My Psycho Killer Girl
My Psycho Killer Girl
Autora: Andrea Cristina | Beta-reader: Brunna


Songfic da música Psycho Killer – Talking Heads


Meu nome é . , pros íntimos. Mas presta bem atenção, porque eu disse que é SÓ para os íntimos. Você acabou de me conhecer, portanto qual é meu nome? É , ok? Ok!
Vamos traçar alguns limites aqui e agora. Você não vai me chamar de outra coisa sem ser meu nome. Nada de apelidos. Você também não vai arrumar briga no quintal de casa, e muito menos ficar me olhando da janela do seu quarto. Ah, você também não vai tentar ficar falando comigo no ponto do ônibus se eu tiver de braços cruzados e ouvindo música no fone. Essas são apenas medidas de precaução que eu tive de tomar por conta de certa vizinha minha vinda do Brasil.
E, por favor, não seja essa vizinha.
Porque ela é única.

Eu sei que você quer saber como tudo começou, afinal você está aqui para isso. E me desculpe se fui meio grosso nos parágrafos anteriores, é que não estou em um dos meus melhores dias. Mas vamos lá.
Tudo começou há um mês.
Minha rua era a mais tranquila do subúrbio de Londres. Como você deve ser do Brasil, vou te explicar que subúrbio em Londres não é favela. É só um bairro afastado do centro. Mas tem um ponto de ônibus e uma estação de metrô aqui.
Eu estava voltando da escola, subindo os degraus do subterrâneo que me levaria para a calçada, já que tinha acabado de descer do metrô. Meu fone esquerdo estava quebrado. Eu estava completamente puto da vida por causa disso. Logo, eu andei olhando para baixo e o mais rápido que podia. Assim que cheguei ao meu quarteirão, vi um caminhão de mudanças. Diminui os passos, porque, que eu me lembre, nunca tinha visto uma mudança na minha rua desde que eu nasci. Ou seja, faz tempo.
Uns moços tiravam móveis de dentro do caminhão. E o que me chamou a atenção foi uma cama com alguns enfeites cor-de-rosa e roxo. Tinha também alguns ursos de pelúcia e um guarda roupa cheio de pôsteres de bandas fodas. Fiquei curioso, e assim que passei na frente da casa, vi uma baixinha saindo de lá. Ela me olhou, mas acho que nem reparou em mim. Estava tão afoita segurando um cachorro que não parava quieto em um braço, enquanto no outro tentava equilibrar uma pilha de CDs. Eu, como um bom cavalheiro que sou, não fiz nada. Passei reto e entrei em casa.
No dia seguinte, estava eu indo para o ponto de ônibus, porque estava cedo demais pra ir de metrô e eu poderia chegar antes até da escola abrir. Eu já tinha comprado um fone novo, então estava ouvindo Talking Heads no volume mais alto. Eu tinha uma queda pela baixista, eu confesso...
Super concentrado naquele refrão cheio de “Fa fa fa’s” e “run run run’s”, eu nem tinha percebido que alguém tinha chegado ao ponto. Olhei de soslaio e vi que era a baixinha. A nova vizinha. E ela estava me olhando com uma cara de maníaca possessiva. Os olhos arregalados e brilhando. Um sorriso que ia de orelha a orelha e o celular que ela segurava na mão tinha até caído e levado os fones junto. Ela nem tinha se mexido.
Bem nessa hora, o refrão dizendo “matadora psicótica, o quê que é? Melhor fugir” começou a tocar mais uma vez. Eu entrei em desespero e saí andando de lá para a estação de metrô, que ficava dois quarteirões para baixo. Olhei para trás, e ela estava andando devagar na minha direção. Eu comecei a correr e correr até meus pulmões implorarem por um descanso.
E foi justamente assim que eu acordei no meio da noite, uma semana após esse primeiro incidente. Suando, sonhando que corria e corria da baixinha, mas que não saia do lugar e ela chegava mais e mais perto.
Agora você entende o porquê da minha grosseria inicial?


