Autora: Karol Fletcher | Beta-reader: Caah Souza
Na vida, nós tomamos decisões difíceis ou não, mas todas fazem diferença nas nossas vidas. Por mais que doa, somos obrigados a tomá-las.
Capítulo 1
Eu já não aguentava mais aquele vôo, já estava ficando sufocada ali dentro; principalmente com o homem que estava sentado ao meu lado dormindo e, ainda por cima, roncando! Mas eu precisava manter a calma, já que eu estava indo para o lugar dos meus sonhos: Paris, o lugar com o qual eu quero ir desde criança e, ainda por cima, estava indo para lá com a minha melhor amiga, a pessoa que mais me ajudou nos últimos tempos. Desde a trágica morte dos meus pais há 9 meses e ainda a morte do meu namorado há 3 meses. Minha vida tem estado uma loucura, sofri muito durante esses 9 meses e tem estado comigo desde o princípio de tudo isso. Durante muito tempo, eu achei que não fosse conseguir dar a volta por cima, principalmente depois da morte de meus pais, mas eu consegui graças a ela, que teve a brilhante de idéia de irmos passar uns tempos na Europa, mais especificamente em Paris, a cidade luz. Senti alguém chamar meu nome, mas eu estava distante demais para me mover, até que a mesma voz se aproximou mais e eu senti alguém tocar meu rosto. Eu estava paralisada na cadeira do avião, enquanto todos à minha volta já iam arrumando suas coisas para desembarcar. me olhava rindo, provavelmente da minha cara amassada por causa da viagem, ou então pelo fato de eu estar babando enquanto me perdia em lembranças do passado.
- Você está babando - ela disse
- Eu sei - respondi limpando minha boca
- No que estava pensando?
- Em como a minha vida virou de cabeça pra baixo em menos de um ano - Respondi soltando um longo e pesado suspiro
- Poxa, , não fica assim! Você sabe que eu não deixei mais você pensar nisso! Nós estamos em Paris e nada nem ninguém vai nos atrapalhar agora, porque esse é o nosso sonho e agora ele é VERDADE! - ela disse dando ênfase na última palavra e dando leves pulinhos
- Eu sei, me desculpe, mas eu não consigo controlar isso - soltei outro suspiro e passei as mãos pelo rosto
- Olha, não fica assim, tudo vai ficar bem; no fim, tudo fica bem! - ela disse como sempre fazia para tentar me ajudar, e sempre funcionava porque ela emanava uma felicidade contagiante e incrível
- É, você tem razão! Tudo vai ficar bem no final e se não ta bem agora, é porque não é o final! - falei bem mais animada, o que era estranho porque há 3 segundos, eu estava querendo morrer. Isso é o efeito !
- Isso aí! Agora, acho melhor a gente ir, porque não tem mais ninguém no avião e a aeromoça está olhando feio pra gente. – disse apontando pra aeromoça e fazendo uma careta como se fosse vomitar
- É mesmo, ela tá com uma cara horrível! Vamos, antes que ela resolva nos colocar pra fora a vassouradas! – levantei, já pegando a minha mala de mão.
- Quero ver se ela tentar fazer isso, acabo com ela antes de ela tocar com uma vassoura em mim! MUAHAHA - ela deu uma risada maléfica no fim, o que fez a aeromoça olhar com mais ódio para nós duas.
Saímos do avião e fez questão de mandar um beijo para a aeromoça carrancuda, que só nos olhou e depois virou, mas eu juro que vi um sorriso vindo dela.
Chegamos na alfândega e eu fui colocando minha coisas para serem revistadas, enquanto ainda estava tentando guardar todos os documentos que ela havia trazido e, Jesus, ela trouxe muita tralha!
Coloquei minha bolsa e meu iPod na cestinha para ele passar pelo scanner e, à essa altura, já estava atrás de mim. Depois de todo aquele processo desnecessário e tedioso, pude finalmente pegar minhas coisas de volta, assim como minha amiga, mas quando estávamos quase indo embora, um guarda me chamou e pediu para ver meu telefone. Ele fez alguma coisa com ele que eu não entendi e me chamou.
- O seu celular possui conteúdo ilegal aqui, senhora. – ele constatou me olhando sério
- Como assim, ilegal? Isso não é possível! Deve estar havendo algum engano! – eu disse já meio alterada
- Não há engano nenhum, senhora. Faça o favor de me acompanhar, por favor! – ele pediu com um tom de voz autoritário tentando me amedrontar, e conseguiu.
- O que está acontecendo aqui? – resolveu se meter
- Sua amiga possui conteúdo ilegal no celular e teremos que levá-la para a cadeia. - o guarda disse extremamente calmo
- CADEIA?! - eu e falamos juntas
- Sim; aparentemente, a senhora baixou músicas ilegais e nós não podemos permitir isso aqui na França - ele disse mais calmo ainda; como ele conseguia ficar calmo em um momento desses?
- Ninguém vai levar a para a cadeia, você me entendeu bem? – falou como se estivesse falando com um moleque de rua
- Eu vou levar sua amiga para a cadeia até que ela pague as músicas, e levarei a senhora também caso se refira a mim desse modo novamente! – ele disse parecendo mais irritado a cada segundo agora. Estava começando a
achar que ele era bipolar
- , relaxa, está bem? Eu vou pagar as músicas e depois nós vamos para o apartamento. Não há por que se estressar. – Avisei transparecendo calma e serenidade, mas na verdade eu queria desabar naquele exato momento e chorar até acabar pegando no sono como sempre
- Então eu vou com você! – ela disse olhando para o homem ao nosso lado que parecia cada vez mais calmo agora. Definitivamente, ele era bipolar!
- Já que vocês se entenderam, façam o favor de me acompanhar – o guarda disse tão calmo quanto no início da conversa
- Está bem – eu e dissemos ao mesmo tempo e rimos ouvindo o guarda à nossa frente rir também
Na cadeia não demoramos muito fui falar com o delegado enquanto me esperava no lado de fora. O delegado entendeu a minha situação e me liberou rapidinho, eu só tive que pagar as músicas e preencher uns papéis, os quais eu nem li. Ao sairmos, encontramos o mesmo guarda do aeroporto e este nos deu um sorriso e desejou boa sorte. Eu e nos entreolhamos e rimos, ao que parece, ela também percebeu a bipolaridade do homem.
