História por Júlia Borges e Marina Vieira | Revisão por Carol Mello

1 - The beginning of a joke

O carro passava na ponte do Brooklyn sobre o Rio East e as meninas grudaram seus rostos nas janelas de trás e observaram a cidade que até um tempo atrás era apenas um sonho para elas, pois nunca imaginaram que um dia fossem ter a oportunidade de ir à Nova Iorque, nem para passear, muito menos para morar durante tempo indeterminado.
- É bonita, não é? – olhou para seu lado oposto encontrando uma com as mãos grudadas no vidro.
- Sim! – a amiga e prima desviou o olhar do lado de fora e concordou.
O taxista ouviu as instruções das garotas até chegarem à casa que a irmã de fizera o favor de alugar para as meninas, pois como ela morava nos Estados Unidos há algum tempo, era mais fácil e mais seguro ela alugar uma casa do que os pais fazerem isso do Brasil. Era muito diferente do que imaginavam, pensavam naquelas casas de tijolinhos vermelhos espremidas uma nas outras como costumavam ver em filmes. A casa não era muito grande, branca com um lindo jardim cheio de gardênias e gérberas, dentre elas um beija flor, e tinha uma cerca também branca. O bairro parecia ser tranquilo e no final da rua se via meninos andando de bicicleta. Desceram do táxi e atravessaram a rua com um pouco de dificuldade devido ao tanto de malas que carregavam. Antes de passarem pela cerca, olharam para casa cujo número era 217.
- Vamos entrar? – perguntou para que logo abriu outro sorriso e procurou pela chave na bolsa. sem paciência alguma puxou sua bolsa e logo achou o chaveiro da Pucca. Caminharam sobre a passagem de pedrinhas até chegarem à porta também branca com maçaneta vermelha, como as janelas e o batente da porta. abriu a porta e um cheiro de mofo invadiu suas narinas e fez com que as duas começassem espirrar. Alérgicas!
atravessou a sala para abrir as duas janelas que davam para um lote vazio.
- Nossa, há quantos meses será que não entram aqui? Os proprietários dessa casa deviam abrir um pouco essas janelas.
- Bom, pelo menos eles cuidaram do jardim. Olha que lindas essas gérberas vermelhas e gardênias brancas, combinam com a casa. – disse toda contente e deixou um sorrisinho escapar de seus lábios.
- Bom, então pode ficar olhando nosso lindo jardim, enquanto isso eu vou escolher o quarto mais... – Ela não terminou de falar e saiu correndo pelo pequeno corredor que só tinha três portas, abriu um e se decepcionou vendo que era o banheiro. Correu para a última porta do corredor que ficava em frente ao banheiro e encontrou um quarto laranja claro, olhou para a porta do outro quarto e encontrou uma sentada no chão dele.
- Eu não queria esse mesmo! – olhou para o cômodo e viu paredes amarelas. – Eu sempre quis quarto laranja claro.
- Mas o seu quarto lá no Brasil já era laranja claro. – A garota levantou do chão em direção ao outro quarto.
- E o seu já era amarelo. – disse jogando seu casaco em cima de sua nova cama de casal branca. – É tão bom chegar em uma casa já com móveis, só precisamos nos preocupar com a decoração. – Abriu a janela e o quarto foi iluminado fazendo os olhos das garotas fecharem rapidamente. – Vamos comer?
- Passa fome. Eu estou preocupada. Temos que arrumar a casa, ir à faculdade e terminar de acertar as coisas, arranjar um emprego, e você pensando em comer.
- Mas , como vamos fazer isso tudo de barriga vazia? – olhou para prima e começou a rir, não tinha jeito, ela era muito esfomeada.
- Okay, mas temos um problema.
- Qual? – franziu a testa.
- Nós não temos comida! – falou em tom óbvio e encolheu os ombros desanimando. As duas foram para a cozinha, sem intenção nenhuma. sentou na bancada e olhou para prima que se sentava em uma cadeira. De repente se lembrou o que o taxista e a irmã de tinham falado.
- Já sei! Lembra que o taxista e tua irmã disseram que aqui perto tem um hipermercado? – desceu animada.
- Compras? – fez careta.
- Não sua anta, em hipermercados costumam ter adegas... - não precisou terminar a frase, pois a amiga já estava na porta da casa com a bolsa no ombro fazendo a outra gargalhar.
- Miserável!
Saíram de casa só com o pouco de dinheiro que tinham no bolso, ainda tinham que trocar o resto por dólares. Andaram alguns metros em silêncio e tropeçou em seus próprios pés.
- Ai caramba! – Ela estava caída na calçada xingando todos os palavrões que conhecia enquanto se contorcia de rir sem saber o que fazer. A menina ria tanto que teve que se sentar onde estava caída.
- Nossa, nem bebemos e você já se encontra nesse estado! – riu mais quando a menina lhe enviou um dedo. também deixou sua risada escapulir e ainda sentada junto com a prima de costas para rua, percebeu que estavam em frente a uma casa que parecia abandonada, cujo número era 227.
- Que casa mal cuidada! – A casa era do mesmo estilo que a delas, só que tinha muito mato em volta. - Casa mal assombrada.
- Pois é, não vai ficar com medo à noite! – A menina ignorou o comentário empurrando a prima quando levantaram fazendo a outra cair. Depois de ajudar a se levantar comentou:
- Me parece um tanto familiar.
- Juro que ia falar a mesma coisa. – falou, e dando de ombros, foram à procura do hipermercado achando-o com certa facilidade.

- , podíamos aproveitar que estamos aqui e comprar umas coisas para casa – falou puxando o carrinho e indo para o corredor de chocolates.
- É, assim não precisamos voltar – disse pegando umas barras e jogando no carrinho sem cuidado algum e indo para adega seguida por . Depois de minutos escolhendo vinhos, saíram daquele corredor indo para outro. - Então vamos ficar com três suaves, um seco e um tinto? – concordou – Só? – fez bico fazendo a outra revirar os olhos.
- Depois a gente compra mais. – agora pegava vários pacotes de miojo e macarrão enquanto pegava molho de tomate e catchup. – Tá, agora o que a gente compra?
- Produtos de limpeza e uns aperitivos para comer com o vinho.
- Eu quero palmito! – exclamou fazendo uma cara sonhadora.
- Eca, prefiro meus amendoins. - falou colocando alguns pacotinhos dentro do carrinho enquanto vinha com dois potes de palmito nas mãos. Compraram alguns produtos de limpeza e coisas simples para casa como: lixeira, saboneteira, etc.

Quando saíram do supermercado já estava escuro, pois ficaram fazendo hora observando os produtos diferentes que elas não eram acostumadas a ver. Fizeram o caminho de volta pra casa com certa dificuldade pelo tanto de sacolas que carregavam, pararam vez ou outra para descansar as mãos que estavam vermelhas por causa do peso das compras.
- Acabou que no final a gente fez uma compra de verdade. – disse olhando para o tanto de sacolas.
- Não devíamos ter trazido tanto vinho, tá muito pesado. – reclamou franzindo a testa.
- Ah, mas vai valer à pena. – sorriu ao imaginar a bebida em sua boca.
- ! Abre essa porta logo que eu não to agüentando mais! – tirou a prima do devaneio quando chegaram em casa.
- Cacete! – bateu a mão na testa ao entrarem em casa, soltando algumas sacolas que continham macarrão e chocolate. fez uma careta imaginando os chocolates quebrados, pois eles já tinham sido socados uma vez por quando praticamente os jogou no carrinho do supermercado.
- O que foi? – perguntou pegando as sacolas que estavam no chão e verificando o conteúdo.
- Esqueci de ligar pra mamãe! Ela já deve estar louca. – falava enquanto digitava freneticamente em seu celular.
- Meu Deus, é verdade! Mamãe deve estar pensando os maiores absurdos, como a gente ter ido parar em outro país ou ter levado calote no aluguel da casa.
- É, provavelmente elas devem achar que pegamos o avião errado. – concordou enquanto dava passos ansiosos pela sala.
- ’s! – Exclamaram juntas e riram, elas sempre riam de suas mães que eram irmãs e se pareciam bastante, tanto fisicamente quanto nas coisas que falavam e pensavam.
- Droga! Ninguém atende. Quer tentar? – estendeu o celular para já que o seu estava descarregado. Ela aceitou e começou a ligar para a casa da avó, pois sua mãe estava visitando os parentes que moravam longe.
- ALÔ? – ouviu a avó berrar no telefone e afastou o aparelho da orelha, soltou uma risada da cozinha onde guardava as compras.
- Oi vovó, tudo bem?
- GRAÇAS A DEUS VOCÊ LIGOU MINHA FILHA, ESTÁVAMOS PREOCUPADOS, ACONTECEU ALGUMA COISA?
- Não vovó, tá tudo bem. Posso falar com minha mãe?
- ELA SAIU, FOI VISITAR UMAS AMIGAS.
- Hum... Posso falar com meu pai então?
- ELE TAMBÉM FOI COM ELA.
- Okay, fala pra minha mãe que já chegamos, está tudo bem e que mais tarde ligo pra ela. – disse esperando a avó responder algo – Vovó?
- QUE FOI? – não aguentou e riu.
- Fala pra minha mãe que está tudo bem e que depois eu ligo novamente. – repetiu a mensagem falando mais alto.
- PODE DEIXAR MINHA FILHA. BEIJOS. – Ao desligar o telefone comentou: - É perca de tempo colocar o viva voz pra falar com a vovó. – concordou e foi ajudar a colocar as compras no lugar enquanto riam da família.

- Vou tomar banho. – comentou depois de longos minutos de silêncio na sala de TV, continuou a passar os canais sem parar em nenhum em especial.
- Okay, não demore que eu também quero tomar banho e to com sono.
- Prometo ser rápida. – gritou trancando a porta do banheiro.
foi para seu quarto enquanto ouvia o barulho do chuveiro ligado e após vestir uma roupa confortável, pegou o celular e tornou a ligar para casa, dessa vez atenderam.
- Alô? – A mãe dela atendeu quase na mesma altura que a avó das meninas, que era mãe das mães delas.
- Oi mãe, tentei ligar pra você, mas ninguém atendeu.
- É, nós achamos que o vôo iria atrasar, por isso resolvemos almoçar fora, mas você podia ter ligado pro meu celular.
- Mas eu tentei! Só que devia estar fora de área. – ela se defendeu e conversou durante alguns minutos com sua mãe contando como foi a viagem e como era a casa. – Sim mãe, sim, eu to comendo direitinho – revirou os olhos, sua mãe sempre fazia essa pergunta – Preciso de desligar agora, quero dormir.
- Tá bom minha filha, se cuida, mamãe tá morrendo de saudades. – riu e respirou fundo se segurando para não chorar.
Foram dormir cedo porque estavam cansadas e tinham que resolver várias coisas no dia seguinte, como se matricularem nas faculdades e ir atrás de emprego, seus pais não aguentariam sustentar as duas sem que elas ajudassem na despesa.

Às oito do dia seguinte, já estavam em pé e esperavam o táxi na calçada da casa branca naquele bairro calminho, uma jovem que aparentava a idade delas de cabelos vermelhos e algumas sardas na cara saiu de uma casa em frente e as cumprimentou com um aceno de cabeça.
Primeiro foram para a faculdade de que ficava mais longe, ela ia começar o curso de astronomia, depois foram para a faculdade perto do Brooklyn, ia fazer jornalismo. Estavam muito felizes de terem conseguido uma bolsa na mesma cidade e na mesma época do ano. Era muita sorte, porque mesmo morando no Brasil não moravam na mesma cidade e se encontravam apenas duas vezes no ano, no natal quando iam para a casa da avó em comum ou quando tirava férias e ia para casa da . Seus pais não gostaram da ideia, os pais de falavam que ela nunca mais ia voltar para lá, pois sempre tiveram sua teoria “filho que sai de casa para estudar nunca mais volta’’. Já o pai de tinha uma filha que foi para os Estados Unidos, se casou e pretende viver para sempre na cidade de seu marido, e a mãe de falava que a filha ia ficar grávida. Sabia que a filha tinha juízo, no entanto era muito exagerada e desconfiada, mas de tanto que as duas pediram e fizeram chantagem emocional, os pais permitiram com a condição de que tinham que ter um emprego na mão no máximo de dois meses. Elas não tinham ideia no que podiam trabalhar.

- ? – disse colocando o último pedaço da torta de baunilha na boca.
- Hum?
- O que vai fazer agora? – consultou o relógio de pulso vendo que marcava três horas da manhã.
Quando chegaram das faculdades fizeram uma faxina na casa e arrumaram as malas, de noite tomaram umas taças de vinho até ficarem tontas e decidiram estudar inglês - mesmo sabendo que não iriam aprender nada naquele estado. Não sabiam falar um inglês perfeito, teriam mais um tempo de aula em um curso que ficava próximo a casa.
- Dormir , como você quer procurar emprego amanhã?
- Então lava os meus pratos para mim. – A garota saiu correndo da cozinha para escovar seus dentes.
- Ah não ! Vem secar que eu estou desmaiando de sono aqui.

- Pai, eu liguei pra vocês sim, eu pedi pra vovó deixar recado, mas ela deve ter esquecido! – ou não deve ter escutado, pensou. - Não pai, eu não acabei de acordar! – mentia no telefone. Seu pai havia ligado logo quando ela estava no seu melhor sono – Sim, sim, já estamos matriculadas. Vamos procurar emprego hoje, fique calmo. Também já estou com saudades, mande um beijo para mamãe! – escutava tudo de seu quarto, tinha acordado com o toque escandaloso do telefone de . Quando pensou em voltar a dormir, abriu a porta e pulou em cima da cama.
- Acorda Piri! – as duas chamavam uma e outra de Piri, elas deram esse apelido quando descobriram o lado pervo da outra, que significa piriguete.
- Já estou acordada.
- Então levanta.
- Enquanto eu levanto você coloca esse celular no silencioso pra amanhã não me acordar. – deu de ombros indo trocar de roupa no seu quarto.
A semana passou voando para elas, como as aulas iam começar em setembro, tinham mais três semanas de férias, nesse meio tempo elas iam à procura de emprego, já estavam há duas semanas em Nova Iorque e nada. Fizeram amizade rápido com a vizinha de frente, a Maggie, que tinha a mesma idade que , era um pouco mais velha, tinha 21 anos, e estava com seus 19. No Brasil, tinha feito mais da metade do curso de Arquitetura e tinha começado História, mas sempre preferiram esses outros cursos que elas estavam para fazer agora. Isso era mais um motivo que seus pais não queriam deixar elas se mudarem, mas elas não se importaram de trancar a faculdade e começar tudo novamente. Os parentes também conseguiram mudar a cabeça dos pais, falavam como elas, que essa era oportunidade única na vida.

2 - It’s working

O celular de começou a berrar fazendo a menina franzir a testa e xingar baixinho. Ela se levantou espreguiçando-se e quando saía do quarto, tropeçou nos próprios pés apoiando-se no batente da porta.
- Cai não! – Falou uma ainda de olhos fechados parada no meio do pequeno corredor.
- O que você faz em pé a essa hora? – perguntou estranhando, pois ela teria que acordar mais cedo já que sua faculdade ficava mais longe.
- Esse seu celular escandaloso não me deixa dormir, seja mais discreta e abaixe esse volume. – reclamou e deu de ombros.
- Eu vou usar o banheiro primeiro. – falou e saiu correndo trancando a porta. ficou parada piscando os olhos enquanto terminava de acordar.
- Que fome! – entrou na cozinha arrumada e passando a mão na barriga.
- Gostei da roupa – observou a prima vestida com uma calça skinny preta, uma batinha verde e um twinset branco por cima.
- Obrigada – falou e sentou-se à mesa enchendo um copo com leite.
- Às ordens.
Após misturar o achocolatado, levantou-se e abriu a janela da cozinha sem nenhum cuidado, ficou por alguns segundos observando a casa ao lado.
- Nossa, por que será que não cuidam dessa casa? Pelo que eu sei ela não está à venda, e se estiver é por isso que não conseguem vender, mal cuidada desse jeito. - levantou da mesa e ficou ao lado de .
- É de bom tamanho e é bonita, só falta cuidar, mas agora pare de olhar e vá estudar.

- Tchau. – se despediu e se levantou indo para o banheiro fazer sua higiene matinal e se arrumar, pois também tinha que ir para a faculdade, e como era seu primeiro dia, queria chegar mais cedo, assim como .
Se arrumou rapidamente, tinha demorado no banheiro e foi para o metrô a fim de pegar o que passaria no horário planejado.
tirou o papel da bolsa que tinha recebido quando fez a matrícula para ver qual era o número de sua sala, começou a procurar onde seria sua primeira aula e a imaginar se teria muita gente estranha no curso de astronomia. O lugar era grande e ela demorou um pouco para encontrar, queria perguntar às pessoas que passavam por ela onde ficava sua sala, mas tinha vergonha do seu inglês que não era dos melhores.
Chegando à sala, se decepcionou esperando ver mais gente estranha do que encontrou, o que mais viu foram nerds cabeçudos que estavam com a cabeça baixa lendo umas revistas não muito famosas, a sala era bem silenciosa exceto por algumas pessoas que conversavam baixinho em um canto.
- Com licença. – um homem falou atrás de e ela deu um pulo se assustando, não tinha percebido que estava parada no meio da porta impedindo as pessoas de passarem.
- Desculpa. – pediu sem graça e se sentou na cadeira mais próxima.
- Bom dia. – o homem sorriu para ela e para o resto da turma. Era o professor.
Depois de longos minutos de aula, ela sentiu alguém cutucar seu ombro. Um cara dos olhos azuis e cabelos castanhos deu um sorriso com dentes perfeitamente brancos.
- Oi, sou Charles, prazer. – o rapaz estendeu a mão a cumprimentando. percebeu que ele tinha um sotaque estranho, o rapaz então se apressou em dizer: - Sou da França.
- Prazer Charles, sou , brasileira. - ela sorriu para ele que deu a volta e se sentou ao seu lado.
- Dizem que os brasileiros são legais, será? - ele perguntou terminando de copiar uma palavra do dicionário francês/inglês no seu caderno. deu uma risada sem graça, ela se achava chata. Conversaram durante o finalzinho dessa aula, em que o professor conversava com outros dois alunos que achou que a cabeça ia explodir de tão grande.

quase corria pelo campus da faculdade, quando ia pegar o metrô, teve que voltar para casa às pressas porque tinha se esquecido de levar seu caderno. Sonsa. As pessoas a olhavam torto por estar tão esbaforida, poderia perguntar a alguém onde ficava a sala, mas tinha vergonha, já estava preocupada como chegaria até o fim da faculdade de jornalismo, e se daria conta, pois timidez era uma coisa que não poderia ter, no entanto, suas mãos suavam e ela tinha uma pequena falta de ar por ter que chegar a seu primeiro dia de aula atrasada. Olhou para o relógio do celular e viu que seria impossível chegar no horário. Enquanto guardava o aparelho no bolso, acabou trombando em umas três pessoas e somente uma delas foi educada, outro brasileiro.
- Desculpa, digo, I'm sorry! - Tentou se corrigir.
- Eu sou brasileiro também! - Ele sorriu animadamente para ela que ficou sem graça. Seu sorriso era lindo, o rapaz era moreno bronzeado, dos cabelos curtos e negros assim como os olhos.
- Nossa que sorte encontrar um conterrâneo, me desculpe de novo, sabe como é, primeiro dia, fico toda perdida. - Ele riu mais uma vez dando de ombros.
- Sem problemas, nos encontramos por aí, certo?
- Sim. - quando ela estava indo para sua sala, pensou em que devia perguntar o nome dele, ela tinha que vencer sua timidez e precisava de amigos, por isso nada melhor que um cara que falava português e era brasileiro. - Como é seu nome?
- Tarcísio, e o seu?
- . - Ela nem perguntou de onde ele era, sabia muito bem pelo seu sotaque paulista, lembrou-se que estava atrasada e foi embora após dar um aceno.

