Eu só queria te lembrar Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós Eu estava errado e você não tem que me perdoar
Mas também quero te mostrar Que existe um lado bom nessa história Tudo que ainda temos a compartilhar
(Céu Azul – Charlie Brown)

As luzes se passavam como um borrão. O carro estava em alta velocidade e seu motorista não estava exatamente prestando atenção na estrada a sua frente. Já estava tão acostumado a fazer aquele caminho que se dava ao luxo de não dar atenção ao trajeto em si.
Ultimamente ele têm andado muito por aquelas bandas, principalmente naquele horário, quando costumava se despedir de seus amigos e ir para casa depois de uma noite regada de álcool e mulheres aos seus pés.
Ele era músico, tinha uma banda que fazia grande sucesso em seu país e era bem conhecida no restante do mundo. Seus dias normalmente se passavam no estúdio, onde escrevia músicas com seus amigos e depois as gravava. Fazia mais de um ano que não lançavam um novo álbum, e suas fãs já começavam a questionar, por isso, ultimamente ele e seus companheiros de banda passavam o dia todo trabalhando na montagem do que seria o próximo sucesso deles.
Esta era sua rotina diária: acordar cedo, ir ao estúdio, alguns dias dava entrevistas e depois ia para casa descansar, pois no dia seguinte tudo começaria de novo. Não que ele reclamasse.
Por ser o mais festeiro dos quatro que compunham a banda, era sempre visto em capas de revistas saindo de alguma festa, algum pub, alguma boate e, na maioria das vezes, acompanhado, mas raramente com a mesma mulher. O que ele podia dizer? Era jovem, estava no auge da idade e da carreira, era independente e queria poder aproveitar tudo o que a vida lhe oferecesse.
Sempre achou que a vida era muito simples, quem a complicava eram as pessoas. Problemas? Ele tinha aos montes. Era uma figura pública e uma palavra mal colocada em alguma frase de alguma entrevista poderia fazer com que ele fosse visto de uma forma que não condizia com a realidade.
Paixões? Sim, por favor. Ele estava sempre aberto a novas paixões, tinha um gosto muito específico e não fazia questão de escondê-lo, ao escolher a dedo com qual mulher passaria a noite. O padrão era sempre o mesmo. Mas o que ele podia fazer? Era o que o atraia! Uma bela cabeleira loira, olhos claros que pudessem refleti-lo, um belo sorriso largo e uma voz doce que lhe dissesse palavras de conforto. Era disso que ele gostava. Era isso que procurava. Era isso que ele queria.
Sua maravilhosa vida de artista pop despreocupado sofreu um abalo numa de suas viagens com a mãe e a irmã. A princípio se comprometera com ele mesmo de que ficaria no hotel na maior parte do tempo, apenas relaxando e podendo assistir à TV, coisa que raramente fazia, pois lhe faltava tempo. Buffy, a Caça Vampiros, era o que passava num canal aleatório. Ele gostava dessa série. Sempre a acompanhou quando mais novo, quando não tinha tantos compromissos, tantas entrevistas, tantas perguntas a responder.
Ele conheceu uma mulher, na verdade, uma garota, pois incrivelmente era mais nova que ele, não muito, mas era. Incrível, pois era tão ativa e inteligente que parecia ser muito mais velha, muito mais estudada que ele, extremamente competente em tudo o que decidisse fazer. Pela primeira vez, teve que admitir para si mesmo que uma mulher poderia estar passando da linha que ele mesmo se impusera: ele poderia estar se apaixonando. E para piorar a sua situação, tudo o que ele achava ser essencial para si fora quebrado, pois a garota que rondava seus sonhos à noite não era loira, e muito menos tinha olhos claros. Também não tinha um sorriso sempre a se mostrar, mas quando o fazia, era o mais lindo de todos. Sua voz não era doce, mas suas palavras eram. Seus gestos não eram safados, sempre regados de segundas intenções como ele estava acostumado, mas eram carinhosos e decididos.
Aquela garota não existia, e principalmente, não existia para ele.
Um mês foi o tempo que passaram juntos. Depois disso ela foi embora, sem falar com ele, sem dar explicações. De certa forma ele merecera, havia ficado com outra durante o tempo que estava com . Não que ela soubesse ou alguma vez houvesse desconfiado.
Ele sofreu por algum tempo pela ausência de , por sua ida sem despedidas. Mas passou. Depois de alguns meses, nada mais era que uma lembrança boa que ele tinha. Anos se passaram, e outro abalo, um maior e infinitamente pior do que o primeiro, lhe atingiu.
Quando soube que um louco, um lunático, um psicopata, estava atrás dele, por razões que ele considerava tão idiotas, como ter sido testemunha de um crime que o louco cometera, ele sentiu como se seu mundo fosse desabar. Por que teve que ser tão intrometido a ponto de correr em direção ao som do disparo? Por que, como qualquer outra pessoa normal, ele não ficou longe? Por que teve que ser dominado por sua curiosidade e ir ver de onde vinha o som e quem o fizera?
Duas opções lhe foram dadas: ficar sob proteção de uma agência do governo, uma agência com agentes secretos altamente treinados e preparados para lidar com qualquer situação, ou proteção à testemunha. Esta última implicava em mudar de identidade, mudar de país e perder o contato com qualquer pessoa de sua antiga vida. Significava esquecer-se de sua banda, esquecer-se de seus amigos, esquecer-se de sua família... Não, proteção à testemunha estava fora de cogitação.
Qual não foi sua surpresa ao conhecer o agente designado a cuidar de sua proteção, ao ver que, na realidade, era uma agente. Uma garota, que, depois de anos, se tornara uma mulher.
script>document.write(Watson) fora encarregada de cuidar de , e pela sua expressão, ela o faria com maestria. Ninguém duvidava da competência daquela agente, nem mesmo .
Ela tentou fingir indiferença, mas ele sabia que ela se lembrava dele com o mesmo fervor com que ele se lembrava dela.
Eles tinham que conversar, mas a conversa não saiu como a planejada em sua cabeça. Ela era direta e objetiva. Colocava sua missão em primeiro lugar e deixou claro que uma reaproximação entre eles não estava nem perto de entrar para sua lista de afazeres.
Os meses foram se tornando cada vez mais difíceis. Se achava ter se apaixonado por alguns anos atrás, ele estava absolutamente equivocado, pois o que sentia por ela agora era o mais puro dos sentimentos. Mas ele não sabia demonstrar sentimentos, ele nunca o tinha feito, a não ser com sua mãe e irmã, mas os abraços que dava em sua mãe e os puxões de cabelos em sua irmã não eram suficientes para demonstrar todo o afeto, o carinho, a paixão que ele sentia, agora, por .
As brigas se tornaram constantes. Os gritos, as palavras ditas de cabeça quente, os ataques de ciúmes sem fundamento começaram a pesar. Até que chegaram ao ponto de não mais conversarem. Mas como podiam fazer isso se ela passara a morar na casa dele?
A missão se complicara. A agência de espionagem para a qual trabalhava tinha indícios de que o psicoata que estava atrás de voltara ao país. E para piorar, duas semanas atrás, ele sofrera um atentado. poderia ter morrido, mas estava lá para salvá-lo. Um verdadeiro contraste nos contos de desenhos de super heróis, em que os heróis salvavam as mocinhas indefesas.
Ela havia chorado ao vê-lo no chão, sangrando. Ela havia perdido, por vários e vários minutos, sua pose de indiferente. Ela havia chorado pelo medo de perdê-lo, pelo medo de não ter chego a tempo, mas havia chego! Ela estava lá quando ele mais precisou, ela fora sua heroína.
Pela primeira vez em anos ele pode senti-la novamente, em sua forma mais frágil, em seus braços. Ele pode abraçá-la e garantir-lhe que tudo ficaria bem. Ele pode curtir o momento de ter a menina que conhecera anos atrás novamente, e não a agente fria e calculista.
Mais que tê-la em seu peito, ele pode tê-la em seus lábios. Beijou-a como nunca fizera antes. Beijou-a com ternura, com carinho, com amor. Isso nunca havia acontecido antes.
Mas então outros agentes chegaram e o momento de ternura chegou ao fim. A postura dela voltou a ser a de uma agente treinada, sua expressão tornou-se fria novamente. Não existiam mais lágrimas e ela fez questão de manter distância dele. Distância essa que já durava quatorze dias. Há quatorze dias eles não se viam. Apesar de morarem na mesma casa, casa dele, eles não se viam.
Ela fez questão de mudar seus horários de trabalho na agência e, como fazia faculdade à noite, chegava só quando ele já havia chego, ou quando ainda estava fora.
Ele sabia que ela estava trabalhando todo o dia e estudava à noite, então ele não podia imaginar em qual momento a garota descansava, e isso também não lhe era importante. Se ela não queria sua presença, ele não iria forçá-la.
Então passou a facilitar o desencontro deles. Saía cedo e voltava tarde, nunca correndo o risco de vê-la. Internamente ele se convencia de que as noitadas que passaram a acontecer com mais frequência eram fruto da preocupação que rondava sua cabeça por saber que aquele psicopata ainda não tinha sido capturado. E provavelmente era verdade, mas também tinha o fato de ele não querer se sentir sozinho. Porque estar apaixonado e não ser correspondido é a maior besteira que pode acontecer na vida de uma pessoa. Portanto, ele saia a cada noite com uma mulher diferente, dificilmente repetia a dose, sempre com o objetivo de se distrair, se divertir e esquecer .
Naquela noite chegou em casa tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista.
Já eram mais de quatro da manhã, o condomínio em que morava estava todo apagado, a não ser pelos postes de luz colocados espaçadamente pelas calçadas.
Entrou sem se preocupar se fazia barulho ou não, afinal, a casa era sua. Deveria encontrar um breu total, pois já era tarde, mas o que viu foi uma luz vinda de sua sala de jantar.
Ao se aproximar de vagar, como se estivesse com medo de ser visto ou ouvido, encontrou algo que lhe fez arrepiar os pelinhos da nuca.
estava dormindo sentada e apoiada com a cabeça em cima de livros e cadernos espalhados por sua mesa de jantar. Tinha também o notebook ligado em alguma página da Agência, pois ele podia ver o símbolo da agência no topo da tela. Os livros espalhados eram de sua faculdade, ele tinha certeza, pelos temas descritos em cada um deles.
Mas o que fez ele se arrepiar foi ver a serenidade com que ela dormia.
Embaixo de seus olhos havia olheiras escuras. Seus cabelos, presos por um rabo de cavalo mal feito, tinha mechas soltas por suas bochechas. Ela respirava de boca aberta e soltava o ar tão pesadamente que ele se perguntava há quanto tempo ela não descansava assim. Internamente, ele sabia a resposta. Há duas semanas ela não descansava como deveria, pois só ficava em casa quando sabia que não correriam o risco de se encontrar e estava trabalhando o dobro que antes, pois queria ter todo o seu tempo tomado para não correr o risco de ser convocada a segui-lo por alguma parte.
Ele se abaixou até ficar na sua altura.
Seus rostos estavam tão próximos que ele sentia o ar solto por ela bater em seus lábios.
tirou os fios de cabelo dela de seus olhos. Permitiu-se alisar, delicadamente, quase sem tocá-la, sua bochecha sempre tão rosada, mas desta vez, pálida. Colocou seus cabelos atrás da orelha e passou os dedos por seus olhos fechados, seu nariz, sua boca entreaberta e voltou para a bochecha.
Ela estava torta naquela posição. Precisava descansar.
Com toda a calma que tinha, puxou sua cabeça delicadamente para seu peito, trouxe seu tronco junto, e com um dos braços segurando sua cintura, levou o outro para de baixo de suas pernas.
Naquela noite em especial estava muito frio. Nevava lá fora. usava um pijama de flanela rosa, tão menina que nem parecia uma agente secreta que sabia manusear uma arma com a mesma maestria com que ele manuseava uma guitarra.
Antes que pudesse erguê-la, abriu os olhos minimamente, ofuscados pela luz. Mesmo quando se deu conta da aproximação de , não se afastou.
- O que aconteceu? – tinha a voz rouca e falha.
- Você estava dormindo. – ele respondeu igualmente baixo. Seus rostos ainda estavam próximos e a cabeça dela ainda no peito dele.
- E o que você está fazendo aqui?
- Eu acabei de chegar. – por um momento ele se sentiu mal em contar isso pra ela. Enquanto ela estava ali, trabalhando e estudando, ele estava se divertindo.
- E... Trouxe alguém com você? – ela tentou olhar por cima do ombro dele, mas estava com a cabeça tão pesada que o máximo que conseguiu foi levantar os olhos em direção à porta.
- Não! Por que acha isso?
- Porque... Você sempre trás alguma mulher pra casa. – bocejou.
se sentiu o mais filho da puta de todos.
Ele não saia com uma mulher por noite porque era um viciado em sexo; nem porque estava em busca de carinho. Ele simplesmente queria uma companhia que o fizesse esquecer de quem o esperava em sua casa. Alguém que o fizesse se esquecer de . Algumas vezes ele as levava para casa, afinal, ele tinha certeza de que ou não estava, ou estava dormindo. Ela com certeza não os ouviria, e mesmo que ouvisse, dane-se. Era a casa dele e uma parte mínima em seu interior desejava que ela soubesse, pois veria que ele não estava sofrendo por ela.
