Weedventures
Autora: Brille
Beta-Reader: Brille


Capítulo 1

- ! Por favor! Eu só tô te pedindo uma coisinha! – Chris fez um bico e eu rolei os olhos.
Se você considerar usar uma fantasia de urso em frente a uma lanchonete que já foi fechada pela vigilância sanitária duas vezes, dançando e interagindo com os clientes numa temperatura de 40ºC, uma coisinha, ah, claro, Christofer só está me pedindo uma coisinha.
- Não, não, não. Aliás, por que você não pode fazer isso? Afinal, é o seu trabalho, quem ganha o salário é você.
Christofer olhou para os lados discretamente, mas eu notei. Ele não tinha o que dizer contra meus argumentos.
- Tá, vou ter que apelar. – Ele tirou uma das alças da mochila, abriu o zíper do bolso maior e enfiou uma mão lá dentro. – Aqui.
Porra, esse menino é doente.
- Devolve! – Puxei a pilha de folhas da mão do babaca, sem obter sucesso. Ele, ao perceber que meu espírito de assassina estava prestes a ser libertado, segurou os papéis no alto. Depois disso, tudo o que minha altura pouco avantajada me permitiu foi amassar levemente algumas fotos.
Ok, deixe-me situar você na história. Prazer, , 16 anos, gosto de milkshake e do meu ex-namorado. O babaca do irmão da minha melhor amiga, Christofer, estava segurando cópias e mais cópias de uma foto minha deitada na calçada, como uma mendiga, ao lado de um morador de rua. Quer dizer, não era um mendigo, era o – esse ex de quem eu falei agora pouco – durante uma fase indigente, e eu estava lá, dividindo um cobertor furado e cheio de bolinhas após uma festa que tinha varado a madrugada. Já ia esquecendo: meu batom vermelho-puta borrado só piorava minha situação.
Flashbacks daquela noite estavam invadindo meus pensamentos: por culpa de uma cigana aproveitadora que “previu” um brilhante futuro de na NASA caso ele não tivesse ninguém o prendendo a uma vidazinha medíocre naquela maldita cidade de setenta mil habitantes, ele resolveu terminar comigo e se dedicar totalmente aos estudos.
As palavras de uma vidente nômade tiveram mais valor do que o meu amor. Eu fui trocada por FÍSICA!
Pensar nesse assunto me deixava indignada, então foda-se, eu tinha coisas mais importantes para me preocupar naquele momento pra ficar pensando num filho da puta alcoólatra que de repente tinha virado um nerd amante de cálculos estúpidos.
- Você tinha jurado que ia queimar! – Choraminguei enquanto dava soquinhos no peito de Chris, que parecia estar se divertindo muito.
- E eu queimei! Você que nunca comentou nada sobre deletar do computador. – Drew deu um daqueles sorrisinhos irônicos que me davam ânsia de vômito, mas eu respeitaria a mãe dele e da e não sujaria o tapete branco e felpudo da sala. Christofer e seus hábitos de higiene já faziam o trabalho completo. – A roupa está no quarto da .
- O que a roupa de urso tá fazendo lá? Ai meu Deus, não, não, não responda.
Embora eu tivesse quase certeza da resposta, não tê-la confirmada tornava a coisa um pouco menos ruim.
Ninguém mais respeita a cama de ninguém: nem a minha, nem a da , nem a do Papa. Essa é a evolução do Homo sapiens.

Você deve estar se perguntando: “Onde está essa sua amiga ?” ou ainda “Por que você está na casa dela só com o irmão dela?” Bom, digamos que Christofer é um tanto quanto perturbado. O hobby dele? Me irritar. diz que é porque ele gosta de mim, mas acho que usar uma pessoa como cobaia para os experimentos de seu grupinho de amigos maconheiros não é a maneira correta de demonstrar amor. Basicamente eu recebi uma mensagem de pedindo para passar na casa dela – que também é onde Chris mora – e foi o que eu fiz. Ao chegar, apenas Christofer estava, o que me faz suspeitar de que foi tudo um plano dele para não precisar ir trabalhar hoje.
Nove anos sendo frequentemente humilhada e manipulada por ele e eu ainda era inocente o suficiente para cair em um truque bobo desses.
Ah, e estava sendo chantageada.
Amadora, , muito amadora.

Vesti a roupa fedida, prendi meu cabelo em um coque alto e mal feito e voilà! Estava pronta para uma tarde de constrangimento diante de toda a população de Joplin.
- E não tire essa cara de urso da cabeça em hipótese alguma. – O retardado surgiu na porta e eu juro que o fato de eu não ter gritado foi um milagre.
- Você estava me observando trocar de roupa?! – Tirei o acessório de cabeça e o encarei com uma sobrancelha arqueada.
- Como se tivesse algo pra ver. – Ele deu de ombros. – O que eu falei é sério, não deixe ninguém saber que você não é eu. – Ele deu meia-volta e foi embora do cômodo.
Ele sabe bem como botar a autoestima de alguém no fundo do poço mais fundo do inferno. Quer dizer, não sei se há poços no inferno, acho que minha comparação foi bem infeliz.
- E eu vou ter que ir assim na rua? – Perguntei, em vão. Àquela hora já não havia mais ninguém na casa para me responder.

Capítulo 2

- Você está trabalhando bem, Christofer, esse é você mesmo? – O gordo suado que deduzi ser o gerente da espelunca elogiou meu excelente desempenho e eu forcei uma risada estilo Chris, que foi abafada pela cabeça do urso (a qual estava na minha cabeça, óbvio).
Sério, em um dia atraí mais clientes do que Christofer atrairia se trabalhasse ali a vida toda – o que era bem provável de acontecer. Mas, de certa forma, aumentar a popularidade do estabelecimento não era uma coisa boa. Eu estava morrendo de pena dos pobres clientes que brevemente estariam internados com uma intoxicação alimentar.
- Hey, senhor urso, tira uma foto comigo? – Um menininho de uns quatro anos, desses mais miudinhos do que o normal que você tem vontade de procurar depois de uns doze anos só pra ver como vai apareceu do nada e perguntou. Ok, isso soou como pedofilia... De qualquer jeito, sua mãe loira, baixa e acima do peso vinha atrás, e estava com uma cara péssima. Tudo indicava que, por trás daqueles cachinhos castanhos, estava um pestinha hiperativo.
- Clar...
- Por cinco dólares. – O tal chefe do Chris me interrompeu. A mãe apenas piorou sua expressão dez vezes e puxou o filho pelo pulso para longe de nós. Não podia esperar menos de um cara que contrata o Drew. Bufei e o cara deu de ombros.
- Chris, precisamos conversar. - Ele começou assim que mãe e filho já tinham tomado certa distância. - Sei que você tá tentando mudar seu comportamento, mas muitos clientes têm reclamado do cheiro da erva, hm, tente manter pelo menos a roupa limpa, ok? Se vocês quiser, posso te dar umas dicas...
Cheiro da erva? Clientes reclamando? Dicas? Aquela foi a gota d’água.
- Wah! – Arranquei a cabeça de urso e joguei-a no chão. O gordo nojento abriu a boca surpreso e franziu as grossas sobrancelhas, as quais se tornaram uma monocelha, no mínimo, assustadora.
- Christofer?
- Ah, claro! Você não sabia que na verdade eu sou um transexual e que eu removi todas as minhas tatuagens em um dia? Claro que eu sou o Christofer, você é cego ou o quê?
- Mas não dá pra ver tatuagem nenhuma mesmo...
- Ahn?
Buzinadas. Não vire para trás, , não vire para...
- Hey, ! Entra no carro!
Olhei de Chris para o monocelha e do monocelha para o Chris. Depois, parei os olhos no carro – se é que aquilo podia ser chamado de carro. Era uma coisa velha, batida, riscada, descascando, enferrujada, e meu palpite era que a cor era originalmente vermelha.
- É a sua namorada? – O gordo perguntou com uma feição pervertida somada as já dignas-de-filme-de-terror sobrancelhas. Visão não recomendada para menores de cento e cinquenta anos.
- Não! – Gritamos juntos, mas devo ressaltar que eu neguei de uma forma um tanto quanto mais agressiva.
- Entra no carro, . – Chris ordenou.
- Essa porra anda? – provoquei. Christofer estava tentando mandar em mim?
- Sem criancice, sua mãe ligou e me pediu pra te levar em casa.
Vamos fingir que minha mãe nunca chamou Drew de drogado e que ela nunca me alertou para “manter uma distância saudável” dele.
- Ela não pediu. – Falei com firmeza.
- Tá... Ela só perguntou onde você estava, então eu disse que estava com a . Daí ela falou pra você não esquecer do seu compromisso hoje, então eu pensei em te dar uma carona.
Christofer, sendo gentil? Ok... Um novo dia da mentira foi instituído e ninguém me avisa? Aquela história estava muito esquisita. Além de tudo, eu não conseguia me lembrar de nenhum “compromisso importante”.
- Conta outra. Eu sei que você tá com medo de morrer sozinho nesse carro. – Blefei, acrescentando um sorrisinho irônico nos lábios, enquanto ele revirou os olhos e bufou em seguida.
- Tá, você me pegou. Agora entra.
Hm? Acertei? Uma salva de palmas para mim.
Ele fez sinal para que eu entrasse e, por incrível que pareça, o obedeci. Convivência excessiva com idiotas sempre acaba te deixando meio babaca.