I can't seem to face up to the facts
(Não pareço quem possa encarar os fatos)
I'm tense and nervous and I can't relax
(Estou nervoso e tenso e não consigo relaxar)
I can't sleep, 'cause my bed's on fire
(Não consigo dormir, porque minha cama está queimando)
Don't touch me I'm a real live wire
(Não me toque, eu sou um ser realmente eletrizado)



Na semana do sonho, umas coisas estranhas começaram a acontecer. Vultos começaram a me espiar pela janela do quarto. Era a baixinha. Na verdade eu estava acostumado a olhar para um molequinho de sete anos que, quando me via na janela, mostrava a língua e o dedo do meio pra mim. É claro que eu, como o cara mais velho que sou, retribuía fazendo gestos obscenos e mostrando o dedo também. Só que agora era diferente. Ela era uma garota. Uma garota que me observava, vai saber desde quando, e que talvez já possa até me ter viso peladinho da silva.
E foi por isso que um dia deixei a luz acesa e me sentei na cama, bem de frente pra janela. Com certeza ela iria me olhar e eu ia poder mostrar um dedo pra ela. Só que, meu amigo, eu perdi o controle da situação. Resumindo, eu me fodi!
Enquanto eu esperava por ela, sentadinho na cama, a mãe dela entrou só de toalha e ficou pelada lá, na intenção de trocar de roupa. E quando nossos olhares se encontraram, eu senti que não teria um dia seguinte pra mim. A mulher ficou doida, mate! Ela começou a gritar e tentar se tampar com a mão, com a toalha. Eu levantei da cama e não sabia o que fazer. Coloquei as mãos na cabeça, até que tive uma grande ideia. Joguei-me no chão. Sim, eu fui irônico quando disse grande ideia.
Fiquei lá por tempo suficiente até ter certeza de que ninguém estaria mais naquela maldita janela. Só que fiquei tempo demais, porque depois a campainha tocou e minha mãe foi atender. Ouvi gritos lá em baixo e algumas palavras-chaves como “observando”, “janela”, “banho”, “nua” e a que mais me aterrorizou foi “minha filha ”.
Eu fiquei com muito medo. Pois é. Ouvi passos subindo a escada e, num ato de desespero, entrei de baixo das cobertas. Mas eu estava de calça, então, com toda a pressa, tentei tirá-las para parecer mais natural. Eu pretendia fingir que estava dormindo, e eu sempre dormia de boxers. Mas aí, a doida da vizinha abriu a porta bem na hora que eu estava de costas, tentando tirar o cinto, e esses movimentos pareceram outra coisa. Se é que você me entende. E a vizinha começou a gritar muito. “Seu pervertido, você tava lá pra ver minha filha! E olha o que você está fazendo agora!” blablabla.
Minha mãe não sabia onde colocar a cara. Eu só arrumo problemas pra cabeça dela.
Depois de eu tentar explicar a situação pra mulher – o que não aconteceu porque ela não calou a boca um segundo -, tentei dizer que quem ficava ME observando era a “filha ” dela, e não eu. Só que não deu certo. Minha mãe tava do lado dela também... Agora eu era um ninfomaníaco, pervertido, tarado sexual, um psicótico...
A vida é uma merda mesmo!
No dia seguinte, eu fui para o ponto de ônibus e a “filha ” estava lá. Eu sabia que devia ter ido de metrô... Ela tentou contato assim que passei na frente dela.
- Fiquei sabendo que minha mãe deu escândalo ontem na sua casa.
Eu olhei pra ela, tirei os fones e disse:
- Por favor, não fala comigo.
Ela me olhou com uma careta de raiva e ódio ao mesmo tempo.
- Oi? – foi o que ela disse.
- É sério. Nós nunca trocamos uma palavra e eu já estou de castigo por sua culpa. Se você falar comigo, acho que vou ser morto e coisa e tal.
- Minha culpa? Querido, você quem estava espiando minha mãe!
Meu sangue ferveu e eu quis raspar o cabelo dela!
- Espiei sua janela porque VOCÊ vivia espiando a minha!
- Eu nunca te espiei, seu estranho!
- Nunca? Eu já te vi lá muitas vezes! Você já deve ter até me visto pelado!
Ela gargalhou. Depois fechou a cara. Ela era maluca!
- Você não gostoso pra eu ficar te olhando da janela, .
Cria do satã! Ela sabia meu nome.
- Como você sabe meu nome?
- Do mesmo jeito que você sabe o meu.
- Menina, me erra! – eu disse.
- Menino, se fode! – ela rebateu, e nós caminhamos cada um para um lado.
Eu, hein. Nunca mais voltaria àquele ponto de ônibus. Quanto mais longe ficar dessa doida, melhor.


