Finalizada em: 01/01/2015

Capítulo Único


falava aos berros, mas eu não tinha muita certeza se sabia o porquê e fiz uma careta por isso. Eu raramente sabia o motivo e por esse motivo preferia deixar que ela gritasse.
- , por Deus, você pelo menos está me ouvindo?!
- Hãmm? - perguntei soando confuso e só pude fazer outra careta ao notar que aquilo provavelmente me fuderia.
Pelo menos dessa vez eu saberia por quê.
- Argh! Está vendo?! - ela devolveu, ainda mais irritada do que antes. - É disso que eu estou falando! Você nunca presta atenção em nada, você nunca liga pra nada! - gritou. - Aposto que você nem sabe porquê estamos brigando e menos ainda do que eu estou falando!
- Eu? Hãmm... Claro que sei. - respondi, sem muita certeza do que estava fazendo.
- Ah, sabe? Claro que sabe. – retrucou irônica. - Então clareie minha memória, por favor. Acho que não me lembro.
- Eu... Hãmm... - comecei, definitivamente ser ter ideia do que falar e sabia que a quantidade de "hãms" não estavam me fazendo soar muito convincente.
Quando abri a boca para falar novamente, no entanto, ela me interrompeu:
- Está vendo, não sabe. Nunca sabe!
- Você nem me deixou tentar! - retruquei inconformado embora a situação parecesse um tanto quanto cômica para mim. Dramática, porém cômica.
- E o que você tem a dizer? Outro "Hãm"? - perguntou com a voz carregada de sarcasmo.
- Amor, vem cá... - a chamei, puxando seus braços ao me aproximar dela enquanto tentava trazê-la para mim. - Não precisamos de toda essa agressividade. - Você está sempre certa e eu sempre errado, por isso você é tão maravilhosa. - tentei beijá-la no pescoço, mas antes que tivesse oportunidade de se quer chegar perto o suficiente, ela espalmou meu peito, empurrando-me para longe claramente furiosa.
- , será que você não consegue ver que esse é justamente o problema?!
- Espera, não entendi. Você ser maravilhosa é o problema?
- Você nunca leva nada a sério! - gritou, segurando nos cabelos enquanto algumas lágrimas escorriam de seus olhos e céus, odiava aquelas lágrimas. Odiava lágrimas no geral, mas especialmente as dela e só então me dei conta do quão séria aquela discussão realmente era.
E eu não tinha ideia do motivo, o que só tornava tudo ainda mais preocupante.
- ... - tentei me aproximar mais uma vez, mas ela negou com a cabeça, dando alguns passos para trás.
- Não. - falou, limpando as lágrimas. - A ideia desse casamento é ridícula.
- O quê?! - exclamei assustado. - Nunca havia nos faltado brigas, todas por motivos bobos, mas ela nunca, nunca questionara nosso noivado. - , você não pode estar falando sério.
- Bom, eu estou! - respondeu, pegando a bolsa que arremessara irritada no sofá ao chegar. - Vou pra casa da .
- Não! - respondi perplexo, a puxando de volta quando tentou passar por mim para sair. - Você ficou louca? Não vai sair daqui a essa hora! Ainda mais... Ainda mais... Céus, por que vai pra casa da ? – perguntei, nervoso com os impactos de suas palavras que pareciam finalmente estar fazendo efeito, deixado-me apavorado com a possibilidade de perdê-la.
- Você entendeu por quê. Estou indo, definitivamente.
- Não está não! - respondi eufórico. - , você não pode estar falando sério, você quer mesmo terminar o noivado?! Assim, de uma hora para outra e por... Por... , eu nem sei o motivo! - gritei também, mas não por irritação e sim por perplexidade, por confusão, frustração e finalmente, por medo. - isso não faz nenhum sentido pra mim.
- É claro que não faz, essa é justamente a questão aqui!
- Qual?! - gritei, pegando suas mãos ao me aproximar. - Me explica qual.
- Nunca... Nunca daríamos certo. - falou por fim, como se cada uma das palavras doessem tanto ao sair de sua boca quanto doíam ao me atingirem, mas mesmo assim teria continuado se eu não a interrompesse:
- Demos até agora.
- Não demos não. - ela respondeu, deixando que mais algumas lágrimas caíssem. - Nós só... Só ignoramos o problema. Eu ignorei porque te amo.
- Eu também te amo. – falei rapidamente. - Isso não deveria ser o suficiente?
Ela negou com a cabeça. Para meu desespero, ela negou, deixando que mais lágrimas manchassem seu rosto. Tentei secá-las, mas segurou minha mão em sua bochecha.
- Somos diferentes demais para dar certo um dia.
Soltado minha mão, retirou a aliança de sua mão e se afastou, deixando-a sobre o mesa ao lado da porta antes de sair, largando-me ali, sem palavras.
Virei-me para acompanhá-la com o olhar, assustado demais com o rumo que tudo tomara para conseguir interferir e voltei a mim apenas quando a porta se fechou atrás dela.
- Ela definitivamente está de TPM. - falou ao adentrar a sala, fazendo-me pular de susto ao me virar para ele.
- O que diabos você está fazendo aqui? - perguntei e ele apenas deu de ombros.
- me expulsou da casa dela. - respondeu. Acho que elas decidiram trocar os casais hoje.
- Vocês não são um casal.
- Isso, vai, joga na cara. - resmungou, mas já não o ouvia mais, voltando-me para porta enquanto tentava entender o que tinha acontecido.
Eu não fazia ideia, mas segui até a porta. Simplesmente deixá-la ir daquela forma não parecia certo. Não era certo, especialmente quando ela acabara de "romper" nosso noivado por um motivo que simplesmente não tinha o menor sentido para mim.
- Cara, na boa, não. - interferiu, passando um dos braços por meu ombro ao perceber o que eu faria. - Ela está com a cabeça quente e já deixou de fazer sentido. - explicou. - Amanhã vocês conversam e tudo vai se ajeitar. Ela não vai terminar o noivado assim, não faz sentido.
Deixei que nos guiasse até o sofá e olhei para ele inseguro. Não era como se ele tivesse muita experiência naquele setor para me dar conselhos, mas talvez ele estivesse certo dessa vez. não podia simplesmente dar as costas para tudo que tivemos por... por "não termos nada em comum". Pessoas sem nada em comum não passavam tanto tempo juntos, não se amavam e como em todas as nossas brigas, nos entenderíamos no final porque era aquilo que fazíamos sempre. Era aquilo que éramos.

