PRÓLOGO

Sempre tive medo. Medo de tudo, medos de todos, medo de mim, medo do mundo.

Uma vez, quando tinha oito ou nove anos, minha mãe disse que já nasci assustada, me contou que no momento em que fui posta em seu colo, estava de olhos arregalados, observando tudo com muita desconfiança, como se estivesse esperando que algo desse errado. Mesmo tão nova, soube que ninguém nunca me entenderia como minha mãe. Ela era a única que sabia me decifrar, a única que sabia que meus olhos sempre me delatavam. Ela sempre soube o que eu sentia de verdade. Sempre.

Ela costumava dizer que isso se devia ao fato de que eu nada mais era do que uma parte dela mesma. Minha mãe dizia que me conhecia como a palma de sua mão, literalmente, pois assim como sua mão era uma continuação de seu corpo, eu era uma continuação de sua alma.

Nesse mesmo dia, minha mãe segurou meu queixo com muita delicadeza e levantou meu rosto. Olhou no fundo dos meus olhos (da forma como sempre fazia, como se pudesse ler meu espírito) e disse “Não tenha medo, eu vi o seu futuro e ele será lindo”.

CAPÍTULO 1

Abri a porta do quarto muito iluminado de minha mãe e a vi deitada na enorme cama branca. Estava pequena, impotente, como um pássaro ferido que não podia mais voar. A cama que costumava dividir com meu pai era gigantesca sem a presença dele.

Não dividiam mais o mesmo quarto, pois assim que mamãe ficou doente, papai se mudou para o quarto de hóspedes. Tinha medo de tocá-la, como se o câncer que a consumia fosse transmissível, como se estar ao seu lado o fizesse doente também.

Tinha raiva dele por isso. Minha mãe não. Minha mãe sentia pena. Ela via por outro ponto de vista. Achava que ele a amava demais e por isso não suportava vê-la doente, achava que ele era fraco demais para suportar. Sua teoria me deixava ainda mais frustrada. Se fosse assim, então ele era egoísta. Egoísta e mentiroso. Se fosse assim, todas as suas promessas de “na saúde e na doença” foram em vão.

De qualquer maneira, ele era um péssimo pai. Um péssimo pai, um péssimo marido e um péssimo homem. Meu pai não era homem, meu pai era rato.

Voltei à realidade e me aproximei da cama de minha mãe. Sentei-me na beirada e segurei sua mão; apesar de estar dormindo tranqüila, sabia que sentia dores horríveis e que a quimioterapia a deixava constantemente nauseada. Fechei meus olhos e senti a lágrima que teimava em escorrer. Inclinei-me, de forma que meu rosto se aproximasse do seu e sussurrei:

- Se você estiver resistindo por mim, não resista. Eu vou ficar bem, eu sempre fui responsável, você sabe. Você me criou bem. Então vá em paz, não lute contra o destino. Eu não estou com medo de te perder, não estou com medo do futuro. Você mesma disse que o meu futuro seria lindo, e eu acredito nisso, acredito com todo o meu coração. Eu te amo mãe, te amo, e não posso permitir que sofra por mim. Por te amar tanto, estou te libertando. Você está livre.

Minha mãe, adormecida, sorriu. Sorriu e deu seu último suspiro. Mas não foi um suspiro comum... Foi como nas aulas de educação física, quando eles te mandam fazer aqueles exercícios de respiração em que você tem cheirar a flor e depois apagar a vela. Minha mãe inspirou tranqüila e lentamente, como se quisesse apreciar o cheiro de uma flor imaginária, inspirou como se quisesse prolongar aquele momento. Ao expirar, apertou minha mão bem de levinho, e soprou todo o ar alojado em seus pulmões, apagando a vela que não existia e apagando também, sua chama interior.

******


Na manhã do sétimo dia após a morte de minha mãe (tinha noção de que haviam se passado sete dias devido ao número de vezes que acordei e fui dormir) tive muita dificuldade para abrir meus olhos. Havia chorado a noite toda e me esqueci de fechar as cortinas. Consequentemente, a luz muito forte de uma manhã cinza (quase branca) entrava em meu quarto sem pedir permissão.

Demorei certo tempo para me adaptar a claridade. Com muito esforço, consegui sentar em minha cama. Fiquei observando a vista de minha janela. De onde estava conseguia ver o ponto onde terminava o meu jardim e começava uma pequena floresta. Via as pequenas e grandes montanhas, verdes pela vegetação. Via também que os pássaros estavam voando muito baixo, sinal de que iria chover.

Naquele momento, consegui me identificar com tais pássaros. A atmosfera pesada que antecedia um grande temporal impedia que os pássaros pudessem voar mais alto. Eu também sentia como se uma grande massa invisível estivesse me empurrando para baixo.

Meus devaneios foram interrompidos por incessantes batidas na porta. Virei meu rosto em direção a origem sem vontade de proferir palavra alguma, apenas esperando que o outro lado começasse a falar.

- Levante, é hoje. - disse meu pai sem entrar em meu quarto.

Saí da cama e entrei no banheiro que se localizava dentro do meu próprio quarto. Entrei direto no chuveiro, evitando olhar meu reflexo no espelho. Sabia que se olhasse, encontraria uma grande bagunça. Devia estar mais magra, mais pálida, mais fraca. Meu cabelo estava imundo - eu estava imunda - pois não tomava banho (ou comia, ou me movia, ou saía da cama, ou fazia qualquer coisa) há uma semana.

Após um banho rápido, me enrolei numa toalha que estava largada no chão. Escovei meus dentes de olhos baixos, novamente evitando me olhar no espelho. Voltei a meu quarto e parei em frente a meu armário. Sempre usei roupas predominantemente pretas então escolher alguma coisa seria fácil. Peguei um vestido preto, simples, de mangas compridas, meia-calça preta e galochas pretas (odiava estar com os sapatos errados num dia de chuva, e tudo indicava que ia chover). Me vesti e penteei meu cabelo com os dedos, sem me importar se ficaria cheio de nós ou não (nunca me importei com o meu cabelo, mesmo embaraçando fácil, ele sempre era liso, pesado e castanho-quase-preto).

Depois de devidamente vestida e higienizada, decidi que era hora de sair do quarto. Me aproximei de minha porta e empurrei minha escrivaninha (que estava prensada junta a porta, de forma que impedisse a passagem de qualquer um que tentasse entrar) para o lado. Contei até 10, inspirando e expirando lentamente. De olhos fechados abri a porta e dei meu primeiro passo para fora, entrando no longo corredor do andar de cima de minha casa.

Tive que "engolir" as lágrimas que teimavam em se formar em meus olhos. Toda a casa cheirava a minha mãe (incenso e lavanda son's). Não tive coragem de abrir os olhos... Agradeci mentalmente por ter morado naquela casa por todos os 17 anos da minha vida e saber o caminho até a escada de cor. Sem grandes dificuldades cheguei à escada. Como ainda estava com medo de abrir os olhos, sentei no topo de escada, ponderando se descia ou não.

- Levante já daí, , você está maluca? Sentada no chão, feito uma mendiga. Levante e vá preparar o café que nós temos que ir.
- Eu não sou sua escrava, sabia? - disse, ainda de olhos fechados.

Responder foi um erro. Meu pai segurou meu braço com toda a força que pode e me levantou, segurou meu queixo com a mão livre e começou a gritar:

- Abra os olhos! Abra logo esses malditos olhos e encare a realidade! Sua querida mãe já não está aqui para te proteger e agora você vai viver de acordo com as minhas regras. Estou cansado dessa sua arrogância e você vai aprender a me respeitar, querendo ou não.

Ao terminar, me jogou no chão e desceu as escadas bufando. Abri os olhos, estava tremendo intensamente. Apoiei minhas mãos no chão, pegando impulso para levantar. Desci as escadas e fui para a cozinha, onde encontrei meu pai sentado a mesa, lendo o jornal. Preparei o café-da-manhã que ele sempre comia: café preto, ovo mexido e bacon. Entreguei a bandeja para ele em silêncio. Esperei até ele terminar e aí fomos para o carro. A viagem até o cemitério foi tranquila. Papai não falou nada e nem eu, provavelmente porque não havia nada a ser dito.

Estacionamos na entrada do cemitério. Sai do carro antes de meu pai e comecei a andar em passos largos, me distanciando cada vez mais dele.

Passei por todos os túmulos sem prestar atenção, não queria ver a dor dos outros, queria pensar que naquele momento a dor era algo exclusivo, algo que só eu sentia. Não queria compartilhá-la com ninguém. Comecei a andar cada vez mais rápido, quase correndo. Depois do que pareceu ser uma eternidade cheguei à pequena capela do cemitério, no fundo estava a área do crematório. Era uma pequena sala com algumas fileiras de bancos, com uma grande esteira onde estava o caixão de minha mãe. Era um pequeno caixão branco. Bem pequeno. Aliás, eu nunca havia percebido o quão pequena minha mãe era. Ela era delicada sim, mas sempre fora tão forte (quase como um leão) que a meu ver ela era bem maior. Talvez ela fosse como um lince - uma vez ouvi falar que o lince era o menor felino selvagem.

Após alguns minutos esperando, meu pai e o padre que realizaria a cerimônia finalmente chegaram. Meu pai sentou-se em um dos últimos bancos, e eu permaneci em pé, ao lado do caixão fechado. O padre posicionou-se ao meu lado.

- Você não prefere sentar, minha filha?

Olhei para o padre. Era um senhor baixinho, rechonchudo, de cabelos brancos. Sua pele enrugada era muito branca, e as bochechas estavam vermelhas devido ao frio. Olhava pra mim com olhos de piedosos, como quem diz "eu posso sentir sua dor", e seu sorriso me lembrava os dos inúmeros Papais Noeis dos desenhos animados que eu assistia nas maratonas de Natal. Em um de seus braços, vi que segurava um livro muito velho, deduzi que era uma Bíblia.

- Na verdade não, se o senhor não se importar, eu prefiro ficar aqui com ela.

O padre segurou minha mão e deu mais um de seus sorrisos natalinos. Em seguida, abriu a velha Bíblia que carregava consigo e começou a ler uma passagem:

- Romanos, capítulo 8, versículo 31...
- Hm, senhor Padre? - disse de repente
- Sim querida, diga.
- Bom, acho que o senhor deveria saber que nós nunca lemos a Bíblia. De fato, nem sei quem são os Romanos ou o conteúdo do capítulo 8. Se o senhor não se importar, eu gostaria de falar algumas coisas sobre a minha mãe.

Padre Noel assentiu com a cabeça e sentou-se em um dos bancos da primeira fileira.

Virei-me para minha pequena plateia de dois e percebi que meu pai já estava dormindo. Ele só viera à cremação de mamãe para manter as aparências (morávamos em Portland, no Maine, e os habitantes locais apelidaram a cidade de "A Bolha" visto que todo mundo sabia tudo que se passava na vida alheia). Mas não importava, preferia que ele não ouvisse de qualquer forma.

- Minha mãe foi uma mulher muito boa, sabe? - senhor Padre Noel assentiu, me encorajando a continuar. - Ela fazia caridade, e ela nunca falava mal de ninguém, nem mesmo do meu pai, por mais que ele mereça... Ela fazia de tudo para me fazer feliz e nunca me forçava a fazer algo que me deixasse desconfortável. Ela entendia que eu tinha dificuldades para começar novos projetos e não via minha instabilidade emocional como as outras pessoas vêem... Minha mãe era a pessoa mais bonita e mais corajosa que eu já conheci e sem ela, eu me sinto perdida. Perdida no mundo. – suspirei. - Acima de tudo, minha mãe nunca me julgou, mesmo quando ela sabia que eu estava mentindo para ela. Como no dia em que ela morreu. Eu disse que não tinha medo, e era mentira. Eu estou apavorada, sinto tanto medo que é quase como se esse sentimento estivesse apertando meus pulmões, me impedindo de respirar. Minha mãe era uma heroína e eu espero que algum dia, eu consiga ser um terço da pessoa que ela foi.

Uma lágrima escorreu pela minha face. Me despedi mentalmente de minha mãe enquanto a esteira a levava para a área onde ela seria cremada. Senhor Padre Noel disse que demoraria 15 minutos para terminar o processo e que em um mês poderia voltar para buscar a urna. Agradeci o gentil padre e tentei me sentar para esperar o final da cremação, mas estava muito inquieta.

Saí da capela e fui andando sem rumo pela passagem de pedrinhas que cercava os túmulos, evitando pisar no gramado onde estavam enterradas as pessoas (seria desrespeito). Com o tempo, meus passos foram ficando cada vez mais rápidos, e então, comecei a correr. Provavelmente foi alguma descarga de adrenalina. Precisava liberar toda a tristeza que sentia, precisava esquecer por alguns momentos que de agora em diante eu seria minha única companhia, que nunca mais teria ninguém. Eu estava sozinha. E também estava caindo. E então, nada. Simplesmente nada. Apenas um grande escuro.

******


- Mãe?
- Oi querida! Acompanhe-me. - minha mãe estendeu a mão para que segurasse. Estávamos no jardim da nossa casa, no começo da área onde se iniciava a floresta. Mamãe começou a me puxar para dentro da floresta, a terra estava molhada e eu estava descalça, apenas com meu vestido preto. O vestido branco de mamãe estava completamente sujo de lama. Um vento muito forte balançava nossos cabelos e nossos vestidos.

A principio a floresta estava relativamente iluminada, a vegetação era rasteira, e vez ou outra apareciam algumas árvores. Porém, quanto mais adentrávamos o seu interior, mais árvores apareciam. Consequentemente ficava cada vez mais escuro e nada mais do que uma brisa conseguia passar através da barreira de árvores.

Mamãe parou bruscamente e apontou para um ponto da floresta onde já não havia iluminação alguma, o que não nos deixava saber o que estava lá.

- Não tenha medo, querida. Vamos.

Mamãe começou a andar, mas eu não consegui. Minhas pernas não se moviam. Tentei voltar para o início da floresta, mas sabia que não conseguiria sozinha. O medo do desconhecido havia paralisado o meu corpo. Mamãe virou para trás e riu.

- Sabe, , é assim que a sua vida vai ser. Você vai sempre ter medo de seguir em frente e medo de olhar para trás. Você passou liquipaper num passado escrito à caneta permanente. Você finge que não há nada lá, mas no fundo sabe o que estava escrito. E o seu futuro é uma grande página em branco. Você está tão apavorada que não consegue pegar um lápis e uma borracha e escrevê-lo. Você está acorrentada aos seus sentimentos, está presa, sem se mover para frente ou para trás. Você criou a sua própria prisão e só você tem a chave. Abra a sua cela, . Não tenha medo.

Mamãe saiu correndo para a parte negra da floresta, mas no meio do caminho, caiu num grande buraco. Eu tentei correr para salvá-la, mas minhas pernas não se mexiam, era como se algo prendesse meu joelho, impedindo-o de dobrar. De repente, minha testa começou a arder loucamente, coloquei minha mão na origem da ardência e senti algo molhado. Ao retirar a mão vi que meus dedos estavam cobertos por sangue, mas não era hora para se preocupar comigo. Continuei tentando chegar ao buraco, mas estava congelada, não me movia. O buraco começou a se fechar, para meu desespero.

- MÃE! MÃE! NÃO, POR FAVOR, DEIXEM-NA IR! MÃE! - fechei meus olhos e comecei a chorar. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu não poderia estar perdendo minha mãe novamente.
- MÃE! - abri os olhos, mas não estava mais na floresta. Estava deitada em cima de um sofá verde-musgo com bastante cheiro de mofo.
- Ei, está tudo bem, foi apenas um pesadelo, lindinha. - disse-me um senhor de mais ou menos 60 anos. Era muito alto e magro, o cabelo muito branco ainda era denso, como se nunca tivesse caído nenhum fio. Ele estava vestindo uma camisa xadrez e por cima um macacão jeans. Nos pés usava botas de cowboy marrom, e na cabeça um chapéu de cowboy.

Comecei a entrar em pânico: estava num sofá verde-musgo mofado, numa sala mal iluminada de paredes de madeira, sem minhas galochas e sem minha meia-calça, e para completar, estava ao lado de um cowboy sessentão. Devia estar enlouquecendo de vez.

