When It's Time To Start
História por Geovanna | Revisão por Cáh Almeida


Capítulo I

Eu já estava ali sentada há algumas horas. O meu sofá nunca me pareceu tão confortável, nem a vista da minha janela tão bonita. O movimento na minha rua nunca me pareceu tão interessante, a chuva fina, as pessoas que dela fugiam, correndo pra tentar escapar da tempestade que estava se aproximando, os carros em alta velocidade junto com as luzes dos vários prédios em volta do meu apartamento. Tudo era uma bela combinação. Parece que tudo foi feito como complemento do outro, como se uma coisa não pudesse ser tão bonita se a outra não existisse. Aprendi, durante esses dias em que o meu sofá e a vista do meu apartamento foram os meus melhores amigos e conselheiros, que realmente nada pode funcionar se não houver aquilo que te complete. As lágrimas já eram tão rotineiras que eu já não as sentia mais, nem me incomodavam, elas apenas desciam e secavam-se em meu rosto por conta própria. O aperto que vinha do meu coração também não me incomodava, ele já estava lá há meses, sem nenhum aviso de quando pretendia ir embora. Eu não me sentia bem, mas também não me sentia mal, não sentia fome, sede ou dor, eu apenas não sentia, estava vazia.
Os comentários dos meus amigos, os poucos que restaram, e familiares sobre o meu estado, segundo eles, deplorável, não me afetavam, eu apenas escutava, pois isso eu ainda era capaz de fazer, mesmo que inconscientemente. Eu não tinha sono ou cansaço, virava dias e noites assistindo a vida passar por mim. Nem sempre fui assim, muito pelo contrário, eu já fui feliz, embora essa palavra ‘felicidade’ me pareça tão estranha e desconhecida atualmente. Gostava de aproveitar a vida. A palavra tristeza, que hoje é tudo o que me define, não era conhecida por mim, muito menos existia no meu vocabulário. Eu tinha muitos amigos, conhecia muita gente, tinha um bom trabalho e uma vida maravilhosa, sempre aproveitei tudo que me foi dado, tive muitos namorados e, por fim, um belo casamento. Sim, eu já fui casada, e essa é a razão pela qual a minha vida se tornou esse caos. Não que meu casamento tenha sido ruim, ou o homem não tenha sido um bom marido, ele era perfeito, maravilhoso, a prova disso estava na minha mão esquerda, onde eu ainda usava minha aliança. Eu realmente tirei a sorte grande quando o conheci. Pena que nada dura pra sempre. E, não, nós não nos separamos, foram os melhores cinco anos da minha vida, o motivo pelo qual me vida desmoronou foi por que a mesma o tirou de mim, a vida me arrancou quem eu mais amei, e quem também, me amou demais. Peter sofreu de câncer terminal, as chances de uma cura eram nulas, mas nós nunca desistimos, recorremos a todos os tratamentos, e ele lutou até o fim.

- Flashback 8 meses atrás -

- Como ele está, Dr. Thompson? Já acordou? Quando vou poder falar com ele? – eu mal conseguia respirar, estava nervosa, Peter havia tido febre e um desmaio, o que resultou na nossa ida ao hospital.
Ele estava tão fraco, tão debilitado.
Há dois meses, ele não conseguia nem levantar da cama. Dr. Thompson me olhava com cautela, estávamos em sua sala, eu podia ver nos seus olhos que ele estava triste. – Vamos, me diga, como ele está?
- , peço que se acalme. – ele pediu com uma voz serena, calma, me fazendo revirar os olhos e suspirar derrotada, como ele pode ter calma uma hora dessas?
- Eu não posso ficar calma quando não sei o que está acontecendo.
- , não vai ser fácil, mas você precisa ser forte, mais do que já está sendo. – meu coração parou de bater por um momento. O que ele queria dizer com isso?
- O que quer dizer com isso? – minha voz estava falha devido ao choro que estava preso, minha visão turva por conta das lágrimas. Meu corpo inteiro tremia, não podia ser o que eu estava pensando, podia?
- Eu sinto muito, mas ele não resistiu. – Foi tudo o que eu consegui ouvir, ele continuou falando coisas que eu não entendia, minha cabeça girava e latejava a ponto de eu conseguir ouvir zumbidos nos meus ouvidos, tudo foi ficando mais lento e mais difícil ainda de respirar, meus olhos foram se fechando e a escuridão veio lentamente, eu sabia o que viria a seguir, e desejei mentalmente que fosse pra sempre. O que seria de mim sem ele? Como eu poderia viver sem Peter?
Assim eu apaguei.


- Flashback’s end -

Meus pensamentos foram interrompidos quando senti uma mão tocar meu ombro. , minha melhor amiga. Ela tem uma cópia da minha chave, já que, por vezes, ela cansou de bater na minha porta e eu não atender. é uma ótima pessoa, do tipo mãezona, que cuida de você como se você fosse um cristal delicado. Nesses oito meses ela não desistiu de mim, esteve do meu lado, me apoiando, me ajudando, tentando me reerguer. Sua aparência angelical, cabelo loiros ondulados caídos pelos ombros, pele clara e olhos castanhos, faz-me crer que ela é realmente um anjo, o meu anjo.

- ? Está tudo bem? Como se sente?
- Oito meses. – Foi tudo o que eu consegui falar, hoje, exatamente hoje, fazia oito meses desde a morte de Peter. Então ela se sentou na minha frente e me abraçou forte e apertado, como se quisesse transferir forças pra mim. Não vou dizer que é inútil, pois não é, eu me sinto bem ao lado de , ela faz muitas coisas que eu jamais, nem em uma infinita vida, serei capaz de retribuir. – Obrigada.
- , vamos lá, você não pode ficar assim pra sempre, ele não gostaria hum?! Você tem que se levantar, erguer a cabeça, você é jovem e bonita. Tem uma vida toda pela frente, e está jogando tudo pela janela do seu apartamento, sentada nesse sofá.
- Eu sei. – suspirei fraco.
- Então, eu e o vamos sair pra jantar hoje, ele me pediu pra te convidar, de novo. Vamos lá , pode ser divertido.
- Não sei, acho que vou ficar em casa mesmo, quem sabe na próxima? – sorri.
- Você falou isso semana passada, quando eu te chamei pra almoçar. – Ela cerrou os olhos, sorri um pouco fraco, estava um tanto quanto envergonhada por sempre recusar os convites dela.
- Eu prometo, da próxima eu saio com vocês está bem?
- Tudo bem. Sei que não irá adiantar eu ficar insistindo, né? – neguei com a cabeça.
– Ok, eu vou indo, o está me esperando lá em baixo. Você vai ficar bem?
- Preciso responder? – ela me olhou triste – Tudo bem, se divirta e não se preocupe comigo.
- Cale a boca, claro que irei me preocupar, eu te amo, por favor, promete que vai me ligar caso precise de alguma coisa?!
- Preciso responder? – nós rimos – Eu prometo. – levantei as mãos em sinal de rendimento.
- Então eu vou indo, tchau, .
- ... – eu a chamei quando ela já estava próxima a porta – Obrigada, por tudo, mesmo. – Então ela voltou e me abraçou de novo, eu não me segurei e deixei algumas lágrimas saltarem dos meus olhos, e acho que ela também não se segurou pois senti algo molhar meu ombro. – Eu te amo.
- Não me agradeça, eu não estou fazendo nada demais, eu sei que você faria o mesmo por mim, não é mesmo? – afirmei com a cabeça – Então, você é a minha melhor amiga, eu vou estar sempre aqui , sempre.
- Eu sei que sim. Eu também vou. – falei secando as lágrimas do rosto dela – Bom, acho melhor você ir, senão o vai embora e te deixar aqui e, bom, eu não quero ser a razão por você entrar em depressão depois de algumas horas comigo han?!
- Boba. – sorriu – Você já sabe, não é? Ligue-me qualquer coisa. Tchau.
- Tchau.
E assim ela se foi. A porta se fechou e toda aquela melancolia, que tinha me abandonado por alguns minutos, voltou com toda sua força, trazendo consigo toda a dor e a solidão que já eram parte de mim. Há alguns anos atrás, eu dizia aos quatro cantos do mundo que o amor não é motivo suficiente pra mudar alguém, eu não acreditava muito no amor. Na verdade, eu não acreditava nele de maneira alguma. O amor pra mim era uma coisa ilusória, imaginária. Quando eu era adolescente, e meus pais ainda moravam juntos, eu vivia uma realidade muito distante das que as novelas e filmes de romance me mostravam. Eles brigavam muito, sempre, por qualquer motivo. Meus pais não eram felizes, sendo assim, isso resultou na minha infelicidade também. Eu sempre falava que não iria me casar, nunca, pois não queria terminar como meus pais, sofrendo num casamento e, pior, depois dele. Mal sabia eu que as coisas não são como nós queremos, e a vida nunca é como nós planejamos, ela simplesmente vai acontecendo, sem sua permissão, apenas seguindo o fluxo. Se você decidir que amanhã não irá sair de casa, ela vai te mostrar alguma razão pra você ir contra o seu desejo, se você não quiser conhecer alguém, ela vai colocar alguém no seu caminho, esse alguém vai ser diferente de todos os outros, ele vai te encantar, vai te conquistar até você simplesmente jogar todos os seus princípios pro alto e se jogar de cabeça naquilo, você vai se apaixonar perdidamente e entregar seu coração sem medo. Peter foi essa pessoa pra mim. Eu passei a acreditar no amor, no poder que ele tem. Ele é capaz de mudar uma pessoa por completo, seja essa mudança boa ou ruim.
Levantei-me pra tomar um banho, e comer alguma coisa. Fui até o banheiro e comecei um banho relaxante, gostava de demorar lá dentro, a água quente me dava sensação de alívio, como se, aos poucos, a dor fosse sumindo pelo ralo junto com ela. Claro que não era tão fácil assim, mas eu gostava de pensar que funcionava. Assim que terminei, me sequei e vesti uma roupa leve, apenas um short e uma camiseta. Fui até a cozinha e, para minha surpresa, ou nem tanta assim, não havia nada na geladeira.
- Droga. - Minha mãe quem estava abastecendo a minha geladeira, durante esse tempo ela sempre ia ao mercado por mim.
Bufei, frustrada, não queria sair de casa, mas estava com fome, minha barriga doía por isso, eu realmente não me lembrava da ultima vez em que coloquei algo no estômago. Ainda sem vontade, fui até o quarto, peguei minha bolsa e calcei meu all star. Não iria trocar de roupa pra ir ao mercado, não queria atrair olhares mesmo, e não havia ninguém me esperando, então não precisaria me arrumar. Fui até o porta-chaves e peguei a chave do carro.
Fui até o elevador e apertei o botão, tinha alguém subindo pro ultimo andar, legal, vizinhos novos, animador. Ri fraco com a minha própria falta de humor e ânimo. O elevador chegou ao meu andar, que era o penúltimo e a porta se abriu. Um homem, que estava lá dentro segurando uma caixa, saiu apressado e esbarrou em mim, fazendo com que a caixa caísse e ele também. Ok, isso foi cômico, muito. Tanto que eu não segurei uma gargalhada, como eu não fazia há tempos. Só me dei conta que estava exagerando quando o rapaz começou a me encarar num misto de vergonha e raiva. Tudo bem, chega, respira .
- Desculpa, você está... Está bem? – me agachei e comecei a recolher as coisas da caixa junto com ele, que ainda estava no chão. Tinham alguns porta-retratos, álbuns de fotos, e um caixinha de DVD escrito “Casamento”.
- Sim, obrigado. – Respondeu seco. - Desculpa esbarrar assim, eu não vi que alguém tinha chamado o elevador, quando a porta abriu achei que estivesse no meu andar. – Respondeu ainda seco, sem me olhar.
- Tudo bem, acontece. – Respondi vagamente, olhando diretamente para o rosto dele, era um belo homem, cabelos castanhos, cacheados, olhos claros, um pouco tristes, eu pude notar, mas bonitos. Despertei da minha análise com ele falando, melhor seria se tivesse continuado calado.
- Olha, não preciso de ajuda, tudo bem? Pode deixar que eu mesmo recolho as minhas coisas, dá licença. – Respondeu, grosso.
- Quanta educação. – Ri sem humor.
- Não posso agradar a todos. – Eu senti uma pontada de ironia aí.
- Clichê.
- Que seja, agora, dê-me licença. Eu realmente preciso entrar nesse elevador e, dessa vez, descer no meu andar e terminar de guardar essas coisas, eu estou cansado e nem um pouco a fim de papo. – Ele não me olhou nenhum segundo. O que há de errado com esse homem, afinal? Será que ele não conhece a lei dos bons costumes? Mal chegou e já é desse jeito? Ele com certeza irá fazer muitos amigos. - Então, eu realmente não sei o que você ainda está fazendo aqui. Recolha essa sua tralha e saia daqui. – Ele me olhou pela primeira vez e, apesar de ter sido rápido, não deixei de notar o quão azul eram seus olhos. Terminou de recolher suas coisas e falou:
- É o que estou fazendo agora mesmo.
- Ótimo.
- Ótimo. – Silêncio.
Ele chamou o elevador e, assim que a porta abriu, eu corri. Bati nele “sem querer” e derrubei sua caixa, entrei, apertando o botão do térreo logo em seguida. Sorri vitoriosa.
- Sua idio... – A porta se fechou. Realmente, hoje não é um dia bom.
Fui até o mercado e comprei algumas coisas básicas, tentei ser mais rápida possível, não queria passar muito tempo fora e já estava ficando um pouco tarde. Demorei uns trinta minutos, no máximo, e voltei pra casa. Comi um sanduíche leve, assisti TV e fui dormir. Agradeci por mais um dia ter chegado ao fim.