Capítulo 3

- Esse não é o caminho pra minha casa. – Acusei ao notar que Chris estava dirigindo em uma direção totalmente oposta a de onde eu morava.
- É um atalho... – Ele tentou justificar e eu arqueei as sobrancelhas, desconfiada.
- Atalho pra onde? Pra minha casa eu tenho certeza de que não é.
- Ahn... É que eu vou dar carona pra um amigo. – Chris mentiu de um jeito nada, nada convincente. Sinceramente, se ele pretende continuar a mentir desse jeito, vou me sentir na obrigação de recomendar umas aulas de artes cênicas pra ele.
- Você é um idiota, para o carro e me deixa descer. Não confio em você, prefiro voltar a pé. Aliás, por que você não pensou em me dar uma carona quando eu tinha que fingir que era você naquela lanchonete nojenta? Não me admira que aquele lugar seja tão repugnante, afinal, VOCÊ trabalha lá! – Fiz um movimento com os braços em sinal de desprezo. - Ou trabalhava, sei lá. – Completei ao recordar-me do recém-ocorrido incidente.
- Meu Deus, você não consegue calar a boca nem por um segundo? – Christofer bateu as mãos no volante com violência. Ele parecia verdadeiramente furioso, embora sem motivo. Cruzei meus braços com força em frente ao meu corpo e fixei meu olhar num caminhão em frente ao “automóvel” de Chris. Não tenho certeza, mas acho que eu estava emburrada como uma criancinha mimada.
- Dez segundos. – Falei e ele suspirou irritado. Acho que eu estava sendo bem inconveniente. – Nove, oito, sete...
Então, subitamente, Chris começou a seguir por uma região muito suspeita e eu comecei a temer de verdade pela minha vida. Não ache que eu estou exagerando: ele, definitivamente, não era normal, e de pessoas assim pode-se esperar qualquer coisa.
- O que você está fazendo...?
Dali em diante, tudo aconteceu muito rápido: dois caras com meias de seda na cabeça se aproximaram do carro. Quase ri, mas aí percebi a gravidade da situação. Nem todo mundo é que nem o , que usa – ou usava, já que isso ocorreu antes da fase nerd dele - meias de seda na cabeça só pela diversão.
Malandros, arruaceiros, assaltantes, sequestradores, estupradores, psicopatas, traficantes de órgãos, serial killers. Eles podiam ser tudo, exceto pessoas com boas intenções.
Num piscar de olhos, os homens já estavam abrindo a porta do motorista. E a do banco do carona, para meu total desespero.
Eu só tenho dezesseis anos! Eu não posso morrer!
Calma, , calma. Pra começar, por que o inútil do Chris parou o carro? Ah, o que eu estava esperando de um adolescente irresponsável dirigindo uma máquina velha provavelmente movida à base de macumbas virtuais?
- Christofer, faz alguma coisa! – Sussurrei nervosa, mas já era tarde demais.
- Cala a boca, menina. Cara, põe ela no banco detrás. – O mascarado que tinha aberto a porta do lado de Chris ordenou ao outro, aumentando ainda mais meu pânico crescente.
- O que vocês vão fazer comigo? – Gritei tentando impedir que o homem se aproximasse. – Não encosta em mim! Podem levar o carro, não é, Chris? Não é? Faz alguma coisa, caralho!
Christofer não moveu um músculo sequer. Arrisco dizer que ele não se deu nem ao trabalho de ouvir o que eu dizia.
- Se acalma, garota, ninguém vai fazer nada contigo, agora vem. – O bandido disse quase indignado.
- Não! – Berrei.
- Para, , faz o que ele tá mandando. – Drew, tão puto quanto o homem ao meu lado, falou. Fala sério, ele faz a merda e eu que tenho que arcar com as consequências?
Comecei a avaliar minhas opções: não obedecer e correr o risco de levar um tiro ou obedecer e correr o risco de levar um tiro? Ah, foda-se. Até eu podia fazer um sequestro relâmpago mais eficiente do que aquele. Aposto que nem facas plásticas eles tinham.
- Ok, então vocês podem pelo menos explicar o motivo disso tudo?
- Meu Deus, é difícil entender? A gente não tem que explicar nada pra você!
Vou fazer um resumo rápido dessa parte: o cara me segurou à força e me colocou no banco traseiro. Em seguida, acredite se quiser, fui vendada e imobilizada. Entretanto, acho que não ter me amordaçado foi uma demonstração de puro amadorismo. Definitivamente, esses dois não tinham nenhuma habilidade com essa coisa de bandidagem.
Aliás, devo observar que eu estava suspeitando que o Chris estava virando best friend forever do meia de seda dianteiro, porque parecia que eles estavam conversando aos cochichos sobre mim e minha fantasia de urso. Não tenho certeza, podia ser coisa da minha cabeça, mas Chris tinha dito a palavra “trouxa” duas ou três vezes. Aquela situação estava ficando muito, muito, muito esquisita, e eu estava com medo de verdade. Medo até de continuar infernizando o par de homens e o possível comparsa deles, o Drew.
- Chegamos! – Um dos bandidos falou em tom de comemoração e, àquela altura, eu já estava tremendo como nunca antes na minha vida. Sem esquecer dos meus pensamentos, os quais já tinham tomado rumos nada agradáveis a respeito de métodos de assassinato e tortura que poderiam ser praticados contra mim.
- Se eu morrer, Drew, fique sabendo que eu vou fazer questão de arruinar essa sua existenciazinha nojenta. – Disse enquanto sentia o carro ser estacionado, mas ele não respondeu, apenas senti uns braços me segurando e me tirando do carro. Esperneei enlouquecidamente.
- O que vocês vão fazer? Me solta, me solta! Cadê o Christofer? – Gritei tentando me desvencilhar do sequestrador ou seja lá o que ele fosse.
Risadas. Degraus. Degraus? Para onde eu estava sendo levada?
- Por favor, não façam nada comigo... – Implorei.
Ouvi o som de uma porta sendo aberta e em seguida fui colocada no chão.
- Pelo menos me deixe ligar pros meus pais e pro meu namorado pra eu dizer que os amo...
- Namorado, ? Não seria “ex”? – A voz de Christofer de repente chegou aos meus ouvidos e eu me senti constrangida pelo que tinha dito – meu relacionamento conturbado com era alvo de muitas piadinhas do Chris -, mas ao, mesmo tempo, me senti aliviada pela presença dele ali. De certa forma, parecia que ele poderia me proteger.
Fiquei pensando no que fazer durante alguns segundos, mas Chris foi mais rápido:
- Você me ama, ?
Apesar de tudo, eu sabia que gostava dele. Hesitei por alguns segundos, pois “eu te amo” é, pelo menos pra mim, uma frase que deve ser cuidadosamente avaliada antes de ser dita.
- Até que sim – respondi e me surpreendi quando minha frase saiu como se dita num microfone. Caralho, que porra estava acontecendo? Juro por Deus que eu não estava respirando. Será que é assim quando a gente morre?
Enquanto eu revia minha vida desde meu nascimento, alguém se aproximou de mim, e essa mesma pessoa mexeu nos meus cabelos e tirou a venda que cobria meus olhos. Se eu já não estava respirando, bom, aquela era a hora mais apropriada para cair morta no chão.

