
"Algumas coisas, por mais impossíveis que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas pra um dia dar certo." - Caio Fernando Abreu.
001
Para: .
De: .
Assunto: Veneza!
E aí? Já chegaram a Veneza? Está quente como imaginávamos? E as gôndolas, são mesmo incríveis, não são? Lembro quando o me levou aí, em nossas férias do ano retrasado, foi o dia mais feliz da minha vida. Sem contar as inúmeras vezes em que fizemos amor, juro, achei que fosse morrer de tanto tesão. Opa, não deveria estar falando da minha vida sexual e, sim, da sua. Então, Veneza já inspirou vocês? O workaholic do conseguiu largar do trabalho por um segundo para dar atenção à noiva dele? Sabe, ainda acho que você devia investigar aquele escritório. Ele só pode ter um caso e, tenho certeza, é com o Firman. De qualquer jeito, estou com inveja de você, não por causa do - Deus sabe que disso não tenho inveja nenhuma - mas de estar na calorosa Veneza, enquanto eu estou aqui trancada nesse escritório e abandonada pelo meu namorado.
tinha mesmo que ir para a Irlanda? Que saco! Ah, ele te mandou um beijão e falou que você não pode deixar de visitar a Basílica de São Marcos! Não deixe mesmo, é perfeito lá, coisa que a gente só vê em cinema! Pronto, já falei demais.
Te amo,
PS: Aproveite, Veneza é o lugar para tirar o atraso! Mas, por favor, previna-se. Não quero você parecendo um bombom recheado dentro do vestido de noiva, se é que me entende!
Para: .
De: Ben Sullivan.
Assunto: Sexo em Veneza!
Diz que você está dando horrores aí em Veneza! DIZ! Agora me diz por que você ganha o cara rico e eu, o fodido? Porra, por que o Sebastian nunca me leva a lugar nenhum? Acredita que ainda estou pagando essa viagem para Veneza que banquei a ele no ano passado? É, acredite! E sabe o lugar mais longe daqui de casa que ele já me levou? O pub da esquina! Por favor, me mate!
PS: Responde logo e, de preferência, em forma de conto erótico, incluindo todos os pontos turísticos excitantes nos quais vocês já transaram!
Love U!
Ben.
#
Ok. Mantenha a calma e respire. Não entre em pânico. Isso. Nada de histeria. Mantenha o controle. Lembre-se de suas tardes perdidas nas aulas de ioga. Inspire e expire.
Mentalizei aquilo pela milésima vez em vinte minutos. Ainda não era capaz de acreditar no que estava acontecendo. Só de pensar nos dias, horas, minutos e segundos que eu tinha perdido planejando aquela viagem, todas as roupas quentes que estava levando, pensando que iríamos passear nas gôndolas durante toda a tarde na calorosa Veneza, os museus e galerias de arte que eu tanto queria conhecer. Só de pensar em tudo aquilo, meu estômago revirava. Onde eu estava com a cabeça quando pensei que o iria me levar para algum tipo de viagem romântica? Qual é, é o ! O meu tão ocupado e trabalhador noivo, que tem como exemplo de momento romântico dividir uma cerveja comigo enquanto ele analisa pilhas de processos.
Tudo bem. Superarei não ter ido para Veneza, mesmo que isso pareça impossível nesse momento, mas, ainda assim, LAS VEGAS? Ele realmente me trouxe para Las Vegas? Algumas semanas antes da gente se casar? Porra, eu só queria ir à Veneza! É a mesma coisa que ir ao quintal de casa. Não que eu tenha algum quintal, porque, primeiro: não moro em casa. Segundo: moro em uma quitinete mínima. O que, resumindo, quer dizer que o meu chuveiro fica na minha cozinha e meu fogão, no meu quarto. Enfim, o que estou tentando dizer é que não é como se fosse algo impossível. Não sobre a quitinete, porque morar lá é mesmo impossível, mas sobre Veneza! Tá, talvez não seja tão perto assim, mas Las Vegas é em outro continente! Por Deus! Aquilo não podia ser por falta de locomoção, ou tempo, ou sei lá o quê! Era por total falta de noção do . e sua falta de romantismo.
Naquela manhã, ele me pegou em meu apartamento - quero dizer, quitinete -, fomos até o aeroporto e ele não quis me dizer para onde estávamos indo. Lembrei-me das horas que eu e , minha companheira de apartamento (Dá pra acreditar? Somos capazes de dividir um cubículo daquele para nós duas. Acho que é por isso que nos damos tão bem!) e melhor amiga, perdemos imaginando que, com certeza, ele me levaria para Veneza. E nas outras mil horas em que o Ben tentou me ensinar posições e lugares exóticos para se fazer sexo por lá. Porque quando se está em Veneza, você é logo contaminado pelo vírus do tesão. Pelo menos, foi isso que ele me disse que sentiu quando viajou para lá com o Sebastian, seu gostoso namorado porto-riquenho.
E agora? O que eu iria dizer a eles? Como ia contar o que o meu noivo insensível tinha feito? Eu sei que o nunca deu a entender que estaríamos indo para Veneza, mas qual outro lugar romântico o noivo poderia levar sua noiva semanas antes do casamento? Nenhum outro. Mas pelo visto, pensava diferente. É esse o tipo de "Surpresa incrível que você vai adorar, !" que ele tinha em mente? É? Bem, está na hora de você rever seu nível de incrível, .
— Só um minuto, Firman. – tampou o fone do celular e bateu no vidro que separava nós dois do motorista do táxi. — O endereço do hotel está aqui. - disse, entregando um cartão ao homem. — Nos leve direto pra lá, ok?
— Sim, senhor.
O taxista olhou para mim, pelo retrovisor. Aquele olhar de quem diz: "Pobre moça! Está ferrada com esse aí!", e sorriu tentando mostrar sua solidariedade. Bufei e o ignorei. Eu já tinha pena o suficiente de mim, não precisava da dele.
— Você vai adorar o hotel, . – sorriu para mim por um segundo, depois voltou a atenção para o celular. Ele parecia aborrecido com alguma coisa que não estava dando muito certo no trabalho, o que não era novidade.
Eu e o havíamos nos conhecido três anos atrás, em um coquetel que seu escritório de advocacia ofereceu a alguns dos mais importantes advogados de Londres. Não que eu entendesse muita coisa que estava acontecendo por lá, eu não sou advogada nem nada parecido, mas aquelas tinham sido as palavras da - que é uma advogada super competente - e ela me obrigou a ir ao coquetel naquele dia. Segundo , aquela era a melhor maneira de eu esquecer o pé na bunda que tinha levado do Scott, um fotógrafo americano de quinta que eu conheci e logo me levou o coração, o dinheiro e, de quebra, o meu Fênix. Fênix era um abajur meio tosco, que passou em todas as gerações da minha família, mas pelo qual, ainda assim, eu tinha muito apreço. E ninguém me convence de que não foi o Scott-Looser que o levou, provavelmente deve tê-lo fumado. Pobre Fênix. E pobre de mim, que tive praticamente que vender muita coisa do meu antigo apartamento para poder me livrar das dívidas que o adorável Scott tinha feito em meu nome. Motivo esse pelo qual eu fui morar na quitinete com a e, sei lá, meio que me acostumei com nós duas morando juntas por tanto tempo que não penso mais em sair de lá. A não ser, é claro, agora que vou me casar.
Enfim, tinha escolhido a profissão certa, nunca havia conhecido ninguém que fora capaz de lhe dizer um não. E eu, logo eu, não seria essa pessoa. Acontece que dizer "não" é algo meio difícil para mim. E quando você cresce, descobre que pode pôr a culpa dessa sua falta de personalidade em seus pais, que provavelmente lhe educaram para ser explorada. E eu me lembro muito bem de sempre ser a garçonete nas festas de família ou a que tinha que lavar a louça. Meu Deus, eu me arrepiava só de pensar naquelas vagas lembranças da minha esquisita família. Então, no fim, lá fomos nós. Ela me produziu tanto naquela noite que, às vezes, penso como é que o ainda não teve vontade de me "devolver". Sabe como é: "Ei, senhorita , acho que comprei gato por lebre, e aqui está sua feia e estranha lebre de volta!". Mas o nunca pensou em fazer isso ou, se pensou, soube muito bem fingir que não.
Logo de cara, eu havia achado o lindo. Também, era impossível não achar isso quando o vi dentro de um terno de risca, em corte perfeito, com aquele corpo incrível. Foi ainda mais impossível quando ele se aproximou e vi o quão eram seus olhos. Para completar tudo, ele me disse: "Disfarce mais, dá pra ver de longe que você está adorando a noite.", e me mostrou aquela fileira de dentes brancos e bem alinhados, e eu senti as minhas pernas tremerem. E em um reflexo bobo, olhei para trás, só para ter certeza de que era comigo que ele estava falando. Lembro-me de ter pensado que eu queria dar para aquele homem ali mesmo! Mas, segundo o Ben: "Se você quer segurar um cara, segure a periquita também". Então eu fiz um esforço e resisti.
Em toda a minha vida, nunca imaginei que fosse encontrar alguém como ele. passou toda a noite conversando comigo, e quando lhe disse para ir fazer o seu trabalho, ele me respondeu que naquele instante eu era mais importante do que um monte de homens velhos e engravatados, discorrendo sobre códigos e leis. Outra tremedeira nas pernas. Ele era lindo, gostoso e totalmente desligado do trabalho. E o melhor: tinha ido falar comigo. Homens como aquele não falavam comigo nas festas. Não que eu fosse o rascunho do cão ou algo assim, é que estava tão traumatizada com o Scott-Looser que, para mim, era nível alto demais. O fato era: como eu seria capaz de não me apaixonar por ele? Conversamos, sorrimos e trocamos telefones. No dia seguinte, ele ligou; no outro, também. No fim de semana, saímos juntos. Nosso primeiro beijo. Na outra semana, o segundo. No outro mês, tempo que eu considero o suficiente para se mostrar que é uma moça de respeito, o melhor sexo da minha vida. E três anos depois, aqui estamos nós, noivos, e eu não consigo nem acreditar.
Fui capaz de ver tudo outra vez, bem ali na minha frente. Seus olhos brilhando, nós dois no restaurante em que tinha acontecido nosso primeiro beijo, que, diga-se de passagem, ele fechou somente para nós dois. No fundo, Scorpions cantava “You and I”, fazendo a trilha sonora perfeita no exato momento em que se ajoelhou e disse: ", você quer se casar comigo?". Aquilo tinha sido o meu sonho durante três anos, que, três meses atrás se tornara pura realidade. Isso para não contar os anos antes de conhecê-lo. Esperando o príncipe encantado que custava a chegar e só mandava os cavalos. sorriu para mim, seu sorriso que eu tanto amava, e não havia nada mais a dizer, a não ser: “Aceito!”.
Olhei para ainda gritando ao telefone, fazia tanto tempo que não o via sorrir! Ele havia se tornado mais sério, menos divertido e mais preocupado com o trabalho do que eu pensei que ele fosse naquele dia em que nos conhecemos. Mas ainda assim, eu o amava. era o cara certo para mim. Todas as pessoas o adoravam, não foi diferente quando o apresentei a minha mãe e meu pai - eles se encantaram completamente por ele. Sem falar no Ben! Até pensei que, no fundo, ele queria mesmo era que fosse ele a noiva. Sorri. Apenas a não era tão fã assim do , mas a sempre gostou de ser do contra.
Já estava quase anoitecendo quando o taxista anunciou que, em breve, chegaríamos ao hotel. Eu ainda estava indignada por não estar em Veneza, mas ao ver todas aquelas luzes de Las Vegas, passei a entender porque aquela cidade era conhecida como "O Parque de Diversões da América". Ali tudo era brilhoso demais, chamativo demais e, pelo visto, caro demais - a não ser por mim.
— Chegamos, senhor. – o taxista disse, assim que parou o carro no estacionamento.
Olhei pela janela do carro e perdi a fala assim que vi aquele hotel luxuoso e gigante diante dos meus olhos. Lembrei-me do dia em que vi uma foto do e sua família na primeira página do London Journal e descobri o quão rico de verdade era. Aquilo tinha sido um golpe fatal em mim. Eu sabia que não ia dar certo entre a gente. A velha história do milionário com a plebeia, que nunca terminava bem. Foi uma semana inteira ignorando as ligações do , tentando fazê-lo entender que não daria certo. Mas nesse ponto, a foi maravilhosa. Ela me disse que, mesmo não gostando de muitas coisas no - é claro que ela não ia perder a chance de salientar isso - não podia negar que ele realmente me amava e que se eu pensasse em desistir naquele momento, somente por nossa diferença de status, eu estaria sendo estúpida. O Ben, como sempre, foi mais direto: "Mas que porra! O homem é bonito, gostoso e agora, milionário. Qual o problema de vocês mulheres? Não vê,
?! É sua chance de deixar de vender o almoço para comprar a jantar, aproveita, Cinderela!".
No começo, não foi fácil. Ao contrário de , , sua mãe, não é lá muito humilde. "Você tem certeza disso, ? É isso o que você quer para seu futuro?" Lembrei-me da voz fria dela no dia em que ele lhe contou que me pedira em casamento. Se dependesse da , ele teria escolhido um partido melhor. Coisa que eu também a ouvi dizer certa vez, já que ela não fazia muita questão de sussurrar ou dizer em lugares privados para eu não ouvir. Mas o jamais deixou que isso nos afetasse, porém quando me vi ali, diante daquele espetáculo de água, luz e som que saía das fontes de frente para o Bellagio, eu estava começando a mudar de ideia.
— Firman, um minuto, ok? – tocou meu braço, então me virei, e acho que o assustei com a minha expressão. Por que eu não sabia disfarçar a minha pobreza? — Você não gostou? - se eu não gostei? Meu Deus, aquele era um dos lugares mais lindos em que eu já tinha estado, se não fosse o mais. E por alguns instantes cheguei até a esquecer minha chateação por não estar em Veneza.
— Gostei, claro que sim. – sorri e segurei sua mão. me olhou por alguns segundos, provavelmente procurando por algo que denunciasse o contrário, mas depois que não encontrou, sorriu.
— Só estou impressionada, é isso. - riu.
— Será que tenho chances essa noite de impressioná-la mais do que o Bellagio? – ele fez um bico fingindo estar magoado e eu prendi o riso. — Sei não, acho difícil. – sorri e o puxei para um beijo. Eu adorava beijá-lo. Os lábios de eram macios e nossos beijos eram sempre carinhosos e gentis, como uma brisa calma e leve.
— Droga! – bufei, quando ouvimos os gritos do sócio dele ao telefone. — Será que você não vai desligar esse celular nunca?
— Desculpa. – ele fez uma careta e passou a mão pelo cabelo. — Já estou terminando, ok? Enquanto isso, você pode ir assinar os papéis da nossa entrada. – ele sorriu como se aquilo fosse a opção mais divertida para mim no momento. Ah, claro, adoraria. notou o meu olhar e disse baixinho, de um jeito meigo: — , prometo que essa será uma viagem inesquecível.
Dei um meio sorriso e peguei a minha bolsa. Não é só porque ele errou no destino ou que, no momento, o Firman estava sendo um bom empata foda - literalmente - que seria uma viagem ruim. Eu conhecia o , e ele faria de tudo para me ver bem. Era isso, não iria desanimar. A viagem seria perfeita, eu e o , juntos, sem ninguém para atrapalhar.
Olhei sorridente para a entrada luxuosa do Bellagio, aquele sorriso de quem tem certeza de que tudo vai ficar bem. E ia.
002
Para: .
CC: Ben Sullivan.
De: .
Assunto: RE: Veneza!
Lembram quantas vezes vocês me disseram que Veneza é linda e o quanto eu ia adorar? É, IA. Do verbo: SÓ SE FOR EM OUTRA ENCARNAÇÃO! É, isso aí. E sabem por quê? Porque o , o meu noivo ultra-romântico, não me levou para Veneza. Ah, não! Ele me trouxe para um lugar muito melhor! Las Vegas. Não, vocês não leram errado, e eu não estou drogada e delirando - antes estivesse! Foi para VEGAS, sim! Meu Deus, ele me trouxe para a única cidade no mundo na qual ser virgem deve ser considerado pecado. Sem falar na quantidade de peitos (leia-se: silicones) de fora por m², é sufocante! Sério, Ben, você iria ficar enjoado. Ontem à noite, quando saímos pra jantar, é claro, depois de eu ameaçar o com uma greve de sexo se ele não desligasse a porra do celular - pronto, , pode comemorar agora, a aposta que tenho certeza que você deve ter feito com o - fomos a um restaurante aqui perto do Bellagio. Ah, isso é outra coisa que me esqueci de comentar, estamos no BELLAGIO! Sim, o mesmo hotel onde foi gravado
Onze Homens e Um Segredo. Pena não ter encontrado o Brad Pitt por aqui! Pelo menos o não seria o único a se divertir. Por falar nele, quando é que vou parar de me surpreender com o lado multimilionário do ? É demais pra mim. Mas enfim, o fato é que, quando fomos jantar, eu me senti em uma vitrine de bordel com todas aquelas mulheres nuas. Agora me diz, qual é o noivo que, em sã consciência, leva sua noiva para um lugar desses e não quer que ela pense que ele é um pervertido idiota? Ok. Peguei pesado com , eu sei. Se querem saber, não está tão ruim assim. Tudo bem que eu meio que me traumatizei ontem, mas hoje foi diferente. Nós tomamos café na cama, e ele foi um amor. Deixou o celular desligado todo esse tempo, e ficamos na cama até o meio-dia. Nosso recorde, já que o nunca consegue ficar além das nove na cama. Depois, almoçamos no restaurante do hotel. Acho que ele percebeu o meu desconforto ontem e, depois disso, está fazendo de tudo pra gente não precisar sair do Bellagio - não que precise, aqui tem praticamente TUDO -, e a comida é maravilhosa. Agora estamos aqui, curtindo o fim de tarde na piscina. Apesar de não estar na linda e incrível Veneza, até que Vegas não é tão ruim assim. Agora, tenho que ir. O está saindo da piscina! Ele fica tão gostoso só de sunga! Ben, não imagine, ok? Ele é MEU noivo!
Amo vocês.
.
#
Desliguei o BlackBerry e olhei para o , que vinha sorrindo em minha direção. Duas mulheres deitadas nas esteiras de tomar sol praticamente engoliram com o olhar, fazendo-me sorrir. Eu não as culpava. Era impossível não devorá-lo com os olhos. era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto em toda minha vida, e seu sorriso era de enlouquecer qualquer mulher. Mas seu sorriso era todo meu, era para mim que ele olhava enquanto andava, não para todas as outras que o desejavam. Talvez por isso eu não tivesse ciúmes do , sabia que podia confiar nele. E isso era uma das coisas que mais gostava em nossa relação. Eu confiava nele e ele sabia que também podia confiar em mim. Não havia espaço para ciúmes entre a gente, nem para desconfiança. dizia que isso era sinal de falta de amor e excesso de comodidade, mas eu não dava muita bola para o que a dizia a respeito do . Ela sempre achava um jeito de implicar com ele.
— Você perdeu a piscina, meu amor. A água está uma delícia. – sorriu e se debruçou sobre a espreguiçadeira para me beijar. Em reflexo, joguei meus braços ao redor de seu pescoço, e me arrepiei quando o seu corpo molhado entrou em contato com minha pele quente. — Retiro o que eu disse, aqui está melhor.
— De verdade? – mordi o lábio inferior dele de leve e puxei, sorrindo em seguida.
— De verdade! – segurou meu rosto e me beijou terno.
Sorri e ele se sentou na ponta da espreguiçadeira, enquanto fazia carinho em minha perna.
— Então, qual é a programação de hoje? – perguntei, já meio apreensiva.
— Hoje, vou levar você para jantar.
— Ah, não, , por favor! Já vi silicones o suficiente pra uma vida. – fiz uma careta e ele gargalhou. Se eu visse mais peitos em minha frente, estava correndo seriamente o risco de virar lésbica! Então, não, obrigada.
— Pode ficar tranquila. Nesse jantar, seremos somente eu e você. – ele deu um sorriso malicioso e brincou com o laço da parte debaixo do meu biquíni. E eu logo entendi o que ele queria dizer com “somente eu e você”. OMG! Eu não via a hora daquele jantar! Para falar a verdade, pensava mais na sobremesa. Afinal, qual a graça de vir para Las Vegas e não ter uma noite quente de muito sexo? Sem falar que graças às milhares de reuniões do e às minhas noites perdidas na editora, há muito tempo eu não sabia o que era uma noite quente. E eu estava louca para relembrar. Ei, ! Dispenso o jantar, me dê logo a sobremesa!
Ficamos na piscina por mais algumas horas, até que sugeriu que fôssemos descansar para o jantar de mais tarde. Depois, enquanto ele dormia, aproveitei para tomar um banho demorado na banheira. Achei uns sais novos que a camareira provavelmente tinha reposto, depois de eu ter gastado todos os frascos na noite passada. Às vezes, eu achava que a banheira do Bellagio - que mais parecia uma piscina - era o melhor lugar de todo o hotel. Talvez fosse porque eu estava acostumada com o meu chuveiro, que um dia estava frio e no outro, congelando.
Perdi a noção de quanto tempo fiquei ali aproveitando aquela água quentinha e perfumada. Aquilo, com certeza, estava no topo da minha lista de prazeres, quase colado ao brigadeiro e à torta de morango com chantilly, e só voltei à orbita quando ouvi a voz de me chamando do outro lado da porta.
— Amor? – ele tinha que atrapalhar o meu momento de diva. — Você tá aí?
— Já estou saindo! – bufei.
— Ok.
Enrolei mais uns cinco minutos, mas conhecendo o , eu sabia que ele já devia estar impaciente, então me levantei da banheira, me sequei e me cobri com o roupão do hotel. Meu Deus, aquilo era praticamente um cobertor felpudo!
— Pronto, o brigadeiro é todo seu! – eu disse ao abrir a porta e encontrar um inquieto, como imaginava. Ele me olhou confuso, e eu sorri. — Ande logo, vá tomar o seu banho, vou me maquiar. Ele sorriu e caminhou até mim. Seu sorriso se tornou malicioso assim que ele pousou suas mãos em meu quadril.
— O que você acha de tomar outro banho? – beijou o meu pescoço e um arrepio excitante percorreu meu corpo. Naquele instante, eu queria que ele tirasse o meu roupão e fizesse o que eu vinha desejando há quase um mês. Noivos milionários e bem sucedidos deveriam vir com uma advertência no manual: "Atenção, você corre o risco de ficar subindo pelas paredes por falta de tempo disponível!". Mas de qualquer forma, eu já tinha esperado tanto, qual seria o problema de esperar mais algumas horas? Só tornaria tudo ainda melhor.
— E o que o senhor acha de parar de me provocar, – segurei o rosto dele com uma mão, apertei-o e ri ao vê-lo fazer bico — e tomar logo seu banho para a gente ir comer?!
— Mas eu prefiro comer o que tem aqui! – ele riu quando percebeu que eu havia entendido o duplo sentido implícito em sua frase.
— Tarado! – rimos. — Então tome um banho rápido, que a gente vai logo jantar, porque eu estou faminta.
— E na volta? – ele afastou o meu roupão e beijou o meu ombro.
— Na volta, eu prometo deixar você comer a sobremesa na cama. – sussurrei em seu ouvido.
Rimos ainda mais com minha frase e me deu um beijo leve nos lábios.
— Depois eu é que sou o tarado. – ele me soltou e foi para o banheiro.