Levamos horas para achar o nosso recém comprado apartamento, mas depois de 2 horas - sim, 2 horas rodando e rodando Paris - nós conseguimos achá-lo. Era um apartamento grande, espaçoso e incrivelmente bem decorando pela empresa que havia construído o prédio. As paredes eram em sua maioria brancas, com exceção de nossos quartos que eram azul com flores cor-de-rosa coladas na parede, que seria o de ; e o outro, rosa com alguns quadros espalhados pela parede aleatória e perfeitamente, o qual seria meu quarto. Na sala, havia um enorme sofá branco e muito confortável, duas poltronas caramelo e uma estante bege gigante também que possuía uma televisão enorme, entre outros detalhes decorativos, além de um sistema de rádio de última geração. A cozinha tinha uma mesa que, por sinal, também era enorme; uma geladeira e um freezer, também gigantes, e uma bancada que dividia a sala da cozinha. Nós também tínhamos nossa própria lavanderia, o que, na França, assim como no Estados Unidos, era sinal de independência.
Depois de arrumarmos nossas coisas e dormir, acordamos morrendo de fome e percebemos que não havia comida em casa e teríamos que sair para comprar algo. O grande problema é que eram exatamente 4 da manhã em Paris, e não sabíamos se havia alguma padaria ou um botequim que fosse aberto e perto de casa, mas, como sempre, resolvemos arriscar.
- Tomara que tenha alguma coisa aberta, eu estou morrendo de fome! – eu disse passando a mão na barriga ouvindo-a roncar
- Tomara mesmo, , porque senão estamos lascadas! – concordou, fazendo uma cara de preocupada, mas eu sabia que ela não estava nem aí
Depois de rodarmos muito, resolvemos desistir e comer em um McDonald's 24h mais ou menos perto de casa, mas foi o que nós achamos.
- Finalmente, COMIDA! – eu me ajoelhei assim que entramos no restaurante, fazendo cobrir o rosto em sinal de vergonha e gargalhar ao mesmo tempo
- ! Levanta daí agora! – ela ordenou fingindo que estava brava
- Está bem, mamãe. Credo, você sempre corta o meu barato – reclamei fazendo ela gargalhar
- O que vocês desejam? – a moça do caixa perguntou enquanto olhávamos para o menu
- O que eu desejo? - se perguntou – UM HOMEM! - ela disse e fez a moça do caixa rir
- Eu vou querer um Big Mac com Coca e batata grande! – pedi sentindo minha barriga roncar e minha boca salivar só de pensar
- Nossa, , já vai começar à essa hora da madrugada?! Eu mereço você, viu! – disse e eu dei a língua, essa cena fez a moça do caixa rir ainda mais. Por que as pessoas estão sempre rindo de nós?! – Bom eu vou querer um McDuplo com suco de uva – ela pediu me olhando e mostrando sua barriga tanquinho em sinal de que ela era saudável e eu não, e em troca eu mostrei pra ela a minha barriga também definida, não como a dela, mas era boa também, e ela riu assim como a moça do caixa, que à essa altura, já devia achar que nós éramos malucas.
- Aqui está o pedido de vocês e bom apetite – a moça disse me devolvendo o cartão de crédito junto com os lanches
Sentamos em uma mesa perto da janela para observar a rua pouco movimentada e lindíssima de Paris. Aquilo tudo ainda era tão surreal que eu tinha medo de acordar a qualquer momento e sofrer outra decepção na minha vida, mas uma voz dentro de mim me mantinha para cima, afirmando a todo tempo que não era um sonho, e essa voz se chama .
- É um sonho, não é? – disse como se pudesse ler meus pensamentos e eu realmente achava que ela podia, nós nos conhecíamos desde os 7 anos e agora tínhamos 18. Ela realmente me conhecia melhor do que ninguém nesse mundo.
- É... Tenho medo de acordar - eu falei vendo ela rir debochada de mim
- , o que eu já te disse. Isso não vai acontecer, nós estamos juntas, aqui em Paris! – entenderam o que eu disse sobre a voz chamada ?
- Eu sei, por isso mesmo que eu tenho medo, tenho medo de perder você também, de ver que nada disso é real... – expliquei sentindo um aperto no peito e meus olhos encherem de lágrimas
- Ah, amiga, não chora, por favor! Eu te amo pra sempre e eu sou real assim como tudo aqui, acredite em mim! - ela disse sentando ao meu lado e enxugando uma lágrima que cismava em escapar
- Promete que você não vai me deixar? – pedi sentindo uma dor colossal ao pensar nessa possibilidade
- Prometo, eu vou ficar aqui pra você pra sempre! – ela falou sorrindo e enxugando mais uma de minhas lágrimas. Aquele sorriso dela, cheio de vida, cheio de amor e carinho, me fizeram melhorar instantaneamente
- Está bem, eu já estou melhor! Obrigada! - disse sentindo o peso no meu peito sumir
Terminamos de comer nosso lanches e fomos para o apartamento terminar de arrumar as coisas. Quando finalmente acabamos de arrumar tudo, o relógio estava marcando 1 da tarde, e é claro que nós já estávamos morrendo de fome novamente. Resolvemos sair para comer em um restaurante que havia perto do apartamento e depois fomos ao supermercado fazer compras.
- Para que serve isso, ? – perguntou apontando para uma palha de aço
- Para arriar panela, acho – respondi em dúvida, já que nem eu sabia direito, pelo simples fato de que a minha vida inteira eu nunca havia lavado uma louça sequer
- Bom, então devemos levar – disse jogando 4 palhas de aço no carrinho enquanto eu ria dela e de seu exagero
Depois de muito tempo fazendo compras, conseguimos sair do supermercado carregando 3 carrinhos literalmente lotados de coisas, sendo que um era somente ocupado por Doritos e batata Ruffles, já que não podia comer doritos devido a uma alergia.
- Voce acha que tudo isso vai caber na malinha desse carro?! – falou apontando para a mala do carro
- Eu acho que não... Disse que nós diviamos ter comprado um carro maior, esse smart car é horrível! – Reclamei tentando enfiar tudo o que podia no carro
- , eu não gosto desses carros grandões! Eu não consigo andar neles direito, você sabe que eu tenho medo de cair! Eu jamais conseguiria andar num Toyota daqueles gigantes! – ela disse fazendo manha – E além de tudo, esse carro ta super na moda! - ela disse dando três batidas na traseira do carro
- Ta bem, ta bem... Agora me explica como a gente leva todas essas coisas pra casa
- Fácil, vamos chamar um táxi; e só pra você não reclamar, eu pago! – disse fazendo um leque com as notas de dinheiro e me fazendo gargalhar
- Está bem – falei em rendição, não valia a pena discutir agora, talvez mais tarde quem sabe.
E assim foi o nosso primeiro dia em Paris, sem cadeia, sem um chato roncando do meu lado, só mais uma tarde normal com a .