Capítulo 4

Puta. Que. Pariu.
Eu estava incrédula e minhas feições não escondiam isso. Arqueei uma das sobrancelhas e abri a minha boca em sinal de espanto. Estava estática.
Em poucos segundos, assisti o sorriso de cada um presente na minha frente desaparecer. Meus pais, os pais da , um monte de parentes, a escola praticamente inteira. . Para completar, uma decoração deprimente feita com papel crepom rosa bebê e branco e bexigas da mesma cor. Uma festa surpresa adiantada totalmente... Desnecessária e humilhante!
Ah, os meias de seda? Amigos do Chris que dedicavam a vida à maconha e à péssima banda deles, Emergency Motel.
Lancei um olhar mortal para o drogado que segurava o microfone na minha cara – seu nome era John ou Matt, não tenho certeza - e ele, como uma pessoa com um mínimo de sensatez, tomou certa distância.
Se eu não estivesse amarrada, já teria partido para as vias de fato.
- Drew, a gente pode ir conversar lá fora? – Ordenei na forma de pergunta.
Christofer, após mandar um sinal de positivo para meus pais, me obedeceu e me ajudou a caminhar até a porta do salão enquanto um burburinho se iniciava às nossas costas.
– Tira essa negócio de mim. – Falei séria quando chegamos às escadas, referindo-me à corda que me imobilizava. Ele me soltou com facilidade e, bom, agora nada mais me impedia de avançar nele. Nada além do fato de eu ser apenas uma menina delicada de um metro e cinquenta e seis que nunca se envolveu numa briga física... Foda-se, tudo o que eu precisava para matar o Christofer era o ódio, algo que eu tinha de sobra naquele momento.
- Fica calma... – Ele pediu fazendo um gesto babaca com as mãos. Ele estava pensando que eu era um cachorro, é isso mesmo?
- Calma? Calma? Você sabia que eu estava cogitando a ideia de me jogar pra fora do carro com ele em movimento?
- Devia ter feito isso mesmo, mal-agradecida. – Ele resmungou, acho que sem a intenção de ser escutado, mas, felizmente, ouvi muito bem as palavras de puro carinho dele. E posso garantir que meu ódio fez o oposto de diminuir.
- Filho da puta! – Gritei.
Em uma fração de segundo, ele me segurou no colo e desceu as escadas correndo comigo batendo nas costas dele e gritando palavras de baixo calão.
Nessa situação cruzamos o estacionamento do lugar, que, aliás, era bem grande, e, finalmente, num canto meio distante dos outros carros, estava o pedaço de ferro motorizado que Christofer chamava de carro.
- Agora você vai fazer o quê? Me estuprar e gritar surpresa?
- Ahn? Suas comparações já tiveram mais sentido, , acho que o excesso de estresse está matando seus neurônios.
- Sentido? O que uma pessoa que organiza um sequestro simulado pode falar de sentido?
- Foda-se. Agora entra. – Ele falou após abrir a porta do carona, me colocando sentada no banco e me fechando naquele automóvel asqueroso. Eu poderia ter fugido naquele momento, mas ele foi mais rápido. Chris correu pela frente do carro e também entrou.
Foi nessa hora que eu notei que, numa escala de um a mil, minha humilhação tinha atingido a absurdamente assustadora nota mil e um. O motivo? Bom, além de tudo o que aconteceu e que eu não quero nem repetir na minha cabeça, EU ESTAVA COM A FANTASIA DE URSO!
Eu admiti que gosto do Chris na frente de dezenas de pessoas. Descabelada, suada, com a maquiagem borrada. Vestida de urso. Se você nunca passou por pelo menos 25% disso em menos de três horas, posso garantir que você nunca foi verdadeiramente humilhado.
Nem reparei quando comecei a chorar. Ali, mesmo com Christofer ao meu lado, derrubei três, cinco, infinitas lágrimas. Afinal, por que me importar? Eu não tinha mais nada a perder.
- Eu não acredito, não acredito no que vocês fizeram comigo... – murmurei com a voz chorosa enquanto esfregava meus olhos.
- Toma – Drew interrompeu meu momento vítima entregando um pano preto para mim. Quer dizer, não era exatamente um pano, era... A camiseta do My Chemical Romance dele?
- O que você tá fazendo? – questionei e virei meu rosto para ele, mas desviei meu olhar imediatamente ao vê-lo sem camisa. Não que fosse uma visão ruim, mas não queria que ele soubesse que eu gostava daquilo.
Espera. Eu gostava daquilo? Ew, !
- Veste.
- Que porra você... Quer saber? Foda-se. Tô nem aí se eu to com uma fantasia de urso. Eu não tenho mais nada a perder.
Christofer gargalhou e eu atirei a camiseta nele, ainda mantendo meus olhos encharcados fixos no nada. Ele limitou-se a ignorar minha reação agressiva.
- Acho que você ainda tem algo a perder...
- O quê? Me diz. Decência? Dignidade? Ah, espera, eu não tenho mais isso.
- Termina com “dade” também... e começa com “vi”.
- Virilidade? – perguntei ingênua, tinha sido a primeira coisa a vir à minha cabeça. – Você lá sabe o que significa?
Mais risadas de Chris intercaladas à voz dele repetindo “virilidade” de forma irônica.
Tinha sido a piada mais infeliz da história da humanidade.
Peço desculpas se meu intelecto é muito superior à piadinhas envolvendo sexo.
Aliás, ele não estava insinuando que...?
- Ah, não, Christofer, essa foi a gota d’água – bufei. – Tchau – falei enquanto tentava abrir a porta. No entanto, ela estava trancada.
Ah.
Meu.
Deus.
Eu nem imaginava que aquela porta fechava. Como ele fez aquilo?
- Não tem graça, Drew. Nenhuma graça. Me deixa sair.
- Ok, ok – ele concordou enquanto tentava normalizar a respiração, mas em dois segundos já estava rindo alto novamente. – Desculpa.
- Tem que se desculpar mesmo – cruzei os braços na frente do meu corpo e ele parou de rir subitamente.
- Desculpa. Pega aqui, – ele falou entregando a camiseta novamente.
- Não quero – neguei.
- Mas tá limpinha!
- Limpinha o caralho.
Ao perceber que aquilo nos levaria a uma discussão interminável, resolvi encerrar a conversa logo de uma vez.
- Vai se foder.
Uau, que jeito maduro de dar um fim a uma briga, .
Chris atirou a camiseta em mim e eu joguei nele de volta. Ele devolveu e eu devolvi. Repetimos e repetimos até eu estar nervosa o suficiente para mirar o negócio bem na cara dele e lançar com toda a agressividade.
- Qual o problema com a camiseta? É bonitinha!
- O problema não é a camiseta, Drew, é o dono dela.
Christofer fez a cara de ofendido mais intensa que eu já tinha visto durante a minha vida até aquele momento. Não era apenas uma expressão de injuriado: era uma mistura perturbante de irritação, angústia, tristeza e frustração. Se eu só tivesse visto seu rosto, sem ter conhecimento dos acontecimentos que tinham precedido aquilo, imaginaria que as piores barbaridades tinham sido ditas a ele. “Pobre Chris, tudo culpa de suas amizades erradas”, provavelmente pensaria, mesmo que contrariada.
- Ok, ok, me dê a camiseta – voltei atrás, na intenção de me livrar daquele Chris supostamente chateado que me causava aflição.
Peguei a peça embolada e ajeitei no meu colo. Àquela hora já não havia um resquício sequer de infelicidade na face dele. Manipulador?
- Não sabia que você ouvia My Chemical Romance – comentei, afinal, qualquer interesse que tivéssemos em comum era motivo para se surpreender.
- My romance o quê? – ele franziu o cenho.
- My Chemical Romance, a banda da sua camiseta – expliquei, tentando conter a vontade de bufar e rolar os olhos.
- É uma banda isso?
- É, Christofer – finalmente revirei os olhos e expirei uma grande quantidade de ar. Como assim ele usava uma peça da banda sem nem saber do que se tratava?
- Ah, eu comprei num bazar de caridade por cinquenta centavos, é que eu tinha curtido a frase... Não sabia que era uma banda.
- Ai meu Deus, Chris – virei os olhos mais uma vez, ação agora acompanhada por uma expressão clara de desânimo. – Vira pra lá, eu vou me trocar.
Christofer encolheu-se no banco, colocando as mãos na frente dos olhos e a cabeça entre os joelhos. Na verdade eu só ia colocar a camiseta por cima da blusa de alcinha num tom rosa desbotado que eu usava por baixo da fantasia, mas, de qualquer jeito, eu não queria ser observada.
- Pronto – falei já vestindo a camiseta dele, terminando de tirar a fantasia e ficando só com o shorts jeans que eu usava por baixo.
Christofer me olhou malandro assim que saiu daquela posição ridícula. Olhei ao meu redor, temerosa pela integridade que me restava.
- O que você fez? – Eu disse pausadamente, encarando-o.
- Nada! – Ele sorriu debochado. – Quer alguma maquiagem da Debbie? – Chris ofereceu.
Orientação aos perdidos: Debbie é uma vadia “amiga” dele.
- Não, obrigada, a putisse dela deve ser transmissível e todos esses negócios que ela usa pra montar a cara dela devem estar altamente contaminados. Além disso, por que você tem maquiagens dela no seu “recém-comprado carro”?
- Ela só estava querendo te ajudar... E ela está lá na sua festa.
- Que palhaçada é essa? – Falei indignada. Como não obtive resposta, abri a porta do automóvel e em seguida a bati bruscamente.
Acredite se quiser: a porta caiu.
Chris soltou um gemido de desespero, acompanhado por batidas no volante. Sinceramente, me intrigava não saber se ele estava usando as mãos ou a cabeça para causar aqueles impactos. Ele merecia, mas...
- Há há, bem feito, drogadinho! – Gritei e corri pelo enorme estacionamento, indo em direção ao único local em que havia claridade.
Drew revidou meu insulto de um jeito arrastado, mas eu já estava longe demais para conseguir compreender. Finalmente eu estava me vingando – mesmo que nem tão intencionalmente – por anos de humilhação.