- E aí? – perguntou deitada no sofá enquanto via jornal em um canal qualquer.
- É... - trancou a porta e pendurou sua bolsa – Nenhum primeiro dia de aula é bom.
- Digo o mesmo. Ah, as próximas semanas serão mais sofridas ainda.
- Por que mais? – sentou-se no braço do sofá e olhou para a prima.
- Porque meu pai acabou de ligar, quer saber sobre o emprego.
fez uma careta, não agüentava mais ouvir essa palavra. As semanas se passaram e as duas rodaram Nova Iorque espalhando currículos em todos os cantos e nada de conseguirem emprego. Os pais as cobravam e elas não tinham um retorno a dar.
- Nem me fale. – colocou as mãos sobre o rosto – Mamãe me ligou ontem à noite e não parou de falar um minuto. Ela me deixou mais desesperada do que já estava.
- Às vezes me pergunto se largar o meu emprego de pobre e a casa dos meus pais por um futuro incerto em um lugar longe de todos que conheço foi uma escolha certa. Isso tudo só porque eu gosto de jornalismo. – soltou o ar se desabafando pela primeira vez. Sempre tivera a dificuldade de se abrir com os outros.
- , não fala isso. Você já perdeu mais de anos de sua vida fazendo um curso que não gosta e ganhando mal por não ser formada e ter que pagar metade da faculdade com um mísero salário. Essas bolsas foram bem concorridas e não foram pra qualquer um, nós nos matamos de estudar pra conseguir estar aqui. Se nossos pais ligarem mais uma vez, os mandamos à merda. – se levantou dando um tapa na perna de e foi para a cozinha, de lá, gritou: - Qualquer coisa a gente fala que vai pra esquina, sua biscate!
soltou uma gargalhada e se levantou indo em direção à cozinha ajudar com o almoço para se prepararem para mais uma tarde rodando pelas agências de emprego de Nova Iorque. Almoçaram falando sobre as diferenças que tinham percebido das faculdades do Brasil e dos Estados Unidos, enquanto limpavam a cozinha, comentou:
- Sabia que na minha sala só tem nerd cabeçudo?
- Era de se esperar, não é? - Ela riu e falou:
- Só tem um cara francês que veio conversar comigo, ele sim é bonito, olhos azuis, cabelos curtos e castanhos e uma barba bonitinha.
- Que coincidência, hoje trombei com um cara brasileiro, lindo também, mas ele é moreno, barba, cabelos curtos e pretos, só falta os dois serem irmãos. - riu da imaginação da prima, ela sabia que essa opção era impossível.

- Oh Deus, eu to morta! – falou sozinha quando chegou em casa no fim do dia, suspirou e pôde sentir seu celular vibrar dentro de sua bolsa. Olhou e viu que era o número de sua casa no Brasil. Sinto muito, não vou atender. Pensou, desligando seu celular.
tinha permanecido do lado de fora conversando com Maggie, a menina que morava em frente à casa delas.
- Estão se adaptando bem? – Perguntava a vizinha de cabelos cor de fogo.
- Ah, mais ou menos, a forma de vida aqui é bem diferente do Brasil, fora que não conhecemos ninguém, a saudade de casa tá bem grande.
- Depois vocês se acostumam, verão, a faculdade é boa e logo arranjarão amigos. – Maggie disse tentando dar uma força.
- É... – concordou, mas uma ruga de preocupação ainda permanecia em sua testa.
- , o que mais está te atormentando?
- É que nossos pais nos deixaram vir estudar aqui com a condição de arranjarmos um emprego para ajudar nas despesas, só que já fomos aos quatro cantos de Nova Iorque e não achamos nada, agora eles estão nos pressionando e nós estamos em tempo de surtar.
- Isso sim é um problema.
- Aham. – fez um barulho com a boca concordando.
- Bom, eu tenho que ir agora, prometo que se souber de alguma coisa, te falo. – ela piscou os olhos e entrou para casa falando algo com sua mãe que gritava seu nome.

saiu do banheiro enrolada em seu roupão rosa claro e correu para seu quarto.
- Que frio! – Exclamou para si mesma enquanto fechava a janela do cômodo.
O celular tocou mais uma vez e quando iria rejeitar a ligação, viu que ao todo eram quinze chamadas perdidas, sabia que se atendesse ficaria mais aborrecida do que já estava, só que não podia simplesmente ignorar os pais.
- Oi. - ela atendeu e fechou os olhos ao escutar as reclamações de sua mãe que depois passou o telefone para seu pai. não ficou tão assustada quando ouviu o que seu pai tinha a dizer, já esperava por aquilo mais cedo ou mais tarde, então apenas ficou calada enquanto ele falava, desligou o telefone trinta minutos depois com a cabeça doendo. Terminou de se vestir sem pressa e foi para a sala onde lia algum jornal que tinha comprado. A prima não deixou de notar a cara séria que tinha.
- O que foi? Porque tá com essa cara? – Largou o jornal de lado e acompanhou com os olhos até que ela se sentasse ao seu lado no sofá.
- Meus pais acabaram de ligar, eles me deram mais duas semanas, se nós não arrumamos emprego eles vão parar de mandar dinheiro, eles querem que voltemos para casa.
- Merda! – abaixou os olhos para o chão.
- Minha mãe disse que já conversou com a sua, daqui a pouco seus pais ligam também. – Mal acabou de falar e como num agouro o celular de começou a vibrar. A palavra ‘Casa’ aparecia na tela do aparelho.
- Alô. – atendeu e olhou para ao receber a mesma informação pelo seu pai. Fazendo como a outra, ela ficou calada enquanto os pais falavam no telefone, apenas concordando com tudo o que eles impunham.
Desligou o celular e as duas ficaram em silêncio pensando no que poderiam fazer, já tinham pensado em tudo, mas nada vinha em suas cabeças, a única coisa que podiam fazer era esperar uma agência chamá-las, o que seria bem difícil. voltou a ler seu jornal mesmo que não conseguisse prender a atenção no assunto, sua mente vagava em busca de uma solução para o problema. se levantou do sofá e foi para o seu quarto estudar a matéria que o professor tinha passado no dia, ainda que fosse pouca, não queria deixar acumular até a primeira prova, isso se chegasse a fazer a primeira prova.
À medida que os dias foram passando, a agonia e nervosismo das meninas iam aumentando, já não prestavam tanta atenção nas aulas e até faltaram alguns dias à procura de emprego. chegou a comprar uma imagem de São Rafael, mas desistiu de pedir alguma coisa quando a lembrou que o santo das causas impossíveis era São Judas Tadeu. O prazo se vencia e o telefone não parava de tocar, seus pais não cansavam de repetir que as estariam esperando no Aeroporto Internacional de Guarulhos em breve. já começava a arrumar suas coisas e reunia todos os documentos necessários para trancarem as bolsas e retornarem ao Brasil, as duas estavam tristes e andavam pelos cantos da casa praticamente se arrastando e cabisbaixas.

- E aí, já arrumaram um emprego? – Maggie perguntou para e viu a garota balançar a cabeça negativamente.
- Não. A já começou a arrumar a mala dela, amanhã eu faço isso, hoje to cansada, nós partimos daqui a alguns dias. Foi bom, sabe? Conhecer outro país e um pouquinho da cultura, mas talvez não fosse pra ser... – deu de ombros e não entendeu quando a vizinha deu uma risadinha, quer dizer, que falta de senso! Ela estava ali se desabafando e triste porque não poderia continuar a vida do jeito que queria e a outra ria? Esses estadunidenses, pensou revoltada. Quando ela ia dando as costas, sentiu a mão de Maggie sobre seu ombro.
- Espere aí , eu acho que tenho uma notícia boa para te dar. – parou e apenas esperou que ela continuasse. – Outro dia eu estava conversando com um amigo meu que por acaso é filho de um dono dessas escolas de língua estrangeira, lá tem aula de espanhol, francês, italiano e alemão, meu amigo me falou que o pai dele estava querendo abrir umas turmas para português, daí me lembrei na hora de vocês... – Maggie deu outra risadinha ao ver os olhos de se iluminarem.
- Você está querendo dizer que...
- Então eu falei com meu amigo de vocês, pedi pra ele dar uma chance porque vocês estavam precisando e tudo. Enfim, ele ligou para o pai e me disse que o velho está esperando as duas amanhã às oito horas em ponto para conversar, mas está quase certo, agora só depende de vocês. – Maggie finalizou e riu ao ver dar um gritinho.
- Puxa Maggie, eu nem sei como agradecer! Nossa, é lógico que a vai aceitar, se não eu mato ela. Obrigada mesmo! – A menina não sabia o que falar.
- Espero que eu tenha ajudado.
- Ajudou sim, se tudo der certo eu e vamos fazer uma festinha lá em casa e te chamamos, mas prepare as canelas. – falou e Maggie concordou mesmo sem entender muito bem o que ela quis dizer com preparar as canelas.
- Bom, espero que a festinha seja só mês que vem, porque eu vou viajar amanhã de férias para casa de uns parentes e só volto depois de trinta dias.
- Pode ter certeza! – confirmou e se despediu da vizinha atravessando a rua com pressa. Por pouco não foi atropelada por um menininho que andava de bicicleta em alta velocidade.
- Sai da frente tia! – O moleque gritou e ela teve vontade de dar uma surra no mesmo. Tia? Fala sério!

O cd de músicas depressivas de já tinha acabado e ela deu play para que ele começasse a tocar mais uma vez. Imagine, de John Lennon, invadiu o ambiente e ela deixou uma lágrima cair, sempre chorava quando escutava essa música e não sabia o motivo, no entanto, hoje ela chorava porque estava arrumando a mala para regressar ao Brasil e voltar para o seu curso monótono de História. Ao imaginar a cara de seu professor de Estudos Históricos II, deixou mais uma lágrima cair, iria ter que aguentar aquele traste careca com bafo de café mais um semestre.
- Oh, merda! – Exclamou alto e fungou controlando o choro. Só porque ela estava adorando o curso de astronomia, por mais que a sua sala fosse cheia de nerds cabeçudos, espinhentos e na maioria chatos, mas lá também tinha o francesinho bonito, simpático e cheiroso – ela já tinha dado um jeito de se aproximar dele disfarçadamente só para sentir seu perfume gostoso do 212.
Colocou o sobretudo preto dentro de uma sacola e tentou a todo custo guardá-lo dentro da mala de rodinhas que já extravasava de roupas, obviamente não teve sucesso. Jogou a sacola com a roupa em cima da cama com raiva, POV do Mcfly, começou a tocar e seus olhos marejaram novamente, ela sempre achara o refrão daquela música bastante dramático. Sua porta foi escancarada e ela nem se deu ao trabalho de olhar, já sabia muito bem quem era, se estivesse pensando que ela a ajudaria a arruma a mala, podia tirar o cavalinho da chuva, sabia que a prima podia ser bem folgada quando queria. Se ajoelhou em frente a sua mala e começou a reorganizar as roupas na tentativa de que conseguisse mais espaço, inesperadamente sentiu o peso de sobre suas costas.
- Sai daqui! – Gritou furiosa mexendo o corpo com força afim de que a outra a soltasse.
- Vixe, que mau humor é esse? – perguntou deitando no chão ao lado da mala.
- Mau humor? , a gente vai embora pro Brasil e voltar para aqueles cursos super chatos de antes. Nós viemos aqui e só perdemos tempo...
- Quem disse que a gente vai voltar? – A prima a interrompeu e a olhou furiosamente, continuou a falar tranquilamente – Eu, se fosse você, guardava todas essas roupas no armário antes que elas se amassem mais.
- Você tá doida? E com que dinheiro a gente vai ficar aqui? – Ela perguntou em desafio.
- Com o nosso. – Respondeu e levantou-se e pôs-se a resmungar como uma velha. revirou os olhos, se levantou e colocou as mãos nos ombros da amiga para que ela parasse.
- , sabe a Maggie, a nossa vizinha? – A outra apenas concordou sem saber o que a menina cabelos cor de fogo tinha a ver com a conversa. – Outro dia eu estava conversando com ela e falei que a gente precisava de um emprego pra poder ficar aqui, ela falou que se soubesse de algo falaria pra gente.
- E você vai ficar esperando um emprego cair do céu? Enquanto isso vai se alimentar de quê? Da fruta que cai da árvore do lote vago ao lado? Acho melhor você mudar pra lá também porque o aluguel da casa vai ser cortado, ou então você pode invadir aquela casa abandonada, e quem sabe daqui a alguns anos você consegue a posse da casa por usucapião. Isso se o dono da casa não resolver voltar ou vender ela. Na verdade, isso se aqui nos Estados Unidos for permitido posse de algum imóvel por usucapião... – só parou de falar quando a prima começou a rir escandalosamente.
- Meu Deus, você é como nossas mães, não deixa ninguém terminar de falar e já sai deduzindo tudo! – exclamou recuperando o fôlego.
- E o que mais tem pra falar? – Ela perguntou e aproveitou para terminar de se explicar.
- Que a Maggie arranjou um emprego pra gente...
- O QUE? – gritou abrindo um sorriso enorme.
- É isso mesmo, acho que a gente vai ficar! – concordou e as duas começaram a pular e gritar até ficarem roucas, descabeladas e se sentarem no chão com as bochechas vermelhas. Por fim teve que ajudar a colocar todas as roupas amassadas no armário novamente enquanto contava para ela tudo o que Maggie havia falado.

riu ao ouvir a música que tocava no celular de , ela detestava acordar com o barulho escandaloso que o aparelho fazia, mas não adiantava reclamar com a prima, ela nunca abaixaria o som. Sua porta foi aberta sem delicadeza e uma bem disposta adentrou o quarto.
- Do que você está rindo? – Ela perguntou franzindo a testa.
- Todas as músicas que eu coloco no meu celular para me despertar eu acabo tomando antipatia, agora você coloca Grutu e ainda consegue gostar da música.
- Grutu é legal. – defendeu uma das músicas da banda MGMT, também gostava da banda, mas Grutu era a música mais horrorosa que ela já tinha escutado.
- Ah sim, você sabe que quando tem alguém inconveniente por perto é só colocar pra tocar que a pessoa sai de perto na hora. – passou as mãos pelo rosto e se sentou na cama fazendo um coque no cabelo.
- Você fica aí reclamando da música, mas foi ela que acordou a gente hoje. E levante logo que eu não quero chegar atrasada. – saiu do quarto e pôde ouvi-la cantando da cozinha: - Just becuz, Just becuz! – Era a versão remixada da música que na opinião de era mais feia ainda.
preparou um café da manhã bem reforçado e delicioso, isso lógico na condição de arrumar a cozinha, ela que não iria fazer tudo sozinha, e preferia mil vezes fazer a comida a lavar vasilha. Se arrumaram de modo que ficassem bem aparentadas e passaram uma leve maquiagem pelo fato de ainda ser cedo, não gostavam de ficar com o rosto carregado de dia. Saíram se casa depressa com medo de chegarem atrasadas, estavam pensando em todo o tipo de imprevisto que poderiam ter, pegaram o metrô e não pararam de olhar para o relógio.
- Somos muito ansiosas. – comentou quebrando o silêncio que se instalara entre as duas.
- Culpa dos que nos criaram sempre com pressa. – disse e concordou.
A escola de línguas estrangeiras não ficava tão longe, por isso não demoraram muito a chegar. Pararam em frente a uma construção de três andares pintada de bege com alguns detalhes em azul e vermelho, as janelas de vidro eram fumê. Tocaram o interfone e rapidamente o portão de grade foi aberto, as duas entraram e andaram pelo pátio de cimento com algumas mesinhas redondas e bancos fixos ao chão, chegaram em uma sala que era uma espécie de recepção e se identificaram, uma mulher morena pediu que elas aguardassem e saiu andando por um longo corredor. Pouco tempo depois a mulher voltou e um homem com os cabelos grisalhos veio logo atrás, se apresentou como Richard e as levou para conhecerem a escola enquanto conversavam.
- Vocês são brasileiras, certo? – O senhor passou as mãos pelo longo bigode grisalho e um farelo de pão caiu no chão, as meninas se entreolharam achando aquilo bem nojento.
- Sim, é a nossa primeira vez nos Estados Unidos. – falou e ele concordou.
- Vocês não estão ilegais, não é? – Ele olhou desconfiado e elas riram.
- Não – respondeu – Ganhamos bolsa de estudos. – Richard balançou a cabeça e se afastou para atender o celular.
- Ilegais – falou inconformada. – Não vovô, nós não somos de Governador Valadares. – Brincou e a outra deu uma risadinha.
- Não somos, mas é perigoso encontrarmos com algum parente aqui.
- Só se for sobrinho da vovó, e esse povo que a gente vê uma vez na vida não é parente. – ia abrir a boca para contestar, mas Richard voltou e as levou para verem as salas de aula.
- Aqui nós já damos aula de espanhol, francês, italiano e alemão, eu não pretendia colocar mais uma língua, mas a procura pelo português é bem grande.
- Pelo português? – franziu a testa estranhando.
- Sim. Vocês brasileiros chegam ao nosso país cada vez em números maiores, muitas pessoas procuram aulas de português para os filhos que pararam no meio do ensino no Brasil ou para as crianças que nasceram aqui e que os pais querem que elas não só aprendam, mas saibam ler o português. Acho que eles estão começando a ficar com mais medo da deportação. – Ele sorriu e abriu uma sala que tinha um cheiro forte de tinta e imediatamente as meninas começaram a espirrar.
- Quantas turmas você pretende abrir? – perguntou coçando o nariz.
- A princípio, duas. A maioria dos alunos são crianças, vocês têm alguma coisa contra os pimpolhos?
- Não. – responderam em uníssono, pelo contrário, elas amavam crianças.
- Bom, as aulas começam daqui a duas semanas.
- Isso quer dizer que a gente vai ficar com o emprego? – perguntou chegando aos finalmente.
- É de vocês. – Richard sorriu ao ver a comemoração das meninas.