Psycho killer, qu'est-ce que c'est
(Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)
Psycho killer, qu'est-ce que c'est
(Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)



Eu consegui evitar a por uns dias. Só que chegou uma segunda feira na minha escola na qual ela estava lá também. E eu entrei em desespero. Assim que pisei no pátio e avistei aquela baixinha ali, meu olho se arregalou e eu vacilei de medo ou raiva. Tentei andar pra direção oposta, mas ela tinha me visto e fechou a cara toda carrancuda!
O sinal soou, e eu, graças ao bom deus, entrei na sala. Só que ela entrou na minha sala também! Vê se pode... E sabe o que ela fez? Ela se sentou do meu lado. Do meu lado. Já que meu amigo não tinha chegado ainda pra ocupar o seu lugar, ela achou que estava vago e se sentou do meu lado. Eu queria avisar a ela que aquele lugar tinha dono, mas eu sabia que a resposta poderia ser mais baixa do que “não tem nenhum nome nessa cadeira!”. Então eu só suspirei...
- Você pensou que ia escapar de mim assim tão fácil, né? – ela falou, e eu fechei os olhos, pensando em ignorá-la.
Ela abriu a bolsa e tirou um caderno preto e um estojo de lá.
- Não vai ser tão fácil assim, ... Eu sei que você está me ouvindo.
- Então não precisa ficar repetindo as coisas.
- Eu gostaria de ouvir suas respostas.
- Eu gostaria se você não se sentasse aqui.
Ela se virou, sentou de lado e virou meu rosto da direção do dela.
- Para de ser maricas, . Nós sabemos que o que aconteceu lá em casa foi um acidente. Se você acha que é só você que está tomando no ânus por conta do escândalo da minha mãe, você errou.
Eu fiquei confuso e ergui a sobrancelha.
- Minha mãe tá me fazendo dormir no sofá só pra não dar brecha pra “você me olhar” – ela fez aspas no ar.
Eu comecei a rir da cara dela. Mas ela me deu um tapa tão dolorido, que eu quis chorar.
- Sua louca – eu falei, abaixando as mãos dela – Você sabe muito bem que isso só começou porque você me vigiava.
- , isso foi uma noite, eu tava olhando o céu e você apareceu VESTIDO, só pra constar. Nunca aconteceu nada antes e nem depois disso.
- Eu nem te conheço, como vou acreditar em você? E a propósito, meu nome é pra você.
Ela gargalhou, o que fez alguns alunos nos encararem. O professor ainda não tinha chegado.
- Então, – ela frisou meu apelido – Por isso mesmo que me sentei aqui. Olha, eu vim do Brasil. Eu me chamo e tenho 18 anos. Não conheço ninguém nessa cidade, meu inglês ainda não é igual ao seu e estou tendo problemas de adaptação. Queria pelo menos ter um amigo. Você é meu vizinho, agora é meu colega de classe. Não vamos foder tudo. Acho que podemos ser, sei lá... Se não amigos, pelo menos colegas.
Eu demorei pra processor o que ela tinha dito. Foi meio assim, como um vomitar de palavras. E eu achei aquilo super estranho... Mas relevei. Nisso o professor entrou e eu nem a respondi. Ela também ficou na dela e começou a copiar a matéria.
Na hora do intervalo, eu saí do lugar e fui caminhando em direção ao pátio. Percebi que tinha ficado pra trás. Eu suspirei e fui até ela, dizendo:
- Vai, vem comigo.
Ela levantou o olhar e sorriu. Ela era até bonita...
Saímos da sala e aquele intervalo me fez perder todas as coisas ruins que eu tinha inventado dela. Ela curtia bandas muito feras, bandas que eu curtia também. E ela adorava escrever. Escrever sobre tudo. Ela queria tocar violão e eu prometi ensinar a ela como se toca. Foi um intervalo bem aproveitado.
Logo a aula acabou e nós voltamos para casa juntos. Nos despedidos e fomos cada um pra sua casa. Eu fui jogar vídeo game e cochilar um pouco. Quando era quase oito da noite, subi para o meu quarto e pude vê-la na outra janela, deitava na cama estudando o que parecia ser matemática... É parece que mais isso em comum. Odiávamos exatas.
Dirigi-me até a janela e a abri. Assoviei duas vezes e ela levantou o olhar. Fui até a janela dela e perguntou o que eu queria. Eu, então, a convidei para irmos até a praça que tinha na esquina do fim da rua. Ela disse que ia por uma blusa e já descia.
Eu fechei a janela e vesti um moletom da Vans Of The Walls, descendo as escadas e indo para o frente de casa. Assim que fechei a porta, eu a encontrei lá. Andamos sem nos falar até a praça, onde nos sentamos e ficamos falando sobre nada.
Ela adorava conversar. Falava mais que a boca e, às vezes, repetia as mesmas coisas de tão empolgada que ficava. Ficar com significava ter assuntos para toda a eternidade. Mas tinha horas que ela parava e ficava olhando pro nada. E isso me deixava tão nervoso que eu tinha vontade de sair correndo e gritando.
Seria legal ter aquela menina como amiga...