Comecei a me maquiar e senti meu estômago roncar. Eu estava mesmo para morrer de fome. Lembrei-me do mini-bar que havia no hall de entrada da suíte. Lá, com certeza, teria alguma coisa para eu comer, nem que fosse só amendoim e chocolate. Àquela altura, qualquer coisa era um X-bacon. Mas ignorei a ideia assim que vi o meu vestido preto esticado sobre a cama. Era bom que ficasse sem comer, pelo menos assim, talvez, eu conseguisse entrar nele. Sorri ao me lembrar daquele vestido, eu o tinha comprado - em cinco vezes, diga-se de passagem - para usar no primeiro encontro oficial com o . Claro que, na época, comprei com uma dor no coração, achando que era um desperdício gastar aquela fortuna toda com um encontro que provavelmente daria em nada. Sorri outra vez. Nunca pensei que, três anos depois, eu o usaria de novo, ainda mais noiva do próprio . Hoje era a ocasião perfeita para usá-lo: eu queria estar incrível naquela noite, na qual seríamos, finalmente, depois de tanto tempo, somente eu e ele. Ainda que, para isso, eu tivesse que passar fome até a hora do jantar.
— Eu não canso de dizer o quanto você está linda! – disse, fechando o zíper atrás do meu vestido assim que terminou de se arrumar.
— E tudo isso só pra você! – me virei e beijei seus lábios macios.
— Esse vestido é lindo. – ele me fitou encantando e eu sorri. Tinha certeza, aquela noite seria perfeita. — É novo?
Ok, não tão perfeita assim. Respirei fundo e tentei bloquear a sensação de desapontamento que insistia em dar as caras logo naquela hora.
— Você está bem, meu amor? – me encarava com aflição. — Foi algo que eu disse?
Eu não o culpava, claro que não. Quero dizer, qual o cara na face da Terra que vai se lembrar do vestido que sua noiva usou no seu primeiro encontro, há três anos? Nenhum! Não nesse planeta.
— Não, não foi nada. – menti. — Então... Vamos comer? – sorri meio fracamente, tentando ao máximo disfarçar minha decepção. Pelo menos ele tinha me achado linda.
Peguei minha bolsa sobre a cama, me esperou sair do quarto, e passamos pelo hall. Já estávamos na porta da suíte quando o telefone dele começou a tocar. me olhou sem jeito e hesitou em pôr a mão no bolso.
— Tudo bem, você não o atendeu o dia todo. Pode atender, eu espero.
Espera?! Como assim, espera? Garota, seu estômago está praticamente fazendo autofagia! Você está desmaiando de tão oca por dentro e vem com essa de "eu espero"? Quem você pensa que é? Madre Tereza de Calcutá, pra fazer jejum em prol dos outros?! Qual é!
Ignorei meu subconsciente e me sentei no sofá enquanto foi para a varanda atender a ligação. Dez minutos depois, o que para mim pareceu a eternidade, voltou. Procurei o resto de entusiasmo que ainda me restava, mas assim que ele pousou seu olhar sobre mim, eu sabia que não era o entusiasmo que eu devia buscar e sim, a calma. Muita calma, neste caso.
— Sinto muito. – seu olhar era cheio de culpa e sua voz pareceu fraca.
— Tudo bem, não demorou tanto assim, ainda estou viva. – sorri meio nervosa, implorando a Deus para que ele estivesse se referindo somente ao fato de ter ido atender ao telefone. — Então, vamos jantar?
— , eu não sei como te dizer isso, é...
— Ok, que tal deixar pra você dizer o que tem pra dizer enquanto a gente estiver comendo? É que eu estou mesmo faminta, . – mordi o lábio e me levantei, evitando o seu olhar carregado de "sinto muito".
— ...
— Você viu minha bolsa? Estava aqui agora!
— Está aí do seu lado.
— Ah! – ri nervosa e peguei a bolsa. — Pronto, vamos!
— , eu tenho que ir embora.
Fiquei atônita, esperando que ele dissesse que só estava brincando, uma brincadeira de muito mau gosto, mas, ainda assim, uma brincadeira. Esperei dois, três, dez segundos. Nada.
— Como é que é? – não dava mais para eu fingir e tentar fugir da situação. Ele tinha feito o favor de despejá-la assim, de vez.
— Aconteceu um problema no escritório, uma audiência que só era pra semana que vem, mas foi antecipada para amanhã ao meio dia.
— Então a gente janta rapidinho. Depois voltamos, arrumamos as coisas e vamos amanhã mesmo pela manhã.
— Não posso, . Você sabe que daqui para Londres são mais de oito horas de vôo, e eu preciso chegar lá antes da audiência, não em cima da hora. – ele me encarou, mas acho que o meu olhar perplexo foi demais para ele, que logo fitou outro ponto que não fosse eu. — E tenho uns papeis para revisar com o Firman, eu preciso ir agora.
— Agora? Como assim, agora? E eu? E nós? – o choro começava a aparecer no fundo da garganta, e meus olhos ardiam como brasa.
— Olha, eu sinto muito mesmo. – ele disse encarando o chão, depois foi até o quarto e, quando voltou, estava com sua mala na mão e algumas blusas. — O Firman me ligou dizendo que conseguiu uma última poltrona no último vôo que sai daqui a vinte minutos e eu tenho que correr para o aeroporto. Mas amanhã eu falo para a Megan te ligar e providenciar sua passagem logo cedo. E não precisa se preocupar, a conta do hotel já está paga até o fim de semana, caso você queira ficar.
Caso eu queria ficar? dizia tudo de vez, enquanto ia ajeitando sua mala e mexendo em alguns documentos em sua pasta. Ele dizia tudo aquilo como se dissesse: "Ei, amor, vou ali ao banheiro e volto, me espera!" Meu Deus, qual era o problema com aquele homem? Era a NOSSA viagem! O momento em que finalmente ficaríamos juntos depois de tantos dias tumultuados por causa de seu trabalho idiota, e agora ele vinha com essa? Ele queria eu entendesse que ele tinha que ir embora e me deixar sozinha em LAS VEGAS? Era isso?
— Por que você não pode ficar? – esperei que a vontade de chorar passasse, que o bolo que estava se formando em minha garganta diminuísse, mas não adiantou. Eu já estava aos soluços quando continuei. — E não me diga, , que não tem ninguém naquele escritório para te substituir.
— Mas, , realmente não há. – me encarou, agora a culpa dando lugar à pena que ele começava a sentir de mim por conta do meu choro infantil e descompassado. — ...
— NÃO ME VENHA COM ""! - gritei quando ele ameaçou se aproximar de mim. Eu não podia mais controlar a minha raiva. As lágrimas desciam quentes, fervendo junto com minha fúria. — Meu Deus, , você é o dono daquela droga, não é possível que você não possa ter uma semana de folga com sua NOIVA!
— ...
— DROGA!
— Sinto muito. – ele me olhou mais uma vez, depois fitou o relógio em seu pulso, pegou a mala sobre o sofá e colocou a pasta debaixo do braço. — Tenho que ir.
Foi tudo o que ele me disse antes de atravessar a porta e fechá-la. No mesmo instante, eu peguei um enfeite de vidro brega que estava sobre o centro da sala e joguei contra a porta.
— VAI, , E APROVEITA E VAI SE FODER TAMBÉM!
Segundos, minutos, horas, whiskys, vodkas, tequilas e conhaques depois, eu peguei o cartão da suíte do hotel e saí. Eu precisava urgentemente esquecer tudo aquilo. Precisava esquecer que tinha sido esquecida pelo .
003
Uma pontada forte atingiu minha cabeça em cheio. Parecia que alguém a estava chutando aos poucos, fazendo questão de que eu sentisse cada chute. E quando os raios de sol bateram fortes contra os meus olhos, ainda fechados, a dor aumentou. Passei a mão pela cama à procura do para que ele se levantasse e fechasse a cortina. Provavelmente ainda era muito cedo, e a gente podia ficar mais tempo na cama, aproveitando juntinhos aquela manhã. Mas ao ouvir o barulho do chuveiro, deduzi que ele estivesse no banho. Sorri. nunca conseguia ficar muito tempo na cama, nem mesmo quando eu tentava convencê-lo descaradamente. Acontece que o ... Espere aí! Então, como em um relâmpago, imagens começaram a surgir em minha frente. Primeiro, dizendo que teria de ir embora. Segundo, nossa briga. Terceiro, ele batendo a porta do quarto do hotel e, por fim, ele indo embora de Las Vegas e me deixando sozinha.
Sentei-me de vez na cama e logo me arrependi. Minha cabeça deu uma volta de 360º graus e eu me senti em uma montanha-russa de lembranças confusas e borradas. Forcei meus olhos a se abrirem de vez e percebi que não tinha a menor ideia de que lugar era aquele no qual estava. O quarto daquele hotel estava longe de ser o do Bellagio. Era muito menor; apenas a cama, um sofá sem muito luxo e uma televisão do tamanho de um microondas já ocupavam todo o espaço ali. Olhei para porta do banheiro, estava fechada e o chuveiro, ainda ligado. Se o tinha ido embora, então quem estava tomando banho? Oh, meu Deus! Eu não tinha feito o que eu estava pensado que fizera, tinha ?
É claro que não teria feito nada demais. Eu amava o . Jamais faria algo daquele tipo com ele. Nunca . Mas quando vi minhas roupas espalhadas pelo chão e me dei conta de que estava somente de calcinha - diga-se de passagem, fio-dental - minhas esperanças começaram a ir por água abaixo. Oh, meu Deus: eu tinha traído o . O meu lindo e incrível . E pior, com um completo desconhecido.
Levantei-me da cama com tudo, fazendo um esforço enorme para ignorar a ressaca que me deixava tonta e o resto de álcool que ainda sobrava em meu sangue, e corri atrás do meu sutiã. Onde aquela droga tinha ido parar? Procurei no sofá, entre os lençóis, debaixo da cama; nada. Do chuveiro, começou a vir uma voz grave cantarolando uma musica qualquer. Eu precisava sair dali antes que o meu parceiro de crime surgisse e aquela situação se tornasse ainda mais embaraçosa. Tentei me apegar ao fato de que com certeza tinha coisa muito pior do que acordar em uma cama de hotel com um cara desconhecido. É claro que existia, ouvi minha consciência dizer ao fundo, como, por exemplo, ser noiva e acordar na cama de um desconhecido.
Bufei. Isso lá era hora para aquela porra de consciência aparecer? Procurei outra vez debaixo da cama, nada. Olhei ao redor e quase não acreditei quando o vi pendurado no ventilador do teto. Oh, meu Deus! O que tinha acontecido naquele quarto, na noite passada? Aliás, o que tinha acontecido na noite passada? Subi na cama e tentei pegar o meu sutiã, o que logo percebi não ser tão fácil assim, considerando minha altura. Desci da cama e vi minha sandália, peguei-a e tentei, com o salto, arrancá-lo de lá, enquanto outras lembranças começavam a voltar. Eu bebendo toda a vodka, whisky, tequila e muitas outras coisas bem alcoólicas do frigobar do quarto no Bellagio. Depois, eu descendo para o bar de lá e, dessa vez, bebendo mais whisky. Talvez eu tenha ido a algum pub ou coisa assim? Meu Deus, me diga que eu não subi em um palco e cantei "Like I Virgin"! Oh, Deus, eu cantei. Aquilo era muito pior do que eu imaginava.
Com muito esforço, consegui tirar o sutiã do ventilador e resolvi bloquear a minha mente para que eu não tivesse a menor ideia de como ele tinha ido parar ali em cima. Tudo já estava ruim o bastante, obrigada. Ajeitei o bustiê no abdômen e lutei para prender as presilhas entre os seios. A única lembrança clara de fato era minha briga com , então ele indo embora. Senti um aperto no peito. O que eu tinha feito? Engoli em seco e suspirei. Tinha de deixar o remorso para depois, antes, precisava sair dali. Peguei meu vestido em cima do sofá e com muito sacrifício o joguei sobre a minha cabeça e me contorci o suficiente para ele escorregar até a minha cintura. Levei meus braços às costas e tentei prender os fechos e o zíper da parte de trás. Então, o chuveiro desligou.
Disparei pelo quarto atrás das minhas sandálias e minha bolsa, segurei-as em uma mão e, com a outra, segurei a parte de cima do vestido que não tinha conseguido fechar. Corri desesperada até a porta. Havia coisas piores do que ser noiva e acordar na cama de um desconhecido. Tinha de haver! E assim que eu chegasse ao Bellagio, pensaria naquilo.
— Indo embora sem se despedir, ? – ouvi uma voz rouca masculina atrás de mim e parei bruscamente.
Ninguém. Ninguém me chamava de , a não ser a minha mãe. Girei nos calcanhares e, no susto, deixei que minha bolsa e minhas sandálias caíssem no chão em um baque abafado. Uma das tiras do meu vestido deslizou pelo meu braço e meu olhar caiu sobre aquela pessoa em minha frente. Flashes da noite passada, que mais pareciam borrões, bombardeavam a minha mente em uma velocidade recorde. Flashes que estavam ligados àquela pessoa parada ali em minha frente. Aquela pessoa e a sua pele bronzeada e firme, aquele seus músculos do abdômen e aquele peitoral definido meio molhados que faziam a minha tontura voltar (e dessa vez, eu suspeitava que não tinha nada a ver com a ressaca). E naquele instante, pedi aos Céus que eu ainda estivesse dormindo ou que, pelo menos, tudo aquilo fosse apenas fruto da minha imaginação pervertida e emocionalmente abalada. Por favor, por Deus, que seja apenas um sonho erótico!
— Qual o problema, pequena ? Ainda não matou toda a saudade? – ele escorou no batente da porta do banheiro, cruzou os braços sobre o peito e sorriu maroto ao notar o meu olhar fixo em seu corpo.
Aquele sorriso era a sua marca e, apesar de não vê-lo há mais de 12 anos, eu o conhecia muito bem. Havia sido atormentada por ele durante muito tempo na adolescência. Mas diferente da última vez que o ouvi, a voz de garoto se tornara a voz grave de um homem. Droga! Não era a porra da minha imaginação. estava mesmo em minha frente. O cara que fez dos meus dias no colegial os piores da minha vida e pelo qual eu tinha jurado ódio e desprezo eterno estava em minha frente, de cabelos molhados e vestindo apenas com uma toalha em torno de seu quadril. E pior: pelo que eu era capaz de entender, ou até onde minha memória meio confusa permitia que eu entendesse, na noite passada, eu tinha quase certeza de tê-lo visto sem aquela toalha.
— Não perdeu a fala, perdeu? - ele riu.
Ainda não podia acreditar. Depois de mais de dez anos, lá estava e o mesmo sorriso que me chamava para brincar de War, de médico ou Jogo da Verdade. Jogos em que, em geral, eu terminava perdendo alguma coisa. O dinheiro. A dignidade. As roupas. Às vezes, todas as opções. Não que ele precisasse usar tanto de sua lábia comigo. Eu sempre me desmanchava muito fácil por aquele sorriso e pelo seu dono. Porém, eu não era mais uma garotinha solitária, sensível a meninos de fala mansa com sorrisos marotos, que brotavam em minha vida a cada verão e me derretiam o coraçãozinho. Não, eu havia crescido. E, ainda que preferisse não lembrar naquele instante, estava noiva.
— !
Seu sorriso aumentou, enrugando-lhe os cantos dos olhos .
— Bom dia, . - ele disse, ainda sorrindo. — Você cresceu desde a última vez que a vi sem roupa.
Senti meu rosto corar e agarrei com força a parte da frente do meu vestido. Droga! Eu sempre o odiei por aquele seu jeito debochado que, pelo visto, não havia mudado com o tempo, ao contrário de seus músculos, agora mais definidos. Balancei a cabeça. Odiava-o e me odiava por ainda ficar vermelha em sua frente, como se eu tivesse voltado aos 14 anos.
— Que diabo de lugar é esse onde estamos? - perguntei deixando as boas maneiras de lado. Há muito tempo eu tinha aprendido que boas maneiras não combinavam com o .
— O que aconteceu com o "Bom dia, meu amor"? - afastou-se do batente do banheiro e começou a caminhar na minha direção. No reflexo, andei para trás e só parei porque senti a madeira fria da porta tocando minha pele no zíper aberto. Joguei um tufo de cabelos para trás da orelha e tentei me lembrar dos exercícios de respiração da Ioga. Merda de Ioga, não servia para nada! Apenas para levar o resto do meu dinheiro embora.
— Primeiro: você não é "meu amor". - respondi, usando o mesmo tom sarcástico dele, enquanto segurava o vestido. — E segundo, vamos, fale logo! Que droga de lugar é esse?
— É o hotel onde estou hospedado. - pegou a outra toalha que estava no pescoço e começou a secar o cabelo. Quando garoto, seu cabelo era bem mais claro - e eu, no auge da minha paixonite, costumava compará-lo ao sol - mas agora estava mais escuro. — Falei pra você isso ontem, mas vejo que me esqueci de pedir perdão por não estar à altura de Vossa Majestade.
A simples menção da palavra "ontem" saindo da boca do fez meu estômago embrulhar outra vez. Eu ainda estava tentando evitar qualquer lembrança que ela trouxesse consigo.
— E o que você está fazendo aqui, em Vegas?
Não que eu estivesse muito interessada em saber aquilo, ou tivesse a menor idea do porquê de estar perguntando a ele. A última coisa que eu tinha ouvido falar sobre é que ele havia se mudado para uma cidade qualquer, no Oriente Médio, e estava escrevendo uma matéria ou livro sobre o terrorismo ou sei lá o quê. Qualquer coisa chata assim. Acontece que, em tantos lugares do mundo, eu tinha que encontrá-lo bem ali?! Mas era até óbvio. Mulheres e bebidas, onde mais estaria?
— Vim a trabalho. - colocou a toalha de volta ao pescoço e a segurou com as mãos. — Também falamos disso ontem. - ele arqueou a sobrancelha e me encarou. — Você não se lembra muito da noite passada, não é?
Dei de ombros. Era óbvio que, pelo visto, nós tínhamos falado sobre algumas coisas das quais eu não conseguia me lembrar, coisas nas quais, diga-se de passagem, nem queria pensar a respeito.
— Que você era pau d’água eu já sabia, mas não pensei que tinha ido tão longe a ponto de não se lembrar de nada.
Uma raiva súbita começou a crescer em mim. Aquela raiva que eu sentia todas as vezes depois que ele conseguia me fazer perder as roupas com aquelas brincadeiras idiotas.
— Cala a boca! Nunca fui pau d’água.
— Sim, você era. - ele riu. — E pelo visto, ainda é.
Revirei os olhos. sabia me tirar do sério como ninguém.
— Tive meus motivos. - respondi, esperando que não o tivesse mencionado.
tirou a toalha do pescoço e a atirou na cama, depois se virou para mim e caminhou até parar a apenas alguns centímetros de distância.
— Você também contou isso ontem à noite. - Droga! Maldita bebida! Só esperava ter deixado os detalhes de lado. — Dê uma volta.
— Quê?
Ele fez o gesto com o dedo para que eu me virasse.
— Dê uma voltinha para eu poder fechar o zíper.
— Por quê?
— Dois motivos. – ele me fitou dos pés à cabeça, e depois voltou a me encarar. — Se o seu pai descobrir que deixei você sair correndo de um hotel em Vegas com o vestido quase aberto, vai me matar. – bufei e apertei o vestido ainda mais. — E se a gente vai ter uma conversa, é melhor que eu não fique aqui imaginando se essa coisa vai ou não deslizar totalmente pelo seu corpo.
Encarei-o durante alguns instantes. Será que eu devia aceitar a ajuda dele? Inferno! Por que, entre tantas roupas, eu tinha que ter colocado logo aquele vestido? Lembrei porque o estava usando, lembrei-me de ter achado que a noite de ontem seria a ocasião perfeita para usá-lo outra vez. Um jantar especial, só eu e , em Vegas, merecia um vestido especial. Engoli o bolo na garganta; talvez fosse melhor eu sair dali daquele jeito mesmo. Mais uma vez, eu não queria ter nenhum tipo de conversa com .
— Se é que você não percebeu, estou só de toalha e daqui dois segundos vai ficar óbvio que eu estou esperando vê-la nua. – ele sorriu, me mostrando uma fileira de dentes brancos e perfeitos. — De novo, claro.
Senti meu sangue correr em velocidade recorde e se concentrar todo em meu rosto no mesmo instante que entendi o que queria dizer com aquilo. Não tinha outro jeito, eu precisava perguntar a ele o que tinha acorrido na noite passada, mesmo que preferisse ficar sem os detalhes.
— Ok. Vamos direto ao ponto. – cruzou os braços na altura do peito e franziu o cenho. — Digamos que eu tenha bebido um pouco mais do que devia...
— Muito mais.
— Cala a boca! – ele riu sarcástico e fez sinal para que eu continuasse. — Bebido um pouco mais do que devia, e não me lembre exatamente o que aconteceu. Se bem que, considerando que aconteceu o que eu penso que aconteceu, esquecer não é tão ruim assim.
— Será? – ele sorriu maroto e eu o ignorei.
— Então. - mordi o lábio inferior e desviei o olhar para o chão. Aquilo era mais constrangedor do que eu imaginava. — O que aconteceu ontem?
Ficamos em silêncio por uns segundos. Um silêncio embaraçoso e confuso. soltou os braços, colocou as mãos sobre o meu ombro e me virou, fazendo com que eu ficasse de frente para a porta e de costas para ele, depois começou a subir o zíper do meu vestido. Foi um gesto rápido e tão preciso que não consegui responder ou protestar - ainda mais quando um arrepio involuntário percorreu a minha espinha, assim que as pontas de seus dedos frios tocaram de leve a minha pele, conforme ele ia fechando o zíper. Eu tinha certeza de que ele estava se divertido com tudo aquilo e tive mais certeza ainda quando ele pousou os lábios bem próximos ao meu ouvido e os roçou de leve em meu lóbulo.
— Tem certeza de que não se lembra? – sua voz rouca invadiu meu tímpano ao mesmo tempo em que o bafo quente que saiu de sua boca tocou-me a pele do pescoço. E por um segundo, dois, três - por alguns segundos - eu cheguei a gostar daquilo. Até me lembrar que era que estava bem ali, que eu só podia mesmo ter transado com ele e, para piorar a situação, estava noiva.
Afastei meu corpo de suas mãos e me virei para encará-lo. Eu não era mais aquela garotinha boba que ele conhecia, não era. Disse a mim mesma e respirei fundo.
— Acho que de fato bebi muito mais do que devia.
— Você tinha todo o direito! – ele sorriu. Um sorriso que até poderia parecer gentil para quem não o conhecia, mas eu sabia que, por trás daquele sorriso, estava o seu veneno camuflado, à espera do momento certo. — Ter um noivo que a traz para uma cidade que é um puteiro gigante, semanas antes do casamento, e que ainda é capaz de te deixar aqui sozinha por causa do trabalho, quando você está com um mês de atraso, na seca e louca para antecipar a lua de mel. É pra fazer qualquer uma encher a cara. - e gargalhou.
E aí está. Olá, veneno!
— Não tem graça.
— Talvez não. – passou os dedos entre seu cabelo e foi até o sofá pegar suas roupas. — Mas você não devia levar isto tão a sério, .
Fechei os olhos. Aquilo não podia estar acontecendo comigo.
— A culpa não é sua, , se o seu noivo se excita mais com o trabalho do que com você. Ele deve ser algum tipo de maluco. – percorreu todo o meu corpo com seus olhos tão pervertidos quanto seu sorriso. — Ou gay.