Capítulo 5

- Oi, mãe – cumprimentei-a ofegante com um beijo no rosto e ela me puxou para um abraço.
- Filha! – Ela exclamou um tanto quanto emocionada.
Minha mãe era loira, tinha olhos verdes os quais eu invejava e frequentemente optava por vestir-se com roupas que apenas lhe seriam adequadas se ela fosse 20 quilos mais magra e 30 anos mais nova. Desde pequena eu considerava a possibilidade de ter sido trocada na maternidade ou de ter sido adotada, visto a enorme diferença entre nossas aparências. Chris costumava dizer que eu tinha sido achada na rua e que ele inclusive se lembrava do “dia em que o bebê desconhecido foi encontrado”, mas como nada do que sai da boca dele pode ser levado a sério, logo comecei a aceitar o fato de que Maggie era realmente minha progenitora, mesmo não nos parecendo em nada, tanto fisicamente quanto emocionalmente.
Enquanto morria sufocada e ouvia minha mãe repetir que estava “orgulhosa” de mim, aproveitei para analisar o salão. Apesar da decoração capenga demais para ser avaliada, o lugar era enorme e tinha vários lustres imponentes no teto. Pelo que pude concluir, minha família e meus amigos tinham conseguido transformar um ambiente chique e refinado num porão de entulho rosa e branco.
- Onde você estava? Está tudo bem? – Minha mãe perguntou, finalmente me libertando de seu abraço esmagador.
- Eu estava com o Drew... E não, não está tudo bem, de quem foi essa idéia estú...
De repente, esqueci como completar minha frase ofensiva.
Olhos azuis de bebê.
Cachinhos loiros.
Palidez equilibrada com bochechas rosadas.
Aqueles lábios.
Eu daria gritinhos histéricos se não tivesse que manter a compostura diante daquele indivíduo desprezível. Aliás, eu sequer podia demonstrar que ainda tinha algum sentimento positivo por aquele nerd idiota que tinha me substituído por cálculos matemáticos.
- Oi, Sra. . Oi, ! – falou com um sorriso lindo no rosto. Tenho permissão para desmaiar agora?
- Oi, amorzinho! – minha mãe disse simpática e ele deu um beijinho na bochecha dela. – Tenho que ir atender os convidados, queridos, até mais!
Ela estava indo embora porque queria nos deixar à sós; se fosse o Christofer, ela sairia porque não queria ficar próxima a ele.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, eu olhando para os meus pés e ele, provavelmente, tentando atrair minha atenção com aquele magnetismo que ele sabia que tinha. Os olhos dele eram um pólo positivo e os meus um pólo negativo. Eventualmente nos olharíamos, era inevitável.
- Oi... – ele começou e eu finalmente olhei para ele. Um sorriso discreto apareceu em meus lábios. – Parabéns, ...
- Meu aniversário é só daqui quatro dias... Mas obrigada, – sorri sincera.
Estúpida e delicada na medida certa.
-Então, é, er... – começou, alternando seu olhar entre o chão e eu. Estávamos tão tímidos e constrangidos, sequer parecíamos o casal que tinha sido embebedado de propósito por nossos amigos em um piquenique. Eles achavam que nós combinávamos – concordo – e não viam nenhuma forma eficiente de nos induzir a uns amassos senão através do álcool.
E, porra, funcionou.
Fiz um “hm” para quebrar o silêncio e o sorriso angelical de desapareceu de forma repentina. Achei que tinha sido minha culpa, mas aí segui o olhar dele, que ia por cima do meu ombro esquerdo.
- Ah, não... – murmurei ao constatar que a existência mais desagradável da humanidade estava vindo em nossa direção. – Vamos para outro lugar – falei retornando minha atenção para e pegando sua mão instintivamente. Ao notar o que tinha feito, soltei nossas mãos rapidamente, envergonhada.
- Eu tenho qur ir, .
-Não! – Falei num quase grito. – Quer dizer, tá bom então.
- Hey, casal – Christofer se aproximou cantarolando.
- Tô indo, se despediu e caminhou para longe com passos rápidos. Uma onda de decepção tomou conta de mim.
- Olha o que você fez, idiota! – gritei para Drew, que sorria debochado. Ele vestia uma blusa verde praticamente babylook com um desenho de um cachorro usando óculos escuros e fumando um cigarro. Deus, onde ele tinha encontrado aquilo?
- Eu te transformo numa celebridade da web e é assim que você me agradece? Aliás, esse só quer te...
- Pera, pera, celebridade da web? – Franzi o cenho, intrigada com a expressão. Até ignorei a insinuação que ele estava prestes a fazer sobre os interesses de .
- Haha, o vídeo da sua reação teve mais de duas mil exibições em menos de uma hora, o Matthew acabou de me contar.
- Filho da puta... – não consegui deixar de soltar uma expressão de baixo calão. Como se já não bastasse a humilhação diante de algumas dezenas de convidados, agora a cena estava disponível para milhares de desconhecidos na internet!
- Shiu, olha o vocabulário, – meu tio passou por nós e reclamou.
Chega de barraco particular no meio da festa.
- Eu te odeio – falei baixinho para que ninguém além dele escutasse.
- Eu te amo, mesmo você arrancando a porta do meu carro novo – ele sussurrou em meu ouvido, forçando um tom de voz sexy.
- Ew, sai de perto dela, Chris, ela é minha amiga! – , minha salvadora, apareceu e nos separou.
me puxou pelo braço e me levou até a mesa onde estava sua mãe e seu padastro, pai do Christofer. Cumprimentei-os e em seguida o Sr. Drew perguntou se eu e o Chris estávamos namorando; revirei os olhos, fiz uma cara de nojo e neguei. Sério, as pessoas tem que parar de achar que eu seria capaz de ter qualquer tipo de relacionamento amoroso com aquele garoto. Depois, me levou até a mesa de doces, onde experimentamos cada uma das guloseimas antes de todos os outros convidados.
Após uma quase overdose de açúcar, minha mãe chamou todos para cantarem parabéns em volta da mesa redonda com uma toalha pink e um bolo de dois andares no centro. No topo do bolo havia um enfeite de isopor com glitter escrito “”, revirei os olhos com aquela demonstração de mau gosto.
Procurei discretamente por em meio a minha “platéia”, mas ele já tinha mesmo ido embora, o que era uma pena para mim, já que todos, incluindo os falsos da escola, parentes distantes, a namorada do Chris e a melhor amiga dela, Summer McClish, vadia-mór de Joplin, tinham sua atenção voltada a mim.
Ah, espera, ao menos eu tinha um singelo motivo para comemorar: Christofer não estava lá!
O resto da festa decorreu normalmente – na medida do possível para uma festa de família, ainda mais da minha família. Lá pelas nove horas eu já estava tão puta que peguei uma carona com a e os pais dela sem nem avisar ninguém. Minha mãe ficaria furiosa, mas eu adiaria esse tipo de preocupação. Minha prioridade era me ver longe daquele salão de festas.
Fomos o caminho inteiro em silêncio, quer dizer, nem eu nem dissemos uma palavra, mas os pais dela ficaram conversando sobre as festinhas surpresa que já tinham ido ao longo da vida. A história que mais me marcou foi a de “Alana”, que vomitou ao receber ao ser surpreendida por seus amigos cantando “Parabéns pra você” na sua kitinete, onde nunca, jamais, havia recebido uma visita sequer. Foi inevitável sentir certa pena dessa Alana, mas aí eu lembrei de mim.
Ninguém estava te filmando, Alana. Sua humilhação não foi registrada. Sua história talvez passe de geração para geração, mas o meu vídeo, a prova de tudo, está inclusive na internet.
- Vai dormir aqui hoje? - perguntou enquanto saíamos do carro e interrompeu meu discurso mental de consolo à desconhecida do vômito. Era uma boa idéia, mas ir para casa parecia a coisa mais correta a se fazer, principalmente levando em consideração o fato de que nos últimos dias eu tinha praticamente me mudado para a moradia daquela família.
- Acho melhor não... – tentei negar sem ofendê-la.
- Por favor! – Ela pediu. – Chris nem está aqui!
Bom, nessa hora eu notei que tinha que aceitar o convite dela: não tinha a chave de casa, para variar.
Entramos e fomos direto para o quarto de : um quarto típico de uma fã da Barbie do jardim de infância. Era aconchegante, apesar de excessivamente rosa por todos os cantos.
- Preciso desabafar! – Me joguei na cama dela e coloquei uma almofada de coração no rosto.
- Hm, tá... Vou ali tomar banho, depois a gente faz sessão de terapia, tá?
Até a minha melhor amiga se negava a escutar meus dramas, são nessas horas que você percebe que precisa da ajuda de um profissional especializado.
- Vai lá, deixa a sua melhor amiga se afogando em lágrimas aqui.
- , você sabe que você é minha melhor amiga, mas eu não joguei tijolos na cruz pra merecer ouvir tudo isso que você vai falar pra mim... – ela deu um sorriso decepcionado.
Assumo: eu estava sendo bem egoísta.
Deixei ir tomar banho e continuei deitada na cama, entretida por um encarte de uma loja de roupas qualquer. Acontece que, depois de uns dez minutos, nenhum sinal de e a chegada do tédio, fiquei com vontade de ir ao banheiro. Levantei-me com dificuldade – a fadiga já tinha se apoderado do meu corpo e não queria se desvencilhar de mim – e segui até o corredor, onde ficava o toalete. No entanto, ao chegar à porta, ouvi o barulho do chuveiro e lembrei-me de que estava lá.
- Vai logo, preciso fazer xixi – falei enquanto batia na porta. Ela desligou o chuveiro de imediato e respondeu:
- Vá no banheiro do quarto do Chris, ele não está em casa.
Soltei um “af” indignada, mas fui assim mesmo para o quarto do Drew. Emergências fisiológicas são superiores a princípios de vida.
E, fosse como fosse, eu já tinha desrespeitado a regra número um da minha vida o suficiente para poder ignorá-la. “Manter distância de Christofer Drew e de tudo relacionado a ele – com exceção da ”.
Acredito eu que a parte a seguir não lhes interessa, então deixe-me pular para depois de eu ter atendido ao chamado da natureza e lavado minhas mãos. A porta não abria, eu girava a chave de um lado para outro em desespero. Ah, não. Tinha algo segurando a maçaneta do lado de fora. Ou alguém. Ou o Christofer.
- Doente! – falei pausadamente enquanto batia com a palma da minha mão na porta de madeira.

