“Dois
Apenas dois
Dois seres
Dois objetos patéticos
Cursos paralelos
Frente a frente
Sempre
A se olharem
Pensar talvez:
‘Paralelos que se encontram no infinito’
No entanto sós por enquanto
Eternamente dois apenas”

(Dois – Pablo Neruda)


Mabon, como era chamada a festividade do equinócio de outono, era época de agradecimento à Mãe-Terra pela segunda colheita do ano, tempo de equilíbrio e busca de paz interior. As celebrações durante essa data ainda existem, embora não da mesma forma.

Em Loughcrew, monumento neolítico deixado pelos povos pagãos, um considerável grupo se reunia para o nascer do Sol, hora exata onde os raios solares iluminariam a rocha central do monumento. estava entre eles, recuperando o fôlego da caminhada até o alto da colina. Havia aprendido muito sobre o povo celta e seus mitos graças à sua avó materna, Noreen. Lembrava-se de ouvir, encantada, a avó contar sobre os heróis que cruzavam a Irlanda e pedia, entusiasmada, para que a história sobre as heroínas fosse repetida. Queria ser como Macha, uma deusa guerreira que sempre aparecia nas gravuras dos livros com um ar imponente, uma espada em mãos e, geralmente, com o busto descoberto, livre, como símbolo da liberdade feminina.

O grupo de estudos de povos pagãos da Universidade de Dublin estava reunido para aulas ao ar livre e encenações das celebrações pagãs para o equinócio. fazia parte desde que se mudou para a capital do país, há pouco mais de um ano. Vinha da costa oeste, onde mitos e costumes celtas ainda eram muito vivos. Encontrar na capital um grupo que se interessava por aquilo que era parte de sua infância a fez sentir-se acolhida de imediato.
Havia também outro motivo para que a mudança para Dublin não fosse tão cheia de estranhamentos. .
E ela acreditava em sorte, acreditava em destino e acreditava também que um duende muito astuto havia escondido seu pingente de trevo só para que eles se esbarrassem naquele dia.

- Droga, droga, droga! – repetia para si mesma, olhando ao redor. O colar que usava havia quebrado no fecho e ela não encontrava o pingente de trevo que tinha desde que se entendia por gente, presente do avô.
Sacudiu a bolsa, verificou se não estava preso no cabelo e, finalmente, passou a olhar o chão com máxima atenção. Abaixou-se um pouco, apoiando as mãos no joelho, depois de largar a bolsa num canto. Segundos depois, um All Star branco surgiu na sua frente.
- É hora do almoço, os duendes não vão aparecer para conversar com você agora. – O dono dos tênis falou, fazendo a garota se erguer para encará-lo.
- Só estou procurando uma coisa. – Soou um pouco grossa, depois se arrependeu verdadeiramente. O rapaz a sua frente era encantador. Seus olhos tinham um brilho quase infantil e ele sorria gentil. A mochila nas costas, a calça um pouco larga e o boné com a aba para trás deixavam-no com um ar despojado.
- O que procura? Posso te ajudar... – soltou a respiração e mirou o rapaz, que a olhava de forma divertida, talvez tivesse percebido que ela o encarava na cara dura. Sentiu que corou.
- É um pingente, um trevo. – Suspirou desanimada. – O colar quebrou e eu não o acho. – Ela balançou o colar para ele.
Ele olhou para o chão, depois voltou a olhar para ela, fixando-se em seu braço direito, arqueando a sobrancelha em seguida.
- Não seria esse pendurado aí? – Ele apontou e imediatamente olhou para o local.
O pingente estava ali o tempo todo, preso na lã de seu cardigã. Ambos riram e ela retirou a pequena joia com cuidado para não repuxar demais o fio.
- Obrigada. – Ela disse, um tanto sem graça, estendendo a mão para cumprimentá-lo. – Sou .
- . E a sorte é toda minha.


“Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.”

(A princípio não te vi – Pablo Neruda)


- Os sabbaths* acontecem oito vezes ao ano, duas vezes a casa estação. As divindades homenageadas são a Grande-Mãe, simbolizando a terra, e o Deus Conífero, protetor dos animais e da vida na selva. – Gavin, um dos professores responsáveis pelo grupo, falava. – Existem também, ao longo do ano, quatro momentos especiais: o primeiro dia do ano e o primeiro dia dos meses quatro, sete e dez, porque são dias que caem na divisão exata do ano em quatro partes iguais, simbolizando quatro elementos. Os outros momentos são secundários e também são quatro: o início de cada uma das estações, nos solstícios e equinócios. Dessa forma, a roda do ano está completa e em harmonia com o universo.

