
Capítulo 1 - For The Nights I Can’t Remember
- Por favor, me perdoe – Eu dizia enquanto ele se afastava cada vez mais de mim. Senti um buraco vazio no lugar onde eu costumava ter meu coração, meu peito doía a cada passo que afastava ele de mim, senti minha respiração falhar.
- Não faz isso comigo, eu preciso de você apenas para respirar- Minhas falhas tentativas de fazê-lo ficar.
- Minha fraqueza te fez sofrer- Pela primeira vez tinha dito algo que fizesse totalmente sentido, tanto que o fez virar de frente para mim, e eu pude ver seu rosto, sim aquele rosto que fez meu coração reaparecer e bater acelerado em meu peito.
Estendi uma das mãos para que ele pegasse, mas ele não pegou, eu queria morrer nada mais fazia sentido, sua rejeição doía mais do que qualquer outra coisa. Seu rosto foi sumindo conforme uma luz branca ia aparecendo e ficando cada vez mais intensa, minha mão continuava esticada tentando alcançá-lo.
Acordei em um lugar estranho, havia paredes brancas e cortinas em tom pastel, o local estava silencioso demais para o meu gosto.Uma luz muito forte brilhava naquele quarto quase me cegando.Abri meus olhos devagar, tentando me acostumar com aquela claridade.Notei que alguém segurava minha mão enquanto dormia em um sofá que aparentava não ser muito confortável do lado da cama onde eu estava. Quando meus olhos se acostumaram com a claridade, pude vê-lo melhor, e assustei-me, era ele que segurava a minha mão, o cara do meu sonho, o cara que eu tanto quis que segurasse minha mão em sonho, o cara que eu quis morrer por não ter segurado minha mão estava ali, do meu lado, segurando minha mão, mas...quem era aquele cara?
Aos poucos fui tirando minha mão debaixo da suas quentes e aconchegantes em uma tentativa de não acordá-lo, mas ele acordou.Eu já não sabia o que fazer, ele olhou em meus olhos, seus olhos eram expressivos iguais aos que eu sonhei e no momento aqueles olhos me mostravam uma pessoa completamente assustada, mas feliz, pois logo em seguida ele me abriu um largo sorriso, era como se aquele sorriso fizessem as luzes do local onde eu estava ficarem ainda mais intensas.
- ?- Ele disse, me abraçando logo em seguida.
Eu continuava imóvel, por que raios aquele cara estava me abraçando? E tem mais, como ele sabe meu nome? Ou melhor, meu apelido?
- Eu não acredito, não posso acreditar que você acordou- Ele dizia enquanto se soltava do abraço, e olhava para mim, como quem estivesse sonhando.
Eu estava muito confusa, quem era ele afinal? De onde ele me conhece? Ele havia saído do meu sonho?
Não encontrava palavras, as perguntas a serem feitas eram tantas, que a primeira coisa que me ocorreu...
- Quem...é...você?- Eu disse.
O sorriso que ele tinha desaparecera ao ouvir minhas primeiras palavras, lágrimas desceram lentamente pelo seu rosto.Ele levantou-se depressa, deixando o quarto e mais uma vez, me deixando confusa.
Fiquei sozinha naquele quarto por exatos 30 minutos, olhei para um botão ao meu lado, era aqueles botões que você aperta para chamar a enfermeira ou algo do tipo, curvei-me na cama para apertá-lo, mas alguém entrou em meu quarto. Sim, era minha mãe, olhou pra mim surpresa, me abraçou forte, dessa vez o abraço foi retribuído. Ela enxugava algumas lágrimas que percorreram pelo seu rosto, sentando-se no sofá que havia ao lado da minha cama.
- , como você está se sentindo meu amor?- Ela perguntou.
- Confusa –eu disse ainda curiosa para saber quem era aquele cara que estava no quarto antes de minha mãe chegar -Quem era o cara que estava no meu quarto a 30 minutos atrás?- Perguntei
- Cara? Que cara meu amor?- Ela perguntava olhando para mim mais confusa ainda.
- Quando eu acordei, tinha um cara sentando nessa poltrona- Eu apontava a poltrona na qual minha mãe estava sentada – ele sabia meu nome, me abraçou todo feliz, só que eu não sei quem ele é- Terminei.
- Não tinha ninguém aqui minha filha- Ela disse parecendo um tanto assustada.
- Como não?- questionei –Quando eu acordei tinha um cara segurando minha mão enquanto dormia.
- Impossível meu amor, eu passei a noite inteira com você, não havia mais ninguém aqui hoje, você deve ter sonhado.
- O que aconteceu mãe? Por que eu estou aqui nesse hospital?
- Minha filha – ela tentava conter as lágrimas- Você sofreu um acidente de carro, e ficou em coma- As lágrimas rolavam pelo seu rosto.
Eu não podia acreditar no que acabara de escutar.
- Há quanto tempo eu estou aqui?
- Dois meses, .
Capítulo 2 - All We Are
Recuperei-me logo, voltei para a casa, e voltei a fazer minhas atividades normais, ou quase. Parei de trabalhar por causa do acidente, meus pais acharam melhor eu ficar em casa durante um tempo, então a única coisa que eu fazia todos os dias a tarde era caminhar.
Passaram-se 7 meses desde o ocorrido no hospital, e eu estava caminhando como sempre, as ruas eram tão parecidas naquele lugar da cidade que quando dei por mim, estava um tanto que perdida.
Caminhei mais um pouco tentando achar o caminho de volta, quando meus pensamentos perdem totalmente o rumo ao passar por uma casa que tocava uma música conhecida. Sim, eu conhecia aquela música de algum lugar, poderia ter tirado talvez do mais profundo sonho, não, não era o sonho eu realmente conhecia aquela música.
Parei em frente a casa e fiquei a olhando enquanto ouvia a música. Por um impulso, fui até a porta da sala, algo me dizia que ela não estava trancada, cara como eu acertei? Ela realmente não estava trancada. Por outro impulso entrei, dando de frente para a sala, o som estava mais forte então o segui até a garagem.Fitei a porta entreaberta por alguns segundos, e por fim, a abri entrando na garagem onde quatro caras estavam ensaiando.
Surpreendi-me ao ver o cara do meu sonho, aquele que segurava minha mão sentado ao meu lado no hospital.Ele estava bem ali, naquela garagem ensaiando com a banda.
Todos pararam e me olharam assustados. Um silêncio horrível dominava aquela garagem, eu não conseguia falar ou fazer algum movimento, a situação começou a ficar constrangedora quando um deles resolveu se pronunciar.
- Como você entrou aqui?
- Err.. pela porta da sala, estava aberta...
- Merda, eu sempre esqueço de fechar- Mais um se pronunciou.
- Desculpa, mas é que eu conheço essa música de algum lugar, não sei, pode ser loucura, ta eu sei, é loucura, mas eu conheço a música que vocês estavam tocando, não sei da onde, é algum cover?
- Não, a música que estávamos tocando era nossa.
Sim , o cara do meu sonho se pronunciou.
- Eu te conheço não conheço? Você estava no hospital segurando minha mão, você é real, me diz, quem você é?
- Hospital?Err... sinto muito, eu não te conheço, não sei do que você está falando.
- Como não? Sabe sim, você estava lá, eu te vi, você saiu correndo porque eu não te reconheci...
- Ahnn... Você está bem? Quer alguma coisa? Um copo de água? Quer ligar para alguém?
- Não, tudo bem. Desculpa entrar assim igual uma louca, vai saber, acho que estou ficando louca.
Virei de costas em direção a porta que levava de volta para a sala.Quando ia abrindo a porta da sala, alguém segurou meu braço. Virei-me para ver quem era, sim, era ele, o cara do meu sonho.
- Hey, você parece estar perdida, não quer ligar para ninguém mesmo?
Olhei em seus olhos, aqueles olhos tiraram minha respiração por um instante.
- Acho que quero sim.
Sorri confusa. Ele retribuiu o sorriso.
- Quer sentar? – Ele apontou o sofá. Sem responder nada apenas sentei enquanto ele buscava o telefone.
Observei a sala por alguns minutos, a televisão era enorme, parecia que tinha engolido um país inteiro é a demonstração de capitalismo mais espalhafatosa que eu já vi. Observei algumas fotos nas mesinhas ao lado do sofá, fotos da banda, uma foto engraçada de todos bebendo a noite em uma praia.Deparei-me com um porta retrato vazio, estranho, por que alguém teria um porta retrato escrito L-O-V-E sem nenhuma foto?
Minutos depois ele voltou com o telefone em suas mãos, sentando ao meu lado no sofá me entregando o telefone. Fiquei encarando o aparelho em minhas mãos, não conseguia discar, eu tinha que perguntar...
- Qual seu nome? – Perguntei virando meu rosto para encarar seus olhos novamente.
- – ele sorriu -mas pode me chamar de .
Sorri pela primeira vez naquele dia, estendi a mão para que ele a pegasse.
- Prazer, sou – ele apertou minha mão -mas pode me chamar de .
Ele sorriu novamente enquanto soltava minha mão.
- Você realmente não me conhece?- Eu tive que perguntar.
- Eu realmente não te conheço- Ele sorriu, parecia estar gostando daquela situação, uma louca entra em sua garagem e fala que te conhece sendo que você nunca a viu na frente.
- Desculpa, acho que estou tendo, aquele tipo de premonição sabe?
- Déjà vu? – Ele interrompeu enquanto eu tentava lembrar o nome.
- Isso, exatamente.
Eu sorri e o encarei por um momento. Ele fazia o mesmo, como quem perguntasse ‘isso realmente está acontecendo?’
Ele estava ali, bem do meu lado como no sonho, era ele, o mesmo rosto, o mesmo cabelo, os mesmos olhos.
Meus pensamentos foram interrompidos pelos outros garotos que entraram animadamente na sala naquele instante.
- Olá estranha- Um deles me disse. Sorri sem graça, eu era uma invasora, e eles eram simpáticos comigo.Eu não sabia o que falar, estava totalmente sem graça.
- Err.. melhor apresentar vocês- dizia. – , esse é , e ... pessoal essa é a .Sim, era o cara que chamava que tinha dito o famoso ‘Olá estranha’
- E aí, ta melhor?- disse ao mesmo tempo em que sentava do meu lado no sofá.
- Como assim, melhor?- perguntei enquanto olhava os outros meninos sentar no tapete em frente ao sofá.
- Errr –ele tentava consertar o que disse enquanto recebia olhares mortais de -Não sei, você parecia meio... disse
- Perdida! – terminou a frase.
Legal, acho que tava escrito ‘com licença,estou perdida’ na minha testa, não é possível.
- Tudo bem,confesso eu estou perdida sim, mas já vou ligar para alguém de casa me buscar e...
- Eu posso te levar para a casa se você quiser- disse
- Não precisa se incomodar, eu já fui muito inconveniente pra vocês hoje.
- Você não foi inconveniente- dizia
- Claro que não, afinal não é todo dia que uma garota linda invade o ensaio da gente- disse tirando risos de todos que estavam naquela sala.
levantou-se e foi até uma mesinha que havia ali por perto, pegou as chaves do carro e sua carteira, colocou no bolso de sua calça jeans dois números maior que ele, sim, ele usava a calça caindo mostrando sua boxer que por um acaso era preta e caminhou até o sofá novamente.
- Aceita carona?- Ele dizia enquanto olhava para mim.
- Eu não quero incomodar...
- Não será nenhum incomodo- disse, apontando com a cabeça a porta da sala, por onde tinha acabado de sair.
Despedi dos outros rapazes e entrei no carro de . O caminho de volta para a casa foi normal, expliquei onde morava, ele prestava atenção em mim e dizia que era fácil se perder em Londres. Ele não morava muito longe, logo cheguei em casa.
parou o carro em frente a minha casa enquanto eu o encarava.
- Está entregue- ele disse enquanto seus olhos percorriam meu corpo até encontrarem com os meus.
- Obrigado, e desculpe novamente tudo o que aconteceu hoje, nem eu sei como aconteceu.
- Não se preocupe, foi legal te conhecer- Ele sorriu. Como era bom vê-lo sorrir.
- Bom, então, Tchau- Tentei parecer o mais natural possível.
- Até mais- ele disse enquanto eu saia lentamente de seu carro.
Estava caminhando até a porta de minha casa, em um impulso olhei para trás, ele ainda estava parado.
- A gente se vê por aí. - Eu disse meio alto. Ele apenas assentiu com a cabeça, deixou outro sorriso escapar, deu partida no carro e foi embora.
Capítulo 3 - I'll Be There For You
Sete meses se passaram desde o dia que eu havia invadido o ensaio deles. Sete meses que eu fiquei amiga de , o cara do meu sonho, na verdade estamos muito amigos, dividimos tudo o tempo todo, temos tudo em comum então é difícil discutirmos, a não ser quando ele faz manha parece uma criança mimada. Sete meses que o meu coração dispara ao vê-lo, ou ouvir sua voz, ao sentir suas mãos tocando minha pele, ao sentir seu abraço caloroso, ao sentir seu cheiro, ao senti-lo perto de mim, simplesmente por ele estar ali, vivo, alimentando minha alma com sentimentos maravilhosos que nunca havia sentido antes. Parece bom não é? Pois vou dizer. Sete malditos meses sentindo meu peito doer quando ele abraça ela, quando ele a beija, quando ele olha nos olhos dela do jeito que eu sempre quis que ele olhasse nos meus, do jeito que ele fala com ela, do jeito que ele acaricia seu cabelo, do jeito que ele a envolve em seus braços, lembrando-a de que ele estará ali com ela para sempre. A única que sabe dos meus sentimentos por ele é minha amiga desde infância, aquela que cresceu comigo, aquela que sabe tudo o que se passa em meu coração. Ela insiste que eu diga o que eu sinto para ele, mas o dia que eu disser que o amo, o chão irá se abrir e Londres se transformará em um inferno onde as pessoas irão todos os dias ajoelhar-se para rezar e lamentar o maldito dia que eu falei para que o amo. Entendeu a gravidade do problema? Ele tem namorada, ele ama ela, eu não passo da melhor amiga dele, aquela que está para ele em qualquer hora.
Estava em meu apartamento, jogada no meu sofá mudando de canal a cada segundo, custei a convencer meus pais a me deixarem morar sozinha, por fim venci. Morar sozinha também tinha seus dias de cão, como esse por exemplo, eu estava me afogando no tédio.A mesinha que ficava entre o sofá e a televisão estava repleta de latas de coca-cola, estava com preguiça de mexer meu corpo daquele sofá mas também não queria ficar ali. Até que a campainha tocou. Me deu uma vontade tremenda de gritar ‘Entra, a porta está aberta’ mais poderia ser Josh, meu vizinho tarado e casado me pedindo outra vez açúcar, pra eu ir buscar e ele passar a língua nos lábios enquanto me olha dos pés a cabeça, e outra, esse negocio de acabar açúcar toda a semana na casa dele já deu no saco. Por fim me rendi, fui até a porta abri totalmente estressada.
- Olha aqui, eu vou te comprar um canavial inteiro para você parar de me encher os pacova me pedindo açúcar e... !
- Err... eu tenho açúcar em casa, obrigado. - disse me olhando confuso.
- Desculpa, pensei que era o Josh...
- Ele ainda não parou de te pedir açúcar? -Ele disse enquanto entrava no meu ape.
- Não, ele não desiste, é incrível.
- Tarado, vou ter uma conversa com ele, vai ver só, com você ninguém mexe.
Caralho, porque ele fazia isso comigo? Porque se importava ou pelo menos fingia se importar? Ele fazia isso só para as borboletas fazer a festa em meu estomago?
- Então, o que você faz aqui ? – perguntei enquanto sentava no sofá.
- Não posso mais te ver? É assim que você me retribui?- Ele dizia com uma cara de cachorro que caiu da mudança incrivelmente linda.
- Você sabe que não é isso, eu só estranhei, sei lá.- Eu tentava concertar o que falei.
- Bom, eu tenho um propósito vindo até aqui senhorita .
- Hum, e qual é?- Falei tentando mostrar interesse. Mais sabia que tinha algo a ver com a Jenny, sua namorada.
- Venho humildemente até aqui te implorar para ir a casa de campo do esse fim de semana.
Caramba, não foi da Jenny que ele falou, bom isso realmente é um milagre, momento memorável, devia ter filmado isso e colocado no youtube .
- Ah , eu já disse que não vou.
- Você tem que ir, a Jenny não vai, eu quero que você me faça companhia.
Demorou demais para falar da Jenny.Bom pelo menos ela não ia, isso era motivo para se pensar.
- Vou pensar com carinho a respeito.
- Promete?- Ele ajoelhou-se na minha frente e fez cara de pidão.
- Prometo que vou pensar.
Capítulo 4 – Holiday
Estava sentada no banco de trás do carro de ao lado da janela observando a paisagem da estrada.Do outro lado do banco, na janela direita estava fazendo exatamente o mesmo que eu, observando a paisagem.
Na frente dirigia e no banco passageiro estava , uma das garotas que passaria o fim de semana na casa de campo de .
era uma garota simpática, eu havia trocado poucas palavras com ela pelo fato de que sou péssima em fazer novas amizades por não me entrosar fácil, mas estava gostando dela e confio em seu bom gosto.
e eu não trocamos nenhuma palavra pelo caminho, continuamos com nossas posições de observar a estrada até chegarmos a famosa casa de campo de .
Desci do carro um pouco zonza, longas viagens sempre me deixavam assim, era inevitável.Parei por alguns instantes em frente a casa observando-a.Era realmente linda e grande, parecia que havia saído de algum sonho meu.
Ouvi a voz de chamando meu nome de dentro da casa.Fui seguindo ela até o quarto que passaríamos o final de semana. O quarto era lindo e grande, com paredes em tom marfim, duas camas de solteiro, uma sacada com vista para o lago e suíte.
-Você vem com a gente para o tour na floresta? – disse enquanto eu arrumava minhas coisas no quarto.
-Tour?Floresta?Entardecer? –eu disse em um tom desanimado –não é uma boa idéia, melhor eu ficar por aqui e ler algum livro.
-Tem certeza ? – ainda tentava me convencer.
-Absoluta –eu disse em um tom firme –divirta-se por mim e não se preocupe eu vou ficar bem.
Fiquei um tempo a mais no quarto procurando meu livro e percebi tarde demais que havia esquecido em casa.