Capítulo 6 - Admite que me ama, - ouvia voz de Drew do outro lado da porta.
- Abre! Abre! Me tira daqui! – Insisti em bater na porta enlouquecidamente. – Vai logo, Drew, abre essa merda!
- Só se você falar as três palavrinhas mágicas.
- Eu te odeio! – Gritei com agressividade.
- Não... – ele negou e eu pude visualizá-lo em minha imaginação sorrindo debochado do outro lado.
- Vai se foder – disse murchando, encostando na porta e escorregando até cair sentada no chão. Aquilo ia demorar muito.

Muitas ofensas de três palavras depois, eu já não aguentava mais. Onde estava a , afinal? Provavelmente ainda estava tentando concluir a missão de acabar com toda a água doce do planeta. Quanto aos pais do Drew, bom, eles já deviam estar habituados a ouvir gritos e sons vindos do quarto do filho.
- O que você quer de mim? Você é idiota ou o quê? – Perguntei já disposta a enfrentá-lo.
- Eu. Te. Amo. Repita, docinho – pude perceber que ele segurava uma risada.
- Tá bom, tá bom, eu te amo, satisfeito?
- Fala direito, senão não vale.
- Eu te amo, Chriszinho – revirei os olhos e olhei para o teto do banheiro como quem implora a Deus por misericórdia.
- Certo... – ouvi o som de algo arrastando – provavelmente a cadeira que bloqueava a abertura da porta - e levantei-me cautelosamente, colocando a mão no trinco em seguida. Assim que ele se distanciasse o suficiente, eu...
- Eu te odeio! Eu te odeio mais que tudo! – Gritei enquanto corria em direção ao quarto de . No entanto, cruzou meu caminho repentinamente e nos esbarramos, dando a oportunidade de Christofer me alcançar.
Drew colocou os braços em volta de mim e me agarrou pelas costas. nos olhava sem entender nada, exibindo uma expressão totalmente confusa.
- Me solta, seu psicopata, eu te odeio! Eu te odeio mais do que, mais do que...
- Do que...? – Ele perguntou entre risos.
- Do que... O aquecimento global!
Àquela altura, até ensaiava algumas risadas.
- Você tá drogado, sai daqui – falei enquanto dava cotoveladas nele.
- O que tá acontecendo aqui? – Ouvi a voz do pai do Chris e senti uma pontada de esperança: finalmente um adulto responsável e consciente. Christofer virou-se (ou virou-nos, não sei ao certo) para que ficássemos de frente para Sr. Drew.
- Nada, pai, ela só não quer aceitar o fim do nosso namoro.
- Seu estúpido! Me solta, é mentira, seu filho que é um lunático!
Sr. Drew só se pronunciou após coçar a cabeça e movimentar os lábios de um lado para outro.
- Christofer, deixe a amiga da sua irmã em paz. Ela não quer mais nada com você, aceite – ele deu de ombros e virou as costas para nós, voltando para sei lá onde ele estava antes.
Com um pai daquele, não me admirava que Christofer tivesse tal comportamento.
Senti o ódio subir à minha cabeça. Acho que, ao ver minha expressão nada amigável, decidiu que seria melhor intervir.
- Solta ela, Chris, já chega – ela falou se aproximando de nós.
Amtes que ela pudesse pensar em dar um tapa nele, Chris beijou(?!) meus cabelos e me soltou, me impulsionando para frente pelos quadris. Me desequilibrei, mas não reclamei. Não queria ser ainda mais torturada naquele dia.
Segui com até o quarto dela, sem olhar para trás, e fiz questão de trancar a porta depois que entramos.
- Eu odeio seu irmão – bufei enquanto me jogava na cama pela segunda vez naquela noite.
- É, eu sei, às vezes ele passa dos limites... – ela sentou-se calmamente do lado oposto da cama.
- Às vezes? Passa dos limites? Isso é eufemismo, ele... – comecei indignada, mas me interrompeu antes que eu pudesse concluir minha Declaração de Ódio ao Christofer.
- ...mas eu sei que ele gosta muito de você. Você devia dar uma chance a ele.
Não pude acreditar no que tinha acabado de escutar.
- Você tá brincando, né? – Apertei meus olhos e franzi meu nariz em sinal de repulsa. – Ai, chega. Vou tomar meu banho.
Pelo menos por aquele dia, as brincadeiras de mau gosto tinham acabado. Dormi tranquila: a maioria dos pesadelos não seria capaz de superar minha realidade atual.

- Tem certeza de que não tem problema a gente comer esse bolo? - Falei e na sequência enfiei mais um pedaço do apetitoso bolo de chocolate na boca.
Tínhamos acordado quase onze horas, e nem os pais dela e nem Christofer – graças a Deus – estavam em casa. Com esse golpe de sorte, decidimos comer o bolo que a mãe da tinha preparado para a visita da mãe do Chris logo mais à tarde.
- É lógico que não. Ela nem vai vir mesmo – ela respondeu com a boca cheia, colocando a mão na frente dos lábios sujos com alguns farelos de bolo. – Ela nunca vem.
- Como ela é, ? – Perguntei curiosa.
- Hm... Nem me lembro direito, a última vez que eu vi ela foi quando eu tinha uns dez anos... Mas ela tem uma risada muito escandalosa, você não iria querer conhecê-la.
- Ew, tinha que ser mãe do Drew – coloquei a língua para fora de forma idiota e infantil. – Você sabe se tem ensaio da Emergency Motel hoje? – Dei um gole na minha xícara de café.
- Tem sim, na casa do Matthew, por quê?
Terminei de beber meu café, coloquei a xícara e o pires dentro do prato com farelos de bolo e me dirigi até a pia da cozinha. Não dei uma resposta à : fazia parte do plano.
- ? Então – ela perguntou impaciente, vindo até mim com sua caneca do Mickey nas mãos – vai falar ou não? Deixe essa louça aí e me diz o que você tá planejando.
- Não sei – falei falsamente hesitante. Sei que mentir para sua melhor amiga não é a coisa mais adequada a se fazer, mas era estritamente necessário! Ela jamais concordaria com a idéia recém-elaborada na minha cabeça. – Pensei no que você disse ontem. Quero me aproximar do Christofer – finalizei com um leve curvar de lábios, tentando desenhar uma expressão angelical em meu rosto.
- Mentira! – Ela gritou com um sorriso enorme e deixou a caneca dentro da pia. Aproveitei para revirar meus olhos.
- Sabia que não ia funcionar – resmunguei.
- O que você quer fazer?
- Erm... apenas conferir se a banda deles é tão ruim como todo mundo fala... Embora eu não tenha muitas dúvidas a respeito disso – tentei justificar, agora apenas omitindo algumas informações que não precisavam chegar ao conhecimento de .
- Eu sei que você tá escondendo alguma coisa, mas vamos de qualquer jeito. Não temos nada de melhor para fazer hoje, não é?
Botei um grande sorriso no rosto, mas nem perto de compatível com a felicidade gigante que eu sentia internamente. Finalmente colocaria em ação meu plano de vingança.