+++


Eu raramente acordava antes das duas horas da tarde. Trocar o dia pela noite era uma atividade completamente normal levando-se em consideração minha área de trabalho, mas o fato de não ter do meu lado na cama mudou a história consideravelmente, especialmente quando meu cérebro decidira que aquele momento era o melhor para pensar e principalmente dar assas aos argumentos dela para terminar nosso noivado.
Céus, realmente não tínhamos nada em comum. Ela era bailarina, gostava de música clássica e de se manter sempre em dia com os hábitos que ela considerava saudável, o que obviamente não incluía trocar o dia pela noite.
E só não repudiava os lugares que eu frequentava mais do que eu repudiava suas amigas.
Mais uma vez, me virei na cama, escondendo a cabeça embaixo do travesseiro em uma tentativa frustrada de conter meus pensamentos. Nunca me importará pra tudo isso, muito pelo contrário. Era fascinante vê-la dançar, cada traço de deu corpo era simplesmente mais assustadoramente perfeito que o anterior e foda-se o estilo de música que ela gostava. Eu poderia ouvir sem parar se ela desejasse.
Suspirando, busquei pelo celular no móvel ao lado da cama para conferir as horas e me assustei ao me dar conta de que já se passava das seis horas. Eu se quer havia cochilado e as pessoas normais já se levantavam para o dia. levantaria logo se estivesse ali, corredor para o banho antes de seguir para a universidade.
Com um pulo, levantei-me da cama. Se ela precisava de tempo para pensar, já havia tido mais do que o suficiente e não suportaria passar o resto do dia daquela forma, passar o resto do dia me perguntando se por qualquer motivo, ela havia exagerado e se já havia se dado conta disso, ou se com o tempo percebera que queria aquilo e que nunca mais seria minha.
Chacoalhando a cabeça para afastar a ideia, decidi manter o foco no motivo que havia sugerido para tudo aquilo enquanto tomava o banho mais rápido da minha vida para estar, no mínimo, apresentável quando a encontrasse.

+++


Toquei ansioso a companhia da casa de e enquanto batia os pés, me segurei ao máximo para não tocar mais uma vez, ciente de que ela não precisava de mais um motivo para me odiar.
Não tinha passado um minuto quando ergui a mão para tocar novamente, mas antes que eu o fizesse, a porta foi aberta e saiu de lá, espalhando meu peito para me afastar da porta podendo, assim, fecha-la atrás de si.
- Se você acordá-la eu juro que te mato! - sussurrou, olhando sobre os ombros para se garantir de que não a seguirá para fora.
Bom, eu queria que seguisse.
Afastando sua mão de mim, passei por ela, rumo a porta, mas me segurou pela camisa, se colocando novamente de frente para mim.
- , ela dormiu agora! - me repreendeu, mantendo o mesmo tom de voz que usará antes. - E ela definitivamente não quer te ver.
- Eu sei que você está imensamente feliz por isso, mas eu não estou e sei que ela também não está. - falei, erguendo a voz sem me dar conta de que o fazia. - Não dou a mínima se não gosta de mim ou se não "aprova" nosso noivado. - fiz aspas com os dedos. - Mas eu não vou deixar ela acabar isso dessa maneira.
- ... - ela começou, mas a interrompi.
- O amor pode não significar nada pra você, mas significa pra mim...
- , você quer calar a boca pra eu poder falar? - perguntou.
- Não sei de onde tirou que eu estou feliz com isso, okay?! Eu a amo tanto quanto você e a última coisa que eu quero é vê-la passar a noite inteira em claro chorando por terminar um noivado com o cara por quem ela é obviamente louca, apesar de ser você. - ela torceu o nariz na última palavra, descendo o olhar brevemente para minhas roupas e revirei os olhos. - Não sei de onde saiu isso agora, nunca ligou quando falávamos do qual diferente os dois são, mas ela nunca pareceu tão certa de algo...
- Certa em terminar comigo? - perguntei com espanto que rapidamente foi substituída por desconfiança. - E porque diabos você acha que eu vou acreditar logo em você? - perguntei, tentando passar por ela novamente, mas rolou os olhos, me puxando novamente.
- Quer me ouvir, porra?! - perguntou impaciente e olhei surpreso para ela. - Nossa, ela fala palavrão. - bufou. - Eu dou pro , não sou tão certinha assim.
- Eu estou vendo. - respondi, suspirando ao me dar conta de que acabavamos de fugir do assunto. - ...
- Prove pra ela que nada disso importa. - falou por fim, segurando meu braço e olhando pra trás para garantir que não estava lá. - Mostre que... Que você pode ser como ela, que quer...
- É o que eu mais quero.
- Então. - ela sorriu em encorajamento e decidi que não era tão detestável quanto as outras amigas. Talvez até pudesse gostar dela... Não, gostar não. - Você pode até não acreditar, mas torço por vocês. - confessou. - Você pode não ser o melhor e... - novamente, ela me analisou de cima a baixo e rolei os olhos. - Definitivamente não é, mas ela te ama e querendo ou não, vocês fazem bem um para o outro.
Concordei com a cabeça sem saber o que dizer e apesar deu dois tapinhas no braço que ela ainda segurava antes de dar as costas para mim, se afastando.
- Deixe-a dormir, forme um plano e resolva isso.
Antes que eu tivesse oportunidade de perguntar o que ela queria dizer com "plano", fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinho e confuso.
Meu único plano era conversar com até que ela me entendesse e se não entendesse, a agarraria para convencê-la de forma mais baixa, mas que eu sabia que era a mais eficiente.
Mas desconfiava que não era disso que estava falando.
Com um ultimo suspiro, voltei para o carro, apoiando a cabeça no volante por alguns instantes enquanto pensava. Não acreditava que, mais uma vez, ia dar ouvidos a quem me impedia de simplesmente ir atrás de como eu queria, mas sendo tomado por uma súbita ideia idiota, dei partida no carro.

