Monster por Ana Ferreira

escrita por Ana Ferreira
revisão por Gabriella




O frio já havia ultrapassado os limites de suas roupas de lã, penetrado por entre as linhas, atingido a pele de veludo. Sua pele começava a ficar irritadiça pela temperatura baixa, mas não se movia um dedo para espantar o frio, ou se levantar de onde estava há horas sentada.

Tinha a impressão que suas lágrimas, escorrendo pelas bochechas desnudas, iriam congelar a qualquer minuto, pendurando-se por seu rosto como pequenas estalactites. Nem ao menos tinha o trabalho de limpá-las, secá-las com a ponta dos dedos coberto por luvas de couro pretas... Do que adiantaria? O que mudaria?

Eram lágrimas, simples e honestas lágrimas que caiam. Por que as limparia? Por que a impediria de tomar seu rumo? Caindo pelo queixo fino em direção a neve que cobria todo o gramado daquele local. Que poder suas lágrimas salgadas teria? Mudar o passado? Com toda a certeza que não seria possível. Apaziguar o futuro? Muito menos. Ele limparia suas lágrimas, sabia disso, pois no momento em que seus olhos começassem a tomar a coloração vermelha, assim como seu nariz, ele estaria com o braço estendido para lhe envolver e com as pontas dos dedos macias para limpar assim que escorrem pelas suas pálpebras.

Mas ele não poderia limpá-las agora, não enquanto estava no conforto de sua casa, perto da lareira, provavelmente brincando com Annabell, enquanto Melanie ninava Mick, balançando em sua linda cadeira de balanço, colocada propositalmente próxima à lareira, para esquentar a jovem mãe e seu novo e brilhante bebê.

Não gostava do nome que ela havia escolhido para o menino. Mick, Mick, nem ao menos era a abreviação de Michael, não, era apenas Mick, o novo bebê, o primeiro homem naquela pequena família. Annabell ela gostava, soava como anjo por seus lábios e pelos lábios dele. Ela era uma garotinha de três anos e meio, completamente adorável, puxando todos os traços que o pai possuía: Os olhos, cabelos, pele rosada nas bochechas e um nariz arrebitado.

Havia visto-a poucas vezes, primeiramente em seu nascimento, e depois em seu aniversário de três anos, pois não queria que ela convivesse muito com sua... Prima. Mas é claro que não queria. não a queria perto da família perfeita que ele estava conseguindo criar, que estava conseguindo manter. Filhos lindos e um casamento de fachada, apesar de Melanie venerá-lo como toda boa esposa casta fazia.

Tinha que obedecer as ordens que ele lhe dava, quando ele queria vê-la, ela ia. Quando dizia para ficar longe, ela ficava. Mas tudo havia mudado há seis meses, não podia mais ficar esperando lhe chamar quando ficava longe de Melanie.

Não achava aquilo justo, nada era justo. Ela assumia Melanie, sua esposa e mãe de seus filhos, mas e ela? E seu filho?

Passou a mão pelo ventre avantajado, onde repousava uma criança de uns tantos cinco meses, para mais ou para menos, não tinha certeza quantos dias exatos seu pequeno bebê tinha, tudo que sabia era que o amava. Quando este se mexia dentro de si, pressionando os pequenos pés – já formados – contra a superfície da pele, deixando seu pequeno contorno ali. Não tinha melhor sensação do que aquela. Talvez o toque de se equiparasse aquilo, mas disto ela estava privada.

Levantou-se com dificuldade da terra onde estava sentada, observando o cair da neve naquele pequeno parque. Não havia ninguém transitando por ali àquela hora da noite, afinal, era véspera de Natal, todos estavam no aconchego de suas casas aproveitando os jantares em família.

Limpou a sujeira de seu casaco e calças, ajeitando a roupa melhor contra si enquanto caminhava na direção contrária que o vento soprava. Pequenos flocos de neve caiam em seu rosto e prendiam em seus cabelos. As lágrimas já não caiam, mas os olhos inchados e o nariz vermelho não lhe deixavam esconder a tristeza estampada em seus olhos.