O prédio baixo de aspecto decrépito no centro da cidade já nos fornecia uma prévia do que encontraríamos no apartamento de John Neumann, um dos amigos maus-elementos de Christofer.
- Tem certeza de que quer ir lá? – perguntou enquanto eu encarava todas as janelas do segundo andar, tentando deduzir qual era a do apartamento de John. Supus que se tratava da janela da qual saía uma grande quantidade de fumaça, mas em seguida vi a silhueta de uma senhora e descartei a hipótese.
- Lógico, você acha que eu vou desistir agora? Qual era o apartamento mesmo? – Segui na frente de , rumo ao interfone.
- 202, 204, 206... Não sei, só sei que é par – ela apertou o lábio para o lado direito e ergueu ambas as sobrancelhas, com certa culpa no olhar.
Culpa desnecessária. Ela não tinha motivo nenhum para saber o número do apartamento do drogadinho. Aliás, se ela soubesse, aí eu me preocuparia.
- Ah... Que droga... – falei um pouco decepcionada, mas logo senti minha motivação de vingança ressurgir.
Peguei meu celular na minha bolsa e sentei ao lado de no segundo dos cinco degraus da escada que levava à porta de entrada do prédio. Naquele momento, não sei como, não pensei nos ratos que deveriam viver naqueles arredores; apenas relaxei empolgada com as perspectivas de vingança que me traziam uma felicidade única.
- Como é o número do Chris mesmo?
ditou-me os números enquanto eu os discava e apertei a tecla para realizar a ligação sem esconder um sorriso.
- Alô? – Ele atendeu.
- Drew, Drew, você tá vendo TV? Ai meu Deus, você tá bem? E o John? O prédio já foi evacuado... Vocês já saíram? – Falei com encenando nervosismo, pensando em todos os trabalhos na Broadway que eu poderia conseguir com o meu talento nato.
Chris balbuciou um “o quê?” confuso no mesmo momento em que eu observei de relance, a qual tinha a boca entreaberta em sinal de espanto. – Saia do prédio, não dá tempo de nada, o prédio está em chamas!!
Ouvi Christofer dizer algo incompreensível dirigido aos amigos e me permiti sorrir sádica.
- Obrigada por avisar – ele desligou. Notava-se nitidamente que ele estava nervoso, principalmente pela educação incomum expressada com o agradecimento: ele não estava normal.
- ... – falou espantada.
Não demorou muito e começamos a ouvir algumas vozes em tom elevado; não havia dúvidas a respeito de quem se tratava.
Uma comemoração de “estamos salvos” precedeu a abertura da porta em que estávamos sentadas na frente. Sorri.
- O que é que a sua irmã tá fazendo aqui? – John, que ia na frente, parou ao nosso lado ao notar sentada comigo na escada.
- ? – Virei-me para trás ao escutar meu nome, já sabendo quem o chamava.
- Bu! – Sorri abertamente e vi o oposto acontecer no rosto de Drew. – Viemos assistir o ensaio de vocês.
- Não é aberto ao público, – ele grunhiu, agindo exatamente como eu na noite passada.
- Mas nós não somos “público”, Drew – respondi, dando um sorriso sarcástico. – Na verdade, somos praticamente parte da banda – disse a última palavra fazendo aspas com os dedos.
Claro, porque, se eles adotassem o nome “banda” para se referir à Emergency Motel, seria uma ofensa a todas as outras bandas existentes no planeta.
Virei-me para John, Matthew e o gordinho cujo o nome eu não sabia, os quais haviam recuado conforme eu e Christofer trocávamos nossas típicas palavras de carinho. , próxima a eles, ainda sentada, mordia o lábio inferior e tinha os olhos arregalados como quem suplica por algo – no caso, ir embora daquele lugar. Nesse momento eu tive uma idéia genial: usar a paixonite de Matthew por a meu favor para entrar naquele apartamento. Frequentemente ele me perguntava sobre ela, um interesse, sem dúvidas, suspeito. Chris também era indagado com questões a respeito da irmã, e isso não o agradava nem um pouco. Obviamente minha intenção não era, de forma alguma, servir de cupido para os dois, até porque até uma lata de lixo ou uma privada eram boas demais para Matthew, mas a idéia era excelente.
Atraí a atenção de Matt com apenas um olhar, e dele segui para . Acho que ele captou a mensagem, pois logo se pronunciou:
- Caras, vamos deixar as meninas assistirem a gente. Qual o problema?
Todos pareceram concordar, exceto Chris. No entanto, como a maioria é que vence, senti-me à vontade para adentrar no prédio.
- O que você tá fazendo, ? – Chris, irritado, ronronou à distância. Fingi não ter ouvido. Subimos as escadas e chegamos ao apartamento 404. John, que estava com a chave, abriu a porta, e finalmente pude conhecer o ambiente de trabalho da Emergency Motel. Não diferia muito do que eu imaginara: as caixas de pizza vazias, os salgadinhos pelo chão, as latinhas de refrigerante e cerveja já consumidas espalhadas por todas as superfícies planas, todos estavam presentes no apartamento, confirmando minhas expectativas.
- Que nojo – ouvi resmungar e ri. Graças a Deus alguém que compartilhava a mesma opinião que eu.

Matthew, John, Chris e o gordinho, cujos comportamentos combinavam perfeitamente com a situação do apartamento, sequer trancaram a porta do minúsculo apartamento. Christofer e o amigo acima do peso seguiram para a cozinha, a qual a única separação da sala era uma bancada de uns dois metros de comprimento com seis cadeiras altas improvisadas em volta, cada uma diferente da outra. Já Matthew e John sentaram-se no chão, ao lado do sofá. , até então postada na porta, correu até mim com uma expressão incrédula no rosto e me puxou para um canto onde não fôssemos ouvidas.
- Seja lá o que você quer fazer, faça logo. Temos que ir embora desse chiqueiro – ela jogou as palavras depressa, reflexo de seu desespero.
- Vamos fazer um social, vamos? – Sugeri sorridente e guiei-a pela mão até os dois fumantes encostados no sofá repleto de pipocas.
Tive que engolir meu orgulho e minhas noções de boa higiene para encostar minha pele naquele estofado. Após respirar profundamente para tomar coragem, debrucei-me no braços do sofá e botei meu maior sorriso na cara.
- Oi, Matt! Oi, John!
Dois cumprimentos desinteressados foram as únicas respostas que obtive.
- Que horas começa o ensaio? – Perguntei, olhando para os instrumentos no mesmo cômodo, entre a parede de trás do sofá e uma pequena sacada. Foi aí que notei um colchão de casal com lençóis desarrumados por cima, próximo à bateria, e cheguei à conclusão de que privacidade ali não existia. Apenas no banheiro, provavelmente – local o qual eu preferia não conhecer. Exatamente como eu precisava.
- Mais tarde – John respondeu e coçou os cabelos castanhos. E, acredite se quiser, ele usava uma aliança. “Quem em sã consciência o namoraria?”, perguntei-me. Aquilo me intrigou.
Revirei os olhos e levantei-me. Se Matt estava interessado na e John estava num relacionamento aparentemente sério, eu não tinha o que fazer ali.
- Aonde você vai? – , rígida no sofá, sussurrou com os olhos arregalados enquanto eu caminhava até a divisória da cozinha.
- Fica aí – respondi. – Faz parte do plano – murmurei sem fazer muita questão de ser compreendida.