Chegaram em casa quase na hora do almoço, depois que resolveram tudo com o mais novo chefe, saíram para passear em um shopping e comprar algumas roupas de frio que precisavam, pois o frio se aproximava e agora que elas continuariam em Nova Iorque por mais tempo, precisavam estar bem agasalhadas para o inverno.
- Estou tão feliz que a gente arrumou emprego que vou até ajudar você no almoço hoje. – brincou colocando uma panela cheia de água para ferver.
- Há há há, até parece que eu vou ficar cozinhando para a dondoca ficar à toa. – rebateu enquanto pegava alguns ingredientes para o molho, iriam fazer macarrão, que era a comida que mais gostavam.
- Acho que a gente devia comemorar o fato de termos arrumado um emprego aos quarenta e cinco do segundo tempo. – riu da expressão de .
- Quem sabe um showzinho... – sugeriu e olhou para a prima sorrindo. devolveu o sorriso sem precisar falar nada, as duas já sabiam exatamente como comemorar.

3 - Bad Luck

Os cinco desceram do avião com a aparência cansada que os acompanhava ao fim de uma turnê. Fazia três meses que visitavam vários países da Europa, ficando sempre uns dias a mais em certos lugares que desejavam conhecer melhor. No entanto, o cansaço sempre os alcançava após dias viajando de van, trem, carro, avião e até trailer – quando estavam nos Estados Unidos – pulando de hotel em hotel, dando entrevistas e autógrafos. Sempre souberam curtir esses momentos, adoravam quando elogiavam seus trabalhos ou quando simplesmente pediam para tirar uma foto. Mas tudo o que mais queriam agora era a casa e cama quentinha de cada um para se esquentarem do inverno que se aproximava.
Passaram pelo saguão onde ficava a esteira, pegando suas poucas bagagens – pelo fato de serem homens, sempre levavam poucas roupas – e seus muitos instrumentos musicais e levando até a van que os esperava no estacionamento do aeroporto. Tiveram que fazer várias viagens até que toda a tralha estivesse acomodada na van junto deles.
- Vamos embora, Mike! – James gritou do último banco e o motorista deu marcha a ré, tirando o automóvel do estacionamento e seguindo para a avenida mais próxima.
Quando iam viajar para fora do país, ou até mesmo para um lugar mais longe que ficasse nos Estados Unidos, eles iam de avião, porque era menos cansativo ou porque tinham que atravessar o oceano. Para não deixar seus carros durante longo tempo no aeroporto, ou ter que ir de táxi lá, contrataram um motorista para levá-los e buscá-los ao aeroporto, o que era bem mais prático e confortável. O silêncio se instalou e Mike pôde perceber que os cinco dormiam e roncavam, além de estarem exaustos ainda tinham que enfrentar a mudança de fuso horário. Mike dirigiu tranquilamente pelo trânsito tão conhecido e agitado de Nova Iorque durante mais meia hora. Entrou em um bairro calmo que ele particularmente gostava e parou a van frente a uma casa de dois andares antiga, azul clara e com a tinta descascando que precisava de uma reforma. Era a casa de Will, não entendia como um cara com dinheiro podia ser tão desleixado e não dar uma reforma básica na casa. Olhou para trás da van, viu Will com a cabeça caída para frente e sorriu.
- Will! – Ele berrou acordando os cinco e vendo o baterista levantar a cabeça de uma vez, tendo dor no pescoço só de olhar.
- Você não perde a mania. – Will reclamou para o motorista enquanto abria a porta da van e ia pegar suas coisas no bagageiro.
Como ele tinha que descarregar a bateria, talvez aquilo demorasse um pouco, olhou de um lado da van e viu uma janela aberta, colocou o rosto para dentro e riu ao ver que Ben tentava voltar a dormir, mas seu óculos insistia em cair o atrapalhando.
- Vocês bem que podiam ajudar, né? – Ele pediu e Ben apenas o encarou como se não soubesse quem ele era e o que estava falando.
Ah, o sono!
- Larga de ser flor, Will. – Andrew disse deitado em outro banco com uma cara azeda – E anda logo que eu quero ir para casa.
Will apenas suspirou se desencostando da janela e terminando de pegar suas coisas.
- Até mais, Mike. – ele bateu no vidro da janela do motorista e o outro respondeu:
- Até, cara.
Dirigiu por mais quinze minutos e parou em frente a um prédio de tijolinhos vermelhos de cinco andares, era a deixa de James. O guitarrista foi rápido com suas bagagens e logo Matt descia em sua pequena casa de madeira creme no quarteirão seguinte.
- Agora só faltam vocês. – Mike disse, mas foi a mesma coisa que falar com duas portas, pois Andrew e Ben já tinham voltado a dormir, o último tinha pendurado o óculos na camisa para que o objeto parasse de atrapalhá-lo.
Mike ligou o som baixo e começou a assobiar no ritmo da música country que tocava, a música terminou e ele esperou pela próxima que não veio, virou a última esquina e entrou na rua da casa dos meninos voltando a atenção para o rádio.
- Porcaria de cd... – xingava baixinho quando viu que algo entrava na frente da van, por sorte conseguiu pisar no freio a tempo fazendo os pneus cantarem e Ben e Andrew caírem no chão do automóvel pelo fato de não usarem o cinto de segurança.
- Querem morrer, porra? – Mike gritou estressado para as duas garotas que terminavam de atravessar a rua apressadas e o olhavam sérias.
- O que foi que aconteceu? – Andrew colocou a cabeça entre o banco do motorista e do carona e olhou para Mike, curioso.
- Duas idiotas entraram na minha frente, se eu não tivesse freado a tempo teria as atropelado.
Ben colocou a cabeça para fora da janela e viu dois vultos carregados de sacolas andando apressadamente. Não conseguiu ver se conhecia porque estava sem o óculos e não enxergava nada de longe. Maldita miopia! Procurou seu óculos e só o achou no chão da van. Quando os colocou, os vultos já tinham sumido. Mike terminou de fazer os poucos metros e estacionou finalmente na frente da última casa. Andrew se espreguiçou e foi o primeiro a sair sendo seguido pelo amigo, Ben parou em frente à casa e pensou: Lar, estranho lar.
Riu. Era assim que gostava de pensar toda vez que olhava para a casa branca de número 227, cercada de folhagens e de um muro muito baixo.
- Eu to ficando velho, já to começando a sentir saudades de casa. – Comentou e olhou para Andrew que tinha a guitarra em um ombro e uma mala no outro.
- Tá ficando velho mesmo, mas eu espero que isso não seja uma indireta para pegar seus teclados no bagageiro. – Ben deu de ombros e foi pegar seus muitos teclados e sintetizadores.
Após uns quinze minutos em que entraram e saíram de casa tantas vezes, finalmente carregaram tudo e deixaram na sala de estar da casa, guardariam tudo depois. Andrew teve que pagar Mike só com seu dinheiro porque Ben alegava que o amigo estivesse lhe devendo alguns dólares. Mike recebeu a grana e pisou fundo no acelerador, o jogo do New York Giants iria começar em meia hora e ele ainda tinha que comprar umas cervejas.
Andrew afundou o corpo no sofá ao lado de Ben, que tinha Andorra, um dos três gatos deles, no colo. Andorra tinha os olhinhos cinzas fechados devido ao carinho gostoso que recebia do dono. Quando viajavam, uma faxineira vinha todos os dias para manter a ordem na casa e cuidar dos gatos dando o que eles precisavam. Ben encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos desejando estar em sua cama, mas essa tinha tanta coisa em cima o impedindo de deitar, que era mais vantajoso dormir no sofá preto. A faxineira limpava apenas alguns cômodos da casa e o jardim, que era bem grande, mas os meninos não gostavam que mexessem nas suas coisas, trancando sempre as portas dos quartos quando viajavam e levando as chaves consigo.
- Eu vou pro meu quarto. – Andrew se levantou bebendo o resto de seu suco de maracujá e deixando o copo em cima da mesa de centro. Entrou em seu quarto e fechou a porta deitando em sua espaçosa e convidativa cama de casal.
Ben expulsou Andorra de seu colo e deitou no sofá com as pernas encolhidas, esse era pequeno demais para ele. Tirou o óculos e o colocou em cima da mesa ao lado do copo deixado por Andrew. Seus olhos foram fechando e a inconsciência tomando conta de si. Adorava esse estado de semi-sono...
E então a barulheira começou.

e entraram na casa com as pernas ainda bambas e o coração levemente acelerado pelo susto que tinham passado. Os rostos estavam vermelhos de raiva.
- Cara louco, só pode. – colocou as sacolas em cima da mesa da cozinha.
- É, dirige sem olhar para frente e depois pergunta se nós queremos morrer! – concordou fazendo o mesmo com as sacolas que tinha em mãos.
Tinham ido ao supermercado para comprar alguns produtos que acabavam e mais vinho. Agora que tinham conseguido um emprego, a adega que elas tanto sonhavam em ter finalmente estava sendo feita, levaram as duas garrafas que acabaram de comprar para se juntarem as outras cinco no lugar reservado a elas na copa.
- Qual vamos abrir hoje? – perguntou olhando para as sete garrafas reluzentes uma ao lado da outra.
- Eu quero tinto e semi-seco. – falou decidida.
- Ah não, eu já disse que to com desejo de tomar branco e suave. – A outra fez um bico e bufou.
- Então a gente abre as duas, oras! – pegou duas garrafas e colocou no congelador para que esfriassem mais rápido.
Como tinham conseguido um emprego e a aprovação dos pais para que continuassem com os cursos nos Estados Unidos, resolveram que deveriam comemorar pela sorte que deram. Um sábado à tarde, com a vizinha da frente viajando, um lote vago ao lado que tinha uma casa desabitada a sua esquerda, e com outro vizinho indo para o jogo do New York Giants – coisa que elas só ficaram sabendo por ele falar muito alto e apressar Mark, seu filho de treze anos, para eles pegarem um lugar bom na arquibancada -, era um convite perfeito para beberem vinho com música alta sem ninguém para reclamar.
Enquanto trazia duas caixas de som de tamanho médio para o meio da sala, empurrava o sofá para o canto da parede e abria a janela lateral da sala deixando o vento frio de começo de inverno entrar para casa. Quando se voltava para o interior, achou ter visto algum vulto no lote vago, estreitou os olhos por estar sem óculos ou lentes e não enxergar bem de longe para ver o que era. E então viu. Eca, era um gato, detestava esse bicho. conectou os cabos do som em seu notebook e selecionou as músicas que iriam escutar. Elas tinham todo um ritual, começavam por Beatles, depois passavam para algumas nacionais e voltavam às internacionais com bandas variadas. Esses “shows” que costumavam fazer duravam horas. Nunca tinha nada demais, apena música alta e duas retardadas pulando e cantando no meio da sala, como hoje iriam comemorar, decidiram que um vinho deixaria as coisas mais legais.
- Eu vou pegar os vinhos. – saiu correndo até a cozinha e pegou as duas garrafas que estavam apenas frias e as levou para a sala.
já tinha pegado as taças e o saca rolhas para abrir as garrafas, se serviram da bebida e brindaram, colocando Hey Jude para tocar.

Andrew detestava os Beatles. Mentira. Ele amava a música que eles faziam, era uma de suas bandas preferidas e em sua opinião aquela que faria sucesso eternamente. Mas naquele exato momento ele odiava os Beatles e o babaca que decidiu colocar All My Loving, Help, I’ve Just Seen Her Face e mais outras infinitas músicas na maior altura e o pior, cantar junto. Abriu seus olhos verdes e encarou o teto branco de seu quarto prestando mais atenção na barulheira que escutava. Não era um babaca que tinha colocado o som alto, e sim dois. Ou melhor, duas. Fechou os olhos e fez uma careta quando as duas gritaram o final de Revolution desafinando as suas finas vozes de mulheres. Já fazia algum tempo que elas tinham colocado a música alta. No início, imaginou que tocariam só algumas e depois o som abaixaria, mas tinha se passado mais de meia hora e nem sinal de diminuir o volume. Bufou e levantou-se de sua cama irritado, não conseguiria dormir com esse tormento. Abriu a porta de seu quarto com ignorância e foi para a sala encontrando Ben com uma cara mais carrancuda que a dele e olheiras enormes.
- Que inferno é esse? – Andrew perguntou se sentando ao lado do amigo no sofá.
- São as vizinhas. – Ben respondeu de braços cruzados e olhando fixamente para o chão.
- Que vizinhas? - As novas. – suspirou e olhou para Andrew que esperava por mais explicações. – Parece que elas alugaram aquela casa do outro lado do lote vago.
- Como você descobriu? – Andrew tornou a perguntar e Ben rolou os olhos impaciente.
- Tive que ir ao lote vago atrás de Andorra. Eu não sei o que aquele infeliz vai fazer lá todos os dias... – Benjamin comentou encabulado, mas o outro nem prestou a atenção.
Ficaram longos minutos em silêncio enquanto ouviam duas loucas berrarem All You Need Is Love, This Boy, She Loves You e Helter Skelter.
- Já faz uma hora que elas estão nessa vida. Será que elas não cansam? – Ben perguntou e Andrew fez sinal para que ele se calasse enquanto ouvia a introdução de outra música. Uma voz masculina começou a cantar, mas não era a voz de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison ou até mesmo Ringo Star. Era uma voz que cantava uma coisa estranha, eles não conseguiam entender o que era.
- O que eles estão cantando? – Andrew franziu a testa diminuindo os olhos.
- Eu não sei, acho que isso não é inglês. – Ben falou baixo antes que o amigo o mandasse calar a boca novamente.
- Tem ideia de que língua seja?
- Não, mas tenho a impressão de já ter escutado.
- Eu também. – Andrew concordou e ficaram calados tentando descobrir que língua era aquela, sem sucesso no final.
- Porra, eu não aguento mais! A minha cabeça dói porque to sem dormir direito há dias, e quando chego em casa, tenho que ficar escutando duas idiotas berrando em uma língua estranha! – Ben estourou se levantando do sofá e tomando o terceiro remédio para dor de cabeça em duas horas.
- Dá vontade de chamar a polícia. – Andrew disse, mas ficou quieto. Não queria que seu nome estivesse envolvido em baixarias como aquelas duas estavam fazendo.
Duas horas depois de que tudo tinha começado, a música de repente cessou. Olharam um para o outro esperançosos e mal ousando a respirar. Passou-se três minutos e a única coisa que eles escutavam eram os gatos brincando no jardim. Além de Andorra, tinham mais dois gatos na casa, Etiópia e Micronésia. Quando se levantavam para comemorar, as notas tão conhecidas de Flash Delirium invadiram a casa os fazendo sentar de novo.
- Elas gostam da nossa música... – Andrew comentou sem saber se aquilo era bom ou ruim.
- Será que elas descobriram que nós moramos aqui e vieram atrás da gente? – Ben perguntou com os olhos arregalados.
- É lógico que não! – VanWyngarden se apressou a responder. – Nós nunca tivemos fãs acampando na frente da nossa casa, não faz o estilo.
- FLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAASH!
Ouviram as duas berrarem o máximo que conseguiam e fecharam os olhos com força como se aquilo, de alguma forma, pudesse ajudar na situação.
- Oh merda, aguentar James e você cantando flash é uma coisa, agora essas loucas que parecem querer quebrar o vidro das janelas só com o grito é outra!
- Desse jeito eu vou tomar antipatia das nossas músicas. – Ben falou e escutaram as duas voltando a berrar flash. – Não dá mais, eu preciso sair daqui. – Goldwasser levantou-se pegando a chave do seu carro que estava pendurado em um chaveiro de madeira em forma de peixe e voltando a colocar seu óculos.
- Para onde você vai? – Andrew perguntou curioso vendo o amigo se dirigir para a porta de entrada.
- Para casa dos meus pais – Ben olhou para trás e fitou Andrew – Quando essas loucas de pedra pararem, me liga avisando. Isso se você aguentar ficar aqui. – riu e voltou a andar em direção ao seu carro.
Ben duvidava muito que Andrew fosse conseguir ficar em casa durante mais tempo. Sabia que era questão de minutos para o ver chegando na casa de seus pais – a família de Andrew morava em Tennessee, o que era bem longe de Nova Iorque, e como era um grande amigo do filho, a família Goldwasser já estava acostumada com a presença e visita de Andrew por lá. Se não fosse para casa de seus familiares, o amigo provavelmente iria para um hotel e não voltaria para casa até quando considerasse seguro.
- Espere, Ben! - Andrew gritou de dentro de casa e saiu correndo até a garagem onde o amigo já ligava o seu carro. - É melhor nós irmos conversar com as doidas, no mínimo você vai acabar batendo o carro com esse sono que você tá mais o remédio pra dormir que tomou.
- Eu não tomei remédio para dormir, foi para dor de cabeça. – Ben franziu a testa mesmo que o sono estivesse quase insuportável.
- Aquele remédio dá sono também, eu já o tomei. Enfim, vamos tentar falar com as malucas, se elas não abaixarem o som eu guio o carro pra você e durmo no sofá da casa dos seus pais, qualquer lugar é melhor do que aqui. - Ben deu uma longa suspirada coçando os olhos, logo depois riu para o amigo e saiu de seu carro.
Os dois foram andando em direção a outra casa, tocaram a campainha várias vezes seguidas e esperaram ao lado de fora. A música parou e logo depois abriu a porta e arregalou os olhos.
- ! Venha aqui! - chamou a outra que estava colocando mais vinho na taça, quando a prima chegou à porta, também arregalou os olhos.
- Ai , acho melhor a gente parar de tomar vinho, estou começando a ver coisas.
- Eu estou virando esquizofrênica! – piscou os olhos algumas vezes tentando sumir com a alucinação da sua frente.
- Você sempre foi esquizofrênica. - as duas se olharam por uns cinco segundos até voltar a falar - Acho melhor a gente dormir. - E fecharam a porta na cara dos dois que não acreditaram no que estavam vendo.
- Essas aí são loucas? Estão achando que aqui é um lugar bom para montar um manicômio? Só pode. - Ben comentou incrédulo.
- Será que podemos dormir agora? - Ainda estavam em frente à casa das vizinhas quando viram todas as luzes se apagarem. Olharam um para o outro e sorriram aliviados, voltaram correndo para casa e deitaram em suas camas.