- Quem é o senhor, e o que eu estou fazendo aqui? O meu pai é um policial, sabia? Se o senhor não me soltar, ele vai vir te procurar e...
- Desculpa docinho, mas você não faz meu tipo, eu prefiro mulheres mais velhas que curtem ir ao bingo, sabe como é, né? – disse-me rindo com seu sotaque arrastado do Texas. - E o seu pai não é um policial, eu conheço o velho James, e conheci sua mãe Elizabeth. Ele pode ser violento, mas duvido que se tornasse um policial. É necessário fazer um teste psicológico sabia? Eu não sabia, descobri outro dia vendo um filme! Mas, de qualquer forma, o seu pai passaria em todos os testes físicos, mas duvido que o aprovassem no psicológico. Aliás, como vai a sua mãe?
- O senhor conhece os meus pais? O senhor me conhece? Quem é o senhor? - estava muito confusa, era um clássico caso de "informação demais". O cowboy era praticamente um vidente, ou talvez ele andasse me perseguindo.
- Meu nome é Billy Ray O'Nelson, eu costumava cuidar do jardim da sua casa quando você era apenas um botãozinho de rosa! Atualmente sou o jardineiro desse cemitério. E vou te falar que aquele foi um tombo muito feio! Me impressiona que você não tenha se quebrado toda!
- Que tombo? Do que o senhor está falando? E como você me reconheceu, eu mudei muito desde que era pequena.
- Mudou sim, ficou igualzinha a mãe. A não ser pelo cabelo, sua mãe tinha cabelos loiros como ouro... E pela altura, sua mãe sempre foi pequenina como uma bailarina. Você é altona, que nem um manequim. Mas é tão linda quanto. - apertou minha bochecha, o que me fez sorrir involuntariamente. - Eu te encontrei caída dentro de um dos túmulos abertos. A senhorita escorregou e bateu sua cabeça na lápide, por isso caiu no buraco aberto e bateu o joelho no caixão que estava esperando para ser coberto por terra. Eu a achei quando fui completar o serviço que deixou incompleto. Tivemos que tirar sua meia-calça para ver a profundidade do ferimento, mas para isso chamamos a Dolly da recepção, então ninguém viu suas partes de menininha, docinho.

Sua explicação fez bastante sentido, visto que eu estava com um curativo na minha testa e um saco de gelo apoiado no joelho. Minha testa ardia intensamente e meu joelho latejava de dor.

- Quem é ? E quem é Dolly-da-recepção? E por que o senhor fala dessas pessoas como se eu as conhecesse?
- Eu sou , Dolly-da-recepção é, bom, a Dolly, e ele trabalha como recepcionista. - disse uma voz que vinha do outro lado do sofá. Virei-me em sua direção e vi um menino que sorria para mim. Ele era muito alto e muito magro, seu cabelo era mais pra comprido e estava muito bagunçado. O menino vestia preto dos pés a cabeça, e apesar de estar todo molhado e sem casaco, não parecia estar sentindo frio.
- Aqui, eu trouxe isso para você. É uma calça de moletom da Dolly-da-recepção. Não queríamos que você passasse frio. - disse e me entregou a calça de moletom cinza que trazia em suas mãos. - Vou lá dentro me secar, Billy.
- Ah, obrigada ... E obrigada Billy Ray. Vocês dois são muito gentis, mas eu preciso ir para casa antes que fique muito tarde.
- De jeito nenhum, docinho. - interrompeu-me Billy Ray. - Está chovendo cães e gatos lá fora. E eu já tentei ligar para sua casa e ninguém atendeu. Você não pode ficar sozinha nessas condições, mal pode andar. Vem , me ajuda aqui a levá-la para mesa. Aliás, docinho, o jantar aqui é muito simples, apenas uma sopa de legumes, mas você será obrigada a comer, está muito fraca, parece um fantasminha!

Abri minha boca para reclamar, mas não consegui. voltou para a sala apenas de calça de pijama e sem camisa. Me pegou no colo com a facilidade de quem pega uma folha de papel, o que foi um ato extraordinário para um menino tão magro. E não era à toa que ele não sentia frio, sua pele era muito quente, como se ele tivesse acabado de sair do forno ou algo de gênero. Me levou até a mesa e me ajudou a sentar.

Logo Billy Ray veio com três potes de sopa. Entregou um para , um para mim e o outro era para si mesmo. Jantamos em silêncio. Mas não um silêncio constrangedor. Um silêncio um tanto quanto confortável, mesmo que estivesse jantando com estranhos.

No final de refeição, me ofereci para ajudá-los com a louça, mas Billy Ray disse que meninas bonitas não cuidavam da casa. Alguns minutos depois, ligou a TV da sala e deixou num canal de clipes. Me levou em seu colo novamente para o sofá mofado e me pôs deitada lá. Sentou-se no chão, com as costas apoiadas no sofá onde eu estava.

Não demorou muito para o cansaço invadir meu corpo. Fechei minhas pálpebras pesadas e logo cai num sono profundo.


2 - The Best Day

No meio de toda a escuridão de meu sono sem sonhos, senti frio. Ainda de olhos fechados, puxei a coberta para cima de minha cabeça e me encolhi, ali de baixo do mar de tecido, encostando os joelhos nus em meu queixo gélido. Percebi que havia esquecido de vestir a calça de moletom cinza que me havia sido entregue ontem. Comecei a fazer um debate mental, um clássico caso de Necessidade vs. Preguiça. Estava com frio, isso era um fato; tremia dos pés a cabeça e mesmo embaixo do cobertor, meu queixo batia. Ao mesmo tempo, não queria abrir os olhos e encarar a realidade. Queria ficar ali, protegida por meu manto de "invisibilidade" - também conhecido como cobertor de metalassê azul-marinho, com diversas manchas de café e outras coisas que eu preferia não identificar - que me separava do mundo real. Queria me manter em minha falsa realidade, onde nada de ruim jamais poderia me alcançar.

Por fim, a necessidade falou mais alto. Aliás, a realidade falou mais alto. Realidade essa que veio na forma da voz de Billy Ray em seu decibel mais alto, reclamando com algum atendente de telemarketing que teve o infortúnio de ligar para seu celular. Pelo o que pude entender da conversa, Billy detesta vendedores de todos os tipos, mas tem um ódio especial por aqueles que ligam para ele.

Fiz um esforço sobre-humano para colocar minha cabeça por cima das cobertas. Vasculhei a pequena sala mal iluminada por alguns segundos. Ali, no chão de madeira escura, ao lado do sofá verde-musgo que exalava mofo até não poder mais, estava o meu pote de ouro no final do arco-íris - a calça de moletom cinza da Dolly-da-recepção. Sentei-me no sofá, vesti a calça e fui obrigada a calçar minhas galochas (que estavam jogadas próximas ao sofá, para minha sorte) já que, pelo o que pude concluir, a Dolly-da-recepção devia ser 15 centímetros mais baixa do que eu. Me enrolei no cobertor antes de me aventurar pela cozinha.

E foi na cozinha, ao olhar para o relógio, que mais uma vez a realidade falou mais alto. Na verdade, ela gritou. Eram 11h15 da manhã e eu não via meu pai desde a cerimônia de cremação de minha mãe. E ele não sabia onde eu estava. O próprio Billy Ray havia me dito que tentou ligar na noite passada, mas ninguém atendeu. Precisava ir para casa urgentemente, precisava, de alguma forma, diminuir o estrago que já havia sido feito.
Estava prestes a sair, quando senti uma mão segurando meu braço esquerdo.

- Já vai, docinho? - indagou Billy Ray.
- Já sim, Billy, obrigada por tudo, mas eu realmente preciso ir para casa. - liberei meu braço da maneira mais gentil (e rápida) que consegui e comecei a andar em passos largos, tentando me afastar cada vez mais da casa, fingindo não ter ouvido Billy gritar "mas você nem tomou café-da-manhã!".

Quando finalmente consegui sair do cemitério, percebi que nesse ritmo nunca chegaria em casa. Prendi meu cabelo com o elástico que estava sempre em meu pulso e comecei a correr. Corri durante dezenas e dezenas de minutos, percorrendo os metros que afastavam o cemitério no centro da cidade e a minha casa afastada da civilização como uma verdadeira profissional. Quando estava prestes a desmaiar, comecei a avistar a porta preta de minha casa branco-sujo. Parei, respirei fundo e me recompus. Comecei a andar rapidamente em direção a minha casa. Ao chegar à porta, tirei as galochas e a abri com cuidado, andando sem fazer barulho algum. Ao chegar à sala, vi meu pai dormindo no sofá, roncando alto. Assumi que desmaiou após beber muito, visto que fedia à álcool.
Subi a longa escada de madeira escura devagarinho. No segundo andar, corri em direção ao meu quarto. Fechei a porta atrás de mim e empurrei minha escrivaninha, prensando-a junto à porta, impedindo a passagem (prática que havia adquirido há muito tempo). Me apoiei na parede rosa-bebê - que havia sido pintada dessa cor quando eu ainda estava na barriga de minha mãe - e escorreguei lentamente até que atingisse o chão. Meu coração batia tão rápido e tão alto que conseguia ouvi-lo. Decidi tomar um banho para me acalmar.

Entrei em meu banheiro branco, sem personalidade, que sempre considerei o cômodo da casa que mais me descrevia, e liguei a água quente do chuveiro. Despi-me, entrei no meu box e sentei no chão, deixando a água quente lavar todos os meus sentimentos.

Não posso afirmar com certeza quanto tempo passei embaixo daquela água, perdi completamente a noção do tempo, mas assumo que o banho durou mais ou menos uma hora. Quando voltei para meu quarto para me trocar, percebi que minha pele estava vermelha, provavelmente devido ao calor do banho. Vesti meu jeans escuro com dificuldade, nunca secava minhas pernas da maneira correta, pois não tinha paciência para isso, logo, ficava com a perna semi-molhada, a condição perfeita para que o jeans teimasse em entrar. Coloquei um suéter de tricô grosso cinza-chumbo que sempre ficava grande demais em mim e botas pretas.

Hesitante, empurrei minha escrivaninha para longe da porta e resolvi ir para o primeiro andar da casa. Com sorte, meu pai ainda estava dormindo e quando acordasse, não se lembraria de nada da noite anterior.
Mas quem disse que eu tinha sorte? Quando cheguei à cozinha, ele estava sentado na mesa e com a sua eterna cara de poucos amigos.

- Onde a senhorita estava? - disse com raiva.
- Em casa, pai. O senhor chegou tarde ontem, eu já estava no meu quarto dormindo, e...
- CHEGA DE MENTIRAS! - gritou, batendo o punho fechado na mesa. - Nós dois sabemos muito bem que você não estava em casa. Agora, você tem exatos cinco segundos para me falar onde você estava.
- Eu tive um acidente ontem na saída do cemitério, e um senhor muito gentil que trabalha lá me auxiliou. Acabei passando a noite lá, pois não estava em condições de voltar para casa. - falei de maneira muito formal e sem fazer nenhuma pausa para respirar, como se estivesse me justificando para a polícia.
- Senhor que trabalha no cemitério? Você não está falando de Billy Ray, está? - assenti com a cabeça. - Ele não mora com um jovem mais ou menos da sua idade? Um garoto esquisito, meio gótico.
- Sim, ele se chama , ele não é esquisito, é bastante educado, assim como Billy.
- Vocês duas são mesmo iguais. - disse meu pai com desdém. - Sempre mentindo, sempre fugindo para casa de homens. Agem como santas, mas não me enganam não. É óbvio que você não se machucou, você dormiu lá porque dormiu com esse tal de . Assim como a sua mãe, vocês não valem nada. São duas prostitutas sem valor.
- Não fale assim da minha mãe. - disse entredentes.
- O que você disse? Fala mais alto, vadia.
- Eu disse para você não falar assim da minha mãe. Me agrida o quanto você quiser, mas não ouse falar mal da minha mãe.

Numa fração de segundos, meu pai se pôs a meu lado, segurando meu pulso com muito força.

- Você não me desrespeite, sua menina ingrata.
- Pai, me solta, você tá me machucando!
- Ingratas, todas as duas. Nunca reconheceram todos os esforços que eu fiz por vocês! Mas você vai ver, vai começar a me apreciar.

Consegui soltar meu pulso e sai correndo em direção a porta. Mas meus esforços foram em vão, meu pai era mais forte e mais rápido. Me agarrou pelos cabelos e começou a me puxar, me levando para o porão. Lágrimas grossas escorriam pelos meus olhos, por causa da dor e do medo. Quando chegamos a nosso destino, ele parou, abriu a porta com um chute e me jogou escada abaixo. De onde estava - caída no chão, no meio do caos e da escuridão - ouvi sua voz me dizendo que ficaria ali até começar a apreciá-lo.

- Isso nunca vai acontecer, seu velho maldito. - sussurrei assim que ele fechou a porta.
Permaneci deitada onde estava, sem forças para me movimentar. Tudo em meu corpo doía. Fechei os meus olhos, deixando minha imaginação e minhas memórias me levarem de volta para o passado.

# Flashback ON
Portland, 2006, 23 de setembro.


Desci do ônibus escolar amarelo ainda ouvindo as risadas atrás de mim. Me senti bastante forte naquele momento, segurando o choro e fingindo que não estava ouvindo. Esperei pacientemente até que o ônibus começasse a se afastar e então as grossas lágrimas começaram a escorrer. Pausei a mão na maçaneta, ponderando se entrava agora ou se esperava até que me acalmasse. Não sabia quem estava em casa, e meu pai não gostava de me ver chorando, pois não tolerava fraqueza. Enxuguei minhas lágrimas e finalmente entrei em casa.

- ? - ouvi a voz de mamãe vindo da cozinha. - Estou na cozinha querida, somos apenas nós duas. - essa era uma das coisas que eu mais amava na minha mãe: era quase como se ela lesse minha mente.
- Mãe? - disse com a voz embargada, as lágrimas teimando a se formar novamente.

Mamãe largou a colher da madeira que estava usando na bancada da cozinha e veio me abraçar. Me abraçou forte durante longos minutos, enquanto eu chorava em seu ombro. Quando estava mais calma, mamãe pegou seu casaco pesado azul-marinho, sua bolsa preta e as chaves do carro. Segurou minha mão e começou a ir em direção a garagem que ficava do lado de fora da casa.

- Onde estamos indo, mamãe? - disse assustada, sabia que não podíamos sair sem permissão.
- Nós estamos indo nos divertir, meu anjo. Afinal, é a véspera de seu aniversário, precisamos comprar presentes, certo? - mamãe piscou enquanto destrancava seu Jipe Cherokee azul.
- Mas...
- Sem "mas", . Seu pai está viajando a trabalho, nós podemos fazer o que quisermos. - mamãe sorriu e segurou meu queixo, balançando-o. - Anime-se, , hoje vai ser o nosso dia.

Mamãe deu ré na garagem e começou a fazer o percurso que nos levaria até o centro da cidade. Durante toda a ida, permanecemos em silêncio, aquele silêncio confortável entre duas pessoas que se conhecem há muitos anos.
Já no centro, mamãe parou em frente ao antigo hotel da cidade, o Portland Inn, que tinha uma deliciosa lanchonete dentro. Sempre que podíamos, tomávamos sorvete lá. Saímos do carro e entramos no hotel.

- Lizzie! Lizzie, querida! - fomos interrompidas por uma mulher loira baixinha de quase sessenta anos que corria na nossa direção. - Lizzie, ai meu deus, quanto tempo! - a mulher abraçou minha mãe, beijando sua bochecha repetidas vezes.
- Dolly! – minha mãe apertou o abraço, pude perceber que estava realmente feliz em vê-la. - Que saudades! - depois de se soltarem, mamãe segurou meus ombros, me colocando a sua frente. - Dolly, não sei se você vai se lembrar, essa é a , minha filha.
- Não pode ser! Mas já está tão crescida! - Dolly me abraçou da mesma forma que havia abraçado minha mãe. - E é tão bonita... parece muito com você, tem seus olhos. Exceto pelo cabelo, o cabelo é do pai. - Dolly suspirou, tirando a minha franja de meus olhos. - Quantos anos você tem, querida?
- Eu faço 13 anos amanhã. - disse timidamente.
- Nossa, quanto tempo Lizzie... 13 anos... - Dolly olhou minha mãe que apenas assentia com a cabeça.
- Dolly? - um garoto de cabelos castanhos, muito alto e muito magro apareceu por trás de nós, carregando uma encomenda embrulhada em papel pardo. - Meu pai pediu para te entregar isso, eu só preciso que você assine aqui pra mim...
O garoto entregou o pacote para Dolly e um recibo para que ela assinasse. Assim que Dolly o entregou o recibo, ele lhe deu um beijo na bochecha e acenou para mim e mamãe, indo embora.
- Aquele era o pequeno , o filho dos , donos do correio? - disse minha mãe chocada.
- Era sim, querida! Ele cresceu né? Ficou tão bonito. Está com 16 anos e já está partindo corações de todas as menininhas da cidade. Pena que é muito magro, ele é forte, mas assim como o pai, os músculos não são muito visíveis...
- Nossa, ele realmente cresceu, a última vez que eu o vi, ele era um bebê... Enfim Dolly, foi muito te ver, mas eu preciso levar essa mocinha pra tomar sorvete e fazer compras. Estamos comemorando o aniversário dela antecipadamente. - mamãe abraçou-a novamente. - Foi muito bom te ver, minha amiga.

Mamãe me puxou pela mão para a lanchonete. De longe, pude ver a simpática mulher enxugando as lágrimas.
Pedimos nossos sorvetes de sempre, flocos (meu) e limão (mamãe), e jogamos conversa fora.