Once upon a time I was of the mind
(Uma vez eu pensei)
To lay your burden down
(Em descarregar o teu peso)
And leave you where you stood
(E te deixar naquele lugar)
And you believed I could
(Você acreditava que eu era capaz)
You'd seen it done before
(Você já viu acontecer antes)
I could read your thoughts
(Eu poderia ler os teus pensamentos)
Tell you what you saw
(Dizer o que você via)
And never say a word
(E nunca dizer uma só palavra)
Now all that is gone
(Agora tudo isso se foi)
Overwith and done - never to return
(Morto e enterrado – Para nunca mais voltar)



Nem ao menos percebeu que seus pés caminhavam, saindo da trilha do parque, ganhando velocidade pelas ruas da cidade. As luzes piscavam para todos os lados. Bonecos de neve acenavam em sua direção. Renas fingiam cair de telhados, trazendo presentes e um grande e gordo Papai Noel em seu trenó. Tudo aquilo ofuscando em seus olhos.

Podia ouvir o som das risadas, os talheres batendo contra pratos, o tintilar de taças brindando. O cheiro de Peru invadia seu nariz, mas apenas lhe revirava o estomago. Seu bebê era como ela, detestava aquela época, suas decorações e comidas típicas.

E detestava a casa na qual seus pés a haviam levado.


Staring at the loss
(Olhando para a perda)
Looking for a cause
(Procurando a causa)
And never really sure
(Mas nunca tem a certeza)
Nothing but a hole
(Nada há além de um buraco)
To live without a soul
(Para se vive sem alma)
And nothing to be learned
(E não há nada para se aprender)



A família estava reunida a mesa de jantar próxima a janela no pequeno aposento que mantinham para as refeições. Podia ver o cadeirão onde Annabell estava sentada com o prato cheio a sua frente, onde Melanie prontamente servia a boca da menina. Ao lado, estava o cesto de Mick, apoiado em uma das cadeiras, sob o olhar vigilante do pai, que permanecia em pé, cortando o pernil, servindo a ele e a esposa.

Poderia ser ela ali, sentada a cabeceira da mesa, esperando que ele lhe servisse um prato cheio, pronto para forrar seu estomago e o do bebê. Talvez ganhasse coisas para a criança, abrindo pacotes e mais pacotes com roupas, brinquedos e mamadeiras. Poderiam decorar o quarto do pequeno juntos, ou pequena, ela não sabia. Teriam tudo branco até ser revelado o sexo do bebê, por mais que ela sentia em si que seria uma menina. Sua menina. E dele.

Nem ao menos possuía um quarto para a criança. Ou ao menos uma casa onde poderia cria-la. Seus pais não podiam abriga-la, e não poderia viver de favores toda a vida. Ela só queria que ele fizesse algo, que se responsabilizasse por algo, que colocasse um teto sobre sua cabeça e de seu filho... E que voltasse a amá-la.

Pensou que lágrimas estariam escorrendo por suas bochechas, mas parecia que haviam secado dentro de suas pálpebras. Pensou em correr e bater a porta, entrar na casa e exigir algo dele, ou talvez dissesse que passaria a noite ali com eles, comemorando o Natal, afinal, Melanie de nada sabia.

Mas antes que pudesse se mover ir para porta, ou ir embora, levantou o olhar, encarando-a através da janela embaçada. Seus movimentos ficaram estagnados, a faca parada ao ar. Tentou sorrir, mas do que lhe adiantava? Ele havia arrancado o sorriso de seu rosto e não o merecia. Pensou em acenar, mas também não achava justo. Apenas levou as mãos sobre a barriga, apoiando-as ali, vendo o olhar de cair para o seu tronco, e os talheres em suas mãos voltarem à posição outrora ocupada na mesa.