Desci as escadas procurando alguma sala com livros e acabei chegando em um longo corredor com paredes marrom e porta retratos de toda a família.Por um impulso virei meu corpo mudando de direção, aquele corredor iria dar até o escritório do pai de , a sala com livros ficava perto da sala de jantar.
Fiquei intacta naquele momento, eu não conseguia mover um músculo, perguntas e mais perguntas passavam pela minha mente e a principal delas era ‘Como eu sabia disso? Eu nunca estive na casa antes’
Virei meu corpo novamente e fui andando em direção a porta no fim do corredor.Quando cheguei até ela fiquei observando por alguns segundos com medo de estar certa.Virei a maçaneta lentamente empurrando a porta com delicadeza enquanto a mesma fazia um ruído conforme ia abrindo e mostrando uma sala muito parecida com um escritório.
Fui andando até a mesa que ficava ao lado de uma poltrona marrom e deparei com a foto de um casal posta sob ela, na certa eram os pais de e na certa aquele era o escritório.
Saí correndo do mesmo, passando pelo corredor marrom com o coração disparado, podia senti-lo na garganta.O medo de estar certa agora estava se tornando tão real que comecei a suar frio.
Cheguei até a sala de jantar observando a porta que havia logo atrás,era uma porta branca e talvez fosse tão grande quanto a porta do fim do corredor.Fui até ela com passos lentos, meu coração parecia que nem batia mais.Girei a maçaneta com as mãos trêmulas e aos poucos fui me deparando com uma sala com duas estantes repletas de livros.
O que mais me assustava naquele momento era que eu estava certa, o escritório ficava no fim do corredor e a sala com livros ficava depois da sala de jantar, aquela casa não me era estranha, eu sentia como se eu já conhecesse ela, como se eu já estivesse nela antes.
Depois de todo esse pressentimento estranho eu já havia perdido a vontade de ler e me sentia cansada e com frio.Caminhei até a sala onde ficava a lareira, acendendo a mesma e me deitando no sofá.Fechei meus olhos em uma tentativa de organizar meus pensamentos, o que acontecera há algum tempo atrás estava invadindo minha mente e me deixando confusa.
Depois de minhas falhas tentativas de pegar no sono abri meus olhos lentamente observando a imagem que se formava diante deles, estava parado na minha frente, sorrindo enquanto olhava pra mim.Abri e fechei meus olhos duas vezes pensando que estava sonhando, mas quando abri meus olhos novamente ainda estava ali.
Sentei no sofá enquanto observava sentar logo ao meu lado.Ficamos alguns segundos nos entreolhando até eu decidir quebrar o silencio.
-Pensei que você estava na floresta com os outros –eu disse por fim.
-Eu estava –ele deu uma pausa enquanto olhava em meus olhos –mas voltei assim que soube que você não iria.
Sorri involuntariamente para ele admirando seu modo seguro de falar, era como se cada palavra que saísse de sua boca fosse a palavra certa.
-Me espere aqui, não demoro a voltar – disse se retirando da sala.
Fiquei observando o fogo logo a minha frente abraçando minhas pernas que estavam em cima do sofá. voltou com um cobertor nas mãos sentando no sofá e me puxando para junto dele.Deitei em volta de suas pernas e descansei minha cabeça em seu peito enquanto ele nos cobria com o cobertor.Fiquei um tempo observando o rosto de sendo iluminado pelo fogo da lareira, seus olhos mantinham-se fechados e seus lábios esboçavam um leve sorriso, sua pele clara exalava um cheiro delicioso,um aroma que me convidava a passar o resto da vida em seus braços.Voltei meu rosto na posição inicial fechando meus olhos, sentindo os braços de abraçarem minha cintura e sorri docemente enquanto ouvia as batidas de seu coração,por fim dormi naquele momento que eu queria que durasse para sempre.
Capítulo 5 - I don’t wanna miss a thing
I could stay awake just to hear you breathing, watch you smile while you are sleeping, while you're far away and dreaming…
Uma doce musica invadia minha mente, e apesar de estar longe ela insistia em convidar-me a acordar.
Abri meus olhos lentamente e fechei-os assim que deparei com a claridade invadindo o local. Após um tempo os abri novamente, dessa vez já me acostumando com a claridade que entrava pela janela do quarto, na certa havia deixado a janela da sacada aberta e se esquecera de que eu estava ali e que eu odiava acordar com a claridade.
Algo não se encaixava naquele quebra-cabeça matinal,como eu vim parar no quarto? Minha ultima lembrança era de estar na sala sendo envolvida pelos braços de e adormecendo em seguida.
‘Sala, , seus braços em minha cintura, seu cheiro estonteante, as batidas de seu coração, lareira acesa, minha cabeça apoiada em seu peito, sono e ....quarto.’
Minha mente processara todas as informações adquiridas na noite anterior até agora, e nada fazia sentido naquele momento. Várias teorias passavam em minha mente como pequenos flashes. Eu podia ser sonâmbula, mas se eu fosse alguém já teria percebido e me avisado. Eu podia ser Jumper e ter me transportado para o quarto em fração de segundos. Ri após imaginar a cena dessa teoria. A ultima e a que fazia mais sentido era de que na noite passada eu pegara em um sono pesado e sem coragem de me acordar conduziu-me até o quarto comigo em seu colo.
Sentei-me na cama e coloquei os pés no chão sentindo uma onda de arrepios percorrerem minha espinha com o contato do chão gelado.
Coloquei os sapatos e desci as escadas rumo a cozinha. Quanto mais eu me aproximava dela, mais a música que me despertara ficava próxima.
I don't wanna miss one smile,I don't wanna miss one kiss,I just wanna be with you right here with you, just like this.
Fiquei estática na porta da cozinha, observando cada detalhe da cena que se formava diante de meus olhos, querendo guardar cada segundo em minha mente. Ele estava ali, parado de costas para mim, preparando algo para o café da manhã ao mesmo tempo em que cantava junto com a música.
I just wanna hold you close.feel your heart so close to mine and just stay here in this moment for all the rest of time
Sua voz era doce e suave, talvez um pouco aguda, sabia acompanhar direitinho cada tom de cada pedaço dela sem desafinar uma vez sequer, era como se a música fosse feita sob medida para sua voz.
Um sorriso se formava em meus lábios e ia se intensificando conforme ele dava tudo de si no fim da música.
virou-se em direção a mesa, deparando-se com uma cena: encostada na porta, com um sorriso bobo nos lábios.Os olhos dele paralisaram fixados em minha direção, podia dizer que nem piscava naquele momento.
O sorriso que estava em meus lábios desaparecera, dando lugar há uma expressão tão assustada quanto a de , questionando-me mentalmente se havia feito algo de errado.O silêncio que estava seriamente constrangendo-me fora quebrado por .
-Há quanto tempo está aí? –disse ele com a voz fraca.
-Algum tempo.
-Porque não avisou? –seu rosto agora adotara uma cor rosada, sorri involuntariamente observando-o.
-Porque estava bom te admirar.
Pude ver um leve sorriso se formar no canto de seus lábios enquanto ele olhava para seus próprios pés.
-Onde está o pessoal? –perguntei após alguns minutos de silencio.
-Na piscina –ele respondeu apontando a porta dos fundos com uma colher.
Subi até o quarto para colocar o biquíni e aproveitar um pouco o sol que fazia aquele dia. Coloquei um short jeans e uma regata branca por cima, eu seria a ultima pessoa no planeta a desfilar de biquíni pela casa.
Assim que cheguei ao local observei sentada na espreguiçadeira com uma revista nas mãos, enquanto seus olhos fuzilavam do outro lado conversando animadamente com . Sentei-me em uma espreguiçadeira ao lado dela, e logo meus olhos buscaram , encontrando-o perto da churrasqueira vestindo apenas um short preto. Diria que naquele momento tudo sumiu, restando apenas e aquele corpo hipnotizante. Não era o corpo mais definido do mundo, mas também não era o corpo menos definido, para mim estava perfeito já que nunca fui exigente para corpos masculinos.
-Se continuar olhando para ele desse modo todo mundo vai sacar – disse ao pé do meu ouvido para ninguém mais ouvir, dando-me também um susto.
Virei meu rosto em direção a ela, tentando apagar aquela visão de minha mente, mas era impossível lutar contra isso.
-Vão sacar o que ? –fiz-me de desentendida.
virou seu rosto novamente para mim, ao mesmo tempo em que abaixava seus óculos de sol.
-Vão sacar que ele é o ar que os seus pulmões tanto precisam para sobreviver, vão sacar que ele é o motivo pelo qual você quer acordar todos os dias –ela deu uma pausa entre as palavras –seria legal isso, se ele não tivesse namorada, então dá próxima vez que você babar naquele corpo lembre-se que tem dona.
As palavras de foram como uma faca cravada em meu peito, por mais que ela tivesse razão agora era muito tarde para apagar o que eu sinto por , eu sei o que eu deveria fazer, mas eu simplesmente não consigo me afastar dele, eu não posso me afastar.
Virei meu rosto para o outro lado, tentando concentrar minha mente em alguma outra coisa que me fizesse esquecer a realidade infernal que acabara de me lembrar, antes que as lágrimas que eu tentava segurar rolassem a vontade pelo meu rosto.
Levantei-me da espreguiçadeira deixando sozinha e indo até onde estava, ele sempre fora um bom amigo para mim, não que ele soubesse que eu amava , pelo contrário, ele não estava nem perto dessa idéia, ele apenas me distrai com seu jeito espontâneo de ser.
Cheguei até onde estava e abriu espaço para eu sentar ao lado dela.
-O que a senhora faz ainda com essa roupa? – perguntou-me incrédulo – quer ficar com marca de regata e shorts jeans ao em vez de uma bela marca de biquíni? –ele disse por fim.
Sorri para ele sem dizer nada, olhando em volta um pouco envergonhada por ser a única que ainda estava de roupa. Levantei-me um pouco desajeitada, meu rosto ainda queimava de vergonha, por isso tentei não olhar para os lados e apenas me concentrar em tirar peça por peça fingindo que eu era a única naquele local.
Logo eu estava apenas com o meu biquíni roxo, um pouco tímida ainda, principalmente na hora que botou os olhos em mim e não tirou mais. Fiquei sem ação diante daquela situação, era o único que conseguia me deixar daquele jeito com um simples olhar. Logo vi seu corpo tomar lugar ao meu lado na espreguiçadeira assim que o desocupou para ir comprar mais cerveja com na cidade vizinha.
-Dormiu bem? –ele perguntou em um tom curioso.
-Err..dormi –respondi com um sorriso sem graça no rosto.
-Te levei para o quarto ontem.
-Percebi – respondi fitando meus próprios pés, não era um bom momento para me perder naqueles olhos.
-Não queria te acordar, e o sofá não é o lugar mais confortável do mundo.
Sorri timidamente para ele ao em vez de dar uma resposta a seu comentário, apesar de estar derretida pelo seu gesto de proteção na noite passada, minha mente ainda estava concentrada no comentário que fizera mais cedo, talvez ela fosse a única pessoa preocupada o bastante para abrir meus olhos, e talvez eu estivesse muito cega para enxergar que ela só queria me ajudar.
Avistei perto da churrasqueira, mexendo em algo no freezer, e sem pensar duas vezes levantei-me e caminhei em sua direção.
Pensei em puxar algum assunto com ela, mas nada me veio a cabeça e o clima estava estranho entre a gente. Abri o freezer e peguei uma lata de coca-cola que estava lá, fechando-o em seguida, eu sempre faço algo estúpido quando estou sem jeito para conversar, mas dessa vez eu me superei.
-Hey – disse, na certa sabia que eu estava tentando puxar algum assunto, ela me conhece bem.
Continuei encarando-a com um olhar sugestivo para ela prosseguir suas palavras, no fundo eu sabia que ela queria pedir-me desculpas.
-Queria pedir desculpas pelo que eu disse sobre o , eu estava nervosa, queria a sua atenção, que nos últimos meses pertence mais a ele.
-Não precisa pedir desculpas , você estava certa e...
-Não , eu não estava certa, o fato de ele ter namorada não significa que ele não sinta o mesmo por você.
Fiquei estática naquele momento, cada palavra de percorria meu corpo, congelando-me inteiramente, em especial suas ultimas palavras que agora ecoavam repetidas vezes em minha mente, causando-me um inevitável frio na barriga.
me encarava de um jeito que ela sempre fazia quando tinha dito algo que não era para ser contado, e pela primeira vez aquele olhar me fez girar por dentro e eu sabia que alguma coisa estava errada e só o tempo poderia me mostrar o que é.
Capítulo 6 – I Can’t Explain
Deitada no sofá daquela sala vazia, encarando a cortina marfim que escondia a enorme janela de onde eu podia ter uma visão do mundo a fora, com a mente perdida no passado. Minha infância, minha tão adorada infância, tempos que eu não tinha nenhuma frustração, tudo era bem mais simples, ser feliz era a única coisa que importava para a gente.
Congelei no sofá ao lembrar do garoto por quem eu era apaixonada na infância. era o nome dele, eu devia ter onze anos na época, morávamos na mesma rua e estávamos sempre juntos, ele fora o primeiro garoto que eu gostei. Uma onda de arrepios percorreu meu corpo, fazendo-me lembrar do passado.
Flashback
-Anda logo , a gente vai se atrasar mais uma vez – gritava do andar de baixo.
-Calma, já estou pronta –eu disse ao chegar no ultimo lance da escada.
-Ok boneca, agora vamos.
pegou minha mão, praticamente me arrastando para fora da casa.
-Espera –parei de repente –vamos na casa de quem mesmo?
-Do Mike , eu já te falei antes, você tem algum problema de memória por acaso?
-Mas , ele é o melhor amigo de –eu disse um pouco mais nervosa do que o normal.
-E o que tem isso? - tinha tirado o dia para ser irônica.
-Hellouuu, estamos falando de , aquele que nasceu para implicar comigo, aquele que não fala uma frase inteira sem me tirar ou fazer algum comentário irritante. –Bufei ao lembrar da personalidade do garoto.
-Tá certo, escuta aqui – colocou as mãos em meus ombros como se fosse me dar um sermão –É só fingir que ele não está lá, você sabe que eu gosto do Mike e se você não for nessa festa comigo por causa do eu juro que te afogo na privada.
Preferi não revidar com ela, suas ameaças me davam medo às vezes. Entramos no carro de seu pai e logo estávamos em frente à casa de Mike. Ouvimos um longo sermão sobre bebidas, drogas e garotos do pai de antes de sair do carro, ele sempre o fizera e detestava.
Assim que entramos na casa, foi correndo falar com Mike me deixando sozinha naquela enorme sala. Avistei um lugar vazio no sofá e não pensei duas vezes antes de ocupá-lo.Algumas pessoas dançavam ao som de Backstreet Boys- I want it that way na versão remix que era febre mundial, outras estavam preocupadas com a imagem social e estavam bebendo seu primeiro copo de cerveja, outras pessoas se agarravam em algum canto da casa.
-E eu pensando que não ia ter gente desagradável aqui hoje.
Estava tão concentrada observando as pessoas em minha volta que não percebi que havia vago um lugar ao meu lado no sofá e que o lugar fora ocupado por , que não perdeu a chance de fazer um comentário irritante.
-Que pena, ao contrário de você eu já me preparei mentalmente para enfrentar o desprazer da sua presença.
-Eu também te amo.
mandou um beijo no ar para mim, o que me fez ficar ainda mais irritada. Era fato, aquele garoto me tirava do sério.
Avistei vindo em minha direção e senti uma ponta de alívio dentro de mim, de uma maneira irritante aquele garoto me deixava nervosa e eu não queria que ele notasse o pequeno efeito que ele tem sob mim.
-Me faz um favor ? – me excluiu, reparem.
-Claro, é só falar.
-Pode cuidar da por algumas horas?
-O que? –eu disse em um tom muito alterado.
-É claro que eu posso – disse ao mesmo tempo que passava o braço em volta do meu pescoço, puxando meu corpo junto ao dele –será inesquecível não é mesmo ? –ele sorria ironicamente para mim, que tentava escapar do seu abraço.
-, pelo amor da nossa amizade, você ta querendo o que? A minha caveira? É isso? –eu tentava suplicar para minha amiga, mas estava quase me sufocando naquele abraço.
-, é só por algum tempo, você não vai morrer por passar algumas horinhas com tentava me acalmar, mas não estava conseguindo –Mike me convidou para ir até o parque com mais algumas pessoas, eu não demoro a voltar.
Eu começaria uma tortura psicológica com ela, mas antes de eu pensar em algo suficientemente convincente, deu-me as costas e saiu com Mike e mais algumas pessoas, me deixando para morrer ao lado de , que não tirava o sorriso irônico dos lábios.
Levantei-me impaciente do sofá, se eu ficasse mais algum tempo ao lado de teria que parabenizá-lo por ter conseguido me deixar devidamente furiosa.
Avistei Chace do outro lado da sala, encostado na parede totalmente entediado e por algum instinto meus pés involuntariamente levaram-me até ele. Ao me aproximar, notei o sorriso que havia em seus lábios e por algum motivo aquele sorriso congelou meu estomago, sim, eu senti um forte frio na barriga ao encarar aquele sorriso estonteante.
-Festa legal heim? –Chace disse assim que cheguei até ele.
-Nem me fale, estou louca para fugir, o que acha?
-Tirou as palavras da minha boca –Chace deu seu melhor sorriso enquanto desencostava-se da parede –pronta para escapar?
Apenas assenti com a cabeça enquanto dava espaço para ele seguir a frente. Eu sempre odiei aglomerados humanos, mas aquela festa estava impossível, quanto mais me aproximava, mais a porta ficava inalcançável.
Senti uma mão me puxando pelo braço, o que fez meu corpo ir ao encontro da pessoa que me puxara.
-O que foi dessa vez? –perguntei impaciente.
-Onde a senhorita pensa que vai? – disse em um tom autoritário.
-Err..embora da festa –respondi como se fosse obvio.
-E quem te deu permissão? –ele estava levando essa coisa de autoridade muito a sério –daqui você não sai.
Comecei a gargalhar em voz alta, algumas pessoas que estavam a nossa volta parou para ver o que estava acontecendo, mesmo assim eu não parei de rir.
-E quem você pensa que é para me fazer ficar?
Foi a vez de gargalhar, as pessoas que estavam a nossa volta ficaram ainda mais curiosas, como se tivessem perdido alguma piada contada por nós.