Capítulo II



Acordei com um barulho que, embora estivesse um pouco longe, ainda sim me irritava. Ele não vinha da minha casa, ou vinha? Era um barulho de furadeira, ou sei lá. Acho que era do andar de cima. Ótimo vizinho eu fui arrumar. Eu não tive uma boa noite de sono, mas isso não é uma novidade pra mim, sendo assim, me sinto cansada, exausta, antes mesmo de levantar da cama. Sabendo que não iria mais conseguir dormir, tanto pela falta de sono, como pelo barulho, resolvi me levantar e ir até ao banheiro fazer minha higiene. Tomei um bom banho e me preparei pra mais um dia, indesejado dia. Eu sinceramente já estava um pouco cansada dessa minha rotina, mas também não tinha forças pra levantar e encarar a vida. “A vida é uma vadia” com certeza foi a coisa mais certa que eu ouvi na vida. Se Peter estivesse comigo, seria tudo tão mais fácil, eu estaria feliz agora, eu sei que sim. E é por isso que a vida é uma vadia, por simplesmente não me dar escolhas, não dar escolhas aos outros, não é como se a gente levasse a vida, é a vida quem nos leva, e isso me irrita. Muito por sinal. Tomei meu banho e vesti uma roupa quente, estava fazendo frio hoje, uma calça de moletom e uma camiseta do Peter, com o cheiro dele, sim, eu sou masoquista. Fui para o meu sofá, mas antes fui à cozinha e preparei um café, não estava com fome, mas um café me ajudaria a esquentar. E lá estava eu, ‘apreciando’ a minha vista, o movimento das ruas e das pessoas.
O dia passou rápido, por incrível que pareça. Minha mãe me ligou e pediu que eu separasse algumas coisas que não usava mais, estávamos próximo do natal e minha mãe sempre fazia doações. Separei algumas de Peter também, quando estava vivo, ele sempre participava, dizia que era uma atitude nobre. Antes de morrer, me fez prometer que continuaria doando suas roupas. Quando ele me falou isso eu ri. Quem, em pleno leito de morte, se preocupa em doar roupas? Peter, com certeza. Despertei dos meus pensamentos com o meu celular tocando, era minha mãe, talvez me avisando que já estava aqui em baixo.

- Oi mamãe.
- Olá querida, já arrumou tudo?
- Sim, você já está ai em baixo? Por que não subiu? Estou esperan... – Ela me interrompeu.
- Não, querida, não cheguei, na verdade, não vou poder ir. Tenho que viajar pra Liverpool hoje com seu pai pra resolvermos uns problemas, não se preocupe, nada demais.
- Oh, então você passa pra pegar as roupas depois? Tudo bem, elas já estão arrumadas, eu posso guardar a caixa.
- Não, querida, façamos o seguinte, você vai se vestir, e tirar o seu pijama que eu sei que está vestida com ele ainda – riu –, e vai deixar na escola, sua irmã Noah vai estar lá. Assim você pode sair de casa e se distrair um pouco.
- Mamãe, eu não acho que seja uma boa idéia.
- Mas eu acho, então se vista e vá fazer o que eu mandei, eu ainda sou sua mãe, , e ordeno que vá deixar as roupas na escola. Agora. – Ela falou num tom autoritário, eu sabia que não iria adiantar discutir, ela não iria me deixar em paz mesmo.
- Tudo bem, já estou indo.
- Ótimo.
- Boa viagem. Um beijo no papai, tá?
- Se cuide, , fique bem. – E assim ela desligou o telefone, a idéia de não ir a escola era bem tentadora, mas eu sei que ela descobriria depois e seria pior, os sermões da minha mãe conseguem ser tão chatos quanto sair de casa agora.

Depois de trocar de roupa , peguei a caixa, saí do apartamento e chamei o elevador. Ele demorou alguns segundos, a porta se abriu e assim que eu fui entrar, houve um esbarrão e a minha caixa caiu, espalhando as roupas pelo chão. Uma sensação de djavú, porque será? O meu vizinho estava na minha frente, estávamos no chão. Com o impacto, acabamos caindo. Ele sorriu tímido, talvez por ser tão idiota ao ponto de errar o andar de novo em menos de vinte e quatro horas.
- Errou o andar de novo, vizinho? – falei enquanto recolhia minhas roupas e as colocava na caixa, sem nenhuma delicadeza, sim eu estava com raiva dele, ele era cego ou o quê? Sem contar que ele levantou e nem me ajudou a arrumar a bagunça que, pela segunda vez, fez na entrada do meu apartamento.
- Desculpe, eu estava distraído, não te vi. E, não, eu não errei o andar.
- Que novidade, você está distraído, não é? – eu posso perder tudo, menos o meu sarcasmo. – E, se não errou o andar, o que está fazendo aqui?
- Bem, creio que começamos errado ontem. – Ele esperou uma resposta minha, o que não aconteceu, fiz uma cara de desentendida e, com um gesto na mão, pedi que ele prosseguisse. Continuei a juntar minhas roupas. – Eu sei que fui um grosso ontem, mas não quero que leve a mal, eu estava cansado, passei o dia todo arrumando o apartamento, mudança pode ser uma coisa bem cansativa, e sei que te tratei mal, me desculpe.
- Que bom que reconhece. – Sorri irônica e levantei, já com a caixa novamente fechada. – Mas, tudo bem eu sei como é, quando eu vim morar aqui também fiquei bem estressada, a única diferença foi que eu não parei no andar errado e não descontei num desconhecido.
- Você vai continuar sendo grossa? Olha, eu estou te pedindo desculpas, estou fazendo a minha parte, mas não preciso que você as aceite pra eu continuar vivendo. – disse, grosso.
- Eu não pedi que viesse me pedir desculpas, veio por que quis. Também não precisaria desse seu ‘gesto de educação e arrependimento’ pra continuar vivendo. – Respondi no mesmo tom, nós nos encarávamos profundamente, como se quiséssemos arrancar a cabeça um do outro só com a força do olhar.
- Que perda de tempo. Não sei como seu marido te agüenta. Tenho pena dele. – O QUÊ? Ele falou olhando pra minha mão esquerda, e depois desviando pro meu rosto com uma cara brava.
- Ah, é, sou muito grossa e chata mesmo, deve ter sido por isso que ele morreu, não deve ter me agüentado. Idiota, por que você não cala a boca? – Ele engoliu seco. Silêncio. Bufei, irritada, e fui até o elevador o chamando de novo, já que ele não estava mais no me andar. O cara ficou parado no mesmo lugar, me olhando, e eu pude ver que ele estava arrependido.
- Olha, me desculpa mesmo, como eu sou idiota, eu não quis... Bom, me desculpe.
- Tudo bem. – respondi, seca, a porta do elevador abriu e eu entrei. – Vamos logo, você não vai ficar parado aí, certo?
- Não, não. – ele respondeu rápido e entrou. – Nós poderíamos ir até o meu andar, eu também preciso pegar uma caixa e sair, então será rápido, mas só se você não se importar.
- Tudo bem. – disse sem olhá-lo. Assim seguimos até o seu apartamento, ele foi rápido, quando dei por mim ele já estava de volta. Confesso que fiquei desconfortável por estar num elevador pequeno, sozinha com um homem bonito, sim ele é irritante e inconveniente, mas não sou cega, ele é um homem realmente bonito, e cheiroso. Droga, para com isso. O silêncio era algo que estava me incomodando, mas não seria eu quem iria quebrá-lo. Mas parecia que ele não pensava o mesmo.
- Eu vi que tem algumas roupas na caixa, por acaso você também vai até o Westminster Abbey’s? – Uma escola que fica no bairro, onde várias pessoas se juntam no natal e doam coisas pra caridade.
- Como assim, “também”?
- É que, bom, eu estou indo lá – levantou mais um pouco a caixa, me fazendo olhar pra ela –, sabe, eu faço isso todo ano.
- Ah, sim, ótimo. É, estou indo pra lá, peguei o costume da minha mãe.
- Eu também. – Eu o olhei pela primeira vez desde que começamos a falar, com uma sobrancelha erguida – Não com a sua mãe, com a minha. – Explicou.
- Eu entendi.
Chegamos ao térreo e fomos pra garagem, nos separando em silêncio, cada um pro seu lado. Abri a porta de trás do meu carro e coloquei a caixa. Arrumei uns papeis que estavam soltos e, quando fechei a porta, tomei um susto com meu vizinho parado na minha frente.
- Ah! Quer me matar, ou o quê? Tô cansada desses sustos, será que você pode colocar um sino no seu pescoço ou, sei lá, chegar como uma pessoa normal? – Ele gargalhou, e gargalhou bonito se posso dizer, não chegaria nem a ser irritante se a pessoa em questão não fosse ele. – Qual o problema? Vai me dizer ou vai ficar aí, rindo feito uma hiena?
- Você tem um péssimo humor, já sei até o que pedir ao Papai Noel como presente de natal. – Bufei, irritada, e me virei indo em direção a porta do motorista, quando ele segurou meu braço e... Esquece.
- O QUÊ?
- Eu me chamo .
- Mas eu não perguntei seu nome.
- Mais uma prova do quão educada você é, .
- Mas... – Nem deu tempo responder, ele saiu rindo da minha cara.
De onde ele sabia meu nome? Fechei a porta traseira do carro e olhei para a caixa. Lá estava escrito meu nome. – IDIOTA. – Gritei, ele olhou pra trás e mandou um tchauzinho. Entrei no carro e arranquei com ele da garagem. Resolvi parar numa Starbucks antes de ir deixar as roupas, se iria mesmo até lá, eu não queria tombar com ele de novo. Ele consegue me tirar do sério. Pedi apenas um café e fiquei por mais ou menos uma hora. Depois me dirigi à escola, demorei uns vinte minutos até eu ver o prédio. Desci e peguei a caixa. Do lado de fora tinham algumas mesas e barracas. Entre muitas pessoas, avistei Noah. Fui recebida com um sorriso e um abraço.
- , que bom que veio, quando a mamãe ligou, não acreditei, achei que fosse me passar a perna. – Riu fraco, ainda abraçada a mim.
- Bem que eu queria, mas eu sei que ela iria descobrir depois e, com certeza, seria pior.
- Conhecendo bem a mamãe, seria mesmo. – Nos entreolhamos e sorrimos. – Senti sua falta, como você está?
- Também senti, bom, estou indo, você sabe.
- Você sabe o que eu acho disso, não é? Eu não vou dizer que sei o que você está sentindo, porque eu realmente não sei, mas posso dizer que entendo a sua dor, já faz algum tempo, , você já imaginou se o Peter gostaria de te ver assim? Claro que não, você era tudo pra ele, sabe que ele movia o mundo por um sorriso seu, não sabe? – assenti devagar, com os olhos ardendo e ela me olhou triste – Eu não quero que você chore, por favor, não faça isso, não é a minha intenção te fazer chorar, eu só quero que você seja feliz, como era antes, como há muito tempo ninguém vê. Você é nova, não pode se acabar assim. Olhe a sua vida, o tempão que você está perdendo, tudo está correndo pelos seus olhos, ao alcance das suas mãos e você não pega, não carrega pra si.
- Eu sei. – Ela tem razão, em tudo, eu concordo com cada palavra, mas não é fácil, as pessoas não entendem.
- Não, amor, você não sabe! Pense no que eu te falei, huh? Eu tenho que ir agora, o trabalho me espera. – Sorrimos. – Se cuida, tá? Eu amo você, quero tanto te ver feliz! Me liga se precisar conversar, ou quem sabe, fazer alguma coisa, podemos sair pra almoçar ou jantar juntas, o que acha?
- Tudo bem, obrigada, No. Eu vou pensar com carinho. Bom trabalho, eu também te amo, você sabe.
- Sei, sei sim. – nos abraçamos e ela se foi, me deixando sozinha, de novo.
Fui andando até uma barraca, eu conhecia a dona dela. Tive a sensação de estar sendo observada, olhei para os lados e não encontrei ninguém, deveria ser imaginação minha. Cheguei até a Sra. Campbell, amiga da minha mãe, uma senhora baixa e curvada, cabelos grisalhos e pele branca como neve, ela montava a barraca todos os anos e levava as roupas para uma cidade no interior da Inglaterra.
- Olá Sra. Campbell, tudo bem? – sorri simpática pra mulher na aminha frente, sempre a adorei, quando criança queria que ela fosse minha avó, já que a mãe da minha mãe já tinha morrido quando eu nasci, e a minha avó paterna morava em Bolton.
- Oh, , querida, eu vou bem. E você, como está? Que bom que veio. Onde está sua mãe? Achei que ela viesse com você. - Não, ela teve que viajar com o papai, Liverpool, resolver alguns problemas. Trouxe algumas coisas pra senhora dar uma olhada.
- Deixe-me ver. – Sorriu simpática, com seu jeito doce, e eu lhe entreguei a caixa. – Hm, muito bom, elas estão em ótimo estado.
Ela estava olhando as roupas, e meu coração acelerou assim que ela pegou uma especial, como eu pude colocar essa camisa aí? A camisa que Peter usou quando nos conhecemos, por noites eu dormi com ela, abraçada a ela, imaginando ser o meu marido ali.