*Datas festivas

A atenção de foi quebrada pelo celular que vibrou. Olhou o visor e o nome de piscava. Era uma mensagem dele.
Eu adoro a universidade, mas hoje está especialmente chato sem você.
Será que chego a tempo para a encenação? X

sorriu e checou as horas. A encenação especial estava marcada para o pôr do Sol, certamente já estaria ali. Respondeu rapidamente e deixou a mente vagar, admirando o cenário ao seu redor.
Conheceram-se no primeiro mês dela em Dublin e engataram um namoro três meses depois. Seus pais estranharam o anúncio e indagaram se não era cedo demais. Ela não havia parado para pensar no tempo. Os momentos com desenrolavam-se tão naturalmente que ela se vira apaixonada em pouco tempo.

- As eliminatórias estão rolando e não estamos tão bem, não é pensamento negativo, é só a realidade. – Deu de ombros, vendo bufar.
- Temos que nos classificar! Principalmente depois daquela roubalheira que aconteceu nas eliminatórias para 2010. E, poxa, essa Copa será no Brasil, por favor, tem que rolar! – Ele fez uma cara sofrida, fazendo a amiga rir.
- Depois daquele vexame na Euro, acho que já passou da hora de demitir o técnico...
- O quê? – a encarou indignado. – Não quero mais falar com você sobre isso, está me deixando desanimado. – Levantou-se da grama onde estava deitado e abraçou os joelhos. – Topa um cinema agora?

- Esse filme é...
- Forte. – completou a frase. Ambos explodiram em gargalhadas depois. – Acho que estou muito acostumado com o cinema americano.
Estavam no quarto dela, no prédio de alojamentos da Universidade. Tinham acabado de assistir Os Sonhadores, de Bertolucci.
- Desculpa. – disse entre risadas. – Não sabia que você ia ficar tão impressionado. – Brincou.
- Não é bem isso, quer dizer... – Ele gesticulava, fazendo-a rir mais. – Você é a garota do interior, você deveria ficar corada por ver Eva Green e dois caras pelados, e fica aí, de boa. – Ele cobriu o rosto com a almofada.
Elizabeth sorriu e pôs-se à frente dele, sentando em seu colo e descobrindo seu rosto.
- Deixe de bobagem, vamos comer alguma coisa e falar sobre esse final que eu não entendi muito bem.

- Será que eles gostaram de mim? – perguntou assim que estacionou o carro.
Tinham ido a um jantar na casa dele e o rapaz apresentou-a a família como sua namorada.
- Eles já gostavam antes de você cruzar a porta de casa e dizer “Olá”. – Ele dizia, sereno, enquanto a garota a sua frente mantinha a expressão ansiosa, mordendo o lábio inferior. – Não costumo esconder nada dos meus pais, então obviamente já tinha falado sobre você e eles já sabiam que você é especial, só confirmaram hoje. – Deu de ombros, sorrindo.

- Minha irmãzinha, Maire, está louca para te conhecer. – ria, voltando ao quarto com o telefone em mãos. – Família do interior, sabe como é, você já está famoso por lá. – Jogou-se na cama ao lado dele, beijando-lhe a ponta do nariz.
- Podemos viajar para lá nas férias. Vou adorar conhecer sua família, principalmente a famosa vovó Noreen. – Piscou para ela.
- Você vai adorá-la, tenho certeza! – Deitou-se de bruços, enquanto apoiava-se com o cotovelo para olhá-la. – É a pessoa mais doce que eu conheço e é fanática por futebol também. Já posso imaginar o quanto vão se dar bem.