O despertador escandaloso de não só a acordou como acordou a prima também, ela tinha se esquecido que o dia seguinte era sábado e colocou o celular para despertar por simples força do hábito, ou por força do álcool.
- Desliga essa merda, hoje é sábado! - se enroscou mais na coberta ouvindo o celular da outra parar de berrar, quando estava quase dormindo de novo, a prima entrou no seu quarto, sentando-se na cama e começando a falar.
- Meus pés, pernas e costas estão doendo por causa de ontem, agora vamos ficar mancando e andando corcundas feito duas velhas por uma semana, o que já era de se esperar. Eu nem me lembro como paramos. – reclamou como sempre após os shows e pigarreou. - A sala e cozinha devem estar uma bagunça, deixamos todas as janelas abertas e o meu computador ligado, a minha cabeça também dói, ressacas de vinho são sempre as piores. - só concordava com imaginando que horas ela pararia de falar, pois achava o cúmulo do absurdo acordar às seis horas da manhã em pleno sábado para ficar batendo papo.
- , você ainda está bêbada?
- Espera! Não terminei de contar meu sonho... Aí eu fechei a porta na cara do Andrew e do Ben.
- Eu também sonhei com eles, agora me deixa dormir. – nem ouviu o pedido da prima e continuou a falar.
- Como a gente está em Nova Iorque bem que podíamos ir a um show deles um dia desses. E eles são aqui do Brooklyn, não é? - Foi aí que abriu os olhos e a ficha foi caindo.
- , me conte o sonho que você teve de novo! – Ela pediu enquanto se sentava na cama completamente acordada.
- Você e essa mania de não prestar atenção nas conversas. Eu sonhei que os caras do MGMT bateram aqui em casa e ficaram olhando a gente conversar... - tapou os ouvidos ao escutar a prima gritar. - O que é isso menina? Está louca? - E gritou outra vez, mais alto ainda! – PARA! , foi só um sonho, eu sei que foi com o Andrew e o Ben, mas pode acalmar os ânimos que nós não namorávamos eles.
- , você não está entendendo. Eu também sonhei com eles! – falou empolgada e a prima fez uma cara de tédio.
- E precisa dessa gritaria toda?
- Lógico que sim, porque eu sonhei exatamente o que você está contando. Lembro-me até que o Ben tinha uma cara de sono e o Andrew parecia estressado, os dois ficaram nos encarando enquanto nós conversávamos.
- Como você sabe desses detalhes sendo que eu não contei? – perguntou e não precisou de resposta, ela foi arregalando os olhos e uma expressão de incredulidade passou por seu rosto.
- Eu acho que... – disse feliz e a interrompeu.
- Mas é impossível! Quero dizer, o que eles viriam fazer aqui na nossa casa? Eu não consigo pensar em um motivo que os trouxesse aqui.
- Eu também não consigo pensar o que eles queriam fazer aqui, mas provavelmente é verdade, pois não tem lógica nós sonharmos a mesma coisa e com os mesmos detalhes. A não ser que o vinho tenha feito todo esse trabalho, só que eu desconfio muito que seja isso.
- Talvez eles tenham errado de casa, já que a maioria das casas aqui são parecidas – sugeriu sem muita convicção.
- É, talvez eles tenham feito igual o tio Alberto e entraram na casa errada.
- Tio Alberto fez isso? – perguntou sobre o tio que era irmão das mães delas.
- Sim, uma vez ele estava lá em casa e foi em um bar assistir jogo, aí quando ele voltava entrou na casa da minha vizinha, detalhe, ele cumprimentou todo mundo e chegou a entrar na casa da mulher e só depois foi perceber que tinha entrado no lugar errado. – gargalhou alto lembrando-se do tio que apesar de bom, era bastante sonso.
- Mas , é muita falta de sorte nossa! Bem no dia em que estávamos suadas, descabeladas e pior, bêbadas! Isso é revoltante! – falou balançando a cabeça negativamente e se espreguiçando em seguida.
- Nem me diga, e fora que eles devem ter nos achado muito mal educadas, agora quando a gente for tirar foto com eles no show vou ficar com mais vergonha do que o normal. – Se levantaram e foram para a sala ligando a TV, ainda pensativas.
- Relaxa que quando isso acontecer eles nem vão se lembrar da gente. – disse num misto de alívio e pesar.
- , vai tirar essa blusa de frio em cima da TV que eu quero ver MTV.
- Filha de Deus, acabamos de descobrir que talvez Andrew e Ben tocaram na nossa casa e batemos a porta na cara deles e você ainda pensa em assistir televisão?
- Bom, já que supostamente batemos a porta na cara deles e perdemos de vê-los ao vivo, o jeito é ver pela televisão mesmo. – deu de ombros e apontou para o vídeo de Time to Pretend que começava a passar.

4 - We Don't Care

Sentado em um pufe preto e redondo em um cômodo espaçoso e arejado da casa, Andrew dedilhava em seu violão qualquer melodia enquanto via Micronésia, a gata raquítica, se esconder entre as caixas de som. Ben voltava mais uma vez do lote vago com algumas folhas misturadas em sua cabeleira preta e Arruda, o outro gato, no colo. Entrou para casa colocando o felino no chão e foi para o quarto onde Andrew estava.
- O que você está fazendo? – Perguntou para o amigo e entrou no aposento cheio de instrumentos musicais.
- O que você acha, Goldwasser? – Andrew fez uma cara óbvia e aumentou o ritmo do violão.
- Cara, você parece uma moça na TPM, fica todo estressado à toa! – Ben reclamou revoltado com a resposta e se sentou em frente ao piano acompanhando a música que Andrew ainda dedilhava.
- É que eu estou nervoso, ainda não me adaptei ao fuso horário e dormi mal desde que cheguei. Hoje acordei com aquelas loucas de novo, só que elas gritavam. – Comentou e Ben fez uma careta ao se lembrar das vizinhas novas e do dia anterior.
- Então vamos tocar algo para distrair. – ele sugeriu enquanto ligava o teclado nas caixas de som.
- E para dar o troco também. – Andrew concordou e trocou o violão pela guitarra. Os dois sorriram maliciosos, as caixas de som deles eram bem mais potentes que as das vizinhas, fora que eles tocavam bem, mas só quando queriam. Ben pegou algumas garrafas de cerveja enquanto Andrew levava três caixas de som para a sala de estar que não tinha proteção acústica. Começou as primeiras notas de uma música antiga na guitarra, o amigo então entrou com o teclado, o cassetando, literalmente.

e se arrastaram até a mesa de jantar e jogaram seus corpos sobre as cadeiras gemendo um pouco.
- Ai, meu corpo dói tanto! – exclamou pela milésima vez.
- O meu também, esse foi o show que mais pulei e o que conseqüentemente fez o meu corpo doer mais. – falou e começou a folhear seu caderno que já tinha bastante anotação. – Até a minha barriga doeu dessa vez.
- E eu fiquei rouca – falou e fez-se silêncio. A noite anterior tinha sido ótima, mas as meninas estavam decididas a aproveitar o fim de semana para estudar, pois agora que começariam a trabalhar também, elas não teriam tanto tempo livre. A tarde estava tranquila, do lado de fora alguns pássaros cantavam e vez ou outra um carro passava, fora isso a paz e o sossego predominavam ajudando-as a se concentrarem nos estudos.
- Sabia que em 1957 foi enviado ao espaço a cadelinha Laika, pela antiga União Soviética? Na nave ela morreu por aumento na temperatura do seu corpo. - gargalhou após falar para a amiga que a olhou sem nenhum interesse e cara de tédio.
- Qual a graça nisso?
- Ela morreu por aumento na temperatura do corpo! – A mesma continuou rindo enquanto a outra revirava os olhos. continuou a aprimorar seu inglês com um enorme dicionário ao seu lado. As duas estavam tão concentradas em seus afazeres, que deram um pulo da cadeira quando um barulho que mais parecia um estrondo invadiu o ambiente.
- Ai minha nossa, que susto! – colocou uma mão sobre o peito e a prima concordou.
- Foi tão do nada! – falou e as duas se calaram prestando a atenção de onde vinha o barulho.
- Mas não é possível! Por acaso essa música está vindo da casa desabitada ao lado? – perguntou e olhou pela janela da sala que estava aberta.
- Eu não sei, ela sempre me pareceu abandonada. – falou demonstrando confusão.
- Será que foi alugada ou vendida? – perguntou e a outra negou com a cabeça.
- Não tinha nenhuma placa lá, é meio improvável. E também ela é muito descuidada para alguém querer morar.
- É verdade, fora que não vimos o movimento de ninguém aí. – concluiu e as duas voltaram a se calar.
- Eu só espero que seja lá quem for, abaixe o som logo, eu tenho que estudar e com essa barulheira toda fica difícil concentrar.

Do outro lado do lote vago, Andrew e Ben tocavam seus instrumentos sem muita consciência da melodia que saía e se ela estava desafinada ou não.
- Cara, acho que a gente devia cantar também! – Andrew gritou por cima da barulheira que eles faziam.
- Mas será que elas não descobririam que é a gente? – Ben perguntou alto.
- É só a gente usar o megafone, aí as nossas vozes sairão distorcidas.
- Okay! Eu vou pegar mais algumas cervejas.
Ben concordou e saiu em direção à cozinha. Quando voltou com mais quatro garrafas de cerveja nas mãos, Andrew já terminava de arrumar os microfones e tinha os dois megafones que eles usaram ao gravar Boogie Down separados. Começaram a tocar músicas de bandas que provavelmente as vizinhas não conheciam e de gosto suspeito, Andrew cantava alto e fino, Ben ria mais do que tudo enquanto apertava qualquer tecla do seu teclado. Terminaram de tocar uma música e brindaram as garrafas de cerveja fazendo metade do líquido se espalhar pelo chão e sujar um pouco suas camisas.
- Quer um babador, Ben? – Andrew sacaneou não percebendo que também tinha deixado o líquido escorrer.
- Olha quem fala! Parece que eu não sou o único de boca furada aqui. – os dois riram e voltaram a tocar.

e tinham os dedos cansados e doloridos de apertá-los contra os ouvidos, já havia quase uma hora que o alvoroço na casa dos vizinhos recém descobertos tinha começado e até agora nem sinal de diminuir o som.
- Eu não consigo estudar assim! – falou alto e passou as mãos pelo rosto na tentativa de se acalmar.
- E o pior é que eles não sabem tocar nem cantar, fora que tem um idiota que só fica rindo! – disse nervosa tirando os olhos do caderno.
- Será que vai ficar muito chato da nossa parte pedir para esses adolescentes abaixarem o som?
- Óbvio que não, , e eu acho que é isso que devíamos fazer. Me espera aqui que eu vou tirar minhas pantufas e colocar um tênis. – se levantou indo para o quarto o mais rápido que conseguia, o que não era muito.
- Espera, também vou! - Colocaram seus tênis, pegaram a chave e saíram de casa deixando a porta da sala encostada. – O que a gente fala, ?
- Você que deu a ideia, você que fala. – A prima se esquivou e revirou os olhos, mas concordou.
Fizeram o caminho em silêncio e devagar, pois com as batatas das pernas latejando a cada passo dado por elas, não conseguiam se mover normalmente, colocaram as mãos nas costas e quem visse de longe, pensaria que eram duas idosas. Chegaram em frente a casa e perceberam que o ruído era muito mais alto do que imaginavam, tentou abrir o portão branco, mas esse estava emperrado. As duas fizeram força e conseguiram quase caindo em seguida. Riram sem graça e olharam em volta esperando que ninguém tivesse visto, foram até a porta e tocaram a campainha.
- Nossa, ninguém abre essa merda de porta! – depois de uns dez minutos esperando ao lado de fora reclamou.
- Estão fazendo tanto barulho que não escutam a campainha! – Bufaram juntas. – Nossa, que antipatia dessas pragas! – revoltada tocou a campainha dez vezes seguida e escutaram a barulheira acabar.
Olharam uma para outra e depois escutaram risos dentro da casa. apertou mais uma vez a campainha e logo escutaram barulho de chave batendo contra a porta. Ficaram com uma postura melhor, ainda que isso doesse um pouco, para conversarem com os novos vizinhos e esperaram a porta se abrir, pois a mesma não estava muito boa como o portão de fora. As duas brasileiras que estavam encarando o chão, viram dois pares de sapatos estranhos e foram levantando o olhar encontrando duas pernas finas e outras duas grossas, que estavam com calças cafonas. Ignoraram esse detalhe e levantaram mais o olhar. O homem de pernas grossas era meio gordinho e estava com uma blusa de frio clara listrada, entre as listras tinham algumas manchas que pareciam algum líquido. Já o de pernas finas, usava um casaco vermelho com detalhes de cor azul piscina. Essas roupas fizeram as duas imediatamente lembrarem-se do Agostinho, personagem da Grande Família. Achando esses dois corpos muito familiares, levantaram os olhares para os rostos dos novos vizinhos. deu um passo para trás por causa do susto e continuou parada de olhos arregalados.
- Pois não? – Ben disse soltando uma gargalhada sendo acompanhado por Andrew. Riam porque provavelmente tinham conseguido irritar as vizinhas. As duas não conseguiam falar, olhavam uma para outra e depois para seus músicos preferidos. deu um passo em direção a prima e comentou bem baixinho:
- Como nós duas somos lerdas, não tivemos sonho nenhum, foi tudo verdade.
- É de família, provavelmente! – não sabiam o que falar e estavam muito envergonhadas, pois só agora havia caído a ficha delas – Boa tarde.
- Aqui em casa está uma ótima tarde, não sei na de vocês. - Andrew provocou. As duas jovens ficaram com um pouquinho de raiva pela falta de conveniência dele.
- Provavelmente não Andrew, pois se elas vieram aqui é porque queriam participar da festinha, mas não, vocês não estão convidadas. – Ben disse e as meninas se lembraram de Arnie, um personagem que Leonardo DiCaprio tinha interpretado ainda jovem. Elas riram e pigarreou:
- É... Nós viemos aqui, é...
- É que nós somos estudantes, e queríamos saber se... – foi interrompida.
- Nós não vamos abaixar o som. – Andrew disse com uma voz confiante acabando com qualquer esperança. As duas se olharam meio que incrédulas pela falta de educação.
- Nós só queríamos estudar em paz... – foi a vez de ser interrompida.
- Quer dizer que as amiguinhas podem fazer o maior som à noite e nós não podemos de dia? – Ben deu ênfase na última palavra.
- Como assim? – perguntou enquanto Goldwasser deixou os três do lado de fora entrando na casa, nem Andrew nem perceberam, somente que estranhou a atitude.
- Olhem, ontem eu e Ben... – Andrew apontou para o lado percebendo que o amigo não estava na porta o odiando por ter sido deixado sozinho – Chegamos de turnê super cansados e tivemos que aguentar vocês duas cantando desafinado na maior altura como se só existissem vocês na cidade. Agora vocês vêm reclamar? – Ben chegou cambaleando na porta e entregou uma cerveja para Andrew, que deu um gole. As duas coraram imediatamente imaginando os dois as ouvindo cantar.
- É, e olha que nós moramos aqui primeiro do que vocês. – Ben falou com a língua enrolada e recebeu olhares confusos.
- Okay, nós estávamos erradas, mas não precisam ser grossos... – concordou mesmo sem entender o que Ben quis dizer.
- Pois sempre achávamos que essa casa era abandonada! – terminou de falar e recebeu um olhar nervoso de como “para de me interromper, porra!”.
- Vocês não têm que achar nada, aposto que nem daqui são, pelo sotaque de sul americanas. – As duas se sentiram ofendidas pelo preconceito de Andrew, um cantor que elas tanto admiravam.
Ben o olhou estranho, mas continuou quieto. e não sabiam o que falar e todos ficaram em silêncio, exceto pelos goles que Andrew dava na cerveja.
- Olhe aqui Andrew, não importa de onde nós somos, só gostaríamos de estudar em paz! – alterou um pouco seu tom de voz e VanWyngarden deu de ombros falando bem baixinho um “we don’t care”.
- Nós só queríamos que vocês abaixassem um pouco o som porque está incomodando e não temos condições de fazer nada com essa barulheira toda, muito menos estudar! – quase implorou fazendo sua melhor cara de gatinho do Shrek, o que ela constatou no momento seguinte, não adiantar nada.
- Estudem em paz, assim como nós dormimos em paz noite passada. – Ben disse alterando também sua voz. O mesmo puxou Andrew para dentro de casa e falou com um sorrisinho no rosto: – Acho que estou virando esquizofrênico! – Goldwasser fez voz de menina fazendo Andrew rir alto e deixar um pouco de cerveja escapulir da boca. – Acho melhor a gente ir dormir, Andy. – disse ainda com voz de menina, mas logo voltou ao normal – Porque essa noite algo nos atrapalhou. – e fechou a porta na cara das meninas que já estavam assustadas.

5 - Quartet Messy

- Eu sabia, tinham que ser estadunidenses! – disse nervosa ao entrar em casa e ouvir o som alto de novo.
- Nunca imaginava que o Andrew e o Ben pudessem ser tão grossos. – comentou descrente fechando a porta atrás de si.
- , entenda uma coisa, antes de eles fazerem músicas legais, eles são estadunidenses!
- Sim, mas o que isso tem a ver?
- Que antes de tudo eles são babacas idiotas que ficam fazendo coisa de gente retardada o dia inteiro. Era de se esperar.
- Nossa , que preconceito! – exclamou com a testa franzida.
- Preconceito? Por acaso você ouviu o jeito que o Andrew falou com a gente? Desfazendo-nos só porque somos sul americanas!
- Nem me fale, eu sempre imaginei que se um dia eu conhecesse o Andrew eu o abraçaria e seria retribuída. – falou sonhadora, mas logo desfez a cara. – No entanto, a única coisa que recebemos foi patada daqueles dois.
concordou e foi fechar as janelas da casa afim de que o barulho diminuísse e elas conseguissem estudar, mas aquilo seria impossível visto que o ruído era quase ensurdecedor. Voltaram à mesa e não ficaram nem dez minutos sentadas, sabiam que só poderiam estudar e aprender alguma coisa quando a música reduzisse de volume ou cessasse por completo. Quando perceberam que não tinham outra coisa a fazer a não ser dormir, se despediram e foram cada uma para seu quarto. pôs um protetor de frio nos ouvidos e colocou o travesseiro em volta da cabeça. Elas tinham a intenção de abafar o som, mas de nada resolveu e ficaram rolando em suas camas por horas até pegarem no sono que foi interrompido minutos depois por solos de teclado e guitarra completamente desafinados.