Capítulo 2
[n/a: Ponham Save me do Hanson para carregar e soltem quando tiver a próxima nota]
ainda estava dormindo quando eu acordei. Novamente, não consegui dormir por causa desses pesadelos que venho tendo ultimamente, estávamos em Paris há 1 mês e há duas semanas que eu vinha tendo esses pesadelos horríveis. Eles variavam um pouco, às vezes era com os meus pais e o acidente de barco, às vezes com o Fred, e às vezes com os dois. Eu tenho acordado no meio da noite chorando e suando muito, apesar da temperatura baixa de da cidade, além de que depois dos pesadelos eu nao consigo mais dormir; vezes por perder o sono, vezes por medo de sonhar de novo. Eu não conseguia mais viver assim, a dor no meu peito estava me matando e eu não conseguia falar sobre isso por medo de admitir que ainda não havia superado ou pela simples hipótese de que se eu não falasse no assunto, ele não existiria. Não sabia por quanto tempo mais eu iria aguentar.
Ouvi um barulho vindo do quarto de , ela havia acordado. Eu estava sentada na bancada comendo meu café da manhã quando ela saiu do quarto com o cabelo em pé e de calcinha e sutiã.
- Bom dia, flor do dia! – falou muito animada, o que era estranho, considerando que eram oito da manhã
- Nossa, o que aconteceu hoje? Caiu da cama? – brinquei me divertindo às custas dela
- HA-HA-HA, não, você sabe muito bem o que aconteceu, – ela respondeu, dessa vez, séria
- Nossa, quanta bipolaridade! Conte-me, o que houve? – perguntei rindo enquanto ela colocava café na xícara dela
- Você, , você aconteceu! Passa a noite toda em claro chorando e me deixa preocupada – ela disse com se fosse a coisa mais normal do mundo, e como ela sabia ? Eu sempre fechava a porta do quarto e fazia o menor barulho possível para não incomodá-la
- Desculpe, eu não queria incomodar você – desculpei-me, sentindo-me o mais culpada possível enquanto ela calmamente tomava seu café
- , não falar sobre isso não vai fazer o problema sumir, acredite em mim – ela disse me olhando nos olhos como se visse minha alma
- Eu sei, mas, , você nao entende, está doendo muito! Eu não sei quanto tempo mais eu posso aguentar! Isso está me matando, dói muito – falei sentindo as lágrimas começarem a rolar pelo meu rosto e os braços da minha melhor amiga ficarem em volta de mim
- , não fica assim, amiga. Voce vai superar isso, ainda é tudo muito recente – ela me reconfortou, era estranho, mas só de saber que ela estava ali para mim já me deixava melhor
- , eu preciso esquecê-los, eu preciso me livrar dessa dor – falei fungando e enterrando mais meu rosto no ombro dela
- Você não precisa esquecê-los, , você só precisa se acostumar com a ideia de que eles se foram – ela disse e aquelas palavras me atingiram com a mesma intensidade com a qual foram ditas
- Eu sei, mas é mais difícil do que parece – senti ela apertar mais forte os abraços ao meu redor
- Eu sei, amiga, eu sei – ela suspirou e, por um momento, eu pude sentir na voz dela a mesma dor que eu sentia na minha, ela estava mesmo sentindo a minha dor. Como era possível?
- Eu não quero que você fique chateada por minha causa – disse apertando o abraço
- Eu nao estou chateada, , eu estou triste... Porque voce está triste – explicou ela, e eu sabia que era verdade, porque a voz dela estava tão destruída quanto a minha.
Depois disso, nenhuma de nós disse mais nada, ela deixou que eu chorasse por quase meia hora em seu ombro e então eu adormeci, como sempre acontecia quando eu chorava.
Quando acordei, olhei no relógio e marcava 13:00. Eu finalmente havia dormido um pouco, não o suficiente, mas eu havia dormido e não havia sonhado; podemos dizer que era uma evolução. Fui direto para o banheiro e tomei um longo banho, depois fui para a cozinha de toalha mesmo e peguei um pacote de Doritos; sentei na sala e fiquei assistindo Friends. chegou em casa na mesma hora em que o episódio e o Doritos acabaram.
- ! Pelo amor de Deus! Eu não posso nem sair que você tenta estragar o nosso sofá – ela disse se refirindo à parte molhada do sofá e eu fiz cara de sapeca lambendo os dedos, que agora estavam laranja por causa do Doritos
- Ah, , nem vem, foi só um pouquinho e vai sacar rapidinho – fui para a cozinha jogando o saco de biscoito fora
- Eu te mereço! - ela reclamou e eu dei a lingua – O que você comeu além de Doritos? – perguntou então encarando as unhas
- Doritos! – respondi rindo
- Bom, neste caso, o que voce quer almoçar? – ela perguntou agora abrindo o armário e procurando alguma coisa lá dentro
- Nós podemos comer fora! – falei muito animada com a idéia, já que eu havia comprado um all star novo e estava louca para usá-lo
- Tudo bem, não estou com paciência para cozinhar para você hoje – disse com desdém
- Você não sabe cozinhar, ! – respondi rindo
- Nem você! – dei a língua
Depois fomos escolher um restaurante, acabamos escolhendo um qualquer perto de casa que parecia ser bom. Entramos e sentamos em uma mesa em frente a uma grande janela de vidro que tinha uma vista ótima de Paris. Um menino de olhos veio nos atender, ele tinha um sorriso lindo com todos os dentes perfeitamente alinhados e brancos, como naqueles comerciais de pasta de dentes, além de ter um cheiro incrível, que perfume era aquele? 212 Men? Bem, não importa, porque era incrível.
- O que as senhoritas vão querer? – ele perguntou sorrindo
- Eu quero um peito de frango grelhado e uma salada verde – disse e o menino anotou seu pedido
- Eu vou querer uma macarronada – pedi recebendo um olhar feio de e um sorriso lindo do garçom
- E para beber? – ele perguntou e só então percebi que estava morrendo de sede
- Eu vou querer uma Coca-Cola – falei o mais rápido possível e o garçom riu de mim
- Eu vou querer um mate natural – disse e ele anotou os pedidos e foi atender outra mesa. O celular de tocou e, enquanto ela falava animadíssima no telefone, eu fiquei observando as ruas movimentadas, era tão engraçado como as pessoas pareciam tão presas em seus mundos particulares que sequer notavam as outras. Um grupo de meninas coloridas passou e riu de uma menina que se vestia de preto e um jeans justo também preto, e tinha umas mexas verdes no cabelo também preto. Isso me deixou extremamente incomodada, porque eu era aquela menina quando era mais nova, eu tinha uma mexa azul no cabelo, não usava o que os outros mandavam, eu usava o que eu gostava, e nunca usava outra coisa nos pés sem ser um converse surrado, sem contar que nunca tirava os fones de ouvido, jamais.
Ouvi uma musica conhecida começar a tocar no restaurante e voltei a lembrar de quando era mais nova, de quando as coisas eram mais fáceis. [n/a:ponham a musica para tocar!]