- Já está pronta para conversar? - disse mamãe de repente.
- Achei que já estivéssemos conversando.
- Mas ainda não conversamos sobre o porquê de você ter chegado em casa chorando. - mamãe arqueou uma sobrancelha, me estimulando a começar a falar.
- Bom, desde que eu entrei na Chilton, umas meninas vem implicando comigo... Simplesmente porque a líder do grupinho delas, a Alison, não gostou da minha mochila. E elas são as meninas mais populares da minha classe, então elas criaram essa regra de que ninguém poderia falar comigo, e se falassem, sofreriam conseqüências. Até a Emily, que era a minha única amiga, deixou de falar comigo com medo de virar o novo alvo. - suspirei. - Eu não entendo porque elas são tão más, elas ficam me chamando de autista e de esquisita... E agora eu nem sei mais com quem eu vou conversar na escola, eu não tenho mais nenhum amigo por lá.
- Bom querida, essas meninas só tem esse poder todo porque todo mundo acredita que elas tem esse poder. - olhei para ela confusa. - O que eu quero dizer é, as pessoas vão te ver da maneira como você se mostrar. Elas se mostram confiantes, então todo acreditam que elas são confiantes. Se você entrar na escola com a mesma confiança delas, as pessoas vão te ver dessa forma.

Sorri para mamãe, acreditando que as coisas melhorariam de verdade.
Passamos o resto do dia fazendo compras, olhando vitrines e comendo doces. À volta para a casa não foi quieta, pelo contrário, estávamos rindo o tempo todo. À noite, assistimos Bonequinha de Luxo no quarto de hóspedes (tínhamos o hábito de dormir juntas lá quando papai não estava). Estava quase dormindo quando senti um beijo carinhoso na minha testa e um sussurro em meu ouvido:

- Já é meia-noite, meu bem. Feliz aniversário, eu te amo.
- Eu também te amo mamãe, e obrigada pelo dia, foi o melhor de todos.

# Flashback OFF

I'm thirteen now and don't know how my friends could be so mean
I come home crying and you hold me tight and grab the keys
And we drive and drive until we found a town far enough away
And we talk and window shop 'til I've forgotten all their names
I don't know who I'm gonna talk to now at school
But I know I'm laughing on the car ride with you
Don't know how long it's gonna take to feel okay
But I know I had the best day with you today


3 – Down and Out

# Flashback ON
Portland, 1998, 31 de outubro.


- ! ! - mamãe gritava da porta da casa, carregando meu casaco violeta de lã grossa.

Eu estava escondida atrás da primeira árvore da pequena floresta de nosso jardim. Tinha muito medo de me aventurar por dentro daquela floresta, mas essas primeiras árvores não me assustavam tanto.
Mamãe começou a atravessar o jardim - que estava coberto por aboboras para o Dia das Bruxas - ainda me procurando.

- Billy, você viu a ?
- Não vi não, Elizabeth. - disse nosso simpático jardineiro, porém, quando mamãe não estava olhando, virou para onde eu estava e deu uma piscadela.

Isso era o que eu mais gostava em Billy, nós éramos cúmplices sempre.
Contei até cinco e depois sai correndo atrás de mamãe, me agarrando a sua perna. Mamãe começou a rir, me pegou no colo e me deu um beijo molhado na bochecha.

- Mamãe! Para, tá babando!
- Está bem, já parei. - mamãe sorriu com amor. - Aqui , preciso que você coloque seu casaco, nós vamos ao correio buscar umas encomendas.

Mamãe me colocou no chão e vestiu meu casaco violeta por cima do meu vestido branco. Já estava com a minha meia-calça de lã azul-bebê e galochas vermelhas, e mesmo assim sentia um pouco de frio agora que não estava mais correndo pra lá e pra cá.

- Mas essa Botãozinho está ficando cada vez mais bonita! - disse Billy apertando minhas bochechas.

Eu sempre odiei que apertassem minhas bochechas, por isso sai correndo novamente. Olhei para trás por um minuto e pude ouvir mamãe rindo e Billy sorria como um bobo. Corri pelo enorme jardim de abóboras, passando pelo trator de Billy e indo me esconder na garagem. Não demorou muito até mamãe me encontrar lá e me colocar no carro para irmos ao correio.

- Mamãe? - disse quando já estávamos saindo do carro.
- Sim, querida? - mamãe trancou o carro e segurou minha mão, enquanto descia a pequena ladeira que nos separava do correio.
- O que aconteceu com o verde das folhas?
- Bom, querida, as folhas ficam verdinhas porque se alimentam do sol, e como estamos no outono e quase não faz sol, elas ficam marrons. Mas assim que o verão e a primavera voltarem, elas voltam ao normal. - olhei confusa para mamãe sem entender nada. - Você entenderá melhor quando crescer, querida. - mamãe deu um tapinha no topo da minha cabeça enquanto abria a porta do correio dos .
- Doces ou Travessuras! - gritou um menino de cabelos castanhos bagunçados, vestido de mágico.
- Aqui está, querido. - mamãe lhe entregou uma das inúmeras barras de Kit Kat que carregava na bolsa (mamãe sempre andava prevenida durante o Dia das Bruxas) - Onde está sua mãe, ?
- Não me reconhece mais não, Lizzie? - disse uma mulher fantasiada de Cher que estava atrás do balcão.
- Beth! Nossa, não te reconheci mesmo, nunca soube que você gostava de Cher.
- Eu não gosto, mas é uma boa fantasia. - a mulher pegou um envelope branco e entregou a minha mãe, mostrando-a onde ela deveria assinar. - Então quer dizer que essa é a futura esposa do ? Como ela tá crescida, deve estar com uns 5 anos né?
- Sim, 5 anos. - mamãe sorriu olhando para mim. - Por que você não vai brincar com o enquanto eu termino de assinar uns recibos, querida?
Assenti com a cabeça e me virei para o menino-mágico.
- Oi. - disse simplesmente.
- Oi, meu nome é , e o seu? - sorriu.
- Hurley. - sorri de volta.
- Quer ver um truque, ? - assenti com a cabeça. - É muito bom, olha só. - O menino tirou uma varinha do bolso de trás de calça, disse algumas palavras e bateu três vezes na manga de seu paletó preto. - Abacadabra! Tcha-ran! - E então tirou um buque de flores de plástico coloridas de dentro do paletó.
- Uau! Você é realmente mágico! - bati palmas animadamente, realmente surpresa.

O menino corou e sorriu com apenas um canto da boca, sem mostrar os dentes, inclinando a cabeça um pouco para a esquerda.

- Toma, pra você. - me entregou o buquê.
- Obrigada. - peguei o buquê, me surpreendendo por não estar nem um pouco tímida perto daquele garoto.
- Isso daqui também, pra você. - me entregou uma balinha de coração que havia tirado de dentro de sua sacola em formato de abóbora.
- , vamos? - mamãe já estava parada junto à porta, segurando a maçaneta.
- Sim, mamãe! - peguei a balinha e dei um beijo na bochecha do menino. - Tchau, ! - corri para perto da minha mãe.
No caminho de volta para a casa, adormeci lentamente enquanto observava o céu dourado do final da tarde.

# Flashback OFF
I'm five years old, it's getting cold, I've got my big coat on
I hear you laugh and look up smiling at you, I run and run
Past the pumpkin patch and the tractor rides, look now, the sky is gold
I hug your legs and fall asleep on the way home
I don't know why all the trees change in the fall
But I know you're not scared of anything at all
Don't know if Snow White's house is near or far away
But I know I had the best day with you today


******


“Abra os olhos, , está na hora de acordar.”

Podia ouvir a voz de minha mãe nitidamente em minha cabeça, acordando uma de 5 anos de idade que estava no passado. Porém, quando acordei, não tinha 5 anos e tampouco era Dia das Bruxas. Pouco a pouco, a realidade me alcançava, e por mais que eu tentasse evitar, as lembranças iam voltando para o fundo de minha mente, desaparecendo como sonhos.

Com dificuldade, comecei a me levantar. Tive que me apoiar no corrimão da escada para que não caísse, visto que meu tornozelo se movia com muita dificuldade. Devo ter torcido-o durante a queda. Tateei as paredes no escuro em busca do interruptor. Finalmente o achei, mas não fez muita diferença, a fraca luz que vinha da minúscula lâmpada piscou algumas vezes e depois apagou por completo. Sentei num dos degraus da escada, completamente desolada.

- ... - disse a voz de minha mãe. Sacudi a cabeça, segura de que fora a minha imaginação.

Alguns segundos depois ouvi algumas batidas ocas, mas não sabia de onde vinham. As batidas continuaram, e junto com elas, a mesma voz chamava por mim. Levantei e segui os sons. Manquei sem direção até bater em uma superfície retangular, coloquei minhas mãos em cima dela e percebi que era uma escada bem pequena, fui tateando degrau por degrau até sentir uma pequena porta. Empurrei a porta com toda a força que tinha, pois esta estava emperrada. Finalmente consegui abri-la e a visão que tive me espantou mais do que qualquer coisa que já havia visto a minha vida toda.
A minha frente, minha mãe corria pelo jardim. Seus cabelos loiros brilhavam com a luz do luar e seu vestido branco esvoaçava atrás de si. Encarei-a boquiaberta até ouvir:

- Você não vem, não?

Passei pela minúscula porta e corri mancando, tentando acompanhar minha mãe, que corria em direção a floresta. Mamãe parou atrás de uma das árvores mais afastadas e eu fiz o mesmo, parando a seu lado.

- Fique aí até que ele saia, querida. - mamãe me deu um beijo na testa e fugiu para o interior da floresta.

Me belisquei dezenas de vezes para ver se acordava, mas não era um sonho, era real. Meu coração batia com tanta força dentro do meu peito que a qualquer momento minha caixa torácica se romperia.
Fiquei ali, no escuro, parada atrás da árvore, assim como mamãe havia mandado. Muitos minutos depois, vi dois faróis acompanhados pelo Land Rover preto de meu pai. Contei até 100 enquanto o carro se afastava. E assim que terminei de contar até 100, contei até 200 para me certificar de que ele estaria realmente longe.
Meu pai tinha ido beber, o que me dava uma vantagem de mais ou menos seis horas. Corri para minha casa sem sentir dor alguma, movida pela descarga de adrenalina que meu corpo havia liberado.

Entrei em casa usando a chave que ficava embaixo do tapete marrom na entrada e corri para o meu quarto. Abri meu armário tirando a enorme mala vermelha que ficava na parte mais alta; era uma daquelas malas de acampamento, sem rodinhas. Despejei todo o conteúdo do meu armário dentro (não tinha tanta roupa assim), coloquei os porta-retratos que tinha em meu quarto e a caixa de sapato com dinheiro que ficava escondida em baixo de minha cama. Entrei no meu banheiro e peguei tudo que podia: escova e pasta de dentes, elásticos, band-aids, e a pequena nécessaire vinho com vários artigos de maquiagem que havia ganhado de mamãe, mas nunca usava. Depois, fui para o quarto de minha mãe, peguei um de seus casacões pesados, seu colar com pingente de coração (que abria, mostrando uma foto de nós duas) e por último seu vidro de perfume antigo (cujo conteúdo na verdade era Lavanda Johnson's).

Vesti o casaco e o colar, imediatamente me sentindo mais próxima de minha mãe, e guardei o perfume na mala, fechando-a. Peguei a mala, colocando a alça em meu ombro e sai de casa. Corri em direção à estrada que ficava nas montanhas próximas a minha casa, a maneira mais rápida de chegar ao cemitério – sabia que se fosse para a casa de Billy, ele me receberia de braços abertos.
Enquanto corria pela a estrada, a última coisa que vi foram dois faróis.

******


Me apoiei em meu ombros, levantando apenas a cabeça, que doía intensamente. Coloquei uma das mãos em minha nuca e senti sangue. “Ótimo”, pensei.

- Ai, meu deus, você tá bem? Caraca, você veio do nada, e essa estrada é mal iluminada, eu não te vi, desculpa...
Olhei na direção da voz, apertando os olhos para enxergar quem era.
- ? - disse finalmente, entendendo que era o menino que morava com Billy.
- ? Caramba, o Billy vai me matar... - sacudiu a cabeça. - Nossa, que egoísmo. Você tá bem? Tá bem mesmo? Quebrou alguma coisa? Eu preciso te levar para um hospital?
- Eu to bem, , os meus machucados mais graves são de quando eu, hm, caí da escada agora pouco... Eu só machuquei minha cabeça agora, tá sangrando um pouco.

E então, entrou em pânico. Me pegou no colo, me levando para o banco do passageiro de seu carro preto e depois pegou minha mala que estava caída na estrada e a colocou no banco de trás.

- Coloca o seu cinto, eu vou te levar pro hospital.
- , fica tranqüilo, tá tudo bem.
- Não quero saber, eu vou te levar pro hospital.
- Sim, senhor.

Apoiei minha cabeça no vidro do carro e fiquei observando a noite estrelada. Apesar de toda a dor, estava ligeiramente feliz pela primeira vez em muito, muito tempo. Estava livre. L-I-V-R-E.

Chegamos ao hospital público da cidade, o Santa Tereza e sai do carro assim que estacionou, andando com dificuldade na frente, para que ele não ficasse me carregando no colo de um lado pro outro. Fomos encaminhados para um ortopedista de plantão, o Dr. Ramoray.
Fiquei sentada na maca branca enquanto andava de um lado pro outro.

- Não precisa ficar nervoso, vai ficar tudo bem. - disse reconfortando-o.

sorriu com apenas um canto da boca, sem mostrar os dentes, inclinando a cabeça um pouco para a esquerda. E foi aí que eu lembrei: ele já havia sorrido assim para mim quando eu tinha 5 anos.

- Eu já conhecia vocês! - gritei, assustando-o. - Sabe, o Billy, você, a Dolly... Eu conheci todos vocês quando eu era mais nova e a havia me esquecido completamente! O Billy era jardineiro na minha casa, a Dolly era recepcionista num hotel que tinha uma lanchonete que eu sempre ia com a minha mãe e você, bom, eu te conheci num Dia das Bruxas quando eu tinha 5 anos e depois no dia em que eu conheci a Dolly, você tinha ido ao hotel para entregar um pacote, acho que seus pais são donos de um correio né?
- Eles eram donos de um correio sim. - sorriu. - Então, você me conheceu num Dia das Bruxas? Você lembra qual era a minha fantasia?
- Uhum, você tava vestido de mágico.
- Ah sim, 98, o ano que eu fiquei obcecado pelo Houdini... - arregalou os olhos. - Você não era a menina pra quem eu dei o buquê de flores plásticas, era?
- Era eu sim, e você também me deu uma balinha em formato de coração.
- Que loucura! Eu passei o mês inteiro me perguntando por que você nunca mais voltou no correio, sabe eu... - foi interrompido pelo Dr. Ramoray que entrou na sala segurando uma prancheta. - Eu, eu vou te esperar lá fora tá?

O Dr. Ramoray entrou na sala e começou a me examinar. Disse que meu tornozelo estava torcido e depois chamou dois residentes: um para fazer um curativo no machucado em minha cabeça e um para enfaixar meu tornozelo.

- Sem corridas pela estrada, ouviu senhorita? - disse-me o Dr. Ramoray.
Assenti com a cabeça e sorri para o homem que estava saindo da sala.
- Hm, Dr. Ramoray? - disse hesitante.
- Pode me chamar de Drake.
- Alguém já te disse que você parece muito com o Joey de Friends?
- Todos os dias. - Dr. Drake piscou. - Vou chamar seu namorado para ele vir te buscar, você já está liberada.
- Ah, ele não é meu... - desisti de corrigi-lo, pois ele já havia saído da sala.

Alguns minutos depois, apareceu na sala. Eu já estava em pé, esperando por ele. Ele passou meu braço por sua nuca e me segurou pela cintura, me ajudando a andar. Andamos devagar até seu carro. me ajudou a entrar no carro e a colocar meu cinto. Quando entrou no carro, virou-se para mim, antes mesmo de dar partida.

- Sabe, quando eu tinha oito anos, eu te dei um buquê, uma bala em formato de coração e depois passei um mês inteiro pensando em você. Você sabe o que isso significava né? - fiz que não com a cabeça. - Significava que eu gostava de você, sabe, gostava-gostava. - sorriu para mim. - Foi bom ter te reencontrado, .

finalmente deu a partida no carro, saindo do estacionamento do hospital, em direção a casa de Billy. Ligou o rádio que tocava alguma música animada que não reconheci e começou a batucar com os dedos no volante, acompanhando o ritmo. Sorri, com a certeza de que tudo ficaria bem.

Out of the box, out of the kitchen.
Out of the world she's grown so fearful of.
I don't ever want to see you again.
I don't ever want to see you again, my friend this is the end.
Out of the house, she grabs the keys,
Run for the hills and doesn't leave a letter.
That way the impact will be much better.
Away from the man that she's grown so fearful of.



4 – Timshel

Acordei com as costas arrepiadas de frio. Um vento gélido vinha da única janela daquele pequeno quarto, atingindo minhas costas descobertas como pequenas pedras de gelo. Meu cobertor havia desaparecido como num passe de mágica e era necessário fechar aquela janela. Era uma questão de vida ou morte. Outra questão era: como levantar? Meu tornozelo ainda estava enfaixado, o que dificultava qualquer ação. Desisti, sem motivação o suficiente.