A lua já estava alta no céu quando eles finalmente deixaram-se cair sentados no chão da sala.
- Ai, minha cabeça dói pra cacete! – Andrew apertou a testa como se aquele ato pudesse aliviar a sua dor.
- Calma que eu tenho uns remédios aqui... – Ben se levantou cambaleando e andou até um móvel que servia de aparador, pegou uma cartela de comprimidos brancos e ao fazer o caminho de volta, chutou uma garrafa vazia que se quebrou.
- Você vai ter que limpar isso. – Andrew falou e colocou dois comprimidos na boca os ingerindo com resto de cerveja.
- É ruim! Amanhã a faxineira vem, ela que se vire! – Ben disse e tomou alguns comprimidos também. – Espero que esses comprimidos tragam meu sono logo. – falou sério e Andrew riu – O que foi?
- Você é meio hipocondríaco, ontem eu menti pra você, esse remédio não dá sono porra nenhuma. – Andrew gargalhou da cara do amigo ao descobrir que tinha sido feito de trouxa e se levantou rápido demorando um pouco a ter equilíbrio. – Eu vou dormir, espero que as loucas não liguem o som e nem façam algum barulho acima de quarenta decibéis.
- Elas não teriam coragem, não depois de hoje. Acho até que estão fazendo as malas para voltarem ao lugar de onde vieram. – Ben se levantou também.
- E de onde nunca deviam ter saído.
Os dois se abraçaram pelos ombros e foram andando lado a lado pelo corredor chutando algumas garrafas vazias de cerveja, calçados e até gatos.
- Desculpa Andorra. – Andrew falou embolado ao chutar o gato e escutar o bichano reclamar.
- O nome dele é Arruda, Andrew. – Ben corrigiu e se voltou para o gato: - E nada de ir para o lote vago! – Berrou como uma mãe protetora e o amigo tampou os ouvidos.
- Boa noite! – Os dois exclamaram juntos se soltando e cada um entrou em seu quarto.
Andrew se deitou em sua cama do jeito que estava, sentiu tudo rodar durante minutos e se arrependeu por ter bebido tanto. Ben olhou para sua cama com desânimo, a mesma ainda transbordava objetos, então ele simplesmente puxou a colcha fazendo tudo ir para o chão, no momento ele precisava apenas do colchão.

Paz. A palavra nunca fora tão bonita e querida na vida de e . Depois de tanto alvoroço, o silêncio chegava a ser estranho, mas era maravilhoso e elas sorriam desconfiadas com medo do sossego acabar.
- Ai, que felicidade! – disse contente e sorriu.
- Eu nem acredito no que estou ouvindo. – comentou alegre ao escutar apenas o latido de um cachorro e bebeu um gole de seu chocolate quente.
Ao perceberem que não conseguiriam dormir enquanto tivesse som alto, as meninas resolveram levantar e foram para a cozinha fazer um chocolate quente na tentativa de que aquilo pudesse ajudar o sono a vir.
- Que delícia! – exclamou e deu um risinho.
- Sim, essa calmaria toda parece até um oásis...
- Não . – A prima a interrompeu – Eu estou falando do chocolate mesmo. A única coisa que faltou foi um biscoitinho. – deu um gole grande em sua caneca e terminou o líquido passando a língua pelos lábios. acabou o seu e deu um bocejo.
- Vamos dormir. – se levantou da cadeira e colocou as duas canecas usadas dentro da pia.
- É, estudar só amanhã agora.
- Só depois da faxina! – falou com voz de desânimo e preferiu não comentar nada.

Marta desceu do ônibus conforme seu excessivo peso permitia e andou alguns minutos até chegar àquela casa bonita, de cor clara onde ela trabalhava. Empurrou o portão branco com dificuldade e xingou mentalmente o desleixo dos moradores. Abriu a porta da frente com a chave que os jovens tinham dado a ela para poder fazer a limpeza da casa quando estavam viajando, e levou um susto.
- Oh meu Deus, que bagunça é essa? – Exclamou horrorizada e com os olhos arregalados. O cheiro de cerveja impregnava o local e o chão estava grudento. Fechou a porta atrás de si e logo os três gatos apareceram pela sala. Marta abaixou-se e pegou Etiópia no colo, fazendo carinho no mesmo.
- O que esses donos malvados fizeram com vocês, bebês? – Ela perguntou para os bichinhos e foi entrando mais no cômodo vendo a dimensão da bagunça.
Garrafas e garrafas de cerveja jogadas e quebradas; calçados, roupas e remédios espalhados pelo chão; pratos, talheres e copos sujos amontoados em cima da mesa e instrumentos musicais ligados. As caixas de som produziam um ruído agudo pelo fato de um dos microfones estar em cima de uma delas. Balançou a cabeça inconformada e depois de dar comida para os gatos, andou pelo corredor até ficar de frente para as portas dos quartos dos meninos e as abriu simultaneamente, nenhum dos dois acordou. Espichou a cabeça para eles e ao mesmo tempo em que se sentiu decepcionada, também sentiu certo alívio por eles não estarem nus, caso contrário a situação poderia ficar constrangedora. Marta sempre achara os braços com veias estufadas de Andrew e as coxas grossas de Ben, dentro de suas calças levemente apertadas, bastante atraentes. Balançou a cabeça forte e tratou de tirar aquilo de sua mente, aqueles meninos podiam ser seus filhos. O que ela estava pensando? Vendo que nenhum dos dois acordaria tão cedo, ela se viu obrigada a tirar seu apito do bolso da saia comprida e soprá-lo com força.
Não é possível, eu estou sonhando, eu sei que isso é um sonho. Andrew pensou e se remexeu na cama tentando sair daquele pesadelo. O apito foi soado mais uma vez e ele colocou o travesseiro sobre a cabeça.
- Acordem garotos, o dia já amanheceu! – Marta gritou e apitou novamente.
- Mas hoje é domingo! – Ben argumentou de seu quarto com a voz rouca.
- Sim! – Marta concordou do corredor – E eu não vim trabalhar para vocês?
- Veio, e isso quer dizer que você fica calada enquanto trabalha e nós dormimos. – Andrew respondeu mal criado ainda de olhos fechados.
- VanWyngarden e Goldwasser, se vocês não levantarem agora, eu me demito e deixo a casa como se o Katrina tivesse passado aqui. – Ela ameaçou e sorriu ao ver os dois se levantando mesmo que a contragosto. Os meninos foram para sala e se sentaram no sofá sem saber o que fazer. Estavam quase dormindo de novo quando Marta entrou no cômodo com cara de raiva. – Como vocês querem que eu limpe esse chiqueiro se não tem nada, exatamente nada, para limpar?
- Se vira! – Ben disse se invertendo de posição e tentando voltar a dormir mesmo que sentado no sofá.
- Como assim "se vira"? Vou ter que limpar a casa com a roupa de vocês então? – Os dois ignoraram achando que era pura brincadeira e voltaram a cochilar no sofá, mas não conseguiram por muito tempo, pois logo a faxineira começou a cantar uma música gospel fazendo Andrew abrir os olhos e observar diretamente o chão, ele reparou um rodo enrolado com um pano que logo reconheceu como sendo a camisa do seu amigo.
- Ben, olha sua roupa com ela, desse jeito vai ficar mais rasgada do que está.
- Deixa, é bom que fica mais estiloso. – Disse com a voz rouca e voltou a se enroscar nas almofadas todas sujas de pêlo de gato. Marta percebeu que a roupa era de Goldwasser e ficou com um pouco de pena do sujeito. Tirou a camisa do rodo e perguntou:
- Benjamin, essa roupa aqui é sua? – quando o mesmo olhou para a peça, pulou do sofá imediatamente puxando-a da mão da faxineira.
- Cuidado! Essa camisa é a minha preferida! – ele falou tirando a peça branca lisa que usava e colocando sua roupa marrom rasgada preferida agindo como uma criança.
- Esse pano velho é sua blusa preferida? Era só o que me faltava. – A outra balançou a cabeça negativamente – Agora vocês irão ao supermercado comprar produtos de limpeza, eu faço a lista para vocês.
- Por que você não pode ir? – Andrew perguntou coçando os olhos.
- Querido, olhe ao redor e veja a bagunça que vocês fizeram, parece que um bando de criancinhas passou aqui. Se eu não começar a arrumar agora, só termino de madrugada, por isso tenho que adiantar o serviço aqui enquanto vocês compram os produtos, fora que hoje à noite tenho que ir à igreja. – Os dois reviraram os olhos.
- Acho que demos muita liberdade a ela – Ben comentou e Andrew confirmou fazendo uma careta.
Calçaram seus devidos sapatos e esperaram Marta entregar um pequeno pedaço de papel com a lista de tudo que deviam comprar.

acordou às seis da manhã com frio e decidiu ir para cama da , quando a mesma viu a prima entrando no quarto de manhãzinha já começou a resmungar:
- Sai daqui que hoje é domingo e eu vou dormir até a hora que eu quiser, sua mala! – ignorou o comentário e deitou ao lado da outra que já estava dormindo de novo, porém só conseguiu dormir mais uma hora e logo estava em pé tomando café. acordou com o cheiro do café e levantou indo para cozinha.
- Bom dia piranha de esquina, deu muito ontem? – riu um pouquinho e olhou para com cara de safada.
- Você nem imagina o quanto! – entrou na brincadeira.
- Que bom, espero que você tenha descansado muito, pois hoje temos que limpar nosso lindo lar doce lar.
- Você é cafona. – acusou colocando um pedaço de pão na boca.
- Eu sei, você também é!
- Eu sei. – Riram. Por um milagre terminaram de comer em silêncio e como sempre deitaram no sofá para pensar no que fazer. – , vamos arrumar esse puteiro?
- Okay, mas acho que não temos certas coisas para limpar a casa, vamos ao supermercado agora de manhã, depois fica cheio, ainda mais que estamos em final de semana.
- Daqui a pouco decoram nossa cara, de tanto que vamos lá. – disse e murmurou algo como um “aham” indo até seu quarto trocar de roupa, logo foi para o seu fazendo o mesmo.

Andrew e Ben olharam para a lista que Marta havia feito quando saíram de casa, eles andavam em direção ao mercado que tinha ali no bairro.
- Pra que uma lista desse tamanho? Realmente precisa de tantas coisas?
- Mulheres meu amigo, até no supermercado têm que comprar muito. – Ben deu uns tapinhas nos ombros do amigo. - Vou te contar uma piada.
- Lá vêm as piadinhas do Goldwasser. – Andrew revirou os olhos, mas ficou atento ouvindo.
- Por que mulher não gosta de barata? – Ele perguntou.
- Porque são frescas igual o Will. – Agora foi Ben que revirou os olhos.
- Não, é porque mulher não gosta de carro barato, roupa barata, casa barata... – E Ben riu alto de sua própria piada, quando percebeu que Andrew não ria, ficou sério – Entendeu?
- Sim, mas não tem graça, agora adianta o passo que quero chegar em casa rápido. – Goldwasser ficou sem graça pelo amigo não ter achado sua piada engraçada, logo Andrew que sempre ria de tudo, então continuaram a andar calados e abrindo um ou outro bocejo de vez em quando.
Chegaram ao supermercado e Andrew foi tacando no carrinho tudo o que continha na lista.
- Papel higiênico, bucha, pano de chão, espanador... – Ben lia para o amigo item por item. – Puts, quanta coisa inútil!
- Homem... – Andrew falou rindo se referindo a Ben – Acho que devemos ir aos produtos de limpeza agora! – o outro concordou jogando um pacote de ruffles no carrinho.
- Prontinho Andrew gatinho amado por todas as fãs da nossa banda, agora só falta isso daqui que eu não para quê serve. – Ben disse mostrando o último produto que faltava para terminarem as compras.
- Ah, eu sei para quê isso, uma vez joguei no vestido de minha irmã e ficou todo manchado. Provavelmente fica próximo daqui. – VanWyngarden falou confiante indo em direção a outro corredor. Quando viraram para entrar no corredor levaram um susto ao bater em outro carrinho, iam pedir desculpas, mas quando viram o dono, ou melhor, as donas do carrinho, ficaram decepcionados. – Ah merda, o que vocês fazem aqui?
- O que as pessoas fazem no supermercado, menino? – perguntou com cara óbvia e Andrew retorceu o rosto em careta. “Menino? Eu tenho cara de criança por acaso?”, ele pensou, mas logo admitiu para si mesmo que aparentava ser mais novo do que era, só não precisava jogar na cara.
- Olha, nem vamos começar a conversar, pois estamos com pressa e acho que não nos damos muito bem. – falou puxando para o outro lado entrando no outro corredor.
- Ainda bem que essa daí foi prática. – Ben disse percorrendo o mesmo caminho – Pega o negócio aí que você sabe o que é. – Andrew foi olhando todas as prateleiras de cima a baixo até bufar.
- Não sei onde está esse produto, vamos para lá. – Apontou para um ponto do supermercado e viraram entrando no terceiro corredor de produtos de limpeza vendo suas novas vizinhas na ponta do mesmo, os dois olharam um para cara do outro e continuaram andando em direção a elas.

e tinham as pernas um pouquinho bambas por terem encontrado Andrew e Ben no supermercado. Estavam à procura de só mais um produto.
- , olha quem está vindo em nossa direção. – chamou a atenção da prima.
- Deixa para lá, tomara que não venham falar com a gente. – falou jogando sabão em pó no carrinho e continuaram andando.
As duas procuravam atentamente o produto e os dois quase se arrastavam de tanta preguiça que tinham, eles tinham certeza de que não encontrariam e se preparavam para ir embora até que abaixou o olhar e viu na última prateleira um único produto que estava procurando.
- Ali! – Falou alto apontando para o produto de embalagem branca. Andrew e Ben, que já estavam quase sumindo de vista, olharam para o produto e VanWyngarden logo reconheceu que era o que sempre usava em sua adolescência para fazer arte com as roupas da irmã gêmea.
- Achei! – Andrew falou se agachando para pegar, mas foi mais rápida e agarrou a embalagem antes que Andrew conseguisse encostar.
- Eu achei, portanto é meu. – Disse colocando no carrinho.
- Seu? Você por acaso já pagou por ele? – O vocalista perguntou tirando o vidro de água sanitária do carrinho e colocando no dele em cima de um pacote de ruffles.
- Meu salgadinho, seu animal! – Ben gritou puxando de baixo e deixando em cima da cadeirinha onde crianças ficam. começou a rir da atitude de Ben e permaneceu séria, pois estava com raiva.
- Me devolve isso agora, VanWyngarden! – Falou brava.
- Vem pegar! – ele desafiou entrando em frente ao carrinho.
não pensou duas vezes e tentou empurrar Andrew para o lado, mas a única coisa que conseguiu foi pensar em como seus braços eram fortes. Quando percebeu o que pensava começou a rir e foi ficando sem forças até desistir de tentar empurrá-lo. Olhou para que ainda ria e depois para Ben, que tinha o semblante confuso e encarava sem saber a graça. No momento em que Andrew se distraiu examinando para onde observava, ela andou um passo e pegou o produto no carrinho dos meninos, mas quando foi colocar no seu, Ben foi mais forte e puxou o produto da mão dela. que já tinha parado de rir cravou as unhas com força no braço de Ben a fim de que ele soltasse o litro de água sanitária, o tecladista além de levar susto, sentiu dor e deixou o produto escapulir de suas mãos. O recipiente caiu no chão e se espatifou no meio dos quatro espirrando líquido em todos.
- Merda! – Andrew xingou alto ao ver o que tinha acontecido.
- Droga! Água sanitária vai manchar minha blusa! – disse secando seu queixo que também tinha um pouco do líquido com a outra mão. – Odeio esse cheiro! – Falou ainda apertando o braço de Goldwasser sem perceber, o mesmo estranhou a atitude e depois de tirar o braço delicadamente, olhou para baixo e viu uma mancha do líquido em sua camisa.
- Oh my God! Que merda é essa na minha roupa? – Ben perguntou olhando para a vestimenta e percebendo que era o que estava mais encharcado, começou a rir. – Para de rir menina, seu casaco está todo molhado.
- Eu vi e a culpa é toda do Andrew VanWyngarden! – Falou olhando para ele cruzando os braços.
- Minha? Essa é boa! – Falou fingindo indignação, pois no fundo sabia que tinha alguma culpa.
- Acho melhor a gente vazar daqui Andrew, vão mandar nós pagarmos essa coisa sendo que só levamos prejuízo.
- Epa, podem ficar aqui, eu é que não vou pagar! – se pronunciou pegando o carrinho indo em direção ao caixa do supermercado, mas foi impedida por Ben que a puxou pelo braço.
- É tudo difícil com vocês, não é mesmo? Essa coisa custa dois dólares, é só a gente dividir. – Os quatro enfiaram as mãos nos bolsos procurando moedas.
- Eu só tenho vinte e cinco centavos. – Andrew pegou algumas moedas.
- Eu tenho cinquenta. – Ben tirou uma única de seu bolso.
- Eu não tenho nada. – falou tirando os bolsos vazios para fora fazendo os três rirem. Estranharam o momento feliz e voltaram a ficar sérios.
- Eu tenho quarenta e cinco. – falou com um sorrisinho no rosto.
- Nossa, que rica hein? – O tecladista falou colocando seus cinquenta no chão levando olhares confusos de todos.
- Benjamin lindo e maravilhoso que não sabe o que eu estou falando... – disse em português fazendo gargalhar muito alto e os garotos franzirem a testa. - Por que você colocou o dinheiro no chão? – Perguntou em inglês.
- Aposto que ela me xingou! – sussurrou para Andrew que olhava para uma risonha – Por que eu não vou esperar ninguém chegar para pagar essa coisa, vou deixar minha parte aqui e ir para o caixa. Tchau para vocês. – Empurrou o carrinho para o fundo do corredor logo sumindo de vista.
Todos colocaram as moedinhas no chão e foram disfarçadamente em direção ao caixa, tinham pressa de sair do supermercado antes que algum funcionário chegasse e pedisse explicação do ocorrido no meio do estabelecimento. Por ser domingo de manhã, apenas metade dos caixas funcionavam e todos estavam ocupados exceto por um onde uma velhinha acabava de sair. apontou o caixa para que empurrava o carrinho e foram em direção ao mesmo. Andrew e Ben estavam no corredor em que o único caixa vazio ficava em frente, foram com pressa quase correndo para o caixa antes que alguém chegasse.