Loving you
Like I never have before and needing you
Just to open up that door
Begging you
Might somehow turn the tides And tell me to
I've got to get this off my mind
I never thought I'd be speaking these words
I never thought I'd need to say
Another day alone is more than I can take
A letra me fazia lembrar de tudo, todos os sorrisos que eu dei, todas as lágrimas que eu chorei; por um momento, aquela letra fez com que todo o meu passado voltasse com uma intensidade incrível e me machucasse muito, foi como tomar um soco na cara.
Won't you save me
Save is what I need
I just wanna be by your side
Won't you save me
I don't wanna be
Just drifting through the sea of life
Won't you
Listen please
baby don't walk out that door
I'm on my knees
you're all I'm living for
I never thought I'd be speaking these words
Never thought I'd find a way
Another day alone is more than I can take
Won't you save me
Save is what I need
I just wanna be by your side
Won't you save me
I don't wanna be
Just drifting through the sea of life
Senti vontade de chorar naquele exato momento, chorar e gritar sem me importar de que eu estava em um restaurante, sem me importar com , só pensar em mim e em mais ninguém por um momento apenas, mas eu não consegui, eu precisava manter a compostura e fingir que tudo estava bem, fingir que a vida não estava fazendo de tudo para acabar comigo, eu precisava ser forte...
Suddenly the sky is falling
Could it be it's too late for me
If I never said I'm sorry,
Now I'm wrong,
Yes I'm wrong
Then I hear my spirit calling
Wondering if she's longing for me
And then I know that I can't live without her
Won't you save me
Save is what I need
I just wanna be by your side
Won't you save me
I don't wanna be
Just drifting through the sea of life
Won't you save me
Won't you save me
Won't you save me
Mas eu não consegui. Saí correndo do restaurante o mais rápido possível, tomando o máximo cuidado para não esbarrar em ninguém, as ruas ficavam cada vez mais embaçadas e a dor mais forte; conseguia me animar, mas nem ela conseguiria curar essa dor tão rápido. Ao chegar em casa, tranquei-me em meu quarto e fiquei lá até anoitecer, chorando e revivendo cada momento bom ou não do meu passado. Abri a porta do quarto e fui para a sala, olhando o relógio e vendo que eram 11:00 da noite, eu havia passado o dia inteiro chorando, eu estava voltando ao que eu era antes de resolver viajar com , uma espécie de vegetal humano, isso não podia estar acontecendo de novo. Sentei no sofá ao lado da minha amiga e esperei que ela dissesse alguma coisa.
- Eles não cobraram seu prato – ela disse vagamente com olhos fixos na televisão – As pessoas ficaram comentando sobre você – falou no mesmo tom
- Não me importo – respondi sentindo um peso sobre os meus ombros
- Você quer falar sobre isso agora? – ela perguntou depois de cinco minutos de silêncio
- Nem agora nem nunca – disse soltando um longo e pesado suspiro
- Uma hora você vai ter que falar – ela falou dando um gole em seu chá, o qual eu só percebi agora
- Não tenha tanta certeza – avisei sabendo que ela não discutiria comigo agora
- Falamos sobre isso mais tarde, você deve estar com fome, não comeu nada o dia todo – ela se levantando e andou em direção a cozinha
- Eu estou – foi só o que consegui dizer
- Vou fazer um sanduíche para você, está bem? – ela perguntou e eu afirmei com a cabeça. Sentei na bancada e esperei, enquanto o sanduíche ficava pronto, pegou uma lata de Coca-Cola e me entregou, depois foi tirar a comida do grill e colocou na minha frente junto com os talheres, em seguida ela sentou ao meu lado enquanto eu devorava o sanduíche, eu realmente estava morrendo de fome.
- Você não está sozinha, ok? – ela disse quando eu terminei o sanduíche e a Coca
- Eu sei, – respondi me virando para ela e encarando seus olhos pela primeira vez. Ela me olhou e me abraçou, naquele momento eu deveria chorar, mas não foi isso que eu fiz, eu apenas aproveitei a sua companhia.
Capítulo 3
Acordei sentindo um peso enorme na minha cabeça, eu sabia o porquê daquilo. Levantei e fui para o banheiro fazer minha higiene matinal, depois voltei para o quarto e vesti uma blusa qualquer que estava embolada na bagunça do meu armário, uma calça jeans rasgada - propositalmente - e peguei o casaco que estava na sala. havia saído e eu não sabia que horas ela voltaria, então eu resolvi ir comer alguma coisa. Tomei coragem e, depois de andar bastante tentando achar um bom lugar para comer, decidi entrar no mesmo restaurante de ontem e me sentei na mesma mesa. O lugar estava mais vazio, mas o barulho das conversas continuava, então avistei de longe o mesmo menino que nos atendeu ontem vir na minha direção e eu automaticamente virei a cara.
- Bom dia, a senhorita está se sentindo melhor? – ele perguntou e seu perfume maravilhoso me atingiu em cheio, me fazendo ficar um pouco tonta
- Sim, obrigada – respondi ainda sem olhar para ele, encarando o menu
- Gostaria de fazer seu pedido agora? – ele perguntou e eu o olhei pelo canto do olho e vi que ele sorria perfeitamente
- Sim – respondi o olhando, ainda com um certo medo – Eu vou querer um croissant com geléia de morango e um chocolate quente – respondi sentindo minha barriga dar voltas
- Tudo bem, já vou trazer o seu pedido – ele disse e foi para o que parecia ser a cozinha.
Fiquei observando as pessoas ao meu redor, uma mulher tentava fazer uma criança comer, mas esta cuspia tudo, um casal de velhinhos tomando seu café felizes em um canto do restaurante, uma mulher muito bem vestida comprava um café enquanto falava no celular muito nervosa e um grupo de meninos que estavam todos sentados em uma mesa próxima a minha brincando e rindo alto um com o outro.