Sentei na cama de - onde havia passado a noite - juntando meus joelhos ao meu peito, encostando o queixo neles. Senti os pelos de meus braços se eriçarem. Ontem à noite, quando chegamos a casa, e a adrenalina já havia passado, sendo substituída por um enorme cansaço. Assim que me deixou no quarto, tudo o que eu conseguia pensar era em me trocar e dormir. Abri minha mala pegando as primeiras duas coisas que pude encontrar (uma regata branca e uma calça bailarina azul marinho), me vesti rapidamente e dormi. Percebo agora que a regata foi um erro, era inverno em Portland e fazia frio a todo instante.

Ouvi uma movimentação em baixo de mim e estiquei meu pescoço para que pudesse ver. Deitado no colchão ao lado da cama, acordava aos poucos. Esfregou os olhos e se espreguiçou durante vários e vários segundos antes que percebesse meu olhar.

- Bom dia, . - disse-me com um sorriso de lado, aquele mesmo sorriso que havia me dado à quase 13 anos atrás.
- Bom dia, . - disse, sorrindo também, percebendo o quão inevitável era sorrir quando ele sorria.

se levantou do colchão e novamente se espreguiçou, mostrando todos os músculos que tinha nas costas sem camisa. Ou ele andou malhando ou esses músculos sabem muito bem como se esconder...

- Tá tudo bem? - disse me olhando com a testa franzida, percebendo que eu o encarava com o queixo um pouco caído.
- Sim, sim, claro. - sacudi a cabeça rapidamente, esperando que minhas bochechas coradas passassem desapercebidas.
- Então tá. Vou ao banheiro, já volto. - saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.

Ainda com frio, avistei um casaco de moletom cinza surrado largado no chão próximo a porta. Decidi que com um pouco de determinação conseguiria chegar até o casaco sem grandes dificuldades, vesti-lo e voltar para a cama. Me apoiei na cama com as mãos, me elevando um pouco e comecei a me arrastar para a lateral. Consegui ficar em pé por menos de dois segundos antes que caísse com tudo no colchão de , soltando um grito e batendo o meu cotovelo na cabeceira da cama.
Um ofegante apareceu na porta do quarto em poucos segundos, provavelmente correu do banheiro até o quarto.

- Mas o quê tá acontecendo aqui? - um Billy nem um pouco contente surgiu atrás de . - ? Você dormiu aqui? - Billy deu um pescotapa em com bastante força. - , o que diabos o senhorito está aprontando?
- Ai, Billy, isso doeu. E eu não to fazendo nada. - falava rapidamente enquanto esfregava a nuca dolorida.
- Cala a boca, , não quero ouvir a sua voz. , o que aconteceu, tá tudo bem?
- Tá, Billy, tá tudo bem, e o não me fez nada além de me ajudar. - Billy olhou para com desconfiança. - Eu caí da escada do porão da minha casa e o me levou para um hospital.
- E essa mala é pra quê? - Billy apontou com o queixo para a mala vermelha largada ao lado da cama.
- Eu, hm, eu fugi de casa. - suspirei. - E foi aí que o me encontrou, eu fugi pela estrada e ele estava dirigindo e cá estamos nós.

Billy esfregou os olhos e saiu do quarto resmungando algo sobre crianças e não poder dormir mais.

- Desculpa, . - estava realmente arrependida.
- Tudo bem, pelo menos agora o Billy já sabe que você tá aqui, né... - continuava a esfregar a nuca. - Mas, o que você tava tentando fazer, hein?
- Pegar aquele casaco caído no chão. - me olhou com a testa franzida pela segunda vez em menos de uma hora. - Eu tava com frio.

pegou o casado e me entregou. Esperou que eu o vestisse e depois estendeu a mão, me ajudando a levantar. Passou um dos meus braços por cima de seus ombros e colocou a mão na minha cintura, apertando-a levemente. Consegui sentir o calor de sua mão sobre a área mesmo com o grosso moletom que separava nossas peles e por uma fração de segundo, meus joelhos ficaram moles, desequilibrando minha sustentação.

- Opa. - apertou a mão ainda mais. - Você realmente tem problemas de equilíbrio, hein? - sorri sem graça e dei de ombros.

me levou até a cozinha, me ajudou a sentar e se direcionou a geladeira, abriu-a e ficou encarando seu conteúdo por longos segundos. Billy não tardou a aparecer na cozinha, ainda de pijama, mas com o chapéu e a bota de cowboy.

- Você sabe que isso não é uma vitrine e a conta de luz fica mais cara cada vez que você abre a geladeira, né ? - disse Billy Ray. fez um sinal positivo com a mão. - Bom dia, docinho. - Billy veio até mim e me deu um beijo no topo da cabeça.
- Bom dia, Billy.
- , pode sossegar rapaz, vou fazer panquecas.
- Já é. - fechou a porta de geladeira e foi para o sofá da sala. Ligou a televisão em algum canal pago onde estava passando Patolino & Pernalonga. - Não se fazem desenhos como antigamente.
- Toc-toc! - uma mulher baixinha com cabelos muito loiros surgiu na porta que ficava na cozinha. - Bom dia, meninos! - a mulher foi até o fogão onde Billy estava e lhe deu um caloroso beijo na bochecha, e depois, se virou para mim. - Ai meu Deus, Billy Ray O'Nelson, essa não pode ser! - a mulher começou a gritar e correu em minha direção com os braços abertos. Me abraçou - com uma força extraordinária para uma mulher tão baixinha - me balançando de um lado para o outro.
- Dolly! - disse, reconhecendo-a. - Você é a Dolly!

Dolly me soltou e quase que imediatamente começou a chorar, com o rosto entre as mãos. Arregalei os olhos, completamente assustada com a mudança repentina de humor.

- Billy, eu, eu não sei o que eu fiz, tava tudo bem, e aí do nada ela começou a chorar e tipo, eu não faço idéia do que tá acontecendo.
- Fica tranquila, docinho. A Dolly é assim mesmo, as emoções bem acima da flor da pele. - Billy revirou os olhos.

Depois de algum tempo, Dolly se recompôs. Deu três tapinhas carinhosos na minha bochecha e sentou na cadeira a meu lado.

- Sabe. - disse pegando a minha mão. - Eu não pude acreditar que você ainda se lembra de mim, depois de todo esse tempo. Por isso me emocionei, me desculpe. - sorrimos uma para a outra, como se fossemos velhas amigas.

Billy trouxe um prato com uma pilha gigantesca de panquecas e colocou no centro da mesa. Dolly pegou pratos, xícaras e talheres. levantou do sofá e pegou um bule cheio de café. Billy abraçou e Dolly num abraço só e deu um beijo no topo da cabeça de cada um deles. Enquanto comiamos, não pude deixar de observar como eles interagiam uns com os outros. Nenhum deles era parente, não tinha nenhum vínculo de sangue que os mantivesse realmente unidos, e era muito provável que eles nunca tivessem se conhecido. Mas o destino quis assim. Era isso que os unia, o destino. E mesmo assim tinha tanto amor naquela pequena casa. Amor o suficiente para inundar o mundo. Parte de mim sentiu inveja deles. Mas não uma inveja doentia, uma inveja boa. Quase que uma admiração. Invejei-os porque não sabia se algum dia teria aquilo novamente. A única pessoa que já me amou (e que já amei,) já não podia me fazer panquecas, ou nada que envolvesse o mundo dos vivos.
Mas, se o amor deles poderia inundar o mundo, por que não poderia inundar-me também?
Meu olhar cruzou com o olhar de do outro lado da mesa, que sorriu para mim mostrando todos os dentes. Um pensamento involuntário passou por minha mente, "Talvez pudesse, sim".
Ah, , você está em apuros.

*****


dormia tranquilamente em meu colo. Foi um resultado completamente involuntário. Num minuto estávamos sentados no sofá assistindo The Big Bang Theory, e no outro, estava dormindo. E num terceiro minuto ele havia se acomodado no meu colo, como se aquilo fosse algo natural que acontecesse com freqüência. Não tive coragem de tirá-lo de lá.
Desliguei a televisão. Não estava assistindo mesmo, e o som no fundo era apenas um ruído irritante. Olhei para e não pude deixar de me lembrar do menino de oito anos fantasiado de mágico que havia me dado uma bala em formato de coração. Sorri internamente, sentindo saudades da de cinco anos que conheceu o de oito anos.
Por um momento quis passar os dedos pelo cabelo de , fazendo uma espécie de carinho. Aproximei minha mão de seu rosto, mas hesitei. Novamente, não tive coragem. Decidi tentar dormir, pois estava realmente cansada. Fechei meus olhos e me acomodei no sofá na melhor maneira que pude (sem acordar ) e me forcei a dormir.

- Olá, botãozinho. - disse-me Billy, apertando minha bochecha.

Estava sonhando novamente, ótimo. Mas era um sonho diferente. Eu era bem mais nova, tinha 1 ou 2 anos e estava quase dormindo no colo de um homem que não conhecia. Estávamos todos sentados num dos bancos da pequena praça que ficava próxima à praia, observando o mar. O cheiro de maresia misturando-se com o cheiro de loção pós-barba do homem que me carregava.

- Não tinha sorvete de flocos. - disse mamãe, sentando-se ao lado do homem, com um picolé de limão.
- Tudo bem, meu amor. Acho que eu vou tomar de chocolate mesmo. - disse o homem lhe dando um selinho. - E você pai, quer tentar um de chocolate? - disse para Billy.
- De jeito nenhum, você sabe que eu só tomo de flocos.
- Tudo bem, então. - o homem me entregou para Billy. - Cuide do meu ursinho sonolento até eu voltar.

O filho de Billy andou em direção ao caminhão do sorveteiro que ficava estacionado perto do parque. No meio do caminho, um homem com um capuz preto cobrindo o rosto veio correndo em sua direção e lhe deu um tiro fatal no peito.


- Não! - acordei gritando e suando frio.
- Ei, você tá bem? - disse , levantando do meu colo e sentando do meu lado no sofá.
Minha respiração ainda estava ofegante e meu coração batia violentamente. Tremia intensamente e por mais que tentasse inspirar e expirar, não conseguia me recompor. Acabei não resistindo e comecei a chorar. me abraçou, colocando minha cabeça entre seu ombro direito e o pescoço.
- Ei, ei, calma, foi só um pesadelo. Foi só um pesadelo. - sussurrou tão baixo, que se não tivesse dito diretamente em meu ouvido, provavelmente não teria escutado.
- É só que foi tão real. Era como se fosse uma lembrança, algo muito mais profundo do que um simples sonho.

Me soltei do abraço de e enxuguei as lágrimas. Respirei profundamente e soltei o ar bem devagarinho. Aos poucos, parei de tremer. Olhei para e sorri de lado. Ele sorriu de volta, o sorriso que me sorriu quando tinha oito anos, o sorriso que já considerava meu, mesmo que inconscientemente.

- Vai ficar tudo bem, os pesadelos não podem te pegar aqui. - passou o braço por meus ombros. - Você tá segura.
- Eu gostaria de acreditar, mas pelos últimos 17 anos, a minha vida tem sido um pesadelo.

Encostei minha cabeça no ombro de e fechei os olhos.

- Eu não tenho nem um porto-seguro, . Alguém para me proteger.

me deu um beijo na testa e encostou sua cabeça na minha.

- Eu te protejo.

Cold is the water
It freezes your already cold mind
Already cold, cold mind
And death is at your doorstep
And it will steal your innocence
But it will not steal your substance
But you are not alone is this



5 – Fresh Pair of Eyes

levantou-se da maca branca e fria sem perder equilíbrio ao ficar em pé. Pela primeira vez em duas semanas estava sem a atadura no tornozelo direito. Duas semanas, pensou, Duas semanas em liberdade. Alongou-se durante longos segundos na sala, agora vazia. Sua consulta no Santa Tereza havia sido marcada para as 10h, mas o hospital estava tão lotado que só pode ser atendida as 11h30 da manhã. Mas não fazia mal, nunca iria se cansar do sentimento de liberdade. De poder se atrasar e ainda ser recebida de braços abertos ao chegar em casa. Braços esses que eram muito brancos, longos e fortes - apesar de magros. suspirou. Pensar em trazia à tona muitas perguntas, e todas as emoções que seguiam tais perguntas a assustavam. Não gostava de admitir nem para si mesma, mas sabia que se tivesse a coragem de se apaixonar platonicamente, teria se apaixonado por .
Saiu da pequena sala sendo envolvida pelo imenso caos que inundava o pequeno hospital público da cidade. Diversas macas com corpos ensangüentados estavam espalhadas pelos corredores, e as salas todas já estavam lotadas. Quase foi atropelada por outras quatro macas que entravam na sala de onde acabara de sair. Sentiu seu coração parar de bater por alguns segundos quando viu uma pequena maca coberta por um saco preto. Precisava sair daquele hospital. Ver qualquer tipo de dor reabriria a ferida que ela tentava tampar.
Impulsionou seu corpo para frente, pronta para sair correndo de lá quando sentiu uma pressão em sua mão. Não teve coragem de olhar para a origem da pressão, mas não teve coragem de ir embora.

- Não, Elle, por favor, não se vá. Eu prometo que eu vou ser melhor. Não me deixe. - disse uma voz atrás dela.

Virou-se aos poucos de olhos fechados. Suspirou lentamente e abriu os olhos sem vontade. Deu de cara com um rapaz dourado de cabelos loiros. Mesmo deitado, pode ver que era forte e alto, o tipo de rapaz que se vê em anúncios de academias. Seu rosto perfeito, formado por traços quase nobres, expressava a mais profunda dor. Algo dentro de a disse que aquela dor ia muito além da dor física. Sentiu compaixão pelo rapaz. entendia de dor, se a dor fosse uma pessoa, ela e seriam grandes amigas. Estavam sempre juntas, de qualquer forma.

- Eu não vou a lugar algum, não se preocupe. - colocou a outra mão por sobre a mão do rapaz loiro. Este fechou os olhos, sua expressão agora serena. Se tivesse que adivinhar, diria que seus olhos eram azuis.
- Srta? - uma médica de cabelos cacheados loiro-platinados parou em frente à maca. - Nós vamos ter que levar o Sr. Jones para a sala de cirurgia. - assentiu, soltando a mão do jovem. - Você pode esperar por seu namorado aqui.

novamente impulsionou seu corpo em direção a saída no hospital, mas dessa vez, o que a impediu de sair não foi outra pessoa, foi o peso em sua consciência. Inúmeras vezes, durante essas duas semanas, desejou um ombro amigo que realmente entendesse o que ela estava passando. Claro, Dolly, e Billy eram pessoas ótimas que pareciam se importar de verdade com ela, mas até onde ela sabia, eles tinham a vida resolvida. E por mais que eles tentassem a incluir, ela ainda se sentia como a menina problemática que se intrometeu na casa deles. Se ela pudesse ser a pessoa que entende os problemas de alguém, e talvez, ser entendida por esse alguém, de alguma forma sua dor diminuiria um pouco.
Pelo menos a dor da solidão.
ajeitou a bolsa em seu ombro e andou até a pequena sala de espera de paredes azul-bebê (provavelmente haviam pintando seu interior dessa cor, pois se assemelhava a cor de um comprido de calmante) e se sentou na última cadeira vaga, grata pela pessoa à seu lado estar dormindo com o boné escondendo seu rosto.
Pegou uma revista antiga de celebridades mais antigas (sério, quem ainda fala da Hilary Duff?) e começou a passar as páginas rapidamente, sem ler nada que estava escrito, apenas para passar o tempo, e diminuir a ansiedade de estar num cômodo cheio de estranhos que esperavam para descobrir se seus amados sobreviveriam ou não. Sem contar que o barulho de páginas sendo folheadas abafava o ronco da pessoa sentada a seu lado.

- Porra, ou você lê muito rápido ou você está se abanando. – levantou seu olhar para a médica de cabelos cacheados loiro-platinados que estava parada à sua frente com as mãos nos bolsos do jaleco e um sorriso nos lábios. – Oi, . Quanto tempo, né?
piscou algumas vezes demorando a reconhecer a menina.
- Emily? – franziu a testa, sem acreditar. – Emily Simmons?
- Eu mesma. – a menina puxou para um abraço. – Ai meu Deus, quanto tempo!
- É, desde a sexta série. – disse , soltando o abraço. Emily pigarreou, percebendo porque a ex-amiga frisou a série em que deixaram de se falar.
- De qualquer maneira, eu só vim aqui te avisar que o seu namorado está bem. Ele só teve alguns ferimentos superficiais, num geral. A parte mais séria foi que ele bateu a cabeça na janela do ônibus, então ele pode ter uma pequena perda temporária de fatos mais recentes. Mas, em cerca de oito meses, a maior parte das lembranças deve voltar. Eu vou te acompanhar até o quarto dele, para vocês poderem se ver. – disse Emily, agora mais séria.
- Ônibus? Que ônibus? – perguntou sem entender.
- Você não sabe? Pensei que vocês fossem namorados. – disse Emily desconfiada.
- Não somos namorados. – revirou os olhos. – Que ônibus?
- Se vocês não são namorados, então eu não posso te acompanhar até o quarto dele. Apenas família pode visitar os pacientes. Mas isso explica porque ele estava no ônibus e você não.
- Somos praticamente família. – mentiu . – Que ônibus?
- Dois ônibus saídos do aeroporto da cidade ao lado colidiram a caminho de Portland. Por isso que isto aqui está um caos. – Emily apertou os olhos, sem se convencer. – Como você veio parar aqui, se você nem sabia que ele estava num ônibus?
- Intuição. – Emily cruzou os braços. – Somos grandes amigos. – sorriu sem graça. Sempre mentiu muito mal.
- Ok, eu não acredito em uma única palavra do que você diz. – disse Emily por fim. – Mas eu te devo uma. Ele está no quarto 106, se alguém te perguntar alguma coisa, diga que foi o Dell que te deixou entrar no quarto.
- Por que Dell?
- Não sou muito fã dele, ele é meio chato. – Emily deu de ombros. – Agora vá.
agradeceu a antiga amiga e saiu em busca do quarto 106.