- Eu morro de vontade de conhecer Praga! Fazer um piquenique às margens do rio Moldava... – mantinha o ar sonhador enquanto folheava a revista de viagens.
- Milão também é uma boa. – apontou para uma foto. – Caraca! Olha só a decoração da Catedral no Natal!
- Olha só Viena! – Os dois falaram juntos e caíram na risada depois.
rolou no colchão, que estava no terraço da casa dele, e aconchegou-se nos braços do namorado.
- Dá vontade de viver viajando pelo mundo. – Disse baixinho, apertando-o contra si.
- A gente pode planejar isso. – Ela ergueu a cabeça pra olhá-lo. – Podemos montar um roteiro, juntar uma grana... Eu ia adorar ser mochileiro com você. – Beijou a ponta do nariz dela, fazendo-a sorrir largamente.
- Eu adoro a ideia de fazer qualquer coisa com você. – Confessou, ficando por cima dele e entregando-se a um beijo intenso e apaixonado.

sorria enquanto penteava os cabelos, vendo continuar a resmungar na cama, com o rosto enterrado no travesseiro. Tinha acordado com um de seus resmungos há quase uma hora e ele continuava lá, falando coisas que ela não entendia e fazendo caretas que a faziam ter vontade de mordê-lo.
Quando voltou do banheiro o encontrou já sentado na cama, esfregando os olhos.
- Está acordada há quando tempo? – Perguntou, sonolento.
- Uma hora, mais ou menos. – Sentou-se à frente dele, passando a mão por seus cabelos. – Quando você começou a falar demais. – Riu.
- Você acordou por minha causa? – Ele fez careta. – Ah, me desculpe!
- Não tem problema, lindo – Piscou. – Acho uma gracinha.

“Quero apenas cinco coisas
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos
Não quero ser… sem que me olhes
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

(Cinco Coisas – Pablo Neruda)


checou o relógio novamente. Tinha quase uma hora desde que enviara uma mensagem dizendo que estava a caminho.
Os atores já organizavam o local onde a encenação que encerraria o dia aconteceria. Um pequeno altar fora montado, com sementes e frutas enfeitando-o. Uma boneca de palha simbolizava a Rainha da Colheita e velas artificiais eram acesas, dando ao local uma bonita iluminação.
- O equinócio de setembro marca o início o outono, que abre alas para o inverno. – A professora Isobel falava, enquanto as últimas pessoas se organizavam ao redor. – Quando o Sol se puser, será a hora de nos prepararmos para uma nova estação. O momento de equilíbrio entre o dia e a noite é de extrema importância pra nosso equilíbrio interior. Entre os casais, é preciso que as duas polaridades estejam em sintonia para a natureza se manter equilibrada.
Nesse momento, sentiu alguém sentar ao seu lado e logo estava segurando sua mão e sorrindo para ela.
- Desculpe o atraso. – Ele sussurrou, beijando-a levemente em seguida. – Realmente tem que ter pique nessa subida. – Ele apontou para onde algumas pessoas ainda subiam e riu.
- Você chegou bem na hora. – Apontou para o palco. – Já vai começar.
Aplausos foram ouvidos e a encenação começara.
Um ator representava o verão, outro o inverno. Ambos travavam uma batalha pelo controle da natureza. No altar, uma atriz representava a Mãe-Terra, que era a mediadora da disputa. Ao final, o inverno recebe uma coroa de folhas secas e é nomeado vencedor.
E com um coro que dizia “Que a intensa união e perfeição entre Deus e Deusa sejam refletidas em todos vocês hoje”, o grupo finalizou a encenação e a programação.
- Para onde você quer ir agora? – perguntou, vendo a namorada sorrir e puxá-lo pela mão em direção ao grupo que descia a colina.
- Vamos para o meu apartamento. – Deu um sorriso sapeca antes de continuar a caminhar.

“Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…”


estava sentado na cama há quinze minutos, ansioso. O quarto estava decorado de forma diferente e cheirava a hortelã.
disse que tinha uma surpresa e trancou-se no banheiro desde então.
Estava prestes a bater na porta e ver se ela continuava acordada lá dentro quando viu a maçaneta girar.

“Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.”


As luzes foram apagadas e apenas o abajur iluminou o quarto. saiu lentamente. Sorriu ao encontrar os olhos vidrados de .
Seus cabelos estavam soltos, formando ondas sobre seus ombros e cobrindo parcialmente os seios descobertos. Apenas uma longa saia verde cobria seu corpo. Cordões prata rodeavam sua cintura e cintilavam a casa passo que ela dava.

“Me encante com suas mãos, Gesticule quando for preciso. Me toque, quero correr esse risco.”