começou a brincar com que estava em frente o carrinho fingindo que ia atropelar ela.
- Para, caramba! – A mesma falou irritada por estar cheirando a água sanitária e foi para o lado.
- Vou chegar em tempo recorde, olha só. – disse com um olhar divertido para . A menina apressou o passo quase correndo em direção ao caixa.
- Cuidado hein, ?! – Não deu tempo de entender o que dizia e pôde se ouvir um estrondo de carrinhos se chocando. – Eu falei para você, sua anta! – gritou de onde estava e foi andando até a prima para ver se ela estava bem.
- Olha por onde anda, Andrew! – reclamou passando a mão na testa, ao cair ela sentiu algo no bolso de trás de sua calça, mas não deu importância.
- Eu? Olha você, eu estava indo para o caixa. – Falou com os braços erguidos até o ombro se defendendo.
- Nós duas chegamos primeiro. – falou e estendeu a mão para que a prima se levantasse.
- Ah bom, mas eu não sei se vocês notaram, aqui é um supermercado, não um parque de diversões onde se fica brincando de bate-bate. – Ben começou a colocar os produtos de seu carrinho na esteira e a mulher que trabalhava no caixa pegou alguns sabonetes, passando o código de barra da embalagem em uma máquina.
- Pode parar! – falou alto e a mulher congelou as mãos no ar. – Moça, a gente chegou primeiro, não passe nada do que eles colocarem na esteira. – A menina mandou e a mulher largou os sabonetes.
- Nada disso, pode continuar que nós é que chegamos primeiro, vocês que esperem outro caixa esvaziar.
- Que feio VanWyngarden, cadê o cavalheirismo da sua parte? Mulheres têm prioridade. – tentou tocá-lo de sensibilidade, mas de nada adiantou.
- Eu não sei de onde você vem, mas no meu país homens e mulheres têm direitos iguais. – Andrew fez uma cara superior e o amigo gargalhou.
- Pode continuar a passar, moça. – Ben determinou e a mulher voltou ao seu trabalho.
- Pode parar, eu e chegamos primeiro e vamos ser atendidas antes deles! – ordenou e a mulher colocou o detergente em cima da esteira estressada.
- Olhem, vocês decidam logo ou eu serei obrigada a chamar o gerente! Como se já não bastasse eu ter que vir trabalhar no domingo, ainda tenho que aguentar um quarteto de crianças que já estão bem crescidinhas disputando o lugar na fila do supermercado! Rapazes, não pensem que só porque são famosos que podem trapacear, as meninas chegaram antes e elas têm menos produtos, portanto, as atenderei primeiro. Podem vir garotas. – A funcionária chamada Trisha – eles descobriram o nome pelo crachá que ela usava – falou tudo de uma vez deixando os quatro estáticos.
e se despertaram primeiro e tomaram a frente colocando seus produtos na esteira do caixa, Trisha voltou a trabalhar e o silêncio se fez por alguns segundos.
- Isso não é justo. – Ben murmurou inconformado e cruzou os braços.
- Psiu! Não quero baixaria. E vocês... – a funcionária apontou o dedo para Andrew e Ben – Terão que tirar uma foto comigo antes de ir embora. – Ela estabeleceu e os garotos cerraram os olhos com tamanho atrevimento.
- Eu não vou tirar foto nenhuma! – Ben disse ainda de cara fechada.
- Vamos sim! – Andrew olhou feio para o amigo, sabia que eles tinham que ser simpáticos com as pessoas sempre que possível.
- Ah Ben, você até que tá bonitinho... – falou e se arrependeu imediatamente, suas bochechas coraram e as orelhas de Ben adquiriram o mesmo tom avermelhado, o rapaz olhou para o chão sem saber o que dizer.
- É verdade, pior o Andrew que vai estragar a foto com esse cabelo de Electric Feel. – comentou na tentativa de quebrar o clima constrangedor que se instalara. E conseguiu, pois no momento seguinte, todos, exceto Andrew, riam do que ela falou.
- Há há há, muito engraçadinha, meu cabelo tá assim porque acordei cedo e esqueci de penteá-lo. Aliás, nem sei por que estou dando satisfação. – Foi a vez de Andrew emburrar.
- Escute aqui Trisha, você pode terminar logo? Eu ainda pretendo voltar pra minha tão adorada cama antes do almoço. – Ben se dirigiu à funcionária que passava o último produto de limpeza da compra das meninas.
- Prontinho garotas, o preço é esse. – Trisha apontou para algum lugar da tela de seu computador – Vão pagar com dinheiro, cheque ou cartão?
- Cartão. – respondeu e tirou o cartão do bolso de trás da calça. Ela percebeu que o objeto tinha um pequeno rachado que nunca estivera ali antes, deu de ombros e entregou a mulher.
Trisha pegou o cartão e passou na máquina, a primeira tentativa não deu certo. Ela passou novamente e nada, então soprou o cartão e a máquina na esperança que aquilo ajudasse, passou mais algumas vezes, mas sempre dava erro.
- Acho que o cartão de vocês está com problema, meninas. – Ela falou e pegou de sua mão e analisou o objeto. - Impossível! Outro dia viemos aqui e ele funcionou perfeitamente. – disse sem acreditar e tomou o cartão para si.
- Acho que não tinha esse rachado aqui. – mostrou para as outras duas mulheres – ele deve ter estragado quando eu caí no chão agora pouco.
- Licença, sem querer atrapalhar o bate papo, mas eu queria saber se vocês vão demorar muito? – Ben entrou no meio da conversa e todas os olharam.
- Acho que o meu cartão estragou. A culpa é do Andrew que me fez cair no chão! – acusou e Andrew arregalou os olhos.
- Por que você tem a mania de me culpar por tudo? O problema é seu se o cartão quebrou, agora pague logo essa conta que eu já tomei muito chá de supermercado hoje! – VanWyngarden falou alto e Trisha deu um suspiro tentando manter a calma.
- Mas Andrew, você não entendeu. Não tem como a gente pagar, pois a única coisa que trouxemos foi o cartão, não temos dinheiro ou cheque. – explicou a situação e os dois passaram as mãos pelo rosto impacientes.
- Ô desgraceira! Jogaram praga na gente ou algo do tipo? – Goldwasser proferiu nervoso.
- Eu só vejo uma solução pra essa situação – começou e todos se voltaram para ela.
- Qual? – Trisha perguntou ansiosa e deu um sorrisinho tímido olhando para os meninos, eles a olharam desconfiados, mas permaneceram calados.
- Vocês podem nos emprestar o cartão? – Ela mal acabou de falar e eles começaram a protestar.
- Não! – Exclamaram juntos com veemência.
- Mas por quê? Nós vamos pagar depois. – afirmou e eles continuaram negando com a cabeça.
- Nós nem nos conhecemos, como podemos confiar? – Andrew ergueu a sobrancelha e Ben concordou.
- É, além do que vocês têm cara de caloteiras, eu é que não empresto um tostão. – Benjamin acabou com a possibilidade que elas tinham sugerido.
Os quatro se calaram e Trisha começou a assobiar e olhar para suas unhas, já tinha se cansado de toda aquela discussão besta, eles eram tão sonsos que nem tinham percebido que o caixa ao lado estava vazio, se os meninos realmente quisessem dar o fora dali, com certeza já tinham conseguido essa proeza, talvez eles até estivessem gostando de estar ali.
- Não vão emprestar mesmo? – perguntou impaciente e os viu negar. – Pois bem, vão ficar esperando até que eu vá até a minha casa pegar o meu cartão. – se dirigiu à saída do supermercado e os dois protestaram.
- Eu não vou ficar esperando você ir até a sua casa, tenho mais o que fazer. – Ben falou e deu de ombros.
- É só emprestar o cartão. – pediu mais uma vez e os amigos se entreolharam pensando se cediam ou não, acabaram por concordar querendo dar o fora dali o mais rápido possível.
- Eu vou logo avisando que cobro juros a cada dia de atraso. – Andrew disse quando tirava o cartão da carteira e entregava a Trisha.
- Pão duro! – censurou.
- E ainda reclamam, vocês são muito folgadas mesmo. – Ben balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Cala a boca. – mandou e o outro deu de ombros.
Trisha se apressou a passar o cartão – que dessa vez deu certo – a fim de que as meninas fossem embora logo, não aguentava mais aquela discussão. Antes que elas partissem carregadas de sacolas, pediu a para que ela batesse uma foto dela com os meninos. Andrew saiu simpático e sorrindo retribuindo o abraço que recebia, já Ben saiu sério e com as mãos para frente do corpo como costumava sair nas fotos que tirava com as fãs. e foram embora e logo os dois saíam do supermercado cheios de vassouras, rodos, desinfetantes e todos os produtos de limpeza que Marta conhecia, fora os salgadinhos que Ben resolveu levar.
- Puta merda, achei que a gente não fosse sair de lá nunca mais, quer vizinhas mais chatas que aquelas? – Andrew perguntou revoltado quando faziam o caminho contrário de casa.
- Nem me fale, você que fique esperto para elas não te passarem a perna. – Ben alertou e o amigo concordou.
- Fora que aquela mais novinha me acusa de tudo, parece até perseguição. – Ele negou com a cabeça inconformado e escutou Ben dar uma risadinha. – O que foi?
- Nada... – Ben disse e continuou a rir.
- Fala logo. – Andrew pediu alto e o outro concordou.
- Ah cara, não vá ficar nervoso, mas ela acertou em uma coisa sobre você.
- Hum... – Andrew fez um barulho com a boca para que ele continuasse.
- Seu cabelo está igualzinho em Electric Feel, todo amarfanhado.
- Vá se ferrar Goldwasser, melhor meu cabelo assim do que esse seu braço cheio de marcas de unhas. – Os dois olharam para o braço esquerdo de Ben e perceberam que tinha umas manchas.
- Foi a outra doida que cravou as unhas em mim na tentativa de puxar a água sanitária pra ela. – Ficaram em silêncio por um tempo. – Aposto que hoje os caras virão encher o saco enquanto a gente tenta dormir.
- Óbvio que não, o Matt foi para casa dos pais lá na puta que o pariu, acho que tem um parente doente, o Will vai ficar fodendo a semana inteira e o James vai ficar com a filha dele. – Ben assentiu abrindo a porta e jogando tudo no chão da sala.
- Marta! – Gritou separando o salgadinho da sacola e indo comer em frente à TV onde ligou e deixou em um canal qualquer. Enquanto isso Andrew foi para o banheiro e começou a arrumar o cabelo, porém estava muito bagunçado e resolveu lavá-lo.
- Andrew, porque você resolve tomar banho logo quando eu tenho que lavar o banheiro? – Marta perguntou ao ver VanWyngarden sair do banheiro com a toalha enroscada na cintura e sentiu seu coração dar um salto.
- Porque meu cabelo estava bagunçado. – Respondeu indo até seu quarto.
- Só assim mesmo para tomar banho. – Goldwasser, que ainda estava na sala, gritou se intrometendo na conversa.
- Credo, Andrew! – Marta fez cara de nojo e espichou a cabeça para ver se a toalha dele não estava um pouco frouxa em seu corpo.
- Mentira desse narigudo, eu tomo banho todos os dias e duas vezes ainda, quando não estamos no inverno. – Reclamou batendo a porta e pegando um pente para pentear seu cabelo.

Não demorou muito e e estavam em casa colocando as compras em cima da mesa.
- , eu vou lá na casa deles pagar o gato chato do Andrew só para jogar na cara do Ben que eu não sou caloteira.
- Eu vou junto, .
- Sei muito bem para que você quer ir junto! – disse maliciosa e ela riu.
- Juro que se eles não fossem tão grossos eu tentava pegar o Goldwasser, você sabe que desde que conheci a banda achei aquele homem barbudo com cara de retardado atraente. – franziu a testa.
- Ninguém merece, ai ai. – A mesma pegou a bolsa que estava na mesa da cozinha tirando umas notas de dólares.
- Olha quem fala, não fui eu quem disse dois anos atrás: “nossa, esse vocalista até que é bonito, eu pegaria’’. – imitou a voz de – Muito vadia você. – riu.
- Shiu! Fala baixo, eles podem escutar. – A amiga falou desconfiada.
- Nossa, até parece, desesperada. – revirou os olhos e foram para fora de casa.

Andrew terminou de pentear seu cabelo e bagunçou ele novamente. Ouviu o estômago roncar e decidiu ir para cozinha. Abriu a porta do quarto dando de cara com Marta que limpava um pequeno quadro perto de seu quarto.
- Ai minha nossa VanWyngarden, coloca uma roupa, por que se essa toalha cair eu não serei responsável pelos meus atos. – Andrew arregalou os olhos e preferiu não falar nada.
- Ben, o que tem para comer?
- Não sei, só sei que eu quero comer uma vizinha, digo, uma mulher bem gostosa. – Ben se apressou em corrigir a frase e VanWyngarden arregalou os olhos novamente.
- Putz! Esse povo está muito tarado hoje. – Balançou a cabeça negativamente. – Mas de verdade cara, eu estou com fome e não tem nada na geladeira ou armários! O resto de comida que a gente tinha a Marta deu para os gatos.
- Não estou a fim de ir ao restaurante e muito menos no supermercado de novo. – Ben disse e Andrew bufou se apoiando na bancada tomando um copo de água. - Eu vi um monte de comida no carrinho daquelas meninas que moram ali do lado e elas devem estar fazendo um ótimo almoço agora, já nós estamos aqui, com fome. - A campainha tocou e os dois continuaram na mesma posição.
- Poxa, mas o que custa vocês atenderem? Tudo nessa casa sou eu, vou pedir um aumento dessa vez. – Marta passou pela cozinha com um pano pendurado nos ombros e os dois riram olhando um para a cara do outro.

As duas primas tocaram a campainha e esperaram um tempinho até uma gorda atender, a mulher de pele clara e cabelos castanhos era tão obesa que ocupava todo o espaço da porta impedindo que as meninas pudessem ver alguma coisa dentro da casa.
- Bom dia lindas, o que desejam? Foto? Autógrafo? Cuequinha leiloada? Podem aproveitar que hoje estou de bom humor e pego o que vocês quiserem dos meninos, eu tenho certeza que aqueles tontos nem dariam falta. – Ela disse simpática e as primas se olharam rindo.
- Tenho que pagar o Andrew, ele está? – perguntou. Marta gritou o nome do vocalista fazendo as meninas tampar os ouvidos, logo ele apareceu na porta só de toalha fazendo ficar mais atenta e encarar sua barriga.
- Oi vizinhas que segundo o Ben estão fazendo um almoço gostoso. – Andrew se apoiou no batente da porta em frente , sua prima começou a rir por causa da secada que a outra deu sem nem ao menos disfarçar. Ben, que ainda estava na sala agora fazendo carinho em Etiópia, escutou a risada de e foi em direção a porta.
- O que vocês fazem aqui? – Goldwasser perguntou inconveniente.
- Sério, qualquer um que chegasse aqui poderia falar que vocês são um casal gay, tudo porque o Andrew está com essa toalha na cintura. – falou e Andrew agarrou Ben pela cintura e ficou ameaçando a dar um beijinho no rosto do tecladista que para variar estava vermelho de vergonha. – Nossa VanWyngarden, depois dessa já dá para desconfiar hein? – Andrew o soltou imediatamente.
- É brincadeira! Eu sou macho! – disse fazendo força nos braços para mostrar seus músculos como se isso ajudasse.
- Okay, só vim aqui para te pagar. – se intrometeu enfiando a mão no bolso da calça.
- Paga logo porque eu estou com fome e ao contrário de vocês, aqui não tem nada para comer a não ser meus salgadinhos. – Ben disse passando a mão por cima da blusa marrom manchada de água sanitária.
- Pensando bem, eu não quero que vocês me paguem em dinheiro não. – Andrew disse tendo uma ideia.
- Não? – As duas perguntaram juntas.
- Quero que vocês me paguem de outra forma. – falou dando um sorrisinho malandro. As duas arregalaram os olhos e gelaram com medo do que eles pretendiam, quando Andrew notou o duplo sentido do que tinha falado, ficou sem graça e rapidamente consertou a frase: - Calma, não é nada demais! – As duas se acalmaram um pouco. – Como o Ben disse, estamos com fome, e bom... Vocês poderiam dividir seus almoços com a gente em forma de pagamento. – Soltou um risinho sem graça enquanto Ben soltava uma gargalhada. – Bom que assim vocês vão treinando para o dia de Ação de Graças, já que não são daqui.
- Depois nós duas que somos as folgadas, mas vocês vão ter que ficar esperando a comida ficar pronta, pois nem fizemos nada. – cedeu e os dois se entreolharam e bateram as mãos como um “conseguimos’’.
- Esperem um minuto que eu tenho que colocar uma roupa. – Andrew falou indo a passos largos para seu quarto.
- Nem precisa, acho que essa daqui nem vai se importar de te ver pelado. – Ben disse apontando para , mas Andrew não ouviu, pois já estava no seu quarto. o olhou pedindo explicações – Que foi? Não era eu quem estava secando a barriguinha sexy do Andrewzinho. – corou na mesma hora e tentou se defender:
- Você que é cego e imagina coisas. Vem , vamos esperar eles lá em casa. – puxou a prima que acenou para Ben e as duas voltaram para casa.
- Anda logo, Andrew! – Ben apressou o amigo e VanWyngarden chegou na sala já devidamente vestido.
- Cadê as duas?
- Estão nos esperando lá. Marta, já voltamos! – Não esperaram resposta e saíram de casa. – Do jeito que você falou que queria pagamento de outra forma elas se assustaram, admito que até eu me assustei um pouco. – Andrew riu.
- Até que não seria má ideia. – Olhou malicioso para amigo que já abria o pequeno portão da casa das vizinhas.
- Quem sabe? – Goldwasser sugeriu e riu.
- Yeah. – Andrew tocou a campainha. – Agora abaixa esse pico em pé aí por que se não vai ser constrangedor. – Levou um pedala na cabeça.
- Engraçadinho não estou vendo nada em pé aqui! – Ben olhou para baixo para verificar e depois riram enquanto esperavam ansiosamente as meninas abrirem a porta.
- Pensando bem, somos um pouco bipolares, pois há minutos atrás queríamos matar as vizinhas, agora estamos mendigando comida na casa delas. – Andrew comentou e Ben somente concordou, pois logo sua atenção mudou para a pessoa que abria a porta: .
- Discordo de você, eu acho que vocês são dois caras de pau esfomeados e miseráveis que não têm nada para comer em casa e não se dão ao trabalho de comprar comida, pois acabaram de descobrir que têm duas vizinhas super bacanas que sabem cozinhar e tiveram a ideia de encostarem-se a elas. - Andrew levantou as sobrancelhas diante da descrição que recebeu e o tecladista abriu um sorriso.
- Concordo com cada palavra. – Ben falou descaradamente e junto do amigo subiu um único degrau ficando parcialmente dentro da residência. brotou atrás de com um semblante bastante simpático e tirou o copo de água da boca para proferir:
- Olá garotos, sejam bem vindos.

