iniciou.
- Ah, meu Deus! – disse, desajeitada e risonha. não conseguia dizer nada, de tanto que ria. – , ergue os braços! – não respondeu o comando da amiga, tentando engolir ou expelir o alimento. – , para de rir! Faz alguma coisa!
- Fazer... O... Quê? – o garoto perguntou entre suas respirações curtas. Recobrou-se no que recebeu o olhar repreensivo da namorada. – , ergue os braços, assim. – ergueu os próprios, mostrando como a garota deveria proceder. Ela assim fez. – Isso... Agora respira fundo.
- Brigada, gente. – disse, rindo um pouco pelo acontecido. Tossiu fraco umas duas vezes, depois respirou fundo novamente. – Vi a morte em formato de cookie, agora.
- Imagina. – disse, abafando um risinho.
- Mas então... – encerrou o assunto. – Tá livre no sábado? Vai ter uma reunião com o pessoal do elenco lá em casa, a partir das dez.
- Não sei – respondeu, entortando os lábios –, acho que meus pais irão sair, então nem dá.
- Que é que tem seus pais saírem, ? – a outra indagou.
- Tenho que tomar conta do Noel. – ela respondeu, os cantos dos lábios curvaram-se levemente para baixo. Prender-se sempre ao irmão a cansava, mas era algo que ela não poderia deixar de fazer, pensava.
- Noel não é mais um bebê. – sentou-se à frente da garota. Fixou seu olhar nos olhos dela, de forma autoritária. – Você não precisa mais ficar cuidando dele.
- Ele só tem treze anos... – tentou dizer, fugindo do olhar da amiga.
- tem razão, . – interveio, ainda de pé. A garota voltou seu olhar até ele. – Você acha que ele depende de você, mas não. Ele já é grandinho, sabe o que faz.
E também sabia que, por mais que tentasse, não conseguiria achar alguma discordância.
- E eu também já sou grandinha, sei que isso é o melhor pra ele. – disse, pondo firmeza e falsa confiança na voz.
- Vocês dois têm pai e mãe. Muito bons, a propósito. – mais uma vez retrucou, firmando mais uma vez a voz. – Não precisa ficar bancando a babá do Noel. Fazendo isso, você só piora a situação dele, porque ele vai acabar mimado. – concluiu. Viu a amiga hesitar, então continuou: – E é aí que não vai saber mesmo fazer algo sozinho. Quando isso acontecer, você não terá mais como se livrar do peso que ele vai ser na sua vida.
A garota não conseguia acreditar na afirmação de seu irmão ser um possível peso em sua vida. Ele era seu irmão, o sangue dos mesmos pais correndo em ambos os corpos.
- , por favor, me deixe fazer o que acho melhor pra Noel e eu. – disse, parecendo ofendida. A incredulidade de ter ouvido a suposta verdade se mostrava até à raiz de seus cabelos. – Isso não é da sua conta.
- Tem razão, não é mesmo. – a garota respondeu, ríspida. Levantou-se calmamente, em contraste com a veracidade de sua resposta. – Só é da minha conta saber se você vai à reunião. E é bom que vá, porque precisamos de você para as decisões, tanto quanto Noel precisa que você prepare o lanche dele.
Ficou ali, estática, assimilando as palavras. Nem mesmo viu quando os amigos se despediram. Noel, seu irmão, um peso? Sempre estivera agradando, acatando e cuidando do irmão, como poderia encarar o fato de que ele estava se acomodando com aquilo? Era completo absurdo!
Perguntas rondaram tanto sua cabeça que perdeu a concentração para estudar o roteiro. Apenas olhava as letras sortidas sobre as folhas brancas do bloco.

- Boa tarde, meus queridos! – Sra. Moore sorria com exagero enquanto segurava blocos de folhas em mãos após as escolhas dos personagens secundários. – Sentem-se em semicírculo, por favor. – aguardou os alunos se posicionarem, então levou uma cadeira ao centro. Examinou a disposição dos alunos. – Antes de começarmos, vamos ajeitar a ordem de vocês. Os intérpretes sentarão de acordo com os personagens, ok?
- A senhora quer dizer por ordem de ‘importância’? – Cecile indagou.
- Basicamente.
- Eu vou ter que sentar ao lado do , então? – questionou sem olhar o garoto. Seu rosto mostrava todo seu descontentamento. Ele resumiu-se em arquear a sobrancelha.
- Exato. – a mulher respondeu. Indicou o lugar vago ao lado do garoto. – Dê a iniciativa, .
- Mas... – ela tentou revogar, procurando alguma saída que a fizesse não ter de sentar ao lado do também protagonista. Procurou o olhar de , torcendo para que também relutasse a decisão da professora. Seu olhar era mais uma vez dissimulado, causando-lhe raiva. – Ok, tudo bem. – levantou-se e cruzou o palco, indo até o garoto. Apesar da proximidade, tentava ao máximo manter distância. Logo a professora voltou a checar seus papéis. – Você podia ter feito isso mais fácil pra nós dois. – a garota sussurrou de modo indiscernível. – Custava dizer que não era boa ideia?
- ao lado de , por favor. – a mulher continuou. – Cecile...
- Custava. – respondeu. – Eu teria que concordar com você. – sorriu de soslaio, com deboche.
- Não sei por que ainda me preocupo. – a garota revirou os olhos. Virou-se levemente para o lado, com pretensão de ignorá-lo.
- Algum problema, ? – disse baixo. Encarava o rosto fechado da menina.
- Não, nada. – ela mentiu, sorrindo fraco para o garoto.

’s P.O.V.

Estava valendo cada minuto ao lado daquela praga. Era impagável ver a cara que ela ficou durante toda aquela falação estranha da aula de teatro. Eu nem mesmo fazia nada, mas ela bufava a cada minuto.
Se as aulas fossem sempre assim, eu ia vir com prazer.
- , queira vir ao centro, por favor. – Moore a chamou. Eu seria o próximo, claro. – E você também, . – Levantei e fui até onde a cadeira estava a alguns minutos, ignorando a coisa do meu lado. Pensando bem, provavelmente seria a hora de encenar. Eu precisaria olhar pra ela, seria impossível não fazer isso. E eu nem posso fazer de qualquer jeito, senão o menudo aposentado iria ficar sabendo, já que a Moore sempre tá na mesma cama que ele. – Vamos ver como estão entrosados com relação à peça.
Previsível demais.
Pegamos os dois scripts que ela estendeu, indo até o capítulo três, nono ato, como havíamos sido indicados. A expressão de era de desânimo. Aquilo ia ser bastante divertido.
Respirou fundo e me encarou. Acuei um pouco com aquele olhar, mas depois voltei ao normal. Sei que ela não vai pular no meu pescoço, como fez com Ally. Pelo menos não ainda.
- É um ótimo lugar para uma leitura de poesia, não acha? – de repente, sorriu. Assustadora a habilidade dela de camuflar bem o ódio que estava de mim. Abriu o casaco, deixando à mostra o decote circular de sua regata. Eu podia jurar que vi uma estrela vazada na curva dos seios. – É poético o bastante para você?
Ela estava só encenando, eu sei, mas porra... Aquela garota tava brincando comigo! Eu tinha que fazer o mesmo, ou pelo menos tentar.
- Sim... Sim. – não precisei encenar meu nervosismo de personagem bicha, já que eu estava me sentindo uma bicha por ficar nervoso.
Ela era a , a namoradinha do cegueta. Como que eu fui chegar a esse ponto?!
- Um jantar? – aproximou-se mais de mim. – Talvez um pouco de champanhe?
- Eu gostaria de... Ir direto ao que interessa. – os olhos da garota se abriram, mas depois voltaram ao normal e um sorriso saliente surgiu. Era encenação mais uma vez, claro.
- Muito bem. – passou a ponta dos dedos pela gola da minha camisa. – Por que não... – puxou, me fazendo ir pra perto. Aquela cena não era muito saudável pra minha libido. – Vem até aqui? – murmurou ao meu ouvido. Andou ainda de costas até a cadeira, segurando a gola da minha camisa. Por sorte, ela era ela, e a gente estava no meio de uma aula de teatro, senão eu já teria agarrado com certeza. – Vamos direto ao que interessa.
- Eu preferia ficar de pé. – parei de andar. – Às vezes pode ser demorado, quero que se sinta confortável. O que eu faço é moderno. Pode parecer estranho no início, mas se for receptiva, você vai gostar. – e acho que pensou o mesmo.
- Tenho certeza que...
- Ok, chega. – parei de olhar o busto (bastante interessante) de . O lanchinho do menudo veio até nós.
- Mas já? – a coisa perguntou. – Nem chegamos ao meio do diálogo!
- E nem vão chegar. – franzi o cenho, encarando a Moore. – Pelo menos hoje, não. Vocês nem se olham direito, ficam com as expressões vagas, como querem continuar uma cena assim?
- O problema é que eu não quero, professora. – encarei agora . Por ser um pouco mais alto, tive que inclinar o rosto pra baixo, dando a impressão de que eu estava me sentindo superior. E tenho certeza que foi essa a impressão que ela teve. – Não com ele! – me senti particularmente ofendido, além de ameaçado pelo olhar que ela me lançou.
Essa garota sabe despertar as piores sensações numa pessoa.
- Desculpe, . Só poderei tirá-lo do elenco se quiser – sorri, vitorioso. O filhote de belzebu iria ter um chilique –, mas como ele não tem direito de escolha, não há muito que fazer. – recolhi todo meu sorriso. – E, pelo visto, seu colega gostou da ideia de continuar contracenando contigo.
- Eu? – arregalei os olhos. Vi a vaca assentir. – Ah, claro, sempre gostei dessa ideia! – ironizei.
- Então ótimo! – ela ignorou toda a ironia. – Hoje, depois do ensaio, vocês ficam aqui para se conhecerem melhor. – e eu tentamos argumentar, mas Moore continuou: – Aposto que com uns dias de ensaios extras vocês irão se entender.
Isso é algum tipo de piada?!

Capítulo 8

- Desculpa, Noel, não vou poder ir contigo à livraria. – dizia ao celular, encostada na parede atrás das cortinas do auditório. Todos o elenco já havia sido liberado, com exceção dela e , que parou por trás da garota, ouvindo a conversa. – Vou ter ensaio até mais tarde, sem chances... Tudo bem, depois eu te vejo e a gente resolve isso.
- Falando com seu namoradinho cegueta? – ele indagou. A garota revirou os olhos, ainda de costas.
Tinha vontade de gargalhar pela dedução do garoto, porém tratá-lo com indiferença seria menos desgastante.
- Você não me conhece mesmo.
- E não tenho tanta vontade de conhecer.
- Seria melhor ainda se não tivesse nenhuma. – pôs-se de fronte ao garoto. – Assim você me poupa de um sacrifício. – contornou-o, voltando ao centro do palco. – Pensando bem... – voltou a olhá-lo com um sorriso satírico. – Seria ótimo se me conhecesse pelo menos um pouco. – ele nada entendeu, arqueando a sobrancelha em troca de respostas. – Assim não falaria tantas merdas.
- Voltei, meus queridos pupilos! – foi impedido de responder por Elizabeth, que mais uma vez sorria. Seu rosto estava um pouco avermelhado, típico de quem estava aos beijos. – Vamos começar o ensaio extra de vocês, sim?
- Claro. – respondeu, sorrindo, orgulhosa pela quietude de .
- Para começar... – puderam ouvir o toque de um celular. – Só um instante. – e, mais uma vez, a porta de trás do palco foi aberta pela professora Moore. O silêncio se instalou no recinto no mesmo momento. Poucos minutos depois, relia o roteiro, enquanto mexia em seu celular, ambos em atmosferas diferentes. O barulho estrondoso da porta os fez pararem suas distrações. – Pois bem, voltemos ao assunto principal: vocês. – a mulher se pôs próxima a . – , venha até aqui. – puxou o garoto até pará-lo ao lado de . – Antes de começarmos a bateria de ensaios, quero que construam pelo menos um relacionamento saudável. – a garota suplicou por algo diferente com seu olhar. – Não precisam se amar – a professora disse em resposta –, mas também não quero que se odeiem. Não há como trabalhar com duas pessoas que querem se matar em cima do palco.
- Então o que vamos ter de fazer?
- Simples, . – sorriu com satisfação. – Vou primeiro fazer umas perguntinhas e os dois irão responder, anotando o que tiverem em comum. A propósito, os dois estão com material aqui, não é? – correu o olhar pelos alunos, que assentiram. – Ótimo. Depois, vou dar mais ou menos dez minutos para que conversem sobre as diferenças de vocês mesmos. Quando eu voltar, quero que me contem o que descobriram sobre o parceiro com todos os detalhes dados. Tudo bem?
- Não tenho alternativa, mesmo. – deu de ombros, indo até sua mochila. fez o mesmo.
Voltaram ao centro do palco, sentaram-se e pegaram o material necessário para o exercício. Sra. Moore sentou-se na cadeira que arrastou até a frente dos dois.
- Vou fazer três perguntas e vocês vão responder “sim” e “não”. – disse. – Depois mais três, e vocês dirão também o porquê, mas um para o outro. – os dois alunos assentiram. – Primeiro: gostam da presença um do outro no mesmo lugar?
- Não. – disseram os dois, convictos. Elizabeth suspirou.
- Como eu pensei... – murmurou, fechando os olhos em um piscar vagaroso. – Algum de vocês já fez algo para que essa situação chegasse a esse ponto?
- Não, eu acho. – respondeu, incerto.
- Sim. – respondeu, ainda convicta. O garoto a olhou de soslaio, franzindo o cenho.
- Gostariam de melhorar isso?
- Não. – responderam mais uma vez em uníssono.
- Sentem repulsa um pelo outro?
- Não exatamente... – o garoto comprimiu os lábios, pensativo.
- Sim! – disse, rompante. Virou-se para . – E o porquê...
- Não, não, não! – Sra. Moore a impediu. – Aguardem até eu sair. – explicou. A aluna assentiu, recompondo-se. – Já tiveram esse sentimento por alguém antes?
- Não... – disse, sentindo uma pontada no ventre ao assumir em voz alta. Claro que havia motivos para não gostar de , mas eles eram tão graves a ponto de causar repulsa?
- Não. – respondeu simplesmente.
- Os dois irão tentar se matar, se eu sair por dez minutos? – Elizabeth não conteve o riso. Levantou-se ao vê-los negar. – Muito bem, já é um começo.
Então rapidamente se retirou mais uma vez. continuou na mesma posição que estava. Não queria realizar a proposição, mesmo sabendo que escolha não era um luxo que podia dar-se. passeava o olhar pelas cadeiras do auditório, lembrando e então percebendo que era o desinteressado da tarde anterior.
Desconfortou-se por estar no mesmo lugar do garoto que prendeu a atenção, mesmo que ele não tivesse conhecimento disso. Seu estômago mais uma vez brincou dentro de si.
- Você esteve ontem aqui, não é, ? – indagou sem mover um músculo para enxergar o garoto.
- Não me chame de .
- Não tenho intimidade para não te chamar de – encarou o rosto do garoto, sentido as entranhas comprimirem –, .
- Por que tá tão nervosa, ? – ele esboçou um fraco sorriso, ostentando petulância. A garota fugiu do seu olhar.
- Não estou nervosa. – mentiu.
- Então por que essa cara?
- Aversão a você, só isso. – voltou a olhá-lo. Carregava frieza no olhar.
- Você não devia me odiar. – ele suavizou a voz, pondo-se mais perto da garota. Tornou seu sorriso mais atrevido. – Nós vamos ter que passar o tempo juntos todas as tardes... – tocou os braços de , vendo os pelos finos se eriçarem. Estava se divertindo com aquilo. – Não acha que seria melhor se a nossa relação fosse mais... – aproximou-se do lóbulo esquerdo da garota. – Íntima?
Ela, por um instante, perdeu a voz. Reconheceu finalmente o tenor que procurou durante a manhã, alarmando-se.
- Só nos seus sonhos! – fugiu dos braços do garoto, ainda sentada. riu baixo, julgando-se vitorioso. – Agora vamos logo ao que Elizabeth mandou.
- Certo. – conteve o riso. Encarou a garota, agora um pouco mais sério. – Por que sente repulsa, aversão por mim?
- Não creio! – ela fingiu espanto. – Você vai mesmo querer saber? – levou uma das mãos à boca aberta.
- Curiosidade. – ele recolheu os ombros. – Então, vai responder?
vacilou. Tinha a faca e o queijo na mão, era só decidir se cortava o queijo ou continuava segurando o objeto. Prendeu os olhos sobre os de fixamente.
- Simplesmente por você ser assim. – respondeu. – Não pensa em nada além de você mesmo, suas vontades, tudo que te envolva em primeiro plano. Isso me irrita. Seu egocentrismo me irrita. E, além de tudo, você não tem um pingo de altruísmo. É completamente seco, frio.
Frio.
Frio fora a palavra que o atingira com mais força. A mesma palavra que Allison também usara para defini-lo.
Aos poucos, uma ferida foi se abrindo no ego de .
- Alguma vez isso te atingiu de alguma forma? – perguntou, mostrando-se muito menos arrogante, ainda que estivesse melindrado a ouvir mais verdades.
- Não diretamente. – respondeu, um pouco mais baixo. – Quer dizer, das vezes que eu tive raiva de você por fazer algo – aumentou o tom de voz novamente –, que não foram poucas, já que você vive mexendo com todo mundo...
O garoto revirou os olhos enquanto ela tagarelava.
- Vá direto ao ponto! – interrompeu, com a testa franzida por nervosismo. – Você fala demais!
- Ei! – a garota disse, ofendida. – Quem pensa que é, hein?!
- Ok, ok, desculpa. – ele disse rápido, para evitar uma discussão. – Só diz se eu já fiz algo para você, diretamente para você.
- Não. – ela mordeu o lábio. – Por quê?
- Não sei – ele deu de ombros mais uma vez –, talvez eu tivesse feito e não lembrava, por isso você me odeia. – emitiu um som positivo, encarando a folha com as respostas em comum com em seu colo. – E você já sentiu isso por alguém antes?
- Não. – respondeu. – Ninguém nunca me deixou tão revoltada a ponto de eu criar rancor.
Depois dessas, mais nenhuma palavra fora trocada. Suas próprias atmosferas pareciam pesadas demais até para si mesmos. O silêncio mútuo queria se extinguir, porém, não houve nenhum apoio de nenhum dos lados.
Sufocada com a tensão ali instalada, levantou-se e andou em direção à porta. , percebendo, arqueou uma sobrancelha.
- Aonde vai? – perguntou mais alto. – Ainda não passaram os dez minutos.
- Eu duvido que Elizabeth volte agora. – ela respondeu. – Provavelmente está na mesa do diretor a essa hora!
E não teve nenhum arrependimento de dizer algo rude daquela forma. O tormento de estar com no mesmo recinto já a tirava as estribeiras.
Saber que esteve errada esse tempo inteiro, e que a repulsa na verdade era pirraça, a tirava as estribeiras.

’s P.O.V.

Eu sei, fui uma idiota. Nunca cheguei a ter um desentendimento tão grave com para ter ódio dele. Eu nunca nem mesmo tive ódio de alguém.
Mas ele, de algum jeito, me irritava. Eu não conseguia me conter, mesmo sem motivo. Todas as coisas que ele já fez, as vezes que implicou com Noel, tudo isso parece se embolar na minha garganta e ficar preso ali mesmo. Não fora nada ligado a mim, mas do mesmo jeito...
Corri para o banheiro mais próximo e me joguei sobre a bancada de granito. Peguei meu celular e disquei o número de . Ela não resolveria o problema – que eu nem sabia se era um problema – por mim, mas eu precisava contar isso a ela de qualquer forma.
Encostei a cabeça nos azulejos brancos da parede, esperando a voz de minha amiga aparecer do outro lado da linha. A única voz que eu ouvi foi a da atendente telefônica, pedindo que eu deixasse a mensagem após o sinal. É nessas horas que eu me pergunto: para que fazem celulares, se os donos quase nunca atendem?
Agora, sem conselho algum de , eu teria que voltar pro auditório. Se a Sra. Moore tivesse voltado, ficaria irada de saber que eu saí de lá.
Eu só conseguia pensar em uma palavra: errado. Todos os acontecimentos se resumiam a ela. Digo, eu nunca nem cheguei a cumprimentar – mesmo sabendo de sua existência, já que estudávamos na mesma turma –, mas mesmo assim eu disse a Deus e o mundo que não gostava nem um pouco dele. E o pior é que quase tudo que me acontecia tinha alguma ligação com ele, justo com ele. E a única coisa que eu consigo sentir por ele é... eu nem mesma sei, droga!
Quanta ignorância e intolerância minha. Como eu pude julgar mal alguém que nem mesmo conhecia?
Tudo bem, a fama dele não é das melhores, suas atitudes também não são as melhores, mas ele nem sequer tinha feito algo para mim.
Por mais que eu não quisesse, deveria dar o braço a torcer. Eu não o conhecia, não sabia em que terreno estava pisando. Talvez não fosse algo tão ruim assim. Eu só precisaria respirar. Tudo ficará bem, só preciso respirar fundo. Muitas vezes, talvez.

- Voltou rápido! – ouvi o tom de sarcasmo de assim que atravessei a porta do auditório. Estava em pé, mexendo em seu celular. Procurei a Sra. Moore, mas ela ainda não havia voltado. – Se tá procurando a Moore, desiste.
- Pelo visto, a festinha tá sendo boa. – resmunguei. Ouvi rir, o que foi estranho para mim. Procurei ver as horas em meu celular. – Já são quase seis, o colégio vai fechar daqui a pouco.
- Ainda não acredito que meus pais me matricularam em um colégio de só dois turnos. – ele murmurou.
- Por que não sai daqui, então?
Controle-se!, pensei.
- Se eu for sair, vai ser para morar em outro país. – pela expressão em seu rosto, não parecia contente. Senti uma pontada de culpa por mais uma vez estar pensando como uma criança pirracenta.
- Hm... – murmurei também. Caminhei até minha mochila, do outro lado do palco, tendo a sensação de ser observada. O enjoo voltou com mais força. Pus a mochila nas costas e me virei, tendo a comprovação de que estava, sim, me observando. – O que foi?
- Nada. – ele respondeu em tom de obviedade.
- Você costuma ficar igual um predador olhando sua presa sempre, então?
- Obrigado pela analogia – ele sorriu com ironia. Esse ar de deboche dele estava me irritando –, mas não.
- Certo. – mais uma vez olhei meu celular. – Estou indo embora, vai ficar aqui?
- Quer que eu vá contigo?
Esse garoto deve ter problemas, decerto.
- Só quero saber se vai continuar aqui. – respondi. – Vai ou não?
- Você quer que eu vá contigo? – ele repetiu, tentando me irritar gratuitamente, como sempre.
- Olha, , eu não vou ficar o resto do dia perguntando se você vai embora ou vai ficar aqui trancado. – tentei mostrar a minha leve irritação, já que era isso que ele queria. – Por mim, você pode morrer asfixiado dentro desse auditório que eu não vou nem ligar. Então, já que você não me responde, eu não vou mais perguntar. Passe bem. – andei até a porta. A gargalhada de mais uma vez ricocheteou nas paredes acústicas e veio até mim. Parei em frente à porta, sentindo que poderia vomitar a qualquer momento. Esse garoto consegue acabar com o meu sistema nervoso. – Você tem algum tipo de doença, algo assim?
- Não. – respondeu, ainda soltando alguns risinhos. – E você?
- A única coisa que me deixa doente nesse ambiente é você. – grunhi. Ele estava me tirando do sério, já era oficial. Respirei fundo, tentando manter o controle e voltei a olhá-lo. Tinha um sorriso enorme, enviesado, chegando até quase a ponta da orelha, de tão grande e arrogante. – Acho que não vai adiantar discutir contigo...
- Não mesmo. – me interrompeu. Cantava vitória sobre mim só com o olhar de sátira.
-... Então eu proponho uma trégua. – rapidamente, seu rosto virou uma interrogação. E eu nem mesmo acreditava no que dizia. – A Sra. Moore realmente tem razão. Não dá para trabalhar com duas pessoas, sendo que elas querem se matar. – andei até ele, com passos não muito firmes. – Eu concordo em pelo menos tentar levar tudo numa boa. – estendi minha mão. Qual seria o mal disso? Talvez ele até parasse de ser tão imbecil com Noel mais tarde, se concordasse. – Você concorda?
Seu olhar ficou preso em minha mão. Às vezes subia para o meu decote – que nem tão grande era – rapidamente, mas tive que ignorar isso caso quisesse mesmo levar tudo numa boa.
- Ok... – respondeu ele, hesitante, apertando minha mão. Tive de controlar o ímpeto de retirá-la e dizer para ele esquecer tudo aquilo que eu dissera. – Concordo.
- Ótimo. – falei, recolhendo logo minha mão. Estiquei levemente as bordas dos lábios, dando um sorriso tão fraco que nem mesmo parecia um sorriso. Fechei meu casaco, evitando que ele olhasse mais uma vez para o decote da blusa. Como estava calor, tive que subir as mangas.
- A propósito, bonita estrela. – voltei a encará-lo, confusa e assustada. Aquele mesmo sorriso voltou ao seu rosto.
- Estrela? – indaguei de súbito. – Que estrela?
- A que você acabou de esconder.
Tentei argumentar. Dizer que não havia estrela alguma, ele que era lunático. Nas vezes que abri a boca para falar, não saiu nenhuma palavra. Nenhum som. Era muito descaramento olhar meu decote e ainda assumir. Fiquei, por não sei quanto tempo, correndo meus olhos pelos dele, tentando dizer alguma coisa.
Porém não tinha mais jeito. não era mais a única a saber sobre a estrela. Eu só tinha medo do que viria a seguir.

Capítulo 9
’s P.O.V.

Ele viu.
Ele viu a tatuagem, merda.
Era idiotice fazer esse treco. Eu disse para dois meses atrás, me lembro perfeitamente que disse. Onde já se viu que fazer piercings e tatuagens é terapia?
Talvez com Christina Aguilera funcione, já que ela pôs doze piercings – não sei onde, exatamente. Mas comigo só serviria para eu não poder mais usar batas, vestidos um pouco mais decotados e biquínis normais na frente dos meus pais. Porque imagine só se eles vissem? Era o meu fim!
Se bem que poderia ser meu fim antes mesmo disso. Eu e nos expomos demais fazendo tatuagens sem autorizações, temos total noção disso. Eu tentei até alertar, falei por mais de uma hora antes de sermos atendidas pelo baixinho, troncudo e cheio de rabiscos pelo corpo que era o tatuador. Mas não, não me ouviu. Apenas me chamou de “megera chata” e entrou na sala de vidro, pro meu divertimento – ironicamente falando.
Quando voltou, disse que não sairíamos enquanto eu também não fizesse uma. Resisti, chantageei, mas ela continuou firme. Tentei também sair do estúdio, mas fui barrada pela mala que chamo de amiga. Pela irritante insistência de , resolvi fazer uma também. Ela me prometeu que não doeria nada (e também que pagaria a minha tatuagem, desde que não fosse mais que trinta libras), então aceitei. Quanto mais rápido fizesse aquilo, mais rápido sairia daquele estúdio de aparência quase satânica.
Escolhi uma pequenininha. Uma estrelinha vazada, de risco fino, para ficar na curva do seio esquerdo. Assim eu não precisaria andar sempre de cabelo solto, se fosse na nuca; de calças, se fosse na perna; de meias, se fosse no pé; com short de lycra ocupando o lugar de uma calcinha de biquíni, se fosse no traseiro. Era só usar pouco decote e mais pano quando estivesse em situações em que eu precisasse de roupas de banho. Principalmente na frente dos meus pais.
E agora tinha visto. De forma descarada e abusada, claro.
Já fazia horas desde que eu havia chegado em casa. Meus pais haviam ido até a casa de meus tios maternos, Noel ficara ouvindo a televisão e eu continuava deitada na cama, desde que chegara, de barriga para cima, pensando nas mil possibilidades de meus pais saberem da estrela antes de descobrirem por si mesmos. Disquei algumas – muitas – vezes o número de no celular; ela não retornou nenhuma das minhas ligações. Justo ela, a culpada de todo o meu medo e remorso, não dava um sinal de vida.
- ! – ouvi Noel gritando do andar debaixo. Fingi não escutar, continuando na mesma posição. – !
- Que é?! – berrei, sem nem me mexer mais que o necessário sobre a cama.
- Vem cá! – ele respondeu em um grito arrastado. Provavelmente queria me pedir algo.
Respirei o máximo de ar que podia, como se cada pedaço meu precisasse do máximo de oxigênio para se locomover escadas abaixo. Demorei o máximo que pude para sair da cama. Estava morrendo de cansaço.
Ao chegar aos últimos degraus da escada, ouvi a barulheira que a televisão fazia. Franzi o rosto.
- Abaixa isso! – falei, quase gritando. – Além de cego, ficou surdo também?
Na mesma hora que terminei a frase, me arrependi de dizê-la.
- É, deve ter sido. – Noel deu de ombros. – Só que não pelo mesmo motivo, não é?
E na mesma hora que ele respondeu, de forma gélida, senti meu coração apertar.
- O que foi? Por que me chamou? – desconversei, dando a parecer que não me abalei. Não por sorte, ele não viu meu rosto avermelhar de vergonha de mim mesma.
- Queria saber se vai comer alguma coisa antes de dormir. – ele também pareceu não se abalar. Continuou largado sobre o sofá, com os pés sobre a mesa de centro.
- Por quê? Tá com fome? – eu já sabia a resposta, perguntei por força do hábito. Noel assentiu. – Vou ver algo para comermos.
Arrastei meu peso (não literalmente falando) até a cozinha, procurando algo “comível”. Encontrei um pacote dos mesmos cookies assassinos que comi mais cedo. Levei o pacote comigo até a sala, onde bati nas pontas dos pés de Noel para que ele os tirasse de cima da mesa. Abri a embalagem, peguei dois biscoitinhos e joguei o pacote sobre o colo de meu irmão.
- Toma, devora. – grasnei.
Noel não agradeceu. Não que eu me importasse muito, mas um “Obrigado”, vindo dele, seria bom nesse momento.
Lembrando-me de que esperar esse ato vindo de um garoto de treze anos era inútil, voltei minha atenção para a televisão, mordiscando um dos biscoitos que peguei da embalagem. Passava Simpsons na televisão.
- Tá passando Cold Case, a essa hora. – comentei como quem não quer nada. E realmente não queria.
- E daí? – Noel indagou, grosseiro. E com várias migalhas à mostra.
- Eu só comentei. – pus tom de indiferença em minha voz. – E para saber que você tá comendo, não preciso ver a comida na sua boca. Pode, por favor, comer de boca fechada?
- Por quê? – mais uma vez, fez questão de que eu visse todos os pedaços partidos do cookie em sua boca. Dessa vez, mais próximo.
- Porque é nojento! – respondi, empurrando-o para o outro lado do sofá.
- Você também é nojenta – ele retrucou, rindo –, nem por isso fica escondida de todo mundo.
- Babaca! – bati com a mão espalmada na parte traseira de sua cabeça, rindo também. – O senhor também é algo que devia ser escondido da sociedade moderna, espécime ultra conservado de homo erectus.
Ficamos um tempo sem dizer nada. Eu assistia as babaquices de Homer e Bart, Noel nem ouvir conseguia, de tanto que eu gargalhava, apesar da tevê estar alta.
- Vai ter ensaio amanhã? – ele perguntou do nada.
- Vai. – respondi rápido, sem dar muita atenção. Naquele momento, qualquer coisa que me perguntasse, eu daria uma resposta automática.
- Extra também? – continuou a perguntar.
- Vai. – continuei a responder rápido, impensadamente.
- Então você não vai comigo na livraria?
- Não.
- Nem sair com o ?
Ao ouvir o nome de , desprendi-me do desenho. Na verdade, eu não sabia se teria ensaio extra. Se tivesse, eu não poderia faltar. Estaria deixando Sra. Moore na mão. Entretanto, faltar ao almoço que me propôs seria indelicadeza.
Sem ainda ter a resposta, Noel me cutucou.
- Hein?
- Não sei. – respondi, com a testa franzida. Levantei do sofá, indo até a escada. Por mais que quisesse ver Simpsons, não podia. Tinha era que dormir. Ou tentar.
- Quando você souber, me avisa, tá? – disse em tom de ironia. – Quero ver se vai comigo até a livraria.
- Tanto faz. – dei de ombros. – Só não arrume revistas pornôs. Eu sei que existem em braile. – subi os primeiros degraus. – E não vá dormir tarde!
- Falou aí, chata. – prestou continência ao ar.
- Pé no saco. – resmunguei, continuando a subir.
Entrei em meu quarto e tranquei a porta. Sentei com as pernas cruzadas no meio da cama. Fiquei com o olhar vago, passeando entre um canto do chão e outro.
Eu não precisaria desmarcar nada com . Ele sabia do imprevisto que havia acontecido, estava tudo sendo autoexplicado. Nós nos veríamos no ensaio geral, ele, provavelmente, saberia do ensaio extra também, e tudo seria resolvido numa boa. Sem problema nenhum.
O único problema que eu tinha agora era sobre a tatuagem. Ela estava tão bem escondida, como viu?!
Depois de tanto repreendê-lo em mente por olhar de modo tão descarado pro meu busto, adormeci.
Tive vontade de explodir meu celular quando ele começou a vibrar e tocar Jet.
Tomei um banho rápido e pus uma camiseta, por precaução. Se viu, meus pais também poderiam acabar vendo.
Desci para tomar café. Meus pais já estavam sentados à mesa, conversando sobre algo que acontecera na noite passada, na casa de meus tios. Deviam ter acordado mais cedo, presumi. Sentei ao lado de minha mãe, pegando a caixa de leite.
- Você já tá atrasada, sabia, ? – meu pai disse. Parei a caixa de leite na metade do caminho, arregalando os olhos para ele.
- Estou? – perguntei, pondo a caixa novamente sobre a mesa. Papai assentiu. – Mas o celular só despertou agora, e...
- É melhor ir rápido com o café, filha. – disse minha mãe, com calma e autoridade.
- E cadê o Noel? – tornei a perguntar.
- Já foi, ué. – papai respondeu, em tom de obviedade. – E, se eu fosse você, obedecia a sua mãe e tomava logo esse café. Daqui a pouco começa a segunda aula já.
- Ai, meu Deus! – saltei para fora da cadeira, correndo para o banheiro.
Como eu havia acordado atrasada?! E como Noel tinha ido sem mim pro colégio?! Aquele peste!
Pelo menos o colégio não era tão longe, Brent é logo ao lado. Mesmo que eu estivesse atrasada, conseguiria chegar a tempo para a segunda aula.
Corri contra o tempo e contra as pessoas que passavam pela mesma calçada que eu. Quase derrubei a sacola de verduras de uma senhora que xingou até os meus futuros descendentes. A culpa não era minha se ela não dava licença quando os outros pediam. Se tivesse mais tempo, juro que dizia isso na cara dela.
Ao chegar ao colégio, o portão estava encostado, com um inspetor logo atrás. Ele – o inspetor – me disse para ir à biblioteca esperar pelo sinal da segunda aula. Assenti, cumprindo o que me foi recomendado.
Chegando lá, sentei numa das compridas mesas da sala de vidro usadas para estudo em grupo. Ainda faltavam trinta minutos para a segunda aula, meus pais que eram uns exagerados com relação à pontualidade. Abri o roteiro da peça para dar uma lida rápida. Minutos depois, o silêncio da sala foi corrompido por sons altos.
Era , ouvindo algum solo de guitarra em seus fones de ouvido cinzas que saíam de dentro de seu casaco preto da GAP. O desânimo logo caiu sobre mim. Mais uma vez estava sendo obrigada a habitar o mesmo lugar que ele. E a vergonha por saber o que havia acontecido entre nós naquela mesma semana me fazia ainda mais desanimada, insegura.
Quando me viu o encarando, deu um sorriso breve e introvertido, fazendo valer o acordo que fizemos ontem. Respondi sua ação da mesma forma, com um pouco a mais de introversão. passou por trás de mim, indo em direção a uma cadeira vaga. Usava o mesmo perfume da noite em Camden.
- Bom dia. – falei, tentando ser educada.
- Dia. – ele respondeu, jogando sua mochila sobre a outra ponta da grande mesa em compensado. Sentou-se sobre a cadeira, abrindo a mochila e tirando de lá um isqueiro em inox.
Voltei a estudar o roteiro. Estava no quinto capítulo, já. O tique-tique que a tampa do isqueiro fazia ao subir e descer começava a incomodar.
Tique. Tique. Tique. Tique.
Acho que o não consegue controlar seu instinto incômodo de ser.
Tique. Tique. Tique.
Além do que se diz incômodo, estava começando a irritar.
Tique. Tique.
Minha concentração já havia ido pro espaço.
Tique.
Eu vou matá-lo!
Tique.
- Será que pode parar com esse barulho maldito?! – ralhei. Ele me lançou um olhar confuso, um pouco assustado pelo volume da minha voz rompendo o silêncio, não obstante o barulho do isqueiro.
- Desculpe. – respondeu incerto do que dizia.
Mudei a expressão de meu olhar para indiferença. Voltei a ler o roteiro.

’s P.O.V.

Não havia motivos para ter agido como um cavalo. Foi ela quem propôs a trégua, não foi? Era só pedir que eu parasse, então eu pararia.
Ainda faltavam vinte minutos para a segunda aula. Se eu estivesse com meu Mustang, não teria me atrasado. Foi pura babaquice de meus pais confiscá-lo. No que um carro pode influenciar o rendimento escolar?
A única coisa que influencia, claro, é o tempo que eu chego nos lugares. Mesmo morando em Camden, que é perto do centro, me atraso. E se me atraso, acabo me encontrando com o inspetor – idiota, em todos aspectos – no portão, e ele me manda para a biblioteca.
E, dessa vez, eu ainda acabei encontrando . De novo.
É tão esquisito me ver sempre encontrando essa garota. Nunca nem nos falamos – mesmo eu sabendo que ela existe, já que estudamos na mesma sala –, e agora eu a vejo quase todos os dias. Ainda vou ter que passar um tempo extra todas as tardes com ela, até apresentar essa peça mongol.
Peça que ela se dedica bastante, dá para ver. Nunca vi uma pessoa que passa o tempo livre estudando roteiro – tá, nunca nem vi alguém estudando roteiro em tempo nenhum, mas enfim... E sua apresentação na quarta foi boa, admito. (Não que eu seja autodidata com relação a apresentações, mas muitas das garotas que se apresentaram eram ruinzinhas.)
- Posso te perguntar uma coisa? – disse, fechando o script. Voltei meu olhar para ela.
- Já não perguntou? – falei sem pensar, de supetão. Ela cerrou os olhos, deu medo de ver.
- Outra pergunta. – rosnou. Assenti, evitando contato direto com seus olhos. Mudando a intensidade de suas expressões, ela continuou: – Por que você entrou pro grupo de teatro?
Alguma hora ela perguntaria isso.
- Motivo de força maior.
- Qual motivo? – seus olhos agora pareciam ansiosos.
Hesitei. Com certeza, ela já deveria saber sobre o lance do gabarito de Física – colegial é um verdadeiro ninho de cobras, não se pode confiar em ninguém para manter segredo –, mas não havia ligado uma coisa à outra. Fiquei certo tempo procurando boas razões para não contá-la.
Burrice!, pensei. Se eu contasse tudo a ela, poderia ter sua ajuda para me manter no grupo de teatro, o que me deixaria no colégio e, consequentemente, em Londres.
- Fui obrigado por meus pais e o diretor. – respondi sem emoção. – Depois da história da prova de Física, meus pais foram chamados aqui. Meu “dossiê” – fiz aspas com os dedos – foi entregue a eles e os dois ameaçaram me mandar pro País de Gales...
- Por isso você disse que, se saísse desse colégio, era para ir para sair do país, né? – ela me interrompeu, mostrando compaixão em seus traços. Assenti, olhando melhor suas feições. é até bonita quando não está com cara de psicótica. Não consegui me controlar, então caí o olhar para seu decote rapidamente. Coberto, droga.
Faltavam quinze minutos.
-... Mas aí o (Rick) Martin, menudo salvador da pátria, teve a brilhante ideia de me enfiar nessa peça, porque o conselho de professores achou isso a melhor solução para mim. – revirei os olhos. – A única saída que eu tinha para continuar aqui em Londres foi entrar nesse... troço.
- Hm... – foi só o que disse.
- Mas o problema é que eu nunca atuei, muito menos cantei. – continuei. Nunca havia falado tanto com quanto nessa hora. O que o desespero não faz... – Meu lado musical só me deixa tocar .
- Ah, sim. – seu rosto, mesmo que de leve, se acendeu. Um fetiche dela, talvez? – Mas não acha que, se você não se dedicar, pode acabar se ferrando com o diretor?
- Como assim? – franzi o cenho.
- Ele te colocou no grupo para você melhorar o comportamento, não foi?
- É. – respondi, ainda não sabendo onde ela queria chegar.
- Então, se você não fizer nada direito, não acha que isso vai acabar refletindo em você ficar ou não aqui?
Suavizei as expressões por ter entendido, mas não muito por não ter pensado dessa forma.
- Tá aí uma coisa que eu não tinha pensado.

’s P.O.V.

Então não eram só especulações. havia roubado mesmo o gabarito. A que ponto uma pessoa chega, quando bate o desespero?
Sei que, para ele ter tomado essa atitude, estava – e ainda está – a caminho da reprovação. Eu, em seu lugar, também piraria. Não roubaria nada, óbvio, mas também me veria desesperada. Imagino o sufoco que ele está passando.
- Por que não pede ajuda a alguém? – sugeri, sem nenhuma pretensão. Ele me lançou um olhar irônico.
- E você acha que alguém vai querer me ajudar? – disse. – Os únicos que fariam isso também precisam de ajuda.
- , Allison e... – tentei me lembrar o nome da irlandesa amiga de Allison. Fracasso total.
- Emma. – completou por mim. Assenti. – É, esses mesmo.
Senti pena. Tenho ciência de que não devia; todos haviam feito por onde. Porém, não conseguia não me sentir mal por ver e seus amigos correndo todo esse risco. Compaixão às vezes é uma bosta.
- Eu sei que pode parecer estranho, até porque nem mesmo nos falamos direito... – balbuciei. mais uma vez franziu o cenho. Faltavam dez minutos. – Mas, se tiver interesse, eu posso te ajudar nas matérias que você tem dificuldade.
Sua resposta não foi imediata. Primeiro expressou confusão, depois desconfiança, então ironia. A espera e as várias reações me deixavam apreensiva. E se ele recusasse? Do jeito que é, é capaz de dizer não e ainda rir do meu altruísmo imbecil.
Abri a boca para retirar a oferta, mas ele logo disse:
- Onde? E quando?
Isso lembrou que ainda teria que ver com se ficaria tudo bem se eu não fosse com ele ao restaurante dos pais e afins. Lembrou também que ainda sustenta implicância com Noel. Os dois sob o mesmo teto não daria muito certo, ainda mais assim, de cara. Não poderia também contar com , ela não é obrigada a aturar depois do horário; essa parecia ter sido uma função dada toda e exclusivamente a mim.
- Pode ser na minha casa? – ele tornou a perguntar depois de ver minha demora para responder.
- É longe daqui? – indaguei, negou.
- É em Camden, aqui do lado. – disse. Voltou a olhar para o isqueiro que estava ainda aberto em sua mão. – Eu posso te dar uma carona depois do ensaio extra e... Merda!
Olhei para sua mão, pensando ser algo com o isqueiro. Constatando que não era, olhei novamente para seu rosto com uma sobrancelha erguida.
- O quê?
- Meu carro. – ele soltou o isqueiro e rapidamente levou as mãos em conchas até o rosto, afundando-o nas mesmas. Arrastou suas mãos pálidas até o topo da cabeça, onde embolou os cabelos nos dedos e coçou o couro cabeludo rápido e forte em sinal de nervosismo. – Meus pais confiscaram, bosta!
- Não tem importância, não precisa. – respondi de modo passional. – Me dá seu endereço, eu vou de ônibus mesmo. Aproveito para passar em casa antes.
- Tudo bem. – ele assentiu. Abri minha mochila, sacando dela minha agenda e uma caneta do estojo. Anotei os dados conforme tinha recebido (inclusive as referências) e rasguei a folha, partindo-a em duas: uma metade com o endereço, a outra sem. Coloquei no bolso de meu casaco – eram incríveis as mudanças de tempo em Londres, ontem mesmo fazia calor.
Faltando cinco minutos para o segundo tempo, juntei meu material e fui em direção à sala de aula. No caminho, analisei o papel com o endereço de . Camden.
Com . Tenho a impressão de que vou ter várias visões da madrugada de segunda enquanto estiver junto a esses dois itens.

***

Assim que adentrou a sala de aula, fora abordada por com uma enxurrada de perguntas maternais. Professor Prophet as enxotou do tablado da sala de aula com cócegas e beliscos fracos, fazendo-as rir. As duas se sentaram e ajeitaram o material que seria usado na aula.
Pouco tempo depois, apareceu à porta pedindo licença para entrar. Com o pedido deferido, caminhou por entre as fileiras de carteiras até a sua, sendo acompanhado pelo olhar discreto de . Sentou-se e pôs seu caderno sobre a mesa, abrindo-o em uma página qualquer e rabiscando o que lhe vinha à cabeça, desde desenhos a trechos de músicas.
Ponderou sobre ter aceitado a ajuda de , talvez não tivesse sido o melhor a fazer. Mal se conheciam, estavam sendo obrigados a se ver lado a lado durante as tardes e agora ainda se veriam depois do tempo que lhes fora determinado. Mesmo que fosse para seu benefício, não valeria tanto o sacrifício. Ou valeria?

Capítulo 10
’s P.O.V.

Terceira aula, aula de Filosofia. A única matéria em que não corria risco de reprovar, já que esta não vinha a ser grade obrigatória. E nem mesmo precisava fazer nada. Depois daquela aula seria intervalo.
Estiquei as pernas, pondo o corpo reclinado sobre a cadeira e cruzando os braços sobre a barriga. Joguei minha cabeça pra trás, apoiando-a sobre as costas da cadeira.
- Bom dia, turma! – ouvi uma voz diferente da voz de Lorelei, a professora de Filosofia, mas conhecida da mesma forma. Abaixei a cabeça, olhando para o tablado. Era a Sra. Moore. Só podia ser perseguição! – Ao que parece, vocês não terão aula de Filosofia hoje, porque a senhorita Lorelei teve um problema de saúde e não veio. – ela explicou em tom sério. – No lugar, haverá Literatura.
Se não haveria Filosofia, e no lugar haveria Literatura – sendo que a aula depois do intervalo também era Literatura –, isso queria dizer que seriam duas aulas seguidas. Duas aulas inteiras com Elizabeth Moore exigindo atenção sem necessidade. Mas que caral...
- E como todo mundo anda sabendo, estamos em período de preparo da dramatização de Moulin Rouge... – prestei mais atenção, apreensivo sobre o que ela diria. – Então, como tenho a outra turma tendo aula de Literatura nesse horário e muitos dos intérpretes são do segundo ano, vou unir as turmas lá no pátio e pedir aos alunos que fazem parte da peça para encenar alguns trechinhos.
Lancei um olhar ansioso para , que sorria fraco para a professora. No que virou em minha direção, estreitou os olhos, mostrando incredulidade. Sua amiga olhou para o rosto dela e depois para mim, com o rosto franzido.
Moore estava de sacanagem com a minha cara, só podia. Pedir que a gente se dedicasse, tudo bem; instituir o ensaio extra até é razoável, porque eu sou iniciante, mas querer que ensaiemos na frente de mais de quarenta alunos, sendo que os ensaios gerais começaram no dia anterior, era demais. E, pelo visto, não era só eu quem achava isso.
Assim que a professora cruzou a porta, mexendo os quadris mais que o necessário e indo em direção ao corredor, correu até ela. Tentaria pelo menos fazê-la mudar de ideia.
Os outros alunos foram se dispersando porta afora enquanto eu continuava dentro de sala. Nessa hora, matar aula viria bem a calhar, se não estivesse com a corda no pescoço.
Andei em direção à porta, sendo o último a deixar o lugar. Ao colocar um pé do lado de fora, fui jogado novamente para trás, vendo dar passos para trás também, na direção oposta. Definitivamente estava esbarrando com muitas pessoas naquela semana.
- Desculpe. – disse ela, sorrindo sem graça e acariciando a testa. – Não vi que estava saindo.
- Tudo bem. – dei de ombros, sorrindo da mesma forma. – Eu ando mesmo esbarrando nos outros o tempo inteiro. – riu baixo, como em um sopro.
O silêncio pairou. fazia menção de querer falar, e eu a esperava dizer algo, ansioso para que ela dissesse que fomos liberados da vergonha que seria apresentar parte do ensaio a todo o segundo ano. Já estava demorando um pouco.

’s P.O.V.

Quando me vi de frente para novamente, sabendo o que eu sabia – não que eu viesse a ter certeza, mas as desconfianças eram grandes –, me vi aturdida. “O melhor beijo (...) eu vou guardar pra sempre.” Como eu pude me precipitar tanto? Como fui impulsiva!
Por alguns centésimos de segundo, tive vontade de contar a ele que eu era quem havia entrado sem permissão em seu jardim. Ele se afastaria logo, se soubesse. Porém, se se afastasse, a peça iria à ruína e eu iria junto.
- Então... – disse ele, percebendo que eu queria dizer algo.
- Ah! É... Falei com a Sra. Moore. – grasnei. Limpei a garganta, fugindo de qualquer contato ocular com ele pra não acabar falando alguma besteira. – Ela nos liberou do ensaio na frente das turmas.
- O que você disse a ela? – indagou, parecendo surpreso com as boas novas.
- Disse que você ainda não tinha nem lido o roteiro, não dava pra ensaiar desse jeito.
- Ah. – seu rosto não mostrava exatamente contentamento. Era mais uma mistura de alívio por não ter de ensaiar e acidez por eu ter dito o que achava ser verdade. – Sim, certo.
- Eu tive que dizer isso, . – justifiquei. – Ou então pagaríamos mico na frente de duas turmas inteiras. E aposto que você não iria gostar de ser motivo de piada, não é? – completei, acrescentando escárnio nas palavras.
Apesar do último comentário, ele foi aliviando seus traços, concordando com um aceno de cabeça.
- Em compensação – continuei –, temos que ensaiar lá no jardim, porque Elizabeth quer monitorar a gente. – revirei os olhos. – Às vezes as ideias mirabolantes dela me irritam.
- A mim também. – ele murmurou.
Sem mais o que dizer, fui até minha carteira para pegar meu roteiro e uma caneta, caso precisasse. Ao me virar para sair, vi que já estava do lado de fora da porta. Tive vontade de correr para longe dali, aproveitar que estava sozinha para evitá-lo. Eu ainda não tinha a confirmação de que ele era mesmo quem eu pensava, mas era quase certo que sim. O bendito destino estava era me sacaneando. Não duvido nada que nessa hora estava rindo da minha cara!
Voltei a mim, controlando minhas vontades débeis e indo para fora da sala em encontro com . Seguimos em silêncio até o jardim. Sentamos em um dos bancos próximos ao portão, onde havia árvores e arbustos o suficiente para que nem todo mundo, só Sra. Moore, nos visse juntos.

’s P.O.V.