- Flashback: 7 anos atrás –

- , onde estamos indo? Esse salto está me matando, estou cansada, dançamos muito e eu preciso beber alguma coisa. – Era sábado e estávamos numa boate que estava sendo inaugurada naquele dia, no centro de Londres. tinha ido com , seu novo namorado, eles estavam juntos há dois meses, ele era um cara legal, gostava dele. Nós já havíamos chegado há umas duas horas, e eu realmente estava implorando por um banco e uma bebida.
- Você reclama demais, , vamos até onde o está, quero te apresentar alguns amigos. – Ela olhou pra mim e sorriu maliciosa, céus, eu não a mereço.
- , eu não estou procurando um namorado, sabia disso? É a terceira vez nesse mês que você me apresenta amigos do , eu já estou ficando com vergonha. O que vão pensar? Que eu sou uma encalhada!
- , cala a boca. Não estou te arrumando um namorado, estou te arrumando companhia, ok? Você está sozinha há cinco meses, desde que terminou com aquele idiota do Brendan, que já foi tarde, amém, a solidão está te consumindo. – Fez uma cara dramática.
- , eu não estou na solidão, pelo amor de Deus, até parece que eu estou em depressão ou coisas do tipo, eu estou bem, pra sua informação. – Sorri, confiante.
- Tudo bem, você quer ficar segurando vela? Vai ficar, desisto você, nunca faz nada que eu peço mesmo, por que eu insisto, não é mesmo? – por favor, essa carinha não, por favor,
- Eu já disse que te odeio hoje? Não? Te odeio, Hudson, tanto. Não precisa fazer chantagem, ok? Vamos logo conhecer esse cara, espero que ele seja bonito e másculo, pra valer esse esforço todo. – Rimos e fomos em direção a mesa em que estava com seus amigos. Quando a gente chegou, foi logo pendurar seus braços no pescoço do namorado e cochichou algo no seu ouvido, acho que foi sobre mim, porque logo depois os dois olharam pra mim e sorriram maliciosos, devolvi o dedo do meio pra eles, que sorriram mais ainda.
- Peter, vem cá, cara. – chamou um homem que estava sentado na mesa apenas observando o movimento da boate, ele levantou e veio até nós, ele era muito bonito, parabéns, , boa escolha. Ele chegou perto de nós e me olhou de cima a baixo, confesso que fiquei encabulada, envergonhada. Ele era alto, um pouco forte, mas não muito, cabelo preto um pouco grande, olhos verdes, estava com uma camisa branca com alguns detalhes em vermelho e azul, uma calça escura meio larga e um tênis branco, perfeito. – Deixa eu te apresentar uma amiga, essa é a . , esse é o Peter, ele trabalha comigo lá no jornal.
- Oi, , tudo bom? Prazer. – ele estirou a mão e me puxou pra dois beijinhos na bochecha.
- Ah, oi Peter, tudo bom? – sorri tímida com o ato, e, nossa ele tinha um cheiro muito bom!
- Então, já que vocês estão apresentados, eu e o meu bebê vamos dançar, não é bebê? – se pronunciou, apertando as bochechas do namorado, que sorriu envergonhado.
- Vamos. Bom, conversem, se divirtam, qualquer coisa, estaremos por aqui. Ou não. – sorriu de uma maneira engraçada e pervertida, puxando e saindo por ali, sumindo no meio da multidão.
- E aí, , ‘tá a fim de beber alguma coisa? – Ele sorriu, envergonhado.
- É, pode ser. – sorri de volta, dessa vez tentando passar alguma confiança, nos levantamos e ele segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos, não me senti mal por isso, pelo contrário, eu gostei, e muito.

- Flashback’s end -

Peter não entendia o porquê de eu guardar aquela camisa, ele até ficava com raiva e brigava comigo porque eu não o deixava usá-la muitas vezes, não queria desgastá-la, queria que continuasse intacta, perfeita, como se ela fosse uma lembrança real de onde tudo começou. E agora ela realmente é uma lembrança real, de tudo.
- Sra. Campbell, me desculpe, mas será que poderia me devolver essa camisa? Ela não deveria estar aí. – minha voz já estava embargada, e tinham lágrimas nos meus olhos. Ela me olhou como quem entendesse o que eu queria dizer, e me entregou. – Obrigada, me desculpe. - Tudo bem, querida, não precisa se desculpar. – Ela sorriu maternalmente. Sorri de volta. - Eu já vou indo, estou um pouco cansada. Tchau, foi bom revê-la, tenha um bom dia. - Digo o mesmo querida. – Dei meia volta e comecei a caminhar com a camisa na mão. – ! – virei-me e ela me encarava séria. – Às vezes, temos que nos libertar de algumas coisas, para assim deixarmos que as lembranças se tornem apenas... Lembranças. – Ela disse e sorriu novamente, com aquele jeito doce dela.
- Obrigada. – Sorri, e voltei a fazer meu caminho até o carro com aquela sensação de ainda estar sendo observada. Olhei em volta mais uma vez, e assim o vi.

Coloque pra tocar Take Me Away - Oasis

Ele estava encostado em uma árvore e, mesmo longe, sabia que ele estava olhando em meus olhos. O que ainda fazia ali? Era ele quem estava me observando então? Por quê? Como se meu pensamento fosse um tipo de chamado, ele veio andando em minha direção. Tratei de tirar qualquer vestígio de lágrimas do meu rosto, não queria que ele me visse assim, não queria que ninguém me visse assim, odiava que me achassem fraca, apesar de me considerar uma. Ele chegou perto de mim e sorriu, não do seu jeito debochado, e sim de um jeito... Compreensível, como se ele compreendesse minha dor, e eu não me senti mal por isso, naquele momento me senti cansada de esconder o que já era tão óbvio, deixei uma lágrima escorrer, permanecemos em silêncio. Ele olhou dos meus olhos para a camisa em minhas mãos e para meus olhos de novo, onde mais uma lágrima escorreu. Estendeu uma mão, hesitei em pegar, mas ela continuou ali, então eu a segurei, e entendendo como uma permissão, ele me puxou para um abraço, que foi correspondido automaticamente. Como se eu não tivesse escolha sobre meus atos, ele me abraçou forte de uma maneira terna, tudo que eu precisava naquele momento e nem ao menos tinha conhecimento disso. E isso foi o suficiente pra eu cair num choro silencioso, porém forte e devastador. Devastador. Era assim que eu me sentia, devastada, desgastada, dolorida. Ficamos assim por um tempo, não saberia calcular quantos segundos ou minutos. Eu já estava tão cansada de tudo, não queria mais me sentir triste, eu sabia que tinha que seguir em frente, que eu não poderia acabar com tudo, mas eu só não tinha forças o suficiente pra deixar o passado no passado. “Temos que nos libertar de algumas coisas para assim deixarmos que as lembranças se tornem apenas lembranças” ele repetiu baixinho. Olhei pra ele, ainda com os nossos braços envoltos um no outro, no mesmo abraço, e ele levou uma mão até o meu rosto, enxugando as minhas lágrimas. Enquanto outras saiam sem minha permissão.
- Tudo bem, não chore, por favor, vai ficar tudo bem. – Eu nem ao menos poderia explicar a maneira de como eu estava me sentindo agora. Por que ele estava aqui fazendo isso? Não nos conhecíamos, todas as palavras trocadas entre nós nos últimos dois dias foram agressivas, e agora ele estava ali, tentando me confortar e, ainda por cima, conseguindo isso. – Vamos tomar um café. – Ele não perguntou, nem foi um convite, foi uma afirmação, eu apenas assenti, saindo do seu abraço e me sentindo um pouco mais fraca por isso. Fomos em direção ao seu carro. – Eu posso pegar o seu carro depois, se você não se incomodar. – Assenti novamente, e fomos em direção ao carro. Entramos e seguimos, eu nem sabia pra onde iríamos, mas não me importei com isso. Não agora. Chegamos numa Starbucks, fomos para uma mesa mais afastada, permaneceu calado, não fez perguntas ou tentou puxar assunto o caminho inteiro, apenas me abraçou pelos ombros quando descemos do carro. Eu peguei minha bolsa, tirando de lá meu celular, e digitando o número que eu já sabia decorado.
- ? - Oi, meu amor, sou eu. – estava falando um pouco baixo.
- Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou, preocupada.
- Não, está tudo bem, eu apenas preciso que você me faça um favor, pode ser?
- Claro que sim, o quê?
- Preciso que pegue meu carro no Westminster Abbey’s.
- Por quê? Onde você está? – eu ri um pouco do seu desespero.
- Calma, uma pergunta de cada vez, eu fui deixar umas roupas, você sabe e... bom eu... não passei muito bem, e acabei encontrando um... – olhei pra , que até então olhava o cardápio, mas logo direcionou seu olhar pra mim – conhecido, e ele me trouxe pra tomar um café, eu vim no carro dele e o meu ficou lá, algum problema pra você?
- Não, mas você está bem agora, ? Não está precisando de nada?
- Não, só que você busque o meu carro.
- Tudo bem, eu vou passar na sua casa agora e pegar a chave reserva. Já estou indo.
- Obrigada, chita. – rimos, ela odiava quando eu a chamava de chita.
- Idiota, tchau.
- Tchau.
Desliguei o telefone e meu olhar encontrou o de , que ainda me olhava, mas agora era diferente, parecia até o arrogante de algumas horas atrás, eu não entendi bem porquê, eu não falei nada demais, me senti meio desconfortável, e desviei o olhar para o lado.
- Eu pedi um frappuccino pra nós, ok? – Assenti.
- Obrigada. – Dirigi a , pela primeira vez, palavras sinceras.
Eu realmente estava agradecida, tudo bem que ele não era, nem de longe, alguém de quem eu esperava amparo. Não imaginei que estaríamos aqui, sentados numa boa cafeteria logo depois de ele ter me emprestado seu ombro pra eu chorar e etc. Mas eu estava agradecida, por ele ter me tirado de lá, eu não saberia o que fazer se estivesse sozinha. Acho que estou chegando ao estágio do conformismo e aceitação, e essa fase é mais difícil que a negação. Agora eu sei que Peter realmente se foi e que ele não vai voltar, nós também não iremos mais ficar juntos. De nenhuma forma. O que eu tenho dele agora são lembranças, lembranças que vão durar pra sempre. E eu sei que nunca, jamais, elas irão embora.
- Não precisa agradecer. Não fiz nada demais, você estava mal e eu te ajudei, não fiz nada demais.
- , não precisa dar um de grosso agora. – Eu estava calma, percebi, da maneira como ele falou, que ele não queria baixar a guarda. Sabe como é, não nos damos bem e ele de repente me ajuda, me traz pra tomar um café e se mostra preocupado, é estranho, e eu sei disso tanto quanto ele.
- Não estou sendo grosso.
- Claro que não. Olha, eu te agradeci, você só precisa responder um “De nada” e pronto.
- Eu já disse que não precisa agradecer. Se quiser continuar com essa de ‘obrigada’ tudo bem, mas eu falei que não precisa. Eu faria isso por qualquer pessoa, não sou do tipo quero o mal dos outros, e se eu posso ajudar, eu ajudo, mas isso não quer dizer que eu me importe, porque eu não me importo com seus problemas, . – Ele jogou tudo de uma vez. Acho que ele nem respirou de tão rápidas que suas palavras saíram. Mas ele tinha chegado longe demais, tudo bem, não estou pedindo pra se preocupar com meus problemas e, muito menos, se importar comigo, mas eu não pedi a sua ajuda, ele fez isso por vontade própria, não preciso que fique jogando na minha cara que isso não faz diferença na vida dele.
- Você é um idiota mesmo, por míseros cinco minutos eu achei que estava enganada a seu respeito. – A expressão dele era séria, mas ele não olhava pra mim, olhava pros lados, sempre com os olhos em movimento, mas nunca em mim. – Tenha pelo menos a decência de olhar pra mim quando eu falo com você. – E foi o que ele fez. – Não quero que se importe comigo, nem com os meus problemas, mas eu não pedi a sua ajuda, agora preferia mil vezes que tivesse me deixado naquela escola, mesmo que eu despencasse no chão, e que todos me vissem mal, do que estar com você aqui. Eu já te agradeci, e fiz isso por educação, mas, por favor, finja que não me conhece, e se me vir de novo, por pior que seja o meu estado, não tente nada, não faça nada, apenas finja que não me conhece. – Dito isso saí de lá, não deu tempo de ouvir uma resposta, peguei meu celular e liguei pra novamente. – Amiga, pegou meu carro? Ótimo, será que você pode vir me pegar? Vou te dar o endereço...