+++


Eu havia decidido que uma lista resolveria mais problemas. Uma lista de coisas que ela fazia, gostava e eu não, mas poderia fazer e ser como ela já que esse era o problema.
- Você sabe, as pessoas normais fazem planos para ficarem ricos. - comentou por sobre meu ombro para espiar a lista (ainda vazia) e olhei feio para ele. - Bom, se seus planos para ficar rico fossem tão bons quanto esse, morreria de fome.
- Por que é que você sempre atrapalha ao invés de ajudar?
Parecendo satisfeito com aquela afirmação apesar de se quer ter soado como um elogio, suspirou, jogando-se no sofá.
- O que? Não foi um elogio? – perguntou quando continuei o encarando da mesma forma e riu quando não respondi. – Você era muito mais legal com a aqui, mas já que ela não está, posso me mudar para o seu apartamento? Ele é muito mais legal. – falou, olhando ao redor.
- Mesmo que ela não fosse voltar, o que ela vai fazer, a resposta ainda seria não.
- Bom, se ela voltar ou não for depender dessa lista, sinto em lhe informar, mas ela não volta.
- Argh, ! Sai daqui! – joguei nele uma almofada e ele riu ao desviar.
- Okay, eu ajudo! Eu ajudo! – ele retrucou, levantando-se para se jogar ao meu lado e olhar para a folha em branco. – Ela gosta de dançar, né? É bailarina. Você podia comprar um colã e sair por ai rodopiando. – riu, obviamente me sacaneando ao invés de realmente tentar ser útil, mas arregalei os olhos ao ter uma ideia.
Pegando a caneta ao meu lado as pressas, escrevi:

1. Apresentação de ballet na terça.


gargalhou.
- Você vai mesmo fazer isso? – perguntou descrente, podem divertido, enquanto gargalhava. – Eu estava sendo irônico, ! – exclamou, jogando-se para trás para rir, parando subitamente logo depois, sentando-se novamente. – Espera, eu posso ir junto para assistir? Eu preciso ver isso.
- Vai se ferrar. – resmunguei, não dando muita atenção para ele enquanto batia a canela em minha cabeça levemente enquanto pesava.
Tinham várias coisas que ela gostava e eu não, era só pensar nelas e criar um plano para eles depois.
Pensando nisso, continuei, mas não demorou para me interromper novamente, estreitando os olhos para ler:
- Espera, na sexta? – perguntou. – Na festa de sexta? Você não está pretendendo...
- , fica quieto. – pedi, já notando mais um item enquanto ele cruzava os braços emburrado.
- Você está muito chato hoje. – reclamou, mas aproveitei o fato das ideias estarem surgindo para continuar escrevendo, agora ansioso para colocar a primeira em prática.

+++


Eu estava muito inclinado a desistir, tipo muito inclinado a desistir. O colã era desnecessariamente colado ao corpo, minhas bolas estavam amassadas de um jeito estranho e eu tinha certeza de que estava andando feito um pato enquanto tentava tirar aquele treco da minha bunda.
Uma visão definitivamente agradável, só não seria mais agradável do que a dos jurados dentro da sala quando me vissem dançar. As vídeo aulas não haviam ajudado muito, mas esperava que apreciasse a intenção.
Com aquele colã, olhar para mim deveria ser o mesmo que ter a visão do inferno, mas porra, eu vesti um colã! Isso tinha que significar alguma coisa, especialmente depois que eu decidisse dançar.
Apesar dos vários outros garotos na sala estarem vestidos como eu, não conseguia deixar de me sentir ridículo com aquela roupa e sentei na esperança de que assim, ele pelo menos parasse de incomodar atrás, embora na frente ainda estivesse complicado.
- . – me chamaram de dentro da sala dos testes assim que o garoto anterior saiu e arregalei os olhos ainda com a mão no saco, enquanto tentava desgrudar a roupa dali.
Decidindo que aquilo era a pior ideia que eu já havia tido, tentei fingir que se quer imaginava quem era o tal de , mas foi exatamente nesse instante que parou em minha frente, encarando-me completamente chocada e boquiaberta, embora algo em sua expressão denunciasse que ela também queria rir.
- Meu Deus, mas o que é isso? – ela perguntou, agora sem conter o riso. – Você está usando mesmo um cola?
- É, porra. – resmunguei emburrado, cruzando os braços em frente ao peito. – Não é como se você nunca tivesse visto um cara vestido assim.
- Vários na verdade. – ela riu outra vez, analisando-me de cima a baixo. Fechei ainda mais a cara. – Mas você é novidade.
- . – chamaram novamente e me encolhi na cadeira, embora já fosse tarde demais.
- Ele está aqui! – informou, arregalando os olhos novamente logo depois, pouco antes de gargalhar com o entendimento. – Meu Deus! – riu, colocando a mão em frente a boca. – Você vai fazer o teste? Ela sabe disso?
- Ah, claro que sabe! Foi ela que me ajudou a ensaiar, você não sabia? - ironizei.
- ...
- Aqui! - gritou novamente, me puxando da cadeira para levantar.
- , não! Foi uma péssima ideia e eu já desisti.
- Desistiu é o caramba! Vai logo. - me empurrou novamente e suspirando vencido, entrei na sala, vendo arregalar os olhos ao me ver. Em uma tentativa de disfarçar, olhou para baixo, mas era óbvio que ela sabia que era eu, chamaram-me pelo nome e sobrenome. Ainda assim, o espanto há só então tivesse certeza de que realmente se tratava de mim ali.
- ? – o Senhor sentado entre e outra mulher perguntou. Ele aparentava ter cerca de oitenta anos, se não mais, com fortes rugas cobrindo seu rosto. Diferente das duas ao seu redor, não mantinha uma postura completamente ereta, típica de uma bailarina, como eu já estava acostumado em ver em , mas algo em sua maneira de falar e se portar deixavam claro que ele estava tão envolvido nesse mundo quanto as duas.
Quando finalmente me dei conta de que ele esperava por uma resposta, concordei com a cabeça, vendo o senhor erguer uma sobrancelha para mim, obviamente surpreso com minha falta de classe. Tinha certeza que as bailarinas tinham uma posição certa para se postar quando paravam, mas eu não me lembrara antes para descobrir qual era.
O homem suspirou parecendo decepcionado, voltando sua atenção para as folhas sobre sua mesa como se, mesmo sem eu se quer começar, já houvesse decidido que eu não valia sua atenção.
Provavelmente não valia mesmo e não era sua atenção que eu queria.
- Quando estiver pronto para começar, acene para o rapaz a sua esquerda. – falou por fim, sem voltar sua atenção para mim. – Suponho que saiba a música escolhida, estava no edital...
- Eu sei, obrigado. – o interrompi, vendo a outra mulher presente na sala me olhar com tanto espanto quando a segundos atrás.
Aliás, ainda se quer me olhava, o que era completamente frustrante, mas acenei para o garoto mesmo assim, decidido a mostrar que poderia sim ser como ela, mesmo certo de que aquela era a pior ideia que eu poderia ter tido para provar meu ponto. Nunca conseguiria dançar ballet e tive ainda mais certeza disso quando a música começou.
Por alguns segundos, apenas olhei para frente, aéreo, tentando me lembrar do que eu havia ensaiado.
Quando, com um estralo, me lembrei, tentei fazer o primeiro movimento, mas o velho ergueu a mão para o garoto do som.
- Basta. – pediu, e apenas pela arrogância em sua voz, decidi que não gostava dele.
- Moleque, não sei o que você pensa que está fazendo aqui, o que pensa que pode fazer aqui, mas obviamente está no lugar errado, então, por favor, nos poupe tempo e desista.
Por alguns segundos, não soube o que responder, pego de surpresa com sua honestidade e completa falta de sensibilidade.
- Sério, é assim que você fala com os coitados que vêm aqui fazer o teste? – perguntei, voltando-me para quando ela negou com a cabeça, os lábios rígidos em uma linha fina de reprovação, parecendo a ponto de explodir.
Foi ai que eu percebi que dizer que meu plano havia fracassado era otimista até demais. Eu tinha é me fudido.
- Não, eu certamente não falaria assim com alguém que ao menos tivesse realmente se esforçado, mas você não é um deles. Aposto que se quer sabe a diferença entre um Jeté e um Flappé. – falou, mas não esperou que eu respondesse para me expulsar da sala. – Não tenho ideia do que veio fazer aqui, mas já pode ir embora.
Abri a boca para retrucar, mas o olhar quase assassino de para mim me fez ficar quieto e simplesmente dei as costas, saindo da sala direto pra o banheiro a fim de me livrar daquelas roupas ridículas.