Jessie Jones acordou lentamente sem saber onde estava. Vasculhou o quarto excessivamente branco por alguns segundos, chegando à conclusão de que estava num hospital – sua maior dica foi a agulha que levava soro a sua veia. Seus olhos pararam na porta, onde uma menina de cabelo castanho-escuro se apoiava na maçaneta.
Seus olhos ainda estavam um pouco embaçados, mas pode jurar ter reconhecido a garota. O cabelo comprido, levemente bagunçado. A calça jeans preta e a bota de montaria da mesma cor, o sweater creme largo demais para o tronco delicado que deixava um ombro a mostra. O sorriso tímido que não mostrava os dentes. Por um momento, pode jurar que era Elle. Sua Elle.
A menina se aproximou da cama hesitante.

- Oi. Eu sou a . – Jessie piscou mais algumas vezes. – .

Agora o rapaz conseguia ver com clareza o rosto da menina à sua frente. Apesar de parecida, aquela não era sua Elle. Ninguém jamais seria sua Elle. Nem mesmo Elle seria sua novamente.
Um silêncio mais do que desconfortável se instalou no quarto.

- Sinto muito, isso foi um erro. Eu vou te deixar sozinho agora. – girou nos calcanhares pronta para, finalmente, sair daquele hospital.
- Não vá. – sussurrou Jessie.
suspirou, retornando ao quarto 106. Sentou-se na poltrona vinho ao lado da cama.
- Obrigado. – Jessie sorriu, apesar dos olhos tristes – Eu sou Jessie Jones. Muitos me chamam de JJ. E não faço idéia de onde estou.
- Eles disseram que isso poderia acontecer. – Jessie demonstrou confusão. – Os médicos. Você está no Hospital Santa Tereza. O ônibus que te trazia do aeroporto bateu em outro ônibus. Você teve alguns cortes superficiais, mas bateu a cabeça e pode ter se esquecido de alguns eventos mais recentes por alguns meses. – Jessie assentiu lentamente, era muita informação para se receber em poucos segundos. – Você está em Portland. No Maine. – Jessie parecia alarmado. – Você ao menos sabe por que veio para cá?
- Eu sei que eu viria para cá para treinar os novos residentes do hospital. – disse Jessie. – Mas na minha última lembrança eu ainda estou na Califórnia.
- Isso explica porque você é tão bronzeado. – apontou para o braço de Jessie. – Mas, então, por que você veio pra cá treinar os residentes?
Jessie se sentou na cama.
- Bom, o diretor do hospital... Meu avô me ligou e disse que eles estavam tendo que aceitar residentes que estão no primeiro período da faculdade porque houve uma diminuição na equipe. O problema é que esses residentes não têm o menor preparo, então eu vim para ajudá-lo a treiná-los.
- Quem é Elle? – disse por impulso. Ao ver a expressão de profunda dor que tomou o rosto de Jessie.
- Ela foi minha noiva. Agora não é mais. – Jessie encarou um ponto fixo no chão.
- Sinto muito, Jessie. Eu falei sem pensar. – segurou a mão de Jessie.
- Você se parece muito com ela. – disse Jessie, passando a mão livre pelo cabelo dourado.
- Eu imaginei que parecesse... Você me chamou de Elle, quando estava indo para a sala de cirurgia, foi por isso que eu fiquei. Não pareceu certo te deixar sozinho.
- Novamente, obrigado. – Jessie apertou a mão de .
Um dos residentes entrou no quarto com um copo d’água e alguns comprimidos.
- Srta., infelizmente tenho que pedir que você se retire para que o Sr. Jones descanse.
assentiu com a cabeça. Pegou sua bolsa preta que estava no chão e se encaminhou em direção à porta.
- Ei, ? – disse Jessie antes que ela saísse. – Você volta, certo?
- Volto amanhã. – sorriu.
Enquanto saía do hospital – dessa vez sem interrupções – se sentiu leve. Como não se sentia há muito mais do que duas semanas.

entrou em casa depois de um longo dia de trabalho. Limpou suas mãos sujas de terra – havia passado o dia todo cavando novos túmulos e revirando a terra que cobria os antigos (para que novas flores fossem plantadas) – no macacão azul-acizentado de mangas compridas que usava. Era um uniforme horrível, e a frase “Olá! Sou ” bordada no bolso por Dolly era um tanto quanto afeminada, o que só o tornava mais esquisito. Não bastava ser o cara que largou a faculdade para ir morar no quarto de hóspedes de um velho maluco e trabalhar no cemitério local, ainda por cima seu uniforme tinha o bordado mais veado possível.

- Boa tarde, . – o rapaz virou seu olhar para a bancada da cozinha, onde fazia palavras cruzadas com um lápis. A menina passou o cabelo escuro de um ombro para o outro e levantou os óculos vermelhos de leitura que teimavam em deslizar pelo nariz. Puxou a gola do sweater grande demais, cobrindo o ombro exposto. Era linda, ele não podia negar. a observou durante longos segundos enquanto ela mastigava a ponta do lápis, concentrada numa palavra específica que não conseguia descobrir.
- Oi, . – disse após o que pareceu ser uma eternidade. – Como foi seu dia?
pousou os óculos na bancada e olhou nos olhos de , pensando se deveria contá-lo ou não sobre Jessie Jones.
- Foi... Hm, interessante. – sem saber exatamente o porquê, optou por não contar.
- Ah, é? – sentou na cadeira a sua frente. – Por quê?
recolocou os óculos, numa tentativa inútil de ganhar tempo para que pudesse inventar uma história qualquer para contá-lo, uma história que não envolvesse Jessie. Mas mesmo que inventasse, ele nunca acreditaria. sofria de honestidade patológica.
- Billy ligou. – a menina mudou de assunto, a única solução que encontrou. – Ele disse que já vem para casa fazer o jantar, disse que fará picanha de porco.
- Picanha de porco? Uau, nem sabia que isso existia. Achei que picanha fosse uma parte específica do boi, sei lá. – riu fraquinho. – Mas de qualquer forma, eu não vou jantar aqui.
- Não? – não conseguiu evitar que seu tom de voz transparecesse uma leve decepção.
- Não, eu vou para um bar com uns amigos meus. Aliás, – olhou o relógio de pulso, sofisticado demais para um jovem de 20 anos. - Tenho que tomar banho pra ir logo. – o rapaz se levantou para ir ao banheiro no final do corredor mal-iluminado. – Você devia ir. Ia ser, sabe, legal se você fosse.
- Tá, pode ser. – disse . sorriu e foi tomar seu banho.

percebeu que de uns tempos pra cá andava agindo sem pensar. Agindo impulsivamente, coisa que nunca fez. Percebeu também que não estava exatamente incomodada com isso, por mais que não se sentisse confortável. Sentia-se diferente, apenas diferente. E o medo que sentia era um medo bom, um medo comum, e não o medo paralisante que costumava sentir. Talvez estivesse crescendo, amadurecendo. Talvez estivesse mudando.
Voltou sua atenção para a pequena revista onde fazia palavras cruzadas, fixando sua atenção numa palavra em particular. Foi impossível não sorrir com a coincidência.
“Começar de novo; refazer depois de interrupção; começar a ser
Completou-a em voz alta, apreciando o calor que a nova palavra causava em seu coração.
- Recomeçar.

segurou a mão de para que não se separassem enquanto tentavam atravessar o mar de pessoas “alegres” do bar em que estavam. Depois de muito esforço, conseguiram se apoiar no balcão de madeira marrom com várias manchas circulares (provavelmente formadas por bases molhadas de copos de bebida). estava prestes a pedir uma cerveja para si – tinha apenas 17 anos e não podia beber, pelo menos essa foi a desculpa que deu para ele, a verdade era que ela não bebia por trauma do pai alcoólatra – quando ouviram um som agudo atrás deles.
- ! – disse uma Emily mais do que alegre, que se apoiava em um rapaz de cabelos s. Saiu correndo na direção de , abraçando-a fortemente. – Ai amiga, que saudades!
- Hm, oi Emily. – estava claramente desconfortável com aquela situação. Odiava intimidades instantâneas.
O rapaz e se cumprimentaram do modo típico de homens (aquele bate-bate nas costas, aperto de mão, semi-abraço... leia-se, aquilo que nenhuma mulher consegue fazer). Eram amigos, pelo o que pode perceber.
- Fala, meu nobre. – disse o novo garoto.
- Qual é maluco, tá aqui só com a Emily? – respondeu .
- Não cara, o Dell tá por aqui em algum lugar.
Emily revirou os olhos e apontou para a boca aberta com a língua para a fora, simulando uma ânsia de vômito diante da menção do nome de Dell. Ele devia ser mais do que apenas chato.
- Oi, sou o . – disse para .
- Eu sou . – a menina sorriu timidamente, desejando ter ficado em casa. Não tinha problemas em conhecer gente nova, só nunca tinha o que falar para eles.
- Johnzinho. – disse Emily com uma voz melosa, passando do ombro de , para o ombro de . – Você ainda me deve uma dança. – a menina aproximou o rosto do ouvido de , sussurrando: - Quem sabe essa noite você ganhe mais do que apenas uma dança.
riu seco e tomou um gole de sua cerveja recém-chegada. Puxou a loira pela cintura, levando-a para a pista de dança improvisada do bar de paredes verde-escuro.
olhou a seu redor, percebendo que o rapaz já havia desaparecido também – estava do outro lado do bar, conversando com uma mulher com um vestido branco apertadíssimo (e curtíssimo). Estava sozinha. Estava num bar imundo. Estava sozinha num bar. Ótimo.
Pegou seu celular para chamar um táxi quando sentiu dedos frios em seu ombro – que estava a mostrar, visto que o sweater teimava em cair. Dedos tão frios, que sentiu como se a pele tocada tivesse sido queimada pela frieza do toque.
Virou-se em busca do corpo que acompanhava os dedos, encontrando um rapaz alto, bastante forte, de cabelos curtos cor de caramelo. Seu sorriso trazia algo de sinistro e algo nele fez com um calafrio percorresse o corpo da menina.
- Oi, sou Dell. E se me permite dizer, uma menina linda como você não deveria estar sozinha num bar como esse. – olhou a seu redor, procurando uma desculpa para sai dali, quando o menino segurou seu queixo, fazendo a olhar em seus olhos. – Posso te acompanhar?
olhou para , que entrava no banheiro feminino acompanhado de Emily. Olhou novamente para os olhos verdes de Dell.
Ignorando a parte de seu cérebro que gritava “Perigo!” cada vez que olhava para tais olhos, assentiu com a cabeça, aceitando a companhia de Dell.

Cause I want to be seen
With a fresh pair of eyes
The single with tree
In a black hood of disguise
I want, I want to be seen
With a fresh pair of eyes



6 – Maybe This Time

abriu os olhos cansados com relutância. Sentia dores fortes por toda a extensão de seu corpo. Sua cabeça latejava tão intensamente que podia ouvir o sangue bombeando por suas veias. Seu braço esquerdo estava dolorido e dormente, a princípio não soube o porquê, mas ao olhar para seu lado entendeu o que acontecia. Os cachos loiros muito claros de Emily cobriam seu rosto, e suas costelas prensavam a veia da parte interna do cotovelo de .
O menino tentou remover seu braço de debaixo do corpo da loira, logo percebendo que seu esforço era inútil. Emily era estranhamente pesada, talvez ela malhasse demais.
tentou se acomodar para voltar a dormir, aconchegando seu rosto no denso cabelo loiro da garota. Mas seu ato foi rapidamente identificado como um erro: os cachos de Emily, por mais convidativos que parecessem, cheiravam a cigarro e hospital.
O cabelo de Emily era, de fato, uma metonímia para o resto de si: eram bonitos de se olhar, mas se você chegasse muito perto, se arrependeria. Como um quadro de Monet, de perto eram apenas borrões aleatórios, era necessário se afastar para apreciar.
Nesse momento, gostaria de estar apreciando a ilusão que Emily era de uma distância bem grande. Nem que tivesse que amputar seu braço, como aquele cara do “127 Horas” que prendeu o braço na pedra e tudo o mais.
começou a imitar o zumbido de um mosquito próximo ao ouvido de Emily, que ao se reposicionar na cama (tentando fugir do mosquito imaginário), elevou seu tronco por tempo o suficiente para que ele removesse seu braço.
se vestiu o mais rápido e silenciosamente que pode, saindo, em seguida, do apartamento bagunçado de Emily.

estava sentada no sofá com um café em mãos encarando para o seu próprio reflexo na tela de televisão desligada quando entrou em casa. Não fez menção de respondê-lo quando este murmurou um “Bom dia” desanimado e nem ao menos levantou seu olhar em sua direção. A menina apenas pegou sua bolsa no sofá, após longos minutos de um silêncio mais do que desconfortável, e saiu pela porta sem pronunciar uma única palavra.
passou a mão pelo cabelo, sacudindo-o, já era de se esperar que estivesse chateada com ele, afinal de contas, ele a convidou para ir ao bar ontem, e depois a abandonou sozinha pois estava com Emily. Hm, mais um ponto pro ? Só se for um ponto negativo.
O rapaz resolveu tomar um banho para aliviar a ressaca que sentia, dizendo para si mesmo que iria conversar com e pedir desculpas assim que ela chegasse a casa.

deu duas leves batidas na porta do quarto 106 do hospital Santa Tereza se deparando com uma cama vazia ainda por fazer. Girou nos calcanhares em busca de informações, puxando o primeiro enfermeiro que viu pelos ombros. A principio não reconheceu os cabelos cor de caramelo, mas ao encontrar com os olhos verdes sombrios que traziam o mesmo arrepio em sua espinha que trouxeram na noite passada percebeu com quem estava falando.

- Olá, . - Oi, Dell.

# Flashback ON

Estava sozinha. Estava num bar imundo. Estava sozinha num bar. Ótimo.
Pegou seu celular para chamar um taxi quando sentiu dedos frios em seu ombro – que estava a mostrar, visto que o sweater teimava em cair. Dedos tão frios, que sentiu como se a pele tocada tivesse sido queimada pela frieza do toque.
Virou-se em busca do corpo que acompanhava os dedos, encontrando um rapaz alto, bastante forte, de cabelos curtos cor de caramelo. Seu sorriso trazia algo de sinistro e algo nele fez com um calafrio percorresse o corpo da menina.

- Oi, sou Dell. E se me permite dizer, uma menina linda como você não deveria estar sozinha num bar como esse. – olhou ao seu redor, procurando uma desculpa para sai dali, quando o menino segurou seu queixo, fazendo a olhar em seus olhos. – Posso te acompanhar? olhou para , que entrava no banheiro feminino acompanhado de Emily. Olhou novamente para os olhos verdes de Dell.
Ignorando a parte de seu cérebro que gritava “Perigo!” cada vez que olhava para tais olhos, assentiu com a cabeça, aceitando a companhia de Dell.

# Flashback OFF


- Mas então, o que te traz ao hospital? – Dell passou a prancheta que segurava para debaixo do braço e sorriu para , mostrando todos os dentes perfeitamente brancos e retos.
- Hm, eu vim visitar um amigo meu que está aqui, o Jessie Jones... Aliás, foi até por isso que eu vim falar com você, ele não está no quarto. Você sabe se ele já teve alta? – , por sua vez, passou a bolsa de um ombro para o outro, um sinal de nervosismo (e agradeceu mentalmente por Dell não saber disso).
- Qual quarto? – disse Dell.
- O 106. – Dell olhou a sua prancheta, passando por uma ou duas páginas até parar em uma.
- Ah, o JJ. Ele ainda não teve alta, não. Mas já está podendo andar pelo hospital, foi provavelmente por isso que você não o encontrou. Se você quiser, você pode esperá-lo no quarto dele, aposto que ele já deve estar aparecendo por aí.
- Obrigada, Dell. – se forçou a sorrir mostrando todos os dentes, por mais que não se sentisse confortável o suficiente para isso.
- Ei, ... – Dell segurou o cotovelo de delicadamente, impedindo que a menina se afastasse. – Chegou em casa com segurança? Fiquei preocupado com você ontem à noite.

# Flashback ON

- Então, você vai beber o que? – disse Dell para uma muito sonolenta, que a principio não o ouviu. – ? – Dell abaixou a cabeça para encontrar os olhos de .
- Oh, desculpa, estava imersa em pensamentos. – respondeu-lhe , dando de ombros.