- Aqui está – o garçom disse e me acordou de meus pensamentos - Qualquer coisa é só chamar – eu então senti seu cheiro entrar nos meus pulmões como se fosse uma droga, uma droga muito boa
- Obrigada – foi só o que consegui dizer, porque ele foi rápido falar com a mesa onde os três garotos ainda faziam muito barulho, e começou a conversar com eles como se fossem amigos. Os três garotos se levantaram ao mesmo tempo e o abraçaram, um de cada vez, depois disso eles saíram e o mais baixo me olhou com curiosidade. Quando eles sumiram da minha vista, percebi o quão silencioso o lugar estava, agora eu só ouvia as reclamações do bebê sentado um pouco longo de mim. Terminei meu café e esperei o menino, o qual eu ainda não sabia o nome, viesse me trazer a conta
- Posso retirar? – ele perguntou e eu disse que sim com a cabeça
- Pode trazer a conta por favor? - perguntei enquanto ele tirava o meu copo e colocava na bandeja
- Agora mesmo – ele disse sorrindo e eu por um momento esqueci que tinha que respirar para viver. Ele foi em direção à suposta cozinha e eu fiquei parada lá olhando para o nada e inalando o resto de perfume que ele havia deixado no ar. Três minutos depois, ele voltou segurando um papel e me entregou:
- Aqui está, senhorita, sua conta – falou sorrindo como sempre
- Obrigada, e não precisa me chamar de senhorita, pode me chamar de que, bem, é o meu nome – pensei em como voltar no tempo e me impedir de dizer uma coisa idiota dessas
- Bom, , neste caso você pode me chamar de – apontou para um crachá. Como eu era burra, é claro que ele tinha um crachá com o nome dele
- Ok, aqui está, – disse e entreguei umas notas para ele
- Obrigado – ele agredeceu e me entregou a nota fiscal
- Obrigada – levantei indo em direção à porta e, quando eu ia amassar aquele pedaço de papel vi que tinha algo escrito nele, era o número do celular do , ele me dera o número do celular dele! Mas por quê? Eu acabei me distraindo e batendo de cara na porta do restaurante, não tive coragem para olhar para trás, então saí o mais rápido possível de lá. Assim que já estava longe do restaurante, peguei meu celular e liguei para o número da nota fiscal, uma voz conhecida atendeu e eu não acreditei que fosse mesmo o número dele
- Alô? – ele disse pela terceira vez enquanto eu pensava no que dizer
- ? – perguntei, foi a única coisa que veio a minha mente
- Oi, ! Nossa foi mais rápido do que eu imaginava – ele disse rindo e eu ri desconfortável
- Quanto tempo imaginava que eu levaria? – perguntei tentando manter meu tom de voz normal
- Sinceramente achei que você nunca ligaria, mas resolvi arriscar mesmo assim – respondeu sincero e eu ri, foi a única coisa que consegui fazer – Bem, você tem algum compromisso para amanhã? – ele perguntou e eu senti um frio na barriga, como se fosse vomitar
- Não, amanhã não tenho nada ainda. Por quê? – perguntei já imaginando a resposta
- Por que eu também não tenho nada para fazer, então se você quiser, nós podemos fazer nada juntos – ele disse e eu não consegui acreditar no que eu estava ouvindo
- Por mim tudo bem. - respondi e minha voz falhou um pouco – Onde você pretende fazer nada? – perguntei e ele riu
- Podemos nos encontrar em frente ao Starbucks perto do restaurante? – falou meio inseguro da minha reposta
- Claro, pode ser umas sete horas? – perguntei e minha voz saiu melhor do que pensei
- Sim! – ele disse animado e eu ri – Então nos vemos lá – ele disse e eu ouvi uma voz no fundo gritando, ele devia estar trabalhando ainda
- Ok, tchau,
- Tchau, – logo desliguei o celular. Estava em frente ao meu prédio e nem havia notado, mas agora eu não queria ir para casa, eu estava feliz de sair um pouco, decidi que iria dar uma volta pela cidade, ver todos aqueles lugares que eu amava e não me cansava e ver. Eu não tinha rumo, eu não tinha um lugar específico para ir, então acabei por chegar em frente à Torre Eiffel e apenas parei quando tinha uma vista perfeita dela. Fiquei imóvel olhando o céu, a torre, as pessoas; todos agora pareciam tão felizes e eu me sentia feliz por eles estarem felizes também, mas sempre que eu fico feliz, alguma coisa dentro de mim resolve me fazer lembrar de algo horrível, algo do meu passado. Olhei um casal de jovens, deviam ter a minha idade mais ou menos e eles estava tão felizes juntos, eles me lembravam tanto eu e o Fred juntos...
#FLASHBACK ON
- Fred você não podia ter feito isso! Não podia! – disse alterada e sentindo lágrimas voltarem a surgir nos meus olhos
- , amor, me escute – ele pediu segurando meu braço
- Eu já te escutei! Você não podia ter escondido isso de mim! Você não podia! O que tinha na sua cabeça para você fazer isso?! – perguntei tentando olhar nos olhos dele, mas minhas lágrimas não deixavam
- , eu te amo! Por favor, me escuta! Eu só fiz isso para tentar proteger você! – ele disse me prensando contra a parede
- Me proteger de quê? De você? – perguntei me soltando dos braços dele
- Sim! Eu não queria que você sofresse por mim, ! Eu não queria que isto acontecesse - ele disse enxugando minhas lágrimas e me dando um selinho leve
- Mas você não podia ter feito isto, você não podia ter me escondido uma coisa dessas, você não podia – lutei, recebendo um abraço dele e retribuindo mais forte ainda
- Eu te amo. Desculpe-me – ele disse e beijou o topo da minha cabeça
- É leucemia, Fred, leucemia aguda – falei e foi como se alguém me desse um soco na cara – Você podia ter feito o tratamento. Você podia – ele me abraçou mais forte
- Eu sei, , eu sei – não me deu chance para responder -, mas isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde – ele afirmou calmo
- Fred, você prometeu para mim – eu disse e ele balançou a cabeça
- Eu sei, amor, eu sei, mas isso não é algo que eu possa controlar – ele beijou minha bochecha
- Eu te amo – disse beijando levemente seus lábios e olhando em seus olhos
- Eu também te amo – ele disse voltando a me beijar. Sua língua pediu passagem para minha boca e eu dei, o beijo começou calmo como se nenhum de nós tivesse pressa, como se o mundo não tivesse importância enquanto nos beijamos, como se nada mais existisse. Mas repentinamente o beijo se tornou agressivo, rude, desesperado, o que era estanho já que Fred não era assim, e o mais estranho foi que de repente eu comecei a sentir um gosto amargo na minha boca, um gosto de... Sangue!
- Fred! – disse no mesmo momento em que interrompi o beijo e ele começou a tossir sangue – Fred! Fred! Fred! Olha para mim, amor! – disse ouvindo o desespero na minha própria voz enquanto Fred se debruçava na cama e tossia mais e mais sangue. Corri para a sala e peguei o telefone, disquei o número do hospital e pedi para que viessem o mais rápido possível. Quando voltei para o quarto, Fred estava sentando ao pé da cama com cara de cansaço, mas não parava de tossir. – Calma, amor, os médicos já estão vindo – disse sentindo as lagrimas começarem a cair – Vai ficar tudo bem – disse mais para mim do que para ele. Ele pegou minha mão e a acariciou lentamente enquanto a tosse diminuía, ele lentamente foi fechando os olhos e antes de fechá-los por completo me olhou uma última vez nos olhos e sussurrou:
- Eu te amo, – e então ele fechou os olhos. Ele não estava morto, não ainda, mas ele não agüentaria muito mais pelo visto, como eu faria sem ele?