Capítulo III

Duas semanas. Exatamente duas semanas desde o ocorrido na escola. Desde o ocorrido com o . Duas semanas que eu não o via, em nenhum lugar, nem mesmo no prédio em que morávamos. Eu não sei exatamente o que aconteceu naquele dia, também não me fez muitas perguntas quando foi me buscar, logo após minha ligação, visto a minha feição de poucos amigos, o que me fez agradecer mentalmente, pois eu não saberia explicar. Agora, como cheguei àquele ponto? De me deixar levar por um estranho, desconhecido, me abrir daquele jeito, demonstrar meus sentimentos, minhas fraquezas, quando na verdade eu não consigo fazer isso nem com a minha melhor amiga, meus familiares. Eu odeio que os outros vejam o meu lado fraco, que sintam pena de mim, me olhem daquele jeito como quem diz “oh pobre coitada”. Odeio, simplesmente odeio. E olhe o que aconteceu, eu me deixei levar por , uma pessoa que eu não gosto, uma pessoa qualquer, e como se não fosse o suficiente me rebaixar daquela maneira, eu ainda o deixei me consolar, o permiti se aproximar, sem me importar com isso. Porque essa é a verdade, eu não importei no momento, muito pelo contrário, eu me senti confortável, por um momento, me senti amparada. E desde aquele dia, sempre que eu penso nesse assunto, o que acontece com freqüência, eu me pergunto o “porquê”. Por que eu deixei com que ele me ajudasse e expus meus sentimentos pra um alguém que nem se importa? Porque essa é a verdade, ele mesmo as proferiu em alto e em bom som para que eu pudesse ouvir “eu não me importo com seus problemas ”. Exatamente assim. O fato de ter desabafado, mesmo que sem intenção, com , me incomoda muito, e se, por alguma razão, ele achar que pode interferir na minha vida? Ou até mesmo usar isso ao seu favor e contra mim? Como eu não sei, mas a partir do momento em que ele me destratou naquela cafeteria, minutos depois de ter me consolado, me fez acreditar que eu posso esperar qualquer coisa dele. E, sabem o que também me incomoda? Não só incomoda, como também me irrita? O fato de eu não conseguir parar de pensar nesse assunto por um só dia, qual é, eu não tenho que ficar pensando nele o tempo todo, certo? Então porque ele está sempre presente? Como agora, por exemplo, eu estou sentada no meu velho sofá, observando a minha vista, e mais uma vez pensando na razão pela qual ele me destratou, a mudança de humor dele é algo insuportável, porque, convenhamos, é o ser mais bipolar que eu conheço. Argh, estou começando a me sentir frustrada.

O alarme do meu celular começou a tocar e eu dei um pulo, assustada, não me lembro de ter ligado-o. Deparei-me com as horas e vi que já estava na hora do almoço, resolvi ligar pra e chamá-la pra almoçar comigo, ela com certeza se surpreenderia, até eu estou surpresa por, enfim, querer sair de casa. Disquei os números da minha melhor amiga e não deu tempo nem de duas chamadas e uma afobada atendeu ao telefone

- ? – disse e logo depois respirou fundo.
- ? Estava correndo uma maratona? Por que está tão afobada? – perguntei curiosa, curiosidade sempre foi meu forte. – está aí com você, mocinha? – E a ironia também.
- Haha, , claro que o está aqui e eu nem te conto o que estávamos fazendo. – ouvi a gargalhada de do outro lado da linha, seguida pela de e logo depois a minha. – Brincadeira amiga.
- Brincadeira, huh? Ok, eu sei.
- Cala a boca, . À que devo a honra da sua ligação? Você me parece tão animada hoje, amiga. – Disse sonhadora e eu permaneci calada, segurando o riso. – ? , está aí? – eu tive que tirar o telefone de perto do meu rosto e respirar, porque eu ainda estava segurando o riso. – , VOCÊ AINDA ESTÁ AÍ? Mas que droga de telefone, essa porcaria não funciona. Eu quero um celular novo, , você trate de comprar um novinho pra mim, antes que eu me irrite e jogue esse na sua cabeça, porque... – não me agüentei e soltei o riso, coitado do namorado da minha amiga, agüentar a quando ela começa com esses ataques, não é fácil – Então você está aí, não é? Ai, eu deveria desligar na sua cara sua... Sua idiota, eu estava brigando com o meu bebê, bebê, por favor, me desculpe – ouvi a risada de do outro lado da linha e sorri. Como eu os amo, só eles pra me fazerem sorri, assim, sem motivo, quando tudo desmorona, quando eu preciso – mas, anda, porque você me ligou, mesmo? – perguntou exasperada.
- Você me pediu pra ficar calada, ué. Mas então, eu queria convidar você pra almoçar comigo, estou com saudades de nós duas juntas. – falei melancólica e logo o seu tom foi suavizado.
- Oh, , eu também estou, mal posso acreditar que você está me ligando pra isso, sabe, depois de todas as minhas tentativas, estou feliz por isso. Claro que sim, vamos almoçar juntas, à que horas posso passar aí?
- Agora, eu só vou tomar um banho e trocar de roupa e podemos ir. Você pode chamar o se quiser.
- Não, hoje só seremos eu e você. Ele vai entender – o ouvi resmungar algo do outro lado da linha, mas eu não entendi nada – cala a boca, . Então ‘tá, amiga, eu vou tomar banho e, em trinta minutos, eu estou aí.
- Estou te esperando. Tchau.
- Tchau... , tira essa calcinha da boca, já. – Ela desligou antes que eu pudesse comentar qualquer coisa sobre essa última frase.

Dirigi-me ao banheiro e decidi tomar um banho rápido, conhecendo como eu conheço, ela irá passar aqui antes dos trinta minutos combinados por ela mesma. Quando ela está ansiosa, fica apressada, o que é totalmente o oposto nos dias “normais”. Quando costumávamos sair à noite, ela sempre começava a se arrumar cedo, umas duas horas antes, mais ou menos. sempre foi muito exagerada, em relação a qualquer coisa. Saí do banheiro e fui escolher uma roupa, optei por uma simples, mesmo, nada de muito exagerado, uma calça jeans escura, skinny, um regatão preto com alguns detalhes em vermelho e uma sapatilha vermelha. Prendi meu cabelo num rabo de cavalo alto e borrifei um perfume doce. Olhei-me no espelho e reparei no quão fundo meus olhos estavam, escuros e sem brilho. Eu tinha decidido por não usar maquiagem, mas não poderia sair assim. Bom, de poder eu poderia, mas eu não quero que as pessoas me olhem estranho, então passei apenas um corretivo ao redor dos olhos, depois base, e por fim o pó, o que me deixou com uma aparência pálida, mas nada que me incomodasse. Terminei de me “arrumar”, com uma mensagem de avisando que estava lá em baixo, me esperando, olhei no relógio e... É, ela chegou no horário combinado. Ri com esse pensamento, peguei minha bolsa e saí do meu apartamento. Chamei o elevador e fui em direção ao térreo, encontrando uma toda animada e arrumada no hall do meu prédio. Ela estava usando uma saia jeans branca, um cinto marrom e uma blusa meio social transparente, branca, também, e, nos pés, uma sapatilha azul marinho. Seus cabelos castanhos estavam soltos, com suas ondas naturais, e, no rosto, a única pintura era o mel dos seus olhos acompanhados por um sorriso lindo de orelha a orelha. Sorri de volta e ela veio até mim me abraçando forte, o que foi retribuído por mim.
- Mal posso acreditar que estamos saindo juntas. Melhor, mal consigo acreditar que foi você quem me convidou, depois de todos esses meses, o que deu em você? – Eu ia começar a responder, até abri a boca, mas fui interrompida por , às vezes eu esqueço que ela é uma matraca. – Não importa. Vamos embora daqui, antes que você desista.
- É verdade, ainda tenho tempo. – Rimos e fomos em direção ao carro de que, por alguma razão não estava no estacionamento, e sim do lado de fora do prédio. – Por que deixou o carro aqui? – perguntei curiosa.
- Você sabe como eu fico dentro de estacionamentos. Se eu o deixasse lá dentro, nós com certeza sairíamos pra jantar, e tenho muitos planos pra nós, hoje. – Me olhou e me deu um sorriso, daqueles que você da quando vai aprontar uma, sabe?
- O que você está aprontando, Srta ? – Entramos no carro e deu partida, deixando meu lar fora do meu alcance de vista.
- Ah, , nada demais, apenas preenchi um dia inteiro pra fazermos coisas que não fazemos há muito tempo, vamos ao salão, vamos fazer compras, vamos falar mal dos outros, coisas de mulher. – Falou e piscou pra mim.
- Achei que tinha te convidado pra um almoço. – Ergui uma sobrancelha.
- Sim, e eu te convido a passar o resto do dia comigo. – Sorriu esperta. – Vai ser muito legal, você vai ver. Sabe, , eu estava pensando em pintar meu cabelo, cansei desse loiro, não sei, estava pensando em colocar um vermelho, o que acha? Vermelho é tão quente e...
- Combina com você. Aliás, o que o estava fazendo com a sua calcinha? – Ri quando percebi que ela tinha ficado corada. – Só se o seu cabelo ficar da cor das suas bochechas.
- Você é tão engraçada, mas vou poupar o riso pra próxima piada. – Fechou a cara, ainda com as bochechas vermelhas.
- Pára de drama, qual é, sou eu, até parece que nunca falamos sobre isso. – Continuou sem me olhar, mas eu vi que ela estava segurando o riso enquanto eu cutucava seu braço. – Ah, para.
- E eu consigo ficar com raiva de você?
- ...
-Sim? - me olhou.
- Por que o estava com sua calcinha na boca?
- Haha, nem te conto.