Dell a observou por alguns segundos, com uma expressão confusa no rosto e logo após caiu numa gargalhada sincera (um riso até contagiante, diferente do olhar sinistro). ficou o olhando com um sorriso bobo – aquele típico sorriso que se dá quando todos estão rindo a sua volta, e então você tem vontade de ir, mas não sabe exatamente o porquê de tanta risada.

- O que houve? Eu disse algo errado? – apontou para o próprio rosto. – Eu estou suja?
- Não! É só que eu estava tentando me lembrar quando foi a última vez que eu ouvi alguém dizer que estava “imersa em pensamentos”! Foi bem, hm, do fundo do baú né? – Dell tornou a rir enquanto sentia as bochechas queimarem de vergonha.

A menina abaixou a cabeça, encarando um ponto fixo no chão, e colocou o cabelo para trás da orelha, um de seus sinais de nervosismo.

- Mas foi bonitinho. – Dell colocou o indicador por baixo do queixo de , levantando seu rosto. – E em sua defesa, “fundo do baú” não foi muito atual também não. – A menina sorriu abertamente, e Dell lhe deu uma piscadela de lado. – Mas então, o que você vai beber?
- Café, pode ser? – Dell franziu as sobrancelhas. – Estou exausta, tive um dia cansativo.
- Se você quiser eu posso te levar pra casa. – Dell sorriu de lado e algo naquele sorriso não pareceu certo. Talvez fosse o medo de conhecer pessoas novas, talvez fosse a sensação estranha que Dell lhe trazia. Talvez fosse porque aquele fosse o sorriso errado, talvez fosse porque aquele não fosse o sorriso dela, talvez porque o sorriso dela estava no banheiro sorrindo para outra garota. Ou, simplesmente porque o sorriso de Dell nunca seria como o de . E porque o sorriso de nunca seria dela.
- Não, minha mãe me ensinou a nunca aceitar caronas de estranhos. Mas foi bom te conhecer, Dell. – desceu do banco onde estava sentada, quando sentiu aqueles dedos frios tocarem sua pele novamente.
- Aqui, o meu cartão. – pegou o cartão que dizia “Dell Cleave, MD”. – Me liga um dia desses, se você quiser, eu te levo pra tomar um café. – Dell se aproximou da menina e lhe deu um beijo na bochecha. – Boa noite, .

# Flashback OFF


- Sim, cheguei perfeitamente bem, obrigada pela preocupação. – deu meia volta e entrou rapidamente no quarto de Jessie, fechando a porta atrás de si.

desceu do carro estacionado em frente ao hospital da cidade e balançou a cabeça, reposicionando a franja que sempre caía nos olhos. Havia descoberto com Billy onde estava, aparentemente, a menina sempre contava para o velho jardineiro onde estaria ao longo do dia, como se ele fosse o responsável dela ou algo do gênero. Vai entender. De qualquer maneira, foi informação útil.
Agora, sempre que quisesse saber onde estava – caso ela estivesse evitando atender seus telefonemas para lhe contar ela mesma.
Ajeitou o casaco de moletom preto e pegou com cuidado o pequeno buquê de rosas brancas do banco de passageiro. Sua mãe sempre lhe dizia que rosas amarelas significavam seus devidos pêsames para a sua avó que está no hospital, pois quebrou o fêmur pela décima segunda vez, rosas cor-de-rosa desejavam um feliz dia das mães, rosas vermelhas delatavam o amor, mas as rosas brancas, “Ah, as rosas brancas que tanto recebo do seu pai”, dizia sua mãe com o seu característico brilho nos olhos, “Rosas brancas dizem que você sente muito por errar, e que você se esforçará melhor na próxima vez”.
, naquele dia cinzento, merecia rosas brancas.

Jessie entrou no seu pequeno quarto do hospital Santa Tereza, se deparando com a mesma menina que havia conhecido no dia anterior.

- Você voltou! – queria não ter parecido tão animado com seu retorno, mas não conseguiu. De alguma forma, pela primeira vez em muito tempo, não se sentia tão sozinho.
- Eu disse que voltaria. – deu de ombros, imediatamente percebendo a expressão alegre de Jessie murchar. – E eu queria voltar!

Os dois sorriram um para o outro enquanto se posicionavam em seus devidos lugares, Jessie em sua cama e na cadeira ao lado.

- Então, como você está? – disse . Por mais que sentisse que uma amizade quase que instantânea havia surgido entre ela e Jessie, ainda não sabia muito bem o que falar para ele. Nunca fora boa de conversa, nem mesmo com a própria mãe.
- Melhor do que ontem, pior do que amanhã. – Jessie sorriu revelando dentes perfeitos, daqueles retos, do mesmo tamanho e tão brancos que iluminam os ambientes em comerciais de pasta de dentes – E você?
- Já estive melhor. – olhou para baixo, fingindo analisar as unhas. – Sabe, eu demoro pra confiar nas pessoas, mas eu tava começando a confiar nessa pessoa, e aí ela me decepcionou. Mas eu também acho que eu meu iludi, eu to numa fase difícil da minha vida, bom, eu tenho estado numa fase difícil pelos últimos 17 anos, mas isso não vem ao caso... E também, tem uma nova pessoa, que eu não sei se posso confiar ou não, mas eu mal a conheço, e sei lá, é tudo tão confuso, entende?

Jessie piscou os olhos diversas vezes, demonstrando confusão.

- Não, sinceramente não. – riu sem vontade. – Mas talvez você devesse tentar conhecer essa pessoa nova, e então, decidir se deve confiar nela ou não. E em relação à outra pessoa, acho que vocês deviam conversar. Vocês se conhecem há pouco tempo, pelo o que eu pude entender, e não se deve colocar tanta expectativa num relacionamento tão curto.

E então, entendeu. Ela conhecia há tão pouco tempo! Talvez devesse conhecê-lo melhor antes de tentar sentir qualquer coisa por ele. E talvez, só talvez, estivesse com ciúmes.

- Você tá certo, Jessie. – levantou e pegou sua bolsa no chão. – Desculpa, mas eu tenho que ir fazer uma coisa, brigada tá? – A menina deu um beijo carinho na testa do loiro. – Até amanhã.
- Até. – disse Jessie depois que ela já tinha saído do quarto.

andava de um lado para o outro no hall de entrada, esperando pelo momento em que passasse por lá. Não sabia por que estava tão ansioso e muito menos por que o perdão de significava tanto para ele. Só sabia que queria logo conversar com ela, para que pudessem se resolver e depois voltar para casa e talvez assistir Phineas & Ferb ( não achava graça no humor inteligente de Perry, o Ornitorrinco, mas sempre assistia o que queria assistir).

- Advinha quem é! – disse uma pessoa por trás de , que havia tampado seus olhos com as mãos. respirou fundo, sentindo cheiro de cigarro. Desvencilhou-se das mãos de Emily e virou em sua direção, determinado a mandá-la para qualquer lugar que fosse, mas não conseguiu proferir uma única palavra. – Ai meu Deus, que lindas! São para mim? – Emily pegou o buquê de flores das mãos de . – Eu estava meio chateada com você por ter me largado hoje de manhã, mas você claramente se arrependeu! - Emily passou o braço livre pelo pescoço de , o puxando para um beijo.
- ? – o rapaz empurrou a loira para longe assim que reconheceu a voz doce que lhe chamava.
- ! Ei, olha, isso não é o que parece! – o rapaz deu um passo na direção da Sara, que em retorno, deu um passo para trás.
- Ei, , olha o que o me trouxe! – Emily esfregou o buquê de rosas na cara da menina de cabelos castanhos. Estava determinada a não perder para uma trouxa qualquer. Não agora que poderia tê-lo para si.
- Uau, isso é ótimo, Em. – disse no tom mais educado que conseguiu. – Eu tenho que ir, tchau.

A menina andou em passos largos e rápidos em direção à porta, parando apenas quando segurou seu antebraço.

- , espera, eu preciso te explicar... Isso não é o que parece!
- , para. Isso, - olhou na direção de Emily – é exatamente o que parece. – a menina, dessa vez, correu para sair do hospital.

foi até Emily, com uma expressão enfurecida nos olhos. Mais uma vez ela havia conseguido estragar tudo. Pegou o buquê de suas mãos com violência e jogou na lata de lixo mais próxima.
- As flores não eram pra você, eram pra ela. Meninas como você, Emily, não merecem flores.
saiu do hospital, deixando para trás uma Emily com olhos marejados.

parou de correr quando chegou à praia que ficava em frente à praça da cidade e apoiou as mãos nos joelhos, buscando fôlego. Cada vez que inspirava o ar gelado, sentia os pulmões arderem, mas esse era o último de seus problemas. Estava, principalmente, cansada de ser sempre a única que sofre e a única que nunca se dá bem ou tem a chance de ser feliz. Estava cansada de nunca ser aquele que era escolhida, de sempre ser a última em tudo.
Pegou o pedaço de papel retangular amassado de dentro de sua bolsa e o pegou o celular no bolso da calça. Discou os números rapidamente com as mãos trêmulas.
- Dell? Oi, Dell, é a . – a menina fechou os olhos e suspirou. – Eu quero, eu quero que você me leve pra tomar aquele café que você disse.

Everybody loves a winner
So nobody loved me
Lady Peaceful, Lady Happy
That's what I long to be
All of the odds are, they're in my favor
Something's bound to begin
It's gonna happen, happen sometime
Maybe this time I'll win


Capítulo betado por Isabela H.




7 – Whoever She Is

Por um momento, sentiu-se tola. Tola por sentir algo por , tola por querer sentir algo por Dell, tola por ter ligado para o celular de Dell ao invés de voltar ao hospital. Sabia que ele estava no plantão e que não atenderia. Por consequência, sentiu-se tola por estar conversando – de maneira um tanto exigente e nada educada – com uma caixa postal.

- Bom, é isso Dell. Me liga, hm, tchau. Ah, é a . Acho que eu já disse isso... Bom, tchau!

apertou o botão vermelho em seu pequeno celular preto terminando a ligação. Fechou os dedos ao redor de seu Motorola V3 mais do que antigo (foi o primeiro celular que ganhou, em seu aniversário de 12 anos, e nunca foi trocado) e deu leves batidas na testa com a extremidade superior do aparelho. Sentia-se frustrada, queria que a ligação para Dell representa-se a nova porção de sua vida, a porção em que ela venceria os obstáculos antigos e que novos obstáculos não se formariam, mas depois de uma ligação daquelas, não acreditava que ele fosse ligar.
Sentiu-se tola novamente. Tola por substituir os problemas concretos de sua vida por “bobagens de garotos”, como sua mãe costumava chamar... Sentiu-se tola porque já não pensava tanto em sua mãe que falecera a pouco, por não pensar no pai que abandonou ou na casa em que cresceu, a casa que agora nunca mais poderia voltar.
E então, sem mais nem menos, entendeu. Entendeu porque estava tão brava com . Não eram ciúmes, ela havia apenas pegado toda a dor que sentia pela morte da mãe e a transformou em sentimentos por . Era mais fácil não pensar em sua mãe e ocupar sua mente na imagem de sorrindo. Era fácil até demais... sentiu-se aliviada por não estar com ciúmes. Ciúmes significariam que sentia algo por , que obviamente não sentia nada por ela, e isso só lhe traria mais sofrimento e confusão. Estava cansada disso tudo. Queria começar tudo de novo e, para isso, precisava resolver as coisas com .
fez sinal para que um táxi preto a visse.

entrou em sua casa carregando o pesado pacote que havia buscado na loja de penhores no caminho. Enquanto trancava a porta atrás de si, percebeu, pelo canto do olho, o topo da cabeça de . Estava sentada no sofá. estava pronto para sair de casa novamente – estava cansado de ser ignorado, nem havia feito algo tão ruim assim – quando virou o rosto em sua direção. A princípio, não viu o imenso sorriso que o rosto da menina abrigava. A princípio apenas viu uma imensidão de fios de cabelo castanho-escuro indo para todos os lados. Mas, quando o sorriso por fim apareceu, sentiu os batimentos cardíacos acelerarem. Era uma mistura de alivio e... saudade? De fato, não sabia por que o coração batia tão rápido. O que sabia era que diante daquele sorriso, ele não teve nenhuma outra opção senão sorrir também.

- Que bom que você chegou! – disse . A menina levantou-se e deu um abraço sem jeito em . Sem jeito porque ainda era muito tímida para sair abraçando as pessoas por ai. Sem jeito porque carregava um pacote enorme nas mãos. Sem jeito porque, ao abraçar , o osso do quadril de colidiu com o conteúdo do pacote. Sem jeito porque doeu para caramba.
- , não que eu não esteja feliz que você voltou a falar comigo, mas... O que eu perdi? Até umas horas atrás você não queria nem olhar para mim. – apoiou a mão livre no ombro delicado da menina e a afastou com gentileza.
- Eu sei, é que, eu sinto muito, . De verdade. Eu exagerei. Eu descontei em você tudo o que estava acontecendo na minha vida... Me desculpa, por favor. Sabe, a minha mãe morreu, e o meu pai é super violento, e ai eu fugi de casa, e agora eu moro com vocês. E o pior de tudo, cada dia que eu passo aqui eu tenho a sensação de que a minha vida toda algo era escondido de mim, como se eu tivesse vivido uma mentira, entende? A minha vida é uma confusão, e ao invés de me revoltar com todas essas coisas, eu resolvi me revoltar com você. E isso foi injusto, então, por favor, me perdoa. Porque você é o único amigo que eu já tive. E eu realmente preciso de um amigo, . – piscou dezenas de vezes para esconder as lágrimas que começavam a se formar.
- Eu te perdôo, óbvio. Eu errei também, eu te larguei sozinha naquele bar, eu fui egoísta. E... – pigarreou. – Eu sinto muito pela sua mãe. Eu tinha noção de que você tinha uma família maluca, porque ninguém foge de casa por nada, né. Mas eu não tinha noção disso. – colocou o pacote no chão e passou o braço pelos ombros de . – Até que eu senti sua falta, baixinha. – riu fraquinho. – Ah, agora tudo faz sentido!
- Tudo o que? – disse , unindo as sobrancelhas.
- Sabe, porque você tava no cemitério naquele dia que eu te encontrei.
- É, eu estava no enterro da minha mãe. Mas, mesmo que você não me conhecesse, era óbvio que eu tava num enterro, né ...
- Ué, sei lá, às vezes você é alguma fanática por mortos, que entra em cemitérios e se joga nos túmulos que ainda não foram fechados. É muito possível.
- Claro, acontece sempre, é muito comum. – disse ironicamente. deu de ombros. – Na verdade, nem foi um enterro direito, foi só o dia que ela foi cremada. Aliás... – contou os dias na cabeça. – Era pra eu ter buscado a urna dela ontem. Mas eu não sei se eu consigo.
- Então, eu vou com você.
- Obrigada, .

estava sentada no banco de carona do carro de , esperando-o voltar. Chovia muito e o rapaz não quis que ela se molhasse, por isso disse que iria buscar a urna contendo as cinzas de sua mãe e depois retornaria ao carro. Sentia-se inquieta, uma sensação de que nada era o que é, de que algo estava errado. Caso não fosse quem é, se espantaria de estar se sentindo assim, sem mais nem menos, sem motivos.
Mas sendo quem era, essa sensação era normal, familiar. Era como um velho amigo. Mas não o tipo de velho amigo que freqüentou a sua escola, mas depois da formatura perdeu-se o contato, restando apenas um ocasional “Oi” ou um “Olá” sem graça ao se encontrarem no supermercado... Era o tipo de velho amigo que esteve contigo a sua vida inteira, que morou com você, o seu futuro vizinho, aquele que freqüenta suas festas de natal.
Aquele velho amigo com quem você convive diariamente.
Sim, era desconfiada. De tudo, de todos. Sempre fora assim. Segundo sua mãe, já era assim antes de nascer. A já falecida Elizabeth costumava dizer que cada vez que se aproximava de alguma outra pessoa, durante a gravidez, o pequeno bebê dentro de si chutava sua barriga incessantemente.
Mas tinha seus motivos para ser tão desconfiada. Motivos que só ela sabia.
acordou do transe que havia entrado devido a seus pensamentos num sobressalto, com leves batidas na janela onde sua cabeça estava apoiada. Olhou para a direção do barulho, buscando sua origem. Não viu nada. Chegou à conclusão de que deveriam ter sido as gotas de chuva. Convenceu-se de foram as gotas de chuva.
Decidiu ficar mais alerta, sentia-se mais segura dessa forma.

foi escoltado para fora da pequena capela pelo coroinha que estava encarregado de cuidar do local naquele dia. nunca entendeu porque todo dia um coroinha era eleito para fazer a faxina da capela – por menor que fosse – e cuidar dos assuntos que normalmente eram encaminhados ao padre. Se os coroinhas podiam fazer o que o padre fazia, pensou , para que precisavam de um padre então? Por que não deixar que o Coroinha do Dia fizesse as cerimônias? pensou em vocalizar sua dúvida ao jovem rapaz negro de pele ossuda, mas chegou à conclusão de que apenas receberia alguma resposta padrão, no estilo “Deus escreve certo por linhas tortas” ou algo do gênero.
Talvez essa fosse a lição número um na escola de padres: “Decorarás todos os ditados que mencionem o Clero, o Pai, o Filho e/ou o Espírito Santo.”
Claramente, a família nunca fora muito religiosa.
- Eu sinto muito, , mas – dizia o Coroinha do Dia. – como eu já lhe informei, nós só podemos entregar as cinzas para um parente da pessoa cremada. Se você puder trazer a Srta. aqui, eu ficarei mais do que satisfeito em ajudá-la.
- Ok, eu vou buscá-la. – deu dois passos em direção ao carro e então virou-se de novo para o Coroinha, com um sorriso sarcástico nos lábios. – Por que você nunca me chama de Sr. ?
O Coroinha pegou o rodo que estava apoiado na parede e começou a tirar o excesso de água da entrada da capela.
- Vamos fazer assim, eu lhe chamo de Sr. se você me disser o meu nome.
- Touché, meu caro, touché.
- Cuidado para não se molhar, .

assentiu com a cabeça, enquanto passava o capuz de seu casaco de moletom preto pela cabeça. Esfregou as mãos uma na outra, numa tentativa de se aquecer, e então correu até o carro. Levantou o pulso para bater na janela, chamando a atenção de , e então apontou para o pino, sinalizando que a menina deveria destrancar o carro para que ele pudesse entrar. A menina apertou um dos botões do painel e quase que imediatamente, todos os pinos do carro se elevaram. entrou no carro, retirou o capuz, e passou a mão pelo cabelo, tirando os fios encharcados de seus olhos.