+++


Esperei por do lado de fora da escola de ballet.
A noite já havia caído e junto com ela, a temperatura que despencara de uma hora para a outra, lembrando-me de que estávamos em pleno inverno.
Já duvidava de que ainda estava lá dentro, especialmente depois de tanto tempo, e já começava a desconfiar de que havia me garantido de que estava.
Pela milésima vez, puxei as mangas do casaco para poder enxergar o visor do relógio em meu pulso, bufando pela demora, mas a única coisa que saiu de minha boca foi o vapor inconfundível do frio, parecendo gritar para que eu fosse embora.
A idéia tinha sido realmente terrível e tudo que eu desejava era não ter simplesmente estragado tudo. Ainda mais.
Frustrado, sentei nos degraus em frente à porta do prédio, me escondendo sob gorro do casaco enquanto colocava minhas mãos já geladas demais nos bolsos, mas só quando estava quase convencido de que estava caçoando da minha cara, rindo de alguma janela enquanto assistia o quão trouxa eu era por acreditar nela, o riso tão inconfundível de chegou até meus ouvidos, mesmo parecendo um pouco forçado demais, deprimido demais.
Imediatamente, levantei-me de onde estava, bem em tempo de vê-las empurrarem as portas, e .
Assim que me viu, ficou séria, deixando o sorriso morrer em seus lábios e reprimiu um sorriso.
- Eu te espero no car...
- Não! – a interrompeu, segurando seu braço. – Não precisa, eu estou indo. – completou, dando as costas para mim a fim de seguir a amiga para o carro. Antes que o fizesse, no entanto, corri até ela, segurando-a pelo pulso.
- , por favor. – pedi, a fazendo se voltar para mim o mais delicadamente possível, temendo que ela simplesmente decidisse correr para longe de mim. – Me desculpa.
- Pelo quê? – perguntou ela, terminando de se virar em minha direção, mas agora não parecia mais espantada ou deprimida, parecia furiosa. – Por quase ter me feito perder o lugar que eu consegui com tanto esforço dentro da academia?
- , eles se quer desconfiaram...
- Ah, que bom, não é?! – perguntou sarcástica, soltando-se de mim.
- Desculpa, eu só... S... Só queria... – comecei, sem decidir o que dizer. - Céus, eu nem sei o que eu queria! , eu só te quero de volta, eu... Eu quero fazer qualquer coisa pra ter você de volta, por favor.
- , não... – falou, suspirando no final da frase mesmo sem concluí-la. – Isso não vai dar certo.
- Não vai? E por quantos anos já tinha dado? , por quanto tempo estivemos juntos e deu certo?! – perguntei, me aproximando mais alguns passos dela. tentou se afastar, mas segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos enquanto, com a mão livre, a puxava para mim pela cintura.
- ... – meu apelido soou como um sussurro em seus lábios e quando me arrepiei, não foi pelo frio, sentindo suas unhas aranharem levemente minha nuca, segurando meus cabelos logo em seguida.
Por alguns instantes, achei que tudo voltaria ao normal, que simplesmente me daria outra chance e por Deus, eu nunca a desperdiçaria, mas antes que eu se quer tivesse chance de beijá-la como tanto desejava, ela espalmou meu peito, negando com a cabeça como se acabasse de se dar conta do que fazia.
- Eu sinto muito. – sussurrou novamente, afastando-se de mim e correndo para longe antes que eu tivesse chance de agarrá-la. Indo para longe de mim.

+++


Acordei com Pussy pulando em meu rosto e gemi ao me virar na cama, agarrando a gata que miou manhosa no percurso. Pussy era manhosa, culpa de que a criara mal e soltei a gata, que rolou preguiçosamente na cama, esticando-se com mais um miado.
- Sente falta dela, né? – perguntei para a gata, acariciando seus pelos e como se entendesse o que eu havia dito, miou mais uma vez. Um miado fraco, como se tentasse demonstrar seu descontentamento. – Ei, não fica assim. Estou tentando trazê-la de volta, okay? – em resposta, a gata miou novamente, mais forte agora e acabei rindo. – Você só está com fome, não é? Só sente falta da sua tigela cheia pelas manhãs. – falei, vendo Pussy lamber seu focinho em resposta, enquanto sentava-se de frente para mim, como se esperasse a comida. – Gata folgada. – a empurrei para derrubá-la na cama, finalmente me levantando e me assustei com o horário. Não era de se admirar que Pussy estava com fome.
Como DJ, era comum que eu trocasse o dia pela noite, mas sem para me acordar, me superei, acordando praticamente na hora de sair de novo. Ao me lembrar que tinha um plano para aquela noite também, arregalei os olhos, colocando comida para Pussy as pressas antes de correr para o banheiro, tomando o banho mais rápido da história antes de me vestir.
Eu iria tocar na festa de uma amiga da e sinceramente, odiava a garota, mas ela acabou me rendendo uma ótima oportunidade e eu aproveitei.
gostava de homens vestindo smoking. Tentava me enfiar em um sempre que tinha oportunidade mesmo sob meus protestos e decidi que usaria um essa noite, mesmo que acabasse sendo ridículo, e eu sabia que seria, mas não custava tentar.
Pelo menos era isso que eu esperava.
Dando uma última olhada no espelho para garantir que tudo estava certo, finalmente me permiti sair de casa, trancando a porta atrás de mim antes de entrar no carro e dirigir até a boate onde seria a festa.