Estávamos sentados no banco perto do portão de saída, o mais escondido possível. Já que apareceríamos juntos em público, que fosse de modo discreto. Ainda mais com , Em e Ally soltos por aí.
- Vamos começar por onde? – perguntou , olhando para as páginas do roteiro que folheava rápido demais. Estava nervosa, na certa.
- Pelo começo? – sugeri em tom de obviedade.
- Ha ha ha. – ela forçou o riso, finalmente me encarando.
- É sério, . – falei. – Vamos começar pelo começo.
- Tudo bem. – ela assentiu, voltando a olhar para as folhas. – O primeiro diálogo entre Christian e Satine no salão do Moulin Rouge?
- A primeira cena do primeiro capítulo.
Essa não era a resposta que ela previra, ao julgar a rapidez com que voltou a me encarar. Seus olhos tinham um misto de espanto, incredulidade e raiva. E eu não tenho dúvidas de que ela iria reclamar – e bastante – por isso.
- Você não revisou nada desde ontem?! – indagou, soltando fogo pelas ventas. Neguei.
- Por que faria isso?
- Porque, se você não se lembra, é o seu futuro que tá em jogo, !
Claro que eu me lembrava.
- Ainda temos mais um mês e meio pela frente, os ensaios começaram de verdade só ontem! – justifiquei, tentando passar confiança que não tinha sobre o assunto. – Eu dou conta.
- É bom mesmo que dê. – abaixou novamente o rosto, voltando as páginas com mais rapidez que as passara.
Retirei meu olhar de sua direção, voltando-o para os arredores. Encontrei Allison do outro lado do jardim, acompanhada por Emma e . Fitava-nos sem deixar transparecer uma só emoção. Seu olhar mais uma vez sombrio, de certa forma, me hipnotizava. Nós dois paramos de fazer o que fazíamos, ainda trocando olhares.
- ! – chamou novamente minha atenção, me fazendo desviar o olhar para ela. – Não adianta querer ler o script sem olhar pra ele.
Assenti, começando a leitura do primeiro capítulo do roteiro que estava sobre uma das coxas dela. Tinham volume avantajado, bem arredondado, carnudo. Marcadas pela jeans, davam uma imagem protuberante àquela garota que dias atrás eu mal sabia da existência.
- Posso virar a página? – perguntou ela, já segurando a ponta da folha.
- Pode, pode. – respondi rápido, fugindo de meu transe.
Um dia me arrependo de pensar isso, mas parece ser gostosa. Talvez até mais que Ally desnuda, apesar de um pouco mais nova.
- Como estamos? – perguntou a Sra. Moore, vindo até nós e me fazendo esquecer tal pensamento chulo.
- Ainda estamos dando uma revisada. – omitiu, sorrindo. – Daqui a pouco vamos passar as falas e tudo mais. – virou-se para mim. – Não é mesmo, ?
- É. – respondi, na falta do que dizer.
- Bom. – disse a professora. – É bom também ver que os dois estão se entendendo. Hoje no ensaio extra não vou precisar fazer atividades diferentes, só a repassagem de texto, mesmo.
Uma notícia mais ou menos, finalmente.
- Ah... – arrastou a voz, não conseguindo mais disfarçar. – Que bom.
- Professora! – gritou outro aluno.
- Deixem-me ir, vou atender aos outros. – disse Elizabeth. – Depois venho falar com vocês, combinado?
- Combinado. – respondeu .
Toda se rebolando, Moore foi até o outro lado do jardim. Procurei meu celular pelos bolsos, vendo as horas ao encontrá-lo. Ainda não faltava nem vinte minutos para o fim daquela aula.
- Vamos terminar logo isso, não vou aguentar um dia inteiro em função da peça. – rompeu o silêncio. Assenti, voltando a olhar suas coxas, digo, o roteiro.

’s P.O.V.

Desde que viu Allison, começou a agir de modo estranho. Não que eu o conhecesse ou que já não o achasse estranho – suas mudanças bruscas de humor e atitude ainda me assustavam – porém, também não podia dizer que ele estava normal. Era nítido ver que ele estava desconcentrado, que só olhava para o roteiro. Isso viria a me prejudicar, se eu permitisse.
- Quer saber? Vamos dar uma pausa. – sugeri, fechando o bloco de folhas que ainda estavam sobre meu colo.
- Por quê? – ele indagou, parecendo surpreso. Não o culpo por isso.
- Eu não tô com cabeça pra ensaiar. – falei a primeira coisa que me veio à mente, controlando o ímpeto de dizer a que não queria reler o roteiro inteiro ao lado dele, muito menos que, apesar dos pesares, estava incomodada com a falta de brincadeiras imbecis e sem graça dele; até então eu estava gostando, relativamente, dessa parte. Estava a fim de sair logo de perto e procurar , que eu não via desde ontem na saída.
- Certo. – ele concordou, levantando-se do banco. – Quando eu devo voltar?
Tive um bloqueio mental. , o indomável, estava prestando obediência a mim. Surgiu uma vontade enorme de rir desse pensamento leviano. Mas em vez de rir, respondi:
- Não precisa voltar. Só dá uma olhada no roteiro pra Sra. Moore não sacar que você não sabe nada.
- Já disse que dou conta. – resmungou.
- Tudo bem, eu já entendi. – balancei a cabeça para os lados enquanto falava. – Mesmo assim, é melhor ler. Não quero ter ensaios extras por muito tempo.
Não quero ter ensaios extras com você nunca mais, era o que eu deveria dizer, mas me contive. Ele deu as costas, andando em passos largos pra longe dali. Observei sua imagem por um tempo, tentando ver qualquer trejeito que o descartasse da possibilidade de ser quem eu pensava. Mas de que adiantava eu tentar ver, se era de madrugada e eu não tinha conseguido ver nada?
Enrolei o roteiro, segurando-o em uma mão e batendo-o em outra – no ritmo de Last Day of Magic, dos Kills – na tentativa de dissipar minha tensão. Precisava mais que nunca falar com , conversar sobre qualquer coisa para me desligar. Levantei do banco, voltando para os corredores das salas. não estava no jardim quando passei, deveria estar na biblioteca. Continuei batendo o roteiro enrolado em minha mão, agora cantarolando a música. Tive a ligeira impressão de ter ouvido meu nome ser chamado, mas não liguei, deveria ter ouvido errado. Em minha cabeça, já estava no final da canção. No final do caminho também.
- ! – meu ombro foi tocado, me fazendo jogar o roteiro para trás em reflexo. Acabei acertando a testa de .
- Ah, ! – guinchei, ruborizando por toda pelo fato de tê-lo acertado o rosto. – Desculpe, desculpe, desculpe. – peguei o bloco do chão, querendo estendê-lo para colocar na frente do rosto. – Eu não sabia que era você, agi no reflexo.
- Relaxa. – ele riu. – Eu tinha te chamado antes, mas você nem ouviu.
- Jura? – indaguei; assentiu. – Eu tive a impressão de ter sido chamada, mas tava tão distraída que nem me toquei.
- Percebeu-se. – rimos. Depois de alguns segundos em silêncio, ele falou: – Fiquei sabendo que você e o estão fazendo ensaios extras.
- Ah, é. – desfiz os traços de meu sorriso. – Ele não é muito experiente, precisa de um tempo a mais ensaiando.
Na verdade, ele é um preguiçoso irresponsável que tá pouco se lixando pra peça, por isso sou obrigada a aguentá-lo depois do horário.
- Sei como é. – ele assentiu. – Então acho que nosso ensaio hoje tá cancelado, né?
- Aham. – repuxei somente um lado de meus lábios, dando a parecer que estava desapontada. – Deixa pra depois.

***

Chegando ao pátio, teve visão de uma cena até então inusitada para ele: e Emma conversando com . Melhor dizendo, conversando animadamente com , enquanto Emma parecia não muito entretida com o assunto. Pelas vezes seguidas que olhava ao redor, podia-se jurar que procurava alguém. Com toda certeza, Allison.
Em mais uma das vezes que passou o olhar pelo pátio, encontrou . Cutucou o braço do namorado, tirando a atenção do mesmo do discurso de , que, curiosa como si só, olhou para a mesma direção em que os dois, também encontrando . fez sinal para que o garoto fosse até eles. Hesitante, andou os poucos metros até os três.
- Hey, . – disse Emma, com um singelo sorriso. Mesmo que estivesse ressentida com por sua amiga, tinha de ser simpática com o mesmo por causa de .
- Hey. – ele respondeu, não muito à vontade.
- Fala aí, . – disse , com um sorriso equivalente ao dobro do sorriso da namorada. O amigo o cumprimentou com um aceno de cabeça. – Essa é , amiga de .
- Oi. – a garota sorriu por simpatia, recebendo um sorriso murcho como resposta. – E então, como tão indo os ensaios com a megera chata, digo, minha amiga? – os dois riram. – Ah, não se atreva nem em pensar chamar a assim, ok?
- Ok. – ele assentiu, ainda rindo. Para uma criatura do submundo, não era tão má quanto pensava. Era bastante simpática, até. – Tão indo normalmente, nada demais. – ele respondeu, dando de ombros.
- Pra quem costumava nem se falar, já é um avanço. – concluiu , omitindo a parte em que o amigo zombava de .
- Também acho. – concordou, assentindo vezes seguidas. – Ainda mais levando em conta que preferia te ver morto a ter que falar contigo.
- Agora acho que ela quer me ver morto por não ter lido o roteiro. – levou uma das mãos até a nuca, coçando a região.
- ! – gritou , chamando a atenção da amiga e dos que estavam em volta. Estava ao final do pátio, com o roteiro novamente enrolado nas mãos. Fez sinal para que a outra fosse até ela.
- Vem cá, ! – disse, fazendo o mesmo sinal. não ligou, Emma cerrou os olhos, se sentiu desconfortável.
- Não, vem aqui! – insistiu , relutante. Estava fugindo de tudo que vinha a perturbando, e era um dos itens da lista.
- Ah, vem pra cá, ! – disse , trazendo para si olhar de reprovação por Emma, surpresa por , descrença por e admiração por . Obstante dos olhares à volta, continuou: – Você já sabe que o não morde, e eu e Emma somos sociáveis. – riu de seu próprio comentário, abraçando mais forte a namorada e beijando-a o topo da cabeça. O sorriso de admiração de se alargou.
correu os olhos pelos quatro. Os olhos confiantes e pedintes de e a fizeram ter coragem. Coragem essa que se esvaiu ao perceber que dois pares de olhos não se encontravam exatamente de acordo. Sentiu outros pares de olhos à sua volta, ansiosos por sua decisão. Quando pôde ver, estava dando passos até os quatro pares antes referidos, com timidez límpida.
Teve a sensação de ter pequenos holofotes, todos alinhados, focalizados nela. Era a atração principal da dramaturgia há pouco em cartaz no show de horrores que era o colegial. Nessa peça, esperavam que ela falhasse, que corresse para longe do palco. Respirou fundo, sorvendo confiança. Esqueceu-se da negatividade existente, cruzando o pátio. Ao chegar até o grupo, foi tomada pela timidez novamente, que agora travava uma dura luta contra sua autoconfiança. Correndo novamente o olhar pelos quatro, encontrou o de . Aquelas tonalidades de suas íris já não pareciam tão irritantes quanto antes, não a ponto de lhe causar rancor, mas a ponto de lhe deixar incerta sobre tudo que vinha acreditando sobre o dono delas. Essa incerteza era o que a desestabilizava. Era tão mais simples ser tal coisa e ponto. Para que complicar?
continuou a fitar os olhos daquele garoto até ter total ciência do que fazia. Seu rosto esquentou, virando-se para o lado oposto. Uma sensação até então desconhecida por ela havia sido descoberta naquele instante. A vergonha que sentiu por estar observando não era de praxe, sempre fora confiada o bastante para tal ação. Dúvidas surgiram na velocidade da luz. A que mais a intrigava, porém, era sobre a razão daquela vergonha.
- Vou pedir à Sra. Moore que faça o ensaio pro segundo ano semana que vem. – disse , instigando o casal de intérpretes. – Tô curiosa pra ver como vai ser a peça.
- Não faça isso comigo! – a amiga resmungou, manhosa. rapidamente virou o rosto para ela, franzindo o cenho. Conhecia aquela frase naquele tom de voz. Ouvi-la novamente, à luz do dia, pela pessoa que achava menos provável ser a dona do timbre que se lembrava, o intrigou.
- Isso o quê? – perguntou, intrigando ainda mais , que voltou a olhá-lo com os traços levemente repuxados. – Que foi?
- Não, nada. – ela respondeu. Voltou-se novamente para a amiga. – Por favor, não pede. Do jeito que eu ando pirada, sou capaz de confundir falas de outras peças.
- Aaah. – resmungou, forjando feições tristes. firmou seu olhar. – Tudo bem.
- Então... – disse Emma, cansada de ouvir a conversa de quem não lhe interessava. – Alguém viu a Ally?

Capítulo 11

Dia a dia vinham acontecendo coisas fora do comum para a rotina de . Em uma semana, levara do estágio de ódio a companheirismo – só de sua parte, a princípio. E a quase certeza sobre o beijo entre os dois a fez ter sensações um tanto esquisitas que nunca havia sentido. Eram sensações muito próximas às que sentia por , mas acompanhadas de desconforto. A repulsa que um dia achou ter não parecia mais presente. Porém, também não havia sentimentos exatamente positivos, a menos que pena venha a ser algo bom.
Depois das aulas, vieram os ensaios. Surpreendentemente, agira exatamente da forma pedida por Elizabeth Moore, sem nenhuma ironia ou brincadeira infantil. Como nem tudo são flores, tinha perdido o roteiro. Por terem sido feitas somente cópias exatas para elenco e produção por conta do custo, teve de emprestá-lo seu bloco para que ele tirasse fotocópias. Assim que ela o entregou o roteiro, reviu a cena do dia anterior, onde o garoto falara sobre sua tatuagem. Sentiu vergonha e raiva por tal atrevimento. Seu rosto queimava pelas duas emoções, as mãos apertavam o roteiro mais que o necessário. Por sorte, olhara mais para sua mochila que para as folhas.
E apesar de tudo, ela desejou que ele tivesse olhado suas mãos e perguntado novamente por que estava nervosa, com a mesma entonação que usara para intimidá-la no ensaio passado. Milésimos de segundo depois, afastou este pensamento, surpresa por outrora tê-lo feito. Fechou a mochila e saiu do anfiteatro. Voltaria para casa mais uma vez sozinha. fora junto a Noel e até uma livraria após o primeiro ensaio. Por ficar próximo à estação de Ladbroke Groove, que fica distante de Ealing, teriam de ir cedo para voltarem cedo – ou não muito tarde.
Então, sozinha, caminhou até sua casa ouvindo Ida Maria em seu iPod. Retirou de sua mochila o material desnecessário e pegou os que usaria para as matérias que combinara ajudar . A casa estava vazia. Deixou um recado em folha de papel sobre a mesa onde ficava o telefone para que seus pais não se preocupassem nem com ela, nem com o irmão, caso chegassem antes do retorno dos dois. Saiu de casa e trancou a porta, pondo as chaves presas em um chaveiro de bola de bilhar dentro da mochila. Caminhou até o ponto de ônibus.
Tomou uma condução até Camden. Caso fosse mesmo quem pensava, saberia exatamente onde ele morava, precisando somente confirmar o endereço. No que rumou até um banco vago, sentiu o celular vibrar no bolso traseiro de sua jeans.
- ? – era Noel.
- Diz, moleque. – ela respondeu em tom de riso, levando a mochila para frente do corpo e se sentando.
- Ah, é pra avisar que eu vou passar na casa do antes de voltar. – ele falou, ignorando o “carinho”. – Se você chegar antes, avisa pro meu pai.
- Nosso pai, você quis dizer. – a irmã corrigiu, apenas no intuito de implicar.
- Tanto faz, mesma bosta.
- Ele vai ficar sabendo que foi chamado de bosta! – riu.
- Você entendeu exatamente o que eu quis dizer. – o garoto ladrou. – Me deixa desligar. Bom encontro. – ironizou.
- Mas não é um encon... – tentou, desistindo ao ouvir o tom de ocupado. – Idiota!
Pôs o aparelho junto às chaves no bolso dianteiro da mochila. Notou que suas mãos tremiam, mesmo estando agasalhada. Conforme o caminho se encurtava, reconhecia trechos da paisagem. Um termômetro talvez não conseguisse medir a temperatura que seu corpo chegou assim que deu sinal para a parada da condução. Pôs a mochila nas costas, com somente uma alça apoiada em um dos ombros. Aguardou duas senhoras desembarcarem e as seguiu até a calçada, aumentando o volume da música que tocava para ouvi-la melhor sobre o barulho dos carros. Também para distrair a mente do nervosismo de estar indo até a casa de . Retirou do bolso do casaco o papel em que o endereço, telefone e as referências estavam contidos. Estavam todos certos.
Sentiu algo tocar o meio de suas costas, alarmando-a. Sua respiração parou no mesmo momento, as mãos tremeram, frenéticas. Tentou virar para trás, procurando ver quem ou o que era.
- Não olha pra trás. – disse uma voz máscula, rapidamente. – Faz tudo que eu disser e não pensa em correr. Isso nas suas costas é um calibre dois, se não me obedecer, vai ver do que ele é capaz, entendeu?
- Entendi. – ela disse, não conseguindo falar em tom plenamente audível. Apertou o papel que segurava, tentando passar a ele a tensão que sentia. Seus olhos arderam, temerosos.
- Agora venha comigo, vamos até aquela rua do lado do Walmart. – o homem ordenou, esperando o primeiro movimento dela. Ao ver que não se movera, encostou mais forte seu revólver à coluna dela. – Lembra o que combinamos, não lembra?
Assentindo, a garota deu o primeiro passo, seguindo os comandos do assaltante. Afastaram-se do ponto de ônibus, entrando em outras ruas menores e mais desertas. Passo a passo, sentia o medo corroer suas entranhas. Não sabia exatamente o que aquele homem queria, muito menos o que faria. Estava à mercê de mais uma das várias pessoas de má fé da face de Londres que não aparece na mídia. Ao chegar em uma ruela sem saída, teve um dos braços apertados pelo homem, parando de imediato. Fechou os olhos e deixou lágrimas nervosas caírem, temendo o pior.
- Tire a mochila do ombro. – ouviu o assaltante ordenar. Puxou a alça da mochila, que foi retirada de sua mão. – Seu dinheiro tá todo aqui? – assentiu, ainda com os olhos fechados. Apertou ainda mais o papel em suas mãos, mordendo o lábio inferior com força. – Muito bom. Agora me entrega o iPod. – retirou o aparelho do bolso do casaco, estendendo-o para o homem. – Isso. – sentiu suas vértebras não serem mais pressionadas, trazendo a si um pouco de tranquilidade. – Só porque você colaborou, vou deixar sua identidade no boteco aqui perto. Fica aqui e conta até cem, se eu ver você andando enquanto estiver perto, não vou ser tão bonzinho, ok?
- Ok. – sussurrou, assentindo.
Ouviu passos se distanciando, causando-lhe em partes alívio, em partes desespero. Todos os seus pertences foram levados, tudo o que tinha havia sido furtado por um qualquer. Mas sua integridade física estava intacta, não sofrera nada. Contudo, seu psicológico fora abalado.
Aguardou por mais minutos, em choque com o acontecido. Tentou mover-se algumas vezes, conseguindo somente após respirar fundo, ludibriando-se com pensamentos otimistas. Quando saiu da ruela, observou os arredores. As ruas não tinham mais suas imagens pacíficas, ilustravam-se com ar ameaçador, hediondo. Sentiu que a qualquer momento poderia sofrer mais atentados à sua segurança. Forçou-se a manter o equilíbrio para pensar em algo.
Seus pais deveriam estar ocupados em seus ofícios, o suficiente para sequer chegarem perto do telefone; estaria a caminho de casa, dentro de um metrô, e não receberia nem sinal em seu celular; Noel... O que um garoto de treze anos poderia fazer, ainda por cima sendo deficiente visual?
Deixando-se ser vencida pelas lágrimas de nervosismo, relaxou os músculos. Abaixou o rosto para secar as lágrimas, notando um borrão branco próximo ao que viriam a ser seus pés em sua visão embaçada. Respirou fundo mais uma vez, abaixando-se para pegar aquela folha cortada à mão. Focalizando as letras, percebeu que eram os dados de . No mesmo momento procurou uma cabine telefônica. Não hesitou nem um pouco em discar o número que anotara pela manhã. Sentiu imenso alívio ao ouvir a mensagem da operadora telefônica finalizar.
- ? – perguntou em um murmúrio trêmulo.
- Quem tá falando? – ele indagou, não conseguindo distinguir a voz da garota. Levantou-se do sofá da sala onde assistia à televisão, caminhando até próximo ao suporte do telefone.
- É a . – ela respondeu, aumentando o máximo que pôde seu tom de voz.
- Ah, oi. – o garoto também aumentou seu tom de voz, atendo-se à voz da garota. Parou em frente à mesa do telefone. – Aconteceu alguma coisa?
- Desculpe o incômodo, mas você pode vir me encontrar? – o desequilíbrio emocional era evidente na voz dela. Ela olhava para os lados a todo o momento, amedrontada. – Se você não puder, tudo bem, eu...
- Não tem problema, relaxa. – ele a interrompeu, percebendo na voz de que algo não parecia normal. A garota deixou-se acalmar mais um pouco. – Onde você tá?
- Perto da parada de ônibus que você me indicou.
- Volta pra lá e não sai, eu já tô chegando.
Desligando o telefone e o pondo no suporte, logo pegou as chaves e controles necessários para abrir porta, portões e armar o alarme de sua casa. Mais uma vez achou exageradas as medidas de segurança tomadas por seus pais. Fechou o zíper do casaco até o fim, ensartando as mãos no bolso para ir de encontro com . A voz vacilante da garota o preocupou, e mesmo que não fosse tão ligado a ela, queria ampará-la.
Caminhou o mais rápido que pôde, observando com atenção as pessoas ao redor. Tinha receio de não encontrá-la e acabar não descobrindo o que havia lhe acontecido. Sentiu-se responsável por seja lá o que fosse que a assolara. Devia ajuda a ela, sentia-se na obrigação de ajudá-la.
Já próximo à parada, estreitou os olhos na tentativa de avistar . Não conseguindo, ele andou até mais perto, procurando com mais atenção. Minutos depois, viu a imagem da garota, acuada, finalmente chegando ao local. Deu o primeiro passo até ela, hesitando e parando. Por que mesmo estava tão preocupado?
procurava de forma exasperada, mudando o foco do olhar rapidamente. Estava zonza, impedida de qualquer ação que necessitasse reflexos ágeis. As lágrimas temerosas deram trégua, deixando vestígios de sua passagem nos olhos avermelhados e atônitos. Ao não avistar o garoto de primeira, sentiu o corpo formigar. Continuava receosa, agia com pânico, tudo em função da abordagem que lhe fizeram anteriormente. O frio pareceu insuportável para sua superfície superaquecida de adrenalina. Seus membros agitavam-se rapidamente em pequenos movimentos. Cerrou os olhos, passando as vistas novamente pelas adjacências. Abriu um sorriso aliviado ao ver , caminhando até ele.
Tomado por um impulso, deu outros passos em direção a sem ter certeza do que fazia. Fora atraído de tal forma que o assustou. Estava agindo impensadamente, movido apenas por sentimentos inconscientes. Viu-se contente por encontrá-la sã e salva – e sorrindo para ele, ainda que aquele sorriso pudesse ser destinado a qualquer pessoa que a encontrasse naquele certo momento. Antes de abrir os lábios para falar, notou que os mesmos estavam enviesados em um pequeno sorriso.
- Você tá bem, ? – perguntou, desfazendo os traços tímidos do sorriso que havia dado. – Sua voz tava diferente, não tava como a da me... menina rígida que você costuma ser.
Por mais inocente que fosse o comentário, a garota se sentiu incomodada. E por mais estranho que viesse a ser para seu discernimento, seu incômodo fora pela opinião dele a seu respeito.
- Megera chata, não é? – perguntou, transformando seu sorriso em uma linha reta e funda.
- É. – ele concordou em voz baixa.
- Tudo bem – ela soprou um riso –, tenho certeza que foi a quem te disse isso mais cedo.
- Acertou. – o garoto fez o mesmo. – É que esse apelido é tão bonitinho – satirizou, rindo e fazendo rir também –, acaba pegando.
- Tomara que ninguém mais fique sabendo disso. – ela disse de modo condescendente.
Encerrando o assunto, os dois permaneceram por instantes procurando o que dizer, embebidos em desconforto. Uma ambígua sensação de intimidade que vinha a estar impedida de mostrar-se à derme.
- E... – começou. – Cadê seu material?
- É exatamente por isso que pedi que me encontrasse. – respondeu, voltando a fraquejar sua respiração. – Acabei de ser assaltada, levaram tudo. – sua aparência até então superficialmente calma tornou-se apavorada. – Não posso nem voltar pra casa, porque não tem ninguém e estou sem as chaves. Desculpe por ter te ligado àquela hora a cobrar, mas eu precisava recorrer a alguém.
- Tudo bem. – ele concordou, apreensivo. Seu sentimento de culpa dobrou de tamanho, sufocando-o. Viu-se na obrigação de ser complacente a todo custo. – Vamos lá pra casa, lá você liga pros seus pais.
- Não. – a garota balançou a cabeça com fervor. – Eu tenho que ir buscar minha identidade, o sabe-se-lá-quem disse que deixaria em algum bar aqui perto.
- Você é maluca, ?! – disse de modo autoritário, apavorando-a. Nunca havia a chamado pelo sobrenome, nem questão de chamá-la fazia, a menos que fosse estritamente necessário. – Você acabou de ser assaltada, ainda quer ir atrás de onde o cara foi? E se ele te vê?
tentou enxergar algum indício de hesitação nos olhos do garoto. Precisava achar qualquer sinal de que ele não estava sendo completamente a favor do que falara. Por mais supérflua que fosse a sua sugestão, queria recuperar seu único bem restante.
- Mas... – sibilou, suplicando em cada som. Ele manteve sua postura firme, os olhos intransigentes.
- Você não vai sozinha até lá, ainda mais depois disso. – disse, virando-se de costas. – Vamos até minha casa pra você ligar pros seus pais.
Ela sentiu-se parte afrontada pela severidade dele, parte agraciada por sua preocupação. Acabara de ver faces de que não conseguira no tempo de convivência. Mesmo em pouco tempo, conseguira enxergar além da carcaça dura que o garoto insistia em manter. Ao vê-lo dar um passo à frente, fez o mesmo.
- É aqui perto, né? – disse sem pensar. – Da última vez que estive aqui nessa semana era tão tarde que nem consegui ver o caminho direito.
manteve-se em silêncio, assimilando cada palavra. Os olhos oscilavam movimentos de abrir-se e fechar-se, sincronizados com os lábios bem delineados. Sua expressão rígida se desfez. Percebendo o que acabara de falar, empalideceu.
- Ahn... – disse ele após instantes de silêncio. – É.

’s P.O.V.

Senti que poderia explodir a qualquer momento com tantas emoções rondando a minha cabeça. E eu ainda fiz a burrada de falar mais que devia. Podia ter apenas agradecido pela oferta – mesmo parecendo uma intimação – e ficado quieta, mas, como sempre, acabei estragando o que já não estava bom falando demais.
Caminhamos em silêncio, eu olhando para o percurso enquanto pensava em alguma desculpa para desmentir o que havia falado; apenas olhava para frente em sua pose robótica, sem menor sinal de atenção ao que passava ao redor. Cada passo que eu dava parecia seria sugada e presa ao chão. Eu torcia para que isso acontecesse. Desde que vi a possibilidade de ser o tal garoto tenho andado ainda mais louca, tudo pra tentar fazê-lo não me reconhecer. Agora havia deixado meu esforço escorrer pelo ralo. Santa língua a minha.
Depois de mais algumas casas, chegamos a uma entrada de garagem, provavelmente nos fundos da casa. Os únicos indícios de jardim nas adjacências eram as altas cercas-vivas coladas às arestas da casa em com gelo e acabamento cinza-escuro. O portão abriu ao comando de um controle, revelando um enorme espaço para estacionamento e uma área social externa rodeada de bonsais de variados tamanhos, ambos os lugares cobertos. Entramos pela porta que não dava na cozinha ou área de serviço, mas em uma sala de jantar com tijolos de vidro. Senti-me intimidada por ter entrado naquela casa tendo a minha tão simples. Abrindo outra porta, dessa vez com código de segurança na maçaneta eletrônica – o que pra mim já era ostentação de dinheiro exagerada –, entramos finalmente na cozinha. Ou o que parecia ser a cozinha, tão branca e imaculada, sem nenhum utensílio fora de seu devido lugar. Uma larga bancada coberta por uma toalha xadrez vermelha e cercada por bancos um pouco mais altos separava a cozinha da copa.
Estava cada vez mais surpresa e admirada com o requinte da residência dos . Pode parecer até infantil, mas imaginei que ele dividisse um duplex com uma senhora de setenta anos porque os pais o puseram para fora de casa; recebia ajuda de custo deles porque não trabalhava ainda, e o dinheiro mal dava para fazer compras, por isso ele se alimentava de biscoitos, achocolatado em caixinha etc., etc. Engraçado como você se deixa levar pela aparência até criar seu próprio mito.
Passamos pelo corredor, que mais parecia um painel de fotos de tantas que estavam lá presas, emolduradas em madeira escura, até a sala mobiliada em tons de branco, marfim e mel. O centro da sala em um nível abaixo continha um grande sofá em couro branco e um divã bastante felpudo ao lado, também branco. No canto do nível superior havia um bar, o cinzeiro ali presente ainda portava um filtro de cigarro com uma pequeníssima brasa, exalando uma fumaça esguia e esbranquiçada, despertando meu olfato e me fazendo perceber que estava com um odor enfumaçado junto ao seu perfume de almíscar. Minha intimidação pela casa tornou-se repulsa – agora com fundamento – pelo proprietário dela. Sentia-me ultrajada por estar tão ligada a alguém tão autodestrutivo. Procurei qualquer resquício da presença de outra pessoa que viesse a inocentá-lo. Do contrário, encontrei somente uma senhora de aparência cansada descendo a escada de tábuas suspensas logo próxima. Ela olhou-me como se eu fosse um objeto sem importância, os olhos inexpressivos e as feições tanto quanto. Não pude conter um pensamento ofensivo sobre ela.
Após a passagem daquela mulher, me explicou que ela era a responsável pela limpeza da casa, e também que não era muito sociável, o que explicava a cara feia com que me olhou – desconfio que seja natural da mesma. Mais instantes de silêncio. Novamente tive uma sensação de intimidade por estar perto , me senti segura estando sob o mesmo teto que ele. Meu ventre formigou à medida que reprimi todas as emoções referentes a ele. Aquilo era fruto de um beijo, só um beijo. Ele era... ele.
- Quer ligar pros seus pais? – parei de vagar na minha negação, voltando meu olhar para o rosto de . Não havia a iluminação mal feita das instalações do colégio, nem a falta de iluminação do jardim naquela sala. Era tudo claro, completamente nítido, o que me levou a reparar em pequenas pintas mais escuras dentro de suas íris , tão pequenas e imperceptíveis que davam graça de ver. – Você tá bem?
Mas era a hora – e pessoa – errada pra eu achar graça em cor de olhos. Ainda mais por tempo maior que o normal, causando um esboço de sorriso em meus lábios.
- Sim, sim, claro. – respondi, chacoalhando minha cabeça para os lados na tentativa de esquecer pintinhas, íris e tal. – Estou bem, sim.
- Quer ligar pro seus pais? – ele repetiu.
- Pode ser mais tarde? Eles estão trabalhando agora, não quero incomodá-los. – como resposta apenas assentiu. – Enquanto isso eu posso te ajudar com as matérias, o que você acha?
- Muito bom. – ele concordou com as feições já mais suaves. – Vamos até o escritório.
Murmurei um som afirmativo, me virando para o corredor. Lembrando-me que não sabia onde ficava o cômodo, fiquei tão parada quanto um dos móveis, esperando qualquer comando a ser dado pela voz suave de .
Só não esperava que ele segurasse meus braços com delicadeza, girando-os para o lado, levando meu corpo a girar também, encontrando então uma porta aberta – na verdade, escancarada – no corredor. Do vão da porta eu via um piano de calda preto ao centro, enormes estantes com livros impecavelmente conservados e enfileirados. Uma escrivaninha em tabaco portava um ou dois livros empilhados e um aberto ao lado de um caderno. Ou o alguém queria me dar a ilusão de que havia se empenhado, ou realmente havia se empenhado.
O que viria a ser uma surpresa pra mim.
Tão surpreendente quanto a condescendência que tive ao deixá-lo com suas mãos entorno de meus braços como da primeira vez que tivemos um contato pacífico. A pequena ultrapassagem de limites não me incomodava nem um pouco, eu mais queria que ele deixasse de só tocar meus braços encobertos pelo casaco.
Novamente o beijo-não-beijo trançava todos os meus pensamentos.
Mas... Por que não?

’s P.O.V.

- Não, . – disse em tom de riso, achando graça da minha burrice. E eu nem mesmo podia reclamar, entendia tão pouco o que ela falava quanto os dois parágrafos que tentei ler. – Timina e Uracila são de DNA e RNA respectivamente, mas os dois se associam com Adenina.
- Mas não tem como três coisas se associarem. – afirmei tendo certeza de nada além do meu nome. – O RNA mensageiro se une a uma fita simples de DNA, só. Não tem espaço pra mais nada no meio.
- Exato. – mais uma vez ela riu, mas agora de modo cansado. Seus músculos faciais estavam em constante trabalho desde que começamos a estudar Biologia. – Eu disse que as bases se associam com Adenina, mas isso não é necessariamente na mesma hora. Se uma Timina, que só aparece no DNA, está pra se associar, vai se associar com uma Adenina do RNA; Se uma Uracila, que só tem no RNA, está pra se associar, vai se associar a uma Adenina do DNA.
- Ah, tá, entendi. – concordei com a cabeça para acabar cm aquele assunto. Eu não tinha entendido porra nenhuma, essa era a verdade. – E a Guanidina?
- Guanidina? – as letras saíram atropeladas pelo riso de , que tirou meu olhar do livro.
- O quê? – indaguei, unindo as sobrancelhas. Ela indicou uma das páginas abertas, onde me deparei com Guanina, e não “Guanidina”. – Puts, que mancada! – ri também, recordando-me que não era de produtos pra cabelo duro que estávamos falando.
A risada de se esticou por mais um tempo, até que, parecendo cansada, ela se esticou sobre a cadeira, erguendo o rosto avermelhado pelo riso. Observei a linha de simetria que ia da ponta de seu nariz até sua barriga, mesmo esta sendo coberta casaco. Por centésimos eu desejei aquela garota. Queria sentir seu perfume, seu sabor. Queria deixar de ser bicha em pensar assim.
- Algo de errado com meu casaco? – ela perguntou com um sorriso irônico. Continuei a olhar para sua barriga.
- Tava tentando me comunicar com seu estômago pra ver se ele também ronca. – respondi sério, com vontade de me dar um soco pela idiotice que acabara de falar.
- Não é mais fácil perguntar se tô com fome? – perguntou em tom de riso.
- Tá, tudo bem. – ergui meu olhar pra ela, que me encarava de um jeito diferente do normal. Não era desprezo ou raiva, disso tenho certeza. – Tá com fome?
- Não. – ouvi como resposta enquanto a via voltar, rindo, à sua posição ereta.
- Vou fazer um convite mais amigável. – levantei-me da cadeira, estendendo a mão para ela. – Aceita jantar comigo?
Confesso que uns dias atrás eu também duvidaria se me contassem que eu diria isso à , mas já que estava sendo prestativo, complacente etc., etc., por que não poderia fazer uma piadinha suave de um convite romântico piegas?
- O que teremos pro jantar? – ela continuou a brincadeira.
- A especialidade da casa: Pringles e refrigerante. – respondi sério, fazendo-a rir. Assentindo, ela segurou em minha mão para levantar. Era estranho nos ver nesse estado passional depois de tanta relutância, ainda mais se tratando da cabeça dura da . Se bem que, se eu pensar direito e levar em conta o que ouvi mais cedo, não éramos tão relutantes assim em ter a presença um do outro, porque era fato que ela havia entrado no meu jardim, só sendo mais tapado que o pra não perceber. Tudo bem, eu demorei um pouco – muito pouco, claro – pra perceber, mas com o tanto de coisas que estava na cabeça, a última coisa que eu viria a pensar seria em .
E a primeira coisa que eu consigo pensar agora é que, no mínimo, estou cagado de azar. Ou sorte. Sei lá.
Fomos da sala ao corredor em um silêncio tranquilo, nem um pouco carregado de tensão, medo ou desconforto. Na verdade eu estava bem confortável ao lado de minha parceira, o que era novo pra mim. Chegamos à cozinha e ela se sentou. Fui para os armários procurar mais uma das várias latas de Pringles que ficavam estocadas pro caso de eu chegar tarde demais pra janta. O barulho das unhas de batendo sobre a madeira do balcão mostrava o nervosismo dela.
- Tá nervosa com alguma coisa? Ou melhor, comigo? – perguntei, ainda de costas. O som curto parou no mesmo instante em que minha voz ecoou.
- Quem? Eu? – disse ela, surpresa. Virei-me para trás, assentindo e fechando o armário. Andei até o balcão deixar as latas por ali. – Não, ué. Por quê?
Por seu tom de voz esganiçado e rapidez para falar, pude ver que estava nervosa, sim. Nem mesmo olhava diretamente para mim, e sim para suas unhas.
- Nada demais. – respondi. Caminhei até a geladeira, pegando uma lata de refrigerante e outra de cerveja. Ao ver o que eu segurava, voltou a ter seu olhar autoritário. – Não se incomoda se eu beber, né?
- Sei que tô na sua casa, mas me incomodo, sim. – e sua voz com autoritarismo também.
- Tudo bem, tudo bem. – abri novamente a geladeira, deixando a cerveja e pegando outro refrigerante. – Melhor agora?
- Muito. – ela então sorriu levemente, me causando um leve espanto. Mais uma vez parecia estar atuando, eu não conseguia decifrar exatamente o que ela sentia. Me senti tão intrigado com isso que nem mesmo conseguia pensar no que falar pra uma persuasão melhor. E se ela me desse um fora? Quero dizer, ela é a ! Por mais que possa ser bonitinha e legal, às vezes continuava a ser uma garota quadrada e que se acha super madura e superior aos outros. Eu não aguentaria passar por capacho dela, não mesmo. Tinha que agir de forma objetiva, mas não usando cantadas de pedreiro do tipo “já é ou já era”. Não sou idiota a esse ponto.
Peguei dos copos na cristaleira ao lado do armário e sentei-me de frente pra , abrindo a embalagem de Pringles e depois minha lata de refrigerante.
- Sirva-se. – falei antes de colocar umas três ou quatro batatas na boca.

’s P.O.V.

Superestimei a inteligência de . Ele realmente é lerdo, muito lerdo. Ou então havia aprendido bem mais nas aulas de teatro e estava escondendo perfeitamente bem que já sabia de tudo – torço pra que essa hipótese não seja a verdadeira.
- Hm... – ele grunhiu ainda de boca cheia, me fazendo tirar os olhos do meu copo vazio e botá-los sobre sua imagem. – Não precisa ligar pros teus pais, eu te levo pra casa. Já que é culpa minha você ter sido assaltada, preciso te reparar de algum jeito.
O cavalheirismo estava bastante aflorado dentro do . Espantoso.
- Não precisa me levar, ... – deixei o copo sobre o balcão, fazendo o traço da circunferência com a ponta do indicador.
- Pare de me chamar de – ele me repreendeu em tom de voz suave –, só minha mãe me chama assim. E tenho certeza que temos intimidade suficiente pra que me chame de .
Seu rosto estava completamente vazio, não havia uma emoção sequer sendo passada por ele. Nem por seus olhos. Nem pelas pintinhas deles. Era impossível saber se ele estava ironizando, só afirmando ou insinuando que sabia exatamente sobre nós.
Um “nós” que nem mesmo existia, diga-se de passagem.
- Tá certo, . – assumo que foi estranho chamá-lo assim. – Não precisa se importar em me levar, eu peço pro meu pai vir me buscar ou mandar um táxi pra cá.
- Nem pensa nisso, já tá decidido. – e no meio de toda a lacuna que era aquele rosto caucasiano, surgiu um sorriso amigável com quase todos os dentes frontais de sua arcada. Pude notar como era bonito o sorriso dele quando não era irônico.
- Ok, você venceu. – assenti, também sorrindo. Não da mesma forma que ele, porque incrivelmente me senti envergonhada em ter que sorrir.
- Além do mais, você já conhece a casa e o jardim, eu nem o caminho da sua sei.
Imaginei exatamente como eu fiquei se estivesse me vendo de outro ângulo. As palavras de chegaram até mim, me paralisando, mas ainda deixando o sorriso congelado em meu rosto imediatamente pálido. Meus olhos aumentaram o foco levemente enquanto meu dedo parou sobre a borda do copo, ficando mole assim como todo meu corpo. Ele sabia, então.
- Como assim? – foi a única coisa que consegui deixar sair pelo meio dos meus lábios esticados e já com uma aparência macabra, de tão besta.
- Você sabe muito bem. – o sorriso amigável enviesou, pro meu desespero. Queria mais que nunca correr dali e desaparecer de Camden. Talvez até de Londres. Ou talvez do condado. Ou quem sabe do país. Do continente seria uma boa ideia. – Aliás, eu...
- ? – ouvimos uma voz feminina. virou-se para trás, olhando para porta que se abria. Fechei os olhos rapidamente, agradecendo aos céus por não ter passado daquele ponto da conversa. Abri os olhos novamente por curiosidade de saber quem era a mulher que havia o chamado. Ela vestia um blazer e saia evasê de cor marfim, sapatos creme e óculos de armações pretas sobre o cabelo preso em coque. Sorriu de tal forma que parecia me conhecer há anos. – Ah, não sabia que tinha companhia. Quem é a senhorita?
- Eu, é... – tentei responder, constatando que meu cérebro ainda estava acordando do desmaio que tivera.
- , a garota que vai protagonizar a peça. – me socorreu ainda de costas para mim.
- Isso. – concordei. Como eu era idiota! Imbecil, imbecil, imbecil! Pelo menos meu nome eu sei, não precisava passar de débil mental!
- Ah, então é você! – se é que era possível, seu sorriso quase dobrou de tamanho. Ela caminhou até mim, pondo uma de suas mãos sobre meu ombro e me cumprimentando com um beijo no rosto. Eu mal me mexi, apenas tentei dar um sorriso educado. – Susan, mas pode me chamar de Susie.
- Me chame de , se quiser. – falei, xingando-me mentalmente por agir de forma tão retardada na frente dos . Graças a Deus o pai de não estava ali, senão acho que seria capaz de explodir. Cruzei minhas pernas na altura da canela, quase dando uma volta completa, para tentar desviar meu nervosismo. – É um prazer conhecer a senhora.
- Igualmente. – ela manteve seu sorriso, e eu a xinguei mentalmente por fazer. Sorrir enquanto estava nervosa em situações como essa não era meu forte. Não que isso venha a me acontecer com frequência, mas enfim...
- Susan, será que pode me emprestar seu carro? – mais uma vez me salvou de deixar escapar mais palavras gaguejadas de minha boca. Automaticamente meu olhar e o de Susan focalizaram-se nele, mas o meu oscilava entre os dois. Tentei imaginar uma razão para ele tê-la chamado de Susan, e não “mãe”, como costuma ser o convencional.
Mas claro que não consegui descobrir uma causa lógica. Tratando-se do , qualquer coisa é válida, principalmente as que quebram algum tabu.
- Para...? – sua mãe indagou, transformando seu rosto em uma interrogação.
- Levar pra casa. – ele respondeu parecendo não muito a fim de conversa. Seu olhar não era como o meu, que buscava sempre o rosto com expressão mais amena, era firme, intenso. Jurei de pés juntos que suas íris tomaram tonalidades mais escuras.
- Você prendeu a menina aqui até a hora de eu chegar, ? – ela continuou a questionar, mudando seu humor rapidamente. – Não tem noção de bom senso, não?
- Vai emprestar ou não? – ele a ignorou. A tensão entre os dois fez que eu me sentisse uma intrusa. E na verdade eu era. E ainda era a causa da microdiscussão.
- Não precisa se preocupar, . – me intrometi por impulso, fazendo agora os olhares automaticamente se voltarem para mim. Mas dessa vez não oscilei, continuei olhando para meu parceiro, que agora parecia um pouco surpreso e ao mesmo tempo contrariado pelo que eu havia falado. – Só preciso ligar pros meus pais, um deles vem me buscar. Ou, na pior das possibilidades, mandam um táxi pra cá. Realmente não precisa se preocupar, já disse isso antes.
Minhas palavras pareceram o veredicto, cessando todas as argumentações e deixando um momento de silêncio no recinto. Eu não poderia vacilar bem agora que consegui me manter em pose, senão os dois retomariam a discussão e se esqueceriam de mim novamente, me levando a ficar mais uma vez encolhida em meu canto, achando que era nada além de um zero à esquerda.
- Tome as chaves. – ouvi a voz de Susan, seguida do barulho do molho caindo sobre o balcão, interrompendo em seu discurso quase posto à mesa. Confesso não ter entendido absolutamente nada.
- Agradecido. – ele respondeu com um de seus sorrisos irônicos.
- Desculpe-me por isso, querida. – Susan novamente tocou meu ombro, mas dessa vez o sorriso que acompanhava esta ação era de vergonha. – Foi realmente um enorme prazer te conhecer.
- Não foi nada, e o prazer é meu. – respondi incerta se deveria mesmo dizer que não era nada. Como num piscar de olhos, Susan retirou-se da cozinha, criando ainda mais perguntas em minha mente.
- Vamos logo, senão a “Sra. Boa Conduta” resolve implicar por eu estar te ‘prendendo’ aqui até agora. – tomou as chaves em mãos, levantando-se em seguida. Segui seus movimentos, acompanhando-o até a porta de saída. Senti enorme vontade de perguntá-lo tudo sobre seu relacionamento com sua mãe, mas a contive na medida do possível. Pelo jeito que o conhecia, sabia que ele não costumava se abrir logo de cara. Se bem que eu não perderia nada perguntando.
- ... – titubeei, ainda avaliando se devia ou não me meter em sua vida novamente. Ele nem sequer olhou para trás enquanto passávamos novamente pela sala de jantar.
- . – corrigiu. – Que foi?
- Hm... – não, não mesmo. Pensei em algo para dizer, levando tempo suficiente para chegarmos até a garagem, onde um Range Rover prata estava. deu a volta, indo até o lado do motorista. Esperei até que ele chegasse ao outro lado e desarmasse o alarme do veículo. – Obrigada.
- Por? – perguntou ele, segurando a porta já aberta.
- Por ter se preocupado tanto comigo quanto hoje. – resgatei as sobras de gratidão que tinha por baixo da pilha de orgulho e timidez que estavam a encobrindo. Mas essas não se deixaram vencer, me fazendo omitir que eu havia apreciado muito sua atitude e avermelhar sem motivo aparente. Por sorte as luzes da área externa estavam todas apagadas, apenas a luz da cozinha, que saía por uma janela pequena e alta, dava-nos noção de por onde andar. E me dava a imagem de um pequeno sorriso no rosto de .

’s P.O.V.

- Era o mínimo que eu podia fazer. – respondi, vendo mais um sorriso acanhado no rosto de . Era um sorriso inocente, chegando até parecer infantil, desfazendo a imagem super madura que ela costumava sustentar. Sem perceber, acabei ficando por tempo excessivo a encarando, me esquecendo do tempo e de uma previsível encheção de saco por parte de minha mãe. logo me fez relembrar tudo isso abrindo a porta do carro e sentando-se sobre o banco de carona. Fiz o mesmo, colocando rapidamente a chave na ignição e abrindo o portão pelo comando do controle.
- Segue até o colégio. – ela falou, soltando o ar com um sopro forte. Pôs o cinto, virando-se para a janela. – De lá eu te indico o resto do caminho.
Assenti, deixando de olhar o perfil de seu rosto. Liguei o rádio, que anunciava Angels & Airwaves em uma estação já marcada. Deixei The Gift tocando só para quebrar o silêncio, já que parecia desconfortável demais para dizer algo a julgar sua posição recolhida. Às vezes, quando olhava para o retrovisor, olhava para ela também, vendo seus dedos tamborilarem sobre o suporte de braços da porta. Numa das vezes que me peguei olhando-a, vi que seu rosto não estava na mesma posição de antes, dando a parecer que meu olhar era correspondido. Mesmo sendo besta, não consegui conter um sorriso mínimo. Para disfarçar, comecei a cantar baixo a canção.
- Bonita voz. – ouvi seu comentário sendo seguido de um risinho.
- Não sei se acredito em você. – respondi com traços do mesmo micro sorriso de antes.
- Por quê? – olhei mais uma vez para , vendo que ela estava em posição normal, olhando diretamente para mim. Seu rosto tinha a mesma expressão infantil de antes.
- Você riu enquanto disse, o que indica que era mentira. – concluí.
- Não, não era mentira. – ela pareceu ofendida, mas ainda sim riu. – É sério, , sua voz é muito bonita.
- . – corrigi mais uma vez. – Sou forçado a discordar. Mas, mesmo assim, obrigado.
- Desculpe. – sua voz soou mais baixa. – Ainda não consigo te chamar pelo apelido.
- Parece a Susan me chamando. – suprimi todas as emoções referentes à minha mãe enquanto falava.
- Posso te perguntar uma coisa? – e parece ter percebido. – Se não for invadir sua privacidade, claro.
- Diga. – eu já tinha total ideia sobre o que ela perguntaria. Era óbvio saber o assunto. Só não era óbvio saber a resposta. Nem mesmo pra mim. Não saberia se começaria pelo descaso de meus pais por mim, ou das tentativas autoritárias de imposição de regras, ou até mesmo da negação deles sobre me apoiar em qualquer decisão que fosse. E era só um meio de começar a responder, pois não me faltariam opções para continuar.
- O que há entre você e sua mãe? – como previsto. – Digo, se é que Susan é sua mãe.
Respirei fundo, apertando o volante em minhas mãos. Queria ignorar a pergunta, mas a ansiedade e curiosidade estampadas no rosto de me forçavam a dá-la uma resposta. Do modo mais óbvio, respondi:
- Prefiro não falar sobre isso. E sim, ela é minha mãe. – um som curto e desapontado foi emitido por minha colega. – Não que essa fosse a palavra que mais se encaixasse à nossa relação, mas o grau de parentesco é quem indica.
Parei o carro em um sinal vermelho já próximo ao colégio. Consegui estragar toda a harmonia existente com o assunto mórbido que era meu convívio com Susan e Otto. O interior daquele carro só não era de um silêncio sepulcral por conta de Golden Skans, dos Klaxons, que agora tocava naquela rádio, que por sinal era a que eu havia sintonizado na última vez que pegara carona com minha mãe ainda naquela semana. Lembrando-me daquele dia, me recordei de um pacote de balas sortidas que havia deixado no porta-luvas.
- Sigo em frente? – perguntei. Ela confirmou com um som emitido por trás de seus lábios fechados. O sinal já estava aberto. – Tem bala no porta-luvas, se quiser, pegue. – falei, apontado para a alavanca de abertura.
- Quer que eu pegue pra você também? – ela perguntou, abrindo o compartimento e pegando o pacote aberto. Assenti, vendo-a pegar duas das balas de embrulho preto. Aguardei que estendesse uma para que eu pegasse, mas não o fez. Olhei de rabo de olho, vendo que ela desembalava uma das balas, sendo que já havia feito o mesmo com a outra. Somente depois de desembalada, ela me estendeu a segunda bala, deixando próxima de minha boca. Mesmo estranhando tal atitude, peguei a bala, tomando cuidado para não acabar mordendo a ponta de seus dedos. – Ah, Deus, desculpe! – falou de imediato, recolhendo a mão depressa. – Estou tão acostumada a fazer isso com Noel que acabei fazendo por impulso.
- Ah, sim... – minha voz saiu engrolada por culpa da bala com sabor de canela. – Por falar em Noel, por que não ligou pra ele mais cedo? Não estou querendo reclamar por você ter me pedido ajuda, longe disso.
- Mesmo se estivesse, eu não levaria em consideração. Até porque você insistiu em me levar até em casa, quem em sã consciência faria isso se na verdade não tivesse a fim de ajudar? – disse ela em tom de riso.
- É, faz sentido...
- Enfim, ele tinha ido até uma livraria perto de Ladbroke Groove, porque lá é que tinha um tal livro que ele quer em braile. – continuou, enroscando os papéis de bala um no outro. – e foram também, não confio no meu irmão sozinho por aí, ele é meio bisonho. – riu baixo, olhando para as embalagens em um formato esguio e contorcido. Noel era irmão dela, então. E eu dizendo que era namorado! Irmão... – Mas antes de eu ser assaltada, ele me ligou da casa do , dizendo que ficaria por lá e depois iria direto pra casa. Eu não conhecia o número de lá, soube porque ele me disse. Sem contar que ele não poderia fazer muita coisa, porque, além de deficiente visual, é um pirralho.
- Não vou concordar pra não ser mal educado. – disse em tom de riso. Ela riu também.
- Vire na próxima esquerda. – orientou. – Espero que ele tenha chegado bem em casa, dois na mesma família sendo assaltados no mesmo dia é azar demais.
- Você acredita nisso? – indaguei, voltando meu rosto em direção ao seu.
- Nisso o quê? Sorte, azar...?
- É.
- Acredito. – ela respondeu indiferente. – Na verdade, não tenho nenhuma opinião que vá contra.
- Entendo. – virei meu olhar novamente para o caminho. indicou com a mão para que eu virasse à direita. O fim de nosso assunto me levou a prestar atenção à rádio mais uma vez. Tocava a introdução de Halo, do Bloc Party.
- A primeira casa branca depois da segunda quadra. – minha atenção foi passada à minha parceira novamente. Como indicado por ela, parei na primeira casa branca após a segunda rua que cruzava a sua. logo se soltou de seu cinto. – Muito obrigada mesmo... .
- Não há de quê. – respondi, dando-lhe um sorriso amigável. Ela pôs uma mecha de seu cabelo para trás da orelha, retribuindo.
- Então... – disse depois de fugir de meu olhar. Aproveitei a deixa para me aproximar. – Acho melhor eu ir.
- Espera. – falei, segurando uma de suas mãos. Seus olhos caíram sobre mim com enorme rapidez. Me senti uma bichinha por estar com os batimentos acelerados só por causa de uma garota. Tudo bem, não era uma garota normal, mas ainda sim era só uma garota.