Mas ao ter a certeza de que ela sabia das noitadas dele, das noites de sexo com mulheres diferentes, e principalmente que essas noites se passassem logo no quarto ao lado de onde ela dormia, o fez se sentir o maior bosta do mundo. O fez se sentir sujo, asqueroso, indigno de a estar tocando. Ela sabia que ele sempre levava mulheres para aquela casa, talvez até os ouvisse, e aquele pensamento fez seu estômago embrulhar.
- Você... Como você sabe? – ele suava frio. Um nó havia se formado em sua garganta.
- Das mulheres? Bem, eu leio jornais e revistas, sabe? Não é segredo pra ninguém as suas companhias noturnas. – ela começou a levantar a cabeça – E bem... É o meu trabalho saber o que acontece na sua vida, . – usou seu apelido. Aquilo o arrepiou na nuca. Há anos ela não o chamava assim. – E também... Eu... Eu escuto às vezes vocês chegando.
- Você escuta? – aquilo com certeza o embrulhou o estômago. Sua cabeça doeu e ele quis se socar.
- Bem, sim, mas não o que vocês fazem! – esclareceu. Nesse momento ela já havia se afastado dele e estava sentada ereta novamente. – Eu só escuto vocês entrarem... Na maioria das vezes. – completou baixinho, corando.
apertou os olhos com força. Que tipo de merda ele tinha na cabeça? Como pôde ser tão idiota a ponto de fazer isso com ela?
- ... Desculpe-me.
- Tudo bem, , a casa é sua, de qualquer forma. – disse, direta de novo. Ela estava voltando ao seu estado normal, deixando seu estado frágil de lado e trazendo consigo o desespero de , que não queria perder aquele momento.
- ... Hm... Já está tarde. Por que você não sobe e vai dormir um pouco? Amanhã você acorda cedo.
- É que eu preciso terminar de digitar esse relatório para entregar à agência amanhã cedinho, sabe. me pediu que fosse antes das oito. E ainda preciso terminar de estudar isso. Tenho prova semana que vem. – sorriu fraco.
- Mas... Mas não pode esperar mais um ou dois dias?
- Não, não pode. Isso iria prejudicá-la, e não vou fazer isso com a minha melhor amiga.
era parceira e melhor amiga de . Estava ciente de tudo o que acontecia em sua vida e era contra o excesso de responsabilidades que a amiga pegou para si mesma.
- ...
- Eu estou bem. De verdade. – voltou sua atenção para o computador a sua frente e passou a digitar as palavras escritas nos papeis espalhados por sobre a mesa.
- Você está cansada, ... – ele sussurrava. Ainda estava abaixado, próximo a ela, mas a distância que a menina colocou entre eles era facilmente sentida.
- Não estou não. Estou bem, .
- Está exausta...
Ela suspirou. Parou de digitar e olhou-o nos olhos.
- Sim, estou, , mas o que isso mudaria? Nada. Eu ainda tenho muitas coisas para fazer e não tenho tempo para dormir. Então, eu agradeceria se você me deixasse sozinha para tentar terminar isso antes das oito, que é a hora que eu tenho que estar entregando esses relatórios pra .
- Não tem como você mandar por e-mail?
- Não mandamos arquivos confidenciais por e-mail, , é arriscado. Salvarei num pen drive e amanhã levo para ela.
- Mas...
- Boa noite, .
A conversa estava claramente finalizada. Sem ter mais o que fazer, se obrigou a levantar e se afastar. Obrigou suas mãos a não tocarem-na, coisa que ele estava louco de vontade de fazer, pois sentia sua falta. Ele realmente sentia e já estava cansado de fingir para si mesmo que não. Aquela reaproximação mínima entre eles só serviu para confirmar a ele que continuava apaixonado por e que nem mil loiras de olhos claros e sorrisos doces seriam suficientes para afastá-la de sua mente.
Ele queria tocá-la, queria sentir sua pele, queria beijá-la. Ficar perto dela como estava minutos antes.
Levantou-se, mas não foi para o quarto. Foi para a cozinha, precisava se distrair, limpar a mente. Não queria ir para o seu quarto naquele momento, não queria dormir. Queria pensar, uma vez que isto era o que menos tinha feito nos últimos dias.
Sentou-se, de forma espojada e exausta, numa das cadeiras e se serviu de um grande copo com água gelada. Por mais que tivesse bebido a noite toda, não se sentia bêbado e nem sonolento. Pelo contrário, sentia-se desperto e com os pensamentos a mil. A única coisa que não podia negar para si mesmo era o cansaço, mas quando pensava nele, sentia-se o maior dos fracos, pois no cômodo ao lado estava a garota mais esforçada que ele já conhecera e, diferente dele, não estava reclamando da exaustão.
Pensou em como tinha passado os últimos dias. As últimas semanas não passavam de borrões em sua mente, como se ele nem as tivesse realmente vivido, como se ele só tivesse passado por aqueles momentos. Era como se ele tivesse se desligado, e as lembranças que tinha das últimas semanas fossem lembranças de um passado distante, insignificante e com poucos detalhes.
Por um tempo achou que se acabasse por saber de suas noitadas, seria um tanto quanto bom para ele, pois poderia usar aquilo para lhe fazer ciúmes. Mas ao ouvir de seus lábios que ela realmente sabia sobre seus encontros, não se sentiu vitorioso, nem a sentiu com ciúme... Sentiu-se sujo e tudo o que desejou foi que nunca tivesse sido tão idiota e infantil a ponto de pensar que poderia lhe fazer ciúme. Ciúme! No fundo, ele sabia que queria mesmo recuperar um pouco da sua vida cheia de aventuras e sem limites que tinha antes de toda a loucura que sua vida passou a ser após a proteção que começou a ter da Agência. Mas não daquele jeito.
Queria poder conversar com . Pedir que lhe perdoasse, implorar-lhe, se assim fosse preciso. Queria deixar de se sentir um infeliz como estava.
Queria tê-la nos braços mais uma vez, poder abraçá-la e olhá-la como tinha feito minutos atrás. Queria cuidar dela, protegê-la, como ela estava fazendo com ele. Queria ser seu porto seguro, seu refúgio, a pessoa a quem ela fosse procurar quando precisasse de ajuda.
Queria poder ser tudo aquilo que ele sabia que nunca poderia ser. Queria poder amá-la e tê-la para si, como nunca tivera nenhuma mulher.
Por um momento desejou ser uma pessoa diferente. Desejou ter uma cabeça diferente, com pensamentos diferentes e vontades diferentes. Talvez sendo alguém que ele não fosse, conseguiria ser digno de tê-la. Poderia se sentir capaz de ser alguém bom o bastante para cuidar dela e para ser sua primeira opção de refúgio quando o precisasse. Mas aquilo era ridículo, afinal, se ele não conseguia cuidar nem de si próprio, quem dirá de outra pessoa! Quem dirá de uma mulher, e não uma mulher comum, de uma agente secreta!
Depois do que ele achou terem sido horas que passara sentado, decidiu ir para o quarto tentar dormir. No dia seguinte ele não teria compromissos cedo, portanto, sabia que poderia ficar na cama até tarde, mas não via sentido em ficar naquela cozinha sentado. Por mais que sua casa estivesse totalmente fechada, o frio lá de fora começara a incomodá-lo, fazendo-o se arrepiar.
Seguiu para o quarto, passando pela sala de jantar onde se encontrava , que dormia de novo.
Desta vez, o cabelo preso estava todo por cima de seu rosto e alguns fios se mexiam conforme a sua respiração. Tinha a boca entreaberta e as duas mãozinhas, que pareciam tão pequenas e frágeis, estavam em cima do teclado do notebook. Provavelmente tinha caído no sono sem que se desse conta. Um gelado se apossou de seu estômago e seu coração pareceu se apertar.
Ela não devia estar ali, sentada e exausta, tirando sonos picados e desconfortáveis enquanto poderia estar numa cama macia e quentinha.
Sem se importar com o que ela lhe dissera antes, aproximou-se novamente de e, como tinha feito da primeira vez, a trouxe para o seu encontro lentamente, com receio de que pudesse despertá-la. Mas ela estava tão absorta em seu sono que ele duvidava de que ela fosse acordar ainda esta noite. Após ter certeza de que ela estava acomodada em seu peito, puxou-a para cima e a ajeitou melhor. Por mais que fosse uma mulher que praticasse lutas, fizesse academia e saísse sempre em missões de campo, seu corpo não era musculoso e muito menos pesado. Naquele momento em especial, seu pequeno corpo estava pesando um pouco, mas era por causa do sono que ela estava tendo e por causa da exaustão que a dominava, ele sabia.
Trouxe-a para junto de si e apoiou seu queixo na cabeça dela, deixando-a firmemente segura em seus braços.
Foi em direção às escadas. Normalmente ele reclamava por ter se deixado levar pela beleza da casa e por aquela escada com degraus de vidro que fizeram seus olhos brilhar quando a viu pela primeira vez. Reclamava por ter que subi-la e descê-la todos os dias, várias vezes. Normalmente ele reclamaria de ter que subir aqueles degraus – que já o cansaram – tendo que carregar um peso. Mas ele não estava reclamando. Porque aquele peso que ele levava era adormecida em seus braços, e ter a chance de ter essa aproximação, de certa forma tão íntima, com ela era mais do que ele podia imaginar se levado em conta a situação em que estavam.
Quando começou a subir os primeiros degraus, a garota se mexeu. Ele parou e olhou-a. Voltando a subir, novamente se incomodou e se mexeu, e desta vez abriu os olhos.
Seus olhos pareciam que tinham areia, pois ardiam e era difícil deixá-los minimamente abertos, mas ela o tinha que fazer.
- ... – sua voz estava tão roca que precisou tossir para tentar falar mais alguma coisa – O que você está fazendo?
- Estou te levando para o quarto, . – ele disse, com ternura. Sua voz era baixa e lenta, e ele falava de cabeça baixa, olhando para os olhos quase fechados dela.
- Mas... ... Eu te disse que tenho... – levou a mão à boca num bocejo – Tenho coisas para fazer. Muitas coisas.
- E você está esgotada, . Precisa descansar para que consiga fazer essas muitas coisas. – continuou baixo e então voltou a subir as escadas muito lentamente.
- , por favor, não. Me coloca no chão. – Por mais que pedisse para que o menino a soltasse, ela mesma nada fez. Estava com o corpo pesado e não tinha forças nem mesmo para empurrá-lo, quem dirá voltar andando para onde suas coisas estavam.
Mas continuou a subir as escadas e quando já estava quase no topo, passou a empurrá-lo. Ou pelo menos ele achava que era isso que ela estava tentando fazer.
- Você não entende que eu tenho que entregar um relatório amanhã? – sua voz ainda era baixa, mas o medo de perder o prazo e sair prejudicada e ainda prejudicar sua parceira estava começando a despertá-la.
- Esse relatório... Ele já está pronto? Você só precisa digitá-lo?
- Sim, mas...
- Então não se preocupe, . Deixa que eu cuido disso.
As escadas terminaram e eles entraram no corredor. Um pouco à frente estava o quarto de e mais para o fim do corredor, o quarto de .
- ... – ela estava com medo, mas seu cansaço era tanto... Tanto... Nem se lembrava mais da última vez que tivera uma noite de sono de verdade, deitada numa cama e sabendo que poderia fechar os olhos e só abri-los quando estivessem realmente descansada. Estar no calor dos braços de só a fazia ficar mais relaxada, com o corpo mais pesado...
- , confie em mim. – e antes que a menina pudesse protestar – Confie em mim, . Por favor, confie em mim.
E por mais que a garota soubesse das inúmeras responsabilidades que ainda tinha pela frente, por mais que seu cérebro, seu lado racional, lhe dissesse para ser forte e se afastar, por mais que ela tivesse sido treinada para aguentar longos tempos de exaustão como o que estava passando, mesmo com todos os motivos que tinha para não aceitar que continuasse sendo levada, ela confiou nele. Confiou em seja lá o que estava pretendendo para ela. Confiou nele. Confiou como sempre fora treinada para não confiar, nem mesmo em seu parceiro de missão.
No momento que ela viu os olhos dele cravados nos seus, não reconheceu ali, pois aquele homem era diferente do cantor aventureiro cujo sua missão se resumia. Aqueles olhos, aquelas palavras, não lhe transmitiam desconfiança, traição. Transmitiam-lhe certeza. Certeza de o que quer que ele fosse fazer, o faria bem feito e inteiramente por ela.
- Só... Por favor, tome cuidado com o que vai ler.
E então ela fechou os olhos e se deixou levar pela escuridão que há tempos sua mente não via. Soltou o corpo sem se importar se pesaria para ele ou não, e apenas relaxou.
Lá em cima, no corredor, o frio estava mais evidente e seus dentes ameaçaram começarem a bater. pensou que o que mais queria naquele momento era um banho com direito a vapor quente. Imaginou em como o quarto da menina estaria gelado e em como ela passaria frio sem um aquecedor. Então, sem pensar muito, rumou para o seu próprio quarto porque ele sabia que pelo menos ali, aquecida ela ficaria.
Da forma como a depositou na cama, ficou. Nem mesmo se mexeu para ajeitar-se. Se não soubesse que ela estava em um sono muito pesado, poderia arriscar dizer que a garota estava morta. Mas a sua respiração pesada e ruidosa deixava claro que estava imersa em um sono mais que necessitado.