A música já soava quando cheguei. Péssima música e torci o nariz.
Pessoas riam e falavam alto por toda parte, algumas dançavam, mas por experiência de quem entende do ramo podia facilmente dizer o quão desanimadas as pessoas estavam.
Aquela garota deveria me agradecer muito por ter aceitado tocar, ainda mais de graça.
Mesmo ciente de que eu tinha que encontrar a aniversariante assim que chegasse, enrolei pelo local, sondando tudo atrás de . Após algumas voltas, estava quase me desesperando, temendo que, por saber que eu iria vir, ela tivesse desistido da festa, mas foi nesse instante que eu a vi.
estava linda.
E não era como se ela precisasse se esforçar muito para isso. Não precisava. Meu fascínio era vê-la acordar ao meu lado todas as manhãs, os cabelos desengrenhados dando-lhe um ar rebelde que na verdade, não existia, e o sorriso envergonhado que ela dava sempre que me pegava admirando sua sonolência.
Mas aquela noite, em especial, ela estava sensacional.
vestia um vestido preto muito mais curto do que ela estava acostumada a usar e não era como se, um dia, a garota tivesse tido vergonha de exibir as longas pernas. Aquele vestido simplesmente não era dela, alguma amiga mais alta deveria ter emprestado, mas lhe caiu perfeitamente, acentuando as curvas que me deixavam completamente louco, ansiando por tocá-la. Em conjunto com a peça de roupa minúscula, ela usava botas de cano alto o suficiente para chegar até suas coxas e mordi o lábio inferior ao vê-la ali, desfilando entre as pessoas que dançavam por toda parte.
- ! – uma voz familiar me chamou e precisei virar para encontrar a dona, odiando ter que desviar o olhar de para isso. - Finalmente... Mas por que é que você está vestindo isso?! – a aniversariante perguntou e revirei os olhos.
- Feliz aniversário. – desejei, não fazendo o menor esforço em cumprimentá-la de verdade. Ela sabia o quanto gostava dela, assim como sabia também que só estava li por .
Foi a vez dela de revirar os olhos.
- Só... Só vai para o seu lugar. – falou por fim, apontando para o palco. Em qualquer situação normal eu teria, no mínimo, exigido mais educação, especialmente quando estava ali por favor, mas ciente de que seria um péssimo momento para brigar, apenas obedeci, bufando para ela enquanto me perguntava de onde havia resgatado aquela porra de garota.
Posicionei-me em frente aos aparelhos fazendo um reconhecimento rápido, certificando-me de que tudo estava ligado e funcionando. Por fim, coloquei os fones e pigarreei rapidamente antes de dar duas batidinhas no microfone para chamar atenção, cumprimentando a galera com animação.
Diferente do dia anterior, não arregalou os olhos surpresa ao me ver ali. Ela certamente estava ciente da possibilidade de me ver ali já que havia me arrumado o trabalho. Talvez esperasse que eu desistisse, mas mesmo assim não pareceu surpresa, tampouco contente ao notar o que eu vestia.
Temendo que o plano também fosse por água abaixo, continuei, tendo que, para meu completo desgosto, parabenizar também a aniversariante. Usei de uma boa dose de sarcasmo e ironia para mencionar nossa relação de longa data, algo que certamente reprovaria, mas tentei ignorar sua expressão de desgosto.
Eu novamente havia feito algo muito errado, justamente quando tentava fazer algo certo.
- Mas chega de papo, vamos começar! – gritei no microfone, recebendo gritos em coro. – Mais alto! – berrei e eles me acompanharam, gritando novamente quando a música finalmente começou a soar, alta e ensurdecedora, levando todos imediatamente para a pista de dança.
Lancei um rápido olhar convencido para a aniversariante que parecendo irritada, deu as costas para mim e joguei a cabeça para trás em uma risada antes de me focar no que fazia, pensando se deveria ou não seguir meu plano.

+++


Voltei para meu lugar após uma pequena pausa da qual aproveitei para admirar dançando alegremente com , como havia feito por todo o tempo no qual havia tocado sem desviar o olhar para o meu por um só segundo. Era como se eu se quer existisse.
Mas claro que sabia, e por isso estava agindo daquela forma.
Suspirando, voltei a falar com o público antes de voltar a tocar, mas após mais uma música agitada, pausei o som, pedindo um minuto da atenção de todos ali. Como todo mundo ali, parou também, mas diferente dos olhares animados, encarava-me assustada, como se já imaginasse o que vinha a seguir.
- Agora eu gostaria de um minutinho da atenção de vocês. – falei e como o habitual, eles gritaram, esperando algo super legal e inovador. Bom, inovador era, mas duvidava que fossem achar legal. – Vou tocar uma música especial agora, mas desculpa, não é pra vocês. – comentei com humor, tentando fazer graça, mas deixei que meu olhar se encontrasse com o de , focando-me nela e somente nela. – Essa daqui é para a garota que eu amo e eu sei que ela vai se lembrar dessa música, vai saber como é especial e... , eu te amo e tudo o que eu mais quero, é ser alguém como você.
A música era Silence, do Beethoven e tinha me dado um trabalho da porra para encontrá-la. Nunca me esquecera da música, tampouco daquele dia, mas nunca me importei em saber o nome da música, parecia insignificante até o momento. Silence tinha tocado na primeira apresentação que assisti de , no dia em que a conheci. já estava atrás de e tinha descoberto que ela se apresentaria lá, por isso comprou os ingressos e me obrigou a ir para fingir que aquele era o tipo de programa que gostávamos de frequentar.
Por fim, só tive olhos para a elegância de no palco, seus passos leves e completamente encantadores e sua beleza fora do comum. Esbarrei nela nos bastidores quando fomos ver , propositalmente, óbvio, e em cinco minutos de conversa já estava fascinado pela garota.
Não desistiria dela agora, não por algo tão estúpido e se quer me importei com as vaias que recebi quando o público se deu conta de que não, a música não ficaria animada ou viraria um remix qualquer. A música era aquilo, simplesmente aquilo, e essa era justamente a graça. A música me lembrava o dia mais feliz importante da minha vida e sabia que se recordava quando me encarou assustada, parecendo a ponto de desabar.
Em algum lugar ao longe, podia ouvir a aniversariante berrar comigo por estar destruindo seu aniversário, mas não me importei, focado na pessoa que representava tudo de mais importante que eu tinha na vida.
Uma lágrima brilhou em seu rosto, estava chorando e antes que eu pudesse ao menos assimilar o que acontecia, ela deu as costas para o palco, correndo em direção a saída.
Imediatamente, larguei os fones sobre a mesa de mixagem e corri atrás dela, tendo de me esquivar de vaias e pessoas bêbadas iradas enquanto a via se afastar. Era a minha chance, eu precisava chegar até ela, conversar com ela, mas quando finalmente alcancei a porta por onde ela havia saído, não estava mais lá, afastado-se de mim no táxi que acabara de pegar.