’s P.O.V.

Não sabia por que razão, não sabia como, mas assim que ouvi me pedindo para esperar, senti que deveria acatar. Assim que me virei para ele, percebi que estava mais perto que antes. Mordi o canto meu lábio inferior involuntariamente, sem saber exatamente o que estava esperando que ele fizesse. Quer dizer, no fundo eu sabia, sim. E como se nossos pensamentos estivessem em total sintonia, vi sua outra mão livre vir até meu rosto, pousando o polegar sobre minha bochecha enquanto os outros dedos achavam o fim de seu caminho em meu pescoço, logo abaixo do lóbulo de minha orelha. Meus olhos estavam meio zonzos, indecisos sobre olhar seus olhos ou seus lábios já entreabertos, que se aproximavam rápido o suficiente para me fazer entender o que aconteceria e devagar demais para me tranquilizar. Projetei meu corpo para frente, fazendo com que aquela distância curta se extinguisse por completo. O surpreendente gosto de canela que senti quando nossas línguas se cruzaram fez-me ter certeza de que era aquilo que eu queria. E eu não o deixaria escapar tão rápido.
Levei minha mão solta até sua nuca, puxando-o até mim ao mesmo tempo em que me ajeitava mais próximo a seu corpo. Poderia parecer atirado ou o que fosse, eu não fazia a mínima questão de ligar. retirou sua mão de cima da minha, levando-a até minha cintura. Seus dedos firmaram-se sobre meu casaco, parecendo não querer me soltar. Senti os fios de meu cabelo sendo erguidos por sua outra mão, me deixando ainda mais envolvida naquele beijo sem nenhum sentimento, mas regado de desejo. Não conseguia mais realizar movimentos, o único que meu corpo fazia, fora o de contribuir para o esforço de , era tremer. Até minha respiração saía trêmula. Parecia haver pequenos fogos de artifício dentro de mim, que eram acesos nos pés e subiam por todo meu comprimento, largando faíscas pelo caminho até explodir em minha boca. E à medida que as explosões aumentavam em proporção, a velocidade e força que exercíamos contra o outro era dobrada. Sentia meus lábios esquentarem, mas não passava por minha cabeça dar trégua a eles. Foi preciso diminuir a intensidade, dando-me curtos beijos até que parasse. Mesmo sem haver ação entre nós, nossos rostos estavam próximos. Meus olhos ainda estavam fechados, aguçando meu tato quando passeava os dedos por meu rosto e meu paladar quando depositava em meus lábios novos beijos. A sensação de leveza que sentia me deixava alegre; ele me deixava alegre. Eu novamente estava me sentindo protegida em seus braços. Novamente havia esquecido todos os tormentos da minha vida por estar com ele.
- Acho melhor eu ir. – disse em um murmúrio, mesmo a contragosto. Por mais que quisesse continuar a sentir sua respiração em meu colo, tinha que voltar para casa.
- Por quê? – ele fez o mesmo. Abri os olhos, tendo como primeira visão seus olhos fixados em mim. Mais fogos de artifícios explodiram.
- Já é tarde. – deslizei minha mão de sua nuca para seu peito. Não porque queria me soltar, mas porque não tinha forças para sustentar meu braço. deixou seus lábios próximos dos meus, não fazendo nenhuma menção de querer uni-los novamente.
- O que é que tem? – indagou, esbarrando sua boca na minha a cada sílaba que dizia.
- Passei o dia inteiro fora, meus pais vão se preocupar. – poderia ser a pior coisa a se dizer, mas ainda sim era a verdade.
- Fica aqui só mais um pouco. – sua voz saiu como um choramingo rouco, acompanhando sua testa franzida com os traços para baixo. Não contive o riso.
- Realmente não dá, . – disse enquanto subia e descia o dedo de seu pescoço para seu peito. Estávamos em um ato de cumplicidade tão grande que era de se espantar a quem nos vira início da semana.
- Tudo bem. – ele finalmente deu-se por vencido. Ergueu a mão de minha nuca para minha bochecha novamente, fazendo movimentos em espiral na mesma. – Mas quando eu irei te ver de novo?
- Você tá mesmo me perguntando isso? – ri de novo, pondo em seguida meus lábios sobre os dele por uma última vez. – Estudamos juntos, você sabe onde eu moro, eu sei onde você mora...
- Tá, tá, entendi. – ele riu também.
- Além do mais, há a reunião do teatro amanhã na casa da .
- Puts!... – soltou meu rosto, batendo na própria testa. – Esqueci de pegar o endereço da garota!
- Como se isso fosse um verdadeiro problema. – sorri, alimentando a ideia de ele ir me buscar.
- E é. – rebateu de modo ingênuo.
- Passe aqui amanhã às nove e meia. – beijei seu rosto enquanto minha outra mão já ia até a trava da porta. – Não esqueça.
- Ok, não esquecerei. – ele finalmente entendeu, dando-me um sorriso. Retribuí, abrindo a porta de seu Land Rover e desembarcando. Fui obrigada a andar rápido, pois se demorasse mais para chegar até algo onde pudesse me apoiar, cairia. Adentrei a sala de minha casa e, por sorte, meus pais não estavam lá. Noel ouvia música alto o bastante para ouvir o barulho da chave trancando a porta. Subi correndo para meu quarto, encostando a porta e me jogando sobre a cama. Quando notei, um sorriso bobo habitava meu rosto. Pus uma de minhas mãos sobre os lábios, relembrando os momentos que acabaram de acontecer. Eu mesma diria que era mentira se não tivesse os vivido. Era tão surreal que meu hipocampo não conseguia registrar. Mais uma vez eu parecia uma bocó por causa de um garoto. E não era a primeira vez que o responsável por isso era .

Capítulo 12
’s P.O.V.

Eu estava ansiosa – pra variar. A animação que sentia para ir à casa de era apenas um fiapo, se comparada ao nervosismo que tinha ao pensar em rever . Havia agido tão por impulso, não sabia se aquilo seria só um deslize cometido por ambos ao confundir gentileza com flerte. Mas era tão evidente que ele estava flertando, não era precipitado ceder. Mesmo que fosse uma única vez. Até porque eu gostei. Não sentia nem sombras de arrependimento. Pelo contrário. Me sentia... bem com a situação. Não absolutamente bem, mas confortável. E desconfortável com a escolha de minha própria roupa, como pode? Havia separado jeans e camiseta antes de dormir; escolhi então um vestido e meia-calça assim que acordei para substituir; optei novamente pelo jeans, mas dessa vez acompanhado de uma regata branca, casaqueto cinza e all star preto. E não mudei mais uma vez, pois me disse ao telefone que, se o fizesse, me bateria. Como ela iria também para a casa de , não duvidava que cumprisse sua promessa. Então, sem mais o que fazer, sentei para ver televisão. Passava o reprise de algum filme escalado para a noite anterior, o qual não faço a mínima ideia do nome. Meus olhos pesavam por culpa da noite mal dormida, passada quase toda em claro. E o filme ajudava muito pouco a me manter acordada.
O relógio cuco do escritório badalou às dez, me fazendo despertar. Olhei pela janela, não havia nenhum sinal de . Ele estava atrasado em meia hora, mas que mal isso tinha? não se importa se nos atrasássemos um tempinho.
Dez e meia. Continuava em frente à televisão, dividindo a atenção entre o filme, o relógio e a janela. Começava a me preocupar com a demora, tanto pela reação do grupo, que deveria estar nos esperando, quanto por mesmo. A ansiedade causou em mim uma enorme vontade de mastigar. Levei meu dedo mínimo da mão esquerda até a boca, mordendo um pedacinho de cutícula tão pequeno que, ao afastar o dedo, só via uma pontinha clara sobre o tecido epitelial avermelhado. Repeti o processo, olhando para a janela, relógio e televisão de novo.
Dez e quarenta e cinco; quinze pras onze. Já estava mordendo o anelar da mão direita. Minhas cutículas estavam todas destruídas, com as pontas para o alto, podendo ser vistas nitidamente sem que eu as erguesse até próximo do rosto de quem fosse ver. Estava me controlando para não atacar as unhas e o esmalte rubro pintado ainda nesta semana. Levantei-me, passando o olhar pela janela mais uma vez, indo até a cozinha para comer algo que não fizesse parte de meu próprio corpo. Encontrei uvas-verdes na fruteira, então peguei um cacho, voltei para o sofá e comecei a devorá-las com velocidade absurda. Estava começando a ficar certa de que não apareceria com duas horas de atraso. Nem o faria em hora nenhuma. Me sentia frustrada por ter esperado pacientemente – bem, nem tanto; magoada por ter sido esquecida; preocupada com a reação de e pela demora. Dei um salto do sofá, deixando o cacho vazio de uvas ali mesmo. Iria para aquela bendita reunião mesmo que sozinha!
Peguei o chaveiro de Noel que estava pendurado no suporte atrás da porta, destranquei a fechadura, saí, fechei a porta e dei um passo à frente. Voltei correndo para a sala ao me lembrar do cacho esquelético em cima do sofá. Após descartar o lixo orgânico, saí novamente, tendo certeza de que não havia me esquecido de nada. Comecei a soprar Only Ones Who Know, dos Arctic Monkeys, enquanto caminhava, já que meu iPod era agora coisa do passado. Olhei minhas mãos, me arrependendo amargamente por cada milímetro de pele que havia roído. O efeito era tão curto que tinha detonado meus dedos em poucos minutos. Não servira nem para me acalmar. Tudo por culpa de...
- !
... !
Virei somente meu rosto para trás, constatando que era ele mesmo. Fui tomada por uma gama de rancor, criando juras de morte praquele infeliz em minha mente. Franzi o cenho, escolhendo dez dentre os nomes “carinhosos” que estavam em minha cabeça para poder usar sem ser acusada de atentado ao pudor pelos vizinhos.
- Antes de você me xingar, desculpa. – disse ele, ainda andando rápido até mim. Levei minha expressão de raiva a surpresa, observando suas bochechas avermelhadas. – Eu acordei atrasado, meus pais já tinham ido pro escritório, então tive de vir de ônibus. Mas aos sábados os ônibus demoram mais que o normal, aí resolvi vir a pé. Só que ia demorar demais, e então vim correndo. – ofegou, cansando da corrida e da fala rápida. De surpresa, minhas feições se tornaram clara confusão enquanto eu tentava assimilar todas as informações quase cuspidas.
- Não entendi muito que você disse, mas... Tudo bem. – disse por fim, soltando um riso baixo sobre a tentativa de justificativa de . Mesmo não despejando minha ira sobre ele, ainda estava ressentida pelo atraso. – Vamos logo, já estamos atrasados demais.
Assentindo, ele pôs-se ao meu lado. E, pra minha surpresa, pousou sua mão sobre meu quadril. Me vi acuada, sem saber o que fazer. Foi quando percebi que estava confusa sobre nós dois. Até porque, pelo que eu sabia, só tinha sido um deslize. Que eu tinha gostado.
- Você esperou muito? – perguntou, pelo volume de sua voz, virado pra mim. Neguei com a cabeça, não o encarando. Claro que esperei, o combinado era duas horas antes, sua anta!, pensei. Queria jogar isso em sua cara, mas o meu raciocínio mais lento que o normal não permitiu. Fora que me recordei da trégua que havia criado. E do beijo que havíamos dado. O que me acarretaria a característica de possessiva, além de exigente demais, como sempre. Claro que eu não iria dar a parecer que queria levar tudo à frente (e aposto que também não), contudo, não queria também que voltássemos ao patamar anterior, onde ter uma simples conversa era quase um sacrifício. Estávamos bem assim. Acho.
- – ainda achava estranho chamá-lo assim –, onde tá o roteiro? – virei-me pra ele, vendo seu rosto assombrar.
- Puta!... – disse, erguendo a cabeça em sinal de derrota. Voltei a olhar para a direção contrária, conjurando as piores maldições àquele cabeça oca.
- Só pra fechar com chave de ouro. – deixei escapar, então torcendo para que não tivesse sido ouvida. Olhei de soslaio para , que parecia absorto em pensamentos que eu desconfiava serem sobre onde estaria o roteiro e a cópia. Provavelmente não teria ouvido meu pensamento alto, pro meu alívio.
- Aquela não vai se importar se não formos a esse ensaio, né? – procurei encará-lo mais uma vez, incrédula com o que ouvira.
- Já estamos quase duas horas atrasados, o que vai render um bom esporro, e você ainda quer faltar? – indaguei, me tornando ainda mais incrédula ao ver um sorriso em seu rosto enquanto balançava a cabeça para cima e para baixo. – Você é doente?! – e, com o mesmo sorriso, ele negou. – Não é o que parece. – ralhei, esperando uma reação qualquer dele. – E para de me olhar com essa cara de maníaco.
Então ele riu, levando seu outro braço de encontro ao que me envolvia ao tempo que se virava, me fazendo parar de andar abruptamente. Senti um calor insuportável, acompanhado de uma vontade absurda de me soltar, tamanha intimidação que tinha por sua proximidade. Mantive-me ainda de lado, mas com o rosto em sua direção.
- Esse é o seu problema. – seus lábios se aproximavam; meus pensamentos eram apagados. – Você tem medo de tudo. – lutei, aliada ao meu pingo de bom senso, contra a vontade gritante de beijá-lo. – Nunca se arrisca. – com o rosto a centímetros do dele, declarei minha derrota, deixando uma pequena fenda entre meus lábios. E me deixando com raiva e desejo, virou o rosto, roçando a ponta de seu nariz e boca pela lateral de meu pescoço. Fechei olhos e lábios com força, me julgando burra por ceder tão facilmente. – E aí acaba perdendo muitas coisas. – pus uma de minhas mãos sobre as dele, apertando-as sob meus dedos. Pude ouvir seu riso curto ao pé de meu ouvido, cantando vitória. – Boas coisas.
Fogos de artifício. Explosões. Combustões. Era só isso que vinha à minha mente.
- Não sou assim. – e mesmo com pensamentos confusos, consegui rebater sua opinião sem pé nem cabeça. Seu rosto continuava fora de meu alcance visual, mas eu sabia perfeitamente em que posição estava, levando em conta sua respiração leve e regular sobre meu ombro.
- Duvido. – disse ele, deslizando os lábios por toda a extensão de meu pescoço novamente. Senti uma enorme leveza interna, como se não existisse gravidade agindo em mim. Nem mesmo a vizinhança de metros depois da minha casa, nem os carros na rua existiam. Extasiada do jeito que eu estava, só conhecia meu corpo, o de e o prazer que sua voz trazia aos meus ouvidos naquele momento. Raiva, preocupação, mágoa e frustração não davam nem um pio.
- Não duvide, já te disse que você mal me conhece. – afastei meu rosto, a fim de vê-lo. Seus olhos tinham um quê de sedutores, e mesclados à incitação que ele me fazia, davam nocaute nos últimos vestígios de sensatez que eu alimentava.
- Então prova. – suas palavras soaram como uma ordem. Obedecendo a ela, levei meus lábios de encontro aos dele, finalmente alinhando meu corpo ao seu. Minhas mãos escoraram-se em seu peito à medida que tive o quadril pressionado, me fazendo ficar intimidada. Porém, eu não podia voltar atrás, estava mostrando que não era medrosa.
arrastou sua mão de meu quadril para a cintura, com o indicador sob a barra de minha regata, enrijecendo os vasos capilares de todo meu corpo. Em consequência, mordi seu lábio com delicadeza, prendendo-o entre meus dentes. Ouvi sua inspiração intensa, tão alta quanto um sussurro. Dei distância de seu rosto novamente, e em contra-ataque ele avançou, pondo sua boca contra a minha com avidez, mas não me induzindo a abrir a minha. Seus dedos apertaram minha cintura à pele nua. Eu não me encontrava hábil nem mesmo para reagir.
Seu perfume de almíscar, já conhecido por mim, incrustava-se em minha laringe; cada vez que o ar corria, me trazia a lembrança daquele odor peculiar que sua pele emanava. Fui dominada pela vontade de trilhar o caminho de suas costas com minhas unhas, então recordei de onde estávamos em um relampejo de sanidade. No meio da calçada, próximos à minha casa, no caminho para a de , onde deveria haver pelo menos dez pessoas que dependiam de nós. Empurrei o peitoral de , escapando de seus braços ainda com os olhos fechados.
- Te conheço tão bem quanto você mesma. – disse ele após um suspiro carregado de sarcasmo. – E nem precisei de mais que uma semana pra isso.
- Tanto faz. – fui indiferente ao seu comentário, recomeçando o caminho até a casa de . – Tenho primeiro que cumprir um compromisso, depois me preocupo com coisinhas superficiais. Já me atrasei demais dando prioridade a isso. – tentei ser dura, usando a rigidez que costumava dirigir a ele. Mas não tinha mais toda a concentração para ser fria, sua petulância havia me desdobrado, assim como havia me afetado. Estava sendo enrolada e tratada como objeto de distração, e nem mesmo conseguia relutar com rigor. E a culpa era completa minha por tê-lo atendido de primeira, o que me deixava injuriada comigo mesma. Sem perceber, apressei meus passos, tomando distância dele.
- Pra que a pressa? – perguntou ele, andando em passos largos para alcançar os meus. Parei próxima ao meio-fio, olhando para os lados para atravessar. – Tá me ignorando, é?
- Não. – respondi simplesmente, já caminhando pela travessia.
- Mas tá brava comigo. – se pôs à minha frente, bloqueando minha passagem. – Quero saber por quê.
- Pode sair da minha frente, por favor? – finalmente voltei a olhá-lo, usando firmeza em meu tom de voz.
- Não. – ele disse no mesmo tom. – Você ainda não me respondeu.
- Deve ser porque não quero fazer isso. – sorri com cinismo. – Me deixa passar, . Nós vamos ser atropelados.
- E daí? – sua insistência começava a irritar. Esquivei-me, indo para a direita; ele também foi para a direita. Tentei fazer o mesmo para a esquerda; ele continuou a seguir meus movimentos. Enviesei minhas sobrancelhas, completando minha expressão desaprovadora.
- Sai. Da minha. Frente. – ralhei entre dentes, não surtindo nenhum efeito. Ele continuava parado, estático, exatamente na minha frente. Tentei empurrá-lo, mas tive os braços presos. Sentia mais raiva que nunca por estar em sua companhia. Meu estômago revirava, louco de ira. – Qual é?! Pra que isso, merda?!
- Viu? Você tá puta comigo! – o ouvi dizer, vendo seu rosto, que no momento era o comburente da minha raiva, ao nível do meu. Seus olhos tinham uma confiança irritante.
- E daí? – imitei seu discurso de modo exagerado, ainda firme com a ideia de me soltar. Quanto mais resistia à sua força, mais ele conseguia me aprisionar. – Me solta! Eu vou fazer um escândalo!
- Já tá fazendo um. – sua voz estava alta o bastante para ser severa, baixa o bastante para não chamar mais a atenção. Queria eu que passasse um carro e o atropelasse! Pelo menos eu escaparia de seus braços.
- Porque você tá agindo feito um babaca! – bradei.
- Porque você tá agindo feito uma babaca. – ele repetiu, aumentando meu ultraje. – E eu nem sei o motivo!
- Não precisa saber, é só me deixar em paz que talvez eu te trate como quer. – abaixei o volume de minha voz, ainda a deixando ríspida. – Agora chega de palhaçadas, , vamos agir com maturidade.
- Maturidade? – ele riu sem humor, andando de costas até a calçada quando ouvimos a buzina de um carro. – Então dar uma crise do nada, sem nenhum motivo aparente, é sinônimo de maturidade, ?
- Você é o último ser que pode me julgar com relação a isso. – disse eu, ofendida.
- Como pode ter certeza? – indagou em tom de desafio.
- Não sou só eu a pessoa previsível. – respondi com ironia, sentindo suas mãos afrouxarem. Puxei rapidamente meus pulsos, voltando a caminhar finalmente.
- Ah, é por isso? – seu timbre parecia falhado, como se tentasse se segurar para não rir. Meus nervos estavam indo pro espaço com cada pequena reação presunçosa dele. Quanto mais eu me estressava, mais meus passos aumentavam a frequência. E os do imbecil ao meu lado também.
- Não, claro que não! – respondi rápido, sem o olhar. Minha voz perdeu parte da convicção de antes, então percebi que estava sendo abatida por uma nostalgia incômoda. E, se não me controlasse, ia acabar dizendo a que estava brava comigo mesma por culpa dele, do que ele disse. Porque, mesmo sendo impertinente, seu comentário me aborreceu. Eu não queria dar o braço a torcer e concordar que ele estava certo sobre eu ter medo de me arriscar. Fazer isso só aumentaria seu ego já inflado.
Fui retardando meus passos aos poucos, chegando a uma velocidade considerada normal. Ele continuava ao meu lado, sem nem desviar o olhar. Ser vigiada só aumentava meu nervosismo, que agora não tendia tanto à raiva.
- O que foi, então? – podia jurar que sua voz parecia compreensiva. Vi-me segura para olhar em seus olhos, e quando o fiz, não enxerguei a arrogância que ele passava antes.
- Nada. – respondi de má vontade, entortando o canto de minha boca e suspirando.
- Se fosse nada, você não teria dado piti. – continuou ele, totalmente descrente de mim.
- Não é nada, , é sério. – desviei meu olhar do seu, torcendo para que ele encerrasse logo o assunto.
- Você não gostou do que eu te disse, é isso? – mas quanto mais eu torcia, mais ele falava sobre. Pra não prolongar, apenas balancei a cabeça de forma que mostrasse imprecisão. – Foi porque eu tentei psicologia inversa com você pra não ir ao ensaio?
- O bom é que você assume. – satirizei, parando em outro cruzamento antes de atravessar. – É, talvez.
- Vou considerar isso como um sim. – voltei a olhá-lo rapidamente, arqueando a sobrancelha.
- Eu não disse que era um sim. – e dessa vez ele era quem não mantinha o contato visual.
- Mas também não disse que era um não.
Revirei os olhos, atravessando a pequena rua. Continuei com as ações reduzidas a andar e respirar, tentando também me reconcentrar na música que cantava antes.
- Você continua brava? – me interrompeu.
- Chega desse assunto. – resmunguei.
- Então já passou? – continuou ele a perguntar. Assenti, tentando fazê-lo calar a boca. – Mesmo?
- Se você continuar me enchendo, vou ficar brava contigo de novo.
Titica!
- Sabia! – ouvi sua risada alta enquanto controlava minha vontade de tacar a cabeça na parede. Por que demônios eu fui abrir a boca? Pra falar demais, claro.
- Tá, e o que você ganha com isso? – perguntei com acidez.
- Satisfação. – ele respondeu sorridente, pra minha curiosidade.
- Por...?
- Saber que realmente te conheço a ponto de saber todas as suas seguintes atitudes. – completou. Franzi o cenho, censurando-o. – Posso até te dizer o que vem em seguida. Primeiro você não vai acreditar... – disse enquanto eu arqueava a sobrancelha novamente, em desafio a ele. Desfiz a ação ao reparar que tinha seguido o que ele havia dito, o que o fez crescer seu sorriso confiante. – Depois vai...
- Ah, vai te catar! – grunhi, interrompendo sua previsão besta. – Anda logo, a gente não tem todo tempo do mundo.
- We could steal time just for one day... – virei-me pra ele mais uma vez, totalmente surpresa por saber que pelo menos olhado o roteiro ele tinha feito. E também por descobrir que sua voz tinha ótima entonação. – Quê?
- Você leu o script? – perguntei a coisa mais óbvia que podia. Se ele tinha citado um pedaço, claro que tinha lido.
- Sim. – me respondeu, não conseguindo conter o contentamento por me ver surpresa. Abri a boca algumas vezes, tentando procurar o que falar. – Aliás, cada vez que leio acho aquilo mais bicha.
- Moulin Rouge não é bicha. – mas, como sempre, a vontade de bater de frente com falou mais alto. – Você que é um insensível.
- Não, a peça que tem sensibilidade demais pra minha pessoa. – ele riu sem humor, me fazendo rolar os olhos.
- Idiota. – murmurei. – Vira aqui.
- Idiota não, sincero. – mais uma vez ele rebateu.
- Não confunda sinceridade com rudeza. – e mais uma vez eu retruquei. – Aposto que você nem consegue diferenciar as duas coisas. – Então ele não argumentou. Até porque, se dissesse que sim, eu pediria para que eu explicasse. E acho que isso não aconteceria por ele não ter ideia do que explicar. Sorri com ironia ao constatar que estava certa. – Pois é.
- Aposto que consegue. – mas pra tudo tem sempre uma solução. No caso era tirar o cu da reta.
- Não precisa o colocar no meio. – meu sorriso se desfez.
- Por quê? – ele indagou, intrigado com minha reação.
- Porque desviar a atenção não te traz a resposta.
- Não é isso. – sacudiu a cabeça para os lados enquanto dizia. – Por que não colocar o no meio?
- Simples, porque o assunto não é ele. – após um micro sorriso de deboche, virei-me para frente novamente, em seguida parando em frente à casa cor de tijolo de .
- É aqui? – perguntou, deixando todo o assunto de lado. Assenti, tocando a campainha.
- Vê se age como gente, não estaremos mais sozinhos. – concluí. Ele gargalhou com sarcasmo, não tendo tempo para contra-argumentar no que a porta se abriu.
- Que bom que resolveram dar o ar da graça. – disse com ironia, dando passagem para e eu. Já estava ficando farta de tanta sátira em apenas uma manhã de sábado. Adentrei a sala, ignorando seu comentário. Logo vi e Ben sentados juntos no sofá menor ao canto da sala. Ao lado deles, sentados no chão, estava Randall, intérprete de Chocollat, Cecile e John, substitutos de mim e .
- Tivemos um imprevisto. – ouvi o babaca, que vinha atrás de mim, explicar a . , ao ouvir, enviesou um sorriso, me levando a negar com a cabeça em resposta. Sentei ao seu lado, sobre o braço do sofá, cumprimentando Ben e ela. parou ao meu lado.
- Vai ficar aqui mesmo, parado igual a uma coluna? – disse virada para ele, enxotando-o nas entrelinhas.
- Quer que eu sente no seu colo? Por mim, tudo bem. – ele fez menção de sentar em meu colo, me fazendo empurrá-lo.
- Procura uma cadeira, um espaço, um prego pra sentar, sei lá! – reclamei, fazendo força contra suas costas. e Ben riam, e mais ainda. – Some daqui, pelo amor de Deus!
- Primeira briga do mais novo casal? – Ben perguntou assim que se afastou. Franzi o cenho em represália à palavra “casal”.
- Estamos longe de ser um.
- Ué!... – guinchou , parecendo surpresa. – O que houve? Vocês não estavam se acertando?
- Nem eu sei mais. – suspirei, deixando meu corpo pesar sobre os cotovelos, que estavam agora sobre os joelhos. – Esse garoto tá me deixando louca! – levei minhas mãos aos cabelos, chacoalhando-os.
- Em todos os sentidos, né? – continuou ela, rindo. Reprovei seu comentário com o olhar.
- Me encontro meio psicopata no momento. – abri um sorriso digno de Jigsaw. – Quer que eu ponha todas as minhas ideias de tortura em prática com você?
- Mais tarde, pode ser? – ela brincou, mandando uma piscadela. Ri baixo, voltando minha atenção para o resto do grupo espalhado pela sala. Notei que ainda não havia discussões sobre nenhuma cena, todos pareciam ter assuntos aleatórios. Foi então que dei por falta de . Procurei pelos arredores pra tentar encontrá-lo, vendo somente sua mochila no chão, próxima à porta. Ele estava lá, pelo menos.
- Cadê o ? – perguntei pros dois do meu lado, que deram de ombros.
- Ele foi atender um telefonema de casa lá na cozinha. – disse, me assustando pela chegada repentina.
- Assombração! – grasnei, fazendo-a rir.
- Tá devendo? – perguntou, estendendo um bloco de folhas na minha frente. Neguei para a pergunta, pegando o bloco. – me disse que vocês estão sem roteiro, usa essa cópia e depois me devolve.
- Tá. – assenti, olhando para o outro lado da sala. , que folheava o bloco em suas mãos, ergueu seu olhar até mim, mantendo o rosto ainda abaixado, mas deixando visíveis as maçãs do rosto elevadas. Sorri sem jeito em resposta. O que ele queria, afinal? Era uma espécie de pedido de desculpas ou algo do tipo?
- Tô de volta! – irrompeu na sala, atraindo a atenção das pessoas, inclusive a minha. – Hey, ! – e ele parecia ter notado. Andou até mim, parando ao meu lado. – Pensei que não viesse.
- Tive um imprevisto, acabei me atrasando. – usei a desculpa de , aproveitando para olhá-lo novamente. Já estava com os olhos abaixados novamente, observando o script. Quando voltei meu foco para , percebi que ele também o olhava.
- Saquei... – disse baixo. – Mas, ah, que bom que você veio. – então aumentou o tom de voz, voltando a me encarar com um sorriso acolhedor. – Não sei se aguentaria as crises de estrelismo de Cecile.
- Acho que ela ouviu. – sussurrei aos risos após uma rápida espiada. Ele também riu.
- É bom pra já ficar sabendo que incomoda.
- Bora lá, gente, vamos começar isso logo! – disse em voz alta, batendo palmas pra chamar a atenção. – , você começa, já que o primeiro ato é quase todo seu.
- E por que Noel não veio? – perguntou baixo para não atrapalhar.
- Ele deve estar no décimo sono ainda, só vai acordar lá pras três da tarde. – expliquei, abrindo o roteiro e procurando o primeiro ato. Como de costume nos ensaios, se levantou e foi ao centro da roda enquanto os outros acompanhavam.
- O Moulin Rouge. – começou ele. – Uma casa noturna... uma danceteria e um bordel dirigido por Harold Zidler.
- Queria poder fazer o mesmo. – continuou , falando mais perto de meu ouvido para não precisar aumentar a voz.
- Também, por dias. – disse por fim, dando atenção somente ao ensaio. Tirei os olhos da folha aberta, pondo-os sobre o garoto ao centro.
- Um reino dos prazeres da noite, onde ricos e poderosos se encontravam com jovens e lindas criaturas do submundo. – sua voz soava macia, gostosa de ouvir. – A mais bela de todas elas era a mulher que eu amava. Satine. Uma cortesã que vendia seu amor aos homens.
- Eles a chamavam de “Diamante Cintilante”. – sibilei.
- E ela era a estrela do Moulin Rouge.
- Nessa hora aparece a Satine andando pelo palco – interrompeu, apontando pra mim. – E em seguida as dançarinas de cancã, que vão ser as meninas do jazz.
- Continuo? – perguntou e ela assentiu. – A mulher que eu amava... está... morta.
- E então, , você cai nos braços das dançarinas, que vão te carregar pra fora.
- Certo. – concordei, assentindo.
- Posso continuar? – pude perceber uma pontada de irritação na voz de , criando em mim vontade de rir.
- Continua! – respondeu como se não tivesse culpa. Ele se voltou então para o roteiro.
- Eu vim a Paris pela primeira vez há um ano. – conforme falava, ia desfazendo os traços fortes de seu rosto até então franzido. – Era 1899, o “Verão do Amor”. Eu nada sabia sobre o Moulin Rouge, Harold Zidler ou Satine...
- tá ficando irritadinho. – sussurrei para , rindo. Ela começou a prestar atenção também nele.
-... O mundo havia entrado numa revolução boêmia e eu viera da Inglaterra fazer parte dela. Perto de Paris ficava a aldeia de Montmatre. Não era, como meu pai dizia, uma aldeia do pecado, mas o centro do mundo boêmio.
- Quando ele falar “músicos, pintores, escritores...” – os olhos dele se cerraram, aumentando ainda mais minha vontade de rir. Ele estava vendo como é bom, ironicamente falando, ser irritado –, passa pelo palco o elenco de apoio com seus respectivos instrumentos.
- Dá licença? – disse a . Eu e nos entreolhamos rapidamente.
- Sim? – respondeu, meio avoada. Provavelmente estava pensando em voz muito alta.
- Será que pode esperar eu pelo menos terminar esse parágrafo pra depois me interromper?
Ela o examinou de cima a baixo, sorrindo de lado em sátira.
- Você chegou atrasado, sem roteiro, e ainda quer reclamar? – indagou. nada falou, mas pelas suas feições eu podia jurar que ele queria xingá-la dos piores nomes que sabia para baixo. deixou de encará-lo, olhando as anotações que tinha sobre o colo. – Voltando...
- Isso, no mínimo, doeu no ego dele. – disse pra mim e eu assenti, me controlando pra não rir alto.
O ensaio então seguiu. interrompia menos, pois reparou que realmente estava incomodando, e , apesar de estar disfarçando, ainda não tinha engolido o desaforo. Só de lembrar a expressão de e a reação de , eu tinha novos acessos de riso, sendo censurada por todo o grupo. nem me ajudava a parar – pelo contrário, ria ainda mais –, Ben nos olhava, confuso, e , quando soube por mim o motivo, me chamou de louca em um riso curto. Eu podia até ser, mas pouco ligava. Estava terminando com a minha mágoa de outra forma, e assumo que esta era melhor. A sensação de prazer que eu tinha por ver estressado era tão grande quanto a que ele tinha ao me fazer o mesmo. Pode-se dizer que eu estava tendo minha doce vingança. E me tornando mais leve e bem humorada assim. Nem mesmo me importava com as chamadas, que chegavam à grosseria, de . Vendo que eu pouco me lixava, ela cansou de me repreender e deu uma nova pausa para que “acalmássemos os ânimos”. No fundo eu sabia que esse “acalmar” era diretamente para mim. Todos os presentes sabiam, mas não quiseram revogar, afinal, era um tempo a mais pra não se concentrarem só na peça.
Cumprindo as ordens de , segui o fluxo de pessoas que iam até a cozinha. Logo as cadeiras da mesa de jantar se encheram e os espaços vagos em torno delas também. Somente depois de mudar para um cômodo menor que pudemos ver a quantidade de pessoas (famigeradas) que estavam ali. Desisti de tentar chegar ao filtro de água, indo de volta para a sala, acompanhada de , Ben e . Sentamos e eu no sofá maior, deixando um espaço vago ao meu lado, e no sofá menor e Ben.
- E o que vocês vieram fazer aqui? – perguntei aos dois que não faziam parte do elenco. Ben nem parte do corpo de alunos fazia, o que era pior ainda.
- Foi a que nos chamou ontem. – explicou. – Eu não tinha nada melhor pra fazer mesmo, por que não vir?
- E por que não acordar os outros às sete da manhã? – Ben perguntou com falsa naturalidade, deixando nítido o incômodo por minha amiga ter feito o que dissera.
- Você disse que não tinha problema. – ela resmungou, olhando-o com censura.
- E realmente não tinha. – concordou ele, deixando-a confusa. – Mas que incomoda, incomoda.
- Ah, desculpa, bebê. – pôs seus braços entorno do pescoço do namorado, ignorando a todos. Olhei para , que retornou meu olhar e parecia tão incomodado com a cena quanto eu.
- Pois é, né. – disse na falta de algo melhor pra falar, vendo-o concordar com um balanço de cabeça enquanto ria.
- Quer ir lá pra fora? – sugeriu, apontando para a porta.
- Sim, claro. – respondi, assentindo. – É melhor que ficar aqui de castiçal. – rimos novamente, levantando e indo para fora.
- Se bem que a gente não precisa. – vacilei ao ouvi-lo dizer. Evitei contato visual, e foi o melhor que pude fazer.
- Pois é, né. – repeti, já pondo os pés onde viria a ser a fachada da casa. Estava com as mãos escorregadias de suor frio que surgiu instantaneamente. Eu precisava me manter calma pra não fazer nenhuma burrada. tinha dado somente uma frase de sentido ambíguo, isso não significava nada. A menos que ele quisesse ser ambíguo, o que faria meu nervosismo dobrar de tamanho. Não falamos mais nada até chegarmos ao gramado, onde nos sentamos novamente, eu com as pernas dobradas; com as suas estendidas.
- Então... – disse ele, cessando o silêncio e me fazendo olhá-lo. – Meus pais ligaram do restaurante avisando que tenho que almoçar lá, mas acho que só vou chegar pro jantar do jeito que o ensaio tá andando.
- Desculpe. – falei, mais calma por notar que eu havia apenas fantasiado. Ele não era , que costumava dar indiretas o tempo inteiro. – Não tava conseguindo me segurar. – e, ao me lembrar do motivo dos risos, tornei a rir, agora de maneira moderada.
- Tudo bem, relaxa. – ele sorriu de modo complacente. Tive que deixar de o olhar de novo, não queria fazer nenhuma besteira, e sabia que faria se continuasse a ver sua fileira de dentes tão brancos e alinhados. Preferi olhar para o alto, vendo as nuvens correndo em uma só direção. – Essa parece um hambúrguer.
Olhei para novamente. Ele estava deitado e com as mãos abaixo da cabeça, que, assim como a minha segundos antes, estava virada em direção ao céu. Percebi que se referia à mesma nuvem que eu tinha olhado. Sorri, voltando a observá-la.
- Agora parece um CD. – corrigi, vendo o que parecia levemente um círculo se abrir no meio da nuvem arredondada.
- Ou um disco de vinil. – ouvi meu colega dizer. Assenti, ainda olhando para o azul-céu manchado de borrões brancos. O clima estava perfeito. Um sol claro e forte, com uma brisa fraca quebrando o calor. Podia sentir alguns fios do meu cabelo se erguerem com as pequenas correntes de ar, levando-me a fechar os olhos por alguns instantes. Abri novamente ao notar que ainda sentia sono. Quanto menos eu demorasse de olhos fechados, menor o risco de cochilar sem querer. Reparei que ainda falava o que os formatos das nuvens o lembravam, mas eu nem ouvia direito. Prestei então atenção no que dizia. – Essa parece uma bota.
- Ou a Itália. – ri baixo, ouvindo-o fazer o mesmo. – Por falar na Itália, sempre quis conhecer Veneza. – comentei, cansada de assimilar imagens. – Acho tão romântica.
- Mas não é uma cidade que faz o romance, são as pessoas. – percebi por meu campo de visão que me encarava. Não quis corresponder seu olhar.
- Como assim? – perguntei, realmente interessada em ouvir sua hipótese. Virei-me para sua direção, vendo-o se sentar novamente.
- Não importa o lugar que as pessoas estão, é o que elas sentem uma pela outra que deixa o momento romântico. – respondeu ele, tão sério que eu podia jurar que estava absolutamente concentrado para me dizer aquilo. Fiquei desconfortável por pensar na possibilidade de ser verdade. – Até o gramado de uma casa pode ser romântico, só depende do que os envolvidos sentem.
- E o que você tá sentindo agora? – perguntei por impulso, tendo meus pensamentos atrofiados com a confirmação de que estava claramente falando sobre nós.
- Uma enorme vontade de te beijar, sem querer parecer rude. – e claro que eu não achava rude, grosseiro, nada, porque sentia o mesmo. Seus olhos aproximavam-se, mirando meus lábios, que se abriam no mesmo intervalo de tempo. – Se me permite... – foi a última coisa que ouvi antes de bloquear parte dos meus sentidos. Uma de suas mãos pousou sobre minha bochecha em um toque inocente, completando o beijo sem maiores pretensões que trocávamos. Por mais incrível que parecesse, eu não sentia enjoo repentino, formigamento, nervosismo, nada. Tranquila era a melhor palavra pra me definir no momento, o que era estranho. Não fazia o mínimo sentido eu ter reações tão loucas sem um maior contato e, quando o faço, não ter nenhuma, nem mesmo uma pontada no dedo mindinho do pé.
O beijo de não era ruim, longe disso. Talvez eu que não estivesse retribuindo sua vontade da mesma forma. Mas ele havia sido tão fofo e paciente, era até injusto agir assim. Só que eu não conseguia fazer mais que apenas estar presente. Eu não conseguia ter o mesmo prazer que sentia com . Surpresa por chegar a essa conclusão, abri os olhos, ainda partilhando o mesmo beijo. Não o continuei, cessando-o na mesma hora, mas de modo delicado para que não notasse nada. Estava envergonhada por não conseguir retribuir seu anseio na mesma proporção. Não sabia nem o que dizer depois do acontecido.
Por (muita) sorte, ouvi nos chamar da janela, levando-nos a nos separar rapidamente. Pelo menos eu poderia usar esse pequeno imprevisto como o motivo do meu embaraço. se levantou primeiro, então me ajudou a fazer o mesmo. Agradeci, procurando não olhar diretamente em seus olhos. Adentramos a sala novamente e quase todos estavam lá, faltavam poucos para completar o grupo. Aproveitando a brecha, fui até a cozinha para finalmente beber água. Ainda me encontrava pasma por minha reação momentos atrás e, principalmente, pela descoberta que tinha feito. Chocava a mim mesma saber que, infelizmente, eu não estava contente por não ser . Eu era e continuo sendo uma completa idiota. Absurda e absolutamente idiota.

Capítulo 13
’s P.O.V.

Já estava de saco cheio desse ensaio maldito. A vontade de ir a ele era pouca, a de ficar e continuar ensaiando era nenhuma. Mas eu devia aguentar até o fim, já estava com raiva pelo meu atraso e pelo comentário, se eu fosse embora sem dizer nada ela ficaria louca. E eu nem podia inventar uma desculpa como “tenho compromisso com meus pais”, porque ela sabia que os dois estavam trabalhando e que nosso relacionamento não chega a ponto de eu deixar de estar fora de casa só por eles. Então só me restava fica e esperar terminar, o que me deixava ansioso. Precisava de um cigarro, mas tinha certeza que nenhum dos presentes tinha. São tão quadrados quanto .
Assim que a pausa foi dada, esperei a sala esvaziar para ir procurar algum lugar que vendesse pelo menos uma cigarrilha, ainda que esse troço viesse a feder mais que cocô de gato. Não tinha noção nem de por onde começar, não conhecia aquele pedaço de Ealing. Segui em frente na rua em que mora, olhando o tempo todo para os dois lados, para ver se achava um pé-sujo qualquer que estivesse aberto no sábado, quase às duas da tarde. A droga da rua não acabava, não aparecia nenhum “boteco do John”, nada. Que porra de lugar eu tinha me enfiado por causa desse teatro?!
Virei na primeira esquerda, iria dar a volta no quarteirão. Pro meu azar, também não tinha nenhum botequim ou padaria aberta. Virei outra curva, seguindo mais uma rua quase sem fim. E dessa vez me ferrei, porque a rua era, além de enorme, sem saída. Estava começando a sentir sede e calor, só batia um ventinho que nem refrescava. Olhei as horas em meu celular, já fazia dez minutos, mais ou menos, que eu tinha saído da casa de . A “pausa pra acalmar os ânimos” – que aposto que ganhou esse nome por minha causa ou de – já deveria estar acabando e eu não tinha conseguido a porra do cigarro. Voltei todo o caminho, com raiva por ter andado como um otário, perdido tempo livre e ainda ter que me segurar até o fim do ensaio.
Cheguei até a casa de e, bem no gramado, confirmei a ideia de que as “certinhas” são as piores. estava aos beijos com , sem se importar se todos viriam. Estava claro o motivo de ela não querer pôr o amiguinho no assunto mais cedo. Mas eu não tinha nada com isso, não ia ficar dando chiliquinhos – até porque ela é quem gosta de fazer isso, ainda não entendo qual a graça. Ignorei a cena, entrando novamente na casa de . A sala estava meio cheia, meio vazia, como quando eu chegara. e seu namorado continuavam sentados no sofá menor, agora entretidos em algo que viam no celular dela. Todos pareciam envolvidos demais em seus próprios interesses, não deviam nem ter conhecimento sobre o que se passava na entrada da casa, o que me deixou revoltado. Se eu estivesse pelado, dançando Y.M.C.A., todo mundo iria ver.
Preferi mais uma vez deixar a imagem de e de lado. Mesmo que bem pouco, assumo que me incomodava vê-la com ele após ter me dispensado. Dava a impressão que havia me trocado por ele, logo ele, que é mais novo, mais idiota e ainda é amigo do irmão dela. Devia ser tão idiota quanto o garoto de treze anos, decerto. Só que eu não tinha que ficar remoendo isso, afinal, eu era o que dela? Certo, nada. Absolutamente nada. Então por que inferno me incomodava tanto o simples fato de ela não estar comigo agora? Era orgulho, óbvio, só podia ser! Eu ainda não conseguia admitir que tinha tomado um “rala peito” da quadrada, era isso. Enterrado até o pescoço em minha certeza, fui até a cozinha, pois ainda sentia sede por conta da caminhada inútil. Peguei um dos copos descartáveis disponíveis em cima da mesa, enchi com o refrigerante que ainda restava na garrafa e me saciei rapidamente em poucos goles. Vi surgir por trás do copo branco quando o abaixei.
- Viu a por aí? – perguntou, espetando o lápis que usava no coque que acabara de fazer.
- E eu devia mesmo saber? – falei em tom de indiferença. não era como , parecia nem se incomodar com alfinetadas do tipo.
- Viu ou não? – disse sem alterar a voz, deixando em evidência que não funcionava com ela a mesma psicologia que eu agia com a .
- Vi. – respondi simplesmente, dando de ombros. Enchi meu copo mais uma vez, agora com outro refrigerante.
- E onde você a viu, ? – tive a impressão de ouvir um tom maternal na voz de , como um adulto que pergunta a uma criança de três anos por que ela roubou um biscoito do pote. Minha vontade de esganá-la, que já não era pouca, aumentou, mas claro que eu não o faria. Infelizmente existe lei de proteção aos animais.
- Por aí. – dei de ombros, bebendo todo o meu refrigerante em uma golada. Deixei o copo sobre a mesa e fui direto para a sala, deixando a redatora com mania de professora de maternal parada no mesmo lugar. Com certeza, pelo menos naquele momento, eu a tinha irritado. Seu sopro forte de ar, que fez um barulho tão alto quanto uma bufada de touro, foi a confirmação. Fiquei satisfeito por tê-la provocado um terço do que ela havia me feito. Nada mais justo que uma pequena troca de farpas.
Chegando na sala, vi que não havia mais lugares para sentar. Lembrei-me das cadeiras da cozinha, e que antes da pausa algumas estavam completando o semicírculo que se formara. Voltei para o caminho do outro cômodo, vendo passar por mim como um vulto. Olhei para ela de canto, não conseguindo conter um sorriso vitorioso. Já na cozinha, fui tentado a beber mais um pouco de refrigerante, já que passaria mais horas falando. Peguei um novo copo, enchi com o mesmo refrigerante que me servi antes de voltar pra sala e o bebi. E, como num déjà-vú, vi uma pessoa parada no mesmo recinto que eu após meu copo voltar para baixo. Mas dessa vez não era e sua inacessibilidade, era . Parecia amuada com algo, estava tão desligada que nem mesmo parecia ter me visto. Talvez não tivesse realmente me visto.

’s P.O.V.

Existiam algumas garrafas vazias – e outras pela metade – de refrigerante sobre a mesa de jantar. Peguei uma delas, procurando um copo limpo por ali. O aspecto do móvel estava exatamente como meu cérebro: um rebu na zona. Guardanapos jogados, amassados, enfiados dentro de copos cheios ou vazios, três ou mais copos dentro dos outros, fazendo transbordar os restos de bebida até caírem sobre a toalha e (muitos) restos de comida espalhados. Neguei-me a colocar a mão naquela nojeira, e tive pena de , pois teria que limpar tudo aquilo. Continuei minha busca somente com o olhar, sendo surpreendida por uma pequena pilha de copos ainda não usados bem à minha frente. Tomei-os em mãos, levando meus olhos agora para a origem dela. Imediatamente me perguntei por que sou tão azarada a ponto de quando tento fugir do que – no caso é de quem – me perturba, acabo o encontrando. Seria tão mais fácil se tudo explodisse na hora certa de sumir da minha vida.
- Brigada. – disse eu, acabando com o contato visual e não dando chances de diálogo. Não queria me estressar novamente, já não bastavam os cacos que era a minha mente naquele momento.
- O que houve? Não conseguiu se acalmar na pausa que sua querida amiguinha nos deu? – ouvi dizer em seu típico tom de deboche.
Eu já tinha dito que estava cansada de ironias em um só dia?
- Tire suas conclusões. – respondi secamente, enchendo um copo com água, matando minha sede em seguida.
- Evidente que não. – disse ele, provavelmente comentando para si mesmo. Deixei meu copo sobre a mesa, me virando em sua direção.
- Exato, garoto esperto. – forcei um sorriso, levando minha mão até seu rosto e dando tapinhas fracos, chamando-o de cachorro adestrado nas entrelinhas. Em ato-reflexo, ele segurou meu pulso, me fazendo parar, assustada com sua reação rápida e bruta.
- Não ouse me tratar como um animal. – me censurou, transmitindo frieza em seus olhos. – Até agora só você que agiu como um.
- Quê? – perguntei, completamente indignada com o que ouvira. A rapidez com que suas palavras chegaram até mim fizeram a minha sair na mesma velocidade, parecendo um sussurro pela minha falta de controle sobre ação e reação. Sinceramente, me espanto por me considerar uma atriz.
- Exatamente o que você ouviu. – continuava a me encarar com desdenho, segurando meu pulso com tanta ou mais força que naquela manhã. Senti medo de toda a impassibilidade que ele tinha, ódio da forma como se dirigia a mim. Lembrei-me de toda a raiva que havia esquecido, e ela começou a trabalhar em meu corpo com rapidez, fervendo meu sangue. Mais uma vez me peguei perguntando quem ele pensava que era pra agira de tal forma comigo. Estúpido! – Ou, além de tudo, é surda?
- Preferia mil vezes ser surda a ter que te ouvir falando essas merdas! – esbravejei, não me importando se mais alguém ouviria. No estado que estava, brigaria até com o papa. – Agora me solta, , tô cansada da sua brincadeira.
- Merdas? – ele riu sem nenhum humor, ainda segurando meu pulso. – Falar a verdade agora é dizer merdas?
- Quando vem de você, sim. – respondi entre dentes, franzindo levemente o cenho. Que se ferrasse a droga da trégua! – Porque tudo que vem de você é uma merda, você é um merda!
Seus dedos ganharam ainda mais força, seus lábios se tornaram uma linha reta, funda e comprida. Os olhos, até então em seu tamanho normal, oscilavam entre a vontade de se cerrarem e arregalarem, acompanhando suas expirações fortes. Não era só eu quem estava irada, e eu sabia que isso era perigoso para mim. Não que fosse um psicopata, mas suas expressões amedrontariam qualquer um em meu lugar. Isso se eu não estivesse com a mesma fúria.
- Repete. – foi apenas o que ele disse, trincando os dentes a ponto de seu maxilar mudar as laterais de seu rosto.
- Além de tudo, é surdo? – resmunguei, mantendo meu olhar firme em resposta ao seu.
- Para de palhaçada, . – grasnou, decidindo finalmente por continuar de olhos semicerrados.
- Sou uma palhaça agora? – indaguei, sorrindo cinicamente. – Pensei que ser chamada de animal bastava!
Ele então me soltou, empurrando meu pulso para longe de si como se eu o causasse repulsa. Mal sabia que era correspondido. Continuamos nos encarando por alguns segundos em uma espécie imbecil de desafio. Eu queria lhe dizer muito mais que aquilo, queria acabar de vez com o rancor que sentia, não só adormecê-lo, como percebi que tinha feito mais cedo. Mas não era o lugar nem a hora adequada. Infelizmente.
- Seja uma palhaça, uma galinha, uma piranha, o que você quiser! Pra mim, você é um pouco de cada. – e nem tão felizmente, suas palavras foram o gatilho para que eu saciasse minha vontade. Acertei a mão espalmada em seu rosto, me certificando de que houvesse força o suficiente para deixar uma grande área vermelha e ardida, o que deixou minha mão da mesma forma. – Você é retardada?!
- ? ? – ouvi a voz de próxima de onde estávamos, interrompendo a reação de . Continuei olhando para seu rosto, querendo mais que nunca que ele morresse, mesmo que não fosse por minhas mãos. – Tá tudo bem por aqui?
desviou seu olhar do meu, pondo-o sobre . Tentei fazer o mesmo, virando-me de costas para ele e procurando um ponto próximo ao rosto dela. Havia mais pessoas no corredor, provavelmente tinham ouvido algum pedaço do que tínhamos falado. Merda, mais um barraco por culpa desse maldito! Reduzi minhas feições fechadas, fazendo parecer que estava apenas de birra.
- Desculpe, , mas não posso mais ficar. – falei com a voz baixa, me controlando para não chorar de raiva.
- Por quê? – ela indagou, e pelo meu campo de visão pude vê-la voltando seus olhos de para mim a todo o momento.
- Depois te explico. – conclui, deixando a cozinha, passando reto pela sala e saindo, enfim, da casa. Cruzei os braços em uma forma de abraçar a mim mesma, pois não existia frio pra tentar me aquecer desse jeito. Estava atordoada, minha cabeça funcionava a mil, sentia que precisava mais que nunca de uma cama. Dormiria por um dia inteiro pra tentar esquecer o excesso de acontecimentos em um simples sábado. Sei que não conseguiria, mas pelo menos me acalmaria, finalmente. Minha semana estava um inferno por causa dessa peça, por causa de , por causa de ... Eu só queria sumir, precisava sumir! Urgentemente, de preferência!