- Macha. – disse num sussurro. – Poderosa deusa guerreira do Ciclo de Ulster da mitologia celta irlandesa.
sorriu orgulhosa, colocando-se à frente dele e tocando seu rosto suavemente, fazendo-o fechar os olhos.

“Me acarinhe se quiser… Vou fingir que não entendo, Que nem queria esse momento.”


- Abra os olhos. – Ela disse e ele o fez rapidamente, encarando-a de perto, vendo sua íris cintilar de uma forma diferente.
Pensou em toda a mística do dia, pensou nas palavras da professora mais cedo. “Entre os casais, é preciso que as duas polaridades estejam em sintonia para a natureza se manter equilibrada.” E naquele momento eles eram dois polos, seus campos se atraiam, buscando equilíbrio.

“Me encante com seus olhos… Me olhe profundo, mas só por um segundo. Depois desvie o seu olhar. Como se o meu olhar, Não tivesse conseguido te encantar…”


Os olhos dele percorreram todo o corpo da mulher a sua frente. Estava encantado com a figura dela. Sentia-se o mais sortudo dos homens. Naquele momento, ela era o místico, ele o devoto. Nada faria a não ser contemplá-la e empenhar-se em lhe dar amor.
Tirou seus cabelos dos ombros, deixando seu busto todo à mostra. Deslizou o indicador pelo rosto dela, contornando sua boca, desceu para o pescoço, ombros, por entre os seios, terminando abaixo do umbigo.
sentia sua pele reagir a cada toque e um rastro de arrepios tomava seu corpo, conduzidos pelas mãos do rapaz.

“E então, volte a me fitar. Tão profundamente, que eu fique perdido. Sem saber o que falar…”


- Sua fascinação é para além dos confins da terra. Como os deuses, você pode mudar de forma. – modificou a parte final da Canção de Amergin, fazendo voltar a sorrir.
Levantou-se e uniu as bocas pela primeira vez naquela noite.
A pele dela parecia mais quente que o normal, quase febril, o que fez arrepiar-se de imediato. Sentiu o coração esmurrar seu peito em excitação. Aquela não era a primeira vez, nem seria a última, mas seria única e disso ambos tinham certeza.

“Me encante com serenidade… Mas não se esqueça também, Que tem que ser com simplicidade, Não pode haver maldade. Me encante com uma certa calma, Sem pressa. Tente entender a minha alma.”


a virou de costas, beijando seus ombros e nuca, acarinhando livremente seu busto com uma das mãos. Dedilhava o contorto dos seios, descendo vez ou outra para a barriga, onde fazia desenhos abstratos na pele da namorada.
mantinha um dos braços para trás, com a mão presa nos cabelos macios dele. Puxava-os com um pouco mais de força quando sentia sua língua macia deixar rastros quentes por sua nuca ou quando os dentes dele agarravam o lóbulo de sua orelha.
Era assim que se sentia completa, nos braços dele. Era assim que se sentia viva, quando as mãos dele tocavam-na sem cerimônias, decifrando-a. Essa era a melhor das sensações.

“Me encante como você fez com o seu primeiro namorado… Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.”


Já livre da camisa e da calça, se ajoelhou na cama, ficando de frente para ela, que se mantinha em pé. Apertou-lhe a cintura antes de desprender os dois botões laterais da longa saia verde, fazendo-a cair no chão como uma poça e ouvindo o tilintar dos adereços.

“Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo. Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre… Mas, me encante de verdade, com vontade…”


Seus corpos enrolavam-se na cama, arrepiando um ao outro. Murmúrios eram trocados enquanto suas mãos tocavam os lugares certos.
sentia-se em êxtase, nada era como estar nos braços dele, nenhuma sensação era igual àquela, quando ouvia seu nome sair dos lábios dele num sussurro entrecortado.
Em meio a todo o ritual do amor, ergueu o tronco, deixando seus olhos na mesma altura. Queria dizer-lhe tanto. Queria beijá-la ao mesmo tempo. Queria amá-la de uma vez.
Encostou suas testas e olhou-a fixamente.
- Is breá liom tu*.
sorriu.
- Is breá liom tú ró.

“Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas.”
(Me Encante – Pablo Neruda)


*Eu te amo.



Fim




Nota da Beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter. Obrigada. Xx.

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