+++


Por três dias simplesmente desaparecera por completo. Não sabia se estava mentindo para ajudá-la, dizendo que não sabia dela, ou se simplesmente percebeu que havia me ajudado e agora fugia dela também, mas não encontrei mais a garota, mesmo procurando em todos os lugares possíveis.
No quarto dia cheguei em casa desanimado e me joguei no sofá. Imediatamente, Pussy pulou ao meu lado, deitando-se preguiçosamente sobre meu colo para que eu a acariciasse. Suspirando, deitei no sofá, deixando que ela se acomodasse sobre minha barriga antes de coçar suas orelhas.
Pussy passou a ronronar, mas eu já estava longe, voltando a pensar em .

Não sabia exatamente quando havia dormido, mas acordei em um pulo, assustado com o toque no celular. Pussy, ainda sobre mim, miou insatisfeita, pulado para o chão enquanto eu procurava o aparelho.
Estranhei ver o nome de no visor, mas atendi rapidamente com a possibilidade quase certa de serem notícias de .
- , seu idiota! Eu te liguei milhões de vezes! – ralhou ela. – Onde estava?!
- Em casa, dormindo. – respondi, contendo o ímpeto de falar que não era da sua conta. Primeiro porque realmente não era, segundo porque nunca ao menos fomos amigos para ela cobrar qualquer coisa de mim, mas era verdadeiramente grato por sua ajuda.
- Bom, então acorde! Achei ela! Os pais de estão na cidade, ela passou esses dias com eles. Parece que vão jantar hoje no Bon Choix. Aparece por lá, bem vestido. É um restaurante...
- Francês, eu sei. – bufei. – Não sou tão estúpido assim.
- Não? – perguntou como se fosse óbvio que sim. Novamente, eu bufei. – Certo, certo. Enfim, aparece por lá. Ela reservou uma mesa no nome dela mesmo, as oito da noite.
- Okay. – concordei, fazendo uma careta logo em seguida ao me dar conta de que, na verdade, nada estava certo. – Hãm, ... O que você espera que eu faça?
- Apareça lá, idiota.
- Essa parte eu entendi, mas os pais dela sempre me odiaram...
Ela me interrompeu com uma risada.
- Você é tão facilmente odiável que me surpreende ela gostar. O amor é realmente muito cego.
- O que o diga...
- Ei, o que quer dizer com isso?!
- Eu, absolutamente nada. – respondi, segurando o riso.
- Não me faça me arrepender de estar te ajudando. – falou mal humorada e não aguentei mais segurar a risada. – Idiota. – repetiu. - Bon Choix às oito. Tente fazer algo de útil ao invés de estragar tudo mais uma vez. – completou, desligando o telefone.
Mesmo sem ter ideia do que fazer ainda, me levantei do sofá, suspirando. A verdade era que eu nunca havia realmente me esforçado muito para conquistar ou impressionar os pais de , mas decidido a tentar, segui para o chuveiro.
Aparentemente, precisaria do smoking mais uma vez.