- Eu também te amo, Fred – disse mesmo sabendo que ele não me ouviu
#FLASHBACK OFF
Acordei de meus pensamentos com o choro de uma criança, e só então percebi que estava sentada no meio da rua olhando para o nada com cara de babaca - era isso que eu era, uma babaca. Não conseguia ficar um dia sem pensar nele ou nos meus pais, não conseguia ficar um dia sem sentir o buraco no meu peito doer. Levantei-me decidida a mudar, passei a mão no rosto e comecei a andar em direção ao apartamento, afinal, eu tinha um encontro - ou sei lá o quê - com um cara lindo no dia seguinte e eu precisava me dar uma chance. Cheguei no prédio mais rápido do que eu imaginei, cumprimentei o porteiro e subi para casa, não estava e eu não fazia idéia de onde ela poderia estar; às vezes ela resolvia sumir o dia todo e só aparecer à noite, ou então de madrugada bêbada. Fui para o banheiro e tomei um banho longo e demorado, tirando todo o peso das minhas costas. Saí do banho me sentindo renovada e fui sentar na sala e ver TV com o meu diário pacote de Doritos, ouvi um barulho vindo da porta e logo depois entrou.
- Bom dia, Cinderela – ela disse bastante animada, devia ter feito sexo hoje
- Bom dia, – respondi no mesmo tom
- Passou o dia todo aqui estragando a nossa mobília? – perguntou e dei a língua
- Não, eu saí, na verdade, passei o dia fora, cheguei há pouco e tomei um banho – disse e ela me olhou curiosa
- Passou o dia fora com quem? - ela perguntou e eu ri
- Comigo mesma, fui naquele restaurante de ontem e depois fui dar uma volta pela cidade – respondi e ela me olhou desconfiada como se soubesse que estava faltando a melhor parte
- Só isso, nenhuma novidade? – indagou com a sobrancelha levantada
- Bem, aquele garçom bonitinho do restaurante me chamou para sair, mas, tirando isso, nada de novo; e você? – falei simplesmente e ela me olhou com os olhos arregalados
- Ah, amiga! Eu estou tão feliz por você! E ele é tão gato! – ela disse me abraçando forte e gritando
- Ta bem, , ta bem – disse me soltando do abraço dela
E passei o resto do dia com ela comendo porcaria, assintindo TV e pensando em possíveis roupas para eu usar no dia seguinte. Pode-se dizer que esse é o começo de uma nova vida para mim.
Capítulo 4
No dia seguinte, acordei e fui tomar uma ducha rápida, saí renovada lá de dentro. Tomei meu café-da-manhã igual aos outros dias, uma xícara de chocolate e um pedaço de bolo que nós havíamos comprado algum tempo atrás, ou muito tempo atrás, não lembro. Quando acordou, estava com uma cara péssima, o que era estranho.
- Bom dia – disse, meio incerta, já que ela passou por mim e não deu um pio se quer.
- Só se for pra você – disse ela, ríspida.
- Nossa! O que foi que aconteceu? – perguntei, encarando-a colocar café numa xícara e se jogar no sofá ao meu lado.
- Nada, eu só não consegui dormir direito – ela respondeu, bebendo o café.
- A noite deve ter sido muito ruim mesmo! Você está até tomando café frio! – disse e ela olhou o café como se só tivesse percebido agora.
- Eca! – ela gritou praticamente e cuspiu o café de volta para o copo – A noite foi mesmo horrível, mas esse café tá pior. Não sei por que não consegui pregar o olho – ela disse, colocando o copo em cima da mesa de centro.
- Vai ver você ficou preocupada com alguma coisa – disse, levantando e indo para a cozinha fazer café para , ou ao menos tentar fazer.
- Não, essa é a parte estranha. Eu não tinha nada nos meus pensamentos, nada. Eu só não conseguia dormir – ela respondeu, me fazendo sentar para ela fazer o café e eu a olhei feio pelas costas – Não adianta me olhar feio, ! Você não sabe fazer café, só isso – ela disse ainda de costas para mim.
- Está bem, mas depois não venha reclamar – disse, fazendo pirraça.
- Reclamar do que? – ela perguntou.
- De eu não saber fazer café, oras! – respondi e ela riu.
O café ficou pronto e nós fomos sentar no sofá novamente. Ficamos assistindo The Big Bang Theory durante um bom tempo, era uma maratona. E depois de umas três horas vendo TV, minha bunda já estava quadrada e eu queria sair de casa para fazer alguma coisa.
- Vamos sair? – perguntei.
- Aonde você quer ir? – ela perguntou, encarando a TV.
- Não sei, dar uma volta, talvez – respondi e ela me olhou, desconfiada.
- Uma volta? Você já conhece essa cidade melhor do que a palma da sua mão – ela respondeu, afundando mais o corpo no sofá, por ela nós passaríamos o dia ali. Bem, por mim também, mas alguma coisa me dizia para sair de casa.
- Eu sei, mas queria dar uma volta – disse, fazendo voz manhosa.
- E você quer que eu vá com você, não quer? – ela perguntou, me olhando com nenhuma animação.
- Sim! Por favor! – disse, pulando em cima dela e chacoalhando seus ombros.
- Não, ... Mas que coisa! Eu to sentada aqui na boa e você ainda quer que eu vá lá fora com você? Não! – ela disse, fingindo uma voz firme e autoritária, mas eu a conhecia.
- Sim! Sim! Sim! Sim! – disse e levantei do sofá, mas, de repente, alguma coisa fez com que eu perdesse todo o ânimo.
- Não, , eu não quero... – ela não terminou a frase, porque eu voltei e me joguei no sofá ao seu lado.
- Perdi a vontade – respondi e ela balançou a cabeça.
- Você e sua bipolaridade um dia ainda me matam – ela disse, como se fosse engraçado e eu fingi que era e ri.
- É, vai ver que um dia isso acontece – disse e ela me olhou feio.
Ficamos mais algumas horas ali no sofá, sentadas, vendo TV. A maratona de The Big Bang Theory tinha acabado, mas começou a passar Supernatural e nós ficamos vendo, essa era nossa série preferida. Depois de algum tempo, olhou o relógio e viu que eram seis e meia. Ela não notou de primeira, mas depois lembrou do meu encontro com o garçom bonitão.
- ! – ela deu um berro e pulou pra fora do sofá - ! ! ! ! ! ! – ela continuava berrando.
- Que foi? – perguntei, meio sonolenta.
- O SEU ENCONTRO! – ela disse e eu quase tive um treco quando lembrei. Eu estava atrasada, não muito já que me arrumava rápido, mas estava atrasada.