Sim, havia coisas piores do que ser noiva e acordar na cama com um desconhecido: era ser noiva e acordar na cama com o .
— Não acredito que dormi com você. – resmunguei, ainda tentando absorver tudo aquilo.
— Ninguém chegou a dormir exatamente, se quer saber. – ele piscou o olho e sorriu.
— Eu estava bêbada! – protestei. — E considerando que foi com você que dormi, provavelmente também estava drogada.
— É o que você acha? – ele segurou a calça na mão e me fitou.
— Claro que sim!
— Você me pareceu bem lúcida ontem quando gemeu e gritou que tinha sido a melhor transa da sua vida. – sorriu e deixou a toalha cair. No reflexo, eu fechei meus olhos imediatamente. — Qual é, , não há nada aqui que você já não tenha visto ou pegad...
— Não diga essa palavra. – bufei e fuzilei com o olhar, enquanto ele gargalhava.
Ele se virou de costas, pegou a calça jeans e vestiu-a. Era impossível deixar de reparar como o seu corpo havia se tornado atraente, principalmente quando meu olhar deslizou até a parte mais plana de suas costas largas e levemente bronzeadas.
— Sinceramente, você estava insaciável. – ele fechou a braguilha da calça e pegou a blusa sobre o sofá, depois me encarou. — Chegou uma hora que você gritava tanto, que achei que os seguranças do hotel arrombariam a porta para que a gente parasse.
Fiquei perplexa. Eu nunca gritava enquanto transava, pelo menos nunca tinha feito isso com o Scott-Loser, nem com o . E considerando que eles tinham sido praticamente os caras com quem já havia ido para a cama, aquilo era o mesmo que nunca. Nunca. Porém, eu sabia que não estava em condições de retrucar. Poderia ter berrado igual a uma atriz pornô ontem e nem me lembraria.
— Já estive com mulheres agressivas antes. – ele balançou a cabeça. — Mas quem poderia imaginar que a pequena se tornaria uma selvagem na cama?
Aquilo tudo era demais para mim. Eu havia perdido a batalha, tinha que admitir. se virou outra vez para procurar os sapatos no chão e meu olhar parou diante da sua blusa aberta e de seu abdômen bronzeado e definido. Meu Deus, o que está havendo comigo?
— Preciso sair daqui. – resmunguei meio nervosa. Eu já estava começando a sentir as minhas mãos suando e aquilo não era um bom sinal. Curvei-me e peguei a minha bolsa caída no chão.
— Precisa de uma carona até o hotel em que está hospedada? – ele perguntou, disposto a realizar a tarefa.
— Não mesmo. – retruquei.
— Tem certeza? – perguntou enquanto abotoava a camisa. — Só tenho que pegar o avião daqui a algumas horas. – um dos cantos de sua boca se ergueu e lá estava seu sorriso maroto de volta. — Não está a fim de criar algumas lembranças que dessa vez você não vai esquecer?
Abri a porta atrás de mim.
— Vá se ferrar! – gritei, e saí do quarto.
Andei uns dez passos até que o ouvi me chamar outra vez. O que era agora?
— Ei, Cinderela!
Olhei por cima do ombro, enquanto ele apanhava e me lançava as minhas sandálias.
— Não esqueça os sapatinhos.
Cinderela! Exatamente como o Ben costumava me chamar por causa do , quanta ironia. Senti um calafrio percorrer o meu corpo e meu estomago embrulhou pela milésima vez. Eu precisava sair dali o mais rápido possível.
004
Uma coisa que eu nunca entendi muito bem é por que todo motorista de táxi tem aquela cara de que sabe que você fez alguma coisa de errado. Ou será por que quando a gente faz alguma coisa de errado, sempre acha que alguém está te olhando com a cara de que sabe que você fez?!
— Está tudo bem com a senhorita? – o taxista perguntou, encarando-me pelo retrovisor.
Viu?! Era disso que eu estava falando! Ou talvez ele só tivesse notado a minha palidez e o quanto eu estava ofegante. Também não era para menos. Depois de tudo o que tinha me acontecido, para eu estar bem, só se pudesse voltar no tempo. Não respondi nada para o motorista, apenas assenti. Eu ainda não conseguia acreditar que tinha transado com o . Aquilo era azar demais, castigo demais, desgraça demais para uma pessoa só! Calma, não entre em pânico. Respirei fundo diversas vezes e finalmente, alguns minutos depois, o taxista parou de frente para o Bellagio e quando eu lhe entreguei o dinheiro, ele me sorriu, aquele sorriso de quem diz: "Eu sei o que você fez na noite passada, danadinha!" Desci depressa e saí correndo para o hotel. Eu precisava de um banho, tirar qualquer vestígio do de mim e torcer para que a secretária do ainda não tivesse ligado.
— Senhora ! – se eu não tivesse me lembrado de que eu tinha feito o cadastro em nome do , não teria parado minha corrida pelo saguão do Bellagio quando a recepcionista chamou aquele sobrenome. — Um minuto, por favor?
Ajeitei meu cabelo e passei o dedo por debaixo dos olhos, retirando o rímel da noite passada, tentando parecer um pouco mais normal. Respirei uma, duas, três vezes e caminhei até o balcão da recepção.
— Pois não? – sorri.
— Desculpe incomodá-la. – a moça da recepção sorriu cordial. — Mas o senhor ligou agora a pouco e pediu para falar com a senhora. - engoli em seco. Como assim, o tinha ligado? A recepcionista sorriu - é claro, o sorriso que estava me perseguindo a todos os cantos, o sorriso que dizia: "Eu sei o que você fez na noite passada, danadinha!" O que há com essas pessoas? — Mas como ninguém atendeu na sua suíte, ele disse que ligava mais tarde.
Acho que agora era uma boa hora para entrar em pânico.
— Senhora , está tudo bem com a senhora?
Bem?! Bem?! Estou ótima. Acabei de acordar em um hotel de quinta em Las Vegas, na companhia de um depravado que insiste em dizer que tivemos uma noite de sexo selvagem e quando chego aqui, descubro que meu noivo está me procurando? Ah, bem é pouco, querida.
— Sim. Obrigada, vou ligar para ele lá de cima. – forcei um sorriso, ou o que eu achei que fosse mais parecido com um, e caminhei (leia-se: corri) para o elevador.
Quando entrei na suíte, eu não sabia o que fazer primeiro. Ligar para o ou deixar o pânico me dominar?! Meu Deus, o tinha me ligado e eu não estava! Mas por que ele não ligou para meu celular? Oh, não! Eu não tinha a menor idéia de onde estava o meu celular. Olhei ao redor, pensando onde diabos eu tinha enfiado o meu BlackBerry e quando o achei debaixo da cama, descobri que a opção de pânico era sim a mais indicada. DEZOITO LIGAÇÕES DO e cinco e-mails.
Para: .
De: .
Assunto: Sem assunto.
,
Por favor, atenda minhas ligações. Preciso saber se você está bem, estou preocupado.
Te amo, .
Para: .
De: .
Assunto: Sem assunto.
,
Olha, eu entendo que você esteja chateada, mas este silêncio já está sendo infantil demais. Eu só quero saber se você está bem, , não vai morrer se apenas me der algum sinal, não é? Eu realmente estou preocupado.
.
Para: .
De: .
Assunto: VEGAS.
Como é? Eu não acredito que ele te levou para Las Vegas! E que porra é essa de dizer que "não está tão ruim assim"? É claro que não está ruim, está PÉSSIMO! , o seu noivo te levou para um PUTEIRO. ACORDA! Veneza?! RÁ! Como eu não pensei nisso antes?! Estávamos falando do ! Romance, para ele, é se afundar em uma pilha de processos.
Sinto muito mesmo por você, . Pegue um avião e volte logo para casa. O disse que vai dar um soco no , se você quiser. Tá, ele não disse isso, mas eu sugeri.
Amamos você,
e .
Para: .
De: Ben Sullivan.
Assunto: Sortuda!
OMG, você é uma SORTUDA! LAS VEGAS?! Quando eu digo que esse homem foi feito para mim, você não acredita! Qual é, Veneza é quente, linda e sexy, mas Vegas?! Vegas é a própria luxúria! Tirando as mulheres peladas que você disse ter por aí (Jesus, me salva! Porque só de pensar me embrulha o estômago), de resto, só tenho uma coisa a dizer: APROVEITA, AMIGA!
Com inveja,
Ben.
Para: .
De: Elizabeth .
Assunto: Você.
Oi, minha querida!
A mamãe não aguentou de saudades e resolveu lhe mandar esse e-mail. Eu sei que você não tem retornado minhas ligações porque provavelmente está muito ocupada em seu emprego importante, mas será que é tão importante assim para você se esquecer de sua família, ? Acho que não. Seu pai anda reclamando muito sobre sua ausência, diz que, se fosse por ele, iria até aí e te traria de volta. Você sabe como ele é todo bobo com você. Esses dias, o peguei chorando olhando para uma fotografia sua e do juntos. Como anda o menino ? E vocês dois? Outro dia eu e seu pai encontramos a por aqui. Por falar nela, o nem parece ter sido criado por ela, tão educado, ao contrário da mãe. Que mulherzinha mais antipática, não?! Primeiro, fingiu que não nos viu, e se o seu pai não tivesse feito o favor de gritá-la no meio da avenida (daquele jeito escandaloso dele que você bem conhece), eu nem teria falado com ela. Depois ela nos cumprimentou e veio com uma conversa de que você tinha "sequestrado o filhinho dela por uma semana". Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer, fiquei até preocupada. Está tudo bem por aí? Ah, e é claro que a também não deixou de dizer que o está sempre ligando para ela, e de como ele é um excelente filho. Ah, o é mesmo uma pessoa muito carinhosa, você não poderia ter escolhido marido melhor, minha querida. Será um lindo casamento! Estou tão excitada que... Ops, acho que seu pai acaba de martelar o próprio dedo. Eu vivo dizendo a ele para parar de tentar ser o "faz tudo" da casa e ir chamar alguém qualificado, mas não. Você conhece seu pai e sabe como ele é mão de vaca. Não diga a ele que eu disse isso, está bem? De qualquer jeito, vou lá ajudá-lo, não para de choramingar! Homem mais mimado, parece alguém que conheço.
Amo você,
Mamãe.
PS: A sua avó mandou perguntar se você não tem algum filme pornô para indicar, diz ela que está sentindo a falta de seu avô. Pobrezinha.
Aquilo tudo só podia ser piada! Não a minha mãe, dela eu já tinha desistido há muito tempo. Desde quando eu tinha ido embora de Corringham - uma pequena cidade a alguns quilômetros de Londres, onde eu havia nascido e morado até minha adolescência - há sete anos, ela me ligava mais de cinco vezes no mesmo dia, tirando os domingos, quando ela me ligava sete e ainda achava tudo aquilo muito normal. Para falar a verdade, acho até que minha mãe estava começando a caducar, muito mais do que minha querida avó Molly (que agora anda obsessiva por filmes pornôs e o meu falecido avô Will, que Deus o tenha). Que tipo de família era aquela? E onde eu estava com a cabeça quando eu os apresentei à e ao ?! ! Era dele que eu estava com raiva. Puta que pariu! Ele me deixou sozinha em outro continente, no meio do deserto, e eu que estava sendo infantil? Qual o problema desse homem?!
Senti vontade de jogar o celular longe, de quebrar a janela daquela suíte com o meu BlackBerry, fazer o ter que pagar pelo prejuízo, e se lembrar de ter me feito passar por aquilo o resto de sua vida, mas só não o fiz por dois motivos: um, eu ainda não tinha terminado de pagar pelo celular e dois, ele acabara de tocar e era do escritório do .
— Hum? – eu me contive ao máximo para soar fria e sem nenhum pingo de emoção. Eu não deixaria que o soubesse o quanto ele estava me afetando naquele momento. Eu tinha meu orgulho.
— Senhorita ? – ao contrário do que esperava ouvir, a costumeira voz mansa e sonolenta de Megan, a secretária do , me chamou do outro lado da linha.
Não acredito que cheguei a pensar que ele me ligaria, é claro que não me ligaria. Provavelmente estava enfiado dentro daquela droga de reunião comendo o intragável do Firman. Meu Deus, por favor, que isso não esteja acontecendo!
— Senhorita ?
— Oi, Megan, estou aqui. – bufei e me sentei na cama.
— Senhorita , o senhor pediu que eu ligasse, porque está muito preocupado com a senhorita.
— Sério? Quanta consideração da parte dele! – tão preocupado como quando me deixou aqui sozinha, pensei. Cretino!
— Então, está tudo bem por aí? - Ah, claro que está tudo bem, Megan! Não imagina o quanto.
— Ok, Megan, pode dizer a verdade. Ele quer saber se ainda não tentei me matar, é isso? – ri, sem emoção. — Diga pra ele que está tudo ótimo e que adorei ter ficado aqui sozinha, estava mesmo esperando por essa oportunidade, tanto eu quanto o garçom do bar da piscina. É, pode dizer a ele que é aquele mesmo que ele está pensando. O garçom latino e gostoso que não tirou os olhos dos meus peitos ontem enquanto estávamos por lá. – falei tudo de uma vez e só então me lembrei dos sessenta e dois anos da Megan e de como provavelmente, neste momento, ela estaria em choque. — Er, Megan?
— H-Hum? – ela gaguejou e eu comprovei o seu estado.
— Me desculpe, eu não queria ter dito essas coisas pra você, é só que...
— Tudo bem, senhorita . – ela deu um risinho nervoso e eu senti meu rosto esquentar. Droga! Por que eu não conseguia ficar com a boca fechada um segundo?! — Eu só estou ligando mesmo pra saber se está tudo bem e avisar para senhorita que eu marquei a sua passagem de volta a Londres para o vôo das 16h e que a senhorita chegará aqui mais ou menos às 6h da manhã, e o senhor disse que estará lá no aeroporto esperando-a.
Vôo?! E cadê toda aquela história de "caso você queria ficar?" Não que eu quisesse ficar, é claro. Pelo andar das coisas, se eu ficasse ali mais um dia, sairia de Las Vegas alcoólatra ou, pior, grávida. !
— Ok, Megan, obrigada. – sorri, tentando parecer o mais simpática possível. Ainda me sentia culpada pela história do garçom. — E, hum, desculpa, outra vez.
— Tudo bem. Até logo, senhorita .
Corri para o banheiro. Quando desliguei o telefone, tinha percebido que faltavam apenas duas horas para as 16h, o que significava que eu estava mais do que atrasada e precisava tomar um banho corrido e arrumar as malas. Suspirei ao me tocar de que não precisava me preocupar com as malas, afinal, não tinha tido tempo nem mesmo de desarrumá-las.
Olhei-me no espelho e quase gritei com a imagem que vi. Eu estava descabelada e com a maquiagem toda borrada. Tirei logo minha roupa, tentando afastar da minha cabeça o fato de que ainda usava o mesmo vestido da noite passada e, claro, todas as lembranças que ele insistia em me trazer. Se tivesse algo que ajudasse a pôr fogo naquele vestido, eu o queimaria ali mesmo.
Encarei o meu reflexo no espelho, e a imagem daquele corpo molhado e definido invadiu minha mente. Sem falar no seu sorriso! Incrível como depois de tantos anos ainda tinha o mesmo sorriso moleque que me fazia derreter como uma idiota. . Fiquei repetindo seu nome mentalmente e quase não acreditei quando me peguei imaginando o que tinha acontecido com nós dois, juntos, dentro daquele quarto de hotel. "Sinceramente, você estava insaciável." Oh, Meu Deus, o que eu estava fazendo?! Já não bastava ter traído o meu noivo, eu ainda tinha coragem de ficar pensando no ato?! , recomponha-se!
Liguei a torneira, enchi minhas mãos e, quando levei a água ao rosto, percebi que algo estava faltando. NÃO! POR FAVOR, NÃO! Qual é?! É algum tipo de brincadeira? É, só pode ser. Deus está de brincadeira comigo. Por favor, por favor, por favor, diga que é brincadeira. Olhei mais uma vez para a minha mão. NÃO! Não era brincadeira. Eu tinha mesmo perdido o meu anel de noivado!
Coisas a fazer quando chegar a Londres:
1 – Greve total de sexo com .
2 – Chorar nos braços da .
3 – Obrigar a minha mãe a confessar que sou adotada.
4 – Procurar um psicólogo para minha avó pervertida.
5 – Jogar esse vestido fora.
6 – Fazer uma promessa URGENTE a São Longuinho para achar o meu anel de noivado!
7 – Mais importante de tudo: Fingir que eu nunca estive em Las Vegas, e, principalmente, que NADA aconteceu por aqui.
005
Sabe o que foi, meu amor?! É que eu estava tentando desentupir a banheira do hotel. É, você tem razão, isso é mesmo inadmissível. Quero dizer, como um hotel como o Bellagio, que foi cenário para um dos filmes mais famosos do mundo e um dos hotéis mais caros de Las Vegas, é capaz de deixar a banheira de uma suíte entupir? Também não consigo entender, mas o fato é que aconteceu. E aí, como eu não queria arranhar o anel lindo de noivado que você me deu e que provavelmente deve ter uns 100 quilates, tirei, coloquei naquela bandejinha do sabonete e fui tentar desentupir a banheira. E não sei como - veja bem, meu amor - não sei como MESMO, ele escorregou da pia e desceu pelo ralo. Oh, , sinto muito, juro que não sei como aconteceu! Você me desculpa? Desculpa mesmo, meu amor? Oh, como você é lindo, muito obrigada. E é claro que eu também te amo, .
Viu?! Não vai ser tão ruim. Pelo menos, em minha imaginação não parecia tão ruim assim. Fui ensaiando aquela fala durante o trajeto inteiro até o aeroporto. Eu tinha perdido quase quarenta minutos procurando pela droga do anel por toda a suíte e a única coisa que tinha encontrado foi uma meia do jogada por lá. Eu até pensei na possibilidade de largá-la lá por vingança, mas devido às circunstancias, eu estava sendo obrigada a ignorar, não só ter sido abandonada em Las Vegas, mas todas as outras coisas erradas que o já tinha feito ao longo desses três anos. E pensando bem, não foram nada se comparadas à minha capacidade de traí-lo e, ainda por cima, perder o anel de noivado que com certeza valia uma fortuna!
— Olá, boa tarde! – a balconista da companhia aérea sorriu simpática para mim. Em outros tempos, eu retribuiria o sorriso, mas a única coisa que consegui fazer foi uma careta. — Dia ruim?!
— Nem imagina. – suspirei. Eu devia estar mesmo péssima, ou pior, pelo olhar de compaixão que ela me lançou, digna de pena.
— Não fique assim, todo mundo tem um dia ruim, não é?! – ela sorriu.
— É. – respondi sem ânimo.
— Por que a senhorita não vai até o bar do aeroporto e toma alguma coisa para relaxar? – ela deu uma piscadela e riu. — Sabe como é, uma bebidinha de vez em quando faz bem.
Ah é, faz muito bem e eu sou a prova viva disso! Balancei a cabeça, já estava na hora de começar a banir aquelas lembranças. O que acontece em Las Vegas, fica em Las Vegas!
— Check-in para Londres no vôo das 16 horas, por favor.
A balconista simpática logo percebeu que eu não estava muito para conversa, se calou e terminou de fazer o check-in com uma rapidez que eu jamais tinha visto nas companhias.
Sentei-me em um dos sofás da sala de espera da companhia aérea e folheei a revista que tinha comprado na banca do aeroporto logo depois do check-in. Fiz questão de comprar uma daquelas revistas sobre desastres no mundo que tem como obrigação nos distrair com as desgraças alheias, quando a nossa própria vida está descendo pelo ralo. Ralo. Estremeci só de pensar naquela palavra e encarar mais uma vez meus dedos nus. Ok. Vamos, mais uma vez, ensaie a sua desculpa. "Sabe o que foi, meu amor?! É que eu estava tentando desentupir a pia do hotel. É, você tem razão, isso é mesmo inadmissí..."
— Já vi que não dar mesmo para fugir do destino.
Paralisei. Eu não precisava me virar para saber quem estava ali. Conhecia muito bem aquela voz, não só por tê-la ouvido há apenas algumas horas e não ter conseguido esquecê-la facilmente, mas sim, por conta do seu tom de deboche que era óbvio. Respirei fundo, controlando a vontade de cortá-lo em pedaços e me preparei para encará-lo com meu melhor olhar de desprezo, mas no instante em que me virei, me arrependi. Meu Deus, como ele podia ser tão bonito, até mesmo quando estava vestido?! Controle-se, ! Por Deus, você já o viu sem roupa, ele não deveria te afetar. Não quando está com esse vans branco, esse jeans, essa blusa branca e esse blazer preto, muito menos porque ele está usando um Ray-Ban wayfarer preto. Inferno, por que ele tinha que ser tão sexy?!
— Se todas as vezes que a gente se encontrar você perder a fala, vou acabar ficando preocupado, . – ele sorriu, aquele seu sorriso torto e cínico.
Idiota! Idiota! Eu só podia ser mesmo idiota. Lembre-se de quem ele é: ; ele não é atraente nem sexy. Ele só é um depravado qualquer e você é uma mulher madura que sabe muito bem lidar com esse tipinho.
— Nossa, o sol aqui está mesmo muito intenso. – disse irônica, ignorando por completo o seu comentário ridículo e sem me importar de estar longe de madura e muito perto da quinta série. — E quanto ao que você classifica como destino, eu tenho a certeza de que tem outro nome: KARMA!
riu, caminhou até o meu lado no sofá, virou-se para mim, retirou o óculos e me encarou. Deus, para que eu fui falar aquilo? Vamos, coloque o óculos de volta e tire já esses olhos da minha frente, isso é covardia!
— Por que toda essa agressividade, ? – ele me fitava sério, e eu desviei imediatamente o meu olhar para a revista, fingindo que o último terremoto em não sei onde e a morte de quase cinquenta pessoas era o que realmente estava me afetando. — Pensei que depois de ontem... - senti começar a se aproximar de mim, e quase pulei do sofá quando ele colocou sua mão no meu queixo, fazendo-me encará-lo novamente. — Estávamos íntimos outra vez.
Entrei em choque. Ele continuou sério, passou o polegar sobre minha bochecha e começou a fazer um carinho de leve. Seu olhar ia dos meus olhos à minha boca. Estava claro o que iria acontecer ali, ainda mais claro quando começou a aproximar o seu rosto do meu. Oh, meu Deus, eu iria beijá-lo outra vez! Mas dessa vez, eu estava sóbria. E que porra de campo magnético era esse que ele tinha, que eu não conseguia me afastar?! Eu ia ceder. Era óbvio. Mais uma vez, eu ia ceder. Foi então que o vi sorrir, o seu sorriso presunçoso, de quem tinha conseguido me enganar, de novo.
— IDIOTA! – gritei, empurrando-o para o outro lado do sofá, enquanto começava a gargalhar.
— Eu sabia que você tinha gostado da noite passada! – ele riu e passou a mão pelo cabelo. Pelo visto, não era só o seu sorriso que não havia mudado. Aquele seu gesto irritante de bagunçar ainda mais o cabelo também continuava o mesmo.
— O que você quer, ? – perguntei, ignorando-o pela segunda vez em menos de vinte minutos. Estava começando a ficar craque naquilo. — Quero dizer, além de me infernizar.
— Que isso, . – ele fingiu-se de magoado e voltou a sentar mais próximo de mim. — Quem te ouvir falar assim, vai pensar que eu sou o quê?! Um monstro?!