Quando me dei conta, já estávamos no restaurante. Era um lugar aconchegante, familiar, bonito e tinha ótima comida. Já tinha visitado ele algumas vezes com Peter, na verdade, sempre em datas especiais ele me levava lá. O que me deixou curiosa do porquê ter escolhido um restaurante tão caro. Descemos na entrada principal, minha amiga entregou o carro ao chofer e adentramos o local. Escolhemos uma mesa mais no canto, um pouco afastada. Quero dizer, escolheu, já que ela ligou pra fazer uma reserva. A nossa mesa ficava próxima a uma janela que nos dava a visão da parte exterior do restaurante. O lugar estava um pouco cheio, mas nada que incomodasse. Ao sentarmos à mesa, a minha pergunta foi bem direta.
- Por que estamos aqui? Tudo bem que você esteja feliz por sairmos juntas depois de tanto tempo, mas, , aqui é um restaurante caro e... – eu estava falando quando ela me interrompeu.
- ... me pediu em casamento! – Por um momento achei que não tivesse ouvido direito, até que olhei em seus olhos e pude ver o brilho extra que havia neles após ter proferido as palavras.
- Oh, Meu Deus, , isso é sério? – perguntei um pouco chocada, feliz, porém chocada.
- Sim. – ela levantou a mão e eu pude ver um anel em sua mão direita. – Eu estou tão feliz, . – um sorriso largo e sincero se formou em seu rosto e se espelhou no meu, que não pude deixar de sorrir verdadeiramente após essa declaração. e já namoravam quando eu conheci Peter, aliás, eles quem nos apresentaram, e ele a convidou pra morar com ele há uns dois ou três anos. Levantei-me e a puxei pra um abraço e apertei contra mim quando senti que ela estava chorando.
- Eu não sei o que dizer, oh, meus Deus, você irá se casar. – Rimos e nos separamos, ficando apenas de mãos dadas.
- Sim, eu vou. – Deu alguns pulinhos chamando atenção de algumas pessoas. – Eu vou me casar, gente, O HOMEM DA MINHA VIDA ME PEDIU EM CASAMENTO! – não me contive a abracei de novo, dessa vez podendo ouvir as nossas gargalhadas que se tornaram ainda maiores quando escutamos palmas vindas de todos os lugares do local.
- Estou tão feliz por você. – sussurrei.
- Obrigada, eu também estou. – sussurrou de volta.

Capítulo IV

- Quando você pretendia me contar isso? Quero dizer, quando isso aconteceu? – depois de acalmar os ânimos no restaurante, já sentadas, nós tínhamos acabado de fazer os nossos pedidos e estávamos bebericando um champagne que insistiu em comprar pra comemorar, na verdade, apenas ela estava bebendo. Eu nunca fui fã do gosto da bebida. por sua vez, já tinha bebido quase a garrafa toda.
- Hoje de manhã, quando você me ligou, ele já tinha pedido. – seus olhos, ainda brilhantes, e o sorriso que teimava em não sair do rosto.
- Não acredito, e por que não me contou pelo telefone?
- Isso não é algo que se conte pelo telefone. – respondeu como se aquilo fosse óbvio. - E se eu não tivesse te ligado e te convi...
- ...eu mesma teria feito isso. Você acha que eu não iria compartilhar com você, amiga? Por favor, eu irei me casar, só Deus e nós sabemos o quanto eu sonhei com isso, claro que você sabe.
- Sei, claro que sei, me desculpe. Mas, vamos, me conte como ele pediu.
- Bom, eu acordei com o meu celular vibrando em cima da minha bochecha e, quando vi, tinha um novo sms do , achei que ele não estivesse em casa, mas a mensagem dizia isso – pegou o celular e me mostrou o sms:

“Bom dia, princesa, te espero na cozinha. (c)”

Eu nem mesmo tinha notado esse “c” no final da frase, então fui ao banheiro tomar banho, escovar os dentes, essas coisas, e quando saí do banheiro, o celular vibrou mais uma vez, anunciando uma nova mensagem dele, que dizia isso aqui: – me mostrou a outra mensagem.

“Você está demorado, to com fome, quero meu café. (a)”.

- Quando eu cheguei, eu quase caí de susto, porque tava tudo arrumado, a mesa cheia de comida e tudo perfeito, tocava uma música tão baixa que eu quase não podia ouvir, e então ele veio até mim e me beijou. – ela sorriu e suas bochechas estavam avermelhadas juntamente com seu nariz e sua voz embargada, anunciando que ela queria chorar – Nós nos sentamos e começamos a tomar café e ele não parava de mandar mensagens, eu estava ficando irritada quando ele me mandou a última mensagem que dizia “Por favor, diga SIM”. Eu não entendi de primeira, mas aí eu comecei a olhar as outras mensagens e a juntar as letras que formavam a frase “Casa comigo?” e, bom, o que eu poderia dizer? Eu corri, o abracei, nos beijamos, eu gritei “sim”, ele me rodou no ar e... - Eu já entendi. – ri pela cara que ela fez quando eu a interrompi – Se eu deixar você continuar, vamos chegar até a parte em que ele estava com a sua calcinha na boca, e eu não quero escutar.
- Achei que estivesse curiosa com isso. – falou com seu típico tom de descaso - Mas eu não ia continuar, mesmo.
- Lembra que ficávamos nós quatro, eu, Peter, você e , falando sobre isso? Acabou que eu me casei primeiro. – Rimos e eu corei, devido o olhar que a minha amiga lançava em mim. – O que foi?
- Lembra como o Peter te pediu em casamento? – ela fechou os olhos e sorriu, talvez lembrando o mesmo que eu.
- Como eu poderia esquecer, ? – desviei meu olhar pra baixo, apesar de estar sorrindo, minha voz saiu como um sussurro triste. – Jamais poderia esquecer.
- Eu nunca imaginei que ele tivesse coragem suficiente pra subir em cima de um palco e se declarar pra você.
- Eu achei que ele estivesse bêbado.
- E você foi até lá tentar puxá-lo. – Rimos com a lembrança – Ele te mandou ficar quieta e escutar o que ele tinha pra falar, e disse te amava. E você ficou toda vermelha porque ele falou no microfone e todos ficaram te olhando depois.
- E logo depois ele cantou Together – novamente, fechei os olhos, rindo com a lembrança – e mesmo todo desafinado e desajeitado em cima daquele palco, ele conseguiu cantar melhor que o próprio Joe.
- E te pediu em casamento, ali mesmo. Como se não houvesse ninguém além de vocês dois.
- E foi a noite mais feliz da minha vida. – uma lágrima solitária escapou antes mesmo que eu pudesse impedir. Uma única e solitária lágrima. Eu não queria chorar, pelo menos, não na frente de , hoje era um dia de alegria para a mesma, eu não queria estragar isso. E antes mesmo que a gota teimosa chegasse ao fim do meu rosto, eu a sequei e respirei fundo antes que outras tentassem o mesmo caminho.
- ...
- Não, tudo bem. – eu sorri e a olhei, me arrependendo no mesmo instante, pois havia lágrimas em seus olhos, fazendo-me fechar os olhos novamente. – É só que... Eu tenho tantas saudades. Me desculpe, eu não quero estragar o seu dia.
- Tudo bem, olhe só como estou, toda nostálgica. Mas eu estou feliz, . Estou feliz, porque não é uma lembrança ruim, muito pelo contrário, é uma lembrança maravilhosa, merece ser lembrada e relembrada. – segurou minha mão, que estava apoiada em cima da mesa, como um incentivo pra olhá-la.
- Você tem razão, sem tristezas por hoje, ok?
- Concordo totalmente. – soltamos nossas mãos e rimos de novo, sendo interrompidas pelo pigarro do garçom que chegou com nossos pratos, parecia até que estava esperando nosso momento nostálgico acabar. Agradecemos e começamos a comer, engatando um assunto qualquer. E embora eu estivesse com o corpo presente e concentrada em nossa conversa, em algum lugar a minha mente ainda vagava pelas lembranças e eu lutava pra tomar conta de todo o espaço existente na minha cabeça.

Acordei com o barulho do despertador que tocava ao lado da minha cama. Estiquei meu braço em busca do objeto, a fim de desligá-lo. Eu havia chegado a minha casa há algumas horas. Estava quase anoitecendo. Depois que saímos do restaurante, fomos ao shopping. Fizemos algumas compras e logo depois fomos ao salão. Eu cortei meu cabelo, deixando ele um pouco mais abaixo dos ombros. Não mudei a cor, apenas o corte, o que me deixou com uma aparência mais jovem. , como havia falado, trocou os fios loiros pelos ruivos, um vermelho meio cereja, também cortando um pouco, mais ainda o deixando longo, já que ela nunca foi fã de cabelo curto. Fizemos as unhas, fomos ao cinema e, por último, visitamos a mãe dela. Foi um dia cansativo, mas divertido, como há muito tempo os meus não eram.
Sentei-me na cama, ainda um pouco sonolenta, e olhei para o lado, me deparando com um porta-retrato, uma foto minha e de Peter abraçados, no natal, há três anos, estávamos cobertos por neve e os nossos sorrisos eram a parte chamativa da fotografia. Eu não podia deixar de lembrar no quanto o meu casamento foi feliz. No quanto meu marido foi um homem perfeito, quanto a nossa vida a dois foi prazerosa. Não falo no sentido sexual da palavra, mais do prazer de ter alguém ao seu lado, independente de qualquer coisa, o sentimento recíproco, a troca. Não consigo esquecer nossos planos e no futuro que eu, apesar de tudo, apesar de sua morte, inconscientemente ainda criava pra nós, pensando no que poderíamos ter agora, ou como estaríamos se ele ainda estivesse vivo. Levantei-me e fui em direção ao guardarroupa, já tendo em mente o que buscava ali dentro. Retirei do fundo de um dos compartimentos, na parte superior do móvel, uma caixa branca grande, encaixando-a entre minhas pernas quando já estava novamente sentada na cama. Abri-a e, de repente, toda a nostalgia se tornou real. A saudade ao ver o conteúdo ali sobre meus olhos, mesmo sem ter retirado da caixa, era palpável. Objetos, papéis, álbuns de fotografia, alguns CDs e DVDs, cadernos, agendas e alguns dos muitos diários que eu tive na adolescência. Escolhi um dos álbuns de fotografia e me deitei na cama para poder olhá-lo melhor. Eram fotos aleatórias, algumas minhas sozinhas, algumas com Peter, e muitas fotos com . Fotos engraçadas do tempo da nossa adolescência, fotos da nossa formatura. é formada em Administração e eu em Direito. Sempre estudamos nas mesmas escolas, depois na mesma faculdade. é uma parte de mim que eu jamais quero me imaginar sem. Se perder Peter, pra mim, foi horrível e devastador, eu não queria nem imaginar minha vida sem minha melhor amiga.