Aquela noite estava se tornando uma das mais estranhas na vida de . Nunca antes se importara tanto com uma pessoa, quem dirá com uma mulher. Nunca antes pensara nas coisas que agora passavam por sua cabeça, nem havia tomado atitudes como a que acabara de tomar. Dar sua cama para outra pessoa dormir em seu lugar? Deixar seu quarto, seu canto, à mercê de outra pessoa? Jamais! Ele sempre fora incrivelmente individualista, e nunca colocava os interesses dos outros à frente dos seus.
Quem soubesse como sua vida normalmente era, como a sua semana havia se passado, jamais sonharia em acreditar no que ele fazia naquela noite. Nem mesmo ele acreditava em suas ações. Era como se outra pessoa as tivesse feito, pois aquele não era ele! Ele não era assim! Não sabia ser atencioso, nem sabia ser carinhoso e nem cuidava de ninguém assim. Não era cuidadoso, não era preocupado. Então... O que ele estava fazendo ali, parado, sentado à beira da cama olhando para aquela agente secreta? O que ele estava fazendo ali, parecendo um bobo, enquanto alguém comandava o seu corpo? Porque não podia ser ele mesmo ali acariciando o rosto da garota. Não podia ser ele que estava tirando, com cuidado e lentidão, os fios esparramados de seu rosto. E com certeza não podia ser ele mesmo que estava se inclinando sobre a garota para lhe dar um beijo no canto da boca. não faz essas coisas. não tem pensamentos como os que estava tendo naquele momento. Ele jamais a compararia com um anjo, um anjo guerreiro, vestindo uma armadura e tendo uma espada na bainha, mas, ainda assim, um anjo. Ele jamais sentiria coisas estranhas no estômago só por estar perto de uma garota. nunca, jamais, sentiria seu coração disparado se visse a mulher a sua frente se remexer minimamente na cama, apenas para acomodar o rosto melhor na mão que a acariciava.
Apesar de se negar veemente que aquele que estava ali, naquela situação em que se encontrava, era ele, de certa forma, não queria que aquela sensação acabasse. Era ruim, claro que era, ele não sabia o que era aquilo tudo. O que significava aquele turbilhão de emoções. Mas não podia negar que era extremamente curioso, era diferente.
Nunca o fizeram se sentir diferente. Apesar de ser reconhecido mundialmente por seu trabalho e já ter recebido inúmeros prêmios, ele nada mais era que um cantor de uma banda de pop rock como tantos outros. Apesar de já ter saído com várias mulheres, mulheres belíssimas, ele nunca passara de um homem charmoso que queria apenas dar e receber sexo.
Com ele não queria somente dar e receber sexo. Ele queria poder dar e receber aquele diferente. Mas ele não sabia como fazer aquilo. Não sabia nem o que era aquilo!
Com um suspiro, deixou o quarto e sentiu automaticamente a mudança de temperatura. Sim, com certeza estaria aquecida em seu quarto, e aquela certeza fez seu peito querer inchar, como se ele tivesse feito algo de muito bom.
Já eram quase seis horas da manhã e, de acordo com , aquele arquivo devia ser entregue à antes das oito, o que lhe dava menos de duas horas para terminar de digitar aquelas folhas. Até que não eram muitas. Duas horas seriam mais que suficientes para ele.
Estudou o arquivo e se localizou onde havia parado, para então passar a trabalhar.
Apesar de não ter dormido, ele estava acordado e até mesmo agitado. Talvez fosse aquela coisa diferente que estava sentido que o deixara assim, vai saber. Ele digitava rápido e sublinhava as frases que deixara em destaque por algum motivo. E foi numa dessas frases sublinhadas que ele percebeu de que se tratava aquele relatório.
Ela havia saído em uma missão de campo. Sozinha. Sua imaginação o levou para um lugar onde saía de uma moto turbinada, usando roupas coladas e rasgadas, rosto sujo, cabelos bagunçados e as duas mãos carregadas com armas. Sexy. Extremamente sexy.
Para seu contentamento, no relatório continha todos os passos que deu na missão solo, mas não com muito detalhe, o que dava espaço para a mente, que passou toda a vida lendo quadrinhos de super heróis, criar sua própria versão de uma agente secreta.
A diversão chegou ao fim quando chegou à parte em que a garota encontrara o cativeiro onde eram mantidas mulheres tratadas como escravas sexuais.
Tráfego de Pessoas era como chamara aquele caso.
sentiu o estômago embrulhar.
Então era com aquilo que a garota lidava? Não só em "servir de babá", palavras dela, de um cara famosinho e que se metera com a pessoa errada, mas também com escravidão em pleno século XXI?
Enquanto ele passava seus dias numa sala com ar condicionado, escrevendo músicas e discutindo com seus amigos sobre quem era mais inteligente, Homem de Ferro ou Batman, a garota que o fazia se sentir diferente lidava com pessoas que queriam escravizar mulheres.
Sentiu-se imediatamente orgulhoso por ela. era uma pessoa forte, determinada e muito mais do que ele poderia querer para si.
O momento passou tão rápido quanto veio quando ele começou a digitar as descrições do lugar e as condições em que as garotas viviam, e então seu estômago passou a embrulhar novamente. Passou para o computador cada palavra de cada folha, fazendo os destaques e as observações necessárias como indicado à mão pela espiã.
Finalmente aquilo acabara e ele se sentia péssimo. Sua cabeça doía, suas costas protestavam e seu estômago estava pesado. Por um lado tinha o cansaço de não ter dormido à noite, mas por outro tinha tudo o que ele acabara de ler. Agora sabia o que quis dizer quando pediu a ele para tomar cuidado com o que iria ler.
Olhou para o relógio: sete e meia. Ele tinha meia hora para tomar um banho, dar um jeito em sua cara amassada, ficar apresentável e ir ao prédio da agência entregar o relatório a .
ainda dormia na mesma posição que ele a colocara inicialmente. Sua boca estava rosada e extremamente convidativa. Respirava de forma ritmada, calma e lentamente. Por mais que houvesse prometido a si mesmo que só iria ao quarto pegar uma roupa, não pode se conter ao se aproximar da garota a tocar-lhe os lábios. Fazia semanas que não se beijavam, e aquele beijo que tiveram no incidente com ele há duas semanas praticamente não contava. Ele queria mais. Muito mais. Mais do que merecia receber dela.
- Ei... . – sussurrou em seu ouvido. – Está me ouvindo?
Sem resposta.
- Sou eu... . – depois se corrigiu – sorriu. Ainda sem resposta.
- Eu só queria te dizer que não precisa se preocupar, eu já terminei o seu relatório, e já estou indo para a Agência me encontrar com – continuou sussurrando. Ele sabia que as chances dela estar ouvindo aquilo eram mínimas, mas continuou falando mesmo assim, pois não sabia se teria outra chance de conversar com ela. – Então pode continuar descansando. Espero que goste da minha cama – deu uma risadinha e esboçou um sorriso safado que ela não viu.
Já estava se levantando, com as chaves do carro na mão, quando se abaixou novamente, se apoiou no colchão e sussurrou-lhe ao pé do ouvido:
- Obrigado por ter confiado em mim.
Ele lhe deu um beijo superficial no rosto e não ouviu palavra alguma que demonstrasse que estava escutando. Mas o mínimo sorriso que ela fez foi resposta mais que suficiente para ele.
se lembrava do caminho para a Agência. Infelizmente o fizera muitas vezes nos últimos meses. Ele também conhecia toda a burocracia para entrar e a dificuldade absurda de se comunicar com algum agente. Sorte que ele tinha o número de .
- Sim.
Curta. Seca. Era assim que era quando se tratava de trabalho, e como aquele era seu celular da agência, nada mais normal que atendê-lo com sua pose de agente.
- , sou eu, .
Ela demorou alguns segundos para responder.
- Sim, eu sei que é você, .
- Bem, eu estou ligando para te dizer que estou aqui em baixo na recepção com o relatório da sobre aquele tráfego de pessoas que ela andou investigando. – Isso mesmo, ele trataria aquele assunto com naturalidade, afinal, era assim que eles tratavam aqueles assuntos, doentios para ele, mas totalmente normais para as pessoas daquela Agência.
- Ai, meu Deus. Cala a boca, garoto! Você não pode ficar falando essas coisas pra todo mundo ouvir! Você disse que está na recepção? – sua voz estava alta e ela falou tão rápido que quase não entendeu.
- Sim...
- Estou descendo.
Desligou.
Em menos de um minuto, apareceu com um vestido preto extremamente colado ao corpo e que teria feito imaginar coisas nada puritanas se não fossem os chinelos nos pés, o cabelo com a chapinha se desfazendo e o rímel borrado.
- O que aconteceu com você? – ele perguntou. Meu Deus, aquela garota provavelmente estivera sexy há algumas horas, mas com certeza não estava naquele momento.
- Fim de festa. Acontece. – deu de ombros. Como ele continuou encarando-a como se esperando uma explicação mais elaborada, explicou – Saí de uma festa e vim direto para cá só para receber esse maldito relatório que a estava me devendo há uma semana. E por falar nela, onde ela está? Aconteceu alguma coisa?
- A está bem. Festa, hein? Então vocês espiões também vão a festas?
- Sim, , nós vamos. Somos seres humanos como qualquer outra pessoa. Adoramos álcool, drogas, sexo. – O garoto fez um olhar assustado. – Bem, tirando a parte das drogas, o resto é verdade. – deu um sorriso safado – Principalmente a última parte. – riu.
Ele riu junto.
- Então... . Onde ela está?
- Está em casa dormindo.
- está dormindo? – ela parecia surpresa.
- Sim. Ela estava precisando. Encontrei-a ontem à noite digitando esse relatório e estudando para a faculdade. Ela estava exausta. Nem conseguia manter os olhos abertos por muito tempo.
- Eu imaginei. Mas o que ainda não entendi é porque você está com esse relatório, que por sinal, é extremamente confidencial e não se deve ficar falando sobre ele em público.
- Desculpe, pensei que fosse uma coisa normal para vocês falar e ouvir sobre essas coisas.
- De certa forma até que é normal, mas não se deve ficar falando sobre as missões por telefone, e nem com pessoas por perto. Pode ser perigoso. A palavra secreta que sempre vem acompanhada de missão lhe diz alguma coisa?
Ele rolou os olhos.
- Tá, tá, eu já entendi. De qualquer forma, aqui está. – entregou-lhe o pen drive. – Está tudo aí. Eu digitei tudinho das anotações da .
- Obrigada. – guardou o pen drive em algum lugar que não pode ver, e realmente não quis imaginar. – Agora voltamos a minha confusão inicial: por que você está com esse relatório, ?
Ele suspirou alto num sinal de tédio.
- estava exausta, me ofereci para ajudá-la.
- E ela não aceitou. – deduziu.
- É claro que não. Você conhece a sua parceira melhor do que ninguém.
A garota não discordou.
- Então...
- Então quando estava indo dormir eu a vi dormindo debruçada na mesa. A levei para o quarto para descansar e disse para não se preocupar, que eu cuidava do resto. Ela estava muito preocupada com esse relatório.
- E ela confiou em você?
- Bem... Eu estou aqui, não estou? Então, sim, ela confiou em mim. - não pode controlar um sorriso bobo que surgiu sem sua permissão.
- Você não tinha permissão para ver isso, sabe disso, não sabe? – Ele concordou com a cabeça. – E sabe também que ninguém, absolutamente ninguém, pode sequer desconfiar de que você esteve com um arquivo deste porte em mãos, não sabe? – Novamente ele concordou.
- Não sei de nada, não vi nada. Na verdade, nem sei por que estou aqui. – brincou.
Virou-se para ir embora, quando pensou numa coisa e se voltou.
- ... Toda essa carga horária da ... Ela... – ele não sabia como se expressar.
- É opcional, a maior parte. – ela explicou. De certa forma, a garota já desconfiava que chegassem naquele assunto. – estuda e vêm à agência periodicamente prestar contas e treinar, mas nada, além disso, é o seu trabalho. Todo o resto de compromissos que ela pegou, são opcionais. Normalmente ela vem para treinar os novos agentes, mas não é sempre que tem treinamento, ou não é sempre que há alguma turma para ela treinar, além de outras atividades que ela passou a fazer nos últimos dias. Tudo é opcional.
Os dois ficaram em silêncio refletindo sobre o que a garota disse.
- Estou muito preocupada com ela, .
- Sim, eu também. – admitiu. – Quando a vi hoje de manhã naquele estado tão exausto, tão... Esgotado, vi que ela precisava descansar. Seu corpo já não aguenta mais tanta atividade, e ela não admite isso, e de certa forma sei que a culpa é minha por ela ter pegado tanta coisa para fazer.
- Não é culpa sua, .
- É, é sim, . Ela tem todos esses compromissos para não correr o risco de me ver, de se encontrar comigo. Ou de ser chamada para me acompanhar em algum evento. A situação entre nós, se já era ruim, está muito pior.
Mesmo que fosse parceira de desde que começaram a trabalhar na Agência, ela só sabia da história deles por cima. Por mais que adorasse uma boa fofoca, sabia respeitar o espaço da parceira. sabia que eles já tiveram um caso no passado, mas nada além disso. Conhecendo só o lado da amiga, ela sabia que ainda nutria sentimentos por . Sentimentos estes que só admitira uma vez, e nunca mais.