- AAAAA! – comecei a berrar e saí correndo pela sala, entrei na primeira porta que vi e, bom, era a porta de casa. Eu estava no corredor do prédio de calcinha e uma blusa muito fina que mostrava todo o meu sutiã – AAAAA! – dei outro berro ao perceber isso e voltei para o apartamento, onde encontrei uma me olhando como se eu fosse uma... hmm... idiota! – Porta errada, hehe – falei e ela continuava me encarando com a mesma cara de bunda.
- Vamos logo – ela finalmente disse – Você vai tomar banho enquanto eu separo sua roupa. Vai, vai! – ela disse, me empurrando para dentro do banheiro – Não demore! – ela gritou quando tranquei a porta.
- Está bem! – respondi já dentro do box. Terminei o meu banho em dez minutos e fui para o quarto.
- Bem, olhe, eu separei essa calça jeans rasgada, essa blusa branca para você usar com o seu cardigã azul da VS e o seu vans branco e prata quadriculado – ela disse, me mostrado as coisas em cima da cama. realmente me conhecia melhor do que ninguém nesse mundo.
- Está perfeito, ! Obrigada! – disse, secando minhas pernas.
- Agora anda, enquanto você se veste, eu vou secar o seu cabelo – ela disse, puxando a toalha da minha mão e levado ao meu cabelo. Em quinze minutos, eu estava pronta. Bom, o cabelo levou vinte minutos já que é muito grande. Depois fui fazer minha maquiagem, passei um lápis preto nos olhos, rímel preto também, um blush rosado e um gloss transparente.
- Então? Ficou muito ruim? – perguntei a , de olhos fechados.
- Não, , você ficou linda! Agora vai que você já está atrasada – Ela disse, me puxando pela mão para a porta – Boa sorte, amiga – ela disse e eu entrei no elevador, que estava no nosso andar.
- Obrigada – disse, sentindo um estranho nervosismo.
- Use camisinha! – ela gritou antes de a porta do elevador se fechar e eu ri escandalosamente. Parece até que ela não me conhecia.
Saí do prédio sentindo uma coisa entranha no meu estômago. Eu estava nervosa. Não podia estar nervosa, era só mais um encontro com um cara, eu já havia feito isso antes, não é grande coisa. Foi com esse pensamento que fui andando até o Starbucks perto do restaurante. Cheguei em frente e pensei em voltar, mas era tarde de mais, ele estava ali e havia me visto. Ele veio até mim e me abraçou como se fossemos amigos há anos.
- Oi, – ele estava sorrindo e parecia deslumbrado. Isso era estranho e eu não gostava disso, me sentia estranha quando as pessoas olhavam assim para mim. Não que eu me ache feia ou alguma coisa assim, eu só não entendia por que as pessoas precisavam me olhar deslumbradas, eu não era uma deusa grega ou o último pote de Nutella do mundo.
- Oi, – tentei dar o mesmo sorriso alegre que ia de uma ponta a outra do rosto, mas não consegui. Minha boca nem se abriu para que ele pudesse ver os meus dentes, eu praticamente só alonguei a minha boca para cima e para a esquerda.
- Aonde você que ir? – ele continuava me olhando engraçado e sorrindo, mesmo eu tendo dado um sorriso tão amarelo que era quase laranja.
- Qualquer lugar, sério, não tenho nenhuma preferência – eu estava mentindo, eu só não queria que ele me achasse uma maluca quando eu falasse a verdade de onde eu queria ir, por que, pensem bem, soaria estranho chegar e dizer “olha aqui, meu filho, me leva no McDonald’s e ninguém sai machucado, entendeu?”. Não queria que ele pensasse que eu era uma menina da Etiópia que nunca viu um prato de comida na frente.
- Bem, já que é assim, eu conheço um lugar aqui perto bem calmo e aconchegante – ele não parava de sorrir, era incrível. – Se você quiser, podemos ir lá – calmo e aconchegante, isso me soa bem e... – Ah, sim, a comida é muito boa também – ok, que ele me interrompeu no meio dos meus pensamentos e eu odeio isso, mas só por lembrar-se de falar da comida já ganhou um ponto.
- Claro! Vamos! – eu falei, realmente animada. Sim, eu estava morrendo de fome e só sorri de verdade porque ele mencionou a comida. Quando fico com fome, fico mal humorada mesmo e daí?
Andamos pelas ruas de Paris um do lado do outro, sem dar as mãos. Ele bem que tentou, mas eu não conseguia deixá-lo fazer isso. Acho que ontem, quando disse que era um novo começo, me enganei. Paris estava linda, como sempre, o ar puro da cidade fria me fazia arrepiar e ainda assim me mantinha quente, não por fora, claro, mas aquecia a minha alma, isso soou muito clichê, porém é a verdade.
Depois de alguns minutos, uns quinze no máximo, chegamos ao restaurante. Nesses quinze minutos, passamos conversando sobre coisas banais e fúteis. Não tínhamos muito o que conversar, eu não dava espaço para que ele se aproximasse de mim, como sempre. Eu tinha medo, sempre tive de dar espaço de mais para a pessoa e ela me machucar, mesmo que fosse sem querer. Eu tive várias experiências frustradas com garotos durante a minha vida e por conta disso tenho “medo” de me entregar, envolver de mais. E na última vez que deixei isso acontecer, ele morreu tragicamente.
Entramos no restaurante e uma moça com uma camisa de botões branca e sutiã rosa choque veio nos receber. Me senti intimidada por ela, parecia ser o tipo de menina malvada estilo High School que pega no pé de meninas indefesas como eu, ou por isso ou porque ela estava babando em cima do meu homem. E cá entre nós, se eu fosse o , me largava e ia comer ela no banheiro feminino. Esse comentário é só para deixar bem claro que ela é maravilhosa.
- Mesa pra dois, por favor – parecia não estar nem ligando para o fato de a mulher estar cada vez mais perto dele, e conseqüentemente de mim, e ela ainda estava empinando o peito.
- Claro - ela nos levou para a mesa central do restaurante, literalmente, e eu sabia disso porque o restaurante era pequeno e não tinham tantas mesas assim.
- Podemos sentar naquela ali – eu disse, meio tímida e ainda amedrontada por ela. Apontei para uma mesa no outro canto do restaurante, que tinha muito menos iluminação. Resumindo era mais aconchegante.
- Ah, claro... – ela não gostou muito da idéia, mas quem liga, eu não.