Não sei ao certo quantos álbuns foram vistos, quanto tempo eu passei vendo todas aquelas fotos, ou quando dormi. Só sei que, quando acordei, a casa estava completamente escura e alguém muito inconveniente tocava a campainha. Levantei-me e comecei a caminhar pelo quarto escuro, tentando encontrar o receptor para, enfim, acender a luz, enquanto a campainha era insistentemente tocada. Como eu tenho um bom senso de direção, depois de algumas voltas em círculos, eu acendi a luz, lembrando-me, logo em seguida, que havia um abajur ao lado da cama.
- JÁ ESTOU INDO, DROGA. – gritei assim que a campainha foi tocada mais uma vez. Fui até o banheiro e dei uma lavada no meu rosto pra acordar direito e fui em direção à sala. Eu realmente esperava que fosse algo muito importante pra me acordarem às... Que horas eram, mesmo? A campainha foi tocada mais uma vez e aquilo já estava começando a me irritar, acendi a luz da sala e abri a porta com um pouco de ignorância, sem nem ao menos olhar quem estava do outro lado.
- Pra quê a pressa? Já falei que... – minha fala foi interrompida pela imagem que se reproduzia diante dos meus olhos. estava do lado de fora. Com as mãos dentro dos bolsos da calça jeans e uma camiseta azul simples, ele estava parado do outro lado da porta, com um olhar inquieto, revezando entre seu par de Vans branco e eu. Eu estava surpresa, fato. Afinal, o que ele estava fazendo ali? O que ele poderia querer comigo? Depois daquele dia, daquele confuso dia na escola, não tínhamos nos visto mais, e, duas semanas depois, ele aparece na minha porta? Confesso que fiquei um pouco nervosa, e sua expressão tensa não ajudava em nada. Após algum tempo nos encarando, o silêncio predominando no lugar, o clima começou a me incomodar. – Oi? – vendo que ele não se pronunciaria, dei o primeiro passo para a conversa, afinal, eu estava curiosa.
- Oi... – respondeu meio incerto, se eu pudesse chutar, diria que até estava um pouco tímido, recuado.
- Algum problema? – tentei não demonstrar meu nervosismo e usei meu melhor tom de descaso.
- Não, eu... Eu acho que precisamos conversar.
- Precisamos? – com um sorriso que esbanjava indiferença e o mesmo tom de descaso, perguntei, afinal, aquilo estava realmente estranho.
- É, precisamos. Posso entrar?
- Olha, eu não estou entendendo nada, tem como você explicar, por favor? – perguntei um pouco sem paciência.
- Eu posso entrar? – repetiu – Não acho que seja o tipo de conversa pra se ter assim. – deu um passo pra trás e abriu os braços, indicando o local onde estávamos.
- Estamos na porta do meu apartamento...
- ... . – Ele me interrompeu e o tom sério da sua voz me arrepiou um pouco.
- Tudo bem. – hesitei um pouco, mas acabei dando espaço para que ele entrasse, e assim o fez. – Fique à vontade. – dizer aquilo foi mais estranho do que toda a situação. – Sente-se. É... Você quer alguma coisa? – eu estava rindo da situação por dentro, que pergunta mais idiota foi essa?
- Não, eu só quero conversar, obrigado. – seu tom de voz agora estava baixo e calmo, o que contrastava com seus olhos que transpareciam nervosismo.
- Tudo bem. – tentei responder no mesmo tom, o que não deu muito certo, deveria ter ficado calada, já que o nervosismo imposto pela curiosidade ao assunto foi explícito nessas duas palavras. Sentei-me no outro sofá, que ficava do outro lado da sala, esperando que ele enfim, começasse a falar. – Então...
- Bom, eu queria pedir desculpas. E antes que você comece a falar, eu sei que estou errado e que agi de maneira imprudente, afinal eu te ajudei porque eu quis, e se eu fiz isso foi porque me preocupei no momento. Eu só quero que entenda o meu lado. O que estou querendo dizer é que...
- Entender o seu lado? Você foi um idiota, eu não acho que tenha dado razões pra merecer tamanha grosseria, na verdade, eu tenho certeza disso. Você é sempre um mal educado, sem motivos, e depois vem aqui me pedir desculpas como se não fosse nada demais, como se isso fosse algo natural pra você. Eu nem te conheço, não sei nada sobre a sua vida, nem você sobre a minha, e sempre estamos nessa “guerrinha”. Aconteceram três vezes e já foi o suficiente pra se tornar cansativo. Pare de fazer as coisas e se arrepender depois, se for pra sempre vir com um pedido de desculpas, depois de uma série de patadas, por que não pára de agir por impulso? Sabe, , eu não sou uma das melhores pessoas que você possa conhecer, mas eu tenho educação, e sei me controlar, pode parecer que não, você pode me achar uma ignorante, descontrolada, mas é porque você causa isso, você quem me obriga a te tratar mal. Eu tenho os meus problemas, e imagino que você também tenha os seus, então por que descontá-los em quem não tem nada a ver? – Falei tudo que estava engasgado desde o nosso primeiro momento de confronto, na verdade, eu até me surpreendi, não imaginei que tivesse tanta coisa pra falar, e mais surpreendente ainda, foi ele ter escutado do início ao fim, sem me interromper, sem se mostrar ofendido ou pronto pra atacar. Eu estava irritada. Toda essa situação me irritava profundamente, nunca me dei tão mal com uma pessoa, não sem nem ao menos conhecê-la.
- Me desculpe...
- Você só sabe dizer isso?
- Eu entendo o que quer dizer, eu...
- Não, eu acho que não enten...
- POR FAVOR, PARE DE ME INTERROMPER. – Ele gritou, sim, ele GRITOU comigo.
- PARE, VOCÊ, DE GRITAR COMIGO. – me levantei do sofá, ficando de pé, usando todo o meu autocontrole pra não ir lá e encher a sua cara de bofetadas.
- ENTÃO ME DEIXE FALAR. – Ele também se levantou, ficando de frente pra mim e dando um passo à frente.
- PARE DE GRITAR, EU JÁ MANDEI, VOCÊ ESTÁ NA MINHA CASA. – continuei no mesmo lugar, apenas com o dedo apontado pra sua cara.
- VOCÊ ME IRRITA, , ME IRRITA, SABIA DISSO? VOCÊ É TOTALMENTE... IRRITANTE. – Ele estava vermelho, seus olhos cravados em mim faltavam sair de suas órbitas, e eu não deveria estar muito diferente dele.
- OH, QUERIDO, EU POSSO DIZER O MESMO SOBRE VOCÊ. – meu dedo foi parar no seu peito, indicando que ele era o irritante ali. Dito isso, nós nos calamos, o único som presente era o das nossas respirações descompassadas e sem ritmo devido ao nervosismo. Eu me virei, ficando de costas pra ele e passei as mãos pelo cabelo, tentando me acalmar, fechei meus olhos e respirei fundo, uma, duas, três vezes. Então, depois de me sentir um pouco mais calma, eu ri. Não uma gargalhada, mas um riso nervoso, que foi acompanhado por ele, me obrigando a virar e olhar pra ele novamente, que parecia um pouco mais calmo, assim como eu.
– Entende o que quero dizer? – com um sorriso no rosto, ele assentiu – Olhe pra nós, nem ao menos conseguimos manter um diálogo sem brigar, não sabemos nem conversar.
- Parecemos crianças.
- É, parecemos.
- Você está concordando comigo? – ele fingiu surpresa, levando a mão ao peito.
- Acho que sim. – nós rimos e logo depois o silêncio – É, me desculpe, eu exagerei um pouco.
- Não, desculpe você, eu vim aqui pra termos uma conversa e, como sempre, eu acabei com tudo.
- Tudo bem, chega de desculpas por hoje. – eu falei e ele assentiu rapidamente com a cabeça. Mais silêncio.
- Então eu... eu já vou indo.
- Eu te acompanho até a porta.
- Ok. – dito isso ele saiu andando em direção à porta e eu o acompanhei.
- Me desculpe mais uma vez, por tudo. Vou tentar ser mais sociável, prometo.
- Vamos tentar. – Sorri e abri a porta, dando espaço pra ele sair. Ele foi até o elevador e o chamou. Ficamos um tempo em silêncio até o elevador chegar ao meu andar.
- Boa noite, . – Disse antes de entrar no cubículo.
- Boa noite. – Fechei a porta e me escorei nela, digerindo tudo que tinha acabado de acontecer.
Acho que eu e mantemos um ciclo. São sempre as mesmas coisas, todas às vezes, na mesma ordem. Encontramo-nos, nos falamos, brigamos logo em seguida por qualquer motivo, depois ele vem até a minha casa e me pede desculpas. – Coisa louca. – foi o que eu disse, balançando a cabeça negativamente, antes de ir em direção ao meu quarto novamente, e voltar ao meu ciclo da preguiça. Dormir é o melhor remédio para esquecer os problemas.

Capítulo V

Apesar de a porta e janelas estarem fechadas, fechos de luz entravam no meu quarto e isso estava começando a me incomodar. Eu mal tinha acordado e já podia sentir a irritante e forte dor de cabeça que tomava conta de mim. Meus olhos piscavam como piscam as luzes de natal, tentando se acostumar com a luz que estava sobre meus olhos, e apesar de eu tentar abri-los a todo custo, eles insistiam em permanecerem fechados. Não sei se era pela posição, ou até mesmo pela dor de cabeça, causada por várias e várias e várias horas seguidas de sono, mas meu corpo estava todo dolorido, principalmente o meu pescoço. Depois de alguns esforços, eu conseguir abrir meus olhos e os forcei a ficarem abertos, sem ousar piscá-los, até se acostumarem com a “luz” que agora, mais do que antes, estava começando a aparecer. Respirei fundo e me espreguicei como não fazia há algum tempo, na verdade, nem lembro há quanto tempo eu não dormia tanto. A preguiça de levantar estava dominando meu corpo, a minha cama parecia tão gostosa com aqueles lençóis e travesseiros espalhados por ela, mas uma pontada forte na cabeça me fez perceber que eu seria obrigada a isso, tenho certeza que mais uma pontada dessa a faria explodir. Saí da cama e senti o mundo girar ao meu redor, por ter levantado tão de repente. Fui cambaleando até a porta e, ao abri-la, pude notar certa movimentação na cozinha. Eu não sabia que horas eram, mas estava fazendo um calor quase que insuportável. Segui até a cozinha, de onde vinha a tal movimentação, e me assustei ao ver uma mesa cheia de comida. Fazendo-me pular ao ouvir um barulho de panelas caídas ao chão, minha cabeça vibrou.
- Mas que droga. – eu reconhecia aquela voz.
- Mãe? – perguntei um pouco confusa ao ver minha mãe agachada do outro lado da cozinha, com várias tampas e panelas ao seu redor.
- ? Oh, queria, eu te acordei? Espero não ter feito muito barulho. – perguntou caminhando em minha direção e depositando um beijo demorado e estalado na minha testa.
- Não, tudo bem. – Sorri – Eu acabei de acordar, mas não pelo barulho. O que a senhora está fazendo aqui?
- Bom, estou com saudades de você. Você não aparece, não liga, nem responde aos meus recados. Você, ao menos, tem checado seus recados na secretária eletrônica? Aposto que não, você é sempre tão desligada. – respondeu balançando a cabeça em sinal de negação e sorrindo de uma forma carinhosa, me fazendo sorrir junto. – Como você está? Não tem se alimentado direito, isso eu sei, olha só pra você, está magra e seca. – falou ela, me apalpando como fazia quando eu era criança.
- Mãe. Eu estou bem, ok? Tenho comido direito. – Ela me olhou desconfiada – É serio. – ela cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, típico dela quando está esperando ouvir a verdade dos fatos – Tudo bem, eu não tenho me alimentado muito bem. – respondi, me dando por vencida. – Eu não tenho quem me prepare um café da manhã assim todos os dias, olhe só pra isso, morangos. Eu nem sabia que tinha tudo isso na minha geladeira.
- Na verdade, não tinha. Você não mora aqui, ? Só tinha bobeiras nos armários, nada de nutritivo ou que possa realmente ser chamado de comida. Eu cheguei aqui e me assustei ao ver apenas sacos de pão e alface nessa sua geladeira.
- Mas você veio pra me salvar, certo? – andei até ela e abracei-a de lado, sorrindo.
- Não espero que isso se torne um costume, ok? Você já está bem grandinha. Você nem escovou os dentes. Oh, meu deus, você ainda é um bebê? – disse em tom de falso desespero e eu ri – Vai lá escovar esses dentes e tomar banho, estou sentindo seu bafo daqui. – coloquei as mãos na boca e arregalei os olhos, saindo correndo logo em seguida pro banheiro, escutando a gargalhada da minha mãe ao fundo. Não demorei muito, não queria deixá-la esperando. Após um banho rápido e dentes escovados, vesti uma roupa leve, afinal, ainda estava com calor. Ao chegar na cozinha, minha mãe já estava sentada à mesa, com os cotovelos sobre a mesa e a cabeça sobre as mãos, típico de quando está tensa com alguma coisa.
- Ei, mãe, aconteceu alguma coisa? – falei arrastando uma cadeira à frente da dela, chamando sua atenção. – Você parece meio... tensa.
- Ah, sim, querida, aconteceu. Mas não é algo ruim, pelo menos, eu acho que não. Bom, na verdade é uma novidade.
- Novidade? Hmm, eu posso saber que novidade?
- Claro, e é por isso que estou aqui. Quero conversar com você.
- Mãe, eu estou ficando curiosa. – Falei, franzindo as sobrancelhas, nervosa.
- Bom, você lembra que eu e seu pai viajamos há umas semanas atrás pra Liverpool? – assenti com a cabeça em afirmação. – Então, nós adoramos Londres, moramos aqui há muito tempo, mas estávamos pensando em nos mudarmos pra Liverpool. Nós encontramos uma casa maravilhosa, ela é bem maior, mais espaçosa, com um jardim incrível, e tem até piscina. Nós estamos negociando, e tudo indica que ficaremos com ela. – seus olhos brilhavam a cada palavra proferida, mas eu saí daquele ventre e eu sabia que ela ainda estava tensa com alguma coisa.
- Uau... Mãe, vocês irão se mudar? – meu tom de voz saiu mais triste do que eu pretendia. Não queria minha mãe longe de mim.
- Bom, acho que sim. Mas, olhe pra mim, esse não é o ponto principal. Eu e sei pai falamos com Noah, e como ela é dona do próprio negócio, ela concordou em ir morar conosco, você sabe, ela adora Liverpool. – sorriu e eu sorri junto – Nós queremos que você vá conosco. Eu sei que você tem o seu apartamento, tem seus amigos, a , mas você também tem lembranças, e essas acabam com você. O que você me diz? Um quarto espaçoso, uma casa nova, uma cidade diferente, um recomeço...
- Mãe eu... Nem sei o que dizer. Eu adoraria, mas eu não posso. Agradeço por se preocupar, e realmente fico triste por vocês irem embora, quero dizer, como assim, eu não vou poder te abraçar sempre que eu quiser? Não vou mais ganhar um café da manhã surpresa como esse? – nós rimos e eu segurei suas mãos por cima da mesa. – Eu agradeço mesmo, mas eu não posso ir. Construí minha vida aqui, tenho minha casa, eu nem te contei, mas a vai casar. Você sabe o quanto ela surtaria se eu a abandonasse? Sim, você sabe. – eu tentava a todo custo descontrair o clima, para não demonstrar minha tristeza e acho que estava funcionando, já que minha mãe não parava de sorrir. Mas este desapareceu assim que proferida minhas seguintes palavras. – Eu tenho o Peter aqui, não posso deixá-lo, não estou pronta ainda.
- Filha…
- Não, não se preocupe. Eu estou bem, sério. Eu venho superando, dia após dia, eu venho enfrentando isso. Mas, ir embora? Isso ainda é muito difícil. Não posso. Eu amo você, amo o papai e a Noah, amo mais que tudo, vocês são minha família, mas eu amo o Peter também, ele ainda faz parte de mim, faz parte da minha vida, essa vida que eu não quero deixar pra trás.
- Eu sabia que você iria recusar. – disse fechando os olhos e respirando fundo – Mas saiba que sempre vai ter o seu lugar guardado naquela casa, ok? Sempre, quando você se sentir pronta pra seguir em frente com a sua vida, em outro lugar, seus pais e sua irmã estarão esperando de braços abertos por você. – Seus olhos estavam marejados, mas apesar da tristeza, eu sabia que ela me entendia. Afinal, ela sempre me entendeu.
- Eu sei que sim. Eu não sei de onde eu irei tanta sorte por ter pessoas tão maravilhosas na minha vida. Amo você, mãe.
- Eu também, querida, eu também. Você está tão diferente. Está sorrindo. Há quanto tempo eu não via um sorriso no seu rosto? Espero que ele não volte a desaparecer daí, ele é lindo. – sorrimos e o silêncio se instalou entre nós, sendo quebrado alguns segundos depois pela minha mãe. – Vamos comer, antes que o café esfrie. Então, você disse que a vai casar? Oh, meu deus, me conte isso direito. Ela e resolveram tomar juízo? – Não contive uma gargalhada, mamãe sempre disse que a era meio louca e era o cara certo pra ela, já que outro dificilmente aguentaria o ‘tranco’.