-Deixa eu te refrescar a memória – encarou-me cruzando os braços –lembra pra quem pediu para cuidar de você? Isso mesmo, ela pediu para mim, então você terá que ficar aqui comigo até ela voltar.
Estava a ponto de socá-lo bem na cara, mas eu não iria fazer cena na frente de todos para ser o assunto de segunda-feira na escola, então aceitei a dura realidade de ter de ficar com até a chegar.
Expliquei a lamentável situação a Chace que entendeu sem dizer nada a respeito.
Chace sempre fora um cara gentil, educado e romântico, o conheço desde que conheço , ou seja, desde os quatro anos de idade. Os dois eram amigos, mas eram completamente diferentes, não sei como pessoas com personalidades tão diferentes possam ser amigos.
passou o resto da noite importunando-me de todas as maneiras possíveis, enquanto Chace se preocupava em manter-me sorrindo o tempo todo.
Flashback off
-Acorda – gritou ao chegar na sala tirando-me do transe.
-O que te leva a querer me matar de susto? –eu disse com a mão no peito tentando controlar meus batimentos cardíacos acelerados.
-Desculpa , é que você estava tão distraída que nem me ouviu entrando no apartamento.
-Ah é, eu estava me lembrando de uma coisa –eu disse enquanto observava sentar no sofá de frente para mim.
-O que? – paralisou no sofá, encarando-me de um jeito assustado.
-De quando éramos crianças, lembra do , do Chace, do Mike?
-O-o que t-tem eles? – começou a gaguejar ainda me encarando assustada –O q-que v-você lembrou?
-Nada demais, só estava lembrando de quando éramos crianças, da festa na casa de Mike que você me deixou sozinha com , da maneira como ele sempre me irritava, de como Chace sempre tentava me acalmar.
-Hum –podia jurar que parecia mais aliviada –então foi disso que você se lembrou?
-Sim, exatamente isso. Porque você está tão assustada?
-Impressão sua – levantou-se imediatamente –estou com sede, quer água também?
Segui até a cozinha em silêncio.Uma pergunta girava em minha cabeça. Eu poderia estar ficando louca, mas as coincidências são reais. Poderia ser ele o da minha infância? Uma onda elétrica percorreu meu corpo fazendo-me arrepiar só de pensar nessa possibilidade. As chances de ser o garoto da minha infância eram muitas e poucas ao mesmo tempo.
Por um lado era completamente diferente do garoto que sempre me irritara na infância. é romântico, protetor, carinhoso, sabe como agradar uma mulher, sempre me ouve, me dá apoio em todos os momentos e faz o que for preciso para me fazer sorrir. Já o de minha infância dava o seu melhor para me irritar.
-Hey , poderia ser o que a gente conhecia quando criança?
afogou com a água que estava bebendo, nunca a vi tão nervosa em toda minha vida. Fui ajudá-la, pois ela já estava ficando vermelha e não parava de tossir.
-, cada idéia doida que você tem – deu um sorriso nervoso enquanto tentava recuperar-se do ataque que acabara de ter.
-É ele ou não é ?
-Não, quer dizer, ai não sei, acho que se fosse ele você iria saber não é?
-É, eu saberia –disse em um tom decepcionado –o que será que aconteceu com ? Você tem noticias dele?
-Não sei , não o vi mais, acho que se mudou ou algo do tipo.
De duas coisas eu tinha certeza. A primeira é que eu estava disposta a procurar o de minha infância. A segunda é que meu coração acelera só de pensar em encontrá-lo e minha teoria estiver certa de ele ser mesmo o .
Capítulo 7 – Learning to fall
Fim de tarde de uma típica sexta-feira de outono, aproximadamente 17:45, eu estava sentada na escrivaninha de frente para a grande janela aberta da minha sala/escritório. Costumo a chamar assim o local onde guardo papeis importantes, livros e meu computador.
Ainda com a idéia de achar em minha cabeça, eu procurava pelo site da escola que estudara quando criança algum tipo de informação sobre os ex-alunos, mas nada feito, eu não tinha cadastro no site e mesmo que tivesse não iria conseguir, esse tipo de informação é confidencial.
Desisti de procurá-lo naquele site e desliguei o computador, passei praticamente a tarde inteira na frente dele e isso me desgastou.
Um vento gelado invadiu o local, e sem permissão tocou minha pele, fazendo-me arrepiar ao seu contato gélido. Caminhei até a janela lentamente observando o por do sol de outono, era algo indescritível uma cena irreal. Fechei a janela antes que ficasse mais tempo observando o anoitecer e esquecesse completamente de meus compromissos.
Tomei um rápido banho, e logo estava de roupão em frente ao espelho arrumando o meu cabelo. Deixei-os soltos com as pontas onduladas, passei tanto tempo arrumando-os que nem percebi que a hora passou mais rápido do que o planejado.
A campainha do meu apartamento tocou, e sem pensar duas vezes, infelizmente, eu saí correndo para atender. Assim que abri a porta, deparei-me com me encarando um pouco sem graça.
- Oi – ele disse ainda sem graça – você está linda, mas acho que não pretende ir de roupão não é? Quer dizer, eu não entendo nada de moda feminina, mas acho que roupão não está na moda.
Senti todo o sangue de meu corpo se concentrar em minhas bochechas, eu queria cavar um buraco e enterrar minha cabeça dentro, ou talvez desaparecer.
- , entra aí, fique a vontade, feche a porta, eu já volto.
Eu devo ter pronunciado a frase em apenas cinco segundos, antes de partir correndo para o quarto colocar a roupa devida. Passei exatamente vinte minutos me trocando, eu nunca fui de ficar horas em frente ao espelho, especialmente hoje, quanto mais cedo eu chegar lá, mais tempo eu tenho para ver .
Cheguei à sala logo recebendo um elogio de que fora brevemente agradecido por mim, eu ainda estava com vergonha da cena que acontecera quando ele chegou.
Eu usava um vestido preto um pouco acima dos joelhos, colado na cintura e solto nos quadris, um decote formal e discreto nos bustos, acompanhado de suas alças finas. Optei por usar um colar de pérolas brancas, dava certa elegância e charme. Nos pés optei por um par de scarpin vermelho.
Estávamos indo a uma nova danceteria comemorar o aniversário de , ele felizmente conseguira ingressos vip para todos, eu nunca fui fã de agitações e baladas, e hoje eu pretendia ficar o tempo todo sentada na mesa.
Assim que chegamos avistei acenando para nós da suposta mesa que seria minha fiel companheira de hoje. Assim que cheguei até eles, parabenizei que estava devidamente animado para seu aniversário e em seguida juntei-me a e na mesa.
- Você está linda – disse simpática.
- Obrigada – respondi timidamente.
- Ela não seria nada sem mim, eu que dou as dicas – disse um tanto convencida.
- Sua humildade me comove – eu disse arrancando gargalhadas de .
- Você viu como ela me agradece ? – fingiu estar aborrecida.
- Ah vamos parar vai, é aniversário do e ele deve ser o assunto de hoje – retruquei.
- Ótimo, amanhã continuaremos então – é tão bipolar – Então, o que você deu de presente para ele? – e curiosa também.
- Um cd do Kings of Leon – respondeu.
- Eu adoro essa banda - empolguei.
- Eu também, tem bom gosto, é difícil brigarmos – disse, fazendo-me lembrar de que e eu também temos o mesmo gosto.
- Deve ser ótimo ter alguém do seu lado com quem você possa compartilhar as coisas que gosta – eu disse com um sorriso bobo nos lábios.
- É muito bom – disse também sorrindo –na verdade é a melhor coisa do mundo.
- Dá pra me incluir na conversa? Estou me sentindo excluída – protestou.
- Cadê o resto do pessoal? – perguntei pela ausência dos demais.
- Que pessoal? – disse assim que chegou acompanhado de .
Logo atrás dele vinha acompanhado de Jenny, sua namorada. Posso dizer que nesse instante o sorriso que havia em meus lábios dera lugar a uma expressão séria e triste ao mesmo tempo.
Acenei brevemente para os dois, tentando forçar um sorriso, que pela cara de saiu mais forçado do que eu imaginava. Eu realmente não conseguia disfarçar, fingir que não é o homem que eu amo que estava na mesma mesa acompanhado de sua namorada. Fingir que meu peito não doía toda a vez que eu olhava para eles. Fingir que estava tudo bem quando não está.
Eu definitivamente não conseguiria ficar perto deles, e sem pensar duas vezes segui rumo à pista de dança, tentando apagar a imagem dos dois da minha mente.
Eu atravessava o lugar rezando para não cair, mas a cada esbarrão que eu tomava mais meu corpo queria se juntar ao chão. Quase não acreditei quando consegui escapar da pista para uma área onde eu podia respirar um pouco de ar livre.
Alguns minutos observando as estrelas foram suficientes para me perder em pensamentos e só voltar à realidade quando um cara parou do meu lado e começou a me observar de uma forma engraçada.
Ele era um cara bonito, muito bonito na verdade. Seus cabelos castanhos dourados reluziam a luz da lua, tinha um par de olhos azuis, corpo de atleta devidamente definido, como se tudo estivesse em seu lugar. Usava uma calça preta um pouco colada, uma blusa branca com algum desenho preto e all star brancos no pé, bom, não tão brancos assim. Com um olhar enigmático e um sorriso envolvente nos lábios ele continuava parado a meu lado, me olhando de um jeito que parecia que ele já me conhecia.
Ele colocou a mão em um dos bolsos da calça e tirou um cigarro de lá, o acendendo em seguida. Deu uma longa tragada e soltou a fumaça lentamente, voltando a me encarar, como se quisesse me perguntar algo.
- ? –não era só impressão, ele realmente me conhecia.
Me faltaram palavras para responder. Fato número um: eu não o conhecia. Fato número dois: ele sabe o meu apelido, então não é um simples conhecido. Fato número três: sentia que a passagem de ar para os meus pulmões estava ficando fraca.
- Não está me reconhecendo ? –apenas neguei com a cabeça –Lucas, Lucas Madison, estudávamos no mesmo colégio.
- Desculpa, não me lembro –respondi.
- Você me chamava de Luke, se isso te ajudar é claro. – ele sorriu timidamente ao completar a frase.
Tentei forçar um sorriso, mas não consegui. Estava tudo girando ao meu redor, e eu não sentia nenhuma saliva em minha boca.
- Você está bem? –ele perguntou enquanto eu negava com a cabeça. –quer que eu chame alguém?
- Por...favor –respondi lentamente.
- Em que mesa você está?
Apontei brevemente para a mesa em que eu estava antes e o vi correndo na direção da mesma. Eu tentava buscar algum vestígio de seu rosto em minha mente, mas nenhuma pista de que algum dia eu possa ter o conhecido me vinha à memória. A ultima coisa que eu lembrava do passado era a cena da festa de Mike, de nada mais eu me lembrava, e quanto mais eu tentava reconhece-lo, mais o ar faltava em meus pulmões.
Olhei para trás, deparando-me com e Lucas correndo em minha direção. Meus sentidos começaram a sumir, lentamente, um por um. Já estava perdendo as forças de meu corpo, minha visão estava escurecendo e mesmo assim eu tentava manter-me em pé.
- ? ?
Reconheci a voz de próxima a mim, e quando senti seus braços em volta da minha cintura os meus sentidos se foram, como um navio naufragando em alto mar indo para longe do seu porto eles foram para longe de mim.
Capítulo 8 – Just breathe
Primeiro sentido recuperado: olfato. O cheiro daquele lugar era desagradável, um cheiro morto, algo parecia gritar, implorar naquele cheiro, misturado com algo que não tem mais vida. Um cheiro reconhecível pelo meu olfato. O cheiro de um hospital.
Abri os olhos com dificuldade por causa da luz que invadia o local. Segundo sentido recuperado: visão. Lentamente fui acostumando com a claridade, e pude por fim reconhecer e , sentados em um sofá a minha frente discutindo sílabas indecifráveis pelos meus ouvidos. Eu podia ouvi-los, só não conseguia decifrar as palavras omitidas por seus lábios. Terceiro sentido recuperado: audição.
Tentei sem muito sucesso levantar-me, mas eu ainda estava tonta e me sentia fraca. Percorri os olhos por meu corpo, congelando-os na altura do meu braço direito onde havia uma agulha, e uma fina borracha transparente seguia até o soro que pingava lentamente fazendo um barulho irritante. Arrepiei-me ao presenciar aquela cena. Quarto sentido recuperado: tato.
Grunhi baixinho, horrorizada com o que presenciei naquele momento. e que conversavam, ao ouvir meu grunhido nada gentil, vieram até a minha cama e dispararam várias perguntas ao mesmo tempo.
- , como você se sente? – pegou minha mão preocupado, e juro que me senti mais segura com seu doce toque.
- Desde quando você está acordada? Ta tudo bem? – tirava os fios de cabelo ainda grudados em meu rosto em um gesto de ternura.
- Você sente dor? Ta sentindo enjôo? Quer que eu chame o médico? – ainda segurava minha mão, encarando-me preocupado.
- Quer a enfermeira? Quer comer algo? Você ta melhor? – tentava medir minha temperatura.
Um gosto amargo veio em minha boca, que me fez fazer uma careta de reprovação ou talvez repulsa. Era um gosto de remédio, e não era nada doce. Quinto sentido recuperado: paladar.
soltou minha mão e lentamente seus pés foram o afastando de mim. Ele ainda me encarava, só que de um jeito assustado, que me deixou confusa. Olhei para o outro lado e fazia o mesmo que , só que ela mantinha suas mãos na boca e seus olhos paralisados. Em um impulso, ela abriu a porta e deixou o quarto correndo, o que fez a porta omitir um som estrondoso ao fechar.
Meus olhos buscaram novamente, que estava na mesma posição de antes, totalmente apavorado, encarando-me fixamente.
Uma breve visão fizera minha mente voltar no dia que sonhei com ao meu lado no hospital, agora estava parecendo real, a cena estava ali, novamente diante dos meus olhos, em um outro quarto, e em outra situação, mas exatamente com os mesmos protagonistas.
- ? –meus pensamentos foram interrompidos pela voz de . Estava acontecendo novamente, me chamando pelo apelido como naquele sonho.
- Oi? –respondi confusa.
- Como você está? –ele continuava longe.
- Confusa.
congelou novamente, encarando-me do mesmo jeito estranho. Porque eu estava odiando aquela situação?
- O que aconteceu ? O que aconteceu no aniversário do ?
soltou o ar pesadamente, como se tivesse aliviado de um grande um susto, e caminhou novamente em minha direção, parando ao meu lado na cama.
- Bom , você desmaiou, provavelmente de fraqueza e eu te trouxe até aqui com a , o resto do pessoal estão aguardando notícias pelo celular –ele passou as mãos pelo cabelo, um pouco sem jeito, mas totalmente lindo.
Sorri involuntariamente para ele, que retribuiu o meu sorriso. Meus olhos perderam-se em seu rosto, aquele rosto que despertava milhões de sentimentos indescritíveis dentro de mim, aquele rosto que era tudo, tudo para mim. Por instinto, minha mão esquerda buscou a de , como se eu precisasse daquilo para manter-me respirando. Ao sentir o toque da pele suave e quente de , outra onda elétrica percorreu meu corpo. Era incrível o efeito dele sob mim, por mais apavorante que parecesse ser, eu queria sentir para o resto da vida.
curvou-se sob a cama, enquanto seu rosto ficava perigosamente perto do meu. Seus olhos queriam me dizer algo, algo que eu realmente queria ouvir, aquilo que eu esperei a tanto tempo. Milhões de borboletas agitaram-se em meu estômago a cada centímetro que ficava próximo, e por causa do efeito dessas borboletas meu coração acelerou as batidas cardíacas. O amor, um sentimento tão estranho e confuso, muitas pessoas por não conseguir decifra-lo acabam desistindo dele, outras pessoas por serem ignorantes não aceitam ele. Se me perguntassem se vale a pena amar, eu diria que sim. Provavelmente iriam pensar que estou louca, mas na certa eu diria que mesmo que o cara que eu amo tenha namorada e possa não sentir um décimo do que eu sinto por ele, eu o agradeceria, pelo simples fato de quando ele está perto de mim, meu corpo involuntário sentir adrenalinas indescritíveis, por eu sorrir todas as manhãs ao lembrar-me do rosto dele, ele me faz sentir viva e esse é o melhor sentimento que pode sentir quando ama.
Voltei do transe e ele ainda estava ali, tão próximo que podia sentir o cheiro de sua pele entorpecer-me cada vez mais. Um sorriso formou em seus lábios, um sorriso fraco, um sorriso que não mostrava os dentes, e ia intensificando a cada centímetro que se aproximava de mim.
Senti os lábios quente de repousarem em minha testa e ficaram lá por alguns minutos, os minutos que eu queria que durassem para sempre.
afastou seus lábios de minha testa, e fixou seus olhos novamente nos meus, enquanto seus dedos deslizavam em meu cabelo.
Sua respiração quente mergulhava intensamente em minha pele sem pedir permissão, como se precisasse, aquilo era algo que eu não podia resistir, era algo que meu corpo procurava todos os dias, era algo que só tinha.
- Eu já disse, estarei aí amanhã.
Minha mãe passou repentinamente pela porta, falando no celular como de costume.
Tal efeito brusco e inesperado fez afastar-se de mim assustado. Seus olhos encontraram os de minha mãe, que fez uma cara desagradável para ele, podia jurar que minha mãe fuzilava com seu olhar. deixou o quarto sem se despedir, ele parecia assustado, como se temesse minha mãe ou algo do tipo.
entrou no quarto logo em seguida, e a agradeci mentalmente por não deixar-me sozinha com minha mãe.
- Muito bem, aonde você quer chegar ? – Minha mãe me disse em um tom autoritário assim que desligou seu celular.
- Como assim mãe? –perguntei confusa.
- Primeiro você muda de casa para um apartamento que o sem juízo do seu pai lhe deu, e eu digo uma coisa, ele só te deu aquele apartamento porque não mora mais com a gente, ele sempre consegue me desagradar –ela estava furiosa –E como se já não bastasse você morar sozinha em um apartamento comum, você me faz isso?
- Mãe, não foi planejado, eu não comi direito e disse que desmaiei por fraqueza.
- AH, então disse não é? –ela estava sendo irônica –Agora é ele quem dita as regras? Um garoto que se afunda com os amigos numa bandinha sem futuro ao em vez de progredir e continuar o legado da família , é esse o exemplo que você toma?