’s P.O.V.

- O que houve? Por que a saiu daqui que nem uma louca? – surgiu então , passando os olhos por todo o cômodo, parando-os quando me encontraram. Pareceu surpresa ao me olhar, provavelmente por causa da região que agora ardia em meu rosto, onde deveria haver as marcas de cinco dedos. Nessas horas queria não ser filho de branquelos.
- Não sei, cheguei aqui e ela disse que não podia mais ficar. – respondeu , adiando as explicações que eu (teoricamente) teria que dar. Mas não demorou muito até que as duas me interrogassem sem dizer nada, apenas com suas feições ansiosas por respostas.
- Já acabou o ensaio, não é? – falei, usando a pergunta como afirmação, não aguardando argumentos contra. – Então vou indo também.
- Faça o que quiser – rebateu –, já estragou tudo por hoje mesmo!
- Ótimo. – sorri com cinismo, passando pelas duas. Me surpreendi ao sentir meu braço ser puxado, fazendo-me olhar quem havia o feito.
- Espera, quero falar contigo. – disse , explicando-se pelo feito. Arqueei uma de minhas sobrancelhas, me perguntando a razão para ela querer algo do tipo. A resposta era mais que fácil, começava com e terminava com . Ou podia ser chamada simplesmente de .
- Vamos lá pra fora, é melhor. – sugeri, olhando para o fim do corredor, onde me encarava. Sem que eu percebesse, meu rosto se fechou, e o dele fez o mesmo em seguida.
- Tudo bem. – ela respondeu, esperando minha iniciativa. Eu, não notando, esperei a sua, tendo resultado oposto ao que nós dois queríamos: ficamos parados como bestas, olhando um para o outro, aguardando o primeiro passo. Era notável de onde tinha saído as ações avoadas de , as amizades realmente influenciam.
- Vocês vão ou não? – se fez presente. Quero dizer, percebi sua ainda presença só naquele momento.
- Vamos. – respondi de forma simples, dando as costas às duas, tendo certeza de que me seguia. Ouvi a mesma cochichar algo, provavelmente dando satisfações ao namorado. Além dela, os outros presentes também cochichavam, e com toda a certeza do mundo era sobre e eu. Aquela franga não consegue ficar sem fazer um escândalo!
No instante seguinte ao que pus meus pés fora daquela casa, tive vontade de continuar a caminhar e ir pra bem longe, talvez um bar, ou até mesmo minha casa, onde eu estaria sozinho com as fileiras e colunas de Black Labels, Red Labels e outros destilados. Opção de bebidas, na verdade, era o quíntuplo ou sêxtuplo disso, não sei – bênçãos aos meus pais, que têm a maravilhosa mania de colecioná-las. Mas eu não podia fazer isso, tinha que ficar, ouvir e só depois ir embora. De novo. Infelizmente.
- Vou te adiantar e ser bem direta. – começou, fazendo-me parar ao meio-fio. – Por que você fez isso? Por que terminar de se ferrar? Você não mede as consequências, por acaso? Gosta de dar de cara na parede tempo todo?
- Não, não gosto. – falei em tom de obviedade. – Prefiro deixar minha cara bem longe da dor, inclusive. E o tapa que sua amiguinha me deu doeu bastante.
- Aposto que ela teve motivos pra isso. – ela retrucou de imediato, sem um pingo de sarcasmo ou reprovação. Apenas disse com a maior naturalidade. – Mas o assunto não é o tapa, e sim você, . – franzi o cenho, ainda mais curioso sobre o que ela tinha a me dizer. – me explicou sua situação naquele dia, antes de você e aparecerem, e não me parece nem um pouco sensato ficar tendo briguinhas com a única pessoa que ainda pode te ajudar. Você não é um acéfalo, sabe muito bem que depende da , pelo menos no teatro, então por que continua cavando a sua cova?
Pela primeira vez na minha vida eu não soube o que dizer. Sabe quando você procura pensar rápido, mas são tantas ideias que sua mente atrofia? Pois é, era exatamente como estava. A clareza com que tocou no assunto foi inesperada, me pegou totalmente de surpresa. Minha única reação foi a de ficar sem reação, por mais confuso que pareça.
- Eu não... Não tô fazendo isso. – gaguejei (como uma bicha), procurando não encará-la diretamente. Contato visual sempre atrapalha qualquer um em momentos parecidos, meu instinto de proteção falou mais alto. – Aliás, eu não dependo dela.
- Deixa de ser tapado, garoto! – ela continuou, ainda não parecendo irritada, o que era estranho para uma pessoa normal. Ou ela era normal e eu não sabia, considerando que todos que conheço são meio pancadas da cabeça, digamos assim. – Vai protagonizar uma peça sem a sua parceira? Ficou maluco?
- Claro que não! – resmunguei, cerrando os olhos brevemente, reprovando seus “apelidos”. – Mas também não preciso dela. Se ela não quiser atuar, existe a substituta.
- Cecile não vai te ajudar com as matérias que você anda ruim. – lembrou. – Agora é sua escolha ter a ajuda dela ou não.
Realmente, era minha escolha. Eu devia tê-la sozinho. Então por que ela queria interferir?
- E posso saber qual a razão do seu interesse nesse assunto? – indaguei, não me importando se seria grosseiro ou não. não era como , não iria me dar farpadas por qualquer coisa.
- Sendo sincera... – ela começou, rindo sem humor. – Não tô me importando tanto assim com você, e sim com a minha amiga. Mesmo que nenhum dos dois queiram, estão juntos nessa. Ela porque quer (e muito) estrelar essa peça; você porque não tem saída. – fazia sentido o que ela dizia, e eu não gostava de admitir isso. – Unam o útil ao agradável, convivam como se fossem colegas, pelo menos. Quanto mais brigas você evitar, mais ela te ajuda e não desiste da peça. Eu não quero ver minha amiga mal por causa de um garoto que apareceu do nada e simplesmente estragou tudo.
Continuei não a encarando diretamente, tentando entender o que eu já havia assimilado. se mostrava mais uma vez paciente e simpática comigo, mesmo eu dando sinais de que reflexões sobre minhas atitudes não eram o meu forte. Logicamente fazia isso por sua amiga, e não por mim, já que mal nos conhecíamos. E, por consideração a ela, eu deveria pensar melhor no que havia dito.
- Vou tentar. – respondi, ainda que não quisesse dizer exatamente essas palavras. Entre pensar e tentar havia uma certa distância, mas agora a merda já tinha sido feita.
- Ótimo. – ela concluiu, sorrindo. Retribuí seu sorriso de forma mais reservada, e como se adivinhasse que havíamos terminado, Ben apareceu na porta segurando a bolsa da namorada.
- Vamos, amor? – perguntou à garota, abraçando-a pela cintura e não me olhando.
- Vamos. – ela respondeu, dando-lhe um beijo rápido. – Até segunda, .
- Tchau, cara. – cumprimentou-me Ben, acenando com a cabeça. – Se cuida.
Repeti sua ação, abrigando minhas mãos em meus bolsos dianteiros. Levantei o rosto e respirei fundo, soltando o ar pela boca quando não pude mais vê-los. À minha frente restava apenas a casa de e as pessoas do grupo de teatro, que deixavam a casa aos poucos. Abaixei minha cabeça e tomei o rumo de casa – ou o que eu achava que era, já que não me lembrava direito –, aproveitando que minha mente – como sempre – estava oca para enchê-la com alguma música. Halo foi a única que me surgiu, uma vez que havia se instalado ali desde a noite anterior. Música de merda que agarra e não sai nunca mais!
Ainda que eu quisesse evitar, junto com a música me recordei dos acontecimentos a que ela me remetia. Não que eu costumasse ficar sempre vendo flashbacks, foi algo que não pude evitar. E não era só porque eu tinha ficado com mais uma garota, e sim porque essa garota era justo a que era o principal tópico do meu último assunto. E porque era com ela que eu tinha passado minha última semana brigando. E me vendo obrigado a contar com sua ajuda. Novamente me dei conta de que estava certa: eu dependia de , pelo menos pra tentar me desatolar da areia movediça que era minha vida acadêmica.

Apaguei meu segundo cigarro na grade da sacada do meu quarto, atirando-o sobre o telhado da garagem, notando que aquele lugar já estava ficando cheio de filtros de novo e eu seria obrigado a subir naquilo para limpar depois de uns dias. Já era fim de tarde e meus pais já estavam em casa por volta de quarenta a cinquenta minutos. Não que eu contasse quanto tempo dividia o teto com eles, apenas reparei porque começava a escurecer. E porque meu notebook havia acabado a pouca bateria que restava.
Por mais que o dia da semana me chamasse para sair, eu não tinha ânimo algum. Queria só tomar um banho, ouvir uma música e descansar da enorme caminhada que fiz até minha casa. O que eu pus em prática no instante seguinte, dando as costas para a vizinhança e voltando para meu quarto, fechando a porta para a sacada. Fui direto para o banheiro, onde tomei um banho consideravelmente demorado. Saí do chuveiro com o quadril enrolado em uma toalha, tendo a mínima vontade de procurar uma roupa. Me joguei sobre a cama e não encarei o teto, como as pessoas normais costumam, mas sim a parede atrás de mim, fechando os olhos quando os senti doer pelo esforço contínuo. Eu sentia falta de algo ali, só não lembrava o quê.
Liguei a televisão em um canal de música, e para o meu desgosto passava I Want it That Way, dos Backstreet Boys. Deixei por ali mesmo, já que estava tão empolgado para procurar uma programação boa quanto para sair de casa. Lembrei, vendo aquele clipe tosco, da minha infância meio... alegre, digamos assim. Eu e Livie costumávamos gostar e imitar aquelas cinco bichas na frente da televisão todas as vezes que estávamos em Southsea. Lembro até que era em VHS que víamos os clipes, pois nos anos 90 ainda não existia a brilhante mente que criou DVD e todas as modernidades dos dias de hoje. Era até engraçado perceber que eu estava falando de velhos tempos, como se tivesse vivido muito para ter estoque de histórias.
Ri comigo mesmo, desligando a televisão e procurando meu celular, plugando-o à caixinha de som portátil e ligando o player em algo decente. Diamonds Aren’t Forever, do Bring Me The Horizon, no caso. Tomei vergonha na cara para caçar pelo menos uma boxer. Depois que a vesti, enumerei possíveis seguintes ações: comer, tentar achar o carregador do meu notebook, estudar e ler o roteiro da peça. Eu não estava com fome e nem vontade de comer, então a primeira opção estava descartada; procurar algo quando se precisa dele é o mesmo que nada, pois nunca se encontra a bendita coisa; estudar... Eu preferia ler o roteiro a ficar de cara para um livro em um sábado à noite. Se bem que as duas opções eram parecidas, mas Moulin Rouge era mais fácil que Lei de Arquimedes, empuxo e aquilo tudo da aula de Física.
Peguei meu bloco, deixando o de sobre a estante da televisão e voltei a me sentar na cama, começando a folheá-lo para achar algo realmente interessante naquilo. “There are people who would undermine you if they could” em letras garrafais preenchia o rodapé de uma das páginas. Me senti em partes culpado, pois não via ninguém que pudesse dar essa ideia a . Era visível a descrença que tinha em mim, e talvez esse tenha sido um dos motivos para que tenha ido falar comigo. Minha parceira tinha medo de ser prejudicada por mim e sua amiga sabia bem disso, tanto que me dissera. Porém, só ao ver aquela frase – quase apagada por, provavelmente, ter sido escrita a lápis – que me dei conta. Era como se eu precisasse de uma prova real da falta de credibilidade que eu tinha para com os outros. Foi então que me recordei do que eu sentia falta: apoio. Coisa que eu não tinha mais fora do colégio, uma vez que Allison não estava mais comigo e nem poderia estar depois da forma como a tratei. Me restava batalhar por algum sinal de confiança da pessoa que agora era minha aliada – mesmo que contra sua vontade. E eu o teria.

’s P.O.V.

Acordei ao meio-dia com minha mãe me estendendo o telefone. Eu havia dormido o suficiente para compensar a madrugada adentro que passei conversando com meus pais e meu irmão, porém ainda sentia meus olhos pesados como sacos de areia e minhas costas doloridas. Quanto mais eu dormia, mais tinha sono. Contraditório, não?
- Quem é? – perguntei a minha mãe, franzindo meu rosto para evitar que a claridade queimasse minhas retinas.
- . – respondeu ela, deixando o aparelho sobre a mão que estendi. Revirei os olhos, me perguntando ironicamente quem mais poderia ser.
- O que você quer, coisa ruim? – ralhei, tacando minha cabeça de volta a seu tão merecido posto, vulgo meu travesseiro. Mamãe deixou o quarto, dando privacidade a mim.
- Quanto carinho, mon cher! – disse minha amiga do outro lado da linha, rindo baixo. – Acordou com a macaca?
- Não, acordei com a minha mãe me entregando o telefone mesmo. – respondi secamente, cortando sua brincadeira. – Anda, fala, o que você quer?
- Mau humor não é do bem, amiga. – continuou ela a rir, retirando de mim um sopro de humor. – Que tal melhorá-lo com uma piscina?
- Quem tá aí? – perguntei, mostrando meu interesse na proposta.
- Eu e duas primas minhas, só. – domingo de sol com direito a piscina e ninguém enchendo o saco? Absolutamente tentador e irrecusável! – Vai querer?
- Daqui a uma hora eu tô aí. – falei, levantando no segundo seguinte. – Até.
- Até, carinho em pessoa. – mais uma vez riu, desligando antes que eu pudesse agradecê-la pelo reconhecimento de toda minha afeição. Ha, até parece, quem ouve até pensa.
Separei um vestido branco que não usava há um tempo e uma sandália simples, mesmo eu indo apenas para a casa de uma amiga. Tinha mais pessoas além dela lá, eu tinha que parecer pelo menos apresentável. Procurei por uma maxi bolsa que combinasse e joguei dentro dela somente o essencial e extremamente necessário, já que nem mais celular eu tinha, graças a um vagabundo. Gritei para minha mãe a caminho do banheiro que iria para a casa de , ouvindo-a concordar antes de fechar a porta. Devidamente higienizada e pronta alguns muitos minutos depois, roubei as chaves de Noel novamente e saí.
Black Jacks, das Girls Aloud, tocava na maior altura na casa de , consegui ouvir perfeitamente a metros de distância. Toquei a campainha e aguardei (im)pacientemente que alguém atendesse. Passos apressados sobre o assoalho indicaram que uma boa alma vinha me atender, então me ajeitei rápido antes que a porta se abrisse. Uma morena de cabelos ondulados, olhos negros e corpo... forte, por assim dizer, surgiu, sorridente.
- Hey! – guinchou assim que seus olhos caíram sobre mim, respirando mais acelerado por causa da corrida que deu dos fundos até a entrada da casa. – Você é a , né? e Winnie estão lá atrás, vem! – deu passagem para mim, não dando tempo nem para que eu respondesse sua pergunta. – A propósito, sou Genevive, ou só Genne.
- Prima da , né? Ela já me falou sobre você e sua irmã. – fiz o mesmo, caminhando até o quintal com a garota em meu encalço. Quando atravessei a porta da cozinha, vi minha amiga tentando acender a churrasqueira. Arqueei uma sobrancelha, tentando imaginar por que diabos ela queria bancar a churrasqueira da tarde.
- E aí, ursinha carinhosa? – disse , ainda de costas para mim.
- E aqui o quê, terrível fardo em minha vida? – retornei sua pergunta, fingindo-me de desentendida. Deixei minha bolsa sobre a mesa que estava próxima à porta, pondo meus óculos de sol acima da testa.
- Não sei qual apelido é pior. – comentou a tal Winnie, rindo. Também era uma morena, porém de cabelos lisos e curtos e uma magreza invejável.
- Nem liga, eu e somos assim mesmo. – disse por fim, voltando a mais uma tentativa de criar brasa. O calor estava suportável, ainda assim minha vontade de tirar o vestido era enorme. Contudo, não estava propriamente confortável pra ficar só com roupas de banho com duas, praticamente, desconhecidas. Tudo bem, elas eram primas de , só que esse fator não interferia em nada. Vergonha do meu corpo era algo que me atormentava em diversas situações como essa.
Não cedendo a minha vontade de me jogar naquela piscina de água fresca, me juntei aos meus pertences, sentando sob a sombra do guarda-sol aberto ali. Vesti novamente meus óculos, relaxando, acompanhando a música que já havia mudado e observando as outras meninas. Genevive voltou para dentro de casa para fazer algo que eu desconhecia; xingava a churrasqueira, que não dava nenhum vestígio de que iria dar ponto de brasa; Winnie – que até agora eu desconhecia o nome verdadeiro, mas desconfiava que fosse Winona – deixou de molhar apenas os pés e entrou de vez n’água.
- Não vai entrar? – Genne perguntou a mim, repousando sua mão sobre meu ombro. Neguei com a cabeça, torcendo o nariz. – Por quê? A água tá ótima!
- Talvez depois, agora não. – respondi simplesmente, tentando não ser tão seca como eu costumava quando acordava com o pé esquerdo. Ela puxou a cadeira ao lado, virando-a para mim e se sentando.
- Já que você não vai entrar, vamos conversar um pouco. – disse casualmente, como se não tivesse acabado de me conhecer. Sinceramente, eu não gostava de pessoas tão abertas para novas relações. Problemas de intimidade.
- Tá... – concordei, na falta do que dizer. O semblante iluminado de Genevive me assustava, de certa forma. – Mas sobre o quê?
- me disse que você vai estrelar a peça do colégio de vocês, é sério? – e seu tom de voz me parecia afobado demais, sobrecarregado de animação. Não me admirava que fosse prima de , eram iguaizinhas quando se empolgavam!
- Por que eu mentiria sobre isso? – indagou minha amiga, aproximando-se de nós duas, parando ao nosso lado.
- Não era nesse sentido, mongol. – resmungou Genevive, revirando os olhos. Ri baixo, balançando a cabeça levemente.
- É, sim. – respondi, vendo que teria de ignorar toda a alegria da morena para que tivéssemos uma conversa amigável.
- Ah, que inveja! Invejinha boa, claro. – exclamou, gesticulando, pousando por fim suas mãos nos joelhos. Seu tronco estava inclinado para frente, indicando que estava interessada no assunto. – E qual a peça?
- Moulin Rouge. – sorri, orgulhosa de mim mesma. Eu havia cumprido a meta de ganhar o papel; eu era Satine.
- Aaah, que tudo! Que lindo! – a garota à frente berrou, batendo palmas. Mesmo que o público presente fosse mínimo, me senti envergonhada por chamar a atenção. Vi, por trás das lentes escuras, Winnie se posicionando à borda da piscina, curiosa pelo estardalhaço que sua irmã tinha feito. – Sua sortudinha, tá protagonizando Moulin Rouge e ainda tem um gostosinho de quebra!
- O quê? – quase cuspi as palavras, me jogando poucos centímetros à frente, como se uma pancada tivesse sido dada no meu plexo solar. Olhei imediatamente para , ouvindo Genevive murmurar um “opa!” após minha reação.
- Saiu sem querer! – minha amiga disse, levantando as mãos em abono de sua inocência. Praguejei meus óculos por não deixá-la ver meus olhos semicerrados sobre sua imagem.
- Como é a história aí? – perguntou Winona, cruzando seus braços sobre a borda de mármore da piscina.
- é a Satine do Moulin Rouge da escola dela, e o Christian é um gatinho, pelo que a disse. – Genevive explicou a ela, que ergueu a cabeça em sinal de compreensão.
- Você disse isso? – perguntei novamente a , agora surpresa pela revelação. Não consegui conter minhas sobrancelhas, que se elevaram, e minha boca, que continuou aberta depois de eu ter pronunciado os últimos sons da minha fala.
- Falei, e o que é que tem? – disse ela, mostrando indiferença. – é bonito mesmo. – acrescentou. – Pena que é burro.
- Ele não é burro! – rebati, me tocando que havia o defendido só depois. Não porque eu quisesse o defender em particular, longe disso, e sim por culpa do meu instinto protetor. Nunca consegui ouvir pessoas serem chamadas de adjetivos que as denegrissem sem, pelo menos, pensar em contestar. Coitados dos meus futuros filhos, serão zoados o resto da vida por terem uma mãe tão coruja como eu provavelmente serei. – Pelo menos não tanto assim como você pensa.
- Pra mim, quem rouba um gabarito e é descoberto é, sim, burro. – se justificou, me levando a ponderar sobre o assunto.
- Mas por que ele fez isso? – Genevive disse alto, se mostrando mais interessada.
- Ele precisa de mais que dez pontos pra passar de ano sem recuperação final. – expliquei, voltando a olhá-la. Sua mão sacudiu de forma que me pedisse pra progredir o assunto. – Aí pensou que roubando o gabarito fosse se safar, só que o diretor descobriu e ele foi punido.
- A punição era entrar pra peça da escola. – se intrometeu na minha narração dos fatos. – E é por isso que a tá dividindo o palco com ele.
- Ele foi punido e você que pagou o pato? – indagou Winnie, ainda da borda da piscina. Assenti em resposta.
- E, corrigindo, eu não “tenho” pra mim. – acrescentei, fazendo aspas no ar. – Ele lá, eu cá.
- E de vez em quando os dois grudados. – se meus olhos tivessem raios laser, estaria com dois buracos no meio da testa.
- Sério?! – Genevive quase saltou da cadeira de emoção, as íris negras quase se jogando sobre mim. – Conta isso direito!
Ar! Preciso. De. Privacidade. Já! Tudo bem, menos drama.
Levei no mesmo instante meu dedão até a boca, começando a roer a cutícula que já estava mal feita.
- A gente ficou umas... duas vezes, só isso. – respondi, agradecendo aos céus por estar de óculos escuros e poder fingir que a olhava, quando na verdade meus olhos estavam ocupados com a toalha de mesa ao lado.
- E você gostou? – Pelo amor de Deus, alguém cale essa garota!
- Não sei. – Ou me faça surda no exato momento, também ajudaria e muito a minha situação. Senti meu rosto em chamas, e por sorte, na verdade, por causa da minha mão à frente da boca, minha voz não saia como a de uma criancinha. – Foi tão do nada, sei lá.
- Ah, saquei. – minhas preces foram atendidas, pois essas foram as únicas palavras de Genne. Reformulando, as penúltimas, pois logo ela continuou: – Vou pra água. Vê se vai também pra pegar um sol, , você tá bem branquelinha!
Abri minha boca para tentar dizer algo, mas preferi guardar para mim, até porque Genevive me deu as costas segundos depois. Além do mais, era aceitável que eu estivesse pálida. Eu era britânica, e não californiana. Fora que bronzeado não era uma coisa obrigatória. Sem contar que respeito com os outros é bom, guardar comentários como aquele faz parte.
- Espontânea demais ela, não? – guinchei para , que se sentou no lugar da prima.
- Não esquenta, metade das coisas que ela fala não é por mal. – ela disse, rindo. – Inclusive aquela parte de , que eu pedi pra ela guardar em sigilo.
- Já sei em quem não posso confiar. – comentei com acidez, referindo-me a Genevive, porém cutucando também.
- Ah, vai parar de me contar segredos porque eu disse aquilo pra minha prima, que nem conhece uma viva alma do colégio? – ela reclamou, afetada com meu comentário. Fingi surpresa com sua atitude, erguendo meus óculos para o topo da cabeça.
- A carapuça serviu? – indaguei, rindo com cinismo, recebendo o dedo médio de como resposta. Ri novamente, agora por diversão.
- Você é muito besta, garota. – minha amiga concluiu, rindo também. Mudamos o foco da conversa para bobagens, gastando longos minutos. , que havia desistido há um bom tempo de fazer um churrasco de última hora, foi para a cozinha fazer sanduíches, enquanto eu finalmente me senti a vontade para entrar na piscina. Pela primeira vez na semana meu dia não estava sendo turbulento e não havia ninguém pra me perturbar – tirando Genevive, claro. Noel que se virasse sozinho, que ficasse longe de mim, que se... explodisse, a peça que ficasse pra depois. Aquela era a minha tarde para, como disse, melhorar meu humor. E estava funcionando muito bem, a propósito.
Nota mental: repetir a dose.

Capítulo 14
’s P.O.V.

Estava soprando o vidro do carro e fazendo desenhos sem sentido enquanto o vapor não desaparecia. Noel cochilava sobre minhas pernas, com o corpo todo espalhado sobre o banco traseiro do carro de meus pais, que teriam de ir mais cedo ao trabalho e nos ofereceram carona. Por mais incrível que parecesse, não havia nada na minha cabeça, nem mesmo um pensamento sobre o que eu faria ao voltar do colégio pra casa. Deixei de lado os desenhos instantâneos para observar a paisagem, vendo que as ruas estavam tão desertas quanto a minha mente. Era boa a sensação de não ter nada com que se preocupar, de que você é uma pessoa livre de compromissos. Mas isso só porque um dos meus compromissos estava inconsciente sobre meu colo.
Algum tempinho a mais e já estávamos em frente à fachada do meu colégio. Também havia poucos alunos por ali, e o inspetor nem mesmo estava no portão, como de costume. Sacudi meu irmão, que resmungou um pouco, mas levantou ainda assim, bocejando – e praticamente roubando todo o ar local.
- Tchau, pai. Tchau, mãe. – falei antes de sair do carro, pondo uma mochila jeans, velha e rabiscada, mas que eu adorava da mesma forma, nas costas. Esperei Noel sair também, então dei o braço a ele e fomos em direção às salas de aula. Depois de deixá-lo na sala dele, fui direto para a minha, para pelo menos deixar minha mochila surrada e meu material novo, comprado de última hora (na realidade, no sábado à noite, por meus pais) em uma carteira diferente. Onde quer que eu sentasse, deixariam sempre uma carteira vaga para , pois ninguém aguentava a quantidade de bilhetes que passávamos em aulas que dominávamos a matéria. Eu é que não tenho culpa se Química Orgânica não é o forte deles, passo bilhetes na aula mesmo.
Com o lugar devidamente alocado, dei uma passada nas salas do último ano pra ver se estava por lá. Precisava saber de alguns detalhes da peça, como ficaria o figurino e os dias do ensaio geral. Xinguei meus pais mentalmente por serem tão paranoicos com horários, porque não tinha quase ninguém no colégio e nada pra eu fazer. Meu colégio não era daquele tipo que tem vários clubes e grupos etc. Eram o grupo de teatro, as modalidades esportivas, grupo de filatelia e xadrez, grêmio estudantil e clubes de matemática, ciências, geografia e história, só. Aquela besteira de “jornal escolar” ainda estava sob avaliação dos coordenadores – apesar de ser algo totalmente inútil, já que um colégio pequeno não tinha tantas notícias assim pra dar –, e uma possível “rádio” seria instalada para animar – ou assustar – os alunos durante o intervalo. Logo, eu não tinha porcaria nenhuma pra fazer, pelo menos não enquanto alguém conhecido chegasse. E, para adiantar meu lado, fiquei no portão esperando algum rosto conhecido.
Engraçado como a lei de Murphy age. Eu poderia passar a manhã inteira esperando, todos os meus amigos chegariam por último. Não que eu só tivesse a eles, mas os outros não me interessavam nem a pau. E, como eu queria muito a presença de alguém mais “chegado”, nenhum infeliz aparecia – era onde a lei entrava. Desisti então de esperar (ou só fingir o fazer), dando uma volta pelos arredores do colégio. Agradava bastante dar uma andada, espairecer, respirar o ar puro do jardim, esvaziar a cabeça, coisas do tipo. Porém, sem que tivesse premeditado, traí minha consciência pensando na tarde de sábado. Ou melhor, em .
Ele, definitivamente, era um garoto legal. Eu o conhecia pouco, mas, pelo modo como Noel falava dele, sabia que era uma boa pessoa. Era fácil ver isso em seus olhos alegres, cativantes, em seu sorriso sempre sincero. E em seu cavalheirismo, é claro. Agora me pergunto: por que não existem mais como ele? Por que não é como ele? E por que eu coloquei justo no meio da ‘conversa’? Sem encontrar uma resposta sequer, outra questão me veio à tona: Onde diabos , , e companhia limitada tinham se enfiado? Eu não queria apelar pra uma conversa sem noção como as que costumava ter com meu irmão. Voltei ao portão para tentar avistar alguém conhecido, e quem vi chegando foi .
Como dizem, quem não tem cão, caça com gato. No caso, era o cão e o gato. Não que minha amiga fosse uma cachorra e ele um gato no sentido literal, mas isso era fácil de entender. Enfim...
- Hey, ! – falei assim que ele se encontrou próximo o bastante para me ouvir.
- Hey, ! – disse, transbordando bom humor. Incrível como aquele garoto nunca aparecia de cara amarrara, ao contrário do seboso do amigo. Leigamente ou não, era a versão masculina de . – Tava batendo ponto?
- Hm? – arqueei a sobrancelha, não entendendo uma palavra pela rapidez com que dissera.
- Tava batendo ponto? – ele repetiu. – Cartão de ponto, sabe? Não ponto de prosti...
- Ah, já saquei! – o interrompi, rindo e ouvindo-o fazer o mesmo. – É, quase isso. Queria falar com alguém decente, mas parece que todo mundo resolveu me abandonar. – comprimi a boca, dramatizando um pouco.
- Os indecentes não servem, né? – perguntou ele, soltando uma risadinha sarcástica. Neguei com a cabeça, mantendo o beicinho. – Aaah, tadinha. – arrastou a voz, tombando o rosto para o lado, levando as mãos em concha para o peito. – Quase tenho dó de você, .
- Brigada por me fazer sentir ainda mais rejeitada. – me mostrei triste, fazendo-o desmanchar parte da falsa piedade. – Poxa...
- Você atrai a rejeição. – continuou ele, empinando o nariz, descrente da minha ‘infelicidade’. Fiz meus lábios tremerem levemente, como se eu realmente tivesse vontade de chorar, tendo um olhar curioso da parte dele como resposta. – , eu não tava falando sério... – correu a se corrigir. Senti minha barriga formigar de vontade imediata de rir da sua preocupação, mas continuei firme na, vou admitir, exagerada encenação.
Regra básica do teatro: por mais que a sua vontade seja oposta, continue firme na sua atual expressão. Nunca (repito: nunca) ceda. E foi o que fiz, chegando rápido ao ponto de meus olhos marejarem. arregalou os olhos, assustado.
- Você não vai chorar, né? – indagou, no tom mais cauteloso que o vi usar. – Eu só tava brincando.
- Não é por isso... – virei o rosto para qualquer lado, vendo que minha vontade de rir crescia a cada segundo.
- O que foi, então? – ele tentou me ver melhor, e me neguei ao contato visual, virando ainda mais.
Outra regra básica: saiba a hora de parar. O limite é a principal chave pra um desfecho perfeito.
- Foi a sua inocência que me deu pena. – confessei, explodindo em uma risada da expressão mista de surpresa e indignação que tomou. – Desculpa, mas eu precisava me vingar do descaso que você me tratou.
- Não teve graça. – ele resmungou, olhando pra mim com quase desdém.
- Ah, teve sim! – continuei a rir, agora mais baixo, secando as lágrimas sem emoções que caíam sem querer. – Até chorei.
- Não, isso foi trapaça! – continuou a resmungar. – Você chorou de... sei lá por que você chorou! – então finalmente riu, mais de sua confusão que da situação em si.
- Foi só pra te assustar, mesmo. – confessei, deixando de rir.
- Só por causa disso, vai ficar sozinha de novo. – disse ele por fim, já caminhando em direção ao prédio central.
- ! – guinchei, virando e o acompanhando com o olhar. simplesmente balançou a cabeça para os lados, como se acompanhasse uma canção que cantava.
Parei pra notar que seria incomum aos outros nos verem conversando, porém não pra mim. Ele é, incontestavelmente, simpático e agradável. Mesmo com o pouco contato, conversas de minutos com ele rendiam boas risadas. Principalmente quando é quem falava com ele, porque o jeito como ficava elétrica era mais engraçado que Phoebe Buffay cantando Smelly Cat.

’s P.O.V.

Geografia parecia Latim aos meus olhos. Faltavam alguns minutos para o intervalo, mas o tempo parecia ter parado. As páginas abertas do meu caderno estavam repletas de palavras soltas, desenhos e pedaços de músicas. Saco pra assistir a aula era tão grande quanto um caroço de feijão – só pra ter alguma significância. Eu sei, é normal ninguém ter paciência durante a manhã, mas ainda assim estava de porre.
Procurei algo de interessante na minha mochila, encontrando, por acaso, as duas cópias do roteiro da peça. Passei os olhos pela sala, achando no lugar de sempre. Ela estava na sala, era um ponto positivo. Ela não queria me ver na sua frente, era um ponto negativo que me levava à estaca zero.
Boa, .
Me restava abordá-la de um jeito que não a aborrecesse, sendo que tudo em mim já fazia isso.
Muito boa, .
Joguei o roteiro que pertencia a ela sobre a mesa, levando as mãos ao rosto e, em seguida, ao topo da cabeça. Quase me xinguei de energúmeno pra baixo quando notei que, durante todo esse tempo, a resposta estava na minha frente. Rasguei um pedaço de uma das folhas do caderno – a que não estava toda tomada por rabiscos –, escrevendo algumas coisas ali. Não amassei até formar uma bolinha, como costumava, pois ela não abriria, achando que seria só mais um jeito de implicar. Arremessei o papel, acertando – não por sorte, e sim por mira – a carteira de . Voltei a rabiscar a folha, agora rasgada, disfarçando para que ela não assimilasse que eu era o dono do bilhete. olhou discretamente para os lados, tentando encontrar o remetente, desistindo segundos depois, dando-se à curiosidade de ler. Leu, releu, leu de novo – ela realmente demorou a tirar os olhos de cima de uma frase – e, então, amassou o papel e jogou dentro do estojo. Estava me ignorando, como não pensei nisso?
Fiz um novo bilhete, usando minha – excelente, obrigado – pontaria para acertar o centro da mesa de , sobre o livro que ali estava. Ela novamente jogou o papel dentro do estojo. Era tão difícil assim responder uma pergunta, cacete?! Pois bem, se ela não responde dois, mando mais oito, até completar dez. E, se necessário, mais dez mais tarde, até que se cansasse de ver papeizinhos.
Arranquei uma folha limpa, partindo-a em oito pedaços, escrevendo neles uma frase por vez. Devidamente dobrados, joguei um por um na direção da minha parceira, vendo-a se surpreender e procurar me olhar, pedindo, por mímica, que eu parasse. Ergui minhas mãos em sinal de inocência, jogando a culpa para ela, que revirou os olhos e voltou para sua posição normal. Abriu um de cada vez, segurando o riso com alguns. Enfim selecionou um para responder, me devolvendo momentos depois.
“Tem certeza que não quer o roteiro?” Droga, logo o mais sem graça.
“Pode ficar. Use como papel higiênico, se quiser.” Franzi o cenho, tentando achar mais uma resposta que a fizesse rir. Cura pra mau humor é rir, mesmo que de babaquices, era o que Vica me dizia.
“Meu traseiro não é digno de ser limpo pelo belíssimo roteiro de Moulin Rouge.”
“Não seja tão irônico.”
Realmente, eu tinha exagerado. Nem mesmo gosto de musicais.
“Por que está tão séria?”
“Não estou séria, só quero prestar atenção na aula, Joker.”
“Se você aceitar o roteiro de volta, te deixo em paz.”
“Oferta tentadora. Mas por que insiste tanto? Não basta só passar até mim?”
“Não, porque quero falar com você.”
“Falar o quê?”
“Você pode apenas dizer SIM e voltar a estudar Latim, por favor?”
“Ok, ok... E é Geografia!”
“Como se eu não soubesse. Me espera no jardim, já apareço lá.”

’s P.O.V.

Esperar não era meu passatempo favorito, mas a curiosidade de saber o que ele queria era grande. Tão grande que não consegui mais me concentrar, então comecei a cochichar com . O sinal para o fim da aula tocou minutos depois, e foi um dos primeiros a sair, como sempre. e eu fomos até a sala de Noel, que disse que ficaria por ali mesmo. Nós duas então caminhamos até a cantina para comprarmos qualquer coisa pra beber, e aquilo estava tão cheio quanto o London Eye no verão. Demoramos quase dez minutos só para sermos atendidas – adoro cantinas lotadas, ah! –, nos sobrando só metade do intervalo para conversar decentemente. Fomos até o (amado e idolatrado) jardim, como de costume, e só então me lembrei de . Na verdade, só lembrei porque ele estava perto de uma árvore, olhando para todos os lados, como se me procurasse. Quando me viu, caminhou até minha amiga e eu, parando à minha frente.
- Já pode dizer o que você quer. – fui direta, evitando dizer seu nome, uma vez que ele insistia que eu o chamasse pelo apelido.
- Oi, . – disse ele, tentando instalar uma atmosfera saudável.
- Bom dia, ! – ela acenou, colaborando com ele.
- Anda logo, por favor? – pedi, deixando de ser tão severa. me estendeu o roteiro.
- Toma. – disse. Peguei o bloco e comecei a tomar meu refrigerante. – E... Foi mal por sábado. Eu tava puto com umas coisas aí, você sabe...
Se não tivesse me segurado, teria deixado toda minha coca-cola em cima dele, tamanho espanto que estava. Meus olhos, provavelmente, estavam maiores que meu próprio rosto. Olhei para , que sorriu de lado e deu de ombros. Tornei a olhá-lo, não convencida das suas desculpas.
- Mesmo assim, , você...
- .
- . – corrigi, cedendo. – Mesmo assim, você foi um completo babaca. Não tenho sangue de barata pra ficar sempre aturando calada e ainda continuar me submetendo a essas situações. – confessei, torcendo o lábio. Um simples “Foi mal” não me satisfaria. – Nós tínhamos um acordo, um trato, um pacto, sei lá, mas agora eu vejo que não dá certo contigo.
- Me desculpa, é sério. – falou ele, e pude notar o apelo de suas palavras. – A gente dá certo, sim, você sabe. – porém seu rosto não era preocupado dessa forma. Suas expressões pareciam aguardar as minhas, tinham expectativas de uma resposta positiva.
- Não sei... – olhei para o roteiro, tentando não me influenciar pelas benditas pintinhas escuras em suas íris .
- Por favor. – insistiu, amaciando seu tom de voz cada vez mais. Não parecia o ogro de sempre, e sim uma pessoa... normal, talvez. E aquela face era intrigante, me daria vontade de conhecê-lo mais, se não soubesse que era tempo perdido.
- Com uma condição. – me dei por vencida, voltando a encará-lo. Um micro sorriso se desenhou nos lábios rosados dele, e pude vê-lo trocando um olhar com . – No menor vacilo, eu pulo fora. Tudo bem?
- Muito bem! – disse , comemorando com um sorriso largo. Estendeu a mão a mim. – Pra selar.
Olhei de sua mão para as minhas, que estavam ocupadas, e depois a dele novamente.
- Acho que não vai dar. – soprei um riso sem jeito, e os dois me acompanharam. segurou meu refrigerante para que eu pudesse apertar a mão de , e assim fiz. – Por uma nova fase, então?

***

Aula, horário de almoço, ensaio. Não houve exatamente uma enorme mudança. Água não se torna vinho, logo e não se tornariam amigos de imediato. Estavam tentando novamente uma boa relação, no entanto. E os resultados eram notáveis, satisfatórios aos olhos da professora Moore. Ensaios extras talvez tivessem seu fim mais rápido que imaginavam.
- Nono ato: Christian e Satine na Torre do Elefante. – anunciou Elizabeth, reiniciando o ensaio. – Como só teremos os cenários prontos daqui a duas semanas, teremos de improvisar. , , vocês terão de ficar em pé ou sobre uma mesa.
- Em pé. – o garoto escolheu.
- Não, numa mesa. – optou a garota, censurando a escolha do parceiro.
- Decidam-se! – ralhou, estressada com seus muitos assuntos em mente. O elenco restante cochichava “De novo?”, “Eles não cansam?”, “Crises de estrelismo”.
- É melhor em uma mesa mesmo, não? – indagou , dando apoio a e desafiando com o olhar. – Algumas partes da cena se passam na cama, seriam interpretadas melhor que em pé.
- Isso. – a presidente do grupo concordou. – Alguém me ajuda a arrastar uma mesa pra cá?
- Pelo menos alguém pensa como eu. – cochichou, mais para si que para outros.
- Não só como, mas em você. – alfinetou, com o mesmo tom de voz. A garota o encarou de olhos semicerrados, vendo-o sorrir levemente, sarcástico.
- Por que você tem que ser assim? – perguntou, sussurrando.
- Foi só um comentário. – ele findou a conversa. Após a mesa ter sido levada ao centro do palco, o garoto ofereceu o braço à parceira, que aceitou, hesitante. Caminharam à frente da mesa, onde ficou parado, segurando o roteiro, que não poderia ser utilizado, como se tivesse um chapéu sob as mãos. se pôs atrás de uma das cortinas frontais. Ao sinal da professora Elizabeth, iniciou a cena:
- É um ótimo lugar para uma leitura de poesia, não acha? – caminhou até o garoto, que se virou em sua direção. Levou a mão espalmada ao peito dele, aproximando-se com sutileza do lóbulo de sua orelha. – É poético o bastante para você?
- Sim... Sim. – ele assentiu freneticamente, virando o rosto em outra direção. - Um jantar? – aproximou-se mais, subindo seus dedos com delicadeza até o pescoço dele, fazendo-o encará-la. – Talvez um pouco de champanhe?
- Eu gostaria de... Ir direto ao que interessa. – titubeou , esquivando-se.
- Muito bem. – ela passou a ponta dos dedos pela gola da camisa do garoto, andando de costas até a mesa. – Por que não... – puxou-o pela mão até si. – Vem até aqui? – murmurou. – Vamos direto ao que interessa.
- Eu preferia ficar de pé. – ele parou de andar, dando as costas. – Às vezes pode ser demorado, quero que se sinta confortável. – e foi obrigado a conter sua vontade de rir do duplo sentido da cena, estava aprendendo a controlar suas emoções. – O que eu faço é moderno. Pode parecer estranho no início, mas se for receptiva, você vai gostar.
- Tenho certeza que irei gostar. – disse a garota, apoiando-se nos cotovelos. O garoto estava de costas para ela, e as luzes sobre ele davam-no uma imagem madura, de um homem de verdade. Ela quis, ainda que inconscientemente, que ele fosse mais maduro, responsável. , a princípio, mostrava-se de tal forma, e aquela era a maneira que fazia ver a luz difusa que vinha dele. era diferente do que insistia em mostrar, ela sabia disso. Só não tinha meios para provar a si mesma. Ele era o único responsável por desfazer o padrão imposto. Ou por manter o infeliz estereótipo.

Capítulo 15

- Então é isso, batemos a meta de hoje! – disse Elizabeth Moore, batendo palmas. – Nos vemos amanhã, queridos!
Aos poucos os alunos deixaram o auditório, exceção de e . Após uma pequena conversa com , a garota se despediu com um beijo no rosto, desviado acidentalmente – ou nem tanto, da parte dele – para o canto da boca. Ele sorriu, assumindo a culpa; ela sentiu as bochechas ferverem.
- Depois... a gente se fala melhor. – titubeou, virando-se para o caminho oposto à saída. – Tudo bem?
- Claro. – respondeu, concordando com a cabeça, encaminhando-se para fora. voltou para perto da professora, aguardando suas ordens.
- Vocês dois, hein? Superaram minhas expectativas! – a mulher sorria, olhando de para . – A harmonia entre as personagens era perfeita, fora que grande parte do que ensaiamos vocês já tinham decorado!
- Brigado. – disse o garoto, sem jeito. Não era ótimo ator, sabia disso, o primeiro elogio fora bem recebido.
- Espero que agora as coisas melhorem e vão além. – continuou a Sra. Moore. – E espero que os dois tenham fôlego ainda, vamos começar a ensaiar as canções a partir de hoje!
- Já?! – perguntou o aluno, surpreso.
- É, ué, por que não? – indagou a professora, entusiasmada. – O tempo, pra nós, é curto. Aliás, , você tem algum contato com música, além das que ouve?
- Toco , mas não sei onde isso entra em um musical. – disse ele, confuso. pegou-se por segundos imaginando o porquê de seu colega esconder tanto seu hobbie, uma única vez dito a ela e nunca mais posto em pauta.
- Temos um músico aqui e não sabíamos, então? – guinchou a mulher, como se contasse a novidade à garota, que já sabia do “segredo”. – Se você toca , pelo menos noção de tempo e conhecimento de partituras tem, certo?
- Teoricamente, sim. – respondeu ele, acanhado. Não costumava expor-se de tal forma quanto a seus dotes, seu ego se calava de frente à rara modéstia.
- Então será fácil para os dois acertarem tudinho. – Elizabeth concluiu, voltando seu olhar para a garota. – já é experiente com musicais, pode te dar umas dicas quando precisar, não?
- Claro. – disse ela, em tom baixo, nem mesmo cogitando discordar das ideias da Sra. Moore.
- Então, já que tudo está acertado, vou entregar a vocês as partituras dos duetos e solos. – Elizabeth foi até a tribuna, onde uma pasta preta jazia. Retirou uma série de folhas, que foram distribuídas aos atores juvenis. – Há canções, como vocês sabem, ou deveriam saber, que serão cantadas só por um, e outras por duas e até mais pessoas. Mas o ideal é que todas sejam ensaiadas em conjunto.
- Teremos algum prazo pra apresentá-las nos ensaios gerais? – perguntou, folheando as páginas em mãos.
- Tecnicamente, não, mas quanto mais cedo, melhor. – a mulher sanou a dúvida. – Ah! Antes que me esqueça! – disse em um sobressalto, então sorrindo com o mesmo entusiasmo de antes. – O orçamento dos figurinos chega amanhã. Alguns o colégio irá ceder, porém outros terão de ser por conta dos atores. Serão apenas um ou dois feitos em ateliê, acho eu.
- Nada muito... – começou, procurando a palavra certa. – Excêntrico, né?
- Com excêntrico você diz gay, não é? – deduziu a mulher, tendo um som positivo, emitido por , não , como resposta. – Não, não se preocupe. Sua personagem só usa roupas sociais, creio que será o figurino mais fácil de fazer.
O garoto assentiu, aliviado pela informação. Sua parceira soltou um riso sem humor, julgando-o machista pela pergunta. Um passo para frente, dois para trás, pensou, suspirando.

’s P.O.V.