Vendo parado à sua frente depois de ele ter lhe contado o que fizera por sua amiga só reforçou sua ideia de que também nutria sentimentos pela menina. só não sabia se aquilo era bom ou ruim.
- ... Você gosta da ?
Aquilo o pegou de surpresa. Ele gostava? Gostava mesmo de ?
É claro que ele gostava! Ela era bonita e extremamente gostosa. Orgulhosa, é verdade, mas sempre o deixava louco quando aparecia usando aquelas roupas de couro preto, os cabelos num rabo de cavalo e tinha aquela expressão de indiferença, de "não estou nem aí para você". Aquilo o deixava maluco.
Ele gostava dela, pois ela salvara sua vida várias vezes. Não só naquele incidente há algumas semanas, como em outras situações.
Mas sabia que não era esse tipo de gostar que estava se referindo. Ele sabia de qual tipo ela estava falando. Era daquele tipo diferente de gostar.
nunca havia parado para pensar sobre isso. Pensar sobre esse assunto lhe dava dor de cabeça, pois ele tinha que entender o que aquilo significava e quais suas consequências, e ele nunca pensava nas consequências. Sempre agia sem pensar no que aconteceria no futuro, no que suas ações acarretariam, e ele sabia que era totalmente o oposto disso. Ela só agia quando tinha certeza de quais seriam as consequências e de como lidaria com elas.
Por mais que lhe desse medo pensar nesse assunto, lhe desse medo admitir para si que talvez gostasse de desse jeito diferente, ele também precisava admitir que a ideia lhe agradava. Quer dizer, ele estava apaixonado, não é? Não dizem que estar apaixonado é uma das melhores coisas da vida? Ele já havia se apaixonado antes. Não com a mesma frequência com que se apaixonavam por ele, mas ele já havia experimentado essa sensação e nunca a achara digna de comparação ao que os livros, as músicas e os filósofos diziam. O que ele sentira fora bom e passageiro.
Em contra partida, a forma como seu corpo reagia quando pensava estar apaixonado por também não podia ser comparada às palavras escritas e nem ditas, pois era infinitamente mais intensa. Não havia palavras que pudessem descrever o que ele sente quando está perto da garota. Não há gestos que mostrem o que se passa com ele quando está com a agente secreta tomando conta de seus pensamentos. Então... Ele podia afirmar que gostava de ? Que realmente gostava dela daquela forma diferente? Ele estaria pronto para lidar com as respostas àquelas perguntas? Ele saberia o que fazer com a resposta? Ele estaria pronto para gostar de verdade de uma garota?
- Sim – e então respirou fundo e encarou a agente secreta a sua frente - Inferno, sim. Eu gosto de . Eu realmente gosto dela.


Ao voltar para casa e constatar o que já imaginava, que a espiã ainda estaria num sono profundo, saiu para seus compromissos mais urgentes e cancelou os da tarde. Dormiu algumas horas que não foram suficientes, mas já quebraram o galho. Tudo o que pensava era que queria conversar; se lhe daria a chance de conversarem ele não sabia, mas estaria pronto e preparado para tal conversa.
Ao pensar no que havia "descoberto" mais cedo em relação ao que sentia pela garota, seu estômago dava voltas e sua espinha parecia gelar. O suor começava a escorrer e seu coração disparava. Ele não sabia o que lhe diria, e nem como iria falar. Nem mesmo sabia o que se passava por sua cabeça naquele momento! Ele nunca havia passado por isso. Nunca se imaginou passando por isso!
Afinal, qual era a droga do sentido de estar apaixonado? Era ficar que nem um idiota, andando de um lado para o outro se perguntando o que faria quando encontrasse a garota pessoalmente? Ou era ficar nervoso, como não ficava nem em shows, só de pensar nela? Era se sentir inseguro, como nunca havia se sentido, e também ficar paranoico como ele estava naquele momento, pensando nas várias formas que teria de dar um fora nele?
Sim, porque ela daria um fora nele, mas um fora com classe, e que seria extremamente doloroso para ele. Ela não o deixaria falando sozinho, ou iria embora e não retornaria suas ligações no dia seguinte, e nem diria "não estou a fim de compromissos sérios no momento", como ele costumava fazer com as garotas com quem saia. Provavelmente ela o olharia com pena, acariciaria seu rosto, e diria que era mulher demais, madura demais para um garoto que viaja o mundo num ônibus com mais três garotos tocando seu rock.
Talvez ela não fosse tão gentil, e simplesmente iria rir da cara dele e achá-lo patético por sequer imaginar que poderia ser homem o bastante para ela. Ou talvez ela ficasse com pena dele, daí ela lhe daria um beijo de consolação, o que o deixaria mais apaixonado, e iria embora para algum outro país, numa missão em que ela poderia arriscar a sua vida e sentir toda a adrenalina que tinha direito, enquanto ele ficava no conforto de seu estúdio de música, sentado em um puf com um violão em mãos.
Ela talvez o puxasse pelas mãos e o levasse em direção ao seu sofá, sentasse ao seu lado e iria listar todos os diversos motivos porque não poderiam ficar juntos, então ela lhe pediria desculpas por ser irresistível e tê-lo feito se apaixonar por ela, porque essa nunca havia sido sua intenção.
Talvez ele devesse simplesmente parar de ficar pensando besteiras e prestar atenção no que a balconista estava falando.
- E então?
- E então o quê?
- E então, o que vai querer?
Provavelmente ela não o estava reconhecendo. As mulheres nunca ficavam mascando chiclete de boca aberta com uma expressão entediada quando estavam à frente de .
Talvez fossem os óculos escuros.
- Vou querer... O de sempre.
- E o que é "o de sempre"? – ela fez aspas com os dedos e tinha uma careta.
Por um momento não soube responder. Estava tão acostumado a passar naquela cafeteria e comprar diretamente com seu amigo de escola que trabalhava ali que sempre pedia "o de sempre", mas nunca parou para prestar atenção o que era "o de sempre". Ele só sabia que era gostoso, pois sempre que sentia fome ia para aquela Cafeteria e pedia "o de sempre".
- Er... Onde está o Larry? – esticou a cabeça para além do balcão a procura do amigo.
- Grande ! – e de trás dele apareceu Larry John, seu amigo de tantos anos atrás, ainda na escola. – O que o traz aqui? – perguntou, batendo em suas costas em comprimento.
- O de sempre. – sorriu.
- Pra viagem? – e depois de uma confirmação continuou – Pode deixar comigo. Em alguns minutos tá na mão.
Finalmente alguém que o entendia naquele lugar!
- ? Quer dizer... Aquele ? – a atendente que anteriormente mascava chiclete de boca aberta com uma cara entediada corrigiu sua postura, limpou o suor, mexeu nos cabelos e tentou dar um sorriso. Pelo menos foi o que achou ela tinha tentado fazer.
- Ei, Larry, além do de sempre, vou querer mais algumas coisas. Estou com uma... Visita lá em casa e gostaria de levar o café da tarde para ela.
- Certo, e o que vai querer?
não sabia nem o que comia no seu "o de sempre" quem dirá saber o que pedir para .
- Eu... Eu não sei. Não faço a menor ideia, Larry. – enrugou a testa em sinal de confusão e sinceridade.
- Tudo bem, vamos descobrir o que levar para a sua... Visita, então. – piscou brincalhão como se soubesse de um segredo que ele não deveria.
- Não, não! Ela é só uma amiga, não é nada de mais... – a última parte saiu baixinho. Por mais que fosse verdade, surpreendentemente, se sentiu incomodado em admitir em voz alta que não era nada sua. Era como se ele estivesse deixando claro que a menina não tinha compromissos com ele e, consequentemente, estava livre para ficar com quem quisesse. não queria que ela ficasse com qualquer outra pessoa que não fosse ele. queria que ela quisesse ficar com ele.
- Se você diz... – Larry deu de ombros, não acreditando realmente do que o amigo lhe dissera. – Então, vamos ver. – pegou o cardápio – Ela é uma pessoa que come muito?
Ela é uma espiã internacional que faz exercícios diários e tem força mais que suficiente para me derrubar e mais todas as pessoas nesta Cafeteria.
- Não sei, talvez.
- Tudo bem, então. Ela é mais chegada numa coisinha light ou topa qualquer coisa?
Ela deve ter uma saúde de ferro para poder ter toda aquela energia, por outro lado, com todo o esforço que faz, deve queimar muitas calorias, consequentemente, ela pode comer o que quiser, mas não deve deixar a saúde nunca de lado.
- Acho que ela come dos dois. – balançou a cabeça, concordando consigo mesmo.
- Certo. Vai querer levar doce ou salgado?
Já está tarde para um almoço, mas se eu levar só doces, ela pode se irritar comigo, dizer que não vai comer porque pode engordar e não caber mais naquela roupa de couro sexy dela. Não que ela vá me dizer que sua roupa é sexy.
- Vou levar os dois.
- Tem algum sabor em especial para os doces?
Ela deve comer muitas frutas, porque é saudável, mas não existe ninguém que não goste de chocolates.
- Pode colocar de todos os sabores que tiver.
- Quer algo para beber?
- Sim, por favor.
- Temos chá, leite, café, capuccino...
- Er... Sim, sim. Pode colocar um capuccino, e leite. Ah, coloque um chá gelado também.
- Tudo bem... – Larry terminou de escrever o pedido em seu bloquinho de anotação e encarou . – Cara, você realmente vai levar tudo isso?
pensou por um momento. Ele não conhecia nem um pouco. Não sabia do que ela gostava de comer, nem nada sobre ela. Não só não sabia sobre seus gostos culinários, como não sabia de nenhuma preferência dela. Ele era um completo ignorante em relação à vida da menina. Não sabia do que gostava, nem de como gostava, e nem do porquê gostava daquilo. Não sabia nada. E mesmo assim se declarava apaixonado pela garota. Mesmo sem saber como ela era fora da aparência que tinha perto dele, podia afirmar para si mesmo e para quem quisesse ouvir, que ele não se importava com nada daquilo. Ele era mais um dos idiotas que haviam sido capturados pelo maldito amor, e estava condenado a ficar apaixonado pela garota até quando... Bem, ele não sabia até quando e, sinceramente, ele não se importava.
-Vou. Tudo para viagem, por favor.
Os minutos que ele teve que esperar foram muito superiores aos que ele normalmente esperava. Talvez fosse pelo fato de ele estar levando quase a Cafeteria inteira. Com a cabeça novamente sem ter no que pensar, as imagens de dormindo em sua cama e as coisas que ele pretendia falar para ela voltaram à sua cabeça. Aquilo o deixava inquieto. Por mais que soubesse, e já não estava mais em condições de negar, que estava apaixonado e que queria ficar com a menina, ele não sabia se queria mesmo.
O último relacionamento que tivera durou alguns meses e aqueles meses foram mais que suficientes para lhe deixar certo de que não queria mais aquilo para sua vida. Ele não entendia o sentido da vida a dois. Pelo menos não o sentido da vida a dois daquele jeito sério como as garotas sempre queriam. Qual o problema de cada um ficar na sua casa? Por que não podiam ficar pelo menos um dia sem se ver? E por que diabos ele não podia sair com seus amigos e companheiros de banda sempre que quisesse?
não sabia se queria esse tipo de compromisso com . Ele tinha certeza que não o queria com nenhuma mulher, mas também não queria que o tivesse com outro cara. Então, como lidar com isso? Ele não tinha como adivinhar como a garota era fora de sua pose de espiã. Ela seria controladora, ou liberal? Não que isso importasse muito, pois sendo quem era, poderia descobrir onde quer que ele estivesse, com quem estivesse, o que estariam fazendo, a que horas chegariam, o RG, CPF, até mesmo a cor da cueca de cada um que estivesse com ele. Ele estaria pronto para usar uma coleira invisível?
achava que não.
- Ei, , cara, seu pedido está pronto.
Larry estava a sua frente com várias sacolas em mãos e com um olhar preocupado.
- Obrigado.
- , essa... Visita... – e então foi para um lado mais afastado para que pudessem conversar mais tranquilamente. – Ela, por acaso, é diferente?
- Como? – O que ele queria dizer com "diferente"?
- , eu conheço essa expressão no seu rosto. Essa sua indecisão na hora de escolher o que pedir para ela, essa sua cara de preocupado. Eu conheço muito bem essa situação pela qual você está passando.
- Conhece? – mas como ele poderia conhecer? Ele também já havia se apaixonado por uma espiã internacional?
- Sim. Eu passei por tudo isso que está passando. E não faz muito tempo. – e como não lhe disse nada, ele continuou – Eu estava desse mesmo jeito no dia em que pedi a minha noiva em casamento.
, que havia começado a beber de seu capuccino, engasgou. Cuspiu o líquido que estava na boca e tossiu na tentativa de limpar a pigarra. Ele não estava esperando ouvir aquilo. Casamento? Larry estava louco? Ele não queria se casar! Ele não iria se casar. Não sabia nem se queria assumir um compromisso mais sério com , quem dirá colocar uma aliança no dedo!
- Não vou me casar!