Shapes of every size
(Vultos de todos os tamanhos)
Move behind my eyes
(Movem-se pelos meus olhos)
Doors inside my head
(As portas em minha cabeça)
Bolted from within
(Estão trancadas por dentro)
Every drop of flame
(Cada faísca)
Lights a candle in
(Acende uma vela)
Memory of the one
(Em memória daquele)
Who lives inside my skin
(Que vive sob a minha pele)



Não esperava que o mesmo sussurrasse algo a mulher e saísse da sala em seguida, abrindo a porta da frente, enquanto vestia o grosso casaco para o tempo. Suas mãos tremeram naquele momento e um suor frio escorreu por suas costas. Não esperava que ele saísse, não esperava que fosse vê-la. E agora temia as consequências.

- O que faz aqui, ? – ela teve que respirar profundamente, sentindo os joelhos estremecerem, parecia que fazia décadas que não o ouvia dizer seu nome.
- Eu... Eu só estava andando – gaguejou levemente. – Não quis incomodar.
- Claro que não, só está parada em frente a minha casa, e com essa... Barriga a mostra – apontou para a protuberância. – O que pensa que está fazendo? Quer estragar meu Natal em família? O primeiro do Mick?
- E o meu Natal, ? E o Natal do seu filho? – exclamou, fazendo o homem arregalar os olhos com aquilo, pois Melanie poderia ouvi-los. – Será que isso não passa pela sua cabeça egocêntrica?
- Pelo amor de Deus, , pare com essa besteira! – segurou firmemente o braço da sobrinha, puxando-a pela rua, para longe da entrada de sua casa. – Nem ao menos sei se essa criança é minha.
- Não quer acreditar mesmo em mim, não é? – sorriu tristemente – Não quer acreditar que todo esse tempo eu fui sua, e somente sua. Não teve outro. Nunca teve ninguém além de você.
- Por favor... Para com isso – abaixou a cabeça e soltou o braço da mulher, suspirando alto. – Por que faz isso comigo? Justo agora?
- Eu não faço isso com você! Nós fazemos isso juntos há anos... Nós poderíamos ser algo, eu sei disso – segurou a mão do homem fortemente contra a sua, colocando-a sobre a barriga – Sente isso, sente seu filho se mexendo, nosso filho se mexendo... Como pode nos excluir da sua vida? Como pode negar que eu sou a única...
- Você não é a única, – a voz do homem saiu tremula, a sensação de estar sentindo mais um de seus filhos remexer-se na barriga da mãe lhe tirava o folego.
- Eu sei que sou, ... Eu sei que sou – segurou a ponta do queixo coberto com a rala barba, fazendo-o erguer o olhar – Não minta mais para mim... Nós não podemos mais viver assim.
- Sim, podemos – recompôs-se, recolhendo a mão.
– Eu preciso de você, , nós precisamos! – exclamou – Por que não faz nada? Por que me mantém longe?
- Porque eu tenho uma família, e eu cansei de brincar com você, coloca isso na sua cabeça! – mordeu os lábios, sentindo os olhos queimarem com as lágrimas que se formavam ali.
- Brincar? Brincar... – repetiu. – Não sabia que era tão burro, tio, pois não se brinca com os sentimentos de outra pessoa.

abriu a boca para responder, mas as palavras não vieram, e não ficou ali esperando que algum momento elas viessem. Iria ter seu filho, o fruto que produzira com o único homem em que amara e que agora só queria manter distancia. Não precisaria de , iria admitir isso, iria forçar isso a entrar em sua mente. Viveria sua vida, daria um jeito, e o deixaria em paz.

Ele e sua família perfeita.
Ele e seus filhos.
Enquanto escondia o bastardo de todos.
Enquanto escondia da família o maior de seus pecados.
E que quando a criança nascer, o colocará em evidencia.
Ele será um monstro. O monstro que violara o pequeno anjo.
E seu fruto será louvado por todos.
Enquanto sua família desmoronará.


Nota da Autora: Um pequeno spin-off, passado na época de Natal, da fanfic "Sex on Fire". Espero que gostem!
Trechos da música Shadow on the Sun - Audioslave

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