Eu não conseguia acreditar nas palavras que saíam da boca de minha mãe. Ela nunca foi um exemplo de carinho e presença, por ser uma estilista famosa ela estava sempre viajando e costumava ser sempre arrogante, até comigo, só não sei como ainda me surpreendo ao ouvi-la criticar quem eu amo.
- Você vai comigo a Paris amanhã –ela disse apontando para mim, como se eu fosse um dos seus empregados.
- Não, eu não vou.
- Sim, você vai. Ou é Paris ou você volta pra casa, ficarei mais tranqüila com você nos cuidados dos empregados.
- Eleanor, acho que você esta se precipitando – tentava convencer minha mãe –pode ir tranqüila, eu cuidarei da .
- Eu confiei em você até agora e olha o que aconteceu. Você acha que eu vou poder confiar novamente e...
- Como você sabe tantas informações sobre o ?
Interrompi o dialogo das duas, perguntando diretamente para minha mãe que congelou no momento encarando-me assustada. Já estava farta das pessoas me encararem assustadas em uma única noite, queria explicações, fui paciente o suficiente para aturar o silencio sem pedir nada em troca.
- Não vamos discutir isso agora .
- Como não? Eu estou cansada de ser a ultima a saber. Sinto como se todos vocês estivessem escondendo algo de mim, algo sobre mim mesma –não consegui controlar as lágrimas, elas já rolavam livremente pelo meu rosto –Vocês já pararam para imaginar o quanto é ruim viver assim? Já conseguiram se imaginar no meu lugar? –encarei as duas imóveis a minha frente antes de retomar a palavra – Então, por favor, me deixe tomar a decisão sozinha pelo menos por hoje.
As duas continuaram imóveis na minha frente, como se minhas palavras tivessem acertado-as em cheio, por mais cruel que parecesse, naquele momento não senti nenhum peso de culpa, pois estava entalado a muito tempo só esperando a oportunidade certa para sair.
- Eleanor, a tem razão – quebrou o silencio dessa vez –ela merece ficar aqui. Eu cuido dela, pode confiar.
- Parece que eu não tenho outra opção –foi a vez de minha mãe pronunciar-se –mas qualquer coisa, nem que seja suspeita, me ligue – assentiu com a cabeça.
- Vamos , se troque, o médico já te deu alta –minha mãe disse antes de deixar o quarto.
Logo estava vestida com minha roupa novamente, pronta para deixar aquele hospital.
Eu caminhava lentamente pelo corredor do hospital ao lado de , observando as paredes em um tom verde apagado, um verde morto, paredes que não pareciam ter fim.
Uma imagem formou-se diante de meus olhos, a imagem que parecia dar vida no meio daquele lugar onde tudo parecia não querer se recuperar. estava sentado em uma das cadeiras mais adiante, fitando seus próprios pés. Um sorriso involuntário se formou em meus lábios ao ver que ele continuava ali, esperando pacientemente.
A cada passo que me aproximava dele, sentia meu coração palpitar. Era engraçado e ao mesmo tempo confuso, ele não escolhia a hora, ele simplesmente começava acelerar dentro de meu peito sem pedir permissão.
- Hey –eu disse assim que cheguei onde ele estava.
olhou para cima de imediato, e percebi uma mistura de surpresa e tranqüilidade em seus olhos. Em fração de segundos ele já estava em pé de frente a mim, com um sorriso estampado em seus lábios.
- Já recebeu alta ? –perguntou tranquilamente.
- Já sim, estou bem melhor agora –sorri feito boba nesse momento –as paredes nem estão girando mais –acrescentei em um tom brincalhão.
gargalhou. Sua risada era tão espontânea, poderia ficar o dia todo só o ouvindo rir, era algo que me fortalecia, era algo contagiante.
- Vamos , Smithers já está nos esperando lá fora –a voz irritante de Eleanor surgiu do nada atrás de mim.
Olhei para , que mantinha o mesmo olhar tranqüilo para mim. Pensei em dizer algo, mas sabia que qualquer palavra sairia um borrão naquele momento.
- É melhor você ir –ele disse aproximando-se cada vez mais de mim –melhor não causar problemas com sua mãe.
Parecia até que ele conhecia Eleanor, se bem que do jeito que ela trata as pessoas não é muito difícil ter uma noção básica de como ela é.
O mundo realmente parou de girar no momento em que depositou um beijo demorado em minha bochecha. Tudo desaparecera, Eleanor, , os médicos, enfermeiras, as paredes verdes (doente) daquele corredor sem fim, tudo sumiu no momento em que os lábios de se encontraram com minha bochecha.
Lentamente ele afastou seus lábios quentes e macios dela, e voltou a encarar-me. Eu, naquelas condições, já sorria abobalhada para ele, mas meu sorriso desaparecera no momento em que Eleanor pigarreou impacientemente atrás de mim.
- A gente se vê –disse antes que Eleanor começasse um de seus ataques.
- Até amanhã –ele disse tranquilamente enquanto eu lhe dava as costas.
Meus pés caminhavam em direção a saída, enquanto minha cabeça insistia na direção oposta, onde eu podia ter uma visão dolorosa de parado no corredor ficando cada vez mais distante de mim, até o momento em que sua imagem parecia um borrão, e mesmo assim, seu corpo era o que continuava dando vida naquele lugar.
Capítulo 9 - My fake plastic love
O som irritante do celular insistia em invadir meus tímpanos a fim de explodir meu cérebro. Abri e fechei os olhos duas vezes, tentando faze-lo parar de tocar mentalmente, mas nada feito, ele continuava insistindo e não iria parar até me vencer, e o pior é que ele estava conseguindo.
Sem muita vontade, me livrei do edredom e sentei-me na cama, colocando os sapatos, e com um pouco de pressa fui atender o maldito aparelho celular.
- , porque demorou tanto para atender? –a voz de Eleanor soou como um eco irritante do outro lado da linha.
- Porque eu estava dormindo –respondi.
- Bom, já era hora de acordar –claro, depois que você o fez é fácil falar –alimente-se direito, não coma muitas porcarias, não quero ver fotos suas com o vestido quase rasgando de tão apertado.
- Anham - estava sem animo para ela naquela manhã.
- Você poderá comprar o vestido em cinco lojas diferentes no meu nome, o cabeleireiro já está marcado, jogue uma base um tom mais forte se você estiver muito pálida, ou então concentre no blush. Os fotógrafos estarão no portão principal e vão te procurar mais tarde, por isso fique apresentável o tempo todo, mais tarde eu ligo para saber se está tudo certo.
Ela simplesmente desligou na minha cara. Eleanor me acordou de manhã, me deu ordens como se eu fosse mais um de seus empregados e depois desligou o aparelho telefone sem ao menos perguntar se eu tinha algo a protestar contra suas ordens.
Depois dessa indignação, tudo o que eu queria fazer é dormir e fingir que apenas sonhei com o telefonema de Eleanor, mas antes mesmo que eu pudesse mover algum músculo a caminho do quarto, a campainha do meu apartamento começou a tocar.
Ainda sonolenta e sem animo algum, caminhei até a porta da sala, abrindo-a de imediato com a taxa de bom humor muito baixa.
- Bom dia - deu um breve beijo em minha bochecha e entrou pelo apartamento carregado de sacolas.
O segui até a cozinha, onde guardava algumas coisas que trouxe na geladeira. Fiquei parada com cara de nada o observando arrumar a mesa de café da manhã, ele parecia mais animado que de costume.
- Posso saber o que devo a honra de sua companhia matinal? –perguntei em um tom sarcástico.
Imediatamente ele parou o que estava fazendo para encarar-me. Seus olhos tinham um brilho anormal, o que me fez querer engolir minhas palavras sarcásticas ao apreciar os olhos sinceros de , naqueles olhos tinha muito mais coisas do que eu jamais imaginei ter.
Um tímido sorriso apareceu em seus lábios, aquele sorriso que me fazia querer ficar presa naquele momento para sempre só observando-o sorrir.
- Eu queria te preparar um café da manhã depois do ocorrido de ontem, assegurar-me pessoalmente de que você está se alimentando bem - disse ele.
Uma onda elétrica percorreu meu corpo ao ouvir as palavras de . Seu jeito protetor me encantava cada dia mais, impossível seria não me apaixonar por ele, até se eu pudesse escolher por quem me apaixonar eu escolheria ele.
Ficamos algum tempo nos encarando silenciosamente, não precisávamos falar, nossos olhos conseguiam expressar todas as palavras que nossas bocas não podiam pronunciar.
A campainha tocou novamente, e por um momento pensei ser apenas um mero fruto da minha imaginação, mas os olhos de direcionaram-se para a porta, confirmando minhas suspeitas de não ser apenas minha imaginação.
Caminhei novamente sem vontade até a porta, deparando-me com também carregada de sacolas direcionando-se até a minha cozinha.
- Gente, ajudar as crianças na África seria mais humanitário – eu disse ainda perplexa com os dois.
- Eu vou te mandar para a África se você fizer mais algum comentário engraçadinho – disse apontando para mim.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou – eu disse enquanto caminhava até a mesa.
Meu café da manhã estava difícil de ser recusado, trouxera exatamente tudo o que eu amo, pão de queijo com capuccino. Fiquei estática diante da mesa com cara de boba, e podia jurar que meus olhos brilhavam como os de uma criança feliz. Sem cerimônias fui logo sentando e me deliciando de tudo o que eu tinha direito.
- Vai com calma , assim o vestido não vai fechar quando você for experimentar - disse, recebendo um olhar de reprovação de volta.
Ficamos todos em silencio apenas saboreando o café da manhã, posso até dizer que o clima ficou um pouco constrangedor naquele momento, e este só fora quebrado quando o celular de começou a tocar.
levantou de imediato, e parecia estar com um pouco de pressa, pois ele ia embora sem se despedir, mas eu consegui ser mais rápida e o alcancei na porta.
- Aonde você vai ? –perguntei confusa com sua atitude repentina.
- Jenny me ligou, tenho que ir com ela experimentar o meu smoking – disse encarando o chão – Me desculpe pela pressa, a gente se vê no baile ok? – me deu outro breve beijo na bochecha e partiu, me deixando ali, estática, com o coração querendo gritar por ele de volta.
A ultima frase de ecoou em minha mente repetidas vezes, como se aquele eco quisesse alertar-me de algo. Dito e feito, no meio de toda essa confusão eu não parei para pensar na tragédia que estaria por vir. Hoje a noite aconteceria o baile anual de outono, uns dos eventos mais polêmicos do ano, mas para mim era mais uma perda de tempo. Como todos os bailes sociais têm suas normas, este não seria diferente, toda a garota deveria ir acompanhada e eu não tinha um par, então definitivamente eu não iria ao baile.
Voltei à cozinha convicta de que eu não iria mais a aquele baile estúpido, o pior de tudo seria dar a noticia a , ela estava mais animada que Eleanor para eu ir ao baile.
Assim que cheguei à cozinha, levantou-se apressada e caminhou rapidamente em minha direção.
- Vamos , ainda temos que escolher os vestidos, uma péssima idéia deixar a escolha de ultima hora, agora temos que correr – disse enquanto me puxava pelo braço, convicta de que eu realmente iria ao baile sem um par.
- – eu parei quando chegamos à porta, fazendo-a parar também e me encarar confusa – Eu... Eu não vou ao baile – tomei coragem para dizer-lhe as palavras.
parou por um minuto, como se estivesse tentando digerir cada palavra emitida por meus lábios. Lentamente os traços suaves de seu rosto deram lugar a uma expressão assustada e brava ao mesmo tempo, se isso é possível.
- Como assim você não vai ao baile? – disse lentamente com seu tom de voz bastante alterado.
- , eu não tenho par, como você quer que eu vá ao baile sem um par?
Logo seu rosto adotara uma expressão suave e tranqüila novamente, o que me deixou completamente confusa.
- , eu já cuidei disso, você tem um par para o baile sim.
- Como assim? – foi a minha vez de alterar meu tom de voz.
- Você achou mesmo que eu iria deixar você sem par para o baile? – dizia com tranqüilidade na voz – Eu já te arrumei um par, ele irá te esperar em frente à entrada principal às oito horas.
Eu estava perplexa, meu cérebro parecia que ia fundir naquele momento. Uma parte de mim não queria acreditar no que ela acabara de dizer, outra parte de mim lutava com essa parte dizendo para eu armar um escândalo por isso.
- – eu tentava encarar esse fato naturalmente – Eu odeio encontro às escuras, como você pode fazer isso comigo?
- Calma , ele é gato, na verdade ele é quase irreal de tão lindo, eu não faria isso com você se ele não valesse tanto a pena assim – disse ela.
- Só pode ser brincadeira – eu ainda estava perplexa.
- Dá para relaxar e ir andando? já está nos esperando – tentava me puxar outra vez.
- Não , eu não vou – protestei.
- Como assim não vai? Você já tem um par .
- , uma coisa é ter um par que você conhece e confia. Outra coisa totalmente diferente é você ter um par que você nunca viu na vida – eu disse dando ênfase na ultima frase – Eu não vou e ponto final.
- Mas , você o conhece – disse quase em um tom de súplica.
- Como assim eu conheço? – outra vez fiquei perplexa – Quem é o meu par?
- Isso eu não posso dizer, é uma surpresa, tenho certeza que você vai gostar – ela tinha um sorriso sincero nos lábios, difícil de recusar – Por favor , planejamos esse baile desde crianças, e você conhece o seu par, tenho certeza que você vai gostar da surpresa – já implorava – Por favor , por nós, por essa noite que vai ser incrível.
Ela sempre conseguia me comover com seu drama, mas algo dentro de mim dizia que eu não iria arrepender-me de ir ao baile, então resolvi seguir essa voz dentro de mim que gritava implorando para eu ir de encontro ao cara que estará esperando por mim hoje à noite.
Eu caminhava ao lado de pelas ruas de Londres apenas assentindo com a cabeça ao que ela dizia, na verdade meus ouvidos não decifravam nenhuma palavra omitida por , a voz dentro de mim ainda estava lá, só esperando o anoitecer, e por algum motivo estava me causando um frio inexplicável na barriga.
Avistei ao longe acenando para nós na porta da primeira loja que iríamos encarar. Ao chegar até ela, cumprimentei-a e entrei em uma loja com paredes em um tom rosa claro com gigantescas portas de vidro. Uma moça simpática com um sorriso congelado nos lábios nos levou até os vestidos sociais.
Enquanto eu observava lentamente um por um, já havia pegado pelo menos uns seis para provar, enquanto ainda estava observando, mas já tinha uns três vestidos em suas mãos.
Nada naquela loja interessou-me, não cheguei nem a provar vestido algum e por sorte e também não levaram nada, podendo assim seguir para a segunda loja do dia, que por sorte ou azar estava fechada, restado a opção de seguir para a terceira loja.
Por alguma razão desconhecida, a aparência daquela loja agradou-me. Não era nada chamativo, tinha um estilo clássico com paredes em um tom marfim e não havia gigantescas portas de vidro, dando um ar de privacidade. Uma moça loira com o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo, naturalmente simpática nos levou até os vestidos. Observei um por um, levando cinco vestidos para experimentar.
O primeiro vestido não caiu bem, em um tom verde escuro de seda, com alguns brilhos na barra, que por acaso era bem maior que eu. O segundo era mais decotado do que o imaginado. O terceiro era mais largo do que o imaginado. O quarto parecia o vestido da Cinderela. O quinto ficou com a barra muito curta.
Saí do provador e dei de cara com e sorridentes com seus respectivos vestidos nas mãos.
- E ai , encontrou um vestido? – perguntou.
- Não, nada me agradou aqui – disse desanimada.
- Ah , não tem outro vestido que você queira experimentar? – disse em um tom preocupado.
- Não, acho melhor seguir para a outra loja antes que seja tarde demais – eu disse seguindo por fim até o balcão de recepção.
- Nome de quem? – uma mulher ruiva de cabelos cacheados na altura do queixo com um crachá escrito gerente em sua blusa perguntou antes de pegar os vestidos.
- Eleanor – respondeu.
A mulher ruiva encarou cada uma de nós, cochichando algo com a atendente loira em seguida.
- Quem é ? – a ruiva perguntou.
- Eu –respondi um pouco receosa, porque raio ela estava perguntando meu nome?
- Queira seguir-me senhorita ?
Assenti com a cabeça e a segui para não haver problemas.
Ela me levou até um cômodo em um tom azul claro, repleto de fotos de pessoas usando determinado vestido da loja, cada uma parecia mais feliz que a outra, confesso que fiquei um tanto encantada com aquele cômodo.
A gerente tirou uma grande caixa dourada dentro de um enorme armário na cor branca, entregando-me em seguida. - Sua mãe fez esse vestido especialmente para você e disse para tê-lo como uma opção para hoje e que ficará feliz seja qual for sua escolha – ela disse e me deixou a sós com a caixa dourada.
Encarei a caixa por alguns instantes questionando a atitude de Eleanor de me fazer um vestido para o baile de outono. Olhei ao redor do cômodo e notei um provador ao lado no armário onde estava a caixa do vestido.
Entrei na cabine e tirei o vestido da caixa, observando-o rapidamente. Sua cor era linda, e parecia ser um ótimo vestido, calei todas as perguntas de minha mente vestindo-o de vez. Ao olhar-me no espelho quase não acreditei. O vestido era definitivamente perfeito, um vestido que eu escolheria, jamais poderia imaginar que Eleanor acertasse perfeitamente o meu gosto, mas vejo que me enganei. Definitivamente esse seria o meu VESTIDO.
Voltei para as garotas com um sorriso estampado no rosto, e notei um sorriso no rosto de cada um ao receber a noticia do vestido.
Fomos direto para o salão de beleza, o carro estaria lá as 19:45 e nos levaria direto ao baile. Ao chegar ao salão, cada uma foi para sua respectiva cadeira, uma ao lado da outra, escolhendo o penteado perfeito para o cabelo enquanto a manicure já trabalhava em nossos pés.
Preferi deixar o cabelo solto, mas todo ondulado, então não teria muito trabalho no meu cabelo com penteados quase impossíveis. Antes de começarmos com o cabelo, entramos para o banho. Os boxes ficavam um ao lado do outro e não tinha mais ninguém no local, o que nos dava liberdade de conversar alto enquanto tomávamos banho.