You start a conversation you can't even finish it
(Você começa uma conversa que nem pode terminar)
You're talkin' a lot, but you're not sayin' anything
(Você está falando muito, mas não está dizendo nada)
When I have nothing to say my lips are sealed
(Quando eu não tenho nada a dizer, meus lábios se calam)
Say something once, why say it again?
(Dizer uma coisa uma vez, pra que dizê-las novamente?)



Era um sábado, eu me lembro muito bem. Eu estava no quintal de casa, podando as gramas com aquela máquina barulhenta, meu cachorro não calava a boca e não parava de correr atrás do aparelho pra tentar mordê-lo, porque cachorros são burros e acham que um cortador de grama é um bicho que vai atacar a família inteira. O barulho do animal e da máquina estava me deixando louco. E minha mãe ainda estava dentro de casa ouvindo rádio numa estação onde só tocava Beyoncé e Lady Gaga.
E foi quando tudo começou. saiu no quintal, toda brava. Grudou na cerca que separava nossas casas e começou a gritar comigo, me mandando calar a boca e dizendo que ia matar meu cachorro se ele não parasse de latir. Eu me revoltei, só eu posso brigar com meu cachorro!
Fui até a cerca e nós começamos a brigar. A brigar muito, ela me xingava de nomes muito feios, e eu a xingava de nomes piores ainda. O cortador de grama, agora sem alguém para guiar seus movimentos, começou a percorrer o quintal inteiro. Roney começou a correr e pular e latir e fazer escândalo, até conseguir subir em cima do aparelho.
Nossas mães apareceram desesperadas no quintal. A mãe da estava tentando tirá-la da grade, mas era em vão. Ela tinha grudado lá como se fosse uma macaca.
E a única coisa que eu me lembro no final, foi da descendo da grade e gritando meu nome com as mãos na cabeça, a mãe dela fazia o mesmo, e então minha perna foi atingida por alguma coisa muito cortante e eu só vi meu lindo sangue escorrendo na grama.
Meu sangue, vermelho como... Sangue, começou a manchar minha roupa, a inundar o chão, e eu tudo foi ficando turvo. Eu odeio ver sangue. Pode me chamar de bicha se você quiser, mas eu odeio sangue. Eu não serviria pra ser mulher nem fodendo.
E aí, poft. Eu caí duro no chão.
Não, eu não me lembro de ter caído. Só to contando o que minha mãe me disse. Talvez as coisas nem tenham acontecido assim, porque mulheres adoram aumentar as coisas, mas, pois é... Foi essa a versão dos fatos que eu fiquei sabendo.
E agora estou eu deitado na cama de casa, em observação.
Maldita e seus ataques psicóticos!
Virei pro lado e a menina estava lá no meu quarto.
Meu olho se arregalou, eu comecei a recuar na cama no momento que ela começou a chegar mais perto. Até que eu caí da cama. E o que eu ouvi foi uma gargalhada abafada e um suspiro, então ela veio até mim e me ajudou a levantar, já que minha perna estava cheia de curativos por causa dos cortes da máquina de cortar grama.
- Desculpa, ! Desculpa mesmo.
- Sério, eu só me fodo por causa de você, ... Antes fui acusado de ser um tarado, fiquei de castigo, agora cortei a perna toda... Na boa, você deve me odiar.
- Claro que não! Eu nunca te odiaria, . Ontem eu estava meio fora de mim...
- Ai, você sempre ta fora de si...
- Não é assim também. Ontem aconteceram umas coisas tensas. Descobri umas coisas lá do Brasil e depois fui stalkiar o perfil de um garoto que eu estou a fim e descobri umas coisas ruins. E então seu cachorro latindo e o barulho do cortador me deixou mais nervosa ainda, e eu comecei a gritar e chorar e tudo isso aconteceu...
- Você não é normal.
- Não mesmo, mas você também não é... Já deu uma olhada na merda que sua grama virou quando deixou o cortador solto pelo quintal?
Foi quando ela disse isso que eu me toquei. Olhei pela janela e vi a grama toda desnivelada, algumas partes até sem grama nenhuma...
Suspirei nervosamente e olhei pra ela, que tinha um sorriso doce no rosto.
- Só me deixa dormir, – disse, tampando meu rosto.
- Tudo bem. Vou fazer uma viagem e volto daqui quatro dias. Espero que você melhore.
- Pra onde você vai?
- Portugal. Visitar uns tios-avós ou sei lá o quê do meu pai.
- Até mais!
Eu disse, vibrando por dentro. Quatro dias sem me meter em confusão nenhuma... Quatro dias sem a psicótica da !
Yay!