— E não é?! – disse sem me tocar do peso com que aquelas palavras saíram.
De repente, o sorriso de já não estava mais em seus lábios, e seus olhos que agora de perto mais pareciam duas safiras escuras, ficaram tão sérios quanto sua fisionomia. Ele não estava ofendido com o que eu tinha falado, estava? Será que ele também ainda se lembrava do que tinha acontecido há tantos anos?! Não, aquilo era impossível. Eu o conhecia, não era o tipo de cara que se apegava a erros do passado, nunca fora. Ficamos em silêncio por um momento, um silêncio constrangedor e desconfortável, como se ele tivesse se perdido em seus próprios pensamentos. Então, ele voltou a sorrir cínico.
— Assim você me ofende! - não, ele definitivamente não devia se lembrar.
— Eu já disse para você ficar longe de mim, . – falei, pegando a revista sobre o sofá e voltando a folheá-la.
— Não me peça algo tão impossível, . – ele passou os dedos sobre o meu braço e, involuntariamente, meus pelos se arrepiaram. Encarei-o com desdém e bati com a revista em seus dedos.
— Vá se foder! – e voltei para a revista.
— Você já foi mais meiga. – ele bufou, depois ficou em silêncio.
Fitei-o de canto de olho e percebi que ele estava encarando alguma coisa na revista que eu lia.
— Perdeu alguma coisa aqui? – perguntei, puxando a revista. Ok, eu sabia que estava sendo infantil novamente, mas não era minha culpa. A culpa era dele! Era ele que fazia com que eu voltasse no tempo e me sentisse como uma adolescente outra vez.
— Pra falar a verdade - ele passou a mão pelo cabelo e sorriu — quem parece ter perdido alguma coisa aqui foi você.
Ah, claro. Ele não estava olhando para a revista, mas sim para minha mão. Ou melhor, para meu dedo sem o anel de noivado.
— Como? – me fiz de desentendida e continuei a ler a revista, ou melhor, fingir. A simples menção do sumiço do meu anel de noivado fez o meu coração disparar contra minha costela. Eu quase tinha me esquecido o quanto estava ferrada, se é que era possível esquecer aquilo.
— Nada. – suspirou e pegou um jornal que estava sobre a mesa da sala. — Só estava aqui pensando, na verdade, imaginando, como você vai dizer ao seu noivo que perdeu o anel de noivado. – seu tom de voz era de descaso, mas eu tinha certeza de que ele estava se divertindo - e muito - com aquilo.
— Eu não o perdi. – disfarcei, tentando manter o tom casual.
— Ah, não?! – ele colocou o jornal de lado e me encarou.
— Não, o guardei.
Virei-me para , tentando decifrar alguma coisa em sua expressão. Se eu o conhecia, ele não ia engolir aquela desculpa tão fácil assim.
— Guardou? Por quê? – ele franziu a testa e arqueou a sobrancelha.
É, por quê?! Tentei pensar em algo para dizer, alguma outra desculpa, mas antes que dissesse qualquer coisa, se ajeitou no sofá, me encarou sério - se é que, algum dia, ele já ficou sério em toda sua vida - e voltou a se aproximar de mim. — Por minha causa?! – sorriu de um jeito sexy, seus olhos me hipnotizando mais uma vez, e colocou a mão no meu rosto, sorrindo. — Ah, , não precisava, não ligo para você ter um noivo. – disse, passando os dedos sobre os meus lábios. Por que eu não conseguia sair dali? Ele estava debochando de mim e, mesmo assim, eu não consiga parar de olhar naqueles olhos, nem mesmo me mexer. — Pra falar a verdade, acho bem... - ele desviou o olhar em direção à minha boca, depois se inclinou sobre mim e encostou os lábios em meu ouvido, exatamente como ele tinha feito no quarto de hotel enquanto subia o zíper do meu vestido. — Excitante. – sussurrou.
O hálito quente dele bateu contra a pele do meu pescoço, e eu podia sentir o seu perfume atingir com tudo os meus pulmões. tinha um cheiro cítrico-amadeirado e, lá no final, eu sentia o cheiro de algo que lembrava nicotina. Aquilo era mais do que atraente, era uma tortura. Onde eu estava com a cabeça? Pensei em respirar fundo para recobrar meu juízo, mas definitivamente aquilo não era uma boa ideia. Fiz o contrário, e tentei ao máximo não respirar.
— DEPRAVADO! – gritei, me levantei e fui embora, ignorando a sua risada alta.
Eu tinha que sair logo dali, antes que ficasse louca de vez.
006
Passei o resto dos minutos trancada dentro do banheiro do aeroporto, passando água pelo rosto, pelo pescoço, e só não tomei um banho ali mesmo com a água da pia porque minhas malas já estavam dentro do avião. É claro que o calor que eu sentia era por raiva, toda a raiva que o tinha me feito passar em menos de um dia. Ouvi aquela voz do além dizendo que o avião para Londres já estava saindo. Deixei o banheiro e corri em direção ao portão de embarque. Quando entrei no avião e me sentei na poltrona que estava marcada no meu cartão de embarque, logo percebi que não podia viver sem o , ou pelo menos, sem a viagem de primeira classe. Condenei-me pelo meu pensamento maldoso, e jurei nunca dividi-lo com mais ninguém - tá, talvez com o Ben. Ele com certeza me entenderia, pensei ao olhar o cara sentado ao meu lado. O meu companheiro de vôo, um deles - eu estava no corredor, no qual são três poltronas por fileira, e o outro ainda não havia chegado – parecia estar um pouco - ok, estou sendo legal demais - muito, acima do peso que seria o certo. Sem mencionar que ele insistia em querer disputar o encosto do braço comigo - eu empurrava, ele empurrava, eu empurrava, ele empurrava. E nisso, o seu suor ficava roçando em mim. Meu Deus, me perdoe, mas eu realmente estou sentindo falta do dinheiro do nesse momento!
— A senhora sabe se é verdade que a estatística de quedas de avião vem aumentando? – o Sr. Free Willy - perdão, Deus, pelo veneno - me perguntou, parecendo um pouco nervoso enquanto tentava desabrochar a gravata. Com a outra mão, é claro.
— O senhor tem medo de voar de avião? – o homem se contorceu na cadeira e eu logo percebi que minha pergunta foi um tanto quanto idiota. Estava na cara dele que ele não só tinha medo, como pânico. — Olha, tente ficar calmo, nada vai acontecer. – sorri solidária.
O Sr. Free Willy sorriu meio forçado e voltou a encarar a poltrona à sua frente, ele me parecia meio pálido. Ótimo, era só o que me faltava, ele vomitar em cima de mim. Por que eu tinha a impressão de que eu não devia ter levantado da cama hoje?
— E aqui estamos nós outra vez. - ah, não!
Retiro o que eu disse. Eu não tinha a impressão, eu tinha CERTEZA de que não devia ter levantado da cama hoje. Para falar a verdade, eu não devia nem estar aqui. Maldito , maldita Las Vegas e maldito , que, naquele instante, estava se sentando ao lado do Sr. Free Willy.
— Qual é, você só pode está brincando comigo! – gritei olhando para o teto, na tentativa de que Deus me ouvisse. Mas pelo andar das coisas, eu só podia concluir que era apenas tentativa mesmo.
— Como eu disse, destino. – disse, inclinando-se sobre o nosso companheiro de vôo gigante.
— Karma! – bufei, encarando-o com raiva.
— Destino, meu amor! – ele riu e deu uma piscadela.
— Eu NÃO sou seu amor! – eu podia sentir o suor do Willy batendo em meu braço. Foda-se a higiene, o meu ódio era demais. — E se meu destino for aguentar você por mais cinco minutos, espero que esse avião CAIA!
Só me dei conta da merda que eu tinha dito quando o pânico tomou conta do Sr. Free Willy e todos à nossa volta começaram nos encarar. Meu Deus, viu só?! Era aquilo o que acontecia quando eu ficava perto do : desgraça e descontrole. Eu odiava aquele homem, ainda mais do que dez anos atrás.
— Perdoe a minha , senhor. – colocou a mão sobre o ombro do Willy, como se o confortasse e, de fato, ele estava parecendo precisar ser acalmado. — Ela ainda está abalada pela noite de muito sexo selvagem que eu a proporcionei ontem. – disse, encarando-me com aquele olhar pervertido e satisfeito por me ver corar na frente de todos.
— Cala a boca, imbecil! – gritei, e quase avancei para cima dele, mas a montanha de gordura entre nós não permitiu que eu encostasse nem um centímetro perto do .
Willy olhou de mim para , afrouxou a gravata mais uma vez e passou a ponta sobre a testa soada.
— V-Você, er... – ele gaguejou, e virou-se para o , seu rosto ficando cada vez mais pálido. — V-Você, quer trocar de lugar?
sorriu agradecido e se levantou, já preparado para trocar de lugar com o Sr. Free Willy, mas antes que aquela baleia gigante se levantasse, eu segurei o seu braço com força e o encarei. Tinha certeza de que meus olhos transbordavam toda a fúria que eu queria passar e estava sentindo.
— Se o senhor levantar daí por qualquer razão, até mesmo se for para ir ao banheiro, pode ter certeza de que eu derrubo esse avião nem que seja com a força do meu pensamento. - grunhi e apertei seu braço mais uma vez só para ter certeza.
Do outro lado, eu podia ver o tentando controlar a sua vontade de gargalhar. Fuzilei-o com o olhar e ele me jogou um beijo. Só não me levantei para arrebentar a cara dele porque a voz do capitão surgiu nos alto-falantes do avião.
"Senhores passageiros, aqui quem fala é o capitão Adams. Estamos decolando nesse instante, portanto peço a todos que verifiquem os cintos e os apertem. O vôo será direto e sem escala. Se precisarem de alguma coisa, falem com nossas aeromoças, que estão aqui para servi-los. Uma boa viagem e que Deus nos acompanhe."
Bem, eu já não estava assim tão certa sobre Deus desde o momento em que acordara na cama com pervertido do , mas sobre outra coisa eu tinha absoluta certeza: aquela seria uma longa viagem.
##
Ao contrário do que imaginei, a viagem não foi tão ruim assim. Depois da minha pequena ameaça, o Sr. Free Willy tinha finalmente desistido da tentativa de brigar comigo pelo encosto do braço e deixou que eu me divertisse sozinha. O também não me dirigiu mais a palavra. Antes de a gente levantar vôo, ele recebeu uma ligação, sussurrou coisas como "sim" e "com toda certeza", e logo depois que desligou, pegou uns papéis em sua pasta e começou a lê-los, esquecendo do mundo ao seu redor. Ok, devo confessar que fiquei um pouco curiosa e tentei ler por cima da montanha de gordura do Willy, mas além de ter sido quase impossível, eu vi o me olhar de canto de olho e, antes que ele notasse minha curiosidade, eu desviei o olhar e resolvi que era melhor ligar o iPod. Eu podia jurar ter visto um nome conhecido nos papéis do , só não conseguia me lembrar de onde, então, enquanto tentava me lembrar, acabei adormecendo.
Senti um vento leve bater em meu rosto e sorri. Aquela leve brisa tinha um cheiro bom, um cheiro que eu me lembrava de ter sentido em algum outro lugar. Era um perfume delicioso, contagiante, parecia algo cítrico, mas também amadeirado e... NICOTINA! NÃO! Abri os olhos de vez, assustada, e lá estava o , parado em pé, no corredor, com o rosto a centímetros do meu.
— Olá, Bela Adormecida. - ele sorriu torto e continuou me fitando.
— Dá pra você sair de perto de mim? - grunhi.
— Ah, não perdeu a fala? - fingiu-se de triste. — Droga, logo agora que eu estava começando a gostar disso! - sorriu novamente.
Virei para o lado, mas não sem antes de me assegurar de não encostar em nenhuma parte do , o que foi um pouco difícil, já que ele estava com o rosto próximo demais do meu, e não vi ninguém. Como assim? Onde estava todo mundo?
— Cadê todo mundo? - perguntei, me sentindo totalmente confusa. — Cadê o Willy?
— Willy? - franziu o cenho, depois seguiu meu olhar até a poltrona do lado e começou a gargalhar. — Não vai me dizer que você apelidou o cara de Free Willy?!
— Você o viu, não me condene. - disse, sentindo minhas bochechas esquentando. Odiava quando alguém descobria sobre um dos meus pensamentos maldosos.
— , . - ele riu. — Você já olhou ao redor? - tentou aproximar seu rosto ainda mais do meu, se é que aquilo era possível, e sussurrou: — Não tem ninguém.
— Por isso mesmo, eu já estou indo embora. - eu disse, escorregando na poltrona para fugir dele. — Vamos, saia logo daqui. - bufei.
Ao invés do que eu lhe disse para fazer, espalmou uma mão em cada lado dos encostos da poltrona e me obrigou a ficar entre seus braços, depois me fitou. Ele ficou em silêncio por uns segundos, apenas ali, parado, como se estivesse me analisando. Aqueles olhos , mais uma vez, esperando por alguma reação minha, mas eu não tinha reação alguma, não quando seus lábios estavam praticamente roçando nos meus. Eu me odiava, e não era pouco, era muito. Odiava-me porque, por mais que tentasse negar, com o do meu lado, eu voltava a ser a garotinha tola que se derretia todas as vezes que ele chegava perto demais.
— An, an... - ouvi um pigarro de longe e imediatamente empurrei o . A aeromoça olhou para ele, depois para mim e sorriu. O sorriso de quem quer dizer que compreende a minha respiração instável e o meu nervosismo; afinal, aquele homem parado ao meu lado era motivo mais do que suficiente. — Com licença, senhores. O avião já pousou faz dez minutos e precisamos esvaziá-lo.
— Nós já estávamos saindo. - ele passou a mão pelos cabelos e sorriu, seu sorriso torto.
A aeromoça, é claro, derreteu-se e lhe lançou um olhar de cobiça. Coitada, não fazia idéia de com quem estava se metendo. Ignorei o momento de flerte dos dois, me levantei, peguei a nécessaire e passei pelo corredor. Depois saí do avião, deixando e a aeromoça para trás. Eu não podia acreditar que, por alguns segundos, até tinha cogitado a idéia de beijá-lo; pior: beijá-lo sóbria. Ele era o mesmo de sempre: não ficava com alguém porque gostava, mas pelo simples prazer de saber que tinha conseguido. Bufei. Se ele não tinha mudado, estava na hora de provar que eu sim, que eu não estava presa ao passado, que agora era uma mulher, e, diga-se de passagem, NOIVA!
Minutos depois, lá estava eu, pegando as minhas malas na esteira de bagagem. Depois as coloquei no carrinho e segui pelo corredor que dava acesso ao Saguão Principal do aeroporto, procurando por algum sinal do . "A senhorita chegará aqui mais ou menos às 6h da manhã e o senhor disse que estará lá no aeroporto esperando-a." Olhei o relógio, já atualizado para o fuso horário: 06h30min. Até parece que eu realmente tinha acreditado que o estaria ali às seis em ponto! Suspirei, empurrei o carrinho para perto das cadeiras e sentei em uma delas para esperar, desejando que, dessa vez, por algum milagre, ele não se esquecesse de mim outra vez.
06h35min
06h40min
06h45min
— Você realmente deveria rever esse noivado.
Olhei para cima e vi o parado em minha frente com uma mochila nas costas e uma mala na mão. Revirei os olhos, já estava me cansando daquela perseguição.
— O que foi?! A aeromoça era mais esperta do que eu pensava, percebeu a cilada que você era e se mandou? - sorri irônica e, por algum motivo, ele também sorriu ao sentar-se ao meu lado.
— Pra falar a verdade, depois que a beijei - ele fez uma pausa e depois sorriu satisfeito, provavelmente porque eu não consegui disfarçar a minha cara de horror — ela começou a perguntar o meu nome, telefone, endereço... Essas coisas... Então achei melhor sair de lá, antes que ela resolvesse falar sobre os nomes dos nossos filhos.
— Você é nojento! - eu fiz uma careta e, antes que um xingamento pior viesse à minha cabeça, eu vi, por sobre os ombros do , o , caminhando em nossa direção.
Eu estava com raiva do , muita raiva, mas quando o vi ali, vindo até mim, com seu sorriso incrivelmente branco e seus olhos fixos em mim, eu quase esqueci completamente que tinha sido esquecida por ele, duas vezes em menos de 48 horas.
— Agora, se me der licença, - me levantei, ajeitei a bolsa no ombro e segurei o carrinho — meu noivo acaba de chegar. - é claro que eu não podia deixar de enfatizar a palavra noivo, e logo em seguida soltar um sorriso de quem estava muito satisfeita com aquilo.
continuou parado à minha frente, impedindo minha passagem.
— Espero que já tenha uma boa desculpa para o anel. - ele disse, acenando para minha mão, e eu engoli em seco. É, eu também.
— Adeus, . - ignorei-o e passei por ele, deixando-o para trás, mesmo que por dentro a frase dita por ele tivesse feito o meu coração disparar só de pensar na possibilidade do não acreditar na minha história esfarrapada sobre a banheira entupida.
— Boa sorte! - ouvi-o gritar enquanto eu passava pelo saguão na direção de .
Suspirei ao vê-lo sorrir para mim. Oh, Meu Deus, era incrível. Não só pelo seu físico, que, com certeza, fazia qualquer mulher desejá-lo, mas também por tudo que ele era. E eu, bem, eu não passava de uma noiva traidora e desastrada, que fora capaz de perder o anel de noivado. "Espero que já tenha uma boa desculpa para o anel." As palavras do rodopiavam em minha cabeça, enquanto a distância entre mim e diminuía, fazendo com que uma onda de medo dominasse meu estômago. Eu estava ferrada! Não, não estava. Eu tinha uma desculpa, uma boa desculpa, não tinha? Sabe o que foi, meu amor?! É que eu estava tentando desentupir a banheira do hotel. Meu Deus, a quem eu queria enganar? Aquela era a pior desculpa que alguém podia ter inventado na vida e eu estava prestes a usá-la. Era o meu fim, o fim do meu noivado.
— Oi, meu amor. - deu um sorriso sem jeito e fez sinal para que eu o deixasse carregar o carrinho. — Tudo bem?
Afastei-me e deixei que ele pegasse o carrinho. Eu podia ver a aflição nas suas íris . não queria saber se eu estava bem, mas sim, se estava tudo bem com nós dois. Senti um aperto no peito e fiquei em silêncio por alguns instantes; vê-lo tão de perto, depois de tudo que acontecera, só contribuiu para que eu me sentisse ainda pior. É claro que, em parte, a culpa era dele, por ter me deixado sozinha em Las Vegas por causa do seu trabalho idiota, mas no fundo, ainda que preferisse não pensar daquela maneira, eu sabia que ele só tinha feito aquilo porque confiava em mim. confiava em mim. Confiava.
O peso daquela palavra sobre meus ombros pareceu ainda maior quando ele passou a mão pelo meu braço, acariciando-o. Seus olhos ainda aflitos esperando por alguma reação da minha parte, mas eu não sabia o que fazer e, muito menos, o que dizer. Como eu fora capaz de traí-lo? O meu , o cara que eu tinha esperado por toda minha vida, o cara que tinha me pedido em casamento no restaurante do nosso primeiro beijo ao som de "You and I", do Scorpions. Eu não prestava! Então uma vontade súbita de chorar começou a me dominar, a culpa pulsando dentro de mim a cada segundo que os seus olhos me fitavam. Mas eu não podia fazer aquilo, não podia chorar e correr o risco do me perguntar o que estava acontecendo.Não. O que tinha acontecido em Las Vegas não era nada perto do amor que eu sentia pelo , e se para mantê-lo eu tivesse que mentir para ele pela primeira vez, então eu faria aquilo. E o que fosse que tivesse acontecido entre mim e o naquela noite agora era passado e não voltaria mais. Eu só precisava esquecer e seguir em frente. E considerando que, graças a Deus, eu nunca mais veria o na minha vida, aquilo seria até fácil.
— Pelo menos sair do escritório um segundo para me buscar você pode. - desabafei. Se era para esquecer a culpa, teria que me lembrar da raiva que ainda sentia por ele ter me deixado sozinha em Vegas.
afastou a mão do meu braço e abaixou a cabeça, seu olhar fixo nos próprios sapatos. Droga! Eu não devia estar fazendo aquilo com ele, quero dizer, se fosse antes de ter acontecido tudo aquilo com o eu não me importaria, estaria sendo justa, mas agora... Agora parecia demais.
— Escuta, , eu... - começou a gaguejar, daquele jeito que ele sempre fazia quando sabia que estava errado, depois levantou a cabeça e me encarou. — E-Eu sinto muito, não queria ter feito aquilo, mas é que...
parou de falar de repente, e eu o fitei. Seu olhar já não estava mais em mim, mas sim em algum lugar atrás de mim. Franzi a testa e fiquei ainda mais confusa quando o vi sorrir e acenar. Ok, justo quando eu estava aceitando o fato de ter sido esquecida duas vezes, o me ignorava. Virei-me, tentando entender, afinal de contas, para quem ele estava acenando, e quando vi o caminhando em nossa direção, senti o meu estômago revirar. Por que aquele idiota estaria sorrindo para mim? Será que era tão difícil assim entender que eu o queria LONGE de mim? Quando aquele pesadelo iria acabar?
se aproximou ainda mais e o mais estranho foi que eu percebi que seu olhar não estava em mim, mas na direção do . Aquilo já estava indo longe demais! Eu precisava tirar o dali, antes que o resolvesse fazer uma de suas gracinhas e, depois disso, eu ficaria longe dele para sempre.
— , acho melhor a gente ir. - disse, colocando a mão sobre o seu braço.
— Só um segundo, . - sorriu sem desviar o olhar da frente.
O que estava acontecendo ali? Por que o e o se olhavam como se estivessem em um daqueles filmes nos quais velhos amigos se reencontram depois de anos? Aliás, eu não conseguia entender nem sequer porque eles estavam se olhando. Oh, não! Eles não podiam se conhecer, podiam? Não, isso é impossível! Quero dizer, por favor, TEM que ser impossível! Tentei manter a calma e absorver parte do que estava prestes a acontecer ali, mas era impossível conseguir me acalmar quando eu podia sentir o meu coração disparar em meu peito, à medida que o ia se aproximando de nós dois.
— ? - ele perguntou assim que parou de frente para , sem desviar o olhar até mim.
— ? - sorriu.
Era o meu inferno astral. Era Marte em Plutão ou em Urânio, seja lá como chamam essas coisas, mas com certeza era o meu apocalipse. O fim dos meus dias, o fim do meu noivado! Eu não devia ter levantado da cama, eu não devia ter ido para Las Vegas e, definitivamente, eu não devia ter transado com .
007
Minhas pernas começaram a tremer e todas as partes do meu corpo pareciam estar suando. Eu podia ouvir o meu nome sendo chamado ao longe, mas eu não conseguia responder. Naquele instante todos os acontecimentos das últimas 48 horas passavam como um filme por minha cabeça, um filme de terror daqueles bem macabros.
- ? - me chamou pelo que devia ser a milésima vez. - Está tudo bem? - ele disse, tocando o meu rosto. - O que você tem?
Olhei para ele apenas por reflexo enquanto tentava assimilar o que acabara de ocorrer. Só podia ser brincadeira, quais eram as chances de algo como aquilo acontecer a uma pessoa? Praticamente zero. Mas não comigo, não com a rainha das leis de Murphy. Nada está tão ruim, que não possa piorar. É, pois é.