- Ai, nem acredito que vai ser meu par hoje – disse.
- Isso pra mim ta cheirando amor – comentou rindo.
- Isso pra mim ta cheirando amor faz tempo – eu disse enquanto gargalhava, deixando totalmente sem graça.
- Se eu não estivesse no banho eu te mataria – disse em um tom ameaçador.
- Gente eu to preocupada com o – disse interrompendo o momento de fúria da .
- Porque ? – perguntei curiosa.
- Vai que ele esquece de colocar a gravata, da ultima vez o tio dele teve que emprestar a gravata no aniversário de sua avó, foi horrível – ela disse.
- Pensa pelo lado positivo , pior seria se ele esquecesse de colocar a calça – disse fazendo as três gargalharem ao mesmo tempo.
- E o par da heim? Estou curiosa para vê-lo, disse que ele é gato – comentou.
- Muito gato, se não fosse meu par, na certa seria o par da – acrescentou.
Meu coração palpitou em meu peito e senti aquele frio na barriga de novo. Eu não estava gostando de sentir isso, eu só sinto pelo , ta certo que pelo é bem mais forte, mas nada justifica eu me sentir assim por alguém que eu ainda não sei quem é.
Ao sair do banho, fomos fazer o cabelo e a maquiagem e em poucas horas já estávamos devidamente prontas, com os vestidos e sapatos da loja, esperando o carro chegar para nos levar até o salão onde aconteceria o baile de outono.
Quanto mais se aproximava a hora, mais o frio na barriga aumentava, o que foi me deixando impaciente e fazendo os minutos passarem lentamente.
Não demorou muito e o carro chegou e o frio na barriga aumentou ainda mais, se é que isso é possível.
O carro parou um pouco afastado do salão, devido ao grande movimento de carros naquela rua, e graças à pressa de e nós descemos do carro e resolvemos caminhar até o salão.
Meus passos fracos tornaram-se inseguros a medida que o salão ficava próximo. Senti o coração bater descompassado em meu peito, e devido a isso segurei firme o braço de que percebeu meu nervosismo e parou poucos metros da entrada principal.
- , fica tranqüila, hoje a noite será inesquecível, tenho certeza de que seu par tornará uma noite maravilhosa, por isso eu o escolhi, porque quero que você tenha a noite perfeita hoje, vai dar tudo certo, boa sorte .
deu um beijo em minha testa e caminhou até , deixando-me sozinha e mais nervosa que o normal.
Arrisquei olhar para a entrada principal, mas estava um tanto longe para eu reconhecer algum rosto entre a multidão. Tomei o fôlego e lentamente fui tornando o espaço entre eu e a entrada principal inexistente.
Capítulo 10 - And you're on fire when he's near you
Meus passos tornaram-se firmes, como se aquela voz que ecoava em minha mente insistindo para vê-lo deram-me a coragem que o resto de minha consciência recusava. Eu ainda tremia, e muito, mas meus passos continuavam firmes a subir degrau por degrau da escadaria daquele salão.
Dentro de mim, a guerra continuava, com uma parte dizendo-me para voltar atrás antes de chegar ao portão principal, enquanto a outra parte estava me levando justamente onde a outra não queria, e essa parte estava vencendo.
Acordei de meus devaneios assim que meus pés notaram que os degraus haviam acabado. Não havia mais volta, eu teria que encara-lo, sair correndo seria covardia demais.
Lentamente meus olhos tomaram a direção certa, deparando-se com um rapaz intensamente bonito.
Seu smoking era preto, com a gravata na cor do mesmo. Seu cabelo era castanho dourado, completamente liso e um pouco bagunçado, o que lhe dava certo charme. Seus olhos era um verde-azulado, aquele verde tão claro que pode ser confundido com azul, eram olhos expressivos e ligeiramente grandes, contendo um doce mistério indecifrável neles. Seus lábios eram médios, parecia ter sido perfeitamente desenhado e calculado cada centímetro deles, lábios angelicais, seus lábios contradiziam com seus olhos, enquanto os lábios pareciam a inocência de um anjo, seus olhos pareciam alertar perigo, profundamente envolventes.
Por mais que parecesse certo, havia algo errado ali. Eu não o conhecia. Seu rosto me dava uma pequena familiaridade, mas definitivamente eu não o conhecia.
Acordei de meus pensamentos mais uma vez, e me dei conta de que estava em frente ao meu suposto par, o encarando abobalhada enquanto ele me dava seu melhor sorriso. Pensei em dizer algo, mas qualquer palavra omitida por meus lábios seria um estrago naquele momento, então tentei apenas respirar e colocar meus pensamentos no lugar, mas nada feito, eu não conseguia encaixar as peças desse interminável quebra cabeça e a vontade de falar algo passou pela minha mente de novo, definitivamente era o melhor a fazer.
- Desculpe, acho que houve um terrível engano – eu disse e no mesmo instante dei-lhe as costas.
Senti todo o sangue do meu corpo concentrar-se em minhas bochechas. Criticava-me mentalmente por ter aberto a boca, eu sabia que cada sílaba omitida por meus lábios seria um desastre, não sei por que ainda insisto na idéia de estragar o momento falando algo totalmente inapropriado, eu só queria fugir daquele lugar, fugir para longe, mas antes de chegar ao primeiro lance de degrau, uma mão puxou-me pelo braço, fazendo meu corpo ir à direção do mesmo.
- Não ouve engano algum . Você não está me reconhecendo? – ele disse.
Sorri, talvez um sorriso sarcástico. A pergunta que estava sendo frequentemente usada pelos demais nas ultimas semanas, acabara de sair de seus lábios.
- Desculpe, mas reconhecer alguém parece uma tarefa difícil pra mim ultimamente – respondi um tanto tímida.
- Chace Sullivan, me garantiu que você lembraria de mim – ele disse sorrindo.
Um sorriso involuntário formou-se em meus lábios. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Era ele, Chace, o garoto de minha infância, aquele que sempre me animava quando me irritava, aquele garoto que sempre ficou do meu lado me apoiando em tudo, aquele que sempre me defendia quando começava a me irritar, aquele garoto que sempre arranjava as melhores saídas quando tudo parecia um desastre, aquele era o Chace, o meu Chace.
Queria pular em seus braços e abraça-lo até a saudade ir embora, mas seria ousadia demais, afinal fazia anos que eu não o via.
- Isso é totalmente inacreditável – eu disse acreditando que aquilo era um sonho e que logo eu iria acordar.
Chace começou a rir, era incrível como o seu riso não mudara, ainda era o mesmo riso de Chace com dez anos de idade, era o meu Chace de dez anos de idade, agora homem.
- Se não fosse pela sua cara de felicidade, eu ficaria triste por não estar acreditando em mim – Chace disse, fazendo-me corar.
- É o mesmo Chace de sempre, não sei como não o reconheci antes – respondi.
- Que tal entrarmos? – ele disse esticando seu braço na minha direção.
Sem pensar duas vezes, passei meu braço em volta do seu e caminhamos para dentro do salão.
O local estava elegantemente decorado em tons branco e dourado. Em cima de cada mesa havia um arranjo de rosas brancas e velas douradas. No teto havia faixas de seda também na cor branca e dourada. Ao fundo ficava o bar, onde pessoas estavam apoiadas sem nenhuma postura bebendo taças e mais taças de martini.
Ao caminharmos pela multidão, senti os olhos curiosos sob mim, na certa estavam se perguntando ‘quem é a garota que o cara mais perfeito do baile está acompanhando?’ Podia sentir os olhares invejosos das garotas, mas eu não ligava, não essa noite.
Avistei e mais adiante, e sem pensar muito, envolvi um dos braços de Chace com minha mão e fui levando-o na direção dos dois. Eu não estava tendo uma atitude de alta classe, estava agindo como uma garota de rua levando seu amigo para ver algum novo brinquedo, mas eu não podia evitar, era assim que eu me sentia com Chace e por algum motivo eu estava me sentindo bem, quem não iria sentir-se bem ao saber é Eleanor e por alguma razão eu não estava me importando com isso, estava exausta de fazer sempre o que ela manda.
Assim que chegamos até eles, começou uma conversa de entrosamento e logo nós quatro já estávamos rindo de qualquer coisa boba que falava.
Uma voz conhecida soou atrás de mim, o que fez meu estomago revirar por alguns segundos, era e Jenny.
Tentei parecer natural na presença dos dois, mas era quase impossível tal tarefa. Jenny não moveu um músculo para nos cumprimentar, apenas fixou os olhos em uma direção, como se tivesse algo que pudesse entretê-la lá.
- Chace – disse quando foi cumprimentá-lo. Pude notar que em seus olhos havia raiva, nunca tinha visto os olhos de daquele jeito.
- – Chace disse, fazendo meu estomago revirar novamente.
A voz de Chace dizendo ‘’ ecoou em minha mente repetidas vezes em fração de segundos. A imagem do garoto que sempre me irritara quando criança me veio à mente, em seguida transformou-se na imagem de parado a minha frente esperando alguma ação de minha parte, mas naquele momento meu cérebro foi inundado pelas malditas teorias que já me perturbavam antes, e que agora Chace havia quase confirmado, o que fez meu corpo congelar e me deixar sem reação.
- – ele disse. Sua voz tinha um tom ríspido, era como se ele tivesse sido apunhalado pelas costas, comportamento totalmente estranho.
O retribui com um sorriso tímido. As palavras de Chace ainda giravam em minha cabeça de um jeito irritante, e parecia querer durar por toda a eternidade.
Os olhos de estavam fixos no braço de Chace, foi então que percebi que eu ainda segurava seu braço, e sem saber muito que fazer, o soltei.
Antes que a situação piorasse, convidou a direcionarmos a nossa mesa, que por ironia do destino era a mesma mesa de e Jenny, ou talvez não fosse tão ironia do destino assim. Por sorte sentou a meu lado, o que me deixou menos constrangida com a situação atual.
Chace era totalmente inacreditável, ele nos contava o que fez no tempo que esteve fora em suas viagens e histórias nos Estados Unidos, era de dar inveja em qualquer um.
não havia pronunciado palavra alguma, ainda mantinha seu olhar furioso em Chace, e de vez ou outra o peguei olhando em minha direção com olhares indecifráveis. Seu comportamento estava me deixando frustrada, eu odiava não conseguir decifrar as pessoas, e era meu maior enigma.
Uma música calma começou a tocar, e logo pude reconhecê-la, aquela musica significava muito pra mim ( Switchfoot – On Fire ). Eu a ouvia nos finais de tarde de verão tediosos, quando o sol se punha. Eu ficava deitava em minha cama, olhando pela janela o céu passar de um tom azul para um tom avermelhado, sentindo a brisa do fim do dia tocar minha pele. Às vezes eu pensava em , na loucura que foi conhecê-lo. Logo eu caia em um cochilo e acordava quando o céu já estava escuro e o cheiro de comida cozinhando invadia minhas narinas convidando-me a despertar.
Chace esticou a mão para mim, convidando-me a ir dançar com ele. Sorri um pouco tímida, mas aceitei o convite.
Fomos para o centro do salão, e mais uma vez os olhares curiosos caíram sob nós, mas naquele momento eu não me importava, aquela música me relaxava, e a presença de Chace me fazia sentir segura.
Dançávamos no ritmo da música. Os braços dele estavam em volta de minha cintura, mas não de um jeito firme e decidido e sim de um jeito tímido, como se pedissem permissão para estarem ali. Meus braços estavam em volta de seu pescoço, um pouco tímidos também. Todo esse tempo afastado nos deixou completamente sem graça.
- De onde você conhece ? – deixei a pergunta que estava entalada em minha garganta escapar.
- O conheci por acaso há um tempo atrás – ele respondeu com um pequeno sorriso nos lábios.
Fiquei calada novamente, apenas deixando a música e o momento nos guiar, qualquer palavra poderia destruir aquele momento.
Assim que a música terminou, nós paramos de dançar. Em seguida outra música começou, (More Than Words) mas eu continuei parada olhando Chace nos olhos, que fazia o mesmo que eu.
Uma mão pousou em seu ombro, fazendo Chace virar-se na direção do mesmo, mostrando com a mesma expressão séria de antes.
- Se importa? – disse a Chace esticando sua mão em minha direção.
- Não – Chace disse e nos deixou no meio do salão.
Os braços de envolveram minha cintura de um jeito firme e decidido que fez meu corpo involuntário arrepiar-se ao toque de suas mãos repousadas em minha cintura. Esse era o efeito que só conseguia deixar em mim, qualquer outro cara tentando faze-lo sairia um completo desastre. tinha esse efeito sob mim sem fazer nenhum esforço.
A dúvida ainda girava em minha cabeça e ficava mais forte na presença dele. Meus lábios abriram-se duas vezes tentando tirar a dúvida de minha mente de uma vez por todas, mas não consegui omitir nenhuma palavra.
Os olhos de estavam mergulhados nos meus, o que me deixava ainda mais nervosa, e por mais que isso me assustasse, era como se meus olhos não quisessem piscar.
O cheiro de sua pele já estava entorpecendo-me, e sua respiração mergulhava em minha pele, me deixando completamente absorta a ele.
Por mais que aquele momento fosse tudo o que eu precisava, uma hora ou outra ele acabaria, e se eu continuasse tão na dele, a duvida iria continuar me atormentando, então arrisquei a começar uma frase agradável.
- – eu disse num tom suave.
encarou-me completamente assustado, seus olhos agora transbordavam dúvidas e suas mãos afirmaram-se ainda mais em minha cintura.
- Você nunca me chamou pelo nome – ele disse um pouco sem graça.
Meu estomago revirou novamente com suas palavras. Então ele podia ser o garoto da minha infância?
- É você ou não? – perguntei encarando-o nos olhos.
Os olhos de agora estavam assustados a me encarar, como se o inesperado tivesse acontecido.
- Não sei do que você está falando – tentou ele.
- Você sabe , você sabe muito bem. Responda-me a verdade.
Seu corpo paralisou, fazendo-me parar de dançar também. Eu ainda o encarava, mas ele insistia em olhar para o chão. Suas mãos saíram de minha cintura, e parecia que meu corpo doía por não ter seus braços em torno de mim.
- Você já sabe a resposta. Apenas estou confirmando o que você já sabe.
Meu corpo congelou, meu estomago revirou pela décima vez na noite. A imagem das pessoas em torno de nós foi tornando um borrão, restando apenas a imagem do corpo de a minha frente, estonteantemente lindo, fazendo meu coração querer explodir dentro do meu peito.
Por mais que eu concorde que qualquer palavra pode estragar um momento, meus lábios sempre contradiziam com essa opinião.
- Como pode? – eu disse ainda incrédula.
Quando eu estava perto de , era como se meus olhos não quisessem piscar, meu coração não quisesse se acalmar e meus lábios não quisessem se calar, talvez eles apenas quisessem reduzir a vontade de juntar-se a seus lábios.
Ele não disse nada, apenas encarou-me totalmente confuso, deixando o silêncio tornar-se um espaço para eu prosseguir.
- Como pode um garoto que sempre me irritou tornar-se um cara carinhoso e protetor?
Parecia que cada palavra que eu dizia o deixava mais sem jeito, como se não houvesse uma explicação lógica para as minhas perguntas.
passou as mãos pelo cabelo, e me encarou novamente. Seus olhos pareciam tentar buscar respostas para minhas perguntas, respostas que não conseguiam encontrar.
- As pessoas mudam – disse ele.
Por mais que esse quebra-cabeça me deixasse confusa, tinha razão, e ele era a prova viva disso, as pessoas mudam.
Naquele momento tudo o que eu queria fazer é me jogar nos braços dele, onde eu me sentia segura. Queria poder falar o quanto eu o amava e como minha respiração falha na sua presença, queria dizer a ele que quando estou em seus braços eu sinto que estou no lugar onde eu realmente pertenço, mas eu simplesmente não podia. Então fiquei observando-o, esse era o máximo que eu podia fazer, e me doía não poder dizer a ele tudo o que eu sinto.
Uma mão tocou meu ombro, fazendo-me sair do transe. Era Chace, convidando-me a dar uma volta com um sussurro em meu ouvido, tal ato fez sair bufando de raiva.
Tudo passou como um breve filme em minha mente, a volta de Chace e coincidentemente a descoberta de que era o irritante de minha infância em uma única noite fez meu cérebro quase fundir, e quando dei por mim eu estava caminhando em um jardim iluminado com pequenas luzes, com Chace ao meu lado.
O cenário parecia perfeito, as luzes estavam fracas, o céu estava absurdamente estrelado, era tão raro ver um céu assim em Londres no outono, era como se tudo fosse predestinado a dar certo.
Olhei Chace calado ao meu lado, a meia luz iluminava seu rosto, deixando seus olhos em um tom azul claro e seu cabelo levemente dourado. Ele era absolutamente lindo, e esse com certeza poderia ser o momento da minha vida, mas faltava alguém do meu lado, alguém que me fizesse sentir completa, faltava comigo.
Paramos perto de uma fonte, Chace continuava sem dizer nada, só que agora ele estava me encarando. Respirei fundo várias vezes, fechando meus olhos por alguns segundos imaginando comigo. Senti-me uma estúpida por estar pensando em num momento desses, Chace era bom para mim, era bom pra mim, e eu pensando em , que provavelmente deve estar dançando e dando todo o carinho possível a Jenny.
Abri meus olhos lentamente, tentando focar toda a minha atenção em Chace, e para minha surpresa ou talvez desespero, estava parado atrás de Chace encarando-me seriamente. Por um momento pensei em estar alucinando ou então que meus pensamentos ganharam vida, mas as dúvidas foram sumindo a cada passo que aproximava de nós.
- Posso conversar a sós com ela Chace? – disse secamente.
Chace deu-lhe um olhar nada satisfeito, em seguida voltou sua atenção a mim, depositando um breve beijo em minha bochecha e nos deixando a sós sem dizer nenhuma palavra.
- O que ele é seu? – disse no mesmo tom ríspido de antes.
- Ele é o meu acompanhante – eu disse no mesmo tom de voz dele.
Ele passou a mão pelo cabelo de um jeito impaciente, em seguida colocou-as no bolso e olhou para um ponto fixo no chão. Quando a sua atitude e seu silêncio começaram a me preocupar, ele resolveu pronunciar-se novamente.
- Você tem que me dizer , você tem que me dizer o que ele é pra você – ele disse em um quase tom de súplica e desespero.