Psycho killer, qu'est-ce que c'est
(Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)
Psycho killer, qu'est-ce que c'est (Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)



Eu nunca me odiei tanto na vida. Nunca! Como eu posso ser tão fraco assim? Responda-me, como?
Aquela doida estava fora do país havia só dois dias e minha vida estava uma merda. Não tinha ninguém pra me encher a paciência, nem ninguém pra ser a razão dos meus castigos, ou pra brigar comigo no quintal, ou mesmo pra ficar zoando meu cabelo durante as aulas. Não tinha ninguém pra jogar pedras na minha janela no meio da noite pra contar que tinha conseguido passar pra próxima fase do Mario Kart. Ou simplesmente que me acordava de madrugada pra falar que teve um pesadelo e que queria que eu ficasse conversando com ela até a hora de ir pra escola, ela de uma janela, eu da outra.
Não tinha mais quem ir comigo até a praça e ficar até altas horas vendo os caras que levavam os cachorros fortões pra correr atrás de brinquedinhos fofos. Não tinha ninguém pra apostar corrida comigo na hora de voltar pra escola, quando eu vinha de ônibus e ela de metrô. E eu sempre ganhava, porque a burrinha sempre descia na estação errada e, ou tinha que pagar mais um bilhete de sete libras, ou vir andando até a rua. Enfim, não tinha ninguém.
Nunca pensei que ia ficar tão dependente assim de uma pessoa em tão pouco tempo. Ainda mais de uma pessoa meio doida. Meio maluca.
E o que eu fazia pra matar o tempo? Ficava jogando vídeo game, ou ficava no quintal de casa fazendo barulho com o Roney, esperando que ela surgisse lá do nada e começasse um escândalo.
Mas é claro que ela não apareceu, e nem apareceria.
Na moral, aqueles foram os piores quatro dias da minha vida. E eu nem sei por que foram tão ruins assim.
Só sei que foi horrível ficar sem ela por perto. Eu me senti triste e meio... Incompleto? Que gay eu, né? Mas é sério, eu não sei o que aconteceu comigo, ou o que ela fez comigo! Só sei que nunca mais queria ficar tanto tempo longe dela assim!
Sei lá se tem como explicar isso.
Mas a luz no fim do túnel não demorou a chegar!
Eu estava o meu quarto tocando violão, sentadinho na cama, quando vi uma luz – literalmente – se ascender. Olhei pra janela e vi o quarto da iluminado. O vulto dela carregava uma mala enorme, que ela jogou sobre a cama, e depois disso, correu até a janela para abrir as cortinas. Assim que terminou, nossos olhares se encontraram, e eu larguei o violão ali mesmo e fui até minha janela, abrindo-a com uma força até desnecessária.
Um sorriso enorme se abriu em meu rosto e eu juro que fiquei com vontade de pular aquela janela pra chegar até o quarto dela e matar as saudades. Mas sabia que ia ter que fazer mais curativos ainda do que no dia da perna cortada...
- – ela disse e esticou os braços.
Eu estiquei também, mas era óbvio que não conseguiríamos alcançar um ao outro.
- To descendo – eu disse e saí correndo.
Ouvi-a dizer alguma coisa, mas não entendi o que era, e percebi ela se movimentar escada abaixo também. Passei pela minha mãe que assistia a algum filme na TV e nem me dei ao trabalho de dizer onde estava indo. Abri a porta da frente, e ela abriu logo depois de mim. Desci os degraus e nos encontramos na divisa das nossas casas.
Ela me abraçou com tanta força! O abraço foi meio desproporcional, porque eu com meus metros de altura, e ela só com meio metro, agarrou minha cintura. Ficamos abraçados por um bom tempo, até que ela disse:
- Odeio Portugal. Aquilo estava uma merda sem você!
- Odeio Londres sem você também... Não tenho com quem brigar, não tem ninguém pra me bater...
- Você é um idiota, mas eu senti sua falta...
- É, eu sei que você me ama!
- Do mesmo jeito que você me ama, ok? – ela disse e prensou meu nariz nos seus dedos.
Demos uma risada gostosa e ali, na divisa das nossas casas, tão naturalmente, a gente se beijou pela primeira vez.
Muito louco, né? Acho que eu estou amando...