Na cozinha, também sentados no chão, estavam Chris e o gordinho, dividindo um pacote de batatas fritas. Qual o propósito de se ter sofás e cadeiras em casa quando apenas o chão é utilizado para se sentar?
- Oi, gente – saudei-os e sentei-me na frente deles, formando um pequeno círculo.
Christofer simplesmente levantou-se e foi embora, sem nem ao menos retribuir meu cumprimento. O gordo, mais educado, deu-me um “oi” tímido e ofereceu-me batatinhas. Recusei mais por uma questão de higiene, pois sou uma grande fã dessa iguaria vendida em pacotinhos.
- A tá lá com o Monstro – ouvi Chris dizer da sala.
“Monstro”, repeti na minha cabeça e retorci minha boca numa expressão involuntária de desdém.
- Erm, qual seu nome? – Perguntei.
- Monstro – ele respondeu com a boca cheia de batatas, enfiando mais três em seguida para serem abominavelmente mastigadas. – , né?
- Aham – confirmei.

Monstro. Monstro. Monstro. Monstro. Será que valia a pena me misturar com alguém chamado assim só pra fazer ciúmes no Christofer?

Capítulo 7

- Por que te chamam, erm, assim? – Questionei numa tentativa de manter um diálogo.
- Longa história. – Ele colocou mais batatas na boca.
- Não tenho nada melhor pra fazer – sorri sem mostrar os dentes, exibindo um olhar amigável.
- Ah... Uns caras queriam bater no Chris, mas aí eu estava por perto e os caras ficaram intimidados achando que eu era amigo dele... Na época eu pesava 150 quilos, então devia ser meio assustador mesmo.
Ele fez uma nova pausa para comer mais e eu supus que deveria me manter em silêncio até ele finalizar a ingestão de mais uma porção de carboidratos e gorduras saturadas. Enquanto isso, concentrei-me em não imaginá-lo ainda mais gordo do que a imagem dele à minha frente me mostrava, embora fosse impossível não tentar desenhar uma versão do Monstro com obesidade mórbida tipo II na minha cabeça.
- Daí o Chris foi me agradecer junto com o Matt, então surgiu a amizade e o apelido.
- Oh, uau, que história... interessante... – dei um sorriso sem graça. – Preferia que o Drew tivesse apanhado, mas... – falei rápido, sem nenhuma intenção de ser compreendida. – Uau, muito... incoerente, quer dizer... improvável... e como você emagreceu tanto? – Dei ênfase no “tanto” para mostrar minha admiração.
Eu era indiferente à resposta; comendo daquele jeito, logo recuperaria os 50kg perdidos. E também não era como se eu quisesse dicas de dieta vindas dele.
- Fui expulso de casa – ele deu de ombros.
- Uau, nossa... Posso perguntar por quê?
- Uns esquemas envolvendo drogas e meus pais – mais uma vez deu de ombros, como se estivesse me contando o que tinha jantado no dia anterior.
Fitei os azulejos da cozinha enquanto refletia a respeito de onde eu estava me metendo.
- Seus pais... usam... drogas?
Abusava das pausas enquanto conversava com ele: sentia como se estivesse num campo minado, e qualquer palavra errada resultaria num Monstro descontrolado me socando. Talvez sua aparência fosse a culpada pelo retrato de “O Incrível Huck” que eu havia feito dele.
- Não – ele respondeu e eu captei o que “esquemas envolvendo drogas e meus pais” significava, mesmo relutante em aceitar que minha última esperança era, possivelmente, um ex-membro do narcóticos anônimos da paróquia local.
Nossa conversa prosseguiu por mais quinze minutos, sempre acompanhada por meus risinhos sem graça e pelos maus-modos de Monstro. No entanto, apesar de ter uma educação repulsiva, escondido naquele mais de um décimo de tonelada estava um menino até que divertido e uma companhia até que um pouquinho agradável. Diferentemente de John, Matt e Chris, Monstro – cujo nome de batismo eu ainda não sabia – não era cheio de si e também não se vangloriava de uma vida sexual inventada. Chris podia ser um super modelo de capa da Vogue se comparado a ele, mas, no quesito personalidade, Monstro ganhava com grande vantagem.
Foi John quem nos convidou para assistir ao ensaio – eu, no caso, já que Monstro, baterista, iria de fato ensaiar. Quando me dirigi à sala, pude notar já bem enturmada com o Emergency Motel. Não sabia se ficava feliz ou com remorso por aquilo: apesar de ela não parecer estar cogitando suicídio devido à situação a qual eu a havia colocado, John e Matt eram “amizades” que eu não desejaria para ninguém por quem eu sentisse um mínimo de afeto.
No fundo do apartamento, a apresentação particular para nós duas estava prestes a começar. Matthew, vocalista secretamente obcecado por , dedicou a música a ela, e eu pude ver o rosto de Chris adquirir a mesma expressão de nojo e vergonha alheia que o meu. Em seguida, a banda começou a tocar.
Ao final da primeira música, cheguei à conclusão de que minha audição não aguentaria nem mais um minuto ali. O som deles não era apenas ruim: era ruim, péssimo, tenebroso, terrível, horrendo e tudo de pior que você possa imaginar. Christofer até que não tocava de todo mal, e a voz de Matt era até que agradável como última opção, mas não cantando aquele estilo musical revoltadinho forçado. E, no conjunto, esses dois únicos aspectos positivos eram quase imperceptíveis.
Acima de tudo, senti pena dos vizinhos.
- Tem alguém me ligando – menti no momento em que eles se preparavam para tocar mais uma música e distanciei-me deles segurando meu celular, o qual antes estava no bolso do meu moletom azul piscina nada chamativo.
Enfim, quando já estava relativamente longe – em frente à porta, que apesar de perto dos garotos era a maior distância possível de me manter deles –, se tocou do teatro que estava acontecendo ali e foi até mim.
- Ah, é uma mensagem – falei e comecei a rodar pelas minhas SMS antigas à procura de uma desculpa plausível. Fingir que realmente tinha alguém do outro lado da linha seria ridículo demais, até mesmo para mim. – Ah, meus créditos expiraram... Precisamos sair para colocar mais créditos, !
Não era mentira nenhuma. Na verdade, eu estava sendo até mais honesta do que eles mereciam. Eu não precisava ficar dividindo minha situação com a operadora de celular com todo mundo.
- Cara, agora? – John perguntou. Intrometido babaca, qual a dificuldade em não questionar minhas desculpas mal elaboradas para fugir de ensaios de bandinhas fracassadas?
- Cara, é. Agora, cara – respondi, aderindo ao dialeto de usuário de drogas para mostrar implicitamente o quanto eu o odiava.
- Mas por quê? – Matthew disse, olhando apaixonadamente para .
Meu Deus, FODA-SEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!
Até que sua atitude era fofa, mas as roupas de marca rasgadas propositalmente dele, estilo certamente sustentado pelo dinheiro dos pais dos metidos a drogados da escola, descia Matthew de volta no meu conceito.
Abra o Word. Complete mil páginas com o número 9. Depois, volte à página 1. Acrescente o sinal de menos no início de tudo. Pronto, o valor obtido é a avaliação que Matt merece como ser humano.
Ah, espera. Volte à página 1000 e retire o último 9. Tchadã! Agora ele tem menos pontos que Chris na categoria “mais idiotas”.
Chris, sempre invicto.
- Porque... Porque... Eu preciso fazer ligações para o... o...
Eu não ia falar me referir ao gordinho como “Monstro”, aquilo ia além do aceitável.
- Monstro? – Chris completou, o rosto com uma expressão serena e atípica.
Não era aquilo o que eu queria! Era para ele estar me zoando, rindo, fazendo piadinhas, algo... Normal!
- É – confirmei. – Aliás, - sorri para o garoto das batatinhas – você tem que me dar o seu número para a gente marcar de sair.
Monstro levantou-se de detrás da bateria e avançou até ficar próximo aos amigos.
- Monstro não tem celular – John falou.
- Ué, então me dá o telefone da sua casa, pode ser? – Sugeri, já elaborando hipóteses a respeito do motivo de ele não ter um celular. Será que seus pais eram super protetores e acreditavam em estudos que acusavam o celular como causador de câncer? Ou será que Monstro tinha vendido o aparelho para comprar drogas? Ou ainda: será que os amigos dele tinham o forçado a vender o celular?
Tentei afastar essas suposições e procurei me convencer de que eu estava, para variar, sendo radical demais. Em seguida, Monstro finalmente falou por si próprio:
- Eu te falei que fui expulso de casa, não falei?
Rodei meus olhos pelo pequeno apartamento em uma fração de segundo e observei ao meu lado rapidamente. Eu precisaria deixar as coisas claras a ela mais tarde.
- Então onde é que você mora? – Mordi com força a parte interna da minha bochecha direita após a pergunta e senti uma leve dor.
- Isso não vai ser um problema! – Christofer interrompeu e Monstro não teve a chance de responder à pergunta que me incomodava. - Por que a gente não marca um “encontro de casais”? – Ele se impôs em frente aos amigos, perto demais de mim. – Monstro e , Matt e , John e Sophie e eu e Monica. Amanhã à noite, no bar de sempre, que tal?
“E EU LÁ SOU MENINA DE ANDAR EM BOTECO COM PUTAS BARATAS?”, berrei internamente, expressando meu ódio através de meus olhos arregalados e um tanto quanto assustados.
- O que é isso? Não, não, de jeito nenhum – , que até então estava invisível, negou levemente alterada. – Tenho outros compromissos.
O rosto de Matt adquiriu um semblante de decepção, mas lembrei-me de não sentir um pingo de pena dele ao observar seu cabelo milimetricamente penteado e com gel.
- Eu também não posso – John também recusou a proposta de Chris.
Eu precisava de uma desculpa rápido, rápido, rápido...
- Então eu vou pedir para ser dispensado mais cedo do serviço comunitário no lar dos idosos e nós vamos, não é, ? – Ele falou sem olhar para mim, com certo desinteresse, o que eu julgava ser seu tom característico.
Lar dos idosos? Aquilo mudava muita coisa. Talvez ele fosse um menino de bem! Além disso, ele ia pedir dispensa especialmente para sair comigo, coisa que não fez comigo uma vez sequer quando estávamos juntos e ele se juntou àquele “Clube de Tecnologia” estúpido. Não era nem um compromisso sério, era só uma reunião de nerds para fazer cálculos e montar robôs, máquinas e outras coisas inúteis.
Eu não poderia negar o convite, porque, além de tudo, estaria desviando do meu objetivo inicial por puro preconceito contra pessoas obesas e drogadas – item que agora não era mais tão confirmado, afinal, Monstro era um jovem engajado em ações filantrópicas.
Ah, e também tinha o fato de que era um encontro no “bar”, o que não soava nada bem para alguém como eu.
- Claro! – Joguei meus cabelos para o lado e sorri desafiante para Christofer. – Vou adorar. Depois você me dá mais informações, porque agora temos que ir embora depressa.
e eu despedimo-nos com acenos discretos e nos viramos para sair de lá exatamente ao mesmo tempo. Ela parecia querer dizer algo, mas minha expressão horrorizada de alguém prestes a se debulhar em lágrimas roubou-lhe as palavras.
- Eu oficialmente não sei mais o que estou fazendo – ri, mas minha vontade era de bater minha cabeça na parede até desmaiar e rolar as escadas daquele prédio.