- ? - o tom de voz aflito de me fez perceber o quanto eu estava dando bandeira. E quando eu finalmente tive coragem suficiente para fitar , me arrependi. Lá estava o seu sorriso cínico estampado descaradamente em seus lábios. Eu estava mesmo dando bandeira.
- E-er, me desculpe. - eu disse, fitando e me virando de costas para na tentativa de fazê-lo perceber que estava sendo totalmente ignorado. - Er, eu só estava aqui pensando em alguma coisas e ... - tentei ao máximo fingir que não tinha ficado ali parada feito uma idiota por quase dez longos minutos, mas estava difícil arranjar uma desculpa.
- Hum. - foi tudo o que disse, provavelmente ele achou que tivesse algo a ver com a nossa discussão. Pelo menos foi o que pensei ao vê-lo corar, sem jeito. - Mas está tudo bem mesmo?
- Está sim. - sorri para tranquilizá-lo. Pobre .
- Tem certeza? - a voz irritante do surgiu por trás de mim, mas eu não me virei, ainda tinha esperança de que ele se tocasse e fosse embora de uma vez. - Você me pareceu realmente muito preocupada com algo. - disse irônico. Ironia, claro, que só eu captei. E pelo visto, a ideia dele se tocar e ir embora estava longe de acontecer.
Respirei fundo, eu conhecia muito bem, ou talvez o suficiente para saber que ele também me conhecia. E que, com certeza, naquele momento ele estava esperando que eu me descontrolasse para que assim ele pudesse se divertir às minhas custas, mas eu não ia lhe dar aquele gostinho. Não na frente do .
- Então, vocês se conhecem? - segurei a mão do , me virei e sorri para o o mais falso que consegui.
sorriu e apertou a minha mão de volta, enquanto disfarçadamente observou nossas mãos se cruzarem e sorriu também.
- O fez faculdade comigo. - bateu no ombro dele e riu. - Era o pegador de Stanford.
Arqueei a sobrancelha. Que o era safado e galinha eu já sabia há muito tempo, mas eu me lembrava muito bem de quando o meu pai apareceu lá em casa contando à mamãe que o menino tinha entrado para a faculdade de Jornalismo de Princeton. Ele estava tão orgulhoso, como se fosse o próprio pai do . E a mamãe, apesar de assim como eu ter ficado um pouco descrente, também comemorou.
- Mas você não é jornalista ou algo assim? - perguntei antes mesmo de perceber a burrice que tinha feito. Maldita língua!
sorriu torto.
- Parece que alguém andou procurando por mim no Google. - eu não sei por que motivo riu do que havia dito, talvez porque ele não soubesse o que realmente estava por trás daquela frase prepotente. - O Jornalismo só foi depois de eu ter abandonado o curso de Direito.
- Típico! - eu disse, revirando os olhos e fazendo-o gargalhar. Era mesmo típico dele começar algo e nunca terminar.
Eu já estava ficando impaciente com os sorrisos cheios de insinuações do e resolvi chamar para que a gente pudesse ir embora, mas assim que o fitei percebi que meu inferno só estava começando. tinha o cenho franzido e olhava de para mim, como se estivesse somando 2 + 2. Por Deus, que ele seja péssimo em cálculo.
- Vocês também já se conheciam?
Por que eu ainda insistia em me apegar às forças divinas?!
- Nós viemos no mesmo avião. - eu disse de vez, antes que abrisse a boca para dizer qualquer coisa. Comecei a sentir o meu nervosismo voltar assim que deu uma piscadela para mim sem que visse. Não que eu estivesse mentindo para sobre o fato de que eu já conhecia , apenas estava omitindo. E considerando tudo o que tinha acontecido entre nós em Vegas, àquela altura conhecê-lo era só um mero detalhe.
- Que legal, eu...
- Meu amor, é melhor a gente ir embora. - disse interrompendo a animação do .
- Mas...
- Nós temos que provar as roupas hoje, esqueceu? - sorri, puxando-o pelo braço.
- É hoje? - perguntou confuso. - Achei que fosse daqui a algumas semanas ainda.
- Não! - falei impaciente e ignorei a risadinha do ao fundo. - É para hoje.
- Ok, tudo bem. - se virou para . - Você vai ficar aqui na cidade até quando, cara?
Eu olhei para , não que eu me interessasse em saber até quando ele ficaria por aqui, na verdade eu estava mais interessada em saber quando ele iria sumir no mundo outra vez e, mais precisamente, da minha vida. ficou quieto por uns segundos, depois olhou para mim e sorriu. Eu percebi que havia algo a mais naquele sorriso, era diversão.
- Estou morando aqui agora.
Como eu disse, rainha da lei de Murphy!
- Sério? Que bom! - sorriu empolgado. - Então faço questão que você vá ao nosso casamento.
Meu estômago revirou, a mesma volta de 360º que eu havia sentido na manhã da ressaca. Era só o que estava faltando para completar a minha desgraça, em meu casamento. Eu estava quase para gritar com o , para ele se tocar de que estava colocando um inimigo dentro da própria casa, ou melhor, da igreja. Meu Deus, , você está vendo esse homem à sua frente que você está para abraçar e colocar em um pedestal?! Eu transei com ele há algumas horas e, segundo o mesmo, foram horas de um sexo selvagem do qual graças a Deus eu não me lembro nada, mas que tal chamá-lo para padrinho então? Claro que eu não iria cometer aquele suicídio, assim, se houvesse casamento seria só em minha imaginação.
- ! - minha voz saiu esganiçada e ele me olhou assustado. - Temos que ir. - falei entre dentes, puxando-o pelo braço.
Eu precisava sair dali, quero dizer, precisávamos, eu e o . Antes que começasse a ser o de sempre.
- Ok, já vamos, eu só... - colocou a mão no bolso do paletó e tirou um papel.
- Quer dizer que vocês vão se casar?! - disse, o cinismo transbordando em seu rosto. - Que incrível, minhas felicidades.
- Vamos sim. - sorriu. - Toma aqui o meu cartão, quero que você me ligue essa semana para a gente combinar algo pra eu te entregar o convite do nosso casamento e também falar um pouco dos velhos tempos, hein?
Oh, meu Deus. Todo o medo que eu tinha tentado conter até ali começou a desabrochar com força. Como assim combinar algo? Que insanidade é essa? Cada segundo que passava eu me sentia mais e mais ferrada. E não era para menos.
- , por favor. - implorei a ele.
- Vamos. - ele sorriu e eu senti o alívio passando pelo meu corpo.
- Sabe, cara. - o interrompeu, impedindo-nos de sair. Eu odiava aquele homem com todas as minhas forças. - Ainda não acredito que você vai se amarrar. - riu e me abraçou. - Ainda mais com a .
Arregalei os olhos e engoli em seco, enquanto sorria radiante para mim.
- ? - nos encarou, seu semblante confuso. Como se tivesse perdido algo, e tinha. - Então vocês já se conheciam mesmo?
Eu não sabia mais o que fazer, todas as minhas tentativas de tirar dali tinham sido frustradas e agora eu estava prestes a ver o meu futuro se desmanchar diante dos meus olhos. Agora era tarde demais. Adeus, casamento, adeus, lua de mel. Adeus, vida!
Olhei para , meu olhar de súplica estampado em meu rosto. Eu não devia ter sustentado aquela idiotice, deveria ter saído dali na primeira oportunidade. Achei que fosse capaz de manter a calma na frente do , mas não tinha jeito, eu sempre seria a mesma tola que caía em suas brincadeiras e provocações.
- Amor, estamos atrasados. - balbuciei.
passou a mão pelos cabelos, sorriu e caminhou até o meu lado enquanto o acompanhava com o olhar. Eu era incapaz de respirar.
- Ah, claro que nos conhecemos. - sorriu torto, passou o braço em torno do meu ombro e me apertou contra o seu corpo. Ok, eu estava nervosa, em choque e querendo matá-lo, mas era impossível não perceber o quão forte era o seu braço e como meu corpo mínguo e pequeno parecia se encaixar perfeitamente em seus músculos firmes. - Eu e a já brincamos muito quando éramos pequenos, não foi, ?
- É mesmo? - sorriu empolgado.
Meu Deus, ele estava achando aquilo o máximo! Um bolo formou-se na minha garganta, eu tinha traído e agora estava deixando que o imbecil do tripudiasse em cima dele, rindo da cara dele, como ele fazia com todos.
- Qual era mesmo nossa brincadeira preferida, ? - eu o encarei, meus olhos ardendo pela raiva, implorando em silêncio para que ele parasse. - Ah sim, era médic-OUTCH.
Por um impulso eu pisei sobre o pé do . Depois me livrei do seu braço, peguei o carrinho com as minhas bagagens e puxei com toda a força que tinha sem nem ao menos olhar para trás.
- Me liga, cara!
Foi tudo o que eu ouvi dizer antes de sairmos de vez daquele maldito aeroporto.
008
- Pensei que íamos provar as roupas. - me disse com um olhar confuso assim que Javier, seu motorista, parou em frente ao prédio onde eu morava.
Durante todo o caminho viemos em silêncio e muitas vezes eu percebi que tentava dizer algo, mas acho que quando via o meu olhar perdido na janela logo desanimava. É claro que ele devia estar se sentindo péssimo, achando que era o culpado de tudo, mas na verdade é que eu preferia encarar o nada a ter que olhar para seus olhos apreensivos, e, por isso, assim que saímos do aeroporto eu fui até o Javier e pedi baixinho que ele me deixasse logo no apartamento. Não havia prova de roupas nenhuma, aquilo tinha sido só uma desculpa para eu conseguir me livrar do , não que tivesse adiantado muito.
- É só daqui a algumas semanas. - eu disse desanimada e descendo do carro para ajudar Javier com minhas malas.
- Mas você disse que era para hoje. - deu a volta no carro e ajudou Javier a retirar a bagagem do porta malas e colocá-la na calçada.
- Disse? - eu não o fitava em nenhum momento. - Acho que me enganei.
suspirou e colocou as mãos dentro do casaco, sem graça, depois fez sinal para que Javier subisse com as malas e eu lhe entreguei a chave do apartamento.
- Tudo bem. - ele finalmente me fitou. - Venho te buscar mais tarde, ok?
- Pra quê? - perguntei, acompanhando Javier com o olhar.
- Para você dormir lá em casa. - eu me virei para fitá-lo e ele sorriu sem jeito.
Suspirei. A última coisa que eu queria naquele momento era ter que passar a noite de remorso ao lado do .
- Hoje não, , estou muito cansada da viagem.
Ele suspirou dando-se por vencido, e eu pude ver o seu semblante tornando-se triste e derrotado. Eu era uma cretina, mas se eu ficasse ao seu lado por mais alguns minutos seria capaz de começar a chorar e nunca mais parar e mais uma vez ele iria achar que a culpa era dele.
- , - se aproximou e abaixou a cabeça - eu sinto muito.
Levei minha mão ao seu queixo e levantei seu rosto, eu não o merecia.
- A gente se fala depois, ok? - sorri o mais sincero que pude e o beijei de leve.
sorriu, mas eu ainda podia ver a tristeza em seus olhos. Graças a Deus Javier voltou, me entregou a chave do apartamento e eu pude finalmente me despedir do .
***
Subi as escadas pensando no quão bom era estar em casa outra vez. Nunca pensei que um dia fosse dizer aquilo sobre a minha minúscula quitinete, que estava longe de ser um Bellagio, mas definitivamente depois de todo o trauma que eu havia passado por lá, era muito bom estar em casa. E aquela sensação aumentou mais ainda quando eu vi parada na porta do nosso apartamento, ela e seu sorriso familiar e aconchegante.
- Você chegou! - ela gritou, batendo palmas e seus cabelos loiros pulando junto com seus saltinhos empolgados. - Não acredito que está aqui! - riu e correu para me abraçar. - Own, , por que você não veio antes? Por que não pegou um avião no exato momento em que percebeu que estava em Vegas e veio embora? Por que deixou que aquele tratante do lhe fizesse de idiota mais uma vez?
Aquela era a ! A minha sensível e meiga amiga, que, assim como eu, parecia esquecer que às vezes era bom ter um filtro na cabeça. Mas, ainda assim, era muito bom estar em volta dos seus braços finos, o abraço com que havia sonhando há dias. Engoli um bolo na minha garganta, tentando evitar que o acesso de choro começasse ali mesmo, no corredor do prédio.
- O que aconteceu, afinal? - ela se afastou e me encarou ao me ouvir fungar. - E, , não me venha com mentiras para aliviar o lado do . - disse, usando seu olhar de advogada do Diabo. Todas as vezes que achava que devia largar o emprego passava dias vendo aquele filme e, no final, suspirava, dizendo o quanto Keanu Reeves era quente e que advogados como ele eram o motivo dela continuar. Eu, claro, não via sentido algum naquilo tudo e muito menos no filme. - Ele lhe bateu? - eu arregalei os olhos, espantada só com o fato de ela ter sugerido algo daquele tipo em relação ao . - Qual é, você sabia que homens criados pela mãe tem chances de serem grandes canalhas?
Ok. Aquilo já estava indo longe demais, o único canalha que eu conhecia até onde eu sabia havia sido criado pelo pai e naquele momento tinha resolvido que arruinar a minha vida era o seu lazer da vez.
- , vamos entrar e eu lhe conto tudo, ok? - coloquei a mão sobre seu ombro e tentei sorri para acalmar a fúria que eu começava ver em seus olhos.
Enquanto seguíamos para dentro do apartamento me inspecionava. Como um perito faz querendo encontrar qualquer tipo de escoriação no corpo da vítima que de fato incriminasse o autor. Apesar de loira, linda e elegante, podia ser bastante assustadora quando queria.
- Certo. - ela se sentou no sofá de frente para mim, pegou o controle e desligou a TV, sem desviar seu olhar inspetor de cima de mim. - Agora, olhe para mim e não minta.
- Por que eu mentiria? - arqueei a sobrancelha.
- Porque você já fez isso antes. - ela respondeu na lata.
- Nunca fiz isso. - me indignei.
- Ah não? - ela disse, como se eu tivesse lhe dado a deixa que ela esperara. - E aquela vez que eu e o Harry combinamos de encontrar com você e o no Joe's?
- O que tem? - me encolhi na poltrona gasta do nosso apartamento, com medo do que estava por vir.
- Você me ligou dizendo que estava indisposta e que não ia poder ir. - ela revirou os olhos. - Como se eu não conhecesse sua voz de choro.
- Mas eu estava mesmo indisposta! - protestei.
- Tão indisposta que quando cheguei aqui você estava agarrada a uma garrafa de vodka gritando da nossa varanda, pra quem quisesse ouvir, que o era um banana e que a única coisa que ele sabia fazer era lamber o traseiro da mamãe dele.
Engoli em seco. Eu estava começando a considerar a possibilidade de frequentar o AA.
- Você se lembra disso, não lembra, ? - me encarou. Eu tremia todas as vezes que ela me chamava pelo meu nome, era como ver a minha mãe diante de mim dizendo que o quão irresponsável eu era por deixar o Zeus, um cachorro pulguento e adorado por minha família, sair correndo pela rua de Sunshine, em tempo de alguém atropelá-lo. Como se existisse algum carro naquele fim de mundo.
Assenti, encolhendo-me cada vez mais na poltrona. Era impossível mentir para a , eu nunca tinha conseguido aquela proeza. Encaramo-nos, na verdade ela que ficava me fitando, em silêncio, esperando uma resposta minha. Mas só de começar a pensar em todos os acontecimentos daqueles últimos dias e de vê-la ali na minha frente, dentro do aconchego do nosso lar, as lágrimas começaram a pular compulsivamente. Em meio às vistas embaçadas eu vi se levantar correndo, ela olhou para mim, depois para a cozinha, sem saber de fato o que devia fazer. Por que afinal eu estava chorando? Estava tudo sob controle, quero dizer, eu tinha tudo sobre controle, não tinha? Eu não precisava mais me preocupar, não era verdade? Eu estava segura no aconchego do meu lar, com a perto de mim, tudo estava bem com o , ou pelo menos iria encaminhar para isso, e o que quer tivesse acontecido em Las Vegas ficaria em Las Vegas para sempre. Ok, não tão para sempre assim já que o estorvo do agora estava morando aqui. Funguei. Mas qual era a possibilidade de nos encontrarmos em Londres outra vez? Praticamente mínima. Lembrei-me do que havia acontecido no aeroporto e senti náuseas, era melhor eu parar de pensar em possibilidades quando se tratava de mim. Mas, ainda assim, as coisas não estavam tão ruins assim.
- ! - a voz distante e preocupada da chegava aos meus ouvidos e fazia coro em meio às vozes de e . - , pelo amor de Deus, fale comigo!
estava começando a entrar em pânico, enquanto eu chorava e dizia coisas sem sentido como: "meu noivado foi pelo ralo", "ralo, meu Deus, o meu anel de noivado", ", filho da puta". Ela correu até a cozinha, pegou algo e voltou correndo, sentando-se no chão, com os braços apoiados em minhas pernas. Mas eu não conseguia falar. Uma onda de desespero tomou conta de mim. A quem eu estava querendo enganar? Eu não prestava. Era a pior pessoa que alguém poderia conhecer. Pior, alguém como o .
As lágrimas começaram a vir aos poucos, depois pareciam uma cachoeira imensa carregada de culpa e medo de que o acabasse descobrindo tudo. Foi um choro compulsivo regado por flashes confusos. Uma hora eu estava dançando em cima de um palco em algum pub de Las Vegas como se fosse a própria Madonna em turnê, outra hora eu parecia estar em algum chão enquanto um cara me perguntava se estava tudo bem comigo. Tentei forçar a minha mente alcoólatra a lembrar-se do rosto do gentil homem que me segurava, mas era impossível. Depois eu estava acordando em um hotel barato ao lado do homem que eu mais detestei ao longo da minha vida: . E novamente as lágrimas em meus olhos começaram a surgir, multiplicando-se, triplicando-se enquanto eu soluçava.
- CHEGA! - senti um tapa estralando em meu rosto, e de repente as lágrimas haviam ido embora e eu encarava a perplexa. - PORRA, DÁ PRA VOCÊ PARAR E FALAR O QUE AQUELE DESGRAÇADO DO FEZ? ELE TE BATEU MESMO, NÃO FOI? O QUE ELE FEZ? EU VOU QUEBRAR A CARA DAQUELE ALMOFADINHA DE MERDA! ONDE ESTÁ O TELEFONE? CADÊ? CADÊ AQUELA DROGA?
Eu nunca tinha visto a tão vermelha e descabelada em toda minha vida. Ela andava de um lado para o outro do apartamento, não que na nossa quitinete tivesse muito espaço para fazer aquela cena de desespero, mas ela estava se esforçando. jogava as almofadas para cima, procurando pelo o telefone enquanto eu ainda sentia o tapa que ela tinha me dado queimando em meu rosto, mas foi o tapa que me fez cair em si e ver quando ela achou o telefone e começou a digitar o numero do .
- NÃO, ! - corri atrás dela na tentativa de arrancar o telefone de sua mão. Se ligasse para e dissesse que eu estava lá me desmanchando em lágrimas ele provavelmente iria se sentir tão culpado que eu nunca mais teria cara para olhá-lo. Pobre , não tinha nada a ver naquela historia. Eu, somente eu, era a única culpada. Ok, e o também, por ser um cafajeste de primeira. - VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!
- NÃO ADIANTA, , ELE VAI ME ESCUTAR DESSA VEZ! - correu para dentro do banheiro e trancou a porta antes que eu pudesse alcançá-la. O medo tomando conta de mim, a angústia. Se fizesse aquilo, era a certeza do fim. - Senhora Megan? Eu quero falar com o . - ouvi sua voz, dessa vez um pouco mais calma, mas ainda ríspida e autoritária como sempre acontecia quando ela estava muito, ou melhor, extremamente irritada. - Não quero saber de porra de reunião nenhuma, minha senhora...
- PARA, POR FAVOR! - gritei através da porta, impedindo que ela falasse algum desaforo para a pobre da Megan. Aquela senhora ainda devia estar tentando se recuperar do trauma que eu havia lhe causado falando dos meus peitos e do garçom gostosão da piscina, naquele dia em Vegas, com certeza não iria aguentar outro momento de baixaria.
- Eu quero é falar logo com esse seu chefe filho de...
- EU O TRAÍ! FOI ISSO O QUE ACONTECEU!
Ouvi um baque, depois silêncio e mais silêncio. Perdi a noção dos segundos que se passaram até o rosto pálido e abobalhado da aparecer por trás da porta, olhei para a sua mão procurando pelo telefone, que agora estava jogado no chão, explicando a origem do barulho. me encarava, seus olhos verdes esperando que eu risse e dissesse que era uma brincadeira, um blefe. Mais uma de minhas mentiras para poder livrar a cara do , mas ela não encontrou nada. A não ser o choro que voltou e as lágrimas que desciam com a mesma facilidade de antes. Esperei ela me abraçar e me dizer que tudo ia ficar bem, mas ao invés disso ela riu, gargalhou, e se eu não estivesse abalada, até diria que estava com os braços para cima comemorando, como se seu time tivesse marcado pontos nos 10 segundos finais do ultimo tempo.
- FINALMENTE DEUS OUVIU MINHAS PRECES! - ela riu e acabou com todas as minhas dúvidas. Ela estava mesmo comemorando.
- ! - repreendi-a em meio aos soluços. - Você ficou louca? - caminhei de volta para a sala e me encolhi no sofá, meus braços em torno dos meus joelhos. - Como pode rir de algo assim?
- Desculpa, . - disse, sua voz mesclava o arrependimento e a diversão. - É a droga do filtro que me falta. - ela tentou arrancar um sorriso de mim, mas estava impossível naquele momento. - Ok, sinto muito mesmo.
aproximou-se de mim no sofá, colocou as mãos sobre as minhas e me fitou.
- Vamos, conte como isso aconteceu.
Fiquei quieta por uns instantes, observando-a para ver se ela não ia começar a rir, mas parecia mesmo disposta a me ouvir. Então, comecei a contar desde o dia maravilhoso na piscina, até as minhas expectativas para o jantar com o . Depois ele recebendo a ligação e me deixando sozinha naquele imenso apartamento do Bellagio. Claro que falei como o Bellagio era perfeito e como cabiam vinte da nossa quitinete no quarto em que eu o estávamos. torceu o nariz, como sempre fazia quando eu me referia aos momentos de riqueza do , mas eu a recriminei com o olhar e ela parou. Continuei contando como eu resolvi beber, e ela soltou um "Normal", e eu fingi não ouvir e depois disso contei que tudo o que lembrava eram flashes. E então chegou a pior parte, .
Falei de todas as coisas que ele havia me dito na manhã seguinte após a minha bebedeira, de que tínhamos transado e até mesmo a disse: "Você? Selvagem na cama? Duvido!". É, eu também duvidava até aquele dia. Cada detalhe a mais que contava, eu podia perceber o esforço que ela estava fazendo para não rir ou comemorar e no fim, quando lhe disse que além de odiar o por coisas do passado, para completar, o era amigo antigo do , então a não se conteve mais e gargalhou de vez.
- Desculpa, . - ela disse, colocando a mão sobre a barriga. - Mas é que... Meu Deus, quais as chances de isso acontecer a alguém?
- Muitas, quando se trata de mim. - eu funguei, tentando abstrair o fato de que desgraça pouca comigo era bobagem.
- Own, não fique assim, amiga. - ela me puxou, seu braço me apertando contra seu corpo com carinho. - Não pode ser tão ruim assim.
- Como não? - bracejei. - Você ouviu tudo o que eu disse, ?