Foi uma manhã agradável, nós passamos o dia conversando, e minha mãe foi embora antes do almoço, claro, deixando a refeição prontinha pra mim, dizendo que era pra eu comer e que mandaria alguém vir aqui depois, pra checar se eu realmente tinha me alimentado. Mães. Durante o resto do dia, tudo ocorreu normalmente. Sem mais surpresas, sem mais visitas, só eu e meus pensamentos, como de costume. A proposta da minha mãe me parecia tão convidativa, mas, ao mesmo tempo, tão absurda. Convidativa porque, bem, sair daqui seria um ótimo modo de recomeçar minha vida, seguir em frente, como ela mesmo falou. E absurda porque eu não estava preparada pra isso, ainda. Apesar dos meses, dos conselhos, e de todo esforço pra me reerguer, tudo isso parecia tão... Absurdo. Eu realmente sentia que se fizesse isso, estaria abandonando uma parte de mim, aquela parte que não se pode arrancar ou deixar pra trás. Simplesmente encerrar um capítulo e começar outro é algo fora de cogitação. Pelo menos, agora. E eu já estava cansada de pensar nisso.
Como já era previsto, eu não almocei. Mas por não sentir fome, mesmo. Como era previsto também, mamãe e me ligaram pra saber se eu tinha ao menos tocado na comida, e claro que eu tive que mentir. Às vezes, essa atenção demasiada me irrita. Eu não entendo o porquê de tanto cuidado, ou talvez entenda. Mas é um exagero. Eu não sou nenhum bebê, mas acho que as pessoas não entendem isso, eu aprecio a preocupação, mas dispenso.

Já estava de tarde, e eu estava assistindo televisão quando a campainha tocou. Concordam comigo que portas deveriam ser abertas com a força do pensamento? Levantei-me e olhei pelo olho mágico, me surpreendendo pela segunda vez, em menos de 24 horas, com a presença do meu vizinho do lado de fora do meu apartamento. Dessa vez, antes de abri-la, respirei fundo e tentei colocar na minha mente que qualquer gracinha que ele pudesse fazer, eu deveria ser superior e ignorá-lo, sendo assim, superior a ele. Se bem que eu poderia começar a ignorar agora, não abrindo a porta, mas por que essa ideia me parece tão fora de cogitação? Percebi que estava pensando demais quando a campainha foi tocada pela segunda vez. “Seja simpática, controle-se.” Repeti mentalmente várias vezes, antes de, enfim, abrir a porta.
- Oi. – dessa vez ele mal esperou a porta se abrir completamente pra falar , e também estava sorrindo, muito diferente do de ontem à noite.
- Hey. – eu não estava nervosa, mas também não estava calma, na verdade, eu me sentia ansiosa e louca pra saber o que o levava ali novamente. – Aconteceu alguma coisa?
- Na verdade não... Ainda. – respondeu, ainda sorridente.
- Ainda?
- É, ainda. Eu estava em casa e pensei em nós. – Em nós? Como assim em nós? Existe um nós? Não existe, não. Acho que toda a confusão de suas palavras estava estampada na minha cara, já que assim que se deu conta do que havia falado, se apressou em explicar.
- Não, não em ‘nós’, porque não existe um ‘nós’, mas sim em você e eu, que também não existe, tô falando da nossa relação...
- Relação? , você está me assustando. Tá se sentindo bem? Você tá ficando meio vermelho, acho melhor você respirar e tentar começar de novo, porque eu não to entendendo. Ahn... Quer entrar? – abri mais um pouco a porta, indo pra trás dela, apenas com a cabeça pra fora. Por um momento, ele me olhou, hesitante – Vamos, eu estou tentando fazer isso dar certo, quero dizer, sem brigar, somos civilizados e adultos. – E então, ele entrou passando por mim, fazendo seu perfume entrar em minhas narinas com força total. – Sente-se aí, é... Se quiser, ou fique em pé, como preferir. – por que eu tinha que estar tão nervosa? E por que ele tinha que estava tão cheiroso? Isso não ajuda no meu autocontrole, péssima ideia convidá-lo pra entrar. Ele, por sua vez, mal entrou e já foi falando.
- Eu não vim aqui pra te pedir desculpas, mas eu sei que lhe devo algumas. Nós não conversamos ontem direito, porque, como sempre, brigamos, e eu passei a noite pensando nisso, digo em como contornar isso. – Ele estava em pé, na minha frente, ao lado do sofá e me olhava profundamente nos olhos. – Sabe, eu venho passado por uns momentos difíceis, e não que isso justifique, mas é que eu sou o tipo de cara que não consegue controlar os nervos quando estou com problemas. Vivo metendo os pés pelas mãos e isso é um grande defeito.
- Olha, eu te entendo. Sério, não precisa se explicar, chega de desculpas, certo? Nós dois erramos, agimos de cabeça quente.
- Mas eu quero consertar isso. Eu acabei de me mudar pra Londres e a primeira pessoa com quem eu tive contato foi um total desastre.
- Consertar? – perguntei curiosa.
- É, começar tudo de novo. – falava cada palavra animadamente, como se estivesse dizendo a coisa mais sábia do mundo ou pensando na melhor ideia e isso, de certa forma, estava me animando também. Eu não sabia o que acontecia comigo quando estava por perto, ele conseguia me levar ao extremo, fosse da raiva ou euforia, nervosismo ou ansiedade. Sim, eu me sentia ansiosa por suas palavras, atitudes. De alguma forma, ele mexia comigo, e se tornou algo incomodante. Desde o primeiro contato, das primeiras palavras trocadas até esse presente momento, onde o brilho dos seus olhos podia ser visto a metros de distância, e eram totalmente invejados por mim.
- Ahn... E como você pretende fazer isso? – perguntei enquanto cruzava os braços e arqueava as sobrancelhas, incentivando-o a me contar sua ideia brilhante.
- Isso vai parecer idiota pra você, talvez, mas eu pensei nisso a noite toda e eu espero que você colabore. Posso contar com você?
- Eu acho que sim... – respondi meio confusa enquanto via caminhar até a porta do meu apartamento – , o que...
- Vamos recomeçar e fazer tudo certo dessa vez. Confie em mim. – ele respondeu sério com um tom de voz macio, rouco, mas tão aveludado, que chegou a dar arrepios e me olhou nos olhos, aquele olhar profundo que não te dá outra escolha a não ser concordar, dizer sim, como se não houvesse outra resposta.
- Sim... – pigarreei – Tudo bem.
- Ok. – falou simplesmente, saindo pela minha porta logo em seguida, me deixando toda perdida e confusa. Cinco segundos depois, minha campainha toca novamente, aumentando ainda mais a minha confusão ao abri-la, e ver com um potinho nas mãos e sorridente. – Oi, me chamo e eu sou seu mais novo vizinho. – falou enquanto estirava uma mão até mim, esperando que eu o cumprimentasse e assim o fiz, ainda meio boba com a ideia tão infantil, mas ao mesmo tempo tão... doce do meu “mais novo vizinho”.
- . Me chamo . – respondi, enquanto levava minha mão até a sua, apertando-a levemente.
- Bonito nome. Bom, eu acabei de me mudar, como você sabe, e meu apartamento está uma bagunça, eu nem terminei de desempacotar as caixas, homens, sabe como é... poderia me emprestar um pouco de... – ele pareceu pensar antes de dizer a última palavra, que eu tive que me controlar pra não rir, tanto por sua expressão como pelo que ele pediu – açúcar?
- Açúcar? Claro eu... já volto. – ele me entregou o potinho e, antes de eu sair rumo a cozinha, sorrimos um para o outro – Seja bem vindo, espero que goste da moradia. – ri fraco enquanto virava as costas e adentrava novamente ao meu apartamento, achando aquilo um tanto quanto bobo e engraçado.
- Eu também espero. – Seu tom de voz saiu baixo, talvez tenha falado aquilo mais pra ele do que pra mim, talvez nem fosse pra me escutar.
Surpreendida e encantada, era assim que eu me sentia naquele momento. Rindo enquanto colocava o bendito açúcar no potinho e pensava no quão surreal isso estava parecendo, me sentia encantada. Eu estava encantada pelo meu vizinho. E conseqüentemente, perdida... de novo.