Fechei minha mochila e me despedi da Sra. Moore e de , que murmuraram um “tchau” conjunto. Já era seis horas, faltava pouco para o colégio fechar e a noite realmente cair. Depois da experiência ruim da semana passada, evitava o máximo possível andar à noite pelas ruas, principalmente sozinha. A menos que eu quisesse ficar como uma paranoica, olhando para todos os lados, temendo o pior – mesmo que fosse prejuízo ao assaltante, já que objetos de valor estavam em falta na minha mochila. Ainda assim, não gostaria de uma nova ocasião.
Passando pelo portão, tive vontade de voltar e pedir a que me acompanhasse, apesar dos pesares. Mas como eu pediria? “Oi, , pode me levar em casa de novo, porque to com medo?” Além de soar ridículo, daria a ele a ideia de que eu precisava dele, o que obviamente era mentira. Exceto na peça, claro.
Eu poderia então perguntar casualmente se ele pegaria um ônibus, já que a parada é caminho, e assim eu teria companhia por, pelo menos, um trecho (um trechinho, na verdade). Ou então poderia desistir dessa ideia idiota e ir logo pra casa, que era a opção mais sensata. E a menos preferida.
Permaneci com a dúvida enquanto os minutos passavam, e, quando vi, já passava ao meu lado, me olhando com curiosidade. Meu pedido quase pulou pra fora da boca, fui obrigada a morder – e machucar – minha língua para não dizer nada. Dessa vez eu não falaria demais.
- Tá esperando alguém? – ele falou, sem cerimônias. Neguei com a cabeça, reprimindo a vontade de xingar um palavrão por causa da dor aguda que tinha causado a mim mesma. – Tá fazendo o que aqui, então? Vai escurecer.
- Eu sei. – grasnei, pouco à vontade. Eu queria perguntar, e ao mesmo tempo não queria. – É que... – disse tão baixo que duvidava que ele iria ouvir. Porém ouviu, e aguardava que eu completasse. Merda! – Ah, nada.
- Então... – disse ele, após alguns instantes de silêncio. – Tenho que ir.
- Certo, eu também. – concordei com a cabeça, sorrindo amarelo. – Mas e quanto ao que a professora falou sobre as músicas, como vamos fazer?
- Pode ser lá em casa, amanhã? – sugeriu ele, pondo as mãos nos bolsos frontais da calça. – A gente mata um ensaio pra ensaiar. – completou, rindo com casualidade, me fazendo acompanhá-lo. – E, se o carro do meu pai estiver liberado, te deixo em casa.
- Você não precisa fazer isso. – alertei, apesar de achar a possibilidade mais cômoda. Nem mesmo achei estranho ele ter dito “meu pai”, em vez do nome, como fazia com Susan.
- Mas eu quero. – rebateu, em tom passional. – Da última vez, me senti culpado pelo que te aconteceu. Se eu não tivesse te chamado pra ir até lá, nada teria acontecido. – justificou-se, me olhando da forma mais serena que tinha visto. Realmente, nada teria acontecido. Nada mesmo. E, assim, meu estômago não formigaria naquele exato momento. – Então, pra prevenir e mostrar que tô levando a sério aquela história de “novo começo”, te levo em casa, nem que eu tenha que chamar um táxi.
Onde estavam as câmeras? Era óbvio que eu estava no Candid Camera e já tinha sido pega na piadinha. Mas por que minha intuição continuava a me enganar, dizendo que eram sinceras as palavras dele? Era uma chance altamente remota, até um pouco surreal de acontecer. Era um delírio, isso!
Certa de que estava imaginando coisas, continuei inexpressiva, esperando que as palavras verdadeiras começassem a surgir e fazer algum sentido. Aguardava que algo do tipo “Vamos lá, quadrada, quero te agarrar em um carro diferente, agora” fosse dito, pois era o que mais combinava com o comportamento natural de . Entretanto, a expectativa dele em alguma resposta minha continuou estampada em seu rosto iluminado pelo sol poente, em uma tonalidade adorável da cor dourada. Seus olhos não estavam espremidos entre as pálpebras, uma vez que eu era mais baixa que ele, logo seu olhar era voltado para baixo, mas seus cílios reluziam a claridade que batia, assim como seus cabelos. Me dei conta naquele momento, por mais que me negasse a admitir em voz alta, que meu companheiro de palco era... bonito. Não na simplicidade da palavra, e sim no extremo do seu significado.
Titica, , por que você só para pra reparar nas pessoas na hora errada? Fale alguma coisa!
- Tudo bem, . – me ouvi dizer, e por sorte não soei muito animada. – Tá marcado. – sorri por fim.
- Você prefere Pringles natural, de churrasco ou cebola e salsa? – ele perguntou, e não entendi de primeira o intuito da pergunta. – Quer dizer, pra gente almoçar. – explicou, esperando que eu captasse algo. – Sabe, né, não como outra coisa mesmo...
- Ah, sim, claro! – disse alto, me lembrando e rindo sem jeito. – Não sei, o anfitrião escolhe. – dei de ombros, sorrindo por simpatia.
- Se eu errar o seu gosto, a culpa não é minha. – ele tirou o corpo fora, sorrindo também.
- Pensei que eu fosse previsível. – acabei deixando escapar.
- Hm? – mas, graças a Deus, não fui ouvida.
- Não, nada. – me apressei em dizer, abanando o ar. Boca Grande tinha que falar demais, claro. – Tava pensando alto que isso é possível. Mas não tem problema, meu gosto não é tão restrito assim.
- Então tudo certo. – sustentou o sorriso, e de repente me senti desconfortável. Tudo me incomodava, principalmente minha mochila, que comecei a ajeitar nas costas. – Até amanhã.
- Até. – sorri novamente, um pouco mais fraco, mordendo o lábio em seguida, contendo meu pedido. Eu não devia falar aquilo, não podia me mostrar tão dependente.
Como disse um sábio pinguim: apenas sorria e acene. O que eu fiz, logicamente.
, não lhe restando mais o que fazer, deu as costas e foi embora. E eu continuei ali, parada, desmanchando meu sorriso aos poucos enquanto repensava se pedir a ele que me acompanhasse fosse lá tão ruim. E não era. Não se eu considerasse a forma passiva que ele agia; talvez até aceitasse. Porém, como agi na defensiva, saí perdendo. Automaticamente me vi ansiosa para a tarde seguinte, pra ter a chance de mostrar à minha crendice que era só um único momento sobrenatural. não valia um shilling, bastava algumas horas pra saber disso.

’s P.O.V.

Eu me sentia bem, como há tempo não me sentia. Quando algo dá certo, a sensação de vitória é gratificante. Meu pequeno avanço com já dava os primeiros frutos, não havia atritos entre nós em tempo integral, só durante os ensaios, pra não perdermos o costume.
“Perdermos o costume”, eu já estava pensando no plural.
Fiz uma careta involuntária ao tempo que abria a porta de casa, procurando algum sinal de vida pela sala. Ouvia o tilintar de talheres sobre o prato e a voz de Susan – que falava algo que não entendia bem –, o que devia ser meus pais conversando enquanto jantavam. Fiz questão de emitir o máximo de barulho para que notassem a minha presença, mas fui ignorado com semelhante intensidade. Respirei fundo, sendo indiferente à reação deles e decidindo por ir até meu quarto. Estava com tanto cansaço que apenas joguei meu material num canto da parede e meu corpo sobre a cama. Ouvi passos no corredor, e não eram de minha mãe, pois não eram altos e acelerados, nem de meu pai, pois não eram pesados como marcha. Fiquei olhando para a porta, esperando quem quer que fosse aparecer, vendo-a se abrir segundos depois.
- ? – pra minha total surpresa, era Livie Williams, a filha do caseiro de Southsea. Parecia diferente desde a última vez que nos vimos, mais madura, com certeza. Tinha o corpo mais curvilíneo, como resultado de sua gravidez. Seus cabelos bem loiros estavam na altura dos ombros, diferente do enorme comprimento que tinham antes. Ela era agora uma mulher, e uma mulher linda. O que era de se esperar, já que sua beleza não era pouca quando éramos crianças. – Tô te atrapalhando?
- Não, claro que não! – sorri, me levantando de imediato. – Pode entrar. – acrescentei, vendo-a concordar. – O que te trouxe aqui? Você não devia ficar de resguardo em casa?
- É, devia, mas perderia a entrevista de emprego que apareceu numa produtora aqui na cidade. – explicou, sentando-se na beirada da cama.
- E o Jonsey veio junto? – sentei em frente a ela, com uma perna cruzada sobre o joelho da outra.
- Não, vim só com a Angie, que tá dormindo no quarto de hóspedes. – ela respondeu, e seus olhos brilharam ao falar o nome da filha.
- Vai ficar quanto tempo? – continuei a perguntar, contente por vê-la e por conseguir conversar com alguém.
- Até ter a resposta, provavelmente dentro de uma semana. – e ela continuou a responder, não se incomodando por eu estar perguntando demais. – Seus pais foram super legais em me oferecer a hospedagem enquanto procuro um lugar pra morar. Não conheço nada por aqui, é mais seguro ficar onde conheço as pessoas. Principalmente por causa da Angie.
- Ah, você vai ficar por aqui? – perguntei retoricamente.
- É, só espero que não atrapalhe. – disse ela, repentinamente pouco à vontade.
- Você nunca me atrapalhou, não é agora que isso vai acontecer. – amaciei a voz, soando o mais acolhedor possível.
- De qualquer forma... – Livie se esquivou, levantando-se, como se tentasse me repelir de alguma forma. Franzi o cenho, confuso. – Não me sinto tão à vontade. Ainda mais longe da minha família.
- Você pode chamar seus pais, sem problemas. – sugeri, sem intenções. – Não precisa se sentir deslocada.
- Não é bem essa parte da família. – ela corrigiu, enrubescendo. – Tô falando de Stephen, que ficou cuidando da nossa casa, sozinho.
- Stephen é o pai da Angie? – perguntei, surpreso por vê-la madura também na personalidade. E apenas com alguns meses a mais que eu de vida!
- E meu marido. – ouvi como resposta, me surpreendendo ainda mais.
- Marido? – ela assentiu à minha pergunta. – Que... legal!
- Pois é. – um sorriso alegre surgiu em seu rosto. – Cansei de ser só uma garota. A vida adulta começou quando fiquei grávida.
- Que bom que pensa assim... – Porque eu não, quase completei.
- Aham. – Livie concordou mais uma vez, pondo fim no assunto. – Então, , foi bom te ver depois de tanto tempo.
- Digo o mesmo. – respondi, não sendo assim tão verdadeiro.
- Agora tenho que descer pra ver a minha filhota, não consigo ficar muito tempo longe dela. – sorriu novamente, caminhando de costas. – Boa noite.
- Boa noite. – falei, vendo-a sair e fechar a porta. Algo entre as palavras “marido”, “filhota” e “adulta” havia me deixado desnorteado, não conseguia entender bem o momento em que Livie deixava de ser Williams para ser “a esposa do Stephen”. Ela também nunca foi fã de estudos, mas uma gravidez? E um casamento? Ao passo que tive um único namoro fracassado com Ally e uma quase expulsão.
Se bem que não tinha o que comparar; Livie Williams tinha que adiar ou mudar todos os seus planos, e ainda tinha chances de se recuperar. Ela havia se prendido a algo sem retorno, enquanto eu posso me safar. Estávamos em caminhos diferentes, ela com Angie e Stephen, eu com... e Moulin Rouge.
Era até cômico pensar dessa forma.
Sozinho, passei alguns minutos sentado, olhando para a parede, sem pensar em nada, até ouvir meu estômago roncar bem alto. Por instinto, me levantei e desci as escadas, em direção à cozinha. Meus pais estavam à mesa, tomando, cada um, uma taça de vinho branco. Não fiz esforço para não cumprimentá-los – se eles não o fizeram antes, eu que não faria depois –, agindo como se estivesse sozinho no cômodo. O cheiro de Frango ao molho de Malzebier estava forte, tanto quanto os roncos na minha barriga – ou era a fome que dava essa impressão? Eu não queria, mas seria obrigado a comer na cozinha, porque ir pra sala de jantar ou pro meu quarto era esforço demais, levando em conta a minha falta de vontade.
Vencido pela necessidade, me servi com um prato significativamente fundo, o qual enchi de comida. Peguei uma garrafa de refrigerante – na frente de Otto eu era relativamente normal –, encaixei um como em cima e me sentei no balcão, de costas aos meus pais. Os dois continuaram a conversar sobre trabalho, e cada vez que meu pai falava algum jargão típico de advogados, meus ombros se encolhiam, como se eu recebesse choques de alta voltagem. Ele estava fazendo de novo, de propósito. E eu estava cansado de ouvir calado. Odiava os direitos civis e aquela porra toda que, desde que eu era pequeno, ele esteve planejando pra mim.
Também estava cansado de não ter nenhum apoio da minha própria mãe quando dizia que queria ser músico. Um , melhor dizendo, mesmo que sem uma banda. Mas, pra ela, a imagem da família era mais importante, logo, nunca ia contra as ideias de Otto. Patético.
Pensar no assunto me embrulhou o estômago. Situações assim me levavam ao passado, ou o que eu acho que seja o início de tudo. Se Leonard estivesse aqui, não deixaria que isso acontecesse. Ele, apesar de apaixonado por aquela porcaria de Direito, me dizia que eu devia apostar em mim, seja qual fosse a minha meta. E é a meta dele que Otto quer que eu siga, pois a minha é imbecil. Porém era a única maneira que eu me sentia bem comigo mesmo, equilibrado, não me sentia solitário. Eu era, então, um imbecil aos olhos do meu pai.
Depois me dizem que eu sou o incompreensivo.
Deixei o garfo cair de meus dedos, ouvindo-o bater na borda da louça de porcelana. Inspirei fundo, olhando para qualquer lugar que não fosse meu jantar ao ouvir meu pai tocar mais uma vez no assunto “carreira”. Ia começar tudo de novo.
- Mal posso esperar pra te ver no tribunal, defendendo um grande caso, . – disse ele, me levando a cerrar os olhos.
- Mentindo pra todo mundo com a cara mais lavada, às vezes fazendo de Charles Manson o novo Messias. – completei, ainda de costas, como se fosse a coisa mais natural a se dizer. Sentia minha garganta arder e minha pele esquentar.
- Como você já anda fazendo. – ele respondeu, com a mesma naturalidade. – Trata-se de defesa, e não de virtudes.
- Então – levantei, engolindo o nervosismo que corria por todo o meu corpo –, já que, como você disse, sou desvirtuado, agirei em minha defesa pra não viver o que você tem tanto orgulho em fazer. Porque não quero me tornar um homem capaz de proteger pessoas do tipo das que tiraram a vida do meu próprio irmão, que, por um infeliz acaso, era seu filho, por dinheiro.
Angustiado e borbulhando rancor, encarei os dois sentados à mesa. Otto me reprovava com o olhar, como sempre; Susan fingia não nos ouvir, mas eu sabia que ela também era contra a ganância dele, que o fazia ir tão baixo quanto um criminoso.
Pelo menos esperava que ela também fosse contra.
Não consigo me lembrar, mas sei que, em um tempo distante, o homem que era meu herói, ao qual eu tinha orgulho de chamar de pai, se tornou alvo de algo tão pesado e intenso que não cabia em mim. Mesmo não estando presente na cena, eu o culpava pelo que aconteceu a Leonard anos atrás. E a mágoa guardada em mim por tanto tempo não me permitia ver mais que uma imagem ruim. Eu sabia que estava sendo rancoroso, mas não conseguia mudar. Não podia mudar, para não deixar em segundo plano a memória de quem um dia acreditou em mim.
- Tudo que eu faço é por você! – Otto bradou, em tom de voz alterado. – Para garantir um futuro confortável para você!
- Não quero um futuro de merda à base de mentiras. – rebati, sentindo meu corpo exalar calor durante minhas respirações irregulares. – Quero o meu futuro do meu jeito, mesmo que eu passe fome pra tê-lo.
- Quer ser um vagabundo, então, ?! – indagou ele, enojado. – Pois saiba que não terá um centavo meu. Não vou encher a barriga de um ninguém.
- Engula seu dinheiro sujo. – grunhi, fechando o punho e caminhando até a porta. Como eu sabia que Otto era, não toleraria me ver dando as costas. – Coma, como um porco come lavagem, porque é isso que você e seu dinheiro são pra mim.
E, antes que eu pudesse sair, ele se ergueu e andou, furioso, até mim. Seu rosto estava em tom de escarlate, via as veias de seu pescoço pulsando, grossas. Susan o seguiu de imediato, agarrando seu braço esquerdo, cravando as unhas ali.
- Vai me bater? – desafiei, vencendo o espaço que ainda existia entre nós. – Vai em frente, acerta em cheio! – apontei para o meu nariz, aproximando meu rosto do dele.
- , chega! – minha mãe esbravejou, desafinada, com os olhos sombrios.
- É só nessas horas que você age, não é? – ladrei, dirigindo-me a ela. – Quando a bomba já tá explodindo! Saiba que não há mais necessidade de bancar a heroína de último minuto, já sou bem grande e sei me virar, com ou sem vocês. – mesclei minha raiva ao desdém, olhando-o um por um. – Até porque vocês e nada são a mesma coisa. – completei, impetuoso. – Com licença, perdi o apetite.
Ao sair, fui diretamente para o meu quarto, trancando a porta. Ainda eram sete horas, mas eu torcia para que o dia acabasse. Levei as mãos ao rosto, abafando um urro, em seguida arrastando-as para a nuca. Meu sangue parecia pesado, a julgar a força com que meu coração batia, sem ritmo algum. Mesmo pondo para fora parte do que estava engasgado, havia um ardor de raiva ainda pulsando em mim. Necessitava me acalmar de qualquer forma, não me importava como.
Olhei para a parede, vendo as marcas já conhecias que tinha ali. Avancei naquela direção, fechando o punho para atingir a pintura lascada por anéis que usei outras vezes. Pus toda a minha força ali, perdendo o tato a cada soco dado. Privei meus sentidos, aguçando apenas a visão, que se focava só no lugar que minhas mãos acertavam. Abusei de minhas mãos até chegar à exaustão, ofegante e com os nós dos dedos cortados, alguns até sangrando. Olhei para os ferimentos que tinha me causado, e não consegui pensar em nada que não fosse Leonard. Ele fazia o mesmo quando se sentia mal, eu sempre o espiei por trás da porta dos fundos, que era onde ele tinha seus acessos de ódio.
Nunca admiti a ninguém, mas sentia demais a falta dele. Até mais que os verões em Southsea. E essa bosta de dia só serviu pra me lembrar disso.
Joguei minhas costas sobre a cama, abrindo os braços e fechando os olhos. Ouvia o choro agudo de Angie por trás das paredes de um dos quartos de hóspedes, e, sinceramente, não me sentia culpado por tê-la assustado. Me sentia vazio, sem emoções, incompleto. Me deixei levar pelo cansaço, adormecendo, dando fim ao meu pesadelo domiciliar.

Acordei com batidas na porta. Meus olhos estavam pesados e meu corpo mole. Sentei na beirada da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos para afundar a cabeça nas mãos, que doíam agudamente nas juntas dos dedos. Respirei fundo, notando que as batidas haviam cessado. Levantei, indo destrancar a porta. Minhas calças estavam abertas, minha camiseta estava no chão, sobre meus tênis, que eu nem mesmo lembrava ter tirado, e meus cabelos grudavam na nunca e na testa, ensopados de suor. Parecia que não tinha dormido nem quinze minutos, apesar de saber que aconteceu o oposto.
Abri a porta, ouvindo um choro de criança por cima das vozes de Livie, Susan e a empregada. Em um pensamento rápido, me lembrei de pegar as chaves do Land Rover antes que minha mãe o fizesse. Após pegá-las no quarto ao lado, me tranquei novamente nos meus aposentos pra tomar um banho e me vestir. Depois de arrumado, e ainda em jejum, saí pela porta da frente, dando a volta e entrando na garagem para pegar o carro, largando minha mochila e o celular no banco do carona. Liguei o rádio e mudei a estação, ouvindo Chelsea Dagger, já na metade, tocar. Meu celular vibrou sobre a mochila, indicando que recebera uma chamada. Olhando no visor, vi o número de casa, então rejeitei a ligação. Aproveitando a deixa, vi as horas, e me espantei ao ver que já passava das nove – estava mais que atrasado, eu nem mesmo entraria na aula.
Ótimo, uma folga bem recebida.
Desviando o caminho, fui até o banco sacar algum dinheiro do cartão de crédito, já que almoçaria comigo e eu não queria correr o risco de topar com Susan em casa. Por mim, na realidade, não voltaria tão cedo, se não fosse realmente necessário. Como era, no entanto, voltaria apenas quando fosse seguro o caminho até meu quarto. E o Land Rover, é claro, ficaria comigo até que meu Mustang fosse devolvido. Se não fosse, as chaves seriam minhas. Simples.
A partir de hoje, eu faria as minhas regras. Nada mais de imposições de pessoas sem moral.

’s P.O.V.

Eu sabia que algo daria errado, minha intuição nunca falhava. Estava tudo bom demais – quer dizer, nem tanto – desde aquele pedido de desculpas de .
Assim que cheguei em casa, ontem à noite, após falar com meus pais, liguei para , avisando que não iria ao shopping com ela, e Saskia, uma antiga amiga nossa, agora de outro colégio. Nem mesmo disse o motivo, preferi não comentar essa parte, uma vez que tinha descoberto que minha vida era de domínio público entre minha amiga e suas primas. Um “tenho um compromisso” foi suficiente, pelo menos pra mim. Mas claro que não pra , que passou a manhã me infernizando para saber o que eu faria de tão importante assim pra não passar um, segundo ela, mísero e simplório tempo com as amigas.
Claro, , mísero e simplório. Sei.
Quanto mais ela me perturbava, com mais arrependimento de ter desmarcado eu ficava. Porque era óbvio que não apareceria, logo eu não teria nada além do ensaio geral – que, aliás, também estaria e me perguntaria o mesmo que – para fazer. Só que até ao ensaio eu queria faltar, tamanho desânimo que fiquei. Não queria nem pensar nas razões que fizeram com que ele faltasse, pouco me importava, já que minha empolgação tinha se convertido a completa falta de vontade por culpa dele. Não valia a pena perder meu tempo tentando justificá-lo.
E eu, sempre burra, aceitando desculpas e dando novas chances...
Vou morrer pastando, se continuar desse jeito.
Me aliei à fobia social dos derrotados durante o intervalo, evitando contatos físicos até mesmo com Noel, que costumava sentar comigo em qualquer canto do jardim, e , que parecia ter implantado um rastreador em mim, a julgar as vezes que me encontrou, mesmo depois de eu despistá-la. Admito que ainda tinha esperanças de que surgisse mais cedo ou mais tarde através do portão, com alguma desculpa – ainda que não tão convincente – que eu aceitaria de qualquer forma, só para calar a boca do meu lado pessimista. Controverso, eu sei, mas, não sei por que, era exatamente o que parte de mim queria. Uma parte considerável, a propósito. Que acreditava na existência de uma razão plausível para que ele tivesse faltado, e que iria acreditar nessa razão. A verdade é que essa parte de mim queria vê-lo, mas eu não assumiria em voz alta quando me perguntasse mais uma vez o que estava acontecendo comigo. Jamais!
Ao tocar o sinal para a saída, arrumei meu material e fui com até a sala de Noel, que, com certeza, seria minha única companhia até que meus pais chegassem do trabalho. Definitivamente, vontade de ser útil em algum lugar, que não meu quarto, era zero.
- Tem certeza que você tá legal, ? – minha amiga perguntou mais uma vez no dia; revirei os olhos, bufando e me encostando no batente da porta da sala de Noel, esperando que ele saísse.
- Já falei, tenho. – respondi de má vontade, cruzando os braços e olhando para o fim do corredor, onde alguns alunos ainda passavam, em direção à saída. e Emma também passaram por ali; ele acenou, ela não. Logo atrás vinha Allison, que, quando cruzou seu olhar com o meu, fechou as expressões e cochichou com a amiga.
- Então por que a cara de ânus? – continuou a perguntar, alheia a tudo, me fazendo rir baixo. Ela não sossegaria até saber a razão de eu não querer ir ao shopping, além de ter agido de modo tão introvertido.
- É pra fazer jus às merdas que eu falo. – resmunguei, mal humorada. – Pode dar um berro pro Noel ir mais rápido, por favor?
- Eu não! – ela guinchou, olhando pra mim como se eu fosse uma extraterrestre.
- Nem precisa, já tô aqui! – disse meu irmão, provavelmente após ter me ouvido, parando ao meu lado. – Ué, garota, você não ia se encontrar com seu namorado?
- Vá se ferrar, idiota. – ralhei, me desencostando. – Nunca tive namorado e nunca será um. – deixei claro, segurando e apertando a mão de Noel com considerável força. – E não, não vou ensaiar as músicas da peça com ele, porque ele faltou.
- Ah, tá explicada a carranca! – riu , sugestiva. Comecei a caminhar, ignorando-os (e arrastando Noel comigo) quando os dois iniciaram uma série de piadinhas sem graça sobre o “casal” que eu e formávamos.
- Vão cagar, vocês. – reclamei depois de um tempo, tão mal humorada quanto antes. Eles apenas riram.
- Mudando de assunto... – disse minha amiga, e agradeci mentalmente por isso. – Já que você não vai mais ensaiar, pode ir ao shopping.
- Seria uma boa. – sorri de leve, fingida. – Se eu estivesse a fim.
- Insuportável. – ela murmurou, com falso desdém. – Sério, quando você tá de mau humor, fica intragável.
- E quem é que fica “tragável” desse jeito? – perguntou Noel, em tom de obviedade. Concordei com ele, olhando para como se dissesse a ela que era algo lógico.
- Enfim. – tornou ela a dizer, não se importando. – Realmente não vai mudar seus planos, né? Casa, ensaio, casa e até amanhã?
- Na verdade, eu pensei em algo tipo casa, casa, casa e até amanhã. – confessei, indiferente à tentativa de de me levar pra rua. Eu não queria e pronto. Era difícil entender?
- Opa, mudança de planos de novo! – a ouvi dizer após atravessarmos o portão de entrada, tirando minha atenção da mão de Noel, que eu batia de leve para me distrair, e olhando para frente, onde pude vê-lo.
tinha um sorriso tímido no rosto, quase um pedido de desculpas por ter desaparecido sem uma explicação – pelo menos ao meu ver. Seus cabelos não estavam naquele “zoneado e arrumado” que todo mundo costuma dizer para dar um charme, estavam bem penteados, meio para frente, meio para o lado, deixando as pontas viradas para cima. Vestia uma camisa de flanela azul marinho por cima de uma camiseta branca de algodão; as duas cobriam uma parte considerável do jeans de corte reto, que combinava perfeitamente com o Vans branco que usava. Estava simples, diria até interessante. E, o que mais me chamou a atenção, estava me esperando, o que eu jurava que nunca iria acontecer.
Como nem tudo é uma maravilha, ao lado dele estava Allison, e Emma. Os olhares da parte feminina do grupo não eram lá amigáveis, pareciam até mesmo ameaçadores. Ameaças, geralmente, são sinônimos de desafio para mim. Porém eu não estava com saco para desafios.
- Mudança? – falei para . – Não sei por quê.
- Vai começar tudo de novo. – Noel sussurrou, como se soubesse do que falávamos. E eu desconfiava que ele sabia, sim.
- Não vai começar porque eu não vou deixar. – parou de caminhar, fazendo com que formássemos uma meia lua. – Você tem que ensaiar essa peça, e você vai. – pelo tom de voz, poderia dizer até que ela ordenou. Sem reação como eu andava naquele dia, apenas ouvi, surpresa com a forma autoritária que minha amiga tinha. – Qual é, ! O garoto já pediu uma nova chance e você continua avacalhando!
- Não é isso... – sibilei, fazendo-a me olhar, descrente. – Eu só não tô animada pra sair de casa, seja lá pra que for.
- Ontem ela tava bem animadinha... – acusou Noel, tão baixo quanto eu.
- Você não precisa sair de casa, leve o até lá. – sugeriu minha amiga, como se fosse a saída mais sensata.
- Ah, aham, claro! – ironizei, forçando um sorriso.
- Por que não? – ela indagou, cruzando os braços.
- Porque não quero. Simples. – disse por fim.
- Então você também não vai ficar em casa. – concluiu ela, me desafiando.
- Por que não? – questionei, agindo da mesma forma.
- Porque não quero. Simples. – respondeu, sorrindo com satisfação. – Sério, , amor da minha vidinha, faz esse esforço por mim. E pelo pobre do garoto, que veio até aqui pra falar contigo, mesmo tendo faltado à aula. Sabe-se lá o motivo por que ele não veio, e mesmo assim tá aqui, agora.
Querida voz da minha consciência, pare de concordar com a . Não me faça sentir culpa por ser egoísta nessa situação.
- Talvez? – perguntou Noel, aposto que louco de vontade para chegar em casa e jogar a bunda no sofá, esse vagabundo.
- Cala a boca e não se mete. – ladrei, em súbita agressividade. Tão súbita que não durou mais que dois segundos. Voltei a olhar para , que me parecia querer perguntar o mesmo “Talvez?” de Noel. Dane-se!, foi a resposta da minha consciência aos meus apelos.
- Tá, você tá certa. – admiti, revirando os olhos; ela sorriu abertamente, vitoriosa. – Mas quer que eu faça o quê? Que vá lá e fale com ele? – as expresses da minha amiga não mudaram, e as minhas se assombraram. – Não! Não, não e não. Essa possibilidade tá mais que descartada.
- Mas ele tá te esperando, sua idiota. – Noel mais uma vez se pronunciou, tentando encerrar logo o assunto.
- Vou te mandar fazer uma coisa não muito legal, se você se meter de novo. – o censurei, o mais ameaçadora possível. Odiava a mania que ele tinha de ouvir minhas conversas com quem quer que fosse, motivo pelo qual sabia de todo o caso. – E, além do mais, aquela Allison tá com ele. Não gosto dela, nem do jeito que ela me olha atravessado. Não quero tomar mais uma advertência por causa daquela vaca.
- Então controla a emoção, calma em pessoa. – zombou, soprando um riso. – Ah, e se você não for falar com ele, das duas, uma: ou eu faço isso, e posso fazer ser bem constrangedor, ou você vai ter que ligar pra ele e pedir desculpas por ter sido uma imbecil sem atitude. De qualquer forma você passaria vergonha, .
- Como eu adoro o apoio que você me dá. – falei, sarcástica, desviando dos olhos dela. E, por acidente, pondo os meus sobre os de , que logo desviou, assentindo para Allison, que dizia algo a ele, e Emma. Soltei a mão de Noel de vez, cruzando os braços, onde batia as pontas dos dedos ordenadamente, sem paciência para pensar qual humilhação era mais aceitável, já que eu não iria, nem se me pagassem, até o grupo em questão.
- Vai demorar aí? – meu irmão perguntou pra mim. Antes de eu responder, completou: – Vou até a cantina comprar alguma coisa doce, já volto. – e saiu, antes que eu dissesse algo, mais uma vez.
- Nem ele aguenta mais suas indecisões. – apontou para Noel com a cabeça. – Acho que eu vou pro céu por aturar isso. – riu baixo, implicando comigo.
- Eu também não aguento saber que ele ouve minhas conversas contigo e com meus pais. – retruquei, tentando mudar de assunto sem que notasse. – Por isso ele sabia que eu ia passar as músicas com , e você não. Eu avisei aos meus pais que talvez voltaria mais tarde, e ele provavelmente ficou prestando atenção. Perdi a privacidade até dentro da minha casa.
- Tá, mas depois a gente fala sobre isso. – ela balançou a mão no ar, desfazendo as minhas chances de passar batida. Imagino como Ben e ela começaram a namorar: “E aí, Ben, ou vai, ou racha. E não tenta mudar de assunto!” Assustador. – Então, o que decide?
Foi quando eu me lembrei.
- Me empresta o seu celular? – perguntei, já dando a volta nela para pegar o aparelho em sua mochila.
- Pra quê? – indagou , não se importando com a invasão.
- Pra ligar pra polícia e te acusar de chantagem. – sorri com ironia, abrindo o menu de mensagens, escolhendo a opção de nova mensagem.
- Chantagem emocional não é crime. – disse ela, incerta. Ri, puxando-a pelo braço.
- Vem cá, preciso fazer uma coisa. – falei, apressada, voltando para dentro do colégio. Procurei por um banco no jardim, onde joguei minha mochila para procurar minha agenda, que foi revirada de todas as formas até que eu encontrasse um papelzinho rasgado. Digitei a mensagem e, após olhar no papel, enviei. Aguardei impacientemente pela resposta, enquanto deduzia o que eu estava fazendo com resmungos para si.
“Se tá tentando fugir de mim, é só dizer. Juro que não vou ficar chateado.”
- Não é isso, sua anta! – murmurei para o celular, como se ele fosse... Bem, , já que era pra ele que eu estava mandando a mensagem.
“Não é de você, e sim da sua ex e a fiel escudeira dela. Não quero pular no pescoço de ninguém, hoje.”
- Ah! – ouvi dar um gritinho estridente, como se ligasse os pontos e formasse toda a imagem. – Você tá falando com o...
- É. – concordei, interrompendo-a. – , pode ver por que o Noel tá demorando tanto?
- Só se você me mostrar o que vocês tão falando! – respondeu ela, novamente animada.
- Tá gravado no seu celular, inteligente. – lembrei, sendo obrigada a reprová-la pela lerdeza.
- Ih, é! – ela riu, caminhando na direção da cantina. – Já venho.
- Ok. – assenti, sentindo o celular de vibrar em minhas mãos mais uma vez. Olhei rapidamente para o visor, sorrindo, mesmo sem querer.
“Sorte a minha. Haha Vai pro ponto de ônibus, já te busco por lá.”
Não consegui conter o calor que senti na barriga pela certeza de que estava, sim, me esperando para almoçarmos, como combinado. Também não contive meus lábios, que se abriram mais, aumentando o sorriso esboçado no meu rosto. A metade de mim que queria vê-lo estava borbulhando de felicidade.
- Você não vai acreditar se eu te contar! – guinchou , aproximando-se. Arqueei a sobrancelha, curiosa. – Seu irmão tava em uma mesa com umas pessoas aí. – sua voz foi aumentando gradativamente. – Abraçando uma garota. Cheio de segredinhos e amor pra dar!
- Tem certeza? – perguntei, arregalando os olhos. Noel e uma garota? Era tão inédito quanto... sei lá! Quase inacreditável!
- Toda! – disse minha amiga, segurando o riso, o que eu também fazia. Não por ele, e sim pela situação. Saber que seu irmão mais novo, aquele que você viu crescer, está por aí bancando o garanhão chega a ser cômico. Principalmente pra mim, que tinha começado a irradiar felicidade minutos antes, e para , que é a alegria em forma de gente e não passa muito tempo sem rir um pouco.
- Então avisa ao Don Juan que ele vai sozinho pra casa, por favor? – pedi, mordendo o lábio para não rir. Não adiantou muito, porque no segundo seguinte eu e ela quase chorávamos de tanto gargalhar. Foi preciso um inspetor nos expulsar dali, pois estávamos atrapalhando o almoço dos professores com toda a “cacarejada”, segundo ele.
Entreguei o celular a , indo embora sem olhá-la, justamente para não provocar outro ataque de risos. Olhei ao redor após passar pelo portão, me certificando de que ainda estava ali. E Allison, Emma e também estavam. Pouco me importava as duas, agora. Meu humor tinha ido do péssimo ao ótimo em só alguns minutos, não seria a infeliz presença delas que me deixaria mal. Até porque havia meios de burlar a guarda que elas montavam ao redor de , e eu conseguiria acalmar a minha parte eufórica sem problemas. Era bom saber que tudo fluía bem entre a gente naquele momento. Me sentia satisfeita por ver que meu parceiro estava mesmo levando a sério a história de novo começo. Pelo menos por enquanto.
A caminho da parada de ônibus, passei por uma loja de doces, e tive de me esforçar muito para não entrar e comprar meio mundo, para saciar minha vontade louca de mastigar. Era estranho – e ao mesmo engraçado – como eu só sentia essa ansiedade antes dos ensaios. Nunca tinha notado o quão envolvida com a peça eu estava.

’s P.O.V.

- É, no sábado! – Emma concordou com algo que tinha dito e eu não ouvi, pois preocupava mais em deduzir se já estava no lugar combinado. Após as mensagens e a saída dela, me concentrei somente em não avacalhar mais uma vez, o que me desligou por completo dos meus amigos. Era, literalmente, ou eles, ou ela. E, na situação que eu estava, a opção mais segura era a segunda, então qualquer cuidado era pouco.
- Então tudo certo? – disse Allison, ao meu lado, fazendo uma parte da minha atenção se voltar a eles. Todos assentiram, exceto eu, que me tornei o centro das expectativas, sendo que nem sabia o que dizer.
- Sei lá, tenho que ver. – respondi, torcendo para que não insistissem em uma resposta positiva. – Até sexta eu dou certeza.
- Tá, não esquece! – alertou Emma, séria. Consenti, sabendo que eu faria o contrário em cinco minutos. Ultimamente, só o roteiro era gravado na minha memória, fora certas outras coisas.
- Aí, já tá na hora de eu ir pra casa. – anunciou, olhando em seu relógio. Comemorei internamente por não ter sido eu a pessoa a dizer isso. - Vamos? – perguntou ele a Emma, que murmurou “sim”.
- Tchau, amiga, me liga quando puder. – pediu Allison, se despedindo. Permaneci mudo, me despedindo apenas com aceno de cabeça. Olhei as horas no visor do meu celular, percebendo que havia passado tempo suficiente até que chegasse à parada. Tinha que ir logo encontrá-la. Abri a boca, pronto para dar uma desculpa, quando Ally se virou pra mim, parecendo envergonhada. – Hey, , pode me dar uma carona?
Franzi o cenho e comprimi os lábios, desconfiado. ? Não fora ela que me tratara como lixo uns dias atrás, sem contar que andava com a mania irritante de me chamar de ? Eu nem mesmo tinha engolido aquela história de desconhecido, por mais que preferisse não pensar nela.
- Nunca ouviu falar que não se pega carona com desconhecidos? – ironizei, vendo-a fechar o rosto, que começou a corar, não sei se por raiva ou vergonha mesmo. Talvez os dois.
- Esquece. – resmungou ela, azeda.
- Eu nem cheguei a pensar na possibilidade. – falei, forçando um sorriso. – Tenho um compromisso inadiável e já tô atrasado. Sem chances.
- Você não precisa usar eufemismos pra me dizer que vai comer mais uma garotinha do primeiro ano. – ela rebateu, e eu me peguei pensando em como aquilo chegou aos ouvidos dela. Porque era mentira, claro. É praticamente pedofilia ficar com uma garota do primeiro, que dirá transar com uma delas. Isso era mais a cara do quando tá solteiro.
- Realmente – concordei –, não preciso. Mas porque nunca fiz isso. Não confie tanto nas suas fontes.
- Se não é do primeiro, aposto que é do segundo. Da sua sala, pra ser mais exata. – foi a vez dela de sorrir com cinismo. Era isso, Allison estava puta da vida por causa de e aproveitou a deixa para destilar o veneno.
- E se for? O que você tem a ver? – indaguei, enfrentando sua pequena revolta; ela não respondeu, engolindo tudo que ainda tinha para dizer. Eu a conhecia bem, sabia que ela não aceitava ficar calada, mas reconhecia a hora de parar. – Acho que acabei por aqui. – sorri com simpatia, afinal estava indo embora. – Passar bem, Ally.
Ouvi dois ou três sussurros dela, ignorando-os. Pela primeira vez em muito tempo eu saía de uma discussão sem sequelas, me sentindo bem por colocar para fora nada mais, nada menos, que tudo que tinha engasgado. Não era a mesma sensação que eu tinha em bater boca simplesmente para irritar, era totalmente diferente. Como se eu estivesse renovado, pronto pra outra. Como se houvesse uma lista de afazeres para terminar e eu tivesse completado uma delas. Allison talvez fosse uma dessas tarefas pendentes, que eu acabara de riscar da lista. Só espero que ela pense novamente em como agir comigo, para que não se arrependa depois.
Satisfeito com o meu “resultado”, tirei as chaves do Land Rover do bolso, destravando as portas. Joguei minha mochila no banco de trás, girando a chave na ignição e ligando o rádio mais uma vez naquele dia. Segui a rua principal e depois atalhos, já que era horário de pico e eu não queria pegar congestionamentos em um caminho tão curto. Reduzi a velocidade consideravelmente, tentando encontrar no grupo de pessoas que esperavam ônibus. Ela estava um pouco mais à frente, de cabeça baixa, em frente a uma loja de doces. Buzinei, esperando que ela procurasse saber quem o tinha feito, o que não aconteceu. Porém ela tinha prestado atenção, uma vez que ajeitou sua postura, ficando em alerta. Buzinei de novo, e um otário atrás de mim também, porque queria ultrapassar. Ignorando o jegue que não consegue cruzar a faixa, liguei o alerta e abaixei uma das janelas, gritando o nome da minha parceira, que se virou imediatamente, curiosa.
- Não sabia que você tava de carro. – disse ela ao se aproximar. – Desculpa.
- Não foi nada. – dei de ombros, destravando a porta de passageiro. – Só entra logo, o idiota de trás tá enchendo o saco.
- Tudo bem. – ela riu baixo, entrando e se sentando. Dei novamente a partida, notando que prestava a atenção em algo, quieta.
- Que foi? – perguntei, interessado no motivo de ela não ter dito uma palavra.
- Você ouve Hellogoodbye. – respondeu ela, como se tivesse descoberto algo inacreditável. Eu nem mesmo tinha reparado no que estava tocando.
- Não é o que costumo escutar, mas dá pra aguentar. – justifiquei, ouvindo um risinho seu.
- As músicas são legais, você tem que concordar. – defendeu, olhando janela afora. – Não conheço esse caminho, aonde a gente vai?
- Soho House. – respondi, simplesmente.
- Soho o quê? – perguntou ela, surpresa, me encarando. Olhei rapidamente para o rosto confuso ao meu lado, um pouco assustado com a sua reação.
- Soho House. – repeti. – Por quê?
- Não, nada. – tive como resposta. – Nunca pensei que você fosse sócio de lá.
- Meu pai defendeu o filho do presidente do clube em um processo, foi um jeito de agradecer. – expliquei por alto, evitando a todo custo entrar em detalhes. – Tirando os honorários, claro.
- Ah, sim. – murmurou , voltando a olhar para fora, agora pelo vidro frontal. Abriu a mochila, procurando algo, tirando da mesma um saquinho branco de papel. – Dessa vez eu que tenho as balas. – falou, pelo tom de sua voz, sorrindo. – Quer?
- São de canela? – indaguei, participando do contagiante ar de alegria dela.
- Não, são de cereja, menta e melão. – ela pegou uma de cada sabor, erguendo-as a uma altura que eu pudesse ver.
- Acho que vou querer cereja. – opinei, incerto. – Não, menta.
- Certeza? – perguntou minha colega, implicando com a minha indecisão.
- Não. – confessei, rindo e a fazendo rir. – Quero cereja mesmo.
- Certo. – ela consentiu, deixando as outras duas caírem sobre o saquinho. Houve certa demora até que me entregasse a bala, então olhei para , que parecia sem jeito. – Hm... Posso te entregar assim, né? – embalada, ela quis dizer. – Você não se incomoda?
- Claro que não. – soprei um riso, puxando a bala pelo papel, levando-a até a boca para abrir. Percebi que tornou a olhar para fora da janela, tão muda quanto antes, diria até que inclinada na direção oposta à minha. Pelo que já dominava sobre ela, podia jurar que estava desconfortável ou nervosa. – Aconteceu alguma coisa? – investiguei, tomando cuidado para não agir com falta de tato.
- Hm? – ela desprendeu seu olhar da paisagem, porém não o direcionando para mim. – Não, não.
Eu sabia – por razões desconhecidas – que ela estava mentindo.
- Se for sobre aquele dia que te deixei em casa... – comecei, tentando passar segurança – Você não precisa ficar com vergonha. Isso acontece com todo mundo.
- Menos comigo. – rebateu, retorcendo a embalagem que estava em suas mãos. Arqueei a sobrancelha, esperando uma explicação. – Eu não ajo por impulso com garoto nenhum, prefiro esperar até ter certeza do que vou fazer. Não gosto de quebrar a cara com coisas assim.
Balancei a cabeça em sinal de compreensão, me tocando de que talvez tivesse feito uma cagada.
- Não posso retirar o que fiz, então só peço desculpas. – disse, evitando olhá-la até de rabo de olho.
- Tudo bem. – a ouvi dizer. – Só me promete que, se houver uma próxima vez, a gente vai com calma? Nós fomos com muita sede ao pote, e olha no que deu antes. Não sei se eu aceitaria dar uma nova chance a quem consegue ferrar tudo duas vezes, da mesma forma.
Escutar tais palavras me recordaram da promessa que eu tinha feito a mim mesmo de conquistar a confiança de . Eu devia fazê-la valer, e pra isso precisei dizer, com todas as letras:
- Prometo.
- Brigada. – meu olhar foi atraído pelo seu rosto, agora mais leve, contendo um pequeno sorriso sincero.
- Não precisa agradecer, é o mínimo que eu posso fazer depois de tudo. – respondi, sem expressões.
- Acho que agora cabe a mim desfazer esse clima chato que ficou. – ela concluiu, solene. Dei de ombros, como se dissesse que não tinha diferente de antes, por mim. – Estamos chegando?
- Aham. – falei, assentindo.
- Cadê o Soho? – de repente se ajeitou no banco, subitamente animada.
- Cadê o quê? – brinquei, fingindo que não sabia de nada enquanto dobrava a esquina do endereço do clube.
- Você sabe do que eu tô falando! – guinchou ela, observando a rua atentamente, porém só de um lado, justamente o contrário.
- Se você procurasse direito, não precisaria me perguntar. – impliquei. – O Soho fica aqui. – apontei com a cabeça. – E não espere tanto assim, é só um clube como outro qualquer.
- Claro, qualquer clube tem filiais espalhadas pelo mundo. – ela disse em tom de obviedade.
- Você me entendeu, engraçadinha. – resmunguei, parando na entrada do estacionamento, onde um manobrista aguardava aos carros. Entreguei as chaves ao homem, pescando minha mochila no banco traseiro, ao tempo que ele fazia a gentileza de abrir a porta para .
Entramos por uma das portas laterais, e uma atendente logo nos abordou, pedindo a carteirinha, que estendi a ela prontamente. Um termo de responsabilidade foi entregue a nós, pedindo a assinatura do sócio, eu, e convidado, – burocracia pura, só para aumentar a fome que já me assolava. Devidamente preenchido o documento, passamos para a ala principal, uma espécie de sala de estar, com várias pequenas salinhas em nível mais baixo – onde até mesmo existiam sofás, mesas de centro e televisões – nos cantos. Ao centro tinha um bar, e mais ao fundo as entradas para o restaurante e para a área verde. Guiei minha parceira até o restaurante, procurando com os olhos uma mesa vaga antes de sermos atendidos.
- Lá fora tem mesas. – ela comentou, baixinho.
- O restaurante não atende lá. – alertei, mesmo que não surtisse efeito nenhum.
- Tem algum outro lugar que venda comida por lá? – e vi que de fato não tinha surtido. Assenti à sua pergunta, dando adeus mentalmente às medalhas de queijo como entrada. – Vamos pra lá, então!
- Tô vendo que você adora mato. – observei, rindo sem humor.
- É mais saudável que ficar no meio de tanta gente respirando o mesmo ar que você. – disse ela, dando de ombros. De certa forma, ela estava certa, e por isso concordei em almoçar na lanchonete, que só vendia refeições naturais, com baixo colesterol etc., em vez do restaurante, que tinha o cardápio muito bem conhecido por mim.
Fomos em silêncio para as mesinhas brancas contornadas por cercas-vivas, deixando nosso material em uma das cadeiras livres da mesa que escolhemos, de frente ao divã cor de creme que havia ali, para podermos fazer os pedidos. foi quem decidiu o que comeríamos, porque, confesso, nunca fui tão fã de pão integral, chá gelado e essas coisas, logo não sabia o que escolher. Pedidos feitos e pagos – por mim, logicamente –, voltamos à mesa, ainda fazendo piadinhas sobre eu ser leigo em assuntos naturebas.
Sou mesmo, prefiro um bom e velho hambúrguer da terra do Tio Sam a sanduíche de pão preto – até pouco tempo, pra mim, isso era pão queimado.
- A princípio achei que fôssemos a pé pra sua casa e almoçaríamos por lá. – ela confessou, após algum tempo olhando ao redor. – Então você aparece de carro na saída do colégio para virmos ao Soho House. Tá tentando me comprar, é? – e riu, mostrando que só estava brincando.
- Droga, você descobriu! – soquei o ar, com falsa decepção, rindo em seguida. – Na verdade, tô fugindo de casa. – desfiz qualquer sinal de riso; ela ergueu uma das sobrancelhas, indagadora. – Não nesse sentido! – expliquei, aliviando-a. – Só quero um tempo longe de lá.
- Por causa dos seus pais? – usou um tom de voz brando, delicado. Seus lábios estavam comprimidos, repuxados em um dos lados. Ela sabia que eu não gostava de tocar no assunto, e parecia não muito à vontade por ser quem chegou a tal ponto da conversa. Respondi à sua pergunta com um som positivo, desviando meu olhar do seu.
- Tivemos uma conversa nada calorosa ontem. – completei, acariciando minha mão direita com a esquerda.
- Entendo. – ela murmurou, complacente. Segurou minhas mãos em seguida, descobrindo os cortes ali. Me senti invadido pela sua reação espontânea, mas não disse uma palavra nem recuei. – Vocês brigaram?
- Não. – neguei com a cabeça, retirando minhas mãos ásperas das dela em sinal de que queria desviar o assunto. – Só discutimos.
- Por quê? – mas ela continuou o questionário, preocupada. Quando a encarei novamente, vi seus olhos aflitos e me senti mais cômodo, pois, de alguma forma, notei que aquelas perguntas não eram só por curiosidade. parecia se importar de verdade com a situação.
- Lembra que eu te disse que meu pai defendeu o filho do presidente daqui do clube? – disse, encontrando um meio mais ameno de explicá-la. Ela assentiu, então continuei: – É porque ele é um advogado conhecido em alguns lugares por salvar a pele dos idiotas que adoram fazer merdas quando bebem, ao invés de defender casos que realmente valem a pena. E eu abomino isso. Só que é o que Otto quer que eu faça, me torne um babaca de terno.
- Já tentou conversar sobre isso com ele? – perguntou a garota à minha frente. – E a sua mãe?
- Ela prefere não aborrecer o marido. – revirei os olhos. – Já tentei várias vezes dizer que não gosto de advocacia, mas, lá em casa, quando dizem “x”, tem que ser “x”, mesmo que eu queira “y”. – expliquei, fincando minhas unhas curtas na palma da minha própria mão. – Acho que vou seguir a mesma doutrina e impor o que eu quero. Talvez as coisas finalmente saiam do lugar que estão. – sem que quisesse, me lembrei do que Ally me dissera. Mais uma vez eu estava enfiando os meus problemas no meio de uma relação, ainda que indefinida, nesse caso. – Mas não quero ficar falando disso.
- Ah, claro, desculpe. – pediu, parecendo envergonhada.
- Para de pedir desculpas. – reclamei, rindo da falta de jeito dela. Era engraçado vê-la embaraçada.
- Desculpa. – ela repetiu sem a intenção, segurando o riso ao perceber o que tinha feito. – Quer dizer, tá bom. Vou tentar.
- Melhor assim, culpada . – satirizei, vendo-a fingir desprezo.
- Tenho educação, é diferente. – disse ela, justificando, enquanto olhava para a lanchonete. – É a nossa senha. Vá buscar meu alimento, homem!
- Quanta educação. – ri novamente; ela fez o mesmo, levantando-se.
- Não reclama. – resmungou. – Vou lavar as mãos, já volto.

’s P.O.V.

Minha intuição nunca falhava, mas meu pré-julgamento, sim. A imagem que eu tinha de quando não nos falávamos era completamente inversa à de agora. Ele não era tão babaca, só quando queria. Até minha metade pessimista estava deixando de lado o medo de dar a nova oportunidade a ele. E a ida ao Soho House não tinha nada a ver com a história, por mais que eu estivesse adorando.
Após o lanche, continuamos sentados à mesa, uma vez que tínhamos decidido ensaiar por ali mesmo. Ensaiar não era bem a expressão certa, e sim debater sobre a peça. Existiam uns detalhes das cenas que precisávamos acertar, sugestões a acrescentar, entre outras poucas coisas. E, só nisso, todas as cinco libras que gastei em doces – ansiedade é um caso sério – foram embora como água. Eu seria capaz de roer a quina da mesa, se não tivesse o que mastigar
Um psiquiatra também cai bem, obrigada.
- Te dou uma surra se você não cantar Your Song direito. – ralhei com , batendo as unhas sobre a mesa. Acho que meu esmalte seria a próxima vítima dos meus dentes.
- Adoro sadomasoquismo. – disse ele, em tom de piada, me fazendo rir.
- As pessoas não têm mais amor à vida hoje em dia! – guinchei, como se estivesse incrédula. – É sério, , essa música não é tão fácil de cantar.
- Eu dou conta. – ele sorriu, virando a página para a próxima partitura.
- Você e esse “eu dou conta”. – resmunguei, girando os olhos. – Não sabe como me irrita quando deixam o trabalho pra depois.
- Relaxa, ! – o tom de sua voz era despreocupado, e se eu não soubesse do contrário, juraria que ele tinha bebido um pouco a mais que o normal. A propósito, não havia nem sinais de odor de cigarro em seu perfume forte e hálito de cereja. Era bom ver que ele evitava tais coisas porque eu não gostava, me sentia importante para ele. – Da outra vez eu disse que dava conta e dei, não foi?
- Depois de perder o seu roteiro? – completei. – É, foi.
- Os fins justificam os meios. – ele deu de ombros. – O importante é que eu vou conseguir. Estamos falando de música, é mais fácil de entender que Física.
- Física é que nem música, só precisa ser exercitada. – retruquei, sorrindo da mesma forma que ele tinha feito antes.
- Mas antes de ser exercitada, precisa ser entendida. – defendeu.
- Assim como as partituras das canções. – ergui o bloco à altura do meu rosto, indicando uma das sequências. – Ninguém nasce sabendo a diferença entre as claves de dó, fá e sol.
- Tá, que seja. – murmurou ele, tomando as folhas da minha mão. – Que tal uma pausa? Tô ficando de saco cheio, já.
- Você perde a paciência muito fácil! – brinquei, rindo baixo.
- Igual a alguém que eu conheço. – ele fez o mesmo, espalhando-se sobre a cadeira. Suas pernas acabaram cercando as minhas por baixo da mesa, talvez sem querer, e eu não me movi enquanto elas estavam ali.
- Não sei quem. – disse, levando na esportiva enquanto bancava a super controladora com a parte inferior do meu corpo.
- Depois te apresento. – concluiu meu parceiro, ajeitando-se em seguida. – Ei, quer um sorvete?
- Esfria as cordas vocais, não pode, por enquanto. – respondi, relaxando novamente as pernas.
- Merda. – bufou. – Suco pode, né?
- Aham, e eu quero de kiwi e laranja. – falei, sorrindo para ele como uma criança pidona, conseguindo o que queria ao vê-lo levantar, balançando a cabeça e rindo. Se ele estava mesmo tentando me comprar, ainda que de brincadeira, eu não ligava nem um pouco.
me chamaria de mercenária, se ouvisse isso!
Enquanto aguardava no balcão, aproveitei para olhar as anotações que tínhamos feito nos roteiros – escrevemos nos dois para que ninguém se esquecesse –, pegando o primeiro que vi; o de , por acaso. Folheei o bloco, sem saber onde ele havia posto os detalhes, e parei na primeira página em que vi algo escrito à mão, reparando que não era a letra dele, e sim a minha. Abaixo dela, que tinha sido copiada para o roteiro dele, estava “Call me a boy, tell I blur”. Mordi meu lábio, olhando de soslaio para ele, que estava de costas. Com aquela frase, por mais curta que fosse, eu me senti culpada pelas vezes que simplesmente bati de frente, julguei e o ignorei. Talvez, se eu tivesse sido amigável desde o início em vez de repeli-lo, não estaríamos nessas idas e vindas todas. Eu estava perdendo tempo para conhecer todos os lados de porque não queria enfrentar aquele que não gostava, que talvez fosse só uma impressão ruim que eu tinha dele, e esse tempo perdido tinha sido em vão. Eu já conhecia os motivos pelo qual ele estava com a corda atada firmemente ao pescoço, a minha relutância era um pequeno aperto no nó que estava prestes a enforcá-lo.
Meu estômago revirou, formigou e pareceu estar cheio demais. Como eu pude ser tão estúpida? Ele se importava. Era real aquele pedido de desculpas, mesmo que sem jeito. Eu causei minha própria dor de cabeça sem nem mesmo perceber, e fiz se culpar porque não enxerguei o que tinha feito de errado também. Mas me desculpar por isso seria assumir um erro implícito, que poderia muito bem ficar esquecido. Nós estávamos bem mais uma vez, então pra que procurar brasa em cinzas?
Engoli meu desconforto, fingindo que nada tinha passado pela minha cabeça. Eu era uma boa atriz, ainda que amadora, sabia interpretar sentimentos que não eram meus. Pelo menos na teoria, já que mentir não era bem o meu forte, por mais irônico que fosse. Contudo, eu não estava mentindo, estava omitindo. É diferente, logo devia ser certo. Certo?