Larry riu. – Mas é claro que não vai. Nunca pensei que fosse. Mas você está prestes a tomar uma decisão importante e nesta decisão tem uma garota envolvida. Uma garota diferente de qualquer outra, e que te deixa confuso, sem saber o que pensar. Essa garota te deixa num conflito interno interminável. Você quer ficar com ela, mas ao mesmo tempo não quer, porque acha que não vai ser capaz de assumir um relacionamento, porque ela é demais pra você. Na verdade, ela é demais pra qualquer cara. Você, meu amigo, está apaixonado.
E então teve a certeza de que seu amigo já havia se apaixonado por uma agente secreta internacional. Porque não haveria outra explicação. Como ele poderia saber de tudo aquilo, exatamente como se passava em sua cabeça?
- Você... – e então piscou, limpou a garganta e tentou formular uma pergunta, mas seus pensamentos estavam tão embaralhados que não conseguiu dizer nada.
- Tudo o que posso lhe dizer é: vai fundo. – E como só obteve uma careta em resposta por parte de , explicou – Não pense. Não tente raciocinar. Não tente achar um sentido para isso que está sentindo, pois não existe explicação. Tenha em mente somente uma coisa: se você quer ficar com ela, então mostre isso. Não só diga, mas também demonstre.
Larry saiu de trás do balcão em que estava e foi para perto de , que se acomodara num banquinho que tinha ali perto. Ele ainda tinha a palavra "casamento" na cabeça. Pelo amor de Deus! Não queria se casar!
- Sabe por que disse que não havia pensado que você queria se casar? Bem, na realidade, eu nem cogito essa possibilidade. Eu sempre namorei, sempre gostei de estar em relacionamentos, então quando decidi assumir um compromisso mais sério, o do casamento, foi um choque para mim. Mas você... Você, meu amigo, nunca passou por isso, então imagino que o mesmo nervosismo pelo que passei quando pedi minha noiva em casamento, você está passando agora pensando em pedir a sua garota em namoro. Estou certo?
- Bem, não sei bem...
- O que você não sabe?
- Não sei se quero assumir algum compromisso com ela.
- Mas... Oh, desculpe. Estou aqui falando um monte de coisas, pensando que sabia o que estava acontecendo, e na verdade acho... , desculpe, cara. Acho que me enganei. Desculpe por fazê-lo ouvir esse monte de baboseiras.
- Não! Não, não são baboseiras! Você... Você não se enganou – sussurrou – A verdade é que eu estou sim... Apaixonado – teve dificuldade em dizer – Mas é que não sei se quero firmar um compromisso com ela. Quer dizer, olhe pra mim. – Apontou para o próprio corpo. – Eu não sou de compromissos. Não saberia como agir e nem o que fazer. Não sou romântico, e nem atencioso, nem mesmo... Como as meninas dizem? Ah, fofo. Não sou nada disso, e nem sei se quero ser um dia.
Larry não disse nada por alguns minutos. Olhava para e balançava a cabeça em sinal de concordância e mostrando que ainda estava o ouvindo. se sentiu péssimo por dizer todas aquelas coisas sobre ele, mas também e sentiu bem em poder exteriorizar o que estava sentindo.
Quem sabe, se falando tudo o que ele pensava, Larry não podia ajudá-lo a tirar a ideia insistente de ter algo com ? Talvez se outra pessoa soubesse o que se passava por sua cabeça, seu amigo não convenceria seu cérebro insistente e teimoso de que entre ele e jamais poderia haver algo.
- E... Isso tudo aí que você falou, por acaso, é um problema?
- Mas é claro! É claro que é um problema. São vários problemas! – O que foi que deu naquele cara? Ele não tinha ouvido tudo o que ele tinha acabado de dizer?
- Cara, e o que é a paixão sem problemas? Você acha que não saberia lidar com um compromisso, mas eu te digo uma coisa: você aprende. Você acha que não é romântico, nem atencioso e nem fofo, mas eu lhe digo outra coisa: quando você está apaixonado, se torna a pessoa mais idiota de todas. Tão idiota, que se alguém de fora lhe contar tudo o que faz, você dá risada na cara da pessoa e a chama de babaca. Mas você se torna o maior dos idiotas porque você automaticamente acaba por ser tudo o que você nunca foi. E sabe por quê?
negou com a cabeça.
- Porque quando você gosta de verdade de uma pessoa, não importa quem ela seja. Nada importa. Quando você gosta de verdade de uma pessoa, você faz de tudo para agradá-la, fica feliz por deixá-la feliz, prefere colocar o bem estar dela acima do seu, manda pro inferno quem diz que não podem ficar juntos, pisa em todas as regras, quebra os protocolos, faz qualquer coisa para estar ao seu lado. Isso, meu amigo, é estar apaixonado.
novamente se calou e ficou com os pensamentos a mil. Imagens se passavam por sua mente. Lembranças de quando se conheceram anos atrás, lembranças de quando descobriu quem ela era, lembranças de mais cedo... Lembranças de como se sentiu em tê-la nos braços. Pensava agora como fora piegas por sentir tudo o que sentiu. Como fora fraco por ter tido reações como as que teve. Foi tudo muito automático, tudo muito certo. Ele não teve que ficar pensando, nem raciocinando se aquilo era certo ou não, se ele se arrependeria depois de ter dado sua cama para ela enquanto ele mesmo estava cansado, pois só pensou nela. Queria que ela ficasse bem, que ela descansasse, que ela voltasse a irradiar seu brilho próprio, que...
- Ai, merda!
- O que foi? – Larry se assustou. Em um minuto estava bem e no segundo estava branco, encostava-se à parede atrás de si e esfregava a cara com as mãos.
- Esses pensamentos... Essas coisas...
- Tudo isso é normal. Não se preocupe. Todos nós passamos por isso, meu caro. – deu-lhe uma piscadinha. E como não lhe respondeu nada, somente continuou encarando-o, resolveu que tinha que quebrar o clima – Mas tenho que confessar: nunca pensei que veria dessa maneira por uma garota.
também não. Também nunca pensara. Nunca!
- Bem vindo a um mundo novo, cara.


Seu corpo doía. Os ombros pesavam absurdamente. Parecia que toneladas haviam sido colocadas em suas costas. Seu cérebro estava lento e não tinha pensamentos coerentes, de uma imagem pulava para outra, uma frase trazia outra sem nexo. Seus músculos estavam rígidos, pesados. A cabeça pulsava e tinha muita dificuldade em abrir os olhos. Será que tinham colado suas pálpebras?
O lugar em que se encontrava, ainda que não pudesse ver, era quentinho e confortável. Era macio e agradável, aconchegante. Fazia tempo que não ia a um lugar como aquele. Na verdade, não se lembrava de como chegara àquele lugar, e nem que lugar era aquele. Se seus olhos a ajudassem, talvez pudesse descobrir onde estava, mas eles não se abriam, não conseguiam, era quase dolorido tentar abri-los.
Seus instintos de espiã lhe diziam que aquela situação em que se encontrava não era algo natural. Não se lembrar de onde estava e nem de como havia chego? Aquilo a deixaria em alerta máximo se estivesse em condições para isso, mas ela não estava.
E, por mais que desconhecesse sua localização e de como chegara até ali, seus instintos não lhe alertavam para o perigo. E seu instinto nunca antes falhara.
Aos poucos, foi clareando a mente, tentando manter uma linha de pensamentos coerentes. Ela se lembrava do dia anterior. Lembrava da ligação de sua parceira pedindo o relatório atrasado, do e-mail de uma colega da faculdade informando-lhe quais assuntos cairiam na próxima prova, do treinamento que tivera na Agência e das aulas de defesa pessoal que dera para os novos agentes recém contratados. Lembrava-se também de ter parado para comer algo e aproveitou para checar onde se encontrava e, já sendo de noite, não se surpreendeu ao ver que ele já se encontrava num de seus pubs preferidos juntamente com seus amigos.
Após ir para o apartamento dele, onde passara a morar há algum tempo, ficou monitorando o garoto, só para se certificar de que estava tudo bem, apesar de confiar no trabalho dos agentes infiltrados que se encontravam no mesmo ambiente que ele.
Lembrou-se de quando decidiu, após perceber que ele demoraria a chegar, que faria seu trabalho e seus estudos na mesa da sala de jantar, porém, antes de iniciar seus afazeres, tomou uma cápsula de energético para que ficasse acordada. sabia que não era recomendado tomar aquele tipo de comprimido, principalmente para ela, que tinha sua alimentação balanceada por um cardápio feito pelos nutricionistas da Agência, mas ela precisava ficar acordada, tinha coisas a fazer e não se tornaria dependente de tal remédio. Ela só precisava de um incentivo, de uma pitada de energia a mais para que terminasse tudo o que tinha pendente.
sabia que, sem o energético, provavelmente cairia de sono em cima dos livros. Há dias ela não dormia as sete horas mínimas. Quando tinha um tempo para descansar, se este tempo extravasasse das quatro horas, já se sentia no lucro. A garota admitia que não poderia ficar nesta rotina por muito tempo e que logo mais sucumbiria. Além do mais, se a mandassem para alguma missão de campo por aqueles dias, ela não tinha certeza se aguentaria e nem se teria forças.
Suas lembranças tinham uma lacuna desde a hora que começara a fazer seu relatório para entregar para a parceira até...
Até...
Seus olhos se abriram de uma só vez. Ardiam como se tivesse areia e não ficaram abertos por mais de míseros segundos. A cabeça, que já doía, começou a rodar. Seu estômago se fez aparecer com um mal estar quando uma imagem, só uma imagem, lhe veio à mente: ela subindo as escadas, mas não por conta de suas próprias pernas, e sim pelas de .
Apertou os olhos e forçou a mente e se lembrar de mais. Ela precisava de mais, mais informações.
Ela se lembrava de em algum momento ter deitado a cabeça nos livros para descansar os olhos que já ardiam, e depois não se lembrava de muita coisa. Provavelmente havia dormido sem se dar conta, e depois... Depois... Depois ela sentiu algo quente, áspero, mas suave. Algo lhe acariciava a pele, e depois, sentiu calor. Ao abrir os olhos, constatou que o calor que sentira provinha dos braços de . Ele a havia abraçado, ou pelo menos tentara. Ela não se lembrava com exatidão, mas se lembrava do cheiro de álcool que vinha dele. Lembrava-se de que aquele que estava tão próximo dela era diferente do que ela costumava conhecer. Aquele que estava ao seu lado, com os braços a sua volta, falando baixinho com ela... Aquele ela diferente. Aquele era o garoto, o homem que conhecera há anos atrás quando ela pôde ser apenas uma adolescente com alguém, mesmo estando em missão. Com ele, ela não precisou se controlar, nem usar disfarces e nem fazer atuações, e isso foi o que mais a atraiu a ele. Depois, quando se reencontraram, ela não pôde ser aquela garota novamente, pois ela tinha que ser , agente secreta internacional. Mas na noite passada ela estava tão fraca, tão... Vulnerável, que se deixou ser apenas uma garota, não usando máscaras e nem barreiras – pelo menos pelo tempo em que estava mais inconsciente do que consciente.
Do que haviam conversado mesmo? Era difícil de lembrar... Algo sobre as mulheres com que ele costumava sair... Ela não se lembrava. Houve dois momentos de aproximação entre eles, pois em algum momento ele voltou a se reaproximar dela, pegou-a nos braços, e... Só de se lembrar, mesmo com imagens nebulosas, ela podia se sentir arrepiar. Oh, como era fraca!
Ele a levou para as escadas, pediu para ela confiar nele, e ela... Confiou. Simplesmente confiou. Porque não via motivos que a impedissem de fazê-lo. Seus instintos de espiã não a alertavam para nada, era como se eles estivessem adormecidos, e ela só acreditou nele. Confiou nele, como ele havia pedido. Mas... Confiou o quê?
Estava estudando, é verdade, mas também estava... Digitando o relatório de sua última missão. O relatório estava atrasado e já a cobrava há mais de uma semana. Sim, ela estava digitando, pois havia prometido entregá-lo à sua parceira no dia seguinte, bem cedinho.
Bem... Cedinho...
Deu um pulo da cama. Não sabia como, nem de onde tirou forças para se levantar tão rápido, mas quando se deu conta já estava de pé e, no instante seguinte, caindo de volta na cama. O sobressalto que tivera lhe causou uma tontura que lhe embrulhou o estômago e fez sua visão rodar.
Mas que droga! há esta hora devia estar caçando-a, querendo matá-la. Céus... Como pode ter sido tão irresponsável?
Atordoada, procurou alguma coisa no lugar que lhe indicasse que horas poderiam ser. Não via sinal de relógios e a cortina estava bem fechada, o que impedia que qualquer resquício de sol pudesse entrar. Graças à análise rápida do ambiente, ela pode se localizar: estava no quarto de , tinha certeza. Ela havia estado lá apenas duas vezes, mas tinha certeza que era o quarto dele. Ele a havia levado para sua cama por quê? Não que aquilo se fosse muito importante no momento. Correu, ou pelo menos tentou, para a janela. Atrás das cortinas o tempo estava nublado, meio escurecido e não nevava mais. Instantaneamente sentiu o peito relaxar. Se estava escuro lá fora, significava que ainda era cedo e que se ela corresse, poderia chegar a tempo na Agência e entregar seu relatório. Ela nunca havia gostado desse lado burocrático de ser espiã, sempre preferiu a ação.