Meu coração acelerou de repente, e numa altura dessas eu já estava tremendo dos pés a cabeça, com medo de dizer algo errado, com medo das palavras estragarem o momento como já tinham feito outras vezes.
- Ele é um velho amigo meu – havia indecisão nas minhas palavras, o medo de fazer tudo errado aumentara, o que me deixou ainda mais nervosa.
retirou as mãos do bolso da calça e as passou pelo cabelo pela segunda vez em menos de cinco minutos.
- Você não pode fazer isso comigo – ele disse nervoso – você não pode .
Meu coração queria sair pela boca, e eu já podia senti-lo em minha garganta. Agora o medo tomara conta do meu corpo por completo e eu sentia que podia cair a qualquer momento pelas fraquezas de minhas pernas.
- O que você tem contra Chace?
Nesse momento encarou-me seriamente, qualquer feição de desespero ou súplica que seu rosto adotara antes, havia sumido restando apenas um semblante frio.
- Ele já me tirou a pessoa que eu amo uma vez.
Ao terminar a frase, virou seu corpo no sentido contrário e caminhou para longe de mim, me deixando completamente confusa e sozinha. Um turbilhão de sentimentos inexplicáveis estavam agindo dentro de mim, eu queria chorar, eu queria correr, eu queria deixar aquele lugar. Belo baile, irônico baile.
Comecei a correr em direção a saída dos fundos, eu estava fugindo, eu sabia que não era o melhor jeito de resolver as coisas, mas eu estava fugindo, tudo o que eu queria era estar longe onde ninguém mais possa confundir meus sentimentos. Ao passar pelas portas do fundo meus passos aceleraram e as luzes de um semáforo distante começavam a ficar embaçadas por causa das lágrimas insistentes transbordando em meus olhos. Eu estava fugindo.
Capítulo 11 – Crawl, See me Through
A grama verde ocupava a maior parte da extensão daquele parque. Eu corria, mas não me cansava, pois eu tinha comigo, ele me fazia sentir invencível.
Caímos sentados na grama, rindo de qualquer coisa boba, tudo para nós era motivo para rirmos. parecia cansado, mas disposto a continuar só por estar a meu lado.
Sentei-me em seu colo, passando meus longos braços em volta do seu pescoço, depositando um breve selinho em seus lábios.
- Você parece cansado. – eu disse, fazendo bico ao mesmo tempo.
soltou uma longa gargalhada, que me fez rir também. Sua risada era espontânea e gostosa de ouvir, eu podia passar a tarde inteira só o ouvindo rir.
- Eu estou um pouco cansado – ele disse olhando em meus olhos – mas estar com você, torna-me disposto a correr por esse parque quantas vezes você desejar. – completou ele, tirando um largo sorriso de meus lábios.
Encostei meus lábios nos dele. Estavam quentes, ao contrário dos meus que pareciam estar sempre frios. Eu me perguntava mentalmente se isso o incomodava, mas parece que não, pois no instante seguinte aprofundou o beijo tocando carinhosamente a minha língua com a sua.
Um onda elétrica percorreu meu corpo, me fazendo rir entre o beijo sem quebrá-lo. Uma de minhas mãos foi para o seu cabelo, enquanto ele mantinha as dele firmes em minha cintura. Eu adorava a sensação, estar com me fazia sentir completa, como se tudo ao meu redor fizesse totalmente sentido.
Parti o beijo encarando-o com um sorriso largo em seus lábios vermelhos, tirando um sorriso dos meus. Era impossível não sorrir ao ver seu sorriso.
Em um impulso ele levantou, fazendo-me sair de seu colo e o encarar confusa no chão.
estendeu uma de suas mãos, e sem pensar duas vezes a peguei, levantando meu corpo em sua direção.
- Vem comigo. – ele disse puxando-me pela mão.
O segui um pouco confusa, mas plenamente confiante. Paramos em frente a uma fonte, onde sentamos, enquanto algumas pessoas ao nosso redor nos observavam curiosas.
tirou a câmera de seu bolso, passando um dos braços pela minha cintura, me abraçando forte. Sorri com isso, e uniu seus lábios a minha bochecha. Antes que eu pudesse olhar para a câmera, ele já tinha tirado a foto, então tudo o que me restou era ver como tinha saído.
A foto era linda. beijava meu rosto enquanto eu olhava para o chão sorrindo. Tudo parecia perfeito naquela foto, o melhor momento congelado para sempre.
Abri os olhos, encarando o teto escuro do meu quarto. Esse devia ser o terceiro sonho que tenho com desde o baile, que fora doze dias atrás. Chace veio me visitar no mesmo dia em que fugi daquele baile. Ele parecia preocupado, e veio verificar se eu estava bem ou se precisava de algo. Depois disso ele ligou todos os dias, e eu sempre finjo estar tudo bem, mas na verdade não está nada bem.
Venho sonhado com frequentemente, mas nas outras vezes, eu sonhei com o fim do baile. Suas palavras ainda giravam em minha cabeça, mas hoje o sonho foi diferente, parecia tão real como se eu tivesse vivido aquele momento e me esquecido.
Levantei-me preguiçosa da cama, eu sei que não iria conseguir voltar a dormir tão cedo.
Caminhei até a grande janela de vidro do meu quarto que ocupava a parede inteira, onde eu podia ter uma visão da cidade, mas eu sempre a deixava coberta por uma cortina azul-marinho para evitar a claridade, eu sempre odiei acordar com claridade. Apoiei-me na sacada, observando o céu pouco estrelado, ultimamente era raro ver estrelas no céu.
Um vento gélido tocou minha pele, trazendo a lembrança de em minha mente. Porque eu não consigo parar de pensar nele?
Eu não o vi mais desde o baile, não tive nenhuma mísera notícia sua, e era isso que estava me matando por dentro. Oh Deus, onde você está? Será que você me esqueceu aqui?
Fechei os olhos por alguns minutos apenas para sentir o vento intensificar-se, junto com as memórias do . Passei as mãos por meus braços já gelados, e decidi voltar a dormir, pelo menos em meus sonhos nós ficamos juntos.
Acordei outra vez. Dessa vez não sonhei com , o que me fez sentir um vazio pela sua ausência até em sonhos.
Levantei-me e fui procurar algo instantâneo para comer. À noite eu teria de ir à casa de , pois sua mãe daria uma festa em nome de Tyler, seu novo namorado. Eu iria somente por causa da . Sua mãe é uma espécie de irmã gêmea da minha, egocêntrica e materialista.
sempre odiava quando sua mãe dava festas em sua casa, principalmente para algum de seus namorados, Tyler já era o quinto desde a separação de seus pais.
Olhei para o relógio, e percebi que já eram seis da tarde. As oito eu teria que estar na casa de , então corri para o banho enquanto eu ainda tinha tempo.
Saí do banho e fui arrumar meu cabelo, levando praticamente por volta de uma hora para deixá-los com as pontas levemente onduladas.
Entrei em meu quarto indo direto para o closet, procurando algo decente para vestir. Optei por uma calça skinny preta, uma blusa branca de seda amarrada no pescoço e nos pés, meus amados scarpins vermelhos.
Saí do meu apartamento com um pouco de pressa, pois já eram oito e quinze. Na certa me mataria por deixá-la quinze minutos a sós com todos os convidados malucos de sua mãe.
Entrei num táxi e segui rumo a sua casa, que não era longe do prédio onde eu morava. Paguei o taxista e observei a casa com todas as luzes possíveis acesas, sua mãe sempre gostava de chamar atenção.
Passei pelo hall de entrada, chegando à sala, onde sua mãe conversava com Charlie Huffman, o melhor fotógrafo de Londres. Ela gesticulava exageradamente segurando sua taça de champagne, enquanto Tyler fazia sua melhor cara de tédio. Sorri com isso, chegando até os três com um sorriso estampado nos lábios. Cumprimentei um por um, recebendo logo um elogio de Charlie.
- Meu Deus do céu, essa sua silhueta longa me fascina. Porque você não me deixa te fotografar? – sim, ele era gay.
Dei-lhe um sorriso sem mostrar os dentes, apertando um pouco os olhos. Segundo boatos esse era meu melhor sorriso, e eu o fazia sem mesmo precisar forçar.
- Quem sabe um dia Senhor Huffman. – respondi sincera.
- Oh por favor, me chame apenas de Charlie, querida! Me sinto ainda mais velho ao ser chamado de Senhor Huffman. – ele respondeu gesticulando exageradamente com a mão, assim como a mãe da .
- Certo Charlie. Prometo pensar no assunto. – respondi sorrindo, enquanto Charlie me observava dos pés a cabeça.
- Me ligue para marcar a sessão querida. Sua mãe tem meu número – ele dizia – estarei aguardando, .
Dei-lhe outro sorriso sem mostrar os dentes, e caminhei em direção à sala de estar onde provavelmente estaria , , e com suas melhores cara de tédio. Logo depois chegaria e Jenny, e eu os aturaria a noite toda, sentindo meu peito doer cada vez que eu presenciar uma cena romântica dos dois.
O senhor Huffman era simpático ao extremo, e têm mostrado interesse em mim nos últimos tempos. Na verdade eu sempre fui a mais alta da turma, desde que me conheço por gente. Só os meninos conseguiam me ultrapassar na altura, e digo isso referindo aos meus amigos. Meus braços eram longos e finos, e minhas pernas também. Meus quadris eram largos na medida certa, o que compensava era que eu tinha muito busto, e quando eu digo muito é porque são realmente grandes.
Cheguei à sala de estar, deparando-me com debruçada no piano, batendo em duas repetitivas teclas. girando o resto de uísque e gelo de seu copo, encarando-o atentamente. brincava com seus dedos, deitado em um sofá perto da estante de livros, e olhava fixamente para o quadro da foto ‘O beijo do fim da guerra’ que eu adorava passar tardes vazias olhando, sempre quis receber um beijo igual.
- De quem é o velório? – perguntei, recebendo a atenção de todos.
- Só pode ser o meu. – disse, parando finalmente de batucar no piano.
- Sei lá, a gente podia...brincar de alguma coisa. – sugeriu.
- Brincar de que? – disse revirando os olhos, impaciente, batendo a mão no piano em sua demonstração de mal-humor.
voltou sua atenção ao copo de uísque e ficou indeciso entre olhar para e discutindo ou voltar a olhar a foto.
- Só se for brincar de ‘quem me dá um beijo igual o do quadro da ’ – falei em um tom de brincadeira, gargalhando em seguida.
- Que beijo? – a voz de soou atrás de mim, fazendo meu corpo tremer e minhas batidas cardíacas aumentar.
Virei meu corpo em sua direção, deparando-me com um totalmente perfeito. Ele usava uma camisa social preta com as mangas dobradas, juntamente com sua calça jeans desbotada e all star nos pés. Seu cabelo estava um pouco bagunçado, dando-lhe aquele charme incomparável. O melhor de tudo era que estava sem a Jenny. Sorri inconsequentemente para ele, que retribuiu o meu sorriso.
- O sonho da é ser beijada igual nesse quadro idiota. – disse apontando para o quadro na parede, fazendo-me acordar do transe.
Senti minhas bochechas ferverem. Esse era o meu sonho desde criança, o sonho mais bobo que eu tenho.
- Não fala assim do quadro. – eu disse fazendo bico pra .
começou a rir pela primeira vez na noite, levantando do piano e caminhando em minha direção.
- Vamos – ela disse me puxando pelo braço.
- Hei, aonde as duas vão? – perguntou do sofá.
- No meu quarto. – disse, conduzindo-me até seu quarto.
O quarto dela estava tão diferente, quase irreconhecível. Quando éramos crianças as paredes eram rosa, agora as paredes estavam azuis. A estante de bonecas dera lugar à livros. A casa da barbie dera lugar a uma linda penteadeira de madeira. Na sua cama, ao em vez de ursos, havia grandes almofadas de seda azul, combinando com as paredes do quarto, sem falar que a cama era de casal.
- Pra que você me trouxe até aqui? – perguntei sentando-me na cama, enquanto abria a porta do closet, olhando-se no espelho, procurando algum defeito imaginário.
- Você acha que esse vestido 'tá legal? – ela perguntou analisando-o.
- 'Tá lindo esse vestido, . – respondi, deitando-me de vez em sua cama.
ignorou meu comentário, e continuou procurando algum outro vestido em seu closet, enquanto eu brincava de jogar uma de suas almofadas para o ar, perguntando mentalmente o porquê de estar desacompanhado hoje.
- Jenny está doente? – perguntei como quem não quer nada.
- O que? – disse, saindo de seu closet com o mesmo vestido.
Ela sentou do meu lado na cama, fazendo-me levantar o corpo para sentar de frente a ela.
- O , ele veio sozinho hoje. – dei de ombros.
- Você não ficou sabendo? Eles terminaram. – ela disse naturalmente.
Posso dizer que nesse momento meu coração deu pulos de alegria. Eu tinha ouvido direito ou era algum delírio meu?
- O que? – perguntei só para confirmar.
- Bom, na verdade foi quem terminou com ela. – ela dizia enquanto abraçava uma de suas almofadas – e não me pergunte o porquê, eu também não sei. Você sabe que o não passa informações completas. – ela disse erguendo as mãos em sinal de inocência.
Meu coração a uma altura dessas já queria sair pela boca tamanha felicidade que eu senti ao ouvir essas palavras. Um sorriso esboçou em meus lábios, e foi intensificando conforme minhas batidas cardíacas. começou a rir também.
Podíamos ser o pior tipo de pessoa, daquelas que dão risada quando um amigo termina com a namorada, mas estávamos nessa juntas, dividíamos tudo e sabia mais do que qualquer outra pessoa o quanto eu estava feliz com essa notícia. Eu o amava.
- Mas... Quando isso aconteceu? – perguntei ainda incrédula.
- Na noite do baile, logo após eles irem embora. me contou tudo no outro dia. – disse ela.
Meu estomago revirou várias vezes em um único segundo. Talvez eu devesse me sentir mal por ele. Talvez ele nem estivesse se sentindo mal. Meu Deus porque eu ainda estou parada aqui?
Peguei pelo braço, arrastando-a para fora do quarto. Desci a escada na velocidade da luz, passando por alguns convidados apressadamente, chegando por fim até a sala de estar.
estava mexendo no celular. estava dormindo no sofá, e estava de braços cruzados numa das poltronas, viajando com seus fones de ouvido. Ótimo, não estava em nenhum canto.
Pensei em perguntar sobre seu paradeiro para algum dos meninos, mas meus olhos pararam fixos na porta de vidro que dava para a varanda da casa. estava apoiado na sacada, olhando atentamente para o céu.
Fui caminhando lentamente até ele, sentindo minhas pernas vacilarem a cada passo que me deixava mais próxima.
Apoiei-me na sacada, bem ao seu lado, sentindo seu perfume invadir minhas narinas, entorpecendo-me a cada inspiração. me olhou com um sorriso tímido nos lábios. Encarei o céu com algumas estrelas distantes e vi encara-lo também.
- Lembra de quando você me disse que as estrelas um dia iriam cair? – eu disse, lembrando-me do dia que eu estava admirando as estrelas e disse que elas iriam cair. Corri chorando para meu pai, que me abraçou e me fez acreditar que as estrelas não iriam cair nunca.
- Desculpa, – disse sem graça – eu...
- Éramos apenas crianças – o interrompi – e você disse aquilo para me irritar, como sempre.
deu outro sorriso tímido, e começou a encarar seus próprios pés, totalmente sem jeito.
- Sabe – começou ele – as estrelas não vão cair, elas sempre estarão ali, observando você. O máximo que pode acontecer é você conseguir alcançar as estrelas.
Ele disse a última frase olhando diretamente em meus olhos. Fiquei sem entender muito bem o que ele quis dizer, mas não protestei, apenas o encarei de volta.
- Lembra de quando você grudou chiclete no meu cabelo – falei rindo por lembrar-me da cena – eu chorei tanto quando a cortou a mecha que estava com chiclete.
começou a rir também. Era impossível não rir da cena daquele dia. correndo atrás de mim com a tesoura, eu chorando e correndo da , enquanto rolava no chão de tanto rir. Até Chace riu de nós naquele dia. Depois disso, ficou apelidada de ‘ mãos de tesoura’.
- mãos de tesoura – disse rindo ainda mais – Como eu era maldoso, começou a te dar razão depois que eu a apelidei.
- Sim, você era muito malvado, principalmente comigo. – eu disse fazendo bico.
aproximou seu corpo do meu, fazendo todas as borboletas possíveis do meu estômago agitar.
- , eu era criança, você sabe que eu agora jamais faria uma coisa dessas a você. – ele disse enquanto ficava perigosamente perto.
O perfume de sua pele entorpecia-me a cada passo seu, enquanto meus olhos mergulhavam em seus olhos sempre misteriosos. parou seu corpo a milímetros de distância do meu, deslizando lentamente seus dedos pelo meu cabelo.
- Como pude um dia fazer algo com esse cabelo tão macio, deslizando tão perfeitamente pelos meus dedos?
Senti um frio percorrer minha espinha a cada palavra de , ditas tão próximas à mim. Fechei os olhos ao senti-lo tocar lentamente meu rosto. Sua mão estava quente, e descia vagarosamente por minha pele, como se ele quisesse guardar cada detalhe da textura da minha pele consigo.
Sua mão parou em minha nuca, o que me fez abrir os olhos e deparar-me com seu rosto ainda mais próximo ao meu. Senti sua respiração quente bater em minha pele, misturada com o cheiro estonteante do seu perfume. olhava fixamente em meus olhos, procurando algum tipo de confirmação neles. Em seguida, seus olhos desceram para os meus lábios, e ali pararam observando-os por alguns minutos, fazendo meu coração acelerar suas batidas de um modo tão agressivo, que fiquei perguntando-me se podia ouvi-lo.
Sem desviar os olhos de meus lábios, puxou-me pela nuca, colando nossos lábios de vez. Abri lentamente meus lábios, dando passagem a sua língua, que invadiu minha boca de imediato. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo, ao sentir sua língua quente e ávida de sensações novas, num misto harmonioso e agressivo ao mesmo tempo.
Sua boca se encaixava perfeitamente a minha, e tinha um gosto indecifrável nela. Não tinha um gosto específico, tinha algo vicioso em seus lábios, algo doce, algo novo.