Capítulo 16
’s P.O.V.

- , liga pra pizzaria pra mamãe? – ouvi minha mãe pedir alto da cozinha, após eu fechar a porta da sala. Fiz uma careta enquanto ela não aparecia no portal, resmungando umas palavrinhas não tão mágicas.
- Posso terminar de chegar em casa, por favor? – perguntei, tirando meu material das costas, jogando-o no sofá.
- Já chegou? – minha mãe, como previsto, apareceu no batente, segurando uma correspondência, provavelmente alguma conta da casa. Ela e meu pai adoravam abrir as cartas que chegavam à noite, independente do dia da semana. Como se descobrir que a taxa de luz, água e gás subiram mais algumas libras fosse divertido. Vai entender...
- Metade mozarela, metade calabresa, né? – disse eu, após assentir à sua pergunta.
- Uma de cada. – ela corrigiu, me fazendo erguer a sobrancelha. – Seu irmão trouxe dois colegas, eles estão no quarto dele.
Ergui a cabeça em sinal de compreensão, indo até o telefone para fazer o pedido. Minha mãe voltou para dentro da cozinha, comentando algo que fez meu pai rir. Após desligar, peguei minha mochila e fui para o meu quarto, levando comigo o telefone – deveria estar louca esperando que eu ligasse, aposto.
Ao contrário do que eu planejei – discar o número da minha amiga e passar um bom tempo conversando –, a primeira coisa que fiz, depois de trancar a porta, foi ter um acesso de risos. Por todos os acontecimentos que tinham surgido; pela leveza de espírito que eu sentia; pela sensação de satisfação por não precisar pensar sempre nas consequências dos meus atos. Toda a minha vida parecia perfeita, de uma maneira alternativa. Eu não era a aluna número um, mas ainda assim estava entre os primeiros; não era popular, mas tinha bons amigos; não tinha um namorado – algo que muitos, inclusive , me enchiam o saco –, mas conseguia me divertir da mesma forma com qualquer pessoa que me fizesse companhia. O que mais eu poderia querer? Pensar em futuro, carreira e família parecia tão antiquado naquele exato momento.
Decidida a não pensar em mais nada pelo resto da noite, liguei o computador e selecionei algumas músicas aleatórias, deixando Love and Destroy, do Franz Ferdinand, tocar primeiro, em uma altura suficiente pra que não me ouvissem cantar. Fechei a cortina, pulando em cima da cama enquanto começava a me despir para pôr uma roupa mais confortável. Segurando um vidro de perfume como microfone, cantei. Eu não ligava se estava igual a uma louca, se os amigos de Noel iriam rir de mim ou se meus pais iriam reclamar do volume da música. Me sentia tão bem que consideraria as reações dos outros como mero detalhe. Eu estava despreocupada, desapegada do mundo naquele espaço de tempo.
Eu estava feliz. Muito feliz.
E nem sabia a razão de tanta felicidade, o que dava mais graça.
Alguns minutos extravasando – e algumas batidas na porta – foram suficientes para que eu já estivesse vestida com uma saia e blusa de algodão, deitada de barriga para cima na cama, discando o número de . Já passava das oito, ela deveria estar em casa.
- Alô? – ouvi uma voz esganiçada atender, pedindo silêncio em seguida.
- Alô você, ursinha carinhosa! – guinchei, rindo. – Que barulho é esse?
- As meninas tão aqui. – ela respondeu, voltando ao tom normal de voz. – Você podia vir também, a gente vai junto pro colégio, amanhã!
- Tô meio cansada. – arrastei a voz, sem mentir. Apesar de animada, estava exausta. Principalmente depois do surto de alegria. Queria me divertir, mas de um jeito que não me pusesse em exercícios físicos. Ver televisão ou fazer nada na internet, quem sabe. – Mas me diz, o que vocês fizeram?
- Andamos, comemos, compramos e agora viemos pra cá comer mais. – enumerou , rindo. – Solta isso aí, sua anarquista! – berrou, provavelmente para Saskia, que costumava ficar hiperativa depois de ir ao shopping. – , fala aqui com a , vou matar uma aí e já volto!
- Tudo bem. – concordei, rindo mais uma vez e desconfiando de já não ter mais ninguém do outro lado da linha.
- Olha aqui, dona , tô fula da vida contigo, hein! disse alto, de repente. – Primeiro falta ao ensaio, depois não sai com a gente, agora tá recusando uma noite caliente. Tô prestes a cortar relações, ouviu?
- Mas, poxa, foi por uma boa causa; faltei o ensaio pra ensaiar! – me fiz de vítima. – Voltei agora há pouco pra casa, tô cansadinha. Me libera dessa, vai?
- Ah, quer dizer então que aquela história que a contou de você e é verdade? – perguntou ela, sugestiva. Por sorte, eu estava longe dela e das meninas, senão haveria testemunhas da visão do meu rosto virando uma berinjela, pois eu provavelmente fiquei roxa de vergonha. Apenas elas me deixavam naquele estado, porque tudo que relacionava a mim e qualquer garoto era entendido como uma possibilidade de romance. E fazê-las esquecer da ideia era o mesmo que nada.
- Oitenta por cento do que ela falou é mentira. – disse, me sentando e cruzando as pernas. – Nós nos damos bem agora, mas é só.
- Ah, aham. resmungou, descrente. Quantas vezes eu teria que repetir esse discurso? – Foi assim que começou comigo e Com o !
- Mentira! – Saskia berrou ao longe, me fazendo concordar. Alguns ruídos depois, continuou: – , não ouve essas vacas, eu acredito em você. Além do mais, a fila anda e esse babaca já teve a vez dele. Aproveita que no meu colégio tem um monte de gatos, te apresento, se quiser.
- Ai, meu Deus! – gargalhei, nervosa com a exposição. – Acho melhor eu desligar, foi uma péssima ideia ligar pra vocês.
- Nem foi, eu sei que você gosta! – ela brincou, fazendo o mesmo.
- Prefiro não comentar. – disse, fingindo discrição. – Sério, Sassie, tenho que desligar. Acho que a pizza chegou.
- Pilantrinha! – ralhou ela. – Cansada uma ova, você quer é comer sem dividir com as amigas, isso sim!
- Tchau, Saskia. – ignorei seu comentário, soprando um risinho cínico.
- Ai, vaca! – minha amiga resmungou, fingindo desdém. – Boa noite.
- Pra vocês também. – respondi, desligando. Destranquei a porta, descendo para a cozinha, onde meus pais continuavam à mesa com alguns envelopes abertos. Sentei ao lado de meu pai, à frente de minha mãe, empilhando todos os papéis.
- Como foi o ensaio hoje? – minha mãe perguntou, colocando a pequena pilha que fiz sobre o armário.
- Bom. – falei simplesmente, ajeitando as dobrinhas que se formaram na toalha. – Às vezes é bom não ter a ou a sra. Moore cobrando perfeição.
- E o figurino, quando chega? – ela se levantou, indo à cristaleira.
- Parece que um dos vestidos será feito em um atelier diferente, o pagamento tem que ser adiantado. – respondi, ouvindo a campainha tocar. – Mas só chega uma semana antes da apresentação.
- Eu atendo. – meu pai se pronunciou, indo atender a porta.
- Dependendo do valor, eu e seu pai te ajudamos a pagar. – afirmou minha mãe. – Não é justo você gastar toda a sua mesada com isso.
- A propósito, minha mesada bem podia aumentar, né? – sugeri, sorrindo de forma confiante.
- Não abusa. – ela me censurou, olhando-me de soslaio. – E vai chamar o seu irmão, por favor.
- Tá, tá. – balancei a cabeça para os lados, conformada, me levantando em seguida. Caminhei devagar, arrastando os pés, até o quarto de Noel, batendo à porta e pedindo a ele, Max e Ethan, os tais colegas, para irem comer. Noel levantou da cama em um pulo, largando o violão de Ethan por ali, correndo para a cozinha, deixando-nos para trás; Max o xingou e seguiu, rindo; Ethan também o xingou, mas ajeitou seu violão antes de ir atrás dos dois. Com o quarto vazio, me restou apagar a luz e voltar para onde meus pais (e as pizzas) me esperavam. Me sentei na mesma cadeira de antes, esperando que o lanche fosse servido, percebendo que já começava a sentir sono – minha revisão do dia ficaria para depois, meu sono em primeiro lugar.
- Se quiserem mais, é só pegar. – disse minha mãe após servir a todos. – Só cortei pra todo mundo pra não quebrar o protocolo. – e riu, mostrando que era brincadeira.
- Já que é assim... – Noel tateou a mesa em busca de uma das caixas, levando-a para si assim que alcançou. Bati em sua mão, censurando-o.
- Tire essas duas mãos cheias de dedos daí, pigmeu! – ladrei, puxando a caixa dele. – Educação eu sei que você recebeu, mas parece não gostar de pôr em prática.
- Educação é pros fracos. – concluiu ele, me fazendo revirar os olhos e rir.
- Você adora se fazer de fraco na frente daquela garotinha, né? – alfinetei, vendo suas expressões se fecharem, em sinal de dúvida e negação. Me virei para Max, que ria da cara dele, junto a Ethan. – Qual é mesmo o nome dela?
- Brooke. – respondeu o garoto, recebendo o ódio de Noel contido em um grunhido.
- Quer dizer que já posso esperar uma nora? – minha mãe entrou na brincadeira, fazendo meu irmão ficar cor de escarlate.
- Se depender dela... – Ethan insinuou, ganhando um soco no braço pela fofoca.
- É assim que eu te ensinei, filho! – meu pai completou o círculo de gozações, enquanto Noel tentou nos ignorar, comendo o pedaço de pizza que estava sobre seu prato.
- Se for quem eu tô pensando, ela é até bonitinha. – falei, sendo sincera. – A que deve saber melhor quem é, já que ela que viu.
- Você nem viu nada e tá aí falando! – Noel resmungou, não aguentando ficar calado.
- Teve algo que eu deveria ver, então? – instiguei, vendo e ouvindo-o bufar.
- Depois reclama quando eu falo de você e o seu namorado problemático. – ele rebateu, em alto e bom som para que todos ouvissem. Logo eu era o alvo das atenções, que esperavam alguma pirraça minha. Mas, na verdade, eu não liguei.
- Mudar o foco da conversa do nada é sinônimo de que tem coisa aí, hein! – continuei bem humorada, fazendo novamente os presentes se voltarem para meu irmão. Ethan, Max e Noel prolongaram um pouco mais o assunto, até que ele se encerrou naturalmente. E ali, quieta, ouvindo só o barulho, e não o som de cada palavra, notei como já começava a aceitar bem a brincadeira que me transformava na namorada de , desde que não chegasse ao extremo. A ideia nem era tão ruim assim. Ele é bonito, quando quer, sabe ser simpático e outros detalhezinhos a mais que, para mim, contavam a favor. Mas, obviamente, eu não iria cair de amores por ele, era só uma suposição.

Naquela manhã em particular eu me dei ao luxo de não prestar atenção às primeiras aulas. Conversar sobre assuntos aleatórios era mais interessante que matriz, atual matéria de Álgebra. Até a vida amorosa do meu irmão me agradava mais. Assim, de fofoca para fofoca, os três primeiros períodos passaram. Fomos então e eu, como sempre, para o jardim, dessa vez sem nem passa pela sala de Noel – não queríamos atrapalhá-lo de jeito nenhum. e se juntaram a nós um tempo depois, o que foi muito comemorado, já que ela quase não saía do grupo de teatro, e, em consequência, ele também não.
Soa suspeito dizer que um casal não sai de dentro de uma salinha aos fundos do auditório, mas não com eles. levava o clube até mais a sério que eu, mal conseguia respirar quando se via rodeada de roteiros, cartões, telefones... Trabalhos para terminar em casa eram constantes. E ela queria mesmo que eu fosse sua sucessora? Não, obrigada. Não quero surtar ainda mais.
- Ah! – guinchou, parecendo lembrar algo. – Sábado vai ter uma festa da Amelia, do 2B, vocês querem ir?
- Festa do tipo “esportistas de um lado, o resto do outro”? – desdenhou um pouco o convite, mas todas sabíamos que ele aceitaria. e festas, shows e derivados eram praticamente a mesma coisa.
- Não, do tipo “se você é gente, pode vir”. – minha amiga respondeu, rindo. – Parece que a irmã dela passou pra Cambridge e quer comemorar. Vai ter convidado de todas as idades.
- Como se isso me interessasse. – comentou, irônica, só para esconder sua vontade de ver novos rostos.
- Certo... – concordou no mesmo tom de voz. – Mas pra vai ser bom, vai ter macho à vontade! – completou, olhando para mim como se depositasse esperanças de que eu fosse realmente ficar com qualquer “macho”.
- Dá pra parar de me oferecer pra todo mundo? – perguntei, afetada. – Já não basta ficar me entregando de bandeja pro ? Fora o , que agora tá atrás de mim e...
Opa!
- Ahá! Sabia! – berrou, apontando na minha direção. – Eu tava desconfiando desde semana passada, naquele ensaio lá em casa! Sem contar que vi vocês dois de beijinhos esses dias!
- Eu não fiquei de beijinho com ele! – tratei de alertar, sentindo já meu rosto esquentando. – Foi ele que me deu um selinho, mas foi sem querer.
rapidamente segurou o rosto de , beijando-a.
- Ih, foi sem querer. – disse ele, rindo; revirei os olhos para não rir.
- Então você não nega a parte de que vocês ficaram antes? – indagou, sorrindo em sinal de vitória.
- Não. – respondi baixo, desviando o olhar. – Mas foi só aquilo, ele que continua achando que eu, sei lá, tô a fim.
- Mas por que você não contou nada pra mim? – reclamou, ofendida pela minha suposta falta de confiança.
- É, por que não contou nada pra mim? – a imitou, e não consegui mais conter o riso das palhaçadas que fazia.
- Porque eu tava a fim dele, na verdade. – confessei, dando de ombros. – Mas acho que já desencanei.
- Você é idiota. – ela ralhou. – Nunca entendo essas suas lógicas.
- Agora, voltando à festa... – recordou, pro meu alívio.
- Isso. – concordou com a cabeça. – Começa lá pras nove, a gente pode combinar de se encontrar na casa de alguém e depois ir.
- Na minha! – sugeriu. – É perto da casa do e da , você que se vire.
- Muito obrigada pelo companheirismo. – a reprovou com o olhar. – Vou ver se a Sassie e o Ben vão comigo.
- A gente vai de táxi, né? Porque olha a cabeçada que vai! – disse . – E eu não quero bancar o chofer de ninguém.
- Ele tem razão. – ponderei, torcendo os lábios. – Dois carros, cada um com três pessoas. Fica igual pra todo mundo na hora de pagar a corrida.
- Ou seis no mesmo carro e tá muito bom. – ele sugeriu, avarento.
- Só no seu mundo que deixam seis pessoas dentro de um mesmo táxi, sem contar o motorista. – ironizou.
- Depois a gente vê o que faz. – concluiu, satisfazendo a todos.
Fomos em seguida para as nossas salas, pois tinha acabado de tocar o sinal. aproveitou que o fluxo continuava intenso para comprar alguns doces para nós; eu preferi esperar na porta da classe. E dentre os sorrisos, acenos e “oi” que dei a quem conhecia, apareceu .
Ele veio até mim com um sorriso largo, mostrando todos os dentes que podia – todos muito brancos e bem enfileirados. Retribuí, tentando não parecer muito calorosa, mas também não muito distante. Dar a ele a liberdade de se aproximar tanto era algo que eu não queria. De repente ele não parecia mais tão adorável, bonito etc., etc. Parecia só... o . O garoto um ano mais novo que eu. O amigo do meu irmão. O Duque.
- Hey, ! – disse ele, parando à minha frente.
- Oi. – falei simplesmente.
- Você faltou ontem ao ensaio, aconteceu alguma coisa? – o ouvi perguntar, e, sem razão aparente, me senti incomodada com a preocupação dele.
- Não, nada. – balancei a cabeça para os lados, procurando com os olhos em meio aos alunos que ainda passavam pelo corredor. – É que precisei resolver uns problemas, não tinha como fazer isso depois das seis.
- Coincidência... – usou um tom de sarcasmo que não combinava com ele. – também faltou ao ensaio, mas eu juro que o vi na saída.
- Mesmo? – tentei soar indiferente, compreendendo então a preocupação dele. estava com ciúmes de mim. E de . Eu precisava pôr um limite naquilo. – Estranho... Mas por que você não pergunta a ele o motivo de ter faltado?
- Não me dou tão bem com ele pra isso. – ele riu sem humor. Cruzei os braços, não muito paciente. Como eu esqueci esse pequeno detalhe? Garotos são imaturos. Garotos mais novos são mais imaturos. – Ele é babaca demais pra conversar normalmente.
- Tenho que discordar. – me ouvi dizendo sem pensar. – Você devia primeiro tentar falar com ele antes de julgá-lo.
- Você pensava da mesma forma que eu. – argumentou, surpreso com o que eu tinha dito.
- Pensava. No passado. – rebati de imediato, olhando-o sem muita emoção. – Olha, não quero acabar falando o que não devo, então é melhor encerrar isso por aqui.
- Você é quem sabe. – ele cedeu a contragosto.
- Aham. – voltei minha atenção para dentro da sala. – Tenho que entrar, até mais tarde. – e sorri amarelo, sem esperar sua resposta. Eu me sentia mal por destratá-lo, mas não conseguia o ver da mesma maneira de uns dias atrás. Nem mesmo se tentasse. Estava bem claro para mim que meu interesse por ele tinha desaparecido tão rápido quanto apareceu, porém o contrário da situação ainda não. O que começava a criar reações desagradáveis em mim.
Mas eu não queria ter de despachá-lo assim, sem nem conseguir encará-lo direito. Só precisava me afastar um pouco, melhorar da minha “indigestão de ”, para então me permitir tratá-lo como se ele fosse qualquer um dos meus amigos. Afinal, fui eu quem disse que uma amizade a mais não faz mal a ninguém.

’s P.O.V.

Se eu soubesse que ir ao Soho na companhia de alguém seria mais divertido, não teria ido tantas vezes sozinho quando precisei de um tempo longe de casa. Até porque não ter como se distrair não é muito inteligente, já que se quer esquecer algo. Eu não tinha chegado a essa conclusão antes de levar até lá, pois aquela maneira desconexa, pra mim, era a certa. Mas enfim percebi como era tosca a minha teoria e consegui me desviar dos meus dois problemas de codinome Otto e Susan, mesmo depois de chegar em casa.
Dormindo e acordando mais cedo que o costume, saí mais uma vez com o Land Rover. Ao chegar no colégio, encontrei Allison – cujo bom humor era de se estranhar – e Emma, que me perguntaram mais uma vez se eu iria – finalmente descobri – à festa de Amelia, uma menina da turma delas. Enrolei as duas mais um pouco com a resposta, depois eu decidiria se iria servir de motorista ou não.
Terminados os primeiros períodos, fui abordado no corredor por uma inspetora de nariz chato e voz aguda, que me disse que o diretor queria falar comigo. Eu fugia de dois, me aparecia mais um. Só podia ser carma.
- Me chamou? – perguntei ao abrir a porta do gabinete, vendo Darrel assinando algo.
- Sim, sr. , chamei. – respondeu ele, não retirando os olhos da tal folha. – Sente-se, por favor.
Assim fiz, sem ânimo para conversas chatas sobre o meu futuro acadêmico. “Você vai reprovar”, “você não se esforça” e “você não quer nada da vida” já estavam mais que batidas no meu repertório.
- Então...? – falei, dando a entender que o esperava dizer o que queria.
- Seus pais propuseram uma solução para ajudar, ou melhor, facilitar seu rendimento escolar, mais precisamente na área de Física. – ele anunciou, batendo a base da pilha de folhas sobre a mesa para alinhá-las. Ergui uma das sobrancelhas, questionando-o. – Como não era uma solução corriqueira, foi necessário levar ao conselho. – então o diretor deixou a papelada de lado, me encarando, finalmente. – E acabou sendo deferida, para a sua sorte.
- E o que eles fizeram? Prometeram ajuda financeira (pra não dizer suborno)? – indaguei, irônico, cruzando os braços e as pernas. – Porque é bem a cara deles.
- Isso não vem ao caso. – ele deu de ombros, e juro que vi o canto de sua boca se curvar de modo convencido e furtivo, como se me escondesse alguma coisa. – A questão é que, como estamos no início do quarto bimestre, não há como repor as aulas de recuperação perdidas. E, a pedido dos senhores seus pais, suas notas abaixo da média serão canceladas.
- Eu vou ficar com nota nenhuma no boletim? Como se Física não entrasse nas matérias que eu estudei? – tentei compreender, surpreso com a abordagem absurda, provavelmente proposta por Otto. Susan não era capaz de pensar em medidas que abrissem caminhos com tanta facilidade.
- Evidente que não. – Darrel deu ênfase à sua fala, me olhando com curiosidade por ter chegado a tal conclusão. – Sua nota deste bimestre valerá por todos os outros. – logo me vi alvo de seu cinismo. – Acho que o senhor terá de aprender algo, por fim, não?
- É o que parece. – forcei um sorriso, movendo apenas meus lábios na função.
- E as aulas de teatro, como vão? – ele puxou assunto na tentativa de soar amigável. Patético. – A senhorita é adorável.
- Vai bem. – respondi simplesmente, procurando ver as horas em um enorme relógio que residia o canto da sala. – Era só pra isso que me chamou? Tô perdendo meu intervalo, e duvido que o professor vá me deixar substituir pela aula dele.
- Certo, pode ir. – concluiu o diretor, e tive a impressão de ver aquele mesmo sorriso, cheio de significados, em seu rosto angular. Levantei da cadeira, ignorando-o. Quando abri a porta, pronto para sair, o ouvi dizer: – O senhor devia dar valor aos seus pais, sr. , eles dão valor à sua educação.
Voltei apenas meus olhos a ele, tendo a certeza de que ele agia com tanta bondade somente por causa da intervenção dos meus pais. Não conseguia enxergar qual o mais sujo da história: Otto e Susan, por se prestarem novamente a um papel como esses, Darrel Martin, por colaborar com eles, ou eu, por ter gerado tudo que estava me acontecendo. E nem poderia me negar a fazer o que tinha sido decidido, pois não havia outra maneira que não me levasse à reprovação. Além de roubar gabaritos, seria conhecido por subornar o corpo docente. Tem como ficar pior?
Sem mais apetite para comer e ânimo para fazer qualquer coisa, fui para minha sala, onde me sentei na cadeira do professor e estiquei minhas pernas na direção das janelas. Olhando para o jardim, me desliguei do ambiente que estava. A ideia de que eu estava me favorecendo pelos meios que tanto abominava não saía da minha cabeça. Eu tinha provocado minha própria contradição. Estava me aproximando aos poucos da pessoa que eu me negava a ser. Precisava, mais que nunca, reverter o maldito destino para receber meus próprios méritos válidos. Ainda havia tempo, e eu não o desperdiçaria. Até porque a saída para isso eu já tinha em mãos. “A senhorita é adorável.”
Ainda depois de o sinal tocar, continuei no mesmo lugar, vendo as árvores balançarem sob o céu cinza, em um presságio da chuva que chegava. Me concentrei nas vozes que já ouvia dentro da sala, o que era difícil, levando em conta a quantidade de alunos no corredor. Não sei por quanto tempo fiquei ali, alienado, mas, no momento que decidi ir para a minha carteira, o professor de Física – maldito seja – já estava na porta, arrastando uma bancada consigo. Sobre a bancada havia três espelhos e lanternas.
- Bom dia, turma! – disse o sr. Williams, com seu sorriso quase maníaco. – Façam um semicírculo, teremos uns minutos de aula prática, o que significa...
- Relatório. – respondeu um aluno qualquer, desanimado.
- Justamente. – concordou o professor, virando-se para o quadro para anotar as instruções. – Os relatórios deverão feitos em trios, e o prazo é até o final da aula. Vou fazer as demonstrações de cada espelho, e vocês explicarão e esboçarão os procedimentos. Todos os integrantes do trio terão de escrever. – explicou, dando uma mínima pausa em cada informação. Eu ainda tentava entender tudo que foi pedido. – Dúvidas? – ele olhou rapidamente cada aluno, não esperando respostas. – Não? Execução.
Arrastamos todas as carteiras, encaixando-as para formar o dispositivo pedido. Eu deveria encontrar um trio, mas não tinha exatamente certeza de que me aceitariam – antipatia sempre fez parte da minha classe, que era muito bem correspondida por mim. Os grupos já iam se formando, e eu, sobrando. Uma ideia fixa rondava a minha cabeça: eu tinha que pedir ajuda a .
Procurei sua silhueta no meio da bagunça de cadeiras e alunos, vendo-a – como já era de se esperar – ao lado de , rindo enquanto terminava de contar algo. Havia um pingo de insegurança em mim, afinal, ela adorava me rejeitar, mas minha preocupação com a proposta do diretor era maior. Qualquer chance que me aparecesse deveria ser bem aproveitada, e não era um medinho boiola que me faria recuar. Assim, andei até onde ela estava, casualmente, pigarreando para chamar sua atenção.
- Ah, oi, ! – disse , acenando.
- Oi, . – respondi, sorrindo por simpatia para elas. se manteve quieta, apenas retribuindo meu sorriso.
- Tá sem grupo? – finalmente se pronunciou, mais afirmando que perguntando. Assenti, conformado.
- , algum problema? – indagou o professor, chamando as atenções da sala para mim.
- Não, eu... – comecei, apontando de mim para e .
- A gente estava formando o nosso trio, professor. – me interrompeu; concordei, na falta do que falar.
- Pois então se sente, meu jovem! – sr. Williams disse por fim, impaciente. – A aula é curta, não temos tempo pra corpo-mole.
- Pega a sua cadeira e trás pra cá. – sugeriu, em tom de voz baixo. – A mulher dele deve ter dormido de calça jeans, releva.
Concordei, contendo meu ímpeto de respondê-lo, revirando os olhos e voltando para onde estava meu material. Ficar quieto parecia mais sensato que criar confusão, por mais que contrariasse os meus costumes.
Pouco tempo depois, sentado ao lado de , tentei me concentrar na demonstração de feixes de luz sobre os espelhos, o que não era tão complicado assim. e sanavam minhas dúvidas, e mesmo sem eu entender de primeira, acabava acertando algumas poucas coisas que me arrisquei em fazer. O que não significava que eu daria algum dado para o relatório; servi apenas de escrivão.
- Só de pensar que falta só mais um mês pra isso acabar, me sinto mais leve. – comentou, passando a folha que tinha acabado de escrever para .
- Também. – a outra concordou. – Não aguento mais acordar cedo, voltar tarde pra casa, ter que revisar matéria antes de dormir...
Eu já não suportava tudo aquilo – com exceção de revisar – há bem mais tempo. E ainda sofria o dobro de pressão. Nem mesmo tinha me acostumado a equilibrar grades curriculares e extraclasses, estava agora a ponto de surtar com o excesso de informações na cabeça. Precisava de férias, e logo.
- Ainda bem que é final da semana, praticamente. – comemorou, relaxando sobre a cadeira. – E a tal festa lá, da Amelia, parece que vai ser boa.
- Vocês também vão? – perguntei, curioso, intrometendo-me no assunto.
- Claro! – ela falou em tom de obviedade. – Meu nome é , quase soa como festa!
- Quem ouve até pensa que é assim. – observou , satirizando a amiga, me fazendo rir baixo.
- Você parece o , falando assim. – constatei, vendo franzir o cenho, descrente.
- O ? – a ouvi questionar, totalmente em negação. e eu concordamos com a cabeça, emitindo sons positivos. – Nada a ver, gente!
- Eu acho que parece, sim. – tornei a dizer.
- Já tinha falado isso, ela que não acredita em mim. – justificou-se , voltando-se para o relatório.
- Vocês dois tão combinados nessa história. – rebateu .
- Não preciso combinar, conheço o tempo suficiente pra dizer isso com certeza. – argumentei, convencendo-a.
- Tá, que seja. – ela desconversou, balançando as mãos no ar. – O importante é que sábado eu vou pra festa, e a também.
- Mesmo? – procurei não parecer tão surpreso ou interessado (aliás, por que eu estaria interessado?). As festas dadas por Amelia não eram bem do tipo de , já que o que mais têm são bebidas e pessoas se agarrando pelo quintal e jardim, já que a casa sempre fica trancada e apenas pessoas de confiança recebem as chaves. Imaginá-la em um cenário como esse é estranho demais.
- Aham. – respondeu pela amiga, animada. – A gente sempre vai junto pras festas, não importa onde.
- Sério? – me surpreendi um pouco mais. – Nunca vi vocês.
- Você nunca quis ver, por isso. – esclareceu relativamente, com os olhos fixos na folha de papel. – Porque nós sempre acabávamos esbarrando em você e seus amigos. Não no sentido literal, claro.
Revi imagens de festas passadas, tentando me lembrar dos rostos das duas. Era difícil recordar qualquer coisa, já que eu sabia que havia bebido além da conta na maioria das ocasiões. As pessoas parecem todas as mesmas quando se está bêbado. E, mesmo parecidas, nenhuma se assemelhava às duas que eu queria lembrar.
- Mas relaxa. – disse , despreocupada. – A gente não se falava, mesmo. Não faz muita diferença.
- Pois é. – concordou, ainda sem nos olhar.
- Enfim, você vai também, né? – perguntou , alegre. Eu tinha enrolado Allison e Emma com a resposta, mas a razão era diferente: se dissesse que sim, seria o motorista delas. Duvido que minhas colegas de classe fossem querer o mesmo.
- Vou. – concordei simplesmente; sorriu em aprovação, e continuou conferindo o relatório.
- Acho que vou ter que me fazer de invisível mais uma vez. – murmurou, não muito baixo para que eu não ouvisse.
- Por quê? – investiguei, já imaginando a resposta.
- Nada, esquece. – e antes que eu pudesse insistir, ela se levantou para entregar o trabalho ao professor.
- É meio óbvio que a não vai com a cara da Allison, e também que você vai estar com ela na casa da Amelia. Não falar contigo é o melhor jeito de não ter que a encontrar. – alegou , defendendo a amiga. No fundo, tenho certeza que ela quis mudar as pessoas da situação. Mas eu não deixaria explícita a minha hipótese. Ainda.

Ter a mente vazia me perturba. A cada vez que eu consigo limpá-la, um pensamento surge para desperdiçar todo o meu tempo. Ainda assim eu tentava tirar da cabeça o pensamento fixo de que havia sido cúmplice dos meus pais, mesmo sem saber. Eu não sabia ao certo se devia me sentir indignado, humilhado ou com raiva. Parecia não ter processado a ideia por completo, esperava que houvesse algo ali que atenuasse o ocorrido. Soava absurdo demais a sentença de que Otto e Susan tinham subornado o diretor de um colégio para não ter um filho reprovado. O que eles pretendem com isso, afinal? Manter a boa imagem? Esconder dos amigos deles o fracasso que eu tenho sido? Eles sequer pensaram na possibilidade de eu não conseguir o suficiente e de qualquer jeito reprovar? Ir para outro país nunca me pareceu tão certo, e não era só durante as férias.
Com todo o assunto martelando em minha cabeça, desliguei o chuveiro e sacudi a cabeça para tirar o excesso de água do cabelo. Dizem que um bom banho morno ameniza o estresse, mas eu começava a duvidar. Me enrolei em uma toalha, deixando o banheiro da suíte para me vestir. Já aceitável para circular pela casa, desci até a cozinha para pegar uma garrafa d’água e ir, enfim, pro porão, onde eu podia tocar sem ser incomodado, uma vez que o mesmo tinha sido reformado e adaptado com isolamento acústico. De toda a estrutura megalomaníaca da casa, aquele era o cômodo mais bem planejado. E o menos utilizado, exceto por mim.
Atravessando a sala para chegar à escada, cruzei com o caminho de Livie, que me cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso. Fiz o mesmo, então indo degraus abaixo, fechando a porta em seguida. Porém logo tive de abri-la para quem batia. Confirmando a minha teoria de que não havia ninguém além de nós em casa, Livie foi quem eu vi e dei passagem.
- Desculpa se tô te incomodando. – disse ela, sem jeito.
- Que isso, você não me incomoda. – interrompi, andando até um dos cantos da saleta, onde estava a minha e um banquinho.
- Desde quando você deu pra fazer média com todo mundo, ? – ela zombou, sentando em uma poltrona.
- Dentro de casa, você é a primeira que eu faço. – respondi, não deixando o ar bem humorado. – Eu geralmente não deixo nem entrarem aqui. – completei, piscando.
- Bom saber que eu continuo sendo a primeira na sua vida. – Livie sorriu, e vi nela a mesma garota de Southsea. Retribuí seu sorriso, deixando de lado a ideia de tocar, ainda que baixinho, enquanto conversávamos. – Mas não é bem sobre isso que quero falar agora.
- E o que seria? – perguntei, me recostando na parede.
- Consegui o emprego! – guinchou ela, não contendo a felicidade que aparecia por todo seu rosto. – Começo semana que vem.
- Uau, eu... fico feliz por você! – falei, surpreso, sem saber como reagir à notícia. – Muito feliz mesmo, parabéns!
- Brigada. – ela pareceu se conter, controlar as emoções perante a minha falta de jeito.
- A gente precisa comemorar! – tentei diminuir o descompasso, me levantando. – Não é todo dia que isso acontece.
- Verdade. – e parece ter funcionado, pois a vi reanimar. – Ainda mais comigo.
- Era só uma questão de tempo até chegar o dia. – motivei. – Então, vamos? É por minha conta.
- Mas já? Assim, do nada? – indagou ela, admirada com a proposta-relâmpago. – Eu nem tô arrumada, tô um molambo!
- Tá ótima, garota. – repreendi sua resistência, puxando-a pelas mãos para que se erguesse logo. – Você é linda até do avesso, não precisa se preocupar. – acrescentei, não para ser galanteador, mas para apressá-la mesmo.
- E a Angie? – Livie me lembrou do, literalmente, pequeno detalhe.
- A gente leva junto, qualquer lugar, hoje em dia, tem berçário. – respondi, como se entendesse muito bem do assunto.
- Tá, tudo bem. – ela finalmente concordou. – Mas eu realmente preciso me arrumar e pôr um agasalho no meu filhote, você espera? – e pediu, me chantageando emocionalmente ao fingir estar chateada por eu querer sair imediatamente. Assenti, sem mais o que fazer, recebendo um abraço apertado em troca. E rápido como ela me abraçou, me soltou. – Valeu! Prometo que não demoro!
Livie correu escada acima, entusiasmada. Engraçado como garotas se dizem tão maduras, mas se contradizem totalmente ao menor capricho feito. Eu via na minha amiga mais um retrato de anos atrás que a imagem real dos dias de hoje – nada que um tempo longe de casa não fizesse. Segui seus passos até a sala, onde aguardei sentado no sofá. Realmente não esperei muito, pois cerca de vinte minutos depois, mãe e filha já estavam prontas. Livie, apesar da minha insistência do contrário, deixou um recado para os meus pais, avisando-os aonde iríamos e que não demoraríamos, já que estávamos com a bebê.
Fomos a um bistrô perto do centro. Pedimos uma mesa em um lugar mais afastado para não perturbar Angie, que estava prestes a dormir. Fizemos os pedidos rapidamente, já que o importante não era a comida.
- No que você vai trabalhar, exatamente? – perguntei, observando o cuidado com que Livie balançava o carrinho da filha.
- Assistente geral. – disse ela, com olhos somente para a pequena. – Vou ser praticamente uma faz-tudo.
- Que coragem a sua. – comentei, rindo e a fazendo rir.
- É mais por necessidade, mesmo. – ela consertou. – Não quero depender do meu pai pra sempre, nunca gostei de depender de ninguém.
- Imagino... – concordei, vendo em suas palavras algo que me definia.
- Aliás – Livie continuou –, já andei procurando um teto pra mim. – ergui as sobrancelhas, surpreso. – É difícil achar uma casa pra alugar nessa cidade, mas consegui ver duas que cabem no orçamento, mesmo se Stephen só puder vir no segundo semestre.
- Antes disso, você não devia terminar o colegial e tudo mais?
- Avanço escolar. – respondeu ela. – Terminei com quatro meses de gravidez, ainda dava pra esconder a barriga e os quilos a mais.
- Duvido que você tenha engordado. – franzi a testa, descrente. – Você continua a mesma desde a última vez que te vi. Quer dizer, tem algumas diferenças, mas não muitas.
- Ah, claro. – ela riu com sarcasmo. – Tô com olheiras gigantes...
- Mas os seus olhos continuam sendo cor de céu, chamam mais a atenção que elas. – interrompi, sorrindo com cortesia.
- Tô acima do peso... – Livie foi indiferente. Eu sabia que, na verdade, estava adorando ser bajulada.
- Não consigo ver nada sobrando. Nem uma pelanquinha. – argumentei, fazendo-a rir.
- E pareço três anos mais velha. – completou ela, erguendo a sobrancelha como se me desafiasse a elogiá-la por isso.
Mulheres...
- Rostos maduros costumam ser sex appeal, sabia? – lancei uma piscadela a Livie, que abaixou o olhar, balançando a própria cabeça.
- Você nunca desiste, não é? – ela indagou, mexendo nos talheres sobre a mesa.
- Por uma boa causa, nunca. – respondi de imediato, percebendo que havia ganhado a chance perfeita para, digamos, relembrar os velhos tempos (e brincadeiras) com ela. Não queria ser canalha nem forçá-la a nada, então a solução mais cabível era conquistá-la aos poucos, talvez até misturando memórias de uns anos atrás com os dias de hoje. Se ela tivesse em mente cada história nossa, mesmo que resistisse um pouco, acabaria cedendo às saudades. Eu estava torcendo piamente para que isso acontecesse.

Capítulo 17

Ele não havia dormido muito durante a noite. O que não significava que não havia dormido bem, muito menos que estava indisposto. Passar horas conversando com Livie tinha sido deveras divertido. sentia falta de conversas calorosas, o que não vinha acontecendo com frequência: em sua própria casa, mal trocava uma palavra; no colégio, dizia apenas o necessário – as conversas com os amigos deixaram de ser interessantes. Estava em um estágio em que a pergunta “O que está acontecendo comigo?” era quase um mantra. Aquele não era o seu normal. Ele sentia que não era. Mas não sabia quando tudo tinha começado a desandar daquela forma. Ainda assim, por mais que tivesse razões para estar ranzinza, ele sorriu ao pensar no dia anterior.
Coçando a cabeça enquanto se levantava, o garoto repassou os compromissos do dia – colégio, teatro, casa –, notando que sua rotina ultimamente andava simples e monótona demais. Estava resumida à escola, basicamente. Onde tinham parado as idas à casa de para tocarem juntos, os passeios de carro pelo centro, as noites ao lado de uma garota? Somente uma semana turbulenta foi capaz de deprimi-lo daquela maneira. Ele se sentia exausto sem sequer fazer um terço do que costumava.
Era assim que ele deveria continuar até o fim do colegial? A ideia era tão maçante, entediante. não via a hora do ano letivo terminar. Não haveria mais aulas, ensaios, regras, nada. Pelo menos por um período suficiente para que ele se recuperasse de toda a mudança que sofria. Faltava apenas um mês. Quatro semanas. Alguns dias – dar um valor a eles não soava lá tão bem.
Animado com a contagem regressiva, ele se arrumou rapidamente. Quando calçou os tênis, reparou que as sandálias de Livie estavam no canto do quarto, perto da porta, lembrando-o da cautela que a garota teve para não acordar a filha, que dormia na suíte ao lado. Então ele riu ao recordar-se, também, que o esforço fora em vão, uma vez que os dois riram alto o bastante para acordar a pequena Angie. Livie teve de correr para amparar a bebê, esquecendo-se dos calçados. O garoto, após pronto, pôs a mochila nas costas e tomou as sandálias em mãos, deixando-as à porta do quarto de hóspedes para não incomodar nem Livie, nem Angie.
Otto já tinha ido trabalhar, pelo que notou. Porém, Susan ainda estava em casa. E estava na sala, sentada no sofá, aguardando pelo filho. Ele engoliu a seco, não esperando que aquilo viesse a acontecer. E, ao invés de dar as costas como sempre, ele preferiu ouvi-la.
- Onde estão as chaves? – perguntou a mulher, sem cerimônias.
- Comigo. – respondeu ele, em tom de obviedade.
- Então me devolva. – ordenou ela, igualmente. O garoto riu sem humor. – Acha engraçado me desafiar, ?
- Te desafiar? – questionou ele, cínico. – Claro que não. Acho engraçado você ainda tentar se impor.
- Pois fique sabendo que eu não vou aturar seus desaforos. – Susan se ergueu, esforçando-se para não se exaltar. – Me dê as chaves, . Você está de castigo, não devia ter pegado nada.
- Eu tô de castigo? – disse o filho, rindo abertamente e batendo palmas. – Muito boa essa, hein! – então cessou a aclamação, subitamente sério. – Aposto que você tá escondendo do seu marido que tá indo de táxi pro trabalho, já que peguei as chaves do seu carro.
- Ande logo, . – apressou a mãe, estendendo a mão.
- Ou o quê? – disse ele, petulante. – Vai me subornar, que nem fez com o diretor? Aliás, vocês e meu pai devem ter dado uma baba pra ele, não é? – acrescentou, a voz cuspindo puro desprezo. – O cara quer até conversar comigo!
- Não seja ridículo. – Susan debochou, tão dissimulada quanto o filho.
- Sabe, ele me deu um ótimo conselho... – continuou ele, indiferente. – Disse pra eu dar valor aos estudos, porque meus pais davam. A propósito, de quanto foi o cheque? Três mil? Cinco?
- Já chega, ! – ralhou ela, estupefata com as acusações.
- O que vocês dois não fazem pra manter as aparências, não é? – ele indagou, em um misto de nojo e decepção. - Como se não bastasse ter perdido um filho, afastam o outro. E tudo exatamente porque não são capazes de admitir que o que fazem é enganar os outros. – e, lutando contra a enorme mágoa que subia por seu corpo, tentando chegar aos olhos, preferiu encerrar o assunto. – Às vezes eu queria que vocês me dessem algum motivo pra ter orgulho. Ou até mesmo pra que eu quisesse os orgulhar.
, enfim, fitou sua mãe nos olhos, triste. Aqueles olhos cansados, tão iguais aos dele, estavam atordoados. Cada par de bilhas refletia as mil emoções ruins que sentiam. Ele também se perguntava o que levaria uma família a se autodestruir como a dele. Tantos momentos felizes, regados de companheirismo e, principalmente, amor, foram deixados para trás em prol da ganância, da altivez. Cada um teve sua parcela de culpa; à sua maneira, cada qual teve seu erro. Entretanto, aos olhos do garoto, aqueles que deviam ser o sustentáculo, a base da relação, foram os que mais falharam e continuam a falhar. E os danos eram praticamente irreversíveis.
Com todo o bom humor esvaído, observou, apático, a falta de palavras de Susan, que recolheu a mão e a levou ao estômago, amuada. Revirou os olhos, negando-se a se comover. Ele não recebia o direito de demonstrar fraqueza, logo ela não teria o mesmo. Era justo. Por mais anacrônico que fosse, ele agiria segundo a primordial lei do “Olho por olho, dente por dente”. , então, deixou o cômodo, pisando firme e rápido.
Ele não precisava passar por aquilo. Toda vez que se sentia bem, alguém lhe uma rasteira, largando-o no chão, ao cargo de cuidar das próprias ferias. Ele já estava cansado. Queria que a situação mudasse. Fazia tanto tempo que não conhecia a harmonia...

Ao estacionar em frente ao colégio, desligou o rádio e aproveitou o silêncio para aspirar um pouco da calma que habitava o carro. A chuva fina que caía tinha afugentado os alunos que costumavam ficar no portão, esperando os outros chegarem. Tirando os poucos que apenas passavam por ali, havia somente ele. Ele e seus pensamentos, tormentos, lembranças... E a imagem de Leonard, que se fazia sempre presente em momentos angustiantes como aquele, embora só na mente do irmão.
pousou o cenho sobre o volante e fechou os olhos firmemente, como se alguém lhe apertasse os pulmões; o coração mal cabia no peito. Qualquer memória o levaria até aquela noite, que, apesar de estrelada, tornou-se um marco na vida dos . conseguia ouvir as sirenes, o falatório, os choros. Sentia o mesmo desespero por não saber o que acontecia, enquanto Victoria insistia em lhe dizer que não era nada. Ele sempre soube que toda a correria tinha uma razão tão grave que preferiam não lhe contar. No fundo, ele sabia que aquela noite na casa de praia traria mudanças. Só não sabia que seriam tão dolorosas. Doíam sete anos depois. Sete anos suportando a falta do irmão, do melhor amigo. Sete anos vendo o que costumava ser céu se tornar o inferno. Sete anos suprindo a necessidade de ter alguém para conversar com somente imagens. Exatamente como naquele momento.
Mas ele não podia passar a manhã toda ali, trancado no carro, em frente à escola, enquanto a chuva insistia em cair. Entretanto, a vontade de prestar atenção e obediência não lhe existia há um tempo. Decidido a cabular, o garoto deu a partida, logo saindo da área do colégio. O relógio no painel marcava sete e dez, tinha chegado bastante adiantado para aula. Qualquer lugar da cidade estaria fechado, exceto confeitarias e cafés. Seria para um desses – o mais próximo – que ele iria.
Fez o retorno pela rua principal, passando pela parada de ônibus da redondeza. Viu alguns rostos conhecidos (e sonolentos) por ali, mas um em particular o fez parar. Como era possível sempre aparecer nas horas mais oportunas? se viu mais tranquilo ao vê-la, bem ou mal, teria alguém para distraí-lo ou, na pior das hipóteses, fazê-lo desabafar. Ela não era como – com seus assuntos limitados – ou Emma – que mais queria falar sobre o que não o interessava –, e muito menos como Allison – que, desde o rompimento, expelia rancor toda vez que trocavam uma palavra. Por essa razão, sem pestanejar, o garoto correu até ela.
- ? O que você tá fazendo aqui? – perguntou de imediato, surpresa por tê-lo parado à sua frente. – Digo, por que não tá no colégio?
- Eu... – hesitou em dizer a verdade. Ela não concordaria, se soubesse. –... tô indo tomar café, esqueci de tomar em casa. – completou, rindo sem jeito para reforçar a pequena omissão. – Sabe algum lugar por aqui?
- Sei. – respondeu ela, desconfiada. – Tem um café a duas quadras daqui. É só seguir reto.
- Valeu. – disse o garoto. – Quer ir comigo?
- Ah, não! Imagina. Já comi agora há pouco, e ainda tenho que ir pra aula.
- Eu também tenho. Somos da mesma sala, lembra? – ele indagou, tentando convencê-la.
- É, lembro. – ela riu da própria confusão. – Mas mesmo assim, já tá quase na hora da entrada.
- Eu tô de carro – argumentou, apontando com a cabeça o automóvel –, tempo e distância não são problemas. – e sorriu com confiança, arqueando uma sobrancelha. – Então?
- Não sei... – foi o que respondeu, desviando o olhar. Ela queria, mas não se deixava levar, ele sabia disso. Outrora ouvira que para uma garota dizer “sim” com todas as letras e significados, um garoto deveria oferecer o céu a ela.
não tinha o céu. Tinha um café.
não tinha dito “sim”. Tinha dito “não sei”.
Para ele, aquilo era um “sim”.
- Vamos lá, ! – o garoto incentivou, segurando-a pelos ombros. – Eu sei que você quer, então para de bobeira. – em seguida a conduziu ao carro, cujo pisca-alerta estava ligado.
- Não adianta dizer não, mesmo. – comentou a garota, dando-se por vencida. Foi obrigada a confessar, ainda que só para o seu interior, que gostava quando era espontâneo, quando parecia agir sem outras intenções. Era bom ter alguém que a fizesse rir, mesmo às sete da manhã de sexta-feira.
Só de pensar na ocasião, ela deixava seus lábios se erguerem. Quem mais faria aquilo por ela?
- Exatamente, não adianta dizer não pra mim. – ele riu, dando a volta no Land Rover enquanto a garota já se punha no banco de passageiros. – É bom que você me mostra onde fica o lugar.
- Não é tão difícil achar. – disse , olhando-o diretamente. Estava confortável para tratá-lo com mais liberdade, sem precisar controlar o que dizer ou fazer. A atmosfera entre os dois havia se formado natural e suavemente. Como se estivessem acostumados a ter a presença do outro.
- Eu não fico andando por tudo quando é canto por da cidade, dá um desconto. – justificou-se , em tom de brincadeira.
- Eu também não. – a garota se defendeu. – Mas esse é o caminho pra minha casa, não tem como eu não conhecer. E você também devia, já que já foi até lá.
- É mesmo? – perguntou ele, fingindo indiferença.
- Aham. – ela respondeu de forma infantil. – É a única casa toda branca da rua, o resto é tudo de tijolos.
- Sério? – ele indagou; ela assentiu. Tinham um ar afável e inocente ao proferirem as palavras. – A minha também é branca, mas não toda. E tem um jardim bem grande do lado, com uma árvore que já tem quase cem anos, no meio. – acrescentou, e conteve suas emoções em um sorriso pequeno.
- Me fala mais. – pediu ela.
- Embaixo da árvore tem um banquinho. – ele continuou. – Quando eu era mais novo, todas as vezes que o cachorro do vizinho, Santi, fugia pra lá, eu e meu irmão íamos atrás dele... – parou de repente, mas não por se sentir mal. Das memórias de Leonard, as alegres, como aquela, haviam sido esquecidas. E agora uma lhe surgia para animá-lo. – Mas aquele bicho sempre correu mais que eu, até hoje é assim. Por isso eu não faço mais nada, uma hora ele cansa e vai embora.
- Não sabia que você tinha um irmão. – a garota disse animada, ainda de lado no banco para encará-lo. – Qual o nome dele? Você é o mais novo, né?
Ele poderia contar toda a história e encerrar o assunto. Porém, preferiu responder de forma mais amena:
- Leonard. Leo. E eu sou o mais novo, sim. Cinco anos de diferença.
- Então ele tem vinte e três? – deduziu , curiosa. assentiu, sorrindo para si ao imaginar como seria ver o irmão chegar à maioridade. – E por que você nunca comentou nada sobre ele? Quer dizer, nem quando fui pra sua casa eu o vi, e você também não falou nada...
- Ele mora sozinho. – mentiu, mantendo as mesmas feições. – Faz tempo que a gente não se fala, ele anda bastante ocupado.
- Ah, sim. Entendo. – disse ela, por fim. Virou-se para frente, na falta do que dizer (preferia apenas refletir a falar demais). E notou que não existia aquele famoso “silêncio constrangedor”. Existia o silêncio, somente, o que não costumava existir entre os dois. Mesmo que não dessem uma palavra, sempre tinha a música. não vivia sem música, como a garota pôde constatar um tempo atrás. Vê-lo tão rodeado pela quietude era uma surpresa.
Ponderando sobre o pequeno detalhe, fez uma pergunta crescer em si: por que ela se importava?