+++


Às sete da noite eu estava em frente ao restaurante e pontualmente, chegou com os pais.
Torcendo para que tudo desse certo pela primeira vez, desci do carro, trancando a porta atrás de mim antes de seguir para dentro. Quando ela chegou à recepção, já estava atrás dela, segurando-a pela cintura.
- Amor, desculpa o atraso! – falei animado, beijando-a pela cintura antes de me voltar para seus pais.
- Sr. e Sra. , prazer revê-los! – estendi a mão para cumprimentar seu pai e em seguida sua mãe, sendo recebido por olhares curiosos de ambos. Nunca antes havia sido tão formal ao falar com eles e forçou um sorriso ao invés de me expulsar de uma vez. Depois de todas as vezes que seus pais haviam dito que não daríamos certo, ela não queria ter que admitir que tínhamos terminado.
Ela odiava ter de ouvir o famoso "eu te avisei" tanto quanto sua mãe adorava dizê-lo.
- Amor, você não deveria estar trabalhando? – ela perguntou entredentes, claramente contrariada enquanto seguíamos a recepcionista até nossa mesa.
- Ainda trabalha como DJ? – sua mãe perguntou torcendo o nariz, deixando claro mais uma vez o quanto odiava aquilo.
Como se ela já não houvesse expressado sua reprovação de diversas outras maneiras. Tipo aos berros.
- Sim, - confessei, embora já tivesse uma mentirinha preparada para aquilo. – Mas por tempo determinado agora. – completei e franziu o cenho ao me encarar, tão surpresa quanto sua mãe parecia estar. – Decidi que vocês estiveram certos todo esse tempo. Não dá pra se viver disso, não é mesmo? já me ajudou a escolher o que fazer daqui por diante, mas pretendo fazer algo mais... Seguro, digamos assim.
- Ajudei? – ela perguntou, antes de entender o que eu estava fazendo. Quando entendeu, não conseguiu deixar de abrir a boca em surpresa antes de continuar: - Ah, sim! Claro, ajudei. – falou e concordei com um sorriso, a soltando para afastar a cadeira para que sua mãe sentasse. Quando ela o fez, me voltei para a em tempo de ajudá-la a aproximar sua cadeira, onde ela já havia sentado, à mesa e ela meneou em agradecimento com a cabeça, embora ainda parecesse surpresa com minha atitude.
- Isso é muito bom, rapaz. – Sr. me parabenizou após finalmente nos sentarmos. – E o que te fez mudar de ideia assim? Tão repentinamente?
- Na verdade não foi tão repentino assim. – falei, aceitando o cardápio estendido a mim pelo garçom. – Nós vamos nos casar. – segurei a mão de , precisamos de uma vida mais estável.
continuava a me olhar da mesma forma e sem nenhum vestígio de raiva dessa vez. Ela estava apenas desacreditada, e obviamente confusa, sem saber o que eu estava fazendo ou se realmente falava sério.
- É ótimo ver o quanto você amadureceu. – Sra. falou e seu marido concordou com um acedo de cabeça antes de pedir uma garrafa de vinho ao garçom. – Não dá pra se pensar em ter um família vivendo assim de uma forma tão... Desequilibrada, digamos assim.
Concordei com a cabeça embora me perguntasse o que aquela mulher via de "desequilibrado" na minha vida. Tudo sempre parecera ótimo para mim. No entanto, o que era mais curioso era que a carreira de era tão instável quando a minha sendo bailarina, mas tudo parecia certo para ela. Tocar a noite é menos digno que dançar de dia?
E a forma como revirou sutilmente os olhos deixou claro que ela pensava o mesmo e desviei o olhar para nossas mãos ainda juntas sobre a mesa, deixando que um sorriso escapasse por entre meus lábios.
Os pais de eram, sem tirar nem por, um verdadeiro saco, mas o tédio tão evidente dela na presença deles me deixava bem mais aliviado.
Tendei entretê-los durante a noite, mas nunca foi tão difícil tentando ser alguém que eu obviamente não era. Porém, fiquei verdadeiramente surpreso ao notar o que uma roupa melhor e algumas palavras bonitas não podiam fazer. Tudo o que eles queriam eram alguém que pudesse manter a pose de poder que a família tinha e apesar do meu bom trabalho em fingir que fazia parte desse mundo, se mantinha estranhamente quieta e claramente incomodada, o que era assustador.
Não saber o que se passava na cabeça dela era assustador, mas a sua mão, em momento nenhum, se afastou da minha.
No final da noite, me ofereci para pagar a conta que Sr. fez questão de pagar e segurei a mão de com mais força ao nos levantarmos da mesa, temendo que ela pudesse fugir de mim, escapar por meus dedos. Precisava desesperadamente saber o que estava acontecendo, se ela estava bem, se ainda me odiava, se nossas mãos juntas também fazia parte da encenação e se eu tinha alguma chance, mas tudo o que pude fazer foi seguir em silêncio até o carro de seus pais, odiando ter que, finalmente, soltar sua mão para cumprimentá-los.
- Estou muito satisfeito com sua mudança. – Sr. falou ao apertar minha mão, abrindo a porta para a esposa logo em seguida. Antes de entrar no carro, a mulher me abraçou rapidamente, sorrindo para mim antes de fechar a porta atrás de si. Quando o fez, o pai de deu a volta no carro para entrar ao lado do motorista.
suspirou parecendo aliviada pelo sucesso do jantar. Segurei delicadamente em seu queixo para que ela erguesse seu olhar para o meu e ela o fez, permanecendo ali parada por alguns instantes antes de fugir de mim como eu esperava.
- , por favor... – sussurrei para que seus pais não ouvissem, mas como se aquilo a despertasse, espalmou meu peito para que eu me afastasse, abrindo a porta do carro logo em seguida.
- Não... – sussurrou de voltar, passando por mim a fim de entrar, mas segurei seu braço, a obrigando a me encarar novamente. – , agora não. – pediu. – Me... Me liga amanhã.
- Você não vai me atender, vai fugir. – falei, descendo minha mão para a sua. – ...
- Eu prometo que vou atender, . – respondeu. – Eu prometo. – repetiu, afastando-se de mim de uma vez para entrar no carro e tudo o que eu pude fazer foi fechar a porta para ela, afastando-me do carro para vê-lo se afastar com a mulher da minha vida.

+++


Eu ainda tinha vários itens na minha lista, mas decidi colocar apenas o último em prática, pois apesar de ser o mais estúpido deles, era também o mais inofensivo e menos propício a erros.
Voltei do mercado as oito da manhã com dois sacos de 2kg de jujuba. E era jujuba pra porra.
Abri os dois sacos sobre o mármore da pia e comecei o trabalho: Separar todas as jujubas laranja.
Já se passavam das duas horas da tarde quando terminei coloquei tudo na caixinha de presente que havia comprado especialmente para aquilo, com a frente transparente para que ela visse o que havia dentro e um laço laranja, assim como o resto da decoração da caixa.
Depois de tudo pronto, finalmente peguei o celular, decidindo que mandar uma mensagem para seria mais seguro. Sabia que conversar por telefone não seria uma boa ideia no momento. Frente a frente eu tinha muito mais chances de convencê-la a me ouvir.

"Preciso te ver, conversar."
"E você prometeu não fugir"

Enquanto esperava ela responder, suspirei, bagunçando os cabelos enquanto olhava ansiosamente para a tela do celular. Quando ele acendeu com a notificação, destravei a tela ansioso, abrindo a mensagem rapidamente:

"Prometi não fugir quanto você me ligasse."

", por favor! Precisamos conversar, me dá uma chance."


"Vou passar ai mais tarde, me encontre no terraço. Te mando mensagem quando estiver chegando."

"Promete que vai mesmo vir?"


"Prometo, ."


Não sabia se deveria ou não suspirar aliviado, mas suspirei, ficando ali aparado por mais alguns instantes antes de finalmente levantar com um pulo, decidindo que eu tinha ainda mais trabalho pela frente.