Mais relaxada, permitiu-se voltar para a cama. Não para dormir, ela não o faria novamente até que todas as suas responsabilidades estivessem cumpridas, mas sim para tentar fazer a cabeça parar de rodar. Ela ainda estava tonta com o susto que levara há pouco. Do lado do travesseiro que dormira, havia um papel que não tinha notado antes. Preferiu não acender a luz para lê-lo, imaginando que isso pioraria sua dor de cabeça. Em vez disso, foi até a janela, que por mais que não tivesse luz lá fora, ainda estava mais iluminado que no quarto.

"Provavelmente você deve estar desesperada pensando em todas as coisas que deixou de fazer enquanto dormia. Bem, não posso dizer nada a respeito dessas coisas, mas posso lhe garantir que o relatório ultra-confidencial já está devidamente completo e nas mãos de . Você foi suspensa das suas atividades na Agência hoje, cortesia da sua parceira, que a propósito, não estava vestida como achei que espiãs se vestissem. Não que eu fosse reclamar.
Provavelmente, também, neste exato instante em que você está lendo este bilhete, você deve estar ficando ainda mais desesperada pensando "oh, não, o leu sobre a missão secreta!". Não se preocupe, sua parceira já se deu ao trabalho de brigar comigo por me inteirar do assunto. Suas obrigações estão em ordem, pelo menos por hoje, então tire o dia de folga e descanse.
Sugiro que se acalme antes de descer e me encontrar. Não quero ser vítima de uma bala certeira ou de algum golpe ninja que possa quebrar meu pescoço.
Espero que esteja bem.
.


O relógio digital na cômoda de seu quarto piscava 17:26 quando resolveu descer.
Depois do pânico momentâneo ao ler a carta feita por , dos exercícios de autocontrole que precisou praticar para não descer aquelas escadas e ir procurá-lo, a reflexão sobre o assunto e a aceitação de que o que estava feito, estava feito, se permitiu tomar um longo e quente banho. Ela estava precisando daquilo. Talvez não tanto quanto precisava da noite de sono que tivera, mas a água quente tirou todo resquício de cansaço que ela ainda tinha no corpo. Não estava cem por cento, apenas uma noite, e um dia, teve que lembrar-se, não seriam suficientes para colocarem-na na linha de disposição que seguia, mas aquelas horas foram o bastante para deixá-la bem. Teria que agradecer a por isso. Claro, depois de ter uma conversa muito séria explicando-o que o que havia lido era arquivo confidencial, que ele não devia voltar a se meter nas coisas dela.
Do primeiro andar, só podia ouvir as vozes vindas da televisão, o que a fazia deduzir que estava lá embaixo. Não sabia como o confrontaria, mas teria que fazê-lo. Teria que agradecê-lo por cuidar dela, mas também deixar claro que o que se passou noite passada não se repetiria. Parte de seu nervosismo se dava pelo fato de eles não conversarem cara a cara há semanas, e outra parte por ela não se lembrar com clareza do que conversaram quando ele a encontrou dormindo na sala.
Com toda a confiança e objetividade que uma mulher, mais precisamente uma espiã, tem, chegou à sala e para sua surpresa, sim, a televisão estava ligada em algum programa de perguntas, mas não estava lá. Um cheiro bom vinha da cozinha, e aquilo fez seu estômago protestar novamente, mas daquela vez para lembrá-la de que fazia tempo que não se alimentava. Há quanto tempo não tinha uma refeição completa e balanceada como as que os nutricionistas da Agência mandavam-na ter? não tinha certeza. Havia trabalhado tanto nos últimos dias. É claro que ela adorava treinar os novos agentes, gostava ainda mais de missões de campo, e não podia fugir da parte chata de seu trabalho que era relatar as missões em relatórios para o arquivo da Agência, mas tinha que admitir pra si mesma que o excesso de trabalho que pegou nas ultimas semanas era para evitar ao máximo se encontrar com , havia sido um descuido. E tudo por causa... De um maldito beijo. Um maldito e maravilhoso beijo que lhe trouxe à mente lembranças de quando se conheceram há anos.
Ela ainda gostava dele, é claro que gostava. Como não gostar de ? Ele era maravilhoso em sua própria forma de ser. Mas ela não. Ela era tudo o que ele não precisava. Ela era tudo o que ele nunca gostaria de ter para si, afinal, quem que tem a oportunidade de escolher a mulher que quiser, em sã consciência, escolheria uma espiã internacional cheia de problemas? Porque ela tinha problemas, muitos deles. Mas quando aceitou entrar para a Agência, tinha consciência de que tais problemas seriam constantes em sua vida, e ela não reclamava. Só não podia incluir outra pessoa na confusão que era sua vida pessoal. E, bem, não era só que não queria envolvê-lo em seus problemas, pois tinha certeza de que também nunca escolheria viver com ela tendo o mar de opções que tinha a sua espera.
E além do mais, ela não fazia o tipo dele.
Quando estava ao fim dos degraus, encontrou-o entrando pela porta da frente. Oh, então ele estava fora. É claro que estava, ele tinha muitos compromissos, porque ficaria em casa num sábado à tarde?
Ele tinha sacolas nas mãos e parou o que estava fazendo quando a viu parada nas escadas. Ficaram daquele jeito por alguns segundos, talvez minutos, nenhum dos dois saberia ao certo. Foi quem quebrou o contato visual e terminou de chegar ao térreo. Estava usando uma blusa de frio meio aberta e por onde se podia ver uma blusa de alcinha, além de um short jeans menor do que o recomendado para a sanidade de .
- Boa tarde.
Ela riu. Oh, ele não sabia mesmo disfarçar o olhar para suas pernas nuas.
- Boa tarde, .
Silêncio novamente. Mas que droga, os dois tinham coisas a dizer! Por que ninguém ousava dizer algo?
- Então... Esteve fora?
Ele precisou piscar e se concentrar na pergunta para respondê-la.
- Sim, acabei de voltar. – mostrou-lhe as sacolas – Está muito frio lá fora. Não está com frio?
- Não, aqui dentro a temperatura está boa.
Por que estavam falando sobre a temperatura? Estavam claramente pisando em ovos um com o outro, mas tinha que tomar uma atitude, tinha que começar a falar.
- Então... Acho que precisamos conversar.
- Sim, sim, claro que precisamos. Também quero falar com você.
Mas não te olhando. Não com você vestida assim. Seguiu para a cozinha, onde tinha preparado uma mesa com a variedade de coisas que tinha comprado na cafeteria mais cedo.
- Nossa! Quantas pessoas estão vindo para o café da tarde? – perguntou.
- Ah, só você e eu mesmo. – deu uma risada sem graça – Não sabia do que você gostava, então peguei um pouco de tudo.
- E o que tem nessa sacola aí?
- Aqui? Bom, fui comprar sorvete. Sabe como é, não é porque está nevando lá fora que não podemos ter sorvete em casa, certo?
- Se você diz... – também riu fraco. Por que era tão difícil falar com ele? Era só falar, só falar! Ela havia sido treinada para falar com qualquer pessoa independentemente da situação em que se encontrasse, então não via sentido naquele entrave.
- Você disse que também queria falar comigo. Quer começar? – Não sabia o que ele teria para falar com ela, mas talvez se ele começasse ficaria mais fácil para ela chegar ao ponto que queria.
- Não, não, pode falar primeiro. Mas vamos conversar enquanto comemos. Estou morrendo de fome. – fez careta enquanto colocava a mão na barriga.
- Sim, também estou.
Poxa vida, ele tinha pegado um pouco de tudo mesmo. Claro que mais da metade das coisas naquela mesa não eram recomendadas para alguém que não se alimenta adequadamente há algum tempo, mas os nutricionistas da Agência não precisavam ficar sabendo daquilo. No dia seguinte, sem falta, ela voltaria com a sua dieta balanceada. Mas só no dia seguinte, porque agora ela queria poder comer de tudo que estava ali.
- Isso está uma delícia. – falou enquanto terminava um bolinho e já escolhia outro.
- Está mesmo. – ele falou de boca cheia – Sempre vou a esse café. Tem um amigo meu da escola que trabalha lá. Ele é um cara legal. E também foi ele quem que ajudou a escolher o que trazer.
- Ele te ajudou a escolher? - riu – Imagina se ele não tivesse ajudado. Você teria comprado a loja inteira!
riu mais descontraído agora. O clima estava deixando de ser pesado aos poucos.
- Ei, eu não sei nada de você. Não queria errar, então tinha que ter várias opções, certo?
- Certo, certo. Mas você não me engana, . Aposto que está adorando ter esse monte de doces para comer.
- Nossa, como você é esperta, . Se não te conhecesse, poderia até falar que é uma agente secreta. – brincou, e desta vez foi ela quem riu. Aproveitou o clima mais descontraído para começar a conversa que na sua cabeça parecia tão simples, mas que estava encontrando dificuldades falar.
- Então... Ontem à noite – saiu mais como uma pergunta.
- Tecnicamente foi hoje de manhã.
- Que seja – cortou-o. – , sobre o que conversamos? – ela tinha que saber, primeiramente.
- Não muito. Na verdade, quase nada. Eu disse que você estava cansada, porque você claramente estava exausta, mas você negou, é claro.
- E o que mais?
- Eu disse que você precisava descansar, mas você se recusou. Daí eu insisti, e você, obviamente, recusou de novo.
- Só isso?
- Sim. Você é uma pessoa muito teimosa, sabia?
- Sim, já me disseram isso. – mas ela não lhe diria que já haviam lhe chamado de teimosa quando estava numa missão, há um ano, e passara por uma sessão de tortura, a primeira de sua carreira como espiã, e ela havia sido forte o bastante para não abrir a boca ao torturador. – De qualquer forma, tenho que te agradecer. Eu estava precisando mesmo dessa noite de sono, bem, noite e dia, não? Porque dormi a maior parte do dia.
- É verdade. Você estava precisando descansar. E não precisa me agradecer. Mas devo admitir que fiquei surpreso com esse agradecimento. Na verdade, eu estava esperando um pouco mais de gritos – brincou enquanto escolhia outro bolinho na mesa.
- Ah, mas estamos apenas começando. – olhou-o séria. Ele imediatamente parou a mão no ar. – Não é porque estou agradecida que não vou chamar sua atenção pelo que você fez.
- Você acabou de admitir que estava mesmo precisando descansar!
- Sim, mas isso não lhe dava o direito de ter me levado, praticamente inconsciente, para o seu quarto e ter lido minhas coisas.
- Preferia que eu tivesse a levado para o seu quarto? – tentou, encolhendo um pouco os ombros.
- – repreendeu – Você não devia ter lido nada do que estava aberto na tela do computador.
- Eu sei, eu sei. Só queria te ajudar. Não vou sair por aí contando pra todo mundo que a garota que mora comigo é uma agente secreta e saiu em uma missão para resgatar mulheres que estavam sendo usadas escravas sexuais. – fez uma cara como se fosse óbvio o que estava dizendo.
- Eu espero que não mesmo, . – olhou-o séria – De qualquer forma, isso não vai voltar a se repetir. Foi uma imprudência minha ter deixado isso acontecer.
- Você estava quase inconsciente!
- Como eu disse, uma imprudência. Só gostaria de reforçar que o que você leu naquelas páginas não deve nunca vir a público, não quero ouvir comentários a respeito da missão e nem perguntas. Esse assunto se encerra aqui e agora.
Os dois se olharam firmemente por algum tempo. o olhava com firmeza, dureza, quase fria, mostrando a seriedade do que havia dito e deixando claro que aquele assunto não voltaria a ser mencionado. Já a olhava curioso, tentando achar a garota que tivera nos braços mais cedo nos olhos daquela agente secreta a sua frente.
- Tudo bem, se você prefere assim...
- Não é uma questão de eu preferir ou não. É assim que as coisas funcionam.
E a conversa havia chegado ao fim. Ou pelo menos a conversa que planejara, e que por sinal, havia saído melhor do que o planejado. Agora chegara a vez de e que com certeza estava bem longe de ser uma conversa fácil.
Antes que ele começasse, seu celular tocou na sala. Correu para atendê-lo, deixando sozinha com seus pensamentos. Voltar a falar com ele não havia sido tão mal quanto pensou que seria. Mas isso não significava que voltaria à sua antiga rotina, na verdade, ela reorganizaria seus compromissos para passar a dar conta de tudo sem se cansar de mais e conversaria com seu superior sobre sair da casa de . Ela poderia ficar inteirada de tudo vivendo em seu antigo apartamento que dividia com a parceira e outro agente poderia ficar em seu lugar, monitorando-o 24 horas e mantendo-a informada. Sim, isso seria perfeito. Conversaria com seu superior e, diferente da última vez, agora ela tinha como desculpa suas muitas obrigações para com a Agência e poderia alegar que voltar a viver mais perto do Prédio Central seria mais fácil para ela. Quando soube que teria que viver com o garoto, tentou questionar e argumentar, mas não conseguiu nada, mas agora que ela tinha um argumento forte a seu favor, poderia tentar ter sua vida antiga de volta. Ou pelo menos parte dela.
Foi atrás de na sala, queria saber o que ele teria para lhe falar, pois, por incrível que parecesse, ela queria voltar para cama e dormir mais. Mas desta vez na sua cama.
Quando o viu, ele estava terminando sua ligação e já se virava para voltar à cozinha.