Minhas mãos foram parar em sua nuca, enquanto as dele desciam lentamente minhas costas até chegar a minha cintura, apertando meu corpo contra o seu. Comecei a brincar com o seu cabelo à medida que o beijo ia ganhando intensidade. Minha respiração começou a falhar, e pude sentir que a sua também começava a ficar falha, mas nenhum dos dois parou o beijo, eu não queria mais pará-lo, seu gosto viciou-me, e por mais que meus lábios estivessem cansados, eles se recusavam a parar. mordeu meu lábio inferior, ao mesmo tempo em que o puxava de leve, fazendo-me soltar o ar pesadamente contra seus lábios. riu por alguns segundos, era como se ele gostasse do efeito que causava em mim.
Ele apertou ainda mais forte minha cintura, e lentamente começou a me guiar, ainda com meu lábio entre seus dentes. Senti minhas costas encontrarem algo que eu julgo ser uma parede, pois posicionou-se a minha frente, prensando ainda mais meu corpo contra ela.
Suas mãos deslizaram até meus quadris, apertando-os de leve, enquanto eu acariciava seu pescoço com as duas mãos. Retomamos o beijo com um pouco mais de urgência, era como se nosso corpo necessitasse disso há anos.
A mesma corrente elétrica percorreu meu corpo ao sentir outra vez a língua de invadir minha boca. Era incrível a sensação que ele me fazia sentir.
- ? – a voz de soou um pouco distante.
Quebramos o beijo de imediato. me olhava um pouco ofegante, com seus cabelos totalmente bagunçados. Sorri ao ver seu estado, mas eu não devia estar muito diferente, pois passou as mãos em meu cabelo, numa tentativa de ajeitá-los.
Voltamos para a sala em busca de , mas só encontramos dormindo no sofá.
- Estranho, cadê todo mundo? – disse.
Dei de ombros, afinal eu também havia perdido metade da festa.
Senti se aproximando, e imediatamente virei meu rosto em sua direção, encontrando-o mais perto do que eu imaginava. Ele colou nossas testas, olhando diretamente em meus olhos, enquanto seus lábios esboçavam seu melhor sorriso.
- Mas que merda, onde você tava? To te procurando feito um louco. – perguntou entrando na sala.
Imediatamente se afastou, passando a mão pelo cabelo completamente sem graça.
- Eu tava na varanda. – ele disse enquanto bagunçava um pouco seu próprio cabelo.
- Vamos embora. – começou – dormiu. e sumiram.
- Que horas são? – Perguntou .
- Já são onze horas. – respondeu enquanto caminhava em direção ao sofá que dormia.
virou seu corpo em minha direção novamente, encarando-me timidamente, com o mesmo sorriso de antes nos lábios.
- Te levo pra casa, certo? – disse ele.
Apenas assenti com a cabeça, dando-lhe um sorriso sem mostrar os dentes. Olhei em direção a porta, tentando inutilmente encontrar e , mas nada feito, os dois realmente sumiram.
- ACORDA – gritou para no sofá, fazendo minha atenção voltar a eles.
- Que? Onde? Quando? Porque? – perguntou com a voz rouca de sono, sentando no sofá com o cabelo um pouco bagunçado.
- Vamos embora, bela adormecida. – dizia, enquanto gargalhava observando os dois.
reclamou algo no sofá, mas logo levantou dando algumas tropeçadas pelo caminho até a porta da sala. Observei atentamente cada rosto daquela sala, tentando encontrar ou , mas os dois realmente sabem se esconder.
Assim que chegamos ao carro de , e entraram no banco de trás, e antes que eu pudesse sentar no banco passageiro, puxou meu braço e me entregou uma blusa de moletom cinza, três números maiores que eu.
- , porque essa blusa? Eu não estou com frio e...
- Apenas vista ela, . – interrompeu ele.
Peguei a blusa de sua mão sem protestar e a vesti, ficando três números maiores, como o imaginado. Entrei no carro e seguimos em silêncio até meu prédio, que graças a Deus não ficava longe da casa da .
Assim que estacionou o carro em frente ao meu prédio me despedi dos garotos e fiquei totalmente sem jeito de me despedir dele, então eu disse apenas um breve ‘tchau’ e entrei pela porta principal do meu prédio, passando por Peter, o porteiro, acenando brevemente para ele enquanto me dirigia ao elevador.
Apertei o numero do meu andar, e fiquei esperando a porta do elevador fechar, mas uma mão a interrompeu de terminar o processo.
entrou no meu elevador e apertou o botão do ultimo andar, encarando-me com um sorriso sapeca.
- , esse não é o meu andar e...
Fui interrompida pelos lábios de colando rapidamente aos meus. Havia urgência e pressa no beijo. A língua de invadiu minha boca quase sem permissão, se eu não tivesse aberto meus lábios seria drástico. Ele me encostou à parede, colocando seus braços em volta do meu corpo, me deixando presa entre eles. Coloquei minha mão em sua cintura e juntei ainda mais nossos corpos, fazendo o beijo ganhar mais velocidade. Nossas respirações já estavam ofegantes, e nossos lábios começaram a ficar cansados, mas nenhum dos dois parou o beijo. Subi minhas mãos para a sua nuca, entrelaçando seus dedos em meu cabelo, puxando-os de leve. soltou o ar quente pesadamente em minha pele, fazendo-me rir durante o beijo.
Ouvimos o barulho da porta do elevador se abrindo, e imediatamente descolamos nossos corpos, e ficamos nos entreolhando ofegantes.
desceu lentamente o zíper da sua blusa que estava no meu corpo, enquanto mantinha um sorriso vitorioso nos lábios. Ajudei-o a tirar a blusa e entreguei a ele, também sorrindo.
- Só voltei para pegar minha blusa. – disse piscando para mim.
Ele depositou um breve beijo em meus lábios e saiu pela porta do elevador.
Fiquei observando-o com um sorriso bobo nos lábios, admirando o modo como ele andava, parecia um garoto de dezesseis anos.
Olhei na direção do Peter, e ele me encarava incrédulo. Achei sua atitude engraçada e curiosa, mas imediatamente me lembrei das câmeras que havia em cada elevador, monitoradas por Peter, na certa ele viu a cena do beijo.
A porta do elevador fechou e eu comecei a rir de tudo. Definitivamente essa foi a melhor noite do ano. Mandei um beijo para a câmera do elevador quando ele parou no meu andar, e segui rumo a meu apartamento, ainda tendo flashes da noite de hoje, esperando ainda melhor o amanhã.
Capitulo 12 - Fly Away From Here
's Point Of View
Sabado à tarde. e eu largados no sofá bebendo cerveja sem parar. A televisão ligada, mas nenhum dos dois prestava atenção naquele canal tedioso de esportes, de certa forma nós ainda sonhávamos com sexta à noite.
tem um estranho relacionamento com , se é que eu posso chamar de relacionamento, pois nenhum dos dois toma iniciativa de começar algo de verdade ou acabar de vez com o ‘caso’. Eles são como Tom & Jerry. é o Jerry porque de certa forma, sempre leva a pior. Se sai com outra garota e fica sabendo, ela diz coisas horríveis a ele e os dois acabam brigando. Se ela sai com outro cara e vai tirar satisfações, ela diz que não lhe deve explicações porque ele não é seu namorado. Nem o melhor psicólogo entende esses dois.
De certa forma eu ainda mantinha o mesmo sorriso bobo nos lábios, e acho que isso tava irritando , que me encarava com uma cara tensa.
- 'Tá rindo do que? – perguntou ainda com a cara tensa, na boa ele estava me dando medo.
- Eu... Não to rindo. – dei de ombros.
- Então porque essa cara de idiota feliz? Desde quando – fez uma pausa para olhar a televisão – Golf te deixa feliz?
Ele me pegou. Ele era o meu melhor amigo, ele sabe quando tem algo de errado comigo, eu definitivamente teria que compartilhar minha alegria.
- Ela se lembra, . – eu disse sorrindo ainda mais.
- Ela quem? Se lembra do que? – Ele perguntou caminhando até a televisão, desligando-a de vez. Depois foi até o som, e colocou um cd do Aerosmith para tocar.
- , ela se lembra de quando éramos crianças. – respondi tomando outro gole de cerveja.
voltou a sentar no sofá, só que dessa vez ele me encarava com aquele semblante de quem não tinha gostado de nenhuma sílaba do que eu disse. Ele me olhara daquela maneira somente duas vezes na vida, e as duas vezes foram nos piores momentos.
- , cuidado. – Ele disse de um jeito aflito.
- Cuidado com o quê, ? Ela se lembrou de quando éramos crianças, ela me reconheceu no baile! – eu disse dando meu ultimo gole na garrafa de cerveja.
- Você sabe do que eu estou falando, . – Ele disse do mesmo jeito que o meu pai sempre dizia quando pensava que estava com a razão, e esse foi o principal motivo por eu ter saído de casa, e por alguma razão aquilo estava me deixando irritado.
- Porque você não fala de uma vez por todas então? Hein? Porque não vai em frente e fala o porquê dessa inútil preocupação? – eu disse aumentando meu tom de voz.
me olhou assustado no sofá. Talvez eu tivesse passado dos limites, ou talvez ele tivesse passado dos limites. Acho que a verdade é que tudo saiu dos limites à um ano atrás, e quando parece que tudo está voltando ao seu lugar, algo mostra que não importa quanto tempo passar, as coisas parecem nunca querer se encaixar de novo.
- Eu não quero te magoar , você sabe o quanto isso te magoa. – disse em um tom baixo.
- Porque você não diz de uma vez? – eu disse no mesmo tom alto de antes.
- Caramba , ela já te fez sofrer o bastante - começou – Ela se lembra de você criança, e o resto? Ela não se lembra de que você era o namorado dela, ela não se lembra de que o apartamento que ela mora era de vocês dois, e ela nem imagina que você pediu ao pai dela para dar o apartamento fingindo que foi ele quem comprou, quando na verdade quem comprou foi vocês, num passado distante. Ela nem se lembra de tudo o que vocês viveram – Nesse momento ele ficou de pé, parando em frente a mim, encarando-me ainda mais sério – Ela perdeu a memória , quando você vai entender isso? – finalizou ele.
Nesse momento começou a tocar Fly Away From Here no cd do Aerosmith que tinha colocado.
Essa música me lembra a . Lembra-me de todas as vezes que a peguei cantando alto na cozinha, às vezes, antes de dormir, ela me dizia ‘Then fly away from here, to anywhere, yeah, I don't care ’ e sempre que eu ouço essa música, a doce voz de me vem a memória, tornou-se impossível não ouvir sua voz quando essa música toca.
Outro problema, sabia disso. Ele sabia que essa era a música que ela cantava para mim antes de dormir, e de algum modo isso o abalou também.
Levantei-me do sofá e caminhei até a porta, deixando imóvel naquela sala.
As ruas estavam movimentadas, e o sol aparecera pela primeira vez depois de longos meses desaparecido, mas nada disso importava, meus pensamentos ainda estavam fixos nela.
Quando sofreu o acidente, parte de mim morreu, de certa forma eu ainda sinto o peso da culpa, nada disso teria acontecido se eu não tivesse gritado com ela naquela noite, na noite do seu aniversário.
Durante dois meses eu fiquei ao lado dela, vendo-a deitada, dependendo de aparelhos para respirar. Mas eu sempre segurava forte em sua mão, beijava seus olhos e agradecia a Deus por ela ainda respirar.
Quando ela acordou, me senti completo novamente. Então eu a abracei forte, e a olhei nos olhos, mas ela não me reconheceu, e desde então eu nunca me senti tão incompleto.
Os médicos explicaram que ela teve um leve traumatismo craniano, deixando um coágulo perto do cérebro, e que isso a fez perder parte da memória.
As medicações fizeram com que o coagulo fosse absorvido quase que por completo pelo organismo, porém a ultima ressonância magnética mostrou um aneurisma, que pode ser rompido e causar uma hemorragia cerebral.
Os médicos estão estudando como remover esse vaso sanguíneo sem causar danos cerebrais, ou até mesmo... Sua morte.
Meus pés teimosos estavam fazendo um caminho familiar, talvez eu estivesse ciente de onde eles queriam me levar, eu também queria chegar lá.
Meus pés pararam, enquanto eu olhava para a entrada do prédio dela, sentindo aquele frio na barriga que há tempos não sentia e só ela me fazia sentir daquele jeito.
Passei pelas grandes portas de vidro e acenei com a cabeça para Peter, meu antigo zelador. Ele me olhou de um jeito estranho, achei até engraçado, mas nem parei para conversar com ele, preferi ir direto ao meu destino.
Entrei no elevador e apertei o número dela, sentindo o frio na barriga aumentar a cada segundo. Confesso que eu estava nervoso e ansioso para vê-la. Minhas mãos suavam frio, e eu não parava de morder meu lábio inferior, maldita mania.
Senti meu coração palpitar ao ver a porta do elevador se abrir indicando que eu já havia chegado em seu andar, então suspirei lentamente e caminhei pelo corredor, parando em frente a sua porta, encarando-a por alguns segundos. Me senti um completo idiota fazendo isso, então decidi bater na porta e para a minha surpresa e desgraça, quem abriu foi Chace.
Fiquei encarando-o assustado, sem reação, tentando digerir a cena que se formava diante de meus olhos. Chace também me encarava assustado e também parecia estar sem reação.
- O que você está fazendo aqui? - falei lentamente, tentando conter minha raiva para não quebrar a cara dele na frente do apartamento de .
- , não é a melhor hora pra você vir aqui, porque não volta mais tarde? - Chace disse, fazendo minha raiva aumentar, eu não conseguiria me controlar por muito tempo.
- E quem você pensa que é para me fazer ir embora? - respondi em um tom de voz mais alto.
- , porque não deixa o orgulho de lado? Deixe o passado no passado, só estou tentando te ajudar. - Ele disse seriamente.
- O que você está fazendo aqui? - Eleanor surgiu atrás de Chace, e logo parou ao seu lado na porta, cruzando os braços, me encarando com a pior de suas feições.
Fiquei encarando-a por alguns segundos, e logo voltei meu olhar na direção de Chace que encarava o chão totalmente sem graça. Pela primeira vez eu senti que ele realmente queria me ajudar.
- Eu vim ver a . - respondi num tom firme, deixando Eleanor ainda mais irritada.
Ela revirou os olhos de um jeito impaciente, soltando todo o ar existente em seu pulmão em seguida. Isso é de dar medo em qualquer um, mas eu já sabia como lidar com essa cobra.
- Eu já não te disse que é para você manter distância da minha filha, ? - Ela disse entre os dentes, pelo visto ela também tentava manter a calma.
Eu costumava a me dar bem com Eleanor no passado. Ela e seu ex-marido eram amigos dos meus pais, e eu realmente acho que ela enlouqueceu depois que ele a deixou, mas ela enlouqueceu de vez no dia do acidente da . Depois daquele dia, tudo o que ela faz é me culpar pelo o acidente, o que me faz sentir a pior pessoa do mundo e ela sabe disso.
- Você sabe muito bem que quem me achou foi ela - eu disse calmamente enquanto recebia olhares mortais de Eleanor - Você também sabe que se eu for embora agora, ela vai me procurar, porque ela sabe o caminho da minha casa que por acaso não é longe daqui. - completei.
Eleanor bufou de raiva. Chace me encarava perplexo, devido a minha coragem de retrucar as palavras de Eleanor. Ela sabia que não podia nos vencer, ela sabia que não conseguia nos separar, o destino sempre dá um jeito de nos unir de novo.
- De qualquer jeito ela está dormindo agora - começou ela - Convidei Chace para nos acompanhar ao médico, e como um bom cavalheiro ele aceitou. Já estamos de saída, assim como você. - finalizou ela com um sorriso vitorioso em seu rosto.
Parece que Eleanor quer lutar contra o que não pode. Mesmo sabendo que não é forte o bastante para nos separar, ela de algum modo ainda tenta. Guarde os sorrisos para quando você precisar Eleanor, porque eu não vou sair daqui tão cedo...
Sem dizer nada, Eleanor fechou a porta com toda a força reunida dentro de si, fazendo o barulho ecoar pela sala. Sorri com isso, confesso que eu já estava passando dos limites, mas por não há nada que eu não faça.
Caminhei lentamente em direção ao quarto dela, eu queria vê-la, eu precisava vê-la, algo dentro de mim gritava por isso.[ Ps: Coloquem para tocar Aerosmith: Fly away from here]
Parei em frente a sua porta, e a vi deitada de costas para a mesma, em sua camisola de seda branca com alças finas, fazendo-a parecer um anjo. Seu cabelo estava espalhado pelo travesseiro de algodão branco e um lençol de algodão também branco cobria metade de seu corpo.
Aproximei-me de sua cama, sentindo meu coração acelerar a cada passo meu. Essa era a mulher que eu amava, eu não precisava de nenhum outra, era a a quem eu sempre pertenci.
Deitei-me cuidadosamente ao seu lado na cama, calculando cada movimento para não acordá-la. Em seguida apoiei minha cabeça no travesseiro que havia ao lado da cama de casal e fiquei vendo respirar calmamente.
O cheiro de sua pele invadiu minhas narinas, me trazendo uma boa nostalgia. Eu reconhecia perfeitamente aquele cheiro, era um creme que ela sempre usava depois do banho, eu adorava senti-lo, era o cheiro que mais me agradava em todo o mundo.
Logo pude sentir o cheiro de frutas vermelhas que vinha do seu cabelo em uma mistura perfeita com o cheiro de sua pele. Era aquele o cheiro que eu amava, o cheiro de .
Sua pele parecia tão macia, tão tocável, que uma de minhas teimosas mãos tocou-a delicadamente, descendo vagarosamente pelas suas costas. Sua pele estava quente, e sua textura sempre me agradou. Era tão macia, que parecia irreal. Nenhuma das mulheres que eu já toquei tinha essa textura tão surreal.
Uma angustia atingiu meu peito enquanto eu acariciava sua pele. O fato de que eu posso perdê-la definitivamente por causa de um estúpido erro do passado me mata por dentro a cada dia, e agora, vendo-a dormir tão calmamente, o medo de perdê-la atingiu-me por completo.
Fechei os olhos com certa força, na esperança de fazer a angustia passar, sentindo as lágrimas quererem transbordar pelo meu rosto, e eu não as impedi, deixei-as rolarem livremente.
Eu não suportaria perder a mulher que eu amo, seria como perder minha própria vida, porque eu não vejo um bom motivo para viver, quando esse mesmo motivo já não existir.