+++


Já era tarde quando me mandou a mensagem, mas isso foi ótimo para mim, pois me deu tempo de arrumar tudo, me arrumar, e ainda ficar pelo menos uma hora esperando. E sim, eu a esperei no terraço o tempo todo.
A única coisa que talvez não tenha sido lá uma boa ideia foi o fato de, durante esse tempo, ter comido todas as jujubas que sobraram, o que me deixou enjoado para se dizer o mínimo.
Antes mesmo que eu tivesse tempo de respondê-la, a porta se abriu e passou por ela. Eu estava parado exatamente em sua direção e me levantei assim que a vi, mas antes de se quer me notar ali, olhou perplexa para a decoração do local ao seu redor.
E modéstia parte, eu havia feito um ótimo trabalho.
Após chantagear para me trazer tudo que eu precisava, no caso de ter decidido sair naquele mesmo momento, pendurei lamparinas por todo o terraço de forma que agora, ao olhar para cima, além de vermos o céu estrelado pelas frestas de vidro, tínhamos também as lamparinas.
sempre gostara do terraço e costumávamos passar horas ali, no entanto, algo sobre o qual nós dois concordávamos era no desleixo que os moradores tinham com aquele local que tinha tudo para ser tão lindo. Tudo que sempre faltara era a decoração certa e após olhar algumas na internet, enchi o local com flores e lampiões o que acabou, ironicamente, fazendo com que o terraço parecesse decorado para um casamento.
- ... – ela falou em um sussurro antes de se voltar para mim com lágrimas nos olhos e suspirei nervoso enquanto ela me encarava, temendo que falar qualquer coisa ou se quer me mover pudesse estragar o momento. Eu tinha tendências a estragar qualquer momento. Era o pior romântico do mundo e já estava preocupado com seu silêncio quando ela, após um soluço, correu até mim, jogando-se sobre mim ao lançar os braços ao redor do meu pescoço e precisei deixar a caixa das jujubas de lado para retribuir. – Me desculpa. – ela pediu entre as lágrimas cada vez mais constantes. – Desculpa, , desculpa! Desculpa por surtar, desculpa por ser uma péssima namorada e péssima noiva, desculpa, desculpa! – continuou, segurando-me com mais força e tudo que pude fazer foi abraçá-la com firmeza, completamente aliviado por sua reação.
- Isso quer dizer que você me perdoa? – perguntei sem soltá-la, inclinando-me para esconder o rosto em seu pescoço. Depositei um beijo ali, puxando-a mais para mim temendo que fugisse por entre meus dedos.
- Eu não tenho que te perdoar. Você sempre... Você sempre... – tentou dizer, mas as lágrimas a impediram e ela apenas chorou por mais alguns instantes enquanto eu a segurava em meus braços, contente por finalmente tê-la ali mais uma vez.
Por fim, se afastou apenas o suficiente para olhar em meus olhos. Seu rosto estava completamente molhado pelo choro e seus olhos vermelhos, mas ainda assim ela continuava tão linda quando sempre foi.
– Eu te amo. – ela falou por fim e sorri ao juntar nossas testas, deixando que suas palavras fizessem efeito para eu ter certeza de que não estava sonhando.
- Eu também te amo. – sussurrei por fim, colando nossos lábios sem me importar com o sabor salgado dos seus devido às lágrimas. Nada importava desde que ela pudesse ser minha novamente, mas antes que eu pudesse aprofundar o beijo, me afastou, negando com a cabeça e senti meu coração parar em desespero.
- Não, eu... eu preciso falar. – disse ela, soltando o ar pela boca para se acalmar. – , eu te amo. – repetiu, mas isso não me deixou mais aliviado depois de sua rejeição há segundos atrás. - Eu amo do jeito que você é e não quero que mude por mim. Eu amo cada parte você, do seu jeito inconsequente e atrapalhado. Amo o seu jeito de viver a vida e amo o que você me faz ser. Não quero que seja igual a mim, que goste do que eu gosto, que faça o que eu faço, quero que seja quem você é. – falou por fim, escondendo o rosto em meu peito logo depois. – Céus, enquanto você falava com meus pais eu só conseguia pensar no quão errado aquilo tudo era por quê... Porque aquele não é você. Não me importo com o que meus pais pensar, . Eu te amo, sou eu quem tenho que te amar.
- Você acabou de destruir o discurso que eu tinha preparado, mas acho que gosto disso. – comentei por fim, a fazendo rir ao afastar a cabeça novamente. – E eu também ia te entregar isso. – peguei novamente a caixa para entregar a ela e se afastou para poder pegá-la, rindo mais uma vez ao olhar para dentro dela.
- , você... Você não existe. – falou entre mais uma risada, limpando as lágrimas em seu rosto. – Meu Deus, eu amo isso demais! – exclamou para as jujubas, soltando o laço para abrir a caixinha. Antes que ela terminasse, fiz uma careta, segurando sua mão. – O que foi? – perguntou confusa.
- Não aguento mais o gosto dessas balas. – confessei ainda com a mesma expressão e ela franziu a testa, divertida.
- Mas sou eu quem vai comer.
- Bom, mas eu ainda pretendo te beijar se você me permite. – devolvi, tirando a caixa de sua mão para colocá-la de lado. – E eu comi todas as balas que sobraram.
Ela arregalou os olhos, espiando mais uma vez o tamanho da caixa antes de se voltar para mim. – , meu Deus! – ela riu desacreditada. – Está falando sério? Ai meu Deus! Deve ser pelo menos 1kg de jujuba!
- Mais na verdade, eu comprei 2kg.
- Dois?! ! Você vai passar mal pelo resto da noite!
- Eu acho que sei disso, obrigado. – falei. – Posso te beijar agora? Acho que eu estou enjoado e você provavelmente vai ter que cuidar de mim mais tarde.
riu enquanto concordava, provavelmente sem acreditar que fosse verdade, mas não me importei, a puxando novamente para mim, pela cintura, antes de finalmente colar nossos lábios, sentindo sorrir entre o beijo antes de deixar que eu o aprofundasse, finalmente sentindo o seu gosto.
Quando finalmente nos afastamos, sorri para ela, retirando do bolso a aliança que ela havia deixado sobre a mesa no dia em que foi embora antes de me abaixar a sua frente.
Já sabendo o que vinha a seguir, ela riu, mas uma nova lágrima escorreu no percurso.
- , você aceita se casar comigo? – perguntei, segurando sua mão e lhe entendendo o anel e ela concordou com a cabeça.
Com uma risada de alívio e completa felicidade, ergui a mão para lhe colocar o anel, mas antes que o fizesse, ela deu um passo para trás com um sorriso no rosto.
- Com uma condição. – falou e eu esperei que ela continuasse. – Nos casamos amanhã, em Vegas.
- Amanhã? – perguntei, sem conseguir esconder o quanto a notícia me agradava e ela concordou satisfeita.
- Amanhã. Sem meus pais, sem... Sem ninguém. – riu mais uma vez e sorri com o som, sorri por ela, sorri porque era o homem mais feliz do mundo. - Ninguém mais importa para mim.
- . – falei ao me levantar. – Acho que eu posso conviver com isso.
Concordando com um aceno de cabeça, se jogou novamente em meus braços e a seguei com força contra meu peito antes de beijá-la, completamente feliz por saber que aquele mulher finalmente seria minha.


Fim.



Nota da autora: É isso, pessoal! O que acharam? Eu não curto escrever shortfics, mas quando vi o Ficstape do The Vamps, precisei participar por amor a banda <3
Espero que tenham gostado da fanfic e por favor, comentem para que eu saiba o que acharam.
Além disso, gostaria de deixar aqui também o meu grande Feliz Aniversário para a Bruna Lobato, a quem dediquei a fanfic.
Parabéns, amiga. E muito obrigada por estar comigo por mais um ano. Te amo.
Mayh.



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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