- Eu vou ter que ir lá, né? – disse , num tom quase melancólico.
- É, eles não podem deixar que alguém que não é parente pegue uma urna e tal. Como se eu fosse algum tipo de maníaco que rouba as cinzas dos outros por ai.
- Eu já imaginava. – suspirou, já abrindo a porta a seu lado. Saiu do carro rapidamente e começou a andar em passos largos na chuva em direção a capela.
- , espera, por que você tá indo tão rápido? – gritou , ainda dentro do carro.
- Porque eu quero resolver isso logo!
xingou baixinho e saiu do carro, seguindo a garota. andava o mais rápido que suas pernas e o chão molhado permitiam, com os braços abraçando o próprio corpo, o cabelo já completamente encharcado. Entrou na capela e então parou, esperando por , que logo a alcançou.
- Para uma pessoa com pernas tão compridas, você é surpreendentemente lerdo, . – prendeu o cabelo molhado num coque frouxo. – Então, David, onde ficam as urnas? – o menino apontou para uma porta de madeira pintada de vermelho, com duas maçanetas, uma na extremidade esquerda, e outra na direita. – Ok, eu vou lá buscar a minha mãe.
- Sabe, eu ia falar David. Naquela hora. Sabe? É. Eu ia. – disse depois que já havia atravessado a estranha porta vermelha.
- Claro que ia, .
- Engraçada essa porta, né? – David olhou com uma expressão de confusão. – Ela abre ao contrário.
- O quê?! – David jogou o rodo no chão e correu em direção à porta de duas maçanetas.

Antes de entrar na local das urnas, deu uma última olhada em , sem que ele percebesse. Não soube exatamente porque fez isso, ou porque essa última olhadela lhe deu um pouco mais de segurança, de conforto. Não entendeu porque não conseguiu impedir seu cérebro de pensar “Lindo, absolutamente lindo”.
Sacudiu a cabeça levemente, numa tentativa falha de afastar tais pensamentos.
A mente é uma coisa engraçada, né? É como se os pensamentos fossem viciantes. Uma vez que você pensa alguma coisa, é impossível parar de pensar naquilo. Principalmente quando se quer parar de pensar no que se pensou.
Quando era pequena tinha o costume de cantar mentalmente, como que para bloquear os pensamentos indesejáveis. Muitas vezes se via frustrada com tal ato, era como conversar com a televisão ligada: por mais que você ouça todas as vozes presentes na conversa, você ainda ouve as vozes na televisão.
Na verdade, pensamentos são como música de fundo.
voltou sua atenção para a estranha porta a sua frente. Era vermelha, com uma única faixa larga marrom escura no meio, como se fosse um ponto que fora esquecido de ser pintado. Em cada extremidade da faixa havia uma maçaneta. O primeiro instinto de foi tentar a maçaneta esquerda. As portas comuns eram abertas pela esquerda. virou a maçaneta para todos os possíveis e imagináveis, mas nada aconteceu. Decidiu então tentar a maçaneta direita, por mais que isso lhe parecesse errado.
então percebeu que a porta não tinha dobradiças.
Nas portas comuns as dobradiças ficam na direita.
, então, virou a maçaneta direita. Dessa vez, a porta se abriu. “Talvez as dobradiças ficassem na esquerda”, pensou consigo mesma, “Talvez eu tenha me confundido”.
sempre fora muito perceptiva.
A menina colocou um pé dentro do pequeno cômodo, sentindo uma estranha brisa passando por suas orelhas descobertas. Era como se a brisa sussurrasse seu nome, de maneira muito discreta, num sussurro muito baixo. ficou paralisada. Não conseguia entrar no cômodo, mas ao mesmo tempo, suas pernas não conseguiam se mover para fora do local.
- Para com essa bobagem, . – disse uma voz do outro lado da porta.
puxou a respiração e a soltou lentamente, tentando se acalmar. Estava imaginando coisas, obviamente.
Obviamente?
Obviamente.
Sentiu a porta fechando lentamente atrás de si, a empurrando para dentro do cômodo.
nunca foi muito imaginativa. Nunca teve a criatividade para isso.
Num piscar de olhos estava dentro do pequeno quarto, procurando por um interruptor ou qualquer coisa que iluminasse o ambiente. Odiava o escuro.
O tempo também é algo engraçado. sabia que pouquíssimos minutos haviam se passado desde que deixara e David para ir buscar a urna de sua mãe. Mesmo assim, sentia-se como se horas tivessem sido gastas na ação.
Talvez essa fosse a intenção.
tateou as paredes, desejava desesperadamente acender as luzes. Podia sentir o coração pulsando por suas veias, conseguia ouvi-lo dentro de sua cabeça. Finalmente sentiu o que parecia ser um interruptor. Posicionou o seu dedo, visando acender as luzes, mas então sentiu uma mão sobre a sua, uma mão muito fria. Um toque ao mesmo tempo gentil e agressivo. A mão obviamente não queria que ela acendesse a luz.
removeu sua mão do interruptor, sentiu a pele que entrou em contato com a segunda mão queimar. Correu, às cegas, para a outra extremidade do cômodo.
- Quem está ai?! – disse com a voz alarmada. – Eu vou chamar a policia! – dessa vez a voz falhou. Podia sentir a pessoa que estava ali dentro chegando cada vez mais perto dela. Pegou o celular dentro do bolso, tentando iluminar o máximo que pudesse. Apontou para frente, e não viu nada. Apontou para os lados, e não viu nada.
deu um passo para frente. Continuou apontando o celular, mas não via nada.
Estava no que parecia ser o meio do cômodo quando sentiu uma respiração quente, quase molhada, em sua nuca. Sentiu a respiração farejando-a. O que quer que fosse estava com fome.
juntou toda a coragem que tinha em seu corpo para virar para trás. Não soube quando havia começado a chorar, mas podia sentir as grossas lágrimas passando por seu queixo. Foi necessário um esforço desumano para abrir os olhos quando finalmente virou para trás.
E então, o viu. Foi por um milésimo de segundo, mas a fraca luz azulada da tela de seu celular iluminou a face de um homem com uma máscara preta de borracha, com pequenos orifícios onde ficavam os olhos.
O susto foi tão forte que derrubou o celular, sua única fonte de iluminação no chão.
- Merda. – sussurrou para si.
Sentiu uma mão forte agarrar seu pulso. Pode sentir o local encostado pegando fogo. Puxou o pulso para si e correu para a porta. Tentou girar a maçaneta, mas logo percebeu que ela não estava lá. Que estava trancada lá dentro.
Socou a porta com a lateral dos punhos, socava com tanta força que podia sentir os roxos formando na pele, podia sentir sangue saindo das áreas esfoladas.
Gritou até ficar sem voz. Socou até não sentir mais as mãos.
Encostou-se à parede e prendeu a respiração. Na proximidade de uma possível morte, os seres humanos muitas vezes fazem coisas estúpidas. prendeu a respiração para tentar enganar quem quer que fosse de que não estava mais lá dentro.
Burrice.
- ? – disse uma voz infantil. – Não chore... Vai dar tudo certo. No começo dói um pouco, mas depois passa. Ai você pode brincar com a gente, o tempo todo.
A pequena criança segurou a mão de . Seu toque fez com que a palma da mão da menina queimasse. tentou puxar sua mão, mas a pequena criança cravou suas unhas, não permitindo uma separação. tremeu de dor.
Começou a sentir, então, varias mãos a puxando, várias mãos infantis, todas a queimando com seu simples toque. Todas a arranhando cada vez que tentava se afastar. Todas as pequenas vozes gritando seu nome. , , , , , , , , , , ...
então gritou de agonia, já não conseguindo reprimir a dor que sentia.
Por um momento, todos os toques cessaram, todas as vozes se calaram.
A calmaria antes da tempestade.
sentiu duas mãos fortes, as mãos do homem, puxando seus tornozelos, fazendo-a cair sentada no chão. As mãos começaram a arrastá-la cada vez mais para longe da porta. podia sentir as unhas arranhando as tábuas de madeira do chão enquanto tentava, inutilmente, se desvincular daquilo que a puxava. O quer que fosse não era humano.
O que quer fosse a puxou para um abismo.
- O abismo é simplesmente um dos orifícios desse poço de escuridão que está abaixo de nós. – mais um puxão. – Por toda parte.
sentiu-se caindo. Tentou gritar, mas a voz não saia.
Em algum momento indefinido entre o abismo e o final da queda, perdeu a consciência.


A principio, não entendeu o que alarmara David. De fato, ficou um tanto chocado quando viu David largar o rodo e sair correndo. Foi apenas quando o rodo colidiu com o chão que raciocinou. O barulho causado pelo impacto da madeira no chão de mármore acordou de seu transe, fazendo com que o rapaz procurasse o coroinha com o olhar. não gostou nada do que viu. Não gostou porque entendeu.
Havia algo de errado com .
Os minutos que se passaram foram uma mistura de pânico e adrenalina. podia se sentir correndo, mas era como uma daquelas experiências extracorpóreas que sempre ouvira falar, mas nunca acreditou que existiam... Era como se estivesse fora de seu próprio corpo, assistindo a cena de longe. Um espectador de suas próprias ações.
Parece clichê, mas foi como se sentiu.
De fato, a maiorias dos sentimentos são bastante clichê.
ainda não sabia, mas um dia, descreveria tudo que aconteceu apenas como “Borrões”.
se lançou em frente à porta que David tentava abrir, arrombando-a. A porta vermelha caiu fazendo um baque surdo, mas, infelizmente, a porta caiu diretamente no chão. E não tinha ninguém dentro daquele quartinho.
- Oh, não. – disse David, levantando uma mão até a boca entreaberta. – Nós chegamos tarde demais.
- O que?! – gritou , entrando no espaço mal-iluminado. – ?! !

abriu os olhos, demorando algum tempo para se adaptar a escuridão.
Demorando um tempo maior ainda para entender onde estava.
Tinha a nítida sensação de que havia tido um daqueles sonhos em que se está caindo, caindo, caindo e então... Ao acordar, sente-se como se tivesse caído na cama. Tudo indica que realmente aconteceu, mas na verdade, foi apenas um sonho.
Mas no caso de , realmente aconteceu. Podia sentir a pele ardendo devido às inúmeras queimaduras, os joelhos esfolados por ter sido arrastada, os pulsos doloridos por ter socado a porta com tanta intensidade, algumas unhas quebraram ao arranhar o chão e a palma da mão sangrava através de quatro marcas em formato de meia-lua.
Estava deitada, com o rosto virado para uma parede. Não conseguia respirar, sentia um enorme peso no pulmão, um peso físico e psicológico. Já não tinha forças para lutar, para se levantar, para retirar o que impedia sua respiração. Achou melhor aceitar que estava prestes a morrer.
Começou a ouvir atrás de si barulhos de pancada, que ficavam cada vez mais altos.
Algumas pancadas depois, um feixe de luz clareou a escuridão em que estava.
- ?! – disse uma voz distante, uma voz conhecida. – ! – entrou no pequeno cômodo, achando a menina caída no chão, embaixo de dezenas de caixas. Uma por uma, eles a retirou, esforçando-se para não a ferir ainda mais. Quando finalmente tirou todas, percebeu que estava chorando. – Não precisa ter medo mais, eu estou aqui. – segurou a mão de , e depois afagou sua testa com carinho. – Eu vou estar sempre aqui.
- Eu estou chorando porque você está aqui. – disse , se esforçando para formar um sorriso com os lábios.


Billy Ray estava sentado numa das confortáveis cadeiras de sua cozinha, tomando uma xícara fumegante de chá. Era uma tradição que havia adquirido com os anos, apesar de não ser um homem de bebidas “delicadas”, gostava de tomar chá de hortelã após um dia cansativo de trabalho. De uns tempos para cá, suas tardes de chá estavam se tornando mais freqüentes. Adorava ser jardineiro, e muitas vezes percebia que as famílias que perderam alguém se sentiam mais reconfortadas quando viam os túmulos arrumados, como se aquela pessoa não tivesse sido esquecida. E era bom no que fazia, tinha o carinho e a paciência para colocar a flor certa no túmulo certo. Mas talvez estivesse ficando muito velho para tentar embelezar a morte.
Estavas prestes a tomar o último gole de sua xícara – pequena demais para ele, mas fora Dolly quem escolhera – quando entrou na casa, com em seu colo.
- Déjà vu. – disse Billy Ray.
- Pois é. – disse sem sorrir.
deitou a menina cuidadosamente no sofá verde-musgo. Ela parecia tão... indefesa. Como no primeiro dia em que a encontrou, caída num túmulo aberto.
- O que houve com ela? – disse Billy ainda na bancada. Ultimamente Billy havia se afastado de . O que era estranho, sempre teve a impressão de que Billy gostava tanto dela...
- Não sei ao certo... Acho que algumas caixas caíram em cima dela, quando ela foi buscar a urna da mãe lá na capela. Aliás, você sabia que a mãe dela tinha morrido? Acho que ela nunca comentou com a gente... Mas enfim, acho que tinha algum tipo de ácido em uma das caixas, porque ela tá com umas queimaduras estranhas nos braços.
- Elizabeth morreu? – disse Billy simplesmente. E então levantou, pegou seu casaco e saiu de casa.

deu de ombros. Tinha maiores preocupações que excediam as loucuras de Billy Ray. Cuidadosamente, retirou os tênis de e a cobriu com uma coberta que estava dobrada ao lado do sofá – a que ele vinha utilizando nas noites em que dormia no sofá.
Tinha algo estranho em . Mais estranho do que a onda de azar que seguia constantemente. Era como se ela fizesse com que a quisesse proteger o tempo todo e para sempre. Como se ele pudesse ser menos egoísta perto dela. não era e nem nunca foi romântico, mas do que muitas pessoas, ele sabia o quanto o amor doía. E não era como se amasse ... Mas algo nela o deixava extremamente... Encantado? Interessado? Preocupado? Todas as afirmativas? Não sabia. Não conseguia explicar. Tudo que sabia era que, de agora em diante, não precisaria se preocupar com nada. Pelo menos não enquanto estivesse com ele ao seu lado.
Ele cuidaria dela.