- Algum problema?
- Não, nenhum. Só os caras da banda querendo saber se teremos a reunião hoje à noite aqui em casa.
- Ah, claro. Não se preocupe comigo. Estarei no meu quarto durante toda a noite, já que alguém conseguiu um dia de folga pra mim. – brincou.
Ele riu nervoso. Chegara a hora.
- , eu queria conversar com você.
- Você falou. Pode dizer.
Como se fosse fácil, pensou. Como começar a aquilo?
- Bem, estive pensando e... Não gosto de como as coisas entre nós estão.
Aquilo a pegou de surpresa.
- Ah... Bom... Eu tenho várias obrigações na Agência, e também tem a faculdade, daí não sobra muito tempo para nos vermos... E não se preocupe, pois já estou tratando de me mudar daqui e devolver parte da sua liberdade...
- Não é disso que estou falando. – interrompeu-a.
Não era? Claro que não era...
- Bom, se você está preocupado com a sua segurança, não se preocupe. Mesmo sem nos vermos, temos agentes te monitorando a todo momento. Nada irá te acontecer.
- Também não é disso que estou falando.
Então ela realmente tinha ideia de onde ele queria chegar.
- Desculpe, então... Do que está falando?
- Não gosto de como as coisas estão entre nós porque... Porque odeio ficar longe de você.
Aquilo a pegou realmente de surpresa. Seu corpo congelou na posição em que estava, sua respiração ficou descompassada, seu cérebro pareceu se perder e ela não se lembrava de como falar.
- Co-como?
- Eu. Odeio. Ficar. Longe. De. Você. – falou pausadamente. Respirou fundo e voltou a falar andando lentamente, receosamente, para perto dela. – Odeio. É horrível sair de casa sem te ver e voltar sem saber onde ou com quem você está. Sempre achei ridículo ver meus amigos ligarem pras namoradas no meio da noite, ou quando elas ligavam pra eles pra saber onde estavam e o que estavam fazendo. Mas... – riu nervoso – Eu me peguei pensando, mais de uma vez, essa semana em te ligar só pra ouvir a sua voz. Não queria saber o que estava fazendo, nem onde estava. Só queria... Só queria ouvir a sua voz – falou com a voz falha. Céus, ele havia mesmo dito aquilo?
- Provavelmente eu estava... Em algum lugar. – Ela estava tão surpresa, tão confusa, que não sabia o que estava dizendo. Nem sabia se tinha algo a dizer. E nem se queria dizer algo. Na verdade, não sabia nem o que ele estava dizendo.
- Há três anos eu conheci uma garota maravilhosa, perfeita, que me fez, pela primeira vez, querer ser diferente. Diferente para ser bom o bastante pra ela. Há alguns meses eu conheci uma mulher determinada, igualmente perfeita que me fez ter a certeza de que mesmo que eu mude, mesmo que eu seja diferente, eu nunca vou ser bom o bastante pra ela.
- ...
- Você me faz pensar em coisas que eu nunca antes tinha pensado. Coisas estranhas, coisas novas. Eu sinto medo dessas coisas, sinto medo de sentir isso que sinto quando estou com você. Tudo o que eu mais quero é poder sentir tudo isso com você. Mas eu sei que é complicado, é claro que é. Porque eu não sei sentir essas coisas, eu não sei lidar com elas. Não sei lidar direito nem comigo mesmo, como lidaria com você? Como lidaria com uma agente secreta internacional? Me diz, , como?
- Eu... Não sei.
- Eu também não. E quer saber? Eu não ligo. Não ligo a mínima. Porque eu sei que quero estar com você e pra mim isso basta.
Se antes não se lembrava de como falar, agora ela não sabia como continuar respirando. Ele estava mesmo dizendo aquilo pra ela? estava tentando dizer que...
- Eu... Gosto... De você. – respirou fundo. Ele estava ofegante. Havia sido difícil dizer aquelas palavras. Ele nunca as havia dito, pelo menos não com um fundo significativo tão forte. – Gosto muito. E sinto que... Que talvez você também goste de mim.
- Eu gosto.
Levou a mão à boca. Aquilo havia saído sem sua permissão.
Era tudo o que ele precisava ouvir. Ele não precisava de mais nada. Porque todas as duvidas que ainda tinha sobre estabelecer um compromisso com a garota haviam desaparecido e ele nem sabia porque um dia existiram. Não havia dúvidas, nem medos e nem restrições. Ele queria ficar com ela e sabia, agora, que ela também queria ficar com ele.
não sabia quando e nem como, mas quando se deu conta tinha a boca de sobre a sua exigindo por atenção. Atenção essa que ela não negou. Estava ávida por ele, ávida por seu beijo, por seus toques. Ela não se lembrava da última vez que se sentira assim. Talvez nunca tivesse se sentido desta forma, nem mesmo quando se conheceram. Naquela época os interesses eram outros e as verdades, ocultas. E agora não. As máscaras haviam caído, as barreiras se dissolvido e tudo o que o tinham eram os corpos colados um no outro.
O baque de suas costas contra a parede a fez ofegar. Mesmo com a respiração falha, ela podia sentir com clareza o perfume de e isso só a inebriava ainda mais. Seus gostos já eram um só e as mãos, verdadeiras aventureiras. Provavelmente não deveria deixar lhe agarrar por baixo da blusa como estava fazendo. Nem deveria deixar-lhe comandar os movimentos das cabeças enquanto segurava firmemente em seus cabelos longos. Ela também não deveria estar deixando tomar conta de seu corpo como estava, mas ela simplesmente não se lembrava do porquê não poderia. Não via sentido para recusar aquilo, e também não entendia porque aquele momento não tinha acontecido antes.
não tinha mais dúvidas, ele só tinha certezas. Certeza de que queria mais daqueles beijos e que queria mais do que aqueles beijos. Certeza de que havia sido um idiota por não ter tomado atitude antes; certeza de que agora não poderia voltar atrás, e certeza de que não queria voltar atrás. Se ele pensava se lembrar da sensação de tê-la, ele estava muito enganado. As meras lembranças que tinha eram muito vagas se comparado àquilo. A respiração descompassada dela, sua entrega e sua resposta, eram deliciosamente excitantes. Ele não sabia por que ainda estavam praticamente se atracando na parede, ele a segurando pela coxa e ela o agarrando pelas costas por baixo da blusa. Por que diabos ainda não estavam num quarto?
Quando seus pulmões começaram a protestar, eles foram obrigados a se largarem. Pelo menos minimamente para que o ar voltasse a se fazer presente.
foi o primeiro a abrir os olhos. A imagem de com os cabelos bagunçados por suas mãos, olhos semiabertos e lábios separados e extremamente vermelhos era excitante. O fazia ter vontade de mandar ao inferno o maldito oxigênio e voltar a beijá-la com mais vigor que antes.
a olhava com tanto calor nos olhos que a missão de capturar ar para seus pulmões se tornava cada vez mais difícil. O cérebro da garota ainda rodava e sua visão ainda estava meio embaçada. O afastamento mínimo entre eles não era suficiente para clarear seus pensamentos, mas foi o suficiente para dar-lhe a iniciativa de afastá-lo.
- Você não devia ter feito isso. – falou baixinho, quase sussurrando. Se não estivesse colado a ela, provavelmente não teria escutado.
Ele riu fraco antes de responder: - Por que não?
- ... – começou a se afastar dele, ou pelo menos tentou. Não tinha forças e, inconscientemente, não queria se afastar dele. – , isso nunca vai dar certo.
- O que quer dizer com isso? – agora ele começara a se afastar dela, mas para vê-la melhor, pois não tinha a intenção de deixá-la ir. Segurou-a pelos ombros e a olhou fundo nos olhos.
- Quero dizer que não podemos ficar juntos.
Ele não estava entendendo. Há um momento estavam se dando bem, muito mais do que bem, diga-se de passagem. - Por que não?
- Porque nunca daria certo.
- Você não sabe! – ele se alterou.
- Olhe a sua volta, – se separou dele e abriu os braços. Ela não o olhava nos olhos. Não podia. Se se perdesse naquele mar infinito, o pouco da consciência que lhe restara iria se esvair. – Somos o maior grau de opostos que existe!
- E o que tem isso?
- Nossas vidas não são compatíveis!
- Não pode estar falando sério... – ele riu irônico. Já separados, respirava pesadamente em sinal de nervoso. Ele a via se encolher na parede evitando olhar para ele.
- ... – apertou a ponte do nariz com os dedos. – Não daríamos certo. Será que não vê?
- Não. Eu não vejo, . Na verdade, acho que só você vê.
- Você nem me conhece! – Ela explodiu. Num instante estava escorada na parede atrás de si e no outro estava com o corpo inclinado para frente, na defensiva.
- Conheço um pouco e já foi o suficiente para me deixar apaixonado.
Apai... Xonado.
Era mais do que ela podia aguentar.
tinha uma imagem perfeita dela: a garota esforçada que de dia estuda e à noite salva o mundo. Mas as coisas não eram assim. Estavam longe de serem assim. Saber que ele a via daquela forma a fazia se sentir mal, uma traidora. Porque sua vida era muito mais complexa que isso, e ele não sabia nem da metade das coisas pelas quais ela passava, nem imaginava os segredos que ela tinha. Ele não conhecia o lado escuro de sua profissão.
- , as pessoas costumam ter duas ideias de agentes secretos: ou são pessoas frias e calculistas, ou são heróis saídos de quadrinhos. E quer saber de uma coisa? A maioria são as duas versões. Na verdade, eu não diria que somos heróis, mas de uma forma bem clichê, "combatemos o mal" – fez aspas com os dedos – e isso acaba por nos tornar pessoas calculistas. São os requisitos básicos para quem quer trabalhar para a Agência: ser calculista, frio e não ter medo do perigo.
Respirou fundo e esperou que dissesse alguma coisa, mas ele estava com os olhos focados nela, esperando que ela acabasse de dizer o que tinha começado.
- Eu adoro a minha profissão, mas quando escolhi ser uma agente, sabia que isso que me traria consequências.
- Está tentando me dizer que uma das consequências é não se relacionar? Bom, me desculpe, mas eu não acredito nisso. – interrompeu-a.
- Mas é claro que podemos nos relacionar. O problema é que quando nos relacionamos, temos que estar dispostos a levar as consequências de uma vida secreta para a vida do companheiro. E eu não estou disposta a trazer os meus problemas para a sua vida.
- Por que não?
- Por que não? Por que não? – começou a se alterar e por um momento pensou ter visto seus olhos marejados. Mas não passou de uma impressão. – Porque eu já prendi inúmeros caras ligados à máfia. Já lutei com pessoas com mais poder que a rainha da Inglaterra. Já frequentei lugares asquerosos que, se eu não tivesse sido treinada, provavelmente estaria tendo pesadelos até hoje. Eu já vi e vivenciei situações que você nem sequer imagina, . Eu já matei.
Ele estava tão concentrado no que ela estava lhe dizendo, tentando imaginar cada situação que ela listava, que a última parte o pegou de surpresa. Surpresa não pelo fato de ela já ter matado alguém, mas pela simplicidade e naturalidade com que ela lhe informara aquilo.
- Você tem ideia de quantas organizações oferecem recompensas pela minha cabeça? Organizações destruídas, ou organizações que estão para serem destruídas? Eu não temo pela minha vida, pois sei que de uma forma ou de outra, estou protegida pelo meu status, e que a minha morte acarretaria uma guerra para quem mandasse me matar e para todos os envolvidos. Mas você não... Você seria a isca perfeita, o alvo perfeito. E eu não posso me arriscar a isso.
- E se eu quiser me arriscar?
- Não é uma decisão que você deva tomar. Você não tem ideia do que está falando e não consegue sequer imaginar o que eu estou dizendo. Isso não é um filme, não é uma aventura. É a vida real. Diariamente coloco minha vida em perigo, mas eu consigo lidar com isso. Mas jamais conseguiria lidar com a sua vida em risco. Então, por favor, não me peça para concordar com isso.
Ela já virava se costas para ir embora. Precisava de um tempo sozinha, refletir sobre aquela conversa estranha. Queria ir para o seu quarto, onde sabia que não seria perturbada. Mas não. Ele não queria se afastar dela. Ficaram tanto tempo separados... Ele não a deixaria ir embora novamente.
Puxou-a pelo braço e a segurou pelo cotovelo. Ele a havia escutado, e agora ela tinha que parar para ouvi-lo.
- Você acha que eu não corro riscos? Eu sou uma figura pública, constantemente recebo assédios e já recebi ameaças diversas vezes e... Céus! Tem um psicopata atrás de mim, lembra? É por isso que você está aqui! Você tem razão quando diz que eu não tenho ideia do que me contou. Realmente, eu não sei das coisas pelas quais você passou, mas eu quero saber. Eu quero saber de tudo. Quero chegar em casa e poder te abraçar, poder ser seu reconforto. Quero poder contar como foi meu dia e quero ouvir como foi o seu. Por mais errado que você possa pensar ser, eu quero isso pra mim. E sei que você também quer.
- , gostamos de coisas completamente diferentes.
- Eu gosto de você. Não entende isso?
Ela ofegou. Por que as palavras dele mexiam tanto com ela?
E na verdade ela não entendia. Não entendia por que ele gostava dela. Até podia tentar entender que gostasse da imagem de mulher perfeita que ele tinha dela, mas depois de tudo o que ela disse... Por que continuava insistindo?