- Ouvi. - ela me fitou séria. - E preciso muito lhe perguntar uma coisa.
- O quê? - arqueei a sobrancelha.
Seus lábios finos se curvaram em um sorriso divertido, eu sabia que não vinha boa coisa dali.
- Esse é gostoso?
Como eu disse, nada bom!
- Eu digo a você que traí o meu noivo com o qual estou de casamento marcado para daqui a algumas semanas e tudo o que você me pergunta é se o cara era gostoso? - afastei-me dela e fui até a cozinha pegar um copo de água. Depois de tanto choro, eu só podia estar desidratada.
- O que você quer que eu diga? - indagou, escorando no batente do balcão da cozinha. - Que você é uma vadia das boas? - sorriu maliciosa. - Ah, disso você provavelmente já sabe.
Peguei a primeira coisa que vi em cima da mesa e joguei em sua direção, mas foi mais esperta e segurou a maçã na mão e riu.
- Espere até o Harry saber disso. - disse, dando uma mordida na fruta.
- O quê? - encarei-a aflita e perplexa. - Não pode contar isso para o Harry, para ninguém!
- O Harry não é ninguém! - disse emburrada. - E nós três somos amigos há tanto tempo e, além do mais, apostei cem pratas que esse casamento não acontecia.
- ! - a cada segundo eu ficava mais assustada com a . Eu sempre soube que ela não era a maior fã do , mas ela já estava começando a exagerar. - É claro que vai haver casamento.
- Então, você não vai contar ao ? - ela me encarou, como se não reconhecesse a pessoa que estava em sua frente. Para falar a verdade, acho que nem eu me reconheceria se me olhasse no espelho.
- Claro que não! Por que contaria? - abri a geladeira e fingi procurar por algo ali dentro, qualquer coisa naquele instante era melhor do que encará-la. - Foi uma noite só e eu estava bêbada. - olhei para a jarra de água e para a Heineken, com certeza agora eu precisava mais de cerveja do que de água. - Não é como se eu estivesse tendo um caso.
Abri a tampa da Heineken, dei um gole e olhei para , seus olhos ainda arregalados, em choque.
- Quem é você o que fez com a minha ? - eu sabia que por trás dos seus olhos perplexos, ela estava louca para sorrir.
- Qual é. - suspirei. - Eu amo o e nada vai mudar isso.
ficou em silêncio, analisando-me por alguns segundos.
- Olha, não estou dizendo que você não o ama. - sua voz era calma e sincera. - Mas você não acha isso aconteceu por algum propósito?
- Algum propósito? - franzi o cenho e caminhei até a mesa, sentando-me em uma das cadeiras e bebendo a cerveja.
- É. - ela sorriu e caminhou para se sentar na cadeira ao meu lado. - Como um aviso de que você devia repensar esse casamento.
Bufei. Ela não desistia mesmo.
- , é última vez que lhe peço isso, ok? - revirou os olhos, ela provavelmente já imaginava o que eu ia dizer. - Pare de implicar com o e tentar me fazer desistir desse casamento. - bufou. - Eu o amo, quero e vou me casar com ele.
olhou para o teto e eu fiquei esperando um protesto da parte dela, mas ao contrário disso ela tomou a garrafa da minha mão e tomou um gole, depois me fitou.
- Bonequinha de Luxo ou Uma Linda Mulher?
Sorri e a puxei para um abraço, era nesses momentos que eu me lembrava do porquê da ser minha melhor amiga. Apesar dos pesares ela sabia como melhorar o meu dia!
009
Para: .
De: Peter Adams.
Assunto: Colônia de férias?
Senhorita , o que acha que é o seu emprego? Uma colônia de férias em que a senhorita aparece apenas uma vez no mês e quando aparece não é capaz de fazer o seu serviço direito? Em que raio de inferno você se meteu? Sabe, senhorita , secretária quer dizer PRESENÇA E EFICIÊNCIA! Cadê as fotos para a matéria do príncipe Harry que você ficou de pegar na gráfica e me entregar na sexta-feira? Você tem ideia de que passou o final de semana todo e não deu notícia? Era pra sexta-feira a matéria, , ou você aparece aqui essa segunda-feira ou você nem precisa aparecer.
Atenciosamente,
Seu CHEFE.
Para: .
De: Recursos Humanos.
Assunto: Atrasos.
Senhorita ,
É do conhecimento do setor de Recursos Humanos do The Guardian que esse é o 18º atraso da senhorita somente nesse mês, o que é de uma falta de responsabilidade terrível e isso praticamente contabiliza 60% de atraso no mês, imagine ao logo do ano? Gostaríamos de lembrá-la de que o expediente aqui começa às 9h em ponto. O The Guardian trabalha em equipe e esperamos que a senhorita entenda que a falta de um membro resulta em um problema de todos, então pedimos para que caso a senhorita esteja passando por algum problema pessoal nos procure, pois teremos grande prazer em inscrevê-la em um dos nossos Grupos de Ajuda ao Colega.
Atenciosamente,
Recursos Humanos do The Guardian.
Para: Ben Sullivan
De: Peter Adams
Assunto: .
É o seguinte, espero que você trate de achar a sua amiga e de preferência antes de mim, pois quando eu por as mãos naquela criatura eu vou querer matá-la. Era pra eu ter as fotos da do Príncipe Harry impressas para sexta-feira e você tem ideia de que dia é hoje? Segunda-feira! Sem falar da sua matéria sobre a semana de moda em Paris, cadê? Nada também! Daqui a pouco o concorrente, isso mesmo, o The Times, vai fechar as portas do nosso jornal e aí quem sabe vocês dois conseguem emprego lá? O que é claro que eu duvido muito, devido ao grau de incompetência de vocês.
Acho bom você achá-la depressa!
Para: Ben Sullivan
De: Charlene Smith
Assunto: Comemoração no Joe's!
Parece que a sua amiguinha mais uma vez perdeu o horário, não é, querido? Eu não me surpreenderia se dessa vez ela fosse demitida, acho até que seria um grande feito do TG. Espero que ela não apareça, assim já posso convidar o pessoal para uma comemoração no Joe’s mais tarde.
Beijinhos, dear,
Charlene.
Para: Peter Adams
De: Ben Sullivan
Assunto: Re: .
Querido Peter, eu andei lendo uma matéria na Scientific American desse mês (sim o seu colunista sênior de Moda preferido às vezes é capaz de ler essa revista) e ela dizia que o estresse pode vir a causar morte. Eu sei que isso não é novidade para ninguém, mas eu apenas queria deixá-lo em alerta. Você pode notar o quanto gosto e me preocupo com você, chefinho? Mantenha a calma e eu amo você também!
Ben :*
Para: .
De: Ben Sullivan
Assunto: Morreu?
Olá, raio de luz!
Sei que provavelmente eu nem devia estar mandando essa mensagem porque eu até posso imaginar o motivo, ou melhor, os motivos de seu atraso:
1) Você acordou de resseca depois de ter tido um fim de semana quente e selvagem em Las Vegas.
2) Você ainda está dormindo depois de ter tido uma boa transa com a delícia do ontem a noite.
3) Você provavelmente está revivendo a transa de ontem essa manhã e eu estou com muita inveja de você nesse momento!
Mas acontece que agora o Peter tá pegando pesado e ameaçando me demitir junto com você. E é claro que você é a minha BFF e tudo mais, porém eu só queria lembrar a você que eu não sou o filho que mamãe pediu a Deus e que eu acabo de sair de casa para poder morar com o Sebastian. O que quer dizer que nós estamos tendo que nos virar com o meu mísero salário e se você se lembra, o Sebastian é fotógrafo. Você sabe o que isso quer dizer, não é, querida? Eu o sustento, praticamente. Ao contrário de você, que tem um noivo nobre e cheio de dinheiro! Sem querer parecer invejoso, claro. Enfim, não é querendo mandar um e-mail negativo dizendo que sua morte está próxima ou coisa do tipo, você sabe que como um bom amigo eu jamais faria isso, mas acontece que você tá mesmo ferrada. O Peter já ligou pra sua mesa umas 500 mil vezes desde a hora que ele chegou, sem falar que sua caixa de e-mail deve tá cheia de ameaças de morte ou pior, DEMISSÃO, então... DÁ PRA MOSTRAR A PORRA DESSA SUA BUNDA GIGANTE POR AQUI HOJE?
Com amor,
B.
'PS: A vadia da Charlene já anda espalhando por aí que no fim do expediente tem comemoração no Joe’s por sua demissão, mas pode ficar tranquila, eu vou quebrar a cara dela. Aliás, farei melhor. Vou pegar aquele casaquinho Dolce & Gabanna, com o qual ela sempre vem trabalhar para esfregar em nossa cara que ganha melhor que a gente, (só porque é a secretária do presidente e com certeza dá pra ele) e derramar todo o café expresso que acabo de pegar bem em cima dele.
***
Eu e a ficamos o resto do domingo jogadas no sofá assistindo todos os filmes de fossa que só as mulheres eram capazes de aguentar, pelo menos foi isso o que o disse quando apareceu por lá para passar a noite. Conversamos, rimos e pela primeira vez nos últimos dias eu fui capaz de me esquecer da confusão que estava minha vida. Mas segunda-feira de manhã cedo, quando o meu celular começou a tocar insistentemente me lembrei de que estava na hora de voltar à realidade.
Levantei sem muita coragem, mas assim que vi que já passava das 07h50min e que a minha caixa de e-mail estava para lá de lotada com ameaças de todos os tipos vindos diretamente do Peter, meu chefe, eu fui direto para o chuveiro. Durante aqueles dias eu quase tinha me esquecido de que tinha um emprego, pior, quase tinha me esquecido de que tinha um chefe que torcia para que eu chegasse atrasada só para que ele pudesse passar o resto do diga jogando na minha cara o quão irresponsável eu era. Fato que tinha ocorrido pelo menos umas vinte vezes só naquele mês e no ano, bem, nesse caso eu já tinha perdido as contas.
— Não vai comer nada? – perguntou assim que eu passei correndo pela sala procurando por uns papéis que havia deixado espalhados por ali antes de viajar.
— Não tenho tempo. – disse procurando-os na estante. — Se eu chegar atrasada hoje o Peter arranca meu coração e dá para os mendigos.
— Que ele é capaz de arrancar o seu coração, até concordo. – riu e se aproximou da estante, abriu uma gaveta e me entregou uma pilha de papéis. — Mas duvido muito que ele dê para os mendigos, é bondade demais.
Nós duas rimos, mesmo que por dentro eu estivesse morrendo de medo. Não bastava estar à beira do abismo na minha vida particular, agora corria o risco de acabar sem a profissional. Que, cá entre nós, já não era lá grande coisa. Eu gostava do meu emprego. Não era exatamente para ser secretária do editor-chefe que eu tinha me formado em jornalismo pela Oxford, é verdade. Mas aqueles eram tempos difíceis, e eu tinha certeza de que uma hora o Peter iria ver o meu potencial como escritora e me daria uma chance. Ou pelo menos eu preferia pensar assim, até ter coragem o suficiente para mostrar a ele o livro que estava escrevendo.
— Muito obrigada. – joguei beijos nos ar para ela e corri até a porta. — Nos vemos à noite!
Corri e fui direto para a estação de metrô, mandei uma mensagem para o Ben assim que cheguei ao prédio da redação avisando-o que estava dentro do elevador e que se possível ele fosse logo amaciando o Peter, o que eu considerava quase impossível. Mas assim que a porta do elevador abriu, Ben já estava ali me esperando, e por um segundo fiquei confusa. Ele parecia excitado e empolgado, mas ao mesmo tempo em pânico.
— Onde você se meteu? - ele disse, segurando-me pelos cotovelos.
Droga! Eu era mesmo um desastre, até a vida do Ben eu era capaz de atrapalhar. Meu Deus, e se ele fosse demitido? Essa era a única razão para ele estar ali no meu andar. Aquele andar era somente para o escritório do presidente do The Guardian, o senhor Jordan Hugh, que passava mais tempo torrando o dinheiro dele pelo mundo afora com prostitutas e bebida do que na redação. Aliás, ele não precisava ir muito longe para gastar com prostitutas, a Charlene, que era sua secretária, estava ali para isso. Perdão, senhor! O fato era que naquele andar também estava a sala do Peter, que era o editor-chefe, do qual eu era secretária. No fim do corredor ficava a sala de reuniões, e logo em frente ao elevador ficavam a minha sala e a da Charlene. Que graças a Deus eram salas diferentes e eu não tinha que olhar para sua cara azeda o dia todo. Mas também lembrei que naquele mesmo andar ficava o setor de RH. Olhei mais uma vez para o Ben e me desesperei. E se ele estivesse ali para ser demitido? Não, eu não podia pensar naquilo, eu precisava me explicar para ele.
— Ben, eu...
— Foi o , não foi? - Ben me interrompeu e me fitou sério. Como ele sabia sobre o ? — Eu sabia que você estava transando! - ele riu! Suspirei aliviada. Pelo menos ele ainda estava fazendo piadas, o que significava que ele não estava tão em pânico assim. Se bem que era do Ben que eu estava falando, ele nunca estava preocupado ou de mau humor. — Sabia! - e agora ele me olhava com aquela cara de descarado igual quando ele fugiu do trabalho para passar o dia com o Sebastian no Plaza. Claro que aquilo rendeu a ele um cartão de crédito estourado e muita dor de cabeça, mas segundo Ben valeu a pena.
Eu bem que queria fazer isso um dia com o , sem usar o dinheiro dele, e sim o meu. Mas aí eu teria de vender até a minha mãe para conseguir pagar a fatura do cartão. Não que eu não considerasse essa ideia de vender a minha mãe.
— De onde você tirou isso? - perguntei enquanto caminhávamos para a minha sala. — Aliás, antes disso, o que a vadia da Charlene andou falando de mim?
— Ah, nada demais. - Ben revirou os olhos. — Aquela ali é falta de uma boa transa. - ele riu. — Se bem que eu acho que o problema dela é excesso. - e piscou malicioso.
— Você é mesmo um depravado! - disse, dando um tapa no seu braço e sorrindo. Como se segundos antes eu não estivera pensado que ela era uma prostituta.
— Espera! - Ben me soltou e parou à minha frente, sua expressão de excitação voltando como se tivesse se lembrado de algo. — Fecha os olhos! - ele disse quando estávamos perto da porta da minha sala.
— Pra quê? - franzi o cenho.
— Vamos, estou mandando. - eu revirei os olhos e ele passou para trás de mim, tampou meus olhos, abriu a porta e me guiou para dentro da sala. — Pronto, agora pode abrir!
Quando eu abri os olhos quase não acreditei no que estava acontecendo, minhas pernas tremeram e meu coração disparou. A minha sala inteira estava cheia de buquês de rosas vermelhas. Em cima da minha mesa, na cadeira, no chão. Todo o lugar estava coberto pelas flores e pelo seu perfume doce. Ouvi a risada do Ben e olhei para ele, seus olhos brilhando de emoção.
— Vamos, leia os cartões. – disse batendo palmas empolgado.
'Cartões?' Pensei ao olhar para os buquês e ver que em cada um havia um cartão. Peguei o primeiro que alcancei e o abri, quando vi a letra fina do meu coração disparou de ansiedade.
Querida ,
Sei que nada do que eu fizer irá apagar o que aconteceu em Las Vegas.
Porém, espero que você saiba que eu sinto muito, muito mesmo por tudo o que fiz.
E se eu soubesse de qualquer coisa que eu pudesse fazer para não vê-la magoada, eu faria.
Com amor e muitas saudades, .
Meus olhos se encheram de lágrimas, eu sempre soube que o era um cara incrível, mas nunca imaginei que ele seria assim tão romântico. E muito menos como ele era capaz de ser isso tudo comigo, tão míngua e sem graça, que ainda por cima era capaz de traí-lo.
— Você deve ser mesmo muito boa de cama. – Ben riu atrás de mim e me distraiu por um instante. — Deixe-me ver! Deixe-me ver! – ele tomou o cartão de mim e leu, depois me fitou e leu o cartão mais uma vez. — É impressão minha ou não teve nada de sexo selvagem em Las Vegas? – Ben arqueou a sobrancelha e eu mordi o lábio, não ia chorar por aquilo de novo, havia prometido a e a mim.
— Ele teve que ir embora. – disse sem jeito.
— Own, minha querida. – Ben suspirou de forma teatral e me puxou para um abraço. — São os dramas típicos de se namorar homens milionários. – ele deu tapinhas em minhas costas, como uma mãe faz para consolar um filho. — E só Deus sabe como eu queria isso para mim.
Eu ri. Era impossível não sorrir com o Ben.
— Mas olhe para isso tudo. – ele me soltou e abriu os braços mostrando as flores espalhadas pela sala. — Você acha mesmo que é possível ficar magoada com um homem desses?
Eu sabia a resposta. Era impossível. Mas também sabia que no fundo nunca houve mágoa da minha parte quanto ao , mas sim vergonha e medo de começar a chorar em sua frente e acabar dizendo que eu o tinha traído.
— É que eu fiz uma coisa muito muito errada e... Merda!
Senti o meu BlackBerry vibrar e olhei para a tela, mais uma mensagem do Peter e dessa vez pelo visto ele tinha deixado o profissionalismo de lado e partido para a agressão verbal.
— É o Peter? – Ben fez uma careta.
— É. – engoli em seco ao ver a mensagem ameaçadora.
— Não queria ser você agora. — O Ben disse com toda a solidariedade dele. — Vê se fica viva pra me contar o que foi que você fez de tão errado! – ele pegou uma rosa dos buquês e cheirou. — E enquanto espero, vou ali sonhar com o . - piscou e saiu.
Sabe aqueles filmes em que as pessoas ficam caminhando pelo corredor com expressão séria e decidida, desejando muito que cheguem logo ao seu destino? Bem, eu estava olhando para o corredor de forma séria, mas desejando que ele estivesse me levando a algum lugar subterrâneo, onde eu bolaria um plano de fuga, escaparia e voltaria amanhã como se nada tivesse acontecido.
— Querida , acho melhor você ter uma boa desculpa dessa vez, o senhor Adams está para enlouquecer. — ah, como eu odeio essa idiota da Charlene Smith, não só porque ela é alta, magérrima, loira, esbelta e tá sempre vestindo qualquer roupa de grife que sai na capa da Vogue, mas porque sempre que o Peter entra em um colapso nervoso ela aparece do nada para sorrir da minha cara e comemorar por eu estar indo em direção à forca.
Bati bem devagar na porta do Peter, como se fosse apenas um encontro casual, sabe? Como se eu apenas estivesse ali para dizer: "Oi Peter, adorei a sua gravata de hoje".
— Hei, Peter, me chamou? — certo, posso estar sendo um pouco sonsa, mas quando se começa a trabalhar logo nota-se que a dissimulação faz parte, de verdade.
— Cadê as fotos para a matéria sobre o príncipe Harry? — ele não poderia ser mais simpático?! Eu não tinha nada contra o Peter, mas às vezes eu me pegava pensando em como seria se eu tivesse outro chefe, de preferência um pouco mais dócil.
— Bem, as fotos do problemático, ok... Desculpe, - acrescentei ao ver o seu olhar de repressão — as fotos do príncipe Harry estão na gráfica, passei lá essa manhã, por isso me atrasei, e ainda não estavam prontas. — eu me sentei na cadeira de frente para ele com toda a minha suposta postura de secretária séria e eficiente, mas acho que não colou muito porque ele me deu uma olhada um pouco estranha, como se estivesse debochando daquilo. — Não esquenta! - sorri simpática, tentando manter o controle da situação.
— Não esquenta? — engoli em seco. Quando ele começava a repetir a última coisa que alguém dizia, aquilo não era um bom sinal. — Você sabe quantas vezes você me diz isso durante um único dia, ?
— Peter, a matéria já está pronta, a Julie entregou ontem à noite, só falta mesmo as fotos. — mentira, eu sei, eu sei. A Julie, repórter responsável pela coluna de fofoca do jornal, nem tinha dado as caras ainda, mas o que eu podia fazer?! O Peter queria o meu pescoço. E saber mentir, bem, isso é outra coisa que devemos fazer para manter o emprego. Ou será que todos acham que as avós de todo mundo aqui do jornal realmente já morreram?! A minha, por exemplo, já foi atropelada, assaltada e todas as coisas ruins que podem acontecer em Londres. Mas na verdade ela continua vivinha e dando muito trabalho para a minha mãe em Sunshine, mas o Peter não precisava saber disso, não é?
— E cadê?
— Peter, por acaso você se lembra de que ficou de arranjar um fotógrafo para a equipe? Assim não precisaríamos depender desses freelances e não tinha por que você se estressar com gráfica. — continuei com meu ar de eficiente, ignorando seu deboche.
— Lembro sim. — ele disse, pegando umas pastas na gaveta. — Mas não adianta a senhorita querer desconversar.
— Não quero desconversar. — mentira! — Mas você sabe que é muito difícil eu dar conta de tudo isso sozinha. – desabafei! Ter que ir à gráfica do outro lado da cidade era um serviço que eu estava dispensando, já que nem recebia a mais por isso e quem pagava o táxi era euzinha.
— Eu bem sei disso. — que olhar é esse Peter? — Já que você disse que a matéria do príncipe está pronta, cadê? — porra, eu até gostava do príncipe Harry, mas agora ele acabava de entrar de fato na minha lista negra.
— Eu já disse que está pronta e eu ia pegar assim que cheguei aqui, mas como você me mandou aquela mensagem tão desesperada nem deu tempo de eu ir até minha sala pegar.
Ainda bem que eu já cresci e não acredito mais em Papai Noel, porque se fosse depender do meu comportamento para ganhar presente este ano eu estava ferrada.
— Olha, , você pode ser muito boa no que faz, mas mesmo assim não posso aliviar o seu lado sempre. — eu tinha que começar a tentar chegar na hora, ou estaria realmente frita.
— Desculpa, Peter.
— Tudo bem, ande logo e me entregue a matéria. – ele fez sinal para que eu saísse da sala. — Ah, e a reunião com o JH ficou marcada para semana que vem mesmo?
Havia rumores de que JH estava para vender a sua parte no Journal e eu esperava que fosse mesmo verdade e que se possível, ele levasse a Charlene com ele.
— Sim, senhor. — eu disse, levantando-me, e saí do escritório.
Aquela tinha sido por pouco!
***
Assim que cheguei à minha mesa e vi novamente todas aquelas flores espalhadas por ali, esqueci completamente que meu emprego estava por um fio. Quem iria se lembrar daquele mínimo detalhe quando diante de si tinha a prova de que existia sim um homem perfeito?!
Peguei outro cartão e nele as palavras: "Sinto sua falta." fizeram meu coração disparar. O queria me matar, só podia ser. "Janta comigo hoje? Por favor?", outro cartão. Suspirei e se pudesse ver meu rosto naquele instante, tinha certeza absoluta de que estava sorrindo como boba. Peguei o telefone e digitei o número do , meus dedos tremendo e minha mente fervilhando milhares de mantras para que eu ficasse calma. Tudo estava bem e ia ficar melhor ainda. Pensei ao discar o número do seu celular.
— ? – a voz grave e aconchegante do chegou aos meus ouvidos e eu senti todo o meu corpo se acalmar. Como era bom ouvi-lo outra vez. — Tudo bem?
— Sim e sim de novo. – eu sorri.
— Não entendi. – ele disse rindo.
— Sim, eu estou bem e sim eu aceito jantar com você hoje. – ouvi gargalhar do outro lado e aquilo fez meu coração se acalmar.