6 - The Banquet

Ben e Andrew sorriram e entraram na casa juntos, fechou a porta e lhes indicou o sofá.
- Nossa casa não é muito grande, mas é o suficiente para nós duas, fiquem à vontade. – falou e os dois se sentaram no sofá.
- Gostei da casa. – Ben analisou a sala de televisão conjugada com a sala de jantar.
- Eu mudaria a cor das paredes e trocaria essas cortinas. – Andrew falou e levou um cutucão do amigo – Que foi? Estou sendo sincero!
- Não precisa falar na cara. – Goldwasser tentou falar baixo, mas todos os escutaram. – Cadê a educação que seu Bruce te deu? – Perguntou se referindo ao pai de Andrew, vendo o outro dar de ombros.
As meninas se entreolharam e riram brevemente.
- Eu vou à cozinha pegar umas cervejas, vocês gostam, certo? – perguntou e eles balançaram a cabeça confirmando.
- Vou junto! – falou e foi até a cozinha onde a prima já estava.
- Andrew nem um pouco sem educação. – comentou baixo, enquanto pegava quatro garrafas da geladeira.
- Não é? Como se eles entendessem muito de moda e decoração usando aquelas roupas cafonas. – concordou e abriu as garrafas.
- Tenho certeza que eles compram aquelas roupas em brechó. – falou e a outra riu.
- Ah é! Do jeito que são miseráveis, eu não duvido.
Saíram da cozinha segurando duas garrafas de cerveja. Quando chegaram na sala, se depararam com Andrew assistindo televisão, com os pés em cima da mesinha de centro e Ben fuçando uma estante lotada de livros, filmes e cds.
- As cervejas estão aqui – colocou uma em cima da mesa, ao lado do pé de Andrew, e logo o vocalista dava boas goladas na bebida. andou até Ben e lhe entregou a outra garrafa, o tecladista bebeu quase metade de uma vez.
- Eu sugiro que brindemos. – Andrew se pôs de pé e olhou para os três presentes.
- Como uma trégua nas nossas brigas? – Ben perguntou e ele concordou.
- Ou como um agradecimento por estarmos aceitando vocês na nossa casa para o almoço? – levantou a sobrancelha e os meninos se entreolharam.
- Entenda como quiser... – Andrew deu de ombros e chegou mais perto.
- Vamos logo com essa palaçada, é só um brinde. – Andrew e Ben começaram a rir, pois se confundiu ao falar “palhaçada”, deixando a menina sem graça. – Não estou vendo nada engraçado aqui.
- De onde vocês são mesmo? – Goldwasser perguntou, ainda rindo.
- Brasil, – As duas disseram em uníssono.
- Eu gosto do Caetano Veloso e do Zé Ramalho. Vocês já foram ao show deles? – Andrew perguntou, esperançoso.
- Não – Disseram em uníssono mais uma vez.
- Então vamos brindar! – O tecladista disse animadamente.
- Ainda não sei o que a gente está brindando. É pelo almoço, pelas brigas ou por nós duas não termos ido ao show do Caetano e Zé Ramalho? – perguntou, encabulada.
- Pelo almoço. – Ben disse esfomeado.
- Pelo Caetano Veloso e Zé Ramalho, que são os músicos brasileiros mais legais que já conheci. – Andrew falou.
- Pelas tréguas nas brigas, eu espero. – levantou sua garrafa de cerveja e todos olharam para , esperando que ela falasse alguma coisa. Ela riu sem graça e pensou um pouco.
- Anda logo, meu braço está doendo. – a prima chamou a atenção.
- A minha cerveja vai esquentar. – Andrew falou.
- E eu tenho sede. – Ben disse urgente.
- Por estar presenciando esse momento! – ergueu o braço e os quatro finalmente encostaram suas garrafas, fazendo barulho. Depois cada um bebeu de seu líquido a boas goladas.
Ficaram em silêncio por um momento sem saber o que dizer. Ainda era muito estranho para eles aquele momento de intimidade, pois há dias atrás eles nem sonhavam em se conhecer. As meninas não imaginavam que conversariam com seus músicos preferidos normalmente, como se fossem pessoas comuns. Os rapazes não achavam que fosse possível uma convivência natural e tranquila com as vizinhas barulhentas que tinham conhecido. Voltaram a beber a cerveja e Andrew foi o primeiro a acabar e quebrar o silêncio.
- O que vocês estão fazendo para o almoço? – Deixou-se cair no sofá e passou a mão pela barriga.
- É verdade, eu não estou sentindo cheiro de nada. Pelo amor, me digam que vocês não fazem comida insossa. – Ben pronunciou, alarmado. Ele detestava comida sem tempero.
- Nós ainda não começamos a fazer nada... – disse e continuou:
- Mas podem ficar tranquilos, pois sabemos cozinhar perfeitamente. – A mais nova se gabou para os meninos.
- E posso saber o que as cozinheiras de mãos cheias pretendem preparar para o banquete? – Andrew perguntou, cheio de reverências.
- Nossa especialidade. – respondeu.
- Que é...? – Ben levantou a sobrancelha com medo da resposta.
- Ora, é macarrão – disse e os meninos se entreolharam.
- Macarrão com corante? – Benjamin olhou para as duas, tentando se acostumar com a ideia.
- Ou é alho e óleo? Sabem, eu prefiro com corante, porque convenhamos que o alho dá um bafo desgraçado. – Andrew disse, tentando ser educado, mas no fundo ele não queria comer macarrão.
As primas se entreolharam sem saber o que dizer.
- Vocês não gostam de macarrão? – perguntou por fim, vendo eles ponderarem. – Com aquele molho branco feito com margarina e creme de leite, contendo pedaços de frango e um pouco de pimenta. E tem também o molho à bolonhesa, com pedaços de bacon e um queijo ralado por cima pra ficar bem derretido...
- Isso tudo com uma coca-cola geladinha para acompanhar. – terminou e os dois ficaram em silêncio, sentindo as bocas salivarem.
- Mas já que vocês não gostam, a gente pode inventar alguma coisa de última hora – sugeriu e eles se apressaram em negar.
- Nããão! Que isso, nós amamos macarrão, não é, Ben? – Andrew olhou para o amigo e esse confirmou.
- Esse tipo de macarrão eu gosto. – o tecladista balançou a cabeça e as meninas respiraram aliviadas.
- Ok! Sendo assim, nós vamos começar a preparar a comida. Vocês fiquem à vontade. – falou e percebeu que a última frase era inútil, pois os dois já estavam à vontade desde quando chegaram.
Após lhe servirem mais duas garrafas de cerveja, as meninas foram para a cozinha e começaram a fazer o almoço. Enquanto a água fervia no fogão, elas iam picando os alimentos necessários para os molhos, descongelando carnes e desfiando o frango.
- Nossa, passei um aperto danado, achei que eles não gostassem de macarrão. – comentou e soltou mais algumas lágrimas.
- Eu também, e não tenho ideia do que a gente poderia fazer para substituir. – A mais velha limpou o rosto com a mão que segurava uma faca, e quase passou o objeto pontiagudo pelo rosto da prima.
- Toma cuidado, menina! Vai acabar me cortando com isso. – ralhou.
- Então venha terminar de picar a cebola, eu não aguento mais chorar. – disse e deu a volta na mesa, indo picar alguns pimentões.
Elas ficaram conversando baixinho e dando alguns goles em suas bebidas vez ou outra. Da sala, se podia ouvir a televisão ligada em algum desenho animado e a risada alta de Ben com frequencia.
- Eles parecem duas crianças. – comentou sorrindo.
- Parecem não, são. – disse e os dois gargalharam na sala. A menina andou até a porta da cozinha e os observou durante breves segundos. – Que gracinhas! – revirou os olhos e ficou viajando por um momento, até fazer um pequeno corte em seu dedo.
- Ai, porcaria! – Reclamou, chamando a atenção da amiga.
- O que foi?
- Cortei meu dedo e está ardendo muito! – chegou mais perto e viu o pequeno corte no dedo de .
- Larga de ser fresca, menina. – deu um sopro seguido de um tapinha no dedo de , como se o corte não existisse, fazendo a outra reclamar bem mais alto.
- Ai, sua doida! Vou ter uma hemorragia! – Disse balançando o dedo.
Andrew e Ben, que viam Os Simpsons, escutaram reclamar e olharam um para a cara do outro. ficou com raiva pelo seu dedo estar ardendo ainda mais por causa do tapa, e deu um soco no ombro da prima fazendo a mesma gritar bem mais alto. Os dois se assustaram com o berro da vizinha e resolveram dar uma checada na cozinha para ver se estava tudo bem. Chegaram ao cômodo e viram as duas cozinhando, como se não tivessem falado nada. Andrew foi o primeiro a se pronunciar:
- Está tudo bem aí? – Perguntou, desconfiado.
- Sim, só essa doida aqui que está tendo uma hemorragia. – falou, zoando da cara da prima, que mostrou língua.
- Como assim uma hemorragia? – Ben perguntou curioso, indo em direção a , que estava mexendo no molho. Ele viu que estava normal e coçou a cabeça, ainda em dúvida, procurando sangue em algum lugar.
- Não, Ben, é brincadeira dessa idiota só por que eu me cortei. – Falou em tom carinhoso, recebendo olhares estranhos de Andrew e .
- Ninguém tem uma hemorragia preparando alimentos para um almoço. – Andrew disse.
- Eu já tive uma hemorragia, cortando maçã, quando era criança. Minha mãe estava no telefone com nossa avó – falou apontando para . – E eu queria comer maçã cortada no dia. Daí minha mãe mandou eu esperar ela terminar de falar no telefone, mas como eu já conhecia a família que tenho, sabia que as duas iriam demorar dez bilhões de séculos para desligarem o telefone... – , nessa hora, já estava revirando os olhos, impaciente, fazendo Ben e Andrew rirem. – Então eu resolvi cortar a maçã sozinha, mas eu só tinha oito anos e acabei cortando o meu dedo, tendo uma hemorragia. Tenho a marca até hoje, querem ver? – quase enfiou o dedo no olho de que estava mais perto.
- Para começar, você era retardada, porque, convenhamos, oito anos já está bem velhinha pra não saber mexer com a faca. Segundo, só tendo hemofilia pra ter hemorragia com um pequeno corte. E, terceiro, ninguém quer saber a história do seu dedo! Agora, vá mexer esse molho sem sal. E vocês dois, podem voltar a ver televisão. – ordenou, vendo os dois saírem da cozinha, amedontrados, as deixando trabalhar sozinhas.

Devidamente sentados à mesa, os quatro começaram a se servir. As meninas fizeram cerimônia e esperaram que os dois se servissem. Após colocarem a comida no prato, e trocaram um olhar, como se quisessem dizer: ‘trabalhadores de roça’, tamanha era a serra que cada prato continha. pegou quatro copos de vidro enquanto abria a coca-cola, a mais velha percebeu que saiu pouco gás da garrafa, mas permaneceu calada. Derramaram o líquido nos recipientes e, quando recebeu seu copo, Ben notou que a boca do objeto estava com marca de batom vermelho; o tecladista deu de ombros, não tinha nojo dessas coisas. bebeu um gole do refrigerante e fez careta.
- Essa coca está choca! – Exclamou ao sentir o gosto ruim na boca.
- Eu percebi que saiu pouco gás quando eu abri. – disse.
- Deve estar vencida, então. – Ben opinou e olhou a validade da bebia, constatando que estava certo. – Querem que eu vá trocar? – Ele perguntou se mostrando prestativo e as meninas agradeceram, sorrindo.
- Obrigada, mas a gente não faz questão. – disse e começou a se servir.
- A não ser que você queira. – propôs e ele ponderou. – Mas aí teria chance de chegar aqui e toda a comida ter acabado. Vai arriscar? – Ela levantou a sobrancelha.
- Acho melhor a gente ficar com a coca-cola vencida mesmo. – Ele se ajeitou na cadeira e começou a deglutir.
Alheio a toda a conversa sobre o refrigerante, Andrew comia animadamente; não tinha imaginado que as vizinhas cozinhassem tão bem. Ele estava no seu segundo prato e o molho à bolonhesa era delicioso, mais gostoso ainda que o primeiro. Colocou uma garfada na boca e saboreou a refeição de olhos fechados; ele, sem dúvida, tivera uma ótima ideia ao fazer a proposta do almoço em troca do pagamento. Abriu os olhos e voltou a atenção para o prato, quando enrolava mais macarrão no garfo, congelou a meio caminho. A comida travou em sua boca e teve que se segurar para não cuspir. Será que era aquilo mesmo que ele estava vendo? Será que realmente ele tinha acabado de encontrar um fio de cabelo...
- Branco! – Exclamou alto e engoliu forçadamente o que tinha na boca. Os outros três, que comiam em silêncio, se entreolharam com as testas franzidas, não entendendo nada.
- Você quer mais molho branco? – arriscou e o viu negar.
- Não! Eu acabei de achar um fio de cabelo branco na minha comida. – O vocalista explicou e sentiu o estômago revirar.
e coraram, não queriam que nada desse errado nesse almoço com os ídolos, mas o pior acontecera, Andrew encontrara um cabelo na comida. Quer coisa mais repugnante?
- Nos desculpe... – pediu com um sorriso amarelo.
- Vocês não têm que pedir desculpa de nada, já que o fio de cabelo encontrado é do Ben. – Andrew acusou o amigo, que arregalou os olhos.
- Meu? – O tecladista apontou para si, incrédulo – Não fui eu que cozinhei! – Se defendeu.
- Mas chegou perto das panelas! Cara, as meninas são novas, eu tenho os cabelos mais compridos, o único que tá ficando careca e que já tem cabelo branco aqui é você!
- Então me mostre – Ben desafiou e o amigo pegou um fio com cerca de oito centímetros no meio do prato.
- Argh! – As amigas enrugaram os rostos com nojo.
- Cara, isso é loiro, esse cabelo é seu!
- Tá doido, Goldwasser? Além de míope você é daltônico? É óbvio que isso aqui é branco! – VanWyngarden afirmou e viu o amigo negar.
- Velho, não tem como o meu cabelo ter parado no seu prato. – E se virando para as meninas: - Vocês por acaso viram meu cabelo caindo?
- Ben, a gente não vê isso acontecer, o fio simplesmente cai. – respondeu com calma.
- E teve uma hora que você passou a mão pelos cabelos, perto das panelas. – completou.
- Viu, seu idiota? Eu falei que era seu – Andrew disse e se livrou do maldito fio estragador de refeição.
- Você é muito fresco, Andy, já tirou o fio. Pronto. – Ben falou e voltou a comer, sendo acompanhado pelas garotas, que não tiravam os olhos da discussão dos dois.
- Fala isso porque não aconteceu contigo. Qualquer dia eu coloco um cabelo meu na sua comida. E pode ter certeza que não vai ser da cabeça.
- Eca! – As primas contorceram o rosto e Ben não conseguiu segurar o riso.
- Cara, você nem penugem no rosto tem, eu duvido que tenha cabelo no saco! – Benjamin riu mais uma vez e foi acompanhado por , mas a garota esqueceu-se que tinha refrigerante na boca e acabou cuspindo na pessoa sentada à sua frente.
- Poxa, eu queria comer mais! – Ben reclamou quando viu seu prato completamente cuspido, percebeu que não enxergava direito e se deu conta que o óculos também tinha sido alvo da saliva de .
Andrew foi apontar o dedo para a cara do amigo e, sem querer, esbarrou em um copo de refrigerante, que foi derramado todo no colo de .
- Ah, merda! Olha o que você fez em mim, seu retardado! – falou zangada, enquanto limpava a roupa às pressas com um lenço. A menina foi se levantar da cadeira e encostou-se com força no garfo que estava em seu prato. O objeto deu uma volta no ar antes de espirrar macarrão e molho em .
- Ô saci! Agora estou toda suja de comida! – Exclamou, sentindo repugnância de si mesma.
- Acho que já deu de macarrão por hoje, né? – VanWyngarden perguntou ao ver a lambança que a mesa e os amigos tinham se tornado. Os três o olharam simultaneamente e ele percebeu na cagada que tinha falado. – O que foi? – Perguntou desconfiado.
- Acho que o Andrew está muito limpinho, não é, meninas? – Ben deu um sorriso malicioso e as duas concordaram.
- Essas bochechas estão muito rosadinhas – observou.
- E esse cabelo recém-lavado está muito cheirosinho... – deixou a frase no ar.
- Ah, não, eu já achei o cabelo na comida, isso é nojento o suficiente por toda a bagunça que vocês fizeram. – Andrew se levantou da mesa e deu alguns passos em direção à sala.
- Covarde! – Ben gritou e, após perceber que não fariam nada com ele, o vocalista se conteve e ficou parado no meio do caminho.
O silêncio se instalou e o quarteto se entreolhou; segundos depois, a única coisa que se podia ouvir eram as gargalhadas que eles davam, um mais escandaloso que o outro.

Os quatro estavam sentados na sala, espremidos no sofá, depois da bagunça que foi o almoço.
- Vai ter sobremesa? – Ben perguntou após soltar um arroto. Andrew tampou o nariz e as meninas fingiram vômito.
- Porra, Ben! Comeu carniça? – O amigo perguntou, irritado.
- Pare de xingar a nossa comida! – se defendeu.
- É. A gente não tem culpa se o estômago do Ben produz chorume. – disse e Andrew riu.
- Nossa, vocês causam um auê só por causa de um arrotinho. Isso porque eu nem comi feijão. – O tecladista disse e todos fizeram careta ao imaginar o odor que sairia pelos lábios dele. – Mas vocês não me responderam. Vai ter sobremesa ou não?
e se olharam, nem tinham pensado em fazer alguma sobremesa.
- Sim – confirmou, cogitando uma barra de chocolate.
- Uma sobremesa brasileira? – Perguntou VanWyngarden, passando os dedos pelo cabelo da nuca.
- Não. – falou, saindo do lado de Andrew e – Vamos fazer algo fácil é rápido, como um mousse. – Olhou para a prima.
- Pode ser, esperem aqui vocês dois – falou, se levantou e foi em direção a cozinha.
- Nós podemos ajudar – Andrew se ofereceu e Ben concordou, sacudindo a cabeça.
- Podem ficar aí, fazemos em um minuto. – definiu.