’s P.O.V.

Chegamos a um pequeno café em muito menos que dez minutos. Era um lugar pequeno, as portas de vidro tinham cortinas de renda para dar privacidade às pessoas. Pedi um Expresso e um Chocolate gelado – para , que se negava a escolher algo –, acompanhados de Cheesecakes e Muffins. Os pedidos já tinham chegado há cerca de vinte minutos. Já havíamos perdido o primeiro período, e eu torcia para que ela não notasse.
Eu estaria perdido se isso acontecesse.
Tentava distraí-la de diversas formas. Puxava assuntos aleatórios, fazia piadas e palhaçadas com a comida... Estava fazendo de tudo para que ela se esquecesse das horas. A verdade é que, se pudesse, preferia passar o dia com a ir a uma aula qualquer. Bastava fazê-la rir para que ficássemos bem. Eu não precisava impressionar para receber sua atenção, podia ser eu mesmo, afinal, ela mal me conhecia. Eu mal a conhecia. E assumo que gosto muito mais de tê-lo feito. Era uma descoberta e tanto, pra mim, sair com uma garota mais... normal. Por que nós estávamos saindo. Não como num encontro – até porque ela deixou claro que não tínhamos nada –, mas saindo. E era divertido desse jeito, sem máscaras ou conceitos formados. Eu estava conhecendo melhor; estava me conhecendo melhor. Eu estava gostando disso, e queria que fosse recíproco. Talvez estivesse só confundindo (ou sendo tentado pela dificuldade), contudo acho que e eu podemos, não sei, dar certo. Não é tão impossível assim, é?
Parei para olhá-la melhor enquanto seus dedos giravam o canudo dentro da taça, remexendo a espuma do chocolate no fundo da mesma. Seu rosto estava suave, os olhos baixos e a boca – rosada e convidativa – enviesada. Eu queria aqueles lábios de novo, queria poder beijá-los. Era tortura querer algo e ter de esperar para ganhar. Infelizmente, eu devia esperar um sinal qualquer para poder investir. E de uma coisa eu tinha certeza:
Como é chato fazer tudo certo!
- Boa tentativa. – ela disse após um tempo, ainda olhando para sua bebida. Ergui as sobrancelhas, confuso.
- Quê?
- Boa tentativa. – repetiu ela, erguendo seu rosto. Ainda tinha seu pequeno esboço de sorriso, logo não me preocupei com o que diria. Apenas continuei a encarando, esperando que terminasse. – Mas eu já tinha percebido que estávamos perdendo a primeira aula. – continuou, como se tivesse lido meus pensamentos anteriores, sem mudar suas expressões em nenhum momento. Parecia que eu me olhava no espelho ao vê-la tão irônica, e, por mais estranho que fosse, gostava daquilo. – Agora podemos voltar. Eu ainda quero ver as outras aulas; não é porque meu irmão faltou que vou matar aula por aí.
- Se você sabia, por que não disse antes? – indaguei, intrigado com sua atitude.
- Não sei. – respondeu ela, dando de ombros. – É final de semana, todo mundo tá de saco cheio da escola, inclusive eu.
- Então por que quer ir pra lá?
- Porque não posso ficar fugindo de tudo que eu não gosto. – disse em tom mais brando. – Vir aqui com você foi só uma concessão. Ainda preciso ir aos únicos compromissos que tenho, o colégio e o teatro, mesmo que não esteja a fim de fazer um deles. Cumprir tarefas chatas faz parte. – e riu sem vontade.
- Tem razão. – ponderei, absorvendo muito mais do que ela quis me falar.
- Então vamos? – sugeriu ela, afastando de si a taça.
- Vamos. – assenti, chamando uma garçonete para acertar a conta. permaneceu ao meu lado o tempo todo, solene e paciente. Me lembrava Livie, apesar das diferenças físicas.
- mais que nunca vai ficar falando no meu ouvido. – a ouvi murmurar enquanto íamos para o carro.
- Como assim? – perguntei por impulso, curioso.
- Ah, nada! – ela guinchou, sem graça.
- Você sabe que não dá pra me negar nada, não sabe? – instiguei, sorrindo com confiança. Ela suspirou, conformada.
- É que ela tá com a ideia fixa de que... – uma pausa longa, desconfortável, da parte dela, e dispensável, da minha. – Você sabe, que a gente tá tendo alguma coisa. Na verdade, não só ela quem acha isso.
Alarguei meu sorriso sem perceber, contente com o que tinha descoberto. O apoio de eu já tinha. E a falta de jeito de devia significar algo.
- E o que você acha? – não pude conter meu ímpeto de perguntar. Eu precisava saber.
- Que não temos nada, ué. – ela disse rápido, como se precisasse negar para se sentir melhor. – Quer dizer, já disse que é melhor irmos com calma. – Mas não disse o “se”, pensei comigo.
- Significa que teremos alguma coisa, então?
- Eu não disse isso! – vi seu rosto ganhar um tom avermelhado.
- Mas também não disse o contrário. – argumentei, parando em frente ao Land Rover.
desviou seu olhar do meu, retornando-o em seguida. Arqueei as sobrancelhas, indicando que ainda aguardava sua resposta. Ela mordeu o lábio inferior com delicadeza, chamando minha atenção para o mesmo sem que quisesse. Suas mãos se uniram, mexendo-se sem controle algum.
- É, foi. – concordou, a voz baixa e hesitante.
- Você tá nervosa? – perguntei, ela negou. – Com medo? – perguntei novamente, e dessa vez consentiu. – Não precisa ficar. – me aproximei devagar e com cautela. – Sou eu, . O garoto do fundo da sua sala, que vai subir no palco com você. – seus olhos não queriam mais fugir dos meus, estavam todos, os meus e os dela, presos uns aos outros. – Já vamos fazer tantas outras coisas juntos, por que não mais essa?
- Tudo que eu faço que envolva você é sem planejar. – disse ela em um só fôlego. – E eu tenho medo disso. Já te disse, não consigo fazer nada assim. Sempre sai tudo errado. Eu preciso saber o que tá acontecendo ou que vai acontecer pra poder me preparar.
- Não precisa se preocupar com isso. – toquei seu rosto também por impulso, acariciando sua bochecha com o polegar. Eu estava feliz pelo que tinha dito. De certo modo, eu havia mexido com ela ao fazê-la agir sem pensar, sem saber o que vai acontecer. – Tudo vai sair bem. Eu dou conta. – vi seu rosto se acender quando sua boca se abriu em um sorriso sem timidez.
- Essa é a primeira vez que fico satisfeita em ouvir essa frase. – disse ela, rindo e me fazendo rir.
- Então, só pra você ter domínio da situação, fique sabendo que eu vou te beijar agora. – anunciei, encurtando o caminho até seu rosto. – Mas não vou te dar tempo pra planejar nada. – completei, soprando um riso ao tempo que já fechava os olhos. Moldei minha mão livre à forma de sua cintura, tomando todo cuidado possível para não a assustar. Eu já sabia e havia dito a mim mesmo que não era como as outras, logo não podia tratá-la da mesma maneira. Devia pensar duas vezes, por mim e por ela, antes de qualquer atitude. Não estragaria tudo mais uma vez.
Seus lábios macios que se puseram sobre os meus. Podia, então, dizer que ela queria aquele beijo tanto quanto eu. Mas nenhum de nós acelerou ou intensificou nada. Estávamos, na verdade, reconhecendo um ao outro, e não tínhamos pressa, apesar de atrasados. Estávamos ótimos daquele jeito. E ficamos ainda melhores quando respondeu ao meu abraço, me rodeando pelo ombro e dorso – uma reação desajeitada, mas importante como as outras. A forma com que seus dedos me seguravam, receosos para não me apertarem, mostrava a insegurança dela em dar qualquer passo. não queria fazer nada errado, realmente, esperava que eu agisse. No entanto, não podia a surpreender logo de cara. Eu também não queria errar. Não com .
Preocupado, tive de ser cuidadoso, tocar os lugares certos. Por isso me limitei a envolvê-la pela cintura e quadril – sempre pela lateral – ou costas. Continuei assim, lento, até que enlaçou minha nuca, dando um passo curto em minha direção para que ficássemos mais próximos. Senti a necessidade de segurá-la mais forte quando um aroma cítrico misturado ao floral chegou a mim. Eu já conhecia aquele perfume, mas havia me esquecido durante os dias que passaram – como eu consegui? tinha cheiro de frutas e flores, e era um sinal claro de que era muito mais feminina e sensível que mostrava. E aquele pequeno segredo era adorável.
Mais adorável ainda era a ideia de que, de todas as pessoas que conhecíamos em comum, eu sabia daquilo.
Sorri comigo mesmo, encerrando o beijo sem querer. Rapidamente segurei o rosto de para que ela não se afastasse, mas já não conseguíamos conter o riso sem motivo. Enfim a soltei, encarando-a.
- Viu? – chamei sua atenção. – Não foi tão ruim assim, foi?
- Não, que isso. – respondeu ela, pondo uma mecha de cabelo para trás. – Eu tava com medo, mas não era de você beijar mal nem nada. – brincou, comprimindo os lábios. – Até porque eu já sabia que não é bem assim há umas... duas semanas, acho.
- Uma, só. – corrigi, buscando suas mãos para segurar.
- Quase duas. – insistiu, me fazendo lembrar. – A propósito, desculpa por invadir a sua casa aquele dia. Eu não costumo fazer isso.
- Tá tudo bem. – dei de ombros, puxando-a para mim inocuamente. – Foi até bom. Muito bom.
- Sou obrigada a concordar. – ela espalmou as mãos no meu peito, logo depois ajeitando a gola da minha camisa. Nem em momentos de descontração ela deixava o perfeccionismo de lado.
- É bom mesmo, senão te deixo a pé. – disse em tom de desafio. Ela arqueou a sobrancelha, também desafiadora. Desfez sua expressão ao sentir uma pequena gota d’água cair sobre a ponta de seu nariz. – Acho melhor voltarmos logo pro colégio.
- Eu também acho. – apressou-se em dizer, rindo. Beijei o lugar em que a gota estava, aproveitando para descer um pouco. – ... – resmungou , me censurando. – Você disse que era melhor irmos. Vamos acabar perdendo a segunda aula também.
- E daí? – falei contra sua boca, em tom de brincadeira.
- Não começa. – ordenou ela, afastando-se. Consenti, desativando o alarme e abrindo a porta de carona, fechando-a após entrar. Dei logo a volta no carro e me sentei no meu devido lugar. – , posso te pedir uma coisa?

’s P.O.V.

Poderia dizer milhares de coisas aleatórias em vez daquilo. Poderia dizer simplesmente para ele esquecer, alegando que era bobagem. Mas não seria honesta comigo mesma nem com , se o fizesse. Eu estava com muito medo, sim. Medo das reações dos outros – que não os meus amigos, claro. Nós dois tínhamos acabado de nos envolver com outras pessoas, e eu ainda não tinha dado um ponto final na minha “história” com , não queria acabar brigada com ele. Era importante ter uma relação saudável com ele, já que era amigo de Noel. Eu não me sentiria bem se tivéssemos que fingir nos dar bem ou nos ignorar na frente do meu irmão, se isso acontecesse.
E, principalmente, tinha medo de acelerar o que e eu tínhamos, seja lá o que aquilo fosse. Só depois de dizer em alto e bom som que percebi com agia exatamente como ele: impulsiva, espontânea. Impulsividade é agir sem medir consequências, e eu não podia ser assim. Já era bastante difícil me ver sempre cedendo a ele, por mais que eu relutasse. Tinha medo de que, com essa impulsividade, eu acabasse gostando de . Indo devagar, eu poderia controlar melhor minhas emoções.
- Claro. – respondeu, ligando a ignição.
- A gente pode ser discreto no colégio? – não hesitei mais em dizer. – Não quero dar aos outros o gosto de se meterem na minha vida.
- Tá... – falou ele, um pouco incerto.
- Não que eu não queira ficar contigo ou queira ficar contigo escondido. – tentei olhar em seus olhos, mas ele preferia encarar o caminho. – Só quero me acostumar com a ideia sem quem fiquem falando no meu ouvido. Você sabe como as pessoas são.
- Sem problemas, eu entendo. – com isso, percebi que não estava bravo pelo meu pedido. Pro meu alívio. Ele se virou em minha direção, assentindo solenemente. E eu senti que tudo ficaria bem, daria certo; senti que poderia confiar nele apenas por sua palavra. Afinal de contas, de que lhe serviria contar vantagem nesse caso? Não havia motivos para que o fizesse, nem para que eu desconfiasse. A partir daquele momento, tudo correria bem.
Chegamos ao colégio e entramos juntos após explicarmos a um inspetor a razão do atraso. Fomos encaminhados para a biblioteca, onde teríamos de esperar até a próxima aula e onde uma turma de série mais baixa fazia trabalhos nas salas de estudo em grupo. Apesar de todos os outros presentes, insistiu em ficar ao meu lado, por mais que eu pedisse para que agíssemos com naturalidade. Minha boca dizia para que ele se afastasse, mas meu interior pedia para que ele ficasse. Eu devia conter meus desejos, mas estavam todos mandando em mim, de modo que me deixei vencer pela persistência de . Mas apenas trocamos palavras, sorrisos e olhares. Cada um com os mais variados significados, todos semelhantes por serem os primeiros realmente sinceros. Eram únicos.
Eram... nossos.

Capítulo 18
’s P.O.V.

chegaria em cerca de duas horas para irmos à casa de , e eu nem minha roupa tinha visto. Noel continuava indisposto por causa da gripe, desde a manhã anterior, o que me preocupou o dia inteiro, mesmo que minha mãe dissesse que estava tudo sob controle. Eu sentia que não devia ir à festa para ajudá-la, mas até meu pai me aconselhou a ir. Isso não significava que eu iria ouvi-lo, já que me sentia responsável assim como ele. E bastou ver meu irmão “de cama” para perder grande parte do entusiasmo para sair. Faria corpo mole, então perderia a hora para encontrar – que havia chamado os táxis, pois seriam, tecnicamente, seis pessoas para ir, e já tinha dito que não seria o motorista – quando chegasse aqui.
Desci para a sala e sentei ao lado de minha mãe no sofá, assistindo Love Actually com ela. Meu pai havia ido à farmácia comprar antibióticos, e meu irmão continuava no quarto, provavelmente no Skype com alguém, já que eu ouvia sons vindos do corredor. Preguiçosa, pus uma almofada no colo da minha mãe e deitei ali, aproveitando para ver o tempo lá fora. Londres, sempre com dias instáveis, estava com o céu limpo, o pôr do sol presente no tom alaranjado que se misturava ao azul. Estava todo conspirando para que eu fosse à casa de Amelia. Se não fosse por Noel...
- Você não tem uma festa pra ir, ? – minha mãe me perguntou, acariciando minha cabeça de um jeitinho que só ela sabia.
- Tenho, mas não sei se vou. – respondi desanimada.
- Por quê?
- Não tô muito a fim. – dei de ombros, desejando que ela não insistisse no assunto. – Não tenho uma roupa que combine, nem sei o que devo usar.
- Você devia parar de arrumar desculpas e ir se arrumar. – ela disse em tom de brincadeira, mas eu sabia que era um conselho. – Daqui a pouco a chega aí, e você ainda tá assim.
- Ela só vai demorar um pouco mais pra ir pra casa da . – rebati tediosa.
- Não me force a te botar de castigo, por não ir, mocinha. – a ouvi alertar, me fazendo rir.
- Eu devo ser a única pessoa que fica de castigo por ficar em casa. – observei, virando meu rosto para olhá-la.
- Pra você ver a minha preocupação por você não querer sair. – minha mãe se justificou, me encarando com desconfiança.
- Eu só não quero ir. – contorci meu rosto em uma careta. Ouvimos o ronco do motor do Honda de meu pai.
- Tio chegou. – anunciou minha mãe, usando o apelido que meu pai odiava. “Parece um marmanjo barbudo e calçudo, me chamando assim”, diz ele.
Ouvimos também ele conversando com alguém, e minha curiosidade foi maior. Levantei-me em um pulo e andei rápido até a janela, espiando por entre as cortinas.
- , por que você tá aqui? – guinchei, alarmada. Ela me arrastaria para fora de casa.
- Boa noite pra você também! – ela sorriu com ironia. – Vim te buscar pra gente ir.
- Você tá duas horas adiantada. – argumentei, xingando-a mentalmente.
- É melhor vocês conversarem isso aí dentro. – interveio meu pai, dirigindo-se a mim com um olhar de repreensão (odiava chamar a atenção dos vizinhos, como estávamos fazendo). Concordei, obediente. Ele e entraram em seguida, e me prontifiquei a levar minha amiga para o andar de cima, emburrada o suficiente por não ter conseguido o que queria. Ao fechar a porta do quarto, se sentou na cadeira em frente à escrivaninha, girando a mesma e largando sua mochila ao seu lado.
- Por que você veio tão cedo? – tentei ser indiferente, me sentando na ponta da cama, de frente a ela.
- Falei com Noel pelo Skype, ele me disse que você ia ficar em casa. – respondeu ela, séria. Não entendia bem sua atitude tão repentina. – Agora eu te pergunto: por quê?
- Não quero mais ir, desculpa. – murmurei, desconfortável. Minha amiga continuava com o mesmo semblante, e isso me incomodava. – O que foi?
- De repente você não quer mais? – perguntou, mas não me deu tempo para responder. – Noel também me disse que tá muito gripado, aliás, ele devia estar na cama, mas aposto que tá falando com a tal Brooke.
- Isso não tem nada a ver. – revirei os olhos, me levantando para ir ao banheiro.
- , por que você não para com essa mania?! – seu tom de voz era estridente e ansioso, alto o suficiente para que eu ouvisse de dentro do cômodo menor, ainda que a porta estivesse fechada. Eu não queria ouvir. – Você se fecha em uma redoma e só deixa o seu irmão dentro. Desculpa, tenho más notícias, o Noel cresceu e tem que viver! E você tem que viver agora em função de si mesma!
Me encostei no balcão do banheiro, cruzando os braços sob o busto. Olhei para o teto e bati o calcanhar no chão, impaciente. Eu não queria falar sobre aquilo, não queria discutir. não entendia os meus motivos, ninguém parecia entender.
- Não posso. – sussurrei, torcendo para que ela não me ouvisse. Uma pausa longa se fez, então passei a pensar no que e já haviam me falado naquele mês. Se elas ao menos se lembrassem da culpa que eu sentia...
- ... – bateu à porta, e eu ouvia seus suspiros cansados. – , olha, desculpa. Eu sei que não devia tá falando isso contigo, mas é que eu me sinto mal de te ver assim, fechada.
Encarei a porta, como se ali visse o rosto da minha amiga. Mordi o lábio inferior, que tremia bastante pelas lembranças que surgiam. Não estava preparada pra mais uma enxurrada de emoções, não naquele momento.
- Vamos fingir que nada disso aconteceu, tá? – continuou minha amiga. – Vamos começar a conversa desde o início e esquecer isso, que tal? Trouxe umas mudas de roupa a mais, a gente mistura as minhas com as suas e monta alguma coisa. Hein?
Não respondi de imediato. Fiquei muda, esperando a angustia – que começava a crescer – desaparecer. Eu odiava me mostrar vulnerável, ainda que para alguém que me conhecesse desde pequena, como . Não era um bibelô, logo não me sentiria melhor se alguém me tratasse como um. Na verdade, aquilo só me irritava mais. Se eu tivesse que chorar ou me deprimir, que fosse sozinha. Por essa razão, quando notei que minha respiração tinha voltado ao normal e o excesso de lágrimas nos meus olhos tinham ido embora, abri a porta, encontrando minha amiga parada bem à minha frente.
- O que você trouxe aí? – perguntei, sorrindo fraco. Ela retribuiu meu sorriso da mesma forma, me puxando pelo pulso para a cama, onde em seguida jogou sua mochila. Apesar dos meus pensamentos persistentes, nos distraímos rápido. No meio de tanto entusiasmo, não pude recusar ir à festa. havia aceitado a minha decisão de não conversar, eu devia aceitar a dela de me levar. Não pela simples troca de favores, e sim para que eu mostrasse a ela que existia reciprocidade por tudo que ela me fazia.
Era bom ver que sempre acabávamos bem. e eu éramos – e ainda somos, vale ressaltar – perfeitas uma pra outra.

Havia balões. Havia música. E pessoas. Muitas pessoas. Chegamos – , Saskia, , e eu. Ben não quis vir por não sei que razão – às dez e alguma coisa, o que não era considerado tão tarde assim para uma festa sem motivos. No pequeno jardim da (grande) casa, alguns grupos conversavam e riam alto, até mais que Blender, que tocava em um volume ensurdecedor. Atravessamos um pequeno corredor ao lado da casa para chegarmos aos fundos, onde a área era coberta por uma enorme lona colorida. Jogo de luzes fazia o chão parecer um enorme caleidoscópio; tudo era cores, da água da piscina, no centro do lugar, às pessoas. Era lindo. Por mais que soasse estranho dizer.
- , você não devia ter vindo com essa roupa. – disse Sassie, prendendo o riso. – Parece que você é o globo de espelhos.
- Idiota! – revirou os olhos, rindo. – Só porque você disse isso, vem comigo procurar alguma coisa pra beber. – e levou Saskia pela mão por uma direção qualquer.
- E você, ? – chamou minha atenção. Voltei meu olhar para ela, me desligando do cenário. – Cadê seu homem? – arqueei a sobrancelha, não só pela pergunta, como pelo termo também. – .
- Eu que vou saber? – foi a minha vez de revirar os olhos. – E, só pra constar, ele não é “meu homem”. Que mania de vocês.
- Ok, não tá mais aqui quem falou. – ela ergueu as mãos, alegando inocência. Ri sem vontade, voltando a olhar ao redor. E a perguntinha de martelou na minha cabeça. Afinal, onde estava ? Ele viria? Eu o veria?
A curiosidade se tornou tamanha que, sempre que podia, tomava conta do corredor para ver se ele surgia por ali. Sentia uma pontinha de vontade de vê-lo, saber se estava bem, como estaria vestido. Era uma ansiedade causada simplesmente por ele ter dito que estaria ali. Estava na expectativa de ver como as coisas andariam, agora que tínhamos chegado a um acordo. Mas claro que não estava passando minha noite só em função dele.
Assim que e Sassie voltaram, cada uma com seu respectivo copo – o de uma com refrigerante, da outra com cerveja –, fomos para o aglomerado de pessoas próximas às caixas de som. Confesso que esperava bem menos; jurava que teria Hip Hop a noite inteira, gente bêbada por todos os cantos, cheiro de maconha no ar e pessoas se comendo pelas paredes – na verdade, havia um pouco disso. Não sei bem por que Amelia tinha tanta má fama por causa das festas que dava. Parecia normal, pra mim.
Cities in Dust era a música que tocava quando fomos dançar. e estavam aproveitando um ao outro, não queriam nem saber de nada ou ninguém. Já , assim que chegamos a um ponto legal, desapareceu. Ignorando – com muito esforço – esse pequeno detalhe, Saskia e eu demos as mãos para não nos perdermos. Eu não ouvia nada além das batidas, e logo meus olhos ficaram cansados de tantas cores. Estava leve e alheia a tudo, chegando ao êxtase apenas por me desligar. Mas fui interrompida por uma voz grave ao pé do meu ouvido. E, assumo, me arrepiei toda.
- Como é que eu nunca te vi antes, linda? – disse um garoto um pouco mais alto, de olhos e cabelos bem escuros. Sorri com o elogio.
- Não sei – respondi –, talvez não nos conhecêssemos.
- Mas eu adoraria fazer isso. – observou ele, sugestivo. – Joe.
- . – disse por educação. Não iria flertar com o primeiro que aparecesse e satisfazer o desejo das minhas amigas, que queriam de qualquer jeito me desencalhar. Não mesmo. – E essa é Saskia, minha amiga. – puxei Sassie pela mão, uma vez que ela não tinha o notado ali.
- Olá, linda! – Joe a cumprimentou, mais animado. Saskia apenas sorriu para ele. – E aí, querem entrar?
- Mas a casa não tá fechada? – indaguei, olhando para minha amiga, que concordou.
- Digamos que eu seja o abre-alas. – ele piscou, erguendo uma chave à altura dos nossos olhos. – E então?
- Vamos! – Saskia estrilou, entusiasmada. Dei de ombros, conformada. Joe me segurou pela mão, nos guiando.
- Sua mão é macia. É perfeita! – elogiou, apertando da palma da mesma às pontas dos dedos. Agradeci, sem entender muito por que ele havia achado logo aquilo incrível.
Me virei para Sassie com os olhos saltados, e ela se limitou a rir. Logo estávamos entrando em uma cozinha cor de mostarda. E ali, sim, era onde aconteciam os boatos. Pelo menos foi o que deduzi ao ver energéticos, destilados, filtros de cigarros e copos vazios, e ao ouvir Joe comentar com um outro garoto “É disso que eu tô falando”. Seus olhares sobre nós eram uma mistura de cobiça e maldade, eu não me sentia mais tão à vontade ali – e nem precisei de cinco minutos. Mas ainda assim, não saí da casa; queria saber as razões para falarem tão mal daquilo.
O tal outro se apresentou como Vince – cabelos castanhos, olhos – e fez questão de nos acompanhar também. Chegamos a uma sala enorme, toda com iluminação secundária, carpete felpudo e muitas almofadas e poltronas. A fumaça de cigarro era densa, e o cheiro de whisky e vodca era fortíssimo. Sem que eu quisesse ou percebesse, adquiri expressão enojada. Eu queria estar ali, mas era quase insuportável, a ponto de diversas vezes eu me perguntar o que estava fazendo.
- Ei, gatinhas, querem beber alguma coisa? – Vince e seus imensos olhos , que percebi estarem muito agitados, surgiram abruptamente à minha frente.
- Não, obrigada. – respondi, me afastando um pouco. Apertei meus dedos nos de Saskia, que também negou, erguendo seu copo para ele. – Estamos bem assim.
- Ótimo! – ele comemorou, virando-se para Joe. – Ei, Jo, já checou as coisas lá dentro? – franzi a testa, curiosa pelo que tinha ouvido. Minha mente estava em alerta. – Vai lá, eu fico aqui com as “amigas”.
Joe assentiu, dando uma piscadela significativa para Vince. Todos os meus pensamentos se tornaram uma única palavra: Merda!
Eu soube ¬– ou pelo menos achei que soubesse –, então, o que eles queriam. E não era nada agradável.
- Do que eles tão falando? – perguntou Saskia, de modo que apenas eu ouvisse.
- Depois eu conto. – murmurei, tentando encontrar alguém conhecido por ali. E obviamente não achei.
- Então, gatinhas, há quanto tempo vocês são amigas? – Vince se pôs entre nós duas, abraçando-nos pelos ombros.
- Hã? – franzi o cenho, confusa. Me esquivei do seu abraço. – Olha, acho que temos um pequeno problema de comunicação. A gente entrou, mas não quer dizer que vamos “lá pra dentro” com vocês.
- Claro que vocês vão! – disse ele, certo de si. – Joe escolheu vocês, ele não costuma sair daqui pra conseguir uma garota. E parece que tirou a sorte grande, conseguiu duas!
- Ele que me desculpe, então. – me mostrei bastante séria. – Eu não vou pra lugar nenhum, nem ela. – então fiz Saskia se soltar também.
- Qual é, gata? – ele riu, como se ouvisse um absurdo. – Você sabe quantas garotas lá fora queriam estar no lugar de vocês? – e tentou me puxar de volta, mas retirei minha mão com sutileza.
- Não me toca. – grunhi, assustada com sua postura abusiva. – E eu não iria querer ficar num lugar cheio de gente bêbada e fedor de cigarro, maconha ou se foda o que seja isso.
- Ei, não precisa ficar nervosa! – Vince continuou com seu tom de riso.
- Ei, não precisa bancar o babaca! – disse com o mesmo tom, rindo sem humor.
- Vince! – uma garota se aproximou, e logo depois vi que era Amelia. – Quem são as suas amigas? – ela finalmente se virou para nós, me reconhecendo e se surpreendendo. - ?!
- Por favor, não me pergunta o que eu tô fazendo aqui. – alertei, soprando o ar com força.
- Por que ela tá aqui? – a ouvi grasnar para Vince. – Eu disse N-A-D-A de garotas do meu colégio!
- Mas como eu ia saber? – perguntou ele, afetado. Aproveitei a deixa para sair, acompanhada de Sassie. Tudo aquilo (o ar pesado, as pessoas, as insinuações) era demais para mim. Eu dava razão, agora, aos fofoqueiros que chamam a casa de Amelia de “Disco Inferno”.
Percebi só depois que não estava indo para a cozinha. Saskia apenas me seguia, tão confusa quanto eu. E, no meu interior, alguma coisa me dizia que eu não deveria estar ali – não deveria nem ter saído de casa. Mas já estava, não adiantava reclamar.
Da sala que estávamos, seguimos outro corredor, que terminou em uma sala de TV. Voltamos parte do caminho e viramos em outra direção, chegando a um banheiro. Entramos e nos trancamos, escorando-nos em um espelho que ia do rodapé ao teto. Passamos um tempo sem dizer nada, somente recuperando nossas respirações pela pequena corrida. Escorreguei minha cabeça para o lado, apoiando-a sobre o ombro de Saskia.
- Tudo bem contigo? – perguntei, encarando a pia. Minha amiga apenas assentiu, prendendo o riso. – Que foi?
- Ei, gata, tudo bem contigo? – ela imitou Vince, rindo e me fazendo rir.
- Sua mão é perfeita! – imitei Joe, gargalhando. – Céus, olha onde a gente veio se enfiar. E a culpa é sua, ok?
- Ah, nem vem! – ralhou ela. – Você conhece essa gente, eu não.
- Quem disse? – indaguei, me desencostando. – Tá com o seu celular aí? Deixei a minha bolsa com a , o celular da minha mãe ficou lá.
- Pra que eu levaria esse troço pra dançar? – Saskia me olhou de um jeito engraçado, fazendo menção de se levantar. – Anda, vamos sair desse lugar, entes que eu fique chapada só com esse cheiro. – estendeu sua mão para mim, já de pé à minha frente. Demos uma ajeitada no nosso aspecto e, pouco antes de abrirmos a porta, ouvimos alguém bater. Dei um passo para trás, e Sassie foi quem abriu.
- Pediram pra avisar que esse banheiro não pode ser usado. – eu reconheci a voz, mesmo sem ver quem era o dono dela, uma vez que estava escondida sem querer.
- ? – me apressei em sair de trás da porta. Era ele, e parecia surpreso por me ver. – ! – repeti, agora em tom de alívio. – Por favor, me tira de dentro desse pulgueiro!
- Tá, mas por que você tá aqui? – questionou ele, ainda parado. – Digo, aqui dentro?
- Depois te explico, juro. – afirmei, segurando a mãe de Saskia mais uma vez. – Agora, tira a gente aqui.
- Sim, claro. – ele nos deu passagem. – Vem comigo. – e dito isso, entrelaçou nossos dedos, tomando cuidado para não me machucar enquanto nos guiava. Algum pouco tempo depois, saímos por uma porta lateral, chegando ao tal corredor por onde passei no início da festa. A música novamente estava em um volume absurdo de tão alto, mas entendi perfeitamente quando Saskia perguntou ao pé do meu ouvido “É ele?”.
Sim, era ele. E eu estava feliz por vê-lo.
Me virei para minha amiga, assentindo com um sorriso bobo; ela pôs a mão livre sobre a boca, abafando seus típicos gritinhos de animação. ainda caminhava, e nós também, por consequência. Paramos ao chegar no jardim.
- Obrigada. Mesmo. – disse assim que ele se virou para nós.
- Não foi nada. – deu de ombros, erguendo uma long neck que só então o vi segurar. Franzi o cenho, desviando o olhar. – É sem álcool, chatinha. – ele percebeu a razão da minha reação. – Não gosto de dirigir à noite, ainda mais bêbado.
- Que seja. – fui indiferente.
- Deixa de ser a mãe de todo mundo, . – Saskia resmungou. – O garoto já falou que é sem álcool. Além do mais, eu também tô bebendo isso, e posso dizer que é totalmente sem.
- Não sei quem ela é, mas já gostei dela! – riu, implicando comigo. Ainda de rosto fechado, voltei a olhá-lo. – E nem vem me olhando assim, você me deve umas explicações.
- É mesmo... – desfiz minhas expressões, me dando por vencida. – Saskia, ela – apontei para minha amiga –, e eu estávamos dançando, aí chegou um Joe qualquer e chamou a gente pra entrar.
- Depois apareceu o Vince, que é bem bonitinho, a propósito – Sassie me interrompeu, acelerada –, mas só sabia dizer “Ei, gata”, o que é uma pena.
- Sejam objetivas, por favor. – pediu, rindo baixo da euforia da menina.
- Joe foi não sei aonde checar não sei o quê. – continuei. – Vince veio com um papo de “Há quanto tempo vocês são amigas?”, e Amelia apareceu. Ela começou a brigar com ele, então nós fomos embora. Quer dizer, tentamos, porque essa praga dessa casa é gigante e acabamos no banheiro.
olhou de Saskia para mim algumas vezes, com um misto de apreensão e vontade de rir. Explodiu em risadas em seguida, porém rapidamente cessou seu ataque.
- O quê? O que foi? – indaguei, confusa e curiosa.
- Me disseram que o Vince tinha tomado um fora de duas lésbicas! – ele falou. – Por isso eu fui até o banheiro.
- Você realmente achou graça nisso? – desdenhei, reprovando seu péssimo senso de humor. – O cara achou que eu ia dar pra ele só porque me levou lá pra dentro, ! E ele não foi nem um pouco inteligente, porque se eu fosse lésbica, não ia querer de jeito nenhum. – acrescentei, diminuindo meu tom. – O que não justifica, não foi engraçado.
- Tá bom, desculpa. – vi tentar parecer sério. Uma tentativa meio falha, mas pelo menos uma tentativa. – É que, de todas as pessoas daqui, ele foi investir justo em você. – ele começou explicar, de modo desastrado. – Não tô dizendo que você é feia, fedida, nem nada...
- ! – censurei, segurando o riso. Eu nem sabia por que queria rir.
- Mas que é a última pessoa que ficaria com ele ou Joe. Você não faz coisas assim. Só comigo. – completou, sorrindo. Finalmente ri, procurando o que dizer. – Achei esquisito te ver lá por essa razão.
- Foi esquisito até pra mim. – concordei. – E quem é que disse que eu só faço “coisas assim” com você?
- É só averiguar os fatos. – ele respondeu, erguendo os braços em sinal de inocência. Quando os abaixou, alcançou minha mão de novo, me puxando para si.
- Tá na hora de eu voltar pra lá. – Saskia anunciou, mas não dei importância. Por que daria, mesmo?
- Tem gente do colégio aqui. – adverti, mesmo que não tivesse feito mais nada para impedi-lo.
- E tem muito mais gente de fora. – argumentou ele. – Além de a festa não ser aqui, e sim lá trás. Temos menos risco de sermos vistos.
- Certeza? – perguntei só por perguntar, já que meus braços já estavam ao redor de seu pescoço.
- Se eu tenho certeza? – parou pra pensar. – Não, não tenho. Mas espero que assim seja. – e me beijou com tanta calma quanto da última vez. O que não significava que eu não me sentia formigar em cada ponta de cada dedo. Era gostosa a sensação que os beijos de me causavam.
Permanecemos um tempo entre beijos e brincadeiras sem sentido, como se estivéssemos em total privacidade. Nos sentamos à beira da rua, pois estávamos cansados de ficar tanto tempo de pé. Não fazia a menor ideia de hora, mas sabia que era bem tarde pelo frio que já fazia e pela lua, que já estava cheia. A roupa que tinha escolhido para mim me deixava em desvantagem com o frio, e teve de me emprestar sua camiseta, apesar de eu ameaçar jogá-lo na piscina se o fizesse. Embora aquilo fizesse bem pro meu ego – a história de se mostrar solidário e tal –, eu não gostava de cavalheirismo; sempre achei ultrapassado e desnecessário. Mas fui vencida pela chatice de .
E não reclamei, é claro. Estava mais preocupada em equilibrar a preocupação sobre Noel e a vontade de espiar . Era inevitável, uma vez que ele estava ao meu lado, e meu irmão, de cama. Dois extremos, tão tentadores quanto censuráveis. Eu estava ali, com . Não podia martelar na cabeça a vontade de ir para casa. Ao mesmo tempo que não estava com Noel, que poderia precisar de mim. Estava sendo negligente e ficando confusa. Então, para voltar ao meu normal, quis acertar tudo. Eu sentia que Noel precisava de mim mais que .
- Que horas são? – perguntei, mexendo na barra da camiseta cinza de .
- Três e meia. – disse ele. – Por quê?
- Tenho que ir embora. – respondi, incerta se deveria mesmo ir. Para que Noel precisaria de mim àquela hora? Já estaria dormindo há muito tempo.
- Por quê? – repetiu, apelativo. Soprei um riso, fitando suas expressões infantilizadas.
- Sono. – menti e me mostrei sem jeito. Começava a me arrepender por abrir a boca.
- Quer que eu te leve? – assenti à sua oferta, me levantando.
- Só preciso avisar aos outros e pegar as minhas coisas. – anunciei, e dessa vez ele assentiu. Dei-lhe as costas, indo para os fundos, atrás apenas de , Saskia e . Tinha desistido já de , pois sabia que, mesmo sumida, estava por ali, já que sua bolsa também estava com .
Me despedi de todos e voltei até , que esperava do outro lado da rua. Não fiz cerimônias quanto a esperar que ele abrisse a porta para mim. Me sentei, afivelei o cinto e encostei a cabeça na janela fechada. Sentia remorso por ter pensado. Era melhor quando eu apenas vivia, então por que razão nunca me permitia? A mania de controlar tudo era a parte mais presente em mim, mas até eu mesma estava cansada. Estava começando a me sentir exausta por sempre esperar e exigir os passos certos de mim – e também dos outros. Mas não seria naquela hora que eu daria um jeito nisso. Muito menos no dia seguinte. Por enquanto, eu só tentaria descansar e calar o arrependimento por, como disse , não pensar somente em mim nessa noite.
não perguntou o porquê de eu estar tão calada, e foi bom não o fazer. Eu não saberia responder. Preferia me manter muda e surda, apenas vendo as luzes passando em frente aos meus olhos como simples borrões. A mesma sensação que senti na casa de Amelia voltou com força, porém queria fingir que ela não existia. Queria só fechar os olhos e dormir até aquele mau pressentimento ir embora. Queria que o cansaço, não só físico, como emocional, fosse embora.
Assim que chegamos à minha casa, se despediu um pouco sem jeito, talvez achando que eu o culpava por alguma coisa – o que era estranho, vindo logo de quem.
- Me leva até a porta. – disse a ele, sorrindo por simpatia.
- Claro. – ele retribuiu, descendo do carro. Fiz o mesmo e esperei que me alcançasse, seguindo-o com os olhos. Ao voltar meu olhar para a fachada da casa, franzi o cenho.
- Meus pais não estão em casa. – notei. – A garagem tá vazia.
- São quatro horas, onde eles podem ter ido? – questionou , parecendo mais curioso que preocupado.
Noel. Só podia ser essa a razão.
- Tenho medo de descobrir. – acabei pensando alto. – Vem, vou checar isso direito. – acrescentei, apressando meu passo. Entrei em casa e vi a luz do quarto de Noel acesa, então fui até lá. Ele não estava dormindo, como eu achara mais cedo. E não foram necessários muitos minutos para descobrir que não havia mais ninguém além de e eu. Fiquei novamente em alerta, o coração acelerado e a mente gerando mil hipóteses.
- Fica calma. – pediu. Eu andava e falava baixo algumas palavras desconexas para ele, mas que na verdade faziam todo sentido para mim.
- Não consigo. – rebati, amuada. Me sentei no sofá, ao seu lado. – Não vou conseguir até eles voltarem.
- Já tentou ligar? – o ouvi perguntar.
- O celular da minha mãe tá comigo, e o do meu pai ficou no quarto deles. – expliquei, cruzando as pernas e balançando o pé. – Sabia que eu não devia ter saído de casa!
- Mas o que você podia fazer? – coçou a nuca e bocejou, me fazendo notar o quão inconveniente eu estava sendo.
- Não sei... – admiti. – Mas eu não devia. – completei, encarando seu rosto sonolento. – Quer ir pra casa? Você tá morrendo de sono.
- Relaxa. – ele balançou a cabeça para os lados, ajeitando sua postura em seguida. Agradeci sua solidariedade com um sorriso. – E... só por curiosidade, o que vocês realmente fizeram dentro da casa?
- Nada além do que eu te contei. – respondi sem emoção. – Percebi logo que eles queriam mais que conversar, então dei um basta. Fora que Joe só sabia falar da minha mão, não sei por quê.
Após dizer isso, analisou minhas mãos, que seguravam a almofada sobre o meu colo. Pegou uma delas, continuando seu exame enquanto eu sorri, lisonjeada com o modo que manuseava meus dedos. Em seguida os estendeu sobre os próprios, comparando a textura e o comprimento deles. Por fim, entrelaçou-os.
- Suas mãos são bonitas mesmo. – disse, sem me olhar. Então me encarou, sério, mas eu sabia que ele queria sorrir também. – Mas ficam ainda mais junto às minhas. – completou, enviesando seus lábios.
- É? – me fiz de surpresa (e na verdade estava), vendo-o assentir. – Eu nunca percebi.
- Deveria.
- Estava ocupada demais com os seus olhos. – justifiquei, retribuindo o elogio.
De repente, não havia mais necessidade de palavras. Entrelaçamos nossas mãos livres e nos beijamos, agora muito mais sincronizados pelas, digamos, outras práticas.
- Finalmente consegui de volta um pouco da sua atenção. – comentou, e quando tentei me defender, me interrompeu: – Calma, é só uma brincadeira!
- Eu sei. – murmurei. – Só não me sinto bem sabendo que tô fazendo algo pela metade. Eu nem ia reclamar, nem nada. Ia só te pedir um pouco de... – sem que quisesse, bocejei. – Ai, desculpa!
- Tá desculpada. – rimos.
- Enfim, paciência. – completei, sem jeito.
- Eu tô aqui até agora, não tô? – assenti. – Então nem precisava pedir. Perdeu seu tempo falando o que eu já estava fazendo.
- Quando você se tornou tão compreensivo assim? – não contive a vontade de perguntar, mas tentei não soar ofensiva.
- Também não sei. – ele deu de ombros, despreocupado. – Acho que é o momento, sei lá.
- Tomara que não seja. – ri mais uma vez, dando-lhe um beijo breve. – Quer comer alguma coisa? Faz tanto tempo que comi da última vez, meu estômago não tá com tanto sono quanto eu.
- Sim, aceito. – ele consentiu, então no levantamos ao mesmo tempo.
- O que você tá fazendo?
- Indo contigo, ué. – respondeu , em tom de obviedade. – Vou te ajudar.
- Não precisa. – ri da sua atitude. Ele não se moveu, mostrando que não mudaria de ideia. – Tá, vem. Mas se você encostar em alguma coisa sem a minha permissão, arranco seu dedo fora. E eu não tô brincando.
- Ok... – ele pareceu assustado, logo desfiz a feição séria que sustentava.
- É mentira, tô sim. – confessei, soando um pouco infantil. se limitou a um balançar de cabeça, me seguindo até o outro cômodo.

Já tínhamos acabado há um tempo o lanche de última hora – um pseudo-sanduíche natural e iogurte –, mas continuamos à mesa, conversando. Mal notei que já era dia. Percebi apenas quando ouvi o barulho da porta abrindo, o que me fez correr até a sala, deixando para trás. Noel estava à frente, um tanto pálido, segurando uma garrafinha de água mineral; em seu encalço estava minha mãe, amparando-o; meu pai foi quem fechou a porta, o rosto bastante abatido.
- O que houve? – perguntei com pressa.
- Seu irmão teve uma crise forte de sinusite, vomitou a noite inteira. – disse ele, e não pude conter uma careta. Um pouco de discrição ou eufemismo seria bom, pai. – Mas ele já foi medicado, só precisa descansar e tomar bastante água.
- Ainda bem. – suspirei bem mais aliviada. Reparei, então, que os olhos de meu pai estavam encarando algo atrás de mim, e foi quando me lembrei: .
Sem camisa.
E eu com a roupa dele, que cobria toda a minha e dava a impressão de que era tudo que eu vestia.
Merda! Merda! Merda! PUTA MERDA!
Pensei em dizer a famosa frase “Não é o que você está pensando”, mas com certeza só pioraria a situação. Fui obrigada a fingir apatia ao seu olhar de desconfiança – e uma pitada de decepção –, e ele fingiu não ter visto nada, recolhendo-se em silêncio para seu quarto.
- Acho melhor eu ir embora, agora. – ouvi sugerir, tão sem graça quanto eu. Concordei com um murmúrio, tirando sua camiseta para devolvê-la.
- E eu acho melhor você ficar com isso. – entreguei a peça a ele, notando o clima pesado e desconfortável que ficou entre nós. Eu o acompanhei até a porta, e nos despedimos sem nenhum contato físico. Ao subir para o meu quarto, não sabia se me jogava da janela de raiva ou me escondia debaixo da cama de vergonha.
Parabéns, . É pra você o troféu “Merda do dia”.

Capítulo 19

Foi o bom humor quem o despertou naquela manhã. Ao abrir os olhos, ele viu mais cores, mais luz, o ar parecia perfumado – e, na verdade, estava. se sentou à beira da cama e estendeu os braços, respirando mais fundo. Sem que quisesse, sorveu aquele aroma cítrico da bergamota e floral da camélia. Era aquele cheiro doce de , preso à sua camiseta de algodão. Ele retirou a peça, aspirando novamente o ar, desta vez através do tecido em suas mãos. Havia ganhado uma pequena memória da noite mais cúmplice que tivera com a garota. Se lhe dissessem meses atrás que passaria por aquilo, ele riria até não aguentar mais.
O garoto então se despiu, trancando-se no banheiro para tomar um banho. Após seu asseio, desceu para tomar café. Era, para sua não-surpresa, a hora do almoço. Susan e Livie arrumavam a mesa entre conversas calorosas e informais, como duas grandes amigas.
- Falando nele... – disse a mulher, sorrindo ao ver o filho, que não entendeu a animação dela.
- Sua mãe estava me contando as suas histórias de bebê. – Livie explicou, ajeitando os talheres ao lado das louças. – Eu nem imaginava como você era hiperativo!
- A palavra certa é encapetado. – corrigiu ele em tom de riso, indo até o fogão e levantando a tampa de uma das panelas. – O que vocês fizeram pra comer?
- Surpresa. – respondeu Susan, afastando-o de lá. – Espere seu pai voltar com a Angie, já vamos almoçar.
- Aonde ele foi? – perguntou o garoto, arqueando a sobrancelha. – E por que levou a baixinha?
- Ela adora o Otto! – guinchou sua mãe. – Os dois foram dar uma volta pela quadra e comprar alguma sobremesa.
- Você fala como se ela realmente andasse e comprasse coisas. – observou ele, rindo. Voltou-se para Livie: – Cuidado, se ele se apegar, vai querer ficar com ela.
- Deixe de besteira! – a mais velha censurou com bom humor. Continuaram a mais nova e ela a conversar. se sentou, tornando-se espectador atento da cena. Sua mãe estava também diferente, como tudo que lhe surgira naquele dia, até então. Talvez as presenças de Livie e Angie amenizassem os ânimos, ele não sabia ao certo. Mas estava ali, aproveitando a, enfim ele notou, harmonia da casa.
Não era só o perfume de preso às suas roupas, nem a luz do sol invadindo seu quarto e despertando suas perspectivas de cores que faziam seu dia melhor. Era a voz cantarolada de Susan correndo pela casa, uma consonância perfeita entre a alegria e a paz. Ele percebeu, então, que não acordara por acaso; aquele timbre doce ecoava há bem mais tempo em sua mente, cumprindo seu papel de ausente na realidade de . Quando o mesmo atravessou a dimensão do irreal para chegar à do garoto, inconscientemente ele acordou. Estava com saudades de Susie contente daquela forma, distribuindo risos e sorrisos sem que lhe pedissem. Não queria que um momento tão singular se acabasse, por isso optou pelo silêncio solene e inócuo. Sentado em uma faz cadeiras à quina da mesa, sua benevolência se mostrou em cada centímetro de seu rosto – as linhas de expressão o delatavam, apesar de suaves. Naquele momento ele se orgulhou de sua mãe, que se esforçava para manter o bem-estar. E, no íntimo, desejou que todos os dias durante aqueles sete anos se condessassem em uma única data.
- Do que você tá rindo, ? – perguntou Livie, sentando-se à sua frente.
- Nada demais. – ele balançou a cabeça para os lado, negando.
- Meninos, vou ligar pro Otto pra apressá-lo – anunciou Susan –, já volto, ok?
- Tudo bem. – a garota disse, consentindo. se limitou a concordar sem dizer nada.
- Ela não faz isso há anos. – comentou assim que sua mãe não era mais vista do fim do corredor. Voltou-se para sua amiga, que não havia o entendido. – Acordar bem disposta pra fazer o almoço de domingo. Não vejo minha mãe tão... feliz – era mesmo essa a palavra? – sem razão desde o acidente.
- Não convivo com ela há tanto tempo quanto você, mas Susan sempre me parecia muito estressada e chateada, quando ia pra Southsea.
Uma longa pausa se fez no diálogo. O garoto abaixou os olhos, o cenho franzido, pensando em algo. Buscava em si respostas, e apenas uma sanava suas dúvidas: ele. Como num ciclo vicioso, tudo começava e terminava nele, . Por causa das brigas que ele iniciava, Susan se aborrecia; por culpa da distância entre sua mãe e ele, não havia nunca a reconciliação, apenas fissuras, rachaduras no relacionamento. Os dois eram mãe e filho, deviam ser amigos. Deviam conversar quando existissem problemas. No entanto, não havia nada. mal sabia como consertar tudo que tinha feito.
Mas sabia, sim, que iria, uma hora ou outra, reaver a amizade de Susan.
- Parte disso é culpa minha. – ele admitiu, transbordando empatia. – Não tenho sido a melhor coisa que aconteceu nessa casa, se é que me entende.
- Perfeitamente. – disse Livie, usando a frase que ouvira para si mesma. – Aliás, por que você nunca mais foi até Southsea?
- Fui semana passada ou retrasada, não lembro. – ele ponderou, já desfeito de suas emoções ruins.
- Grande coisa – ela resmungou –, eu não estava lá. Fiquei sabendo dias depois, pela Vica, que você passou lá e foi embora de fininho.
- Tô devendo desculpas a ela. – riu o garoto, coçando a cabeça. – Não aguentei ficar lá. – suspirou, pesaroso. – Sabe quando um lugar ou pessoa te faz lembrar coisas que já devem ser esquecidas?
- Na verdade, não sei. – Livie riu breve. – Mas imagino como seja.
- Eu não consigo mais passar uma noite sequer justo no lugar que mais adorava. – concluiu ele. – Irônico, não?
- O destino costuma sempre ser assim. – ela observou. – Mas se você reparar, a ironia é um pensamento inteligente com uma pitada de humor, não é?
- Teoricamente.
- Então ria também. Pense também. – sugeriu a garota.
- Seja clara. – franziu o cenho mais uma vez, confuso.
- Você tem o poder de acabar com uma metáfora. – ela reclamou, revirando os olhos e rindo.
- Você que anda madura e inteligente demais pro meu gosto! – rebateu ele, rindo também.
- Enfim – ela cessou as risadas –, não fique com tanta raiva ou ressentimento. Isso só nos faz ficar remoendo os erros, e eles nunca são realmente esquecidos desse jeito. Chega uma hora que a graça da tal ironia acaba, é quando o rancor tem que acabar também.
- Nunca vi por esse ângulo. – confessou o garoto, um tanto admirado com a destreza da amiga.
- Eu sei. – Livie sorriu, convencida. – Se tivesse pensado, teria sacado de cara o negócio de rir junto. – acrescentou, zombando do amigo. – Às vezes você é bem lento, .
- Você tem a coragem e cara de pau de me zoar dentro da minha casa? – fingiu ultraje, não conseguindo conter o riso que lhe escapava.
- Quando eu conseguir uma casa, deixo você me zoar lá. Combinado? – ela propôs em tom de brincadeira. – É melhor que nada!
- E você acha que vai ficar por isso? – indagou ele, desafiador. Susan retornou ao cômodo, parte do seu brilho desaparecido. Sentou-se, calada e observadora. – O que foi, Susan?
- Nada, filho. – respondeu, sorrindo sem vontade. – Seu pai se atrasou um pouco, mas já deve estar chegando com Angie.
- Certo. – o garoto fez o mesmo. Logo sua cabeça permitiu novas invasões de perguntas e respostas. E um novo “ele” surgiu. Ele, Otto.
Almoçou quieto, analisando, fazendo ligações entre detalhes. Algo estava sendo omitido, algo que tinha dimensões maiores e envolvia muito mais que a ética. Algo que ele não entendia. Mas que ele finalmente enxergou, não só viu. Sua cortina de conformismo começava a deixar feixes de realidade passarem e alcançarem seus olhos céticos e apáticos. Assim, notou a diferença entre as imagens antigas e a atual, como fungos em uma fotografia velha, que mancham aos poucos e, de repente, tomam todas as cores.