Capítulo VI



Eu estava deitada no sofá de com minha cabeça apoiada em suas coxas, enquanto ela alisava meus cabelos e falava sem parar. Logo após sair da minha casa, algumas horas mais cedo, eu corri pra casa da minha amiga, precisava conversar com alguém, contar as novidades. Ela já o conhecia, mas só porque eu falei dele no dia em que nós dois brigamos na cafeteria. Hoje, eu havia falado pra ela tudo que tinha acontecido, desde o começo. Da nossa primeira briga na entrada do meu apartamento, da escola, do seu sumiço, o fato disso ter me incomodado, a sua visita na noite anterior, onde brigamos mais uma vez, e sobre a sua ideia repentina de um recomeço. É claro que surtou em todas as partes da história. Às vezes ela o xingava, quando eu detalhava suas palavras rudes, usando insultos como ‘ogro, idiota, mal comido’ ou até ‘isso é falta de sexo’. Mas, às vezes, ela soltava gritinhos animados sem razão alguma ou gemidos como ‘awn’ que foram repetidos por diversas vezes quando falei sobre ontem à noite. me fazia contar cada detalhe das conversas, das nossas ações e reações, sobre cada palavra dita, pontos e vírgulas. E, ao contar sobre o que achei de sua ideia, ela apenas confirmou o que eu já sabia, mas me recusava a acreditar e/ou aceitar...
- Você está encantada pelo ogro do seu vizinho. Quero dizer, olhe só pra você, está quase babando!
- Eu não estou. – ela começou a rir e me chamar de mentirosa. – Ok. Talvez eu esteja, mas não por ele, e sim pela sua atitude, achei fofo, nada demais.
- O seu coração acelerou? Digo, você ficou nervosa, detalhe esse nervosismo.
- O quê? Você só pode ser louca. Como alguém fica quando está nervosa? Nervosa, ué, como todos ficam...
- Me responda, então. – Sua expressão séria, e o queixo apoiado em sua mão, era uma visão engraçada, que me fez rir, tanto por seu jeito, quanto pelo rumo da conversa.
- Responder o que? – perguntei enquanto ria e observava minhas unhas, como se fossem algo interessante
- Você sabe o que. Vamos, responda, seu coração acelerou? – suspirei frustrada.
- Sim, , acelerou. – afinal, o que aquilo tinha demais? Para , muita coisa, já que um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
- E ele? O coração dele acelerou?
- Como eu vou saber? Não tinha como, só se eu chegasse perto dele e colocasse a mão em seu peito, dizendo “Deixe-me ver se o seu coração está tão acelerado quanto o meu.” Que coisa mais idiota pra se perguntar...
- Vocês não se abraçaram? – murmurou meio tristonha, afinal, aonde ela queria chegar?
- Claro que não, , nós apenas apertamos as mãos, que infelizmente estavam suadas, isso foi um pouco nojento e eu pretendia...
- AS MÃOS DELES ESTAVAM SUANDO? – se levantou como um raio da cama, ficando em pé, próxima a mim, enquanto levava as mãos aos cabelos e sorria largamente, como se eu tivesse acabado de relatar a hor notícia do ano.
- Sim, suando, não sabia desse seu fetiche por mãos suadas. – eu ri, aliás, nós rimos. Mas parecia um pouco mais feliz que eu, já que começou a rodar e pular pelo quarto feito uma louca, que, na verdade, ela é. Mas que apesar de já está acostumada, sua reação estava me assustando um pouco. – Amiga, tem como você ser menos estranha?
- ELE ESTÁ APAIXONADO, , OH MEU DEUS, ELE CHEGOU PRA REFAZER A SUA VIDA. Ele veio pra te ajudar a se reconstruir, ele é o seu anjo enviado por Deus. Não acredito. FINALMENTE, OBRIGADA, OBRIGADA. – Ela dizia enquanto rodopiava pelo quarto, sorridente. Aquilo, pra mim, foi a confirmação de todas as dúvidas que ainda restavam sobre a saúde mental da minha hor amiga.
- Você é idiota? – ela chegou a abrir a boca em um “O” acompanhado de uma expressão ofendida e, antes que pudesse retrucar algo, eu mesma a cortei – Sim, você é. , pelo amor de Deus, ele estava apenas suado e meu coração apenas acelerou pela surpresa da proposta, não porque ele está apaixonado por mim e eu irei me declarar pra ele amanhã e viveremos felizes para sempre.
- Como não? Que cara perderia seu tempo fazendo uma idiotice dessas só porque brigou com uma mulher que nem conhece?
- Por peso na consciência?
- Você é patética. – ela respondeu com um tom sério e balançando a cabeça negativamente, enquanto levava seus braços na altura do busto, cruzando-os.
- Não, você quem está sendo a patética da história. Está se ouvindo? Você está muito influenciada pelo espírito do casamento...
- Não, estou sendo realista.
- Exagerada, você quis dizer...
- Talvez. Olha, talvez não seja paixão...
- Talvez? Não é paixão. Não é nada, não existe sentimento. – ela me olhou por um segundo e respirou fundo.
- Ele está interessado em você e isso está tão evidente que até eu consegui ler nas entrelinhas.
- Você conseguiu “ler” porque você está inventando tudo isso.
- Não, eu consegui ver porque essa ideia não me assusta como assusta você. Você tem tanto medo disso ser verdade, que fica aí, negando pra você mesma que isso pode estar acontecendo.
- Não é verdade. – eu rebati, contrariada.
- Você sabe que é. Se ele estiver interessado, qual o problema? – ela pausou, esperando por uma resposta minha, que não aconteceu, porque, no fundo, no fundo mesmo, eu sabia que era isso. Eu estava assustada, com medo. – O que há de mal nisso?
- Tudo. Tudo, , você não entende? Eu não posso me envolver com ninguém, e ele está incluído nesse grupo.
- E por que não? – perguntou irritada, me irritando também.
- Porque eu ainda amo o Peter, só ele e unicamente ele. Não tenho espaços pra relacionamentos agora, e acredito que não terei por muito tempo, não me sinto preparada. Que droga!
- ...
- Eu não entendo os motivos de vocês quererem me afastar dele. Por que vocês querem arrancar o Peter da minha vida a qualquer custo? Isso é desgastante...
- Talvez porque ele esteja morto? Porque é isso, ele está morto, enterrado a sete palmos abaixo do chão. – Eu a olhei indignada, mais que isso, enfurecida, como ela tinha audácia de falar uma coisa dessas? – E não me olhe assim, como se eu fosse uma falsa amiga, porque eu não sou. Sinto falta dele, óbvio, mas é você quem está comigo agora, é de você que eu tenho que cuidar, é com você que devo me preocupar. Porque você está viva, mas vai acabar morrendo também, se não abrir esses seus malditos olhos. – sua voz estava embargada, o que fez minha garganta criar um nó, e apesar de querer chorar, sua pose durona ainda estava tomando conta. – Você é uma idiota egoísta.
- Por que diz isso? – minha voz saiu cortada devido ao esforço que eu estava fazendo pra não desabar.
- Porque você só pensa em você, no seu sofrimento, na sua dor. Não sabe quantas vezes sua mãe me ligou desesperada por não ter notícias suas, porque você NÃO QUERIA ATENDER AO TELEFONE, porque encontrou você magra demais, porque você não queria comer, porque você não queria sair de casa. Das vezes que o teve que agüentar meus surtos de choro por ver você definhando e me sentir incapaz de te ajudar. Do seu pai que chorou na minha frente por está tão preocupado que a única coisa que sabia fazer era soluçar no colo da sua mãe. Mas é claro que não sabe, sua dor é tão mais importante que a dos outros, causadas por você, não importa.
Eu não estava preparada pra ouvir isso, não mesmo. Eu me sentia um lixo, um verdadeiro lixo humano. Nunca, em milhares de anos, eu iria imaginar ouvir isso. Nunca pensei que o meu sofrimento fosse causar isso nos outros, nas pessoas que eu amo. Eu realmente era uma idiota egoísta, por só pensar em mim, olhar sempre pro meu próprio umbigo, querer sempre ser o centro do universo. Saber tudo isso dessa forma, fez eu me sentir um monstro. Eu não sabia o que dizer, as lágrimas de quebraram minhas pernas, e eu sabia que qualquer palavra ou pedido de desculpas seria totalmente inútil. Reunindo as poucas forças que ainda existiam em mim, levantei e peguei a minha bolsa que estava no canto da cama parando em frente a que ainda estava com os mesmos braços cruzados, a mesma expressão séria, apenas com o rosto molhando pelas lágrimas, causadas por mim, acompanhada por um par de olhos tristes.
- Me desculpe. – Foi o que eu consegui dizer, saindo quarto afora, esbarrando num eufórico sorridente, que logo cessou o sorriso a me ver naquele estado – Me desculpe. – Repeti, dessa vez pra ele, saindo apartamento afora. Egoísta, egoísta, egoísta... Essa era a palavra que se repetia na minha mente sem parar. Fui praticamente correndo até o meu carro, e, já entrando no carro, meu celular apitou, avisando a chegada de uma nova mensagem. Eu não estava com cabeça pra isso agora, então apenas o joguei no banco de trás e liguei o carro, saindo dali o mais rápido que pude.
Sem ter idéia do que fazer, segui pro meu condomínio, tão rápido que nem sei como cheguei. Minha cama era tudo que eu precisava. Desci do carro, já estacionado na garagem do prédio e corri em disparada ao elevador, eu precisava chorar, precisava colocar pra fora, e não sabia por quanto tempo iria me aguentar em pé. Talvez, alguns pensem que é drama, ou achem exagero, mas só eu sabia a dor que meu peito estava sentindo agora, por causar dor nos outros. Escutei meu nome ser chamado, mas achei que tivesse imaginando, e, mesmo que não estivesse, não estava com cabeça agora. Ouvi meu nome, mas uma vez, mas eu já estava no elevador, e então a porta foi fechada.
Eu estava sozinha dentro daquele cubículo, sozinha, então eu me permiti chorar tudo que eu vinha segurando nos últimos minutos. Egoísta, egoísta, egoísta... Eu gritei, solucei, me xinguei e mal esperei a porta do elevador ser aberta pra sair. Encostei a cabeça na porta, tentando inutilmente abri-la e amaldiçoando-a por estar trancada.
Não sei quanto tempo passei ali, encostada àquela porta, só sei que não conseguia parar de chorar e me sentia cada vez mais fraca, meus olhos ardiam e minhas pernas estavam trêmulas, estava prestes a ir de encontro ao chão, quando senti um par de braços agarrarem minha cintura e me abraçarem por trás com tanta força, que eu me assustei. Senti uma cabeça repousar no meu ombro e logo depois um cheiro familiar invadiu minhas narinas, me fazendo reconhecer quem estava ali. Como um surto de consciência, tentei inutilmente me soltar, em vão, pois, quando percebeu isso, os mesmos braços fecharam-se com mais força sobre meu corpo e logo depois sua voz, sussurrando, acariciando meus ouvidos:
- Por favor, não me mande ir embora. Deixe-me ficar e cuidar de você agora, não me peça pra sair daqui.
Dito isso, eu relaxei, virei o meu corpo e o abracei com toda força, afundando meu rosto na curva do seu pescoço e chorando como uma criança. estava ali e, de alguma forma, mesmo sem saber o porquê, isso parecia o certo naquele momento.

Continua...

Nota da Autora: Oi meninas, olha quem está de voltar... Isso mesmo, euzinha!! Haha =) Esse cap tá um drama só né? Nossa, peguem seus lencinhos e enxuguem as lágrimas, respirem e relaxem HSIAHSAI Como vocês estão? Sobreviveram ao carnaval? HAHA EU TO VIVA, AMÉM. Apesar de não ter curtido nada, já que eu odeio carnaval, mas enfim... O que acharam desse capítulo? Eu gostei dele, ficou meio dramático, mas eu tentei fazer o melhor. Quis dar um pouco de atenção a melhor amiga da principal, que apesar de estar sempre presente, não aparece muuuito. E eu gosto dela, acho que ela merece um lugar no coração das pessoas u_u. O que acharam do vizinho nesse final? Talvez a amiga de vocês tenha razão, talvez ele possa ser o seu anjo, que cês acham hein? Hoho Chega de escrever né? Sou um saco.
Beijo no coração de vocês xoxo @wtfdear FDHDÇFDF


Nota da Beta: Caso seja encontrado qualquer erro nessa atualização, por favor, notifique-me por twitter ou e-mail. Não utilize a caixinha de comentários para tal. Obrigada. xx ;D