- Eu não vou mentir pra você, . Não sei como funcionam os relacionamentos, nem sei como funcionaria um relacionamento entre a gente, mas eu quero aprender. Não sou o tipo de cara que chega todas as noites com chocolates e um buquê de rosas, mas adoraria achar outras formas de poder te agradar.
- Não se preocupe, não gosto de rosas. – não pode controlar um pequeno sorriso de canto. Já não tentou esconder sua fileira de dentes brancos num sorriso.
- Ótimo, isso facilitaria muito as coisas pra mim.
Nenhum dos dois disse mais nada, mas não por falta de palavras. Na verdade, queria dar-lhe tempo para pensar, e ao mesmo tempo tinha medo de seguir seus impulsos e fazer algo que a fizesse se sentir pressionada e acabasse por colocar tudo a perder. Ele sentia que estava a ponto de ceder; não faltava muito, mas ela ainda tinha dúvidas, medos, e ele entendia isso. também tinha muitas dúvidas, muitos receios, mas queria enfrentá-los junto com ela. Aquilo tudo era uma novidade pra ele e estava ansioso por desvendar tal novidade.
tinha mil e um pensamentos misturados que estavam lhe causando uma grande confusão. Por que não tentar? Ela sabia o porquê. Mas... Vivera toda a vida seguindo à risca as regras, o que sua consciência mandava, mas se perguntava: por que não tentar? Pelos perigos que ela havia dito que poderiam chegar a ele? Era verdade, mas não com a intensidade com que ela colocara. Ele estaria tão protegido quando ela e também na mira dos "caras maus", como sua parceira os chamava. Ao mesmo tempo em que seria alvo deles por estar com , este também seria o motivo por estar protegido, e a justificativa era basicamente a mesma de por que ninguém atentava contra a vida da espiã. Além de sua identidade secreta ser bem preservada, os poucos que sabiam dela não seriam loucos de começarem uma guerra que sabiam que perderiam.
Mas ainda tinha o fato de ele ser quem era. não se prendia a mulher alguma pelo fato de ser um dos homens mais cobiçados e mulherengos de toda Inglaterra. não assumia compromissos, principalmente se eles fossem no campo amoroso. Como ela lidaria com isso?
- Se ficarmos juntos coisas terão que mudar, você sabe disso. – aquilo não foi uma pergunta.
teve que se controlar para não demonstrar o seu crescente ânimo. Aquilo era uma concessão? Ela estava realmente cogitando a possibilidade de se darem uma oportunidade?
- Sim, eu sei. – ele disse devagar, pausadamente.
- Você irá parar de ir a dezenas de festas, ficar bêbado e sair cada noite com uma piranha diferente?
arregalou os olhos e se assustou com o tom e a escolha do vocabulário. Nunca havia visto a garota falar daquele jeito. E ele achou aquilo sexy.
- Vou parar de sair com várias mulheres, obviamente. Mas não deixarei as festas de lado. E você vai parar de sair a qualquer hora do dia ou da noite para alguma missão sem me dar explicações?
- Não sairei mais sem explicações. – sua respiração estava curta e acelerada. Estava mesmo concordando com aquilo? Oh, céus...
Sua mente estava trabalhando a mil. Uma parte lhe dizia que aquilo era arriscado e que nunca poderia dar certo, mas a outra parte lhe dizia para ignorar a primeira e se arriscar. Ela era , agente internacional, uma espiã altamente treinada. Ela adorava aventuras, adorava se arriscar. Mas iria se arriscar nessa missão, em que o que estava em jogo era o seu coração?
- Eu gosto de você, . – puxou as mãos para ele. - Gosto que sejamos diferentes. Podemos fazer dar certo. Eu quero que dê certo. Só falta você querer.
- Eu quero. Mas as consequências de uma relação mais séria entre a gente podem ser... Ruins.
- Então lidaremos com as consequências quando elas surgirem. Se elas surgirem. Já percebeu que você está arranjando desculpas para não ficar comigo? Tem noção de como isso machuca o meu ego? – brincou.
- E você está arranjando soluções. – suspirou – E sobre seu ego, acho muito difícil acreditar, ele é tão grande que nem mesmo uma submetralhadora SMT 9 seria capaz de destruí-lo. – riu sem graça. O clima pesado havia começado a se dissolver.
- Eu não sei o que é uma submetralhadora e nem quero saber. Prefiro deixar isso para os espiões do nosso país. Você sabia que temos agentes secretos disfarçados entre nós? – ele a puxou para si e a envolveu com os braços. Estava começando a se sentir mais confiante.
- Ah é? Bom, na verdade eu ouvi dizer que esses agentes secretos são muito bons, principalmente uma em especial que é muito inteligente, sabe. Muito esperta, rápida, boa atiradora e excelente lutadora. – o abraçou de volta. Aos poucos estava mandando ao inferno todas suas dúvidas e receios que, naquele momento, já eram mínimos.
- Ah, eu acredito que ela seja boa atiradora mesmo. E sabe por quê?
- Por quê?
- Porque ela acertou o meu coração. – falou com a voz grossa, tentando parecer um sedutor. Não que ele tivesse que tentar muito.
, que tinha seus braços ao redor da cintura do garoto, jogou a cabeça pra trás e riu alto, o que fez com que se encantasse ao ver a garota a sua frente naquele estado tão espontâneo e tão raro para ela.
Ela estava leve, tranquila, mesmo com perguntas lhe rondando a cabeça. Ela poderia lidar com aquilo, certo? Gostava de e não via sentido em negar para si o que estava sentindo. E parecia que ele gostava dela também. E queria mesmo tentar. Queria ver aonde aquilo poderia levá-la, levar a eles dois. E se dependesse dela, faria aquilo dar certo.
- Muito brega? – estava sorrindo junto a garota e não pode evitar fazer uma careta ao questioná-la.
- Nossa, muito! - ela riu - Mas foi...
- Ah, não, por favor. Não diga que foi fofo. – Interrompeu-a. ainda tinha uma careta no rosto quando direcionou sua atenção para o pescoço da espiã.
- Na verdade, fofo era exatamente o que eu diria.
Ele gemeu em um pseudo-desagrado. Não podia acreditar que em menos de cinco minutos de namoro já era considerado um cara fofo. Isso era ridículo! Mas espera, eles estavam namorando?
- Nós estamos namorando? – deixou de dar atenção ao pescoço dela para encará-la.
- Estamos? – ela sussurrou. estava tão entretida com as carícias que demorou um tempo a mais do que o normal para entender a pergunta do garoto. – Acho que não. Estamos apenas... Juntos.
- Só isso? – ele a olhou curioso. – Não quer ser minha namorada? Poderia pisar mais no meu ego?

A carinha de descrente de fez rir.
- Você não me pediu para ser sua namorada. E além do mais, não namora. – bateu em seu nariz em brincadeira.
a olhou e pensou na conversa que tiveram: ela brigando com ele, ele se declarando, eles se beijando, ela o recusando, ele a convencendo a ficar com ele, ela aceitando, ele beijando o seu pescoço e a achando extremamente gostosa naquela roupa que não lhe cobria em nada as pernas e o fazendo pensar em...
- Tem razão. Eu não te pedi em namoro.
- E não precisa fazer isso agora se não quiser.
teve tantas descobertas num só dia, e admitira tantas coisas de uma só vez, que achava meio impossível seu cérebro lidar com mais esse progresso. Ele nunca havia pedido ninguém em namoro. Será que seu cérebro poderia explodir por pensar de mais?
- É, acho que vamos ter que nos contentar com "estar juntos" – fez aspas com os dedos. Eles poderiam apenas ficar juntos, pelo menos até ele se acostumar com a ideia.
- Para mim está bem. – e estava mesmo. Para , que até a cinco minutos atrás estava tentando afastá-lo de si com medo de sua cabeça entrar em parafuso, aceitar que "estavam juntos" já era mais que o suficiente.
- Está mesmo? Quer dizer, você está aceitando ficar comigo oficialmente falando? Está pronta para ser apresentada ao mundo como "a nova garota de "? – fez gestos com as mãos simulando uma manchete de revista ou jornal.
- Acho que nunca vou estar – admitiu mais para si mesma do que para ele - Mas não se preocupe, vou saber lidar com isso...
- Eu tenho certeza que vai – Aproximou-se para beijá-la
- ... Depois de conversarmos melhor sobre isso.
- Vamos conversar mais? Já não tivemos conversas suficientes para um ano hoje?
Ela apenas sorriu para ele. O sorriso mais lindo que já vira. E aquele pensamento lhe fez contorcer o rosto numa careta, mas o que podia fazer? Teria que se acostumar com pensamentos idiotas e cafonas como aquele que acabara de ter.
- Não se preocupe, conversaremos outra hora. Também estou cansada de conversas agora.
- Ah, que bom! Porque eu estou farto. Nunca falei tanto na minha vida, sério.
Eles riram um para o outro como um casal faria. Mas ei, eles eram um casal, constatou .
Ela não sabia como seria sua vida dali pra frente, e normalmente não tomava decisões sem saber o que viria em seguida. Mas sentia que aquela decisão não poderia estar errada, afinal, seus instintos não lhe alertavam para nada. E seus instintos nunca erram.
não pensava na mudança drástica que seria sua vida dali em diante, pois já o pensara muito antes de decidir falar com a garota. Teria que dar um jeito de avisar à imprensa de que já não estava solteiro, e isso seria o suficiente para dar um ‘chega pra lá’ às mulheres com quem costumava sair. Também teria que avisar seus amigos. Ele iria ser zoado por muito tempo, mas não se importava.
Interrompeu o beijo que estavam tendo, o primeiro deles como um casal.
- Ei, tem sorvete. – lembrou.
- É mesmo. Que delícia, faz tempo que não tomo sorvete. – a garota disse.
Quando estavam a caminho da cozinha, o celular da agente tocou. Era uma mensagem que, por cima do ombro de , conseguiu ler. Não que ele tivesse entendido alguma coisa. Aquilo era em que língua?
- Preciso sair. Tenho uma missão. – virou-se para ele.
- O quê? Não... me disse que informaria à Agência de que hoje seria o seu dia de folga.
- Na verdade, ela só disse isso para te dispensar, uma vez que não temos dias de folgas. – ele abriu a boca em indignação. Como assim "dispensá-lo"? Ninguém tentava dispensar . – Mas ela com certeza fez alguma coisa para deixar o dia livre pra mim. De qualquer forma, essa não é uma missão que se possa recusar. – Com as pontas dos pés erguidas, segou seu rosto e lhe deu um beijo rápido. Já pegando as chaves em cima da mesinha, apressou-se para a porta ao lado. – Tchau.
- Ei! Pra onde vai? – chegou até ela
- É confidencial, .
- Você disse que me daria explicações. – aumentou o tom de voz.
Ela suspirou. Realmente dissera aquilo. E também, que mal faria? Mais cedo ou mais tarde ele ficaria sabendo de qualquer forma.
- É sobre o psicopata que te persegue. Acho que a Agência o localizou.
- E você vai atrás dele vestida assim? Está louca? – colocou as mãos na cintura. Ela estava muito enganada se pensava em sair daquele jeito.
- Está mais preocupado com a minha roupa do que com o fato de termos encontrado esse cara? – ela riu. Só não sabia se ria de descrença ou por ter achado fofo a preocupação dele, preocupação essa, que estava bem próximo do... Ciúme? Ele estava com ciúme dela?
- Acho que sim. Que seja. – dane-se o motivo pelo qual ele estava preocupado. Ela não sairia vestida daquele jeito e pronto.
- Vou trocar de roupa quando chegar à Agência. Vou colocar o uniforme. – riu fraquinho.
Uh... A roupa de couro sexy.
- E... Nesta reunião que vai ter aqui, vai vir alguma mulher? – ela se lembrou da "reuniãozinha" que teria dali a poucos minutos.
deu um sorriso sacana e se aproximou de até onde ela estava fechando a porta e prensando-a contra a madeira. De novo. Segurou-a pela cintura antes de falar:
- Está com ciúmes? – usou um tom rouco. Ela não respondeu, mas ele viu a resposta de seu corpo ao ver sua nuca se arrepiar com a boca dele perto da orelha dela. – Não, não vai ter mulheres. E mesmo que tivesse, não faria diferença. Porque a única que me importa não estará aqui, porque estará lá fora salvando o mundo.
Ela o segurou pelos braços e não conseguiu segurar um sorriso. Ele sorria para ela da mesma forma.
- Minha heroína. Minha agente secreta. Minha garota.


FIM


N/A: Olá, gente! Bom dia, boa tarde, boa noite!
Então... Essa foi a minha primeira fanfic publicada (porque foi a primeira terminada, rs). Essas cenas são um tipo de "extra" de uma história que eu já escrevo há algum tempo e como a ideia veio e eu não teria como colocar na história original, resolvi fazer uma short com os personagens da outra história e dar um começo e um fim.
Espero que vocês tenham gostado dos personagens, do enredo, de como as coisas aconteceram, enfim, da fic como um todo.
Ficarei muito feliz com um comentário, sério. Então o que estão esperando? Venham fazer uma autora feliz, gente!

Angel


Nota da Beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter. Obrigada. Xx.

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