Indisposta, ela preferiu ficar na cama até mais tarde. Estava exausta pela noite anterior, que não chegava perto das que costumava passar. À tarde, foi até sua casa para passar o tempo, o rosto cansado e os movimentos lentos, porém um brilho anormal em seus olhos. Ao chegar ao quarto de , disse em um só fôlego:
- Eu fiquei com . – e sorriu, sentando-se aos pés da amiga, que arregalou os olhos, fechando o livro que lia sem marcar a página.
- Quem? Quê? – perguntou ela, espantada. Notando sobre o livro, resmungou palavras indecifráveis.
- O que você tá lendo? – tentou desviar o foco da conversa.
- Não importa. – disse a outra, inclinando-se para dar mais atenção à amiga. – Conta isso direito. Como assim, você e o ... E o Ben?
- Nós brigamos antes de eu ir pra festa. – explicou a garota, desconfortável. – Ele não queria ir porque não conhecia ninguém, e eu disse que também não. Aí ele encrencou porque eu estava animada demais, e eu falei que era besteira dele. Então ele teve uma crise de ciúmes, e eu o mandei pastar. Não tenho paciência pra isso, não.
- Nossa! – pareceu desapontada. – Nunca achei que ele fosse disso, pensei que vocês dois se entendiam bem...
- E nos entendemos. Ou entendíamos. – a amiga deu de ombros. – Mas uma hora tudo acaba. Ele ia pra Cambridge no próximo semestre, eu não ia querer um namoro à distância. Ao contrário de você, eu gosto e muito de beijar, abraçar... me arriscar com alguém, sabe? – instigou, sorrindo com cinismo. – Prazer sem culpa.
- Claro, se apaixonar por cada garoto que você fica é muito normal. – a outra zombou. – E ficar com os que namora, também.
- Lembre-se que você ficou com antes de Allison e ele terminarem, na primeira vez.
- Era um caso diferente, eu nem sabia que era ele. – justificou-se. – Além do mais, você soube que e Emma estavam juntos e blá, blá, blá. – e balançou as mãos no ar, encurtando seu discurso. – Por falar nela, onde a garota tava, que não viu o namorado a noite toda?
- e enrolaram Emma e Allison. – respondeu em tom de riso. – Os quatro iam juntos pra casa de Amelia, mas disse que não queria mais. Aparentemente ele seria o motorista, então ninguém mais quis, porque não queriam ir a pé. Só que encheu o saco dele (queria ir de qualquer jeito) e foi até a casa do pra convencê-lo.
- Não sabia desse lado do . – ergueu as sobrancelhas em sinal de surpresa. – O lado cretino, quero dizer.
- Tem muita coisa sobre ele que você não sabe. – a outra constatou, maliciosa.
- E você faz questão de saber, né? – disse a dona da casa em provocação. – Safadinha!
- Prefiro não comentar. – gargalhou. – Mas me conta, e você e o Christian, digo, ?
- Não sei dele, mas eu tô bem, obrigada. – respondeu , dissimulada, recebendo um tapa da amiga. – O quê?! – grasnou, segurando o riso ao ver a amiga a censurando com o olhar. – Não tenho o que contar, acho. A gente se encontrou numa ocasião... peculiar, por assim dizer. Depois ficamos juntos e ele me trouxe pra casa.
- Detalhes. – ordenou a amiga.
- Ele me emprestou a camiseta, porque eu estava sentindo frio.
- E você?
- Fiquei quentinha. – riu. – E dei uma conferida, confesso.
- Mais detalhes.
- Ele entrou, porque não tinha ninguém em casa.
- E? – mudou o tom de voz, empolgada.
- E nada. – respondeu a outra. – Esperamos meus pais e Noel chegarem, porque eles com certeza não tinham ido ao shopping às quatro da manhã. – acrescentou com tom de censura à atitude sugestiva da amiga. – Noel estava passando mal.
- Ai, verdade! – a garota se lembrou. – E o que ele tinha, afinal?
- Foi só uma crise de sinusite. – se levantou, deixando o livro que ainda segurava sobre a escrivaninha. Depois de alguns instantes em silêncio, disse: ¬– Acho que meu pai pensou que e eu... você sabe, fomos pra cama.
- Por que ele pensaria isso? – franziu a testa, achando absurda a ideia. Em seguida, seu semblante se tornou uma interrogação. – , vocês transaram?!
- Pode falar mais baixo, por favor? – suplicou a garota, as bochechas cor de escarlate. – Não, não fizemos nada. Mas quando meu pai chegou, eu ainda estava com a camiseta do (por consequência, ele estava só de calça e tênis), e parecia que eu só usava isso. Fora que estávamos sozinhos e tivemos tempo de sobra pra fazer qualquer coisa.
- Já tentou sondar seu pai? – sugeriu. – Vai ver ele nem reparou nisso. É meio difícil, já que é do seu pai que estamos falando, mas...
- Você me lembrando disso só ajuda. – ironizou , ligando o computador, novamente quieta. , sem saber o que fazer ou dizer, limitou-se a observar a amiga. Queria contar sobre o tempo que passara com , porém se conteve pela falta de clima. – Sabe, ...
- Hm?
- Essa história com meu pai... – continuou a amiga, girando a cadeira para ver . – Eu nunca tinha pensando no desse jeito. Porque, vamos ser sinceras, ele não é bem aquele tipo que sabe respeitar o tempo dos outros e tal, e eu sempre usei isso, fora as diferenças entre nós, como uma desculpa pra não querer nada demais. Só que, não sei, eu me senti bem com ele, me senti segura quando ficamos na sala.
sorriu, encantada com o julgamento da amiga. Estava na ponta de sua língua o nome daquilo que acontecia com .
- E não me olha assim! Eu sei o que você tá pensando! – censurou, ajeitando sua postura. – Eu não o amo, ok? Não tô apaixonada por ele nem coisa do tipo. Não romantize as coisas. – acrescentou rapidamente.
- Então o que você ia dizer, afinal? – disse a amiga, desconfiada.
- Que depois de ontem, hoje, tanto faz, eu ia gostar se rolasse. – a garota não conseguiu esconder um sorriso, apesar de tímido. Seu rosto fervente pedia por alguma forma de extravasar seus novos sentimentos sobre . – Já teria me acostumado melhor com a possibilidade.
- Agora é a hora que eu me calo, senão falo demais. – concluiu , rindo e fazendo a outra rir junto.
- Não, agora é a hora que você me conta mais sobre o . – corrigiu, animada, desencadeando uma nova conversa que durou por horas a fio.

Novos boatos sobre a festa de Amelia. Fora da casa, novos casais se formaram; dentro, cenas inimagináveis. Parte dos alunos do segundo e terceiro ano comentavam sobre a madrugada de sábado. E, ao contrário do que pensou – para seu alívio –, o foco não era sobre ela, a aluna promissora do grupo de teatro, e , o ladrão de gabaritos. Porém, ao descobrir qual o casal da vez, parte da sua tranquilidade se foi.
Estavam , , Noel e Brooke sentados à mesa. Noel resolvera apresentar a “amiga” para a irmã, que insistira bastante até conseguir. Conversavam com considerável entrosamento sobre a peça, que andava a todo vapor. A praça de alimentação estava cheia, uma vez que chuviscava durante o intervalo, e as centenas de vozes se cruzavam, formando um único som. Era difícil não se distrair com as conversas de outros grupos. Por essa razão, Emma descobriu sobre e . E não conteve sua raiva, muito embora não quisesse chamar a atenção. Teve a decência de não criar escândalos, o equilíbrio para se manter séria e a audácia para interromper em sua conversa.
- Posso falar com você? – disse à garota, de pé ao lado da mesa.
- Claro. – respondeu , levantando-se.
- Não, não precisa levantar! – rapidamente Emma interviu. – É até bom que poupe os seus esforços, vou ser rápida. – e sorriu com falsa simpatia. – Tá feliz, agora que conseguiu o que queria? O mais engraçado é que, no fundo, eu sabia que isso ia acontecer. Você nunca me enganou com essa carinha de boa moça, e eu conheço o suficiente pra saber que ele é um galinha de merda. Mas, no fim, a única coisa que me incomoda é que mesmo eu esperando que isso acontecesse, me chateei. E não pense que ele também não vai te trocar, porque ele vai. Então volta pro seu namorado, você vai ser mais feliz com ele. – por fim, se despediu com um aceno, dando as costas sem que alguém pudesse replicar. Era de se duvidar que alguém o fizesse, uma vez que o silêncio foi tudo que restou, além do barulho dos outros alunos.
se importou com o que Emma disse, ela não estava errada em dizer aquilo. Contudo, não estava preparada para ouvir meia dúzia de verdades. Era até despeito consigo mesma, já que estava feliz com o feito, mesmo que não fosse correto. Os fins justificavam os meios. Não havia por que aceitar aquilo passivamente. Não no momento. Por isso, ao invés de espernear e discutir, ela preferiu ser apática.
- Juro que pensei que ela iria me xingar de tudo quanto é nome. – satirizou, agindo como se nada tivesse acontecido.
- Olha pelo lado positivo – disse Noel –, pelo menos ela não pulou no seu pescoço, que nem certas pessoas.
- Vocês vão falar disso pra sempre? – resmungou, estreitando os olhos para o irmão, que ria.
De longe, observava o grupo. Precisava tirar a limpo o boato sobre e . Uma resposta definiria se ele tinha chances ou não, se ela estava o enrolando ou não. O garoto não entendia a possibilidade de estar com outro – justo ! – como viável. Ela gostava dele. E odiava . Era o que sempre pareceu.
Tenho que ir logo, pensou , encorajando-se. Preferia arriscar à rejeição a não sanar suas dúvidas. Interrompeu seu amigo – já nem lhe dava mais atenção –, alegando que precisava fazer algo e já voltaria. Ao se aproximar da mesa de , voltou seu olhar para o lugar de onde Emma saíra. o observava de longe, talvez até estivesse o encarando de muito antes, ele que não vira. , enfim, terminou seu rumo até a garota em questão.
- – disse sem emoção. Não havia razão para chama-la pelo apelido –, pode vir comigo?
- Oi – ela o cumprimentou, sem saber como reagir –, . Tudo bem, claro. – e se levantou, lançando um olhar confuso à amiga. Seguiu o garoto até um lugar mais tranquilo, ambos em silêncio. sabia sobre o que diria. Sabia também que devia ter dado um basta antes que chegassem àquela situação desconfortável.
E pensar que nós nem mesmo tivemos algo... Era, na verdade, engraçado para ela. levava a sério demais a relação que nunca existiu entre eles, teve de se concentrar bastante para não ser irônica quando o garoto parou de caminhar, no corredor principal.
- Então... É verdade o boato? – ele indagou sem olhar para ela. Mal tinha em mente o que diria, estava acostumado a ser quem ouvia essa parte da conversa, como todo garoto.
- Que boato? – questionou ela, escondendo o olhar e sorriso cínico. a encarou como quem diz “Você sabe do que estou falando”. – Depende de até onde você soube. Mas sim, eu fiquei com no sábado.
Assumir aquilo em voz alta a fazia se sentir leve.
- Sempre achei que vocês não fossem um com a cara do outro. – o garoto franziu o cenho, mostrando não compreender.
- Já disse, isso foi antes. – ela tentou ao máximo não ser rude ou fazer pouco caso. Tinha de ser paciente.
- O que te fez mudar de ideia tão rápido?
Porém não conseguia se manter focada e equilibrada com praticamente a julgando. Aonde tinham ido seus olhos adoráveis e sorriso doce?
- Eu dei uma chance pra ele. – Duas, na verdade, quase completou. – não é um merda ou vagabundo ou coisa do tipo. Ele é uma pessoa legal, você tem é que tentar conversar com ele.
- Fora de questão.
- Por quê? – interrogou a garota, não só através da voz.
- Porque ele tem exatamente o que eu quero nesse momento.
se surpreendeu com a rapidez com que as palavras alcançaram sua mente. Notou que havia, sim, sentimento por trás de toda a cena que fazia, mesmo que fosse passageiro. Ela não podia lidar com uma situação complicada como a de corresponder às intenções dele. Não podia voltar sua palavra a . A única opção era acabar de vez com as expectativas que mantinha sobre ela.
Convencida, ela finalmente abriu a boca para falar; sílabas soltas e sem coesão saíram. Estava receosa. Passar por aquela ocasião era a visão do inferno. Decepcionar pessoas era o Calcanhar de Aquiles da garota. Foi necessário que repetisse com urgência “Ele vai esquecer, tudo vai ficar bem” em sua cabeça para que pudesse seguir adiante.
- , tenho que te pedir pra parar por aqui. – finalmente ouviu a si mesma, no entanto, tão baixo que mal sabia se ele a escutava. – Eu gosto de você. – continuou, vendo-o desconfiar. Ele já sabia no que a conversa daria: amigos. – Mesmo. Mas agora não é a hora certa pra gente.
- Por causa do ? – indagou, certo da resposta.
- É bem mais por minha causa. – ela amenizou. – Não sei se daria certo. Na verdade, nem consigo ver você e eu como “nós”. Talvez mais pra frente, quem sabe? – e sorriu fraco, tentando animá-lo.
não respondeu imediatamente ao seu apelo humilde. Precisava pensar diversas vezes antes de uma reação qualquer. Por fim, abaixou o rosto e coçou a nuca, desapontado – mais consigo que com . Sua concepção sobre a relação dela com estava tão errada quanto as chances que achava possuir.
- Só me diz mais uma coisa. – pediu a ela, negando-se a olhá-la. – Por que você não me contou nada antes?
- Achei que não precisava. – respondeu a garota, grata por não ser ela a tocar no assunto. – Nós mal nos falamos há uma semana, muito menos tivemos algo além, pensei que estivesse claro pra você que foi só uma vez. Desculpa se acabei te dando a impressão errada.
- Certo. – disse ele, frustrado. – Acho que é a hora do “mas a gente ainda pode ser amigo”.
- Só se você quiser. – deixou para ele a decisão, torcendo para que aceitasse.
- Vou ter que me acostumar com isso. – o garoto disse por fim, conformado.

- ! Quase esqueci de te entregar! – gritou, correndo de uma ponta do auditório à amiga, que já saía do lugar, segurando um envelope marfim. virou-se para a outra, curiosa. – O orçamento dos dois vestidos, chegou na hora do almoço.
- E de quais cenas são esses vestidos, pra terem sido feitos em outro atelier? – perguntou, animada.
- Segundo e último capítulo. – respondeu a mais velha. – O resto vai ser doado pelo colégio, mesmo. Seis mudas, no total. E isso envolve camisola e cinta-liga.
- É agora que eu me pergunto por que quis tanto esse papel. – comentou a mais nova com bom humor. Até então tinha se esquecido de que teria de atuar com roupas debaixo, ainda que não fossem tão vulgares por exigência da direção.
- Cala a boca – repreendeu a produtora –, se eu tivesse que estrelar minha peça favorita, encenaria até pelada!
- Tá aí a razão de a sra. Moore não ter te deixado entrar na peça, sua louca! – as duas riram. – Enfim... tenho que ir. Até amanhã, .
- Vai lá, garota. Aproveita! – implicou, rindo mais uma vez enquanto rolava os olhos e dava as costas, sabendo bem o que ela queria dizer. , que aguardava no fim do corredor, quis saber do que tanto a garota ria, mas precisava de bem mais que uma pergunta para lhe dizer. Ela não parecia querer contar, a julgar a quantidade de “Nada” que respondeu a cada insistência dele.
- Esquece isso, chato! – ralhou enfim, fazendo uma careta para o garoto, que riu.
- Ok, mudando de assunto... – ele procurou as chaves pelos bolsos. – O que te disse mais cedo? E dessa vez não adianta dizer que não foi nada.
- Ele perguntou sobre a gente. – deu de ombros. – Por quê?
- E o que você disse? – ignorou a pergunta.
- Não importa muito, não acha? Deu pra ele perceber nitidamente o que tá acontecendo. – ela argumentou. – Por quê? Tá querendo roubar o meu título de megera chata e dominadora?
- Nem me atrevo! – o garoto ergueu as mãos em sinal de inocência. – Só queria saber, mesmo.
- Agora já sabe. – ela sorriu de modo infantil, dando o assunto por encerrado. Já haviam atravessado o portão, iam, então, para o estacionamento, uma vez que oferecera carona à garota.
Dentro do carro, enquanto ele manobrava, ela abriu o envelope. E teve a surpresa de gordas quatrocentas libras pelo figurino. Acabou, pensou, tô perdida.

’s P.O.V.

No meu quarto, enquanto tentava revisar matérias de prova, olhei para o envelope aberto no canto da escrivaninha. Eu tinha receio de contar para meus pais que dois vestidos custariam quatro vezes a minha mesada, quase um salário. Eles não eram avarentos, mas também não se davam ao luxo de gastar tanto em roupas que ficariam guardadas pelo resto da minha vida, junto aos outros figurinos de peças anteriores. É claro que existiam alternativas para resolver esse problema, e é claro que minha mãe me lembraria disso, mas ainda assim eu sentia aquele medo que faz a pessoa gaguejar ao falar.
Ensaiando o que dizer, ouvi duas batidas à porta. Justo minha mãe apareceu, me fazendo novamente pensar em contar ou não naquele momento, afinal, uma hora eu teria que o fazer. Ela entrou com ar de animação, sentando-se à beira da cama. Girei a cadeira para acompanhá-la.
- Teremos vizinhos novos. – disse ela, empolgada. Como Frankie Heck, do seriado, minha mãe se importava muito com o bom relacionamento entre a vizinhança e nós. – O sobrado da dona Sharmaine foi alugado hoje. Os Boechat disseram que é uma moça bem nova, com um bebê de colo. Adoro bebês!
- Hm... – tentei me mostrar interessada. Não era tão ligada aos vizinhos quanto ela; só me importava as pessoas que ficavam dentro da minha casa. Porém, naquele caso, a palavra “bebê” despertou a minha atenção. – E você sabe se essa moça já tem uma babá?
- Não sei. – minha mãe parou para pensar, provavelmente se recordando da conversa com a sra. Boechat. – Acho que não. Por quê?
- Porque acho que vou precisar de um dinheiro.

’s P.O.V.

Livie tinha conseguido alugar uma casa. Eu estava feliz por ela ter alcançado mais uma de suas metas. Era bom ver alguém que eu gosto galgando todos os postos que quer. No entanto, também estava desapontado, pois não teria mais nem a ela, nem a Angie para amenizar a atual conjuntura familiar que eu passava. Poderia parecer egoísta eu pensar assim, mas eu não queria perder o equilíbrio que ela e a baixinha davam para a casa.
Mas eu não iria dizer ou demonstrar sinais de que não queria que ela fosse viver a própria vida, logicamente.
- A casa já é mobiliada, então logo amanhã eu já posso ir pra lá. – Livie continuou a contar, empolgada. – E é perto daqui, posso até vir andando, de vez em quando.
- Mas e a Angie? Quem vai cuidar dela, já que o seu horário é todo desordenado? – perguntei, mexendo com as pontas dos dedos da baixinha, que dormia tranquila, numa cama de solteiro encostada à parede. Estávamos no quarto de hóspedes, e Livie já arrumava as malas.
- Vou ter que ficar de manhã em casa, mas à tarde outra pessoa vai cuidar dela. – respondeu ela, não deixando que esse detalhe a afetasse. – Assim que Stephen for transferido, a gente dá um jeito.
- Você vai receber por dia, então? – indaguei, me voltando para Livie.
- Claro que não. – ela riu brevemente do que eu disse. – Seus pais, apesar de eu insistir que não precisava, ofereceram ajuda nos primeiros meses. Os dois estão muito empolgados por serem os padrinhos de Angie. Acho que eles estão revivendo os tempos em que você era pequeno.
- Ainda bem que estão revivendo com ela, não comigo. – disse com ironia.
- Tô sentindo uma pontinha de ciúmes... – Livie cantarolou; eu revirei os olhos.
- Não seja ridícula. – reclamei. – E pra quando é o batizado?
- Daqui a três semanas, numa capelinha em Heathrow.
- Uma semana antes da peça. – lembrei. – Mas por que tão longe?
- Fui batizada lá, é por tradição. – ela sorriu, amável. Arqueei a sobrancelha, questionando-a sobre a tradição. – Tá, eu sei que não sou muito de seguir costumes, mas é uma data importante.
- Você virou um nojo, garota. – impliquei, rindo. Ela me atirou uma peça de roupa, que eu descobri ser um sutiã. – Opa, tá perdoada!
- Me devolve isso! – rindo também, ela caminhou por cima da cama, tentando alcançar sua lingerie. – !
- Pede com carinho. – suspendi a mão, impedindo-a de alcançá-la.
- Me dá logo! – Livie grasnou, pulando para tentar recuperar sua roupa íntima. – Se ela acordar por culpa sua de novo, você vai se ver comigo.
- A culpa é sua, você é quem está gritando. – alertei, confiante. – Agora, pede com jeitinho, que eu dou.
Livie me olhou, sugestiva. E só depois notei o que havia dito, mas não retirei nem corrigi. Ela ficou nas pontas dos pés, aproximando-se da minha orelha e segurando a barra da minha camiseta.
- Se eu pedir por favor, o que você me dá, mesmo? – sussurrou, tão próxima que pude ouvir sua respiração.
- Não faça isso... – murmurei em resposta, resistindo à sua ousadia. – Você tá brincando com o fogo.
- Boas notícias: eu gosto das coisas quentes. – ela soprou um riso e mordeu o lóbulo da minha orelha.
Resistência? Já não havia mais.
- Vamos ver até onde você aguenta, então. – concluí, acomodando minha mão na altura de seu lombar. Livie recuou um pouco, mas não para se afastar. Me olhou com um brilho atrevido em suas pupilas, e segundos depois não vi mais nada. Eu senti. Senti a pressa da sua língua em buscar a minha, a liberdade de suas mãos geladas se enfiando por baixo da minha camiseta, o contorno de suas curvas sob os meus dedos. E, principalmente, senti a certeza de que iria saciar minhas necessidades a qualquer momento.
Era por isso que eu adorava Livie: ela se adaptava a qualquer situação, não havia tempo ruim. Allison uma vez, após ouvir uma conversa entre mim e , chamou essa habilidade de vulgaridade, já eu preferia denominar resolução fácil para problemas temporários.
Ou nem mesmo denominava, o que era mais fácil.

Capítulo 20
’s P.O.V.

Eu já imaginava que grande parte do colégio soubesse ou desconfiasse de e eu, porém, não iria assumir nada ainda. Tinha trazido à tona todos os prós e contras, e havia razões maiores que me impediam. Inclusive, desse modo as pessoas se acostumariam aos poucos, não existiria pressão ou surpresa por parte de ninguém. Resumindo, já estava resolvida quanto a isso. E dessa vez não deixaria que influenciasse na minha decisão de forma alguma. Preferi até mesmo não tocar no assunto quando nos encontramos pela manhã, na sala de aula.
Logicamente não estávamos aos beijos, muito menos abraçados e sequer de mãos dadas – eu não estava acostumada a isso. Conversávamos sobre o Glastonbury e as antigas edições, cada um em uma cadeira, como pessoas comuns. Não pude deixar de notar em nenhum momento como seu rosto mudava ao falar de música. parecia apaixonado, louco (no bom sentido). Até mesmo sua voz mudava. E eu achava incrível a devoção que ele tinha, pois era o que ele gostava e queria para a vida. Sentia um pouco de inveja disso, porque eu não tinha nenhum desejo tão forte para o futuro, e ele, sim. (Digo, não para toda a vida. Tinha planejado apenas a parte da faculdade, e ainda assim estava indecisa.) Era, como se diz, uma “inveja branca”. Eu torcia para que ele conseguisse alcançar aquela meta, já que aquilo o faria tão feliz como parecia.
- E mesmo que não seja só por você, há milhares de pessoas te ouvindo, cantando as suas músicas... – dizia , ainda. Eu continuava atenta, como uma boa ouvinte. – É insano!
- Um dia você vai chegar lá. – dei apoio, sorrindo com toda sua emoção. – Você vai estar no palco, tocando para as milhares de pessoas que estarão lá, sim, por você. – então o vi sorrir também. – E todos vão cantar as suas músicas até perderem a voz. Inclusive eu. – deixei escapar, me intrometendo no sonho de .
- Você vai estar na coxia, com uma roupa desenhada pela . – porém, ele não se importou com a intromissão, parecendo mais preocupado em me ver de decote e saia curta/justa. Sem graça, mas fingindo estar ofendida, bati em seu joelho, vendo-o rir. – Que foi?
- É melhor você ficar quieto. – avisei em tom de brincadeira. Alguns alunos que se sentavam no fundo voltaram para os seus lugares, e teve de fazer o mesmo. , então, voltou também para sua mesa, e eu não sabia se era pior ela me perguntando ou contando mil coisas. Eu mal conseguia pensar!
Nota mental: proibi-la de ver .
Com o pequeno impedimento causado por sobrecarga de informação, fui obrigada a deixar a matéria em branco e fazer de conta que ouvia minha amiga. Na minha cabeça, ilustrei a imagem de adulto, tocando em uma casa de shows grande, e eu o assistindo do canto do palco. Por mais vago e sem reais pretensões que fosse, ainda era um plano futuro. Que tinha ele e eu no meio.
Afinal, por que eu pensava nisso? Por que, melhor dizendo, eu cheguei a imaginar qualquer cena de nós dois daqui a uns anos? Ele poderia ir para o País de Gales no verão, logo, nenhuma esperança devia ser criada. Era esse um dos principais motivos para eu querer ir com calma a todo custo. Não gostaria de passar por nenhuma separação delicada ou, sei lá, namoro à distância. Assim teria tudo sob controle, do jeito que eu quero.
Mas ainda admito que era boa a sensação de que eu estava incluída nos anseios dele. Eu me sentia, de certa forma, querida. Como se eu fosse convidada a participar de algo que significava para ele, da mesma forma que ele fazia parte do que muito me importava no momento – a peça. Que muito me incomodava também, a propósito, pela história dos vestidos. Durante o ensaio, e eu tentamos algumas saídas para diminuir os gastos – pedimos descontos, levamos o “problema” à diretoria e até cogitamos aumentar o preço dos ingressos –, mas aqueles mais viáveis demorariam mais para serem postos em prática. Estávamos em uma sinuca de bico. Eu torcia para que a tal nova vizinha precisasse de uma babá, e mesmo assim eu teria de sacrificar os ensaios à tarde. Mas dizem que há males que vêm para bens, não é?
Após o ensaio, me levou para casa – já estava começando a me acostumar com isso –, porém, paramos um pouco antes, coisa de duas quadras, para termos mais privacidade. E para, além de privacidade, termos um pouco de comodidade, fomos para o banco de trás. Eu estava encostada à janela, com as pernas dobradas para trás, enquanto ele me cercava tanto com seus braços, quanto suas pernas. Seu perfume, nossas vozes e a música no rádio que constituíam a atmosfera leve que existia. Depois do episódio das mãos, ele passava grande parte do tempo que estávamos juntos apertando as palmas das minhas, marcando rapsódias para que eu adivinhasse de qual canção pertencia. Uma brincadeira boba, mas que compensava as horas que mantínhamos as aparências.
- Tô ansiosa pro dia da estreia. – confessei depois de uns minutos de silêncio, prestando atenção no ritmo que apertava a palma da minha mão. – Steady as She Goes?
- Quase. – disse ele ao meu palpite. – E falta ainda um mês, mal chegamos a ensaiar com tudo pronto.
- Eu sei, mas quero ver logo como vai ficar tudo. Imagina, é a França de 1900! – me animei, esquecendo a sequência que ele fazia. – Seven Nation Army?
A melhor parte do jogo era quando eu acertava. Como prêmio, eu recebia um beijo. , então, inclinou-se na minha direção e me manteve imóvel por um (muito) bom tempo, e quando se afastou, eu ri baixo e breve.
- Que foi? – ele pareceu confuso.
- Vou chutar mais vezes, vai que eu acerto na próxima também, né? – expliquei, fazendo-o rir. – Voltando, você já pensou como vai ser?
- A peça? – quis confirmar; eu assenti. – Já, mas não com tanta expectativa quanto você. – e fiquei um pouco sem jeito pela afobação. – E olha que eu vou ver um monte de peitos e bundas!
- ! – guinchei, indignada. Ele arqueou as sobrancelhas, me perguntando o que tinha feito pelos gestos. – Podia ter, pelo menos, usado um eufemismo, eu não preciso saber o que você olha.
- Se te consola, no fim das contas, é com você que eu fico.
Fiquei vermelha e com muito calor nas bochechas. E eu não sabia se por vergonha ou lisonjeio. Mal podia desviar dos seus olhos, uma vez que aquelas enormes bilhas estavam bem à minha frente.
riu de novo, vendo que, de uma forma ou de outra, eu tinha perdido a fala. Mais uma vez se projetou na minha direção, me beijando antes que eu recuperasse minha sanidade. Em vez de continuar com a mão sobre a dele, levei as duas para sua nuca, segurando-o da mesma forma que fazia quando não queria que nos separássemos. Correspondendo, ele me puxou em sua direção com força e rapidez, então notei que nosso ritmo havia mudado, estava acelerado, intenso, diferente dos demais. Maravilhoso.
Eu não era tão inexperiente com garotos, mas também não atravessava o limite do normal. Porém, naquele momento, eu queria. Queria toques, queria beijos em lugares diferentes e até mesmo mordidas inusitadas e indevidas. me fazia querer aquilo. Mas estávamos num banco de carona, e nem estava tão escuro assim. Eu ainda tinha bom senso, não faria nada do que queria.
Ameacei me afastar, ele ameaçou me acompanhar. Voltei meu corpo para a janela, ele se moveu na mesma proporção. Eu não tinha mais para onde fugir, ele pôs os braços ao lado dos meus ombros, dificultando ainda mais minha tentativa de escapar. Então riu quando o empurrei para longe.
- Contenha-se. – disse em tom de riso, apesar de autoritária.
- Por que eu deveria? – voltou ao seu lugar, com um sorriso enviesado.
- Primeiro, porque eu quero. – ajeitei meu cabelo, que já não estava só um pouco bagunçado. – Segundo, o primeiro motivo já é suficiente. – tentei parecer séria, não tendo sucesso.
- Sua palavra é lei, então? – perguntou , prestando atenção no rabo-de-cavalo que eu fazia. Assenti, sorrindo de modo infantil. – E qual a punição pra quem infringe?
- Abstinência. – respondi rápido, enrolando as pontas dos fios de cabelo nos dedos. – E lembre-se que chantagem também é contra a lei.
- Eu vou ter mesmo que ser bonzinho? – ele choramingou, o rosto contorcido de tristeza. Respondi com um som positivo, achando graça no beicinho que fazia.
- Bonzinho não, muito bonzinho. – corrigi. – Mas veja pelo outro lado, você vai ser recompensado mais cedo ou mais tarde. – e mais uma vez desencostei da janela, entretanto, ao invés de ficar de frente para , apoiei minha cabeça no seu ombro, olhando para as luzes que já começavam a se acender na rua. Exausta por culpa de mais um dia corrido, fechei os olhos e me mantive quieta por longos minutos. colaborou com seu silêncio enquanto me abraçava, seus dedos iam e vinham sobre o meu antebraço. Fora o rádio, não havia um som sequer. Foi quando percebi a pequena coincidência entre nós e a música que tocava:
“I like where we are when we drive in your car. (…) ‘Cause our lips can touch and our cheeks can brush.”
Sorri. Eu gostava de tudo isso, sim.

Noel, que fungava mais que vivia, estava deitado no sofá maior – provavelmente cochilando, já que estava de costas ¬–, quando cheguei. A TV estava ligada no ESPN e um pacote de amendoins aberto e vazio jazia na mesa de centro, o que significava que meus pais ainda não tinham chegado. Guardei meu material no quarto, troquei a roupa e voltei para a sala, para dar um jeito na pequena bagunça. Alguns minutos depois, meu pai adentrou a sala com sacolas de mercado.
- Quer ajuda? – me ofereci, já segurando algumas sacolas.
- Sua mãe pediu pra você ir até a casa da Dona Sharmaine, parece que o novo inquilino quer uma babá daqui da vizinhança. – disse ele apo me dar as bolsas. Score!, pensei, animada. – Ponha um casaco, começou a ventar lá fora.
Assenti, pondo as compras no armário e em seguida indo calçar um tênis e vestir um moletom. Ao sair de casa, avistei minha mãe algumas casas à frente, na varanda do sobrado bordô da senhora que havia ido morar com os filhos, pois se sentia sozinha desde que enviuvara. Uma moça aparentando, no máximo, vinte anos e um homem próximo dos cinquenta conversavam com minha mãe na varanda, como se morassem na mesma rua há anos. Me aproximei, um pouco tímida por não os conhecer, e logo minha mãe fez questão de me apresentar:
- Essa é a minha menina, . – me abraçou pelos ombros, me expondo como um troféu, enquanto eu ficava cada vez mais desconfortável.
- Prazer em conhecê-la. – disse o homem de um porte admirável. Usava um terno de risca de giz e gravata celeste, da cor de seus olhos. Me senti familiarizada com aquele rosto, tinha certeza de já tê-lo visto. – Me chame de Otto, por favor.
- Igualmente. – sorri por educação.
- Essa é Livie, a nova dona da casa e mãe da minha menina. – ele apresentou a moça, e me surpreendi com o título dela. Não que Otto fosse feio ou velho demais (atualmente, casais com grande diferença de idade era comum), mas os dois não combinavam. Algo não se encaixava ali. E ainda assim tinham uma filha. Fui obrigada a conter meu espanto para não causar má impressão.
- Mãe da afilhada dele. – ela o corrigiu, olhando-o de rabo de olho. – É muito bom te conhecer, . Eu ia mesmo precisar de alguém de confiança para tomar conta de Angie, e pelo que sua mãe disse, minha pequena vai ficar em boas mãos.
- É a primeira vez que vou tomar conta de uma criança por tanto tempo, mas existem primos e irmão caçulas pra isso, né? – tentei descontrair em tom de riso.
- Te entendo perfeitamente. – disse ela, sorrindo e gesticulando. – Até ano passado, eu que era a babá da família aos fins de semana.
- Voltando ao ponto inicial. – Otto evitou uma conversa de comadre. – Como você estuda pela manhã, Livie vai ficar com a menina. Aí você almoça direitinho e vem pra cá até as 12h30, ok?
- Certo. – falei, imaginando a correria que seria para eu voltar para casa e almoçar em meia hora. – E até que horas eu devo ficar?
- Até as seis, seis e meia... – respondeu Livie. – Se eu tiver qualquer compromisso depois do trabalho, ligo avisando. E pode deixar, vamos pagar como horas extras, nesses casos.
- Tudo bem. – Tudo ótimo!
- À noite, vou passar aqui e deixar seu pagamento diário. – Otto disse as palavras mágicas. – Cinquenta libras por dia é suficiente?
- Com certeza. – deixei minha agradável surpresa nítida na voz.
- Então, já podemos começar amanhã? – Livie perguntou, incentivadora.
- Claro! – disse por fim, recebendo os parabéns em forma de afago da minha mãe. Eu havia conseguido meu primeiro emprego!

’s P.O.V.

Era oficial, eu estava sozinho novamente. Livie já havia desocupado o quarto de hóspedes, e nem mesmo na lavanderia restava alguma roupa sua ou de Angie. Decepcionado e impotente, me joguei sobre o sofá da sala de qualquer maneira, encarando o teto por tempo suficiente até que meus olhos se cansassem e fechassem.
E quando eu fechava os olhos, via um sorriso. Era curvilíneo e bem delineado como o de Susan, passava toda a emoção que Livie punha e em momento algum parecia falso, assim como o de Allison. Eu sabia a quem pertencia, na verdade, mas era confuso e sem nexo ela ser comparada às mulheres que ultimamente rondavam a minha cabeça, principalmente por ser um sinal claro de que ela estava fazendo o mesmo.
, ... Se você soubesse o que eu ando pensando, eu seria um homem morto.
Ri sozinho, despertando por minha conta do pequeno transe. Ao abrir os olhos, vi os pés de Susan no alto da escada, então esperei que ela descesse. Dois minutos completos – checados no relógio – e nada de ela se mexer. Me levantei, intrigado, indo em sua direção e parando a alguns passos da escada ao ouvir sussurros. Franzi o cenho, prestando atenção ao que ela dizia:
- Não, não precisa se preocupar, eu mesma cuido disso. Dentro de uma semana já quero riscar isso da minha lista.
- Susan? – chamei baixo, dando a parecer que não estava bem abaixo de onde ela estava.
- Preciso desligar, outra hora conversamos. – a ouvi dizer rápido. – ? É você?
Ela, enfim, desceu os degraus, já vestida de camisola e chambre, apesar de não passar das sete da noite. Vi sua mão guardando o celular no único bolso do roupão, me dando certeza de que algo estava sendo omitido – Susan não costumava falar ao telefone pelos cantos, muito menos evitando que eu ou outra pessoa a ouça. Apesar da vontade de perguntar quem era e o que queria, me contive. Não era bem agora que eu faria meu papel de filho preocupado e atencioso.
- Aham. – respondi, voltando para o sofá.
- A gente precisa conversar. – anunciou ela, me olhando seriamente. Desconfiado, não me movi ou respondi, deixando nítido o quanto estava interessado em me estressar. – Não me olhe desse jeito, você sabe que realmente precisamos.
- Precisamos conversar, ou você precisa descontar a sua raiva e frustração em mim?
Susan suspirou, cansada. Caminhou até o sofá menor e se sentou.
- Estou te oferecendo uma chance de diálogo aberto. – disse tranquilamente, procurando sempre me olhar. – Eu vou te dizer o que eu penso sobre você, e você me diz o que pensa sobre mim. Sem julgamentos.
Sem julgamentos. Ela me faria um discurso vazio, então?
- Qual a minha garantia?
- Nenhuma. – respondeu minha mãe, sem emoção. – Ninguém pensa de verdade antes de falar, não dá tempo. Comigo não seria diferente. Vamos ter que ser tolerantes.
- Esse não é o meu ponto forte. – lembrei, tentado a ceder. Eu não tinha nada a perder, mesmo.
- Nem o meu. Mas eu estou disposta a tentar.
- O que você quer ouvir? – me dei por vencido.
- O que você tem pra me dizer. – ela comediu, serena. Arqueei a sobrancelha, questionador. – Vamos lá, eu te ajudo: como você tem me visto nos últimos tempos?
Eu tinha ali a maior chance dentre os sete anos de transformar pensamentos transtornados em palavras. Havia esperado por um momento parecido, ensaiado o que diria e como diria. Porém, tudo desapareceu no exato segundo que me vi ali, a ponto de proferir a primeira sílaba, como se as sensações e opiniões se sentissem melhor quando oprimidas. Como se eu estivesse acostumado a só revelar uma parte mínima do que me afligia e não soubesse o que fazer na hora certa de me expor. Mas eu precisava acabar com isso. Logo.
- Uma mãe relapsa. Desde que Leonard morreu, você parece ter esquecido o seu lugar de mãe. Só contratar empregados pra não me deixar sozinho e encher o armário de porcarias não é o bastante. Esse é o superficial, na verdade. É até ridículo o filho dizer o que você, a mãe, tem que fazer.
- Quer dizer, então, que satisfazer as suas necessidades e caprichos não significou nada? – ela indagou, e pude notar seu tom de impaciência.
- De que adianta dar presentes à distância? Eu ficava feliz, sim, mas onde você estava pra me ouvir agradecer?
- Eu passava o tempo todo tentando te dar o máximo de conforto e segurança. Depois de falhar com o seu irmão, não queria fazer o mesmo contigo. Foi por sua causa, para você ter tudo que tem hoje. – Mais uma vez, não. – Que, aliás, você aproveita muito bem, não é?
- Quer que eu faça o quê? – indaguei com ironia. – Me converta ao Budismo, me livre de todos os bens materiais e te mostre que tudo isso que você dá tanto valor é supérfluo? Eu uso porque já temos, não por ostentação. Até porque se gabar do dinheiro dos pais é burrice.
- Queria ver todo esse seu idealismo se não tivéssemos metade do que temos. – ela riu, descrente de mim. Realmente, eu não tinha a menor garantia de que nossa “conversa” seria neutra, porque não estávamos tendo. – Você ia querer muito mais.
- Esse é Otto, não eu. – observei, revirando os olhos. – Ambição também não é uma característica minha.
- Tudo bem, senhor modesto. – Susan ergueu as mãos, indicando que não tocaria mais no assunto. – Continue.
- Você, assim como Otto, tem dado mais importância ao título que ao produto. Não importa se eu não sei porra nenhuma, importa que, de alguma forma, até através de suborno, eu vou terminar o colegial pra fazer a faculdade que vocês querem que eu faça. Tenho más notícias, isso não vai acontecer. Nem que eu seja expulso de casa. Eu não sou Leonard, não tenho a vocação que ele tinha. Já cansei de fazer vocês entenderem que não sou mais aquele garotinho de cinco anos que vocês moldam. Essas expectativas, essas esperanças que vocês criaram de que eu serei um advogado servem apenas pra me desmotivar de tudo. – mal notei quando comecei, porém ainda havia mais o que dizer. Sentia aos poucos o peso das brigas descendo das minhas costas. – E aí eu tento uma nova saída, mas não dá certo. Tento conversar, mas não tenho resultados; tudo que eu ouço é “não”, como se o direito de planejar meu próprio futuro fosse um erro. Eu quero ter minhas próprias decisões, ter liberdade.
- Você não saberia lidar com a liberdade ainda, . – ouvi Susan em tom novamente ameno. Encarando seu rosto cansado, não via mais a impaciência ou o sarcasmo.
- Eu nunca tive a chance de experimentar! – rebati, mas não de forma malcriada ou petulante. – Se, pelo menos, eu soubesse como é ter que trabalhar para consegui o que eu quero porque escolhi assim, diria se consigo ou não lidar. Mas ultimamente tudo tem sido imposto, e duvido muito que vá mudar, se eu não fizer nada.
- Enquanto você estiver no colégio, não há nada que possa fazer. – concluiu Susan, com uma resignação que não parecia lhe pertencer. – Seu pai decide o que é melhor pra você. – acrescentou, então mudando as expressões com o que havia dito. – Seu pai e eu.
“Seu pai decide... Seu pai e eu.” Levando em conta o gênio ruim e modo autoritário de Otto, aposto que somente ele tinha decidido alguma coisa.
- Dentro de um ano isso vai acabar. – fiz questão de lembrar. – De qualquer maneira, não vou ser mais obrigado a nada. Por que não poupamos o trabalho? Talvez, sei lá, em vez de eu levar tudo sozinho, você – fiz questão, também, de particularizar – me aconselharia do que eu devo ou não fazer. É melhor quando as pessoas entram em um consenso.
Se ela estava mesmo disposta a me ouvir, eu tinha a obrigação comigo mesmo de arriscar. No fundo, por mais que me negasse a assumir, sentia falta do seu apoio. Aquele poderia ser o estopim para uma nova mudança nas posições em que estávamos com relação ao outro.
Aguardei por uma resposta qualquer de Susan, que levemente mudava suas expressões. Ainda havia, no entanto, a opacidade de seus olhos, que escondia algum assunto pendente.
- Depois continuamos essa conversa. – foi o que ela disse, e só entendi (em partes) a razão ao ouvir passos pelo corredor. Fora uma iniciativa toda dela, e Otto não devia ter ciência. Quando ele apareceu no cômodo, olhei rapidamente para ele, voltando o foco para minha mãe. Em uma confirmação muda e sem gestos, ela desviou o olhar e ligou a televisão, fingindo ser para aquilo que estávamos ali. Contribuí com sua pequena omissão ao me virar para a TV.
Talvez fosse isso que ela falasse ao telefone. Talvez até algo que eu nem sabia ou desconfiava. Mas de uma coisa eu tinha certeza: desde a chegada de Livie, diversas mudanças vinham surgindo. Eu precisava saber se era apenas coincidência ou não.

***

Pela manhã, entre uma aula e outra, escapou para falar com . Encaminhando-se par o banheiro, as duas cochichavam para que não fossem barradas do passeio fora de hora – com relação a fugas das salas de aula, a instituição era impassível. A última coisa que queriam era uma chamada de atenção.
- Tá, fala. – disse , sentando-se na bancada da pia. – Quem morreu?
- Ninguém, exagerada. – negou com a cabeça. – É que eu arrumei um jeito de pagar os vestidos. – anunciou, vendo a amiga articular “Como?”. – Mas vou ter que faltar todos os ensaios durante a semana, à tarde. Talvez até os extras.
- Você vai trabalhar no Mcdonalds? Virar prostituta? Vender a alma pro capeta? – perguntou a mais velha em disparada.
- Não, ! Fica quieta pra eu explicar! – guinchou a outra, abanando o ar. – Vou ficar de babá pra minha vizinha, ela vai pagar incrivelmente bem por só algumas horas.
- Incrivelmente quanto? – se mostrou interessada.
- Cinquenta libras. – respondeu devagar, fazendo a amiga entender perfeitamente o valor. – De meio-dia às seis. Pagamento no ato.
- Então daqui a uns dias você já tem tudo? – a garota ajeitou sua postura, animada. – Isso é ótimo! – comemorou após ver a amiga assentir.
- Mas então, preciso ter carta branca pra faltar. – lembrou , voltando à seriedade. – Contigo e com Elizabeth. É por uma boa causa.
- Fica tranquila, por mim, você tá mais que liberada. – disse a produtora da peça. – Vou falar com a Moore logo no intervalo, pra adiantar o expediente. Ela pode surtar no ensaio de mais tarde, se não souber e você não for de novo.
- Eu só faltei uma vez! – guinchou a protagonista, indignada.
- Eu sei, mas você também sabe como ela é...
- Multipolar. Sim, sei bem. – ela se conformou, revirando os olhos. – Enfim, fale com Elizabeth, por favor. E não conte a mais ninguém, ok? Senão vai começar a espalhar por aí, e daqui a pouco a história é de que fiquei órfã e tenho que sustentar a casa.
- Tudo bem. – concordou, rindo e descendo da bancada em um salto. – Agora, vamos pra sala. Os professores já devem ter chegado.
Concordando, e ela voltaram para suas classes. A mais nova foi direto se sentar, pois o Sr. Prophet estava prestes a entrar na sala de aula. Abrindo o caderno para anotar a matéria, ela sentiu uma bolinha lhe acertar a mão e outra, o ombro. Olhando nas direções que vieram, descobriu uma ser de – a mais precisa, que por um pouco não acertou a mesa, mas sim sua mão – e .
“E aí? topou ajudar?”, dizia o bilhete dela. “Aham, e deu o maior apoio!”, respondeu , logo a devolvendo.
“Te levo pra casa depois do ensaio?”, era o recado de . A garota pensou em uma boa resposta, escreveu e a apagou. Bateu a caneta na mesa algumas vezes, questionando-se se devia dispensá-lo de uma vez ou não. Por fim, preferiu ser neutra. “Depois a gente vê. xx”

queria conversar. Queria contar a alguém o inesperado ocorrido do dia anterior. Já estava há muito tempo escondendo ou contando superficialmente o que acontecia dentro de casa – quando perguntado, alegava não gostar de falar sobre. Contudo, agora ele precisava contar a alguém de confiança. Alguém que era apenas ouvinte, e não espectador, como Livie. Alguém que mesmo sem ele dizer, sabia do que se tratava. Alguém como Allison.
No intervalo, ele procurou a ex. A garota aguardava Emma, que discutia a relação com , no corredor que já esvaziava. Ela parecia distraída com seu iPod e um exemplar de Jardins de Vênus, o livro que ele sabia ser o favorito dela. , então, pigarreou, chamando sua atenção. Allison ergueu o olhar, não retirando os fones.
- Posso falar contigo? – ele perguntou, vendo-a dar de ombros.
O garoto, depois de ouvir Victoria comentar com Susan, anos atrás, sobre os cinco estágios do luto – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação –, classificava qualquer perda com base nas reações semelhantes às causadas pela morte. Allison sempre fora bastante reativa, logo, deixava nítidas suas emoções. Ele precisava reduzir a intensidade delas, pois conseguia ver que a ex ainda não tinha superado o término, continuava no estágio de raiva.
- Fale.
- Um tempo atrás, você me disse que, mesmo separados, não se negaria a conversar, caso eu precisasse.
Ela respirou fundo, fechando o livro e desligando o iPod.
- Talvez eu tenha mentido. – disse, sem expressões.
- Você não sabe mentir quanto está de cabeça quente. – observou , desarmando-a. – E eu te vi umas horas antes, naquele dia. Não me diga que você estava calma.
- O que você queria, também? – piou a garota. – Eu estava magoada, e você sabe como eu sou rancorosa.
- Por isso ainda não me perdoou. – constatou o garoto. Ela meneou a cabeça, desviando dos olhos dele.
- É meio difícil, vendo que você já tá com outra. – murmurou, mal humorada.
- Nós já estávamos indo mal antes de tudo o que aconteceu. – ele sentenciou. – Só não conseguíamos admitir.
Allison concordava com o que ouvira. Permaneceu quieta por alguns instantes, sem mais argumentos ou até mesmo xingamentos. Encarou novamente, de maneira complacente.
- Você disse que queria conversar, não é?


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