Vi se mexer em seu lado da cama, e imediatamente tirei a mão de sua pele, vendo virar de frente para mim. Por sorte ela não acordou, ainda continuava dormindo tão docemente, que me fez sorrir enquanto as últimas lágrimas rolavam pelo meu rosto.
Fiquei longos minutos só olhando dormir, eu podia ficar preso naquele momento para sempre, contemplando a beleza da mulher que eu sempre amei.
Meu rosto estava perigosamente próximo ao seu, e pude sentir sua respiração quente bater em minha pele, anestesiando qualquer vestígio de angústia que me atormentara antes.
Senti uma onda de sono invadir meu corpo, relaxando cada músculo lentamente, até chegar em meus olhos, que insistiam em fechar, mas eu queria continuar acordado assistindo seu peito subir e descer vagarosamente, sentindo sua respiração quente invadir minha pele, entorpecendo-me cada vez mais.
Desisti de lutar contra eles e acabei adormecendo ali, ao lado de , completamente entorpecido pelo seu cheiro, pela sua respiração, fazendo-me sentir completo novamente.
Capítulo 13 – I’m dreaming? And if you will, keep from waking, to believe this.
Acordei sentindo um peso sobrenatural sob meu corpo, eu definitivamente odiava ter que tomar medicações porque me davam sono. Virei meu corpo na cama, e percebi algo de diferente na mesma, mas o sono era tão pesado que não dei tanta importância a esse fato.
Estiquei os braços espreguiçando-me sob a cama na intenção de fazer meus músculos despertarem, mas um dos meus braços tocou em algo que se encontrava a meu lado na cama. Em um impulso, abri meus olhos com certa dificuldade por causa da claridade, deparando-me com dormindo tranqüilamente a meu lado.
Seu rosto tinha uma expressão calma e serena, ele parecia até um anjo dormindo. Um sorriso bobo se formou em meus lábios ao observar detalhadamente suas expressões enquanto dormia, só o fato de vê-lo novamente, mesmo que ele esteja dormindo e seu peito faça movimentos lentos conforme sua respiração, meu coração insistia em acelerar suas batidas cardíacas, fazendo uma onda de adrenalina atingir-me bem na boca do estômago.
Como havia parado ali? Eu não falava com ele desde ontem quando nos beijamos pela última vez no elevador de meu prédio. Provavelmente eu estava sonhando, em algum momento eu irei acordar em minha cama vazia com uma dor de cabeça terrível por causa dos remédios que eu tive que tomar mais cedo.
Meus olhos começavam a ficar cada vez mais pesados, embora eu lutasse para manter-me acordada. Eu poderia passar o resto da minha vida admirando dormir, e quanto mais eu lutava para que meus olhos não fechassem, mais densos eles ficavam. Eu podia sentir a presença de a meu lado, mesmo que meus olhos tivessem fechados, eu ainda podia sentir o perfume que vinha de sua pele invadir minhas narinas, como se aquilo me deixasse anestesiada a qualquer dor. Fiquei por alguns longos minutos sentindo a sua presença, até eu cair em um sono profundo e relaxante, por mais que eu lutasse em me manter acordada, a presença de deixava-me mais segura.
Eu tinha certeza de que estava sonhando agora, nada naquele cenário fazia sentido. Multidões de pessoas passavam por mim, deixando-me zonza e confusa. Havia duas pessoas do meu lado, mas eu não reconhecia ambos os rostos.
Eu precisava sair do meio daquela multidão. Eu estava confusa, meu corpo estava pesado e tudo a minha volta parecia estar em câmera lenta.
Com passos lentos fui caminhando entre as pessoas, apoiando somente na esperança de que existisse algo a mais fora daquele lugar. Olhei por um momento para os meus pés e minha cabeça girou, fazendo meu corpo involuntário colidir com o corpo de outra pessoa, mas esta continuou seguindo rumo contrário ao meu. As pessoas não se importavam com a minha presença, todos seguiam o mesmo rumo contrário do meu. Cruzei os braços sob o peito, sentindo-me ameaçada por toda aquela gente. Eu estava indefesa, eu estava frágil, eu não conseguia cuidar de mim mesma.
O fim daquele túnel de pessoas esbarrando em mim havia terminado, e pela primeira vez eu conseguia respirar.
Olhei ao meu redor, deparando-me com uma série de arquibancadas brancas e longas que davam para lugar nenhum. Não havia muitas pessoas naquele lugar, o que me deixou um pouco mais aliviada.
Avistei à frente conversando com alguns garotos sentado na arquibancada, e no mesmo instante comecei a caminhar em sua direção.
Algo dentro de mim impedia de encarar enquanto eu passava pelo mesmo olhando para os meus próprios pés, eu não sabia o porquê, eu apenas não conseguia olhar para ele. Minha cabeça girava, o que não ajudava o meu corpo manter o equilíbrio. Parei de caminhar quando a voz de ficou distante o suficiente para saber que eu estava devidamente longe dele, então pude finalmente sentar na arquibancada, apoiando meus pés na mesma enquanto abraçava minhas próprias pernas e enterrava minha cabeça entre meus joelhos.
Pude ouvir seus passos ao longe, onde ele estava? Eu queria poder contar a ele que eu estava com medo de ficar sozinha, eu estava perdida sem ele e se as coisas continuassem da forma que estão, eu nunca irei me achar novamente.
Ouvi seus passos cessar bem a meu lado, mas não tive coragem de levantar o rosto para observá-lo, eu estava frágil demais sem ele. Pude ouvir o barulho do seu corpo sentando a meu lado, e comecei a levantar minha cabeça lentamente, fitando o céu completamente nublado começar a escurecer anunciando que o anoitecer estava por vir.
Virei meu rosto vagarosamente na direção dele, observando um sorriso no canto dos lábios de ao mesmo tempo em que retribuía o meu olhar.
- Eu juro que eu posso continuar para sempre, de novo – Minha voz saiu como um sussurro de desculpa, mas nada em minhas palavras saiu forçado.
Ao contrário da reação que eu imaginava, não disse nada, apenas continuou me observando com uma feição mais séria em seus traços dessa vez.
Meus olhos estavam pesados e eu lutava para deixá-los abertos, mas não importa o quanto eu lutasse, o peso sob eles parecia não querer ir embora.
Porque me deixou? Porque ele havia me deixado sem dar uma explicação, um motivo, uma razão? Porque ele tinha escolhido a Jenny e não eu? Porque me dói tanto saber que se eu tivesse falado o que eu sentia por ele as coisas estariam diferentes agora?
O sono tomava conta de cada músculo de meu corpo, e meus olhos já pesados estavam quase fechados quando senti apoiar minha cabeça em seu ombro. Mantive meus olhos fechados por um bom tempo, eu poderia até dormir presa naquele momento para sempre, mas antes que eu pudesse pegar no sono, chamou meu nome em um sussurro, fazendo sua voz parecer distante.
Abri meus olhos com dificuldade dessa vez por causa do sono e da pequena claridade que ainda pairava nas nuvens cinzas naquele cenário. estava a minha frente, com uma das mãos estendidas para que eu pudesse alcançá-la, e assim o fiz de imediato.
Levantei meu corpo com dificuldade, dessa vez apoiando-me em , que parecia entender que eu estava frágil naquele momento, pois um dos braços dele fora parar em volta de minha cintura enquanto caminhávamos lentamente de volta para a multidão. Era isso, eu estava sendo arrastada pela multidão novamente, mas eu não me importava porque eu sabia que eu tinha do meu lado.
Descemos a escadaria através da interminável multidão de pessoas, quando senti meus pés tocar o chão pela primeira vez naquele dia. Não havia muitas pessoas ali, parecia um lugar seguro do atropelamento que estava lá em cima, me trouxera para um lugar seguro, como se ele tivesse lido a minha mente. Eu sabia de alguma forma que ele sabia perfeitamente o que se passava dentro de mim, eu sabia que ele não me deixaria cair, pelo menos por esse momento.
Uma música começou a tocar, estava um pouco distante, como se estivesse presa no fundo da minha memória, e pouco a pouco ela começava a ecoar pelo local, ficando cada vez mais nítida. Eu conhecia aquela música, não é difícil de saber que aquela era Always de Bon Jovi.
Em volta de nós, alguns casais começaram a dançar lentamente ao som da música, então pude sentir mãos de envolver minha cintura e logo meus braços passaram firmes em volta de seu pescoço. Apoiei meu queixo na curva de seu pescoço, inspirando lentamente o perfume inconfundível vindo de sua pele.
Começamos a dançar no ritmo da música, e apesar de estarmos dançando lentamente, as pessoas ainda giravam a minha frente, deixando-me zonza. Minhas pernas estavam bambas, e eu já não sentia o chão firme em meus pés conforme meu corpo se movimentava. Eu estava totalmente apoiada em , era ele quem me mantinha em pé naquele lugar.
Fechei os olhos lentamente, segurando-me firme em na intenção de não transformar mais as pessoas ao meu redor em borrões, mas nada feito, minha cabeça continuava zonza e o sono continuava entorpecendo-me.
A única imagem que estava perfeitamente nítida era a dele, mas naquele momento eu estava fraca demais para abrir meus olhos e encará-lo novamente.
- And I, will love you, babe...Always.
A voz rouca de cantou o trecho da música ao pé do meu ouvido, e naquele momento eu me senti segura novamente. Havia sinceridade naquele gesto, ele estava tentando me mostrar que não importa as circunstancias, ele irá me amar para sempre.
Um sorriso bobo formou em meus lábios, fraco, mas sincero, então pude pela segunda vez naquele dia respirar. Respirar por ter comigo, respirar porque era pra sempre, e então meu sorriso intensificou à medida que uma lágrima descia lentamente por meu rosto. Eu estou sonhando? E se você for, me impeça de acordar pra continuar acreditando nisso.
A música foi ficando cada vez mais distante, e um silêncio nos assombrou. Tudo o que eu pude fazer foi olhar para o rosto de , mas sua imagem aos poucos foi sumindo do meu campo de visão. Ele estava com medo de ir embora esta noite? Porque eu estava, eu estava perdida sem ele.
Meu coração disparou pela primeira vez naquela noite, e pude sentir as lágrimas intensificar e correrem livres em meu rosto. Onde ele estava? Será que ele não via que eu estava com medo de ficar sozinha? Será que ele não percebeu que a única razão por eu ainda estar com os pés fixos no chão era porque eu estava apoiada nele?
Senti um buraco em meu peito como da primeira vez que eu sonhei com ele no hospital, só que dessa vez o buraco parecia maior e a agonia da solidão que atingia meu peito não queria passar.
Acordei num impulso, quase gritando pelo aperto que sentia em meu peito. Passei as mãos pelo rosto e notei que eles estavam molhados, constatando que eu estava chorando. Então foi tudo um sonho.
Olhei para o lado, deparando-me com o mesmo lugar vazio de sempre. Já havia anoitecido, e minha cabeça ainda girava por causa daqueles malditos comprimidos que me fizeram dormir.
Eu estava sem coragem de me levantar, eu estava assustada, eu estava confusa, eu estava com medo. Encolhi meu corpo na cama, abraçando meus próprios braços enquanto uma brisa fria da madrugada invadia o quarto.
Fechei os olhos com certa força, na esperança de que o vazio em meu peito sumisse, mas nada adiantou, eu ainda me sentia como no sonho, eu sentia perdida sem , e eu não sabia até quando este sentimento irá durar.
Capitulo 14 – Holidays
Está certo, dezembro é um mês animado, cheio de iluminações e enfeites lindos, só que eu não sabia o porquê da estar tão animada por montar uma simples árvore de natal. Ela havia colocado uma coletânea de musicas natalinas para tocar, e enquanto cantarolava as músicas que estavam tocando, enfeitava nossa árvore de natal que ficava em frente à grande janela do apartamento.
- Por que tanta empolgação para montar uma árvore de natal? – perguntei enquanto me enroscava com as pequenas luzes que piscam em torno da árvore.
- Natal é uma época mágica, tudo pode se realizar – disse ela com brilho nos olhos, mas eu tinha certeza que ela se referia a .
havia se mudado para o meu apartamento há mais ou menos um mês. Estamos convivendo muito bem juntas, mas a maioria do tempo eu fico sozinha, pois ela vai trabalhar à tarde e só chega à noite.
Então a porta se abriu e interrompeu meus devaneios. e entraram no apartamento carregado de enfeites de natal.
- Alguém precisa de mais luzes? – disse , abrindo os braços onde estavam enroladas as pequenas luzes de natal.
deu um pulo de alegria e bateu palmas.
- Precisamos, é claro – disse ela empolgada.
Fiquei perplexa. A nossa árvore já estava repleta dessas luzes de natal, mais um pouco e vamos acabar com a energia do prédio inteiro.
- Como assim mais? – Indaguei – Os vizinhos também precisam de energia, sabia?
- Vamos ter o melhor natal do mundo e você não vai me impedir disso, ok? – disse .
Dei de ombros, discutir com a provável mamãe Noel não é recomendável pelos médicos.
- Alguém me ajuda com isso? Tá pesado – disse .
Foi então que reparei que ele carregava um boneco de neve gigante, não feito de neve, é claro, pois ele derreteria no nosso apartamento.
- Coloca ele aqui – disse apontando para o espaço vazio ao lado de nossa árvore.
e carregaram o boneco até onde pediu e o deixou lá. Então apertou um botão e o boneco começou a piscar como se existissem mais um milhão de pequenas luzes de natal dentro dele.
- Ok, você tem um espírito de natal muito agressivo, – eu disse ainda mais perplexa com o boneco de neve que piscava.
nem respondeu, continuou a enfeitar a árvore enquanto eu fiquei parada a observando, tanto que nem me dei conta que estava do meu lado.
Ele lentamente abaixou sua cabeça e depositou um beijo em minha testa, o que me fez sorrir feito uma boba.
- Ok, Don Juan, dá pra me ajudar aqui? – disse chamando a atenção de , que por sua vez foi ajudá-la.
Será que matar colega de quarto é um crime muito grave?
Ficamos a tarde inteira arrumando os enfeites natalinos e cantarolando músicas natalinas junto com a playlist da . Até que não foi má idéia, pois sempre dava um jeito de esbarrar em e ele piscava pra mim, apesar de ser pouco, era o suficiente para me manter feliz o dia todo.
Quando finalmente terminamos, ficamos os quatro estáticos olhando o nosso grande trabalho. Realmente havia ficado muito bom, valeu a pena o esforço da tarde inteira, só que agora já havia escurecido.
- Já sei – disse ainda empolgada – Porque não vamos dar umas voltas nas ruas? Nessa época do ano as ruas são mágicas – disse ela com brilho nos olhos.
- Eu topo – foi o primeiro a se pronunciar.
- Por mim, tudo bem – deu de ombros.
- Ok, vamos às ruas – disse por fim.
Fui trocar-me rapidamente, vestindo uma meia calça preta rasgada, uma saia jeans por cima, botas nos pés e um suéter marrom.
estava à minha espera na sala, concentrado em alguma coisa na televisão.
Sentei-me ao lado dele e ele olhou-me surpreso, com um sorriso nos lábios, o que me fez corar levemente.
- Você está linda – disse ele enquanto passava um dos braços em volta do meu ombro.
Fiquei sem palavras, apenas olhei em seus olhos o que me deixava sem fôlego, será que é possível amar alguém tanto assim?
Logo e entraram na sala, um discutindo com o outro, como sempre.
- Você sabia que eu estava me trocando – disse , enfurecida.
- Eu juro que pensei que era o banheiro – disse na defensiva.
e eu rimos dos dois, eles não assumiam o que sentiam um pelo outro e isso era de dar nos nervos.
Por fim, levantei-me e encarei os dois com os braços cruzados.
- Podemos ir, donzelas?
- Hei, não me chama de donzela – Disse um pouco corado.
saiu na frente e saiu logo atrás dela. e eu fomos num ritmo lento, como se a presença um do outro fosse necessária para nossa sobrevivência.
Ficamos os quatro no elevador do meu prédio, lembranças me vieram a mente como o dia em que me beijou no elevador, e acho que isso também veio a mente dele, pois ele olhava para cima e sorria sozinho.
Doce Londres, no natal essa cidade realmente parece mágica, bem que a disse.
Havia Papai Noel por todo o canto distribuindo doces para as crianças, as luzes piscavam e as canções tocavam, todos pareciam cantar junto.
Estávamos andando pela rua mais movimentada da cidade e eu não me importava com o tanto de gente que passava, foi então quando segurou minha mão que eu gelei. Sua mão era macia e seus dedos estavam entrelaçados nos meus. Foi a melhor sensação possível.
e olharam torto para nós, mas eu nem liguei, eu estava com o cara que amava, no natal observando a cidade completamente deslumbrante, quer coisa melhor que isso?
Então parou do nada no meio da rua e sem querer eu continuei andando, mas ele me puxou pela mão, agarrou minha nuca e colou seus lábios nos meus.
Por um instante fiquei assustada com a reação dele, mas cedi ao encanto dos seus doces lábios. Como se não bastasse estarmos nos beijando no meio daquela multidão, ele segurou firme em minhas costas inclinou meu corpo em direção ao chão, sem parar o beijo um segundo sequer. Agarrei firme seu pescoço e deixei nossas línguas explorarem ambas as bocas.
Minutos depois, colocou-me em pé novamente e finalizou o beijo com um selinho.
Eu não entendia mais nada, essas atitudes repentinas de me surpreendiam da melhor forma possível.
- O que foi isso? – perguntou.
- Foi tipo o beijo do fim da guerra do seu quadro, a sempre quis ser beijada assim – respondeu ele.
Eu não acreditei no que havia acabado de escutar. Como eu não percebi logo de vez? realizara o meu mais bobo sonho em frente a todo mundo, em frente a uma comemoração.
Abracei-o forte pela cintura e o senti depositando um beijo em minha testa. Aquele com certeza seria um natal mágico.
Continua...
Nota da Autora: Hello, pensaram que a fic tinha morrido não é? Pois estou aqui para provar o contrário, ela só tirou férias, pois eu voltei a escrevê-la.
Meninas, desculpem o atraso de um ano sem postar e desculpem pelo capitulo pequeno, me senti meio boba escrevendo ele, mas tem tanto desenrolar nessa história que eu nem sei por onde começo. Bom, curtam as festas de fim de ano e até a próxima atualização.
Ps: Não me abandonem HAHUAHA beijos gatas <3
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