# FLASHBACK ON

afrouxou a gravata listrada de azul-marinho e vinho do uniforme de sua escola, a Chilton. Sempre achou aquele uniforme o mais babaca possível: camisa social branca, calça social cinza, blazer azul marinho com o nome da escola bordado em vinho e a maldita gravata, que parecia ficar mais apertada com o passar dos anos. Os sapatos deveriam ser mocassins marrom-escuro, mas ai já era demais para o menino, usava seu All-Star preto e não estava nem ai se acabava na detenção todo o recreio por causa disso. Todo mundo que era alguém ficava na detenção de qualquer forma: as meninas populares por usarem saias muito curtas, os meninos populares por baterem nos nerds, as piranhas e os galinhas por se pegarem dentro das apertadas cabines dos banheiros da escola, as líderes de torcida por darem em cima dos professores, os músicos por tocarem música pela escola (a Chilton tinha uma regra muito clara, que prevalecia sobre as outras: nada, eu digo absolutamente NADA, de música nos pátios da escola. Era uma distração), os traficantes de drogas por, bom, por trabalharem, obviamente, e porque... Porque participava de quase todas as categorias: era geralmente ele que era encontrado com as piranhas dentro dos banheiros, sempre usava seu tênis, o que era uma forte transgressão das regras de uniforme da escola, estava sempre com o seu violão, mantinha ótimas relações comerciais com os traficantes e sempre tentava jogar seu charme na professora substituta de espanhol (“Gostosa para caralho, cara”).
Só não batia nos nerds porque era muito sociável e amigo de alguns.
E também porque havia desenvolvido um forte sistema de colas com seu amigo Jeremy – o rei dos nerds – ao longo dos anos.
A única coisa que mantinha de ser expulso era que, apesar de colar freqüentemente nos testes de literatura, ele era um aluno exemplar. E não fazia mal o fato de seus pais doarem grandes quantidades de dinheiro (que iam para a biblioteca da escola, a quadra, o bolso do diretor...) todos os anos.
Então, de modo geral, é fácil perceber que tinha a vida que todos os adolescentes de sua idade queriam. Tinha toneladas de amigos, ficava com todas as meninas que quisesse e tinha seu futuro traçado: havia conseguido entrar para a Universidade de Columbia, em Nova York. Iria fazer direito e, com sorte (e com os contatos do pai), conseguiria um emprego na área de direito da internet. E se tornaria o advogado de algum cara que seria o próximo Steve Jobs e estaria com a vida ganha.
E, se em algum momento em sua vida quisesse ter uma família, compraria um cachorro porque odiava crianças.
Sim, tinha a vida ganha. Por enquanto... Mas isso é outra história.
entrou na sala de detenção, se deparando com Leslie Abbot, a tal professora substituta. Era sempre ela quem supervisionava as detenções. Bônus extra por usar tênis na escola. A mulher loira, na casa dos 30 e poucos anos (muito, muito, mas muito enxuta, por sinal), retirou seu óculos preto de armação de metal e olhou para , com um olhar que só poderia ser descrito como faminto.
- , você sabia que de 180 dias letivos, você passou 149 na detenção? Se tirarmos os cinco dias que faltam para acabar o ano, a semana que você ficou doente e os dias em que você matou aula, você passou todos os seus recreios na detenção.
- Já passou pela sua cabeça que eu talvez faça tudo de propósito só para passar meus recreios na sua companhia? – lhe deu seu melhor olhar de ainda-te-pego.
À medida que o rapaz se dirigia para uma carteira próxima a seus amigos – os meninos batiam palmas de admiração enquanto as meninas ficaram literalmente mais esverdeadas de inveja – a Sra. Abbot tentou manter a face séria, mas os cantos de seus lábios teimavam em formar um sorriso.
O olhar e a atenção de rapidamente se desviaram de Emily e Alison – duas líderes de torcida do segundo ano – quando uma menina do Ensino Fundamental (sabia disso, pois o blazer de seu uniforme era vinho com o bordado em azul marinho) entrou na sala. Sua pele era muito branca, a boca e as bochechas estavam avermelhadas devido ao frio e pela franja reta era possível ver que os olhos eram de um castanho tão escuro quanto seus cabelos. Era simples, não usava quilos de maquiagem como as outras garotas, o cabelo parecia bagunçado, como se não fosse penteado há meses e as unhas não estavam pintadas, apesar de serem compridas. Era linda, absolutamente linda. E teve a impressão de que já a conhecia... Ou de que havia conhecido alguém muito parecido com ela, há muito tempo atrás...
- É uma pena que a gente vai se formar essa sexta, cara. – disse para Dell, o quarterback do time de futebol americano da escola.
- Ué, por que, cara?
- Porque essa oitava série tá muito interessante. – apontou com a cabeça para a menina que havia se sentado na carteira ao lado da sua, não percebendo o olhar de malicia que Dell lançava para a mesma.
- Ai, pelamordi, né gente. – disse Alison, bufando. – Vocês tão de olho na Menina Fantasma? Ela é uma pirralha qualquer da oitava série que nem se esforça para aparecer apresentável na escola!
- Aposto que você não ficaria tão bem quanto ela fica sem maquiagem. Aposto que você não ficaria nem um terço parecida com ela... – disse , em tom de deboche.
- Ela não é tão ruim assim... – disse Emily enquanto lixava as unhas. – Nós já fomos “amiguinhas”. – Emily fez aspas no ar ao falar essa palavra – Há uns dois anos atrás... A gente voltava da escola no mesmo ônibus e tudo o mais. Ela era boazinha.
- Ai meu deus, Emily, você é tão puxa-saco. – Alison revirou os olhos. – Essa garota me irrita, dai-me paciência, Buddha.
A menina da oitava série prendeu o cabelo num coque frouxo e colocou o fone de ouvido branco de seu iPod. esticou o pescoço para ver o que ela estava ouvindo. A tela dizia Painting The Roses Red. “A Cursive Memory?” pensou , “Impressionante”.
Alison podia sentir o coração batendo mais rápido de ódio ao perceber observando tão atentamente cada movimento da Menina Fantasma. Levantou-se num rompante e marchou com passos pesados até a carteira onde a garota estava sentada, arrancando um de seus fones de seu ouvido.
- O que você pensa que tá fazendo, Gasparzinha? – disse Alison, entre dentes.
- Hã? – a menina parecia realmente chocada, sua voz saiu baixa e incerta...
- Você realmente acha que pode sentar tão perto dos terceiranistas? Você tá querendo fazer o quê, ouvir a nossa conversa? – o rosto de Alison estava vermelho e quente.
- Não, eu... Eu, eu... – a menina gaguejava, as bochechas estavam rubras de vergonha. - Eu tava ouvindo música, Alison.
- Eu vou falar isso bem devagar, de modo que o seu cérebro de débil mental consiga compreender. V-A-Z-A, Fantasminha. Some daqui e vê se toma um pouco de sol no caminho.
A menina rapidamente juntou suas coisas e levantou da carteira.
- Se você ainda não percebeu, só chove nessa cidade, sua idiota com bronzeamento artificial. – sussurrou a menina enquanto ia para outra carteira, esperando que ninguém ouvisse.
Mas ela falou mais alto do que havia imaginado e todos na sala conseguiram ouvir.
- Sua babaquinha!
Alison levantou a mão para dar uma tapa no rosto da menina, mas seu braço foi segurado por uma mão forte que a impediu. A mão de .
- O que você tá fazendo, ? – disse Alison num rosnado.
- Eu to terminando toda essa sua maluquice. – disse num tom raivoso. – Para de ser cheia de merda e vê se cresce, Alison. Você não é dona dessa porra de escola não, e nem de mim. – Alison recolheu seu braço e voltou para sua carteira, “com o rabo entre as pernas”, como diria a mãe de .
percebeu que a menina o olhava assustada, com os olhos marejados. Estava quase chorando. Quando seus olhares se encontraram, suas bochechas ficaram mais vermelhas do que já estavam, o que a fez dar meia-volta e se dirigir em direção a porta.
- Ei, você não precisa ir... – disse enquanto segurava sua mão.
Quando as peles se tocaram, um choque de eletricidade passou pelos corpos dos dois, fazendo com que afastasse sua mão rapidamente e a menina ficasse cada vez mais assustada. Ela então apertou seu passo e saiu da sala o mais rápido possível, deixando um muito confuso para trás.
- SRTA. VOLTE JÁ PARA ESSA SALA! – gritou a Sra. Abbot, mas já era tarde demais, a garota já estava longe dali.

Assim que o sinal do recreio tocou, foi o primeiro a sair da sala da detenção. Depois do evento ocorrido, ninguém ousou soltar uma única palavra.
se dirigiu até seu escaninho, disposto a pegar seu material para a próxima aula, mas quando o abriu, um pequeno papel dobrado caiu de dentro dele.
pegou o papel branco, levemente amassado, do chão, e o abriu, lendo seu conteúdo.
“Obrigada por me defender.”

sorriu involuntariamente.

# FLASHBACK OFF.


acordou no sofá verde-musgo da casa de Billy, sentindo dores intensas por toda a extensão de seu corpo, como se tivesse sido torturada.
Ah é, ela tinha sido torturada mesmo.
Abriu os olhos com certa dificuldade, pois sua cabeça latejava. Estava deitada na posição em que sempre dormia, de lado, com os joelhos levemente dobrados. Mas não tinha menor ideia de como viera parar no sofá e porque estava sem sapatos. Olhou para a cadeira que ficava ao lado do sofá, e ficou observando dormir por alguns segundos.
Decidiu que ia levantar do sofá, passar um pouco de pomada nas queimaduras, tomar um banho, comer alguma coisa e tentar esquecer-se do que tinha ocorrido com ela naquele pequeno cômodo dentro da capela. Porem, assim que virou seu rosto para frente sentiu seu sangue gelar. Um homem, vestido com um terno branco e uma máscara preta estava em pé, ao lado do sofá, a observando. fez menção de gritar, mas não conseguia abrir a boca. Não conseguia nem se mover, era como se seu cérebro tivesse sido desligado. Não conseguia nem mesmo respirar.
- Os fantasmas estão sempre com fome, . – disse o homem no terno do branco, desaparecendo no minuto seguinte, como se tivesse sido sugado para baixo.
Depois que ele sumiu, sentiu seus músculos relaxando aos poucos. Conseguiu se levantar e então se dirigiu até o banheiro.
Abriu o armarinho – que também era um espelho – procurando algum remédio para dor de cabeça, e depois o fechou, contentando-se com a pasta e a escova de dente. Precisava lembrar de ir à farmácia.
- Bú.
O susto de fora tão grande que caiu sentada no chão, batendo as costas na porta do banheiro no caminho. Dessa vez, conseguiu gritar diante da visão do homem de terno. Mas não consegui se levantar, restando apenas à opção de se arrastar no chão, numa tentativa de se afastar do homem, que se aproximava cada vez mais rapidamente. Estava quase a alcançando quando ambos ouviram passos no corredor.
- Eu volto. – disse o homem antes de ser puxado para baixo novamente.
veio correndo na direção de , se jogando de joelhos no chão e a abraçando.
- Calma, calma, tá tudo bem, eu to aqui. – dizia .
- Tinha alguém no banheiro, , tinha alguém lá! – gritava em meio às lágrimas.
- Não tinha ninguém no banheiro, , você deve estar assustada ainda, por causa do que te aconteceu lá na capela.
- Mas foi o mesmo homem que fez essas coisas comigo, ! Foi ele quem me machucou, eu sei o que eu vi!
- , ninguém te machucou, o que aconteceu foi que umas caixas caíram em cima de você. Você deve ter apagado com a queda e sonhou alguma coisa. Nada te aconteceu.
- Eu sei o que eu vi, .
- Ninguém te fez nada, . – disse . – E nem vão fazer, não enquanto eu estiver aqui. – a voz de era tão confiante que, em parte, acreditou no que ele dizia. Acreditou que enquanto estivesse com ele, estava protegida.
Até porque o homem do terno branco desapareceu na presença de .
- Eu não quero ficar sozinha essa noite, . – disse num sussurro, enquanto continuavam abraçados no chão.
- Tudo bem.
levantou e então segurou as mãos de , a puxando para cima. De mãos dadas, caminharam até o quarto de , no segundo andar da pequena casa de Billy.
- Fica aqui, eu vou pegar um colchão pra mim.
- Não. – olhou para baixo. – Você pode dormir na cama comigo. – arregalou os olhos. – Nada vai acontecer, é só que... – respirou fundo tentando não chorar. – Eu to muito assustada, .
assentiu lentamente.
- Ok... Quer ouvir uma coisa? – fez que sim com a cabeça. – É só uma coisa que eu ando escrevendo, não é muito boa, mas... – pegou o pacote que tinha trazido para casa mais cedo.
Desembrulhou a estrutura de madeira preta cuidadosamente, revelando o que era.
- Essa foi o violão que os meus pais me deram quando eu me formei na Chilton... Eu tinha penhorado ele há um ano, mas eu dei a sorte de ninguém nunca ter comprado. Eu resolvi buscá-lo hoje. – sentou na beirada da cama, ao lado de , com o violão no colo. – Falando na Chilton, você estudava lá né? Você foi aquela menina que quase apanhou da Alison na detenção!
fez uma expressão confusa que se desfez aos poucos, demonstrando que ela havia compreendido o que ele dizia.
- Ai meu Deus, você foi o garoto que me defendeu! Você era tão diferente naquela época...
- É, eu ainda cortava o cabelo. E você era bem diferente também. Você tinha uma daquelas... – apontou para a própria testa. – Franjas, sei lá.
- É... Eu gostava daquela franja, era boa pra me esconder.
- E você era mais baixa.
- Eu tive um surto de crescimento louco quando eu tinha 16 anos. Eu cresci 15 centímetros em uns quatro meses.
- Uau. Eu nunca mais te vi depois daquilo...
- Eu fui pra casa naquele mesmo dia e pedi pra minha mãe para estudar em casa. Eu não agüentava mais aquela escola... Eu odiava a Alison... E odiava a Emily também. A primeira por ser uma babaca completa e a segunda por ser uma falsa. Acho que foi por isso que eu fiquei tão brava quando você me deixou sozinha para ir atrás da Emily. Aquelas duas tinham a mania de tirar tudo que era meu. – sacudiu a cabeça, constrangida. – Não que você seja meu, mas você entendeu, né?
- Eu entendi... Me desculpa, de verdade.
- Eu já te perdoei. Eu exagerei também né, convenhamos...
- Mas enfim. – pigarreou e então começou a tocar uma melodia calma no violão.

I thought I had it all but I gave it away
(Eu pensei que eu tinha tudo mas eu abri mão)
I quit that old job now I'm doing okay
(Eu eu me demiti do velho emprego e agora eu estou bem)
Those material things they can't get in my way
(Essas coisas matérias não podem ficar no meu caminho)
Cause I'm over it.
(Porque eu estou acima delas)
But wherever she may be...
(Mas onde quer que ela possa estar...)
She could be money, cars, fear of the dark
(Ela poderia ser dinheiro, carro, medo do escuro)
Your best friends are just strangers in bars
(Seus melhores amigos são apenas estranhos em bares)
Whoever she is, whoever she may be
(Quem quer que ela seja, quem quer que ela possa ser)
One thing's for sure, you don't have to worry...
(Uma coisa é certa, você não precisa se preocupar...)


- Isso foi tudo que eu fiz até agora. – deu de ombros. – Não é muito boa...
- É linda, . – o interrompeu. – E você canta muito bem. Você deveria começar uma banda.
deu um sorriso de lado.
havia sentido falta daquele sorriso.


estava olhando para o teto escuro de seu quarto, demorando mais tempo do que o necessário para pegar no sono. dormia tranquilamente a seu lado e, sem que percebesse, havia se aconchegado no peito de durante o sono. não teve coragem ou vontade de mudá-la de posição... Olhou para a menina delicada em seus braços e não pode deixar de sorrir. Abraçou-a mais forte e fechou os olhos, apoiando a sua testa na dela, sentindo sua respiração quente em seu pescoço.
Podia sentir o sono chegando aos poucos, talvez porque se sentia mais confortável do que se sentia há meses...
nunca pensou que algum dia fosse ser um homem de dormir abraçadinho... Mas não podia negar o quão bem se sentia.
O quão bem ela o fazia se sentir...

She could be rainy days, minimum wage,
A book that ends with no last page
Whoever she is, whoever she may be
One thing's for sure, you don't have to worry...




N/A: Meninaaaas, que saudades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! haha Me desculpem eternamente pelo atrasado de uma decalhão de meses, mas é que genteeeee, ensino médio é uma foda né, e não no bom sentido! Meu laptop deu problema e ai eu viajei nas férias de meio do ano e... Tava meio bloqueada mentalmente, pois queria logo colocar o tema “terror terrível” (como diria o meu pai hahahaha) na fic, como eu já pretendia desde o começo (essa nem a beta sabia, to muito sagaz ein kkkk), mas não sabia como! E queria fazer algo bom, não queria apresentar nada “mais ou menos” pra vocês, que me apóiam tanto! E eu fiquei muito satisfeita com o resultado, e espero que tenha conseguido deixar pelo menos uma de vocês nervosinha!
Aliááás, essa Untouch tá muito malandrinha ein? Misturando suspense, romance, drama e um pouquinho de ironia tudo numa fic só! Eheeee kkk
Tenho a impressão de que quando escrevo minhas notas destruo tudo que eu construi com a minha fic, porque eu sou muito manezona pra escrever isso aqui kkk Então vou calar a boca e torcer que vocês tenham curtido tanto esse capitulo quanto eu! Ele foi, até agora, o meu favorito de escrever!
Então é isso lindonas, obrigada por terem lido e eu juro que vou tentar não demorar tanto pra fazer att do capitulo 8, que já está sendo escrito (alias, já sei como vão ser os próximos 5 capitulos! To malandrinha também! Kkk).
Beijos e espero que todas tenham ficado com vontade de dormir abraçadinhas com o principal de vocês!

PS. Me segue ai no twitter vai, por favor! ;)
@blottafabi

N/B: Vontade bááásica de dar um milhão de socos na Fabi por essa att, sério. Vou perturbá-la pelo próximo capítulo até a morte! E bem, me surpreendeu mesmo, muito obrigada por isso, aliás. Até a próxima att, gente. xx
Qualquer erro nessa fanfic, seja de gramática/script/HTML, mande um e-mail diretamente para mim. Não use a caixinha de comentários.