— Quer dizer que estamos bem? – perguntou ainda um pouco inseguro.
— Depende. – ficou em silêncio. — Só se você prometer que não vai inventar de cozinhar.
riu outra vez. Eu e ele sabíamos muito bem que todas as vezes nas quais ele tentou cozinhar algo, não deu exatamente muito certo. Uma vez ele deixou a panqueca queimar e o alarme de incêndio da cozinha disparou, fazendo todo o apartamento alagar e ele ter um prejuízo imenso. Depois desse dia, descobrimos que ter sempre os números dos restaurantes por perto era melhor do que o número do bombeiro.
— Prometo. – ele riu. — A gente pode ir ao Nobu, ou pedirmos em casa mesmo, o que prefere?
— Nobu lotado de pessoas chiques ou ficar em seu apartamento usando só a sua blusa, hum? – eu fiquei em silêncio fingindo estar pensando nas opções.
— Ficaremos em casa! – falou afobado e nós rimos. — Estou com saudades. – ele disse depois de uns segundos quietos.
— Eu também. – disse sincera.
— Quer que eu peça para o Javier lhe pegar agora mesmo? – ele riu.
Suspirei ao ouvir aquela proposta e quase fui capaz de me ver fugindo do trabalho e indo encontrá-lo no meio do expediente para que pudéssemos passar o resto do dia juntos, como qualquer jovem casal apaixonado – e irresponsável – era capaz de fazer. Mas eu tinha o meu emprego por um fio, e eu sabia que, apesar de tudo, o jamais faria algo como aquilo. Ele só estava sendo gentil.
— Eu adoraria, mas tenho meu emprego e o do Ben para salvar. – bufei.
— Algum problema?
— Não, o de sempre. – suspirei. — Pode deixar que eu vou de metrô para sua casa.
— , você sabe que não precisa fazer isso. – disse no tom ofensivo que sempre usava quando eu sugeria aquilo.
É eu sabia, mas não queria incomodar o Javier e também não via mal algum em andar de metrô, era até divertido.
— Mas ainda vou em casa, tomar um banho, ficar cheirosa e linda para te encontrar. – fiz uma voz manhosa e o ouvi rindo.
— Você é linda de qualquer jeito! – eu sorri. era perfeito. — Te vejo à noite, então?
— Aham! – disse meio boba, ainda perdida em seu elogio. Eu realmente tinha algum problema com autoestima, porque bastava ouvir um elogio que eu me derretia. Aquilo só podia ser culpa de uma infância traumática!
Ouvi o conversar com outra pessoa sobre algo do escritório, depois ele voltou ao telefone e suspirou.
— Tenho que ir, amor, até a noite! Te amo.
— Também te amo. – disse relutante em desligar o telefone, mas o fiz assim que desligou.
Olhei para a minha mesa ainda rodeada de flores e me vi entrando pelo apartamento do , sem culpa, sem ressentimentos. Eu estava decidida, tudo ficaria para trás e eu iria ter a melhor noite da minha vida naquele dia. Mas assim que olhei para a minha mão sem o anel de noivado, as expectativas que iam invadindo minha mente foram substituídas pelo pânico. Eu tinha que arranjar uma desculpa muito boa para explicar ao a falta do meu anel quando eu entrasse em sua casa. Algo como: "Eu o guardei. Você sabe que eu não posso andar por aí com um brilhante em meu dedo, é perigoso. E você não quer que o seu amor se machuque, não é?" Isso e alguns beijos, é claro. Fui distraída pela luz vermelha do ramal do Peter piscando em meu telefone e sua cara vermelha e irritada apareceu no meu campo de visão e eu me lembrei de que ainda tinha que salvar o meu pescoço e do Ben, se eu quisesse viver para jantar com o . Aquele seria um longo dia!
Como eu imaginava, o dia foi repleto de ameaças do Peter quanto ao meu emprego, mas pelo menos o Ben aparecia a cada cinco minutos para que pudéssemos confabular e sonhar com o meu encontro com o . Quando contei ao Ben o que tinha acontecido em Vegas – e dessa vez milagrosamente eu não chorei – ele pareceu em choque por alguns instantes, depois sorriu e disse:
— Ufa, graças a Deus! – e lançou um sorriso malicioso para mim. — Não faça essa cara de choque.
— Então me diga por que você esta parecendo aliviado?
— É claro que estou aliviado, eu estava começando a achar que você era a reencarnação da Madre Tereza. – ele riu e eu arqueei a sobrancelha. — Qual é, agora eu tenho certeza de que você é humana. – Ben disse, dando um sorriso largo.
— Ah é, humana e traidora.
— Não seja tão dura consigo. – ele afastou-se da minha mesa e aproximou-se de mim, passando a mão sobre meus cabelos. — O que aconteceu, aconteceu, . – ele suspirou. — Não quer dizer que você tenha que se culpar por isso o resto da sua vida, foi apenas uma aventura e todo mundo passa por isso um dia. – ele sorriu e eu fechei os olhos. Era muito bom ouvir tudo aquilo. — O é um cara incrível e eu sou testemunha do quanto vocês se amam, então nem pense na possibilidade de botar tudo isso a perder.
— Mas...
— Nada de mas... Se você contar e terminarem, de quem é que eu vou passar o dia sentindo inveja? – Ben gargalhou e foi impossível eu não fazer o mesmo.
O fato era que o Ben tinha razão. Tudo tinha sido uma aventura e ficaria no passado.
010
(N/A: Coloquem a música Your Song - Elton John pra carregar!)
Passei em casa e me arrumei o mais rápido que eu pude, já que o Peter fez questão de me prender por uma hora depois do expediente. Espero que ele se lembre disso quando for pagar o meu salário, que não é lá grande coisa. Eu tinha esperança que um dia o Peter visse o meu grande potencial e assim me contemplasse com um aumento que pelo menos desse para eu fazer umas extravagâncias de vez em quando. Mas por enquanto eu teria que me contentar com horas extras não remuneradas.
Coloquei um vestido preto e uma sandália de salto agulha, que quase me rendeu um tornozelo torcido assim que entrei no metrô, o que me fez lembrar que da próxima eu não iria recusar a ideia de o Javier ir me buscar. Pelo menos eu tinha colocado um sobretudo vermelho, assim amenizava o vento gelado que eu começava a sentir batendo em minhas pernas nuas.
Quando finalmente cheguei ao saguão do prédio do , entrei no elevador e agradeci a Deus mentalmente por aquele calor reconfortante. Apertei o 20° andar, que era também a cobertura, e foi então, quando as portas se abriram, que eu percebi que eu estava ansiosa. Ansiosa para vê-lo, para ter certeza de que tinha deixado o passado no passado. Ansiosa para ter certeza de aquela seria só mais uma noite minha e do juntos no apartamento dele, como fizemos tantas vezes. Ansiosa para que tudo desse certo e que eu não começasse a chorar na frente dele como estava tentando evitar todo esse tempo.
Apertei a buzina, respirei fundo e esperei o vir abrir a porta. Mas quem abriu a porta não foi ele, e sim um homem vestindo um uniforme de garçom.
— Senhorita ? – o rapaz sorriu cordial. — O Senhor a está esperando. – ele completou, provavelmente depois de ver o meu olhar confuso.
O garçom, ou pelo menos parecia um, me indicou o caminho pelo o apartamento que eu conhecia tão bem. Era meio estranho ele ali na minha frente, guiando-me como se eu não conhecesse cada canto daquele lugar.
— Ah, olha você aí. – levantou-se do sofá e veio até meu encontro, ajudou-me a tirar o sobretudo e o entregou para o rapaz. — Você está linda.
— , o que é tudo isso? – perguntei ainda meio atônita a todas aquelas flores espalhadas pela sala e pelo jovem garçom que continuava ali parado com as mãos para trás como uma múmia.
— Bem, vai que você ainda estivesse chateada comigo? Então providenciei logo algo para lhe impressionar e amolecer seu coração. – sorriu e pousou as mãos sobre minha cintura, aproximando-nos.
— E você acha que pode me comprar tão fácil assim? – disse fazendo charminho.
— Hum... E se eu lhe disser que contratei um dos chefes do Nobu, fica mais fácil? – ele arqueou a sobrancelha e obviamente estava tentando prender o riso ao ver os meus olhos arregalados.
— Ok, vendida! – sorri e o puxei para beijá-lo, mas antes que o fizesse se afastou, ficou um pouco sem graça e olhou para o garçom, entendi e me afastei, um pouco desapontada. Eu realmente esperava que eu não tivesse que me conter durante a noite toda. — Não precisava de tudo isso, você sabe. – disse e me esforcei ao máximo para não demonstrar meu desapontamento.
— Eu só queria que essa noite fosse perfeita. – ele sorriu gentil e segurou minha mão.
— Só de estarmos juntos, já é. – disse, apertando sua mão e sorrindo ao senti-lo beijando-a.
— Então, como foi o passeio de metrô? – perguntou irônico enquanto caminhávamos para a sala de jantar, claro, sendo guiados pelo garçom-múmia.
— Nada mal. – eu sorri ignorando o momento em que quase quebrei o tornozelo ao descer a calçada. Eu não tinha culpa se salto não era o meu maior fã.
— Eu devia ter mandado o Javier, mesmo contra sua vontade. – ele puxou uma cadeira para eu me sentar, mas não o fiz.
— E eu teria pegado o metrô mesmo assim. – bufei, sem me importar em disfarçar nada.
O sempre vinha com aquela conversa quando eu lhe negava os favores de seu dinheiro, mas o que eu podia fazer? Não fui criada sendo uma daquelas dondocas que nunca faziam nada, eu podia me acostumar em ter um chef só para mim durante uma noite, mas não um motorista à disposição a todo segundo.
— Desculpa. – ele sorriu tímido. — Hoje à noite a última coisa que faremos é brigar. – disse, passando seus braços em torno da minha cintura e me puxando para mais perto.
— Ah é? – sorri, jogando os braços ao redor do seu pescoço. — E o que faremos?
riu do tom malicioso em minha voz, olhou ao redor, provavelmente procurando verificar se o garçom-múmia não estava por ali, mas graças a Deus não vimos sinal dele. colocou uma mão em meu rosto, me puxando para um beijo. Foi um beijo cheio de saudade e carinho. Eu tinha me esquecido do quão bom era beijá-lo, de como eu gostava dele acariciando minha bochecha enquanto nos beijávamos.
— Senti tanto a sua falta. – ele disse entre o beijo.
— Eu também. – sussurrei de volta e o puxei para mais um beijo.
Dessa vez o beijo pareceu mais urgente, suas mãos deslizavam por minha cintura enquanto a minha segurava em seus cabelos puxando-o cada vez para mais perto. Queria beijá-lo, queria fazer amor com ele, e levando em consideração que tinha muito tempo que não fazíamos, eu estava pensando seriamente na possibilidade de fazê-lo ali mesmo, sobre a mesa do jantar. E pela primeira vez o parecia pensar o mesmo. Ele me encostou à mesa e eu senti minha bunda escorando no vidro, sua mão desceu até a minha coxa e ele começou subi-la por debaixo do vestido. Senti minha respiração arfar entre o beijo e comecei a tirar o seu blazer. Eu queria que ele tirasse logo minha roupa e acabasse com aquilo, mas antes que o implorasse para fazê-lo, ouvi um pigarro ao longe e olhamos para a porta, ainda em nossa posição um pouco comprometedora. O garçom-múmia, agora promovido a garçom-múmia-empata-foda, havia voltado e estava parado à porta segurando uma garrafa de champanhe, fazendo sua melhor cara de discreto.
me soltou, ajeitou o blazer e tentou disfarçar a situação.
— Obrigado, Fernando. – respondeu sério e sem olhar para mim, que nesse momento estava mais preocupada em olhar para o idiota do garçom com meu olhar de fúria do que com minha roupa bagunçada. Qual é! — Pode nos servir.
mais uma vez puxou a cadeira e eu me sentei. Ajeitei meu cabelo e enquanto o tal de Fernando me servia com uma taça de champanhe eu ainda o encarava como um cão raivoso. Ele serviu o e finalmente saiu.
— Achei que você fosse mordê-lo. – olhou para mim e riu.
— Se ele demorasse mais um pouco. - peguei minha taça de champanhe e tomei um gole.
— Espere, vamos fazer um brinde. – levantou a taça. — A nós dois, que essa noite seja tão incrível quanto você. – sorrimos e brindamos.
— Só espero que o jantar saia logo. – revirei os olhos.
— Está com tanta fome assim? – ele, disse acariciando minha mão.
— Você não imagina o quanto.
Fitei-o e me certifiquei de que naquele momento ele entendesse bem a que tipo de fome eu me referia.
***
O jantar não tinha demorado tanto assim e apesar de estar desesperada e tudo mais para matar meu outro tipo de fome, não podia negar que a comida do chef do Nobu era dos deuses. Eu comi tanto que era capaz até mesmo de esquecer todo aquele desespero e só dormir. Fui para a sala e me sentei no sofá enquanto dispensava todos os empregados. Fiquei ali olhando alguns CD’s que estavam sobre sua estante e resolvi levantar para pegar um que eu sabia que ele adorava, assim como eu. Coloquei o CD no som, ouvi a voz de Elton John começar a cantar "Your Song", sorri e me aproximei da varanda, vendo todas aquelas luzes lá fora enquanto as lembranças dos momentos que eu e o passamos juntos até chegarmos ali passeavam por minha cabeça.
It's a little bit funny this feeling inside
(É um tanto engraçado este sentimento interior)
I'm not one of those who can easily hid
(Eu não sou do tipo de pessoa que consegue esconder facilmente)
Eu sempre cantava aquela música para o , fazendo-o rir com meu tom desafinado, e às vezes até o obrigava a assistir Moulin Rouge comigo quando a não podia e ele por um milagre estava de folga. Sorri saudosa. Tinha tanto tempo que nós dois não ficávamos a sós em momentos como aqueles em que simplesmente nos sentávamos e víamos filmes juntos, durante todo o dia. Quando ele me chamou para jantar em seu apartamento eu pensei que finalmente naquela noite aquilo aconteceria, engano meu.
I don't have much money but boy if I did
(Não tenho muito dinheiro, mas, garoto, se eu tivesse)
I'd buy a big house where we both could live
(Compraria uma grande casa onde nós dois poderíamos viver)
Cantei baixinho e sorri quando senti seus braços envolverem minha cintura.
If I was a sculptor, but then again, no
(Se eu fosse um escultor, mas, poxa, não sou)
Or a man who makes potions in a travelling show
(Ou um homem que faz poções em um circo)
I know it's not much but it's the best I can do
(Eu sei que não é muito, porém é o melhor que eu posso fazer)
My gift is my song and this one's for you
(Meu presente é minha canção e esta é para você)
beijou meu ombro nu e senti sua respiração quente bater contra a pele do meu pescoço. Ficamos ali abraçados enquanto ele me balançava ao som da música e inevitavelmente o medo da última semana chegou até mim. O medo de que ele descobrisse o que eu tinha feito e tudo aquilo se acabasse. Que aquele cara maravilhoso percebesse o quanto eu não o merecia e assim me deixasse. Mas eu sabia que no fundo o meu medo era em vão diante do amor que eu sentia por ele, ainda que eu temesse.
And you can tell everybody this is your song
(E você poderá contar para todo o mundo que esta é sua canção)
It may be quite simple but now that it's done
(Talvez ela seja bastante simples, mas agora que está terminada)
I hope you don't mind
(Eu espero que você não se importe)
I hope you don't mind that I put down in words
(Eu espero que você não se importe que eu tenha colocado em palavras)
— How wonderful life is while you're in the world.(Como a vida é maravilhosa enquanto você está no mundo). – virei-me e cantei sussurrando em seu ouvido, sorriu e apertou minha cintura, juntando ainda mais os nossos corpos e me levando pela sala no ritmo da música.
I sat on the roof and kicked off the moss
(Me sentei no telhado e retirei o musgo)
Well a few of the verses well they've got me quite cross
(Bem... alguns dos versos me colocaram em uma encruzilhada)
But the sun's been quite kind while I wrote this song
(Mas o sol esteve adorável enquanto eu escrevia esta canção)
segurou meu rosto e me beijou. Nossas línguas se buscando ávidas, demonstrando toda a saudade e amor que existia entre nós, toda a vontade de estarmos juntos. Ele levou sua mão à alça do meu vestido e a afastou, depois pousou os lábios ali, beijando-me de um jeito tão sensual que fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Arqueei a coluna em reflexo e sorriu contra a pele do meu ombro e o mordeu de leve. Ele fez a mesma coisa do outro lado e eu fechei os olhos, deixando que todas aquelas sensações começassem a me dominar.
It's for people like you that keep it turned on
(É para pessoas como você, que a mantém viva)
Ele acariciou minhas costas e eu coloquei minha cabeça na curva de seu pescoço, pousando os lábios ali e dessa vez fazendo-o arquear-se. Sorri e voltamos a nos beijar. Tirei o seu blazer sem pressa e começou a passear sua mão leve pelo meu corpo. Cada toque dele me fazia arfar e quando ele pressionou meu corpo contra o seu, eu prendi um gemido. riu e em um gesto ágil e delicado me pegou no colo, fazendo-me sorrir com nossos lábios ainda colados, e nos levou até o quarto, parando somente para ver o caminho.
So excuse me forgetting but these things I do
(Então me perdoe se eu esquecer, mas estas coisas eu faço)
Ele me deitou na cama e tirou a camisa azul que usava por dentro do blazer, tirou os sapatos, as meias e logo depois pegou minhas sandálias e fez o mesmo. pousou seu corpo sobre o meu e me beijou com mais carinho ainda, segurou a alça do meu vestido e começou a me despir. Nesse momento, enquanto ele terminava de me despir, beijando cada parte do meu corpo que ficava nua, eu não pude deixar de agradecer mentalmente por ter escolhido uma lingerie nova naquela noite.
You see I've forgotten if they're green or they're blue
(Perceba que esqueci se eles são verdes ou são azuis)
voltou a me beijar nos lábios e eu levei minha mão até o cinto que prendia sua calça, retirando-o e abaixando a calça, revelando sua cueca boxer preta. Ele sorriu, parou de me beijar e me fitou. A pouca luz que entrava pelo quarto iluminou seu rosto e eu não consegui não pensar no quão lindo ele era, incrivelmente lindo.
Anyway the thing is what I really mean
(De qualquer maneira, bom... O que eu realmente quero dizer)
Seus olhos me encaravam com toda a doçura que eu jamais imaginei que um dia alguém pudesse me olhar. Seus dedos brincavam com minha bochecha, enquanto podia sentir a sua pele quente e macia sobre mim.
— Yours are the sweetest eyes I've ever seen. (É que seus olhos são os mais doces que já vi.) – cantei antes dele dizer "Eu te amo" e beijar os meus lábios, dessa vez, com urgência.
E meu corpo se rendeu ao alívio e ao desejo dos seus braços, porque eu sabia que aquela seria mais uma noite perfeita ao lado do , sem preocupações, medos ou receios, sem o passado por perto. Aquela seria mais uma noite perfeita ao lado do homem que eu amava e que com certeza seria o meu futuro marido.
011
Aquela última semana tinha passado rápida e leve, talvez porque praticamente todos os dias eu tinha ido dormir na casa do e, claro, aquela noite não tinha sido diferente. Senti a claridade bater contra meus olhos no mesmo instante em que o beijou a minha cabeça e sussurrou para que eu acordasse. Gemi baixinho e me enrolei ainda mais no lençol, eu não queria ir trabalhar, não sabendo que encontraria o Peter e principalmente a Charlene, que, para variar, estava sempre pronta para me encher.
— Eu não quero ir trabalhar hoje. – choraminguei e coloquei o travesseiro sobre a minha cabeça.
gargalhou, sentou-se ao meu lado da cama e retirou o travesseiro do meu rosto.
— E quando você quer ir? – ele sorriu quando me viu mostrar-lhe a língua. — Me diga então o que posso fazer para lhe dar coragem para ir trabalhar? – e beijou meu braço de leve.
— Pode dizer que vai me levar para almoçar e assim eu vou para o trabalho pensando que posso aguentar, porque meio-dia iremos nos encontrar. – disse fazendo manha e deitando a cabeça em seu colo.
sorriu.
— Eu adoraria. – ele acariciou meu cabelo e completou: — Mas combinei de almoçar com o .
Ao ouvir aquele nome, flashes reprimidos há duas semanas começaram a surgir em minha frente. Levantei minha cabeça do colo do e o encarei.
— ? Que ? – perguntei nutrindo em mim a esperança de que o conhecesse outro além daquele-que-não-se-deve-nomear. Pensei, sentindo-se o próprio Harry Potter.
— Como que ? – arqueou a sobrancelha e se levantou, indo em direção ao banheiro. — O , claro.
Uma onda de aflição passou por todo meu corpo fazendo meu coração bater forte contra minhas costelas. Aquilo não devia ser verdade, não podia ser verdade. Se bem que em se tratar do eu não duvidava nada que ele tivesse feito aquilo de propósito. É claro, como eu não desconfiei disso antes?! Tanto tempo em silêncio, tudo indo perfeitamente bem, era óbvio que ele estava todo esse tempo planejando isso, ficar a sós com o e acabar com nosso noivado.
voltou do banheiro e pegou uma blusa dentro do armário, enquanto a vestia começou a dizer:
— Ele não me ligou, então pedi para a senhora Megan conseguir o número dele e o convidei para almoçar.
Ok, eu esperava tudo, menos aquilo. Como assim o tinha procurado o ? O que estava passando pela cabeça dele? Droga! Eu sabia que não podia culpá-lo. Para o o não passava de seu velho amigo da faculdade e coincidentemente um velho amigo de sua noiva.
— A propósito, você nunca me contou como se conheceram. – ele disse, sentando-se na ponta da cama e calçando seus sapatos.
— Fatalidades do destino. – disse sem conseguir conter o desprezo em minha voz.
— Pensei que fossem amigos. – terminou de calçar os sapatos e me fitou, seu semblante confuso. — Não são?
Ele se levantou e se aproximou para que eu pudesse ajeitar a sua gravata. Isso era uma das poucas coisas que eu sabia fazer quando se tratava de algo útil ao meu futuro marido. Porque cozinhar e dar faxina não eram coisas das quais eu podia me orgulhar, ou como dizia minha mãe, eu estava longe de ser prendada.
— É, algo assim. – eu disse por fim, sem grande emoção.
pareceu alheio ao meu comentário e olhou o relógio em seu pulso.
— Certo, tenho que ir. – eu fiz uma careta e ele sorriu. — Vai comigo ou quer que o Javier volte e te leve depois?
— Vou com você, cinco minutos!
Dei um selinho nele, pulei da cama e corri para tomar um banho rápido. Como eu passava a maior parte do tempo no apartamento do eu sempre tinha algumas roupas por lá. Coloquei minha saia lápis preta, uma blusa branca, o terninho preto e calcei minha sandália da mesma cor. Quando cheguei à sala o já estava um pouco impaciente e falava alto ao telefone, fez sinal para que a gente fosse logo embora e ao sair do elevador andou com pressa até o carro, sem desligar um só segundo o celular. Cumprimentei o Javier, que me deu um sorriso e abriu a porta para mim. entrou e só desligou o telefone para falar comigo quando chegamos à porta do prédio do London Journal e ele teve que descer para que eu fizesse o mesmo, já que o outro lado da rua estava muito movimentado.
— Olá, . – ouvimos a voz maliciosa do Ben logo atrás de nós e nos viramos. Sorri, o Ben usava um paletó roxo chamativo e uma calça preta, o que me fez lembrar o Paul McCartney em um de seus momentos de extravagância.