- Nem me lembrava de sobremesa – comentou enquanto colocava o liquidificador em cima da pia.
- Muito menos eu, quando falaram em sobremesa eu me lembrei da barra de chocolate que ainda não comemos. – disse e riu.
- Nossa, que péssimo! – As duas riram enquanto pegavam os ingredientes certos e quebravam os ovos – Imagina!
- Imaginar o quê? – Andrew perguntou, entrando na cozinha e sendo seguido por Ben, que sentou na bancada.
- Nada não – respondeu e VanWyngarden foi em direção às meninas para ver o que elas estavam fazendo.
- PAREM! – Gritou ao ver despejar uma lata de creme de leite no liquidificador.
- O que foi? – gritou também, assustada.
- Onde é que já se viu colocar creme de leite em mousse? – Ele perguntou já em um tom mais baixo. As duas arregalaram os olhos.
- O que você coloca? – perguntou.
- Leite puro. – Respondeu, colocando as mãos na cintura, como quem sabe das coisas.
- Ah, Andrew VanWyngarden, você não sabe nem fritar ovos, vai saber fazer mousse? Desde quando se coloca leite puro? – Goldwasser desceu da bancada e foi em direção aos outros.
- Olha quem fala! Pior é você, que consegue queimar até uma torrada. E saia de perto, eu não quero encontrar seu cabelo na sobremesa também. – Andrew disse cheio de autoridade.
- Sua bicha, pare de reclamar! – Ben encostou-se no ombro do amigo. - E está duvidando dos meus dotes culinários? Eu sempre vi a cozinheira de minha mãe fazer doces para mim e aprendi tudo.
- Conta outra! Você sempre viu e eu sempre fiz, pois não tinha cozinheira. Agora vocês duas podem ir pra sala, que eu vou fazer essa sobremesa! – O vocalista disse confiante e tirou o achocolatado da mão de .
- Mas... – ia protestar, mas foi interrompida por Ben.
- Andrew, você nem sabe fazer isso, a receita da minha empregada era bem mais gostosa.
- Cara, tua empregada era árabe, eu não gosto de comida árabe. – Andrew disse e Ben bufou.
- Okay, Drew, vamos fazer dois mousses e iremos ver de quem é o mais gostoso. – Ben desafiou e Andrew concordou.
- E qual vai ser o prêmio para quem ganhar? – Perguntou enquanto as meninas assistiam a tudo.
- Quem ganhar não recebe prêmio, mas quem perder, paga o mês inteiro a faxina da Marta. – Como o bom pão duro convencional que era, Ben propôs e Andrew concordou, achando aquela aposta moleza.
- Pode ir tirando a mão do bolso, Goldwasser, que você já perdeu. – O vocalista cantou vitória e o outro fez cara de desdém.
- Sério, caras, vão para a sala e a gente já termina isso. - tentou voltar para o posto de chefe de cozinha.
- Por favor, a gente faz, vocês já fizeram esse almoço delicioso. – Ben insistiu e as duas desistiram de fazer.
- Só não demorem. Se precisarem de alguma coisa, estaremos na sala. – falou e em seguida ela e a prima saíram, à contragosto, da cozinha.
As duas foram em silêncio para a sala, enquanto cada um dos meninos fazia sua sobremesa. Dos sofás onde estavam deitadas, elas podiam escutar perfeitamente os dois cantando The Youth, e mais alguns barulhos como de batedeira, liquidificador e micro-ondas. Trocaram um olhar e franziram a testa, se perguntando se precisava de tudo aquilo para um mousse ser feito. Depois de vinte minutos rindo e imaginando como seria um mousse árabe, os dois chegaram com travessas na mão.
- Prontinho. – Goldwasser falou com um sorriso enorme.
- Vocês não vão colocar na geladeira? – perguntou.
- Precisa? – Os dois perguntaram em uníssono e as duas reviraram os olhos.
- Claro. – falou.
- Deve ser porque no Brasil é quente. – Ben falou e todos o olharam como se ele tivesse dito algo sem sentido, o que realmente foi. Ao perceber, o tecladista começou a ficar sem graça e olhou para suas mãos, que eram onde estava a travessa com mousse. VanWyngarden riu e deu um pedala na cabeça do amigo, fazendo o óculos cair no doce.
- Ah, Andrew! Você estragou meu doce! Sua lesma! Vai ter que limpar meu óculos agora até que não sobre um melado. – Protestou enquanto os outros riam. Ben sentou-se no sofá e Andrew pegou o óculos do amigo, que estava no mousse, o examinando.
- Cara, por que é que tem orégano no seu óculos? – Perguntou.
- Desde quando tem orégano no meu óculos? – VanWyngarden, ao invés de responder, chegou mais perto e verificou que Ben havia colocado orégano em cima do doce, sua cara se contorceu de nojo.
- Ben, você colocou orégano no seu mousse! – Andrew bradou para todos e riu.
- Não! Eu coloquei granulado! – O mais velho disse em desespero.
- Garotas, venham aqui e vejam. – As duas chegaram mais perto, examinaram, concordaram que em cima do mousse de chocolate de Ben havia orégano, e começaram a rir.
- Isso faz parte da receita árabe? – caçoou.
- Andrew, limpa logo a merda do óculos para eu ver isso direito! – Ben disse aborrecido e ficou com dó.
- Calma, gente, ele só confundiu por que os potes são iguais e as escritas estão em português. – Ela o defendeu. entendia exatamente o que era a miopia e sabia que sem óculos ou lente a visão tornava-se quase impossível. E a julgar pela grossura da lente do óculos de Ben, ele tinha um grau bastante forte.
- Na verdade, é porque está na hora dele trocar as lentes. – VanWyngarden falou ainda rindo, enquanto tomava o óculos da mão dele, limpava com cuidado e entregava a Ben.
- Obrigado. – Respondeu e olhou, ainda sem graça, para o mousse.
- Vamos comer agora. – Andrew falou enfiando uma colher dentro do seu mousse para servir às meninas, porém, quando ele foi colocar em uma das tigelas, o doce caiu na vasilha, pois estava tão mole que escorregou da colher.
- Andrew, você fez suco de mousse? – Ben brincou.
- Ops! Acho que ficou um pouco ralo. – e se olharam e começaram a rir.
- Fiquem aqui que nós vamos tirar o orégano do mousse do Ben e depois colocar o mousse de vocês dois na geladeira. – As duas pegaram as tigelas da mão de ambos e foram para a cozinha.
- Que dó, não sabem fazer mousse. – disse e riu.
- Sim, ninguém merece esses dois tentando fazer comida. Não sei como não colocaram fogo na casa. – Riram mais um pouco antes de voltar na sala e se depararem com os dois mexendo em seus objetos. Quando perceberam que elas tinham voltado, os garotos começaram a perguntar:
- Por que vocês duas tem dois CDs do mesmo álbum de Arcade Fire, Strokes, Arctic Monkeys, dois Oracular e Congratulations? – Ben perguntou, autografando os CDs em cima de sua foto, sem ninguém pedir.
- Porque um é meu e outro é dela. – respondeu em tom óbvio, apontando para .
- Nossa, quem estuda astronomia? – Andrew perguntou, largando o livro Pollyanna Moça no sofá, e indo à mesa de centro pegando um livro enorme de Astronomia.
- Eu! – respondeu erguendo a mão.
- E você estuda o quê? – Goldwasser se direcionou à mais velha.
- Jornalismo. – Respondeu.
- E vocês trabalham?
- Bom, outro dia nós fizemos uma entrevista com um senhor, dono de uma escola de línguas estrangeiras, e ele nos contratou para sermos professoras de português, daremos aula para crianças. Mas as aulas começam somente daqui a alguns dias. – falou toda feliz, com um sorriso no rosto.
- Nossa, vocês têm paciência para ensinar uma turma de crianças a aprender outra língua, e não têm paciência para nos escutar tocar alto. – VanWyngarden disse, fingindo estar magoado, e as duas reviraram os olhos.
- É diferente. – disse.
- Então, vocês são primas, brasileiras, estudantes de Astronomia e Jornalismo, e vieram para Nova Iorque só para estudar? – Ben perguntou e as duas balançaram a cabeça, afirmando. – Quer dizer que mais ou menos daqui a quatro anos não teremos vizinhas que fazem comida gostosa?
- Não. – respondeu e os dois fizeram cara de desapontamento.
- Por que vocês não compram livros em inglês para eu pedir emprestado? – Andrew sugeriu e Ben e disse:
- Nossa, como você é folgado.
- Mas nós temos alguns livros em inglês. – falou.
- Então me empreste um bom, pois estou sem nenhum para ler e nós estamos de férias, sem show por um bom tempo! – Andrew se espreguiçou no sofá. As meninas concordaram, e os quatro ficaram conversando sobre livros, filmes e música por longos minutos.

Quando o assunto finalmente acabou, lembrou-se da sobremesa.
- Gente, nós vamos pegar o mousse. – Falou com os meninos, se levantou do chão e ajudou a prima a se levantar também. Quando estavam sozinhas na cozinha pegando as colheres e tigelas, voltou a falar: – Algo me diz que esses doces estão horríveis. – riu.
- Com certeza. Será que vamos conseguir fingir que está bom?
- Eu nem vou fingir, se tiver ruim vou falar na cara. Tenho certeza que se fosse eles, também falariam. – respondeu e junto da prima, pegou uma travessa de mousse de chocolate, foi para sala. As duas colocaram os mousses em cima da mesa de centro e Andrew e Ben, que estavam no sofá, sentaram-se no chão junto com as meninas.
- Aposto que o meu está mais gostoso. – Goldwasser se atreveu a dizer.
- Vamos comer para saber. – falou, se servindo com o mousse de Andrew, que estava bem mais mole do que o de Ben. – Tão mole, acho que vou beber. – Disse e bebeu o mousse como se fosse água. Todos estavam a olhando com curiosidade para saber como estava. tirou a tigela da boca fazendo todos rirem de sua cara.
- Pela cara dá para saber que eu errei em alguma coisa. – Andrew previu.
- É como se eu estivesse tomando leite com achocolatado e açúcar. – Depois que todos terminaram de rir, colocou o mousse de Ben em sua tigela e Andrew fez o mesmo. Provaram com os olhares atentos de Benjamin e .
- Gosto de manteiga. – Andrew e disseram juntos.
- Agora vocês vão falar que mousse não leva manteiga? – Ben questionou.
- Na verdade leva, mas acho que você exagerou, daí o gosto ficou forte. – Andrew explicou.
- Quantas colheres você colocou, Ben? – perguntou.
- Ah, algumas. É porque era aquela manteiga light, aí eu pensei que não tivesse problema em colocar um pouco mais. – Ele assumiu e os outros reviraram os olhos.
- Está para nascer cara mais palerma que o Goldwasser. – Andrew comentou colocando sua tigela de doce em cima da mesinha, desistindo de ingeri-lo.
- Já que as sobremesas não deram certo, o que a gente vai comer? Agora fiquei com vontade comer doce. – fez bico.
- Já sei! – exclamou e todos a olharam. – Esperem! – A garota se levantou do chão e foi até a cozinha. Da sala, os três escutaram as portas dos armários se chocando e logo estava de volta. – É a única coisa doce que temos aqui. – Ela colocou a barra de chocolate em cima da mesinha e voltou a se sentar.
- Ótimo! – Os outros exclamaram.
pegou o produto e, assim que começou abrir a embalagem, deu um grito, jogando a barra de chocolate na mesa.
- Que é isso, menina? Barra de chocolate deu para dar choque e eu não estou sabendo? – Andrew brincou diante da reação da vizinha.
- Que nojo! – A menina não respondeu e continuou torcendo o rosto.
, muito curiosa que era, pegou a embalagem e olhou por dentro, achando o que viu asqueroso. Além da barra de chocolate, podiam-se ver alguns bichinhos andando por todos os lados. Até ovinho de larvinha tinha! Ela, assim como , jogou o produto na mesa e foi a vez de Ben dar uma olhadela.
- O que tem aí? – Andrew indagou curioso.
- Argh! Tem um monte de larvinha se mexendo e mais alguns ovinhos. – Ben respondeu e Andrew tomou a barra de sua mão.
- Nossa, parece que elas se reproduziram aqui. – O vocalista abriu mais a embalagem e se deparou com uma grande quantidade de insetos.
- Eca! – e exclamaram.
- Provavelmente elas fizeram um buraco, entraram e começaram a se reproduzir. – Goldwasser analisou e não tardou a achar pequenos buracos na embalagem do chocolate. – Não falei? – Fez cara esperta.
pegou o produto com as pontas do dedo e o jogou na lata de lixo.
- O que a gente vai comer agora? – Andrew indagou e eles se olharam.

Os quatro continuavam sentados no chão, em volta da mesa, onde jazia um pote de vidro contendo biscoito de maisena.
- Não é a melhor sobremesa do mundo, mas dá pra adoçar a boca. – disse ainda inconformada.
- Seria melhor se o biscoito não estivesse murcho, eu prefiro ele crocante. – Ben falou e deu uma mordida, não sentindo o familiar ‘crack’ que um biscoito torradinho faria.
- Reclame com ela, – apontou para a prima – Pois é ela que tem a mania de colocar o biscoito no pote sem o enxugar direito. Além do quê, vive misturando biscoito velho com o novo, por isso eles ficam assim. – Ben olhou para e a viu dar de ombros.
Andrew foi até um aparelho de som ali perto e colocou um cd do Two door cinema club pra tocar, logo What You Know invadiu o ambiente.
- Mas hein, qual é o nome de vocês mesmo? – Ele voltou para o lugar no chão, só então se dando conta que não sabia o nome das vizinhas.
- .
- , prazer. – A mais nova levou a mão até Andrew, como se fosse uma donzela, e o vocalista beijou-lhe a costa da mão.
- Tem apelido? – Ben quis saber.
- Podem me chamar de .
- As pessoas me chamam de .
Os meninos assentiram e ficaram brincando de repetir os nomes delas até que conseguissem falar de forma correta, o que demorou certo tempo. Por fim eles pediram que elas falassem certas frases em português e as meninas fizeram hora com a cara deles, dando traduções totalmente erradas.
- Não foi o melhor almoço de domingo, mas eu gostei. – Andrew admitiu, com um sorrisinho brotando nos lábios.
- É verdade. Mesmo com a coca-cola choca, os mousses mal feitos, a barra de chocolate recheada de larvas e o biscoito de maisena murcho, foi uma tarde bem agradável. – Ben completou e todos balançaram a cabeça.
- Você esqueceu-se de citar o macarrão cabeludo. – VanWyngarden lembrou e todos gargalharam.
Entre risos e música, a tarde foi passando e eles não pararam de conversar um minuto. Estavam se conhecendo, descobrindo que tinham gostos em comum, mas também tinham opiniões diferentes. Quando se deram conta, o sol já se punha no horizonte dando lugar a noite.
- Acho que temos que ir. – Ben falou e olhou para o amigo.
- Mas já? Fiquem mais. – insistiu.
- Da próxima vez nós ficamos para o jantar – Andrew estabeleceu e os quatro se levantaram do chão, indo em direção a porta.
Se despediram desajeitados com a proximidade, e as meninas esperaram eles chegarem em casa para finalmente entrar nas suas. Na residência 227, Ben e Andrew tiveram uma pequena discussão com Marta, que ousara quebrar o cofre da banda para pagar a pizza tamanho família, acompanhada de uma coca-cola de 3 litros, que pedira. A empregada alegara que mal tinha comida para os gatos e nenhum alimento decente para comer. Andrew ameaçou descontar o dinheiro do cofre no salário dela, mas Ben, levando em conta o cheiro de casa limpa e a boa vontade da mulher de vir trabalhar em pleno domingo, convenceu o amigo de perdoar o ‘atrevimento’ da empregada. Do outro lado do lote vago, e arrumaram rapidamente a casa e após um banho rápido, cada uma foi para seu quarto descansar.
A lua estava alta no céu e as estrelas mal ousavam aparecer por detrás das nuvens. Os quatro, cada um em sua cama, dormiam tranquilamente diante do silêncio acolhedor. Eles estavam felizes perante o dia satisfatório que tiveram. A trégua nas discussões e o sossego era algo que com certeza desejavam.
Mas o que eles não imaginavam, era que as brigas estavam longe de acabar. Ou talvez não terminassem nunca...

Continua...

Nota das Autoras: Júlia: Olá garotas, tudo bem com vocês? Vão pular muito carnaval esse ano? Eu pretendo ficar em casa vendo filme o dia inteiro HSUAHSAHSUAHSUA. Este capitulo foi enrolado e a culpa é minha, pois nesses últimos dias ando com a cabeça em outras coisas e não consigo escrever direito ( nem a n/a estou escrevendo direito como deu para ver hehe). Enrolei tanto a Marina coitada. Tcs tcs. Mas eu queria agradecer todas vocês e continuem comentando, viu? Beijos e bom carnaval.

Marina:Oi, pessoal!! Primeiramente, quero pedir desculpa pela demora, a gente não pretendia atrasar tanto... Enfim, antes tarde do que nunca, né? Tudo bem com todas? O que acharam desse capítulo? Eu ainda não decidi minha opinião quanto a ele... kkkkkkkkk’’ Ah, sim, essa coisa de larvinhas se mexendo já aconteceu comigo, só que foi com um biscoito. E o pior é que eu comi boa parte antes de perceber que tinha inseto dentro. Foi a primeira e última vez que eu comprei aquilo. Foi bem nojento. É! Gente, quero fazer uma pergunta aqui, mas, por favor, me respondam. É que às vezes tenho a impressão de não falar com ninguém... Sei lá, eu já fiz perguntas e nunca me responderam, fico no vácuo u.u O negócio é o seguinte: Tem alguém aí que vai ao Lollapalooza???? Eu não resisti e já gastei rios de dinheiro pra poder ver aqueles trastes lindos de perto (espero pelo menos ver o telão com meu um metro e meio de altura... uehheueheh). Maaaas, eu vou sozinha ‘-‘ a Júlia ia, mas ela, infelizmente, me abandonou de última hora. Bom, caso tenha alguém aí que vá e queira combinar de encontrar lá, é só falar comigo que eu topo o/o/o/ Qualquer coisa, podem ir conversar comigo pelo twitter: @marinavlana ou podem deixar alguma forma de contato (email, MSN, facebook, twitter) na caixinha que eu retorno. Última coisa: caso esse capítulo entre depois do dia 6 de abril, desconsiderem parte da minha n/a... UASHUAHSUAHSUAHSUSHAU’’ Era só isso. Beijão a todas e até mais!!!! =]
Outra fic de mesma autoria: Woodwork (McFly/Em Andamento)


Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail, não utilizem a caixa de comentários. Obrigada, espero que gostem da fic. XX