O dia na escola tinha sido normal. Todas as atividades rotineiras como dormir na aula de Biologia, almoçar com , evitar contato visual com e falar mal de todas as pessoas ao seu redor tinham feito parte da minha jornada escolar diária. O único fato incomum foi o recado de Christofer que me passou: a localização de uma sorveteria que seria cenário para o “encontro de casais”. Acredito que persuadiu Chris a mudar o ambiente, porque um bar frequentado por aqueles quatro não podia ser uma coisa boa. Além disso, daquela forma o horário da nossa saída podia ser antecipado, caracterizando o “encontro” como um mero passeio casual de colegas à tarde.
Ao chegar em casa, fui direto ao meu quarto e joguei-me na cama encarando meu armário. Era realmente necessário me produzir para aquela palhaçada toda? “Não, não, não, claro que não!”, a voz dentro da minha cabeça insistia, mas eu sabia que, para obter êxito, eu precisava de um pouquinho de sex appeal.
Não que eu fosse me arrumar como uma dançarina de strip tease, claro, era apenas o suficiente para o Chris sentir inveja do Monstro e/ou ciúmes.
Revirei os olhos ao perceber os rumos que meus pensamentos tomavam. Eu era nojenta! Levantei-me da cama depressa para não me concentrar na culpa que aquele “plano” infantil me trazia. Afinal, eu odeio o Christofer, então por que eu queria que ele sentisse ciúmes?
, já discutimos a respeito disso”, uma segunda voz soou em minha mente enquanto eu fingia que analisava as roupas em meu armário. “Só porque ele gosta de você não significa que você obrigatoriamente gosta dele!” Era minha razão me acalmando. Eu já tinha muitos, muitos indícios de que ele tinha certo afeto por mim, mas que demonstrava da forma incorreta, o “encontro de casais” seria apenas uma forma de confirmar minha hipótese.
Peguei meu short jeans preferido e combinei com uma blusa com estampa florida, delicada e romântica, que ainda por cima me dava um ar inocente. O charme veio através do – não acredito que eu estou fazendo isso – leve decote e as alças do sutiã rosa à mostra. Olhei-me no espelho que ficava próximo à janela e a pergunta “O QUE EU ESTOU FAZENDO?” gritava de forma incessante em meus pensamentos. Forcei meus lábios a formarem um sorriso em frente ao meu reflexo. Eu não era a , eu era a porra de um personagem. Fiquei imaginando se era mais ou menos assim que os travestis se sentiam quando se montavam, ao mesmo tempo em que tentava lembrar onde tinha guardado meu estojo de maquiagens depois da última vez que o usara. Como era nítido, cosméticos nunca foram uma prioridade para mim, embora eu fosse totalmente capaz de obter um resultado profissional quando me arriscava a entupir minha cara de produtos de beleza.
Devidamente arrumada, calçando as sapatilhas - tenho que confessar que não sou fã desse tipo de calçado – azuis que ganhara de minha avó em meu último aniversário – ela enviou pelo correio com três meses de atraso, mas o que vale é a intenção – saí rumo à sorveteria. Como não havia ninguém em casa, tive a sorte de não precisar dar satisfações a nenhuma mãe ansiosa por novas informações sobre a vida amorosa da filha.

Se tinha algo que me confortava nessa história toda era pensar nos milkshakes que me aguardavam. Ouvi alguns boatos de que a sorveteria contava com milhares de sabores, incluindo alguns inusitados que provavelmente me agradariam muito.
“Pelos milkshakes”, pensei. “Pelos milkshakes e pela paz que haverá em sua vida depois desse dia.” Parei próxima ao meu destino e avaliei a apresentação do local; estava em um nível bem superior ao da lanchonete em que Chris trabalha – ou trabalhava, não tive notícias sobre a situação do emprego dele depois do incidente da roupa de urso, o qual eu batizara de Incidente Número Um (o número dois era o sequestro, o três a surpresa, e assim seguia-se em ordem cronológica).
Respirei fundo e voltei a caminhar com passos firmes, reflexo da minha crescente confiança.
- Hey, patricinha, você é a ? – Uma garota com os braços cobertos por tatuagens, piercings no rosto e um cabelo, hm, inusitado, me intimidou, se aproximando cada vez mais de mim. Não que eu tenha preconceitos contra pessoas que curtem modificação corporal, mas aquela menina em especial já tinha conquistado o meu desprezo. Além disso, quem ainda usa a expressão “patricinha”, em pleno século XXI?
- Sou eu sim, por quê? – Respondi com má-vontade. Ela não esperava que eu a respondesse com abraços depois daquela saudação, não é?
Depois daí fica meio difícil de descrever, porque eu estava irritada demais para reparar em detalhes como o que acontecia em torno de nós, a mão com que a tatuada segurava o skate que usou para bater em minha barriga...
Na verdade, acho que ela usou as duas mãos. Deduzi pela dor, sabe como é.
- O que você tá fazendo? Quem é você? – Gritei, me afastando e ao mesmo tempo tentando fingir que não sentia dor, mas foi inevitável colocar a mão em minha barriga enquanto encarava aquela aberração me olhando de forma ameaçadora.
- O Christofer é meu, vadiazinha! – Ela gritou, partindo para cima de mim mais uma vez.



N/A: Odiei esse capítulo, mas pelo menos consegui escrever alguma coisa. Obrigada pelos comentários lindos, às vezes me pergunto se vocês são a minha mãe comentando várias vezes usando nomes diferentes... Mas aí eu me lembro que a minha mãe não aprovaria a linguagem da fanfic e acharia “inadequado” para a minha faixa etária, ENFIM, vamos levando a vida.
Se quiser fazer comentários a respeito da fanfic, dar sugestões, criticar, tirar dúvidas, desabafar ou qualquer outra coisa, entre em contato comigo pelo twitter ou pelo tumblr. Não entro mais com tanta frequência quanto antes (estou meio que vivendo a vida real agora), mas podem ter certeza de que seus comentários serão lidos e respondidos.