— Olá, Benjamin. – o cumprimentou de forma retraída como de costume, o que só aumentou o sorriso pervertido do Ben, e virou-se para mim. — Te ligo depois, ok? – e me beijou a testa.
Quando o vi quase entrando no carro foi que me dei conta de que não iriamos almoçar juntos naquele dia e que provavelmente só nos veríamos à noite, isso se ele ainda quisesse me ver depois que toda a calamidade tivesse acontecido.
— Tem certeza que não quer almoçar comigo? – insisti mais uma vez no que tinha dito dentro do elevador e ele, por sorte, talvez, não tivesse ouvido.
— Desculpa. – disse com pesar e beijou a minha testa. — Prazer revê-lo, Benjamin. – sorriu cordial e Ben aproximou-se, colocando a mão em seu ombro.
— O prazer é sempre todo meu, . – Ben aumentou o sorriso e eu tive que conter o meu riso ao ver o corar e entrar no carro apressado.
— Meu Deus, você não perdoa nem o meu noivo! – eu disse assim que ficamos a sós e começamos a gargalhar.
— Ele não é uma gracinha quando cora? – e gargalhou.
— É, e ele é meu. – eu passei meu braço em torno do seu e começamos a caminhar em direção ao saguão do London Journal.
— Tenho notícia fresquinha sobre o JH! Eu andei conversando com o Kevin Morgan do RH, e devo antes de tudo salientar que ele está uma delícia hoje! – Ben sorriu malicioso e eu ri. — Sabe, homens morenos e musculosos deviam ser proibidos de usar blusas brancas apertadas daquele jeito, tira meu fôlego! – ele disse fingindo estar se abanando.
— Ben, por favor, foco. – ele riu. — O que ia me contar?
— Então, o JH vai mesmo vender a parte dele do Journal e dizem que o novo presidente é muito bem conceituado e blábláblá. – ele apertou o botão do elevador e ficamos esperando. — E não é só, parece que além disso ele está disposto a fazer cortes. – Ben disse a última palavra em um sussurro, aquela era com certeza uma palavra proibida para nós.
Quando se trabalhava em um emprego como o nosso, que exige novas contratações todos os anos, era como se trabalhássemos na forca, esperando o momento em que nossas cabeças fossem decepadas e aí teríamos que correr atrás de outro emprego que, com muita sorte, desse para pagar uma quitinete qualquer no subúrbio de Londres. Sem falar que aquele era um péssimo momento para eu ser demitida, já que graças às preocupações do casamento eu ainda não tinha tido tempo para voltar a me dedicar ao meu livro.
— Ótimo, mais um filho da puta pra gente puxar o saco. – bufei quando entramos no elevador.
— Se for gostoso, não me incomodo de puxar o saco dele, até faço questão. – e nós dois rimos.
Atravessamos o corredor e nos despedimos quando o Ben parou no andar dos colunistas e eu continuei no elevador. Quando cheguei à minha mesa, fazendo questão de passar despercebida pela Charlene, sentei e comecei a olhar as mil anotações que tinha para aquele dia. Milhares de matérias para cobrar, reuniões com patrocinadores, e outras infinitas coisas que eu teria que dar conta de fazer, e nem ao menos um fotógrafo eu tinha conseguido ainda. Bufei. Depois que dei a ideia de um fotografo fixo para o Peter, ele achou mais do que conveniente que eu mesma procurasse por um. Legal! Ponto pra mim!
Procurei por alguns números de fotógrafos que tinha anotado em minha agenda, e no meio dela encontrei os cartões que o tinha me enviado junto com as flores na semana passada. A aflição da manhã voltando, peguei o telefone e liguei para a .
— Espero que você tenha uma razão muito forte para estar me ligando a essa hora da madrugada no meu dia de folga. – ela alertou carinhosamente do outro lado da linha assim que atendeu ao telefone.
— Juro que tenho! – respondi imediatamente. — O vai encontrar com o hoje meio-dia.
— Estou ouvindo. – a voz da pareceu mais sóbria e eufórica. — Vamos, me conte.
— Você não vai acreditar...
— Tratando-se de você eu acredito em tudo agora. – ela riu e eu bufei. — Desculpa, continua...
— Então, o ligou para o e o chamou para almoçar, assim sem mais nem menos, acredita?
— Já disse, acredito em tudo quando se trata de você e possibilidades. – ela riu outra vez. — E o que você vai fazer? – perguntou ao notar o meu silêncio de protesto por suas piadas em momentos inadequados.
— Como o que vou fazer? Eu não tenho ideia do que vou fazer. – disse desesperada.
— Ué, por que você não vai também?
— Por que não vou também para aonde? – perguntei confusa.
— Alôô, para o almoço, anta! – a era mesmo muito sutil.
— Ir ao almoço deles? Você quer que eu apareça lá do nada e diga "Oi, , oi, "? Ficou maluca?
— É isso ou correr o risco deles passarem o almoço todo discutindo suas posições preferidas na cama.
Engoli em seco ao imaginar aquela cena.
— Mas eu não sei nem onde eles vão almoçar. – lamentei baixinho.
— Ah, mais isso é fácil.
E lá estava eu, minutos depois, ligando para a senhora Morgan e mentindo que o havia se esquecido de confirmar comigo o nome do restaurante e o horário no qual nos encontraríamos para almoçar. Exatamente como a tinha dito para eu fazer, às vezes eu me assustava com toda a perspicácia que ela tinha para assuntos ilegais.
012
Quando finalmente deu a hora do almoço, eu fui até a sala do Peter e inventei uma história sobre o novo fotógrafo que eu tinha encontrado e que marcamos um almoço para combinar seus horários e escala de trabalho. Ele não pareceu me dar muito ouvidos, pois estava aos gritos com o JH e alguns outros acionistas, então eu entendi aquilo como um sim e saí correndo antes que ele percebesse que eu tinha fugido. Combinei com o Ben para que ele mantivesse a Charlene longe da minha sala, assim ela não descobriria que eu estava fora. Depois ele me desejou sorte e eu entrei no táxi.
Olhei para o cartão em minha mão com o endereço do restaurante onde o e o estavam. Eu ainda era incapaz de acreditar que estava prestes a fazer aquilo, mas era o que eu devia fazer. Pensei, tentando me acalmar. A necessidade de manter o meu noivado falando mais alto do que minha razão.
O táxi parou diante do Oxe Tower, paguei, agradeci e desci. Fiquei ali diante daquele restaurante incrível imaginando que se eu fosse chutada naquele dia, pelo menos teria sido em um lugar bonito como aquele. Senhor, perdoai-me, eu não sei o que digo! Respirei fundo e comecei a caminhar em direção à entrada do Oxe. Era agora, eu estava prestes a ver o novamente em minha frente depois de duas semanas, e por alguma razão, aquele pensamento fez meu estômago revirar. Ignorei aquela sensação e entrei no restaurante. Enquanto eu procurava por qualquer um dos dois em meio às outras pessoas, uma mulher magrela, de cabelo escuro e nariz empinado veio até mim.
— Olá, boa tarde. – ela sorriu falsa. — A senhora tem reserva?
— Senhorita. – corrigi-a por força do hábito. — Na verdade, estou procurando o senhor , você poderia ver em que mesa ele está, por favor?
A mulher magrela me lançou um olhar de desgosto e procurou o nome do da lista, depois me deu outro sorriso falso e fez sinal para que eu a seguisse pelo restaurante. Eu podia sentir minhas pernas tremendo em cima do salto, eu não devia ter ido até ali. Na verdade, eu devia estar no meu trabalho, garantindo o meu sustento de todo dia, porque se o me largasse era com meu salário que eu viveria. Não que eu esperasse ser sustentada pelo depois do casamento, mas... Ok, eu precisava sair dali, desistir daquela loucura, era isso.
— ?
Tarde demais! olhava surpreso para mim ao mesmo tempo em que o se virava e me encarava. Por alguns segundos ele pareceu também estar em choque, depois o canto de seus lábios se curvou em um sorriso cínico e minhas pernas tremerem outra vez. Eu conhecia aquele sorriso. Antigamente, toda vez que ele dava aquele sorriso eu já podia sentir a minha mãe me batendo por algo que ele tinha feito e eu levado a culpa.
— ? – se levantou, assim como o , e veio até mim. — O que você está fazendo aqui?
Desviei o olhar do , que parecia ainda mais atraente naquele jeans casual e com aquela blusa branca de mangas cumpridas, e fitei o . Procurei em seus olhos qualquer coisa que indicasse que ele me odiava, que estava tudo acabado entre a gente e que era melhor eu sair dali enquanto ainda estivesse andando. Mas nada, nada, daquilo estava em seu olhar, além da surpresa. Talvez o pior ainda não tivesse acontecido.
— Oi, amor. – sorri o mais tranquila que pude e dei um selinho nele. — Então, eu estava no meu horário de almoço e imaginei que poderia fazer uma surpresa a você, e claro... – olhei para o , seu sorriso cínico exatamente no mesmo lugar. — Ao meu velho e querido amigo, .
O sorriso do transformou-se em uma gargalhada, e quando suas íris percorreram meu corpo, cheias de uma malícia descarada, eu pude sentir meu rosto corar. Aquele homem era cínico demais.
— Nossa, , fico lisonjeado. – ele pegou a minha mão e beijou ali em cima. Seus lábios macios e quentes em contato com minha pele fria pareceram queimar.
Fitei-o assustada e puxei a minha mão de vez. O , alheio a tudo, sorriu empolgado e puxou a cadeira para mim.
— Que grande ideia, meu amor. – disse enquanto nos sentávamos e fez sinal para o garçom se aproximar. — Traga mais um prato por favor, e... O que vai beber, querida?
Uma tequila pura, por favor. Pensei ainda sentindo a pele da minha mão queimando.
— Pode ser uma água com limão. – sorri agradecida para o garçom e me virei para o , tentando ignorar o perfume do que insistia em chegar às minhas narinas.
Um silêncio meio constrangedor pousou sobre a mesa e eu tive a impressão de que tinha mesmo atrapalhado algo. Engoli em seco. E se o já tivesse contado toda a verdade sobre Vegas e o estivesse apenas sendo educado e evitando fazer um escândalo ali naquele restaurante chique? Olhei para cada um deles. sorrindo gentil. sorrindo cínico. O que estava acontecendo ali?
— Sua água, senhorita. – o garçom me serviu, eu agradeci e ele saiu. Eu precisava saber do que eles estavam falando antes da minha chegada. Precisava.
— Então, sobre o que falavam? – perguntei de forma casual tomando um gole da minha água.
O me fitou.
— Falávamos sobre as posições...
"É isso ou correr o risco deles passarem o almoço todo discutindo suas posições favoritas na cama."
As palavras da me atingiram em cheio e eu acabei engasgando e cuspindo a água em cima do . Mas quem iria se preocupar com aquilo quando eles estavam... Oh meu Deus! Eles estavam mesmo falando de mim e das minhas posições?! Meu Deus, eu estava ferrada. Completamente ferrada. Olhei para o , meus olhos cheios de lágrimas e eu já não sabia mais se era porque eu estava engasgada ou pelo medo que sentia.
— , por favor, me desculpe, me desculpe. – eu comecei a dizer desesperada, sem ter coragem para encará-lo nos olhos. — Não foi culpa minha, , quero dizer, em parte foi, mas juro que se eu não tivesse um pouco alterada eu não...
Ouvi a risada rouca do ao meu lado. Ele era um cretino. O pior que eu já havia conhecido. Ele estava rindo da minha desgraça. É claro que ele só podia estar feliz, tinha conseguido o queria.
— ... – começou a dizer e eu senti que não iria suportar aquilo, eu precisava que ele me perdoasse.
— , por favor. – choraminguei. — Me perdoa.
— , só foi água. – ele disse com a mão sobre a minha, acariciando como se quisesse me acalmar. Água?
— Água? Do que você está falando? Eu... – foi então que eu me dei conta de todo o vexame que eu estava passando. — Vocês não estavam falando sobre minhas posições?
Uma ruga de confusão atravessou o semblante do e ele me encarou.
— Suas posições? – ele pegou um guardanapo e passou em meu rosto, limpando os meus olhos de um jeito gentil. — , você está bem? Do que você está falando?
Eu olhava do para o e dele para o , ainda em choque e confusa pelo o que eu tinha feito. Eu era mesmo muito estúpida. riu, encostou os cotovelos sobre a mesa e aproximou seu rosto de mim. Encaramo-nos.
— É, , conte-nos de que posições você acha que nós estávamos falando?! – seu semblante se transformando na expressão de alguém que estava se deliciando com toda aquela cena.
— E-Eu... é... – o sorriso do começou a aumentar e meu coração disparou. — Droga! De que diabos afinal vocês estavam falando?
arregalou os olhos e me fitou. Eu não costumava falar palavrão na frente dele e quando eu soltava algum, acho que acabava o assustando.
— Sobre as posições do mercado inglês em relação à crise americana. – ele disse sem graça.
— Ah, era esse tipo de posição? – eu senti um alivio e comecei a rir. Primeiro foi uma risada baixa e nervosa, depois foi a maior gargalhada. A satisfação tomando conta de meu corpo, fazendo-me relaxar. Eu ainda estava noiva!
Olhei para os dois. O cada vez mais assustado e o me acompanhando na risada. Por um segundo até fui capaz de simpatizar com ele, mas isso logo passou quando me lembrei de quem ele era.
— Podemos comer? – perguntou olhando o relógio no pulso e recuperando-se da risada. — Estou morto de fome e tenho um compromisso daqui a pouco.
Fizemos os pedidos e depois de alguns minutos os pratos chegaram. Por mais estranho que parecesse, o estava mantendo uma conversa agradável com o . É verdade que eu não estava fazendo muita questão de prestar atenção enquanto eles discutiam economia, mas o sempre vinha com um "O que você acha, ?", provavelmente esperando que eu passasse alguma vergonha ao responder. Mas, acostumada aos jantares chatos a que o me levava, concordava com tudo.
— Mas me diga, cara, você já rodou o mundo inteiro, então, afinal, por que Londres? – mostrou-se interessado.
ajeitou-se na cadeira, como se aquela pergunta o incomodasse. Ficamos em silêncio esperando a resposta dele até que, por fim, ele respondeu.
— Não faço a menor ideia. – disse pensativo enquanto nós o observávamos. De repente eu senti algo quente e macio tocar os meus joelhos embaixo da mesa. Eu estava prestes a gritar, mas antes que o fizesse, vi um sorriso torto surgindo nos lábios do . Só podia ser mentira. — Mas pelo menos eu sei que há maravilhas para se comer em Londres.
O calor daquele contato fez meu corpo enrijecer e eu segurei o garfo com força em minha mão. Ele não podia estar fazendo aquilo. Não podia! começou a subir a mão por debaixo da minha saia, seu toque suave e ao mesmo tempo firme. Ele só podia estar louco. Olhei para o , tranquilo comendo seu frango caramelizado que eu não tinha a menor ideia de como se chamava e não estava nem em condições de pensar no nome. Na verdade, eu não estava conseguindo pensar em nada enquanto a mão do passava descaradamente pela minha perna.
— Ah, tem mesmo. – sorriu. — Sabe, você tem que ir ao Nabu, não é, amor? – ele olhou para mim e eu prendi a respiração. — É uma delícia.
me fitou. Seu semblante completamente alheio ao que ocorria debaixo daquela mesa, mais precisamente, entre minhas pernas. levantou um pouco mais a minha saia e começou fazer movimentos leves e circulares em minha perna. Uma sensação estranha começou a passar pelo meu corpo. Não era medo, por mais que aquilo fosse o que eu mais devesse sentir naquele instante. Mas não havia medo, era algo novo.
— O que você acha, ? – ele perguntou, seus dedos brincando contra a minha pele, arrepiando cada parte do meu corpo de uma só vez. — É uma delicia? – seus olhos cínicos me fitando em um falso interesse gastronômico.
Eu não disse nada, sorri meio tensa.
— Pra falar a verdade, eu já comi uma porção de coisas diferentes pelo mundo. – começou a passar as pontas do dedo na parte interna das minhas coxas e eu contorci os dedos dos pés em reflexo. — Algumas eram boas, outras ruins. – ele continuou subindo os dedos e eu sabia que devia tirar a mão dele dali, mas temi que o percebesse qualquer movimento brusco. — Outras eu não me importaria de repetir. – ele me olhou e sorriu cínico.
Aquilo foi a gota d'água. Eu precisava acabar logo com aquilo e expulsar aquele homem de vez da minha vida e da do . Em um ato completamente louco e impensado empurrei a taça de vinho que havia pedido minutos antes em cima do . Eu jamais faria isso, levando em conta que a camisa do era provavelmente uma fortuna e o vinho poderia manchá-la, mas aquela situação pedia uma emergência.
— Qual o problema com você, ? – bufou. Em qualquer outra situação eu teria ficado surpresa com a atitude grosseira dele, mas dois banhos em menos de uma hora, era até compreensível.
— Oh, querido, me desculpe. – eu disse fingida enquanto o ficou de pé e tentava a todo custo limpar a camisa com o guardanapo. — Eu não vi a taça.
Levantei-me para ajudá-lo, mas ele estendeu a mão irritado e eu voltei a me sentar.
— Me dêem licença. – disse sério. — Vou ao banheiro.
Observei afastando-se indo em direção ao banheiro e assim que o vi entrar, virei-me e fitei o . Eu esperava que ele pudesse ver através dos meus olhos toda a raiva que eu estava sentindo dele naquele momento.
— Eu não teria feito isso se fosse você, essa camisa dele deve custar muito mais que um salário. – ele deu uma piscadela e tomou um gole do whisky, olhando-me sacana.
— Eu não deveria ter feito isso?! – perguntei irônica percebendo que minha voz começava a se alterar. — Você é que não devia estar fazendo nada do que pensa que está fazendo.
arqueou a sobrancelha.
— Eu agradeceria se você fosse menos confusa, . – disse sarcástico, mas ao mesmo tempo fingindo estar entediado.
— Não me venha com , . – bufei. — Eu não sou mais aquela garotinha que você conhecia e sempre conseguia fazer calar com suas palavras. – ele revirou os olhos em sinal de tédio e eu o ignorei. — Por isso, irei direto ao assunto: - cerrei meus olhos e o fitei firme. — Fique longe de mim e do .
ficou em silêncio e sua expressão indecifrável começava a me irritar mais e mais. Estava prestes a gritar pelo nervoso, mas ele finalmente disse algo.
— Você devia dizer isso a ele. – Douglas sorriu cínico. — Afinal, foi ele quem me procurou.
Engoli em seco. Eu sabia daquilo. e sua inocência. Mas também sabia que ele só tinha feito aquilo porque não conhecia o como eu. E não tinha a menor ideia do que tinha acontecido entre nós dois logo depois que ele me deixou em Vegas.
— Direi. – eu disse seca, esforçando-me ao máximo para que minha voz saísse decidida, e não cheia de medo como eu estava agora. — Agora será que você pode fazer o favor de ir embora e nunca mais voltar?
sorriu enviesado e desviou seu olhar para minha mão.
— Vejo que ainda não encontrou o seu anel de noivado.
Senti minhas bochechas esquentarem e puxei as mãos para debaixo da mesa. Definitivamente tinha prazer em me infernizar.
— Não é da sua conta. – disse entre dentes.
— Tem razão. – ele levantou o copo e sorveu o whisky com calma. — Mas, sabe, fico aqui imaginando o que você dirá ao quando ele der por falta.
Estremeci só de pensar naquela possibilidade. Eu já não tinha mais desculpas para inventar ao sobre o anel, e também ficava imaginando o que aconteceria quando ele descobrisse a verdade.
— Também não é da sua conta. – retruquei, mas dessa vez minha voz não saiu tão firme como da primeira vez. Para falar a verdade, mais pareceu um lamento.
Douglas riu e se ajeitou na cadeira. Ele cruzou os braços em frente ao peito e pude perceber que seus músculos se tornaram mais evidente por trás das mangas cumpridas de sua blusa branca. Seus olhos me fitando sérios e ao mesmo tempo tão suspeitos quanto seu sorriso no canto dos lábios. Deus! Eu queria socá-lo por ser tão charmoso.
— Vamos fazer assim... – ele começou a dizer e eu tentei manter o meu foco na raiva que ele me fazia sentir a cada segundo, e não no fato de que não conseguia tirar os olhos de seus dentes brancos. — Eu saio da vida dos pombinhos, mas com uma condição.
— Condição? – desviei minha atenção de seus dentes e o encarei com a sobrancelha arqueada. — Você não está em posição de impor condição alguma.
— E você não está em posição de recusar. – ele retrucou com um sorrisinho cínico.
Bufei. Será que mesmo depois de anos eu nunca seria capaz de vencê-lo em uma discussão?
— Ok, me diga logo que droga de condição é essa. – revirei os olhos e o fitei.
Não conseguia entender por que, mas naquele momento que o pousou seus olhos sobre mim, um calafrio percorreu todo meu corpo e eu pude sentir um frio atravessar o meu estômago no exato momento em que seus lábios se curvaram em um sorriso de canto.
— Jante comigo. – ele disse por fim, depois de alguns segundos em silêncio.
Arregalei os olhos. Eu sabia que não viria coisa boa.
— O QUÊ? – gritei e só me dei conta do que tinha o feito quando vi olhares repressores das pessoas ao redor. — Você ficou louco? – escorei-me sobre os cotovelos e sussurrei entre dentes. — Não mesmo.
— Qual é, , pelos velhos tempos. – ele sorriu travesso como se estivesse se lembrando mesmo dos "velhos tempos" e meu estômago revirou. — Afinal sou eu, seu velho e querido amigo.
— Não!
Claro que eu não iria sair com ele. De jeito nenhum. Eu tinha a plena consciência de que minha vida já estava caminhando para a desgraça total, não precisava dele para ajudar. Pelo menos, não de novo.
— Bom, então acho que a única coisa que me resta é dizer ao como você pode ser selvagem às vezes.
Uma pontada atingiu em cheio o meu peito. Aquilo não podia acontecer!
— Eu o-d-e-i-o você. – ladrei com raiva e ele sorriu cínico.
— Isso seria um sim?
E eu o odiava mesmo, com toda a minha força.
— Quando?
Ele sorriu vitorioso e meu orgulho inteiro foi despedaçado.
— Amanhã, às oito. – ele tomou um último gole do whisky, levantou-se e parou à minha frente. — Eu lhe busco. – disse firme.
— Você nem sabe onde eu moro. – eu disse olhando para cima e o fitando confusa.
tirou uma caneta do bolso, pegou o guardanapo em cima da mesa e escreveu algo, depois me entregou. Era o seu número.
— Me mande uma mensagem com seu endereço, e eu passo lá.
Depois disso, ele sorriu mais uma vez e foi embora, levando consigo o pouco de juízo que ainda me restava.
CONTINUA
N/A: Todo mundo pediu cena com o guy e aí está ;) hUUAHUUauau tudo bom, gente? Ain, eu amo essa cena deles no restaurante, porque amo a safadeza do guy :x HUAUuuauau Ninguém gostando do noivo? Poxa gosto dele, só é um pouco tapado gente hUAUhauAuUUA Ah outro que amo é o Ben, lindo! KKKKKKKKK Obrigada a todos comentários, to mandando essa att logo pra att o mais rápido que puder! Farei o mesmo na outra... Beijooos =*
N/B: Qualquer erro, envie um email pra mim, por favor: bih_hedegaard@hotmail.com