Bem, vocês devem estar se perguntando onde foi parar o meu medo daquela mulher, pois saibam vocês que enquanto eu falava com ela, me puxou pela cintura e me deu um beijo na bochecha. Esse é o tipo de demonstração pública de afeto que eu não dei permissão para que ele fizesse, mas quando ele a fez, eu vi o fogo de raiva nos olhos da moça que nos atendia e como eu sou uma pessoa fria, coração de pedra e gelo, eu me alimento desses sentimentos e isso me deu confiança.
Brincadeira.
- Eu já trarei os cardápios. – E, então, ela se foi. continuava a me encarar como se eu fosse a última latinha de Coca-Cola no deserto.
- Você bebe? – ele perguntou, tirando os olhos de mim por um segundo e pegando o cardápio de bebidas que ficava na mesa.
Eu não bebia, mas não podia dizer isso. Na verdade, eu podia, mas eu não queria, se devia passar por essa noite sem parecer um robô louco que não deixa o menino sequer respirar perto do perímetro, precisava me soltar e bebida parecia o único meio de fazer isso.
- Claro! – disse um pouco alegre de mais – Quer dizer... Claro, bebo sim – boa, , agora ele vai te achar uma maluca bipolar.
- Que bom, posso pedir um vinho? – ele perguntou, folheando a carta de vinhos. Eu não gostava de vinho, mas uma cerveja não cairia mal.
- , eu posso ser sincera com você? – ele franziu a testa e ficou me olhando, eu me perdi dentro dos olhos maravilhosos que me encaravam por alguns segundos – Eu prefiro uma cerveja ou alguma coisa do gênero – disse, meio envergonhada, não queria que ele achasse que eu não tinha classe, mas se era para eu beber, que pelo menos fosse alguma coisa com a qual eu estava familiarizada.
- Graças a Deus você falou isso, eu não gosto muito de vinho também, só ia pedir porque você parece o tipo de menina que toma vinho, se é que você me entende – ele disse isso e fez uma cara tipo “mas que porra é essa que eu acabei de dizer”, mas eu entendi. Ri dele.
- Eu não sei se esse comentário é apropriado, mas a moça que nos atendeu parecia um tanto quanto interessada em você. – Espera aí! Por que diabos eu disse isso? PQP! Eu não dou uma dentro também, boa, , muito boa!
- Hã? – Parecia que ele tinha acabado de acordar de um transe mental. Sabe quando o olho da pessoa parece girar até que finalmente focaliza em você e ela acorda? Exatamente assim!
- Nada, eu só comentei que o tempo está frio – Ò, MEU DEUS! O QUE TINHA DE ERRADO COMIGO? O TEMPO ESTAVA FRIO? ELE IA ACHAR QUE EU ESTAVA TOTALMENTE ENTENDIADA! FALAR DE TEMPO É O FIM DA PICADA! TU TÁ BEM HOJE, !
- Ah, sim, está bem frio, mas eu já estou acostumado, sabe... – Ele parou de falar. Como se tivesse percebido que ia falar besteira.
- Sabe... – Eu o incentivei a continuar. Sabem nos desenhos animados quando acende uma luz em cima da cabeça dos personagens? Eu consegui ver a lâmpada se acender em cima da cabeça dele!
- É que eu morei nos Estados Unidos praticamente minha vida toda e o tempo lá também é bem frio – ele sorriu assim que terminou de falar.
Incrível como ele estava conseguindo me olhar daquele jeito terrivelmente lindo e encantador sem me deixar mais constrangida. O estranho é que mesmo eu tendo me convencido antes e ainda tentar me convencer de que eu podia seguir em frente, de que eu conseguia, não estava encontrando o que queria para seguir em frente, não que tenha algum problema com ela, pelo contrário, ele é tudo que uma menina iria querer e muito mais, o problema era eu, não conseguia me deixar levar por qualquer sensação e sempre que chegava perto disso fugia da pessoa que a havia proporcionado.
- Ah, sim, bem, no Brasil é muito quente. Principalmente no Rio de Janeiro - eu disse ainda em conflito comigo mesma. Ele me olhava carinhosamente, como se quisesse que eu continuasse, mas eu não sabia mais o que falar.
A moça, vulgo garçonete-vadia-que-queria-dar-uns-pegas-com-o-meu-homem, trouxe os cardápios e nós pedimos. O jantar foi tranqüilo, dizia algumas coisas sobre sua infância, eu fazia um comentário qualquer. Ele disse que tem uma banda com outros três amigos, que se mudou para Paris porque queria mudar um pouco de realidade, mesmo a família tendo bastante dinheiro para mantê-lo aqui, ele gostava de trabalhar. Se eu disse alguma coisa sobre a minha vida? Não, fiquei quieta, apenas disse que era meu sonho vir morar em Paris desde pequena.
E assim se seguiu o nosso jantar, tomamos várias garrafas de cerveja e eu agradeci por ele não ter vindo de carro. Eu já estava completamente alta quando saímos do restaurante, assim como ele. Fomos caminhando até a minha casa que não era tão longe assim dali.
- Bem, está entregue – disse , rindo um pouco mais que o necessário e eu o segui. Ah, o álcool.
- Obrigada pelo jantar, estava maravilhoso – disse isso e um silêncio entranho se instalou entre nós. ia se aproximando lentamente, como se tivesse medo que um movimento errado me fizesse sumir. Quando chegou perto o suficiente para que nossas respirações se misturassem, ele colocou uma mão na minha cintura e puxou meu corpo para ainda mais perto, grudando nossos lábios. Nos beijamos por apenas alguns minutos, e por pior que pareça, eu não consegui sentir nada. Eu tentei, juro que tentei, mas nada aconteceu, nada...
Ele se afastou sorrindo divinamente e eu não pude evitar sorrir também, apesar de tudo. Os olhos dele brilhavam e eu sentia os meus mais opacos do que nunca, era deprimente ver a felicidade dele e saber que eu não estava conseguindo retribuir. acabaria sendo mais um casinho meu que não duraria mais de um mês. Isso me deixava triste, porque eu sabia que ele era tudo que eu sempre sonhei.
- Eu te ligo – ele disse, sorrindo maravilhosamente e eu acenei com a cabeça. Dei um beijo na bochecha dele e caminhei de volta pela entrada do meu prédio. Antes de passar pela porta, olhei para trás esperando que ele não estivesse lá e ao mesmo tempo morrendo para que ele estivesse, e bem, ele estava lá, sorrindo e com os olhos brilhantes como sempre. Sorri e entrei pela porta. Eu devia dar uma chance a ele, eu devia me dar uma chance.
Continua...
N/A: Oii, atualização pequena e rápida pq eu ando meio sem tempo, qualquer coisa já sabem @carolinadiias / @mcfanPOV ou então tumblr
BeiJones
Nota da Beta: Olá, caso você encontre algum erro nessa fiction, me notifique pelo e-mail. Por favor, não use a caixa de comentários com essa finalidade. Obrigada.