Ce que j'ai fait, ce soir-là
(O que eu fiz essa noite)
Ce qu'elle a dit, ce soir-là
(O que ela disse essa noite)
Réalisant, mon espoir
(Concretizando minha esperança)
Je me lance vers la gloire
(Eu me lanço à glória)
We are vain and we are blind
(Somos vãos e cegos)
I hate people when they're not polite (Odeio as pessoas quando elas não são educadas)



E agora estamos nós aqui, quase sete meses depois daquele beijo. Juntos, firme e forte namorando! É claro que nós temos que brigar pelo menos uma vez a cada dois dias, senão as coisas não funcionam.
Ela continua falando sem parar, repetindo as mesmas coisas. Ela continuou sendo a razão dos meus castigos, e agora das minhas suspensões, porque um inspetor nos pegou no laboratório de biologia, ao lado dos ratinhos, fazendo coisas indevidas para um ambiente escolar. Mas quem liga? Eu não ligo.
Eu estou feliz com ela, e ela está feliz comigo.
Nossas famílias se dão bem, e nós até arrumamos um jeito de passar para o quarto do outro pela janela! Você acredita? Compramos uma escada de corda, tipo aquela que soltam dos aviões, amarramos nas nossas paredes e trocamos o lado.
Às vezes, quando ficamos os dois num quarto só, não fazíamos coisas pecaminosas, se é que você me entende. Ficávamos na janela olhando as estrelas quando o céu não está nublado. Mas sempre a convencia e, no final, estávamos rolando na cama.
E eu nunca estive tão feliz na minha vida.
Acho que eu amo uma garota psicótica.
Acho que eu sou um psicótico.
Nós somos psicóticos e somos felizes.
Pode até ser que nosso namoro não dure pra sempre, mas enquanto ele durar, eu vou aproveitar.
Afinal, não é todo dia que a gente percebe o que é o amor.


Psycho killer, qu'est-ce que c'est
(Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)
Psycho killer, qu'est-ce que c'est
(Matador psicótico, o quê que é?)
Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Fa Far Better
(Muito muito muito muito melhor)
Run Run Run Run Run Run away
(Fu fu fu fu fu fugir)



N/A: Oi bonita! Tudo bem? Essa fic foi um presente pra minha amiga Tá, que está fazendo 19 aninhos dia 29 de outubro. Então vamos cantar parabéns a ela! Parabéns a você, nessa data querida... Ok, chega haha! Espero que ela e você tenham gostado da Fic. Mais uma curtinha. É, pois é, eu só sei escrever coisas curtas, mas estou trabalhando em escrever uma longa bem legal! Obrigada por ter lindo! E nos vemos na próxima. Beijos!

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